Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

POEMAS

A Bomba

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem A bomba não tem preço não tem lugar não tem domicílio A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está A bomba mente e sorri sem dente A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar A bomba multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés A bomba faz week-end na Semana Santa A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa A bomba envenena as crianças antes que comece a nascer A bomba continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai A bomba é uma inflamação no ventre da primavera A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. A bomba não admite que ninguém acorde sem motivo grave A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe A bomba saboriea a morte com marshmallow A bomba arrota impostura e prosopéia política A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living A bomba é podre A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo A bomba declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade A bomba tem um clube fechadíssimo A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel A bomba é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris A bomba oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas A bomba

desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer A bomba é câncer A bomba vai à Lua, assovia e volta A bomba reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia A bomba está abusando da glória de ser bomba A bomba não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável A bomba fede A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve A bomba não destruirá a vida O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.

A Bruxa

A Emil Farhat Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida a meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto... Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. Precisava de mulher que entrasse nesse minuto, recebesse este carinho, salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. Em dois milhões de habitantes, quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite, jornal e calma. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos, viajei, briguei, aprendi. Estou cercado de olhos, de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. Companheiros, escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. É antes a confidência exalando-se de um homem.

A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gémeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda

tumba da natureza?" Este livro-câmara é anseio de salvar O que ainda pode ser salvo. cru. Não tem responsabilidade no que viu. triste.da mata Atlântica Apesar do declínio histórico.A Câmara Viajante Que pode a câmara fotográfica? Não pode nada. ossuário. E pergunta: "Podemos deixar Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize. Vire deserto. do massacre De formas latejantes de viço e beleza. A querer bem ou a protestar. A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica. . universaliza. sujo. Não pode mudar o que viu. A câmara. Mostra o que ficou e amanhã . No que resta . a multi-ver O real nu. Ajuda a ver e rever. A desejar mudança. julgar. O que precisa ser salvo Sem esperar pelo ano 2 mil. espalha. entretanto. Conta só o que viu. A imagem que ela captou e distribui.quem sabe? acabará Na infinita desolação da terra assassinada. driticamente. A. Obriga a sentir. Desvenda.ainda esplendor .

É areia. o prazer? Não há mais nada Após esse tremor? Só esperar Outra convulsão.A carne é triste depois da felação A carne é triste depois da felação Depois do sessenta-e-nove a carne é triste. outro prazer tão fundo na aparência mas tão raso na eletricidade do minuto? Já dilui o orgasmo na lembrança E gosma escorre lentamente de tua vida in "O Amor Natural" .

O Diabo atende sob as mil formas de êxtase transido. no vão intento de sentir outra vez o que era graça de amar em flor e em fluida beatitude. e nada se resolve. .A carne envilecida A carne encanecida chama o Diabo e pede-lhe consolo. Mas os dons infernais são novo agravo à envilecida carne sem defesa. e o aroma espalha-se de flores calcinadas de horror. Volta a carne a sorrir.

A noite e o dia se confundem no esperar. Resposta nenhuma. a outra metade são cinzas. no bater e bater.A casa do tempo perdido Bati no portão do tempo perdido. e eu batendo e chamando pela dor de chamar e não ser escutado. . É o casarão vazio e condenado. Simplesmente bater. ninguém atendeu. O tempo perdido certamente não existe. A casa do tempo perdido está coberta de hera pela metade. Casa onde não mora ninguém. Bati segunda vez e mais outra e mais outra. O eco devolve minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.

primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados. à beira dessa moita orvalhada. sem dizeres. morte de tão vida. coito. . E nem restava mais o mundo. e tão estreita. Era Adão. Em minha ardente substância esvaída. como se alargava. sepultura na grama. Ah. Na mansuetude das ovelhas mochas. coito.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. nem destino. Roupa e tempo jaziam pelo chão.

Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas. amarelos. (in A Paixão Medida) .A corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado.

suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento. qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora. a fábula inconclusa. dia seguinte após dia seguinte. algoz do inocente que não sou? Ninguém responde. Como repetir. Viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. .Acordar. a vida é pétrea.

A Corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. (in A Paixão Medida) . e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. amarelos.

não o leves a mal: é por teu bem. Insiste.A Excitante Fila Do Feijão 25. na virilha. em princípio.1980 Larga. e sem certeza de trazer dois quilos. Se levas cassetete na cabeça ou no braço. seja noite de estrela ou chuva grossa. uma espera-esperança de dez horas. Certeza não terás. o amor. Cedinho. Dez. Assim não falta nunca feijão-preto (embora falte sempre nas panelas). doze ou mais: o tempo não importa quando aperta o desejo brasileiro de ter no prato a preta. nas costas. patrulhinhas te protegem e gás lacrimogêneo facilita o ato de comprar a tua cota. tal como a liberdade. Bocas oitenta mil vão disputando cada manhã o que somente chega para de vinte mil matar a gula. Mas há que conquistá-lo a teus irmãos. eu disse? Vai. poeta.X. Método esconde-pinga: não percebes . mas é de véspera. Camburões. o ar. A conta-gotas vai-se escoando o estoque armazenado nos porões do Estado. em qualquer caso. mas esperança (que substitui. O feijão é de todos. amiga vagem. a mesa de escritório. tudo). esquece a poesia burocrática e vai cedinho à fila do feijão. não desistas: amanhã outros vinte mil quilos em pacotes serão distribuídos dessa forma.

que ele torna excitante a tua busca? Supermercados erguem barricadas contra esse teu projeto de comer. há desmaios... mas um feijão modesto e camarada que lembre os tempos tão desmoronados em que ele florescia atrás da casa sem o olho normativo da Cobal. Larga. e vai sofrer na fila do feijão. Instante de vibrar. essa não: é sonho puro. Há gritos. ao menos um tiquinho! Caldinho de feijão para as crianças.o povo sabe enquanto leva as suas bordoadas. curtir a vida na dimensão dramática da luta por um ideal pedestre mas autêntico: Feijão! Feijão. (in Amar Se Aprende Amando) . É a grande aventura oferecida ao morno cotidiano em que vegetas.. poeta. o verso comedido. Esperar é que vale . guardas do escondido papilionáceo grão que ambicionas. há prisões. a paz do teu jardim vocabular. tudo bem. Suspense à la Hitchcock ante as cerradas portas de bronze. Feijoada.. Se nada conseguires.

Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda . óleo a derramar-se lentamente. a explicação antiga da terra.como tarda! a clarear o mundo. aquele jeito manso.A Falta de Érico Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de Sexta-feira Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres. aquela ternura contida. Falta um solo de clarineta. . Falta um boné. falta o casal passeando no trigal.

forrado de esquecimento. inteira. Já nem se escuta a poeira que o gesto espalha no chão. patinando muros. Por que é que revoa à toa o pensamento. No solo vira semente? Vai tudo recomeçar? É a falta ou ele que sente o sonho do verbo amar? . A vida conta-se. a dália é toda cimento. na luz? E por que nunca se escoa o tempo. em letras de conclusão. Onde a vista mais se aferra. sol e grama o que se esquiva se dá. chaga sem pus? O inseto petrificado na concha ardente do dia une o tédio do passado a uma futura energia.A falta que ama Entre areia. enquanto a falta que ama procura alguém que não há. Está coberto de terra. A transparência da hora corrói ângulos obscuros: cantiga que não implora nem ri.

. Quarenta anos e nenhum problema resolvido........ nuvens maciças avolumam-se Pequenos pontos brancos movem-se no mar... Melancolias. Suas pétalas não se abrem.......... É feia........ o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse Em vão me tento explicar... O sol consola os doentes e não os renova As coisas... Todos os homens voltam para a casa. vou de branco pela rua cinzenta............. mercadorias espreitam-me. Seu nome não est'nos livros... Devo seguir até o enjôo? Posso... Nenhuma carta escrita nem recebida............. galinhas em pânico. É feia...... Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo........ sabendo que o perdem..A Flor e a Náusea Preso à minha classe e a algumas roupas... Que tristes são as coisas. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade e lentamente passo a mão nessa forma insegura Do lado das montanhas. os muros são surdos Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O tempo pobre... Sua cor não se percebe.. consideradas sem ênfase. Furou o asfalto. revoltar-me? ... o nojo e o ódio... .. ... Mas é realmente uma flor..... o tédio.. sem armas..... Vomitar esse tédio sobre a cidade... Mas é uma flor.............. sequer colocado.......

depois de viver intensa. e por ordem do Prefeito vai sumir na varredura mas continua em outra folha alheia a meu privilégio de ser mais forte que as folhas. Outra. tal qual se sabe a si mesma.A Folha A natureza são duas. a que vemos. caladamente. para ser senhor de uma fechada. (in A Paixão Medida) . Mas vemos? Ou é a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou. Uma. sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de ser homem e não coisa ou caracol esfacela-me em frente à folha que cai.

descuidados de teu e meu querer. entre fotos mil que se esgarçavam.A grande dor das cousas que passaram A grande dor das cousas que passaram transmutou-se em finíssimo prazer quando. e gozoso hoje terno se apresenta e faz vibrar de novo minha vozpara exaltar o redivivo amor que de memória-imagem se alimenta e em doçura converte o próprio horror! . tive a fortuna e graça de te ver. Os beijos e amavios que se amavam. outra vez reflorindo. Ó bendito passado que era atroz. esvoaçaram em orvalhada luz de amanhecer.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca. Começam a esmaecer quando nos cansamos. De outra matéria se tornam. as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. . rebaixamos o amor ao estado de utilidade. Restituímos cada ser e coisa à condição precária.A hora do cansaço As coisas que amamos. absoluta. por um outro itinerário. talvez no ar. e todos nós cansamos. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. de aspirar a resina do eterno. sei lá. Do sonho de eterno fica esse gosto ocre na boca ou na mente. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. numa outra (maior) realidade. dar-lhes moldura de granito.

A ilusão do migrante Quando vim da minha terra. Quando vim. e no seu giro entrevi que não se vai nem se volta . alheio à minha baça pessoa. Os morros. pareciam me dizer que não se pode voltar. se é que vim de algum para outro lugar. porque tudo é conseqüência de um certo nascer ali. se é que vim da minha terra (não estou morto por lá?). o mundo girava. empalidecidos no entrecerrar-se da tarde. a correnteza do rio me sussurrou vagamente que eu havia de quedar lá donde me despedia.

E as coisas tornam-se presentes. a Poesia: último reduto. un baiser. resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é. un bacio para a terra que o acolheu. bem devagar.“A kiss. un bacio” A kiss. Praias e ondas do Havaí. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. . Não muito antigo. mas trint’anos tecem uma quase eternidade. pulsando ao sol e ao vento vário. num minuto. Contra a sorte cinz’amarela. mais que honorário. un baiser. muito doce. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. Entre danos e desenganos.

ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio. ainda que mal te agarre. ainda que mal te furtes. ainda que mal me vejas. ainda que mal me exprima. ainda que mal te entenda. ainda que mal te siga. ainda que mal me mostre.Ainda que mal Ainda que mal pergunte. . ainda que mal me julgues. ainda que mal te voltes. ainda que mal te encare. ainda que mal o saibas. ainda que mal insista. ainda que mal te mates. ainda que mal desculpes. ainda que mal respondas. ainda que mal repitas. me salvo e me dano: amor. ainda que mal te ame.

1902 * . o agudo olhar. a madureza vê.A Ingaia Ciência Itabira do Mato Dentro . livre de encantos. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. a mão. essa terrível prenda que alguém nos dá.MG . com ela. dos ócios. onde se estenda. se destroem no sonho da existência. . A madureza sabe o preço exato dos amores. o círculo vazio. posto que a venda interrompa a surpresa da janela. O agudo olfato.* . todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela. dos quebrantos. raptando-nos. e que o mundo converte noma cela.1987 A madureza.

. além do Céu Além da Terra. na magnólia das nebulosas. no trampolim do sem-fim das estrelas. o verbo transcendente. no rastro dos astros. Além. o verbo pluriamar. até onde alcançam o pensamento e o coração. muito além do sistema solar. razão de ser e de viver. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política. além do Céu. vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial.Além da Terra. o verbo sempreamar.

. Mas sem esquecer.A língua francesa A língua francesa desvenda o que resta (a fina agudeza) da noite em floresta. de ler e tresler a arte de Ovídio. num lance caprídeo.

e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. entre gritos. atinge o céu do céu. a licorina gruta cabeluda. enfurecida . lambilonga. mais activa. a língua lavra certo oculto botão. lambilenta. quanto mais lambente. e.A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. balidos e rugidos de leões na floresta. E lambe. entre gemidos.

aguardam o acontecimento. face múltipla assomar em tom de pesquisa. O enfeite ocioso ganha majestade própria de divinos atributos. em direção da porta sonora a ser aberta para alguém desconhecido . Iguais as cinco. Chega. O ritmo dos passos e das curvas das cinco estátuas vendedoras gera no salão aveludado a sensação de arte natural que o corpo sabe impor à contingência. Tudo que a nudez torna mais bela acende faíscas no desejo. chegará. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos. Nenhuma ruga no imobilismo de figurinos talhados para o eterno que é. provavelmente tarde e sem pintura. pela manhã. afinal. a pulseira cinge no ar o braço imaginário. apontando o estofo. quase suspenso na hipótese de vôo. é próprio de estátuas aguardar sem prazo e cansaço que os fados se cumpram ou deixem de cumprir-se. Hora de almoço. novelo de circunstâncias. um pé à frente do outro. Hora de sol batendo nos desenhos caprichosos de manso aquário já marmorizado. programadas em uniformes verde-musgo para o serviço de bagatelas imprescindíveis. Não há mais compradoras. que não se consumará. Já não se tem certeza se é comercio ou desfile de ninfas na campina que o spot vai matizando em signos verdes como tapeçaria desdobrante do verde coletivo das estátuas. habitantes de aquário. Passaram a noite em vigília. em postura vertical. objetos deixam de ser inanimados. Sabem que Vênus cedo ou tarde. e o simples vulto aciona as esculturas. As estátuas sabem disto e propiciam a cada centímetro de carne uma satisfação de luxo erótico.A loja feminina Cinco estátuas recamadas de verde na loja. Dissolve-se o balé sem música no recinto.Vênus certamente. o imponderável que as estátuas ocultam em sigilo de espelhos. As estátuas regressam à postura . Antes de chegar à pele rósea. nasceram ali. o brinco. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos.

pois também eu invisível na loja me dissolvo nesse enigma de formas permutantes. de moças que eram. . pulsaram. não sei. Se acaso dormem o dormir egípcio de séculos. se morreram (quem sabe). se moveram. Se estão vivas. não consigo saber. se jamais existiram.imóvel de cegonhas ou de guardas. O viço humano perde-se no artifício de coisas integrantes de uma loja. São talvez manequins.

pergunto. e amar o inóspito. desamar. e a sede infinita. distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas. ou precisão de amor. de mais e mais amor. doação ilimitada a uma completa ingratidão. o que é entrega ou adoração expectante. amar. ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto. Este o nosso destino: amor sem conta. e na secura nossa amar a água implícita. amar e malamar. o que ele sepulta. amar? amar e esquecer. o ser amoroso. amar? Que pode. na brisa marinha. e até de olhos vidrados. é sal. . um vaso sem flor. entre criaturas. sozinho. em rotação universal. e o que. um chão de ferro. Amar a nossa falta mesma de amor. senão rodar também. o cru. e na concha vazia do amor a procura medrosa. e o beijo tácito. e a rua vista em sonho. e amar? amar o que o mar traz à praia. paciente. e uma ave de rapina. amar? sempre. e o peito inerte.AMAR Que pode uma criatura senão.

a) colega este não consola nunca de nuncarás.a) amig(o. ora veja permita cavalheir(o.a) irm(ã. .o) retrato espetáculo por que amou? se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indignação do achado e aguda espotejação da carne do conhecimento.a) me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor car(o.Amar-amaro porque amou por que amou se sabia proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente? ah PORQUE AMOU e se queimou todo por dentro por fora nos cantos ecos lúgubres de você mesm(o.

mas confiar a tarefa a terceiros. Dona Esmeralda não obteve dele nenhuma dessas provas de consideração e camaradagem que até os fogões velhos costumam dar às mães amorosas. mas usarão assim mesmo. Os garotos de Dona Esmeralda é que foram mais previdentes do que muito filho marmanjo. receberam presentes pouco adequados. . entre beijos. Negociações prosseguem. O vestido ficava para mais tarde. discutiram a dádiva a oferecer. Dona Esmeralda mandou parar o serviço e correu à loja para desfazer a transação. para sossego delas e nosso. mas sempre podem produzir algo de elegante. Os filhos não podiam ficar sentidos: tinham dado um presente útil. deu mais três mil cruzeiros de suas economias. filha. nesta semana. não desaponta filho. e chegaram à conclusão de que seria ideal um vestido de inverno. Para inteirar. recorreram ao pai. Se amanhã o desfavor público envolver essas autoridades. Como o dinheiro não chegasse. até mesmo um fogão. problemas resultantes da extraordinária concentração de afeto que se operou no segundo (e azul) domingo de maio de 1961. Quis logo retribuir-lhes a gentileza com um bolo de chocolate com frutas. Acendi o gás e ele não funcionou. a ser ganho num possível "Dia da Esposa". que vem aí. Então ela não teve dúvida: num impulso verdadeiramente materno. telefonou para a amiga mais chegada. Recomendou que o fogão fosse entregue na hora. vítimas de tais homenagens. A amiga interrompeu-a: . Ela chorou e sorriu e chorou outra vez de emoção pelo carinho da meninada. comprado na loja mais próxima. Outras. quinze abobrinhas. a turma de instalação já havia desligado o fogão velho e ia ligar o fogão novo.um caso sério. não. sempre em conserto-se recusou a cooperar. num envelope. In "Cadeira de Balanço" . mas na específica de mães de autoridades. Não houve bolo de chocolate com frutas. trocou logo o vestido futuro por um fogão novo. e a instalação feita imediatamente. De volta à casa.Serve nada.E como você queria que ele funcionasse. com os complementos. feliz. é tão bom um presente útil. laboriosas. Dona Esmeralda recebeu de véspera. que ela não é de crediário.A Mãe e o fogão O Dia das Mães já passou. bolsa. Assim. que não dariam para uma toalete digna do grill do Copa. contando-lhe a compra (se um dos prazeres femininos é comprar. Nenhum deles está em idade de escolher tecidos. é de desejar que não atinja suas venerandas genitoras. outro é contar que comprou) . mas algumas estão resolvendo. não na qualidade geral de mães. "Damos o dinheiro e mamãe compra a seu gosto": combinado. porque mãe é sempre mãe. Reunidos em assembléia. luvas e sapatos. Umas tantas repousam das manifestações coletivas e entusiásticas que receberam. se não houve gás esta manhã? Ao terminar a conversa. objetos de uso que não gostariam de usar. Por mais que lhe explicasse que era um serviço sentimental e urgente.Mas que idéia essa de comprar fogão novo se o velho ainda serve? . mas o fogão .

em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. pedregosa. . e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco. e a cada instante mais se retraindo. sobre a montanha. noturno e miserável. sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto. assim me disse. e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior. embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém. e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério. se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos. e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los. Abriu-se majestosa e circunspecta. vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado. a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia.A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. a outro alguém. mesmo afetando dar-se ou se rendendo. a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. em coorte. nos abismos. convidando-os a todos. Abriu-se em calma pura. e aves pairassem no céu de chumbo.

pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste.. repara. Mas. o que nas oficinas se elabora. pois a fé se abrandara. abre teu peito para agasalhá-lo. essa total explicação da vida.. e o absurdo original e seus enigmas. . contempla. que floresce no caule da existência mais gloriosa. e mesmo o anseio. e o solene sentimento de morte. a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra. que nem concebes mais. na estranha ordem geométrica de tudo. e como se outro ser. tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto. como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando. como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso.olha. vê. e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios.” As mais soberbas pontes e edifícios. essa ciência sublime e formidável. não mais aquele habitante de mim há tantos anos. dá volta ao mundo e torna a se engolfar. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. afinal submetido à vista humana. mas hermética. esse nexo primeiro e singular. os recursos da terra dominados. suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses. o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento.

passasse a comandar minha vontade que. antes despiciendo. enquanto eu. pág. avaliando o que perdera. de mãos pensas. seguia vagaroso. baixei os olhos. 300. repelida. o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”. já de si volúvel. e a máquina do mundo. a pedido do caderno “MAIS” (edição de 0201-2000). pedregosa. . publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. 1985. se foi miudamente recompondo. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”. como se um dom tardio já não fora apetecível. se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas. José Olympio Editora – Rio de Janeiro. incurioso. lasso. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas. Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos. desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho.

A mão está suja. Não adianta lavar. A água está podre. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. Ai. quisera torná-la. sujo de carvão. A princípio oculta no bolso da calça. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. E era um sujo vil. O sabão é ruim. duro. E vi que era igual usá-la ou guardá-la.. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão. Nem ensaboar. poli-a. . não sujo de terra. Preciso cortá-la. A mão incurável abre dedos sujos. escovei-a. Eu seguia. por fim. suja há muitos anos. mão limpa de homem.. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. por maior contraste. uma simples mão branca.A Mão Suja Minha mão está suja. ou mesmo. Cristal ou diamante. O nojo era um só.

(in José) . Era sujo pardo. Inútil reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa. suor na camisa de quem trabalhou. a esperança e seus maquinismos. pardo.casca de ferida.o preto tão puro numa coisa branca. cardo. cortá-la. outra mão virá pura . fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. tardo. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada.transparente colar-se a meu braço. Não era sujo preto . Depressa.

que seria de mim até o amanhecer?” Concordo. Outras notícias do corpo não quer dar. . nem de seus gostos. calo-me. pelo telefone À meia-noite. conta-me que é fulva a mata do seu púbis.À meia-noite. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. pelo telefone.

esmeralda que se entreabre. Viver não tinha propósito. Os dedos descobriam-lhe segredos lentos. essa a louca sonegava. porém o máximo arcano. crespa. abre-que-fecha-que-foge. ara sem sangue de ofícios. Ai.A moça que mostrava a coxa A moça mostrava a coxa. Roçava-lhe a perna. Como lhe sabia a pele. e a fêmea. aquela zona hiperbórea. faiscava. não me daria nem nada. curvos. sombrio. violento. rindo. E torturando-me. o todo esquivo. que nessa hora já primeira. só não mostrava aquilo . intacta. o que devia ser dado e mais que dado. a tríplice chave de urna. Antes nunca me acenasse. o tempo não desatava nem vinha a morte render-me ao luzir da estrela-d'alva. comido. a moça não me mostrava. porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos. em seu dourado pêlo de ventre! mas sexo era segredo de Estado. berilo. em seu côncavo e convexo. e virgem no desvairado recato que sucedia de chofre á visão dos seios claros. e encerra o gozo mais lauto. a moça mostrava a nádega. negava o que eu tanto lhe pedia. que a moça me matava tornando-me assim a vida esperança consumida no que. Como a carne lhe sabia . qual pulcra rosa preta como que se enovelava. em seu poro. quatrifólio. andar perdera o sentido. nocturno. inacessível. animais. subia o enjoo de fera presa no Zoo.concha. misto de mel e de asfalto.

no dia. já se empana sua glória. Na praia. na ventania. sua coxa se apertava. . que linha prístina. fizesse sangue: fazia. que estreitura. que doçume. sua nívea rosa preta nunca por mim visitada. inacessível naveta? Ou nem teria naveta. sua coxa se selava... Na noite acesa. Na mais erma hospedaria fechada por dentro a aldrava. me fugia? Tudo a bela me ofertava. se encerrava. e o esquecimento no fundo. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia. onde uma cobra desperta vai traçando seu desenho num frémito. outros flancos: vasto mundo.. Talvez. quando mais eu insistia. já seu corpo se delia. outras fomes. porfia sem vislumbre de vitória. por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria..a campo frio. me chamava. O certo é que nunca. Outras fontes. sua coxa se cerrava. já sou diverso daquele que por dentro se rasgava. orvalhado. se salvava. e não sei agora ao certo se minha sede mais brava era nela que pousava. pura. Mas seu púbis recusava. e quem disse que eu podia fazer dela minha escrava? De tanto esperar. Talvez que a moça hoje em dia. e que eu beijasse ou mordesse. lado a lado! Mas que perfume teria a gruta invisa? que visgo.

. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. mesmo assim. um futuro sem a pessoa ao seu lado.. Se por algum motivo você estiver triste. por não prestarem atenção nesses sinais. chinelos de dedo e cabelos emaranhados. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. Se você não consegue imaginar. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. houver o mesmo brilho intenso entre eles. perceba: existe algo mágico entre vocês. chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura. Se o toque dos lábios for intenso.. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida.. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. e os olhos se encherem d'água neste momento.não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR! . Se você não consegue trabalhar direito o dia todo.. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento..Amor Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. um sorriso. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa. Se você preferir morrer. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. em pensamento. Se os olhares se cruzarem e. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço.. fique alerta: pode ser a pessoa que você esta esperando desde o dia em que nasceu. neste momento. Por isso. Ou às vezes encontram e. agradeça: Deus te mandou um presente divino . se o beijo for apaixonante. preste atenção nos sinais . deixam o amor passar. de maneira nenhuma. É uma dádiva. Se você conseguir. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro..o amor. mesmo ela estando de pijamas velhos.

leitura de relâmpago cifrado. Amor é o que se aprende no limite. É isto. depois de se arquivar toda a ciência herdada. nada mais existe valendo a pena e o preço terrestre. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo. em cada poro. que se torna a mais larga e mais relvosa. o prêmio subterrâneo e coruscante. amor: o ganho não previsto. Amor começa tarde. . roçando. ouvida.AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama. que. o céu do corpo. vibrando no crepúsculo. decifrado.

