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HENRIQUE JUSTO, FSC

CRESÇA E
FAÇA CRESCER
segundo
CARL ROGERS

Teoria da Personalidade
Aprendizagem Centrada no Aluno
Psicologia Humanista

8ª Edição
[Comemorativa dos cem anos do autor.... ainda ativo]

1922-2022

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

J96c Justo, Henrique, 1922- .

Cresça e faça crescer : segundo Carl Rogers / Henrique Justo.


– 8. ed. – Porto Alegre : Província La Salle Brasil-Chile, 2022.

248 p. : il. ; 21 cm.

Bibliografia.

ISBN: 978-65-89486-81-7

1. Psicologia. 2. Personalidade. 3. Psicologia humanista. 4.


Aprendizagem centrada no aluno. 5. Rogers, Carl R. (Carl
Ransom), 1902-1987. I. Título.

CDU 159 .923

Bibliotecário responsável: Samarone Guedes Silveira - CRB 10/1418

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Henrique Justo
Na PUCRS, foi Professor, Coordenador de Departamentos,
Vice-Diretor da Faculdade de Educação (dois períodos)
e Diretor do Instituto de Psicologia (dois períodos).
É ex-coordenador do Curso de Pós-Graduação
“Abordagem Centrada na Pessoa” no Centro Universitário
La Salle, Canoas, RS.

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DUAS PALAVRAS

Além de uma série de retoques, apresenta esta edição


diversas páginas (uma quinzena) de vários autores, textos
distribuídos ao longo do livro, com o objetivo de auxiliar o leitor
a apreender melhor aspectos centrais da Psicologia Humanista,
amplamente inspirada na filosofia fenomenológica e existencialista.
O livro é particularmente apreciado por quem deseja
iniciação na visão humanista em psicologia, especialmente na
de Carl Rogers, e entrar em contato com elevado número de
autores que, de longe ou perto, partilham esta visão das ciências
do homem, perspectiva baseada em sólida base filosófica.
Sincero agradecimento às Editoras que autorizaram a
transcrição de textos mais extensos na presente edição.

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LEITOR AMIGO,
CARL ROGERS APRESENTA SUA TEORIA

Certamente está você interessado/a em ter, inicialmente,


visão panorâmica do pensamento rogeriano. Eis algumas das
grandes linhas que o caracterizam. (Rogers, in Wexler-Rice,
1974, p. 9-13):
1 - Abertura à experiência: busca permanente de mais
e novos dados, com o fito de tornar a teoria cientificamente
mais consistente: escoimando-a de falhas, acrescentando-lhe
elementos, revendo pontos duvidosos.
2 - O centro privilegiado das preocupações científicas da
Psicologia Humanista é a unicidade, a subjetividade da pessoa.
Nisso opõe-se à visão predominante da psicologia americana:
mecanicista, atomística, determinista.
3 - Outra característica é a importância dada ao enorme
potencial do indivíduo. Empenha-se a Psicologia Humanista
em criar atmosfera propícia ao desabrochamento destas
possibilidades.
4 - Relacionamento profundo é das necessidades mais
notórias do homem de hoje. Este elemento foi tomando relevo à
medida em que prosseguiam os estudos. Os ‘grupos de encontro’
(grupos de crescimento) constituem tentativa de resposta a esta
necessidade.
5 - Outro ponto de vista foi adquirindo peso ao longo
dos anos: a existência é vivida agora. A vida não é, portanto,
comportamento automaticamente determinado pelos anos
iniciais da existência nem mero reflexo do condicionamento
ambiental.

6 - A estruturação da personalidade não se realiza


unicamente pela via cognitiva, porém, basicamente, de forma
experiencial.

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Para o leitor ter contato direto com o pensamento de
Rogers, fiz uso, neste livro, de muitas citações textuais em vez
de recorrer a paráfrases que, facilmente, distorcem, mutilam ou
empobrecem as ideias de um autor.
Estas páginas não passam de singela amostra da grandiosa
obra de Carl Rogers, mero aperitivo de um lauto banquete.
Estimado leitor, não deixe de saborear ‘pratos’ como “Tornar-se
Pessoa”, “Liberdade de Aprender”, ‘’A Pessoa como Centro”,
“Grupos de Encontro”, “Carl Rogers sobre o Poder Pessoal’’,
“Terapia Centrada no Cliente”… Não se arrependerá. Este
‹regime› lhe fará bem à saúde. Bom apetite!
O autor

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Retrato desenhado ao vivo por Maria de Lourdes Antunes Pimenta numa sessão
do workshop de que foram facilitadores Carl Rogers e Psicólogos do Centro de
Estudos da Pessoa de La Jolla, Califórnia, USA.
(Aldeia de Arcozelo, Rio, fevereiro de 1977)

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO........................................................................... 15

Quem é Carl Ransom Rogers?..................................................... 15

Teoria Rogeriana.......................................................................... 18

CAPÍTULO I
ESTRUTURA E DINÂMICA DA PERSONALIDADE

I. Confiança no indivíduo............................................................. 23

II. Tendência atualizante............................................................... 29

III. O self....................................................................................... 37
1. Gênese do self...................................................................... 37
2. Definição............................................................................... 37
3. Comportamento.................................................................... 39
4. Congruência-incongruência.................................................. 43

IV. Abertura à realidade................................................................ 47

V. Defesas..................................................................................... 52
1. Conceito................................................................................ 52
2. Perturbação da comunicação interna................................... 53
3. Educação e ameaça.............................................................. 57
4. Problema dos limites............................................................. 58

VI. Psicologia do desenvolvimento humano................................ 60


1. O self..................................................................................... 60

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2. Consideração positiva........................................................... 60
3. Desenvolvimento sadio e conflituoso................................... 63

CAPÍTULO II
AS 22 PROPOSIÇÕES DE CARL ROGERS

I. Proposições referentes às reações do organismo.......................70


1.  O indivíduo é o centro de seu mundo de experiências........70
2.  O organismo reage a sua percepção do mundo................ 71
3.  O organismo reage como um todo..................................... 73
4.  O organismo tende a manter-se e a expandir-se................ 75
5.  O comportamento é tentativa finalista do organismo........ 76
6.  A emoção acompanha o comportamento.......................... 77
7.  A compreensão do outro do ponto de vista dele............... 79

II. Proposições referentes ao self................................................. 82


8.  Porção perceptual forma o self........................................... 83
9.  A estrutura do self constitui-se a partir de inter-relações......83
10. Os valores são vivenciados ou introjetados........................ 86
11. As experiências são vivenciadas corretamente ou não....... 87
12. O comportamento depende do self................................... 89
13. Há comportamentos em desarmonia com o self................ 90
14. Compreensão do desajuste entre self e comportamento....... 92
15. Comportamento ajustado com o self................................. 94
16. Percepção da experiência e ameaça................................... 94
17. Condições para inclusão de novas experiências no self......... 96
18. Indivíduo integrado é mais compreensivo.......................... 97
19. Processo contínuo de avaliação.......................................... 98
20. Interesse pela estima social............................................... 100

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21. Necessidade de autoestima.............................................. 101
22. Atitude de valor pessoal................................................... 101

CAPÍTULO III
FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE: VIDA PLENA

I. Características de pessoa de funcionamento ótimo............... 104


1.  Crescente abertura à experiência...................................... 105
2.  Vida progressivamente mais existencial............................ 110
3.  Organismo digno de confiança......................................... 111
4.  Centro interno de avaliação.............................................. 114
5.  Vontade de ser um processo............................................. 117

II. Processo de crescimento........................................................ 118


1. Da rigidez à fluência............................................................ 118
2. Para longe de...................................................................... 124
3. A caminho de...................................................................... 128
4. A pessoa que funciona plenamente.................................... 131

III. Teoria “se-então”.................................................................. 135

IV. Uma teoria otimista............................................................... 136

CAPÍTULO IV
ALGUMAS APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS

I. Aprendizagens nas relações com os outros............................ 141

II. Ações e juízos de valor........................................................... 153

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CAPÍTULO V
PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM ROGERIANO

I. Novas perspectivas................................................................. 163

II. Reações contra um iconoclasta.............................................. 165

III. Os princípios rogerianos da aprendizagem.......................... 169

IV. Método democrático versus método autoritário....................... 177

V. Professor: facilitador da aprendizagem.................................. 184

VI. Avaliação............................................................................... 189

VII. Método inviável?.................................................................. 190

VIII. Resumo da aprendizagem centrada no aluno......................... 197

IX. Valores cultivados por este método..................................... 199

X. Diário da metamorfose de uma professora de Didática........ 201

CAPÍTULO VI
PSICOLOGIA HUMANISTA

I. Introdução............................................................................... 213

II. Características da Psicologia Humanista................................ 220

BIBLIOGRAFIA CITADA OU CONSULTADA.............................. 237

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INTRODUÇÃO

QUEM É CARL RANSOM ROGERS?

Nasceu Rogers a 08 de janeiro de 1902, em Oak Park (Chicago, USA),


sendo o quarto de seis filhos de abastada família de fazendeiros.

1919-1924 frequenta o “College” da Universidade de Wisconsin. Bacharel


em História em 1924.
1922: Delegado a Congresso mundial da Federação dos Estudantes
Cristãos em Pequim.
1924: Casamento.
- Frequenta, durante dois anos, a “Union Theological Seminary” de
New York City, como candidato a pastor.
- Início dos estudos de Psicologia e Psicologia Clínica no “Teachers
College of Columbia University”.
1927: “Master of Arts”. Ingresso no “Institut for Child Guidance”. 1931:
Tese de doutorado.
1935: Professor no “The Clinical Treatment of the Problem Child”.
1939: Publicação do livro “O Tratamento Clínico da Criança Problema”.
1940-45: Professor na Universidade de Ohio.
1941-42: Presidente da Associação Ortopsiquiátrica Americana.
1942: Publicação do livro “Psicoterapia e Consulta Psicológica”.
1944-45: Presidente da Associação Americana de Psicologia (APA).
Professor-visitante nas Universidades de Harvard, Brandeis e Berkeley e no
Occidental College.
1945-47: Professor-Pesquisador na Universidade de Chicago. 1951:
Publicação do livro “Terapia Centrada no Cliente”.

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1954: Publicação, com Roslind F. Dymond, do livro “Psychotherapy and
Personality Change” (Psicoterapia e Mudança da Personalidade). Ainda não
foi traduzido ao português.
1956-58: Presidente da Academia Americana de Psicoterapeutas.
1957-63: Professor na Universidade de Wiconsin.
1961: Publicação do best-seller “Tornar-se Pessoa”.
Membro da Academia Americana de Artes e Ciências.
1962-63: Colabora no Centro para Estudos Avançados na Ciência do
Comportamento (Stanford).
1962: Edição, com G. Marian Kinget, da obra, em dois volumes, Psicoterapia
e Relações Humanas.
1964: No Instituto Ocidental de Ciências do Comportamento (La Jolla
– Califórnia) – Fundação do Centro de Estudos da Pessoa. Edição, com
outros, do livro Behaviorismo e fenomenologia. (Não traduzido.)
1967: Publicação, com outros autores, de Pessoa para Pessoa. Lançamento,
com diversos colaboradores, do alentado volume “A Relação Terapêutica
e seu Impacto: estudo de terapia com esquizofrênicos”. (Não traduzido.)
1967: A History of Psychology in Autobiography.
1968: Publicação, em colaboração, de O Homem e a Ciência do Homem.
1969: Edição de Liberdade para Aprender.
1970: Lançamento de Grupos de Encontro.
1972: Publicação de “Como Tornar-se Cônjuges” (“Novas Formas de Amor”).
1973: Recebe da APA (Associação Psicológica Americana) o prêmio de
“Notável Contribuição Profissional”.
1977: - Janeiro-fevereiro: primeira visita ao Brasil.
- Edição, com Rachel L. Rosenberg, da USP, do livro A Pessoa como
Centro.
- Lançamento do livro Sobre o Poder Pessoal.

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1978: Segunda visita ao Brasil.
1980: Publicação do livro Um Jeito de Ser.
1982: Foi reconhecido, na avaliação de terapeutas americanos, a figura de
maior influência em psicoterapia no século XX, ultrapassando mesmo Freud.
1983 - Edição, com outros, do livro Em Busca de Vida: da Terapia Centrada
no Cliente à Abordagem Centrada na Pessoa.
- Liberdade de Aprender em nossa Década. (Reedição, com
reformulações, de ‘Liberdade para Aprender’ - 1969).
+ 1987 (04 de fevereiro) falece em La Jolla, de parada cardíaca, durante
uma cirurgia.
1989: - Aparece O livro Carl Rogers Reader: Selections from the Life time
Work of America’s Preeminenst Psychologyst - Houghton Mifflin. (Leitor de
Carl Rogers: Seleções da obra do Psicólogo Americano mais Eminente).
Carl Rogers: Diálogos (Com Buber, Tillich, Skinner, May, etc.)

Obs.: 1ª Carl Ransom Rogers escreveu 16 (dezesseis) livros e mais de 200
artigos profissionais e estudos de pesquisa (Thorne, 1993, p. 59).
2ª Além da Autobiografia (1967), existem ao menos dois livros de
natureza biográfica que merecem ser lidos: Kirschbaum, H. On
Becoming Carl Rogers. Nova Iorque: Delatorte, 1979 e Peretti, A.
Présence de Carl Rogers. Paris. Éres, 1997.

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TEORIA ROGERIANA
O título talvez não seja totalmente exato: a teoria de Carl Ransom
Rogers não é, na realidade, elaboração exclusivamente sua, embora ele
tenha sido a alma desta concepção do homem. O que ele disse no prefácio
do grande livro de 1951 (p. IX), pode estender-se, mutatis mutandis, a
grande parte de sua teoria:

‘’Este livro é o produto de muitas mentes e o resultado de muitas


interações de grupo. Primeiramente e, sobretudo, constitui o produto
da equipe do ‘Couseling Center’ da Universidade de Chicago: do
trabalho realizado em psicoterapia e pesquisa psicoterapêutica.”

A teoria desdobrou-se em várias direções, contudo, o ponto de


partida, ao qual Rogers acaba de aludir na citação acima, é constituído pela
teoria da psicoterapia. Também é a parte mais solidamente estabelecida
pela pesquisa experimental (1966, I, p. 166).
As preocupações psicoterapêuticas levaram à reflexão e a pesquisas
sobre a estrutura e dinâmica da personalidade. Foram as teorias behaviorista
e freudiana que lhe serviram, inicialmente, na atividade clínica e investigação.
O primeiro filho, a esposa e ele procuraram educar em harmonia com as
normas do comportamentalismo watsoniano. Felizmente, a intuição maternal
de Helen, segundo Rogers, soube flexibilizar a rigidez do esquema científico.
Observações próprias e de colegas de equipe, assim como numerosas
e, às vezes, engenhosíssimas comprovações experimentais, foram-no
distanciando progressivamente da visão freudiana e watsoniana do homem:

“Atitude profundamente enraizada no meu modo intelectual de


ver refere-se à teoria (...): toda teoria contém, no momento de
sua formulação, certo número desconhecido (então, naturalmente
não cognoscível) de erros e definições falhas (...). A consciência
aguda do fato de o conhecimento científico ser essencialmente
provisório se me afigura, igualmente, como exigência primordial
da atitude científica.” (1966, I, p. 163).

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Lamenta “o doloroso espetáculo da história da teoria freudiana”,
por epígonos do grande mestre vienense “substituírem a filigrana do
pensamento especulativo do mestre pelas cadeias do dogmatismo do
qual somente agora começa a psicologia dinâmica a se libertar” (Id. ib.
– Cf. Fromm, ‘A Crise da Psicanálise’, ‘A Missão de Freud’ e ‘Grandeza e
Limitações do Pensamento de Freud’).
No final da década de 30, numa conferência sobre psicoterapia, na
Universidade de Minnesota, descobriu Rogers serem seu modo de pensar
e trabalhar considerados novos e controvertidos, radicais e ameaçadores
(Rogers in Hart-Tomlinson, 1970, p. VII).

A Psicologia Humanista é mais inclusiva que exclusiva, assumindo atitude mais


integrativa do que dicotômica em face de outras linhas psicológicas (Maslow).

Não tomou atitude contra a teoria psicanalítica, mas posição franca


e indagadora em face da realidade humana. A essa atitude especulativa
acrescentou a experimental, com iniciativas pioneiras:

“Rogers foi o primeiro a praticar, com sua escola, para verificação


e controle, gravações sistemáticas de terapias completas: não
somente registro sonoro, mas também transcrições integrais e
documentação cinematográfica” (Peretti, 1966, p. 27; if. Strupp,
in Bachrach, 1972, p. 732).

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Na mente de não poucas pessoas cultas, está arraigada a ideia de que
os três grandes modelos atuais existentes em Psicologia, isto é, psicanálise,
behaviorismo e psicologia humanista, são mutuamente excludentes.
Abraham Maslow (1979, p. 268) – um dos maiores nomes da Psicologia
contemporânea – está convencido de que, uma vez superado o ‘espírito
de clube’ ou ‘fraternidade’ por atitude inteiramente científica, será possível
incluir esses modelos numa estrutura mais ampla.
Quem conseguir essa posição atingiu o nível de conhecimento
“S” (de ‘ser’ ou “B-cognition”), complementar ao conhecimento ‘D’ (de
‘deficiência’ ou “D-cognition’’), na nomenclatura do autor (Ib. p. 249-255).
Aos poucos, foi Rogers reunindo e organizando observações sobre o
‘organismo humano’ e a dinâmica da personalidade, resultando, finalmente,
sua “teoria da personalidade” (1966, I, p. 167).

Não tardou Rogers em verificar serem as condições e características


da relação terapêutica, em suas linhas fundamentais, igualmente válidas
para as relações humanas em geral. Esta verificação levou à elaboração da
teoria das relações humanas.

‘’Esta nova perspectiva permitiu entrevíssemos, com clareza


progressiva, serem nossas teorias suscetíveis de aplicação a todos
os campos da atividade e da experiência envolvendo relações
humanas e mudança atual ou potencial da personalidade” (Ib.
família, educação, ministração, solução de conflitos de grupo
(Rogers, 1968, p. 55; Maslow, 1972, p. 189, 3).

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Representemos os diversos aspectos da teoria rogeriana ter relações
num quadro único:

Posteriormente, estendeu-se a teoria à catequese (Varona, Pons,


Regidor, Laporta), à teologia (Vázquez), à orientação pastoral (Arnaud,
Clinebell, Godin, Hostie, Hiltner), à compreensão da parte humana na
caminhada mística (González). Diz este último autor (1980, p. XIV): “Para
estabelecer a correlação entre a experiência humana e a experiência de
Deus, escolhi o marco teórico de São João da Cruz e Carl R. Rogers”. Na
área da orientação pastoral, nem todos os autores se guiam cem por cento
pela visão rogeriana.

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Escreve Godin, Jesuíta belga: “O estudo científico das leis que
regem o início e o desenrolar das relações psicológicas entre conselheiro
e consulente por ninguém foi estudado tão bem como pela escola
psicoterapêutica de Carl Rogers” (1963, p. 165).
O presente volume limitar-se-á a três aspectos deste vasto leque:
1º Teoria da personalidade e seu funcionamento ótimo (Capítulos 1-4)
2° Teoria do processo ensino-aprendizagem centrado no aluno
(Capítulo 5)
3º Noções de Psicologia Humanista, na qual se inscreve a visão
rogeriana (Capítulo 6)

Obs.: Repetidas vezes declarou Carl Rogers detestar fazer discípulos, constituir
escola da qual fosse o ‘guru’, pois levaria os seguidores a se instalarem nas
conquistas realizadas... (Cf., por ex., Hart-Tomlinson, 1970, p. 507). Podem
aplicar-se-lhe as palavras de Nietzsche: “Vós ainda não vos havíeis procurado
quando me encontrastes (...). Agora vos mando que me percais e vos encontreis
a vós próprios.”(s.d., p. 87). O homem criador “não quer nem rebanhos nem
fiéis. Procura criadores para se associarem a ele, desses que gravam valores
novos em tábuas novas” (Id, p. 25).

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CAPÍTULO I

ESTRUTURA E DINÂMICA DA PERSONALIDADE

I. Confiança no indivíduo

A atmosfera que envolve toda a teoria de Carl Rogers é a da fé


nas possibilidades, nas potencialidades do indivíduo, assim expressa por
Marian Kinget:

“O ser humano possui capacidade, latente senão manifesta,


de se compreender suficientemente a si mesmo e de resolver
suficientemente seus problemas a fim de experimentar a satisfação e
a eficácia necessárias ao funcionamento adequado” (1966, I, p. 28).

Este princípio costuma gerar dúvidas em quem o escuta a primeira


vez e não o entende corretamente. Rogers não diz que todas as pessoas
mobilizam ou conseguem mobilizar as energias para solucionar problemas
corriqueiros ou não habituais. Afirma ser o indivíduo depositário de recursos
para isso. O germe desta noção, porém, é antigo, mormente na sabedoria
Oriental. Escutemos um dos grandes oráculos do Ocidente, o filósofo e
teólogo Agostinho de Hipona, falecido em 430: “Talvez o médico esteja
escondido no teu interior”.
O mestre de La Jolla formulou assim esta crença na pessoa do outro:

‘’Para expressar em forma mais resumida ou definitiva a orientação


de atitude que aparece como ótima num terapeuta centrado no
cliente, diremos que ele procurará agir em consonância com a
hipótese de que o indivíduo possui capacidade suficiente para
enfrentar, de forma construtiva, os aspectos da vida que podem
aflorar-lhe no campo da consciência” (Rogers, 1951, p. 17).

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O psicoterapeuta, o orientador ou, até, simples amigo, somente
ajudam a despertar as forças inerentes à pessoa; somente podem motivá-
la a se ajudar a si mesma. Não é isto que faz o médico? Propicia condições
ao organismo a reagir. A reação deve provir deste. Se isto não acontecer, o
doente não cura. O terapeuta parte do princípio de que o consulente dispõe
de recursos para solucionar o problema que apresenta. Procura o profissional
criar clima que possibilite a mobilização desses dinamismos construtivos.
Talvez não consiga seu intuito por deficiência dele, profissional; talvez a pessoa
não chegue a utilizar suas possibilidades por falhas estruturais psíquicas ou
limitações ambientais. Em todo o caso, vale o princípio, até prova contrária:

‘’...em seu nível mais profundo, o organismo é digno de confiança;


a natureza não é algo a ser temido, mas a ser liberado para
autoexpressão responsável“ (Rogers, 1977, p. 17).

Reparemos na observação: “em seu nível mais profundo”. Geralmente


vivemos de forma superficial e apreciamos as pessoas por este nível de
comportamento. Rogers teve acesso, na terapia, às profundezas humanas.
Quem sondou essas ‘profunduras’ em si mesmo e/ou em outrem não
terá dificuldade em aceitar a hipótese rogeriana. Aliás, não é ele o único a
pensar assim.
Maslow (1972, p. 4) afirma que a natureza humana está muito longe
de ser tão má quanto se pensava. Habitualmente, se lhe preteiam as
sombras e se lhe minimizam as facetas positivas.
Apesar dos egoísmos, crimes e maldades em geral, o homem “não
deixa de confiar na bondade radical do homem” (Boff, 1972, p. 15). Continua
o autor: na família, no trabalho, no lazer, “afirma inconscientemente e pré-
reflexivamente: a vida é boa! Vale a pena viver e sacrificar-se”.
Além desta opinião de um teólogo de projeção internacional, seguem
outras de representantes ilustres da Igreja Católica, tradicionalmente um
tanto reticentes a respeito da prevalência da bondade no homem. Citações
textuais, a fim de não pairarem dúvidas, já que as paráfrases lhes poderiam
tirar o vigor ou suscitar dúvidas no leitor atento.

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Paulo Evaristo Arns: “Entre os fatores positivos que favorecem a
evangelização, figura a bondade natural dos homens, a busca da verdade e
do amor” (1981, p. 28).
João Paulo II: “O coração humano procura instintivamente o melhor,
o que é mais elevado e está mais no alto” (1982, p. 8). Ainda: “A Igreja
tem também confiança no homem, embora conhecendo a perversão de que
ele é capaz, porque sabe bem que (...) há na pessoa humana qualidades e
energias suficientes, há nela bondade fundamental (cf. Gn 1,31), porque é a
imagem do Criador colocada sob o influxo redentor de Cristo” (1988, nº 47).
Não somente autores isolados sintonizam com a visão rogeriana. O
episcopado da América Latina escreveu:

“O homem latino-americano tem uma tendência inata a acolher


as pessoas, a partilhar com os demais; à caridade fraterna e ao
desprendimento, particularmente entre os pobres, a compadecer-
se com o sofrimento alheio. Valoriza muito os vínculos de parentesco
e amizade, a família e os compromissos dela decorrentes” (Doe.
de Puebla, 1971, nº 17).

Na China antiga, Mencius acreditava na bondade inata do homem:


Hsun Tzu dizia ser-lhe inata a maldade.
Hobbes e Freud seguiram a linha de Hsun Tzu. Os enciclopedistas
franceses e os behavioristas acreditam não existir natureza humana básica:
ela se forjaria na experiência. Rousseau, Maslow e Rogers, entre muitos, e
com nuances, harmonizam com Mencius.
Afirmação, crença não é, contudo, um ponto de vista científico.
Entretanto, a opinião que se tiver sobre o homem repercute diretamente sobre
a autopercepção e a percepção dos outros; o modo de encarar a psicoterapia;
serve de crivo de avaliação de atitudes, de publicações, da História, etc. Óculos
claros ou escuros através dos quais é contemplado o mundo.
Portanto, a adesão a uma das três correntes – behaviorista, lítica ou
humanista – terá reflexos importantes sobre nossa autoimagem e o inter-
relacionamento.

