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1 INTRODUÇÃO

O modelo de desenvolvimento assentado nas premissas do capitalismo trouxe além de alguns avanços tecnológicos, profundas desigualdades econômicas, sociais, além de profundas mudanças na natureza e no meio ambiente, tudo em nome do lucro e do “progresso” da humanidade. Diante a crise ambiental que se tornou evidente nos anos 60, pelo rápido crescimento econômico e a conseqüente degradação ambiental, pode-se perceber o surgimento da consciência ambiental, vindo a se expandir nos anos 70, depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, realizada em Estolcomo, no ano de 1972, sendo que nesse momento foram assinalados os limites da racionalidade econômica e dos desafios da degradação ambiental, pois percebeu-se que os recursos naturais não eram infinitos como se acreditava ser, e precisavam de medidas urgentes para proteger a humanidade do avanço predatório do capitalismo. A ação do Estado brasileiro segue a lógica do desenvolvimento capitalista neoliberal, que traz como conseqüências o crescimento da desigualdade, da ilegalidade no uso e ocupação do solo e a degradação ambiental. O modelo urbano-industrial intensivo e altamente predatório adotado pelo Brasil provocou profundas mudanças socioambientais, agravando a exclusão social e a degradação

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da qualidade ambiental das cidades. As conseqüências estão refletidas no processo de urbanização das cidades, extremamente rápido e desigual, levando as populações de baixa renda a ocupar terras periféricas, em geral desprovidas de qualquer tipo de infra-estrutura e impróprias para moradia como encostas dos morros, nas beiras dos córregos ou igarapés, nas áreas públicas que ainda não tem um uso público definido, nos loteamentos ilegais ou a se instalar em áreas ambientalmente frágeis. Pode-se observar que os grupos menos privilegiados estão mais expostos à degradação ambiental, isso revela uma profunda desigualdade na distribuição dos custos e benefícios da urbanização, gerados pelo padrão excludente e segregador do processo de urbanização nos países em desenvolvimento. As populações vítimas da exclusão social e econômica acabam sendo mais vulneráveis quanto à exposição desigual, por habitarem em condições ambientalmente inadequadas. A falta de alternativas habitacionais, seja por parte do mercado privado que não disponibiliza moradias acessíveis para a população pobre, ou pelo diminuto alcance das políticas públicas sociais leva ao gigantesco crescimento de invasões de terra. A cidade de Manaus não foge a regra, enfrenta sérios problemas sociais e ambientais, estando estes intimamente interligados como analisaremos no decorrer deste trabalho. As ocupações desordenadas e ilegais fazem parte do cotidiano da cidade de Manaus, desde a década de 1970, quando houve um aumento populacional de mais de 500%, devido à implantação da Zona Franca de Manaus, que passou a atrair um grande número de migrantes que buscavam oportunidade de emprego e melhores condições de vida. Por falta de políticas públicas voltadas para a questão habitacional e meio ambiente, uma grande parcela da sociedade pobre e marginalizada teve que invadir terras para fins de moradia, surgindo assim, por toda a cidade inúmeras invasões, sendo que, a maioria dessas

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invasões estão localizadas em áreas impróprias para moradia, como encostas, nascentes de igarapé, barrancos, antigos depósitos de lixo, e desprovidas de serviços essenciais urbanos. O agravamento dos problemas ambientais presentes nas regiões e aglomerados urbanoindustriais se superpõe aos problemas de infra-estrutura básica e exclusão social, principalmente nos países de industrialização recente e economia periférica. Com isso, ampliam-se os movimentos sociais que incorporam a discussão ambiental, sejam eles oriundos de grupos locais em áreas de risco industriais ou grupos ambientalistas organizados atuando em níveis regionais, nacionais e mesmo internacionais. Por outro lado, movimentos sociais - de trabalhadores e grupos sociais discriminados, como negros, mulheres e povos étnicos tradicionais-, passam a incorporar a questão ambiental em seus discursos e lutas, através do movimento de justiça ambiental. O movimento por Justiça Ambiental vem denunciando os problemas das sociedades profundamente desiguais como a brasileira, que acabam por destinar a maior carga dos danos ambientais decorrentes do desenvolvimento às populações marginalizadas e vulneráveis. Há pouco mais de cinco anos, diversas entidades da sociedade civil, entre elas ONG´s, movimentos sociais, sindicatos e pesquisadores, decidiram juntos fundar a Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Essa rede tem como objetivo principal divulgar o fato de que os impactos ambientais atingem de maneira diferenciada os diversos segmentos da sociedade, opondo-se, assim, à idéia, que por muito tempo permeou o movimento ambientalista, de que a degradação ao meio ambiente seria democrática e, portanto, um problema de igual importância para todos os membros da sociedade. Sem dúvida, a importância em se ter um desenvolvimento realmente sustentável deve ser uma preocupação de todos, mas, não é possível ignorar o fato de que os impactos de um desenvolvimento predatório atingem, na maioria das vezes, as populações mais vulneráveis. Esse enfoque faz com que as questões ambientais passem a ser pensadas em termos de distribuição, justiça e eqüidade.

tratando de dois direitos sociais específicos .o . Nesse sentido. As políticas públicas sociais no Brasil privilegiavam e priorizavam setores ligados ao desenvolvimento econômico . além de sempre terem sido tratados de forma diferenciada. É sem dúvida um avanço da nossa sociedade o reconhecimento dos direitos sociais. tais direitos nunca foram objeto de um reconhecimento consensual. mas a realidade nos mostra que a concretização desses direitos se encontra. se faz imprescindíveis demandas de políticas públicas concretas e a participação direta da sociedade. ainda. Estando entre o rol dos direitos fundamentais sociais o direito à moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado essencial a uma sadia qualidade de vida e garantido a todos. Porém a concretização e o acesso a esses direitos sociais é privilégio de poucos. os impactos do processo de globalização econômica neoliberal geram a necessidade de elaborar formas de proteção dos direitos fundamentais sociais no âmbito do constitucionalismo contemporâneo. Nos países marcados pela extrema desigualdade social. uma vez que.enquanto crescia rapidamente o número da população excluída e marginalizada. muito distantes de serem alcançados. como é o caso do Brasil.via industrialização . Nesse contexto as políticas públicas sociais surgiram para amenizar as mazelas da economia que elevava os índices de pobreza de grande parte da sociedade.15 A sociedade brasileira conquistou importantes garantias como os direitos fundamentais sociais expressos na Constituição Federal de 1988 e em convenções e tratados internacionais. especialmente quanto à sua efetivação através de políticas públicas insuficientes ou inexistentes. mas. A Constituição Federal representou um importante avanço no que diz respeito aos direitos sócio-ambientais. a proposta deste trabalho é inicialmente conhecer os Direitos sociais expressos na Constituição Federal de 1988.

000 famílias. localizada na Zona Leste da cidade de Manaus. que se constitui em um exemplo característico de ocupação desordenada. verificando seus principiais aspectos teóricos relativos à sua proteção jurídica e posteriormente analisar alguns problemas práticos à sua efetivação. será feita uma contextualização do processo de urbanização acelerada e a intensificação das ocupações desordenadas no Brasil e especificamente na cidade Manaus. A escolha do tema justifica-se. estando atualmente composta por aproximadamente 5. ocupação esta que teve início em 2003.16 direito a moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado -. que além de serem vítimas da exclusão social e econômica. Tendo este trabalho como principal objetivo identificar de que forma as ocupações desordenadas em Manaus revelam injustiças ambientais. Ao mesmo tempo. em uma área de propriedade da Superintendência da Zona Franca de Manaus. pela importância que a garantia de uma sadia qualidade de vida representa à população. Utilizaremos para análise o caso da “invasão” Nova Vitória. tendo em vista que o direito à vida é matriz de todos os direitos fundamentais do homem. considerando que as ocupações são reflexos da violação dos direitos à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. não dispõem de acesso aos direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. .

2006. Paulo Bonavides explica que este último termo. “direitos humanos” ou “direitos do homem”. 1 2 BONAVIDES.1 OS DIREITOS SOCIAIS COMO DIREITOS FUNDAMENTAIS Os termos “direitos fundamentais” e “direitos humanos” usualmente são utilizados de forma indiscriminada. Coimbra: Almedina. e. . Segundo sua origem e significado poderíamos distinguilas da seguinte maneira: direitos do homem são direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos (dimensão jusnaturalista-universalista). Curso de Direito Constitucional. José Joaquim Gomes. 369. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Paulo. p. CANOTILHO. São Paulo: Malheiros. Gomes Canotilho: As expressões “direitos do homem” e “direitos fundamentais” são frequentemente utilizadas como sinônimas.17 2 DIREITOS SOCIAIS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988: DIREITO À MORADIA E AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO. 1999. jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espaico-temporalmente. direitos fundamentais são os direitos do homem. intemporal e universal. 2 O processo de formação e consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos partiu das premissas de que os direitos humanos são inerentes ao ser humano. como se fossem sinônimos. Os direitos do homem arrancariam da própria natureza humana e daí o seu caráter inviolável. 560. J. Esclarece J. os direitos fundamentais seriam os direitos objectivamente vigentes numa ordem jurídica concreta. 2. enquanto que a expressão “direitos fundamentais” é de uso preferencial entre os publicistas alemães1. p. costuma ser mais empregado por autores anglo-saxões e latinos.

Tratado Internacional dos Direitos Humanos. . encontrar um conceito preciso. A partir da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948. se tentamos. a espécie de valores e princípios que a Constituição consagra. 561. 4 Vários doutrinadores atribuem diferentes conceitos aos direitos humanos fundamentais.) Finalmente quando se acrescenta alguma referência ao conteúdo. Ou nos dizem algo apenas sobre o estatuto desejado ou proposto para esses direitos. antecedem todas as formas de organização política.. Do ponto de vista material. Curso de Direito Constitucional. os direitos históricos que o homem possui em face do Estado. p.. não se pode deixar de introduzir termos avaliativos: Direitos dos homens 3 TRINDADE. qual foi o resultado? A maioria das definições são tautológicas (.). vem se multiplicando os tratados e instrumentos de direitos humanos. uma vez que resultam da evolução humana. os direitos fundamentais variam conforme a ideologia.. Norberto Bobbio. 59. 2006. ed. ou seja. em “A Era dos Direitos” destaca a dificuldade de se definir os direitos humanos.. Ou seja. ponto de partida do processo de generalização da proteção internacional dos direitos humanos. 19. Antonio Augusto Cançado. A. p. São Paulo: Malheiros. como resposta à expansão de cada vez mais necessidades e carências. na essência. sendo ampliados e modificados a cada nova conquista. Os direitos fundamentais são. cada Estado consagra um rol de direitos fundamentais específicos.18 como tais. pois acredita que: Direitos do homem é uma expressão muito vaga. 1997. a modalidade de Estado. Paulo. e não sobre o seu conteúdo (. Porto Alegre: S. momento do surgimento do Direito Internacional de Proteção dos Direitos Humanos diversos países passaram a incorporar em seus textos constitucionais normas de proteção dos direitos humanos. e de que sua proteção não se esgota na ação do Estado. Fabris. 4 BONAVIDES. Já tentamos alguma vez defini-los? E. 3 A partir de 1948.

São Paulo: Malheiros. A Era dos Direitos. José Afonso. 17. etc. as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos em nível humano e internacional”. Vale ressaltar que. o fato de variarem ao longo do tempo e do espaço. ainda que se fale em gerações. 6 José Afonso da Silva conceitua os direitos humanos fundamentais como o “conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito a sua dignidade. num processo que pode ser observado através de sua evolução em gerações (direitos fundamentais de primeira. 1992. 50. Norberto. de nada servindo um sem a existência dos outros. Antonio Enrique Pérez Luño. não existe qualquer relação de hierarquia entre estes direitos. . os direitos fundamentais foram sendo reconhecidos pelo ordenamento jurídico dos países de forma gradativa. Rio de Janeiro: Campus. 1999. define os direitos humanos como um “conjunto de faculdades e instituições que. ou para o desenvolvimento da civilização. Curso de direitos constitucional positivo. Daí porque alguns autores prefiram classifica-los em “dimensões” ao invés de “gerações”. 7 Dada a sua historicidade.19 são aqueles cujo reconhecimento é condição necessária para o aperfeiçoamento da pessoa humana. Cançado Trindade ao argumentar sobre a universalidade dos direitos humanos. mesmo porque todos interagem entre si. 7 SILVA. Derechos humanos. em cada momento histórico. afirma: 5 BOBBIO. segunda. 2005. p. terceira e quarta geração). Madrid: Tecnos. 14ª Tiragem. 6 LUÑO. por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana”. 175. p. 5 Não obstante as dificuldades de se chegar a um conteúdo preciso da expressão direitos humanos. Antonio Enrique Perez. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. concretizam as exigências da dignidade. estado de derecho y constitución. p. ou seja. da liberdade e da igualdade.

Ingo Wolfgang.org. Cançado Trindade “creio que o futuro. que foi um dos principais responsáveis pela sua divulgação. os direitos anteriores não desaparecem. comentou que perguntou pessoalmente para Karel Vasak por que ele teria desenvolvido aquela teoria. e os novos direitos enriquecem os direitos anteriores". a expressão "gerações de direitos do homem".. cumulação e fortalecimento dos direitos humanos consagrados. terceira e de todas as gerações. O discurso de Vasak logo ganhou fama e outros juristas passaram a repeti-lo e até desenvolvê-lo.20 O fenômeno que testemunhamos em nossos dias. em 25 de maio de 2000. Acesso em 22/07/2007 Disponível: http://www. Cançado Trindade discorda da tese das “gerações de direitos”. 9 Sendo assim. afasta-se a equivocada idéia de sucessão ´geracional´ de direitos. como já ocorreu na prática). na medida em que se escolhe a idéia de expansão. como. não é o de uma fantasiosa e indemonstrável sucessão “generacional” de direitos (que poderia inclusive ser invocada para tentar justificar restrições indevidas ao exercício de alguns deles. 2002. metaforicamente. (Palestra proferida durante o Seminário Direitos Humanos das Mulheres: A Proteção Internacional. Noberto Bobbio. p.htm). O referido conceito se refere praticamente a gerações de seres humanos que se sucedem no tempo. durante uma palestra que proferiu em Brasília. É certo que houve as declarações dos séculos XVII e XVI1I e a Revolução Francesa. 1998. Houve a revolução americana e depois a Declaração Universal. Os direitos se ampliam. como tudo que é palavra “chavão”. buscando. No mesmo entendimento PIOVESAN. 8 A expressão "geração de direitos" tem sofrido várias críticas da doutrina nacional e estrangeira. Ingo Sarlet afirma que o uso do termo "geração" de direitos pode levar à falsa impressão da substituição gradativa de uma geração por outra. e eu me lembrei da bandeira francesa". A eficácia dos direitos fundamentais. É uma construção perigosa. demonstrar a evolução dos direitos humanos com base no lema da revolução francesa liberdade.. igualdade e fraternidade -. vem outra geração e assim sucessivamente. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. proferindo na aula inaugural no Curso do Instituto Internacional dos Direitos do Homem. É civil. 149-150 “(. político.) compartilha-se do entendimento de que uma geração de direitos não substitui a outra. segunda. em Estraburgo. em 1979. é um rechaço à tese de gerações de direitos. Flávia. p. Porto Alegre:Livraria do Advogado. mas com ela interage. quando surge um novo direito. pela primeira vez.dhnet. 39. tendo respondido: "Ah. por exemplo.br/direitos/militantes/cancadotrindade/Cancado_Bob. todos essencialmente complementarem em constante dinâmica de interação”. Cançado Trindade cita como exemplo: “o caso dos meninos de rua. 8 O jurista Karel Vasak utilizou. Isto é. . em meu entendimento. então me ocorreu de fazer alguma reflexão. Antônio Augusto Cançado Trindade. essa tese não corresponde à verdade histórica. na proteção internacional dos direitos humanos passa pela indivisibilidade e pela inter-relação de todos os direitos”. todos essencialmente complementares e em constante interação. e afirmou que nem o próprio Vasak levou muito a sério a sua tese. 9 SARLET. cumulação e fortalecimento dos direitos humanos. utilizada pela doutrina mais moderna. Em primeiro lugar. Desaparece uma geração. pegou. O processo é de acumulação e não de sucessão. eu não tinha tempo de preparar uma exposição. mas antes o da expansão. econômico-social e cultural. Há um processo de cumulação e de expansão do corpus juris dos direitos humanos. São Paulo:Max Limond. porque faz analogia com o conceito de gerações. Cançado Trindade questiona a Tese de Gerações de Direitos Humanos de Norberto Bobbio. O autor prefere o termo “dimensões” dos direitos fundamentais. e parece-me que a doutrina brasileira parou por aí. Na minha concepção. porque creio que o próprio direito fundamental à vida é de primeira. concordando com o autor Cançado Trindade utilizarei neste trabalho o termo “dimensões” ao invés de “gerações”. Afirma ainda.

. à manifestação. 564. ou seja. entre outros. ao voto. p.direitos dos indivíduos frente ao Estado como o direito à liberdade.) direitos que valorizam primeiro o homem-singular. à expressão. à vida. a saber. direitos que cuidam da proteção das liberdades públicas .21 Os direitos fundamentais de primeira dimensão são os direitos da liberdade. . deu-se o surgimento e o desenvolvimento dos direitos fundamentais de primeira dimensão. da linguagem jurídica mais usual”. 2006. sob um prisma histórico. São Paulo: Malheiros. que em grande parte correspondem. Paulo. 564. os direitos civis e políticos. No momento histórico marcado pelo liberalismo (século XVIII). Paulo Bonavides afirma que os direitos da segunda geração “são os direitos sociais. Ibid. 10 11 12 BONAVIDES. pois fazê-lo equivaleria a desmembrálos da razão de ser que os ampara e estimula. Pode-se observar que os direitos fundamentais de primeira dimensão estão intimamente ligados ao ideal de liberdade. remetendo-se ao ideário de igualdade. depois germinaram por obra da ideologia e da reflexão antiliberal do século XX”.. o homem das liberdades abstratas. 12 Complementa o autor que os direitos de segunda dimensão estão ligados ao princípio da igualdade. Ibid. 11 A segunda dimensão de direitos fundamentais teve sua origem nos movimentos sociais do século passado. culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de coletividades. o homem da sociedade mecanicista que compõe a chamada sociedade civil. àquela fase inaugural do constitucionalismo do Ocidente10. p. à propriedade. sendo “(. 19. p.. ed. os primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional. Curso de Direito Constitucional. do qual não se podem separar. introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social.. 562.

. Têm primeiro por destinatário o gênero humano mesmo. ainda que não reconhecida pela unanimidade dos doutrinadores.. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade. à educação. O constitucionalista Paulo Bonavides defende que esta quarta geração de direitos fundamentais seria resultado da globalização dos direitos fundamentais. à comunicação e ao patrimônio comum da humanidade. encontram-se os direitos de terceira dimensão. à paz. os direitos de terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo. da humanidade e até mesmo das futuras gerações. tendo como exemplos o direito à democracia. entre outros). ao trabalho. 569. de um grupo ou de um determinado Estado. Previstos na Constituição Federal de 1988.. Ao comentar os direitos fundamentais de terceira geração.. Paulo Bonavides menciona que: Um novo pólo jurídico de alforria se acrescenta historicamente aos da liberdade e da igualdade. num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade concreta (. p. através de lutas sociais e políticas. tornando assim o rol dos direitos sociais dinâmico e aberto. o direito à saúde. 13 Há ainda autores que passam a identificar uma quarta geração de direitos. o direito de greve. o direito à informação e o direito ao pluralismo.22 Os direitos fundamentais de segunda dimensão exigiram do Estado sua intervenção para que a liberdade do homem fosse protegida de forma efetiva (o direito ao bem estar social. os direitos sociais são compreendidos como garantias alcançadas ao longo do tempo e da história. ao meio ambiente. que remetem à idéia da solidariedade voltada para a proteção de grupos indeterminados de pessoas.) Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao desenvolvimento. Em seguida. sujeito a novas ampliações. 13 Ibid. em uma tentativa de universalizá-los no campo institucional.

somados ao enfraquecimento do Estado. nº 1. além de sempre terem sido tratados de forma diferenciada. Acessado em 05/08/2007. Sendo assim. processo sentido maior grau nos países periféricos e em desenvolvimento. 7-9 .1. v. Nos países marcados pela extrema desigualdade social. como afirma Ingo Sarlet “tais direitos nunca foram objeto de um reconhecimento consensual. como é o caso do Brasil. mas. no que concerne a iguais oportunidades e efetivo exercício de direitos. como conseqüência do reforço da dominação do poder econômico sobre as massas de excluídos. notadamente os relacionados com o aumento da opressão sócio-econômica e da exclusão social. 15 14 SARLET. verifica-se uma situação em que até mesmo a noção de cidadania como “direito a ter direitos” econtra-se sob grave ameaça. demarcando os princípios que viabilizarão a igualdade social e econômica.direitopublico.23 Os direitos sociais são uma das dimensões que os direitos fundamentais do homem podem assumir. Além disso. os impactos do processo de globalização econômica neoliberal geram a necessidade de elaborar formas de proteção dos direitos sociais no âmbito do constitucionalismo contemporâneo. Ingo Wolfgang. p. Salvador.com. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. Seu objetivo é concretizar melhores condições de vida ao povo e aos trabalhadores. especialmente quanto à sua efetivação”. 15 Ibid. 2001.br. É sem dúvida um avanço da nossa sociedade o reconhecimento dos direitos sociais. Revista Diálogo Jurídico. Disponível em :http://www. a crise do Estado Social leva a existência de uma “crise dos direitos fundamentais”. 14 O autor ressaltar ainda que os efeitos nefastos da globalização econômica e do neoliberalismo.. têm gerado a diminuição da capacidade do poder público de assegurar aos particulares a efetiva fruição dos direitos fundamentais.

16 Dessa feita. e manter o equilíbrio social. especialmente nos países em desenvolvimento. pode-se constatar que existe atualmente uma total descrença nos direitos fundamentais sociais. moradia. previdência e assistência social). por parte da maioria da população excluída social e economicamente.1 O regime jurídico aplicável aos direitos sociais na CF/88. cada vez mais agudo na economia globalizada de inspiração neoliberal. Dentre esses reflexos destaca Ingo Sarlet: a) a intensificação do processo de exclusão da cidadania. inclusive nos países desenvolvidos. c) ausência ou precariedade dos instrumentos jurídicos e de instâncias oficiais ou inoficiais capazes de controlar o processo. O Direito Público subjetivo ao ensino fundamental na Constituição Federal Brasileira de 1988. Os direitos sociais surgiram com o objetivo de atenuar e corrigir injustiças sociais pelo estabelecimento de um sistema de proteção direcionado prioritariamente àqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. 09 DUARTE. 2. fenômeno este ligado diretamente ao aumento dos níveis de desemprego e subemprego. a “flexibilização” dos direitos dos trabalhadores. assim como o corte ou. Clarice Seixas. no mínimo. especialmente no seio das classes mais desfavorecidas.. cujas sociedades são profundamente marcadas por altos índices de exclusão social. Dissertação (Doutorado apresentado ao Departamento de Filosofia e Teoria Geral do . agravando o problema da falta de efetividade dos direitos fundamentais e da própria ordem jurídica estatal. p. 17 16 17 Ibid. educação. levando a uma “crise dos direitos fundamentais”. resolvendo os litígios dele oriundos. b) redução e até mesmo supressão de direitos sociais prestacionais básicos (saúde.1. que passam a encarar esses direitos como verdadeiros privilégios de certos grupos.24 A opressão sócio-econômica tem gerado reflexos imediatos no âmbito dos direitos fundamentais.

231. tendo sido elaborada e votada durante a grande guerra de 1914-1918. promulgada em 1919. a melhor defesa da dignidade humana. (CANOTILHO. 38. a Constituição disciplinava somente o poder estatal e os direitos individuais (direitos civis e direitos políticos) ao passo que hoje o Estado social do século XX regula uma esfera muito mais ampla: o poder estatal. 19. 19 A Constituição dita de Weimar. Segundo Paulo Bonavides. 2006. ou seja. e a conseqüente ampliação e mudança de perfil do mercado de trabalho trouxeram novas demandas dessa parcela da sociedade excluída e marginalizada. decorrente da Revolução Industrial. tendo representado. p. Paulo. 2003. p. José Joaquim Gomes. no Estado liberal do século XIX. . nas Constituições. Direito Constitucional. Coimbra-Portugal. tendo em vista que os direitos somente eram exercidos por alguns membros da coletividade. de 1919. a Sociedade e o indivíduo. ed. 18 Designa-se por constitucionalização a incorporação de direitos subjectivos do homem em normas formalmente básicas. 499). São Paulo. 20 Complementa o autor que. os direitos fundamentais como direitos clássicos da liberdade foram gerados por uma sociedade que detinha o monopólio ideológico dos princípios a serem gravados nas Declarações de Direitos. ao complementar os direitos civis e políticos com os direitos econômicos e sociais. Direito). A acelerada industrialização da sociedade. sendo que para os menos favorecidos faltavam meios que permitissem adquirir tais prerrogativas. p. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. até o final do século XX. A mudança da realidade social e econômica da sociedade no século XIX fez com que a mera garantia de direitos a serem exercidos contra o Estado não fosse mais suficiente para permitir a plena realização do indivíduo em seu ambiente social. São Paulo: Malheiros.25 A constitucionalização18 dos direitos sociais teve como marco a Constituição de Weimar19. foi instituidora da primeira república alemã. 20 BONAVIDES. Curso de Direito Constitucional. Editora Almedina:1993. subtraindo-se o seu reconhecimento e garantia à disponibilidade do legislador ordinário.

acrescentando às clássicas liberdades individuais os novos direitos de conteúdo social. isto é. São Paulo: Saraiva 2005. e o Estado social. dispositivos expressos. vez que deu início a uma nova fase do constitucionalismo que é a fase do constitucionalismo social. ao comentar a estrutura da Constituição de Weimar. A afirmação histórica dos direitos humanos. A referida Constituição se voltou basicamente para a sociedade e não para o indivíduo. p. p. programas de ação governamental”. ressalta o seu caráter claramente dualista: a primeira parte tem por objeto a organização do Estado. pois buscou formas de equilibrar o conflito ideológico entre o Estado liberal. 22 A Constituição Brasileira de 1934. seguindo a linha da Constituição de Weimar. dos direitos fundamentais de que são titulares. representou um grande avanço no campo dos direitos sociais. por todos os cidadãos. enquanto a segunda parte apresenta a declaração dos direitos e deveres fundamentais. 189-190. . Fábio Konder Comparato. Os direitos sociais. à saúde. COMPARATO. tendo sido o primeiro texto constitucional que efetivamente concretizou. A Constituição de Weimar representou decisiva influência sobre a evolução das instituições políticas em todo o Ocidente. afirma o autor. e outros do mesmo gênero só se realizam por meio de políticas públicas. delineando um Estado intervencionista. buscando reconciliar o Estado com a sociedade. 232. A importância desse texto constitucional é notável. Fábio Konder. para que este viabilize a plena fruição. sendo que esse período é tido como marco do constitucionalismo social. mas uma atividade positiva do Estado. em ascensão21. ao trabalho. “têm por objeto não uma abstenção. impositivos de uma conduta ativa por parte do Estado. 4. ao lado das liberdades públicas.. subordinando a ordem econômica ao princípio da justiça e da existência 21 22 Ibid. em decadência. ed. pois o direito à educação.26 A decadência do modelo do constitucionalismo clássico começou a tornar-se mais evidente no fim do século XIX e início do século XX.

os direitos econômicos e sociais dos indivíduos foram introduzidos no constitucionalismo brasileiro. Curitiba: Juruá. In: Revista de Direito Público. Celso Antônio Bandeira. em seus textos. Ano XIV Janeiro/Junho. 1981. enunciadas em normas constitucionais. proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade. Por influência da Constituição de Weimar. ed.27 digna23.58. conforme José Afonso da Silva: Prestações positivas estatais. 24 SILVA. o que já se fez presente na Constituição de 1946. 2002. Poder Constituinte e Poder Popular (estudos sobre a Constituição).1. o que. José Afonso da. que culminou com a promulgação da Constituição de 1988. que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos. a consagração dos direitos sociais retrata a ereção de barreiras defensivas do indivíduo perante a dominação econômica de outros indivíduos 25. 2006. da 23 BONTEMPO. Mas foi com o processo de redemocratização do Brasil. após vinte anos de Ditadura Militar. por sua vez. 2ªtir. p. 25 MELLO. ainda. p. São Paulo: Malheiros. Revista dos Tribunais. Além de apresentar um extenso rol de direitos e garantias individuais (direitos civis e políticos). Alessandra Gotti. Eficácia das Normas Constitucionais sobre Justiça Social. Valem como pressuposto de gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real.. as quais passaram a sistematizar. que os direitos sociais fundamentais como um todo receberam maior destaque. os dispositivos pertinentes aos direitos econômicos e sociais. Complementa o autor. uma série de direitos econômicos. .ed. direitos que tendem a realizar a igualização de situações desiguais. Direitos Sociais. Os direitos sociais constituem. 235. 24 De acordo com Mello. A Constituição de Weimar influenciou a elaboração de Constituições por todo o mundo. a atual Carta consagra. sociais e culturais. afirmando que o Estado ultrapassa o papel anterior de simples árbitro da paz. p. 199. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. 1.

Pois bem. 289. à formação profissional e à cultura e garantia ao desenvolvimento da família. um capítulo próprio destinado à seguridade social. teríamos o direito à saúde. José Afonso da Silva sustenta que os direitos sociais poderiam ser classificados como direitos sociais do homem como produtor e como consumidor. Os direitos fundamentais sociais. de 14/02/2000. o lazer. ao desenvolvimento intelectual. a Constituição de 1988 previu. a proteção à maternidade e à infância. na medida em que pretendem fornecer os recursos fáticos para uma efetiva fruição das liberdades. da segurança. estabelecendo. incluiu o direito a moradia no rol dos direitos sociais. em seu artigo 6º: “são direitos sociais a educação. a previdência social. Na segunda classificação. o bem-estar coletivo. p. José Afonso da. o igual acesso das crianças e adultos à instrução. Na primeira classificação. à ciência e tecnologia. “direitos do homem como produtor”. 1998. de tal sorte que têm por objetivo a 26 27 A Emenda Constitucional 26. SILVA. o direito de o trabalhador determinar as condições de seu trabalho. à segurança social. ao meio ambiente e aos índios. “direitos sociais do homem consumidor”. Direito Constitucional Positivo. que estariam no título da ordem social27. ineditamente. a moradia26. passaram a ser entendidos como uma dimensão específica dos direitos fundamentais. o direito de cooperar na gestão da empresa e o direito de obter emprego. o trabalho. São Paulo: Malheiros.28 ordem. . à comunicação social. o direito à greve. todos disciplinados no Título VIII – Da Ordem Social. para assumir o escopo mais amplo e compreensivo de buscar. a Constituição de 1988 dedicou um Capítulo específico aos direitos sociais. a assistência aos desamparados na forma desta Constituição”. afirma Ingo Sarlet. a segurança. ele próprio. teríamos a liberdade de instituição sindical. Além dos direitos sociais acima descritos. a saúde.