A paz dos deuses. sons. perfeito em dois. divino. menos que isto. arquejos. a fonte. mas. e enquanto o guia. Então a paz se instaura. eterna? Ao delicioso toque do clitóris. ais. . volta à origem dos seres. agradecendo o que a um Deus acrescenta o amor terrestre. fundido. num instante de infinito? O corpo noutro corpo entrelaçado.Pois que é Palavra Essencial Amor . num relâmpago. E prossegue e se espraia de tal sorte que. estendidos na cama. são dois em um. satisfeita. um só espasmo em nós atinge o climax: é quando o amor morre de amor. reúna alma e desejo. Amor guie o meu verso. Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo. E num sofrer de gozo entre palavras. o coito segue. dissolvido. Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região. a idéia de gozar está gozando. já tudo se transforma. Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara.pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva. que Platão viu completados: é um. nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos.Amor . qual estátuas vestidas de suor. Quantas vezes morremos um no outro. o fogo. o mel se concentraram. etérea. nu úmido subterrâneo da vagina. varado de luz. além da prórpia vida. Em pequenino ponto desse corpo. como ativa abstração que se faz carne. além de nós. membro e vulva.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos. sem reticências.A Noite dissolve os Homens A Portinari A noite desceu. ainda tímida.. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. a noite espalhou o medo e a total incomprensão. as mãos dos sobreviventes se enlaçam. O mundo não tem remédio. minha carne estremece na certeza de tua vinda. os corpos hirtos adquirem uma fluidez. uma inocência. sem esperança... expulsando a treva noturna. A noite anoiteceu tudo. E o amor não abre caminho na noite. a noite dissolve os homens. Havemos de amanhecer. adicinho-te que sobes. Tremenda. inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens. E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam.. nos campos desfalcidos.. nas ruas onde se combate. Sob o úmido véu de raivas. A noite caiu. queixas e humilhações. a noite dissolve as pátrias.. entretanto eu te diviso.. A noite desceu. apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas . A noite é mortal. Aurora. um perdão simples e macio. completa. Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. diz que é inutil sofrer.. vapor róseo. Os suicidas tinham razão. Nas casas. que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. teus dedos frios. O mundo . Minha fadiga encontrará em ti o seu termo. O suor é um óleo suave.

de tão necessário para colorir tuas pálidas faces. .se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce. aurora.

nele implícito e reticente. não te conheço de verdade. aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. sua face oculta de si mesmo. tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. na líquida transmissão de taras e dons. meu ladrão. e tão meus eles se tornaram. impulso primitivo. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo. mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. filtra de um homem. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. roubaste-me o espírito. vou te compreendendo. teu duende mal encarnado. e furtando-me a iniciativa. . Refaço os gestos que o retrato não pode ter.Antepassado Só te conheço de retrato. mais do que isso: teu fremente modo de ser. enclausurado entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia. pois sou teu vaso e transcendência. vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda.

rosa na máquina. sede permeáveis. beijai a rosa. venda murcha. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. todas catárticas. Rosa na roda. pense uma rosa na pura ausência. aurilavrada. o que de melhor se compôs na noite. sou eu. Primavera não há mais doce. todas exóticas. não me revelo. apenas rósea. como direi. Por preço tão vil mas peça. (in A Rosa do Povo) . pois jamais virão pedir-me. oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão. Selarei. todas histórias. ela é sete flores. quem sou? Deus me ajudara. e não há oito contos. cavalheiros. sugere estâncias. Aproveitem. e mesmo duvido que em outro mundo alguém se curve. a burguesia apodrece. Uma só pétala resume auroras e pontilhismos. é cruel existir em tempo assim filaucioso. diz que te amam. mas ele é neutro. não. vinde. rosa tão meiga onde abrirá? Não. Já não vejo amadores de rosa.. Autor da rosa. A última rosa desfolha-se. começo da era difícil. pequenas cólicas cotidianas. Vêde o caule. olhai o cálice. meu comércio incompreendido. Ó fim do parnasiano. no amplo vazio. todas patéticas. filtre a paisagem. qual mais fragrante. eu sei. Vinde.Anúncio da Rosa Imenso trabalho nos custa a flor. Injusto padecer exílio. traço indeciso.

e chega o ardor de insofrida. Procura o estreio átrio do cubículo aonde não chega a luz. com isso. mordente fome de conhecimento pelo gozo. muito mais prazer. Amor não é completo se não sabe coisas que só amor pode inventar. porta a que se bate suavemente. .A outra porta do prazer A outra porta do prazer. seu convite é um prazer ferido a fogo e.

mas pobre de esperança. mas do destino vão nega a sentença. Mais triste? Não. porém.Ao amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. Ele venceu a dor. não de cultivo alheio ou de presença. Nada espera. . O amor antigo tem raízes fundas. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Nada exige nem pede. e por estas suplanta a natureza. feitas de sofrimento e de beleza. e resplandece no seu canto obscuro. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. tanto mais velho quanto mais amor. a antigo amor. Mais ardente. Por aquelas mergulha no infinito.

destino que regula nossa dor. Senhor. assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil. O problema. De não ser. De ser o seu cadáver itinerante. as multas envergonham-se de alvejá-lo. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará á sublime invalidez que é signo de perfeição interior. Os códigos. ISS. mudos . PASEP. De estar. nossa doação. afiando sem pausa a sua foice. que audiovisual nenhum ensina. Namorado é o ser fora do tempo.são os namorados enquanto namorados. Mas nascem todo dia namorados novos. é como aprender. nosso inferno gozoso.Aos Namorados do Brasil Dai-me. Senhor. Será que namorado escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam. perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem. no pedestre dia-a-dia. surdos. atenção: cumpra sua obrigação de namorar. como exercer a arte de namorar.felizes! . ou nem estar. Senhor. desarmados. sob pena de viver apenas na aparência. só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação? Cegos. INPS. espera que o namorado desnamore para sempre. E quem vive. eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes. O tempo. quando perdem os olhos para toda paisagem. em volta dele. os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele. renovados. as guerras. . e ninguém ganha ou perde esta batalha. depois são gente como a gente. saber alguma coisa. inovantes. fora de obrigação e CPF. retrocedem de sua porta. Antes. Pois namorar é destino dos humanos. IOF.

O homem nasce ignorante. filme adoidado. caminhadas. jantares. perdurando.e vai além de toda universidade. . dia-dos-namorados. Namorar é além do beijo e da sintaxe. Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo. inconsciente. o carro à toda ou a 80. Há homens que se cansam depressa de namorar. Quem ensina não sabe. lancha. A mulher antes e depois da Bíblia é pois enciclopédia natural ciência infusa. Ser duplicado. sem sentir que aprendeu. para ficar durando. murmúrios. por obra e graça de sua namorada. São outras. Só a mulher (como explicar?) entende certas coisas que não são para entender. foto colorida. rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém. E o namorado só aprende. fora de qualquer sistema ou situação. silêncios. com arrepios. ser complexo. ai de quem nunca estará maduro para aprender. gravações. outros que são infiéis à namorada. Pobre de quem não aprendeu direito. Elas aspiram o segredo do mundo. são estrelas remotíssimas. a namorada não são aquelas mesmas criaturas com que cruzamos na rua. São para aspirar como essência. o namorado. piscina. ou nem assim. Quem aprendeu não ensina. que em si mesmo se mira e se desdobra. fins de semana. fulgurante no simples manifestar-se. infensa a testes. chegado o momento. não merece namorar. triste de quem não merecia. vive ignorante. e dá ao gesto a cor do amanhecer. às vezes morre três vezes ignorante de seu coração e da maneira de usá-lo. não intencional. Há que aprender com as mulheres as finezas finíssimas do namoro. som de cristal na concha ou no infinito. não depende de estado ou condição. nunca previsto. Namorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples.

Os tímidos desistem. velho mundo renovado. . Que importa? A cada hora nascem outros namorados para a novidade da antiga experiência. tenta cobrar (inveja) o terrível imposto de passagem: "Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer! Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos. que os persegue.." Ou senão: "Desiste! Foge! Esquece! Esquece!" E os fracos esquecem.A limitação terrestre. E inauguram cada manhã (namoramor) o velho.. Fogem os covardes.

dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. mudos. . Mais sol do que o sol. saboreando-a. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar.A palavra Já não quero dicionários consultados em vão. Que resumiria o mundo e o substituiria.

Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. e minha procura ficará sendo minha palavra. Procuro sempre. não desanimo. .A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Se tarda o encontro. se não a encontro. procuro sempre. Vou procurá-la. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo.

beijo intensamente o nada. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és. e nosso final descanso de camurça.Aparição amorosa Doce fantasma. Tua visita ardente me consola. doçura. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. puro som. mesma voz. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. Então. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. Tua visita ardente me desola. convicto. Tua visita. apenas uma esmola. Mas insistes. suave? Nunca pensei que os mortos o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados. querida ausente. mesmo timbre.. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer. Ouço-te a voz. ouço teu nome. Aperto. . mesmas leves sílabas. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. a perseguir-me. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido.. Amado ser destruído. por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele.

Não percas tempo em mentir. teu sapato de diamante. há calma e frescura na superfície intacta. . Não dramatizes. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Não colhas no chão o poema que se perdeu. sem interesse pela resposta. Chega mais perto e contempla as palavras. se te provocam. Penetra surdamente no reino das palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. se obscuros. as palavras. Estão paralisados. em estado de dicionário. é algo imprestável.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objecto. Que se partiu. Não te aborreças. cristal não era. Que se dissipou. Calma. mas não há desespero. vossas mazurcas e abusões. antes de escrevê-los. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Tem paciência. Convive com teus poemas. não invoques. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Teu iate de marfim. Ei-los sós e mudos. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. não indagues. não era poesia. Não adules o poema.

mistério) presto se desata: em verde. Que fazer. sozinha. antieuclidiana.Àporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. exausto. em país bloqueado. uma orquídea forma-se. . enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão.

vossas mazurcas e abusões. vossos esqueletos de família. Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. isso ainda não é poesia. desaparecem na curva do tempo. teu sapato de diamante. Não há criação nem morte perante a poesia Diante dela. a vida é um sol estático não aquece nem ilumina As afinidades. Para ele.A Procura da Poesia Não faças versos sobre acontecimentos. não indagues. tão infenso à efusão lírica. completo e confortável corpo. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação . tua careta de gozo ou de dor no escuro. é algo imprestável. Não faças poesia com o corpo. O que pensas e sentes. fadiga e esperança nada significam A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto Não dramatizes. Não cantes tua cidade. não invoques. chuve e noite. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. os incidentes pessoais não contam. Não percas tempo em mentir Não te aborreças Teu iate de marfim. deixa-a em paz. esse excelente. Tua gota de bile. os aniversários. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo ds casas. são indiferentes Nem me reveles teus sentimentos.

Chega mais parto e contempla as palavras cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. em estado de dicionário. não era poesia Que se partiu. Ainda úmida e impregnadas de sono. antes de escrevê-los. Penetra surdamente no reino das palavras. elas se refugiaram na noite. sem interesse pela resposta pobre ou terrível. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio Não forces o poema a desprender-se do limbo. Estão paralisados. se te provocam. as palavras. mas não há desespero há calma e frescura ma superfície intata Ei-los sós e mudos. Aceita-o. . rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Calma. cristal não era. como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. que lhe deres: Touxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito.Que se dissipou. Tem paciência. Não adules o poema. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. se obscuros. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Convive com teus poemas.

A única. Na mata do cabelo se abre toda. A puta quente. querendo a puta.A puta Quero conhecer a puta. A fornecedora. chupante boca de mina amanteigada quente. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe. Na Rua de Baixo onde é proibido passar. Ela arreganha dentes largos de longe. e quer saber. . A puta da cidade. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta.

eu. Não sei o que é. os gestos. e que não vai bem com uma senhora casada.Por que não? . . porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes.Deixe Dona Elsa ser elegante. .. . .Já sei. . ela me disse que foi o oculista que deu a ela.E daí? . . e pode até realçá-la por uma graça experiente.Aquilo que o dicionário chama de ente de razão. . E que houvesse. Estava num vaso.Senão o quê? . O oculista não podia dar essa flor. o marido me honra com suas confidências: . pode revelar melhor o encanto natural da personalidade.Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina.Desculpar de quê? .Veio do oculista e trouxe uma rosa.Aquele casal Aquele casal. Minha mulher vem com uma rosa para casa.. . Engraçado.Acho que está sonhando coisas. Ficou com os movimentos mais leves.Pois fique com suas teorias. . mas não me agrada a sua evolução. A mulher casada desabrochou.Eu ignoro tudo. ele deu. de mau gosto.. Não há desfrute em seguir o figurino. . Não há rosas nos consultórios de oftalmologia. e eu não devo achar ruim. que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém. nem ela podia aceitar. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando. . um ar desembaraçado que ela não tinha. Estava querendo desculpar a Elsa. Fixou-me suspeitoso: . São as maneiras. .Deu para usar estampados berrantes. . eu tenho que achar muito natural. O pior é que não deve ter sido o oculista. . . .Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece? . ela que era tão discreta no vestir.Se fosse só o figurino.Acha então que estou maluco? .Perdão.Que ele é gentil.Como assim? . .É a moda.Pois eu não vou nessa gentileza de oculista.A Elsa parece uma menina de quinze anos.Que é que tem trazer uma flor para casa? . ela achou bonita.Eu apertei. e adivinho que não há nada senão. Ora.E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho? . um rinoceronte. dizendo que eu sou um bruto. uma fantasia completamente destituída de razão. .Pode ser o que você quiser.Ultimamente.De tudo que ela vem fazendo.Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso? . Acha direito? .Nada.Que é que tem as maneiras. . os gestos? .Que é que está insinuando? . não é mais um projeto. a Elsa anda um pouco estranha.. Principalmente se é rosa. apenas. não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos. uma rosa dada por um homem.Tem muito.

abstrata. Se fez agora. me desquito. foi para preparar terreno. eu nunca havia reparado nisso! Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos.Pensei que você fosse meu amigo. Demora mais tempo no espelho. E logo que tenha a prova. . . posso saber quem deu uma rosa a minha mulher? . Estou decidido. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem. são a evidência. Numa cidade do tamanho do Rio. Estou inteiramente lúcido. juro.A quê? . Ponho a mão no fogo por Dona Elsa. . Fica olhando um ponto no espaço.Digo o que penso. e disse aquilo só para fazer charminho.Permita que eu discorde. . . que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto..Vou segui-la daqui por diante. só me conduzo pelo raciocínio. .Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina. Repare no encadeamento: os vestidos modernos. os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá).Ela nunca fez isso. 79. e Dona Elsa.Não diga uma coisa dessas. quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos. sorri. A Elsa não é mais a Elsa. Fiz mal em me abrir. Contrato um detetive. . .Não vai ter prova nenhuma. reunidas.Sei lá. então? . Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. Depois. a rosa. . Cada uma dessas coisas é um indício.Discorda sem argumentos.Quem foi.

Minha rua acordou mudada. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. . Os vizinhos não se conformam.A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas.

nunca mais viver duas vidas em uma.Aspiração Tão imperfeitas. e só o amor governe todo além. que é nunca mais morrer. Quando alcançaremos o limite. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. revel à condição de carne e alma. nossas maneiras de amar. o ápice de perfeição. .

A TORRE SEM DEGRAUS
No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas. No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3.° andar - tlás tlás - anoite cria morcegos. No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina. No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades. No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos. Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre. No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas. NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola. No 24.°, vide 13.°. No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela? No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentandose. O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira. Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável. Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima. No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção. No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.

Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No 37.°, a canção Filorela amarlina lousileno i flanura meleglírio omoldana plunigiário olanin. No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência. No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes. No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente).

Atriz

A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Aula de Português

A linguagem na ponta da língua tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Figuras de gramática, equipáticas, atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me. Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima. O português são dois; o outro, mistério.

A um bruxo, com amor
Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada, uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo, entre malinas e bruxelas. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador. Olhas para a guerra, o murro, a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou, grande lascivo, do nada? O vento que rola do Silvestre leva o diálogo, e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco, tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná, mostra que os homens morreram. A terra está nua deles. Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. Bem a distingo, ronda clara: É Flora, com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo; Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa); Virgília, cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida; Mariana, que os tem redondos e namorados; e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora, o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça, flor mulher flor canção de mulher nova... E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe) o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. O eflúvio da manhã, quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença, o clarineta, vai pé ante pé procurar o remédio, mas haverá remédio para existir senão existir? E, para os dias mais ásperos, além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem, mas amar? Todos os cemitérios se parecem, e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade, a descobrir a fenda necessária; onde o diabo joga dama com o destino, estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro, que resolves em mim tantos enigmas. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas, eternas exéquias e aleluias eternas, e chega ao despistamento de teu pencenê. O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno. Dás volta à chave, envolves-te na capa, e qual novo Ariel, sem mais resposta, sais pela janela, dissolves-te no ar.

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

Actriz
A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cénicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo, sem consulta, sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão de sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mão, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da ternura e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, porque te foste.

Aurora
O poeta ia bêbedo no bonde. O dia nascia atrás dos quintais. As pensões alegres dormiam tristíssimas. As casas também iam bêbedas. Tudo era irreparável. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada), que o mundo ia acabar às 7 e 45. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José, que colocava pronomes, Helena, que amava os homens, Sebastião, que se arruinava, Artur, que não dizia nada, embarcam para a eternidade. O poeta está bêbedo, mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai, meus irmãos! Embora sem música dançai, meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade. Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). Dançai, meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento.

Ausência
"... Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E era preciso optar. Cada um optou confere seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

A Vida Passada a Limpo

Itabira do Mato Dentro - MG - 1902 * - * - 1987 Ó esplêndida lua, debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81. Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. Baixas a um vago em mim, onde nenhum halo humano ou divino fez pousada, e me penetras, lâmina de Ogum, e sou uma lagoa iluminada. Tudo branco, no tempo. Que limpeza nos resíduos e vozes e na cor que era sinistra, e agora, flor surpresa, já não destila mágoa nem furor: fruto de aceitação da natureza, essa alvura de morte lembra amor.

flagelo da Tripolitânia.. dei um pulo desesperado. pulo. herói da Paramount. perseguidor de cristãos. como reagia! São palavras só: quente. brigamos. rema. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão.. remo. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. fria. Seu pai é que não faz gosto. morremos. Virei soldado romano. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria do meu bergatim. mas não Helena. Provocada.Balada do amor através das idades Eu te gosto.. você fez o sinal da cruz e rasgou o peito a punhal. espirituoso e devasso. beijo e casamos. boxo. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. tenho dinheiro no banco. Hoje sou moço moderno. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versalhes. e mais terna amante. Matei. danço.. Você cismou de ser freira. e o leão comeu nós dois. você troiana troiana. Mas depois de mil peripécias. boxa. eu. te abraço. Você é uma loura notável. Depois fui pirata mouro. Me suicidei também. dança. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. pula. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo. Tenho saudade de uma dama Tenho saudade de uma dama Como jamais houve na cama Outra igual. você me gosta desde tempos imemoriais Eu era grego. Não era sequer provocante. .

A outra porta do prazer A outra porta do prazer. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. Do meu quarto ouço a fuzilaria. muito mais prazer Amor não é completo se não se sabe coisas que só o amor pode inventar. um matar-morrer. com isso. As amadas torcem-se de gozo. mordente fome de conhecimento pelo gozo Necrologia dos desiludidos de amor Os desiludidos do amor estão desfechando no peito. procura o estreito átrio do cubículo aonde não chega a luz. e. Eu vou. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. Um guaiar. sem amor. Os desiludidos seguem iludidos sem coração. e chega o ardor da insofrida.No banheiro nos enroscávamos. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e de Segunda classe). Pun pum pum adeus.. sem tripas. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. violento. . seu convite é um prazer ferido a fago. sobre a tumba deles. porta a que se bate suavemente. tu ficas. Única fortuna. Eram flamas no preto favo. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. Que grandes corações eles possuíam. Oh quanta matéria para os jornais Desiludidos mas fotografados escreveram cartas explicativas tomaram todas as providências para o remorso das amadas. enjoada. Vísceras imensas. Tenho saudade de uma dama Que me passeava na medula E atomizava os pés da cama..

Beijo-flor O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis .

sem. que me engole. sua fusão no corpo geral do mundo. fantasmas.Bela esta manhã sem carência de mito. Umidade de areia adere ao pé. esta vida ou outra invenção. engulo o mar. Bela esta manhã ou outra possível. Bela a passagem do corpo. Valvas. Mas tão absoluta que me calo. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. na sombra. repleto. Vontade de cantar. . e mel sorvido sem blasfêmia. curvos pensamentos.

José. Brejo das Almas . Soneto da buquinagem. Versiprosas. Viola de bolso II. A mesa. Viola de bolso. O amor natural. Alguma Poesia . A rosa do povo. . Claro enigma. Esquecer para lembrar ( Boitempo III). Amar se Aprende Amando. Sentimento do Mundo. Novos poesmas. Boitempo. Poesia errante. Ciclo. Corpo. Nudez.Bibliografia em poesia. Paixão Medida Farewell. Fazendeiro do ar. Reunião. Menino Antigo( Boitempo II) .

Termina o ramal. Dorme. esse cristal de fluída transparência: verde. menino. Papai. eu cresço logo. Osíris. Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.. cretino! Espermacete1 cai na cama. A mãe se queixa. Amanhã começo a ler. eu vou comprar. Apolo nu. já sabe: quero devolução de meu dinheiro. em contos. mata de pinheiros toda verde. Em filosofias tropeço e caio. menino. Medusa. tem disso tudo nos livros? Depressa. É em percalina verde. compra. fino caixote de alumínio e pinho. Fica quieto. Mas leio.. me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres São só 24 volumes encadernados em percalina verde. verde. Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca antes que peque fogo na casa. Templo de Tebas. só 24 volumes. o burro de carga vai levando tamanho universo. em cavalarias me perco. Sou o mais rico menino destas redondezas.) Ninguém mais aqui possui a colecção das Obras Célebres. Agora quero ver figuras. é livro demais para uma criançaCompra assim mesmo. Agora não. compra. poemas me vejo viver. Coronel. O irmão reclama: apaga a luz. Me mande urgente sua Biblioteca bem acondicionada. medievo. Compra. (Orgulho. Vai dormir. Antes de ler. Está bem. me compra agora. Não dorme este menino. o sono. filhinho meu. Chega cheirando a papel novo. Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro. ordens são ordens. . cavalgo de novo meu verde livro. queima a perna. antes que eu perca a paciência e te dê uma sova. as letras. Agora não. não: inveja de mim mesmo. Quando crescer eu compro.Biblioteca verde Papai. Como te devoro. não quero defeito. Vénus nua. tão fraquinho. Nossa Senhora. Meu filho. que bom passar a mão no som da percalina. Careço ler tudo. Tenho de ler tudo. pai. Todas. Se vier com arranhão recuso.

O que saberei. Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta à casa a qualquer hora num fechar de páginas? Tudo o que sei é ela que me ensina. 1) espermacete: material de que se fazem as velas . está na Biblioteca em verde murmúrio de flauta-percalina eternamente.verde pastagem. o que não saberei nunca.

no milímetro que nos separa. Boca: se meu desejo é impotente para fechar-te. Boca amarga pois impossível. beijas outro com seriedade. cabem todos os abismos. Boca de outro que ris de mim. bem sabes disto. ris sem beijo para mim. zombas de minha raiva inútil. . doce boca (não provarei).Boca Boca: nunca te beijarei.

A sombra vem nos cascos. morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista. . no mugido da vaca separada da cria. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. Amanhece na roça de modo diferente. escultura da noite. No gado é que dormimos e nele que acordamos. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal. A luz chega no leite.Boitempo Entardece na roça de modo diferente.

nem você. em um apenas. Olhe nos meus olhos bem fundo enquanto eu te olho no fundo dos seus olhos. Enxergue minha alma enquanto traduzo seus sonhos e deixe que a gente flutue bem juntos em uma só energia. mas com carinho. Somos nós dois. Vamos dançar juntos como se voássemos em uma nuvem exclusiva toda nossa. Dois seres. E enquanto dançamos. dois corpos. uma dança. eu te beijo e você me beija e a essa altura já não sou eu.Bolero Segure minha mão com firmeza. um sentimento. uma alma única. .

sobre o telúrio. canção suicida.Brinde.. reintegra a essência do poeta. se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. marulho e náusea. que recomeças de outro mundo. Poesia. Poesia. o belo câncer do verso. noutra vida Deixaste-nos mais famintos. Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso.. poesia. poesia. no banquete das musas Poesia. poesia. comida estranha. morte secreta . e o que é perdido se salva.

E excogito: Que brinquedo inventar para o adulto. que cada um invente o seu brinquedo. e fácil. Sem o pedir às máquinas e aos deuses. brinquedo desenganado mas eficiente? Tenho de inventar o meu brinquedo. fluida. pétala. sangue e riso dele. não me seduzem os brinquedos eletrônicos que a moda. . me oferece.Brinquedos para homens Embora eu seja adulto. privativo dele. alegria gerada por mim mesmo. pluma. irônica. mola saltando no meu íntimo.

Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo o arco de triunfo. bunda além do irreal arquibunda selada em pauta de hermetismo opalescente bun incandescente bun meigo favo escondido em tufos tenebrosos a que não chega o enxofre da lascívia e onde a global palidez de zonas hiperbóreas concentra a música incessante do girabundo cósmico. . pluribunda unibunda bunda em flor. a ponte de suspiros a torre de suicídio. Bundaril bundilim bunda mais do que bunda bunda mutante/renovante que ao número acrescenta uma nova harmonia. bundífoda bundamor bundamor bundamor bundamor.Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor bundalei bundalor bundanil bundapão bunda de mil versões. a morte do Arpoador bunditálix. bunda em al bunda lunar e sol bundarrabil Bunda maga e plural.

porque me tocou um amor crepuscular. quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Mas. De uma grave paciência . pois jamais me sorriram. volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que amor já criou. as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. o sumo se espremeu para fazer um vinho ou foi sangue. um sistema de erros. Deus . Pois que tenho um amor.ou foi talvez o Diabo . eu que não me sabia e cansado de mim julgava que era o mundo um vácuo atormentado. Mas sou cada vez mais.deu-me este amor maduro. Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra imensa e contraída como letra no muro e só hoje presente.Campo de flores Deus me deu um amor no tempo de madureza. talvez. Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais. que se armou em coágulo. Era tempo de terra. pois que tenho um amor. ou triunfantes e ao vê-los amorosos e transidos em torno. há que amar diferente. mas sou. no mundo. e a um e outro agradeço. Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não sou. De tantos que já tive ou tiveram em mim. E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas era o tempo rriais justo. Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados. Seu grão de angústia amor já me oferece na mão esquerda. Onde não há jardim. o sagrado terror converto em jubilação. Enquanto a outra acaricia os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura e o mistério que além faz os seres preciosos à visáo extasiada. Deus me deu um amor porque o mereci.

E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação.ladrilhar minhas mãos. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde. . Há que amar e calar.

Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças .Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Minha vida. eu vejo e saúdo velhos amigos. todas as mães se reconheçam. nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. e que fale como dois olhos. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. Se não me vêem. Caminho por uma rua que passa em muitos países.

fiquei triste sem querer. veio vindo. me abraçou. acabou. me consolou. me disse adeus com a cabeça e saiu.. Depois riu devagarinho. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou. Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo.Cantiga de viúvo A noite caiu na minh'alma. Uma sombra veio vindo.. Fechou a porta. . Ouvi seus passos na escada. Depois mais nada.

curvos pensamentos. repleto. Mas tão absoluta que me calo. Vontade de cantar. Engulo o mar. E mel sorvido sem blasfémia. na sombra.Canto Esponjoso Bela esta manhã sem carência de mito. . esta vida ou outra invenção. sua fusão no corpo geral do mundo. Umidade de areia adere ao pé. Bela esta manhã ou outra possível. fantasmas. sem. Bela a passagem do corpo. que me engole. Valvas. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas.

que é terra e alísio em teu crisol? Nunca vi terra tão gente nem gente tão florival.. a sigla rara dos tempos do verbo mar.Canto do Rio em Sol Guanabara. seio. Teu frêmito é teu encanto (sem decreto) capital. Rio-tato-vista-gosto-risco-vertigem Rio-antúrio Rio das quatro lagoas de quatro túneis irmãos Rio em ã Maracanã . II Rio.não são imagens exangues como perfume na fronha . Rio que te vais passando a mar de estórias e sonhos e em teu constante janeiro corres pela nossa vida como sangue. que te fitamos nos olhos. saia clara estufando em redondel: que é carne. nome sussurrante. essencial. Os que te amamos sentimos e não sabemos cantar: o que é sombra do Silvestre sol da Urca dengue flamingo mitos da Tijuca de Alencar. Guanabara. Agora. como seiva -. e que neles pressentimos o ser telúrico. braço de a-mar: em teu nome. condado real.. agora sim és Estado de graça. como pupila do gato risca o topázio no escuro.