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O que nos diz a ciência sobre o assunto?
Há evidências, sobretudo clínicas, mas também já com alguma base
em pesquisas, que praticamente todo ser humano possui “tendência ativa
para a saúde; impulso ao crescimento ou à atualização das potencialidades”
(Maslow, 1979, p. 24). As corajosas e exitosas iniciativas de August Aichorn
na reeducação de jovens delinquentes e de Neil em Summerhill ilustram
eloquentemente a confiança na capacidade construtiva do ser humano
(Rogers, 1967, p. 67). Os novos métodos da chamada erroneamente
antipsiquiatria baseiam-se, igualmente, mais que as técnicas tradicionais,
nas virtuais possibilidades dos indivíduos atendidos.
Grupos de crescimento realizados com grande êxito por Carl Rogers
com facções inimigas, como pretos e brancos nos Estados Unidos e na África
do Sul, comunistas e não comunistas na Polônia, protestantes e católicos na
Irlanda, constituem outra comprovação da bondade latente nas pessoas
(Rogers, 1970, cap. 8). Suficiente é que alguém consiga formar atmosfera
propícia ao seu afloramento.
Lawrence LeShan (1980, p. 12-14) planejou pesquisa em larga escala
para testar as duas hipóteses fundamentais: 1ª A natureza básica do homem
é má. 2ª A natureza básica do homem é boa.
Eis as grandes linhas do experimento:
O porto de Veneza foi escolhido para a observação, com a
participação de mais de 5.000 pessoas, divididas em grupos de 250 ou
mais indivíduos, passageiros de navios que entravam ou saíam, cruzando-
se à distância entre 70 e 100 metros aproximadamente. Um grupo não via
os demais da mesma nave a fim de assegurar reações independentes. Os
grupos selecionados provinham da Itália, França, Noruega, Rússia, Grécia,
Turquia, Romênia, Iugoslávia, Alemanha Ocidental, Inglaterra e Estados
Unidos. Portanto, do norte ao sul da Europa, mais a Turquia; do leste e do
oeste; de países democráticos e comunistas; de nações amigas e inimigas
nas últimas guerras mundiais.

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Todos se achavam em situação de não ameaça, tendo certeza quase
absoluta de nunca mais se encontrarem com pessoas dos outros navios.
A hipótese era a seguinte: se a suposição de Hobbes-Freud sobre
a natureza fundamental do ser humano for verdadeira, nas condições
do experimento, os indivíduos terão manifestações hostis a respeito dos
grupos dos outros navios, através de gestos e palavras.

Que aconteceu no dia do experimento (29 de agosto de 1978) ao se


cruzarem as embarcações? Não se verificou sequer um aceno ameaçador,
uma palavra não amiga da parte dos milhares de pessoas presentes. Ao
contrário: a demonstração de sentimentos positivos foi maciça. Houve, sim,
minoria a ignorar praticamente a passagem dos navios ou a olhá-los sem
deixar transparecer emoção.

Portanto, o experimento confirmou a hipótese de Maslow-Rogers.

Mas, perguntar-se-á com razão, por que tantos indivíduos não usam
esta capacidade construtiva?

Primeiramente, existe minoria realmente incapaz de o fazer: são


vítimas de distúrbios estruturais profundos. Esclareçamos o fato com
pequena comparação: simples mecânico está em condições de notar o mau
funcionamento do motor de um carro e é apto a regulá-lo apropriadamente,
mas carece de meios para fazer o mesmo com motor que apresenta peças
quebradas ou mal fundidas.

Algo semelhante passa com as pessoas: têm capacidade de regular o


funcionamento do psiquismo, mas não dispõem de recursos para restaurar
deficiências básicas.

Em segundo lugar, a pessoa somente chega a cultivar esta capacidade


em potência num clima de relações humanas favoráveis. Em outros termos: não
é suficiente que a semente seja boa; ela também requer condições atmosféricas
e de terreno propícias a fim de se poder transformar em planta normal.

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Reconhece Maslow (1979, p. 24) que, embora o ser humano possua
impulso

— para a saúde,

— para o crescimento ou a atualização das potencialidades,

à maioria das pessoas faltam condições de crescimento adequado,


devido “à ausência de oportunidades no mundo de hoje” (Ib., p. 315).

Reconhece ele haver em torno de 3 ou 5% de indivíduos ‘invulneráveis’:


atualizam as aptidões apesar da hostilidade do ambiente.

A maioria, contudo, “consegue atualizar suas capacidades unicamente


em ambiente apropriado a essas capacidades” (Goldstein, 1961, p. 160).

De outro lado, a favorabilidade das condições não é suficiente: a


colaboração esforçada do indivíduo é indispensável. A participação dele no
processo supõe motivação suficiente. A motivação, por sua vez, decorre da
percepção de interesses, de valores.

É convicção profunda de Carl Rogers de que a imensa maioria dos


homens têm estrutura tal que podem enfrentar (ou podem vir a enfrentar)
adequadamente a si mesmos, a vida social e profissional, se o ambiente for
suficientemente favorável.
Que se entende por ambiente favorável?
É contexto de relações humanas em que o indivíduo é considerado e
tratado de modo positivo: em que é aceito e valorizado.
Mais escritores situam-se na mesma linha:
O autor de “Assim Falava Zaratustra” o expressa de forma poética:
“Eu sou apenas bênção e afirmação, contanto que me rodeies, céu puro,
luminoso abismo de luz” (1988, p. 183). Piaget (1970, p. 17-18):

‘’Somos cada vez mais levados a pensar que a qualidade do


que é inato consiste essencialmente nas possibilidades de
funcionamento.”

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Em ambiente propício isto acontecerá. A exigência do grau de
favorabilidade é variável. Garmezy e Devine, da Universidade de Minesota
(1978), estudando 400 indivíduos vivendo em condições inteiramente
adversas, encontraram em torno de 10% que, apesar disso, conseguiram
autorrealização normal. Chamaram tais indivíduos, na falta de termo melhor,
de “invulneráveis”: tratam de encontrar soluções, em lugar de se queixar;
enfrentar a realidade, em vez de fugir dela; aprender a tirar proveito de
muito pouco.
Uma das mais valiosas contribuições de Rogers é a ênfase na
capacidade e responsabilidade do indivíduo na solução de seus problemas,
em contraste com o velho paternalismo nas relações de ajuda (Wexler,
1974, p. 3).

II. Tendência atualizante

Segundo Rogers, constitui essa tendência o postulado fundamental


da sua teoria. É, aliás, noção desenvolvida por Kurt Goldstein (1961): o
homem luta não somente para a autoconservação, pois vem dotado de
capacidade criadora. Textualmente: “O impulso que põe em marcha o
organismo são, em realidade, as forças originadas em sua tendência a
atualizar-se, como for possível, em função dessas potencialidades” (p. 144).
Se, em ambiente propício, a pessoa se desenvolve na direção
positiva, quer dizer, da maturidade psicossocial, é que vem dotada de um
dinamismo que a impele nesta direção (Rogers, 1977, cap. 11).
Já em 1951 (p. 487) dizia Rogers possuir o organismo uma tendência
básica, um anelo fundamental: manter-se, atualizar-se, desenvolver-se. Ou,
mais extensamente, em outro livro:

“Todo organismo é animado de uma tendência inerente a


desenvolver todas as potencialidades e a desenvolvê-las de modo
a favorecer-lhe a conservação e o enriquecimento.” (1966, I, p. 172)

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O termo organismo designa a totalidade do indivíduo: o conjunto
psico-físico-social. Enriquecimento abrange tudo o que a pessoa considera
valioso para ela: tanto o que possui como o que é: bens materiais, amizades,
profissão, habilidades, talentos, qualidades, satisfações... Falível que é,
pode enganar-se nesta avaliação.
Na década de trinta, já expunha Otto Rank o princípio da realização,
com ideias semelhantes (Rank, 1975, 1989; Sward, 1980, p. 5-26). Rogers,
aliás, se reconhece devedor a Rank em vários aspectos de sua teoria.
Goldstein, já citado, fez observações importantes no processo
de regeneração de cérebros danificados, com os respectivos reflexos no
psiquismo. Os estudos o levaram a formular sua visão sobre “a natureza
humana à luz da psicopatologia”, chegando à mesma conclusão enunciada
por Rogers em nível da personalidade normal:
Diz Kurt: “Dado que a tendência à atualização de si mesmo, tão
plenamente quanto seja possível, é o único impulso a mover o organismo
enfermo, e considerando que a vida do organismo normal está determinado
de modo idêntico, é evidente que o objetivo do impulso não é a descarga
de tensão, mas o impulso da atualização” (1961, p. 120). “O homem vive e
se expande” (p. 311).
Também fala ele na indispensabilidade de ambiente adequado, normal.
O ponto de vista de Teilhard de Chardin em “O Fenômeno Humano”
(1965) aponta na mesma linha:

“A vida se acha desde sempre e por toda a parte em estado de


pressão; nada a pode impedir de levar até ao máximo o processo
de que saiu” (p. 334)

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O médico e sexólogo francês Oraison (1967) acentua consistir o
empenho da vida não somente para ser, mas para ser sempre mais, pois a vida
é tendência à expansão, dinamismo interno que se desenvolve e desabrocha.
Nos últimos anos, Rogers tratou várias vezes, além da tendência à
atualização, característica da vida orgânica, da tendência formativa no universo
como um todo (1980, p. 114), aproximando-se da perspectiva de Chardin.
Se a vida física tende a desdobrar-se inexoravelmente em todos os
seres, o homem pode barrar-lhe o impulso. Na opinião de Fromm (1986,
p. 87) isto acontece na maioria das pessoas: “não querem promover sua
autorrealização”, contentando-se com existência rotineira, longe de fazer
desabrochar a riqueza das potencialidades latentes. Não lhes faltaria um
elemento desencadeador do dinamismo latente? A chave de ignição do
motor? Em outras palavras: ambiente favorável?
Relapsos ou empenhados, “somos, de certo modo, os nossos
próprios pais, ao criarmos” (João Paulo II, 1993, p. 92).
O postulado do desenvolvimento ou crescimento (growth) supõe:
• de um lado, a tendência de autorrealização do organismo;
• e, do outro, a regulação do organismo por si mesmo (avaliação
das experiências) a fim de se modificar em vista de assegurar a
consecução dos objetivos.
A orientação adequada não pode efetuar-se, evidentemente, sem a
capacidade da apreensão da situação real do organismo. A interferência de
mecanismos de defesa (o tema será ventilado mais adiante) pode prejudicar
a objetividade da percepção.

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Tendência à atualização

O fenômeno do abalamento dos valores, que caracteriza a evolução da nossa


cultura, pode desempenhar o papel do fator que provoca a nossa crise de
identidade de adultos, retirando obstáculos que entravaram, no decorrer do
nosso crescimento, a atualização de algumas das nossas capacidades. Não se
pode impor indefinidamente uma violência arbitrária à natureza individual sem
que esta, mais cedo ou mais tarde, venha reivindicar os seus direitos.

Uma vez que as normas que regravam nossa conduta já não possuem a
mesma estabilidade, temos o desejo de nos afastarmos do caminho que
nos foi traçado, de experimentar outra coisa, tentar explorar novos aspectos
de nós mesmos. Ouvimos, dessa feita, vozes até então silenciosas que nos
convidam a nos desvencilharmos da nossa personagem, e nos fazem perceber
a estreiteza da imagem que formamos de nós mesmos para respondermos às
exigências externas.

Essas vozes são o eco daquela tendência a nos atualizarmos, que é nossa
tendência mais fundamental e sem a qual em nada poderíamos compreender
o desenrolar da História assim como o de nenhuma das nossas existências.
Se todas as culturas, qualquer que seja o seu êxito, conheceram momentos
de apogeu e de declínio, não seria por que o modelo de homem que elas
preconizaram, por mais sedutor que fosse, não podia fazer jus a tudo quanto
existe no homem?

Chegou, pois, o momento em que aquilo que não foi atualizado ressurgiu
para questionar o que, por algum tempo, parecia dever ser definitivo. No
decorrer do nosso próprio desenvolvimento, não deixamos de sentir em nós a
necessidade de crescer. Os momentos de equilíbrio que, por vezes, atingimos
não conseguiram eliminar essa tendência permanente para outras realizações
que fariam recuar os limites impostos à atualização das nossas potencialidades.

Como nossa identidade pessoal perde a estabilidade que lhe conferiram os valores
do nosso meio, vemos, então, abrir-se uma via de acesso a recursos interiores
desconhecidos ou negligenciados. Todavia, percebemos instintivamente que
penetrar nesse caminho representa tarefa difícil. Ela exige muita coragem da
nossa parte. Temos desejo de crescer, mas temos medo de crescer.

Artaud, 1983, p. 83-85 passim

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Um dinamismo (a) inerente ao indivíduo leva-o a cultivar suas possibilidades a
progredir, a realizar opções (b)

A tendência atualizante constitui a motivação polimorfa da teoria


rogeriana. É a única motivação reconhecida por ele. Qualquer reação da
pessoa é, em última análise, ditada pela necessidade ou o interesse em
manter ou aumentar a riqueza do próprio organismo: roupa nova, visita a
um amigo, trabalho bem feito, conquista de certificado ou diploma... (cf.
Rogers, 1969, p. 131: motivação e aprendizagem).
Num enfoque sistêmico, teríamos o seguinte quadro:

A repressão da tendência à autorrealização é a responsável por


inúmeros casos de perturbações psíquicas leves ou profundas, segundo
a força da tendência à atualização na vida em geral ou algum setor
determinado.

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Na opinião do Institut de Psychodidactie de Paris, 95% das inadaptações
sociais têm solução, sem recaída, sendo-lhes possibilitada autorrealização.
Baseia-se essa conclusão no tratamento de 400 (quatrocentos) casos, em
mais de vinte anos de experiência. O artigo de Claude Varenne, no jornal
France-Soir, de 03 de dezembro de 1966, cita uma série de exemplos de
recuperação. Eis um deles.
Jaqueline sempre fora incompreendida pelos pais. Não concordam
que ela continue os estudos. Emprega-se num mercado. A tarefa material
acaba por romper o equilíbrio psíquico. Passa quatro anos em casa de saúde.
Finalmente, a Psychodidactie descobre nela personalidade muito rica e
vocação tenaz. Classifica-se em segundo lugar entre trezentos candidatos,
continuando os estudos num hospital psiquiátrico em vista do diploma de
educadora especializada em perturbações psicogenéticas.
A tendência à autorrealização, diz Rogers, tem como efeito dirigir o
desenvolvimento do organismo no sentido da unidade e da autonomia, isto
é, rumo oposto ao da heteronomia, resultante da submissão às vicissitudes
de forças externas.
A compreensão do postulado fundamental da teoria rogeriana é
facilitada pela consideração de outros organismos vivos: animais ou plantas.
São dotados de um dinamismo central que lhes orienta o desenvolvimento
na direção do modelo adulto da espécie caso não houver obstáculo a
impedir a ação das forças de crescimento. Ovo chocado dá origem a pinto
e este, em condições normais, transformar-se-á, gradativamente, em galo
ou galinha, graças ao complexo dinamismo que lhe rege o organismo.
Por que estaria a parte mais nobre da pessoa – o psiquismo – privado
de tão maravilhosa tendência com que a natureza favorece generosamente
todos os seres vivos, até os mais rudimentares?
Podemos, entre outros, citar, em apoio a essa concepção, um dos
discípulos prediletos de Freud no início do movimento psicanalítico, Alfred
Adler (1870-1937):
A prática médica lhe proporcionou a descoberta do ponto de vista
teleológico ou finalístico, de tanta importância para a compreensão do
psiquismo. Os órgãos do corpo estão como que empenhados em atingir

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seus objetivos. Na eventualidade de defeitos orgânicos, a natureza procura
sanar a deficiência ou compensá-la com desenvolvimento de outro órgão,
destinado a assumir as funções da parte falha. “A energia vital, diz, jamais
se rende, sem luta, aos obstáculos externos.”
Citação textual algo extensa, porém, muito significativa do iniciador
da Psicologia Individual:

“O movimento do psiquismo é análogo ao da vida orgânica. Em cada


espírito existe um conceito e finalidade ou ideal a atingir, situado
além das condições atuais, um desejo de vencer as deficiências e
dificuldades do presente, expressos na elaboração de um objetivo
concreto para o futuro. Graças a essa finalidade ou objetivo, pode
o indivíduo julgar-se e sentir-se superior às dificuldades do presente
porque possui, na mente, a imagem do futuro sucesso. Desprovido
do sentimento de uma finalidade, a atividade do indivíduo deixaria
de ter qualquer significação” (1956, p. 32).

Páginas adiante: “Todos os sintomas da vida individual se exprimem


em movimento, em progresso” (p. 77).
Muitos autores atuais acentuam a importância dessa tendência:
Sullivan, Horney, Maslow, Angyal, Goldstein, Fromm, Rollo May. Este último
afirma possuir todo organismo uma, e apenas uma, necessidade central na
vida: realizar as potencialidades (1972, p. 77). Fromm tem opinião idêntica:
o verdadeiro interesse do homem consistiria no pleno desabrochar das
possibilidades e em desenvolver-se como ser humano (s.d. p. 38).
Esses autores, e Rogers de modo particular, situam-se no polo
oposto dos partidários da teoria do organismo vazio que, na dinâmica da
personalidade, consideram tão somente o esquema E-R: estímulo-resposta
(Cf. Puente, 1970, p. 132).
A teoria da autorrealização ou autoatualização (self actualization)
foi desenvolvida por Maslow (1954, 1972, 1979). Enfatiza ele visão liberal,
otimista, democrática, pluralista (Buss, 1979, p. 43-55). Concepção não
aceita por todos ( cf. Geller, 1982, p. 56-73).

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Bondade fundamental – Tendência à autorrealização

Bondade
1. “Pensamentos cínicos atravessam o espírito de homens que vivem como santos.
Eles os afastam porque o modo de vida aceito por eles não lhes deixa nenhum
lugar; porém, suponha que as circunstâncias tenham colocado os mesmos sujeitos
numa outra vitrina: sua reação às mesmas imagens teria sido diversa. A recíproca
é verdadeira e intenções adoráveis passam, como reflexos, sobre a água, pelas
almas dos celerados” (Maurois, s.d., p. 78).
2. “Nossas consciências são sadias na medida em que sabemos descobrir em
nós mesmos e, depois, nos outros, as tensões íntimas para o bem, o belo e o
verdadeiro” (Häring, 1994, p.103).
3. ‘’A maioria dos psicólogos admite que o homem, por natureza, é mau e
unicamente por necessidade modifica seus instintos, de maneira a não se
oporem ao bem social. O contrário é precisamente o exato” (Adler, 1953, p. 26).
4. “A mensagem do Evangelho supõe que o homem não é tão mau assim (...).
Seu anúncio é ato de fé na possibilidade de relações humanas baseadas na
liberdade” (Comblin, 1977, p. 56).
5.”Parece que o grau de destrutividade é proporcional ao grau em que se
acha tolhida a expansão das capacidades da pessoa. (...) A destrutividade é o
produto da vida não vivida” (Fromm, 1961, p. 194).

Autorrealização
6. “Não só o mundo, mas o homem mesmo foi confiado ao seu próprio
cuidado e responsabilidade. Deve procurar alcançar livremente a perfeição.
Alcançar significa edificar pessoalmente, em si próprio, a perfeição” (João
Paulo II, O Esplendor da Verdade, nº 31).
7. “O homem como ser inconcluso, consciente de sua inconclusão e seu
permanente movimento de busca do ser mais” (Freire, 1987, p. 72, Subtítulo).
8. ‘’A vida tende levar ao máximo o processo de que saiu” (Chardin, 1965, p. 334).
9. “O dever de ser vivo é o mesmo que o dever de transformar-se em si próprio,
isto é, transformar-se no indivíduo que se é em potencial” (Fromm, 1961, p. 28).
10. ‘’Temos um grande impulso, uma necessidade de crescer, de nos tornarmos
mais” (LeShan, s.d., p. 154).

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III. O self
A chave de abóbada da teoria rogeriana da personalidade é o con­
ceito do “self “– do ‘eu-mesmo’.
1. Gênese do self. – A criança começa, paulatinamente, a perceber os
objetos de seu ambiente e a ligar significados a esses objetos. O conjunto
desses objetos, com as significações que possuem para ela, constituem
seu campo fenomenal. Neste ‘espaço’, há certo número de percepções e
significações relacionadas com ela, como indivíduo: constituem elas o ‘self’
(cf. Rogers, 1951, p. 142, 145-149; 221-223; 1961, 1980).

2. Definição. – Self é o conjunto de percepções, organizado, porém


mutável de percepções referentes ao próprio indivíduo, refletindo, para ele,
sua identidade: características atualizadas ou possíveis qualidades, falhas,
capacidade, limitações, valores, recordações, aspirações... (Kinget, I, p. 33).
Nos termos do próprio Rogers:
“Self, ideia ou imagem de si, estrutura do self, são termos que
servem para designar a configuração experiencial composta de percepções
referindo-se
1 - ao indivíduo,
2 - às suas relações com os outros,
3 - com o ambiente,
4 - e a vida em geral

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5 - assim como aos valores por ele atribuídos a essas percepções”
(Rogers, 1966, 1, p. 179; 1951, p. 501, 525).

O self resulta, portanto, da diferenciação da experiência organísmica


total do indivíduo, sendo um dos aspectos centrais do ‘growth’, do
crescimento da pessoa (Rogers, 1961, p. 256).
O papel do self é de importância decisiva para a personalidade, pois
lhe constitui o núcleo integrador (Hamachek, 1979, p. 3).
Com justeza observa o filósofo Unamuno que nem todos se sentem
ser e existir como núcleo de seu universo (1952, p. 44).
Certa ou errônea, a percepção global ou parcial que a pessoa tiver de
si, é ‘verdade’ para ela. É sua realidade. Assim, Michelle Pfeiffer, das mais
belas atrizes da atualidade, confessou em 1991: “Eu sempre achei que meu
rosto estava completamente fora do lugar... meu nariz é torto... e ainda há
gente que diz que fiz plástica.”
Para May (1972), self é o centro a partir do qual vemos e temos
consciência das diferentes ‘facetas’ de nossa personalidade.
Wiley (1996, p. 9) toma esse termo em sentido muito mais genérico:
para significar o ser humano, a pessoa.
Relacionada com o self, temos a noção do self-ideal, conjunto de
características que o indivíduo gostaria que integrassem o autorretrato.
Escreve Ortega y Gasset (1963, p. 48):

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“Os desejos referentes a coisas se movem sempre dentro do
perfil do homem que desejamos ser. É este, portanto, o desejo
fundamental, fonte de todos os demais. E quando alguém é
incapaz de desejar-se a si mesmo, porque não tem claro um ‘si
mesmo’ que realizar, é evidente que não tem senão pseudodesejos,
espectros de apetites sem sinceridade nem vigor.”

Apresenta o self duas características importantes:


• Encontra-se em fluxo contínuo, isto é, em constante mudança, mas
sempre organizado e coerente. “O self aparece como gestalt a
modificar-se, essencialmente não por via de adição ou subtração,
mas através processo de organização e reorganização” (Rogers,
1966, p. 182).
• Esta configuração exponencial acha-se disponível à consciência,
embora não seja, necessariamente, consciente ou plenamente
consciente.

Mudança do self sob a ação de forças internas (a) e externas (b)

Convém lembrar que, integrando o organismo, o self também é


abrangido pela tendência ao desenvolvimento: é tendência à atualização
ou realização do self.
3. Comportamento. – Esses dois elementos da teoria rogeriana –
impulso ao crescimento e self – explicam as ações e reações, simples ou
complexas, do indivíduo:

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- a tendência à atualização ou realização constitui o fator dinâmico,
motivacional, neste processo,
- e o self ou autoimagem vem a ser o elemento regulador, orientador.
Correndo o risco dos mal-entendidos de todas as comparações,
poderíamos dizer ser o organismo semelhante ao conjunto carro-motorista,
com a particularidade de que, no caso do organismo, este funciona sempre
(tendência ao desenvolvimento), competindo ao ‘motorista’, o self, utilizar
adequadamente essa energia a fim de realizar, do melhor modo possível, a
viagem da vida.
As reações do indivíduo são ditadas pela forma como percebe a si
mesmo e a situação ou campo fenomenal. A modalidade de percepção da
realidade é gerada pelo conceito que faz de si mesmo, isto é, o self.
O jornal parisiense “France-Soir”, de 23 de outubro de 1966, publicou
carta de um rapaz (Michel), 16 anos, que perdera a mão direita havia oito
meses, a outro adolescente de 15, a quem acabara de ocorrer o mesmo
acidente ao explodir-lhe bomba de fabricação caseira.

‘’Querido André:
Fizeste uma besteira. Perdeste a mão direita. Eu também, já faz
um ano. E tu vês, eu te escrevo. Sabes, não me consideram um
‘handicapped’. Tu tampouco, se te dizes que tua mão esquerda se
tornou tua mão direita. Almejo-te coragem e rápida volta ao liceu.”
Segue nota do jornal parisiense:
“Em entrevista ao jornal, confessou Michel haver aprendido a
escrever com a mão esquerda, a vestir-se sozinho, a fazer o nó
na gravata, a amarrar os laços dos sapatos, a dirigir motocicleta.
André não deve considerar-se um diminuído: então, também ele
triunfará”.

“Comportamo-nos, escreve Hamachek, de maneira congruente com


o nosso autoconceito” (1979, p. 99).
Amado Nervo, no poema ‘’A Vitória da Vida”, retrata os efeitos da
autoimagem negativa:

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Pobre de ti, se pensas ser vencido!
Tua derrota é caso decidido.

E da positiva:
A força que te impele para a frente
É a decisão firmada em tua mente.

Asserção importante de Carl Rogers:

“O comportamento tem uma causa, e a causa psicológica é uma


percepção ou certa forma de perceber” (Rogers, 1951, p. 221).