29 30 Ibid. efeitos reforçados relativamente às demais normas constitucionais. outorgando-lhes. 25) . parágrafo 1º. Salvador.29 garantia de uma igualdade e liberdade reais. O legislador da constituinte outorgou às normas de direitos fundamentais sociais uma normatividade reforçada. afirma que a eficácia diz respeito à aplicabilidade. para que possam vir a gerar plenitude de seus efeitos. nº 1. O constituinte pretendeu evitar um esvaziamento dos direitos fundamentais. 5º. objetiva-se atingir uma liberdade tendencialmente igual para todos. acabada. mas 28 MIRANDA.com. 29 O art. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. como possibilidade de sua aplicação jurídica. Revista Diálogo Jurídico. como realizabilidade.1. destaca Sarlet que os direitos fundamentais sociais encontram-se protegidos não apenas contra o legislador ordinário. Isso significa uma exeqüibilidade instantânea derivada da própria constituição. A eficácia e a aplicabilidade são conexos. apud SARLET. José Afonso da Silva. já que a eficácia é encarada como potencialidade (a possibilidade de gerar efeitos jurídicos) e a aplicabilidade. que apenas podem ser alcançadas pela compensação das desigualdades sociais. 18.direitopublico. Acessado em 05/08/2007. e de modo especial. Além disso. dispõe que “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. 2001. nesse sentido.br. revela que as normas de direitos e garantias fundamentais não mais se encontram na dependência de uma concretização pelo legislador infraconstitucional. que apenas pode ser alcançada com a superação das desigualdades e não por meio de uma igualdade sem liberdade. apude Sarlet. impedindo que os mesmos “permaneçam letra morta na Constituição”. razão pela qual eficácia e aplicabilidade podem ser tidas como as duas faces da mesma moeda. exigibilidade ou executoriedade da norma. Ingo Wolfgang. 28 Destaca Jorge Miranda que por meio dos direitos sociais. Ingo Sarlet entende que todas as normas relativas a direitos fundamentais são dotadas de um mínimo de eficácia 30 possível. com a presunção de norma pronta. perfeita e auto-suficiente.. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. (Ibid. p. Disponível em :http://www. da Constituição Federal de 1988. v.

apresenta um caráter de 31 SARLET.com. tal postulado – o princípio que impõe a maximização da eficácia e efetividade de todos os direitos fundamentais – não implica em desconsiderar as peculiaridades de determinadas normas de direitos fundamentais. limitados a proclamações de boas intenções e veiculando projetos que poderão. da CF. do art. do legislador. Algumas considerações em torno do conteúdo. Disponível em :http://www.1. eficácia e efetividade do direito à saúde na constituição de 1988. admitindo.30 até mesmo contra a ação do poder constituinte reformador. v. Por regra. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. Ingo Wolfgang.br. dependendo única e exclusivamente da boa vontade do poder público. já que integram o rol das “clausulas pétreas”. especialmente as que mencionam uma lei integradora. Salvador. nº 1. inciso IV. as normas que consubstanciam os direitos fundamentais democráticos e individuais são de aplicabilidade imediata. Disponível em :http://www. Revista Diálogo Jurídico. 32 Diante as interpretações divergentes de vários doutrinadores sobre a eficácia dos direitos fundamentais sociais. enquanto as que definem os direitos sociais tendem a sê-lo também na Constituição vigente. 32 SILVA. optamos pelo posicionamento de Ingo Sarlet. Acessado em 05/08/2007. ser objeto de concretização.br/html/artigos/documentos/texto110.br.direitopublico. CAJ – Centro de Atualização Jurídica.adv. Revista Diálogo Jurídico. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. 60. aplicável a todos os direitos fundamentais – inclusive aos direitos sociais -. Acesso em 11/06/2006. 2001. O autor afirma ainda que. alguma relativização. Políticas e Jurídicas da Eficácia dos Direitos Sociais. 33 De acordo com Sarlet a norma contida no parágrafo 1º do artigo 5º da CF/88. mas algumas.mundojuridico. são de eficácia limitada e aplicabilidade indireta. 31 Já o autor José Afonso da Silva afirma que a própria Constituição faz depender de legislação ulterior a aplicabilidade de algumas normas definidoras de direitos sociais e coletivos. José Afonso da. o qual afirma que mesmo contrariamente ao que propugna boa parte da doutrina. Ingo Wolfgang. Salvador. parágrafo 4º. . nº 10.htm. janeiro de 2002. em especial. ou não.com. Acessado em 05/08/2007. dadas as circunstâncias. Garantias Econômicas. 33 SARLET. Disponível em http://www. as normas de direitos fundamentais não podem mais ser considerados meros enunciados sem força normativa.direitopublico.

CAJ – Centro de Atualização Jurídica. nº 1. . 35 Sarlet classifica os direitos fundamentais em dois grandes blocos: os positivados e os não-positivados. ou dos tratados internacionais de que a República Federativa do Brasil seja parte”. 34 Ainda no art. está disposto que: “os direitos e garantias expressos nesta constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. Flávia.br.direitopublico. da CF. objetiva tornar tais direitos e prerrogativas diretamente aplicáveis pelos Poderes Legislativo. Revista Diálogo Jurídico. destaca Flavia Piovesan ao tratar da aplicação imediata das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais: Este princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. 59. 35 34 PIOVESAN. (SARLET. São Paulo: Saraiva. Executivo e Judiciário. prevendo um regime jurídico específico endereçado a tais direitos. p. cabe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental.31 norma-princípio que se constitui em uma espécie de mandado de otimização. 1º ao 4º). Acessado em 05/08/2007). Vale dizer. Disponível em: http://www. 2006.1. impondo aos órgãos estatais a tarefa de reconhecerem e imprimirem às normas de direitos e garantias fundamentais a maior eficácia e efetividade possível. 2001. e passarem a ter aplicabilidade imediata no direito interno. Este princípio intenta assegurar a força dirigente e vinculante dos direitos e garantias de cunho fundamental. Já no segundo bloco estariam implícitos (posições fundamentais subentendidas nas normas definidoras de direitos e garantias fundamentais) e os decorrentes do regime e dos princípios (que se referem às disposições contidas no Título I – do art. Verifica-se nesse dispositivo a possibilidade da existência de outros direitos e garantias fundamentais inseridos ao longo de todo o texto constitucional. parágrafo 2º. Nesse mesmo sentido. ou seja. liberdades e garantias fundamentais. Ingo Wolfgang.com. Salvador. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. como também o fato de os direitos e garantias decorrentes de tratados internacionais receberem o mesmo tratamento dos direitos fundamentais. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. 5º. v. No primeiro estariam inseridos os direitos expressos na Constituição Federal e os expressos em tratados.

Os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano e não têm como objeto a proteção de prerrogativas do Estado. que apresentam aplicabilidade imediata. num caso concreto. pois do aparato de proteção existente. incluindo-os no elenco dos direitos constitucionalmente garantidos. por força da natureza materializante aberta dos direitos fundamentais. 2003. 5º. consagrado expressamente em tantos tratados de direitos humanos. Essa distinção. parágrafos 1º e 2º. A autora afirma que por força do art. nos termos do art. na opinião da autora justificaria a força hierárquica diferenciada dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. é possível utilizar. p. 36 Nesse sentido. Afirma ainda o autor: O critério da primazia da norma mais favorável às pessoas protegidas. aquele que melhor proteja a dignidade do ser humano. “b” da CF. quando horizontal (dois ou 36 PIOVESAN. A autora ressaltar que. enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional. Já os tratados internacionais comuns buscam o equilíbrio e a reciprocidade de relações entre Estados-partes.32 Vale ressaltar o posicionamento defendido pela autora Flávia Piovesan em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados em tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte. III. 102. os direitos enunciados em tratados internacionais e proteção dos direitos humanos detêm natureza de norma constitucional. Flávia. Contribui em segundo lugar. contribui em primeiro lugar para reduzir ou minimizar consideravelmente as pretensas possibilidades de “conflitos” entre instrumentos legais em seus aspectos normativos. . Cançado Trindade afirma que os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos indivíduos protegidos. 45-47. a Constituição Federal de 1988 atribui aos direitos enunciados em tratados internacionais uma hierarquia de norma constitucional. Temas de Direitos Humanos. São Paulo: Max Limond. para obter maior coordenação entre tais instrumentos em dimensão tanto vertical (tratados e instrumentos de direito interno).

Sociais e Culturais. p. p.. o parágrafo 3º do art. adota-se o critério da norma mais favorável à vítima. assim expresso: “não se admitirá qualquer restrição ou suspensão dos direitos humanos fundamentais reconhecidos ou vigentes em qualquer Estado-parte no presente Pacto em virtude de leis. 54-55 . dispondo: “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. E através da Emenda Constitucional nº 45. em cada Casa do Congresso Nacional. 5º (2) do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. foi acrescentado no seu texto.. em dois turnos. de 2004. na hipótese de eventual conflito entre o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o Direito interno.. somar e fortalecer. em terceiro lugar. convenções.. 5º. sob pretexto de que o presente Pacto não os reconheça em menor grau”. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional.33 mais tratados).) Contribui. como pode ser observado no artigo 5º (2) do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e no art. A Constituição Federal de 1988 assume expressamente os direitos provenientes dos tratados e convenções internacionais dos quais o Brasil se obriga. 41. 37 Em síntese. Os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar. nunca a restringir ou debilitar. 38 De acordo com Alessandra Bontempo o princípio da primazia ou prevalência da norma mais benéfica à proteção dos direitos humanos é consagrado nos instrumentos internacionais. regulamento ou costumes. 37 38 Ibid. (. Ibid. para demonstrar que a tendência e o propósito da coexistência de distintos instrumentos jurídicos – garantindo os mesmos direitos – são no sentido de ampliar e fortalecer a proteção. serão equivalentes às emendas constitucionais”. por três quintos dos votos dos respectivos membros.

político. nos documentos internacionais incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro e aqueles decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados é bastante extenso. mas jurídico e. verificando os principiais aspectos teóricos relativos à sua proteção jurídica para.) Com efeito. analisarmos alguns problemas práticos à sua efetivação. num sentido mais amplo. para impedir que.34 O catálogo de direitos fundamentais. qual a sua natureza e seu funcionamento. mas político. (. Constituição.. de dois direitos sociais específicos: o direito a moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. . apesar das solenes declarações. mas sim qual é o modo mais seguro para garantilos. Trata-se de um problema não filosófico. a partir de agora. Assim. o maior problema hoje não está no campo da declaração de direitos. Norberto. não é tanto o de justificá-los. 2. p. 1992. no próximo capítulo. 14ª Tiragem. mais o de protegê-los. fruto dos direitos expressamente previstos em nossa. Rio de Janeiro: Campus. A Era dos Direitos. eles sejam continuamente violados.. se são direitos naturais ou históricos. Norberto Bobbio defende que o principal desafio relativo aos direitos do homem encontra-se no campo de sua efetividade: O problema fundamental em relação aos direitos do homem. 39 Trataremos.2 O DIREITO À MORADIA COMO UM DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL DE NATUREZA SOCIAL 39 BOBBIO. mas na sua concretização. 24-25. absolutos ou relativos. Não se trata de saber quais e quantos são esses direitos. o problema que temos diante de nós não é filosófico.

Instituto Polis. Relatório Nacional da Plataforma Brasileira dos DhESC. Nelson. Disponível em: http:www. O direito à moradia é reconhecido como um direito humano em diversas declarações e tratados internacionais dos quais o Estado Brasileiro é parte.Direito à moradia no Brasil.35 2. Os cidadãos brasileiros são titulares desse direito e. 1999.2. afirma que as Declarações são estabelecidas por resoluções que não acarretam obrigações legais aos países signatários. tem força legal. Nelson. Antes de analisarmos os principais documentos que reconhecem.doc. que não têm natureza vinculante para os Estados. como tais. estão aptos a exigirem sua promoção e o seu cumprimento junto aos organismos nacionais e internacionais de proteção40.Analisis%20Brasil%202003.1 Os instrumentos normativos internacionais que reconhecem o direito à moradia como um direito humano O direito à moradia é um direito humano protegido pela Constituição Brasileira e pelos instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos. p. Nelson Saule Jr. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. São Paulo: Max Limond. 41 SAULE Jr. os efeitos que as declarações e os tratados e convenções internacionais possuem.05. os compromissos assumidos pelos países têm natureza vinculante. Nos tratados e convenções. Acessado em 25/10/06. 73..unhabitat. em seus textos. isto é. acarretando obrigações e responsabilidades ao Estado pela falta de cumprimento das obrigações assumidas. no aspecto jurídico. faz-se necessário diferenciar. As Declarações resultam em compromissos políticos. o direito à moradia como um direito humano necessário e indispensável para uma existência digna. . 41 40 SAULE Jr.20. pelo contrário.org/downloads/docs/2649 61742 03.

integrando e complementando o catálogo dos direitos e garantias previstos na Constituição de 1988. voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais.36 Uma particularidade relativa aos direitos enunciados em tratados internacionais de proteção dos direitos humanos incorporados pelo ordenamento jurídico brasileiro é o seu status de norma constitucional. permite ao particular a invocação direta dos direitos e liberdades internacionalmente assegurados e. Sendo que. 99. De acordo com o entendimento de Flavia Piovesan. Destaca ainda. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. Feita estas considerações preliminares analisaremos a seguir a proteção do direito à moradia no aparato internacional de proteção aos direitos fundamentais. torna-se possível a invocação imediata de tratados e convenções de direitos humanos. a partir da entrada em vigor do tratado internacional. Carta das Nações Unidas 42 PIOVESAN. por força do princípio consagrado no parágrafo 1º do artigo 5º da CF de 1988. 42 Os tratados internacionais de direitos humanos fundamentam reconhecem o direito à moradia como um direito humano. sem a necessidade de edição de ato com força de lei. em razão do Estado Brasileiro ser parte dos pactos e convenções internacionais. passando a ser um direito integrado e positivado no direito brasileiro. Flávia. a autora que. . 2006. dos quais o Brasil seja signatário. consequentemente. proíbe condutas e atos violadores a estes mesmos direitos. essa incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Direito brasileiro traz como conseqüências: de um lado. sob pena de invalidação. por outro. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a vigência. São Paulo: Saraiva. p.

Podendo http://dhnet. e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem. entrando em vigor no dia 24 de outubro daquele mesmo ano. momento em que era preciso evitar que atrocidades ocorridas durante a guerra se repetissem. trouxe sofrimentos indivisíveis à humanidade. NÓS. na dignidade e no valor do ser humano. sendo ratificada em 21 de setembro de 1945 pelo Brasil. 43 A Carta da ONU contém as principais disposições com relação à manutenção da paz e segurança internacionais. OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS. ser consultado em .org. assim como das nações grandes e pequenas e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos. realizada em São Francisco. processou-se uma onda de transformações no Direito Internacional. dando prioridade ao estabelecimento das condições necessárias para a efetivação da justiça e o respeito às obrigações decorrentes da assinatura dos tratados internacionais.br/direitos/sip/onu/doc/cartonu. em 26 de junho de 1945.37 A Carta das Nações Unidas foi assinada por representantes de 50 países na Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional. garantindo que as gerações vindouras não sofressem seus efeitos. A Carta também garante as condições necessárias ao progresso social e 43 Preâmbulo da Carta das Nações Unidas.htm. no espaço da nossa vida. que por duas vezes. RESOLVEMOS preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra. e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla . na igualdade de direitos dos homens e das mulheres. inaugurando-se um novo modelo de relações internacionais. A partir da Carta da ONU. A Carta da ONU é um importante documento deste século no tocante à matéria do reconhecimento e preservação dos direitos fundamentais do indivíduo do mundo pós-guerra. Acessado em 10/05/2007.

Considerando ser essencial que os direitos do homem sejam protegidos pelo império da lei. e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla. utilizando-se da cooperação internacional.”.Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade. de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum.38 melhorias nas condições de vida. Declaração Universal dos direitos humanos A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada pela Assembléia Geral da ONU. Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos do homem resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra. A afirmação histórica dos direitos humanos.. Preâmbulo . 232 45 Declaração Universal dos Direitos Humanos. na Carta. em 10 de dezembro de 1948. do direito à moradia como um direito humano fundamental. como último recurso. Saraiva. apesar de não ter tratado expressamente. 44 De acordo com Fábio Konder Comparato. A Declaração Universal é uma das principais conquistas das Nações Unidas no campo dos direitos humanos. enfatizando a defesa dos direitos humanos e das liberdades pessoais. p.. tendo sido proclamada “como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações.à rebelião contra a tirania e a opressão. em cooperação . A Carta da ONU é um documento de extrema importância na proteção do direito à moradia no Brasil. definiu uma estrutura internacional de proteção dos direitos humanos ligados à proteção dos direitos sociais. para que o homem não seja compelido. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. com 8 abstenções. São Paulo/2005. sua fé nos direitos fundamentais do homem. Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram. Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. A criação da ONU teve como um de seus objetivos instituir a cooperação internacional para solucionar os problemas que afetavam a todos. pela aprovação unânime de 48 Estados. como se percebe da leitura de seu preâmbulo45. pois. Fábio Konder. 4 ed. na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher. em seu texto. foi redigida sob o impacto das 44 COMPARATO. Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover. da justiça e da paz do mundo.

. A Declaração. velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. em âmbito universal. Sendo assim. A Declaração Universal dos Direitos Humanos.. da liberdade e da solidariedade entre os homens. tal qual se configurava na mente dos redatores da Declaração após a tragédia da Segunda Guerra Mundial. pode-se afirmar que a pessoa humana somente terá um padrão de vida adequado se os direitos à alimentação. Nelson Saule Jr. que dispõe sobre o direito a um padrão de vida adequado47: 1. saúde e seguridade forem assegurados e respeitados.todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. o direito à segurança em caso de desemprego. invalidez. doença. à moradia. A Era . Norberto Bobbio afirma que “os direitos elencados na Declaração não são os únicos e possíveis direitos do homem: são os direitos do homem histórico. numa época que tivera início com a Revolução Francesa e desembocara na Revolução Soviética”. p. representou a manifestação histórica de que se formara. artigo I . cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. fonte inspiradora do sistema de proteção internacional dos direitos humanos. com base no artigo XXV. (Ibid. p. vestuário. como ficou consignado em seu artigo I46.39 atrocidades cometidas durante a 2ª Guerra Mundial. inclusive alimentação. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.) 46 Declaração Universal dos Direitos Humanos. ao vestuário. habitação. pois esses direitos foram constituídos num momento histórico da com as Nações Unidas. 47 48 Ibid. enfim. o reconhecimento dos valores supremos da igualdade. ressalta que a Declaração Universal não esgota e não elenca todos os direitos humanos48. 231. reconhece o direito à moradia como um direito humano. o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do homem e a observância desses direitos e liberdades. (Ibid. viuvez. Sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos.. p. Bobbio. toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar.222). Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso. (NORBERTO. retomando os ideais da Revolução Francesa.222.

telefonia.75. embora não preconizados na Declaração Universal. 1992. com o final da Segunda Guerra Mundial49. 75 . 49 SAULE Jr. Instituto Polis. são exemplos de direitos humanos que se constituíram face às transformações econômicas e sociais das últimas décadas50. Tal aspecto só comprova o caráter histórico dos direitos humanos.. São Paulo: Max Limond. p. Assegura o autor que o direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado e o direito ao desenvolvimento sustentável. em que se buscava recuperar um período de paz. O direito à moradia está incluído no rol dos direitos sociais e tem por objetivo garantir a todo ser humano o direito a uma moradia adequada. iluminação pública. p. acima referido. coleta de lixo. O processo de especificação e de aperfeiçoamento dos direitos estabelecidos na Declaração Universal tem como marco os Pactos Internacionais de direitos civis e políticos e dos Direitos. Pacto Internacional dos direitos econômicos. Editora Campus. varrição. Rio de Janeiro. drenagem. Nelson. transporte. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. p. 50 Ibid. sociais e culturais é o principal documento de proteção aos direitos sociais no âmbito da ONU – Organização das Nações Unidas. etc).40 humanidade. Daí porque não foram reconhecidos naquele momento.. sociais e culturais O Pacto Internacional dos direitos econômicos. 1999. 33). sadia e dotada de infra-estrutura e serviços públicos urbanos (água. esgoto.

O Pacto Internacional dos direitos econômicos. ambos instituídos pelas Nações Unidas em 1966. p. inclusive alimentação. a si e a sua família. neste sentido. os direitos previstos no artigo XXV. Art. e direito à segurança em caso de desemprego.1. inclusive à alimentação. ensejando responsabilização internacional em caso de violação dos direitos que enuncia.Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar. sociais e culturais.168. tendo sido ratificados pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992. que estabelece: 1. O direito à moradia encontra-se expressamente reconhecido como um direito humano no artigo 11 do Pacto. Flávia. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. São Paulo: Saraiva. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. . 52 Declaração Universal dos Direitos Humanos.41 o Pacto dos direitos econômicos. invalidez. vestimenta e moradia adequadas. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequado para si próprio e sua família. doença. XXV . 51 PIOVESAN. O Pacto criou obrigações legais aos Estados-partes. passam a ter tratamento específico e força vinculante para os Estados signatários do documento. velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. 51 Através do Pacto Internacional dos direitos econômicos. habitação. 2006. assim como uma melhoria contínua de suas condições de vida. reconhecendo. a importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento. sociais e cultural teve como objetivo incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. viuvez. da Declaração Universal52. saúde e bem-estar. vestuário. e com entrada em vigor em 03 de janeiro de 1976. sociais e culturais. Os Estados Partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito.

p. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. 1999. Os Estados-partes não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. apresentam realização progressiva. sempre no sentido ascendente desses direitos. o pleno exercício dos direitos reconhecidos no Pacto. que tem por obrigação adotar medidas econômicas e técnicas. isoladamente e por meio da assistência e cooperação internacional. implementar políticas. Destaca o autor que os Estados não podem se isentar das obrigações imediatas e responsabilidades decorrentes do Pacto. De acordo com Flávia Piovesan os direitos sociais. São Paulo: Saraiva. programas e planos visando a realização contínua e gradual. nos termos que estão concebidos pelo Pacto (art. . 2006.169-172. São Paulo: Max Limond. até o máximo de recursos disponíveis. ou seja. mas os Estado se obrigam meramente a adotar medidas. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. do Pacto. sociais e culturais. econômicos e culturais. parágrafo 1º). significa que os Estados devem tomar medidas. Os Estados Partes têm a obrigação legal de instituir organismos e instrumentos para a promoção de políticas públicas de modo a tornar pleno o exercício desses direitos53. Flávia. Nelson. De acordo com Nelson Saule Junior. cada Estado Parte compromete-se a adotar medidas. p. a adoção do termo “progressivamente” no Pacto Internacional de direitos econômicos. que visem progressivamente. são direitos que estão condicionados à atuação do Estado. 54 PIOVESAN. Instituto Polis. até o máximo de seus recursos disponíveis com vistas a alcançar progressivamente a completa realização dos direitos previstos pelo Pacto.42 No artigo 2º. sob pena de descumprir e desrespeitar os compromissos que legalmente assumiram perante a comunidade internacional.77.. 2º.54 53 SAULE Jr. tanto por esforço próprio como pela assistência e cooperação internacional.

(Ibid. o Estado Brasileiro tem a obrigação. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar.. Sociais e Culturais e no contexto da utilização do máximo dos recursos disponíveis”. cabendo aos Estados o dever de respeitar. p. do Comitê sobre os Direitos Econômicos. ao menos. 2º). a progressividade cria um empecilho ao retrocesso da política social do Estado que. p. tendo alcançado um certo nível de proteção dos respectivos direitos. Clarice Duarte destaca que a noção de progressividade dos direitos sociais não pode ser confundia com a possibilidade de sua não aplicação: De acordo com o que está previsto no próprio Pacto. a cláusula proíbe o retrocesso ou a redução de políticas públicas voltadas à garantia de tais direitos. considerando que não podem ser implementados sem que exista um mínimo de recursos econômicos disponível e principalmente não podem ser implementados sem que representem efetivamente uma prioridade na agenda política nacional. o núcleo essencial mínimo relativamente a cada direito enunciado do Pacto. Sociais e Culturais: “qualquer medida deliberadamente regressiva requer a mais minuciosa consideração e deverá ser completamente justificada em relação ao total dos direitos previstos no Pacto Internacional de Proteção dos Direitos Econômicos. não pode retroceder e baixar o padrão de 55 56 Ibid. o que significa o dever de executar avanços concretos em prazos determinados. proteger e implementar tais direitos”. ou seja. econômicos e culturais decorre a chamada “cláusula de proibição do retrocesso social”. 78 “O Comitê de Direitos Econômicos. Os direitos garantidos pelo Pacto são aplicação progressiva. 56 Conforme a Recomendação Geral nº 03. cabe ao Estado adotar medidas até o máximo de seus recados disponíveis (art.43 Sendo assim.. Assim. Dessa obrigação da progressividade na implementação dos direitos sociais. item 09. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. programas e planos de ação sobre política habitacional de modo a garantir esse direito para os seus cidadãos55. criar instrumentos. no que diz respeito ao direito à moradia. 171) . de elaborar uma legislação.

O fato de terem por objeto a realização de políticas públicas torna a acionabilidade dos direitos sociais questionável para alguns autores. Por serem interdependentes esses objetos sociais. econômicos e culturais são acionáveis e demandam séria e responsável observância. São Paulo: Saraiva.44 vida da comunidade. No entanto. p. Clarice Seixas. econômicos e culturais é um problema de ação e prioridade governamentais e implementação de políticas públicas. sociais e culturais.61. 2003. Sendo que a violação a esses direitos é resultado tanto da ausência de forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. 59 PIOVESAN. De acordo com Flavia Piovesan. da saúde. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. econômicos e culturais. 58 COMPARATO. os direitos fundamentais sociais. Dissertação (Doutorado apresentado ao Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito). a comunidade internacional continua a tolerar freqüentes violações aos direitos sociais. um programa conjunto de medidas governamentais no campo do trabalho. da previdência social. 4 ed. a não realização de um deles compromete a realização de todos os outros. já que a cláusula do não retrocesso social protege o núcleo essencial dos direitos sociais. 2006. . p. 2005. 334. São Paulo: Saraiva. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. 175-176. Fábio Konder. da educação e da habitação popular58. no mínimo. Flávia. São Paulo. 59 57 DUARTE. p. A autora afirma ainda que a violação dos direitos sociais. 57 Comparato afirma que os direitos declarados pelo Pacto de direitos econômicos. A afirmação histórica dos direitos humanos. Complementa o autor que a elevação do nível e da qualidade de vida das populações carentes supõe. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. O Direito Público subjetivo ao ensino fundamental na Constituição Federal Brasileira de 1988. têm por objeto políticas públicas ou programas de ação governamental e políticas públicas coordenadas entre si.

com todas as suas tragédias e problemas.. ditadas pelos imperativos da justiça social. inclusive no Brasil. 60 A globalização econômica está associada. realizada no Canadá.. e perseguir equidade e justiça social. Gilberto. (. da UFSC. 47-48).. tendo como objetivo regulamentar o processo de desenvolvimento com base nos princípios de sustentabilidade. da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. tendo como princípios: integrar conservação da natureza e desenvolvimento. em 1986. Os mecanismos internacionais de proteção dos direitos econômicos. tendo sido difundido como novo paradigma na conferência mundial sobre a conservação e o desenvolvimento sustentável eqüitativo. em junho de 1992. O Relatório Brundtland. para que todos possam se beneficiar do progresso social. Social and Cultural Rights. à supressão de conquistas sociais. incluindo fluxos adicionais de refugiados e migrantes. satisfazer as necessidades humanas fundamentais. .45 Com efeito. (Ibid. 177) 61 A partir da década de 1980 difundiu-se o termo desenvolvimento sustentável. 61 60 Flavia Piovesan destaca o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Comnittee on Economic. Além disso. 2001. de 1987. miséria e negligência. Florianópolis: Ed. denominados ´refugiados econômicos´. p.) Direitos sociais. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade. democracia. Agenda 21 A Agenda 21 foi elaborada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. à exclusão de vastas parcelas da sociedade dos benefícios do progresso e a consolidação de profundas desigualdades sociais e econômicas. celebrada no Rio de Janeiro. estabilidade e paz não podem conviver com condições de pobreza crônica. dando-lhe a seguinte definição: desenvolvimento que responde às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades. O mito do desenvolvimento sustentável: Meio ambiente e custos sociais do moderno sistema produtor de mercadorias. (MONTIBELLER FILHO. retoma o conceito de desenvolvimento sustentável. essa insatisfação criará grandes e renovadas escalas de movimentos de pessoas. p. sociais e culturais pouco lograrão sem modificações profundas nas sociedades nacionais.

mas político. estão expresso itens referentes ao direito à moradia.“O acesso a uma habitação sadia e segura. e movimentos sociais. mas é um documento ético que se reduz a um compromisso por parte deles. e no Pacto Internacional de Direitos Econômicos. A previsão do direito à moradia num documento que tem como objeto primário a proteção do meio ambiente demonstra a relação de profunda interdependência entre esses dois direitos. A participação ativa da sociedade civil nessas Conferências Mundiais. Sociais e Culturais. não é um documento técnico. Infelizmente uma das maiores críticas à Agenda 21 relaciona-se com o seu caráter genérico e às dificuldades de implementação prática.46 No capítulo 7 da Agenda 21. As Conferências Mundiais têm proporcionado grande mobilização. psicológico e físico da pessoa humana e deve ser parte fundamental das ações de âmbito nacional e internacional”. Este mesmo item estabelece que o direito à moradia é um direito humano básico. Agenda Habitat . sobretudo da mídia. A Agenda não está sendo muito utilizada devido a pouca ou nenhuma implementação de ações voltadas a efetiva defesa ambiental. A Agenda 21 não é um documento normativo. social. que está inserido na Declaração Universal de Direitos Humanos. principalmente através das ONGs. pois não obriga as Nações signatárias. é essencial para o bem-estar econômico. tem contribuído para pressionar as Nações Unidas e os Estados a assumirem as agendas da sociedade. como o item 6 . sendo assim. e estima que pelo menos um bilhão de pessoas não tem acesso a uma habitação sadia e segura. A Agenda 21 transformou-se em instrumento de referência e mobilização para a mudança do modelo de desenvolvimento em direção de sociedades cada vez mais sustentáveis.

como segue: . e provido pelo Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. dotada dos serviços básicos. a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. social e econômico das pessoas. tendo sido o direito à moradia reconhecido no parágrafo 24. como condição essencial para uma vida digna e para o bem estar físico. que foi realizada em Istambul. levando em conta que o direito à moradia incluído nos instrumentos internacionais acima mencionados deve ser realizado progressivamente. interdependentes e inter-relacionados. No preâmbulo da Agenda é reconhecido o acesso à habitação sadia e segura. O direito à moradia foi o principal tema e objeto de debates e de negociações entre os países e organizações não governamentais presentes na Conferência do Habitat II. que dispõe: Nós reafirmamos e somos guiados pelos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e nós reafirmamos nosso compromisso de assegurar a plena realização dos direitos humanos a partir dos instrumentos internacionais. tendo como objetivos principais: instituir padrões de habitação adequada para todos. culturais. políticos e sociais são universais. Nós reafirmamos que todos os direitos humanos. indivisíveis. psicológico. Sociais e Culturais. A Agenda estabelece um conjunto de princípios e metas que vão nortear esses dois objetivos. parágrafo 13. e o desenvolvimento sustentável em um mundo em urbanização. O direito à moradia encontra-se expresso no capítulo II. a Convenção sobre todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e a Convenção sobre os Direitos da Criança. civis. em junho de 1996. econômicos. em particular nesse contexto o direito à moradia disposta na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os compromissos sobre a Adequada Habitação para Todos estão expressos no Capítulo III.47 A Agenda Habitat foi adotada pela Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos – Habitat II.

