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Sumário

Capa
Folha de Rosto
Epígrafe
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo Extra
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo Extra
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo Extra
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Epílogo
Agradecimentos
De acordo com a mitologia grega, Heitor foi um
general e príncipe de Troia. Seu nome vem do grego
Hektor e sua tradução significa “possuo, tenho em meu
poder”
Prólogo

Sete anos atrás...

"Calma, tá tudo bem" — falou baixinho para si mesma


enquanto via o último passageiro do ônibus descer,
deixando-a sozinha na companhia do motorista. Maya
olhou através da janela de vidro embaçada e observou
que do lado de fora a negritude da noite já embalava a
cidade e o farfalhar das árvores era tudo o que se podia
ouvir, além do motor do ônibus. Estava frio, mesmo ali
dentro da segurança do transporte. E além de gelada, ela
se sentia sozinha e desprotegida, embora nunca fosse uma
garota medrosa ou chorona. Nem mesmo quando saía
tarde da noite à procura do pai bêbado pelos bares. Era
sempre assim que acontecia, desde que era menina.
Todavia agora Maya estava se sentindo assustada, ainda
que não fosse a primeira vez que estivesse saindo tarde do
trabalho, o supermercado onde estava trabalhando há uma
semana.

Sua mente foi até Lucas, seu irmão, e calculou que ele
já deveria estar dormindo àquela hora enquanto seu pai
provavelmente estava enfiado em algum bar do bairro. E
isso fez Maya se recordar novamente de que nem quando
ainda era uma garota com seus treze ou catorze anos de
idade sentira tanto medo. Eram lembranças tristes aquelas
da adolescência e não tão remotas como pensava. Tempo
em que sua mãe ainda estava viva, Maya suspirou com
pesar.

Seu pai era um alcoólatra, isso era fato. Sempre fora.


Desde que Maya se entendia por gente. E além de
alcoólatra, se revelara um maldito viciado em jogos. E
Maya podia perfeitamente visualizá-lo agora no meio de
um grupo, gastando dinheiro e fazendo apostas. Os
cassinos agora, para variar, eram o novo point dele. Maya
ainda podia se lembrar das reclamações que a mãe fazia
quando o cambaleante marido chegava em casa toda noite
sem dinheiro. Podia ouvir as discussões dos pais e mais
uma vez pensar no quanto seu pai precisava de ajuda.

sim, ele precisava!

Sentiu a mão gelada na barra de ferro do banco do


ônibus e então passou a se lamentar pelo fato da jaqueta
jeans surrada não ser agora tão quente quanto ela gostaria
que fosse, nem tão nova assim, já que fazia meses que não
se dava ao luxo de comprar alguma coisa nova,
especialmente roupa. Então afastando a mão do ferro para
se abraçar e dessa forma diminuir a sensação de frio,
inspirou o ar dos pulmões e o soltou lentamente pelo
nariz. Suspirou em seguida e voltou a pensar no que a mãe
dela certamente passara ao longo dos anos de casamento.
Não devia ser nada agradável suportar um homem
desajustado e irresponsável, e por isso Maya não queria
nem sonhar que um dia pudesse ter o mesmo fim da mãe.
Nunca ficaria com um homem para ser infeliz ao lado dele
e muito menos para sofrer por ele.
Suspirou com tristeza e resolveu afastar aqueles
desagradáveis pensamentos, visto que eles não lhe traziam
nenhuma boa recordação, pelo contrário, sempre lhe
jogavam na cara a verdade de que sua mãe nunca mais
voltaria para eles. E era ruim ter que suportar a saudade,
como ela vinha tentando suportar desde que aquela mulher
forte e carinhosa morrera, um ano atrás.

Maya ajeitou-se no banco esquentado pelo seu próprio


corpo e decidiu se concentrar no cenário escuro que se
passava como um borrão a seu lado através do vidro da
janela. Se deu conta de que já começava a se sentir
aquecida. Agradeceu em pensamento por isso e desejou
chegar logo em casa para poder dormir quentinha em sua
cama. Então, quando o motorista deu a última curva,
fazendo com que o ônibus ficasse ainda mais perto do
lugar onde vivia na companhia do pai e do irmão mais
velho, Maya se levantou para puxar a cigarra e só então
reparou que lá fora estava tudo ainda mais escuro do que
ela esperava, preto como o carvão.
Tinha que tirar os sapatos e correr, exatamente como
fazia há dias. E foi o que fez. Antes que a porta traseira
do ônibus se abrisse, a garota se preparou. Ao descer os
degraus com habilidade, ainda conseguiu ver através do
espelho retrovisor o olhar preocupado do motorista.
Aquele olhar que ele sempre lhe lançava quando ela
saltava, aquele olhar de alguém penalizado por ver uma
garota tão jovem estar tão solitária chegando num lugar
deserto como aquele. Entretanto, a despeito do olhar
compassivo do homem, ela desceu.

Sem demora, logo olhou para os dois lados, tirou os


sapatos dos pés e fez tudo o que planejara minutos atrás:
correu. Correndo descalça ainda olhou para trás a tempo
de ver o ônibus esperar um pouco por ela antes de dar a
partida e sumir de sua vista. Pelo jeito o motorista estava
mesmo preocupado com seu bem-estar. Aquele homem
deveria ser mesmo um sujeito decente, alguém do bem.
Pensando assim logo alcançou a metade do caminho, mas
foi então que tudo aconteceu. O início do pior momento de
sua vida.
Não estava sozinha no beco e estava prestes a ser
atropelada por uma motocicleta misteriosa. Assustada e
angustiada com aquele farol que lhe cegava os olhos,
tentou continuar o caminho, mas foi tarde demais. O
motoqueiro logo abandonou a moto e avançou em Maya de
um modo que a encurralou. Maya tentou se defender, mas
foi em vão.

—Não! Não! Nãoo!

Tentou se debater, mas não conseguiu. Só soube que


estava perdida. Horrivelmente perdida. Ao que parecia, o
desconhecido não a deixaria em paz. Maya sentiu pavor,
mas mesmo assustada, mordeu a mão dele, o que fez com
que o marginal a empurrasse com raiva, fazendo com que
suas costas encontrassem a dureza e a frieza do muro sujo
que dava para um terreno baldio.

— Por favor, NÃO! — gritou, dominada pela ideia de


ser violentada e morta por ele. No entanto o cara a
ignorou.
— Me deixe em paz, desgraçado! Me deixe em paz! —
berrou, furiosa, tentando se desprender, mas era tarde
demais. Já estava dominada. Sem dúvida o estranho era
mais forte que ela.

Maya chorou ao sentir o sabor da derrota. E então tudo


aconteceu muito rápido. Gritou para que ele parasse, para
que ele não lhe fizesse nenhum mal, disse que ela tinha
algum dinheiro na bolsa e que poderia dar a ele.
Esperneou. Lutou bravamente contra alguém mais robusto
e forte que ela, alguém que era seu algoz, lutou como uma
leoa mesmo quando já não tinha mais forças para sequer
gritar, e então, ao contrário do que desejava e suplicava, o
estranho lhe segurou com firmeza e tapou-lhe a boca com
alguma coisa. Um pedaço de pano sujo que também serviu
para lhe cobrir o nariz e fazê-la amolecer. Maya
cambaleou, se sentindo mal. Ficou tonta... sua audição
perdeu a perfeição, sua razão ficou embaralhada e a partir
de então não conseguiu fazer mais nada.

Me deixe em paz... por favor, me deixe em paz, gritou


em pensamento, pois sua voz não saía. Maya gritava na
consciência, mas ninguém lhe ouvia. Sua boca estava
aberta, mas dela não saía som alíugum.

Então foi capaz de sentir a dor do medo.

Latejante.

Cruel.

Agonizante.

Suas roupas começaram a sair do lugar.

Mãos fortes e pesadas tomaram seus seios da forma


mais repugnante e suja.

Sentiu um corpo bruto pesar sobre o seu...

— Não! Não... — gritava a voz da sua mente, aquela


voz que só ela conseguia ouvir — Eu não quero... que me
toque... por favor, eu... não quero.
O homem não ouvia. Não se importava. E do modo que
lhe arrancava as roupas, mesmo que lhe ouvisse, não iria
obedecer. Maya tentou não pensar no pior, tentou ver o
rosto dele, tentou reconhecê-lo, porém não conseguiu
identificar nada a não ser que ele tinha a pele clara e os
cabelos escuros... um tipo bem comum.

E era ágil...

E impaciente...

E covarde...

Maya sentiu frio. Estava estirada no chão sujo e


gelado, perto do matagal. E não gostava do modo como
estava deitada. Tentou olhar em redor. Sua vista ficava
cada vez mais turva, confusa... as coisas pareciam sair do
lugar... sua audição não voltava ao normal. Não conseguiu
ouvir sequer o som do próprio grito quando o homem
desconhecido a penetrou. Então ela só sentiu dor. Não
conseguiu pôr para fora todo o seu desespero naquela
hora. Porque só sentia dor. A maldita dor. Não pôde
xingar nem soluçar porque sua boca até abria, mas dela
não saía nada. Ou quase nada. E ela só sentia a
insuportável dor.

Seu corpo mole doía. Suas partes íntimas doíam.

O homem deitado sobre ela a feria a cada estocada, a


cada movimento dado.

E ele a feria toda vez que lhe segurava as mãos com


força e lhe mostrava quem era maior.

E tudo o que Maya sentia era a dor.

A maldita dor.
Capítulo 1
MAYA

Dias atuais...

OS ANOS de terapia me fizeram compreender que nem


todos os homens são iguais.

Isso.

Os homens não são todos iguais, Maya. Nem todo


homem é igual.

Respire fundo.

Aceite essa ideia.

Nem todos são iguais.


Nem todos são covardes e brutos como aquele
motoqueiro.

Nem todos são criminosos.

Seu pai não é. É alcoólatra, mas não é um maldito


estuprador.

Seu irmão também não é.

E Andreas. Bem, Andreas não é.

— Quem é a garota? — ouvi a voz não tão baixa do


senhor Rachide ao cochichar com o filho. O homem não
tinha ideia do quanto Andreas era um garoto bom. Que
além de bom, era generoso. Tive vontade de dizer para o
senhor Rachide que ele deveria ter mais orgulho do filho
que tinha.

— É a Maya — Andreas cochichou, visivelmente


constrangido com a forma com a qual seu pai o tratava. Ou
me tratava. Era óbvio que de onde eu estava podia ouvir a
conversa dos dois e era claro que Andreas já sabia
perfeitamente disso.

O homem gordo e muito branco voltou a cochichar com


o filho e ele certamente tinha a convicção de que estava
cochichando e não falando alto. Bom, ou talvez ele não se
importasse com essa diferença.

— Por que trouxe essa garota pra cá? Por acaso ela é
alguma namoradinha sua?

— Não, ela não é. Ela é uma amiga, pai. Uma garota


muito boa, que precisa de ajuda. Poxa, ela tá passando por
uma barra. O pai dela, o senhor Natanael... bom, ele é
alcoólatra. Bebe tudo e gasta todo o dinheiro que ganha na
rua.

— Ah, eu sei o que é um alcoólatra e o que ele faz,


Andreas. Não me trate como se fosse algum burro ou
ignorante.

— Então... a mãe dela morreu há alguns anos e o irmão


dela, bem, é ele quem sustenta a casa.

— E por isso ela tá precisando de trabalho?

— É claro. E não custa nada ajudar, custa? Pensei no


senhor, que o senhor poderia dar a ela alguma função, sei
lá, qualquer coisa aqui na lanchonete. A garota é legal e é
trabalhadeira. Eu conheço ela.

— E há quanto tempo você a conhece?

— Ah, pai, não importa...

— E o que ela sabe fazer? Não pense que esse rostinho


bonito vai me convencer. Não sou um garoto ingênuo e
bobo.

— Shh. Ela pode ouvir... hum, ela sabe muitas coisas,


pai, eu acho. Ela já trabalhou num supermercado, sabe
atender os clientes. Ah, e não tem nenhum mistério num
trabalho de lanchonete. Sejamos realistas.
— Ela sabe fazer algum sanduíche, por acaso?

— Ah, quem não sabe fazer um sanduíche? É claro que


sabe.

— Então vamos fazer um teste. Se ela me preparar um


dentro de meia hora, dou o trabalho a ela, caso contrário,
você vai pegar sua namoradinha pela mão e dar o fora
daqui. Entendeu?

— Fechado.

Merda.

Eu tinha ouvido tudo.

O senhor Rachide queria que eu preparasse um


sanduíche. E eu não sabia ao certo se podia fazer um
sanduíche. Bem, não do tipo que o pai de Andreas queria.
Bom, vou explicar, é claro que eu sabia fazer um
sanduíche, mas talvez fosse mais complicado fazer um do
gosto do dono da lanchonete.
Vamos lá, Maya, você consegue.

Massageei uma mão na outra, pensando no que deveria


fazer, e concluindo que estava ferrada. O problema era
que se eu não passasse naquele teste ou se o pai de
Andreas não gostasse do que eu fizesse... bem, eu na
verdade não dispunha de muito tempo para pensar, tinha
que agir.

Andreas voltou do corredor com cara de derrota e me


lançou um sorriso sem graça, que dizia 'lamento, garota,
fiz o que pude'. Ok, até que ele era mesmo um cara legal.

— Ele vai te contratar, sei que vai, só precisa se


convencer de que é confiável. Hã, conversei com papai e
ele pediu pra você preparar um sanduíche. Coisa rápida e
fácil. Eu te ajudo.

— Um sanduíche? Hum, não sei se posso fazer um


sanduíche... quer dizer, sei fazer um, é claro que sei, mas
nada comparado ao sanduíche que seu pai vai querer, eu
acho.

— Se acalma. É só uma implicância do papai. Ele ás


vezes é intolerante. Não, na verdade, ele é sempre
intolerante, mas... isso não vem ao caso.

— E se ele não gostar, Andreas? Quero dizer, e se ele


não me aprovar nesse teste?

— Ele vai te aprovar. Agora fique tranquila e mãos à


massa. Vamos lá?

— Certo — respirei fundo — E seja o que Deus


quiser... é, isso aí, vamos lá, estou preparada.

— Vem, é por aqui.

Andreas me conduziu até à bancada de madeira velha


da lanchonete e vi o senhor Rachide agora seguir para a
cozinha pronto para dar ordem num grupo de pequenos
empregados. Percebi que os dois homens e a garota não
pareciam ter o semblante de quem trabalhava feliz. Mordi
o lábio pensando que se eu fosse aprovada, era melhor
começar a me acostumar com o timbre de voz alta com a
qual o senhor Rachide falava.

— Tome, pegue isso aqui — prendi o avental que


Andreas me estendeu e o amarrei na cintura, em seguida
peguei um elástico e amarrei meus cabelos num frouxo
rabo de cavalo. Lavei as mãos na pia ao lado. Diante dos
ingredientes sobre uma bancada de madeira, respirei
fundo. Peguei os pães e os abri. Aquilo não podia ser tão
ruim.

Ah, Maya, não seja fraca.

De repente senti a presença de um grupo chegando.


Eram homens elegantes, que não pareciam fazer parte
daquela redondeza. Eles se sentaram numa mesa e
Andreas logo correu para atendê-los. Um deles era alto,
loiro e muito atraente. Estava agora de costas para mim.
Na verdade, o grupo, embora misterioso, conversava
animadamente e por isso não consegui deixar de desviar
meus olhos deles.

Foco, Maya, foco, garota. Precisa fazer esse bendito


sanduíche ou então vai ficar sem emprego.

— Tudo bem por aqui? — o senhor Rachide veio de


repente, me assustando. Seu tom de voz era mesmo alto e
me senti desconfortável por imaginar que toda a
lanchonete podia ouvir agora o que ele falava para mim.

— Tá tudo bem, senhor Rachide.

— Ótimo — falou antes de se afastar de novo. Nesse


momento vi um dos caras elegantes virar-se para me
encarar. Seus olhos se perderam por um momento nos
meus. Logo desviei. Eu só queria que Andreas voltasse
sem demora para me ajudar com o sanduíche. Apenas para
me dizer que estava tudo do jeito que o pai dele gostava,
mas para o meu desespero, Andreas passou por mim
apressado com uma lista de novos pedidos.

— Andreas? — chamei, mas ele não me ouviu.


Nervosa, pensei em ir atrás dele e dizer que precisava de
ajuda, entretanto ele se afastara rápido demais.

— Oi— me surpreendi com o loiro lindo em minha


frente. Quase estremeci. Era alto, bem alto, forte e tinha
um sorriso encantador, além de olhos ternos.

— O-oi — gaguejei.

— O que é isso que está fazendo? — desviou os olhos


para as minhas mãos — Hum, não sei, não mas algo me
diz que está muito nervosa. Ouvi o homem falar que é seu
primeiro dia. É verdade?

— Pois é — forcei um sorriso, querendo mostrar para


ele e para mim mesma que estava tudo sob o controle —
Bem, na verdade, é só um teste. Não sei se vou ficar no
emprego.

— Ah, você vai, me parece que está indo bem —


voltei a olhar para ele e vi seus olhos ainda presos nas
minhas mãos inquietas. Tive vontade de pedir que ele
parasse de me olhar.

— É, tô tentando.

— Por que não acrescenta mais um pedaço de tomate?


— sugeriu, apontando.

— Mesmo? — o que ele pensava que estava fazendo?


Eu era a cozinheira agora, certo? — Bom, tá tudo bem, eu
sei o que estou fazendo. Obrigada.

— Certo, não vou atrapalhar — se retirou, deixando o


delicioso cheiro de seu perfume importado, e só então
percebi que alguém lhe chamava. O cara era bonito. E
tinha um sorriso tranquilizador, do tipo que nos dizia que
estava tudo bem. Suspirei.

Tentei desviar o olhar, mas notei que o loiro


desconhecido tinha voltado para perto dos amigos dele.
Nenhum deles tinha recebido seu pedido ainda e eu
imaginei que Andreas estivesse todo atolado lá dentro da
cozinha enquanto levava uma senhora bronca do pai dele.
Pensei no que o loiro falara para mim segundos atrás
sobre eu acrescentar mais um tomate no sanduíche e então
comecei a partir mais uma rodela para colocá-la entre os
pães. Foi nesse momento que Andreas apareceu,
carregando uma grande bandeja com os pedidos dos
homens elegantes da mesa. O senhor Rachide veio logo
atrás. Vi Andreas falar com os amigos do loiro bonito e
perdi o ar quando senti a presença do senhor Rachide
perto de mim.

— Então, vamos ver como foi seu desempenho...


hum...

— Ainda não acabei...

— Ah, acabou sim. Tá na hora. Aqui é tudo


cronometrado, garota, não se esqueça nunca disso. Os
clientes têm pressa e eu também.

— Certo, senhor...

— Vamos ver... — e franziu a testa antes de fazer uma


careta — O que você fez aqui, afinal?

— Um sanduíche... como o senhor pediu.

— Isso não é um sanduíche. Que porcaria é essa?


Parece com aquelas coisas feitas nessas barraquinhas de
rua por aí.

— Se puder me dar mais tempo, garanto que posso


fazer um outro melhor. É que fiquei nervosa...

— Não temos tempo pra nervosismos, mocinha. Isso é


trabalho, não parque.

— Com licença? — alguém chamou, fazendo com que


o senhor Rachide voltasse o rosto para encontrar com o
sujeito. Meu corpo gelou. Era o loiro monumental que
estava há dois minutos me espiando.

— Pois não? — o senhor Rachide amaciou dessa vez a


voz —Tudo bem lá na mesa, cavalheiro? Precisam de
mais alguma coisa? O prato não ficou bom como
esperava? Quer um outro?

— Na verdade, está tudo bem, senhor, é só que estou


vendo essa moça preparar esse sanduíche aí e pensei se
meu apetite se renovava. Acho que sim. Ele está com uma
cara ótima e tanto eu como os meus amigos vamos gostar
de provar um ou dois.

Eu fiquei chocada.

Era sério aquilo?

O senhor Rachide, assim como eu, piscou os olhos,


confuso. Estreitou agora os olhos para o loiro de sorriso
fácil e depois mirou nos amigos elegantes dele na mesa.

— Oh, claro. Claro que ela vai preparar os


sanduíches, senhor, ela está aqui mesmo pra isso. Anda,
mocinha, vamos lá, preparando esses mesmos sanduíches
para os cavalheiros daquela mesa.

— Sim, senhor.
O loiro murmurou um “obrigado” mas nem pareceu se
importar com o modo bajulador com o qual o
senhor Rachide falava com ele. Continuou a me encarar.

— E não custa nada dar o emprego à moça — deu um


leve soco no ombro do senhor Rachide antes de se afastar
— Acho que ela já provou que sabe trabalhar.

O cara loiro voltou a se sentar em sua mesa e fiquei


com os lábios entreabertos, pensando se eu conseguiria
me concentrar em mais alguma coisa que não fosse nele.
Suspirei. Tentei em seguida esconder meu sorriso, mas
então fui agraciada com a voz autoritária do senhor
Rachide.

— Mais sanduíches, mocinha! Anda, vamos lá!

***

Homens elegantes gastam dinheiro como água e depois


vão embora em seus carrões. Homens elegantes e ricos
não dão a mínima para garotas pobres e iludidas como
eu.

Desde que o loiro e os amigos dele foram embora, eu


me senti uma ingrata por não ter dito nada a ele, nenhum
agradecimento. Eu devia ter tido mais coragem. Ao menos
agradecer pela forma como aquele cara bonito e simpático
me ajudara, queria dizer para ele que ele tinha sido muito
generoso e legal comigo. Queria dizer para ele que Deus o
abençoasse e que ele já tinha feito uma boa ação naquela
noite. Era por causa de caras assim como aquele que eu
achava que todos eles tinham salvação. E quando
finalmente cheguei na porta para tentar lhe dizer um
simples obrigado, já era tarde demais. Eu não sabia para
onde eles iriam ou se eu o veria outra vez. Provavelmente
não.

— Maya! — Andreas chegou perto e ficamos lado a


lado na porta — Que foi? — olhou para onde eu estava
olhando — Conhece aqueles caras?
— Eu? Não. E você?

— Também não. Não parecem da redondeza.

— É que um deles foi muito gentil hoje comigo. Se não


fosse por ele, seu pai não teria me dado o emprego.

— Meu pai falou que eles gostaram do seu sanduíche.


Acho que você só provou que saber fazer um.

Sorri para Andreas, que sorriu de volta. Voltei a olhar


para fora da lanchonete. Fazia uma bela noite.

— Eles não costumam vir aqui. Na verdade, foi a


primeira vez que os vi. Gastaram uma boa soma de
dinheiro só esta noite e ainda deixaram gordas gorjetas.
Papai falou que seria muito bom pra ser verdade termos
sempre fregueses assim.

Abaixei os olhos e sorri com tristeza. Um misto de


melancolia e desânimo. Então nunca mais vou vê-lo,
pensei comigo mesma. Foi então que percebi que eu
estava tendo devaneios e eu não era uma garota que
costumava ficar com a cabeça fora do lugar. Não que não
sonhasse com um amor maior que a vida, mas não
costumava me apaixonar por cada cara bonito que
aparecia sorrindo para mim.

— Maya?

— Hum, acho que é melhor voltar a trabalhar, antes


que eu perca o emprego no mesmo dia em que o ganhei.

— Quer horas vai pra casa?

— Depois das oito.

— Se quiser, posso levar você.

— Ok.

***
Já passavam das nove quando cheguei em casa. Não
gostava de chegar tarde porque nunca poderia esquecer
quão perigosa era a noite, sobretudo para uma garota
como eu. No entanto não era algo que dependesse de mim.
Eu simplesmente precisava trabalhar e precisava manter
meu emprego. Conclusão: tinha que me adaptar aos
horários da lanchonete, mesmo sabendo que o emprego
não era tão bom assim. Na verdade, era o único que eu
tinha. Andreas tinha me acompanhado até a esquina de
casa e depois voltado pelo caminho percorrido. E apesar
de ter uma pessoa me acompanhando, eu nunca iria
esquecer o que acontecera sete anos atrás... ás vezes eu
sonhava com o criminoso, via seu rosto, sentia suas mãos
ásperas em mim, e em meu sonho eu o matava. Matava-o
sem piedade, com meus próprios punhos. Em seguida
acordava, suada, assustada, me sentindo mal. Ás vezes,
em meus sonhos, eu também só chorava e suplicava para
que ele parasse e não me machucasse. E então eu
acordava. E percebia que era pesadelo.

— Por favor, Jarbas...


Agora as vozes do presente voltavam mais altas. As
vozes... eram mais nítidas agora e pareciam reais.
Apressei os passos. As vozes ficavam mais próximas à
medida que eu me aproximava. Uma era a do meu pai,
reconheci. Ele falava com alguém. Não, não era conversa.
Era discussão. E a outra voz parecia de alguém muito
furioso com ele.

Avistei um carro preto um pouco familiar perto da


casa, mas não pude identificar de onde eu o conhecia e
nem podia reconhecer ninguém lá dentro.

— Heitor foi muito compassivo com você,


Natanael — a voz furiosa voltou a repetir — Tá mesmo
pedindo pra morrer, cara. Tá brincando com fogo e vai
acabar se queimando.

— Eu vou pagar, juro que vou. Só preciso de mais


tempo, talvez alguns dias...

— Tem até o fim da semana. Ou dá a merda da grana


ou então vai sofrer as consequências. As consequências
vão levar você pra debaixo da terra, Natanael. Não diga
que não avisei.

As consequências vão levá-lo pra debaixo da terra! O


quê?!

Estremeci.

Jesus, sobre o que eles falavam? A voz do homem era


fria e me passava a sensação de perigo. Não vi quando o
tal do Jarbas saiu porque assim que senti que era fim de
conversa, me escondi na lateral da casa, o rosto colado no
muro cimentado. Senti meu coração bater
assustadoramente enquanto eu torcia para que ele não me
visse ali.

Meu pai gaguejou. Pareceu tentar suplicar por mais


misericórdia, no entanto o homem o ignorou e só ouvi os
berros que ele deu antes de seguir em direção à saída. A
porta bateu, fazendo um estrondo, depois ouvi passos
rápidos, indicando que o desconhecido passara por ela.
Ainda escondida, ouvi o motor do carro preto ranger antes
de dar a partida.

Quem eram aqueles caras?

Quem era Heitor?

O que eles queriam?


Capítulo 2
MAYA

QUANDO O CARRO fugiu do meu alcance, saí do


esconderijo e entrei em casa. Encontrei meu pai nervoso,
aparência tensa. Era tocante ver o pai da gente assim,
desesperado e humilhado, chorando feito criança. As
mãos ele mantinha no rosto enrugado e cansado. Estava
alcoolizado, eu sabia, mas parecia estar mais sóbrio do
que o de costume. Seu corpo magro balançava a cada
soluço dado.

Larguei a bolsa na mesa de madeira e me juntei a ele.


E eu já chorava a seu lado. Fosse o que fosse, eu já
lamentava. Sabia que era grave. Nunca antes nenhum carro
com homens desconhecidos surgira em frente à nossa casa
e eu tinha medo do que ainda poderia acontecer.

Escutara boa parte da conversa. O homem sinistro


chamado Jarbas ameaçara meu pai dizendo que ele
sofreria as consequências. Eu até podia imaginar a
confusão: papai devia estar devendo algum dinheiro
relacionado a jogos no cassino. Todas as terças, quartas e
quintas ele ia até lá. Ás vezes passava noites fora e só
voltava ao amanhecer do outro dia.

— Vamos dar um jeito nisso, pai, não sei o que


aconteceu, mas sei que vamos dar um jeito — sussurrei,
agachada, abraçando-o — Vamos dar um jeito nisso, ok?
Está tudo bem.

— Me desculpe, filha — meneou a cabeça, chorando


— me desculpe, a culpa é toda minha.

Eu sabia que era dinheiro. Era óbvio que era dinheiro


e pelo jeito dessa vez papai tinha passado dos limites.

Sentindo o cheiro forte de bebida, me lembrei de


quando era pequena e via papai e mamãe brigarem. Na
época eu ainda não tinha noção do que era exatamente uma
pessoa alcoólatra. Não entendia porque papai fazia todas
aquelas coisas para irritar mamãe. Não conseguia
compreender porque ele a fazia chorar, mesmo dizendo
que a amava.

Na adolescência comecei a me dar conta de que meu


pai era doente e então logo depois que minha mãe morreu
ele se transformou num viciado em jogos. E eu não tinha
mais força para combater aquele mal, só sabia que
precisava manter a cabeça no lugar e agir com
sobriedade. Antes de qualquer coisa, precisava entender
em que confusão dessa vez meu pai estava. E apenas
porque ameacei ir à polícia, ele me explicou, algum tempo
mais tarde, qual era o problema.

Havia um homem. Heitor. Heitor Romano. Meu pai


devia algo em torno de cinquenta mil reais a ele e isso só
em dívidas com jogos. E obviamente não tínhamos nem
como começar a pensar em pagar aquele dinheiro. Sem
falar que era muita grana para um prazo muito curto de
tempo. E para piorar tudo, o chefe da máfia tinha nos dado
uma semana!
Uma semana!

Olhei para meu pai e voltei a falar que tudo ficaria


bem e que nada estava perdido. Não era exatamente o que
eu pensava, mas era nisso também em que eu precisava
acreditar.

— Tudo vai ficar bem, pai, acredite.

Lucas chegou pouco tempo mais tarde e ficou muito


puto da vida quando descobriu em que enrascada nosso
pai estava envolvido agora. Meu irmão era o único que
trabalhava fora e, portanto, o responsável por pagar todas
as contas, visto que a merreca que nosso pai ganhava da
aposentadoria dele saía da mesma forma que entrava.

— Não quero saber o que aconteceu! Eu tô fora! —


Lucas explodiu, batendo a porta do quarto com violência.
Do lado de fora, suspirei e pensei em alguma solução.
Infelizmente não havia muitas.
***

Na manhã seguinte acordei agitada. Na verdade, mal


pregara os olhos na cama. Era difícil dormir sabendo que
seu pai e toda a sua família pereceria dentro de poucos
dias se uma quantia astronômica não fosse paga.

Durante toda a madrugada pensei em como conseguir


levantar a grana, mas então me dei conta de que não tinha
muita saída. Pensei em pedir dinheiro emprestado a
Andreas, mas mesmo ele sendo tão legal e generoso
comigo, era muito jovem para ter de onde tirar aquela
quantia. Pensei em vender tudo o que tínhamos. Não
era muita coisa, contudo valia apostar tudo na hora de
arrecadar dinheiro. Sem perder tempo pensando no
assunto, anunciei alguns móveis na internet e pensei que se
ao menos conseguíssemos arranjar a metade do dinheiro,
já era alguma coisa, e depois eu poderia conseguir um
empréstimo...
Anunciei a cama, a geladeira, o fogão, a lavadora,
entre outros móveis. Lucas, por fim, acabou concordando
em anunciar o carro velho que tinha. Também vendeu a
bike. Aos poucos os compradores começaram a surgir,
para nos dar novas esperanças, embora nada daquilo
ainda fosse o suficiente. E a cada segundo que o relógio
soava me deixava mais tensa e desesperada. Não queria
morrer. Acima de tudo, não queria ver meu pai e meu
irmão morrerem. Já tinha perdido minha mãe e sabia
muito bem como era doloroso ver alguém querido partir.
Principalmente de uma forma tão trágica. Não suportava a
ideia de papai ou Lucas morrer nas mãos da máfia. E
papai também não aguentaria nos perder.

Novos dias se passaram e não arrecadamos muita


coisa, contudo ainda havia algum fio de esperança. Certa
manhã papai e Lucas me olharam, desanimados. Tínhamos
conseguido apenas dezenove mil e setecentos. Não era o
suficiente. Estava longe de ser o suficiente. Precisávamos
de mais.
— Não vamos conseguir — Lucas resmungou, se
afastando da mesa.

— Vou ao banco — afirmei.

— Não vai conseguir um empréstimo, Maya. Eles não


emprestam dinheiro pra quem não tem emprego.

— Tenho a lanchonete agora — dei de ombros.

— Ah, não é um bom emprego.

— Mas mesmo assim, vou tentar a sorte.

Foi duro perceber que Lucas tinha razão. Cheguei às


nove no banco, enfrentei uma fila infernal e quando
finalmente consegui falar com o gerente e explicar toda a
minha situação, ele foi categórico: não aprovaria o
empréstimo. Levei as mãos trêmulas à cabeça. Eu já tinha
dormido mal aquela madrugada, tinha ouvido desaforos
do senhor Rachide por ter pedido para chegar mais tarde
na lanchonete e agora eu estava arrasada. Diante do
homem bem alinhado de terno e gravata, expliquei que
precisava do dinheiro, mas isso não funcionou.

— Lamento, senhorita, mas infelizmente não será


possível. Não tem emprego fixo, qualquer renda fixa e,
portanto, não podemos ajudá-la.

— Por favor, é um caso de vida ou morte.

— Lamento — despediu-se cortesmente antes de


chamar um novo cliente, me fazendo compreender que não
poderia insistir.

Ok.

Meu mundo caiu.

Só havia mais um dia e não tínhamos conseguido nem a


metade do dinheiro!

Voltei para casa e encontrei meu pai bêbado, a garrafa


de bebida pela metade estava na mão.
— Ah, pai, mas que droga! Estamos nessa situação por
causa de você e não para de beber!

Gritei. Esperneei. Xinguei. Tratei papai como criança


porque naquele exato momento era isso o que ele era: uma
criança. Uma criança teimosa e inconsequente. E gritei
com ele porque eu também precisava extravasar um pouco
e abandonar aquele pedestal da segurança em que estava.

Suspirei.

Me deixei cair no chão e levei as mãos ao rosto, assim


como fiz no banco, desesperada, vazia de esperanças. O
soluço era capaz de balançar cada célula do meu corpo e
como desejei ter mamãe de volta em casa àquela hora
para me dizer o que fazer, para me consolar e me fazer
acreditar que tudo no final ficaria bem. Mas ela não
estava ali.

Papai sentou-se ao meu lado e me abraçou. Depois


simplesmente deitou-se no chão e apagou. Fiquei com
pena dele. Larguei a garrafa de cachaça que ele segurava
e a coloquei na mesa. Depois eu jogaria todo o seu
conteúdo fora.

— Por que faz isso, pai? Hã, por quê? — murmurei,


sabendo que ele não escutava, e então desejei que tudo
fosse diferente, que a minha vida fosse um pouquinho
melhor e não essa porcaria que era. Lembrei do momento
negro do meu passado e que papai também não estava lá
para me defender quando eu mais precisei dele. Ele não
estava! Certamente estava enfiado em algum boteco da
vida, se embriagando desenfreadamente, sem se importar
com o amanhã.

Chorei.

Nem o chão gelado arrancava de mim a vontade de


chorar. Não tínhamos como conseguir mais dinheiro. Nem
que vendêssemos tudo o que possuíamos, não
conseguiríamos, exceto se vendêssemos a casa. Mas como
venderíamos a velha casa em um dia?
Voltei a olhar para papai dormindo e tive pena dele. Eu
queria tirá-lo dali daquele chão, mas não era forte o
bastante para segurá-lo e carregá-lo até o quarto. E Lucas
não estava em casa para me ajudar. Limpei as lágrimas
com a costa da mão e fui até o quarto onde meu pai
dormia para pegar um lençol com o qual pudesse cobri-lo.
Fosse o que fosse, não conseguia sentir raiva dele. Beijei
sua testa e desejei que ele estivesse melhor no dia
seguinte. E que todos ficássemos bem. Era o meu único
desejo.

Quando a nova manhã chegou, liguei para Tati, uma


amiga. Ela trabalhava num banco e tinha ficado de tentar
um novo empréstimo para mim.

— Consegui apenas três mil, Maya — falou, do outro


lado da linha — Sei que não é o suficiente. Lamento,
amiga.

— Tudo bem. Você não tem culpa. Na verdade, não


tem obrigação nenhuma de me ajudar e mesmo assim
tentou. Obrigada.

— Por que não tenta uma campanha na internet? Sei


lá, talvez consiga uma boa arrecadação.

Eu conhecia as campanhas da internet. Eram sempre


usadas por uma boa causa, o que não era o meu caso. Não
podia fazer uma campanha pedindo dinheiro porque meu
pai bêbado estava devendo à máfia. As pessoas
criticariam e eu ainda terminaria presa. Ou algo pior.
Além disso, tinha o tal do Heitor Romano. E se ele
descobrisse? E se soubesse que eu estava expondo toda
aquela situação na internet? Aí mesmo que me mataria!

— É gente da máfia — murmurei para ela.

— Oh, é verdade, não se brinca com a máfia.


Esqueça o que disse, sou mesmo uma lesada.

— Tudo bem, vou dar um jeito — suspirei — Sempre


dou um jeito e sempre acreditei que há um jeito pra tudo.
— Eu vou tentar pesquisar mais contatos. Qualquer
coisa, te falo.

— Obrigada.

Ainda naquela tarde recebi uma visita nem tão


inesperada. Ele era mediano, cabelos curtos e castanhos.
Pela voz, parecia ter sido o mesmo cara que tinha gritado
com meu pai. Jarbas.

— Já conseguiram o dinheiro?

— Por favor, senhor... estamos arrecadando. Estamos


quase conseguindo. Só precisamos de mais... hum, de mais
um pouco de tempo.

— Nada de mais tempo. Heitor quer todo o dinheiro


hoje. Ou então vão sofrer as consequências.

Engoli em seco.
Já odiava Heitor. Nem o conhecia e já o odiava. E
odiava todos os integrantes do bando dele.

— Temos a metade. Se nos derem mais alguns dias,


posso...

— Nada de mais dias, garota, não ouviu? O prazo


termina hoje.

Engoli em seco.

Ele me olhou com desprezo e a impressão que tive era


de que queria me balear agora. No entanto, ao invés de
fazer isso, pegou o celular e discou.

— Aqui é o Jarbas. Estamos na casa do safado. Ele


não tá. Apenas a filha dele tá aqui implorando por mais
tempo... sim, sim. Ok. Vou fazer isso.

Engoli novamente em seco.

— Moço, pelo amor de Deus, aguardem só mais um


tempo. Eu posso garantir que...

— Até meia noite — falou, categórico — E é melhor


estar preparada.

Jarbas saiu pisando chumbo e eu afundei no sofá, já


imaginando como seria minha morte à noite e o noticiário
da manhã mencionando a triste execução de uma família
na zona mais humilde da cidade. Aflita, tomei uma
decisão. Iria procurar Heitor. Pessoalmente.

Quando meu pai chegou falei grosso com ele e o


obriguei a me dar todas as informações que eu precisava.
Heitor Romano. Era esse o nome do chefe da máfia.

***

Cheguei na boate Del Romano às sete e concluí que o


ambiente era tudo o que eu imaginava. O lugar estava
cheio. Havia música alta, mulheres dançando e se
requebrando. Gente bonita. Eu já tinha ido a boates e a
bailes, mas aquele tipo de entretenimento já não me
divertia mais. Pelo contrário, detestava lugares como
aquele e sempre que pisava em um eu me lembrava de
algumas coisas ruins que tinham acontecido em minha
vida.

Driblando o mundo de pessoas, consegui chegar na


recepção. Uma morena atrás do balcão me encarou.

— Olá, boa noite — falei — Por favor, gostaria de


falar com o Romano.

Ela riu.

— E quem não gostaria?

Estudei a mulher. Cabelo curtinho e muita maquiagem


na face.

— Bom, por favor, é que realmente preciso falar com


ele... é um assunto urgente.
— Lamento, mas ele é muito ocupado. Vários outros
têm assuntos urgentes para tratarem com Romano.

— Por favor, precisa me ajudar.

A mulher me estudou. Analisou meu semblante. Deve


ter percebido que eu não estava blefando.

— Certo, talvez se comprar uma bebida possamos


conversar — se afastou para atender outra pessoa ali
perto. Quando voltou, tirei uma nota de dez do bolso. Era
uma das poucas que eu tinha. Ainda naquela tarde eu tinha
conseguido algum dinheiro emprestado com Andreas, que
tentara descobrir meu problema, em vão.

— Uma cerveja, por favor — pedi.

A morena voltou poucos minutos depois com a bebida


na mão.

— O que deseja com Heitor? — me analisou da


cabeça aos pés, sem disfarçar — Não parece com as
mulheres que andam com ele. Desculpe, mas é que elas
costumam ser mais sofisticadas e exuberantes.

Ah, é? O que importa? Não quero deitar na cama do


chefe!

— Não tenho nada com ele — respondi, um pouco


impaciente — Só preciso... hum, resolver um problema
sério. E infelizmente é só com Heitor.

— Não sei se posso ajudar, mas por que não tenta um


dos guarda-costas dele? — apontou —Eles ficam ali atrás
fazendo a segurança dele. Eles podem levar o Puffy ao
pote de mel, se é que me entende — piscou — Mas aceita
um conselho? É melhor não se meter com essa gente.

Engoli em seco, tendo a sensação de que estava para


descer ao inferno, mas não iria desistir. Não agora que
tinha chegado tão perto.

Larguei o copo na metade e segui pelo corredor


luxuoso da boate. Aquele lugar era, de fato, incrível,
entretanto eu estava muito tensa para admirar onde pisava.
Tudo o que queria era encontrar o chefe e resolver tudo o
que precisava. O som da música alta e as cores coloridas
que giravam o tempo todo quase me deixaram tonta.

— Perdida? — uma voz grossa me assustou.

Ergui o rosto para conseguir ver a muralha à minha


frente. Parecia um touro de tão forte. Negro. De terno e
gravata. Parado e sério. Nenhuma expressão no olhar. Era
óbvio que era um dos seguranças.

— Estou procurando por Heitor Romano.

Franziu o cenho.

— Quem é você?

— Maya.

O grandão me olhou com desprezo e desconfiança.


— Fique aqui, que vou ver o que posso fazer.

Assenti.

Logo senti um frio na espinha.

Os caras lá dentro eram enormes e mal-encarados. E


se Romano fosse um monstro? Que tipo de sujeito
ameaçava matar os outros? Ah, mas é claro, ele era um
mafioso. Administrava cassinos. Cobrava taxas e muito
dinheiro pelos jogos e lances dados. Era alguém mau,
cruel e inescrupuloso. E eu sabia que não devia estar ali,
sabia que era perigoso. No entanto, não tinha nada mais a
perder. Se não morresse agora morreria mais tarde, de
qualquer jeito, então realmente Heitor era minha última
salvação.

Heitor.
Capítulo 3
MAYA

APROVEITEI O INSTANTE em que o homem se


afastou de mim para então eu estudar melhor a boate. Era
bonita, luxuosa, cheia de requinte. Sabia muito bem que eu
não devia ficar fuxicando, eu sabia que aquela boate,
embora alegre e feita para gente riquíssima, tinha um quê
de perigo e uma coisa sombria no ar, mas mesmo assim
não consegui ficar imune à curiosidade. E por mais que eu
soubesse que era mais recomendável ficar na minha, ficar
no meu canto, e evitar qualquer tipo de problema ao olhar
mais do que devia, eu não pude me controlar.

Comecei a inspeção pelo carpete vermelho sangue que


cheirava a estofado novo de alguma poltrona de carro. As
paredes que cercavam os cômodos eram muito sólidas e
feitas de um material aparentemente sofisticado, assim
como toda a variedade dos móveis. Logo a ideia de que
os negócios ilícitos de Heitor Romano deviam dar-lhe
muita grana tomou minha mente e uma revolta irrompeu
em meu peito.

Mas é claro que dão muita grana! Se não dessem, ele


não seria um mafioso e meu pai não estaria naquela
condição, agora preso a uma dívida de cinquenta mil
reais!

Então voltei a pensar no dinheiro que meu pai devia a


Romano. Era, de fato, uma quantia exorbitante. Estava na
cara que o sujeito se beneficiava com os vícios e com a
desgraça alheia e por isso se enriquecia descaradamente.
E mesmo sem conhecê-lo, eu já sentia um ódio profundo
por ele, mas antes que esse sentimento crescesse, um
arrepio tocou a minha espinha e um pensamento invadiu
minha mente avisando que eu não devia demonstrar
qualquer tipo de raiva ou desprezo por Heitor. Pelo
contrário. Devia me manter humilde diante dele, devia
clamar por misericórdia e pedir que ele nos desse mais
um prazo para que pudéssemos finalmente quitar as
dívidas. Talvez conseguíssemos se houvesse mais tempo.
E bom, se Heitor aceitasse me receber já seria um grande
avanço e eu estava agora esperançosa de que aquilo
acontecesse, de que ele concordasse em ouvir o que eu
tinha para falar com ele. E que fosse mais humano e
flexível que seu capanga.

Que os Céus me ajudem...

De onde eu estava podia ouvir o som da música


internacional que vinha lá da frente da boate. Era um som
abafado que me informava de que eu estava mais distante
da agitação do que eu imaginava e meus pés mantinham-se
presos no chão do hall que provavelmente levava ao
cassino. Papai explicou que ele ficava escondido e que
era reservado, em geral, para gente de posses.

A olhos normais, a boate Del Romano era uma típica e


agradável casa de shows, bonita, requintada que servia
como um bom entretenimento para agradar e divertir as
melhores classes sociais, mas eu sabia que tudo aquilo
iria muito além de diversão. Sabia perfeitamente que
rolava coisas ilícitas ali dentro, como bebidas e jogos de
azar. Talvez até drogas.

Heitor Romano, ao que parecia, dirigia uma facção e


mantinha um cassino clandestino no fundo do
estabelecimento. Pelo o que meu pai falara, o cara não
administrava tudo sozinho. Ele fazia parte de uma grande
gangue muito bem organizada e estruturada e era apenas o
responsável pelos negócios de São Paulo. Na verdade,
havia uma série de danceterias espalhadas por outras
partes do Brasil e eles tinham planos de expandir ainda
mais os horizontes, talvez até para fora do país.

De repente ouvi uma música da Katy Perry começar a


tocar e me lembrei de quanto tempo não sentia vontade de
ir para a balada dançar. Fazia tempo que eu não tinha uma
vida social, contudo, isso não me fazia falta. Até porque
bancar a mamãe de meu pai não me dava tempo para fazer
nada.

— Ele tá ocupado, é melhor se mandar — o muralha


voltou de repente, me assustando com a voz grossa e ainda
mais áspera.

— Ele falou isso?

Me olhou com desprezo, arqueando uma sobrancelha.

— Não é da sua conta o que ele falou. Agora se


manda!

— E-eu — gaguejei — preciso realmente falar com


ele, por favor, diga a ele qu...

— Tá surda? Disse pra se mandar!

— É que preciso... — antes que eu terminasse a frase,


um outro cara apareceu e chamou o senhor muralha para
conversar. Os dois começaram a cochichar sem darem a
mínima para o fato de eu estar ainda presente, como se
minha presença pouco importasse. Foi quando uma coisa
louca passou pela minha cabeça. Uma coisa muito louca
mesmo. Aproveitei aquela brecha e o fato do segurança
estar distraído para dar um passo à frente e me afastar de
mansinho, até alcançar o hall por onde o muralha entrara
minutos atrás.

Insegura e olhando toda hora para trás enquanto


percorria silenciosamente o caminho, virei a primeira
esquerda para logo sair da mira do segurança, caso ele
sentisse minha falta. Caminhei mais alguns passos pelo
corredor iluminado de vermelho quando escutei gemidos.
Parei. Ouvi vozes. Eram todas masculinas.

Mesmo tremendo e sabendo que não devia prosseguir,


avancei. Parei novamente quando alguém gritou. Era a
mesma voz da pessoa que gemia e suplicava, mas eles
estavam dentro de alguma sala fechada. Os pelos de meu
braço se eriçaram e me dei conta de que agira mal indo
até ali. Não devia ter driblado o segurança e entrado
naquele corredor sombrio. Talvez não devesse nem ter
procurado Heitor... fiquei ainda mais apavorada quando
os gemidos e pedidos de súplica aumentaram e
consequentemente as vozes irritadas também. Ouvi alguém
mencionar Heitor. Mas eu não conseguia distinguir qual
delas era a voz do chefe.

Quando inesperadamente uma porta pareceu estar


prestes a se abrir, sem pensar em mais nada, entrei na
primeira porta oposta que encontrei, girei a maçaneta e a
fechei por dentro com cuidado. Com o coração acelerado,
corri meus olhos na sala vazia. Era completamente bonita
e arrumada.

Temendo a possível câmera que estava instalada ali,


me arrastei pela parede, como se daquela forma eu
pudesse me esconder. Olhei em volta e estudei
rapidamente a sala bonita, de móveis caros e escuros. As
persianas eram as responsáveis por iluminar um pouco
mais o ambiente, que era bem arejado, e por mais estranho
que fosse, me passava uma sensação de segurança. Não
havia fotos na mesa ou ao redor do lugar, todavia eu sabia
de quem era aquela sala.

Dei mais alguns passos e algo me chamou a atenção.


Obras de arte. Várias delas espalhadas pelas paredes. De
repente ouvi um novo barulho vindo do lado de fora e,
sem pensar duas vezes, joguei-me para baixo da mesa
grande de mogno. Com o coração quase saindo pela boca,
tapei meus lábios, sabendo que de qualquer forma teria
que controlar minha respiração. Vozes em segundos
inundaram a sala. Algumas mais grossas que as outras,
algumas mais baixas e graves, todas novamente
masculinas.

Orando e fazendo um grande esforço para não entrar


em pânico, avistei sapatos elegantes desfilarem de um
lado para o outro sobre o piso de madeira escura. Os
sapatos eram pretos, marrons, e todos eles pareciam muito
bem engraxados, alguns até poderiam andar sobre o lençol
de minha cama. E Heitor Romano estava ali, eu tinha
certeza.

— Heitor? — uma voz falou, confirmando minhas


suspeitas, e reconheci aquele tom áspero. Era o segurança
grandalhão, o muralha que quase me machucou na
recepção, aquele de quem eu me escondera. Ele parecia
nervoso e imaginei que fosse por causa de meu sumiço.
Houve um rápido silêncio e imaginei que o tal do Heitor
fosse lhe perguntar o que acontecera. Deve ter sido
exatamente isso, pois o senhor muralha sibilou.

— É que... hã, uma garota o procurou.

— Uma garota? — a voz metálica e altiva pareceu


desdenhar, Heitor tinha uma voz bonita e ela era grossa —
Várias garotas me procuram quase todos os dias, Ronan.
Por que essa cara de espanto? Não me diga que é a
Claudete que está aí. Ou a amiga dela, a Belle. As duas
são loucas. Uma me agarrou outro dia desses e a outra
ameaçou cortar os pulsos na minha frente se eu não lhe
comesse.

Houve uma explosão de risos, falatórios e piadas,


depois um silêncio e, enquanto isso eu suava frio, tendo a
impressão de que teria um ataque cardíaco caso
suspeitassem de que eu estava ali no chão. Levei as mãos
ao rosto suado e fiz algumas orações mentalmente. Eu não
sabia o que tinha na cabeça quando entrei na sala do chefe
e agora não tinha ideia de como sairia viva dali.

Ferrada, Maya! Ferrada!

As vozes trocaram algumas outras palavras que não


escutei muito bem. Em seguida fui capaz de ouvir um leve
ranger de porta, avisando que alguém saía. Possivelmente
o tal segurança. Outras vozes continuaram conversando e
ouvi novas risadas, piadas e menções de mulheres e
negócios.

Quando a conversa terminou, escutei alguns caras se


despedindo. Torci para que Heitor saísse da sala também,
para que assim eu pudesse escapar, todavia ele pareceu
desafiar meus planos. E pior que isso foi ver belos
sapatos pretos se posicionarem exatamente na frente da
mesa, me cedendo um pouco da panorâmica de suas
musculosas pernas. Prendi a respiração novamente. Eu
sabia que só havia um homem na sala e esse homem era o
dono dela. E então o que aconteceu em seguida foi muito
rápido e assustador. Uma mão firme me puxou com um
simples movimento e me trouxe para fora da mesa, para o
centro da sala. Apavorada, gritei.

— Quem é você, sua vadia? — a voz metálica


perguntou, seu olhar perverso em minha direção. Aquela
voz estava brava e eu sentia minhas pernas fraquejarem
por causa do susto e do medo. Tudo poderia acontecer
comigo ali.

— Por favor, eu... eu posso explicar...

— QUEM É VOCÊ? — berrou — Responda!

— E-eu... eu sou Maya — estremeci — sou Maya...


filha de... Natanael.

Ele não me largou. Pelo contrário. Me jogou contra a


parede e me encurralou lá, pousando um braço ao lado do
meu rosto e o outro acima de minha cabeça, me impedindo
de passar.
— Ah, é, sua piranha? — me olhou com raiva — E o
que a filha daquele traste viria fazer aqui?

Gaguejei. Olhei para o semblante de Heitor Romano e


ele não era muito bom. Estava com raiva. Com muita raiva
de mim. No entanto, eu o conhecia de algum lugar...

— Senhor, eu — abri a boca, mas as palavras não se


organizaram como eu gostaria — por favor, só quero falar
sobre a dívida... só quero falar que vamos pagar...

— É claro que vão pagar. Ou então vão morrer ainda


esta noite. Todos vocês. A começar pelo bêbado maldito
do seu pai — e segurou meus cabelos na altura da nuca —
Mas antes disso vai me dizer como conseguiu entrar aqui
e ficar embaixo da minha mesa.

— Eu só... eu só estava...

— Quem mandou você aqui?

— Ninguém! Ninguém me mandou... meu pai... eu


estava querendo... bom, meu pai nem sabe que vim...

Me segurando novamente com força, me conduzindo


até à porta, então abriu-a e me jogou para fora.

— Ronan! — gritou, exasperado.

O tal do Ronan apareceu em segundos, os olhos


arregalados. E quando Heitor perguntou o que eu estava
fazendo lá dentro da sala dele, Ronan ficou sem
explicações para dar.

— Eu a mandei ir embora. Juro pela minha vida que


mandei!

— Pelo jeito ela não obedeceu. Tire-a daqui. Agora!


— mandou, batendo a porta com raiva. Com muito ódio,
Ronan me puxou pelo braço, quase o quebrando.
Resmungou pelo caminho que eu não devia tê-lo feito de
bobo e me teceu sérias ameaças enquanto me conduzia de
volta hall afora. Quando a música da boate estava bem
mais perto e novos seguranças vieram a nosso encontro,
Ronan parou com o celular no ouvido — Sim... ok, está
bem. Então não é pra despachar? Ok, claro, vou voltar.

Desligou.

Eu fiquei apreensiva. Pelo teor da conversa, ele falava


sobre mim.

— Ele resolveu atender você, cadela — urrou, e num


piscar de olhos fez de volta todo o caminho percorrido. E
eu sabia que meu braço já estava roxo.

Então Heitor Romano mandara me trazer de volta?


Então ele queria falar comigo? Talvez tivesse pensado
melhor e talvez quisesse ouvir o que eu tinha para lhe
dizer. Ou talvez decidira me matar.

Assim que pisei no chão de madeira do cômodo


sofisticado pela segunda vez avistei o sujeito imponente
diante da janela. Em pé. Elegante. De costas.

— Heitor? — o muralha falou — aqui está a cadela.


— Ótimo. Agora saia você — mandou.

Eu engoli em seco.

Tive medo.

Nesse momento me lembrei de que, sim, eu o tinha


visto antes em algum lugar! Claro, na lanchonete! Como eu
poderia esquecer? Mas ele estava tão... tão diferente. Não
parecia o mesmo sujeito... não, ele na lanchonete fora
amável e gentil...

A porta se fechou atrás de mim, avisando que o


segurança tinha saído, então pude constatar o quanto o
chefe da máfia era terrivelmente autoritário e viril. Até
sua voz forte tinha um quê de comando e ameaça no ar.
Abracei a mim mesma, sentindo calafrios. Pensei que
seria o meu fim. O que Heitor Romano faria comigo eu
não sabia, mas não era nada bom.
Capítulo Extra
CHUCKY

— DIGA AO DIOGO que cheguei — falei assim que


as portas duplas de vidro blindado se abriram, me
revelando mais nitidamente a imagem de Elena.

— Ele tá ocupado.

Era sempre assim que ela me recebia. Ele tá ocupado.


Ele tá ocupado. Nunca perdendo a oportunidade de
esfregar na minha cara o quanto eu não era bem-vindo.

Vadia.

— Já falei com ele pelo celular — retruquei — Ele


sabe que eu vinha.

Bastante contrariada, abriu um pouco mais as portas


para que eu passasse por elas, mas não fez nenhuma
questão de perguntar como eu estava ou o que eu gostaria
de beber assim que alcancei a sala. Nem me convidou
para me sentar, todavia, como eu estava me lixando para
as nossas diferenças, me afundei no sofá vermelho como o
sangue.

Claro que não devia cutucar onça com vara curta, no


entanto até mesmo Feroz sabia que minha relação com a
esposa dele era uma droga. Ela tinha ódio de mim,
principalmente por eu tê-la ameaçado várias vezes com
uma pistola na mão, e claro que eu sabia que tinha pegado
pesado com a garota no passado. Se não fosse por Bruno
Elena já estaria morta e enterrada. Sorte dela ter virado a
cabeça do chefe da máfia. Ficava a cada dia mais claro
para todo mundo o quanto Feroz a amava.

A vida não é mole, Chucky, e as mulheres são


perigosas.

Quando conheci Diogo, quase dez anos atrás, ele já era


esse cara foda que é. Jovem, esperto, poderoso, sabia
exercer bem sua influência e convencer as pessoas a
fazerem exatamente o que ele queria. Fui levado até Feroz
porque meu trabalho era bom e tinha lhe interessado. Mas
eu balancei antes de decidir ficar no bando. Achei Diogo
jovem demais e irreverente demais para o meu gosto, por
um instante fiquei cabreiro com ele, queria entender o que
tanto nego via num mauricinho filhinho do general, até
conhecê-lo melhor e perceber o quão malandro e
habilidoso Diogo era. Especialmente nesse mundo de
máfia. Tinha a postura de um líder e sabia falar com as
pessoas e escutá-las como um exímio maestro.

]E o que mais me surpreendeu foi o lance do cara não


fazer distinção entre seus homens. Nada de regalias ou
preferências. Nada de injustiça ou corrupção. Nada de
muitos para uns e pouco para os outros. Diogo era o que
era e não aceitava babaquice de seus subordinados e ele
também não era do tipo que pisava em ninguém. Tinha
suas manias e seus códigos de conduta. Também era
generoso e sábio o bastante para agradar a todos. Nunca
nenhum de seus homens lhe traiu, exceto o idiota do Tony,
que morrera pelas mãos de Feroz.
Diogo também não aceitava drogas e exploração
sexual. E nada de falsidade. Acima de tudo, Del Rei
prezava a união e a hombridade. Se alguém fosse pego, o
que não era comum, morreria com a boca fechada. E em
troca disso receberia todas as homenagens cabíveis. Era
isso ou melhor nem entrar pra máfia.

A primeira vez que nos encontramos, Diogo Del Rei


me olhou nos olhos e avisou que podia ver minha alma,
que sabia o que eu procurava ali em sua facção. "Então é
o seguinte, se quer fazer parte do bando, meus braços
estão abertos. Se não quiser, vai ter que decidir agora".
Esticou a mão e eu a apertei. E nunca mais pensei em
voltar atrás. Como eu tinha sido levado por Romão, logo
fui inserido ao grupo, então minha adaptação não foi uma
das piores. Diogo não era do tipo que confiava
imediatamente, claro, então ficou um tempo todo de olho
em mim, até que os anos passaram e lhe apresentei provas
de que era confiável. E ele confiava.

Se eu me a arrependo de ter entrado para o bando de


Feroz? Não me arrependo. Ganho muito mais grana
trabalhando como seu capanga que qualquer outra coisa
que poderia imaginar. O bando tem uma boa sintonia e
todos os caras são foda. E a ideia de uma família me faz
acreditar que eu devo esquecer o passado e voltar a viver.

— Aê, cara cortada! — a voz de Diogo soou, ecoando


pela sala de estar. Logo o avistei descendo a escada de
mármore. Camisa branca neve, calça preta, nada de terno
ou gravata — Se atrasou hoje. Venha, vamos pro
escritório. Os caras estão lá.

Vi Diogo dar um beijo em Elena, que andava mais


devagar por causa da barriga de grávida. Após o momento
romântico do casal, os olhos castanhos escuros dela
voltaram a me olhar, duros, como se me reprovassem. E
Feroz não estava indiferente ao nosso clima meio que
hostil.

Eu ri em pensamento, pegando um cigarro do paletó.


Se Elena me odiava, que se fodesse ela. Eu não deixaria
de frequentar a casa por causa dela.

— Vai demorar? — Elena quis saber, espalmando a


pequena mão no peito de Diogo. Me concentrei no cigarro
agora aceso na minha boca.

— Logo vou subir — ele falou antes de lhe bater na


bunda. Ambos riram. Elena seguiu em direção à outra
parte da casa e eu segui Diogo até o escritório dele, o
caminho que eu conhecia de cor.

Alguns caras já estavam lá à espera de Feroz, então


ficamos conversando tempo suficiente para resolver os
trabalhos daquela semana. Boate, cassino, apadrinhados
de Diogo, dívidas a serem cobradas e uma porção de
outras coisas burocráticas. Feroz também teria reuniões
com os esquadrões da alta e eu o acompanharia. Depois
dos informes, era hora da diversão. Bebemos e falamos
sobre bobagens. Carros, mulheres, futebol. Jogamos
conversa fora e fizemos piadas - todas elas encabeçadas
por Alvim e Jiraya. No final de tudo, voltamos para a sala
de estar da mansão e foi quando vi a pequenina de Diogo
cair no jardim. Ela não chorou, mas fui até ela.

— Machucou? — perguntei, com um outro cigarro na


boca.

Ela meneou a cabeça dizendo que não. Era esperta e


corajosa. Mesmo com os olhos marejados, não se rendeu
ao choro.

— Deixa eu ver — analisei seu pequeno joelho ralado


— Ah, isso não foi nada.

— Quero o papai — simulou choro e eu soube que o


joelho dela ardia, visto que a Ferozinha não era uma
criança fresquinha.

— Vamos lá nele então — eu a ergui num braço e


voltei com ela para dentro de casa. Foi quando Elena
apareceu.

Parou. Me encarou.
— Solte a minha filha imediatamente! — mandou,
pegando a garota do meu colo.

Todos voltaram-se para nós e a pequenina, por causa


da atitude da mãe, me olhou assustada, como se eu fosse
algum monstro. Elena me disse uns desaforos e avisou que
não me queria outra vez com a criança. Então Diogo
apareceu outra vez na sala.

— O que tá pegando aqui?

— Ele. Seu capanga. Não quero mais esse homem com


minha filha.

— Ei, ei, vamos com calma, ok? O que aconteceu


aqui? — Diogo quis saber.

— Não importa, eu não quero!

— Ah, qual é, eu não fiz nada — falei — Só fui


socorrer a garota.
— Não precisa, ela tem mãe e pai!

Eu ri, doido para mandar aquela mulher ir pro inferno,


mas sabia que o Céu cairia sobre mim se eu fizesse isso.

— Tá rindo do quê? Depois de tudo o que fez ainda se


acha no direito de rir de mim?

Diogo continuou em silêncio, analisando a situação. Eu


tentei não desdenhar mais, no entanto, Elena se aproximou
de mim, com a filha ainda nos braços, me estudou e sem
que eu esperasse, me estapeou. Bem na cara. Surpreso e
irado, eu a fulminei com os olhos.

— O que deu em você, mulher? — grunhi, alterado.

Elena recuou dois passos e Diogo entrou em sua frente,


me peitando.

— Cai fora daqui — mandou, seu tom alto e profundo


como duas espadas cortantes. Seus olhos também
brilhavam e eu soube que ele perderia o controle dentro
de alguns segundos.

— Você viu, ela bateu na minha cara — questionei.

— Sei o que aconteceu aqui, não sou cego. Com minha


mulher converso depois, agora vaza.

— Feroz...

— Ninguém levanta a voz pra minha mulher na minha


cara. Agora anda, cai fora.

— Não ia revidar o tapa — falei. E não ia mesmo, eu


não era maluco. Até porque o tapa dado nem doeu tanto
assim. O problema era a minha reputação. Fui agredido na
frente de todo mundo — Certo, vou indo.

Bruno e os outros caras tentaram fingir que não tinham


visto nada e Elena permaneceu me encarando, escondida
atrás do marido. Diogo fechou o punho, mas respirou
fundo, parecendo menos tenso agora.
Era melhor mesmo eu cair fora.
Capítulo 4
HEITOR

— HEITOR? — Ronan chamou logo após bater na


porta — aqui está a cadela.

Assenti enquanto colocava o cigarro novamente na


boca, pronto para saboreá-lo, para depois então soltar sua
fumaça para fora.

Eu estava de costas, olhava para a janela, mas devia


lhe responder alguma coisa.

— Ótimo. Agora saia você — ordenei, sem mesmo me


virar para encará-lo. Eu não podia deixar de estar puto
com Ronan por ele ter falhado e deixado que a garota
entrasse em minha sala. Afinal, que porra de segurança ele
era? Como permitiu aquilo? E se a filha de Natanael fosse
alguém enviado para inspecionar ou para me matar? Não
seria difícil me imaginar àquela hora já estirado no chão
do meu próprio escritório.

Porra.

Ouvi a porta bater de leve e soube que Ronan tinha se


retirado da sala. Continuei olhando a noite através do
vidro blindado da janela e pensei em minha vida. Nascido
numa família sulista, havia tido uma infância amorosa e
feliz, até me mudar para São Paulo e ver meus pais
morrerem num acidente de carro. E o homem que os
matara estava bem perto de mim. E a filha dele mais
ainda.

Dei mais uma tragada no cigarro.

Da janela olhei um homem cambaleando lá embaixo.


Parecia alterado. Algum dos meus seguranças agora o
enxotavam. Provavelmente o elemento tinha aprontado
alguma coisa no cassino. Droga de bêbados idiotas. E
aquele bêbado me fazia lembrar do sujeito que tinha
acabado com parte da minha vida. E sempre que eu me
lembrava dele, eu sentia ódio. Muito ódio. Um ódio
acumulado que nem meu dinheiro e meu sucesso
aplacavam. E eu sentia sede de vingança. Queria apertar o
pescoço daquele safado com minhas próprias mãos, mas
não era a hora.

Não é a hora, Heitor, relaxa.

Respirei fundo. Me lembrei da garota que Ronan


deixara na sala. A filha do canalha. Estava ali atrás de
mim. Merda. Aquele filho da puta não devia ter entrado
em meu caminho, nem a filha dele.

Enfiei o cigarro novamente na boca e voltei a pensar


em tudo o que acontecera àquela noite, aquela garota bem
que me parecia familiar... eu a tinha visto em algum
lugar... talvez na lanchonete, mais cedo. Isso, a garota dos
sanduíches. Cacete, era ela! A mesma que precisava
passar no teste.

Provavelmente já estava desesperada para trabalhar


porque precisava do dinheiro para quitar a dívida. No
fundo eu sabia que eles nunca teriam como pagar. A ideia
era mesmo dar-lhes corda, até puxá-la.

A garota de repente pigarreou atrás de mim e foi


possível detectar seu nervosismo, ainda que meus olhos
não mirassem os seus agora.

— Heitor, eu... — balbuciou — eu lamento muito por


ter entrado em sua sala... me desculpe, é que... por favor,
pense numa garota desesperada, pense numa garota que
tem até o fim da noite pra pagar um dinheiro que não tem,
então... bem, essa garota sou eu. Juro a você que não teria
feito isso se não estivesse apavorada. Seu segurança não
me deixou outra alternativa... eu só queria... eu só queria
encontrar você e poder dizer o que estou dizendo agora.

Se calou. Heitor. Ela me chamara pelo nome. Pelo


visto era mais ousada do que eu imaginava.

Soltei uma nova nuvem de fumaça pela boca, pensando


que apesar do que acontecera, as desculpas da garota
conseguiram dissipar um pouco a minha raiva. Era ela,
claro, a garota da lanchonete. E eu tinha gostado dela.
Gostara dela desde o momento em que a vi pela primeira
vez atrás daquele empoeirado balcão, toda trêmula com a
ideia de preparar um sanduíche. E tudo o que fiz foi tentar
ajudá-la, tentar ser a porra de um cara bacana para ela. E
me arrependia disso.

Um novo pigarro me chamou a atenção.

— Por favor, eu imploro... só vim porque...

— Diga logo o que quer — meu tom saiu mais duro


que o metal, mas eu estava me lixando para isso. A ideia
daquela morena, embora atraente, ser sangue daquele
ordinário cachaceiro me deixava transtornado. Aquilo me
fazia pensar que ele estava bem, com uma família feliz,
enquanto a minha tinha se acabado.

— Bom, eu sou Maya...


— Perguntei o que quer, não o seu nome.

Mais um silêncio e quase tive a impressão de ouvi-la


engolir em seco. Imaginei que ela estivesse mordendo o
lábio. Estava nervosa, muito nervosa, e eu podia sentir
seu coração quente agora acelerado enquanto o meu
estava cada vez mais gelado.

— Certo, vim pedir que... vim suplicar pra que nos dê


um novo prazo — se calou.

