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TEORIAS DO LETRAMENTO:

AS PRÁTICAS SOCIAIS DE
LEITURA E DE ESCRITA

Autoria:Jociane Stolf

UNIASSELVI-PÓS

Programa de Pós-Graduação EAD


CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito
Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC
Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090

Reitor: Prof. Dr. Malcon Tafner

Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol

Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel

Equipe Multidisciplinar da
Pós-Graduação EAD: Profa. Hiandra B. Götzinger Montibeller
Profa. Izilene Conceição Amaro Ewald
Profa. Jociane Stolf

Revisão de Conteúdo: Profa. Cristiane Lisandra Danna

Revisão Gramatical: Iara de Oliveira

Diagramação e Capa:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Copyright © UNIASSELVI 2011


Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
UNIASSELVI – Indaial.
372.414
S875t Stolf, Jociane
Teorias do letramento: as práticas sociais de leitura e de
escrita / Jociane Stolf. Indaial : Uniasselvi, 2011.
100 p. : il.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7830-492-8

1. Alfabetização - letramento.
I. Centro Universitário Leonardo da Vinci
Jociane Stolf

Sou a professora Jociane Stolf, licenciada em


Letras (Português – Inglês e respectivas Literaturas)
pela Universidade Regional de Blumenau. Durante
a graduação atuei tanto em projetos de pesquisa como
de extensão. Como pesquisadora, participei de projeto
financiado pelo CNPQ, em que buscava compreender a
concepção das professoras alfabetizadoras sobre o conceito de
alfabetização e letramento, além de discutir a inserção do ensino
fundamental de nove anos. Após o término da pesquisa, muitas
indagações surgiram, então iniciei o Mestrado em Educação e
defendi a dissertação intitulada: As práticas sociais de escrita
e leitura no primeiro ano do ensino fundamental de nove
anos: um estudo de caso. Atualmente, faço parte da Equipe
Multidisciplinar da Uniasselvi-Pós, sou Professora-Tutora
Externa também dessa instituição, atuando nos cursos da
Educação e coordeno o GFLM (Grupo de Formação de
Professores de Língua Materna) com reuniões mensais
em uma escola municipal de Timbó-SC.
Sumário

APRESENTAÇÃO.......................................................................7

CAPÍTULO 1
O Letramento Chega ao Brasil ..............................................9

CAPÍTULO 2
Alfabetização x Letramento.................................................31

CAPÍTULO 3
As Práticas Sociais de Leitura ............................................57

CAPÍTULO 4
As Práticas Sociais de Escrita.............................................75

CAPÍTULO 5
Alfabetização e Letramento: um Olhar para Educação
de Jovens e Adultos...............................................................89
APRESENTAÇÃO
Olá caro pós-graduando, ao longo da sua prática pedagógica ou da sua
formação profissional você já deve ter se deparado com a seguinte afirmação:
“Eu alfabetizo letrando”. Para alguns profissionais da educação parece que isso
virou um slogan ou uma afirmativa da moda que precisa ser dita para comprovar a
veracidade do trabalho realizado em sala de aula.

Mas, você já se perguntou: O que é alfabetizar uma criança? Além dessa


questão, outra muito importante: Com que método eu alfabetizo os alunos e dou
oportunidades de inserção em diferentes práticas sociais de leitura e de escrita?

Esse será o foco de nossa discussão nesse caderno de estudos, compreender


o universo da alfabetização, do letramento, e o principal deles a criança e/ou o
adulto inserido nesse contexto educacional.

Portanto, esse caderno foi pensado em cinco capítulos:

O primeiro irá abordar a chegado do termo letramento no contexto brasileiro.


No seguinte, conversaremos sobre os conceitos de alfabetização e letramento,
assim como, a inserção das crianças nas práticas sociais de leitura e de escrita.

No terceiro capítulo, falaremos apenas das práticas sociais de leitura na sala,


apresentaremos exemplos do contexto da sala de aula.

No penúltimo capítulo iremos compreender as práticas sociais de


escrita, principalmente, como inserir as crianças desde o início do processo
de escolarização nessas práticas, mesmo sabendo que elas ainda não tem
autonomia na escrita.

E por último, mas não menos importante, iremos abordar a alfabetização e o


letramento em outro contexto: Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Com este caderno, espero que apenas possamos começar os nossos


estudos sobre a alfabetização e o letramento, e que ao final dessa disciplina
vocês compreendam o fascinante universo das crianças.

Para ilustrar o final dessa apresentação, segue uma tirinha da Mafalda, nossa
fiel companheira nesse caderno de estudos, em que demostra sua empolgação
ao iniciar sua vida escolar.
Figura 1 - Mafalda em seu primeiro dia na escola

Fonte: Quino (1999, p.36).

Note, que da mesma forma que a Mafalda estava ansiosa pelo início das
aulas, as crianças também agem dessa mesma forma, neste caderno além de
compreender a alfabetização e o letramento, iremos compreender a criança
que está em sala de aula, passando pelo processo de aprendizagem do código
escrito.

Bons estudos!
Profª Jociane
C APÍTULO 1

O Letramento Chega ao Brasil

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

33 Apresentar a chegada do termo letramento ao Brasil, assim como os novos


estudos do Letramento.

33 Apresentar a chegada do termo letramento no contexto educacional.


Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

Contextualização
Para iniciar a nossa conversa sobre o letramento, é importante conhecer
a origem desse termo, e o que ele significa no contexto educacional e social.
Portanto, neste capítulo faremos um resgate histórico para entender os
movimentos do ensino brasileiro a partir da chegada do letramento.

Mas, antes de iniciarmos nossa viagem, ao passado, convido você, caro pós-
graduando, que reflita sobre duas questões que iremos retomar no final desse
caderno de estudos.

Atividade de Estudos:

1) O que é letramento?
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2) O que é alfabetização?
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É de suma importância que você anote o que você já sabe sobre isso, para
que no final dos seus estudos, possa retomar e ampliar os seus conhecimentos.
Dividimos este capítulo em dois momentos: no primeiro iremos conversar sobre a
chegada do termo letramento no Brasil e o porque da sua criação, no momento
seguinte começaremos a discutir as implicação de pensar em um ensino escolar
voltado para as práticas de letramento.

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Eis que Surge uma Nova Palavra:


o Letramento
Figura 2 - Tirinha do Frank e Ernest

Fonte: Disponível em: http://www.devir.com.br/hqs/frank-


ernest_001.php>. Acesso em 05 ago 2011.

Caro pós-graduando perceba com essa tirinha que a escrita foi criada para
que as pessoas pudessem deixar registrada a sua história, e que a escrita é uma
convenção de códigos que somados formam as palavras.

A partir da invenção dessa escrita, surge uma a necessidade de ensinar


as pessoas a utilizar essas ferramentas da escrita para que elas pudessem se
comunicar. Note que diferente da fala, que é uma aquisição, a escrita é uma
aprendizagem. É importante que para esta disciplina você tenha clareza nesses
dois conceitos: aquisição e aprendizagem.

Aquisição: é algo que não precisa ser ensinado. Como por


exemplo: a fala, as crianças nascem, e estando em contato com
as pessoas que as cercam desenvolvem a sua fala de acordo com
a variação sociolinguística da comunidade em que vive. Ninguém
precisa ficar na frente da criança repetindo as palavras para que
elas sejam memorizadas e faladas, diferente de quando resolvemos
aprender uma segunda língua e procuramos uma escola de idiomas.

Aprendizagem: para que isso ocorra é necessário haver um


sujeito que ensina e outro que aprende, ou seja, há uma mediação.
Como exemplo, a criança quando aprende a ler e a escrever, precisa
de um professor para lhe guiar nesse processo.

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

Se você quiser ampliar as suas leitura sobre aquisição e


aprendizagem visite o segundo capítulo da obra:

SCLIAR- CABRAL, Leonor. Princípios do Sistema Alfabético do


Português do Brasil. São Paulo: Contexto, 2003l.

De acordo com a história, a partir do momento que surge a escrita, apenas


pessoas de um poder aquisitivo alto tinham condições de ter acesso a isso. Mas
alguns anos se passam, e a escrita passa a fazer parte do cotidiano das pessoas
e a partir disso, surge algo novo, a necessidade da pessoa compreender o que
está escrito no papel e o que isto implica no seu dia a dia.

Antes de conversarmos sobre o significado da palavra letramento vamos


fazer um estudo histórico e compreender como ele surgiu e chegou ao Brasil. De
acordo com Soares (2004), podemos dizer que o letramento é um termo novo na
nossa língua e vem sendo discutido e compreendido nas áreas da educação e da
linguística. Ambas as áreas movimentam pesquisas tanto de iniciação científica
(graduação) como de conclusão de curso, mestrado e doutorado, que buscam
compreender o letramento nos mais diversos contextos sociais.

Na língua portuguesa, o primeiro registro que temos da utilização do termo


letramento é uma das obras da autora Mary Kato “No mundo da escrita: uma
perspectiva psicolinguística”, publicada pela editora Ática, no ano de 1986. Nesta
obra a autora, logo nas primeiras páginas afirma que “a língua falada culta é uma
consequência do letramento” (KATO, 1986, p.7).
Na língua
portuguesa, o
Figura 3 - Livro de Mary Kato primeiro registro
que temos da
utilização do termo
letramento é uma
das obras da
autora Mary Kato.

Fonte: Disponível em: < http://www.livrofacil.com/universitarios/


no-mundo-da-escrita-uma-perspectiva-psicolinguistica.
html&docid=qZMVmAF6GgemdM&imgurl>. Acesso em: 10 ago. 2011.
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Dois anos posterior à publicação do livro da Mary Kato, a pesquisadora,


Leda V. Tfouni, em seu livro “Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso”
da editora Pontes, logo na introdução aborda o termo letramento fazendo uma
distinção entre a alfabetização. Neste momento, podemos afirmar que o termo
letramento passa a ter uma dimensão técnica tanto no campo da Educação como
nas Ciências Linguísticas.

A partir de então esse termo passa a ser visto com mais frequência,
pois, em 1995 já passa a fazer parte de títulos de obras, “Os significados do
letramento: uma nova perspectiva na prática social da escrita”, livro organizado
pela professora Angela Kleiman. Nesta obra, a autora levanta a hipótese de que a
Mary Kato tenha cunhado o termo Letramento para o Brasil.

Essas foram as obras pioneiras da entrada do termo letramento no Brasil,


mas a partir dessas obras, surge várias dúvidas na prática educacional, pois afinal
de contas o que é letramento? Porque esse termo causou tantas dúvidas na sua
compreensão?

Essas discussões surgiram, pois as pessoas não possuíam uma clareza


do conceito técnico de letramento. Então podemos dizer que essa
Letramento
é “estado ou palavra tem origem da língua inglesa, literacy, que possui o significado
condição que de “estado ou condição que assume aquele que aprende a ler ou a
assume aquele escrever”. (SOARES, 2004, p.7).
que aprende a ler
ou a escrever”. No entanto, com esse conceito, ao ser traduzido para o português
(SOARES, 2004,
surge a dicotomia entre alfabetizar e letrar. Ou seja, as pessoas
p.7).
precisam ser alfabetizadas ou letradas na escola?

Podemos utilizar a metáfora da construção de uma casa para compreender


que o fundamento da casa representa a alfabetização, ou seja, é a base sólida
que irá dar sustentação ao restante da obra. As paredes são o que iremos
aprender no decorrer da vida escolar e no convívio social, que será o letramento.
E, o que irá diferir essa construção das que estamos acostumados a ver no nosso
dia a dia, está não terá um fim, sempre haverá reformas e detalhes para serem
incrementados que darão novos ares ao que antes existia.

Compreendam que da mesma forma que a nossa construção não tem um fim
pré-determinado no projeto inicial, essa disciplina será a base, ao longo do seu
curso, e principalmente, através da sua prática pedagógica novos conhecimentos
serão agregados.

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

Atividade de Estudos:

1) Para pensar um pouco: qual foi a razão da chegada do termo


letramento para o contexto educacional?
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De acordo com Soares (2004, p.45), o termo letramento vem sendo inserido
nas práticas diárias na medida em que:

o analfabetismo vai sendo superado, e um número cada vez


maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que,
concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez
mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um
novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a
ler e a escrever - quando uma nova palavra surge na língua,
é que um novo fenômeno surgiu e teve de ser nomeado - a
palavra letramento.

A partir disso, podemos afirmar que o letramento é o resultado dessa


ação de ensinar a aprender as práticas sociais de leitura de escrita, que não
pode ser vista como uma técnica que se ensina. Há vários letramentos, e estes
poderão ser estudados com mais profundidade em outros cadernos de estudos.
Para compreendermos um pouco mais sobre a aprendizagem da escrita, vamos
ler uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, que não é um teórico da
linguagem e nem da educação, porém sabe utilizar as palavras:

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

COMO COMECEI A ESCREVER


Carlos Drummond de Andrade

Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema


chegava ao interior do Brasil uma vez por semana, aos domingos. As
notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas
no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia
ensopada, uns sete dias mais tarde.

Não dava para ler o papel transformado em mingau. Papai era


assinante da “Gazeta de Notícias”, e antes de aprender a ler eu me
sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de domingo.
Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe
me ajudava nisso.

Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um


universo de palavras que era preciso conquistar. Durante o curso,
minhas professoras costumavam passar exercícios de redação.
Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio,
coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar
para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de
expressão contido nos sinais reunidos em palavras. Daí por diante
as experiências foram-se acumulando, sem que eu percebesse que
estava descobrindo a literatura. Alguns elogios da professora me
animavam a continuar.

Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas


coisas estava germinando. Meu irmão, estudante na Capital,
mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles.
Depois, já rapaz, tive a sorte de conhecer outros rapazes que
também gostavam de ler e escrever. Então, começou uma fase muito
boa de troca de experiências e impressões.

Na mesa do café-sentado (pois tomava-se café sentado nos


bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser
incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e
meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu
tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza.
Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que
não desfrutam desse tipo de amizade crítica.

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

Fonte: Disponível em:< http://www.casadobruxo.com.br/


poesia/c/prosa14.htm>. Acesso em: 10 ago. 2011.

Dessa belíssima crônica de Carlos Drummond de Andrade podemos


depreender várias ações interessantes para o nosso estudo. Primeiramente,
vamos pensar no que o autor expõe no seu primeiro parágrafo, a presença
de materiais escritos no seu contexto familiar, e o relato do contexto social
em que ele morava. A partir disso, é importante perceber que mesmo que a
criança não esteja alfabetizada ela convive com materiais escritos a sua volta,
seja manuseando sozinha, ou com auxilio de alguém que já domina o código
escrito.

Uma segunda fase é apresentada na crônica, quando Drummond começa a


frequentar a escola, começa a aprender a ler e a escrever, e como isso, começa
a ter um acesso mais rápido as informações escritas do seu contexto social, e
transcende através dos materiais escritos que circulam na escola, e a professora
incentivando-o.

Por último, temos Drummond exercendo uma prática de escrita fora do


contexto escolar, dialogando com colegas. A partir disso, compreendemos outro
importante conceito: a revisão do que era escrito e o que o outro compreende
sobre o que eu escrevo.

De modo geral, de todos os textos que eu li, esse de Drummond escrito antes
da chegada do termo letramento aqui no Brasil, traduz e exemplifica claramente: o
desejo da criança ir à escola e aprender a ler, a escrever, e compreender a função
social dessa aprendizagem.

Atividade de Estudos:

1) A partir da crônica de Drummond registre aqui como você


aprendeu a ler e a escrever, e o que isso significou para você.
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Figura 4 - Filme Central do Brasil

Um filme interessante de assistir e para


compreender a função social da escrita é o
filme brasileiro “Central do Brasil”.

Fonte: Disponível em: < http://www.


baixaralone.com/2010/12/baixar-central-do-
brasil.html>. Acesso: 10 ago. 2011.

Que tal levar para a sala de aula uma literatura infantil que possa
instigar as crianças a compreenderem a função social da escrita?

A obra “De Carta em Carta” da Ana Maria Machado é um bom


exemplo para isso.