Instituto Polis. acessível e disponível. segurança. iluminação. p. acessibilidade física. São Paulo: Max Limond. Para realização progressiva do direito à moradia são necessárias as seguintes medidas: . Nelson. provido por instrumentos internacionais. Nós devemos implementar e promover este objetivo de maneira plenamente consistente com as normas de direitos humanos. infra-estrutura básica. espaço. produz de imediato os seguintes efeitos: a faculdade de o cidadão exigir de forma imediata. que pode gerar a inconstitucionalidade por omissão. apropriada qualidade ambiental e de saúde. suprimento de água. os Governos devem tomar apropriadas ações para promover. legais. do Capitulo IV. sadia. proteger e assegurar a plena e progressiva realização do direito à moradia62. e o gozo de liberdades frente a discriminações de moradia e segurança legal de posse. dispondo ser aquela que “possui privacidade. A realização progressiva como obrigação. face a inércia do Estado. pelo qual todos terão adequada habitação. Nos termos da Agenda Habitat.a destinação de recursos para a promoção da política habitacional.48 Reafirmamos nosso compromisso para a plena e progressiva realização do direito à moradia. 1999. as prestações e ações constitutivas desse direito. . saneamento e tratamento de resíduos. Neste contexto. facilidades e amenidades. segura. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. Nós nos comprometemos com a meta de melhorar as condições de vida e de trabalho numa base sustentável e eqüitativa.a constituição de um sistema nacional de habitação descentralizado. incluindo segurança da posse.. desde a adoção da Declaração Universal de Direitos Humanos de 62 Sobre o assunto comenta Saule Jr. devendo todos esses componentes terem um custo acessíveis e estarem disponíveis a todos os seres humanos”. administrativos para a promoção de uma política habitacional. e adequada localização com relação ao trabalho e serviços básicos.adoção de instrumentos financeiros. o direito de participar da formulação e implementação da política habitacional. durabilidade e estabilidade estrutural.” (SAULE Jr. .revisão de legislações e instrumentos de modo a eliminar normas que acarretem algum tipo de restrição e discriminação sobre o exercício do direito à moradia. . De acordo com o parágrafo 44. com mecanismos de participação popular. 94). o direito de acesso à Justiça. de forma progressiva significa que o Estado brasileiro tem que criar meios materiais indispensáveis para o exercício desse direito. ventilação e aquecimento. protegida. . o direito à moradia é reconhecido como um direito humano. mediante ações e processos judiciais eficazes destinados a proteção do direito à moradia. que inclui serviços básicos. A definição de moradia adequada encontra-se no parágrafo 43 da Agenda. que “essa obrigação de tornar efetivo o direito à moradia. nós reconhecemos a obrigação dos governos de capacitar as pessoas para obter habitação e proteger e melhorar as moradias e vizinhanças.

6º da Constituição Federal através da emenda constitucional nº. 2. 5º da Constituição Federal. regulamentação e incentivos ao mercado para construção de casas a preços acessíveis. têm a responsabilidade no setor de habitação de proteger. apoio a programas habitacionais para as comunidades de base. sendo incorporado ao rol de direitos sociais fundamentais. voltadas a atender à demanda de moradias tanto no regime de locação como no de propriedade. 26/2000.49 1948. da participação popular e do direito à moradia integram o nosso ordenamento jurídico. criação e promoção de incentivos ao setor privado para investimento no mercado de habitação mais baratas. utilização de financiamentos e outros recursos públicos e privados de forma inovadora. O Brasil é signatário de vários tratados e convenções sobre assentamento humano e meio ambiente. desenvolvimento de modelos de ocupação territorial sustentáveis. provisão de subsídios para locação e outras formas de assistência à moradia para os mais necessitados. os princípios do desenvolvimento sustentável. Sendo assim. além da Agenda 21 e da Agenda Habitat.2 O reconhecimento do direito à moradia na CF/88 . o direito à moradia tem sido reconhecido como um importante componente do direito a um nível adequado de vida. Os tratados internacionais integram o nosso ordenamento jurídico por força do que dispõe o § 2º e o § 3º do art. assegurar e promover: a expansão do suprimento de moradias.2. Todos os Governos sem exceção. promoção de programas voltados aos sem teto e outros grupos vulneráveis. sendo que tal direito foi recepcionado no art. cooperativas e associações sem fins lucrativos.

em seu bojo.. No Brasil. Déficit Habitacional no Brasil. todos têm direito a um lugar adequado para viver. 34. estima-se que 6. sem um lugar adequado para moradia. p. .Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito.Centro de Estudos Políticos e Sociais. ambiental e econômica das pessoas que não têm acesso à moradia. Fundação João Pinheiro .5 milhões de brasileiros não têm acesso a uma moradia digna. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo . Ou seja. 63 Fernando Aith afirma que o processo de generalização da proteção internacional dos direitos humanos trouxe. localizada em um ambiente saudável que promova a qualidade de vida dos moradores da comunidade. todos têm o direito humano a uma moradia segura e confortável. assim. O direito a uma moradia adequada está vinculado a outros direitos humanos. p. 64 AITH. que são interdependentes. Belo Horizonte: 2001. segura.São Paulo.1 bilhão de pessoas estão agora vivendo em condições inadequadas de moradia. a proteção do direito à moradia. Dissertação . Ministério das Cidades. de forma que a não realização de um deles compromete a realização de todos os outros. sistema de saneamento e serviços públicos básicos. o emprego e a saúde.50 A Comissão das Nações Unidas para Assentamentos Humanos estima que 1. torna-se difícil manter a educação. sadia. 2001. Sociais e Culturais. 77. 64 De acordo com o Pacto dos Direitos Econômicos. ou seja. 65 Ibid. apenas nas áreas urbanas. aumentando-se. com fornecimento de água potável. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos. Fernando Mussa Abujamra. Fernando Aith conceitua o direito à moradia como o direito humano fundamental de acesso à moradia habitável. protegida e acessível. a exclusão social. 65 63 BRASIL. O primeiro passo para a proteção do direito à moradia foi o reconhecimento formal de que todo ser humano necessita de uma moradia para ter uma existência digna.

o trabalho. Sociais e Culturais.. de 1948. adotado em 1991. que garanta a proteção contra os despejos forçados. a assistência aos desamparados. Monitorando o Direito à Moradia no Brasil (1992-2004). e VII) adequação cultural. A constitucionalização do direito à moradia convalida a indissociabilidade entre a garantia de condições de vida digna e o bem-estar do ser humano. a segurança. levando em conta as necessidades habitacionais específicas de idosos. que estabelece no artigo 6° da Constituição Federal que “são direitos sociais a educação. a previdência social. III) disponibilidade a preços acessíveis. de 14 de fevereiro de 2000.br/sites/000/2/publicações/bpsociais/bps . de modo a permitir a expressão das identidades culturais. esgoto. o lazer.gov. no sentido de fornecer aos seus moradores espaço adequado.ipea. recomendação Geral nº 4. a serviços de saúde e outros equipamentos sociais. equipamentos e infra-estrutura. Acessado em 15/06/2007. a moradia. coleta de resíduos sólidos. tais como água.51 O Comitê da ONU sobre os Direitos Econômicos. II) disponibilidade de serviços. V) acessibilidade a todos os grupos sociais. protegendo-os de fatores climáticos e garantindo a sua segurança física. Rubem de. população de baixa renda etc. Do mesmo modo. Maria Piedade. IV) habitabilidade. seguindo expressão já consagrada pelo artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Podendo ser consultado no http:/www. 66 O direito à moradia foi explicitamente incorporado à Constituição Federal por meio da Emenda Constitucional n° 26. VI) localização que possibilite o acesso ao emprego. moradores de rua. George Alex da. a proteção à maternidade e à infância. iluminação. GUIA. para que o preço da moradia seja compatível com o nível de renda da população e não comprometa a satisfação de outras necessidades básicas das famílias. identificou sete componentes básicos para que uma moradia possa ser considerada minimamente adequada: I) segurança no direito de propriedade. energia para cocção. na forma desta Constituição”. deficientes físicos. a saúde. PAULA. acolhe proposição da 2ª Conferência sobre Assentamentos Urbanos (Habitat II) 66 MORAIS. dentre outros. crianças.

em seu artigo 5º. pois embora inserido no parágrafo 1º do art. . como também aqueles direitos e garantias expressos no artigo 6º ou ao longo do texto constitucional. na Turquia. A vontade do legislador foi clara. o dispositivo contém ordem clara no sentido de que todos os direitos e garantias fundamentais que a Constituição defende possuem aplicação imediata. 5º. Sendo assim. que devem ser atendidas pelo salário mínimo (art. 7. Conforme visto anteriormente. De acordo como Fernando Aith não há dúvida que tal dispositivo aplica-se também aos direitos sociais. nas suas três esferas. concluí-se que o direito à moradia tem aplicação imediata. é uma norma de eficácia plena. 67 AITH. A Constituição Federal estabelece ainda. p. que recomendou a todos os países participantes. promover programas de construção de moradias e melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico.São Paulo. 96.Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos. 67 O direito à moradia foi reconhecido como direito humano fundamental ao estar expresso no Título “Dos Direitos e Garantias Fundamentais” da Constituição Federal. Fernando Mussa Abujamra. a Constituição Federal dispõe. o destaque normativo do direito à moradia em suas constituições. que define os direitos e deveres individuais e coletivos. que “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. inciso IX que é dever do Estado. em Istambul. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo . Dissertação . 23. Considerando que o direito à moradia está expressamente reconhecido na Constituição Federal como um direito humano fundamental. parágrafo 1º. entre eles o Brasil. tanto que inseriu um texto que claramente abrange não só os direitos e as garantias fundamentais do art. O direito à moradia também faz parte das necessidades básicas dos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais. 2001. no art. o direito à moradia além de ter aplicação imediata. seção IV).52 promovida em 1996 pela Organização das Nações Unidas (ONU). 5º.

não estando. Nelson. sim. sociais e culturais. dependentes de providências normativas posteriores para a efetiva proteção dos direitos por elas assegurados. Já as normas de eficácia contida. (Ibid. em especial voltadas à promoção de ações e políticas urbanas 68 José Afonso da Silva. através de execução de políticas públicas. afirma haver três tipos de normas constitucionais. de imediato o Estado Brasileiro tem a obrigação de adotar as políticas. p. constituindo planos e programas habitacionais com recursos públicos e privados para os segmentos sociais que não têm acesso ao mercado e vivem em condições precárias de habitabilidade sem uma vida digna. essa obrigação não implica o dever de prover e dar habitação para todos os cidadãos de forma imediata e integral.. embora possuam normatividade suficiente para produzir os efeitos necessários à proteção dos direitos nelas reconhecidos.. p. em geral dependentes de integração com outras normas infraconstitucionais para operaram a plenitude de seus efeitos. 95) 69 SAULE Jr. em especial aos que se encontram no estado de pobreza e miséria. prevêem a edição de meios normativos capazes de lhes reduzir a eficácia e a aplicabilidade. II) as normas constitucionais de eficácia contida e aplicabilidade imediata. As normas de eficácia plena possuem na Constituição normatividade suficiente para assegurar a sua incidência imediata. 69 O Direito à moradia. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. pois dependem de normas infra-legais. mas passíveis de restrição e IV) as normas constitucionais de eficácia limitada ou reduzida. oferecendo aos cidadãos garantias concretas para a defesa do direito à moradia. sendo : I – as normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade imediata. Contudo. portanto. para ter eficácia jurídica e social.96. pressupõe a ação positiva do Estado. 1999. Instituto Polis. deixando ao legislador infraconstitucional a competência de completar a sua regulamentação. como integrante da categoria dos direitos econômicos. no que se refere à sua classificação quanto à eficácia e aplicabilidade. sendo assim. mas existem também normas definindo algumas garantias do direito à moradia sem conter os elementos suficientes para que possam ser consideradas como de aplicação imediata. Sendo que essas normas são eficácia limitada. apud Fernando Aith. o dever de constituir políticas que garantam o acesso de todos ao mercado habitacional. . mas significa. São Paulo: Max Limond. As normas de eficácia limitada são as que não receberam do constituinte normatividade suficiente para a aplicação. ações e demais medidas compreendidas e extraídas do texto constitucional para assegurar e tornar efetivo esse direito. 68 O direito à moradia é de aplicação imediata e eficácia plena.53 Existem normas que possuem aplicação imediata.

que incidem. Nas áreas urbanas brasileiras ainda há 59.54 e habitacionais. 128.2004 70 AITH. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo . 70 Entretanto. apesar dos avanços obtidos com o reconhecimento do direito à moradia na Constituição Federal e em outros normativos legais. com o objetivo de prover a todos os seres humanos que vivem em seu território com moradias adequadas. a fim de garantir-lhes uma vida digna.São Paulo. Fernando Mussa Abujamra. sobretudo. PAULA. nas camadas mais pobres da população. Acessado em 15/06/2007. o seu grau de efetividade no Brasil ainda é bastante desigual entre os diferentes grupos socioeconômicos. Rubem de. Dissertação . Monitorando o Direito à Moradia no Brasil (1992-2004). configurando violações do direito à moradia. 71 Gráfico 1 – População urbana / tipo de inadequação de domicílio .7 milhões de brasileiros que convivem com pelo menos um tipo de inadequação habitacional. Maria Piedade. Podendo ser consultado no http: www. GUIA. Ainda existe no país uma vasta gama de necessidades habitacionais não satisfeitas. como pode ser constatado no gráfico abaixo.br.gov. . p. George Alex da. 2001. 71 MORAIS. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos.Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito.ipea.

somadas à atual política econômica do governo são fatores que têm contribuído para o aumento da pobreza da população do Brasil. eleva o número de pessoas morando em áreas de risco. . aprofundou-se quando da implantação da indústria moderna e se intensificou enormemente.3 O DIREITO AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO COMO DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL DE NATUREZA SOCIAL 2. Em nosso país existem milhões de pessoas sem teto. sem emprego. nos fundos de vales. e que não tem como comprovar nenhum tipo de renda financeira ou endereço fixo. A atual política desenvolvimentista. a partir dos anos 60. 2. o que realmente existe é a luta pela sobrevivência. sem alimentação. Para essas pessoas não existe o direito à moradia digna.1 Evolução da Proteção Jurídica do meio ambiente A degradação do meio ambiente esteve sempre presente desde quando se iniciou a concentração populacional e as atividades humanas. nas beiras de rodovias e de vias de alta velocidade e outros lugares inadequados para o seu habitat.55 A falta de políticas públicas bem definidas e claras. Isto porque os projetos sociais destinados às famílias de baixa renda não atinge nem de perto essas camadas sociais. Por falta de alternativa habitacional. sem escola. leva a população carente a construir abrigos nos morros. seja pela concentração de terrenos urbanos de propriedade privada ou pela alta especulação dos mesmos.3. caracterizada pela exclusão social e ambiental. sobretudo.

a degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização da razão tecnológica sobre a organização da natureza. a partir da década de 60.300 pessoas em 1984 e Chernobyl (1986). a crise ambiental se torna evidente nos anos 60. Harrisburg (acidente nuclear ocorrido em Three Mile Island. eventos como acidentes químicos e radiativos como Seveso (1976). a descoberta da dioxina. com a publicação do livro intitulado a Primavera Silenciosa (sobre a revolução verde e os altos riscos para a saúde e o meio ambiente gerados pelo uso intensivo de agrotóxicos) 72 74 sendo que a preocupação com o meio ambiente se expandiu nos anos 70. Enrique. ainda. ampliou a problemática ecológica e fez surgir. da UFSC. 79-81 73 LEFF. Petrópolis. A intensificação. O mito do desenvolvimento sustentável: Meio ambiente e custos sociais do moderno sistema produtor de mercadorias. denunciou pela primeira vez a crise ambiental. seja quanto à exploração de recursos naturais. p. dando início a crescente e continua preocupação de parte significativa da população com os problemas de deterioração ambiental. aliada ao aumento da concentração espacial das atividades produtivas e da população. Saber Ambiental: sustentabilidade. a preocupação com o presente e o futuro do meio ambiente. que matou 3. no quadro do mundo capitalista. como contaminante presente no herbicida “Agente Laranja”. largamente utilizado em plantações e na Guerra do Vietnã.56 A pressão das diversas atividades humanas sobre a natureza até por volta dos anos 60 do século XX. são também símbolos do processo de reconhecimento da crise ambiental. marcando assim. não possuía a característica de irreversibilidade. complexidade. em 1962. MONTIBELLER FILHO. embora relevante. e quanto à poluição que suas atividades geram. Pensilvância em 1979). 72 De acordo com Enrique Leff. Portanto. substância química altamente perigosa. Nesse período começa a chamada revolução ambiental norte-americana. 73 A naturalista norte-americana Rachel Carson. assim como os debates globais acerca dos impactos da poluição química no . 2001. 74 Além das denúncias feitas por Raquel Carson. p 16. na sociedade. Gilberto. racionalidade. 2001. RJ: Vozes. o que bloqueava o despertar da consciência ecológica coletiva. Bhopal (vazamento de gás tóxico de uma fábrica de pesticidas. Florianópolis: Ed. não havia atingido uma situação crítica ou possuía caráter localizado ou. do processo de industrialização altamente impactante sobre o meio ambiente. poder. os limites do crescimento econômico. refletindo a irracionalidade ecológica dos padrões dominantes de produção e consumo.

com destaque para o fato de que as questões políticas. Daí a razão pela qual o conceito de meio ambiente inicialmente proposto na agenda de Estocolmo (que restringia as questões ecológicas em sentido estrito) passou a englobar também problemas como fome e pobreza. passar a se visualizar a necessidade de adoção de novos instrumentos e políticas globais no tratamento dos problemas ambientais. Saber Ambiental: sustentabilidade. são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais. bem demonstra isso”. tudo que o cerca. poder. Petrópolis. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. Enrique. onde foram assinalados os limites da racionalidade econômica e os desafios da degradação ambiental. se atribui à Conferência de Estocolmo o mérito de. inclusive o direito à vida mesma. o homem adquiriu o poder de transformar. racionalidade. 75 LEFF. o meio ambiente se constituiu em tema principal de uma reunião de governos de diversos países. celebrada na cidade de Estolcomo. impondo a obrigação de proteger e melhorar o ambiente para as gerações presentes e futuras e estabeleceu um dever de cuidado com o ambiente. a comunidade internacional tomou consciência das questões ambientais planetárias e da necessidade de defender o ambiente. graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia. 45). p. sociais e econômicas mais amplas se inseriram no mesmo palco da questão ambiental. 2003. moral. Os dois aspectos do meio ambiente humano. Uma Terra Só. RJ: Vozes. em 1972. 76 “Também foi em Estolcomo que. a aquecimento global do planeta e no buraco na camada de ozônio). o natural e o artificial. 2001. Por esta razão. de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes. A partir da Conferência de Estocolmo. Marise Costa de Souza. o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual. (DUARTE. O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca. Desse modo. . social e espiritualmente.57 depois da Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Curitiba: Juruá.19. num ambiente de qualidade. em razão da percepção surgida quanto à interdependência planetária de todos os seres vivos. 75 A Declaração de Estolcomo76 estabeleceu com clareza que o homem tem direito fundamental à vida saudável. O seu lema. pela primeira vez. o que ocorreu a partir da reação dos países do Sul. complexidade. p. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que. a partir dali. derivando daí uma perspectiva global e ampliada dos problemas ambientais.

a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos (UICN) refere-se pela primeira vez à noção de “desenvolvimento sustentável”. Tal relatório foi elaborado no bojo da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nesta conferência foi elaborado e aprovado um programa global. a insuficiência de resultados práticos obtidos dez anos após a Conferência de Estolcomo. Ed. Foi incluído no relatório Brundtland a definição do conceito de desenvolvimento sustentável – aquele que responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas próprias necessidades. uma Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. A referida Comissão publicou um documento intitulado “Nosso Futuro Comum” (CMMAD. sendo que. 77 Em 1980. 30. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. Orci Paulino Bretanha. p. 1988). .58 conferência foi considerada ponto de partida do movimento ambientalista internacional. em junho de 1992. por ocasião da publicação de sua “Estratégia Mundial para a Conservação”. também conhecido como “Relatório Brundtland”. a partir dela. conhecido como Agenda 21. várias convenções de caráter internacional foram adotadas. levaram a Assembléia Geral das Nações Unidas a criar em 1983. estabelecendo que: “Todos os seres humanos têm o direito fundamental a um meio ambiente adequado à sua saúde e bem-estar”. A continuação de muitos fenômenos de degradação ecológica. O Relatório Brundtland oferece uma perspectiva renovada à discussão da problemática ambiental e do desenvolvimento.. Porto Alegre: Livraria do Advogado. com a finalidade de avaliar os avanços dos processos de degradação ambiental e a eficácia das políticas ambientais para enfrentá-los. para regulamentar o processo de desenvolvimento com base nos princípio 77 TEIXEIRA. e o agravamento da situação econômica das populações de grande parte do mundo. celebrada no Rio de Janeiro. 2006.

Saber Ambiental: sustentabilidade. RJ: Vozes. no Brasil da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Por ocasião da Declaração Universal. tendo em vista a preocupação de grande parte dos países com a possibilidade concreta de um colapso nos ecossistemas naturais que permitem a vida humana na Terra. 20. poder. Foi por esta razão que a questão ambiental não fez parte da pauta de reivindicações necessárias à garantia da dignidade humana constante da Declaração de 1948. a crise ambiental ainda não havia sido percebida com a gravidade que pautou os movimentos ambientalistas da década de 1960. inclusive alimentação. em 1948. Petrópolis. para a necessidade de buscar soluções para os problemas ambientas de caráter global. em art. que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família a saúde e o bem-estar. em 1992. naquele momento. 2001. habitação. Mas o direito ao meio ambiente sadio propriamente dito só ganhou um enfoque mundial a partir da década de 1970. . A Declaração Universal dos Direitos do Homem já reconhecia.59 da sustentabilidade78. contando com a presença de 178 países e 100 chefes de Estado. na cidade do Rio de Janeiro. Hoje a consciência ética da humanidade evoluiu no sentido de reconhecer que o homem só pode conseguir assegurar a si e à sua família os direitos descritos na própria Declaração se lhe for assegurado um meio ambiente sadio. complexidade. vestuário. houve a realização. não respeitando a natureza e sua capacidade de regeneração. Foi o momento do despertar da atenção tanto dos Governos. como da sociedade civil em geral. pois. em face do uso incontrolável e predatório dos recursos naturais por parte do homem. Desta forma foi sendo configurada uma política para a mudança global que busca dissolver as contradições entre meio ambiente e desenvolvimento. racionalidade. 25. Henrique. p. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis”. o direito ao meio ambiente não foi reconhecido como um direito humano. Vinte anos depois da Conferência de Estocolmo. tendo em 78 LEFF.

8 – Integração entre Meio Ambiente e Desenvolvimento na Tomada de Decisões. 5 – Dinâmica Demográfica e Sustentabilidade. teve como resultado a aprovação de diversos documentos. da desertificação. 7 – Promoção do Desenvolvimento Sustentável dos Assentamentos Humanos. na cidade o Rio de Janeiro. 3 – Combate à Pobreza. como a Agenda 21. 80 Os chefes dos Estados assumiram o compromisso de protegê-la. do efeito estufa. se comprometeram a paralisar o processo de extinção das espécies e se dispuseram a aplicar em seus países a Agenda 21. tendo como objetivo avaliar os avanços na área ambiental. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. Orci Paulino Teixeira. O Fórum Global das ONG´s. do desmatamento de florestas.. Esta Agenda procurou auxiliar os Estados na procura de soluções para o problema da mudança climática. da gestão de recursos naturais. o mais importante foi a Agenda 2181. reuniu 4. (Ibid. popularmente denominados de ECO-92. tendo se concluído que as iniciativas propostas em 1992. Porto Alegre: Livraria do Advogado. (TEIXEIRA. 6 – Proteção e Promoção das Condições da Saúde Humana. realizado na mesma ocasião da Conferência. da poluição. entre muitos outros perigos que assolam a humanidade e tanto preocuparam a comunidade ambiental. Esses gases são responsáveis pela elevação da temperatura na Terra.60 vista que nenhum outro evento voltado para questões ambientais havia conseguido congregar tantas lideranças mundiais. dentre eles a Declaração do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. 33) 81 Destaca-se na Agenda 21 a seção “Dimensões sociais e econômicas. a Convenção sobre Mudanças Climáticas 79. 80 Dentre os documentos aprovados pela Conferência do Rio. e que os Estados não 79 Os chefes dos Estados participantes da Convenção assumiram o compromisso de redução de emissões de poluentes da atmosfera aos níveis de 1990. 31). englobando convenções e declarações de princípios. Cinco anos após a ECO-92 foi realizada. p. composta pelos capítulos 2 à 8: 2Cooperação Internacional para Acelerar o Desenvolvimento Sustentável dos Países em Desenvolvimento e Políticas Internas Correlatas.000 entidades da sociedade civil de diversos países. A Conferência do Rio e o Fórum Global das ONG´s. 4 – Mudança de Padrões de Consumo. 2006. o que igualmente jamais havia acontecido. a Declaração de Princípios sobre Florestas e a Convenção sobre a Biodiversidade. se revelaram tímidas e pontuais. a RIO + 5. p. . que tinha por objetivo traçar um planto de ações político-normativas de promoção do desenvolvimento sustentável e política ambiental a serem adotadas pelos Estados até o século XXI.

o balanço continua negativo. e a América Latina em média 40%”. (DUARTE. em 7. em mais de 50%. em questões ambientais. que trata das alterações climáticas em todo o Planeta. onde diversos países assinaram o Protocolo de Kyoto82. . mas ainda estamos longe de alcançar os objetivos e compromissos firmados nas diversas Conferências e Cúpulas realizadas em diversos países. deve-se destacar. a Agenda 21 está sendo pouco utilizada. sendo que os Estados participantes assumiram o compromisso de reduzirem suas emissões de gases do efeito estufa. 52). Curitiba: Juruá. no ano de 2002. Entretanto. conhecida como RIO + 10. p. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. a Ásia. O último grande evento. no ano de 1997 o encontro realizado em Kyoto no Japão.6%. realizada no Rio de Janeiro em 1992. A preocupação dos chefes de Estados com a crescente degradação ambiental possibilitou o aumento das ações voltadas à proteção do meio ambiente. tendo em vista que a crise ambiental continuava marcadamente crescente no mundo globalizado. principal emissor de poluentes. o surgimento e a difusão da consciência ambiental. inclusive no Brasil. ainda. aumentaram em mais de 10% suas emissões de gases sobre o nível de 1990. Os Estados Unidos.61 estavam honrando os compromissos assumidos. 2003. realizados mundialmente. a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. foi realizado pela ONU na cidade de Johannesburgo. na África. tornando mais enfática à 82 “Passado algum tempo. o Japão. e nem ocorrendo as necessárias mudanças nas matrizes energéticas. Tendo em vista a escassa implementação de políticas públicas para a efetiva defesa ambiental. como pontos positivos desses movimentos. Destaca-se. a fim de avaliar a efetivação dos compromissos assumidos na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. não se alterando o grave quadro da extinção das espécies. Marise Costa de Souza.

84 A respeito dos Direitos Fundamentais. A liberdade se desenvolvia na resolução dualista Estado/sociedade civil. 84 DERANI. 1998. a partir de uma vertente ética onde se privilegiem interesses públicos abrangentes em termos de espaço e de tempo”. fruto do desenvolvimento da sociedade humana e dos movimentos econômicos. sociais e políticos da época. sendo que essa liberdade não é uma liberdade genérica e abstrata. Constatou-se que as liberdades escolhidas pelo Estado de Direito não eram ameaçadas pelo poder do Estado 83 “. não-fragmentária. aspectos essenciais na compreensão inicial do conceito de meio ambiente e que podem assim serem resumidos: 1 – ainda que o conceito de meio ambiente não possua a precisão científica tradicionalmente esperada. São Paulo.62 preocupação em proteger. os avanços da sociedade industrial frustraram as expectativas da sociedade do século XVIII. mas é aquele conjunto de elementos mantenedores e estabilizadores da sociedade. p. era um direito oposto contra o Estado e perante o Estado. p. o que em si já representa um grande avanço na história da humanidade. 3 – em qualquer conceituação de meio ambiente deve ser ultrapassar o modelo antropocêntrico passado. 94. complexidade e mutabilidade. Entretanto. em seu sentido inicial. 2. In: Temas de Direito Ambiental e Urbanístico. ao revelar outras ameaças à liberdade que o exercício do poder de império do Estado e mostrar a inviabilidade da concretização de liberdades como campo isolado da atividade individual. . Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado: Direito Fundamental e principio da atividade econômica.. observa Cristiane Derani: Direito Fundamental. O desenvolvimento das atividades sociais não se mostrava capaz de respeitar aquele conjunto de direitos fundamentais erigido.. Os direitos fundamentais surgem no século XVIII. Max Limond. Cristiane. 72). De acordo com Cristiane Derani.2 O direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. (Ibid. um direito é fundamental quando seu conteúdo invoca a construção da liberdade do ser humano. que oferece uma nova compreensão de mundo a partir de sua integralidade. 2 – o conceito de meio ambiente pressupõe uma visão holística. o certo é que pressupõe a interação homem-natureza. FIGUEIREDO. Jose Purvin (org. preservar e defender o meio ambiente83.3. essência de sua compreensão.).

