Você está na página 1de 172

Copyright© 2018 by Literare Book s International.

Todos os direitos desta edição são reservados à Literare Book s International.

Presidente:

Capa:

Diagramação e Ebook :

Revisão:

Gerente de Projetos:

Diretora de Operações:

Diretora Executiva:

Relacionamento com o cliente:


Agradecimentos Especiais
Ao meu pai, Coronel Artigas, maior gigante que conheci; diante dele
qualquer Everest se torna pequeno.
A minha mãe, Vera Artigas, a expressão mais pura de força, coragem,
garra e luta pela sobrevivência.
Ao meu marido, Claudio Diogo, grande incentivador que, com seu amor
incondicional, ensinou-me a ser mais paciente e a acreditar que os
relacionamentos podem ser sólidos.
As minhas lhas aís e Alice, o amor mais puro e sublime que pode
existir.
Aos meus amigos e mestres que, de coração, sabem a importância que
eles têm na minha vida.
A José Luiz Tejon, sou fã incondicional, mestre e amigo, que me ajudou a
praticar a Inteligência Relacional e a quem com muito carinho e admiração
escolhi para prefaciar este livro.
Às equipes da Tekoare e TNB Studio.
A todos os seres humanos, na plenitude da palavra, que compartilharam
comigo seu amor, ensinaram-me a importância dos relacionamentos, dedico-
lhes, de coração e alma, este livro.
Sumário
Prefácio
Introdução
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Inteligência Interpessoal + Inteligência Intrapessoal
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Conclusões
AVALIANDO SUAS HABILIDADES RELACIONAIS
Apêndice A – Sistema Cerebral – Cérebro Social Relacional
Referências bibliográficas
Prefácio
Uma obra de arte de Ana Artigas: Inteligência Relacional
Ana registra numa passagem deste livro o que gostaria que fosse escrito
na sua lápide, eu diria, o que caria eternizado com sua alma nesta jornada
terrena: “aqui jaz uma mulher que deixou o seu legado e fez as pessoas
acreditarem que podem se tornar seres humanos melhores, mais
inteligentes e mais felizes, na forma como se relacionam, escolhendo
melhor com quem dividir a sua existência”.
Antes de comentar este livro sensacional, que ilustra pedagogicamente
seus conceitos, um livro sério, profundo e ao mesmo tempo humano e
comovente, preciso deixar aqui meu depoimento sobre essas respostas que
Ana nos instiga a respeito de: “ como você quer atrair as pessoas e ser visto
por elas?” e “qual é a imagem e o legado que você deseja deixar aos
outros?”
Ana alterou e mudou a minha vida. Além da competência da
inteligência relacional, sou uma testemunha viva da força desse ato, e, claro,
acrescento, para agirmos no tom ascensional da inteligência relacional, a
capacidade de amar, e a generosidade de saber dar e doar é um ingrediente
sine qua non.
Estava eu, como diretor executivo de uma das empresas do Grupo do
jornal O Estado de São Paulo, “O Estadão”. Conheci a Ana, quando ela já
realizava um trabalho de vanguarda na área humana ao lado da Caliper,
empresa americana sediada em Princeton, Estados Unidos.
Certo dia, ela me liga e pede para que eu receba um dos pesquisadores
dessa organização exemplar no mundo do comportamento humano, o
escritor Patrick Sweeney. Ele, ao lado de Herb Greenberg, fundador e
criador do sistema de avaliação Caliper, outro ser humano com uma
historia incrível de vida e de superação. Eles estavam preparando o
lançamento mundial, de um novo livro chamado: “Succeed on your own
terms”, traduzido e lançado no Brasil como: “O Sucesso tem Fórmula?”. Esse
encontro promovido pela Ana, teve o condão de transformar minha vida.
Descobri, graças à Ana, angulações de mim mesmo que, se não fosse a sua
presença cruzando a minha própria vida, eu não teria descoberto. Com isso
pude também estabelecer uma linda amizade com o Maestro João Carlos
Martins, da mesma forma entrevistado nessa obra, e isso estará para sempre
registrado naquele livro de Patrick & Greenberg . Obrigado, Ana, o seu
legado vive em mim.
Mudanças e adaptações fazem parte da vida, diz Ana. A sua própria
estória de vida desde a infância, registra muitas mudanças. Cidades,
amizades, escolas novas. Neste livro Ana busca marcos históricos e
fundamentos teóricos de alta relevância. Traz logo na abertura uma
pesquisa fantástica e única, com pessoas ao longo de muitos anos, onde a
busca era descobrir o que, depois de anos, os seres humanos atribuíam
como o máximo e o melhor de uma vida. Aí partimos para o desenrolar de
toda a contribuição deste livro. O que este estudo revela não aponta para a
riqueza, nem para a fama, o sucesso termina sendo o que você vai ler neste
livro, o que nos faz verdadeiramente felizes e saudáveis.
Ao contrário de muitos livros super ciais, este livro me impressionou
pela qualidade técnica. Abre portais sérios para ótimas imersões dos
leitores. A reunião das distintas inteligências é exemplar: musical,
linguística, lógica matemática, espacial, corporal, interpessoal, intrapessoal,
naturalista, existencial e a inteligência espiritual. Ao ler cada uma delas fui
compreendendo como seria importante, por exemplo, na educação de
nossos lhos, cuidarmos do desenvolvimento de cada uma dessas
inteligências, ou seja, a leitura deste livro não serve apenas para professores,
estudantes, executivos, líderes, ou outros pro ssionais, mas serve para
mães, pais e educadores, e lógico, para uma autopedagogia, uma
autossuperação. Ao conhecer melhor cada uma dessas 10 inteligências
identi quei o quanto precisei sofrer para aprender, a muito custo, algumas
delas. Sem dúvida, este livro será também de grande valia para todos os
nossos jovens, adolescentes, que podem se preparar muito melhor para os
desa os nas escolas, faculdades, e nos primeiros passos nos estágios e na
iniciação corporativa.
Ainda espetacular nesta obra são as noções da neurociência, como
neurônio-espelho, e as substâncias químicas indutoras e seus efeitos no
cérebro, como a dopamina, a testosterona e a serotonina. Esse saber é de
singular importância na arte de liderar, por exemplo. E na área do
autoconhecimento de forma inigualável.
O livro apresenta guias práticos, muito simples de serem absorvidos. Por
exemplo, quando Ana traça quadros relacionais entre pessoas com baixa
inteligência relacional versus com alta inteligência relacional. Ao ler essa
passagem, será impossível você não identi car amigos, pessoas, colegas, com
notas distintas dentro desses quadros, acima disso, irá se enxergar ali
também.
A arte da vida será sempre a arte das escolhas, e precisamos gostar,
amar o fundamento de aprender a aprender. Seres que vão ao futuro são
aqueles que aprendem a aprender em altíssima velocidade. No meu último
livro: “Guerreiros não nascem prontos”, trato intensamente desse
fundamento, e nos meus estudos, amparado também por pensadores
eternos como Victor Frankl, criador da logoterapia, aprendemos que nos
transformamos na qualidade dos seres humanos, os quais, admiramos e
que recebe a nossa autoridade para nos in uenciar.
Sem dúvida, ao estudarmos a vida de todas as pessoas as quais
consideramos admiráveis, iremos ver ali um talento superante essencial:
competência de saber ser amado, ser amável. Esse dom acessa
poderosamente a arte das artes, a Inteligência Relacional. Ana, continua
nesta obra, preocupada em oferecer meios pragmáticos para os leitores
assimilarem esses saberes. Então criou seis passos para esta prática: CLASSE
- Consciência, Liberdade, Atração, Segurança, Sabedoria e Empatia.
Adorei a fórmula C.L.A.S.S.E, até porque a polidez costuma ser a
primeira de todas as virtudes. Ana registra a expressão de “Coco Chanel:
não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro é a educação. Não é a
roupa é a classe”.
De novo, nestes capítulos, dicas simples operacionais e essenciais estão à
disposição do leitor, desde saber dizer bom dia, boa tarde, boa noite, muito
obrigado e por favor; até aspectos evolutivos do auto conhecimento
profundo de cada um de nós. Adorei quando Ana trata também dos
vampiros emocionais. Se, sem dúvida, a arte relacional é segredo
importantíssimo numa carreira e na vida, saber colocar os vampiros
emocionais fora da possibilidade parasitária ou predadora da nossa vida, é,
da mesma forma, excelente opção. No capítulo da empatia, Ana também
nos ajuda na relação de casais e nos relembra a Gestalt terapia, a realidade
do aqui e agora. A importância da individualidade, e de que relações
saudáveis são complementares.
Perguntaram-me sobre isso um dia, e criei uma gura de imagem assim:
“um casal que se ama é como duas linhas paralelas, que se encontrarão um
dia, no in nito”. Quero dizer, são indivíduos, paralelos, mas não se colam,
destinos próprios, paralelos, mas cada um, cada um....e um dia, nos
encontramos no in nito, assim como todas as linhas paralelas.
Amor e sexo estão aqui também e nas conclusões à convergência de
toda a proposta da autora Ana Artigas: “ bons relacionamentos nos mantêm
felizes e saudáveis”.
Os vampiros emocionais são comparados aos nossos anjos. As relações
tóxicas versus as saudáveis, e, ao término, estamos abertos para continuar a
exploração dessa inteligência relacional. “Cada um de nós faz o seu hoje,
consequentemente o seu amanhã, e juntos fazemos os nossos – os amanhãs
que queremos.” Assim: Ana encerra. E ao ter o privilégio de ter acesso a este
livro, e ao prefaciá-lo, só posso acrescentar mais uma vez :
Muito obrigado Ana, já incorporei novos saberes e procedimentos de
imensa utilidade na minha vida com este livro. A nal, aprender a aprender
é tudo, e, escolher com quem devemos aprender a ignição positiva de todo
esse processo. Escolho você Ana, pois um dia você me escolheu. Não somos
mais os mesmos, eu sei, a lei de causa e efeito continua sendo uma lei da
mais plena sabedoria. Sua obra, a inteligência relacional, agrega um valor
evolutivo humano de inestimável valor. Seus leitores todos ganham agora
um imenso presente. Este livro, neste presente, aqui e agora. Gratidão ao
momento presente.
Boa leitura.
José Luiz Tejon
Autor e coautor de 33 livros e o Último best seller – “Guerreiros não
nascem prontos”. Mestre em Arte e Cultura pela Universidade Mackenzie,
doutorando em Ciências da Educação com a tese: “A pedagogia da
superação”. Professor de Pós-graduação na França e ESPM, palestrante Top
of Mind – Prêmio Estadão RH.
Introdução
Como tudo na vida começa com uma estória, e somos exímios em
contá-las por trazerem conteúdos originais, inesquecíveis e muitas vezes
emocionantes, vou contar uma fase importante da minha infância para
vocês.
Sou lha de militar, e, como é natural nesta carreira, as mudanças de
patente nas forças militares envolvem a troca de quartéis e cidades. Da
quinta série à conclusão do ensino médio, passei por três grandes
mudanças.
A primeira delas certamente foi a mais traumática. Tinha estudado da
pré-escola ao quinto ano no mesmo colégio de freiras, com a mesma
turminha de meninas, já que nesta época os meninos eram “proibidos” de
entrar na escola. Só nos assistiam do lado de fora do muro pelas brechas
dos portões que davam vista ao grande pátio.
Conhecia as meninas da sala desde muito pequenas, e
consequentemente seus irmãos e pais, como se fôssemos todos uma única e
grande família.
Embora as freiras fossem bem duronas, também eram parte integrante
da nossa vida e aprendemos a respeitá-las como ninguém. Irmã Giselda era
a diretora, a mais temida e com quem precisávamos “conversar” sempre que
aprontávamos alguma coisa. Não tenha dúvida de que eu era chamada
semanalmente a sua sala.
Com suas sobrancelhas grossas encrustadas em seu rosto no e
branquelo, ela dizia: “Dona Bijú (este era meu carinhoso apelido de
infância), você por aqui de novo”?
Nunca entendi como não fui expulsa; acho que minhas bagunças eram
razoáveis, e tenho a impressão de que o fato da minha avó ter sido
professora e minha mãe e tias terem estudado no mesmo colégio por anos,
amenizava a repreensão.
Assim cresci. Apesar das broncas, protegida e cercada de cuidados.
Ainda na primeira série perdi minha irmã. Eu tinha seis anos, e ela
quase oito, quando faleceu. Foram poucos meses da descoberta ao dia
fatídico da sua morte, mas um sofrimento extremo para toda família, já que
o câncer tomou conta de seu cérebro rapidamente.
Logo depois que a perdemos, tia Sandra – naquela época era permitido
chamar a professora de tia – ministrava algumas aulas comigo no colo, pois
de uma hora para outra eu começava a chorar. Como sempre fui muito
pequena, ela conseguia dar a aula e andar comigo no colo, pela sala.
Imagine então a minha reação quando meus pais me contaram que nós
iríamos mudar de cidade.
Como assim?
Aquele colégio era a minha vida. Tinha ali minhas melhores amigas,
meu suporte, minhas tias queridas e as broncas da madre superiora!
Como poderia viver sem aquilo? Além de tudo, eu era a bagunceira da
escola. A representante de turma que inventava e contava longas estórias
sobre o fantasma do bebê que morava no porão do teatro, já que lá tinha
sido enterrado. Sobre a es rra de carne que eu jurava que vinha com tatu
de nariz. Quase quebrei a cantina, e a madre superiora quase me quebrou
também.
Ter que deixar tudo isso? Meu mundo caiu. De novo, eu chorava em
desespero. Mais uma grande perda!
Meus pais foram rmes. É assim e pronto. Esse era o trabalho do meu
pai, o sustento da casa e não podíamos viver sem isso. Ele tinha que assumir
o comando do corpo de bombeiros em uma cidade do interior. Então, lá
fomos nós morar em Paranaguá, um município localizado no litoral do
estado do Paraná.
Quando pensava em reclamar, meu pai me dizia: “Ana, você tem certeza
de que isso é realmente um problema? Você se lembra da doença da sua
irmã e da perda que tivemos? Pois bem, essas pessoas vão continuar aqui e
você vai poder vê-las de novo sempre que quiser. Então, isso não é um
problema. Mudanças e adaptações fazem parte da vida.”
No começo, tive bastante di culdade para digerir a mudança. Para
mim, era sim um problema e daqueles enormes, bem maior do que eu, a
pequena Bijú, conseguia aguentar. Aliás, esse apelido fora dado pela minha
professora da pré-escola porque eu era muito pequena, a menor da turma,
então, ela me chamava de Bijuzinha, e o apelido pegou.
Lá fomos nós. Cidade nova, casa nova, colégio novo, amigos novos. Sim,
e dessa vez havia meninos na minha nova escola.
Mil perguntas rondavam a minha cabeça. Como seria a nova escola?
Será que as pessoas seriam legais? Com quem será que eu teria que
conversar quando fosse mandada para a diretoria? Porque eu sabia que
mais cedo ou mais tarde eu certamente iria.
En m, tive que enfrentar os primeiros desa os de como fazer novos
relacionamentos e conquistar as pessoas. Eu já não lembrava como tinha
feito os meus. Eles tinham crescido comigo. Eu tinha os amigos na escola e
os que brincavam comigo na rua de casa, e eles eram o máximo!
Na minha cabeça, isso não precisava mudar, eu sentia como se
conhecesse o mundo todo, mas ele chegou. O primeiro dia de aula! Não
conhecia absolutamente ninguém. Aquelas pessoas eram estranhas e
tinham um sotaque diferente, falavam meio cantadinho, às vezes eu nem
conseguia entender o que diziam.
Os meninos faziam mais bagunça do que eu nos tempos áureos. Essa foi
a parte mais divertida, e eles até que eram bem bonitinhos.
Tive que começar a criar mecanismos para me aproximar, conhecer as
pessoas e fazer amigos. Foi neste momento, com 11 anos de idade, que
comecei a entender a importância dos relacionamentos e que não somos
absolutamente nada sem eles. São a base da nossa sobrevivência em
qualquer situação.
Conhecer pessoas seria a minha felicidade ou o meu fracasso naquele
novo lugar. Nos primeiros dias de aula, quando chamavam meu nome,
mesmo que fosse para responder à chamada, eu cava roxa de vergonha.
Não conhecia ninguém e nunca tinha estudado com meninos.
A duras penas, descobri que saber tratar bem as pessoas e fazer amigos
são o maior dilema que um indivíduo precisa encarar, principalmente
quando chega a um lugar completamente novo.
Poucos meses depois já fazíamos festinhas de garagem todos os ns de
semana. Os meninos levavam refrigerantes e, as meninas, doce ou salgado.
Às vezes, um pacote de chips resolvia. Aquilo tudo começou a car bem
divertido e conheci muita gente legal.
Como na vida nem tudo são ores, meu pai recebeu uma promoção
para assumir o comando em uma cidade maior.
Promoção!
Só na cabeça deles. Para mim, era uma completa desgraça.
Para piorar um pouco mais, a mudança aconteceu no meio do ano. Os
colégios tinham métodos de estudo e matérias diferentes. Como minhas
notas já não estavam aquela maravilha, juntando com o desa o da
mudança, fui para uma quase reprovação. Fiquei de recuperação em quase
todas as matérias.
Meu mundo caiu de novo. Cidade nova, colégio novo, outro método de
ensino e muita gente me observando de canto de olho. Mudei no meio da
oitava série, hoje seria o nono ano. Eu estava com 14 anos, no auge da
adolescência. Além de todos os receios comuns dessa fase, na qual existe
uma imensa necessidade de sermos aceitos, eu precisava ganhar meu
espaço e os grupos já pareciam formados.
Reconheço que foi preciso muito esforço, observação, esperteza, análise
dos estilos de cada um, até que eu entendesse como deveria me aproximar
das pessoas para conquistar novos amigos, fazer parte dos times e ser
convidada para as festinhas nos ns de semana.
Uma pena que naquela época não existisse um livro como este. Seria de
um valor inestimável para mim, porque eu realmente tive que aprender
sozinha, por ensaio e erro.
A vida me ensinou muito com essas mudanças. Acabei me apaixonando
por Londrina e foi maravilhoso curtir minha adolescência em uma cidade
que, com o tempo, me acolheu de forma realmente calorosa. Tive certeza
de que podemos nos dar muito bem ou muito mal dependendo de como
fazemos nossas escolhas, com quem andamos e com quem nos
relacionamos. Compreendi que precisava entender as pessoas e lidar com
elas.
Comecei a estudar melhor os con itos com os quais me deparei e
sempre me questionava:
“Que erros cometi?”
“O que z estava correto? Deveria ter agido de outra forma?”
“Que lições posso tirar dessa experiência?”
Foi aí que eu realmente comecei a entender a importância dos
relacionamentos e o impacto que eles causam na vida das pessoas, porém,
só mais tarde a eles batizei de Inteligência Relacional.
Muitas coisas aconteceram depois dessa fase; voltei a morar em Curitiba
para fazer faculdade, me formei em psicologia, casei e tive duas lhas.
Depois, eu mesma cavei algumas grandes mudanças, quando as
meninas estavam maiores, em que camos quase dois anos morando no
exterior. Vou contar melhor essa história no decorrer do livro.
Hoje sou alucinada por mudanças e desa os, e eles se tornaram
absolutamente necessários para a minha vida.
O que quero registrar aqui é que apesar dessas vivências e da bagagem
de mais de 25 anos como psicóloga, coach e consultora de executivos,
conversei e troquei experiências com muitas pessoas para conseguir escrever
este livro.
Aliás, este livro não foi escrito, ele cresceu como uma criança, através da
observação e do relacionamento com milhares de pessoas.
Demorei mais do que eu imaginava para escrevê-lo e continuo achando
pesquisas, casos e histórias que ainda precisam ser contadas, mas se
continuasse buscando-as jamais conseguiria editá-lo, porque os
relacionamentos são dinâmicos, constantes e eternos.
Passei muito tempo observando os modelos de relacionamento à minha
volta e, sempre que tinha oportunidade, conversava com as pessoas sobre
seus sucessos e con itos.
Fiz uma extensa pesquisa no Brasil e nos EUA. Perguntava e observava
como as pessoas se relacionavam nas empresas, nos eventos, nos jantares
com a família, nas confraternizações, nas longas conversas com amigos mais
próximos, nos breves encontros nas poltronas de avião, no salão de beleza
ou em qualquer situação que tivesse um pouco de abertura para perguntar
e escutar as pessoas. Notei como elas têm necessidade e gostam de falar
sobre suas relações pessoais.
Essa experiência me deu a certeza de que todos nós precisamos de
ajuda para compreendermos uns aos outros. Comecei a entender o que as
pessoas buscam, o que valorizam em um relacionamento e a importância e
o impacto que isso tem na vida de cada um de nós.
É muito claro perceber que todas as pessoas têm relacionamentos fáceis
e prazerosos em suas vidas e outros bem difíceis, e que algumas pessoas são
transitórias em nossa vida, no trabalho ou na vida social e terão um contato
super cial conosco. Certamente sofreremos menos in uência delas, e ca
mais fácil administrar as energias ruins ou até mesmo evitá-las.
O problema é quando as pessoas têm um forte vínculo afetivo conosco e
convivem com a gente diariamente. Essas realmente causam impacto na
nossa vida, como lhos, pais, irmãos, amigos, pares/cônjuges, líderes,
colegas de trabalho, clientes e fornecedores.
Neste livro vou falar sobre como tomar alguns cuidados, fazer melhores
escolhas, aprender a nos blindar de algumas armadilhas e principalmente
nos voltarmos para nós mesmos e entendermos que, muitas vezes,
inconscientemente, nós também sabotamos os nossos relacionamentos, ou
pior, a nossa felicidade. Muitas vezes precisamos recuar um pouco para
enxergar o nosso papel na relação.
Também vou falar sobre o que geralmente funciona e o que não
funciona em um relacionamento e o que as pessoas gostam de receber e
como querem ser tratadas.
Vou compartilhar histórias e experiências pessoais com vocês. Situações
nas quais tive que me afastar de pessoas que amava para me reorganizar,
me reconstruir e voltar melhor e mais fortalecida para as minhas relações.
Navego para a segunda grande e motivadora história, também baseada
em histórias reais. Trata-se da pesquisa mais longa já feita sobre a vida
adulta. Imagine se pudéssemos assistir às pessoas desde sua adolescência
até a velhice para ver o que realmente as mantêm felizes e saudáveis
enquanto vivem.
Pois é, fantasticamente alguns pesquisadores engajados zeram isso.
Desde 1938, acompanham a vida de dois grupos de homens. O primeiro
pesquisador começou o estudo quando estava no segundo ano da
Universidade de Harvard. Pesquisou um grupo de jovens que fez faculdade
durante a Segunda Guerra Mundial, e a maioria serviu durante a guerra. O
segundo grupo que foi acompanhado era de garotos dos bairros mais
pobres de Boston, que foram escolhidos para o estudo especialmente
porque eram as famílias mais problemáticas e desfavorecidas na Boston da
década de 30.
Robert Waldinger é hoje o diretor desse projeto, intitulado Harvard
Study of Adult Development1. Ele é psiquiatra, psicanalista e sacerdote zen,
além de ser o professor clínico de psiquiatria na Harvard Medical School.
Durante 75 anos, os pesquisadores acompanham as vidas de 724 homens,
ano após ano, perguntando sobre seus trabalhos, vida doméstica, saúde e
agora seguem com os lhos, para entender como a experiência da infância
pôde afetar a saúde e o bem-estar na meia-idade.
Estudos assim são extremamente raros. Quase todos os projetos desse
tipo se encerram dentro de uma década porque as pessoas os abandonam,
ou o dinheiro para a pesquisa acaba, ou os pesquisadores morrem e
ninguém mais dá continuidade.
O estudo tem por princípio entender o que torna as pessoas realmente
felizes até o nal de suas vidas. Muitas pessoas acreditam que o dinheiro e a
fama são os fatores mais importantes para termos uma vida boa. Como
resultado, gastam seu tempo precioso priorizando coisas e ignorando seus
relacionamentos.
Isso prova que precisamos de uma melhor compreensão do que “vida
boa” parece ser. Quase tudo que sabemos sobre a vida humana descobrimos
ao perguntar para as pessoas do que elas se lembram do passado, mas as
retrospectivas nem sempre são apuradas. Esquecemos a maior parte do que
nos acontece na vida, e às vezes a memória é criativa, assim imaginamos
uma parte do que pensamos que lembramos.
Aproximadamente 60 dos 724 homens que participaram dos estudos
ainda estão vivos, a maioria deles na casa dos 90 anos. Tornaram-se
operários, advogados, pedreiros e médicos. Um deles tornou-se presidente
dos Estados Unidos, alguns desenvolveram alcoolismo, uns poucos sofreram
de esquizofrenia. Alguns ascenderam socialmente do fundo até o topo e
outros zeram a jornada na direção oposta. Os fundadores desse estudo,
nem nos seus sonhos mais loucos imaginariam que depois de 75 anos ainda
estaríamos aqui, contando que ele continua. A cada dois anos, a equipe
dedicada contata seus voluntários para saber se podem enviar-lhes mais um
bocado de perguntas sobre suas vidas.
Além das perguntas, eles também os entrevistam em suas salas de estar.
Pegam informações com seus médicos, tiram sangue, escaneiam seus
cérebros, falam com seus lhos e lmam conversas com suas esposas sobre
suas maiores preocupações. A nal, o que aprenderam até agora? Quais são
as lições extraídas das dezenas de milhares de páginas de informação
geradas sobre essas vidas?
As lições não são sobre riqueza, fama ou trabalho em excesso. A
mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta:
Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.
Ponto nal.
Aprendi três grandes lições sobre relacionamentos neste estudo e você
poderá saber quais são no nal deste livro.
Quero agradecer desde já a todas as pessoas que convivem e
conviveram comigo e que certamente me deram excelentes contribuições.
Se você teve algum contato ou já conversou comigo em alguma situação,
tenha certeza de que contribuiu para este livro existir. Suas histórias, com
todo o cuidado ético e de privacidade, ajudaram a iluminar esta obra, e se
está tendo um primeiro contato comigo, agora, tenha certeza de que suas
estórias poderão ser retratadas nos próximos livros.
Torna-se absolutamente necessário avaliarmos a relevância dos
relacionamentos na nossa vida e a forma como aceitamos e in uenciamos
as pessoas.
Vale lembrar que um dos maiores best-sellers no assunto, o livro de
Dale Carnegie, intitulado Como fazer amigos e in uenciar pessoas, foi
escrito em 1930, e que o autor faleceu em 1955. Ele foi um mestre no
assunto, mas não é possível que não tenha nada novo depois de todos esses
anos, principalmente com a invenção da internet. Sabemos que a forma de
se relacionar mudou completamente. Ele não tinha site, nem nunca
navegou pelas mídias sociais. Hoje acontecem coisas que Dale Carnegie se
contorceria no caixão caso soubesse.
Não é à toa que as mídias e redes sociais como Twitter, Facebook,
Linkedin, Periscope, Snapchat, WhatsApp, Viber e outras ferramentas
conhecidas no mercado fazem tanto sucesso e tornam-se febre em tão
pouco tempo. Porque ninguém vive sem informações sobre os outros.
Temos necessidade de saber como as pessoas são, como vivem, como
aprendem, como superam obstáculos e di culdades.
Além disso, nossa atual geração tem sede por informação. Feliz ou
infelizmente, não sabemos mais viver sem isso, e acaba sendo confortador
quando identi camos problemas parecidos com os nossos; é como se
imediatamente nosso coração nos dissesse: “Calma, isso não acontece só
com você!”
Se de fato fomos programados a nos conectar, precisamos desenvolver e
aprimorar a nossa INTELIGÊNCIA RELACIONAL.
Nossos gestos e comportamentos podem ser melhorados a cada dia para
que possamos desenvolver mais aptidão e talento na forma como tratamos
as pessoas. Através desse conceito, você vai aprender a gerenciar seus
relacionamentos e entender os caminhos que podem torná-lo uma pessoa
mais inteligente no convívio social, entendendo melhor como lidar com as
pessoas, respeitando as diferenças e levando-as a pensar como você,
persuadindo-as de forma mais natural e positiva.
Claro que alguns parecem ter mais facilidade e talento para se
relacionar do que outros. Mas o que importa aqui é que essas aptidões
podem desabrochar como botões de talentos, e quanto mais cedo iniciamos
essa prática mais fácil e rápido será para obtermos sucesso nas nossas
relações, pois o conhecimento e a inteligência são aprendidos e podemos
treinar para nos tornarmos experts nessa área.
A relação entre as pessoas, apesar de prazerosa, é complicada e um dos
assuntos mais comentados no nosso dia a dia. Em qualquer lugar que
frequentamos, as pessoas estão sempre falando bem ou mal umas das
outras, seja nas empresas, nos clubes, nos cabeleireiros, nos condomínios ou
em qualquer outro lugar que você tenha por hábito frequentar.
Sabemos que as relações que temos com as pessoas nos impulsionam ou
nos destroem. Elas podem nos dar energia e nos incentivar para o sucesso
ou podem nos conduzir à derrota e à falência emocional,
independentemente de ser através de uma análise de desempenho ou de
um bate-papo informal.
O que já sabemos há muito tempo é que 15% do sucesso das pessoas
são devidos ao seu conhecimento pro ssional, os outros 85% são atribuídos
à competência e habilidade de se relacionar.
Isso explica por que precisamos nos relacionar bem com os outros.
Importante lembrar que as nossas relações não se limitam a pares
românticos, mas a chefe e subordinado, relações de trabalho, vizinhos,
familiares, amigos, professor-aluno ou qualquer outro tipo de convivência
envolvendo pessoas e grupos.

Qual é o propósito dos relacionamentos?


O que ganhamos se aprendermos a nos relacionar de forma
inteligente?
Por que algumas pessoas se “a nam” mais conosco do que
outras? O que existe em cada um de nós que facilita ou di culta
o convívio?

Envolver mais de um ser humano gera a possibilidade de grandes


emoções. Isso que você verá neste livro, a razão pura dos relacionamentos.
É preciso entender a forma como as pessoas agem, pensam, decidem,
lideram ou se relacionam.
Cada um traz consigo seu estilo, personalidade, per l, cultura, vivências
e valores próprios, e por isso é tão importante conviver, ou melhor, viver
com outros, para aprendermos com essas diferenças e com as possíveis
trocas que podem acontecer.
Não tenho a intenção de ser a última palavra sobre o assunto, tampouco
a pioneira, é apenas uma aspiração que deve contribuir de forma
evolucionista nos resultados que cada um de vocês pode obter nos
negócios, na forma de aprender e educar, na maneira como lideram, nas
relações com a família, com as pessoas que convivem e trabalham, en m,
aprimorar as suas relações com as pessoas, com as suas coisas, com o
mundo.
No decorrer dessa história, você certamente se identi cará com alguns
exemplos e poderá entender melhor o que acontece em essência no coração
das pessoas, mesmo aquelas que lhe parecem bizarras ou completamente
diferentes de você.
Espero que você se divirta e aprenda a tirar o melhor proveito das suas
relações, de uma forma saudável e positiva.
Você também verá que existem recursos dentro de si, que muitas vezes
deixa de usar. Você pode ser mais otimista quando está interagindo com as
pessoas, e assim vai atrair coisas boas para si e para os outros.
A inteligência relacional, que também gosto de titular de educação
social, é a habilidade de sabermos enfrentar as situações do nosso dia a dia,
dos encontros e desencontros com as pessoas e com a vida.
Divirta-se, mande e-mail, mensagem via site ou Facebook e faça suas
sugestões, pois quero contar com você para o próximo livro.
De uma forma ou de outra, quero agradecer por já fazer parte dos meus
relacionamentos e da minha vida.
A nal, a chance de sermos realmente felizes vem do modo inteligente
pelo qual podemos nos relacionar.
Ana Artigas

1. Estudo dirigido atualmente por Robert Waldinger, intitulado Harvard Study of Adult Development
na Harvard Medical School. Durante 75 anos, os pesquisadores acompanham as vidas de 724
homens. Fonte: https://goo.gl/dO0bbL Endereço do vídeo do TED: https://goo.gl/glPTXL
Capítulo 1
O que é e de onde vem a inteligência?
Você já parou para pensar na quantidade de informações que recebe
todos os dias?
Como será que a nossa mente processa essas informações para que não
aconteça um congestionamento de pensamentos, mensagens, ideias e
imagens?
O cérebro precisa de muito vigor para registrar com o mesmo
entusiasmo tanta informação. Mas temos a nosso favor a memória, e, para
nos ajudar ainda mais, ela é seletiva e auxilia a nossa mente a ltrar o que
mais nos interessa. O restante das informações a gente não descarta, mas
joga em alguma “pasta” que ca guardada no fundo da nossa cabeça.
A memória seletiva protege a nossa mente contra esse turbilhão de
informações vindo da internet, do smartphone, da televisão, do rádio, do
que lemos: seja em cartazes, livros, outdoors, além das informações que
captamos com as pessoas com quem conversamos todos os dias e que nos
ensinam muito.
Na introdução deste livro você deve ter lido como as conversas que tive
com as pessoas foram enriquecedoras para que essa obra existisse. Apesar
do conhecimento, das pesquisas que realizei, dos livros que li e da base
conceitual que construí no decorrer desses anos, os relacionamentos diários
com as pessoas foram de uma contribuição inigualável. Aliás, gostar de
conversar é uma característica comum nas pessoas relacionais e que gostam
de estar entre outras. Inclusive atribuo a essa habilidade de fazer e manter
relacionamentos, extraindo o melhor das pessoas, uma das principais ações
para que eu pudesse escrever este livro.
As nossas habilidades e inteligências são construídas de várias maneiras.
São milhares de correlações e in uências, que veremos adiante, mas antes
de entendermos mais sobre Inteligência Relacional, precisamos entender o
que é Inteligência e como fazemos para processar de forma adequada as
informações que recebemos no nosso dia a dia.
Durante quase 250 mil anos na Terra, o ser humano foi dominado pelo
pensamento mitológico e suas lendas. Há 2.500 anos surgiram a Filoso a e
a razão, que conduzem à indução ou dedução de algo e que tentam buscar
essa resposta, abrindo caminho para algo além dos mitos e crenças.
Há muitos anos – e por que não dizer séculos – diferentes autores e
lósofos tentaram de nir e conceituar Inteligência. Os primeiros lósofos
da Grécia antiga procuraram respostas sobre questões como consciência,
mente, corpo e como estruturar a sociedade, a política, as regras e o “viver
bem”. De lá para cá, tivemos muitos avanços e vale entender um pouco
dessa evolução.
Vamos começar por Sócrates, conceituado lósofo. Ele acreditava que a
inteligência estava ligada puramente ao raciocínio abstrato – linguagem e
matemática. Considerava que as inteligências eram diferentes e inerentes a
cada pessoa, que cada um nasce com habilidades inatas, ou seja, com uma
predisposição para determinado aprendizado.
Platão e Aristóteles entenderam a inteligência como uma habilidade
voltada para a lógica, para a geometria e a argumentação. Os lósofos
buscaram pessoas sábias e testaram seus conhecimentos com o objetivo de
identi car a inteligência nestas pessoas, como se as outras não a tivessem.
Descartes, em torno do ano de 1600 d.C., em suas re exões, propôs a
separação entre o corpo e a mente, dizendo que o corpo, sendo material,
poderia ser estudado, enquanto a mente, por ter origem divina, somente
poderia ser conhecida e tratada a partir do processo introspectivo2.
Locke argumentou que não nascemos com conhecimentos, mas que os
adquirimos por meio de nossas experiências com o mundo e por meio de
nossa capacidade de re etir sobre o que nos acontece e sobre o que
vivenciamos. Como materialista, ele a rmava que a mente poderia ser
estudada também, mas, naquela época, por falta de recursos, não sabiam
exatamente como fazê-lo. Lembre-se de que naquele período não havia
exames capazes de “ler” o cérebro como: ultrassonogra a, ressonância
magnética, entre outros.
Donders, Helmholtz e Broca foram grandes estudiosos da siologia
cerebral, que descobrindo e aprimorando o estudo da transmissão
neuronal, conexão entre os neurônios (lembrando que neurônios são as
células do nosso cérebro). Estudaram a velocidade do impulso nervoso e
algumas interessantes interligações dentro de suas capacidades de
observação. Durante os tempos de guerra, estudaram as pessoas com graves
sequelas e acidentes cerebrais e zeram, a partir daí, belíssimas descobertas.
Paul Broca, médico francês, revolucionou a ciência com a descoberta da
localização do centro da fala no cérebro, intitulada e conhecida como área
de Broca. No próximo capítulo, você verá ilustrações de onde ca essa área
no cérebro humano.
Renomados autores, lósofos, médicos, siologistas e neurologistas
exploraram a natureza material do corpo e descobriram que havia relações
entre os sentidos humanos e o sistema nervoso, ou seja, correlação entre o
cérebro e as habilidades humanas. Vamos falar um pouco sobre essas
descobertas.
Em 1859, o cientista Charles Darwin causou um poderoso impacto
sobre o estudo da inteligência com a sua Teoria da Evolução. Essa teoria fez
surgir a estimulante possibilidade de a mente humana ter evoluído a partir
de mentes mais primitivas. Darwin apresentou semelhanças no
funcionamento mental dos homens e dos animais e fez cair por terra a
separação entre animais e homens proposta dois séculos antes por
Descartes.
Com Darwin, o estudo do comportamento animal passou a ser
considerado vital para a compreensão do comportamento humano. A teoria
evolutiva provocou também uma mudança no objeto de estudo e no
objetivo da psicologia. A obra de Darwin inspirou o debate que perdura até
hoje: até que ponto a inteligência é advinda de herança genética ou poderia
ser modi cada pelas circunstâncias?
A partir desses questionamentos temos a defesa e a discordância de
lósofos, psicólogos, médicos, cientistas e estudiosos.
Antes de debatermos de onde advém a inteligência, a pergunta é ainda
mais básica: de onde viemos?
Desde os tempos mais remotos indagamos sobre a origem dos seres
vivos, incluindo a nós mesmos, e durante todo esse tempo sempre tivemos
“respostas” na forma de fantasias, estórias fantásticas, mitológicas e
recheadas de alegorias que foram transmitidas de geração em geração.
Com o surgimento da loso a e da razão tentou-se buscar respostas,
mas essa “era de lucidez” racional foi por anos obscurecida pelas sombras da
Idade Média e seus dogmas de fé baseados na antiga mitologia judaico-
cristã.
No Oriente Médio, boa parte dessa cultura racional sobreviveu
disputando lugar com a crença na mitologia islâmica, e no Extremo
Oriente, desde vinte e cinco séculos atrás, outro tipo de loso a, mais
mística, se espalhava, baseada no Hinduísmo, Taoísmo e Budismo.
Só há pouco mais de duzentos e cinquenta anos outra área do potencial
humano amadureceu e se consolidou: a ciência.
A ciência nada mais é que a fusão da razão com a experimentação.
Pensar, experimentar e alcançar o conhecimento prático de processos. É tão
e ciente que seus resultados e materiais em menos de meio século foram
muito mais marcantes do que as dezenas de milhares de anos de misticismo
e magia.
A ciência pode não ter algumas respostas para nossas indagações
interiores, e com certeza não tem a chave da felicidade, mas ninguém pode
negar que ela é muito e caz em entender, explicar e controlar a natureza.
A ciência também nos deu sua resposta para a grande pergunta sobre a
origem da vida: a Teoria da Evolução.
Não é de se admirar que essa explicação só tenha surgido há tão pouco
tempo. Primeiro, porque não se mudam rapidamente centenas de milhares
de anos de pensamento mitológico e, depois, porque essa questão
realmente não é fácil de ser respondida, tanto por ter acontecido há muitos
anos e por ninguém a ter presenciado.
As primeiras descobertas trouxeram um forte quadro de resistência. O
processo de elaboração de pensamento foi tomando corpo aos poucos, já
que o evolucionismo apresenta uma resposta diferente daquela referência
que dominou toda a Idade Média, a Bíblia. A Ciência teve di culdades
para se estabelecer, enfrentando toda estrutura de repressão religiosa que
até hoje não foi totalmente vencida.
A nal, como enfrentar o Mito da Criação? Algo do qual depende boa
parte de toda a teologia cristã e suas diretrizes de comportamento. Até hoje
é questionável, compreensível e complicado.
Continua o trabalho árduo de vários pesquisadores, cientistas e
lósofos, e encontramos respostas e evoluções na forma de se “pensar”,
embora a teoria da evolução pareça ser a mais precisa explicação para a
origem da vida.
En m, o que são a Teoria da Evolução e o Evolucionismo3?
O Evolucionismo não é produto de uma só pessoa, é o resultado
inevitável de um processo de evolução cientí ca. A Ciência lida com fatos
explicáveis e controláveis, previsíveis e reproduzíveis. Só pode aceitar
explicações que se baseiem em fenômenos comprovados e observáveis na
natureza.
Ninguém jamais viu algo surgir do nada, ou uma transformação tão
radical quanto um organismo complexo como o humano surgir do barro.
Isso não existe na natureza. Portanto, a explicação religiosa criacionista é
inaceitável, no pensamento cientí co, mas completamente aceitável na
crença e no coração dos éis e devotos a Cristo, o que precisa ser respeitado.
A natureza e os seres humanos, lenta e progressivamente, nascem,
crescem, e se desenvolvem até atingir a maturidade, e morrerem. Uma
pequena semente se torna uma imensa árvore enquanto um aglomerado de
células menores que a cabeça de um al nete pode se tornar um grande
animal.
Sendo assim, a evolução está em tudo o que existe. É antes de tudo uma
transformação, uma mudança lenta e gradual, desde o mundo físico até os
processos sociais.
Nada acontece sem ser resultado de estágios progressivos de evolução e
é justamente aí que a Teoria da Evolução se torna base da Inteligência
Relacional, já que o ser humano só se desenvolve através do contato com os
outros. Isso veremos com mais detalhe nos próximos capítulos.
Continuando no caminho da evolução, Darwin abriu campo para
Galton, seu primo.
Francis Galton, matemático, estatístico e antropólogo, defendia a
herança da inteligência e seus aspectos eugênicos4. Galton acreditava que a
raça humana poderia ser melhorada caso fossem evitados “cruzamentos
indesejáveis”. O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de
indivíduos mais notáveis ou mais aptos para a sociedade e desencorajava o
nascimento dos inaptos. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência
para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução
seletiva.
Os estudos e conclusões de Galton in uenciaram fortemente a criação
de métodos estatísticos. Foi ele quem deu origem ao conceito de testes de
inteligência, elaborando a aplicação de testes em relação às habilidades
motoras e à capacidade sensorial dos indivíduos. Estudou a diversidade e o
tempo necessário para a produção de associações de ideias,
complementações riquíssimas para a psicologia e para o processo de estudo
das habilidades cognitivas (conhecimento).
Dando continuidade a esse estudo, entre os séculos XIX e XX, um
renomado estudioso francês teve grande impacto no desenvolvimento e
avaliação das Inteligências: Jean Piaget (1896-1980). Sua abordagem é
construtivista, uma corrente teórica que procura explicar como a
inteligência humana se desenvolve. Parte do pressuposto de que a
inteligência é determinada pela ação mútua entre o indivíduo e o meio, ou
seja, defende que o homem não nasce inteligente, mas também não ca
passivo sob a in uência do meio. Ele interage com o meio e por isso
aprende e responde aos estímulos do meio ambiente e do meio social.
Assim, constrói e organiza o seu próprio conhecimento através do contato
com as pessoas com quem interage. Para isso, utiliza-se de um mecanismo
autorregulatório que tem como base suas condições biológicas (inatas)
ativadas pela interação do organismo com o meio ambiente.
O estudo de Piaget foi o verdadeiro motor do desenvolvimento e do
progresso intelectual humano.
A partir dessa evolução histórica, acreditou-se durante boa parte do
século XIX e XX que a Inteligência podia ser mensurada e comparada por
meio de testes que estabeleciam numericamente o QI – Quociente de
Inteligência. Isto é, media-se o grau de inteligência de uma pessoa a partir
das suas competências numéricas, lógicas e racionais.
Assim, deve-se destacar a imensa contribuição do psicólogo francês
Alfred Binet e seus sucessores, que observaram e estudaram a inteligência
com o objetivo de medi-la por meio de testes. Pouco depois, o alemão
Wilhem Stern criou um sistema de pontuação padrão para medir o teste e
lhe deu o nome de Intelligenz-Quotient, conhecidos como Avaliação do QI5.
O fascínio de Binet pelo estudo da inteligência humana foi despertado
com o desenvolvimento de suas lhas. Percebeu que a facilidade com que
elas aprendiam e absorviam as informações variava de acordo com a
quantidade de atenção que depositavam no assunto, o que reforça a
seletividade da memória e como registramos as informações conforme o
nosso nível de interesse em cada processo.
Binet descobriu o teste de Francis Galton e resolveu realizar uma
profunda pesquisa para avaliar as diferenças das habilidades em
pro ssionais como matemáticos, escritores e artistas. Na sequência, aplicou
testes e validou seus experimentos com mais de 50 crianças e tornou-se um
pesquisador educacional. Passou a fazer parte da sociedade para o estudo
da Psicologia Infantil e publicou vários artigos na época que ajudaram
professores e pro ssionais de educação. Também contou com a colaboração
de eodore Simon e juntos criaram o que foi denominado Escala Binet-
Simon. Essas escalas foram divididas por grau de di culdade, o que
facilitava a descoberta da “idade mental” da criança.
De qualquer forma, a conclusão de Binet foi fantástica. Deixou claro
que a inteligência atua num mundo de constante transformação e que
cresce conforme a criança ou o ser humano se desenvolve, por isso não
pode ser medida como comprimento ou volume, mas se pudesse ser
acompanhada poderíamos ter uma noção mais completa da aptidão
intelectual. Colaborou muito com a classi cação das aptidões e permitiu,
com a criação do teste de QI, alargar o conhecimento sobre a inteligência
humana.
Com o tempo, o teste de QI foi caindo em descrédito, pois de maneira
notória, as pessoas mais inteligentes matematicamente, ou no
estabelecimento de conexões numéricas e lógicas, nem sempre eram as mais
bem-sucedidas ou as que alcançavam os melhores resultados no
desempenho de seu trabalho ou na sua vida pessoal. A partir disso novas
descobertas foram feitas.
Lembre-se dos melhores alunos da sua sala de aula quando você era
criança ou mesmo no ensino médio ou faculdade. Será que os mais
estudiosos são hoje os mais bem-sucedidos, ou existem outras
características que determinam o sucesso e os resultados?
As pessoas que estudam bastante, ou que têm resultado alto em testes
de QI, podem obter sucesso em várias áreas, principalmente as que exigem
raciocínio lógico e estratégico, mas podem apresentar pouco conhecimento
em áreas que exigem desembaraço, exibilidade, facilidade de contato ou
persuasão. Isso não é uma regra, há pessoas com alto QI que também são
inteligentes emocionais e relacionais, mas o que vamos mostrar aqui é que
as pessoas podem apresentar tendências, facilidades e di culdades em áreas
distintas.
Da mesma forma que algumas pessoas com alta Inteligência Emocional
(IE) ou alta Inteligência Relacional (IR) podem apresentar baixo potencial
nas escalas de QI (quociente de inteligência).
Di cilmente apresentamos potencial alto em todas as áreas ou
competências. Além do mais, a tendência é que o ser humano desenvolva
mais as inteligências e habilidades que são exigidas no seu dia a dia, no
trabalho ou mesmo as que estão atreladas aos seus talentos naturais.
É muito comum também desenvolverem as que gostam mais, como ler,
escrever, fazer música, por exemplo, ou que utilizam com mais frequência.
O que quero ressaltar aqui é que cada um tem suas próprias habilidades e
di culdades, e o desempenho delas vai favorecer ou di cultar os resultados
em sua atuação pro ssional e na sua vida pessoal.
Sabe-se que para ter sucesso em uma organização, por exemplo, ou para
ser um alto potencial (high potencial), o pro ssional precisa ter um
desempenho acima da média. Desempenhar signi ca fazer, mostrar, colocar
em prática aquilo que a pessoa diz saber ou conhecer. Um pro ssional
considerado um “alto potencial” faz algo de forma surpreendente, mais
rápido ou superior às pessoas que parecem ter o mesmo conhecimento, mas
não se destacam tão bem no mesmo cenário ou circunstância. O conceito
de competências, que citamos acima, foi nomeado pelos RHs (áreas de
recursos humanos) com uso do acróstico: CHA – que nada mais é do que a
soma de:
Conhecimento – o que aprendemos/informações,
Habilidades – o que as pessoas mostram facilidade para fazer/talento.
Atitudes – o que é colocado em prática/ação.
Esses três pilares de nem o conceito de competência e juntos mostram
o desempenho de um pro ssional. De nada adianta termos habilidade e
conhecimento se não temos atitude para colocar em prática e também de
nada vale termos atitude sem conhecimento e habilidade.
Vale lembrar que atitude sem conhecimento é risco e
irresponsabilidade. As pessoas com muita atitude e pouco conhecimento
tendem a sair por aí fazendo absurdos e agindo de forma inconsequente.
Atitude é fundamental, mas deve sempre vir temperada com conhecimento
e habilidade.
Em função desses princípios, o conceito de sucesso vem mudando nos
últimos anos. Psicólogos, estudiosos e pesquisadores perceberam que
algumas pessoas podem obter resultados baixos nos testes de QI ou de
raciocínio lógico, mas podem ter sucesso na conexão pessoal, emocional e
relacional. Essas habilidades favorecem o desempenho e a forma como
alcançam objetivos e resultados em suas vidas.
Da mesma maneira, pessoas muito inteligentes, como doutores,
pesquisadores, cientistas e professores universitários, nem sempre obtêm
sucesso pro ssional ou pessoal, apesar de seu vasto conhecimento teórico
sobre determinado tema ou assunto. Muitas vezes são reconhecidos no
mundo acadêmico ou na região onde vivem, mas nem sempre conseguem
se destacar ou ganhar dinheiro com seu conhecimento ou suas criações.
Então, lanço algumas perguntas desa adoras que me proponho a
responder no decorrer deste livro: que características determinam o
sucesso? Como podemos usar as nossas inteligências e habilidades para
chegar aonde pretendemos? Como podemos nos tornar mais inteligentes
nos nossos relacionamentos e com isso ter uma vida melhor e mais feliz?
Venho estudando e descobrindo respostas para essas questões há mais
de vinte anos. Avaliei mais de quatro mil per s pro ssionais com a
utilização de um dos mais renomados per s de avaliação do mundo, o
Per l Caliper – instrumento de assessment (avaliação), que avalia a
capacidade de raciocínio abstrato (conhecimento lógico-matemático),
habilidades, atitudes e comportamentos voltados para o mundo do
trabalho. Descobri, com isso, uma correlação entre traços de personalidade
que podem favorecer ou comprometer a procura por sucesso e por
resultados nos diversos âmbitos da vida pessoal e pro ssional.
Além das habilidades pessoais, precisamos entender o que é
considerado sucesso. Existem diferentes signi cados para a palavra sucesso,
dependendo muito dos níveis de cobrança, exigência e desejos de cada um.
O que é ser bem-sucedido para uma pessoa pode não ser para outra. Não
devemos nos limitar às conquistas pro ssionais.
A descoberta das nossas inteligências e habilidades traz muito sucesso
na vida pessoal. É possível obter ganhos em muitas áreas, e veremos que
esses ganhos podem ser aprimorados, favorecidos e desenvolvidos também
através do contato com as pessoas com quem convivemos e nos
relacionamos.
A nal, por que algumas pessoas que obtêm sucesso na vida e se
mostram determinadas, disciplinadas ou incrivelmente persistentes foram
consideradas pessoas “limitadas” pelos testes de QI?
Compor uma sinfonia, recitar um poema, ministrar uma palestra
encantadora, convencer uma plateia exigente ou ganhar uma partida de
tênis utilizam o mesmo tipo de inteligência?
Como e por que essas pessoas conseguem obter tanto sucesso em
diferentes áreas? Que habilidades e inteligências são importantes, por
exemplo, para mantermos bons relacionamentos interpessoais?
A resposta começa a ser delineada quando estudamos os vários tipos de
inteligência.
Quando o ser humano vivencia experiências relacionadas a sua mais
alta inteligência (inteligência pura ou talento), ele geralmente sofre uma
forte reação emocional, capaz de transformar sua vida e levá-la ao alto
desempenho. Você já deve ter visto crianças que, por exemplo, ao ouvir um
violino ou uma orquestra sinfônica se emocionam. Ou que, de repente, mal
aprendem a ler e entonam um texto com tal expressividade que surpreende
a todos.
Estamos falando de Inteligências naturais?