Figura 5: Livro de Ana Maria Machado

Fonte: Disponível em: < http://www.criacaodoslivros.com.br/wp-content/


uploads/2011/06/DE-CARTA-EM-CARTA.jpg>. Acesso em: 10 ago.2011.


Na próxima seção iremos conversar sobre a linguagem e as práticas sociais
de leitura e de escrita .

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

A Linguagem e as Práticas Sociais de


Leitura e de Escrita
Pensar no letramento é pensar em linguagem e tudo o que está a sua volta.
Observe a imagem a seguir:

Figura 6 - Mapa conceitual da linguagem

A linguagem
desenvolve-se nas
interações verbais
e as interações
verbais constituem
Fonte: A autora, baseada em Heinig (2006). a realidade
fundamental da
língua (BAKHTIN,
A linguagem desenvolve-se nas interações verbais e as interações 2003).
verbais constituem a realidade fundamental da língua (BAKHTIN, 2003).
A partir da imagem podemos compreender a alfabetização sob o viés do
letramento, implica pensar em uma concepção dialógica da linguagem Street (2003,
considerando-a como um lugar da interação humana, como uma p.10), o letramento
atividade criadora e constitutiva de conhecimento e de transformação da não pode ser
realidade. Além disso, podemos notar que o letramento está intimamente considerado
um conjuntos
ligado à leitura e a escrita.
de habilidades
técnicas que
De acordo com Street (2003, p.10), o letramento não pode serão transmitidas
ser considerado um conjuntos de habilidades técnicas que serão àqueles que não
transmitidas àqueles que não as possuem, “mas sim que existem vários as possuem, “mas
tipos de letramento nas comunidades e que as práticas associadas a sim que existem
vários tipos de
esse letramento têm base social”.
letramento nas
comunidades e
Ou seja, o letramento não é ensinado, ele é adquirido a partir das que as práticas
práticas sociais, nas quais ele encontra a base e o respaldo, tem um associadas a esse
objetivo e oportuniza a concretização do objetivo inicial. letramento têm
base social”.

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Vamos a um exemplo prático: uma comunidade pode ser classificada,


socialmente, como estigmatizada, pois não possui o que é considerado certo
pelos padrões da sociedade, mas esses mesmos cidadãos são capazes de
produzir letramento. Porém, como quem produz os programas de letramento são
pessoas que vivem em sociedade, grupo dominante, elas não têm consciência
de que naquela comunidade estigmatizada há um letramento em certo nível, que
acaba sendo descartado. Portanto, pensar em letramento, antes de tudo é pensar
na comunidade, logo, pensar na escola, é pensar na comunidade que a escola
está inserida.

Para Street (2003) há três abordagens para o letramento:

• Os modelos de letramento
• Eventos de letramento
• As práticas de letramento

Vamos estudar cada uma dessas abordagens e compreendê-las?

a) Modelos de letramento

Podemos afirmar que existem dois modelos de letramento: o modelo


autônomo e o modelo ideológico.

No modelo autônomo as pessoas aprendem uma forma de decodificar


as letras e depois poderão fazer o que desejarem com o “recém adquirido
letramento”. Esse modelo funciona com base na “suposição de que em si mesmo
o letramento - de forma autônoma” – terá efeito sobre as práticas sociais e
cognitivas. (STREET, 2003).

Em outras palavras, podemos afirmar que o modelo autônomo


O modelo refere-se ao letramento como algo mecânico que tendo a técnica ou
autônomo
modelo de instrução, e seguindo isso de forma correta, você adquirirá
refere-se ao
letramento como o letramento.
algo mecânico
que tendo a Para Kleimann (1995, p. 18) “essa concepção pressupõe que há
técnica ou modelo apenas uma maneira de o letramento ser desenvolvido, sendo que
de instrução, e essa forma está associada quase que causalmente com o progresso,
seguindo isso de
a civilização, a mobilidade social”. Nesse modelo, todos os sujeitos são
forma correta,
você adquirirá o iguais, as salas de aulas são homogêneas, todos os alunos estão no
letramento. mesmo nível, possuem o mesmo conhecimento, e o ensino é pautado
em técnicas escolarizadas, sem considerar as práticas sociais e o uso
social da escrita. Contudo, o letramento:

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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

extrapola o mundo da escrita tal qual ele é concebido pelas


instituições que se encarregam de introduzir formalmente os
sujeitos no mundo da escrita. Pode-se afirmar que a escola, a
mais importante das agências de letramento, preocupa-se não
com o letramento, prática social, mas com apenas um tipo de
prática de letramento, qual seja, a alfabetização, o processo
de aquisição de códigos (alfabético, numérico), processo
geralmente concebido em termos de uma competência
individual necessária para o sucesso e promoção escolar. Já
outras agências de letramento, como a família, a igreja, a rua –
como lugar de trabalho –, mostram orientações de letramento
muito diferentes. (KLEIMAN, 1995, p.20).

Vamos ver um exemplo prático no modelo autônomo, veja a tirinha da


Mafalda:

Figura 7 - Mafalda fazendo a lição de casa

Fonte: Quino (1999, p.54).

Não precisamos estar na sala de aula com Mafalda, nem saber o que
precisava fazer de tarefa, para imaginar que ela estava treinando o uso da letra
“M”. Esse é um bom exemplo de atividade para ilustrar a nossa discussão sobre o
modelo autônomo. Porém, mesmo não fazendo parte da tarefa, Mafalda relaciona
o que está aprendendo com o contexto social em vive, visto que odeia comer
sopa e ao sentir o cheiro reclama com a mãe.

O letramento autônomo considera a escrita “um produto completo em si


mesmo, que não estaria preso ao contexto de sua produção para ser interpretado;
o processo de interpretação estaria determinado pelo funcionamento lógico
interno ao texto escrito [...]” (KLEIMAN, 1995, p.22). A partir disso, observe a
tirinha da Mafalda:

21
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Figura 8 - Mafalda na sala de aula

Fonte: Quino (1999, p.54).



Mesmo sem saber o que é letramento, o que Mafalda busca em sua formação
escolar é o letramento ideológico, que considere ela, um sujeito pertencente a
comunidade em que está inserida exercendo as práticas sociais de leitura e de
escrita. Antes de estudarmos o letramento ideológico, vamos exercitar esse novo
conceito através que acabamos de estudar?

Como você planeja as suas aulas?

Você se preocupa com o contexto social em que seus alunos


estão inseridos?

A sua prática pedagógica está mais ancorada na Mafalda ou na


professora dela?

Atividade de Estudos:

1) Faça um mapa conceitual sobre o letramento autônomo.


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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

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2) Observe a tirinha da Mafalda:

Figura 9 - Mafalda e Suzanita fazendo a tarefa

Fonte: Quino ( 1999, p.54).

a) Por que Suzanita está tão indignada com a tarefa que Mafalda
está fazendo?
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b) Qual é a relação da tirinha com o conceito de letramento


autônomo. Explique o que você depreendeu.
__________________________________________________
__________________________________________________ O modelo
ideológico
__________________________________________________
oferece uma
__________________________________________________ visão com maior
__________________________________________________ sensibilidade
__________________________________________________ cultural das
__________________________________________________ práticas do
letramento, na
medida em que
elas variam de
um contexto para
O modelo ideológico oferece uma visão com maior sensibilidade outro (STREET,
cultural das práticas do letramento, na medida em que elas variam de 2003).

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

um contexto para outro. (STREET, 2003).

Resumindo, o letramento ideológico parte da ideia de que com


As práticas de as práticas sociais e o sujeito em contato com diferentes pessoas,
letramento, no aprende, desenvolve e melhora o letramento. Esse modelo não se
plural, são social refere somente ao aspecto cultural, mas também reflete sobre a
e culturalmente
importância, o poder e o impacto da leitura e da escrita na sociedade.
determinadas,
e, como tal, os
significados Considerando as práticas sociais de leitura e de escrita, Kleiman
específicos que (1995, p. 21) afirma que “as práticas de letramento, no plural, são
a escrita assume social e culturalmente determinadas, e, como tal, os significados
para um grupo específicos que a escrita assume para um grupo social dependem
social dependem
dos contextos e instituições em que ela foi adquirida”.
dos contextos
e instituições
em que ela Portanto, precisamos compreender o aluno como indivíduo
foi adquirida participante da sociedade em que vive. E a aprendizagem precisa ser
(KLEIMAN, 1995, sensível a dois aspectos: considerar a individualidade do sujeito e o
p. 21). meio em que ele vive, ou seja, as agências de letramentos que ele
participa.

As agências de letramento são os lugares sociais nos quais os


sujeitos participam, interagem e atuam.


Para finalizar, podemos afirmar que o modelo ideológico envolve o
modelo autônomo, e relacionando esses dois modelos de letramento: autônomo
e ideológico, podemos chegar a uma boa prática de letramento, ou seja, se
partirmos do que já é conhecido e passarmos a aperfeiçoá-los a partir de novas
práticas pautadas nos princípios dos estudos do letramento.

Atividade de Estudos:

1) Vamos construir um mapa conceitual do modelo ideológico?


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Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

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2) Compare os dois mapas conceituais – do modelo autônomo


e ideológico – o que há de diferente entre eles, e quais são as
aproximações?
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b) Eventos de letramento

É preciso observar qual é o poder da leitura e da escrita dentro de uma


determinada comunidade, pois elas possuem um nível de letramento necessário
ao seu desenvolvimento, mas é através da cultura.

A partir disso, podemos afirmar que o evento de letramento acontece com


o sistema de escrita, em que as pessoas com a escrita interagem e constroem
suas interpretações. Quem cunhou esse termo – eventos de letramento – foi
a pesquisadora Shirley Heath (1982) que desenvolve pesquisas de cunho
etnográfico.

Pesquisas etnográficas são caracterizadas pelo fato do


pesquisador estar inserido em um determinado contexto social
e frequentar esse espaço e tentar descrever e compreender
esse espaço. Alguns estudiosos afirmam que para uma pesquisa
etnográfica ter validade o pesquisador deverá ficar acompanhando
esse grupo pelo período que varia de 5 -10 anos.

25
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Os textos são fundamentais em eventos de letramento, pois nestas atividades


o letramento cumpre um papel – “Episódios observáveis que surgem das práticas
e são formadas por estas. A noção de evento acentua a natureza – situacional –
do letramento, este sempre existe em um contexto social” (BARTON; HAMILTON,
1998, p.114).

Os eventos de letramento fazem com que seja possível


Os eventos compreender que cada comunidade tem suas próprias regras para
de letramento interagir e partilhar o seu conhecimento. Por isso, os eventos são
fazem com que observáveis, enquanto as práticas de letramentos são mais abstratas.
seja possível
compreender que
Vamos exemplificar: imagine que você está em sala de aula com
cada comunidade
tem suas os alunos, realizando como atividade a construção de uma maquete
próprias regras sobre “o ambiente em que o cachorro vive”, enquanto os alunos estão
para interagir e construindo a maquete você tira uma foto. Bem, essa foto será o evento
partilhar o seu de letramento. E tudo que foi trabalhado, estudado, conversado sobre
conhecimento. como construir a maquete e o que você e os alunos sabem sobre os
cachorros fará parte das práticas de letramento, por isso a importância
da inserção no contexto social para compreender as práticas e os eventos de
letramento.

Atividade de Estudos:

1) Descreva da forma mais detalhada possível a comunidade em


que você atua como alfabetizador(a).
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26
Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

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c) As práticas de letramento
As práticas de
letramento são
Bem, caro pós-graduando, estamos chegando à nossa última um conjunto
seção de estudos desse capítulo, que por sinal já fomos conversando de atividades
um pouco sobre as práticas de letramento, pois você deve ter notado que envolvem
como os conceitos eram relacionados um com o outro, sendo que é a língua escrita
impossível falar deles de forma isolada. para alcançar
um determinado
objetivo, em uma
As práticas de letramento são um conjunto de atividades que determinada
envolvem a língua escrita para alcançar um determinado objetivo, em situação. Vele
uma determinada situação. Vele ressaltar, que para que isso ocorra ressaltar, que
é preciso haver: saberes, tecnologias, competências necessárias. para que isso
Podemos citar como exemplo: a escrita de uma carta, assistir aulas. ocorra é preciso
haver: saberes,
tecnologias,
Sendo assim, pensar na realidade escolar nos primeiros anos do competências
ensino fundamental e compreender a criança de seis anos como um necessárias.
sujeito que deseja aprender a ler a escrever e

As práticas de letramento [...] precisam contemplar, em


princípio, atividades orais para que as crianças pequenas
desenvolvam uma consciência fonológica que possa
assegurar a construção de leitura e da escrita. Não adianta
memorizar os fonemas que correspondem às letras, sem
que se tenha percebido antes que cada palavra é composta
de uma sequência de fonemas. (BORTONI-RICARDO, et al,
2010, p.193).

Para finalizar, podemos afirmar em poucas palavras que os eventos de


letramento é que irá acontecer, e as práticas sociais o que as pessoas utilizam
para que isso aconteça. No que se refere a alfabetização iremos conversar no
segundo capítulo e retomaremos alguns conceitos aqui já estudados!

Atividade de Estudos:

Leia o poema abaixo:

O QUE É LETRAMENTO?

27
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Kate M. Chong

Letramento não é um gancho


em que se pendura cada som enunciado,
não é treinamento repetitivo
de uma habilidade,
nem um martelo
quebrando blocos de gramática.

Letramento é diversão
é leitura à luz de vela
ou lá fora, à luz do sol.

São notícias sobre o presidente


O tempo, os artistas da TV
e mesmo Mônica e Cebolinha
nos jornais de domingo.

É uma receita de biscoito,


uma lista de compras, recados colados na geladeira,
um bilhete de amor,
telegramas de parabéns e cartas
de velhos amigos.

É viajar para países desconhecidos,


sem deixar sua cama,
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos.
É um atlas do mundo,
sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias,
e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido.

Letramento é, sobretudo,
um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é,
e de tudo que você pode ser.

Fonte: Soares, M. Letramento: Um tema em três gêneros.


Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 41-42.

1) A partir desse poema e do que foi estudado no decorrer desse

28
Capítulo 1 O Letramento Chega ao Brasil

capítulo construa um conceito para letramento?


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2) Descreva uma situação de sala de aula em que seja possível


compreender as práticas de letramento e os eventos de letramento.
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Algumas Considerações
Neste capítulo, conversamos um pouco sobre a chegada do termo letramento
no Brasil e sobre a importância desse conceito para o contexto educacional,
lembramos ainda as implicações de pensar em um ensino voltado para as práticas
sociais de leitura e de escrita.

Compreendemos que a alfabetização e o letramento são conceitos que


não podem ser pensados de forma indissociável, porém vale atentar-se para a
bagagem cultural que a criança possui e transcendê-la.

No próximo capítulo iremos aprofundar os nossos estudos sobre o


letramento, porém iremos compreendê-lo no contexto da sala de aula, nas aulas
de alfabetização e conversaremos sobre as competências que as crianças
precisam adquirir na escola.

29
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Referências
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.

BARTON, D.; HAMILTON, M. Local literacies: reading and writing in one


community. London and New York: Routledge, 1998.

BORTONI-RICARDO, S. M.; GONDIN, M. R. A.; BENÍCIO, M. N. M. O papel


da oralidade na aquisição da cultura letrada. In: HEINIG, O. L.; FRONZA, C.
A. Diálogos entre linguística e educação: a linguagem em foco. Blumenau:
Edifurb, 2010, p. 187-205.

HEATH, S. B. What no bedtime story means: narrative skills at home and the
school. Language and Society, 11, p. 49-76, 1982. (In: WRAY, David (org.).
Literacy: major themes in education. Taylor e Francis, 2004).

HEINIG, O. L. M. Letramento e graduação: práticas de leitura e escrita no


processo de formação de professores. In: SEMINÁRIO DE PESQUISA EM
EDUCAÇÃO DA REGIÃO SUL, 7, Itajaí, 2008. Anais da AnpedSul. Itajaí:
ANPEDSUL, 2006.CD-ROM.

KATO, Mary Aizawa. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística.


Sao Paulo : Atica, 1986.

KLEIMAN, A. B. (Org.). Os significados do letramento. Campinas, S.P:


Mercado de Letras, 1995.

QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

STREET, B. Abordagens alternativas ao letramento e desenvolvimento.


Teleconferência Unesco Brasil sobre Letramento e Diversidade, out. 2003.

SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autentica,


2004.

TFOUNI, Leda V. Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso. Campinas:


Pontes, 1988.

30
C APÍTULO 2

Alfabetização x Letramento

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

33 Apresentar os conceitos de alfabetização para os anos iniciais do ensino


fundamental de nove anos.

33 Apresentar os conceitos de letramento para o ensino fundamental de nove


anos

33 Explicar a dicotomia: alfabetização e letramento

33 Compreender a dicotomia: alfabetização e LetramentoContextualização


Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

32
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Contextualização
Agora que você já conhece qual é a origem da palavra letramento,
precisamos compreender como o ensino fundamental de nove anos foi pensado.
Isso é importante, pois o acréscimo ocorreu no início do processo escolar e não
nos anos finais. Sendo assim, o primeiro ano não é nem o espaço do pré-escolar,
e nem é a antiga primeira série.

Neste capítulo iremos discutir um pouco mais sobre a alfabetização e o


letramento, conheceremos também os cinco eixos necessários para a aquisição
da língua escrita. Além disso, você poderá entender como organizar as suas aulas
para que além de ensinar os alunos a ler e a escrever você insira-os nas práticas
sociais – letramento. E com isso você compreenderá como trabalhar o letramento
autônomo e ideológico.

Alfabetizar Letrando ou Letrar


Alfabetizando: Eis a Questão

Para iniciar o nosso estudo sobre o universo da alfabetização e o do
letramento, divirtam-se com a tirinha da Mafalda:

Figura 10 - Mafalda lendo o jornal

Fonte: Quino ( 1999, p. 73). Os termos


alfabetização e
Observe que apesar da Mafalda já saber ler e escrever, ela letramento podem
ser tratados como
fica indignada que não compreende o que está escrito no jornal, e
dois processos
revolta-se profundamente com a escola que ensinou a ela assuntos distintos e
descontextualizados. Ou seja, mesmo na alfabetização os alunos separados, mas
poderão ter acesso a textos reais e discuti-los tanto nos aspectos que mantém uma
textuais e sociais como fazer reflexões acerca da aprendizagem do interdependência
código escrito. profunda.

33
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Portanto os termos alfabetização e letramento podem ser tratados como


dois processos distintos e separados, mas que mantém uma interdependência
profunda. Soares (2003, p. 15-23), define a alfabetização como

processo de aquisição do código escrito, das habilidades


de leitura e de escrita [...] sem dúvida a alfabetização é um
processo que representa fonemas em grafemas e vice-versa,
mas é também um processo de compreensão, expressão de
significados por meio de código escrito [...] a escola atua na
área da alfabetização, como se está fosse uma aprendizagem
neutra, despida de qualquer caráter político.

Esses fragmentos dizem respeito a um texto da professora Magda Soares, uma


das maiores referência do Brasil sobre a temática, que mesmo não citando o
letramento nota-se uma presença muito forte e embutida desse conceito.

No Brasil, a distinção entre esses dois conceitos ainda está um pouco


confusa, porque quando discutem sobre a alfabetização, acabam falando
sobre o letramento e vice-versa. É importante compreender que quando, em
uma prática social (exemplo; o preparo de uma receita culinária), eu coloco em
prática as minhas habilidades, capacidade de leitura, para, consequentemente,
inferir na escrita, eu estou praticando letramento. Então, há um contexto
social, com características culturais e econômicas, no qual, a partir dele, eu
uso o sistema de escrita e leitura de acordo com o meu conhecimento sobre o
mesmo.

Enfim, nossas ações de letramento são baseadas no nosso


Nossas ações
de letramento contato e de acordo com a situação em questão, por isso, não há como
são baseadas no sermos neutros, pois sempre emitiremos nossos juízos de valores.
nosso contato e
de acordo com Há algum tempo, dava-se muita ênfase ao processo de
a situação em alfabetização no que tange a representação fonológica em grafemas,
questão, por isso,
demostrando, assim a capacidade de decodificar – uma das funções
não há como
sermos neutros, da escrita. Com o passar do tempo ( 20 anos), apagou-se essa ênfase
pois sempre devido a vários fatores pedagógicos-administrativos.
emitiremos nossos
juízos de valores. [...] as últimas três décadas assistiram a mudanças de
paradigmas teóricos no campo da alfabetização que podem
ser assim resumidas: um paradigma behaviorista [...] é
substituído por um paradigma cognitivista, que avança, [...]
para um paradigma sociocultural. (SOARES, 2003, p. 25).

Com essa concepção socioconstrutivista, o sujeito, ou seja, o aluno é ativo
em seu estudo, compreendendo e utilizando a leitura e a escrita em contextos
sociais reais, dos quais ele faz parte.

34
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Essa leitura passa a ter mais sentido, pois está associada ao contexto que
a criança vive, porém, não é somente através desse contexto que a criança
se alfabetizará, ela precisa compreender o sistema fonológico convertido em
grafemas.

A concepção construtivista, no Brasil, tem como ideia principal: adquirir a


aprendizagem da leitura e da escrita por meio dos textos das práticas sociais.
Este processo possibilita a aprendizagem da relação entre um fonema com o
seu grafema pela interação, ou seja, naturalmente, através dos textos, a criança
compreenderia “o sistema grafofônico”.

Porém, a maior crítica a esta concepção é a falta do ensino direto, específico


do código alfabético. Há necessidade de se estudar esse código alfabético, para
que posteriormente haja a decodificação do mesmo, dentro de processo do estudo
da língua escrita.

Sistema grafônomico - relações fonemas - grafemas.

É fundamental, importante e dá base ao aluno, o contato com textos que


fazem parte tanto do cotidiano social quanto escolar, para que eles aumentem o
seu conhecimento dos diversos gêneros discursivos, mas é preciso que o espaço
da sala de aula também dedique certo tempo para o processo da alfabetização
(decodificação) propriamente dito.

Atividade de Estudos:

1) Antes de prosseguirmos em nosso estudo, responda: Qual é o


método de alfabetização que sustenta a sua prática pedagógica?
Exemplifique!
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

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Uma coisa é fato, e precisa ser compreendida em sua clareza,


não há alfabetização sem método, ou sem uma metodologia de
ensino, e o professor precisa compreender a partir de que concepção de
ensino estará guiando o processo de ensino-aprendizagem.

Além disso, é possível construir no PPP da escola o que o corpo


docente compreende por alfabetização, ensino e aprendizagem, pois
isso gera uma segurança por parte dos pais que compreendem as
metodologia de ensino utilizadas em sala de aula.

No decorrer de sua trajetória acadêmica e docente você deve ter ouvido


falar de vários métodos, uns mais valorizados outros criticados, aqui vamos fazer
um resgate rápido das principais características dos seguintes métodos:

• Palavração
• Sentenciação
• Alfabético
• Fônico
• Silábico

a) Palavração

De acordo com Maciel (2005) e Soares ( 2003b), esse método, como o


próprio nome diz, usa como fundamento as palavras, as crianças deverão através
do treino memorizar as palavras, isoladas e desligadas do sentido. Na palavração
acredita-se que aprender a ler é ser capaz de ler palavras.

Veja o exemplo de palavração:


BONECA: boca – boné- nenê- bobo- cabo- caneca

Observe que a partir da palavra “boneca” foram geradas, com as mesmas

36
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

silabas, novas palavras. Em nenhum momento foi apresentada a palavra no


contexto de uma frase, ou de texto em que seja discutido e analisado o sentido do
uso dessa palavra em um contexto social.

b) Sentenciação

Claro que um método sobrepõe o outro, para os que acreditam neste


método, criticam o método de palavração, por utilizarem palavras isoladas. No
entanto podemos fazer a mesma crítica a esse método, que utiliza frases, porém
descontextualizas, ou com palavras repetidas. (MACIEL, 2005). Veja o exemplo:

Mimi é um gato.
Mimi anda e mia.
Mimi é um gato bonito.
Mimi faz miau miau.

c) Alfabético

Com base em Soares (2003b), podemos afirmar que todos os métodos


partem da ideia das letras do alfabeto, mas este apostava na ideia em que os
alunos teriam que memorizar as letras do alfabeto e cantarolar a medida que
quisessem escrever uma determinada palavra. Esse método também ficou
conhecido como soletração. Por exemplo, para a palavra BANANA, a criança faria
o seguinte movimento:

b....a = ba ; n...a = na ; n..a = na ba – na – na

d) Fônico

Este método foi bastante utilizado por volta da década de 80, e seu
fundamento era ensinar os fonemas das letras aos alunos, além disso, os autores
dessas cartilhas apostavam em ilustrações para que os alunos pudessem fazer
associações entre o fonema e a palavra. Por exemplo: FACA, no /F/ havia um
desenho de faca. (SOARES, 2003b)

Para alguns professores, a fragilidade desse método consiste em se tornar


artificial a pronúncia dos fonemas sem o auxilio da vogal. Isso porque, em nossa
língua nem todas as letras tem seu nome correspondente ao seu som e nem
sempre há uma correlação entre o som e letra. (MACIEL, 2005).

37
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

e) Silábico

Por último apresentaremos o método silábico, talvez o mais conhecido, e


talvez o que você foi alfabetizado. Esse método possui como ideia principal que o
ensino da leitura e da escrita é baseado nas “famílias silábicas” e essa sequencia
é gradual. Para muitos professores é considerado um método de fácil aplicação
em sala de aula. Esse método também possui três fases:

1) É apresentada a família silábica de preferencia de acordo com ordem do


alfabeto. Exemplo: BA – BE – BI – BO- BU

2) Depois, há uma formação de palavras, reais ou não a partir dessas sílabas:


ba-ba ; be – be; be –bi; bi –bi; bo – bo.

3) Posterior a isso era ensinado outra família silábica e havia, aqui, uma junção
dessas duas famílias para a produção de novas palavras: bala, bola, bela,
bole, loba, lobo.

A fragilidade desse método consiste no excesso de memorização, e a


unidade menor na língua ser a sílaba e não o fonema, além de uma escrita
reduzida de palavras, muitas vezes descontextualizadas e sem sentido aos
alunos.

Bem, caro pós-graduando, estes são os métodos em que as crianças foram


alfabetizadas ao longo dos anos, e ainda estão sendo. Ambos tem vantagens
e fragilidades, de acordo do Maciel (2005, p.51) “A alfabetização é uma técnica
de decifração que envolve um conjunto de processos biológicos, psicológicos e
sociais complexos”. A partir dessa concepção de aprendizagem que envolve além
da decifração de letras, compreendemos que em pleno século XXI, em que o
acesso a informação é tão rápido, ao relacionar a alfabetização e usos sociais da
leitura e da escrita no cotidiano, não se pode mais falar de alfabetização de forma
desvinculada da ideia do letramento.

Enfim, para que haja um ótimo desenvolvimento do aluno, é necessário que


os seus contatos com o sistema de escrita sejam permeados por atividades de
letramento e alfabetização também.

Faz-se necessário deixar específico o processo de alfabetização que


possibilita a prática do letramento, como são duas dimensões diferentes, precisa-
se utilizar uma metodologia para cada momento de aprendizagem.

E por fim, não podemos deixar que os alfabetizadores somente utilizem

38
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

métodos de alfabetização ou os de letramento. Precisa-se desses dois diferentes


e interdependentes, e que esses processos sejam conciliados, para dar um maior
significado e aproximar da realidade o aprendizado do sistema ortográfico e a
leitura. E tenha a clareza que você pode dedicar tempos diferentes de leitura
durante a sala de aula, alguns com uma reflexão sobre o sistema alfabético, assim
como a leitura em um viés social.

Há dois grandes centros de pesquisa na área da alfabetização


e linguagem no Brasil, em ambos, têm sites de pesquisa para que
as pessoas tenham conhecimento das suas ações e possam baixar
livros, atividades, vídeos. Vale a pena visitar!!!

CEEL (Centro de Estudos em Educação e Linguagem),


coordenado pela profa. Telma Ferraz http://www.ceelufpe.com.br/

CEALE (Centro de Alfabetização Leitura e Escrita), coordenado


pela profa. Magda Soares. http://www.ceale.fae.ufmg.br/

Alfabetização e Letramento: um
Aspecto Legal
Você pode estar ainda se perguntado, como conseguir conciliar a
alfabetização e o letramento na sala de aula. Então, o Ministério da Educação
e Cultura (MEC) desenvolveu um programa de formação continuada para os
professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental – Pró-letramento.

Este programa tem como base cinco eixos necessários para a aquisição da
língua escrita, são eles (BRASIL, 2006):

• Compreensão e valorização da cultura escrita


• Apropriação do sistema de escrita
• Leitura
• Produção de textos escritos
• Desenvolvimento da oralidade

39
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Para um melhor aproveitamento dos conceitos de cada eixo eles serão


estudados neste capítulo de forma isolados, mas na sala de aula eles estarão em
conjunto.

A proposta nestes eixos tem como foco principal que os alunos desenvolvam
“capacidades”, e isto esta associado com conhecimentos e atitudes. Nas seções
seguintes iremos compreender o que pertence a cada um desses eixos, e
como está organizado o período de alfabetização (1º, 2º e 3º anos do ensino
fundamental). Primeiro será apresentado o quadro de cada uma das capacidades
e depois será explicado cada um dos itens.

Para compreender os quadros atente-se para a legenda:

I= introduzir (os alunos se familiarizam com os conteúdos e


conhecimentos)
R=retomar (conhecimentos e capacidades já dominados ou
consolidados em um período anterior)
T=trabalhar
C= consolidar (sedimentar os avanços no conhecimento e
capacidade dos alunos).

Fonte: Brasil (2006, p.15).

a) Compreensão e valorização da cultura escrita

Este é o primeiro eixo, tem como objetivo principal a inserção da criança no


contexto escolar. Observe o quadro a seguir sobre quais serão os conhecimentos
e atitudes que serão desenvolvidos na sala de aula neste eixo.

40
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Quadro 1: Compreensão e valorização da cultura escrita:


capacidades, conhecimentos e atitudes

Fonte: Brasil (2006, p.16).



Primeiramente, notem que todas as capacidades apresentadas
nesse primeiro eixo deverão ser iniciadas, trabalhadas e consolidadas no Os gêneros
discursivos são
primeiro ano do ensino fundamental, as duas primeiras serão trabalhadas
textos falados,
e consolidadas tanto no segundo e no terceiro anos, enquanto que as escritos que
ultimas serão apenas trabalhadas e retomadas nos segundo e terceiro circulam na
anos. sociedade e são
reconhecidos com
Podemos afirmar que este eixo está mais voltado para as práticas facilidade pelas
pessoas.
sociais do que aos aspectos da alfabetização, pois no decorrer das
aulas os alunos irão compreender os modos de circulação da linguagem
escrita, assim como conhecerão os diferentes gêneros discursivos.

De acordo com Bakhtin (2003), os gêneros discursivos são


textos falados, escritos que circulam na sociedade e são reconhecidos
com facilidade pelas pessoas. Como exemplo, podemos citar: carta,
bilhete, receita culinária, lista de compras, piada, letra de música,
dissertação de mestrado, monografia, entre outros.
Suportes textuais
referem-se à
base que permite
que os diferentes
Este eixo é de suma importância para que as crianças gêneros textuais
compreendam a função social da escrita, e isto será possível se o circulem na
professor apresentar aos alunos diferentes gêneros discursivos e sociedade.
suportes textuais.
41
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Suportes textuais referem-se à base que permite que os


diferentes gêneros textuais circulem na sociedade. Como por
exemplo: o jornal, este é um suporte em que podemos encontrar
diferentes gêneros discursivos (piada, horóscopo, reportagem,
gráficos, propaganda, entre outros).

Essa familiarização com os diferentes gêneros proporciona aos alunos um


conhecimento acerca de onde esses textos circulam na sociedade (na escola, no
uso doméstico, no campo jurídico), formas de aquisição e empréstimos desses
materiais, pois acabam compreendendo os espaços como bibliotecas, livrarias e
sebos.

