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É possível prevenir a violência? Reflexões a partir do campo da saúde pública Is it possible to prevent violence? Reflections in public health area

DEBATE DEBATE

Maria Cecília de Souza Minayo 1 Edinilsa Ramos de Souza 2

1 Centro Latino Americano de Estudos sobre Violência e Saúde (Claves), Escola Nacional de Saúde Pública, e Vice-Presidência de Saúde, Ambiente e Informação, Fundação Oswaldo Cruz, Av. Brasil 4365, 21041-210 Rio de Janeiro, RJ, Brasil mcmina@castelo.fiocruz.br 2 Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde “Jorge Careli”, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz edinilsa@gbl.com.br

Abstract The authors debate the possibilities and difficulties of preventing the various forms of violence from the point of view of public health. They define terms like prevention, promotion of health and the complex concept of violence. They present the Brazilian context facing the serious problems that social violence means to the health area. They offer prevention proposals in course in diferents countries, including Brazil. They conclude that violence can be undone because it is a social and historical phenomenon which is constructed in society. Due to its complexity, any process of intervention should contain macro-structural, conjunctural, cultural, relational and subjective issues. At the same time, it should specify the problems, the risk factors and the possibilities of change. Key words Violence; Prevention; Promotion of Health

Resumo As autoras discutem sobre as possibilidades e dificuldades de prevenir as diferentes formas de violência a partir do campo da saúde pública. Conceituam as noções de prevenção, promoção da saúde e o complexo conceito de violência. Situam o contexto brasileiro diante dos graves problemas que a violência social significa para o setor saúde e apresentam propostas de prevenção em diferentes países, inclusive no Brasil, algumas já em andamento, outras ainda em fase de elaboração. Concluem que, por se tratar de um fenômeno histórico-social, construído em sociedade, a violência pode ser desconstruída. Dada a sua complexidade, qualquer processo de intervenção deve abranger questões macro-estruturais, conjunturais, culturais, relacionais e subjetivas, bem como focalizar a especificidade dos problemas, dos fatores de risco e das possibilidades de mudança. Palavras-chave Violência; Prevenção; Promoção da Saúde

Para que isso ocor- . coletivas. os Estados Modernos assumiram para si o monopólio legítimo do exercício da violência. Se é verdade que. Essa visão começa a mudar na década de 60. são criados programas nacionais de prevenção primária e secundária. antes representados pelo capítulo 17 da CID-9. como um espectador. um contador de eventos. na 10a revisão. em sua 9a revisão. as doenças infecciosas e a violência são as principais causas de mortalidade prematura’’ (OMS. E. que escolheu a prevenção de acidentes e traumas como tema do Dia Mundial da Saúde em 1993. 1996). houve um grande esforço teórico-metodológico e político para compreender a saúde como uma questão complexa. Algumas vêm do próprio âmbito onde historicamente o fenômeno tem sido tratado. assumiu os códigos V01 – Y98. Desta forma. Está incluído há muitos anos. assim como o de violência. omissões e acidentes. Esse grupo de causas que abrangia os códigos E800 a E999 da CID. e entregando-a ao exército. a partir das décadas de 60 e 70. apresentou-se dentro dos limites dos conceitos biomédicos. entendemos que o tema da violência não entrou no setor saúde de forma natural. Mas não o é. retirando-a do arbítrio dos indivíduos. diagnosticar e medicar a chamada síndrome do bebê espancado. Sendo assim. ferimentos. também no paradigma da modernidade. as relações entre o conhecimento científico e a intervenção social. parece que nossa argumentação é contraditória ao exposto anteriormente. mesmo quando politicamente se tenha assimilado ao setor o conhecimento ampliado de saúde. O conceito de mortalidade por causas externas engloba homicídios. nesse sentido. 1995). A experiência de notificação por essa rubrica na CID e a divulgação comparativa mundial dos dados aí sintetizados têm permitido estudos das mais diferentes áreas do saber. tornando público e passível de intervenção social um problema tradicionalmente e até então. Desde que se constituíram. sobretudo com os instrumentos que são mais caros ao campo como as noções de prevenção e promoção. Para isso buscaremos articular esses conceitos. S. às polícias e aos aparatos da justiça criminal (Burke. as práticas promocionais e assistenciais freqüentemente continuam se restringindo aos contornos paradigmáticos tradicionais. pois sua incorporação se dá sob con- dições de não romper a racionalidade médica positivista. terreno de quase monopólio do modelo médico e biomédico. e depois em outras regiões. propiciado propostas de políticas públicas e a compreensão da eficácia de determinadas intervenções. Assim. A própria OMS. o terreno do direito criminal e da segurança pública. freqüentemente fragmentadas e desarticuladas. os maus-tratos como grave problema de saúde pública. uma frase de William Forge “desde tempos imemoriais. tentando provocar um debate necessário na pauta tradicional do setor saúde. freqüentemente voltada para os termos biomédicos que dizem respeito à saúde física e à história natural das doenças. nunca um tema provocou tantas reticências para sua inclusão como o impacto da violência no setor. Outros motivos vêm do campo específico da saúde. As razões são muitas. vários países também reconhecem. considerado de foro privado. cuja racionalidade tende a incorporar o social apenas como variável “ambiental” da produção das enfermidades. porém. Ele se impôs e assim o fez por muitos fatores. o setor saúde olhou para o fenômeno da violência. 1993). um reparador dos estragos provocados pelos conflitos sociais. queimaduras e intoxicações por agressões interpessoais. para as análises de mortalidade (OMS. C. por essa ocasião. A pediatria americana passa a estudar. atualmente estão referidos nos códigos S e T da CID-10. numa das especialidades mais sensíveis do campo médico. E. Introdução Neste artigo pretendemos colocar em discussão a participação da saúde coletiva na abordagem teórica e prática da violência. Uma década depois. R. na década de 70. repetia. Para os estudos de morbidade. Até há bem pouco tempo. os eventos violentos. primeiro nos Estados Unidos e no Canadá. & Souza. M. suicídios e acidentes fatais e o de morbidade recobre as lesões. guerras. tanto nas situações cotidianas como nas emergenciais provocadas por catástrofes. 1985. na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS) sob a denominação “Causas Externas”. genocídios e terror político. além de centrais de denúncia. formalmente. dos grupos e da sociedade civil. com determinações sociais e condicionantes culturais. Ponto de vista que se coaduna com a forma como vêm se apresentando. envenenamentos. fraturas. Em primeiro lugar.8 Minayo. colocando-a como um sério problema para o crescimento e o desenvolvimento infantil.

