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MUNICÍPIO DE FELGUEIRAS

ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO
Edgar Bernardo
Elisabete Martins

ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

cultura

2 0 11
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

FICHA TÉCNICA

Título
Vivências passadas - Memórias futuras
a cultura do linho, pão e vinho
Autores
Edgar Bernardo
Elisabete Martins
Edição
Município de Felgueiras
Praça da República
4610-116 Felgueiras
www.cm-felgueiras.pt
Design
Ricardo Alves
Gabinete de Comunicação e Imagem
da Câmara Municipal de Felgueiras

Impressão e Acabamento
CopiMarco, Lda

500 Exemplares
Janeiro 2011

ISBN: 978-989-8221-07-0
Depósito legal: 323193/11

Projecto
Vivências passadas - Memórias futuras: a cultura do linho, pão e vinho.
Projecto aprovado no âmbito do domínio do Património Cultural
do objectivo específico – Qualificação dos Serviços Territoriais de Proximidade
do Eixo Prioritário III – Valorização e Qualificação Ambiental e Patrimonial
do Programa Operacional Regional do Norte 2007-2013

União Europeia

Fundo Europeu de
Desenvolvimento Regional
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

SUMÁRIO 7 Apresentação
11 Introdução
13 VIVÊNCIAS PASSADAS: uma contextualização
14 Do Renascimento à Modernidade
22 Da 1ª à 2ª República
26 Felgueiras e o Vale do Sousa
37 ‘AS VOLTAS QUE O LINHO DÁ’
38 O Linho Está-se a Aprontar
38 Cadabulho
41 A Arriga do Linho
43 Está Tiradoiro
47 Secar e Amochar
49 O Engenho
50 Entre a Espadela e o Sarilho
54 A Brancura do Linho
56 Da Dobadoura ao Tear
59 A Terra está Mal Parecida
63 O PÃO
63 A Terra Gera o Pão
64 O Centeio e o Trigo
64 Do Cadabulho à Sementeira
65 Entre Cegadas e Malhos até ao Moleiro
66 Milho
66 Do Preparar da Terra até ao Cortar do Pendão
72 A Alegria das Desfolhadas
77 A Exultação da Farinha
80 A Farinha para o Pão
87 Destinos do Pão
91 O VINHO
91 O Vinho é Rei
92 A Videira
94 As Castas
94 Disposição da Videira
99 A Poda de um Burrico
101 Sulfato de Cobre e Cal
105 Vindima
105 Os Trocos
105 Do Alto das Cestas
106 Entre Saias e Calças
109 Ia para o Lagar
111 Cantares e Petiscos
112 Fermentação
114 A Jornada do Vinho
117 MEMÓRIAS FUTURAS: reflexão conclusiva
123 Notas
125 Bibliografia

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ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Um campo dourado de milho emoldurado por vinhas verdejantes


pontuadas de suculentos cachos de uvas é, felizmente, uma paisagem
que encontramos com facilidade nos vales férteis do nosso concelho.
Ainda conseguimos ouvir os cantares que cadenciam o trabalho
árduo, mas persistente, dos nossos conterrâneos que complementam
o sustento ganho nas indústrias do concelho com o que a terra dá. Em
Fevereiro, se a Senhora das Candeias estiver a rir, o verdadeiro agri-
cultor sabe que o espera ainda um longo inverno.

É este saber, estas vivências que constituem o nosso património ima-


terial, que queremos preservar, que deram origem ao projecto
Vivências Passadas/Memórias Futuras: a cultura do linho, pão e
vinho aprovado no âmbito do Programa Operacional Regional do
Norte – ON.2 | O Novo Norte, e co-financiado pelo FEDER. Dele
resultou o estudo etnográfico que apresentamos nesta monografia e
um documentário que preservará e divulgará as imagens, o saber
fazer que passou de geração em geração, as cores e sons do trabalho
árduo, mas gratificante.

Para aqueles que na sua infância tiveram o privilégio de partilhar


estes momentos cíclicos da vida agrícola , este projecto permitirá
reviver recordações, mas também aprofundar conhecimentos. Para
os mais jovens, e sobretudo para as gerações futuras, estes documen-
tos serão fundamentais para o conhecimento deste património que
ludicamente será dado a conhecer através da plataforma didáctica
vocacionada para o público infantil.

Vivências Passadas/Memórias Futuras é também a materialização


dos sonhos e trabalho de muitos. Lembramos o fundador do Museu
Casa do Assento, Américo Leite, que aí reuniu exemplares de instru-

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mentos de trabalho ligados à cultura do linho, pão e vinho que o


presente trabalho ajuda a contextualizar, mas também o trabalho
dos Grupos/Ranchos Folclóricos do concelho que nas suas recriações,
nas suas danças e cantares invocam estes saberes milenares que estão
na génese do nosso desenvolvimento.

Com este projecto compreendemos melhor e respeitamos a excelên-


cia dos nossos vinhos, a arte e criatividade das nossas bordadeiras que
embelezam o linho que no passado era semeado nos nossos campos e
tecido aos serões animados das gentes de Felgueiras em cuja casa não
faltava o pão de milho.

Conhecemos o saber e algumas das técnicas que ainda se repetem


ano após ano, indiferentes à evolução tecnológica que facilita a vida.
Preservamos e captamos assim as vivências, para que ninguém delas
perca a memória.

Inácio Ribeiro
Presidente da Câmara Municipal de Felgueiras

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memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

INTRODUÇÃO

O presente trabalho contempla o estudo etnográfico realizado no


âmbito do Projecto Vivências passadas - Memórias futuras: a cultura do
linho, pão e vinho, co-financiado pelo FEDER, na esfera do concurso
Património Cultural do ON2, desenvolvido entre 2009 e 2010.

A etnografia procura, pelo registo e interpretação cruzada de


objectos, de imagens e de textos, sejam eles orais ou escritos, e claro,
pela experiência contextualizadora que a presença do etnógrafo
permite, uma melhor compreensão da realidade abordada. A etno-
grafia é uma actividade inerente ao pensamento antropológico que
procura observar e descrever um determinado povo, ou um segmen-
to de um povo, de maneira minuciosa e profunda.1

Esta monografia não procura ser o sumo totalizante da memória e de


todas as outras contribuições disponíveis sobre a cultura dos ciclos
apontados, mas sim, uma contribuição que pretende apresentar tra-
ços da cultura do concelho de Felgueiras. Este trabalho constitui, por-
tanto, uma primeira abordagem à memória contemporânea sobre
um passado cada vez mais distante.

Uma memória que incide sobre as tecnologias, técnicas,


comportamentos e traços culturais que se circunscrevem ao
“tradicional”. Convém adiantar que não é nossa preocupação
esclarecer o conceito de tradição, antes procuramos plasmar a
comum acepção de “tradicional” que remete para uma esfera de
espaço-tempo de definição vaga. Isto é, entendemos que o que é dito
ser tradicional implica um contínuo referente a um passado que é, de
alguma forma, idealizado e reproduzido pelas gerações
contemporâneas com base numa romantização idílica desse mesmo
passado.

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Aqui, os “ciclos tradicionais” são, essencialmente, o conjunto de


tecnologias de referência, de técnicas aplicadas, de comportamen-
tos, consumos e de processos e actividades humanas que estavam
envolvidas na produção do linho, do pão e do vinho, e que eram
comuns, pelo menos, até à década de 1970, e que, de algum modo,
foram sofrendo mutações e adaptações até à actualidade. Esta
monografia é composta por capítulos, que vão desde a presente
introdução até à contextualização histórico-geográfica do concelho,
passando pela referência às principais alterações que a agricultura
sofreu no decorrer da história em Portugal. Apresentamos ainda o
levantamento etnográfico dos ciclos do linho, do pão e do vinho,
concretamente, a exposição dos modos de transformação da
matéria-prima, sua comercialização e consumo dos bens produzidos,
sendo esta exposição reforçada pelos contributos de informantes
locais.2 Finalmente, concluímos com uma reflexão que procura
sintetizar as ilações retiradas no decorrer do desenvolvimento deste
trabalho.

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memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

VIVÊNCIAS PASSADAS:
uma contextualização

Desde a idade do ferro, mas sobretudo sob o jugo Romano consegui-


do por Júnio Bruto em 138 a.C.3 , a prática da agricultura expande-se
de modo a providenciar a subsistência dos cidadãos, mas também a
produzir excedentes que são comercializados de forma mais
sistemática e em maior segurança. Esta crescente actividade comer-
cial, em conjunto com os avanços técnicos de armazenamento e de
transformação dos produtos, contribui para o cultivo massificado do
centeio, cevada e milho miúdo, e ao incremento da produção já
existente de linho.4

De outros constantes avanços e recuos na agricultura ao longo dos


tempos, nunca alheios à consolidação político-militar das fronteiras
que virão a desenhar o rectângulo português, é com a Idade Média
que surgem as principais conquistas internas sobre a terra arável, a
abertura de canais e valas, a edificação de diques, o aumento das
produções e o consumo do azeite e do vinho e o uso preferencial de
cereais, como o centeio e o trigo, que se perpetuou até aos nossos dias.

Refira-se, por exemplo, que Entre Douro e Minho é um espaço que é,


desde o século XI, considerado densamente habitado, onde o regime
senhorial da reconquista encontrou “autênticos viveiros humanos”
que pela posse de armas e de poderes públicos dominaram a massa
humana existente e a submeteram a uma agricultura intensiva,5 “A
sociedade do senhorio com o cultivador nasceu primitivamente da
miséria do último e da opulência do primeiro. Foi um estado
transitório, que a falta de capitais explica (…)”.6

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Um brevíssimo olhar sobre a história da agricultura permite-nos


perceber não só como foi sendo ocupado o território, mas também
como o quotidiano das populações estava marcado pelo trabalho no
campo e, por conseguinte, estabelecem-se contextos para o apareci-
mento de actividades e práticas que são entendidas como ancoradas
num tempo pretérito com origens suficientemente profundas para,
por isso também, serem entendidas como tradição. Com este
entendimento, fazemos aqui um pequeno balanço das principais
etapas da agricultura em Portugal desde o século XV.

Do Renascimento à Modernidade
No início do séc. XVI, a auto-subsistência cerealífera como objectivo
esbate-se dando lugar à livre circulação e importação de cereais,
permitindo um florescimento da pecuária. Neste decurso, também
as novas espécies de cereais e vegetais introduzidos prosperam e, no
caso do milho 7 (maiz) aliado às hortaliças e ao feijão, substituem
gradualmente o trigo e o centeio, contribuindo assim para a melho-
ria das dietas alimentares camponesas e, consequentemente, para o
aumento demográfico das suas populações.

As características do cereal milho provocaram alterações drásticas na


relação do homem com a terra e por sua vez com os animais, pois
permitiu a utilização dos seus excedentes, como a palha e a cana,
para fins tão diversos quanto o enchimento de colchões ou o
alimento dos animais. Por conseguinte, as sementeiras de trigo
caíram em desuso, aumentando a sua importação. Ao mesmo tempo,
a produção de azeite foi gradualmente crescendo e, em finais do
século XVII, o azeite significava uma sexta parte das exportações no
porto de Lisboa e uma sétima parte no Porto. Também a produção de

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memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

vinho cresceu, permitindo às regiões mais a norte uma prosperidade


até então desconhecida.

No concelho de Felgueiras, a criação de um complexo sistema de rega


permitiu contrariar o difícil acesso à água potenciando as já férteis
terras. Refira-se o aumento do uso do terreno para a sementeira de
milho que obrigou ao uso da vinha dependurada ou em árvore,
também designada de vinha de enforcado, na circunvalação dos
terrenos.8 O aumento do uso de terras para o cultivo de milho obrigou
ao uso de diferentes formas de vinha suspensa, fosse ela amarrada ao
longo de arames horizontais sustentados por marcos verticais (vulgo,
“esteios”), os chamados “bardos”, a já referida vinha de “enforcado”,
ou ainda as características “ramadas” que sobre os terrenos de cultivo
os bordejavam (colocadas até sobre zonas de passagem privadas ou
caminhos públicos).

As transformações sociais, culturais e tecnológicas ocorridas entre os


séculos XVI e XVIII alteraram a paisagem e os campos tal como até
então eram conhecidos. Para além disso, ao contrário do período
medieval que havia sido marcado por uma estratificação social clara,
onde a mobilidade social dos indivíduos era restrita à sua condição de
origem, à família, ocorreram transformações no próprio tecido
social. Com maior capacidade de mobilidade social, os indivíduos
constroem novos grupos e uma nova ordem social surge.

A ascensão da burguesia mercantil provém e promove a ascensão da


preponderância e influência do capital sobre a terra e a sua produ-
ção. A nobreza, controladora maioritária da terra, tardiamente se
apercebe das mudanças sociais que as trocas comerciais interconti-
nentais determinam. A procura de bens produzidos no Novo Mundo
desequilibra definitivamente as estratificações seculares em Portugal,
bem como no resto da Europa. Concomitantemente, a posse de título

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nobiliárquico torna-se um bem adquirível pelas novas elites que


buscam o prestígio e os privilégios de uma classe em decadência.

Em resposta a esta perda de influência e poder, a nobreza e o próprio


clero encontram nas lacunas legislativas e na ausência de um Estado
central forte, uma oportunidade para reporem a sua condição.

Entre 1750-1777, durante o reinado de D. José, em particular, sob o


ministério do Marquês de Pombal, inicia-se um longo processo de
modernização do país, reestruturação política e social, e em
particular, uma reforma profunda das finanças públicas. Entre as
reformas realizadas, destacamos, por exemplo, a aplicação de um
sistema de impostos mais eficiente sobre os proprietários de terra.

Todavia, neste período, impostos e direitos já banidos eram ainda


aplicados ilegalmente nos meios rurais como, por exemplo, a dízima,
um direito de portagem sobre os bens que eram transportados pelos
lavradores e comerciantes, anterior à nação portuguesa, e que era
cobrado pelos dizimeiros a mando dos proprietários.

Este tipo de abusos acentuava a clivagem entre os agricultores e


pequenos proprietários, e os grandes proprietários, senhores da
terra. "Assim, os direitos senhoriais, que em tantos locais vemos
serem causa directa da ruína da agricultura, (...) não sofrem
limitações.” 9 Para além dos senhores, também os próprios mosteiros
e suas ordens eclesiásticas, ao assumirem controlo directo sobre o
território ao seu encargo, agravavam os encargos sobre os indivíduos
no seu domínio de forma abusiva.10

Durante o final do século XVIII, a agricultura sofre mudanças


substanciais, desde logo pelo aumento da procura de trigo e de gado
para o consumo da cidade de Lisboa, em franco crescimento, o que
obriga a um incentivo da produção destes no lugar das produções

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habituais. Estes incentivos, e até restrições de produção de culturas


extremamente lucrativas localmente, como o vinho, trouxeram o
descontentamento e permitiram novos abusos, como aconteceu no
Alentejo onde os grandes proprietários aumentaram as rendas para
forçar o abandono das mesmas, podendo assim implantar a
produção de gado no lugar de cereais.

O conflito entre agricultores e senhores, e até com a própria Igreja,


culminou no ano de 1771, isto, apesar dos códigos legais e fiscais
introduzidos por Marquês Pombal. Este clima de conflito é potenci-
ado, portanto, num contexto de crescente dificuldade de controlo
sobre a economia e sociedade, de aumento de produção para alimen-
tar a máquina económica nacional, altamente centralizada, e é fruto
da incapacidade de adaptação do regime senhorial às novas necessi-
dade sociais.

Na verdade, esta incapacidade de adaptação é um dos factores


centrais da queda do Antigo Regime, tanto em Portugal, como em
França ou no resto da Europa. Gradualmente os senhores vêem a sua
renda senhorial diminuir, as suas terras a sofrerem um esgotamento,
os seus direitos e privilégios a cair, um aumento da resistência
popular rural e da sua capacidade de exação das rendas senhoriais.

Esta decadente condição e o aumento da eficiência fiscal do Estado


sobre si, força os senhores a recorrerem aos mecanismos que
dispunham para resistirem, e até mesmo a manipularem decretos e
direitos forais atribuídos pelo Rei. Como terá ocorrido, por exemplo,
nos Mosteiros de Pombeiro e de Arnoso, e na comenda de Veade:
“Mas foi no Minho, região de «terras apertadas», que vimos surgir
maior número de irregularidades desta natureza. Cita-se que por
malícia dos procuradores dos vários conventos e comendas, e incúria

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ou conivência dos juízes dos seus tombos, eram neles incorporadas


propriedades inteiras pertencentes a reguengos.”11

Apesar das reformas estipuladas por forais desde o reinado de D.


Manuel I no início do século XVI, o agravamento da corrupção e
opressão sobre os agricultores é assim fruto, por um lado, de um
quadro legal confuso, incoerente e pouco claro que não é suprimido
pelas novas reformas pombalinas; e por outro, fruto da gradual
perda dos rendimentos senhoriais com as novas realidades sociais em
meio rural, e do acentuar do controlo e legislação sobre os seus
domínios por parte do Estado.

No final do século XVIII, os protestos, queixas e confrontos com o


poder senhorial multiplicam-se por todo o país, e, nos casos de não
cedência, levados às instâncias camarárias e de justiça. Como efeito
directo, tanto as autoridades como os senhores respondem com um
endurecimento das suas posições. O castigo da rebeldia popular era
violento e envolveu por vezes penhoras e execuções às centenas. Um
comportamento que apenas incendiou ainda mais as massas campo-
nesas.

Num contexto de tumulto, e já no reinado de D. Maria I, são


implantadas reformas que não surtem efeitos reais dado que entre
1789-1790 o país mergulha numa crise agravada pela subida
repentina dos preços que acelerou o empobrecimento dos pequenos
agricultores e engordou as bolsas dos mais abastados. Portugal vê-se
subitamente sob o jugo do endividamento externo, então à Inglaterra,
que por sua vez se encontra em guerra com a França de Napoleão.

Politicamente condicionado, Portugal entra também em guerra com


o imperador francês. Com o aproximar dos exércitos napoleónicos,
em 1808, D. Maria I foge para o Brasil com a sua corte. O país entra
num vazio político que, agravado pela presença de militares

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a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

estrangeiros, faz florescer as ideias de mudança de regime e de


condição das massas deixadas à sua sorte pela coroa portuguesa.