388.emudeceram as aldeias gentílicas? A Festa das Canoas dispersou-se? Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José pastoreando os fiéis da várzea? Soou o toque do Aragão sobre a cidade? Não não não não não não não Rio. milhão de coisas luminosardentissuavimariposas: como te explicar à luz da Constituição? III Irajá Pavuna Ilha do Gato -. mágico. 1985. assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas. dás uma cabriola. Neste poema Carlos Drummond de Andrade demonstra todo seu amor pela cidade do Rio de Janeiro. pág. José Olympio Editora . teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos.Rio de Janeiro.Sacopenapã Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho de amorzinho benzinho dá-se um jeitinho do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda como quem do alto do Morro Cara de Cão chama pelos tamoios errantes em suas pirogas Rio. . Texto extraído do livro "Nova Reunião". Rio novo a cada menino que nasce a cada casamento a cada namorado que te descobre enquanto rio-rindo. um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo o tempo que humaniza e jovializa as cidades. teu acordar.

sem paredes as casas e os governos. o busto altivo. chega-se ao Leblon e já nem rimo. tu deliras? Até logo. a terra pouca. olha o broto. fundamento de nova criatura? Carlos. ele. pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais.. querida. estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. engole ruins aranhas do Brasil. Fogem banhistas para o Posto Seis. Carlos.. a começar na blusa transparente e a terminar. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. a frente é interminável. O Posto Vinte.. gentil. tudo claro. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio.Cariocas Como vai ser este verão. Pobre do ser vivo. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo. Invade-se Ipanema hippie e festiva.. deixa de vãs filosofias. que aumenta o chão pisável.. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor. esse dragão. sem que aumente a própria dimensão interior. pesadíssima). aumentada/ diminuída? A draga. Repara como tudo está pra frente. Ai. . olha as esguias pernas. Ah.. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade. A transparência vai além: os ossos. com a praia. olha aí.

tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem. Um rosa te dou. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora.medonhos escorpiões: o sapo papa paca. e me disperso em quadrada emoção diante da rosa. Viram que novidade? Rosas de verdade. em vez de um verso. com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. a rua. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. indago.) Depressa. e me castigo a remoer sua emplastada imagem. ou cheira mal o terreno baldio. onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. uma rosa é um rosal. o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. pois inda existe flor. de seqüestro e bomba? . pulo muros: qual! A flor é de papel. no mais. a Roselândia.

triviais. não. embora estremecessem a um toque de paixão. apenas. de mandar notícias amorosas quando não há amor a dar ou receber. o sono que era grato e era absurdo é um dormir acordado numa planície grave. as chuvas já secaram. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra. as crianças estudam. uma última invenção (inda não é perfeita) faz ler nos corações. Rápido é o sono. desbordado alazão. Vai-se tornando o tempo estranhamente longo à medida que encurta. e até o sono. diria ela do tempo que faz do nosso lado. que se vai. Muito depressa. mas todos esperamos rever-nso bem depressa. e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente. quando só há lembrança. .Carta Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas. e espero uma resposta mas que não tarde: e peço um objeto minúsculo só para dar prazer e quem pode ofertá-lo. as mesmas. O que ontem disparava. hoje se paralisa em esfinge de mármore. ela iria contando que vou bem.

ainda menos. está é uma carta. em mim mais do que em tudo. . pó. e não vale acordar quem acaso repousa na colina sem árvores. nada. Contudo. nada de nada em tudo. menos ainda.

Caso do vestido Nossa mãe. mas a dona não ligou. dava carro. procurei aquela mulher do demo. boca presa. Disfarcemos. dizei depressa que vestido é esse vestido. me bateu. Nossa mãe. Vosso pai evém chegando. chorou no prato de carne. fazenda. Era uma dona de longe.. vosso pai enamorou-se. Mas a dona nem ligou. O vestido. mas o corpo ficou frio e não o veste. se perdeu tanto de nós. Nossa mãe. Dava apólice. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. lamberia seu sapato. se fechou. que tivesse paciência e fosse dormir com ele. brigou. esse segredo! Minhas filhas. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. . Então vosso pai. Em vão o pai implorou. foi para a dona de longe. Minhas filhas. vosso pai chega ao pátio. bebeu. me pediu que lhe pedisse. é o vestido de uma dona que passou. po que chorais? Nosso lenço vos cedemos. me falou ela se rindo. dava ouro. não escutamos pisar de pé no degrau. Nossa mãe. naquele prego? Minhas filhas. irado. está morto. beberia seu sobejo. se afastou de toda vida. Eu não amo teu marido. Minhas filhas. Nossa mãe. o que é aquele vestido. esse vestido tanta renda. escutai palavras de minha boca. me deixou com vosso berço. E ficou tão transtornado. se devorou. nesse prego. Passou quando. sossegado. a essa dona tão perversa.. Minhas filhas.

desfeita. com sua trouxa na mão. perdi meus dentes. mas a morte não chegava. Andei pelas cinco ruas. no chão rocei minha cara. me curvei. só pra lhe satisfazer. me lancei na correnteza. disse que sim. os olhos dele pediam.. Eu fiz meu pelo-sinal.. fiz toda sorte de dengo. Vosso pai sumiu no mundo. minhas mãos se escalavraram. passei rio. O seu vestido de renda. me puxei pelos cabelos. Dona. não falava. pobre. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. Saí pensando na morte. não por mim. passei ponte. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. meus olhos. Fiquei fora de perigo. Olhei para a dona ruim. Olhei para vosso pai. fiquei de cabeça branca. Um dia a dona soberba me apareceu já sem nada. me cortei de canivete. tive uma febre terçã. não quero homem. da maior humilhação. mas a morte não chegava. Eu não tinha amor ele. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. Mas te dou este vestido. que não sei onde ele anda. não te dou vosso marido. mofina.Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra. os olhos dela gozavam. lavei. ao depois amor pegou. fiz doce. visitei vossos parentes. meus anéis se dispersaram. Me joguei a suas plantas. costurei. O mundo é grande e pequeno. de colo mui devassado. não comia. me disse baixinho. me atirei no sumidouro. .

pus nesse prego da parede. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela. me acalentava. .. Olhei para a cara dela. Olhou pra mim em silêncio. O barulho da comida na boca.bebi fel e gasolina. de nada valeu: vosso marido sumiu. dona. Peguei o vestido. era sempre o mesmo homem. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. ele se assentou. rezei duzentas novenas.. me dava uma grande paz. Eu fiz. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. boca não disse palavra. nem nada. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. mal reparou no vestido e disse apenas : Mulher. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso. vestido não há. limpou o suor. comeu. Minhas filhas. comia meio de lado e nem estava mais velho. põe mais um prato na mesa. eis que ouço vosso pai subindo a escada.

atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos E tudo proibido. devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.Certas palavras Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. falamos. movimentos. . Então. Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo. Estritamente reservadas para companheiros de confiança.

. Um homem vai devagar. . Um burro vai devagar.Cidadezinha Qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar.as janelas olham. Eta vida besta.. Devagar. Um cachorro vai devagar. meu Deus.

como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. e todo ferrão de desejo. À meia distância Claridade infusa na sombra. já esquecidos de perpassar. não a figura. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso . açúcar. Seu interior mostra-se aberto. De lado Sente-se já. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu. prêmios. De dentro Agora não se esconde mais. corpo inteiro. A superfície jaz tranquila. O barco lá fica banhado de brisa aveludada. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Salvo orsto ou contorno explícito. e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. mas eis que falta curiosidade. Apresenta-se. Sem vista Singular. pés incertos.Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. Promete riquezas. e os bem-te-vis. passos na areia. dormem no espaço. avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias.

Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. em vaso coberto de resina e lótus e sons. mais se ignora. mais sabido. . só o não saber que afinal se sabe e.de si mesmo.

Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira Principalmente. tive fazendas. Por isso sou triste. Tive ouro. Oitenta por cento de ferro nas almas.. É doce herança itabirana.. que tanto me diverte. A vontade de amar. tive gado. esta cabeça baixa. Noventa por cento d ferro nas calças. sem mulheres e sem horizontes. que me paralisa o trabalho vem de Itabira. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. nasci em Itabira. este orgulho. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. Mas como dói! . estendido no sofá da sala de visitas. este couro de anta. orgulhoso: de ferro. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. de suas noites brancas. E o hábito de sofrer.

os mais excelentes.) E na meia-luz tesouros fanam-se. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre. Não amei ninguém. não catei o verme nem curei a sarna. entrega. Dei sem dar e beijei sem beijo. de concordâncias vegetais. murmúrios de riso. tarde. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião.Confissão Não amei bastante meu semelhante. melodiosas. ao voltar da festa. como compor um homem e tudo que ele implica de suave. contudo próximo. Do que restou. Só proferi algumas palavras. .

. mas estarrece de surpresa ao vê-lo. . de humano que era. A Loucura desdenha recebê-lo. feita de breu.sou teu irmão." . sabento quanto Amor vive de engano. "Deixa-me entrar . pois não sei de mais triste desatino que este mal sem perdão. assim tão inumano. Mais que ninguém mereces habitar minha casa infernal. o pouso é teu. enquanto me retiro. E exclama: "Entra correndo. Só tu me limparás da lama escura a que me conduziu minha paixão".Confronto Bateu Amor à porta da Loucura. o mal de amar.pediu . sem destino. .

o medo das mães. nosso pai e nosso companheiro. o medo dos soldados. Cantaremos o medo. o medo dos democratas. cantaremos o medo dos ditadores. o medo grande dos sertões.Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. que esteriliza os abraços. o medo das igrejas. não cantaremos o ódio porque este não existe. existe apenas o medo. . depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. dos desertos. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte. dos mares.

em pensamento. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. receber um abraço.. preste atenção nos sinais. agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR. de maneira nenhuma. perceba: existe algo mágico entre vocês. houver o mesmo brilho intenso entre eles... sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. mesmo assim. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e. Se o toque dos lábios for intenso. Se você preferir fechar os olhos.. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo..Conselhos de um velho apaixonado Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. (Assim seja !!!) . e os olhos se encherem d’água neste momento. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. Beija alguém de quem gostas quando receberes esta mensagem. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. Se você conseguir. por não prestarem atenção nesses sinais..... Se por algum motivo você estiver triste. um futuro sem a pessoa ao seu lado. fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. se o beijo for apaixonante. deixam amor passar.. muitíssimo. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!! ame muito. mesmo ela estando de pijamas velhos. Se os olhares se cruzarem e. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. Às vezes encontram e. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento.. chorar as suas Lágrimas e enxugá-las com ternura. Por isso. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. um sorriso. chinelos de dedo e cabelos emaranhados. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida.. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.em troca.. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. neste momento. É o livre-arbítrio.... sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado. Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa... que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. Se você não consegue imaginar. mesmo que seja em pensamento.. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida..

sem frágeis lágrimas. poucos. se ainda as há. São todos meus irmãos. Eis aí meu canto. Me perco em Apollinaire. sem fronteiras. cantor sem piedade. perdido embora. não importa. nas principiantes rugas. são puras. duras. sim. autênticas. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. Essa viagem é mortal. da ausência de comércio. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. Dar tudo pela presença dos longínquos. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. Estes poemas são meus. O beijo ainda é um sinal. se beijam. Estes poetas são meus. De todo o orgulho. mas ardor tão casto. Está na mesa aberta em livros. elas saltam. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. se dissolvem. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. e começa-la.Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. sentir que há ecos. Ser explosivo. Bebo em Murilo. e dois ou três faróis. que todas me convêm. Adeus. As palavras não nascem amarradas. Poeta do finito e da matéria. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. a rua. não rocha apenas. . indevassáveis. Maiakovski. secretas. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. boiando em tempos sujos. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. boca tão seca. Na parede infiltrou-se. É a lanterna em qualquer estalagem. cartas e remédios. O bonde. no céu livre por vezes um desenho. É minha terra e é ainda mais do que ela. mas cristal. últimos! esperança do mar negro. e aves de bico longo conferindo sua derrota. Saber que há tudo. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. largas.

que repousam. o povo. como casa.. meu poema. na grama.. são ondas de carinho te envolvendo. estou completo. me faço tão sublime. Já agora te sigo a toda parte. me destino. tão natural e cheio de segredos. mas tu resistes. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam. e cresces como fogo. eu sei que passarão.o uniforme de colégio se transformam. tão firme. Tal uma lâmina. te atravessa. como orvalho entre dedos. . tão fiel. e te desejo e te perco.

no vento. O primeiro amor passou. Mas a vida não se perdeu. Estás nu na areia.. de vez. Não tentaste qualquer viagem. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Perdeste o melhor amigo. em voz mansa. Nunca.Consolo na Praia Vamos.. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. nunca cicatrizam. A infância está perdida. Mas tens um cão.. e o humour? A injustiça não se resolve. não chores. Dorme. navio. Mas virão outros. O segundo amor passou. te golpearam. Não possuis casa. Tudo somado. Mas. Algumas palavras duras. terra.. devias precipitar-te. De "Amar se Aprende Amando" . nas águas. A mocidade está perdida. meu filho.

Cota Zero Stop A vida parou ou foi o automóvel? .

Descuidosa. a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. Pode ser que a vela que trazes na mão te revele. trêmula.Cuidado A porta cerrada não abras. tua escrava nova. . teu dono-marido. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente.

delicioso verso de alumbramentos sábios e nostalgias abissais. hoje é nossa comum riqueza.Declaração a Manuel Teu verso límpido. se retesa e contempla a morte com a mesma forte lucidez de quem soube enfrentar a vida. amargo. . teu verso em que deslizam sombras que de fantasmas se tornaram nossas amigas sorridentes. teu verso em que Amor. soluçante. liberto de todo sentimento falso. nosso pasto de sonho e cisma: ele não te pertence mais. teu seco.

Meu ciclâmen. Violeta. Minha urze. Floramarílis. meu nenúfar. Minha gérbera. Macieira-minha-do-japão. Clematite minha. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha peônia. Amor-mais-que-perfeito. Floranêmona. Florazálea. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. . Meu cimbídio. Flor flor flor. Catléia delfínio estrelítzia.Declaração de amor Minha flor minha flor minha flor. Minha hortensegerânea.. Ah. Daliabegônia minha. Minha clívia. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Calceolária minha..

. engenhos modernos.. A serra mecânica não tritura amor. que acabará com o tédio da boca. afinal sossegada.) Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras. a vida habitável: a boca mordendo. a boca que beija.. (Coroas sem reino.. E todos os dentes extraídos sem dor. Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. higiênicos. dentadura múltipla. E a boca liberta das funções poéticosofístico-dramáticas . a serra mecânica. sempre desejada. os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico. a boca romântica?. jamais possuída.. práticos. e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua.. os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura.Dentaduras Duplas A Onestaldo de Pennafort Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos.

serei casto. admiráveis presas. Não sei quantas fomes jamais compensadas. mastigando lestas e indiferentes a carne da vida! (in Sentimento do Mundo) . não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me eu perdi.de que rezam filmes e velhos autores. secretas no fundo de mim. Dentaduras alvas. Largas dentaduras. sóbrio. Desfibrarei convosco doces alimentos. Dentaduras duplas: dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. antes amarelas e por que não cromadas e por que não de âmbar? de âmbar! de âmbar! feéricas dentaduras. vosso riso largo me consolará não sei quantas fomes ferozes.

Mãe. Foi fazer compras na feira da praça. levemente estrábica. Procurem. Óculos. (Procurem Luísa. magra. viúva pobre. Pede-se a quem avistar Luísa Porto. não a encontrarem nem por isso deixem de procurar com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa e talvez encontrem. morena. Luísa ia pouco à cidade e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada. que mande dizer onde está. que apareça. meiga. a qualquer do povo e da classe média. de 37 anos. Vestidinho simples. trabalhadora. que escreva. .) De ordinário não se demorava. Luísa é de bom gênio. Não voltou. (Procurem.Levava pouco dinheiro na bolsa. Suplica-se ao repórter-amador.Desaparecimento de Luísa Porto Pede-se a quem souber do paradeiro de Luísa Porto avise sua residência à Rua Santos Óleos.) Faz tanta falta. não perde a esperança. (Procurem Luísa. todavia. Mãe entrevada chamando. Sumida há três meses. ao transeunte. religiosa. que tenham pena de mãe aflita e lhe restituam a filha volatilizada ou pelo menos dêem informações. sinal de nascença junto ao olho esquerdo. dentes alvos. É alta. depois da mãe enferma. ao caixeiro. Sua melhor amiga. Previna urgente solitária mãe enferma entrevada há longos anos erma de seus cuidados. 48.Roga-se ao povo caritativo desta cidade que tome em consideração um caso de família digno de simpatia especial. ao mata-mosquitos. rosto penugento.Se. até mesmo aos senhores ricos.) Namorado isso não tinha. correta.

na vida. filial e do próximo. Não há gratificação maior do que o sorriso de mãe em festa e a paz íntima conseqüente às boas e desinteressadas ações. Esqueçam a luta política. Ela não se matou. a pobreza.é Rita Santana. ficou pasma. procurem essa que se chama Luísa Porto e é sem namorado. remexendo. sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio e até hoje. não tinha namorado. então jovem. leu no Diário Mercantil. Está viva para consolo de uma entrevada e triunfo geral do amor materno. percam um pouco de tempo indagando. O santo lume da fé ardeu sempre em sua alma que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus. afável posto que estrábica. seu lote e que sua única filha. Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora e os jornais não deram. o queixume seriam. moça desimpedida. a viuvez. a qual não dá notícia nenhuma. O jornal embrulhado na memória. O que não deixa de ser esquisito. Mal sabia ela que o casamento curto.Nada de insinuações quanto à moça casta e que não tinha. a paralisia. Não se arrependerão. A mãe de Luísa.Pela última vez e em nome de Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia procurem a moça.Somem tantas pessoas anualmente numa cidade como o Rio de Janeiro que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada. Procurem-na. costureira. Uma vez. inquirindo. em 1898 ou 9. puro orvalho de alma. ponham de lado preocupações comerciais.Não me venham dizer que Luísa suicidou-se. limitando-se a responder: Não sei. . se diluiria sem explicação.

terremoto. E de pensar realizamos. perdoem. disfarces de realidade mais intensa e que anúncio algum proverá. Deus lhe dirá: Vai. Tem uma empregada velha que apanha o recado e tomará providências. e os membros perclusos já se desatam em forma de busca.Mas se acharem que a sorte dos povos é mais importante e que não devemos atentar nas dores individuais. E de sentir compreendemos. erguerá a enferma. para que demore tanto. calai-vos. A mãe de Luísa (somos pecadores) sabe-se indigna de tamanha graça. Cessem pesquisas. virem a página: Deus terá compaixão da abandonada e da ausente. fotografia. os extraviados um dia regressam ou nunca. Não tem telefone. beija-a e fecha-a para sempre em teu coração. o olhar desviado e terno.Algo de extraordinário terá acontecido. Já não interessa a descrição do corpo nem esta. ou pode ser. não faz mal. Mas há de voltar. chegada de rei. a cólica. a lágrima. é noite. insultem a mãe de Luísa. espontânea ou trazida por mão benigna. canção. Quer apenas sua filhinha que numa tarde remota de Cachoeiro acabou de nascer e cheira a leite. E resta a espera. Sim. Calma de flores abrindo no canteiro azul onde desabrocham seios e uma forma de virgem intata nos tempos. se fecharem ouvidos a este apelo de campainha. que sempre é um dom. Já não adianta procurar minha querida filha Luísa que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo .A qualquer hora do dia ou da noite quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos. as ruas mudaram de rumo.Ou talvez não seja preciso esse favor divino. rádios. ou ontem. procura tua filha.

enquanto sofro e sofrendo me solto e me recomponho e torno a viver e ando.com inúteis pés fixados. está inerte cravada no centro da estrela invisível Amor.1969) . (Em Reunião .

Desejos Desejo a você Fruto do mato Cheiro de jardim Namoro no portão Domingo sem chuva Segunda sem mau humor Sábado com seu amor Filme do Carlitos Chope com amigos Crônica de Rubem Braga Viver sem inimigos Filme antigo na TV Ter uma pessoa especial E que ela goste de você Música de Tom com letra de Chico Frango caipira em pensão do interior Ouvir uma palavra amável Ter uma surpresa agradável Ver a Banda passar Noite de lua Cheia Rever uma velha amizade Ter fé em Deus Não Ter que ouvir a palavra não Nem nunca. nem jamais e adeus. Rir como criança Ouvir canto de passarinho Sarar de resfriado Escrever um poema de Amor Que nunca será rasgado Formar um par ideal Tomar banho de cachoeira Pegar um bronzeado legal Aprender um nova canção Esperar alguém na estação Queijo com goiabada Pôr-do-Sol na roça Uma festa Um violão Uma seresta Recordar um amor antigo Ter um ombro sempre amigo Bater palmas de alegria Uma tarde amena Calçar um velho chinelo .

.Sentar numa velha poltrona Tocar violão para alguém Ouvir a chuva no telhado Vinho branco Bolero de Ravel E muito carinho meu.

mas o existido continua a doer eternamente. . assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. Dois amantes que são? Dois inimigos. puro fantasma que os passeia de leve. Ninguém. e como o que era mundo volve a nada.Destruição Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Nada. E eles quedam mordidos para sempre. Amor. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. deixaram de existir. Um se beija no outro. refletido.

Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus. Deus. . condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas. Seus prêmios chegam tarde. misericordioso. em forma imperceptível. Deus é assim: cruel. duplo. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.

Deus não está diante de Deus.Deus triste Deus é triste. Deus criou triste. Outra fonte não tem a tristeza do homem. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. . Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo. Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente. A solidão de Deus é incomparável.

Diante das Fotos de Evandro Teixeira A pessoa. que nos resta mais positivo. e dois olhos não ão bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto. Fotografia: arma de amor. a lembrar como a exorcizar? Marcas de enchente e do despejo. o colchão atirado ao vento. o cadáver inseputável. mais queimante do que as fotos acusadoras.é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo. edifica uma penanência. mitos não são. a dor da América Latina. Fotografia . mães-de-santo na praia-templo de Ipanema. podre favela. a dama estranha de Ouro Preto. . dança de dois destinos. o lugar. o objeto estão espostos e escondidos ao mesmo tempo so a luz. a lodosa. o mendigo de Nova York a moça em flor no Jóquei Clube. pois são fotos. Das luas de rua no Rio em 68. cristal do tempo no papel. de justiça e conhecimento. tão vivas hoje como então. Garrincha e nureyev. É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras.

( in "Amar se aprende amando") . a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.pelas sete partes do mundo a viajar.

alma vazia. concedidas sem reticências? Liberdade alheia a limites.Diante de uma criança Como fazer feliz meu filho? Não há receitas para tal. vence o tédio. louvores. patinação talvez bastem para encantar? Imprevistas. sem discutir? Dar-lhe tudo aquilo que há de entontecer um grão-vizir? E se depois de tanto mimo que o atraia. Todo o saber. conforme a lei do esquecimento? Submeter-se à sua vontade sem ponderar. amargamente? Não é feliz. sem paz e sem arrimo. como uma flor. a doçura desta lição: dar a meu filho meu amor. ilumina o dia e instaura em nossa natureza . impressa no ar. ele se sente pobre. Pois o amor resgata a pobreza. Mas que fazer para consolo desta criança? Como em seu íntimo acender uma fagulha de confiança? Eis que acode meu coração e oferece. sem julgamento. complacências. perdão de erros. e dizer-lhe que estamos quites. Bola. bombons. fartas mesadas. milhões de coisas desejadas. todo o meu brilho de vaidoso intelectual vacila ante a interrogação gravada em mim. prêmios.

a imperecível alegria. .

1987 . duvidosos. adunca pescaria. amor sem uso. problema de existir. A pobreza da terra era maior entre os metais que a rua misturava a feios corpos. . na pressa... mal difuso. E de terraço em solitude os ecos refluíam e cada exílio em muitos se tornava e outra cidade fora da cidade na garra de um anzol ia subindo.* .1902 * . Crianças vinham colher na maresia essas notícias da vida por viver ou da inconsciente saudade de nós mesmos. O apartamento abria janelas para o mundo.Domicílio Itabira do Mato Dentro .MG .

na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo. O tempo é. para sempre.Duração O tempo era bom? Não era. Pois tudo enfim se liberta de ferros forjados no ar. A alma sorri. (in As Impurezas do Branco) . Aconteceu há mil anos? Continua acontecendo. já bem perto da raiz mesma do ser. Nos mais desbotados panos estou me lendo e relendo. mas sem ânsia de estar amando e estar preso. A hera da antiga era roreja incansavelmente. Tudo morto.

e agora. José? Está sem mulher. José? e agora. não existe porta. sua gula e jejum. sua lavra de ouro. se você dormisse. seu instante de febre. que zomba dos outros. José? E agora. está sem carinho. José. Você que faz versos. a luz apagou. José E agora. Minas não há mais. seu ódio. . se você gemesse. . o dia não veio. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. seu terno de vidro. e agora. cuspir já não pode. se você tocasse. a valsa vienense. a noite esfriou.E agora. a noite esfriou. o riso não veio. José? Sua doce palavra. está sem discurso. e agora? Se você gritasse. mas o mar secou.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. já não pode fumar. Você? Você que é sem nome. sua biblioteca. quer ir para Minas. o bonde não veio. que ama. protesta? e agora. quer morrer no mar. sua incoerência. o povo sumiu. José? A festa acabou. já não pode beber.

se você morresse. José! José. para onde? . você é duro. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato.. sem teogonia. sem cavalo preto que fuja do galope. você marcha. sem parede nua para se encostar.. Mas você não morre..se você cansasse.

O copo de uísque e o blue destilam ópios de emergência. nem traço da pena dos homens. Era bom amar.Edifício Esplendor I Na areia da praia Oscar risca o projeto. As famílias se fecham em células estanques.. vinha a noite. tristeza. Salta o edifício da areia da praia No cimento. uivar. Goiás. em momentos de carne lassa. desamar. um espinho no coração uma fruta sobre o piano e um vento marítimo com cheiro de peixe. a extinta pureza. Há um retrato na parede. Os corpos se unem e bruscamente se separam. o mundo murchava e brotava a cada espiral de abraço. desesperar era bom mentir e sofrer Que importa a chuva no mar? a chuva no mundo? o fogo? Os pés andando. viagens.. sub-reptício. O elevador sem ternura expele. que importa? Os móveis riam. E vinha mesmo. Entretanto há muito se acabaram os homens ficaram apenas tristes moradores. .. certo remorso de Goiás. absorve num ranger monótono substância humana.. II A vida secreta da chave. morder.

úteis para suicídio. III Oh que saudades não tenho de minha casa paterna. embalei. de bege. mortos sem extrema-unção. onde o corpo esmorece na lascívia frouxa da dissolução prévia. meu corpo. Ah. branca. calma. anjos da guarda. O estupendo banheiro de mil cores árabes. de carne. que será do corpo? Meu único corpo. como depois descobrimos. de ar. E tinha também fantasmas. talvez nuas. Vai crescer a tua barba neste medonho edifício de onde surge tua infância como um copo de veneno. de água. de branco. o terraço onde as camisas tremem. tratei? . IV As complicadas instalações do gás. o corpo. aquele que eu fiz de leite. cerquei de defesas. o pavor do caixão em pé no elevador.O retrato cofiava o bigode. chora. também convite à morte. bodoques e grandes tachos de doce e grandes cismas de amor. retrato. que eu vesti de negro. Era lenta. cobri com chapéu. Chora. tinha vastos corredores e nas suas trintas portas trinta crioulas sorrindo. calcei com borracha. não me lembro.

era superfície neutra. a brisa pousava. Fumar ou beber: proibido Os mortos olham e calam-se.. neste aéreo living! V Os tapetes envelheciam pisados por outros pés. O retrato descoloria-se. Alberto. Surgiram costumes loucos e mesmo outros sentimentos.Meu coitado corpo tão desamparado entre nuvens. Todos os mortos presentes. ventos. Doce. Meu pai. Já não acendem a luz com suas mãos entrevadas. E começavam a roer o edifício.. meu Deus! Diziam os ratos. A vida jogada fora voltava pelas janelas. de madrugada. A chuva caiu vinte anos. meu avô. Nas cortinas. . Do cassino subiam músicas e até o rumor de fichas. .Que século. As dívidas amontoavam-se.

estela fria. As árvores lá fora se meditam. Não me procurem que me perdi eu mesmo como os homens se matam. ao serro frio. me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto. se estou perdido antes de haver nascido e me nasci votado à perda de frutos que não tenho nem colhia? Gastei meu dia. e as enguias à loca se recolhem. que a notícia de perdidos lá não chegue nem açule os olhos policiais do amor-vigia. e o frio ao frio em bruma se entrelaça. ao ouvido do muro. distraída. na água fria. . De tantas perdas uma clara via por certo se abriria de mim a mim. e em mim vai derretendo este torrão de sal que está chorando. chega de lamento e versos ditos ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça.Elegia Ganhei (perdi) meu dia. ao liso ouvido gotejante de uma piscina que não sabe o tempo. Ah. Dia. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava os grandes sóis violentos. Nele me perdi. que o estou berçando. O inverno é quente em mim. num suspiro. E vou me recolher ao cofre de fantasmas. Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera bem antes sua vaga pedraria? Mas quando me perdi. e fia seu tapete de água. E baixa a coisa fria também chamada noite.

eu essência. intocáveis: em mim o que resiste são teus poros. em sete dias de sete vidas de ouro. pois que. Corto o frio da folha. e teu cativo passeias brandamente como ao que vai morrer se estende a vista de espaços luminosos. e sinto mais presente quanto aspiro em ti o fumo antigo dos parentes. E sou meu próprio frio que me fecho longe do amor desabitado e líquido. e uma criança que o tempo novo me anuncia e nega. ao fim de março. fonte de eterno frio. minha pena deserta. e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confortar-se mas só vislumbra o frio noutro frio. Sou teu frio. essência estranha ao vaso que me sinto. me feriram sete vezes por dia. Meu Deus. amor em que me amaram. amor. meu Deus e meu conflito. quem contaria? E já não sei se é jogo. e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses. minha terra. não habito vossa arquitetura imerecida. amor. ou forma vã. Terra a que me inclino sob o frio de minha testa que se alonga. ou se poesia. nem vos dou conta de mim nem desafio as garras inefáveis: eis que assisto a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo de me tornar planície em que já pisam servos e bois e militares em serviço da sombra. . me tens.espelho de projeto não vivido.