Como eu não respondia, ela prosseguiu:

— Sei que meu pai fez uma coisa muito errada, que ele
é um alcoólatra, e que não mede as consequências quando
bebe e sempre arranja problemas, mas... — fez uma pausa
para respirar — bom, ainda assim ele é meu pai. E
estamos fazendo tudo o que podemos. Vendemos nossas
coisas e estamos quase sem nada... bom, tudo pra
conseguir a metade do dinheiro, mas se nos der mais um
tempo, talvez...
— Nada de mais tempo. Já dei prazo suficiente. Diga
isso ao verme que chama de pai — me virei pela primeira
vez desde que Ronan saíra.

Sim, era a garota. Seus olhos escuros não me deixavam


dúvidas. Aqueles olhos bonitos estavam vermelhos agora,
como se ela tivesse passado boa parte do tempo chorando.
Ela ficou sem fala. Não era a primeira vez que me via,
mas provavelmente se surpreendera com a minha
aparência, talvez estivesse impressionada, ou não tivesse
me reconhecido. Gostei de ter causado aquela impressão
nela.

Voltei para perto da mesa. Afundei na poltrona preta de


couro e relaxei minhas costas nela. Levei os pés cruzados
até o tampo de vidro e voltei a fumar meu cigarro
enquanto a estudava.

Instaurou-se um novo silêncio e ela pareceu pensar em


outras palavras, porém não falou nada.
— Já fui compassivo demais com vocês, então chega
de apelação. Quero essa grana ainda hoje. Vou aparecer
na sua casa e nem seu choro vai me convencer a abrir mão
do que é meu por direito — pousei o cigarro no cinzeiro
de madeira e continuei relaxando as costas e a cabeça no
encosto macio da poltrona. Meus olhos estudaram a
garota, analisaram-na, intimidaram-na. Ela era bonita.
Não uma beleza espetacular, como tinham as modelos que
saíam comigo, no entanto era bonita. Morena. Cabelos
longos e pretos. Olhos castanhos e assustados. Estatura
média. Magra. Belo corpo. Meus olhos desceram até seus
pés e subiram pelo mesmo caminho. Ela vestia sapatilhas,
jeans gastos e uma blusa de renda branca.

A garota entreabriu os lábios, parecendo tentar falar


algo, mas então desistiu à caminho ou não conseguiu. Eu
devia ser mesmo muito assustador. Olhou em redor e
depois voltou a prender os olhos em mim. Voltei a estudá-
la, tentando entender o que se passava na sua cabecinha
visivelmente perturbada. E eu também tentava reconhecer
nela a garota que encontrara mais cedo. Ela parecia mais
jovem do que aparentara, mas talvez fosse só minha
impressão. Não deixei de examiná-la por nenhum segundo
nem enquanto dava mais uma tragada. E mesmo
aparentemente nervosa ela me encarava.

— Disseram que estava me procurando antes de ter


tido o atrevimento de se enfiar embaixo da minha mesa —
quebrei o silêncio — Como é mesmo o seu nome?

—Maya... senhor.

— Maya — repeti — E nada de 'senhor'.

Gostava do nome Maya. Combinava com ela.

Suspirei, esfregando minha mão no rosto.

— Então era isso o que queria? Implorar por aquele


fodido do teu pai? — meu tom ficou ácido novamente
enquanto pensava que a filha do miserável estava ali,
diante de mim, e eu poderia liquidá-la ali mesmo, se
quisesse. Droga, e por que eu não conseguia? Bom, talvez
porque ela não tinha culpa de nada.

— Sei que meu pai tem uma dívida com você, senh...
quer dizer, Heitor, mas estamos sendo ameaçados por seus
capangas há várias semanas...

— Quem tem dívidas deve pagar por elas, não acha,


Maya? Um homem honrado sempre leva seus
compromissos a sério.

— Meu pai é honrado.

— Como é? — me contive para não explodir em


gargalhadas.

Ela me lançou um olhar severo antes de recrutar:

— Ele tem sérios problemas com a bebida, eu sei, mas


isso não significa que não seja honrado. Bom, e eu só vim
aqui pra negociar nossa dívida.

— Você não me deve nada, garota, na verdade quem


me deve é ele. E nada de mais dias, então é melhor voltar
pra casa. Se quer um conselho, fique fora disso. Diga a
seu velho que vou aparecer à meia noite e que vou
cumprir toda a minha promessa. E você e seu irmão
podem se mandar, se forem espertos.

Levantei pela segunda vez. Percebi que a garota ficara


branca como papel e ficara em estado de alerta. Fui até as
persianas e abri um pedaço delas. Espiei pela segunda vez
a noite lá fora. Nublada e fria. De repente alguém bateu à
porta e gritei para que entrasse. Jarbas, meu braço direito,
apareceu, com um celular na mão.

— Diogo Del Rei na linha — informou.

Feroz.

Peguei o aparelho de última geração que ele me


entregava e simplesmente ignorei a garota.

— Heitor! Satisfação falar com você! — falou Diogo


assim que atendi — E aí, como vão as coisas?
— Sob o controle — dei as costas para Maya e Jarbas,
que eu sabia, estavam ouvindo a ligação, embora não
pudessem escutar o que Diogo falava. E eu me sentia mais
tranquilo por saber que Jarbas tomava conta da garota e
que qualquer gracinha que ela fizesse seria interceptada
por ele.

— Preciso de um favor seu — Feroz falou — É o


Chucky. Bom, você sabe, o cara é um dos meus melhores
homens, se não o melhor, mas se meteu numa encrenca
sem tamanho e agora preciso afastá-lo por um tempo.
Não será para sempre, só por um tempo.

— Gosto do Chucky. Ele é sério e centrado, me passa


segurança, embora tenha aquele jeito todo esquisitão.

— O cara é leal, acima de tudo.

— Se é seu amigo, é meu também. Será bem recebido,


não se preocupe. Quando ele vem?

— Ainda essa semana. Não se preocupe com gastos, o


cara tem o suficiente pra se manter. Meus capangas são
ricos, meu chapa, se duvidar, mais ricos que eu e
você — logo ouvi barulho de choro infantil no fundo. Me
lembrei de que Diogo tinha uma filha pequena e que sua
mulher, Elena, estava grávida pela segunda vez, agora de
gêmeos. Certo dia ele havia comentado que me daria os
bebês para batizar. Zombei. Eu, padrinho de dois
serzinhos? Mas então pensei em Del Rei e na sua imagem
de pai. Feroz era pai, caralho! Pai! Quem diria que Diogo
fosse logo se tornar pai? E eu comecei a lembrar que toda
vez que minha família me sondava com aquele lance de
casamento e paternidade, eu dizia que não estava
preparado para esse grande passo. Sinceramente esperava
que um dia, assim como chegara para Diogo, chegasse a
minha vez.

— Certo, vou ter que desligar agora. A rolinhazinha


tá aqui puxando meu braço, aos prantos.

"Rolinhazinha" — ri, pensando naquele apelido que


ele colocara na garotinha que devia ter uns três ou quatro
anos. Bom, acho que não chamaria minha filha assim.

Feroz se despediu antes de desligar. Após um pigarro


de Jarbas, me lembrei de que não estava sozinho em
minha sala e que além de meu capanga, estava ali a garota.

A garota atrevida.

Maya.

A mesma garota da lanchonete.

Me virei para encarar os dois.

— Jarbas, pode ir — guardei o celular no bolso da


calça preta sob medida enquanto Jarbas me indicava a
morena com o olhar.

— Está tudo bem. Vou terminar minha conversa com


ela.

Jarbas saiu devagar e voltei a me sentar na poltrona


atrás da mesa. Estiquei minhas pernas e novamente pus
meus sapatos dobrados no tampo de vidro. Encostei as
costas e cruzei as mãos sob a nuca. Fiquei olhando para
Maya. Poderia ficar ali a noite toda admirando-a, se
quisesse. Admirando sua beleza, sua coragem. Desejando-
a.

Não. Desejando não. Ainda não.

Nunca esqueceria que ela era a filha de quem era.


Nunca esqueceria que eu deveria torturá-la e não desejá-
la. E minha vingança deveria ser do meu jeito. E o fato da
garota ser culpada ou inocente não devia me importar, o
que importava era a minha raiva. E eu estava com muita
raiva acumulada por todos aqueles anos de dor e injustiça.

— Você é muito corajosa, morena, tenho que admitir


— falei.

— Por favor, será que pode... levar meu pedido em


consideração?
— Quem tem dívida é seu pai, e como disse, não deve
se preocupar com isso.

— Mas eu me preocupo... é claro que eu me preocupo.


Afinal, ele é meu pai. Acho que costumamos proteger
quem amamos. Você não? Se ele tem uma dívida, ela
também é minha.

— Uau, que emocionante. Garota corajosa, mas


estúpida.

Apesar da zombaria, o que ela acabara de falar tinha


lógica. A gente sempre protegia quem a gente amava. Do
mesmo modo como a gente também sempre se vingava de
quem machucava quem a gente amava. Certo? E era
exatamente isso o que eu estava fazendo.

— Tem até a meia noite, Maya — falei, brincando com


o cinzeiro — Agora é melhor dar o fora daqui, se
realmente preza pela sua vida.

Ela me olhou, perplexa e levou as mãos ao rosto.


— Oh, Deus, como pode ser tão cruel?!

— Cruel?! — me levantei de forma brusca, ouvi o


ranger da poltrona —Sabe o que é cruel, garota? Cruel é
ver um filho da puta vir ao meu cassino, tomar minhas
bebidas e se entreter com meus jogos sem pagar. Sou um
homem de negócios, não o Papai Noel! Quero meu
dinheiro de volta e é melhor que estejam preparados esta
noite.

Na verdade, eu bem sabia, estava punindo Natanael


não por ter gastado tanto dinheiro no cassino e sim porque
queria me vingar dele e de tudo o que ele tinha feito anos
atrás. Ele tinha sido negligente naquele maldito acidente
de carro e provocado a morte de pessoas inocentes e
mesmo assim não fora devidamente punido pela justiça. E
se a justiça não o punira, eu mesmo o faria. E que se
ferrasse a porra do Direito Penal!

— Então vai mesmo nos matar?


Eu sorri de lado.

— Confesso que seria um grande desperdício matar


você.

Consegui o efeito que queria, pois Maya recuou,


parecendo assustada com o comentário. Então me afastei
um pouco mais da mesa e avancei alguns passos.

— O que foi? Nervosa?

A morena recuou, parecendo paralisada. Ou como se


estivesse muito chocada ou pensando no erro que
cometera em ter ido até ali. Contudo eu não queria
machucá-la, só queria provocá-la, até que ela fosse
embora.

— É melhor ir embora — mandei.

Ela continuou sem ação, apenas com a boca


entreaberta.
— É surda? Eu mandei cair fora.

Nem assim a garota se mexeu.

Sem paciência, avancei com raiva. Agarrei seu braço,


sabendo que poderia assustá-la.

— Nada do que fizer vai me fazer mudar de ideia. Vou


pegar seu pai dentro de algumas horas e você não vai me
impedir. Agora é melhor se mandar daqui! — abri a porta
e joguei a garota para fora, então Ronan apareceu para me
auxiliar. Segurou a morena e a tirou da minha frente num
passe de mágica. Ainda pude ouvir as imprecações dela
pelo caminho antes de fechar a porta e voltar para o
silêncio da minha sala.

Voltei a encostar minhas costas na poltrona, depois


fechei os olhos e suspirei. Não estava interessado no
dinheiro. Grana eu tinha, e muita. Eu queria apenas ter o
prazer de acabar com a vida do desgraçado que bagunçara
a minha. E antes de matá-lo, precisava vê-lo sentir na pele
o desespero que eu sentira quando ele quase acabou com a
minha vida.
Capítulo 5
MAYA

O SEGURANÇA me puxou com força ao me conduzir


pelos corredores barulhentos e movimentados da boate. E
então constatei que o tal do Heitor era mesmo um covarde,
pois nem coragem para me expulsar pessoalmente da sua
sala ele tivera! Preferiu pedir que um outro sujeito
igualmente grande fizesse o serviço sujo. Fiquei com
raiva. O brutamontes aproveitou o ódio que estava
sentindo de mim para se vingar.

Ao passar pela porta, pensei que fosse morrer. Ele


estava armado e não parecia hesitar em cumprir uma
ordem dada, ainda que Heitor Romano não tivesse lhe
dado uma ordem expressa para que me matasse.

— Desapareça daqui! — vociferou o troglodita ao me


jogar contra o vento, já na saída. Por causa da violência
com que me empurrara, caí de bunda no chão, dentro de
uma poça d'água. O sangue subiu à cabeça e quase mandei
ele ir se foder, mas então controlei minha boca e lembrei
que não podia brincar com gente da máfia, que eles não
precisavam de motivos para liquidar quem quer que fosse.

Esses homens não prestam, Maya, matam por nada.


Ainda não entendeu? São criminosos. Matam e torturam.
E sentem raiva de graça. Você não fez nada, não falou
nada, mas mesmo assim eles sentem raiva.

Me levantei com dificuldade, enquanto limpava o jeans


sujo e molhado, me recusando a derramar qualquer
lágrima.

— Vão se ferrar todos vocês! — gritei, mas já não


tinha ninguém ali para me ouvir. O cara já tinha voltado
para o interior da boate e então me dei conta de que o
miserável tinha me enxotado pela porta dos fundos. Desse
jeito nenhum frequentador do lugar testemunharia a cena.
Eu poderia ter morrido ali cheia de tiros, que ninguém
veria nada. Era um beco escondido e escuro.
Virei-me para a frente e apressei os passos. Melhor
sair dali. Não era um lugar agradável.

A brisa da noite balançava os fios de meus cabelos à


medida que eu andava, e me dava aquela sensação de
inverno, embora estivéssemos no outono. E talvez aquela
sensação de frio também se devesse pelo fato de eu estar
completamente nervosa e assustada. E desesperada.

Peguei o ônibus e foi complicado conseguir pagar a


passagem, já que meus dedos trêmulos me impediam de
contar as moedas, que logo caíram ao chão. Uma senhora
me ajudou.

— Tudo bem, querida?

— Sim, obrigada... — balancei a cabeça em


afirmação, mesmo não tão certa disso.

Sentei-me no fundo do ônibus, me sentindo um zumbi.


Eu não dormia fazia dias, não comia, não ria, não falava
com ninguém, não tomava banho. Não tinha uma vida
social. Minha vida nos últimos dias se limitava a vender
coisas de casa, contar dinheiro e chorar, até que decidi
que teria mais fibra e procurei Heitor. Mas aquilo não
adiantou de nada.

Droga.

Segui todo o percurso de volta para casa, pensando


que dentro de algumas horas eu morreria. E não só eu,
como toda a minha família. E eu nem tinha ideia de onde
meu irmão estava. Pensando nisso, peguei o celular do
bolso e disquei. Lucas me atendeu após três chamadas.

— Alô.

— Lucas! Estou à caminho de casa. E você, onde está?

— Aonde esteve?

— Uma longa história, depois te conto — suspirei com


tristeza — Onde está, Lucas?
— Em casa.

— E papai, está aí também?

— Bêbado como sempre — resmungou — E não


temos a droga do dinheiro, Maya. Já pensou nisso? Não
temos a droga do dinheiro! Tô zoado com essa merda.

— É claro que pensei. Não penso em outra coisa há


dias.

— A gente vai morrer, meu. Todos nós. E tudo por


causa dele. Daquele maldito idiota. Eles vão chegar e
vão matar todos nós, sacou?

— Lucas, se acalma...

— Me acalmar? Me acalmar uma ova! Eu vou


morrer, caralho! Antes que o dia clareie, vou morrer! Se
ficar em casa, vou morrer, Maya, mas não quero morrer,
então não vou ficar em casa. Tô arrumando minhas
coisas, vou dar o fora daqui.
— Lucas? Vai pra onde? — soube que minha voz
estava alterada. Nem o barulho do ônibus a abafava. Senti
algo na voz de meu irmão, algo diferente, uma apreensão e
um nervosismo nunca percebido antes.

— Não vou morrer por causa de ninguém, muito


menos de um bêbado idiota, que não tá nem aí pra gente.
Se quiser morrer com ele, que morra, mas eu tô indo.

— Lucas, ele é nosso pai... — lágrimas brotaram em


meus olhos pela milésima vez. Me senti sozinha. Sozinha
para segurar toda aquela barra. As pessoas mais queridas
sempre iam embora ou então morriam. Foi assim que senti
quando mamãe morreu vitimada pelo câncer. E agora
Lucas iria embora.

— Desejo boa sorte, Maya. Adeus.

— Lucas?

O telefone começou a fazer 'tu tu tu' avisando que meu


irmão tinha desligado e então desabei abraçada em meus
braços. Lucas estava indo embora e eu me sentia ainda
mais perdida por isso. No fundo também queria fazer o
que ele fazia, queria mandar o mundo se danar, queria
correr e fugir daquele maldito pesadelo, no entanto não
podia deixar meu pai sozinho em casa. Não conseguia
simplesmente dar as costas para ele e seguir, como se
nada tivesse acontecido. Jamais me perdoaria se eu o
abandonasse.

Levei as mãos aos cabelos e não fui capaz de segurar o


pranto. Estava com medo. Com tanto medo e frio. Com
tanto medo, que agora tremia. Eu tinha enfrentado Heitor
Romano minutos atrás e sentido na pele o nível da
maldade dele. Eu tinha me enganado com aquele cara. Na
lanchonete ele parecera legal e gentil, tão amável e
delicado. Me ajudou com os sanduíches e me fez acreditar
que ainda existia gente boa na face da Terra, até eu ver sua
outra face.

Eu vira a maldade em seus olhos e constatado que ele


não era flor que se cheirasse. Era perigoso e frio e eu já
tinha ouvido falar de homens como Heitor algum dia.
Bonitos, jovens, ricos, bem-educados e socialmente
comuns, contudo escondiam uma faceta que muitas vezes
nem a própria família conhecia. E eu estava apavorada,
mesmo sabendo que precisava ser forte. Por Lucas, por
papai, por mim. Mais por mim e por papai agora, já que
Lucas estava indo embora. E eu não o condenava, ele
tinha razão. Nosso pai tinha passado dos limites. Não
valeria a pena morrer por causa dos erros de outra
pessoa, mas ainda assim eu não conseguia virar minhas
costas.

Estremeci quando a imagem de papai abandonado


dentro de casa me veio à mente. Ele certamente passara o
dia todo bebendo para fugir do momento terrível que
estava por vir, tentando fugir da nuvem negra que estava
para cair sobre nossas cabeças. E como eu queria agora
ter minha mãe por perto para me dizer que estava tudo
bem, que tudo simplesmente ficaria bem. Mas mamãe não
estava...
Quando o ônibus me deixou na esquina de casa, tempo
mais tarde, vi um grupinho conversando. Não pude deixar
de sentir aquele cheiro horrível da porcaria que eles
fumavam. Uma das vozes era de Doca, um ex-
namoradinho da adolescência. Virando o rosto para que
ele não me visse, apressei os passos. Doca tinha se
viciado na juventude, logo depois que terminamos, e
agora se intitulava o dono do morro.

Era uma merda morar perto de um lugar perigoso, que


era dominado pelo tráfico, e era uma merda ainda maior
morar perto do cara que falava mentiras a meu respeito. E
então eu me lembrava de outros capítulos da minha
história. Bastava fechar os olhos para lembrar do que o
desconhecido fizera a mim, ele tinha me deixado marcas.
E eu sequer podia reclamar, questionar, pois não sabia
quem era ele. E eu era uma refém do medo. E tinha raiva
de mim mesma por não conseguir ser mais forte que
aquele sentimento que ainda me aprisionara, não tanto
como antes, mas ainda me deixava marcada. E voltando a
pensar em Doca, ele só não me violentara também, porque
dizia que não precisava agarrar nenhuma mina para tê-la
em sua cama. Todavia eu bem sabia quais os meios de
persuasão que ele usava.

— Mas que porra, Maya, não tá me ouvindo? — Doca


já estava ao meu lado e sua mão suja já segurava meu
braço, me obrigando a virar-se para ele.

O desgraçado não conseguia ser delicado. Devia se


alistar para fazer parte do bando dos ogros de Heitor
Romano. Talvez lá ele ganhasse mais dinheiro que
ganhava com as porcarias que vendia.

— Tá vindo da onde? — perguntou, aquele bafo de


cerveja.

— Tô vindo do trabalho, Doca — menti — por favor,


só quero jantar e dormir. Estou exausta.

— Vamos lá pro meu apê, que tem comida à vontade e


você pode descansar.
— Não, obrigada.

Ele me olhou com desconfiança, e por fim me soltou.


Devo ter passado a imagem de quem realmente estava
cansada. E, de fato, eu estava. E ficar com Doca seria o
meu maior castigo. Mas... pensando bem... e se ele
pudesse me ajudar? Ele devia ter algum dinheiro. E se me
ajudasse com o dinheiro que Romano queria? Eu cheguei
a pensar em fazer uma loucura dias atrás, tinha pensando
em roubar a lanchonete do senhor Rachide, no entanto
logo abandonei aquele horrível pensamento, dizendo a
mim mesma que eu não era uma ladra. O problema é que
quando você está com problemas e desesperada, você fica
cega, e eu tinha todos os motivos para ficar cega.

Confusa, meus lábios tomaram vida.

— Doca, hum, será que posso falar com você?

Me olhou, desconfiado.

— Tava agora mesmo me dispensando. Não sou


palhaço, sacou? Se liga.

— É um assunto sério.

— Desembucha logo.

— É que tô precisando de uma grana. De uma grana


alta.

Me olhou de um jeito estranho.

— Que grana? Tá pensando que sou banco? — riu,


levando todo mundo a rir com ele.

— Será que podemos falar em particular?

Me olhou, com desdém.

— Eu e você?

— Bem, acho que... acho que posso dar a você o que


tanto quer... — toquei seus ombros de modo sugestivo e
ele parou. Pareceu avaliar a proposta.

Olhou para minhas mãos trêmulas em sua pele e depois


ergueu de novo os olhos para me estudar.

— Desde quando tá se prostituindo? Ah, então é assim


que anda ganhando dinheiro?

— Não é nada disso... é só que... que preciso de um


empréstimo.

Ele explodiu em gargalhada antes de se afastar de mim.

— Se eu quisesse você, Maya, eu pegava de graça.


Entendeu? Não preciso pagar. A hora que quiser, você iria
ter que tá lá. Agora mete o pé.

Atônita, os olhos piscando sem parar, me sentindo


péssima e suja por ter falado aquelas besteiras e feito
Doca acreditar que eu o queria, me virei e fui embora.
Comecei a correr, tentando lutar bravamente contra as
lágrimas que queriam descer enquanto Doca e o grupinho
dele gargalhavam, zombando de mim. Empurrei o portão
de madeira de casa logo assim que a alcancei e encontrei
silêncio ao passar pela porta da sala. Lucas já devia ter
ido embora. Fui até seu quarto e constatei que seu armário
estava vazio. Fui até o quarto ao lado e achei papai
roncando na cama, sujo, os sapatos nos pés, uma garrafa
de cachaça na metade largada no chão.

— Ei, pai, acorda! Acorde! Os homens vão chegar!


Acorda!

Sonolento, resmungou que queria dormir mais.

— Acorda, pai! Mas que merda! A culpa é toda sua,


sabia? Toda sua! Seu bêbado irresponsável! Vamos,
acorde!

Ele não despertou.

Irritada e cansada por insistir, desci da cama e fui até à


cozinha. Preparei um café. Talvez aquela fosse a última
xícara que eu beberia na vida, então caprichei. Calculei a
quantidade certa para uma pessoa. Largada no sofá, tomei
o líquido quente e pensei no que aconteceria dentro de
poucas horas. Nós dois morreríamos. Papai e eu.

Tempo depois meu pai apareceu na entrada da sala.


Aparentemente mais sóbrio.

— Que horas são? — perguntou.

— Onze e cinquenta.

— Eles vão vir, não é?

Pensei naquilo. Pensei que queria dar uma resposta


diferente, mas não podia.

— É, eles vão.

— E não temos o dinheiro.

Dei de ombros.
O que ele queria que eu falasse?

— É, não temos, pai.

Meu pai levou de repente as mãos ao rosto e começou


a chorar. Seu corpo começou a balançar, me deixando
penalizada. Saí do sofá e fui ao seu encontro. Meu pai
chorava feito criança desolada, uma coisa que cortava o
coração.

— Ei, fique calmo. Vai ficar tudo bem. Por favor, fique
calmo.

— Eles vão matar você, Maya. Tudo por minha culpa.


Tem que fugir, tem que correr antes que seja tarde demais.

— Não. Eu vou ficar. Não posso deixá-lo aqui


sozinho. Vamos enfrentar isso juntos. Você e eu.

— Não, não pode, filha, tem que ir. Eu sou velho e


acabado. Vivi muita coisa nessa vida, mas você... você
não tem culpa de nada. É tão jovem... tão bonita... vá,
Maya. Vá logo.

— Não posso deixá-lo aqui, já disse — o choro


começou a me tomar e o tremor também — Por favor, pai,
não insista. Vou ficar... tá decidido.

— Você é tão boa, filha... tão boa pra mim... e eu não


mereço nada disso... seu irmão tem razão — chorou mais
ainda, as lágrimas deixando seu rosto vermelho e
molhado.

— Você fez o que pôde, pai, eu acredito nisso.

Meneou a cabeça em negativa.

— Não, eu não fiz, eu não fiz nada pra ser um pai


melhor. Poderia ser melhor, poderia ser um pai mais
amoroso, mais responsável, mas não fui. Me perdoa, filha
— voltou a prantear — por favor, não conseguiria partir
em paz sem o seu perdão.

Nesse instante a emoção me tomou e quase explodi em


pranto. Era muito difícil ver as pessoas que amávamos
naquela situação.

— É claro que perdoo você, é claro que o perdoo —


eu o abracei forte.

Papai não parava de chorar. E eu chorava com ele.


Ambos chorávamos juntos. Nossos corpos balançando a
cada soluço trocado. Apesar de tudo, eu o amava. E se
aquela era a nossa despedida, era a melhor despedida que
poderíamos ter, a melhor em que pudesse pensar. Quando
nos acalmamos, me afastei dele. Logo algo me chamou a
atenção. Mesmo com a visão turva por causa das
lágrimas, vi a luz de um farol iluminando tudo lá fora e
soube na hora que era Heitor Romano que chegava.

Heitor. Heitor chegava. E eu sabia que dentro de


alguns minutos eu estaria morta.
Capítulo Extra
ELENA

QUANDO DIOGO entrou no quarto, eu estava


dobrando algumas roupinhas de bebê na cama, tentando
não pensar muito no que tinha acontecido algumas horas
atrás na sala de estar comigo e com Chucky. Eu deveria
saber que Diogo ficaria aborrecido. Ele sempre ficava
aborrecido quando eu, segundo ele, me metia nos
assuntos dele. Além do mais, era fácil detectar quando
meu marido estava chateado.

Quando isso acontecia, ele me ignorava por algum


tempo e até mesmo ficava horas afastado. Se metia no
escritório para receber seus apadrinhados por lá. Noutras
vezes Diogo saía e só voltava tempo depois, geralmente
mais calmo. E por isso eu não me preocupava quando ele
sumia a tarde inteira, pois eu sabia que quando seu humor
fosse restituído, Diogo voltaria a ser quem ele era. E
muitas vezes voltava me beijando ou cheirando, como um
cachorrinho arrependido clamando por perdão por ter
passado dos limites. E sempre eu o enchia de beijos e
então a gente tinha uma nova noite de amor, que
culminaria com um largado nos braços do outro.

Entretanto naquele exato momento em que Diogo


apareceu no quarto, eu não me sentia a errada da história.
E não me arrependia do tapa dado no capanga dele.

— Oi — Diogo se sentou na poltrona que ficava diante


da cama — Posso saber o que deu em você hoje?

Dei de ombros. Não ergui os olhos para falar com ele.

— Já tinha avisado que não o queria com minha filha


— respondi, seca.

— E precisava todo aquele show?

— Show? Bom, talvez eu também não esteja satisfeita


com o rumo com o qual o episódio fora levado, mas ele
mereceu — falei — na verdade, fazia tempo que ele
merecia aquele tapa. E ele riu na minha cara, Diogo, você
não viu?

Diogo suspirou, agora parecendo mais relaxado na


poltrona.

— Mas não se bate na cara de um cara, Elena. Muito


menos na frente dos amigos dele.

Dessa vez ergui os olhos para encontrar os dele.

— Não se sequestra um bebê, Diogo. Nem com a


desculpa de levá-lo pro pai dele.

Ele se inclinou para a frente e me estudou.

— Ok, você tem razão, no entanto o que passou


passou, paixão. O importante é que a pequena tá bem
agora com a gente.

— Mas nunca vou esquecer isso. E como eu disse, ele


zombou na minha cara. Na sua frente. E eu perdi a
cabeça.

Ele coçou os cabelos escuros e fartos, saiu da poltrona


e se agachou diante de mim.

— Certo, vamos esquecer então o que aconteceu... O


que é isso que está fazendo? Arrumando as coisas deles?
— sorriu, enquanto seus olhos castanhos brilhavam, da
mesma forma que brilhavam toda vez que falávamos sobre
nossos pimpolhos que iriam nascer. Diogo especialmente
estava na expectativa, pois aquela era sua primeira vez
acompanhando toda a gravidez. Parei o que estava
fazendo e alisei a barrigona.

— Não vejo a hora. Aposto que vão ser bonitos como


o pai.

— Nada disso, vão puxar a beleza da mãe. E até esse


jeitão todo marrento que ela tem.

— Você que é marrento, eu não!


— Não sou.

— É sim — calei-me quando Diogo colou os lábios na


minha barriga para beijar os filhos. E então o acontecido
com Chucky voltou à minha mente.

— Diogo... hum, não quero mais o Chucky perto dos


nossos filhos, e não gosto da ideia de ter a presença dele
na nossa casa.

Ele se afastou da barriga, me olhou e pareceu pensar


um pouco.

— Acho que estamos tendo um probleminha aqui,


paixão — sua voz falou baixa — Recebo meus homens
nesta casa e isso nunca foi problema. Ok, sei que você não
gosta muito disso e por isso reduzi os encontros. Os caras
estão acostumados a vir aqui, Elena, e Chucky, querendo
ou não, é um deles.

— Ele sequestrou nossa filha! Sua filha!


— Porque queria trazê-la até mim, caralho! E sabe de
uma coisa? Ele fez isso porque o idiota é tão leal, que
pensou que estaria fazendo a coisa mais certa do mundo.
Você não entende essa merda? Chucky foi leal, Elena. Leal
como um cão. Tão leal, que arriscou o próprio pescoço
para me trazer Esmeralda.

— Dane-se vocês. Ele pegou minha filha! Não pensou


nenhum pouco em como eu sofreria. O que ele fez foi
criminoso! Ele deveria estar atrás das grades agora!

— Eu também deveria estar atrás das grades, paixão,


por várias coisas erradas que fiz. Então me diga, você
gostaria disso?

Me calei.

Bem, não tinha pensado nisso. E por mais que não


concordasse com a vida que meu marido levava, não
queria nem imaginar Diogo em alguma prisão. Só aquele
pensamento me dava arrepios.
— Bom, mas Chucky tentou me matar várias vezes!
Nunca gostou de mim e agora me deu motivos pra eu
nunca gostar ou confiar nele. Então não me venha com
discurso, acho que agora ele e eu estamos quites.

— Ele se arrependeu do que fez com Esmeralda. Sei


que se arrependeu. E também sei que só fez aquilo porque
estava tentando me ajudar.

— Mas não gosto da ideia dele perto dos meus filhos.


Não confio, Diogo. Tenho o direito de não confiar. Sou a
mãe deles.

— E eu sou o pai. Nunca esqueça disso. Acha que não


me importo com eles? Acha que não penso no bem estar
dos meus filhos também? Sempre penso neles, Elena,
desde que acordo. São as primeiras coisas que me vêm à
cabeça. E você é logo a segunda. E a terceira é que se
alguém sonhar em tocar em qualquer um deles é um cara
morto. E todos os meus homens sabem disso. E sabem
também que não brinco em serviço, principalmente
quando o assunto são as pessoas que mais amo no mundo.
Portanto, Elena, nunca mais aja como se eu não me
importasse com eles.

— Diogo...

— Então pare de se preocupar com essas bobagens. A


casa é segura. Tem câmera por tudo que é lado. Você
também poderia contratar uma babá pra ficar o tempo todo
com a rolinhazinha. Assim você ficaria menos
preocupada. Principalmente agora que está prestes a
receber essa galerinha aí.

— Posso cuidar eu mesma da minha filha — ri, agora


alisando seu rosto bonito — E, amor, não quero dizer que
você não se importa com a gente... é que eu só queria um
pouco mais de privacidade, sabe?... todo tempo esses
caras andando pela casa... falando, rindo... ás vezes eu me
sinto invadida.

Ele segurou meu joelho e voltou a suspirar.


— Ok, vou pensar melhor no assunto. Prometo que
vou. E vou mudar tudo isso a partir de hoje. Quero que
tenha mais privacidade e que fique menos preocupada.
Vou reduzir ainda mais os encontros e providenciar um
outro lugar para todas as reuniões. Satisfeita agora?

— Acho que assim vai ser melhor — sorri antes de


beijá-lo — Imagine quando os meninos nascerem. Tanto
homem dentro de casa com bebês tão pequenos. Imagine o
estresse. Crianças precisam de um lugar tranquilo e
familiar, amor.

Ele balançou a cabeça, analisando aquelas minhas


palavras.

— É, tem razão. Vou resolver isso, dou a minha


palavra — correspondeu ao meu beijo.

— E quanto ao Chucky?

Diogo suspirou.
— Bom, disso já cuidei. Vou mandá-lo pra São Paulo.
Só pra passar alguns dias por lá.

— Ah, é?

— É, e pensei na ideia dele passar uma temporada


com o Heitor. Você sabe, lugar novo, pessoas novas,
problemas novos. Lá ele poderá esfriar mais a cabeça.

— E ele aceitou ir?

— Manda quem pode e obedece quem tem juízo,


Chucky entende perfeitamente isso. Além do mais, vai ser
temporário. Até a poeira baixar e você ficar mais calma
com a presença dele. Além disso, tem os bebês. Como
você mesma falou, é melhor que eles nasçam num lugar
mais sossegado e familiar. Chucky também vai estar
melhor quando voltar. E ele não a odeia como você pensa.

— E eu não o odeio, eu só não confio nele. Prefiro que


eu fique no meu canto e que ele fique no dele.
— Certo, agora quero falar sobre outra coisa... onde
está minha princesinha?

Sorri.

— Dormindo. Tomou um banho e foi dormir um pouco.


Só assim eu também descanso um pouco. Ás vezes me
sinto esgotada — ri.

— Ela me lembra tanto você, sereia... só não quero


que aja mais do jeito que agiu esta tarde, ok?

— Diogo...

— Você sabe, não devia ter passado por cima de mim


e enfrentado Chucky. Muito menos na frente de todo
mundo. Tenho meus negócios, Elena, e os caras são meus
capangas, precisa tratá-los bem, mesmo que não goste
nenhum pouco deles. Não só envergonhou o cara em
público, como me constrangeu também. Sou o chefe e
preciso dar o exemplo. E esse exemplo precisa vir de
dentro da minha casa.
Pronto! Já estávamos discutindo de novo!

— Então se recomponha e mantenha seus capangas


longe de mim! — me afastei, mas Diogo me segurou.

— Não vamos começar a brigar de novo, ok?

Diogo me agarrou e com um novo beijo me calou. E eu


decidi que era infinitamente impossível ficar tanto tempo
com raiva dele. Além do mais, o importante era saber que
Chucky passaria um bom tempo em São Paulo e ficaria
longe da gente.
Capítulo 6
HEITOR

O AUDI ESTACIONOU.

Abandonei o conforto do carro e ergui o terno carvão


para poder me proteger da chuva que descia fina dos céus
de São Paulo. Jarbas e Oscar iam na minha frente
enquanto outros dois iam às minhas costas e o restante dos
caras aguardava espalhados pelos carros. Alguém bateu à
porta da humilde casa. Um sobradinho simples e mal
pintado. A tinta desgastada estava feia, nos dando aquele
aspecto de velhice e pobreza, e me fazendo pensar em
como um homem poderia chegar naquela condição de
viver como um animal. O desgraçado não tinha muito a
oferecer e o pouco que ainda lhe restava ele gastava com
bebidas e jogos, deixando a família quase sem nada.

Alguém bateu a porta pela segunda vez, mas ninguém


atendeu. Jarbas bateu de novo, dessa vez com mais força,
e quando não recebemos uma resposta positiva, fiz sinal
para que ele arrombasse. Nesse momento a porta de
madeira se abriu, fazendo um pequeno ranger, nos
lembrando do quanto era velha e frágil. Do outro lado, o
homem com a aparência relaxada apareceu.

Natanael.

— Heitor — seu olhar inseguro fixou-se em mim —


Você por aqui...

Sem pedir licença, entrei. Andei pela casa pequena e


olhei tudo em redor antes de voltar a encarar Natanael.
Ele tinha o olhar assustado, de quem estava receoso, mas
que ao menos parecia estar conformado com o fim trágico
que teria dentro de alguns minutos. Também parecia
sóbrio, ainda que o cheiro de cachaça sobrepusesse sua
carne fedida, lhe dando um aspecto ainda mais repugnante
e indicando que tinha passado toda aquela tarde bebendo.

— Você precisa de um banho — torci o nariz antes de


me afastar. De repente ouvi barulho de móveis sendo
jogados ao chão.

— Ei, esperem! Não precisam quebrar minha casa! —


Natanael protestou enquanto os caras davam uma geral em
tudo o que ele tinha— Heitor! Faça alguma coisa...
mande-os pararem...

— Onde tá a grana? Dei a você um prazo, e esse prazo


termina hoje — tirei um cigarro do bolso do paletó e, sem
pressa, eu o acendi — Vamos lá, tô esperando.

— Heitor, eu... — ergueu as mãos em rendição — eu


juro, eu juro, rapaz, vou pagar tudo. Só peço que tenha
mais paciência, deixe-me explicar... se fosse possível, eu
pagaria agora, juro por Deus que pagaria, mas...

— Não enfie Deus nas suas roubadas.

— Mas...

— Sem mas, seu filho da puta, eu quero a minha grana!


Hoje e agora! — voltei a andar pela casa. Apertei o
cigarro contra os lábios e observei aquele cubículo em
que Natanael vivia. Móveis simples, pouco espaço, coisas
fora do lugar. Uma mesinha de madeira no canto da sala e
sobre ela mais de uma garrafa de cachaça. Segurei uma
que estava vazia.

— Será que você não consegue ficar um dia sem beber,


miserável? — arremessei a garrafa contra a parede,
levando-a a se espatifar antes de se encontrar com o
chão.

— Por favor, eu... posso vender a casa. Posso vender a


casa, Heitor, é isso. Só preciso de mais tempo...

Eu ri. Dei uma segunda tragada no cigarro enquanto


Natanael parecia pensar em outros argumentos para me
dar. Visivelmente estava tentando me fazer de otário. Indo
além dele, meu olhar foi captado pela garota que surgira
do nada. Como era mesmo o nome dela? Ah, sim. Maya.
Ela estava ainda mais bonita agora de jeans e blusa de
algodão. Estava com um semblante mais calmo e segurava
uma mochila na mão. Um dos caras a interceptou e ela me
olhou como quem pedisse ajuda.

— Deixem ela passar — mandei, tirando o cigarro da


boca.

Oscar obedeceu e vi a morena lançar a ele um olhar de


desprezo.

— O que tem nessa mochila, guria? — perguntei


quando ela chegou um pouco mais perto.

— O dinheiro.

— Ah, é mesmo? Então abra, que eu quero ver.

— Se esse ogro aqui sair de cima de mim... —


respondeu, indicando Oscar com o olhar e eu ri. Algo em
Maya me fascinava, embora eu a conhecesse há pouco
tempo. Talvez fosse sua forma de falar ou de agir. Na
lanchonete a impressão que eu tivera era que como as
abelhas eram atraídas pelo mel, Maya me atraía até ela.

— É destemida, morena. Fala como quem não tem


medo de nada. Não é qualquer um que chama Oscar de
ogro na cara dele, sabia?

Maya não respondeu. Recuei um passo. Com contato


visual, dei ordem para que Oscar se afastasse dela. Não
precisava assustar a garota. Não era com ela meu real
problema. A morena então pôs a mochila sobre a mesa e a
abriu. Vi que, de fato, havia muitas notas de dinheiro lá
dentro, todavia aquilo não me dizia nada. Eu não queria o
dinheiro, queria algo que ia muito além dele. Mesmo
assim mandei que contassem, só por garantia. Na
realidade nada seria o suficiente porque o que eu queria
mesmo era a minha vingança. A merda da minha vingança.
Eu clamava por ela, e ninguém sabia o quanto em oculto
eu a queria.

— Isso não é o suficiente — colei as costas na parede


enquanto cruzava os pés no chão e dava mais uma tragada
no cigarro. Vi alguns caras se posicionarem na janela, e eu
agora olhava para Maya. Não queria fixar meu olhar no
bêbado miserável do pai dela ou então acabaria o
matando ali mesmo à queima-roupa. E meu plano era
torturá-lo.

Mais um pouco de diversão, Heitor, vamos lá.

Ouvi o barulho da mochila se fechando. Maya a


fechava. Continuei com meus olhos fitos na garota. Mãos
de fada, pele de pêssego, rosto agradável. Bem diferente
da peste que ela chamava de pai. Como aquele miserável
tinha conseguido fazer algo tão macio e delicado como ela
ainda era um mistério.

A garota pigarreou, então me encarou.

— Se pudesse nos dar mais alguns dias...

—Nada de mais dias — soltei a fumaça pela boca.


Aquilo me aliviada, e me impedia de fazer qualquer
merda impensada.
— Heitor! — o cretino do bêbado se jogou de repente
aos meus pés — Por favor, eu posso pagar por tudo, só me
dê mais tempo... eu posso trabalhar pra você, se quiser!
Sou velho, mas ainda tenho saúde... posso ser seu
escravo! Posso trabalhar pro resto da minha vida no seu
cassino e...

A garota protestou e pai e filha começaram a falar


junto.

— Fique quieta, Maya! Fui eu que comecei isso tudo.


Teu irmão tem razão, é tudo culpa minha!

Era a primeira vez que eu concordava com alguma


coisa que aquele bosta falava.

— Pai, não! — a menina agarrava no braço do homem,


determinada a fazê-lo mudar de ideia. Agora eu admirava
sua força, e considerando o quanto devia ser difícil para
ela aquela situação, me senti culpado por zombar.
Analisei a situação: um pai idiota, uma dívida e um
iminente risco de morte.

— Heitor, me prenda! — o homem insistiu, ainda


ajoelhado — Me prenda, que posso trabalhar de graça até
meus últimos dias... mas por favor, não machuque minha
filha — pausa — não machuque minha filha... porque ela é
tudo pra mim.

Ah, tudo pra você, é?

Olhei para a garota à minha frente. Era graciosa,


delicada, interessante.

E era tudo para ele.

Tudo para ele.

Pus o cigarro novamente na boca, sentindo uma


inquietação me queimar, até que o joguei no chão e o
apaguei com o pé. Natanael tinha razão. Sua filha não
tinha culpa de nada. Ele era o responsável por tirar a vida
de meus pais e por fazer da minha um inferno, entretanto o
que eu queria agora era vê-lo sofre, apenas sofrer, e não
me importava o fato de sua filha ser inocente. Queria vê-
lo se desesperar, definhar, e talvez ver a própria filha em
perigo, sem nenhuma condição de fugir, fosse a melhor
maneira de lhe punir, e por isso a ideia de levar a garota
embora comigo começou a parecer boa aos meus olhos.
Além do mais, Maya era atraente e sem dúvida alguma ter
a sua companhia me renderia muito mais prazer que eu
poderia imaginar.

— Tem razão, sua filha não tem culpa de nada.

— Então me leve! Me deixe pagar pela dívida dessa


forma. Mas deixe Maya em paz.

— E o que eu faria com um bêbado inútil como você,


hã? — afastei meus pés do alcance das mãos dele — Me
diga, seu saco de bosta, o que eu faria com você? Agora
levanta desse chão e seja homem! Anda, antes que eu o
mate na frente da sua filha!
Natanael resmungou e com o auxílio da garota,
conseguiu se erguer. Voltei meu olhar duro para ele e
ignorei o olhar fulminante de Maya em minha direção.

— Vou matá-lo com minhas próprias mãos, Natanael, e


nada vai me impedir — prometi — E você...

— Então leve a mim! — a garota gritou de repente —


Leve a mim no lugar da dívida!

— O quê?

— Maya, não! — o pai protestou.

Olhei nos olhos quase pretos da garota e tive vontade


de dizer que ela não sabia com quem estava brincando.
Natanael, por outro lado, começou a choramingar
enquanto suas mãos trêmulas voltavam a agarrar meus pés.

— Não nos mate, Heitor! Não nos mate, por favor! Por
favor não nos mate!
— Seja homem, merda! — eu o ergui com violência —
e pare de choramingar na frente da sua filha!

— Eu vou com você! — ela gritou.

Eu o larguei. E pensei naquela ideia de levar Maya


comigo. A garota atrevida no lugar da dívida. Era uma
ideia bizarra, embora agradável. E então naquele
momento algo ficou bem claro para mim: havia ali um pai
preocupado com a filha e uma filha que tentava a qualquer
custo proteger seu miserável pai. Me veio a vontade de
matá-lo sem demora e acabar com todo aquele burlesco
espetáculo, mas então o pânico nos olhos de Maya me
impediu de executá-lo em sua frente.

Não seria dessa vez. Eu seria muito mais inteligente se


levasse tudo de precioso que ele tinha. E ele iria sofrer.

Decidido, puxei a garota, assustando-a. Seus olhos


castanhos escuros agora brilhavam em minha direção e me
surpreendi ao vê-la me encarar, apesar do medo. Ela já
não tremia mais, embora eu soubesse que estava com
medo.

O pai levantou-se desesperado, mas um dos caras o


interceptou, xingando.

— Não tem medo de mim? — perguntei e Maya me


fitou nos olhos.

— Não.

— Ótimo. E tem razão, você me terá muito mais


serventia — desci meus olhos sugestivamente em seus
seios, deixando-a apavorada com a implícita ideia.

E ver Natanael resmungar, atormentado com aquela


situação, me bastava. Não precisava somar um mais um
para saber que o miserável sofreria ainda muito mais com
a distância da filha, que de uma forma ou outra pagaria
pelos erros que ele, apenas ele, cometera.

— Por que não matamos logo os dois? — alguém


sugeriu às minhas costas.

Ergui uma mão para que quem quer que tivesse falado
aquilo se calasse. Não iria matá-la. Não fazia sentido
matá-la. E voltei a pensar na ideia de Maya me servir de
uma outra maneira, de uma maneira mais divertida e
excitante.

Maya. Maya. Maya.

Garota destemida.

— O que ainda tá esperando? Me leve! — ela gritou,


cheia de atitude, como se estivesse aflita por dar fim
àquilo tudo.

— Tem noção do que está me pedindo, garota?

Vi seus olhos brilharem por causa das lágrimas que


agora se acumulavam em sua íris preta.

— Faço qualquer coisa pela vida de meu pai.


Eu não a soltei.

Olhei para o bêbado maltrapilha e pensei que ele não


merecia a filha que tinha. Não merecia alguém que o
amasse incondicionalmente. Ele não merecia porra
nenhuma, apenas punição!

Olhei para os caras.

— Vamos cair fora daqui.

— E o dinheiro?

Eu ri.

— Isso aí mal serve pra limpar a bunda.

Antes que eu a segurasse com mais firmeza, a garota


correu para os braços do pai. Chorou enquanto se
despedia dele. Aguardei aqueles segundos completamente
sem ação, então eu a puxei e a levei para fora da casa. Ao
alcançarmos o banco traseiro do audi, empurrei Maya
para lá dentro. Depois me acomodei a seu lado.
Imediatamente atendi o celular que tocava.

— Fala, Jarbas.

— O que fazemos com o bêbado?

— Por enquanto só fiquem de olho nele. Não quero


que ele saia por aí falando besteira.

Sem me despedir, desliguei o celular e voltei a guardá-


lo no bolso do paletó. Dei ordem para que o carro
andasse. O beco onde Maya morava era deserto e escuro.
Aprovei a ideia de não haver testemunhas enquanto a
morena chorava a centímetros de mim. Evitei olhar para
ela.

— Não podem matar meu pai! Deu sua palavra! Estou


aqui pela vida dele! —protestou.

— Na verdade, está pela dívida, guria. E vou matá-lo.


Quer queira, quer não.
***

Ela me odiava.

A garota.

Maya.

E ainda chorava no carro. Um choro baixo, som


regular, mas incômodo. Era como se seu choro me
lembrasse do quão carrasco eu era ou como se me tirasse
a posição de vítima da história. Mas eu era a vítima. Bom,
tinha sido a vítima durante anos. Eu era o cara que só
estava atrás do meu objetivo, que clamava por vingança, e
que não teria sossego enquanto não conseguisse obter
aquilo.

O telefone tocou pela segunda vez e agradeci em


pensamento por algo me livrar do resmungo daquela
morena melancólica.
— Heitor!

A voz de Theo soou do outro lado.

— Fala.

— O pessoal da transportadora chegou. Precisam


que assine um documento para a liberação das bebidas.
Tentei assinar, mas disseram que é só com você.

— Ok — olhei o pulso — Peça que esperem um


pouco. Vou mudar o trajeto e seguir direto para o cassino.

— Certo... Hum, quem tá aí com você? Tô ouvindo


choro de mulher.

— Não é nada — falei antes de desligar.

Olhei para Sony, que dirigia lá na frente.

— Mudança de planos, Sony. Vamos seguir para o


cassino.
A garota finalmente parou de chorar. Talvez ela
chorasse ainda, mas silenciosamente. Achei melhor assim.
Ela mantinha o rosto virado para a janela, o que achei
ótimo porque não queria mesmo olhar para os cornos dela
e ver o quanto me odiava. No entanto eu não estava nem aí
para os sentimentos dela em relação a mim. Se ela me
achava mau e insensível, ficaria assombrada com o que eu
pensava em relação ao pai dela. Estávamos quites. Além
disso, fora ela quem inventara a ideia de se doar pela
dívida. Eu apenas concordara. E, pensando bem, tinha
sido uma troca deliciosa.
Capítulo 7
HEITOR

— HEITOR! Preciso falar com você. Sou sua mãe!


Por que tenho a impressão de que não sou nada pra
você? Não me liga, não me visita... — interrompi a voz
de Nora que soava alterada e visivelmente magoada
através do aparelho antes que ela revelasse mais do que
devia a todos os que estavam no carro, inclusive Maya. A
merda da mensagem de voz entrara sem mesmo eu ter me
dado conta de que ela existia, e quando vi, era tarde
demais. Depois eu falaria com ela. Conversaria e
explicaria à Nora que eu a amava e que ela, sim, era muito
importante para mim.

Olhando para a janela do carro, pude contemplar


através do vidro molhado pela chuva que já estávamos
contornando à avenida que dava acesso ao cassino. E
quando Sony conduziu o carro em frente ao prédio da
boate, um automóvel vermelho e familiar, estacionado do
outro lado da calçada, me chamou a atenção. Safira, a
mulher que eu não via há muitos meses, estava ali. Não fui
capaz de controlar a irritação pelo fato de Theo não ter
me avisado nada a respeito dela. Theo. Como meu irmão
estava virando um grande inútil para mim, assim como
alguns dos seguranças. Peguei novamente o celular e
disquei para ele, que não demorou a entrar na linha.

— Fala, Heitor.

— Por que não me avisou que Safira está aí dentro


com você?

Ele calou-se, certamente por ser pego de surpresa.


Aguardei a resposta.

— Bom, porque na verdade ela não estava. Só chegou


há uns três minutos depois de eu ter falado com você.
Quando terminei a ligação é que vi o carro da perua
estacionar, então concluí que você a aguardava.

— Não, há meses não me encontro com Safira e não


gostei de saber que ela está aí.

— Aprenda a domar suas amantes então.

— Droga, tô entrando.

Desliguei o telefone, pensando. De fato, fazia meses


que eu não procurava a mulher e talvez por isso a
presença dela me incomodasse. Não estava a fim de aturar
resmungos e DR's uma hora daquela. Vou falar sobre
Safira: ela é linda. Iniciou sua carreira de modelo e logo
se destacou em muitas revistas. Só não teve uma carreira
brilhante porque, segundo ela, o ciúme descontrolado de
seu marido não permitira. Apenas quando ele morreu,
alguns anos atrás, é que ela se tornou esse furacão que era,
e foi então que nos conhecemos.

Safira era experiente, insaciável e discreta. Nossa


química fora instantânea e nosso relacionamento marcado
por momentos tórridos e muitas idas e vindas. No entanto
as coisas começaram a mudar quando os negócios me
fizeram rico demais e outras mulheres ainda mais
interessantes aparecerem, então logo Safira perdeu sua
posição de única mulher na minha vida. Nem mesmo seus
ataques de ciúme me impediram de ser esse mulherengo
incorrigível que todo mundo diz que sou. Então
rompemos. Mas Safira nunca ficava exatamente fora de
minha vida. Tirando a mulher da cabeça, me lembrei de
que Maya estava ao meu lado no carro.

— É o seguinte, morena — disse a ela, sem olhar para


sua fisionomia agora — Vou entrar na boate e não quero
saber que deu trabalho pros caras.

Ela não me encarou, mas percebi que entendera bem o


recado. Afinal, não era surda. Nem burra. Saí do audi e
cerca de minutos depois já estava inspecionando todo o
trabalho que os funcionários da transportadora faziam na
boate. Antes de assinar qualquer papel conferi todo o
produto. Era de boa qualidade. Provei um uísque,
enquanto orientava os trabalhadores a deixarem as
bebidas nos depósitos. Quando eles saíram de lá, enfiei a
mão nos bolsos da calça, à espera de Safira. Eu sabia que
ela apareceria. Theo, a essa altura, já espiava pela janela
o que se passava lá fora.

— Tem uma garota no carro?

De lá onde ele estava não podia ver nada, já que o


vidro dos audis eram escuros e filmados, mas meu irmão
tinha escutado a voz de Maya pelo celular e eu sabia que
queria plantar verde para colher maduro. E pensando bem,
eu ouvira sua pergunta, mas não estava a fim de lhe
responder. Segui para o hall que dava acesso o cassino e
atravessei o salão mais luxuoso que conhecia. Aliseis as
toalhas vermelho-sangue das mesas. Por um momento
esqueci Safira. Por um momento esqueci também Maya.

— Uma namorada nova? — Theo indagou atrás de


mim. Pelo visto ainda não tinha esquecido a garota do
carro.

— Nada de garotas.
— Me engana que eu gosto.

— Como sempre mulherengo, não é, Heitor? — a


figura imponente e vistosa apareceu diante de meus olhos,
me fazendo voltar-se para a mulher deslumbrante que
estava à minha frente. Loira, alta, como sempre elegante,
cabelos presos num coque perfeito, toda de preto, até as
belas luvas.

— Safira.

— Como vai, Heitor? — forçou um sorriso nos lábios


vermelhos — Bem, além de mulherengo, sempre
impecável e perfeito.

Theo pigarreou, revelando constrangimento diante de


um ex-casal de amantes. Sempre conhecera Safira, embora
os dois nunca tivessem parado para conversar mais sério
e para virarem grandes amigos.

— Hum, acho que vou sair e deixar vocês à vontade.


— Oh, não, tudo bem, não vou demorar — Safira
disse, para a minha surpresa — Não vou demorar. Tenho
que terminar de organizar algumas coisas a tempo da
convenção no clube amanhã de manhã. Então... só quero
dizer, Heitor, que estou de volta na cidade. Estava em
Londres. Uma temporada. Não me adaptei ao clima e por
isso voltei mais cedo — pareceu sem graça — Bem, é
isso. Se qualquer dia quiser conversar, sabe onde me
procurar.

Vi Safira se afastar e tão logo ela sumiu de vista


detectei um sorrisinho debochado no canto da boca de
meu irmão. Não me segurei e então liberei meu riso.

— Que é? Inveja das mulheres que pego?

— Até teria inveja se você não vivesse sempre tão


enrolado com elas — encheu duas taças de vinho. Me
entregou uma.

— Devia ter me avisado sobre ela — bebi um gole da


taça.

— Já disse, ela chegou logo após eu desligar o


telefone. Não posso fazer nada se não sabe controlar suas
amantes.

— Ela é passado.

Consultei a hora no pulso e vi que passavam de meia


noite. Ignorei o que Theo começou a falar sobre bebidas e
mulheres enquanto observava o salão principal do
cassino. Voltei a olhar para o que os caras da
transportadora tinham feito minutos atrás, que era a
alocação das bebidas nos depósitos. Depois de tudo
fiscalizado, tranquei todas as portas.

— Ainda não me falou sobre a garota que estava


chorando em seu carro. Fiquei curioso. Você não costuma
machucar mulheres. O que tá havendo?

— Algumas garotas choram por qualquer coisa, e não


podemos fazer nada a respeito — massageei as toalhas
vermelhas, tentando driblar a curiosidade de Theo —
Essas toalhas estão sujas. Precisam ser trocadas. É melhor
ligar pro serviço de limpeza amanhã e resolver isso.

Theo cruzou os braços, os pés e eu soube que ele não


terminaria aquela conversa. Não ainda. Igual a mim,
estava vestindo uma calça preta e uma camisa social
branca.

— Você manda, chefe. Vai pra casa?

— Já tô lá — mas então pisquei, confuso. Merda. Se


eu iria para casa, para aonde a garota iria? Bem, ainda
não tinha pensado nisso, mas era óbvio que seria minha
hóspede. Na verdade, não fazia parte dos meus planos
levá-la comigo. E agora eu me perguntava onde a
deixaria. O que faria com aquela morena destemida?

— Que foi? Deixei Heitor Romano sem palavras?

— Desde pequeno tem um grave defeito, Theo: falar


demais.
Riu.

— E Nora sempre dizia que você escondia as coisas.

— Sua curiosidade ás vezes me mata.

— Bom pros seus inimigos saberem disso — zombou.

— É sério, pare de cuidar da minha vida e vá cuidar


da limpeza das toalhas — segui o caminho de volta — E
sonhe com uma ruiva gostosa!

— Prefiro morenas! — gritou de volta enquanto eu


caminhava em direção à saída.

Voltando a colocar o terno na cabeça por causa da


garoa que descia pelos céus cinzentos de São Paulo, olhei
para os dois lados antes de atravessar a rua, até caminhar
para o carro de onde eu saíra meia hora atrás. E onde a
garota estava sentada. A morena perturbadora.

Maya.
Nossas mãos se tocaram rapidamente e logo senti as
dela se afastarem de mim, como se eu fosse algum tipo de
doença contagiosa. Espiei sua fisionomia, Maya agora
estava olhando para a janela, tentando me ignorar. Parecia
mais calma, mas eu sabia do seu ódio profundo por mim.
Pensei em dizer algo reconfortante para ela, mas não fazia
ideia do quê. Melhor não. Melhor manter a boca fechada.
De repente um barulho de celular irrompeu no carro.
Percebi que era o meu.

— Alô?

— Ei, bonitão — a voz grave de Safira entrou na linha


— achei que fosse perceber que eu precisava ver você
esta noite. Achei que fosse me ligar ou fosse vir atrás de
mim.

Prendi um riso, pensando numa desculpa bem


elaborada para dar a ela. A mulher sempre fora pegajosa e
mesmo assim nunca a deixei porque gostava muito das
nossas trepadas, entretanto não estava mais a fim de uma
transa fora de hora com ela.

— Hoje não vai dar, Safira. Tenho coisas pra resolver.


Quem sabe uma outra noite?

— Nunca esqueci você, Heitor, e nunca vou esquecer.


Sonhe comigo, gostoso. Vou fazer isso com nós dois.

Desliguei o celular e o guardei no bolso do paletó. O


novo silêncio no carro me fez voltar a pensar na presença
de Maya. Eu poderia até tá zoado, mas ficar perto dela
estava me agradando. Eu gostava de seu cheiro, de seus
olhos sérios me olhando, de quase tudo na garota. Pensei
em provocá-la, mas resolvi ficar na minha.

Quando o carro estacionou na mansão, meia hora


depois, segurei Maya pelo braço e a conduzi pela casa. Eu
já não queria mais machucá-la. Seu braço era bem mais
fino que o meu, bem como todo o seu corpo era pequeno.
Minha mãe sempre me ensinou a ser cavalheiro com as
garotas e eu me envergonhava de ter sido um animal com
ela. Conduzi a morena até o andar de cima, tendo o
cuidado de não voltar a ser um ogro.

— O que vai fazer comigo? — indagou, insegura —


Onde estou? Que lugar é esse?

— Sem perguntas.

Ela se calou e logo alcançamos um dos quartos de


hóspede.

— É aqui que vai ficar — informei quando entramos


— Regra número um, morena: nada de perguntas. Se já
sabe quem eu sou, então vamos dispensar as
apresentações. Regra número dois: vai tentar ser gentil e
fazer de sua estada uma coisa agradável aos meus olhos. E
regra número três: Nada de me desafiar — fui até a janela
e a fechei. Em seguida comecei a organizar as coisas do
quarto, me agachando, arrumando, tirando outras coisas
do lugar, desligando tomadas. Não queria deixar nada que
dessa a Maya condições de planejar uma possível fuga.
— Vou ficar isolada aqui?

Não respondi.

— O que vão fazer com meu pai? Por favor, só me


diga que não vão matá-lo. Precisa cumprir sua palavra.

Eu a ignorei. Meus olhos estavam concentrados numa


extensão de tomadas. Eu a enrolava em volta do braço.

— O que vão fazer com ele, seu filho da puta? —


gritou, me surpreendendo.

Quê?

Parei.

Soltei a tomada e a estudei. Ela estava pálida e


nervosa, com os olhos bem abertos. Seus lábios rosados
estavam trêmulos. Ou ela era mesmo muito corajosa ou
então era uma idiota. Levantei. Maya, aparentemente
arrependida, recuou dois passos.
— Olha pra mim, garota!

Avancei dois passos e colei meu rosto no dela.

— Olha pra mim, cadela, que eu tô mandando! Acha


mesmo que não posso fazer o que quiser com você? Pois
bem, eu posso fazer. Sou o dono dessa porra toda, sacou?
E você é só uma garotinha indefesa. Então nada de berros.
Isso não vai funcionar comigo.

— Disse que não ia matá-lo — murmurou, os olhos


acusatórios sobre mim — Por isso que vim no lugar... foi
o combinado. Pensei que tivesse palavra.

Voltei a me afastar dela.

— Eu sempre mantenho minha palavra — falei.

Sem dizer mais nada, abri a porta e passei por ela.


Aquela estranha tinha me tirado do sério. Passei a chave
na fechadura pelo lado de fora e percorri de volta o
caminho até o primeiro andar. Eu precisava comer alguma
coisa e depois precisava de um banho. E talvez minha
relação com a prisioneira começasse a ficar melhor
amanhã.

***

Passara de uma da manhã e eu não conseguia pegar no


sono. Com a cabeça pousada na poltrona do escritório e
um copo de uísque na mão, divaguei sobre todos os
acontecimentos daquela noite. Eu tinha na mente a ideia de
me livrar de Natanael, mas então amarelei e acabei
voltando para casa com a filha dele na minha cola. Ela
estava lá em cima, num dos quartos, numa das minhas
camas, como uma simples visita, todavia não era minha
hóspede — era minha prisioneira. Cerrei os olhos e me
lembrei de suas mãos delicadas tocando os pães na
lanchonete. Droga, eu tinha gostado dela!

Abri os olhos e me desencostei da poltrona antes de


ligar o aparelho que me dava todas as imagens das
câmeras de segurança. Selecionei o quarto onde Maya
estava e tão logo a imagem se abriu vi a garota deitada
sobre a cama, chorando. Inspirei fundo, me sentindo mal
por isso. Voltei a encostar na poltrona, pensando no que
fazer. A garota estava ali contra a própria vontade. Aquilo
nunca tinha acontecido comigo.

Olhando de longe para a tela que me mostrava uma


Maya ainda deitada com o corpo balançando por causa
dos soluços, voltei a pensar em como eu a tinha visto na
lanchonete. Ela tinha me chamado atenção. Não como uma
atração arrebatadora, daquelas que eu tinha e que horas
depois estava com a mulher na cama. Mas tinha sido uma
coisa bacana, diferente, mais terna. Maya à princípio não
despertou uma atração sexual em mim, era algo além
disso. Uma admiração. Gostara do modo como ela se
concentrava nos pães, como suas mãos pequenas e
trêmulas tocavam-nos e como seus olhos escuros
brilhavam como se pedissem ajuda. E eu só não
imaginava que ela seria a filha de quem era. Como eu
poderia imaginar algo com ela quando não suportava o
sangue que lhe corria nas veias?

Inferno.

Desativei a cena de Maya e desliguei o aparelho. Era


melhor deixar aquela garota para lá. Em seguida deixei o
escritório. Passei pelo hall antes de encontrar a escada. Já
no segundo andar, passei pelo quarto onde Maya estava e
pensei em lhe dizer alguma coisa. Toquei a porta, como se
pudesse sentir seu calor humano através dela. Me senti um
idiota. Segui para o meu quarto e lá tirei a camisa. Diante
do espelho, alisei as poucas sardas marrons nas minhas
costas. As garotas gostavam. Eu tinha uma tatuagem no
braço. Um coração ferido. Troquei a calça preta por um
moletom da mesma cor e me deitei na cama. Com a mão
sobre a testa, tentei pensar em algo que não fosse a tal
garota hospedada no quarto. Precisava tirar aquela
morena ardente da cabeça.
Capítulo 8
MAYA

HEITOR ROMANO era bonito.

Isso. Mau, mas bonito. Tipo garoto-propaganda de


comerciais de TV.

E agora mesmo eu o via saltar do carro.

Loiro, alto, charmoso, pinta de modelo ou de algum


artista. Não parecia bandido. Não combinava com a
profissão de mafioso, se é que aquilo era profissão.
Acompanhei seus passos. Eu o vi ajeitar o terno preto
sobre a cabeça para se livrar da chuva. Eu o vi atravessar
a rua estreita e logo em seguida entrar na boate. Outros
homens entraram depois dele. Notei um caminhão de
bebida estacionado do lado de fora. Olhei para o vidro de
trás e vi outros carros, todos pretos e iguais àquele onde
eu estava, exceto um.
No carro em que eu estava tinha um sujeito no volante
e outro no lado carona. Os dois fumavam cigarro e
trocavam poucas palavras sobre bebidas e sobre o quanto
queriam uma cerveja gelada, mesmo numa noite gélida
como aquela.

Eu não tinha mais medo. Por incrível que parecesse,


não sentia medo, não me dava ao direito disso. Ajeitei
minhas pernas no estofado macio, que mais parecia
poltrona de uma casa de tão confortável, e evitei pensar
no meu pai e no desespero que vira em seu semblante
quando fui embora. Evitar pensar nele me impedia de
mergulhar na tristeza. É preciso ser forte, não fraca.
Inspirei o ar com força e em seguida o soltei pelo nariz. O
perfume másculo de Heitor reunia sândalo e almíscar e
refrescava minhas narinas.

Olhei para a porta do carro por onde o loiro perigoso


saíra segundos atrás e constatei que seria suicídio tentar
qualquer coisa. Seus capangas certamente não me
poupariam. Olhei novamente para os caras no banco da
frente e eles iniciavam uma conversa sobre corrida de
cavalos. Pelo vidro da janela do meu lado reparei a noite
nublada que estava fazendo lá fora. Pensei em Lucas.
Onde estaria meu irmão agora e o que ele estaria fazendo?
Bom, eu só esperava que ele estivesse bem.

Descansei a cabeça no material duro que ficava em


volta da janela e esperei que novos minutos se passassem.
Fechei os olhos, aspirando aquele aroma de carro novo,
aparentemente recém comprado. Me recusei a ficar
pensando que estava sob a custódia de um mafioso, que na
verdade eu tinha me oferecido para ele, e que eu seria o
que ele decidisse que eu fosse. O que ele quisesse.
Bloqueei esse pensamento ou então ficaria louca. O
importante é que a dívida estava paga e que tudo ficaria
bem, se todos respeitassem o combinado. Todos: Heitor e
eu.

Seja forte, Maya! Forte!

Heitor saiu da boate justamente no instante em que eu


olhei para a janela. Nossos olhos não se encontraram,
para o me alívio, e pude observá-lo novamente. Alto,
loiro, forte, mas pensei no quanto aquela era cruel e frio.
Vi Heitor mexer o terno e erguê-lo novamente até a cabeça
para se proteger da chuva que estava agora ainda um
pouco mais forte, enquanto olhava para os dois lados da
rua.

Tão logo atravessou, já estava acomodado ao meu


lado. Seu cheiro novamente perfumou o ambiente e
reavivou minhas emoções. E comecei a ter medo de me
acostumar com aquele cheiro que vinha dele.