. p. 94. 5º da CF. Não havia garantia da efetivação dos preceitos individuais do início do Estado Moderno. o patrimônio da humanidade. 85 Para a autora. postulados na Constituição Federal88.. Os direitos fundamentais sociais vinculam o Estado na sua atividade legislativa. visa a assegurar direito fundamental que é a vida. Sendo assim. 225 da Constituição Federal. o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito fundamental por ser essencial à vida humana. 87 O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. ainda que não figure expressamente no art.. 2001. Ibid. ou. 86 A concretização do direito fundamental social pelo Estado e pelos cidadãos é um mandamento explícito no art. Sendo assim. p. São Paulo. assim como vinculam igualmente a comunidade na orientação das suas atividades. Liliana Allodi. 95. executiva e judiciária. p. Novos direitos deveriam ser postos no ordenamento jurídico para garantir uma real liberdade. “Não é demais assinalar que o direito ao meio ambiente equilibrado constitui-se em direito fundamental da pessoa humana. que tem como objetivo a defesa dos recursos ambientais de uso comum. 85 86 87 88 Ibid. LTR. p. os direitos fundamentais sociais passam a vincular o Estado e a comunidade. em outras palavras. 55)..” (ROSSIT. justamente porque visa à sadia qualidade de vida. Ibid. 95.63 apenas. a insuficiência dos preceitos legais para garantir a liberdade levou ao surgimento dos chamados Direitos Sociais ou coletivos. que passam a agir na conquista efetiva da liberdade juridicamente fixada. por ser essencial à sadia qualidade de vida. O meio ambiente de trabalho no Direito Ambiental Brasileiro. ou seja. indispensáveis para uma vida digna. ao impor ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. faz parte do rol dos direitos fundamentais. mas pelos efeitos das atividades sociais.

quanto no que concerne à sua titularidade. que traduzem um processo cumulativo e qualitativo. 90 89 DUARTE. A eficácia dos direitos fundamentais. p. o que significa dizer que cada dimensão é a expressão de um momento histórico. o reconhecimento do direito de todos os homens ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à sadia qualidade de vida. Nesse sentido. não é mais ou menos importante que a outra. . citando em seu primeiro princípio: O homem tem o direito fundamental à liberdade. à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em um meio. Por ocasião da Declaração de Estolcomo. 90 SARLET. 1998. cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar. e tem a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações presentes e futuras. Como visto anteriormente. As dimensões são complementadas através de um processo cumulativo no qual uma dimensão não substitui a outra. de instituir a obrigação do homem de proteger e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações. 89 Pode-se observar no princípio acima. os direitos fundamentais passaram por diversas transformações. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. mas vem com ela interagir. p. os direitos fundamentais passaram na ordem institucional a manifestar-se em três dimensões sucessivas. Ingo Wolfgang. tratou-se. 2003. Marise Costa de Souza. 86. 48-49. também. nem que se possa estabelecer uma relação de hierarquia entre elas. tanto no que diz com o seu conteúdo. Curitiba: Juruá. eficácia e efetivação”. Sarlet afirma que “desde o reconhecimento nas primeiras Constituições.64 O direito ao meio ambiente sadio foi elevado ao nível de direito fundamental do ser humano por meio da Declaração de Estocolmo. em 1972. Porto Alegre: Livraria do Advogado.

que a discordância reside essencialmente na esfera terminológica. 80. São Paulo: Malheiros. em sua criação e implementação na busca da efetividade jurídica e social. Teixeira94 destaca que. 2006. 1998. os direitos de terceira dimensão tendem a cristalizarse no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo. para uma perfeita compreensão da evolução do direito através de suas dimensões. p. de um grupo ou de um determinado Estado. ao meio ambiente saudável e sustentável e à qualidade de vida. afirma SARLET. Paulo. 92 Nesse mesmo sentido. “Ressalta-se. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. consistente do direito de todo ser humano de dispor dos meios apropriados de subsistência e de um padrão de vida decente (direito à saúde.” (Ibid. afirma Ingo Wolfgang Sarlet. Orci Paulino B.. Ed.65 O direito fundamental à vida há de ser considerado em três dimensões 91. à previdência social. deve-se atentar para a finalidade dos próprios institutos jurídicos. são concebidos os direitos à humanidade. p. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 93 Dessa maneira. todavia.569. consenso no que diz com o conteúdo das respectivas dimensões e ‘gerações’ de direitos. o direito à conservação e utilização do patrimônio histórico e cultural e o direito de comunicação).. encontrou um fundamento e uma razão de ser num determinado 91 A respeito da terminologia dimensão e geração. p. que na terceira dimensão. 49) 92 93 BONAVIDES. Ingo Wolfgang. 94 TEIXEIRA. Cada um deles. Curso de Direito Constitucional. De acordo com Paulo Bonavides. Orci Paulino Bretanha. ao desenvolvimento. Porto Alegre: Livraria do Advogado. à educação.. marcados por sua dimensão e titularidade difusa (são os direitos à paz. considerados os direitos de solidariedade. havendo em princípio. São aqueles em que os interesses individuais ou privados se subordinam a interesses da maioria ou públicos. à autodeterminação dos povos. 53. pertencente à área dos direitos civis e políticos) a segunda. isto é. em prol do bem-estar social. A eficácia dos direitos fundamentais. ou seja. direitos que transcendem o individual e o coletivo. A primeira dimensão é referente ao direito do ser humano de não ser privado de sua vida (seria o direito à vida propriamente dita. à cultura. p. SARLET. . 2006. o rol dos direitos sociais) e a terceira.

genericamente a todas as formações sociais. num sentido verdadeiramente mais abrangente. sendo este capítulo um dos mais avançados e modernos. a expressão significativa de um poder atribuído não ao indivíduo identificado em sua singularidade. Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – que compreendem as liberdades clássicas. destinatário do direito. a exemplo do direito ao meio ambiente. Constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva. 225.11. . Min. O direito à integridade do meio ambiente. consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento. Disponível em http://www. negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos. Direito de terceira geração. fundamentais à sobrevivência do homem. 95 2. em seu art. reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade. MS 22164/SP – Tribunal Pleno. marcadamente ambientalista e considerada como uma das mais avançadas sobre o tema. pela nota de uma essencial inexauribilidade”. Princípio da solidariedade.66 momento histórico. mas. Seguindo esta idéia. o direito ao meio ambiente teve tratamento constitucional específico e detalhado. A Constituição Federal de 1988. caracterizados. enquanto valores fundamentais indisponíveis.3 O reconhecimento do meio ambiente sadio na CF Pela primeira vez na história das Constituições Brasileiras.3.br. (transcrição parcial de ementa oficial).stf. que almeja a sadia qualidade de vida e. o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado tem a finalidade de proteger a vida humana e a sadia qualidade de vida. Considerações doutrinárias. a defesa da vida em todas as formas. Celso de Mello. sociais e culturais) – que se identificam com as liberdades positivas.gov. refletindo. à própria coletividade social. rel. Típico direito de terceira geração.1995 3920). introduziu um capítulo próprio sobre o meio ambiente. expansão e reconhecimento dos direitos humanos. DJU 17. A Constituição Federal de 1988. em última instância. dentro do processo de afirmação dos direitos humanos. trata do direito ao meio ambiente estabelecendo: 95 O Supremo Tribunal Federal se posicionou no mesmo sentido que Teixeira: “A questão do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

o meio ambiente qualificado. 98 A Constituição de 1988. p. Pode-se observar no dispositivo acima que a intenção do legislador foi de consagrar o meio ambiente ecologicamente equilibrado96 como um direito de todos. ao tratar do meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental do qual todos são destinatários e ao estabelecer a existência de um 96 Marise Duarte. o objeto tutelado como direito de todos não é o meio ambiente em si. impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.. Ed. passando a ser considerado bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. sendo essa qualidade que se converteu em bem jurídico.. impondo ao Estado97 e à coletividade um dever: a defesa e preservação do meio ambiente. 98 DUARTE. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. com a qualidade de ser ecologicamente equilibrado. p. “(. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. 2003. Curitiba: Juruá. 2003. Curitiba: Juruá. Marise Costa de Souza.) na tentativa de encontrar o sentido da expressão meio ambiente ecologicamente equilibrado destaca: a) a noção de meio ambiente a partir da ralação de interdependência entre o homem e natureza. Disso decorre que ao considerar o meio ambiente como direito. De acordo com Marise Duarte. 92). Orci Paulino Bretanha. mas. 97 “Os direito fundamentais exigem comportamentos positivos do Estado. ou qualquer ambiente. embora a contraposição indivíduoEstado não desapareça. Porto Alegre: Livraria do Advogado. o equilíbrio ecológico do meio ambiente. que deve definir e executar as políticas de defesa ambiental para que todos possam usufruir um ambiente hígido”. p. Por meio de leis e de atos administrativos. os direitos fundamentais são cumpridos pela ação do Poder Público. definido constitucionalmente como bem de uso comum do povo. devendo ser compreendida também a qualidade de vida em todas as formas.67 Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. o que ocorre de forma dinâmica. Marise Costa de Souza.. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. quis o constituinte tutelar não qualquer ambiente. 90). incluindo às presentes e futuras gerações. (TEIXEIRA. 92. na medida em que os direitos não são em si direitos contra o Estado. sistêmica e mutante e b) que a tutela ao direito ao meio ambiente sadio não se constitui numa simples garantia à vida humana. mas sim direitos assegurados pelo Estado através do exercício do Poder de Polícia Estadual. mas aquele que resultasse de um equilíbrio entre as (dinâmicas) relações travadas entre o homem e a natureza e que. impusesse a proteção e defesa para às presentes e futuras gerações” (DUARTE. mas se estende à manutenção das bases que sustentam a vida de todas as suas formas (incluindo-se aí as demais espécies de seres vivos). . portanto. 2006.

Sendo assim. à segurança. inovou no sentido de criar um terceiro gênero. pois. Elementos balizadores da ação estatal da defesa dos bens ambientais para as presentes e futuras gerações. que estão relacionados com os direitos fundamentais referidos no artigo 6º da Constituição: o direito à educação. São Paulo: Max Limond. Os bens essenciais à sadia qualidade de vida são aqueles fundamentais à garantia da dignidade da pessoa humana. à saúde. ar. solo. O objeto desse direito. Temas de Direitos Ambiental e Urbanístico. não se confunde nem com os bens públicos e muito menos com os bens privados. ele deve ser. que constitui um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito (CF/88.68 bem que tem duas características específicas – o fato de ser de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida -. todos os indivíduos podem exigir a 99 FIGUEIREDO. à assistência aos desamparados. III) e. O meio ambiente ecologicamente equilibrado é um bem de uso comum do povo e como tal deve ser tratado. um bem de uso comum. O Estado deve portanto defender e preservar o meio ambiente natural (fauna. não como um bem que integre o seu patrimônio – o que pode ou não ocorrer –. à proteção da maternidade e à infância e. p. . Para que um bem possa ser considerado ambiental. à previdência social. mas sim dentro de uma perspectiva global. o meio rural. Guilherme José Purvin. como um bem de todos. além de uso comum do povo. ao lazer. tendo como destinatários as presentes e futuras gerações. um bem que pode ser desfrutado por toda e qualquer pessoa dentro dos limites constitucionais. ambiente marinho) e construído (as cidades. em face de suas peculiaridades e de sua natureza jurídica. o patrimônio cultural e o ambiente do trabalho). SILVA. Guilherme José Purvin (org. ao trabalho. cabendo ao Estado um papel primordial em dirimir os eventuais conflitos no uso dos recursos ambientais. 99 O bem ambiental criado pela Constituição Federal de 1988 é.). 1998. 1. art. essencial à sadia qualidade de vida. Solange Teles. 139-143. águas. In: FIGUEIREDO. Assim é que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado integra o rol dos direitos fundamentais sociais consagrados na Constituição Federal de 1988.

pois admite uma dimensão individual. de natureza indivisível. o que significa que não serão somente as pessoas individualmente consideradas os titulares desse direito. o direito ao meio ambiente é também de titularidade individual. p. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. inciso I o que são interesses difusos: I – interesses ou direito difusos. 18). 100 Dessa forma. Ed.69 defesa contra atos lesivos ao meio ambiente. da dignidade da pessoa humana. O homem é destinatário do ambiente ecologicamente equilibrado e. que estabeleceu em seu art. Trata-se. Sarlet. 103 SARLET. mas também as pessoas coletivas e ainda as pessoas indeterminadas. referidos na Carta Magna. dentre outros. pois de um direito transindividual. ganharam definição legal infraconstitucional com o advento da lei 8078/90.. p. embora seja de titularidade difusa. 1998. o transindividuais. pode-se afirmar que a norma constitucional que constituiu o direito ao meio ambiente sadio possui uma natureza individual. não limitado ao interesses privados ou públicos. tendo em vista que a preservação do meio ambiente é de fundamental importância para a garantia da manutenção da vida humana. A proteção jurídica em matéria ambiental tanto se refere a indivíduos como a associações representativas dos seus direitos e interesses. Ed. 101 Os direitos coletivos lato sensu. o bem ambiental configura um direito difuso. nesta condição. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. . Orci Paulino Bretanha. 102 TEIXEIRA. Ingo Sarlet trata do assunto afirmando que “o direito a um meio ambiente saudável e equilibrado. coletiva e difusa101. afirma que a base dos direitos fundamentais na 100 “O preceito constitucional confere a todos o direito ao meio ambiente sadio. p.” (SILVA. Ingo Wolfgang. 2006. O titular do bem ambiental é a humanidade. José Afonso da. 88. 366. Ponto Alegre: Livraria do Advogado. assim entendidos. Assim sendo. São Paulo: Malheiros. Direito Constitucional Ambiental. de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato. ou seja. 103 As normas ambientais constitucionais visam assegurar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. também o são as gerações presentes e futuras. 81. já que são direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado. em que pese seu habitual enquadramento entre os direitos de terceira dimensão. para efeitos deste Código. quando a lesão ou probabilidade de lesão violar também interesse privado102. de natureza indivisível. Nesse mesmo entendimento. pode ser reconduzido a uma dimensão individual. pois mesmo um dano ambiental que venha a atingir um grupo dificilmente quantificável e delimitável de pessoas (indivíduos) pode gerar um direito à reparação para cada prejudicado”. 2ª. parágrafo único. 2000. cujos titulares são pessoas indeterminadas. sendo que nessa condição mantêm a sua unidade com suporte no princípio.

Portanto. concluí-se que esse direito possui aplicabilidade imediata. 2006.princípios que dão eficácia plena à norma de direito ambiental. pelo fato do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado ser uma norma que assegura a preservação da própria vida humana. e de não depender de regulamentação. Orci Paulino Bretanha. e tem por objetivo proteger o núcleo do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado – melhorar a qualidade ambiental recuperando áreas degradadas e defender o meio ambiente ecologicamente equilibrado -.70 Constituição de 1988 radica sempre no princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. assume o papel relevante a norma contida no art. deriva do reconhecimento da progressividade dos direitos sociais. cabe ao Poder Público dar maior eficácia à norma constitucional que outorga aos indivíduos o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado e que reconhece seus princípios básicos. 121-122.. por se tratar de uma garantia assegurada aos indivíduos das presentes e futuras gerações. capazes de gerar efeitos jurídicos imediatos104. e pela aplicabilidade imediata . O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. p. Sendo assim.. 105 No sistema do direito ambiental brasileiro. portanto. . TEIXEIRA. O princípio da proibição do retrocesso visa inviabilizar toda e 104 105 Ibid. A regra constitucional do direito ao meio ambiente é acompanhada pelos princípios da sadia qualidade de vida e da vida com dignidade. § 1º. da CF de 1988. de acordo com a qual todos os direitos e garantias fundamentais foram elevados à condição de normas jurídicas diretamente aplicáveis e. Em relação à eficácia dos direitos fundamentais. e que a coerência interna do sistema dos direitos fundamentais encontra justificativa na sua vinculação com os princípios ou valores fundamentais do ordenamento jurídico. 78 e 79. Ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado. a cláusula da proibição do retrocesso. p. 5º.

BOBBIO.) as exigências que se concretizam na demanda de uma intervenção pública e de uma prestação de serviços sociais por parte do Estado só podem ser satisfeitas num determinado nível de desenvolvimento econômico e tecnológico. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico. 76. Rio de Janeiro: Campus. 106 A preocupação com o meio-ambiente decorre da progressiva deterioração das condições de vida. ou da não-naturalidade. Norberto Bobbio afirma. 14ª Tiragem. imprevisíveis e inexeqüíveis antes que essas transformações e inovações tivessem ocorrido.71 qualquer medida regressiva em desfavor do meio ambiente. negando a natureza. com relação à própria teoria. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. p. Isso nos traz uma ulterior conformação da socialidade. desses direitos. Norberto.. Nesse sentido. Esses fatores levaram ao surgimento de novos direitos. o risco do colapso ecológico e o avanço da desigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise no mundo globalizado. como exemplo a abolição de normas protetivas ao meio ambiente. comentando a relação entre o surgimento de novos direitos sociais e o aprimoramento tecnológico das sociedades: (. 107 A degradação ambiental. 1992. 123-124. p. tendo como conseqüência o surgimento de novos valores a serem tutelados. a degradação ambiental se manifesta 106 107 Ibid. e que. do avanço técnico na capacidade de verificar e estimar esse processo e de um avanço do pensamento humano. hoje capaz de perceber a importância da manutenção dos ecossistemas para a própria preservação da espécie humana.. A Era dos Direitos. Portanto.. são precisamente certas transformações sociais e certas inovações técnicas que fazem surgir novas exigências. .

etc”. O autor afirma ainda que. transportes públicos. p. romperam o equilíbrio que decorre do limite da aceitabilidade do risco de dano ambiental que deve atender a dois critérios básicos: o ambiental e o econômico. Petrópolis.com/publicações/cad_dout/caderno_dout 1 fase/dir_fundamen. serviços de água. pavimentação de vias públicas. RJ: Vozes. Ed.. 2001. no Brasil. Acesso em 22/05/2007). esta situação determinou a instituição das funções sociais e ambientais da cidade.htm). p. Rocha afirma que as atividades urbanas afetam o meio ambiente com a transformação de espaços naturais em áreas urbanas. O direito ao meio ambiente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida é exclusivo de uma minoria. 109 TEIXEIRA. Direitos Fundamentais na constituição de 1988. 2006. Significa realizar as funções de habitação. 110 A desigual distribuição do poder econômico e político entre alguns poucos países (no plano internacional) ou proprietários (no plano local) decorre em grande parte da adoção de 108 LEFF. A urbanização irregular. Isto é. complexidade. espaços de lazer e cultura. da Constituição Federal. 108 A crescente crise ambiental nos mostra a escassa implementação. Henrique. racionalidade. 15. . A cidade cumpre sua função ambiental quando garante à todos o direito ao meio ambiente urbano ecologicamente equilibrado. 110 Destaca Rocha que “de acordo com o art. Porto Alegre: Livraria do Advogado. condições adequadas ao trabalho. voltadas para a efetiva defesa do meio ambiente. O pleno desenvolvimento dessas funções deve ser compreendido como o direito à cidade. poder. esgotamento sanitário. marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza. 182. Fernando Luiz Ximenes. Orci Paulino Bretanha. Disponível em: http://www. com a extração e a degradação dos recursos naturais e com a liberação de resíduos domésticos e industriais. recreação e de circulação humana. as construções de grandes metrópoles com concentração humana e atividades a ela relacionadas levaram à ruptura do equilíbrio ambiental. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. propiciando a existência de áreas verdes e equipamentos públicos. a política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar dos seus habitantes. caput. luz. 48.72 como sintoma de uma crise da civilização. de políticas públicas.apamagis. A função ambiental atua sobre a cidade para concretizar o seu fim: efetivar o bem-estar dos habitantes da cidade e o meio ambiente ecologicamente equilibrado. (ROCHA. Saber Ambiental: sustentabilidade. sendo que a maioria da população não pode dispor do bem ambiental “de uso comum do povo”. 109 Nesse sentido.

). O conceito de bem de uso comum pressupõe uma utilização conjunta dos elementos que constituem o meio ambiente. O acesso aos recursos ambientais não esta sendo garantido a todos. 141-143. mas. tendo este o dever de defender e preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado bem de uso comum de todos. Antes de tratarmos no próximo capítulo sobre as ocupações desordenadas. sexo. tais como a água. vale ressaltar a clara vinculação que existe entre o meio ambiente e as relações sociais. p. A exclusão social e a 111 FIGUEIREDO.73 modelos ecologicamente insustentáveis da sociedade industrial. SILVA. uma vez que há uma apropriação desigual dos recursos e riquezas naturais. A busca do meio ambiente ecologicamente equilibrado constitui hoje paradigma da atuação político-administrativa do Poder Público. garantindo o bem estar da população através de uma política de desenvolvimento urbano. Elementos balizadores da ação estatal da defesa dos bens ambientais para as presentes e futuras gerações. os Poderes Públicos não podem e não devem privilegiar um determinado usuário em detrimento de outro. todos devem ter o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Sendo assim. infelizmente a realidade nos mostra que essas garantias constitucionais não estão sendo aplicadas na prática. o Poder Público também tem o dever de garantir a proteção do meio ambiente urbano. o ar. ordenando o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade. . essenciais à sadia qualidade de vida. cor ou religião. 111 Da mesma forma. Guilherme José Purvin. Guilherme José Purvin (org. Solange Teles. pois uma grande parcela da sociedade além de serem vítimas da exclusão social e econômica não dispõe de uma sadia qualidade de vida. São Paulo: Max Limond. bens de interesse público. 1998. In: FIGUEIREDO. contribuindo para o agravamento de desigualdades sociais. Temas de Direitos Ambiental e Urbanístico. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial a sadia qualidade de vida é um direito fundamental. garantido a todos independente de raça.

e nela também nasceu o proletariado industrial. p. 1998. ao qual vai caber principalmente a tarefa de executar a revolução socialista e de realizar o homem universal. Provavelmente esta condição não é possível. Não conhecemos nenhuma sociedade na qual todos os homens. nos cortiços localizados em áreas centrais degradadas. apresentando-se como um dos mais graves problemas enfrentados pelos países em desenvolvimento. (Origens da Desigualdade . etc. transporte precário. 113 CHOAY. 113 112 DAHRENDORF. p. mulheres e crianças tenham as mesmas prerrogativas e gozem dos mesmos provimentos. Ralf. pois foi na cidade que.74 segregação ambiental estão intimamente relacionadas. 40. nas favelas onde moram milhões de brasileiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. OCUPAÇÃO URBANA DESORDENADA E (IN) JUSTIÇA AMBIENTAL As chances de uma vida nunca são igualmente distribuídas. . Renato Aguiar e Marco Antonio Esteves Rocha. O conflito social moderno: um ensaio sobre a política da liberdade. numa primeira fase.RALF DAHRENDORF) 112 3. Tradução. São Paulo: Edusp. dificuldade de abastecimento doméstico. 15. onde há uma grande concentração de pobreza: nas periferias urbanas loteadas ilegalmente. a burguesia se desenvolveu e exerceu seu papel revolucionário. maior exposição ás enchentes e risco de vida por desmoronamentos. 1992. Não conhecemos sequer uma em que todos os homens tenham o mesmo status. saneamento deficiente. difícil acesso aos serviços de saúde. Françoise. Ed. O Urbanismo.. 3. drenagem inexistente. São Paulo: Perspectiva.1 URBANIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO A cidade é o lugar da história.

um lugar onde se aglomera a produção. diminui o tempo entre o primeiro investimento necessário à realização de uma determinada produção e consumo do produto. Os ritmos acentuados de crescimento populacional urbano e a concentração de capital nacional e internacional nas metrópoles para a criação de infra-estrutura necessária à reprodução capitalista. para designar as aglomerações urbanas que invadem uma região toda. no entanto fracassa na ordenação desses locais. (Ibid.. p. ou seja. uma vez que o seu caráter de concentração. 70. e suas cidades manifestam todo tipo de problemas. mas. As cidades produzem metrópoles – espaços de concentração de capital.75 A sociedade industrial é urbana e a cidade é o seu horizonte. sociais e profundas mudanças na natureza e no meio ambiente. cidades industriais e grandes conjuntos habitacionais. e locus da gestão do próprio modo de produção -. se amontoa a população e se degrada a energia. 01. pela influência atrativa de uma grande área. A Revolução Industrial é quase imediatamente seguida por um impressionante crescimento demográfico das cidades. por uma drenagem dos campos em benefício de um desenvolvimento urbano sem precedentes. profundas desigualdades econômicas. 116 A cidade transformou-se em sede do capital. 114 O termo conurbação foi criado por Patrick Geddes. São Paulo: Contexto. A segunda metade do século XX é marcada por uma urbanização acelerada nos países de economia dependente. de meios de produção. se congestiona o consumo.) 115 116 Ibid. promoveram um aumento crescente de população não empregada que se “aloja” nos maiores centros urbanos (não sendo possível falar que tal população “habita” os maiores centros urbanos). conurbações114. ou seja. o capitalismo trouxe consigo.115 A cidade é o lugar onde se reúnem as melhores condições para o desenvolvimento do capitalismo. de densidade. p. relacionados ao “inchaço” populacional em que vivem. viabiliza a realização com maior rapidez do ciclo do capital. Capitalismo e urbanização. p. SPOSITO. além de alguns avanços tecnológicos. Como conseqüência. Maria Encarnação Beltrão. 2000. . 01-03..

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que foram fustigados de tal forma como nunca se viu em milhares de anos na História humana. Florestas desapareceram, rios secaram, organismos e animais foram e estão sendo extintos, tudo em nome do lucro e do “progresso” da humanidade. Enrique Leff afirma que os processos urbanos se alimentam da exploração dos recursos naturais, da desestruturação do entorno ecológico, do dessecamento dos lençóis freáticos, da sucção dos recursos hídricos, da saturação do ar e da acumulação de lixo. Além disso, a concentração urbana permitiu desvalorizar a força de trabalho nos centros industriais, subvalorizando a natureza, explorando o meio rural e oprimindo suas populações. 117 Para Manuel Castells a crise urbana provém da crescente incapacidade da organização social capitalista de assegurar a produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivos necessários à vida cotidiana, da moradia, às escolas, transporte, saúde, etc. Os serviços coletivos necessários para atender o modo de vida suscitado pelo desenvolvimento capitalista não são suficientemente rentáveis para serem produzidos pelo capital, com vistas à obtenção de lucro.
118

O sistema capitalista não tem como prioridade o oferecimento de

condições mínimas de sobrevivência para a população, a sua prioridade é e sempre será o lucro. De acordo com Milton Santos, a globalização119 é o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são

117

LEFF, Enrique. Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. p. 288.
118

CASTELLS, Manuel. Cidade, democracia e socialismo. Tradução de Gloria Rodriguez. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 20.
119

A globalização é um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural, política, com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e inicio do século XXI. É um fenômeno observado na necessidade de formar uma Aldeia Global que permita maiores ganhos para os mercados internos já saturados.

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aprofundadas. O mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. 120 Destaca o autor que, no final do século XX, e graças aos avanços da ciência, o mundo torna-se unificado – em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada. A globalização marca um momento de ruptura no processo de evolução social e moral que se vinha fazendo nos séculos precedentes, uma vez que o progresso técnico aparecia, desde séculos anteriores, como uma condição para realizar essa sonhada globalização com a mais completa humanização da vida do planeta, contudo, quando finalmente esse progresso técnico alcança um nível superior, a globalização se realiza, mas não a serviço da humanidade. Nesse sentido, a globalização que nos é imputada, mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva de cada um por si, como se voltássemos a ser animais da selva, reduzindo ainda as noções de moralidade pública e particular a um quase nada. 121 Os grupos hegemônicos passaram a justificar a globalização como sendo um avanço do processo civilizatório para o capitalismo, mas, na realidade o que se pode constatar é que a globalização impõe-se à maior parte da humanidade como uma globalização perversa. Não existe uma definição de globalização que seja aceita por todos, mas pode ser caracterizada basicamente como um processo ainda em curso de integração de economias e mercados nacionais sob a égide do neoliberalismo caracterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. A globalização passa a ser responsável pela intensificação da exclusão social - aumento do número de pobres e de desempregados - e por provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares de pessoas
120

SANTOS, Milton. Por uma globalização: do pensamento único á consciência universal. Rio de Janeiro:Record, 2002. p. 19.
121

Ibid., p. 64.

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e empresas. A globalização é chamada de "terceira revolução tecnológica" (processamento, difusão e transmissão de informações) e acredita-se que a globalização define uma nova era da história humana. Milton Santos destaca que, para a grande maioria da humanidade a globalização está se impondo como uma “fábrica de perversidades”. A fome deixa de ser um fato isolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente; quando os progressos da medicina e da informação deviam propiciar uma redução substancial dos problemas de saúde, milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano da vida; nunca na história houve um tão grande número de deslocados e refugiados; bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável; o fenômeno dos sem-teto, curiosidade a primeira metade do século XX, hoje é um fato banal, presente em todas as grandes cidades do mundo; o desemprego é algo tornado comum; acabar com o analfabetismo ficou mais difícil do que antes; a pobreza cada vez mais aumenta assustadoramente. 122 A globalização e o neoliberalismo, conforme Milton Santos, disseminam a pobreza numa escala global, pobreza esta quase sem remédio, trazida não apenas pela expansão do desemprego, como, também, pela redução do valor do trabalho. A produção maciça da pobreza aparece como um fenômeno banal, sendo que uma das grandes diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo natural e inevitável. Essa pobreza é produzida politicamente pelas empresas e instituições globais, sendo que estas, de um lado, pagam para criar soluções localizadas, parciais, segmentadas, como é o caso do Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos pobres, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando,

122

Ibid., p. 59.