que acumularam 83% de toda a produção intelectual até então disponível (Minayo et al. instados por investigadores da área da saúde. a violência fundamentada no gênero. Não sem oposições que até hoje se expressam. criando nova mentalidade e buscando implodir a cultura patriarcal. sobretudo do sexo masculino. por um lado.9 Ciência & Saúde Coletiva. A transição epidemiológica nacional. as instituições de direito. 1994) Em toda a sociedade ocidental. Desta forma. e ao comportamento arbitrário e discriminatório do Estado personificado nas ações ilegais e ilegítimas de seus próprios agentes de segurança. institutos de pesquisa e serviços. desenhando estratégias de prevenção e de assistência mais específicas. no Brasil. as causas externas e os neoplasmas ocupam os três primeiros lugares. os movimentos sociais pela democratização. estão sendo cada vez mais atingidos como vítimas e autores e que as causas de suas mortes por homicídio e por acidentes de trânsito (sobretudo de carro e moto) estão vinculadas ao estilo de vida moderno. 1999 resse. Primeiro tomaram consciência do problema os epidemiologistas e os psiquiatras. abuso sexual. vários municípios iniciaram atividades de articulação com outros setores públicos e da sociedade civil. e mais particularmente no Brasil. à ausência de um projeto político e de sociedade capaz de incluir e não. sobretudo pelas formas de se impor ou se ignorar as prioridades politicamente relevantes: falta de adscrição de espaços institucionais na agenda pública e escassa destinação orçamentária para seu desenvolvimento.. nas observações sobre as mudanças no perfil de morbi-mortalidade no mundo e no país. crenças e práticas. e na sua ação. a conflitos e desigualdades crescentes na sociedade. na própria ampliação contemporânea da consciência do valor da vida e dos direitos de cidadania. se inclui na fundamentação do conceito ampliado de saúde que incorpora a compreensão e a mudança de atitudes. Em nosso país. Outro fenômeno importante cuja influência contaminou o campo da saúde foi o movimento feminista. vem apontando para a substituição das antigas epidemias e das doenças infecciosas e parasitárias para um perfil onde as doenças do aparelho circulatório. 4(1):7-32. algumas organizações não governamentais (ONGs) de atenção aos maus-tratos na infância. não apenas para os cuidados assistenciais e pontuais oferecidos nas emergências hospitalares. mas ainda fortes. pelo contrário. têm gerado mudanças essenciais nas abordagens do setor saúde. mutilação. observada do ponto de vista da mor- talidade. já articuladas com setores da sociedade civil dedicados aos direitos da infância e da adolescência. Até a década de 60 as violências situavamse no quarto lugar no perfil de mortalidade geral. O mais preocupante dessa mudança é a evidência de que grupos jovens. à impunidade das infrações e delinqüências. tiveram papel fundamental para essa inclusão. o fenômeno da violência pode ser de fato sintetizado. a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) no Rio de Janeiro. e a Associação Brasileira de Prevenção aos Abusos e Negligências na Infância (Abpani) em Minas Gerais. Destaque deve ser dado à Faculdade de . Seus estudos tomam vulto nos anos 70. e que se expressa majoritariamente contra a mulher. se fez de forma fragmentada e progressiva. Aí se destacam os Centros Regionais de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami) em São Paulo. Já na metade dos anos 90. muito contribuíram as sociedades de pediatria de vários países. aumentar a exclusão social. A consideração do tema da violência nos diversos espaços do setor saúde. (Heise. alguns pediatras iniciaram atividades assistenciais e de prevenção nos hospitais em que trabalhavam e depois criaram ONG para ampliação e maior visibilidade de seu trabalho. com menos veemência. Tais iniciativas foram sempre articuladas entre universidades. de outro. Sua filosofia e método de trabalho buscando sensibilizar as mulheres e a sociedade em geral sobre a violência de gênero. vai além do diagnóstico e do cuidado das lesões físicas e emocionais. psicológico e homicídios passam a fazer parte da agenda. é na década de 80 que o tema da violência entra com maior vigor na agenda de debates e no campo programático da saúde. respectivamente. O crescimento do interesse do setor para pensar. e as organizações internacionais com poder de influenciar as pautas nacionais. em seu interior. tendendo a se consolidar no final dos anos 90. passando ao segundo lugar nos anos 80 e 90. 1990). incluindo agressões domésticas. Também na década de 80. Não sem controvérsias. ensejando uma relação profícua na abordagem das questões. mas o incremento maior da contribuição científica se deu nos anos 80. Como objeto de prevenção e promoção da saúde a violência fundamentada no gênero.

Ouçamos algumas interpretações. com metas delineadas para um ano (Ministério da Saúde. Esperamos que. M. Sartre (l961) a analisa no universo da escassez e da necessidade. Mais que isso. social e cultural. político. jurídico. Engels (1981) valoriza a violência como um acelerador do desenvolvimento econômico. R. por vezes. Igualmente o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems). 1972: 526) na verdade. como ser formulador competente. Para Arendt (l990) a violência tem um caráter instrumental. Sorel (l992) como a substantiva na “greve geral” considerada por ele como o mito da mudança necessária na sociedade burguesa. E encontra sua expressão concreta no fato de que indivíduos. e à Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Outra voltada para formular a mesma política. & Souza. ou seja. ora como negativo. S. política. Nesta última. também em 1998. no final dos anos 90. e os mitos e crenças a seu respeito costumam distorcer a realidade como num espelho invertido. O que traria o fim da velha sociedade seriam as contradições entre as forças produtivas e as relações de produção. A atuação dessas duas instituições. A natureza histórica da violência É muito difícil conceituar a violência. um componente cultural naturalizado Os estudiosos que nos últimos tempos têm se debruçado sobre o tema. associada a todos os movimentos e iniciativas citadas anteriormente. mitológica e antropológica da humanidade lhe conferem um caráter de perma- nência em todas a sociedades e também de ambigüidade. considera que nenhum historiador ou politicólogo deveria ser alheio ao imenso papel que a violência sempre desempenhou nos assuntos humanos. Fanon (l961) a define a vingança dos deserdados. Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Denisov (1986) reconhece a violência como um conceito multifacetário por suas características externas (quantitativas) e internas (qualitativas). é um meio que necessita de orientação e justificação dos fins que persegue. militar) contra outros indiví- . Embora muitos autores se utilizem do pensamento de Marx e Engels para justificar a importância desse fenômeno no desenvolvimento histórico “a história é talvez a mais cruel das deusas que arrasta sua carroça triunfal sobre montões de cadáveres. métodos e meios de coerção e aniquilamento direto ou indireto (econômico. para a infância e a adolescência (Ministério da Saúde. a soma das verdades individuais não reproduz a verdade social e histórica. grupos. Uma encarregada de formular uma proposta de política sobre o tema para o Sistema Único de Saúde (SUS). e se surpreende com quão pouco esse fenômeno é interrogado e investigado pelos cientistas. principalmente por ser ela. para esses autores. “intruso”. uma forma própria de relação pessoal. por ter havido grande investimento nos diagnósticos da situação de violência. E. chegamos em 1998.10 Minayo. neste artigo. C. o papel da violência seria secundário. ora sendo considerada como fenômeno positivo. Mao Tsé-Tung a trata como garantia do poder político “o poder nasce do cano do fuzil”. tem sido fundamental para que. Em seu tratado Violência: Ideologia y Política. na lentidão esperada de um tema a que denominamos. e o Estado seria o instrumento de violência e coerção por excelência em favor das classes dominantes. Ambas já estão atuando dentro de suas competências específicas. tanto durante as guerras como nos períodos de desenvolvimento pacífico” (Marx & Engels. classes e instituições empregam diferentes formas. para produzir investigações estratégicas e interdisciplinares com a finalidade de assessorar as ações do setor. na década que termina. 1998a). Arendt (1990) que possui uma das mais vigorosas reflexões sobre o tema. foi criado o Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde (Claves) em 1989. em relação a ela. 1998b). por meio das quais o setor saúde possa não só ampliar seu paradigma de atuação. um Plano de Ação de Prevenção à Violência para as Secretarias Municipais de Saúde. formulou e integrou em suas estratégias articuladoras. entremos no ano 2000 com propostas práticas e ações concretas. em comum acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria. no campo das políticas sociais. por vezes ainda. com uma linha de pesquisa sobre o tema desde a década de 70. ouvindo e auscultando toda a produção filosófica. o que retira de sua definição qualquer sentido positivista e lhe confere o status de fenômeno complexo. Portanto. com duas comissões criadas pelo MS. por vezes uma resultante das interações sociais. uma política nacional no interior do Ministério da Saúde (MS) esteja sendo delineada. no Brasil.