Me afastei um pouco, tentando não me concentrar no


perfume bom. Nossas mãos se tocaram rapidamente, então
me afastei, virando o rosto. Ele pareceu olhar para mim,
pude sentir de canto de olho, pude sentir também sua
respiração, mas fiz de conta que nada me incomodava.
Detestava a ideia de ser observada por ele. Talvez Heitor
não tivesse gostado do fato de eu ter me virado. Azar o
dele! Talvez me maltratasse ou me matasse. Dei de
ombros em pensamento. Talvez o carrasco me
violentasse... e isso seria o fim. Mordi os lábios, sabendo
que os machucaria de nervoso, tentei deletar aqueles
pensamentos ruins e me concentrar em sobreviver. Apenas
sobreviver.

O telefone tocou e Heitor o atendeu. Pela conversa, era


uma mulher. Pensei se ele era delicado e gentil com elas.
Pelo jeito era só furioso comigo. A ligação fora rápida e
logo o silêncio predominou outra vez no carro. Um dos
capangas da frente puxou uma conversa com o chefe e
Heitor desistiu de me olhar. Me senti mais segura com
isso, longe de seu alcance, embora agora fosse toda dele.

Quando o carro entrou, cerca de uma hora depois,


numa mansão cercada por um lindo jardim, percebi que
era fim de linha. Por alguma razão voltei a ficar nervosa.
Estava claro que estava na casa de Heitor e que agora eu
saberia os planos que ele tinha para mim. Será que eu
morreria? E se sim, como seria minha morte? Rápida?
Lenta? Dolorosa? Mordi o lábio inferior novamente. Não
estava preparada para morrer. Nunca estaria.

— Chegamos — a voz autoritária murmurou antes de


sairmos do carro.

Assim que meus pés tocaram o chão de paralelepípedo


inacreditavelmente limpo, notei o jardim bem cuidado e
muros cercados por pedras. A mansão era moderna e não
havia como eu me localizar, visto que uma mão firme de
longos dedos segurava meu braço, me obrigando a andar.
Heitor me conduziu até o interior da bela casa e neste
instante ergui os olhos para ele.

— O que vão fazer comigo? Que lugar é esse?

— Sem perguntas.

A sala era bonita, os cômodos por onde passávamos


me faziam lembrar da vida ostentante que aquele cara
obviamente tinha. Me obrigou a subir uma longa escada
decorada com tapete vermelho. Ele era forte. Tão forte,
que com uma mão me segurava e me carregava até o
segundo andar sem dificuldade. E não me machucava.
Apesar de não ser gentil e de me segurar com firmeza, não
me machucava, o que era uma coisa boa, pois não era tão
bruto quanto eu imaginava. E era como se ele me
carregasse e eu apenas flutuasse. Era difícil acompanhar
seu passo.

Alcançamos um hall tão logo passamos por uma porta


de madeira escura. Olhei para a ampla cama, depois
voltei os olhos para Heitor. Tinha olhos azuis. Mais claros
do que eu me lembrava. Os cabelos de um loiro escuro
num penteado moderno, num topete bonito. E ele era viril.
Atraente e viril. Não dava para ver seu corpo por causa
do terno preto, mas ele era malhado. Tinha todo jeito de
caras preocupados com a estética.

— É aqui que vai ficar. Regra número um, morena:


nada de perguntas. Bem, já deve saber quem eu sou, então
esse detalhe dispensa apresentações. Regra número dois:
vai tentar ser gentil e vai tentar fazer de sua estada uma
coisa agradável aos meus olhos. E regra número três:
nada de me desafiar — foi até a janela e a fechou. Segui
seus movimentos bruscos, tentando não parecer tão
intimidada. Estremeci com sua força. Achei que a janela
fosse se quebrar, mas Heitor apenas a fechou. E de uma
forma magistral. Pisquei os olhos, perseguindo seus
passos. Agora ele estava caçando várias coisas do quarto,
se agachando, arrumando, tirando outras coisas do lugar,
desligando tomadas. Ao que parecia, queria manter tudo
fora do meu alcance.

— Vou ficar isolada aqui?

Não respondeu.

Engoli em seco.

— O que vão fazer com meu pai? Por favor, só me


diga que não vão matá-lo. Precisa cumprir sua palavra.

Ele me ignorou. Seus olhos estavam concentrados


numa extensão de tomadas. Ele a enrolava em volta do
braço musculoso. Aquilo fez meu sangue subir.
— O que vão fazer com ele, seu filho da puta?!

Ele parou.

Soltou a tomada lentamente e me olhou. Um olhar


indiferente e que revelava desprezo. Levantou-se e eu
recuei dois passos, mas logo ele avançou em mim.

— Olha pra mim, garota!

Virei o rosto, agora realmente apavorada.

— Olha pra mim, cadela, que eu tô mandando! —


bradou.

Avançou e colou o rosto no meu.

— Acha mesmo que não posso fazer o que quiser com


você? Pois bem, sabe quem sou? Sou o dono dessa porra
toda e você não passa de uma garotinha indefesa. Então
nada de berros. Isso não vai funcionar comigo.
Quase chorei, mas tentei ser mais resistente. Não só
porque Heitor parecia furioso, mas porque também eu não
sabia como ficaria a situação de meu pai. E se Heitor
decidisse descumprir o acordo?

— Disse que não ia matá-lo — murmurei — foi por


isso que vim no lugar da dívida... foi o combinado. Pensei
que tivesse palavra.

Ele voltou a se afastar, para meu completo alívio.

— Eu sempre mantenho minha palavra.

Saiu pela porta e a bateu com força por fora. Ouvi o


barulho da chave passando pela fechadura, em seguida
ouvi seus passos apressados se afastarem pelo corredor.
Seu delicioso cheiro, todavia, ficara no quarto, mais uma
vez avisando que iria me torturar.

Eu estava presa.

Eu era agora a escrava dele.


Me deitei em posição fetal, só agora permitindo que os
soluços saíssem livremente e castigassem todo o meu
corpo. Pensei nos mafiosos voltarem para matar meu pai,
pensei neles destruindo toda a minha família e depois
tacando fogo na nossa casa. Pensei na ideia de ficar presa
a vida inteira e no tormento que seria viver sob o domínio
de um criminoso. Pensei na droga que era o vício de
bebida e na droga que era conviver e amar uma pessoa
alcoólatra, pensei que não acordaria mais viva. Pensei
que Heitor Romano era lindo por fora, mas terrível por
dentro.

***

Na manhã seguinte a porta se abriu, me despertando de


um terrível sono e me revelando alguém. Com um salto,
me refugiei no canto da cama e afastei mechas de cabelo
do rosto para ver melhor quem estava ali. O desconhecido
sorriu para mim. Ele não era Heitor. Tinha cabelos e olhos
castanhos e me estudou. Seu rosto não era tão bonito como
o do loiro perigoso, todavia seu semblante era mais
sereno. Ele usava terno e parecia um executivo. Não era
assustador. Arriscou um novo sorriso.

— Bom dia, senhorita. Dormiu bem?

O quê?

Como ele achava que eu dormira?

Não respondi.

— Não vai falar comigo?

— Quem é você?

Ele avançou um passo.

— Theo. Irmão do carinha que te prendeu aqui.

Irmão?
Me afastei ainda mais um pouco, até sentir minhas
costas tocarem a parede fria. Se era irmão do loiro e
estava ali, então era porque também não valia nada.

— O que você quer?

— Nada em especial. Vim só ver como você está.

— Como vê, seu irmão ainda não me matou. Aquele


troglodita.

Ele gargalhou, me fazendo sentir um bicho exótico que


estava preso numa gaiola do zoológico. Olhou para trás,
como se conferisse se alguém vinha às suas costas.

— Ainda bem que ele não tá aqui pra escutar seu


elogio. Aliás — coçou o queixo antes de olhar para o alto,
um ponto acima da janela — Tenho más notícias: há
câmeras por toda a casa, inclusive neste quarto. Sugiro
que seja mais educada.

Segui o dedo dele e vi que, de fato, havia uma câmera


escondida. Bem, não tão escondida assim.

— Onde ele está? Por que mandou você aqui? Não tem
coragem de me enfrentar, então mandou o irmãozinho?

Ele voltou a rir. E eu não gostava de quando me


avaliavam. Engoli em seco e me arrependi de ter sido tão
desaforada. Me senti estranha. De repente alguém surgiu
atrás do moreno. O loiro. Era ele, Heitor. O loiro
perigoso. Se não fosse tão mau, eu até morreria de amores
por ele. Heitor divisou o olhar entre mim e o irmão dele.

— Que tá pegando aqui?

— Nada. Só tô dando as boas-vindas à convidada.

Heitor passou pelo irmão e me fitou.

— Bom dia, malagueta. O café tá pronto. Quero que


desça.

Malagueta?
Ah, vá pro inferno!

— Não quero café nenhum — vi o irmão do loiro fazer


um gemido de deboche. O semblante do Heitor logo se
fechou, mas seus olhos azuis brilhantes continuaram fitos
em mim. Ergui o queixo. Não era só porque estava ali
como prisioneira que me atiraria no chão para que ele
acabasse de pisar em mim. E se ele estava disposto a me
matar, então que me matasse de uma vez!

Mas ao contrário de me apontar uma arma, Heitor


estreitou os olhos e pareceu me estudar. Pareceu pensar
em alguma coisa para dizer. Pensei que fosse explodir,
que fosse berrar, que fosse xingar um monte de palavrão e
me obrigar a descer, todavia, para a minha grande
surpresa, apenas voltou a sorrir. Um sorriso zombeteiro,
que agora me lembrava o cara que ele fora na lanchonete.
A confusão embaralhou minha mente. Pisquei. Ele não
devia ser tão mau como parecia...

— Sabe — falou, a voz perigosamente suave — Se


não quer tomar café comigo, então que se foda. Morra de
fome.

Girou nos calcanhares e saiu do mesmo modo como


entrou, silenciosamente.

— Delicado ele — o irmão zombou e me perguntei o


que ele ainda estava fazendo parado ali. Por que não saía
também?

Ajeitei meu rosto entre os joelhos e me escondi.


Queria ficar sozinha. Queria definhar sozinha e não ter
que olhar para ninguém. Se era para morrer, que a morte
fosse solitária e silenciosa. E, de preferência, sem plateia
para me assistir.

— Acho melhor não desafiá-lo — Theo piscou — Ele


não costuma prender garotinhas indefesas, mas não é bom
cutucar bicho com vara curta. E talvez fosse bom dançar
conforme a música.

Girou nos calcanhares também, assim como o loiro fez


anteriormente, e saiu. Sozinha, pensei no assunto. Pensei
no que o irmão de Heitor falara sobre dançar conforme a
música e então uma luz clareou minha mente.

As coisas poderiam não ser assim tão ruins se...

... se eu fosse mais esperta.

Eu queria ir embora, queria voltar para casa. E talvez


precisasse entrar no jogo de Heitor. Talvez precisasse ser
mais agradável com ele. Pensando assim, deixei a cama
bagunçada e pensei no que poderia fazer para me manter
viva. Eu devia tomar café com ele lá embaixo. Devia
também agir com menos irritação. Devia lavar o rosto e
ajeitar os cabelos... não para tentar seduzi-lo... claro que
não.

Eu não tinha escova de dentes...

Não tinha minha bolsa, nem tinha levado nada para a


casa de Heitor. Não podia ficar sentada na cama
esperando minha vida inteira passar, ainda que minha
vida inteira se resumisse a apenas mais alguns dias.

O quarto, agora eu via melhor, era bonito e másculo.


Tão másculo como o dono dele. Os móveis tinham o tom
escuro e sóbrio, nada exagerado. Havia uma cama
confortável, armário alto e grande, com gavetas e várias
repartições. Havia um tapete azul escuro com tons cinza
no chão e uma televisão LED enorme em frente à cama.
As janelas estavam fechadas. Tentei espiar alguma coisa
lá fora, mas era impossível.

Atravessei o quarto à procura da suíte. Lá fiz minha


higiene pessoal do jeito que consegui, lavando a boca com
pasta dental. Já de volta ao centro do quarto, encarei a
porta e virei a maçaneta. Ela se abriu como num passe de
mágica. Bem que eu não tinha ouvido o barulho de chave
quando o irmão de Heitor saiu. Provavelmente eles ainda
me esperavam para o café. Empurrei a porta com cuidado.
Não vi ninguém pelo corredor, mas era óbvio que tinha
câmeras por ali. Caminhei em direção à escada, mas ao
chegar lá, engoli um grito de espanto.
Alguém estava lá embaixo, parado na base da escada.

O loiro.

Heitor.

Tinha os pés cruzados de uma forma máscula e


elegante. Era como se estivesse me esperando descer.
Petrifiquei e pensei.

O que, afinal, ele estava fazendo ali?


Capítulo 9
HEITOR

— QUE GURIA ERA AQUELA?

Descendo as escadas de mármore de dois e dois


degraus, pensei no que tinha acontecido segundos atrás e
no modo como Maya tinha me desafiado.

Ela tinha me desafiado!

Quem aquela garota abusada pensava que era? E eu


estava sendo tolerante com ela! Estava tentando não
descontar toda a minha fúria no raio dos cornos dela. Mas
ao que parecia, a guria queria mesmo dificultar as coisas.
Então veria o que era bom para a tosse!

Maldita morena estúpida.

Maldita morena estúpida e tinhosa!


E ardente!

Alcancei a sala de estar, admitindo a mim mesmo a


minha derrota. Pelo menos tinha sido mais seguro ter
saído do quarto antes de iniciar uma discussão com ela.
Eu não devia começar a explodir.

Segui o caminho, pensando que se tinha uma merda que


eu aprendera ao longo daqueles anos no mundo da máfia
era que um bom líder nunca perdia o controle por
qualquer coisa, principalmente por causa de uma garota. E
eu não era o cara que era, não tinha alcançado aquela
posição para que um dia uma garota folgada e qualquer
me colocasse à prova. Maya era apenas uma mocinha
atrevida e malcriada que fora trazida praticamente à força
por mim e por isso estava revoltada.

Bem, ela tinha suas razões. Não devia ser nenhum


pouco agradável ser obrigada a ficar com alguém. Muito
menos com um cara como eu. A droga é que não podia
nem condenar a garota por aquele seu mau humor, mesmo
não gostando de ser confrontado como ela me confrontava.

Arranquei uma garrafa de uísque do bar e preenchi o


copo com duas doses amarelas. Não devia estar sendo
fácil para ela. Merda. E Maya não saía da minha cabeça.
Aquela coisinha malcriada.

Engoli o uísque com uma só golada. E me convenci de


que não valeria a pena gastar minhas energias com a
garota. Tinha mais coisa a fazer. Abandonei o copo vazio
em algum móvel da sala e segui por um outro corredor que
terminava na cozinha. Ouvi uma voz agradável de lá, uma
voz que me acalmava um pouco.

Carla estava arrumando as coisas na imensa despensa


enquanto cantarolava uma canção serena. Uma que eu não
conhecia.

— Bom dia, Heitor!

— Oi, bom dia.


Fui até a pia enquanto ela parecia lutar contra vários
potes grandes de mantimentos. Havia uma toalha de mesa
em sua mão direita e um pano de prato na outra. Ás vezes
eu tinha tanta coisa na cabeça que até esquecia os dias que
Carla aparecia na casa.

— A mesa do café tá pronta — informou — Quer que


eu prepare mais alguma coisa?

— Não, obrigado, tudo bem — dei um sorriso gentil,


me lembrando da vida complicada que aquela mulher
tinha — Como andam o marido e os filhos?

O marido dela, Cauê, ficara paraplégico desde que


sofrera um acidente de moto anos atrás e os dois filhos
que o casal tinha eram pequenos e agora só contavam com
a mãe. Garantir-lhe o emprego foi ideia de minha mãe e
algo do qual nunca me arrependi.

— Ah, estão todos muito bem. Cauê lhe mandou um


forte abraço. As crianças estão animadas com o passeio
que vão ter esta tarde na escola.

— Ah, legal. Bom, então neste caso pode ir pra casa


ficar com elas. Não quero que Cauê pense que estou
explorando a esposa dele.

— Ah, bobagem, ele é muito grato a você, Heitor. Se


não fosse por sua ajuda e a de Nora só Deus saberia como
estaríamos vivendo agora.

— Diga a ele que está tudo bem. E, sério, pode ir. Eu


sei me virar aqui em casa.

— Posso antes preparar alguma coisa pra deixar pro


almoço... Ah! O serviço da lavanderia vai passar depois
do café e a passadeira acabou de me entregar todas as
roupas que faltavam. Mas ainda posso fazer muita coisa
antes de ir. Tem certeza de que não precisa de nada?

Lembrei da garota que estava no quarto. Maya. Ela


precisava de roupas.
— Bom, talvez possa me ajudar com alguma coisa.
Hum, estou com uma hóspede — pigarreei — Sabe como
é, né? Ela passou a noite aqui e só está com a roupa do
corpo...

— Ok, vou resolver isso num instante. Das coisas que


a lavanderia deixou deve ter alguma coisa que caiba nela.

— Pode encontrá-la depois do café. Ela tá no quarto.


Se chama Maya.

— Certo, enquanto isso vou organizando a limpeza do


quarto.

Carla saiu e pensei no quanto ela seria uma boa


companhia para Maya, se a morena fosse mesmo ficar
mais algum tempo do que eu planejava na minha casa.
Carla era uma mulher íntegra e gentil. E confiável. Devia
ter uns trinta e poucos anos, mas tinha uma sabedoria que
poderia dar inveja à minha avó. Ela trabalhava para mim
havia quase cinco anos. Se orgulhava de se intitular minha
governanta. Não era exatamente isso, mas eu não fazia
questão de corrigi-la.

Assim como Diogo Del Rei, não curtia esse lance de


ter gente entrando e saindo o tempo todo da minha casa,
exceto os mais íntimos. Contava a dedo as pessoas que
frequentavam a mansão. Carla era uma delas. Organizava
todo o trabalho doméstico, mandava as roupas para a
passadeira, para a lavanderia, contatava o serviço de
limpeza e cuidava pessoalmente da cozinha. E não
trabalhava todo dia. Apenas duas vezes na semana. Além
dela, eu tinha um outro funcionário que também não tinha
nada a ver com a máfia: o João, que cuidava do jardim e
da parte exterior da casa.

Voltei à sala de jantar, onde encontrei tudo arrumado e


um manjar à minha espera. Aquela imagem abriu meu
apetite e puxando a cadeira para me sentar, não perdi
tempo. Era sempre bom tomar o café pela manhã na minha
própria casa. Muitas vezes alguma garota seminua descia
as escadas e logo se sentava em minha companhia. E
depois que se alimentava, eu mandava alguém a levar para
casa e depois disso nunca mais a procurava. Ás vezes
ainda rolava uma segunda ou terceira saída. Assim que
parti o pão, vi um vulto na porta, me revelando Theo.

— Uma mesa tão farta pra um cara só, que desperdício


— apoiou as mãos numa cadeira de madeira e sem
esperar ser convidado, se sentou nela. Além de meu
irmão, era meu contador e o responsável por boa parte da
administração dos cassinos, e, obviamente, tinha acesso à
minha casa e aos meus negócios. Não a tudo, mas à boa
parte das coisas que eu controlava.

Não éramos irmãos de sangue, entretanto tínhamos sido


criados juntos desde que Nora nos adotou, e isso ocorrera
logo após eu perder meus pais. O negócio é que Theo e eu
sempre nos demos bem, embora fôssemos diferentes em
vários pontos. Em primeiro lugar: ele era mais sereno e
manso que eu. Nora sempre nos dizia: Theo, você é
carinhoso e sensível; Heitor, você é atencioso e
admirável.
Levei o copo de suco à boca, pensando naquilo.
Também tínhamos um outro irmão de criação. O caçula
tinha chegado com apenas cinco anos de idade e era o
xodó da casa.

— Tô preocupado com você — Theo falou de repente,


me fazendo fitá-lo.

— É mesmo? Por quê?

— Tá acontecendo alguma coisa estranha, só ainda não


sei o que é.

— Estou bem, relaxa — mastiguei e não contive o riso


vendo-o todo alinhado. Quem costumava ficar daquele
jeito era eu e não Theo.

— Tá rindo de quê? — perguntou, partindo um pão.

— Você todo arrumadinho já pela manhã. Que foi? Vai


a algum casamento?
— Só se for o seu — retrucou, provando o pão — Na
verdade, você sabe, não faço tanto sucesso com as
mulheres como você faz. Estou pensando em andar
conforme a sua semelhança.

— E o que aconteceu com a espanhola dos lábios


vermelhos? Penélope era o nome dela, não?

— Foi só um lance casual.

— Você estava vidrado nela.

— Ah, não venha mudar de assunto. Tô falando de


você. Suas atitudes também têm me surpreendido. Ainda
não engoli essa história da garota lá em cima. Nada me
tira da cabeça que é a mesma de ontem. A que estava
chorando no seu carro.

Levei o copo de suco novamente aos lábios, agora


sério, pensando que não estava a fim de falar sobre Maya
ou sobre a dívida do pai dela. Nem com meu irmão.
— Quem é ela, Heitor? Abra o jogo.

— Uma garota qualquer, já disse. E ela só tá de


passagem.

— Ah, qual é, não vem com essa. A princípio achei


que fosse uma garota da noitada, mas o jeito como ela nos
recebeu deixou muito claro que tem ódio mortal de você.
O que naturalmente é estranho, afinal, sempre faz sucesso
com a mulherada.

— Talvez essa não tenha caído nos meus encantos.

Tomei mais um pouco de suco. Tinha contado aquela


manhã parte daquela história para Theo quando ele
chegou, mas tinha também ocultado muitas coisas
importantes, especialmente as minhas razões para ter
trazido Maya para dentro de casa. Na verdade, não era
meu plano trazê-la, aquilo acabou tomando proporções
não planejadas.

— Me pediu pra ir até lá em cima e convencer a garota


a tomar café, mas não me explicou sequer porque a trouxe
pra cá.

— Talvez porque não seja da sua conta — mastiguei


um pedaço de maçã — Já disseram que você é chato pra
caralho?

— Sou seu braço direito, seu contador e além disso,


seu irmão. Tem alguém mais confiável que eu? O que tá
pegando? O que essa garota fez? Ela não tem cara de
criminosa.

— Certo — limpei a boca com o guardanapo de pano,


Nora sempre nos ensinou a fazer isso ao invés de limpar
na manga da camisa — Ela não fez porra nenhuma, a
garota é inocente. O problema é o pai dela. O infeliz é que
fez uma borrada. E me deve uma grana. Estava querendo
pegar o canalha há muito tempo.

Theo permaneceu em silêncio, me esperando continuar.

— Mas a garota entrou em meu caminho — vi Theo me


fitar — o fato é que fui ontem à noite na casa do
miserável, decidido a puni-lo, mas a filha dele se pôs na
frente, chorou, esperneou, gritou, implorou para que eu a
trouxesse no lugar da dívida. Foi essa a merda. Satisfeito?

— E você, muito bonzinho, atendeu a solicitação da


moça — desdenhou — Tá, mas isso pode dá problema,
não preciso avisar.

— Sei o que estou fazendo. E ainda estou pensando no


que fazer com a garota. Pra falar a verdade, só quero que
se empenhe nos assuntos da boate e do cassino. Do resto
pode deixar que eu cuido.

— E o pai dela? Não acha que pode dar com a língua


nos dentes? Não esqueça que é alcoólatra.

— Está sendo vigiado 24 horas. É alcoólatra, mas não


é nenhum idiota. E pra falar a verdade, aquela garota é
muito mais macho que o pai e o irmão dela juntos.

— Sei quem é o bêbado. Mas não consigo entender


porque concordou em trazer a filha dele pra morar com
você.

— Vi como o filho da puta ama essa garota, Theo.


Quero ver o miserável sofrendo e não apenas morrendo.
Quero que ele chore e passe todos os dias e noites
sentindo como é ruim a sensação de não ter mais as
pessoas que você ama por perto, como é ter a sensação de
que eles não vão voltar mais.

Vi um círculo se formar em seus lábios e seus olhos


castanhos se arregalarem. Acho que eu tinha falado
demais.

— Do que tá falando?

Cacete.

Theo não tinha ideia da minha vingança contra


Natanael. Eu nunca havia contado isso para ninguém.

— Então é isso? Vai usar a garota pra punir o pai? Que


cara mau.

— Vou tentar dar um tratamento vip pra ela, não se


preocupe — provei mais alguma coisa da mesa, aliviado
por ele finalmente terminar o assunto — Agora me deixe
tomar o café em paz.

— Interessante esse seu plano, sabe, e até lógico,


embora perverso. Só tem um problema, irmãozinho.

— Eu sei — eu o cortei — Não vai ser tão fácil


manter uma pessoa por tanto tempo em cárcere privado.
Ela certamente tem amigos, namorado, conhecidos, uma
vida social. Mas não pense que sou idiota, Theo, já pensei
em tudo bem antes de você falar e já disse, ainda estou
decidindo o que fazer. Só quero manter a garota em
minhas mãos por enquanto.

De repente ouvi um barulho.

— É, Heitor, mas, prec...


Fiz sinal para que Theo fechasse a boca e na mesma
hora me levantei, deixando a mesa. Eu tinha ouvido
barulho de passos que vinham lá de cima. Passos leves.

Deixei a sala de jantar e voei pelo hall. Cheguei até ao


pé da escada antes da garota descer. Era bom surpreendê-
la. Encostei minhas costas na parede e cruzei os braços no
peito de um modo bem relaxado e arrogante.

E eis que havia três coisas que eu já sabia sobre Maya:


era atrevida, corajosa e bonita. E mexia com a minha
libido. Essa era uma merda que eu não podia negar. E ela
poderia despertar a fera que estava adormecida em mim.
E o pior de tudo era saber que eu estava acostumado a ter
mulheres de todos os tipos, mas nunca levara nenhuma
delas para morar em minha casa. E Maya, uma estranha,
estava ali. E embora eu quisesse me vingar, embora
quisesse usá-la para punir o pai dela, eu tinha a plena
consciência de que ela era atraente demais para ser
deixada de lado num quarto, e que eu era um homem
acostumado a ter uma vida sexual ativa. E Maya era uma
molécula que desafiava a porra da minha física.
Capítulo 10
MAYA

OLHEI PARA A parede do corredor, estranhamente


tentada a alisá-la. Isso mesmo. Era a primeira vez que
andava por uma casa tão imensa e sofisticada, com
paredes que se apresentavam muito lisas e brancas, o que
me levava a crer que Heitor era rico e todo aquele
dinheiro que meu pai estava lhe devendo não fazia falta.
Aliás, eu tinha visto o modo como ele desdenhara da
quantia. Contudo não podia esquecer que estava rodeada
de homens armados e sinistros, que mais pareciam me
acompanhar a cada passo que eu dava. E aquilo era real.
Não um pesadelo.

Olhando novamente para a parede branca do corredor,


acabei passando o dedo por ela, que mais parecia ter sido
feito à base de creme de leite ou algo muito macio e
cremoso, ao invés de tinta, e esse pensamento idiota
conseguiu me distrair até o instante em que cheguei no
topo da escada circular e engoli um gemido de espanto.
Ele estava ali! Heitor. Parado de uma forma arrogante e
máscula, na base da escada. E se eu achara que ele me
perturbara, agora tinha certeza disso. E o cara já devia
estar ciente de que um pequeno círculo se formara em
minha boca e que possivelmente meu coração batia mais
forte que as trombetas dos Jogos Vorazes. E o mais
curioso e estranho era saber que o único sentimento que
eu devia sentir por aquele homem perigoso era o
desprezo, e mesmo assim olhando agora para ele lá
embaixo eu não conseguia deixar de pensar no quanto ele
era forte, bonito e charmoso, mesmo sendo quem era e
mesmo tendo feito o que fizera comigo.

Que idiotice, Maya! Ele é o carrasco, não o mocinho


da história!

Heitor fez um rápido movimento com os olhos e parei


instantaneamente, como se tivesse acabado de sair da
corrida São Silvestre.
Se tá nervosa, não deixe que ele perceba. Heitor não
precisa saber o quanto tem medo dele.

Ele vestia uma camisa extremamente branca e por ela


eu podia ver alguns pelos escuros fugirem de seu peito.
Não podia negar o quanto aquela cara era sexy, além de
bonito. Com certeza um pedaço de mão caminho para a
maioria das mulheres. Não para mim, que tinha todas as
razões para sentir raiva e pavor dele.

Isso mesmo! Romano tinha invadido minha casa!


Humilhado meu pai e me levado para a mansão onde eu
estava agora vivendo como sua escrava! E para ser bem
sincera, eu não tinha tempo para sentir atração por
ninguém, muito menos por um cara frio e inflexível como
ele.

Heitor ainda estava me analisando. Eu podia sentir seu


olhar azul fixo em mim, como se ele estivesse mesmo
interessado em começar uma inspeção. Então a imagem
dele na lanchonete me veio de repente, mas logo a afastei
dos pensamentos. Que idiotice, Maya! Ele é o carrasco e
não o mocinho da história! Oh, não, esqueça. Aquele
cara gentil e atencioso da lanchonete ficou pra trás.
Heitor não era ele.

— Não achei que fosse me obedecer, morena tinhosa


— falou, a voz estranhamente macia, indo na contramão
de seus olhares provocativos. Petrifiquei no degrau e
engoli em seco, especialmente quando Heitor fez um gesto
que era para eu descer. Oh, droga. Dei o próximo passo,
torcendo para não ter que ficar tão perto dele. Mas então,
quando passei da metade do caminho, eu vacilei e foram
seus braços que me ampararam. Seu rosto ficou bem mais
próximo do meu e suas mãos grandes e macias me
sustentaram.

— Não vai cair, malagueta. Não enquanto estiver


comigo — piscou, charmoso.

Se era pra ser sedutor, não achei a menor graça!


Fitei seus olhos bonitos e murmurei um agradecimento,
nervosa com aquela proximidade, mas Heitor não se
afastou. Permaneceu me encarando, como se fosse a
primeira vez que me olhasse. Como se quisesse
reconhecer a garota que eu era ou a garota que pensara
que eu era. Então, como ele me encarava, ergui os olhos
para sustentar seu olhar e me surpreendi por vê-los quase
violeta. Nunca tinha visto olhos com aquela tonalidade e
nunca tinha ligado para homens bonitos como Heitor, nem
mesmo compreendido por que muitas mulheres
suspiravam e molhavam suas calcinhas por eles,
entretanto, ao vê-lo agora tão perto de mim, perfumado e
um pouco mais agradável, começava a entender o porquê.

Heitor, sem dúvida, era magnífico! E se não estivesse


me aprisionando em sua casa, eu poderia até mesmo me
apaixonar por ele. Na verdade, ele já tinha me perturbado
na lanchonete. Não devia ficar envergonhada... isso,
Maya. Era fácil se apaixonar por um cara como ele,
principalmente se nos tratasse bem. Não era mesmo?
— Maya? — duas sobrancelhas arqueadas me
entregavam que ele percebia meu desconforto.

— Quero dizer que... — mordi o lábio inferior,


pensando em qualquer palavra para dizer, mas não sabia
muito bem o quê — é que mudei de ideia, estou com
fome... e como você deixou a porta destrancada, pensei
que eu poderia descer.

Ele continuou me olhando, agora com um olhar mais


relaxado e com uma expressão na boca que me fazia
pensar num sorrisinho disfarçado. Uma de suas
sobrancelhas grossas também estava um pouco mais
arqueada agora, como se desconfiasse de minha mudança
de atitude. Ou como se divertisse com a minha resposta.

— Fez o certo — continuou me estudando enquanto


voltava para a posição inicial e por um instante tive a
impressão de que ele estava me comendo com os olhos,
inspecionando meu corpo com interesse. Sua cabeça se
inclinou um pouco mais para me ver melhor e não havia
como não me sentir exposta. Todavia agora eu podia
também avaliar Heitor melhor. Era uma espécie de
avaliação mútua.

Seu rosto tinha uma estrutura quadrada, o queixo duro,


firme, face bem desenhada e máscula. Absolutamente
másculo. Seus olhos, como eu pensava, pareciam
realmente ternos na maioria das vezes, principalmente
quando não estavam enfurecidos, e seu corpo exalava
magnitude e virilidade. Ele era alto, grande, o próprio
deus grego em carne e osso! Tinha maçãs do rosto
salientes e um topete maravilhoso que deixava seus
cabelos loiros escuros em evidência. Era saudável e tinha
peso proporcional ao corpo. Tudo nele era proporcional.
Mas ele me trancafiava. E ás vezes eu achava que me
violentaria.

Prendi o ar e o soltei pela boca com um pouco de


dificuldade.

— Maya, Maya — repetiu meu nome, como se


divertisse com meu completo desconforto — Venha, guria,
vamos tomar o café.

Droga, eu não devia parecer tão perturbada!

Seu tom novamente soou gentil e por mais que fosse


ruim ficar à mercê das vontades dele, eu me sentia mais
aliviada agora, mesmo que ainda quisesse distância. Eu
precisava de forças para batalhar, precisava manter meus
sentimentos intactos.

Heitor se adiantou, ainda me olhando. E como eu


precisava mesmo que a nossa convivência fosse
suportável, aceitei sua mão estendida num gesto de selar a
paz.

Desci os degraus com cuidado e me senti estranha


quando o loiro parou e sinalizou que eu passasse
primeiro. Era como se quisesse ser cavalheiro. Tão logo
passamos pelo corredor da casa, encontrei uma mesa
infinita e farta nos dando as boas-vindas. Theo, que já
estava se servindo, voltou o rosto para me encarar e
sorriu, mostrando os belos dentes que tinha. Era a
primeira vez que não me sentia tão desconfortável na
presença dos dois.

— Vamos lá, pimenta malagueta. Sente-se. Nenhum de


nós aqui morde — vi Heitor puxar uma cadeira para mim,
e em seguida se sentar na dele, como um típico anfitrião.
E se estava sendo civilizado comigo, não me custava nada
ser civilizada com ele também.

Seja inteligente, Maya. Inteligência é tudo.

Os dois irmãos começaram uma conversa boba sobre


carros e percebi que eram muito diferentes fisicamente.
Visivelmente Theo era mais baixo e tinha olhos e cabelos
castanhos. O formato dos rostos também não lembrava um
ao outro. Imaginei que um filho tivesse puxado ao pai e o
outro puxado à mãe. Só não dava para saber ainda quem
era o mais velho entre os dois. Pela posição de liderança,
talvez Heitor fosse o primogênito.
Peguei uma bisnaga na bandeja de vime e enchi um
copo de suco. Não queria que eles ficassem me olhando
comer, entretanto não podia impedi-los de fazerem isso.
No novo segundo nós três ficamos em silêncio. Comecei a
me servir lentamente. Imaginei o dia-a-dia deles e deduzi
que fosse muito mais eletrizante e assustador. E eu não
conseguia tirar da minha cabeça que Heitor era perverso,
embora fosse lindo e agora estivesse sendo atencioso e
agradável comigo.

— Então, moça, como se chama? — Theo, me


arrancou dos meus pensamentos.

— Maya — Heitor respondeu, antes mesmo que eu


abrisse a boca para me apresentar.

Theo largou o guardanapo na mesa e se ajeitou na


cadeira.

— Hum, belo nome.

Assenti em silêncio, provando um pedaço de bolo.


— É intrigante, forte e sexy — Heitor me surpreendeu
novamente e acabou que nossos olhos se encontraram pela
primeira vez ali na mesa. Pensei que ele desviaria, mas
ele não o fez, então coube a mim fazê-lo. Mirei os olhos
na comida. Eram mais confiáveis e menos intimidadoras.
Peguei uma uva e a pus na boca. Era melhor mantê-la
ocupada mastigando do que respondendo alguma coisa.

Um novo silêncio pairou no ar e notei que Theo


divisava nossos olhares. Ele comentou algo com o irmão e
de repente um celular tocou. Alto. Uma música em inglês.
Heitor se levantou com o aparelho no ouvido.

— Fala, Jarbas — se afastou um pouco — Estou


tomando café. Ok, certo. Sim, podem vir.

Voltou para a mesa, guardando novamente o celular no


bolso da calça preta.

— Sony e Jarbas chegaram. Os outros estão à caminho


— falou ao irmão, que parecia bem mais calmo também.
Theo levantou-se sem pressa da mesa e arrumou a
cadeira antes de olhar para mim.

— A gente se vê por aí, Maya. Não vou esquecer mais


seu nome — piscou e eu o vi sumir pela porta por onde
entrara. Theo combinava com o terno que usava, embora
agora vendo-o melhor, ele não estava com terno preto e
sim com um marrom escuro. Percebi que Heitor
acompanhava meu olhar.

— Os caras estão vindo. É melhor terminar seu café lá


em cima — voltou a pegar o celular do bolso da calça e
me senti estranha com aquele movimento dele. Sabia que
devia parar de pensar no quanto sua imagem me atraía.

— Já terminei — murmurei.

— Não precisa correr. Não quero que se engasgue —


olhei para ele e pensei se aquilo era gozação. Bom, não
valeria a pena perguntar.

— Não, tudo bem, já acabei.


— Bebeu o suco? Beba um pouco. Vai te fazer bem.

— Obrigada, eu não quero.

Me fazer bem? Bom, o que me faria bem era poder


voltar para minha casa e para o meu trabalho e também
para a minha família. Isso com certeza me faria bem, e
não tomar o café naquela mesa.

— Beba.O.Suco.Maya. É sério.

Eu o fitei, alarmada.

— Uau. Então é isso? Acha que pode mandar na minha


vontade também?

Aguardei pela resposta dele, que não veio. Mas seu


olhar me estudava. E me desafiava. Meio que me
desafiava a não desafiá-lo. Ou talvez a sim, a desafiá-lo.
Era uma loucura, mas era isso o que eu pensava. Ele era
uma incógnita. E agora tinha a certeza absoluta: Heitor era
mandão e gostava das coisas conforme o jeito dele.
— Posso não estar com sede — falei, não querendo
dar o braço a torcer.

Ele deu de ombros, parecendo divertido.

— Certo. Então suba para o quarto — tentou ser menos


áspero agora.

— Como quiser, senhor — me levantei bruscamente da


cadeira sem me importar em colocá-la no lugar.

Heitor deu um passo à frente, agora, sim, parecendo


chateado. Podia ver isso em sua expressão fechada.

— Tá curtindo com a minha cara?

Ergui o queixo e sustentei seu olhar sério.

— Você me deu uma ordem, então... — eu sabia que


ainda estava sendo debochada.

— Sabe, não gosto de sarcasmo. Não em todo tempo.


Me recusei a responder. Mas de repente ele riu,
parecendo mudar de tática.

— Ok. Então vamos lá, Maya, já que quer começar


esse jogo, que tal começarmos por algo mais gostoso?
Que tal um beijo? E se eu mandasse você me dar um
beijo? Você oparia?

Com os olhos arregalados, recuei dois passos.

— É claro que não.

— Vamos lá, só um beijo, garota tinhosa. Na boca.


Gostoso e ardente. Como nunca beijou antes.

Recuei mais um passo, me dando conta de que ele não


brincava e de que eu não era suscetível a ameaças.

— Você não tá falando sério.

— Ah, não? Quer pagar pra ver? — avançou um passo,


me tirando o fôlego — E se eu mandar, pimenta
malagueta, você me obedecer, o que vai fazer?

— Vá se ferrar!

Riu. Me estudou outra vez. Agora sua mão estava


alisando meu rosto.

— Você é mesmo uma fera, garota. Desculpe pela


minha falta de modos. Seja bem-vinda.

Franzi o nariz.

— Só tem uma coisinha — falou no meu ouvido —


Não vou beijar você, Maya. Não agora. Mas é melhor
estar preparada se um dia isso acontecer.

— Fique longe de mim!

Virei o rosto, pensando no pior, mas então Heitor se


afastou. Passou pela porta da cozinha e logo sumiu da
minha vista, deixando apenas seu cheiro perturbador com
a função de me torturar. Meus seios subiam e desciam por
causa da respiração acelerada e ainda podia me lembrar
das últimas palavras que ele ditara. Ele queria me beijar.
Queria me tocar. Prometeu fazer isso!

O suor brotou na minha testa. Bem, Heitor tinha sido


gentil e delicado dias atrás quando eu sequer imaginara
quem ele era. Se aproximara de mim sem saber sobre meu
pai, então talvez tivesse de verdade sentido alguma
atração verdadeira por mim, assim como eu sentira por
ele antes de também saber o quão terrível ele podia ser.
No fundo tinha muito medo da aproximação dele e de ficar
confusa em relação ao seu possível beijo. Nenhum homem
me deixara com o coração tão disparado como Heitor
acabara de me deixar, nenhum outro homem me deixara
com as pernas bambas ou com a respiração suspensa
como ele me deixara na lanchonete e também como me
deixava agora.

Com a mão no peito, tentando ver se ele estava no


lugar, afastei-me da parede e respirei fundo. Tão logo me
senti renovada, saí da sala de jantar, passei rapidamente
pelo corredor que dava à escada (ainda pude ouvir as
vozes masculinas num dos cômodos ali perto da sala),
subi a escada e segui de volta para o quarto. Ao passar
pela porta, levei minhas duas mãos ao rosto. O que fora
aquilo lá embaixo? Heitor ameaçara me beijar? E o que
eu faria se ele me agarrasse?
Capítulo Extra
HEITOR

— MÃEEEEE? Paiiiiii?

Nãooooo!!!

Olho em volta e está tudo muito escuro e deserto. A


chuva cai fraca e me sinto abandonado naquela rua
desconhecida. Nem o sobretudo preto no meu corpo está
me aquecendo. Tá muito frio e tenho medo. Só penso que
tenho medo.

— Mãeeeeeee? Paiiiiii? Cadê vocês?

O choro vem sem pedir licença e a ideia que garotos


não choram me acusa. Olho em volta de novo e penso que
ninguém está ali para me ver chorar, então tudo bem.
Pensando bem, estou tão desesperado, que não me importo
mais se estivessem mesmo. Eu não me importo.
Dou alguns passos e vejo um carro todo amassado,
uma das rodas ainda está girando sem parar. Ele está bem
amassado. Parece com o carro que papai usa quando vai
trabalhar ou quando vai a eventos importantes. Me
aproximo dele. Com insegurança, toco na lataria e tento
puxar. Tem alguém ali embaixo, eu sei que tem.

— Mãeee? Paii?

Minha voz ecoa pela rua escura.

Eu paro de chorar porque agora algo sério vem na


minha cabeça. Eles só poderiam estar ali embaixo, ali
dentro do carro amassado. Então com mais determinação
puxo lataria por lataria, mas não consigo. É muito pesado,
é tudo muito pesado... é pesado.

Eu não consigo salvá-los. Não consigo tirá-los dali.


Me desculpem, eu não consigo.

— Mãeeeeeeee?? Paiiiiiiiii??? Nãooooo!


Levanto com um salto e sinto a respiração acelerada e
o coração bombardeando meu peito. Respira, Heitor,
respira. Parece que vou morrer. Olho a escuridão ao
redor e tento me adaptar a ela. Calma, tá tudo bem, tá tudo
bem. Não é uma rua, estou no meu quarto. Estou sobre a
minha cama. Não sou mais uma criança. Sou um homem
feito agora. É, é isso.

— Foi só um sonho, droga — murmuro para mim


mesmo, mais relaxado, enquanto volto a deitar a cabeça
no travesseiro — só uma droga de sonho.

Faz anos que não tenho esse tipo de sonho. Na


infância, logo na época do acidente, eles se tornaram
frequentes, quase diários. Quando aconteciam, eu
acordava com Nora na cama ao meu lado. Ela sempre me
abraçava em seu corpo fofinho, acariciava meus cabelos
com sua mão macia e dizia que estava tudo bem, que eu
poderia chorar, que fazia bem chorar e botar tudo para
fora. Ficava comigo quase uma hora ali. Ás vezes
perguntava se eu queria sua companhia até voltar a
dormir. Eu dizia que não, que não precisava, que eu era
forte, mas eu sabia que ela ficava atrás da porta, só me
esperando, até eu pegar outra vez no sono.

Olho para o teto escuro agora, penso na mulher que me


criou desde meus dez anos. Forte, corajosa, incrível. Eu
só tinha a agradecer. Ás vezes ela era mandona e
pegajosa, mas não deixava de ser uma mãe.

Amanhã vou ligar para ela. Vou deixar que ela saiba o
quanto a amo, ainda que não demonstre muito isso.

Fecho os olhos e tento pegar outra vez no sono.

***

A porta se abre e vejo a mulher que há anos chamo de


mãe. Com um sorriso no rosto, Nora estica os braços
suculentos para mim, que me perco neles.

— Até que enfim lembrou do caminho de casa — fala


com aquele ar dramático que só ela é mestra em fazer.

— Minha fofinha— abraço seu corpo macio e faço um


movimento para pegá-la no colo, brincando. Ela grita e
me xinga, e diz que vou deixá-la cair no chão e se isso
acontecer, vai me dar uma surra.

— Acha que não aguento você? — eu a ergo do chão


novamente e entro com ela agarrada em meu pescoço até a
sala de visitas. Lá vejo Mauro, meu pai adotivo, e Theo.
Não temos ligação sanguínea, nenhum dos quatro, mas
somos uma família.

— Joana! — Nora grita, assim que a ponho no chão, e


logo uma jovem empregada aparece na entrada da sala —
Nos prepare um lanche, por favor, querida. Heitor
chegou.

— Sim, senhora — pisca a simpática Joana e sorri


para mim — Quanto tempo, Heitor. Como vai?

— Vou bem, Joana. E a cada dia que venho você está


ainda mais bonita.

Ela abre ainda mais o sorriso e tenho a impressão que


suspira. Antes que fale mais alguma coisa, minha mãe
briga com ela e me puxa para o sofá. Lá acaricia meu
pulso e diz o quanto está feliz por aquela visita
inesperada.

— Quer um biscoitinho, filho? — oferece e vejo um


prato sobre a mesinha de centro — fiz esta tarde.
Disseram que está delicioso.

— Sabe que adoro seus biscoitinhos — pego três do


prato e os jogo um de cada vez na boca.

— Parece até que Heitor é o único filho que tem —


Theo reclama, do outro lado do sofá, e por causa disso
ganha um tapa na mão.

— Deixa de ser ciumento. É que você vive na casa


provando minhas guloseimas.
Debocho de Theo, dou língua para ele por trás de Nora
e ele faz queixa para ela, que também me dá um tapa na
mão.

Volto a pegar mais biscoitos do prato, mas então Joana


volta com uma bandeja de novas coisas gostosas para
comer e meus olhos brilham, eu sei que sim. Joana lança
um olhar sensual para mim quando se abaixa para alojar a
bandeja na mesinha. Em seguida ela sai, rebolando.

— Ô menina assanhada! — Nora murmura e segura


meu braço e depois puxa o de Theo para perto dela
também — Estou muito feliz por terem aparecido aqui
hoje, os dois fujões mal- agradecidos — dá um beijo na
bochecha dele e depois um beijo na minha — Sei que são
muito ocupados com esse negócio de cassino e que por
isso não podem demorar. Então só quero saber se está
tudo bem e se estão felizes. É tudo o que me importa.

— Estamos bem, mãe — Theo fala, pegando um


pedaço de bolo — parece até que há anos não nos vê —
zomba.

Nora não admite que a chamamos pelo seu nome.


Sempre foi assim. Era "mãe", não importava se nossas
mães biológicas estivessem ainda presentes em nossa
consciência.

— Não posso demorar, mas vim aqui pra dizer o


quanto me importo com você— abraço seu corpo redondo
e fofinho, que sempre me trouxe calor e conforto e beijo
forte sua bochecha macia. Ela sorri. Mesmo não vendo,
sei que ela sorri.

— Ok. Se comportem! — Nora fala, minutos depois,


quando Theo e eu saímos juntos. Lá no lado de fora da
casa, ponho os óculos escuros no rosto e olho em volta.
Nunca tive problemas na casa de minha mãe. E sempre
que é preciso, deixo seguranças nas proximidades da
casa. Nora não gosta de ser vigiada e sei que não
suportaria deixar de ter uma vida normal. Ela sabe o que
fazemos, mas na maioria das vezes faz de conta de que
não sabe de nada. Sei que é uma forma de ela dizer para si
mesma que está tudo bem.

— Que bom que veio de carro. Eu cheguei de táxi. A


moto foi pro conserto — Theo fala, se acomodando no
lado carona da minha Mercedes.

— Ponha o cinto de segurança! — falo, antes de abrir


um sorriso traquinas. Eu não corro muito ao dirigir, mas
ele acha que sim.
Capítulo 11
HEITOR

MAS QUE PORRA! O que tinha acontecido? Eu


estava doidão? Eu tinha tentado beijar a garota? Tinha
acariciado ela? O rosto dela? Que porcaria era aquela?!

Caralho.

Saindo da cozinha com passos largos, ouvi as vozes


que viam lá do corredor perto da sala de estar. Os caras.
Eu tinha feito o máximo para que eles não me vissem com
Maya e agora não sabia ao certo o que eles tinham
escutado.

Abotoei um botão da camisa, segurando-o porque fazia


questão de estar sempre impecável. Nunca podia esquecer
um líder de uma facção que conheci. Era enorme,
barrigudo e tão relaxado quanto um mendigo. Jurei a mim
mesmo que nunca seria como ele quando me tornei um
chefe da máfia.

Alguns caras diziam que sou vaidoso ao extremo e que


isso é uma grande merda de exagero. Não me importo com
o que falam. Imagem é tudo, certo? Além do mais, você
consegue mulheres mesmo sendo feio e descuidado, mas
se for cheiroso e arrumado, vai perceber que elas não
estão com você só por causa da grana.

— Namorada nova, Heitor? — alguém me tirou dos


devaneios e percebi que já chegava na sala de estar.

— Quê?

— Ops, nada — deve ter olhado meus traços e notado


que eu não estava para brincadeira.

— Vamos lá pro escritório — segui primeiro até minha


sala. Era lá que fazíamos a maioria das reuniões. Quando
entrei no cômodo decorado por móveis de maneira
imbuia, me ajeitei na poltrona preta de couro — meu trono
—enquanto os caras se espalhavam pelo restante da sala e
outros permaneciam em pé. Alguém pigarreou.

— Heitor. Jeremias Fontes mandou isso pra você —


me entregou um envelope elegante de cor marfim.

— Que porra é essa? Um convite?

— Aniversário da filha dele. Quinze anos.

Com o delicado envelope na palma da mão, eu o


avaliei entre meus dedos.

— Hum, festa — me recostei na poltrona preta e


descansei meus pés sobre o tampo de vidro da mesa —
Bom saber que ele se lembrou da gente. Já vou até mandar
preparar a roupa — zombei — E obviamente vai ser uma
grande oportunidade pra tratarmos de negócios. Comida
livre, bebida regada e mulher bonita dando sopa.

— Vamos apertar o desgraçado na festa da filha dele?

— O que você acha, meu? — relaxei os antebraços


atrás da nuca e cruzei meus pés sobre a mesa, pensando
que uma das coisas boas de ser chefe era poder dar a
palavra final — Mas ele não vai querer espetáculo. Nem
nós. Portanto vamos entrar na maior elegância e fazer tudo
por trás dos panos. Até porque não queremos acabar com
a festa da guria.

— E desde quando se importa com gurias? — Theo


zombou, com uma ponta de malícia que só eu identificava.

— Já cuidou da limpeza das toalhas?

— Toalhas? Ah, claro, as vermelhas? Não se


preocupe, vou resolver, chefe.

Jogando o convite de quinze anos na mesa, me lembrei


do telefonema que Diogo me dera na noite anterior
falando sobre a chegada de Chucky. Era um bom momento
para informar aos caras.

— Ah, tenho algo pra falar: vamos receber um cara


novo, de confiança. Chucky. Acho que todos já devem ter
ouvido falar dele. Como sabem, é um sujeito frio,
habilidoso e focado. É bom no que faz. Portanto vamos
recebê-lo como se fosse um de nós, pois é isso o que ele é
agora.

Theo saiu de onde estava e se sentou numa outra ponta


perto de mim. Ás vezes eu achava que ele gostava de
competir com Jarbas, como se quisesse ver quem era mais
importante. Oscar, que estava perto da porta, fumava um
cigarro enquanto parecia pensar em minhas palavras.
Olhando para ele, lembrei do pai de Maya.

— Como ficou Natanael?

— Dois caras estão de olho nele. Parece mais calmo.


Perguntou pela filha, mas não falamos nada.

— E o que fizeram com ele?

— Apenas uma sutil ameaça pra que fique com a boca


fechada. Acho que estava sóbrio o bastante pra entender.
— Ótimo.

— Quais são os planos pra hoje, Heitor? — alguém


perguntou.

— O de sempre — aceitei o cigarro que alguém me


ofereceu — Vamos aumentar a quantidade de jogos e a
variedade das bebidas, é sempre bom agradar quem é fiel
à casa. Se ouviram dizer que o Del Romano ainda não
está no nível do Esmeralda é porque não estamos dando a
devida prioridade à qualidade. Vamos contratar um novo
pessoal e cortar algumas coisas que deram errado. Theo,
não vamos renovar o contrato com aquela empresa de
limpeza. Ela só me provou ser uma bosta.

— Vou cuidar disso.

— Bom, senhores, por hoje e é só. Vejo todos vocês


mais tarde.

***
Era ótimo ficar um tempo sem nada para fazer. Na
maioria das vezes, quando isso acontecia, eu sacava o
cigarro do bolso e o acendia. Passava minutos relaxado e
perdido em meus próprios pensamentos, apenas soltando a
fumaça pela boca. Agora mesmo eu fazia isso. Só que
agora era diferente, agora vez ou outra a imagem da garota
surgia em minha mente. Queria parar de pensar nela,
queria parar de me preocupar com ela ou recordar de seu
olhar de surpresa quando lhe falei sobre o beijo, horas
mais cedo. Mas por que diabos não conseguia? Maya. Que
droga de nome mágico era esse?

E pior que combinava com ela.

Era rebelde e genioso como ela.

Alguém bateu na porta, me sobressaltando, então logo


a cabeça de meu irmão apareceu dentro da sala.

— Ocupado?
— Entra logo, cabeção. E feche a porta.

Pus o cigarro na boca. Theo me pediu um também no


instante em que sentou numa poltrona em frente à minha,
parecia interessado em alguma coisa.

— Bem, eu estava aqui pensando nesse seu plano de


vingança — acendeu o cigarro tão logo lhe ofereci — é
sério que vai seguir com ele?

— De novo com essa merda? — eu o analisei — Não


devia gastar suas preocupações com o que faço ou deixo
de fazer. Sou o chefe. Lembra?

— Tá bom, te conheço. Não quer machucar a garota.


Não vai fazer isso.

— É um assunto particular. Não tem que ficar se


metendo. Qual é?

— Não costuma prender garotinhas indefesas. Tem


algo muito estranho nessa história toda.
Eu evitei fitá-lo e ao invés disso, relaxei meus pés
sobre a mesa. Fechei os olhos, querendo apenas sentir um
momento de paz naquela sala. Era difícil admitir que Theo
estava certo, além de me fazer pensar no quanto eu estava
sendo injusto e vingativo com Maya.

— Heitor?

— Que é, mano? Veio aqui defender a guria? Vai me


dizer que seu pau já tá duro por ela?

— Ah, qual é? Nada disso.

Abri os olhos e o examinei.

— Você não me engana. E faz tempo que não o vejo


com uma garota.

Deu de ombros.

— Não estou a fim de garotas no momento. Bem, não


há nenhuma em especial.
— Já disse, da malagueta cuido eu.

— Malagueta— riu— Saquei. Não vou mais tocar no


assunto, já que o incomoda. Bem, na verdade também vim
aqui porque preciso te falar uma coisa: preciso ir a São
Bernardo do Campo. Vou ficar alguns dias fora. Algum
problema? Espero voltar a tempo do seu casamento.

— Vá se ferrar.

Theo gargalhou. Em seguida se levantou.

— Tá brincalhão demais pro meu gosto — resmunguei.

— Sei que vou falar uma coisa estúpida, mas o amor e


o ódio andam juntos — levantou as mãos em rendição —
Calma, não me mate... outra coisa: tente não maltratar a
garota. Não quero que ela pense que é um mal de família.

Vi meu irmão sair pela porta. E minutos mais tarde eu


estava na janela quando avistei a lamborghini dele deixar
a casa. Então segui para uma chuveirada fria.
Os seguranças estavam em posição lá fora, como
sempre. Não precisava me preocupar. Após sair do banho
e deixar o quarto, desci as escadas e segui para a cozinha.
Na maioria das vezes eu apreciava ficar sozinho em casa.
Me sentia mais concentrado e com mais liberdade. Aquele
era meu espaço, e até que esquecer a presença de Maya
por um tempo me fez lembrar quem eu era. Ela estava
trancada no quarto desde o café. Sem água, sem comida,
sem nada.

Caralho.

A garota estava sem nada! Larguei o prato na mesa, me


sentindo um maldito estúpido por não ter me lembrado de
seu bem-estar antes. Percorri o caminho feito
anteriormente e subi com pressa até o segundo andar. Lá
no quarto encontrei Maya na cama, o rosto afundado no
travesseiro. Ela devia estar chorando. Eu pensei no que
dizer.

— Malagueta?
Sem resposta. Não se mexeu. Devia ser porque não a
chamei pelo nome.

— Ei, guria, o almoço tá na mesa.

— Estou sem fome — murmurou e percebi que não


estava chorando. Era mais forte do que eu imaginava.

Lembrei do que Theo falara sobre não maltratar a


garota, então respirei fundo e dei uma batidinha na parede,
isso tudo para manter a minha calma.

— Certo, vamos fazer de um jeito mais prático: não


perguntei se está com fome, morena. Só informei que
precisa descer pra comer. Você será a minha companhia.

Ela ergueu um pouco a cabeça e me fitou, os olhos


como duas chamas de fogo.

— Bom, não pode me obrigar a comer — questionou


— Se eu não quiser, não como. Sou sua prisioneira, não
seu robozinho.
Robozinho? Se fosse mesmo um robozinho, não seria
tão audaciosa como ela era!

— Quer saber, isso já tá me irritando. Quero que desça


agora, garota, é uma ordem!

Girei os calcanhares a tempo de ver Maya sentar na


cama e parecer analisar a oferta.

Fiz o mesmo trajeto e voltei para a sala de jantar.


Novamente na mesa, fiz uma oração silenciosa. Pedi
paciência. E auto-controle para não fazer nada do que me
arrependesse depois. Comecei a comer a comida e torci
para que a garota não demorasse. Para meu alívio, Maya
apareceu. Não sorridente, é claro. Pelo contrário. Tinha
os cabelos soltos e a expressão bem fechada. Parecia
abatida e magra.

— Senta aí e come. Cara feia é fome. Não precisa me


fulminar com raiva. Guarde sua revolta pra quando
realmente precisar dela— falei.
Não falou nada, puxou a cadeira com raiva e afundou
nela. Pensei no quanto aquela garota deveria ser ardente
na cama. Levantei os olhos para ela.

— Pode não parecer, mas me importo com você. Não


há necessidade de fazer greve de fome. Já é bem magra.

— Desculpe, mas não preciso da sua compaixão. Estou


aqui presa sem poder fazer nada da minha vida. O que
importa se como ou não como quando já estou morta por
dentro?

Uau.

Ela me deixou sem palavras. Um sensor de


sensibilidade apitou em mim e pigarreei, tentando me
sentir melhor. Estudei Maya sem pressa e ela parecia mais
conformada agora. Voltei a comer quando vi que ela faria
o mesmo. Comemos em silêncio. Pensei nela sendo minha
companhia na mansão de Diogo. Seria uma boa ideia ir
acompanhado.
Geralmente eu andava com uma mulher exuberante em
cada braço, mas ás vezes era bom variar. Além disso
seria bom poder passar mais tempo perto de Maya, ainda
que não pudesse lhe roubar um beijo ou um abraço.
Droga. Por falar em beijo... eu tinha pensado no quanto
aquilo me tocara aquela manhã. E agora era melhor
esquecer o assunto. E não queria que Maya achasse que eu
tinha segundas intenções com ela.

— Vamos às compras amanhã — informei, pensando


no assunto pela primeira vez.

— Compras?

— É.

— E posso saber por quê?

— Vamos ao Rio.

Calou-se. Pareceu pensar no assunto.


— Rio? Quer dizer Rio... de Janeiro?

— Isso mesmo. O que significa que não vai poder


aparecer como uma mendiga ao meu lado.

Vi um pequeno círculo se formar em sua boca.

— Vou deixar que ligue pros seus amigos e seus


conhecidos, malagueta, não quero que pensem que sumiu
de repente do mapa — bebi um gole de suco.

Maya pareceu levar ainda um bom tempo para


absorver àquela ideia.

— Achei que fosse ser sua prisioneira...

— E é — comi uma nova colher do rosbife de frango


— Só que seria um desperdício mantê-la trancafiada no
quarto, guria — provei uma batata frita e a mastiguei —
você é formosa demais pra viver esquecida. Além disso tá
na cara que pode ser bem mais útil pra mim.
Ela engoliu em seco. Sempre parecia desconfortável
quando eu insinuava que ela era bonita e interessante.

— E quanto ao meu pai? O que vai realmente fazer


com ele?

— Enquanto estiver comigo, ele permanecerá vivo —


Maya arregalou os olhos, e depois pareceu suspirar
aliviada — Mas se fugir de mim, saiba que não hesitarei
em matá-lo.

— Não vou fugir.

— Ótimo. Vamos seguir pro Rio no fim de semana.


Será apresentada como minha namorada. E não me
pergunte o porquê disso.

— Namorada?

Ela pareceu ficar chocada.

— Mas...
— Coma!

***

Depois do almoço era hora de relaxar um pouco.


Geralmente eu me distraía com os games do smartphone
ou então com a minha série favorita, Supernatural. Deixei
que Maya fizesse faxina na sala. Foi uma condição para
que ela saísse do quarto. Era uma forma também de eu
poder vê-la, era bom vê-la limpar a sala enquanto eu
assistia à TV, sentado no sofá. Meu copo de uísque
descansava na mesinha perto de mim e à medida que uma
tragada descia amarga pela minha garganta o corpo
curvilíneo da garota ficava ainda mais em evidência
diante de meus olhos. De repente ela gemeu e me levantei
para ver o que tinha acontecido.

— O que foi?

— Nada...
— Deixe-me ver... — levantei do sofá e peguei sua
mão.

— Hum... foi só um cortinho de nada...

— Não cortou. Foi uma farpa que entrou. Deve ter


saído da vassoura...

— Ok, tudo bem... eu estou bem...— murmurou,


puxando a mão de volta, mas eu a impedi.

— Fique quieta, vou tirar pra você.

Achei que ela fosse insistir que não, mas ao invés


disso, cerrou os olhos, fazendo uma expressão de
desconforto. Acho que no fundo estava apavorada.
Segurei seu dedo diante de meus olhos e o espremi de
modo que toda a farpa saísse em seguida.

— Pronto. Saiu.

— Obrigada — puxou a mão, parecendo nervosa.


Talvez ficasse muito insegura com a minha proximidade.
Não sabia se Maya tinha raiva de mim ou medo de sentir
alguma coisa diferente.

— Não precisa trabalhar tanto, morena. Pode sentar


comigo pra ver TV.

Ela me olhou desconfiada e pude ver dois pontos de


interrogação em seu rosto.

— Eu prefiro trabalhar... eu gosto.

Dei de ombros.

— Então fique aí.

Estava começando a me acostumar com aquela garota


me fazendo companhia e não sabia se isso era bom ou
ruim.

Maya voltou para o quarto, minutos depois, no mesmo


instante em que o programa da TV acabou. Decidido a me
exercitar, segui para o fundo da casa. Era sempre lá que
fazia minhas abdominais e a minha barra. Gostava do sol
e do calor que me alcançavam na área externa da mansão.
E de lá de baixo eu podia olhar para cima e ver o
movimento do quarto onde Maya estava. E malhar me
ajudava a parar de pensar nela.
Capítulo 12
MAYA

A LUZ DA TARDE se infiltrou pelas cortinas e


iluminou quase todo o cômodo perfeitamente organizado.
Sobre o quarto onde eu estava "hospedada", bom, ele era
grande e confortável. Formato retangular. Tudo nele
combinava com a figura imponente do homem que me
prendia naquela casa e eu me perguntava se todos os
outros quartos eram assim. Me senti estranhamente
confortável ao abrir os olhos lentamente e a me concentrar
na imagem do belo dia que fazia lá fora. Eu tinha
cochilado. Sem perceber. Talvez estivesse fraca e cansada
por causa da pouca comida que tinha ingerido no almoço.

Ajeitei os cabelos desarrumados. Ouvi um barulho que


vinha lá de fora. Como se alguém estivesse gemendo ou
fazendo algum grande esforço. Abandonando rapidamente
a cama para poder espiar, me aproximei do batente da
janela e me surpreendi ao me deparar com a figura do
homem lá embaixo. Heitor. Forte e ainda mais vistoso sem
camisa. Grunhia a cada movimento que seus bíceps bem
tonificados davam, subindo e descendo com os braços
apoiados numa barra. Pude ver o suor descer pelo seu
rosto e percorrer seu corpo agora dourado por causa do
sol. O ombro e o peito largos guiavam nossos olhos até o
abdome perfeito e zerado, terminando no umbigo e
formando o incrível V.

Heitor não era do tipo que precisava impor respeito.


Seu porte físico, sua voz firme e seu semblante, embora
bonito, deixavam claro aquilo. E só uma pessoa estúpida
ou louca o desafiaria. Talvez eu fosse estúpida e louca.
Bom, não me importava. Talvez eu fosse tão estúpida que
me cedera no lugar da dívida de meu pai. Tinha aprendido
que a gente defendia quem a gente amava, ainda que essa
pessoa não fosse a melhor pessoa do mundo.

Meu pai não era o melhor pai do mundo, mas era o


único que eu tinha. Além disso, após perder minha mãe,
ele se tornou a pessoa mais importante da minha vida.
Pensei se ele teria feito aquele sacrifício se fosse o
contrário, se no seu lugar estivesse eu, no entanto não
adiantaria ficar imaginando o que poderia ter acontecido,
afinal a minha escolha já havia sido feita.

Voltei a espiar Heitor e refleti sobre quantas horas


diárias ele se utilizava para conseguir aquele corpo
sarado. Bom, que se danasse. Eu não devia me imaginar
com ele. Nunca seria feliz com um sujeito como aquele.
Heitor tinha sido amável comigo na lanchonete e também
tinha sido delicado após o almoço daquela tarde, todavia
nada mudaria a verdade de que ele era um mafioso.
Segurando a ponta da cortina azul escura com força, me
senti estranha, mas mesmo assim mantive meus olhos no
loiro se exercitando lá embaixo. Ao menos ele era focado.
Seus bíceps cresciam e se erguiam à medida que ele fazia
esforço. Seus cabelos úmidos, bem como sua pele,
ficavam mais loiros sob a claridade da tarde e uma
imagem voluntária de nós dois juntos invadiu minha mente
involuntariamente.
Droga.

Meneei a cabeça, me odiando por dentro. Que loucura!


Toquei a testa, me sentindo zonza, todavia um novo
movimento dele lá embaixo me fez engolir em seco e em
seguida reprimir um gemido de espanto. Ele me olhava!

Caraca.

Me pegava no flagra!

Me afastei da janela e me escondi atrás da cortina.


Esperei alguns segundos. Afastei os cabelos do rosto, meu
coração batendo forte, pensando no que ele iria pensar de
minha inspeção. De repente, no impulso eu lentamente
voltei a olhar para fora. Merda. Merda. Merda. Nossos
olhos se encontraram pela segunda vez. Dessa vez ele
tinha uma expressão mais leve e pude detectar um
pequeno sorriso se inclinando no canto de sua boca.
Brava comigo mesma, voltei para o centro do quarto e me
joguei na cama macia, com a barriga para cima e os olhos
no teto. Pus as mãos no rosto e me perguntei se ele me
atormentaria por causa disso, por tê-lo espiado malhando.
Esperava que não, mas provavelmente isso aconteceria.
Fiz um muxoxo. Devia ter parado de observá-lo logo no
instante em que apareci na janela. Não devia ter ficado
olhando. Meu estômago de repente reclamou e me
arrependi amargamente por não ter comido bem no
almoço.

***

Alguém bateu na porta, me sobressaltando. Não devia


ser Heitor. Ele não precisava bater na porta para entrar.

Seja quem fosse, bateu de novo.

— Quem é?

— Olá. É a Carla!

Carla? Quem era Carla?


Me levantei e girei a maçaneta. A porta se abriu, me
revelando uma mulher de cabelos castanhos.

— Oi — olhos amistosos — Heitor me mandou vir


aqui. Sou meio que a governanta da casa. É um prazer
conhecê-la.

Devia dizer o mesmo para ela, mas não era aquilo o


que eu estava sentindo. E também não sabia se devia
confiar em Carla.

— Sou Maya.

A mulher deve ter percebido que eu não era de muitos


amigos, então pediu licença, atravessou o quarto e trocou
algumas roupas de cama.

— Heitor falou que você está precisando de roupas.


Vou ver o que tenho lá embaixo.

— A porta estava aberta? — perguntei, pensando


naquilo repentinamente. Carla me encarou, como se eu
fosse esquisita ou como se não tivesse entendido a
pergunta.