2001. é o grande produtor da pobreza. de romper a inércia crescente da urbanização e repensar as funções atribuídas à vida humana.. 123 124 Ibid. beira de cursos d ´água sujeita a enchentes. A partir daí ampliam-se novos movimentos sociais que incorporam a discussão ambiental. . da desproteção social e da precarização do trabalho. 27. 123 O que caracteriza as cidades contemporâneas. p. áreas contaminadas por lixo tóxico. os trabalhadores são submetidos aos riscos de moradia em encostas perigosas. 73. ACSELRAD. Além disso. sejam eles grupos locais em áreas de risco industriais ou grupos ambientalistas organizados atuando em níveis regionais. A duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. e isso se dá com a colaboração passiva ou ativa dos governos nacionais. sob os efeitos da globalização. situadas sobre gasodutos ou sob linha de transmissão de eletricidade. p. Henri (org). Rio de Janeiro: DP&A. pois além das incertezas do desemprego. têm o acesso desigual aos recursos ambientais como água. nacionais e mesmo internacionais.79 estruturalmente. e o agravamento dos problemas ambientais – presentes nas regiões e aglomerados urbanoindustriais – se sobrepõe aos problemas de infra-estrutura básica e exclusão social. saneamento e solo seguro. 124 A crise ambiental mostra a necessidade de revalorizar o fato urbano a partir da racionalidade. é justamente a profunda desigualdade social na exposição aos riscos ambientais. A degradação do ambiente emerge do crescimento e da globalização econômica.

transportes e demais serviços urbanos. Quanto à estruturação. com diferenças de grau e intensidade. heterogêneo e desequilibrado. 126 Ibid. 15. todas as cidades brasileiras apresentam problemas parecidos: carência generalizada de habitação. cujo resultado materializa-se em uma dinâmica de modernização que recria exclusão social e segregação territorial para grande parcela da população. Disponível em www. entremeadas de vazios. constituindo-se em um gigantesco movimento populacional e de construção de cidades para o atendimento de necessidades de moradia. educação.2 AS CONDIÇÕES URBANAS E HABITACIONAIS NO BRASIL A urbanização brasileira é resultado do modelo de industrialização e desenvolvimento vigente nos países em desenvolvimento. e aumentando os 125 SAULE JR. trabalho.org. saúde126.125 O processo de urbanização brasileiro e latinoamericano se intensificou a partir da segunda metade do século XX. saneamento. . fortalece o processo de extensão da área urbana. caracterizam-se pela ocupação de vastas superfícies.unhabitat.industrialização e urbanização . Milton Santos afirma que.80 3. Direito à Moradia no Brasil. lazer. Nelson. onde as carências dessa última criam diferenciais no valor da terra central e alimentam a especulação imobiliária. p. Esse processo de crescimento urbano intensivo que acompanhou e tornou possível a industrialização brasileira provocou drásticas transformações sócio-econômicas e espaciais no país. gerando um modelo de ocupação centroperiferia. abastecimento. A combinação de tais processos . a qual tem determinado o processo de exclusão sócioespacial da maior parte da população do país. criando novas periferias.ocasionou uma enorme concentração econômica. num verdadeiro círculo vicioso. por sua vez. Esta.. Acesso em 25/10/2006.

mais visíveis se tornam essas mazelas. a urbanização brasileira nasceu marcada por reformas urbanas que primavam por obras de saneamento e embelezamento que expulsaram os pobres para as periferias como solução para eliminar epidemias e higienizar os espaços. beneficiando as atividades especulativas e penalizando os moradores das periferias e os contribuintes que. que. O Estado passa a investir em infra-estrutura para induzir o desenvolvimento industrial (substituição das importações) e o urbanismo reformador das cidades. Milton. p. Disponível em www. autoconstruindo um habitat precário. Acesso em 22/11/2005. ao final de um período de acelerada expansão da economia brasileira. 2ª Ed. 127 De acordo com Nelson Saule Jr. O autor afirma ainda. ao final. Essa urbanização vertiginosa. Ao mesmo tempo.cidadania. vulnerável e inseguro. 129 CYMBALISTA. obras paisagísticas foram realizadas nas áreas centrais para favorecer a consolidação do mercado imobiliário capitalista que começava a surgir. Favelas. Refundar o não fundado: desafios da gestão democrática das políticas urbana e habitacional do Brasil. loteamento clandestinos. Direito à Moradia no Brasil.org. Disponível em: http://www. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. ocupações em áreas públicas. 105 e 106. A extensão das redes de infra-estrutura realizada pelo poder público em direção às áreas distantes valorizava as áreas vazias localizadas neste trajeto. Renato. A Urbanização Brasileira. introduziu um novo e dramático significado: as cidades passaram a retratar e reproduzir as injustiças e desigualdades da sociedade. quanto maior a cidade.129 Dezenas de milhões de brasileiros não têm tido acesso ao solo urbano e à moradia senão através de processos e mecanismos informais – e frequentemente ilegais -.81 problemas. . 2005. 128 SAULE JR. loteamentos e conjuntos habitacionais irregulares.asp?conteudo_id. cortiços.unhabitat. arcaram com o custo destas obras.br/imprimir.. nas 127 SANTOS.org. Nelson.128 O modelo de desenvolvimento e expansão que comandou nossa urbanização acelerada produziu cidades marcadas pela presença das chamadas “periferias” e “favelas”. Acesso em 25/10/2006.

quanto relativas à infra- 130 131 Ibid. cerca de 900 milhões de pessoas passam por problemas semelhantes aos enfrentados por brasileiros que não têm acesso à moradia digna132. 5. entre 1960 e 2000. concentra domicílios com elevado grau de carências socioeconômicas. 01 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.1960 e 2000 1960 População urbana População rural 45% 55% 2000 81% 19% Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . expressa nas favelas. 131 Tabela 1 – Quantidade populacional urbana e rural do Brasil . nº. que podem ser assim descritas: “. Outubro de 2004. 132 BRASIL. p. no Brasil os índices de urbanização vêm atingindo patamares crescentes.. Cadernos de Saneamento Ambiental. a precariedade habitacional vem assumindo contornos cada vez mais graves. pela maior parte de nossos moradores urbanos. Fundação IBGE. Rio de Janeiro.82 encostas e beiras de rios – essas têm sido as principais formas de habitação produzidas diariamente nas cidades brasileiras.. p. Em todo o mundo. . quando se inicia um período de estagnação econômica. e 80% da população brasileira concentravam-se em áreas urbanas.. 130 Segundo dados do Censo Demográfico. tipo de aglomeração urbana. Ministério das Cidades. Em 40 anos. Desde a década de 80. 2001. Censo Demográfico 2000. amplamente disseminada pelas metrópoles do país. as cidades brasileiras receberam 106 milhões de novos habitantes. tanto em termos de oferta de serviços públicos.IBGE/2000 Dados da ONU indicam que um terço de toda a população urbana mundial vive em assentamentos precários. 13.

lugar da favela. Disponível em: http://www. no entanto. As favelas e os cortiços multiplicam-se. Acesso em 22/11/2005. as periferias são a materialização de mecanismos de exclusão/segregação. 135 133 TORRES.doc. tendo como conseqüência o crescimento generalizado da pobreza e da violência urbana. da dimensão quantitativa que as favelas estão tomando e nem de suas causas. geralmente situadas em terrenos insalubres. 134 MARICATO. especialmente em locais onde as condições de salubridade são precárias e os terrenos. dotado de toda a gama de amenidades.aqueles espaços gerados por ações periferizadoras e que tradicionalmente opunham-se ao centro. De acordo com Ermínia Maricato.pdf. Eduardo César. quase sempre impróprios para moradia. Haroldo da Gama e Marques. Podendo ser consultado www. percebidas por toda a sociedade. de alguma forma. não sendo exclusividade das grandes cidades como se acreditava.83 estrutura urbanística e renda pessoal dos moradores.Acesso em 25/10/2006. muitas destas áreas estão também sujeitas a riscos ambientais. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido.. com forte declividade ou mesmo inundáveis. Ou os Grandes Números e a Falência do Debate sobre Metrópole. Ermínia. malha viária e equipamentos de transporte coletivo deficientes etc.br/pdf/abep2002. inexistência de infra-estruturas básicas. Tamanho Populacional das Favelas Paulistanas. Não há a consciência. baixa possibilidade de acesso rápido e confortável aos lugares de trabalho.org. tais como: habitações insuficientes e de má qualidade. Aldo Paviani examina as periferias dos pobres .e a periferia “geográfica” .”. 134 Nas grandes cidades. infra-estruturas e oportunidades de trabalho . As relações sociais se degradam na mesma medida do ambiente miserável a que são sujeitadas. 133 A autoconstrução de barracos improvisados torna-se cada vez mais freqüente.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas.centrodametropole. . Além disso. as mazelas decorrentes do crescimento das favelas são..

182-183.em algumas metrópoles. pelo fato de não terem acesso aos meios para compreensão e captação da realidade à sua volta. na maioria das vezes. 136 Ibid. muitas vezes erguidos para atender clientela entre uma eleição e outra. “assentamentos para população de baixa renda”: fixam-se favelas. Milton. Para o autor. ou próximo dos locais onde há a possibilidade de encontrar trabalho informal. está infiltrada em todo o tecido metropolitano e se qualifica desta forma por intermédio de diferenciadas ações no âmbito: 136 a) do trabalho . não se habilitam a acessos diversos de moradia. leva à precarização de vida de grande parte da população. c) da moradia . . quando são extensivamente ocupadas por setores de moradia de baixa qualidade construtiva. a 135 PAVIANI. medidas capazes de atrair os menos esclarecidos. inclusive dos promotores de “mutirões para a casa própria”. não assimilando as informações necessárias para melhor se posicionarem na tomada de decisões. menos esclarecidos.. 185-188. p.84 O autor destaca que a periferia pobre. A lógica da periferização em áreas metropolitanas. de forma continuada e com o propósito de resolver o problema habitacional de modo eficaz. os que são incapazes de vislumbrar a ações demagógicas de autoridades. hoje. b) da educação – a contínua manutenção de analfabetos ou alfabetizados incompletos. Org. In: Território – Globalização e Fragmentação. de. p. Maria Laura. Maria Adélia A. São Paulo: HUCITEC. Aldo.quando há contradições insuperáveis nas diversas políticas habitacionais que deveriam ser conduzidas com padrões éticos. sob o ponto de vista sócio-espacial e político considera-se que existe a cidadania conquistada e sua oposta. Os analfabetos. Com o caráter de políticas habitacionais são implantados “conjuntos habitacionais populares”. SANTOS. SILVEIRA. SOUZA. 2002. os favelados procuram ocupar locais impróprios para moradia próximo de seu local de trabalho. d) da cidadania pela qual se conquista o direito à cidade. As políticas incrementalistas no setor habitacional revelam as cidades como um caos.

. São Paulo: Perspectiva. renda e poder. A maioria da população vítima da exclusão social e econômica não teve acesso à alfabetização e à escolaridade. mas. 185-187 O problema das grandes cidades foi abordado por Friedrich Engels. 137 3. nos entrechoques com forças repressoras. desestimulando o professorado com salários aviltantes e baixas condições para a atividade educacional. A cidadania plena é aquela fruto de conquistas ao longo do processo histórico.1 Segregação social e degradação ambiental Toda grande cidade tem um ou vários bairros ruins. sendo assim.. não usufruem das possibilidades de abertura à consciência política e aos direitos elementares que a cidadania plena oferece. Esta emana dos que “assaltaram o aparelho de Estado”. 1998. em troca de votos. não destinam recursos para a educação. semeadas de poças estagnadas e mal cheirosas. no cotidiano. mas em geral a ela é destinado um terreno à parte onde. 138 O processo de urbanização concomitante à industrialização assumiu uma série de características.. muitos inscritos na Carta Magna de 1988. nos protestos de ruas. (. longe do olhar das classes mais felizes.. É verdade que muitas vezes a pobreza reside em vielas escondidas bem perto dos palácios dos ricos.) As ruas são normalmente nem planas nem pavimentadas. onde se concentra a classe operária. nas greves. p. Françoise.85 cidadania dada. O Urbanismo. sem esgotos nem escoamento de água. ela tem de. em todos os níveis de ensino. p. bem ou mal. são sujas. A “industrialização com 137 138 Ibid. ajeitar-se sozinha. cheias de detrito vegetais e animais. portanto presas fáceis dos que lhes concedem “benefícios” e “favorecimentos”. (CHOAY. pelos movimentos sociais e na luta constante para o incremento dos direitos civis. dentre elas a concentração de terra.2. em troca. Por esse motivo as elites dominantes mantêm e perpetuam a baixa escolaridade. 141). que denunciou a miséria e a segregação do proletariado urbano nas cidades industriais inglesas. mantendo enormes contingentes populacionais por meio de políticas assistencialistas e de favorecimento. sendo.

A cidade do pensamento único: desmanchando consensos.86 baixos salários” é um mercado de moradias restrito e concentrado. sistemas de esgoto e pluvial.br/gestaourbana/arquivos/modulo10/mod10arq1. Petrópolis/RJ: Vozes 2000. bem como serviços de eletricidades e telefonia. irregulares ou clandestinos. afirmam defendem que a oferta insuficiente de terra servida 140 a preços acessíveis para os pobres urbanos e a necessidade de regularização das ocupações ilegais em áreas urbanas são duas das questões mais importantes da agenda latino-americana de política fundiária. 02 .154 e 155. Acesso à terra servida para a população urbana pobre: o paradoxo da regularização no México. 139 Cenecorta e Smolka. p. água. MARICATO. 141 CENECORTA. Ou seja. foram partes integrantes do crescimento urbano sob a égide da industrialização.fip.html. uma vez que os empreendedores imobiliários não têm interesse nem incentivos para investir nesse segmento do mercado. enfrentada por uma ampla camada da população urbana. combinados à autoconstrução. 139 ARANTES. sendo assim.. Otília. As razões da ilegalidade decorrem tanto do baixo rendimento de uma grande parcela da população urbana. fixado pelo mercado privado. 140 Os autores Cenecorta e Smolka esclarecem que o termo “terra servida” deve ser entendido em seu sentido mais amplo. é em geral considerada como um fator explicativo da dificuldade associada à aquisição de terra no mercado formal. O custo da reprodução da força de trabalho não inclui o custo da mercadoria habitação. bem como da reduzida oferta de terras no âmbito do mercado imobiliário formal. a favela ou lote ilegal. incluindo o acesso (ainda que sem pavimentação) à rede viária urbana.gov. em um trabalho que discute as características do mercado de terras na América Latina. Carlos. 142 Pode-se afirma que essa situação. grande parte da população urbana brasileira não tem condições de comprar uma moradia no mercado privado legal. VAINER. Martim O. 142 Ibid. Podendo ser consultado: http://www.eg. buscando terra urbana através de mecanismos ilegais. Alfonso Iracheta e SMOLKA. como terra designada para o uso urbano e equipada com infra-estrutura básica.mg. iluminação pública. devido a seus baixos rendimentos. informais. p. Ermínia. 141 Afirmam ainda os autores que os extratos mais pobres da população urbana são “empurrados” para a informalidade.

a exclusão social é vista como uma forma de analisar como e por que indivíduos e grupos não conseguem ter acesso ou beneficiar-se das possibilidades oferecidas pelas sociedades. abrangendo. justiça. 03 ROLNIK. . no diagrama abaixo: O ciclo vicioso da informalidade Urbanização da pobreza Necessidades sociais excedendo a base tributária Ausência de recursos públicos para financiar provisão de serviços Escassez de terras servidas/urbanizadas Supervalorização de terras servidas Preços não acessíveis Ocupações de terra ilegais/irregulares Custo de vida mais alto Aumento da pobreza urbana Segundo Raquel Rolnik.scielo.87 A ilegalidade. mas também a ausência de acesso à segurança. Podendo se consultado em: http://www. A noção de exclusão considera fatores ligados tanto aos direitos sociais quanto a aspectos materiais. 144 143 144 Ibid. portanto. não apenas a falta de acesso a bens e serviços – que representam a satisfação de necessidades básicas -.br/scielo. Raquel. Exclusão territorial e violência. Acessado em 30/11/2006.. demonstrado por Cenecorta e Smolka143. p. ao contribuir para a exclusão social.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88391999000400011. estabelecendo um ciclo vicioso. cidadania e representação política. reforça a pobreza urbana.

o número de negros e de mães solteiras é maior do que a média da cidade e. etc. que o processo de exclusão não se refere apenas ao território. o conceito de favelas que é utilizado no texto se refere à situação totalmente ilegal de ocupação do solo. 146 Para Maricato. ainda. jan/jun.148 145 PEREIRA. Daí concluí-se que a “exclusão é um todo”: territorial. ambiental. estabelecidos pelo mercado imobiliário. 33-51. p. telefonia. Editora da UFPR. coleta de lixo. A natureza (dos) nos fatos urbanos: produção do espaço e degradação ambiental. carente de equipamentos públicos sociais. transporte. mas seus moradores são também vítimas de preconceito. iluminação pública.88 A ilegalidade em relação à posse da terra. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. além de regiões ambientalmente impróprias para moradia.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas.Acesso em 25/10/2006. etc. A autora acredita que o solo ilegal parece construir a base para uma vida ilegal e esquecida pelos direitos e benefícios urbanos. 148 Ibid. tendo em vista que diversas localidades urbanas possuem diferentes preços. Gislene. 2001. As áreas ocupadas por favelas146 estão marcadas pela ilegalidade e a conseqüente ausência de direitos.. p. Ermínia. sendo uma conseqüência da situação jurídica que define uma relação social: o ocupante não tem qualquer direito legal sobre a terra ocupado correndo o risco de ser despejado a qualquer momento. Podendo ser consultado www. é o principal agente do padrão de segregação espacial que caracteriza as cidades brasileiras. pela falta de endereço formal. varrição. Em geral essa população é mais pobre. 02 . econômica. 147 MARICATO. esgoto. n. além de fator de segregação social da população de menor renda. drenagem. As áreas com melhor localização são as mais caras e são ocupadas pela população que tem renda para arcar com esses custos145. como a periferia urbana. torna-se mais difícil encontrar um emprego. as áreas ocupadas por favelas são áreas mal servidas pela infra-estrutura e serviços urbanos como água. Maricato ressalta que essa situação implica em uma exclusão ambiental e urbana. racial e cultural. 3.doc. ou seja. A população de menor poder aquisitivo tende a ocupar áreas desvalorizadas no mercado imobiliário. In: Natures Sciences Sociétés.147 Maricato ressalta. Desenvolvimento e Meio Ambiente.

na maioria das vezes. Podendo ser consultado www. Ela influi ainda nas características da segregação territorial e na qualidade de vida de cada bairro. Ermínia. mas como percalços inesperados e perversos.) “enquanto inerentes à lógica perversa de um modo de produção concentrador. “a pobreza e a deterioração ambiental formam um círculo vicioso. em áreas ambientalmente frágeis: beira de córregos. 151 MARICATO.89 Outra grave conseqüência que decorre desse expressivo crescimento das ocupações ilegais está relacionada ao meio ambiente. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. fundos de vales inundáveis. As favelas estão localizadas. p. Curitiba/PR: Editora da UFPR. De acordo com Herculano. as áreas onde predomina a população de baixa renda nas cidades brasileiras caracterizam-se pela deficiência dos serviços urbanos básicos. 2002. precária situação sanitária e habitações inadequadas.149 A relação entre pobreza e degradação do ambiente caracteriza a discussão sobre os problemas ambientais nas cidades brasileiras. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde.doc. o que gera. encostas íngremes. uma situação ilegal. áreas de proteção ambiental. 150 A população de maior renda tende a beneficiar-se do processo de produção da cidade e os mais pobres permanecem à margem.. Selene. p.Acesso em 25/10/2006 ..usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental. entre outras. 145. Conforme aponta Maricato. no qual um é causa do outro”. áreas de mangues. e privado em segundo. A pobreza e a degradação ambiental não são percebidas (. regulam quem e quantos terão o direito à cidade. passíveis de serem contornados e controlados através de ajustes e correções”. 02 HERCULANO. nº 5. 149 150 Ibid. a natureza e a localização dos investimentos.151 De fato. muito frequentemente. por não disporem de recursos financeiros que permitam sua inserção nesse processo. governamentais em primeiro plano.

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Ermínia Maricato discute a oposição entre cidade real e cidade legal, demonstrando que o uso ilegal do solo e a ilegalidade das edificações em meio urbano atingem mais de 50% das construções nas grandes cidades brasileiras, se considerarmos as legislações de uso, ocupação e parcelamento do solo, zoneamento e edificação. As razões da ilegalidade decorrem tanto do baixo rendimento de uma grande parcela da população urbana, como da reduzida oferta de terras no âmbito do mercado imobiliário formal, uma vez que os empreendedores imobiliários não têm interesse nem incentivos para investir nesse segmento do mercado. 152 A autora afirma, ainda, que, “(...) é preciso considerar que as periferias das cidades cresceram mais do que os núcleos centrais, o que implica um aumento relativo das regiões pobres. A ilegalidade na ocupação do solo torna-se uma verdadeira máquina de produzir favelas e agredir o meio ambiente. O número de imóveis ilegais na maior parte das grandes cidades é tão significativo que a cidade legal (cuja produção, pode-se dizer, é capitalista) caminha para ser, cada vez mais, espaço da minoria”. 153 De acordo com Nelson Saule Junior, a cidade marcada pela desigualdade social e pela exclusão territorial não é capaz de produzir um desenvolvimento sustentável. Afirma o autor que o direito ao desenvolvimento e o direito a um meio ambiente sadio devem ter o desenvolvimento sustentável como princípio norteador. O princípio do desenvolvimento sustentável fundamenta o atendimento das necessidades e aspirações do presente, sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades. A política de desenvolvimento urbano deve ser destinada para promover o desenvolvimento sustentável, de modo a atender as necessidades essenciais das gerações presentes e futuras. O

152

MARICATO, Ermínia. Metrópole, legislação e desigualdade. Podendo ser consultado http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000200013&Ing=ennrm=iso. Acesso em 02/09/2006.
153

MARICATO, Ermínia. Urbanização na periferia do mundo globalizado. Podendo ser consultado: http://www.scielo.br/scielo.php?pid. Acesso em 22/11/2006.

91

atendimento dessas necessidades significa compreender o desenvolvimento urbano como uma política pública que torne efetivo os direitos humanos, de modo a garantir à pessoa humana uma qualidade de vida digna. 154

3.2.2 Ocupações Desordenadas e o Déficit Habitacional

O modelo de desenvolvimento e expansão que comandou a urbanização acelerada no Brasil produziu regiões marcadas pela presença de ocupações ilegais. Conforme aponta Maricato, são diversas as denominações para ocupações ilegais utilizadas nas diversas regiões do Brasil: chamadas “áreas de posse” em Goiânia, “vilas” em Porto Alegre e Curitiba, “invasão” em Brasília e “favelas” em vários Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, etc. Deve-se notar, contudo, que os movimentos sociais que lutam pela moradia rejeitam o termo “invasão”, por considerá-lo ofensivo, optando por adotar o termo “ocupação”. A autora considera que o termo “invasão” retrata a ocupação, em áreas públicas ou privadas, por falta de alternativas, na maioria absoluta dos casos. 155 Na cidade de Manaus, o termo comumente utilizado para denominar as ocupações ilegais é “invasão”, mas utilizaremos neste trabalho a denominação ocupações, uma vez que o termo “invasão” carrega consigo uma conotação pejorativa.

154

SAULE JR, Nelson. Direito à Moradia no Brasil. Disponível em www.unhabitat.org. Acesso em 25/10/2006.
155

ARANTES, Otília. VAINER, Carlos. MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis/RJ: Vozes 2000. p. 153.

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De acordo com Edésio Fernandes, dezenas de milhões de brasileiros não têm tido acesso ao solo urbano e à moradia, senão através de processos e mecanismos informais – e frequentemente ilegais -, resultando em um habitat precário, vulnerável e inseguro. Favelas, loteamentos e conjuntos habitacionais irregulares, loteamentos clandestinos, cortiços, ocupações em áreas públicas, nas encostas e beiras de rios – essas têm sido as principais formas de habitação produzidas diariamente nas cidades brasileiras, pela maior parte de nossos moradores urbanos. 156 De fato, a rede urbana brasileira é extremamente desigual e concentrada. Enquanto treze municípios com mais de um milhão de habitantes respondem por cerca de 20% de toda a população brasileira, temos cerca de 4.600 municípios com menos de 20 mil habitantes concentrando menos de 30% da população do país. 157 Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, Censo 2000, as favelas existem em todos os municípios com população superior a 500 mil habitantes e em 80% das cidades cuja população está entre 100 e 500 mil habitantes. Após a realização, pelo IBGE, do Censo 2000 Brasil, a Fundação João Pinheiro em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), elaborou o estudo Déficit Habitacional no Brasil 2000, tendo como finalidade dimensionar e qualificar esse problema no Brasil. 158

156

FERNANDES, Edésio. Por uma política e um Programa Nacional de Apoio à Regularização Fundiária Sustentável: uma proposta inicial para consulta e ampla discussão. Disponível em: http:/www.irib.org.br/print/salas/boletimel743a.asp. Acesso em 22/11/2005
157 158

BRASIL. Ministério das Cidades. Caderno de Saneamento Ambiental nº. 5. Outubro de 2004. p. 13.

BRASIL. Ministério das Cidades. Déficit Habitacional no Brasil – Municípios Selecionados e microrregiões geográficas. Belo Horizonte/2004.

isto é. de acordo com o Ministério das Cidades. às moradias sem condições de serem habitadas. 07) 160 Ibid. Em outras palavras. com renda familiar de até três salários mínimos. o que indica claramente a carência de novas unidades domiciliares) e a coabitação familiar. O conceito de “déficit habitacional” está diretamente ligado às deficiências do estoque de moradias. seja devido ou à precariedade das construções. sendo que os índices produzidos para caracterizar as necessidades habitacionais brasileiras abarcaram o “déficit habitacional” e a “inadequação de moradias”. com adensamento excessivo de moradores. p.160 Agrega-se aos dois componentes acima citados o que se costuma denominar “ônus excessivo com aluguel”. referindo-se aos domicílios rústicos159. seja ao fato de terem sofrido desgaste de sua estrutura física. O déficit habitacional pode ser entendido. os domicílios com carência de infraestrutura. portanto ser repostos. em alto grau de depreciação ou sem unidade sanitária domiciliar exclusiva. 159 Domicílios rústicos não apresentam paredes de alvenaria ou madeira aparelhada. p. Tais fatores não implicam a necessidade de construção de novas unidades. que moram em casa ou apartamento e que despendem mais de 30% de sua renda com aluguel. (Ibid. Já o conceito de “inadequação de domicílios”. portanto. como o “déficit por reposição do estoque”. com problemas de natureza fundiária. que corresponde ao número de famílias urbanas.93 A pesquisa partiu do conceito de que “todo mundo mora em algum lugar”. 07 . acrescidos de uma parcela devida à depreciação dos domicílios existentes. o que resulta em desconforto para seus moradores e risco de contaminação por doenças e devem. se aplica àquelas habitações que não proporcionam aos seus moradores condições desejáveis de habitabilidade. e como “déficit por incremento de estoque” que contempla os domicílios improvisados (locais destinados a fins não-residenciais que sirvam de moradia...

o déficit habitacional aumentou em geral e aumentou principalmente para os moradores na faixa mais baixa da renda mensal familiar recebida.urbanas e rurais o que mostra que a concentração de terras é alarmante nesse país. 161 SAULE JR. Verifica-se a necessidade de uma política de subsídio à política habitacional. em 2000. Nelson. Ou seja. 161 Vale ressaltar que. Quando o domicílio apresenta um número médio de moradores superior a três indivíduos por dormitório.526. constituindo mesmo uma das maiores do mundo. em 1991. . Não são considerados os corredores.94 Entenda-se por carência de infra-estrutura a situação daqueles domicílios que não dispõem de: iluminação elétrica. para 6. que passam de 5.380. Podendo ser consultado pelo site: www. ocorre o chamado “adensamento excessivo”. alpendres. durante a década e um crescimento de 2. representando um acréscimo de 21. varandas abertas e outros compartimentos utilizados para fins não residenciais. Direito à Moradia no Brasil. há um total de cerca de 5 milhões de imóveis desocupados. rede geral de abastecimento de água com canalização interna. como garagens e depósitos. rede geral de esgotamento sanitário ou fossa séptica e coleta de lixo. de acordo com os dados do Ministério das Cidades (2006).656. Acesso em 25/10/2006.2% ao ano. tendo em vista que os mecanismos de mercado e as políticas públicas têm sido insuficientes para a solução do problema. ao passo que o déficit habitacional nacional se aproxima de 7 milhões de unidades habitacionais . no Brasil. Sobre a evolução do déficit habitacional brasileiro. que são todos os compartimentos integrantes do domicílio separados por paredes.7%. inclusive banheiros e cozinha.374.org. Nelson Saule afirma que os dados apontam um incremento absoluto no número de unidades habitacionais. Deve-se esclarecer que o número de dormitórios corresponde ao total de cômodos.unhabitat.

gerando assim. No entanto.500 500 700 800 300 1.108 (sessenta e oito mil.500 400 400 . Tabela 2 . o que representaria mais de 34% do déficit habitacional estimado pela FJP. cento e oito) domicílios. segundo dados da Secretaria de Estado de Política Fundiária . somente nos anos de 2002.2004.000 2.450 (vinte e três mil. surgiram 100 (cem) ocupações irregulares. 2003 e 2004.000 3. o déficit habitacional em Manaus no ano de 2000 está estimado em 68.95 Segundo dados da Fundação João Pinheiro .FJP.RIO PIORINI 3-CAMPOS SALLES 4-RIO SOLIMÕES 5-PARQUE RIACHUELO 6-ISMAIL AZIZ 7-PARQUE DOS GUARANÁS 8-ESPLANADA 9-RAIOS DE SOL 10-FAZENDINHA 11-NOVA VITÓRIA 12-CARBRÁS 13-PONTAL DA CACHOEIRA 14-CELEBRIDADES 3.000 3.JESUS ME DEU 2. quatrocentos e cinqüenta) lotes.000 5. aproximadamente 23. NOME DA OCUPAÇÃO QUANTIDADE LOTES ESTIMADOS 1. sendo que 16 dessas ocupações foram consolidadas.000 600 1.Relação de “invasões” consolidadas em Manaus – 2002 .SPF.