Dois anos depois, com o auxílio inglês, termina uma invasão que
abalaria definitivamente o futuro do país. Na verdade, com o fim da
invasão em 1810, é assinado um acordo comercial com a Inglaterra
que lhe permite reforçar o domínio comercial intercontinental, e
agravar a crise económica nacional. Crise esta que em 1811 obriga a
Coroa a vender os seus bens, como a terra, que viria a ser adquirida
pelos já abastados lavradores e criadores locais, acentuando o fosso
entre os ricos e os pobres.

Com as invasões haviam sido pilhadas, destruídas e danificadas infra-


estruturas comerciais e ferramentas agrícolas. Com a emigração para
o Brasil, a guerra, a fome e doenças, o número de braços disponíveis
para trabalhar as terras estava extremamente reduzido. Com as
terras abandonadas, e com uma escassez de gado, os cereais
importados vendiam-se por valores mais baixos do que os da
produção nacional. Mesmo no caso do vinho, principal produto de
exportação nacional, a produção não conseguia competir com os
vinhos importados. Portugal atinge nesse ano o mais elevado défice
na balança comercial com o estrangeiro.12

Como reflexo directo da insatisfação geral pelo contexto de crise


político-económica ocorre a Revolução Liberal de 1820, no Porto,
que viria, por um lado, a abrir o caminho para a independência do
Brasil, e por outro, à compilação da primeira Constituição
Portuguesa e à criação da Monarquia Constitucional, ambos acon-
tecimentos no ano de 1822.

O fim dos privilégios pré-constitucionais atenuou as desigualdades


sociais, sobretudo as de índole legal, sendo que antigos senhores e
agricultores, tal como os burgueses, seriam iguais em direitos e

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deveres à luz da Constituição. Esta procura por uma sociedade mais


igualitária consubstanciou-se em medidas, tais como, entre outras: a
extinção da dízima, redução da sisa e abolição dos direitos feudais,
nacionalização dos Bens da Coroa e expropriação das ordens
religiosas, e extinção de outros entraves à livre circulação de bens.

O novo uso da terra deu fruto proveitoso aos novos proprietários, e o


desenvolvimento dos transportes e das comunicações propiciou o
desenvolvimento económico geral, atingindo-se mesmo, entre 1838
e 1855, a auto-suficiência cerealífera.

De facto, em 1819 registavam-se dois terços do solo nacional em


pousio e em cinquenta anos esse número reduziu para metade e
assim, gradualmente, desenvolveu-se então a cultura da batata e do
arroz. Por outro lado, também neste contexto, entre 1853 e 1890, o
oídio e a filoxera fizeram grandes estragos nas vinhas, dizimando
vastas extensões e criando problemas económicos e sociais que se
reflectiram na economia regional e nacional, diminuindo a produção
e a exportação do vinho. Uma vez mais um acontecimento que
demarcou os usos e costumes das populações, pois a necessidade de
combate a esses problemas resultou numa nova forma de cuidar da
vinha, introduzindo novas técnicas no quadro vinícola.

Numa época de reorganização nacional iniciou-se o registo de


informação através de inquéritos enviados dos governadores civis
aos administradores de concelho. No caso de Felgueiras, através da
análise dos documentos preenchidos pelo então administrador do
concelho 13 em 1893, encontramos dados referentes à produção de
vinho, azeite, aguardente, vinagre e frutos secos.

Refira-se que a produção de azeite no concelho era escassa sendo


necessária a importação do mesmo de outras zonas do país, como do

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Alentejo ou de Trás-os-Montes, e a de frutos secos estava a decrescer.


Todavia, a produção de vinho ressurgia, registando-se em 1897 nas
freguesias do concelho um número elevado de pipas de vinho, entre
20 e 100, em vinte e quatro freguesias, e entre 100 e 500 pipas,
noutras sete freguesias do concelho.14 Por outro lado, em géneros
alimentícios destacam-se a produção de milho com cerca de 1880
toneladas, de feijão com 198 toneladas, e a produção de palha
centeia para forragens com 120 toneladas.

Os documentos revelam que, no que toca a cereais e leguminosas, o


concelho era auto-suficiente e ainda comercializava um terço da sua
produção. Relativamente ao vinho, em 1899, foram comercializados
dois terços do mesmo, sendo que metade se destinou à exportação,
sendo comercializada também metade da produção de aguardente e
importadas 100 toneladas de azeite. Os números enunciados,
permitem-nos inferir que o concelho de Felgueiras era exportador de
cereal e vinho, e importador de azeite.

Pretendendo esta fomentar o desenvolvimento da agricultura e


contribuir para um maior e melhor conhecimento agrícola da região,
em 1895, é fundado o Syndicato Agrícola de Felgueiras. A sua acção
inicial era o abastecimento de adubos e correctivos a preços que
competiam com os do mercado, e a produção de vinho verde de
qualidade, tendo conseguido uma medalha de bronze na exposição
de Bordéus em 1896.

Em suma, retornando ao contexto nacional, a burguesia


aristocratizada vê na criação do Estado moderno uma forma de
aplicar uma dupla estratégia de apropriação-exclusão, desejando
simultaneamente, os privilégios da antiga nobreza, em particular a
posse de terra, e a acumulação de riqueza sacrificando as classes
inferiores, nomeadamente, por via da taxação de impostos.

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Isto significa que, se por um lado a garantia de certos direitos


balanceou condições sociais e potenciou a possibilidade de uma
condição mais próspera a todos os cidadãos, por outro, a
concentração de riqueza, e com ela a aquisição de terras, veio
propiciar uma mudança de posse das terras, e em resultado, uma
mudança de senhores feudais a senhores burgueses.

Da 1ª à 2ª República
A conjuntura que a sociedade portuguesa vive, de confronto interno
entre classes, de crise económica, défice externo, e de opressão sobre
as classes mais dependentes, como a camponesa, acaba por criar
condições que levam ao descontentamento das massas e das elites, e
com ele ao regicídio e à revolução política com a instauração da 1ª
República em 1910.

Todavia, a esperança de novas mudanças no sentido da moderni-


zação do país, tanto no campo industrial como agrícola, esmorecem
com o atropelar constante dos sucessivos governos que fazem o país
mergulhar numa instabilidade que em nada beneficiou os seus
cidadãos. Como resposta à decadente situação política e social, e
após a ditadura militar que durou de 1926 a 1928, Portugal abraça a
Constituição do Estado Novo, que coloca no poder Salazar.

Durante o Estado Novo, sobretudo até ao final da segunda guerra


mundial, Salazar opera inúmeras mudanças económicas e
financeiras que permitem um equilíbrio das contas públicas e, com a
neutralidade que advoga durante o conflito mundial, um aumento
substancial da produção industrial e agrícola nacional. Embebido do
fulgor promissor do Estado Novo, a retórica do inevitável Portugal
modernizado inferia que "sem o progresso, a tradição morre,

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definha, extingue-se, asfixiada num primitivismo estagnado, fixo em


estádios que os séculos ultrapassaram e venceram. E qual é hoje o
Povo, urbano ou rural, que se possa dizer civilizado sem que a
electricidade não influa no seu trabalho e comande a sua ferra-
menta?"15

De facto, a partir da década de 1950, o regime abre as portas ao


comércio externo e investe na indústria nacional, em infra-
estruturas, no turismo, nos transportes, etc., e em 1959 adere à
Associação Europeia de Livre Comércio. Esta adesão potencia a
economia portuguesa e promove uma verdadeira modernização nas
tecnologias agrícolas. “Desde há muito que os pequenos e médios
agricultores conscientes se apercebiam que, para as suas explorações
não se limitarem a uma sobrevivência vegetativa e atingissem o nível
de prosperidade que os dignificasse como lavradores e como
cidadãos, tinha de se operar uma mutação profundíssima (...).”16
Como exemplo dessa modernização, consideramos os dados
referentes à percentagem da população activa agrícola no distrito do
Porto que dos 21,7% de 1950, cai para os reveladores 10% da década
de 1970.17

O Salazarismo, através de uma articulação entre a potenciação da


indústria, sem a supressão total da agricultura, permitiu o contenta-
mento generalizado, ou pelo menos uma estabilização, nas classes
dominantes e na classe camponesa. De uma forma astuta, a política
do salazarista consegue ultrapassar as contradições internas e
transitar de forma lenta mas estável de uma sociedade agrária para a
industrial.

A necessidade de tantos trabalhadores nos campos é drasticamente


reduzida o que, em paralelo com a opressão do regime sobre as
liberdades individuais, impele ao êxodo rural e sobretudo à

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emigração, tanto para o Brasil e Europa, como para as províncias


ultramarinas. No caso concreto do contexto abordado neste
trabalho, todavia, a realidade parece ser contraditória. Apesar da
área média de exploração agrícola no distrito do Porto, e no concelho
de Felgueiras serem próximas, o número percentual de tractores
existentes em Felgueiras por 100 ha é 0,3 em contraste com a média
do distrito que é de 0,9.18

Este factor correlacionado com a taxa de analfabetismo associado aos


agricultores do concelho, que ultrapassava os 40%, desde logo
antevia uma modernização agrícola muito abaixo da média nacional,
e com ela um perpetuar das condições de trabalho e de vida dos
agricultores. Entre Douro e Minho apresentava, ainda em 1952/54,
explorações de parceria que representavam mais de 9% do número
total de explorações, decrescendo para cerca de 8% do número, e 7%
da superfície total das explorações em 1968.19

De facto, pelo menos desde os anos 40, Portugal via a sua superfície
total de exploração decrescer rapidamente, com excepção para as
explorações de parceria, entre senhorio e o(s) caseiro(s) ou entre o
proprietário e cultivador(es), sobretudo na sub-região Entre Douro e
Minho. Este fenómeno das explorações de parceria continuou a
subsistir em vários concelhos da sub-região, incluindo Felgueiras,
mesmo após a Revolução de Abril de 1974.

De acordo com os dados do Recenseamento de 1979, existiam ainda


muitos casos de regime de parceria, dos quais o Estado não tinha
conhecimento, visto que os contratos deste tipo eram estabelecidos
entre os senhorios e caseiros oralmente.20 Tradicionalmente o caseiro
utilizava como principal força de trabalho a sua família e submetia-se
às exigências do senhorio em contratos verbais de duração anual
“com início e fim normalmente a 29 de Setembro (dia de S. Miguel) e,

24
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

desde que não fossem denunciados por qualquer das partes até 60
dias antes do seu termo, consideravam-se automaticamente renova-
dos por igual período de tempo”.21

Com o aumento da emigração e suas remessas, a crescente oferta de


emprego proporcionada pela indústria, e difusão dos órgãos de co-
municação, o acesso escolar generalizado, etc., o meio rural torna-se
consciente e interveniente nas novas normas, valores e comporta-
mentos sociais. Como tal, os caseiros e pequenos agricultores vêem-se
forçados a adaptar as suas explorações e produções aos desejos do
mercado, e os senhorios a reduzir, ou abolir, o grosso das suas exigên-
cias de produção.

No que concerne ao concelho de Felgueiras, resta notar que, embora


de facto toda esta conjuntura tenha conduzido ao abandono dos
campos, o principal responsável por esse abandono no concelho foi
também, em larga medida, o aparecimento e propagação das fábricas
de calçado. Estas, implantadas desde a década de 1960, travaram o
êxodo migratório, e reduziram a necessidade de modernizar a
agricultura, o que jogou a favor da continuidade da utilização das
técnicas tradicionais, ou da sua lenta renovação e substituição.

Os agricultores tornaram-se operários fabris repentinamente, mas


não deixaram de produzir e cultivar as suas terras, fosse com a mão-
de-obra familiar ou assalariada, ainda que apenas para consumo
próprio. Esta derivação de agricultores assalariados para operários-
agricultores, pode explicar assim, a mescla tecnológica e técnica na
produção agrícola do concelho de Felgueiras, que é simultaneamente
marcada por uma industrialização dispersa e repentina,22 e por uma
lenta e parcial modernização da produção agrícola.

25
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Felgueiras e o Vale do Sousa


Uma curta alusão à história do concelho de Felgueiras remete-nos
para tempos tão remotos quanto a Idade do Bronze, isto tendo,
precisamente, a agricultura e o seu desenvolvimento como linha
temporal de referência. O Povoado de Cimalhas, alvo de escavações
arqueológicas entre 2003 e 2004, demonstra com evidência a
existência de povoamentos em Cimalhas anteriores a 2000 a.C., na
actual freguesia de Sernande. Os cento e vinte e dois silos com
capacidade de armazenamento entre os 400 a 500 litros, bem como
objectos relacionados com a produção de cereais e o processo de
farinação, são exemplo da ocupação do território e das práticas
agrícolas nele desenvolvidas. As povoações concentravam-se em
povoados de dimensão ainda pequena situados em pontos elevados e
Fotografia aérea da escavação do de fácil defesa, os denominados castros, dos quais as evidências ainda
Povoado de Cimalhas, silo para arma-
zenamento de cereais e um vaso res-
remanescentes em vários concelhos de Entre Douro e Minho são
taurado, respectivamente. prova da sua existência.

26
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Todavia estes povoamentos foram, com a chegada dos Romanos,


sendo assimilados, destruídos, deslocados, e perdem a sua
funcionalidade, tendo sido definitivamente abandonados antes da
transição para a Idade do Ferro”.23 Novas localizações como a Villa
Romana de Sendim, confirmada em 2008,24 evidenciam a influência e
o domínio do Império Romano na região desde o século I a.C.: “A sul
do rio Vizela e na bacia do Sousa, muitos dos seus povoados - como o
castro do Senhor dos Perdidos, o castro do Ladário, o castro de Santa
Marinha, o castro de S. Simão, ou o castro da Pedreira - mostram
sinais de romanização a partir dos finais do século I a.C., mas até aos
finais do século seguinte serão progressivamente abandonados”.25

Com toda uma nova forma de organização política e social, de


produção e de comércio, os hábitos vão sendo moldados à imagem da
lei romana que, com a proximidade de Bracara Augusta (Braga) e dos
seus exércitos é reforçada, permitindo que villas romanas e seus
senhores, como a de Sendim, subjuguem vastas extensões. Pondera-se

27
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

que a Villa de Sendim terá experienciado grande produção agrícola e


domínio, sobretudo entre finais do século III, devido às expansões
detectadas na dita propriedade.26

Com a chegada dos Suevos à península, nomeadamente com a


pilhagem de Bracara Augusta pelos Visigodos em 455-456, esta acaba
por escapar ao controlo romano e passa a ser a capital dos novos
senhores da região a partir de 585. A chegada dos “povos bárbaros” a
toda a Europa e a sua adaptação à organização social e religiosa
romana existente permite o início de uma nova ordem social. Novos
reinos são forjados e a reconquista cristã, potenciada pela ocupação
muçulmana do centro e sul da península, reforça o feudalismo,
assente no domínio da nobreza e do clero sustentadas pelas popula-
ções camponesas.

A Villa Romana de Sendim foi uma


grande propriedade agrícola que se
estendia no vale entre Sendim e
Jugueiros. Era encabeçada por uma
casa senhorial de grandes propor-
ções (pars urbana) estruturada à volta
de um espaço aberto central, o
peristilo, com galerias porticadas,
para as quais abriam os quartos
(cubicula), a sala de banquetes e
recepções (triclinium), e estava
dotada de umas termas, onde ainda
se conserva o seu hipocausto, e a
piscina de água fria. Muitos dos seus
compartimentos estavam pavi-
mentados com mosaicos polícromos
de decoração geométrica.

28
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

No que se refere a Felgueiras, enquanto um povoado relevante no


contexto nacional, tem a sua primeira menção de destaque no
testamento de D. Muma, ou Mumadona, como é mais conhecida,
datado do ano de 959, onde no qual lega bens, herdades, igrejas,
paramentos, alfaias, etc., ao cistério de Guimarães (Igreja da Senhora
da Oliveira). Contemporaneamente, num inventário dos bens,
igrejas e herdades do rico cenóbio de Guimarães, na mesma Igreja,
datada do ano de 1059 são referidas várias freguesias de Felgueiras.

Na verdade, com a Reconquista Cristã, entre os séculos X e XII, Hipocausto das termas da Villa
foram edificadas a maioria das igrejas românicas que hoje adornam o Romana de Sendim, datado do séc.
III a.C.
património cultural de Felgueiras, bem como, o mosteiro de
Bilha restaurada, do séc. IV/V, encon-
Pombeiro. Este, casa de monges Beneditinos, representou um
trada no Triclinium da casa da Villa
importante epicentro geográfico localizado numa encruzilhada de Romana de Sendim.
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

estradas medievais que conduziam a Guimarães, Braga, Porto, todo


Trás-os-Montes, e via Lamego, para a Beira. Este mosteiro, nos finais
do século XIII, “Com as doações e dádivas dos fieis, tornou-se rico e
as suas propriedades e casais estendiam-se ao largo chegando a Vila
Real”.27

Em 1112 é criado o couto de Pombeiro por D. Teresa,28 mais tarde,


em 1247, D. Afonso III, doa o couto ao mosteiro de Caramos. Já em
1220 durante as inquirições de D. Afonso II, o então julgado de
Felgueiras era composto por vinte freguesias. Mais tarde, há menção
de doações de D. Dinis a um seu filho bastardo, em 1325, que deteria
alguns povoamentos locais, nomeadamente Unhão, mas que logo no
reinado de D. Afonso IV foram agregadas às posses da coroa.

Felgueiras recebe o seu foral em 1514,29 e em 1515 D. Manuel I atribui


Foral a Unhão,30 ascendendo este a concelho controlando as actuais
freguesias de Vila Verde, Pedreira, Rande, Sernande, Lordelo e parte
de Varziela. Em 1833 o concelho de Felgueiras deixa de pertencer à
comarca de Guimarães e é transferido para a de Amarante, tal como o
concelho de Unhão. Todavia em 1835 Felgueiras passa para o distrito
de Braga e Unhão para o distrito do Porto.