diferentemente dos sociobiólogos (Barash. e à qualidade da existência.. em 1996: “a violência. podem ser por ela desconstruídos e superados. O primeiro. havendo. E. Como afirma Agudelo (1990. na verdade. 1999 duos. o que deve ser objeto de reflexão dos estudiosos para compreensão dessa complexa relação. altera a saúde. pela identidade e busca do bem coletivo. 1998) “ela representa um risco maior para a realização do processo vital humano: ameaça a vida. Freud (1980) apresenta várias interpretações do tema. 1977. Por tudo o que foi exposto acima. portanto. dentre outros) que a interpretam como um fenômeno inerente à natureza humana e aos condicionamentos biogenéticos que se processam nos indivíduos. adquiriu um caráter endêmico e se converteu num problema de saúde pública em muitos países (. mitos e emoções. não podendo. ser considerada apenas como uma força exterior se impondo aos indivíduos e às coletividades. a violência é um problema da sociedade. desta forma. Portanto. obter direitos ou privilégios. porque. grupos. que se alimenta de imagens. um princípio geral da ação humana frente a situações competitivas. 1993: 3) tornandose um fator de reprodução e alimentação do fenômeno. e também como objeto de movimentos sociais. Domenach (1981) sublinha o fato de que a violência está inscrita e arraigada nas relações sociais. relatos. 1995. que repercutiu na 49a Assembléia da Organização Mundial de Saúde. conquistar ou preservar independência. quando o setor saúde se aproxima do tema da violência. Como menciona Boulding (1981). dentro do conceito ampliado de saúde. afeta a saúde e freqüentemente produz a morte. Em primeiro lugar associa a violência à agressividade instintiva do ser humano. A isto. Pelo contrário. Numa terceira posição. Lorenz. empírica e específica. desordem. econômicos e culturais traduzidos nas relações cotidianas que. a violência. Os conflitos de interesses seriam mediados nas sociedades modernas pelo direito e pela lei. as crueldades mais apavorantes se articulam com a violência escondida e naturalizada do cotidiano. uma dialética entre vítima e algoz. num sentido mais restrito. com a finalidade de conquistar ou reter poder. em diferentes etapas de seu pensamento. e por meio dos eventos em que se expressa. É essa identidade que faria surgir vínculos emocionais entre os membros de uma comunidade humana. que desde a modernidade o tem tratado no âmbito da justiça. tudo o que significa agravo e ameaça à vida.) o setor saúde constitui a encruzilhada para onde convergem todos os corolários da violência. Todos os autores citados têm em comum a clareza de considerar a violência como um problema social e histórico. às condições de trabalho. compreendem-na também como um comportamento aprendido e culturalizado que passa a fazer parte dos padrões intrapsíquicos. 4(1):7-32. por serem construídos por determinada sociedade. faz parte do universo da saúde pública. provocando o cumprimento de profecias auto-anunciadas de caos. dando a falsa impressão de ser parte da natureza biológica dos seres humanos. Ou como analisa a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) em seu último documento sobre o tema. e sob determinadas circunstâncias. da segurança pública. No entanto. fantasias. não pode tomá-lo como um objeto próprio.. Quando analisada nas suas expressões concretas permite ser assumida como objeto de reflexão e superação. porque..11 Ciência & Saúde Coletiva. pelo número de vítimas e a magnitude de seqüelas orgânicas e emocionais que produz. Estudos de Chesnais (1981) e Burke (1995) reafirmam a idéia de que não se pode estudar a violência fora da sociedade que a produziu. e a comunidade de interesses. tratando-o de forma complexa. portanto. dois fortes motivos tornam o assunto preocupação da área da saúde. às relações interpessoais. na medida em que a definem como “uma re- lação humana”. Wilson. 1979. classes e instituições. Da mesma forma trabalham com a idéia da inteligibilidade do fenômeno. Em segundo lugar. por fim. freqüentemente como “variável independente” (Soares et al. histórica. avança para a idéia de construção de “identidade de interesses”. a violência não é um ente abstrato. Soares e outros autores acrescentam a criação subjetiva e simbólica em torno do tema. porque ela se nutre de fatos políticos. insegurança e medo. A percepção social apresenta-se. Num segundo momento a define como instrumento para arbitrar conflitos de interesse. de forma interligada. pela pressão que exercem suas vítimas . Em seus escritos. 1977. em rede. produz enfermidade e provoca a morte como realidade ou como possibilidade próxima”. sendo. a violência necessita ser interpretada em suas várias faces. o que o inclina a matar e a fazer sofrer seus semelhantes. repercute e se reproduz.

reabilitação física. no caso da violência é importante ter idéia de quais são as questões em pauta em determinada sociedade. A primeira foi em Ottawa (1986). eqüidade. da intolerância e a ocorrência de lesões físicas e emocionais e de morte. como nos fatores macrossociais. Todas buscaram estabelecer e criar um consenso com relação às bases conceituais e políticas e as novas práticas de saúde tendo em conta o conjunto de determinantes. quais são os grupos ou os indivíduos considerados prioritários para atuação. Na área da saúde. os problemas que mais nos afligem nesse momento histórico são. na década de 70 tornou-se mui- to conhecido e respeitado o esquema quadridimensional de Lalonde (1996). a biologia humana. num guia de atuação para os serviços. 1993). Os temas tratados nessa conferência falam de um conjunto de valores: vida. a atuação no campo da saúde tem um lado específico. mas também para aperfeiçoar e dar qualidade à atenção às vítimas. C. o ambiente e os serviços de saúde. 4) limitação do dano. psicológica e de assistência social” (Opas. sobre os serviços de urgência. e promove uma múltipla responsabilização pelos problemas que afetam a qualidade de vida e de saúde (Buss. da discriminação. 1998). A promoção da saúde. consideramos que as instituições e os profissionais de saúde desempenham um papel fundamental no âmbito das políticas de superação da violência e de suas conseqüências. da comunidade. prevenir a cultura da dominação. Inspiradas nesse esquema. segundo a Carta de Otawa de l986. e uma face de integração com as políticas públicas e com os movimentos sociais. buscando socializar um pensamento hoje ainda não hegemônico de que a saúde é a resultante de muitos fatores e não apenas uma questão médica. como enquanto componente dos atos terapêuticos. Embora o modelo de Leavell e Clarck seja o mais popularizado para os serviços de saúde e trate a promoção como um dos estágios de sua proposta. Prevenção. M. levando-se em conta a tradição e a credibilidade do setor nas intervenções preventivas e promocionais no nível dos grupos populacionais e na atenção às vítimas. permite integrar o tema da violência no âmbito das políticas e propostas de mudanças sociais e ambientais e incluí-lo nos projetos de ambientes saudáveis e de qualidade de vida. S. 5) reabilitação (Leavell & Clark. R. prevenção é uma categoria fundamental. do ponto de vista macro-estrutural. no entanto. Visam atuar (dentro do que lhes é específico) nos fatores de risco e na rede causal desses agravos. Transportado do âmbito da concepção teórica para se transformar numa proposta de trabalho.12 Minayo. Para a aplicação do conceito de prevenção. reafirmado posteriormente em diversos foros de saúde pública. O tema foi trabalhado com maiores detalhes. seja antes ou após o fato. solidariedade. os sanitaristas colocam forte ênfase no seu papel de analisar as tendências epidemiológicas e no compromisso com a identificação de políticas e programas voltados para promover os fatores de sociabilidade. como noção do senso comum significa antecipação da decisão sobre uma situação de risco. Em síntese. 1976). 2) proteção específica. participação. A aplicação do conceito de prevenção de Leavell e Clark. a exclusão social . E. cinco níveis de intervenção: 1) promoção da saúde. tanto do ponto de vista individual. em Adelaide (1988) e a terceira em Sunsval (1991). tanto no que diz respeito aos fatores desencadeantes dos agravos. no que concerne às vítimas e aos atores. conceitual e operacionalmente por Leavell e Clarck no início da década de 50 quando os autores formularam. de um conjunto de estratégias: ações do estado. pois ajuda no entendimento dos cuidados e da assistência relativa aos agravos e lesões. a segunda. a violência nos ambientes de trabalho e o desemprego. Ao abordar o tema da violência. & Souza. orientando a praxis dos profissionais no cotidiano dos serviços. o chamado “modelo Lalonde” parte do que considera os determinantes da situação de saúde de uma população: o estilo de vida. dos indivíduos. “é o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da qualidade de sua vida e saúde incluíndo maior controle desse processo”. No caso brasileiro. não deve ser abandonada. atenção especializada. Portanto. Pensando a prevenção da violência É importante esclarecer o que se denomina e o que abrange o papel preventivo que pode desempenhar o setor saúde. e quais seriam as melhores estratégias de ação. 3) diagnóstico e tratamento precoce. as extremas desigualdades. O conceito de prevenção de Lalonde. parceria. três grandes conferências internacionais foram realizadas.