— Aberta? Como assim? Ela sempre fica aberta —


forçou um sorriso e como vira confusão em seus olhos,
resolvi explicar:

— Bom, é que pensei que ela estivesse trancada.

Novamente a mulher me olhou como se eu fosse um ET


ou como se eu fosse uma verdadeira idiota. Percebi que
era melhor fechar a matraca.

— Bom, desculpe, acho que estou meio zonza hoje.

— Não faz mal. Talvez esteja com fome. Precisa de


alguma coisa em especial? Quer que eu traga alguma coisa
pra comer?

— Na verdade almocei, mas não comi muito bem... —


olhei para as mudas de roupa ainda no meu corpo — acho
que eu também gostaria de um banho e de poder trocar de
roupa.

— Ok, vou trazer algumas coisas pra você. Não vai ser
difícil de encontrar algo que sirva — parou o que estava
fazendo para me analisar — É magrinha, tem uma boa
estatura, cintura fina... certo, vou descer e logo volto.

— Obrigada.

— E por que não anda um pouco pela casa? O dia está


bonito lá fora pra ficar dentro de um quarto.

— Quem sabe uma outra hora? — estava óbvio que


aquela mulher não sabia quem eu era e muito menos o que
eu estava fazendo ali, e talvez nem soubesse o que o chefe
dela fazia.

Piscou amistosamente antes de sair, me dando a


sensação de que eu já a conhecia há muito tempo. Suspirei
profundamente e me joguei de volta na cama, imaginando
que minha temporada sem banho terminaria tão logo a
funcionária de Heitor voltasse. Ela era jovem e amável.
Até poderia ser uma das conquistas do chefe se Heitor não
parecesse ser tão superficial em relação a mulheres.
Porque se me lembrava bem, de acordo com a
recepcionista da boate, Heitor só andava com beldades. E
assim como eu, aquela moça simpática e prestativa não
era uma beldade.

***

Cerca de dez minutos depois Heitor apareceu na porta.


Tinha novamente a voz mais controlada e a expressão
mais amistosa que a que estava tendo nos últimos dias.
Seus dedos longos seguraram a porta aberta.

— Tenho novidades, malagueta — informou. Tentei


não pensar no episódio em que eu tinha espiado ele
malhar. Heitor parecia bem-humorado e sorria.

— Estive pensando... vou ser bonzinho com você. Vou


deixar que passe um dia em casa. O que acha?
Eu o fitei.

— É brincadeira, né?

— Não, é sério. Muito sério — entrou devagar e


cruzou os braços firmemente na altura do peitoral forte,
que agora estava coberto por uma camiseta azul petróleo.
Seus cabelos estavam úmidos e seu cheiro de sabonete me
revelava que ele tinha tomado um banho há alguns
minutos.

— E por que vai fazer isso? — dei de ombros, me


sentindo acuada. Não podia confiar em tudo o que ele me
dizia. Mordi o lábio, preocupada com a sua possível
resposta.

— É o seguinte, morena, não sou esse cara mau que


pensa que sou. Sabe, acho que assustei você. Sei que não
teve uma boa impressão de mim, então... — seus olhos
violeta me desconsertavam, que saco! — Bom, também
sabemos, precisa encontrar seus amigos e dizer que está
tudo bem. É bom avisar que vai passar uma temporada
fora.

— E quando vou fazer isso?

— Em breve. Vai matar a saudade do seu velho e


conversar com seus amigos e namorado, se tiver um.

— Não tenho namorado.

— Mesmo? Que desperdício — achei que ele fosse rir,


mas não riu — É melhor fazê-los acreditar que está bem.
E se for esperta, vai aconselhar seu pai a ficar longe de
problemas.

— Então não vou ter mesmo minha vida própria de


volta — concluí, com tristeza, olhando para a janela e
vendo o sol da tarde se recolher. O fato de voltar para
casa e saber que era só um dia, como uma despedida, me
deixava deprimida. Mas pelo menos mais uma vez eu
voltaria a ver meu pai.
— Sei que não gosta da ideia, mas vai ter que se
acostumar com a minha presença, guria. E, vamos ser
sinceros, ela não é tão ruim assim — deu de ombros e
senti um tom malicioso em sua expressão. Pensei que
fosse falar mais alguma coisa, mas se limitou a me olhar.

— Agora desça pra comer alguma coisa comigo.

Dito isso, saiu do quarto, me deixando perturbada com


sua fragrância e com suas atitudes que, embora suaves,
eram inesperadas. Ás vezes eu me imaginava numa
disputa de cabo de força. E se eu não fosse tão inteligente
como pensava, Heitor levaria a melhor. Não restavam
dúvidas.

— Senta — a voz dele soou fria meia hora depois, já


lá embaixo, quando Carla já tinha me entregado algumas
peças de roupa e eu já tinha tomado um banho.

Dei um passo à frente, voltando a questionar como


aquela mesa era grande e farta. O cheirinho de café fresco
era aconchegante e familiar. Meu estômago reclamou mais
uma vez. Obviamente eu estava faminta, e mesmo que não
me importasse com esse fato, aquela visão de bolos e
pães frescos, bem como de café recém passado, renovou
meu apetite. Será que Carla preparara tudo aquilo?

— Vejo que já tem roupas novas — ele comentou


assim que sentei.

— A governanta foi muito gentil.

— Ela é sempre gentil.

"Ao contrário de você", tive vontade de retrucar, mas


me controlei e para isso quase machuquei a língua. Bem,
na realidade, Heitor não era tão ogro como eu acusava. Os
momentos de grosseria já tinham cessado, eu esperava.

— Você não tem mesmo namorado? — seu tom soou de


uma forma diferente agora.

Fitei seu rosto e vi Heitor levar uma xícara de café


naturalmente aos lábios, como se nada pudesse lhe chatear
ou como se aquela pergunta fosse a mais inocente o
possível.

— Não tenho.

Levou um pedaço de pão até a boca e eu não sabia se


fazia de propósito ou se era mesmo sexy até comendo.

— Uma garota tão atraente como você sem um cara em


cima. Não dá pra acreditar.

— Não preciso de homens na minha vida — ergui meu


queixo e repeti a frase que eu sempre falava para todos
que tocavam naquele assunto. Meu estômago, no entanto,
novamente reclamou por comida. Heitor pareceu chocado
com a minha resposta, embora sorrisse, como se estivesse
gostando do rumo da conversa.

— Não gosta de homens ou têm problemas com eles?


— me surpreendeu novamente e ao olhar em seus olhos
detectei um quê de desafio.
Pensei rápido em que tipo de resposta deveria dar.
Talvez o lance não fosse o quê responder a ele e
sim como responder. Isso fazia a diferença.

— Não tenho problemas com os homens. Não com a


maioria deles.

— É verdade. Caso contrário não estaria me espiando


pela janela uma hora mais cedo.

Aquilo tinha sido golpe baixo! Eu fiquei perplexa.

— Não estava espiando você— tentei falar com a


maior calma possível — Eu estava... bom, eu estava...

— Não consegue falar?

— Estava olhando por olhar. Sempre olho pela


janela... não sabia que estava ali.

— Bom, fico feliz por saber que me aprova, morena —


comeu um novo pedaço de pão, ignorando minhas
desculpas — ficaria preocupado se não gostasse de
homens.

— Não sei do que está falando.

— Ah, sabe sim. E se não me falha a memória, adorou


ver meu peito de fora. Ou não teria ficado tanto tempo me
examinando feito urubu sobre a carniça.

— Por favor, será que podemos mudar de assunto? Na


verdade, gostaria de saber como vai ser quando eu... bom,
quando eu for pra casa.

Ele sorriu, provocador, ao dar um gole no suco.

— Fugindo da raia? Pensei que fosse mais corajosa.

Pisquei novamente sem palavras, então achei melhor


ignorar.

— Gostaria de voltar pro meu quarto, se não se


importa...
— Você nem começou a comer.

— Estou sem fome — me levantei, insegura.

— Senta aí e come — mandou, me fazendo olhar para


o meu prato de porcelana cheio — E não se preocupe, não
vou agarrar você — pôs o garfo dentro da boca e pude
notar um sorriso debochado — A não ser que implore.

Decidi não entrar no jogo. O lanche prosseguiu na mais


calma paz e me aliviei ao ouvir apenas os tilintares dos
pratos e talheres. Ás vezes nossos olhares se cruzavam e
eu tinha a certeza de que Heitor se divertia com a ideia de
me atormentar. Provavelmente era essa a sua intenção.
Quando tudo terminou, finalmente, e eu já estava com o
estômago cheio, segui para o quarto e esperei que Romano
me chamasse. Uma sensação estranha me tomou. Um misto
de prazer e insegurança por voltar para casa. E medo do
que poderia ou não acontecer.

O carro, cerca de uma hora mais tarde, parou em frente


ao muro pequeno que eu conhecia tão bem. Assim que
estacionou vi os olhos sérios de Heitor sobre mim.

— Tem até amanhã pra fazer todos acreditarem que


está bem e que não pretende voltar tão cedo pra casa,
guria. E depois disso vai voltar pros meus braços.

Na minha cabeça só ecoava "vai voltar pros meus


braços". "vai voltar pros meus braços". Tive vontade de
perguntar o que aconteceria se eu, por acaso, ignorasse
suas instruções. Bom, pensando bem, seria a pergunta
mais idiota do mundo e eu não queria ouvir sua resposta.

Vai voltar pros meus braços, Maya.


Capítulo 13
MAYA

— MAYA?

Papai estava diante de mim com os olhos castanhos


escuros esbugalhados, como se estivesse vendo um
fantasma.

— É você mesma?

— Sou eu — ri, sentindo o quão bom era estar de


volta. Tive vontade de dizer para papai que estava
morrendo de saudades, queria abraçá-lo e dizer que
estava tudo bem, até que algo aconteceu. Uma mulher. Ela
apareceu. Tinha os cabelos tingidos de ruivos e olhos
grandes que me lembravam a boneca Betty Boop. Estava
atrás de meu pai e pelo modo como se debruçava nos
ombros dele detectei um forte grau de intimidade.

Pisquei duas vezes, tentando entender o que se passava


ali em nossa casa.

— Maya, essa é Beth — papai falou com o sorriso


agora amarelo e então eu soube de imediato que o meu
sumira de meu rosto — Eu não esperava vê-la tão cedo,
filha... meu Deus — veio até mim, como se percebesse
que aquilo era o certo a se fazer — Eles finalmente
soltaram você, Maya! Como eu pedi a Deus!

Por mais que meu pai me abraçasse e falasse que


estava feliz por me ver, eu não conseguia parar de pensar
no que estava acontecendo ali na minha casa. Quem era
aquela mulher? O que ela fazia com meu pai? Papai
estava com ela enquanto eu me mantinha trancafiada na
mansão de um mafioso que concordou em me prender?

Papai me soltou e pigarreou, percebendo que me devia


alguma explicação. Olhei para a mulher que ficara parada
no mesmo lugar em que ele estivera antes de me abraçar e
pensei no que eles estavam fazendo ali em casa até eu
chegar.
— Maya, como eu já disse... então... Beth é minha...
hum, minha namorada. Deixe-me explicar, filha... eu fiquei
muito mal com tudo o que aconteceu com você... fiquei
mal mesmo... bebi todas e quase tive uma overdose de
álcool... se é que esse é o nome certo pra iss... — riu, sem
graça — Bom, foi Beth que me ajudou... esteve comigo em
todos os momentos quando mais precisei e...

O quê?! Aquilo que ele dizia era sério? Ele falava da


mulher como se ela fosse a pessoa mais magnífica do
mundo quando na verdade quem dera a vida por ele
tinha sido eu, a única que o aturava!

Eu só tentava agora reorganizar meus pensamentos e


compreender o que, de fato, estava acontecendo. Bom,
mas o que estava claro para mim era que meu pai estava
ali com uma namorada nova enquanto eu vivia presa,
comendo o pão que o diabo amassara no lugar da dívida
que ele contraíra!

— Olá, Maya, seu pai falou muito bem de você — a


mulher esticou a mão para mim, mas não a cumprimentei.
Ainda estava tentando absorver aquelas informações.
Percebendo minha cara abalada, Beth puxou a mão de
volta. Não falou mais nada.

— Filha, venha, sente-se aqui. Me explique o que


aconteceu para aquele miserável do Heitor libertar você
assim tão fácil. Ele te fez alguma coisa? Se aproveitou de
você? Maya, me diga, por favor, como você está?

— É sério isso? — estreitei meus olhos, tentando fitá-


lo melhor — É sério que mesmo que se preocupa comigo
ou com meu estado?

Eu ficava olhando para papai e me perguntando como


ele podia agir como se nada tivesse acontecido comigo.
Ou pior, parecia agir como se eu fosse uma filha que
acabava de voltar de uma colônia de férias! Esquivei-me
dele, mas continuei fulminando-o com os olhos.

— Eu estive há mais de 24 horas nas mãos do cara que


me prendeu por sua causa enquanto você esteve todo esse
tempo aqui bebendo e trepando com sua nova namorada. E
ainda quer que eu acredite que você realmente se importa
comigo? É isso mesmo? Bom, quer saber? Eu vou pro meu
quarto.

Bati a porta com raiva assim que entrei no lugar que


por toda a minha vida me trazia refúgio e segurança. Sim,
eu estava com raiva. Com raiva por ter sido estúpida esse
tempo todo, com raiva por estar sempre pronta para me
sacrificar em prol dos outros.

Suspirei.

Era estranho achar que sabia muito sobre as pessoas


quando na verdade eu não sabia nada. Mesmo as pessoas
que sempre estiveram perto de mim. Sempre achei que
conhecesse de verdade meu pai e meu irmão, mas agora
me sentia uma tola. Eu nunca tinha conhecido nenhum dos
dois. Papai eu achava que era só um cara inconsequente,
irresponsável e doente. Todas as suas atitudes ruins eram
justificadas pela maldita bebida que o dominava, mas
agora eu conseguia perceber que o problema não era só a
bebida e, sim, ele. Na verdade, meu pai não era quem eu
realmente pensava que era. Podia ver o quanto ele era um
sujeito egoísta e individualista, um sujeito que só pensava
em si mesmo antes de qualquer outra coisa.

Esqueça isso, Maya. Relaxe.

Mas não dava. Minha mente voltou ao passado: minha


mãe passara toda a vida aturando meu pai e o amando,
houve uma época em que teve apenas duas mudas de
roupa para usar. Isso porque papai nunca lhe dava
dinheiro para comprar quase nada e quando sobrava
alguma coisa que ele lhe dava, ela sempre abria mão do
dinheiro para dar prioridade a meu irmão e eu. Preferia se
privar de comprar roupas novas ou outras coisas para a
casa porque seus filhos mereciam mais do que ela,
segundo minha mamãe pensava. E lembro que quando meu
pai chegava em casa sem o dinheiro que gastara com a
bebida, ele fazia a tão famosa cena que nós conhecíamos.
Quantas vezes ouvi mamãe dizer que ia abandoná-lo,
que não dava mais, que ele estava acabando com tudo, e
então papai chorava feito criança, dizia que ia mudar, que
precisava de uma nova chance, até ser perdoado e
começar a fazer tudo errado de novo. Eu agora também
conseguia entender que meu pai se aproveitara do coração
mole de minha mãe e depois que ela morreu ele passou a
se aproveitar do meu.

Quando eu ficava brava com alguma coisa que ele


fazia, meu pai chorava, pedia perdão e se ajoelhava, me
fazendo sentir pena dele. E então, de uma hora para outra
eu passava a ser o carrasco e a errada da história, a filha
dura e insensível que não se compadecia do pobre pai
alcoólatra. Só que agora estava claro para mim o quanto
meu pai era frio, meticuloso e manipulador. E usava a
bebida para mascarar sua falta de caráter, bem como sua
irresponsabilidade.

Chorei. Não por fraqueza ou por tristeza, mas por


mágoa. Por pensar que tinha aberto os olhos somente
agora. Não que eu me arrependesse de defendê-lo. Claro
que não, afinal de contas, ele era meu pai e eu nunca iria
querer ver seu mal. Contudo, se tivesse me dado conta
antes de como meu pai era de verdade, não teria sido cega
a ponto de me ceder no lugar da dívida dele. Caramba! Eu
poderia estar morta agora, poderia ter sido estuprada por
uma dezena de homens, e nada disso mudaria o fato de
meu pai ser exatamente quem ele escolhera ser.

Suspirando, deitei na cama e tentei pensar em alguma


coisa boa. Quando me dei conta, uma hora já tinha se
passado. De repente alguém bateu na porta e eu gritei que
entrasse. Eu sabia quem era. Papai apareceu, o semblante
preocupado. Apesar de tudo, não sabia se ele estava
sendo sincero de verdade.

— Maya... desculpe por ter apresentado Beth daquele


jeito. Eu juro que não queria que fosse assim, mas não
sabia que você voltaria de repente... — o cheiro forte de
bebida saía por seu hálito.
Eu me ajeitei na cama e o estudei.

— Aposto que ela é uma alcoólatra como você. Pra


estarem juntos, devem dividir a mesma garrafa.

— Ah, filha, ela não bebe, na verdade ela mudou


minha vida, já falei. Quando você foi levada, Maya, eu
fiquei muito mal. Pensei em me matar, então um dia eu
estava no bar onde Beth trabalha, começamos a conversar
e eu passei a me abrir com ela. Chorei igual criança. Ela
me ajudou com bons conselhos. Depois me ajudou a
chegar em casa e tudo aconteceu...

— Uau. Rápido, hein. Enquanto isso sua filha estava


em algum canto da cidade trancafiada e assustada. E tudo
por sua culpa! Tudo por sua culpa, pai! Nunca se deu
conta disso?

— Por favor, Maya, me perdoe... — suspirou, mas eu


não conseguia detectar franqueza — Eu queria tanto ir até
lá e ficar no seu lugar.
— Ah, que mentira — a mágoa me tomou e não me
senti mal por ser dura com meu pai, na verdade, ele
precisava ouvir algumas verdades — Não acredito em
você. Desculpe, mas não acredito que se importou tanto
assim.

Ele engoliu em seco. Não retrucou. Provavelmente


achava que eu estava com raiva dele e de Beth. Bem, na
verdade eu não estava. Só que estava muito magoada para
me alegrar com o romance do casal. Isso ia passar, eu
sabia, mas eu estava magoada. E isso também me levava a
crer que ele tinha encontrado uma forma de se distrair
enquanto eu estava sem minha vida há dias. Mas nem por
isso odiava meu pai e a namorada dele. Era claro também
que nunca mais nossa relação de pai e filha seria a
mesma, até porque eu já não confiava mais no homem que
tentei entender e proteger durante minha vida inteira. E já
não aceitaria deixar de viver por ele. Nunca mais.

— Não estou com raiva de vocês. Só quero ficar


sozinha. Por favor, me deixe sozinha — voltei a afundar a
cabeça no travesseiro. Queria que meu pai compreendesse
que com aquele gesto eu não queria mais conversar com
ele.

— Entendo... estou muito feliz por ter voltado, filha,


muito feliz mesmo.

— Não voltei, pai. Só tenho um dia.

Ergui os olhos e vi um ponto de interrogação em sua


face.

— Isso mesmo, vim só pra dizer aos meus amigos que


estou bem. Satisfeito? Esse foi o trato. Disse a Heitor que
ficaria no lugar da dívida, então vou ficar.

— Vai ter que voltar a ser prisioneira dele? Oh, mas


que merda, que safado! Não vou permitir. Vou ir lá falar
com ele, posso...

—Não force ser uma coisa que você não é, ok?


Sabemos que não é um bom pai e que não é corajoso. Eu
não estou com raiva de você ou de Beth, já falei. Só quero
ficar mesmo sozinha... por favor — sussurrei.

— Ok

Meu pai se aproximou da porta e saiu por ela, me


deixando novamente sozinha no quarto. Fechei os olhos e
comecei a pensar que ali não era mais o meu lugar.

***

Quando o novo dia chegou, eu cumprimentei papai no


café da manhã e tentei ser mais flexível com ele. A raiva
já tinha diminuído um pouco, mas ainda assim eu não
conseguia ficar super feliz com a alegria de Beth e dele.
Por causa disso, assim que foi possível, deixei a casa.
Passei boa parte da manhã visitando Tati, minha amiga.
Ela era uma garota legal e prestativa, daquele tipo que
estava sempre pronta para ajudar se alguém precisasse de
uma força. O problema é que tinha uma língua comprida e
eu não sabia se poderia me abrir e falar sobre os meus
problemas com ela. Achei melhor não arriscar. Limitei-me
a dizer que estava trabalhando numa casa de família num
bairro nobre da cidade.

— Andei tão preocupada com você, Maya. E aquela


dívida com o tal mafioso? O que aconteceu? Sua família
conseguiu quitar? Lamento por não ter conseguido ajudar
mais.

— Quitamos, está tudo bem, não se preocupe. Eu agora


estou bem— menti. Bom, ao menos Heitor estava
começando a me tratar como gente e também tinha me
deixado passar um dia em casa.

— Ok, nesse caso fico mais aliviada... Andreas esteve


outro dia desses te procurando. Falei que não sabia sobre
você. O coitado foi embora cabisbaixo. É melhor procurá-
lo, se não quer ver o garoto chorando — piscou.

Ah, Andreas.
Deixei a casa de Tati após um bom tempo de conversa
e um almoço delicioso que ela mesma preparara. Aquele
convite havia surgido numa boa hora, afinal, eu não queria
mesmo voltar tão cedo para casa e ter que lidar com os
olhares desconfortáveis de papai e de Beth.

Cerca de meia hora mais tarde, procurei por Andreas


na lanchonete. Precisava também explicar para ele e para
o senhor Rachide o porquê de não poder voltar a trabalhar
lá.

— Por onde andou? Fiquei preocupado... você sumiu e


não deu mais notícias... ninguém sabia sobre você... nem
seu pai sabia dizer.

— Estou bem. Só tive um imprevisto... bom, como


expliquei a seu pai assim que cheguei, eu arranjei um
novo emprego, Andreas. Quer dizer, não é algo tão
maravilhoso assim, mas gosto de trabalhar em casa de
família. Me sinto bem.
— Tá falando sério?

— Sim, e o patrão... — mordi o lábio, pensando no


diria sobre aquele loiro perigoso — Bom, ele me trata
muito bem.

Andreas enxugou as mãos no pano de prato e olhou


para os dois lados, como se quisesse se certificar de que
ninguém nos veria ali, então abriu a abertura do móvel de
madeira e passou por ela, ficando bem mais perto de mim.

— Nesse caso, gostaria de te convidar pra sair.


Podíamos pegar um cinema ou ir a algum evento hoje.
Você pode escolher.

Olhei para Andreas e no fundo senti pena dele e


daquela sua persistência. Ele nunca entendera que não
havia nenhuma possibilidade de nós dois ficarmos juntos.
E o problema é que mesmo não querendo ser dura com o
garoto, eu precisava dizer 'não' a ele.

— Não posso. Tenho que voltar pro trabalho ainda


hoje. Dei minha palavra ao chefe.

— Então vamos sair agora mesmo, ainda há tempo.


Podemos pegar a sessão das...

— Eu adoraria, Andreas, você sabe — cortei — mas


eu... é que eu realmente não posso, entende? Vamos deixar
pra uma próxima vez.

Sem que eu esperasse, senti lábios macios sobre os


meus e duas mãos segurarem minha cintura. Eu me afastei.
Não queria beijá-lo, muito menos dar falsas esperanças
para ele, que sempre fora um amigo bom e companheiro.

Andreas não era feio ou estranho, mas era jovem


demais e não me atraía da forma como eu imaginava que
um homem deveria atrair uma mulher. E eu não sentia nada
por ele que não fosse carinho.

No início, até pensei na ideia de nós dois juntos,


afinal, ele tinha sido o primeiro cara com o qual eu me
sentia à vontade desde o episódio trágico, mas um
romance entre nós dois nunca aconteceu. Também cheguei
a pensar que não gostava de Andreas porque tinha ficado
com aversão a homens, até um loiro intrigante e selvagem
surgir na minha frente naquela mesma lanchonete onde
agora eu pisava. Não sabia que um dia chegaria a
conviver com Heitor, mas desde o momento em que o vi e
que senti seu sorriso em minha direção, reconheci que
aquilo poderia se tornar paixão.

—Desculpe, fui um idiota — Andreas se afastou, me


libertando dos devaneios — Não devia tê-la beijado... foi
mal, Maya.

— Tudo bem, esquece.

— Me desculpe, é sério.

— Eu desculpo você, mas agora tenho que ir, ok? —


dei-lhe um beijo carinhoso no rosto.

— E quando vai aparecer de novo?


— Eu não sei... agora tenho que ir, Andreas. Adeus.

Ele me lançou aquele olhar de cachorrinho


abandonado e senti pena. Saí antes que a despedida
ficasse melancólica demais e também porque estava
atordoada. O beijo que Andreas acabara de me dar só me
esfregava na cara o quanto Heitor me perturbava, pois eu
não conseguia pensar num beijo que não fosse o dele.
Além disso, tinha medo de querer voltar para os braços
fortes de Romano, mesmo dizendo a mim mesma que essa
possibilidade de desejar estar com ele era fruto, apenas
fruto de minha cabeça...

***

— Filha, eu sinto tanto... — falou papai assim que se


aproximou para me dar o último abraço, o de despedida.
Eu sabia que o carro de Heitor poderia estacionar a
qualquer momento lá fora e, na verdade, não estava
deprimida com a possibilidade de voltar para o domínio
dele. No entanto queria aguardá-lo na esquina da rua e não
no portão de casa. Talvez não gostasse da ideia de chamar
a atenção da vizinhança.

Senti o abraço apertado de meu pai, mas eu ainda


estava muito magoada para abraçá-lo de volta. Tão logo
me senti livre, peguei a única mala com as coisas que
levaria para a mansão, dei passos firmes e atravessei a
porta. Meu pai fez menção de me acompanhar, mas
pareceu mudar de ideia ao notar minha cara fechada.

Sabe quando as coisas começam a deixar de ser tão


importantes e você se sente a pessoa mais indiferente do
planeta? Bom, era assim que eu estava me sentindo agora.
Como se nada mais valesse a pena, nem mesmo minha
casa ou minha família. Caminhei pela rua, percorri o
trajeto, até chegar na esquina. E foi então que algo surgiu
no meu interior. Eu poderia fugir. Sim! Heitor não estava
ali para me ver... ele ainda não tinha chegado... bem, eu
podia sumir, afinal, voltar para a mansão de Heitor ou
para a minha casa já não fazia diferença nenhuma. Na
realidade eu só queria mesmo desaparecer...
Capítulo 14
HEITOR

— ONDE ESTÁ A GAROTA?

— Ela fugiu!

— Fugiu como? Você é algum idiota, por acaso? —


puxei Oscar pelo colarinho da camisa e me contive para
não jogá-lo contra a lataria do carro — Pra onde ela foi?

— Heitor, calma! —pediu, as mãos em rendição —


Foi tudo muito rápido... eu fiquei todo o momento
tomando conta da casa, mas quando a garota saiu, achei
que fosse pra esquina esperar por vocês lá —ele falava
sozinho porque eu já me afastava e pousava o celular no
ouvido.

— Jarbas, Maya não está. Encontre a garota.

— Ok.
Olhei em redor.

Maya tinha sumido. Provavelmente fugido — O que me


deixava puto da vida, porque tínhamos feito um acordo.
Ela e eu.

Merda.

— Heitor, ela não pode ter ido tão longe... —alguém


atrás de mim falou.

Irritado, segui para a casa de Natanael e sem mesmo


chamar, eu a invadi. O homem arregalou os olhos quando
me viu.

— Heitor?

— Cadê Maya? — Natanael tremeu e recuou enquanto


segurava uma garrafa de cerveja. Vi uma mulher a seu
lado e ambos me olhavam assustados. Avancei em
Natanael e o segurei pelo colarinho da camisa — Cadê
ela? Me fala!
— Eu não sei... eu não sei — estremeceu, parecendo
tentar se lembrar do que tinha acontecido alguns minutos
atrás — Maya saiu há meia hora. Ela saiu... ela saiu pra te
encontrar, Heitor...

Contrariado e contendo a vontade de esmurrá-lo ali


mesmo, soltei Natanael e mandei que os caras revirassem
a casa. Olhei no pulso e eram mais que onze da noite.
Peguei o celular do bolso da calça e pensei em ligar para
Jarbas, mas então alguém me interrompeu.

— Nada da garota, já olhamos tudo.

— Certo, ela deve ter mesmo fugido.

Abandonamos a casa. Encontrei outros homens no


caminho e dei ordens expressas para que eles se
espalhassem pela região. Queria que Maya fosse
encontrada e trazida de volta para mim. E que isso não
demorasse, afinal de contas, logo viraria madrugada e eu
não queria ficar perambulando pelas avenidas sem uma
direção específica. Maya não poderia ter ido longe.
Estava sem dinheiro e sem telefone celular. Olhei em
redor. Soquei o ar, revoltado por ter sido ingênuo, por ter
confiado na pilantra. Para aplacar minha raiva, acendi um
cigarro. Neste momento atendi um telefonema de Jarbas.

— Heitor?

— Nada da garota. Vamos rodar as avenidas. Quero


que volte pra casa do pai dela e fique de guarda, caso ela
apareça. É provável que tente.

— E se aparecer, o que faço?

— Trague-a pra mim. O resto eu resolvo. E, Jarbas,


não vai tocar na garota.

— Tá certo.

Desliguei.

Enquanto dava mais uma tragada no cigarro, o telefone


voltou a tocar. Era Theo.

— Fala, mano.

— Heitor! Aquele cara chegou. Esqueci o nome


dele... ah, o comparsa do Del Rei.

— Chucky — Maya tinha consumido todos os meus


pensamentos e eu esquecera completamente de Chucky e
de que ele chegaria a qualquer momento. Eu devia
recepcioná-lo com minhas honrosas boas-vindas,
entretanto não era o momento certo para a chegada de um
amigo. Ou no caso de Chucky, amigo de um amigo.

— O cara veio se apresentar. Procurou por você.

— Receba-o com todas as pompas, como se deve a um


dos nossos. Infelizmente não vou poder voltar tão cedo.
Maya fugiu e vou procurá-la.

— A garota fugiu? —pareceu conter uma gargalhada.


— Vou encontrá-la, Theo, não tenha dúvidas. Receba o
comparsa de Feroz e avise a ele que em breve vou estar
de volta. E com Maya. Pode acreditar.

Rompi a ligação. Pensei no que Theo devia estar


pensando que eu faria com a garota. Eu não a machucaria.
Ela estava se tornando muito especial para mim. Mais do
que devia. Entrei num dos carros e joguei o cigarro para
fora da janela. Inspirei o ar, embora ele não fosse tão puro
agora. Percebi que as horas voavam e que à medida que a
noite ia indo embora, a ideia de achar a morena audaciosa
ficava ainda mais urgente.

***

Mais de uma hora e nada.

Fiz sinal para que o carro desse mais uma volta pelo
local onde estivéramos tempo atrás. Tínhamos nos
afastado por causa da polícia que havia parado numa das
avenidas principais. Quando voltamos, a viatura já não
estava mais lá. Foi quando decidi descer para averiguar o
lugar. Sem falar que ficar por horas sentado no estofado
do carro já estava me deixando mal-humorado. Vi uma
carrocinha de cachorro quente. O homem já estava prestes
a ir embora quando eu o abordei. Ainda havia um pequeno
movimento de carros e pessoas, e quando perguntei se ele
tinha visto alguma mulher com as características de Maya
ele me deu novas pistas.

— Eu vi sim uma garota do jeito que o senhor tá


falando... ela era morena, cabelos longos e pretos. Parecia
assustada, meio nervosa. Estava pedindo dinheiro no
ponto do ônibus e acho que pensaram que ela era viciada
em drogas.

— E pra onde ela foi? Você viu?

— Infelizmente não, mas deve ter se metido no meio


dos trombadinhas...
— Há muitos deles por aqui?

— Se tem —riu, fazendo um gesto com os dedos — Ás


vezes os safados batem na carroça e me lançam pedras.
Ás vezes me ameaçam com pau se eu me recuso a dar
lanche pra eles. Ás vezes os filhos da mãe querem meu
dinheiro e eu grito: vão trabalhar, seu bando de
vagabundos!

Dei mais uma mordida no hot dog que o sujeito


vendera, pensando na ideia de Maya caminhar sozinha e
sem dinheiro pelos pontos perigosos da cidade. Senti um
embrulho no estômago, um sentimento estranho. E agora
mais do que nunca decidi que não iria embora até
encontrar a garota. E tinha que ser o mais rápido o
possível. A noite ia embora e a madrugada se aproximava,
e por mais que eu não devesse me importar com a
integridade física daquela cretina mentirosa e fujona, eu
me importava. Me sentiria mal se alguma coisa
acontecesse com ela.
— Deseja mais alguma coisa, senhor? —o ambulante
perguntou — Vejo que não é daqui.

— Está tudo bem — limpei a boca com o guardanapo


quando terminei o lanche. Bebi um último gole do
refrigerante e amassei todo o lixo, formando uma bola de
papel, então lancei tudo numa cesta de lixo à distância,
como se fosse uma bola de basquete. Acertei. Sorri. Era
bom naquilo. O homem me olhou impressionado. Tirei
mais uma nota do bolso da calça preta, que provavelmente
ainda estava alinhada, e ofereci uma generosa gorjeta a
ele, que olhou o dinheiro entre os dedos, admirado.

— Obrigado, senhor, obrigado! Que Deus lhe pague!


Obrigado.

— Valeu pelas informações. E o podrão estava muito


bom.

Os olhos do homem brilharam enquanto ele assentia


em silêncio.
Dei-lhe as costas e segui sem rumo. O audi me
aguardava na esquina da rua e Sony e Oscar também não
me perderiam de vista. Percebi que o carroceiro seguiu
feliz da vida seu caminho e então a rua ficou
completamente silenciosa e deserta. Algo me dizia que
encontraria Maya. Se ela não estava na casa do pai, não
poderia ter ido a lugar nenhum. Deixei os caras
espalhados em pontos estratégicos. Alguns estavam
sondando a casa da amiga dela e outros sondavam a do
amigo — as únicas pessoas que ela conhecia, além do pai.
Olhei pelos cantos sujos do bairro, pensando que não
seria difícil se a garota estivesse escondida por ali.
Algum lugar bem escondido, mas não tão seguro assim.

Eu estava cansado e faminto. O lanche comido, embora


delicioso, não aplacara minha fome. Caminhei mais alguns
metros e foi então que ouvi um barulho. Vozes. Mais de
uma pessoa. Alcancei a esquina da outra rua e de longe vi
a cena. Três trombadinhas tentavam agarrar uma garota.
Ela se debatia, tentando se defender. Não conseguia lutar
contra eles, mas ao menos ela tentava. Estreitei os olhos e
reconheci Maya. Era ela, eu não tinha dúvidas.

O sangue subiu e com uma fúria insana, avancei no


primeiro miserável, o que estava mais perto de mim. Com
um puxão, eu o virei e o acertei com um soco bem dado,
que o fez voar longe. Chutei seu canivete para dentro de
um ralo. O miserável saiu cambaleando. Puxei o segundo
pivete e o joguei com força contra o muro sujo da avenida
e lá esfreguei sua cara. Ele gritou e gemeu, e então
encontrou o chão. E foi então que o terceiro trombadinha
me encarou, também com um canivete na mão.

Com mais raiva ainda, me dirigi ao terceiro verme. Ele


ergueu a arma, me ameaçando, e quando se inclinou para
me dar o primeiro golpe, eu me desviei e em seguida o
acertei com um murro que o fez quase cair para trás.
Puxei-o pelos cabelos imundos e o esmurrei outras vezes,
até o filho da puta desmoronar, quase sem sentidos. Os
outros dois primeiros saíram correndo sem rumo pelo
outro lado da avenida. Olhei para o que ficara estirado no
chão e constatei que estava mesmo grogue.
Com a respiração acelerada por causa da adrenalina,
voltei-me para Maya, que estava em estado de choque,
agachada num canto do muro, como um animal indefeso.
Estava suja, trêmula e abatida.

Sem dizer nada, ergui a morena como se ela fosse uma


folha de árvore e gostei quando suas mãos frágeis
abraçaram meu pescoço. Não pensei em mais nada. Não
pensei em brigar, xingar ou mesmo reclamar por ela ter
fugido. Apenas percorri o caminho de volta com ela em
meus braços. Eu a tinha encontrado. Era isso o que
importava.

Maya pousou a cabeça em meu ombro e pareceu estar


aliviada.

***
MAYA

PASSEI TODO o fim de noite pedindo, implorando,


suplicando por ajuda. E quando desconfiava de que um
dos capangas de Heitor iria aparecer por algum ponto
onde eu estava, eu me escondia em outro. As pessoas
passavam por mim com o nariz retorcido e com o olhar
acusatório cheio de desconfiança. Era porque eu estava
suada, cansada, descabelada e com uma aparência de
quem não comia há vários dias. Mal sabiam que eu era
apenas uma garota confusa, que precisava de ajuda.
Estava com fome e exausta por andar durante tanto tempo
sem rumo, sem ter dinheiro para comer ou para matar a
minha sede. E não podia sair dali, já que ninguém aceitava
pagar minha passagem de volta para casa. E os motoristas
dos ônibus se recusavam a dar carona.

Tempo mais tarde, a noite ficou ainda mais fria e por


isso me abracei, pensando que agora meu pai morreria e
seria tudo culpa minha. Eu tinha fugido e quebrado a
promessa que fizera a Heitor. Eu tinha agido como uma
garota imatura e estúpida.

Eu estava confusa.

Eu estava com medo.

Levei as duas mãos ao rosto e chorei. O que eu tinha


feito? Por que tinha colocado tudo a perder? E se meu pai
morresse? E se todos morressem por minha causa?

Sentada no canto da calçada, olhei ao redor e me senti


como uma mendiga ao lado de outros moradores de rua.
Todos muito sujos e mal alimentados. Pensei se logo me
igualaria a eles.

As pernas estavam doloridas de tanto caminhar à


procura de ajuda, mas me levantei decidida a encontrar
abrigo e refúgio para poder passar aquela noite. Não tinha
mais forças nem vontade para voltar para casa
caminhando. Rezei em silêncio para que a garoa não
caísse e para que eu conseguisse ficar bem.

Havia pivetes andando por tudo que era parte e as


viaturas da polícia passavam tão depressa que eu não
conseguia sequer pedir ajuda.

Quando a noite finalmente findou, dando lugar a uma


quase madrugada escura e traiçoeira, peguei uma caixa de
papelão para me proteger do frio. Ponderei o quanto era
ruim passar a noite fora de casa, sem abrigo, sem
proteção. E além disso, preocupada com quem amávamos.
Eu estava com medo. Mas acima de tudo, estava com
raiva de mim mesma por ter colocado a vida de outras
pessoas em risco. A culpa tinha sido toda minha.

Abri os olhos minutos depois, percebendo que o sono


tinha me pegado. Eu cochilara. Pisquei e deparei com uma
rua estreita e deserta. Agora eu sentia o que os moradores
de rua sentiam. Era ruim ficar sozinho na rua. As pessoas
tinham desaparecido e eu me sentia abandonada e
excluída. E o medo não dava trégua. Tentei me encolher,
mas então um rosto estranho surgiu. Ele não tinha todos os
dentes na boca e estava com uma roupa marrom de
sujeira. E sorria para mim enquanto se aproximava,
olhando para os dois lados para ver se mais alguém
apareceria. Assustada, me afastei. Aquele sorriso me dava
medo. O pivete chegou bem mais perto e procurei algo
com o qual pudesse me defender, mas havia apenas um
pequeno pedaço de madeira no chão. Apontei a madeira
para ele. Não sabia de onde havia tirado tanta coragem,
mas eu o enfrentaria. Ele não me mataria a bel prazer.
Todavia outros dois pivetes apareceram. Dois deles
começaram a dar risadas sinistras enquanto os três me
encurralavam. Xinguei.

O primeiro pivete tomou a madeira de minha mão


enquanto os outros dois me tocavam. Gritei. Eles davam
risadas e eu tentava inutilmente brigar como um cão. Eles
levariam a melhor, eu sei que levariam. Era aquela frase
que eu repetia a vida toda. Meus olhos estavam parados
enquanto os dois me chupavam e me seguravam. Eles iam
levar a melhor. Eu já não tinha forças para lutar. Foi
quando de repente uma quarta sombra surgiu e afastou o
primeiro pivete para longe de meu corpo. O desgraçado
caiu ao chão e só então me dei conta de que Heitor estava
ali comigo.

Heitor! Sua expressão era de raiva e seu olhar como


duas brasas de fogo estavam fixos no sujeito que estava
atrás de mim. Heitor o jogou contra o muro gelado e sujo.
Tentei me livrar dos outros dois, mas não consegui. Vi
Heitor puxar o segundo delinquente e surrá-lo, e então
este também ficou estirado no chão. Me vendo livre do
último deles, me refugiei no outro lado do muro. Me
deixei cair ali enquanto observava a cena.

Heitor agora avançava no terceiro rapaz e me assustei


quando o desconhecido apontou para ele um canivete.
Mas tudo foi muito rápido e então Heitor o socou, até ele
cair quase sem sentidos. Neste momento vi os outros dois
primeiros correrem desesperadamente. Tive ânsia de
vômito. Achei que fosse morrer. Estava gelada e trêmula,
ainda agachada no muro sujo.
Heitor ignorou o pivete que estava quase desmaiado
antes de dar passos determinados em minha direção.
Nossos olhos se encontraram e me perguntei se ele me
mataria agora. Mas não. Ao invés de me apontar uma
arma, me ergueu com facilidade e pela primeira vez me
senti bem em sua companhia. Abracei seu pescoço
cheiroso e deixei que minha cabeça pousasse em seu
ombro largo e reconfortante.

Eu só queria ir para casa.

Cerrei os olhos e desejei que Heitor nunca mais me


soltasse.
Capítulo 15
MAYA

ERA BOM ESTAR nos braços de Heitor. Era bom


porque ele era forte, cheiroso e agora era também
delicado comigo. Mais do que fora antes. E isso me
deixava ainda mais confusa, como se minha mente fosse
uma névoa ou uma carta bagunçada numa mesa de baralho.
E eu não tinha mais medo, nem sentia desprezo. Heitor
tinha me salvado. E seu peito era sólido... muito sólido e
aconchegante. Suas mãos grandes e mornas me davam a
sensação de conforto e segurança. Estar em seus braços
era como ficar em paz... e sua fragrância deliciosa em
minhas narinas me deixava completamente vulnerável...
mais do que era recomendável. Talvez eu só estivesse
atordoada... talvez eu só estivesse ficando louca... talvez
eu só estivesse começando a ficar apaixonada... Céus!
Apaixonada por Heitor Romano?!

Mantive meu rosto contra seu peito musculoso


enquanto ele andava. Pensando bem, não importava. Amá-
lo não parecia ser algo tão horrível agora. Ele tinha me
salvado, tinha demonstrado mais preocupação que meu
irmão e meu pai demonstraram em anos. Heitor tinha
passado a noite toda me procurando.

Entramos no carro e foi só desta vez que abri os olhos.


Lá dentro era quentinho e silencioso e eu gostava da
sensação de calor e aconchego humano, apesar de eu ter a
plena consciência de que estava de volta às garras do meu
algoz, do homem que mantinha vários capangas à seu
dispor, e mais que isso, que possuía a estranha capacidade
de me desestabilizar. Querendo ou não, eu precisava
admitir isso.

— Eles machucaram você? — Heitor sussurrou


baixinho, mas não tive condições de erguer os olhos para
encarar os dele. Eu lutava contra os tremores do corpo,
que visivelmente ainda me dominavam, lutava contra meu
medo e contra a minha insegurança. Era estranho me sentir
bem e segura logo na presença do cara que era o meu
carrasco, contudo eu não podia fingir que estava
indiferente à sua nova maneira de me tratar. Ele podia ter
vários defeitos, mas foi quem me protegeu e quem agora
me levara para a segurança do próprio carro. Heitor
poderia não ter dado a mínima para mim, poderia ter se
divertido com a cena dos caras me violentando, poderia
ter me ignorado ou me abandonado lá na avenida à minha
própria sorte, mas ao invés disso me resgatou. De alguma
forma ele se importou.

O carro andou. Durante o longo trajeto, nenhuma voz


foi entoada, nenhum suspiro ou mesmo um sussurro fora
ouvido. Os caras do banco da frente seguiram, calados, e
pensei se não era por alguma ordem velada de Heitor.

Eu já não tremia mais. Ás vezes eu achava que Heitor


me olhava. Ás vezes eu achava que ele me estudava, ás
vezes aquele banco traseiro parecia muito pequeno para
nós dois e ás vezes também seu cheiro perigosamente
gostoso me desestruturava.
— Ligue o aquecedor, Sony — a voz grossa mandou e
logo a sensação de quentura me envolveu completamente,
me fazendo pensar no quanto estava começando a apreciar
a companhia dele. A cada minuto que passava Romano me
impressionava mais.

Quando Heitor se distraiu com algum dos comparsas


da frente, espiei pela primeira vez. Ele parecia cansado.
Notei que seus olhos estavam abatidos e sua voz afetada.
Pensei no quanto me procurar lhe custara tempo e energia.

Como eu ainda o fitava, ele pareceu ter me flagrado.


Nossos olhares se cruzaram por dois segundos, até eu
voltar a pousar minha cabeça em seu peito quente,
pensando que deveria agradecer. Ao menos agradecer.

Isso, Maya, agradeça. Não custa nada.

Voltei a encará-lo. Tentei dizer algo, mas o azul violeta


dos seus olhos em minha direção me deixou hipnotizada.
Ele continuou me fitando. Parecíamos estar disputando
quem daria o braço a torcer primeiro.

— Obrigada — murmurei, por fim.

Heitor não mudou de expressão. Continuou me olhando


serenamente, calmamente, até que finalmente acarinhou
meu queixo e respondeu com um leve "de nada". Notei
que seus traços eram suaves quando ele não estava bravo.
E apesar de seu rosto ser um pouco quadrado, o queixo
firme, completamente másculo, Heitor Romano tinha algo
enternecedor em sua fisionomia.

Quando o carro estacionou no belo jardim da casa,


algum tempo mais tarde, concluí que tínhamos voltado à
mansão. Fui agredida pela fúria dos ventos frios daquela
madrugada gélida ao sair do automóvel. Não consegui
deixar de me abraçar, principalmente pelo fato de ter
saído da quentura de onde em momentos atrás eu me
banhada. Sensível ao meu estremeço, Heitor fez algo
ainda mais surpreendente: tirou o paletó do próprio corpo
e me cobriu com ele. Atônita com aquele gesto delicado,
fitei seus olhos, mas não encontrei nada neles que não
revelasse piedade. Heitor tinha pena de mim. Bom, ao
menos naquele instante ele tinha.

— Venha, morena, vamos entrar — me tocou de modo


contido enquanto me conduzia pela casa. E pela primeira
vez em dias eu me senti segura naquele lugar.

Subi a escada em direção ao quarto onde eu me


"hospedara" desde que aceitara viver com Heitor e por
alguma razão ainda não tão clara em minha cabeça adorei
sentir o perfume do paletó dele quente inebriando-me, que
ainda de quebra baralhava minha mente. E desde então já
lamentava por ter que em algum momento me afastar
daquele cheiro.

— Não devia ter fugido, morena— falou, segurando a


porta do quarto ainda aberta — Achei que tivéssemos um
acordo.

— Você machucou meu pai?


Ele pensou no que dizer e por um instante meu coração
disparou.

— Não, não machuquei.

— Prometo não fugir mais. Nem tentar— mordi o


lábio, me sentindo patética — eu acho que estava... um
tanto confusa.

Heitor largou a porta e deu três passos, ficando bem


próximo a mim. Ergueu a mão e, insegura, virei o rosto,
pensando que ele fosse me bater. Mas para o meu alívio e
a minha surpresa, ele me beijou. Um beijo fraco e
delicado, superficial. Achei que ele fosse insistir no ato,
mas então, para a minha confusão, Heitor se afastou.

— É melhor descansar, Maya— murmurou, me dando


as costas, e então sumiu de meu campo de visão. Só neste
momento liberei o ar acumulado no pulmão. Afundei na
beirada da cama e levei a mão aos lábios. Ele tinha me
beijado. E aquilo não tinha sido ruim.
Deitei na cama e pensei.

***

A porta se abriu e avistei alguém parado nela. O


moreno. Theo. Ele estava num terno cinza. Não estava
sorrindo, mas sua expressão me tranquilizava. Ele era um
desconhecido, mas ainda assim não me assustava. Bom,
era estranho pensar em dois mafiosos ou seja lá o que
Theo fosse (talvez ele só fosse o pau mandado do irmão)
mas o curioso era imaginar que ele não me intimidava ou
colocava medo. E ao contrário do Heitor, que estava
sempre mais agitado e dando ordens, Theo parecia levar
tudo na brincadeira.

— Então quer dizer que você tentou fugir, moça


difícil?

Não respondi, mas aquela mania dele falar não me


deixava incomodada, embora não tivéssemos trocado
muitas palavras ao longo dos dias que eu ficara presa
naquela casa. Theo tomou a liberdade de entrar no quarto
e me perguntei o que ele queria uma hora daquela falar
comigo. Será que ele não tinha relógio? Não, ele tinha.
Olhei para seu pulso e mesmo coberto pelo paletó dava
para ver o reflexo de algo brilhante, que deveria ser o
relógio de ouro. Bem, eu é que não tinha nenhum relógio
ali perto para consultar a hora, mas nem por isso eu
deixava de perceber que era madrugada.

— Sabe, Maya... é Maya o seu nome, não?

— É — murmurei, séria, dizendo a mim mesma que


por mais que ele e o irmão dele fossem homens fortes e
poderosos, eu não abaixaria minha cabeça. Afinal, já tinha
até mesmo fugido de Heitor. O que me faltaria agora?

— Isso, Maya. Sabe, Maya... acho que você fez uma


coisa incrível esta noite.

Analisei sua feição e me perguntei o que ele queria


dizer com aquilo, todavia me recusei a questionar. Me
ajeitei na cama. Theo continuou:

— Sim, incrível. Tem noção do que Heitor está


sentindo por você agora?

— Raiva?

— Não — me olhou como se algo muito maravilhoso


tivesse acontecido e que ele não quisesse me contar. E se
ele não falava, eu é que não ia perguntar. Não podia
esquecer que por mais que Theo parecesse um sujeito
mais maleável, ele era o irmão do Heitor, e nunca ficaria
contra Heitor. Por isso resolvi manter uma postura séria,
até mesmo para me preservar de Theo ou das perguntas
dele.

— O que você quer?

— Não é boa com as palavras, né, moça?

Pela primeira vez pensei nisso. Dei de ombros. É, eu


não devia mesmo ser.

— Ao contrário de você — rebati e, diferente do que


imaginei, ele riu. Apenas riu.

Theo ajeitou a calça social antes de se sentar numa


mesinha perto da cama.

— Sabe, Maya, quando éramos pequenos, Heitor e eu,


bom, minha mãe sempre nos dizia que eu era afetuoso e
terno, e ele escondia as coisas. Acho que ela queria dizer
os sentimentos. Heitor nunca foi bom em revelá-los. E
agora pensando no que aconteceu hoje entre vocês dois,
eu não sei, mas... o fato é que você conquistou meu irmão.
Isso. O que é fabuloso porque ele é um cara mulherengo,
que não tá nem aí pra nada. E vou além: ouso dizer que
nunca antes uma garota mexeu tanto com Heitor como hoje
você mexeu.

Pisquei os olhos que por segundos estiveram parados,


atentos aos movimentos de Theo enquanto ele falava.
— Tá brincando.

— Não.

Engoli em seco.

— Bom, e provavelmente você acha que eu deveria


ficar lisonjeada com isso, não é?

Ele sorriu, debochado.

— Mas é claro. Que garota não ficaria?

— Bom, eu ainda estou presa aqui, então... não sei ao


certo o que pensar disso tudo, embora Heitor tenha me
salvado.

Parei de falar e só agora comecei a me sentir


incomodada com a forma como Theo me olhava. Na
verdade, eu queria ficar sozinha. Por que ele não me
deixava sozinha e em paz? Não precisava ficar falando
aquelas coisas sobre Heitor e eu. Até porque eu não podia
mesmo confiar na ideia de que Heitor gostava de mim,
apesar do beijo. Ele me salvara, claro, também me
beijara, mas era tudo ainda muito... relativo.

— Lembra quando eu sugeri que dançasse conforme a


música, moça? Acho que fez direitinho seu trabalho de
casa. Meus parabéns— piscou antes de se levantar. Theo
fechou o botão do paletó cinza. Percebi que sua camisa
era azul escura por dentro. Pensei no que ele acabara de
dizer, mas não quis lhe dar o gosto de perguntar. Me senti
mais aliviada quando ele simplesmente seguiu até à porta.
Com ela aberta, se virou novamente para mim, como se
tivesse lembrado de alguma coisa.

— Se precisar de uma força, pode contar comigo. À


propósito, sabe o que dizem sobre os irmãos do meio?

Hã?

Meneei a cabeça, dizendo que não.

— Bom, dizem que eles são sempre os mediadores das


situações. Por isso ficam no meio — piscou outra vez,
oblíquo. Em seguida, saiu.

Voltei a pousar a cabeça no travesseiro, aliviada por


estar sozinha outra vez. Mexendo na ponta de meu cabelo,
pensei nas palavras de Theo e no que ele dissera a
respeito de Heitor gostar de mim. Pensei principalmente
no meu loiro perigoso e no que acontecera desde o minuto
que ele me resgatara na rua. Eu poderia estar morta agora.
Poderia ter sido violentada por três caras antes disso.
Mas Heitor chegou na hora.

Lembrei do beijo que ele me dera. E pelas coisas que


Theo falara, era bom saber que Heitor não tinha raiva de
mim e principalmente, era bom estar de volta em sua casa.
Era doideira pensar assim, mas como a minha casa já não
era mais tão especial para mim, não achava tão difícil me
acostumar a ficar na mansão.
Capítulo 16
MAYA

OS DIAS SE PASSARAM e as horas não eram tão


insuportáveis como foram nos primeiros dias em que
cheguei naquela mansão. Heitor desde o episódio da
avenida me tratava melhor. Porém não estava mais perto
como eu imaginava que ele fosse ficar. Eu até me animara
com a ideia, porém ele estava afastado. Como se quisesse
de alguma forma me evitar. Como se tivesse se abalado
também com a maneira como ficamos mais próximos nos
últimos dias e eu não entendia a confusão que estava
misturando meus sentimentos. Era um misto de tristeza,
frustração e decepção.

Ás vezes eu queria Heitor por perto e queria que ele


me chamasse para tomar o café da manhã a seu lado. Ás
vezes eu queria ele distante de mim e tinha medo das
minhas reações em relação a ele. Ás vezes eu descia para
fazer algum serviço da casa e tinha uma sensação boa
quando Heitor estava presente no cômodo. E quando ele
não estava, eu me sentia desanimada, frustrada, como se o
dia não fosse tão mágico sem a presença dele.

Era como se minha razão não fizesse mais sentido. Eu


era uma espécie de prisioneira voluntária e não tinha mais
nada a esperar da vida. Meu emprego já havia ficado para
trás, meus amigos também, no entanto eu já não me
importava mais tanto com o fato de Heitor me afastar de
todos que eu gostava porque agora eu também gostava
dele e a sua companhia meio que também me deixava mais
feliz a cada manhã em que eu despertava.

Eu não queria namorados. Aliás, fazia anos que eu não


tinha nada com homem algum. Muitos anos. Ás vezes eu
tinha pavor dos homens, ás vezes também eu tinha medo
de mim, ás vezes eu achava que nunca seria feliz com
ninguém, que eu nunca encontraria alguém que me
passasse seriedade e segurança. Ás vezes eu ficava
confusa. Ás vezes desejava esquecer o que aconteceu
comigo e mergulhar numa relação amorosa. O problema é
que ás vezes também eu perdia fé no amor.

Heitor tinha saído desde cedo naquela tarde. Tinha me


deixado na companhia de Carla e de Chucky. Carla era
uma mulher legal, justa, gentil. Me arranjara roupas e
sempre conversávamos quando não tinha ninguém nos
espiando. Ela gostava de Heitor, respeitava-o. Talvez ela
visse nele o que levei algum tempo para ver. Sim, pois
Heitor não era insensível como eu pensava. Tinha suas
limitações, mas era bom em outras coisas e eu agora
enxergava-o de um jeito diferente.

Ouvi um pigarro de repente e percebi que Chucky


estava por ali. Ele era mal-encarado. Tinha cabelos fartos
e rubros, olhos severos e uma cicatriz um pouco
assustadora no rosto. Tinha algumas tatuagens estranhas
pelos braços. Ele não sorria. Nunca sorria. Ao menos
desde que o conhecera nunca o vi sorrindo. Era diferente
de Heitor, que na maioria das vezes tinha a expressão
facial mais suave e feliz.
O sorriso de Heitor era lindo e verdadeiro. Já o de
Chucky eu não conhecia. Ele era novo no grupo, mas ao
que parecia, Heitor gostava dele. E confiava nele.
Confiava tanto, que me deixava sozinha na companhia do
homem.

Bom, ou talvez Heitor não se importasse comigo tanto


quanto eu gostaria que se importasse.

Voltei a varrer o chão quando vi a porta dupla de


madeira se abrir e ouvi vozes entrarem por ela. Apesar
dos tremores do corpo, tentei me concentrar na vassoura
que estava em minhas mãos. Logo vi Heitor e o irmão
dele, Theo, entrarem, porém me recusei a virar para eles..

— Tudo bem por aqui? — Heitor perguntou a Chucky,


que deve ter feito algum sinal positivo, porque depois não
ouvi ninguém perguntar mais nada.

— Certo, vamos ver o futebol.

Futebol? Eles viam futebol? Não achei que mafiosos


daquele porte perdessem tempo com televisão. Aliás, não
pensava que aqueles homens sempre tão elegantes e
ocupados, tivessem tempo para qualquer outro
entretenimento que fosse, além de bebidas e mulheres.

— Opa, que tal alguma coisa pra comer? Liguem a TV


— Heitor mandou antes de passar por mim e murmurar
que eu o acompanhasse, me puxando pelo braço e me
surpreendendo.

Passamos pelo longo corredor, mas antes de sair da


sala pude avistar Theo e Chucky sentados no sofá. O
primeiro procurava os canais no controle remoto e o
segundo só olhava, parecendo relaxar com um cigarro na
boca.

Segui Heitor até à cozinha imperiosa da mansão e


pensei que era a primeira vez que eu entrava ali. Desde
que chegara naquela imensa casa ele só me deixava ficar
na sala de estar, na sala de jantar ou fazer arrumações em
outras partes do lugar. Nunca na cozinha, no escritório e,
claro, nunca no quarto dele, que ficava no mesmo
corredor que o meu.

— Por que varre a casa? Já disse que não precisa


bancar a empregada — sorriu, debruçado na bancada de
mármore, me fitando.

— É algo que gosto de fazer — dei de ombros — Me


distrai.

E, de fato, me distraía mesmo. A ideia de eu fazer as


tarefas na mansão era também uma forma de driblar Carla,
a governanta, para que ela não desconfiasse de quem eu
verdadeiramente era e do que eu representava para Heitor.

— Que tal me ajudar a preparar alguma coisa pra


comer? — segurou minha mão e a massageou
carinhosamente. Depois do beijo que me dera dias atrás,
não sabia claramente o que Heitor queria comigo. Ás
vezes tinha a impressão de que assim como eu, ele
também estava confuso.
— Não sou muito boa na cozinha — resmunguei, no
mesmo instante em que ele soltou minha mão e passou a
andar pelo lugar. De onde estava, Heitor me olhou. Por um
momento achei que fosse explodir em gargalhadas. O
semblante era de sarcasmo e de divertimento.

— Ah, não brinca — pegou algo da geladeira duplex


inox e vi que eram embalagens de pizzas e outras
coisinhas gostosas. Não consegui entender como ele
conseguia manter aquele físico impecável comendo tantas
porcarias — Isso aqui, Maya, é só assar — seu ar era de
brincadeira — Pode usar o microondas, guria. Tá vendo
ali no canto? Temos um. Além do mais, eu mesmo poderia
fazer isso sozinho, mas eu queria mesmo você aqui
comigo — chegou tão perto que pude sentir o frescor de
seu hálito menta em meu rosto.

— Quer que eu prepare as pizzas então? — murmurei,


me sentindo confusa com toda aquela proximidade.

— Não, quero um beijo seu, na verdade — riu, me


olhando como quem só queria me testar.

Nos encaramos. Heitor inclinou um pouco o rosto,


parecendo tentar decifrar o que meus olhos queriam dizer,
até diminuir a distância entre nós dois.

— Isso é tão terrível assim? Um beijo meu?

Virei o rosto, me sentindo desconfortável, mas então


voltei a me virar para ele. Por mais que sentisse medo de
me envolver e de quebrar a cara, gostava da companhia de
Heitor e não podia mais negar que estava tocada por sua
presença. O cara forçava toda aquela casca grossa,
parecia ser marrento e tudo, mas tinha uma forma de me
proteger que nenhuma pessoa demonstrara ter antes. E me
deixava balançada.

De repente, sem que eu estivesse preparada, Heitor


colou os lábios nos meus, e fechei os olhos, me
preparando para ele. Na verdade, precisava dele.
Precisava muito dele.
— Quero muito você... — sussurrou em minha boca
entreaberta, despertando em mim sentimentos confusos e
contraditórios, me atormentando, me fazendo desejá-lo
ainda mais — É sério, quero muito você, morena...

Sem ponderar o que fazia, fiquei na ponta dos pés e


agarrei seu pescoço duro. Heitor desceu suas grandes
mãos em minha cintura, em seguida em meu traseiro, me
deixando ainda mais afetada. Adorei a sensação de estar
quase flutuando. Era bom ter suas mãos grandes ao redor
de meu corpo, me sustentando. Também era bom sentir sua
barba em meu rosto enquanto sua língua cobria a minha e
virava minha face de um lado para o outro num beijo
ardente e poderoso. Seu gosto era bom, ele era cheiroso e
a temperatura de seu corpo era quente. Não queria mais
que ele parasse... oh não... estava muito bom... não pare,
Heitor... não pare, por favor.

Quando seus lábios abandonaram os meus e


percorreram o meu rosto, descendo agora em meu
pescoço, eu gemi baixinho. Toquei sua face bonita
carinhosamente e voltei a beijá-lo, dessa vez voltando a
tomar a iniciativa.

De repente alguém gritou por Heitor e ele acabou se


afastando.

— Acho melhor eu preparar as pizzas... — murmurei,


levando os dedos aos lábios molhados.

Uau.

O que tinha sido aquilo?

Quando Heitor se foi, me deixou ao mesmo tempo


atônita e viva. Pensei no que aconteceria se ninguém
tivesse o chamado. Bom, eu poderia ter me entregado a
ele. Céus! Poderia ter me entregado naquela cozinha! E
apesar da loucura que seria, aquela ideia não me
assustava. Obviamente eu devia ter resistido ao beijo, mas
não foi o que fiz.

Caramba.
Deixando os devaneios de lado, peguei as embalagens
das pizzas e fui com elas até o microondas. Até que era
legal ficar naquela cozinha adornada, era bom olhar em
redor e admirar sua decoração. Ela era grande, ampla,
bonita, luxuosa, tinha tudo o que qualquer pessoa poderia
querer ou precisar.

Sem gastar muito tempo, abri o forno, tirei a massa da


embalagem e a pus dentro de um prato. Em seguida olhei
as indicações. Não tinha microondas em casa e não sabia
mexer direito em um. Papai bebia tanto e estava sempre
afundado em dívidas que nunca tínhamos dinheiro para
comprar uma lavadora, ar-condicionado ou um forno
desse. Suspirei aliviada por saber que apesar de tudo meu
pai estava bem. Mesmo quando eu fugi, Heitor não se
vingou dele. E aquilo, de uma certa forma, também
contribuiu para eu me encantar ainda mais por Romano.

Alguém apareceu na cozinha, tomando minha atenção.

— Olá.
Era Theo.

— Oi — forcei um sorriso. Fazia dias que costumava


ser assim. Heitor saía e Theo aparecia. E eu nunca
conseguia entender direito suas reais intenções. Não
conseguia decifrar se eram boas ou más. Theo agora
mesmo, por exemplo, sorria para mim.

— Relaxe, vim só pegar as cervejas... então você vai


preparar os lanchinhos pra gente? — abriu a geladeira
compactada e tirou três latinhas de cerveja lá de dentro.

— É, parece que essa é a minha função — dei de


ombros, pensando se seria bom fazer uma amizade bacana
com ele. Ao menos ele era irmão do Heitor. E era óbvio
que poderia me dar muitas informações sobre o loiro
perigoso, mesmo que indiretamente.

— Bom, pelo menos já pode sair do quarto — seu tom


era de brincadeira. Não respondi dessa vez. De repente
Theo se aproximou de mim e me senti desconfortável com
aquele olhar escuro em minha direção. Seus olhos eram
castanhos, bem diferentes dos azuis violeta do irmão.

— Você tem namorado, Maya?

— Eu? Bom, não... por quê?

— Ah, entendo, senão ele estaria louco atrás de você.

Inspirei o ar e o soltei levemente. Desviei meus olhos


dele, não querendo falar sobre minha vida pessoal, ainda
que Theo não parecesse ser uma pessoa má. Bem, na
verdade eu não sabia nada sobre ele, exceto que era irmão
de Heitor, que Theo também lidava com os negócios da
máfia e que era o filho do meio. E, evidentemente, se
Theo era o filho do meio, significava que ainda havia um
terceiro.

— Você tem olhos bonitos — me dei conta de que ou


ele queria ser simpático demais ou queria me cantar.
Resolvi ficar com a segunda opção. Mas eu não estava
nenhum pouco interessada em sua paquera, nem em seus
sorrisos ou elogios. Não quando não parava de pensar em
Heitor e no que fizéramos minutos atrás.

De repente o timer apitou e corri para ver a pizza.


Tirei ela com cuidado do forno e me assustei ao me
deparar com Theo. Tentando não me sentir tão intimidada
com sua maneira de me encarar, pousei o prato na
bancada. Theo ergueu um braço e o posicionou acima de
minha cabeça. E eu jurei a mim mesma que eu o morderia
se ele me beijasse.
Capítulo 17
HEITOR

NO DIA SEGUINTE Maya e eu quase não nos


esbarramos. Eu tentava evitá-la, por isso arranjei várias
maneiras de passar o tempo fora de casa. Apenas às onze
da noite, Theo e eu deixamos o cassino e seguimos para a
minha mansão. Quem dirigia o carro era Sony e quando
saltamos em segurança diante do portão imenso rebuscado
de pedra, cumprimentei os seguranças. Era um time
excelente que vigiava minha casa e lá dentro eu já tinha
Chucky, o melhor capanga do Rio de Janeiro, a meu
dispor.

— Que tal um futebol? Tá passando no replay — meu


irmão falou.

— Futebol de replay? Ah, porra, tá de brincadeira!

Riu.
— Qual é? Pelo menos é alguma coisa.

Tão logo adentramos a sala de estar, encontrei a


morena varrendo o chão. Pensei no quanto Maya era
interessante até bancando a faxineira.

Putz. Que idiotice, Heitor.

Chucky, ali perto, estava parado, as costas recostadas


na parede, sem nenhum indício de sono ou cansaço,
enquanto fumava um cigarro. Ele era um sujeito estranho.
Ás vezes sua dedicação ao trabalho me fazia duvidar de
que aquele cara era de verdade. Eu o cumprimentei
enquanto Theo cumprimentava Maya. Ela murmurou
alguma coisa e então depois disso não consegui mais tirar
meus olhos dela.

— Certo, vamos ver o futebol — voltei a mim, me


lembrando da sugestão que Theo dera minutos atrás.
Depois disso meu irmão iria embora para a casa dele e
Chucky também. E algo em meu íntimo retumbou com a
ideia de ficar à sós com Maya. A noite toda apenas a
malagueta e eu.

— Opa, que tal alguma coisa pra comer? — Theo


sugeriu, sentando no sofá.

— Vou preparar umas pizzas, liguem a TV — passei


por Maya e puxei suavemente seu cotovelo. Ela não
questionou.

Na cozinha rolou um clima entre a gente e depois de


finalmente conseguir um beijo por livre e espontânea
vontade, deixei Maya sozinha lá, sentindo meu senso de
humor restaurado. Já na sala, me juntei a Chucky e Theo e
tentei prestar atenção nos primeiros minutos do jogo.
Chucky, como um bom carioca, se dizia torcer pelo
Flamengo, mas também apreciava uma boa partida de
futebol, mesmo que fosse replay. Theo e eu éramos ambos
corintianos.

Logo meu irmão se levantou, avisando que iria pegar


uma cerveja. Depois de achar que ele demorava demais,
fui atrás.

— Você tem namorado, Maya? — ouvi a voz de Theo


perguntar, enquanto eu me escondia na lateral da entrada
da cozinha. Meu irmão parecia completamente à vontade
na companhia da garota.

— Eu? Bem, não... por quê?