À noite. Coração orgulhoso. a renúncia. Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas. e preconizam a virtude. falta de dinheiro. onde as formas eas ações não enceram nenhum exemplo. muitíssimo tempo de semear. se neblina. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. os problemas te dispensam de morrer. pequenino. dinamitar a ilha de Manhattan. . fome e desejo sexual. o sangue-frio. Aceitas a chuva. Ao telefone perdeste muito. em face de indecifráveis palmeiras. tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe. Praticas laboriosamente os gestos universais. a concepção. dormindo. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que. abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. a guerra.Elegia 1938 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. o desemprego e a injusta distribuição porque não podes. sentes calor e frio. sozinho.

baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas . Eneida. Candinho. minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo. em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou. é certo. Aníbal e Manuel Otávio.Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri. que fugiu.

. desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos.poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo. ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se.

ao condutor do teu bonde. sobretudo pornográficos. Dize a todos: Meus irmãos. propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. a todas as criaturas que são inúteis e existem. não quereis ser pornográficos? (in Brejo das Almas) . Propõe isso a teu vizinho. coitados. pornográficos). Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos.Em Face Dos Últimos Acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). sejamos tudo que quiserem. que o melhor é ser pornográfico. bandeirantes e guerreiros. Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. Não compreendem.

Cada pétala ou sépala seja lentamente acariciada. amor. beijo abstracto. na flora pubescente. céu. e tudo é sagrado. . antes do beijo ritual. anémonas castanhas detêm a mão ansiosa: Devagar.Em teu crespo jardim Em teu crespo jardim. e a vista pouse.

Enigma Faço e ninguém me responde esta perguntinha à-toa: Como pode o peixe vivo morrer dentro da Lagoa? .

Entre o ser e as coisas Onda e amor. e. As almas. as almas vão pairando. pungindo. onde amor. esquecendo a lição que já se esquiva. não. suas verdades mais secretas e mais nuas. nesse quando amanhece frescor de coisa viva. . N'água e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens. ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa. e a tudo me arremesso. E nem os elementos encantados sabem do amor que os punge e que é. e vago e brando o que é de natureza corrosiva. uma fogueira a arder no dia findo. tornam amor humor.

e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto.” Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas. essas coisas? . essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora.Essas coisas “Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas. e morto é a idade de não sentir as coisas.

de tanto que não fui. tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos. e sendo vário é um só. saudade sob aparência de remorso. Mas se esquivam no inventário. (in Fazendeiro do Ar) . a sós. A estrela-d'alva penetra longamente seu espinho (e cinco espinhos são) na minha mão. e meu amor é triste como é vário. Tenho carinho por toda perda minha na corrente que de mortos a vivos me carreia e a mortos restitui o que era deles mas em mim se guardava. e de minha alta ausência em meu redor. a esmo.Estrambote Melancólico Tenho saudade de mim mesmo. Tenho horror.

oferta a quantos. que o florentino pôs em nobre verso. musas do velho Olimpo e do moderno mundo. devo cantar o amor naquele instante miraculoso. o som do ameno grito melodioso e santo e grave e jovial. trazendo à vida uma razão geral. dolente.Epitalâmio Musas latinas. une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los. sê feliz. e teu esposo contigo de mãos dadas. com alto sopro bafejai-me a lira e dai-lhe o sentimento mais profundo. Vai. seja lição de bem amar. . antigo e sempre novo. por seus cabelos de argêntea messe. e impregna de doçura as próprias feras. em vão tentam seguir a rota certa. Cada palavra e beijo que trocardes. de tal maneira que pouse a eternidade em cada hora. Tenho a cumprir nobre missão de bardo. O sonho em vós se cristaliza e assume o contorno sensível da existência. dos deuses conterá a pura essência. sobre-humano. sinto surdir de oculta fonte o som de música celeste. e ardente coração). conhecida. movente do sol e das estrelas. musas gregas. Hoje Márcia gentil. neta de Horácio (poeta ele também. o som da força cósmica. imaturos. de transpassar em luz o peito amante. dramático. tempo afora. que às esferas sublimes reconduz o ser humano. dos astros protegido. Vosso himeneu. um só sejam os dois. desnorteados. e no meu tosco verso eis refletida: o som do amor. Márcia.

Eia.Aqui vos deixo. os da alegria ritos celebrando. Aqui vossos amigos. a caminho. Tende por certo: amar se aprende amando. (in Amar Se Aprende Amando) . despedem-se de vós.

os talheres. . Os gestos falavam baixo. Falavam baixíssimo os copos. talvez no chão. O reservado de paredes finas Forradas de ouvidos e de línguas era antes prisão que mal cabia um desejo.Esta Faca "Esta faca foi roubada no Savóia" "Esta colher foi roubada no Savóia" "Este garfo. dois corpos.. Nem tua virgindade: restou quase perfeita entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha. Tua pele entre cristais luzia branca. talvez no teu vestido. No Savóia nada foi roubada. Saíamos alucinados.. A penugem rala na gruta rósea era quase silêncio. O amor falava baixo." Nada foi roubado no Savóia.

minha gravata e cinto e escova e pente. estranho. ainda que a moda seja negar minha identidade. indispensabilidade. escravo da matéria anunciada. Agora sou anúncio. são mensagens. gritos visuais. tão mim-mesmo. tiro glória . Etiqueta Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório. trocá-la por mil. principalmente). reincidência. desde a cabeça ao bico dos sapatos. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca. ora vulgar ora bizarro. meu chaveiro. a marca de cigarro que não fumo. e fazem de mim homem-anúncio itinerante. Em minha camiseta. invencível condição. premência.. meu copo. Com que inocência demito-me de ser eu que antes era e me sabia tão diverso de outros. abuso. todos os logotipos do mercado. meu aquilo. ordens de uso. açambarcando todas as marcas registradas.Eu. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade. nesta vida. ser pensante. E nisto me comprazo. estou na moda. minha xícara. minha toalha de banho e sabonete. um nome. costume. É doce estar na moda. até hoje não fumei. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei mas são comunicados a meus pés. hábito. Meu lenço. Estou. letras falantes. sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana. meu isso. meu relógio.. em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer.

independente.de minha anulação. Por me ostentar assim. objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos. minhas idiossincrasias tão pessoais. que moda ou suborno algum a compromete. peço que meu nome retifiquem. Meu nome novo é coisa.vê lá . recolocam. sou tecido. da vitrina me tiram. não de casa. para vender em bares festas praias pérgulas piscinas. Eu é que mimosamente pago para anunciar. sou gravado de forma universal.anúncio contratado. e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher. mas artigo industrial. tão orgulhoso de ser não eu. e cada gesto. (in Corpo) . tarifados. cada vinco da roupa resumia uma estética? Hoje sou costurado. Não sou . saio da estamparia. coisamente. tão minhas que no rosto se espelhavam. Eu sou a coisa. Já não me convém o título de homem. cada olhar.

quanta coisa nova nesse mundo de meu Deus te esperando.... ficamos horríveis....... Olha quanto desafio."Eu hoje joguei tanta coisa fora. Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia... Pois . Acreditou que tudo estava perdido? era o indício da tua melhora.." Não importa onde você parou....... o mal humor vai comendo nosso fígado... Que tal um novo emprego? Uma nova profissão? Um corte de cabelo arrojado.. nem nós mesmos nos suportamos... Sofreu muito nesse período? foi aprendizado...... .... ou aquele velho desejo de aprender a pintar.. de pensar na luz. qualquer outra coisa... diferente? Um novo curso.. é renovar as esperanças na vida e o mais importante.agora é hora de reiniciar.. Quando nos trancamos na tristeza.. tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você.. desenhar... em que momento da vida você cansou. de encontrar prazer nas coisas simples de novo...... dominar o computador. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo.. Sentiu-se só por diversas vezes? é por que fechaste a porta até para os anjos.... Chorou muito? foi limpeza da alma. o que importa é que sempre é possível e necessário" recomeçar".. acreditar em você de novo.. Está se sentindo sozinho? besteira.

.... queira coisas boas para a vida...... fique pronto para a vida. afinal de contas... jogue tudo fora.. .. ao mundinho de coisas tristes..... sonhe alto. ingressos de cinema. e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados... fotos. somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes.......até a boca fica amarga.. o melhor vai se instalar na nossa vida.... Lembre-se somos apaixonáveis. Onde você quer chegar? ir alto.. peças de roupa... se pensamos pequeno.. bilhetes de viagens.. para um novo amor. se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor... joga fora tudo que te prende ao passado... mas principalmente.... Nós somos o "Amor".. papel de bala... É hoje o dia da faxina mental.. esvazie seu coração.... coisas pequenas teremos... Recomeçar. pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos. queira o melhor do melhor..... hoje é um bom dia para começar novos desafios.

Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri.Eu preparo uma canção Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Se não me vêem. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. eu vejo e saúdo velhos amigos. Minha vida. e que fale como dois olhos Caminho por uma rua que passa por muitos países. . Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. todas as mães se reconheçam. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. nossas vidas formam um só diamante.

baixinho . na exaltação de erecta divindade em seus templos cavernames de desde o começo das eras quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a inocência de viver. mãos de trampa escorregante acarinhavam-me o rosto. Estuda-se nova geografia. para emitir com tamanha naturalidade o asqueroso maravilhoso? A tal ponto que. desdenhosos. meu querido?" Vitória. A mulher era muda no orgasmo. A amada quer expressamente falar e gozar gozar e falar vocábulos antes proibidos e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia. e verbo a vulva. Canais implícitos. A noite era mal dormida. nudez conquistada. "Que tem a ver. abrindo-se.foi há trint'anos ao sol de hoje se derrete. adianta nomeá-los? Esperam o beijo do consumidoramante. ruas.." Como podem lábios donzelos mover-se. entre uivos e gritos litúrgicos. língua e membro exploradores. abismos lexicais onde se restaura a face intemporal de Eros. Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos no momento certo. As cópulas se desenrolavam . A amada vestida de fezes puxava-me. O pesadelo fedia-me no peito. pareciam tomar a forma arrendondada de um ânus. proclamada. . A luz do dia saúda-o. Imperatriz.Eu sofria quando ela me dizia Eu sofria quando ela me dizia: "Que tem a ver com as calças. O nojo do substantivo . quando a língua é falo. reinava sobre os costumes do mundo anestesiado e havia palavras impublicáveis. eu fugia.. Nádegas aparecem em anúncios.no escuro da mata do quarto fechado. tevês. e as aberturas do corpo. O corpo soltou-se. a penumbra retal. ônibus. E a língua vai osculando a castanha clitórida.

F Forma forma forma que se esquiva por isso mesmo viva no morto que a procura a cor não pousa nem a densidade habita nessa que antes de ser já deixou de ser não será mas é forma festa fonte flama filme e não encontrar-te é nenhum desgosto pois abarrotas o largo armazém do factível onde a realidade é maior do que a realidade (in lição de Coisas) .

em vão procuro noite e dia o zumbido. amor. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. sem dólares. somente a mim recusa-se o OVNI? talvez para que a sigla de todo não se perca. buraco na rua & outras evidências pedestres. a cor . Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. mas o jeito. pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali. Este não diz nada pra mim. aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema. estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende. pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo. de boca. sem dólares. (Os patores desta aldeia já me fazem zombaria pois procuro. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. Olham-me com desprezo benévolo. a forma. por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR. Sou o pária.Falta um disco Amor. Por que a mim. os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco.

dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar.. . Mas o disco. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx). chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. Não viu? Não vi. Amor. estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor.? Isso me garantem meus vizinhos e eu.. talvez. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias. estou tristinho.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis.de um só disco voador. o disco? Ele me foge e ri de minha busca.

pequenos alumbramentos. II O homem faz o homem. E quando o homem encara o mundo e se depara .. sem nem o homem querer aufere direitos do homem. seguro. Todo homem é um mundo. E porque fez o homem.é curta para morrer .porque o homem não fez. volta à ilha: Todo homem ama sua ilha. É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem. não escolheu. Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como.Fazedor de homens I Todo homem é uma ilha. Se a vida foi longa para viver . Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo. .. mundo-homem. A ponte de um homem é um braço estendido. Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. III O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades. Um dia ele morre.homem-mundo. não pensou nada. medos e coragens. O que o transforma. de um simples fazedor de homens. Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha. também.

Temeroso de ter que voltar um dia. só homem. não destrói as pontes. quanto pode. a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume. E sabe dele em contraste com outro corpo. Exige. Todo homem quer deixar sua ilha. só ponte. a ilha fica ali. E o homem fica ali. Enquanto isso. Todo homem é uma consciência. . A ponte fica ali. Luta e sofre. Pede. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. só ilha. Todo homem é seu corpo. Quanto mais ele precisa mais ele é maior.num criador de homens. tal é a sua medida. entretanto. é com ela que ele se entende. Todo homem é uma vontade. e se aceita o fato. Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber. E dá. porque é assim que ele se liberta. Reivindica. Como também.

. A morte escolhia a forma breve de um coice. tudo era casto. E criação e gente. Mulher. em liga. Ninguém sabia da Rússia com sua foice. abundavam negras socando milho. . O amor das éguas rinchava no azul do pasto. logo em concílio. O Retiro ficava longe do oceanomundo. Rês morta.Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo. urubus rasantes.

talvez? este pigarro . escravas e crias de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai da aurifúlgida comenda no baú enterrado no poço da memória restou.Herança De mil datas mineiras com engenhos de socar de lavras lavras e mais lavras e sesmarias de bestas e vacas novilhas de terras de semeadura de café em cereja (quantos alqueires?) de prata em obras (quantas oitavas?) de escravos.

alemãs gordas. os incríveis Jõao-Pessoas.Hino Nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas. Não é só um país sem igual.. abriremos dancings e subvencionaremos as elites.. tão sem limites. E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões. Precisamos louvar o Brasil. salão para conferências científicas. Nenhum Brasil existe. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso.. E cuidaremos do Estado Técnico. piscina. Precisamos. Precisamos adorar o Brasil! Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos. por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. Compraremos professores e livros. assimilaremos finas culturas. russas nostálgicas para garçonettes dos restaurantes noturnos. E virão sírias fidelíssimas.. O Brasil está dormindo. Este não é o Brasil.. se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens. O que faremos importando francesas muito louras. Não convém desprezar as japonesas. Precisamos educar o Brasil. com a água dos rios no meio.. ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos. tão despropositado. Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. Precisamos colonizar o Brasil. E acaso existirão os brasileiros? . O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo.. coitado.. nossos erros também.. de pele macia... os Amazonas inenarráveis.

as coisas deste mundo.Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica. talvez. .

Ao passo que. crédulos. Sim. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália. Sereno. que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais. Sim. Vazio. não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. o absurdo promovido a regra de jogo. purê de palavras. dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. não é comentarista internacional.às vezes nem isso. Entretanto. Claro. camisa aberta. uma revolução. . E então vem o tédio. a maluquice dos homens.. eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. em sua protegida pessoa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação. reflexos no espelho (infiel) do dicionário. Selecionando os retalhos de vida dos outros. porque com você não é possível contar. como diria a bula. explosiva.Hoje não escrevo Chega um dia de falta de assunto. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”. O que você perde em viver. que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto. Que é isso. não corta de verdade a barriga da vida. casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. assuntando. excesso de vibração. se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Impede a conjugação de tantos outros verbos. há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos. Divino. porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. sugestionáveis. adjetivos. você aprovou as valentes ações dos outros. na raça. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes. ver mais longe do que o comum. um adultério grego . é outra. de falta de apetite para os milhares de assuntos. Tudo se repete na linha do imprevisto. que fizeram o acontecimento. dando sua opinião sobre a angústia. Os dedos sobre o teclado. assuntando. cafezinho. mas com igual indiferença pelo que vão dizendo. ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar. Então hoje não tem crônica. fica em sua cadeira. que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Na hora ingrata de escrever. Assim é fácil manter a consciência limpa. pois ao imprevisto sucede outro.. antes e depois da operação. Não é redator de boletim político. sandálias.. por via gramatical. e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. a revolta. Não apenas o sol. manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana.transforma a cara das coisas. mais propriamente. verbos? Mas foram os outros. Escrever é triste. o ridículo. escrevinhando sobre a vida. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo. sem se dar ao incômodo de praticá-las. sem responsabilidade na instrução ou orientação do público. colunista especializado. se seus escritos fossem produtos medicinais). rapaz. que está de olho na maquininha.. Concluiu que não há assunto. ar condicionado. derrubar as estruturas.por hipótese . Superior. e você não sabe ir além disso. mas tudo que ele ilumina. Desaprovou as ações nefandas. Você é o marginal ameno. enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza. passar a espectador enfastiado de espetáculo. quer dizer: que não há para você. como se fosse deus. num mecanismo de monotonia. as letras se reunindo com maior ou menor velocidade. como optar entre as variedades de insólito? E que dizer. que importância a sua: sentado aí. não revolve os intestinos da vida. Esquecido de que é um deles. porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. De Senhor dos Assuntos. para objeto de sua divagação descompromissada. inclusive a simples claridade da hora. senhor. Ah. aí está você. rei proprietário do universo. Tudo que se faz sem você. Isso de escrever O Capital é uma coisa. você participa com palavras? Sua escrita . vedada a você. Ou. não precisa esgotar os temas. E nem sequer você escreveu O Capital.

seria o mesmo admirável oficial de sapateiro. Cortassem mais dois. Sendo tanta coisa. Lombilho que ele faz. quem mais faria? Tem prática de animais. no Seminário de Diamantina. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. Então foge do Rio Doce. explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. Vai parar. Bota anúncio no Jequitinhonha. Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? . Meu parente Manuel Chassim não se conforma. exímio seleiro. Cortaram-lhe os excedentes. homem livre. esse Atanásio. grande ferreiro.Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão. onde é cozinheiro. ótimo sempre. nasce escravo.

Homenagem Jack London Vachel Lindsay Hart Crane René Crevel Walter Benjamin Cesare Pavese Stefan Zweig Virginia Woolf Raul Pompéia Sá-Carneiro e disse apenas alguns de tantos que escolheram o dia a hora o gesto o meio a dissolução (in As Impurezas do Branco) .

Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais . no alto fica Deus. A manhã pintou-se de azul. . entoam quirieleisão. E nos domingos a litania dos perdões. o murmúrio das invocações. . Bem bão! Bem bão! Os serafins. O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá. . Domingo .Igreja Tijolo areia andaime água tijolo. No adro ficou o ateu.a torre. no meio. Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.

Todos os sonetos. gazéis. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. Todas as fomes são iguais. Todos os partidos políticos são iguais. Todas as experiências de sexo são iguais. A morte é igualíssima. piedosas ou indiferentes. bicho ou coisa. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. são iguais. Todos os filmes de todos os países são iguais. Todo ser humano é um estranho ímpar. o homem não é igual a nenhum outro homem. Todos os best-sellers são iguais. virelais. Todas as guerras do mundo são iguais. Contudo. Todas as criações da natureza são iguais. . Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. Todos os filmes norte-americanos são iguais. cruéis. iguais iguais iguais. sextinas e rondós são iguais e todos. Todas as ações. Todos os amores. Iguais todos os rompimentos. Não é igual a nada.

. morreu o poeta sem morrer à eternidade ele que fez de uma pedra louvor para sua cidade gauche. grande destro sem querer celebridade pelos mil que era num só se fez único ficando no seu primeiro caráter de bom mineiro jamais morrerá e sempre será.Imortalidade Morre-se de mil motivos e sem motivo se morre de saudade.

E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo. .Psiu.. comprida história que não acaba mais. menino entre mangueiras lia história de Robinson Crusoé. ia para o campo.. Para o berço onde pousou um mosquito E dava um suspiro. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: . que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. Meu irmão pequeno dormia Eu sozinho. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala e nunca se esqueceu chamava para o café.Infância Meu pai montava a cavalo. não acorde o menino...

e há um óleo suave que eles passam nas costas. e esquecem. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes.Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. definitivamente inocentes. mas a areia é quente. . tudo ignoram.

.Inscrição tumular O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso.

e dociastutos eus caçadores a correr. dava um coice. acordava. mas tão delicioso. A manha sempre sempre. e é fuga e vento.Instante Uma semente engravidava a tarde. em vez da noite Perdia amor seu hálito covarde. me planejas? 0 que se desatou num só momento não cabe no infinito. que a ferida no peito transtornado. entre soluços E que mais. corcel rubro. e as presas num feliz entregar-se. vida eterna. Era o dia nascendo. gravura enlouquecida. sobre o tempo sem caule. . e a vida. uma promessa. aceso em festa.

Isso é Aquilo O fácil o fóssil o míssil o físsil a arte o infarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avô a ave o mocotó o só o sambaqui .

Tutu caramujo cisma na derrota incomparável. Os ingleses compram a mina.Itabira Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Os homens olham para o chão. na porta da venda. Só. . Os meninos seguem para a escola.

1902 * . presságio . jardim apenas. não.1987 Negro jardim onde violas soam e o mal da vida em ecos se dispersa: à toa uma canção envolve os ramos como a estátua indecisa se reflete no lago há longos anos habitado por peixes. matéria putrescível.Jardim Itabira do Mato Dentro . enquanto outras visões se delineiam e logo se enovelam: mascarada.MG . olhos vazados e mãos oferecidas e mecânicas. que sei de sua essência (ou não a tem). de um vegetal segredo enfeitiçadas. mas por pálidas contas de colares que alguém vai desatando. pétalas.* .

seu terno de vidro. seu instante de febre. Você que faz versos. que ama. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. protesta? e agora. está sem discurso. José? sua doce palavra. sua lavra de ouro.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. Você? Você que é sem nome. o riso não veio. o bonde não veio. . sua biblioteca. mas o mar secou. quer morrer no mar. já não pode fumar. o povo sumiu. José? E agora. não existe porta. a luz apagou. cuspir já não pode. a noite esfriou. sua gula e jejum. José? e agora. que zomba dos outros. e agora. e agora. já não pode beber. a noite esfriou. está sem carinho. José? A festa acabou. sua incoerência. . o dia não veio. José? Está sem mulher.José E agora. seu ódio.

se você dormisse. se você cansasse. você é duro. José. se você gemesse. sem parede nua para se encostar. a valsa vienense.. José! José. se você tocasse. e agora? Se você gritasse. para onde? . José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. você marcha...quer ir para Minas. sem cavalo preto que fuja do galope. Mas você não morre. se você morresse. Minas não há mais. sem teogonia.

Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores. Não sei se o mar é bonito. . Eu não vi o mar. A lagoa...Lagoa Eu não vi o mar. Eu vi a lagoa. O mar não me importa. não sei se ele é bravo. Eu vi a lagoa. sim. A lagoa é grande E calma também.

Os homens olham para o chão. . Os ingleses compram a mina. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Os meninos seguem para a escola.LANTERNA MÁGICA IV — ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.

Dispara o coração no fim de longa espera ao rumor de saias lá em cima ai de mim. terra batida. Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. mina de ouro? Contenho respiração. procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. A triste polução foi adiada. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados. . lar de escorpiões.Le voyeur No úmido porão. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho. Encontro. Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido.

Liberdade O pássaro é livre na prisão do ar. bem livre. . Mas livre. O espírito é livre na prisão do corpo. é mesmo estar morto.

a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.Lição Tarde. .

o rio logo amargou. como faço todo ano. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água e caiu enviesado. notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água mas depois me arrependi. Atirei um limão n'água. ele afundou um barquinho.Lira do amor romântico Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. Atirei um limão n'água. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. como um vidro de perfume. rindo. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Atirei um limão n'água. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. . Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. Atirei um limão n'água mas perdi a direção Os peixes. Os peixinhos repetiram: é dor de quem muito amou.

tu me terás esquecido? Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água. de tão baixo ele boiou. caiu certeiro: zás-trás. Atirei um limão n'água. pedindo à água que o arraste. não fez o menor ruído. antes não tivesse feito. Atirei um limão n'água. deixa disso. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho. Bem me avisou um peixinho: Fui passado para trás. Atirei um limão n'água. Iria viver com os peixes a minh'alma dolorida. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste.Atirei um limão n'água. Até os peixes já sabem: Você não ama: tortura. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. fez-se logo um burburinho. de clara ficou escura. Atirei um limão n'água. Se os peixes nada disseram. Atirei um limão n'água . Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água. antes atirasse a vida.

e caí n'água também pois os peixes me avisaram, que lá estava meu bem. Atirei um limão n'água, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente.

Mãe sem dia
As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação, pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges. Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos 18 anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo. Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para a namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça. Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho. In "Contos Plausíveis"

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Memória

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Meninos Suicidas

Um acabar seco, sem eco, de papel rasgado (nem sequer escrito): assim nos deixaram antes que pudéssemos decifrá-los, ao menos, ao menos isso, já não digo... amá-los. Assim nos deixaram e se deixaram ir sem confiar-nos um traço retorcido ou reto de passagem: pisando sem pés em chão de fumo, rindo talvez de sua esbatida miragem. Não se feriram no próprio corpo, mas neste em que sobrevivemos. Em nosso peito as punhaladas sem marca - sem sangue - até sem dor contam que nós é que morremos e são eles que nos mataram. (in As Impurezas do Branco)

Memória
Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Mimosa boca errante
Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te, ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias que fruto e boca se permitem, dádiva. Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato apaixonados, como podes tornar-te, assim aberta, recurvo céu infindo e sepultura? Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, já chega, chega, chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-me. Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Há no país uma legenda. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. é preciso entregá-lo cedo. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. .Morte do Leiteiro Há pouco leite no país. suas garrafas. de passo maneiro e leve. morador na Rua Namur. é claro. Sem fazer barulho. E já que tem pressa. Há muita sede no país. depositemos o litro. Meu leiteiro tão sutil.. empregado no entreposto.. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom pra gente ruim. que barulho nada resolve. peguemos o corredor. Sua lata. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. avancemos por esse beco. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria. que ladrão se mata com tiro. com 21 anos de idade. é preciso entregá-lo cedo. e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade.

antes desliza que marcha. a manhã custa a chegar.. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. E há sempre um senhor que acorda. não quis saber de mais nada. cão latindo por princípio. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. ou um gato quizilento. . ao relento. Está salva a propriedade. resmunga e torna a dormir. Mas o homem perdeu o sono e todo. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. suavemente se tocam. Se era noivo. mas o leiteiro estatelado. perdeu a pressa que tinha. vaso de flor no caminho. O revólver da gaveta saltou para sua mão. e foge pra rua. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. A noite geral prossegue. Meu Deus. amorosamente se enlaçam.. é tarde para saber. Ladrão? se pega com tiro. Quem quiser que chame médico. sangue. Por entre objetos confusos. não sei. Da garrafa estilhaçada. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. se era virgem. não sei. duas cores se procuram. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). se era bom. se era alegre. matei um inocente. formando um terceiro tom a que chamamos aurora. mal redimidos da noite.

nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem. imprescritíveis. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar. não nos cobram nada.Mortos que andam Meu Deus. Não nos fitam. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. na biblioteca. . não nos interrogam. E não falam. Acompanham. no teatro. nos cercam. Aparecem no bar.