contra a mulher. as elevadas taxas de violência contra a criança e o adolescente. 1999 e a exclusão moral. mais crescem as taxas de homicídio. a violência interpessoal. Pensar a prevenção é ter em conta essas especificidades históricas. a violência contra homossexuais e a discriminação racial. sob pena de se oferecerem propostas inócuas. contra os idosos. também pode fazer grande diferença nos indicadores. Vários estudiosos assinalam o culto às armas e a questão racial como elementos fundamentais dessa situação. como é o caso do Brasil. Os dados de mortalidade indicam um crescimento insidioso da violência. As altas taxas de homicídios nos Estados Unidos. do contrabando de armas de fogo. Por outro lado. de inter-relações sociais. Nos estados americanos onde é maior a proporção de possuidores de armas de fogo e onde as leis vigentes são menos restritivas. que se exacerbam no presente. dentro de uma visão complexa dessa realidade. são a parcela da população com as maiores taxas de mortalidade por violência e são os que. qualquer programa de intervenção nos Estados Unidos. contrastando com as de países europeus. nesta etapa do desenvolvimento. porte e emprego de armas de fogo. Outras medidas atuam no nível de hábitos e costumes culturais fortemente arraigados (por isso naturalizados) cuja mudança. cujas repercussões podem ser medidas ao longo do tempo. nos Estados Unidos. doméstica. ao ocorrerem. O homicídio tende a crescer com a densidade de armamento por habitante. a educação formal. Outras. assim como incontáveis formas de discriminação e maus-tratos que ocorrem nos diferentes setores do Estado. foram os principais fatores responsáveis pelo declínio da violência fatal. é possível promover intervenções que resultem em mudanças importantes. como é o caso do racismo e do uso generalizado pela população. desemprego. influenciaram novas formas culturais de resolver os conflitos. Do ponto de vista institucional. na Europa. se destróem entre si. nos grandes centros urbanos. a arraigada violência e corrupção policial. seqüestros e outras formas de violência geral e difusa). assim como na construção de novos padrões de sociabilidade e de interação social. indicam que outros fatores culturais de forte arraigo na estrutura social podem ser responsáveis pela exacerbação da violência. Do ponto de vista conjuntural o brutal crescimento do crime organizado. ingênuas ou voluntaristas. (1993). necessita atuar na questão da produção. estão vivos naquele país. favorecidos pelo clima de anomicidade. de longo prazo. No caso do Brasil juntamos às questões macro-estruturais altas e crescentes taxas de homicídio. distribuição e acesso a armas de fogo pela população civil. de cargas. aumento da delinqüência juvenil e dos crimes contra as pessoas e o patrimônio. Assim. Ao tratar as intervenções. têm grande peso sobre a dinâmica da violência. o elogio da força e da justiça imediata pelas armas. a melhoria da situação de vida da população trabalhadora. destacam a permissividade em relação à compra. aliada à instituição da justiça. assim como problemas culturais arraigados que alimentam a situação conflitiva generalizada. e alimentar uma forma de cinismo que promove a apartação social. a corrupção e a impunidade. Essas mudanças que promoveram a valorização da vida são transições macro-estruturais que. do exército e da polícia. sobretudo no que concerne ao racismo exacerbado. o alijamento e a morosidade da justiça. sobretudo nos . assim como novas expressões simbólicas e subjetivas de significar a violência. Do ponto de vista cultural. sobretudo em torno do narcotráfico (o que repercute em outras formas de delinqüência como assaltos a bancos. impunidade e ausência de um projeto social que integre o conjunto dos estratos sociais.13 Ciência & Saúde Coletiva. nos ambientes de trabalho e a produção simbólica de um forte sentimento de insegurança que tende a exacerbar o individualismo. Mercy et al. problemas novos que se nutrem dessa exacerbação. problemas que se arrastam historicamente e. o desenvolvimento social. que lotam as prisões americanas. podemos considerar algumas como de cunho macrossocial. Os autores associam esse uso disseminado de armas ao racismo exacerbado de brancos contra negros fomentando a violência social. 4(1):7-32. em grandes proporções. de armas de fogo. Chesnais (1981) mostra que. têm que atingir vários níveis da realidade: problemas macroestruturais. O costume da ação direta para defesa pessoal e do patrimônio. na sua relação com a população. a partir de um diagnóstico correto. analisando o crescimento das taxas de homicídios nos Estados Unidos. no período de 1900 a 1990. interpessoal e privado. As estatísticas mostram ainda que os negros. roubos de carros.

M. Souza & Assis. Na dinâmica das relações institucionais. em geral. delinqüentes. atitudes suspei- . nesses locais não há demarcação nítida entre as atividades legais e ilegais. R. impede a elucidação dos crimes e a captura de seus autores. O perfil das mortes violentas segue a tendência mundial em termos de incidência sobre o sexo masculino e faixas etárias jovens. A falta de investigação. vizinhos ou parentes das vítimas.. a eliminação de pessoas consideradas indesejáveis. as vítimas são adolescentes e adultos jovens. homicídios de inocentes nos quais a polícia tenta incriminar a vítima. fato que induz grande número de crianças e adolescentes a abandonarem suas casas (Minayo et al. 1973). descobrem-se a gravidade e a persistência de experiências violentas no próprio lar (Assis. esclarece que 70. cujo perfil coincide com o daqueles pertencentes às classes populares. o elevado nível de estresse nas relações interpessoais (Hirsch et al. 1994). de uma população privada de direitos básicos. De 2% no conjunto da mortalidade geral em 1930 (Prata. 1995) e sem expectativas de cidadania política. onde a criminalidade ocupa um lugar especial no universo simbólico do grupo: o heroísmo do bandido é implicitamente contraposto à fraqueza da polícia. a ausência de diálogo na resolução dos problemas. & Souza. considerada por grande parte da população e pela polícia como “criminógena”. Entretanto. no final da década de 80 à segunda causa de óbito. grandes centros urbanos que concentram 75% do total das ocorrências. principalmente. Os conflitos interpessoais registrados pela polícia não refletem o verdadeiro nível de ocorrência deste evento entre a população.. Além da violência estrutural. Esses dados demonstram a forte discriminação e o forte peso da exclusão moral sobre a população pobre. com baixa escolaridade e pouca ou nenhuma qualificação profissional. os homicídios estão basicamente constituídos por conflitos com a polícia. enfim. ficam claros determinados jogos de interesse e poder entre justiça e polícia que se acusam mutuamente de ineficiência. Deslandes. Boa parte dos seus protagonistas são conhecidos.3% (Souza & Minayo. aos homicídios e aos acidentes de trânsito. No nível das relações primárias. esses eventos representam mais da metade das mortes por causas externas. em São Paulo. o baixo limiar de tolerância ao outro.5% em 1980 e em 1993 já atingiam 15. trata-se. 1997) é semelhante ao encontrado em estudos realizados em outras partes do mundo (Fingerhut et al. apesar da escassez de dados que permitam generalizar. 1996. Contemporaneamente. Do ponto de vista sócio-demográfico. desavenças entre grupos de narcotraficantes e desentendimentos interpessoais. impedindo a organização civil dessa parcela da população (Rodrigues. Essas mortes devem-se. Souza et al. os princípios abstratos de moralidade dominante chocam-se com a realidade em que se instaura uma outra moralidade cuja orientação é sintetizada na figura do herói do bairro. particularmente nas grandes cidades brasileiras. E. correspondendo. portanto. com características típicas das camadas menos favorecidas da população: residentes em áreas pobres e às vezes periféricas das grandes metrópoles.14 Minayo. e ao fracasso dos seus pais em conseguirem ascensão social por meio do trabalho. b). impõe pelo terror o seu poder. em suas comunidades. 1992a. tendo em vista que a maioria deles sequer chega ao conhecimento desta instituição. Mesquita (1995). Para Fonseca (1993). do sexo masculino. com características de uma organização totalitária. com os efeitos da violência conjuntural da delinqüência.1% possuíam profissão/ocupação ou eram estudantes. Residem em bairros populares. S. convivem cotidianamente. 1994). a maioria dos homicídios não ocorre devido ao fato dos adolescentes e jovens estarem envolvidos com drogas e serem. em última instância. o principal representante da delinqüência nessas comunidades é o narcotráfico que. contribuindo para a impunidade. Seus motivos demonstram claramente o elevado nível de violência que perpassa as relações entre os seres humanos. forjando-lhes o porte de armas.. Juntos. 1994. Os resultados de algumas análises mostram que. Dessa forma. C. sobretudo quando as vítimas são membros das classes populares. 1992. na grande maioria. de cor negra ou descendentes desta etnia. 1992). 1995). permanecendo abaixo apenas das mortes por enfermidades cardiovasculares. de cidadania moral (Cardia. a desvalorização da vida.. 1993). O perfil observado dos adolescentes e jovens brasileiros assassinados (Souza. que não é considerada como mais honesta do que as gangues. as chamadas “causas externas” passaram a representar 10.7% das vítimas de execuções não estavam relacionadas com crime anterior e que 67.