A reação ou comportamento do indivíduo será adaptado na medida


em que o self for realista, como no caso de Michel; e será inadequado
na proporção em que o self se afastar da realidade. O conhecido conto
“Plebiscito”, da autoria de Artur de Azevedo, apresenta exemplo de
comportamento não realista. Eis versão simplificada desse conto:
Manduca (lendo jornal): Papai, que é plebiscito?
Rodrigues finge dormir na cadeira de balanço.
D. Bernardina: Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando!
Rodrigues: Que é? Que desejam vocês?
Manduca: Eu queria que papai me dissesse o que é ‘plebiscito’.
Rodrigues: Ora essa, menino! Então tu vais fazer doze anos e não sabes
ainda o que é plebiscito?!
Manduca: Se soubesse, não perguntava.
Rodrigues (dirigindo-se à D. Bernardina): Ó senhora, o pequeno não
sabe o que é plebiscito!
Bernardina: Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
Rodrigues: Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
Bernardina: Nem eu, nem você. Aqui em casa ninguém sabe o que é
plebiscito.

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Rodrigues: Ninguém! Alto lá! Eu creio que tenho dado provas de ser
nenhum ignorante.
Bernardina: A sua cara não me engana. Você o que é, é muito prosa.
Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito !... Então? A gente
está esperando! Diga!
Rodrigues: A senhora o que quer é enfezar-me.
Bernardina: Mas, homem de Deus! Para que você não há de confessar
que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer
palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca
lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou... E o
menino ficou sem saber!
Rodrigues: 
Proletário é o cidadão que vive do seu trabalho mal
remunerado...
Bernardina: Sim, agora sabe porque foi ao dicionário. Mas dou-lhe um
doce se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa
cadeira.
Rodrigues: Que gostinho tem a senhora em tornar-se ridículo na presença
destas crianças. (A menina do casal também assiste à cena.)
Bernardina: Ridículo é você mesmo que se faz. Seria tão simples dizer:
Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito. Vai buscar o
dicionário, meu filho.
Rodrigues: Mas eu sei...
Bernardina: Pois se sabe, diga.
Rodrigues: Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não
dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que
devo ter nesta casa! Vá para o diabo! (Sai exasperadíssimo.)
Menina: Coitado do papai! Zangou-se depois do jantar! Dizem que é
tão perigoso! Mamãe, chame papai e façam as pazes. Que
tolice, duas pessoas que se estimam tanto, zangarem-se por
causa de plebiscito.

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Bernardina (dá um beijo na filha e vai bater à porta do quarto): Seu
Rodrigues, venha sentar-se, não vale a pena zangar-se por
tão pouco. (Abre-se a porta e o dono da casa aparece.)
Rodrigues: 
É boa! É muito boa! Eu ignorar a significação da palavra
plebiscito! Eu!! Plebiscito (olha em torno)... Plebiscito é uma
lei romana, percebem? Querem introduzi-la no Brasil! É mais
um estrangeirismo! (No quarto encontrou o de que precisava:
um dicionário.)
Mudança autêntica no comportamento requer: mudança prévia da
autoimagem, do self. Só depois de reconhecer que o fato de ignorar o
significado de uma palavra não lhe tiraria a autoridade moral na casa, estaria
o senhor Rodrigues em condições de adotar atitude mais objetiva, mais
autêntica, mais congruente, pois, na opinião de Rogers, qualquer aspecto
da experiência é assimilado segundo a maneira de se relacionar com o self.
O self vem a ser o piloto do navio: depende dele em que medida
e como vai reagir às mudanças do mar, da atmosfera, das disposições
pessoais... Manterá o rumo inicialmente traçado? Acha melhor encetar rota
diferente aconselhada pelos ventos, paisagens, descobertas exteriores e
internas? Observa Geri (1998, p. 172) viver cada qual num mundo pessoal em
transformação permanente de experienciações, mundo de que é o centro.
4. Congruência-Incongruência – Quando o indivíduo age e reage de
acordo com o que experiencia realmente, existe harmonia entre o self e a
experiência. Tal indivíduo encontra-se em estado de congruência.
Experiência é tudo o que é suscetível de ser apreendido pela consciência.
Refere-se aos dados imediatos da consciência e não a um acúmulo de
eventos passados. Rogers emprega o termo experiencing. O ‘ing’ indica ser
a experiência (‘experience’) considerada como processo, um processo sentido
(‘a felt process’). Experiencing ou experienciação constitui elemento básico dos
fenômenos psicológicos e da personalidade (Gendlin, 1964, p. 111).
Congruência é a harmonia entre a experiência e sua representação e,
eventualmente, também, sua expressão.

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Em linguagem mais familiar, escreve Rogers, diríamos haver
integração, autenticidade ou harmonia. Esses termos são aplicáveis quer à
personalidade, quer ao seu comportamento.
Fernando Pessoa di-lo poeticamente:

Quero casar com o que sou.


Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

A congruência, observa Peretti (1997, p. 208), não é só baseada


na fluidez do organismo, organizada na consciência, mas igualmente na
transparência que faz reaparecer esta unificação na comunicação com outrem.
Se, porém, não houver correspondência entre minha experiência (o
que sei e sinto) e minha reação, encontro-me em situação de incongruência,
que vem a ser a decalagem entre o self e a experiência, provocando estado
de confusão e tensão. O comportamento neurótico é manifestação do
estado de incongruência: a conduta ora se conforma às exigências do self,
ora às solicitações do organismo (Rogers, 1961, p. 183).
Toda incongruência é baseada em ‘condições de valor’ incompatíveis
com o ‘processo organísmico de valorização’ (Speierer, 1990, p. 340).
Ilustração:
Batem à porta do apartamento:
— Miguel, vai ver quem está ali.
— Mãe... é a Josefa.
— Mãe: Que amolação!... Paciência! Manda entrar.
— Boa tarde, Luísa! Como estás?
— Boa tarde, Josefa! Que surpresa mais agradável! Bem-vinda,
querida!

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Outro exemplo:
“Moça bonita e elegante, estuda numa das escolas mais caras da
cidade. Os pais, ambos operários, fazem verdadeiros sacrifícios para mantê-
la estudando em ambiente rico. Ela, porém, age como se nada visse: procede
como suas colegas de famílias de alta projeção social. Mente a respeito de
sua vida particular, dizendo ser filha de grande industrial e que mora com tia
rabugenta, motivo por não convidar as amigas para frequentarem sua casa.”
Há incongruências em nível mais profundo:
“Certa moça sempre reparava muito nas outras de mal conhecerem um
rapaz em reuniões dançantes, e logo ficarem de mãos dadas ou dançarem
de rostos colados. Sempre reagia para que tal não lhe sucedesse até que, em
dada ocasião, compreendeu que estes desejos também nela existiam.”
Lembre o(a) leitor(a) a atitude de Rodrigues no conto ‘Plebiscito’.
Incongruente é quem afirma gostar disto ou daquilo quando, de fato,
não o aprecia; quem participa de ato de culto, mas, no fundo, o qualifica
de comédia.
Mais um exemplo:
Leu-lhe (para Eduardo) poemas de Omar Khayyam, de Rabindranath
Tagore. Eduardo escutava e assentia com a cabeça quando Toledo
interrompia a leitura para comentar: ‘É uma beleza. Uma maravilha.’ Na
realidade não achava beleza nenhuma, maravilha nenhuma, nem sequer
conseguia fixar sua atenção a não ser nos cabelos do escritor, que já
escasseavam – quantos anos teria? (Sabino, 1983, p. 44).
Outro caso de incongruência:
— Chore, disse Rirette com calma e dignidade. Chore que isso lhe
fará bem.
Lulu curvou-se e começou a soluçar. Rirette a tomou em seus braços,
apertando-a contra si. De vez em quando acariciava-lhe os cabelos. No
íntimo, porém, ela se sentia fria e indiferente (Sartre, 1948, p. 117).

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Segundo Julián Marias, o incoerente vive à margem ou contra a
verdade por lhe ter medo. Há quem suspire com Goethe: “Eu quereria me
pôr de acordo comigo mesmo” (1932, p. 28).
Funcionaria de modo absolutamente perfeito a pessoa que
conseguisse representação correta de todas as suas experiências, o que é
utópico. Gasset fala, por isso, em ‘coeficiente de realidade ou de irrealidade’
(1961, p. 181).
Obs.: Representação, simbolização e consciência são termos
considerados sinônimos. Referem-se à representação de parte da
experiência vivida.
Admite graus de nitidez. O autor usa o termo subcepção (tomado
de Cleary e Lazarus) para designar a discriminação de estímulos sem
representação consciente.
Pode o indivíduo testar a correspondência ou não correspondência
entre as características que supõe possuir e as que possui de fato? Em
outras palavras: se age de forma congruente ou incongruente?
Sim, embora os critérios não apresentem as características da
infalibilidade, são de natureza a satisfazer as exigências práticas da vida. É
dupla a base a fim de controlar o caráter realista ou fantasista do self:
A primeira série de critérios é de natureza subjetiva, consistindo
na auscultação direta das experiências, gostos, desejos, preferências,
simpatias, antipatias, tendências, estados de ânimo, etc., em face de
pessoas, situações e coisas.
A segunda categoria é objetiva: baseia-se na reação dos outros.
Por exemplo, um indivíduo julga-se talhado a cargo administrativo.
Para testar a validade da pretensão, pergunta-se, de um lado,
se encontra facilidade e satisfação no planejamento, na organização, na
execução de planos; se possui suficiente grau de liderança; facilidade para
mobilizar cooperadores do outro lado, examina a reação dos demais em
face dos possíveis candidatos: se número expressivo indicar seu nome; se
louvarem sua atuação em outros postos, então é provável que realmente
tenha as características que supõe possuir.

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“A mim me agrada – escreve estudante universitária – a arte
dramática. Gosto de representar. Acredito, por minha experiência na escola
secundária, em teatrinhos de estudantes, que possuo aptidão para isso.
Pelos constantes convites que recebia no Colégio, por ocasião das festinhas,
sinto reforçada esta convicção.”
No caso, os dois tipos de critérios são convergentes.
Se, porém, houver divergência entre as duas consultas, é provável ser
a autoimagem ao menos parcialmente inadequada.
Ilustrando este ponto da teoria rogeriana, estudante de Curso de
Pedagogia narra o seguinte fato:
“Um adolescente tomara cunhado, médico, por modelo. Aos olhos
dos familiares era claro que lhe faltavam condições para realizar os estudos
prévios. Mas ele teimou, e tem acontecido repetir pela terceira vez o
primeiro ano do segundo grau.”
Parece ter ficado claro não poder o self cumprir eficientemente sua
missão de guia da personalidade nem assegurar a eficácia do comportamento
se não for realista, isto é, se não captar sem deformação (ao menos sem
acentuadas deformações) ou filtragens o que realmente experiencia.
Portanto, é condição fundamental ao funcionamento autêntico da
personalidade a abertura à realidade subjetiva e objetiva. Rogers chama a
tal atitude de liberdade experencial ou abertura à experiência.
Sartre lhe chama de “boa fé”; e de “má fé”, à incoerência e falta
de abertura: “A atitude de uma estreita coerência é a atitude de boa fé. A
má fé é evidentemente uma mentira porque dissimula a total liberdade do
compromisso” (Sartre, 1970, p. 260).

IV. Abertura à realidade

Estudante chegou à PUCRS com um curativo no nariz. Indagada pela


causa da ferida, informou:

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“Indo de carro por uma rua após a chuva torrencial de ontem,
percebi, em dado momento, um lençol de água na minha pista.
Atribuindo-o a pequena depressão do terreno, nem duvidei em
continuar andando. Qual não foi minha surpresa ao cair num buraco
de quase meio metro de profundidade. Aí machuquei o nariz .”

O incidente mostra:
— que reagimos não à realidade objetiva, mas à nossa representação
(correta ou errônea) da realidade;
— que à vítima faltou maior abertura à realidade, pois tivesse tido
presente o fato de que, nessa época, em numerosos pontos da cidade,
realizava a Prefeitura obras nas ruas, rápido relance de olhos pelos
arredores do “lençol de água” (paralelepípedos e terra removidos) a teriam
acautelado.
Rogers, porém, refere-se, basicamente, à abertura da pessoa a si
mesma. Essa atitude supõe a existência de liberdade experiencial, isto é,
a possibilidade de reconhecer a existência de nossas vivências interiores
(elogiáveis e desejáveis ou não).
Com o decorrer do desenvolvimento, a abertura à experiência
possibilita crescente diferenciação na percepção.

(Ilustração, p. 38 – adaptada de W. Daim, “Transvaluation de Ia Psychanalyse’’,


Paris, 1956, p. 179.)

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Mostra de liberdade experiencial deu a estudante de Psicologia que,
em dinâmica de grupo, na presença do noivo (do mesmo curso) e uma
dúzia de colegas, descreveu como, em numerosas ocasiões (festas, saídas...)
sentia a liberdade cerceada pelo fato de saber-se noiva. A expressão da
fisionomia indicava como lhe era penosa esta verificação. Depois, sorrindo
e abraçando o noivo, ao lado:
— Mas, quero casar contigo!
— E ele, também sorridente e compreensivo:
— É bom!
Quantos dos presentes terão percebido todo o alcance do ocorrido?
Constituiu dos pontos altos do grupo: dois membros poderem manifestar
sentimentos extremamente pessoais (ela falando; ele, pela atitude de
escuta) na certeza de encontrarem aceitação recíproca.
Não se quer insinuar com isso ser desejável que toda vivência interior
nossa deva encontrar expressão verbal ou comportamental. Não é esse o
pensamento de Carl Rogers. A liberdade experiencial ou abertura à realidade
consiste, primordialmente, repetimos, na capacidade de reconhecer (o que
não quer dizer necessariamente aprovar) como nossas as vivências que
dentro de nós se passam: imaginações, tendências, desejos, disposições,
etc., de qualquer natureza que forem.
Quanto à sua manifestação em palavras ou atos, depende das
circunstâncias. Ser livre também significa ser responsável (Rogers, 1961,
p. 359). E ainda: expressar comportamentalmente todos os sentimentos e
impulsos nem sempre constitui libertação. Casos há em que a manifestação
é limitada pela sociedade, e assim deve ser.
Fernando Namora (1971, p. 59-61, passim), apresenta-nos “uma das
colegas, um bom humor invulnerável.
— Temos de fazer engrossar este grupo das onze horas. Sinto-me mal
de ser quase a única mulher entre tantos homens.
Estive para lhe responder: “Não há perigo!”, mas disse, antes:
— É uma boa ideia. Experimente.”

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O médico (a cena se passa no bar do hospital), embora tentado, não
achou conveniente ofender a auxiliar com a observação picante que lhe
aflorara à mente.
Escreve Rogers (1966, I, p. 190) poder a expressão “abertura à
experiência” referir-se tanto à totalidade do psiquismo como a setor mais
ou menos limitado das vivências.

“Seja qual for a extensão, sempre alude a estado psíquico


que permite aos estímulos livre trânsito pelo organismo: sem
deformações ou interceptações por mecanismos de defesa, e
mesmo sem a intervenção repressora da subcepção. Em outros
termos: quer se trate de estímulos externos (configurações de linhas,
cores ou sons impressionando os nervos aferentes) ou de excitantes
internos (sensações, lembranças, prazeres, desgostos, etc.), o
organismo se encontra inteiramente aberto ao efeito produzido.
Portanto, no caso de pessoa completamente aberta à própria
experiência, haveria correspondência perfeita entre a estrutura do
self e o conjunto de experiências referindo-se ao indivíduo.”

Vejamos este processo em Brás Cubas:

“Não lhes disse ainda, – mas digo-o agora que quando Virgília
descia a escada, e o oficial de marinha me tocava no ombro, tinha eu
cinquenta anos. Era portanto, a minha vida que descia pela escada
abaixo, – ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres,
de agitações, de sustos, capeada de dissimulação e duplicidade, –
mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual.
Cinquenta anos! Não era preciso confessá-lo. Já se vai sentindo que o
meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquela ocasião,
cessado o diálogo com o oficial de marinha, que enfiou a capa e saiu,
confesso que fiquei um pouco triste. Voltei à sala, lembrei-me dançar
uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos olhos bonitos, e
do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me
arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do
baile, às quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro?

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Os meus cinquenta anos. Lá estavam eles os teimosos, não tolhidos
de frio, nem reumáticos, mas cochilando a sua fadiga, um pouco
cobiçosos de cama e de repouso. Então, – e vejam até que ponto
pode ir a imaginação de um homem com sono, – então pareceu-me
ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho: Senhor Brás Cubas,
a rejuvenescência estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas, –
enfim, nos outros” (Assis, 1960, p. 281).

Arriscando comparação, poderíamos dizer seguir a pessoa atentamente


as imagens de seu circuito interno de televisão: quer conhecer a realidade,
seja qual for, sem desviar a vista das figuras. Depois verá qual a atitude, qual
o comportamento que melhor se harmonizará com essa realidade.
Por isso, “indivíduo com percepção precisa de si e do ambiente
sente-se livre de estar aberto a novas experiências e, assim, realizar seu
potencial”, isto é, ir se realizando (Engler, 1996, p. 335).
Rogers previne contra fácil mal-entendido:
Abertura à experiência não significa dever o indivíduo ter consciência
de tudo o que nele se passa. Não: o mais importante é a ausência de barreiras
que impeçam a experienciação do que estiver organismicamente presente.
Organismo significa a pessoa em sua totalidade (Cf. Gobbi-Missel, 1998).
À medida em que o indivíduo cresce, amplia-se-lhe o horizonte;
há diversificação e acréscimo constante de experiências. Aliás, não mero
somatório, mas contínua estruturação e reestruturação das experienciações,
com alteração no peso da significação dos vários elementos.
Tomará consciência da diversidade, quiçá da divergência de
necessidades físicas, psíquicas, sociais, etc., a solicitá-lo. Compete-lhe
avaliar o tipo e o grau de satisfação que lhe proporcionarão. Satisfação
que nunca será completa. Cumpre-lhe fazer as melhores opções possíveis
dentro de sua realidade, tentando harmonizar a série de necessidades entre
elas e com os valores que julgar importantes.
O desenvolvimento é efeito da convergência de forças internas e
exteriores favoráveis, porém, flexíveis, utilizadas em graus diversos pelas
pessoas e, pelo mesmo indivíduo, dependendo da área de atuação e outras
circunstâncias.

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Relembremos que o processo favorável – e os processos de
autoavaliação e autodireção que supõe – dependem, primeiramente, da
medida em que a experiência é disponível à consciência.

“O ser mais digno de confiança em nosso mundo incerto é a


pessoa inteiramente aberta às duas maiores fontes: os dados da
experiência interna e os dados da experiência do mundo exterior”
(Rogers, 1977, p. 236).

Heidegger diria: o homem que que se abre a si mesmo “transforma-


se, muda, se enriquece”.

V. Defesas

1.Conceito. Uma cliente contou que sofria de pressão alta, mas havia
meses não lhe tomava a medida, receosa do impacto que possível tensão
elevada lhe causaria. Tinha extrema dificuldade em sair de casa sozinha,
pois temia ser vítima de um ataque.
Essa pessoa não apresentava condições de abertura a um setor da
experiência. Encontrava-se em atitude, em situação de defesa. Portanto,
em estado de incongruência.
Hogan (citado por Rogers, 1951, p. 182) concebe a defesa como forma
de comportamento subsequente à percepção de ameaça à configuração do
self. A defesa é, portanto, provocada por ameaça (objetiva ou imaginária,
mas sempre real para o indivíduo). Mostraram as pesquisas que, no caso
de entrar a evidência dos fatos em contradição com a imagem do self, a
evidência fica ameaçada de distorção. Em outras palavras – textuais de
Rogers, 1961, p. 115 – não estamos em condições de apreender tudo o que
recolhem nossos sentidos, mas tão somente os elementos que se ajustam
à nossa autoimagem.
Se me julgo bom motorista, tendo a atribuir a outrem, a deficiências
mecânicas, às condições da rua ou estrada, eventual imperícia na direção
quando, de fato, foi inabilidade minha. Se o prego, sob os golpes do martelo,

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se entorta, martelaço acompanhado de palavrão, evidencia como o indivíduo
deforma a realidade a fim de salvaguardar o autoconceito de bom marceneiro.
Última ilustração – anedota – visando esclarecer o mecanismo
ameaça-defesa:
Um aluno era tão travesso, tão arteiro que tudo o que acontecia de
anormal na escola, lhe era atribuído. Certo dia, perguntou-lhe a professora,
inopinadamente:
— Pedrinho, quem descobriu o México?
— Não fui eu, professora! Juro que não fui eu!

A defesa impede a percepção ou a correta percepção de parte da realidade.

Algumas experiências são excluídas do campo da consciência por


serem ameaçadoras demais à autoimagem. “Toda mudança destrói algo
da segurança de que necessitamos” (Rogers, in Evans, R., 1975, p. 17. Cf.
Jourard, S.M., 1979, cap. 8).
2. Perturbação da comunicação interna. No livro autobiográfico
“Infância” (1961, p. 77-81), de Graciliano Ramos, temos o exemplo da
passagem de um estado de congruência tendo as vivências livre trânsito no
organismo – a um de incongruência, em que o indivíduo é instado a reagir a
duas fontes de estímulos: aos reais, de um lado; e aos distorcidos, do outro.
Um dia, ouvindo novamente a palavra “inferno”, ficou tomado
de súbita curiosidade: afinal, o que significava realmente esta palavra?

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Perguntou à mãe. Esta estranhou o interesse do pequeno, respondendo-
lhe tratar-se de nome feio que não se devia pronunciar. O menino, porém,
já havia compreendido que o termo designava “um lugar ruim, para onde
as pessoas mal educadas mandavam outras em discussões”. Por isso, não
se contentou com a resposta sumária da progenitora. Insistiu para obter
pormenores. Cedendo, traçou-lhe a imagem tradicional do inferno: lugar
em que homens eram torturados por demônios de rabo e chifres.
— ”A senhora esteve lá? – indagou o pirralho. A mãe fingiu não ter
ouvido a pergunta.
— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.
A mulher explicou que não esteve, claro. Mas que era verdade, não
havia dúvida: os padres ensinavam que era assim.
— Os padres estiveram lá?
A mãe se enfureceu. Os padres não estiveram lá, mas são pessoas de
muito estudo.
E o pequeno, ante a falta de provas convincentes:
— Não há nada disso.
Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas.
Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às
esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente.”
As linhas finais espelham a situação conflituosa: curiosidade insatisfeita
(necessidade interna) e a conveniência de conformar-se, exteriormente, à
opinião adulta.
Em “Vidas Secas” aparece a mesma narrativa, porém, na terceira
pessoa, com análise mais aprofundada dos sentimentos apenas esboçados
no final da versão anterior. O garotinho ficou literalmente perplexo,
chegando a querer negar o acontecido, isto é, a vivência incômoda. O
diálogo introduzira um elemento negativo, insuportável, no “self “que
pensariam dele agora? Se o padre o chegasse a saber?
“O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro,
escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia.

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A cachorra baleia acompanhou-o naquela hora difícil.
— Inferno, inferno.
Não podia aceitar que palavra tão linda designasse algo tão ruim
como lhe contaram. Discutiu com sinhá Vitória. Ela não esteve ali. Ninguém
esteve ali. Então, como acreditar? Ela “tentara convencê-lo dando-lhe um
cocorote, e isto lhe parecia absurdo”.
Preocupado, o garoto, falseia a comunicação consigo mesmo:
“Diligenciou afastar do espírito aquela curiosidade funesta, imaginou
que não fizera a pergunta, não recebera, portanto, o cascudo (...) Foi sentar-
se debaixo de outra árvore.”
Começou a duvidar: talvez sinhá Vitória lhe contasse a verdade.
‘’Apesar de ter mudado de lugar, não podia livrar-se da presença
de sinhá Vitória. Repetiu que não havia acontecido nada e tentou pensar
nas estrelas que se acendiam na serra. Inutilmente. Àquela hora as estrelas
estavam apagadas.
Sentiu-se fraco e desamparado, olhou os braços magros, os dedos
finos, pôs-se a fazer no chão desenhos misteriosos. Para que sinhá Vitória
tinha dito aquilo?”
Mais um exemplo a fim de mostrar que a perturbação da comunicação
interna é, talvez, mais comum do que pensamos:
Coleguinhas de Guísela explicaram-lhe como eram concebidos os
bebês. Confessa ela mais tarde:
“Chorei muitas noites, escondida. O belo, espantoso mundo adulto,
admirado e cobiçado, escondia coisas inconfessáveis (...).
Mais tarde, consolei-me; pensava que aquilo acontecera há muito
tempo; agora meus pais dormiam lado a lado no quarto, quietos e puros
como os mortos do jazigo” (Luft, L, 1981, p. 65).
Escreve Kinget (1966, I, p. 60):

‘’Para se subtrair à autocondenação e ao sentimento de desvalorização


que acarreta, o indivíduo procura negar os elementos ameaçadores

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de sua experiência. Em outros termos: evita a simbolização desses
elementos ou transforma-os de modo a se tornarem aceitáveis.
A não simbolização e a deformação aparecem, portanto, como
recursos de proteção do self estimulados pela tendência atualizante
em nível da subcepção.”

É o mecanismo psíquico observado no menino de Graciliano Ramos


e na menininha de Lya Luft.

Ameaça-defesa. – O indivíduo quer ir na direção “X”. Percebendo a ameaça ‘’B”,


desvia para a direção “Y”, dizendo, talvez, que fora este seu objetivo inicial.