Transitam curvas em estado de pureza. Pêlos que fascinavam não perturbam. . Não é nudez datada. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. É um andar vestida de nudez. Também eu repouso. Seios. nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. dando este nome à vida: castidade.Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. inocência de irmã e copo d’água. provocante.

Nele não cabem nem as minhas dores. É muito menor. meu coração não é maior que o mundo. Tu sabes como é grande o mundo. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos. muito maior do que eu esperava. Mas também a rua não cabe todos os homens. Por isso gosto tanto de me contar. Escuta a água nos vidros. as diferentes dores dos homens. O mundo é grande. sabes como é difícil sofrer tudo isso. Viste as diferentes cores dos homens. Só agora vejo que nele não cabem os homens. amontoar tudo isso num só peito de homem. sem que ele estale. Os homens estão cá fora. estão na rua. meu coração é muito pequeno. Sim. por isso freqüento os jornais. Por isso me dispo..Mundo Grande Não. . Por isso me grito. A rua é enorme. A rua é menor que o mundo.. Maior. Conheces os navios que levam petróleo e livros carne e algodão. Fecha os olhos e esquece.

só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. Entretanto escorre nas mãos. ridículo e frágil é meu coração. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. os poemas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam. tão calma! vai inundando tudo.. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe.. . entre o fogo e o amor. Em verdade sou muito pobre. o grande mundo está crescendo todos os dias.) Outrora escutei os anjos. Não anuncia nada. as confissões patéticas. Ilhas perdem o homem. Outrora viajei países imaginários.tão calma. ilhas sem problemas. Estúpido. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. Meus amigos foram às ilhas. fáceis de habitar. Nunca escutei voz de gente. as sonatas.

Então. meu coração cresce dez metros e explode. entre a vida e o fogo. Entre o amor e o fogo. . – Ó vida futura! nós te criaremos. meu coração também pode crescer.

de poesia de Fernando Pessoa. ruas de sonhos ou musical da Metro. show do Milton Nascimento. flerte. brisa ou filosofia. mesmo assim pode não ter namorado. caso. Não tem namorado não e quem não sabe o gosto da chuva. cavalo alado. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques. Quem não tem namorado não e quem não tem humor: e quem não sabe o gosto de namorar. um envolvimento e dois amantes. nuvem. Se você tem três pretendentes. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor. sanduíche de padaria ou drible no trabalho. gabiru. mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. transa. mesmo. lagrima. Não tem namorado quem transa sem carinho. bonde. bosques enluarados. Namorado não precisa ser o mais bonito. sua frio e quase desmaia pedindo proteção. quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. de pel. Namorar e fazer pactos com felicidade ainda que rápida. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. ate paixão e fácil. quem não dedica livros. de saliva. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metro. dois paqueras. medo do pai. A proteção dele não precisa ser parruda. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Paquera. fugidia ou impossível de durar. Não . quem não recorta artigos. Mas namorado. fazer cesta abraçado. beira d'agua.Namorado Quem não tem namorado e alguém que tirou ferias não remuneradas de sim mesmo. Difícil porque namorado de verdade e muito raro. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. decidida ou bandoleira: basta olhar de compreensão ou mesmo de aflição. de flor catada no muro e entregue de repente. quindim. Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar. de carinho escondido na hora em que se passa o filme. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas. nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. cinema sessão das duas. fliperamas. Necessita de adivinhação. fazer compra junto. escondida. Não tem namorado quem não tem musica secreta com ele. Namorado e a mais difícil das conquistas. nuvem. tapete magico ou foguete interplanetário. e difícil. envolvimento.

Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. e passeie e mãos dadas com o ar. Não tem namorado quem fala sozinho. quem namora sem brincar. ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. . Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. que faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Se você não tem namorado porque descobriu que o amor e alegre e você vive passando duzentos quilos de grilos e de medo. quem curte sem aprofundar. aquela de chita. De alma escovada e coração estouvado. saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. quem vive cheio de obrigações. ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.tem namorado quem ama sem gostar. quem gosta sem curtir. na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. ponha a saia mais leve. se você não tem namorado e porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.

fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. renascida. intacta. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. universal poema.Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. agora é tarde. de desejar-te tanto e sem alarde. Se em tempo não ousei. e chegasses. .

que eu sinta. Não.a tua mão. têm o antigo calor de quando éramos vivos. A mão. Éramos? Hoje somos mais vivos do que nunca. ninguém morreu. estarmos sós. Nada. nossas mãosrugosas. passa realemente. . É tudo ilusão de ter passado. ninguém foi infeliz. Mentira.Não Passou Passou? Minúsculas eternidades deglutidas por mínimos relógios ressoam na mente cavernosa.

amanhã não beija. mas não diga nada a ninguém. você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. sossegue. você telúrico. depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. barulho que ninguém sabe de quê. e os recalques se sublimando. não.Não se mate Carlos. a noite passou em você. rezas. ninguém sabe nem saberá. lá dentro um barulho inefável. no claro. Não se mate. o amor é isso que você está vendo: hoje beija. anúncios do melhor sabão. Carlos. vitrolas. O amor no escuro. . Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. pra quê. santos que se persignam. é sempre triste. se é que virão. Entretanto você caminha melancólico e vertical. meu filho. O amor. reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão. oh não se mate. Carlos. Você é a palmeira.

Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. tomaram todas as providências para o remorso das amadas. Vísceras imensas. sem amor. sem tripas. tu ficas. enjoada. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. Oh quanta matéria para os jornais. Os desiludidos seguem iludidos. violento. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e segunda classe). . Pum pum pum adeus. Desiludidos mas fotografados. escreveram cartas explicativas. As amadas torcem-se de gozo. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. sem coração. Única fortuna. sobre a tumba deles. Do meu quarto ouço a fuzilaria. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. Que grandes corações eles possuíam. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. Eu vou.

. Então. se me firo em unhas protestantes. esse retiro . me penso.é ainda o que prefiro. e respiro a brisa dos planetas. ou se. me restauro. dessedentado. qual lampiro.. pois tanto mais a apalpo quanto a miro.No corpo feminino. A ela. se ponho e tiro a mão em concha . no seu giro lento. o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola. sábio papiro. iluminando o gozo. a bunda torna-se vampiro.a mão. esse retiro No corpo feminino. violento. me confiro.. já me estiro.a doce bunda . Que tanto mais a quero. meu mais íntimo suspiro.

Agora que nos separamos. minha morte já não me pertence. . Tu a levaste contigo.No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.

Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. .No Meio do Caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no mei do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.

Vou beijando a memória desses beijos. anéis negros. Os movimentos vivos no pretérito enroscam-se nos fios que me falam de perdidos arquejos renascentes em beijos que da boca deslizavam para o abismo de flores e resinas. acaricio a flora negra. num clarão. e negra continua. junto do espelho que com elas rimava.No pequeno museu sentimental No pequeno museu sentimental os fios de cabelo religados por laços mínimos de fita são tudo que dos montes hoje resta. . pastor falante. Apalpo. cobrinhas passionais. nesse branco total do tempo extinto em que eu. visitados por mim. apascentava caracóis perfumados. montes de Vênus.

a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel. A mão imobiliza-se. já disse. de castigo. no espaço entre as duas residências. . tornar a sair. Esquece a merenda para ficar na sala. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. franqueia-se o recinto. Ante a intimação peremptória. sair. Catarina teimou. . se é que não a retificou para os dicionários do futuro. mimada. rebelde e decaído.Esta e aquela. praticar pequenos atos domésticos.Tem aqui esta pessegada..Gosto desta casa! Gosto de você! Não é gulodice nem interesse mesquinho. desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. para frustrar certa depredação iminente. . tocando. dormir na primeira poltrona.De qual você gosta mais? . pensativos.Uma menina de sua idade. .Também. ar extremamente maduro das meninas de três anos. À força de entrar.E a outra de onde você veio? . Abre que eu quero entrar.Nossa amiga Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha. . esta bananinha. que atende à sua requisição.. Em vão. despenteada. a seu alcance..Que é que você vai me dar? . dissolveu a noção de residência. preta. Entra uma coisinha morena. enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos. . O peixeiro presta-lhe esse serviço. mas tanto. Para o resto da vida.Nada. de matéria idêntica: por ali entram as cartas. Catarina foi inventada à pressa. Alguém abre. grandes. Quando não é algum transeunte austero. Mexia. Descobre na porta. Na parede. crepuscular. a solução já não lhe satisfaz.Quantas casas você tem? . .É Luci Machado da Silva.. tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro.Qual é a sua casa? . Será antes prazer de sentir-se cortejada. senador ou ministro do Supremo. perguntam de dentro: .. Com pouco. Então. Nem tudo são flores. alado. mas sempre séria.Que Catarina? . olhando os pés estendidos. horrorosa. . a mãe não queria que ela brincasse.Esta. Muito mexedeira. . lanchar.Não mexa nos bichinhos. às vezes descalça. . igualzinha a você. Há Catarina e Pepino. Catarina virou aquela bruxinha preta. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um. Os dedos sacodem a tampa. . de mão na boca. esquecida.Foi a garota que pediu para chamar. às vezes comendo pão com cocada. Antes de abrir.Não mexa.Gosto da outra. mexeu e quebrou o cachorrinho. pousara uma bruxa. tornar a entrar minutos depois....Quem está aí? Ë de paz ou de guerra? De fora respondem: . . talvez até mais bonita.Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina. .

ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado. Pepino vai dançar para as crianças. quando chega em casa: . Mas tudo se desfaz.Espere aí. não toma parte. e o seu? . penteada.Comadre.Então vou dar no meu também. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho.Eu não vou na festa. . a porta fecha-se com estrondo.Pepino tem existência mais positiva. Lourdes. João e Adão.Tá com dedo machucado e dodói na barriga. seu filhinho como vai? . jamais localizada ou realizada. Circula na rua . Para tomar banho e trocar de vestido. Pegador de crianças. . você não tem medo do Pepino? . . Não há pressa em ir para ela. sim. Vem Elzinha. Você. representa para si só a imemorial história das mães.Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino.um carretel. ante os soldados de Herodes. . o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia . Da varanda. é necessário que se anuncie sempre uma festa. A doença existe.Mas que beleza! Onde você vai? . como é uma boba. . desaparece o temor. . Vai tomar injeção. para dizer à mãe. esse galope de formas . Com a zanga. qualquer elemento poetizável. repleto de surpresas . .. expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos. Ele é camarada. . O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. Você vai me levar.Pepino não pega ninguém. existem os sustos maternais. e que os prolonga.a rua é o espaço entre as duas quadras. .. lápis vermelho.fazem esquecer a festa. . Alice. se acaso um intruso vem surpreender a criação. Heloísa.Não.geralmente à tarde. tirada em partes iguais da vida e do sonho. que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. . mas que opera interiormente sua fascinação. Estou zangada com você. .Mas você mora tão pertinho. curvado. Careca.Vou embora para minha casa.Você é quem perde. a galinha que salta do carrinho de feira .Espia minha roupa nova. A merenda.será a verdade? Senta-se no corredor. estranhamente preferidas a quaisquer outras. recolhidas em conversas de adulto. vestido limpo.Vou na festa. Maria Helena. Você vai ver se ele pega.Pega. a conversa grave com pessoas grandes. Vem bêbado. Volta meia hora depois. . Meu sapato branco. e com uns panos velhos. calçada. pedrinha. comadre. Nas campinas da imaginação. Eu sei. E resta saber se o enganado não será o adulto. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada.Até logo! Sai voando. saem da mesma boca inexperiente.Tá bom. Edison.E Pepino? . Bárbara. Perguntas e respostas.Espia quem me trouxe. Nesinha. se não a constituem. .

E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor. Visito os fatos. flores? . nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. As coisas talvez melhorem. no vale. De mãos viajando sem braços. Guerra. decifro. As leis não bastam. não te encontro. Onde te ocultas. penhor de meu sono. e escreve-se na pedra. são roucas e duras. luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimo. apenas querem explodir. obscenos gestos avulsos. viajamos e nos colorimos. Os homens pedem carne. Tenho palavras em mim buscando canal.Nosso tempo Este é tempo de partido. Calo-me. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. enérgicas. espero. comprimidas há tanto tempo. precária síntese. Em vão percorremos volumes. verdade. tempo de homens partidos. Meu nome é tumulto. Fogo. Sapatos. tempo de gente cortada. Os lírios não nascem da lei. II Este é o tempo de divisas. Mudou-se a rua da infância. ao relento. irritadas. perderam o sentido. Símbolos obscuros se multiplicam.

as palavras. e continuamos. do corpo esquecido da mesa. conduz às celas fechadas. colchetes no chão da costureira. pela esquerda sobe-se. à água que goteja e segreda o incenso. depositário de meus desfalecimentos. É tempo de muletas. ao claro jardim central. a sala grande conduz a quartos terríveis. parelhos de porcelana partidos. solidão e asco. pombas. portas rangentes. a pulsação. . a benção. Certas histórias não se perderam. Conheço bem esta casa. poeta. anéis. lanternas. cigarros. A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. nostálgicas de bailado. contai. Certas partes de nós como brilham! São unhas. conduz à copa de frutas ácidas. fragmentos de jornal. mas ainda é tempo de viver e contar. velhos selos do imperador. na praia. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. cães errantes. são partes mais íntimas. conta. ó surdo-mudo. ó jornalista. III E continuemos. abre-te e conta.. pequeno historiador urbano. o ofego. a partida. luto no braço. que contêm: papeis? crimes? moedas? Ó conta. pela direita entra-se. baratas dos arquivos. E muitos de vós nunca se abriram. Tudo tão difícil depois que vos calastes . e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar. pessoas e coisas enigmáticas.. como o do enterro que não foi feito. ossos na rua. moça presa na memória. velha preta.Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces e dissipa. conta. capa de poeira dos pianos desmantelados. animais caçados. contai. pérolas. velho aleijado.

por trás da brisa do sul.IV É tempo de silêncio. É tempo de cortinas pardas. grotesca língua torcida. A isso chamamos: balanço. no gozo. no santo. legumes e tortas vitaminosas. gim com água tônica. Os escritórios. olhos pintados. O espião janta conosco. dentes de vidro. toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem. Escuta a hora espandongada de volta. na batalha de aviões. mão de papel. Lentamente os escritórios se recuperam. olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. evoluem. de céu neutro. No beco. No céu da propaganda aves anunciam a glória. V Escuta a hora formidável do almoço na cidade. num passe. forma indecisa. palavra indireta. O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. de boca gelada e murmúrio. política na maçã. Está dissimulado no bonde. Come. alimenta-se. É sem cor e sem cheiro. é tempo de comida. amor e desamor. Multidões que o cruzam não veêm. braço mecânico. apenas um muro. Tempo de cinco sentidos num só. . Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa. mais tarde será o de amor. No quarto. e os negócios. esvaziam-se. cólera branda. no telefone. irrisão e três colarinhos sujos. aviso na esquina. vem da areia. As bocas sugam um rio de carne. sobre ele a polícia.

mulher. o homem feio. reforçam-se. o corpo ao lado do corpo. Contam-se histórias por correspondência. cigarro. orquídeas e opções de compra e desquite. afinal distendido. Salva-se a honra . chapéu. sentam-se. uma faca. passeeando de bote num sinistro crepúsculo de sábado. Escuta o horrível emprego do dia em todos os países de fala humana. roupa. A mesa reúne um copo. escuta o corpo ranger. homem. homem. últimos servos do negócio. de mortal feiúra. os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar. mulher. Crianças alérgicas trocam-se. Há uma implacável guerra às baratas. roupa. com as calças despido o incômodo pensamento de escravo. e a cama devora tua solidão. o mau romance. Escuta a pequena hora noturna de comprensação. a falsificação das palavras pingando nos jornais. entre muros apagados. já noite. apelo ao cassino. homem. criança. roupa. roupa. mulher. imaginam. VI Nos porões da família. enlaçar. refluir. sob eles soterrados sem dor. homem. imaginam voltar para casa. Imaginam esperar qualquer coisa. a constelação das formigas e usurários. o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores. e se quedam mudos. A gravidez elétrica já não traz delíquios. a má poesia. confiar-se ao que bem me importa do sono. escoam-se passo a passo. leituras.Homem depois de homem. errar em objetos remotos e. homem. roupa. numa suposta cidade. passeio na praia. os frágeis que se entregam à proteção do basilisco.

não obstante doem. E há mínimos bálsamos. um verme. minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado. o milho ondulante. da rua lodosa. e é o mesmo. meu olho que ri e despreza. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. recalcados dores ignóbeis. que polui a essência mesma dos diamantes. vai minar nos armazéns. vai molhar. Há fortes bálsamos. na roça madura. em poça amarga. intuições. lesões que nenhum governo autoriza. desgosto desse chapéu velho. do Estado. dores de classe. no placo? no público? nas poltronas? há sobretudo o pranto no teatro. já confuso. de sangrenta fúria e plácido rosto. ira. melancolias insubordináveis. se engolfa no linóleo.e a herança do gado. nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos. VI Ou não se salva. uma floresta. reprovação. . Há o pranto no teatro. já tarde. VIII O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. e secar ao sol. há bálsamos para cada hora e dor. ele embacia as luzes. E dentro do pranto minha face trocista. Há soluções.

Bandeirolas abrem alas. O poeta desembarca. uma ovação o persegue feito vaia. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra. O poeta entra no elevador O poeta sobe O poeta fecha-se no quarto.. prisioneira de anúncios coloridos. Povo de chapéu de palha. O poeta está melancólico. árvore que ninguém vê canta uma cigarra. no sol danado. O poeta toma um auto. O poeta está melancólico. O poeta vai para o hotel. Foguetes. Canta.Nota Social O poeta chega na estação. Bandas de música. Máquinas fotográficas assestadas. árvore banal. Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda. Discursos. Automóveis imóveis. . Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude.. Bravos.

agora. Amador de serpentes. pois não sei.Nudez Não cantarei amores que não tenho. e o que não é maleável deixa de ser nobre. quando já se foi? Que dor se sabe dor. é porque a brisa o trouxe. e já prospera cavando em nós a terra necessária para se sepultar à moda austera de quem vive sua morte? Não cantarei o morto: é o próprio canto. em serpes irritadas vejo as duas. nunca celebrei. Estanho. e toda sílaba acaso reunida a sua irmã. que. a ver a linha curva que se estende. ou se contrai e atrai. ajusta em mim seu terno de lamentos. nem era amor aquilo que se amava. E já não sei do espanto. se risse. ofertaria a pobres. aos quatro ventos. da úmida assombração que vem do norte e vai do sul. e. além da pobre área de luz de nossa geometria. tais meus pecados.) Que sentimento vive. Minha matéria é o nada. estanho e cobre. mas tão disperso. e o leva a brisa. e não se extingue? (Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio. quanto mais fugi do que enfim capturei. o ouro suposto é nele cobre e estanho. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada. se regressa a mim que o apascentava. quando tive. Nem era dor aquilo que doía: ou dói. quatro. nem sabe a planta o vento que a visita. minha vida passarei. tão estranho. não mais visando . Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite. e. Não cantarei o riso que não rira e que. sobre a relva debruçado. nesta concha. Não canto. e vago. estanho e cobre.

a modelar campinas no vazio da alma. e se dissolve. numa casta expressão de temor que se despede. configurado. que é apenas alma. essa nudez. sonho informe. além dos corpos. Ó encontro de mim. sob placa de estanho. repleto. sublimes ossuários sem ossos. E dou notícia estrita do que dorme. enfim. a perfeita anulação do tempo em tempos vários. Ó descobrimento retardado pela força de ver. ainda menos um calar de serenos desidratados. um lembrar de raízes. E já não brinco a luz. a morte sem os mortos. O golfo mais dourado me circunda com apenas cerrar-se uma janela. no meu silêncio.aos alvos imortais. (in A Vida Passada a Limpo) .

e resplandece no seu canto obscuro. O amor antigo tem raízes fundas. porém. Mais ardente. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Por aquelas mergulha no infinito. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. o antigo amor. . mas pobre de esperança. Mais triste? Não.O Amor Antigo O amor antigo vive de si mesmo não de cultivo alheio ou de presença. tanto mais velho quanto mais amor. feitas de sofrimento e de beleza. mas do destino vão nega a sentença. Ele venceu a dor. Nada exige nem pede. e por estas suplanta a natureza. Nada espera.

Essa ferida. suspende a saia das mulheres. Meu bem. meu amor. hoje tem filme de Carlito.O Amor Bate na Aorta Cantiga de amor sem eira nem beira. o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que corre do corpo andrógino. Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos e quando os dentes não mordem e quando os braços não prendem o amor faz uma cócega o amor desenha uma curva propõe uma geometria. é o amor. Pronto. seja como for. não te atormentes. vira o mundo de cabeça para baixo. Olha: o amor pulou o muro o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. O amor bate na porta o amor bate na aorta. Entre uvas meio verdes. Amor é bicho instruído. o amor. não chores. tira os óculos dos homens. fui abrir e me constipei. às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã. Daqui estou vendo o amor . meu bem. Cardíaco e melancólico. o amor ronca na horta entre pés de laranjeira entre uvas meio verdes e desejos já maduros.

mas também vejo outras coisas: vejo beijos que se beijam ouço mãos que se conversam e que viajam sem mapa..irritado.. . desapontado. Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender.

E será sempre assim daqui por diante. de descambar como no repetidíssimo ano passado. Em vão marco novos encontros. Todos são encontros passados. de sol pleno. Escuto os medos.O ano passado O ano passado não passou. mastigo o pão do ano passado. As ruas. sempre do ano passado. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. e as pessoas. os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. conto as libélulas. continua incessantemente. também as mesmas. Embora sepultos. Não consigo evacuar o ano passado . com iguais gestos e falas.

Que quer o peito? fechar-se contra os poderes do mundo para na treva fundir-se. delir memória de vida e quanto seja memória. ao permeio de uma canção. Que quer a paixão? detê-lo. Que quer o homem? salvar-se. . Que quer o corpo? solver-se.O Arco Que quer o anjo? Chamá-la O que quer a alma? perder-se Perder-se em rudes guianas para jamais encontrar-se Que quer a voz? encantá-lo. Que quer o ouvido? Embeber-se de gritos blasfematórios até que dar aturdido. Que quer a nuvem? raptá-lo. Que quer a canção? erguer-se em arco sobre os abismos.

trens. No campo imenso a torre de petróleo. ó solidão do homem na rua! Entre carros. Ó solidão do boi no campo. Ó solidão do boi no campo. entre gritos. é indiferente. Mas o tempo é firme. Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa em silêncio na rua cheia.. . O boi é só.. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas.O BOI Ó solidão do boi no campo. ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol. homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável e as casas não têm sentido algum. o ermo profundo. telefones. a escuridão rompe com o dia. a vida salva.

Sobre tapete ou duro piso. vamos à cama. amor que não espera ir para a cama. E para repousar do amor.O chão é cama O chão é cama para o amor urgente. . a gente compõe de corpo e corpo a húmida trama.

O Deus de cada homem Quando digo “meu Deus”. choro minha ansiedade. Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. sou mais forte do que a desirmandade. Quando digo “meu Deus”. . crio cumplicidade. grito minha orfandade. Mais fraco. Quando digo “meu Deus”. Quando digo “meu Deus”. O rei que me ofereço rouba-me a liberdade. afirmo a propriedade. Não sei que fazer dele na microeternidade.

É sempre no meu peito aquela garra. . Sempre no meu amor a noite rompe. Sempre dentro de mim meu inimigo. É sempre no meu não aquele trauma. É sempre nos meus pulos o limite.O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo. É sempre nos meus lábios a estampilha. é sempre no presente aquele duplo. É sempre no meu tédio aquele aceno. Sempre na minha firma a antiga fúria. Sempre no mesmo engano outro retrato. É sempre no meu sono aquela guerra. É sempre no meu trato o amplo distrato. E sempre no meu sempre a mesma ausência. é sempre no futuro aquele pânico.

tramas. na Rua da Bahia. Não é possível. waldemarpissilândico. costumeira. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. A impossível (sonhada) bolinação. mais isso-e-aquilo. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. maior. sendo de outrem. mais americano. A primeira sessão e a segunda sessão da noite. quando for o caso. pobre sátiro em potencial. A matinê com Buck Jones. William S. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. O jornal da Fox. tiros. A divina orquestra. Quero é o derrotado Cinema Odeon. e até aplaudi-la. por enquanto. minha mocidade fecha com ele um pouco. o Cinema Glória. Hart. o miúdo. mesmo não divina. fora-de-moda Cinema Odeon. As meninas-de-família na platéia. A espera na sala de espera. Fechado para sempre. .O fim das coisas Fechado o Cinema Odeon. tombos. (Amadurecerei um dia?) Não aceito.

. O campo – havia. O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado.O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo. A vida não chega a ser breve. A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo.

fomes. fazia frio em São Paulo. Carteiro. Cheiramos flores de medo. soldado. E fomos educados para o medo.O medo Em verdade temos medo. Fazia frio em São Paulo. Ajudai-nos. Ventava. as fábricas. Refugiamo-nos no amor. escritores. Nascemos no escuro.. E com asas de prudência Com resplendores covardes. Muletas Do homem só. Medrosos caules. e calma. vermelhos rios Vadeamos. Nevava. Susto na noite. Ruas só de medo. Vestimos panos de medo. Estou com medo da honra. incompleto. . Nos dissimula e nos berça. ditador. De nos. harmonia do medo. O medo com sua física. Fiquei com medo de ti. Doenças galopantes. O medo. Atingiremos o cimo De nossa cauta subida. Este poema. Tenhamos o maior pavor.. Outras vidas. Os mais velhos compreendem. Nosso caminho: traçado. De medo. Vem ó terror das estradas. Até a canção medrosa se parte. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos? Vem. E o amor faltou: chovia. lentos poderes do Láudano. Se transe e cala-se. Duros tijolos de medo. Há as árvores. Nosso destino. repuxos. de vós. com sua capa. Tanto produz: carcereiros. Assim nos criam burgueses. Meu companheiro moreno. Edifícios. e de tudo. Faremos casas de medo. receio De águas poluídas. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. As existências são poucas. Este célebre sentimento.

Eles povoam a cidade.. o mundo.. Recuando de olhos acesos. Adeus: vamos para a frente. Dançando o baile do medo. Fiéis herdeiros do medo. Nossos filhos tão felizes. Depois da cidade. Depois do mundo. Estátuas sábias. as estrelas.O medo cristalizou-os. . adeus.

O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. . O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

Vai abrindo a porta com riso maroto: "Nove meses. é planificado. eu? Nem nove minutos. Será neoconcreto se houver censura. Jogará no bicho. Usará bermuda e gola 'roulée'. Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. e do não objeto fará escultura. Rirá como gente. beberá cerveja deliciadamente. ternura ou desejo. Nele. fino cavalheiro em noventa idiomas. Será tão perfeito como no antigório. tudo exato. Seu nascer elide o sonho e a aflição. Ganhará dinheiro e muitos diplomas. tirará retrato com o maior capricho. Caçará narceja e bicho do mato. bem-posto: . Seja como for (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. muito mais perfeito do que no antigório. O homem será feito em laboratório. Queimará arruda indo ao canjerê. Dispensa-se amor." Quem já conheceu melhores produtos? A dor não preside sua gestação.O novo Homem O Homem será feito em laboratório. Nascerá bonito? Corpo bem talhado? Claro: não é mito. medido.

desconhece a aliança de avô com seu neto. Perdão: acabou-se a época dos pais. acabou com o Homem Bem Feito. vence a lei do patriarca. Ministro? Encomende. por que não? pois rompeu o nexo da velha Criação. papagaio. Uma ficha impressa a todos atende. Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo. todos atraentes. . Pai: macromolécula. ao vê-los.) Quer um sábio? Peça. nossos descendentes. Quem comia doce já não come mais. sem memória e sexo. (Escolher. Sua independência é total: sem marca de família. 'per omnia secula'. Liberto da herança de sangue ou de afeto. eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório.o justo formato. feliz. livre. o 'standard' do rosto Duzentos modelos. mãe: tubo de ensaio e.

O quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. corpo! corpo. sede tão vária. a passear o peito de quem ama. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais defeso. corpo. verdade tão final. na quinta-essência da palavra.Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não se sabe como é feita: amor. . e esse cavalo solto pela cama.

Para elas. hino matinal à criação e a continuação do mundo em esperança. conversas de café. (Mas a melhor objectiva não serão os olhos líricos de Alécio?) Tudo se resume numa fonte e nas três menininhas peladas que a contemplam.e último . ver.da vida.. a graça umbilical do nu feminino. puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade. ou ainda para dispersar-se e concentrar-se no jogo eterno das crianças. Vê e reflecte o visto. o dia. em sua novidade não sabida. as crianças. o idílio jamais extinto sob as ideologias. Ai. E Alécio vai e vê o natural das coisas e das gentes. soberba. a inaugurar-se todas as manhãs.Vai. o parque. . imagem de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco para depositar-se numa folha sobre a pedra do cais ou para sorrir nas telas clássicas de museu que se sabem contempladas pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas. risonha. Alécio.O que Alécio vê A voz lhe disse (uma secreta voz): . o traço da passagem das pessoas na rua. o cão. há um mirante iluminado no olhar de Alécio e sua objectiva. e todos captem por seu olhar o sentimento das formas que é o sentimento primeiro ..

Natal. O sino longe toca fino. . mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. As beatas foram ver. encontraram o coitadinho ( Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando. Já nasceu o deus menino. Não tem neves. não tem gelos.O que fizeram do Natal Natal. Natal. As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas.

fulva grinalda de tua vulva. dorme a última sirena ou a penúltima O pénis dorme. puma. Ai. cama canção de cuna. sono do pénis. nanana. dorme cândida vagina. menina. elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo. E silenciem os que amam.O que se passa na cama (O que se passa na cama é segredo de quem ama. nirvana. encontrando o corpo e por ele navegando. dorme. dorme onça suçuarana. estes segredos de cama. atinge a paz de outro horto. americana fera exausta. Dorme. entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen. . noutro mundo: paz de morto.

. nos arquivos na mente volúvel ou cansada até que um dia trilhões de milénios antes do Juízo Final não reste em qualquer átomo nada de um hipótese de existência.O que viveu meia hora (A paixão medida) Nascer para não viver só para ocupar estrito espaço numerado ao sol-e-chuva que meticulosamente vai delindo o número enquanto o nome vai-se autocorroendo na terra.

Não brinque. não experimente. Não se inebrie com o seu engalanado som.O seu santo nome Não facilite com a palavra amor. não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez. perfeição e exílio na Terra. . Não a jogue no espaço. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). bolha de sabão. Não a pronuncie.

Se quer fumar um charuto quente aperte um botão. o mundo é cada vez mais habitado. Mas até lá. Paletós abotoam-se por eletricidade.uma linha que seja . (Desconfio que escrevi um poema. Os percevejos heróicos renascem.de verdadeira poesia O último trovador morreu em 1914 Tinha um nome que ninguém se lembra mais Há máquinas terrivelmente complicadas pra as necessidades mais simples.O Sobrevivente a Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade Impossível escrever um poema . E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. Amor se faz pelo sem-fio. estarei morto. Não precisa de estômago para a digestão. Um sábio declarou que falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. felizmente.) . Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Inabitável.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. já não sabes sofrer. as fomes. E nada esperas de teus amigos. As guerras.Os ombros que suportam o Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta. A vida apenas. Porque o amor resultou inútil. sem mistificação. És todo certeza. . Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. Tempo em que não se diz mais: meu amor. a luz apagou-se. prefeririam (os delicados) morrer. E os olhos não choram. Tempo de absoluta depuração. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Ficaste sozinho. Alguns. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. não abrirás. Pouco importa venha velhice. achando bárbaro o espetáculo. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

Lá dentro. transcendem qualquer medida. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. nos reduz a um só verso e uma rima de mãos e olhos. pois só quem ama escutou o apelo da eternidade. . Além do amor. amada. Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo nos aproxima cada vez mais. que brotou do tempo. não tem idade. E nosso amor. perdura a graça do amor. e o teu aniversário é um nascer a toda hora. florindo em canção. amar é o sumo da vida. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora. na luz.O tempo passa? Não passa O tempo passa? Não passa no abismo do coração. O meu tempo e o teu. não há nada.

agora te recolhes aos selados desertos da virtude carcomida. da garupa e da bunda que sorria em alva aparição no canto escuro Queria teus encantos já desfeitos re-sentir ao império do mais puro tesão. e da mais breve fantasia. de saída.Ó tu. quando nossa vida eram vagina e fálus entrançados. . que me negas favores dispensados em rubros tempos. sublime puta encanecida Ó tu. E eu queria tão pouco desses peitos. agora que estás velha e teus pecados no rosto se revelam. sublime puta encanecida.

se deixa surpreender. tendão de Vênus sob o pedicuro Ninguém o lembrará: tiro no muro.Oficina irritada Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. . ao mesmo tempo saiba ser. claro enigma. seco. cão mijando no caos. abafado. E que. há de sofrer. não desperte em ninguém nenhum prazer. Quero que meu soneto. Eu quero pintar um soneto escuro. difícil de ler. não ser. no futuro. no seu maligno ar imaturo. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir. enquanto Arcturo.

..... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád.. tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu .Oh minha senhora ó minha senhora Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... . não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh.

Hoje que é que pode? . o mundo era mais inteligível. os casamentos e até a hora de morrer. as colheitas.Ordem Quando a folhinha de Mariana exata informativa santificada regulava o tempo. pairava certa graça no viver.

da Serra do Alves Sangue seco nos dedos. Cumpriram.Os assassinos Os assassinos vêm de longe. Na escola eram diferentes. do Periquito. Júri mais concorrido do que missa. A gameleira conta o que viu e foi um brilho desabando na entranha do inimigo. Mamaram leite turvo. sem discutir. na roupa o crime escrito. Os assassinos alçam a foice na curva da estrada. Vém do Onça. . Estavam destinados a matar. das Baterias. olhar duro. As namoradas estranhavam seus beijos sem doçura. Aterra decidiu que matassem.

Pouco importa venha velhice. És todo certeza. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. A vida apenas. a luz apagou-se. achando bárbaro o espetáculo. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. E os olhos não choram. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. as fomes. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Porque o amor resultou inútil. Ficaste sozinho. As guerras. E o coração está seco. Alguns. sem mistificação. . Tempo de absoluta depuração. prefeririam (os delicados) morrer. já não sabes sofrer. não abrirás. E nada esperas de teus amigos. Em vão mulheres batem à porta.Os Ombros Que Suportam O Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Ao longe. já não somos os mesmos. por exemplo: "A noite está estrelada.Os vinte poemas Posso escrever os versos mais tristes esta noite. A mesma noite qeu fez branquear as mesmas árvores. os de então. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Meu coração a procura. é verdade. A noite está estrelada e ela não está comigo. Eu a amei. e às vezes ela também me amou. Sua voz. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Ela me amou. mas talvez a ame. e ela não está comigo. Já não a amo. Como antes dos meus beijos. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Como para aproximá-la o meu olhar a procura. seu corpo claro. e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo. ao longe". Minha alma não se contenta com tê-la perdido. Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la. mas quanto a amei. mais imensa sem ela. Isso é tudo. azuis. Ainda que esta seja a última dor que ela me causa. Nós. De outro. e tiritam. Já não a amo. Seus olhos infinitos. É tão curto o amor. O vento da noite gira no céu e canta. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. é verdade. Pensar que não a tenho. os astros. Ouvir a noite imensa. Ao longe alguém canta. e é tão longe o esquecimento. a minha alma não se contenta com tê-la perdido. às vezes eu também a amava. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido. Escrever. Sentir que a perdi. . Será de outro.

Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos. Os pequenos continuavam dormindo. Aquele quarto é o das crianças. saiu pela porta dos fundos. Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.Papai Noel às avessas Papai Noel entrou pela porta dos fundos ( no Brasil as chaminés não são praticáveis). Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. apagou a luz. achou um queijo e comeu. mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto. entrou cauteloso que nem marido depois da farra. Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente da república de celulóide. Na horta. Papai entrou compenetrado. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. . Fez a trouxa e deu o nó. Longe um gato comunicou o nascimento de Cristo. teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças ( no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. o luar de Natal abençoava os legumes. Tateando na escuridão torceu o comutador e a electricidade bateu nas coisas resignadas.

Papel E tudo que eu pensei e tudo que eu falei e tudo que me contaram era papel. E tudo que descobri amei detestei: papel. . Papel quanto havia em mim e nos outros. papel de jornal de parede de embrulho papel de papel papelão.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada. deliciosa. a explicação do mundo. Hoje mesmo. e assim possa eu partir. pelo orgasmo. . quem sabe? enregela-se o nervo. Raiz de minha vida. Amor. nunca mais. amor . Pobre carne senil. amor. de sémen aljofrando o irreparável ermo. eu me volto. em plenitude o ser.o braseiro radiante que me dá. esvai-se-me o prazer antes que. em ti me enredo e afundo. vibrando insatisfeita. expirante. a minha se rebela ante a morte anunciada. a exploração acabe.Para o sexo a expirar Para o sexo a expirar. Amanhã.

Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é nuda. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é muda. Como a vida é louca estúpida. Como a vida é nada. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. mouca e no entanto chama a torrar-se em chama.Parolagem da vida Como a vida muda. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem. Como a vida é forte em suas algemas. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é tudo. esse lobisomem. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. outra não a que é vivida. Como a vida joga de paz e de guerra . Como a vida é outra sempre outra. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo.

povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante. E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor. vidamor! .

ar puro. na sua graça. água pura. velho embora. Mãe. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. . luz que não se apaga quando sopra o vento e chuva desaba.Para Sempre Por que Deus permite que as mães vão se embora? Mãe não tem limite. será pequenino feito grão de milho. veludo escondido na pele enrugada.mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. é eternidade. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Por que Deus se lembra . puro pensamento. é tempo sem hora.

tímido. ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer.Passatempo O verso não. que. verso. . sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra.

recolhendo O fubá. o ferro. Pastor . o som. Numa.Patrimônio Duas riquezas: Minas e o vocábulo. o substantivo. Ir de uma a outra. Palavras assumem código mineral. descansar de outra. Minérios musicalizam-se em vogais.

não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira. Ou desobedecem a vosso mando. Senhor. tão gravata-e-colarinho. um. Em Iguatu.. vamos papeando como dois camaradas bem legais. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. meu cronista e meu cristão: . que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. à erva seca. o abismo do infinito. Senhor. e já! numa certeira ordem às nuvens. mas sou vosso fã omisso. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. Desculpai vosso filho. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. Baturité. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. aquela coisa. aquela que. bem brasileiro. o muro. E mudo até o tratamento: por que vós. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. Fazei chover. Parambu. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. malcriado. no veludo/lã e matreiro. muitas e boas. assaltos. florindo e reflorindo. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você.. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. só me lembro de vós para pedir. chover a chuva boa. Meu querido Jesus. sobressaltos. ficamos perto. Fazei. Comigo é na macia. rogo. pecador.Prece do brasileiro Meu Deus. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria. ao bode. puro. o outro. Senhor. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos.

Você. antes fechadas. O mesmo drama.essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. Dê um jeito. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. muito encabulado. Fiquei. mas pedir. confesso. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. meu brasileiro. mais sério. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. a ronha de Pelé. Meu coração. a cuca de Zagalo. No entanto. mais urgente. meu caro. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. Eu ia lhe falar noutro caso. a unha de Tostão. em fontes. Tem a ONU. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. 30-5-1970 . você sabe. ó irmãozinho. assim seja.. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. agora. em riquezas. meu velho. Disfarcei e sorri. Pois é. você lê os jornais. Vamos mudar de assunto. Fiquei calado. Escute aqui. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. vai ao cinema.. toda vida.

é preciso pagar as dívidas. é preciso não assassiná-los.Poema da Necessidade É preciso casar João. é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. É preciso viver com os homens. É preciso estudar volapuque. é preciso odiar Melquíades. é preciso comprar um rádio. é preciso estar sempre bêbado. é preciso ter mãos pálidas e anunciar o FIM DO MUNDO. É preciso salvar o país. é preciso crer em Deus. é preciso ler Baudelaire. é preciso substituir nós todos. é preciso esquecer fulana. é preciso suportar Antônio. .

. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador.Poema da Purificação Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio. As água ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo.

pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. simples e forte. meu Deus. Mundo mundo vasto mundom. A tarde talvez fosse azul. . Meu Deus. Quase não conversa. não seria uma solução. não houvesse tantos desejos. mais vasto é meu coração.Poema de Sete Faces Quando nasci. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. Carlos! ser gauche na vida. O homem atrás do bigode é sério. Tem poucos . raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai. por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Para que tanta perna. seria uma rima. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo.

A polícia dissolve o meeting.Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. A pena escreve. . A mulher ensangüentada grita. Ladrões arrombam o cofre. O marido está matando a mulher. Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

e a poesia mais rica . Tudo vivido? nada. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim. A orelha pouco explica de cuidados terrenos.Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. e brincos de palavra. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite. variante de bom-dia. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta ainda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca. um não-estar-estando. simples estar-no-mundo. Nada vivido? Tudo.

.é um sinal de menos.

.Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse.

é o homem que fechou a porta e se enforcou na cortina. Que barulho é esse na escada? É Guiomar que tapou os olhos e se assoou com estrondo. . baixando de tom. Que barulho é esse na escada? É a virgem com um trombone. o bispo com uma campainha e alguém abafando o rumor que salta de meu coração. a criança com um tambor. e o lamento imperceptível de alguém que perdeu no jogo enquanto a banda de música vai baixando.Poema Patético Que barulho é esse na escada? É o amor que está acabando. Que barulho é esse na escada? É a torneira pingando água. É a lua imóvel sobre os pratos e os metais que brilham na copa.

. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. vivo.Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto. Ele está cá dentro e não quer sair.

.Política Literária A Manuel Bandeira O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal. tira ouro do nariz.

e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. . Dasdores. é impedir que se formem. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas. Através de um sentimento nebuloso. desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais. Todos os irmãos querem colaborar. Se fosse à igreja. pelos camelinhos. . Portanto. e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. pode dispor o presépio. veio encontrá-la completamente desprevenida. E viúvas espiam de janelas. O cinema ainda não foi inventado. não guardam proporção com os cameleiros que os tangem. não porque a casa seja pobre. "Dasdores. bastante miúdos.. Das mil maneiras de amar. e eis a que ocorre na espécie. se não ocupar todos os minutos. e ai do presépio que cede a novidades. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua. Se não trabalhar sempre.. e nas grutas subsidiárias. e participam da natureza dos animais domésticos. escrever as cartas de todos. o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho. não chegou a esta nossa cidade. Os pais exigem-lhe o máximo. cães e pinheiros. Dasdores passa os dedos. manejar agulha e bilro. Ë difícil ver namorado na rua. Nos pastores. arte comunicada por uma tia já morta. um cincerro tilinta: é a tropa. em que. O presépio está por armar.e sempre acha folga para pensar em Abelardo. afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só. no Menino Jesus. as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu. que não perdoa. na Virgem e em São José. delibera e providencia mil coisas. mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. sim. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. se o foi. este carneirinho tem uma perna quebrada. meu bem. alegre à força de repetido. assim mutilado e dolorido. As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa. e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras. cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino. Dasdores. Esta véspera de Natal. A total ocupação varre o espírito. que se poderia consertar. por exemplo. Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior. quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. lenta como costuma fazê-lo no interior. Festas são raras. O melhor seria que não amolassem. salvo esta moça. velar pelos doces de calda. mas antes atrapalham. porém. sente neles a macieza da mão de Abelardo. com ternura. se se dedicasse ao segundo. determinado há quase dois mil anos. o Menino deve querer-lhe mais. a secreta é a mais ardilosa." Dasdores multiplica-se. e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino. relva. porque cada bicho. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça. está Abelardo. quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah. pelas conservas. Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa. mas são presente da tia morta. prega esse botão para sua mãezinha. fumando ou alisando o cabelo com brilhantina. ou. mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar.Presépio Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. ó pais. Seu nome. mas parece a Dasdores que. a noite caminha. e até mesmo extrai delas algum prazer. Jamais lhes será dado tocar. pois moça não deve sair de casa. Dasdores nunca tem tempo para nada.É uma conspiradora . Cabras passeiam nas ruas. Nem todos os animais estão perfeitos. que há de circundar a manjedoura. Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos. e não há limites para o humano. ressoa pela casa toda. que se diriam jaulas. corre. salvo para rezar ou visitar parentes. que é antes uma fazenda crescida. Os camelos. não veria o namorado.

dando. sôfregos.quem botou! . e este vai mastigando seus minutos. de fixar a estrela. o mistério prestigioso do ser de Abelardo. . pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino. diferente da que lhe coube. e o trabalho começa a surgir.depressa.sentia. na sala em desordem. no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos. talvez. a matar-vos. que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada. A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio.há uma previsão de malogro iminente. e os olhos acesos. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro. já sabeis de quem. ao misturar o sagrado ao profano. ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. como também percebe esse rosto de bigode. ou subtrai-se. e que Abelardo fumava na outra rua. matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). mas impotente. interrogando o relógio. levantar os muros de Belém. e é pura placidez. na muda interrogação da mãe.ardendo na areia do presépio. porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sêlo. se nos pusermos a contemplá-lo. e a cabeleira lustrosa. Pronto. talvez pule meia hora. Nada fará com que erre. a vida parou rigorosamente. sua vontade se concentra. Dasdores não o saboreia por inteiro. no estouvamento dos irmãos. ir correndo ladeira acima. as mãos de Abelardo. Não assim os serenos. Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora . acelerar o ritmo da narrativa. o adro já quase deserto. de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide. Entram e acham o presépio desarranjado. mas. viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa. Começa a fazê-lo. seus cinco minutos. para voltar duas horas depois. mas continuai a correr. sair com as amigas . decifrando os olhos de Abelardo.Alguém bate palmas na escada. e um pouco por toda parte. Nem namorado.era um calor humano. O dono desta noite. e aquele cigarro . do passado a tia repete sua lição profunda. nele vê apenas o rosto de Abelardo. perfeito. Vão-se as amigas. seus quinze minutos. encontrar a igreja vazia. está alterado. Aqui desejaria. mesmo sensuais. de circunstâncias adversas. correi ladeira acima. este ano não haverá Natal. Deus me perdoe . e nenhum Abelardo. dos fantasistas. a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo. preferência a este último. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores. é o relógio. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta. dissimulados nas ramagens do papel da parede. que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada. os números gelam. prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação. e Dasdores. e o tempo dispara de novo. cismarenta e repartida. Mas Dasdores continua.algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado se esse alguém é nervoso. como um prestidigitador furta um ovo. figura no ramo também delicado. e sim outra natureza. Entretanto. depressa -. sem perspectiva de paz ou conciliação. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora. Esta visita come mais tempo. aqueles que. dispondo-as onde convém. vestir-se violentamente. se policiam. a pele morena de Jesus. no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas . e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo. calma e preocupada. prolongando-se. o ponteiro imobiliza-se. mas o que a pele queria sentir . Se nos esquecermos dele. Correi. juntando na imaginação os dois deuses. Mas seria preciso atribuir-lhe. o prazer de distribuir as figuras. numa excitação aguda. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro. não braços e pernas suplementares. colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração. depois do Menino.

a vida seria incerta. se houvesse um cruzador louco. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. Sabemos que nada nos acontecerá. Certamente. o que é privilégio dos edifícios.Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável. improvável.. Às vezes. O edifício é sólido e o mundo também. O mundo é mesmo de cimento armado. . Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.. fundeado na baía em frente da cidade.. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. bebemos cerveja e olhamos o mar. alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano..

Ei-los sós e mudos. Não é música ouvida de passagem. Para ele. Não cantes tua cidade. é algo imprestável. tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes. mas não há desespero.Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. os aniversários. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. os incidentes pessoais não contam. tão infenso à efusão lírica. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. não invoques. Não há criação nem morte perante a poesia. O que pensas e sentes. cristal não era. esse excelente. . Tua gota de bile. Teu iate de marfim. em estado de dicionário. Estão paralisados. não aquece nem ilumina. As afinidades. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. isso ainda não é poesia. que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. chuva e noite. teu sapato de diamante. completo e confortável corpo. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. a vida é um sol estático. deixa-a em paz. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Não percas tempo em mentir. Não me reveles teus sentimentos. vossas mazurcas e abusões. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação Que se dissipou. Não faças poesia com o corpo. há calma e frescura na superfície intata. Não dramatizes. Penetra surdamente no reino das palavras. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Diante dela. não indagues. Não te aborreças. não era poesia Que se partiu.

antes de escrevê-los. se te provocam. Calma. as palavras. Chega mais perto e contempla as palavras Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. . rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. sem interesse pela resposta. pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.Convive com teus poemas. se obscuros. Não adules o poema. Tem paciência.

de mato depois da chuva. pois todos os amigos são enganados. mas que me chame de amigo. para que tenha a consciência de que ainda vivo. do sol. de pássaros. sobretudo saber ouvir o que as palavras não dizem. no caso de assim não ser. do canto dos ventos e das canções da brisa.Procura-se um amigo Não precisa ser homem. mas não deve ser vulgar. de poças d´água e de caminhos molhados. dos anseios e das realizações. de madrugada. não porque a vida é bela. Deve gostar de ruas desertas. nem que seja de todo impuro. precisa saber falar e calar. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Deve ter amor. seu principal objetivo deve ser o de amigo. Pode já ter sido enganado. de beira de estrada. das estrelas. . nem é imprescindível que seja de segunda mão. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. que se comova quando chamado de amigo. de se deitar no capim. Que bata nos ombros sorrindo e chorando. basta ser humano. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos. ou então sentir falta de não ter esse amor. dos sonhos e da realidade. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. da lua. mas porque já tenho um amigo. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Preciso de um amigo para parar de chorar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e. basta ter coração. um grande amor por alguém. Não é preciso que seja de primeira mão. de orvalhos. basta ter sentimento. Preciso de um amigo para não enlouquecer. Tem de ter ressonâncias humanas. de grandes chuvas e das recordações da infância. Tem que gostar de poesia. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver. Que saiba conversar de coisas simples. deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Não é preciso que seja puro. para contar o que vi de belo e triste durante o dia.

um espaço suficiente para manobra. tempo fugindo. É idoso. E o pai que deveria chegar às 20 horas.. Mas daqui não saio sem vasculhar todo o Aeroporto.Uê. Chile? A palavra soava diferente. rumo ao Galeão. Felizmente para as histórias confusas de hoje. chegou? . por milagre. As autoridades sabiam tanto quanto a empresa. Pela primeira vez alguém . Que fazer? Os telefones.Numa sessão espírita.. No Aeroporto. . na cabeça impotente. na Praça Mauá. imagina-se. o professor X.Desculpe. O trânsito ainda está difícil.. não sabemos.Não sabemos se ele desembarcou ou não. Como é que o pai sairá desta? Inútil pensar nessas coisas. o pai vindo do Chile.Como não podem? Então sabem que o avião chegou e não sabem quem veio nele? . mudos. fada ou coisa semelhante. e a cidade voltou a padecer os desmoronamentos.. O pai chegou? Ele não está familiarizado com esta bagunça em forma de cidade. melhor.E a lista de passageiros? . que voltava do Chile. fazendo a eterna pergunta. A duras penas. isto é. na manhã ensopada. eu. . O pai chegando. mais uma vez. você não trouxe seu pai? Aqui ele não apareceu. O rapaz. transbordou de seu nome. volta para casa. se é que estava em algum lugar. nada. Quem dorme numa dessas? O rapaz espera os escritórios se abrirem. mas em sentido inverso ao do Galeão.Meu pai? . O rapaz expõe-lhe o problema do pai. os desabrigos. existe moça de chapeuzinho verde. Mora em outro Estado. menos por iniciativa própria do que por imposição dos motoristas que vinham atrás. e ninguém sabia dizer-lhe onde estava. Mas o filho já demandava outro balcão. mulher e filhos na maior aflição. de bonificação. O jeito é esperar que a manhã traga serena tranquilidade. meu pai. e eis senão quando. Foi naquela noite de fevereiro em que o Rio.Bem. ainda sorri para a gente.Não sabemos. rumo ao aeroporto do Galeão. . . Na rua congestionada. e sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer com o senhor. trágicos sinais deixados pelo temporal. claro. Chuva matraqueando. Nisto se abre. Nem podia aparecer. Um informante. Pelo caminho. De novo. Sem dormir. então? . para ouvir isto de alguém. Classificado no Jornal do Brasil: Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. todas aquelas pessoas em prisões de lata e vidro. Corre ao escritório da companhia de aviação: . como se contivesse não sei que partícula perigosa.Procura-se um pai O rapaz dirigia seu carro pela Avenida Brasil.Eu só desejo que um dia o senhor se veja na minha situação. Botar também no rádio. . a pergunta continua sem sorte: . O Galeão fora do mapa. um desinformante faz ironia: . que descobre o perdido e. Ali está uma garota de chapeuzinho verde. porém elas se pensam por si. com esperança de aeroporto e salvamento. as angústias e as mortes injustas de uma enchente. Meu pai. Madrugada alta quando ele chega. o avião chegou. Como pôde sumir assim? Aconselhamme a ir à Polícia Marítima e Aérea. o senhor encontra seu pai. onde ia receber o pai. ..Meu pai. O resto.. que pega também por milagre. porém não impossível. temendo o pior. sem saber como.É. ninguém avançava. naturalmente. acciona o motor.Está com quem.Não está connosco. mas sobre seu pai não podemos informar.

que não aparece . contando à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto.A essa hora já deve estar lá.Seu pai chegou sem novidade. e na manhã seguinte a polícia o chamava para receber de volta os objectos recolhidos por um serviço policial que só não resolve o caso de quem perdeu a memória.E para onde o levaram. onde perdera duas pastas num táxi. considerava e buscava resolver o problema. com outro sorriso no rostinho de relações-públicas. com passaporte e tudo. . até o temporal passar. Não é que estava? Calmo. Volte e há de encontrá-lo. repito. a moça de chapeuzinho verde. à espera de o toró passar.ouvia. Felizmente. Deve ter dormido por aí. Meu pai! Que susto! Que desinformação! Que alívio! Etc. resignado. . sozinha. O nome dele está na relação de passageiros desembarcados. . valia tanto quanto a Metropolitan Police. Ela saiu e voltou. .Mas não apareceu em casa. Tivera vontade de telegrafar para Londres: Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil.Para lugar nenhum. . O rapaz lembrou-se de Londres.

O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. Um aluno dorme. O professor baixa a voz com medo de acordá-lo. .Professor O professor disserta sobre ponto difícil do programa. cansado das canseiras desta vida.

Joaquim se suicidou e Lili casou com J.Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos. . Pinto Fernandes que não tinha entrado na históoria. Raimundo morreu de desastre. Maria ficou para tia. Teresa para o convento.

dupla mulher. Ele avança. e a via estreita vai transformando em dúlcida paragem. . Mulher. despetalam-se as pétalas do ânus à lenta introdução do membro longo. há no teu âmago Ocultas melodias ovidianas. recua.Quando desejos outros é que falam Quando desejos outros é que falam e o rigor do apetite mais se aguça.

corpo. Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra. sede tão vária a esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objecto mais vago do que nuvem e mais indefeso. corpo! Corpo. . corpo verdade tão final.Quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor.

