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“O sentimento dum ocidental “

“Avé-Marias”

Localização temporal
Os acontecimentos situam-se no final da tarde, quando os sinos tocam as ave-marias, isto é, por
volta das 18 h, correspondendo ao período do dia apresentado no título.

Sentimentos dominantes do sujeito poético


O “eu” confessa que o ambiente em que deambula desperta “um desejo absurdo de sofrer”.
Sente-se enjoado e perturbado por tudo o que o circunda e pela atmosfera pesada resultante da
mistura das exalações da iluminação a gás com a neblina. É, por isso, evidente o incómodo gerado
por um ambiente urbano que o mura e onde as desigualdades sobressaem.

Espaços da cidade conotativa e negativamente percecionados pelo sujeito poético


As ruas, os prédios sepulcrais, que se assemelham a gaiolas, e o rio, caracterizado como viscoso.

A dimensão épica
A dimensão épica é ativada pelo recurso à memória, tal como comprovam os versos que
integram a sexta estrofe, onde claramente se vê a referência às descobertas marítimas, à luta
contra os mouros, à ação de Camões, um passado grandioso que o “eu” não verá jamais, como
o próprio afirma.

Explicitação da evocação do passado


O presente sufocante faz com que o narrador evoque um passado onde a originalidade, a
simplicidade e a busca de novos espaços abertos dominaram. Foi uma época áurea que o “eu”
desejava de novo.

Referência às varinas e o naufrágio de Camões


Tal como Camões passou por várias tormentas, entre as quais o naufrágio, também os filhos das
varinas terão como destino a pesca, atividade onde muitos pescadores, ainda hoje, perdem a
vida.

Denúncia sociomoral
A denúncia sociomoral resulta das críticas que aqui se evidenciam, suscitadas pela observação
da vida luxuosa de alguns citadinos, que contrasta com a dos pobres trabalhadores. Veja-se as
três últimas estrofes, onde se destaca a vida de miséria das varinas, que se opõe à dos que podem
frequentar os “hotéis da moda”.
Marcas linguísticas da subjetividade do sujeito poético
O uso da 1.a pessoa gramatical ao nível dos pronomes pessoais e formas verbais, o emprego de
vocabulário de conotação negativa na caracterização do espaço e, ainda, o recurso aos pontos
de exclamação, sugerem a emotividade do “eu” deambulante.

“Noite fechada”
Localização temporal
O título aponta para um período do dia em que é necessário recorrer à luz artificial e a uma maior
vigilância, factos que são comprovados nos versos “A espaços, iluminam-se os andares” (v. 9) e “Partem
patrulhas de cavalaria” (v. 29).

Sentimentos dominantes do sujeito poético: opressão e aprisionamento


Logo no segundo verso da 1.a estrofe, o “eu” afirma que o “som mortifica” e na estrofe seguinte (v. 6)
assume que se sente “mórbido” e que o coração lhe chora perante a visão das prisões, pois ele próprio
se sente prisioneiro da cidade que retrata.

Visão crítica da religião


Por exemplo: “Duas igrejas, […], / Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero” (vv. 13-14); “Nelas esfumo
um ermo inquisidor severo” (v. 15); Afrontam-me […] / os sinos de um tanger monástico e devoto.” (vv.
19-20) ou o facto de os quartéis já terem sido conventos (perpassa a ideia de continuidade de opressão).

Contraste entre passado épico (de camões) e presente negativo (percecionado pelo sujeito
poético)
O contraste entre o passado e o presente concretiza-se, de forma visual, pela oposição entre a
grandiosidade do passado épico português, presente na monumental estátua de Camões “de proporções
guerreiras” (v. 23) e a massa acumulada de “corpos enfezados” (v. 26) com que o “eu” se depara na sua
deambulação.

Desigualdades e injustiça social


A liberdade, a igualdade e a justiça social são valores que o ser humano sempre procurou e desejou
alcançar. Contudo, a opressão e as desigualdades impõem-se na Lisboa oitocentista, tal como se percebe
pela referência aos soldados e às “patrulhas” que se "derramam" pela capital, e que simbolizam a
opressão. Denota-se ainda notações alusivas às prisões e aos aljubes, locais onde os mais desfavorecidos
iam parar. Assim, houve algumas transformações, como documentam os versos: “O aljube, em que hoje
estão velhinhas e crianças, / Bem raramente encerra uma mulher de ‘dom’!” (vv. 3-4); “Sombrios e
espectrais recolhem os soldados; / Inflama-se um palácio em face de um casebre.” (vv- 27-28); “Partem
patrulhas de cavalaria / Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;” (vv. 29-30).

Realidade que inspira o eu poético


É o próprio “eu” poético que afirma “ E eu, de luneta de uma lente só, / Eu acho sempre assunto a quadros
revoltados:” (vv. 41-42), o que permite percecionar uma realidade antipoética, pelo menos em termos de
tradição literária, a qual funciona como motivo inspirador de um poeta que só mais tarde será
considerado inovador.