Marcado claramente por uma profunda e complexa reorganização


política e administrativa durante o século XIX, devemos referir que o
concelho de Felgueiras, em 1835, foi repartido em quatro julgados.
Já em 1855, Felgueiras conhece a sua condição política mais elevada
até à data ao ser elevada a comarca. Alguns anos mais tarde, em
Foral de Felgueiras e Foral de Unhão,
outorgados por D. Manuel I, em 1514
1882,31 também a administração religiosa de Felgueiras, até aí
e 1515, respectivamente. controlada pela Arquidiocese de Braga, passa finalmente para o
Diocese do Porto. Finalmente, em 1927, Felgueiras absorve fregue-
Na página seguinte, perspectiva
aérea do Mosteiro de Santa Maria de
sias pertencentes à comarca de Lousada, e no ano de 1990 ascende a
Pombeiro. cidade.

30
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

31
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Sobre este constante acerto político e administrativo do concelho,


deve ser notado o crescimento da população residente em
Felgueiras, sobretudo nos últimos dois séculos. Entre 1258 e 1706 a
sua população cresceu apenas dos 4.800 habitantes para 11.000,
enquanto que no século XX a sua contagem disparou dos 25.000 de
1930 para os 48.000 em 1981.32

O rápido crescimento da sua população,33 em particular nos últimos


dois séculos, contrariou a tendência de desertificação dos meios
rurais, mas também permitiu um crescimento desorganizado da
malha urbana, também ela já dispersa por si há séculos.34 É de todo
este cenário que o actual concelho de Felgueiras resulta numa “região
com caracterização própria, dotada duma agricultura fértil e onde a
indústria se implantou um tanto esmo por todo lado, sem contudo
ter descaracterizado completamente a paisagem natural”.35

Já geograficamente este concelho caracteriza-se por paisagens


relativamente homogéneas com vales extensos impregnados de
vegetação e pequenas e médias culturas, bem como, pela densidade
populacional de pequena dimensão com aglomerados que não
ultrapassam os dez mil habitantes. Contando com 59.000 habitantes,
o concelho de Felgueiras surge como um dos concelhos mais jovens
de Portugal, e mesmo da Europa.36

Situa-se numa área planáltica, e o seu nível climático caracteriza-se


como relativamente frio, com uma temperatura anual média que
oscila entre os 7º e os 15º,37 sendo uma região demarcada pela geada,
que ocorre em média 45 dias por ano e com uma pluviosidade em
O concelho de Felgueiras caracte-
riza-se por paisagens relativamente
duas estações, chuva intensa de Outubro a Maio e sem precipitação
homogéneas, com vales extensos im- de Junho a Setembro. Ostentando ainda uma riqueza e complexi-
pregnados de vegetação e pequenas
dade na sua rede hidrológica natural assente, no rio Sousa e seus
e médias culturas, conforme vemos
na imagen da página seguinte. afluentes, concretamente, o rio Ferreira, rio Mésio e rio Cavalum,

32
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

que tem vindo a sofrer alterações consideráveis pela mão humana ao


longo dos séculos.

Felgueiras está situada numa região designada de Região de Entre


Douro e Minho, mais especificamente denominada de Vale do Sousa,
por se encontrar no decurso do rio Sousa que tem a nascente na
freguesia de Friande (Felgueiras) e que desagua no rio Douro. O Vale
do Sousa reúne características geográficas de acentuada arborização e
de pastos abundantes de Inverno, que permitem uma irrigação dos
terrenos, bem como, abarca um predomínio do cultivo do milho,
sobretudo para alimento de gado, e de cultivo de vinho verde, graças às

33
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

suas encostas. Tido como elemento identificador de uma sub-região do


Douro Litoral ou Baixo Douro,38 o Vale do Sousa abarca os concelhos
de Penafiel, Paredes, Lousada, Paços de Ferreira, Castelo de Paiva, e
claro, Felgueiras. Procurando encontrar no rasto do seu desenvolvi-
mento as marcas de um passado que parece estar definitivamente a
desaparecer, Felgueiras, hoje, procura nas produções agrícolas tradi-
cionais, ou parcialmente tradicionais, mais concretamente, do linho,
do pão e do vinho, operar um levantamento etnográfico que contribua
para reconstruir a memória de um passado recente.

As culturas que são visadas neste trabalho sofreram mutações de cariz


A região do Vale do Sousa ostenta diverso até hoje, assim é coerente que agora passemos à sua con-
uma riqueza e complexidade na rede
hidrológica natural, assente no rio
textualização, às referidas mudanças tecnológicas e técnicas, e às suas
Sousa e seus afluentes. mutações sociais.

34
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

35
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

‘AS VOLTAS QUE O LINHO DÁ’

O linho é uma planta herbácea que pode atingir uma altura máxima
de 1,1 metros, sendo a sua flor de cor azul ou branca. Composta
essencialmente por uma substância lenhosa, no seu interior, e de uma
substância fibrosa que a reveste; é desta que se retira a fibra necessária
para a produção de tecidos.

Trabalhado na nossa península desde, pelo menos, há 4.500 anos,


todavia, só com o jugo de Roma e da pax romana, é que o solo foi
desbravado e ocupado de forma mais consistente pelas plantações de
cereais e outras espécies de plantas que o homem podia consumir e
transformar.39 A influência do povo invasor por todo o seu império
determinou, e ainda determina, a terminologia latina de boa parte
dos termos referentes ao linho como, por exemplo, bragal, tomentos,
Campo de linho amadurecido pelo
estriga, espadelar, etc. calor de junho, aguardando as mãos
que não tardam a libertá-lo da terra
Mais tarde, durante todo o período da Idade Média, é visível como o mãe.
linho é tido como parte integrante do pagamento de taxas e de
portagens, por exemplo, em algumas das cartas de foral emitidas
desde D. Afonso Henriques.40 O pagamento em linho aos senhores,
prolongou-se por vários séculos, atravessando tanto o período da
Monarquia, como a 1ª República até à actual; desta feita, como uma
parte do pagamento anual dos caseiros aos seus senhorios. Desde
sempre o linho obteve larga importância no quotidiano das famílias,
sendo um dos materiais mais utilizado para manufacturar vestuário,
"(...) no decurso da Baixa Idade Média, as referências expressas ao
linho e actividades linheiras (...) são numerosíssimas, atestando com
segurança a grande amplitude, aí, do seu cultivo, e a importância e
valor que possuíam na vida da nossa sociedade rural e popular…”.41

São diversas as variedades de linho existentes, no entanto, em


Portugal, são cultivados sobretudo três tipos: Galego, Mourisco e

37
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Riga Nacional. No Norte do país, dadas as características do solo e do


clima, cultiva-se o linho Galego; considerado como o melhor no que
se refere à brancura e finura da fibra. É semeado na Primavera e
cresce por dois meses e meio. Para a sementeira escolhem-se campos
férteis, de terras fundas e frescas, dispondo de água para regar.
Características geo-climatéricas que podem ser encontradas não só
no concelho de Felgueiras, mas também em todo o Vale do Sousa.

O Linho Está-se a Aprontar


Cadabulho
Antes de lavrar o terreno destinado à sementeira, o agricultor fazia o
cadabulho ou rapeiro, que consistia em limpar, com uma sachola, as
delimitações do terreno de todas a ervas, incluindo as que ficavam
junto das videiras, árvores ou muros; com um engaço eram retiradas e
espalhadas no campo a fim de se misturarem com o estrume. Esta
limpeza era efectuada por alturas da sementeira, entre Abril e inícios
de Maio.

Depois de efectuado o cadabulho, a terra era estrumada e de seguida


lavrada utilizando o arado. Esta técnica agrícola procura revolver a
terra, descompactando-a, de modo a garantir que as raízes das
plantações se desenvolvam. Os arados eram movidos por tracção
animal, usualmente por meio de uma junta de bois.

Depois de lavrar a terra, o passo seguinte era gradar, utilizando para


o efeito uma grade 42 puxada por uma junta de bois e conduzida por
uma pessoa, que tanto podia posicionar-se à frente da junta de bois,
como de pé sobre a grade. Esta tarefa era efectuada em toda a
Na página seguinte. Com a cesta de
vime, o agricultor faz a sementeira a
extensão do terreno de modo a desfazer os torrões. Depois de
lanço da planta do linho. efectuada a sementeira, o terreno voltava a ser gradado, mas desta

38
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

vez com a grade virada ao contrário (com os dentes para cima), de for-
ma a alisar a terra o mais possível.

Finalmente engaçava-se a terra, passando um engaço por toda a


extensão do terreno, com o objectivo de a alisar ainda melhor; este
aspecto era condição fundamental para que o linho crescesse
robusto.

A semente do linho, a linhaça, era espalhada manualmente


(sementeira a lanço) pelo agricultor, que carregava consigo uma saca
ou cesta com as sementes. Ao fim de três dias a planta começava a
despontar.

Ali no Abril... semeava-se o linho e aquilo


tinha de ser muito engaçadinho, muito
engaçadinho, por causa das ervas, que
aquilo não era sachado. Era assim muito
engaçadinho e ós depois regado, regava-
se com água e começava assim a nascer.
[Homem, 75 anos, Borba de Godim]

A terra é lavrada e gradada, e depois


semeia-se o linho, torna-se a gradar e
depois quando ele nascer rega-se! Ele
depois cresce até deitar flor depois larga
à moda de uma bolinha que é a bagarela.
[Mulher, 78 anos, Jugueiros]

A rega do linho variava consoante fosse


semeado de Inverno ou na Primavera.
No primeiro caso não havia necessidade
de o regar, O linho q'ando falaba dezia: a
sede passaba q'ando chobia. O linho que

39
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

normalmente se semeava no nosso concelho era-o na Primavera,


exigindo regas abundantes. O sistema de rega traduzia-se pela
abertura de uma rede de pequenas valas, previamente abertas por
altura da sementeira. Esta tarefa era normalmente designada por
aleirar. A água enchia as valas que eram propositadamente
A frescura da água é conduzida pela entupidas, com um basculho (pau onde foram atados na ponta fetos,
abertura de uma rede de pequenas
valas, previamente abertas por altu-
palha seca, rapão de erva ou trapos), de forma a fazer transbordar a
ra da sementeira do linho. água e assim regar toda a extensão do linhal.

40
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

A Arriga do Linho
A colheita ou arriga do linho, ocorria quando a planta apresentava um
tom amarelado, sinal de que o amadurecimento total das suas cápsulas
estava para breve. Pela Santa Cruz vai ver se o linho reluz! O linho era
apanhado normalmente por volta do mês de Junho. Antes mesmo da
A arriga (apanha) do linho, com a
arriga, em algumas localidades, era costume na noite de S. João rebolar força das mãos que delicadamente o
pelo linhal, o que indicia um ritual antigo associado à fertilidade. semeou.

Quando a cabecinha tinha semente dentro, punha-se


amarelinha, às vezes começava a querer abrir e toca a
arrancá-lo e ia para o beiral e fazia-se umas mãos-cheinhas
para depois poder ripar!
[Mulher 82 anos, Felgueiras]

41
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Depois dos molhos atados, há que


transportá-los para a eira a fim de
ser retirada a semente para a próxi-
ma sementeira.

42
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Está Tiradoiro
O primeiro processo operatório da transformação do linho do estado
natural, em planta, para o estado de tecido manuseável denomina-se
ripar. Ripar consiste em retirar a baganha da planta, (cápsula onde
está a semente do linho, ou linhaça), utilizando para o efeito o ripo ou
ripeiro. Este objecto de metal e madeira tem cerca de um metro de
comprimento e é constituído por dentes de metal, em pente, com A força braçal dos homens, em mo-
vimentos cadenciados sobre o ripo,
aproximadamente 30 cm cada, assentes numa trave de madeira. separa a semente dourada da planta
Antes de se iniciarem os trabalhos, o ripo é fixado, normalmente na do linho.

43
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

cabeçalha do carro de bois, no sentido de manter a sua estabilidade e,


assim, proceder-se ao arranque da baganha. Esta tarefa era executada
por homens, dada a necessidade de um esforço acrescido para
efectuar este trabalho. Pegavam nas gabelas (molhos de linho) que
lhes eram entregues pelas mulheres e introduziam-nas nos dentes do
ripo puxando-as na sua direcção. A baganha caía no chão, sendo-lhe
mais tarde retirada a linhaça para a sementeira do ano seguinte. O
caule da planta era disposto em molhos, a fim de ser submetido ao
tratamento seguinte.

Uns de cada banda, os homens é que ripavam o linho... depois,


aquilo era uma brincadeira, as mulheres estavam a fazer mão-

Depois de atados pelas mulheres, os


molhos de linho são transportados
no carro de bois para a água, para
serem curtidos.

44
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

cheinhas para eles ripar, e elas botavam um nó no linho e eles metiam


aquilo, zumba, e não tiravam, não saía, ficava preso nos dentes...
[Mulher, 70 anos, Jugueiros]

Depois de atados pelas mulheres, os molhos de linho eram


transportados em carros de bois para a água a fim de serem curtidos. A
curtimenta era um processo que usualmente ocorria em presas, rios,
tanques, poços; sendo condição necessária que os molhos perma-
necessem submersos durante aproximadamente oito dias; nesse
sentido, eram colocadas tábuas e pedras volumosas sobre os molhos.
Para obter uma separação dos elementos lenhosos dos fibrosos a
curtimenta, ou curtidouro, era uma operação indispensável.

A curtimenta era efectuada em águas


frescas e corredias, colocando pe-
dras e tábuas sobre o linho para evi-
tar que emergisse.

45
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Quando a curtimenta ocorria nos rios e para que o linho permane-


cesse submerso, era necessário escavar valas, onde era depositado o
linho, sendo de seguida coberto com areia. Tal como no caso
anterior, também aqui eram colocadas tábuas de madeira e sobre
estas, pedras para que o linho não emergisse.

Depois... muito atadinho em molhinhos pequeninos leva-se para o


rio, e cobre-se com areia. Escava-se com enxadas e bota-se numa
rôta... do cumprimento que se quiser, mete-se assim os molhos.
Torna-se a cavar à frente para trás para cima dos molhos, para eles
ficarem cobertinhos e está lá oito dias.
[Mulher, 78 anos, Jugueiros]

Dependendo das horas, algures entre estas técnicas, tinha lugar o


almoço. Dada a quantidade de trabalhadores presentes, o dono da
casa era responsável por garantir as refeições. Na verdade, em certos
casos, eram as refeições que atraíam os trabalhadores.
...porque naquele tempo comia-se arroz de
Estas, comummente, eram compostas por feijão guisa-
feijões... que era o que havia, não havia
do ou arroz de feijão, sardinhas fritas e por vezes um
carne! [ou mesmo de tarde]... Sopas de
cozido básico e enchidos, acompanhados de broa e
vinho... fazia-se uma fornada de pão num
vinho.
forno... depois de tarde com umas malgas
bastante volumosas... primeiro punham
vinho tinto.... açúcar e depois é que botavam
o pão lá dentro!
[Homem, 60 anos, Lixa]

46
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Secar e Amochar
Depois de curtido, o linho era sacudido para extrair uma boa
parte da água, sendo de seguida transportado para os montes
roçados ou campos limpos, e esticado em linhas a secar, cerca de
15 dias, normalmente sobre vegetação rasteira.

Depois de estar empossado, tirávamos do poço e íamos estendê- Depois de escorrido, o linho é esten-
dido, ordenadamente, no campo pre-
-lo (…), agente estendia-o, lá no monte era plaininho. Ali tudo
viamente limpo.
certinho, uma carreirinha de linho, outra, tudo às carreirinhas.
Quando estivesse seco a gente ia lá com a foicinha e pegava na
foicinha e vumba, vumba, vumba, apanhava, apanhava um
monte dele. E levávamo-lo num carro de bois (…).
[Mulher, 73 anos, Borba de Godim]

47
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Depois de alguns dias a secar, era apanhado com a foucinha em


braçados, e seguia para a eira onde secava por completo. Já na eira
era amochado. Amochar consiste em bater com um malho no caule, ou
pisá-lo por animais (bois) ou até mesmo por pessoas, até ficar
quebrado.

Depois mexia-se, andava-se com os pés a mexer de uma banda para a


outra, como quem mexe o milho. E elas começavam a estalar (…) e
então não se podia lá andar descalço! Elas picavam nos pés! A mexer
a mexer, eles com os pés em cima daquilo, ia quebrando aquelas
varas, e ia começando a mostrar o linho... Depois ia para o moinho.
[Mulher, 82 anos, Felgueiras]

48
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

O Engenho
Depois de seco e pisado, o linho estava pronto para moer no engenho.
Esta complexa ferramenta de madeira é composta por várias rodas
dentadas que esmagam o linho sucessivamente até ficar em fibra
moída, normalmente em vários maços, ou porções. O linho era
passado entre o tambor e os roletes, sendo fracturado e libertando as
fibras da maioria das suas componentes lenhosas. Ao atingir a
espessura desejada, o “engenheiro” deixava de meter linho no
engenho, e, com as palmas da mão, em gestos rápidos e cautelosos,
acertava a camada e os seus bordos, até ter folga suficiente, inver-
tendo então a posição do linho.43

O acionar do engenho podia ser efectuado por tração humana,


animal,44 hídrica, e mais recentemente eléctrica. Todavia a tracção
comum no concelho de Felgueiras e nos concelhos mais próximos,
era45 a animal e a hídrica.

Depois de seco e amochado o linho é


“triturado” pela força do engenho,
movimentado com o vigor e a deter-
minação do Homem.

49
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Entre a Espadela e o Sarilho


Depois de moído, o linho era espadelado, no sentido de libertar as
fibras têxteis, da palha. Para efectuar esta tarefa eram necessários
dois objectos que funcionavam em conjunto: o espadeladouro, peça em
madeira em forma de T invertido, ou um cortiço, onde
assentava uma porção de linho, sobre a qual se “batia”
Quem tivesse muito pedia onde houvesse
com a espadela, espécie de cutelo em madeira, no
mulheres, para ir à noite ajudar a espadá-lo
sentido de retirar os fragmentos lenhosos que se
ali no mês de Agosto. Era um espadadoiro e
encontravam nas fibras. As espadeladas eram efectuadas
uma espadela e estava ali! A espadela quando por mulheres e traduziam-se em momentos de boa
era afiada cortava o linho todo! disposição e de relativa descontracção, onde se canta-
[Mulher, 82 anos, Felgueiras] vam músicas tradicionais, os chamados ternos.