O último item, “desenvolver as capacidades necessárias para o uso da escrita


no contexto social” (BRASIL, 2006, p. 16), faz com que os alunos aprendam a
manusear um livro, um caderno, a régua, caneta, aprendam a utilizar um lápis,
como apontar um lápis, a utilizar o computador.

Para muitas realidades, esse eixo pode parecer desnecessário,


visto que algumas crianças têm acesso a esses materiais escritos
tanto na escola, como no contexto familiar. Mas, lembre-se de que
nosso é país é grande e possui muitas realidades sociais.

Atividade de Estudos:

1) Observando esse primeiro eixo da aprendizagem da linguagem,


elabore uma atividade em que sejam trabalhadas pelo menos
duas capacidades deste eixo.
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Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

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b) Apropriação do sistema de escrita

No primeiro eixo, compreendemos a importância da apresentação dos


gêneros discursivos para os alunos, para que eles entendam a função social
da escrita, já neste segundo eixo, conversaremos mais sobre a apropriação
do sistema de escrita, e com isso discutiremos mais detalhadamente sobre a
alfabetização e letramento em sua simultaneidade. Observe o quadro:

Quadro 2 - Apropriação do sistema de escrita: conhecimentos e capacidade

Fonte: Brasil (2006, p. 24).

43
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Você deve ter notado que este eixo é mais amplo que o primeiro, além disso,
deve ter observado que grande parte dessas capacidades são introduzidas e
trabalhadas no decorrer do primeiro ano. Além disso, serão ainda trabalhadas no
segundo e terceiro ano. Esse eixo tem como fundamento a alfabetização. Neste
novo modelo de ensino, a alfabetização é um processo que compreende os três
primeiros anos do ensino fundamental.

Precisamos estudar este eixo de forma detalhada para que seja


possível compreender a apropriação do sistema de escrita. Um dos primeiros
conhecimentos que os alunos precisaram desenvolver neste eixo, é reconhecer
um símbolo, um número e as letras.

Posterior a isso, é importante que as crianças compreendam como está


organizado o nosso sistema de escrita, ou seja, escrevermos da esquerda para a
direita e de cima para baixo. Mesmo que as crianças já tenham contato com isso
é um detalhe que precisa ser estudado em sala de aula, para que se desenvolvam
as habilidades de organização da escrita em espaços delimitados como uma folha,
um bilhete, no computador, no post-it e em outros tantos materiais que poderão
ser utilizados pelo professor para explicar isso. Essa informação poderá parecer
uma informação obvia, mas lembre-se de que nem todas as línguas seguem essa
ordem. Outra informação de suma importância que está presente neste eixo, é a
segmenta das palavras, ou popularmente conhecida como os espaços em branco.

De acordo com Scliar-Cabral (2009) no início do processo de escolarização


e aprendizagem do código escrito é comum que as crianças escrevam assim:
Eraumavezumamenina, isso ocorre devido ao fato da fala ser um continuum, ou
seja, quando falamos não há necessidade de estabelecer esses espaços em
branco que aparecem na escrita. Por isso, podemos afirmar que a leitura é
mais fácil que a escrita, e as crianças normalmente aprendem a ler antes de
escrever.

Isso ocorre, pois na leitura tudo está pronto, as palavras estão escritas
corretamente, há os espaços em branco, a pontuação da língua está apresentada,
o individuo precisa apenas transformar as letras (grafemas) em fonemas (sons).
Na escrita o grau de dificuldade é um pouco maior, pois a criança tem apenas
uma folha em branco, então terá que pensar sobre irá escrever, transformar esses
fonemas em grafemas, deixar os espaços em branco, escrever essas palavras
de acordo com as normas ortográficas e sintáticas da língua, além de colocar a
pontuação adequada.

44
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Grafema são letras ou grupos de letras, entidades visíveis e


isoláveis. Exemplo: r, ss, sc, b, t.

O fonema tem uma função distintiva, isto é, serve para distinguir


um significado básico de outro, como no já citado exemplo de /´bala/
e /´mala/. Veja bem, o fonema não tem significado: serve para
Os alunos
distinguir significados. Quer dizer que /b/ e /m/ não significam irão aprender
nada, mas trocando um pelo outro no contexto /´_ala/, o significado as noções
se altera...” (SCLIAR-CABRAL, 2009, p. 4). fonoaudiológicas
da língua, irá
refletir sobre
as palavras,
compreenderá
que a unidade
Ainda neste eixo, os alunos irão aprender as noções menor da língua
fonoaudiológicas da língua, irão refletir sobre as palavras, compreenderá é o fonema, e
irá começar a
que a unidade menor da língua é o fonema, e irá começar a desenvolver desenvolver
a consciência fonológica. a consciência
fonológica.

Consciência fonológica é o entendimento de cada umas das


palavras, ou partes da palavra que são constituídas de um ou mais
fonemas. (BORTONI-RICARDO et al, 2010, p.191).

Observe a figura a seguir que apresenta as consciências fonológicas que


precisam ser desenvolvidas no início do processo escolar.

Figura 11 - Consciência Fonológica

Fonte: A autora.

45
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Segundo Bortoni-Ricardo et al (2010, p.191), é o desenvolvimento da


consciência fonológica a partir de estratégias “baseadas nas competências
linguísticas da modalidade oral dos alfabetizandos.” Nessa perspectiva
As práticas o trabalho com a rima se torna interessante.
de letramento
no contexto As práticas de letramento no contexto escolar precisam
escolar precisam contemplar, em princípio, atividades orais para que as
contemplar, crianças pequenas desenvolvam uma consciência fonológica
em princípio, que possa assegurar a construção de leitura e da escrita.
atividades orais Não adianta memorizar os fonemas que correspondem às
letras, sem que se tenha percebido antes que cada palavra
para que as é composta de uma sequência de fonemas. A consciência
crianças pequenas silábica é, pois, de grande importância para que as crianças
desenvolvam desenvolvam a consciência fonêmica. (BORTONI-RICARDO,
uma consciência et al, 2010, p.193).
fonológica que
possa assegurar Outro aspecto importante é o aluno conhecer o alfabeto, saber
a construção que ele é composto por 26 letras. Que estas letras estão divididas em
de leitura e da
vogais e consoantes e o que estas representam nas palavras. Posterior
escrita.
a apresentação das letras é preciso compreender a categorização
gráfica, ou seja, a forma de grafar cada uma delas. Além disso, há a
funcionalidade das letras, que pode ser explicado como a ordem que essas letras
precisam ser escritas de modo que seja formada uma determinada palavra.

Para finalizar, cabe refletir que nas aulas há uma necessidade de


Com Brasil (2006, atividades voltadas para as práticas de alfabetização e de que essas
p.29) “para ler, não podem ser esquecidas só porque hoje temos uma compreensão
é indispensável
de alfabetizar letrado.
a capacidade
perceptiva
que possibilita De acordo com Brasil (2006, p.29) “para ler, é indispensável
identificar a capacidade perceptiva que possibilita identificar cada letra,
cada letra, distinguindo-a uma das outras. Para a escrever além da percepção, é
distinguindo-a uma necessária a capacidade motora”.
das outras. Para
a escrever além
da percepção, No que tange as letras, é preciso que o aluno conheça os
é necessária diferentes tipos de letra, no inicio da escolarização a letra maiúscula
a capacidade e de forma tem uma grande aceitação por ter o seu traçado mais
motora”. simples e não causa tanta dúvida, mas com o passar do tempo a letra
cursiva, tem sua grande importância por dar certa rapidez na escrita.
A familiarização com as letras pode acontecer desde a educação infantil, mas no
primeiro ano, este será um dos focos de ensino.

No que se refere às regularidades e irregularidades, essas serão adquiridas
no período dos três anos iniciais da escolarização e serão retomadas em todos os

46
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

textos, pois aqui estamos falando da escrita ortográfica.

Observe as palavras apresentadas a seguir

Regularidades Ortográficas Irregularidades Ortográficas


PATO HOJE
RUA LIÇÃO
SORTE EXERCÍCIO
BOCA RESUMO
MATO CASA
LATA

De acordo com Morais (1999) as letras ( P, R, S, B, M, L) são letras que no


contexto em que estão grafadas não geram dúvidas para a criança quando ela irá
escrever. Lembrando que aqui são apresentados alguns exemplos.

Quanto as irregularidades ortográfica, são palavras em que causam


dúvida na hora da escrita, e precisa ser memorizada a palavra para escrevê-la
corretamente, por exemplo : O “h”de hoje, o “ç”de lição que pode ser confundido
com os dois “s”, o “x”de exercício que pode ser grafado com “z”, o “s” de casa e
resumo que pode ser escrito com z.

MORAIS, Artur Gomes de. (Org.). O aprendizado da ortografia.


Belo Horizonte: CEALE / Autêntica, 1999.

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização sem o bá-bé-bí-bó-bú. São


Paulo: Scipione, 1999.

Atividade de Estudos:

1) Vamos exercitar os nossos conhecimentos neste segundo eixo.


Pense em um jogo para trabalhar com os alunos as regularidades
ou irregularidades ortográficas. Lembre-se de levar os alunos a
reflexão sobre a escrita, não a memorização.
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

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c) Leitura

Depois, que compreendermos a apropriação do sistema de escrita, iremos


conversa sobre a leitura. Lembrando que no próximo capitulo voltaremos a discutir
essa questão na prática pedagógica.

Quadro 3 - A leitura

Fonte: Brasil ( 2006, p. 40).


48
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Algo que foi e será abordado ao longo desse caderno de estudos, é que a
leitura precisa ser compreendida como uma prática social, e assim sendo, tudo o
que for de material escrito, deverá estar na sala de aula, ou ser de fácil acesso,
para que as crianças possam manusear esses materiais.

Neste eixo observe que os conhecimentos serão introduzidos no


Kleiman (1993),
primeiro anos, trabalhados no segundo e terceiro ano, ou seja, este é um ao ler um texto
eixo que não tem fim, e sim um acréscimo a cada novo ano. e fazer uma
interpretação o
sujeito deverá
Além disso, aqui os alunos irão ler desde palavras até textos saber localizar
e possuir fluência na leitura. No entanto, observe que neste eixo a informação
explicita no
temos grandes conceitos da leitura embutidos: a leitura, a leitura e a texto, interpretar
interpretação, e a inferência sobre o que é lido. o que está nas
entrelinhas e fazer
inferências entre
De acordo com Kleiman (1993), ao ler um texto e fazer uma os textos lidos e o
interpretação o sujeito deverá saber localizar a informação explicita no que já ouviu sobre
o determinado
texto, interpretar o que está nas entrelinhas e fazer inferências entre os assunto.
textos lidos e o que já ouviu sobre o determinado assunto.

Num primeiro momento essas leituras devem ser feitas pela professora assim
como as interpretações poderão ser feitas no coletivo e de forma oral. Na medida
em que os alunos vão se apropriando do código escrito novas metodologias em
sala de aula poderão ser consideradas.

Atividade de Estudos:

1) Elabore uma proposta de leitura para uma turma de primeiro ano


que ainda não domina o código escrito.
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

2) Retome a atividade elaborada e verifique quais foram os aspetos


do terceiro eixo que foram contemplados nessa atividade.
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d) Produção de textos escritos

Este penúltimo eixo irá trabalhar com a produção escrita de textos, observe
o quadro apresentado a seguir, para compreender as capacidades que a criança
deverá desenvolver.

Quadro 4 - Produção de textos escritos

Por mais que se


tragam gêneros
discursivos de
outras esferas
sociais para dentro
da sala de aula,
esses gêneros
irão acabar sendo
escolarizados,
mas a escrita
apenas terá
sentido se o
papel dela não for
restrito apenas a Fonte: Brasil (2006, p. 47).
nota e a entrega
desse material a Primeiro, observe que algumas capacidades serão apenas
professora.
introduzidas no primeiro ano, enquanto outras serão trabalhadas e

50
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

consolidadas tanto no primeiro, como no segundo e terceiro ano. Além disso,


observe que tanto o eixo três e este, não trabalham com uma finalização dessas
capacidades, pois estas serão trabalhadas ao longo do processo de escolarização.

Alguns pontos importantes desse eixo: fazer com que os alunos compreendam
o uso da escrita na sociedade, assim como os diferentes gêneros discursivos e
estes precisam ser sempre pensados com um destinatário real. Ou seja, por mais
que se tragam gêneros discursivos de outras esferas sociais para dentro da sala
de aula, esses gêneros irão acabar sendo escolarizados, mas a escrita apenas
terá sentido se o papel dela não for restrito apenas a nota e a entrega desse
material a professora. No quarto capítulo desse caderno de estudos, iremos
retomar essas discussões.

Esferas sociais, mais especificamente às situações de interação


dentro de determinada esfera social (esfera cotidiana, do trabalho,
científica, escolar, religiosa, jornalística, etc.). ( BAKHTIN, 2003).


Neste eixo, está inserida a capacidade de utilizar a variação linguística para
o texto, ou seja, escrever um bilhete para algum familiar avisando porque você
não está em casa, ou escrever uma carta para o prefeito da cidade reivindicando
melhorias no bairro que você mora são produções textuais, em que cada um
deverá ter uma linguagem adequada ao seu destinatário e a sua função
Os textos deverão
social. ser elaborados
de acordo com
as normas
Os textos deverão ser elaborados de acordo com as normas ortográficas,
ortográficas, composicionais e estilísticas. E um dos fatores de suma composicionais e
importância, criar o hábito de revisar o que está sendo escrito. estilísticas.

Dois aspectos são cruciais para o sucesso do fazer pedagógico


desse eixo:

• O professor desde o inicio da escolarização deve ser o escriba


enquanto os alunos não dominam o código escrito, e fazer
reflexões sobre o processo de escrita no coletivo.

• Para a produção textual o foco deverá ser sempre na qualidade


e não na quantidade, ou seja, vale mais uma produção de texto
feita, refeita, do que várias produções de texto com a mesma
fragilidade.

51
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Atividade de Estudos:

1) Pense na seguinte situação: A diretora da escola em que você


atua como professora está de aniversário, e a coordenadora
orientou que cada sala fizesse um cartão de aniversário coletivo
para presentear a diretora. Mas, esse cartão deverá ser construído
por todos os alunos utilizando apenas uma folha A4. Como você
iria organizar essa atividade, baseando-se nesse eixo. Descreva
os passos dessa atividade.
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e) Desenvolvimento da oralidade

52
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

Neste último eixo, iremos apresentar sobre a oralidade. Observe os


conhecimentos apesentados no quadro a seguir:

Quadro 5 - Desenvolvimento da Oralidade

Fonte: Brasil (2006, p. 54).

De forma geral, esse eixo irá trabalhar com a língua falada tanto Quanto às
variações
no contexto da sala de aula, em que os aluno deverá responder o linguísticas é
que for solicitado pela professora, interagir com os colegas, assim necessário que a
como adequar-se as diferentes situações escolares ( apresentação criança respeite
tanto dos colegas
de trabalhos, fala com amigos no recreio, conversa com o diretor do
como funcionários
educandário) de acordo com as variações sociolinguísticas. da escola, assim
como planeje
Quanto às variações linguísticas é necessário que a criança respeite a sua fala em
situações formais
tanto dos colegas como funcionários da escola, assim como planeje a que poderão a
sua fala em situações formais que poderão a fazer parte da realidade fazer parte da
escolar. realidade escolar.

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolingüística.11. ed.


São Paulo : Contexto, 2001.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Nós cheguemu na escola, e

53
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

agora?: sociolingüística & educação. São Paulo : Parábola, 2005

Atividade de Estudos:

Observe a tirinha abaixo :

Figura 12 - Chico Bento na escola

Fonte: Disponível em:http://www.planetaeducacao.com.br/


portal/artigo.asp?artigo=172>. Acesso: 15 set 2011.

1) Qual é a relação da tirinha do Chico Bento, com o que está sendo


apresentado neste último eixo? Explique e exemplifique.
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Algumas Considerações

Neste segundo capítulo refletimos sobre a alfabetização e o letramento no
contexto teórico, e nas compreensões legais que sustentam o ensino fundamental

54
Capítulo 2 Alfabetização x Letramento

de nove anos.