de trabalho. Em 1995. de caráter global. significa combinar a atuação no campo macro-estrutural. Para finalizar. com vistas a planejar e a executar um projeto integral de política pública de enfrentamento ao problema de segurança daquela cidade. democracia e paz. Como lembra Chesnais (1981) em seu estudo. Outros mais poderiam ser listados. particularmente entre setores menos favorecidos sócio-economicamente. educativa e democrática. convivência e paz. e de diálogo para a paz e a convivência. injustiça. sendo instrumental por natureza. As outras três partem do campo da saúde coletiva. mas pode servir para dramatizar queixas e trazê-las à atenção pública” (Arendt. sem que se lance mão de determinados termos e conceitos como desigualdade. uma do MS e outra do Conasems. nem o progresso. Assim. no nosso entendimento. outra de Nova Iorque e uma proposta do estado do Rio de Janeiro. acrescenta aos seus objetivos as estratégias de fortalecimento democrático institucional e comunitário. cultural. Colômbia. às vezes nem o sendo. 1995). Plano Integral da Colômbia O Projeto Desarrollo. a impunidade dos assassinatos cometidos por policiais. Para essa autora.15 Ciência & Saúde Coletiva. estimular a organização e o diálogo entre os diferentes setores da sociedade e destes com as organizações governamentais. Colômbia. de sociabilidade. a resposta para a violência destrutiva do poder está na severa frustração de agir no mundo contemporâneo cujas raízes estão na burocratização da vida pública. O decréscimo do poder pela carência da capacidade de agir em conjunto (por meio de democracias realmente participativas) é um convite à violência. uma do Center for Disease Control and Prevention (CDC) americano. nos problemas de ordem cultural e nas relações interpessoais. em tribunais militares (Americas Watch. Sua descrição tem o objetivo de discutir que. impunidade. mais cuidado. Ela não promove causas. devido ao forte corporativismo e à condescendência com que são julgados. Mesquita. sendo que as três primeiras colocam o foco na segurança pública: uma experiência de Cali. o uso criativo do tempo livre. é importante lembrar as palavras de Arendt. 1993. pois dizem respeito tanto a condições gerais de existência. Seguridad y Paz (Desepaz) foi criado em Cali. Estimula o desenvolvimento de atividades culturais e lúdicas que fortaleçam a identidade comunitária. no âmbito privado e público. os direitos e os deveres dos cidadãos. como a vivência de uma cultura de diálogo e tolerância que reatualiza na cotidianeidade. com registro diário dessas ocorrên- Experiências e propostas de prevenção Nesta última parte do trabalho descreveremos algumas experiências e propostas de prevenção e de melhoria dos indicadores de violência que estão ocorrendo no mundo e também no país. 1994). assim como no campo dos direitos e das liberdades. Abrange todos os setores da sociedade por meio de intensa campanha de educação para a cidadania. pensar qualquer programa de prevenção e mudanças no campo da violência no Brasil. 1999 tas. nem a história. entretanto. mais do que fazer um inventário da ampla gama de fatores que configuram o quadro de violência social que hoje se enfrenta neste país. bem como fuga e reação à autoridade policial. “a violência. na vulnerabilidade dos grandes sistemas e na monopolização do poder. deterioração institucional. Busca educar comunitariamente em torno dos direitos humanos. violação dos direitos humanos. Apresentamos seis propostas em andamento. nem a revolução. os dados de violência em determinado país são indicadores poderosos para se avaliar a qualidade de vida. que seca as autênticas fontes criativas. corrupção. abordando-o nos aspectos negativos (as conseqüências) e nos aspectos positivos (a qualidade de vida). Atualmente é definido como um programa de política pública sobre segurança. que se orienta por uma investigação sistemática e uma prática política. 4(1):7-32. Desta forma. Organiza-se em torno de seis estratégias ou programas por áreas de trabalho: Investigação sistemática: trata-se de um sistema de vigilância epidemiológica das lesões fatais. é importante que se diga que este quadro de elevada mortalidade e morbidade por violência no Brasil não pode ser compreendido integralmente. é racional. em 1992. existe um movimento da sociedade e do estado para olhar esse fenômeno com . nas questões conjunturais que expressam problemas estruturais. O projeto está diretamente ligado à prefeitura da cidade. nem o retrocesso. banalização e pouca valorização da vida.