2. Introspecção - ato pelo qual o sujeito observa os conteúdos de seus estados mentais com
consciência deles. Dentre eles destacam-se crenças, imagens mentais, memórias (visuais, auditivas,
olfativas, sonoras, táteis), as intenções, as emoções e o conteúdo do pensamento em geral (conceitos,
raciocínios, associações de ideias). https://goo.gl/yyU6dq
3. Teoria da evolução: https://goo.gl/z8sdY3
4. Eugenia - termo criado em 1883 por Francis Galton, signi cando “bem nascido”. Galton de niu
eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as
qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. O tema é bastante controverso,
particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia
de “pureza racial”, a qual culminou no Holocausto. Fonte: https://goo.gl/yGRGgf
5. QI – Quociente de inteligência: medida padronizada obtida por meio de testes desenvolvidos para
avaliar as capacidades cognitivas, a inteligência de um sujeito. Expressão do nível de habilidade de
um indivíduo num determinado momento em relação ao padrão (ou normas) comum à sua faixa
etária.
Capítulo 2
Quais as inteligências mais
conhecidas e como podemos
desenvolvê-las
Certo dia, fui visitar uma amiga que tinha ganhado bebê. A criança era
linda, mas o que me chamou mesmo a atenção foi seu lho de três anos
que, enquanto conversávamos, imitava ser um maestro ao ouvir a música
clássica que envolvia o ambiente. Ele interpretava aquela música com tanta
emoção que seu corpo inteiro parecia utuar, completamente envolto em
uma atmosfera diferente daquela em que estávamos. Ele não estava ali. Sua
mente parecia estar distante e sua expressão facial era suave, encantadora.
Já havia estudado as diferentes inteligências nesta época e pela
observação dessas situações, tive certeza de que nascemos mesmo com
algumas predisposições para determinadas inteligências e que certamente
não existe um único tipo ou forma de inteligência.
No início da década de 1980, estudiosos da Universidade de Harvard,
liderados pelo psicólogo Howard Gardner, apresentaram uma
revolucionária pesquisa, denominada inteligências múltiplas. Esse estudo
identi ca e descreve didaticamente sete tipos de inteligências possíveis de
serem encontradas nos seres humanos. Essa forma de demonstrar as
inteligências revolucionou e obteve um eco gigantesco no campo da
educação.
Você vai conhecer quais são essas inteligências e vai poder identi car
pessoas e personalidades conhecidas que possuem esses tipos de
inteligência.
Segundo Gardner, a inteligência “pura” aparece no primeiro ano de
vida, mas nem sempre é fácil de ser percebida. Embora as crianças mostrem
qual é a sua área de interesse desde pequenas, os prodígios e o
aparecimento precoce das inteligências não são comuns. Podemos observar
quando algumas crianças desde cedo gostam de música ou escrevem e
desenham antes ou melhor que outras. Algumas mostram uma capacidade
espacial acima da média, montando blocos lógicos com facilidade, mas o
desempenho maduro, geralmente, vem com o tempo.
Apesar de as pessoas apresentarem mais facilidade para desempenhar
algumas tarefas do que outras, a excelência vem com o treino e o
desenvolvimento da habilidade que possuem de forma inata, ou seja,
mesmo que alguém nasça com uma inteligência natural (voltada para a
música, como exempli quei), se não desenvolver ou treinar, pode ser que
nunca se torne um expert ou um excelente músico.
Por isso a atenção às habilidades dos nossos lhos e das pessoas com
quem convivemos, e a estimulação destas, são fundamentais. Nesse
momento se inicia a nossa responsabilidade como pais, educadores, líderes
ou facilitadores de um brilhante processo de aprendizado e
desenvolvimento.
É importante lembrar que o bom desempenho em uma área não implica
da realização talentosa em outra, mas é bem comum apresentarmos e
desenvolvermos mais de uma inteligência, no decorrer da vida, sendo elas
complementares ou não.
De forma interessante, vamos ver cada uma dessas inteligências
estudadas pela equipe de Gardner e como podemos identi cá-las e
desenvolvê-las em nós mesmos, em nossos lhos e na nossa equipe de
trabalho.
1. Inteligência Lógico-matemática – pessoas com esse per l de
inteligência geralmente apresentam uma alta capacidade estratégica,
raciocínio abstrato, fácil memorização e um grande talento para lidar com
cálculos numéricos, matemáticos e com a lógica de modo geral. Elas têm
facilidade para encontrar solução para problemas complexos e capacidade
para dividi-los em “subproblemas” a m de resolvê-los até chegar à resposta
nal. Sentem-se motivadas pelo desa o de investigar soluções complexas e
podem desenvolver fórmulas matemáticas ou resoluções diferentes para um
problema. Essas pessoas geralmente organizam suas coisas por tamanho,
cores ou procuram por alguma forma de classi cação. Tendem também a
manter a atenção e a disciplina em atividades que exigem concentração a
detalhes. Essa inteligência é muitas vezes encontrada em engenheiros,
líderes estratégicos, nancistas, contadores, matemáticos, desenvolvedores
de jogos e sistemas e outros pro ssionais que gostam desse tipo de desa o
intelectual.
Na década de 1980, acreditava-se que a inteligência lógico-matemática
estava fortemente relacionada ao lado esquerdo do cérebro e que existia
uma dominância cerebral para as inteligências. No entanto, as novas
descobertas neuro siológicas, ainda em franca evolução, estão trazendo
inovações. Alguns autores já defendem que a atividade dos neurônios
(nome que se dá à célula do sistema nervoso responsável pela transmissão
de sinais químicos e elétricos no cérebro) é sempre probabilística, ou seja,
pode mudar. Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro da Universidade
Duke (EUA), defende que nem sempre os mesmos neurônios produzem a
mesma ação. Sendo assim, a atividade cerebral utua. Se essa observação se
con rmar em outros estudos, o neurocientista diz que será preciso derrubar
de vez a ideia de hemisférios especializados em determinada área, porque
eles podem mudar ou refazer seus caminhos6.
Cientistas da Universidade de Utah (EUA) estão desacreditando a
teoria de que há diferenças entre as pessoas de acordo com o
desenvolvimento dos lados do cérebro. Até há pouco tempo, acreditava-se
que as pessoas lógicas, metodológicas e analíticas possuíam o lado esquerdo
do cérebro dominante, enquanto os criativos e artísticos têm o lado direito
mais desenvolvido. O problema é que a ciência nunca conseguiu comprovar
essa noção. Esses novos cientistas estão desmisti cando de vez essa ideia
com uma análise de mais de 1.000 cérebros. Eles não encontraram
nenhuma evidência de que as pessoas preferencialmente utilizam a parte
esquerda ou direita do cérebro. Todos os participantes do estudo – e, sem
dúvida, os cientistas – estavam usando todo o seu cérebro da mesma forma,
durante todo o curso do experimento7.
Alguns exemplos de pessoas famosas com essa habilidade foram: Albert
Einstein, Pitágoras, Platão, Tales de Mileto, entre outros. No Brasil,
destacamos Benjamin Constant, engenheiro militar e doutor em
Matemática que construiu pontes, trincheiras e desenhou mapas que
contribuíram para planejar estrategicamente ações militares. Também o
matemático Oswald de Souza, que se tornou conhecido a partir da década
de 70 quando calculava a probabilidade de acertos na loteria esportiva no
programa Fantástico da Rede Globo.
Existem pro ssionais magní cos nesta área, inclusive os que
desenvolvem sistemas e aplicativos para smartphones e computadores. São
exemplos de pessoas que apresentam rapidez de raciocínio na forma como
perseguem a solução para seus problemas e lidam com muitas variáveis
numéricas e lógicas ao mesmo tempo. Esses indivíduos parecem capazes de
criar numerosas hipóteses que podem ser avaliadas e depois aceitas ou
rejeitadas, mas fazem tentativas incríveis.
Você já obteve resultados favoráveis usando esse tipo de inteligência ou
conhece pessoas que são capazes de correlacionar e fazer diferentes e
surpreendentes análises? Existem pessoas com essa habilidade próximas a
você ou na sua equipe de trabalho? Fique atento, uma série de benefícios e
resultados pode surgir no desenvolvimento de planos e soluções estratégicas
e inovadoras, se você souber captar e fazer um bom uso dessa habilidade.
Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: jogos com
graus de di culdade variados, como xadrez, sudoku, jogos de computador
ou videogames, em que você é desa ado a pensar e conquistar novas fases;
materiais manipulativos (quebra-cabeças e brinquedos de montar),
categorização de fatos e de informação, muito comuns em brinquedos com
letras e números, associação de fatos e guras, analogias, experiências
laboratoriais, jogos de memória e o desdobramento de mapas.
2. Inteligência Linguística – caracteriza-se pelo domínio e gosto
especial pelas palavras, sentenças, frases e pelo desejo de explorá-las. As
pessoas que possuem este tipo de inteligência geralmente apresentam
facilidade para se expressar e se comunicar, tanto verbalmente quanto na
forma escrita. Muitas vezes apreciam aprender idiomas ou linguagens com
símbolos. Mostram grande expressividade no momento de se comunicar e
podem usar a linguagem para convencer, persuadir, agradar, estimular ou
transmitir ideias de forma clara. Podem apresentar um alto grau de atenção
e sensibilidade para entender pontos de vista alheios, o que demonstra
empatia. É predominante em poetas, escritores, linguistas, jornalistas,
professores e consultores. Gardner destaca também que a inteligência
linguística é uma das inteligências mais comuns, porque usamos a escrita e
a leitura com certa frequência, somos comunicadores e estimulamos essa
área diariamente.
No capítulo 1 falamos sobre Paul Broca, que descobriu onde ca
localizado o centro da fala, por isso essa região foi batizada com seu nome,
“centro de broca”, área do cérebro responsável pela produção de sentenças
gramaticais, região especial no córtex pré-frontal que contém um circuito
necessário para a formação da palavra. Esta área está localizada
parcialmente no córtex pré-frontal postero-lateralmente e parcialmente na
área pré-motora, mais predominante no lado direito do cérebro. É onde
ocorre o planejamento dos padrões motores para a expressão de palavras
individuais. Uma pessoa com lesão nesta área pode ser capaz de
compreender palavras e frases simples, mas tem di culdade de juntá-las e
conectá-las, di cultando a formação de frases e de ideias mais complexas.
O estudo dos prejuízos adquiridos da linguagem, as afasias, passou a se
relacionar com a investigação do comportamento neuro siológico natural
da linguagem, por técnicas de imagem e do aprimoramento no estudo dos
potenciais bioelétricos do tecido cerebral.
Os estudos iniciais das afasias revelaram que os danos em duas áreas
corticais estavam associados a prejuízos importantes e nitidamente distintos
da linguagem, nas áreas descobertas por Broca e Wernicke.
A área de Wernicke é uma região do cérebro humano responsável pelo
conhecimento, interpretação e associação das informações, mais
especi camente a compreensão da linguagem. Graves danos na área de
Wernicke podem fazer com que uma pessoa que escuta perfeitamente e
reconhece bem as palavras seja incapaz de agrupar estas palavras para
formar um pensamento coerente, caracterizando doença conhecida como
afasia de Wernicke. A descoberta dessas áreas trouxe ganhos riquíssimos
para o estudo das habilidades e das inteligências8.
Enquanto a motricidade (ação da comunicação) acontece na área de
Broca, na área de Wernicke acontece a compreensão do que os outros
dizem e que dá ao indivíduo a possibilidade de organizar as palavras de
forma sintaticamente correta, um papel muito importante na produção de
discurso. Essa zona é onde convergem os lobos occipital, temporal e parietal
(são as três áreas do cérebro, que se localizam na parte posterior, na lateral
ou na parte superior do cérebro), chamada de Fascículo Arqueado ou
Arcuato.

Localização: porção posterior do Giro Temporal Superior do Córtex


Cerebral. A área de Wernicke recebe o nome em homenagem a Karl
Wernicke, um neurologista e psiquiatra alemão que descobriu e estudou
essa área do cérebro.
Alguns grandes e conhecidos pro ssionais que se destacam com a
Inteligência Linguística são: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir,
grandes intelectuais e escritores franceses que revolucionaram a loso a
contemporânea. Em especial, destaca-se a obra e vida de Simone de
Beauvoir, precursora de seu tempo em sua gênese feminista. Revolucionou
uma época e conquistou seu espaço no fechado mundo intelectual
masculino, escrevendo de forma sublime e impecável sobre militância
socialista e o mundo feminino. Destacam-se, ainda, alguns grandes
escritores, compositores e poetas brasileiros, como Carlos Drummond de
Andrade, Vinícius de Moraes, Luís Fernando Veríssimo, Mário Quintana,
entre outros. Pessoas que, com suas habilidades especí cas, contribuíram de
forma memorável para a cultura linguística do nosso país e demonstraram
uma inteligência linguística acima da média.
Eis algumas formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: invista
em atividades como desenho, pintura, escrita, leitura, jogos e associações
com palavras e letras, palavras cruzadas, caça-palavras etc. Se quiser saber
mais sobre atividades dirigidas para crianças, pesquise sobre os melhores
brinquedos para cada idade e fase, pois essas mesmas atividades podem
variar entre mais fáceis ou mais complexas de acordo com cada idade.
Como pai, estimule desde cedo que as crianças tenham seus próprios
diários, cadernos de anotações ou agendas, onde possam vivenciar a melhor
forma de relatar suas experiências. Quando maiores podem ter uma pasta
ou arquivo em seu computador, tablet ou celular, onde podem contar tudo
o que acontece com eles na escola, nas festas, nos intervalos de aula ou nos
momentos de maior alegria ou tristeza.
É costume em muitas culturas contar histórias para crianças e elas
ajudam a desenvolver a inteligência linguística. Melhor ainda é quando as
próprias crianças são capazes de contar suas histórias de forma original,
muitas vezes com clareza e riqueza de detalhes, relatando suas experiências
com graça e precisão. Aproveite quando a criança começa a descrever seu
dia de forma rica, cronológica e detalhada, e, se você se enche de orgulho
com a forma como seu lho ou outras crianças da família se comunicam,
que atento, essa pode ser sua inteligência mais relevante.
É possível também estimular idosos, portadores de Alzheimer ou
pessoas com outras debilidades que envolvam a perda neurológica da
linguagem, para que se sintam estimulados a continuar exercitando partes
do cérebro que não devem entrar em desuso e são importantes para manter
a comunicação e a conexão com o mundo.
3. Inteligência Musical – essa inteligência é identi cável pela
habilidade para compor e executar padrões musicais, escutando e
discernindo sons. Pessoas com este per l de inteligência têm uma grande
facilidade para, ao escutar uma música, identi car diferentes padrões,
ritmos, timbres e notas musicais. São capazes de ouvir e processar sons com
certa facilidade e podem, também, criar músicas e harmonias inéditas.
Pessoas com este per l parecem “enxergar” através dos sons. Muitas vezes
mostram-se capazes de aprender a tocar instrumentos musicais sozinhas.
Este é um tipo de inteligência fortemente relacionado à criatividade. Essa
característica geralmente está associada a outras inteligências, como a
linguística, espacial ou corporal-cinestésica. É predominante em músicos,
compositores, maestros e críticos de música. É considerado um tipo mais
raro de inteligência.
Essa inteligência pode ser identi cada logo cedo, e é importante car
atento às crianças que tendem a cantar para si mesmas. Elas também se
mantêm atentas a sons diferentes do ambiente. Podem aprender a tocar um
instrumento musical com facilidade, inclusive sozinhas. Essa inteligência é
uma das mais fortes para comprovar que parece mesmo existir uma
in uência biológica, genética ou hereditária no aprendizado, ou seja,
podemos nascer com algumas predisposições a aprender.
As pesquisas sobre esse tema continuam em franca expansão, algumas
sérias experiências já comprovam que a música tem ajudado crianças
autistas (o autismo é um transtorno de desenvolvimento que geralmente
aparece nos três primeiros anos de vida e compromete as habilidades de
comunicação e interação social). O comportamento autista é exteriorizado
pela pobreza de contato visual e interação emocional com outras pessoas,
prejuízo na fala, estereotipias, obsessão por rotinas e fascinação por
determinados objetos (Gadia et. al., 2004).
Essas crianças com graves comprometimentos emocionais e
incapacidade de fazer vínculos, nem mesmo com a mãe, se mostram
capazes de tocar instrumentos musicais de forma admirável.
A musicoterapia (terapia que usa a música e seus elementos – som,
ritmo, melodia e harmonia – para a reabilitação física, mental e social) tem
uma longa tradição no transtorno autista, e há muitos relatos na literatura
sugerindo que pode ser usada para melhorar as habilidades de
comunicação social, como iniciar e responder a atos comunicativos
(Geretsegger et. al., 2012). Estímulos musicais têm sido responsáveis por
ativar regiões do cérebro associadas ao processamento de emoções (Wan;
Schlaug, 2010). Pesquisas em psicologia da música enfatizaram a natureza
intensamente social das atividades musicais, que proporcionam interação
com outras pessoas e participação em atividades que podem facilitar o
convívio social e a aquisição de linguagem e de habilidades motoras. Por
esse motivo, atividades musicais são constantemente usadas no tratamento
de autistas, podendo assim justi car o potencial da música como
instrumento terapêutico e educacional (Molnar-Szakacs et. al., 2009)9.
Alguns estudiosos acreditam que a capacidade musical, ao contrário da
linguística e matemática, concentra-se mais no hemisfério direito do
cérebro, embora, como falamos, existam vários questionamentos em relação
às áreas de dominância cerebral.
Alguns grandes e conhecidos pro ssionais com esse tipo de Inteligência
apresentam uma particularidade: começaram muito cedo a desenvolvê-la.
Músicos e compositores como Mozart, Beethoven, Bach e Ravel iniciaram,
respectivamente, suas vidas musicais aos 5, 6, 7 e 8 anos de idade. O
mesmo acontece com grandes cantores e compositores brasileiros. Chico
Buarque de Hollanda, aos cinco anos de idade, materializou seu primeiro
interesse pela música, montando um álbum de recortes com fotos de
cantores do rádio. Não parou nunca mais de compor e cantar. Roberto
Carlos, ainda criança, aprendeu a tocar violão e piano, e assim foi com
Djavan, Noel Rosa e outros grandes compositores e músicos que marcaram
época e ainda emocionam com suas melodias e composições.
Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: utilize todos os tipos de
brinquedos musicais, desde chocalhos até minibaterias (os pais não gostam
muito, mas as crianças adoram!), violão, guitarra, pianinho, etc. Escutar
música na gravidez também é uma ótima opção. Estudiosos defendem que
a mãe se acalma e consequentemente o bebê ca tranquilo também. As
músicas clássicas ou mais tranquilas são as mais indicadas, mas outros
estilos também podem estimular a inteligência musical. Lembre-se de que
algumas músicas podem deixar tanto a mamãe como o bebê mais agitados,
por isso não são indicadas. Leve as crianças desde pequenas a shows e
concertos musicais que sejam permitidos e seguros para elas10.
4. Inteligência Espacial – pessoas com este per l de inteligência têm
uma enorme facilidade para criar, imaginar e desenhar imagens
multidimensionais. Elas se expressam pela capacidade de compreender o
mundo visual com precisão, permitindo transformar, modi car e recriar
percepções e experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos, sem ter
que olhar para desenhos, imagens ou objetos. Acredita-se que o hemisfério
direito é o local mais crucial do processamento espacial. As pessoas com
essa inteligência geralmente têm um enorme talento para as artes grá cas
ou pensamentos que envolvam relações multidimensionais e abstratas.
Apresentam como principais características a criatividade e a sensibilidade,
sendo capazes de imaginar, criar e enxergar coisas que quem não tem esse
tipo de inteligência sente muita di culdade em executar. Essa inteligência é
predominante em arquitetos, artistas, escultores, desenhistas, geógrafos,
navegadores, cientistas e inventores.
Um conhecido pro ssional com esse tipo de Inteligência no mundo é
Roger L. Easton, cientista americano e o principal inventor do Sistema de
Posicionamento Global (GPS – Global Positioning System). Um exímio
inventor que, com esse per l de inteligência, revolucionou a localização
espacial e trouxe facilidade para a vida de milhões de pessoas no mundo
todo.
O sistema foi projetado para permitir o lançamento de mísseis
americanos durante a Guerra Fria. O sistema deu tão certo que hoje é
utilizado não apenas pelo exército, mas por vários meios de locomoção
como navios, caminhões, ônibus e carros comuns. Hoje, inclusive, acoplado
nos celulares/smartphones para orientação geográ ca e de rota. A partir do
GPS outros sistemas deverão ser lançados dentro dos próximos anos, por
alguma outra pessoa que apresente forte inteligência espacial.
Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: desenhar e pintar em
papéis sem linha, sem espaço delimitado. Brincar de descobrir a forma dos
objetos sem poder vê-los. Existe uma brincadeira de que as crianças gostam
muito: com os olhos vendados, procurar, tatear procurando por objetos
(dentro de alguma caixa ou sacola) e descrevê-los sem enxergá-los.
Primeiro, descrevem o que estão percebendo, se o objeto é redondo,
quadrado, frio, quente, etc. Devem enumerar o maior número possível de
detalhes. Depois “arriscam” dizer qual é o objeto. Dentro do saco (ou caixa)
pode ter uma variedade enorme de objetos, como chaves, fone de ouvido,
bolinha de gude, caneta, carrinhos de brinquedo, panelinhas, etc.
Brincadeiras como essas são divertidas e ajudam muito a desenvolver o
cérebro e a inteligência espacial. Brincar de andar no escuro, ou de “gato
mia” (procurar as pessoas no escuro, com os olhos vendados, sem poder
enxergá-las) também ajudam o desenvolvimento dessa inteligência.
5. Inteligência Corporal- cenestésica ou motora – pessoas com este
tipo de inteligência possuem um grande talento e facilidade para controlar
o corpo e orquestrar atividades corporais. Conseguem fazer uso da
expressão corporal e geralmente têm uma noção admirável de espaço,
exibilidade, distância e profundidade. Geralmente são capazes de realizar
movimentos complexos e graciosos ou que exijam força, com enorme
precisão e facilidade. A parte do cérebro relacionada a essa inteligência
alcançaria o cerebelo, gânglios e o córtex pré-frontal motor, que integra os
impulsos motores no tempo, permitindo a criação de movimentos
habilidosos e voluntários do corpo. É um dos tipos de inteligência
diretamente relacionada à coordenação e capacidade motoras. Ela está
presente em esportistas olímpicos, bailarinos, ginastas, atletas de alta
performance, artistas circenses e entre aqueles que praticam outros
movimentos que exigem controle do corpo.
Alguns grandes e conhecidos pro ssionais com esse tipo de inteligência,
no mundo, são os bailarinos do Cirque du Soleil. É nítida a capacidade
corporal que os atores apresentam. A facilidade que demonstram ao se
locomover, pular grandes alturas e sua elasticidade é simplesmente
fascinante aos olhos humanos. Claro que também é fruto de muito
treinamento, mas para chegar àquela quase perfeição eles certamente
apresentam alta inteligência cenestésica.
Alguns grandes atletas brasileiros merecem destaque, como nossos
craques de futebol Pelé, Ronaldo Gaúcho, Ronaldinho, Neymar, entre
outros. Os irmãos Hypólito (Daniele e Diego) da ginástica olímpica e
demais bailarinos e atletas olímpicos do Brasil e do mundo.
Essa capacidade também pode ser vista em cirurgiões, médicos e
dentistas, pois denota acuidade manual precisa.
Eis algumas formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: todas as
atividades que estimulem o movimento corporal, inclusive jogos com bola,
como caçador, futebol, handebol, basquete, tênis ou vôlei. Outras
possibilidades incluem ainda polo aquático, dança, ginástica rítmica ou
artística, balé, judô, natação ou qualquer outra atividade que exija atenção
aos movimentos corporais, como mímica ou jogos como “Imagem & Ação”
(onde os jogadores descobrem o nome de músicas através do uso da
mímica) e jogos de diversão similares a este.
6. Inteligência Interpessoal – Esta inteligência pode ser descrita como
uma habilidade para entender e responder adequadamente a humores,
temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas. A inteligência
interpessoal é expressa pela habilidade de entender as intenções,
motivações e desejos dos outros. Por essa razão, é um tipo de inteligência
ligada à capacidade natural de liderar, pois mostra a facilidade em entender
o que as pessoas trabalham com outras, como pensam, sentem e desejam, e
o que as motiva, ao que, hoje, chamamos de empatia. Pessoas com esse
per l de inteligência são extremamente ativas e, em geral, causam grande
admiração nos outros. São líderes capazes de identi car as qualidades das
pessoas e extrair o melhor delas, organizando equipes e coordenando
trabalho em conjunto, além de reagir apropriadamente a partir dessa
percepção. Está mais desenvolvida em escritores, psicoterapeutas, coaches,
conselheiros, padres, pastores, mentores, líderes natos, vendedores bem-
sucedidos, políticos, religiosos, professores, etc.
As pesquisas sobre as atividades cerebrais sugerem que os lobos frontais
desempenham um papel importante na sabedoria interpessoal. Alguns
estudos relatam que danos nesta área pode provocar profundas mudanças
de comportamento no indivíduo lesionado.
Um renomado pro ssional com esse tipo de Inteligência é Daniel
Goleman, criador e autor de best-sellers mundiais, como Inteligência
emocional. Trata-se de uma tese cientí ca que apresenta uma visão
admirável do conhecimento humano. O autor busca a ciência como guia da
mente humana e, sem fórmulas mágicas, revela como conhecimentos
cientí cos e as emoções podem efetivamente atuar na transformação do
homem. Utilizaremos conceitos interessantes e consistentes desse autor, no
decorrer do livro, pois sua teoria é uma grande fonte de inspiração e
informação. Goleman demonstra como a incapacidade de lidar com as
próprias emoções e a dos outros pode destruir vidas e acabar com carreiras
promissoras. Apresenta uma forma de explicar como o controle da emoção
pode trazer mais equilíbrio às pessoas.
Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: uma forma
interessante de desenvolvê-la é ater-se às pessoas ao nosso redor, escutá-las
com atenção genuína e perceber seu estado de ânimo. A dica é dedicar
tempo e atenção para escutar, observar, descobrir, entender e procurar
formas de desenvolver habilidades nos outros. Essa inteligência requer que
a pessoa possa avaliar com mais atenção o temperamento, os sentimentos,
as motivações e intenções dos outros, mesmo que eles tentem escondê-la.
Líderes, pais e educadores podem ensinar melhor as pessoas a entenderem
como perceber e lidar com as emoções delas e dos outros.
As crianças precisam entender, por exemplo, que os pais também têm
sentimentos, choram, cam chateados, sentem as perdas, sorriem, brincam
e têm momentos tristes e felizes. Alguns pais têm a tendência de esconder
seus sentimentos dos lhos, mas isso só os torna analfabetos emocionais. É
importante que as crianças entendam que perdas acontecem, que animais
de estimação ou pessoas queridas morrem, que as pessoas adoecem e
envelhecem. Precisamos ensinar a criança a entender essas questões e a
lidar com perdas, sofrimentos, desilusões e frustrações que são inevitáveis
na vida de qualquer ser humano. Deixá-las mais preparadas para essas
situações vai permitir que mais tarde se tornem inteligentes emocional e
relacionalmente. Vamos ter um capítulo dedicado a essas questões.
7. Inteligência Intrapessoal – Esta inteligência destaca o
autoconhecimento, o reconhecimento de habilidades, necessidades, desejos
e percepções próprios, incluindo a capacidade para formular uma imagem
precisa de si. Trata da habilidade para acessar os próprios sentimentos,
sonhos e ideias, para que as pessoas tenham consciência do que é
importante para elas e como procuram solução para seus problemas
pessoais. É considerado um raro tipo de inteligência, porque as pessoas têm
a tendência a evitar entrar em contato com suas próprias dores e
di culdades, o que faz com que, muitas vezes, di culte o
autoconhecimento. Esta inteligência ajuda e apoia a inteligência
interpessoal, porque, quando conhecemos a nós mesmos, temos mais
chance de entender, conhecer e apoiar as outras pessoas.
Gardner descobriu que, assim como na inteligência interpessoal, os
lobos frontais desempenham um papel central na mudança de
comportamentos. Um dano na área inferior dos lobos frontais
provavelmente produzirá irritabilidade ou euforia, ao passo que um dano
nas regiões mais altas provavelmente produzirá indiferença, desatenção,
lentidão e apatia, ou seja, um tipo de personalidade mais depressiva.
A criança autista, como já dito, é um exemplo de um indivíduo com a
inteligência intrapessoal prejudicada. Acredita-se que essas crianças nunca
foram capazes de se referir a si mesmas, têm uma baixa noção do que
sentem e menos ainda do que as pessoas ao seu redor sentem, mas podem
apresentar notáveis capacidades nos domínios musicais, espaciais ou
computacionais.
Difícil destacar pessoas com esse tipo de inteligência, pois não sabemos
avaliar com precisão o quanto as pessoas verdadeiramente se conhecem.
Impossível saber se é o su ciente para que tomem decisões adequadas em
sua vida. Estas questões têm sido amplamente debatidas pela psicologia,
psicanálise, loso a, neuropsicologia, neurociência, medicina e ciências
a ns, mas seu processo de descoberta e progresso está apenas começando.
Aqueles que passam por processos de avaliação e evolução pessoal
geralmente se conhecem melhor. A percepção de habilidades e
competências pro ssionais pode evoluir para um processo de
autoconhecimento mais aprofundado, como processos terapêuticos. O
importante é que as pessoas procurem formas de conhecer melhor suas
habilidades para organizar sua rota de desenvolvimento. Essa capacidade
apresenta um modelo acurado para operar efetivamente a vida. Falaremos
mais sobre isso no capítulo de Inteligência Relacional. Vale ressaltar que o
conhecimento da personalidade humana se encontra em caráter
embrionário. Muito já se falou, já se estudou, mas muito há por vir.
Formas lúdicas de desenvolver essa inteligência: processo terapêutico,
psicanálise, processo de coaching, ferramentas de avaliação de potencial ou
de competências, avaliação de desempenho em todos os níveis, feedbacks,
orientação de carreira e acompanhamento de habilidades pelos gestores são
alguns processos que ajudam na autopercepção e no autoconhecimento.
Tanto na vida pessoal como pro ssional existem várias formas de aprender
sobre nós. O importante é acreditar nesta possibilidade e pesquisar uma
forma genuína de aprender cada vez mais sobre si.
Em 1996, Gardner fez a primeira ampliação da sua listagem original das
7 (sete) inteligências até aqui apresentadas. As duas últimas inteligências
abaixo descritas são as inteligências de tipo “naturalista” e “existencial”, que
foram de nidas e estudadas mais tarde. A inteligência espiritual e arti cial
são mais recentes e não entraram na classi cação de Gardner.
8. Inteligência Naturalista – foi caracterizada como a capacidade de
discernir, identi car e classi car plantas e animais. Essa não é
necessariamente uma habilidade de conviver com a natureza, mas de
cuidar dela. A Inteligência Naturalista traduz a sensibilidade para
compreender e organizar fenômenos e padrões da natureza, como
reconhecer e classi car plantas, animais, minerais, incluindo rochas,
gramíneas e toda a variedade de fauna, ora, meio ambiente e seus
componentes.
É característica comum em paisagistas, defensores da natureza,
ambientalistas e pessoas que são capazes de fazer distinções relativas ao
mundo natural e usar essa habilidade produtivamente na agricultura ou
nas ciências biológicas. O termo naturalista refere-se ao indivíduo que
estuda as ciências naturais – notadamente botânica, zoologia e geologia.
Existem muitos pro ssionais famosos nesta área e o mais conhecido é
Charles Darwin, naturalista britânico que desenvolveu a teoria da evolução
e propôs uma teoria para explicar como se dá a seleção natural e sexual.
Formas lúdicas para desenvolver essa inteligência: manter as crianças
desde pequenas em contato com a natureza, explicar a importância da
fauna, ora e do equilíbrio ambiental. Essa inteligência será fundamental
para o futuro da humanidade, e será muito importante desenvolvê-la, pois
com o aquecimento global e com as tragédias climáticas e naturais causadas
pelo desequilíbrio ambiental, devemos desde já manter uma atenção maior
pela natureza e pela ecologia. Se não for para classi cá-la ou estudá-la em
detalhes, que seja ao menos para respeitá-la e aprender a preservar o que a
natureza proporciona a quem vive e habita este planeta.
9. Inteligência Existencial – abrange a capacidade de re etir e
ponderar sobre questões fundamentais da existência e que levem à
compreensão de que a vida tem um signi cado. É característica de líderes
espirituais e pensadores losó cos. Ter alto quociente espiritual (chamado
de QS) ou existencial implica em ser capaz de usar o viés espiritual para ter
uma vida mais rica e mais cheia de sentido, que leve à direção pessoal e ao
amadurecimento existencial. Está ligada à necessidade humana de ter
propósito na vida, para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear
nossas ações.
10. Inteligência Espiritual – no livro QS (Quociente Espiritual),
lançado em 2010, Dana Zohar, física e lósofa americana, aborda esse tema
como novo e polêmico: a existência de um tipo de inteligência que aumenta
os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua
necessidade de encontrar um signi cado para a vida. É possível que outros
autores continuem aprofundando suas descobertas sobre este tema.
Formas lúdicas para desenvolver essas inteligências: o contato com
religiões e crenças, o estudo estreito da loso a, da meditação e de técnicas
de concentração, atenção e foco, são interessantes caminhos para
exercitarmos essas inteligências.
Sabe-se que a meditação e as técnicas de concentração e foco têm
ajudado CEOs e demais líderes a tomar grandes e estratégicas decisões.
O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa
pelas revistas americanas New York Times, Newsweek e Fortune. Dana Zohar
a ma: “A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna.
Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para
elevar nosso quociente espiritual”. Quem quiser conhecer mais sobre essa
Inteligência pode pesquisar essa autora e outros autores citados a seguir.
Ainda é uma Inteligência nova e que pode ser incorporada ao mundo das
Inteligências Humanas.
No nal dos anos 70, o professor Jon Kabat-Zinn, diretor fundador da
Clínica de Redução do Estresse e do Centro de Atenção Plena em
Medicina, na Escola Médica da Universidade de Massachusetts, criou a
técnica de “Atenção plena” (em inglês, Mindfulness), como forma de
divulgar a importância da meditação e seus benefícios para a saúde e
redução do stress. O tema acabou virando moda e passou a ser utilizado por
executivos, atletas e celebridades. Hoje Kabat-Zinn tem vários livros
editados e outros autores vieram na mesma esteira.
Dan Harris, em seu livro: 10% mais feliz, ensina a “silenciar” a mente e
reduzir o estresse. Ele relata que era descrente com meditação ou técnicas
dessa natureza, mas, com certa relutância, descobriu que a fonte de seus
problemas era justamente aquilo que considerava seu maior aliado: a voz
incessante dentro da sua cabeça, que o impelia sempre a querer mais, fazer
mais, esforçar-se mais. Todos nós temos essa voz, acrescenta. Ela nos leva a
ter preocupações excessivas, julgar os outros, ruminar o passado e temer o
futuro. É ela que nos deixa tensos, ansiosos, irritados e frustrados. Dan
encontrou, na meditação, um modo e caz de acalmar seus pensamentos,
equilibrar suas emoções e se tornar uma pessoa melhor, mas sem perder a
energia para lutar por aquilo que deseja. Livro altamente recomendado.
Depois dos estudos de Howard Gardner, outros pesquisadores têm
realizado propostas ousadas no desenvolvimento e na descoberta de novas
formas de inteligência. Daniel Goleman, autor já citado anteriormente,
inovou com o lançamento do livro “Inteligência Emocional”, que
revolucionou a história das aptidões, mostrando que é possível ensinar o
alfabeto emocional para as crianças. Karl Albrecht e o próprio Daniel
Goleman também escreveram sobre um tipo especial de inteligência: a
“Inteligência Social”. Ela mostra o quanto as nossas reações com os outros
têm impacto no nosso organismo, no nosso coração e, inclusive, no sistema
imunológico, o que também defendo em Inteligência Relacional. O que
diferencia o conceito de Inteligência Relacional é a amplitude da relação
entre as pessoas, a conexão que estabelecemos umas com as outras. Não
basta entendermos nossas emoções e/ou as emoções dos outros se não
soubermos como interagir e como tirar bom proveito disso para nosso
sucesso e a nossa satisfação pessoal e pro ssional. Precisamos aprender a
nos comportar melhor socialmente e entender o que devemos fazer para
que as nossas relações sejam sadias e agregadoras, de forma que possamos
trazer mais qualidade à nossa vida.
Nos países desenvolvidos, as crianças aprendem desde cedo como
devem se comportar nos ambientes públicos como restaurantes, elevadores,
supermercados, mas, infelizmente, nos países mais carentes, a preocupação
maior ainda é a sobrevivência e a manutenção da segurança e da saúde e
esquecemos de educá-las como seres sociais. De qualquer forma, nós
precisamos começar a pensar além do básico. É a única maneira de
modi carmos a nossa sociedade.
Para concluir este capítulo, é importante ressaltar que as inteligências
não apresentam diferença no grau de signi cância, ou seja, uma não é mais
ou menos importante que a outra. Todas têm a mesma força e podem levar
o ser humano para a alta performance. Vale lembrar, também, que
podemos apresentar e desenvolver mais de uma inteligência no decorrer da
vida, aliás, isso é muito comum. Quantos indivíduos são ótimos músicos e
também exímios escritores? Quantos não se destacam em esportes e
também são excelentes advogados, médicos ou arquitetos?
Também encontramos líderes que são ótimos para desenvolver pessoas
e também são capazes de planejar e desenvolver ideias estratégicas e
soluções desa adoras.
Sendo assim, as inteligências estão geralmente inter-relacionadas.
Podem ser apresentados e desenvolvidos diferentes tipos de inteligência no
decorrer da vida, mas é possível que cada ser humano apresente, por
característica genética ou social, mais facilidade para desempenhar algumas
em função de outras.
Quanto mais nos conhecermos, mais podemos otimizar nosso talento e
nosso potencial. Se descobrirmos o caminho da nossa inteligência
predominante, temos mais chance de ter sucesso na nossa vida e,
principalmente, nos resultados que podemos obter na nossa atuação
pro ssional.
Se formos capazes de fazer uma avaliação ou levantamento adequado
das nossas habilidades, poderemos desenvolvê-las com mais facilidade, e,
assim, aumentarmos a oportunidade de sucesso e de realização.
As pessoas tendem a achar que talento, habilidades ou inteligência são
dons para pessoas privilegiadas, mas a grande verdade é que todos nós
somos inteligentes, todos nós temos dons e talentos, basta descobrirmos
quais são e nos esforçarmos para desenvolvê-los.
Estes conceitos estão diretamente relacionados ao que antes era
chamado de “dons” ou “talentos” memoráveis (como a música de Mozart, a
linguística de Vinícius de Moraes e tantos outros). A questão é que todos
nós temos algum talento. Se você faz o melhor “doce típico” da sua cidade,
aquele que ninguém consegue fazer igual, você é um indivíduo talentoso.
O aspecto revolucionário da teoria das Inteligências Múltiplas está em
mostrar que todos os seres humanos possuem algum tipo de inteligência,
em diferentes graus de desenvolvimento. Ninguém recebeu dádivas
especiais e exclusivas. O que falta é entender, conhecer e treinar as nossas
principais habilidades e principalmente o nosso cérebro. Assim, podemos
otimizar o que temos facilidade em desempenhar.
Também devemos minimizar nossas vulnerabilidades ou di culdades.
Podemos apostar nos nossos pontos a desenvolver, sem, contudo,
perdermos muito tempo e energia naquilo que não é prazeroso para nós. As
pessoas tendem a investir muito tempo para desenvolver habilidades que
não são naturais a elas. Não há nada de errado nisso, o problema é que,
provavelmente, nunca se tornarão excelentes naquilo que não lhe é nato ou
fácil, o que pode causar uma sensação de inutilidade ou fracasso. Quando
se deposita muito tempo para ajustar os pontos de di culdade, as pessoas
terão que gastar o máximo de sua energia para chegar à média daqueles
que são naturalmente bons naquilo. Outro risco comum nesta situação é
“deixar de lado” seus pontos positivos, desequilibrando e comprometendo a
performance. Fugir das habilidades naturais pode diminuir a chance de
conquista dos resultados efetivos.
É importante que possamos identi car o quanto antes quais são nossas
principais inteligências e habilidades. Dessa forma temos chance de cuidar
e de procurar caminhos alternativos para planejar, com cuidado e respeito,
nosso aprendizado e desenvolvimento pessoal e pro ssional.
Como descobrir habilidades? Existem várias formas e instrumentos de
avaliação que podem ajudá-lo, porém há uma sugestão que pode fazer uma
incrível diferença no futuro do nosso país. É fundamental que os pais e
educadores de hoje sejam capazes de escolher a melhor escola e o melhor
método de aprendizado para os seus lhos, respeitando as habilidades que
apresentam desde pequenos.
Não se escolhe escola pela cor da parede da sala ou dos brinquedos do
parquinho. A escola é uma escolha séria e a criança deve se ajustar ao
método e às pessoas que terão o propósito de ensiná-la e desenvolvê-la.
Essa escolha fará diferença no futuro dos seus lhos, na sua carreira
pro ssional, na sua vida e na sua felicidade.
Faça uma breve re exão e pense em si quando era criança. Que tipo de
atividades fazia com facilidade? Do que gostava de brincar? As atividades
que desempenha hoje têm alguma ligação com essas atividades ou
brincadeiras de infância? A resposta a essas questões deve estar relacionada
com o fato de você ser ou não feliz com seu trabalho e com as tarefas que
hoje desempenha.
As pessoas são diferentes porque possuem diversas combinações de
inteligências, habilidades e personalidade. Neste livro, você verá que as
combinações dessa correlação mudam a forma como cada um pensa, age e
principalmente se relaciona.
Entender essa diferença e reconhecer as aptidões das pessoas com quem
convivemos aumenta a condição de lidarmos melhor com muitos
problemas que enfrentamos na nossa vida, melhorando a nossa relação com
os outros. Se pudermos entender melhor a capacidade e as limitações
humanas, podemos aprimorar nossas relações e nos respeitar mais como
pessoas, pro ssionais e seres humanos.
Muita coisa ainda será descoberta. Existe uma ampla linha de pesquisa
ligada às questões neurológicas e cientí cas, neurociência, neuropsicologia,
neuro siologia, neuromarketing, o estudo da capacidade intelectual, de
cognição, percepção e memória, incluindo as descobertas sobre a
inteligência arti cial. Já existem estudos avançados investigando formas de
“colocar” sentimento em máquinas. Imagine quando elas puderem pensar e
sentir como nós? Será que vão competir conosco ou superar as habilidades
humanas?
A inteligência arti cial, se dedica a buscar métodos e dispositivos
computacionais que simulem a capacidade racional e a forma de resolver
problemas, de pensar ou de “ser inteligente” que até hoje é considerada
exclusiva e própria do ser humano, mas até quando? Filmes como Matrix
ou A.I. – Inteligência Arti cial já despertam para esse tema e são apenas a
ponta do iceberg.
De qualquer forma, jamais podemos perder o caráter existencial, ético,
moral e recheado de princípios e valores que embasam a capacidade de
articulação e a forma de “sermos inteligentes” que só nós, seres humanos,
somos capazes de apresentar.
De qualquer forma, se você chegou até aqui, está pronto para quebrar
paradigmas e “pensar fora da caixa”. Abra seu coração, de agora em diante
você verá o mundo e as pessoas de outra maneira.