Teríamos ainda o caso clássico da criança primogênita rejeitando o


bebê que vem aumentar a família. Muitos pais costumam reagir sem tato às
manifestações dos sentimentos de hostilidade contra o intruso: “Vou matar
o nenen.” “Vamos vender o nenen ... “, ficando, a criança com a penosa
impressão de ser má, por isso, menos querida dos pais. Nela há dois
sistemas motivacionais conflitantes: de um lado, percebe os sentimentos
hostis condenados com relação ao bebê e, do outro, sente a necessidade
de assegurar-se o amor dos pais – elemento importante de sua autoimagem.
Solução: camuflar as representações referentes ao nenê: “Gosto muito do
nenen! Como é lindo!”
Em tais casos, o indivíduo torna-se confuso, desorientado, neurótico.
A sequência parece ser a seguinte:

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O organismo funciona de modo a manter a consistência nas percepções
do self e a congruência entre estas percepções e as experiências. Não
procura obter prazer e evitar dores e desgostos, porém manter a própria
organização (Pervin, 1970, p. 293).
3. Educação e ameaça. Ideal seria pudesse a pessoa ser educada,
desde a infância, sem ameaça alguma, o que, sabemos, é impossível. Se,
porém, tais “atentados” à liberdade experiencial, na expressão de Kinget,
• forem relativamente raros
• e, sobretudo, situados em atmosfera de aceitação, não deixarão,
aparentemente, marcas negativas mais profundas no psiquismo.
É preciso que o indivíduo sinta ocorrer a divergência no plano
das opiniões, das ideias, dos sentimentos; que a desaprovação se refere
a uma atitude ou modo de comportamento, e não a sua pessoa. Muitas

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vezes deveríamos dizer: “Não gosto do seu modo de falar agressivo ou
meloso”. Mas nunca: “Não gosto de você!” “A mim não me agrada seu
vestido”, e não: “Você não tem gosto!” Esta distinção é fundamental! Se,
porém, as ameaças forem mais ou menos constantes ou, mesmo se raras,
caso o indivíduo viver em clima de não aceitação, então podem ocorrer
perturbações na comunicação interna.
No parecer de Charles A. Curran, assegurar clima isento de ameaças
“é o primeiro passo a fim de conseguir que a pessoa encaminhe suas
decisões e atos na direção de seus verdadeiros objetivos” (1969, p. 178).
4. Problema dos limites. Haverá leitores (especialmente educadores
e pais) que se perguntarão, mais ou menos perplexos: que farei doravante?
• Persistirei em pensar que os impulsos negativos devem continuar
a ser reprimidos em mim e nos outros?
• Ou passarei a deixar rédea solta a tais vivências?
Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Como vimos numa citação de
Rogers, transcrita páginas atrás.
Postula a teoria ser não só conveniente, mas necessário chegar o
indivíduo a reconhecer e identificar a natureza de suas vivências a fim de
poder assumir posição consciente em face delas, em vez de se converter,
eventualmente, em seu joguete:

“... a consciente aceitação de impulsos e percepções aumenta


consideravelmente a possibilidade do controle consciente. É
a razão pela qual a pessoa que conseguiu aceitar a própria
experiência também adquire a impressão de possuir o controle
de si mesma” (Rogers, 1951, p. 514).

As pessoas opostas a tal atitude parecem revelar receio de facilitar a


aprovação de sentimentos negativos.
Quem acreditar na tendência à autorrealizacão da personalidade está
convicto de que ela utilizará, em geral, de forma positiva o conhecimento
de si própria.

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Outros dirão facilitar a expressão verbal de experiências negativas
sua tradução em atos.
A probabilidade de ato, de reação agressiva, por exemplo, é
proporcional ao grau de tensão experienciado, segundo opinião de Kinget.
Portanto, tudo o que reduz a tensão – como a expressão verbal diminui a
probabilidade da ação.
Ademais disso, situação de tensão limita o campo psíquico, de modo
a dificultar o encontro de solução adequada. Poucas palavras trocadas
com pessoa tentada de suicídio são, não raro, suficientes para ela tornar a
perceber aspectos interessantes da vida ou a entrever saída para situação
anteriormente desesperadora. Escutemos mais uma vez o grande mestre
Rollo May (1972, p. 92):

“As pessoas que manifestam alarme afirmando que se os desejos


e emoções não forem reprimidos explodirão de todas as maneiras,
e todo o mundo, por exemplo, desejará sexualmente sua mãe
ou a mulher de seu melhor amigo, estão falando de emoções
neuróticas. Para ser exato, sabemos que são precisamente as
emoções e desejos reprimidos que mais tarde voltam a impulsionar
compulsivamente a pessoa.”

Na medida, porém, em que a pessoa estiver integrada, menos


impulsivas se tornarão suas emoções, pois elas aparecem numa estrutura,
numa organização, e não selvagemente soltas. Se, num teatro ou filme,
aparecer um almoço ou janta como elemento da peça ou da película, não
me vem vontade louca de comer, pois não fui ao teatro ou cinema para me
alimentar, mas a fim de assistir a um espetáculo.
“Naturalmente, conforme indicamos em toda esta obra, nenhum de
nós escapa aos conflitos, de vez em quando, mas isto é diferente de ser
compulsivamente impelido pelas emoções” (May, p. 93).
Os artistas, graças à refinada sensibilidade, não raro, intuem verdades
psicológicas:

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“Falar, contar detalhes, impulsos, reações quase descabidas daqueles
que são parte da nossa carne – escreve Adalgisa Nery – diminui muito o
movimento do nosso cósmico interior” (1970, p. 14).
A manifestação verbal de tendências negativas constituiria incentivo
à ação tão somente no caso de a pessoa encontrar aprovação em vez
de simples constatação de uma realidade da parte do interlocutor. Tanto
a intensificação, resultante da aprovação, como a repressão, impedem a
correta simbolização da experiência.

VI. Psicologia do desenvolvimento humano

1. O self. À luz dos conceitos rogerianos expostos e um e outro que


ainda virá, podemos dizer algo mais sobre o desenvolvimento humano.
A criança nasce munida de um dinamismo que a levará a crescimento
positivo, isto é, na linha de maior diferenciação e expansão, de crescente
autonomia, de progressiva socialização – em suma: de autorrealização do self.
O self emerge pouco a pouco do campo experiencial: a criança se
vai percebendo, gradativamente, como ser à parte, autônomo; apreende,
igualmente, suas relações com as coisas e as outras pessoas, formando,
paulatinamente, ideia de si a partir dessas relações. Lentamente, vai o self se
enriquecendo e diferenciando. (Cf. Murphy, 1966, cap. 20: The origins of the
self.)
Para Rogers, Combs, Snygg e outros, o self é adquirido. Maslow acha
que é constitucional.
2. Consideração positiva. Da relação com os outros – inicialmente
com os pais – nasce elemento fundamental ao sadio desenvolvimento do
self: a necessidade de consideração positiva. “À medida que a noção do self
se desenvolve, desenvolve-se também o que chamamos de necessidade
de consideração positiva. É necessidade universal, aparecendo de maneira
contínua e penetrante” (Rogers, 1966, I, p. 219).
A ampliação, mais rápida ou mais lenta, depende da constelação
familiar, resultando num self ‘aparentado’, na expressão de Gaylio (1997, p.

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162). Possui o homem a exigência de ser apreciado pelos outros. É maior
esta necessidade na proporção em que são importantes para o indivíduo.
A opinião dessas pessoas-critério pode tornar-se força diretriz e
reguladora mais intensa que o processo de autoavaliação: o indivíduo
orientar-se-á, então, mais por essas pessoas do que a própria experiência,
entrando em conflito com o dinamismo de autorrealização. Exemplos:

Um rapaz é muito dependente dos pais. O sonho destes é vê-


lo “doutor”, advogado. O filho, embora não sinta atração pela
profissão, não ousa decepcionar os progenitores. Consegue
formar-se. Os velhos estão ufanos com o filho, “orgulho da
família”. Este, porém, exerce a profissão a contragosto, sem
entusiasmo. Falecem os pais. Então, livre de empecilhos, deixa a
advocacia para se dedicar à indústria. – O progenitor do escritor
João Mohana, autor do best-seller “A Vida Sexual de Solteiros
e Casados”, manda o filho estudar medicina. Este obedece.
Trabalha na arte de Hipócrates durante oito anos. Após a morte
do pai, se torna sacerdote, “médico das almas”.

Standal denomina complexo de consideração a configuração


de experiências relativas ao self, graças à qual o indivíduo recebe a
consideração positiva de outrem. O termo complexo é tomado aqui no
sentido junguiano, isto é, conjunto de elementos psíquicos relacionados
entre si. Constelação de elementos.
Às necessidades básicas da pessoa pertence a de elevado grau de
consideração, de reconhecimento da parte dos outros. Tão importante
como o ar à respiração, diz Weber (1996).
Seria a falta de consideração positiva o gatilho desencadeador da
tragédia provocada, numa escola de Denver, USA, no mês de abril de 1999,
com um saldo de treze vítimas fatais, mais a dupla causadora da tragédia
que cometeu suicídio? Estes dois “acreditavam ser excluídos por seus
colegas”. Testemunha um colega haver um deles, no ano anterior, apontado
uma arma para um companheiro, dizendo: “Estou farto de rirem de mim.
Vou atirar em ti; vou te matar.” Odiavam os estudantes populares por seus

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êxitos nos esportes. De outro lado, porém, eram alunos brilhantes.”Seus
companheiros os descrevem como gênios.”
Consideração positiva facilita a abertura à experiência, portanto, favorece
a congruência; consideração seletiva ou parcial produz efeitos opostos.
A consideração positiva é incondicional se alguém é estimado como
pessoa independentemente dos critérios que poderiam ser utilizados na
apreciação dos diversos aspectos de seu comportamento, modo de pensar,
preferências...
Consiste esta atitude num “interessar-se pelo outro, mas num
interessar-se não-possessivo; numa aceitação do outro como pessoa
autônoma; numa confiança básica: convicção de ele ser merecedor de
confiança” (Rogers, 1969, p. 109).
O outro parece tender a comportar-se na linha da nossa expectativa.
Certa vez, professor universitário teve que ausentar-se da sala de
exame para atender um telefonema, sem haver substituto disponível como
vigilante. Comunicou ele à turma a situação, terminando assim: “Tenho
confiança em vocês.” Anos depois, ainda comentavam os estudantes de
então o fato de ninguém haver aproveitado a oportunidade para colar,
como so ía acontecer mesmo na presença de professores.
Constitui a consideração positiva incondicional uma das condições
basilares da teoria terapêutica rogeriana, ao lado da empatia e congruência.
À necessidade de consideração positiva dos outros acrescenta-
se a necessidade de consideração positiva de si mesmo. É sentimento
de consideração percebido com relação a certas experiências do self,
independente da avaliação de outras pessoas. Vem a ser necessidade
adquirida, estreitamente relacionada com a exigência de apreciação da
parte dos outros. Caso chegar a perceber todas as suas experiências como
dignas de apreço, terá a pessoa consideração positiva incondicional de si.
Segundo Engler (1996), a autoconsideração positiva é efeito
automático da consideração positiva incondicional de que for alvo dos
outros. Esses valiosos elementos da dinâmica do self começam a estruturar-
se na infância.

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3. Desenvolvimento sadio e conflituoso. Adequado desenvolvimento
do self realizar-se-á num clima em que a criança puder, sem receio, viver
aberta à experiência: em que puder aceitar a si mesma; em que for aceita
pelos pais, embora estes lhe condenem certas reações ou modos de agir.
Eis caso de atitude compreensiva:
“Uma senhora estava de visita com a filhinha na casa de família amiga.
Na hora do almoço, a pequena saiu-se com esta:
— Mãe, eu gosto mais da nossa sopinha. Esta é fedorenta!
A mãe soube contornar a situação, compreendendo a criança:
A nossa é boa, sim. Mas esta também é boazinha, só que é feita
com outra verdurinha. Há muitos tipos de sopinha, e a titia prefere esta”
(M.Z.G.).
Observa Carl Rogers (1951, p. 499) que sentir-se amada dos pais
constitui uma das experiências fundamentais para a criança. É dos elementos
significativos e centrais da estruturação inicial do self.
Segue exemplo de posição não compreensiva, não centrada na
pessoa, tendo reflexos negativos sobre a autoimagem.

“Era um bom menino. Gordo, corado, tinha pernas rechonchudas


como duas cotilédones. Essas pernas travavam seu andar e
prejudicavam um pouco sua dignidade. Os grandes não sabiam
que ele tinha aquela dignidade e às vezes, por causa duma falta
de jeito sua, riam-se. O menino também gostava de rir, mas havia
riso e riso. (...)

O menino achava que as pessoas grandes não tinham bastante


seriedade e também que nunca se podia contar com elas, porque hoje
queriam brincar e amanhã não queriam. Uma coisa agora provocava riso; a
mesma coisa que logo trazia castigo” (Corção, 1961, p. 53).
Os ventos ora favoreciam a navegação do barquinho do self, ora lhe
eram adversos, ocasionando perturbações na mente da criança.

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Quando há compreensão, “pelo fato de a estrutura nascente do self não
estar ameaçada da perda do amor, e de os sentimentos serem aceitos pelos
pais, a criança (jovem ou adulto) não precisa negar simbolização às satisfações
que está experienciando, nem distorcer vivências devido à reação dos pais.
Desta forma, desenvolverá sadia estruturação do self, sem negação
nem deformação da experiência” (Id., Rogers, 1951, p. 503).
Acertadamente escreveu Peter Wild (1988, p. 73) que só quem ama
é capaz de apreender o outro em todo o seu valor. Em termos rogerianos:
quem for capaz de atitude empática, isto é, capaz de compreender o outro
do ponto de vista dele.
Gozando de liberdade – por sentir-se aceita – a criança submete as
vivências todas (o mesmo se verifica no adulto) ao processo de avaliação,
servindo a tendência atualizante de critério: são valorizadas positivamente
as experiências favoráveis à preservação e enriquecimemo do indivíduo, e
negativamente as que forem percebidas como nocivas. Progressivamente,
dividirá o indivíduo as vivências em dois grupos: favoráveis e desfavoráveis
ao organismo. Desejará e há de procurar as primeiras e passará a rejeitar e
evitar as demais.
Caso, porém, o ambiente for desfavorável, isto é, de ameaça, corre
ela o risco de comportamento incoerente. A necessidade de conservar ou
reconquistar o amor dos pais – para defender a autoimagem de filho/a
amável e amada – levá-la-á a negar ou distorcer a representação das
experiências condenadas.
Se contar que tem raiva do guri do vizinho, que lhe quebrará a cara...
E os pais, em lugar de compreendê-la, a chamarem de má e a ameaçarem
com punições, ela, a criança, talvez fantasie tanto, a ponto de chegar a
substituir a gana de o agredir com a vontade de lhe dar um presente.
Esta metamorfose aparente e superficial restituir-lhe-á a reconfortadora
autoimagem de “criança boazinha”.

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Eis fato acontecido:

“Um aluno, filho único, criado pelos pais na maior das


dependências, gostava de um tipo de caderno de colega seu,
por ter capa colorida. Falou à mãe. Esta disse que não gostava. A
partir dali, o menino começou a achar o caderno espalhafatoso,
feio, como dissera a mãe” (E.B).

O comportamento deixa de ser autêntico. Fala e age o indivíduo como


se as próprias vivências, falseadas em sua representação, correspondessem
à tendência atualizante; como se reagisse à necessidade realmente sentida.
A avaliação da experiência é realizada depois de submetida ao crivo de
censura prévia. A construção da personalidade, em tais casos, será feita
com número maior ou menor de elementos postiços, portanto, sem a
desejável consistência.

“Um menino viu, aos cinco anos, o amor dos pais repartido com
um priminho de sete meses que ficara órfão. Enciumado, disse
certa vez ao pai: “Quando tu vais para o trabalho, eu vou atirar
o nenê pela janela.” O menino foi severamente repreendido e
proibido de assistir os desenhos da TV naquele dia. A ameaça
da criança não se repetiu, conseguindo reprimir os sentimentos
de hostilidade em relação ao bebê, mas passou a comportar-se
agressivamente com os coleguinhas” (D.H.L.S).

Cerceou-se-lhe a liberdade experiencial. A agressividade continua


existindo, mudando de alvo.
Pesquisa de Coopersmith demonstrou terem as manifestações de
estima provenientes do ambiente social menor influxo sobre a autoestima
do que habitualmente se admite. “Mas – são palavras textuais do autor –
as condições do lar e o ambiente interpessoal imediato possuem a mais
decisiva influência sobre a avaliação do próprio valor.”
Tudo se passa como se as crianças fizessem suas as opiniões emitidas
sobre elas por seu ambiente.

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Estudos de A. L. Baldwin mostraram como atitudes democráticas
de aceitação são facilitadoras do crescimento psicológico: da capacidade
intelectual, segurança afetiva, originalidade... Ao passo que os filhos de
pais autoritários se mostram instáveis, rebeldes, agressivos e briguentos.
O tipo de avaliação dos filhos da parte dos pais parece refletir, em
grau elevado, a medida em que estes se aceitam a si mesmos. Mães que se
aceitam a si mesmas, (“who are self-accepting”) tendem a possuir atitude
de aceitação também com relação aos filhos.
Esquematicamente, podemos dizer que

- a disponibilidade da experiência
- e seu enriquecimento progressivo


- possibilitam o exercício adequado
das funções de autoavaliação e
autoconceito


- que orientam devidamente
reações e comportamento

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Abertura a fenômenos e métodos

Na imensidade do nosso mundo interior tudo tem significação. Não podemos


escolher apenas o que nos convém, ao sabor dos nossos sentimentos, da
nossa fantasia, da forma científica e filosófica do nosso espírito. A dificuldade
ou obscuridade de um assunto não é razão suficiente para o desdenhar.

Todos os métodos devem ser empregados. Tanto o qualitativo como o


quantitativo são verdadeiros. As relações suscetíveis de ser expressas em
linguagem matemática não são mais reais do que as que o não são. Darwin,
Claude Bernard e Pasteur, que não puderam descrever as suas descobertas
como o auxílio de fórmulas algébricas, foram tão grandes sábios como Newton
e Einstein.

A realidade não é forçosamente clara e simples, nem sempre é seguro


que nos seja sempre inteligível. Além disso, apresenta-se sob formas
infinitamente variadas. Um estado de consciência, o úmero, uma ferida,
são coisas igualmente verdadeiras. O interesse de um fenômeno não
está na facilidade com que as nossas técnicas se aplicam ao seu estudo.
Deve ser julgado em função, não do observador e dos seus métodos, mas
do assunto, do ser humano. A dor da mãe que perdeu o filho, a angústia
da alma mística mergulhada na noite obscura, o sofrimento do enfermo
devorado por um câncer, são de evidente realidade, embora não mensuráveis.
Tampouco se tem o direito de desdenhar o estudo dos fenômenos de vidência
e do de cronaxia dos nervos, sob pretexto de que a vidência não pode ser
produzida quando se queira, ao passo que a cronaxia é exatamente mensurável
por método simples. Temos de nos servir, nesse inventário, de todos os meios
possíveis, contentando-nos com observar o que não se puder medir.

Carrel, s.d, p. 53

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CAPÍTULO II

AS 22 PROPOSIÇÕES DE CARL ROGERS

Em 1951, apresentou Rogers esquema de sua teoria da personalidade


sob a forma de proposições (Cf. 1951, cap. II).
Confessa haver o progressivo contato mais profundo com os
pensamentos e sentimentos dos outros provocando radicais mudanças em
suas concepções do psiquismo humano. Declara defender agora, graças à
experiência, convicções quase opostas às que partilhara no início da vida
profissional (Id., p. 482; Rogers et al., 1971, p. 91).
“Não passando a teoria de tentativa”, é natural haver aspectos
incertos ou obscuros em algumas proposições.

“Tomadas como um todo, a série de proposições constitui


uma teoria da personalidade, procurando explicar fenômenos
previamente e conhecidos, assim como fatos referentes à
personalidade e ao comportamento recentemente observados
em terapia” (Id. ib.).

Mais adiante (1974), nos diz que a teoria da personalidade não


constituiu ponto de prioridade de suas indagações científicas.
Várias ideias da teoria rogeriana já apresentadas neste livro voltarão
nas páginas seguintes. Foi necessário escolher entre esta repetição e a
mutilação da série de proposições. Repetitio mater scientae, diziam os
antigos. (A repetição é a mãe do saber).
Indispensável ter presente a observação de Weinberger (1996, p. 97)
de que Rogers não quer se tomem seus conceitos teóricos como dogmas,
mas se considere seu modelo de personalidade suscetível de modificações
e progressos.

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I. Proposições referentes às reações do organismo

1. Todo indivíduo vive num mundo de experiências em mutação


contínua, mundo de que ele é o centro.
Cada qual vive num mundo à parte de experiências. Embora o mundo
seja, para todos, essencialmente o mesmo do ponto de vista objetivo,
apresenta continuamente aspectos novos e diferenciados em cada pessoa.
Maravilhoso caleidoscópio acessível (ao menos em potência), na totalidade
de seu colorido e variados aspectos, tão-somente ao próprio indivíduo.

“Entre minhas atitudes e concepções fundamentais, há uma que se deve


ter particularmente em conta ao avaliar minha teoria: é minha fé inabalável
na primazia da ordem subjetiva. O homem vive essencialmente num mundo
subjetivo e pessoal. Suas atividades, até as mais objetivas – seus esforços
científicos, quantitativos, matemáticos, etc. – representam a expressão de
finalidades e escolhas subjetivas” (Rogers, 1966, I, p. 165; 1968, cap. 4).

Nenhum instrumento científico nos pode proporcionar maior riqueza


de conhecimentos do que a percepção do indivíduo por si mesmo:
importante verdade referente ao mundo privado do indivíduo é a de que
somente pode ser conhecido, de forma genuína e completa, por ele mesmo.

Fato corriqueiro, percebido por uma criança, para ilustrar esta afirmação:

“Certa vez, meu filho de sete anos (encontrava-me eu acamada na


ocasião) me disse que estava sentindo muito frio. Eu respondi:

— Eu estou com muito mais frio que tu.

E ele:

— Tu não podes saber. Tu não sentes o frio dos outros” (J.N.F.).

Aliás, a ciência psicológica ainda pouco sabe do indivíduo; esteve


ela demasiadamente voltada, até há pouco, para o homem em geral: “Não
muito, creio eu, se conhece a respeito do homem, e o que se conhece diz
respeito principalmente ao “homo sapiens”como espécie, e não à pessoa
conhecida pelos outros e por si mesma” (Murphy, 1966, p. IX; cf. Ravagnan,
1966, cap. Vl).

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Isto não significa ser toda experiência individual consciente. Não.
O consciente – na frase de Carl Gustav Jung – não passa de ilha cercada
pelas águas do inconsciente. Grande parte (a maior parte?) se encontra,
porém, disponível à consciência. Aliás, é convicção de Rogers de que fração
reduzida das vivências é conscientemente experienciada, porém, vasto
conteúdo encontra-se disponível ao consciente.
2. O organismo reage ao campo dos estímulos como o experencia e
percebe. Este campo perceptual é a realidade para o indivíduo.
Ninguém reage a uma realidade totalmente objetiva, mas à sua
percepção da realidade, como vimos ao tratar da noção do self e do
comportamento. Tomemos contrabandista a oferecer artigos a dois
indivíduos na rua. Um compra, jubiloso, um exemplar, contente com a
aquisição. O outro se retrai, desconfiando da qualidade da mercadoria.
Com razão escreve Libânio (1988, p. 11) que a realidade, para nós, somente
existe já interpretada. Daí a afirmação de Pablo Picasso:

‘’Não vejo a natureza como ela é; ela é como a vejo.”

Eis exemplo estampado na crônica policial de uma revista alemã:


O caixa de importante joalheria de Viena cobiçava um colar de
pérolas de elevadíssimo valor. Não dispondo da soma para adquiri-
lo, arquitetou um plano: num momento oportuno, substituiria
o exemplar da vitrina por um de pérolas falsas. Para o caso de
ser apanhado, comprou uma garrafa de ácido capaz de dissolver
rapidamente a joia.
No dia aprazado, deixou no apartamento alugado as malas prontas.
Depois do furto, no fim do expediente da manhã, voltou de carro
para casa. Estacionou em frente do edifício e subiu a fim de apanhar
os pertences e fugir, transpondo a fronteira. Apenas havia entrado
no apartamento, alguém bateu à porta: era o zelador.
— Um policial quer falar com o senhor.

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Nervoso, pega o colar e o lança no litro de ácido. Desce agitadamente.
O que há? perguntou, preocupado, ao policial.
Seu carro está mal estacionado: muito afastado da calçada.
O que a pessoa percebe como realidade é, de fato, realidade para
ela, e comportar-se-á de acordo com essa experiência interior. Por isso,
não é suficiente conhecer o estímulo – um relógio, por exemplo, no caso
do vendedor de rua, citado há pouco – a fim de prever e/ou explicar o
comportamento dos indivíduos. É indispensável conhecer a percepção
pessoal que tem da situação. “O determinante específico do comportamento
é o campo perceptual do indivíduo” (Rogers, 1947, p. 120).
Esta afirmação é prenhe de consequências. Se aceita, requer
reviravolta nos métodos de trabalho: dar-se-ia menos importância às
informações sobre a pessoa do que à própria pessoa; minimizar-se-ia o valor
dos testes; rótulos, como paranoide, pré-esquizofrênico, etc., passariam a
segundo plano. O mais importante, o primordial seria “ver com ela, em vez
de avaliá-la” (Rogers, id. ib.). Eis um exemplo que ilustra os dois métodos:

Um aluno pintara o ovo de Páscoa de marrom. A professora,


alarmada, aconselhou os pais a procurarem um psicólogo para
o menino. A profissional coletou dados, aplicou testes, fez
entrevistas. Um dia, enquanto esperava ansiosamente o resultado,
o diagnóstico do problema do menino, perguntou-lhe a mãe:
— Meu filho, mas por que pintaste o ovo com esta cor?
— Ué, mãe! Os ovos de chocolate não são assim?

Demasiadas vezes, escreve Gordon W. Allport, esquecemos a mais


rica fonte de dados, isto é, o autoconhecimento do indivíduo.
Poderá a pessoa saber se a percepção corresponde ou não à realidade
objetiva, pois “cada percepção é, essencialmente, uma hipótese – hipótese
relacionada com uma necessidade individual”? (Rogers, 1951, p. 486). Sim,
recorrendo a outras fontes de informação. Uma pessoa tem a impressão de
que tábua colocada por sobre um canal tem suficiente consistência para lhe
dar passagem. Avança cautelosamente, observando a reação da madeira.