É importante, caro pós-graduando, que você tenha clareza que a


alfabetização é um processo que possui um começo e um fim, em outras palavras,
ou o sujeito está alfabetizado ou ele não está, não existem pessoas mais ou
menos alfabetizadas.
Já o letramento, não é algo nem ensinado e nem finalizado, ao longo da
vida, o sujeito irá se inserir em práticas sociais sejam elas de leitura ou de escrita.
Pense, na tecnologia, por exemplo, a cada novo dia surgem aparelhos eletrônico
mais moderno e nós precisamos nos adaptar a eles, com isso vamos nos inserindo
em práticas de letramento digital.

Até um tempo atrás saber utilizar uma máquina de escrever, fazer um


curso de datilografia eram suficientes para o mercado de trabalho, hoje com o
computador as pessoas tiveram que fazer outros cursos e o conhecimento é
reciclado a cada período.

Com esses dois capítulos iniciais discutimos um pouco da teoria, nos


capítulos seguintes iremos conversar um pouco sobre a prática pedagógica tanto
no viés da leitura como da escrita.

Referências
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.

BRASIL. Capacidades linguisticas da alfabetização e a Avaliação. Brasília:


MEC. Secretaria da Educação Básica. Secretaria da Educação a distância.
Universidade Federal de Minas Gerais, 2006.

BORTONI-RICARDO, Stella. Maris.; GONDIN, M. R. A.; BENÍCIO, M. N. M. O


papel da oralidade na aquisição da cultura letrada. In: HEINIG, O. L.; FRONZA,
C. A. Diálogos entre linguística e educação: a linguagem em foco. Blumenau:
Edifurb, 2010, p. 187-205.

KLEIMAN, Angela. Oficina de Leitura: Teoria e prática. Campinas: Unicamp,


1993.

MACIEL, Fraanciaca I.Pereira. Métodos e didáticas de Alfabetização: história,

55
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

caracteristicas e Modos de fazer de professores. Cadernos do formador. Belo


Horizonte: UFMG/ CEALE, 2005.

MORAIS, Artur Gomes de. (Org.). O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte:


CEALE / Autêntica, 1999.

QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

SCLIAR-CABRAL, Leonor. Avanço das neurociências para o ensino da leitura.


Revista de cultura. n. 67, Fortaleza, São Paulo, jan/fev. 2009.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. In: Anais das


26a. Reunião Anual da ANPEd. Poços de Caldas: ANPEd, 2003.

_____.Alfabetização: em busca de um método? Tecnologia Educacional, v.20,


nº98-99, jan-abr.2003 b, p.7-13.

56
C APÍTULO 3

As Práticas Sociais de Leitura

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

33 Compreender as práticas sociais de leitura nos anos iniciais do ensino


fundamental de nove anos.

33 Apresentar atividades de leitura que podem ser trabalhadas em sala de


aula nas séries iniciais.
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

58
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

Contextualização
Caro pós graduando, neste terceiro capítulo conversaremos sobre a sala de
aula. Já estudamos, nos dois capítulos anteriores a teoria, pois, para uma prática
bem sucedida, é crucial termos uma clareza teórica sobre o que estamos fazendo
em sala de aula, principalmente tendo o cuidado e comprometimento com os
alunos.

Para você que é alfabetizador, ou pretende ser, a alfabetização é o estagio


mais importante na vida escolar de um indivíduo, pois é com esta idade que será
construída toda a base de sua formação escolar.

Portanto, falar de teoria é até certo ponto fácil, mas e a prática? Então, a partir
disso, e a partir do que ouço de professores no grupo de pesquisa que frequento
e nas formações continuadas, iremos dialogar nesse capítulo e no próximo sobre
essa temática.

Lembro que este é a apenas o ponto de partida, o que irá acontecer na


viagem (na sala de aula) e ponto de chegada será determinado por cada um de
vocês, e de acordo com o grupo em que estiver atuando. Receitas prontas não
existem, existem práticas pedagógicas bem sucedidas que poderão ser adaptadas
conforme o contexto social da comunidade em que você atua.

No decorrer deste terceiro e quarto capítulo apresentarei


excertos de diário de campo, assim como exemplos de atividades de
sala de aula. Esse material foi juntado no ano de 2009 quando fazia a
coleta de dados para o Mestrado.

Se você quiser aprofundar os seus estudos sobre a linguagem e


a educação sugiro que você leia o seguinte artigo:

STOLF, Jociane; HEINIG, Otilia Lizete de Oliveira Martins. O primeiro


ano de ensino fundamental: um olhar sob as práticas sociais de
leitura e de escrita . In: HEINIG, O. L.; FRONZA, C. A. Diálogos
entre linguística e educação: a linguagem em foco a interlocução
continua. Blumenau: Edifurb, 2011, p.35-55.

59
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Leitura: um olhar para a sala de aula


A prática da Vamos iniciar a nossa conversa com as palavras da professora
leitura literária
não só possibilita Magda Soares, que expõem a importância da leitura nas aulas de
às crianças uma alfabetização:
alternativa de
lazer e prazer,
mas também torna a prática da leitura literária não só possibilita às crianças
o mundo e a vida uma alternativa de lazer e prazer, mas também torna o
compreensíveis mundo e a vida compreensíveis para elas, além de permitir o
para elas, além desenvolvimento de habilidade de compreensão, interpretação
de permitir o e construção de sentidos de textos. (SOARES 1999, p.18).
desenvolvimento
de habilidade de Como a própria autora afirma, a literatura é algo que deve ser
compreensão,
interpretação e trazido em sala de aula como uma alternativa de prazer. Sendo
construção de que para os alunos a literatura irá despertar o lazer enquanto que
sentidos de textos.
(SOARES 1999, para o professor terá um objetivo pedagógico. Você pode estar se
p.18) perguntando:

Como trabalhar a leitura com as crianças que ainda não sabem


ler?

Essa questão precisa ficar clara, se as crianças são sabem ler cabe ao
professor proporcionar momentos e espaços de leitura, sejam de obras literárias
ou de gêneros discursivos que circulam na escola ou em outras esferas sociais.

Além disso, o professor poderá ser o leitor ou oportunizar momentos de


contação de histórias em que os alunos manuseiem os livros e inventam a sua
própria história. Isso pode ser gravado para acompanhar o desempenho do aluno
em diferentes momentos do ano letivo.

No entanto muitos professores se questionam sobre o tempo que passaram em


sala de aula trabalhando determinadas atividades, se há tempo para escrever,
ler e brincar no início do período de alfabetização. Posso garantir para vocês
que há tempo suficiente para isso, mas é preciso haver tanto planejamento como
organização desse tempo e espaço para que isso aconteça.

Dessa forma

A leitura de textos literários, portanto, torna-se uma


oportunidade para o desenvolvimento da capacidade de
expressão e argumentação, de recuperar as seqüências

60
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

narrativas, de manifestar opiniões e desenvolver um


diálogo entre leitores ou ouvintes que negociam diferentes
possibilidades de sentido. (BRANDÃO, 2004, p.56)
É sempre bom que
A seguir iremos estudar um pouco das práticas de leitura, serão o professor tenha
um perfil dos
apresentadas algumas ideias iniciais de como trabalhar a leitura em sala alunos que recebe
de aula, mas lembre-se de que esse é o ponto de partida, e o principal em sua sala e
antes de qualquer atividade ser planejada, é compreender os sujeitos que que isso pode
ser conseguido
estão na sala de aula e no contexto social em que eles estão inseridos.
na secretaria
Além disso, é sempre bom que o professor tenha um perfil dos alunos da escola, ou o
que recebe em sua sala e que isso pode ser conseguido na secretaria professor poderá
da escola, ou o professor poderá elaborar um questionário social para elaborar um
questionário social
enviar para a casa dos alunos a fim de construir um perfil social da turma. para enviar para
a casa dos alunos
No entanto, antes de fazer a discussão, apresento um esquema no a fim de construir
qual se explica que a prática de leitura deve estar amparada no seguinte um perfil social da
turma.
eixo

Figura 13 - A leitura

Fonte: A autora.

Atividade de Estudos:

1) Antes de prosseguirmos com os nossos estudos, dê uma parada


e reflita: Qual é o espaço da leitura nas suas aulas?
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

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SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Trad. Cláudia Schilling, 6.


ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

Atividades de Leitura para o Início da


Aprendizagem do Código Escrito
Em formações de professores uma das maiores preocupação quando são
discutidos conceitos teóricos está em como mobilizar essa teoria na prática, então
vamos apresentar algumas ideias de como você pode fazer isso.

Você deve estar percebendo que não conseguimos distanciar a


leitura da escrita, mas, essas atividades apresentadas nesse capítulo
focam mais a leitura que a escrita.

62
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

a) Bingo de letras

Para o início da familiarização das letras do alfabeto, e importante trabalhar


atividades que façam os alunos refletirem e que sejam prazerosas, afinal de
contas estamos trabalhando com crianças, vimos também no capítulo 2, os eixos
para o ensino da linguagem, e o Bingo de letras é interessante para ser trabalhado
diferentes tipos de letras.

O que eu vou precisar: Cartelas com 9 letras, ou posso entregar as cartelas


para as crianças e cada uma delas escolhe as letras que irá compor a sua cartela.
As letras podem ser sorteadas.

Variações: O professor poderá apenas mostrar as letras sorteadas sem


falar o nome das letras, para que os alunos as identifiquem nas cartelas (isso é
interessante de ser feito se os alunos tiverem nas cartelas as letras minúsculas e
forem sorteadas as maiúsculas). Outra opção também será falar as letras, que é a
forma tradicional, e os alunos marcam nas cartelas.

Vencedor: ganha o jogo a criança que conseguir terminar de preencher toda


a sua cartela e conseguir ler todas as letras que a compõem e falar uma palavra
que inicia com cada uma das letras. Aqui, também o professor poderá fazer por
temática, por exemplo, as palavras poderão ser apenas animais, objetos que tem
na escola, etc.

b) Bingo de rótulos

Essa é uma atividade que além de mobilizar a leitura, trabalha com um


gênero discursivo que os alunos têm acesso no cotidiano social, visto que às
vezes podem acompanhar os pais ao supermercado. Para que essa atividade, e
todas as que serão apresentados nesse material, tenha o sucesso é importante
que o professor sempre faça uma contextualização e que os alunos consigam
compreender por que estão fazendo isso, pensando nisso, observe um exemplo
de contextualização para depois ir ao jogo.

A contextualização é um aspecto importante para todas as


atividades que serão apresentadas em sala de aula, e o professor
deve prepará-la de acordo com a realidade social dos alunos.

63
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Contextualização: O rótulo, sendo um suporte textual de fácil


A contextualização
é um aspecto acesso, os alunos podem visitar um supermercado, ou cada um pode
importante trazer rótulos para a sala de aula. É necessário conversar e mostrar
para todas para as crianças as estratégias publicitárias que são utilizadas na
as atividades
que serão elaboração de um rótulo (cores, imagem, tipos de letra – observar como
apresentadas estas mudam de um produto para os demais, informações nutricionais,
em sala de aula,
e o professor prazo de validade código de barras). O professor, neste momento pode
deve prepará-la observar que mesmo sem saber ler as crianças reconhecem o rótulo,
de acordo com a pois utilizam os outros recursos (cor, forma, imagens...) então, isto
realidade social
dos alunos. faz com que os alunos comecem a refletir sobre a possibilidade de ler
não apenas pela decodificação, e sim através de diversas estratégias,
sendo este um bom exemplo da inserção da criança no mundo letrado.

Por isso, legal é se você conseguir ir com as crianças em um supermercado,


assim elas irão identificar os produtos naturalmente. O professor também poderá
trazer diferentes rótulos para a sala de aula e ver se os alunos conseguem
identificar de qual produto eles pertencem e se ele é consumido em casa ou não.

O que eu vou precisar: crie cartelas com o nome das marcas/ produtos mais
conhecidos pelas crianças, mas nessa cartela escreva as marcas com letra preta,
e não utilize os recursos das cores, observe o exemplo a seguir:

Figura 14: Cartela de bingo

DANONINHO CLUB SOCIAL COCA-COLA


FANDANGOS LACTA MOÇA NESTLÉ
TRAKINAS PASSATEMPO ADES

Fonte: A autora

Para o sorteio, o professor deverá tirar uma caixa as embalagens dos produtos,
fica a critério se será lido o nome da embalagem, ou apenas mostrado.

Variações: Poderá ser reproduzido o nome das marcas/produtos da forma


como aparecem nas embalagens e o professor sorteia apenas o nome e lê para
que os alunos marquem nas cartelas.

Vencedor: Quem completar a cartela deverá ler o nome das marcas/produtos


que estiverem na sua cartela, ou poderá relacionar o nome com os produtos
sorteados.

Depois do jogo, os alunos poderão criar propagandas para os produtos,


slogan, ou um comercial. Use a sua criatividade e a variedade de gêneros

64
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

discursivos.


c) Calculadora de sílabas

Este jogo estimula as crianças a formarem palavras, e a reconhecer as


sílabas que compõem as palavras, além de brincar com um objeto escolar e social
– a calculadora.

O que eu vou precisar: de uma calculadora com as sílabas, legal é construir


ela de forma grande, seja de EVA, ou pintar no pátio da escola, para que as
crianças possam pular em cima das letras. Além disso, use a sua criatividade e
utilize materiais recicláveis para construção da calculadora de sílabas.

Figura 15 – Calculadora de sílabas

BO RA MA

TA LA SO

DA FI FA

NE JU VE

Fonte: A autora

Além da calculadora é necessário construir as seguintes cartelas:

BOLA

Cartelas com a palavra completa em que a professora irá ler a palavras, e a


criança deverá pular na sílaba /BA/, depois na tecla de mais (+), posterior a tecla
de /LA/, e para finalizar na tecla de igualdade (=) e dizer a palavra novamente
(BOLA).

Esse banco de sílabas poderá gerar em torno de 25 palavras.

BOLA - BO
Cartelas que possuem o símbolo da subtração, o professor irá sortear e ler
o que está escrito na cartela, o aluno deverá pular da seguinte forma: primeiro na
tecla de /BO/, posterior a isso na tecla de adição /LA/, em seguida na igualdade
(=) e falar a palavra formada /BOLA/, para finalizar pula na tecla de subtração (-),
e na sílaba que precisa ser retirada da palavra /BO/, novamente vai a tecla de
igualdade (=) e fala o que sobrou da palavra /LA/.
65
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

As cartelas poderão ser feitas tanto com sílabas iniciais como finais.

BO + + BO

Cartelas que possuem a estrelinha são cartelas mágicas, pois o professor


irá sortear a cartela e falará ao aluno, e este poderá formar palavras além do
que está na calculadora, obedecendo apenas à terminação ou início da palavra
conforme a cartela, por exemplo: De acordo com a primeira cartela, a criança
deverá pular na sílaba /BO/, depois na adição (+), e por último na tecla mágica (
a da estrelinha), pulando na estrelinha, a criança poderá formar qualquer palavra
iniciada com /BO/ ( boné, boneca, bolo, boca, entre outras). Se a estrelinha estiver
no fim, isso é o contrário, ou seja, ela irá pular primeiro na tecla mágica, depois
na tecla de adição, posterior a sílaba da cartela /BO/ e para finalizar na tecla de
igualdade (=) e falará uma palavra (cabo, lobo, bobo entre outras).

Você deve estar pensando: o que esta atividade tem a ver com o letramento?
Estou apenas trabalhando com sílabas, està atividade além da aquisição do
sistema de escrita em que as crianças irão ler as sílabas, ela poderá trabalhar com
o uso e função social da calculadora, iniciar as discussões sobre a matemática,
além de trabalhar conceitos de educação física (lateralidade...).

d) Calendário

Um dos gêneros discursivos que é interessante estar na escola desde os


primeiros momentos é o calendário. Observe a imagem abaixo:

Figura 16 - Calendário Escolar

Fonte: Autora.

66
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

Confeccionar um calendário móvel para que a cada dia uma das crianças
completem o dia que está faltando, além disso, completar o nome próprio, tempo
(nublado, chuvoso, ensolarado, chuva fina, ventoso, geada). Observe na imagem
que os dias da semana estão grafados em preto, e o domingo em vermelho. A
professora sorteia o ajudante do dia, e este deverá procurar entre os demais
nomes o seu nome próprio e completar na TURMA, depois deverá procurar o
desenho que represente como está o tempo e colocar em TEMPO, e por último
completa o dia.