6. Revista Superinteressante: https://goo.gl/e32JKf


7. https://goo.gl/1BlnwW
8. https://goo.gl/jZSoKn
9. https://goo.gl/RJS2Oa
10. Se quiser saber mais sobre música para crianças autistas, acesse: https://goo.gl/lALJte
Capítulo 3
Por que as emoções e os sentimentos
são tão importantes para a nossa
vida?
Desde a publicação do best-seller de Daniel Goleman denominado
Inteligência Emocional, o mundo entendeu a importância de interagir
levando-se em conta os sentimentos, as emoções e o coração. Ele
revolucionou a forma de pensar e a capacidade de agir e de decidir das
pessoas, mostrando o respeito e a importância que o ser humano precisa
colocar na compreensão das emoções.
Segundo Goleman, a inteligência emocional é moldada desde a infância
e as experiências determinam os hábitos emocionais básicos que governam
nossas vidas.
A nal, existe diferença entre sentimento e emoção?
O estado emocional é determinado pelo momento como a pessoa se
sente, que acontece continuamente, muitas vezes sem que a pessoa perceba,
por ser inconsciente, em função do conjunto de suas experiências
emocionais: felicidade, ânimo, calma, tensão, tristeza, etc. É formado por
dois componentes distintos:
Emoção: refere-se a respostas corporais, siológicas, como a sudorese
nas mãos, lágrima nos olhos, o coração batendo forte e envolve estruturas
subcorticais como a amígdala, o hipotálamo e o tronco encefálico.
Sentimento: é uma representação interna, cognitiva, às vezes
inconsciente, às vezes consciente; por exemplo, você se dá conta que está
com saudade de alguém, e isso é um sentimento. É mediado pelo córtex
cerebral, pelo córtex cingulado e pelos lobos frontais.
(fonte: Gondim & Taunay, 2009, p. 177)
As emoções dão origem aos sentimentos, e sem dúvida ambos estão
totalmente relacionados. Da mesma forma que uma emoção desperta um
sentimento, um sentimento é capaz de gerar mais emoções. Ter consciência
de como você reage e se sente diante de cada emoção, portanto, é
fundamental para manter o equilíbrio emocional.
Para entendermos melhor as emoções e sentimentos precisamos
entender primeiro como o nosso cérebro funciona, porque as emoções são
uma das partes que regem essa “máquina” fabulosa e capaz de nos levar a
qualquer lugar, seja pelo uso das inteligências ou pela capacidade de
imaginação.
Usamos a analogia do coração como representante da emoção, paixão
ou amor, mas na realidade esse órgão, apesar de bater mais forte quando
estamos apaixonados, também recebe comandos do cérebro para executar
tal função.
O cérebro é o “computador central” de nosso corpo, localizado dentro
da caixa craniana, fazendo parte do sistema nervoso central (reúne as
estruturas neurais situadas dentro do crânio e da coluna vertebral), para
onde convergem todas as informações que recebemos.
O cérebro representa apenas 2% da nossa massa corporal, porém,
consome mais de 20% do nosso oxigênio. Comanda as atividades como o
controle da ações motoras, a integração dos estímulos sensoriais e as
atividades neurológicas, como a memória e a fala. O cérebro humano
contém cerca de 85 bilhões de neurônios que, interligados, formam mais de
10 mil sinapses, que pode gerar in ndáveis conexões, mais de 1 quatrilhão
de circuitos neurais. Um imenso desa o para a geração de robôs que
queiram pensar como nós, não acham? Quem será capaz de copiar a mente
humana?

Neurônio – é a célula do sistema nervoso responsável pela condução


do impulso nervoso – localizado no cérebro. O neurônio pode ser
considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do sistema nervoso.
Circuito Sináptico Neuronal (Capa deste livro) – é a ligação entre os
neurônios. A sinapse é o chip do sistema nervoso e é capaz de transmitir
mensagens entre duas células, bloqueá-las ou ainda modi cá-las
inteiramente: realiza um verdadeiro processo de informação. (Cem milhões
de neurônios – Robert Lent – 2ª ed.).
Em 1990, tivemos mais uma espetacular contribuição, o neurocientista
Paul Maclean apresentou, em seu livro, a teoria do cérebro trino. Essa teoria
começou a ser desenvolvida em 1970, mas apresentada no seu livro e
Triune Brain in evolution: Role in paleocerebral functions vinte anos depois.
Destaca que nós, seres humanos, temos o cérebro dividido em três
unidades funcionais diferentes. Cada uma dessas unidades representa uma
parte do nosso sistema nervoso.
Cada uma dessas áreas é responsável por um comando diferente que
auxilia as nossas ações e decisões.
Cérebro Reptiliano
O Cérebro Reptiliano ou cérebro basal é formado apenas pela medula
espinhal e pelas porções basais do prosencéfalo (parte primitiva do embrião,
que forma a parte frontal do cérebro). Esse primeiro nível de organização
cerebral é capaz apenas de promover re exos simples, o que ocorre em
répteis, por isso o nome “cérebro instintivo” ou “reptiliano”, que tem como
característica a sobrevivência, responsável pelas emoções primárias como,
fome, sede, ameaça ou perigo.
Cérebro Límbico
O Cérebro límbico, cérebro emocional ou ainda cérebro dos mamíferos
inferiores, é o segundo nível funcional do sistema nervoso, responsável por
controlar o comportamento emocional dos indivíduos. Esse nível de
organização corresponde ao cérebro da maioria dos mamíferos e envolve
algumas áreas do cérebro, denominadas: tálamo, amígdala, hipocampo,
hipotálamo, entre outras.
Neocórtex
Também pode ser chamado de área pré-frontal ou cérebro racional.
Segundo Paul MacLean, é pela presença do neocórtex que o homem
consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem capacidade de gerar
invenções; é o que diferencia o homem dos demais animais.
É compostos pelo córtex telencefálico (maior porção do encéfalo), que
por sua vez é dividido em lobos:
Frontal: mais derivado dos lobos cerebrais, responsável pelas funções
executivas, planejamento, consciência e controle consciente da vida social. É
uma área muito importante para a Inteligência relacional);
Parietal: responsável pelas sensações gerais: pele (temperatura e dor),
língua, informações sensoriais dos olhos e ouvidos;
Temporal: responsável pela audição, pelo olfato e reconhecimento de
faces;
Occipital: responsável pela visão, processa todas as informações visuais
envolvidas pela retina;
Insular: responsável pelo paladar e gustação (alguns autores não o
destacam como lobo cerebral, por estar situado em uma camada muito
interna).
Fonte: Cem bilhões de Neurônios de Robert Lent e Fisiologia Humana
de GUYTON, A. C.; HALL, J. E.

Lobo da ínsula: é um lobo profundo, situado no fundo do sulco lateral,


no encéfalo. A ínsula tem forma triangular e está separada dos lobos
vizinhos por sulcos. Possui cinco giros (curtos e longos). Suas principais
funções são fazer parte do sistema límbico e coordenar emoções, além de
ser responsável pelo paladar. A ínsula funciona como uma espécie de
intérprete do cérebro ao traduzir sons, cheiros ou sabores em emoções e
sentimentos como nojo.
Agora que destacamos a importância do Cérebro Trino, mesmo que
resumidamente, é válido lembrar que o neocórtex é o grande gerenciador
do cérebro, ele é capaz de controlar nossas ações, principalmente o
comportamento social, por isso é tão importante para a Inteligência
Relacional. Dependemos dessa área para termos mais consciência e defesa
de pontos de vista com o uso da capacidade de análise crítica, do pensar e
da linguagem.
O que essa teoria defende nos faz chegar a algumas conclusões
importantes para a perfeita compreensão deste livro, ou seja, temos um
suposto cérebro consciente que pensa e faz a análise das nossas decisões,
um cérebro que sente e é responsável pelas nossas emoções e sentimentos, e
um cérebro que decide, baseado em impulsos inconscientes e instintivos.
De acordo com o brilhante professor e doutor em Filoso a em
Administração de Negócios, Marcelo Peruzzo, defende em seu livro: As três
mentes do neuromarketing, leitura altamente recomendada, nos faz lembrar
que essa divisão é didática, porque, na prática, não é bem assim que
acontece, a nal, a mudança de um estado para outro acontece em
milésimos de segundos e ca difícil separar, por exemplo, se uma decisão foi
mais emocional, racional ou instintiva.
Quando estamos diante das pessoas em uma discussão, ou negociação,
por exemplo, geralmente usamos essas três partes do cérebro para defender
o nosso ponto de vista, argumentar e tentar convencer o oponente. No
entanto, di cilmente saberemos exatamente em que momento cada uma
delas teve maior peso nas decisões que tomamos, mas podemos entender se
temos uma tendência maior para uma área do que para outra. Sendo assim,
o que quero deixar como contribuição para vocês é que a partir do
momento que entendemos esse conceito e sabemos como a mente humana
funciona, teremos maior capacidade de rever as nossas decisões e entender
se estamos agindo mais pela razão, emoção ou por instinto e se precisamos
estabelecer mais equilíbrio nessas áreas para decidirmos de forma mais
sensata e equilibrada.
Dito isso, onde entra a Inteligência Emocional?
Quando falamos de emoção, estamos falando do nosso sistema límbico,
que envolve diretamente as nossas emoções e sentimentos.
A Inteligência Emocional abrange uma série de questões e está
relacionada a algumas habilidades, tais como: motivar a si mesmo e persistir
mediante frustrações; controlar impulsos, canalizando emoções para
situações apropriadas; praticar grati cação prorrogada e entender melhor as
pessoas e suas motivações para conseguir o engajamento dos outros em prol
de objetivos e interesses comuns.
O fato é que precisamos antes de tudo entender as pessoas, o que as
motiva e como viver e trabalhar cooperativamente com elas. Por isso
precisamos, sobretudo, treinar a Inteligência Relacional. Se formos capazes
de entender o que é nosso e o que é do outro, separando e respeitando o
que é de cada um, seremos capazes de ajudar as pessoas de forma genuína.
Precisamos ter claro para nós o impacto que causamos no outro e a
in uência que as pessoas têm na formação da nossa personalidade.
Fazendo uma revisão das inteligências do capítulo anterior, já sabemos
que para alcançarmos a Inteligência Emocional, duas inteligências são
fundamentais:

Inteligência Interpessoal +
Inteligência Intrapessoal
É bom lembrar que a Inteligência Interpessoal é a capacidade de
compreender as pessoas e de interagir bem com elas, o que signi ca ter
sensibilidade para captar o sentido de expressões faciais, voz, gestos e
posturas das pessoas que interagem conosco. É se ater à forma e à essência
do que está sendo comunicado, é prestar a atenção e mostrar capacidade
para “ler” as emoções dos outros, característica fundamental na liderança e
em todas as áreas que exigem contato com pessoas.
A Inteligência Intrapessoal denota a capacidade de conhecer e de estar
bem consigo mesmo, de administrar os próprios sentimentos e direcioná-los
para que o auxiliem a atingir suas metas e objetivos, sejam eles pessoais ou
pro ssionais. Pode parecer fácil, mas essa capacidade inclui disciplina,
autoestima, autoaceitação e muita percepção e conhecimento de si próprio.
O desenvolvimento dessa característica é importante para o desempenho
das nossas funções fundamentais, como lhos, pais, educadores e
pro ssionais.
Daniel Goleman mapeou a Inteligência Emocional em cinco áreas de
habilidades:
1. Autoconhecimento Emocional – reconhecer um sentimento
enquanto ele ocorre.
2. Controle Emocional – habilidade de lidar com os próprios
sentimentos, adequando-os para a situação.
3. Automotivação – dirigir emoções a serviço de um objetivo é essencial
para manter-se caminhando sempre na descoberta dos resultados
importantes para a vida pessoal e pro ssional.
4. Reconhecimento de emoções em outras pessoas.
5. Habilidade em relacionamentos interpessoais.
As três primeiras se referem à Inteligência Intrapessoal, e as duas
últimas à Inteligência Interpessoal.
No mundo corporativo e do trabalho, sabemos a importância de
entender as necessidades das pessoas. Na descoberta de Goleman, é
surpreendente a forma como ele apresenta e defende a raiz da empatia, que
é a capacidade de nos colocarmos no lugar das pessoas e entendermos
como pensam e agem.
Você já recebeu uma avaliação de potencial ou de desempenho de seu
líder do RH ou de algum consultor e coach experiente e cou surpreso
como a pessoa foi capaz de desvendá-lo e perceber o seu estilo e seu
funcionamento? Como foi difícil ouvir coisas que não queria aceitar. Ou
pior ainda, será que essa pessoa estava preparada para lhe dar um feedback
de tamanha importância?
Muitas pessoas vivem experiências como essas, e é sensacional quando
isso acontece de forma positiva. Práticas como essas causam mudanças
signi cativas no desenvolvimento pessoal e pro ssional, por mais difíceis
que sejam. Também é encantador quando as pessoas têm a capacidade de
fazer uma “leitura” adequada do que somos e de como nos comportamos.
Você se acha capaz de entender as pessoas dessa forma? Já
experimentou dar feedback para alguém? Entenda que feedback não é
conselho, é uma técnica na qual devemos apresentar os pontos fortes das
pessoas e destacar o que pode ser aprimorado, sem fazer julgamento.
Apenas procure entender quem está diante de você e como essa pessoa
pode se desenvolver.
Essa prática permite não apenas a ampliação da nossa capacidade de
entender as pessoas, mas principalmente de sermos generosos, altruístas e
acima de tudo mais humanos. Como já falamos, quanto mais
individualistas e instintivos, mais próximos estamos da natureza animal. Ao
nos aproximarmos de forma genuína das pessoas, tentando entendê-las de
forma verdadeira, nos distanciamos da agressividade instintiva e desumana
que nos aproxima mais dos selvagens do que dos homens de paz.
O maior desa o, entretanto, está em conseguirmos entender o outro
sem precisar nos “misturarmos” com seus problemas e desa os. Só assim
podemos fazer algo por eles, sem que as emoções se contaminem a ponto
de não conseguirmos ajudar.
Infelizmente essas “misturas” acontecem muito com pais e lhos,
marido e mulher, líder e subordinado. E, quando acontece, ca cada vez
mais difícil entender o que é de cada um e o que cada pessoa precisa
aprender ou desenvolver. Goleman defende que podemos ler a emoção das
pessoas, sem nenhum senso de necessidade ou desespero do outro.
Segundo ele, não precisa haver envolvimento, mas, sim, compreensão.
Pode parecer óbvio, mas agir assim é difícil para a nossa sociedade
católica-cristã, que moldou a educação brasileira. O brasileiro sempre tem a
impressão de que, se não estiver sofrendo junto, não está sendo humano,
não está sendo amigo de verdade. Infelizmente, esse comportamento
“misturado” só atrapalha e confunde as pessoas. Quando passamos a sofrer
junto, não conseguimos entender, compreender e realmente apoiar.
Entramos em um misto confuso de dor e pena, que não nos leva a lugar
nenhum.
A boa notícia é que comportamentos podem ser mudados e aprendidos,
e você saberá em breve como modi car isso. Nós precisamos mudar nossos
modelos mentais enraizados, ou seja, a forma repetida como fazemos as
coisas. Acredite, isso é possível!
Somos capazes de treinar nosso cérebro emocional a manter
autocontrole, e para tanto é preciso exercitar, como qualquer coisa que
queremos melhorar. É possível fazer um “bloqueio positivo”, sem excesso de
pena ou “síndrome de coitadismo”, para que possamos realmente ajudar as
pessoas, sem que seja preciso abrir mão da nossa própria estrutura, do
nosso equilíbrio e da nossa base de personalidade para nos relacionarmos
ou ajudarmos alguém.
É necessário que haja uma troca equilibrada. Em muitos
relacionamentos, um dá muito mais do que o outro e não há dúvida de que
mais cedo ou mais tarde a relação vai se quebrar. O desequilíbrio leva ao
rompimento.
Já entendemos um pouco de como somos por dentro e de que o cérebro
tem uma in uência gigantesca nas nossas ações e no nosso comportamento,
no entanto, o cérebro humano não está formado no nascimento, continua
se moldando durante toda a vida (GOLEMAN, 1995, p. 239). Essa
capacidade auxilia o constante crescimento, aprendizado e desenvolvimento
de cada um de nós.
Veja com mais detalhes onde estão localizadas algumas áreas que
de nem as nossas inteligências e onde cam armazenados nossos
aprendizados.
Fonte: www.smartkids.com.br
As crianças nascem com mais neurônios11 do que vão precisar na sua
idade adulta, mas, num processo conhecido como “poda”, o cérebro vai
perdendo as ligações neuronais (ligação entre os neurônios) menos usadas,
e forma outras, ainda mais fortes nos circuitos sinápticos12 mais utilizados.
Entenda por sinapse a região localizada entre neurônios onde agem os
neurotransmissores (mediadores químicos), transmitindo o impulso
nervoso de um neurônio a outro, ou de um neurônio para uma célula
muscular ou glandular.
O cérebro reforça os caminhos que mais utilizamos e enfraquece
aqueles que pouco exercitamos. Existe uma capacidade no nosso cérebro
chamada de neuroplasticidade, também conhecida como plasticidade
neural, que se refere à capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se
e moldar-se estruturalmente ao longo do desenvolvimento neuronal,
quando “sofremos” novas experiências. Por isso devemos manter o cérebro
ativo para evitar que ele perca a capacidade de raciocínio, memória e
percepção. (https://pt.wikipedia.org/wiki/neuroplasticidade).
Vamos aprimorando ações e habilidades e conforme exercitamos nos
tornamos excelentes naquilo que fazemos, principalmente o que repetimos
demasiadamente.
Então, se você quer aprender comportamentos que não pratica ou
mesmo uma outra língua, seu cérebro precisa se reorganizar e criar
alternativas diferentes, já que com o tempo ele vai perdendo a plasticidade
para algumas atividades. Você tem que praticar e ativar os músculos
cerebrais que estão se tornando preguiçosos, da mesma forma que faz
quando inicia exercícios físicos em uma academia. Por outro lado, nosso
cérebro, quando pouco utilizado ou com o avançar da idade, vai
“atro ando”, o que torna cada vez mais difícil aprender coisas novas ou
nunca experimentadas, mas não devemos parar, existem várias formas de
estimulá-lo. Se quiser saber mais procure informações sobre exercícios
cerebrais, encontrará opções para várias idades e situações. Existem
empresas e institutos responsáveis por esse tipo de estimulação.
Da mesma forma que aprendemos conceitos e conteúdos, também
aprendemos com as nossas vivências emocionais. Os valores que
absorvemos na convivência em família, na escola e com as pessoas nos
tornam mais aptos ou inaptos a desenvolver a Inteligência Emocional e,
futuramente, a Inteligência Relacional (IR), que nos conecta de forma
genuína às pessoas.
A neurociência e a neuropsicologia têm feito brilhantes descobertas e
defendem que o cérebro é sociável, ou seja, o ser humano de forma geral
foi programado para se conectar. Somos inexoravelmente atraídos para uma
íntima ligação cérebro/cérebro sempre que nos entrosamos com outra
pessoa. Podemos avaliar um relacionamento em termos do impacto de uma
pessoa sobre nós e do nosso impacto sobre ela. Por isso, com o avanço da
ciência, da tecnologia, da medicina e dos exames de ressonância,
ultrassonogra a, eletroencefalograma e outros surpreendentes aparelhos
que devem surgir no decorrer dos anos, já é possível avaliar como
poderemos tornar nossos relacionamentos mais inteligentes. Nossas
relações e nosso crescimento pessoal só têm a ganhar na medida em que
nos tornarmos inteligentes relacionais.
Este livro abordará, nos próximos capítulos, como podemos viver de
forma mais harmônica em sociedade, aprendendo com o melhor das
pessoas. A maturidade relacional navega na tranquilidade em aceitar as
diferenças, entendendo o quanto elas nos são complementares.
Goleman, ao escrever sobre Inteligência Social, a chama também de
sensibilidade social. Ele aborda que “o cérebro social é a soma dos
mecanismos neurais que orquestram nossas interações, bem como nossos
sentimentos e pensamentos a respeito das pessoas e dos relacionamentos
que temos com elas.” (GOLEMAN, Inteligência Social, p. 5- 13). Ele explica
que as interações sociais são tão fortes que chegam a moldar o cérebro por
meio da neuroplasticidade por experiências que se repetem e passam a
esculpir os neurônios.
Estudos novos e surpreendentes quebram paradigmas até hoje
desconhecidos. O estudo, não apenas do cérebro, mas da genética, nos
permite compreender a essência do nosso comportamento enquanto ser
biológico.
Anteriormente, acreditava-se que não seria possível modi car os genes
(a parte funcional do DNA) ou os genomas ( toda a informação hereditária
– que passa para seus descendentes - de um organismo que está codi cada
em seu DNA). Com as novas descobertas da ciência, principalmente pela
pesquisa incessante para a cura do câncer e outras doenças, já sabemos que
algumas modi cações podem acontecer e são passadas de geração a
geração. Isso se chama epigenética.
A epigenética, ou a nova genética, desponta como uma fronteira a ser
alcançada e transposta no cenário médico-cientí co. A compreensão dos
mecanismos envolvidos, no silenciamento e ativação de genes, permite a
criação de modelos para tratamento de doenças como o câncer. Um dos
pioneiros no estudo da epigenética, Feinberg, doutor em medicina e
oncologia, diretor do Centro de Epigenética, na Johns Hopkins University
School of Medicine in Baltimore, USA, de ne epigenética como
modi cações do genoma, mas que não envolve uma mudança na sequência
do DNA (ou ácido desoxirribonucleico, um composto orgânico cujas
moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o
desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos), mas que são
herdáveis pela mitose (divisão celular) ao longo das gerações.
Por que eu trouxe este tema para um livro que trata de
relacionamentos?
Porque se o organismo pode sofrer mutações nos genomas, imagine o
comportamento ou a personalidade? Além disso, conhecer a nossa essência
e o que pode a partir de agora ser modi cado é algo extraordinário. Corre-
se o risco de entrarmos em uma nova era, onde tudo pode ser de alguma
forma modi cado ou adaptado. Tenho observado a in uência de pessoas-
chave na nossa história e percebi que podem mudar completamente o rumo
da nossa vida e carreira. Resolvi estudar este tema na minha tese de
mestrado e assim que tiver mais dados vou apresentá-los a vocês. A nal,
até que ponto copiamos o comportamento dos nossos pais por imitação ou
por in uência genética? Será que nossos genomas carregam também
aspectos herdados da personalidade? Será que poderemos fazer mutações
para que as doenças não se repitam em uma família que transmite alto grau
de hereditariedade? Será que se desenvolvermos a inteligência relacional
agora, podemos passar isso para os nossos lhos e netos? Isso é
absolutamente fascinante.
Escutamos os pais dizerem: “esse é bravo, puxou a personalidade do
pai”. Dizemos isso em tom de brincadeira, mas até que ponto isso não pode
ser cienti camente comprovado?
Mesmo que a ciência consiga provar que determinadas características
são herdadas, ainda assim conseguiremos mudar o nosso comportamento
se quisermos? Fica ai uma boa tese ou tema para o próximo livro.
Enquanto a ciência evolui, vamos entender um pouco mais o que nós já
podemos controlar: as emoções.
A sensibilidade social é o condutor de sucesso da Inteligência
Relacional.
O conceito de Inteligência Emocional de Goleman revolucionou de tal
forma, a ponto de nos instigar a entender como podemos transportar
inteligência à emoção, ou seja, cognição ao campo do sentimento. Assim,
nos tornamos mais capazes de resolver problemas de foma adequada,
pensando melhor nas nossas ações, mesmo que exista uma forte dose de
emoção envolvida na decisão.
Emoção e razão são as funções mais complexas que o cérebro é capaz de
executar. No nosso dia a dia, essas duas operações mentais estão sempre
engrenadas.
Se você precisa se preparar para uma apresentação muito importante,
por exemplo, você compra livros sobre o tema, lê, escreve, estuda, organiza
as informações, desmarca compromissos, memoriza, raciocina, ensaia. Essa
é a parte racional operando. Até aqui você fez pleno uso da razão, mas na
véspera da apresentação você pode car nervoso, perder o sono, ter dor de
barriga, o coração dispara, a boca ca seca, ou seja, seu corpo sofre fortes
ações emocionais. Em alguns momentos, predomina a razão e em outros a
emoção. Pode ser que você consiga controlar essas variáveis e tudo dará
certo, mas nem sempre a história tem nal feliz.
Na realidade, razão e emoção são aspectos de um mesmo e ininterrupto
processo, expressam as mais so sticadas propriedades do cérebro humano.
Por isso mesmo, difíceis de serem de nidas.
Mesmo para os neurocientistas, é difícil conceituá-las, porque são
operações mentais acompanhadas de experiência interior, e essa tal
“experiência interior” é diferente para cada um de nós. Logo, muito difícil
de ser medida, e nem sempre apresenta repercussões orgânicas observáveis.
Por exemplo, como podemos medir a quantidade de medo ou de
ansiedade que cada um sofre em determinada situação? Sabemos que não é
igual para todo mundo, mas como podemos quanti cá-las? A razão
também tem operações mentais difíceis de de nir e classi car. Como
podemos avaliar o raciocínio, a forma de resolver problemas ou de fazer
cálculos em cada cérebro humano? A nal, pensamos de forma igual ou
diferente, neurologicamente falando?
O que sabemos é que tanto a emoção quanto a razão usam fortemente
o sistema nervoso central, ou seja, nosso cérebro trabalha o tempo todo
para tentar equilibrar nossas ações e reações, sejam racionais ou
emocionais.
Destacamos pelo menos cinco utilidades fundamentais para as emoções:
A sobrevivência da espécie: nossas emoções foram desenvolvidas
naturalmente em milhões de anos de evolução. Como resultado, nossas
emoções possuem o potencial de nos servir como um so sticado e delicado
sistema interno de orientação. Elas nos alertam quando as necessidades
humanas naturais não são encontradas. Por exemplo, quando nos sentimos
sós, nossa necessidade é encontrar outras pessoas. Quando nos sentimos
receosos, nossa necessidade é buscar por segurança. Quando nos sentimos
rejeitados, nossa necessidade é encontrar aceitação. Movimentos básicos
para a sobrevivência emocional humana.
Tomadas de decisão: nossas emoções são uma fonte valiosa de
informação e nos ajudam a tomar decisões. Estudos mostram que quando
as conexões emocionais de uma pessoa estão dani cadas, no cérebro, ela
pode ter di culdade de tomar decisões simples. Basicamente porque não
sentirá nada sobre suas escolhas. As decisões estão sempre atreladas ao
comportamento. No dia a dia, avaliamos as informações comparando-as
com os arquivos que estão na nossa memória, ponderados de acordo com o
signi cado emocional. E assim tomamos as decisões, avaliamos o
custo/benefício fazendo uma previsão dos prováveis resultados das nossas
ações e nalmente tomamos a decisão que orienta o nosso comportamento.
Isso acontece muitas vezes por dia, em milésimos de segundo, desde a
escolha do que vestir, até o lado da rua pelo qual se vai andar, ou mesmo
decisões mais importantes e complexas.
Os estudos de neuromarketing estão nos ajudando a entender como
fazemos a escolha de um produto em detrimento de outro, por exemplo. Já
existem equipamentos de última geração, como o eye tracking, óculos
capazes de monitorar o movimento ocular e mapear para onde nossos olhos
se xam ao visualizarmos um produto, um cartaz de propaganda, um site,
etc. Assim podemos descobrir o que chamou mais a atenção e o que nos faz
comprar, ou seja, entender como nossas decisões funcionam dentro do
nosso cérebro. Se olhamos para o desconto, para as características técnicas
ou para a descrição da qualidade do produto. Isso é fascinante, não acham?
Outras ferramentas complementam estudos como esses, como a
ressonância magnética funcional, o eletroencefalograma, as respostas
galvânicas da pele, o face reading e estudo das expressões facial e da
sionomia. Psicólogos, estudiosos e cientistas procuram entender as
diferentes particularidades faciais e, em seguida, relacioná-las aos traços de
personalidade correspondente, o que tem ajudado a desvendar crimes,
entender se as pessoas estão ou não mentindo, se gostam ou não de
alguém, o que pode evoluir para soluções de problemas nos
relacionamentos interpessoais.
Ajuste de limites: quando nos sentimos incomodados com o
comportamento de uma pessoa, nossas emoções nos alertam. Se nós
aprendermos a con ar em nossas emoções, sensações e na nossa intuição,
isto nos ajudará a ajustar nossos limites, que são necessários para proteger
nossa saúde física e mental. Esse é um aspecto que precisamos respeitar e
um dos princípios que mais ajudam a nos tornarmos inteligentes
relacionais.
Você já se “pegou” tomando uma decisão rápida sem saber exatamente
o porquê? Às vezes uma ótima ideia ou solução surge aparentemente do
nada.
Essa intrigante capacidade de acessar a resposta correta rapidamente e
sem esforço é o que chamamos de intuição. A palavra intuitione, de origem
latina, é formada pela junção de in– dentro e tuere – olhar para. Seria a
capacidade de voltar-se para si mesmo e ouvir-se. Por isso é tão importante
percebermos o que acontece conosco e com o nosso organismo quando
conhecemos alguém. Se a sua intuição não for positiva, redobre seus
cuidados, até porque a intuição é difícil de ser explicada, mas o fato de não
sermos capazes de compreender algo tão claramente não signi ca que não
possamos recorrer à poderosa força de armazenamento da memória. Não é
possível sermos intuitivos em áreas pelas quais temos pouco ou nenhum
conhecimento prático. Sendo assim, até os mais vagos palpites são baseados
em algo tangível e só não conseguimos muitas vezes explicar exatamente de
onde eles vêm, nem qual foi o registro que nos imprimiu essa informação.
É importante chamar a atenção para o fato de que não existe intuição
sem conteúdo e informação. Precisamos acessá-la de algum lugar do nosso
cérebro.
Existem estudos surpreendentes a respeito do impacto da intuição nas
nossas decisões e realmente parece haver uma sabedoria biológica por trás
desses sentimentos instantâneos.
O que precisamos lembrar é que a história de vida de cada um de nós
contém uma enorme reserva de experiências que modulam nosso
comportamento. Dessa forma, se um estranho se parece com alguém que
nos ameaçou ou machucou, no passado, é muito provável que tenhamos
uma reação cautelosa ou antipatizemos com a pessoa, mesmo sem nos
lembrarmos da experiência anterior.
Isso justi ca por que muitas vezes não simpatizamos de cara com
alguém, mas precisamos cuidar com essas reações e ir um pouco mais a
fundo, para diferenciarmos se é uma intuição, um “aviso” de que essa
pessoa realmente não é bacana o su ciente para a termos por perto, ou se
por “azar” ela só se parece com alguém que está no nosso registro, mas que
pode ser uma excelente pessoa.
Comunicação: as emoções também comunicam. Nossas expressões
faciais, por exemplo, podem demonstrar uma grande quantidade de
emoções. Com o olhar, podemos sinalizar quando precisamos de ajuda. A
habilidade verbal, juntamente com nossas expressões, nos dá uma
possibilidade in nita de expressar nossas emoções. Atermo-nos à expressão
das pessoas também nos torna mais hábeis para entendermos os problemas
dos outros. Já dizia Pierre Weil, em O corpo fala. Se você ainda não leu esse
livro é uma excelente indicação de leitura.
União: nossas emoções são, talvez, a maior fonte potencial capaz de unir
todos os membros da espécie humana. Claramente, as diferenças religiosas,
culturais e políticas não permitem isso, apesar das emoções serem
“universais”.
Como apresentamos no início deste livro, muitos estudiosos têm
contribuído com informações riquíssimas a respeito do desenvolvimento
dos seres humanos e a forma como agimos e pensamos. Charles Darwin
(1809-1882) observou semelhanças entre os animais e os indivíduos, na
expressão corporal, facial e de comportamentos como raiva, medo, fuga.
Acredita-se que a expressão das emoções é inata e não há dúvida de que
garante a sobrevivência da espécie. Como acontece com os animais,
também acontece conosco.
De forma instintiva, um animal predador só sobrevive quando consegue
dominar ou matar a presa. Isso explica por que alguns indivíduos se
comportam até hoje de forma tão primária e instintiva, muitas vezes
exagerada e descompassada, para tentar “controlar sua presa”. No entanto,
vale lembrar que a presa no mundo animal geralmente é outro animal, e no
mundo das pessoas, é outra pessoa.
Por vezes, algumas pessoas, quando estão em desequilíbrio consigo
próprias ou com o ambiente, agem de forma instintiva, predadora e pouco
inteligente. Bater, espancar, exercer força física ou psíquica sobre os outros,
ou, ainda pior, matar e dominar outras pessoas, é um comportamento
esperado dos animais que agem por instinto, não de seres humanos. Por
falta de controle das nossas emoções e de baixa inteligência emocional e
relacional, infelizmente, esse comportamento acaba por existir em maior ou
menor grau também nas pessoas.
Não há dúvida de que agimos em prol das nossas necessidades e em
defesa do que consideramos importante, mas precisamos temperar as
nossas ações com cautela, nos diferenciando dos animais irracionais.
Por isso, é possível dizer que não é exatamente ou só a inteligência e o
aprendizado que nos diferenciam dos animais, até porque através de
experiências já sabemos que animais também aprendem. O que de fato nos
diferencia é a nossa capacidade de controlar, respeitar e amar. A capacidade
de sabermos agir de modo ponderado, nos ajustando a diferentes situações
e ocasiões, independente de estarmos utilizando a intuição (cérebro
reptiliano), a emoção (cérebro límbico) ou a razão (cérebro racional ou
neocórtex).
A birra, a teimosia ou a necessidade de suprir imediatamente os desejos
de fome, sede ou qualquer necessidade básica são facilmente veri cadas
nos bebês. Eles choram e se mostram impacientes quando sentem qualquer
desconforto, no entanto, quanto mais amadurecemos, mais devemos ser
capazes de controlar nossos instintos de suprimento imediato, ou seja,
deixamos de agir apenas embasados no cérebro instintivo e começamos a
amadurecer e a usar as áreas mais elaboradas para um processo decisório,
como o neocórtex.
O amadurecimento deve nos levar a controlar o instinto básico e a
procurar, através de atitudes conscientes e consistentes, nosso sustento e o
suprimento das nossas necessidades básicas de sobrevivência e de
segurança.
Enquanto o ser humano se mostra dependente de alguém, nanceira
ou emocionalmente, ainda não é maduro o su ciente para se “bancar”
sozinho, seja ele criança, adolescente ou adulto.
De fato, quanto mais conseguimos enfrentar os problemas da vida, mais
maduros nos tornamos. O contrário disso retrata um imenso analfabetismo
emocional. De acordo com Goleman, esse conceito descreve a falta de
controle sobre nossas emoções (falta de controle do sistema límbico e
cérebro instintivo). Sendo assim, se não pensarmos racionalmente antes de
agirmos, acabamos tomando decisões de forma excepcionalmente instintiva
e nos tornamos analfabetos emocionais, nos comportando como animais
irracionais.
Então, de fato, o que nos diferencia enormemente dos animais é o
equilíbrio entre a emoção, a razão e a capacidade de nos ajustarmos a
diferentes situações.
O fato de nos livrarmos do analfabetismo emocional e relacional é o
que pode unir os membros da espécie humana visando mais equilíbrio,
amor e paz no mundo.
Vamos falar um pouco sobre maturidade emocional. Você sabe o que
signi ca e o impacto disso para a nossa vida?
Como já vimos, fomos programados para nos conectar. As constantes
descobertas sobre a arquitetura emocional do cérebro retratam, nos exames
de última geração, momentos de excepcional excitação cerebral quando
estamos repletos de felicidade ou de tristeza, o que comprova existir
constatação cientí ca de que sofremos o impacto dos relacionamentos no
nosso cérebro, em consequência, em todo o funcionamento do organismo.
A neurociência e a neuropsicologia têm trazido descobertas brilhantes
nessa área. Tudo indica que existe uma dinâmica neural dos
relacionamentos humanos.
Uma das primeiras teorias para explicar emoções data do século XIX,
trazida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e por Carl
Lange (1834-1910). Ambos defendiam que não existe emoção sem que
haja uma manifestação siológica, ou seja, tudo o que sentimos causa
impacto no organismo.
James e Lange defendiam que estímulos produzem mudanças corporais
que, por sua vez, geram emoções. Essa teoria sugere que os estímulos estão
primeiramente vinculados a respostas físicas, que somente depois serão
interpretadas como emoção, ou seja, acreditava que primeiro chorávamos e
depois cávamos tristes. Um pouco controverso.
Uma segunda teoria faz crítica a James e Lange, defendendo que as
mesmas manifestações siológicas podiam estar presentes em emoções
diferentes. Por exemplo, o choro ou aquela sensação chamada de “aperto
no peito” podem ser sentidas independentemente de estarmos muito
alegres ou muito tristes. Defende então que o sistema nervoso central pode
ser o causador tanto de reações emocionais, como siológicas e
comportamentais, dando a entender que essas reações acontecem
praticamente ao mesmo tempo.
Em 1920, foram realizadas transecções do sistema nervoso central com
o siologista Walter Cannon (1871-1945), e essas experiências levaram a
surpreendentes descobertas. Primeiro, foram feitas em animais e só mais
tarde em humanos, em que foi possível perceber que quando os cérebros
sofrem lesões, geram mudanças de comportamento e causam reações
diferentes das habituais, ou seja, pessoas dóceis e tranquilas, que se
relacionavam de forma amistosa, quando lesionadas em determinadas áreas
do cérebro, mudavam radicalmente seu comportamento para mais
agressivas e arredias.
Essa mudança comportamental pode acontecer também pelo uso de
medicamentos fortes, drogas psicotrópicas e psicoativas e excesso de bebida.
Todas as substâncias que estimulam excessivamente o córtex e o sistema
nervoso central levam a mudanças bruscas de comportamento. Por isso as
pessoas agem de forma diferente quando estão “embriagadas” com essas
substâncias.
A teoria de Cannon-Bard foi a primeira tentativa concreta de elucidar
as bases neurais das emoções.
Bard explica que, quando um estímulo é recebido pelo córtex13, é
reconhecido como produtor de emoção e enviado para ativar os centros
encefálicos no hipotálamo14 e do sistema límbico15. Desta parte do encéfalo
os sinais são, então, enviados simultaneamente aos músculos externos e
órgãos internos e de volta ao neocórtex. Os músculos e órgãos reagem e
produzem reações siológicas para a emoção, como taquicardia, por
exemplo, enquanto o córtex percebe o sinal como emoção. Assim, a teoria
propõe que as reações siológicas e psicológicas ocorrem simultaneamente.
Não podemos deixar de destacar a importância da amígdala, uma das
partes que compõem o sistema límbico. Revelou-se uma estrutura de
enorme relevância na descoberta das emoções.
Chama-se amígdala cerebelosa, ou simplesmente amígdala, e funciona
como uma espécie de “botão de disparo” e modulador de toda a
experiência emocional. Ela leva esse nome por ser parecida com uma
“amêndoa”, que em grego chama-se amígdala. Ela compõe um conjunto de
neurônios que formam uma massa esfenoide de substância cinzenta.
Esta região do cérebro, que faz parte do sistema límbico, é um
importante centro regulador do comportamento agressivo, sexual e de
respostas emocionais a estímulos biologicamente relevantes.
Você deve estar se perguntando, mas o que isso tudo tem a ver com
relacionamentos?
Logo você entenderá como podemos, através dessas informações,
regular as nossas atitudes com relação aos outros.
Por ora, o que precisamos saber é que estas descobertas esclarecedoras
também nos ajudam a entender a dinâmica neural dos relacionamentos
humanos.
Desde a época de Freud, os psicoterapeutas observam que o corpo
espelha as emoções que o paciente está sentindo. Quando um paciente
começa a narrar uma lembrança dolorosa, o terapeuta percebe que os olhos
se enchem de lágrimas e a sensação parece tomar conta de seu organismo,
na junção mente e corpo.
Muitos terapeutas também parecem sentir a emoção e seu estômago
parece se contorcer diante de alguns relatos, além de uma situação que
chamamos de rapport, conceito que vem da psicologia e compreende uma
técnica usada para criar uma ligação de sintonia e empatia com outra
pessoa. Pode também ser usado nos relacionamentos pessoais ou
pro ssionais, porque cria laços de compreensão entre dois ou mais
indivíduos. Não signi ca aceitar todas as opiniões da outra pessoa, nem se
misturar com ela. Lembrem-se de que só conseguimos verdadeiramente
ajudar se nos diferenciarmos, mas devemos ouvi-la e fazer com que ela veja
que o seu ponto de vista ou seus valores são compreendidos e respeitados.
Além disso, também existe o conceito de neurônio-espelho, que vamos
ver a seguir.
Existem estudos inovadores e valiosos sobre o funcionamento da nossa
mente e o impacto disso nas nossas relações:
1. Um neurônio recém-descoberto, chamado célula fusiforme, atua
no cérebro com extrema velocidade, permitindo que o ser humano tome
decisões em milésimos de segundos. Essas células existem em maior
quantidade no cérebro humano do que em qualquer outra espécie.
Como as células fusiformes estão envolvidas em rápidas decisões,
acredita-se que também ajudam no momento de fazer julgamentos
imediatos e intuitivos a respeito de alguém que acabamos de conhecer.
Embora os estudos ainda sejam inconclusivos, Daniel Goleman destaca em
seu livro que essas células são parte do sistema cerebral que gera o amor, ou
pelo menos, o desejo sexual ou “amor à primeira vista”.
2. Pesquisas recentes mostram a importância do neurônio-espelho.
Essas células foram descobertas por acaso em 1994, na Universidade de
Parma, na Itália, pelos neurocientistas Giacomo Rizzolatti, Leonardo
Fogassi e Vittorio Gallese. Eles constataram que a simples observação de
ações alheias ativava as mesmas regiões do cérebro dos observadores. Ao
que tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou
duplicação interna dos atos de outros.
Em 2001, um grupo coordenado por Giovanni Buccino, também de
Parma, resolveu estudar esses neurônios mais a fundo. Usando ressonância
magnética funcional (fMRI), os pesquisadores mediram a atividade cerebral
de voluntários enquanto eles assistiam a um vídeo que mostrava sequências
de movimentos de boca, mãos e pés. Dependendo da parte do corpo que
aparecia na tela, o córtex motor dos observadores se ativava com maior
intensidade na região que correspondia à parte do corpo em questão, ainda
que eles se mantivessem absolutamente imóveis.
O mais impressionante é que essa descoberta tem levado médicos e
sioterapeutas a lidar melhor com pacientes com sequelas motoras
decorrentes de acidente vascular cerebral – AVC. Estudos feitos no Hospital
Universitário de Schleswig-Holstein, em Lübeck, na Alemanha, foram
capazes de acelerar a reabilitação de pacientes cujas regiões corticais
motoras haviam sido lesionadas por AVC.
Os pacientes assistiam a vídeos e tentavam imitar o que acabavam de
ver, a m de consolidar a representação da sequência no cérebro. Depois de
40 dias de treinamento, a habilidade motora dos participantes melhorou
muito mais rápido do que a dos indivíduos do grupo de controle, que não
assistiram a nenhum vídeo.
O neurônio-espelho ativa um ato recíproco de imitação entre dois ou
mais animais. Nos humanos pode ser observado no córtex pré-motor e no
lobo parietal inferior. Dizem que o neurônio espelho é o gatilho do meme16
(que nada tem a ver com os memes do Facebook ou redes sociais; o meme
é na realidade uma unidade da cultura, que pode ser um comportamento,
uma música, uma ideia, um aprendizado, que pode ser passado de geração
a geração pela imitação. Arrisco-me a dizer que mais ou menos um
“inconsciente coletivo” moderno).
3. Quando as pessoas se olham e sentem-se atraídas umas pelas
outras, o cérebro imediatamente libera dopamina, substância química
indutora do prazer.
Aliás, aqui não podemos deixar de falar sobre a importância e o impacto
dos neurotransmissores no nosso comportamento e nas nossas relações.
Neurotransmissor é uma substância química (neuroquímica) produzida
em uma célula do cérebro, o neurônio. Ele é capaz de conduzir e transmitir
uma informação de um neurônio a outro, ou seja, a sinapse. Já falamos um
pouco sobre isso nos primeiros capítulos.
Os neurotransmissores são como combustíveis para o cérebro realizar
determinadas funções, e os clássicos são: a acetilcolina, as catecolaminas
(dopamina, adrenalina e noradrenalina) e a artista principal, a serotonina.
A serotonina vem sendo utilizada no senso comum como a substância
sinônimo de felicidade. De fato, ela é responsável por manter em equilíbrio
diversas ações comportamentais.
É uma substância que em maior ou menor quantidade pode causar
depressão, ansiedade, agressividade, raiva, irritabilidade ou trazer mais
felicidade e tranquilidade. Participa também de outras funções importantes
no organismo, como apetite, controle de temperatura, sono, náuseas e
vômitos, sexualidade e, é claro, tem um impacto avassalador no sistema de
dor.
A carência ou desequilíbrio dessa substância leva a transtornos do
humor e ansiedade. A de ciência na sua transmissão através das fendas
sinápticas dos neurônios pode levar à depressão. Dessa forma, a ação da
maioria dos antidepressivos é retardar a metabolização da serotonina
fazendo com que ela que por mais tempo atuando nos espaços entre os
neurônios.
O que queremos ressaltar com essas informações é que o nosso
organismo precisa estar em equilíbrio para conseguirmos nos relacionar
bem. Se estiver em estado depressivo, você não vai ter vontade de sair de
casa, de conhecer pessoas e de se relacionar de forma efetiva e positiva.
Se os neurotransmissores atuam diretamente no nosso cérebro e no
nosso humor, precisamos mantê-los em equilíbrio para que a nossa
motivação e a maneira como nos comportamos não altere o nosso vínculo
com as pessoas que convivem conosco.
A nal, ninguém gosta de conviver com pessoas carrancudas, mal-
humoradas ou pessimistas.
Se você identi ca esses sintomas em si mesmo ou em pessoas próximas,
procure ajuda. O uso de medicamentos não é a única nem a melhor
alternativa. Existem várias possibilidades ainda mais saudáveis para
equilibrar o impacto dessas substâncias, como exercício físico, ioga,
relaxamento, meditação, reiki, homeopatia, psicoterapia, terapias holísticas
e alternativas, entre outros. Procure o método que melhor lhe convém.
Se você quiser saber mais pesquise sobre hormônios e
neurotransmissores e entenda o enorme impacto que eles causam na nossa
vida e nas nossas relações pessoais e pro ssionais.