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Se consegue passar, terá a confirmação da veracidade da percepção. Outro
exemplo: vejo um volume. Deve pesar seus dez quilos, acho eu. A balança
poderá decidir sobre a justeza da minha avaliação.
Ao lado das experiências assim verificadas, há muitíssimas outras
não conferidas. Estas fazem igualmente parte da nossa realidade pessoal,
podendo possuir tanto peso quanto as demais.
Esta proposição tem importantes consequências para a ciência
do comportamento, pois “a maioria dos nossos problemas pessoais e
interpessoais não derivam de desavenças sobre a realidade, mas de
distorções e falsas percepções da realidade” (Hamachek, 1979, p. 60), ou
simplesmente de diferentes percepções da realidade. Há modificação da
realidade, diz Capra (s.d., p. 288), logo na porta da percepção.
3. O organismo reage como um todo organizado ao seu campo
fenomenológico
Afirma Gordon Allport: ‘’As teorias europeias tendem a considerar
o homem como totalidade; as teorias anglo-americanas, ao invés, se
preocupam, a miúdo, mais com as partes do todo: traços, atitudes,
síndromes, fatores ou condutas (1968, p. 8; cf. Brammer-Shostrom, 1970,
p. 34-35).
Daí uma das causas da resistência americana às tipologias ou
caracterologias ou classificação dos temperamentos, que abarcam o homem
como totalidade.
Entretanto, como bem frisaram Hall e Lindzey (1966, p. 591-2),
referindo-se a autores de teorias da personalidade, “a maioria dos teóricos
contemporâneos pode ser considerada, seguramente, como organísmica.
Encaram o indivíduo como unidade de funcionamento total. Somente
Eysenk e Miller Dollard parecem não aceitar esta afirmação e põem em
dúvida a necessidade de estudar o indivíduo em sua totalidade” (Cf. Bühler,
Ch., 1962, p. 244).
O enunciado da terceira proposição rogeriana enquadra o autor na
moldura das teorias organísmicas ou holísticas. “O fato saliente que deve
ser levado em consideração é que o organismo constitui um sistema total
organizado, no qual a alteração de uma parte produzirá mudanças em

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outra” (Rogers, 1951,p. 487). E logo acrescenta tratar-se de “organização
dirigida para um objetivo” (a goal-directed organization).
Brentano (1874) exumara a esquecida noção da intencionalidade,
tornando-se ela um dos conceitos básicos da fenomenologia de Edmundo
Husserl (1859-1938).
Rogers rejeita, por simplista, a explicação do comportamento
humano pelo esquema behaviorista “estímulo-resposta”. (Entretanto, foi
ele formado dentro dos parâmetros dessa escola, não esqueçamos.)
O enunciado da proposição é válido tanto para reações fisiológicas
como para as psicológicas: o organismo psico-físico-social age como um
todo.

“Ele trabalhava na capital, enquanto ela residia no interior. Eram


noivos. Nos fins de semana, o rapaz ia visitar a noiva. Com a
aproximação do casamento, cada vez a encontrava acamada, com
fortes dores de estômago. Encaminhada ao médico, verificou-se
não padecer ela de nenhum mal fisiológico.
Consultou um analista. Em pouco tempo, certificou-se que as
dores não passavam de rejeição do casamento, pois a moça não
queria separar-se da mãe, já que deveria ir morar com o futuro
marido na capital” (M.N.C).
Ensina Rollo May:
“É bem sabido, por exemplo, que os diferentes tipos de doenças
podem servir a finalidades permutáveis ao indivíduo. A moléstia
física tem condições de aliviar perturbações psicológicas dando
foco a uma ansiedade ‘indefinida’. Assim a pessoa tem algo concreto
com que se preocupar, o que é menos penoso do que sofrer
ansiedade’flutuante”; ou então pode constituir o alívio necessário
aos que não aprenderam a assumir uma responsabilidade. Muita
gente, graças a uma doença séria, ‘alivia’ os sentimentos de culpa,
por menos construtivo que seja o método” (1972. p. 91).

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O ator Elliot Gould, nascido em 1938, teve mãe dominadora. O
menino era sensível e tímido. Aos oito anos, foi matriculado na
Escola de Arte Dramática de Charlie Lowe. Mas representar era
pouco. Conseguiu a mãe fosse o menino aceito como manequim
de roupas infantis. Lembrando esta época, confessa o ator: “Eu
tinha tanto medo de minha mãe que não ousava dizer não...” E a
mãe, discordando: “Ele diz isto só para me aborrecer. Na realidade,
gostava ele do trabalho. Só uma coisa não conseguia eu entender:
todas as vezes que tínhamos compromisso para fotografias, Elliot
vomitava no ônibus” (Cf. “Cláudia”, fev. 1972, p. 52).

4. O organismo possui uma tendência básica:


• manter-se,
• realizar-se,
• expandir-se.
Como vimos no início do presente estudo, esta proposição é fun­
damentalíssima na teoria de Rogers. Segundo ele, as diferentes necessidades
psico-físico-sociais constituem expressões parciais desta tendência, que
forma a motivação básica do organismo. Este se atualiza no sentido de maior:
- diferenciação,
- expansão,
- autogoverno,
- autorregulação,
- autonomia,
- e socialização (Rogers, 1951, p. 488).
Cita uma série de autores que aceitam a mesma orientação: Angyal,
Horncy, Sullivan, Goldstein, Kluckhohn, Mowrer.
A tendência à autorrealizacão pode verificar-se no organismo físico
desde a concepção até à maturidade: energia intrínseca assegura, em
condições normais, plena realização do indivíduo.

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No plano psicológico, evidencia-se esse mecanismo no atendimento
terapêutico, às vezes de forma dramática, quando o indivíduo se encontra
à beira da psicose ou do suicídio.
Seria, porém, errôneo pensar que esse crescimento se opera sempre
de modo suave e fácil, como que automaticamente. Rogers compara-o às
tentativas penosas da criança que aprende a caminhar.
Existe uma condição para esse dinamismo poder atuar
adequadamente: a correta simbolização da experiência e sua conveniente
diferenciação. Caso contrário, poderá o indivíduo confundir comportamento
regressivo com atitude construtiva.
Exemplo de indivíduo que achou meio de satisfazer a “tendência
básica do organismo”: “Conheço um senhor, hoje uma das grandes fortunas
de cidade do interior do Rio Grande do Sul. Quase no final da terceira década
de existência, não passava de um semialfabetizado, de condições econômicas
inferiores. Com muito esforço pôs-se a estudar, chegando a concluir o curso
universitário e elevando-se a nível econômico invejável. Ele, porém, ainda
não se sente completamente realizado: quer expandir-se mais ainda” (M.A.).
Na palavra do filósofo espanhol Miguel de Unamuno, a gente sente-
se viver em processo de criação contínua, apresentando todo momento
visão nova, diferente (1952, p. 52).
5. O comportamento é, basicamente, uma tentativa finalista do
organismo: isto é, satisfazer as necessidades como são experenciadas e
dentro do campo como este é percebido.
A proposição anterior explicou a primeira parte do enunciado acima:
a tendência à atualização, à realização pessoal, como motivação essencial
que é, por assim dizer, enfeixa ou orienta todas as necessidades a fim de
assegurar a consecução desse grande objetivo do organismo.
A outra parte já foi considerada na segunda proposição.
Rogers, apresenta, aqui, dois aspectos novos:
Pergunta se todas as necessidades têm sua origem em tensões
fisiológicas, como pesquisas de Ribble e outros parecem indicar. Assim, uma

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criança, sem adequado contato físico com a mãe, continuaria em estado de
tensão fisiológica de insatisfação. Mas, as pesquisas, nesta área, foram, até
hoje, precariamente planejadas e insuficientemente controladas.
O segundo aspecto novo, deveras importante, é o seguinte:

“Também deve frisar-se que nesta conceituação da motivação,


todos os elementos efetivos existem no presente. O
comportamento não é causado por algo ocorrido no passado. As
tensões presentes e as necessidades presentes são as únicas que
o organismo tenta reduzir ou satisfazer. Embora seja verdade que
experiências passadas certamente contribuíram para modificar
o sentido que será percebido nas experiências do momento,
ainda assim, não há comportamento a não ser para satisfazer
necessidade presente” (Rogers, 1951, p. 492).

Estas afirmações colidem frontalmente com a opinião largamente


difundida sobre o papel primordial das motivações inconscientes. “...A
teoria de Freud dá a mais forte ênfase aos fatores inconscientes, e uma
grande variedade de teorias, influenciadas pela posição psicanalítica
ortodoxa, como a de Murray e Jung, fazem o mesmo. No outro extremo,
encontramos teorias como as de Lewin, Allport, Goldstein e Rogers, em que
não são tão valorizadas as motivações inconscientes; elas são consideradas
como importantes apenas no indivíduo anormal” (Hall/Lindzey, 1966, p.
588, cf. G.W. Allport, 1969, cap. 7: O Extrato Inconsciente).
Note o leitor, que esses últimos autores não negam a existência de
fatos inconscientes; simplesmente dão relevo maior ao papel do consciente e
as melhores formas de a pessoa acessar os fenômenos psíquicos nesse nível.
Na opinião de Jourard (1997, p. 151), o indivíduo não é joguete
do inconsciente: se não for na maioria dos casos, em elevado número de
circunstâncias goza de liberdade para escolher como será e como vai agir.
6. A emoção acompanha e, em geral, facilita este comportamento
orientado para um objetivo.

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“O tipo de emoção está relacionado com os aspectos de procura
versus satisfação do comportamento; sua intensidade vincula-se à
significação percebida da experiência para a conservação e progresso do
organismo.”
Há dois tipos de emoção:
- desagradáveis e excitantes,
- e agradáveis e calmantes.
As primeiras acompanham a procura de um objetivo exigido pela
tensão criada; as segundas ocorrem com a satisfação das necessidades, isto
é, depois de alcançado o objetivo. Exemplo:

“Quando eu soube da explosão dos fogos de artifício “Fulgor”


aqui em Porto Alegre, senti-me emocionada ante a extensão do
sinistro: mortos, feridos, casas destruídas... Minha emoção se
acentuou muito ao me lembrar que uma pessoa amiga residia na
mesma rua. Fui imediatamente ao mapa para ver a que distância
da explosão se localizava a casa dela. Tranquilizei-me ao verificar
que era distante de lá” (H. R).

Foi, naturalmente, sob o efeito de emoção muito desagradável,


excitante, que a pessoa consultou a planta da cidade. Emoção agradável e
calmante seguiu ao saber a pessoa amiga salva do acidente.
A intensidade da emoção depende da significação maior ou menor
que a experiência tiver para a conservação e o crescimento do organismo.
Assim, o salto para escapar de um atropelamento de veículo é acompanhado
de forte emoção, ao passo que a contemplação de bela paisagem desperta
emoções mais suaves.

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As duas últimas proposições foram apresentadas como se estivessem
relacionadas tão-somente com a expansão do organismo, o que, de fato,
não acontece: “Como será visto em outras proposições, o desenvolvimento
do self pode introduzir modificações aqui, pois o comportamento é, então,
muitas vezes, mais bem descrito como consecução das necessidades do
self, às vezes contrariando as necessidades do organismo. Neste caso, a
intensidade da emoção será antes aferida pelo grau de envolvimento do self
do que pelo grau de envolvimento do organismo” (Rogers, 1951, p. 493/4).
7. A atitude mais adequada para compreender o comportamento
consiste na adoção do centro de referência do próprio indivíduo.
Segundo Francis Jeanson (1951), podem-se adotar duas atitudes no
estudo do homem: explicação e compreensão.
Explicá-lo quer dizer analisá-lo como objeto; é esquecê-lo como
sujeito. Compreendê-lo é entrar no processo de sua subjetividade, de sua
liberdade, de suas iniciativas, de seus valores.
Pois bem: a sétima proposição de Rogers postula atitude compreensiva,
indicando o modo de consegui-la da maneira mais exata possível.
Relembra o autor o que foi dito na primeira proposição: ninguém
pode conhecer tão profunda e amplamente a própria área de experiência
como o próprio indivíduo.

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Por isso, se pudéssemos sentir o que o indivíduo experiencia no
seu campo fenomenal, tanto os elementos conscientes como os que não
atingem este nível, estaríamos nas melhores condições de compreender
o sentido de seu comportamento e predizer suas reações futuras. É,
naturalmente, um ideal inatingível.
Esta compreensão, a compreensão fenomenológica, supõe renunciar,
pelo menos momentaneamente, às nossas categorias (pô-las entre
parênteses, diria Husserl), aos nossos ‘pré-conceitos’, a fim de procurar
apreender, em sua originalidade integral, a experiência do autor. Ir “às
coisas mesmas”, e não confiar em nossa interpretação das “coisas”.
A adoção de atitude compreensiva não é nada fácil. Fala o autor da
“dificuldade para compreender as percepções do outro”. Ao comentar o
mesmo tema na sétima proposição, aponta duas dificuldades:
Somos drasticamente limitados quanto à possibilidade de entrar no
campo experiencial consciente do outro. A dificuldade toma proporções
enormes se tentarmos compreender-lhe os elementos inconscientes. Corre-
se o perigo (apesar de preparação especializada e embora se lance mão de
técnica projetiva) de a compreensão não passar de projeções subjetivas de
quem tenta compreender (sem êxito) o outro.
Um segundo obstáculo é o fato de nosso conhecimento do quadro
de referência do outro depender sobretudo da comunicação que ele nos
fizer. Ora, a comunicação é sempre imperfeita e lacunar. Por isso, apesar
dos esforços, nunca nos é dado ver claramente o campo fenomenal de
outro indivíduo.
Eis o exemplo de pessoas incapazes de adotar o padrão de referências
e compreender a escala de valores de outra. Trata-se de um diálogo entre
Romão e Miranda, personagens do conhecido romance “O Cortiço”, de
Aluísio de Azevedo (1981, p. 29):

“A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal;


mas para isso havia remédio: com muito pouco compravam-se
umas dez braças daquele terreno do fundo, que ia até à pedreira,
e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda.

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Miranda foi logo entender-se com o Romão e propôs-lhe negócio.
O taverneiro recusou formalmente:
— O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de
Bertoleza. Nem só não cedo uma polegada do meu terreno, como
ainda lhe compro, se mo quiser vender, aquele pedaço que lhe
fica ao fundo da casa!
— O quintal?
— É exato.
— Pois você quer que eu fique sem chácara, sem jardim, sem
nada?
— Para mim era de vantagem...
— Ora, deixe-se disso, homem, e diga lá quanto quer pelo que
lhe propus.
— Já disse o que tinha a dizer.
— Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
— Nem meio palmo!
— Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho
empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um
pouco de espaço para alargar-se. E eu não cedo, porque preciso
do meu terreno!
— Ora qual! Que diabo pode lá você fazer ali? Uma porcaria de
um pedaço de terreno quase grudado ao morro e aos fundos de
minha casa! Quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!
— Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
— É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do
fundo, a sua parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira, e
escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a meter-se
pelo meu. Quer saber? Não amuro o quintal sem você decidir-se!
— Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o
que tinha a dizer já disse.
— Mas, homem de Deus, que diabo! Pense um pouco! Você ali
não pode construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janelas
sobre o meu quintal?...

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— Não preciso abrir janelas sobre o quintal de ninguém.
— Nem tampouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as
janelas da esquerda!
— Não preciso levantar parede desse lado...
— Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...
— Ah! isso agora é cá comigo!... O que for soará!
— Pois creia que se arrependerá de não me ceder o terreno!...
— Se me arrepender, paciência! Só lhe digo é que muito mal se
sairá quem quiser meter-se cá com a minha vida!
— Passe bem!
— Adeus!”
Eis exemplo oposto: professora entra no quadro de referência do
aluno:
“O Padre não existiu antes do Filho nem do Espírito Santo, porque
todas as pessoas divinas são eternas.”
Para mim, o Catecismo estava errado. Disse a um menino que eu
não acreditava naquilo. Foi botar logo nos ouvidos da mestra.
— No que é que você não acredita, meu filho?
— Eu não disse nada, professora.
— Não, diga. Não tenha medo.
E aquela palavra mansa me animou à controvérsia.
— Eu disse que o Filho tinha nascido depois do Pai. Porque Jesus
nasceu há dois mil anos na Galileia.
— Sim, disse ela. Deus mandou à terra o seu Filho para redimir o
pecado dos homens; mas antes de Ele nascer da Santa Virgem, já
existia como Deus” (Rego, p. 75).

II. Proposições referentes ao self

8. Uma porção do campo perceptual total diferencia-se gradualmente,


formando o self.

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Relembremos que self é a imagem que fazemos de nós mesmos.
“É a identidade única e especial, a pessoa, a personalidade” (Jourard,
1997, p. 156).
Rogers concorda ser extremamente difícil o estudo do
desenvolvimento do self. Segundo ele, poucos foram os progressos feitos
nesta área, isto apesar do número de pesquisadores do problema: Mead,
Cooley, Angyal, Lucky e outros.
Sabemos que, gradativamente, parte do mundo privado é
reconhecido com “eu”, “eu mesmo”. É o “self”, “a consciência de ser e
funcionar”.
Uma experiência ou objeto é considerado parte do self na medida em
que for controlado por ele. Assim, membro anestesiado me dá a impressão
de fazer menos parte de mim mesmo: olho-o, nesta situação, mais como
objeto (Cf. Murphy, 1966, p. 481). Também há fatos psicológicos que, por
assim dizer, se subtraem ao nosso controle. Testemunho de mãe:
“Outro dia, a filha mais velha brigou comigo. Ficou tão furiosa que se
postou na porta do edifício e ao eu passar para ir à escola, me disse que não
gostaria mais de mim; que desejava que furassem dois pneus do carro para que
eu tivesse o trabalho de trocá-los. À tarde, quando voltei, beijou-me e perguntou
se eu estava aborrecida com ela pelo que havia dito. Eu lhe respondi que não,
por saber que ela não havia dito aquilo de coração. Então me confessou que
“não sabia porque agia assim”, mas quando dava vontade de dizer, dizia, e
depois ficava triste” (N.B.C.). Alguns pontos ainda não esclarecidos:
É o contato social necessário ao desenvolvimento do self? Em outros
termos: desenvolver-se-ia o self de quem crescesse fora do contato com
outros homens? É o self constituído unicamente pela fração simbolizada
da experiência? Apareceria o self tão-somente através de processo mental,
sem a intervenção da experiência? – Questões abertas.
9. Como resultado da interação como o ambiente e, particularmente,
como efeito da interação avaliativa dos outros, forma-se a estrutura do self:
estrutura conceitual organizada, fluida, mas consistente de percepções das
características do “eu” ou do “me”, juntamente aos valores associados a
esses conceitos.

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Segundo Gardner Murphy, as partes do próprio corpo da criança
formam o núcleo inicial do self. Percebe vagamente, por exemplo, que o
pezinho ou a perninha com que brinca é dela. Vai diferenciando, pouco a
pouco, o que pertence a ela e o que é dos outros (Cf. Murphy, 1966, p. 479-
503: The Origins of the Self).
No relacionamento com os outros, vai formando conceitos a respeito do
ambiente, a respeito dela mesma e em relação ao meio. Esse conhecimento
diferenciado vem acompanhado de valorização, muito importante, segundo
Rogers, para a compreensão do desenvolvimento ulterior.
A criança costuma valorizar as experiências com a maior naturalidade
ou espontaneidade: “Gosto de caramelos.” “Não quero deste prato.”
“Gosto do titio.” “O titio é feio.”

‘’... na minha frente, teciam (os adultos) comentários contra a


vida e o caráter de determinada pessoa que frequentava nossa
casa. Eu ouvia e orientava-me por esse conceito, acreditando que
fora emitido dentro da maior lealdade. Mas, quando essa mesma
pessoa voltava a nossa casa, para meu espanto, era recebida com
efusão, com exclamações de carinho e amizade. Confusa, um
dia perguntei diante da visita se essa criatura da qual eu ouvira
tantas condenações, era a mesma que no momento elogiavam
desmedidamente. Houve surpresa e susto. E para terminar o mal-
estar, fui marcada de “menina imprudente” (Nery, 1970, p. 11).

Tudo se passa como se a criança valorizasse positivamente tudo o que


contribui ao progresso, ao crescimento dela mesma. O que, porém, é percebido
como ameaça, como prejudicial ou menos útil, é valorado negativamente.
A esta valorização pessoal – nem sempre verbalizada – vêm cedo
acrescentar-se as contínuas apreciações dos outros, particularmente dos
progenitores. ‘’A influência dos pais é essencial nesta fase da estruturação
do self” (Bischof, 1968, p. 430).
“Tu és boa criança”. “Que belezinha.””Tu és um amor.” “Assim a mãe
gosta de ti.” “Assim procede um bom menino.” Ou: “Como isto é feio!” “Isto
não se faz.” “Boa criança não faz isto.” “Assim não gosto mais de ti.”

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Gestos, mímica, ordens, convites, comentários, podem ter o mesmo
efeito. Exemplo:
Uma professora pediu a um aluno de apagar o quadro-negro.
Reparando que era baixinho, solicitou a colaboração de outro de estatura
mais avantajada.
O primeiro, que já sofria de complexo devido à pequena estatura,
ficou profundamente magoado. A professora o soube através da mãe.
A educadora recorreu, desde então, seguido à ajuda do garoto. Este,
comentando o fato com a mãe, disse que a mestra já não o achava mais
baixinho, pois mandava-o seguido apagar, sozinho, o quadro.
Tais apreciações vêm a constituir grande parte e parte importante do
campo perceptual da criança.

No self encontram-se elementos


Valorizados positivamente pelos outros.....................................+
Valorizados negativamente pelos outros................................... –
Valorizados negativamente pelo indivíduo mesmo................... /
Valorizados positivamente pelo indivíduo mesmo..................... x
Valorizados positivamente por ambos.......................................=
Valorizados negativamente por ambos.......................................\

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Ponto fundamental para sadio desenvolvimento psicológico é sentir-
se a criança amada. Daí a importância de ela não se perceber rejeitada
quando os adultos não lhe podem aprovar um comportamento. Ela gosta, por
exemplo, de brincar em poças de água, naturalmente molhando e sujando
a roupa. Mãe compreensiva não pensa, em primeiro lugar, no trabalho de
ter que lavar a criança e a roupa dela. Mas, na satisfação experimentada
pelo filho. Em sua reação deverá fazer ressaltar este aspecto: compreender
a criança do ponto de vista dela, porém, sem negar os próprios sentimentos
de desagrado, se ocorrerem. Depois estará em condições de corrigir
eventuais excessos ou comportamento inoportuno ou inadmissível.
A criança não deveria, no relacionamento com os outros, experenciar
ameaça a seu autoconceito de ser amada (Rogers, 1951, p. 502-3). Pode,
Iivremente, aceitar, por ex., ser bom brincar na água, mas que a mãe não
gosta. Seja qual for a satisfação que se procure, sentir-se-á pessoa amada,
embora sabendo que nem todas as suas preferências ou reações são do
gosto dos pais ou de outras pessoas.
10. Os valores ligados às experiências e os que formam parte da
estrutura do self são
• ora vivenciados diretamente pelo organismo,
• ora introjetados ou tomados de outras pessoas, mas percebidos
de maneira distorcida, como se tivessem sido experienciados
diretamente.
Um aluno, filho único de pais abastados, estava resolvido a interromper
o segundo ciclo de estudos para se dedicar à mecânica de automóveis.
Motivo: julgava-se pouco inteligente e só com muito esforço terminaria o
segundo grau. No serviço de orientação foi submetido a dois testes de
inteligência, revelando em ambos um nível superior. Na entrevista, ao revisar
seus anos de escola, veio-lhe à lembrança a exclamação de uma professora
do segundo ano primário, apreciando um trabalho seu, casualmente menos
feliz: “Como tu és burro, Carlos!”

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Houve dupla distorção: o menino entendeu a observação da mestra
como se referindo a sua capacidade intelectual em si; e ele mesmo aceitou
esta opinião como própria. Bastou o resultado dos testes para mudar este
elemento da autoimagem e, consequentemente, a atitude do aluno. De
outros aspectos da deformação ou negação da experiência já falamos
ao tratar das “defesas” e das “perturbações da comunicação interna”:
isto é, o indivíduo nega as próprias experiências para não desagradar a
outras pessoas. Um rapaz, por ex., dirá não gostar de certa moça pela
qual está apaixonado a fim de não magoar os pais e, ilusoriamente, acha
brotarem dele os sentimentos da falta de simpatia. Esse indivíduo estará em
conflito consigo mesmo. Desconhecendo ou negando as correntezas mais
profundas e contemplando apenas a superfície calma das águas, muitas
vezes estranhará a mudança de rumo, aparentemente sem explicação, do
barquinho do self (Cf. Rogers, 1967, p. 17-20).
Ameaças levarão crianças e adultos a deformar ou negar as próprias
experiências a fim de as tornar aceitáveis ao self e harmonizá-las com as
expectativas do ambiente. Se irromperem na consciência, provocarão,
inevitavelmente, grau maior ou menor de ansiedade.
11. À medida em que as experiências ocorrem na vida do indivíduo, são
• ou simbolizadas, percebidas e organizadas em alguma relação
com o self,
• ou ignoradas, por não haver relação percebida com a estrutura
do self,
• ou negadas ou simbolizadas de maneira deformada, por ser
experiência incompatível com a estrutura do self.
Há, portanto, segundo Rogers, quatro atitudes possíveis com relação
às vivências:
a) Parte das nossas experiências é aceita e incorporada pelo self.
São as experiências que harmonizam com ele ou com o self-ideal. Se acho
bom ter atitude autoritária em face dos outros, experimento satisfação após
tal comportamento. Ocupado em escrever sobre a teoria rogeriana, não
hesito em adquirir novo livro sobre o assunto, pois o volume corresponde à
necessidade minha.