deslocando o poder decisório para os comandos distritais. Atualmente. Estimula e oferece oportunidade de voltar a estudar aos jovens saídos das gangues e guerrilha. apoia formas comunitárias de comunicações. Propicia o uso e a qualificação do espaço público como espaço civilizado. Fortalecimento democrático comunitário: busca divulgar e promover o exercício dos direitos humanos. & Souza. Merece observar que o idealizador de Desepaz é um médico doutor em epidemiologia. Cultura e comunicação para a paz e a convivência: estimula atividades artísticas. Em linhas gerais. apoia as diferentes iniciativas de paz que se dão na Colômbia. Setores sociais e urbanos prioritários: orienta ações e investimentos nas áreas e setores sociais menos privilegiados do município e com alta incidência de violência e insegurança. Atualmente se desenvolve por meio das seguintes atividades: microcentros nas escolas com videoteca de caráter didático. apoia ações de mediação e negociação entre setores em conflito. organizadas segundo setores sociais. Atua ainda junto aos negros e índios para reinserir aqueles que abandonaram os movimentos guerrilheiros. dando prioridade à instância civil. Parte de alguns parâmetros como intolerância aos pequenos crimes. Fortalecimento democrático institucional: trata-se da aplicação de programas municipais orientados para que o exercício do poder. titulado em Harvard. 1997: 171-176). a paz e a convivência. subprogramas para jovens nos centros educativos. oferece alternativas de trabalho com capacitação profissional. com ênfase na atividade policial. promove a realização de encontros. estímulo a mesas de trabalho e foros de debates sobre o tema da paz. e amplamente divulgada. Educa o cidadão em relação à ética e ao respeito aos direitos humanos. C. Desenvolve atividades como o foro permanente de “diálogo para fazer cidade”. Diálogo para a paz e a convivência: estimula a participação da sociedade civil na construção de uma solução política negociada para o conflito social e armado entre a guerrilha e o Estado. recreação e esporte. subprogramas de lazer com festival de música e reuniões sobre direitos humanos na zona rural do município. finalmente. “tolerância zero” para os desmandos policiais. da força e da justiça se ajustem à normatividade e aos princípios ético-sociais da Constituição Nacional. enfoque sobre problemas que afetam a qualidade de vida. Uma comissão para a paz global urbana promove a participação de todos os setores sociais (Espitia. dando ênfase à melhoria das relações polícia/população. Para isto. R. Neste plano de atuação. encontros comunitários em comunidades em situações críticas para fortalecer a unidade cívica e a convivência cidadã. com diferentes pedagogias e formas. culturais e comunitárias pela vida. e. incorpora diretrizes do modelo de policiamento comunitário. controle dos locais considerados de alto risco. participa de programas culturais de reconhecimento e valor do espaço público. cias. mesmo armado. delinqüência juvenil e violência doméstica. Sua base de dados também tem sido utilizada em investigações sócio-etnográficas sobre violência generalizada. descentralização do planejamento e das ações de segurança. Esse programa tem permitido corrigir as distorções e incoerências entre as diversas instituições que efetuam os registros. está sendo ampliado para abranger as lesões interpessoais. em 1998. 2) o uso de táticas flexíveis e adaptáveis às mudanças na dinâmica criminal. que são realizadas em conjunto com o Ministério da Justiça e as universidades locais. e coordenação da rede municipal de direitos humanos com a participação de 17 organizações governamentais e não governamentais. folhetos e material audiovisual sobre a cidade. opera com quatro princípios básicos: 1) o investimento na capacidade e na inteligência investigativa. Plano de Combate à Violência de Nova Iorque A proposta de uma nova política de segurança pública em Nova Iorque foi publicada em documento do Departamento de Polícia. que aproveitou sua experiência profissional para torná-la mais abrangente e incluir a discussão e a participação da sociedade. mobilizações e jornadas pela paz. integrantes de gangues juvenis. à época prefeito de Cali. M. a paz e a democracia. Desenvolve atividades ligadas a jovens em alto risco. S. 3) alocação e remanejamento rá- .16 Minayo. oficinas de direitos humanos em organizações cooperativas e sindicais. publica livros. E. a fim de sensibilizar a cidade sobre a necessidade de convivência e contra a violência nas relações urbanas. criando uma base de dados confiável.

redução da impunidade e articulação das autoridades locais. realizada por representantes das comunidades. 1999 pidos de recursos e de pessoal. uma vez que o investimento na investigação.17 Ciência & Saúde Coletiva. Embora o plano esteja centrado na idéia da segurança pública. que seja incentivada e premiada a atuação eficiente. qualificações e aperfeiçoamentos da polícia civil para que cumpra sua função constitucional que é a de polícia judiciário-investigativa. com mudanças desde escalas de trabalho do policial até redefinições de metas. para integrar todas as agências pertinentes. o projeto “estádios de paz”. um executivo e outro consultivo. que sejam utilizados programas articulados em rede. quebrar o ciclo da violência doméstica. que haja investimento em três projetos de curto prazo. que seja criada uma subsecretaria adjunta para a questão da violência doméstica contra a mulher. As novas estratégias e formas de atuação da polícia enfatizam maior presença dos policiais na rua. poluição ambiental. a partir de um diagnóstico da violência. investigar e desmontar redes de receptadores e revendedores. apresenta um conjunto de metas mais gerais. entendido este último conceito como capacidade investigativa do policial e/ou da equipe. que as informações sobre os dados de violência no estado sejam disponibilizadas na internet. incutir nos policiais padrões de cortesia. que sejam desenvolvidos softwares que permitam a identificação de uma ocorrência desde o boletim até o inqué- rito. automóveis. e. perseguir os fugitivos da justiça. cujo projeto piloto será iniciado no bairro de Copacabana. ou seja. que sejam mantidas as experiências exitosas. inicialmente. que visa à recuperação da segurança nos estádios de futebol. recuperar os espaços públicos degradados. que as instalações físicas e equipamentos sejam substituídos e/ou reformados. assim como na Zona Oeste. no setor de segurança pública. tenderá a tornar o confronto desnecessário ou menos fre- . De 1993 até 1997. no futuro. maior colaboração da população na vigilância. profissionalismo e respeito. A Proposta do Estado do Rio de Janeiro O governo recém eleito deste estado pretende atuar nos mesmos moldes do plano apresentado para a cidade de Nova Iorque. combater a corrupção e a brutalidade dos policiais e introduzir a avaliação do comportamento dos mesmos. diminuir a violência nas escolas e nas ruas. de métodos de avaliação e de gerenciamento. que sejam definidas metas claras e identificadas prioridades. e 4) avaliação contínua dos resultados. já estão sendo criados dois conselhos de segurança. a exemplo da Divisão de Anti-seqüestro. a serem desenvolvidos pela polícia militar – um para áreas turísticas. que seja firmado convênio para implantação do programa de proteção de testemunhas. que sejam realizados cursos. que sejam colocadas sob a responsabilidade da subsecretaria de segurança pública todas as escolas de polícia e todas as atividades de ensino e qualificação profissional e ética dos mesmos. serão enfocados os roubos e furtos de veículos. que o Batalhão de Operações Especiais (Bope) seja ampliado e tenha sede também em Niterói e Baixada. em escala estadual. visando à redução da corrupção policial e de crimes mais graves. Nestas mudanças pretende que os serviços de atendimento ao público e de administração das delegacias sejam transferidos para profissionais não policiais. estaduais e federais. com apoios federais. agressão grave e estupros cairam 60% em Nova Iorque (New York State Division of Criminal Justice. combater furtos e roubos de. Espera-se com isto reduzir o número de mortos nos confrontos. Suas estratégias são as seguintes: desarmar as ruas. enfrentar os problemas de tráfego: engarrafamentos. reprimir traficantes de drogas. as taxas de violência correspondentes a homicídios. em vigor o plano. com interface com o Ministério Público. os abrigos e núcleos já existentes e a serem criados. 1997). não sem antes racionalizar rotinas. que sejam aplicados softwares geo-referenciados para acompanhamento dos indicadores. com foco especial no escalão intermediário do tráfico. finalmente. e em. Além do tráfico de drogas e dos crimes letais. integrando as delegacias especializadas de atendimento à mulher. roubos. e enfrentamento e mobilização em torno da violência doméstica. cujos alvos principais são: elevação do nível de emprego. que sejam organizados conselhos comunitários com a participação da sociedade civil e partidos políticos e trabalho preventivo nas comunidades. outro relativo ao policiamento comunitário. acidentes. melhoria do atendimento emergencial. 4(1):7-32. Para isto buscará informatizar a polícia civil. que seja criada uma ouvidoria para fazer frente aos crimes contra os direitos humanos perpetrados por policiais.