11. Neurônio – célula do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso –
localizado no cérebro. Pode ser considerado a unidade básica da estrutura do cérebro e do sistema
nervoso.
12. Circuito sináptico neuronal – ligações entre os neurônios. A sinapse é o chip do sistema nervoso e
é capaz de transmitir mensagens entre duas células, bloqueá-las ou ainda modi cá-las inteiramente.
(Cem milhões de neurônios – Robert Lent – 2 ed.).
13. O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados, sendo rico em
neurônios e o local do processamento neural mais so sticado e distinto. Desempenha papel central
em funções complexas do cérebro como na memória, atenção, consciência, linguagem, percepção e
pensamento. https://goo.gl/eJDB4n
14. Hipotálamo, região do encéfalo dos mamíferos (tamanho aproximado ao de uma amêndoa)
localizada sob o tálamo. Liga o sistema nervoso ao endócrino, sintetizando a secreção de neuro-
hormônios, por isso é também chamado de “liberador de hormônios”, sendo necessário no controle
da secreção de hormônios da glândula pituitária, entre eles na liberação da gonadotro na.
https://goo.gl/GPBnRz
15. Sistema límbico, localizado na superfície medial do cérebro dos mamíferos. É a resposta cerebral
para atividades e comportamentos sociais. Sua função é integrar informações sensitivo-sensoriais
com o estado psíquico interno, onde se atribui um conteúdo afetivo a esses estímulos, a informação é
registrada e relacionada com as memórias pré-existentes, o que leva à produção de uma resposta
emocional adequada, consciente e/ou vegetativa. https://goo.gl/54ZDQ3
16. Meme: Richard Dawkins, em seu livro O gene egoísta, de 1976, apresenta uma perspectiva genética
da evolução e introduz o termo meme para designar unidades de informação autorreplicáveis que, a
partir de alguma mutação aleatória, se reproduzem em nossos genes pela seleção natural genética. A
ideia coloca toda a cultura humana como fruto de informação copiada, modi cada e selecionada.
Assim como nossas características físicas e biológicas, nossas ideias e nossa própria cultura também
teriam passado pelo crivo da seleção natural. Os memes são padrões cognitivos que atravessam
gerações e moldam a percepção da realidade.
Capítulo 4
O que é inteligência relacional e qual
a sua importância para o sucesso e a
felicidade?
Dalai Lama disse certa uma vez: “Quando aprendemos a usar a
inteligência e a bondade ou afeto em conjunto, os atos humanos passam a
ser construtivos. Amor e compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles,
a humanidade não pode sobreviver.”
Parece simples, mas se olharmos com cuidado e profundidade para essa
frase, podemos entender melhor a base da Inteligência Relacional.
Você já pensou nestas questões?
1. Sobrevivemos sem os outros?
2. Como eram as pessoas que mais in uenciaram a sua infância e
consequentemente seus valores?
3. Quem ajudou a moldar suas emoções?
4. Você gosta da forma como age com as pessoas?
5. Se tivesse que mudar algo no seu comportamento e na forma como
trata as pessoas, o que você mudaria?
Se eu lhe der a garantia de que pode modi car isso em você, tenho
certeza de que vai caminhar comigo até o nal deste livro, porque será uma
pessoa bem mais interessante e mais bem-sucedida em várias áreas da sua
vida, quando for capaz de desenvolver sua inteligência relacional e
controlar algumas reações quase instintivas que gerenciam o seu
comportamento.
Minha proposta é que você trabalhe seus relacionamentos de forma que
consiga sentir prazer em estar com as pessoas e que saiba escolher aquelas
que podem despertar o que há de melhor em si e que você seja capaz de
estimular o que há de melhor nos outros. Chega de apostar em
relacionamentos tóxicos ou em pessoas que pouco acrescentam ou que te
ferem.
Como já falamos, Goleman trouxe o conceito da inteligência emocional
como maior responsável pelo sucesso ou insucesso das pessoas.
Praticamente todas as situações da nossa vida e do nosso trabalho são
envolvidas por relacionamentos entre as pessoas. Ele defende que pessoas
com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade,
compreensão e gentileza, têm mais chances de obter o sucesso.
Como o ser humano é por natureza um ser relacional e precisamos
dessa troca e desse convívio para a nossa sobrevivência, desenvolvi o
conceito de IR – INTELIGÊNCIA RELACIONAL e algumas técnicas para
otimizá-la, já que nossas relações precisam de uma con guração saudável e
de constante aprendizado.
Inteligência Relacional é a inteligência que nos conecta ao mundo pelas
pessoas. É a habilidade de nos relacionarmos de forma positiva com os
outros, entendendo suas necessidades e estabelecendo uma conexão que
traga cooperação, ganhos e boas energias para as partes.
Contam-se em milhares os anos de prática que trazemos na arte dos
relacionamentos, porque o ser humano é relacional desde sempre. No
instante em que nascemos, con amos nossa vida à outra pessoa, e essa é a
chance que temos para sobreviver. Lembre-se de que enquanto bebês,
somos completamente dependentes de alguém que supra as nossas
necessidades básicas de alimento, higiene, segurança e proteção.
Desde o nascimento aprendemos também a imitar os que nos cercam
em todas as tarefas do cotidiano, desde a forma de comer, os hábitos de
escovar os dentes, de tomar banho e, assim, até as estratégias que mantêm a
nossa sobrevivência, como estudo, aprendizado, desenvolvimento pessoal e
trabalho.
É mais confortável para o ser humano agir sustentado no que é familiar
e conhecido. Por isso tantos lhos imitam a pro ssão dos pais e seus
comportamentos. Passamos boa parte da nossa vida imitando
comportamentos e aprimorando o que achamos ou não correto nas pessoas.
É claro que a convivência também estimula algumas habilidades, como, por
exemplo, famílias de músicos ou artistas, em que todos acabam aprendendo
desde cedo a cantar ou a tocar instrumentos. Famílias com vários médicos,
advogados, marceneiros, caminhoneiros, etc. Assim pode acontecer com
várias pro ssões.
O que vem em mente quando você pensa em relacionamento? Os
relacionamentos existentes em sua vida acrescentam ou subtraem? Sabemos
que eles podem ser deliciosos, ofensivos, agradáveis, enganosos, sinceros,
doentios, afáveis ou preconceituosos.
Certamente você já sentiu essas emoções no convívio com outras
pessoas ou nas relações que teve no decorrer da sua vida.
Como devemos agir, então?
Sempre que as pessoas se juntam em pares ou grupos, existe algum tipo
de reação. Como já dissemos, cada pessoa tem um estilo, uma
personalidade, um per l, absorveu a sua cultura, suas vivências e valores
próprios e por isso mesmo é tão difícil conviver.
Cada um traz para suas relações a sua bagagem anterior e reage a uma
situação de acordo com as suas vivências e com os princípios e valores que
absorve no decorrer de sua vida.
Por isso precisamos entender como podemos tirar proveito das nossas
relações, nos afastarmos de relacionamentos que nos fazem mal, que
confundimos com amor, mas que são pura dependência afetiva e
psicológica.
Partindo do princípio de que as relações humanas são vitais para a
nossa sobrevivência e para o nosso bem-estar, precisamos trazer alegria e
suavidade aos nossos relacionamentos. Quem não tem alguém próximo
com di culdade para se relacionar? Seja um lho, chefe, alguém da equipe,
vizinho, amigo, ou mesmo um irmão?
Por que isso acontece? Por que nos frustramos com as pessoas?
Simplesmente porque nós existimos em relação “ao outro”. Como vimos,
desde que nascemos, crescemos respaldados no que aprendemos com as
pessoas que cuidam de nós, e, por isso, acabamos depositando expectativas
nos outros e desejamos que correspondam com o que esperamos deles.
Esquecemos as diferenças e esperamos que as pessoas reajam às
situações como nós reagiríamos. Acreditamos que devem fazer as coisas
como nós faríamos, mas não é assim que acontece, e, desculpe frustrá-lo,
isso não vai acontecer exatamente como você quer que aconteça. As pessoas
são diferentes de você e aí é que está a grande frustração dos
relacionamentos e ao mesmo tempo o grande brilhantismo das relações. É
exatamente aqui que surgem os maiores con itos relacionais.
Expectativas são reais ou fantasias?
A vida é repleta de aprendizados e desa os. Não há dúvida de que
trabalhar ou conviver com pessoas com quem não temos um forte vínculo
afetivo ou que não têm uma in uência signi cativa sobre nós é mais
simples. O problema está nas convivências afetivas, das quais nos enchemos
de expectativa.
Sempre colocamos muitas expectativas na relação com o outro, e
quando elas não se realizam nos sentimos frustrados. O mais interessante é
que criamos a nossa própria fantasia de como queríamos que a pessoa fosse
e achamos que ela tem que corresponder com o que imaginamos e criamos
a respeito dela. Na maioria das vezes, elas não sabem sequer o que
queremos, não dizemos isso a elas, mas esperamos que se comportem como
gostaríamos.
Isso não é fantasioso? Como podemos esperar algo de alguém que
não sabe o que nós esperamos dela?
Certa vez, atendi uma mulher no consultório que já tinha mais ou
menos uns cinquenta anos de idade e quase trinta anos de casada. Ela
chorou em uma sessão me contando que nestes anos todos nunca ganhou
um relógio do marido e que esse era seu maior sonho. Ele deu muitas
outras coisas a ela, mas nunca lhe dera o relógio que tanto esperava.
Perguntei quantas vezes ela pediu o relógio e, para a minha surpresa, ela
respondeu: nenhuma!
Quem a nal agiu errado? Ele, que nunca soube que ela queria um
relógio e por isso nunca o deu, ou ela, que nunca teve a objetividade de,
em trinta anos de casada, dizer a ele que queria um relógio?
Depositar de forma cega e exacerbada nossas expectativas nas pessoas,
esperando que elas sejam o que nós gostaríamos que elas fossem, é sinal de
baixa inteligência relacional.
O que seria um alto índice de Inteligência Relacional é simplesmente
aceitar as pessoas como elas são, respeitando o modo e o jeito de ser de
cada um.
Além da aceitação, devemos falar de forma mais clara o que esperamos
delas e que expectativa colocamos nessa relação. Essa comunicação
transparente e clara é importante desde o começo do relacionamento.
O mesmo acontece com as situações que vivemos no nosso dia a dia.
Elas também são recheadas de expectativa. Uma outra cliente estava me
contando sobre a decepção que teve no seu aniversário de casamento.
Ela imaginou que o marido deveria acordá-la com ores e/ou um café
da manhã na cama. Que, no almoço, mesmo que rápido, eles fariam um
brinde para comemorar, e que à noite sairiam para jantar. Contou detalhes
de como ela achava que ele deveria se comportar, como ele deveria ser
gentil e abrir a porta do carro, puxar a cadeira do restaurante, dizer que a
amava e que ela era a mulher da vida dele. Ao contrário de tudo isso, ele
não se lembrou do aniversário de casamento nem pela manhã, nem na
hora do almoço. No meio da tarde, ela mandou uma mensagem (já meio
irritada, mas, segundo ela, se esforçou para ser carinhosa), lembrando-o da
data para ver se ele a convidava, en m, para jantar e comemorar. Isso
aconteceu. Ele acabou se desculpando e saíram para jantar, embora não
tenha puxado a cadeira do restaurante e nem aberto a porta do carro. O
fato é que, depois de tanta imaginação e expectativa, nada, a partir daquele
momento, foi muito legal.
A questão é: se ela não tivesse colocado tanta expectativa, não tivesse
imaginado tantos detalhes e tivesse lembrado seu marido uns dias antes,
poderia ter sido tudo diferente, não poderia?
Entendo que esquecer datas importantes não é bacana, mas algumas
pessoas são mais distraídas e talvez não valha a pena fazermos disso um
caminhão de batalhas. O que será que essas pessoas têm de bom? Por que
você escolheu essa pessoa? Será que existem outras características ou
aptidões que eles apresentam que compensam essas falhas e que também
sejam importantes para o casamento?
Criar expectativa não é errado, mas esperar que as pessoas ajam da
maneira que nós agiríamos ou como nós gostaríamos que elas agissem é,
sim, bastante fantasioso e utópico.
Por isso constatamos que a expectativa é uma projeção do nosso
inconsciente e que di cilmente será correspondida. Como o outro não é
você, as decepções certamente vão acontecer e consequentemente os
con itos.
Então é isso! A expectativa é uma imaginação que, na maioria das vezes,
é frustrada porque nunca vai corresponder exatamente ao que pensamos ou
queremos.
Por conta disso, uma grande batalha se inicia e essa falta de ajuste dos
desejos e expectativas de cada um é sem dúvida um dos maiores causadores
do fracasso e dos con itos de uma relação.
Como você pode fazer para manter relacionamentos saudáveis?
Esta é a pergunta que sempre recebo. Vale pensar que estas coisas
acontecem por algumas razões:
1. Esperamos que as pessoas ajam como nós gostaríamos, mas
esquecemos de falar a elas o que pensamos, queremos e imaginamos. Devo
lembrar que ninguém nasce com uma bola de cristal acoplada ao corpo.
Mesmo as pessoas que te conhecem profundamente não vão conseguir
corresponder com tudo o que você pensa ou imagina a respeito delas.
Sendo assim, imagine menos e se comunique mais e melhor.
2. A segunda é que não podemos controlar o comportamento dos
outros. Mesmo que esse outro seja nosso lho ou outra a quem amamos,
cada um de nós tem sua própria personalidade. Se não tiverem, algo está
errado. Cada um precisa tornar-se um ser único e individual, pois esta é a
base da sobrevivência humana. Para sobreviver precisamos estruturar nossa
personalidade. Somos seres singulares, únicos e donos das nossas próprias
emoções e reações.
3. A terceira razão é que precisamos nos enxergar e enxergar o nosso
papel na relação com os outros, antes de sairmos por aí sempre culpando o
outro e achando que tudo o que ele faz está errado. Pense um pouco nas
características e nas habilidades de cada um. Assim, respeitando os “estilos”,
cada um pode colaborar da sua maneira.
Se você é mais detalhista, por exemplo, faça coisas que podem ajudar
nesse sentido, e se o outro é mais aventureiro, deixe que ele ouse e quebre a
rotina da relação. Aproveitem as diferenças e usem-nas a favor da relação e
não contra.
Enquanto continuarmos sempre colocando a culpa “no outro”,
esperando que as pessoas ajam como agiríamos, encontraremos di culdade
para resolver as situações com as quais nos deparamos todos os dias, seja
com as pessoas do nosso convívio pessoal ou pro ssional.
Quando os relacionamentos nos causam angústia, precisamos recuar
um pouco para enxergar nosso papel na relação.
Claro que existem pessoas complicadas, que trazem problemas, e das
quais devemos mesmo nos afastar ou no mínimo evitar o envolvimento.
Para isso podemos usar uma série de mecanismos, como a intuição, como já
falamos no capítulo anterior.
Precisamos antes entender nossa dor e nossos medos. Entender nosso
mecanismo e nossas carências é o primeiro passo para enfraquecer o poder
que esses sentimentos ruins exercem sobre nós.
Quando conhecemos a nós mesmos ca bem mais fácil entrar em um
relacionamento e fazê-lo funcionar plenamente.
O que precisamos ter claro é que a mudança tem de partir de nós.
Perdemos muito tempo culpando as pessoas e deixamos de ser humanos,
de ter compaixão, generosidade, paciência e sensibilidade. Estamos sempre
reativos e prontos a atacar, o que acaba gerando ainda mais revolta e
con ito.
É preciso nos darmos conta de que o melhor caminho é a
autoconsciência e o autoconhecimento. Explorar melhor e entender a
fundo nossa dor, nossas di culdades e nossos medos é a única forma de
fortalecer imensamente as nossas relações. A psicologia explica claramente
que temos a tendência a culpar as pessoas por nossos fracassos, por simples
falta de segurança em olharmos para nós mesmos e corrigirmos nossos
próprios erros.
É importante que possamos nos dar conta de que sabotamos nossos
relacionamentos involuntariamente, em função dos nossos próprios receios
e “fantasmas”.
Na maioria das vezes, basta uma mudança de atitude diante de uma
relação para que toda a dinâmica do relacionamento se refaça, ou seja, as
pessoas que agiam de determinada forma conosco acabam tendo que se
readaptar e modi car o seu jeito também.
Se as pessoas fazem conosco o que nós permitimos, quando não
permitimos elas param de fazer. Se não param é a hora de cairmos fora
dessa relação. Aí, sim, são relações tóxicas que não merecem a nossa
consideração.
Relacionamentos funcionam como um sistema. Por isso, costumo
comparar um relacionamento com uma teia de aranha. Quando puxamos
um o, ela toda se refaz. Muitas vezes basta uma única pessoa mover-se em
prol de uma ação positiva como terapia, coach ou algum trabalho de
autoconhecimento, que a dinâmica de todo o sistema se modi ca, seja na
família, na empresa ou qualquer outra instituição social.
Tenho escutado muitas estórias assim, nas quais a mudança de atitude
de uma única pessoa modi ca a dinâmica do relacionamento como um
todo.
Certa vez, passei por uma situação con ituosa e desgastante com duas
amigas de que gostava muito. Em determinado momento da vida
apresentei uma à outra, ambas eram minhas amigas da época da
adolescência. Imaginei que poderiam ter coisas em comum, já que os lhos
tinham idades próximas, os maridos trabalhavam com atividades
semelhantes, tinham a mesma crença religiosa, en m, acreditei que seria
uma relação boa para todos.
O relacionamento delas, talvez por essas a nidades, deu tão certo que,
em pouco tempo, caram superamigas. Passaram a viajar juntas, a sair
juntas e não me convidavam ou avisavam em cima da hora, de forma que
eu não teria tempo de me organizar e estar presente. Também comecei a
notar que, quando saíamos todas juntas elas conversavam entre elas, até
porque estavam se encontrando mais, tinham mais histórias em comum e
eu cava meio como uma “carta fora do baralho”. Percebi que começaram a
me tratar de um jeito diferente, me contavam pouco de si próprias,
tornaram-se mais arredias, mas eu não tinha a menor ideia do por que isso
acontecia.
Já aconteceu algo semelhante com você?
Cada vez que saíamos juntas eu voltava com uma sensação estranha,
como se estivesse com vinte quilos a mais, com um mal-estar gigantesco,
dor de cabeça ou nas costas e não conseguia entender direito o que estava
acontecendo. Como psicóloga e estudiosa dos relacionamentos humanos,
comecei a dar um pouco mais de importância às minhas sensações,
intuições e emoções e percebi que a coisa mais saudável a ser feita naquele
momento seria me afastar.
Dias depois, por acaso, li em um caderno velho da faculdade a frase de
Timothy Leary, que dizia assim: “Ligue-se, sintonize-se e caia fora.”
Naquele momento, essa frase fez um imenso sentido para mim.
Passei algum tempo tentando entender esse fato. Embora já tivesse
escrevendo este livro, essa situação me ajudou a reconhecer como
realmente os relacionamentos são importantes para nós e como uma
situação como essa traz desconforto e certo mal-estar difícil de explicar.
Fato! Quando temos di culdades com os nossos relacionamentos
camos desconcertados e tristes.
Eu percebi que era hora de usar a minha inteligência relacional para
entender como me deixei envolver naquela situação, o que eu deixei de
enxergar, de aprender e, principalmente, o que eu precisava mudar.
Tenho claro que as coisas não acontecem conosco por acaso e talvez eu
também tivesse que rever minhas atitudes, meus conceitos, minhas
escolhas, minha maneira de agir, pensar ou falar. Não há dúvida de que
essa situação me trouxe um belíssimo aprendizado.
Nessa mesma época, estava em uma fase de constante questionamento
com várias áreas da minha vida e sabia que era hora de mudar.
Andava desanimada até com a minha vida pro ssional, e isso parecia
muito estranho, já que sempre amei meu trabalho. Percebia que ele estava
repetitivo e pouco desa ador. Meu marido andava reclamando que precisa
oxigenar e fazer algo diferente também e nosso relacionamento estava
entrando em um comodismo perigoso. Também estava com uma lha no
auge da adolescência, que começou a apresentar di culdades na escola e
conviver com amigos que não pareciam muito legais. Ela queria passar mais
tempo na rua do que em casa. A única coisa que parecia bem era a nossa
lha mais velha, que estava na faculdade, trabalhava o dia inteiro, corria
muito, e parecia estar feliz, mas tinha muito pouco tempo para nós.
Alerta vermelho! Era hora de mudar!
Por coincidência (embora eu não acredite muito em coincidências, acho
que as coisas conspiram a favor quando realmente desejamos), eu tinha um
projeto para passar um tempo fora do país, já que precisava reforçar o inglês
e sempre quis morar fora. Naquele momento tive a certeza de que chegara
a hora.
Eu, meu marido e minha lha mais nova camos quase dois anos fora
do Brasil, em uma imersão de experiências novas e muito conhecimento.
Foi um aprendizado cultural, linguístico, dos costumes e da rica observação
do comportamento e de outras formas de se relacionar, que era a minha
grande necessidade e fome de conhecimento.
Estávamos sedentos por estudar e observar os costumes americanos,
como compram e vendem, como consomem, como negociam, como
interagem e como convivem.
Parece ter nascido com eles a forma de manter respeito e educação em
determinadas situações, como no trânsito ou em lugares públicos. Analisei
a rica diferença na formação e na educação dos alunos, por acompanhar
minha lha no ensino médio/high school. En m, aprendemos como os
americanos vivem.
Resolvi também experimentar uma nova religião e na igreja que
frequentei conheci pessoas maravilhosas, que se tornaram referência de
bondade para mim. Tivemos ainda a sorte de conviver e contar com o apoio
incondicional de amigos brasileiros que moravam lá e que foram
excepcionais conosco em todo o período da nossa estada, da chegada à
partida. Vivemos a experiência do compartilhamento e da solidariedade. A
experiência de viver e morar em outra sociedade é um crescimento pessoal
inigualável.
Tive a chance de falar com pessoas que nunca tinha visto e
provavelmente nunca mais verei. Também tive a oportunidade de me
manter em contato estreito com a minha solidão. Como meu marido
viajava muito para o Brasil (por causa do trabalho) e minha lha tinha
várias atividades durante o dia, eu passava horas sozinha, pensando,
estudando e escrevendo, sem falar com absolutamente ninguém.
Às vezes, falava por mensagem com algumas pessoas e me tornei mais
interativa nas redes sociais, mas naquele momento vivi a mais rica
experiência que alguém poderia ter. Constatei que a troca, a amizade, a
saudade, a família e a importância das pessoas na nossa vida são de fato o
que nos mantém vivos.
Essa experiência, somando a tudo o que vivi na infância e as mudanças
que tive no decorrer da minha vida, e contei para vocês na introdução deste
livro, me proporcionaram ainda maior consciência e autoconhecimento a
respeito das relações. Tenho clareza de que a nossa felicidade e realização
só dependem de nós. É através da convivência e da troca com outras
pessoas que alcançamos aprendizado, equilíbrio e harmonia para a nossa
vida.
Durante esse tempo passei por experiências riquíssimas e algumas muito
dolorosas. Tive a plena convicção de que as pessoas que amamos e que nos
amam também nos machucam, e que nós também muitas vezes as
magoamos, mas que, apesar de tudo, o sofrimento e a solidão nos tornam
ainda mais humanos.
En m, depois de quase vinte meses de imersão entendi que podemos
escolher um caminho de mais profundidade e relevância e que as pequenas
coisas pouco importam. As marcas, as grifes, as futilidades são
completamente descartáveis quando entendemos que sem as pessoas não
somos nada, não somos ninguém. Quando entendemos de forma
verdadeira que o ser importa muito mais que o ter, e que os verdadeiros
relacionamentos nos enobrecem, todo o resto perde força, ca pequeno,
desnecessário. Os pequenos con itos também perdem a força e o espaço em
nosso coração.
Depois de todo esse aprendizado, concluí que z a coisa certa e que,
naquela situação, tinha mesmo que me afastar do Brasil e das atividades
repetitivas e pouco desa adoras que estava vivendo. Precisava de um
momento de introspecção e aprendizado, então foi o momento ideal para
uma imersão completa e profunda.
Passei a ter mais clareza do que me fazia falta e do que poderia ser
descartado sem absolutamente nenhum problema. Para ser honesta,
descartei coisas e me afastei de pessoas com um pouco de dor, mas com a
certeza de que relacionamentos tóxicos são desnecessários e precisam ser
afastados.
O que aprendi com a distância e com meus novos amigos na América
do Norte?
1. A ser mais inteligente na forma de me relacionar,
2. A fazer melhores escolhas respeitando a intuição e os sinais que as
pessoas nos dão,
3. Relacionamentos são desa os que só errando nos levam a acertar,
4. A me blindar de pessoas tóxicas, entendendo que algumas pessoas
não têm maturidade para se relacionar de forma inteligente,
5. A perdoar a atitude daqueles que ainda não têm inteligência
relacional e emocional para lidar com situações incomuns ou que requerem
mais percepção e cuidado com o outro,
6. Que a distância é positiva em várias situações e que dedicar tempo
para estar só é um dos processos de análise mais profundos que o ser
humano pode experimentar,
7. Que muitas vezes as pessoas tomam decisões por imaturidade,
insegurança, medo ou pela incapacidade e desconhecimento emocional de
como fazer escolhas melhores,
8. A desvendar as pessoas mais próximas e a respeitar as diferenças.
Entendi acima de tudo que só conhecemos verdadeiramente as pessoas
com quem convivemos quando nos afastamos do dia a dia e do convívio
social com outros, dedicando tempo para as nossas relações,
9. Conheci a melhor forma de “ler” as pessoas e entender melhor o que
era realmente importante para elas.
Neste turbilhão de aprendizado, hoje sei que sou capaz de lidar de
forma mais inteligente com as pessoas. Enriqueci o que estudava sobre
inteligência nos relacionamentos, e com minha própria experiência
enriqueci os conceitos deste livro.
Lembram-se da estória das minhas amigas? Pois é, o mais estranho, para
minha surpresa, é que poucos meses depois que fui embora a relação delas
esfriou, elas se distanciaram. Até hoje eu não sei direito o porquê.
Acredito que houve várias razões, que a mim, não cabe julgar. Vamos
nos limitar a entender que para termos uma relação mais saudável com as
pessoas precisamos:
1. conhecer melhor a nós mesmos e ter clareza da importância de cada
relacionamento na nossa vida,
2. perdoar as pessoas e tentar relevar seus medos, inseguranças e
fraquezas,
3. observar melhor e tentar conhecer com mais profundidade as pessoas
antes de assumirmos um relacionamento mais próximo ou íntimo com elas,
4. evitar muita proximidade com pessoas que podem nos parecer mais
“tóxicas” para que os relacionamentos não inter ram negativamente no dia
a dia ou nas decisões e escolhas mais relevantes,
5. entender que existem várias formas de amar e que, para muitos, a
competição e a disputa também mantêm uma relação, e quando o “objeto”
de disputa desaparece a relação pode simplesmente deixar de existir,
6. aprender com os erros que cometemos nos nossos relacionamentos e
evitar repeti-los em outras situações.
O que vale é que devemos aprender por que os relacionamentos e as
pessoas são tão importantes para nós e como tirar proveito de cada
experiência, de cada relacionamento. Elas devem servir de apoio para que
escolhas melhores sejam feitas e para que a gente não repita o mesmo erro
em outras relações. O aprendizado que levamos de cada vivência, por mais
doloroso ou tóxico que pareça, sempre nos ensina.
BAIXA ALTA
INTELIGÊNCIA INTELIGÊNCIA
RELACIONAL RELACIONAL
1. Descon ança em 1. Nascemos
excesso não leva a relacionais e
lugar nenhum. precisamos do outro
para sobreviver,
então, com cuidado
atribua importância,
acredite e con e nas
pessoas.

2. Culpar os outros 2. Antes de culpar os


sempre ou por suas outros, procure
próprias falhas. entender seus medos,
receios e suas dores.

3. Depositar de forma 3. Seja realista em seus


cega e exacerbada relacionamentos;
nossas expectativas imagine menos e se
nas pessoas. Elas são comunique mais e
fantasias e não melhor; alinhe e faça
realidade; não vai ajustes avaliando o
acontecer exatamente que as pessoas podem
como você quer. lhe entregar.