96

15-NOVO MILÊNIO 16-VITÓRIA RÉGIA TOTAL
Fonte: Secretaria de Política Fundiária do Amazonas - SPF

450 300 23.450

As invasões não atingem prioritariamente as famílias componentes do déficit habitacional, mas sim outro segmento social: os desempregados e subempregados que buscam nas ocupações ilegais uma forma de subsistência, uma vez que o mercado de trabalho passou a exigir qualificação profissional e nível escolar elevado. Os lotes que foram ocupados ilegalmente além de suprirem as necessidades de algumas pessoas sem moradia, também são utilizados como meio para obter uma fonte de renda, ou seja, pessoas sem alternativa financeira passam a ocupar os lotes para posteriormente vendê-los, sendo essa uma das poucas alternativas para garantir a sobrevivência. Isso nos mostra que, na realidade, as “invasões”, além de serem um meio de conseguir uma moradia, também desempenham outro papel, que é o de propiciar uma fonte de renda para os “sem-trabalho”, que, por necessidade de subsistência, acabam vendendo a terra invadida, e voltam a invadir outro local para moradia, gerando assim a “indústria da invasão”.162

3.3 O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO NA CIDADE DE MANAUS: A OCUPAÇÃO DE ÁREAS IMPRÓPRIAS E SEUS REFLEXOS PARA UMA SADIA QUALIDADE DE VIDA.

162

Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista, Belém, Macapá e Manaus. Ano 2006. p. 32

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A cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, está localizada na Região Norte do Brasil, no centro geográfico da Amazônia. Dentro da rede de cidades brasileiras, Manaus representa o 12º maior centro urbano, sendo considerada uma metrópole regional. Segundo dados do Censo 2000, Manaus apresenta uma população total de 1.403.796 habitantes, com uma concentração de 99,35% na área urbana – 1.394.724 habitantes. Vale ressaltar que, no ano de 2000, Manaus passou a ter a metade da população do Amazonas. Os indicadores de renda, pobreza e desigualdade para a cidade de Manaus podem ser observados na tabela abaixo: Tabela 3 - Indicadores de Renda, Pobreza e Desigualdade em Manaus - 1991 – 2000. 1991 Renda per capita Média (R$ de 2000) Proporção de Pobres (%) Índice de Geni (mede o grau de desigualdade na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita),
Fonte: Atlas do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH do Brasil

2000 262,4 35,2 0,64

276,9 23,6 0,57

A partir da implantação da Zona Franca de Manaus, através do Decreto-Lei nº. 288, de 28/02/1967, teve início um novo ciclo econômico, com a instalação de um parque industrial de porte e a consolidação de um setor terciário baseado na comercialização de produtos importados. A Zona Franca de Manaus foi um momento importante para o processo de desenvolvimento do Estado do Amazonas, gerando milhares de empregos e postos de trabalho, diretos e indiretos. A Zona Franca de Manaus foi responsável pela atração de um grande fluxo migratório do interior do Estado e de diferentes regiões do país. Em conseqüência, houve um aumento da população em Manaus, levando ao agravamento da questão urbana, da saúde pública e da

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exclusão social, processo que provocou a redução da qualidade de vida da maior parte da população. O problema fica evidente quando analisamos o crescimento demográfico da população, uma vez que, em 1970, Manaus possuía 284.000 mil habitantes e, em 2000, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a população deste município saltou para 1.403.796 de habitantes.

Tabela 4 – Crescimento Demográfico da população de Manaus – 1970 - 2000 ANO 1970 1980 1990 2000 POPULAÇÃO 284.000 635.000 1.100 1.403.796

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE 1970-2000

Esse crescimento populacional foi causado pelo gigantesco êxodo rural e pelo fluxo migratório para a capital, sendo que enormes contingentes populacionais abandonaram seus locais de origem ancestrais, atraídos pelas expectativas de emprego e melhores condições de vida em geral resultantes da instalação da Zona Franca de Manaus. O crescimento acelerado da cidade, a partir da década de 1980, provocou a expansão indiscriminada da ocupação urbana, com o aumento das ocupações irregulares, principalmente nas zonas leste e norte, além do agravamento da situação às margens dos

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igarapés e da deficiência da infra-estrutura urbana, principalmente dos sistemas de esgotos sanitário, dos serviços e equipamentos sociais básicos. 163 De acordo com nosso sistema jurídico, cabe ao município o ordenamento territorial urbano e a disciplina do uso do solo nas cidades. 164 Contudo, observamos que, nas últimas décadas, o Município abriu mão dessa prerrogativa e o poder público ficou a reboque das “invasões”. Não foram desenvolvidas políticas públicas suficientes para enfrentar essa dinâmica populacional e houve um constante relaxamento no cumprimento das normas urbanísticas e edilícias previstas na Lei 1.213/75 (Plano Diretor Local Integrado de Manaus – PDLI). O PDLI, destinado a atender às necessidades da população e da cidade nos próximos 20 anos, deveria ter sido revisado em 1995, mas não foi. 165 Este plano desempenhou um papel importante apenas nos primeiros anos do processo de expansão urbana que se seguiu à instalação da Zona Franca e do Distrito Industrial. Entretanto, a ausência de planejamento continuado e a perda do controle do crescimento da cidade acabaram por determinar a ocorrência de vários problemas ambientais em Manaus.
166

Dessa forma, por total falta de alternativa habitacional, convivem nos dias atuais na cidade de Manaus milhares de famílias que residem em barrancos e encostas com riscos de

163

BRASIL. Ministério do Meio-Ambiente. GEO-CIDADES (2002). Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. p. 59.
164

Com relação à política habitacional, nos termos do artigo 23, inciso IX, a União, Estados e Municípios devem promover programas de construção de mordias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico. Compete aos Municípios, com base no art. 30, incisos I, II e VIII, promover o adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, parcelamento e da ocupação do solo urbano. O Município, com base no artigo 182 da CF, é o principal ente federativo responsável pela promoção da política urbana, de modo a ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade.
165

Durante mais de vinte anos, o PDLI não foi objeto de quaisquer avaliações ou revisões. Após a nova Lei Orgânica do Município, teve início a realização de estudos para adequação da legislação vigente à realidade municipal. Entre 1995 e 1997, foram editadas novas legislações entre as quais merecem destaque a Lei nº 2.79/95 que altera a divisão territorial do Município e estabelece as Áreas Especiais de Interesse Urbanístico, e a Lei nº 353/96 que estabelece normas para regularização de parcelamento do solo para fins urbanos, implantados irregularmente na Área Urbana, e cria as Zonas Especiais de Interesse Social ou ZEIS. (Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista, Belém, Macapá e Manaus. Ano 2006. p. 31).
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BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. GEO-CIDADES (2002). Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. p. 60.

às margens dos inúmeros igarapés que recortam a cidade. Ismail Aziz etc. sendo assim locais propícios para as “invasões”. as chamadas invasões. pelos seus inúmeros “vazios urbanos” 167 .100 desabamento. aliada a outros fatores . situação que se agrava como resultado dos reflexos que recebem dos problemas macroeconômicos que abalam a economia nacional e global. Segundo dados da Secretaria de Estado de Política Fundiária. Muitas das ocupações ou “invasões” ocorridas nos últimos anos. como encostas. ocorreram mais de 140 novas ocupações ilegais no perímetro urbano. Essa opção dos movimentos de ocupação pela Zona Norte da cidade teve seu recrudescimento a partir do ano 2000. como acima afirmado. como o Novo Israel.ausência de políticas públicas. Jesus me Deu. . Tal fato demonstra.fez com que milhares de pessoas se vissem sem nenhuma perspectiva com relação a prover o seu próprio sustento. por um lado. mas. servindo apenas como reserva para especulação. passa a ser a área escolhida para as invasões. Pontal da Cachoeira. a ausência ou insuficiência de políticas públicas voltadas para o problema habitacional e urbano. a Zona Norte. com as invasões: Rio Piorini. ascensão da política econômica neoliberal etc. . nascentes de igarapé. na Zona Norte da cidade. pelo estado de abandono das áreas. em baixo de fios de transmissão de eletricidade e também em locais com focos de malária. Ocorre que a grande maioria dessas populações tem baixo nível escolar e pouca ou nenhuma qualificação profissional. Esplanada. foram feitas em áreas impróprias para habitação. evidencia uma forma de segregação espacial e social. Caracterizam-se. em baixo de fios condutores de energia ou mesmo em antigos depósitos de lixo. o município de Manaus vem se deparando com um número elevado de ocupações irregulares. 167 Os “vazios urbanos” podem ser definidos como áreas que não cumprem a função social. Campos Salles. por outro. grosso modo. Terra Nova e Santa Etelvina. nos anos de 2002 a 2006. Carbrás. barrancos. Nas últimas três décadas. Na década de oitenta. Essa combinação. como o caso do Bairro do Novo Israel.

com poucos espaços verdes. como a moradia nas margens de igarapés. A situação torna-se ainda mais dramática pelo fato de esses danos causados ao meio ambiente serem decorrência da total falta de oportunidade econômica. diversos bairros da cidade de Manaus passam a receber algum tipo de saneamento ou infra-estrutura básica. As transformações fruto do processo de urbanização acelerada de Manaus não foram acompanhadas por uma política de controle ambiental compatível com seu elevado . como é o caso do “Igarapé do Quarenta”. A cidade de Manaus está situada às margens dos Rios Negro e Solimões. “Nova Vitória” e outras. sendo entrecortada por cursos d´agua. atingindo principalmente as populações que residem nas áreas impróprias à ocupação. reflexo do capitalismo crescente. rios e igarapés e.101 A luta por moradia está sendo travada pela população de baixa renda. que leva famílias inteiras a se submeterem à moradia em locais impróprios. A forma desordenada de urbanização da cidade também traz prejuízos ao meio ambiente. principalmente nas épocas de campanhas políticas. passando a habitar locais que são impróprios para moradia. sem acesso à água de qualidade ou ar puro. Após a consolidação das ocupações. como áreas sem saneamento e coleta de lixo. surgem situações de inundações e desmoronamentos. como é o caso de invasões como “Jesus me Deu”. em ambientes degradados. que ocorre anualmente. como resultado da situação climática e da cheia do Rio Negro. ou de destruição quase que total de áreas verdes. causando riscos à própria vida e ao meio ambiente. que não tem o direito de exercer sua cidadania no sentido de ter um teto para morar com dignidade.

devido ao intenso crescimento populacional.1. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista. outro grave problema observado em Manaus é o crescimento da ocupação urbana direcionada para as áreas até então preservadas com florestas primárias. Primeiramente foram ocupados os espaços no centro da cidade. regiões periféricas da cidade. ocorridos nas últimas décadas. houve uma redução das condições de salubridade dos habitantes. p. Nesse processo. A legalização das favelas à luz do Estatuto da Cidade As formas de ilegalidade nas cidades constituem uma das maiores conseqüências do processo de exclusão social e segregação espacial que tem caracterizado o crescimento urbano intensivo nos países em desenvolvimento. como é o caso do Brasil. localizam-se nas Zonas Leste e Norte. Belém. Macapá e Manaus. Sendo assim. muitas delas irreversíveis. A insuficiência da infra-estrutura existente fez com que os casos de doenças de veiculação hídrica. levando assim a uma precarização da qualidade de vida.102 crescimento urbano. um número 168 Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. p. os cursos d´água que cortam a cidade foram ocupados sofrendo alterações e degradação. 168 Além das ocupações nas margens dos igarapés. 169 3. 29 169 BRASIL. decorrentes do intenso desmatamento nas ocupações. Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. às margens dos inúmeros igarapés que a recortam. levando um grande número de pessoas a ocuparem áreas impróprias para moradia.3. e depois foram sendo ocupadas e invadidas áreas na periferia da cidade. Ano 2006. Ministério do Meio Ambiente. bem como os surtos de malária e dengue. hepatite A e as diarréias tenham tido um alto índice de ocorrência na cidade. 118 . Os desmatamentos. Em Manaus. onde ocorre intensa ampliação das fronteiras urbanas e o adensamento de áreas ocupadas. para fins de ocupações. GEO-CIDADES (2002). formando novos bairros. tais como febre tifóide.

Edésio. que salientou a importância fundamental do direito urbanístico. em condições precárias ou mesmo insalubres e perigosas. 2001. 170 FERNANDES. Ministério Público do Estado de São Paulo. somente em 2000. In: Temas de Direito Urbanístico 3. Após longas negociações e adiamentos. 21 a 30). Pela CF/88. geralmente em áreas periféricas ou em áreas centrais desprovidas de infra-estrutura urbana adequada. Coordenação Geral José Carlos de Freitas. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto da Cidade. lei que regulamenta o capítulo da política urbana (arts. 182 e 183) da Constituição Federal de 1988. A partir da década de 1970. O Estatuto da Cidade passou a definir o que significa cumprir a “função social da cidade” e da propriedade urbana. .103 cada vez maior de pessoas tem tido de descumprir a lei para ter um lugar nas cidades. 170 A discussão crítica sobre a ilegalidade urbana tem ganho destaque nos últimos anos. através de Emenda Constitucional n. os Municípios passaram a ser co-responsáveis por promover as políticas habitacionais (arts. Contudo. foi aprovado pelo Congresso Nacional o Estatuto da Cidade. movimentos populares de luta por moradia propiciaram a criação do Fórum Nacional de Reforma Urbana. delegando esta tarefa para os municípios. foi incluído na CF/88 o direito à moradia. 26. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. 190. vivendo sem segurança jurídica da posse. A primeira grande conquista foi a inclusão de um capítulo na Constituição Federal de 1988 tratando da Política Urbana. p. especialmente desde a Agenda Hábitat da ONU.

do uso e da ocupação do solo. embora pouco utilizado ainda. mediante as seguintes diretrizes gerais: 171 Os Instrumentos de intervenção sobre os territórios estão divididos em três campos: a) Instrumentos de planejamento.org. as áreas vazias ou subutilizadas situadas em áreas dotadas de infra-estrutura estão sujeitas ao pagamento do IPTU progressivo no tempo. 172 173 174 Ibid. instrumento utilizado para os casos de não cumprimento das definições municipais sobre parcelamento. a instituição de zonas especiais de interesse social. a edificação ou a utilização compulsória. uma nova estratégia de gestão que incorpora a idéia de participação direta do cidadão em processos decisórios sobre o destino da cidade e a ampliação das possibilidades de regularização das posses urbanas. além dos Estudos Prévios de Impacto Ambiental e de Impacto de Vizinhança. reconhecendo os padrões de assentamento vigentes nestes espaços. até hoje situadas na ambígua fronteira entre o legal e o ilegal. a concessão de uso especial para fins de moradia. c) Instrumentos jurídicos e políticos. Estatuto da Cidade: instrumento para as cidades que sonham crescer com justiça e beleza. Disponível em www. 172 O Estatuto da Cidade visa à incorporação da cidade real à cidade legal. ou seja. entre os quais merece destaque a desapropriação. a política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana. a usucapião especial de imóvel urbano e a regularização fundiária. p. por ser um instrumento que vai frontalmente de encontro aos interesses da especulação imobiliária. (ROLNIK. 2º da Lei 10. edificação ou utilização compulsórios. 173 Raquel Rolnik afirma que as inovações contidas no Estatuto situam-se em três campos: um conjunto de novos instrumentos de natureza urbanística voltados para induzir – mais do que normatizar – as formas de uso e ocupação do solo.257/01. p.. Raquel. disciplina sobre o parcelamento. 01 Ibid.br/estatuto/artigo1. o parcelamento. b) Instrumentos tributários e financeiros. entre os quais destacam-se o plano diretor.. a concessão de direito real de uso.html. entre os quais se encontra o “IPTU progressivo no tempo”. 174 De acordo com o art.estatutodaciade. zoneamento ambiental e gestão orçamentária participativa. 01 . p. através de processos de regularização fundiária e urbanística dos assentamentos populares. 02 Ibid. Acesso em 15/09/2006). além de uma nova concepção de planejamento e gestão urbanos..104 oferecendo para as cidades um conjunto inovador de instrumento de intervenção sobre seus territórios171.

em seus capítulos dedicados à política urbana (arts.ficam dependentes de formulação contida no Plano Diretor. Art.. Isto é.como o IPTU progressivo para imóveis não utilizados ou subutilizados . como o Estatuto da Cidade contêm dispositivos de adequação controvertida..105 (. tanto a Constituição Federal de 1988. Segundo Ermínia Maricato. A primeira porque os adversários da chamada Reforma Urbana preconizada pelos movimentos sociais. j) o usucapião especial de imóvel urbano e q) regularização fundiária. 182 e 183). O que parece ser uma . f) a instituição de zonas especiais de interesse social. O segundo porque remeteu a utilização dos instrumentos de reforma urbana à elaboração de Plano Diretor.que dizem respeito ao direito à habitação e à cidade . os demais .. conseguiram incluir na redação alguns detalhes que remetem a aplicação de alguns instrumentos . consideradas a situação sócio-econômica da população e as normas ambientais.para lei complementar. com exceção dos instrumentos de regularização fundiária. g) a concessão de direito real de uso. inciso V: a) desapropriação. uso e ocupação do solo e edificação. h) a concessão de uso especial para fins de moradia. 4º.) XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por populações de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização.

br/scielo. Disponível em www. as ações governamentais começam a reconhecer a necessidade de urbanização e legalização da cidade informal.scielo. FERNANDES.php. invadem terras para morar. Metrópole. 176 177 Ibid... . sobretudo no nível municipal. oferecendo uma melhor qualidade de vida e segurança fundiária para seus moradores. legislação e desigualdade. já se observa no Executivo. Ermínia. A regularização 175 MARICATO. as agências públicas têm se concentrado mais na cura do que na prevenção do problema. Judiciário. ficando em segundo plano (e em alguns casos esquecida) as políticas públicas voltadas para o oferecimento de novas moradias para aqueles que. Destaca que a questão principal reside na aplicação dos novos instrumentos urbanísticos trazidos por essa legislação quando se deseja reestruturar (porque o problema é de estrutura) todo o quadro da produção habitacional de modo a conter essa determinação da ocupação ilegal e predatória pela falta de alternativas habitacionais. Legislativo.106 providência lógica e óbvia resultou em um travamento na aplicação das principais conquistas contidas na lei. Acesso em 02/09/2006. Aparentemente. Contudo. uma tendência crescente de admissão da regularização urbanística e jurídica das ocupações ilegais. p. 14. 177 Apesar de resistências. p. 175 A autora acima citada reconhece que a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade de 2000 constituem paradigmas inovadores e modernizantes no que diz respeito às relações de poder sobre a base fundiária e imobiliária urbana. sem perspectivas e recursos financeiros. In: Temas de Direito Urbanístico 3. Deve-se salientar a enorme pressão para que respostas sejam encontradas para o fenômeno crescente de ilegalidade. 2001. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo. assim como na própria sociedade. Edésio. a dificuldade está em apresentar alternativas para que grande parte da população não seja forçada a invadir terras para poder morar. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. 176 Ou seja. 194.

Maricato. 179 FERNANDES. afirma que a democratização da produção de novas moradias e do acesso à moradia legal e à cidade com todos seus serviços e infra-estrutura exige a superação de dois grandes obstáculos – terra urbanizada e financiamento – que. já que confere mais estabilidade e segurança ao morador. 180 MARICATO. que tais programas têm sido mais bem sucedidos no que toca às políticas de urbanização do que às políticas de legalização. 179 Contudo. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. por sua vez. como afirmado acima. um descompasso significativo entre os objetivos dos programas de regularização e as políticas adotadas. 2001. quase todos os programas de regularização de favelas (combinando políticas de urbanização e políticas de legalização) têm sido estruturados em torno de dois objetivos principais: o reconhecimento de alguma forma de segurança jurídica da posse para os ocupantes das favelas. há. condição essa que interfere nas chances de obtenção de emprego. legislação e desigualdade. .br/scielo. 200. Disponível em www. com freqüência. Metrópole. com base nos estudos existentes sobre as experiências de diversas cidades brasileiras. crediário e até salários.scielo. In: Temas de Direito Urbanístico 3. Acesso em 02/09/2006. legislação e desigualdade.br/scielo.php. bem como a integração sócioespacial de tais áreas e comunidades no contexto mais amplo da estrutura e da sociedade urbana. 180 178 MARICATO. Ermínia. que pode até livrar-se de uma condição penosa de morador de favela.scielo.php. Metrópole.107 jurídica completa a melhoria das condições sociais. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo. p. Disponível em www. 178 De acordo com Edésio Fernandes. durante toda a história da urbanização brasileira. no Brasil.. Acesso em 02/09/2006. o autor destaca que. Edésio. Afirma ainda o autor. Ermínia. foram insumos proibidos para a maior parte da população.

o Estado vem regularizando a moradia de famílias que ocupam há mais de cinco anos terras do Estado. 2001. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo. tendo. programa que beneficiará.108 Os programas de regularização têm um caráter essencialmente curativo. até o final do ano de 2007. 193. O primeiro passo é 181 FERNANDES. 182 ZEIS – são zonas urbanas especiais de interesse social que podem conter áreas públicas ou particulares ocupadas por população de baixa renda. e precisam ser combinados com investimentos públicos e políticas sociais e urbanísticas que gerem opções adequadas e acessíveis de moradia social para os grupos mais pobres que tem tido nas favelas e nos loteamento periféricos a única forma possível de acesso ao solo urbano e à moradia. passou a considerar uma parte do bairro Santa Etelvina como “Zona Especial de Interesse Social” – ZEIS182. A prefeitura. Nesse sentido. Ele exige medidas mais amplas. As ZEIS são destinadas prioritariamente para a produção e manutenção de habitação de interesse social. a implantação de infra-estrutura urbana e equipamentos comunitários e a promoção de programas habitacionais. mas oferecendo a uma pequena parcela dos moradores de invasões uma maior segurança fundiária. sendo que ainda de forma incipiente. onde há interesse público de promover a urbanização e/ou a regularização jurídica da posse da terra. Instituo Polis. pois ampliam a cidadania dos seus moradores. 181 A regularização fundiária das invasões na cidade de Manaus está sendo implementada pelo Poder Público Estadual e Municipal. verdadeiro motor de produção contínua de favelas. para salvaguardar o direito à moradia. essas experiências de legalização das favelas ou invasões têm um sentido positivo. os favelados devem ter acesso garantido a um lugar na sociedade urbana e a um espaço na cidade. 2002) . Desde 2001. Enquanto cidadãos. a fim de promover a regularização jurídica da área. incorporando os territórios da cidade informal à cidade legal. 30 mil famílias. Contudo. (Regularização da Terra e Moradia. In: Temas de Direito Urbanístico 3. através da concessão de título definitivo. a partir do ano de 2007. a partir do ano de 2006 emitido diversas concessões de uso para moradores em áreas da prefeitura. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. tais iniciativas não atingem as raízes do processo de urbanização excludente. p. Edésio. O que é e como implementar”.

Podendo ser consultado www. em particular. o acesso aos direitos básicos é privilégio de poucos e os recursos naturais são cada vez mais dizimados. Ermínia. são obrigados a correr toda sorte e risco sócio-ambientais. como um cômodo em uma ocupação ilegal qualquer. observa-se um quadro crescente de desigualdade e discriminação social. Acesso em 25/10/2006.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas. da segregação sócio-ambiental não está. onde conseguem desenvolver alguma atividade que lhes garanta uns trocados. acaba promovendo a concentração da riqueza e ampliando as desigualdades sociais.183 A ausência de políticas públicas sociais que garantam o acesso à habitação resulta em imensas massas de desabrigados. certamente. 183 MARICATO. Nas cidades brasileiras e. ou melhor. segregação ambiental. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. A questão central está na destinação dos recursos públicos que. ainda que insuficientes até mesmo para pagar a locação de uma habitação subnormal. nos moldes da atual condução do processo de implementação das políticas públicas. desemprego. os sem-teto. que vivem perambulando pelas periferias urbanas ou mesmo pelas áreas centrais. na falta de recursos públicos. trazendo para a luz do dia uma realidade que é desconhecida. . sendo as maiores vítimas os segmentos mais pauperizados das classes subalternas. pobreza e violência. que pela sua situação econômica. uma vez que estes vêm crescendo ano a ano.doc.109 criar consciência social sobre a dimensão e a importância do problema. A questão que nos parece central sobre a deterioração da qualidade de vida da população brasileira. a cidade de Manaus.

23-24. Jose Augusto. No sul da Lousiana. . e biológicas. Da preocupação com o a crise socioambiental deu-se início a um conjunto de embates e discussões contra as condições inadequadas de saneamento.184 A constituição do Movimento por Justiça Ambiental teve como marco histórico a experiência concreta de luta desenvolvida nos Estados Unidos da América (EUA). em 1982. humanas. no condado de Warren Couty. Henri. Ao tomarem conhecimento da iminente contaminação da rede de abastecimento de água da cidade. assim como o de contaminação química em Love Canal. Selene. além da disposição indevida de lixo tóxico e perigoso. In: Justiça Ambiental e Cidadania. como também chegaram ao tecido social. 2004. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. em uma região conhecida como a Cancer Alley. não só no campo das ciências sociais. na Carolina do Norte. caso fosse nela instalado um depósito de bifenil policlorado. que era composta de 84% de negros. Nos anos de 1970. Org. Estado de Nova York. p. em Afton. sindicatos. Henri. ambientalistas e organizações de minorias étnicas articularam-se para discutir assuntos relacionados às “questões ambientais urbanas”. Alguns outros casos de injustiça ambiental nos Estados Unidos são emblemáticos. A partir de 1978. de contaminação química de locais de moradia e trabalho. Niagara. e 184 ASCELRAD. Justiça Ambiental – ação coletiva e estratégias argumentativas. os habitantes do condado organizaram protestos maciços. moradores de um conjunto habitacional de classe média baixa descobriram que suas casas estavam erguidas junto a um canal que tinha sido aterrado com dejetos químicos industriais e bélicos. os efeitos devastadores do desenvolvimento começaram a repercutir. ACSELRAD.4 O MOVIMENTO POR JUSTIÇA AMBIENTAL A partir da década de 1960.110 3. O protesto contra a utilização de sua localidade de moradia para a instalação de um aterro de resíduos perigosos culminou na prisão de mais de 500 moradores de Afton. PÁDUA. deitando-se diante dos caminhões que para lá traziam a carga perigosa contendo resíduos tóxicos. HERCULANO.

das quais 70% negros e 11% latinos.anppas. havia contabilizado em 1991. Henri. As localidades com moradores negros eram as preferidas para construção de fábricas e depósitos de lixos químicos.br. frequentemente isoladas. O maior aterro comercial de lixo tóxico dos Estados Unidos. o valor da terra e a propriedade de imóveis. .111 também no cinturão negro do Alabama. onde os negros formam 90% da população e 75% dos residentes do Sumter County. contra agentes tóxicos e assentamentos de instalações perigosas. Jose Augusto. 186 Os protestos então conduziram a Comissão para Jutiça Racial (Comission for Racial Justice) a produzir Toxic Waste and Race. (ASCELRAD. 185 A luta de comunidades negras locais. Justiça Ambiental – ação coletiva e estratégias argumentativas. 100 fábricas (das quais 7 indústrias químicas e 5 siderúrgicas) e 103 depósitos abandonados de lixo tóxico na sua comunidade. no Alabama. 26-45). foram 185 HERCULANO. As empresas escolhiam uma localidade para fins de construir aterros de resíduos químicos de acordo com a raça de seus moradores. 50 aterros de lixo tóxico. Selene. p. ACSELRAD.org. O peso de tal variável mostrou-se mais forte do que a pobreza. In: Justiça Ambiental e Cidadania. PÁDUA. HERCULANO. Teve como resultado que a raça foi percebida como variável mais potente na predição de onde essas instalações eram localizadas – mais forte que a pobreza. Disponível em http://www. que recebe rejeitos retirados dos procedimentos de descontaminação. em 1987. está localizado na cidade de Emelle. Org. A localidade do sudeste de Chicago. o primeiro estudo nacional a correlacionar instalações que manipulavam resíduos com características demográficas. segundo a Greenpeace. 2004. se concentram-se incineradores e depósitos de rejeitos perigosos. Henri. Selene. Entre os fatores explicativos de tal fato. Riscos e desigualdade social: a temática da Justiça Ambiental e sua construção no Brasil. Acesso em 22/06/07. 186 Foi a partir desta pesquisa que o Reverendo Benjamin Chavez cunhou a expressão “racismo ambiental” para designar “a imposição desproporcional – intencional ou não – de rejeitos perigosos às comunidades de cor”. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. habitada por 150 mil pessoas. o primeiro estudo nacional a correlacionar instalações que manipulavam resíduos com características demográficas. Concluiu-se no referido trabalho que a composição racial de uma comunidade é a variável mais apta a explicar a existência ou inexistência de depósitos de rejeitos perigosos de origem comercial em uma área. conduziu a Comissão para Justiça Racial a produzir.

p. professor do Clark Atlanta University – EUA. BULLARD. Selene. 41-42. . 187 Robert Bullard188 indaga em seu texto “Enfrentando o racismo ambiental” sobre as razões de algumas comunidades serem transformadas em depósito de lixo enquanto outras escapam desse destino. Enfrentando o racismo ambiental. mesmo possuindo uma das melhores legislações ambientais do planeta. o que autor define como a “anatomia do racismo ambiental”. Henri. enquanto outros são envenenados. (.) O comércio de 187 188 189 Ibid. como força econômica e militar dominante do mundo atual têm gerado massivo bem-estar. ACSELRAD. intelectual e ativista norte-americano. 190 Ibid. Jose Augusto. 189 Destaca o autor que o EUA. altos padrões de vida e consumismo. Todavia. 43. 190 De acordo com Guilherme Purvin “as terras de uma nação pobre constituem um excelente ‘depósito de lixo’ e qualquer projeto dessa ‘nação-depósito’ visando a adoção de um novo paradigma econômico será considerado um perigoso entrave para o contínuo processo de expansão do poderio econômico dos países poluidores. a falta de oposição da população local por fraqueza organizativa e carência de recursos políticos típicas das comunidades de minoria. Robert Bullard.112 alinhados a disponibilidade de terras baratas em comunidades de minorias e suas vizinhanças. No entanto. Org. assim como alguns trabalhadores são protegidos das ameaças ao ambiente e à saúde. Robert. In: Justiça Ambiental e Cidadania.. 2004. nem todas as comunidades são tratadas de modo igual. 26. essa máquina de crescimento tem também gerado resíduos.. HERCULANO. p.. poluição e destruição ecológica. O autor afirma que as regulamentações ambientais são rigorosamente aplicadas em algumas comunidades e em outras não. a falta de mobilidade espacial das minorias em razão de discriminação residencial e. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. p. por fim. Algumas comunidades são rotineiramente envenenadas enquanto o governo olha para o outro lado. no campo real. a sub-representação das minorias nas agências governamentais responsáveis por decisões de localizações dos rejeitos. PÁDUA.