De onde eu estava eles não podiam me ver, todavia eu


não estava completamente escondido atrás da porta.
Pensei em entrar, mas a ideia de espiar o que Theo falava
me prendeu.

— Ah, entendo, senão ele estaria louco atrás de você.

O que Theo queria e aonde pensava em chegar com


aquela merda? Me concentrei na resposta de Maya, mas
ela não veio. Então Theo continuou:

— Você tem olhos bonitos.


Nesse instante inclinei um pouco o rosto e vi meu
irmão dar um passo em direção à morena. Assim como eu,
ela devia estar tentando entender o que estava
acontecendo. Então Theo queria azarar a garota? Que
grande filho da puta!

Com o sangue esquentando, me posicionei para entrar


na cozinha e acabar com aquela farra dele. Talvez ele
merecesse também uma porrada. Contudo de repente
o timer apitou, avisando que a pizza estava pronta. Nesse
momento vi Maya correr para o microondas e Theo ir
atrás dela. Ela virou-se e pareceu assustada com a
proximidade dele. Theo ergueu um braço e o pousou
acima da cabeça da morena. Impaciente, eu entrei na
cozinha, segurando meu punho para não partir para cima
dele.

— O que tá rolando aqui? — afundei as mãos nos


bolsos da calça. Antes que qualquer um deles me desse
alguma resposta, dei um novo passo e recostei minhas
costas na geladeira, como quem não queria nada. Respirei
fundo. Eu não era um cara tão passivo. Maya e Theo me
encararam, meu irmão parecia um garoto envergonhado
quando pego no flagrante.

— Incomodando a Maya, Theo?

Ele riu, sem graça, se afastando da garota.

— Estava espiando a gente esse tempo todo?

— Espiando? Isso não é coisa do meu feitio. Só que


essa cozinha é minha, então posso vir aqui a hora que
quiser.

— Certo, saquei — se afastou mais, ainda sorrindo —


Bom, Maya e eu só estávamos conversando sobre as
pizzas. Eu disse pra ela que você sempre preferiu a de
calabresa... — pegou um pedaço da pizza do prato que
estava nas mãos da garota — Hum, boa... muito boa. Bom,
estou indo.

Theo murmurou uma despedida antes de sair da


cozinha, deixando Maya e eu sozinhos. Ficamos algum
tempo em silêncio e estudei as feições dela. Cheguei mais
perto e gostei de ver que ela me encarava, sem medo ou
sem culpa.

— Ele estava azarando você, que eu sei — Maya logo


se movimentou pela bancada para começar a partir as
pizzas. Ao que parecia, tentava se mostrar inabalada.

— Estou bem... vou levar logo as pizzas.

Percebi que ela também não queria demonstrar o


quanto ainda estava afetada pelo nosso beijo trocado meia
hora atrás. Resolvi não forçar a barra.

— Certo, estarei esperando.

Saí da cozinha e percorri o corredor de volta até a


sala. Eu sabia que assim como Theo, também deveria
ficar longe de Maya.

Eu deveria ficar longe dela, merda!


Voltei para a sala e encontrei Chucky distraído com a
televisão. Eram raras as vezes em que eu o via daquele
jeito. Me deixei cair outra vez no sofá exatamente no
momento em que um botafoguense alcançava a grande área
para chutar ao gol. Theo que acompanhava o lance,
reclamou, mas por sorte a jogada não fora finalizada.

— Oba, o lanchinho chegou — Theo sorriu, minutos


mais tarde, assim que Maya apareceu na sala, com a pizza,
pratos e talheres nas mãos.

Gostei do modo como a morena colocou tudo na mesa


de centro e pensei se ela já tinha trabalhado como
garçonete em algum lugar antes.

— Mais alguma coisa? — ela perguntou, solícita, me


encarando.

— Já trabalhou nisso antes?

— Como?
— Em servir. Já fez isso antes? Em algum restaurante?

— Não — pareceu confusa com a pergunta.

— Ah.

— Quer mais alguma coisa?

— Não, pode ir. Se eu quiser, eu mesmo pego.

Ela me olhou, por um instante parecendo perplexa


como o modo áspero como eu falara, sem saber o que
dizer. Na verdade, eu agira daquela forma para disfarçar o
que estava rolando entre a gente. Não queria que Chucky
ou mesmo Theo desconfiasse.

— Pra cozinha? — Maya perguntou.

— Pra onde seria, morena? — peguei a lata de cerveja


com arrogância e a levei até a boca, sem mesmo olhar
para Maya.
Maya deve ter engolido em seco e fechado a cara. Não
respondeu mais nada. Apenas girou os calcanhares e
voltou pelo caminho por onde tinha vindo.

— Coitada da moça — Theo desdenhou, levando um


pedaço de pizza à boca.

— Sei como lidar com ela.

— Tô vendo.

— E sei como lidar com você também.

Theo franziu a testa.

— Que foi?

— Fique longe dela. E da cozinha também.

— Saquei.

Mais uma jogada na televisão nos despertou a


atenção.

***

Encontrei Maya sentada numa das altas cadeiras do


balcão de mármore. Ela lia alguma coisa. Não, na
verdade, ela lia e escrevia. Palavras cruzadas. Quando
sentiu minha presença logo se recompôs.

— Gosta disso? — perguntei, apontando, enquanto me


dirigia à geladeira.

— É, gosto — falou, friamente, e voltou a se


concentrar no que estava fazendo. E pensei se ainda
estava chateada com a forma como eu lhe tratara minutos
atrás. Peguei uma garrafa de cerveja e bebi no gargalo
mesmo. Eu também queria um tempo com Maya. O jogo
estava no intervalo e eu queria saber mais sobre ela.

— Você tem mais de um irmão? — cheguei mais perto.


Ela me encarou, com um ponto de interrogação na
testa. Pareceu pensar. Talvez estivesse insegura de
revelar.

— Ah, qual é. Não vou mandar irem atrás de ninguém,


relaxa.

— Tenho só um irmão — mordeu o lábio inferior,


como se nesse instante se lembrasse dele.

— E o que aconteceu com ele? Deixou vocês?

Ela abaixou a cabeça, parecendo desconfortável com a


minha presença. Provavelmente estava muito chateada e
agora não queria nem olhar para a minha cara.

— Sim.

— E quanto a sua mãe?

— Ela já morreu — me fitou brevemente e então


voltou a olhar para a palavra cruzada — Quando eu era
adolescente.

Pensei naquilo. Pensei no que dizer, mas não consegui


nada realmente bom para falar. Na verdade, nem sempre
eu era bom com as palavras.

— Eu lamento, guria — murmurei, por fim.

Vi seus olhos escuros brilharem.

— É, eu também.

Silêncio.

Tive vontade de me aproximar dela e de lhe dizer o


quanto realmente eu lamentava e o quanto eu a queria bem,
o quanto me doía saber que ela estava sofrendo ou infeliz,
bem como detestava saber que alguém lhe machucara, mas
ao invés disso, eu permaneci em silêncio.

— Por que me ajudou naquela noite, Heitor? — sua


voz me libertou do pequeno devaneio. Ponderei se ela
havia ficado mesmo chateada por eu tê-la tratado mal na
sala de estar na frente de Chucky e de Theo. Talvez a
raiva estivesse se dissipando agora.

— Você estava em apuros, morena. Precisava de mim.

Maya me fitava e seus olhos pareciam tentar desvendar


o que se passava em todo o meu ser. Não era sempre que
alguém me olhava daquele jeito. Ás vezes Nora fazia isso
e era como se me estudasse ou examinasse. Mas nenhuma
outra garota um dia me fitou assim, como se quisesse se
adentrar no fundo da minha alma, mas agora Maya fazia
isso. E Apesar de tudo, aprovei aquela sua atitude.

— E desde quando se importa?

Pensei naquela pergunta. Eu poderia dar de ombros e


dizer qualquer idiotice em forma de palavra, contudo, eu
me importava com ela. Não devia mesmo me importar,
afinal de contas, ela era filha do cretino que tinha matado
minha mãe e meu pai. E uma ferida ainda estava aberta em
meu peito e parecia nunca querer cicatrizar. Eu não devia
mesmo me importar com Maya, mas ainda assim eu me
importava. Era sinal de que Maya mexia comigo.

— Não queria que se machucasse. Nunca vou querer.

Ela não respondeu. Piscou os olhos, parecendo ficar


pensativa ou desconfortável com aquela minha resposta.

Mais um silêncio.

Um longo silêncio.

Um maldito e longo silêncio.

Me aproximei mais dela.

— Não parece óbvio, guria? — toquei seu rosto com


ternura, mas ela se esquivou um pouco. Mesmo assim eu
insisti. Foi minha vez de examiná-la. Puxei sua mão, num
pedido silencioso para que ela ficasse em pé, depois
segurei sua cintura fina e trouxe todo o seu corpo para
mais perto de mim. A morena estremeceu baixo, e
novamente virou o rosto, tentando me evitar.

— O que foi? — beijei sua orelha e seus cabelos


cheirosos — Está com raiva de mim?

— Você foi estúpido há meia hora...

— Eu sei que fui, mas... foi tudo encenação, acredite.

Ela não pareceu muito convencida disso e então se


esquivou mais uma vez.

— Não... — murmurou e afastou meu peito — só quero


que me deixe em paz, é isso.

Parei, entretanto não me afastei dela. Olhamo-nos por


algum tempo. Olho no olho, boca na boca. Foquei em seus
lábios rosados. Senti a respiração dela descompassada e
as aceleradas batidas de seu coração. Sem pensar mais
uma vez, avancei um novo passo e enterrei meu rosto em
seu pescoço delicado para inspirar a fragrância de seu
cheiro. Dessa vez Maya não reclamou ou tentou se afastar.
Talvez só estivesse com um pouco de medo ou um tanto
assustada. Suas mãos em meu peito estavam um pouco
trêmulas.

Fechei os olhos e afundei minha mão livre no


emaranhado de seus cabelos negros. Maya deve ter
fechado os olhos enquanto estremecia baixinho a cada
movimento que eu dava. Mas não era de medo, era de
prazer. A morena parecia compartilhar das mesmas
sensações boas que eu compartilhava.

Retirei meu rosto de seu pescoço e voltei a mirar sua


boca. Aproximei meus lábios e forcei entrada. Maya não
resistiu como eu esperava que fosse resistir. Pelo
contrário. Entreabriu a boca por livre e espontânea
vontade e a cedeu a mim, como na outra vez.

Suas mãos de boneca espalmaram meu peito e sua


língua passou a dançar com a minha numa dança sensual e
maliciosa. Senti meu membro endurecer e dei novos
passos, espremendo a garota na bancada. Queria ela.
Queria muito me afundar nela. Queria ardentemente
mergulhar nela. Maya envolveu meu pescoço com seus
braços e quando apalpei seu traseiro a voz de Theo me
chamou lá de fora.

Merda.

Era para avisar que o segundo tempo do jogo


começava.

— É melhor você ir... — ela sussurrou, um pouco sem


fôlego.

— Ok... — lembrei que era a segunda vez que meu


irmão atrasava a minha vida. Toquei o rosto de Maya com
gentileza e fixei meus olhos nos seus.

— Me espere esta noite no quarto, ok? — sussurrei.


Capítulo 18
MAYA

O TOQUE DAS MÃOS de Heitor era firme, embora


delicado, e seu beijo possessivo era muito quente e me
fazia balançar, além de me fazer sentir aquela sensação
gostosa de ser desejada. Mas quando alguém de repente o
chamou, Heitor parou o que estava fazendo comigo, me
deixando com a boca entreaberta, ainda abalada pelo
impulsivo desejo, e então, segurando meu queixo, falou:

— Me espere esta noite no quarto, ok?

Ok.

Sem esperar pela minha resposta, se afastou.


Contemplei as costas sólidas e bonitas que aquele homem
tinha, que mesmo através da camisa social branca eu
podia vislumbrar. Certamente havia colecionado muitos
amores nesses trinta e poucos anos de vida e aquilo me
deixava apavorada. Principalmente porque eu começava a
sentir algo assustadoramente forte e diferente por ele.
Algo novo e estranho.

Estranho porque Heitor era um dos últimos caras na


vida por quem eu deveria me apaixonar. Ele tinha
machucado meu pai, nos ameaçado e me separado do seio
de minha família. Por causa dele meu irmão tinha sumido
no mundo e eu estava presa como uma refém. Por causa de
Heitor eu tinha perdido o restante da pouca luz que havia
em meu sorriso, no entanto eu agora começava a sentir
algo completamente bom em relação a ele e isso estava
me deixando doida. E desestruturada.

Ele tinha sido gentil e carinhoso comigo, tinha sido


bom e protetor. E agora eu desejava sua presença, seus
beijos e seu toque em minha pele. Eu começava a pensar
num futuro com ele e toda essa loucura me afetava.

Respirei fundo.
Heitor sumiu de meu campo de visão e aproveitei para
me recuperar do que tinha acabado de acontecer ali na
cozinha. A gente tinha se beijado. Pela segunda vez
naquela noite. Um beijo firme e decidido, de quem não
estava disposto a aceitar recusa. Um beijo gostoso e com
pegada.

Ele definitivamente tinha pegada e aquilo era outro


fator que me abalava porque se Heitor fosse só um cara
qualquer eu saberia logo que minha atração ou seja lá o
que eu estivesse sentindo por ele passaria, no entanto, o
fato dele mexer ardentemente comigo me deixava
vulnerável. E por incrível que pudesse parecer, não odiei
os beijos que Heitor me dera, nem recuei. Eu gostara.
Gostara de sentir o cheiro delicioso dele próximo às
minhas narinas, sua pele quente na minha, sua barba
pinicando meu queixo, suas mãos firmes e grandes me
sustentando e me dando aquela maravilhosa sensação de
segurança. Eu gostava de sua presença, embora não
admitisse aquilo, gostava do jeito que Heitor me olhava e
falava.
Me espere está noite no quarto, ok?

Peguei um pedaço de pizza, abri a geladeira duplex


inox para pegar um refrigerante e tomei um lanche. Aquilo
também serviu para me deixar mais relaxada. Depois
lavei a louça e em seguida caminhei em direção ao hall
que acabava na sala de estar. Heitor, Chucky e Theo ainda
assistiam ao jogo. Aproveitei que os três estavam
concentrados na televisão e segui para a escada. Antes
disso, no entanto, vi o olhar de Heitor em minha direção e
por um momento desejei que ele me seguisse. Que ele
subisse a escada atrás de mim e me beijasse uma outra
vez. E eu cederia. E me entregaria. Ainda que me
arrependesse no dia seguinte ou até mesmo nas horas
seguintes, mas eu me entregaria a ele sem qualquer medo
ou reserva.

Isso também poderia ser porque eu sentia falta de


alguém que me fizesse bem, de alguém que reavivasse em
mim a chama de ser amada, tocada, desejada. E Heitor
agora mexia com a minha libido, ainda que eu soubesse
que me envolver com ele não era a coisa mais inteligente
a se fazer. Pelo contrário, era uma das coisas mais burras.
Ele era um mafioso implacável que possivelmente
machucava as pessoas. Mas ainda assim eu não parava de
desejar a companhia de Heitor Romano.

Atravessei o quarto decidida a lembrar do que se


passara lá embaixo e me deixei cair na cama, aliviada,
encantada, apavorada. Minha cabeça se tornara a base de
um grande bombardeio e eu me sentia a cada segundo
mais confusa. Contudo desde que Heitor me salvara e me
levara de volta para sua mansão eu me sentia mais aberta
e mais calma na presença dele.

De repente alguém bateu à porta. Aguardei. Meus


lábios inferiores a essa altura já estavam sendo
dilacerados pelos meus dentes como se esses fossem
facas afiadas. A porta se abriu, me revelando Heitor
parado nela. Nos encaramos por um tempo e me ergui da
cama. Eu sabia que não haveria mais volta. Ele atravessou
o quarto com passos lentos e calculados e tocou meu rosto
devagar de uma forma que só me restou gemer ao entregar
minha boca para ele. O beijo foi gostoso e profundo e
logo suas mãos percorreram minha bunda e a apertaram.
Senti seu membro duro em meu ventre e não me apavorei
com o que estava acontecendo, com as consequências de
nossos atos. Eu estava preparada. Eu o queria. Mais do
que devia!

Heitor segurou meus cabelos na altura da nuca e


devorou minha boca novamente com um beijo ávido e
exigente. Segurou também uma de minhas coxas e a ergueu
até sua cintura. Me senti livre e segura. Eu queria isso.
Como nunca quis antes... Heitor gemeu na minha boca
entreaberta e sussurrou que eu era tudo o que ele
precisava naquela hora, me fazendo acreditar nele.
Apertou minha bunda, despertando em mim sensações
nunca sentidas antes, me colando em seu peito sólido.
Quando finalmente fomos para a cama e caí nela com as
coxas abertas, sentindo o corpo forte e másculo de Heitor
deitar sobre o meu, ele se afastou poucos centímetros
apenas para tirar a camisa, me dando a imagem
maravilhosa de seu peitoral amplo e descoberto. Não
contendo a curiosidade, toquei nele. Além de forte, era
rígido e quente.

Heitor passou a tirar a calça social azul marinho, me


revelando suas coxas grossas e pelos escuros em suas
pernas. De onde estava poderia ver muito bem o volume
na sua cueca boxer, que logo foi retirada também,
deixando à vista seu membro grande e ereto. Não me
assustei. Deitei novamente a cabeça na cama, dizendo a
mim mesma que estava preparada. Cerrei os olhos e logo
senti Heitor puxar meu short jeans para baixo e abrir o
zíper dele, depois senti suas duas mãos firmes puxarem o
short com mais determinação, até que esse deslizasse por
minhas pernas e por fim se amontoasse em meus pés.

Heitor passou a se livrar de minha blusa, me deixando


nua, mas não constrangida por isso. Pousou suas duas
mãos enormes em meus seios e lentamente os acariciou,
me fazendo gemer baixinho, ainda com os olhos
semicerrados. Senti meu corpo esquentar e mesmo
sabendo que era uma experiência nova, eu gostei dela.
Meu corpo parecia ter vida própria ao corresponder aos
toques das mãos e da boca hábil daquele homem. E
quando Heitor finalmente cobriu-me com o seu peso,
cruzei minhas pernas em volta de seu quadril e me agarrei
às suas costas largas. Não tinha como não estremecer com
a dureza de seu membro na minha entrada já úmida. Heitor
não falou nada. Apenas beijou o vão de meu pescoço,
afundando sua cabeça em meu ombro, fazendo
declarações de amor. Eu não sabia se devia acreditar em
suas palavras, mas era bom ouvi-las. Ergui as mãos e
acarinhei seus cabelos. Fechei os olhos novamente. Heitor
largou meu pescoço e abocanhou outra vez meus seios,
chupando-os, enquanto suas mãos apertavam minha bunda.

Eu queria... nossa, como eu queria...

Sem mais demora, Heitor se afundou em mim com uma


investida só, me fazendo estremecer. Eu gemi. Um gemido
agudo, seguido de um grunhido abafado de prazer. Ele
esperou. Passou a se movimentar devagar. Dessa forma
consegui relaxar aos poucos. Segurou minhas mãos e as
entrelaçou nas suas, na busca por mais intimidade.
Enquanto investia em mim, bem devagar e me fazia gemer
baixinho, não deixava de beijar minha boca e sussurrar o
quanto eu era perfeita, o quanto eu era tudo o que ele
sonhava... era bom sentir as palmas de suas mãos coladas
nas minhas, bem como sentir seu peso, seu calor, seu suor
em mim. Heitor acelerou as estocadas e passou a me
penetrar com mais impaciência e desejo agora. Entrou e
saiu de mim sem qualquer pudor. E eu estremeci,
completamente envolvida pelo prazer que envolvia nossos
corpos. Não queria que ele parasse... oh, não... estava
muito bom! Heitor voltou a abocanhar minha boca e
pousou os cotovelos em volta do meu rosto, me mostrando
que a partir daquele momento eu era toda dele. E gostei
disso. Era bom ser dele...

Quando finalmente terminamos o ato e o cansaço me


venceu, eu me agarrei a seu peito suado e vigoroso. Deitei
a cabeça em seu peitoral, adorando sentir as batidas
aceleradas de seu coração. Passei a acariciá-lo devagar,
sem falar nada. Não tinha muito o que falar, bastava sentir.
Eu só queria sentir o que tínhamos compartilhado
segundos atrás. Não tinha sido doloroso, não tinha sido
ruim. Pelo contrário, tinha sido bom demais. Heitor beijou
meus cabelos e fechei os olhos, feliz por estar segura ao
lado dele, até que novos minutos se passaram e minha
mente foi vencida pelo cansaço e pelo sono.

***

Quando acordei, avistei Heitor na porta. Ainda


sonolenta, ajeitei os cabelos, afastando-os do rosto, para
ser capaz de vê-lo melhor.

— Está me olhando há muito tempo? — perguntei, a


voz rouca de sono.

— Não se preocupe, cheguei agora há pouco — se


sentou na poltrona diante da cama e gostei daquele
movimento que suas coxas grossas fizeram. No entanto,
queria saber porque ele não acordara junto comigo.

Heitor demorou os olhos em mim assim como perdi os


meus nele. Me protegi com a colcha branca, percebendo
que ele já tinha tomado um banho e se trocado. Ficamos
nos encarando por algum tempo, o suficiente para ver que
as maçãs de seu rosto eram ainda mais agradáveis quando
ele estava sereno. E agora na minha frente ele parecia
tranquilo. Não o mafioso que eu conhecera dias atrás.

Consultei o relógio digital que no dia anterior Heitor


deixara sobre o criado-mudo do meu quarto e notei que as
horas tinham avançado e que eu realmente parecia mais à
vontade na casa e na companhia dele.

— Como te disse mais cedo, não matei seu pai, morena


— falou, de repente — Se isso te conforta, não o matei.

Assenti com a cabeça.

Me senti melhor, sim, principalmente por ele não ter


acrescentado o "ainda". Ainda não matei seu pai, morena.
Ainda.

Me dei conta de que deveria dizer alguma coisa.


Qualquer coisa que fosse.

— Obrigada — sussurrei.

Ele suspirou. Tocou nos próprios joelhos e pareceu


desconfortável com aquela conversa. Se levantou. Mordi
o lábio, temendo o que ele falaria em seguida.

— Tem ideia do que fizemos? — perguntou.

— Sim. E você?

— Foi muito gostoso. Espero não ter sido bruto com


você.

— Não foi.

— Bom, eu quero que saiba que... não vou forçá-la a


nada, Maya. Nunca.
— Eu sei que não. E... — mordi o lábio outra vez —
na verdade, também gostei do que fizemos.

— Ótimo — se aproximou novamente de mim, se


inclinou para me dar um beijo — E lembra que comentei
que iria comigo para o Rio? Chegou a hora, morena.
Vamos partir.

— Quando?

— Amanhã à tarde. Na verdade, iremos você, Chucky


e eu. E não se preocupe com o que levar, vamos comprar
tudo do que precisar quando amanhecer.

— Certo.

— Agora preciso ir. Vai ficar bem aqui?

— É, acho que sim.

— Ok.
***
HEITOR

EU ESTAVA lascado!

Analisei meu semblante diante do espelho e por um


momento tive a certeza de que estava vendo outra pessoa
ali, que não era eu. Bufei.

Olhei através do meu reflexo, e ali atrás vi Maya


novamente adormecia na cama ampla e desarrumada.
Horas atrás estávamos nos amando fervorosamente. A
garota era gostosa, quente e carinhosa. Apertara meu
pescoço e arranhara meu peito e minhas costas com
vontade. A nossa primeira vez tinha sido completamente
satisfatória.

Abandonei o espelho e me posicionei na janela. Era


quase madrugada e os seguranças tomavam conta da casa.
Era uma droga viver rodeado por um bando deles, mas era
um mal necessário, como dizia meu pai.

Me afastei da cortina e mesmo sem camisa, senti calor.


E esse calor repentino atendia pelo nome de Maya. Olhei
meu físico e pensei em quanto tempo estava sem uma
garota. Talvez algumas semanas.

As mulheres costumavam me elogiar e dizer que se


amarravam no meu peitoral largo, no abdome bem
trabalhado, nos olhos azuis e até mesmo nas minhas
poucas sardas. E como eu gostava de ouvir aquilo,
especialmente em cima de uma cama ou sobre um corpo
macio e delicioso, eu à medida do possível tentava ser
vaidoso. Entretanto a sede por vingança me consumira.
Desde que descobri quem Natanael era o cara que
frequentava meu cassino não sosseguei. E então tudo
pareceu ficar em segundo plano, até as mulheres, exceto
os negócios no Del Romano.

E então surgira Maya.


Passando a mão pelos cabelos enquanto andava pelo
quarto, olhei para a morena dormindo, mesmo sabendo
que não devia ficar ali espiando. Fazia dias que eu estava
me segurando para não ficar babando por ela, mas horas
atrás eu via a porra das minhas forças ruírem. Meu corpo
pegava fogo, meu membro endurecia, minha mente soltava
fumaça e eu só ansiava por poder relaxar nela.

Segui até a porta e de lá observei Maya. Por um


instante fechei os olhos, me sentindo um grande idiota por
não conseguir me segurar. Abri os olhos novamente e
pensei que eu poderia tê-la a qualquer momento, se
quisesse, mas não voltaria a tocar nela. Por dois motivos:
porque Maya era filha de quem era e porque eu não era
nenhum aproveitador desgraçado. Se não queria me
envolver com a garota, devia mantê-la livre das minhas
garras.

Larguei a porta e caminhei pelo hall que acabava na


escada. Mesmo decidido a não tocar mais em Maya,
precisava admirá-la de alguma forma, nem que fosse
através das imagens, das malditas imagens da câmera.

Tão logo cheguei no primeiro andar, empurrei a porta


do escritório e me deixei cair na poltrona de couro
importado. Puxei a tela para poder ver melhor. Liguei o
aparelho e acessei o quarto. Maya estava ainda deitada na
cama. Era lá que ela ficava na maioria das vezes. Ás
vezes ela lembrava que estava sendo filmada e evitava
tirar a roupa ou fazer qualquer coisa comprometedora. Ás
vezes ela tentava se esconder. Ás vezes eu me sentia um
monstro por prendê-la.

Nesse momento a morena, adormecida, parecia estar


mais serena e eu gostava de saber que ela estava assim.
Percebi que desde que eu a salvara das mãos dos
delinquentes, Maya passou a confiar em mim. Não
esperava que ela seria tão receptível, mas sua maneira de
agir no sexo só me provara o quanto estava envolvida
também. Talvez até mais do que nós dois imaginávamos.
Provavelmente ainda desejava voltar para casa, no entanto
já não me odiava e aquilo era bom.
O sono começou a me testar e notei através da câmera
que Maya não acordara mais, nem sentiria mais minha
falta na cama. Esfreguei o rosto e decidi que era hora de
voltar para o meu quarto, que ficava ao lado do dela. No
dia seguinte voaríamos para o Rio de Janeiro e depois da
viagem eu teria que decidir o que fazer com a garota.
Capítulo 19
MAYA

CHEGAMOS BEM ao Rio de Janeiro. A cidade era


linda. Acesa. Tinha glamour e aquela magia toda da qual
as pessoas falavam. Sempre achei que seria difícil não me
sentir seduzida pelos ares cariocas. E, de fato, estava
deslumbrada. E estava sendo um máximo conhecer um
lugar novo. O problema era que Heitor não parecia o
mesmo cara interessado em mim como parecera até ontem
à noite.

— Vamos, há um carro nos esperando — Heitor seguiu


na minha frente, empurrando o carrinho com as malas.
Estava com óculos escuros pretos que lhe dava um
aspecto ainda mais sexy e charmoso. Não vestia um terno,
dessa vez ele o substituíra por camiseta branca, uma
jaqueta marrom de couro, calça jeans e tênis. Eu também
vestia um simples jeans e uma camiseta rosa. Eu passara
boa parte do tempo naquela manhã comprando roupas que
ele exigira. Não questionei porque, afinal de contas, eu
não poderia ir mesmo para uma viagem sem boa coisa na
mala. Então não me importei com a ideia de que Heitor
comprava coisas para mim.

Logo Heitor me conduziu até a saída do aeroporto.


Chucky nos seguia, como se fosse algum guarda-costas. Se
bem que ele era mesmo um. E eu ficava intrigada com o
fato do cara nunca parecer relaxar, nem dizer nada.
Chucky era realmente assustador, porém não era tão
odiável como Ronan ou Oscar. Ao menos não tinha
gritado comigo nem me tratado com agressividade.

Assim que alcançamos o meio fio, eu olhei para o


carro preto estacionado e avistei um par de olhos azuis.

— Olá, paulistada! Vocês demoraram. Sou Alvim, o


braço direito do Feroz — gargalhou em seguida, nos
revelando que aquilo era piada, transbordando simpatia e
bom humor.
— Que tal falar menos e dirigir mais, retardado? —
Chucky o cumprimentou com um cascudo na cabeça,
falando pela primeira vez em horas, e de imediato percebi
que os dois se davam bem. Heitor também cumprimentou
nosso simpático chofer e se ajeitou ao meu lado no banco
traseiro do carro. Logo pôs o celular na orelha. Ao que
parecia, falava com Diogo, o sujeito que iria nos receber.

***

— Aeee! Até que enfim chegaram! — uma voz


masculina soou, me fazendo olhar para cima e dar de cara
com um sujeito moreno, olhos castanhos, cabelos
selvagens, camiseta branca, sorriso fácil.

Eu sempre ouvira dizer que os cariocas eram pessoas


dadas e que sabiam recepcionar bem as pessoas, e até
aquele momento aquilo estava coincidindo com o que
falavam.
— Então, meu, por que não desce daí e vem receber
suas visitas da forma mais educada? — Heitor sorriu ao
olhar para o moreno e percebi que assim como Alvim e
Chucky se davam bem, Heitor e Diogo também tinham
muita intimidade.

— Elena, meu amor, temos visita! — gritou Diogo


para alguém ali no segundo andar antes dele começar a
descer a escada, e então avistei uma menininha correr até
seu colo. Ela lhe envolveu o pescoço com um bracinho e
vi que sua outra mão segurava uma boneca quase de seu
tamanho. Diogo usou apenas um braço para segurar a
pequena, que se parecia muito com ele, e por isso deduzi
que fosse sua filha.

— Diogo, esta é Maya — Heitor falou assim que o


nosso anfitrião alcançou a base da escada — minha garota
— pigarreou, claramente desconfortável com o título que
me dera.

— Seja bem-vinda — Diogo esticou a mão para mim,


sorrindo. Agora pude ver que seus olhos eram de uma
tonalidade de castanhos bem mais claros, quase mel, e que
seus cabelos fartos tinham a cor de chocolate e me diziam
que ele estivera numa cama minutos atrás — Como Heitor
falou um dia, amigo dos meus amigos é meu amigo
também — piscou.

— Obrigada.

— Quem é ela, papai? — a garotinha em sua


companhia perguntou, me olhando. Sua voz era fininha e
açucarada como um algodão doce, e me roubou um
sorriso.

— Oh, ela é a namorada do tio Heitor, princesa...


lembra-se dele? Ah, Maya, essa aqui é Esmeralda, minha
rolinhazinha.

— Filhinha, sou sua filhinha! — a pequena corrigiu,


puxando o rosto do pai para si, exigindo a atenção dele,
que lhe beijou a testa miúda carinhosamente.
— Não gosta de rolinhazinha? Ora, sempre a chamei
assim — pai e filha demoraram segundos trocando
carinhos e acusações, parecendo serem muito próximos
um do outro, e então uma mulher bonita apareceu na
sacada. Cabelos longos e escuros. Bem morena. Com um
barrigão de grávida. Sorriu e começou a descer a escada
devagar, com um pouco de dificuldade. Heitor, muito
solícito, saiu do meu lado e subiu alguns degraus para
auxiliar a nossa anfitriã.

— Como vai, Elena?

— Olá, Heitor. Como pode ver, ando muito pesada —


riu, aceitando a mão dele — Mas estou bem. E é bom ver
você aqui.

— Sereia, Heitor está com companhia. Venha conhecer


a Maya — Diogo falou assim que a esposa se aproximou
de todos nós.

— Oi, Maya, como vai? Seja bem-vinda.


Trocamos beijos no rosto e de cara percebi que iria
gosta dela. Elena parecia gentil, simpática e muito
educada, assim como o marido dela.

— E eu sou Esmeralda! — a pequenina falou outra


vez e puxou o rosto do pai novamente, como se o
lembrasse de que ela também era importante, e portanto,
deveria ser mencionada, o que me fez dar uma risada.

— Eu sei que é, pacotinho, e Maya também já sabe. Já


apresentei você a ela, não se lembra?

— Não sou pacotinho! E essa é Lilica, minha bebê —


a garotinha cheia de personalidade fez questão de me
mostrar a boneca negra com cabelos longos e
encaracolados.

— Meu Deus, como ela é linda! Assim como você! E


quase do seu tamanho! Quantos anos você tem,
Esmeralda?

— Três! Quer ver as outras bonecas?


— Depois, amorzinho. Agora a Maya precisa
descansar da viagem — Elena sorriu para a filha e depois
me puxou pela mão — Venha, Maya, vou te mostrar o
quarto. Assim poderá guardar suas coisas e tomar um
banho. Você deve estar cansada — e olhou para o marido
— E amor, que tal levar Heitor para dar uma olhada no
terraço? E nada de bebidas por ora, ok?

Diogo fez uma careta engraçada para a mulher, que riu


e lhe mandou beijos no ar. Ele então gritou:

— Ei! Não quero que fique subindo e descendo a


escada toda hora — Diogo, com um movimento rápido,
carregou a esposa nos braços. Elena brincou, divertida,
enquanto agarrava o pescoço do marido. Os dois
começaram a brincar e a trocar beijinhos nos lábios. Eu
estava há dez minutos ali e já gostava da harmonia que
envolvia o casal.

Esmeralda, ao meu lado, me deu a mãozinha enquanto


nós duas subíamos atrás dos apaixonados pais dela e
Heitor nos seguia, carregando as malas. Tanto as minhas
quanto as dele. E eu novamente olhei para trás apenas
para trocar olhares com ele. Desejei ter com Heitor um
relacionamento bonito e gostoso assim como parecia ser o
de Elena e Diogo.

***
HEITOR

DESCI A ESCADA, me sentindo estranhamente à


vontade na mansão de Diogo. Não era a primeira vez que
ficava hospedado lá, embora isso já fizesse algum tempo.
Na época Diogo nem sonhava em se casar com Elena.
Tinha sido seis ou sete anos atrás e a gente já era amigo
do peito.

Vendo a sala de visitas vazia, abri as portas duplas


para alcançar o jardim. Encontrei Diogo debruçado no
muro que o separava da piscina. Me juntei a ele e inspirei
o ar fresco daquela tarde gostosa do Rio de Janeiro.
Diogo esticou a mão para me oferecer um cigarro e eu o
aceitei. Após usar meu isqueiro importado, dei a primeira
tragada.

— Isso aqui é o paraíso, não é? E aposto que você se


sente um deus.
Ele apenas sorriu.

— Obrigado pelo convite — pus o cigarro na boca —


Estava mesmo precisando sair um pouco de casa,
precisando sentir ares novos. Nada melhor que sumir um
pouco.

— Você é sempre bem-vindo — bateu em meu ombro e


de repente começou a rir — E quanto a garota lá em cima,
é mesmo um caso sério?

Ri com ele.

— Maya? Hum, bom, eu não sei... eu juro que ainda


não sei... sério.

— Saquei.

Diogo voltou a olhar para a paisagem e eu segui seu


olhar. Arbustos verdejantes, gramado bem cortado e
delineado, pedras brancas contornando o lindo jardim.
Além disso era bom ver a claridade do sol batendo nelas.
Como ele não falara mais sobre Maya, achei melhor
também me calar. Nem eu sabia ao certo o que aconteceria
entre a garota e eu, se teríamos um futuro juntos ou não.
Mas no fundo eu achava que não haveria como.

— Ela é bonita e combina com você.

— O problema é que não sei se sou o cara adequado


pra ela.

— Putz — pareceu pensar naquela minha afirmação —


Bom, as garotas têm uma forma meio peculiar de lidar
com romances. Elas são mais complicadas do que
podemos sonhar. Quando ela te faz acreditar que é o cara
errado, vai por mim, é porque você é o cara certo.

Ri da teoria do Diogo. Não, na verdade, gargalhei.


Zombei dele também. Ás vezes ele me divertia como
ninguém. Mas então voltei a pensar em Maya e na nossa
relação meio maluca.

— Bom, talvez ela não tenha tido como recusar minha


presença.

— Do que tá falando? — levou o cigarro a boca, sem


me olhar;

Dei de ombros.

— Nada. Qualquer dia te conto. É um assunto meio


delicado.

— Tô vendo — debruçou-se novamente na grade que


nos separava da piscina azul celeste.

— E você, como anda sendo a experiência de pai? —


achei melhor trocar de assunto.

— Formidável, meu chapa — seus olhos brilharam e


soube que Diogo se sentia realizado, como há anos eu não
o via — Nunca pensei que seria tão divertido. Viu como
ela é esperta? E carinhosa. Toda manhã me acorda com
um beijo no rosto. Tem coisa melhor que isso?
— E não cansa de 'papai, papai' o tempo todo? —
imitei uma voz infantil e Diogo riu.

— Oh, cara, não sabe como me desmancho com isso.


Adoro quando ela me chama desse jeito. É a coisa mais
linda do mundo. E é incrível saber que aquela pessoinha
ali saiu de mim.

— É, deve ser mesmo foda — pensei, me debruçando


ainda mais na grade.

— Quando for pai pela primeira vez vai saber do que


estou falando.

— Posso imaginar.

— Ah, estão aqui! — alguém falou de repente, nos


fazendo voltar os olhos e avistar Elena — Dois
irresponsáveis. Não se envergonham de detonarem os
próprios pulmões?

— Foi o cretino do seu marido que me ofereceu.


— Ah, eu sempre soube que ele podia ser uma má
influência, mas você não é nenhum santo, Heitor.

— Mentira, paixão. Heitor fuma desde que se conhece


por gente.

— É claro que é mentira!

— Não quero nenhum dos dois perto dos meus filhos


— Elena puxou a orelha do marido, simulando estar brava
e Diogo começou a rir.

— Difícil. Um vai ser o pai e o outro o padrinho —


Diogo zombou, simulando dor por causa do puxão de
orelha.

— Posso mudar tudo isso, se eu quiser.

— Acho difícil.

— Ok, ok, se for pro bem da nação e pela felicidade


dos meus afilhados, diga ao povo que não fumo mais —
joguei o cigarro no chão e pisei nele — Prontinho.

— Muito bem — Elena cruzou as mãos na cintura


agora escondida pela barriga — E você, Diogo? Não
devia ter uma atitude sensata como essa do seu amigo?

— Tá vendo só como ela pode ser autoritária e


persuasiva? — Diogo resmungou, também jogando o
cigarro dele no chão e pisando em seguida.

Elena gargalhou, então segurou o rosto do marido e o


beijou com ternura.

— Amo você, amor, e faço isso pro seu bem, sabe


disso. E não pense que vou largar do pé de vocês. Vão
tomar jeito enquanto Heitor estiver aqui e vou aproveitar
para pedir a ajuda de Maya.

— Caralho, Heitor. Elena quando põe uma coisa na


cabeça não tira por nada.

— Sabe, é o que tenho ouvido ultimamente. Assim


como o quanto estou gorda.

— Nunca disse que está gorda, paixão! Ah, não


comece com o drama.

— Eu estou gorda, eu sei que estou gorda e que você


pensa nisso!

Diogo suspirou e simulou estar chateado.

— Você não está gorda, Elena, só um pouco inchada. E


mesmo que estivesse, qual o problema? Tem dois
moleques aí dentro e eles são super esfomeados. E mesmo
assim você me faz o cara mais feliz do mundo por isso.

— Oh, amor, que fofo!

Barulhos de beijos, abraços, sussurros de amor.


Pigarreei, notando que era hora de me mandar dali.

— Ok, pessoal, vou lá dentro ver como Maya está.


— Heitor! — Elena riu — ei, volta aqui, não quero
atrapalhar a conversa de vocês!

— Fiquem à vontade. Depois da sessão de amassos, eu


volto.

Ouvi a gargalhada de Elena enquanto Diogo parecia


lhe sussurrar coisas carinhosas e safadas. Balancei a
cabeça, pensando em como amar era algo bom e ridículo
ao mesmo tempo. Sorri. Subi os degraus lentamente e logo
alcancei o quarto onde Maya e eu dividiríamos enquanto
estivéssemos no Rio, como um casal de namorados.
Pensei se a veria com roupas íntimas assim que abrisse a
porta. Pensei se deveria bater na porta antes de entrar.
Bom, talvez fosse melhor dar a meia volta e voltar só
depois que soubesse ao certo o que dizer para ela.
Capítulo 20
MAYA

A PORTA BATEU UMA. Duas. Três vezes.

E obviamente não era Heitor que estava lá fora.

Ah, claro, porque Heitor não precisava bater na porta


do próprio quarto quando queria entrar, mesmo que aquele
quarto em questão não fosse exatamente dele, e sim um
quarto onde ele estava hospedado. Que nós estávamos
hospedados — como um casal. E azar o meu se eu
estivesse nua ou me trocando. Era a namorada fictícia
dele, não era? Suspirei. Bem que eu queria ser a
namorada dele de verdade, mas pelo jeito como Heitor me
ignorava agora, estava bem claro que o que tinha
acontecido entre a gente ficara em São Paulo.

— Maya? Tudo bem aí? Sou eu, Elena!

Elena, a dona da casa. Era ela quem estava lá fora.


Corri para abrir a porta. Do outro lado a morena
simpática sorriu para mim. Era bonita. Cabelos ondulados
que batiam nos ombros, olhos castanhos amendoados e um
sorriso terno que me passava paz. E embora Diogo e ela
não fossem tão parecidos como um casal (se é que um
casal deveria ser parecido, sei lá, não sei de onde eu
tirara essa ideia), eu enxergava a sintonia e a química que
os dois possuíam. Era bonito vê-los juntos. Dava gosto.
Um dia queria amar alguém como eles pareciam se
amar. Não era inveja, era só um desejo.

Heitor veio de repente em minha mente. Ah, bobagem,


Maya. Não é só porque transaram uma vez que ele vai se
tornar o seu príncipe encantado. Aliás, Heitor tem te
ignorado esse tempo todo, como você mesma disse há
alguns minutos. Na verdade, ele a ignora desde a
madrugada na qual você despertara sozinha após
fazerem amor.

— Oi, Maya, desculpe interromper, só vim ver se


estava tudo bem e se estava precisando de alguma coisa.
— Sim, tá tudo bem sim — cruzei uma mão na outra —
Estou ótima, sua casa é linda e muito confortável. Vocês
estão sendo muito gentis conosco. Não tenho do que
reclamar.

— Imagina. É o mínimo que podemos fazer. Heitor e


Diogo são amigos de longa data. Gosto da relação dos
dois. Certo, qualquer coisa que precisar, me avise, está
bem? Quero que tenham o melhor tratamento em minha
casa.

— Obrigada.

— Bem, os meninos saíram por aí e ao que parece vão


demorar. Não quer se juntar a nós lá embaixo? Estamos
fazendo um piquenique no lugar do lanche da tarde.

— Nós?

— É, Lia, uma amiga minha, também chegou pra uma


visita. Vou apresentar vocês duas. Vai gostar dela, é uma
ótima pessoa.
— Acredito que sim. Está bem, vou adorar me juntar a
vocês. Me dá só um minutinho pra trocar de roupa?

— Claro. A gente vai ficar esperando lá embaixo —


piscou e de repente ouvimos um grito infantil que vinha lá
do primeiro andar — Esmeralda está agitada. Ela adora
piqueniques. Bem, vou descer. Até daqui a pouco então,
Maya.

Quando Elena se afastou, fechei a porta delicadamente


e fui em busca da minha escova de cabelos. As meninas
iam ficar me esperando lá embaixo e eu não podia deixá-
las esperando por tanto tempo. Substituí a calça por um
short jeans, mudei a blusa, calcei uma sandália baixa e
depois deixei o quarto. Desci a bela escada de mármore
preto devagar, minhas mãos tocando o corrimão morno e
por sorte não tive dificuldade para encontrar o outro lado
do jardim.

A mansão era mesmo linda e incrível, mas mesmo


assim não fora difícil me localizar. Avistei Elena deitada
numa toalha de mesa, e ao lado dela, a pequena Esmeralda
estava sentada numa toalhinha infantil. Perto delas estava
uma loira com um macacão verde. A desconhecida, que
devia ser Lia, incentivava a pequena Esmeralda a comer
algo parecido com salada de frutas.

— A dindinha vai ficar chateada se não provar nada!


— Lia ralhou.

A pequenina, dona de uma expressão geniosa, cruzou


os bracinhos, meneou a cabeça e disse que não iria comer.

— Ah, peraí que vou chamar o Bruno pra falar com


você!

— Maya! — de repente Elena me chamou — Venha se


juntar a nós! Essa é Lia, minha amiga e madrinha da Esme.

— Oi, é um prazer — estiquei a mão para a loira


simpática quando me aproximei delas. Lia e eu nos
cumprimentamos e percebi seus olhos claros me
inspecionando.
— Elena disse que é a sua primeira vez no Rio. Você
vai adorar conhecer os pontos turísticos da cidade. Vou
pedir que Bruno nos leve pra um tour qualquer dia desses.

— Bruno?

— É o meu namorado. Ele também é amigo do Diogo.


Os dois também trabalham juntos no cassino.

— Ah, entendi — me sentei ao lado delas na toalha e


imaginei se o tal do Bruno era algum outro mafioso
também. Diogo, o anfitrião da casa e marido de Elena, eu
sabia que era, aliás, ele era o principal chefe da máfia, e
estava até mesmo acima de Heitor. Meu Heitor.

Não, nada de seu Heitor, Maya. Ele não é mais seu,


caramba!

Passamos todo o piquenique conversando sobre


música e filme. E o assunto sobre homens e casamento não
pôde faltar. Elena explicou que estava tendo mais
complicações nessa sua segunda gravidez do que na
primeira e que esperava dois meninos. Miguel e Artur.
Comentou também que ás vezes ficava insegura com a
ideia de Diogo ter outras mulheres, já que ele era um cara
lindo, rico e poderoso.

— Ah, ele não tem, Lena. Sabe que Diogo te ama


loucamente — falou Lia — Pare com essa neurose. Todo
mundo sabe que Diogo é louco por você.

— Eu sei, mas sei lá... ás vezes essas coisas me


passam pela cabeça.

— Bobagem.

Concordei.

Um silêncio pairou no ar. Esmeralda tinha adormecido


e Lia a levantou no colo falando que a levaria para a
cama. Elena agradeceu e Lia logo se afastou da gente.

— E você e Heitor, como se conheceram?


— Hum... — pus um pedaço de abacaxi na boca —
numa lanchonete. Eu estava trabalhando lá e um dia ele
apareceu.

— Sabe, ele é um cara legal. De todos os amigos do


Diogo, é um dos poucos que gosto — falou tão
naturalmente, que ambas achamos graça — É sério, Heitor
parece ter esse jeitão de superficial e mulherengo, mas
possui um bom coração.

— Eu acredito que ele tem — provei um outro pedaço


de abacaxi.

— E vocês formam um belo casal.

Limitei-me a sorrir. Contudo era um sorriso triste. No


fundo algo me dizia que Heitor e eu não tínhamos nascido
para ficarmos juntos. Entretanto deixei que Elena pensasse
que estava tudo bem entre a gente e que éramos o casal
mais feliz do mundo.

Conversamos sobre outras coisas, gargalhamos, e mais


tarde, depois que Lia foi embora, voltei para o quarto,
pensando em tomar um banho. Mas então parei.

Heitor perfumara o quarto e meu coração


estupidamente começou a retumbar como se Romano fosse
uma espécie de deus grego ou meu super-heroi em carne e
osso. Me envergonhei daquela situação ridícula e nova.
Na verdade, nem tão nova assim. Meu coração já vinha
sofrendo palpitações por ele fazia algum tempo, desde que
o loiro perigoso me olhou pela primeira vez.

Naquele instante, quando seus olhos azuis brilhantes e


zombeteiros sorriram para mim, eu soube que nenhum
outro homem me envolveria como ele me envolvia e que
por mais que eu tivesse passado momentos terríveis na
companhia dele, estava claro para mim que Heitor ainda
era o único que me fazia feliz.

Além do mais, ele tinha sido corajoso ao me salvar


dos trombadinhas, tinha sido carinhoso, protetor, tínhamos
feito amor e eu começava a me perguntar se a cada passo
que ele desse naquele quarto onde estávamos vivendo
como um casal de namorados meu órgão seria arrancado
do peito apenas para ficar exposto a ele.

— Que bom saber que saiu do quarto — a voz grossa


agora um pouco mais grave falou ao se aproximar do
closet.

— Pois é. Desci pra tomar o lanche com as garotas e


também fiquei um pouco no jardim depois de um tempo,
tentando conhecer a casa.

— Não me diga que tentou planejar uma fuga —


brincou, vi seu semblante e ele estava rindo. Então sorri
também.

— Acho que não seria uma má ideia — dei de ombros.

— Tá gostando daqui?

— O lugar é ótimo. Lia, a amiga de Elena, me


convidou pra conhecer os pontos turísticos da cidade.
— Hum.

Heitor de repente abriu a porta do closet e passou a


tirar a própria camisa. Pega de surpresa, fixei o olhar em
outro ponto do quarto.

— Tudo bem? — ele perguntou, parecendo perceber


meu desconforto.

— Sim, tudo...

— Se incomoda de me ver sem camisa?

Engoli em seco.

— Bem, não é nada do que não tenha visto antes...

— Se isso a incomoda, posso tentar mudar...

Pigarreei.

— Certo, prefiro ver você com camisa.


— Mentira — riu, debochado, se virando de frente
para me estudar — eu sei que curte meu peito, que gosta
de ver quão largos meus ombros são — largou a camisa
na beirada da cama — Diga a verdade, Maya.

— Prefiro falar sobre outra coisa — recuei dois


passos.

Antes que eu pudesse dar um novo suspiro, Heitor já


estava diante de mim, tão cheiroso e tão perto, me
espremendo contra a parede. Ergueu um antebraço sobre
minha cabeça, me prendendo, inclinou um pouco o rosto e
começou a mordiscar o lóbulo de minha orelha, me
deixando afetada.

— O que está fazendo? — murmurei, com um fio de


voz, me excitando de uma forma surpreendente. E por
mais que eu desconfiasse de que ele estava me
provocando ou me testando, não conseguia deixar de cair
em tentação.
— Toque meu peito, Maya — sussurrou, delicado.

— Não, eu não quero... — menti.

— É claro que quer...

Seu peito musculoso e firme estava na minha frente e


eu poderia ver o quanto os bíceps eram bem trabalhados,
como suas pintinhas marrons em volta do corpo eram
charmosas. Ele era selvagem com roupa e sem roupa. E
parte de mim queria tocar sua pele, queria tocar a solidez
debaixo de sua carne e me perder em seu peito duro e
protetor. Queria que Heitor me abraçasse e nunca mais me
soltasse. E queria beijar sua boca, sentir sua mão morna
deslizar pelo meu braço. Queria colar em Heitor para
sempre... oh, Céus!

Antes que eu finalizasse meu pensamento, sua boca


habilidosa cobriu a minha enquanto suas mãos fortes me
apalparam. Lentamente nossas peles se colaram e me
embriaguei com sua colônia. Com os olhos novamente
cerrados, tudo o que sentia era que era muito bom ser
amada e beijada por ele, mesmo que aquilo não fosse para
sempre.

Heitor afundou o rosto em meus cabelos enquanto suas


mãos me puxavam mais para si. Com as mãos espalmadas
em seu largo peito, me deixei levar pela quentura da
emoção e da sua língua percorrendo todo o meu corpo.
Então ele segurou meu cabelo com força e me beijou
furiosamente, fazendo com que meu rosto virasse de um
lado para o outro. Meus seios intumesceram contra o
sólido peito e senti borboletas em meu estômago, além de
uma quentura bem abaixo do baixo ventre.

De repente alguém bateu na porta, nos sobressaltando e


então Heitor se afastou de mim. Atordoada, como se
saísse de um transe, petrifiquei. Levei a mão aos lábios
enquanto Heitor atendia o dono da casa.

Minutos depois, a porta se fechou novamente e vi


Heitor se dirigir para a beirada da cama, onde tinha
deixado a camisa. Ele a vestiu novamente. Ajeitou-se e
depois me fitou, como se sentisse na obrigação de me dar
alguma satisfação.

— Não vou demorar, malagueta.

— Aonde você vai?

— Volto já — falou antes de se retirar. E eu afundei na


poltrona, com medo de me acostumar com aquela maneira
gostosa de Heitor me tratar.

***

Eu tinha lido em alguns artigos que era muito difícil


para uma mulher conseguir se recuperar completamente
depois de ter sofrido um abuso sexual e que na maioria
dos casos era muito complicado a vítima voltar a ter uma
vida normal, no entanto eu era uma privilegiada.
Obviamente eu ainda levaria mais alguns anos até
conseguir confiar em outro homem, mas eu já conseguia
fazer sexo e até sentir desejo, sem qualquer medo ou
neurose. Eu até já havia conseguido ter uma amizade
saudável com alguns caras, como por exemplo, Andreas.
E por mais que a ideia de fazer sexo fosse ainda um pouco
delicada para mim, eu conseguia muito bem ficar com
Heitor. Podia sentir seu cheiro, aprovar o peso de seu
corpo sobre o meu e seus beijos na minha boca enquanto
suas mãos muito másculas me apalpassem e me deixassem
com arrepios.

***

Depois que saiu naquela tarde do quarto, Heitor só


voltou à noite, me chamando para jantar. Agimos como um
casal feliz, porém reservado, lá embaixo na companhia de
Elena, Diogo e amigos, e após o jantar, Heitor deitou-se
na cama, cruzou os pés e se ajeitou nela. Pegou o controle
remoto com um movimento rápido e ligou a TV.
Comecei a pensar que devia me manter afastada dele,
afinal, estava bem claro que Heitor não queria nada sério
comigo, apenas trocar beijos e fazer sexo quando fosse
conveniente a ele.

Pronta para dormir, peguei o lençol, uma colcha e um


travesseiro. Forrei tudo no carpete macio quando ouvi o
pigarro de Heitor.

— O que é isso?

— Hã? Bom, é onde vou dormir.

Ele ignorou a televisão e me estudou. Seus olhos azuis


violeta estavam ainda mais brilhantes agora.

— Tá brincando! Se acha que precisa fugir de mim, a


resposta é não, guria. Não precisa. Veja essa cama aqui.
Ela é grande e confortável o suficiente pra nós dois.

— Não me importo de dormir no chão. Já deitei em


lugares muito piores.
— Mas eu me importo. Sabe, sou um homem à moda
antiga quando o assunto é a diferença de gêneros, Maya.
Você é uma garota. Não vai ficar no chão enquanto eu fico
na cama. Claro que não. Venha, deite-se aqui. Se acha que
minha presença vai incomodá-la, eu desço.

Fiquei em pé, estática, analisando suas palavras. Vi


Heitor pegar o controle remoto e abandonar a cama. Ele
vestia agora uma calça de moletom cinza claro, camiseta
preta e meias da mesma cor da calça.

— Sabe, guria, minha mãe sempre me ensinou a ser um


cavalheiro com as garotas. É, sério, não vou permitir que
durma no chão.

—Ok, se prefere assim...

Deitei na cama e com o rabo de olho espiei Heitor


improvisar sua própria cama lá no chão, sobre o carpete.
Bom, para o meu bem e o da minha sanidade mental, eu
deveria ficar mesmo longe dele. Deitei a cabeça no
travesseiro e tentei ignorar a presença de Heitor lá
embaixo, que ainda assistia a TV.

— Boa noite, malagueta — sua voz, apesar de suave,


saíra em tom de divertimento.

Sem responder, fechei os olhos. Respirei fundo. Eu


queria mesmo conseguir dormir.
Capítulo 21
HEITOR

O FILME ESTAVA me cansando. Estava indo muito


bem até o cara voltar da guerra e começar uma melação
com a garota da história. Massageando o rosto, exausto,
peguei o controle remoto e desliguei a TV. Depois me
ajeitei na cama improvisada no chão. Não era macia e
gostosa como uma cama de verdade, mas ainda assim era
confortável. Lembrei de Maya. Pensei se ela já estaria
dormindo. Me ergui um pouco com cuidado só para
espiar.

Ela estava mesmo adormecida.

Observei a garota. Pensei em velar seu sono.

Maya não tinha ideia de como mexia comigo. Na


verdade, não tinha a mínima ideia de como deixava meu
corpo em chamas toda vez que me tocava ou simplesmente
se aproximava de mim.

Voltei a deitar a cabeça no travesseiro, respirando


fundo. Precisava tirar aquela guria da cabeça.

Concentra, Heitor, concentra. Nada de garotas. Nada


de pensar em Maya. Ela não quer, você não quer. É
melhor assim. Em breve você terá sua vida de volta,
inclusive, todas as outras garotas dando sopa. Não pire.

Não pire por Mayaaaaaaa, porra!

Respirei fundo mais uma vez.

Cerrei os olhos e tentei dormir. Mas depois de alguns


minutos ouvi um gemido vindo da cama.

Afastei o lençol do corpo e me levantei calmamente


até chegar onde a garota estava. Senti sua respiração
quente. Ela estava realmente apagada. Em pé, fiquei
admirando-a. Afundei as mãos nos bolsos do moletom
cinza enquanto estudava suas feições. Tinha a pele de
pêssego, cabelos muito escuros e as sobrancelhas bem
delineadas. Tinha uma graça e eu não podia negar que ela
mexia comigo. Principalmente por causa de seu jeito de
me olhar, de me responder e de tentar a todo custo se
manter afastada de mim.

Maya era diferente das garotas que rolavam pela minha


cama. Era corajosa, natural, real demais, e não parecia ser
do tipo que se derretia por um cara como eu. Nem mesmo
pelo meu dinheiro. E isso me intrigava. Ela não era como
as outras. Era autêntica, dona do próprio destino e jeito de
ser. No entanto, eu a desejava e queria que ela me
desejasse.

No fundo tinha uma grande admiração por ela, mas não


podia deixar de ficar mal quando Maya abalava meu ego.
E pensar que ás vezes ela realmente me desprezava me
deixava furioso. Furioso porque quanto mais ela se
afastava, mais eu a queria por perto, mais eu a queria para
mim. Era como se ela fosse um desafio. E eu adorava
desafios.
Aquela garota era como uma montanha linda, esbelta e
alta, muito difícil de ser escalada e por isso eu precisava
alcançá-la, precisava ficar perto, conquistá-la, até mesmo
para me sentir mais poderoso, mais homem. Ela era difícil
e ás vezes parecia me querer pelas costas quando todas as
outras mulheres dariam tudo para deitarem ao meu lado.
As outras queriam ser exibidas e mimadas e Maya não
queria nada disso. Só queria voltar para a sua vidinha
pacata e para as pessoas idiotas que ela amava.

Ergui a mão devagar e toquei seus lábios rosados com


a ponta de meu dedo indicador com cuidado para não
acordá-la. Já tinha provado aqueles doces lábios e já
tinha provado todo aquele corpo macio e gostoso. E ainda
que eu não quisesse mais e Maya também não me
quisesse, sabíamos perfeitamente que um mexia com o
outro. Era uma atração boa e desenfreada, que ia além da
nossa razão.

De repente a garota se mexeu e me afastei rapidamente.


Foi quando Maya começou a balançar a cabeça,
murmurando algo, parecendo angustiada.

— Não... não... por favor, não... eu não quero. Não...

Eu franzi a testa. Analisei sua feição. Era de medo, de


desespero e pensei se ela estava sonhando comigo.

— Não, por favor... não.

Cheguei um pouco mais perto. Ela estava tendo um


pesadelo.

— Ei, Maya... ei, tá tudo bem— sussurrei — Você tá


bem.

— Não, eu não quero... ele vai me machucar... ele...


vai... me... machucar.

— Ele quem?

— Heitor... ele não é... confiável... mas eu.. eu gosto


dele.
Engoli em seco. Eu não era confiável? Mas ela gostava
de mim? Mesmo não querendo admitir, me senti
desapontado com a ideia que ela tinha sobre mim. Me
senti chateado também.

— Ei, tá tudo bem... você vai ficar bem, eu prometo.

— Ele vai me violentar... o outro... homem... tenho


medo... — e começou a chorar — eu tenho tanto medo...

— Ninguém vai violentar você. Ei, ninguém vai


machucá-la, eu prometo.

— Ele me machucou... ele... vai fazer de novo... ele...


me... ele... oh, meu Deus, foi tão horrível...

— Quem machucou você? — sussurrei em seu ouvido,


agora ansioso para que ela falasse mais — Me fale. Quem
machucou você?

Me senti mal por isso. Algo me dizia que uma coisa


muito ruim havia acontecido na vida daquela garota e eu
precisava desesperadamente saber o que era.

— Me fale o nome dele — sussurrei novamente — O


nome. Me diga o nome.

— Ele... ele...

— O que ele fez com você?

Maya parou de falar de repente, apertando minha mão.


Então deitei a seu lado, sentindo sua respiração voltar aos
poucos, até ficar regular, e depois ela voltou a dormir
calmamente. Resolvi não perguntar mais nada. Analisei
seu rosto agora mais tranquilo e pensei novamente no que
teria acontecido na vida de Maya. Não era difícil pensar.
Sem mãe, um pai bêbado e irresponsável, um irmão que
tinha fugido da raia quando ela mais precisara dele.
Afinal, que cara deixaria a própria irmã sozinha na
companhia de um pai bêbado, aguardando homens da
máfia? Que porra de irmão era aquela? Senti raiva. Raiva
de todos aqueles que tinham permitido que ela fosse
machucada, raiva especialmente do vagabundo que lhe
tocara.

Quando Maya finalmente largou minha mão, me afastei


da cama, não querendo pensar em assustá-la, caso ela
acordasse no meio da noite e me visse ali deitado a seu
lado.

Voltei para o chão, deitei minha cabeça sobre o meu


braço e pensei em minha vida, em todas as garotas que
passaram pela minha cama. E pensei que Theo tinha razão
quando um dia falou que eu precisava esquecer meu
passado e simplesmente seguir. Tinha sido um acidente.
Um maldito acidente. Não podia culpar as pessoas pelo
resto de suas vidas. Natanael tinha tido sua parcela de
culpa, claro, tinha sido um irresponsável e causador da
morte de quem eu amava, no entanto fora um acidente.

Suspirei.

E agora tinha Maya. Uma garota inocente e corajosa.


Uma garota que obviamente passara por muitas
experiências difíceis e dolorosas ao longo da vida e eu
estava castigando aquela garota sem ela ter feito nada.
Massageei minha testa, me sentindo o maior cretino do
mundo, e decidi que deixaria Maya voltar em paz para
casa, que eu a livraria de toda aquela droga de vida que
estava proporcionando a ela.

***

Despertei às sete e me senti aliviado por ver Maya


dormindo serenamente. Desfiz a cama no chão e me
inclinei um pouco, tentando aliviar a dor que estava
sentindo no corpo, a dor que me chamava de burro por eu
ter cedido o lugar à garota quando tinha uma cama imensa
e quentinha para passar a noite.

Corri para o banheiro e tomei uma chuveirada fria.


Pensei em malhar. Sabia que Diogo costumava manter sua
forma física no terraço e inclusive tinha me convidado
para uns exercícios via torpedo logo pela manhã. Vesti
uma camiseta branca e uma outra calça de moletom. Com
as mãos ajeitei o topete na cabeça. Pus o relógio no pulso
e nesse momento ouvi o celular tocar. Antes que o hip hop
acordasse Maya, atendi e ouvi a voz de Nora do outro
lado da linha.

— Heitor?

— Oi, mãe.

— Bom dia pra você, querido! Como vai o Rio? Tudo


bem por aí?

— Tudo ótimo. Um sol radiante olhando pra mim agora


— entrei no banheiro, não querendo acordar Maya.

— Oh, e imagino quantas garotas lindas vão estar


com você antes do almoço. De preferência com aqueles
pequenos biquínis indecentes. Certo, não quero tomar
seu tempo. Liguei porque seu irmão comentou que você e
a moça só voltam na semana que vem.

— Como é?

— Você e a garota. Theo me falou sobre ela... esqueci


o nome dela agora. Hum, é um nome difícil...

Droga. Theo tinha falado demais. Feito Nora acreditar


que eu estava tendo um relacionamento sério. Que
salafrário!

— Heitor?

— Estou ouvindo, pode falar.

— Seu irmão tá preocupado com você... disse que


você tem agido estranho ultimamente, e também tenho
notado que tem trabalhado demais, menino, então pensei
em dar um almoço. Theo também falou que a moça é
muito reservada e por isso pensei num almoço de
família.
Pigarreei, da porta do banheiro, percebendo que Maya
se balançava na cama, como se estivesse prestes a
acordar.

— Bom, mãe, vamos ver... que tal conversarmos numa


outra hora? Estou prestes a malhar agora. Diogo está me
esperando.

— Certo, mande um beijo pro Diogo e fale que ainda


estou esperando uma visita dele. Como vai a família
dele?

— Vão bem, todos vão bem.

— Ok, se cuide.

— Você também, mãe. Te amo.

Desliguei o telefone, com uma fúria capaz de esmurrar


Theo, caso ele estivesse ali na minha frente. Quem ele
pensava que era para dar com a língua nos dentes sobre
Maya e eu? E ainda por cima falar mentira! Maya não era
minha namorada! Ela brevemente voltaria para a vida dela
e eu voltaria para a minha. Simples assim.

Novamente de volta ao quarto, sentei na poltrona


branca para calçar o tênis. Maya ainda estava dormindo e
me senti aliviado por isso. Terminei de amarrar o cadarço
do último pé e me levantei para espiar o dia ensolarado
que fazia lá fora. Depois voltei a espiar aquela intrigante
garota. Ela parecia realmente adormecida, a respiração
bem regular. Se não estava dormindo, era muito boa atriz.
Eu mesmo já tinha passado por várias situações tensas em
que fora necessário forjar morte e sabia exatamente como
era deixar a respiração lenta ou bem suave. Mas Maya
não era ninguém da máfia, afinal.

Passei a mão pelo cabelo, jogando aqueles


pensamentos idiotas para o lado, antes de pensar em
deixar um bilhete para quando ela acordasse. Num pedaço
de papel escrevi:

bom dia, malagueta! vou malhar, mas não vou


demorar

Deixei o bilhete na cama ao lado de Maya e me dei o


direito de olhar para ela mais uma vez. Era fácil fazer isso
com ela dormindo. E comecei a pensar no quanto ela
ficava mais charmosa e serena enquanto adormecida. Me
olhei no espelho pela última vez antes de deixar o quarto
à procura de Feroz. Desci a escada de dois e dois degraus
e encontrei os caras na sala de estar.

— Chegou numa boa hora.

— Bom dia. Fala aí, Bruno — cumprimentei ele,


depois falei com cada um dos outros caras do bando.
Apesar de não estar sempre com eles, conhecia todos os
rostos e fazia questão de tratá-los bem. Até porque eles
sabiam quem exatamente eu era e compreendiam
perfeitamente que naquela hierarquia, acima de mim vinha
somente Diogo. O curioso também era que do mesmo
modo como os caras apareciam na casa, eles iam embora.
E dez minutos depois, sem mesmo tomar o desjejum,
Diogo e eu seguimos para o terraço.

— Então, como foi a noite? — ele perguntou —


aprovou nossos cômodos?

— Sabe que me sinto um Sheik na sua casa. Agradeça


a Elena por isso, pois sei que a ideia partiu dela.

Diogo deu uma risada.

— Atrás de um grande homem, há sempre uma grande


mulher, meu chapa. Nunca ouviu falarem isso? Não acha
que vou perder meu tempo com essas coisas de quarto,
acha? Pra mim é tudo a mesma coisa, mas Elena sabe
identificar exatamente qual cômodo está no nível 7 e qual
deles está no nível 10. Essa mulher é fabulosa.

Eu ri, pensando em como a atrevida Elena amansara


Diogo de vez. No entanto, ele continuava o mesmo
debochado de sempre. Entre nós dois, eu era o mais
mulherengo e ele era o mais carismático. Todavia
tínhamos muitas coisas em comum. Como por exemplo,
talento para liderança e para os negócios. E como Diogo
se apaixonou perdidamente por uma garota que ele nunca
imaginou que se apaixonaria um dia, eu também corria o
risco de começar a amar Maya.

Minha pequena Maya.

Minha doce e atrevida Maya..

Melhor de parar de pensar nisso.

Ignorando os devaneios que sempre me levavam até a


morena, agarrei a barra de ferro, enquanto Diogo se
deitava na esteira para fazer suas abdominais. Ao menos
daquela forma eu me esquecia da garota perturbadora que
estava à minha espera lá no quarto na casa de Feroz.
Capítulo 22
MAYA

DESPERTEI COM o freixo de luz solar em meus


olhos. Me espreguicei um pouco e me sentei na cama.
Afastei as mechas de cabelos do rosto e olhei em volta.
Voltei a olhar para a cama e percebi a marca do corpo de
Heitor a meu lado.