Posterior a isso, a professora faz as seguintes reflexões com as crianças:

Que dia foi ontem?


Que dia da semana é hoje? E amanhã?
Este dia está representado com que cor? Por quê?
Quantos dias falta para o final de semana?
Quantas semanas falta para o final do mês?
Quantas semanas já foram completadas?
(Diário de campo, 16 de junho de 2009)

Paralelo ao preenchimento do calendário, as crianças podem escrever


na agenda escolar como estava o tempo. Observe que, nesta atividade, há dois
gêneros discursivos sendo trabalhados de forma simultânea, pois enquanto um
aluno preenche o calendário móvel, os demais procuram o dia que está sendo
sinalizado no calendário na agenda escolar e fazem o desenho que representa
com o está o tempo, e escrevem a palavra condizente ao desenho.

b) Biblioteca: um espaço escolar

Dentre todos os espaços escolares, a biblioteca é o lugar que não podemos


deixar de conversar quando o assunto é leitura, pois ela é o espaço em que
circula vários materiais escritos, de vários gêneros e suportes. Além disso, é na
biblioteca que as crianças irão aprender a cuidar dos livros, a pegar o
Na biblioteca o
livro emprestado e ter a responsabilidade de devolvê-lo.
professor poderá
separar momentos
É necessário que as crianças circulem na biblioteca antes mesmo em que irá ler
de aprender a ler, para que possam manusear os materiais escritos, e histórias para
as crianças, as
compreender a função social tanto da biblioteca como dos livros em si. crianças irão
contar histórias
Na biblioteca o professor poderá separar momentos em que irá ler aos colegas
histórias para as crianças, as crianças irão contar histórias aos colegas a partir das
imagens.
a partir das imagens. As escolas de forma geral, para incentivar a leitura,
podem criar grupos: de contadores de história, de leitura, de teatro, de poesia,

67
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

entre outros. Porém, é importante ver a leitura de obras literárias em sua inteireza
e arte, sem reduzi-la a práticas escolarizadas, de identificação de palavras, e sim
compreender e interpretar o que está sendo lido. De acordo com Góes

[...] literatura infantil é, antes de tudo, ‘literatura’, isto


é,mensagem de arte, beleza e emoção. Portanto, se destinada
especificamente à criança, nada impede (pelo contrário) que
possa agradar ao adulto. E nada modifica a sua característica
‘literária’ se, escrita para o adulto, agradar e emocionar a criança.
[...] Literatura Infantil é linguagem carregada de significados
até o máximo grau possível e dirigida ou não às crianças,
mas que responda as exigências que lhe são próprias (1991,
p. 3, grifos da autora).

A literatura é necessária para que a criança conheça diferentes tipos de


textos, com diferentes estilos de escrita e, para que isso aconteça, deverá haver
esses livros para que a criança faça escolhas, parâmetros e até preferências. A
autora, Cecilia Meireles fala dos sentidos de leitura para as crianças

A biblioteca é um Evidentemente, tudo é uma literatura só. A dificuldade está


local privilegiado, em delimitar o que se considera especialmente do âmbito
pois é nele que infantil. São as crianças na verdade que o delimitam com
a criança tem a sua preferência. Costuma-se classificar Literatura Infantil o
possibilidade de que para elas se escreve. Seria mais acertado, talvez, assim
fazer as suas classificar o que elas lêem com utilidade e prazer. Não haveria,
escolhas e ir se pois, uma literatura infantil a priori, mas a posteriori. (1984, p.
constituindo 20).
um leitor.

A partir disso, podemos compreender porque a biblioteca é um local
privilegiado, pois é nele que a criança tem a possibilidade de fazer as suas
escolhas e ir se constituindo um leitor.
f) Hora da leitura

Na escola pública, em que eu fiz a coleta de dados do meu mestrado, e


que eu acompanhei as aulas do primeiro ano, durante todo o ano letivo, uma das
práticas era a hora da leitura. Nesse momento, a professora colocava uma placa
na porta, para sinalizar para os demais membros da escola que estavam lendo, e
que não poderia haver interrupções. O momento era completamente diferente que
o da biblioteca, pois eram escolhidas literaturas que obedecessem a temática do
projeto didático que se estava estudando, ou algum livro que as crianças haviam
trazido de casa.

Antes da leitura a professora apresentava o título, mostrava para os alunos


quem escreveu o livro, quem ilustrou, qual era a editora, as vezes nesse momento,
as crianças faziam um comentário sobre o livro que iria ser lido com outra obras
já lidas. Por exemplo, no início do ano letivo a professora leu para as crianças
Filhotes de bolso, as crianças adoraram a história, mais para o final do ano, a
professora trouxe para a hora da leitura o livro Filhotes de bolso saem de férias,

68
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

assim que a professora mostrou a capa, os alunos lembraram-se do primeiro livro.

Depois de lida a capa do livro, a professora pode perguntar para as


crianças o que elas acham que irá aparecer no livro, e depois de finalizada a
leitura poderá ser feita uma retomada entre as pré-intenções e o que realmente
aconteceu na história. Um exercício interessante de fazer é construir o final da
história e depois comparar com o original. Fazer uma releitura de uma obra
a partir de desenhos. E lembre-se você não precisa ler histórias curtas para
as crianças, as histórias longas também são interessantes, mas precisam ser
lidas em capítulos. Observe a ilustração da criança a partir da história que foi
lida

Figura 17 - Ilustração da história Vira-Lata

Fonte: A autora.

g) Interpretação de texto

A interpretação de texto é algo necessário desde o início da escolarização,


pois além de relacionar os grafemas transformando-os em fonemas é necessário
compreender o que está sendo lido, pois assim começaremos a pensar em
letramento e alfabetização. Observe a imagem a seguir

69
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Figura 18 - Órgão apurado do cachorro

Fonte: A autora.

Nesta atividade a professora trouxe um texto que respondia a um dos


questionamentos do projeto didático que as crianças estavam estudando, além de
compreender o texto, as crianças não sabiam o que significa a palavra apurado
escrita no texto, então a professora e as crianças procuraram no dicionário o
significado e o aluno, ao desenhar o cachorro, fez um destaque ao órgão apurado
do cachorro.

Vamos a mais um exemplo, a partir da leitura de folder sobre os cuidados


que devemos ter com o cachorro, os alunos representaram através do desenho
esses cuidados necessários, assim como listaram algumas palavras-chaves
desse processo.

70
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

Figura 19 - Cuidados com o cachorro

Trabalhar o
Fonte: A autora. gênero receita
culinária e uma
boa opção no
início do processo
h) Receita culinária de escolarização,
levar os alunos
até a cozinha e
Trabalhar o gênero receita culinária é uma boa opção no início do
fazer no coletivo a
processo de escolarização, levar os alunos até a cozinha e fazer no receita é uma das
coletivo a receita é uma das possibilidades do trabalho com esse gênero. possibilidades do
Assim, os alunos podem ver a dimensão do gênero e a sua função na trabalho com esse
gênero.
sociedade. Observe o excerto do diário de campo

Hoje os alunos do terceiro ano, foram até a cozinha para fazer


a receita do bolo formigueiro, os alunos liam os ingredientes
da receita e a professora os separavam. No decorrer da
leitura do modo de preparo, os alunos não compreendiam
alguns processos “claras em neve”, “untar a forma”, “forno pré-
aquecido”, essas informações foram trabalhadas no coletivo,
e as dúvidas também foram sendo esclarecidas através da
reflexão colorida. Para o tempo de cozimento do bolo, os
alunos permaneceram na cozinha, para terem uma noção
temporal. Depois de esfriado o bolo, eles calcularam através
das frações como poderiam dividir o bolo de forma igual a
todos. ( Diário de campo, 21 de setembro de 2010)

Com este relato é possível compreender como algumas práticas escolares


podem fazer a diferença no processo de ensino aprendizagem, pois, os alunos
começam a compreender atividades cotidianas.

71
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Para ter vários gêneros discursivos circulando dentro da sala


de aula, uma das metodologias possíveis de trabalho é a partir de
projetos pedagógicos, pois as crianças motivam-se a ir à busca das
respostas e com isso diferentes gêneros começam a aparecer na
sala de aula.

Atividade de Estudos:

1) Faça um texto reflexivo sobre como você se tornou um leitor,


neste texto é importante aparecer as seguintes reflexões:

a) Quais espaços e objetos foram importantes na minha história


com a leitura?
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b) Quem foram os mediadores importantes na minha história com a


leitura? Por quê?
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c) Quais foram os livros mais significativos para a sua leitura no


mundo?
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72
Capítulo 3 As Práticas Sociais de Leitura

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2) Converse com outros professores que trabalham com você e


membros da comunidade escolar, como eles aprenderam a ler?
E quais obras literárias marcaram a infância de cada um, depois
construa um texto com memórias históricas.
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Algumas Considerações
Neste capítulo conversamos um pouco sobre práticas de leitura em sala de
aula, claro que não podemos simplesmente destacar a leitura sem falar da escrita,
então a escrita esteve presente nessas atividades como o suporte para a leitura.

Compreendemos que a leitura deve ter um espaço na sala de aula desde o


inicio do processo escolar, para que os alunos compreendam a função social dela.
E o mais importante, para formar leitores é preciso o professor também ler.

Vimos também como a biblioteca é uma forte aliada nas práticas sociais de
leitura, visto que nela podemos encontrar diferentes tipos de textos, e que as
crianças podem conviver com textos curtos e longos, basta apenas adequar a
metodologia de ensino para que estes sejam contextualizados.

No próximo capítulo iremos conversar sobre as práticas de escrita, além


disso, conversaremos sobre os gêneros discursivos que podem ser trabalhados
no início do processo de escolarização.

73
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Referências
BRANDÃO, Helena; MICHELETTI, Guaraciaba. Teoria e prática da leitura.In:
BRANDÃO, H; MICHELETTI, G. (Coords.). Aprender e ensinar com textos
didáticos e paradidáticos. São Paulo: Cortez, 2004.

GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à literatura infantil e juvenil. 2. ed. São


Paulo: Pioneira, 1991.

MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. 2. ed. São Paulo:


Summus Editorial, 1984.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte:


Autentica, 1999.

74
C APÍTULO 4

As Práticas Sociais de Escrita

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

33 Compreender as práticas sociais de escrita nos anos iniciais do ensino


fundamental de nove anos.

33 Apresentar atividades de escrita que podem ser trabalhadas em sala de


aula nas séries iniciais.
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

76
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

Contextualização
Bem depois de discutir a leitura é preciso pensar nas práticas de escrita em
sala de aula, assim como os gêneros discursivos que podem estar presentes
desde o início da escolarização. Lembre-se da tirinha da Mafalda, apresentada
no primeiro capítulo, ofereça aos alunos situações reais de escritas, e não frases
descontextualizadas.

Então neste capítulo conversaremos sobre algumas práticas sociais de


escrita que podem estar presente desde o primeiro ano do ensino fundamental
de nove anos. Além disso, no final deste capítulo iremos refletir sobre a
possibilidade da existência de uma receita para alfabetização e o letramento,
será que ela existe?

As Práticas Sociais de Escrita:


com o Foco a Sala de Aula
É importante que
Pensar na escrita não é diferente de que a leitura, e o professor deve desde a primeira
produção textual
exercer o papel central, pois antes que as crianças apendam a escrever, seja refletida a
cabe ao professor escrever esses textos. É importante que desde a primeira importância da
produção textual seja refletida sobre a importância da revisão do que está revisão do que
está sendo escrito.
sendo escrito.

Atividade de Estudos:

1) Descreva a seguir tudo o que você escreve durante o dia, seja no


seu contexto familiar ou escolar.
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77
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

A partir da atividade de estudo você pode ter realizado uma reflexão sobre
tudo o que circula a sua volta, se isso é texto, pois escrevemos desde um bilhete
que deixamos em cima da mesa da cozinha antes de ir trabalhar, até
Se prestarmos um plano de aula e um artigo científico. Há gêneros que circulam
atenção à vida no nosso dia a dia que são mais voltados para a informação, para a
das pessoas
nas sociedades organização da rotina, já há outros como os que circulam na academia,
letradas, em um consultório médico, etc. Mas, todos exercem a função social da
constataremos comunição, ou seja, ela possibilita diferentes momentos de interação,
que a escrita está
presente, como dependendo de para quem a escrita é endereçada.
forma constante
de atuação,
nas múltiplas Segundo Antunes (2003, p. 48),
atividades
dessas pessoas Se prestarmos atenção à vida das pessoas nas sociedades
– no trabalho, na letradas, constataremos que a escrita está presente, como
família, na escola, forma constante de atuação, nas múltiplas atividades dessas
na vida social em pessoas – no trabalho, na família, na escola, na vida social em
geral – e, mais geral – e, mais amplamente, como registro do seu patrimônio
amplamente, científico, histórico e cultural. Dessa forma toda escrita
como registro do responde a um propósito funcional qualquer, isto é, possibilita
seu patrimônio a realização de alguma atividade sociocomunicativa entre as
científico, histórico pessoas e está inevitavelmente em relação com os diversos
e cultural. contextos sociais em que essas pessoas atuam.

Dessa forma, quem escreve espera que alguém irá ler e contrapor o que
foi escrito e, a partir disso, ocorre a interação e a escrita passa a exercer uma
função social. Em outras palavras, podemos afirmar que quem escreve tem uma
intenção e espera um interlocutor, mesmo que seja a si mesmo. Para Góes e
Smolka (1992, p. 55), “[...] ao escrever, o sujeito enuncia o seu pensamento, com
algum propósito, para si ou para o outro, configurando ou uma auto-orientação ou
uma relação entre sujeitos”.

Além disso, como já conversamos no capítulo 2, o aluno não irá aprender a


escrever e terminará esse processo, muito pelo contrário, a produção de texto o
acompanhará por toda a sua vida. Como bem lembra Leal (2003, p. 66),

[...] essa tarefa não é algo a ser completado nas séries


iniciais, mas constitui um processo longo, que deverá ser
iniciado, provocado, sustentado e desenvolvido ao longo das
experiências escolares. Poderá ser um trabalho bem-sucedido,
à medida que as interações aconteçam, destacando-se aqui
a postura do professor como compreendente e mediador
dessas relações a partir de situações didáticas que permitam
instaurar os diálogos necessários ao desenvolvimento dos
sujeitos produtores de texto” (p.66).

A partir disso, reflita sobre a sua prática pedagógica através das perguntas
apresentadas na atividade de estudo, posterior a isso, na próxima seção
apresentaremos algumas ideias de produção de texto que poderão ser trabalhadas
78 em sala de aula.
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

Atividade de Estudos:

1) Qual é o espaço destinado para a escrita na sua prática docente?


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2) O que eu faço com as produções textuais dos meus alunos?


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Atividades de Escrita para a Sala de


Aula
Nesta seção, trabalharemos com a inteireza das práticas sociais de escrita,
temos como objetivo apresentar algumas praticas pedagógicas bem sucedidas e
não receitas prontas para serem simplesmente aplicadas sem contextualização.

79
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Como foi mencionado no capítulo 3, essas atividades de escrita


irão ter uma relação com a leitura, afinal não conseguimos pensar
em leitura e escrita como ações totalmente independentes.

a) Cartão de aniversário

Este é um gênero discursivo que pode aparecer na sala de aula. Possui


pouco texto escrito e as crianças conhecem o gênero o que facilita a escrita e a
exposição das ideias. Veja o excerto do diário de campo

Hoje é o aniversário da coordenadora pedagógica, e as


crianças do primeiro ano construíram um cartão de aniversário
coletivo. Primeiro cada criança fez um pequeno desenho em
uma folha de papel A4, depois que todos haviam desenhado,
a professora pediu aos alunos os que deveria ser escrito no
cartão. Então, as crianças começaram a falar, e a medida que
falavam a professora escrevia no quadro. “Parabéns, feliz
aniversário muitas felicidades e muitos anos de vida, muita
saúde, amor, paz.Parabéns”. Quando a professora terminou
de escrever leu tudo o que havia escrito no quadro e pediu
para as crianças o que elas achavam. Então uma delas falou :
“é melhor tirar a palavra feliz aniversário no início e colocar no
lugar do parabéns que está no final e repetido”. (DIÁRIO DE
CAMPO, 22 de outubro de 2009).

