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O mito em Eudoro de Sousa

Rui Rodrigues (mec. 25205)

O mito, para Eudoro de Sousa, é a única esperança para os homens, a última porta de acesso à comunhão com a Plenitude a que pertencemos. A mitologia eudoriana é uma voz que clama no deserto espiritual duma sociedade que se ocupa inteiramente com as suas criações tecnológicas, artificiais, e considera desnecessária qualquer preocupação que saia fora da órbita do “homo faber”. Na sua dedicação filológica ao estudo da cultura clássica, mormente a helénica, Eudoro apercebeu-se de que os problemas contemporâneos eram mais do que mera consequência de séculos de evolução da Humanidade, eram problemas que durante séculos haviam sido ocultados sob a forma de mitos.

Como paradigma da civilização ocidental, surgem primeiramente os mitos da antiguidade grega, paradigmatizados nas epopeias homéricas. Porém, as descobertas arqueológicas das primeiras décadas do séc. XX trouxeram uma maior compreensão das civilizações pré-helénicas, em especial dos lugares de Minos e Cnossos. Nesta ilha, a decifração das linguagens aí existentes e a sua aproximação ao grego homérico revelaram que já “havia” deuses antes dos poemas homéricos. Por conseguinte, também haveriam já mitos, antes de Homero e Hesíodo comporem os seus poemas. De facto, segundo Eudoro de Sousa, o mito, antes de o ser, pertence a algo superior e onde é indistinto de outros componentes que o complementam reciprocamente; referimo-nos à religião.

Todos os mitos gregos incluem, sem excepção, a presença, mais ou menos explícita ou determinante, de um deus ou entidade sobre-humana (diríamos, em rigor, trans-humana). No entanto, reparamos que quase nunca vão implicados na relação que os homens têm para com esse deus. Nas festas de celebração de determinadas divindades, o percurso da procissão e as performances efectuadas quase não remetiam paras as estórias que circulavam sobre a figura celebrada; e inclusivamente em determinados contextos, como o de Elêusis, era vedada à comunidade uma parte, talvez a mais significativa, de todo o ritual. Não propriamente ritual, mas rito. É assim que Eudoro define o outro elemento que, a par do mito, constituíam a religiosidade dos gregos, isto é, a sua relação com o transcendente. Porém, de onde viria a disparidade existente entre ambos? Para responder a esta questão, Eudoro de Sousa compreendeu que, a uma dada altura da história da Grécia, rito e mito eram indistintos: «um mito é o significado de um acto ritual» (SOUSA, 2000: 92); um era o complemento do outro: se o mito era o “guião” do

rito, este era a sua actuação, a sua realização em acto. A separação dos dois não constitui o “milagre grego”, mas foi o contexto que o fez possível. De facto,

a partir dessa separação, o rito foi progressivamente obnubilado em favor do

mito, isto é, do relato do que, no rito, era levado a cabo por acções; e a quebra

da união entre mito e rito tem razões que se perdem nas raízes dos tempos.

Segundo a “mitologia” eudoriana, a cisão entre rito e mito começou no aparecimento da linguagem, que marca, simbolicamente, o aparecimento do primado da Razão. Em todo o orbe, o Homem era o único elemento capaz de raciocinar, de entender as coisas e os acontecimentos, o único que percebia a existência de um espaço delimitado pelo mundo terrestre, e um outro espaço somente caracterizável por não se incluir no planeta; os dois planos interagiam constantemente, mas só os homens tinham a faculdade de, conscientemente, o presenciarem; por não serem puro instinto como os demais seres terrestres, por poderem aglutinar mentalmente as leis da Natureza e conceber os princípios pelos quais todo o Universo se rege, os homens julgaram-se os únicos, de entre todos os possíveis, a ter algo em comum com essas forças agentes do cosmo; mais, logo consideraram ter afinidades na própria essência.