192 Robert Bullard traz como exemplo a tragédia de Bhopal que ainda está fresca na mente de milhões de pessoas que vivem próximas a indústrias químicas. alta pobreza e sistema de atenção à saúde sobrecarregada. tratamento e emissão de resíduos perigosos. pessoas negras em todo o planeta precisam lutar contra a poluição da atmosfera e da água para consumo. incineradores. tais como aterros municipais. 44. ausência de investimentos econômicos. direcionam os custos para os países do Sul. ainda do estabelecimento de instalações nocivas192. 43-44. Curso de Direito Ambiental (interesses difusos. ao mesmo tempo em que garantem benefícios para os países do Norte. Guilherme Purvin de. O vazamento do venenoso gás de metilisocianto (MIC) EM 1984.113 resíduos e outras formas de desenvolvimento ambientalmente nocivo está agravando a desigualdade internacional e ajudando a sustentar as indústrias poluidoras em todo o planeta”.) 193 Ibid.. Por conta disso. observa-se que as comunidades mais poluídas são as comunidades com infra-estrutura desintegrada. o único lugar onde era produzido o MIC. Esse fato ocorre tanto em países industrializados. o Institute Union Carbide. p. criando subempregos e 191 FIGUEIREDO. em áreas de propriedade privada ou do poder púbico. a danos ambientais decorrentes das atuais políticas econômicas e de mercado. escolas inadequadas. como nos países em desenvolvimento. um vazamento de gás nessa instalação resultou na hospitalização de 135 residentes. tornando-se o acidente industrial mais grave em todo o mundo. sendo que. p. 193 Como exemplo. o autor destaca que na fronteira dos Estados Unidos da América – EUA com o México operam mais de 1. . com maior intensidade. que estabelecem políticas públicas e práticas industriais que. na planta industrial da Union Carbide na cidade de Bhopal (Índia). desemprego crônico. Nos EUA. (Ibid. 2006. habitação precárias. Robert Bullard observa que há um padrão de discriminação ambiental que submete determinadas comunidades. em 1985. matou milhares de pessoas. que se aproveitam da mão-de-obra barata. sendo que.. se situava em uma área de West Virgínia habitada predominantemente por afro-americanos. como os EUA. 132-133. e. natureza e propriedade). de propriedade de empresas estrangeiras. essas áreas geralmente estão localizadas próximas ao local de moradia dos negros. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris).191 Por conta disso. p.900 fábricas de montagem.

ampliou o movimento por justiça ambiental para além do seu foco anti-produtos tóxicos. dentre eles o Brasil. 46. pobreza. comprometendo assim a saúde dos trabalhadores e habitantes da região. p. A partir de 1987. passando o movimento ambientalista a incorporar a desigualdade ambiental às desigualdades sociais. nos EUA. organizações de base começaram a discutir mais intensamente as ligações entre raça. transporte. surge. .. Os delegados participantes da conferência e aprovaram 17 princípios da justiça ambiental que foram desenvolvidos para guiar a organização e formação de redes de ONGs. segurança do trabalho. No final dos anos 80. contando com a participação de delegados de 15 países. em 1991. poluição e as ligações entre problemas ambientais e desigualdade social. esse fato é definido por Bullard como uma forma de discriminação institucionalizada. exploração predatória e escassez dos recursos naturais do planeta. 194 Os movimentos ambientais durante muito tempo se preocuparam com as questões ambientais apenas relacionadas à preservação. melhores taxas de incentivos. para incluir questões de saúde pública. moradias. A Primeira Cúpula Nacional de Lideranças Ambientais de Pessoas de Cor. o movimento elevou a Justiça Ambiental à condição de questão central na luta pelos direitos humanos. alocação de recursos e empoderamento das comunidades. 194 Ibid. mão-de-obra barata e altos lucros. A conferência contou com a presença de mais de 1000 lideranças de base e de diversos países do mundo. A crescente globalização tornou fácil para o capital e as corporações transnacionais fugirem para áreas com o mínimo de regulamentação ambiental. que passaram a ser pensadas em termos de distribuição e justiça. um movimento inovador que trouxe um novo enfoque das questões ambientais. uso do solo.114 agravando o nível de poluição local. A partir das reivindicações contra a iniqüidade ambiental. realizada em Washington.

incluindo-se aí grupos étnicos. Justiça ambiental e construção social do risco. a degradação entrópica de massa e energia. 196 BULLARD. locais ou tribais. remete a uma distribuição equânime de partes e à diferenciação qualitativa do meio ambiente. Cristiane Derani afirma que “durante o processo produtivo. estaduais. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. Org. 2004. são produzidas externalidades negativas. que é percebido pelo produtor privado. da execução de políticas e programas federais. Neste último. embora resultantes da produção são recebidas pela coletividade. RJ: Vozes. p. ACSELRAD. implementação e reforço de políticas. Por tratamento justo. o meio ambiente tende a ser visto como uno. bem como das conseqüências resultantes da ausência ou omissão dessas políticas. Curitiba/PR: Editora da UFPR. Henri. Selene. Jose Augusto. comerciais e municipais. p. Ainda sobre esse conceito. poder. 2001. A denúncia da desigualdade ambiental sugere uma distribuição desigual das partes de um meio ambiente de diferentes qualidades. raciais ou de classe. (LEFF. Saber Ambiental: sustentabilidade. cor. 54. entenda-se que nenhum grupo de pessoas. Daí a expressão ´privatização de lucros e . origem ou renda no que diz respeito à elaboração. ao contrário. 196 Enrique Leff ao comentar a categoria de distribuição ecológica. São chamadas externalidades porque. Henri. 195 A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) define justiça ambiental como sendo a condição de existência social configurada através da busca do tratamento justo e do envolvimento significativo de todas as pessoas. desenvolvimento. Enfrentando o racismo ambiental. racionalidade. Enrique. injustamente dividido. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. a noção de “justiça ambiental” permitiu uma articulação discursiva distinta daquela prevalecente do debate ambiental corrente – entre meio ambiente e escassez. o risco e a incerteza. A idéia de justiça. In: Justiça Ambiental e Cidadania. a degradação ambiental. ao contrário do lucro.115 Nesse sentido. além do produto a ser comercializado. HERCULANO. Robert. 41-42. In: BULLARD. a produtividade natural e a regeneração ecológica. Petrópolis. 2002. a perda de valores e práticas culturais e a equidade transgeracional. nº 5. 197 Leff define como externalidades a pobreza. deva suportar uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas resultantes de operações industriais. independentemente de sua raça. “Enfrentando o racismo ambiental”. 45). p. Robert. PÁDUA. leis e regulações ambientais. homogêneo e quantitativamente limitado. busca compreender as externalidades197 ambientais e os movimentos sociais que emergem de “conflitos 195 ASCELRAD. complexidade.

p. 198 LEFF. deve arcar com os custos necessários à diminuição. transportador). as preocupações dos países do Norte concentram-se nos problemas ambientais globais (mudança climática. rompendo os equilíbrios ecológicos do planeta. podendo – desde que compatível com as condições da concorrência no mercado – transferir estes custos para o preço do ser produto final”. (. Direito Ambiental Econômico. distribuição ecológica designa as “assimetrias ou desigualdades sociais. o ambientalismo não surge da abundância.) O agente econômico (produtor. estão se organizando e lutando em resposta à extrema pobreza gerada pela destruição de seus recursos naturais. 45-46. através da distribuição ecológica. o autor procura explicar.. comercializados ou não”. que nesta condição causar algum dano ambiental. aquecimento da Terra. complexidade. Saber Ambiental: sustentabilidade. p. Petrópolis. perda de biodiversidade) fatores que. devendo redistribuir esses custos entre os compradores e seus produtores. Assim. São Paulo: Editora Max Limond. tanto os camponeses e os povos indígenas. consumidor. sendo que seus problemas mais visíveis são o controle da contaminação e a disposição de rejeitos gerados pelos altos níveis de produção e consumo. 2001. os produtores e fabricantes devem internalizar os custos exigidos para a prevenção. colocam em perigo a sustentabilidade do sistema econômico. quando identificadas as externalidades negativas. incluindo os movimentos de resistência e justiça ambiental. 158). RJ: Vozes.116 distributivos”.. racionalidade. Enrique. controle e reparação dos danos advindo de sua atividade. Pois bem. Nesse sentido. temporais no uso que os humanos fazem dos recursos e serviços ambientais. Ou seja. Cristiane. espaciais. à degradação de suas condições de produção e à falta de equipamento e saneamento básico. De acordo com Enrique Leff. Já nos países do Sul. . chuva ácida. como a população urbana marginalizada. poder. 1997. a carga desigual dos custos ecológicos e seus efeitos nas variedades do ambientalismo emergente. 198 socialização de perdas`. A categoria de distribuição ecológica incorpora o conflito gerado pela distribuição desigual dos custos ecológicos do crescimento e sua internalização através dos movimentos sociais em defesa do ambiente e dos recursos naturais. mas da luta pela sobrevivência em condições de uma crescente degradação socioambiental. (DERANI. eliminação ou neutralização do dano.

A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução.pobreza.117 Enrique Leff destaca. PÁDUA. In: Justiça Ambiental e Cidadania. O autor afirma que os movimentos ambientais “são lutas de resistência e protesto contra a marginalização e a opressão. p. que atualmente o número de pobres é maior do que nunca antes na história da humanidade. associações de moradores. mobilização e bandeira de luta de diversos sujeitos e entidades. 18. Selene. pela autogestão de processos produtivos e a autodeterminação de condições de vida”. desemprego. O empobrecimento das maiorias é resultado de uma cadeia causal e de um círculo vicioso de desenvolvimento perverso . 2004. como sindicatos. entrelaçam-se com a reivindicação de identidades culturais. ainda. PÁDUA. 200 199 200 Ibid. social e ética da sustentabilidade e do desenvolvimento. pelo controle de recursos naturais. Selene. O movimento ambiental passou a incorporar às suas demandas tradicionais novas reivindicações como melhoria da qualidade do ambiente e da qualidade de vida. . Henri. HERCULANO. ambientalistas e cientistas. HERCULANO. p.. mais que uma expressão do campo do direito. Org. Jose Augusto. reivindicações por direitos culturais. José Augusto. 46 ACSELRAD. e a pobreza extrema avassala mais de um bilhão de habitantes do planeta. por integrar as dimensões ambiental. precarização do trabalho e fragilização do movimento sindical e social como todo. Tal conceito contribui para reverter a fragmentação e o isolamento de vários movimentos sociais frente ao processo de globalização e reestruturação produtiva que provoca perda de soberania. Estas lutas pela erradicação da pobreza vinculam a sustentabilidade à democracia. 199 O termo justiça ambiental é um conceito aglutinador e mobilizador.degradação ambiental . Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. ACSELRAD. grupos de afetados por diversos riscos (como barragens e várias substâncias químicas). com a reapropriação de conhecimentos e práticas tradicionais e os direitos das comunidades para desenvolver formas alternativas de desenvolvimento. frequentemente dissociados nos discursos e nas práticas. Henri. Justiça ambiental. induzido pelo caráter ecodestrutivo e excludente do sistema econômico dominante. assumese como campo de reflexão.

através de uma eqüitativa partilha dos recursos do Planeta-. Justiça Ambiental e religiões cristãs. o autor que a opção pela vida no planeta só possa se dar com a superação histórica do modelo econômico e social contemporâneo. Desafio do Direito Ambiental no século XXI Estudos em homenagem a Paulo Afonso Leme Machado.118 Guilherme Purvin. da falta de proteção social e da precarização do trabalho. p. Alexandre. SILVA. Sandra Akemi Shimada. Curso de Direito Ambiental (interesses difusos. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris). 202 KISS. p. 2005. Além do desemprego. No estado atual do mundo torna-se cada vez mais necessário ampliá-la às dimensões da Justiça Ambiental em dois aspectos: Justiça no interior da Humanidade presente – significa que as necessidades essenciais de todos os seres humanos devam poder ser satisfeitas. Inês Virgínia Prado (organizadores). SOARES. tendo como ideal a distribuição igualitária dos ônus ambientais decorrentes da produção e do consumo. . dentro do modelo econômico capitalista”.1 Injustiça Ambiental no Brasil A injustiça ambiental caracteriza o modelo de desenvolvimento dominante no Brasil. afirma que o movimento por Justiça Ambiental já começa a proliferar no Brasil. Ressalta o autor que a preservação ecológica do planeta é. mas “nada indica que haja interesse ou mesmo que seja viável distribuir eqüitativamente entre toda a população de um país e entre todos os países do planeta os ônus dessa preservação. e Justiça para com a Humanidade futura – significa que os humanos de hoje devem deixar às próximas gerações recursos naturais e outros. em quantidade e qualidade suficiente para assegurar que esses recursos possam satisfazer suas necessidades essenciais. Acredita ainda. a maioria da 201 FIGUEIREDO. In: KISHI. condição para a sobrevivência da humanidade. Solange Teles da. natureza e propriedade). São Paulo: Malheiros. 201 A Justiça Social constituía o objetivo maior da primeira metade do século XX. Guilherme Purvin de. realmente. 2006. 202 3. 133-134.4. 49-59.

seja nos locais de trabalho. para além da temática específica da contaminação química e do aspecto especificamente racial da discriminação denunciada. HERCULANO. em geral. PÁDUA. As gigantescas injustiças sociais brasileiras encobrem e neutralizam um conjunto de situações caracterizadas pela desigual distribuição de poder sobre a base material da vida social e do desenvolvimento. as doenças e mortes causadas pelo uso de agrotóxicos e outros poluentes. As dinâmicas econômicas geram um processo de exclusão territorial e social. sem condições de saneamento básico. Os trabalhadores. a expulsão das comunidades tradicionais pela destruição dos seus locais de vida e trabalho. leva ao êxodo para os grandes centros urbanos. lagos e baías. A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução. In: Justiça Ambiental e Cidadania. 14. 203 No Brasil. Os grupos sociais de menor renda. leva à periferização de grande massa de trabalhadores e. de moradia ou no ambiente em que transita. a existência de populações que ocupam áreas impróprias para moradia. PÁDUA. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. Selene. são os que têm menor acesso ao ar puro. HERCULANO. Henri. Selene. Jose Augusto. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos . 204 203 ACSELRAD. 204 HERCULANO. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental. nas cidades. o que. 2004. José Augusto. etc. populações tradicionais e grupos sociais mais vulneráveis estão expostos aos riscos decorrentes das substâncias perigosas. minorias étnicas. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. Os vazamentos e acidentes na indústria petrolífera e química. da falta de saneamento básico. o tema da justiça ambiental vem sendo re-interpretado de modo a ampliar seu escopo. p. Henri. Org. por falta de expectativa de se obter melhores condições de vida. a morte de rios. país caracterizado pela existência de grandes injustiças. todas essas situações configuram um quadro constante injustiça socioambiental. no campo. Selene.. ao saneamento básico e à segurança fundiária. das más condições de moradia. à água potável. ACSELRAD.119 população brasileira encontra-se hoje exposta a fortes riscos ambientais. principalmente em termos de distribuição de renda e acesso aos recursos naturais.

p. trata-se de um novo paradigma de desenvolvimento.) Desenvolveu-se a partir da concepção de que. 2005. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental. sendo que tudo isso se reflete no campo ambiental. eco-socialista. Este tem sido o mecanismo pelo qual o Brasil vem batendo recordes em desigualdade social no mundo: concentra-se a renda e concentram-se também os espaços e recursos ambientais nas mãos dos poderosos. quanto mais diverso e menos desigual”.. 205 O ambientalismo brasileiro tem um grande potencial para se renovar e expandir o seu alcance social. nº 5. em nível global. deve contribuir também para a redução da pobreza e das desigualdades sociais e promover valores como justiça social e eqüidade. Além disso. que se contrapõe ao paradigma capital-expansionista. o marco inicial de sistematização e divulgação da problemática referente à Justiça Ambiental foi a coleção intitulada “Sindicalismo e Justiça Ambiental”. O exercício da cidadania e a reivindicação de direitos ainda encontram um espaço relativamente pequeno na nossa sociedade. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. (. com ampla participação social na gestão ambiental. 206 Ibid. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. um novo paradigma de desenvolvimento deve promover não só a sustentabilidade estritamente ambiental – ou seja. 206 No Brasil. Juliana.120 Para Selene Herculano. os propósitos da justiça ambiental não podem admitir que a prosperidade dos ricos se dê através da expropriação ambiental dos pobres. o paradigma eco-socialista. processo que se confunde com o desprezo pelas pessoas e comunidades. o novo paradigma de desenvolvimento preconizado pelo socioambientalismo deve promover e valorizar a diversidade cultural e a consolidação do processo democrático no país. publicada em coletivos – ambiente e saúde. e na descontinuidade total entre a natureza e a sociedade. num processo caracterizado pelo desprezo pelo espaço comum e pelo meio ambiente. 2002.. entre outros. . em um país pobre e com tantas desigualdades sociais. Os movimentos sindicais. Boaventura descreve as características do paradigma capital-expansionista. em que o desenvolvimento social é medido essencialmente pelo crescimento econômico. Nas palavras de Boaventura de Sousa Santos. São Paulo: Petrópolis. (SANTILLI. é descrito por Boaventura com as seguintes características: o desenvolvimento social é aferido pelo modo como são satisfeitas as necessidades humanas fundamentais e é tanto maior. 2002 144. Curitiba/PR: Editora da UFPR. ecossistemas e processos ecológicos – como também a sustentabilidade social – ou seja. 205 HERCULANO. Curitiba/PR: Editora da UFPR. apud Santilli. assentado na industrialização e no desenvolvimento tecnológico virtualmente infinito. 31-36). Selene. Já o paradigma emergente.. Socioambientalismo e novos direitos. também podem renovar e ampliar o alcance da sua luta se nela incorporarem a dimensão da justiça ambiental – o direito a uma vida digna e em um ambiente saudável. a sustentabilidade de espécies. 145-146. a partir de articulações políticas entre os movimentos sociais e o movimento ambientalista. nº 5. sociais e populares. Juliana Santilli ao comentar sobre o socioambientalismo afirma que: “o socioambientalismo brasileiro nasceu na segunda metade dos anos 80. p. apesar da luta de tantos movimentos e pessoas em favor de um país mais justo e decente. 145.

organizações indígenas e pesquisadores universitários do Brasil. aos bairros operários. sindicatos de trabalhadores. Chile e Uruguai.121 2000 pela Central Única dos Trabalhadores – CUT/RJ. 208 Já o conceito de justiça ambiental designa o conjunto de princípios e práticas que: 209 a) determinam que nenhum grupo de pessoas . foi então criada a “Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA”. TRABALHO E CIDADANIA: Declaração Final. 208 COLÓQUIO INTENACIONAL SOBRE JUSTIÇA AMBIENTAL. em conjunto com o Ibase. discutindo enfoques teóricos e implicações políticas da proposta da Justiça Ambiental. aos povos étnicos tradicionais. às populações marginalizadas e vulneráveis. Disponível por http://www. do ponto de vista econômico e social. O Colóquio teve como objetivo ampliar o diálogo e a articulação entre sindicatos.br. passou-se a entender por injustiça ambiental o mecanismo pelo qual sociedades desiguais. o Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano – IPPUR da UFRJ e com o apoio da Fundação Heirich Böll. ONGs. 209 Ibid. 01 . Estados Unidos. entidades ambientalistas.org. O objetivo era estimular a discussão sobre a responsabilidade e o papel dos trabalhadores e das entidades representativas.seja um grupo étnico. ambientalistas e pesquisadores.fase. p. no Campus da Universidade Federal Fluminense em Niterói. na defesa de um meio ambiente urbano sustentável e com qualidade de vida acessível a todos os seus moradores. uma das primeiras iniciativas de cunho acadêmico e político organizada no Brasil. organizações de afrodescendentes. foi realizado o Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental207.suporte uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas de 207 Reuniram-se no Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental movimentos sociais. movimentos sociais. A partir da realização do Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental. aos grupos raciais discriminados. racial ou de classe . Em setembro de 2001. Na ocasião. destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às populações de baixa renda. Acessado em 05/11/2006. no sentido de estimular o fortalecimento da luta por justiça ambiental.

movimentos sociais e organizações populares para serem protagonistas na construção de modelos alternativos de desenvolvimento. d) favorecem a constituição de sujeitos coletivos de direitos. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. HERCULANO. coleta adequada de lixo e tratamento de esgoto. direto e indireto. 11. oriunda de 210 ACSELRAD. p. c) asseguram amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e a destinação de rejeitos e localização de fontes de riscos ambientais. PÁDUA. Para os representantes do Colóquio. que assegurem a democratização do acesso aos recursos ambientais e a sustentabilidade do seu uso. de ocupação do solo. Selene. moradora de bairros pobres e excluídos pelos grandes projetos de desenvolvimento. 2004. In: Justiça Ambiental e Cidadania. de destruição de ecossistemas. área metropolitana do Rio de Janeiro. na Baixada Fluminense. HERCULANO. Henri. A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução. b) asseguram acesso justo e eqüitativo. programas e projetos que lhes dizem respeito. como o caso da “Cidade dos Meninos”. As cidades da Baixada ficaram conhecidas como “cidades-dormitórios”. . de alocação espacial de processos poluentes. locais. ocupadas predominantemente por loteamentos clandestinos. bem como processos democráticos e participativos na definição de políticas. sem água potável. aos recursos ambientais do país. de moradia da população pobre. Selene. que penaliza as condições de saúde da população trabalhadora. de decisões de políticas e de programas federais. Uma lógica que mantém grandes parcelas da população às margens das cidades e da cidadania. Org. PÁDUA. Henri. estaduais. ACSELRAD.122 operações econômicas. 210 Alguns casos de Injustiça Ambiental no Brasil são emblemáticos. José Augusto. assim como da ausência ou omissão de tais políticas. Jose Augusto. planos. a injustiça ambiental resulta da lógica perversa de um sistema de produção.

com a promessa da construção de um conjunto habitacional. foram afetados por uma contaminação de resíduos tóxicos. aguardando a construção das residências. isolado por Faraday em 1825 e que teve suas propriedades inseticidas descobertas em 1942. no Rio de Janeiro. um conflito fundiário urbano. 212 O Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) protagonizou no ano de 2000. deixando duas em estado grave. As famílias que ali se encontravam além de serem vítima da exclusão 211 HCH é um pesticida organoclorado. (HERCULANO. o Ministério da Saúde instalou dentro do complexo educacional Cidade dos Meninos uma fábrica que produziria o pesticida conhecido como “pó-de-broca”. 211 para enfrentar a malária. que envolveu 360 famílias sem moradia. localizada no distrito de Pilar. Curitiba/PR: Editora da UFPR. 212 Ibid. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. Em 1940 foi fundado um complexo educacional para crianças pobres. abandonando no local toneladas de matéria-prima (material tóxico). a fábrica cessou suas atividades. na tentativa de erradicação e/ou controle de vários vetores de doenças transmissíveis e endêmicas. em uma área federal de 19 hectares. Exposição a riscos químicos e desigualdade social: o caso do HCH na Cidade dos Meninos. sem solução até hoje. mas continua sendo utilizado em campanhas de saúde pública. 62). tal substância começou a se espalhar e se infiltrar pelo solo. área esta que foi chamada de “Cidade dos Meninos”. iniciando um longo processo de contaminação do meio ambiente e da população. p. Pouco tempo depois. na França e Inglaterra. No Brasil. p.123 migrações internas. Seu uso tornou-se restrito em alguns países e totalmente proibido em outros. o HCH (Hexaclorociclohexano). então endêmica na região. 67 . Selene. que resultou na intoxicação de 63 pessoas. que estavam provisoriamente nos acampamentos Araguaia e Nova Canudos. as famílias foram retiradas dos acampamentos e transferidas para um terreno da Companhia dos Distritos Industriais do Estado do Rio de Janeiro (CODIN) em Campo Grande. Após negociação do Movimento com o Governo do Estado. Em 1961. tal substância teve sua utilização na agricultura proibida por Portaria Ministerial em 1985. com o passar do tempo. sendo que. provenientes das indústrias do entorno. nº 5.. 2002. Durante os sete meses em que ficaram acampados no local.

. Importante mencionar. desde a época do Império. de fato. Flávia Tavares Rocha. a triste e desesperadora realidade das inúmeras famílias que vivem desse aterro. passaram também a vítimas das externalidades dos empreendimentos industriais.br. p.124 social e econômica. de mais seis municípios vizinhos.anppas. LOURDES. A esse respeito. Julho-Setembro 2002. em acirrada disputa por restos da sociedade – paradoxalmente. à espera dos imensos e carregadíssimos caminhões que até ali se dirigem.2 A distribuição desproporcional de danos ambientais em Manaus 213 PEROBELLI. 214 SANTOS JR. In: Revista de Direito Ambiental. há inclusive no Museu do Lixo uma tela chamada “O Negro do Lixo”. próximo das comunidades negras e carentes que ali habitavam. Humberto Adami. 174. Kátia. Conflito Ambiental e Luta por Moradia – o caso do depósito de lixo tóxico do Distrito Industrial de Campo Grande. São Paulo: RT. mais recentemente. Disponível http://www. representando os negros que há tempos atrás conduziam o lixo da população abastada até seu destino final. Acesso em 04/10/2006. 214 3. arcando injustamente com o ônus do desenvolvimento. chocante. Ano 7. o lançamento de todo o lixo produzido na área metropolitana do município do Rio de Janeiro e. O aterro do Gramacho é um dos maiores aterros sanitários da América Latina e processa diariamente 7. Vol. a mesma sociedade que a estes oprime e os marginaliza e fecha os olhos para essa realidade. O papel fundamental do advogado na aplicação da Justiça Ambiental e no combate ao Racismo Ambiental. O aterro vem suportando. o contraste entre o movimento das garças e dos braços de catadores.org. estado do Rio de Janeiro. 213 Outro exemplo de injustiça ambiental é o caso do Aterro de Gramacho em Duque de Caxias. 27. comunidade composta por descendentes de africanos.000 toneladas de resíduos.4. que chega a 80% do total da população. município do Rio de Janeiro.

onde vivem aproximadamente 300 mil pessoas. 119. como a contaminação de lençóis freáticos. fazendo com que nos dias atuais a cidade enfrente inúmeras alterações ambientais. GEO-CIDADES (2002). assim. agravando assim os problemas de injustiça ambiental. cerca de 70 mil moradias estão localizadas em faixas marginais dos cursos d´agua. Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. implantadas sobre os espelhos d´água ou em áreas sujeitas a inundação. a contaminação dos igarapés e mananciais com esgotos e lixo (tanto doméstico quanto industrial). inclusive às margens dos igarapés. Ministério do Meio Ambiente. em 1967. A maior parte dessas moradias corresponde a palafitas precárias. o desmoronamento de casas e barracos construídos em barrancos e ribanceiras. Os igarapés que recortam a cidade de Manaus começaram a passar por problemas de contaminação principalmente como conseqüência da instalação de empresas com atividade 215 BRASIL. a contaminação dos peixes por metais pesados nos igarapés do Quarenta (os moradores dos igarapés pescam os peixes para consumo). às margens dos igarapés. formando assim novos bairros. áreas consideradas como de preservação permanente. Em Manaus. passaram a fustigar incansavelmente a natureza e o meio ambiente. p. . resultando. 215 As ocupações desordenadas levaram a cidade a uma precarização da qualidade de vida. na expansão de novas áreas de ocupações urbanas. trouxe um novo ciclo econômico à cidade. pois esse enorme contingente populacional e a expansão do Distrito Industrial. que foi responsável pela atração de um grande fluxo migratório oriundo de todas as partes do Brasil. Os imigrantes primeiramente ocupavam os espaços no centro da cidade. a contaminação também por metais pesados de terrenos do Distrito Industrial e adjacências. e depois foram ocupando e invadindo áreas na periferia da cidade. com suas fábricas e indústrias.125 A implantação da Zona Franca de Manaus.

Japiinlândia. infra-estrutura e leis ambientais frágeis e flexíveis. nas regiões adjacentes ao Distrito Industrial. com o desenvolvimento industrial da cidade de Manaus novas indústrias surgiram e. assim. O grande receio está no fato de talvez sermos incapazes de controlar essa poluição. mais pessoas. entre outros. Aterro do Quarenta. ou também com a intensidade da industrialização. Manaus. Um dos primeiros estudos realizados sobre a poluição aquática em Manaus foi de Sergio Bringel. causando. como conseqüência da alta concentração de moradores nas margens dos igarapés. sobretudo próximo ao Igarapé do Quarenta. pois. das águas e dos peixes. Vale ressaltar que essa área é densamente povoada. . Consequentemente. pois compreende diversos bairros como: Japiim. Relatório Técnico. sendo que os estudos realizados até o momento mostram que o Distrito Industrial de Manaus é o principal responsável pela poluição do sistema hídrico em termos de metais pesados. Betânia. Instituto de Tecnologia da Amazônia – UTAM. Sérgio Roberto Bulcão. além dos incentivos fiscais. situado na zona sul da cidade de Manaus. haverá um aumento de consumo de energia e de despejos de detritos. ambos provenientes das palafitas (casas muitos precárias construídas às margens dos igarapés). 1986. com isso. 216 216 BRINGEL.126 industrial às margens dos igarapés. p 8. Outra causa de poluição é o esgoto sem tratamento e o lixo doméstico. 1986. Estudo do nível de poluição nos igarapés do Quarenta e do Parque Dez de Novembro. não tiveram grandes preocupações quanto ao destino de seus dejetos tóxicos. Os problemas ambientais dos igarapés foram estudados e revelados por diversos autores. Destaca o autor que a poluição torna-se um problema mais sério quando há um crescimento populacional. A avaliação do impacto ambiental do Igarapé do Quarenta começou a ser feita no início da década de 90. Educandos. baixos salários. Cachoeirinha. um envenenamento dos terrenos. As indústrias que estão instaladas na Zona Franca de Manaus.