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b) Muitíssimas – a maioria – das experiências não atingem o nível
consciente, portanto, não as relacionamos com o organizado conceito
do self (Rogers, 1951, p. 504). É suficiente examinar o que se passa com
os milhares de sensações (visuais, auditivas, táteis, térmicas...) que temos
ao dar uma volta pela cidade: porcentagem mínima (a conscientemente
significativa para nós) é relacionada com o self.
c) Existe também parcela da realidade vivencial cuja entrada no
campo da consciência é vetada (Cf. Maslow, 1972, p. 218-219: causas
sociais e intrapsíquicas da repressão).
Casos há em que essa atitude é mais ou menos consciente. Um
cliente de Rogers tinha autoconceito muito negativo. A certa altura da
entrevista, confessa: ‘’Ao me dizerem ser eu inteligente, simplesmente não
acredito. Melhor: suspeito que eu não queira admiti-lo. Tão sei porque.
Simplesmente não quero” (Id. ib.).
Existe outra espécie de negação da realidade, que entra no conceito
freudiano da repressão: a experiência não é simbolizada ou, então,
desfigurada. Quem julga ser modelo de caridade com o próximo, por
exemplo, facilmente confundirá sentimento de ciúme ou inveja com zelo
pelo bem da vítima.
Engenhosas experimentações de McCleary e Lazarus demonstraram
“ser o indivíduo capaz de fazer discriminação entre estímulos ameaçadores
e não ameaçadores, e reagir de acordo, embora incapaz de reconhecer
conscientemente o estímulo ao qual reage” (Id., p. 506). Deram o nome de
“subcepção” a esta percepção.
O fenômeno parece constituir elemento importante no mecanismo
da ansiedade.
d) Finalmente, fatos inaceitáveis pelo indivíduo são a tal ponto
evidentes que sua negação se torna impossível. Neste caso, o self recorrerá
à distorção:”as uvas são verdes”. “O público não tinha nível para apreciar
devidamente minha peça.”
Em suma, o self exerce uma função seletiva sobre o material da
experiência:

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• aceita a parte que lhe convém,
• ignora outra
• e rejeita uma terceira.
• Se, apesar de rejeitada, uma experiência percebida como
ameaçadora continuar a bater às portas do self, este é capaz
de fazer entrar o lobo, revestindo-o com pele de ovelha, isto é,
deformando as vivências para torná-las aceitáveis.

12. A maior parte das formas de comportamento adotadas pelo


organismo são coerentes com o conceito do self.
Numa aventura do Barão de Münchhausen, “No Polo Norte”, lemos:
“Da superfície das águas erguiam-se imponentes “iceberg” e blocos de
gelo com intenso brilho prateado. Sobre um deles avistei dois enormes
ursos. Tive a impressão de que brigavam. Decidi, então, pôr fim ao
desentendimento das feras, e conseguir duas valiosas peles. Armado de

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espingarda e faca, dirigi-me para a montanha de gelo. Muitas vezes pensei
em desistir da empresa, apavorado com os medonhos precipícios que via
abrirem-se a meus pés. Sentir-me-ia, porém, profundamente ferido em meu
amor-próprio, se meus amigos, que me observavam da ponte do navio,
percebessem o medo que cada passo me fazia estremecer. E continuei,
fazendo das tripas coração” (Münchhausen, 1965, p. 111).
O Barão se tinha por valente e estava convicto que os demais (os
companheiros e o capitão do navio, do qual saltara), tinham dele a mesma
ideia. Foi esse autoconceito que o levou a se portar corajosamente.
Quem se julga bom aluno, terá dificuldade em comportar-se de outra
maneira. Quem se tiver por muito pontual, fará todo o possível a fim de não
desmerecer esta fama. Certa professora, com renome de pontualíssima,
disse um dia, preferir faltar quando prevê chegar tarde à escola.
Existem comportamentos, por exemplo, a necessidade de dormir,
como que neutros em relação ao conceito do self. A mulher, porém, com o
autoconceito de ser mãe dedicada, e convicta de que mãe dedicada não irá
dormir sem todos os filhos estarem em casa, embora exausta, não se deitará
ou não pregará olho enquanto um deles se encontrar fora. A necessidade
de se comportar de acordo com o self é mais forte que a necessidade física
do repouso.
Nas neuroses, o organismo satisfaz certa necessidade, não
reconhecida pela consciência, por meio de ações e reações coerentes com
a autoimagem e, portanto, conscientemente aceitas.
Estudo de Aronson e Mettee (1968) comprovou a tese de Rogers de
que o indivíduo se comporta segundo modalidades congruentes com o
conceito do self (Cf. Pervin, 1970, p. 297).
13. O comportamento pode ser provocado, em alguns casos, por
experiências e necessidades não simbolizadas. – Comportamento desses
pode estar em desacordo com a estrutura do self; em tais momentos,
contudo o comportamento não é sentido como ‘propriedade’ do indivíduo.

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Certa vez, ao chegar em casa, a mulher atirou, furiosa, uma cadeira
sobre o marido, acusando-o de infiel. O homem ficou perplexo.
Nunca houve problema entre os dois nesta área. Posteriormente,
tentou a mulher jogar-se do carro guiado pelo esposo... Em
entrevista, reconheceu não saber porque fizera isso. O marido
sempre fora exemplar. Não tinha motivos de se tirar a vida.
A três alunos fora cedida sala de aula para estudo em grupo.
Quebraram uma mesa e várias cadeiras. Perguntados porque
haviam feito isto, um deles respondeu: “Não sei como foi
possível... Isto não tem explicação!”

Os exemplos citados mostram como as pessoas se comportaram


de forma não coerente com a estrutura consciente do self; por isso,
reconheceram como estranhas, como não delas, tais reações.
Daí as expressões: “Não sei onde tinha a cabeça!” Não sabia o que
estava fazendo.” “Custa acreditar que eu me tenha portado assim.” “Estava
fora de mim.”
Graças à subcepção, pode o indivíduo ter igualmente reação
adequada sem tomar consciência da situação (ver Rogers, 1951, p. 491).
Reação ajustada, porém, não chama tanto a atenção como a aparentemente
inexplicável.
“Considerando-se as proposições 12 e 13 conjuntamente, parece
que Rogers reconhece dois sistemas reguladores do comportamento: self
e organismo. Os dois sistemas podem ou trabalhar associadamente, em
harmonia e cooperação, ou opor-se um ao outro. Opondo-se, resultará
estado de tensão e desajustamento, segundo a proposição 14; se trabalham
conjuntamente, a consequência é o ajustamento, nos termos da proposição
15” (Hall/Lindzey, 1966, p. 530).
Criança pequena só age e reage organismicamente.

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Embora nem sempre o faça, a pessoa tem condições de
enfrentar seus problemas

A minha evolução foi singela. Quando eu estava ainda contente, desejava estar
descontente e por todos os meios do século e tradicionais que me podiam
servir, atirava-me ao descontentamento. Achava-me, por isso mesmo, sempre
descontente, até do meu descontentamento.

É interessante que com suficiente sistematização qualquer coisa tenha nascido


desta comédia. A minha ruína espiritual principiou por um jogo pueril, porém
consciente. Por exemplo, simulava tiques faciais, ou passeava no Graben com
os braços cruzados por trás da cabeça, puerilidade horrível, porém coroada
de sucesso. Sucedeu, identicamente à evolução de minha atividade literária,
evolução que mais tarde desventuradamente se interrompeu. Se houvesse
a possibilidade de obrigar a desventura a tombar sobre nós, deveríamos
consegui-lo deste modo.

Por mais que a minha evolução pareça confutar-me e que esteja em desacordo
com a minha natureza refletir desta maneira, tanto mais me é impossível
reconhecer que os primeiros inícios de minha desventura fossem intimamente
precisos; pode ser que houvesse uma necessidade, porém, nunca uma íntima
necessidade: chegados como moscas, teriam podido ser expulsos com tanta
facilidade quanto elas (24.01.1923).

Eu sou um fim ou um começo. É um mandato. Eu não posso assumir por causa


de minha natureza senão um mandato que nenhuma pessoa me deu. É em
contradição e apenas em tal contradição que eu posso viver. (1924.)

- Franz Kafka, 1964

14. Há desajustamento quando o organismo nega reconhecer


experiências significativas que, consequentemente, não são simbolizadas
nem organizadas na Gestalt da estrutura do self. Neste caso, existe tensão
psicológica básica ou potencial.
O caso dos comportamentos que escapam ao controle do eu
denotam discrepância entre a experiência do organismo e o conceito do
self: organismo e self solicitam o indivíduo em direções diferentes:

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O organismo exige a satisfação de alguma necessidade da qual o self
não tem, não pode ou não quer ter conhecimento.
“O controle consciente se torna mais difícil quando o organismo
tende a satisfações não aceitas conscientemente... Então sobrevém tensão.
Se o indivíduo chega a ter algum grau de consciência dessa tensão ou
discrepância, sentirá ansiedade; sentirá não estar unificado ou integrado,
nem seguro em sua orientação” (Rogers, 1951, p. 511).
A tendência do self é no sentido de preservar ou restaurar a coerência,
mantendo o controle. Pode lançar mão de dois recursos: enfrentar a
realidade ou distorcer os fatos. Rogers cita exemplo da segunda atitude:
Progenitora agressiva, com autoimagem de boa mãe, rejeita
as tendências hostis com relação ao filho. Boa mãe, contudo, pode e
deve censurar comportamento não adequado da prole. Assim, ela, mãe
agressiva, encontrará ocasiões de punir o filho sem entrar em conflito com
o autoconceito positivo.

A agressividade não se ajusta ao conceito de boa-mãe (1). Mas, disfarçada sob a


forma de corrigir o filho, poderá ser aceita (2). Fica, assim, restabelecida, no plano
consciente, a unidade entre as tendências do organismo e as do self.

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15. Existe ajustamento psicológico quando o conceito do self é tal
que todas as experiências significativas do organismo são ou podem ser
simbolizadas numa relação coerente com o conceito do self.
Nesta proposição, Rogers descreve a harmonia entre o organismo e o
self: “...todas as experiências significativas têm acesso à consciência graças
à exata simbolização, e podem organizar-se em sistema internamente
consistente, formando a estrutura do self ou relacionando-se com ele.
Quando ocorre este tipo de integração, então pode a tendência ao
crescimento expandir-se ao máximo, movendo-se o indivíduo na direção
normal própria da vida organísmica” (1951, p. 514).
Assim (o exemplo é de Rogers), a pessoa que percebe e aceita
as próprias necessidades sexuais, e também percebe como parte de
sua realidade o valor moral dado ao controle desses desejos, aceitará e
assimilará todas as sensações do organismo nesta área. Mas isto é somente
possível quando seu conceito neste setor é suficientemente amplo a fim de
nele incluir as tendências sexuais e, ao mesmo tempo, o propósito de viver
em harmonia com a moral reinante no ambiente.
Uma senhora admite poder, às vezes, ter raiva do filho e, assim
mesmo, ser boa mãe.
Na medida em que o self conseguir acolher e integrar em sua
estrutura adequadamente todas as experiências, será o comportamento
mais espontâneo e menos “autoconsciente”, pois o self reconhece atitudes
e reações como integrantes dele mesmo.
Rogers enfatiza a importância do fato não de os dados estarem
presentes à consciência, mas tenham a possibilidade de acesso a ela, isso
é, não haja defesas, denotadoras de mal-estar.
Há integração quando todas as experiências viscerais e sensoriais
têm acesso à consciência através de adequada simbolização, podendo
organizar-se em sistema interno consistente. O indivíduo sente-se, então,
em linhas gerais, unificado.
16. Qualquer experiência incoerente com a estrutura do self pode ser
percebida como ameaça; quanto maior o número dessas percepções, tanto
mais rijamente se organiza a estrutura do self a fim de se manter.

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Se um rapaz se julga filho amoroso e modelar, terá dificuldade
em aceitar o fato de experienciar sentimentos de raiva ou rivalidade
com relação ao pai. Tentará explicar de todas as formas não se tratar de
sentimentos negativos. Procurará deformar a significação de fatos que são
evidentes para os não envolvidos na situação ou para quem tiver estrutura
mais flexível do self.
Hogan esquematizou em oito itens o mecanismo fundamental
ameaça-defesa:
Experiências percebidas como incongruentes com a estrutura do self
geram ameaça.
Ansiedade é a resposta emocional à ameaça.
Levado pela dinâmica da ansiedade, procura o self organizar a defesa
contra a ameaça.
A defesa (negação ou distorção da experiência) tenta reduzir a
incongruência entre a experiência e a estrutura do self.

A reação defensiva consegue reduzir a consciência da ameaça, porém


não a ameaça em si mesma. (Manobra de avestruz: enterrar a cabeça na
areia, fingindo subtrair-se, desta maneira, ao perigo.)
O comportamento aumenta a sensibilidade à ameaça.

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Ameaça e defesa tendem a repetir-se em cadeia, ampliando-se o
campo dos distorcidos. Contudo, não consegue alastrar-se indefinidamente:
a cadeia defensiva é limitada pela necessidade de reconhecer a realidade.
Em situação defensiva, qualquer fato é mais facilmente percebido
como ameaçador, pois o indivíduo pressente a fragilidade da estrutura
artificial do self.
17. Em certas condições, mormente se houver completa ausência
de ameaça à estrutura do self, experiências incoerentes com esta estrutura
podem ser percebidas e examinadas, e a estrutura do self revisada ou
corrigida a fim de incluir tais experiências.
Ao notar que as experiências verbalizadas são aceitas como realidades
acontecidas – sem condenações ou desaprovações, caso forem negativas
ou simplesmente não do agrado do interlocutor – o indivíduo sente-se
livre para adentrar na exploração das vivências. Desta forma, estende-se o
conceito do self, integrando novos elementos.
Retomemos o exemplo do moço com autoimagem de filho modelar.
Vendo-se aceito, poderá reconhecer que ama e admira o pai, mas que,
apesar disso, o “velho” às vezes é chato, quadrado... E que em algumas
coisas “já era “... Percebe, então, que os dois sentimentos podem coadunar-
se perfeitamente.
Quais os fatores que possibilitam a reorganização da estrutura do self?
• apreensão do novo material pelo self (facilitando o terapeuta ou
possível interlocutor a exploração);
• aceitação, da parte do psicoterapeuta ou interlocutor, de todas as
experiências, atitudes e percepções da pessoa. (Aceitação quer
dizer reconhecimento tranquilo de que existem, não supondo
necessariamente aprovação.)
Observa Rogers (1951, p. 500) que, não raro, a aceitação de
experiências inconsistentes ocorre no intervalo das entrevistas.

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Já que a ausência de ameaça é a condição fundamental para alguém
poder encarar experiências contraditórias, conclui-se ser possível ao
indivíduo chegar, em princípio, sozinho, a esta atitude, ao menos nos casos
de ameaças menores. Assim, um autor pode, num primeiro momento,
negar base às críticas feitas a obra sua. Contudo, ponderação mais calma
talvez o leve a aceitar-lhe a justeza total ou parcial.
Postula Rogers a necessidade de análise mais acurada das condições
necessárias à reorganização do conceito do self e à assimilação de
experiências contraditórias (1951, p. 519). Esta observação de meio século
atrás, continua válida hoje, apesar dos pequenos avanços nesta área
sumamente complexa.
18. Quando o indivíduo percebe e aceita num sistema consistente e
integrado todas as experiências, será necessariamente mais compreensivo
para com os outros e os aceitará melhor como indivíduos separados,
diferentes.
Esta proposição constitui descoberta inesperada da terapia centrada
no cliente, descoberta confirmada pelas investigações de Sheerer.
Qual a razão dessa atitude compreensiva com os outros? A ausência
de ameaça, consequentemente, a eliminação de defesa. O indivíduo seguro
de si (Cf. Rogers, 1961, p. 118, 175), habitualmente capaz de auscultar
o organismo e captar e reconhecer o que realmente nele ocorre: “Não
havendo necessidade de se defender, não existe razão de atacar. E não

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havendo necessidade de atacar, o outro é percebido como realmente é:
indivíduo separado (“a separate individual”), agindo na linha do seu pensar,
baseado no próprio campo perceptivo” (Rogers, 1951, p. 521).
Resulta desta situação psicológica liberdade, espontaneidade de ação e
reação.”Ser espontâneo é ser capaz de reagir diretamente ao quadro total ou,
como se diz tecnicamente, à “configuração figura-base”. A espontaneidade é
o eu ativo integrando-se na figura-base” (Rollo May, 1972, p. 93).
Rogers consagra várias páginas à autoaceitação (“self-acceptance”) e à
aceitação dos outros (1970, p. 24-27; Cf. 1961, p. 87-90), afirmando: “Temos aqui
base teórica para relações interpessoais, de grupo ou internacionais salutares”
(1951, p. 522). Consagrou ele, com êxito, os últimos anos de existência (faleceu
em 1987) à reconciliação de grupos antagônicos: negros e brancos nos Estados
Unidos e na África do Sul; de católicos e protestantes na Irlanda; de comunistas
e democratas na Europa (Polônia). Sua hipótese mostrou-se válida.
19. À medida que a pessoa percebe e aceita em sua autoestrutura
mais experiências, verifica estar substituindo seu sistema atual de valores –
baseado amplamente em introjeções deformadamente simbolizadas – por
contínuo processo organísmico de avaliação.
Indivíduo aberto à realidade terá self constituído de duas fontes de
experiências:
• Experiências introjetadas devido à influência social: pais, parentes,
amigos, convenções sociais...
• E experiências vividas diretamente.
O valor das primeiras deverá ser testado à luz da evidência pessoal:
evitar a mentira é experenciado por mim como elemento capaz de enaltecer
meu self? Contribui o trabalho, de fato, para meu crescimento? Tem a
prática da religião, realmente, validade para mim?
“Os maiores valores para o enriquecimento do indivíduo aparecem
quando a todas as experiências e atitudes é permitida simbolização, e
quando o comportamento vem a ser a significativa e equilibrada satisfação
de todas as necessidades, necessidades essas acessíveis à consciência”
(Rogers, 1951, p. 524).

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Mas não terminará esse contínuo processo pessoal de avaliação numa
anarquia social? Não, já que todos os indivíduos possuem basicamente
as mesmas necessidades, inclusive a de ser aceito pelos outros. O que
resultará não será anarquia, mas elevado grau de concordância e genuíno
sistema socializado de valores.
Finaliza o autor a décima nona proposição com afirmação-resumo
importante:
“Uma das últimas e definitivas consequências da hipótese
- da confiança no indivíduo,
- e em sua capacidade de resolver os próprios conflitos
é a emergência de sistemas de valores únicos e pessoais para cada
indivíduo, sujeitos a alterações com a evidente mudança da experiência
organísmica, sendo, contudo, ao mesmo tempo, profundamente
socializados, possuindo, no essencial, elevado grau de semelhança” (Id. ib.).

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Congruência-incongruência
Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como
adorasse a mulher, não se vexava de dizer muitas vezes; achava que Virgília
era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades sólidas e finas: amorável,
elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era,
chegou a porta escancarada.

Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava-lhe a


glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela
unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi
que a ambição dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o voo.

Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras


engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido
de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente
havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la.

— Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode imaginar o que tenho
passado. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito! Soberbo
cenário, vida, movimento e graça na representação (...) Não há constância de
sentimentos, não há gratidão, não há nada... nada... nada...

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar.

Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves


recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois natural.
No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos
homens; conversava, chasqueava, e ria e riam todos. (Machado de Assis)

À relação das 19 proposições, acrescentou Rogers, posteriormente,


mais três. Embora presentes, há muito tempo, em suas obras, só mais mais
tarde deu-lhes o autor maior destaque, sem receberem formulação tão
perfeita como as anteriores (Cf. Bischof, 1968, p. 432 e Rogers, 1976, cap. II).

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20. A vigésima proposição refere-se ao interesse pela estima social.
Com o desenvolvimento do self, surge e cresce a necessidade de
consideração positiva dos outro, isto é, “todos sentem a necessidade de
serem apreciados pelos outros, sobretudo por certas pessoas julgadas
importantes. Pode mesmo ocorrer que tais ‘pessoas-critério’ se tornem força
diretriz mais forte que o processo de avaliação organísmica” (Rogers, 1966, I,
p. 220) o que, evidentemente, prejudica o impulso do crescimento pessoal.
21. Necessidade de autoestima ou consideração positiva de si.
Paralelamente à necessidade de estima social, desenvolve-se a
necessidade de autoestima (‘self-esteem’) ou ‘consideração positiva de
si’. “Embora a experiência de sentir-se objeto da consideração positiva da
parte dos outros pareça preceder a experiência da consideração positiva de
si, esta última experiência leva a uma atitude positiva de si que não é mais
diretamente função das atitudes dos demais. O indivíduo assume a respeito
de si mesmo o papel de pessoa-critério.” (Id. ib.)
O processo de autoestima, baseado, primeiramente em critérios
externos, depois em pontos de vista pessoais, aparece em Lucien de “O
Muro” de Sartre (1948, p. 217):
“Lucien, pela segunda vez, sentiu-se cheio de respeito por si mesmo.
Mas desta vez não tinha necessidade dos olhos de Guigard: era a seus
próprios olhos que ele parecia respeitável.”
22. Atitude de valor pessoal.
A exigência de estima social e autoestima desenvolve atitude de
valor pessoal (‘an attitude of selfworthiness’). Assim, a consciência de ter
algum valor ajuda a reforçar a autoestima e a possibilidade de alcançar
estima social. (Bischof, 1968, p. 432.)
Comportamento orientado por elementos introjetados será
denominado “valorização condicional”. O ideal, dificilmente ou nunca
atingido, é o nível de valorização incondicional.

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Observa Rogers (1978, p. 67) que a sequência dessas três proposições,
importantes no desenvolvimento da personalidade, constituem mérito de
Standal.
Rogers termina o último capítulo de um de seus livros fundamentais
(1951, p. 532), dizendo “ser a teoria basicamente de caráter fenomenológico,
dependendo muito do conceito do self como elemento explicativo.
Apresenta o ponto final do desenvolvimento como congruência entre
o campo fenomenal da experiência e a estrutura conceptual do self. Se
esta situação chegasse a realizar-se completamente, representaria estado
livre não só de tensão interna e de ansiedade, como de tensão potencial.
Isto significaria o grau máximo de adaptação orientada realisticamente;
significaria a formação de um sistema de valores tendo considerável
identidade com o sistema de qualquer outra pessoa bem ajustada”.

Wolf-Ruediger Minsel (1975, p. 17-22) distribui as 19 proposições


originais de Rogers como segue:
Relação indivíduo-ambiente: 1, 2, 3, 7.
O “self “: 8, 9, 10, 11.
Adaptação e adaptação falha: 4, 14, 15, 16.
Comportamento e suas causas: 5, 6, 12, 13.
Mudança da experiência e do comportamento: 17, 18, 19.

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CAPÍTULO III

FUNCIONAMENTO ÓTIMO
DA PERSONALIDADE: VIDA PLENA

A grandeza d’alma consiste menos em se


elevar e avançar do que em se ordenar e
se circunscrever. (Montaigne, III, 1961, p. 355).
A vida do indivíduo nada mais é do que
o dar nascimento a si mesmo.
Em verdade só deveremos ter nascido
completamente ao morrer.
(Fromm, 1959, p. 39).
Minha fantasia é rede planetária de indivíduos ajudando-se
mutuamente a vir-a-ser mais plenamente humanos.
(Satir, 1981, p. 15).

Vida plena, funcionamento ótimo da personalidade, eis uma das


constantes dos escritos de Rogers. Consagra-lhe – para citar algumas
fontes – dois capítulos inteiros de “On Becoming a Person” (Cap. 6. “O que
significa tornar-se pessoa”, e 9: “O funcionamento pleno da personalidade”),
retomando o tema em seu livro “Freedom To Learn” (Cap. 14), com o
expressivo título: “O objetivo: a pessoa funcionando plenamente.” Os três
capítulos apresentam essencialmente as mesmas ideias.
A experiência terapêutica obrigou Rogers a rejeitar a ideia de igualar
vida plena com satisfação, felicidade, espécie de nirvana ou satisfação.
Consiste tampouco na redução das tensões, numa situação
homeostática.
Sugerem esses termos haver-se alcançado o objetivo, a meta da
existência. Ora, a meta nunca é atingida:
vida plena é processo, e não estado fixo;
vida plena é direção, e não ponto de chegada.

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“Os indivíduos se movem, através da mudança, como estou
começando a perceber, não de um ponto fixo ou homeostase para
nova fixidez, embora esse processo seja possível; mas, de longe o mais
significativo ‘continuum’ é da fixidade para a mudança, da estrutura rígida
para a fluidez, da ‘stasis’ para um processo” (Rogers, 1961, p. 131).
O autor define assim o funcionamento ótimo da personalidade:
“Vida plena – do ponto de vista da minha experiência – é o processo,
o movimento numa direção escolhida pelo organismo humano quando
interiormente livre de se mover para qualquer rumo” (Id., p. 187).

Vida plena é processo, é direção.


Faz décadas, escreveu belamente Fromm que a vida do indivíduo
consiste em dar, incoativamente, nascimento a si mesmo. Na hora da morte
deveria o nascimento estar completo. Lamenta morrer a maioria sem esse
parto ideal de si.

I. Características de pessoa de funcionamento ótimo

Podemos reconhecer se estamos no processo continuamente renova­


dor, avançando no caminho da plenificação das nossas potencialidades? Sim.
Rogers nos fornece uma série de características reveladoras. Eis
algumas:

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1. Crescente abertura à experiência.
O traço fundamental, da qual os demais não passam de meras
decorrências, consiste na abertura à realidade, à experiência.”No sistema de
Carl R. Rogers, o ponto de partida é a concepção da realidade” (Zavalloni,
s/d, p. 124).
Numa pessoa funcionando plenamente, qualquer estímulo tem livre
trânsito no organismo, isto é, não é rejeitado nem distorcido. Merece exame
mais ou menos cuidadoso de acordo com a importância relativa que possa
ter para o indivíduo. Este procura reagir do modo mais conveniente para
ele, segundo a percepção do momento.
A pessoa é capaz de escutar-se, tomar consciência de seus estados
psíquicos, quer negativos: desânimo, irritabilidade, inveja, ânsia...quer
positivos: ternura, admiração, otimismo, satisfação, alegria, entusiasmo...
“É livre de viver subjetivamente os sentimentos como nela aparecem, e
também livre de ser consciente de tais sentimentos. É mais capaz de viver
plenamente as experiências de seu organismo, em vez de as excluir do
campo da consciência” (Rogers, 1961, p. 188).