A espadelada é uma tarefa de mulhe-


res e destina-se a retirar os fragmen-
tos lenhosos que se encontram nas
fibras, que saem do engenho.

50
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Com batidas determinadas e certei-


ras sobre a estriga de linho, pousada
no espadeladouro, a espadela é movi-
mentada, libertando a fibra dos
fragmentos lenhosos.

51
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Muitos rapazes novos, ao escutar os ternos, iam ao encontro das


mulheres para cantar e dançar, no fim do trabalho.

Normalmente, espadela-se o linho por duas vezes, no sentido de o


limpar por completo da parte lenhosa; o material que resulta dessa
limpeza são os tomentos, usados para tecer panos grosseiros, que
normalmente podiam ser utilizados para confeccionar, sacos, panais
para a apanha da azeitona, enxergões.46 Seguidamente usava-se um
sedeiro para separar o linho (fibras longas) da estopa (fibras mais
curtas). O sedeiro é geralmente um cepo de madeira, de forma
paralelipipédica revestido de chapa, onde estão implantadas duas
ordens de dentes de aço47 de duas espessuras e espaçamentos
A separação do linho da estopa é
efectuada através dos movimentos
diferentes. A este processo, de passar as estrigas de linho pelo sedeiro,
delicados da assedagem. refinando a sua qualidade, chama-se assedar.

52
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Uma vez o linho devidamente refinado, as suas estrigas eram fiadas na


roca e no fuso. As mulheres iam humedecendo com saliva as fibras,
para facilitar a distensão e respectiva torção do fio: “Quando o
comprimento do fio produzido obriga a afastar demasiado o braço
direito, interrompe-se a fiação, e enrola-se essa quantidade de fio no
fuso”.48 De seguida, o fio que se encontrava enrolado no fuso - a maça-
roca 49 - era “descarregado” no sarilho, de forma a obter a meada. O Nas noites de Inverno, junto ao
calor da lareira, o linho era fiado na
sarilho é um instrumento em madeira composto por quatro braços em roca e no fuso; sendo convertido em
cruz, de rotação vertical. meadas por intermédio do sarilho.

53
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A Brancura do Linho
Antes de dobadas e tecidas, as meadas eram submetidas a um
processo de branqueamento que implicava, numa primeira fase a sua
cozedura numa calda constituída por água, cinza, sabão e ervas
aromáticas, e numa segunda fase a colocação das meadas num
barreleiro: recipiente de cortiça (cortiço), de cestaria (cesto) ou de
madeira (dorna) 50 . Depois de colocadas nesse recipiente, as meadas
eram tapadas com um lençol, e sobre este era peneirada cinza e
vertida água quente. Havia quem juntasse, mais uma vez, sabão e
ervas aromáticas. Esta operação era repetida diariamente, pelo
menos, durante uma semana. Da operação de branqueamento fazia
parte a cora das meadas: ao fim de algumas horas no barreleiro, as
meadas eram retiradas e distribuídas no campo ou colocadas de
forma ordenada numa cana, e depositadas também no campo. Era
A brancura do linho passa pela fundamental que as meadas fossem abundantemente regadas, de
cozedura e barrela das meadas, de forma a nunca ficarem secas. Ao fim do dia eram recolhidas e o
onde ressalta a singularidade dos
ingredientes usados: cinza e ervas, processo voltava a repetir-se nos dias seguintes, até as meadas
para além da água e sabão. ficarem completamente brancas.

54
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

(…) botava-lhe o linho dentro daquelas dornas e depois ali uma Intercalando as barrelas, as meadas
são colocadas a corar sobre a vege-
camada de meadas outra de... a minha falecida mãe metia tação, sendo recolhidas ao fim do
montrastos, porque metia bom cheiro! Dava-lhe um cheirinho dia para serem submetidas a uma
nova barrela, no dia seguinte.
melhor e depois então deitava-lhe a água e punha no fim (…) um
pedaço de sabão e a ferver. Aquele sabão derretia, botava por cima
uma camadinha de montrastos e seruda, e cinza.. Cobria aquilo
muito cobertinho com roupa velha, para não estragar... e ficava
aquilo assim a cozer toda a noite.!
[Mulher, 82 anos, Felgueiras]

Depois de suficientemente branqueadas e lavadas, as meadas eram


colocadas a secar. Era após a secagem do linho que este era pesado e
retirada uma porção para pagamento da renda ao senhorio.

55
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Da Dobadoura ao Tear
O linho estava por fim pronto para dobar na dobadoura. Este
instrumento de madeira é caracterizado pelos seus quatro braços em
cruz dispostos horizontalmente, e era utilizado para transformar as
meadas de linho em novelos, prontos a ser colocados na urdideira.51

Ao processo de preparação dos fios para os dispor no tear, denomina-


se urdidura, e requeria a utilização da urdideira. Fisicamente a urdideira
é muito semelhante a uma dobadoira, mas de maiores dimensões. A
urdidura é feita através do cruzamento de fios que provêem dos
novelos de linho, colocados num caixote de madeira com vários
compartimentos52 que se chama noveleiro.

No recato da casa, as meadas são


convertidas em novelos, cujos fios
farão parte da complexa trama que
dará origem ao tecido rústico que é o
linho.

Na página seguinte. Através do cru-


zamento de fios provenientes de
novelos depositados no noveleiro, é
efectuada a urdidura a ser “monta-
da” no tear.

56
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Eu sei tecer e não sei fiar! Sei dobar as meadas na


dobadoira, para meter em fio... (...) Anda lá na dobadoira
grande, a gente mete as que quer. Cada volta dá quatro
[metros]. Temos à moda de um caixote grande cheio
de quadrados. Vinte e quatro. Há quem urda só com
doze, às vezes há urdidos só com doze quando é peças
pequenas. Vinte e quatro dá dois pontos, se for dezoito
dá ponto e meio, e se for doze é só um ponto! (...) Tem
à moda de uma espadela com buraquinhos e a gente
enche os que quer, ou doze ou dezoito ou vinte e
quatro. Quanto mais larga for a teia mais voltas tem de
dar ao redor.
[Mulher, 77 anos, Borba Godim]

O tear é um objecto de madeira, que permite trans-


formar o fio em peças de linho, cruzando-o numa
trama complexa, a cargo de uma trabalhadora espe-
cializada, a tecedeira.

Não havia muita gente que tecia, mas havia mais do


que agora. Porque toda a gente de antes fabricava o
linho e fazia camisas de linho para os domingos e de
estopa para o trabalho! Eu comecei a tecer tinha
catorze anos e tenho setenta e sete, e na altura em que
comecei a tecer não havia fartura de panos nem nada,
nem camisas de pano nem nada. Não é como agora
que não falta nada, mas antes o povo cingia-se ao que
tinha de casa! Era tudo de linho, pois era. Agora faz-se
muito é tapetes forrados por baixo e bordados à volta.
Mas antigamente era para fazer lençóis e ainda me
lembro de dormir neles, eram ásperos como sei lá!
[Mulher, 77 anos, Borba Godim]

57
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

58
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

A Terra está Mal Parecida


O trabalho do linho representava uma necessidade básica
particularmente dispendiosa devido à complexidade das técnicas
envolvidas, bem como, devido ao tempo necessário para a sua
produção. Hoje, encontramos com facilidade um leque variado de
peças de vestuário compostas sobretudo de fio de algodão cruzado
com fio sintético. Esta acessibilidade, que se estende até ao custo
dessas peças, não era de todo uma realidade há cinquenta anos, não
só no concelho de Felgueiras como em todo o país.

O linho era semeado em pequenas leiras ou tratos de terreno, agricul-


tado pelos processos tradicionais da região, e pelo agregado familiar;
fiado na roca e tecido no tear caseiro que se podia encontrar num
compartimento marginal da casa.

Como é comum nas produções tradicionais, mais do que a mera


eficácia, a eficiência produtiva era extremamente elevada, isto é, o
desperdício de tempo laboral e de matéria-prima é minimizado, pelo
que todos os processos e suas técnicas serviam apenas como meio
para um fim: a produção de pano de linho em todas as suas variantes
(tomentos, estopa, ou linho fino) e sua sustentabilidade. Um exemplo
dessa sustentabilidade é a recuperação total da semente do linho, a
linhaça, para a produção seguinte, não tendo esta outros fins, como o
consumo humano ou animal da mesma.

Este aproveitamento é latente nas já referidas variantes do linho


transformado, onde o expoente máximo é, particularmente o linho
mais fino. Dos panos de linho fino faziam-se peças de roupa como
camisas, calças, que honravam quem as envergava, mas devido ao seu Página anterior. A rusticidade do
valor de mercado os lavradores vendiam este linho de qualidade linho, trabalhada por delicados e
hábeis movimentos das mãos de
superior nas feiras ou directamente a consumidores com capacidade uma bordadeira do concelho de
de o adquirir. Aqui referimo-nos naturalmente aos senhores e Felgueiras.

59
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

também aos membros do clero, ou seja, a todos os membros de


classes abastadas ou de rendimentos, capazes de o adquirir e tra-
balhar. Só em casos de produção excedente, por exemplo, é que era
possível encontrar lavradores com peças de vestuário de qualidade
semelhante.

Na verdade, a maioria dos lavradores utilizava a estopa para tecer


pano para as suas peças de vestuário dedicado ao trabalho e à vida
quotidiana, e algumas peças de qualidade superior para eventos
específicos como casamentos, baptizados ou até à missa semanal. Da
estopa, o linho grosso, faziam-se também sacos para
Os senhorios queriam a quinta para eles e transportar cereal, toldos para secar o milho na eira,
os pobres dos lavradores nem um quinto colchões para a cama 53 (que se enchiam com palha de
tinham. Hoje a terra está mal parecida, centeio, ou com o folhelho do milho).
cheia de silvas e assim (…)
A versatilidade do uso do linho já não é tão clara no caso
[Homem, Varziela]
das peças confeccionadas a partir do pano dos tomentos.
Este tecido era caracterizado por uma impureza que
Camisa de homem em linho, borda- provocava desconforto a quem o usava, pelo que era apenas comum
da a vermelho.
entre as famílias mais pobres, que não podiam aceder à estopa ou que
eram obrigadas a vendê-la para cobrir outras necessidades.

Hoje, as peças de linho têm um valor comercial muito acima do que


tinham quando era produzido massivamente, o que é natural, mas
destaque-se sobretudo o acentuado valor sentimental, social e
simbólico, que estas peças adquiriram. Sejam familiares que
procuram herdar ou adquirir as mesmas, ou elementos externos que
as procuram para outras zonas do país e do estrangeiro, o linho, hoje,
é desejado pela sua beleza e “rusticidade”.

Uma excepção a esta regra, são os Ranchos Folclóricos. Estas


associações de cariz cultural recorrem com relativa frequência à
utilização de peças de linho antigo, ou até mesmo de réplicas feitas

60
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

com linho “actual”, de forma a utilizá-las nas suas representações


públicas de folclore que reportam aos costumes tidos como
tradicionais.

Foi há uns vinte anos que as pessoas deixaram de semear! Deixaram


de semear um e outro, e um e outro... e acabou!
[Homem, 74 anos, Margaride]

O linho deixou mesmo de ser produzido de forma intensiva no


concelho há mais de duas décadas. Consequência que poderá ser
atribuída aos movimentos migratórios, ao êxodo rural, e à rápida
industrialização e modernização, particularmente desde o final da
década de 1970. Os elevados custos de mão-de-obra e a comple-
xidade do processo de produção, levaram à sua decadência, que sofre Almofada em linho, adornada com
um golpe final com a generalização do algodão, matéria-prima mais o belíssimo Bordado da Terra de Sousa.
barata e de mais fácil manipulação.

Contudo, o linho encontra-se ainda hoje em feiras


ou em lojas especializadas, apesar de parte deste
ser industrial e, logo, diferente do linho manu-
facturado.

Um exemplo de uma feliz adaptação, no concelho


de Felgueiras, reside na utilização do tecido de
linho como suporte para a execução do bordado
característico deste concelho. Um labor de difícil
execução, onde se aplicam as técnicas
tradicionais, também elas valorizadas no mercado
e como tal com reflexo no seu custo. A qualidade e
beleza do bordado funciona como veículo de
projecção do linho, uma vez que os bordados mais
ricos têm como suporte este tecido de qualidade
única, capaz de garantir a sua longevidade.

61
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

O PÃO

A Terra Gera o Pão 54

No Egipto, o pão tinha o seu lugar no dia a dia e julga-se mesmo que
os Egípcios tenham sido o primeiro povo a produzir pão, que
rapidamente foi adoptado, em formatos variados, em todo
mediterrâneo e Médio Oriente. Com o advento do cristianismo o pão
ganha uma nova componente espiritual que, em conjunto com o
vinho, reforça o seu papel extra-nutritivo.55

O pão, sem dúvida, é ainda um alimento estruturante na alimentação


portuguesa e consequentemente na alimentação do povo do
concelho de Felgueiras. O pão, em Portugal, é confeccionado a partir
da utilização de três tipos de farinha: milho, centeio e trigo. No
concelho de Felgueiras existe uma predominância do uso da farinha
de milho, sendo que a de trigo e centeio servem apenas como
elemento de ligação, numa proporção de um para dez, ou seja, para
dez quilos de farinha de milho mistura-se um quilo de farinha de
centeio ou trigo. O pão confeccionado nesta região, predomi-
nantemente de farinha de milho, é tradicionalmente denominado
broa.

Localmente, semeava-se milho, centeio e trigo, no entanto não raras


as vezes, e como o trigo permitia maior lucro na sua venda, as famílias
menos abastadas vendiam o trigo e faziam pão apenas com milho e
centeio.

Actualmente, há cada vez mais quem semeie apenas milho, e rara-


mente o centeio e o trigo. Grande parte dos informantes, que contri-
buíram com o seu testemunho para a execução deste trabalho,
compram as farinhas, inclusivamente, preferem comprar a farinha
de trigo para substituir a de centeio, alegando que esta já não tem a

63
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

mesma qualidade devido às novas tecnologias de colheita, que


alteram a qualidade do cereal, acrescentando-lhe impurezas que
modificam o bom sabor do pão.

O Centeio e o Trigo
Do Cadabulho à Sementeira
O trigo faz parte da família das gramíneas. Um grão de trigo mede
cerca de 5mm de comprimento e, quando maduro, fica com um tom
dourado. A sua maturação é determinada pela sua cor, podendo
ainda o agricultor mastigar alguns grãos assegurando-se de que está
seco e estaladiço.56 É o cereal que requer as terras mais ricas e férteis,
Invernos frios e Verões quentes e secos. Estende o seu ciclo vegetativo
de nove a dez meses.57

Já o centeio que outrora foi considerado uma erva daninha e tido


como mais rústico que o trigo, tem uma farinha mais escura e a sua
massa não leveda facilmente. O seu ciclo vegetativo é de cerca de dez
a onze meses, no final do ciclo pode atingir 1,60m a 1,80m de altura,
tendo espigas longas que contêm um grande número de grãos.58 O
centeio é um cereal menos exigente e prefere climas mais frios e secos
e solos ácidos, adaptando-se às regiões frias de montanha.59

Para a produção do trigo e do centeio, tanto de chão (quando não


eram efectuadas valas para a rega e o cereal era semeado livremente
por toda a extensão do terreno) como de márzea (quando eram
efectuadas valas para a rega), era efectuado o cadabulho, ou seja, era
efectuada a limpeza das bordas do terreno. De seguida, no caso do
centeio de márzea, a terra era lavrada e gradada, deixando valas
abertas, a toda a largura do terreno a fim de a regar.

64
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Os velhos chamavam-lhe cadabulho, veja lá! Vou fazer a lavoura em tal


campo, vou fazer o cadabulho amanhã e depois…junto às árvores…
[Homem, 60 anos, Lixa]

Por alturas de Novembro ou Dezembro, procedia-se à sementeira. A


sementeira era efetuada a lanço. Quem semeava andava com uma
cesta ou um saco a tiracolo onde estavam as sementes e deveria ter
alguma perícia para espalhar bem o cereal. De seguida, passava-se a
grade para alisar a terra e aguardava-se o nascer dos cereais durante
cerca de um mês.

Entre Cegadas e Malhos até ao Moleiro


O centeio e o trigo, quando maduros, eram colhidos ou cegados, em
ambiente festivo, por volta do mês de Maio ou Junho. De seguida, os
cereais eram transportados para a eira onde eram malhados. Malhar

Depois do centeio malhado, a palha,


ou colmo era utilizada para alimento
dos animais e para o enchimento
dos enxergões (colchões de antiga-
mente)

65
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Esse é que era o colmo que se enfiava nos tinha o propósito de separar o cereal do seu caule também
colchões, uma vez por ano. E não era designado por palha. No fim dos cereais malhados, a
confortável, dum lado era alto e do outro palha do trigo era colocada em medas e servia apenas para
era baixo, não é como agora os colchões. alimentar o gado ao longo do Inverno. A palha de centeio,
(...) Tirava-se aquela palha que vinha ou colmo, era amarrada através de um vencilho (palha de
toda trilhada, moída, e lavava-se o centeio humedecida) e servia, para o alimento do gado, e
colchão e tornava-se a encher de novo! para encher os enxergões (colchões de antigamente),
[Mulher, 73 anos, Várzea] normalmente confeccionados em tomentos ou estopa.

Depois de malhado, o grão era transportado para o moinho em


carros de bois ou no dorso de mulas, a fim de ser moído.

Milho
Do Preparar da Terra até ao Cortar do Pendão
Os navegantes portugueses e espanhóis que seguiram os primeiros
exploradores foram os responsáveis pela implementação do milho
na Europa. A introdução do milho é considerada por alguns autores,

No meio da paisagem verdejante, a


inevitabilidade de nos depararmos
com belíssimos campos de milho, é
uma constante no nosso concelho.