4. Não perceber 4. Fique atento à sua


pessoas complicadas e intuição e a possíveis
difíceis. sinais positivos e
negativos que as
pessoas dão.

5. Tentar controlar o 5. Entenda que cada


comportamento do ser humano tem sua
outro. própria
personalidade, suas
emoções e reações
individuais.

6. Não enxergar o que 6. Saiba diferenciar o


é seu e o que é do papel de cada um na
outro e não relação; use as
diferenciar diferenças a seu favor
características e e não como
habilidades pessoais. competidores dentro
da relação; respeite as
dif j it d
diferenças e o jeito de
ser de cada um.

7. Não assumir que 7. Olhe para si


você precisa procurar próprio e para os seus
ajuda ou mudar o seu defeitos e di culdades,
comportamento ao sem deixar de
tratar e se relacionar valorizar as suas
com os outros. habilidades também.
Capítulo 5
Desa os e con itos: por que
repetimos erros nos relacionamentos?
Pode parecer óbvio, mas é incrível o quanto as pessoas caem na mesma
“armadilha” sem perceber. Muitos casais se separam, criticam o parceiro
anterior, dizem que jamais se envolverão com pessoas parecidas com a/o ex,
no entanto, não só se envolvem como acabam casando ou se relacionando
com outra pessoa muito parecida com a anterior. Isso acontece por várias
razões:
1. Porque nossa história e nossas experiências delimitam um tipo de
comportamento e de admiração por algumas personalidades que nos vão
atrair no decorrer da vida.
2. Por identi cação com as pessoas que in uenciaram nossa educação e
nosso comportamento.
3. Por in uência da cultura e dos nossos antepassados, que nem
imaginamos nos afetar, mas que cam registrados na nossa memória
emocional, o que Carl Gustav Jung chamou de inconsciente coletivo e a
nova genética, a Epigenética.
Jung a rmava que os mitos e símbolos são surpreendentemente
parecidos ao longo dos séculos em diferentes culturas ao redor do mundo.
Essas sociedades, mesmo que distantes, quando estudadas por ele,
apresentavam um misterioso compartilhamento de mitos e símbolos (que
segundo ele cam registrados na nossa memória sob a forma de arquétipos,
ou padrões de comportamento que repetimos sem nos darmos conta), o
que o fez acreditar que a psique humana é fruto de algo maior do que
meramente as nossas experiências individuais.
Dessa forma, sofremos in uências que podem advir da cultura, da
família ou da genética/epigenética. Tudo isso forma a nossa personalidade e
está enraizado no nosso comportamento17.
A questão é que o fato de ser inconsciente faz com que as pessoas
reproduzam o mesmo comportamento sem se dar conta. Por isso, processos
terapêuticos ou de análise têm a pretensão de trazer à tona essas
percepções, blindando-nos de armadilhas inconscientes que não somos
capazes de perceber sem a ajuda de questionamentos mais aprofundados.
Tudo que vem para a consciência pode ser modi cado, mas o que não vem
ca escondido, camu ado e sem oportunidade de mudança ou melhoria.
Há alguns anos conheci uma moça muito meiga, que estava no seu
segundo casamento, que, por sinal, também já estava em crise. Tive um
contato razoavelmente estreito com o casal e pude acompanhar um pouco
dessa tumultuada relação. Ela me relatava o que acontecia e contava
algumas brigas com seu parceiro.
Uma vez me perguntou:
– Ana, o que você faria com um marido como esse?
Respondi:
– Eu não sei, não tenho a menor ideia, simplesmente porque jamais o
teria escolhido.
Depois disso tudo, com muito cuidado a incentivei a fazer terapia.
Alguns meses depois voltamos a conversar, e ela relatou as impressionantes
descobertas que tinha feito em seu processo terapêutico. Contou, por
exemplo, que os seus dois ex-maridos (acabou se separando do segundo
também) bebiam demasiadamente e que ela não entendia por que não
enxergava isso no início dos relacionamentos.
Além disso, repetiu o mesmo erro. Pela condução adequada do seu
terapeuta, lembrou que seu pai também bebia bastante, mas que isso cava
velado, pois ele não deixava as crianças, no caso ela e os irmãos,
perceberem. Bebia todos os dias, no almoço, exagerava ainda mais nos ns
de semana e depois ia dormir. Ela disse que teve que fazer certo esforço
para se lembrar das coisas que aconteceram na infância, já que seu pai
faleceu enquanto ainda era criança, mas que ao perceber tudo isso
entendeu por que zera essas escolhas. Provavelmente passou por situações
desconfortáveis na infância e seus mecanismos de defesa18 se encarregaram
de protegê-la e de “empurrar” as memórias para o inconsciente.
Mesmo assim, elas continuam ali, latentes e encobertas, mas que, por
padrão inconsciente, acabam se repetindo.
Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista e criador da
psicanálise, defendia que somos controlados pelos processos internos da
nossa própria mente, em especial pelo inconsciente e pelo Complexo de
Édipo19, que não deve ser esquecido nem reprimido. Mesmo depois de
tantos anos, é o conceito que melhor descreve por que repetimos,
principalmente com nossos parceiros, o modelo de relacionamento de
nossos pais.
Junto com a nossa formação de personalidade, que já falamos um
pouco no início deste livro, também formamos nosso protótipo de
“homens” e “mulheres” muito baseados no modelo de pai e de mãe ou das
pessoas com as quais temos uma forte identi cação, que introjetamos20 e
aprendemos desde a infância.
O processo terapêutico e alguns outros processos de autoconhecimento
nos ajudam a trazer à consciência essa identi cação. Quando ela é saudável
e pode ser “replicada”, ca mais fácil, mas precisa ser trabalhada quando nos
incomoda ou não queremos que seja repetida.
Vale reforçar que, independentemente do conteúdo dessa identi cação,
não adianta negarmos, elas fazem parte da nossa história e precisam ser
“respeitadas”, porque vieram de pessoas que amamos e que certamente
queriam o melhor para nós, mas não sabiam de que forma fazer isso.
Infância é destino, diria Freud, mas não podemos viver indefesos por
toda a nossa vida sob a desculpa de que tivemos uma infância complicada e
longe de ser a ideal. Devemos interiorizar a mensagem de que não importa
o quão destrutivas tenham sido as nossas relações entre pais e lhos. As
perspectivas sobre o nosso futuro correspondem a nós, e o que precisamos,
de fato, é car atentos para não repetirmos os mesmos erros com os nossos
lhos.
A questão é: podemos mudar e agir diferente dos nossos pais ou
cuidadores?
Sim. Se os seus comportamentos incomodam a você e às pessoas com
quem convive, ou não são saudáveis como gostaria, eles podem ser trazidos
à consciência para serem trabalhados e, a partir disso, modi cados. Todo
comportamento pode ser modi cado.
Ter o conhecimento e a clareza dessas questões é um dos mais sublimes
e saudáveis caminhos para a qualidade dos nossos relacionamentos e para o
nosso equilíbrio pessoal. A tendência a repetir comportamentos na nossa
vida e nas nossas relações são naturais e propensos a acontecer, mas podem
ser “controlados” e muitas vezes modi cados.
Freud foi precursor e pioneiro ao descrever como a mente funcionava,
segmentando-a em três estágios: o Ego, o Id e o Superego, que funcionam
em diferentes níveis de consciência, mas interagem entre si em um
constante movimento de lembranças e impulsos de um para o outro:
Ego – consciente – o ego – que pode ser chamado de “eu” – representa
a razão ou a racionalidade. Segundo ele, essa parte pode refrear de forma
mais racional e consciente as demandas pela busca incessante do prazer (o
que chama de Id). O ego está ligado ao princípio da realidade, enquanto o
Id está ligado ao princípio do prazer. O ego serve como mediador, um
facilitador da interação entre o Id e as circunstâncias do mundo externo, ao
contrário da paixão insistente e irracional do Id. Por isso, o ser humano
quer o prazer quase o tempo todo e acaba sendo mais cômodo comer em
excesso (Id) do que controlar a alimentação (ego), começar a beber e ter
di culdade para parar. Ir para a praia e não querer voltar ao trabalho e
outras muitas ações que precisamos controlar o tempo todo na nossa vida,
temperam esse con ito entre Ego x Id. Sendo assim, o ego cuida dos
impulsos do Id. Na teoria do Cérebro Trino de MacLean seria o Neocórtex,
capaz de atuar no pensamento abstrato, estratégico e criativos.
Id – inconsciente – a parte mais primitiva da mente, persegue
constantemente o prazer. Dizemos que as pessoas que não fazem “ ltros”
ou são movidas por uma necessidade de suprir seus desejos de forma
imediata são regidas pelo Id. Acontece muito com as crianças, e é nosso
papel “podá-las” quando fazem escândalos nas lojas de brinquedo ou
mercado, porque querem satisfazer seu desejo imediato de comer uma bala
ou comprar um brinquedo. Estão agindo sem ltro e precisamos ensiná-las
a controlar seus impulsos primitivos e inconscientes. Na teoria do Cérebro
Trino de MacLean, esse seria o Cérebro Reptiliano/instintivo.
Superego – pré-consciente – desenvolve-se desde o início da vida,
quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais
ou responsáveis mediante o sistema de recompensas e punições. O
comportamento inadequado sujeito à punição torna-se parte da consciência
da criança, uma porção do superego. Dessa forma, o comportamento é
determinado inicialmente pelas ações dos pais; no entanto, uma vez
formado o superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole.
Nesse ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. O
termo cunhado por Freud para o superego/über-ich signi ca literalmente
“sobre-eu”. Funciona como um freio a partir da internalização das
proibições, dos limites e da autoridade. É algo além do ego que ca sempre
censurando e dizendo: isso não está certo, não faça; é o nosso “freio”, por
isso é chamado de superego. Na teoria do Cérebro Trino de MacLean, esse
seria o cérebro Límbico, que permite que os processos de sobrevivência
básicos do cérebro réptil possam interagir com os elementos do mundo
externo, o que resulta na expressão da emoção.*
*A conexão de concordância entre essas duas teorias, de Freud e
MacLean é muito interessante e, apesar de existirem outras fontes, se quiser
conhecer mais eu indico novamente o livro do Dr. Marcelo Peruzzo, pela
forma didática com a qual ele apresenta essa correlação, inclusive com
outras teorias. A bibliogra a está no nal deste livro.
Vale ressaltar, então, que existem componentes não apenas emocionais,
mas biológicos e hereditários, que nos fazem, por muitas vezes, repetir
exatamente o mesmo comportamento dos nossos pais. É muito comum as
pessoas dizerem, principalmente na adolescência, que jamais farão com
seus lhos o que seus pais fazem com eles, mas depois que os lhos nascem
acabam por repetir o mesmo comportamento. O modelo é sempre mais
forte que o discurso ou até que a razão.
Crescemos e aprendemos esses comportamentos e temos uma forte
tendência a repeti-los. Como abordamos antes, não somos escravos do
nosso comportamento. Podemos nos “livrar” e nos desapegar do modo com
que aprendemos a agir. Claro que mudaremos ou ajustaremos uma parte
dele, já que algumas características sempre vão nos acompanhar, a nal,
estamos falando da nossa personalidade. Se fôssemos nos livrar dela,
completamente, correríamos um sério risco de carmos à deriva. Não
existem seres “sem personalidade”. A ideia não é abandoná-la, mas
aprimorá-la, e para isso temos que:
1. primeiro, trazer nosso comportamento (inadequado ou que precisa
ser modi cado) para a consciência. Não modi camos o que não
acreditamos ser nosso;
2. segundo, separarmos o que é “meu” do que é do “outro” (falo aqui do
comportamento dos nossos pais ou educadores), ou seja, tentarmos nos
diferenciar, entendendo com mais clareza os comportamentos que
repetimos;
3. terceiro, só depois de nos diferenciarmos é que formamos com
maturidade a nossa própria personalidade. Assim escolhemos o que
queremos ser e conseguimos controlar a repetição dos comportamentos que
nos incomodam, ou que incomodam as pessoas ao nosso redor.
Isso pode mudar para sempre a forma como nos relacionamos?
Sim. Essa consciência mudará para sempre a forma como nos
relacionamos com lhos, parceiros, família, amigos, colegas de trabalho,
chefes, etc. Podemos aprimorar o modelo aprendido e, ao conseguirmos
fazer isso, nosso comportamento torna-se polido e mais adequado. Garanto
que é simplesmente sensacional!
Agora vocês podem entender por que os relacionamentos entre as
pessoas são tão complicados. Na educação dos lhos, então!!! Cada um traz
na bagagem suas próprias experiências, seus próprios modelos e ambos
querem de forma consciente ou inconsciente replicar os valores e
aprendizados aos lhos. Quando eles são parecidos, os problemas são
menores, os casais concordam com a educação e o que querem transmitir a
seus lhos, mas e quando não são?
É preciso muita inteligência relacional para lidar com esses desa os, e é
por isso que muitos conselheiros defendem que quando temos os mesmos
valores, um estilo de vida parecido, a mesma religião, padrão nanceiro
parecido e similaridade no convívio social, ca mais fácil manter o
equilíbrio entre o casal. Assim ambos procuram transmitir os mesmos
valores para a nova família. Concordar nesses aspectos é muito mais
importante do que aspectos físicos, a idade, a cor da pele ou outras
características que as pessoas às vezes consideram relevantes.
Conheço uma família maravilhosa. Tanto o marido quanto a mulher são
pessoas excepcionais, mas eles vêm de religiões e culturas muito diferentes.
Vieram de países distintos, foram criados de forma completamente oposta e
com valores diferentes. Não há dúvida de que se amam e por isso estão
juntos há mais de dez anos, mas percebo que fazem um esforço enorme
para ceder e rever seus conceitos diariamente.
Ele acredita que a mulher deve ser submissa ao marido, que é dever
dela cozinhar, cuidar da casa e dos lhos e lhe desagrada o fato de ela
trabalhar fora; isso realmente é o que mais o incomoda. Ela, por outro lado,
adora trabalhar, começou muito cedo para ajudar os pais e acha que o
trabalho a deixa melhor, sente-se mais útil e gosta de colaborar com a renda
da casa. Eles conseguem lidar razoavelmente bem com a situação, mas o
assunto sempre vem à tona e surgem alguns comentários, às vezes, um
pouco ácidos. Mesmo na frente dos amigos, ele diz que é uma besteira a
mulher trabalhar, que esse não é o seu papel. Para ele, seu papel social é ser
mãe e esposa e costuma frisar que pagaria para ela car em casa. Ela, por
sua vez, acredita que o trabalho a digni ca e que o fato de estar fora de
casa, conversando com pessoas, aprendendo, trocando informações e,
principalmente, tendo uma alternativa nanceira, faz com que se sinta mais
digna. Além de manter sua inteligência estimulada, para ela, trabalhar fora
a deixa mais feliz e segura, acredita que lhe dará mais perspectiva de futuro
e pode mantê-la “em pé” se alguma coisa acontecer entre eles.
O fato é que cada um, dentro de suas experiências e culturas, tem a sua
própria razão. Foram criados dessa forma, possivelmente seus pais agiram
assim, cada um carrega o seu modelo e dentro dos seus parâmetros
consideram correto dentro da educação que receberam.
Torço para que esse casal consiga administrar suas diferenças, mas
quando se torna desconfortável ou insuportável para um dos dois ou para
ambos, o relacionamento está fadado ao insucesso, ou a uma imensa
frustração e sofrimento para os dois lados.
O grande complicador é que uma situação como essa pode gerar a não
realização daquilo que a pessoa acredita que pode conquistar dentro do seu
padrão de felicidade e realização pessoal.
Por isso as nossas escolhas são tão importantes e difíceis. Quando as
pessoas se apaixonam, cam cegas, e é comprovado que deixam de
enxergar o que está embaixo de seus olhos por estarem inebriadas de
paixão, mas para que uma relação seja duradoura, para viver junto com
outra pessoa e constituir família, é necessário mais do que paixão, mais do
que tesão, mais do que gostar do cheiro ou da cor do olho e do cabelo.
Viver e conviver exigem respeito pela personalidade do outro, pelas
diferenças de cada um dos parceiros. Envolve cuidado com o que se diz,
com o que se faz para o outro. É preciso muito amor, troca, paciência,
respeito, cumplicidade, companheirismo, compreensão e, acima de tudo,
muito diálogo.
Então, ter semelhanças com o parceiro é uma garantia de sucesso nos
relacionamentos?
Ter semelhanças com o parceiro não é uma regra ou garantia de sucesso
nos relacionamentos, mas quando conseguimos minimizar as diferenças
mantendo valores e crenças parecidas, é muito mais fácil administrar as
diferenças e evitar con itos.
Isso pode acontecer tanto entre parceiros conjugais, como com sócios ou
pessoas que trabalham ou decidem fazer negócios juntas.
Por que ter valores parecidos aumenta a possibilidade de sucesso nos
relacionamentos?
Como possível saída para essa enrascada, sugiro que cada pessoa faça a
sua própria lista de valores e que, depois, discutam juntos as respostas de
cada um. Esse pode ser um excelente exercício para determinar o sucesso
em uma relação.
Geralmente as pessoas apresentam valores que consideram básicos e
fundamentais para suas vidas ou para a manutenção de um negócio. Se
esses princípios e valores não coincidirem pelo menos em alguns pontos ou
não tiverem nada em comum, avalie o risco. Existe uma enorme chance de
insucesso.
Por outro lado, pequenas diferenças são interessantes, inclusive porque
também há verdade na frase “os opostos se atraem”. Muitas vezes,
encontramos no outro a nossa complementação.
Quando as diferenças são moldadas por uma questão de estilos ou
per l pessoal, e não por mudança de valores, por exemplo, um é mais
rápido e o outro mais lento, um é mais tímido e o outro mais extrovertido,
um é mais calmo e o outro mais agitado, isso pode ser excelente. São
diferenças complementares, que podem, além de equilibrar a relação,
ajudar a ponderar ou impulsionar o parceiro em algumas situações.
Conheço pessoas muito agitadas e impacientes que casaram com seus
opostos, parceiros extremamente calmos. Quando estão próximos, cam
mais serenos e acabam se acalmando também.
Vale lembrar também que não podemos car tentando impor as nossas
características pessoais aos outros.
Por exemplo, o ritmo é uma questão biológica e difícil de ser mudada. É
quase impossível acelerar quem é calmo ou querer acalmar quem é agitado.
Causa estranheza e desconforto quando tentamos empregar um ritmo que
não é nosso.
Ao fazermos escolhas complementares, não adianta tentar mudar o
outro. É preciso respeitar e aceitar as diferenças. Divirta-se com elas, assim
cará positivo para ambos.
Com relação às experiências de trabalho, ressalto nos meus workshops
para líderes que, quando temos na equipe pessoas com habilidades
distintas, temos nosso melhor cenário, porque elas são complementares e
capazes de fazer diferentes entregas e assumir diferentes desa os e
responsabilidades.
Quando estamos diante de pessoas que possuem uma habilidade
diferente e complementar a nossa, é com elas que devemos trabalhar.
Quando são muito parecidas conosco, tendem a acertar nas mesmas coisas,
mas podem errar nas mesmas também, o que vai deixar alguma área
sempre descoberta.
Empresários e líderes devem ater-se ao fato de que vocês podem
complementar suas equipes com pessoas que apresentem diferentes
habilidades, conhecimentos e atitudes, e assim podem ter mais qualidade e
agilidade de resposta e de resultado aos seus clientes.
Muitos sócios encontram di culdade para tocar um negócio juntos por
essa razão. Eles geralmente têm um excelente conhecimento técnico ou
especí co sobre o mesmo assunto, seus per s são semelhantes, às vezes se
formaram juntos, são amigos, mas nem por isso terão sucesso.
Pelo contrário, se não agirem rápido para trazer pessoas que os
complementem, seja na área comercial, nanceira, RH ou outras, terão
forte risco de submergir.
A área comercial, então, é uma das mais difíceis de atuar para pessoas
com per s muito técnicos. Esses pro ssionais precisam de ajuda. Quantas
pessoas têm excelentes ideias, mas não sabem vendê-las? Quantos
pro ssionais liberais querem vender o seu trabalho e não sabem a melhor
forma de fazê-lo? Se isso acontece com você, procure um sócio ou outras
pessoas com um per l mais comercial. Contrate um bom vendedor.
Durante mais de 20 anos ajudo empresas a selecionar, avaliar e manter
equipes campeãs (tenho um DVD com esse tema), e sei que os líderes
tendem a contratar a sua imagem e semelhança.
Isso é natural, pois as pessoas se encantam e se identi cam com quem
lhes é parecido, o que acaba por reforçar o que dissemos acima; cometem os
mesmos erros e acertos, diminuem o alcance do sucesso.
Para concluir este tema, ressalto que os problemas que enfrentamos nos
relacionamentos tendem a se intensi car quando os valores pessoais se
diferenciam. Quando as crenças, os princípios ou a missão das pessoas ou
das empresas são diametralmente opostos, os ajustes são trabalhosos e os
problemas certamente são maiores.
Então o problema está nos valores?
É muito mais fácil administrar as diferenças quando elas estão nas
habilidades ou nas atitudes. O que devemos evitar é a dessincronia dos
valores.
Acompanhei algumas funções e aquisições (joint ventures) que deram
muito certo e outras que deram muito errado. Analisando-as mais a fundo,
concluí que o que fez diferença para o sucesso ou o fracasso foi sem dúvida
a escala de valores de cada empresa.
O restante, como produtos, nanças, técnicas de venda, forma de
produção ou mesmo a estratégia do negócio, pode ser ajustado e resolvido,
desde que a linha de conduta relacionada aos valores seja linear.
Assim acontece em todos os relacionamentos. Se você está procurando
emprego, apesar da crise, avalie se essa empresa tem os mesmos valores que
os seus. Se será confortável para você ir para lá todos os dias, se o que fará
não estará avançando o sinal dos seus valores.
Entendo que muitas vezes, pela questão nanceira as pessoas acabam
cedendo, aceitando e deixando isso de lado, mas em pouco tempo a
motivação será reduzida a nada. Perde-se a vontade de acordar pela manhã
e tudo tende a car escuro e nublado. A segunda-feira passa a ser
realmente uma tortura.
Geralmente isso acontece porque o lugar ou as pessoas que ali
trabalham não apresentam os mesmos valores e crenças que as suas, e aí
passa a ser um caos, um grande problema. Não há alegria nem sensação de
realização, o que não deve acontecer no trabalho, já que você passará a
maior parte do seu dia e da sua vida embebido nele.
Costumo dizer que, quando aceitamos estar em situações como estas na
nossa vida pessoal ou pro ssional, é como se estivéssemos nos prostituindo.
A palavra é um pouco forte, mas o sentimento é muito verdadeiro.
Acabamos aceitando uma condição que nos dá dinheiro, mas nenhum
prazer. Será que vale a pena?
Qual o impacto das escolhas na nossa vida?
O que precisamos ter claro é que a consequência das ações e das
escolhas que fazemos na vida é o que nos impulsiona para o sucesso ou
para o fracasso.
Cada escolha que você faz, desde acordar pela manhã para ter um dia
feliz ou triste, vai mudar o panorama da sua vida, naquele momento ou
para a vida toda.
Essas mudanças só dependem de você. Essas escolhas são suas e mesmo
que possa parecer difícil, sempre é possível recomeçar, com cuidado,
preparo, planejamento e organização.
Tenho acompanhado muitas pessoas que se achavam incapazes e hoje
estão muito mais perto de sua realização pessoal e pro ssional do que eram
capazes de imaginar.
Com meu trabalho de coach descobri que as pessoas podem, sim,
mudar e agir diferente, desde que realmente queiram e dediquem tempo,
vontade e energia para isso.
Ainda falando de escolhas, sempre dediquei tempo para observar como
as pessoas captam as informações vindas dos outros.
Quero apresentar a vocês uma pesquisa que destaca a in uência dos
comentários negativos e o impacto deles na nossa vida e por que algumas
conversas podem ser tão improdutivas ou produtivas.
Trabalhei durante mais de vinte anos com análise de potencial, usando
o sistema de Avaliação chamado Per l Caliper. Fiz uma análise interessante
e profunda de centenas de pessoas e descobri questões surpreendentes
sobre semelhanças e diferenças a respeito do funcionamento de gênero,
função, posição hierárquica, funcionamento racional, emocional e
relacional. Embora o enfoque fosse sempre pro ssional, as pessoas
constantemente se abriam e acabavam trazendo questões importantes sobre
si e seu funcionamento.
A vasta experiência, nesta área, o estudo de pesquisas inovadoras, o
tempo em consultório e os atendimentos de coaching me levaram a
perceber a importância e o impacto do que falamos para as pessoas.
Podemos de fato conduzi-las para a alta performance ou levá-las a se
sentirem estagnadas e fracassadas.
É claro que aplicamos uma metodologia altamente e caz ao dar o
feedback de uma avaliação de potencial, que é usada de forma adequada e
respeitada por mim e por todas as consultoras responsáveis por essa
atividade. O feedback sempre começa destacando os pontos positivos e,
mesmo deixando os pontos de desenvolvimento para o nal, terminamos
sempre em um clima bastante positivo e harmonioso. As pessoas elogiam,
sentem-se confortáveis em falar e gostam muito disso.
Isso não nos deixa distantes do peso da responsabilidade que temos,
como líderes e educadores, em trilhar o melhor para as pessoas e
in uenciá-las de forma positiva.
Um feedback adequado e bem direcionado é tão importante para a
otimização de potencial e do desempenho de cada pessoa com quem
conversamos.
É interessante perceber como as pessoas têm necessidade de aprovação
e reconhecimento. Mesmo que seu líder, seus pais ou seus professores o
elogiem vinte vezes, basta uma crítica, mesmo que construtiva, para colocar
tudo a perder.
Parece que mil palavras boas não são su cientes diante de dez ruins.
Isso de certa forma é preocupante, porque impacta diretamente na
autoestima das pessoas e como elas se relacionam umas com as outras.
As pessoas esquecem o quanto disseram que você era talentoso,
organizado ou inteligente. Basta dizer que você está desorganizado, ou
confuso, que todo o resto some como num piscar de mágica.
Como já citamos, os neurotransmissores, ou a química, desempenham
um papel importante neste fenômeno. Quando enfrentamos uma crítica,
rejeição ou medo, quando nos sentimos marginalizados ou minimizados,
nosso corpo produz níveis elevados de cortisol, o hormônio que desliga o
centro de pensamento de nossos cérebros e ativa aversão ao con ito,
disparando o medo e a necessidade de proteção.
Tornamo-nos mais reativos e sensíveis. Muitas vezes sentimos ainda
maior julgamento e negatividade do que realmente existe. E esses efeitos
podem durar dias.
Além disso, faz uma impressão negativa nas nossas memórias e amplia o
impacto que elas têm sobre o nosso comportamento futuro. O cortisol
funciona como um comprimido de liberação sustentada – quanto mais nos
entregamos ao medo, mais tempo parece levar o impacto.
Claro que comentários positivos e conversas positivas também
produzem uma reação química e estimulam a produção de oxitocina, o
hormônio que melhora a nossa capacidade de nos comunicarmos, de
colaborarmos e con armos nos outros ativando redes em nosso córtex pré-
frontal, mas a oxitocina é metabolizada mais rapidamente do que o cortisol,
por isso seus efeitos são menos dramáticos e de menor duração.
Percebia isso de forma empírica, mas só depois fui estudando e
descobrindo que já existem pesquisas sérias que certi cam o impacto
químico que as conversas positivas, negativas ou os elogios causam nas
pessoas.
Essa “química das conversas” é importantíssima e, quando bem
compreendida, causa mudanças signi cativas na forma como lideramos e
educamos nossos lhos, alunos e liderados.
Comportamentos que aumentam os níveis de cortisol reduzem o que
Judith e Richard Glaser chamam de “Inteligência conversacional” ou “C-
IQ”. Descrevem a capacidade que uma pessoa apresenta em se conectar e
pensar de forma inovadora, empática, criativa e estratégica.
Comportamentos que desencadeiam oxitocina e elevam o C-IQ21.
Quantas vezes será que nós, como pais, líderes ou educadores, não
produzimos mais cortisol do que oxitocina nas pessoas?
Que tal em vez de fazermos críticas perguntarmos mais como estão se
sentindo? Precisamos dedicar um pouco mais de tempo para entendermos
melhor as pessoas.
Se formos capazes de destacar mais habilidades e pontos fortes,
mostrarmos uma preocupação genuína e partilharmos o sucesso,
certamente poderemos trazer as pessoas para mais próximo de nós,
envolvendo-as em nossas ideias, convencendo melhor e entrando em
sintonia com o que pode ser considerado importante para cada lado,
respeitando pontos de vista opostos. Só assim podemos valorizar as pessoas
e considerar diferentes ideias e ideais.
De fato, ninguém consegue se conectar se não for capaz de despertar o
entusiasmo no outro. Nós só conseguimos fazer isso se formos capazes de
valorizar as pessoas naquilo que elas sabem fazer bem.
Vale ressaltar que eu não estou sugerindo aqui que você tenha que
aceitar erros ou deixar de exigir resultados. Muito pelo contrário, é através
do feedback, da insistência pelo resultado e pela descoberta e orientação do
que precisamos aprender que nos desenvolvemos.
Chamo a atenção para a forma como devemos fazer isso. Meus anos de
prática me mostraram que feedbacks são difíceis, mas não impossíveis, e
funcionam como suporte imediato para o amadurecimento e para a
otimização de resultados.
Lembre-se sempre de primeiro elevar o nível de oxitocina, falando dos
pontos positivos, e nunca começar com um banho de cortisol, só falando de
coisas ruins. Isso fará com que as pessoas fechem os ouvidos para você,
bloqueiem sua mente e deixem de prestar atenção no que você tem para
lhes ensinar.
Mantenha-se sempre aberto aos comportamentos que abrem seus
ouvidos e seu coração e que podem dar vazão à melhoria dos
relacionamentos e não aos que fecham e inibem as relações. Aproveite e
aprenda com a boa química das conversas. Elas me mostraram que
podemos ter aprendizados riquíssimos, que carregaremos para sempre.
No próximo capítulo, vamos abordar os seis passos para nos tornarmos
um inteligente relacional, a começar por nós mesmos, fortalecendo nossas
escolhas, nossa maneira de nos comportar, utilizando melhor a educação, as
crenças e os valores de cada um de nós.

17. O livro da Psicologia, Globo Livros, p. 104, e Teorias da Personalidade. 2ª edição, 2003. Título
original: eories of personality.
18. Mecanismos de defesa - ações psicológicas com a nalidade de reduzir qualquer manifestação que
coloque em perigo a integridade do ego, em que o indivíduo não consiga lidar com situações que por
algum motivo considere ameaçadoras. São processos subconscientes ou inconscientes que permitem
à mente encontrar uma solução para con itos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos
mecanismos de defesa são as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os
mecanismos de defesa carão ativados.
19. Complexo de Édipo – o termo criado por Freud, inspirado na tragédia grega Édipo Rei
(personagem da Mitologia Grega famoso por matar o pai e casar-se com a própria mãe). Designa o
conjunto de desejos amorosos e hostis que o menino enquanto ainda criança experimenta com
relação à própria mãe.
20. Introjeção – mecanismo de defesa que consiste na adoção de regras e comportamentos que podem
nos livrar de uma situação ameaçadora ou perigosa. Inicia-se na infância, quando começamos a
aceitar como nossas as regras e valores impostos pela família ou sociedade.
21. Artigo da Harvard Business School: e neurochemistry of positive conversation, Judith and
Richard Glaser. https://goo.gl/sNHqAx
Capítulo 6
Classe - Seis passos para nos
tornarmos mais inteligentes e o “C”
de CLASSE: Consciência
“Não é a aparência, é a essência.
Não é o dinheiro, é a educação.
Não é a roupa, é a classe.”
Coco Chanel
Para explicar melhor como nos tornarmos mais inteligentes na forma
como nos relacionamos, desenvolvi seis estágios fáceis de entender e que
podem nos ajudar a fazer ajustes no nosso comportamento em diversas
situações.
Para sermos inteligentes nas relações, a CLASSE é fundamental. Ter
classe não signi ca ser chique na arte do vestir, como a maioria das pessoas
pensa, mas ser elegante na maneira como nos comportamos todos os dias,
em qualquer ambiente.
Classe é ser elegante, ter graça nas maneiras: de vestir, de comer, de se
comunicar e principalmente de se comportar. É ser harmonioso, coerente,
estar em ‘acordo’ com o todo, com as pessoas e com o ambiente.
Esses passos são importantes porque sabemos que os relacionamentos
são confusos e complicados. Temos que fazer um trabalho duro para
conseguirmos “zelar” por nossas relações, seja com a família, amigos,
vizinhos, parceiros de trabalho e todos os contatos relacionais e sociais que
fazemos. Nunca para; conversamos com pessoas em média setenta por
cento (70%) do nosso tempo diário. Além disso, não é necessariamente um
investimento glamouroso, pelo contrário, é incessante e muitas vezes
cansativo.
Não temos mais nenhuma dúvida de que as pessoas que se dão melhor
na vida são as mais bem relacionadas. Escolher perder menos tempo com a
TV e investir mais tempo convivendo, fazendo algo novo juntos, é sem
dúvida uma ótima opção, principalmente quando se escolhe dividir tempo
com pessoas inteligentes, educadas, sensatas e que se preocupam conosco,
em nos ajudar, e não em nos atrapalhar ou machucar.
É sensacional quando você escolhe amigos dos quais se orgulha e sabe
que se orgulham de você também. Essas pessoas certamente o respeitam, o
admiram e podem fazer o seu dia mais brilhante simplesmente por estarem
nele. Essas pessoas têm CLASSE.
Por outro lado, você já deve ter sentido o peso de pessoas que só sabem
reclamar ou se colocam sempre na condição de vítimas do destino. Basta
você perguntar como a pessoa está e ela vem logo discorrendo sobre uma
série de dramas e tragédias que rondam a sua vida. Muitas vezes você não
tem nem muito tempo ou disposição para ouvir aquele monte de lamúria. E
a sequência é sempre a soma de lamentações, dores, tragédias e desgraças.
O mais incrível é que essas pessoas não conseguem entender por que
ninguém quer estar perto delas. Em geral, a solidão as assombra,
justamente porque têm o costume de criticar em excesso, acham que
ninguém as entende ou que ninguém as escuta.
Todo mundo tem seus problemas e entendo que falar alivia. Freud já
dizia que a cura vem pela fala. As pessoas gostam e precisam contar suas
histórias para se sentirem melhores ou mais aliviadas, mas isso tem hora e
lugar.
Existem pro ssionais que são preparados para ajudar. Alguns cobram e
outros trabalham de forma voluntária e são orientados para dar a melhor
orientação. São terapeutas, coaches, educadores, pastores, padres ou pessoas
que têm como dom ou pro ssão dar suporte aos outros. Existem programas
evangélicos que ajudam e dão apoio 24 horas às pessoas que estão em uma
situação de tristeza profunda ou desespero. Conheço alguns amigos que
trabalham nessas rádios, nos Estados Unidos. São pro ssionais preparados
para atender o telefone em todas as línguas e ajudam pessoas que estão
desesperadas, desacreditadas, tristes ou que apresentam algum risco de
suicídio.
Se você realmente precisa desabafar é compreensivo, todo mundo
precisa e também pode conversar com um amigo ou alguém em quem
con e e que esteja “disponível” para escutar. Sempre existe um caminho e
uma solução, por isso é importante pedir ajuda.
Existe uma necessidade natural que todos nós temos de desabafar em
momentos de crise ou real tristeza, mas algumas pessoas parecem criar
problema, e de forma repetitiva e desgastante estão sempre “para baixo”,
reclamando e atravessando a vida de forma pessimista. Falam demais sobre
si ou sobre outras pessoas em momentos inconvenientes e sempre acham
que todos têm todo o tempo e disponibilidade do mundo para escutá-las.
Procure se blindar dessas pessoas, pois elas certamente não têm CLASSE,
mas você deve ter, não seja deselegante, sugira com cuidado que essa
pessoa busque por suporte e uma ajuda pro ssional mais efetiva. Não tenha
receio de colocar limites, dizendo a ela que infelizmente você não pode
falar naquele instante, mas que torce para que tudo que bem.
Infelizmente essas pessoas são, além de deselegantes, vampiros
emocionais, e precisamos ajudar a “estancar” sua maldade e controlar sua
“baba sangrenta”, porque do contrário nós também caremos mal e assim
entraremos em uma espiral pesada e negativa, que pode bloquear nossa
felicidade, sucesso e crescimento pessoal.
Para que você se torne mais inteligente relacionalmente é fundamental
que preste atenção em como tem se posicionado. Muitas vezes percebemos
esse comportamento nos outros, mas esquecemos de olhar para nós
mesmos.
Se tiver a tendência a falar demais sobre seus problemas observe isso
melhor e passe a tomar mais cuidado. Analise cada situação, valorize o
tempo das pessoas e procure perceber se elas podem conversar naquele
momento. Evite falar em excesso. Seja um bom ouvinte e estimule as
pessoas a falarem sobre elas. Todo mundo gosta e precisa de atenção. Exija
menos e dê um pouco do seu tempo para os outros também.
Mais adiante falaremos um pouco mais sobre os vampiros emocionais
dos quais realmente precisamos car distantes, porque a vida é muito curta
para perdermos tempo com quem suga a nossa energia e tem tão pouco a
nos oferecer.
A criação dos seis passos a que me re ro vão tornar você um inteligente
relacional e pode ajudar as pessoas a se tornarem também:
1. C ONSCIÊNCIA
2. L IBERDADE
3. A TRAÇÃO
4. S EGURANÇA
5. S ABEDORIA
6. E MPATIA
Vamos ao primeiro, nosso C de Consciência.
1. Consciência: está relacionada tanto à “leitura” que fazemos de nós
mesmos – a autoconsciência – como também à consciência do ambiente e
das pessoas que estão à nossa volta. É a habilidade de perceber, de ter
clareza das nossas ações e intenções e da forma como nós agimos e
interagimos com o meio.
Por exemplo, muitas vezes as pessoas não percebem que estão falando
muito alto em ambientes que exigem mais cuidado e silêncio, como
velórios, igrejas, livrarias, bibliotecas, elevadores, teatros, etc. Falta
consciência do comportamento exercido; as pessoas esquecem que devem
manter mais respeito com quem está dividindo o mesmo espaço.
Para que possamos perceber melhor como nos comportamos e manter
controle sobre essas atitudes, precisamos nos conhecer mais a fundo. É
fundamental que possamos aprender melhores práticas de como devemos
nos comportar em diferentes situações. O primeiro passo é observar e
perceber a nossa forma de agir e se ela está adequada a cada situação. Isso
pode ser feito pela observação de como nos comportamos e de como as
pessoas reagem em cada situação. Assim podemos mudar e ajustar a nossa
atitude, para nos tornarmos mais inteligentes na arte de nos relacionarmos.
A medida que nos tornarmos mais alertas ao nosso comportamento,
podemos nos tornar pessoas melhores, mais humanas e mais agradáveis,
principalmente quando estamos em contato com outros.
Como devemos agir?
Essa resposta não é muito simples, porque é baseada no bom senso.
Bom senso, em uma de suas melhores descrições “é um conceito
estritamente ligado às noções de ponderação e de razoabilidade, que de ne
a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar
regras e costumes a determinadas realidades, considerando as
consequências e assim fazendo bons julgamentos e escolhas”22.
Supõe certa capacidade de autocontrole e independência de quem
analisa a experiência de vida cotidiana, ou seja, é muito particular e está
relacionada a nossa percepção e observação do ambiente. É a análise do
que funciona, e do que não funciona quando estamos interagindo com
pessoas.
De forma geral, gostamos de observar o comportamento dos outros, e a
maneira discreta e equilibrada como algumas pessoas se colocam soa
interessante. É agradável observar um jeito “elegante” e sutil de se
comportar.
Observar, aprender e repetir essas atitudes pode nos ensinar a controlar
nosso próprio comportamento e nos levará a agir de forma mais adequada
em situações que sugerem certa postura ou discrição. Esse aprendizado nos
torna mais inteligentes relacionalmente.
Comportarmo-nos de forma inteligente com as pessoas vai muito além
da capacidade de discernir o certo do errado. Está relacionado ao bom
senso, à capacidade intuitiva do ser humano de fazer a coisa certa, e é
elementar que esteja ligado à moral.
Por essa razão e por sofrermos in uência da sociedade em que vivemos,
precisamos observar e respeitar as diferenças culturais, morais e religiosas.
Por exemplo, o bom senso praticado por um cristão poderá ser interpretado
de forma diferente por um islã ou judeu.
Os muçulmanos fazem sua oração ajoelhados e virados à direção de
Meca. Meca é a cidade natal do profeta Maomé. Para todos os muçulmanos
do mundo, ela é a cidade mais sagrada do planeta. Segundo o Alcorão,
escritura do Islamismo, o devoto deve cumprir os cinco pilares: o
testemunho da fé; orar cinco vezes ao dia em direção à Meca; jejuar no
ramadã (um mês por ano); praticar a caridade; e peregrinar até Meca,
mesmo que através de procuração escrita, caso não tenha recursos. Eles
seguem essa doutrina à risca.
Quando morava nos Estados Unidos, parei meu carro no
estacionamento em frente a um supermercado. Ao meu lado estava
estacionado um furgão branco. Observei que o senhor ao lado abria o
porta-malas de seu furgão. Tirou um tapetinho, estendeu-o no chão,
ajoelhou-se e começou a rezar, certamente em direção à Meca. Não me
pergunte como ele sabia qual era a direção. Dizem que os muçulmanos
nascem com um “GPS religioso”. Brincadeiras à parte, descobri que ca a
leste, mesmo lado do nascer do sol, o que certamente facilita bastante no
momento de acertar a direção.
Vale lembrar que para sermos inteligentes relacionais precisamos
respeitar outras culturas, religiões e civilizações. Pode parecer “maluquice”
um homem ajoelhar-se no chão em um estacionamento de supermercado,
mas para ele essa é a sua verdade, a sua paz, o seu conforto.
O bom senso não envolve uma re exão aprofundada sobre
determinado tema ou situação, mas sim a capacidade de agir e interagir,
obedecendo a certos parâmetros da normalidade, face a uma situação
qualquer, guiando-se por bom senso e senso comum, quase que de forma
completamente intuitiva.
Já que falamos de bom senso, o que seria o senso comum? “Senso
comum resulta das experiências realizadas por um determinado grupo, a
compreensão do mundo advinda da herança de um grupo social. O senso
comum descreve as crenças e suposições que surgem como ‘normais’, sem
depender de uma investigação detalhada para alcançarem verdades mais
profundas ou cientí cas”.
A busca do bom senso, então, mais uma vez está relacionada à
consciência individual e do ambiente, à autopercepção e à autoanálise.
Desde a Grécia Antiga, Sócrates (470-399 a.C.) acreditava que a
autoanálise tornaria o indivíduo mais feliz. Para ele, essa era a função
principal da Filoso a. Ficou famoso com a frase: “uma vida irre etida não
vale a pena ser vivida”, ou seja, se passarmos pela vida de forma automática,
super cial, sem trazermos para o consciente nossas razões inconscientes,
viveremos sem nenhuma noção ou percepção clara de quem nós somos.
O ser humano reluta e enfrenta uma série de resistências. Às vezes nega
seu verdadeiro “eu”, não quer enxergar as di culdades e seus lapsos de
comportamento. A maioria das pessoas diz que terapia é coisa para louco.
De certa forma concordo, pois tem que ser muito forte, meio “louco”, e
muito “macho”, para peitar um processo terapêutico ou de
autoconhecimento. Poucos têm coragem de aprofundar seu “eu” verdadeiro
e descobrir a fundo o seu potencial. É coisa para louco mesmo. Para louco
muito corajoso.
A principal questão é que, quando entendemos a nós mesmos,
conseguimos nos diferenciar e entender melhor o que é “meu” e o que é de
outra pessoa, ou de outra cultura ou civilização. Aprendemos a
verdadeiramente respeitar o jeito de ser de cada um. Essa percepção pode
diminuir consideravelmente as brigas, as desavenças, os con itos e
atentados no mundo todo.
Para ampliar a nossa consciência devemos observar a nós mesmos, as
pessoas ao nosso redor e absorver práticas de comportamento em público,
para nos relacionarmos de forma mais harmônica e digna com os outros.
Quando estamos em público vale tomar alguns cuidados com a forma
como nos comportamos:
1. evite falar alto e dar gargalhadas em locais que exigem silêncio;
2. evite o uso do celular em lugares que atrapalham outras pessoas,
como teatro, cinema, igrejas, museus, reuniões etc.
3. não se prenda no celular ou escreva mensagens enquanto conversa
com as pessoas;
4. evite esbarrar nas pessoas ou empurrá-las dentro de mercados,
farmácias, ônibus, trens, metrôs e outros lugares públicos;
5. não deixe sacolas, malas ou carrinhos de compras “jogados” em
corredores de mercado ou lugares onde outras pessoas precisam passar;
6. não pare em locais que interrompem o uxo de pessoas, como saída
de cinemas, teatros, convenções etc. Afaste-se o máximo que puder da
porta da saída (principalmente se estiver conversando com um grupo de
pessoas), assim quem ainda precisa sair pode ter melhor acesso e espaço de
circulação;
7. espere as pessoas saírem do elevador antes de entrar, pois evita o
embate corporal e você facilitará o uxo de entrada e saída;
8. evite encostar no painel do elevador; as pessoas que entram precisam
digitar o seu andar;
9. respeite las, pois não foram feitas para serem furadas, mas para
serem respeitadas;
10. quando estiver em espaços pequenos, evite encostar na pessoa da
frente ou bater com sacolas e mochilas nos outros. Deixe um espaço de pelo
menos um braço entre uma pessoa e outra;
11. se não tiver intimidade, evite car encostando ou pegando nas
pessoas enquanto conversa com elas. Algumas pessoas acham natural,
outras se sentem incomodadas;
12. respeite as escadas rolantes. Nos países desenvolvidos, é “educado”
que você se mantenha sempre do lado direito da escada rolante ou das
esteiras de passagem, nos aeroportos, metrôs ou shoppings, assim quem está
com pressa pode continuar andando com mais rapidez pelo lado esquerdo;
13. evite buzinar sem necessidade, fechar a frente de outros carros, car
acelerando enquanto o carro está parado, xingar no trânsito, dirigir em alta
velocidade na cidade e usar o carro como um brinquedo de competição,
pois são atitudes pouco inteligentes e que só contribuem para causar
acidente e morte;
14. procure dar bom dia, boa tarde, sorria, procure ser cordial com as
pessoas. Não custa nada e você pode contribuir para melhorar o dia das
pessoas e tornar nosso mundo um pouco mais humano e feliz.
Existem outras dicas úteis de que ainda vamos falar no decorrer deste
livro, mas esta já é uma excelente amostra que destaca nosso
comportamento social e sugere respeito à individualidade e às pessoas. São
ações importantes e simples, que podemos assimilar com tranquilidade, sem
grande esforço, e que nos ajudam a contribuir para relações mais positivas
com a sociedade e com as pessoas, mesmo com aquelas que temos menos
intimidade ou um contato mais super cial.
Para concluir, desenvolver o C de CLASSE ajuda a trabalhar a nossa
musculatura relacional e a consciência do nosso comportamento, ajudando
a sociedade. Não custa sermos agradáveis com os outros; é uma pequena
parcela de contribuição que podemos dar para um mundo melhor.