“Ao gás”
Crítica social e antirreligiosidade

A crítica social é evidenciada na alusão irónica a determinadas figuras humanas, como é o caso das
“impuras”, das “burguesinhas do catolicismo” (numa alusão clara aos falsos fiéis), da “lúbrica pessoa” e
da “velha, de bandós”.
A referência ao velho professor de latim, que se transformou num pedinte, vem confirmar a visão crítica
da cidade, onde as injustiças e a solidão proliferam, apesar do bulício que aí reina. É mais uma
confirmação de que a cidade confina, aprisiona, é um inferno ou um mundo de fantasmas de que urge
fugir.
A antirreligiosidade é visível na segunda estrofe, onde existe uma clara associação entre o comércio e a
igreja (o narrador, em jeito de alucinação, pensa estar numa imensa catedral profana), e em versos
como “As burguesinhas do catolicismo / Resvalam pelo chão minado pelos canos;” (vv. 9-10), “As freiras
que os jejuns matavam de histerismo.” (v. 12).

Grupos sociais visionados positivamente


Os grupos sociais que são alvo da atenção do narrador pertencem à classe operária, como é o caso do
forjador e do padeiro. Estes, emblemáticos de vigor, de honestidade e de saúde, são apresentados em
claro contraste com as impuras ou as burguesinhas do catolicismo. Também os mais desprotegidos,
como o “homenzinho idoso”, seu antigo professor de latim, lhe merecem especial atenção.

A sinestesia para expressar diferentes sensações


O narrador serve-se da visão, da audição, do olfato e do tato, sensações evidenciadas nas seguintes
expressões: “Um forjador maneja um malho, rubramente” (v. 14) – o manejar do malho produz barulho
e faíscas, daí a referência à cor rubra; “E de uma padaria exala-se, inda quente, / Um cheiro salutar e
honesto a pão no forno.” (vv. 15-16) – onde está a notação do cheiro mas também do calor emanado
pelo pão quente, o que ilustra a sinestesia.

A deambulação chega ao fim


Essa sugestão é dada na penúltima estrofe, já que se percebe que a cidade está prestes a ser
abandonada à sua escuridão, “as armações fulgentes” (v. 40) transformam-se em “mausoléus” com o
apagar das luzes, e só o grito do cauteleiro e o lamento de um mendigo quebram o silêncio da noite.

“Horas mortas”
Localização temporal
A viagem noturna do narrador levou-o até ao momento da escuridão mais profunda, momento
em que todas as luzes já se apagaram, restando apenas a que é libertada pelos astros, isto é,
uma luz natural, contudo, escassa, porque a poluição faz com que os astros fiquem com
“olheiras”.
Evasão
O desejo de transmigrar resulta da necessidade de se libertar, de fugir de um espaço geográfico
que é uma espécie de prisão fantasmagórica que lhe retira a liberdade e o amor e do qual o
poeta tem de se afastar.
A ânsia de liberdade inscreve-se nos domínios espacial e temporal, uma vez que no presente
claustrofóbico da cidade surge o desejo de, no futuro, “explorar todos os continentes / E pelas
vastidões aquáticas seguir!” (vv. 23-24), ou seja, a opressão, a solidão, o confinamento e a
morte, associados à cidade, devem ser substituídos por uma maior nitidez, pela libertação e
pelo amor possível noutro espaço, aqui representados metaforicamente pelas “vastidões
aquáticas”.
É na sexta estrofe que se evidencia a esperança num futuro que poderá inspirar-se num
passado longínquo.

A dimensão épica
Está presente na referência às frotas dos avós e à exploração de novos continentes através do
mar, como se pode ler na sexta estrofe.

Sujeito poético com vivência semelhante à d’ os citadinos


Os citadinos vivem emparedados, envoltos num ambiente nebuloso, “Sem árvores” (v. 26), o
que acentua a sensação claustrofóbica que vitima o “eu” que aí vive e sofre do mesmo mal que
os outros habitantes, tal como se percebe em “Mas se vivemos, os emparedados” (v. 25).
Assim, o emprego da 1.a pessoa do plural evidencia uma vivência comum à dos outros
habitantes da cidade.

Pontos comuns entre as quatro partes a nível temático e estrutural


Em todos os poemas sobressai o retrato disfórico da cidade, feito por um sujeito poético que
percorre as ruas, numa viagem noturna, que começa às 18 horas e que termina noite dentro.
Nesse deambular, surgem evocações do passado ou projeções futuras que contrastam com a
realidade vivenciada. Estilisticamente também se veem simetrias; cada uma das quatro secções
do poema apresenta onze quadras, o mesmo tipo de métrica (decassílabos e dodecassílabos) e
rima (interpolada e emparelhada).

O mundo percecionado por Cesário Verde ou a visão do mundo às avessas


– a representação disfórica da cidade, desde o fim do dia até altas horas da noite;
– o espaço percorrido numa atitude de deambulação mas também de captação através dos
sentidos;
– a necessidade de fuga como geradora da transfiguração, pelo recurso à imaginação;
– a evocação do passado para estabelecer simetrias com o presente.

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