66
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

como Ribeiro (1987), uma das grandes revoluções das sociedades


europeias, após a queda do Império Romano.

O milho é um cereal muito rentável proporcionalmente aos outros


cereais, pois cada espiga fornece grãos abundantes e graúdos e a sua
maturação faz-se em apenas quatro a cinco meses, podendo a planta
atingir os três metros de altura. No entanto, exige mais cuidados que
os restantes cereais, na medida em que tem de ser sachado e regado
para dar um boa produção. Distinguindo o milho branco do amarelo,
que praticamente só se destina aos animais, a farinha do milho
branco é utilizada para confeccionar a broa, um pão pesado e com-
pacto que, misturado com centeio ou trigo, dá um pão lêvedo, mais
leve e digestivo.60

Antes de se proceder à sementeira, por alturas de Abril/Maio, a terra


é estrumada à medida que o estrume é recolhido nas cortes. Antes de
lavrar, o agricultor procedia ao cadabulho ou rapeiro, de seguida a
terra era lavrada e gradada com um arado e uma grade, respecti-
vamente, puxado por uma junta de bois. Actualmente este trabalho é
efectuado com tractores.

Da preparação da terra para receber


a semente, faz parte a sua fertili-
zação através da utilização do estru-
me (fertilizante natural).

67
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Depois de fertilizados, os terrenos


frescos e fundos, característicos do
Noroeste de Portugal, são revolvidos
pelo arado e alisados pela grade,
para acolherem a semente do milho.

Na página seguinte. O equilíbrio da


força humana e da força animal
conduzem o semeador na semen-
teira da planta do milho.

68
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Quando a sementeira era efectuada a lanço, ao preparar a terra


abriam-se de imediato as valas, com o sacho, para na altura adequada
efectuar a rega. O agricultor que semeava a lanço levava a semente
dentro de uma cesta ou de um saco a tiracolo, aberto à altura do peito
e “começava a semear pelo extremo lateral direito do terreno,
caminhando compassadamente e lançando o grão com a mão direita
meio fechada, em movimentos semi-circulares (…) chegando ao
extremo do campo voltava a semear nova faixa a seguir…”.61

Mais tarde, apareceram os semeadores, objectos, inicialmente em ma-


deira e metal, e mais tarde construídos apenas em metal, compostos
por uma caixa com um separador no seu interior que originava dois

69
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

compartimentos (semeador de duas linhas): um para o feijão outro


para o milho, produtos semeados em simultâneo. A caixa estava
assente numa estrutura composta, normalmente, por duas a três rodas.
Conforme as rodas se iam movimentando, as sementes depositadas no
referido reservatório, que possuía um orifício, iam caindo na terra.

Quando a sementeira era efectuada com semeador, a preparação do


sistema de rega era diferente da sementeira a lanço, isto é, antes da
sementeira era efectuado um rego a todo o perímetro do campo,
chamado rego mestre. Mais tarde, quando a planta já tinha cerca de um
palmo de altura e já tinha sido sachada (limpeza das ervas daninhas)
mondada (retiradas as plantas de milho mais débeis) adubada e
arrendada (achegada a terra para o pé da planta), é que se construíam
múltiplos regos, ou tornas, a toda a largura do campo. Por essa altura
Semeador de duas linhas, composto
por um recipiente com divisória, dava-se início ao processo de rega, que se prolongava até o milho estar
onde são colocados o milho e o
maduro.
feijão, para serem semeados em si-
multâneo.
A sacha e o arrendar do milho, eram efectuadas com uma enxada
Em baixo, planta do milho a despon- pequena; mais tarde, surgiram os sachadores/arrendadores metálicos,
tar, cerca de duas semanas após a puxados por um boi e amparados na parte traseira por um homem,
sementeira.
vindo facilitar substancialmente a execução destas tarefas.

Depois, o milho crescia e quando estivesse desta alturinha era


sachado. Mais tarde o meu falecido pai já tinha um sachador, com
duas sacholas e o boi a puxar ia rentinho ao milho e cortava a erva.
Passado 15 dias de fazer esse trabalho tinha-se de usar o mesmo
sachador com sacholas diferentes, em vez de juntar, arrendar. Que era
o arrendador. Deixávamos aí umas cinco ou seis linhas no máximo,
consoante o terreno fosse plano tinha de ser menos, se não…mais.
[Homem, 60 anos, Lixa]

Era comum o agricultor semear o milho em simultâneo com o feijão;


como este ficava maduro antes das espigas era colhido mais cedo.

70
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Depois com uns regos…depois o milho crescia e … tínhamos feijões,


porque normalmente os lavradores aproveitavam o terreno e junto
do milho semeavam feijões. Quando o milho já estava grande e as
espigas talhadas, tirávamos os feijões e ficava só o milho.
[Homem, 60 anos, Lixa]

Em finais de Setembro retirava-se o pendão, a ponta do milho, que é


utilizado como alimento do gado. “Como o milho é uma planta de Paisagem característica do Noroeste
flor unisexual, a flor masculina, no topo - o pendão - após a fecunda- de Portugal, onde se destaca um
campo de milho pronto a ser
ção não tem mais serventia; e por isso é cortado e serve de penso para sachado, de forma a crescer mais
o gado”.62 robusto.

71
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A Alegria das Desfolhadas


Até ao início de Outubro faziam-se as desfolhadas. Antes de se
efectuar a desfolhada era necessário retirar a espiga de milho da
planta. A colheita da espiga podia efetuar-se de duas formas: podia
ser retirada após o corte da planta pela base, ou directamente da
planta ainda na terra. Depois de retiradas, as espigas eram colocadas
em cestos de vime, e de seguida transportadas para a eira para serem
desfolhadas. Depois de retirada a folha, as espigas de melhor
qualidade eram guardadas no espigueiro, para serem malhadas por
alturas de Abril/Maio, as restantes guardavam-se no beiral ou alpendre,
e eram malhadas a seguir à desfolhada, até finais do Outono. O
folhelho (a folha retirada da espiga) era utilizado, noutros tempos,

A espiga de milho, depois de madu-


ra, pode ser retirada directamente
da planta ainda na terra, ou retirada
após o corte da planta.

72
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

para encher os colchões confeccionados de tecido de tomentos ou


estopa. O folhelho é ainda hoje aproveitado para misturar na terra,
funcionando como fertilizante.

Depois… pronto, amadurecia e estava na fase da desfolhada. O que é


que a gente fazia… aquilo era muito milho levávamos aí uma semana,
juntava-se uns amigos, hoje estava-se aqui na minha casa, amanhã na
casa do outro (…) até à noite a cantar e a desfolhar! Depois ceava-se
alguma coisa e no fim era sardinhas e vinho. Depois… em minha casa
fazia assim,… a quinta era muito grande, dava muito milho e não
podia ser malhado todo de uma vez senão a eira não chegava. (…) as
melhores espigas escolhiam-se para o espigueiro e as outras iam para o
beiral.
[Homem, 60 anos, Lixa]

Depois de desfolhadas, as espigas de


melhor qualidade são guardadas no
espigueiro e malhadas durante a
Primavera.

73
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A seguir ia para a eira, malhava-se, com o A desfolhada era quase sempre uma tarefa que
malho. Punha-se no canto do alpendre. Era à decorria com a ajuda de familiares e amigos em clima
porrada, era um pau comprido com outro na de reciprocidade, aliando o trabalho ao festim. Era
ponta e zumba zumba, horas e horas. Depois realizada usualmente à noite, sendo uma actividade
havia a malhadeira, antes não, e a malhadeira ia caracterizada pelo convívio e festa entre géneros, onde
para nossa casa num carro de bois, e depois mesmo quem não era convidado, se ouvisse um terno 63
para a do outro. ao longe, aparecia para a festa, havendo sempre
[Mulher, 73 anos, Várzea] sardinhas e vinho para os que chegavam para ajudar.

Como anteriormente ficou assinalado, as espigas,


Após a desfolhada, efectuada aos antigamente, eram debulhadas com o malho ou mangual, objecto em
serões, as espigas de menor quali-
dade eram debulhadas na eira com o madeira composto por duas peças: o pírtigo, com cerca de 50 cm, de
malho, sendo, de seguida, o milho secção, normalmente quadrangular, e a mangoeira, rectilínea, e de
guardado em grandes caixas de ma-
deira, de forma a ser utilizado ao
secção circular, com 1m/1,50m de comprimento e 10c de diâmetro.
longo do ano. Batia-se com este objecto nas espigas a fim de separar os grãos de

74
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

75
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

milho do carolo. Mais tarde, apareceram máquinas específicas para


debulhar (separar os grãos do carolo), as malhadeiras, que vieram
aligeirar substancialmente o esforço dispendido pelo agricultor
nesta tarefa. Estas máquinas, eram transportadas num carro de bois,
e tinham um motor que as accionava. Mais tarde as malhadeiras
passaram a ser instaladas num tractor, que era posicionado debaixo
do beiral ou alpendre, de onde eram despejadas as espigas
directamente para a malhadeira, a qual funcionava com o apoio do
motor do tractor.

Por fim, depois de o milho secar cerca de 15 dias, era limpo e


armazenado nas tulhas o tempo necessário até à sua utilização.
Inicialmente o cereal era limpo com um crivo, passando, mais tarde, a
utilizar-se uma máquina para o efeito, a tarara.

Uma parte da produção era retirada para pagar a renda ao senhorio,


outra parte servia para pagar outros serviços, como por exemplo, o
“apoio espiritual” ao pároco local.

No fim do milho estar malhado vai para a eira secar. Ia para a eira
secar, depois de seco limpava-se com uma limpadeira, (tarara) até no
meu tempo de pequenino punham numa pá de madeira e atiravam
ao ar e depois o vento é que limpava. E ao crivo também. Depois vai
para a caixa ser armazenado, para a tulha... como queiram.
[Homem, 71 anos, Várzea]

O milho depois de seco era metido nas caixas, a renda era dada ao
senhorio até aos Santos!(…) Nós tínhamos de pagar alguma coisa ao
padre. Hoje é em dinheiro, mas naquele tempo era um alqueire ou
Na página seguinte. No nosso dois de milho (…) Isto era até ao fim do ano, agora é em dinheiro (…)
concelho, a moagem do milho era
efectuada em moinhos hidráulicos,
naquele tempo não. Carregava-se com os saquinhos de milho e ia-se
de sistema de rodízio, constituídos levar e ele deitava na caixa dele.
pelas penas e pelo fuso. [Homem, 60 anos, Lixa]

76
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

A Exultação da Farinha
Após o trabalho agrícola, uma parte do milho era levada ao moleiro
para fazer a farinha necessária para a produção do alimento
indispensável à sobrevivência. A moagem era uma fase intermédia
entre o cultivo dos cereais e a confecção do pão. Os cereais eram
transportados para o moinho em sacos, umas vezes no carro de bois,
outras vezes às costas, ou no dorso das mulas. Os moinhos típicos do
concelho de Felgueiras eram hídricos de sistema de rodízio.

Iam com duas sacas de milho às costas até ao moinho para fazer
farinha…Em Chelos ainda há um moinho a funcionar. Nesta zona há
muitos rios e por isso havia muitos moinhos.
[Mulher, 76 anos, Jugueiros]

77
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

O moinho era um engenho complexo composto por duas partes,


uma inferior, e outra superior. Na parte inferior, denominada
“inferno”, localizava-se o rodízio, composto por duas peças em
madeira: as penas e o fuso. A água era conduzida por canais na
direcção das penas; ao incidir nestas, a água, que saía com pressão,
fazia-as girar em simultâneo com o fuso, comunicando, assim, um
A força da água incide nas penas do
rodízio, fazendo-as girar em simul- movimento de rotação de transmissão directa que fazia mover a mó,
tâneo com o fuso, comunicando um localizada na parte superior do moinho. O milho encontrava-se
movimento de rotação de trans-
missão directa que fazia girar a mó e
depositado na dorneira (recipiente em madeira, situado por cima da
transformar o milho em farinha. mó) caindo gradualmente para a mó onde era moído.

78
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Comprava farinha, éramos pobres, comprávamos a farinha numa


casa que havia. A gente ia comprar a farinha, os quilos que queria, e
depois fazíamos o pão numa gamela.
[Mulher, 82 anos, Felgueiras]

A carroça entrava lá dentro, e ia por ali a fora, tinha uns fregueses já


antigos e ia lá com a carroça e carregava logo duzentos ou trezentos
quilos. Ali para o Arrabal, Caramos, Moure, Sendim... ia lá levar a
farinha. Chegava lá, descarregava, despejava e levava-lhes um
dinheiro, um dinheiro combinado, não é!?
[Homem, 83 anos, Sendim]

79
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A Farinha para o Pão


Depois de moída, e já em casa, a farinha é peneirada para
confeccionar o pão. Ao ser peneirada, a farinha mais fina caía na
gamela, e a mais grossa, o farelo, ficava na superfície da peneira e era
utilizado para alimentar os animais domésticos; actualmente é
usada, também, para vedar a porta do forno, depois de previamente
misturada com água.

Depois peneirávamos a farinha, porque a farinha trás farelo, e o


farelo ficava na peneira em cima. A gente peneirava a farinha, para
ficar só mesmo a farinha para o pão.
[Mulher, 82 anos, Felgueiras]

Numa cozinha rústica, a farinha é


peneirada para a gamela; a mais
espessa (farelo) fica retida na rede da
peneira e é utilizada para alimento
dos animais domésticos ou para ta-
par o forno.

80
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

A farinha era então amassada na gamela ou masseira (peça de


mobiliário em madeira situada na cozinha), constituída por uma
parte inferior com duas portas, utilizada por vezes, para guardar as
farinhas e o fermento. A parte superior da gamela, em formato de
arca, era utilizada para amassar a farinha. A tampa tinha a função de
cobrir a arca melhorando as condições de fermentação do pão.
Depois de peneirada para a gamela, a farinha era misturada com água
tépida, ou com água a ferver temperada posteriormente, consoante a
tolerância e perícia de quem a amassava.

Se for muito quente, … o pão fica enqueijado... água temperada, nem


fria nem quente!
[Mulher, 78 anos, Jugueiros]

Na gamela são misturados e amassa-


dos, vigorosamente, os ingredientes
para confeccionar a broa: água tépi-
da temperada com sal, fermento e
farinha.

81
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Deixo-a ferver, se a farinha for muito mansinha boto só morna, mas


ás vezes é mais áspera e a água é mais quentinha.
[Mulher, 73 anos, Várzea]

Era socialmente discriminatório o facto de “não ter mão” para o


tempero adequado do pão: Ai! Aquela mulher é porca! Ficou salgado! É
ditado Velho! Rosa 78 anos, de Jugueiros. Com a água tépida e respectiva-
mente temperada de sal, chegava a vez de misturar o fermento:
pequena porção de massa retirada da ultima cozedura
Nós de uma fornada para a outra já de pão, e que se deixou a repousar até à cozedura da
deixamos um fermentinho, não é!?... já foi próxima fornada.
há tantos anos que agente esquece...
deixávamos um bocadinho de fermento Depois de amassar muito bem a farinha, já com a água
que ficava ali, e depois na outra semana e o fermento, deixava-se a massa a levedar num dos
quando íamos cozer a broa, aproveitá- cantos da gamela, durante cerca de uma hora,
vamos, que era para ajudar a levedar a usualmente com um sinal de cruz que atravessava toda
massa... o massa. Outrora, esta cruz era acompanhada de uma
[Mulher, 82 anos, Felgueiras] reza que procurava abençoar a sua fermentação,
desempenhando este rito uma função de prática
propiciatória, todavia, após entrevista a vários informantes verificou-
64

-se que a reza já não fazia parte integrante do rito, ficando a


auspiciosidade reduzida à reprodução da cruz. Cruz esta que
procurava a protecção do alimento face ao demónio.65

Fazia-se uma cruz. (…). Eu lembro-me de


falar com a minha falecida mãe... oh mãe,
eu ouvi dizer que no fim de se amassar se
dizia umas palavrinhas, como é que são?!?
ooh minha filha não me venhas perguntar
que eu também ouvi dizer que se dizia mas
nunca me ensinaram, não sei como é! ...
[Mulher, 77 anos, Felgueiras]

82
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

(...) depois quando vai ao forno [benze com a pá]... Era a moda antiga
pronto! Isto não é bruxedo... é a fé, é a fé!
[Mulher, 78 anos, Jugueiros]

Uma vez levedada, a massa era repartida em pequenas porções,


colocadas individualmente na emboladeira, 66 para dar forma ao pão.
Quando o forno começava a ficar suficientemente quente, as brasas O calor das brasas é metodicamente
espalhado pelo forno, por intermé-
eram periodicamente remexidas com o auxílio da ferelha, pá de forma dio da ferrelha, facilitando a melhor
quadrada e espalmada, em ferro e com cabo de madeira. distribuição do calor.

83
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

O forno atingia temperaturas elevadas reconhecendo-se que estaria


suficientemente quente para cozer o pão quando as paredes
apresentassem um tom esbranquiçado, ou vermelho consoante o
tipo de pedra do interior do forno. Por essa altura, retiravam-se as
brasas do centro, com a ajuda da ferrelha, limpava-se essa parte
central com uma vassoura de giesta. As giestas eram colhidas no
monte em Abril, antes de florarem, e atadas com arame ou fiteira.
Antes de introduzir o pão e tapar o
forno, quem o confecciona, tem por Antes de cozer a broa, havia quem cozesse o chamado bolo, de
hábito fazer o bolo, utilizando a
mesma massa do pão. A cozedura é formato redondo e achatado, tradicional desta região. O bolo era
extremamente rápida e em forno confeccionado com a utilização de uma pequena porção da massa
aberto. Estes bolos eram consumidos
pela família ou visitas, logo após a
destinada ao pão, que era batida sobre a pá de madeira com a palma
cozedura. da mão até ficar espalmada e com uma forma circular. Os bolos, eram

84
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

colocados no interior do forno, sem tapar a porta, e em Se um rapaz viesse com o cabelo
alguns minutos, cerca de três a cinco, eram retirados e arrepiado andava ougado... então
consumidos com sardinhas fritas, ou colocados desde logo levava-se a alguém que cozesse e tinha
no forno com carne entremeada ou gorda, na sua de comer um bocado bolo com azeite
superfície. Estes bolos eram consumidos pela família ou atrás da porta!
visitas, logo após a cozedura. Eram também ofertados, [Mulher, 78 anos, Jugueiros]
ainda quentes, assumindo um cariz de hospitalidade e
benquerença.