3) financiando demonstrações de projetos que dêem respostas efetivas aos problemas das comunidades. falta de emprego e racismo. trabalho. através de ensaios prospectivos e aleatórios. A violência é caracterizada como problema do país e não de minorias étnicas e de pobres. R. especialmente na prevenção primária. que áreas de responsabilidades comuns sejam definidas. Proposta do Center for Disease Control and Prevention Esta proposta parte de uma abordagem científica multidisciplinar explicitamente dirigida para a identificação de estratégias efetivas de prevenção. circulação e uso. baseada em avaliação. comércio e negócios. qüente. a fim de determinar o custo-efetividade do programa. 4) buscando mudar crenças e atitudes tanto nos comportamentos individuais quanto no ambiente. convocando. e justiça criminal. direitos humanos e civis. irresponsáveis. S. 3) desenvolvimento e teste de intervenções. que sejam integrados estudiosos de distintas áreas do saber para estabelecer um pacto. idosos). busca integrar o pensamento intelectual ao exercício político. por processo de avaliação. envolvendo seus líderes. Envolve comunidades no desenvolvimento de programas e políticas. até porque o atual governo foi eleito com a promessa de criar prioritariamente uma política democrática de segurança pública que possibilite soluções para as candentes questões relacionadas à violência no Estado (Garotinho. relativos à sociedade. organizações e comunidades. análises de tendências. que atuará no sentido de impedir intervenções aleatórias. adolescentes. que sejam redefinidos programas e disciplinas nos cursos em seus vários níveis. privilegiando focos mais dramáticos. integrando-se ambas as polícias. treinado pelo Bope. Esta proposta. tirando vantagens dos benefícios sinérgicos da cooperação . e estimula o senso de responsabilidade comunitária para este problema. responsabilizando a todos pelos esforços de prevenção. estadual e federal. cidadania. 4) implementação de intervenções com comprovada efetividade. 2) avaliando as intervenções. e também do tradicional enfoque de risco. Organiza programas de prevenção em nível local. ainda em fase de planejamento e negociações. enfatizar ações coordenadas. o que significa forte atuação do setor saúde junto ao campo político-jurídico. primeiramente. A proposta parte da tradição da saúde pública de integrar lideranças. C. comparações de grupos populacionais. abrangendo restrições à produção. Grupos étnicos são contemplados.18 Minayo. É elaborada a partir de um diagnóstico epidemiológico e de uma convicção de que a saúde pública tem um campo de atuação importante sobre o problema. quando. disciplinas. e apresenta um método de atuação baseado na seguintes etapas: 1) definição do problema. adotar uma postura de aprendizado contínuo. 1998). a participação de todos na busca de soluções. desenvolvimento e avaliação de abordagens comunitárias. medicina. atitudes e práticas médicas de atendimento a esses problemas. das relações e sobretudo prevenindo as violências domésticas (contra crianças. Todo este trabalho implicará na aplicação de recursos que estão previstos através da transferência do que é arrecadado pelo Departamento Estadual de Trânsito (Soares. estudos observacionais e de caso-controle. 1998). mídia. o CDC atua em quatro frentes específicas: l) compilando e disseminando descrições de programas de prevenção à violência e informações sobre como iniciá-los nas comunidades. que é o delineamento da morbi-mortalidade a partir de caracteres epidemiológicos (quem. visando à ampliar a “massa crítica” e consolidar o conhecimento. & Souza. Estabelece relações com os diversos setores: educação. Os pontos prioritários para atuação partem da análise dos fatores de risco: prevenção às armas de fogo. buscar as raízes causais. organizações públicas. voluntaristas ou desencadeadas por interesses escusos. Busca do apoio e do engajamento das associações médicas e financiamento de organizações privadas para realização de intervenções e avaliação de seu impacto. E. Os princípios que estão norteando as ações do CDC são: investir em prevenção. problemas econômicos e sociais como pobreza. mulheres. democracia. assim como nos comportamentos. rompimento do ciclo da violência. organizações governamentais e não governamentais. M. onde e como). definir metas complementares e cronograma de investigações do tema. 2) identificação epidemiológica dos fatores de risco e causas dos traumas (por quê). incluindo envolvimento dos sanitaristas no âmbito da cultura. portanto. Além de liderar o projeto. que seja criado em cada batalhão o seu Grupo Especial de Atendimento ao Turista. e cultura.

Quanto ao atendimento nas emergências. Internamente. sobre o significado da violência contra esse grupo social específico. em quatro pontos: l) a violência contra crianças e adolescentes. essa iniciativa foi saudada de forma controversa. Muitos aprovaram a energia com que a saúde pública passou a enfrentar o problema. Suas ações estarão centradas. No que se refere ao sistema de informações sobre causas externas. desde que se trabalhe num processo de sensibilização e de formação de profissionais. na sociedade e nos serviços locais de saúde. da forma mais abrangente possível. para 1999. os secretários de . 3) os atendimentos aos agravos por violência nas emergências. Entende que essa participação amplia a cidadania e a eqüidade. visando ao aprimoramento de seus instrumentos de captação de dados. o plano propõe investimento na sensibilização e treinamento de profissionais das secretarias municipais de saúde. Não temos em mãos nenhuma avaliação do sucesso desse programa que se desenvolve desde o início da década de 90. e esclarecendo as suas responsabilidades para com as crianças e os adolescentes. 4(1):7-32. tratando um tema de alta complexidade social como epidemia (Weisberg. econômica e cultural.000 de mortes por causas externas e naqueles onde a questão da violência é relevante. O Conselho entende que. sabendo que a mentalidade patriarcalista e a violência de gênero são um problema universal no país. considerando que o conceito de saúde tem como eixo central a qualidade de vida. criticam o que consideram um certo idealismo dos sanistaristas de quererem dar conta de um problema tradicional da segurança e da justiça. preconiza a participação nas políticas. considerando estarem aí as fontes primárias capazes de permitir um dimensionamento quantitativo e qualitativo da questão. 1995). intervir o mais precocemente possível nas comunidades afetadas buscando sua colaboração. Objetiva também discutir formas de organizar os serviços de modo a melhorar a sensibilidade para os sintomas e sinais de violência apresentados pelas mulheres. disciplinas acadêmicas.000. a formação dos profissionais e o entrosamento das equipes para pensar técnica e humanisticamente o atendimento. em relação às crianças e adolescentes. o plano propõe desenvolver uma consciência crítica. comunidades. Além da atuação setorial específica. apenas sabemos que tem servido de referência para a Opas/OMS na sua orientação aos países das Américas. Em relação à violência contra a mulher. a prevenção primária e o cuidado mais abrangente dos casos de violência que chegam ao ser- viço de saúde são possíveis. Tal proposta de ação tem como público alvo em um nível mais geral. 2) realizar um programa de formação de recursos humanos. a identificação. 3) criar um modelo de vigilância epidemiológica para causas externas a ser progressivamente implantado. estratégias e ações intersetoriais que busquem atuar nos fundamentos do Estado e da sociedade. melhorar a notificação dos casos e participar intersetorialmente na criação e manutenção dos serviços de referência para as vítimas. mesmo reconhecendo a importância do envolvimento. serão: 1) realizar em todos os municípios brasileiros um programa de sensibilização sobre o tema.19 Ciência & Saúde Coletiva. Outros. sobretudo nos processos de democratização política. e 4) promover a participação das secretarias municipais nas atividades intersetoriais voltadas para a superação da violência nas comunidades locais. e 4) o sistema de informação e vigilância às causas externas. 1999 entre instituições. com métodos específicos e tradicionais do campo das doenças. visando implantar um sistema de informação em todas as capitais e municípios com mais de 70/1. dando-lhes as devidas condições instrumentais. Proposta do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde Esse Conselho buscou introduzir na sua agenda e de seus organismos representativos a prevenção e a atenção às vítimas de violência como tema relevante do Sistema Único de Saúde (SUS). melhorar o sistema de informações. Seu objetivo foi o de criar um plano de ação cujas metas. nos Estados Unidos. Objetiva a articulação com os dados da segurança pública e a busca de assessoria para aprofundamento de pesquisas que forneçam o perfil sócio-epidemiológico mais aproximado às realidades dos municípios brasileiros. 2) a violência contra a mulher. e melhorar a rede de referência a fim de que as diferentes etapas dos tratamentos aos que sofreram lesões possam ter continuidade. inicialmente. social. propõe melhorar o desempenho dos serviços.