Os antigos condenam-me a esta forma de castigo. O quarto escuro em mim habita. Exalo-me. Sem óculo. fico outro ser. Eu mesmo. o olfato. se transponho o umbral enigmático. Estou sem olhos. que se afastou de movimento e fome. É quarto feito pensadamamente para me intrigar. bicho preso em jaula de esquecer. sou o quarto escuro. sem sentido. O que nele se põe assume outra matéria e nunca mais regressa ao que era antes. Sou coisa inanimada. . ao sol? Tudo escurece de súbito na casa. de mim desconhecido. Aqui decerto guardam-se guardados sem forma. Sem lucarna. o ouvido.Quarto Escuro Por que este nome. Esta pesada cobertura de sombra nega o tato. Enoiteço.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo. que sou amado. verdade fulminante que acabas de desentranhar. No momento anterior e no seguinte. isto cada vez mais. creio.Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. amor feito som vibração espacial. amor saltando da língua nacional. isto sempre. dementes apagas teu amor por mim. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão. inexoravelmente sei que deixaste de ama-me. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. que nunca me amaste antes. Exijo de ti o perene comunicado. Do contrário evapora-se a amação pois ao dizer: Eu te amo. no momento. Não exijo senão isto. . No momento em que não me dizes: Eu te amo.

essa coleção de objetos de não-amor.eu me precipito no caos. .

se passeia. se compreende. mas tente. recompensa. experimente. ou da cor da sua paz. que de tão perfeito nem se nota. meu caro. consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. liberdade com cheiro e gosto de pão matinal. mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo. se ama. se trabalha. você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita. começando pelo direito augusto de viver. mas com ele se come. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome. . direitos respeitados. tem de fazê-lo novo.RECEITA DE ANO NOVO Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris. você. remendado às carreiras. eu sei que não é fácil. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade. justiça entre os homens e as nações. não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. espontâneo. tem de merecê-lo. Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo.

Não pedias nada. assim o amor Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas. Quando . não siderava. desde aquele momento intemporal Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas No caos universal Como nos enganamos fugindo ao amor! Como o desconhecemos. amada. talvez com receio de enfrentar Sua espada coruscante. Não queimava. E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda. . Descansei em ti meu feixe de desencontros E de encontros funestos. Mal entendi. esse sorriso. Trazias nos olhos pensativos A bruma da renúncia: Não querias a vida plena. Queria talvez . não pelo amor Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam Ao se juntarem aos meus. Entretanto. na infantil procura do Outro. amada amiga.sem o perceber.por esperteza do amor . o Outro que te imaginava. tonto que fui. O Outro que eu me supunha. sorria.senti que éramos um só. Não reclamavas teu quinhão de luz. como são desnorteantes Os caminhos da amizade. Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida. Feri-me pelas próprias mãos. ele chegou de manso e me envolveu Em doçura e celestes amavios. Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História. seu formidável Poder de penetrar o sangue e nele imprimir Uma orquídea de fogo e lágrimas. juro Sadicamente massacrar-se Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam Desde a hora do nascimento.Reconhecimento do Amor" Amiga. Ou mais longe. Apareceste para ser o ombro suave Onde se reclina a inquietação do forte (Ou que forte se pensa ingenuamente). Amiga.

circunstâncias. Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar. E a pura essência em que nos transmutamos dispensa Alegorias. referências temporais. E se confessasse jubilosamente vencido. Imaginações oníricas. Pois já nem somos nós. amada minha para sempre. Todas as imposturas da razão e da experiência. À revelia de corpos amantes. a paisagem. As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos. Até respirar o júbilo maior da integração. para que o Eu renunciasse à vacuidade de persistir. a aurora boreal. Levou tempo. Para existir em si e por si. Agora. somos o número perfeito: UM. Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar A melodia. . a transparência da vida. fixo e solar. eu sei. O vôo do Pássaro Azul.Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos.

* .1987 Tua memória. e nada resta.Remissão Itabira do Mato Dentro . que sutil interpretavas.MG . senão contentamento de escrever.1902 * . e seus pesares. Mas. tua poesia. pasto dos vulgares. pesares de quê? perguntaria. em suas formas breves ou longas. se esse travo de angústia nos cantares. do que escreves e te forçou ao exílio das palavras. mesmo. vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida. enquanto o tempo. pasto de poesia. se evapora no fundo do teu ser? . se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares.

o pobre amor estava putrefato. bateu à velha porta. Muito embora o escutasse. Não pude agasalhá-lo :ofendia-me o olfato. Bateu.Restos O amor. eu de mim era presente. . inutilmente.

1987 Meu ser em mim palpita como fora do chumbo da atmosfera constritora. a cada hora. de morte imorredoura? Sou eu nos meus vinte aons de lavoura de sucos agressivos. Sou eu ardendo em mim. .1902 * .* . Que face antiga já se não descora lendo a efígie do corvo na da aurora? Que aura mansa e feliz dança e redoura meu existir.Retorno Itabira do Mato Dentro . qe elabora uma alquimia severa. me devora quanto é pura. fauna. tornada agora. sou eu embora não me conheça mais na minha flora que.MG . Meu ser palpita em mim tal qual se fora a mesma hora de abril.

um pouco de mim em Londres. Ficaram poucas roupas. nos anúncios de jornal.Resíduo De tudo ficou um pouco Do meu medo. Da rosa ficou um pouco Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco).de cigarros. Pois de tudo fica um pouco. no barco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. Mas de tudo fica um pouco.vazio . muito pouco. de duas folhas de grama. Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. pouco. retrato. ficou um pouco. mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte. um pouco nos muros zangados. . Da ponte bombardeada. De teu áspero silêncio um pouco ficou. mudas. flor branca. Do teu asco. ficou um pouco de ruga na vossa testa. dragão partido. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana. do maço . Dos gritos gagos. poucos véus rotos pouco. nas folhas. que sobem. Se de tudo fica um pouco.

este vidro de relógio partido em mil esperanças. Às vezes um botão. de tudo ficou um pouco. os asilos. gemido de víscera inconformada. Às vezes um rato. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço. meio sal e meio álcool. salta esta perna de rã. . De tudo ficou um pouco. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. e minúsculos artefatos: campânula.um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam. o cárcere. este pescoço de cisne. um pouco: não está nos livros. simplório arroto. De tudo fica um pouco. cápsula de revólver. fica um pouco.. de Abelardo. as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe.. vento nas orelhas minhas. terrível. este segredo infantil.. de ti.. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda. De tudo ficou um pouco: de mim. Mas de tudo. o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas. E de tudo fica um pouco. fica sempre um pouco de tudo. Cabelo na minha manga. de aspirina. alvéolo.

a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. burgueses edifícios: uma paixão: a bola . com apetite de viver os jogos de luz na espuma. a reboar no canto de mil bocas. gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. E despertam mais jovens. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. risca o asfalto da avenida. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. de cem mil bocas. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. Um riso claro. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano.Retrato de uma cidade I Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. luxuosamente flor. É puro carnaval. As coisas se amaram. o topázio do sol na folhagem. de trinta mil. II Eis que um frenesi ganha este povo. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. Repara. no ritual de entrega a um deus amigo. loucura mansa. fere o ar. O Rio toma forma de sambista. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. de dez mil.

pois é lei carioca (ou destino carioca. mas do Corcovado. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. Pula do cofre da gíria uma riqueza. .o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra os nervosos ofícios anuais do Campeonato. Cristo. sem muito esforço. Diamantes-minuto. de mais nenhum Brasil. bem mais perto da humana contingência. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. amor e som. na torre circular.. Já outros vêm saltando em profusão. a mesma palma à Divindade longe. mulher mulher mulher mulher mulher. não dos astros. num relâmpago.. e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. no talhe esbelto do coqueiro. trabalho. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. uma estátua? Uma presença. plenamente. e no fundo guardar o religioso terror. sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga. a mesma rosa branca. no perfil do morto e no fluir da água. tanto faz) misturar tristeza. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. Este Rio. do Rio apenas. piada. Na curva dos jardins. Morre na rua a ondulação do signo irônico. preside ao viver geral. Este fingir que nada é sério. nada. palavras cintilam por toda parte. e se apagam. do alto. nada.

laranja toda em chama. Anoitece no Rio.Este Rio peralta! Rio dengoso. repara nas nuvens. fraterno. . A noite é luz sonhando. aberto ao mundo. laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. Repara. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar. sumarenta de amor. por que não?). erótico.

mostrando nossas escolhas erradas. sem ter medo de viver. Fácil é dar um beijo. te respeita e te entende. Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. apertar as mãos. Acenando o tempo todo. ao invés de ter noção das vidas dos outros. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. é tudo aquilo que dura uma fração de segundo. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece. antes que a pessoa se vá. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é mentir para o nosso coração. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.. Difícil é entregar a alma. Difícil é seguí-las. de alegria. Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E é assim que perdemos pessoas especiais. Fácil é querer ser amado. Amar e se entregar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro . mas com tamanha intensidade. Ou querer entender a resposta. que se petrifica. e nenhuma força jamais o resgata. E aprender a dar valor somente a quem te ama. Ter a noção exata de nossas próprias vidas. o quanto queremos dizer. Fácil é ver o que queremos enxergar. .. Fácil é ser colega. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros. Fácil é ouvir a música que toca. E com confiança no que diz. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Fácil é ditar regras. Fácil é perguntar o que deseja saber. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Ou ter coragem pra fazer. Difícil é ocupar o coração de alguém. sem ter medo do depois. dizer o que ele deseja ouvir. Admitir que nos deixamos levar. Fácil é abraçar. fazer companhia a alguém. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas ircunstâncias. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer. quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Sinceramente. mais uma vez. por inteiro. isso é difícil. Difícil é ouvir a sua consciência. Difícil é lutar por um sonho. Saber que se é realmente amado. beijar de olhos fechados. Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus". Difícil é sentir a energia que é transmitida. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Eterno. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.Reverência ao destino Falar é completamente fácil. Amar de verdade. Difícil é amar completamente só. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas.

– Baioneta espanhola. a gente pára e se extasia. Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. Pergunto o nome. – Não. Não esqueçamos. Em Botafogo. nos jardins dos edifícios. Nem a dourada acácia. eretos lampadários. Yucca gloriosa. Quem responde é Baby Vignoli. ali. esse adágio lilás do manacá. e a ela rendo meu tributo apaixonado. de majestade simples. Deixemo-la reinar. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. a gente olha. fruto e ninho. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. mexicana dádiva aos canteiros cariocas. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. – Lanceta é que se chama. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. outra acrescenta. urnas santas. não sabia? E a flor. baioneta. semente. ninguém sabe. uma soberba flor por sobre todas. esse luxo do ipê que nem-te-conto.. nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira.. (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Paquetá. gente. toda se entreflora de etiquetas.Rio em flor de janeiro A gente passa. A gente olha. é Léa Távora. a ostentar panículas de pérola. mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. . no Rio flóreo.) Iúca! Iúca. deixa-se florir no alto. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. Tão rainha. Centro. Ipanema. porém mulher se liga à natureza em raízes. Tijuca. coroando folhas pontiagudas e pungentes. Em toda parte a vejo. que era anônima em sua glória.

I. para quem sabe (e é tão simples) ver? 22.1980 . Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa. puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal.Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado.

meu amo. As coxas das romeiras brincam no vento. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não possui. cantam sem parar. mas trazemos flores. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher.ROMARIA A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. e não desta lepra. Já estamos puros. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. café. Jesus meu Deus pregado na cruz. Senhor. sino. Um leproso de opa empunha o estandarte. . prendas e rezas. Jesus no lenho expira magoado. fenômenos. o dia é de festa No adro da igreja há pinga. do amor que eu tenho e que ninguém me tem. No alto do morro chega a procissão. dai-me dinheiro. imagens. Os sinos tocam. há tanta algazarra. Os homens cantam. baralhos. Sarai-me. Nos olhos do santo há sangue que escorre. obrigados. humildemente te peço uma graça. Ninguém não percebe. cheia de pedras. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. Faz tanto calor. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. Senhor. Meu Bom Jesus que tudo podeis.

Os romeiros pedem com os olhos.Jesus Jesus piedade de mim. Por que me perseguem não posso dizer. Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade. pedem com a boca. Não quero ser preso. pedem com as mãos. Jesus ó meu santo. Ladrão eu sou mas não sou ruim não. .

Rosa Rosae Rosa e todas as rimas Rosa e os perfumes todos Rosa no florindo espelho Rosa na brancura branca Rosa no carmim da hora Rosa no brinco e pulseira Rosa no deslumbramento Rosa no distanciamento Rosa no que não foi escrito Rosa no que deixou de ser dito Rosa pétala a pétala despetalirosada .

para não dizer primário. aumentou o meu calvário! 28. por milagre monetário deu um salto planetário. Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. é limpo meu prontuário. navegante solitário. nível de vida sumário. sob o peso tributário.Salário Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. jamais avancei no Erário.5. Não entendo o noticiário. não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário. e cerzido vestuário. muito menos salafrário. vário. escravo de ponto e horário. Sou um simples operário. sou caxias voluntário de rendimento precário.83 . Não sou nada perdulário. me falta vocabulário para um triste comentário. muito acima do ordinário.

São flores ou são nalgas São flores ou são nalgas estas flores de lascivo arabesco? São nalgas ou são flores estas nalgas de vegetal doçura e macieza? .

Fique torto no seu canto. Não ame. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. Tudo é possível. Há homens que andam no mar como se andassem na rua. Não conte. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. só eu impossível. O mar transborda de peixes. . É a revolução? o amor? Não diga nada.Segredo A poesia é incomunicável. Não peça.

O que passou não é passado morto. fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. Adorando. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. ficastes de joelhos em posição devota. Nunca pensei ter entre as coxas um deus.Sem que eu pedisse. adorando. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca. Sem que eu esperasse. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. Hoje não estás sem sei onde estarás. . fizeste-me a graça de magnificar meu membro.

cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. a sopa esfria." .Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando..Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. uma letra somente para acabar teu nome! . Desgraçadamente falta uma letra. No prato.. E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar.

anterior a fronteiras. . Quando os corpos passarem. morto meu desejo. da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. humildemente vos peço que me perdoeis. o céu estará morto e saqueado. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. mas estou cheio de escravos.Sentimento Do Mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. eu mesmo estarei morto. Quando me levantar. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. morto o pântano sem acordes. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Sinto-me disperso.

levando em consideração o poema “Procura de poesia” ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. sem nome. objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia. além do amor) onde nada. sem impaciência e até sem o uso de algumas das faculdades de captação da realidade. sem carne. Ausente o tato. denominado reino das palavras. São Paulo Junho de 2003 SER O filho que não fiz hoje seria homem. estão mudos.SER Análise do poema “Ser” . o poeta entra surdamente no tal reino. não me percebeste contudo chamava-te como ainda te chamo (além. Drummond ainda afirma que neste reino encontram-se os poemas que esperam ser escritos. Ele corre na brisa. Ausente a audição lhe é proibido o tato. O filho que não fiz faz-se por si mesmo. Drummond nega como assunto da poesia todos os temas que constituem o seu universo poético e na segunda parte defende a idéia de que o fazer poético é desvendado como uma experiência atemporal em um ambiente comparável a um rio difícil. O poema “Procura de Poesia” de Carlos Drummond de Andrade é um texto dividido em duas partes: na primeira a evidenciar uma contradição. responde-me o hálito. pois não deve colher o poema no chão. aguardam a realização de seu futuro criador que os deve contemplar sem desespero. Às vezes o encontro num encontro de nuvem. Apóia em meu ombro seu ombro nenhum. . Interrogo meu filho. em estado de dicionário. Note-se. tudo aspira a criar-se.

semelhante ao reino das palavras do poema anterior.além da concretude da palavra “Ser”. lugar este onde o poeta só garantirá. É objeto de ar. mas é a negação que se afirma e encaminha o leitor para o sentido oculto do texto e isso se assemelha às primeiras estrofes de “Procura de Poesia” que negam a obra poética de Drummond afirmada mais tarde pelo próprio ato da procura do ato criador. substantivo abstrato por excelência) que permanece suspenso. torna-se de súbito. não tem nem nome. O poema “Procura de Poesia” seria então. fenômeno. pois o poema constrói-se exatamente sobre uma condição de não existência. o filho que responde através do hálito. ação.encontrado pelo poeta em um reino diferenciado. nem a constatação de que para a poesia é desnecessária a determinação de temas. No poema é o filho que apóia (abraça) o pai com o seu ombro nenhum. todas as coisas que aspiram a criar-se ou que. que será testemunha de uma possibilidade. cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. mudança de estado. em que o poeta esgota as informações objetivas daquele ser: houve um filho que não foi feito e que seria homem. mas de tal forma incisivo na existência do poeta. talvez fenômeno. No terceiro e quarto verso. mas a indicação de que é débil e solitária a experiência poética e nebuloso o lugar que ambienta o ato da criação poética. na totalidade do nada. o sentido profundo do texto. não um método para elaboração de versos. de um vir a ser. algo que pode ou não se realizar e tal poema realiza-se plenamente e em dois níveis: no nível das palavras que tomaram forma e também na manifestação do objeto de ar que constituiu esse filho . devem ser um . aqui com outro nome: o além. perdidas. o título . o filho que não vingou. O título supõe a negação do poema. mas sim a manifestação desse filho que. não correspondendo a qualquer espécie de paraíso. como dita nos versos de “Procura de poesia” prescinde de incidentes pessoais e da revelação da morte. o filho que chama o pai de um lugar além. Em todas as estrofes observa-se a manifestação desse filho. (um advérbio de lugar sugerindo a materialidade do amor. o filho corre na brisa – o filho é o ato de correr e é brisa. o eterno educar de uma geração a outra. relação de proteção do mais velho para mais novo. A relação chave do poema.que também é palavra . pelo contrário. por exemplo. além do amor. o filho é e seria a ação do verbo. além do amor. O poema “Ser” publicado no livro “Claro Enigma” é uma homenagem póstuma de Carlos Drummond.a visão também é imprecisa. ela existe como possibilidade. que parece se inverter a relação pai e filho. Nas estrofes seguintes o filho prossegue em sua constituição de verbo e se um verbo exprime processo. que era agnóstico – alguns o julgavam ateu ao filho que nasceu morto. mas algo indefinível. mas não tem carne. mas mesmo este “seria” e este “homem” já constituem uma outra natureza que se manifesta através dos verbos relacionados durante todo o poema. não é o encontro do pai com o homem. mas a poesia. ente vivo animado – traz também uma contradição. ao adentra-lo. O Poema “Ser” parece concentrar todas as sugestões do poema acima e mais. na sua fenomenologia. contudo. com a exceção dos dois primeiros versos.

ouso fundir tais sutilezas para afirmar que o pai do poema “Ser” penetrou surdamente no reino do filho.marulho em nós de um mar profundo (verso de outro poema de Drummond) exprimindo a eterna aspiração humana de permanecer como essência.pai e filho . Era palavra e hálito. circunstância também observada no poema “Procura da poesia” . O filho se realizou e se consumou e correu na brisa. afirma outro caminho Drummoniano que vai da negação à reinvenção. . A obra de Carlos Drummond se mostra coesa no belo e profundo poema “Ser” e como segue as sugestões do primeiro poema aqui analisado. muito mais que lindas (outro verso de Drummond) que também é um dos temas recorrentes da obra de Carlos Drummond de Andrade. também o chamava e o chama ainda além. O poema termina declarando a força da essência que o filho se constitui – ele se faz por si mesmo . o filho jazia sem desespero e era calma e fresca sua carne nenhuma. O poema então fala de permanência e fala também de todas as coisas findas. como dito acima. Aceitou o tal filho que. algo permanece entre os dois . onde a positividade é extraída de uma atitude de oposição sistemática.e.não obstante. Depreendeu-se do limbo.que se faz continuamente. O que se acabou é o que fica na memória: estranho paradoxo. rio difícil – bem sabe o poeta. além do amor. da concha abstrata? O pai não sabe.

.......lugar nos seus veículos para movimentá-los .Sinal de apito Um silvo breve: Atenção. siga..... Um silvo longo e breve: Motoristas a postos... Dois silvos breves: Pare.... Um silvo longo: Diminua a marcha....) .. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. .(A este sinal todos os motoristas tomam .imediatamente....

A mulher bebeu e cantou. Quando foi hora de sair. – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. era o que faltava.Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. O amigo estava muito satisfeito. E apertou a mão dos dois. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher. soltou uma dúzia de foguetes. O homem comeu e bebeu. No caminho o homem resmunga: – Ora essa. Os dois dançaram. E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. E a mulher ajunta: – Que idiota. A casa é um ninho de pulgas. . o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa.

o canivete é mesmo indesculpável. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. e tenho dito. a nata do Brasil. no recreio. . Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido. Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade.

E das peles que visto muitas há que não vi. à deusa que se ri deste nosso oaristo. Nem Fausto nem Mefisto.1987 Onde nasci.MG . aqui. existo. Onde morri. nenhum. mas não sou eu.Sonetilho do Falso Fernando Pessoa Itabira do Mato Dentro . morri. nem isto. Sem mim como sem ti posso durar. eis-me a dizer: assisto além. .1902 * .* . Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti.

Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno. .Soneto da Perdida Esperança Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para a casa. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora. Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem.

Mandam vir o leite mais nobre. Ovos de qualidade são os mesmos.Suas mãos Aquele doce que ela faz quem mais saberia fazê-lo? Tentam. caprichando. As mãos (as mães?) são diferentes. É tudo igual. . manteiga. a mesma. Insistem. iguais açúcar e canela.

.Sugar e ser sugado pelo amor Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar e ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua.

. Mas acabei confundindo tudo. não sou irônico mais não. o céu tamanho. minha poesia perturbou-se. meus inimigos me odiavam. Mas eram tantas. Ponteei viola. Hoje não deslizo mais não. Eu também já fui poeta. E meus amigos me queriam. Fazia isso. Bastava olhar para mulher. guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. não tenho ritmo mais não. Eu também já tive meu ritmo. pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. dizia aquilo.Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo.

foi um indivíduo genial. Doze meses dão para qualquer ser humano cansar e entregar os pontos. fazendo-a funcionar no limite da exaustão. . e tudo começa outra vez. industrializou a esperança. a que se deu o nome de ano. Aí entra o milagre da renovação. com vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.Tempo em fatias! Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias.

Namorado é a mais difícil das conquistas. fazer sesta abraçado. Não tem namorado quem ama sem gostar. Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques. Não tem namorado quem não gosta de dormir. gabira. tapete mágico ou foguete interplanetário. escondida. não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. lida bem devagar. quem não recorta artigos. de pele. ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele. fugidia ou impossível de curar. brisa ou filosofia. Namorado não precisa ser o mais bonito. fliperamas. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia. ou mesmo de metrô. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. um envolvimento. de poesia de Fernando Pessoa. ainda que rápida. bonde. mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. beira d’água. Não tem namorado quem transa sem carinho. lágrima. quem curte sem aprofundar. Vinícius de Moraes ou Chico Buarque. sanduíche da padaria ou drible no trabalho. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. fazer compra junto. e quase desmaia pedindo proteção. dois paqueras. quem namora sem brincar. sua frio. Se você tem três pretendentes. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. de carinho escondido na hora que passa o filme. Necessita de adivinhação. bosques enluarados. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva. quem não dedica livros. Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas. até paixão é fácil. da flor catada no muro e entregue de repente. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. transa. medo do pai. nuvem. sessão das duas. envolvimento. mesmo assim pode não ter nenhum namorado.Ter ou não ter namorado Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. cavalo. caso. quem vive cheio de obrigações. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. show do Milton Nascimento. nuvem. dois amantes e um esposo. Namorar é fazer pactos com a felicidade. Mas namorado mesmo é muito difícil. Paquera. quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. flerte. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Não tem namorado quem não fala sozinho. . quindim. saliva. quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. quem gosta sem curtir. cinema.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. De alma escovada e coração estouvado. Ponha a saia mais leve. aquela de chita. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. parecer que faz sentido. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. de repente. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. e passeie de mãos dadas com o ar. . cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e.

para perdoar. depois esquece. se não fosse ele. a gente vive. também que graça que a vida tinha? . Mas.Toada Do Amor E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga Não se deve xingar a vida. Só o amor volta para brigar. amor cachorro bandido trem.

Todo dia é menos um dia Todo dia é menos um dia. outra hora você vai conseguir interpretar melhor e saber o que quis ser dito. Para voltarmos sobre os nossos passos. Mas saber calar. é menos um dia para amar e ser amado. é não saber: Ouvir e calar ! Todo dia é menos um dia para dar um sorriso. calar ! Sim. porque calando nem sempre quer dizer que concordamos com o que ouvimos ou lemos. reconheçamos. saber o que falou ou escreveu. E como humanos estamos sujeitos a errar. refletir. é menos um dia para dar e receber. Já não conseguiremos distinguir nossos passos de tantos outros que vieram depois dos nossos. mais raro ainda. estaremos seguindo um caminho.Desculpe. De repente descobrimos que estamos muito longe E já não há mais como encontrar onde pisamos quando íamos. principalmente. que jamais nos trará ao ponto de partida. apenas de um sorriso para sentir um pouco de felicidade ! Todo dia é menos um dia para dizer: . Leia e deixe de lado. Saber ouvir é um raro dom. fui injusto ! Todo dia é menos um dia.Perdoe-me por favor. eu errei ! Para dizer: . . Muitas vezes alguém precisa. menos um dia para ser feliz. é menos um dia para ouvir e. mas estamos dando a outrem a chance de pensar. Por isso use cada dia com sabedoria. Ouça e cale se não se sentir bem. por mais que voltemos. E se esse dia chega. E nosso erro mais primário.

pelo primeiro amasso. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. músico. Depois começou a torcer pela sua liberdade." Tinha gente que torcia para você ser menino. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Torcia para viajar com a turma. falar palavrão. Seus amigos torciam para você usar brinco. E o primeiro gol. torcia torcido. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Torciam para você puxar a beleza da mãe. muito alto. estudar inglês e piano. muito magro. muito gordo. esquerda. E por não saber pelo que você torcia. No dia do vestibular. torceu para o mundo explodir. Primeiro. você aprendeu a torcer. E. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Mesmo com toda essa torcida. Porque. advogado. contra a corrupção. torceu pelo primeiro beijo. Seus pais torciam para passar logo essa fase. Torceram pelo seu primeiro sorriso. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho.Torcida "Mesmo antes de nascer. você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Descobriu que ela torcia igual a você. o bom humor do pai. E quando os hormônios começaram a torcer. Nessas horas. pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. torceu para ela não ter outro. nesse dia. de torcida em torcida. Daí continuaram torcendo. Seus pais torciam para você comer de boca fechada. Provavelmente. Torceram para ganhar a geladeira. Na faculdade. vizinhos. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. então. você só torcia para não ter nascido. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. pela primeira palavra. avós. mesmo antes do seu filho nascer. Pais. Na dúvida. escovar os dentes. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã. ficar até tarde na rua. era torcida pra todo lado. um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. já tinha alguém torcendo por você. pelo primeiro passo. Outros torciam para você ser menina. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. então? E de tanto torcerem por você. Torceu para seus irmãos se ferrarem. Torceu para ela não te achar muito baixo. uma grande torcida se formou. tomar banho. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Mas muita gente ainda torce por você!" . namoradas e todos os santos torceram por você. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. cabular aula. Para a direita. a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. já tinha muita gente torcendo por ele. Começou a torcer até para um time.

"Se procurar bem você acaba encontrando. mas a poesia (inexplicável) da vida." Eu torço por você! . Não a explicação (duvidosa) do mundo.