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O grau de abertura à experiência revela o grau de maturidade
da pessoa. Maturidade e abertura à experiência parecem ser termos
equivalentes em Rogers: “Há maturidade psíquica quando o indivíduo tem
percepção diferenciada e realista, isto é, quando não recorre à defesa:
• assume a responsabilidade de sua individualidade;
• assume corajosamente suas convicções;
• julga de modo autônomo, com base em suas próprias experiências;
• trata os outros como indivíduos diferentes dele mesmo;
• tem sentimentos positivos tanto com relação a si como aos outros”
(Rogers, 1966, 1, p. 191).
A abertura à experiência abre um leque de perspectivas sempre
mais amplo. A pessoa em processo de crescimento não é rotineira, não
trilha eternamente os caminhos batidos. Com Richard Bach, pode indagar
(1977, p. 48): “Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota
que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na
vida?”

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Eis expressivo caso de maior abertura à experiência, tendo como
consequência vida mais satisfatória:

“Uma colega de trabalho contou-me que era muito criticada de


não acompanhar o marido aos passeios e jantares, por sentir-se
cansada.
Vivia ela tentando sair para ‘agradar’ a todos: ao marido, à mãe,
à tia, mas aquilo era um sacrifício para ela em vez de um prazer.
Um dia, resolveu fazer uma pausa e refletir sobre o caso:
Seu dia começava às 6 horas da manhã: atendia os filhos, ia lecionar
40 crianças; voltava para casa, atendia os filhos, preparava os
trabalhos de aula para o dia seguinte e, assim, ia até meia-noite.
Feita esta consideração sobre seus dias, verificou que era muita
tarefa por dia, e não havia porque não falar ao marido que era
cansaço mesmo que sentia o que lhe tirava a vontade de passear.
Contratou mais uma empregada, podendo, então, dar com
satisfação seus passeios, não mais violentando-se para agradar
aos outros”(I.N.R.).
A fim de apreendermos melhor a noção de abertura à experiência
e suas consequências, eis o exemplo de pessoa fechada à realidade de
sua experienciação orgarnísmica, acarretando comportamento não só
inadequado, mas até ridículo.

Estava-se jogando víspora na casa de João Maciel da Mata


Gadelha, “conhecido em Fortaleza por João da Mata” (Caminha,
A., s/ d, p. 17-31, passim).
— Víspora! Saltou de repente um rapazola de óculos, bigodinho
fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara.
Toda a gente o conhecia – era o Zuza, quintanista de Direito, filho
do coronel Souza Nunes. (p. 17.)
Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de
fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua.

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À direita, mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos...
Era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa
não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que
entrevira escândalos na vida privada de D. Teresinha.
Ao pé de D. Teresinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de
João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça,
morena-clara, olhos cor de azeitona, carnes rijas, e cuja atenção
volvia-se insistentemente para o Zuza. (p. 17-18.)
A sua grande paixão (de João da Mata), o seu fraco era a Maria
do Carmo, a menina de seus olhos, a afilhadinha; queria um bem
extraordinário à rapariga e tratava-a com um carinho lânguido de
amante apaixonado no supremo grau de amor incondicional. (p. 22.)
João começou a intranquilizar-se com as frequentes visitas do Zuza.
Por fim notara certas tendências do estudante para a pequena,
certo quebrar de olhos, uma como insistência atrevida em dizer
coisas por metáforas... Isso o incomodava, punha-lhe pruridos na
calva, enraivecia-o.
Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor
da luz, gritou víspora! numa voz triunfante e clara, João esteve
quase atirando-lhe com o cartão. Vieram-lhe desejos imoderados
de estourar, de dar escândalo, trêmulo, nervoso, a semicalva
reluzente de suor.
Sim, senhor, disse secamente, devolvendo o cartão. Vamos à
última...
Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. A Campelinho
suplicou mais uma partida, o Loureiro também foi de opinião que
se jogasse ainda uma vez; todos, enfim, desejavam continuar, mas
João da Mata opôs-se tenazmente: era tarde, tinha muito que
escrever.
Zuza foi o último a retirar-se, fitando em Maria um olhar embebido
de ternura.

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Assim que se foram os habitués do víspora, João da Mata
desabafou: – Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem dúvida
abusar de sua confiança, plantar a desordem no seio da família,
mas estava muito enganado. Ali era casa de gente pobre e
honesta. Estava muito enganadinho, seu pelintra.
— Mas eu sei quem é a culpada, acrescentou furioso, a culpada é
a Sra. D. Maria do Carmo porque se atreve a olhar para ele!
Aquilo não podia continuar, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés
em casa sob pretexto algum. Não se portava sério? Pois então –
fora pra rua.
E colérico, soprando o bigode, sacudindo os braços, esmurrando
a mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se D.
Teresinha.
Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre a
mesa de jantar, onde ardia uma vela de carnaúba.
Debalde D. Teresinha aconselhava, aflita, que não desse escândalo,
que fosse dormir.
João da Mata, porém, estava fora de si, tinha a cabeça a arder
como uma brasa.
Após de invectivar diretamente Maria do Carmo, terminou, depois
de uma pausa, com ternura:
— Vá dormir, ande...
Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher, na alcova.
— Pois não achas, Teté, dizia ele em camisa de dormir, aconchegado
a D. Teresinha,... não achas que é um desaforo aquele patife vir à
nossa casa para namorar?
— Não, que tolice! O Zuza até é um rapaz sério... Vem, coitado,
porque nos estima.
— É boa! Fez João. Então vem porque nos estima, hein? Esta cá
me fica. Sra. Teté, esta cá me fica!

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— Homem, trata de suas hemorroidas que é melhor...
— Ora, sabe o que é mais? Você é outra!
E deram-se as costas, fazendo ranger a cama.
2. Vida progressivamente mais existencial.
Como decorrência de maior receptividade da experiência, aparece
comportamento mais diretamente relacionado com a situação presente ou
ditado por ela.
A pessoa é capaz de avaliar, por ex., um livro ou um discurso pelo que
é, sem deixar-se influenciar (ao menos notavelmente) pelo fato de o autor
ou orador ser ou não de sua religião, partido político, etc.
Percebe facilmente a novidade de toda situação, já que tanto
estímulos internos como de fora têm livre trânsito no campo da consciência.
Por isso, ela, em fluxo perpétuo, não sabe o que será e o que fará amanhã.
O curso é o mesmo, contudo, as águas do rio da vida podem tornar-se mais
claras ou turvas; mais calmas ou turbulentas; mais lentas ou impetuosas.
Pessoa com amplo grau de abertura foge à exatidão das predições. Sabe-
se, porém, que agirá com maturidade.
Diz Engler não “necessitar de estruturas preconcebidas para
interpretar cada evento, já que é flexível e espontânea” (1996, p. 336).
Pessoa rígida e insegura não consegue dispensar o corrimão para avançar
na escada da existência.
Tal indivíduo apresentaria as características de receptividade, fluidez,
capacidade de adaptação. Benjamin Franklin parece ter sido uma ilustração
realmente extraordinária de abertura à experiência e de consequente
capacidade de viver adequadamente em função da situação pessoal e
social do momento (Cf. Burlingame, R., 1959).

O professor primário de Fagundes Varela, ao contrário, agiu com


relação ao jovem versejador guiado por preconceitos, isto é, por
dados anteriores à experiência do momento: o mestre-escola, em
vez de animar, desencorajava o menino em seus ensaios, dizendo
não possuir ele talento poético. O garoto, porém, não desanimou.

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Certo dia, solicitou a apreciação de dois sonetos: um levava o
nome de Camões e o outro, o dele, Fagundes Varela. O professor
começou a leitura do último: achou-o, como sempre, falto de
verdadeira inspiração, cadência deficiente, rimas forçadas... Ao
ler a composição camoniana, a fisionomia se lhe iluminou, não
poupando encômios aos catorze talentosos versos.

Varela partiu satisfeito: havia assinado um soneto de Camões e atribuíra


ao compositor de “Os Lusíadas” uma de suas próprias composições...
Para Rogers, “quem vivesse de maneira existencial, encontrar-se-
ia em estado de fluxo contínuo. Os únicos elementos constantes de sua
personalidade e de seu eu seriam as capacidades e limites fisiológicos do
organismo e as necessidades organísmicas – contínuas umas, intermitentes
outras – de sobrevivência, de alimentação, de bem-estar, de afeição, de
relações sexuais, etc. As características mais constantes da personalidade
consistiriam precisamente num estado de abertura à experiência e num
esforço flexível e equilibrado em vista de prover às necessidades presentes
em condições dadas” (1966, 1, p. 300).
Pessoa assim enfrenta as situações da vida como o bom motorista a
estrada: atento às condições do terreno, reage, a cada instante de modo a
assegurar a melhor viagem ou passeio possível; isto acontecerá na medida
em que for capaz de tomar a opção mais acertada a cada momento,
consequência do grau de atenção, do grau de abertura à realidade.
Lembra Geenwald o evidente – muitas vezes esquecido – já que
a vida pertence a cada um, cada qual deverá cuidar dela, pois somos os
primeiros e últimos responsáveis por nossa existência.
Giordani (1997, p. 136) observa que essa forma de conceber o
processo da vida humana é típica do existencialismo.
3. Organismo digno de confiança.
Outra consequência da atitude receptiva em face da realidade é
a crescente confiança no organismo: “Quando aberto à experiência, o
indivíduo começa a achar o organismo mais digno de crédito” (Rogers,
1961, p. 119).

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A pessoa sabe que o organismo recolheu o máximo, talvez todos
os dados da situação. Por isso, poderá reagir com certeza. Voltemos à
comparação com o motorista: conhecendo-o exatamente sua habilidade e
resistência na direção, de um lado, e as condições do carro e da estrada, do
outro, poderá calcular com muita aproximação o tempo que levará para ir
de Porto Alegre a Florianópolis, por exemplo, e irá mais confiante.
“Perfeitamente aberta a sua experiência, teria a pessoa acesso a todos
os dados da situação: as exigências sociais, suas próprias necessidades –
complexas e, por vezes, antagônicas – a lembrança de situações similares, a
percepção do caráter único e novo da situação, etc. A “Gestalt” total de cada
situação seria, é óbvio, extremamente complexa. Entretanto, esta pessoa
poderá permitir a seu organismo total – com a participação de sua percepção
consciente – de se abrir a qualquer estímulo, a toda necessidade e a qualquer
exigência. Poderia avaliar a intensidade e a importância de cada um desses
fatores e, sobre a base de todos estes elementos, teria possibilidade para
determinar a linha de comportamento mais apta a satisfazer todas as
necessidades em situação dada” (Rogers, 1966, 1, p. 301).
Em tais condições, seria o organismo guia competente e seguro
no grau máximo. O autor o compara a calculadora eletrônica. É como se
todos os elementos disponíveis do organismo – impressões sensoriais,
lembranças, experiências passadas, tendências convergentes ou
discordantes, sentimentos, ânsias, etc. – fossem convertidos em dados para
o computador. Este trabalharia a multiplicidade de elementos, pesando
o valor relativo de cada um deles, e quase instantaneamente indicaria a
solução mais favorável a fim ele tirar o melhor partido da situação.
Na prática, porém, não atingimos esse grau de perfeição, e isso por
três razões:
1ª Devido à inclusão de dados inexistentes na realidade: se, ao somar
meus depósitos bancários, não me lembrar de um cheque passado dias
atrás, terei ideia errada de minhas disponibilidades financeiras por haver
incluído na soma um elemento que na realidade não existe mais.
2ª O organismo às vezes se engana por excluir ou, simplesmente, por
omitir algum dado: caso esquecesse, ao somar meus depósitos bancários, a

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inclusão de um deles. Uma senhora contou que o marido não queria tomar
medidas contra o filho maconheiro, pois, segundo ele, em sua família, essa
infâmia simplesmente não podia acontecer.
3ª Finalmente, ocorrem, com maior ou menor frequência, distorções
de dados da experiência. Foi o caso de João da Mata, citado páginas atrás.
Se o organismo aberto à realidade não deixa de estar exposto a
tais falhas, prontamente, contudo, as poderá corrigir, justamente devido à
atitude amplamente receptiva. É como o navio a registrar prontamente o
desvio da rota: esse registro possibilita constante retificação do rumo.
No plano emocional, não tardará, por ex., em reconhecer sinais de
ciúme nas censuras feitas ao namorado de uma senhorita.
Na área intelectual, verificam-se casos interessantes nos indivíduos
chamados por Alfred Binet de “tipos inconscientes ou de inspiração”. O
grande matemático francês Poincaré é uma ilustração: preocupado com um
problema, sem encontrar solução, abandonava-o. Horas ou dias depois,
estando a fazer compras ou passeando pela cidade, inesperadamente
entrevê a saída. Em casa, senta-se e completa o trabalho. A atitude receptiva
à experiência possibilitou que o organismo continuasse a elaborar a solução
(Cf. Binet, A., 1942, p. 258 e ss. ou Justo, 1997, Cap. VI).
Por isso, observa Rogers, “parece dever atribuir-se à mesma complexa
seleção organísmica o comportamento da pessoa criativa. Ela se surpreende
a mover-se em certa direção muito antes de poder dar base inteiramente
consciente e racional a isso. Neste período, simplesmente confia na reação
organísmica total” (1969, p. 287).
Harinan (1981, p. 9-10), estudioso do conhecimento intuitivo, da
criatividade e experiência subjetiva, afirma ter nossa mente um “plano”.
Olhadela retrospectiva nos convencerá que esse “plano” atuou, quiçá
como fator não consciente ou superconsciente, em decisões passadas.
Adler, ex-discípulo de Freud, insistiu muito no “plano de vida’’,
substituindo, posteriormente esse termo por “estilo de vida”. Um dos
seus livros leva o título de “O Sentido da Vida”, tema aprofundado, como
sabemos, nas últimas décadas, por Victor Frankl, transformando-o numa
das vigas mestras de sua visão da pessoa.

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É evidente que tais pontos de vista “somente podem ser sustentados
por pessoas que veem as facetas não conscientes da nossa vida sob luz
positiva” (Rogers, 1977, p. 246).
Numerosos experimentos, longa experiência terapêutica e cuidadosas
observações levaram Maslow a dizer que “o organismo humano é mais
digno de confiança e mais capaz de autogoverno do que habitualmente se
tem admitido” (1979, p. 366).
Já dizia Camões, talvez, com algum exagero
“... o coração pressago nunca mente”
(Os Lusíadas, I, 84).
4. Centro interno de avaliação
Pessoa aberta à experiência toma consciência gradativamente mais
clara de ser ela a fonte das decisões, apreciações e escolhas.
Orientar-se-á progressivamente mais por si mesma e menos pelos
outros, pelo que pensarão e dirão ou a fim de lhes agradar. Em crianças, até
certa idade, é comum este comportamento dependente:

“Ela tinha tamanha ternura por mim que eu acho que ficava bonzinho
só para ela não se decepcionar comigo” (Vasconcelos, s/d, p. 110).

O processo de tornar-se pessoa supõe gradual autonomia de atitudes


e reações. Um cliente escreve na última etapa de terapia:

“Finalmente senti que devia simplesmente começar a fazer o que


queria fazer, e não o que pensava devia realizar, e sem olhar o
que os outros achavam que eu devia fazer. Foi uma reviravolta
total em minha vida. Sempre senti dever fazer coisas porque as
esperavam de mim ou, mais importante ainda, para gostarem de
mim. Mandei tudo isso às favas! De agora em diante, quero ser
eu mesmo – rico ou pobre, bom ou mau, racional ou irracional,
lógico ou ilógico, célebre ou desconhecido. Grato fico ao senhor
por me haver ajudado a redescobrir o conselho de Shakespeare:
“Sê verdadeiro a ti mesmo” (Rogers, 1961, p. 170).

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O velho Sêneca (04-65 d. C.) dava o seguinte conselho a Lucíolo:
“Eis a promessa que me deves fazer: toda vez que estiveres
rodeado de pessoas que te querem persuadir de que és
desgraçado, pensa não no que ouves, mas no que sentes; nada
decidas senão de conformidade com teu sofrimento; interroga-te
a ti mesmo, tu que conheces teu caso melhor do que ninguém:
existe no meu caso mal real ou quase tudo não passa de odioso
renome? Pergunta-te: será que não estou a me atormentar e a
me afligir sem razão? Talvez não haja mal de verdade: eu é que o
fabrico. (...) Sim, meu caro Lucíolo, nós nos rendemos prontamente
à opinião” (1962, p. 61-62, passim).

Dois princípios basilares da teoria rogeriana — em destaque no


texto foram, portanto, exarados há dois milênios atrás. Autores modernos
redescobrem, não raro, em contexto mais amplo, cientificamente mais bem
comprovado, judiciosas observações dos ancestrais.
Em vez de ser barco a vela, dependente dos ventos, a pessoa em
processo de funcionamento mais pleno é semelhante a navio com motor
próprio a impulsionar-lhe a existência, em condições de manter-lhe o rumo
desejado, não obstante correntezas e ventos menos favoráveis.
Filósofo-sociólogo espanhol, José Ortega y Gasset, lembra que “a
vida nos é disparada à queima-roupa. (...) depois de nascer, temos de sair
nadando, queiramos ou não” (1960, p. 81). Muitos, contudo, se deixam
levar simplesmente pela correnteza. A vida não nos é dada feita: “Cada um
de nós tem de fazê-la para si, cada qual a sua. Essa vida que nos é dada, nos
é dada vazia, e o homem tem de ir enchendo-a, ocupando-a” (Id. ib.). E a
grande tarefa da existência: enchê-la. Enchê-la de quê? Como?
Cliente de Rogers (1961, p. 120-122), em corajosa abertura à
experiência, dera-se conta de que a solução do problema “realmente
depende de mim”. Reconhecera que isto implicava na “modificação do
modelo que tinha, acho eu”.

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Terapeuta: Espécie de alteração de um modelo significativo.
Cliente: (pensa, depois, cautelosamente, porém, com convicção):
“Eu, eu penso, não sei, mas tenho a sensação de que estou para começar a
fazer mais do que sei que devia... Há tantas coisas que tenho necessidade
de fazer. Parece que há tantas avenidas da minha vida em que devo ensaiar
novas modalidades de comportamento, mas, talvez, posso ver-me fazendo
um pouco melhor várias coisas.”
Espero que este excerto tenha dado alguma ideia da energia
experienciada por alguém sentir-se pessoa única, responsável por si
mesma e, ao mesmo tempo, o mal-estar que acompanha esta aceitação de
responsabilidade. Reconhecer que “eu sou o único que escolhe” e “sou o
único que determina o valor de uma experiência para mim” é, a um tempo,
constatação revigoradora e assustosa.
Eis experiência narrada por estudante universitária de Porto Alegre,
experiência que lhe permitiu tomar nas mãos o comando do barquinho da
vida:

“Quando completei quinze anos, ganhei uma viagem para o


exterior. Nos primeiros dias, senti uma sensação de desamparo,
mas depois vi que havia chegado a hora de tomar decisões, que
ali não contava com papai e mamãe, para me ajudarem a decidir.
Eu estava além do oceano, e para toda escolha e avaliação e juízo
que eu fosse elaborar só poderia contar comigo mesma.
Reagi ao desamparo inicial e me coloquei como centro da situação:
quem gosta de mim sou eu mesma.
Tenho que agir, decidir e avaliar, não farei nada que me possa
prejudicar, mas usarei o bom senso e farei uma tomada de
consciência frente a qualquer experiência que surgir.
Confesso que fui muito feliz, porque me senti como alguém que
se encontrou a si mesma.”
Esta atitude, a de assumir a própria existência, é insistentemente
aconselhada por Raul de Leoni:

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Vai pelos próprios passos, num assomo
De quem procura por si próprio o fundo

Da eterna sensação que as coisas têm.


Existe, em suma, por ti mesmo, como
Se antes da tua sombra sobre o mundo
Não houvera existido mais ninguém.

A devida canalização das energias em função do objetivo geral da


existência ou em vista de finalidade mais limitada, supõe, no dizer de Kirk
(1993, p. 134), adequada combinação entre as tendências expansivas e
constritivas, conceitos explorados por esse autor. A fim de mover usina, as
águas “expandidas” do rio hão de ser devidamente canalizadas, “constritas”.
Algo parecido ocorre no psiquismo de pessoas autorrealizadas, melhor: em
processo de autoatualização, pois somente as coisas, os objetos têm o ser
“já dado e obtido”, na expressão de Gasset: ser homem é ser programa,
plano em execução, somente interrompido ao morrer.
5. Vontade de ser um processo.
No início do presente capítulo, já aludimos a esta importante
característica da pessoa que funciona em plenitude ou, melhor dito: em
direção da plenitude.
Pessoa aberta à realidade não se considera ser produto acabado,
mas processo, isto é, ser em contínuo aperfeiçoamento. Não se propõe
objetivos fixos, porém, alvos que lhe sirvam de pontos de apoio a metas
ulteriores.
Rogers supõe, escreve André de Peretti, “ser a vida psíquica equilibrada
precisamente vida na qual não há fixação em nenhum momento. Nossa
personalidade é estruturação suficientemente maleável para se decompor e
reconstituir de acordo com novas necessidades”(Peretti, 1966, p. 40).
Como se pode ver, a teoria rogeriana não propõe como ideal de vida
plácida, acomodada. Esta não corresponde ao dinamismo organísmico.
O ideal é “pessoa em mudança” (cf. Rogers, 1970, cap. 5:”The Person in
Change: The Process as Experienced”).

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Certo indivíduo, após tratamento exitoso, descreve, como segue, a
fluidez ou vivência existencial:
“Toda esta série de experiências, e a significação que nela fui
descobrindo, parece haver-me lançado num processo que é, a um tempo,
fascinante e, às vezes, assustador. Parece-me significar que eu me deixe levar
por minhas experiências numa direção que vai para diante, para objetivos que
apenas consigo entrever obscuramente ao procurar compreender ao menos
a significação corrente desta experiência. Minha sensação é de flutuar numa
complexa torrente de experiências, com a fascinante possibilidade de procurar
compreender sua complexidade sempre mutável” (Rogers, 1961, p. 123).
Chama o autor a atenção sobre sua convicção de que este processo
não se verifica somente em terapia, mas ocorre em qualquer clima
psicológico favorável.
É a antítese do ideal de existência cantado em verso por Virgílio
Lopez Lemus, aedo cubano:

Feliz quem vive num país adormecido


Junto a um lago ou junto ao mar...
Viver na paz do Nada,
como se fosse um morto
Que não espera retornar.

Keen (1979, p. 73) ensina que “ser livre é caracterizado pela


reformulação criativa de significações à medida que nos modificamos, o
que nos deixa, portanto, num estado de fluxo entre o que fomos, somos e
nos estamos tornando”.

II. Processo de crescimento

1. Da rigidez à fluência.
Pessoa empenhada em “tornar-se ela mesma”, quer individualmente
(Rogers, 1961, Cap. 7), quer em grupo (Rogers, 1970, Cap. 2), atravessa,
neste processo, certo número de fases que, em seus altos e baixos, vão

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de maior rigidez a maior flexibilidade, do imobilismo à mudança. A este
processo chama Rogers de “continuum”. Alerta ele para o fato de que estas
fases são como que imagens fixas selecionadas de filme animado.
Em cada etapa do processo examina o autor sete elementos ou
aspectos organísmicos (Cf. Rogers, 1961, p. 156-58):
• grau de relacionamento com os sentimentos,
• grau de incongruência,
• relação com a experiência,
• capacidade de autocomunicação,
• rigidez das estruturas pessoais,
• atitude em face dos problemas,
• modo de relacionamento com os outros.
Por “ser verdadeiramente difícil distinguir esses elementos uns dos
outros” (Ito, 1971, p. 139), apresentamos aqui somente visão esquemática
das diferentes fases, aliás suficiente para o nosso objetivo, que não é o da
investigação, mas de compreensão da teoria rogeriana. O próprio autor já
ofereceu esquema simplificado, reduzindo as etapas a três: inferior, média e
superior (Puente, 1970, p. 129). Quando as condições atitudinais estiverem
presentes no terapeuta ou colega de diálogo, observar-se-á, na maioria dos
casos, progressiva abertura ao campo fenomenal.
a) Tomemos, como ponto de partida, pessoa “em que se verifica sério
bloqueio na comunicação entre o self e a experiência’’. Foi o caso do aluno,
grave problema em aula, encaminhado ao SOE da escola. À pergunta do
psicólogo como ia, respondeu: “Vou bem em tudo.”
Nestas condições psicológicas, observa Marquet (1971, p. 72), “o
indivíduo se recusa a estabelecer relações profundas com o outro, pois este
lhe aparece como ameaça’’.
b) Se, porém, experienciar clima de aceitação, já lhe será possível
matizar a situação psicológica e os problemas. Retornemos ao exemplo do
aluno acima.