Espere aí.

Heitor?

Ele estivera comigo na cama?

Olhei em redor novamente e não encontrei Heitor. Nem


sinal dele.

Que doideira era essa? Ele tinha dormido na cama


comigo? Não. Ele tinha dormido no chão na noite anterior.
Me lembrava muito bem que eu mesma tinha forrado o
lençol sobre o tapete felpudo e depois do discurso de
cavalheirismo dele, Heitor se aconchegara lá. Até achei
que fosse zangar, que fosse implicar, mas ele aceitou a
ideia de ir para o chão numa boa.

Engatinhei até a beirada da cama e olhei para o chão


onde devia estar sua cama improvisada, mas lá não havia
nada. Nem sinal de lençol ou de algum travesseiro. Me
endireitei, ajeitei as mechas de cabelos atrás da orelha e
pus os pés no chão. Um chão macio e bem quentinho, igual
ao do quarto onde eu dormia na mansão de Heitor em São
Paulo. E por falar em Heitor, onde estava ele? Dei uma
corrida até o banheiro. Espiei por uma frecha da porta.
Nada. Corri até a janela que dava para uma vista linda da
manhã carioca e o procurei lá embaixo, mas no lugar de
Heitor, avistei Lia e alguém ao lado dela, um rapaz negro
e elegante, que devia ser Bruno.

Voltei para o centro do quarto e peguei minha escova


de dentes antes de seguir novamente para o banheiro.
Após toda a higiene matinal, tomei um banho e vesti um
short jeans e uma camiseta branca de algodão. Heitor me
fizera comprar muitas coisas antes da viagem, ainda que
não me agradasse o fato de ficar me beneficiando com o
dinheiro dele. Escovei os cabelos e os prendi num coque
frouxo. Estava calçando uma sandália baixa quando a
porta se abriu e uma garotinha apareceu.

— Oiii!

Era Esmeralda.

— Oiii — sorri para ela, que entrou eufórica.

— Vamos tomar banho de piscina? — a vozinha era


tão doce e infantil, que me fazia lembrar dos desenhos
animados que eu via quando era pequena — Veja, essa é
a Lady Bug — mostrou-me com orgulho a boneca enorme
como roupa vermelha cheia de bolinhas pretas.

— Uau, que linda a sua filha.

— Ela é uma super heroína! — percebi que ela


misturava ainda um pouco as palavras, o que era normal
para uma criança da sua idade — Vamos tomar banho de
piscina?

— Bom, eu...

— Esmeralda? — a voz de Elena soou atrás da gente


— Ah, aqui está você! O que a mamãe falou sobre deixar
os brinquedos espalhados na sala?

— O tio Alvim vai guardar, mamãe!

— O tio Alvim está ocupado, meu bem, ele não pode


fazer isso. Oh, me desculpe, Maya, pela invasão. Bom dia.

— Oh, não, tudo bem. Ela é uma garotinha muito


simpática e estava me convidando pra nadar na piscina
juntamente com ela e com a Lady Bug.

— Ah, ela não larga essa boneca... uma outra hora,


amor. Venha. A Maya agora não pode nadar. Além do
mais, o tio Jiraya está limpando a piscina e ainda não
terminou.

— Então depois você nada comigo, Maya? — os


olhos castanhos mel me fitaram. Percebi que aquela
menininha linda e esperta se parecia muito com os pais.
Era um misto dos dois. Os cabelos escuros e a pele eram
como os de Diogo e as feições eram como as de Elena.

— Depois a Maya pensa no seu convite, Esme. Agora


venha, vamos arrumar os brinquedos, que da última vez
que você deixou eles espalhados pela sala, o tio Alvim
caiu feio. E se machucou.

Esmeralda tentou esconder um riso com a mãozinha


pequena, me fazendo ficar divertida, mesmo sem saber
sobre a história.

— O papai chamou ele de filho da pluta! —


gargalhou alto, a voz estalada, no colo da mãe.

— Hum, o papai anda falando muita palavra feia fora


de hora e pelo jeito vou ter que voltar a ter uma
conversinha com ele. Agora vamos deixar a Maya se
arrumar em paz. Diga tchau a ela.

— Tchau, Maya!

— Tchau, minha linda! — acenei — Hum, Elena?

— Sim?

— Por acaso sabe onde o Heitor está? Não o vi


acordar, então...

— Ah, ele saiu com o Diogo. Os dois malharam no


terraço e depois saíram cedo. Acho que logo estarão de
volta.

— Ok.

Elena saiu e me levantei novamente, dessa vez para me


ver no espelho. Eu estava bem. Nenhum pouco abatida,
completamente diferente da menina que eu era quando
cheguei na mansão de Heitor. Peguei um frasco do
perfume masculino (que era dele) e passei um pouco no
pulso e no pescoço.

Olhei o dia lá fora e fiquei encantada. Parecia que o


sol de alguma ilha tinha vindo especialmente nos visitar.
Pensei que se fosse em outros tempos eu planejaria
aproveitar a distração de Heitor e de toda a casa para
poder fugir. Mas seria loucura. Havia certamente
capangas espalhados por toda a casa. Além disso, como
iria me virar numa cidade como aquela? E agora também
eu queria ficar por perto... e precisava entender o que
acontecera para Heitor ter ido parar na cama ao meu lado.
Eu não queria nem pensar nos olhos azuis dele me
observando dormir. Ah, que merda! Eu devia estar
horrível. E se eu tivesse roncado? Será que eu roncava?

De repente ouvi vozes lá fora e corri até a varanda. Vi


que Diogo e Heitor chegavam. Ambos, de fato, estavam
com roupa social e não a de corrida. Então abri a porta e,
curiosa, corri até o hall para tentar ouvir alguma coisa da
conversa. Qualquer coisa.
— Heitor! — uma mulher o chamou e eu o vi voltar-se
para ela. Uma morena bem vestida, de cabelos longos não
tão escuros.

— Carol! — ele sorriu e os dois se cumprimentaram


com um beijo no rosto.

— Que surpresa boa encontrar você aqui! — ela se


pendurou em seu pescoço e por alguma razão idiota, não
gostei disso, não gostei de toda aquela intimidade que os
dois pareciam possuir.

— Heitor só vem à base de intimação — ouvi Diogo


brincar antes de seguir para dentro de casa — Paixão, o
café tá pronto? Heitor e eu estamos morrendo de
fome! — gritou, indo em direção à mulher e imaginei que
Elena, com aquele barrigão, devia estar coordenando as
coisas na cozinha. Pensei em como ela era organizada e
poderosa, como era a principal condutora daquela casa
enorme, que aparentemente só vivia movimentada. E ela
ainda tinha uma filha pequena para cuidar e estava
grávida!

Elena, sem dúvidas, já era uma de minhas heroínas e


eu teria o maior prazer de dizer aquilo um dia para ela.
Pensando bem, me dei conta de que estava hospedada em
sua casa e que, portanto, não custava nada tentar ajudar.
Era claro que uma mansão como aquela tinha funcionários
na cozinha e na limpeza, no entanto eu poderia fazer algum
serviço para demonstrar mais utilidade. E a ideia de
compreender quem era a desconhecida que flertava agora
mesmo com Heitor enquanto os dois estavam à sós na
entrada da casa me deixou ainda mais incentivada a
descer.

Ergui o queixo e segurei o corrimão. Desci as escadas


lentamente, até ficar diante da morena e de Heitor, que
conversavam. Olhos azuis pousaram-se em mim e vi
quando os castanhos da desconhecida os seguiram.

— Bom dia — falei, tentando ser educada.


— Maya — sussurrou Heitor, me olhando, como se
não esperasse me ver tão cedo.

— Olá, querido, eu li o bilhetinho que me deixou —


forcei um sorriso.

Eu vi as sobrancelhas da morena se arquearem e


Heitor pareceu se dar conta do que estava acontecendo
ali.

— Oh, perdão, hum, Carol, essa é Maya, minha...


namorada.

Me senti um pouco desapontada por ele ter falado


'namorada' com tão pouco entusiasmo. Eu sabia que
estávamos encenando, mas esperava mais ânimo da parte
dele.

— Oh — a moça pareceu tentar esconder uma


constrangida surpresa — claro, como vai? — esticou a
mão para mim e nos cumprimentamos como duas garotas
civilizadas.
— Carol é a irmã de Diogo — Heitor esclareceu.

— Ah, sim. Percebi a fisionomia.

Bom, Diogo é muito mais agradável que ela e não


parece dar em cima dos parceiros dos outros!

— Bom, então vocês estão juntos há muito tempo? —


Carol perguntou, divisando nossos olhares.

— Há poucas semanas.

— Ah.

De repente Esmeralda surgiu correndo na direção da


tia.

— Tia Carol! Tia Carol!

— Olá, minha pulguinha arteira! — ergueu a menina no


colo, como uma tia carinhosa e atenciosa faria.
Elena e Diogo, que vinham atrás, se aproximaram.

— Bom dia, pessoal. O café tá na mesa — Elena falou


antes de me puxar pela mão — Venha, Maya, quero que se
sente ao meu lado, tenho umas coisas sobre o Heitor pra
contar.

Vi Diogo seguir pela varanda, num sentido oposto ao


nosso, enquanto Heitor se afastava para atender ao celular
na sala de estar. Carol ficou mimando a sobrinha e algo
nos olhos dela e no modo como olhava de longe para
Heitor me fez perceber que havia mais alguma coisa no ar.
E eu queria saber o que era. Não devia estar tão
interessada no clima dos dois, mas eu estava.

***

— Por que você dormiu na cama? — quis saber, uma


hora depois, quando já estávamos no quarto.
— O quê? — Heitor estava de costas e ao que parecia,
colocava o relógio importado outra vez no pulso
esquerdo.

— Pelo que me lembro, você fez questão de ir ontem


para o chão, mas hoje quando acordei vi a marca de seu
corpo na cama ao meu lado. Por que você foi pra cama,
Heitor?

Ele resmungou, agora tirando a camisa, me ignorando.

— Heitor?

— O que você quer, guria?

— Só quero que me explique por que passou por cima


da minha vontade e deitou ao meu lado. Não me diga
que...

Ele virou-se para me encarar.

— Bem, você pareceu ter um pesadelo de madrugada,


malagueta. Eu posso ser rude algumas vezes, mas sei
muito bem tratar uma mulher. Não sei se você entende,
mas se eu quisesse te obrigar a alguma coisa, eu faria isso
e você não seria louca de impedir.

Arregalei os olhos, furiosa.

— Ah, é mesmo? Então porque ESSA PALHAÇADA


DE FINGIR QUE SOMOS NAMORADOS?

Ele virou-se, evidentemente impressionado com minha


maneira de berrar e pausou os dedos no botão da camisa
azul que já tinha vestido.

— Palhaçada? — seu peitoral nu e largo, mesmo


escondido pela camisa, quase fez meu coração explodir
— Não tem palhaçada nenhuma. Presta atenção aqui,
guria, estamos de visita na casa de um amigo. E não é
porque Diogo é meu amigo que ele precisa saber todos os
detalhes da minha vida, sacou? Inclusive que o bêbado
desgraçado do teu pai deixou de me pagar uma fortuna e
por isso você decidiu se tributar no lugar dela!

Engoli em seco. Pensei em dar uma resposta à altura,


mas não consegui pensar em nada, a não ser em berros. E
não seria nada legal ficar gritando na casa de estranhos.

— Não entendo porque você tem tanto ódio no coração


assim. Você, sem dúvida, não teve uma vida tão difícil
como a minha — girei os calcanhares, mas antes que eu
lhe desse as costas, Heitor me segurou pelo braço e me
puxou para si. Arregalei os olhos ao encará-lo. Sua
fisionomia era tranquila, embora sua firmeza era evidente
em me segurar. Ele era forte. Bem forte. Mas naquele
momento sua atitude não me assustava.

— O que aconteceu com você, Maya? — ao contrário


do que fora antes, sua voz era um sussurro agora — Conte
seus segredos. Preciso saber.

— Do que está falando? — pisquei os olhos, confusa,


tentando não ficar tão sensível ao calor do corpo dele.
— Quem machucou você? Eu sei que foi alguém.

— Não, não sabe de nada... — tentei me afastar, mas


ele me impediu.

— Diga o nome dele. Diga pra mim. Eu pego o


desgraçado, juro que pego, e arranco a cabeça dele e a
dou numa bandeja pra você. Fale pra mim.

— Me solta... Heitor.

Achei que ele não fosse obedecer, mas então, para a


minha surpresa, Heitor me soltou. Inspirei o ar e o liberei
lentamente pelo nariz. Heitor voltou a me dar as costas.

— Quer saber porque a marca de meu corpo ficou na


cama a seu lado? Vou dizer: você estava muito vulnerável
na madrugada, morena. Estava agitada, tendo um
pesadelo. Não sou um covarde insensível. Me senti mal
por vê-la tão desprotegida lá na cama enquanto falava
coisas desconexas. Não sou o maldito troglodita que
pensa. Sou melhor que isso, Maya.
— Foi só isso?

Ele arqueou as sobrancelhas, dessa vez confuso e


ofendido.

— Como assim foi só isso? Eu fiquei com você apenas


um tempo na cama. O que acha que eu faria? Que eu me
aproveitaria de você dormindo e a violentaria? Não sou
esse tipo de cara. Anda me confundindo com alguém,
morena. Não sei com quem, mas anda.

— Só fiz uma pergunta.

— Você estava dormindo. E mesmo que não estivesse,


não tocaria em nenhuma unha de sua mão sem o seu
consentimento. Preste atenção — me fulminou com os
olhos mais uma vez — Eu nunca, jamais, faria uma coisa
dessa. Tá entendendo? Não sou um estuprador
desgraçado.

Entreabri os lábios, enquanto inspirava o ar dos


pulmões e em seguida o soltei pela boca.
— Ok, me sinto mais aliviada. Obrigada.

Heitor voltou a me dar as costas e pegou alguma outra


camisa no closet, como se estivesse planejando seguir
para o banheiro para poder tomar uma chuveirada.

— Eu passei toda a noite no chão, se isso a consola.


Não dormimos juntos na cama a noite toda como pensa —
seguiu para o banheiro, me deixando sozinha no quarto.

Pensativa, afundei minha bunda na poltrona e pensei


em tudo o que Heitor falara. Então eu tinha tido um
pesadelo e ele se preocupara? Tinha ficado o tempo todo
comigo. Então ele tinha sido mais fofo e cavalheiro do
que eu imaginava. Sim! Era claro que sim. E era claro
também que Heitor Romano a cada dia me impressionava.
Capítulo 23
HEITOR

É MELHOR LIGAR pra casa — era o que estava


escrito na primeira mensagem quando abri o iphone.
Mensagem de Theo. Na mesma hora disquei o número
dele. Enquanto eu esperava meu irmão atender, olhei para
Alvim distraído e segui seu olhar. Estava em Maya
debruçada na janela do quarto. Alvim me viu e sorriu sem
graça como uma forma de se desculpar. Eu não sorri de
volta. Ao contrário. Lancei a ele o olhar mais fechado e
ameaçador do mundo, e por sorte dele a voz de Theo me
chamou do outro lado da linha.

— Fala, Heitor.

— Qual o seu problema? Não posso nem viajar que


começa a me mandar mensagem como se fosse minha
namorada?
Riu.

— O mundo gira em torno de você, poderoso chefão,


o que posso fazer? Nora está em agitada. Onde tá
Heitor? Onde tá Heitor? É só o que sabe falar. Acusa o
ingrato filhote de ter viajado sem lhe dar qualquer
satisfação.

Suspirei.

— Diga pra ela que estou bem. E não devia ter falado
pra Nora sobre a garota. O que passou pela sua cabeça de
vento, Theo?

— Foi a primeira coisa que veio na mente quando ela


perguntou sobre sua ida ao Rio.

— Você fala demais, meu. Fala demais mesmo. E


agora, como vou me safar dessa?

— É só pensar em alguma coisa bem do seu estilo.


Diga que já chutou a garota e que está à procura de novas
emoções. Sempre dá certo.

— Vá se ferrar — ri, sabendo que era bem assim que


eu agia mesmo, feito um filho da puta desgraçado —
Certo, vamos esquecer essa merda... quero saber, como
andam as coisas no cassino? Falou com Jarbas? Diga a
ele que quero ficar por dentro de tudo.

— Vou dizer. Tudo bem por aqui. Nada de problemas.

— Ótimo, logo estarei de volta.

— Max quer falar com você.

Pensei um pouco naquela notícia.

— Não gosto dos trabalhos dele.

— Acho que devia ao menos escutar o que o cara tem


pra dizer, Heitor...

— Depois a gente se fala, tenho que desligar agora.


Pus o aparelho no bolso e procurei por Alvim, que já
tinha sumido dali. O cara não era trouxa. Ao que parecia,
tinha ido lá fora só para fumar um cigarro.

Diogo não gostava que fumassem dentro de casa. E


mais uma vez ele estava tentando largar o vício. Pensando
nisso, tirei um cigarro do bolso e o acendi. Olhei para a
janela onde Maya estivera minutos atrás e não encontrei
mais vestígio dela, até que de repente a morena apareceu.
Dei a primeira tragada ainda olhando para ela. Maya me
encarou. Ficamos nos encarando por alguns segundos, até
que alguém se aproximou de mim.

— Touro Heitor — Carol sorriu para mim — O mundo


é pequeno demais pra nós dois. Ando pensando em matar
a saudade.

Inclinei os lábios num sorriso.

— É mesmo? — joguei a fumaça para fora e voltei a


pôr o cigarro na boca.
— Desde o casamento do Diogo não nos encontramos,
eu acho. Certas experiências nunca saem de nossas
lembranças. Você é uma delas.

— Bem, estive outras vezes por aqui, mas foram


ocasiões rápidas, Carol. Você certamente não soube e por
isso não rolou nada.

— Você continua o mesmo mulherengo, não é? Por isso


nunca daria certo — se aproximou demais e tocou meu
rosto do jeito que uma mulher que me desejava fazia — E
nunca canso de admirar seus olhos.

— Ah, é?

Joguei o cigarro no gramado bem cuidado e olhei para


o chão enquanto pisava no cigarro para apagar o vestígio
de fogo. Fingia não entender que Carol me dava mole, mas
então imaginei que Maya ainda estivesse na janela nos
espiando e por isso uma vontade estúpida de provocá-la
surgiu.
Carol era bonita. Tinha cabelos longos, corpão
delineado e um olhar interessante. Já tínhamos namorado
por algum tempo no passado e o fato de morarmos em
cidades diferentes acabou sendo um banho de água fria em
nossa relação. No entanto, toda vez que nos
encontrávamos, rolava alguma coisa. Houve vezes em que
ela foi a São Paulo me procurar. Houve vezes em que eu a
encontrei no Rio e sempre que isso acontecia tínhamos
transas maravilhosas.

Carol avançou dois passos e ficou bem perto de mim


de modo que nossas respirações se misturassem, e faltou
poucos centímetros para que nos beijássemos. Eu me
perguntei se alguém nos veria ali. Carol de repente me
beijou enquanto suas mãos macias e delicadas envolveram
meu pescoço. Ela estava na ponta do pé e aceitei seu beijo
molhado.

— Carol — murmurei — não é uma boa ideia...

— Por que não? — sussurrou em minha boca — você


nunca dispensa um bom sexo, Heitor Romano. O que tá
esperando? Fala pra mim.

— Tenho alguém agora...

Até pensei em entrar em seu jogo. Talvez fosse uma


boa ideia. Enquanto estivesse beijando Carol, dançando
minha língua dentro de sua boca, eu não estaria pensando
em Maya. Enquanto estivesse segurando a cintura fina de
Carolina e descendo minhas mãos em sua bunda,
apertando-a, não estaria também pensando em Maya. Na
verdade, era uma merda pensar em Maya e no que eu
estava começando a nutrir por ela. Aquilo estava saindo
do meu controle.

Maldição.

Maya era bonita, sedutora, interessante, tinha uma voz


sensual e uma personalidade que me intrigava, no entanto
era complicado gostar dela e pensar em nós dois juntos
como um casal de namorados e amantes.
Carol se apertou ainda mais em meu corpo duro e foi
bom sentir suas formas curvilíneas e macias. Pela
resposta de seu corpo, eu sabia que ela queria mais. Muito
mais. E eu adoraria querer dar muito mais a ela. Eu
adoraria querer ir agora mesmo para uma cama ou para
qualquer outro lugar da casa e aliviar toda a tensão de
meu corpo em seu corpo, num sexo selvagem e prazeroso,
como a gente sempre fazia. Todavia enquanto meu corpo
estava em Carolina, minha cabeça estava em Maya.

Maya. Maya. Que porra. Eu não parava de pensar em


Maya.

— Você é tão forte, Heitor, tão másculo e tão


musculoso... — Carol balbuciou em meu ouvido, me
fazendo ficar ainda mais tentado a ir às últimas
consequências — Oh, Heitor...

E eu era sensível aos gemidos de uma mulher. Adorava


quando elas murmuravam que me amavam, que eu era foda
e que eu fazia maravilhas na vagina delas. Adorava
quando elas estremeciam e rugiam de prazer, sem
reservas, sem pudor. Me fazia bem sentir a satisfação que
eu dava para elas. Todavia enquanto eu beijava e tocava
Carol eu pensava e sentia como se fosse Maya em meus
braços. Porque era com ela que eu queria estar. Queria
beijar sua boca como das outras vezes, tocar seu corpo e
mergulhar nele novamente, queria puxar seus cabelos
negros e adentrar loucamente em seu corpo a noite inteira.

O celular tocou alto, nos tirando a concentração. Carol


se desgarrou de mim e recuou um passo. Assim que
encontrei o aparelho eu atendi.

— Heitor?

Era a voz de Jarbas.

— Fala.

— Max procurou por você.

Max era um mafioso. Trabalhava com tráfico de


drogas, entre outras coisas. Era uma espécie de pessoa
que Diogo e eu não aprovávamos na ideia de estreitar
laços e ampliar negócios. Eu tinha conhecido o homem
através de um negociante. Embora o Rio fosse a sede dos
nossos negócios, em especial o Esmeralda, era em São
Paulo que se concentrava a maior parte dos nossos
fornecedores de equipamentos e armas. E eu era como
uma ponte entre eles e Diogo. Ás vezes eu mesmo resolvia
tudo sozinho. Eu era um Del Rei em São Paulo.

— O que ele quer?

— Não explicou, só disse que tem uma proposta a


fazer.

Carol ajeitou os próprios cabelos que estavam


bagunçados pelo vento e murmurou alguma coisa antes de
se afastar. Eu mal acenei ao vê-la ir embora.

— Certo, fique de olho nele — mandei — Como


andam as coisas por aí, Jarbas? Disse a Theo que quero
ficar por dentro de tudo.

— Ok. Está tudo bem... já tem ideia de quando vai


voltar?

— No meio da semana. Quando for a hora, vou avisar.

Desliguei o telefone após me despedir de meu braço


direito, pensando em como conseguiria elevar o Del
Romano aos padrões do Esmeralda. Na verdade, as
boates e os cassinos eram praticamente idênticos, a
diferença estava na tradição. Enquanto o Del Romano em
São Paulo era novo e luxuoso, o Esmeralda do Rio era
sofisticado e já tinha nome e clientela fiel. Os caras não
entendiam, mas a principal razão para eu passar alguns
dias no Rio era debater com Diogo sobre as melhores
estratégias para tornar o Del Romano tão especial quanto
o Esmeralda era.

Guardei o iphone no bolso da calça e então o nome de


Maya veio em minhas lembranças. Voltei a olhar para a
janela, mas ela já não estava mais lá. Já devia ter se
afastado há muito tempo. Talvez tivesse sentido ciúmes ao
me ver aos beijos com Carol. Talvez tivesse ficado com
raiva ou enojada. Ou talvez tivesse dado de ombros e
voltado para o centro do quarto. Talvez me detestasse
agora.

Era latente que havia uma forte atração entre a gente.


Era óbvio que todas as sensações que eu sentia, ela sentia
também, mesmo que de forma diferente. Estava claro que
quando nossos olhos se encontravam eles levavam a
mensagem ao cérebro e esse fazia nossos corpos
faiscarem. Tínhamos trocado beijos e feito amor uma vez
e tanto eu quanto Maya estávamos envolvidos. Contudo
ela agora devia me odiar. E eu odiava o pai de Maya. E
por isso, só por isso, nosso romance estava condenado.

Entrando outra vez na casa, encontrei Diogo e Elena


tendo algo que parecia ser uma pequena discussão. Ele
estava com a pequenina deles no colo e tentava enrolar a
mulher.
— Prometeu almoçar em casa, Diogo, mas ontem saiu
e ficou horas sem dar notícias. E hoje pretende fazer a
mesma coisa, que eu sei. O que está havendo com você? O
que tá me escondendo?

— Elena — falou — não estou escondendo nada de


você, paixão. Só vamos na boate ver algumas coisas. Hoje
é sexta, dia de receber muita gente da alta, você sabe.

— Você vai sair também à noite? Vai passar horas fora


e voltar quase de madrugada? Quer saber? Pode fazer o
que quiser da sua vida! — pegou a filha deles dos braços
do pai e, mesmo com aquele barrigão, pôs a menina no
colo e seguiu em direção a outro cômodo da casa. Diogo
ficou sem saber o que falar quando notou minha presença
ali.

— Cara, sabe de uma coisa? Se tá pensando em casar


um dia, é melhor pensar muito antes de entrar nessa
roubada — foi até o bar e abriu uma garrafa enquanto eu
ria, cruzando os braços — É sério, é uma tremenda
furada, meu chapa. Ás vezes pode não parecer, mas fico a
ponto de surtar — voltou-se e esticou um copo de uísque
para mim antes de levar o dele à boca.

— Não pode ser tão ruim assim. Você parece feliz.

— E sou, Heitor, mas não pense que é só paraíso o


tempo todo. Ás vezes também enfrento tempestades e
terremotos. Não acabou de ver o que aconteceu agora?

— Vou lembrar das suas palavras quando chegar a


minha hora — pisquei antes de tomar mais um gole da
bebida do copo.

— E por falar em relacionamentos — Diogo afundou


no sofá da sala e inclinou a cabeça para trás, apoiando a
nuca no móvel duro — Desculpe a indiscrição, mas não
pude deixar de observar você e minha irmã há poucos
minutos lá fora. Confesso que fiquei confuso. Não quero
bancar o moralista ou o intrometido, mas a paulistana que
você trouxe com você não significa nada? Pensei que
fosse um caso sério.

Pigarreei. Não era muito fácil falar sobre Maya. Não


era fácil justamente porque eu tinha que mentir dizendo
que não gostava dela e isso ás vezes me deixava
desconfortável.

— Bom, mas como vê, não é tão sério como imagina


— sentei no sofá oposto ao de Diogo e imitei seu gesto,
inclinando minha cabeça para trás, só que cerrando os
olhos. Depois levei o copo do uísque à boca e bebi tudo
de uma só vez — é um caso meio complicado. Quando
precisar de um momento divã, me abro com você, tá
legal?

— Falou, quem sou eu pra julgar? Mas se quer um


conselho? Não se meta em confusão. Eu sei que você é o
rei das garotas, um mulherengo incorrigível, mas é meu
sócio e vou precisar de sua completa concentração,
sobretudo esta noite, Heitor — respirou fundo — nem sei
se vou conseguir cuidar de tudo. Elena, você viu, está
carente pra caralho. Dizendo que só trabalho e que ela
sente minha falta. Tá se sentindo deprimida e gorda.
Acredita nisso? Ela tá se sentindo gorda! E agora, pra
completar, tá achando que estou tendo um caso.

— Talvez seja melhor dar mais atenção a ela, meu, é


sério. Sua mulher vale a pena. Estou por aqui, posso
cuidar de tudo.

— É, estou pensando. É uma boa tê-lo por aqui esses


dias. Talvez seja sua hora de assumir todo o controle das
coisas no Esmeralda.
Capítulo 24
HEITOR

— PREPARADO? — Diogo perguntou.

— Sempre.

Nos serviu com duas doses de uísque enquanto Bruno e


a namorada dele surgiram risonhos e bem vestidos na sala
onde estávamos. Braço direito de Feroz no dia-a-dia,
Bruno usava um smoking branco elegante que destacava
sua pele negra, e a simpática loira dele estava bela num
vestido azul noite. Pronta para matar, como a gente
costumava dizer. Elena, ao lado, dizia para a amiga o
quanto ela estava bonita e bem naquele modelito. As duas
pareciam empolgadas.

Elena era mesmo uma garota incrível, pensei. E não


iria ao cassino àquela noite por conta do cansaço da
gravidez. E por causa dela, Diogo resolveu ficar também
em casa. Após uma discussão dos dois naquela tarde,
Feroz resolveu ceder às súplicas da mulher e provar para
ela que a família era o ponto mais importante na vida
dele, o que bem achei justo. Afinal, ela estava grávida e
precisava de mais atenção. E então acabou sobrando para
mim a responsabilidade de dirigir o Esmeralda àquela
noite.

— A clientela do Esmeralda é bem exigente, Heitor,


mas muito generosa, você verá. É simples, o mundo está à
sua volta, conquiste-o — Diogo piscou, e a seu lado pude
contemplar uma Elena muito satisfeita e serena, que
massageava orgulhosamente o braço do marido — Tá
vendo o que faço por você, rolinha?

O casal se beijou e começou a trocar uma série de


juras de amor ali em público. Coçando a nuca, me afastei
deles, tentando controlar a impaciência que estava
sentindo com o fato de que até agora Maya não tinha dado
às caras. Segui para o bar e me servi com duas doses de
uísque. Acrescentei o gelo e olhei o pulso pela milésima
vez, pensando no que teria acontecido para a garota ainda
não ter descido. Talvez Maya tivesse mesmo ficado
chateada com o episódio de Carol e eu no jardim. Eu tinha
subido ao quarto naquela tarde e avisado que sairíamos à
noite, e ela pareceu me ignorar, então acabei passando o
resto do dia longe dela. Agora sentia na pele o quão brava
Maya estava.

Pensei em subir, em ir até o quarto e trazê-la à força,


como na época das cavernas, todavia, após respirar fundo
um pouco, olhei para trás e avistei a garota no topo da
escada.

Uau.

Meus lábios se entreabriram automaticamente e tudo


ao meu redor pareceu ficar em segundo plano. Maya
estava perfeita. Perfeita como uma estrela. Segurava o
vestido vermelho sangue e começava a descer degrau por
degrau, sem pressa, de uma forma muito, mas muito
graciosa. Não pude deixar de mirar a abertura sexy que
deixava sua perna esquerda um pouco à mostra.

Caralho. Que sensual ela estava!

Como era sensual e não tinha ideia disso! Sensual até


dizer chega. E eu não parava de olhar para ela. Sabia que
estava com a boca entreaberta e os olhos arregalados, mas
nada me importava. Eu só queria ver Maya descer.

Enquanto ela se movimentava, seu quadril e suas


pernas balançavam a cada passo que seus pés delicados
ornamentados pelos saltos davam. Fui arrebatado por uma
onda de encantamento. Maya estava esplêndida! Os
cabelos soltos e bem escovados caíam como uma cascata
negra e brilhosa pelos seus ombros e iam até as costas,
sua boca vermelha era convidativa, seus olhos negros
brilhantes, havia um pequeno decote entre seus seios e
então eu soube que dentro de poucos segundos eu perderia
o ar.

Parei de piscar.
Pensei se estava babando.

Ela não sabia que era tão gostosa assim. Não era
possível. E agora eu mal conseguia encontrar palavras!
Nada passava por meu pensamento, exceto a ideia de que
precisava dela. Cacete, eu precisava dela! Especialmente
gritando e gemendo embaixo de meu corpo, precisava
estar entre suas pernas e me deliciar com a maciez de sua
pele.

Vi Elena abraçar Maya e tecer elogios sinceros e


incentivadores. Quando me dei conta, Maya já estava
diante de mim. Estava me olhando, talvez sem ideia do
que tinha me causado ao descer.

Era hora de me recompor. Ajeitei a gravata borboleta e


lhe estendi a mão.

— Está linda, morena — cumprimentei.

Linda apenas não. Fabulosa!


Maya agradeceu, pegando minha mão e chegou tão
perto, que mesmo de salto alto constatei que não
conseguia bater sequer em meus ombros. Abaixei os olhos
e pude analisá-la ainda melhor. Me lembrei de que
deveria parecer um namorado atencioso e apaixonado. E
eu sabia muito bem como elogiar e agradar uma mulher.
Peguei sua mão e a levei delicadamente aos meus lábios.

— Na verdade, está perfeita, malagueta — sussurrei.

Ela não sorriu. Apenas pigarreou.

— Então, podemos ir?

— Vocês podem ir no segundo carro. Lia e eu vamos


no terceiro — Bruno falou enquanto segurava as costas da
namorada e a conduzia pela saída da casa.

—Divirtam-se! — gritou Elena, abraçada em Diogo.

Tão logo nos aproximamos do audi estacionado lá


fora, abri a porta do carro para que Maya entrasse
primeiro. Depois sentei a seu lado, adorando a ideia de
Bruno e a loira dele irem no outro carro. Eu queria ficar à
vontade com Maya, queria ter todo o tempo do mundo
para ficar sozinho com ela e apenas sua presença me
bastava.

— Não precisa se preocupar — falei, cinco minutos


depois, vendo-a tensa, enquanto o carro percorria uma
avenida movimentada — Não vai ter que falar nada lá.
Apenas ouvir.

— Ouvir?

— Bom, nada do que não ouviu antes, guria. Sabe, esse


tipo de gente é assim: eles te beijam pela frente e te
amaldiçoam pelas costas. É só sorrir com as palavras
arrogantes que disserem e então vão aceitá-la como se
fosse uma do rol.

— Ah, entendi.

Ela me pareceu séria.


O celular tocou em meu bolso e olhei o número antes
de atender. Theo. Não devia ter nada de importante para
dizer, então não hesitei em interromper a chamada. Depois
retornaria a ligação. Agora só queria me distrair com
Maya. Não, só queria ficar perto dela.

Voltei a guardar o aparelho e voltei a mirar Maya. Ela


estava olhando para o lado de fora através da janela.
Parecia segura de si. Não mais aquela Maya apática e
abatida que estava sendo desde que chegamos ali.

— Já esteve num cassino antes? — perguntei, tentando


puxar assunto e tentando fazer com que ela se voltasse
para mim.

— Não — me olhou. E por mais que não visse mais


aquele desprezo de antigamente em seus olhos, eu notei
que ela estava zangada. Provavelmente porque me vira
com Carol no jardim aquela tarde.

— Bom, Maya, o que viu hoje à tarde da janela...


— Não quero saber. Não somos mesmo namorados. Só
é encenação, você já me explicou.

— Certo. Melhor assim.

Pensei em mudar de assunto. Queria que Maya se


sentisse à vontade na minha companhia e que se soltasse.
Queria que ela quisesse conversar. Queria me
reaproximar. Queria poder desejá-la e investir nela.
Queria terminar a noite entre suas coxas, tendo meus
braços em volta de seu corpo e minha boca dentro da sua.
Daquela noite não passaria. Queria tanto seu corpo
embaixo do meu como o ar que eu respirava, com uma
urgência que me deixava atordoado. Queria seus beijos e
sentir seus cabelos pretos entre minhas palmas. Queria
acariciar seus seios duros e apalpar sua bunda
arredondada e nua, queria segurar sua cintura fina e me
perder na maciez de seu corpo quente e macio. Queria
fazê-la minha, toda minha.

— Gosta de música clássica?


Ela me olhou. Pareceu não entender a pergunta.

— Música clássica — repeti.

— Não ouço muito.

— Nem eu — peguei um cigarro do bolso e o acendi


— Fuma?

— Não, obrigada.

— Você bebe, Maya?

— Não, eu detesto bebidas alcoólicas. Elas me


lembram meu pai — por um segundo detectei um pouco de
tristeza em seus olhos e não gostei. Não queria vê-la
triste, nunca mais. Tomei a liberdade de erguer um dedo e
tocar seu rosto com o polegar e o dedo indicador, mas
Maya se esquivou.

— Minha mãe também não gosta que bebo, mas não


costumo exagerar — afastei minha mão de seu rosto, não
querendo incomodá-la.

Silêncio.

Voltei a fumar e me dei conta de que estava poluindo


todo o oxigênio que havia no carro.

— Desculpe, vou jogar fora — abri um pouco o vidro


da janela e joguei o cigarro por ela.

Percebi que Maya agora voltava a olhar pela janela e


não gostei disso. Mesmo que não devesse dormir
novamente com ela, eu queria isso. Queria muito.

— Você está linda. Sei que já disse isso antes, lá na


casa do Diogo, mas preciso dizer de novo. Além disso,
não foi encenação, guria. Você está mesmo deslumbrante.
E eu estou me contendo aqui pra...

Sem conseguir me conter, beijei seus lábios e adorei


sentir o toque de suas mãos pequenas em meu rosto. Achei
que ela fosse recuar ou gritar, mas quando seus lábios se
afastaram dos meus, encarei seu rosto, atordoado.

— Maya, eu... — ia dizer o quanto ainda a queria, mas


de repente a voz do motorista lá da frente avisou que
estávamos chegando. Ajeitei meu paletó e me preparei.
Era hora de ser Heitor Romano.

Depois que o audi parou no amplo estacionamento


reservado para os frequentadores Vips do cassino e da
boate, saí do automóvel e dei a volta, para só então poder
abrir a porta para que Maya também saísse. Eu a auxiliei
a descer. Ela quase se desequilibrou e adorei quando se
apoiou em meus ombros. Me deu novamente o braço, após
se ajeitar e descer do carro. Me restou dar as instruções
ao motorista. Ele devia estar atento para nos pegar, pois
eu ligaria a qualquer momento.

Com Maya entrelaçada no meu braço esquerdo,


alcancei a entrada, depois o hall, até chegar no salão
principal do Esmeralda. O magnífico Esmeralda. Os
homens de Diogo vieram logo atrás. Depois se
espalharam pelo amplo lugar. Cada um tinha sua função e
sabia exatamente como desempenhar bem ela. Ficou a
cargo de Bruno me apresentar para os clientes que ainda
não me conheciam e gostei de saber que todos tinham a
consciência de que na ausência de Diogo a autoridade ali
era eu.

Não tivemos problemas na noite, bem como Feroz


avisou. Os clientes foram respeitadores e gentis, todos
querendo me conhecer. Alguns já me conheciam e,
portanto, só colocamos os assuntos em dia. O único fator
chato foi ter meus olhos percorrendo todo o salão à
procura de Maya, que sumira. Tentando ser discreto ao
máximo, dei um gole da taça de champanhe e olhei
novamente em redor. Nem sinal dela. Aonde ela poderia
ter ido? Droga. E se Maya tivesse fugido? Não, para onde
ela iria? Não conhecia ninguém no Rio de Janeiro. No
entanto, por questão de segurança, achei melhor procurá-
la e assegurar que não a perderia de vista. Não toleraria
fazer papel de tolo.
— Heitor?

— Agora não, Romão.

Com passos largos, me aproximei de Bruno e


cochichei.

— Viu Maya por aí?

— Não. Relaxa, talvez esteja no banheiro refazendo a


maquiagem. Lia também sumiu.

Eu não tinha certeza disso.

Maya não era como Lia. Era esperta, arisca, e não uma
namorada comum. Estava ali encenando, mas na verdade
era uma prisioneira.

— Vamos fazer o seguinte: tome conta de tudo por


aqui, que já volto. Qualquer coisa me ligue. Estou com o
celular.
— Claro.

— Tudo bem mesmo?

— Sempre fica, relaxa. Vá procurar sua garota.

Segui.

Só fui encontrar Maya depois de percorrer boa parte


do cassino e entrar na sala oeste.

— O que tá fazendo aqui? — segurei seu braço,


examinando seu semblante. Não gostava de explodir com
ela, mas detestava a ideia de ela ter sumido sem me dizer
nada. Maya me olhou, séria, seus olhos escuros muito
desafiadores.
Capítulo 25
HEITOR

— PODE ME SOLTAR?

Ela me encarou. Os olhos pretos, de fato, pareciam me


desafiar.

— Quer me provocar, morena?

— Será que dá pra me soltar? — insistiu.

— Aonde estava?

— Não achei que fosse ser sua prisioneira aqui... fui


ao banheiro. Mas que droga! Será que pode me soltar
agora?

— Não devia desaparecer sem me dizer onde iria —


afrouxei minha mão em seu braço, pois não queria
machucá-la, e sussurrei outras coisas perto de sua orelha.
— Está me confundindo com suas piranhas, Heitor!

— O quê? Você seria uma delas, se eu quisesse!

Deu-me uma bofetada.

— Nunca aceitaria isso! Prefiro morrer!

Sem responder, puxei Maya para mim como se ela


fosse uma boneca de borracha, mas neste momento, para a
sorte de Maya, ou para a minha sorte, alguém apareceu.

— Heitor! Ah, desculpe interromper...

Olhei para trás e reconheci um dos senadores que


também estava acostumado a frequentar o Del Romano lá
em São Paulo.

— Oi, Marcus, tudo bem — ajeitei minha gravata, me


recompondo — Quero que conheça, hum... minha,
namorada. Maya.
— Como vai, senhorita? É um prazer. Heitor, e Diogo,
onde está?

— Teve um imprevisto essa noite e não pode vir. Se


precisar falar algo com urgência, estou aqui.

— Ah, preciso sim, mas nada que não possa esperar


até o fim da noite. Continue a conversa com sua namorada.
Vou ali apostar mais um pouco e depois volto quando
estiver menos ocupado. Foi um prazer, senhorita — se
despediu e se retirou.

Voltei a fitar Maya e a conduzi para a primeira sala


livre que encontrei. Não me importei com as câmeras que
estavam nos filmando àquela hora.

— O que vai fazer comigo? — ela perguntou, os olhos


arregalados — Por que me trouxe pra cá?

Olhei bem para seu rosto e a prensei na parede. Me


aproximei tanto, que quase amassei seu corpo macio
contra o meu. Meu membro estava ardendo e queria se
soltar. Eu já tinha tentado ficar com outras mulheres
depois de conhecer Maya, mas agora se tornava cada vez
mais difícil me distrair com quem quer que fosse.

Ergui meus braços e pousei minhas mãos em volta de


sua cabeça, cada braço em cada lado, de modo que Maya
ficasse presa, me observando. Cheguei perto de seu rosto
a ponto de sentir sua respiração regular. Ela me encarava.
Mesmo intimidada, sustentava seu olhar sem medo algum.
E eu sabia que assim como eu a queria, Maya também me
queria.

— Você é tão destemida, guria... tão destemida, que me


deixa alucinado. E quer saber? Estou me contendo para
não tomá-la aqui mesmo dentro desta sala.

— O que há de verdade entre você e a irmã do Diogo?


Será que foi só mesmo um beijo? Se nosso caso não é
sério, não devia ficar me beijando pelos cantos! Por que
não vai tomar ela em seus braços? — reclamou, mas
parecia falar por falar. Na verdade, o que seus olhos e seu
corpo me diziam é que ela estava muito a fim de mim.

— Você não quer que eu a deixe em paz, Maya. Sei que


não quer. Você me deseja, morena, assim como desejo
você — inclinei meu pescoço e passei a tocar levemente a
parte próxima à sua orelha. Maya estremeceu, fechando os
olhos e engolindo em seco, o que me deixou ainda mais
excitado. Abaixei uma mão e a pus por dentro de seu
vestido, por entre a abertura sexy dele e subi, até apalpar
sua bunda. Ela estremeceu mais uma vez e meu pau se
inchou de uma forma que parecia rasgar minhas calças.

— Quero você — sussurrei — quero muito você...

Voltei a lhe apalpar e logo provei sua boca. Doce e


suave. Maya entreabriu os lábios e fiz uma inspeção geral
lá dentro. Era bom beijar Maya e sentir seu gosto. Era
bom também sentir seus braços delicados em volta de meu
pescoço e a ponta de seus seios se intumescerem contra
meu peitoral. Ela estava excitada. Ela me queria com a
mesma proporção que eu a queria. Maya se entregou aos
beijos e nos envolvemos numa dança erótica sem volta.
Logo passei a tirar o terno e ela me ajudou. Passei a abrir
os botões da camisa e ela ficou esperando. Com a camisa
de fora, me livrei do cinto e comecei a abrir a calça. Foi
quando senti as mãos delicadas espalmadas em meu
peito.

— Como você é forte... — sussurrou, me deixando


ainda mais louco por ela — muito forte... e eu o quero...
não devia, mas eu o quero — sussurrou, os olhos
fechados, parecendo ansiar por meu calor — Muito...

Já nu, tirei seu vestido enquanto Maya se mantinha


submissa e pronta para facilitar meu serviço. Quando a
deixei despida, ela voltou a me beijar e a massagear meus
cabelos. Abraçou meu pescoço, me deixando maluco.
Logo sua calcinha saiu do lugar e eu não consegui mais me
controlar. Cheguei bem perto dela e a puxei para a mesa.
Forcei meu peso contra o seu e me ajeitei entre suas
coxas. Meu pau alisou sua região molhada. Eu queria
muito, estava em chamas por sexo há horas.
Maya fechou os olhos e arranhou minhas costas,
parecendo uma felina pronta para atacar. Após beijá-la
uma única vez, ajeitei-me em seu corpo lânguido e febril,
e investi firme. Ela arqueou-se para trás, gemendo.

— Ohm, Heitor... — sussurrou e eu soube que


precisava de mais — Oh... Heitor...

Esperei um pouco mais para que ela relaxasse. Voltei a


me movimentar devagar, uma estocada de cada vez,
enquanto ela gemia e pedia por mais. Mais. Mais. Ela
queria mais!

Passei a me movimentar com dureza, enquanto ela me


agarrava e arranhava. Meu corpo começou a acelerar e eu
entrava e saía com desespero, como se Maya fosse uma
droga com a qual eu precisasse relaxar. Entrei, afundando
até o fim, e saí outra vez. Era esse o movimento. Entrava
até o fundo e saía, até entrar de novo e fazer aquele
movimento várias outras vezes, até que não queria mais
parar, queria entrar e sair de seu corpo, até cansar.
Enquanto ela gemia e grunhia de modo excitante, eu
queria mais. Era muito bom mergulhar nela e saber que do
mesmo jeito que estava sendo bom para mim, estava
sendo para Maya. Então passei a rebolar, primeiro
devagar, depois com mais vontade, até finalmente
explodir e sentir as unhas de Maya me apertarem com
força, e então ela também gozou. E eu me senti o cara
mais completo do mundo por isso. Beijei sua boca fina e
acarinhei seu rosto ainda abalado pela adrenalina.

— Já era, você é minha, morena... só minha.

***

Tínhamos trepado na mesa, em plena ala oeste do


cassino. As câmeras obviamente tinham filmado tudo e
aquilo era mais um problema que eu teria que resolver.
Por ora, eu só queria ficar ali abraçado à Maya.
Ainda estávamos deitados sobre a mesa. Aquilo tinha
sido sensacional e eu não conseguia parar de olhar para
ela, toda linda e quente, ao meu lado.

— Você é lindo, sabia? — acarinhou meu rosto com


ternura, me olhando, um olhar cheio de amor.

Sem responder, peguei a mesma mão com a qual ela


me acarinhava e levei aos meus lábios.

— E gostoso também — ela prosseguiu, risonha, e


depois pareceu ficar tímida. Ri com aquela ideia,
pensando se Maya ficava tímida após o sexo.
Provavelmente sim.

— Obrigado. Você é maravilhosa.

Se ajeitou em meu peito e começou a admitir que era a


pessoa mais louca do mundo. No entanto, me explicou que
não era hora para pensar com a cabeça no lugar, era hora
só deixar rolar. E eu ponderava se ela tinha razão. Sim,
ela tinha.
Maya comentou que havia passado toda a sua vida
fazendo o que as pessoas queriam que ela fizesse, o que as
pessoas esperavam dela e que nunca parara para pensar
no quanto isso poderia ser destrutivo a ela mesma. Os
problemas de seu pai, a doença da mãe, as dificuldades de
seu irmão, tudo isso ela carregava nas costas como um
fardo que era impossível de largar enquanto nada do que
acontecia com ela era partilhado com as outras pessoas.

— E por que não se abre? — perguntei, tomando seus


dedos delicados e levando-os aos meus lábios.

— É que eu não gosto de... bom, de aborrecer as


pessoas.

— Se abrir e compartilhar suas coisas, mesmo seus


problemas, não vai aborrecer ninguém que te ama, guria.
Pelo contrário. E faz bem.

— Eu sei, é o que dizem, mas... ás vezes eu não


consigo.
— É que pensa muito nos outros e acaba se
esquecendo de você mesma e do que realmente importa.

Ela me olhou, sorrindo, seu semblante bonito e suave.

— É, deve ser — ela parecia feliz ali sobre a mesa


comigo e aquilo me fez sentir muito melhor. Então Maya
não me odiava como eu pensava. Claro que não. Pelo
contrário, a gente se amava. Nosso sexo deixara aquilo
bem claro. E não era só atração. Estávamos mais
envolvidos do que pensávamos, mesmo não sabendo até
onde aquilo tudo iria nos levar.

— Heitor? — acariciou meu rosto outra vez, me


fazendo erguer-se novamente sobre seu corpo — o que foi
isso que aconteceu? Bom, quero dizer, não foi a primeira
vez, mas... o que foi isso que aconteceu entre a gente?

Sorri, contornando seus lábios com meu dedo.

— Eu não sei. Talvez tenha passado da hora de você


me odiar — pisquei.
— Eu não odeio você.

— Ah, não? Mas odiou antes.

— Não odiei não... na verdade, só não entendia você e


tinha medo.

Ela ainda acarinhava meu rosto, minha barba, e pensei


no quanto isso era bom. Se dependesse de mim, Maya
passaria o resto da noite me alisando e eu dormiria feliz.

— Você me conquistou, morena — sussurrei, já


novamente sobre seu corpo — desde o primeiro dia em
que a vi.

Maya ergueu os lábios para um novo beijo. Trocamos


um beijo lento, gostoso, sem pressa, cheio de promessas e
sem reservas. E quando finalmente terminamos, apoiei
meus cotovelos em volta de sua cabeça e lhe admirei por
mais algum tempo.

— Você é tão linda, morena... — olhei em seus olhos


— e quero te amar mais uma vez... aliás, não canso de te
amar. Nunca vou cansar.

Ela me puxou para si e então ajeitei-me em seu corpo


novamente. E em seguida já estava enterrado de novo
nela. Comecei devagar e aos poucos fui aumentando os
movimentos e aprofundando-os. Maya gemeu, mais solta
desta vez, e mordiscou meu ombro, meu braço. Lambi sua
pele e mordisquei seu corpo à medida que entrava nela,
que ia até bem fundo e saía de dentro dela, para
novamente fazer todo aquele mesmo processo. No final do
sexo, me lembrando que eu estava no Esmeralda para
trabalhar e não para transar, nos vestimos e atendi o
celular que tocava. Era Bruno.

— Ei, Heitor, aonde está?

— Na ala oeste. Já estou à caminho. Tudo bem por aí?

— Tudo na paz... encontrou sua garota?

— Sim, eu a encontrei, e nós já estamos indo — eu na


verdade abotoava minha camisa, enquanto do outro lado
da mesa, Maya voltava a colocar o vestido. Quando me
despedi de Bruno e desliguei a ligação, pus o celular
sobre a mesa e me aproximei de Maya para poder ajudá-
la.

— Tudo bem? — perguntei a ela.

— Quem era no telefone?

— Bruno. Venha, temos que ir.

Mas antes de fazer aquilo, me lembrei das câmeras.


Peguei novamente o celular e liguei para Jiraya, que eu
sabia, era o responsável por esse departamento.

— Fala, Heitor — Jiraya atendeu. Era interessante


como os caras de Diogo eram profissionais e sabiam
entender as coisas como elas são.

— Me faz um favor? Apague o que se passou na sala


oeste nessa última hora.
Ele fez uma pausa e pensei no quanto deveria estar se
divertido com a ideia.

— Falou. Deixa comigo.

Segurei a mão de Maya e imprensei a garota na porta


antes de sairmos da sala. Roubei-lhe um beijo ávido e
demorado.

— Não vejo a hora de voltar pra casa e terminarmos o


que começamos aqui — sussurrei.
Capítulo 26
MAYA

HEITOR ESTAVA sendo muito agradável comigo


desde que saímos do cassino. Ele estava feliz e satisfeito
e dizia que tudo tinha dado certo aquela noite. Era bom
vê-lo assim e pensei se não estávamos ambos felizes por
tudo o que tinha acontecido lá numa das salas do cassino.
Uma sessão de sexo gostosa e ardente. E quer saber de
uma coisa? Eu também estava feliz.

— Tudo bem? — Heitor perguntou ao me beijar no


rosto, como quem beijava uma pétala de rosa. Para
mostrar que ele estava errado a meu respeito em vários
aspectos, avancei em seu pescoço e beijei sua boca,
mostrando a Romano que eu não era tão inexperiente ou
delicada como ele imaginava.

Segurei seu rosto com minhas duas mãos e forcei meus


lábios contra os dele. Em fração de segundos nossas
bocas quase se comeram numa luta desenfreada e árdua.
Logo sua língua passou a inspecionar a minha boca e
desejei que o beijo fosse prolongado. Nos beijamos por
um bom tempo, parando apenas para poder respirar. E eu
desejava em pensamento que aquela viagem fosse rápida,
pois queria logo voltar para o quarto e poder fazer amor
com Heitor.

Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Eu


estava apaixonada! E como uma mocinha de um romance
policial, eu me sentia deslumbrada e fora de razão. Nunca
tinha sido tão inconsequente na vida, até encontrar Heitor,
o homem que surgira para despertar em mim todos os
sentimentos mais profundos e contraditórios. Em um dado
momento eu o odiava e no outro eu o endeusava.

Além disso a cada dia que se passava a ideia de ficar


com Heitor não me incomodava, não me enojava ou
assustava. Na verdade, ficar longe dele era o que me
desesperava agora. Há tempos sua companhia me fazia
bem. Antes mesmo de termos feito amor pela primeira vez
em São Paulo. E eu me sentia segura e protegida em sua
presença. E também me sentia querida e amada. Não da
forma como eu me sentia quando estava com minha
família. Era uma forma diferente, agora com Heitor havia
uma maneira nova de eu me sentir. E algo que apenas ele
me proporcionava.

Dei graças a Deus quando chegamos na mansão e


cumprimentamos Diogo, que estava ao telefone na sala de
estar, então subi as escadas ansiosa para tomar um banho
e ficar cheirosa. Sabia que Heitor me procuraria, dessa
vez no quarto. Excitada e animada com a ideia, entrei
embaixo do chuveiro e desejei que a conversa entre
Heitor e Diogo lá embaixo não se prolongasse. Desejava
que Heitor não parasse para beber e que Diogo fosse logo
dormir na cama com Elena. E eu não sabia o que
aconteceria com a gente dali para a frente e então só
pensava em aproveitar o momento. Era o hoje que valia,
não o amanhã, não o ontem. E não podia me basear em
garantias ou em promessas. Precisava viver o agora e
deixar rolar, esquecer o que poderia ser e não levar tão a
sério o que não deveria ser.

Não queria também pensar em papai e no ódio mortal


que Heitor parecia sentir por ele, não queria pensar em
nada de ruim entre nós dois. Só queria que Heitor
aparecesse pela porta do quarto, me beijasse e me amasse
da forma mais gostosa o possível, como fizera horas atrás
no cassino.

Saí do banheiro, alguns minutos depois, já vestida com


uma camisola, e antes que pensasse em qualquer outra
coisa, a porta do quarto se abriu, me revelando um Heitor
maravilhoso já livre do paletó. Eu não tinha comentado
com ele o quanto ele ficara lindo e charmoso com smoking
preto, mas ele ficara. Heitor me encarou. Os olhos azuis
profundos. Tirou as mãos dos bolsos e, usando o
calcanhar, fechou a porta atrás de si. Eu fiquei esperando
pelo seu próximo passo. Tinha acabado de vestir a
camisola preta e mesmo depois de ter saído de uma água
fresca, estava com meu corpo em chamas. Queria Heitor.
Com loucura. E seu olhar também me dizia que ele me
queria.

Avançando em mim, Heitor me puxou pela cintura


e mal tive chance para respirar ou dizer qualquer coisa.

— Estou viciado em você, morena... muito viciado...


— sussurrou, em meu ouvido, me deixando com a
sensação de que não aguentaria ficar mais nenhum
segundo longe dele. Tiha detestado vê-lo com a irmã de
Diogo naquela tarde e detestado imaginar os dois juntos
na cama.

Sem conseguir me segurar, fiquei na ponta dos pés,


agarrei seu pescoço grosso e fui ao encontro de sua boca.
O cheiro de sua pele me dava arrepios e eu só sabia que
era bom demais poder sentir seu corpo rijo e poderoso
contra o meu.

Venha, Heitor, por favor, tive vontade de sussurrar.

— O que está fazendo comigo, hein? — sussurrou em


meu ouvido, me deixando zonza de prazer. Eu queria algo
além de palavras e beijos. Estava na hora de Heitor me
carregar para a cama e me possuir. Queria que ele me
pegasse e me amasse urgentemente, queria que ele me
provasse do mesmo modo como fizera horas atrás.

— Não sei o que está acontecendo comigo... —


prosseguiu, sem deixar de mordiscar a pele de meu
pescoço enquanto suas mãos grandes e macias alisavam
minha cintura — Você é gostosa demais...

— Por favor, faça amor comigo... — implorei.

Sem falar mais nada, Heitor rodopiou comigo, usando


uma de suas mãos firmes para erguer uma de minhas coxas
até seu quadril. Depois disso me jogou na cama. Pousou
um joelho ao meu lado para se apoiar e começou a
desabotoar a camisa enquanto eu olhava admirada para
seu peitoral que começava a aparecer. Era duro, bonito,
largo e agora eu não tinha mais receio de acarinhá-lo e
mordiscá-lo.
Vi Heitor se livrar da camisa, da gravata de borboleta,
da calça preta e por último da cueca branca da Gucci. Me
impressionei com a extensão de seu membro, todavia não
comentei nada. Nem fiquei apavorada. Ele se sentou
lentamente na cama e ergueu a mão para alisar a minha
perna.

Mordi o lábio inferior e fechei os olhos, adorando a


sensação de sua mão grande e morna em minha coxa e
dela ir subindo até minhas partes íntimas. Ele puxou
minhas pernas para me trazer mais para si. Adorei quando
Heitor se aproximou e se ajeitou entre minhas coxas.
Puxei seu corpo para mim, querendo-o todo,
completamente, sem nada pela metade. Sua boca estava
novamente dentro da minha e suas mãos másculas eram
hábeis o bastante para brincar com o bico intumescidos de
meus seios. Logo inclinou o rosto para mordiscar meu
pescoço enquanto uma de suas mãos passava a apalpar
minha bunda.

Após um beijo de me tirar o fôlego, Heitor entrou em


mim numa mergulhada maravilhosa. Passou a se
movimentar aos poucos, até se intensificar mais. Eu gemi,
adorando a sensação de seu corpo no meu e de suas mãos
agora entrelaçadas nas minhas, como se me prendessem
ali na cama, enquanto sua boca faminta se apoderava da
minha.

— Oh, Maya... como é deliciosa...— grunhiu, entrando


mais fundo, me fazendo adorar aquela dança erótica, meio
animal. E eu não sabia o que era melhor, se era ter Heitor
gemendo ou sussurrando palavras sujas em meu ouvido.

— Continue... — implorei, revirando os olhos,


sentindo que algo ainda mais maravilhoso estava por vir
— Oh, continue... por favor, só continue...

À medida que ele mergulhava em meu corpo em


chamas, me proporcionando sensações inexplicáveis numa
sequência ininterrupta de prazer, eu me contorcia e pedia
que ele nunca mais parasse.
Não pare, Heitor, não pare.

Minhas unhas cravavam-se em sua bunda bem feita,


empurrando-a, incentivando seu corpo a se enterrar cada
vez mais no meu, adorando sua barba em minha pele e
seus braços fortes ao redor de meu rosto, enquanto Heitor
não parava de me estocar e seus movimentos firmes e
rápidos faziam com que nossos corpos unidos e colados
de suor se balançassem.

Era bom sentir seu peso, sua extensão e toda aquela


sua dureza. Era bom ver como ele era grande, ardente e
poderoso. Era boa a sensação de tê-lo entrando cada vez
mais, se alojando lá no fundo de meu corpo, e saindo
novamente, até repetir todo o processo quente e delicioso.

Toda vez que Heitor entrava e saía com menos


dificuldade, eu me perguntava se meu corpo já estava se
adaptando ao dele. Provavelmente sim. E eu me contorcia,
lânguida, enquanto seu antebraço tocava meus cabelos e
seus lábios abocanhavam minha boca, como se ela fosse
uma fonte de prazer. Era a terceira vez na noite que Heitor
e eu transávamos e eu não me importava nem com a
possível ideia de começar a ficar ardida por isso. Se
levasse em consideração que Heitor era grande, eu
provavelmente amanheceria muito mais afetada no dia
seguinte.

— Você é tão deliciosa, morena... tão apertada e


quente...

Quanto mais ele falava, mais eu ia me abrindo mais


para que seu sexo tivesse mais acesso ao meu corpo,
molhado e dilatado, me servindo como uma bandeja para
ele, para que Heitor entrasse e fizesse o que bem
entendesse comigo. Era bom fazer sexo com ele, e era
bom saber que eu já não tinha mais nenhum receio. Era
bom fazer sexo com quem a gente amava. Era bom saber
que por causa de Heitor eu estava curada.

— Diga que me quer... — supliquei — por favor...


— Eu a quero... — entrou mais uma vez em mim de
uma forma muito, muito dura e profunda — muito... eu a
quero muito...

Gemi, grunhi, eu queria mais. Muito mais.

Heitor me puxou para seu colo e agora ficamos


transando sentados. Eu pulava em cima dele enquanto
nossos corpos balançavam e meus cabelos voavam. Me
pendurei em seu pescoço e mordisquei seu ombro largo.
Ele era completamente gostoso, em forma, braços
músculos, peito, em tudo, e com certeza tinha ganhado
aquela forma em anos de academia. E eu amava aquilo.
Amava Heitor forte e poderoso sob minhas mãos. E não
queria mais pensar em ficar longe dele.

Abracei seu pescoço e passamos a nos beijar


suavemente, até ele voltar a me jogar novamente no
colchão. Heitor ergueu meus braços para o alto e começou
a beijar e mordiscar meus seios, indo até meu baixo
ventre, até me fazer sussurrar e gemer. E embora aquilo
fosse gostoso, de o toque de seus lábios ser delicioso, eu
o queria perto de mim, novamente corpo no corpo, pele na
pele, boca na boca.

— Vem... por favor...

— Já vou...

Alcançou minhas pernas, meu calcanhar. Me fez


cócegas. Trêmula, brinquei que ele deveria subir e que eu
não conseguia mais aguentar esperar.

— Ah, safadinha... — chupou meu ventre, voltando a


me envolver com seu corpo duro e forte — Você me quer?

— Muito...

— Eu também quero você... agora e sempre. Vai ser


minha mulher, Maya...

Sorri, não pensando muito naquilo. O que queria era


que ele não parasse mais de me amar e me beijar, que seu
corpo nunca mais se desgrudasse do meu. Talvez Heitor
só estivesse falando aquilo movido à emoção do
momento, mas não importava. Mesmo que no dia seguinte
acordasse e percebesse que tudo fora um erro, nada me
importava. O importante era o que estávamos vivendo
agora, naquele momento só nosso.

Heitor voltou a se afundar em mim e gemi baixo,


revirando os olhos, não conseguindo deixar de gemer
ainda mais alto à medida que ele se aprofundava, se
intensificava, se deliciava, me provando, me beijando,
fazendo com que nossas respirações irregulares se
misturassem e nossos corações selvagens batessem
loucamente. Ele voltou a beijar minha boca enquanto seu
corpo se movia contra o meu, enquanto seu rosto suado
colava no meu e suas mãos grandes e macias me
apalpavam com desespero.

E eu estava apaixonada. E nunca mais queria ficar


longe de Heitor Romano...
Capítulo 27
MAYA

AMANHECI COM OS raios solares em meus olhos e


com o som de vozes infantis ao longe. Virando de um lado
para o outro na cama, desejei não acordar nunca mais.

Não. Não. Não.

Estava tão bom...

Por que eu tinha que acordar?

Ah, não, que droga... não!

Não queria sair daquele sonho mágico, daquela


felicidade plena, de toda aquela satisfação que eu
experimentara. Mas precisava!

Abri um olho e depois o outro e então pisquei, meio


fora de órbita, tentando me localizar. Aquela casa...
aquele lugar. Estava no Rio de Janeiro, hospedada na casa
de Elena e Diogo, amigos de Heitor. Isso.

Meu Heitor

Onde ele estava?

Sentei na cama quente e espaçosa e olhei em redor.


Ajeitei os cabelos para trás e voltei a contemplar o dia
maravilhoso que se estendia lá fora. Céu azul claro, sol
brilhante e brisa que não chegava a tirar meus cabelos do
lugar. Foi então que tudo fez sentido. Nada tinha sido
sonho. Eu dormira com Heitor! Tínhamos passado a noite
toda nos amando!

Tudo começara com um beijo... a gente se beijara. Eu


beijara Heitor, ele correspondera. Fizemos amor mais de
uma vez. Primeiro no cassino e depois em casa, no quarto
onde agora eu podia relembrar os instantes que
compartilhamos. E não podia negar que Heitor tinha sido
fofo comigo, e romântico, e gentil. E gostoso. Tinha me
tocado de várias formas possíveis na cama sem me
machucar.

Heitor não fora bruto como imaginei que seria, nem


abusivo. De forma alguma. Fora terno e delicado, como na
nossa primeira vez em São Paulo. Palavras doces saíram
de seus lábios em forma de cascata e eu me entreguei sem
culpa e sem arrependimento. E nem agora eu me sentia
errada por ter passado a noite nos braços daquele homem
viril e poderoso.

Saí da cama e apenas nessa hora senti um pouco de


desconforto nas partes íntimas. Sentei novamente e
recordei que Heitor não tinha usado camisinha em
nenhuma das vezes em que ficamos juntos. Bom, que a
sorte nos ajudasse.

Com as mãos nos cabelos, admiti a mim mesma que


isso tinha sido muita irresponsabilidade. E, afinal, o que
estava acontecendo comigo? Eu sempre fui uma garota
responsável e ajuizada! Por que agora estava com a
cabeça fora do lugar? Por que estava me deitando com um
cara que eu sabia que fazia coisas erradas e que odiava
meu pai? Bom, devia ser porque eu estava apaixonada!
Não só apaixonada, completamente apaixonada!

Me joguei na cama pela segunda vez, com as mãos no


rosto, tentando esconder um sorriso travesso.

Eu estou apaixonada por ele!

E como o dia estava lindo naquela manhã!

Era engraçado como tudo ficava perfeito e mágico


quando a gente estava apaixonada. Eu via pássaros
cantando, nuvens passeando lá em cima no Céu azul e o
sol piscando com uma carinha alegre para mim. E no
firmamento o nome Heitor espumava em forma de vários
coraçõezinhos.

Heitor. Heitor. Meu Heitor.

Ai, que ridícula, Maya.


Saí da cama pela segunda vez, rindo de mim mesma
pelas idiotices pensadas. Escovei os cabelos e substituí a
camisola por uma saia jeans e uma blusa de tecido. De
repente os gritinhos infantis lá de fora voltaram a soar em
meus ouvidos, agora parecendo mais próximos.

Largando a penteadeira, dei passos até à janela e


espiei a tempo de ver um homem feliz brincando com uma
garotinha. Um homem feliz e carinhoso. Diogo. Diogo
pegava sua filhinha e a erguia no alto. Bem lá no alto.
Esmeralda parecia não ter medo de nada. Estava com os
bracinhos esticados e gargalhava, pedindo mais ao pai.

— Mais, papai! Mais, papai! Mais alto!

Eu ri. Que família bonita era aquela! E feliz. Não havia


como não ser contagiado com o amor que transbordava
dali. Logo avistei Elena se aproximar dos dois. Ela batia
palmas e sorria, aprovando a brincadeira entre pai e filha.
Por um momento me lembrei de quando meu pai me
segurava daquele jeito que Diogo segurava sua pequenina.
Por um momento me senti melancólica. Papai não era o
mesmo pai amoroso há muitos anos...

Sem conseguir me afastar da janela, sorri novamente


ao acompanhar a cena da família lá embaixo. Até que de
repente uma batida na porta me chamou a atenção e então
uma bandeja de madeira farta se revelou para mim. Um
homem lindo e perfeito apareceu atrás dela. Heitor. Seu
sorriso radiante aqueceu meu coração. Não tive como não
sorrir de volta. Que engraçado. Há poucos dias eu o
odiava! Ou tentava odiá-lo.

— Bom dia, guria — fechou a porta atrás de si com o


calcanhar — dormiu bem? Espero não ter decepcionado.

— Me decepcionado? Por quê? — abandonei a janela


e pulei em seu pescoço assim que ele pousou a bandeja
farta sobre a cama — Hmm, isso tudo é pra mim?

— Só pra você — me cheirou, carinhoso.