Depois do bolo, era a vez de cozer a broa. O forno era habitualmente


fechado com uma tampa de ferro, vedada nas suas extremidades com
farelo, cinza, ou lama, amassados com água, ou ainda com bosta, de
forma a que o forno ficasse bem vedado para não perder calor.

85
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Com cinza amassada, porque na minha casa não havia bosta e tapava-
-se com cinza!
[Mulher, 82 anos, Felgueiras]

Tapar a porta é com farinha. Coloco um bocado de massa numa bacia


e tapo.
Após a cozedura do bolo, o pão é [Mulher, 73 anos, Várzea]
imediatamente introduzido no
forno, cuja porta é tapada, normal-
mente com uma mistura de farelo Após cerca de 45 minutos a uma hora o pão estava cozido, era
com água. Após 45 minutos, o forno retirado com a ferrelha e colocado de forma invertida sobre o tampo
era aberto e retirada a broa, poden-
do ser degustado, por vezes, ainda
da gamela a repousar. Tal procedimento, dizia o povo, evitava que o
quente. pão enqueijasse ou azedasse.

86
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Destinos do Pão
O pão é um alimento muito usado na nossa tradição gastronómica e
pode ser encontrado nas mais variadas receitas de pratos
tradicionais, desde entradas, pratos de peixe, pratos de carne e
sobremesas, seja como acompanhante ou como ingrediente
principal. A broa, para além de ser muito apreciada sem
acompanhamento, ajustasse bem a inúmeros outros alimentos,
podendo até ser cortada ou partida em pedaços para ser consumida
durante a refeição, ou com outros ingredientes como queijos,
presuntos, etc.67

Muitos dos costumes associados ao ciclo do pão têm vindo a ser


alterados. A título de exemplo temos o caso das desfolhadas, que
tinham um propósito produtivo concreto, e que em simultâneo eram
acontecimentos de festividade e convívio; actualmente assumem
uma forma de folclorização como propósito primordial de
reconstrução tradicional desses acontecimentos, para deleite próprio
ou como representação para elementos externos.

Daí toda a caracterização que os elementos que dela tomam parte


usam, como as peças de vestuário tradicionais em linho, ou o uso
simbólico de ferramentas obsoletas, como o malho. Em muitos casos é
um evento que é representado por elementos de ranchos locais, ou
por indivíduos particulares que valorizam essas práticas tradicionais
e procuram revivê-las.

Uma outra variante deste fenómeno são as desfolhadas parcialmente


mecanizadas, ou seja, a remoção da folha das massarocas é manual,
mas a debulha é mecanizada. Nestes casos não existe pretensões de
recreação historicista, pelo que o uso de trajes tradicionais não é
comum, mas continuam a ocorrer as festividades musicais e de dança
tradicional. Nas suas variações, estas desfolhadas são acompanhadas

87
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

de uma refeição que é tendencialmente de gastronomia tradicional,


mas que escapa à escassez e reduzida variedade de alimentos que
caracterizava estes acontecimentos outrora.

As doses de alimentos meticulosamente calculadas num contexto de


pobreza ou de recursos muito limitados, deram lugar à abundância e
à qualidade, na confecção dos pratos, bem como, ao consumo do
vinho de produção familiar local, adicionou-se toda uma variedade
de sumos gaseificados, bebidas brancas importadas, água engarra-
fada, etc.

Para além das recriações ritualizadas de eventos como os referidos, os


casos de modernização parcial ou total foram sendo reforçados
sobretudo pelos emigrantes que, através do capital reunido em anos
ou décadas de trabalho, regressam aos seus locais de origem. Em
Felgueiras, como em tantos outros concelhos do nosso país,
vislumbram-se inúmeras recuperações de antigas habitações mas
também dos seus antigos campos de cultivo.

Motivados por uma valorização da posse de terra e dos frutos do seu


trabalho, são os emigrantes um dos principais grupos responsáveis
pela repescagem de algumas rotinas, hábitos culturais e agrícolas ao
nível local. Como claro elemento de prestígio local, a posse de uma
casa e a exploração agrícola de um terreno adjacente, joga como
painel de exposição de certas capacidades e competências, valores e
atitudes que, reconhecidos como em decadência, potenciam o status
social destes indivíduos. O mesmo poder-se-ia dizer, por exemplo,
dos elementos que regressam ao campo depois de várias décadas de
trabalho em grandes centros urbanos.

À parte de toda a transformação ao longo dos tempos, a broa


tradicional de milho e centeio (ou trigo) no concelho de Felgueiras,
mantém de forma continuada a sua produção, embora a uma escala

88
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

inferior tanto devido à oferta diversificada de outras formas de pão,


como devido ao custo e trabalho necessários para a sua produção. Os
fornos tradicionais de construção específica foram substituídos pelos
fornos de instalação directa (pré-construídos) e pelos fornos de
metal. As farinhas são adquiridas nos supermercados e nas padarias e
provêem de pacotes de produção industrial, e as brasas que são
retiradas dos fornos não são colocadas nos lares para preparar outras
refeições.

O consumo de broa no concelho de Felgueiras está ainda muito


disseminado, havendo algumas famílias, sobretudo rurais, que
cozem a broa em casa segundo os processos tradicionais. São
sobretudo as mulheres mais velhas que assumem esta tarefa, umas
vezes semanalmente, outras em ocasiões associadas a eventos
especiais, como desfolhadas, vindimas, e festividades várias; não só
para consumo próprio, mas também, para venda a vizinhos,
familiares ou elementos exteriores (tanto à aldeia como até ao
concelho).

Apesar de tudo, podemos concluir que a confecção do pão de forma


tradicional encontra hoje um espaço pontual e uma produção
diminuta considerando a totalidade da população. Aqui entendemos
como tradicional apenas a tríade 68 do uso da gamela para amassar o
pão, o fermento e o forno a lenha.

89
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

O VINHO
O Vinho é Rei
Mesmo antes do aparecimento do homem, já a terra estava coberta
por uma espécie de liana, antecessora das contemporâneas plantas
da família das ampelídeas, a que pertence o género Vitis e,
principalmente, o subgénero Euvitis, cuja espécie vinífera está na
génese da totalidade dos vinhos do Mundo. Paleontólogos afirmam
que a fermentação espontânea teve lugar na Época Secundária, o
fabrico do vinho não se deve no entanto ter verificado antes do sexto
milénio. “O vinho não precisou de ser inventado; bastou que um
cacho de uvas tivesse permanecido algum tempo num recipiente
capaz de reter sumo”.69

Em Portugal a cultura da vinha é muito antiga, apontando-se a sua


origem para a época pré-romana, pois já o historiador grego Políbio,
210-128 a.C., quando se ocupava da Lusitânia, lhe fazia referência.70

A qualidade do vinho depende muito do clima em que está inserido


sendo mais indicadas as temperaturas elevadas com forte
luminosidade solar e reduzida pluviosidade. Em Felgueiras, com
todas as suas condicionantes climáticas aliadas aos terrenos onde se
pratica esta cultura, prepondera o vinho verde, com um travo leve e
ligeiramente ácido próprio dos vinhos desta região. Este concelho,
pertence à região Demarcada dos Vinhos Verdes, mais
concretamente à sub-região do Vale do Sousa, garantindo actual-
mente a qualidade dos seus vinhos através de um selo de certifi-
cação, sendo que as principais castas utilizadas são, para os vinhos
brancos: Loureiro, Alvarinho, Arinto (conhecido localmente por
Pedernã) e Trajadura. Para os tintos é o Vinhão e para rosados o
Espadeiro.

91
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A Videira
Os terrenos tal como para as outras culturas têm que ser escolhidos e
tratados para o cultivo da videira, sendo que a primeira actividade
para a produção do vinho trata-se da preparação da terra para
receber as videiras. Após o terreno limpo, plantavam-se as videiras,
mais concretamente os seus bacelos que antigamente eram só de
qualidade jaqué ou corriola, sendo que o primeiro era bravio.71

Estes bacelos eram transplantados de outro terreno e normalmente


feitos a partir de uma vide que se cortava de outra videira e se
enterrava, deixando 3 elos fora da terra e um dentro da terra,
chamando-se a este processo embacelar. Sobre o bacelo punha-se
carrasco ou mato que posteriormente apodrecia servindo de fertili-
zante para a videira.

Antigamente era tirada vide de outro ano, cortava-se no elo, tirava-se


3 elos de fora e metia-se na terra. Cortava-se a meio do elo que era
para apanhar raízes. Não é enxerto é... bacelo! (...) tem de ficar a altura
suficiente debaixo de terra para apanhar raízes e fora da terra para
rebentar, ia dois anos. Depois é arrancada e plantada onde a pessoa
entender que é preciso.
[Homem, 71 anos, Várzea]

Um ano ou dois depois de ser plantado, o bacelo era enxertado, por


volta do mês de Março, com a casta desejada, podendo também ser
arrancado e plantado onde houvesse necessidade, e apenas enxertado
no lugar correspondente. A raiz do bacelo quando era plantada tinha
Na página seguinte. As mãos caleja-
de ficar bem esticada, ou seja tinha de se abrir um buraco fundo e
das mas hábeis do enxertador, por largo para que as raízes não ficassem dobradas. De seguida
alturas do mês de Março tratam da
estacavam-se as videiras, podava-se e punha-se fiteira. A videira
enxertia das videiras com a casta
desejada. podia dar uvas no ano da enxertia ou apenas no ano seguinte.

92
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

É semeado e enxertado depois.. aqui é jaqué ou corriola... jaqué é


bravio... depois é enxertado com a qualidade que cada um quer... aqui
é tinto espadeiro... É enxertado na maré de Março. Algumas vezes
desenvolve mais... (...). Se o enxerto for na nossa corriola, na nossa vide
antiga, não é importada, dura a vida de uma pessoa ou mais! Esta
aqui, aquela ali oh! Esta vide deve ter perto de 100 anos!
[Homem, 45 anos, Vila Verde]

Mas a plantação é esta, abre-se uma cova funda, eu dava sempre um


metro de profundidade. Uma cova larga, larga que é para a raiz da
videira quando for, desenvolver. E depois um bocadinho de terra em
cima da videira e despois carrasco e se não fosse carrasco, eu ia, tinha
uma bouça, eu ia à bouça cortava um pouco de mato, botava ali
dentro, depois ia apodrecer e a videira procurava aquilo, procurava
aquilo, era uma valentia, era era, era sim. Portanto a lavoura é esta....
[Homem, 87 anos, Felgueiras]

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

As Castas
Como região demarcada que é, Felgueiras tem algumas castas
recomendadas e por isso mesmo os enxertos usados eram de castas
específicas consoante o vinho que se queria produzir. Para o vinho
verde tinto, que é o mais virtuoso, as castas utilizadas eram: vinhão,
batoca, azal, pederná, trajadura, loureiro, borraçal, pinhal; para o vinho
verde branco: malvasia, semilão carvalhal branco, azal, pederná,
trajadura e loureiro; e para o vinho espadeiro: espadeira branca e tinta, que
amadurece mais tarde.

A uva espadeira branca também é conhecida por douradinha ou engana


rapaz (douradinha porque fica com um tom dourado quando está
madura, e engana rapaz porque fica amarelinha muito cedo, dando a
falsa impressão de já estar madura).

Disposição da Videira
Na Região Demarcada dos Vinhos Verdes e, em geral, no Noroeste de
Portugal, as videiras e a forma de instalação da vinha são das
características dominantes que moldaram a paisagem. Ao longo dos
tempos, verificaram-se algumas alterações nos sistemas de condução
da vinha, em parte devido aos processos de modernização que
facilitaram os arranjos e as condições de produção do vinho. Neste
contexto, e em termos da cultura vinícola, definem-se e dividem-se
Na página seguinte. Este é o sistema
em dois sistemas de condução da vinha: os Sistemas de Condução
de condução da vinha que melhor
caracteriza a paisagem vinícola do Tradicionais e os Sistemas de Condução Modernos. Podemos assim
concelho de Felgueiras: a vinha de identificar os seguintes:
enforcado. Dependurados nas árvo-
res, os cachos de uvas, de difícil Sistemas de Condução Tradicionais
acesso, são colhidos com o apoio de
escadotes de madeira de grandes
dimensões, manuseados com perícia
Uveiras ou vinha de enforcado - é o sistema de instalação mais antigo
por vindimadores experientes. da região dos vinhos verdes e carateriza-se pela plantação de videiras

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ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

(que podem de ir de uma a quatro) junto a árvores, geralmente são


castanheiros, choupos ou plátanos. Neste sistema de condução, a
vinha cresce pela árvore, entrelaçando-se com os ramos que servem
de suporte à vinha. Este sistema é utilizado normalmente nas
fronteiras dos campos de cultivo, pode atingir uma altura de cinco
metros ou mais, com podas intercaladas anualmente. Em geral,
dispensa adubos, mas os vinhos são de inferior qualidade, de baixo
teor alcoólico, devido às doenças a que as videiras estão sujeitas, uma
vez que os tratamentos em altura são muito difíceis. Uma
particularidade deste sistema de condução é a utilização de grandes
escadas, localmente conhecidas por passais. Estas escadas feitas em
madeira, podem ser de seis ou doze passais, sempre números pares,
consoante a altura para as quais são utilizadas na vinha.

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Arjões - sistema de condução que se caracteriza por várias árvores nas


fronteiras dos campos, utilizando-se arames a uni-las, numa altura
até 8 metros, onde as videiras crescem. Também localmente
conhecidos por arjoados, são semelhantes à vinha de enforcado que
deriva da produção vinícola conciliada com outras culturas. A grande
vantagem deste sistema é a pouca ocupação do solo e mão-de-obra.
Em termos de vindima e qualidade do vinho é muito semelhante à
vinha de enforcado.

Ramadas - sistema de condução de vinha em disposições horizontais


com a utilização de ferro ou madeira e arame, normalmente assentes
em granito. Situam-se em caminhos, largos, logradouros públicos
(tanques ou fontes) e na borda dos campos de cultivo. Este sistema de
vinha contínuo permite a plantação de outras culturas por debaixo.

Na página seguinte. A variedade dos


sistemas de condução da vinha,
entrelaçada com o colorido singular
de uma agricultura variada, tornam
a nossas paisagens únicas, repletas
de vida.

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ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Sistemas de Condução Modernos


Bardo - Este sistema de condução de vinha é composto
por uma linha de estacas até 2 metros de altura,
intervalados de 6 a 8 metros, que suportam 4 a 6
arames. As videiras são plantadas com 1,5 metros de
intervalo e achatadas para frutificarem próximo do
solo. As videiras distanciam-se cerca de 3 metros, o que
permite o tratamento mecanizado. A longevidade é
bastante curta e a produção irregular devido ao
desenvolvimento do sistema vegetativo.

Cruzeta - A cruzeta é um sistema de condução de vinhas


contínuas utilizado desde a década de 70. Consiste
num poste vertical com 2 metros de altura e outro
horizontal, formando uma cruz entre si de 5 a 8 metros,
são unidas por um fio de arame. Junto de cada cruzeta
plantam-se quatro videiras para crescerem até aos
braços da cruz. Podem-se ainda verificar algumas
variantes deste sistema, como por exemplo a utilização
de um terceiro arame unindo o topo das cruzetas e
servindo de suporte a duas outras videiras que
acompanham o poste vertical. A utilização do sistema
de suporte das videiras, está associado a diferentes
formas de plantação. Do ponto de vista técnico, existe
alguma dificuldade de tratamento das videiras, para
além da possibilidade de sombras lesivas ao amadure-
cimento da uva, o tratamento mecanizado, em parti-
cular, e a pulverização é dificultada do lado de dentro
da videira. Neste sistema de condução da vinha são
necessários cerca de 8 anos de maturação para atingir a
máxima produção.

97
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Cordão - Este sistema é semelhante ao da


cruzeta e a sua estrutura identifica-se
com a dos bardos. É constituído por
linhas de apoio espaçados entre 6 e 8
metros e distantes entre si de
2,5 a 3 metros onde a videira
(...) Antes era tudo árvores... Era!
chega aos arames sem
Antigamente era tudo vinho do
ramificação, acamando-se
enforcado. Depois mais tarde é que se
para se situar na zona
começou a fazer de bardo. De bardo era
vegetativa e produtiva. O
mondar as árvores e botar arames para
sistema tem duas variantes.
as vides dar melhor vinho. (...)
Pode ter um só arame de apoio
Antigamente também havia bardo, mas
à videira com cerca de 1,5
como havia muita miséria não havia
metros do solo, e/ou dois ara-
dinheiro para comprar arames! Depois
mes para permitir a expansão
começaram a fazer bardos e depois
vegetativa e dos cachos de
ramadas. Aconteceu isso comigo. Fica-
uvas. Em termos de trata-
vam sempre presas nas árvores para
mento, exposição e arejamen-
não estorvar o campo.
to são bastante positivos, mas a
[Homem, 71 anos, Várzea]
utilização de um cordão duplo
ou sobreposto pode provocar
muita sombra à videira. Neste sistema
de condução, na poda e vindima é
necessário utilizar escadotes e reboque
do tractor. A produção, em sistema de
cordão simples, deverá surgir ao quarto
ano, com uma média de 18 pipas por
hectare. Em cordão sobreposto, a produ-
ção pode chegar às 20 pipas por hectare,
valor que se consegue no sexto ano de
plantação.

98
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

A Poda de um Burrico
A vinha necessita de constantes cuidados e ao longo de todo o
ano se impõem as tarefas relacionadas com o seu tratamento.
As podas faziam-se depois das vindimas, de Dezembro a
Fevereiro, usando tesoura, fouce e fiteira; sendo normalmente
uma actividade solitária, que o lavrador desempenha ao longo
dos referidos meses.