Inventa-o se puderes com fervor e graça. amor. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos.Três presentes de fim de ano I Querida. O mau gosto e o bom se acasalaram. Agora então. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? . Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. um perfume. não passa nem sequer tem nome. II corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo. é impossível. não no fundo amor. o tempo é simples ruga na carapaça.

. Desculpe... não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem). amor.E aquele quadro (objeto)? aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço a sua voz entre alto-falantes.

o enfado bolorento de São Cristóvão. sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana. a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé. com rádio e telefone automático .Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam "bus-co a cam-pi-na se-rena pa-ra li-vre sus-pi-rar" esqueciam a guerra do Paraguai.

Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto. nem saudade nem vão propósito. . riqueza ciência. como líquido. E não sabe se é noite. Triste farol da ilha rosa. sob o vento. Nenhum pensamento de infância. circula. A soma da vida é nula.. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado. A alma severa se interroga e logo se cala.. Mas é apenas. e seria a morte. mar ou distância. Suicídio. Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta. a integração da noite.

e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos. fim. civilmente mágico. apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos. sem conflitar? E de cada gota redigia nome. das supostas fórmulas de abracadabra."Um chamado João" "João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas. cada qual com a cor de suas águas? sem misturar. dos poderes. inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar. florindo como flor é flor. falando? Guardava rios no bolso. sésamo? . ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido. curva. mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora. para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos. buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel.

para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar.. (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeíam de antes do princípio. códigos.Reino cercado não de muros. chaves.." . que se entrelaçam para melhor guerra. mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com.

. Há uma queixa abafada em sua docilidade. A pedra é sofrimento paralítico.Unidade As plantas sofrem como nós sofremos. eterno. Por que não sofreriam se esta é a chave da unidade do mundo? A flor sofre. tocada por mão inconsciente. Não temos nós. sequer o privilégio de sofrer. animais.

Os saltos mais perigosos são fiorituras aéreas. meu bem.ÚNI DÚNI TÊNI úni dúni têni salamêni. É anjo? ou mulher? ou homem? Sobre a pergunta sem nexo. De "Amar se Aprende Amando" . no vão entre céu e terra. o novo arco-íris desdobra todos os raios do sexo. No limite da coragem. um anjo luminescente zomba da morte e da guerra. balança entre um e outro trapézio. No verde tom da esperança. Circula o risco no espaço como sangue nas artérias. Balança. a cor de prata do césio.

Er. Vou crescer assim mesmo. corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. ser? Dói? É bom? É triste? Ser. R. Sem ser Esquecer. e cabe tantas coisas? Repito: Ser. Ser. Não vou ser. Ser. pronunciado tão depressa. um jeito. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome.Verbo Ser Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo. um nome? Tenho os três. .

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Cada um optou conforme seu capricho. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade.Verdade A porta da verdade estava aberta. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Derrubaram a porta. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. Arrebentaram a porta. E os meios perfis não coincidiam. E carecia optar. sua ilusão. sua miopia. . Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. Assim não era possível atingir toda a verdade.

II No mais alto ramo Deus está pousado com uma garra apenas e fita o mundo. acaso. Do mais alto ramo desfere vôo e sai por aí bicando as coisas. Ao sumir crocita: "Hoje te perdôo.Versos de Deus I Ao sentir nos pássaros tanta liberdade e aéreo poder. antes referência que repreensão. E dói. imagina um pássaro superior a todos e tão invisível que seu vôo deixe sensação de sonho. III Bica-me Deus de manso nos olhos. só o sabe Deus. Com leveza e graça o homem pensa Deus. indiferente às coisas bicadas." O que Deus perdoa. IV Deus rumina que fazer. Alisa o bico no local. encantadas. .

Mais um terremoto? De que proporções? Uma nova guerra? De quantas nações? Que margem ceder ao capricho do homem? Vai nascer um artista? Nascerão idiotas? Surgirão robôs? V Ao findar o tempo tudo se acomoda à sua vontade. (in A Paixão Medida) . gemidos. Já não há projeto de outro Deus ou vários. mas agora é tarde. O homem arrependo-me da criação de Deus. crepúsculo sempre continuado. Laços entrançados.

.. De Clarice guardamos gestos. tetos fosforescentes.Visão de Clarice Lispector Clarice. Clarice não saiu. pontes do Recife em bruma envoltas. retrato. Deixamos para compreendê-la mais tarde. escadarias. são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. partiu para outro. onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. não se percebe mais. veio de um mistério. apenas. Mais tarde. cuidados. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo. Dentro dela o que havia de salões. Fascinava-nos. Ficamos sem saber a essência do mistério. De Chirico a pintou? Pois sim. só e ardente. e retratar o homem. mesmo sorrindo. longas estepes. São coisas. zimbórios. possíveis coquetéis à beira do abismo. era Clarice viajando nele.. carteira de identidade. Ou o mistério não era essencial. ela dona de tudo. Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. o país onde Clarice vivia. construindo fábulas. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. O que Clarice disse. um dia. edições. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. Clarice não foi um lugar-comum. providências. formava um país. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou. Gestos. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. saberemos amar Clarice. os cumprimentos falavam em agora. Os papéis.

apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana. mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo. um tempo feliz. . A dor é inevitável. para conversar com um amigo. que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável. mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos. na prudência egoísta que nada arrisca. Sofremos não porque nosso time perdeu. para nadar. todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. perdemos também a felicidade. esquivando-se do sofrimento. mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. como tudo o que é simples. pela eternidade. para namorar. mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos.Viver não dói Definitivo. Nossa dor não advém das coisas vividas. Sofremos não porque envelhecemos. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco. O sofrimento é opcional. e não compartilhamos. e que. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco. por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas. mas porque o futuro está sendo confiscado de nós. mas pela euforia sufocada. nas forças que não usamos. Por todos os beijos cancelados. impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado.

poeta do sensível e da dura substância. uma profunda sensação de perda e desgaste envolve a viagem poética rumo à revelação que está sempre a se insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. estou rigorosamente noturno.. Além. poeta da família. desde o princípio. muito além. da pedra no meio do caminho. sua miopia). Apesar de recriminado por alguns por não ter mantido as diretrizes iniciais ao longo de sua extensa obra. sua ilusão. como se fora . do agudo olhar sobre a existência (Que triste são as coisas consideradas sem ênfase) – múltiplas foram as leituras provocadas por sua poesia. (. Poeta de vasto sortimento de memórias. com justiça. que. estou vazio. em rugas e cabelo. por ter feito muitas concessões. dos acontecimentos. da cidade que dói. com suas palavras. Como uma resposta talvez à “Procura da Poesia”. dos poucos que conseguiram elevar a confissão ao nível do universal. na medida em que sua poesia avança. A segunda sempre a dominar o ato criador. como uma resposta talvez às inquietações que já se faziam ouvir em A Rosa do Povo:Estou escuro. construídas sob a gestão de um inegável rigor poético. enfim. símbolos e outras armas. Embora a inesgotável riqueza dessa poesia seja há muito assunto fora de questão (mesmo que insistimos em reivindicá-la).) cada um optou conforme seu capricho. Forças que impõem uma série de reflexões a quem se comprometa na arte de interpretá-las. Seu verso manifesta uma vontade ardente de ver e de fazer ver (A porta da verdade está aberta (. Além da cidade. o que de melhor se fez na poesia brasileira do século XX. Nele pode-se encontrar tanto o poeta que promete ajudar a destruir..) preciso aceitar e compor. Como uma resposta talvez às perguntas lançadas em “Versos à boca da noite”: Escreverei sonetos de madureza?/ Darei aos outros a ilusão de calma?/ Serei sempre louco? Sempre mentiroso?/ Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? São essas as indagações de quem atingiu uma inteligência do universo/ comprada em sal. da crueldade e diamante. numa linguagem reveladora da mais alta realização estética. a marcha do mundo capitalista. da natureza e dos homens em sociedade..Drummond: um Claro Enigma na Escuridão do Mundo e da Alma Marlise Sapiecinski É quase desnecessário dizer que. minhas medidas partiram-se. Carlos Drummond de Andrade representa. Chega-se muito próximo à verdade. potencializada pelo confronto entre duas forças fundamentais: sensibilidade e inteligência. intuições. Forças que assumem um caráter particular quando se trata de um livro como Claro Enigma. isso ainda não é poesia. Efetivamente. em relação ao qual avulta a dimensão filosófico-existencial de composições mais do que nunca depuradas. poeta da anulação. o que mais de perto interessa perceber é que parece ter sido. mas jamais se consegue atingir a desejada síntese. superando as exigências expressionais de sua época e contribuindo para a constante renovação do modernismo. da merencória infância. poeta do obstáculo. É um acentuado sentimento de fracasso que o leva a se apresentar em Claro Enigma de modo a assumir a medida de desrazão que a vida comporta. a verdade é que Drummond deixou rastros que apontam para muitas direções. que ele sabia além.. do pensar e do sentir: O que pensas e sentes. do próprio corpo. uma forma de conhecimento a um só tempo pessoal e altamente artístico. harmoniosamente conjuga pensamento e emoção criativa.

em favor de um simbolismo abstrato. seja em relação à experiência amorosa. o poeta que. e. De qualquer maneira. a sua própria sensibilidade o levou a essa depuração./ Não quero ser senão eterno. refratário à figuração social. uma poesia que apresenta uma capacidade inesgotável de surpreender. nesse momento. o de que carecemos. É o sentimento agudo do relativo. de mas. apenas comunicar o essencial sentimento do mundo. naquela vertente poética inaugurada por Baudelaire e proclamada por Rimbaud. Com efeito. Talvez por isso não se prenda definitivamente nem mesmo às questões de ordem mais técnica. na maturidade. muitos. toda a produção drummondiana revela. se apresenta em vários níveis. A representação consciente da urgência histórica. presente de forma explícita em A Rosa do Povo. fabrica um elefante e cotidianamente o recoloca na rua. A perda de certas ilusões coincidirá com a presença de um estilo de natureza clássica e um conseqüente distanciamento da representação social-concreta. abafado. assumiu completamente suas qualidades de master. é substituída pelo olhar lançado sobre a tradição. como o soneto. de talvez. Nesse momento. a situação espiritual de nossa época. com seu verbo antipático e impuro. um verme. Essa é a grande lição da poesia de Drummond: a de não se pretender lição de nada. o poeta mineiro foi. o que de mais profundo Claro Enigma registra é o abalo que a negatividade histórica exerce sobre a consciência. às exigências de seu próprio questionamento existencial e de sua aptidão a interrogar. em relação a luta fáustica pelo conhecimento. de que a nada se pode outorgar a condição de absoluto. como também o poeta do soneto duro. advinda talvez da idade madura. intensificando a sensação de inutilidade em relação ao conhecimento adquirido. uma atividade lúdica da razão. há de fazer sofrer. para além das particularidades da postura assumida na fase de Claro Enigma. fiel à ética de uma poesia que nunca deixou de se espantar com a vida e com o mundo. de onde afloram infinitas incertezas e outras tantas desconfianças. sobretudo. na busca de um contato mais íntimo com o passado literário. na famosa definição de Valéry. transforma-se. em direção à maior pureza lírica. principalmente. senão eterno: E como ficou chato ser moderno/ agora serei eterno. que respondem. seja em relação a validade do que escreve. É assim que se pode pressentir em Claro Enigma uma espécie de síntese. de diferentes maneiras. difícil de ler. do soneto escuro. o que não é . poetas que não se deixam apreender de uma só vez nem almejam qualquer forma de catequização.uma pedreira. purificada e sóbria. seco. de se. novos modos de comunicação. alimentando perquirições que se refletem de forma decisiva na linguagem. sob a forma de símbolo. familiar ou histórica. Sua poesia é feita de permanente questionamento e exigência artística. em instâncias penetradas de dúvida. que penetra seu tempo de modo a apontar suas mais íntimas contradições. profunda e absolutamente moderno. Há ainda outros. como disse Alfredo Bosi. Modernista ou clássico. Nesse sentido. pois ele nunca encontra o de que carecia. as crenças anteriores e a fé depositada na esperança de que havemos de amanhecer aparecem sombreadas por céticas reservas de tempo. uma festa do intelecto. do precário em que se resume toda a existência humana. que busca nas formas tradicionais de composição. de seus parcos recursos. O que antes era certeza de sim ou de não. de miglior fabbro. exigida talvez por um incansável espírito perquiridor. uma floresta. que há de pungir. como percebeu Merquior. da incomunicabilidade da própria poesia. Essa crise. Cônscio de seu ofício. na verdade.

os mais excelentes. E o que é mais absurdo: dizer que se poderia admitir que se encerraria aí a carreira de Drummond. parece alimentar-se em Claro Enigma de pressentidas descrenças em doses de amarga . Ora. Essa aparente descrença no ato criativo revela. melodiosas.suficiente. E em “Confissão” revela: Não amei bastante meu semelhante. taciturno. Não deixarei de mim nenhum canto radioso. dissolvidos os ideais de criação. Só proferi algumas palavras. sem aquela vigorosa versatilidade do passado. mundo. sobretudo do “poeta maior” voltado para os grandes problemas do homem e da vida. breve o tempo esqueceu minha incerta medalha. Diz o poeta em “Legado”: Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei. como compor um homem e tudo o que ele implica de suave. para que se possa afirmar. pois o formalismo o controla. já que parece ter deixado de crer na poesia como algo merecedor de preito excepcional. o quanto o poeta era cioso de seu ofício. Dei sem dar e beijei sem beijo. ao voltar da festa. ou antes. entre eles Emanuel de Moraes. que o seu novo conceito de poesia poderia efetivamente tê-lo paralisado. onde. e não te engano a ti. em sua maioria. murmúrios de riso. o que nos parece é justamente o contrário.) E na meia-luz tesouros fanam-se. momento em que as canções de timbre mais comovido estão caladas e os homens surdos aos apelos da alma. entretanto. explicitamente exposto através da fúria metapoética de “Oficina irritada”. (Cego é talvez quem esconde os olhos em baixo do catre. a vagar. saem-lhe forçadas. um sentido superior de arte. que se perfaz numa angustiada inquietação expressiva. como muitos o fizeram. tarde. apesar do desânimo produzido pela seqüência de desilusões político-filosóficas. e já não compactuando com uma poesia que quer servir de consolo. amor e piedade? Aquele desejo ético de que a palavra pudesse de alguma forma interferir no plano dos acontecimentos. E mereço esperar mais do que os outros. não os cativa Orfeu. uma busca ansiosa de um universalismo estético. de concordâncias vegetais. Do que restou. a rigor. tudo quanto senti? Na noite do sem-fim. e a meu nome se ri. a única reação possível é a de culpar-se por não ter conseguido comunicar o que pretendia. desejaria poder deixar ao mundo seu legado de esperança. entrega. Esse sentimento fica patente em sonetos como “Legado” e “Confissão”. uma voz matinal palpitando na bruma e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. eu? Tu não me enganas. que as composições de Drummond. não catei o verme nem curei a sarna. Esses monstros atuais . definitivo nos versos de A Rosa do Povo. entre o talvez e o se. Severo em extremo consigo mesmo.

parece que a resposta é não. no perene trânsito do mundo. que o destino do poeta gauche está irremediavelmente ligado ao menino antigo. Lembrar-se de Drummond somente através das citações e referências habituais a textos como “No meio do caminho” e “Poema de sete faces” ou enfaticamente repetindo o “E agora. Nesse sentido. Dessa tentativa de ajuste avultam os versos de poemas significativos como “Os bens e o sangue” e “A mesa”. longe da experiência pessoal: esses monstros atuais. cuja consecução envolvia refazer na sua própria obra a trajetória toda da poesia ocidental de modo não apenas a atualizar e revivificar o passado. obviamente. diz o poeta em “Legado” e ironicamente conclui: De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida. à sua maneira perfeitas. Acostumado a interrogar cotidianamente à existência. poema de abertura do livro. é preciso reconhecer que eles não exemplificam todas as qualidades artísticas do poeta. Realizando essa façanha.ironia. o fato é que para alguns Drummond continua sendo o poeta que estreou com Alguma Poesia e se consagrou com os versos socialmente engajados de A Rosa do Povo./ uma pedra que havia no meio do caminho. a solução encontrada pelo poeta. É nesse espaço que se dá o confronto com o passado através de um diálogo há muito desejado. a provar. preenchendo as lacunas que esta havia deixado na literatura. É assim que o filho explica ao pai suas incômodas posições do tipo gauche. tornou-se vários poetas. completa Ascher. nada resta. Nesses momentos o poeta transcende o próprio modernismo e. não os cativa Orfeu. sem qualquer tipo de objeção ao Drummond explicitamente modernista. pois o resto se esfuma. Seja como for. antevista em “Dissolução”. Em meio a paz destroçada. não satisfaz o espírito perquiridor de um eu lírico cansado de desilusões. Apesar da antiga vontade de poder ajudar a mudar o percurso dos acontecimentos. José?” é o mesmo que ignorar uma parte substancial de sua obra. onde a dúvida completa a visão de um horizonte poético no qual sua própria história se perfaz em negatividade. como se a condição presente paradoxalmente exigisse a negação do passado ao mesmo tempo em que requer a sua presença permanente: Como ser uma negativa maneira de te afirmar. Nelson Ascher já se perguntara se os textos maduros e trabalhados de livros como Novos Poemas. é calarse. ou melhor. Como desconfiou Ascher. ao poema que se tornou a mais conhecida e citada obra poética do modernismo brasileiro: “No meio do caminho”. restará. por exemplo. Mergulhado numa espécie de cansaço intelectual. não menos do que Pessoa ou qualquer outro dentre os grandes. referindo-se. mais uma vez. sua linguagem se movimenta em direção a uma expressão mais puramente lírica. um poeta múltiplo. mas a corrigir também uma parte da história da língua e do país. Mesmo reafirmando-se tantas vezes a qualidade estética dos poemas de estréia. verdadeiramente. no poema “A mesa”. mas. cujo legado seus . Claro Enigma. afinal. fatigado pela antiga procura. Fazendeiro do Ar e A Vida Passada a Limpo foram suficientemente compreendidos e assimilados pela crítica de poesia brasileira. diz ele em “Remissão”. Por tudo isso é que se pode afirmar que na obra de Drummond parece haver um movimento constante de aproximação e afastamento dos temas ancestrais. a trilhar arduamente o próprio caminho em direção ao conhecimento que nunca se completa. onde se podem encontrar criaçõesmenos definíveis. por isso. pressente-se que qualquer transformação histórica situa-se. imerso no crepúsculo existencial. como “Fraga e sombra” ou “A máquina do mundo”. mesmo. alcança uma modernidade mais profunda. Assim. “A máquina do mundo” já não seduz esse eterno peregrino da estrada de Minas pedregosa com fáceis convites à leitura dos mistérios do mundo. do que escreves. Drummond. ele despreza o que lhe é dado de graça pela visão que escapa a possibilidade racional de apreensão do universo e.

nada disso agradava ao estilo purista que surgia. Na verdade. e o programa concretista.conterrâneos mal começaram ainda a avaliar (apesar da abundância dos estudos dedicados à compreensão crítica de sua obra). De nosso ponto de vista. ao longo de sua obra. e não como uma pausa na evolução poética drummondiana. conta-nos Heitor Ferraz. para usar uma expressão de Merquior. um livro tão desconcertante que os jovens de 45 tiveram de mudar rapidinho de discurso. depois de ter verificado em Claro Enigma. Porém. como muitos querem fazer acreditar. ‘dono do mais ponderável corpo de poemas que já se formou em nossa história literária’. manter sua forte dicção sem cair em malabarismos verbais ou numa literatura de ornamento. Gilberto Mendonça Teles. mestre de coisas’. mas respondeu com Claro Enigma. Não faz crítica séria de livros de poesia. foi duro na crítica: ‘O Sr. Assinalando a impressionante presença de Drummond no cenário poético do século XX. Novas cutucadas. Ele havia mostrado o quanto dominava as formas clássicas a ponto de. para além de sua importância no quadro da poesia modernista. Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos poemas que publica. É. pregando a volta do soneto e dos temas ditos elevados. chegou a dizer que Lição de Coisas é o mais atual dos livros de Drummond por sua maior adequação às experiências mais recentes da poesia brasileira. nesse sentido que se deve entender o modernismo classicizado de Claro Enigma. apesar de reconhecer a importância de Carlos Drummond de Andrade. na busca de uma depuração cada vez maior das formas poéticas. Drummond era o alvo predileto de Lêdo Ivo e de tantos outros. uma total identificação com os princípios da geração de 45. Heitor Ferraz lembra a resposta do poeta mineiro em dois momentos significativos da poesia brasileira: Primeiro. . poucos anos depois. mas é compreensível o pito que Faustino passa em Drummond. não há nenhuma barreira que separe o verso livre das formas tradicionais enquanto possibilidade de expressão. principalmente. a rigor. Em 1957. lembrando a inventividade bem tramada de “No meio do caminho”. Haroldo de Campos publica o ensaio ‘Drummond. Um ensaio que não reivindicava nenhuma ‘influência ou contágio’ da nova poesia nos poemas de Drummond. Ao que saibamos. não discute a sério poesia. Drummond sentiu os ataques. Mário Faustino. não foram poucas as visões equivocadas sobre a obra de Drummond. O coloquialismo. de forma inexata.’ Hoje. erroneamente chamada por Haroldo de Campos de estação neoclassizante. especialmente em relação às publicações posteriores a A Rosa do Povo. E se alguns o consideram o livro mais isolado da obra do poeta mineiro. Não manifesta grande interesse pelo progresso da Poesia. Com efeito. Não escreve a sério sobre poesia. nem oralmente nem por escrito. mostrando que.o que não passa de um engano de leitura. Claro Enigma representa uma das mais intensas tentativas de compreensão da “Máquina do mundo”. um texto desse calibre chega a ser risível. longe de se afastar das preocupações com o elemento humano e com o seu tempo. em 1962. que acabara de ser publicado. no caminho pedregoso da poesia. mas ao contrário: ‘foi a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certa linha da poemática drummondiana’. os temas do cotidiano. utilizando-se de todos os recursos expressivos. E até mesmo chegaram a dizer que o poeta havia aderido ao novo programa . por revelar as mesmas inquietações poemáticas dos grupos de vanguarda. em que aponta ‘as confluências e pontos de encontro’ entre Lição de Coisas. Nesse momento. Drummond evolui continuamente em direção a atualização constante de seu instrumento lírico. apesar da pretensa abstração. Calase. ocorria a exposição de arte concreta no Ministério da Educação e Drummond não se mostrara nem um pouco entusiasmado por essas experiências. o único que ele dedicou ao poeta. entretanto. dentro delas. com a famosa geração de 45. por exemplo. Num segundo momento vieram os jovens da poesia concreta.

Pedregoso caminho. escravo confesso das palavras. num grau superior ao das outras artes. na luta cotidiana pela expressão mais prefeita. . como costumavam dizer Mário de Andrade e Abgar Renault. um apelo às mentes e as espíritos. Penetrar sem piedade a natureza humana e fluir em versos pelos seus condutos: esse é o canto do poeta de uma linguagem de rara densidade de pensamento. representando o sacrifício do que era mais significativo em sua linguagem. porque o filósofo alemão entendia que toda a verdadeira arte é essencialmente uma interrogação. dos maiores de nosso tempo. endereçada ao coração sensível. infenso as seduções que corrompem. para envolver tua efígie lunar. ó quimera que sobe do chão batido e da relva pobre. que mesmo nos melhores momentos de sua obra é capaz de repetir: Triste é não ter um verso maior que os literários. desorbitado. E compreende-se. Seja como for. seu caráter inventivo. é verdade. outros há que entendem que o nível de realização estética que a poesia de Claro Enigma atingiu é dos mais altos de nossa língua.porque parece escapar às matrizes de sua poesia. construída sob a gestão de uma inteligência diabólica. afinal. em favor de uma depuração maior. Poeta do mais verdadeiro sentimento de humildade. se compreende porque. mas enriquecido de sabedoria. Hegel elegeu a poesia como a arte universal. e por isso sempre caminho possível para a libertação. É assim que. a poesia de Drummond é radicalmente problematizadora das infinitas relações do homem com o mundo. é não compor um verso novo. ainda assim. longe de esgotar o significado da poesia contida na excelência do verbo que se revela em Claro Enigma. isto é. principalmente.

Sentimento do Mundo (1940). Só as elementares: meu progresso é lentíssimo. Refleti logo. não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema. declaro que nasci em Itabira. mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. num desastre de bonde na Rua São Clemente. relutei a princípio. e um poeta desarmado é. tive que retirar a minha posição. é verdade que mais velho que a maioria dos colegas. tinha saudades da família. com os jesuítas. alguma coisa se compôs. Mário Casassanta levou-me para a burocracia. da contemplação e mesmo da ação. Ao sair do grupo escolar. ao músico. Primeiro aluno da classe. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Rio de Janeiro. da leitura. traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. mesmo. filho de pais burgueses.. tomei parte da guerra européia (pesa-me dizê-lo) ao lado dos alemães. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida.Autobiografia de Drummond *Publicada em Confissões de Minas (Ensaios e crônicas). 1944.contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minhapassagem pelo mundo. como redator de jornais oficiais e oficiosos. sendo inevitável a biografia. dócil às modas e compromissos. por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. Infelizmente. Isto posto. praticando aparentemente um ato de vaidade. e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo. falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo. e todos os outros bons sentimentos. em Belo Horizonte). O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu. Mas ganhei vida e fiz amigos inesquecíveis. a desafiar-me com seus pontos de interrogação. Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume.era preferível que eu próprio a fizesse. Dois anos em Friburgo. alguns anos depois. sincero ou não gratificar-me. não me julgo substancialmente e permanentemente poeta. de que tenho tirado o meu sustento. comportava-me como um anjo. se organizou. que me criaram no temor de Deus. Eu liquidava esses outros. Primeiro. fui lecionar geografia no interior.Entro para a antologia. sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica. Mas iríamos longe nesta conversa. porém. . Minas Gerais. exige-se pouco do nosso poeta. Voltei a Belo Horizonte. que. Perdi a Fé. Até os poetas se armam. Meu primeiro livro. Segundo. Quando o primeiro navio mercante brasileiro foi torpedeado. por que. mas expulsaram-me por "insubordinação mental". Perdi tempo. mas apareciam novos. no ano de 1902. com que o redator da revista quisesse. pela autoridade natural que me advém de ter vivido a vida. insignificante em si. e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa. o individualismo será mais exacerbado. no fundo castigo meu orgulho. e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais: No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. De repente. ao romancista. menos do que se reclama ao pintor. componho muito pouco. A esse tempo já conhecia os padres alemães do Verbo Divino (rápida passagem pelo Colégio Arnaldo. e não outro. que se desmanchavam para dar lugar a outros. Já em Brejo das Almas (1934).Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia. mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo. Casado. um ser à mercê de inspirações fáceis. Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade. a vida começou a impor-se. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Alguma Poesia (1930)..

alto e raro. Isto feito. O obscuro enigma dos astros Intui. Manuel Bandeira . O poeta por Manuel Bandeira Carlos Drummond de Andrade Louvo o Padre.Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. capta em claro enigma. Santo. Claro. e após outra Trindade Louvo: o homem. No Sentimento do Mundo. o Filho. Prima em Alguma Poesia. O Espírito Santo louvo. Prima na Rosa do Povo. Prima no Brejo das Almas. Sempre é poeta de verdade Esse homem lépido e limpo Que é Carlos Drummond de Andrade. o Espírito. o poeta. o amigo Que é Carlos Drummond de Andrade. (Lírico ou participante. Louvo o Padre. De resto Ponteia em viola viola de bolso Inteiramente à vontade O poeta diverso e múltiplo Que é Carlos Drummond de Andrade.) Como é fazendeiro do ar. louvo o Filho. louvo aquele Que ora chega aos sessent'anos E no meio de seus pares Prima pela qualidade: O poeta lúcido e límpido Que é Carlos Drummond de Andrade.

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