— Não sabia que prisioneiras recebiam todo esse


conforto — dei-lhe um beijo na boca e Heitor
correspondeu.

— Você não é minha prisioneira, é minha garota agora.

— Sua o quê? Sua garota? É sério? Tem certeza?

— É claro que tenho — sentou na cama ao lado da


bandeja e ergueu sua grande mão, me convidando a me
unir a ele. Nem preciso dizer que aceitei. Deitamos.
Ficamos face a face, Heitor e eu, e a bandeja entre nós
dois. Havia muita coisa gostosa ali, como suco de
maracujá, pães frescos, geleia, bolachas e outras
guloseimas. Toda aquela gostosura abriu meu apetite.

— Acho que sou bom nesse negócio de preparar café


da manhã, guria. O que acha? Bom, pelo menos nunca me
falaram o contrário.

— Vou dar a nota final depois de provar tudo, seu


convencido — joguei meus cabelos para trás, animada
com aquele dia.
— Prove esse — colocou um pedaço de doce em
minha boca.

— Hum... muito bom, é uma...

— Bolacha. Aqui eles chamam de biscoito.

— Biscoito — eu ri — Já sabia disso. Adoro comer


biscoitos então.

Heitor pegou uma colher de iogurte e também a levou


até minha boca. Abri o lábio para receber o segundo
alimento do dia.

— Vai me dar o café todo na boca, é? — ri, limpando


o vestígio de iogurte que ficara em volta da boca, me
sentindo cuidada. Era bom me sentir cuidada assim. Olhei
para Heitor, aqueles olhos azuis cor violeta e fiquei
pensando em como ele era gentil e carinhoso quando não
estava bravo.

— Vou mimar você — encheu outra colher para me dar


— É o mínimo que posso fazer pra tentar me redimir pelas
coisas terríveis que fiz. Vai ser tratada como princesa a
partir de hoje, malagueta. A princesa Malagueta, a mais
apimentada de todas — tocou meu rosto com carinho.

— Sério isso? — eu gargalhei e ele gargalhou em


seguida. Encostou sua boca na minha para um novo beijo.
Heitor era outra pessoa agora. Bem diferente do cara que
até dias atrás eu tinha conhecido. Na verdade, ele agora
me lembrava muito mais o sujeito com o qual eu tinha
esbarrado na lanchonete. Era novamente mais carinhoso,
mais atencioso e delicado. Seu sorriso era confortante e
suas feições me passavam segurança e não mais medo.

Após afastar sua boca da minha, beijou minha testa,


depois minhas bochechas. E adorei aquela forma
carinhosa dele me tratar. Ninguém me tratara assim com
carinho e devoção.

— Vou cuidar de você, pequena. Juro que vou.


Peguei um pedaço de pão e o levei à boca. Heitor me
olhava e aquilo me deixava encabulada.

— Vai ficar me olhando comer?

— Ah, não diga que tá envergonhada. Não fique


envergonhada. Você é linda de qualquer jeito, Maya.
Comendo, rindo, brigando, dormindo...

— Dormindo também? Ah, meu Deus, você me viu!

— É claro que vi. Também é linda dormindo, fugindo,


chorando.

— Chorando?

— Mas não quero que chore mais — voltou a tocar


meu rosto delicadamente e me olhou fixamente — Não vai
mais chorar, morena. Não comigo.

Uau.
Aquilo foi a melhor coisa que eu ouvi!

Ergui a mão e toquei seu rosto másculo e bonito.

— Acho que isso é um sonho. Me diga por favor que


não vou acordar de repente e ver que tudo não existe.

— É mais que um sonho — mordiscou minha


bochecha, me fazendo cócegas com a pressão da sua
barba — Estamos juntos, Malagueta. Você e eu. E não vou
deixar se afastar de mim tão fácil assim.

— É uma promessa?

— É claro que é — beijou minha boca, me conduzindo


a uma viagem gostosa e louca. Com direito a muitas
viradas de rosto — eu garanto a você.

Heitor disse que garantia. Se ele garantia, então eu


devia confiar em sua palavra.
***

Naquela noite não precisamos mais encenar nada.


Éramos um casal comum e apaixonado que agia como tal.
Durante o jantar tive uma não tão agradável surpresa. A
irmã de Diogo, Carol, a mesma que beijara Heitor no
jardim, apareceu. E para o meu desconforto, estava
desacompanhada.

— Então, Heitor, até quando vai ficar no Rio? —


indagou Carol, olhando para ele. Ela não olhava para mim
e pensei se era uma forma de me provocar. Mesmo que
desconfiasse de que não éramos namorados de verdade,
deveria ser mais sensata e saber respeitar. Não agir na
maior cara de pau, como se eu não existisse ali.

Heitor mexeu o garfo no prato de porcelana, antes de


responder:

— Vamos ficar até amanhã, Carol. O trabalho em São


Paulo me chama.

— Ah, que pena.

— E Maya nunca ficou tanto tempo longe de casa —


falou, me incluindo na conversa. Eu assenti em silêncio.
Gostei daquela maneira dele agir, como se eu fosse
importante. Heitor pegou minha mão e a levou aos lábios.
Trocamos olhares apaixonados e Carol certamente ficou
sem graça. Ouvi pigarros.

— Bom, então seria bom que aproveitassem o último


dia no Rio — a morena não se deu por vencida — Se ela
não conhece a cidade, sugiro que passeiem muito o dia
inteiro. Quem sabe o Cristo Redentor? Turistas curtem
muito. Ou o Mirante Dona Marta. Ou talvez as praias. Tem
feito sol de rachar. Devia levar sua namorada pra se
banhar. A gente sempre nadou juntos em Copacabana ou
em Ipanema.

Novo pigarro que eu não soube de onde partira.


— Eu adoraria — forcei um sorriso educado e então
Heitor se levantou calmamente da mesa, surpreendendo a
todos.

— Bom, a conversa está muito boa, mas se nos derem


licença, Maya e eu vamos subir. Estamos cansados. Ainda
não nos recuperamos da noite de ontem.

— Espero que não tenham sido atrapalhados pelo


barulho que fizemos pela manhã — Elena falou,
preocupada, ao lado de Diogo, que agora atendia ao
telefone. Se Heitor era ocupado, Diogo parecia ser o
dobro.

— Oh, não, é que demoramos muito a pegar no sono


ontem — sorri para Elena — Mais do que deveríamos.

Heitor me puxou pela cintura e antes de nos


despedirmos de todos à mesa notei a expressão de
surpresa no semblante de Carol. Não me importei com
isso. Subimos as escadas brincando e quando chegamos
no hall, já no segundo andar, Heitor me segurou nos
braços e me jogou contra seus ombros largos.

— Não acredito que tá fazendo isso! — estapeei suas


costas — acho bom me soltar, homem das cavernas, ou
vai ficar marcado até chegarmos ao quarto.

— Essas mãos de fada? Sem chances — desdenhou.

— Presunçoso!

— Marrenta!

Quando alcançamos o quarto, meu loiro perigoso me


pôs no chão e me puxou para um novo beijo. Um mais
lento e demorado, que fez abrir meu apetite, mas dessa
vez o sexual.

— O que foi aquilo lá embaixo, hã? — Heitor riu, me


mantendo colada em seu corpo.

— Aquilo o quê?
— Uma indireta para a concorrência?

Eu gargalhei. Sabia que ele se referia à minha resposta


áspera a Carol. Abracei seu pescoço com os meus dois
braços e fiquei na ponta dos pés, afinal, Heitor era muito
mais alto.

— Nem percebi o que falei.

— Você é muito ciumenta, malagueta, e saber disso foi


uma surpresa.

— Não sou não! — protestei, sabendo que ele tinha


razão — você que é muito convencido!

— Eu assumo que sou convencido, mas por ora, vamos


continuar o que começamos a fazer ontem.

***
A viagem ao Rio terminou rápido e dentro de dois dias
já estávamos de volta a São Paulo. Eu agora me
perguntava se as coisas voltariam a ser como antes entre a
gente. Tive medo. Heitor na frente de seus comparsas
parecia me tratar com frieza. Provavelmente porque não
queria demonstrar fraqueza ou talvez porque não quisesse
demonstrar para eles que nós dois estávamos nos
acertando.

Ao pisar na sala de estar, já na mansão, algum tempo


depois de termos chegado, estranhei o fato de não ter visto
Heitor a manhã inteira. Na realidade, desde nossa volta
para casa ele estivera distante. Embora respeitador, no
voo de volta para São Paulo, Heitor não tinha sido tão
atencioso e romântico como fora no Rio de Janeiro. Fora
gentil, claro, quando me ajudou com as malas e também
quando me orientou sobre as questões de segurança do
avião, todavia suas palavras e seus gestos tinham sido
todos muito bem contidos.

— Cadê o seu chefe? — indaguei a Chucky, que como


sempre, parecia estar sério e mal encarado. Não era de
falar. Mal respondia quando perguntávamos algo a ele.
Agora acendia um cigarro e eu me perguntava se me
ignoraria.

— Onde está o Heitor? — insisti.

Chucky deu uma nova tragada e soltou a fumaça pela


boca. Ponderei se até sua baforada era sinistra.

— Foi resolver alguns problemas — murmurou, por


fim, com a cara de quem não estava com saco para aturar
uma garota chata e apaixonada atrás de seu par romântico.

— Ele falou isso pra você?

Chucky se limitou a dar de ombros, como se dissesse


'o que você acha?'.

— Ele deixou algum recado pra mim?

Chucky não me olhou e simplesmente se afastou, me


deixando no vácuo.

Engoli em seco.

Não era possível que os capangas de Heitor não


tivessem testemunhado nosso romance lá nas terras
cariocas, entretanto, pensando bem, talvez eles só
achassem que era mesmo uma encenação. Afinal, o
próprio Heitor fizera questão de deixar isso bem claro.

Segurei o corrimão da escada, pensando se voltaria a


ser uma prisioneira. Então Heitor não tinha coragem de
me encontrar para falar isso? Tinha se mantido todo
esse período de viagem longe de mim só por que queria
voltar para onde tínhamos parado e lhe faltava coragem
para me explicar?

Sem querer pensar nessa questão, subi os degraus e


percorri de volta o hall, até chegar no quarto. Estava
chateada, magoada e decepcionada. Pensei se Heitor só se
aproveitara de mim, se ele só me enganara e iludira.
Talvez até tivesse tido boa intenção no início, todavia,
pode ter pensado melhor e mudado de ideia. Ou talvez eu
estivesse chateada demais para pensar com a cabeça...
isso. Não custava nada esperar que Heitor voltasse para
então questioná-lo pessoalmente. Pois bem, era isso o que
eu faria. E eu torcia para que ele não demorasse tanto.
Capítulo 28
HEITOR

— VOCÊS SABEM QUAL é o lance de Max — falei


enquanto olhava para Jarbas e Theo, que ficaram
encarregados de me dizer tudo o que tinha acontecido
enquanto eu ficara fora.

Max era um mafioso como eu e como Diogo Del Rei,


só que ao contrário de nós dois que trabalhávamos com
cassinos e rede de boates, o negócio dele envolvia drogas
e tráfico de mulheres, algo que Feroz e eu não
aprovávamos. Já tínhamos sido contatados por Max anos
atrás e ele nunca conseguira nos convencer a abrir uma
sociedade com ele. E apesar de Jarbas ter dado ao sujeito
o meu recado, dizendo que eu não iria encontrar Max,
para a minha surpresa, Theo me convenceu a fazê-lo.

— Ao menos ouça o cara, Heitor. Escute o que ele tem


a dizer. Não precisa concordar com ele, nem fechar o
negócio, só escute o que Max tem pra falar.

— Tá sabendo, por acaso, de alguma coisa que eu não


sei?

— Heitor, só estou pedindo que tenha consideração


com Max.

— Sempre tenho consideração com os homens que me


procuram, Theo, não é essa a questão. A porra da questão
é: sabemos do lance de Max e sabemos principalmente
que não nos envolvemos com esse tipo de merda.

Theo suspirou e se sentou mais perto de minha


poltrona.

— Engane Max, Heitor. Faça o que sempre faz. E


quando ele pensar que estamos na dele, você dá o bote.

Dei uma tragada no cigarro e soltei sua fumaça para o


alto, pensando se meu irmão tinha razão. E então, duas
horas depois, concordei em encontrar o sujeito num
restaurante discreto da cidade.

— Heitor — Max levantou-se para me cumprimentar


quando sentei numa cadeira diante dele — Fico feliz que
tenha mudado de ideia e vindo escutar o que tenho a dizer.
Vou ser breve porque sei que não tem tempo a perder.

— Ótimo.

Sabendo que meus homens estavam montados como


guardas lá do lado de fora, fiz um pedido ao maitre.
Jarbas e Theo também se sentaram à mesa para
participarem da conversa. Os dois tomariam mais
champanhe do que falariam qualquer coisa.

— Certo, Max, por favor, vamos direto ao ponto. Qual


é a proposta?

— Muiro bem, gosto disso em você, Heitor — Max riu


— Bom, é o seguinte. Em primeiro lugar, quero dizer que
vai rolar uma grana alta. Grana preta mesmo, muita grana
envolvida. Em segundo lugar, quero dizer que o negócio é
seguro. Temos tudo sob o controle, não precisa se
preocupar, que não é nenhuma furada.

— Do que se trata?

Max bebeu um gole do champanhe da taça.

— Negócio com garotas...

— Tráfico? Tá falando sério? Eu sinto muito, mas não


vou perder meu tempo aqui — abotoei um dos botões de
cima do paletó, pronto para me levantar.

— Ei, Heitor, calma, calma, espere — Max pediu —


Sei que seu lema é diferente do meu, mas...

— Heitor — Theo suplicou, mas eu o ignorei.

— Heitor, meu novo esquema pode nos render muitos


milhões de dólares, cara! É um negócio vantajoso, não
tem ideia de como. Além do mais, Diogo Del Rei é Diogo
Del Rei. Não precisa seguir os trâmites dele, ainda que...
Fiquei com raiva porque o cara queria a todo custo me
convencer a fechar uma sociedade com negócios que eu
não apoiava. Inclinei-me próximo a seu ouvido e me
contive para não perder minha gentileza com ele. Apenas
sussurrei.

— Não é por Diogo que estou aqui, Max, é por mim.


Já disse que não pactuo com esse tipo de coisa. Essa é a
minha resposta final. Sacou?

Ajeitei-me novamente, antes de seguir pelas mesas


organizadas e do restaurante. Tirei os óculos escuros do
paletó e os pus nos olhos. Percebi que Jarbas logo veio
atrás de mim, então quando cheguei no lado externo do
estabelecimento, fiz sinal com a cabeça para que Chucky e
Oscar soubessem que era hora de irmos embora. Percebi
que após olharem mais uma vez em volta, os dois me
acompanharam até o audi que estava estacionado lá fora.

***
THEO

HEITOR SE RETIROU e tive que me virar com o


olhar de raiva que Max me lançava. Vi Jarbas seguir meu
irmão e num dado momento olhar para trás, com um pouco
de desconfiança. Não gostava dele, mas para disfarçar, fiz
sinal positivo com a mão.

— Que merda é essa, Theo? — Max sussurrou, o rosto


redondo e gordo vermelho de raiva.

— Max, calma — pedi — ele vai voltar atrás, confie


em mim.

— Não, ele não vai voltar atrás. Não viu como ele
ficou furioso? Ele vai voltar atrás uma ova, Theo! Você
me enganou, porra!

— Max...
— Seu irmão é cabeça dura! Ele só faltou dizer na
minha cara que era pra eu tomar naquele lugar, entende? E
você me fez perder tempo vindo aqui também!

— Posso convencer Heitor, Max. Relaxa. Esse nosso


negócio vai se concretizar.

Mas ao contrário de relaxar, Max levantou-se, prestes


a dar um murro na mesa. Acho que só não deu porque se
lembrou de que estava num restaurante, o que significava
que estava num local público.

— Disse que traria teu irmão aqui e que ele me daria o


que procuro. Disse que ele aceitaria o acordo. Você me
enrolou e não vou mais perder meu tempo!

— Eu atraí Heitor até aqui, Max. Acho que mereço um


voto a mais de confiança — retruquei — Se dependesse
do Jarbas, você não teria nada. Pense nisso. Mas não foi
minha culpa se não conseguiu convencer Heitor a aceitar o
negócio. Agora, por favor, senta.
Max voltou a se sentar. Resmungou, mas pareceu levar
a sério o que eu falava.

— Conheço meu irmão como ninguém — prossegui —


E mesmo que ele não esteja interessado no negócio, posso
convencê-lo de uma outra forma — bebi mais um pouco
do vinho branco que estava na mesa — Bom, você não
sabe, mas tenho um trunfo na manga.

— Trunfo? Que trunfo? — arqueou uma sobrancelha


— Preciso do dinheiro de Heitor e não de trunfo nenhum.

— Uma garota.

Max piscou. Pensou. Depois começou a rir.

— Tá falando sério? Uma garota?

— É sério, uma garota.

— Uma garota? — zombou — E o que é? Acha que


Heitor vai voltar atrás por causa de uma garota?
— Não é uma garota qualquer. É alguém especial.

— Não vou mexer com nenhuma namorada do Heitor.


Não sou maluco de fazer isso.

— Não é nada do que está pensando, Max. Relaxa.

***

Após deixar Max no restaurante e convencê-lo a


esperar um pouco mais, que Heitor me ouviria e que eu o
convenceria a nos ajudar com o projeto, ajeitei meus
cabelos escuros e segui em direção ao estacionamento
onde estava minha moto. Por falar em moto, a grande
razão para eu gostar tanto de montar uma era porque elas
me davam a sensação de liberdade, de força e controle.
Quando eu estava sobre uma delas era como se eu não
precisasse mais encenar nada, era como se eu pudesse ser
eu mesmo, um cara sedento por poder e status.
Estacionei em frente ao segundo restaurante luxuoso
meia hora depois. Guardei as chaves no bolso do paletó e
entrei. Me informei na recepção. Descobri que a mulher
estava à minha espera na mesa cinco. Olhei em redor e
não demorei a avistar a loira linda e estonteante. Safira.
Eu a amava. Havia anos que sentia uma fissura por ela,
desde quando Safira era uma modelo de passarelas e
desde que começou a se envolver com Heitor. Por um
tempo tentei esquecê-la, mas em vão. E fora uma droga
saber do romance dela com meu irmão todos esses anos.

Agora eu caminhava e me aproximava dela, me


sentindo o cara mais afortunado do mundo, aquela noite eu
teria a companhia de Safira. E dessa vez ela seria minha,
não me restavam mais dúvidas.

— Olá — sorri ao me aproximar.

Ela murmurou um palavrão, aparentemente furiosa, e


levantou-se, com um pouco de elegância.
— Disse que estaria aqui às sete. São sete e vinte —
falou, irritada —Nunca levei um bolo de alguém. Devia
saber que não é nada elegante deixar uma mulher
esperando. Foi um erro ter vindo aqui, vou embora —
antes mesmo que seguisse eu lhe segurei o braço
delicadamente. Ela me encarou.

— Quer perder a chance de reconquistar Heitor?

Ela se desvencilhou. Eu sorri. Eu sabia que ela ficaria.


Virei-me para ela e Safira me olhou, parecendo me
estudar, indecisa. Sua sombra nos olhos era azul e sua
boca vermelha de batom estava trêmula. Era louca por
Heitor, eu sabia.

— Sente-se, Safira, por favor — pedi, calmamente.

Lentamente ela concordou e voltou a se sentar.


Comemos alguma coisa e expliquei a ela que Heitor
estava trabalhando demais e por isso não estava tendo
tempo para vê-la.
— Ele tem outra, não tem? É isso. Fale a verdade.
Quem é a vadia que está saindo com seu irmão?

— Safira, Safira — sorri — não sei da vida íntima de


meu irmão. Confie em mim, Heitor gosta de você, mas
precisa de mais tempo.

— Não acredito nisso — resmungou.

— Ok.

Ela me olhou com expectativa.

— Certo, é outra, sim. Heitor anda com a cabeça no


meio da lua por causa dela, mas calma, vou ajudá-la a
reconquistá-lo. Confie em mim.

A mulher pousou as mãos lindas na boca, parecendo


desolada.

— Ela o enfeitiçou, Safira. A culpa não é dele, é dela,


mas sei o que posso fazer.
— O quê? Qual é o plano?

— Bom — suspirei — Pra começo de conversa,


Heitor precisa de um tempo. Você precisa desapegar um
pouco. Tem que parar de ficar em cima dele. E tem outra
coisa...

— Que coisa?

Toquei seu rosto carinhosamente e ela me olhou,


surpresa. Piscou. No entanto, logo percebeu o que eu
queria dizer. Tanto que cerca de uma hora depois
seguimos para o quarto do hotel onde ela estava
hospedada. Safira estava chorosa, tinha bebido além da
conta e agora se sentia a pior das criaturas. Sempre
desconfiei de que aquela mulher bonita fosse carente ao
extremo e eu estava certo.

— Theo, ela é bonita? Me fale se ela é bonita. Por


favor, eu preciso saber. Ela é mais bonita do que eu?

— Não, ela não é. Você é linda.


— É mais jovem, não é? Ela é mais jovem que eu.

— Ah, não importa — puxei a loira para um abraço e


ela se desmanchou em seguida.

Quando nos demos conta eu já estava em cima de seu


corpo branco numa cama ampla. Safira era boa de cama e
por isso Heitor ficara tanto tempo com ela. A mulher
gritava e gemia feito uma louca enquanto eu entrava e saía
de seu corpo pálido e febril.

Eu sabia que ela pensava em Heitor enquanto se


entregava a mim, mas não me importava. Não tinha nada a
perder. Aliás, era um extra, o que valia era uma boa noite
de sexo. Uma boa transa com a mulher que sempre desejei
ter em meus braços. Beijei aquela boca borrada de batom
vermelho e apertei seus seios macios. Depois os
abocanhei. De repente vi seus olhos azuis se
transformarem em castanhos. De repente ao invés de ver
Safira, vi a morena de Heitor ali. Maya. Merda. Por que
ela nunca saía de minha cabeça?
Quando tudo terminou, me mantive deitado na cama
enquanto Safira chorava e me acusava de ser um maldito
aproveitador. Levantei, ainda nu, e vi a mulher recuar dois
passos. Ela colou as costas brancas na parede gelada.

— Ah, qual é, Safira. Todo mundo sabe que você já


deu pra dezenas de homens enquanto ainda desfilava.
Agora não se faça de santa nem de moça de família.

— Acho melhor você ir embora.

— Você quer o Heitor de volta, não quer? Então é


melhor fazer o que eu disser. Escutou? Senão tô fora.

Com os olhos pensativos, ela mordeu o lábio, antes de


assentir com a cabeça. E eu sabia que passaríamos a nos
encontrar esporadicamente. E seria assim: Safira deitaria
em minha cama e eu teria todo o seu corpo para mim. Ela
ainda estava em boa forma, embora tivesse tido vários
homens ao longo dos anos e embora tivesse colecionado
muitas transas com meu irmão.
Pensei no quanto Heitor tinha se divertido com aquele
corpinho branco como a neve que desde o início deveria
ter sido só meu. Não podia fazer nada, mas era sempre
assim. Sempre Heitor, nunca Theo. Heitor era sempre o
mais bonito, o mais gostoso, o mais poderoso e o mais
rico. As mulheres suspiravam por ele e gritavam aos
quatro cantos que ele era fabuloso e fazia atrocidades na
cama. Sempre se atiravam nos braços dele, sempre
preferiam ele. Nunca Theo. E eu tinha que viver com isso.

No final do encontro com Safira, eu me olhei no


espelho e ajeitei meu cabelo. Pensei que sairia e que
ainda naquela semana voltaria a ter a mulher na cama. E
dessa forma eu viveria minha paixão doentia por ela.

E mesmo sabendo que na cama Safira


me dava enquanto pensava em Heitor, eu não me
importava.
Capítulo 29
MAYA

O AMOR ERA perigoso. Ardente. Colérico. E se em


frasco e tomado de uma forma impensada, virava veneno.

Eu passei a manhã toda e o restante da tarde me


sentindo solitária e pensando aonde Heitor estaria e o que
seria de nosso romance agora que tínhamos voltado para
São Paulo. Suspirei. Bom, será que nosso conto de fadas
estava com os dias contados? Pelo jeito sim. E um medo
ridículo e ao mesmo tempo insuportável me assombrou,
me dizendo que tudo vivenciado lá no Rio de Janeiro não
passara de um sonho, de uma doce ilusão. E tudo agora
poderia acontecer: até mesmo Heitor voltar a ser o cara
seco e vingativo que era. E se ele me desprezasse, seria o
meu maior castigo. Não era justo ele me desprezar justo
agora que eu ainda suspirava com os dias maravilhosos
que tivemos.
Para, Maya, para e não se atormente. Não se torture.
Você merece mais que isso, pense. E se tudo terminar, é
porque Heitor nunca valeu a pena.

De repente um zumbido lá fora me fez correr para a


janela. Vi um movimento na área externa da casa e soube
que Heitor chegava. De lá de cima pude vê-lo, impecável
e poderoso como sempre, os cabelos no lugar, o terno de
um azul marinho vivo e a postura de um modelo de
passarelas. Ele falava com alguns caras e sem que eu
esperasse, o azul violeta de seus olhos se encontraram
com os meus. Forcei um semblante tranquilo, não
querendo demonstrar o quanto eu estava ansiosa e aflita
pela sua chegada enquanto tentava detectar um sorriso no
canto de seus lábios. Qualquer sorrisinho que fosse, mas
não encontrei nada.

Ao menos rezei para que ele me procurasse tão logo


seus pés subissem a escada e suas mãos tocassem o
corrimão. Um borbulhar no estômago me assaltou. Era
bom estar amando alguém. Nunca tinha sentido isso antes
e agora a ideia de perder toda aquela sensação me
deprimia. No entanto, era bom amar e ser amado e não
receber aquele desprezo que Heitor parecia estar
decidido a me dar. Se Romano não podia mais demonstrar
o que sentia por mim, se não podia mais compartilhar
comigo os mesmos sentimentos, então era melhor deixar
de amá-lo de uma vez também.

Minha mão se ergueu até a janela e acenei para ele, e


para meu desapontamento, Heitor não acenou de volta,
contudo piscou daquele jeito lindo e charmoso, que só ele
sabia fazer, me deixando ainda mais exposta. Depois
desviou os olhos quando alguém o chamou e foi quando
me afastei da janela.

Ele iria me procurar, eu sabia que ia, e eu ansiava por


isso. Mordi o lábio, quase machucando-o. Soltei o
elástico que prendia meu rabo de cavalo e ajeitei com as
mãos a minha cabeleira negra. Em seguida respirei fundo.
Inquieta como uma adolescente apaixonada, eu o aguardei.
Só que a espera me deixava angustiada, então comecei a
cravar as unhas na palma das mãos, quase machucando-as.
Aflita, abandonei o quarto e disparei pelo corredor, logo
alcançando a escada circular. Me apoiei no corrimão
antes de ouvir a voz de Heitor soar na sala de estar.

Quando meus pés tocaram o piso de madeira brilhante,


vários olhares vieram em minha direção, alguns deles
eram acusatórios e outros um tanto desdenhosos. Sem
saber o que fazer ou dizer, apertei novamente uma de
minhas mãos, cravando as unhas nela, e novamente quase
machucando-a.

— Pessoal, me esperem no escritório — Heitor deu


um passo à frente, ainda me fitando, e mesmo sabendo que
seus amigos ainda estavam ali, sorri para ele, que não
sorriu de volta. Depois de um dia inteiro afastados, ele me
parecia muito mais alto do que era.

— Você é linda, sabia disso? — falou, quando seus


amigos já tinham se retirado.
— Hum. Obrigada.

Tocou meu rosto com carinho e devoção, mas eu tinha


medo de pensar que havia algo além de seus olhos e de
suas palavras.

— Como ficou?

— Bem. Mas senti saudades — me contive para não


me atirar em seus braços assim que ele chegou mais perto
e estremeci com o toque de seus lábios na altura de minha
orelha, numa parte sensível dela. Ri, adorando aquela
sensação de ter seu corpo duro e másculo contra o meu.
Agora desejava tê-lo na cama, sobre mim, me beijando
com aquela boca doce e ao mesmo tempo selvagem, me
tocando em regiões que eu nem sonhava que tinha
sensibilidade, com aquelas mãos grandes e me olhando
com aqueles olhos azuis maravilhosos.

— O que foi? — ergueu meu queixo com delicadeza.

— Demorou tanto, que achei que queria ficar longe de


mim — fui sincera.

— Pensou errado — seus lábios passaram a deslizar


em minha boca e nos entregamos ao beijo que começou
lento e passou a ficar ávido, quase desesperado.

— Adoraria carregá-la pro quarto agora, mas não


posso... — sussurrou em meu ouvido —Tenho que dar
uma reunião no escritório.

— Está bem — me soltei lentamente de seus braços.


Não queria parecer desesperada por ele nem queria
admitir a mim mesma que eu estava desesperada, ainda
que eu, de fato, estivesse. Heitor era maravilhoso, mas ele
não parecia ser do tipo de cara que aprovava mulheres
pegajosas.

— Não vou demorar — prometeu ao piscar os olhos


de um jeito charmoso — se comporte, malagueta.

— Vou tentar.
Ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto
via Heitor sumir pelo corredor. Me dei conta de que ele
não se importara com a ideia de seus capangas nos verem
juntos ali na sala. Ao contrário do que eu imaginava, ele
não tentara ocultar nosso romance. E isso era um bom
sinal. E isso reacendeu a chama do amor no meu coração.

***

Uma batida na porta fez meu coração disparar. Tão


logo ela se abriu, Heitor apareceu com o semblante
sereno. Seu breve sorriso iluminou seu rosto, me fazendo
confirmar o quanto ele estava feliz ao meu lado.

— Oi.

— Oi — dei um passo à frente, decidindo se me


atirava no pescoço dele ou não. Achei melhor esperar um
pouco, mais uma vez pensando em não parecer tão
ansiosa. Mas antes que fizesse qualquer coisa, Heitor se
desencostou da porta e avançou em mim. Me puxou para
si e me ergueu em seguida, segurando minha cintura,
elevando-me do chão. Ainda comigo no ar, me beijou. Um
beijo cálido e exagerado. Um beijo demorado e gostoso,
que me dizia que ele ainda estava louco pelo meu corpo.

— Você revela o melhor de mim, Maya. Sabia disso?


— sussurrou ao me colocar novamente no chão.

— Ok... — falei, os olhos cerrados, adorando ter meu


rosto contra seu peito forte e seu perfume entrando pelas
minhas narinas, então me agarrei mais forte em seu
pescoço rígido e mergulhei meu rosto em seu ombro,
ficando na ponta do pé.

Sem mais declarações de amor, Heitor se inclinou para


me beijar e uma de suas mãos mergulhou em meus
cabelos. Eu não era experiente na arte do amor mas sabia
que estava sendo uma experiência maravilhosa aprender
com ele.
Voltando a beijar-me, Heitor me conduziu à cama e aos
poucos nos despimos. Admirei o V em seu corpo, que ia
do peito até o abdome, e mordi o lábio, desejando aquele
peitoral duro e anguloso novamente em cima de mim. Era
engraçado não ter mais medo de nada, nem do sexo, nem
de Heitor. Era engraçado pensar que eu começava a gostar
daquilo, de ter momentos íntimos com ele e de me
entregar sem repulsa ao prazer. Compreendia cada vez
mais que o sexo poderia ser muito bom e prazeroso, se
feito com carinho, respeito e amor.

Heitor deitou sobre mim, forçando o peso contra o


meu, então afastei minhas pernas uma da outra para poder
recebê-lo. Era a quinta vez que faríamos amor e a cada
experiência a coisa ficava ainda mais natural e gostosa.
Arrastei meus dedos por suas costas largas, ora alisando-
as, ora cravando minhas unhas em sua pele, enquanto que
com os olhos cerrados eu não pensava em nada a não ser
no quanto aquilo era bom.

Assim que sua boca tomou a minha, sugando todas as


minhas energias, ergui meus dedos nos seus cabelos e os
puxei com sôfrego. Seus braços musculosos e malhados se
apoiaram em torno de meu rosto e eu os alisei. Era bom
sentir sua dureza contra meu corpo, sentir toda a sua
masculinidade exacerbada. Heitor me beijou mais uma
vez, um beijo quente e demorado, enquanto minhas mãos o
puxavam mais para perto. Sua ereção, que já estava no
auge, se endureceu ainda mais, clamando por liberdade
em frente à minha entrada. Então ele mergulhou em meu
corpo, suavemente, devagar, bem lentamente, de modo que
gemi baixinho, adorando aquela sensação de liberdade e
desejo. Heitor me desejava, assim como eu o desejava.
Puxei-o mais para perto enquanto me perdia no calor de
seu corpo e no prazer que suas investidas me
proporcionavam. Era bom ficar com ele, era gostoso, era
mágico. E Heitor fazia eu me sentir mais especial.

***
Acordei no meio da noite em seu peito cheiroso e me
dei o direito de ficar olhando para Heitor enquanto ele
dormia. Meu peito encheu-se de orgulho. Não me
importava mais com os julgamentos, não me importava
mais para quem ele era e o para o que ele fazia. Era claro
que estava tudo errado e fora do lugar entre a gente. Era
claro que eu estava sendo equivocada e irresponsável.
Era claro que não devia estar ali, que eu devia estar na
minha casa. No entanto eu não queria pensar no que
deveria ser e sim no que estava sendo.

Simplesmente apertei os olhos enquanto voltava a


pousar minha cabeça em seu peito, decidida a continuar.
Por mais um tempo eu queria aproveitar nossos momentos
e imaginar que aquela nossa troca de carinhos e amor
nunca acabaria. Queria viver o presente sem me
preocupar com o futuro ou lamentar o que acontecera no
passado. Eu queria viver o agora, o momento. Era tudo em
que eu pensava, em viver.

Talvez o amanhã me tirasse Heitor para sempre ou


talvez o amanhã nunca viesse. No momento eu não queria
pensar em nada disso, queria ficar aconchegada e juntinha
do homem que mudava a minha vida de uma forma
estranha e curiosa. E se eu neste momento me sentia mais
viva e também pronta para começar a viver, sem ser mais
refém das fagulhas do passado, parte disso tudo, dessa
minha liberdade, eu devia a Heitor. Graças a ele eu estava
curada e só queria aproveitar aquela cura que ele me
proporcionava. E além disso, nem que fosse por um
momento cronometrado, um momento com data para
acabar, eu queria ser a sua amada.
Capítulo 30
HEITOR

— QUE FOI, FOFINHA? — beijei Nora no rosto,


ignorando sua suposta chateação por eu ter ficado alguns
dias sem procurá-la, não permitindo que ela se esquivasse
de mim, embora eu soubesse que ela adorava fazer drama
apenas para ganhar mais atenção. Bom, no entanto,
dinheiro nenhum do mundo pagaria o que aquela mulher
fizera por mim no passado. Ela tinha me dado amor,
carinho, e me mostrado que era possível ter uma nova
família. E eu também sabia que estava sendo negligente
com Nora e me envergonhava disso. Bastava reconhecer o
que aquela mulher impressionante fizera em todos esses
anos e lhe dar mais amor e consideração. Era só isso o
que ela esperava de mim: amor e consideração.

Nora fazia questão que a chamássemos de mãe. No


início achei aquilo tudo muito estranho e complicado.
Com o tempo, todavia, as coisas começaram a ficar mais
naturais e eu não a via de outra forma que não fosse como
uma figura materna. E se para ela era importante ser
chamada assim, por que não lhe agradar? Eu não tinha
outra mãe no mundo, então que fosse Nora mesmo.

— São pra você — entreguei-lhe o buquê de flores. Eu


sabia que ela gostava de orquídeas, especialmente as
azuis.

Nora pegou as flores como quem não queria nada e fez


um muxoxo. Em seguida sorriu e aspirou o cheiro gostoso
que vinha das pétalas.

— Então chega com um buquê cheiroso e pensa que


vai me comprar, né, seu sem vergonha?

Dei minha sonora gargalhada e em seguida a puxei


para um novo abraço.

— Desculpe — beijei-lhe os cabelos escuros que


ainda não tinham muitos fios brancos.
— Ah, para de graça!

Com um sorriso que não cabia no rosto, bem diferente


da face fechada que antes tinha, Nora se afastou com as
flores nas mãos, dizendo que ia arranjar um bom lugar
para elas ficarem, provavelmente perto da janela da sala
de estar.

— Perdoado agora? — gritei de onde estava para ela,


enquanto puxava uma cadeira para me sentar — Hum, o
que temos hoje nessa mesa? — olhei para os pratos
recheados e variados.

— Você pegou no ponto fraco dela — Theo falou,


limpando a boca com um guardanapo de tecido — Isso
não vale.

Ocupei uma cadeira de madeira e olhei para Maurinho


que estava ouvindo som nos fones. Um garoto de vinte
anos. Não trabalhava, mas estudava e eu sabia que ia
longe. Entretanto por um tempo ele andara dando dor de
cabeça para Nora e Mauro e eu esperava que aquela fase
já tivesse superado.

— Que é? Tá com essa cara fechada por quê? —


perguntei ao meu irmão caçula. Assim como Nora, ele era
negro. A diferença era que Maurinho era magro como um
palito de fósforo, ao contrário de nossa mãe adotiva.

— Nada — ele murmurou, aparentemente


desconfortável com minha maneira de examiná-lo.

Peguei um pedaço de pão da mesa, ainda examinando


meu irmão caçula. Eu não tinha irmãos biológicos no Rio
Grande do Sul, mas com Nora ganhei uma família
completa. Theo e Maurinho eram mais novos que eu e por
causa disso de alguma forma tomei para mim a obrigação
de cuidar deles. Era sempre assim, desde o tempo de
colégio. Theo apanhava e eu ia lá comprar o barulho dele.
Já Maurinho, quando Nora o adotou, ele tinha 2 e eu tinha
quinze. Com o tempo não foi difícil me sentir o pai dele.
— Maurinho está emburrado e você anda todo
animado, né, Heitor? — Theo zombou, me olhando.

— Animado? Acho que nem tanto — levei o pedaço de


pão à boca.

Theo me examinou, mas neste momento Nora voltou


tagarelando e se sentou ao lado de Maurinho. Arregalou
aqueles olhos pretos e expressivos que tinha para ver o
que o garoto fazia. Só agora eu percebia que ela estava
com um enorme avental em volta do corpo e que estava
secando a mão num pano de prato.

— E a garota, Heitor? — perguntou de repente, quase


me fazendo cuspir o pão que eu estava comendo. Em
seguida desceu novamente os olhos no caçula, que estava
cantarolando uma música horrível de funk.

Olhei para Theo em tom de ameaça por ele ter dado


com a língua nos dentes sobre mim e Maya.

— Heitor? — Nora insistiu.


Pigarreei.

— Hum, não é nada sério — murmurei, não querendo


falar muito sobre o assunto. Na verdade, estava
interessado em Maya, sim, mais do que deveria, só não
queria ficar gritando aquilo a quatro ventos.

— É a mesma que foi pro Rio de Janeiro com você?


Aquela de nome difícil? Bom, e por que ela não está hoje
aqui?

— Boa pergunta — Theo pôs lenha na fogueira.

— Entendi... então ela pode ir pro Rio com você, mas


não pode almoçar na casa de sua mãe. Que consideração
— Nora resmungou.

— Ah, mãe, deixe pra uma próxima vez.

— Vou cobrar — me lançou aquele olhar terno e ao


mesmo tempo ameaçador que só ela sabia dar — E sabe
que cobro mesmo... — balançou a cabeça negativamente
— Heitor, Heitor, menino, o que anda acontecendo com
você? O que tem aprontado? Você não me engana... aliás,
nenhum dos três me engana — e lançou um olhar
acusatório a Theo antes de começar a nos servir.
Maurinho foi o primeiro e Nora gritou com ele: — Tire
esses cotovelos da mesa, menino!

— Onde está Mauro? — perguntei, olhando em redor.

Mauro era um homem bom, contudo parado demais.


Foi ele quem nos criou ao lado de Nora. Era seu
companheiro.

— Está lá dentro fumando cigarro. Já avisei que não


quero ninguém fumando aqui na mesa enquanto
almoçamos.

Eu ri. Pensei em como era bom estar ali, naquele clima


familiar e ver o quanto Nora era divertida, mesmo sendo
autoritária.
***

Após o delicioso almoço, encontrei Mauro vendo um


filme na sala de estar. Ele parecia sereno enquanto olhava
para a tela LED.

— Tudo bem?

— Tudo indo, e você? Senta aí — tinha os braços


esticados em volta do sofá.

— Os problemas vêm e a gente não pode se livrar


deles — me sentei a seu lado — O que tá vendo?

— Um filme de guerra. Adoro filmes de guerra, sabe


disso.

— É, eu sei — peguei um cigarro do bolso e ofereci


um a ele. Nós dois passamos a fumar enquanto olhávamos
para o filme europeu ou americano. Eu não sabia dizer.
Olhei para Mauro e percebi que ele quase não piscava
enquanto olhava, vidrado, para a TV.

— Me diga, ainda andam tendo problemas com


Maurinho? — perguntei.

— Bom, nunca podemos nos livrar dos problemas —


sorriu, repetindo a frase que eu comentara quando
cheguei.

— Que droga. Pensei que ele tivesse superado.

— Ele tem dado dor de cabeça ainda, mas nada


diferente do que passamos com Theo ou mesmo com você.

— Nunca usei drogas.

Suspirei profundamente.

Ao contrário de mim, Theo havia tido problemas com


drogas no passado. Então um belo dia aceitou ir para uma
clínica de reabilitação e passado algum tempo voltou
liberto do vício.
— Ele é jovem, Heitor, e rebelde, isso vai passar. É
coisa de adolescente.

— Ele tem 20 — suspirei, desanimado — Certo, vou


lá falar com ele.

— Hum.

Sem esperar por uma resposta mais concreta de


Mauro, deixei a sala e segui em direção a escada que
ficava perto do corredor da cozinha. A casa não tinha
mistério. Era grande, bonita, mas fácil de achar os
cômodos. Eu a comprara para Nora e Mauro logo assim
que comecei a ganhar dinheiro com os negócios no
cassino. Nora e Mauro, no fundo sabiam o que eu fazia.
Também sabiam sobre Theo. E por mais que aquele
discurso de eu desejar corrigir meu irmão caçula por
conta das drogas que ele usava fosse um tanto hipócrita,
eu na verdade, não queria que Maurinho se destruísse
daquela forma. Além disso também não desejava que ele
algum dia seguisse os meus passos que eu na máfia.
Subi degrau por degrau, até chegar no andar de cima.
Eu sabia que Maurinho estava lá, afinal, foi o primeiro a
deixar a mesa do almoço, uma hora atrás. Assim que
encontrei seu quarto, vi uma legenda feita a mão na porta:
"não entre sem bater". Respeitei o pedido. Bati. No
entanto ele não atendeu.

— Maurinho, abra!

Bati de novo. E nada.

— Maurinho? Tá aí?

Ele não respondeu. Foi então que ouvi o som que vinha
lá de dentro e me dei conta de que estava com a música
alta.

Segurei a maçaneta e a girei. Em segundos estava


dentro do quarto, ouvindo aquela música eletrônica
horrorosa e sendo infestado pelas porcarias que ele
fumava. Impaciente, apertei a tecla e desliguei aquela
porra de som que estava no último volume.
Meu irmão caçula me lançou olhar acusatório.

— Quê? Não leu a legenda?

— Dane-se a legenda! Vim aqui falar com você!

— O quarto é meu, Heitor, cai fora!

— Como é?

Dei um passo e pensei em como ele estava se tornando


um sujeitinho mal-criado. E pensar que tinha sido um
moleque educado e gentil, até poucos anos atrás. De nós
três, sempre achei que Maurinho fosse o melhor. Sempre
apostei minhas fichas nele.

— Tá pensando que tá falando com quem, moleque? —


cheguei mais perto e o fulminei com os olhos — Hã? É
assim que fala comigo?

— Qual é, Heitor?
Furioso, dei um tapa forte em sua mão e então a
porcaria que ele segurava voou longe.

— Porra, Heitor! Que merda é essa, cara? — gritou e


pensei que ele fosse chorar como uma criança.

— Que é? Vai chorar? Chora, neném. Sabe que está


fazendo coisa errada, não sabe? — dei-lhe um cascudo —
Sabe que tá fazendo merda, né? Levanta daí e vá arrumar
essa porcaria de quarto. Isso tá lixo.

— O quarto é meu, caralho! Me deixe em paz! —


gritou, mas sua raiva era como a de um garoto frustrado.

— O que falou? Vai me encarar agora, é? Agora é


assim? Todo machão pra me enfrentar? — dei-lhe outro
cascudo e ele se afastou. Peguei a droga que tinha voado
longe e me segurei para não lhe esfregar no rosto.

— Tem ideia da besteira que está fazendo? Tem? Tem


noção do que é isso aqui, seu bosta?
— Para, Heitor, me deixe em paz — chorou.

— Você tem uma família, seu filho da puta! — dei-lhe


um terceiro cascudo — Gente que se importa e que cuida
de você! Agora levanta daí e vá arrumar esse quarto!
AGORA!

Mesmo contrariado, Maurinho se levantou e começou a


colocar as coisas no lugar. A porta se abriu de repente e
Nora passou por ela.

— O que está acontecendo aqui? Vocês estão


brigando... meu Deus — levou as mãos à boca quando viu
em que situação estava o quarto do caçula — Você ainda
está fumando essas porcarias, seu menino rebelde? —
partiu para cima dele, dando-lhe tapas nos braços e nos
ombros, mas Maurinho se encolheu. Nora estava furiosa e
todos nós sabíamos que quando ela ficava assim ainda era
pior do que eu.

Saí do quarto e deixei que ela terminasse a conversa


com o filho mais novo. Desci a escada e encontrei Theo lá
embaixo, na varanda. Ele também iria para casa. Theo
morava numa cobertura num bairro vizinho ao meu.

— Quer carona? — perguntei.

— Não, hoje estou com a moto — colocou o capacete


e o ajeitou na cabeça — Ela já voltou do conserto.

— Saquei.

— Gostei do que fez lá em cima com Maurinho, Heitor


— falou, pegando no guidau — Já tinha tentado falar com
ele, conversa de irmão pra irmão, mas não adiantou. Eu
disse a ele que com você as coisas seriam piores.

Peguei os óculos escuros do bolso da camisa azul


celeste e os pus nos olhos.

— Ele vai tomar jeito agora.

— Assim também espero.


Theo ligou a moto e saiu debagar com ela. Aos poucos
tomou distância e desapareceu. Antes de sair da casa de
Nora, consultei o celular e vi uma notificação de
mensagem nova. Era Maya. Comecei a ler.

já estou com saudades

Sorri. Escrevi de volta:

tô voltando pra casa, ansioso pra te ver

Não esperei que ela respondesse. Saí de casa e me


alojei na Mercedes. Liguei o carro e logo dei a partida.

***

É fácil agradar uma mulher.

Quer agradar uma mulher? Então NUNCA, JAMAIS


chegue em casa com as mãos abanando. Pois é. Era bem
uma lição que eu tinha aprendido há muitos anos e nunca
esquecera dela. Gentileza é tudo e agrados ajudam muito.
Além disso, eu bem tinha percebido o efeito positivo que
aquilo fizera na minha relação com Nora momentos atrás.
Então resolvi seguir o mesmo script com Maya. Passei
numa floricultura antes de seguir para casa. Assim que
cheguei na mansão, meia hora mais tarde, larguei as
chaves na mesinha de vidro que ficava ao lado da porta
dupla de madeira e gostei do silêncio que senti ao chegar
na sala. Maya devia estar lá em cima, me esperando.

Como eu queria fazer surpresa, andei na ponta do pé e


comecei a subir as escadas devagar, sem fazer barulho.
Tão logo abri a porta do quarto vi uma Maya abatida na
cama. As cortinas estavam fechadas, dando ao ambiente
um aspecto escuro, como se estivesse quase anoitecendo e
notei que o ar condicionado estava desligado. E pior, a
morena estava sob um edredom grosso.

— Maya? Ei, que foi? — pousei o buquê de flores na


poltrona e fui em direção à cama. Maya estava com os
olhos fechados. Me aproximei mais um pouco.

— Ei — sussurrei — O que foi, morena? Tudo bem?

Ela balançou a cabeça lentamente, resmungando.

— Não me olha, por favor... estou horrível.

Eu ri. Ela claramente estava doente e ainda parava


para se preocupar com o que eu ia achar de sua imagem?

— Malagueta, tarde demais pra pensar nisso. Só me


diz o que está sentindo.

— Um pouco... de mal-estar, eu acho... logo vai passar.

Verifiquei sua temperatura com minha mão e percebi


que ela estava bastante quente.

— Está com febre. Vou arranjar alguns analgésicos.


Calma aí, que já volto.
Ela não respondeu. Parecia querer dormir. Respeitei
isso. Já tinha ficado doente muitas vezes na vida e sabia o
quanto era ruim. Nessas horas Nora sempre cuidava de
mim. E Maya não tinha ninguém para cuidar dela, exceto
eu. Então eu cuidaria dela.

Após pegar um comprimido e um copo de água fresca


na cozinha, voltei para o quarto às pressas e encontrei
Maya ainda sonolenta na cama. Me agachei ao seu lado e
sussurrei.

— Ei, linda, tome isso, vai te fazer bem.

Ela resmungou novamente e virou-se para mim. Os


cabelos estavam bagunçados no rosto e os olhos estavam
vermelhos e abatidos. Tossiu um pouco. Mas logo pegou o
remédio de minha mão e o engoliu. Em seguida bebeu dois
goles de água.

— Agora descanse. Só descanse — ajudei Maya a se


deitar e puxei o edredom grosso até seu pescoço — Logo
vai ficar boa, vou cuidar de você. Não se preocupe.

— Heitor?

— Sim?

— Obrigada...

— De nada, guria. Quer alguma coisa?

— Não, tudo bem... vou ficar legal...

Beijei sua testa e segui até à porta. Olhei para Maya


deitada novamente e saí. Fechei a porta com cuidado.
Tomaria um banho e voltaria para ficar com ela. Aquela
guria era preciosa demais para ficar sozinha e
abandonada.
Capítulo 31
MAYA

AS APARÊNCIAS ENGANAM. Essa é uma grande


verdade. Aos meus vinte e quatro anos eu achava que
sabia de tudo, ou quase de tudo nessa vida, e agora eu me
dava conta de que estava errada. O fato é que nunca
esperei que alguém como Heitor Romano, por exemplo,
fosse cuidar de mim do jeito que cuidara toda a noite
passada. Sim, ele tinha passado a tarde inteira entrando e
saindo do quarto, me trazendo remédio, verificando minha
temperatura, colocando bolsa térmica em minha testa, me
dando água fresca para beber e me auxiliando a ir ao
banheiro. Em nenhum momento resmungou ou perdeu a
paciência comigo ou com meu estado combalido. Nem
mesmo nas horas em que me recusei a comer o que ele
mandava.

Nas idas ao banheiro, Heitor me suspendia nos braços


e me deixava sentada no vaso sanitário. Esperava lá fora e
só voltava quando eu o chamava, e então me carregava de
volta para a cama. Na hora do banho fazia a mesma coisa
e ficou atrás do box, esperando, pronto para qualquer
emergência. E agora, pensando nisso, me dava conta de
que meu pai nunca cuidou de mim durante a vida toda
como Heitor cuidou em um dia.

Na verdade, eu sempre passara a vida inteira me


preocupando ou pensando no bem-estar das pessoas que
eu amava, quando muitas vezes quem precisava de
cuidado era eu. Eu podia me recordar também dos
momentos em que eu estive doente em casa, e em todos
eles eu passara sozinha. Houve uma vez, inclusive, que eu
ficara o dia inteiro esquecida no quarto. Nem comida, nem
ajuda para tomar o banho eu conseguira. E agora podia
ver como as coisas eram mesmo surpreendentes. Heitor
não era ninguém da minha família, mas demonstrou mais
amor e solidariedade.

O novo dia se iniciou nublado, mas eu não estava


preocupada com isso, afinal, eu estava bem. Bem melhor
do que estivera na noite passada. A febre já havia me
dado uma trégua e as dores musculares não castigavam
mais o meu corpo como antes.

Levantando devagar o tronco e expulsando os cabelos


do rosto, eu realmente me senti melhor. A cabeça já não
girava como se ela fosse descolar do meu pescoço e meu
corpo já não parecia tão fraco e leve como uma borracha.
Consegui pôr meus pés no piso de madeira e agradeci em
pensamento por ele ser morno e não frio como o piso de
cerâmica lá de casa, então fiquei ainda mais aliviada
quando notei que conseguia ficar de pé, sem me sentir
tonta ou precisar voltar à segurança da beirada da cama.
Eu estava melhor.

Afastando as cortinas da janela, tive que fechar os


olhos antes de abri-los novamente, tendo o cuidado de ir
me acostumando com a claridade que vinha dela. O dia
não estava feio lá fora, nem fazia frio. E a entrada da
mansão estava silenciosa, como se não houvesse nenhum
movimento por ali.
Heitor. Onde será que ele estava?

— Que horas são? — murmurei comigo mesma,


voltando para perto da cama, até avistar o relógio digital
no criado-mudo. Marcavam onze e vinte. Heitor tinha
aparecido pela última vez no quarto uma hora atrás e
comentado algo sobre ir ao cassino. Talvez ele não
estivesse em casa àquela hora.

Abri a porta do quarto devagar e não ouvi movimento


algum. Será que eu estava sozinha? Voltei a fechá-la e
voltei também a me sentar na cama. Tão logo isso
aconteceu, a porta se abriu de repente, me revelando um
Heitor preocupado.

— Oi, morena, não devia se levantar!

— Oi, estou melhor... — me senti bem com a sua


presença. Era assim que estava sendo ultimamente.
Bastava Heitor passar pela porta ou chegar onde eu estava
para eu me sentir mais segura.Ás vezes bastava eu escutar
sua voz ou saber que ele estava por perto para tudo ao
meu redor ficar mais colorido e interessante. Ás vezes me
bastava seu cheiro.

— Como se sente?

— Bem melhor, obrigada pela ajuda.

— Não foi nada — se aproximou com cuidado, como


se temesse que eu me machucasse — Vai voltar agora
mesmo pra cama.

— Estou bem, é sério... — ri, quando ele me ergueu,


adorando aquele jeito fofo dele me tratar. Enlacei seu
pescoço com meus braços e toquei seus lábios com os
meus. Automaticamente as mãos másculas e poderosas me
apertaram e ele se manteve um bom tempo em pé comigo
nos braços. Adorei a sensação de ter um namorado forte.
Senti uma leve excitação com esse pensamento, mas não
precisava ficar louca por sexo, afinal, tínhamos todo o
tempo do mundo para aproveitar, assim que eu ficasse
melhor.

— Vai sair agora? — indaguei quando ele me pousou


na cama.

— Vou, mas não vou demorar. Prometo voltar pra


cuidar de você.

— Já estou melhor, Heitor.

— Mesmo assim, vou voltar cedo pra ver como está.

— Está bem — adorei a forma como ele me cobriu


com o lençol e pensei que a minha vontade era ficar com
ele a tarde toda, e mesmo que não rolasse sexo, queria
poder ficar beijando sua boca, receber seus beijos, suas
carícias, seu corpo forte e viril sobre mim. De repente
endireitei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos, já
contando os segundos para voltar a ficar com Heitor. Era
bom ficar abraçada em seu corpo e sentir o cheiro de sua
pele e o de sua roupa.
— Vai ficar bem mesmo? — perguntou, parecendo
ainda preocupado. Então achei melhor agir como a garota
forte que eu era.

— Vou sim, não se preocupe, está tudo bem. Posso


muito bem me virar. Além do mais, não quero atrapalhar
seu trabalho.

Beijou minha testa antes de se afastar.

— Vê se não apronta, malagueta. Vou ficar com o


celular ligado. Qualquer coisa, não hesite em me ligar

— Está bem.

Heitor atendeu o celular quando ele tocou e saiu


enquanto encostava a porta com cuidado. Aproveitei o
momento de solidão para olhar o smartphone que ele
trouxera para mim dias antes de eu ficar doente. Segundo
ele, era para a gente poder se comunicar melhor, agora
que estávamos nos entendendo.
Com o smartphone em minhas mãos, eu fiquei lendo e
relendo as mensagens de amor que tínhamos trocado. Ele
sabia ser carinhoso e romântico quando queria e não
somente quando precisava. E eu me perguntava até quando
viveríamos assim. Eu esperava que fosse para sempre,
embora o para sempre muitas vezes não existisse. Além
do mais, no nosso caso, eu devia ser realista, o para
sempre era quase impossível. O para sempre era coisa de
livros de romance e filmes e eu não era nenhum pouco
como as meninas românticas que conhecia. Bom, não até
conhecer Heitor Romano.

Depois de repetir várias vezes as mensagens e babar


por elas, voltei a descansar a cabeça no travesseiro
confortável e voltei a pensar em papai e em Lucas e no
que eles estariam fazendo agora. Pensei em minha casa e
em como sentia falta da minha vida, embora também
gostasse de ficar com Heitor. Encarei o aparelho e mordi
o lábio, puxando na memória o número de meu irmão.
Agora que Heitor tinha me dado um celular, eu podia ligar
para quem quisesse, sem restrição. Então disquei. Lucas
atendeu no quarto toque.

— Lucas! — senti a emoção me tomar, sem que eu a


esperasse.

— Maya? É você? — pareceu sorrir do outro lado e


imaginei a expressão que ele fazia agora — Caraca, é
você mesmo? Como você tá, magrela?

— Estou bem — sentei na cama, tentando falar mais


confortavelmente e cravei minhas unhas no lençol grosso
que estava em cima de minhas pernas.

— Sério?

— Sim, pode acreditar, eu estou bem. E você, me diga


como está? Onde está, Lucas? O que aconteceu com você?

— Tô na casa de uma garota. Hum, uma namorada. A


gente tá morando junto. Estive lá em casa dias atrás,
preocupado com você, mas então pra minha surpresa
estava tudo no lugar. E o velho já tá com uma namorada.
Tá sabendo disso?

— Pois é — suspirei — as coisas acontecem


rapidamente pra vocês.

— Ele parece bem. Não falei com ele. Os homens


sinistros ainda estão tomando conta do local. Perguntei
por você e disseram que estava em segurança. O que
aconteceu, Maya? Tá mesmo na casa do chefe da
máfia? Bom, você está me lingando, então não deve
estar numa situação tão terrível assim...

Achei melhor não revelar os mínimos detalhes ao meu


irmão, pois dificilmente ele iria entender as minhas razões
para ficar com Heitor. Na verdade, Lucas ficaria
indignado e me falaria coisas das quais não estava
preparada para ouvir.

— Lucas, não dá pra conversar muito bem agora pelo


telefone, mas... — pensei no que dizer — Bom, é uma
situação meio difícil de explicar, mas estou bem e estou
sendo muito bem tratada. Não se preocupe.

— E esse cara, o chefe, o que quer com você?

— Bom, eu escolhi vir no lugar da dívida. Achei que


eles fossem me matar, mas Heitor tem me tratado muito
bem. Não é o mostro que pensávamos. Ele sabe ser
generoso. E como disse, tem até cuidado de mim... hum,
inclusive acabo de me recuperar de uma gripe e foi Heitor
que ficou ao meu lado.

— Tá brincando! Que loucura é essa? O cara


prendeu você? Ele te obrigou a...?

— Não, ele não fez nada do que eu não quisesse...


hum, é sério, acredite, eu estou bem.

Lucas não pareceu convencido, mas também não


insistiu no assunto. Suspirou.

— E por que não volta pra casa, Maya? Até quando


vai ficar nas mãos desse cara?
Foi minha vez de suspirar. Era uma coisa que eu não
fazia ideia.

— Bom, eu ainda não sei... — na realidade, desde que


Heitor e eu ficamos juntos eu queria esquecer o passado e
poder adiar o futuro. Só queria focar no presente e não
queria que nada estragasse o que estávamos vivendo hoje.
Talvez o amanhã viesse rápido demais e talvez ele não
trouxesse coisas muito boas e talvez aquilo tudo logo
virasse uma página virada, mas no momento eu só queria
pensar que Heitor era meu e que eu estava vivendo um
momento maravilhoso ao lado dele, mesmo que tudo fosse
uma grande loucura. E mesmo sendo loucura, eu estava
feliz.

— Maya? Ainda tá aí?

— Oi, estou na linha...

— Certo, bom... é bom saber que está viva e bem. Eu


me senti muito culpado por tudo o que aconteceu. Me
desculpa. Sei que falei coisas horríveis quando fui
embora, mas eu estava assustado e revoltado demais.
Não com você, com nosso pai. Eu devia ter chamado
você pra vir comigo, mas nem pensei nisso. Só pensei
mesmo em salvar a minha pele. Sei que devo desculpas.

Pensei naquilo. Agora eu já conseguia pensar no


pesadelo que tinha vivido sem chorar ou sofrer, mas até
pouco tempo atrás era algo muito horrível até mesmo para
falar.

— Lucas, eu sei que você estava assustado. Eu também


estava assustada e sei que mesmo que você me chamasse,
eu não iria. Nós dois sabemos que eu não iria. Não
conseguiria deixar nosso pai sozinho.

— Você é forte, Maya. Bem mais forte que eu. E mais


corajosa.

— Lucas, tenho que desligar agora. Foi maravilhoso


falar com você e saber que está bem. O pior já passou, eu
acho. Só espero um dia podermos superar tudo isso.

Mordi o lábio inferior, pensando novamente naquilo.


Pensei também se Lucas compreenderia que eu estava me
envolvendo com Heitor e que me apaixonara por ele.
Achei realmente melhor não comentar nada. Não, meu
irmão não entenderia.

— Ei, Maya, se cuida.

***

— Fiquei a noite inteira esperando seu telefonema e


ele não veio — falou Heitor em tom de repreensão,
algumas horas mais tarde, tocando delicadamente meus
cabelos. Estava deitado de frente e eu estava deitada com
o rosto em seu peito cheiroso. Tínhamos tomado banho
juntos, mas não tínhamos feito amor, e agora só estávamos
conversando, de bobeira, apenas por conversar. Era bom
e gostoso ficar coladinha nele, trocando carícias e
beijinhos. Era bom construirmos uma relação que não
fosse baseada em sexo. Respeito e carinho eram
essenciais.

— Como você ficou durante toda a tarde sem mim,


guria? — ele quis saber.

— Eu fiquei bem... o celular me distraiu um pouco.

— Ah, é? Você ligou pra alguém?

Pensei em dizer.

— Sim — mordi o lábio, e pensei também se ele


gostaria de saber. Bom, era melhor começar tudo com
cartas limpas. Nada de mentiras. Se eu queria um
relacionamento sério e bacana com Heitor, teria que ser
sincera com ele, e esperava que ele agisse da mesma
forma comigo.

— Liguei pro meu irmão e depois pra uma amiga... —


eu, de fato, tinha ligado mais tarde para Tati. Logo após
despedir-me de Lucas. E ficamos um bom tempo
conversando.

— E foi bom falar com eles? — era bom sentir seu


toque em meus cabelos.

— Sim, muito bom.

Ele se calou. Continuou enrolando mechas de meus


cabelos em seus dedos. Eu me ajeitei em seu peitoral
vigoroso e nu, e apoiei meus cotovelos nele enquanto
aproveitava aquela posição para vê-lo melhor.

— Estive pensando... agora que estamos juntos... o que


vai ser da gente, Heitor? Quero dizer, como vai ser tudo
depois que a realidade chegar?

— Como vai ser? — agora parava de alisar meus


cabelos — Bom, continuaremos o que estamos vivendo
hoje. Eu quero você, morena, e acho que me quer também
— passou a aspirar o cheiro de meus cabelos.
Balancei a cabeça em positivo e respirei fundo.

— E quanto a mim? Vai me deixar voltar a ter minha


vida?

Ele parou de me cheirar e pensou naquilo, em seguida


respirou fundo.

— Tem razão. Não tinha pensado nisso ainda... sente


muita saudade de casa, não é?

— Muita... mas não só disso.

Suspirou profundamente.

— Ok.

Pensei que fosse se afastar de mim, mas não fez isso.


Pelo contrário, continuou me examinando.

— Quer ter sua vida de volta, eu sei, e está


completamente certa. Vou dá-la de volta a você, morena.
Prometo.

— Então quer dizer que vai me deixar voltar pra casa?

Ele me olhou e seus olhos brilharam. Por um momento


a ideia de Heitor não me libertar me deixou assustada,
mas então ele sorriu.

— Vou. Você está livre, guria. A partir de hoje. Pode


fazer o que quiser da sua vida. E se quiser cair fora e não
me ver mais, também pode fazer.

Me aproximando de seus lábios, eu o beijei.

— Não quero deixar você — falei.


Capítulo 32
HEITOR

O TOQUE DO CELULAR me acordou. Abri os olhos


e ainda morto de cansaço usei a mão para tentar pegar o
aparelho. Estava muito escuro no quarto e eu me dei conta
de que era por causa das cortinas que estavam fechadas.
Sentei na beirada da cama, tentando vencer o sono e
pensando que não seria nada legal se o barulho do
telefone acordasse Maya que dormia ao meu lado.

— Alô? — falei, pondo o aparelho no ouvido.

— Heitor!

Era a voz de Theo. Ele parecia agitado. Esfreguei o


rosto e me perguntei porque meu irmão tinha sempre que
ligar nas horas mais indevidas.

— Tá brincando. Sabe que horas são, meu? — eu


mesmo espiei a hora no relógio digital e vi que eram duas
e quarenta da madrugada.

— Heitor, é sério... acabei de receber um telefonema


de Mauro. Estão no hospital. Nora e ele.

— Como é? No hospital? O que Mauro e Nora estão


fazendo no hospital? Aconteceu alguma coisa? —
levantei, preocupado, e mesmo descalço segui para o
banheiro da suíte. Lá cliquei no interruptor para acender a
luz e fechei a porta — Aconteceu alguma coisa com a
Nora? Fala logo, Theo!

— Não, não foi com ela, relaxa, Nora está bem. Foi
com Maurinho. Ele foi atropelado na avenida no fim da
noite.

—Maurinho? Atropelado? Como assim atropelado? E


como é que ele está?

— Eu ainda não sei. Mauro me ligou agora há pouco e


disse que não estava conseguindo encontrar seu telefone.
— Certo, me diga o nome do hospital onde estão, que
vou pra lá — equilibrei o celular entre o ouvido e o
ombro, enquanto ajeitava a calça.

Depois que Theo me passou o endereço e se despediu,


guardei o telefone no bolso e voltei para o quarto escuro.
Maya ainda dormia sossegada. Logo substituí o moletom
por uma calça social preta e vesti uma camisa da mesma
cor. Calcei sapatos, pensando que precisava chegar no
hospital para saber como todo mundo estava. Theo
seguiria para lá de moto.

Atropelamento.

Merda.

Me aproximei da cama e olhei para Maya. Não achei


justo acordá-la para falar que eu iria sair. Beijei sua testa
suavemente e me afastei do quarto em silêncio.

***
Cheguei no hospital meia hora depois e encontrei Theo
logo na recepção, me aguardando.

— Heitor!

— E então, como ele está?

— Fora de perigo. Parece que sofreu poucas fraturas,


mas pode ser que tenha que se submeter a alguma cirurgia.

— E Nora, como está?

— Está bem. Menos nervosa agora. Venha, ela vai


ficar mais tranquila quando encontrar você. Queremos
transferir Maurinho para uma clínica particular. Estou
cuidando disso.

— Certo, faça isso.

Theo e eu seguimos pelo corredor extenso do hospital


e logo avistamos Nora e Mauro sentados num dos bancos
de espera.

— Heitor! — Nora gritou ao me ver e fui ao seu


encontro — Ainda bem que chegou! É bom ver toda a
família reunida.

— Está tudo bem, ele vai ficar bem. Theo falou que
não foi nada grave. O garoto é forte.

— Deus te ouça — me puxou para um abraço apertado


e depois puxou Theo também. Ficamos assim por alguns
segundos — Meus filhos — sussurrou — não sei o que
faria sem vocês... fico louca só de pensar no que pode
acontecer com qualquer um dos três... eu falei tanto pra
ele não ficar andando de madrugada, mas Maurinho não
me escuta... não sei o que tá acontecendo com esse
menino.

— Vai ficar tudo bem, mãe — Theo falou, tentando


acalmá-la.
Mauro, que tinha se afastado para pegar um pouco de
café, se aproximou de nós e neste momento um dos
médicos apareceu.

— Ei, doutor — me soltei de Nora e me dirigi a ele —


Sou um dos irmãos da vítima. Será que pode me dizer
como ele está?

— Está bem melhor. Sei que desejam transferi-lo para


um outro hospital. Quero dizer que não há problema
algum. Só peço que aguardem por mais algum tempo.

— Claro. Certo. Obrigado.