Diz a lenda que a poda foi um processo descoberto acidental-


mente por um burro que ao roer uma videira, esta deu exce-
lente produção no ano seguinte.

(…) Diz a lenda que um viticultor havia ido para a sua


vinha com uma carrocita de estrume, puxada por um
burro. Ali chegado, e enquanto trabalhava, prendeu o
burrico a uma estaca espetada num talude cheio de
cardos. Mas a corda não ficou bem presa, o animal
soltou-se e afastou-se dos cardos pelintras e
espinhosos. Tentado por uma verdura que fugia à sua
alimentação usual o burrico atirou-se, então, aos
rebentos da vinha e, metodicamente, limpou umas
tantas plantas. (…) Mas qual não foi a sua [do viticultor]
surpresa quando, na Primavera seguinte, as videiras
«comidas» eram as que exibiam mais abundante
frutificação. Ali estava o sinal evidente de uma
mensagem de Dionísio, o protector dos viticultores! E a
partir daí, a poda entrou nas práticas correntes do
amanho da vinha. (AMARAL, 1994:41)

Apesar da poda ser um processo simples pode apresentar


várias formas, tais como: a poda corrida, poda de arco e poda em
espinha.

99
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Acaba a vindima … começa a poda. Já se poda muito em Dezembro,


Janeiro e Fevereiro porque depois, em Março já começa a sair a
arrebentar! E depois a partir daí tem que se fazer tudo na vide, tudo
limpo...
[Homem, 60 anos, Lixa]

Há várias podas também, podas diferentes.... esta é a poda de arco,


nasce na vide e faz um arquinho, como aquela ali, por exemplo. Estes
Após as vindimas, o agricultor inicia
assim são os arcos. Depois há a poda corrida… a vide vem sempre para
a poda. Normalmente uma activi- a frente. As novas em vez de serem atadas para o lado são para a
dade solitária, que o lavrador leva a
frente, sempre para a frente nunca para trás! Há a de espinha que o
cabo entre os meses de Dezembro e
Fevereiro, utilizando a tesoura de arco saí à beira ao arame e vem rente ao arame e não faz o arco para
poda, as fiteiras e, no caso da vinha cima... vem só (...).
de enforcado, a fouce. [Homem, 45 anos, Vila Verde]

100
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Sulfato de Cobre e Cal


As videiras depois de podadas e quando os rebentos atingem quatro a
cinco centímetros, são sulfatadas, sendo que a primeira sulfatação
ocorre em fins de Abril ou princípios de Maio.

A calda preparada, vulgarmente chamada calda bordalesa, era


composta por água, cal fervida e sulfato de cobre. Actualmente, há
quem adquira e aplique sulfatos com diferentes composições; tal
como tradicionalmente, são aplicados na videira de quinze em
quinze dias, até meados de Agosto. Ao longo dos tempos, verificou-se
uma evolução das máquinas de sulfatar, no sentido de facilitar a
tarefa ao agricultor. Uma das primeiras máquinas consistia numa
espécie de carrinho de mão com duas rodas e um depósito em cobre,

101
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

tapado. Este aparelho estava ligado a uma cana, que, por sua vez,
tinha encaixado na extremidade um tubo comprido, que
possibilitava sulfatar as vides instaladas em locais mais altos.
Apareceram ainda os pulverizadores de dorso, mais tarde o
atomizador de dorso e actualmente o atomizador accionado pelo
tractor.

No princípio de Maio... Despois de véspera. Quem diz de véspera,


pode ser no mesmo dia, o sulfato põe-se a derreter. Há quem o
derreta cum água quente, p'ra ser mais depressa, mas num é
bom!...Tira l'acção ao sulfato… Uma pessoa põe cum tempo pa ele
derreter. Num balde cum água, dentro dum saquinho e aquilo
derrete… E despois atão, bota-se dentro duma barrica. Dantes usava-
-se uma barrica de madeira… é, mas agora é numa barrica de cimento.
Bota-se, enche-se a barrica mais ou menos, até que possa levar esse
produto. E bota-se lá isso, a calda dentro. Quer dizer, só o sulfato!...
Só a calda do sulfato. E despois, queima-se a cal, que ela… tem de ser
queimada... Porque dantes era em pedra, agora é moída, mas ela

Quando as folhas da vide começam a


abrolhar, há que protegê-las das
doenças sulfatando-as de imediato.
Esta tarefa prolonga-se até meados
de Agosto, de forma a garantir que
os cachos de uvas amadureçam
saudáveis. Antigamente eram
utilizadas máquinas de sulfatar
rudimentares, que exigiam um
esforço substancial por parte de
quem as manuseava. Com o de-
correr do tempo, a tarefa foi-se ali-
geirando por intermédio da utiliza-
ção de um atomizador que é trans-
portado e accionado pelo tractor.

102
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

serve na mesma. Queima-se a cal, deixa-se arrefecer um bocadinho.


Mesmo porque, ela vai a ferver não é... Na cal, p'ra ferver bem é com
água quente, mas tem que estar água ali logo própria porque ela
começa logo a ferver e foge, e foge! E despois, pega-se naquela cal,
deixa-se assentar, até oito dias, até se for preciso,… até quinze, mais,
num interessa, é consoante a pressão da cal. Deixa-se estar naquela
envasilha, depois tira-se c'uma colher, tira-se p'ra um balde e
dissolve-se c'um água, fica a água toda branquinha. E bota-se naquela
barrica,... ela tenha o sulfato lá dentro. O sulfato, quer dizer, já
derretido,… E depois é que fica a cor, azul... Dá cor azul, pronto. E
despois há o aparelho p'ra aplicar. Ou um motor de pressão ou
máquina de braço, agora essas máquinas de braço já num há, eram
antigas. É o motor.” E portanto, depois aplica-se. Aplica-se na
bideira. Quinze dias, ao fim dos quinze dias tem de ser sulfatado
outra vez... Eles dizem, pode ser binte. Mas eu nunca fui a isso. De
quinze em quinze dias. Só se o tempo num me deixasse às vezes
porque chovia... E depois, cinco, seis, sete vezes, cinco é pouco, seis
também é pouco. Eu cheguei a sulfatar nove vezes. Consoante o ano
frio… Consoante o ano.
[Homem, 87 anos, Felgueiras]

A partir de meados de Junho faz-se a poda verde, que consiste em


cortar dois elos na fronte dos cachos, de modo a que as uvas fiquem
mais expostas à luz solar e amadureçam com mais facilidade.

Ainda por alturas do mês de Junho, as pipas começavam a ser


preparadas para receber o vinho da próxima colheita; eram lavadas,
colocadas a secar e raspadas com uma enchó. Mais tarde, perto da
vindima, eram tapadas. A prensa e o lagar eram igualmente lavados,
e preparada a adega para o dia da vindima. Actualmente muitas das
pipas em madeira foram substituídas pelas cubas em inox, sendo
todavia igualmente despejadas e lavadas para receber o vinho novo.

103
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

104
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Vindima
Os Trocos
Em finais de Setembro, inícios de Outubro, iniciava-se a Havia aqui umas vinte ou trinta
vindima em comunidade (família, vizinhos e/ou amigos), quintas à volta e nós dávamos um troco,
sendo definidos os trocos, isto é, devido à carga laboral desta eles vinham para nós e nós íamos para
actividade sazonal, praticavam-se actos de reciprocidade eles, não era pagável, era o troco!
entre a comunidade; por exemplo, se uma família ajudava o
[Homem, 60 anos, S. Jorge de Vizela]
vizinho na sua vindima, o vizinho e respectiva família iam
apoiar aquele no dia em que vindimava as suas uvas; este
processo alargava-se à sua rede social mais próxima.

Nesse tempo as uvas estão a ficar prontas e tem de se colher... o que é


que acontece, é um intercâmbio. Eu tenho uma vindima, imagine,
preciso de 20 homens para me ajudar, claro que tenho de dar 20
trocos! Se houver mais de um homem em cada casa mais fácil é
porque dá para dar trocos para casa do outro... e amanhã vou para
outro lado.
[Homem, 60 anos, Lixa]

Do Alto das Cestas


A vindima implica a utilização de um conjunto de utensílios e
ferramentas, do qual fazem parte o escadote (tradicionalmente de
madeira de eucalipto), as tesouras, as unhas, as navalhas e as cesta de
vime que são descidas com uvas do alto das videiras até aos cestos,
outrora de vime e actualmente de plástico, sendo de seguida
transportados para o lagar. Actualmente, existe neste contexto um Em dia combinado, por alturas de
misto de saudosismo e de adaptação tecnológica, em particular em Setembro até meados de Outubro, a
vindima começa ao alvorecer. Os
quintas de pequena e média dimensão. Nas vindimas utilizam-se
escadotes, os cestos e as tesouras
sobretudo os escadotes de madeira, sendo que, muitos agricultores, estão a postos para um dia de
dado o seu reduzido peso, usam com frequência as escadas de trabalho que se adivinha longo.

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Na página seguinte. A dureza do alumínio. Por outro lado, os raladores manuais foram substituídos
trabalho de vindimar, impede as
pelos motorizados e os carros de bois, para transportar os cestos de
mulheres de executar esta tarefa;
prestam, sobretudo, apoio aos vindi- uvas substituídos por tractores ou carrinhas modernas.
madores, recolhendo e despejando
cestas de uvas. Em algumas casas Apesar da paisagem vinícola desta região estar em profunda
agrícolas ainda são as mulheres que
alteração, no que diz respeito ao sistema de suporte da videira, ainda
transportam os cestos carregados de
uvas para o lagar, não pela sua é muito frequente depararmo-nos com a vinha de árvore ou enforcado.
particular disponibilidade física, Assim, é comum encontramos nas vindimas escadotes em madeira,
mas pelo domínio da técnica de
carregar o cesto sobre a cabeça até ao de grandes dimensões, com um sistema de cordas capaz de fazer
destino. descer as cestas carregadas, do topo das árvores até ao chão (sistema
esse, por vezes doloroso para quem manuseava as cordas de forma
pouco cautelosa, podendo provocar queimaduras nas mãos).

Eu ainda me lembro de a gente meter um tubo de


plástico na corda e andava encostado na nossa beira e
quando fosse descer da corda corria do tubo.
[Homem, Pombeiro]

As cestas quando desciam eram normalmente despe-


jadas por mulheres. No sentido de serem alertadas
para a descida das cestas e para a sua devolução depois
de despejadas, os homens gritavam “torna”.

Entre Saias e Calças


Vindimar era uma tarefa árdua e como tal destinada
exclusivamente aos homens. Sendo que as videiras
eram altas e a saia fazia parte “obrigatória” da indu-
mentária da mulher, não era adequado subir o
escadote. Permaneciam no chão prestando apoio aos
vindimadores, recolhendo as cestas que despejavam
nos cestos.

106
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

D’antes era... os homens a colher as uvas e as mulheres a arrastar os


cestos, feitos de madeira, à cabeça.
[Mulher, 73 anos, Várzea]

Como era tudo em árvores... porque as mulheres tinham medo de


assubir lá para cima! (...)
[Homem, 71 anos, Várzea]

Para além de não colherem as uvas, as mulheres não participavam na


pisa. Uma das explicações para esta situação consistia, por um lado,
no facto de poderem estar menstruadas e assim estragar o vinho, por
outro, no facto de ser uma tarefa bastante dura, que podia
demorar entre quatro a cinco horas, e para a qual as
As mulheres não! Algumas iam para casa
mulheres não estariam fisicamente preparadas. Já noutros
e outras ficavam no lagar a ver! Outras
concelhos vizinhos, como Guimarães, havia mulheres que
ficavam a desfolhar, desfolhar milho!
participavam na pisa das uvas, usando para o efeito calças,
que arregaçavam até ao joelho.72 [Homem, 60 anos, Lixa]

107
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Curiosamente, nas vindimas, ainda se encontra uma divisão laboral


de género, onde os homens, ainda numa situação de superioridade
face às mulheres, continuam a colher as uvas, ao passo que as
mulheres a carregar os cestos pesados, já de plástico, para o lagar, ou
para a carrinha que os vai transportar para o lagar.

Esta divisão laboral é particularmente pertinente visto que o motivo


que afastava as mulheres da vindima em escada, era a vestimenta
tradicional feminina. Ora, actualmente, nas vindimas a maioria das
mulheres, sobretudo as gerações mais novas, usam calças, ou pelo
menos, dispõem de vestuário variado que lhes permite escapar ao
problema da falta de privacidade.

Nas vindimas estão ainda claramente definidas as diferenças de


género, tal como ocorria tradicionalmente, se bem que a justificação
prática do pudor deixa de fazer sentido, sendo agora visível até
algum acentuar injustificado desta diferenciação hierárquica. Serve
aqui o exemplo dos casos em que os homens são servidos de vinho
pelas mulheres de forma constante e a pedido, bem como, ao
contrário das mulheres, são-lhes ainda fornecidos cigarros pelo
lavrador dono da casa.

Numa nota suplementar, refira-se que as mulheres que carregam os


cestos são sobretudo as mais velhas, não pela sua particular
disponibilidade física, mas pelo domínio da técnica de carregar o
cesto sobre a cabeça até ao seu destino. Um saber que também perde
lugar entre as gerações mais novas.

Já no pisar das uvas o fenómeno é mais flexível. Se por um lado,


devido ao clima de celebração que envolve todo o dia de trabalho, as
mulheres e crianças são por vezes convidadas a pisar as uvas nos
lagares, noutros casos a actividade é ainda reservada aos homens
enquanto as mulheres assistem.

108
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Ia para o Lagar
No lagar, no caso do vinho verde tinto, por norma, as uvas são
primeiramente esmagadas no caniçal (ralador) e só depois, no lagar,
são pisadas; sendo que antigamente eram utilizados apenas os pés
para esmagar as uvas, o que prolongava por cerca de 4 a 5 horas esta
tarefa. De seguida, consoante a temperatura ambiente, o vinho
permanecia no lagar, entre cinco a seis dias a fermentar, antes de ser
colocado nas pipas.

No caso do vinho verde branco e do vinho verde espadeiro ou espadal


(rosê), as uvas são esmagadas no ralador e o vinho colocado de
imediato nas pipas, técnica chamada bica aberta, dando-se assim a
sua fermentação directamente nas pipas.

109
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Apesar de ser tarefa árdua, o pisar O bagaço que fica no lagar é prensado na prensa, e o vinho que daí é
das uvas era uma actividade fre-
quentemente acompanhada por
retirado é acrescentado ao restante que já esta nas pipas.
festa e boa disposição, que se prolon-
gava pela noite dentro. Terminada a Depende... Se o tempo for quente pisa-se e ao outro dia está fervido.
pisa, o vinho permanecia no lagar Depois de ferver aí dois dias tira-se, porque no fim de ferver ele fica
entre 5 a 6 dias a fermentar, antes de
ser colocado nas pipas. azedo. O vinho começando a ferver é docinho, porque passado um
dia ou dois fica mais... agre… se tiver muito calor ele azeda mais
depressa e vai-se mais depressa. Se tiver frio leva mais tempo a ferver
e aguenta mais tempo!
[Homem, 71 anos, Várzea]

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ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

Cantares e Petiscos
Apesar de tarefas árduas, vindimar e pisar as uvas, eram actividades As refeições no dia da vindima
ficavam a cargo do dono da casa.
frequentemente acompanhadas por festa, onde se juntavam Outrora, a comida não abundava na
concertinas e violas e se cantava em ambiente de boa disposição. casa do lavrador comum; no entan-
to, reservava sempre o melhor que
Bebia-se aguardente, vinho da caneca, acompanhado de vários
tinha e com relativa fartura, para
petiscos de acordo com as posses do dono da casa. Conotadas como servir nesse dia.
actividades de rica camaradagem que no final confluíam “numa
borga” onde “comia-se e bebia-se muito e havia animação”.

Eu próprio cantei muito, gosto de cantar, sempre gostei. Púnhamo-


nos a cantar no lagar a desafiar outro cá fora, com viola e a cantar, isso
era uma coisa… muito bonita! Se houvesse uma pisada em tal lado
nós íamos todos para tocar… isto agora não tem nada a ver com o
tempo de antes. Antes era bonito, era uma coisa importante!
[Homem, 65 anos, S. Jorge de Vizela]

A comida outrora, ao contrário de hoje em dia, não abundava na casa


do lavrador comum. No entanto, o dono da casa reservava o melhor
que tinha e com relativa fartura, para servir nesse dia, a pensar
naqueles que vinham a sua casa dar os trocos. A gestão desta escassez
de alimentos era uma tarefa difícil para as famílias mais pobres.

Comíamos lá e quando fosse na nossa casa comiam cá… Agora é


muito melhor! Agora não tem nada a ver com isso. Chegávamos às
vezes a irmos comer e a comida não chegar! A rapar as panelas a ver
se dava. Era pouco. Era frango com massa ou arroz! Era o que se
comia antes, no lagar davam café com trigo, com nozes, era
conforme… punham sopa com bacalhau…. Não era como hoje,
aquela cesta de panados. Antigamente, Deus me livre de antes haver
um que desse aquilo!
[Homem, 65 anos, S. Jorge de Vizela]

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Na produção de vinho tudo era


aproveitado, pele e grainha da uva Fermentação
(bagaço) eram transformadas em
aguardente vínica, muito apreciada No fim de pisado, o vinho tinto ficava a fermentar dentro do lagar
na região. A obtenção desta bebida durante alguns dias e voltava, por vezes, a ser pisado só para acamar
era efectuada através de um sistema
rudimentar mas eficaz, o alambique. o bagaço. O vinho seria envasilhado e deixado dentro das pipas ou
cubas durante alguns meses, tendo posteriormente que ser
acrescentado. Para a trasfega do vinho do lagar para as pipas
utilizava-se um recipiente de metal designado por almude, actual-
mente a trasfega é efectuada por uma bomba específica, motorizada.
Aguardava-se um a dois meses e fazia-se a prova do vinho por alturas
do S. Martinho; No São Martinho, prova o teu vinho e batoca-o bem
abatocadinho! Durante o mês de Janeiro/Fevereiro, o vinho estava
pronto para se beber, procedendo-se à trasfega para garrafões e/ou
garrafas.