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Depois que o psicólogo lhe explicou a finalidade do SOE, o semblante
do rapaz se tornou menos desconfiado, e reconheceu:
— Para ser franco, em algumas matérias não vou lá muito bem.
Responsabilizou pela situação o fato de haver interrompido o estudo
durante dois anos.
Nesta segunda etapa, o problema é localizado fora do indivíduo, que
recusa assumir-lhe a responsabilidade (Rogers, 1961, p. 133-134).
c) Se o clima de aceitação existe e é percebido, acentuar-se-á, pouco
a pouco, no indivíduo, a flexibilidade, permitindo-lhe expressão menos
policiada. Referir-se-á, porém, a si mesmo genericamente (“a gente” sente;
“os homens “experimentam; “os filhos” são muitas vezes; há professores,
pais, motoristas... que são...). Ou descreverá experiências e sentimentos
passados (Cf. Rogers, 1970, p. 17, 3).
Elevado número de pessoas que procuram ajuda do psicólogo
encontra-se neste nível de abertura à experiência, levando certo tempo
para dar o passo adiante.
d) O indivíduo passa a descrever sentimentos atuais, mas como
se fossem objetos: “O fato de me sentir dependente me desanima, por
significar que não confio em mim.”
Em situações favoráveis, passará a pessoa a sentir-se em condições
de expressar livremente os sentimentos como se fossem experienciados no
presente.
Exemplo: Um cliente, falando da infância infeliz, começa a chorar e,
soluçando, diz: “Sinto tudo como se o experimentasse agora.” De
fato, tinha, no momento, um sentimento de abandono semelhante
ao da infância.
e) Participante de encontros de dinâmica de grupo, pela metade de
uma sessão, declara (apontando para o noivo, a seu lado, e outro elemento):

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“Vocês dois me perturbam e perturbam todo o grupo. Querem
obrigar a gente a ir mais depressa do que podemos. Isto me chateia.
Faz tempo queria ter dito o que digo agora. Isto me custa para dizer.”
O último exemplo lembra observação de Rogers:
“É bastante curioso o fato de a primeira expressão de sentimentos
significativos “aqui e agora” com relação a membros do grupo ou
ao coordenador ser de natureza negativa” (Rogers, 1970, p. 18).

f) Desaparecem os bloqueios parciais que dificultam ou retardam a


tomada de consciência da realidade psíquica: os sentimentos atuais podem
ser experienciados imediatamente em toda a sua riqueza (Rogers, 1961, p.
145). O self tende a desaparecer como objeto: o self é, no momento, este
sentimento (Id.,p. 147).
O indivíduo acaba de alcançar relativa liberdade experiencial. Entrou
num processo praticamente irreversível (Id., p. 150).
Sempre mais clara fica para o indivíduo a seguinte verificação: “Não
sou obrigado a ser simplesmente um produto dos outros, modelado por
suas expectativas, moldado por suas exigências. Não sou compelido a ser
vítima de forças desconhecidas existentes em mim mesmo... Sou cada vez
mais o arquiteto do meu self. Sou livre de querer e escolher. Posso, pela
aceitação de minha individualidade, da minha “isness”, acentuar minha
unicidade, tornar-me mais o que sou em potência” (Rogers, 1967, p. 47-48).

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Medo de crescer
“Há em mim duas forças que entram em conflito: a primeira impele-me a
realizar-me numa utilização progressiva de todas as minhas potencialidades
e a revisar constantemente a minha adaptação à realidade exterior; a outra
me impele a agarrar-me àquilo que sustenta minha segurança e gera medo
de colocar em risco aquilo que foi conseguido. Sou movido por desejo de
existir plenamente e paralisado por tentação permanente de me renegar
como indivíduo para identificar-me com a multidão. Tenho sede de ser livre e
tenho medo da minha liberdade. Prefiro submeter-me a um poder autoritário
e alienar-me na conformidade por medo do desconhecido sobre o qual pode
desembocar minha liberdade. Aquilo que eu acreditava ser um combate
contra o mundo acaba sendo muito mais um combate comigo mesmo: a
realidade do mundo exterior pode me promover ou me empobrecer, mas,
afinal, sou eu quem decide. Esse confronto que eu hoje sinto em mim não
é completamente novo: passei por ele a cada etapa do meu crescimento. A
cada vez que necessidades novas me forçavam a explorar o desconhecido, eu
me agarrava primeiramente ao conhecido.

Portanto, é porque a inquietação interior é provocada por uma necessidade de


atualização de si; é porque ela significa que alguma coisa que era mantida fora
da consciência, ainda inacabada, tende a se aperfeiçoar que as resistências
se manifestam. A personalidade se protege contra todo elemento novo que
ameaça a sua estabilidade, contra toda intrusão que arrisca desequilibrar suas
referências. O estado de tensão que resulta disso tudo revela a luta travada no
interior do psiquismo entre uma imagem de si que se deseja conservar a todo
custo e uma perspectiva nova que tende a modificá-la.”

Artaud, 1983, p. 89-90

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g) Por haver atingido estágio irreversível, o indivíduo “parece entrar na
sétima e última fase, sem grande ajuda do psicólogo” (Rogers, 1961, p. 151).
Pode alguém elevar-se a este nível tanto dentro como fora da relação
terapêutica. “A experiência imediata se amplia, de certa maneira, para
abranger novos sentimentos, servindo de critério perfeitamente claro,
mesmo se os sentimentos forem desagradáveis e assustadores. Sentimentos
e situações são vividos na sua novidade, e a experiência imediata torna-se
precisamente a experiência da mudança” (Marquet, 1971, p. 76).
Chegamos, assim, de novo, à pessoa que tende a funcionar mais
plenamente. Ou, na expressão de Libânio (1992, p. 233): ‘’A pessoa está
sempre num processo de personalização, através do exercício livre de ser
pessoa.” Observa que a qualidade desse ser-pessoa depende da qualidade
das opções feitas.
Segundo Bohart (1990, p. 483), nessas pessoas, há mais fina
diferenciação de novos significados na interação experiencial com o
mundo. Portanto, a pessoa em processo de sempre melhor funcionamento
se distancia gradualmente de constructos simplistas, globais, rígidos, o que
supõe, de um lado, abertura a toda informação, mormente à proveniente
de significações captadas, efetivamente sentidas por ela; de outro lado,
presume-se diálogo transparente entre os níveis conceitual e experiencial.
Resultado: nova integração e reorganização da experiência.

Estágio Inferior Estágio Médio Estágio Superior


A pessoa é A pessoa é A pessoa é
- fechada - menos fechada - aberta
- rígida - menos rígida - maleável
- incongruente - menos incongruente - congruente

Rogers chama a atenção sobre o fato de “a pessoa nunca se encontrar


totalmente numa ou noutra fase do processo” (1961, p. 139). No decorrer
de uma entrevista, oscilará de um nível para outro, embora seja possível
situá-la predominantemente neste ou naquele.

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Outra observação do autor: Não tem certeza se este é ou não o único
processo de mudança da pessoa. É certo, porém, ocorrer esta modalidade
ao sentir-se o indivíduo plenamente aceito. Por isso, não sabe se o esquema
convém a outras orientações psicoterapêuticas (ib., p. 155).
Indivíduo empenhado na dinâmica de se tornar cada vez mais ele
mesmo luta, por assim dizer, em duas frentes, que apresentam correlação
inversa uma da outra, isto é, quanto mais se distanciar do estágio inferior,
tanto mais se aproximará da fase média e superior da personalização.
“Esta aprendizagem (de ser livre) compõe-se de um movimento de
(“from”) e de um movimento para (“toward’’). (Rogers, 1967, p. 49; cf. p.
25-26; 48-49; 1969, p. 253-255).
Para que este processo possa desencadear-se e ter continuidade, é
necessário que, no relacionamento, o indivíduo
• sinta-se apreciado como pessoa autônoma,
• sinta-se empaticamente compreendido e valorizado,
• goze de liberdade para experienciar os próprios sentimentos
(Rogers, 1969, p. 252).

2. Para longe de... (“away from”)


O objetivo a ser alcançado é “ser o que realmente se é” (Kierkegaard),
o que exige:
a) Fora as máscaras: o indivíduo se despoja, em meio a dúvidas e
lutas, do que realmente não é, descobrindo, paulatinamente, sua verdadeira
imagem.
Pode ser processo doloroso. Testemunha-o Fernando Pessoa:

“Quando quis tirar a máscara,


Estava pegada à cara.“
(‘Tabacaria”)

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Em Érico Veríssimo, assistimos a essa luta interna ao receber ele a
notícia do falecimento do pai: “Morava sozinho e na miséria. Isso me doeu,
dando-me um sentimento de culpa que eu repelia com o intelecto, mas
sentia intensamente com o corpo inteiro” (1974, p. 258).
Machado de Assis diria: “... sacudir a capa, deitar ao fosso as
lantejoulas, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o
que deixou de ser” (1960, p. 77).
E haverá quem reconheça seu autorretrato no poemeto da escritora
gaúcha Maria Dinorah Luz do Prado:
É tal o espanto
que me perturba
quando me encontro,
que me ignoro
e sigo, em busca.

Será que acaso


eu não procuro
fugir de mim?
(‘’Será?’’)

b) Para longe o “você deve”. Todos ficamos mais ou menos marcados


por frases como estas: “criança deve”, “menino faz ou não faz”, “menina
é assim ou assim”... A sociedade costuma reforçar tais refrões dos pais.
Escreve Barry Stevens:

“No começo, eu era uma pessoa, não conhecendo outra coisa a não
ser minha experiência. Depois, contaram-me coisas, e eu me tornei
dois indivíduos: Senta direito. Deixa a sala para assoar-te. Puxa a água
do banheiro à noite para não dificultar a limpeza. Não deves puxar
a água do banheiro de noite a fim de não despertar a gente. Deves
ser sempre gentil para com todos. Mesmo não gostando de alguém,
não deves magoá-lo... O mais importante é ter uma profissão. O mais
importante é casar. O mais importante é o sexo. O mais importante é
ter dinheiro no banco. O mais importante é vestir bem...

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No começo era eu, e eu era bom. Então entrou o outro eu.
Autoridade exterior. Isto me confundiu... Havia dois eu: um eu ia
fazendo o que o outro desaprovava” (Rogers/Stevens 1967, p. 9).

Acaso não tem razão o autor de “Assim Falava Zaratustra” ao dizer


que o nome do grande dragão é “tu deves”, contrapondo-lhe o espírito de
leão firmando-se: “eu quero”.
Chega o momento em que o indivíduo se dá conta de ser, muitas
vezes, espécie de teleguiado. Procurará, então, comportar-se cada vez mais
de acordo com suas próprias necessidades e pontos de vista. Tornar-se-á
progressivamente mais ele mesmo.
c) Para além do que os outros esperam de mim. Outra forma de viver
teleguiadamente consiste em tomar como bússola do comportamento
as expectativas dos outros a nosso respeito. Assim, na voz de Rollo May,
“... o ego não passa a um “selfhood” responsável” (1953, p. 73). Ao
contrário, como escreve Karen Horney, psicanalista de vanguarda, com
pintas humanistas, salientando a necessária autonomia na dinâmica da
personalização:
“Deve a pessoa procurar exprimir o que sente realmente, e não o
que deve sentir por força de tradições ou de seus próprios padrões morais.
Deve, ao menos, dar-se conta de que pode haver um hiato imenso entre os
sentimentos genuínos e os adotados artificialmente” (1959, p. 182).
O indivíduo há de empenhar-se por ser ele mesmo. Houvessem
seguido o desejo dos pais, Berlioz e Olavo Bilac teriam sido médicos
(talvez medíocres) em vez de eminentes artistas: músico o francês e poeta
parnasiano o brasileiro.
Semanário alemão (“Der Pilger”, n. 14, 1972, p. 417) traz relação de
homens de projeção mundial que não seguiram a profissão destinada a eles
pelos pais (acrescidos de alguns mais):

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Devia ser Foi

Goethe advogado poeta


Franz Schubert professor músico
Pestalozzi agricultor pedagogo
Robert Koch professor bacteriologista
Nietzsche pastor filósofo
Albert Einstein violinista físico
Manoel Bandeira arquiteto poeta
Hermano Hesse teólogo escritor
Friedrich Engels industrial filósofo
Berlioz médico músico

Quanto a Manoel Bandeira, a falta de saúde modificou-lhe o roteiro


profissional traçado pela autoridade paterna:

Criou-me, desde eu menino,


Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde... Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai.

d) Livre de agradar aos outros. “Tenho observado se formarem muitos


indivíduos procurando agradar aos outros mas, quando livres, desistem de
serem tais pessoas” (Rogers, 1961, p. 170).
“Hoje briguei com a mãe, disse uma cliente, estudante universitária.
— Por que seria?
— Até hoje, eu devia trajar-me conforme o gosto dela. Isto se me
tornou insuportável. Havia combinações de cores que me repugnavam.
Daqui em diante, vestir-me-ei como eu quero.”
Muitas vezes, observa Rogers, manifestam as pessoas seus próprios
objetivos de forma um tanto negativa: falam das direções que não querem
seguir. Não seria o caso dos hippies?

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Em resumo: a pessoa se vai distanciando de ser pessoa
- impulsionada por forças internas dela desconhecidas,
- temerosa e desconfiada dela mesma e dos sentimentos mais
profundos,
- vivendo de valores tomados dos outros (Rogers, 1967, p. 49).

3. A caminho de... (“Toward”)


Muitas ideias nucleares (a maioria?) dos autores hodiernos já
aparecem nos sábios antigos. Assim, referente à epígrafe que nos ocupa,
temos um pensamento do filósofo português Baruch Spinoza: distingue
ele, pessoas “que se esforçam por viver”; outras, tratam simplesmente de
“evitar a morte”, de sobreviver (1968, p. 99).
Quem conseguiu cortar os cabos que o prendiam ao cais, esforçando-
se por sempre viver mais e melhor, poderá encetar a viagem que lhe
aprouver.
Que rumos irá tomar?
a) O caminho da autodireção. – “O indivíduo se encaminha para a
autonomia” (Rogers, 1961, p. 170-171): escolherá seus objetivos, sentindo-
se responsável por eles. Decidirá quais as atividades e comportamentos
que lhe serão vantajosos ou não.
Não se pense constituir tarefa fácil a de assumir a direção de si
mesmo: é exigente, cheia de responsabilidade. Por que se admirar, por
isso, preferirem muitos indivíduos (a maioria?) percorrer as sendas batidas
a enfrentar a ansiedade inseparável da empreitada de construir o próprio
caminho?
Assumir a autodireção não significa fazer a pessoa sempre escolhas
acertadas. Não. Espera-se, porém, que aprenda das consequências advindas
das opções feitas. A abertura à experiência assegurará esse “feedback”.
Entretanto, na afirmação de Unamuno, “nem todos sentem o próprio
espírito; nem todos sentem-se ser e existir como núcleo de seu universo (...)
Carecem da intuição da própria substancialidade” (1952, p. 44, 45).

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b) A caminho de ser processo. – Repetidamente aparecem, ao
longo destas páginas, as noções de processo, mudança e dinamismo, em
contraposição a concepções mais ou menos estáticas. Quem se libertar
das amarras e da tranquilidade monótona do cais, encontra satisfação em
enfrentar as águas ora calmas ora agitadas do alto mar.
Aberto à experiência, deixa-se modelar por ela: de ideal de “ser
sempre o mesmo”, passará a modelo dinâmico: transformar-se de acordo
com as mudanças internas e externas. Inicialmente perturbadora, a atitude
será experienciada cada vez como mais satisfatória. Ser rio corrente e não
lago tranquilo. É a passagem de personalidade estruturada – mais ou menos
rígida, estática – a personalidade-processo.
c) A caminho da complexidade. – Os sentimentos do homem, além
de extremamente complexos em si mesmos, apresentam acentuadas
flutuações, chegando, não raro, a situações conflitantes e, mesmo,
contraditórias. Qual a atitude a tomar? Aceitá-los na complexidade de suas
alterações.
d) A caminho da abertura à experiência. – Pode a pessoa ir do
ponto de negar ou distorcer a experiência até o extremo oposto: aceitar a
realidade como se apresenta e reagir a ela em harmonia com as preferências
pessoais. A caminhada pode ser longa e a estrada árdua. “É penoso para
mim remexer este passado. Mas sei que é preciso: nada adianta querer
enganar-me a mim mesma”, dizia corajosamente uma cliente.
Gradativamente aprende o homem ser a experiência recurso amigo e
não inimigo temível (Rogers, 1961, p. 173).
e) A caminho da aceitação dos demais. “Estreitamente ligada a
esta abertura geral à experiência interna e externa é a abertura a outros
indivíduos e sua aceitação.” (Id. ib.) A aceitação do outro é consequência
da autoaceitação.
Ninguém se queixa da umidade da água nem da dureza da rocha – diz
Maslow. Aceitamos estas realidades, tomando-as na devida consideração e
utilizando-as prática (Cf. Maslow, 1972, p. 47).
Quem tiver ampla abertura à realidade experiencial, estenderá esta
atitude de aceitação a si mesmo e, progressivamente, aos demais.

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f) Relacionamento profundo com os outros. – Constitui necessidade
íntima de toda pessoa o estabelecer elos de comunicação real e profunda
com outros indivíduos (Rogers, 1967, p. 26).
g) O fato de ser real, congruente, é positivamente avaliado. – A
pessoa tende a ir na direção de ser ela mesma, sendo seus sentimentos
reais: sendo o que é.
h) A caminho da confiança em si. – A congruência desenvolve o
sentimento de autoconfiança.
Monteiro Lobato lia muito a Manuel Bernardes: “Como este raio
de Padre escreve bem!” – dizia. Mas nem por isso deixou de cultivar seu
próprio estilo, alçando-se a posição destacada na literatura nacional. Tinha
confiança nos próprios recursos.
À medida em que a pessoa consegue desenvolver confiança em si
mesma, tornar-se-á original, criativa em sua esfera: será capaz de cultivar
seus valores e aceitar calmamente eventuais discordâncias.

***

Em resumo: “O indivíduo parece mover-se, com conhecimento


e atitude de aceitação, na linha de ser o processo que internamente e
atualmente é. Afasta-se de ser o que não é:uma fachada. Não procura ser
mais do que é... nem menos do que é... É gradualmente mais atento às
profundezas do seu ser fisiológico e emocional, com desejo sempre maior e
em maior profundidade de ser aquele self que realmente é” (Rogers, 1961,
p. 175-176).

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Tal pessoa, de acordo com o mestre de La Jolla, move-se na direção
de ser pessoa que
• aceita e mesmo aprecia os próprios sentimentos;
• valoriza as camadas profundas de sua natureza, confiando nelas;
• encontra energia no fato de se reconhecer individualidade única;
• vive valores experienciados por ela mesma (Rogers, 1967, p. 49).

4. A pessoa que funciona plenamente.


Em poucas linhas, como nos apareceria esta pessoa ideal ou esse
ideal de pessoa?
a) Estaria em condições de sentir livremente e aceitar plenamente
todas as experiências: reações, sentimentos, desejos, pensamentos...
Portanto: abertura máxima à realidade interna e externa. É aberta aos dados
de qualquer proveniência; ela constitui seu próprio crivo.
b) Embora disponha, assim, do maior número possível de elementos
da situação existencial, reconhecerá ser, às vezes, mais prudente deixar-
se guiar pelos dados do organismo total do que pelos do campo da
consciência.
c) Estará em condições de se confiar ao seu organismo, orientando-se
por ele em face de alternativas, certa de que lhe indicará o comportamento
capaz de lhe obter a mais completa e autêntica satisfação do conjunto de
necessidades do momento.

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Ser pessoa é ser processo

Por muito bem que acreditemos conhecer uma pessoa, por muito seguros
que nos sintamos a respeito dos traços que constituem o seu caráter, ao
nos arrojarmos a um prognóstico sobre qual será o seu comportamento
em um assunto que verdadeiramente nos importe, notaremos que aquele
convencimento a respeito do seu modo de ser vacila, e, ultimamente,
admitimos a possibilidade de que essa sua futura conduta seja diferente da
presumível. Ora, tal não ocorre com as antecipações de conhecimento que são
as leis físicas e boa parte das biológicas, sem falarmos das matemáticas. Ao
reparar nisto, descobrimos que o saber científico é fechado e firme, enquanto
o nosso saber vital, sobre os demais e sobre nós mesmos é um saber aberto,
nunca firme, de um ‘dintorno’ flutuante. A razão disso é claro: o homem, seja
o outro ou seja eu, não tem um ser fixo ou fixado: o seu ser é precisamente
liberdade de ser. Isto acarreta que, enquanto vive, o homem sempre pode
ser diferente do que foi até aquele momento... Mais ainda: é de fato sempre
mais ou menos diferente. O nosso saber vital é aberto, flutuante porque o
tema desse saber, a vida, o homem é já por si também um ser sempre aberto
a novas possibilidades. Sem dúvida, o nosso passado gravita sobre nós e nos
inclina a ser isto mais do que aquilo no futuro, mas não nos acorrenta nem nos
arrasta. Só quando está morto o homem, o tu tem já um ser fixo: isso que foi
e que já não pode reformar, contradizer nem suplementar. Este é o sentido do
famoso verso em que Mallarmé vê Edgar Poe morto:

Tel qu’en lui-même enfin l’Éternité le change.

A vida é troca; em cada novo instante se está sendo algo diferente do que
se era, sem ser, portanto, nunca definitivamente ‘si mesmo’. Só a morte,
ao impedir uma nova mudança, muda o homem no definitivo e imutável si
mesmo; jaz dele para sempre uma figura imóvel, isto é, liberta-o da mudança
e o eterniza.

Gasset, 1960, p. 191

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d) Tem confiança no organismo não por considerá-lo infalível, mas por
estar bem informada, graças à abertura à experiência: esta atitude de abertura
possibilitar-lhe-á a pronta correção de eventuais erros de avaliação da realidade.
e) Sadia e realisticamente social, está comprometida em se tornar
ela mesma, vivendo intensamente o momento presente. Tendo mais clara
consciência de si mesma, facilita ao organismo mais pleno funcionamento,
enfocando livremente as experiências.
Para Schneider (1993, p. 134), estudioso dos processos de constrição
e expansão, “as pessoas ideais possuem centros bem desenvolvidos – são
mais capazes de se recolher quando devem se recolher e quando devem
se expandir, enquanto que nas pessoas disfuncionais e convencionais essa
capacidade é fortemente diminuída”.
Em termos piagetianos, a pessoa se encontra em processo de
equilibração, isto é, possui modelo autorregulador como resultado dos
processos de assimilação (incorporação de novos elementos nos esquemas
existentes) e acomodação (modificação de esquemas existentes em virtude
das novas experiências).
Algumas destas características prenunciam as “qualidades das
pessoas de manhã” (Rogers, 1980, p. 350-352).
Diz ele já haver experienciado tais pessoas, que possuem certos
traços comuns:
a) Abertura ao mundo interno e exterior.
b) Desejo de autenticidade, rejeitando hipocrisia, fraude, duplicidade.
c) Ceticismo com relação à ciência e tecnologia, a não ser que sirvam
ao crescimento e bem-estar das pessoas.
d) Desejo de totalidade, não apreciando as dicotomias corpo-mente,
saúde-doença, intelecto-sentimento, trabalho-lazer, indivíduo-grupo. Veem
tudo na ótica da integração.
e) Desejo de intimidade: novas formas de comunicação, de
proximidade.
f) São pessoas-processo: conscientes de estarem em mudança contínua.

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g) Solicitude: empenhadas em ajudar aos que realmente necessitam.
h) Respeitosa atitude em face da natureza: têm mentalidade
ecológica. Preferem a aliança com a natureza a sua conquista.
i) São anti-institucionais: com aversão a instituições complicadamente
estruturadas, inflexíveis e burocráticas, pois dificultam o atendimento da
pessoa.
j) Autoridade interna: confiam na própria experiência e têm profunda
desconfiança da autoridade exterior.
k) Somenos importância das coisas materiais: são indiferentes ao
conforto e à recompensa material. Sabem viver na riqueza, mas não lhes é
necessária.
l) Anseio pelo espiritual: são pessoas em busca.
Estas pessoas querem encontrar vida com sentido e objetivo
que transcendam a esfera do individual. Abrem mão de valores mais
egocentrados em favor de outros que ultrapassam o indivíduo. Seus
protótipos são homens de horizontes amplos do porte de Gandhi, Martin
Luther King, Teilhard de Chardin.
As posições da pessoa do futuro contrastam com certo número de
slogans, tais como: o Estado acima de tudo, a tradição antes de tudo,
o intelecto acima de tudo, os seres humanos deveriam ser moldados, o
“status quo” para sempre, nossa verdade é a verdade...
A pessoa do futuro encontrará estas barreiras no seu caminho e,
adverte Rogers, poderá, inclusive, ser esmagada por elas. Em todo caso,
tal pessoa “saberá lealmente gozar do próprio ser”, na expressão de
Montaigne (1961. III. p. 359). Que restou a Viktor Frankl, por exemplo, no
campo de concentração, a não ser o “próprio ser”?
Não se conclua, porém, ser ela perfeita ou quase perfeita: indivíduo
em processo de autorrealização – inclusive em estágio adiantado – não está
livre de falhas e defeitos, de sentimentos de culpa, de ansiedade, autocrítica
e outros conflitos internos (Rowan, 1988, p. 215).

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III. Teoria “se-então”

A teoria de Carl Rogers supõe a existência no organismo de certas


tendências ou dinamismos, de certas necessidades.
A possibilidade de pleno desabrochamento dessas tendências é
função de determinadas condições. Por isso, foi essa teoria chamada de
“if-then-theory”: teoria se-então. Se determinadas condições estiverem
presentes, então ocorrerá o esperado desenvolvimento das potencialidades.
A teoria contém, igualmente, a noção de “funcionamento ótimo” da
personalidade, que vem a ser o ideal a ser colimado. A sociedade aguarda
do indivíduo, a partir de certa idade, funcionamento maduro; o indivíduo,
por sua vez, tende, mais ou menos conscientemente, a ele.
Eis apresentação esquemática:

A teoria humanística “se-então” se preocupa mais com o “como”


do funcionamento da personalidade. As correntes tradicionais enfatizam o
“porquê” do comportamento. A visão humanista também se interessa pelo
“porquê”, mas em função do “como”.

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IV. Uma teoria otimista

Descoberta não derivada de hipóteses, inteiramente inesperada do


acendimento terapêutico de Carl Rogers e colegas deu colorido otimista à
visão de personalidade:

‘’Um dos conceitos mais revolucionários derivados da nossa


experiência clínica foi o reconhecimento gradativo de que o
núcleo mais íntimo da natureza do homem, a camada mais
profunda de sua personalidade, a base de sua natureza animal
tem características positivas. Esse núcleo é fundamentalmente
socializado, orientado para frente, racional e realista” (