O feedback que o Humano obtém do Divino é-lhe desapontante. Quando se

apercebe de que, do ponto de vista do trans-terreno o Homem não é mais do que os outros habitantes do mundo, logo considera que tal ideia é inaceitável; pelo pensamento, e pelo logos que lhe está associado, os homens conseguem assimilar a realidade que os rodeia, ao contrário das animálias instintivas, e da flora que vegeta a sua existência. O Homem, a partir daqui, lutará sempre pela sua valorização, se não aos olhos do Divino, pelo menos aos do Destino, que consideram ser, no esquema do Universo, o nível acima dos próprios deuses. Analisa o meio pelo qual se comunicava com as divindades, que era a sua “religião”, e nela distingue dois componentes essenciais: o mito e o rito. Reconhece no rito o processo através do qual perdia, momentaneamente, as suas qualidades próprias; no rito, o Homem sentia-se despojado do logos, aliava-se às forças da Natureza, em comunhão com as forças divinas, por meio

do

seu instinto – e portanto descia à condição animal, irracional. Por outro lado,

o

mito era palavra, era a história de um tipo de folclore em que os deuses

dialogavam com os homens, quase de iguais; e pelo mito, construído em matéria manipulável pelos homens, podiam dispõ-lo, e reconfigurar esse diálogo de acordo com as suas pretensões ou necessidades próprias.

O Humano começou, assim, a fabricar a sua relação com o Divino; e, para o

fazer, teve igualmente que se privar da relação que o Divino tinha para consigo,

essa relação que punha os homens como animais. Fechando-se na sua existência, designaram tudo o que se situasse fora das suas vidas como sendo algo monstruoso, um abismo de forças telúricas e sombrias, desmedido e irracional (no sentido em que a sua racionalidade era de uma outra qualidade, incompatível com a Razão humana); e, diante de si, o mundo, sobre o qual

podiam agora agir como deuses. Eudoro notou que esta crescente superação dos homens para com os os deuses se simbolizou na sucessão dinástica dos

deuses gregos, não só pelo carácter “humano” da própria existência de gerações que herdam as vidas dos maiores, mas também pela valorização que

o Humano vai ganhando; de facto, de Saturno a Cronos, e deste a Zeus, é

evidente a gradual aproximação dos deuses aos homens, ao ponto de a sua

morada final ser designada, também por eles, a partir de um termo humano (Olimpo); ao mesmo tempo, à medida que, entre os deuses, os filhos usurpam

o poder aos pais, os homens vão ganhando não apenas importância mas

também independência, desvendando os mistérios do mundo e do Universo (simbolizada no mito de Prometeu) : «a constituição da Polis e a definição do Olimpo vão a par» (SOUSA, 2000: 59). Na geração olímpica, o Divino confunde-se com o Humano, e vice-versa; embora mantendo certas diferenças, pois que os deuses continuam tendo faculdades que aos homens estão

vedadas, as similitudes que, na construção dos mitos, os homens criam entre si

e os deuses dá-lhes a ideia, e a esperança, de que também podem alcançar o estatuto de deuses; já o são, para o mundo irracional que existe à sua disposição, mas almejam vir a ser considerados deuses no grande concílio universal.

A partir daqui, toda a religião passou a ser ascensão humana. Quer dizer, o

que numa primeira instância era uma relação entre os humanos e as forças exo-terrenas que comunicavam com o mundo, agora tornava-se o exercício mediante o qual os homens se elevavam até se tornarem deuses, ou dignos dessa designação. Esse exercício passava pelo aprimoramento da faculdade mais importante do ser humano, aquela que estivera na origem da sua discórdia com o Divino: o raciocínio. A partir de uma atitude crítica de conhecimento objectivo da realidade, começou-se a aquisição de um saber científico, exacto, e globalisante, a que pertencia, entre outras mas primeiramente, a filosofia. Para Eudoro, a filosofia é a ciência do pensar, é o estádio em que o logos actua sobre a realidade, definindo-a. Já não eram as coisas que intervinham nos referentes, estes é que moldavam a realidade a que se projectavam. Neste contexto, os mitos, última evidência do contacto primitivo entre o homem e o Divino, tornam-se acessório pedagógico, adorno literário, recurso apenas para dar nome a algo que não influi, directamente, no quotidiano; os eventos mitológicos servirão apenas para educar os homens a serem cidadãos, a se comportarem em sociedade, a não se aventurarem fora dos limites da pólis. A existência dos templos e dos sacerdotes que dedicam as suas vidas à veneração das suas divindades (não querendo aqui referir as comuns infracções cometidas à regras dos cultos), era um meio de deixar os deuses entretidos com quem se sacrificava para eles, e assim o resto da sociedade podia continuar a desenvolver o seu saber humano.