Com esta parte do diário de campo foi possível notar que
Um gênero as crianças construíram um cartão de aniversário a partir do que
interessante de conheciam sobre o gênero, sendo este um gênero que não é comum
ser trabalhado
e com ele o de ser trabalhado na sala de aula. Observe que, além de escrever,
professor poderá a professora fez com os alunos a reflexão sobre o que foi escrito,
trabalhar o uso de
letras maiúsculas, revisando assim o texto antes de ele ser finalizado.
a abreviação de
horas, assim como
as próprias horas,
o endereço, ou b) Convite de aniversário
seja, a criança
começa a se
localizar em Este é um gênero interessante de ser trabalhado na sala de aula.
que país vive, Faz parte do universo das crianças, e com ele o professor poderá
em que estado, trabalhar o uso de letras maiúsculas, a abreviação de horas, assim
cidade, que dentro
da cidade há como as próprias horas, o endereço, ou seja, a criança começa a
diferentes bairros se localizar em que país vive, em que estado, cidade, que dentro da
e ruas, e que a
casa tem número. cidade há diferentes bairros e ruas, e que a casa tem número. E como

80
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

essas informações são importantes para que os convidados consigam chegar ao


local da festa.

c) Pauta do dia

Lembra que no início desse capítulo conversamos um pouco sobre os


gêneros do nosso cotidiano, então, esse é um gênero discursivo que faz parte do
cotidiano escolar. O professor escreve no quadro o que será realizado naquele
dia, e as crianças escrevem no caderno, isso é importante para que as crianças
se acostumem a ter planejamento. Além de conseguir visualizar o que será feito
no decorrer do tempo que estará em sala de aula, cosegue também se localizar
com o que será realizado primeiro e o que virá na sequência.

d) Dicionário ilustrado

Crie para a sala de aula, ou para cada aluno através de um caderno um


dicionário ilustrado, nele deverão aparecer as palavras que os alunos não
conhecem e eles deverão criar no coletivo uma definição para essa palavra e se
possível ilustrá-la. Esse tipo de atividade é importante e interessante para que os
alunos consigam compreender a função social da ordem alfabética. Além disso,
irão criar o hábito que ao não conhecer determinada palavra devem procurá-la no
dicionário.

Variação: Para trabalhar através de um gênero discursivo a sequência


alfabética, o professor poderá utilizar a lista telefônica.

e) Textos explicativos

As atividades que estiverem vinculadas com projeto didático


compõem o corpus de dados coletados para a minha dissertação de
mestrado.

A partir do tema de um projeto didático – Cachorros, as crianças tinham uma


das perguntas geradoras descobrir qual é a menor raça de cachorro, então foram
a biblioteca pesquisar, depois que descobriram registraram essa informações
que compôs a pasta de atividades deste projeto. Observe na imagem a seguir os
detalhes e a frase construída pelo aluno para justificar a raça do menor cachorro.

81
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Figura 20 - A menor raça

Fonte: A autora.

f) Dia do bilhete

Esse é um gênero textual interessante de ser trabalhado no início do processo


de escolarização, pois há pouca produção textual para ser realizada, então o
professor poderá fazer uma dinâmica em que os alunos não poderão falar deverão
conversar apenas em forma de bilhetes. Lembre-se de explicar aos alunos o que
é um bilhete e faça com que eles não escrevam informações repetidas, mas que
pensem em algo que queiram falar, ou perguntar a algum colega, em um primeiro
momento, a dinâmica poderá ser feita em duplas ou trios para que nenhum aluno
fique de fora da brincadeira.

g) A carta

Esse já é um gênero mais elaborado, e que requer um maior auxilio do


professor para que os alunos consigam escrevê-lo. É importante que os gêneros
discursivos apareçam na sala de aula de forma espontânea, veja o exemplo:

82
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

Durante o período em que realizei a coleta de dados do mestrado, havia uma


aluna que ficou doente e não pode ir à escola. Os colegas estavam com saudades
da amiguinha que não podia frequentar a escola, então surgiu a necessidade de se
comunicar através de cartas, visto que os alunos haviam lido a história “ O Carteiro
Chegou”, então a professora trouxe novamente esse livro para a sala de aula e
em forma de seminário os alunos observaram como as cartas eram construídas.
A partir disso, a professora começou a perguntar aos alunos como se iniciava a
carta, então, eles começaram a falar na data, no nome da aluna, e a professora
escrevia no quadro todas as informações descritas pelas crianças, escreveram
que estavam com saudades, contaram algumas atividades que fizeram em sala
de aula no período em que ela estava em casa. E por fim se despediram. E ali
surgiu uma boa reflexão, em um primeiro momento, as crianças argumentaram
que deveria aparecer o nome de todos, e por fim decidiram simplificar apenas
com “ seus amigos do primeiro ano B”. Quando a carta estava pronta, lida, relida,
revisada, a professora trouxe um envelope, explicou aos alunos como deveria
ser preenchido o envelope, preencheram, guardaram a carta dentro, fecharam o
envelope. E, a professora deixou a carta no correio.

Perceberam que a partir da falta de uma das alunas, surgiu a necessidade


de se comunicar com ela, e a carta foi eleita como um bom gênero discursivo para
exercer essa função, posterior a isso, foi elaborada a carta, e postado no correio.
Mesmo as crianças não conseguindo escrever a carta toda, a professora foi
instigando sobre o que eles gostariam de escrever. Ou seja, o fato de as
crianças estarem se familiarizando com a escrita é apenas um detalhe, Para Dolz e
Schneuwly
isto não poderá ser o empecilho para a produção textual.
(2004, p. 97) “a
sequência didática
é um conjunto
h) Sequência didática de atividades
escolares
organizadas,
Para as crianças que já estão alfabetizadas uma boa dica para de maneira
o seu planejamento das aulas de produção de texto, é a utilização de sistemática, em
sequências didáticas, essa é uma metodologia de ensino que auxilia torno de um
gênero textual oral
na inserção das crianças nos diferentes gêneros discursivos. ou escrito”.

A sequência didática é um conjunto de atividades escolares


organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual
oral ou escrito. (DOLZ e SCHNEUWLY, 2004, p. 97).

Vamos entender quais são os elementos essencias que a compõem, observe


a imagem que segue:
83
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Figura 21 - Sequencia didática

Fonte: Dolz; Noverraz; Schneuwly (2004, p. 98).

Na apresentação da situação, o professor apresenta o gênero discursivo e


os alunos conversam no coletivo sobre o que conhecem desse gênero.

Na produção inicial, cada aluno, ou grupo, elabora um texto dentro do


gênero discursivo que será estudado, é importante que o professor deixe essa
produção livre para observar o que os alunos já dominam sobre o gênero e o que
precisa ser estudado. A partir dessa produção, o professor fará um levantamento
do que deverá ser trabalhado em sala de aula para o sucesso na produção final.

Os módulos poderão ser divididos em aulas, semanas, dependendo de cada


professor, e estes poderão ter um número infinito, dependo do que os alunos
já sabem, e o que precisa ser estudado. Como por exemplo: se a escolha foi
o gênero fábula, os alunos precisam compreender: como utilizar um parágrafo,
como fazer pontuação, que esse gênero deverá ter uma moral ao seu final,
explícita ou implícita. Nesses módulos o professor irá organizar atividades para
trabalhar as fragilidades dos alunos.

Na produção final, os alunos irão elaborar um texto a partir desse gênero e


neste momento serão avaliados, o que deverá ser feito uma comparação entre a
produção inicial e final e verificar os avanços que as crianças obtiveram.

A sequência didática foi criada para o aprendizado do texto


escrito, mas a revista nova escola apresenta vários exemplos
de sequências didáticas que nem sempre trabalham com o foco
na escrita. Vale pensar nos objetivos que se quer atingir com
determinada atividade.

84
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

Atividade de Estudos:

1) Elabore uma sequência didática para trabalhar com o gênero


discursivo poesia, a sua turma é um segundo ano e eles irão
trabalhar em duplas.
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Para finalizar esse capítulo vamos ler o texto sobre a “Receita de


Alfabetização” e a partir dele refletir sobre o papel da escola, da criança e do
professor no processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. E lembre-
se, a receita quem irá fazer e os ingredientes quem irá escolher é você professor.

RECEITA DE ALFABETIZAÇÃO

Ingredientes:

1 criança de 6 anos
1 uniforme escolar
1 sala de aula decorada
1 cartilha

85
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Preparo: Pegue 1 criança de 6 anos, limpe bem, lave e enxágüe


com cuidado. Enfie a criança dentro do uniforme e coloque-a
sentadinha na sala de aula (decorada com motivos infantis). Nas oito
primeiras semanas, sirva como alimentação exercícios de prontidão.
Na nona semana, ponha a cartilha nas mãos da criança. Atenção:
tome cuidado para que ela não se contamine com o contato de livros,
jornais, revistas e outros materiais impressos. Abra bem a boca da
criança e faça com que ela engula as vogais. Depois de digeridas
as vogais, mande-a mastigar uma a uma as palavras da cartilha.
Cada palavra deve ser mastigada no mínimo sessenta vezes. Se
houver dificuldade para engolir, separe as palavras em pedacinhos.
Mantenha a criança em banho-maria durante quatro meses, fazendo
exercícios de cópia. Em seguida, faça com que a criança engula
algumas frases inteiras. Mexa com cuidado para não embolar. Ao fim
do oitavo mês, espete a criança com um palito, ou melhor, aplique
uma prova de leitura e verifique se ela devolve pelo menos 70% das
palavras e frases engolidas. Se isso acontecer considere a criança
alfabetizada. Enrole-a num bonito papel de presente e despache-a
para a série seguinte. Se isso não acontecer se a criança não
devolver o que lhe foi dado para engolir, recomece a receita desde
o início, isto é, volte aos exercícios de prontidão. Repita a receita
quantas vezes for necessário. Se não der resultado, ao fim de três
anos enrole a criança em um papel pardo e coloque um rótulo: Aluno
Renitente. Se não gostar da receita PARABÉNS. Nesse caso use a
alfabetização sem receita.

ALFABETIZAÇÃO SEM RECEITA

Pegue uma criança de seis anos mais ou menos, no estado


em que estiver, suja ou limpa, e coloque-a numa sala de aula onde
existam muitas coisas escritas para olhar, manusear e examinar.
Sirva jornais velhos, revistas, embalagens, anúncios publicitários,
latas de óleo vazias, caixas de sabão, sacolas de supermercado,
enfim, tudo o que estiver entulhando os armários de sua casa ou
escola e que tenha coisas escritas. Convide a criança para brincar e
ler, adivinhando o que está escrito. Você vai descobrir que ela sabe
muita coisa! Converse com a criança, troque idéias sobre quem são
vocês e as coisas que gostam ou não. Depois escreva no quadro
algumas coisas que forem ditas e leia para ela. Peça à criança que
olhe as coisas escritas que existem por aí, nas ruas, nas lojas, na
televisão. Escreva algumas dessas coisas no quadro. Deixe a criança
cortar letras, palavras e frases dos jornais velhos. Não esqueça
de pedir para que ela limpe a sala depois, explicando que assim

86
Capítulo 4 As Práticas Sociais de Escrita

a escola fica limpa. Todos os dias leia em voz alta alguma coisa
interessante: historinhas, poesia, notícia de jornal, anedota, letra
de música, adivinhação, convite, mostre numa nota fiscal algo que
você comprou, procure um nome na lista telefônica. Mostre também
algumas coisas escritas que talvez a criança não conheça: dicionário,
telegrama, carta, livro de receitas. Desafie a criança a pensar sobre
a escrita e pense você também. Quando a criança estiver tentando
escrever, deixe-a perguntar ou ajudar o colega. Aceite a escrita da
criança. Não se apavore se a criança estiver comendo letras. Até
hoje não houve caso de indigestão alfabética?.Invente sua própria
cartilha, selecione palavras, frases e textos interessantes e que
tenham a ver com a realidade da criança. Use sua capacidade de
observação, sua experiência e sua imaginação para ensinar a ler.

Fonte: Disponível em: < http://portaldoprofessor.mec.gov.br/


fichaTecnicaAula.html?aula=6059>. Acesso em: 15 set. 2011.

A partir da leitura desse texto você deve ter percebido que receitas prontas
só existem na cozinha e mesmo assim precisam ser, as vezes, adaptadas. E que
mesmo que você atue sempre com o primeiro ano, cada ano será único, pois cada
turma terá suas particularidades, pois cada sujeito vive em um contexto social
diferente, mesmo morando na mesma comunidade.

Algumas Considerações
Neste capítulo conversamos sobre os gêneros discursivos escritos na sala
de aula nas aulas de alfabetização e nos anos iniciais do ensino fundamental,
além disso, conversamos sobre a importância do professor exercer o papel de
escriba no decorrer da aprendizagem do código escrito.

Aprendemos que a sequência didática pode ser uma metodologia


interessante para trabalhar a produção textual, e a importância de revisar os
textos que escrevemos. Para finalizar esse capítulo lemos um texto em que
aborda a alfabetização sob a perspectiva do ensino tradicional e do aspecto do
letramento. No próximo capítulo conversaremos, um pouco, sobre a Educação de
Jovens e Adultos e a alfabetização desse público que vem crescendo no âmbito
educacional.

87
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Referências
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro & interação. São Paulo:
Parábola, 2003.

SCHNEUWLY, Bernard et al. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas:


Mercado de Letras, 2004.

GÓES, Maria C. R.; SMOLKA, Ana L. B. A criança e a linguagem escrita:


considerações sobre a produção de textos. In: ALENCAR, Eunice S. (org.).
Novas contribuições da Psicologia aos processos de ensino e aprendizagem.
São Paulo: Cortez, 1992.

LEAL, Leiva de Figueiredo V. A formação do produtor de texto escrito na escola:


uma análise das relações entre os processos interlocutivos e os processos de
ensino. Em Rocha, Gladys & Costa Val, Maria da Graça (Orgs.).
Reflexões sobre práticas escolares de produção de texto: o sujeito autor.
Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

88
C APÍTULO 5

Alfabetização e Letramento:
um Olhar para Educação de
Jovens e Adultos

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

33 Compreender o contexto social da Educação de Jovens e Adultos no início


da aprendizagem do código escrito.

33 Conhecer o projeto didático como uma metodologia interdisciplinar.


Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

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Capítulo 5 Alfabetização e Letramento: um Olhar para Edu-
cação de Jovens e Adultos

Contextualização

Caro pós-graduando chegamos ao último capítulo do nosso caderno de


estudos, e aqui iremos conversar um pouco sobre a educação de jovens e adultos
com foco na alfabetização e no letramento, tema que estamos discutindo ao longo
desse material.

A educação de jovens e adultos (EJA) surgiu para atender uma demanda de


pessoas que já eram adultas e não estavam alfabetizadas por diversas razões. E
com isso, essa modalidade de ensino foi ganhando força e ainda hoje faz parte
da realidade educacional brasileira.

Neste capítulo, além de apresentar conceitos sobre a alfabetização e o


letramento iremos refletir um pouco sobre a EJA, pois como já conversado no
decorrer do caderno de estudos, quando falamos de letramento não podemos
deixar de considerar os aspectos sociais. E a EJA tem as suas particularidades
sociais.

Alfabetização e Letramento:
Algumas Reflexões Sobre a EJA
Antes de iniciar os nossos estudos vamos refletir um pouco sobre as
aproximações e os distanciamentos que existem entre a alfabetização das
crianças e dos jovens e adultos.