22. https://goo.gl/UKMp5d
Capítulo 7
A letra “L” de CLASSE: Liberdade
“A melhor liberdade é quando você se livra do que te faz mal.”
2. Liberdade: nós temos liberdade de expressão, de pensamento e de
posicionamento frente às situações. Liberdade essa conquistada
principalmente após o regime militar que durou 21 anos no Brasil.
Naquela época, o regime censurava os meios de comunicação, nas quais
as notícias eram ltradas ou proibidas. Criticar a política, o regime militar,
expor pontos de vista diferentes, contestar ou protestar levava o indivíduo
ao cárcere privado, tortura, extradição ou até a morte.
Muitas histórias daquela época foram abafadas e até hoje pouco se pode
provar, o real e a especulação se misturam com o intuito de “proteger”
culpados in uentes. Conseguimos grandes conquistas pós-censura, mas
nosso país também perdeu uma boa parcela de limite e de pudor.
Passamos de uma polaridade para a outra. Embora absurdos tenham
acontecido no governo militar, a liberação total da expressividade também
levou a exageros que confundem e estimulam crianças, adolescentes e
adultos. O estímulo à sexualidade e à sensualidade exageradas acabam por
banalizar o sexo com cenas que, quando não são bem compreendidas,
estimulam a prostituição infantil, a gravidez precoce e elevam o número de
estupros. O excesso de imagens com danças e roupas sensuais, infelizmente,
levam cabeças “fracas” a pensar o pior ou a agir de forma agressiva com as
pessoas, sejam mulheres, homens, homoafetivos ou crianças.
Podemos e devemos nos expressar, temos liberdade para isso, além de
pensarmos o que quisermos, mas devemos sempre respeitar alguns limites e
manter mais atenção ao “como” as pessoas sentem ou sofrem as ações da
mídia, dos meios de comunicação e de comportamentos excessivos, que
podem estimular pessoas com instintos a orados e pouca polidez.
Infelizmente a frase “em cada cabeça, uma sentença” é verdadeira e
homens que têm por histórico, por exemplo, desvalorizar mulheres ou ser
agressivos com elas, acabam por se sentirem estimulados com essa
exposição. É alarmante o número de mulheres que sofrem violências morais
e físicas, que são violentadas por homens do seu convívio social, como tios,
padrastos, primos, vizinhos, amigos etc. Quem tiver interesse pode
pesquisar melhor esses índices nas delegacias da mulher, no IBGE (Instituto
Brasileiro de Geogra a e Estatística) ou em estudos recentes que abordam
esses temas. Claro que nada justi ca esse comportamento, e a exposição na
mídia está longe de ser a única causa. Também não temos nenhum estudo
ou previsão de que diminuir o estímulo diminuiria a violência sexual, mas
se acompanharmos a mídia em outros países, como nos Estados Unidos e
em países europeus, podemos observar que canais com conteúdos eróticos
ou de violência são mais selecionados, nos quais é preciso pagar para ter
acesso. O que pode di cultar o estímulo, principalmente às crianças,
adolescentes e pessoas muito in uenciáveis, que ainda não têm uma
personalidade fortemente formada e nem uma ideia muito clara de suas
escolhas ou do seu comportamento sexual.
Não há dúvida de que com isso existem comportamentos maldosos e
personalidades perversas e cruéis, mas teríamos que abrir um capítulo novo
só para falar sobre psicose e perversão.
Vamos resumir explicando por que essas pessoas são perigosas. Um
sujeito que sofre de psicose acredita que suas próprias representações
fantasiosas são reais. O psicótico não consegue ver o absurdo, por exemplo,
da a rmação de ser um super-herói ou Jesus Cristo. O psicótico ca alheio
à realidade, isto é, torna-se um alienado e perde totalmente a noção do que
suas ações causam nas pessoas a sua volta. Quanto aos pervertidos, esses
são tão ligados aos seus objetos de prazer (que pode ser uma criança, um
adolescente, etc.), que se tornam impedidos de enxergar seu mau
comportamento diante de crianças, por exemplo, ou quando percebem, não
conseguem frear. Essas pessoas precisam ser tratadas de forma mais incisiva;
não é apenas a consciência e a compreensão da Inteligência Relacional que
vão ajudá-los. Nestes casos, precisam buscar na psicologia e na psiquiatria o
controle de suas patologias.
O que vale destacar é que em muitos países, principalmente naqueles
que brigam por diferenças religiosas e culturais, os con itos e guerras são
fruto da incompreensão das diferenças. A intolerância com as diferenças
culturais e religiosas torna o relacionamento entre as culturas tenso, cheio
de ruídos e disputas, o que acaba por gerar “pré” conceitos, resistências
entre estados, países, pessoas, religiões, classes e raças, e o pior, atentados
violentos que vêm aumentando e chocando o mundo a cada ano.
Lamentavelmente, radicais extremistas não mudarão seu
comportamento simplesmente por entenderem que não é adequado ou
honroso agir assim, como nós, seres humanos mais sensatos, inteligentes
emocionais e menos radicais.
Essa parcela doente e fanática que vem aumentando consideravelmente
nos últimos anos precisa também de um tipo de intervenção mais rme,
uma contenção, já que o seu comportamento ultrapassa o que julgamos ser
sadio para o bem comum e a convivência social. Muitos cresceram e foram
educados acreditando que morrer e matar são atitudes heroicas ou
corriqueiras e infelizmente pouco podemos fazer por eles, a não ser nos
protegermos e rezarmos para que passem a ver o mundo de uma forma
mais humana e menos cruel.
Enquanto não podemos ajudar diretamente o mundo todo,
principalmente os povos em guerras religiosas ou envolvidos em embates
violentos, que já estão cegos por suas crenças, vamos entender o que
podemos ajustar dentro da nossa cultura, do que é possível fazer próximo
da nossa realidade.
Não precisamos ir muito longe. Os questionamentos podem ser
observados no comportamento das pessoas que vivem em diferentes
estados brasileiros. Algumas atitudes que são consideradas naturais em
alguns estados são pouco usuais em outros.
Por exemplo, a décima dica da letra C (capítulo anterior) fala sobre uma
tendência muito forte em alguns estados brasileiros de encostar ou pegar
nas pessoas enquanto está interagindo com elas. Nos estados do Norte e
Nordeste, esse comportamento é muito natural e corriqueiro, já no Sul e
Sudeste, é menos comum. Não há nada de errado nisso, são apenas
diferenças culturais que intervêm no comportamento das pessoas, mas que
em alguns momentos podem causar embaraço. Algumas pessoas podem se
sentir incomodadas com o toque, enquanto outras não entendem por quê,
já que o gesto tem o intuito de ser natural e carinhoso. De nada adianta
dizer:
– Nossa, essas pessoas são estranhas, elas são distantes e esquisitas, a
gente pega nelas e parece que olham para a gente com cara de espanto.
Ou:
– Nossa, que gente estranha, eles cam pegando e cutucando a gente
enquanto conversam conosco.
É interessante observar essas diferenças culturais. Pessoas que viajam
bastante já devem ter ouvido essas duas frases em diferentes estados
brasileiros, mas será que essas diferenças precisam ser encaradas como
possibilidade de con ito relacional?
Presenciamos essas e tantas outras diferenças comportamentais também
no sotaque, nas roupas, na bebida, na comida. Aliás, a nossa diversidade
culinária é sensacional. Acho que em nenhum lugar do mundo se come tão
bem como no Brasil.
O que importa é que, ao mesmo tempo em que temos liberdade de agir
como aprendemos e como estamos acostumados, também devemos
controlar os nossos impulsos e nos tornarmos mais adequados e adaptáveis,
respeitando as diferenças e fazendo delas uma imensa oportunidade de
aprendizado e crescimento.
Ambientes diferentes que permitem essa troca divertida estimulam
nossos sentidos, nosso raciocínio, nosso aprendizado e com certeza ajudam
a polir e educar nosso comportamento. Ajudam-nos a fazer ajustes e a ter
mais respeito pelas pessoas quando estamos diante do “diferente”, seja no
mesmo estado, no mesmo país ou em qualquer outro lugar.
A di culdade de controlar o excesso de liberdade é uma das razões
pelas quais temos tantas guerras e discórdias no mundo, porque as pessoas
não conseguem aceitar as diferenças. Estão sempre tentando impor seus
conceitos, suas próprias regras, seus limites, sua religião e sua conduta,
como se todos devessem jogar sempre o mesmo jogo.
Para termos relacionamentos mais justos e verdadeiros com as pessoas
precisamos manter a cabeça mais aberta e menos preconceituosa, evitando
manter um comportamento engessado e intolerante, o que causa discórdia
e revolta.
É por essas razões que ainda vemos pessoas agredindo homoafetivos,
negros, de cientes mentais, prostitutas, etc. Isso se chama di culdade de
aceitar e lidar com as diferenças.
Respeitar a liberdade de cada um e nos trabalharmos para mudar o
conceito de que essas pessoas devem ser vistas como inaptas, incapazes ou
desiguais é fundamental para nos tornarmos mais inteligentes na forma
como nos relacionamos.
A alta inteligência relacional prevê um mundo mais humano, com mais
respeito às diferenças e aos valores. Um mundo com mais dignidade.
Faltam discussões com esse tema, nas escolas, nas universidades, nas
igrejas, nas empresas ou instituições que têm o claro objetivo de educar e
otimizar o potencial das pessoas.
É necessário desenvolver a sensibilidade de como devemos viver em
sociedade, já que comprovadamente sabemos que somos seres sociais.
Enquanto nada for feito, continuaremos abusando da nossa liberdade
como uma imensa cegueira social, o que sem dúvida gera egoísmo,
individualismo e falta de percepção do que devemos fazer para
genuinamente trazer bem-estar e melhorar a qualidade de vida e de
interação com os outros.
O respeito a essa liberdade de opinião é parte integrante da CLASSE e
precisamos desenvolver a nossa inteligência para podermos nos relacionar
melhor, deixando de lado esse disparate como se só pudesse existir um
único modelo cultural, religioso ou social, como se houvesse uma única
forma certa ou correta de fazermos as coisas.
Será que conseguiremos sacri car nossa liberdade pessoal pelo bem
comum? Será que conseguiremos respeitar mais quem está a nossa volta e
nos livrarmos do preconceito, permitindo que o outro seja o que ele quer
ser? Será que conseguiremos respeitar a opinião dos outros? Deixemos aqui
esta excelente re exão.
Capítulo 8
A letra “A” de CLASSE - Atração
“Uma vez que você acreditar que é emocionalmente forte, você inconscientemente atuará de
maneira mais rme e assertiva e começará a assumir o controle sobre seus caprichos emocionais”.
Senora Roy
3. Atração: está relacionada à forma como atraímos a atenção das
pessoas e como elas captam as nossas ações, reações e sinais. Dependendo
da forma como chamamos a atenção, seremos vistos como pessoas
con áveis, simpáticas, chatas, inteligentes, interessantes, bem ou mal-
intencionadas, etc. Esse é um dos principais princípios da Inteligência
Relacional: como queremos ser vistos e notados pelas pessoas; que
impressão queremos passar e, também, como captamos a forma de ser das
pessoas. Esse indicador nos leva a perceber como e por que escolhemos
algumas pessoas para fazer parte da nossa vida e deixamos outras de lado, e
também como e por que as pessoas nos “escolhem” para fazer parte da vida
delas.
A nal, o que nos parece atraente, interessante ou desinteressante
quando conversamos pela primeira vez com alguém?
Imagine que você está em um aniversário e por acaso senta-se para
conversar com uma pessoa que ainda não conhecia. Várias coisas vão passar
em pouco tempo pela sua cabeça, como, por exemplo: “Eu seria capaz de
car horas conversando com essa pessoa”, ou “eu preciso arranjar uma
desculpa para sair daqui o mais rápido possível”. Certamente isso acontece
ou porque você se identi cou ou porque alguma coisa te incomodou.
Por que isso acontece?
Algumas pessoas parecem naturalmente mais atraentes para nós do que
outras, por diversas razões:
1. por lembrarem pessoas das quais gostamos, tom da voz, cheiro, estilo,
cabelo, maneira de se vestir ou de falar;
2. por nos identi carmos com suas histórias, valores ou por falarem
alguma coisa com a qual nos identi camos;
3. por estarem em uma mesma situação de vida, lhos na mesma idade,
mesma pro ssão ou passando por di culdades/satisfações parecidas;
4. por se mostrarem atraentes ou admiráveis pela forma como se
comportam, se vestem ou se comunicam;
5. por terem a mesma educação, valores ou serem da mesma cultura
que você (isso acontece muito quando estamos em regiões distantes de casa
e encontramos pessoas do mesmo país ou área geográ ca);
6. por curiosidade, por serem famosos ou terem uma pro ssão de
destaque, como atores, cantores, artistas;
7. por parecerem cativantes, interessantes ou bonitas;
8. por serem engraçadas e divertidas;
9. por contarem estórias curiosas sobre lugares, pessoas ou assuntos que
nos interessam;
10. por terem o mesmo gosto musical, esporte, hobby, ou outras
a nidades conosco;
11. por uma necessidade de nos sentirmos aceitos ou respeitados
naquele lugar ou ocasião;
12. porque podemos ter visto na pessoa a possibilidade de ser um
grande amigo ou até o homem ou a mulher de nossos sonhos, uma “paixão
à primeira vista”.
Existem diversas formas de nos aproximarmos e de estabelecermos bons
vínculos com as pessoas e aprendermos muito com elas. Podemos sem
dúvida nenhuma tirar um bom proveito das nossas relações.
Quando não nos identi camos com nenhuma dessas coisas, as pessoas
nos parecem desinteressantes e, consciente ou inconscientemente, nos
afastamos delas. Nosso cérebro nos envia um sinal de que aquela pessoa é
pouco atrativa para dedicarmos tempo a ela.
Como já vimos anteriormente, a nossa conexão com as pessoas começa
desde a nossa formação embrionária, pelo vínculo materno, e continua
durante a infância e no decorrer de toda a vida. Precisamos de cuidados
básicos enquanto bebês e acabamos por traçar paralelos fascinantes entre a
maneira como formamos nossos apegos e nossa conexão com as pessoas,
principalmente com aquelas por quem nos apaixonamos.
Quando percebemos que os relacionamentos (amorosos ou não) nos
oferecem aconchego e uma base segura, parece que nos acalmamos e
reforçamos nossa energia para enfrentarmos os desa os. Por isso escolhas
corretas e o cuidado com a atração, quando nos relacionamos, são
fundamentais.
Nosso corpo passa a agir de forma positiva, nos tornamos mais amáveis,
mais compreensivos, como realmente camos quando estamos
apaixonados. Podemos nos apaixonar por diferentes pessoas. Não precisa
ser uma paixão amorosa ou sexual. Pode ser uma paixão pelo lado
intelectual, pela forma carinhosa de ser da pessoa, pela paz que ela
transmite, pelo afeto que tem pelos lhos, pais, irmãos, amigos e pessoas
que são queridas para nós.
Como e por que devemos nos mostrar encantadores para as pessoas?
Porque vivemos em sociedade. Logo, a convivência amigável e os
relacionamentos são fundamentais para a nossa vida pessoal e pro ssional.
Quanto mais agradáveis, estimados e amados nos tornamos, mais retorno
teremos em troca. As relações precisam ser uma troca positiva, mesmo que
não sejam constantes. Não importa a frequência, mas a qualidade. É
importante que o contato seja agradável.
Precisamos desenvolver a capacidade de encantar, envolver,
surpreender e admirar os outros e a nós mesmos, e, isso não deve ser feito
de forma super cial ou mecânica, tem que ser natural e genuína. É por isso
que precisamos começar a expandir a nossa CLASSE pela letra C,
conhecendo a nós mesmos para entendermos como somos, como nos
comportamos, observando, assim, quais atitudes podemos desenvolver de
forma mais confortável e segura para nós. Só depois disso é que estaremos
preparados para perceber a intenção das outras pessoas e passarmos a fazer
escolhas melhores e que nos tragam menos problemas e mais felicidade.
Precisamos pensar qual comportamento é confortante para nós, o que
de positivo queremos absorver e como escolhemos encarar a vida. Apesar
dos problemas que enfrentamos, podemos pesquisar mecanismos saudáveis
para deixar a vida mais suave e singela, vivendo melhor, amando mais,
curtindo cada momento. Nada melhor do que um sorriso para quebrar o
gelo e iniciar qualquer conversa. Não custa nada e é uma linguagem
absolutamente universal. Esse é um dos únicos gestos que em qualquer
lugar do mundo quer dizer a mesma coisa. Um sorriso é sempre um sorriso.
O importante é que seja verdadeiro.
Não quer dizer que tenhamos de sair por aí abraçando as pessoas que
nem conhecemos, ou distribuindo sorrisos e beijos na pani cadora. Não é
esse o intuito, mas devemos demonstrar mais carisma e altruísmo, para que
possamos inspirar e in uenciar as pessoas ao nosso redor.
É muito frustrante quando entramos em um estabelecimento comercial
e somos recebidos com mau humor ou de forma rude. O ambiente parece
tenso, pesado e perdemos imediatamente a vontade de estar ali. Nada é
mais constrangedor e nos oferece tamanha vontade de “sumir” do que
ambientes que deixam claro que as pessoas estão ali sem nenhuma vontade
ou por pura obrigação.
É incrível como as pessoas que trabalham em lugares assim estão
sempre carrancudas e frustradas e se acostumam com o clima pesado,
competitivo, a ponto de nem conseguirem perceber, e menos ainda mudar.
Normalmente esses estabelecimentos, quando privados, vão à falência,
e quando se trata de órgãos públicos, logo são batizados de lugares
inconvenientes, onde ninguém quer estar e que afastam as pessoas. Lá só
vamos em caso de extrema necessidade.
Tenho acompanhado empresas e pontos de vendas que estavam indo à
falência, mas, muitas vezes, só o fato de mudar a forma de atender seus
clientes, sorrir, ser educado, dar bom dia ou boa tarde, chamar as pessoas
pelo nome, in uencia o sucesso e a prosperidade do negócio. Atrair
positivamente as pessoas pode mudar tudo, pois elas passam a sentir prazer
de entrar e comprar ali.
A atração não está só relacionada a contatos pessoais, mas a ambientes e
empresas também. No nal de tudo, o cliente dá valor à experiência gerada
pelo relacionamento.
É na forma de se relacionar com o mundo que as empresas se destacam.
Elas devem ser atraentes para seus clientes, para seus colaboradores e
fornecedores. Essa é a razão pela qual algumas empresas estão sempre entre
as melhores: porque se preocupam em manter um bom relacionamento e
cam atentas ao que proporcionam aos outros. Querem ser vistos e
lembrados de forma positiva por seus clientes e pelo mercado. Não
podemos esquecer que os relacionamentos na percepção de valor do
cliente, são muitas vezes mais importantes do que o próprio produto, até
porque muitos são commodities (produtos padronizados, cujo preço não é
de nido pelo produtor, mas pelo mercado, como farinha, grãos, açúcar,
metais e outros).
Precisamos nos preocupar com a forma como atraímos as pessoas e
como podemos nos mostrar atraentes para as empresas também. A isso se
atribuiu o nome de Marketing Pessoal, que é a arte de vender a si próprio. É
claro que o nosso conteúdo e a nossa forma de ser sempre serão
importantes, mas precisamos dar ao conteúdo uma “embalagem”
convidativa. Quem conhece um pouco de vendas e marketing sabe o
quanto as embalagens ajudam a vender o produto.
Quantas vezes você já comprou um produto porque a embalagem lhe
chamou a atenção por ser bonita ou parecer con ável?
Se entrássemos em marketing e merchandising, teríamos muita coisa
para falar, mas esse não é o propósito deste livro, então, vamos nos
concentrar no que devemos fazer para nos mantermos atraentes e assim
alcançarmos nossos objetivos pessoais e pro ssionais.
Perguntas interessantes:
1. o que é atraente no comportamento de algumas pessoas e que você
poderia trazer para o seu modo de ser e modi car algo legal em si mesmo?
2. o que você faz para chamar a atenção das pessoas de forma positiva?
3. como quer ser visto e que impressão quer passar aos outros?
4. como quer que os seus clientes e as empresas com quem se relaciona
vejam você? Que tipo de pro ssional você é?
5. o seu comportamento pessoal transmite pro ssionalismo?
6. que imagem você quer deixar como legado? Se morresse amanhã,
como gostaria de ser lembrado?
Algumas pessoas acham que o comportamento pessoal não impacta no
pro ssional. Será? Trabalhei anos com desenvolvimento de carreira e ouvi
pessoas falarem: “Não importa para a empresa ou para os meus clientes o
que eu faço na minha vida pessoal”. Questionável, não?
A forma como nos comportamos interfere diretamente na nossa
imagem e como queremos ser vistos e lembrados pelas pessoas. Pense neste
exemplo: imagine se você fosse fazer uma cirurgia delicada e visse na noite
anterior o seu cirurgião saindo completamente alcoolizado de um
restaurante. O que você pensaria? Você não mudaria em nada a sua
percepção sobre ele? Você estaria absolutamente tranquilo para fazer a
cirurgia no dia seguinte?
Um outro caso: um líder que você admira, que mostra um forte
domínio sobre o time e um excelente conhecimento sobre a sua área de
atuação, mas por acaso é visto por você batendo na namorada no
estacionamento de um supermercado. O que você pensaria? No mínimo
iria car um tanto decepcionado, não é? O seu conceito sobre ele não
mudaria? A admiração ainda seria a mesma?
Claro que todos temos defeitos, cometemos erros e não podemos sair
por aí fazendo julgamentos precipitados sobre as pessoas, mas não há
dúvida de que a forma como nos comportamos in uencia diretamente a
percepção que as pessoas têm sobre nós. Isso é fato.
Hoje, com a vida exposta nas mídias sociais, acabamos tendo mais
acesso ao que acontece com cada um. Não estou dizendo que você não
possa se divertir, sair, ter vida social, amigos, etc. Todo mundo deve ter seus
momentos de prazer e lazer, mas precisamos cuidar da nossa imagem e de
como queremos ser vistos pelas pessoas, principalmente o zelo à imagem
pro ssional.
Sabemos que as empresas e os RHs vasculham as mídias sociais antes de
contratar pro ssionais e, dependendo do que descobrem, desistem da
contratação. Essa atitude se tornou uma prática, assim como a investigação
de ações contra outras empresas ou comprometimento jurídico e inquéritos
policiais. Provavelmente, neste momento, várias coisas estejam passando
por sua cabeça e de nada adianta entrarmos em uma discussão polêmica se
isso é certo ou errado. A questão é que faltam argumentos diante dos fatos.
As atitudes e comportamentos falam mais alto do que qualquer palavra.
Assim é desde o tempo dos nossos avós e continuará sendo por muitos e
muitos anos, independentemente de concordarmos ou não.
O que nos favorece é que o comportamento é uma escolha. Lembre-se
de que já falamos sobre isso anteriormente e não estamos presos a ele. O
comportamento pode e deve ser modi cado, e aprimorá-lo é um forte
indício de inteligência relacional e maturidade pessoal. O A de CLASSE nos
leva a pensar:
Como você quer atrair as pessoas e ser visto por elas?
Qual é a imagem e o legado que você deseja deixar aos outros?
As respostas a essas questões podem proporcionar a você um caminho
brilhante rumo à vitória e ao sucesso. No mínimo, você de nirá qual a
imagem que quer passar e de que forma quer ser visto e lembrado pelas
pessoas.
O que quer deixar escrito na sua lápide?
Aqui jaz......... que ...... porque ............ .
Na minha eu quero:
“Aqui jaz uma mulher que deixou o seu legado e fez as pessoas
acreditarem que podem se tornar seres humanos melhores, mais
inteligentes e mais felizes na forma como se relacionam, escolhendo melhor
com quem dividir a sua existência.”
Capítulo 9
A primeira letra “S” de CLASSE -
Segurança
4. Segurança: está relacionada à forma rme como defendemos nossas
ideias, princípios e valores, o que realmente acreditamos. Se soubermos
defender nossos pontos de vista de maneira segura, sem uso da imposição
ou agressão, facilmente conquistaremos a cooperação das pessoas. Não
precisamos necessariamente concordar ou assimilar os valores de outras
pessoas, nem elas os nossos, mas devemos respeitá-los para sermos
respeitados. Se agirmos dessa forma, seremos certamente mais inteligentes
relacionalmente.
Além disso, só conseguiremos trazer as pessoas a pensar como nós se
soubermos usar a persuasão de forma positiva, sensata e segura.
Já temos a compreensão de que na vida e no mundo corporativo manter
bons relacionamentos é fundamental, e para isso precisamos ter clareza de
quais são as nossas crenças e a partir disso descobrir a melhor forma de
defendê-las. Só assim seremos respeitados e poderemos respeitar
sentimentos e pensamentos diferentes dos nossos.
Há alguns anos li um livro sobre educação infantil que ressaltava a
importância de preparar nossos lhos para serem atores sociais e não
espectadores passivos. Essa questão me fez re etir profundamente sobre a
importância que temos como pais, educadores e líderes em colaborar com a
possibilidade de reforçar e estabelecer a segurança e a autoestima das
pessoas. A in uência que temos sobre elas, os valores que passamos e a
forma como as educamos pode levá-las a ter uma boa autoestima e a
respeitar ou não a opinião e as considerações dos outros. Alguns pais,
líderes e educadores acreditam que as pessoas não devem questionar suas
ordens. Não permitem que debatam seus pontos de vista e seus princípios,
o que acaba por criar seres humanos dependentes, inseguros e sem opinião.
Debater e questionar são formas primorosas de estimular o raciocínio, a
astúcia, o poder de argumentação, o humanismo e a segurança dos nossos
lhos e das pessoas com quem convivemos.
Recentemente, conversando com minha lha (que trabalhou em uma
das empresas de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico da América do
Sul e um dos donos do Burger King, Heinz, Kero, Budweiser e outras
marcas presentes na sua mesa todos os dias), sobre como o bilionário
brasileiro deixa claro que prefere pessoas que criem algum problema por
quererem andar sozinhas, em vez daquelas que esperam por ordens. “Não
gostamos de soldados disciplinados que só vão seguir ordens”, diz. Sendo
assim, entendemos que pessoas que sabem o que querem, têm brilho nos
olhos e energia para realizar são realmente essenciais.
Pessoas e pro ssionais que querem se destacar precisam aprimorar sua
comunicação e a forma de argumentar e defender ideias. Muitas pessoas
apresentam baixa resiliência (capacidade de se recuperar de uma crítica ou
objeção), ou baixa capacidade para persuadir, não só porque se mostram
mais inseguras, mas também porque não foram ensinadas a defender seus
pontos de vista com rmeza e convicção. Não lhes deram o “espaço”
necessário para questionar, pontuar ou defender o que acreditam.
Muitas vezes vemos pessoas se comportando de forma agressiva ou
rígida, porque não aprenderam a negociar, apenas a impor suas ideias ou
seus desejos, sem entrar em um acordo que possa ser favorável aos dois
lados. Algumas pessoas não conseguem se defender de forma assertiva e
segura ou não conseguem se colocar no lugar dos outros para poder
entendê-los e consolidar soluções aceitáveis para os dois lados, logo
falaremos sobre a importância da empatia na vida pessoal e pro ssional.
A baixa autoestima e a baixa segurança são características que
normalmente se formam na infância. Infelizmente não existe manual que
ensine aos pais a como preparar emocionalmente as crianças, aliás, na
maioria das vezes, acabam por repetir o que aprenderam com seus pais, mas
existem algumas atitudes que, quando tomadas, ajudam as crianças a se
preparar melhor para os desa os que a vida impõe.
Por exemplo, frases como: “engula esse choro”, “cale a boca”, ou ainda,
“você não serve para nada” são colocações pejorativas que só levam a
experiências de incompreensão e frustração. A criança vai deixando de se
expressar e passa a acreditar que manifestar sentimento é inadequado ou
errado.
Existem vários estudos e livros com dicas muito legais sobre como
encorajar nossos lhos a ser uma pessoa mais sensata e segura, mas são
poucas a se preocupar verdadeiramente com isso, o que é uma pena para a
sociedade e para o crescimento do nosso país.
Reforçar a autoestima e a segurança dos nossos lhos pode ajudá-los a
empreender mais, acreditar em suas habilidades e a ousar em proveito de
soluções e desa os nunca tentados, o que, de fato, muda o mundo.
As crianças que são amadas, queridas e sentem menos medo e sensação
de abandono tornam-se mais seguras em seus relacionamentos, não se
retraindo nem se apegando demais. No entanto, as pessoas cujos pais
negligenciam seus sentimentos e que se sentem ignoradas tendem a adotar
um estilo evitativo, como se estivessem desistindo da esperança de
encontrar um amor sincero, e as crianças cujos pais são ambivalentes,
oscilando entre raiva e ternura de uma hora para a outra, tornam-se
ansiosas e inseguras.
Claro que as crianças também precisam de limite, pois muitas vezes
realmente “passam do ponto”, e nada funciona melhor do que limites bem
de nidos para moldar uma personalidade saudável. Criatividade, rmeza e
amor são fundamentais. É necessário permitir a expressividade, dar espaço
para que a criança experimente suas emoções e sentimentos, mas também é
preciso que exista direção e limite. Os excessos precisam ser evitados de
forma justa e rme, correspondente com a faixa etária de cada criança.
Nada de punições severas ou qualquer tipo de violência no trato aos
pequenos. Alguns educadores defendem que o castigo deve ter o tempo
proporcional à idade da criança. Por exemplo, se ela tem três anos, são três
minutos de castigo sem sair daquele lugar ou falar com ninguém da casa.
Veja abaixo algumas outras dicas e se quiser saber mais, procure artigos e
livros sobre esse tema, você vai encontrar informações interessantíssimas.
Sabemos, claro, que o equilíbrio entre essas duas vertentes é difícil de
encontrar. Alguns pais são permissivos demais, outros exigentes demais. A
fronteira entre essas duas questões é difícil, mas pode ser encontrada.
No livro Inteligência emocional – A arte de educar nossos lhos, de John
Gottman e Joan Declaire (p. 79), os autores destacam alguns passos que,
quando seguidos, ajudam a preparar emocionalmente as crianças e que
podemos estender para as pessoas de modo geral. Eu li, resumi e
exempli quei:
1. ajude-os a perceber e a entender o que estão sentindo;
2. reconheça a emoção como uma oportunidade de intimidade e
transmissão de experiências. Conte à criança que você também sente ou já
sentiu aquilo, como medo de barulhos estranhos na casa, por exemplo, ou
emoções como tristeza e raiva;
3. escute com empatia para legitimar e respeitar os sentimentos;
4. ajude a nomear e verbalizar as emoções;
5. determine limites e, ao mesmo tempo, ajude a resolver seus
problemas.
Essas são algumas formas que nós, pais, educadores, terapeutas, coaches
e líderes deveríamos trabalhar para preparar emocionalmente nossos lhos,
clientes ou colaboradores.
Depois que alguns sentimentos já estão cristalizados é mais difícil de
serem modi cados, mas enquanto a personalidade está sendo formada, é
fundamental que a criança perceba que pode, de forma segura, sem birra,
expor suas emoções e sentimentos.
Nossa infância nem sempre deixa marcas saudáveis, mas sem dúvida
imprime sentimentos fortes no nosso “sistema de apego”, e que vem à tona
cada vez que nos relacionamos, principalmente nas relações afetivas e nas
ligações românticas, e essas impressões têm consequências marcantes na
forma como agimos com nossos parceiros.
Um psicólogo da Califórnia, Philip Shaver, liderou uma pesquisa sobre
“apego e relacionamentos” e classi cou os grupos estudados em adultos
seguros, ansiosos ou evitativos. Ele descobriu que as pessoas seguras iniciam
um relacionamento esperando que seus parceiros sejam disponíveis e
sintonizados, que estejam ao seu lado nos momentos difíceis, e tendem a
agir assim em relação ao outro. Geralmente veem os relacionamentos como
con áveis e acreditam nas intenções do parceiro.
Por outro lado, os adultos mais ansiosos e inseguros em seus
relacionamentos são mais propensos a achar que seus parceiros não os
amam o su ciente ou não querem car ao lado deles. Tendem a gerar uma
dependência tão apreensiva e uma necessidade tão intensa de rea rmação
que, sem querer, acabam afastando o parceiro. É bastante contraditório e
sofrido para eles, porque, ao mesmo tempo que se sentem indignos de
amor, também tendem a idealizar seus parceiros românticos. As pessoas
mais inseguras tendem a ser mais carentes e sentem receio do abandono,
apresentando sinais de “dependência amorosa e emocional”. Tornam-se
hipervigilantes, mais controladoras, mostram ciúmes excessivos e podem
criar casos imaginários, achando que o parceiro as está traindo. Muitas
vezes transferem essa mesma preocupação para as relações futuras.
Os adultos do tipo evitativo são aqueles que procuram fugir das
relações. Eles não se sentem à vontade em situações que levem à
proximidade emocional. Mostram di culdade de con ar no parceiro e
compartilhar emoções e cam nervosos quando o parceiro deseja maior
intimidade emocional. Evitam o envolvimento, suprem e sufocam o próprio
sentimento por medo de sofrer. Acham que o parceiro não é digno de
con ança e têm di culdade em manter relacionamentos.
O tipo ansioso e o evitativo têm um ponto em comum: a rigidez. A
sugestão é que busquem ajuda ou uma psicoterapia para lidar melhor com
isso e quebrar esse padrão de funcionamento, porque, quando um dos
parceiros é seguro, ainda é possível que o relacionamento se mantenha com
poucos con itos e crises, mas quando os tipos evitativos ou ansiosos se
juntam, tendem a car mais propensos a brigas e separações e vão precisar
de mais manutenção e cuidado nesses relacionamentos. A nal, apreensão,
ressentimento, angústia e mágoa são contagiosos.
De fato, certo grau de ansiedade é o que pagamos pela verdadeira
intimidade emocional. Isso é comum nos relacionamentos para qualquer
pessoa, pois nos apegamos, amamos, logo, sofremos quando nos
desentendemos.
Vale lembrar que os estilos são moldados em grande parte na infância,
mas se forem aprendidos podem ser modi cados, principalmente se
tiverem uma experiência positiva e um relacionamento reparador.
Fortalecer e reforçar a segurança e a autoestima da criança fará com que
mais tarde seja capaz de defender com mais rmeza e convicção o que
acredita, tornando-se uma pessoa e uma pro ssional mais madura e focada
em suas crenças. Defendo que muitos dos “bons líderes ou vendedores” já
vêm pré-formados de casa. Entre as fortes capacidades que de nem
personalidades determinadas e seguras está a assertividade, para defender
pontos de vista, a segurança e autoestima, para lidar com objeções, e a
empatia, para entender necessidades individuais. Essas características são
formadas na infância.
Ser emocionalmente maduro signi ca ter capacidade para reconhecer e
identi car as próprias emoções e as do outro. Essa experiência só acontece à
medida que permitimos que os sentimentos se manifestem desde a
infância.
O problema é que muitas vezes os pais ou líderes não sabem lidar com
as próprias emoções e, por medo de se descontrolarem, acabam por inibir
qualquer possibilidade de expressão de emoção ou sentimento aos outros.
Ignorar sentimentos como raiva, medo, ciúmes, escondendo o que se
sente ou o que se deseja, acaba por limitar a oportunidade de lidar de
forma positiva com as emoções negativas ou as frustrações. Negar e ngir
que não existem só di culta a experimentação das emoções que são
naturais e aparecerão repetidas vezes na nossa vida.
Para ilustrar essa questão, vou contar sobre uma paciente que atendi há
alguns anos no consultório. Ela tinha uma imensa di culdade de expressar
suas emoções. Quando começava a se emocionar ao relatar um fato, logo
parava, respirava fundo e segurava o choro. Tentei encorajá-la algumas
vezes a colocar para fora, mas ela sempre dizia: “Minha mãe me treinou a
engolir o choro e é isso que faço até hoje”. Quando seus lhos começaram a
ter problemas comportamentais, na escola, como brigar com amigos, chutar
e mostrar atitudes emocionalmente descontroladas, ela percebeu que eles
estavam buscando alguma forma de externar o que sentiam, porque ela
nunca permitiu que demonstrassem nenhum tipo de emoção em casa, nem
mesmo ciúmes, ira ou raiva. Procurou a psicóloga escolar, que atendeu as
crianças, e esta encaminhou a mãe para o meu consultório. Durante o
processo, ela foi descobrindo que as emoções precisam ser experimentadas,
sem dose exagerada, mas não podem ser reprimidas ou ignoradas.
Certa vez ela me disse que leu isso em um livro e que caiu como uma
luva: “Me sinto como se tivesse em um avião com meus lhos sentados ao
lado. Sei que em caso de turbulência preciso primeiro colocar a máscara em
mim, e depois nas crianças”.
Sábia constatação. Ela entendeu que precisava aprender a exibir suas
emoções de forma saudável e equilibrada, para então poder ensinar e
permitir que suas crianças zessem o mesmo.
É natural que os pais cometam erros, é um “ensaio e erro” para tentar
acertar, contudo, alguns cuidados são fundamentais para que possamos
estruturar a nossa vida e para criarmos lhos com segurança e autoestima
mais fortes. Fique atento a essas situações:
1. os sentimentos fortes podem e devem ser expressados e
administrados. Permita que seus lhos demonstrem raiva, medo ou outros
sentimentos negativos, mas sem extrapolar. Esses sentimentos existem e
devem ser sentidos, mas precisam ser controlados. Não pode deixar seus
lhos quebrarem a casa, mas pode permitir que expressem suas emoções e
falem sobre o assunto. Deixe que chorem um pouco e contem como a
situação lhes fez mal ou os incomodou.
2. evite sarcasmo, desprezo e comentários que desmereçam ou
intimidem a criança. Chamar a atenção e diminuí-las na frente dos outros
só vai jogar sua autoestima para baixo e criar problemas maiores, como
rebeldia, raiva e afastamento.
3. seja especí co com a criança e deixe claro que não aprova tais
comportamentos caso ela tenha “passado dos limites”. Ela precisa entender
que isso afeta os pais, as pessoas e o ambiente como um todo e que pode se
expressar, mas de forma controlada.
4. entenda como “passar dos limites” a criança que desrespeita e
responde aos pais, bate, se joga no chão, grita, se recusa a comer, joga coisas
nos outros, xinga etc. Esses comportamentos não devem ser reforçados.
Pelo contrário, olhe rme para a criança, sem gritar, com um tom de voz
claro e seguro, e explique que esse comportamento não é adequado, que
não vemos as pessoas se jogando no chão nem batendo nos outros nas ruas
ou nos ambientes que frequentamos, como restaurantes, supermercados,
igrejas, e que isso não é um comportamento aceitável e não deve mais se
repetir.
5. que atento a sua raiva e à forma como você se expressa quando for
brigar com a criança. Se sentir que pode agredi-la física ou verbalmente
espere um momento melhor. Procure se acalmar, e, no momento em que
puder ter uma conversa mais tranquila, que leve a um nível de
compreensão e retidão, então prossiga. Escute o que a criança tem a dizer e
só depois continue falando, mas não deixe de ter esta conversa; se deixar a
situação “esfriar” você estará sendo conivente com o erro e perderá o
momento certo de fazer a correção;
6. castigos exagerados, palmadas que machucam, comentários
pejorativos e ameaças sempre devem ser evitados. Se quiser dar-lhe um
castigo realista ou agir de forma corretiva, faça algo coerente com a idade
da criança, como:

tire um brinquedo de que ela gosta muito e guarde-o por um


tempo;
no dia da birra, deixe de ir a algum lugar de que ela goste, como
parquinho ou casa de amigos;
cancele o hambúrguer ou o sorvete daquele m de semana;
faça com que devolva o que pegou emprestado do amigo sem
pedir;
faça a criança pedir desculpas caso tenha batido, empurrado,
gritado com alguém etc.