Esta atitude perante o Divino atingiu o seu expoente máximo na Roma Imperial, que assimilara a cultura grega, e o seu desaparecimento deve-se, para Eudoro,

à subvalorização dos deuses: por isso uma religião como a cristã, que punha

em contacto o Divino e o Humano de uma forma inusitada, ganhou importância

a tal ponto de substituir os deuses pagãos: ali, diante dos olhos de todos, apareceu um homem que operava milagres conseguidos por mais ninguém, e

cuja mensagem (embora não fosse esse o seu propósito) fundia o Divino e o Humano, afirmando que o espírito era parte integrante do Deus do Universo, e

era através dele que o homem tinha consciência de si. As religiões clássicas,

incapazes de progredir, redundavam em insatisfação, e os “seus” homens, que tanto haviam querido afastar-se dos animais, eram agora pouco mais que estes, rendidos a estímulos de posse e domínio, de satisfação imediata das paixões mais baixas. A mensagem de Jesus trazia um retorno à ordem que já se verificara na pólis, a um comedimento moral, em que o espírito, elemento divino do homem, conseguisse dominar o animal corpóreo que habitava. Sendo Deus definido como a perfeição moral, o cristianismo incitava aos homens a serem tão perfeitos como Ele, a eliminarem os vícios e as baixas tendências, para poderem ser um só com a divindade. Ainda e sempre a ascensão do Humano, a sua apropriação do Divino; e toda a mitologia será um reforço desta ideia, com um Deus que existe apenas em função dos homens, e com estes a assimilarem em si o “Espírito Santo”.

O paradigma judaico-cristão, embora dividido em diversas correntes,

prevaleceu na cultura ocidental até aos finais do século XIX, conseguindo neutralizar, ao longo dos séculos, alguns movimentos contrários. Na era moderna, porém, começou o seu crepúsculo. O objectivo milenar do homem, que era ser o Divino através da destituição das divindades, conheceu então

uma nova etapa, profundamente revolucionária: a tecnologia. Pelos imensos avanços do saber humano que então ocorrem, descortinam-se as leis da

Natureza com um método puco errático, e adquirem-se competências tecnológicas inauditas até para Deus (cuja imagem ficara para sempre cristalizada nas palavras dos livros sagrados): nunca a divindade apresentara nada semelhante a um comboio, a um transatlântico, a um avião, nunca houver

a ideia de uma arma automatizada, nem mesmo de uma máquina automóvel. O

homem dominava as forças brutas da Natureza, como o vapor, os combustíveis, submetia tudo às suas criações; e em tudo isso Deus estava ausente. Sozinhos, os homens tinham conseguido exceder os seus limites

animais, e eram, agora, somente para o intelecto, para o pensar; o corpo era

um

mero veículo através do qual agiam no mundo. Deus era desnecessário, e

por

isso foi considerado morto.

Num cenário em que o homem, galvanizando a máquina que lhe atesta a trans- animalidade, se torna animalizado diante da mesma máquina (tal como o haviam feito sentir, na primeira idade, os deuses), compete-nos lembrar que

somos ainda seres viventes num mundo do qual dependemos; e que os deuses, apesar das nossas ilusões, continuam sempre no meio de nós: nos mitos está, pois, a revivescência do Divino dentro da cidadela humana.

O caso português reveste-se de uma particularidade pouco ou nada abonatória: para Eudoro, Portugal também se fechou, mas no seu caso fê-lo não perante o Divino mas perante o próprio Humano. Considerou-se favorito entre as demais raças e, preso a um momento da sua história em que ousou sair dos seus limites e alargá-los, infinitizou o seu império, o seu “mundo pessoal”, e todo o território se tornou parte integrante de uma mitologia toda ela desenvolvida em torno da nacionalidade, da excelência do ser-se português. Só quando toda a grandeza se desmoronou, e os nossos sonhos de excelência não nos conseguiram livrar da realidade cruel de um Ultimatum, tivemos verdadeira noção do nosso desfasamento em relação ao resto da Humanidade. E enquanto todos os homens precisam de se reconciliar com o mundo, nós precisamos ainda de nos integrarmos na parcela a que pertencemos: «A filosofia só atinge a universalidade, própria do conhecimento especulativo do absoluto, passado o momento da nacionalidade» (SOUSA, 2000: 282); só então poderemos intentar, como filhos pródigos, o retorno ao Todo universal a que nunca deixámos de pertencer.

Bibliografia

Sousa, Eudoro. Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos (org. Paulo A. E. Borges). Lisboa. INCM: 2000.