Voltei para perto de Nora e me lembrei do que tinha


acontecido anos atrás com meus pais. Acidente. Por causa
de um bêbado. Ficara sabendo também que o suspeito de
atropelar meu irmão mais novo era um homem
alcoolizado. Lembrei do momento terrível de quando
recebi a notícia de que minha mãe não tinha resistido aos
ferimentos. Papai ainda resistiu por mais alguns dias e
então depois também morreu. Eu era muito garoto na
época e só não surtei porque Nora apareceu na minha vida
como um anjo. Ela era enfermeira do hospital local onde
meus pais biológicos ficaram internados. Como eu não
tinha ninguém na família, ela me adotou. O processo de
adoção não fora complicado, o difícil mesmo para mim
foi superar o trauma com o qual eu ficara. Era uma ferida
antiga, que nunca cicatrizava.

— Heitor? Tudo bem, querido? — a voz de Nora me


tirou dos devaneios.

— Hã?

— Tudo bem?

— Sim... está... está tudo bem.

— Heitor, Nora e eu vamos pra casa. Ela precisa


descansar. Se importa de ficar mais um tempo no hospital
com Theo?
— Não, é claro que não. Podem ir pra casa.

— Qualquer coisa, nos liguem.

Nora e Mauro se despediram e seguiram pelo corredor


silencioso. Eu sabia que eles estavam muito cansados e
precisavam descansar um pouco. Olhei para Theo que
estava sentado numa das poltronas, com os olhos
fechados, tentando cochilar. Decidido a não dormir, segui
até a lateral do corredor para pegar um pouco de café.

***

Na manhã seguinte saí do hospital, angustiado. E


exausto. Não só fisicamente como emocionalmente
também. E saí pensando pela primeira vez a respeito do
meu romance com Maya. Eu até que gostava da garota,
mas não era sensato ficar com ela e isso agora estava me
matando.
Theo seguira para casa às cinco da manhã para tentar
descansar um pouco. Quando ele voltou, às dez, foi a
minha vez de ir para casa. No entanto, ao invés de seguir
para a mansão, resolvi visitar o túmulo dos meus pais.
Fazia anos que eu não ia lá. Era perda de tempo, muitas
vezes eu dizia a mim mesmo. Eles já estão mortos,
Heitor, e nunca mais vão voltar. Mas naquela tarde eu
senti vontade. Naquela tarde eu pensei muito neles, em
todos os momentos bons que tivemos, em todas as festas,
em todas as brincadeiras, em todas as risadas e em toda a
convivência em casa, pensei em tudo o que tinha
acontecido e em tudo que tinha perdido... agora não doía
tanto como doera um dia, mas a ideia de quase perder
Maurinho me lembrou muito do que acontecera anos
atrás. Seja forte, Heitor. Seja forte.

Olhei as lápides e fiquei sentado diante delas,


desejando perder mesmo a noção do tempo. Eu não estava
com pressa de voltar para casa... lágrimas se acumularam
em meus olhos, mas eu me livrei delas. Fiquei durante
algum tempo ali parado. Limpei o rosto e então o cansaço
me derrotou.

Quando acordei, pisquei os olhos, confuso, e olhei em


redor. Me dei conta de que eu havia cochilado no
cemitério. Ajeitei a roupa cheia de terra e vi a hora no
pulso. Quase meio dia. Era hora de voltar para casa. Mas
Maya estava lá e agora minha mente só conseguia pensar
no que o maldito do pai dela fizera. Como eu poderia
continuar com ela se nunca esqueceria o que acontecera?
Era óbvio que eu tinha me deixado levar pelo beijo e o
corpo gostoso da garota, por sua voz fina e seu toque
delicado, por uma atração física louca, e agora me
arrependia amargamente disso.

Não tinha jeito. Eu não devia ter me envolvido com


Maya. Devia deixá-la livre e de preferência bem longe de
mim. Não queria mais vingança, queria superar tudo, mas
também não queria mais ficar perto de nada que me
lembrasse a Natanael, inclusive Maya. Eu precisava
seguir, e não havia possibilidade de seguir se ao olhar
para Maya eu me lembrasse do pai dela e de tudo o que
aconteceu. Como seríamos felizes assim? Como pensaria
em construir uma vida ao lado dela com filhos que teriam
o sangue daquele homem? Era impossível.

Voltando para o carro, peguei no volante e logo dei a


partida. Iria para a casa. E iria dizer para Maya que seria
melhor terminar tudo agora do que adiar um término que
seria inevitável no futuro. Era melhor isso antes de nos
envolvermos ainda mais.

***

Cheguei em casa depois do almoço, sabendo que Maya


estava provavelmente à minha espera. Sabendo também
que seria difícil tocar no assunto com ela, então tentei ao
máximo me distrair com outras coisas. Convoquei Jarbas
e Oscar para uma reunião em meu escritório enquanto
Theo cuidava das coisas no hospital e vez ou outra me
ligava para me deixar a par de tudo o que acontecia por
lá.

— Ficamos sabendo do que aconteceu com seu irmão


caçula, Heitor. Que droga, hein— Jarbas tocou meu ombro
como uma forma de conforto.

— Ele vai ficar bem. Foi só um susto. Uma droga de


susto.

— Certo.

— Mas por conta disso, mesmo sabendo que ele vai


ficar legal, não sei se vou ter tempo para ficar a noite toda
no Del Romano, então quero que assumam as coisas por
mim. Não quero que nada saia do controle, Jarbas, é
sério.

— Tamo junto.

— Outra coisa — falei e ele aguardou — Vou deixar a


garota ir embora. Maya, a filha de Natanael. Quero que
deixem a casa do bêbado em paz e que esqueçam que ele
existe. E só cuidem pra que ele nunca mais apareça no
cassino.

— Entendi.

— É só isso.

Jarbas e Oscar se retiraram. Esfreguei meu rosto, tenso


porque tinha feito uma escolha difícil àquela tarde. Não
queria mais a garota comigo, não queria mais vê-la nem
pensar nela porque sabia que se a visse ou ficasse
recordando os nossos momentos bons eu ia fraquejar.

Eu estava apaixonado, era claro que estava! No fundo


eu a queria, mas minha mente me dizia que eu precisava
manter Maya à distância. Para o bem dela e para o meu. E
se tinha algo que deveria guiar um homem era a
consciência dele e não o coração. Afinal, o coração
sempre fazia escolhas baseadas na emoção.

Subi as escadas, meia hora mais tarde, e segui para o


meu quarto. Não queria encontrar Maya. Não agora. Não
estava ainda preparado para ter a conversa definitiva com
ela. Precisava de um banho e precisava também colocar a
cabeça no lugar.

Atravessei o quarto e logo entrei na suíte. Lá tomei um


banho demorado e por vezes deixei a cabeça no centro do
chuveiro, me sentindo bem com o jato de água que caía
sobre mim. Aquilo me ajudava a encarar o que ainda
estava por vir. Pensei. Bom, eu nunca tinha tido problemas
para romper com alguma garota. Na verdade, nunca
precisara romper com elas, apenas me afastava, deixava
de telefonar, deixava de procurar, e então elas entendiam
por si só que era o fim. No entanto com Maya seria um
término expresso e eu não voltaria atrás. Também não
achava que ela espernearia ou brigaria. Do jeito que era
orgulhosa, sairia com a cabeça erguida. E eu só tinha
medo de no futuro me arrepender da escolha feita.
Capítulo 33
MAYA

ACORDEI PELA manhã e não encontrei Heitor. Nem


sinal dele. Nenhum bilhetinho largado na cama
propositalmente para que eu visse assim que acordasse e
nenhuma mensagem enviada para o celular.

Deixei a cama, pensando se ele tinha ido correr ou se


tinha ido atender a algum problema de trabalho. Bem, eu
precisava me acostumar com o trabalho de Heitor. Era
estranho pensar sobre isso, que estava tendo um amor
bandido com um cara que dominava a máfia, mas era bem
exatamente o que estava acontecendo. E eu estava cega,
tão cega de amor, que nada mais importava. Meus valores
morais não tinham importância e nem minha conduta
parecia tão errada quando Heitor se aproximava de mim e
me tratava como se eu fosse a coisa mais preciosa do
mundo. É, era daquela maneira que ele também me
ganhava. Ele sabia tratar bem as pessoas, especialmente
quando gostava delas. E eu me sentia feliz por ser parte
do grupo de pessoas que Heitor gostava.

Suspirei.

Caminhei pelo quarto bonito e silencioso que aprendi a


amar e contemplei a vista lá fora. Também olhei para
baixo, para a área que ficava perto do jardim. Nenhum
sinal de Heitor ou dos amigos dele. Apenas os seguranças
rodeavam a casa lá fora, eu sabia.

Era estranho pensar em como alguém, especialmente


alguém que até pouco tempo era um desconhecido para
mim, poderia simplesmente chegar e virar minha vida do
avesso, e até mesmo transformá-la. Ou talvez a palavra
certa fosse dar sentido a ela. Isso. Talvez Heitor só
tivesse surgido para me dizer que, sim, que era possível
amar, que era possível ser feliz, que as coisas não eram
tão ruins como elas pareciam ser e que eu poderia, de
fato, me curar. E a verdade também é que nunca imaginei
que um homem fosse me tirar da posição de sofrida um
dia para me encher de fé. E era isso o que Heitor fazia
comigo. Me enchia também de coragem para seguir em
frente e tentar ser feliz. Era assim que eu me sentia quando
Heitor estava por perto — uma garota renovada, com sede
de redescobrir a própria vida.

Me afastei da janela, tempo mais tarde, atravessei o


quarto e abri a porta. Desci a escada circular, pensando e
desejando encontrar meu loiro perigoso, que ficara toda
aquela manhã longe de mim. Ele já tinha chegado em casa.
Há poucos segundos havia ouvido o toque de seu celular
em algum lugar da casa e escutado sua voz grossa atender.
E ao mesmo tempo em que queria correr até seus braços e
me atirar em seu pescoço, eu não queria parecer tão
nervosa e desesperada. Eu estava com medo. Com medo
de toda a nossa história transformar-se em nada de uma
hora para outra, com a mesma proporção com a qual se
iniciara.

Tão logo cheguei na metade da escada avistei o hall


silencioso. Tão silencioso que poderia ser capaz de ouvir
o som de uma agulha se alguma por acaso caísse no
carpete vinho e marrom. Segurei o corrimão da escada e
desci o último degrau que faltava. Tentei olhar ao redor,
mas não vi ninguém. Então dei novos passos, até encontrar
uma antessala vazia e muda. Arrisquei outros passos,
atravessei a sala de estar e foi lá que finalmente avistei
Heitor. Não sabia se ele sentia a minha presença, se ele
sabia perfeitamente que eu estava ali às suas costas.
Provavelmente sim. Como sempre arisco e desconfiado,
era provável que sim. No entanto, resolvi me manter
calada, até ele se virar para me olhar.

Mas Heitor não se virou para me olhar, nem mesmo


para me cumprimentar. Parecia mais misterioso do que o
de costume e bem mais charmoso. Ereto diante das
persianas grossas, parecia distraído com alguma coisa lá
fora. Ou talvez estivesse pensativo. Mordi o lábio
inferior, pensando se era uma boa ideia interrompê-lo de
seu momento de reflexão. Respirei fundo como um ato de
injeção de ânimo e com coragem avancei mais alguns
passos, até ficar mais perto de Heitor. Logo não me
contive e lentamente o abracei pelas costas. Devagar, não
querendo incomodá-lo. Ele relaxou os músculos diante de
meu toque, mas mesmo assim não correspondeu ao meu
abraço.

— Tudo bem? — sussurrei.

Heitor não respondeu. Nem se virou para mim.


Continuei agarrada às suas costas, com o queixo pousado
em seu ombro. Para isso precisei ficar na ponta dos pés.

— Heitor?

— Tive que resolver um problema — murmurou, a voz


sem muito afeto — espero que tenha ficado bem.

— Fiquei.

Heitor não falou mais nada. Talvez tivesse acontecido


alguma coisa grave no trabalho ou... em outro lugar.
Mesmo assim, me sentindo inconveniente, me afastei. Não
era difícil perceber que ele estava diferente comigo.
Talvez um pouco mais frio. Então um pensamento ruim
passou pela minha cabeça.

— Tudo bem mesmo? — insisti.

Sem resposta.

— Heitor, aconteceu alguma coisa?

Ele virou-se um pouco para me olhar e pareceu


procurar as palavras para dizer. Seus olhos azuis violeta
estavam um pouco mais escuros do que o normal e mesmo
sem ouvir suas palavras, soube que algo não tão bom
havia acontecido ou estava prestes a acontecer.

— Foi um erro, morena, eu... foi um erro você e eu,


quero dizer — calou-se em seguida — eu lamento.

Engoli em seco e senti um gosto horrível descer pela


minha garganta. Ele não me queria mais. Era isso? Estava
tentando acabar com tudo entre a gente?
— Pode voltar pra sua casa, Maya, está livre. Desde
ontem disse que a deixaria livre. Pode ir embora e nunca
mais se preocupar. Já dei ordens para os caras saírem da
casa do seu pai. Não vão mais ameaçar vocês, dou minha
palavra. Dei ordens expressas também para que eles
esqueçam quem vocês são e onde vocês moram.

— Está dizendo que está tudo acabado entre a gente?


— eu estava atônita.

Ele me encarou.

— Maya, eu...

— Certo, entendi. Vou embora — dei-lhe as costas,


furiosa, mas em seguida parei no caminho. Não entendia
por que aquilo estava acontecendo. Voltei a encará-lo. As
lágrimas começaram a ameaçar descer, mas eu não queria
dar esse gostinho a Heitor. Com raiva, eu as limpei —
Sabe o que aconteceu comigo no passado, Heitor? —
falei, mesmo não sabendo se devia lhe contar minha
história — Bom, eu fui violentada uma noite. Por um
homem. Por um homem que nunca conheci o rosto. Ele
simplesmente me pegou quando cheguei perto de casa e
me abordou. Ninguém viu, ninguém soube de nada,
também nunca prestei queixa... sei, fui uma burra —
limpei outra lágrima e dei pausa para respirar — Achei
que fosse mesmo morrer naquela noite e achei que fosse
morrer depois também, mas... bom, como vê, aqui estou eu
— voltei a chorar, agora era sério — Mas então os anos
passaram e conheci você. Você fez o inferno na minha
vida, Heitor, e por semanas pensei em odiá-lo, por
semanas pensei em ficar longe de você, mas então
descobri que poderia amar... — outra pausa porque o
choro me vencia — Vivi momentos felizes nessas últimas
semanas e mesmo que agora tudo esteja acabando, só
quero dizer que sim, vou superar. Vou superar o término.
Eu estou curada, Heitor. E seja lá o que aconteceu na sua
vida, acho que você também precisa se curar.

Engoli as novas lágrimas e vi que Heitor só me olhava,


petrificado, os lábios entreabertos, como se estivesse em
choque. Deu dois passos em minha direção.

— Quem machucou você? Me conta, que preciso


saber.

— Não importa agora — meneei a cabela, abalada —


Na verdade, nem eu sei... o que quis dizer é que seja lá o
que aconteceu com você, precisa superar também, precisa
se curar disso, porque isso só te faz mal.

Ele respirou fundo e desviou o olhar. Abaixou a


cabeça. Pareceu tentar se abrir.

— Sabe por que não posso me envolver com você,


Maya? — voltou a me olhar, agora mais tenso — Porque
não posso amar uma garota cujo pai bêbado matou os
meus pais num acidente de carro — vi seus olhos ficarem
vermelhos e soube que ele chorava — Foi isso... agora
você sabe o que aconteceu. E agora pode ter a ideia do
quanto sou duro por dentro, do quanto ainda sou
assombrado por isso. Não queria ser, mas sou... lamento.
Chocada, pisquei várias vezes e novamente as
lágrimas desceram. Então entendi tudo. Então por isso
Heitor odiava meu pai. Então por isso Heitor nunca mais
iria querer ficar comigo...

Arrasada, limpei novamente as lágrimas que molhavam


meu rosto. Éramos duas pessoas quebradas, Heitor e eu.
Ele com seus motivos e eu com os meus. Ao menos eu
tentei ser feliz. Ao menos tentei. Queria que ele tentasse
também.

— Desculpe por ter feito você sofrer, Maya. Juro que


tentei passar por cima de tudo isso, mas não posso —
meneou a cabeça, atormentado — Confie em mim, vai ser
melhor assim... pra você... e quanto ao homem que te
machucou, vou descobrir quem é e vou acabar com ele.

Balancei a cabeça novamente. Não era isso o que


queria. Não queria vingança. Chega de vingança.

— Você está cheio de ressentimento acumulado no


peito, Heitor — dei passos e toquei seu peito — Precisa
se libertar disso, é sério, tudo isso faz muito mal a você.

— Já me curei, Maya — se afastou de mim e me deu as


costas. Ele estava abalado, eu sabia — Me curei... tanto
que não anseio mais pela morte de seu pai. Não quero
mais me vingar de vocês. Está livre, guria. Você e toda a
sua família.

— Então essa é a sua palavra final? — perguntei, os


olhos novamente cheios de água.

Ele não respondeu. Continuou de costas.

— Certo, vou arrumar minhas coisas então —


murmurei, antes de girar os calcanhares e voltar pelo
caminho que tinha percorrido antes de chegar na sala de
estar em busca de Heitor.

Subi as escadas correndo, sentindo toda a região do


meu peito doer. Doer demais, como se alguém tivesse me
batido ali. Lágrimas desceram livremente dos olhos e o
soluço finalmente se libertou quando alcancei o quarto e
me recostei na porta. Era o fim, eu sabia que era, e o
problema era que eu não estava preparada para ele.
Capítulo 34
MAYA

OS DIAS SE PASSARAM e logo viraram semanas. Eu


tentava me readaptar à minha vida e tentava aprender a
conviver com Beth, a namorada de meu pai. Bom,
querendo ou não, ela era agora a mulher da vida dele e
praticamente a dona da casa. E eu era a filha que
retornava ao lar após uma significativa temporada fora, na
mansão do chefe da máfia. E para piorar tudo, eu estava
arrasada. Meu coração estava dilacerado e a impressão
que eu tinha era a de que uma máquina de triturar tinha
passado por cima dele.

Conversei com meu pai e pedi que ele me contasse a


sua versão da história sobre o acidente de carro que tirara
a vida dos pais de Heitor. Meu pai não se omitiu, como a
princípio imaginei que fosse fazer, nem negou nada. Pelo
contrário. Ele confirmou tudo e chorou. Chorou como
criança. Disse que se envergonhava do acontecido e que
por isso nunca mais pegara num carro. Disse também que
por isso nunca permitira que eu e meu irmão, que éramos
muito pequenos na época, soubéssemos do acontecido.

Nos primeiros dias que voltei para casa me peguei


chorando que nem uma boba e até pensei que ficaria
doente por isso. E briguei comigo mesma também por isso
e só então decidi que seria mais forte. Agora não chorava
mais e agora também tentava não pensar mais em Heitor
como antes, nem nos momentos maravilhosos que tivemos
juntos, porque isso me fazia sofrer. E eu não queria mais
sofrer. Queria passar uma borracha em tudo o que tinha
dado errado na minha vida e seguir. Simplesmente seguir.

Andreas voltou a me procurar e precisei inventar toda


uma fantasia para despistar o período de pesadelo em que
vivi por causa da dívida de meu pai. No entanto ele
pareceu desconfiado.

— Fale a verdade, não estava trabalhando numa casa


de família.
— Estava sim — menti.

— Eu soube que você esteve nas mãos de bandidos,


Maya, só não pude entrar em contato com a polícia
porque...

— Não faça isso. Nem pense nisso. Por favor.

— Por que não?

— Não devia ter me procurado. Eu disse que estava


bem, não disse?

— É, eu sei, mas... certo dia encontrei seu irmão e ele


soltou algumas coisas sem querer. Somei dois mais dois e
entendi tudo. E não ia conseguir ficar parado sabendo que
você corria perigo.

— O que pensou em fazer era arriscado. Não pense


mais nisso, é sério, estou bem agora. Portanto, vamos
esquecer tudo.
— O que fizeram com você lá dentro, Maya? Espero
que não tenham...

Respirei fundo e decidi que era melhor falar a verdade


a ele.

— Estou bem. Eles não fizeram nada de mal comigo, é


sério, acredite. Não me machucaram.

— É uma quadrilha, Maya. E perigosa. Não devia ter


tentado negociar com eles.

— Eu sei que você tem razão, Andreas, mas... acabou,


ok? O pesadelo acabou. Estou bem. Já disse, eles não me
machucaram. Quer dizer, Heitor, o chefe, ele não permitiu
que me machucassem. Ele... — sussurrei, sofrendo com a
menção do nome.

Andreas me olhou, como se desconfiasse de algo, de


um jeito que me fazia lembrar o Gaston quando
desconfiara de que a Bela estava apaixonada pela Fera.
— O que foi, Andreas? — estudei sua expressão, ele
tinha agora as sobrancelhas arqueadas e a boca
entreaberta, como se estivesse espantado com alguma
coisa.

— Não sei, tive a impressão de que está caidinha por


ele. Quando falou o nome do cara, sei lá, seu semblante de
repente ficou diferente.

— Ah, bobagem — abaixei os olhos. Ele tinha razão.

— Não me diz que... ah, Maya, por favor — e estreitou


os olhos para me ver melhor — hum, não me diz que se
apaixonou por ele.

— Andreas!

— Só estou perguntando e seria bom que falasse a


verdade.

— Não, não me apaixonei por ele, tá legal? — menti


pela segunda vez — Agora me deixe em paz. É uma
página virada em minha vida e... bom, é algo que pretendo
esquecer pra sempre.

— Certo, o importante é que está aqui de volta e bem


— me puxou para um abraço. No entanto quando fechei os
olhos só pensei em Heitor.

Onde estaria Heitor? Eu queria saber.

***

Meia hora depois eu estava com a cabeça nas pernas


de Tati, contando a ela tudo o que tinha acontecido comigo
na mansão de Heitor, abrindo meu coração e desabafando.
Não conseguia mais ficar calada, eu precisava dividir o
que sentia com alguém e só queria que esse alguém me
entendesse. Ou ao menos se esforçasse para me entender.
Sabia muito bem que não era a coisa mais fácil do mundo
compreender as razões que levavam uma garota a dormir
e a se apaixonar por um cara que era o seu carrasco e o
chefe da máfia, que ainda por cima, tinha a ameaçado e a
mantido em cárcere privado, todavia eu não precisava de
julgamentos agora e sim de um ombro amigo no qual
pudesse descarregar todo o peso que eu estava sentindo.

— Chore, isso faz bem — Tati acarinhou meus cabelos


enquanto eu chorava deitada em seu colo — você disse
que ele era charmoso e que a tratou bem. Então não vejo
isso tão estranho de acontecer. Quer dizer, não é difícil
pensar que uma garota frágil e assustada possa se
apaixonar por um cara lindo e gostoso. Qualquer uma
poderia cometer esse erro, Maya. Não só você. Não se
martirize por isso. Andreas não sabe do que fala. Tá na
cara que ele ficou com ciúmes.

— Eu não sei mais quem eu sou, Tati, pelo amor de


Deus! Não sei mais o que faço da minha vida, pra onde
vou. Voltei pra casa e encontrei tudo diferente, minha vida
pareceu perder todo o sentido... eu estou tão perdida... não
devia me importar, não devia me apegar a ele, mas estou
apegada, e me sinto uma fraca por isso.

— Você não é. Você é incrível. Pare de besteira. Você


é tão incrível que conseguiu salvar sua família, tão
incrível que conseguir abalar o coração do cara. Não
percebe que ele te mandou embora justamente por que tem
medo de se envolver? Você é incrível, Maya, não se
esqueça disso. Tenho orgulho de você.

Tentando acreditar nas palavras que saíam pela boca


de Tati, limpei uma lágrima dos olhos.

— Obrigada por me consolar. Não tem ideia do quanto


estava precisando.

— É isso o que as amigas fazem. E estou muito feliz


que esteja de volta. Não sabe a falta que me fez. E também
estou muito orgulhosa, absolutamente orgulhosa. O que
fez, o fato de ter ido no lugar do seu pai e da dívida, foi a
coisa mais corajosa e surpreendente que já vi. E louca
também, claro — ambas rimos — Coisa de Hollywood...
devia parar de pensar na sua fraqueza em relação a Heitor
e se concentrar em tudo o que fez em prol de sua família.
E eles deviam se ajoelhar nos seus pés e beijá-los agora,
garota. Ah, deviam.

***

No início da noite recebi uma visita inesperada.


Quando eu o vi tive a certeza de que um grande círculo se
formava em minha boca. Era o irmão de Heitor que estava
ali na minha frente.

— Theo? O que... faz aqui?

— Olá, malagueta — riu — é assim que Heitor a


chama, não é?

Cruzei os braços, tentando me esquecer de Heitor e de


tudo o que eu passara com ele. Voltei a focar Theo e me
perguntei o que ele fazia ali.
— Se veio falar de seu irmão, desculpe, mas perdeu
seu tempo.

— Não vim falar de Heitor com você. Vim lhe fazer


uma proposta.

— Uma proposta?

— É, uma proposta.

Theo estava elegante como habitualmente, de terno


preto e cabelos bem escovados. Seu rosto sereno e seus
olhos castanhos me passavam tranquilidade. Avistei uma
moto estacionada na calçada e pisquei os olhos, confusa.
De repente um flash veio em minha mente. Algo estranho.
Completamente perturbador. Afastei aqueles pensamentos.

— Maya? — sua voz me resgatou e eu voltei a fitá-lo


— tudo bem com você?

— Sim — balancei a cabeça, me sentindo estranha.


Olhei novamente para a moto dele estacionada e era como
se ela me intimidasse, como se ela de alguma forma me
trouxesse lembranças desagradáveis. Eu não gostava de
motos.

— Bom, pra começar, me desculpe vir sem avisar. Na


verdade, não tenho seu telefone, então não dava mesmo
pra avisar.

Ajeitei a alça da blusinha que caía dos ombros e cruzei


meus braços novamente na altura do peito, como uma
forma de me proteger. Ele não devia estar ali. E eu não
queria que ele estivesse ali. O que Theo queria? Que
proposta era essa que queria fazer?

— Foi Heitor que mandou você aqui? Que foi? Vão


voltar a nos vigiar?

— Nada disso, e não foi Heitor que me mandou. Tenho


uma proposta pra você. E ela é minha.

— Desculpe, mas não estou interessada...


— Vim oferecer minha ajuda.

— Sua ajuda? Pra quê?

— Um emprego. Bom, pra começar, acho que precisa


de um, não?

— Por favor, acho melhor ir embora.

— Sei que tentou voltar pra lanchonete que trabalhou


antes, mas não conseguiu... sei que está tentando
recomeçar do zero, então...

— Está me seguindo?

— Não, não estou, mas eu sei. Eu estive na lanchonete


procurando por você, então descobri tudo.

Era verdade. Eu havia tentado voltar para a


lanchonete, mas o seu Rachide fora categórico ao dizer
que não me daria uma nova chance.
Respirei fundo, pensando que só queria ficar em paz
agora, até pensar numa outra forma de reorganizar minha
vida.

— Por favor, olhe só, é muita gentileza de sua parte,


sabe, mas... eu só quero ficar em paz. De verdade. Acho
melhor ir embora.

— Posso dar a você um emprego. Vamos lá, seja


sincera consigo mesma, precisa de um. Seu irmão não
mora mais aí e seu pai agora tem uma mulher. Você só tem
a si mesma, Maya, sabe disso.

Pensei rápido e detestei admitir que ele tinha razão.

— Certo, e que tipo de emprego me daria? No cassino


do seu irmão? Não, obrigada, não preciso mais do Heitor
e de nada dele em meus planos.

— Bom — começou a procurar algo no bolso e em


seguida me entregou um cartão — aqui está meu telefone.
Se por acaso mudar de ideia, pode me procurar.
— Obrigada, mas não vou precisar.

— Nunca se sabe. Bom, eu já vou. Boa noite, Maya —


seus olhos escuros brilhavam de uma forma mais
misteriosa — foi bom rever você.

Não respondi. Vi Theo se afastar todo elegante, subir


na moto e dar a partida. Toquei o cartão dele entre meus
dedos e respirei fundo. Eu queria ficar longe de Heitor,
sabia que devia ficar longe de Heitor, que devia me
afastar dele, mas por outro lado, eu não tinha certeza
disso. Olhei novamente para o cartão que Theo me
entregara e não soube o que fazer.

Entrei na segurança de casa e encontrei papai e Beth


no sofá da sala, trocando beijos e juras de amor. Bem,
enquanto eu estava mal para cacete, meu querido pai
estava lá, curtindo sua amada, e se agora não torrava mais
o dinheiro com a cachaça, era porque torrava com Beth.
Revirei os olhos e segui para o quarto. Já na cama, me
abracei ao travesseiro e tentei não pensar no homem que
tinha mudado completamente a minha vida.

Heitor.

Onde ele estaria uma hora daquela?

Com o travesseiro ainda colado ao meu corpo,


sussurrei:

— Onde está você, Heitor?


Capítulo 35
MAYA

— QUE TAL FAZERMOS um programinha só nós


três? Precisamos comemorar que você arranjou um novo
emprego — Tati falou enquanto ela, Andreas e eu
tomávamos um sorvete de casquinha numa das mesas da
sorveteria que ficava perto da rua onde eu morava.

— Não disse que vou aceitar o emprego. Na verdade,


nem devia considerar a ideia... E quer saber, sabe o que
eu acho? — limpei toda aquela melação que respingava
em minha blusa — que devíamos fazer algo diferente
dessa vez.

— Que tipo de coisa diferente? Saltar de paraquedas?

— Seria uma boa ideia.

De repente os olhos dos meus amigos se desviaram e


pude perceber pelo semblante deles que havia alguém
atrás da minha cadeira. Virei-me para trás e encontrei
Chucky me encarando. Ele não parecia tão assustador
agora vestindo jeans surrado e uma jaqueta marrom de
couro, todavia seu semblante fechado era capaz de fazer
qualquer um que não o conhecesse se mijar nas calças.

— Heitor quer falar com você — falou, sem me


cumprimentar ou sorrir. Olhei para a janela da sorveteria
e através do vidro avistei um Heitor todo charmoso
encostado num carro preto estacionado lá fora. Tentei não
me abalar com aquela figura imponente, mesmo que essa
fosse uma tarefa árdua. Heitor vestia uma camisa social
branca que deixava pelos de seu peito forte à mostra e
usava óculos de sol tão pretos quanto seus sapatos e seu
cinto. Ele não olhava para onde estávamos. Parecia
distraído no celular. Mesmo não querendo deixar de
examiná-lo, voltei a encarar Chucky, que até o momento
parecia civilizado, ainda que mal-encarado.

— Diga a ele que não vou, que não temos nada pra
falar. E se ele esqueceu, lembre ao seu chefe que foi ele
que terminou comigo.

Droga. Acho que fui dura demais. E acho que Chucky


não é do tipo de cara que está acostumado a ouvir um
não.

Meus amigos me olharam como se eu fosse uma louca


da pedra, mas ninguém se atreveu a dizer isso. Tati
engoliu em seco e Andreas parecia assustado, com os
olhos esbugalhados.

— Não sou um garotinho de recados, garota — Chucky


me segurou pelo braço e em fração de segundos me
conduziu para fora da sorveteria. Imaginei o quanto meus
amigos deveriam estar assustados, então olhei para eles
como uma forma de acalmá-los.

— Precisa ser mais gentil com as garotas, brinquedo


assassino! — Heitor riu, assim que chegamos, movendo o
braço para guardar o celular de volta no bolso. Pelo jeito
tinha acabado de terminar a ligação. Agora me olhava. Eu
não podia ver seus olhos porque eles ainda estavam
escondidos atrás dos óculos escuros — Como vai, Maya?

— Como você acha? Mande esse ogro tirar as mãos de


mim, por favor!

— Pode soltá-la, Chucky.

Chucky obedeceu e em seguida se afastou. Também não


parecia ser do tipo que gostava de presenciar conversa de
ex-namorados. Aproveitei o momento para ajeitar meus
ombros, depois joguei uma mecha de cabelo atrás da
orelha. Respirei fundo e cruzei os braços, sabendo que
devia ficar calma e que não deveria misturar as coisas.
Tínhamos terminado, então que Heitor me deixasse em
paz.

— Tudo bem, guria? Se acalmou?

— O que você quer?

Olhou para o lado e suspirou, parecendo pensar um


pouco no que dizer. Provavelmente me caçar pelas
sorveterias do bairro não era uma coisa à qual estava
acostumado a fazer.

— Estou com saudade de você.

— O quê? Tá brincando!

— É, sei que fiz uma merda. Agi mal com você... fui
um babaca, admito. Não devia ter terminado nada entre a
gente, mas...

Mesmo surpresa, não pude deixar de me sentir bem


com o que ele falava, todavia recuei.

— Guria, sei que falei aquelas coisas pra você, só que


fiz na hora da raiva, da emoção... entende? — desencostou
do carro — Na verdade, eu estava confuso. Meu irmão
tinha sofrido um acidente e toda a morte de meus pais veio
à tona, me enlouquecendo. Então lembrei de seu pai, de
tudo o que aconteceu, de que você era filha dele...
— Eu entendi, Heitor.

— Não, não entendeu — tirou os óculos escuros do


rosto, me revelando o olhar azul violeta — Na verdade,
nunca quis me afastar de você. Nunca quis romper de
verdade. Estou muito envolvido, morena. Mais do que
pensa. Mais do eu mesmo penso.

— Heitor, eu... hum, não acho que seja uma boa ideia.
Você fez a coisa certa. Foi bom nos afastarmos. Agora
preciso voltar pros meus amigos, então... adeus.

— Maya, escute... — segurou meu braço — Não gosta


mais de mim? É isso? Vai me dizer que deixou de me amar
assim de um dia pro outro?

— Não foi de um dia pro outro...

— Foram dias — riu, contrariado — Ah, qual é. Não


vai me dizer que me esqueceu de uma hora pra outra,
morena. Estava louca por mim, fez juras de amor.
— Ah, me deixe em paz! — dei-lhe as costas, sabendo
que Heitor ficaria bravo e irritado, mas eu sabia também
que se não me afastasse agora não conseguiria mais
resistir a ele. Imediatamente senti sua mão me puxar
novamente e me obrigar a encará-lo.

— Não terminamos ainda. Precisa me escutar.

Forcei os braços, tentando me desvencilhar dele, mas


Heitor era forte demais e conseguiu me dominar. Me
segurou com firmeza e me pediu para que eu ficasse
calma, que afinal de contas, estávamos em plena avenida.

— Por que não me deixe em paz? — berrei, tentando


dizer a mim mesma que era o fim, que eu tinha superado
— Não vou voltar pra você! Acabou!

— Ei, deixe-a em paz! — uma terceira voz falou e


Heitor e eu voltamos os olhos para olhar quem era. Vi
Andreas.

— Quem é você? — Heitor falou, me soltando. Agora


parecia mais interessado em Andreas do que em mim.

Com medo do que poderia acontecer, entrei no meio


dos dois, tentando apaziguar a situação. Chucky, de onde
estava, fumava um cigarro, mas parecia pronto para
qualquer batalha. Ás vezes eu me perguntava se aquele
cara tinha nascido no meio de uma guerra. Sei lá.

— O guri parece valente — Heitor estudou Andreas


calmamente — Quem é você, mané? Não acha melhor dar
o fora daqui?

— Heitor, está tudo bem, ele não tem culpa de nada. É


só um amigo. Por favor, deixe-o em paz — Andreas, é
melhor você ir. Está tudo bem.

Andreas, mesmo receoso, olhou para mim.

— Tem certeza?

— Tenho. Tá tudo bem, pode ir.


Heitor observou Andreas ir e depois me encarou.

— É seu namoradinho novo?

— Já disse que é um amigo — cruzei os braços na


altura do peito e emburrei a cara.

— Ok. Entre no carro, malagueta. É sério, só quero


conversar.

— Só se prometer que não vai fazer nada contra


Andreas.

— Você não me conhece, guria. Olhe pro moleque. O


frangote me lembra meu irmão caçula. Mal aguenta umas
mocas — deu a volta no carro antes de lançar um olhar
divertido para Chucky — Ei, brinquedo assassino! Pode
esquecer o garoto!

Chucky fez um sinal positivo com a mão.

Concordei em entrar no carro e Heitor se sentou ao


meu lado. De onde eu estava vi Chucky entrar no segundo
carro, que estivera todo esse tempo atrás da gente. Ele nos
seguiu.

— Fiz uma merda, guria, deixando você. Só quero uma


chance. Uma porra de uma nova chance.

— E se eu não quiser mais voltar? Vai tentar me


obrigar?

Ele deu um risinho de lado, antes de desviar um pouco


o olhar. Depois voltou a me fitar.

— Ah, não seja má comigo, Maya. Já ficamos tempo


demais longe... sei, eu fui um idiota, mas... quero ficar
com você, é sério — inclinou o rosto para cheirar meus
cabelos e só então me dei conta de que seria impossível
sair dali intocável — Pensei em ficar longe de você,
Maya, mas não consegui. Fiz de tudo pra virar a página,
mas toda noite que me via dormindo na cama não parava
de pensar no quão babaca eu fui e no quanto a queria de
volta. Eu a quero de volta, malagueta... quero muito —
afundou o rosto na curva do meu ombro e não conseguir
resistir.

— Você gosta mesmo de mim, Heitor? — sussurrei, os


olhos fechados, louca por ele — Mesmo? — eu o queria...
como o queria.

— É claro que gosto... sou apaixonado por você...


louco por você... — pousou os lábios entreabertos nos
meus e logo alcançou a minha boca.

— Heitor...

— Fique comigo...

— Não sei...

— Por favor...

Sem pedir uma outra vez, se aproximou tanto e me


roubou um novo beijo. Dessa vez a paixão falou mais alto
e nos beijamos loucamente. Num movimento rápido, subi
em seu colo e comecei a tirar minha blusa enquanto ele
ainda dominava minha boca. Sabia que estava fazendo
uma loucura, que não era sensato ficar com ele, mas não
conseguia controlar o meu coração. É amor, é paixão, é
atração, é tudo misturado. Heitor me mordiscou e imaginei
o quanto o motorista deveria estar se divertindo às nossas
custas. Todavia, o telefone de Heitor de repente começou
a tocar.

Enquanto ele atendia o telefone, voltei a sentar do seu


lado e aproveitei para vestir minha blusa e para ajeitar
meus cabelos.

Que merda, Maya. O que deu em você?

Olhei para o peito de Heitor meio descoberto e senti


uma vontade louca de tocá-lo e beijá-lo novamente. Então
fiz isso. Sentei em seu colo outra vez e mordisquei seu
peitoral largo e definido. Fiquei aliviada por ele não
reclamar de meus carinhos. Bom, não devo estar
atrapalhando. Quando ele terminou a ligação, segurou
minha bunda e me apalpou, me deixando mais excitada.
Abri minha boca para que ele enfiasse sua língua
selvagem nela e a vasculhasse toda.

— Você é muito quente, malagueta... fervente, caralho.

Ri na boca dele.

— Você me corrompeu, cachorro.

Sua sonora gargalhada me deixou ainda mais excitada.


Toquei seu rosto bonito e olhei bem em seus olhos. Eram
perfeitos. Heitor era todo másculo e fabuloso e aquilo me
deixava ainda mais empolgada para continuar agarrando-o
ali mesmo no carro, sem nenhum pudor.

— Chegamos, Heitor — o motorista falou lá da frente,


de repente, me assustando.

Droga.
Me afastei do colo de Romano pela segunda vez.

— Que lugar é esse? — perguntei para Heitor, que


sorriu, malicioso.

— É a casa da minha mãe.

— É? E por que estamos aqui?

— Está na hora de vocês se conhecerem, guria.

— Mas não estou arrumada! — levei as mãos ao peito


— Heitor! Não! E estou melada de sorvete! Não acredito
que fez isso!

— Não importa — deu uma risadinha marota, antes de


dar um beijinho em minha boca — Vamos lá, Maya, está
na hora.

Preocupada, voltei a ajeitar minha roupa e meus


cabelos. Mordi o lábio inferior, me sentindo mal-vestida e
horrível. Heitor, ao meu lado, abotoou a camisa amassada.
Estava amassado porque eu o amassara com meus abraços
e beijos. Ele ajeitou o cabelo e pôs de volta os óculos
escuros no rosto, ficando simplesmente divino, mesmo
amassadinho como estava.

Entramos na casa bonita, algum tempo depois, e Heitor


me conduziu pela sala de estar completamente arrumada e
ornamentada. Percebi que a mãe dele tinha bom gosto para
decoração. Uma dorzinha na barriga me acometeu. E se
ela não gostasse de mim? Andei um pouco e logo uma
morena sorridente cumprimentou Heitor com alguma
intimidade.

— Como vai, Joana?

Joana.

Quando a tal da Joana me olhou, seu sorriso logo se


desfez. Ao menos ela deveria aprender melhor a disfarçar,
assim como a receber bem as pessoas.

— Joana, esta é Maya, minha namorada. Onde está


minha mãe?

— Lá no jardim, com o restante dos convidados. Vou


chamá-la.

— Não precisa, cheguei — disse uma mulher negra,


entrando na sala. Era gordinha, elegante e parecia bem
nova para ser mãe de um rapagão feito Heitor. A mulher
me olhou dos pés a cabeça e mordi o lábio inferior
novamente, pensando se ela me reprovaria na hora.

— Maya, quero que conheço Nora, minha mãe—


Heitor falou, me fitando, os olhos brilhando de orgulho.

— Oi — forcei um sorriso e estiquei a mão para ela


— É um prazer conhecê-la.

— Então você é a moça bonita de nome difícil que


vem fisgando esse marmanjo — apertou minha mão,
sorrindo pela primeira vez — É bom finalmente poder
conhecê-la. Ele é escorregadio como água, então, se
trouxe você até aqui é porque realmente é uma garota que
vale a pena. Venha, vamos lá pro jardim nos juntar a todos
os outros convidados.

— Obrigada — sorri para Nora, que seguiu na nossa


frente. Sorri para Heitor, que sorriu de volta e apertou
minha mão, me dando apoio. Eu não imaginava que ele
fosse tão 'família' assim. Aquilo era bom.

Quando chegamos no jardim cheio de gente, me senti


mal. Olhei para Heitor e confidenciei que ele não devia
ter me levado para um almoço sem me dar condições de
eu me arrumar. Ele me abraçou e disse que estava tudo
bem, que só havia mesmo gente da família. Respirando
fundo, segui com ele e logo avistei Theo, ali perto,
auxiliando uma criança na bicicleta. Theo me olhou, mas
não sorriu. Nem se aproximou para me cumprimentar.
Achei um pouco estranha aquela atitude, mas não comentei
nada com Heitor. Logo concluí que Theo não tinha gostado
da ideia de eu não ter telefonado e aceitado o emprego
que ele me oferecera.
***

— Você acha que ele vai ficar com você? Então é


mesmo bem iludida, queridinha. Ele não vai. No final das
contas, ele sempre volta pra mim — falou a loira que
estivera todo o tempo com Theo. Eu sabia que seu nome
era Safira e que ela tinha tido um romance com Heitor no
passado.

— É mesmo?

Olhei para a mulher e mesmo sabendo que não devia


ficar ali discutindo com ela, principalmente porque estava
na casa da mãe de Heitor, não pude deixar de rebater os
insultos que ela falava.

— Escute bem, sua cínica... — segurou meu braço,


mas eu a empurrei.

— Está louca? Escute bem você. Não toque em mim!


Nunca mais — gritei com a mulher alta e não me importei
com o fato de que muitos convidados ali perto já nos
ouviam — se você sabe fazer escândalo, eu também sei.
Não vai acabar com a minha tarde só porque o homem que
você ama não te quer mais.

Furiosa, a loira partiu para cima de mim, mas quando


ela veio, eu já estava preparada. Trocamos puxões de
cabelo e gritamos uma com a outra, até cairmos no tapete
da sala e rolarmos por ele. No entanto, antes que tudo
ficasse pior, senti braços fortes me puxaram e soube que
Heitor me segurava. Vi Theo segurar a loira escandalosa.
No instante seguinte a mãe deles chegou.

— Mas o que está acontecendo aqui? Que bagunça é


essa na minha casa?

— Essa garota! — a loira falou, me apontando — É


tudo culpa dela!

— Pra começo de conversa, nem devia estar aqui,


Safira — Heitor se meteu, parecendo zangado.
— Theo me convidou! Foi ele, seu irmão que me
convidou, não você, seu desgraçado!

— Epa, epa, epa, ninguém chama filho meu de


desgraçado na minha frente. Principalmente após fazer um
vexame desse na minha casa. Sei que deve ter seus
problemas, moça, mas eu também já tenho os meus,
obrigada. Por gentileza, Theo, tire essa garota daqui. E
depois vou ter uma conversinha séria com você.

Theo não respondeu, mas obedeceu. Conduziu a loira


pela saída da sala. Contrariada e revoltada, a mulher saiu
gritando e sua voz pôde ser ouvida até onde estávamos.
Neste momento olhei para Nora e soube que devia a ela
desculpas.

— Desculpe, eu sei que devia ter resistido à


provocação dela. Não costumo me meter nesse tipo de
encrenca.

Nora respirou fundo.


— Vocês, garotas, precisam se conter mais. Mas
venha, vamos voltar pra festa. Não quero que ela se
estrague por causa desse episódio.

Respirei fundo e senti que Heitor, ao meu lado, fazia o


mesmo.
Capítulo 36
HEITOR

— PREPARADA?

— Estou — Maya se levantou e percorri meus olhos


por todo o seu corpo. Ela usava um longo vermelho que
combinava perfeitamente com seu batom e com seu cabelo
que estava preso num coque perfeito. Não conseguia
esconder minha satisfação a olhar para seus olhos quase
negros.

— Estou bem?

— Deslumbrante.

— Não está falando isso só por que quer me agradar,


né?

— Não — peguei suas mãos com delicadeza — Sabe


que costumo ser sincero. Se digo que está bonita, acredite,
é porque está.

Ela sorriu e não podia imaginar o quanto aquele ato


fazia bem para a minha alma. Seu sorriso. Como aquela
garota conseguira me fisgar ainda era um mistério, mas eu
sabia que não podia mais abrir mão dela.

— Ei, espere — falei — falta uma coisa.

Seus olhos pretos me olharam com surpresa. E então


peguei a caixa retangular que estava em todo esse tempo
guardada no meu bolso. Abri diante de seus olhos. Logo
um colar de diamantes nos foi revelado e sorri porque
sabia que ele iria ficar perfeito em Maya.

— São pra você.

— Ah, Heitor...

— O que foi?

— Eu não devo...
— É claro que deve — tirei o colar da caixa com
cuidado, me movi para trás de Maya e tomei a liberdade
de ajeitar a joia em seu pescoço delicado.

Quando terminei ela virou-se para mim, com os dedos


no colar.

— Vou apresentá-la esta noite como minha namorada e


dessa vez não é encenação, guria — toquei seu rosto.

Com um sorriso tímido, Maya assentiu, então me


aproximei de sua testa e lhe dei um beijo. Desse modo não
borraria sua maquiagem.

— Agora venha, não devo chegar atrasado.

***

— Está dizendo que tem alguém me traindo? —


perguntei a Jarbas, algumas horas mais tarde, já no
cassino. Maya e eu tínhamos chegado e quando Jarbas me
chamou num canto para falar que precisávamos ter uma
conversa séria, pedi a Maya que ficasse perto de Theo,
que eu não iria demorar. Ela assentiu.

— Isso mesmo — Jarbas falou.

— Quem é o safado? Fala, quero saber.

— Heitor — suspirou — acho que não vai gostar de


ver...

— Quem é o miserável, Jarbas? Fala logo, porra! —


massageei o queixo, me sentindo tenso.

— Certo, quero que veja isso — pegou o laptop que


estava sobre a mesa, teclou um pouco e em segundos uma
imagem apareceu. Eram dois homens. Um deles era Max.
O outro era... Theo.

— Theo? O que significa isso? — me inclinei para ver


melhor, não acreditando no que via.
— Achei melhor você ver com seus próprios olhos.

— Theo? Tá dizendo que meu irmão é o traíra?

— Há semanas tenho desconfiado de Theo e ido atrás


dele, tentando buscar evidências, Heitor. Theo não é quem
pensa que é. Ele convenceu você a se encontrar com Max
no restaurante como também prometeu a Max uma
sociedade com o tráfico de drogas. Parece que os dois
estão determinados a seguir com o negócio, mesmo depois
de você dizer "não". E não é só isso...

Fitei-o, perplexo.

— Ainda tem mais?

— Parece que Theo já anda envolvido com Max há


anos. Dizem que seu irmão voltou a usar drogas.

— Caralho — desapontado, dei as costas para o


laptop. Pus uma mão na cintura e bati a testa na parede,
pensando em que merda de pesadelo era aquele. Jarbas
continuou falando, mas eu não conseguia pensar mais em
nada que não fosse que Theo, meu irmão, meu parceiro,
estava me traíndo esse tempo todo. Bom, eu também sabia
dos problemas de Theo em relação a drogas, ele tinha
superado isso, tinha sido no passado, quando Theo era
bem mais jovem. Theo tinha frequentado a reabilitação,
tinha superado tudo... bem, ao menos, eu pensava. Além
disso, era meu irmão, nunca poderia pensar no pior dele.

Ainda perplexo, puxei na memória todos os momentos


em que Theo saíra misteriosamente. Como meu irmão e
meu grande amigo, nunca desconfiei de nada, de nenhum
de seus passos e por isso nunca me preocupei em mandar
alguém segui-lo. Como eu tinha sido idiota... esse tempo
todo.

— O que vamos fazer em relação a Theo, Heitor? Ele


não pode continuar sabendo de todas as informações do
grupo.

— Eu sei disso. Vou cuidar do meu irmão.


— Certo. E quanto a Max?

— Não vamos participar das sujeiras dele.

Inspirei o ar e o soltei pela boca.

Ainda arrasado com toda aquela bomba que Jarbas me


deixara, voltei-me novamente para a mesa, olhei outra vez
para a tela do computador e vi a imagem de Theo
conversando com Max. Se eu não visse com meus
próprios olhos nunca teria acreditado. Nunca teria
acreditado na ideia de que o filho da puta do meu irmão
era um grande Judas!

— Deixe-me um tempo sozinho, Jarbas. Por favor —


pousei as duas mãos na mesa polida de madeira, tentando
aplacar a raiva que me dominava. Raiva e mágoa. Era
uma notícia muito pesada. Eu precisava me recuperar e
me recompor. E precisava decidir o que fazer com Theo.

— Certo. Vou ver como está tudo lá fora.


— Isso, faça isso. E Jarbas?

— Sim?

— Guarde esse segredo a sete chaves, sacou? Isso vai


ficar entre nós dois por enquanto, até eu decidir o que
fazer.

— Claro.

Jarbas saiu e minutos depois abandonei a mesa.


Precisava de uma bebida, de uma merda de uma bebida
forte. Respirei fundo e alcancei o bar que ficava ao lado
da porta. Peguei uma garrafa de lá e me servi com duas
doses. Bebi uma de cada vez, enquanto pensava no que
Jarbas me mostrara sobre Theo. Era duro aceitar, mas meu
irmão era um tremendo desgraçado. Um canalha safado!
Ficara esse tempo todo posando de fiel, mas era o maior
traíra do grupo! Como eu poderia ter confiado nele esse
tempo todo? E o que Theo ganharia com aquela falsidade
dele? Achava que eu não descobriria? Com raiva, tive
vontade de encontrá-lo e de resolver aquilo tudo entre nós
dois. Eu queria dar um corretivo nele. Com minhas
próprias mãos.

De repente alguém bateu na porta e pensei se era


Jarbas ou mesmo Theo. Apressadamente abandonei o
copo da mesa e desliguei o laptop. Abri a porta, que me
revelou Safira.

— Posso entrar?

— O que foi, Safira?

— Heitor, é sério — antes que eu permitisse, passou


pela porta. Sua maquiagem estava borrada e seus olhos
pareciam tensos.

— O que você quer, Safira? Não tenho tempo pra


discursos de ex-namorada.

— Tenho umas coisas pra falar.


Olhei a mulher à minha frente.

— Sobre seu irmão.

De repente a presença de Safira ficou mais


interessante.

— Fale, quero ouvir.

Safira ajeitou a bolsa no ombro, parecendo encontrar


uma forma de começar. Suspirou.

— Bom, não sou um copo descartável como todo


mundo pensa que sou, Heitor. Estou cansada de ser tratada
dessa forma. Por você, por seus inimigos, por seu irmão...

— O que tem a me falar sobre Theo?

— Bom, eu e ele ficamos juntos. Na verdade, Theo me


obrigou a transar com ele durante semanas em troca de...

— Em troca de?
— Ameaças. Com aquela carinha de santo ele vai
longe — riu, amarga, — ele me chantageou, Heitor. Ele
abusou de mim e me tratou como uma vagabunda. No
começo disse que ia me ajudar a conquistar você, depois
disse que me amava e que sempre foi louco por mim.
Tudo bobagem.

— E por que aceitou ser tratada como lixo por ele,


Safira?

Deu de ombros.

— Porque... bom, porque eu queria você. O que acha?


Por que amo você e aquele desgraçado me ameaçou! Eu
não queria, Heitor... eu juro que não queria encontrar com
Max.

— Você se encontrou com Max?

— Isso, mas... é uma outra história.

— Quando você encontrou com Max? O que disse a


ele?

— Nada que seu irmão não tenha dito... — avançou um


passo — Heitor, ouça. Eu amo você. Fiz tudo por amor.
Amo você. E Theo é um falso. Ele odeia você, ele tem
inveja de você, ele não é confiável.

De repente um barulho de explosão me assustou. Uma


gritaria veio lá de fora.

— O que é isso? Heitor! — Safira gritou.

— Fique aqui e não saia por nada.

— Heitor, não me deixe!

Voltei-me para ela e olhei em seus olhos.

— Fique aqui, Safira, confie em mim. Vai ficar tudo


bem.

— Tá — murmurou, os lábios vermelhos trêmulos.


Peguei a pistola da cintura e espiei pela fresta da
porta. Vi pessoas saírem correndo, agitadas. Abri a porta
e saí. Me juntei aos caras e perguntei o que estava
acontecendo. Alguém falou que o problema era na sala de
controle, que as câmeras tinham sido desligadas e que
uma bomba tinha sido colocada perto do salão de jogos.
As pessoas corriam gritando e pensei que tudo aquilo,
aquela bomba, era uma forma de causar pânico. Com a
pistola em punho, decidi seguir até a sala de controle.
Pensei em Theo. Pensei na falsidade dele. Ele era um dos
poucos que sabia tudo sobre aquela ala do Del Romano.

***
MAYA

EU TINHA OUVIDO o barulho que vinha lá de fora.


Era uma explosão. Claro que era. Mas quando tentei
correr, pensando em encontrar Heitor, alguém me segurou
e me levou para uma outra sala.

Era Theo.

Recuei dois passos e tentei decifrar seu olhar


enigmático em minha direção.

— Olá, Maya — falou, ainda segurando a maçaneta da


porta — como vai?

Não respondi. Continuei recuando. Não gostava do


jeito que Theo me olhava. Era um olhar estranho, sinistro,
meio que me dizia que algo muito ruim tinha acontecido
ou então estava prestes a acontecer.
— O que você quer? — perguntei — O que está
acontecendo? O que houve lá fora?

— Não se preocupe, eu a trouxe pra cá porque


ninguém vai nos interromper. O cassino está cheio, como
sempre.

— As pessoas estão gritando, Theo. Ouvi o barulho.


Aconteceu alguma coisa muito ruim. Onde está Heitor?

— Onde está Heitor? Onde está Heitor? — imitou


uma voz feminina — É sempre isso que ouço. Sempre isso
que ouvi quase a vida inteira.

Engoli em seco.

Algo estava estranho, muito estranho. Na verdade, eu


tinha sentido algo diferente no ar desde que Theo me
procurara em casa, me oferecendo emprego. Depois disso
Theo me olhou de uma forma estranha no almoço na casa
de Nora. Mesmo assim eu não disse nada para Heitor
porque achava que Theo só queria me paquerar, e por isso
agira daquela forma comigo.

— Você é bem mais corajosa do que eu pensava —


falou, me fazendo examinar aquele sujeito de cabelos e
olhos castanhos escuros, aquele sujeito que sempre pensei
que fosse do bem.

— O que você quer? — recuei mais passos, querendo


me afastar dele, precisando me manter longe dele —
Espero que não tenha ficado chateado porque recusei a
oferta de emprego.

— Ah, não fiquei — afundou as mãos nos bolsos do


paletó e agradeci por ele não ter trancado a porta.
Provavelmente tinha se distraído. Theo deu novos passos
em minha direção — entendo que pensou melhor na ideia
e que teve seus motivos.

— Isso, eu pensei, mas... obrigada de qualquer forma.

Ele parou. Me analisou.


— Ótimo, não está assustada com a bomba que
explodiu lá fora?

— E deveria? — mordi o lábio, pensando no que ele


faria.

Mas Theo riu. Apenas riu.

— Sabe quem eu sou, Maya?

Tentei respirar devagar.

— O irmão de Heitor. E sempre foi um cara legal


comigo.

— Não só isso. Já venci Heitor, sabia? Um dia. Um


dia eu tive algo antes dele. Ele não sabe, você não sabe,
ninguém sabe, mas eu sei. Ele sempre leva a melhor, mas
acho que não tem ideia do que rolou entre a gente.

Fiquei assustada.
— Não rolou nada entre a gente...

— Acho que não tem certeza do que fala.

— Do que está falando?

— De nós dois.

Fiquei sem fala, esperando que ele continuasse. Não


sabia que Theo era doido, mas pelo jeito ele era.

— Uma esquina escura, deserta, uma moto... não se


lembra disso, Maya? Deve ter o quê? Hum, uns seis ou
sete anos atrás. Você era quente, gostosa, inexperiente...

De repente um desespero me tomou e uma revolta


acumulada pareceu me invadir.

— DESGRAÇADO!

Theo não riu. Nem falou nada. Apenas me encarou.


Levei a mão à boca, tentando controlar a raiva e o choro.
Aquelas lembranças me faziam mal. Ele não tinha ideia de
como me feriam... então tinha sido Theo? Theo me
violentara daquela forma nojenta e covarde anos atrás?

— Eu era um drogado... vi você quando você estava


chegando em casa. Eu tinha ido atrás do bêbado que havia
no passado matado os pais de Heitor. Isso. Foi na época
em que comecei a pensar numa forma de atrair Natanael
ao cassino. Então assim Heitor descobriria sobre ele e
ficaria surtado. Era tudo o que eu queria. E foi o que
aconteceu. Tudo deu certo depois daquela noite, Maya.
Acho que você me deu sorte, morena.

— VÁ PRO INFERNO! FIQUE LONGE DE MIM!

— É mesmo? Quer que eu fique longe de você?

Ele avançou. Antes que Theo me agarrasse novamente,


dei um chute em seu saco e corri. Desesperada.
Atordoada. Não sei como consegui abrir a porta. Sem
rumo, corri. Só pensava em correr e fugir dali. As
lembranças voltavam vivas em minha mente e o pranto me
tomava. Olhei para os dois lados, tentando me orientar,
mas então levei as mãos ao rosto e liberei o pranto.

— Maya? — alguém me abraçou.

Era Heitor.

Eu sabia que era Heitor.

Era Heitor, não era Theo.

Eu o abracei de volta, me segurei nele. Ainda


chorando e ouvindo meu coração bater assustadoramente,
eu o abracei. Sem forças para falar, sem forças até mesmo
para chorar, me abracei nele.

— O que aconteceu com você? Está bem?

— Foi Theo! — gritei, segundos depois, quando fui


capaz — foi Theo, Heitor! Foi Theo que me violentou
anos atrás! Foi Theo! Ele falou! — voltei a ser derrubada
pelo pranto — Ele confessou... Oh, meu Deus, ele
confessou! — eu sabia que estava em estado de choque,
mas não conseguia parar de gritar ou chorar.

Nesse instante, senti a presença de mais alguém às


minhas costas. Eu sabia que era Theo. Heitor se
movimentou de modo a ficar na minha frente, como se
fosse meu escudo humano, e então me refugiei em suas
costas. Fechei os olhos e chorei, simplesmente chorei,
porque sabia que poderia ser o fim.

— Não escute o que ela disse — ouvi Theo gritar.

— Abaixe a pistola e vamos resolver isso de homem


para homem. Só eu e você, Theo. Deixe Maya ir embora.
Acho que já fez muito mal a ela.

— Ah, vá pro inferno!

Ouvi o primeiro tiro.

Estremeci.
Em seguida chorei.

Não queria perder Heitor! Não podia ficar sem Heitor!


Não era justo ele morrer! Theo era o vilão! Mas Theo era
quem estava com a arma apontada!

Ouvi outro disparo.

Oh, meu Deus!

Chorei, abraçada a Heitor. Desesperada. Me apertei


mais a Heitor e tive um medo terrível de perdê-lo. Não,
não e não! Pranteei, mas então percebi que ele não caíra.
Ele ainda estava de pé, me protegendo. Ao abrir
rapidamente os olhos vi Theo estirado no chão.
Novamente vi que Heitor continuava em pé e que sua
pistola continuava no lugar. Com as lágrimas embaçando
minha vista, olhei para trás e vi Chucky com a arma
apontada. Foi ele que acertou Theo.

Heitor segurou minha mão e a massageou devagar.


Virou o rosto e soube que estava sofrendo, que estava
sofrendo muito, e eu estava sofrendo também.

— Tudo bem com você? — ele conseguiu me


perguntou, antes de me puxar para si e beijar minha
cabeça.

Assenti.

Apenas assenti.

— Vai ficar tudo bem, guria — sussurrou — vai ficar


tudo bem. Vamos sair daqui.

Balancei a cabeça em afirmativo, acreditando nele.

Eu acreditava nele.

Eu confiava nele.

Eu o amava.
Epílogo

A CENA ERA LINDA. Heitor estava todo encantado


com o bebê nos braços. Eu não sabia se era Miguel ou
Artur, acho que era o Artur. A seu lado estava Carol, a
irmã de Diogo, e agora eu não tinha mais ciúmes dos dois
juntos. Ambos, Carol e Heitor, tinham sido escolhidos
para serem padrinhos dos gêmeos. Isso fora bem antes de
eu entrar na vida de Heitor e participar de sua história.

Agora de longe eu admirava toda a cena. Heitor virou-


se para mim num dado momento e piscou, dizendo com os
lábios que em breve teríamos o nosso. Eu ri. Ele estava
certo. Em breve teríamos mesmo o nosso pequenino.
Heitor não sabia, mas ele já estava no meu ventre. Nosso
primogênito. Ainda não sabia o sexo, mas já tinha quase
certeza de que era um menino. Bonito, valente e forte
como o pai. Também seria cheiroso. E teria os cabelos
loiros.
Sorri comigo mesma, imaginando o momento da
descoberta. Heitor ficaria embasbacado. Ele seria um pai
exemplar, do tipo que brigaria, mas que saberia também
dar amor. Carregaria nosso pimpolho no pescoço e
jogaria futebol com ele. Também teria a devida paciência
para pô-lo toda noite para dormir. Pensei também em
como seria quando Heitor e eu fôssemos pensar nos
nomes. Todas as noites na cama, enquanto eu apoiava a
cabeça no peitoral musculoso dele, conversávamos sobre
várias coisas. O nome do bebê seria o próximo assunto
em pauta. Eu já tinha várias ideias, mas não queria me
decidir sem antes conversar com Heitor. Aliás, sem antes
dar a notícia da gravidez para ele - uma novidade que eu
só descobrira aquela manhã.

Pensei também que já era hora de sermos felizes,


depois de tantas coisas ruins vividas não tão remotamente.
A traição de Theo, a descoberta de que ele era o meu
agressor, sua morte, tudo isso trouxe bastante tristeza para
nossas vidas, mas tudo isso também de alguma forma me
trouxe alívio. Eu estava aliviada agora porque, afinal de
contas, tinha descoberto quem me fizera todo aquele mal
no passado. Agora estava em paz. Não porque Theo tinha
morrido, mas porque de alguma forma a descoberta de sua
identidade me libertou. Bem como Heitor também estava
liberto da mágoa que sentia por meu pai. Aliás, papai
pedira perdão pessoalmente e os dois selaram a paz. Eu
sabia muito bem que genro e sogro nunca chegariam no
nível de serem grandes amigos, mas já me deixava feliz
saber que eles não se odiavam mais.

— Maya?

— Hum? — voltei dos devaneios e encontrei os olhos


azuis violeta que eu mais amava no mundo. Depois desci
o olhar no bebê suculento de seis meses que estava em
seus braços meio desajeitados e não contive uma risada.
Artur tinha as pernas e coxas grossas, os cabelos
chocolate como os de Diogo e os olhos castanhos. Na
verdade, tanto ele quanto seu irmão gêmeo, Miguel, eram
a perfeita miniatura do pai, mas eu não falaria aquilo para
Elena.
Os olhos expressivos do bebê me filmavam.

— Oh, meu Deus, mas que coisinha mais gostosa! —


gritei com Artur e comecei a apertar suas coxas não tão
expostas por causa da calça jeans — Deixe-me pegá-lo
um pouco... e como você fica bem de pai, amor! Fica tão
lindo de papai!

Heitor riu, achando que era gozação, enquanto me


entregava Artur. Segurei o bebê gostoso, brinquei
novamente com ele e o embalei. Era tão lindo e cheiroso!
Avistei Carol de longe com o outro gêmeo e olhando para
outro lado vi Elena e Diogo a todo momento sendo
cumprimentados pelos convidados. Esmeralda, de vestido
rodado azul florido, ali perto, fazia questão de ser o
centro das atenções e puxava os padrinhos Lia e Bruno
para lhes mostrar um novo passo de balé. O almoço de
batizado estava sendo no jardim da mansão sob o calor
maravilhoso e a tarde ensolarada do Rio de Janeiro.
Heitor e eu tínhamos chegado no dia anterior.
— Você também fica linda de mamãe, sabia? — ele
falou, me olhando — Será que não é uma boa hora pra
pensarmos em termos um? — sussurrou, agora malicioso
em meu ouvido antes de me dar um beijo na orelha —
Posso resolver essa situação ainda esta noite.

— Quer saber? — ergui os olhos para ele — Acho que


não precisa se incomodar, pois já temos uma encomenda à
caminho — pisquei, enquanto beijava a barriga gorducha
de Artur.

Soube que Heitor ficou sem palavras. Ele se afastou


um pouco para me olhar e seus olhos estavam brilhantes e
abertos de uma forma que me fazia rir.

— Está falando sério?

— Hmm-hmm — peguei os pezinhos de Artur


(inclusive um deles já estava com o sapato perdido) e os
esfreguei no rosto de Heitor — Fala pro dindinho que
você já vai ganhar um amiguinho, Artur, fala pra ele.
— Meu Deus, meu! Tá falando, sério mesmo? —
gargalhou, antes de me carregar nos braços, com o bebê e
tudo!

— Heitor! — ri enquanto segurava Artur com mais


firmeza para que ele não caísse ao chão. De repente o
bebê me olhou assustado e liberou um choro estridente.

Quando Heitor finalmente me colocou outra vez no


chão, beijou-me na boca, enquanto o pequeno Artur
continuava inquieto no meio da gente.

— Ah, entendi, querem mesmo matar meu filho


sufocado — Diogo apareceu de repente e resgatou o
pobre garoto das nossas garras. Ambos gargalhamos.
Enquanto Diogo se afastava todo orgulhoso com um dos
meninos de cabelos chocolate exatamente como os dele,
Heitor se ajoelhou diante de mim e acarinhou minha
barriga ainda seca.

— Bom, agora que vai ser mãe dos meus filhos, não
vejo outra opção senão a fazer isso. Pode me achar meio
careta, mas... — pigarreou — Maya, quer ser minha
mulher?

Levei as duas mãos ao rosto, com uma emoção que não


cabia dentro do peito, e não pensei em outra resposta que
não fosse o "sim".

— Sim! Minha resposta é sim! Mil vezes sim! Sempre


sim! — inclinei-me um pouco e beijei seus cabelos loiros.

Heitor sorriu, dizendo que me devia um anel de


noivado, e continuou beijando minha barriga. Mergulhei
minhas mãos em seus cabelos e passamos o restante da
tarde trocando infinitas juras de amor.

Eu o amava.

E Heitor também me amava.

E era isso o que importava.


FIM
Agradecimentos

EM PRIMEIRO LUGAR, quero agradecer a Deus por


todas as coisas, em especial, o dom para escrever. E
também quero dizer que me sinto grandemente honrada
por poder compartilhar esse dom com várias outras
pessoas. Agradeço também a oportunidade.

Também quero agradecer aos meus familiares e amigos


por sempre serem compreensivos comigo.

E como não podia ser diferente, quero agradecer


especialmente às garotas ferozes super malaguetas que me
acompanharam desde o início da Série Cassino e foram as
grandes responsáveis por fazerem do HEITOR o que ele
é. Assim como aconteceu com FEROZ e com AINDA
FEROZ, recebi muito apoio, carinho e feedback. Quero
agradecer por sempre estarem comigo e por sempre me
incentivarem com comentários mais que especiais! Vocês
são incríveis! Obrigada!

E um grande beijo a todos vocês que estão lendo


agora! Que vocês guardem Heitor e Maya num cantinho
especial do coração.

ISADORA RAES

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