Você, como educador, evite bater, gritar e ridicularizar a criança,


principalmente na frente dos outros. São comportamentos que só levam a
mais violência e menos autoestima.
Lembre-se de que caso sinta remorso de algo que tenha feito, se tiver
perdido a cabeça com seu lho em algum momento, não tenha medo de
pedir perdão. Após os quatro anos de idade, a criança é capaz de entender
esse conceito e, ao fazê-lo, vai ensinar que perdoar é um ato de amor e que
não deixamos de amar porque eventualmente brigamos, nos
desentendemos ou cometemos erros. Além de ser um processo de evolução
para os pais, por saberem trabalhar melhor a própria emoção, também
ajudará a criança a lidar de forma mais saudável com con itos futuros e
certamente vai reforçar sua segurança. Além de manter um relacionamento
saudável entre vocês, seu lho entenderá que deve respeitar você e as
pessoas com quem vai se relacionar mais tarde, por entender que podemos
errar, consertar e perdoar.
Embora o processo de aprendizado e de conscientização das emoções
dure a vida inteira, reconhecer, expressar e falar sobre sentimentos sem
dúvida permitirá que as pessoas se sintam mais aptas e confortáveis para
trazerem suas emoções à tona e aprenderem a controlar e a lidar melhor
com elas.
O exercício desse aprendizado, além de reforçar a segurança, também
ensina as pessoas a enfrentar problemas e a tomar melhores decisões.
Quando compreendemos que é normal termos dúvida e sentimentos
contraditórios, aprendemos que o processo de solução de problemas
também acontece em partes e sempre levanta mais de um caminho e várias
possibilidades ou alternativas de resolução.
No tempo em que vivi na América do Norte, constatei que os
americanos de modo geral lidam muito bem com o ato de encontrar
soluções. Eles ensinam as crianças desde cedo a levantar hipóteses e
alternativas possíveis e viáveis para chegar à resolução de um problema. Por
exemplo, se cada criança quer fazer uma atividade diferente, mas ao mesmo
tempo querem brincar todas juntas, eles pensam em soluções possíveis e
ensinam as crianças a fazer matriz de priorização. Fazem uma lista e depois
uma votação para organizar a ordem das brincadeiras, ou sorteiam as
brincadeiras e decidem sua ordem. En m, pensam em como devem agir
para resolver um problema ou um con ito, e assim podemos fazer com
todos os embates que temos no nosso dia a dia.
Todos nós nos lembramos de situações que trouxeram emoções
contraditórias. Por exemplo, a primeira vez que viajamos sem os nossos pais.
Certamente estávamos empolgadíssimos, ou por ser uma excursão da
escola, um acampamento da colônia de férias, uma temporada na casa dos
avós, en m, não importa onde foi, mas é sempre um turbilhão de
sentimentos. Ao mesmo tempo em que camos superalegres e com grande
expectativa, também sentimos aquele frio na barriga e camos inseguros.
Não sabíamos como seríamos tratados, o que faríamos se sentíssemos fome
ou saudade de nossos pais, se o lugar seria mesmo divertido e seguro.
Surgiam várias dúvidas e interrogações.
O fato é que quando experimentamos essas situações desde cedo e
aprendemos a lidar com situações contraditórias, enfrentando e
entendendo que são normais, conseguimos trabalhar melhor as decisões
que teremos que tomar na vida adulta. Passamos a compreender que,
quando o processo decisório é dividido em etapas, ca mais fácil resolvê-lo.
Sendo assim, procure sempre:
1) identi car objetivos ou questões;
2) analisar os fatos ou os problemas;
3) procurar por possíveis soluções;
4) avaliar as alternativas;
5) escolher uma ou mais soluções;
6) desenvolver um plano de ação;
7) levantar o que é necessário para implementar;
8) tomar a decisão e agir.
Parece complicado, mas se analisarmos qualquer situação é fácil
perceber que agimos dessa forma na maioria das vezes. Quando
aprendermos essa “fórmula”, com o tempo vamos automatizando esse
processo e passamos a realizar essas ações rápida e automaticamente.
Ensino essa “regrinha” aos meus clientes de coaching, e dessa forma
conseguem solucionar seus problemas e alcançar seus objetivos, ou seja,
existem formas de encontrar soluções para con itos e problemas, sejam eles
pro ssionais, pessoais ou emocionais.
O que precisamos lembrar é que as soluções e sentimentos não devem
ser reprimidos e sempre que conseguirmos identi car um problema
seremos capazes de resolvê-los da melhor forma possível, mesmo que
envolvam sentimentos negativos.
Como falamos acima, de nada adianta dizer à criança: “pare de chorar”
quando ela está triste, com medo ou com raiva. Isso só vai deixá-la confusa,
pois não vai entender o que sente e vai acreditar que os sentimentos
precisam ser reprimidos. O medo ou a tristeza não vão passar, e ela não
saberá como deve expressar seu sentimento, o que só causará insegurança e
frustração. Por outro lado, se dissermos à criança que ela tem o direito de
sentir, mas deve controlar seu choro, sem que precise gritar, se jogar no
chão ou fazer escândalo, ela entenderá que há outras formas de expressar o
que sente e cará com a segurança e a autoestima mais fortes, o que pode
reforçar sua personalidade e garantir um comportamento mais rme e
decidido no futuro.
O limite não deixa de ser fundamental e as crianças responderão de
forma positiva se você negociar com elas e aplicar as consequências
combinadas sobre suas ações. Se, por exemplo, você combinou que, se ela
insistisse em querer dormir na casa do amigo, não andaria de bicicleta no
dia seguinte, a bicicleta terá que ser con scada. Dar “brecha” à regra ou ser
complacente com o castigo vai ensiná-la que regras foram feitas para ser
quebradas e não cumpridas, além de causar insegurança por falta de
parâmetros. Por outro lado, se as mantiver rme, a criança entenderá que
regra dada é regra mantida e aprenderá que existem causas e consequências
para suas ações, o que fará com que se torne um indivíduo mais maduro e
consciente de suas ações.
É importante não exibilizar a regra por sua conveniência. Se não pode
comer doces antes do almoço, isso tem que acontecer de segunda a
segunda. Dependendo da idade da criança, ela cará confusa se puder um
dia e não puder em outro, mesmo que isso aconteça só nos ns de semana.
Não será fácil para ela entender por que às vezes pode e às vezes não.
Então, o ideal é que a regra de nida seja mantida. Quando ela entende
isso, nem questiona mais. Regra é regra e acabou.
Quando impomos regras que a criança entende, ela se sente mais
protegida, passa a se comportar melhor e percebe que pode ter os pais como
aliados, justos e protetores, que podem ajudá-la a tomar decisões mais
seguras e consistentes em qualquer momento da vida.
Isso também acontece conosco. Não somos mais crianças, mas ao
entender que podemos expressar e controlar nossos sentimentos, que
dúvidas e problemas podem ser resolvidos quando pensamos em soluções e
estabelecemos passos para resolvê-los, camos mais tranquilos, seguros e
podemos defender com mais rmeza e convicção nossos valores e no que
acreditamos.
O sentimento nunca é um problema. O problema são os
comportamentos e as atitudes, a forma que escolhemos agir para resolver
um problema. Tudo depende das nossas escolhas. Existem maneiras seguras
e equilibradas de fazer isso, mas se optarmos pela violência, agressão,
incompreensão ou imposição, sempre será mais penoso ou difícil, além de
trazer mais sofrimento. A pena de nós mesmos e o sentimento de “vítimas
do destino” também só pioram o processo e pouco ajudam na solução.
Para aprimorarmos a segurança, a forma de se posicionar e defender
ideias são necessários trabalhos como coaching, terapia ou demais processos
de crescimento e desenvolvimento.
Também sugiro algumas ações que desenvolvo com meus clientes de
coaching e que trazem excelentes resultados:

treine expor suas ideias e peça a avaliação de pessoas que admira


e que serão honestas ao lhe prover feedbacks;
lme suas apresentações para que possa observar seu tom de
voz, postura, expressão facial e presença de “palco”;
prepare-se para suas apresentações, estude, planeje, procure
pensar em possíveis objeções que pode receber de seu
expectador;
faça os passos que sugerimos acima, quando for tomar decisões,
procure planilhar soluções e alternativas para resolver questões e
problemas.
Pratique, prepare-se e assimile que pode encontrar soluções viáveis e
seguras. Faça ajustes no seu comportamento e torne-se um mestre nos
relacionamentos. Todos sairemos ganhando, quando entendermos que
precisamos respeitar mais as pessoas, regras, autoridades, leis, princípios e
valores. Esse comportamento aumenta nossa segurança e nos permite
defender nossas convicções, respeitando diferentes pontos de vista, o que
favorece relacionamentos, negociações e acordos pessoais e pro ssionais.
Por isso o S de CLASSE é tão importante. Faz com que nos tornemos
pro ssionais e seres humanos melhores, mais seguros e com uma
autoestima mais consistente.
Capítulo 10
A segunda letra “S” de CLASSE -
Sabedoria
“Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano.”
Sigmund Freud
5. Sabedoria: essa habilidade é a arte de colocar em prática tudo o que
aprendemos no decorrer da vida, captando as informações mais sutis. Tudo
o que sabemos e conhecemos pode e deve ser usado ao nosso favor, e a
forma como empregamos as palavras, o conhecimento, o comportamento e
os movimentos são essenciais para o aprendizado e para percebermos
melhor as pessoas a nossa volta. Essa característica está associada à nossa
sensibilidade social, o coe ciente que possuímos para nos posicionar
socialmente e para percebermos melhor as pessoas e suas reais intenções.
Assim podemos trazer para nós pessoas boas e ltrar aquelas que podem
prejudicar-nos.
Pode parecer complexo, mas não é, vou explicar. Vamos aprender de
que forma podemos perceber melhor os sinais sutis e evitar a
insensibilidade social nossa e dos outros.
Algumas pessoas têm o dom de dizer coisas tão impróprias,
deselegantes ou rudes, demonstrando tão pouca percepção do ambiente e
do contexto imediato que podem ser consideradas insensíveis sociais e
tóxicas para os outros. São pessoas que não sabem usar o seu conhecimento
de forma adequada, pelo contrário, muitas vezes são bem inteligentes, mas
usam de sua astúcia para diminuir outros. Utilizam o “poder do
conhecimento” para prevalecer e mostrar que sabem mais.
Já sabemos que existem várias formas de inteligência e pode ser que
essas pessoas realmente se destaquem em alguma área do conhecimento,
mas ninguém é expert em tudo. Precisamos aprender como devemos usar
de forma leve e positiva o conhecimento, as informações e principalmente a
comunicação verbal e não verbal, que são os melhores caminhos para se
transmitirem informações às pessoas. Essa descoberta vai nos proporcionar
uma vida melhor, mais equilibrada, e nos tornar excelentes captadores de
bons relacionamentos a cada dia.
Conheço muitas pessoas que não percebem que excedem em seu
comportamento, não dão atenção à necessidade dos outros, falta-lhes
sabedoria relacional. Por exemplo, às vezes estamos falando com alguém e
damos vários sinais claros de que estamos atrasados ou com pressa e as
pessoas ignoram nosso comportamento e continuam falando. Não adianta
olharmos no relógio, andarmos mais rápido, nem mesmo falar que
precisamos ir ou caminhar em direção à porta. Algumas pessoas continuam
andando conosco e falando como se ignorassem o que acabamos de dizer.
Essa tendência, na verdade, é um indicador de “dislexia social”. Esse termo
não foi criado por mim, mas por Goleman. Ele cita exemplos interessantes
de pessoas assim no seu livro: “FOCO – A atenção e o seu papel
fundamental para o sucesso”.23
O contrário da dislexia social é a intuição social, quando decodi camos
a mensagem que o outro está nos enviando e a compreendemos. Fazer o
uso adequado da linguagem e da percepção não verbal é um sinal de
inteligência relacional. Estabelecemos essa linguagem sempre que
interagimos com as pessoas e se estivermos atentos a esses sinais podemos
ganhar muito quando estamos conhecendo pessoas novas, em entrevistas
de emprego ou em uma negociação importante. Podemos ser mais bem
aceitos pelas pessoas à medida que camos atentos aos seus sinais. As
pessoas falam com o corpo, com os gestos, com o olhar. Comunicamo-nos
desta forma o tempo todo.
Quando desenvolvemos nossa sensibilidade social nos tornamos
captadores de pistas sutis que podem guiar a forma como nos
comportamos. O melhor de tudo é que essa habilidade pode ser
desenvolvida quando damos mais atenção ao que está a nossa volta e à
reação das pessoas com quem nos relacionamos.
Certa vez fui com uns amigos que trabalhavam no Bank of America
fazer uma visita para conhecer a estrutura e matar a curiosidade de onde
cava a bolsa de valores, as instalações e as áreas internas do banco. O
prédio é espetacular, uma vista linda, todo envidraçado, com um pé direito
incrível. Fica no centro/uptown, em Charlotte, na Carolina do Norte. Pois
bem, a maioria das pessoas já tinha ido embora quando chegamos. Era um
nal de tarde lindo, o sol já estava se pondo e ainda dava para ver o toque
amarelado no horizonte através dos vidros. Diante daquele espetáculo da
natureza, em sintonia com a modernidade do lugar, parei para observar as
mesas, as ilhas de trabalho de cada pessoa. Consegui perceber quem era
organizado, quem estava resfriado, quem gostava de café, quem era
friorento, etc. E como? Mesmo sem que as pessoas estejam presentes, se
dedicarmos um pouco de tempo e atenção conseguimos captar informações
sobre elas, às vezes, em suas necessidades mais internas.
Bastou observar a mesa mais arrumada, a que estava com uma caixa de
lenço de papel e o lixo abarrotado de lencinhos, a imensa caneca térmica de
café sobre uma das mesas e o casaquinho nas costas da cadeira de outra.
Claro que isso demanda treino e atenção para aprender, e algumas
pessoas têm mais habilidade para reparar nisso do que outras, mas é sem
dúvida uma característica que podemos otimizar se quisermos entender
melhor as pessoas. A clareza começa a acontecer quando percebemos o que
não notamos – e não notamos que não notamos.
Aprimorar o radar social pode nos tornar mais sensíveis para
percebermos sinais sutis nas pessoas, como um levantar de sobrancelha, a
dilatação da íris, o lacrimejar dos olhos, o chacoalhar das pernas ou pés,
braços cruzados, etc. O desenvolvimento dessa habilidade nos torna
socialmente perspicazes, capazes de sentir quando não devemos tratar de
assuntos delicados, quando alguém precisa car sozinho ou quando
palavras de conforto seriam bem-vindas.
Um olhar treinado para as pistas sutis oferece vantagem em muitas
áreas da vida, principalmente em negociações. Nosso próximo livro sobre
“Inteligência Relacional em Vendas” vai abordar isso melhor.
A diretora do Instituto de Interação Humano-Computador da
Universidade Carnegie Mellon, Justine Cassell, coordenou interessantes
pesquisas sobre “movimentos sutis” e a rma que “os gestos sempre ocorrem
pouco antes da parte mais enfática do que estamos dizendo”. O timing do
gesto fornece a interpretação de seu signi cado. Com o timing errado, uma
declaração positiva pode ter um impacto negativo. Por isso alguns políticos
podem parecer falsos em suas argumentações, porque não são naturais e
não conseguem repetir o timing correto.
O fato é que tudo em que prestamos a atenção nas pessoas nos gera
signi cados, em níveis conscientes ou inconscientes, e não conseguimos não
criar algum sentido a partir do que alguém nos diz. Devemos treinar mais
para fazer interpretações mais corretas e adequadas do que as pessoas nos
dizem ou estão tentando nos dizer através de sinais, gestos ou movimentos.
Sabemos que o uso adequado do comportamento-espelho acaba
gerando empatia e aceitação nas pessoas. A descoberta recente do
neurônio-espelho foi tão instigante, porque con rma o que de forma
empírica já sabíamos, que quando as pessoas repetem nossos gestos ou
comportamentos, nós as aceitamos melhor. Mesmo que seja de forma
inconsciente, acabamos criando maior empatia com a percepção da
semelhança.
Logo falaremos da letra E de CLASSE, a empatia, que pega carona na
importância da sabedoria para o exercício e desenvolvimento da
sensibilidade social e relacional. Essa habilidade nos permite também
melhorar a percepção do comportamento das pessoas para que possamos
criar escudos relacionais e melhor entendermos quem são os anjos
(sensíveis relacionais) ou os vampiros (impróprios ou insensíveis
relacionais) que surgem na nossa vida a todo o momento.
Daniel Goleman deixa claro que as pessoas capazes de manter controle
sobre seus impulsos e sentimentos conseguem passar emoções positivas aos
outros.
Aqueles que têm um comportamento amigável eu denominei de
pessoas-anjo. Os anjos são pessoas que aparecem quando menos esperamos
e nem sempre cam por muito tempo na nossa vida, mas deixam uma
impressão positiva inigualável. São sensíveis relacionais e são aqueles que
somam e aparecem para nos tornar pessoas melhores:

Ajudantes: sempre dispostos a prestar auxílio, parece que


nasceram para ajudar os outros. Se precisarmos de um ombro
amigo ou de ajuda na mudança eles terão o maior prazer em
estar conosco;
Aprendizes: parecem estar sempre atentos ao que temos a dizer
e querem aprender com tudo. Geralmente gostam de ouvir
histórias e nos ajudam a liberar a criatividade;
Positivos e otimistas: sempre veem o lado bom das coisas, por
mais trágicas que pareçam. São agradáveis e tranquilos para se
conviver e acreditam que o nal sempre acaba bem. Dizem: “Se
ainda não deu certo, é porque não acabou”!
Incentivadores: quando contamos uma ideia, eles dão sugestões
interessantes, que podem aprimorar nossa criação. Colocam
“pilha” para que sigamos em frente;
Estudiosos: falam com sabedoria e saem com frases ou palavras
brilhantes; dá vontade de anotar o que dizem para não esquecer.
Nos encorajam a planilhar, planejar e pensar antes de fazer;
Inteligentes: estão sempre pensando em soluções e estratégias
interessantes e podem contribuir com inovações e ajudar-nos em
nossas decisões, pois contribuem com sacadas sensacionais;
Honestos: é uma desonra para eles enganar, roubar ou mentir.
Podemos con ar e entregarmos a “chave do cofre” para eles.
Bem-humorados: estão geralmente sorrindo e deixam o
ambiente mais leve, acordam de “bem com a vida”.
Divertidos: piadistas naturais, são engraçados e geralmente
fazem todos rirem com suas brincadeiras e palhaçadas;
Dinâmicos: parece que estão sempre com a bateria carregada,
não sentem preguiça de fazer as coisas e procuram estar sempre
em atividade. Geralmente fazem mais de uma coisa de cada vez.

Em contraponto, àqueles que se comportam como se fossem o centro


das atenções, são egoístas, egocêntricos, interesseiros e carentes de
consideração pelos outros, chamamos de vampiros emocionais. Eles
impõem egoisticamente seus interesses aos dos outros, abusam da educação
alheia, pedindo favores impróprios às pessoas, e ainda falam coisas sem se
preocupar com o impacto que causam.
Normalmente, o vampiro emocional tenta humilhar ou desquali car os
outros e, para piorar, esconde-se atrás de justi cativas e pretextos para
demonstrar o seu ponto de vista e “provar” que está correto ou agindo para
o bem alheio.
É claro que pode haver casos em que a personalidade do vampiro
emocional não é experimentada conscientemente. Alguns vampiros
emocionais não são capazes de perceber que se comportam assim, e não
estão cientes dos efeitos negativos de suas ações sobre as pessoas ao seu
redor24.
Os vampiros emocionais são indivíduos que se alimentam da energia
emocional dos outros, são suscetíveis a manipular emocionalmente suas
“vítimas” para atingir seus objetivos. Eles se aproximam das pessoas para
exteriorizar a sua negatividade e se aproveitar do poder do seu interlocutor,
descarregando nos outros seu desconforto ou suas questões mal resolvidas.
O fato é que essas pessoas transmitem uma energia tóxica que pode
provocar uma série de emoções ruins que causam ansiedade, depressão e
reações físicas que levam ao que chamo de doenças psicorrelacionais. São
doenças causadas pelo impacto de relações ruins e tóxicas para o estado
físico e emocional de cada um de nós.
Os neurocientistas e neuropsicólogos já conseguem explicar muito
melhor o impacto dessas relações doentias, no cérebro e no organismo
humano. O que precisamos ter claro é que essas pessoas, inconscientemente
ou não, têm a capacidade de roubar a energia de todos ao seu redor,
criando uma aura de negatividade, seja em casa, na empresa, na escola ou
em qualquer instituição social.
Precisamos nos blindar e nos afastar deles, porque acabam gerando
altos níveis de estresse e fadiga emocional que podem causar doenças
sérias, que iniciam levemente, mas que, com o tempo, podem se tornar
crônicas.
Fique atento aos vampiros emocionais. Eles sugam completamente a sua
energia, mesmo quando você está bem e tudo parece calmo, quando eles se
aproximam o ambiente ca pesado, você sente um mal-estar, mas nem
sempre consegue perceber que vem dessas pessoas. Perceba-os:

Aproveitadores: estão sempre necessitados e pedindo a sua


ajuda ou as suas coisas emprestadas, mas nunca oferecem nada
em troca ou não têm tempo para ajudar você;
Competidores: querem mostrar que são melhores que você e
qualquer coisa que você fale eles sempre sabem mais ou zeram
melhor;
Sabe-tudo: qualquer coisa que você diga ele aprendeu mais que
você ou tem uma estória melhor ainda para contar, a sua tem
que car menor ou menos importante que a dele;
Traidores: fazem-se de amigos, mas sempre acabam
apunhalando você pelas costas.
Falsos: dizem que os outros não prestam, ou não são tão amigos,
ou tão inteligentes ou bacanas quanto você, mas falam mal de
você para os outros;
Sofredores e vítimas: o mundo é cruel para eles, torturam-se
com a autopiedade, todos os perseguem. Estão sempre doentes,
tomam muitos remédios e a sua maior diversão é ir ao médico;
Fofoqueiros: contam sempre aos outros o que você pediu
encarecidamente que não falasse a ninguém e adoram espalhar
boatos;
Invejosos: querem ter o que você tem ou ser o que você é, mas
nunca conseguem, pois pouco se esforçam;
Críticos: reclamam de tudo o que você faz ou sugere, mas
nunca dão solução, ou seus conselhos são indesejados;
Pessimistas: são desmancha-prazeres, acham que nunca nada
vai dar certo e jogam baldes de água fria nas suas ideias;
Atropeladores: passam por cima de você como um rolo
compressor, são mandões e querem que todos façam o que eles
acham melhor;

Nunca esqueça que para você se defender terá de usar os seus escudos
emocionais, sendo fundamental que aprenda e pratique todos os passos da
base da Inteligência Relacional: a CLASSE, identi cando as características e
os sinais que as pessoas mostram, a m de saber bloquear as más vibrações.
Além do mais, quando alguém descarrega em cima de você, procure
manter-se em equilíbrio e não assuma automaticamente uma postura
defensiva. É bem possível que o problema esteja no outro e não em você.
Trazer para o pessoal ou devolver o lixo tóxico só vai piorar a situação. O
melhor a fazer é manter o controle e a calma, porque quem os mantém,
obtém poder na interação. Quando a pessoa se irrita sozinha sempre é
perdedora. Esse é mais um escudo que pode usar a seu favor. A raiva vai
bater no seu escudo e voltar para a pessoa. A medida que você reage,
absorve e acaba assimilando a raiva do outro, o que será muito mais
prejudicial para si.
Não deixe de considerar que, infelizmente, em algumas situações você
vai precisar romper um relacionamento que se tenha tornado
sufocantemente tóxico, mas só faça isso se já tiver tentado fazer todos os
ajustes possíveis, como entender, escutar, perguntar, avaliar a questão e,
acima de tudo, perdoar, principalmente se isso não acontece a todo o
momento. Às vezes, é apenas uma descarga por algo ruim que aconteceu, e
a pessoa ainda não sabe como lidar com a situação por medo ou desespero,
e descarrega em você.
Lembre-se de não ter medo de ter dúvidas com relação aos desa os de
um relacionamento! Viva as experiências que você deseja viver, aprenda
com os erros e não tenha receio de tentar novamente após um fracasso. É
vivendo e experimentando que aprendemos, mas de fato aprenda com os
erros, use a sua sabedoria a seu favor e evite repetir os mesmos erros a cada
nova relação. A sabedoria é construída a cada dia.
A seguir, vamos falar da empatia, e você terá mais algumas dicas de
como lidar de forma positiva com as situações con itantes.

23. Texto traduzido e adaptado por Psiconlinews: https://goo.gl/1RgtJw


24. Daniel Goleman, Livro Foco, p. 116.
Capítulo 11
A letra “E” de CLASSE - Empatia
“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo re etido nos
olhos dele.”
Carl Rogers
6. Empatia: é a habilidade de conseguirmos ler a emoção das pessoas,
de nos colocarmos no lugar do outro e de tentarmos pensar como pensam e
sentir como sentem. Tornarmo-nos capazes de perceber melhor as dores,
alegrias, tristezas e conquistas de cada pessoa, compartilhando de forma
mais autêntica a cooperação e a percepção de como aquilo que pode
parecer fácil para alguns, é muito difícil para outros.
A empatia desempenha um papel essencial na capacidade de cuidar e
está centrada em responder às necessidades de outros, e não a nossa
necessidade. Freud observou uma notável semelhança na intimidade física
entre os amantes e entre mães e bebês. Os amantes, como mães e lhos,
passam a maior parte do tempo olhando nos olhos, tocando, acariciando e
beijando – o contato físico é intenso e proporciona uma imensa sensação de
felicidade.
Para a maioria das mães, ouvir o choro de seus bebês tem uma força
particular; elas identi cam de longe e possuem uma capacidade de
provocar um nível de compreensão tão grande que parecem sentir o que
seus bebês estão sentindo. Essa habilidade acontece também com as fêmeas
de outras espécies e, por isso mesmo, garantem a sobrevivência. Como já
dissemos, somos seres relacionais desde sempre e precisamos dos outros
para sobreviver.
A oxitocina, considerada também o “hormônio do amor” materno e
sexual, quando liberada pelo parto, amamentação ou orgasmo, inunda
quimicamente o nosso organismo, liberando uma sensação de êxtase e de
proteção e cuidado. Esse hormônio também cria sensações reconfortantes
durante interações sociais e físicas.
O neurologista sueco Kerstin Uvnas-Moberg estudou a fundo a
oxitocina e a rma que essa inundação de substância química ocorre sempre
que entramos em contato afetuoso com alguém de quem gostamos muito e
estimula o que chamamos de cérebro social. Os benefícios da oxitocina
parecem surgir nas interações sociais agradáveis, sempre que as pessoas
trocam energia emocional.
Associada com afetos relacionais e românticos, a oxitocina aumenta a
libido e é conhecida por criar laços sociais, familiares e afetivos. É este
hormônio que nos faz apaixonar por alguém. Não só paixão sexual, mas
também amor fraternal e entre amigos. Quando conhecemos alguém, esta
pessoa terá a capacidade de induzir a liberação de muita ou pouca oxitocina
em nós. Quanto maior for esta indução, mais nos apegaremos e nos
lembraremos dela. Aí é que encontramos novamente a empatia, porque
pessoas que apresentam mais oxitocina circulando em seu sangue parecem
mais apaixonantes e carismáticas. 25
Estudiosos a rmam que a oxitocina é uma substância neuroquímica
essencial aos relacionamentos duradouros. John Gottman, pioneiro nas
pesquisas sobre as emoções nos casamentos, expõe que alguns casais
suprem a tal ponto as necessidades principais dos sistemas neurais um do
outro que, quando vivem juntos e felizes durante muito tempo, tendem a
car parecidos também no aspecto físico. As expressões e emoções que
sentem desencadeiam os mesmos músculos faciais e acabam moldando
sulcos, rugas e marcas de expressão similares, tornando-os cada vez mais
similares entre si.
Quando as interações positivas sobrepõem às negativas, entre casais ou
pessoas que convivem juntas, passam a compartilhar emoções que levarão a
um relacionamento robusto e duradouro.
Por essas razões, sabemos que o amor e os relacionamentos fazem
diferença na saúde e na doença das pessoas e que existem vários estudos
realizados em hospitais com doentes coronarianos ou terminais que
comprovam quanto os relacionamentos tóxicos elevam níveis de cortisol
fazendo tão mal quanto o tabagismo, a hipertensão arterial, o colesterol, a
obesidade ou o sedentarismo.
Ressaltamos a nossa responsabilidade enquanto parceiros. Os dados
colocam os relacionamentos entre os fatores de riscos, e com o aprendizado
de que temos um cérebro social e hormônios e neurotransmissores que
agem diretamente sobre o nosso organismo, entendemos o elo biológico
que faltava para termos certeza de que as interações humanas nos
in uenciam para o bem ou para o mal, como falamos no capítulo anterior, e
a escolha de como podemos agir com as pessoas para as deixarmos
melhores ou piores também é nossa.
A nal, o que você quer deixar para as pessoas com quem convive? E
para a humanidade? Que tipo de contribuição você quer dar para as
pessoas? Quão empático e preocupado com os outros você quer ser? Ao
mesmo tempo, você está pronto para ser você mesmo e respeitar os outros
para que sejam eles mesmos também?
Parece simples, mas vamos pensar um pouco mais a fundo sobre isso.
Não podemos deixar de falar sobre uma questão muito importante, a
humildade. Só conseguimos ser realmente empáticos à medida que
conseguimos entender no outro o que mais questionamos. Por exemplo,
vamos partir do princípio de que você “odeie” pessoas obesas, homoafetivos,
tatuados ou drogados, en m, você, em seu íntimo, sabe o que mais lhe
causa estranheza. Cada um de nós tem algo forte que incomoda. Você
conseguiria ser empático com essas pessoas e tentar entender por que elas
gostam do que você não gosta, sem fazer críticas ou julgamentos?
Ser empático com os amigos ou aqueles que são parecidos conosco é
muito fácil, mas e com quem é diferente? O estranho, as pessoas com
de ciências físicas ou emocionais, quem anda com di culdade ou não tem
pernas, quem não enxerga, quem grita ou fala alto por di culdades reais
com a fala, como devemos lidar com isso?
Poucos pais ou poucas escolas ensinam como devemos agir, e a maior
parte das pessoas ca perdida nessas situações. Não sabem se ajudam, se
ignoram, e a grande maioria ca olhando como se aquele ser fosse um
alienígena.
Lembro-me de que na escola onde minhas lhas estudavam havia um
programa de inserção a crianças com de ciências físicas ou mentais, que
participavam junto das aulas e interagiam com todos na hora do intervalo
ou no horário do almoço. Outra iniciativa da escola era o “projeto virtudes e
atitudes”, no qual escolhiam um valor por ano para ser trabalhado, como
verdade, fraternidade, diálogo, união, simplicidade. A ideia era a pesquisa
constante para desenvolver um trabalho pautado em valores humanos e
voltado para a formação de cidadãos conscientes de seu papel na sociedade.
Procuravam colocar em prática iniciativas em que os alunos entram em
contato com os valores humanos por meio de temáticas contextualizadas
nas atividades escolares. Esse projeto, segundo me disseram, tem por
objetivo inserir alunos, familiares e professores a partilhar o conhecimento e
a consciência de responsabilidade social e de como tratar com as diferenças.
Belíssimo! No papel e na leitura do site, então, lindíssimo! De fato, é
essencial para a nossa sociedade resgatarmos os valores sociais,
desenvolvendo o senso crítico e o pensamento ético, mas quantas escolas ou
famílias fazem isso de verdade? Quantas conseguem fazer seus lhos,
alunos ou professores exercer sua cidadania de forma plena e ampla?
Todos nós queremos transformar o mundo em um lugar melhor e mais
justo para se viver, por isso, meu caro, comece por si próprio. Deixe os seus
preconceitos de lado e passe a aceitar as pessoas e suas di culdades como
elas devem ser vistas, com mais naturalidade.
Se é difícil para você encarar uma pessoa com de ciência ou
di culdade, ou obesa, ou tatuada, não importa, imagine como é para os
pais, para a família ou os amigos. E se fosse com você?
Entende agora o poder da empatia? Ela pode mudar o mundo. A
inteligência relacional pode mudar o mundo.
E a empatia entre casais?
Logo depois que me formei, z uma especialização em psicodrama. Na
época também participei de alguns grupos terapêuticos nesta linha de
abordagem que foram muito válidos para o meu desenvolvimento
emocional e para a minha aprendizagem relacional. Fiz também alguns
anos de formação em Gestalt-terapia. Aprendi a “Oração da Gestalt”, que
norteia minhas relações até hoje. Eu a escolhi para ser a minha linha de
conduta no que devemos considerar positivo e efetivo nos relacionamentos.
A oração da Gestalt:
“Eu sou eu, você é você.
Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas.
Eu sou eu, você é você.
Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas.
E nem você o está para viver de acordo com as minhas.
Se por acaso nos encontrarmos, será lindo.
Se não, não há nada a fazer”.
Fritz Perls
Friederich Salomon Perls (1893-1970) foi um psiquiatra e
psicoterapeuta alemão que, com sua esposa, Laura Perls, fundou uma
escola de estudo psicológico denominada Gestalt-terapia. Essa teoria, de
forma bem simpli cada, versa sobre a realidade do aqui e agora e do
organismo como totalidade.
Defendiam a importância da individualidade, reforçando que as
relações saudáveis são complementares, mas não dependentes uma da
outra.
Por isso, defendo e acredito que “somos nós dentro de cada eu.”
Partindo do princípio de que temos muitas vezes a necessidade de
encontrar determinadas coisas nas pessoas com quem nos relacionamos,
como se elas fossem capazes de tampar os nossos buracos internos,
precisamos entender que essa busca só serve para criar uma imensa
expectativa ilusória do que as pessoas não nos podem dar.
Só podemos ser felizes e fazer as pessoas ao nosso redor felizes, a
medida que nos tornamos únicos e temos em nós mesmos praticamente
tudo de que precisamos. A partir disso, seremos capazes de dividir,
compartilhar ou complementar. Se nos tornamos dependentes do outro,
estamos sempre sujeitos a exigir demais ou achar que o outro é responsável
pela nossa felicidade.
Ninguém é obrigado a corresponder ou a viver de acordo com aquilo
que nós queremos, e nem nós devemos viver de acordo com o que as
pessoas querem e esperam de nós.
Quando temos essa clareza, conhecemos as nossas limitações e o que
podemos oferecer de bom aos outros, e, se houver um encontro dessas duas
realidades, unindo o desejo de ambas, aí, sim, isso efetivamente será lindo.
Quando não há esse encontro e essa troca, não adianta lutar, pois as
coisas não darão certo, ambos vão se frustrar, e a tristeza se instala onde
deveria perdurar a felicidade.
Por outro lado, quando cada um traça o seu caminho, de ne e descobre
as suas verdades, sendo capaz de ser verdadeiro, consigo e com os outros, aí
poderão ser felizes. A nal, já dizia Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a
delícia de ser o que é.”
O mais importante é que, mesmo apaixonado, amando outra pessoa ou
envolvido em um relacionamento há muito tempo, é preciso manter a
individualidade de cada um.
É fundamental que possamos ser gentis conosco, que possamos manter
alguns interesses e vínculos de amizade separados do parceiro. As pessoas
ou casais que se “misturam” demais acabam por se “sufocar”, perdem a
individualidade e, mesmo que exista muito amor, haverá também muita
frustração e desejos não correspondidos.
Infelizmente não podemos controlar o futuro e corremos o risco de
termos a perda afetiva ou real da pessoa que amamos, por separação,
doença ou morte. E aí? O que será de nós? Quantos anos a pessoa vai levar
para se resgatar? Será que em algum momento ela voltará a ter clareza de
quem ela é? Como pode viver sem a dependência do outro? Algumas vezes
o relacionamento ca tão complicado e misturado que perde
completamente o sentido de união e passa a ser de confusão; e isso não é
uma alternativa saudável para ninguém.
Claro que paixão e novos relacionamentos nos revigoram, são novas
trocas, experiências e intimidades, mas é fundamental que cada um
mantenha contato saudável com suas atividades favoritas, hobbies,
academia, futebol, sonhos, metas, amigos, família. Isso signi ca que
precisamos preservar e valorizar aquilo que somos e do que gostamos.
Ao contrário disso, se houver um sufocamento exagerado por parte de
um dos parceiros, ou ambos, a tendência é que surja a sensação sedutora de
ter um segredo, de tentar esconder ao menos alguma coisa que o parceiro
controlador não saiba, e, assim, surge a necessidade tácita de ataque
(muitas vezes inconsciente) ao outro.
Desta forma, muitas pessoas acabam, por excesso de pressão,
procurando por pornogra a, amantes, bebidas, compulsão alimentar, uso
de medicação sem necessidade, drogas, etc.
Começa a aparecer a sensação sedutora de cometer exageros, com a
intenção de se diferenciar do outro, de ter um espaço reservado para si, que
poderia perfeitamente ter sido resolvido com mais equilíbrio e nas
atividades saudáveis acima descritas; com a cumplicidade sem “mistura”,
com respeito às diferenças e com permissão de saídas saudáveis.
Converse com o seu parceiro antes que o pior aconteça, e fale da
importância de cada um ter suas próprias atividades de vez em quando.
Manter um grupo de amigos da faculdade, reuniões com pessoas queridas,
almoço com as amigas ou amigos, atividades físicas, jogos de futebol,
viagens de moto ou rali, cabeleireiro, en m, que cada um mantenha as
atividades que podem ser prazerosas e não abusivas ou que levem a pessoa
a sentir vontade de experimentar o que é “proibido” por excesso de controle
ou por agressão à individualidade do outro.
Se você conseguir colocar a EMPATIA em prática e entender melhor a
necessidade das pessoas com quem convive, poderá delimitar fronteiras e se
destacar por respeitar e ser respeitado.
Assim nalizamos as dicas de CLASSE para que possamos viver de
forma mais leve e feliz nas nossas interações. Exercitar estes passos é o que
podemos chamar de Alta Inteligência Relacional – AIR.
Para fechar com chave de ouro, vamos falar um pouco sobre amor e
sexualidade, que, a nal, também fazem parte das nossas relações pessoais.