... Janeiro, Fevereiro. Já dá para provar mas depende, depende


porque enquanto o vinho estiver a ferver, está bem encobado. O São
Martinho é porque já está a deixar de ferver não é!? Se apertar uma
pipa com ele a ferver pode rebentar, mas provar é Janeiro... porque
quando se engarrafa vinho é para Janeiro, Fevereiro (...)
[Homem, 71 anos, Várzea]

Depois de produzido o vinho, as suas sobras designadas por bagaço


(peles e grainha da uva), tendo sido previamente espremido na
prensa, era transportado para o alambique a fim de ser, segundo
designação popular, queimado e obter a aguardente vínica, muito
apreciada na região. Depois de queimado, o bagaço era utilizado como
fertilizante para a terra.

Actualmente, a produção de aguardente é controlada por lei e nem


todos os proprietários de alambiques podem queimar bagaço. Quem
pretende produzir aguardente terá de estar certificado pela
Associação Vinícola.

112
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

[o bagaço] antigamente ia para o alambique fazer aguardente! Mas


agora deitam-no fora. É, bota-se na terra já não vai para o alambique!
Antigamente ia para o alambique fazer o bagaço, mas agora... (...)
antigamente … queimava muito bagaço, queimava bagaço sei lá mais de
mil quilos, dois mil quilos de bagaço. Dava uma quantidade ao dono
do bagaço mas ficava com outro, e eles não iam ficar com ele em casa!
Era para vender. Mas agora não podem. (…) Antigamente era assim:
pegava-se no carro de bois, botava-se o bagaço, levava-se ao alambique.
[Homem, 71 anos; Várzea]

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

A Jornada do Vinho
Segundo a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos, o vinho
verde é um vinho leve, com baixo teor alcoólico, frutado e fresco,
produzido exclusivamente na Região Demarcada dos Vinhos
Verdes, localizada no Noroeste de Portugal, entre o rio Minho e o
rio Douro, cuja denominação remonta a 1908. As características
deste vinho são o resultado, por um lado, das condições
edafoclimáticas daquela região - o solo e o clima - e factores sócio-
económicos e, por outro, das castas seleccionadas e a forma de
cultivo. É aconselhado para acompanhar refeições leves e
equilibradas, tais como, saladas, peixes, mariscos, carnes brancas,
tapas, etc. A designação do nome “vinho verde” refere-se à
frescura e idade e não à cor ou pouca idade de maturação da uva,
como se crê frequentemente.

Apesar de, em Felgueiras, muitos agricultores produzirem vinho


apenas para consumo próprio e para vender a vizinhos e amigos,
uma parte significativa é vendida à Adega Cooperativa, a fim de
ser comercializado em Portugal e no estrangeiro.

O vinho parece ser o produto que mais prosperidade garante e o


mais adequado ao modo de vida dos produtores felgueirenses.
Ano após ano, o vinho verde, pelas suas características únicas, vai
conquistando mais apreciadores pelo mundo inteiro, e sendo a
procura crescente, também a oferta tende a subir. Assim, esta
atenção no vinho verde justifica uma maior aposta na sua
qualidade. Antigamente na área de Felgueiras, predominava a
casta Azal, enquanto hoje as castas recomendadas e efectivamente
enxertadas são outras. O Azal dá um vinho mais ácido e de
reduzida durabilidade, sendo que no mercado se procura essen-

114
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

cialmente vinhos leves, esta casta teve de ser compensada, equili-


brada ou substituída por outras, como Pedernã ou Loureiro. A par
desta transformação, existe actualmente um programa estatal de
apoio à reconversão das vinhas, visando uma maior produti-
vidade e qualidade das uvas. Todo este processo de reconfiguração
vitícola é acompanhado pela Cooperativa Agrícola de Felgueiras,
dada a exigência de qualidade das uvas e do vinho para se poder
comercializar com sucesso.

A beleza da cor intensa dos cachos


de uvas remetem-nos para vivências
passadas que a memória mantém
no presente e projecta para o futuro.

115
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

MEMÓRIAS FUTURAS: reflexão conclusiva

Há menos de meio século atrás, a maximização do


aproveitamento das terras aráveis era, de facto, uma realidade em
que se envolvia grande parte da comunidade, fosse por
necessidade, por contrato comercial ou por reciprocidade.
Todavia, actualmente é, por ventura, difícil visualizar os
imaginários de gerações mais antigas que viram esses campos
cultivados, sobretudo quando reconhecemos que a memória, com
o avançar do tempo de vida, tende a simplificar e seleccionar
sentimentos, sensações e quadros contextuais muito específicos.
Contribuindo para um padrão de identificação do passado rural
como um exemplo de comunitarismo e solidariedade, em
oposição a um presente caracterizado por um certo individualis-
mo e aparente perda de identidade que promovem a disjunção
dos valores e da moral entre gerações. Sucintamente, uma roman-
tização do passado.

Todo o processo de mudança do contexto rural foi caracterizado


por uma galopante revolução tecnológica marcada pelo uso de
máquinas, sobretudo com a substituição da tracção animal pelo
motor de combustão, o uso dos motores de rega, das debulhadoras
motorizadas, prensas eléctricas, bem como, pelo surgimento das
cubas de inox, dos cestos e sacos de plástico, das botas de
borracha, dos escadotes de alumínio, e claro das sementes
melhoradas e os adubos químicos, etc., “(...) guiados por novos
ideais de prestígio os homens entregam-se à cultura material
industrial (...) enquanto as mulheres são mantidas no trabalho
braçal, apeadas das máquinas”. 73

Toda uma nova paisagem técnica e tecnológica que permitiu uma


produção mais eficiente sem necessitar de um território de maior

117
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

dimensão. Gradualmente os terrenos foram sendo repartidos,


abandonados, a sua área de cultivo diminuída, e com ela a
necessidade de grupos de trabalho numerosos desaparece, como
eram exemplo os ranchos migratórios sazonais. Aos agricultores
que não foram reformando as tecnologias agrícolas restou o
abandono da actividade, o aumento da extensão dos terrenos por
cultivar, ou a não cedência ao novo método e com ela a
continuidade de uma produção com grande sacrifício, e pela mão
da remuneração do trabalho familiar.

O trabalho agrícola de pequena dimensão é realizado sobretudo


por familiares que modernizam parcialmente as técnicas e as
ferramentas de modo a compensarem a reduzida dimensão do
terreno agrícola e da força de trabalho. Adicionalmente a
remuneração é forçosamente inferior aos valores praticados nos
mercados, e muitas vezes o pagamento é parte da produção, o que
viabiliza a sua continuidade. Sem grande surpresa a revolução
tecnológica que atingiu o contexto rural foi, como vimos,
acompanhada, por vezes de forma até acelerada, por fenómenos
sociais como a emigração, o êxodo rural, a propagação da
indústria fabril, a rápida alfabetização e escolarização das
populações, entre vários outros fenómenos que poderíamos
referir.

Todo este cenário é particularmente visível no Concelho de


Felgueiras, onde estão disseminadas de forma relativamente
homogénea as inúmeras fábricas de calçado, entre outras, onde
são visíveis os sinais de urbanização acelerada e de multiplicação
de novos serviços. Na verdade, a “rápida ascensão” de Felgueiras a
cidade é em si um exemplo da industrialização repentina e do
crescimento económico, que em paralelo com a proximidade a
grandes centros urbanos, como a cidade do Porto, reuniu

118
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

condições para a concentração e multiplicação da sua população,


e com ela o surgimento de uma malha urbana em expansão que
invade os antigos campos agrícolas.

Toda a transformação alterou fortemente as técnicas, as ferramen-


tas e a produtividade. Simultaneamente ocorreu uma silenciosa
reconfiguração na força de trabalho humana, boa parte dela
especializada e de reconhecido estatuto local. É essencial conside-
rar os inúmeros homens e mulheres que viram a sua perícia técni-
ca no trabalho agrícola perder parcial ou totalmente a sua utilida-
de.

Foram os agricultores e moleiros, entre outros trabalhadores


ligados directa ou indirectamente à vida agrícola, com larga
experiência e de elevada competência técnica, procurados pelas
suas capacidades únicas ou particularmente eficientes, que
perderam mercados dos quais haviam aprendido a depender.
Falamos também de cesteiros, carpinteiros, tecedeiras, e tantos
outros que formados de base nas suas artes pelos seus progeni-
tores, ou mestres locais, viram-se despidos de um trabalho que
sempre dominaram e que repentinamente é considerado obso-
leto.

Sem a necessidade tanto de numerosos grupos, como de


elementos específicos, são as máquinas com os seus automatismos,
sob o controlo de um punhado de homens, que selam num rugido
motorizado o seu domínio sobre os campos. O prestígio social
parece escapar à sua ligação secular à terra, e passa a estar
associado à ligação com a máquina: “O estatuto social dado pela
máquina (...) em torno da mecanização molda-se um quadro
cultural próprio: indumentária, gestos e saber aplicado derivam
das exigências requeridas pela mecânica e já não do contacto
directo com a terra”.74

119
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

O impacto social de todo este processo encontra-se também nos


rituais agrícolas e nas suas manifestações mais festivas e de elevada
sociabilidade. Os saberes perdem lugar na memória, os homens
vêem-se forçados a modificar a forma de trabalhar ou o próprio
ofício. Não é defendido qualquer tipo de reprovação face às
consequências do avanço tecnológico e das mudanças sociais que
ocorreram. Existe mesmo uma bipolaridade na memória de quem
reflecte sobre o passado rural. Ele é simultaneamente romantiza-
do, e racionalizado, pois, é reconhecido que as transformações
que ocorreram trouxeram o fim do duro e mal remunerado
trabalho agrícola, e a melhoria generalizada das condições de
vida.

Os antigos senhorios das terras que acumulavam riqueza que


provinha da terra trabalhada pelos seus caseiros, lavradores e
trabalhadores, etc., e os párocos locais, que numa condição social
superior e de proximidade com os senhorios, garantiam o seu
sustento também com base no trabalho dos mesmos, desapare-
ceram apenas, para ver novos elementos surgirem.

Burocratas, administrativos, políticos locais, emigrantes, migran-


tes pendulares, empresários, e tantos outros elementos proveni-
entes das mais variadas situações ocupam o rural. Em suma, hoje o
espaço rural não é só agrícola visto que esta já não é garantia do
seu sustento, nem batuta das suas relações sociais. O contexto
rural já não pode ser caraterizado meramente pelo seu pendor
agrícola, mas antes como um contexto aberto, amplo e diversi-
ficado, em suma, uma sociedade rural complexa e múltipla na sua
variedade.

Como procurámos demonstrar, as transformações ocorridas não


erradicaram totalmente as formas agrícolas tradicionais e as
manifestações culturais decorrentes das mesmas, antes, promo-

120
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

veram a sua transformação e adaptação. Em suma, o pão caseiro, a


broa, pode ser apenas produzido em pontuais fornos a lenha, mas
o seu consumo é ainda procurado, tanto por gentes locais como de
outros pontos do país e da península; e o vinho verde, antes
destinado sobretudo ao consumo local e regional, é hoje produto
de uma região demarcada que atravessa fronteiras no seu prestígio
e qualidade.

O concelho de Felgueiras tem ainda, espalhado na sua memória


social e material, na sua riqueza histórica e paisagística, um futuro
promissor que tudo deve ao seu passado. Falamos com interesse,
por exemplo, da produção industrial vitivinícola, e da memória de
tantas profissões extintas ou nesse processo, como a do cesteiro;
Mas falamos ainda da produção industrial do calçado, uma
parcela valiosa da cultura industrial portuguesa, que concentra
em Felgueiras um património que merece o seu espaço e o seu
destaque. Isto é, Felgueiras tem património de potencial que é
amado pelos seus habitantes e apreciado pelos seus visitantes.
Património esse que ainda merece um olhar mais aprofundado,
como no caso dos ciclos aqui abordados, mas também um
património vasto por desbravar, explorar e desfrutar.

* * *

121
M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

Vivências passadas - Memórias futuras: a cultura do linho, pão e vinho, contribuirá activamente
para que não sejam esquecidos os valores rurais que fundamentaram a identidade colectiva de todos
quantos partilham este território na actualidade. Enquanto meio de transmissão inter-geracional
daquele testemunho, por certo que avivará a memória dos mais velhos e sedimentará o espírito de
pertença dos mais novos. É sobretudo a estes que o livro se destina.

122
ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

NOTA S

1. DIAS, 1990:56. 26. “A partir desta fase, quase diríamos, de monumentali-


zação, podemos falar com certeza do estabelecimento de uma
2. Serão inseridas citações de entrevistas realizadas entre
propriedade com as características de uma verdadeira villa
Agosto e Novembro de 2010, onde a privacidade e
rustica, constituída por uma casa senhorial de grandes
confidencialidade estão garantidas pelo seu anonimato.
proporções à cabeça de uma propriedade agrícola que parece
3. MATTOSO (1992:252). ocupar todo o vale.” PINTO, 2008:19.
4. Idem (1992:277). 27. DIAS, J. 1993:46.
5. Ibidem (1992:171). 28. “Dentro deste Couto dou quanto aí tenha de reguengo
6. SILVA, Rebello da (1884:55). quer de mandato juntamente com seu saião e caritel, fora do
mesmo Testamento de Guimarães, que tem em Vila Pouca.
7. Capaz de produzir até três a quatro vezes mais quantidade Dou e confirmo isto que acima consta ao Mosteiro de Santa
que o centeio e o trigo. Maria, sob o nome de Pombeiro (...)” Tradução efectuada por
8. Passando posteriormente a ser disposta em ramada nas J. A. Coelho Dias (Frei Geraldo) a partir do texto publicado
orlas dos terrenos de cultivo. em: Documentos Medievais portugueses: documentos régios:
documentos dos Condes Portugualenses e de D. Afonso
9. TENGARRINHA, 1994:68-69.
Henriques A. D. 1095 – 1785.
10. Idem, p.71.
29. Ver CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra, 1992,
11. TENGARRINHA, 1994:110. Memórias ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho.
Ponte de Lima. Edições Carvalhos de Basto, Lda.
12. TENGARRINHA, 1994b:77.
30. FREITAS, Eduardo de, 1985, Felgerias Rubeas : subsídios
13. Arquivo da administração do concelho, dossier nº1629.
para a história do concelho de Felgueiras. 2ªed. Porto: [s.n.].
14. Inquérito à produção de vinho 1897, no Arquivo da
31. PORTO. Bispo, 1871-1899 (Américo Ferreira dos Santos
Administração do Concelho, dossier nº1628.
Silva) - Relação geral das freguesias da diocese do Porto. Porto :
15. GOMES, 1948:220. Typographia da Palavra, 1882.
16. PEREIRA, 1979:144. 32. FERNANDES, 1989:26.
17. Dados retirados de PEREIRA, 1979:31. 33. Crescimento de 17% da população registado entre 1991 e
18. PEREIRA, 1979:231. 2001 (INE-Censos 2001).

19. CALDAS, 2001:53. 34. A dispersão populacional encontra-se justificada, entre


outras razões, na abundância de ribeiras e nascentes que
20. Idem, 2001:135-37. permitiram a subsistência das gentes através do seu
21. Ibidem 2001:60. aproveitamento. A água e o seu consumo determinaram, no
decorrer dos séculos, a selecção dos espaços para habitar e
22. Ver PINTO, Madureira (1985:98) na sua abordagem ao
laborar.
Vale do Sousa e à sua caracterização típica de sub-região agro-
rural típica. 35. GOMES et al, 1996:90.

23. PINTO, 2008:15. 36. Ver http://www.cm-felguerias.pt.

24. Situada na base do Castro de Sendim, descoberto em 1932, 37. FERNADES,1989:19.


ver PINTO, Ruy de Serpa, O Castro de Sendim. Felgueiras
38. Como reflecte PINTO Madureira, 1985:97.
(Nota Preliminar), Homenagem a Martins Sarmento (1833-
1933), S.M.S., Guimarães, 1934. pp. 376-380. 39. OLIVEIRA et al, 1991:10.

25. PINTO, 2008:15. 40. OLIVEIRA et al, 1991.

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M u n i c í p i o d e F e l g u e i r a s

41. SILVA, 1868:249. 57. BARBOFF, 2005:13.


42. Tradicionalmente toda em madeira e mais tarde com 58. Idem.
dentes de ferro; é vista mais recentemente totalmente de
59. INGRAM e SHARPTER, 2002:14.
ferro.
60. BARBOFF, 2005:15.
43. OLIVEIRA et al, 1991: 45-56.
61. Idem, 1995:30.
44. Usualmente bois.
62. OLIVEIRA, 1995:33.
45. Actualmente não se encontram engenhos em
funcionamento. 63. Grupo de pessoas a cantar.

46. OLIVEIRA et al, 1991:71 64. BARBOFF 2005:89.

47. Idem, 1991:72 65. INGRAM e SHAPTER, 2002:7.

48. Ibidem, 1991:100. 66. Pequena bacia em madeira

49. Agente chamava era de maçaroca ao linho enrolado no fuso. 67. INGRAM e SHAPTER, 2002
Borba de Godim.
68. A multiplicidade de pequenas variações na cozedura do
50. Quando em maior quantidade. pão levou-nos a simplificar desta forma o processo tido como
tradicional.
51. GRAÇA, 1943:66.
69. AMARAL, 1994:30.
52. Comummente doze a vinte e quatro.
70. VASCONCELOS, 1982:624.
53. Denominados de enxergões.
71. Actualmente há porta-enxertos de muitas qualidades, que
54. MARTINS, Maria Emília, 1989, in Primeira Colectânea de
são importados.
Poetas Felgueirenses, Edição da Câmara Municipal de
Felgueiras. 72. VASCONCELOS, 1982:626.
55. INGRAM e SHAPTER, 2002:9. 73. BRANCO, 2005:132.

56. INGRAM e SHARPTER, 2002:12. 74. BRANCO, 2005:101.

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ivências passadas
memórias futuras:
a cultura do LINHO, PÃO e VINHO

BIBLIOGRAFIA

125
União Europeia

Fundo Europeu de
Desenvolvimento Regional

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