Atividade de Estudos:

1) Você já atuou como alfabetizadora na EJA e na Educação Básica


Regular? Se sim conte as suas impressões e quais as diferenças
entre os dois contextos educacionais? Se nunca atuou, procure
conversar com um professor(a) que já tenha atuado e registre as
suas impressões.
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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Uma das coisas mais discutidas e reforçadas nos outros capítulos


Um dos pequenos
aspectos que irá desse caderno de estudos foi a importância de olhar para a criança
diferir o trabalho no seu aspecto social, e com o adulto isso não é diferente. Um dos
com as crianças
dos adultos, é que pequenos aspectos que irá diferir o trabalho com as crianças dos
para as crianças é adultos, é que para as crianças é preciso apresentar o material escrito
preciso apresentar que circula a sua volta e fazer com que elas compreendam a função
o material escrito
que circula a social tanto da leitura como da escrita. Já os adultos, compreendem que
sua volta e fazer a sua volta há vários tipos de materiais, escritos e normalmente chegam
com que elas
compreendam a à EJA com objetivos muito claros e definidos sobre a importância de
função social tanto saber ler e escrever. Veja alguns exemplos que alguns alunos da EJA
da leitura como da relataram na primeira aula sobre o motivo que os trouxeram de volta
escrita.
para a sala de aula: ler a bíblia, ajudar os filhos com as tarefas da
escola, compreender o que está sendo falado na televisão, ler jornais
locais, conseguir preencher formulários necessários no dia a dia, entre outros).

Outro fator de suma importância para você que atua, ou deseja atuar com
esse grupo, é compreender as diferentes variações sociolinguísticas e trabalhar
na sala de aula, antes mesmo da aprendizagem do código escrito. O quinto eixo
apresentado no capítulo2 será de suma importância, visto que alguns desses
alunos da EJA já sofreram ou ainda sofrem preconceito linguístico, pois não
conhecerem o código escrito. E com isso, tem um acesso restrito ao material
escrito que circula na sociedade.

Variação sociolinguistica pode ser definida por uma


comunidade de fala que se caracteriza não pelo fato de se constituir
por pessoas que falam do mesmo modo, mas por indivíduos que
se relacionam por meio de redes comunicativas diversas, e que
orientam seu comportamento verbal por um mesmo conjunto de
regras. (MUSSULIN E BENTES 2001).

Dessa forma, surge a necessidade de em um primeiro momento trabalhar


em sala de aula essas questões, assim como também discutir com os alunos o
motivo em que retornaram a escola e conhecer os motivos que os fizeram sair da
escola na época que estudaram.

Estar alfabetizado, ou estar se alfabetizando além de conseguir codificar e


decodificar um conjunto de letras é criar a independência de não depender de
uma terceira para realizo atividades comuns do dia a dia, pois

92
Capítulo 5 Alfabetização e Letramento: um Olhar para Edu-
cação de Jovens e Adultos

É interessante observar que o maior benefício para as


pessoas foi o de melhorar a auto-estima. Poder
escrever o próprio nome, não precisar solicitar ajuda Poder escrever
para usar condução, entender, de alguma forma, o o próprio nome,
mundo letrado que cerca a todos faz os indivíduos não precisar
se sentirem integrados à sociedade que valoriza solicitar ajuda para
a cultura impressa. Ao deixarem de ser cegos às usar condução,
letras, assumem outra posição perante a vida, pois
entender, de
ler e escrever permite o acesso a conhecimentos
antes sequer imaginados. (PELANDRÉ, 1999, p. alguma forma, o
201). mundo letrado
que cerca a todos
faz os indivíduos
Quanto à aprendizagem da escrita, o processo é basicamente o se sentirem
mesmo que ocorre com as crianças, mas é preciso ter um cuidado integrados à
no planejamento das atividades e a forma de tratamento não sejam sociedade que
valoriza a cultura
infantilizados. E é a partir dessa independência que os alunos irão se impressa.
inserindo nas práticas sociais de leitura e de escrita, pois até então
criavam estratégias para suprir as necessidades diárias.

Imagine que você não sabe ler e escrever, como você iria ao
mercado fazer comprar, pegaria o ônibus certo para ir até o centro
na cidade? Se colocar no lugar do outro nos faz compreender as
limitações e as dificuldades que as pessoas encontram no dia a dia.

Trabalhar a aprendizagem do código escrito em uma perspectiva de


letramento é ter a sensibilidade de olhar para a história dessas pessoas observe
o depoimento abaixo:

SENTIDOS DA EJA

Conheço todas as letras, mas juntar é que é o difícil. Minha


professora, quando eu era garoto, ensinava... A lição era assim: letra
por letra. Eu chegava, ficava feliz quando terminava a lição, porque ia
escapulindo. Agora não tem mais nesse panorama. Mas de primeiro
era assim”.

“Comprar um jornal com tanta letra sem saber ler, era um


problema. Eu pelo menos pedia para a pessoa ler alto para eu ouvir.”

“Eu tinha uma namorada em Caruaru, uma menina bem bonita.

93
Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Aí ela mandava carta para mim. Aí eu mandava um colega ler. Aí


ele liae ele mesmo fazia para mim, eu pagava a ele. Ele tinha uma
caligrafia bonita. Quando eu ia lá pra Caruaru – eu trabalhava na
Rodoviária Caruaruense, nessa época eu era cobrador de ônibus –
aí ela ficava elogiando minha caligrafia e eu não sabia de nada.Era
ele que escrevia, né? Ler eu não lia, nem escrevia.”

Depoimentos de Seu Aguinaldo, 60 anos, foi aluno de uma turma


de um projeto de alfabetização de jovens e adultos, desenvolvido
em Recife, no período de 2003/2004, no âmbito do Programa Brasil
Alfabetizado.

Fonte: ALBUQUERQUE, Eliana Borges; LEAL, Telma Ferraz (Orgs.). A alfabetização de


jovens e adultos em uma perspectiva de letramento.Belo Horizonte: Autêntica, 2005. p,13.

Nesse relato, podemos observar em um primeiro momento que o Aguinaldo


admite conhecer as letras, mas compreende que além de conhecer é preciso
estabelecer a relação grafema fonema, para que consiga ler.

No segundo e terceiro momento do depoimento observe que o aluno expõe


o interesse de ler o que estava escrito nos jornais, assim como se comunicar com
uma namorada através de cartas, e como não era alfabetizado, pedia auxílio a
conhecidos e até pagava-os para que lhe auxiliassem.

Se quisermos dissociar esse depoimento, a primeira parte seria no viés da


alfabetização, o segundo e terceiro, ele está inserido nas práticas sociais de
leitura e de escrita – o letramento.

Atividade de Estudos:

1) Elabore um plano de aula a partir do trabalho com um gênero


discursivo para uma turma de alfabetização da modalidade da
educação de jovens e adultos. Lembre-se de apresentar:

• Gênero discursivo, de preferência insira-o na sua atividade;


• Objetivos da proposta
• Descrição detalhada da metodologia que será utilizada
• Duas atividades
• Procedimentos de avaliação

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Capítulo 5 Alfabetização e Letramento: um Olhar para Edu-
cação de Jovens e Adultos

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Além das atividades de leitura e de escrita apresentadas no capítulo 3 e 4 é


interessante com as turmas de EJA, verificar num primeiro momento quais são os
gêneros discursivos que estão presentes no seu dia a dia e começar um trabalho a
partir deles, assim isso os motivará a querer desvendar outros universos escritos.

LEAL, Telma Ferraz; ALBUQUERQUE, Eliana Borges (Orgs.).


Desafios da educação de jovens e adultos: construindo práticas
de alfabetização. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

ALBUQUERQUE, Eliana Borges; LEAL, Telma Ferraz (Orgs.).


A alfabetização de jovens e adultos em uma perspectiva de
letramento.Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Projeto: uma Metodologia de Ensino


Possível

Se você esta cursando a pós-graduação de Alfabetização e


Letramento, a metodologia de projetos será abordada nas demais
disciplinas do seu curso, e é uma forte aliada no seu trabalho
pedagógico em sala de aula.

Se você estiver cursando a pós-graduação em Educação de


Jovens e Adultos, essa é uma metodologia bem interessante
Para Gomes
(2009, p.3), “a para ser trabalhada em sala de aula, e para que seja feito um
prática pedagógica trabalho interdisciplinar.
constitui uma
das categorias
fundamentais da
atividade humana,
rica em valores
e significados, Pensar na perspectiva de projetos é trazer o contexto social para
pois a questão a sala de aula e uma maior integração por parte dos indivíduos. De
metodológica acordo com Gomes (2009, p.3), “a prática pedagógica constitui uma
se torna, muitas
vezes, tão das categorias fundamentais da atividade humana, rica em valores
essencial quanto o e significados, pois a questão metodológica se torna, muitas vezes,
conhecimento”.
tão essencial quanto o conhecimento”. Complementando essa ideia
de Gomes Kleiman e Moraes (2001 p.40), “um projeto está ligado à
vontade de fazer algo, à ação”.
O projeto é a
concretização O projeto é construído no coletivo, obedecendo ao que o grupo tem
da autonomia da
escola através interesse em estudar e o planejamento é feito de modo participativo. A
do trabalho escolha do tema do projeto pode variar, pois podem surgir interesses
coletivo. Trabalhar
coletivamente a partir de visitas exploratórias, da leitura de um livro, de uma dúvida
exige uma ou no decorrer do desenvolvimento de um projeto. Depois da escolha
mudança de do tema do projeto, passa-se para a elaboração dos questionamentos,
mentalidade
que supere o ou seja, o que o grupo pretende aprender no decorrer do seu
individualismo tão desenvolvimento. Os questionamentos poderão servir de roteiro ou
peculiar à nossa
cultura ocidental guia no decorrer do projeto, assim como esses questionamentos podem
e tão arraigado ser alterados se o grupo achar pertinente. GANDIN (2003).
no currículo
estritamente
disciplinar, com Pensando no trabalho coletivo e nas diferentes formas de interação
seu conhecimento desse trabalho, Kleiman e Moraes (2001, p. 43), defendem que
fragmentado.
O projeto é a concretização da autonomia da escola através

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Capítulo 5 Alfabetização e Letramento: um Olhar para Edu-
cação de Jovens e Adultos

do trabalho coletivo. Trabalhar coletivamente exige uma


mudança de mentalidade que supere o individualismo tão
peculiar à nossa cultura ocidental e tão arraigado no currículo
estritamente disciplinar, com seu conhecimento fragmentado.
[...] ao entender um objeto construído na interface de múltiplos
conhecimentos, necessitará articulá-los para o exercício
efetivo da prática social, atravessando, no processo, as
fronteiras entre as disciplinas.

Você pode estar se perguntando quais as vantagens de se trabalhar sob


o vies dos projetos didáticos, Gandin (2003) apresenta algumas vantagens da
pedagogia de projetos:

• Possibilita o estudo de temas vitais, de interesse dos alunos e da


comunidade;

• permite e requer a participação de todos, de modo que o aluno não fica


apenas na postura passiva de “receber” conteúdos;

• abre perspectivas para a construção do conhecimento, a partir de


questões concretas;

• oportuniza a experiência da vivência crítica e criativa;

• ajuda o educando a desenvolver capacidades amplas, como a


observação, a reflexão, a comparação, a solução de problemas, a
criação;

• cria um clima propício à comunicação, à cooperação, à solidariedade e


à participação.

A partir disso, a perspectiva do projeto didático possibilita envolver os alunos


com diferentes gêneros discursivos para que sejam respondidos os diversos
questionamentos levantados, além desses gêneros estarem circulando em
diversas esferas sociais.

Há uma possibilidade de envolver na prática pedagógica tanto a linguagem


verbal como a não-verbal (símbolos, gestos, desenhos, entre outros). Trabalhar o
espírito de autoria, nos registros que serão realizados na medida da progressão
das aulas, será estimulado o espírito investigativo nos alunos, visto que estarão
buscando as respostas das indagações iniciais. E, será um trabalho singular, visto
que poderão ser repetidas inúmeras vezes o tema do projeto, porém o grupo
escolherá diferentes perguntas, buscará diferentes materiais, visto que todas as
salas são heterogêneas.

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Quem irá determinar o tempo do projeto é os alunos e o professor, mas é


preciso que esse projeto tenha um começo, um meio e um fim, no entanto um
projeto poderá se desdobrar em outros se surgir a necessidade. Por exemplo:
No projeto flores, poderá surgir a necessidade de estudar os insetos. Unindo a
metodologia do projeto com as sequencia didática apresentadas no capítulo
4 , deve-se ter cuidado, pois o projeto será o macro, enquanto a sequencia irá
desempenhar uma parte do projeto, ou seja, um projeto poderá ter mais de uma
sequência didática conforme houver a necessidade.

Atividade de Estudos:

1) Converse com um professor que trabalhe com a metodologia de


projetos e peça para ele relatar:

• um projeto que tenha realizado em sala de aula;

• quais as vantagens da utilização dessa prática metodológica;

A partir disso, construa um texto sobre o uso do projeto como


prática pedagógica, e exemplifique os seus argumentos com base no
projeto relatado pelo professor.
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Capítulo 5 Alfabetização e Letramento: um Olhar para Edu-
cação de Jovens e Adultos

Algumas Considerações

Observe o poema de Mário de Andrade:

A coisa
A gente pensa uma coisa,
acaba escrevendo outra
e o leitor entende uma terceira coisa...
e, enquanto se passa tudo isso,
a coisa propriamente dita
começa a desconfiar
que não foi propriamente dita.

Bem, textos são presentes, e queria encerrar esse caderno de estudos com
um texto do nosso querido Mario de Andrade, poeta brasileiro. No decorrer da
nossa interlocução tentei costurar os capítulos desse caderno de estudos com
diferentes gêneros discursivos para tornar a discussão teórica mais agradável de
ser lida e compreendida.

De forma geral, pretendo que ao final dessa disciplina não tenha respondido
a todas as suas dúvidas, mas que a partir da leitura novas indagações tenham
surgido. Afinal, o letramento não é um processo finito. Além disso, pretendo
que essa disciplina tenha conseguido esclarecer a dicotomia Alfabetização
X letramento, pois ambas devem caminhar juntos na sala de aula, mas com
atividades direcionadas para atingir objetivos específicos.

No entanto, é preciso lembrar que para alfabetizar uma criança ou um adulto


é necessário estar apoiado em uma metodologia de ensino. Paratanto, professor
deve compreendê-la em sua profundidade respeitando a proposta curricular da
rede de ensino em que está vinculado, o projeto político pedagógico da escola e o
contexto social dos alunos.

Contudo, olhar para a sala de aula e para o contexto social dos alunos, não
significa se conformar com as práticas sociais que eles exercem na comunidade
em que eles estão inseridos, mas sim transcender e ampliar o repertório cultural
deles. De acordo com Osborne (1996) no viés teórico da pedagogia culturalmente
sensível é desejável que a criança, durante o tempo em que esteja inserida no
ambiente escolar, vivencie experiências bem sucedidas e que os conteúdos
apresentados em sala de aula tragam implicações para a sociedade. O referido
autor ainda expõe que o ponto de partida é o contexto em que o aluno está inserido
e o professor precisa respeitar o aluno, sem deixar de ser academicamente
exigente.

Boa continuação em seus estudos!


Profª JOCIANE

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Teorias do Letramento: as Práticas Sociais de Leitura e de Escrita

Refêrencias
GANDIN, A.B. Metodologia de projetos na sala de aula: relato de uma
experiência.3. ed. São Paulo : Loyola, 2003.

GOMES, S.S; CASTANHEIRA, M.L. Discurso e interação em sala de aula nos


eventos de letramento. In: Anais das 30a. Reunião Anual da ANPEd.: Caxambu
ANPEd, 2007. Disponível em: < htpp://www.anped.org.br/reunioes/30ra/ posteres/
GT10-2808>Acesso em: 28 de maio de 2009

KLEIMAN, A. B; MORAES, S.E. Leitura e Interdisciplinaridade. São Paulo:


Mercado das Letras, 2001.

MUSSALIM, F. e BENTES, A C. Introdução à lingüística. São Paulo: Contexto,


2001

OSBORNE, A.B. Practice into theory into practice: culturally relevant pedagogy
for students we have marginalized. Antropology and Education Quaterly, v. 27,
n. 3. 1996.

PELANDRÉ, Nilcéa Lemos. Ensinar e aprender com Paulo Freire: 40 horas, 40


anos depois. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999. v. 1.

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