e) manter cooperação técnica e científica com países que têm políticas pertinentes aos problemas aqui tratados. . de sua transcendência e do impacto que provoca na morbidade e mortalidade da população. buscando articular o potencial de colaboração de toda a sociedade e também. nos diferentes órgãos e setores do SUS. b) valorizar e articular as iniciativas existentes e dispersas. dentro de alguns parâmetros considerados relevantes: cada um dos acidentes e violências. em maior ou menor grau. que não se comunicam nem seguem a mesma metodologia. das seqüelas e das mortes. No tocante à informação. saúde e as coordenações municipais e. Como podemos ver. e em função da importância do tema contra crianças e adolescentes. M. nos quais pelo menos uma equipe possa ser sensibilizada e treinada. a carência de conhecimento em torno dos eventos violentos na área de saúde está intrinsecamente ligada aos inúmeros problemas com os dados existentes nos sistemas estruturados no país. O plano propõe as seguintes estratégias de trabalho: a) dar um tom positivo ao projeto político de prevenção da violência e acidentes. mulheres e idosos. na medida em que propostas de melhorias dos serviços estejam sendo progressivamente implantadas. os profissionais de nível primário da atenção à saúde (comunitário e ambulatorial) e os que trabalham no atendimento emergencial. estabelecendo como objetivo formular uma política de prevenção e atenção aos acidentes e violências. d) articular intersetorialmente e com os movimentos da sociedade organizada. Os demais setores e instituições da sociedade também devem ser instados a refletir e atuar na prevenção. As estratégias de atuação do plano prevêem atividades de sensibilização. por meio de divulgação em publicações de entidades representativas e sindicatos dos profissionais de saúde. a prevenção deve ser entendida em seu conceito mais amplo. (5) o Boletim do Departamento Naciona de Estradas de Rodagem (DNER). Identificaram-se como principais fontes de informação a serem tratadas e articuladas: o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). e recuperação e reabilitação. para incluir a violência nos ambientes de trabalho como uma das metas do plano. criou também o CTC de Prevenção de Acidentes e Violências na Infância e na Adolescência. C. o Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS). E. apresentando-lhe informações. abrangendo a antecipação do evento. de modo particular. O plano de metas inicial contempla: informação e vigilância epidemiológica. de integração e de atuação. estimular o diálogo e colaborar na manutenção dos projetos que deverão cada vez mais ter um caráter local. pelo risco dos acidentes e violências: é a encruzilhada para onde convergem os resultantes desses eventos sociais. A integração prevê a realização de dois seminários no ano de 1999 – um no início para definir a agenda de trabalho e outro no final do ano. assistência e recuperação. R. atingir a meta de abranger 50% dos municípios representados. adolescentes e jovens. para avaliar as metas atingidas. em um nível mais específico. inclusive os do setor de epidemiologia. das universidades nos diversos estados do país. a Comunicação de Acidentes do Trabalho (CAT). o setor saúde tem o dever de apontar os caminhos para a sociedade. S. Assim. diante da magnitude do problema da violência no Brasil. atendimento pré-hospitalar. sendo alvo de pequenas mensagens a serem veiculadas na mídia. correlacionando violência. Esses comitês já iniciaram as discussões sobre o tema. grupos populacionais: crianças. Está em andamento uma articulação com a divisão de saúde do trabalhador. saúde e prevenção. Paralelamente. é prevenível. ligado ao Grupo Técnico para Acidentes e Violências da Secretaria de Políticas de Saúde. as iniciativas necessitam de sensibilização intragovernamental e de vontade política. acidentes de trânsito/transporte. A população também está contemplada nessa proposta. instituiu um CTC de assessoramento. análises e indicadores provenientes dos dados de seus sistemas de informação de mortalidade e de morbidade. Proposta do Comitê Técnico Científico (CTC) do Ministério da Saúde O MS. o Conasems pretende. A sensibilização dos secretários de saúde em reuniões deliberativas e a dos demais profissionais do setor. trata-se de uma proposta inicial para colocar o tema na pauta das práticas do setor saúde. o setor saúde não é o único responsável pelos problemas. no ano de 1999. & Souza. o Boletim de Ocorrência Policial (BO). c) articular a formulação de política e estratégias das ações.20 Minayo. f ) as ações compreenderão sensibilização.

queimaduras. conflitos e agressões. intoxicações e afogamentos e outras lesões. à normalização das atividades do APH. na comunidade. à integração do APH aos serviços de emergência. no monitoramento de eventos e na avaliação de eficácia de ações. 3-5 anos. e os acidentes extradomiciliares como acidentes de trânsito.21 Ciência & Saúde Coletiva. de exclusão e de violência física. 4-6 meses. No que se refere aos acidentes de trânsito e transporte. No eixo das violências foram incluídas as agressões domésticas: abuso físico. De um lado busca articular com todos os outros setores públicos para resguardar os direitos estabelecidos na Constituição de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990. a negligência e o abandono. orientar e apoiar o paciente e a família como sujeitos da ação de recuperação e reabilitação. prevê-se a atuação no atendimento pré-hospitalar (APH). revelam os limites da tolerância social para as situações de banalização da vida e da morte na arena de várias sociedades neste fim de século. formas de expressão conjunturais e atualização na cotidianeidade das relações interpessoais. umas mais abrangentes. sexual e psicológico. Conclusões Pela reflexão apresentada anteriormente. questões ergonométricas. a partir do mapeamento de áreas de risco. e outros). concluímos que qualquer projeto de prevenção da violência deve levar em conta a complexidade desse fenômeno que possui raízes macroestruturais. em nível superior e médio. Estão sendo ainda elaboradas as estratégias relacionadas à violência contra a mulher. Por causa de seu caráter complexo. as análises têm que ser abrangentes e específicas simultaneamente. sobretudo. A atuação para a recuperação e a reabilitação visa. moral e emocional. pré-escolar. à promover as condições de readaptação e reinserção do paciente na família e na sociedade. afogamentos. a partir de qualquer ângulo que seja abordado esse processo social. buscando promover qualidade de vida. para o atendimento na área de emergência. ambiente saudável. abstinência de álcool por parte do motorista. intersetoriais e de militância cidadã. O primeiro abrange os acidentes domésticos como quedas. assim como devem envolver diferentes contextos e atingir os sujeitos que sofrem ou provocam intolerância. 7-12 meses. No campo específico da saúde. exploração sexual de crianças e adolescentes. controle de velocidade. orientação sobre descanso e estresse nas viagens. 1999 Quanto à viligância epidemiológica. Dois grandes eixos são considerados: os acidentes e as violências. é papel do setor saúde liderar ações específicas. à informar. assim como a normalização de ações de emergência e atenção às vítimas de acidentes. a proposta é iniciar com alguns projetos pilotos em locais específicos. à incentivar a prevenção dos acidentes/violências em geral e dos acidentes de trânsito em particular. os idosos e os trabalhadores. Dentro de ações específicas. intoxicações e outras lesões. ao fomento à implantação e ampliação da rede de serviços para o atendimento aos acidentados. investir na prevenção de agravos e riscos e na atenção e recuperação das vítimas de violências e acidentes. escolar e adolescência. visando à formação de recursos humanos especializados. Este é também o caso do Brasil. e as violências extradomiciliares: exploração do trabalho infanto-juvenil. no estabelecimento dos fatores de risco. atuando na busca de consistência dos dados. na implantação de rotinas de registros para melhor conhecimento de determinados agravos. Em relação às crianças. Como filosofa Soares: “o pessimismo da razão não deve desautorizar o otimismo da vontade. considerando as faixas etárias do ciclo evolutivo da criança e adolescente: 0-3 meses. além das originadas na escola. incorporação de direitos e superação de processos de dominação. De outro estabelece estratégias específicas do setor saúde para o atendimento primário e nos hospitais. 4(1):7-32. Desta forma. 1-2 anos. As seis propostas aqui apresentadas. ainda que seja apenas para que a fortuna se cumpra de modo mais virtuoso: para que possamos viver com a disposição cívica que so- . adolescentes e jovens a proposta do MS visa à consolidação dos princípios para as políticas públicas nacionais na área da prevenção de acidentes e violência na infância e adolescência. outras mais setorialmente focalizadas. nos conflitos com a polícia. 2-3 anos. o plano prevê uma articulação muito forte com o Departamento Nacional de Trânsito para que sejam efetivadas as medidas que preservem a saúde dos motoristas e passageiros (cinto de segurança. e à sensibilizar a sociedade civil sobre as necessidades básicas do paciente em recuperação/reabilitação.

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