25. Oxytocin is an age-speci c circulating hormone that is necessary for muscle maintenance and
regeneration Christian Elabd, Wendy Cousin, Pavan Upadhyayula, Robert Y. Chen, Marc S. Chooljian,
Ju Li, Sunny Kung, Kevin P. Jiang & Irina M. Conboy Are Plasma Oxytocin and Vasopressin Levels
Re ective of Amygdala Activation during the Processing of Negative Emotions? A Preliminary Study.
https://goo.gl/kQQ4Ir
Capítulo 12
Amor & Sexo
“Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor.”
Madre Tereza de Calcutá
Amor e sexo, um assunto polêmico que gera uma série de comentários,
discordâncias, consentimentos e con itos. Cada um tem sua maneira de
pensar e praticar amor e sexo. Para alguns, é impossível separar as duas
coisas; para outros, é difícil uni-los, e há aqueles que acham possível viver
as duas coisas; às vezes amor, às vezes sexo, vai depender da relação que se
estabelece.
Religião, futebol, política, amor e sexo estão entre os temas que mais
causam discussão e contrariedade nas relações pessoais. Já dizia Ferreira
Gullar: “Não quero ter razão, eu quero é ser feliz.” Mas as pessoas
geralmente perdem um tempo enorme discutindo assuntos polêmicos, em
que a opinião será divergente e discutir sobre eles só vai gerar briga e
desentendimento.
O que a maioria de fato acredita é que o amor é a realização mais
completa e sublime das possibilidades humanas. Nele se busca a plenitude
do ser, a única coisa que pode absorvê-lo inteiramente. E aí podemos
considerar os vários tipos de amor, entre pais e lhos, irmãos, casais, família
e amigos.
Já a paixão pode ou não se transformar em amor, mas a princípio é puro
prazer. Às vezes é tão intensa que retira o “ser” de si mesmo. Muitos se
entregam a tal ponto que passam a viver quase inteiramente para o outro (o
que pode ser perigoso, é preciso ter cuidado para não se despedaçar para
manter o outro inteiro) ou para o objeto de desejo. A paixão é considerada
um dos maiores prazeres que os seres humanos têm em sua vida. É puro
êxtase e vontade de realizar. Usamos o termo paixão também quando
amamos o trabalho que realizamos ou um projeto, ou uma nova descoberta,
porque a paixão e o prazer motivam e impulsionam para a realização.
O sexo está diretamente relacionado ao prazer, à relação corpo a corpo,
e é talvez o mais intenso dos prazeres corporais. É visto como a energia que
direciona os instintos vitais, ou seja, a libido26, que envolve encantamento,
relaxamento e gozo.
A satisfação sexual é apenas uma parte da alegria da entrega e, quando
vem de alma e corpo, temperada com amor, ca sem dúvida ainda melhor.
Quando se prima pela busca do simples prazer físico, esse prazer tende a
converter-se em algo momentâneo, que pode funcionar como uma ótima
descarga física e sexual, mas que também pode deixar um rastro de vazio e
insatisfação.
Quando os envolvidos sabem o que esperar da relação e quando está
claro que o envolvimento é puramente sexual, pode ser bom e divertido
para ambos. O problema é quando o relacionamento se reduz à simples
fome de prazer, e um dos lados apenas “usa” a outra pessoa. Isso não é bom
para nenhum dos dois. Quando se “usa” a outra pessoa, sem seu
consentimento ou sem que ela tenha clareza de que é apenas prazer sexual,
deixa de ser respeitoso, e o prazer pode ser imediato, mas vai sempre deixar
um gosto amargo. Claro que os psicopatas ou pervertidos sexuais veem isso
de uma outra forma, mas eles precisam de uma atenção particular.
A questão é que o terreno sexual oferece ocasiões para se servir das
pessoas como se fossem um objeto, ainda que seja inconscientemente. A
dimensão sexual do amor faz com que o ser humano se incline para a busca
do prazer em si mesmo, ou seja, uma necessidade de sentir prazer, sem
necessariamente dar prazer. Esse tipo de relacionamento leva o outro a
sentir-se rebaixado, pois afeta a sua mais profunda intimidade e relação de
amor próprio. Então ca complicado, porque a pessoa tende a sentir-se
usada, exposta e oprimida e começa a surgir uma série de problemas que
vai afetar a vida pessoal e a autoestima e, com certeza, a relação torna-se
pesada e corrosiva.
Se encararmos o sexo como expressão da nossa capacidade de amar, de
forma leve e íntima, envolvemo-nos até a mais pura totalidade. Aí o ato
sexual pode ser muito bom e desencadear um valor positivo e digno de ser
curtido. Quando o prazer e o amor se unem em entrega mútua,
acreditamos que é possível alcançar um alto grau de felicidade, prazer,
relaxamento e gozo.
Se classi carmos amor, paixão e sexo como tipos ou diferentes formas
de se relacionar, também percebemos que eles estão correlacionados, mas
despertam substâncias bioquímicas diferentes no nível bioquímico. Os
hormônios do sexo – androgênio e estrogênio – estimulam o desejo. A
atração ou paixão parece ser impulsionada por uma mistura de altos níveis
de dopamina e noropinefrina (que aumentam o prazer e o relaxamento) e
baixos níveis de serotonina. Sendo assim, segundo o livro Why we love, da
Helen Fisher, a química gerada nas formas de se relacionar é diferente, e o
que faz os relacionamentos durarem é a variação dos níveis de oxitocina e
vasopressina, transformando-se em amor.
Vale considerar que esses três sistemas podem se conectar em um
equilíbrio elegante, e que quando tudo sai bem, incrementa o plano da
natureza de perpetuar a espécie, principalmente nas relações heterossexuais
(veja a descrição abaixo). De qualquer forma, para todos os estilos de
orientação sexual, quando os três caminham juntos, alimentam o romance,
geram uma relação relaxada, sensual, afetuosa e de cuidado um com o
outro, na qual a conexão tende a orescer. E quando um dos três está
ausente, o amor romântico tropeça e pode ser preciso reavaliá-lo.
Fiz uma pesquisa para entender os tipos de orientação sexual. São
tantas variáveis que poderíamos rechear algumas páginas para descrevê-los,
mas vamos destacar os mais comentados.
Heterossexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e emocional
entre pessoas de sexos opostos.
Homoafetividade ou homossexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e afetiva entre
indivíduos do mesmo sexo.
Bissexualidade
É a orientação sexual caracterizada pela atração sexual e sentimental
entre pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo oposto. A diferença entre
a bissexualidade e a homossexualidade é que também pode haver hipótese
de atração entre pessoas do sexo oposto.
Transsexualidade
Um transsexual é uma pessoa que não se sente identi cada com o seu
corpo, e o seu gênero psicológico não corresponde ao físico, ou seja, homens
que se sentem como mulheres ou mulheres que se sentem como homens. A
transsexualidade não está de todo relacionada com a homossexualidade.
Um homem homossexual não se sente mulher, sente-se homem, mas gosta
de pessoas do mesmo sexo. No caso de sentir-se como uma mulher,
considera-se transsexual. Atualmente, é possível fazer uma operação de
mudança de sexo para que o homem se converta em mulher e vice-versa.
Panssexualidade
A panssexualidade, também denominada omnissexualidade,
polissexualidade ou trissexualidade, é caracterizada pela atração sexual ou
romântica por pessoas independentemente do sexo ou gênero destas.
Podem sentir-se atraídas por homens, mulheres ou também por pessoas
que não se sentem identi cadas com o seu gênero, incluindo interssexuais,
transsexuais e intergêneros.
Assexualidade
É a falta de orientação e desejo sexual. As pessoas assexuais não sentem
atração física ou sexual por nenhuma pessoa e não sentem desejo pelo
prazer sexual, pois não se identi cam com nenhuma orientação sexual
de nida. Não é habitual que se apaixonem ou tenham um namorado/a.
Tendem a criar um laço afetivo com alguém ainda que não implique terem
uma relação sexual.
Intergênero
A diferença entre intergênero e transsexual é que os intergêneros não se
identi cam nem como homens nem como mulheres. Podem se ver como
homens ou mulheres. Algumas pessoas têm características do sexo oposto
em junção com características do mesmo sexo. Alguns veem a sua
identidade como uma junção entre o masculino e o feminino. Intergênero
não designa uma orientação sexual, mas um conceito relacionado com a
identidade de gênero27.
As diferentes opções mostram que a sexualidade é mesmo de cada um e
as escolhas são pessoais. São diferentes formas de se relacionar. Imagino
que pode estar passando dois pensamentos diferentes na sua cabeça neste
momento. Se você é uma pessoa mais tradicional ou religiosa e tem apenas
relacionamentos com pessoas do sexo oposto ao seu, ou seja, é um
heterossexual, talvez questione as outras escolhas, mas se você é mais
aberto e encara uma variação ou novidade, creio que vai lidar de forma
mais natural com as outras possibilidades.
Não vem ao caso aqui julgarmos o que está certo ou errado quando
falamos de opções sexuais. No contexto religioso, algumas escolhas podem
ser vistas como pecado e as pessoas como pecadoras. Na psicologia, as
escolhas são compreensíveis, aceitáveis e devem ser isentas de julgamento, e
na vida temos que exibilizar nossa forma de pensar e ter em mente que,
embora talvez você nunca pudesse fazer escolhas que considere estranhas
ou diferentes da sua, você pode e deve respeitar quem as faz. Esse é o
mínimo do que podemos esperar quando falamos de inteligência relacional
e respeito ao próximo. Mantenha a sua escolha se assim lhe convém e
“permita” que cada um faça a sua. Não está em seu poder escolher pelo
outro, mesmo que ele seja seu lho, sobrinho ou amigo próximo. Entendo
que você pode questionar e até discordar, mas infelizmente é o máximo que
você pode fazer.
Querer mudar a opinião do outro ou obrigá-lo a pensar diferente será
desgastante para todos e possivelmente não levará a lugar nenhum. É
possível que as pessoas “ njam” que aceitam a sua opinião para evitar
con ito, mas continuem fazendo as suas escolhas entre quatro paredes.
Tudo o que as pessoas de fato querem é ter direito de amar e a opção
sexual faz parte desse processo. Onde se desenvolve a trama mais instigante
da sua história está, inquestionavelmente, a sexualidade.
Se você tem algum problema nessa área, di culdade de aceitar seu
corpo, insegurança com relação a sua escolha sexual, dúvida com relação a
dar ou receber prazer ou qualquer outra questão relacionada a esse campo,
procure ajuda. Um bom terapeuta ou orientador certamente o ajudará a
minimizar a angústia e o sofrimento causado pela di culdade em fazer
escolhas e a cuidar melhor de você e da instabilidade emocional que afeta
esta e outras esferas da vida humana.
Não sei se vocês já ouviram isso, mas cienti camente existe uma
explicação para a frase: “quando o pênis endurece, o cérebro amolece.” De
fato, isso acontece, porque o circuito neural para o sexo inibe as regiões
subcorticais das vias secundárias, localizadas além do cérebro pensante
(ego/consciente ou neocórtex). O cérebro social, aprende a ser empático e
pode amar (superego/pré-consciente ou sistema límbico) e se importar com
o outro, mas o desejo e a luxúria trafegam pelos ramos mais inferiores das
vias secundárias e se tornam irracionais (id/inconsciente ou cérebro
reptiliano).
Sendo assim, embora a via secundária (são ligações rápidas dos
neurônios-espelho, que atuam como uma espécie de sexto sentido,
instigando-nos a sentir algo por outra pessoa, mesmo que seja de forma
vaga) nos proporcione a nidade emocional instantânea, a via primária
(parte mais pensante e racional do cérebro localizada no córtex pré-frontal
ou neocórtex) gera um sentido social mais so sticado, capaz de orientar
uma resposta mais apropriada.
Desta forma, é possível que o cérebro dispare inicialmente um interesse
imediato, pelas vias secundárias, que detona um senso de atração quase
irracional não só nos homens, mas também nas mulheres. Com o tempo, a
via principal vai dando sentido ao interesse inicial. Sendo assim, é real
quando dizemos que a paixão cega. Porque, de fato, quando estamos
inebriados de paixão, as vias secundárias e os neurotransmissores do prazer
estão em ação e não a via principal, que tem por princípio avaliar e nos
proteger. Quanto mais ativa estiver a área pré-frontal/neocórtex (vias
primárias), mais equilibradas serão as nossas decisões.
Quando pensamos de forma mais ponderada sobre as situações (usando
nosso cérebro mais racional/neocórtex), deixamos de “entrar em roubada”.
Por isso, mesmo que esteja inebriado de paixão, procure avaliar as situações
com um pouco mais de critério, colocando seu cérebro para funcionar, o
que de fato vai protegê-lo e evitará que entre em ciladas difíceis de
consertar ou resolver depois.
Uma boa dica aqui é escutar as pessoas próximas. Se todos que gostam
de você dizem que a pessoa com quem está se relacionando é oportunista,
ou já se aproveitou de outras pessoas ou situações para se dar bem, é
egoísta ou mal-intencionada, pesquise mais, pense melhor, fale com os ex
ou investigue de alguma outra forma seus relacionamentos anteriores, antes
de car bravo com os amigos. Pode ser que a história que a pessoa lhe
contou seja completamente diferente dos fatos reais. A única forma de
descobrir é pensando, ponderando e investigando. Controle seu ímpeto e a
sua paixão desenfreada e coloque seu cérebro para funcionar.
Além disso, quero ressaltar alguns estudos que venho fazendo nos
últimos dez anos. Ainda são empíricos e pouco comprovados, mas assim
que conseguir me aprofundar nas pesquisas e comprovar algumas hipóteses,
vou lançar as informações para vocês. Pode ser que muitos discordem do
que vou colocar agora, talvez a maioria, mas, embora a história que
carregamos, no decorrer dos anos, na qual alguns estudiosos e pesquisas
apontem para uma imensa diferença entre o que as mulheres e homens
pensam e sentem, eu particularmente acho que está na hora de rever essa
questão.
Por que não podemos pensar e sentir de forma igualitária, se por dentro
somos quase idênticos? O que diferencia homens e mulheres são os órgãos
sexuais, certo? Mas será que isso de ne os sentimentos, pensamentos,
comportamentos e desejos de cada um? Nosso cérebro e coração são muito
parecidos, não são? Já sabemos pela evolução da neurociência e dos estudos
bioquímicos que os neurotransmissores e os hormônios têm uma in uência
relevante. Entendo que eles são diferentes em homens e mulheres e que
não podemos deixar de considerar a in uência deles, da maternidade, da
procriação e da amamentação, isso é fato, mas vamos pensar que existem
outros milhões de possíveis variáveis que de nem um comportamento
como: a personalidade, fatores biológicos, hereditários, a segurança, a
autoestima, o nível de dependência e a forma como fomos criados, e não
apenas gênero. Independe se somos homens ou mulheres, mas depende,
sim, de todos os fatores acima citados.
O que quero dizer é que muitos pesquisadores (a grande maioria é
homem) defendem que homens e mulheres têm tendências diferentes nas
moléculas do amor e do desejo, que os homens têm níveis mais altos de
testosterona (o que de fato é verdade) e de outras substâncias que
estimulam o desejo e níveis baixos das substâncias que estimulam o apego
ou o amor romântico, ao contrário das mulheres.
A minha pergunta é: será que isso é verdadeiro ou é conveniente que
seja assim? Se voltarmos um pouco no tempo e lembrarmos que o mundo
era completamente dominado pelos homens, podemos entender que é
muito conveniente pensar que os homens precisam mais de sexo, que
encaram de forma diferente amor e sexo, que podem ter uma relação e não
se apegar, até porque é puro sexo, e que a atração visual é su ciente para
desencadear paixão ou tesão, etc. Por que nas mulheres é diferente?
Ouvimos sempre que as mulheres são mais maternais, estão sempre
pensando no amor, na família, nos lhos, que elas não sentem prazer pelo
prazer, só sentem prazer para procriar.
Será que realmente é assim? Aprende-se na igreja, na escola, na família,
na vida. Mulheres só sentem prazer para procriar? Não são visualmente
estimuladas? Não sentem calor, tesão e não têm energia sexual?
Tenho conversado com mulheres de diferentes idades, níveis sociais e
hierárquicos, dependentes e independentes emocional e nanceiramente
de seus parceiros, solteiras, casadas, mães, e também z uma pesquisa com
várias empresas e lojas que trabalham com artigos sexuais, produtos eróticos
ou treinamentos nessa área. Sabe o que descobri? Que muitas mulheres se
sentem estimuladas em ver homens sem roupa ou vídeos eróticos, que
muitas sentem prazer em comprar ou usar “brinquedos” eróticos, que as
mulheres sabem exatamente o que querem, do que gostam e o que lhes dá
ou não prazer.
Então pergunto... Será que é assim mesmo, ou será que agora que a
censura é menor, e as mulheres estão mais independentes e donas do seu
destino. Podem en m mostrar que também sentem tesão e não precisam se
apaixonar para ter atração, desejo ou sexo? Que podem ter uma relação
passageira tanto quanto os homens? Que podem escolher se querem ou não
casar? Que podem escolher se querem ou precisam de um parceiro, ou se
querem ou não ter lhos?
En m, não tenho a pretensão de causar polêmica e nem de criar
con itos, aliás, sou a primeira a fugir deles, mas só aproveito para lançar
aqui uma nova forma de pensar, uma nova forma de se relacionar de modo
melhor e mais inteligente. Sem tanta censura, sem tanto tabu, sem tanto
julgamento ou crítica pelo que devemos ou não fazer, ou pelo que devemos
ou não sentir. A escolha precisa ser de cada um, independentemente de
sermos homens, mulheres, bi, tri ou heterossexuais.
Escrevendo este capítulo me lembrei de um livro muito bacana que li
logo que saí da faculdade: Meninas Boazinhas Vão para o Céu, as Más Vão
à Luta, da psicóloga Ute Ehrhardt. É um livro interessante que fala do
poder feminino e de como a mulher pode enfrentar seus medos,
principalmente quando resolve “não ir para o céu”. A nal, por que a mulher
se obriga a pensar sempre nos outros e nunca nela própria? Por que teme
tanto as críticas? Por que se preocupa tanto com o que os outros vão
pensar? En m, ca aqui uma boa indicação, já que o livro revela um retrato
multifacetado da mulher moderna.
O importante é que os desejos sexuais sejam supridos com respeito e
tolerância a nós mesmos e aos outros. A escolha precisa ser de cada um,
independentemente de sermos homens, mulheres, bi, tri ou heterossexuais,
e precisa, dentro do possível, vir recheada de amor pleno, porque não há
dúvida de que o amor verdadeiro é o tesouro mais preciso que possuímos.

26. Libido - Substantivo feminino usado para descrever o desejo ou impulso sexual de um homem ou
mulher. No âmbito da psicologia, é fundamental para entender o comportamento humano, porque o
condiciona e é vista como a energia que direciona os instintos vitais.
27. https://goo.gl/3zJQ6D
Conclusões
Deixei para apresentar no nal o resultado de um dos grandes
motivadores dessa obra, aquela encantadora pesquisa baseada em histórias
reais que falei na introdução deste livro e que acompanho há muitos anos.
Trata-se da pesquisa mais longa já feita sobre a vida adulta28. Imagine
que mais de 200 pessoas foram assistidas desde sua adolescência até a
velhice para sabermos realmente o que as mantêm felizes e saudáveis
enquanto desfrutam a vida.
E, a nal, o que aprendemos? Quais são as lições extraídas das dezenas
de milhares de páginas de informação geradas sobre essas vidas?
As lições não falam sobre riqueza, fama, glamour ou sobre trabalho em
excesso. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é
esta:
Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.
Aprendemos três grandes lições sobre relacionamentos neste estudo.
A primeira é que conexões sociais são muito boas para nós, e que a
solidão mata. As pessoas que estão mais conectadas socialmente com a
família, amigos e comunidade, são mais felizes, sicamente mais saudáveis
e vivem mais do que as pessoas que têm poucas conexões. A experiência de
solidão é tóxica.
Pessoas que são mais isoladas socialmente e desprovidas de
relacionamento são mais infelizes, sua saúde decai precocemente na meia-
idade, seus cérebros se deterioram mais cedo e vivem vidas mais curtas do
que aquelas que não são solitárias, e o fato mais triste é que mais de um em
cada cinco norte-americanos relata que está solitário. A solidão não é não
ter ninguém por perto. Nós sabemos que podemos nos sentir sós numa
multidão e também podemos nos sentir solitários num casamento, então a
nossa segunda grande lição é que não é apenas o número de amigos que
você tem, e não é se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim
a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos que importa. Como
dissemos no decorrer deste livro, viver no meio de con itos é ruim para
nossa saúde. Relacionamentos tóxicos são fator de risco para doença e
morte, tão elevado quanto a hipertensão arterial, o colesterol, o tabagismo,
etc. Uma pessoa tóxica é alguém que desperta o que há de pior em nós ou
que nos exaure mental e sicamente.
Casamentos muito con ituosos e sem afeto podem ser piores do que o
divórcio. Viver em meio a relações boas e reconfortantes nos protege, já que
o apoio emocional baixa o estresse biológico e mantém o organismo em
equilíbrio. Acompanhando os homens do estudo da meia-idade, para
descobrir quais se tornariam octogenários felizes e saudáveis e quais não se
tornariam, comprovaram que não eram os níveis de colesterol que os
mataria, mas a qualidade de seus relacionamentos.
As pessoas que estavam mais satisfeitas em seus relacionamentos aos
cinquenta anos eram mais saudáveis aos oitenta. Relacionamentos bons e
íntimos parecem proteger as pessoas de algumas circunstâncias adversas
inerentes ao envelhecer. Os homens e mulheres mais felizes em uma
relação relataram, aos oitenta anos, que nos dias que tinham mais dor
física, seu humor e a convivência os mantinham mais animados. Já as
pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham dor
física, sentiam que elas eram intensi cadas pela dor emocional. A terceira
grande lição que aprendemos sobre relacionamentos e nossa saúde é que as
relações saudáveis protegem não apenas os nossos corpos, mas também o
nosso cérebro. Comprovou-se que estar em um relacionamento íntimo e
estável com outra pessoa aos oitenta anos é algo protetor. Quando as
pessoas podem contar umas com as outras, em caso de necessidade, têm
suas saúdes e suas memórias preservadas por mais tempo, e as pessoas em
relacionamentos que não podem contar umas com as outras acabam
infelizes, esquecem mais as coisas e têm um declínio de memória mais cedo.
Sabemos que mesmo os relacionamentos bons não são tranquilos o tempo
todo. Alguns dos casais octogenários estudados discutem um com o outro,
mas sentem que podem contar com o parceiro quando as coisas cam
difíceis.
Se comprovadamente já sabemos que as relações saudáveis são boas
para a saúde e bem-estar, por que continuamos ignorando a importância
das nossas relações?
Ok, somos humanos e relacionamentos são confusos e complicados. Dá
trabalho zelar pela família, pelos amigos e é um trabalho para a vida inteira,
nunca cessa, mas podemos nos tornar mais inteligentes relacionalmente e
melhorar nossa vida, nossa saúde e nossos estados de ânimo.
Podemos fazer isso em pequenas ações:
1. substitua colegas de trabalho por companheiros;
2. mantenha bons relacionamentos com a família, amigos e com a
comunidade;
3. pense no que você tem a oferecer aos seus relacionamentos, porque
as possibilidades são in nitas;
4. troque o tempo na TV ou no telefone pelo contato com pessoas;
5. reviva uma relação antiga fazendo algo novo juntos;
6. faça caminhadas com quem ama;
7. encontre amigos para bater papo;
8. contate aquela pessoa da família com quem você não fala há anos,
porque brigas de família deixam marcas terríveis nas pessoas que
guardam rancor, então perdoe;
9. dedique dois minutos do seu dia para ligar ou mandar mensagem
para alguém de que gosta muito e fale o quanto essa pessoa é
importante para você;
10. o tempo é curto, não o desperdice. Dedique-o para amar e não para
manter rancor e raiva.
En m, uma vida boa se constrói com boas relações. 29
Como falei, no início, este livro tem a humilde intenção de apresentar o
conceito de Inteligência Relacional, para que as pessoas possam se sentir
melhor em relação a si próprias e nas suas relações com os outros. A partir
das Inteligências desenvolvidas de forma brilhante, por Gardner, Goleman
e outros autores e pesquisadores que demonstram preocupação genuína
com o desenvolvimento das inteligências e das pessoas, entendo que você
poderá se tornar mais inteligente e comprometido para lutar por seus
objetivos, compreendendo seu papel no mundo e respeitando as escolhas
que faz em seus relacionamentos e o jeito de ser de cada um.
Em termos metafóricos, podemos pensar nos extremos da Inteligência
Relacional (IR), muito baixa (BIR) ou muito alta (AIR). Se nossas atitudes
podem ser “tóxicas” ou “saudáveis”, a nal, o que queremos para nós?
Nossas amizades nos inspiram ou nos desestimulam?
Os “vampiros emocionais” fazem os outros se sentirem desvalorizados e
incapazes. Já as pessoas saudáveis, que chamaremos de “anjos”, fazem com
que as pessoas se sintam valorizadas e respeitadas. Pessoas com baixa IR são
tóxicas para os demais e as pessoas com alta IR fazem com que os outros se
sintam bem em sua presença. Sabemos que todas as pessoas merecem e
precisam de respeito e admiração. Desta forma, desenvolver a Inteligência
Relacional pode reduzir con itos, melhorar a saúde, gerar colaboração,
ampliar resultados, trazer paz e tranquilidade para os relacionamentos,
melhorar a performance, a memória, a saúde e, em equipe, mobilizar todos
rumo a metas comuns.
Ainda estamos engatinhando nesta área e precisamos ser menos
analfabetos na arte de nos relacionarmos com os outros. Somos capazes de
aprender e de aprimorar a forma como absorvemos o impacto das pessoas
sobre nós, através de pequenas técnicas. Quando conhecemos alguém,
podemos ltrar esse impacto decidindo se queremos ou não nos relacionar
com essas pessoas e, também, melhorar a nossa forma de agir em relação
aos outros. Muitas vezes tentamos mudar as pessoas, mas o que precisamos
é mudar as nossas atitudes e sentimentos em relação aos outros, assim eles
mudam também. Já sabemos por estudos do funcionamento cerebral e da
neurociência, que podemos aprender a dominar nossas reações e controlar
melhor nossos impulsos. Assim podemos moldar adequadamente nossos
hábitos emocionais e ensinar nossos lhos, nossa equipe de trabalho e
pessoas próximas a controlá-los, tornando o futuro da humanidade mais
maduro para enfrentar situações desa adoras, obtendo ganhos com nossas
relações sociais.
Valorizar a nós mesmos, reforçar a nossa energia emocional para
lidarmos melhor com crises e decepções e buscar pessoas com quem
possamos desenvolver uma amizade recíproca e recompensadora é a chave
para a satisfação nos relacionamentos.
As empresas e escolas têm feito um esforço louvável para elevar o nível
de conhecimento das pessoas, mas ainda não evoluíram tanto a ponto de se
preocupar se as pessoas sabem como agir nas situações imprevisíveis
causadas pelas relações corriqueiras do dia a dia, como bullying,
humilhações e agressões verbais, mas sabemos que sair do analfabetismo
relacional fará muito bem ao futuro da humanidade.
Algumas escolas já estão adaptando suas disciplinas escolares para
abordar esses temas, ensinado as crianças como podemos nos tornar mais
empáticos, como ter mais autoconsciência e controle emocional, além de
ensinar como escutar com mais atenção os outros e suas necessidades.
Existem extraordinários projetos educacionais para preparar melhor para a
vida, e a nossa consultoria está trabalhando fortemente em um grande
projeto que ajudará pais, educadores, crianças e adolescentes a somar
mente e coração nas suas ações e decisões para sermos capazes de viver
melhor em sociedade.
Quero destacar que estamos trabalhando fortemente para que esse
trabalho seja implementado nas escolas, tanto públicas como particulares e
nosso objetivo é diminuir a evasão escolar, a redução da violência, a
melhoria nos índices de aprendizagem, o controle do uso e abuso de
drogas, melhores escolhas para o futuro com orientação de carreira, além
de uma vida digna, feliz e sustentável. Esses projetos são inovadores,
revolucionários e certamente farão mudanças avassaladoras na educação e
consequentemente na cultura do país. Quanto mais educarmos nossas
crianças neste sentido, menos precisaremos de presídios e hospitais.
A nal, como podemos melhorar nossos relacionamentos?
Lembre-se do CLASSE e de mais algumas dicas abaixo:
Consciência – procure saber o que o faz feliz, conheça a si mesmo antes
de julgar o próximo e faça contratos de con ança. Converse e seja claro no
que gosta, e no que não gosta conforme os relacionamentos vão se
estreitando.
Liberdade – respeite as pessoas e sua cultura, mas cuidado com as
pessoas que logo no primeiro contato contam a vida toda delas. Em algum
momento, elas vão querer saber tudo sobre a sua vida. Cuidado também
com “favores excessivos” ou “pedidos de ajuda”. Analise o quanto isso é
sadio para você, não passe do ponto só para agradar os outros.
Atração – fale, se exponha, acredite, con e; a comunicação é a base de
todo relacionamento.
Segurança – tudo o que ca guardado vira mágoa, ressentimento e,
consequentemente doenças como câncer, úlcera, doenças cardíacas, etc.
Preste a atenção aos sinais que as pessoas dão a você: postura corporal mais
agressiva, rigidez corporal, agitação motora ou procrastinação, corpo
excessivamente arqueado ou excesso de tristeza ou depressão. Fique atento.
As pessoas muitas vezes precisam de ajuda e tudo bem se você quiser optar
por se aproximar delas para ajudá-las, mas o importante é que faça isso de
forma consciente. Tem que ser uma “escolha”, e não uma “roubada”.
Sabedoria – preste atenção no olhar. Pessoas que têm o que esconder
quase nunca olham você nos olhos, a não ser que sejam muito tímidas ou
tenham baixa autoestima. Mostre interesse e dignidade pelas pessoas, faça
contato com os olhos, interaja, mas não invada e não se deixe invadir. As
pessoas precisam e merecem manter o seu “espaço seguro” e desrespeitá-lo
não é sinal de afeto, muitas vezes é pura invasão ou desrespeito. Cada um
tem um jeito e ele tem que ser respeitado.
Empatia – desenvolva a “escuta” e aprimore a empatia. Perceba nuances
nas conversas, “leia” nas entrelinhas o que está sendo falado. Procure
sintonizar-se com as pessoas sem necessariamente absorver a energia delas,
pois empatia é entender e respeitar a necessidade das pessoas, não
transformar a necessidade delas na sua própria.
Principalmente: nunca faça aos outros o que não gostaria que zessem
para você.

AVALIANDO SUAS HABILIDADES


RELACIONAIS
Desenvolvi uma ferramenta que o ajudará a treinar a Inteligência
Relacional. Por favor, lembre-se que esse exercício não tem o intuito de
apontar culpados ou de gerar discórdia e discussão. Pelo contrário, o
objetivo é que você identi que em você e nas pessoas com quem se
relaciona, as falhas que estão cometendo no ideograma CLASSE, para que
possam fazer ajustes de comportamento para que possam “com-viver” de
uma forma mais harmônica e feliz.
Comece fazendo um inventário mental pensando nas pessoas que você
conhece e que tenha uma interação direta. Escreva o nome dessas pessoas
no lado esquerdo da planilha 01. AIR. – Alta Inteligência Relacional (que
você encontrará a seguir).
Coloque primeiro o nome das pessoas que você identi ca com alta
inteligência Relacional, e ao lado direito da planilha, cite qual letra do
CLASSE você acha que essa pessoa apresenta como característica forte. Por
exemplo, o C de Consciência. Depois repita o mesmo exercício com a
Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência Relacional e destaque as letras do
CLASSE que você acha que essas pessoas precisam aprimorar.
Pense calmamente em cada uma das 6 habilidades relacionais do
CLASSE, enquanto avalia o comportamento das pessoas e o seu também.
O ideal é que depois você possa dedicar um tempo com cada umas
dessas pessoas para conversar a respeito, tanto daquelas com alta IR como
aquelas com baixa IR. É possível que você repita as pessoas, e destaque
tanto os pontos fortes, como os pontos a desenvolver de cada um. Não há
problema nenhum, todos nós temos pontos altos e baixos, ou a desenvolver,
no nosso per l.
Lembre de não fazer julgamentos. Procure ser honesto consigo mesmo
e com os outros e não deixe de levar em consideração as técnicas de
feedback colocadas neste livro, destacando primeiro os pontos fortes e as
qualidades das pessoas, e depois coloque os pontos que acha que podem ser
aprimorados. Faça a sua autoavaliação também, assim pode desenvolver
uma conversa mais madura, de coração aberto e deixando claro o que cada
um deve fazer para melhorar e otimizar ao máximo o relacionamento de
vocês. Não exija apenas mudança no outro, você precisará se exibilizar e se
ajustar também para que seus relacionamentos possam melhorar.
Planilha 01. AIR – Alta Inteligência Relacional:
Identi cando pessoas com alta inteligência relacional (I.R)
Planilha 02. BIR - Baixa Inteligência Relacional:
Identi cando pessoas com baixa inteligência relacional (I.R)
A inteligência relacional está totalmente relacionada à educação básica
e ao controle das emoções e de como devemos cuidar e tratar as pessoas ao
nosso redor. Dessa forma, será revolucionário para as nossas relações mais
próximas e para compreendermos esse conceito para o controle da
agressividade, não só no Brasil, mas no mundo todo. Só assim poderemos
ter o que todos no fundo querem, menos dor e mais bem-estar, menos
guerra e mais paz, menos ódio e mais amor.
Lembre-se de que uma forma crucial de proteção nos relacionamentos é
manter sempre a própria identidade, então, seja gentil consigo mesmo, não
viva o desejo do outro, viva o seu desejo. Relacionamentos precisam de
limites saudáveis e bem claros. Se não de nirmos nossa individualidade e
personalidade, nos misturamos com o outro, e os relacionamentos carão
confusos e tornar-se-ão destrutivos, pouco saudáveis.
Nossas ações e escolhas, por menores que pareçam, são capazes de
mudar o mundo. A cada momento fazemos opções sobre nosso modo de
vida. Se aprendermos a nos conectar de forma saudável e menos primitiva,
uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro maduro e
sustentável. “Cada um de nós faz o seu hoje, consequentemente o seu
amanhã. E juntos fazemos os nossos – os amanhãs que queremos”.30
A nal, somos nós, dentro de cada eu.
Apêndice A – Sistema Cerebral –
Cérebro Social Relacional
Grande parte do mapeamento cerebral é realizada por meio de imagens
e exames de última geração, como ressonância magnética e
ultrassonogra a, mas as pesquisas nunca cessam e ainda temos muito a
evoluir.
A pergunta aqui é: Há um cérebro social/relacional humano?
Sim! Os seres humanos são animais excessivamente sociais, mas os
fundamentos neurais do comportamento e do conhecimento sociais ainda
não são completamente conhecidos. Os estudos realizados com seres
humanos e outros primatas têm revelado diversas estruturas neurais que
desempenham um papel chave na construção dos comportamentos sociais.
Partes do cérebro como: a amígdala, os córtices frontais ventromediais, e o
córtex somatossensorial direito, entre outras estruturas (Adolphs, 1999),
parecem mediar as representações perceptuais de estímulos socialmente
relevantes.
Ainda não sabemos se existe um lugar especí co do cérebro responsável
pelas interações sociais, porque há um conjunto neural que ui em todo o
cérebro, é de amplo alcance e um está sintonizado com o outro, mas vou
destacar algumas descobertas já realizadas e que mostram as áreas
principais:
– Reconhecimento das emoções sociais (culpa, arrogância, percepção do
medo) – está localizado na amígdala. (Adolphs et al., 2002; Amaral et al.,
2003; Kesler et al., 2001)
– Prazer pessoal e julgamento social – Córtex pré-frontal ventromedial
(Ste anaci & Amaral, 2002)
– Amor, perda e vinculação romântica – foram realizados diversos
estudos de fMRI e o estudo de Bartels & Zeki (2000) mostrou que o
striatum, a ínsula medial, o córtex anterior do cíngulo e o córtex pré-frontal
ventral direito estão envolvidos na resposta a esses aspectos e também a
exclusão social e a sensibilidade à dor física. (Eisenberger et al., 2006).
Obs.: notem que isso reforça e valida as doenças psicossomáticas, que
eu chamo de doenças psicorrelacionais, já que a mesma área do cérebro é
responsável pelo amor, pela perda e pela dor física.
Estes estudos possibilitaram elaborar a hipótese do Cérebro Social. A
sua formulação evolucionária foi feita por Robin I.M. Dunbar (1998, 2003),
que, com base em sólida evidência empírica, a apresentou como alternativa
às estratégias ecológicas, capaz de explicar os cérebros grandes dos primatas
pelas exigências e pressões seletivas impostas pelos sistemas sociais
complexos característicos desta ordem. O cérebro dos primatas é
essencialmente um cérebro executivo, principalmente o neocórtex
responsável pelos aspectos fundamentais da cognição social, em particular
pela teoria da mente. Jean-Pierre Changeux reconheceu que a mais-valia
da divergência evolutiva que conduziu ao Homo sapiens foi precisamente “o
alargamento das capacidades de adaptação do encéfalo ao meio ambiente,
acompanhado de um evidente aumento das aptidões para criar objetos
mentais e para os combinar entre si”.
A noção evolutiva do cérebro social, que sofre na sua evolução
siológica e genética e no seu desenvolvimento, revela as marcas originais e
indeléveis dos laços sociais, da “comunicação entre os indivíduos” e da
cultura, o produto mais complexo da mente humana.
Não foi a mera adaptação ao meio ambiente que desencadeou o
aumento do encéfalo, mas a própria complexidade das sociedades dos
primatas que culmina com as sociedades humanas. Neste sentido, a
evolução do cérebro revela o aparecimento de características que melhoram
a capacidade de atuação funcional: o cérebro humano torna-se dependente
dos recursos culturais e sociais que aprimoram o seu funcionamento. Isso
signi ca que esses recursos são essenciais para a própria atividade mental.
O estudo mais recente sobre o tema, lançado em janeiro de 2017, na
revista Science, liderada por Jesse Gómez, da Universidade de Stanford,
a rma que a área cerebral responsável por reconhecer rosto humano (área
fusiforme) cresce de forma relativa nos adultos, enquanto a zona que ajuda
a reconhecer lugares permanece igual31. A capacidade de reconhecer rostos
melhora nos indivíduos adultos, o que nos faz pensar que precisamos de
mais “espaço” para armazenar as pessoas que conhecemos no decorrer da
nossa vida. O que mais uma vez comprova que somos seres relacionais32.
Lesões nesta região cerebral produzem dé cit no reconhecimento de
faces e reduções signi cativas no volume da sua matéria cinzenta. O
circuito da informação social foi identi cado por dois estudos de fMRI
(Castelli et al., 2002; Martin & Weisberg, 2004) que procuraram saber como
o cérebro responde enquanto atribui interação social a imagens abstratas: o
circuito identi cado compreende o segmento lateral do giro fusiforme, o
sulco temporal superior, a amígdala e o córtex pré-frontal ventromedial, um
circuito envolvido na percepção social de primatas e na cognição social
humana (Adolphs, 2001).
A identi cação do circuito social no cérebro humano é de grande
importância para identi car a neuropatologia do autismo (Lord et al.,
2000). As crianças com autismo apresentam ausência de motivação social,
di culdade de manter contato visual e baixo interesse em olhar para faces
(Klin et al., 2002). Isso pode indicar a ausência de atenção e falta de
habilidade para processar faces. Porém, os indivíduos com autismo são
inteligentes na realização de diversas tarefas, exceto nas do domínio social.
As futuras descobertas da neurociência, da neuropsicologia, do
neuromarketing e da neuroeconomia têm o potencial de revigorar as
ciências sociais, relacionais e o comportamento humano. Assim, o campo
dos novos testes de inteligência também parece estar pronto para que
possamos repensar os pressupostos básicos.
Hoje, torna-se fundamental signi carmos o cérebro e o comportamento
relacional, que são de importância vital para os nossos relacionamentos e a
nossa sobrevivência em sociedade.
Espero continuar meus estudos sobre inteligência social e relacional e
tenho certeza de que surgirão novos modelos válidos sobre o tema, mas a
minha forma de apresentar o respeito pelas pessoas dentro dos princípios e
das habilidades do CLASSE é apenas uma maneira de categorizar o que
certamente vai estimular novas linhas de pensamento.

Referências bibliográ cas


ANTUNES, C. As inteligências múltiplas e os seus estímulos. Porto:
Edições ASA, 2005.
ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional como as decisões do dia a dia
in uenciam as nossas decisões. Elsevier, 2008.
ALBRECHT, Karl. Inteligência social. São Paulo: Editora M.Books do
Brasil Ltda, 2006.
BERESFORD, Lucy. Como se libertar das relações tóxicas. Rio de
Janeiro: Editora Sextante, 2004, Tradução de Simone Lemberg Reisner.
LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana, tradução de
Ana carolina Mesquita. São Paulo: Publifolha: 2006.
CHOPRA, Deepak; Tanzi, Rudolph E. Super genes. Harmony Books,
2015.
CHAPMAN, C. If the shoe ts...How to develop multiple intelligences in
the classroom. Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc., 1993.
CHAPMAN, C. & FREEMAN, L. Multiple intelligences: centers and
projects.Palatine, Illinois: IRI/Skylight, Inc., 1997.
CHAMINE, Shirzad. Inteligência positiva: por que só 20% das equipes e
dois indivíduos alcançam seu verdadeiro potencial e como você pode
alcançar o seu. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2013, Tradução: Regiane
Winarski.
DAWKING, Richard. O gene egoísta. Companhia das Letras, 1976.
GARDNER, Howard. Frames of Mind: the theory of multiple
intelligences. London: Fontana Press, 1993.
GARDNER, Howard. Inteligência múltiplas: a teoria na prática. Porto
Alegre: Editora Artmed. Tradução: Maria Adriana Verissimo Veronese,
1995.
GINGER, Serge. Gestalt: A arte do contato. Editora Vozes, 2007.
GOLEMAM, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o
sucesso. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2014, Tradução: Focus,
294p.
GOLEMAM, Daniel. Liderança: a inteligência emocional na formação
do líder de sucesso. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2015, Tradução de:
What Makes a Leader: Why Emotional Intelligence Matters.
GOLEMAN, Daniel. O poder das relações humanas: inteligência social.
Rio de Janeiro: Editora Elsevier Ltda, 2006, Tradução: Ana Beatriz
Rodrigues.
GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Editora
Objetiva Ltda, 1995, Tradução: Marcos Santarrita.
GONDIN, Francisco A.A, TAUNAY, Tauily C.E. Neuropsico siologia.
Fortaleza: F. A. Aquino Gondim, 2009.
GOTTMAN, John. Inteligência emocional: a arte de educar nossos
lhos. Rio de Janeiro. Editora Objetiva, 1997. Título Original: e heart of
parenting, Tradução de Adalgisa Campos da Silva.
HARRIS, Dan. 10% mais feliz; título original: 10% happier. Rio de
Janeiro: Editora Sextante, 2015.
HICKORY, Gregory. e myth os mirror neurons. Norton, 2014.
JUNG, Carl Gustav e LAURENS Van der Post. Jung & the story of our
time. New York, First Edition, 1975.
KABAT_ZINN, Jon. Mindfulness for beginners. E-book. Editor:
Boulder, Idioma: inglês, 2012.
LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de
neurociência. 2 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2010.
LUCAS, Bill. Aumente sua inteligência: semana a semana: 52 técnicas
para potencializar sua capacidade de aprendizado. São Paulo: Editora
Publifolha, Tradução: Ana Carolina Mesquita, 2006.
PERLS Frederick, HEFFERLINE Ralph e GOODMAN Paul. Gestalt-
Terapia. São Paulo: Editora Summus Editorial Ltda. Tradução: Fernando F.
da Rosa Ribeiro, 1969.
PAGES Max. A vida afetiva dos grupos, esboço de uma Teoria da relação
humana. 2ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda, 1975. Tradução: Luiza L.
Leite Ribeiro.
MLODINOW, Leonard. Subliminar. 1 ed. Tradução Cláudio Carina.
Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2014.
PERUZZO, Marcelo. As três mentes do neuromarketing. Rio de Janeiro:
Alta Books, 2015.
SIGMUND, Freud. Early papers: on the history of the, psychoanalytic
movement. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. Vol. 1 a 5. New York Basic
Books, Inc. Publishers, Authorized Translation Under e Supervision Of,
No.7, edited by Ernest Jones, MD, 1989.
SUSAN C., Cloninger. Teorias da personalidade. 1ed. São Paulo:
Editora Martins Fontes Tradução: Claudia Berliner, 2003.
TEJON MEGIDO, José Luiz, Guerreiros não nascem prontos. 1a ed. São
Paulo: Editora Gente, 2016.
ZENHAS, A., Silva, C., Januário, C., Malafaya, C., & Portugal, I.
Ensinar a estudar aprender a estudar. 4 ed. Porto: Porto Editor, 2002.
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Fisiologia humana e mecanismo das
doenças. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2008. 639p.

28. Ibidem, p. 17
29. Ibidem, p. 17
30. https://goo.gl/3dMBhT
31. https://goo.gl/EtFl6A - Publicado 30th July 2009 por J Francisco Saraiva de Sousa.
32. https://goo.gl/7N9eio - artigo também publicado na revista Science.

Você também pode gostar