127 Um estudo realizado por Tereza Oliveira evidencia a contaminação química por metais pesados no igarapé do Quarenta.). que tem aproximadamente 38 km de extensão e possui várias nascentes. 14 BENTES. p. Destaca ainda. sendo perceptível a existência nos despejos de constituintes de tintas em suspensão. a observação das condições na área tornou evidente que muitas empresas instaladas no Distrito Industrial fazem uso dos igarapés para o despejo de seus afluentes. 2001. sacos plásticos. manganês e cromo em limites acima do que recomenda a Resolução 020/86. p. observou que as empresas despejam diversos produtos químicos nos igarapés sem nenhum tipo de tratamento adequado. negra. Estudo de um espodossolo hidromórfico existente na bacia de três igarapes do Distrito Industrial de Manaus. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas. 2001. Tereza Cristina Souza de. Outra característica marcante é a existência de odores desagradáveis e lixo de diversas espécies: papelão. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas.) nas águas dos igarapés. que poderiam contaminar toda a Bacia do Educandos. 2003. 218 219 Ibid. Karime Rita de Souza. 220 217 OLIVEIRA. 217 Afirma a autora que. ao coletar várias amostras de solo da região do Distrito Industrial. Manaus. 23 220 GUEDES. Distribuição de metais pesados em sedimentos na região do Distrito Industrial da Manaus. tais como níquel.. 2002. 2002. solventes e alguns resíduos sólidos. localizadas em sua maioria na Zona Leste de Manaus. azul. Manaus. 219 Um outro estudo realizado por Nívea Guedes. constatou a existência de vários metais pesados. Poluição aquática na microbacia do igarapé do quarenta. ao longo da microbacia do igarapé do Quarenta. p. 16. do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). etc. ferro cobre. Manaus-AM. 11. etc. Afirma. 218 Karime Bentes. . Manaus. A autora evidenciou em seu trabalho a existência de substâncias contaminantes encontradas no solo em quantidades elevadas. pneus e subprodutos industriais. benzina. p. Nívea Cristina de Carvalho. que a formulação desses produtos contém uma série de metais pesados e compostos orgânicos reconhecidamente cancerígenos (thiner. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas. isopor. 2003. ainda. que é comum encontrar nessa região colorações de diversos tipos (amarela.

a contaminação dos sistemas aquáticos pode gerar contaminações dos sistemas nos peixes e nos seres aquáticos. 222 A contaminação dos peixes por metais pesados se torna ainda mais grave. devido a cultura alimentar do povo amazonense e também pelos problemas econômicos próprios das populações excluídas. o cromo e o arsênio são metais que não existem naturalmente em nenhum organismo. tampouco desempenham funções nutricionais ou bioquímicas em microorganismos. p.128 Os metais pesados como o zinco.48 mg/g. enquanto a concentração máxima permitida pela Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS). expondo a riscos geralmente os pobres. 223 O problema resultante dos poluentes está presente no cotidiano das cidades. o mercúrio. do magnésio. 62. o cádmio. . Nesse sentido. A presença destes metais em organismos vivos é prejudicial em qualquer concentração.. que. A contaminação pode ocorrer tanto por meio da cadeia alimentar. 63. p. 30 222 223 Ibid. é de 30.0 mg/g. do cobalto e do ferro tornam-se tóxicos e perigosos para a saúde humana quando ultrapassam determinadas concentrações-limite. p. plantas ou animais.06 mg/g a 79. Manaus 2005. 221 Em estudo realizado com o objetivo de analisar a concentração de metais pesados nos peixes que vivem no igarapé do Quarenta. As concentrações de cobre no igarapé do Quarenta chegaram a atingir valores duas vezes o limite admissível. o que ocorre muitas vezes através das brânquias. ou através do simples contato direto e permanente com o meio aquático poluído. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura) Universidade Federal do Amazonas. são obrigados a construir 221 MENDES FILHO.. Ibid. sendo que os maiores valores foram encontrados nos fígados dos peixes. sem alternativa habitacional. Ivanhoé Amazonas. Vale ressaltar que o chumbo. Injustiça Ambiental: análise da problemática no bairro de Novo Israel/Manaus-AM. observou-se que os teores de cobre encontrados nesse igarapé variavam de 1. que geralmente pescam em igarapés nos mais diversos locais da cidade de Manaus. uma vez que o pescado torna-se um alimento substancial para essas populações de baixa renda.

também são vitimas da injustiça ambiental. que antes havia sido uma lixeira. disposição de resíduos sólidos e problemas de saúde. o local. domésticos e hospitalares. analisando a partir do entorno e do domicílio. quando ainda era uma área semi-urbana. passou a ser ocupado por pessoas sem alternativa habitacional.416 habitantes e conta com 3. servindo como sítios e chácaras. O bairro de Novo Israel possui 14. As populações que vivem em palafitas. sobre os igarapés. Desde o início da década de 1970.129 moradias erguidas nas margens dos igarapés. Outro caso expressivo de injustiça ambiental em Manaus é o do bairro de Novo Israel. pouco tempo depois. além de serem vítimas da exclusão social e econômica. instalações sanitárias e de higiene. Ivanhoé Mendes realizou um estudo no Bairro do Novo Israel com o objetivo de verificar as faces da injustiça ambiental sofrida pelos moradores da área. identificação dos problemas domiciliares referentes às condições de água e de seu armazenamento. quando um Decreto Municipal transferiu a lixeira para outro local. . que muitas vezes são aproveitados para o despejo de dejetos industriais e domésticos. e principalmente impossibilitados de exercer seus direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. isso até 1986. este local foi usado como lixeira pública pela Prefeitura Municipal de Manaus. recebendo todo tipo de lixo. sem qualidade de vida. segundo dados do Censo 2000 IBGE. tornando-se. condições de moradia e poder aquisitivo. No final de 1987. verificou os problemas ambientais e de infra-estrutura urbana do bairro. desde resíduos industriais. uma vez que recebem uma maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento.149 moradias. localizado na zona norte da cidade. Sobrevivem em uma situação de total abandono. um bairro. condições de habitabilidade. Em seu estudo. local que vem enfrentando sérios problemas socioambientais.

constituem uma solução perversamente cômoda para alojar uma imensa multidão de pessoas socialmente excluídas do acesso aos bens minimamente necessários para existência digna”.vale destacar que os moradores utilizam os poços artesianos improvisados para conseguirem água -. lembrando que o solo era uma antiga lixeira. Esse é o preço a ser pago. 225 3. 226 224 MENDES FILHO. mas torna-se peculiar devido a um conjunto de mazelas e iniqüidades perpetradas contra moradores do bairro. p. principalmente. 2006. Antônio. Ivanhoé Amazonas. Por outro lado. 138. . Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura) Universidade Federal do Amazonas. Manaus 2005. afirma que. Curso de Direito Ambiental . natureza e propriedade. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris). A Critica. para que possam morar na metrópole. destacando-se o problema da água. p. relegados a uma terra contaminada pelo próprio poder público. 226 XIMENES. tanto no abastecimento. Tais problemas são resultados. 99. Injustiça Ambiental: análise da problemática no bairro de Novo Israel/Manaus-AM. inexiste rede de esgotos e de drenagem. Migração sem controle. 225 FIGUEIREDO.interesses difusos. 224 Guilherme Purvin. “as áreas degradadas por aterros sanitários ou nas proximidades de “lixões” a céu aberto. Além dos problemas da água. oriundo dos processos de ocupações ilegais. por seu valor irrisório. da precariedade dos serviços públicos e da negligência ou omissão do poder público oferta de melhores condições de vida da população. Guilherme José Purvin de.5 Discurso x Práxis: o caso da “invasão” Nova Vitória A capital do Amazonas concentra 500 mil habitantes vivendo em situação de pobreza.130 O autor destaca que o bairro de Novo Israel poderia ser apenas mais um bairro de Manaus. quanto na qualidade . evidenciam uma lógica de segregação espacial e social. que empurra e imobiliza as classes ditas subalternas para locais onde deverão pagar com a sua saúde e com as suas vidas. de acordo com dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semasc). faltam locais adequados para o despejo de resíduos sólidos. Manaus 17/11/2005.

lazer e transportes. atingindo atualmente proporções nunca imaginadas.131 De fato. . cultura. Em tais locais passam a residir a mão-de-obra necessária para o crescimento da produção. bem como a própria organização do espaço. deve-se levar em conta não somente as condições do imóvel em si. a cidade de Manaus possui um grande contingente populacional vivendo em condições precárias de habitação. educação. ocorreu um empobrecimento da população de forma que muitas famílias não tiveram como arcar com o aumento das despesas de habitação e acabaram empurradas para as periferias. Nas últimas décadas.clandestinos ou não . Ao ser observada a precariedade habitacional. além do perigo de se contrair moléstias infecciosas decorrentes do acúmulo de lixo e de condições insatisfatórias de higiene. seja considerando-se as condições de segurança do imóvel. Muitos apresentam risco de desmoronamento. sendo que essa única alternativa de moradia que encontram vem causando profundos danos ao meio ambiente e a sadia qualidade de vida. seja do ponto de vista de ausência de serviços de infra-estrutura. As formas de produção e distribuição da riqueza. de incêndio devido a ligações elétricas precárias. aglomerados . da infra-estrutura e dos serviços urbanos determinam a qualidade de vida da população na cidade. O poder aquisitivo da população está distante dos interesses do mercado imobiliário: não há ofertas para essa faixa da população e ela tem cada vez menos condições de adquirir o que é ofertado. de inundação.carentes de infra-estrutura. A falta de alternativa habitacional leva os socialmente excluídos a buscarem na “invasão” de terras uma possibilidade de moradia. mas também o que se refere a seu entorno e ao que é disponibilizado em termos de equipamentos de saúde.

SANSON. Karen. O levantamento foi feito apenas na área urbana de Manaus. perda da biodiversidade e ameaça de extinção de espécies de animais como o Sauim-de-coleira. as zonas Leste e Norte passaram a ser efetivamente ocupadas por meio de “invasões” na década de 1980 e são as mais atingidas atualmente pela degradação ambiental. sendo que 28 mil já estão desmatados.132 A trajetória de evolução da urbanização em Manaus nos últimos 20 anos tem sido o grande desafio no processo de desenvolvimento e preservação ambiental. Essas zonas sofreram impactos ambientais significativos. 227 O processo de “invasão” de áreas para a construção de moradias tem como principal característica à retirada das árvores e a “limpeza” do terreno.601 hectares. e com sérios problemas de alagamento. Fabio. Brasil. no período de 1986 a 2004. 5427-5434. Disponível em http://www. cerca de 9. O total de 227 NOGUERIA. A intensificação desse processo transformou as zonas Leste e Norte da cidade de Manaus em áreas com pouquíssimo verde. Manaus está sendo desmatada. . Ana Claudia Fernandes.com. assoreamento e poluição de igarapés. p. INPE. que ocasionaram perdas de cobertura vegetal.br/ . Dessa forma concluiu-se que 22% da área urbana de Manaus. uma equipe do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) promoveu um estudo dos 18 anos de desmatamento na área. cerca de 44 mil hectares. sendo que 40% pertencem à Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA. A expansão urbana e demográfica da cidade de Manaus e seus impactos ambientais. 228 De acordo com o estudo “a zona leste foi a última a ser ocupada e ainda assim. foram desmatados. desabamento e vulnerabilidade. Com o objetivo de verificar o grau de desmatamento do município de Manaus. que corresponde a 4% da área total do município. Na cidade de Manaus. 21-26 abril 2007. A cidade de Manaus é uma zona urbana no meio da floresta e que atualmente está pagando um preço ambiental muito alto por conta do tipo de expansão urbana que vem sofrendo. destruição de nascentes. 228 Jornal Amazonas em Tempo. é a mais devastada por conta do avanço populacional”. Anais XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto.emtempo. A zona leste tem 16 mil hectares. PESSOA. Acessado em 23/06/2006. Florianópolis.

na qual as famílias locais passaram a se mobilizar coletivamente. de acordo com o levantamento sócio-econômico realizado pela Universidade Federal do Amazonas. com o apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado do Amazonas.265 hectares e de área desmatada é de 28. água encanada. a Justiça Federal decretou a reintegração de posse da área para a SUFRAMA. sendo que na época o número de moradores na área era de 3. por pertencer à União. A área. não dispõem de infra-estrutura. entrou na área da “invasão” e deu-se início 229 Ibid. localizada na Zona Leste da cidade de Manaus. engajando-se num discurso de reivindicação dos direitos à moradia e a uma sadia qualidade de vida. metralhadoras. 01 . Desde então a “invasão” tornou-se alvo de brigas judiciais na tentativa de se retirar os ocupantes da área. p. os equipamentos públicos sociais básicos não são colocados à disposição dos moradores dessa invasão..150. cavalos. Ou seja. dezenas de viaturas. transporte.helicópteros. A ocupação ilegal se deu em terras de propriedade da Superintendência da Zona Franca de Manaus . A Policia Federal. -.133 área verde de Manaus atualmente é de 15. escolas. A área da “invasão” Nova Vitória caracteriza-se como um aglomerado de moradias precárias. etc. munida de um verdadeiro arsenal de guerra . sendo que grande parte das habitações foram construídas em terrenos irregulares com riscos de desabamento. saneamento básico. No ano de 2003.835 hectares. destinadas à instalação de indústrias na zona urbana de Manaus. A referida reintegração de posse foi cumprida pela Polícia Federal no dia 15/11/2003. pistolas. é de jurisdição federal. luz elétrica. tendo surgido em julho de 2003. 229 Em seguida será examinado um caso paradigmático de habitantes de uma “invasão” denominada Nova Vitória. etc.SUFRAMA.

Lutando por seus tetos. Muitos moradores foram lesionados e alguns foram presos. que entendeu que o processo de retirada “à força” seria traumático para as famílias residentes na região. A liminar que garantia a reintegração de posse da área invadida que pertence a SUFRAMA foi suspensa pela Justiça Federal. Constantemente os moradores eram ameaçados de serem expulsos novamente a qualquer momento. passaram a também viver com o medo de qualquer dia reviver a batalha de expulsão. Todos foram para o confronto com os policiais. balas de borracha. Após a reintegração de posse da área. os moradores enfrentaram a cavalaria. mas no final da batalha a reintegração foi cumprida. a SUFRAMA não tomou providências para fins de proteger a área de novas ocupações. Os impactos negativos causados pela forma violenta de expulsão dos moradores da “invasão” Nova Vitória foram muito criticadas pela opinião pública e até mesmo pelo próprio poder público. Desde o ano de 2003. gás lacrimogêneo e cacetetes. Além de estarem morando em local totalmente inadequado para moradia. Conseguiram expulsar as pessoas moradoras da área e todos os barracos foram destruídos por tratores. No decorrer dos anos a Polícia Federal tentou novamente intervir na área. representantes da SUFRAMA e associações de moradores da . Foi uma verdadeira cena de guerra. o Ministério Público Federal. Os moradores da “invasão” Nova Vitória. em outubro de 2005. quando surgiu a “invasão” Nova Vitória. a pedido do Ministério Público Federal. como o Ministério Público Federal . mas as famílias continuavam a resistir. ao som do hino nacional entoado por vozes inconformadas pela rotina de sofrimento.MPF. sendo que dias depois a área foi novamente invadida pelos moradores anteriormente expulsos que não tinham para onde ir e haviam ficado nas calçadas e ruas próximas à “invasão” Nova Vitória.134 a “batalha”. uma luta travada entre os moradores e a polícia. resistiram à reintegração.

Sem-teto firmam resistência. 230 Uma outra cena marcante registrada pela imprensa. Ambos declararam: Aquela é a nossa terra. foi a de um casal de idosos chorando e ajoelhados em frente ao prédio do Ministério Público Federal. Devido à constatação da existência de moradias em área de risco de desabamento. Queria mesmo é que urbanizassem o bairro Nova Vitória. de 11 anos de idade. Não podem nos retirar daquele local. também morador da “invasão”). (Eva Rodrigues. não temos para onde ir. é tudo o que temos de mais precioso na vida. .135 ocupação passaram a se reunir constantemente. uma delas foi no ano de 2006. afirmando que: “ninguém tem casa em outro canto. Maria. A Medida Provisória nº 334. o Poder Executivo optou pelo uso da medida provisória como mecanismo mais ágil para permitir ao governo do Estado intervir na urbanização da comunidade. 231 Ao longo de quase quatro anos de existência da “invasão” Nova Vitória. (Manoel Firmino Trindade. Manaus 18 de fevereiro de 2006. p. ocasião em que reivindicavam do poder público que revisse o pedido de reintegração de posse da área. Eles estão brigando por uma terra que é de Deus”.. Entre os moradores que estavam na manifestação se destacou a menor Valéria da Silva Prado. Todos os que moram no Nova Vitória só têm aquele pedaço de terra. moradora da “invasão” Nova Vitória) Dizem que vão nos dar casa. em frente ao prédio do Ministério Público Federal. A crítica. Ibid. a SUFRAMA. os representantes do Ministério Público Federal e os moradores da área não entraram em um acordo. Várias manifestações já foram realizadas pelos moradores da “invasão” Nova Vitória. mas eu não creio que isto se torne real. a fim de discutir uma forma pacífica de cumprir a reintegração de posse sem deixar os moradores da “invasão” sem moradia. C7. de 19 de dezembro de 2006 autoriza a Superintendência da Zona Franca de 230 231 FERNANDA.

O levantamento nos mostra que 2.136 Manaus – SUFRAMA a doar ao Governo do Estado do Amazonas a área 1. através da edição da Medida Provisória de nº 334/06. A maioria das residências são de madeira. localizada na área de expansão do Distrito Industrial.764 (61%) famílias moradoras da “invasão” suprem suas necessidades de abastecimento de água em reservatórios e poços fora de sua propriedade.707 (61%) das residências possuem apenas 01 cômodo e cômodos.298 famílias que moram na “invasão” Nova Vitória. um levantamento sócio-econômico na “invasão” Nova Vitória.570. ou seja. Atualmente existem 5. de fevereiro a março de 2007. de acordo com o levantamento realizado pela SPF. as condições de habitabilidade e de identificar as famílias que moram em área de risco para que sejam transferidas para lotes mais seguros. saem diariamente em busca de água para o consumo de sua família. Com o objetivo de mensurar o número de habitantes na ocupação. sendo que 2. conforme gráfico abaixo.653 milhão de metros quadrados. passou a assumir a responsabilidade de realizar uma política de urbanização na área doada pela SUFRAMA. Um dos principais problemas apontados pelo levantamento diz respeito ao abastecimento de água. 792 (17%) possuem dois Gráfico 2 – Situação do abastecimento de água na “invasão” Nova Vitória – 2007 . correspondente à ocupação urbana denominada Nova Vitória. O Governo do Estado do Amazonas. a Secretaria de Estado de Política Fundiária – SPF realizou.

1. tendo sido constatado que 2.294 (28%) fossa séptica. Cerca de 1. 36.4% Fonte: Secretaria de Estado de Política Fundiária . despejam seus afluentes sanitários de forma rudimentar.9% 1655. 61.137 84.8% POSSUI POÇO NÃO POSSUI POÇO ACESSO A REDE GERAL 2764. ou seja.315 (28%) famílias possuem fossa negra e 1.2007 .025 (44%) não têm qualquer tipo de fossa.SPF Outro problema grave apontado é em relação ao esgotamento sanitário. despejam em vala a céu aberto. Gráfico 3 – Situação do esgotamento sanitário da “invasão” Nova Vitória .

Enquanto que 24% (1. 44% FOSSA NEGRA FOSSA SÉPTICA NÃO TEM 1294. constatou-se que 41% (1. como barrancos e encostas. o levantamento identificou que 1. 28% 2025. podemos afirmar que os dados confirmam a existência de um padrão de desigualdades e exclusão sócio-ambiental dos moradores da “invasão” Nova Vitória.355 (31%) famílias sobrevivem sem renda alguma. estando essa situação relacionada ao não acesso aos serviços públicos básicos e aos riscos ambientais decorrentes do fato de habitarem em uma área não urbanizada.215 (21%) famílias estão com suas moradias localizadas em áreas de risco. O levantamento mostra também a faixa salarial de cada família: 1. enquanto 1. 28% Fonte: Secretaria de Estado de Política Fundiária . 1. estando o chefe ou o responsável da família desempregado.SPF Em relação à situação empregatícia dos moradores da “invasão” Nova Vitória.428) das famílias estão empregados.066) são autônomos e 32% (1.819) das famílias entrevistadas não possuem fonte de renda fixa.138 1315. Em relação ao local da moradia.182 (27%) famílias ganham menos de 1 salário mínimo. Ao analisarmos os resultados do levantamento sócio-econômico realizado pela SPF. Os dados obtidos mostram o nível de precariedade em que os moradores da “invasão” se encontram atualmente.344 (32%) famílias adquirem por mês mais de 1 (um) salário mínimo como renda. .

139 Além dos problemas da falta dos equipamentos públicos sociais. a malária. 232 A malária ainda persiste como um importante problema de saúde pública no Brasil. um dos principais flagelos da humanidade. Atualmente. A malária sempre foi. os moradores da “invasão” Nova Vitória sofrem também com outro problema grave que vem constantemente ceifando vidas humanas. a malária é considerada problema de saúde pública em mais de 90 países. Rondônia. principalmente na Amazônia.int/countreis/bra/es/ (site da OMS em espanhol) Acesso 21/07/05 . Tocantins e Mato Grosso. composta pelos Estados do Acre. expressão designada para aquelas doenças que são deixadas de lado no quadro de pesquisa e 232 Disponível no www. Todos os anos. relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e estudos dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) deixam explícita a realidade das "doenças negligenciadas". Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a malária é a doença infectocontagiosa tropical que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo. embora com prevalência diferente. de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) pelo menos 300 milhões de pessoas contraem malária por ano em todo o mundo. Por ano. Maranhão. incluindo a China. embora muitos países já tenham conseguido interromper sua transmissão. Cerca de 2.who. das quais cerca de um milhão morrem em conseqüência da doença. Também conhecida como paludismo. Brasil (cerca de 300 mil casos/ano). Os mais comprometidos são Índia. Amazonas. sobretudo na África. Afeganistão e países asiáticos. desde a Antigüidade.4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com o risco de contágio. Pará. entre 500 e 300 milhões de pessoas são infectadas. Atualmente a malária concentra-se na região da Amazônia Legal. que responde por mais de 99% dos casos registrados no país. e em algumas regiões do mundo. Amapá. Roraima.

Disponível em www. pois esta classe normalmente se concentra em áreas desprovidas de infra-estrutura. Segundo dados do Sistema de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde. a ausência de infra-estrutura básica e de investimentos públicos de saúde na prevenção da doença. a malariae e a falciparum.saude.gov. sendo que os outros 60% ocorrem em 32 municípios. em 2005 o Estado do Amazonas registrou 222. concentra 40% do total de casos de malária. a expansão desordenada na cidade. . a ocorrência de malária se deu inicialmente em maior proporção nas regiões interioranas e rurais do Estado. de saneamento 233 A malária é uma doença transmitida pelo mosquito do gênero "Anopheles". Apesar do aumento de casos. Situação Epidemiológica da Malária – 2005. Manaus vive hoje uma grave situação de ocorrência de malária. não têm como retornar os lucros esperados. devido aos processos migratórios. sendo esta última a forma mais grave. existem três tipos principais de malária: A vivax. justamente porque ocorrem em países pobres e em desenvolvimento e. Não é à toa que as doenças tropicais afetam sobretudo as pessoas pobres. mas o tratamento. tem-se conseguido diminuir a gravidade da doença.br/svs. No Brasil.org.140 desenvolvimento (P&D) da indústria farmacêutica. Acesso em 20/07/2005. Contudo. a ponto de se procurar a cura através de incentivos à pesquisa. Todo esse sofrimento a humanidade deve a dois inimigos que se aliaram há milênios para seviciar a espécie humana: um protozoário e um mosquito. à base de comprimidos ainda é eficaz. que possui 400 espécies. assim.funasa.290 casos. começou a se tornar um problema preocupante. que atinge cerca de 20% das pessoas acometidas da doença. 234 Em Manaus. A Malária era considerada uma “doença de pobre”. de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS/AM).545 casos de malária.br Acesso em 20/07/2005 234 Consulta através do www. onde estão 48% da população do Estado. 233 No Estado do Amazonas. mas a partir do momento que começou a atingir as outras classes sociais. sendo que no ano de 2006 foram registrados 180. Não existe vacina para a doença.

de energia elétrica (que é obtida através de ligações clandestinas). de acordo com dados divulgados pela Fundação de Vigilância em Saúde – FVS/AM. Os moradores da “invasão” Nova Vitória estão entre as principais vítimas da malária em Manaus.343 2. Sem falar na falta de saneamento básico. ao que parece não se tem uma política pública urbana de assentamento às famílias com o mínimo . locais propícios para criadouros do mosquito.289 631 Fonte: Fundação de Vigilância em Saúde – FVS/AM A elevada proliferação dos casos de malária nessas áreas se dá pela ocupação desordenada de terras.384 40. tudo para dar lugar às construções de barracos. sendo que os moradores utilizam água dos igarapés próximos ao local ocupado. ANO 2004 2005 2006 MANAUS 55. locais onde outras doenças além da malária.933 64.622 “Invasão” NOVA VITÓRIA 3. Ainda que se verifique o empenho das instituições de saúde no combate à malária. pelo desmatamento e pela exploração de recursos da floresta sem o devido cuidado. Pode-se observar no quadro abaixo os altos índices de casos de malária na “invasão” Nova Vitória: Tabela 5 – Comparativo de casos de malária em Manaus e na “invasão” Nova Vitória 2004 – 2006. ou água de cacimba.141 básico e de políticas de saúde pública. encontram condições ideais de propagação. como a leischmaniose e a febre amarela.

Figura 1 – A “invasão” Nova Vitória Figura 2 – Habitações precárias na “invasão” Nova Vitória .142 de infra-estrutura básica. que se concentram a maioria dos casos. A malária atinge primordialmente segmentos das classes subalternas uma vez que é nas áreas de “invasões”.

143 Figura 3 – Habitações construídas em barrancos. .

.144 Figura 4 – Habitações construídas próximo a um igarapé.

145 Podemos observar que a situação dos moradores da “invasão” Nova Vitória é dramática: suas casas. O lixo doméstico é jogado sempre nas encostas próximas ao local de moradia. que morreram eletrocutadas. construídas nas encostas de barrancos ou em cima de igarapés. sendo que tais populações abastecem sua casas de água através de poços artesianos precários ou da água dos próprios igarapés contaminados. O esgotamento sanitário é direcionado para o igarapé. por falta de coleta adequada de . usufruindo de energia elétrica através de ligação clandestina que veio a vitimar nove pessoas desde o inicio da ocupação.

A população que aí se instala não compromete apenas os recursos que são fundamentais a todos os moradores da cidade. A luta pela vida dos moradores das ocupações ilegais é incessante. energia elétrica. obstáculos à instalação de rede de água e esgotos torna inviável ou extremamente cara a urbanização futura. Não podem parar. tais populações carecem de todos os equipamentos públicos sociais. 235 235 MARICATO. Enfim. são excluídos e empurrados para as periferias. risco de vida por desmoronamentos. . são também vítimas da injustiça ambiental.br/scielo. pelo fato de estarem arcando desproporcionalmente com o ônus do desenvolvimento.php. cuja regularização foi promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno das eleições do ano de 2006. Metrópole. onde longe dos olhos da sociedade. Destaca Ermínia Maricato que é notável a tolerância que o Estado brasileiro tem manifestado em relação às ocupações ilegais de terra urbana. moradias adequadas. Além de não disporem do acesso aos direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. A Medida Provisória que autoriza a doação para o Governo do Estado da área ocupada pela “invasão” Nova Vitória beneficiará aproximadamente 6 mil famílias residentes no local. Essa tolerância pelo Estado em relação a ocupação ilegal. os problemas de drenagem. sem alternativa habitacional.scielo. Tendo em vista que alguns (uma minoria) dispõem de água potável. pois a sobrevivência de suas famílias depende da força para lutar. como é o caso dos mananciais de água. Em muitos casos. Disponível em www. e outros. legislação e desigualdade. Ermínia. sofrem para poder sobreviver. pobre e predatória de áreas de proteção ambiental ou demais áreas públicas. sobrevivendo sem a alternativa de uma vida com qualidade e digna. por parte das camadas populares. Acesso em 02/09/2006.146 lixo. Mas ela se instala sem contar com qualquer serviço público ou obras de infra-estrutura urbana. saneamento básico. está longe de significar uma política de respeito aos carentes de moradia ou aos direitos humanos.

de eqüidade ambiental irradia-se como verdade inconteste. e que tendem cada vez mais a aumentarem. da injustiça ambiental e da exclusão social. o que se percebe na ocupação Nova Vitória é que faltam ações governamentais com vistas a minorar o grave problema do déficit habitacional. por outro lado. As lutas travadas por uma moradia digna. uma vez que a elaboração e a implementação de políticas públicas voltadas para as populações marginalizadas são incipientes. cobranças e fiscalizações rígidas pelos setores públicos que deveriam fazê-lo. por um meio ambiente ecologicamente equilibrado e uma sadia qualidade de vida são contínuas. O discurso da classe hegemônica de igualdade. que ficam sujeitas a campanhas eleitoreiras e a paralisação de projetos com a mudança de mandatos dos governantes. de democracia. não ocorrendo. transformam as Leis e a Constituição em meras peças de ficção. não importando as mazelas. através de seus representantes políticos. as doenças e o sofrimento a que são diariamente submetidos. sejam eles Presidentes. Contudo. pois não há uma padronização e um planejamento a logo prazo das iniciativas. em defesa de uma sociedade mais justa. Governadores e Prefeitos ou membros do Legislativo e Judiciário. Rasgam-se os falsos discursos da elite dominante e a Nova Vitória surge como um exemplo da luta e da resistência das classes ditas subalternas. . A classe dominante. Parece-nos que nunca vão acabar.147 Os projetos de habitação dos governos municipais e estaduais não dão conta da demanda nos grandes centros urbanos. insuficientes e paliativas.

O Estado então é um instrumento de pressão das classes dominantes sobre as classes oprimidas. ao analisar a práxis em Marx. Nicola. 990 . p. Norberto. 236 Nas sociedades de classes. ou melhor. PASQUINO. p. 238 Gramsci. Marta. de origem iluminística e chegado até Feuerbach. afirma que a Práxis é história. passivamente contemplado. 239 236 HARNECKER. a define como atividade prático-crítica. 203 BOBBIO. o jurídico-político está assegurado por um aparelho autônomo: o Estado. como atividade humana perceptível em que se resolve o real concebido subjetivamente. MATTEUCCI. 1993. 237 238 Ibid. fazendo uma análise marxiana. p. isto é. o qual concebia a natureza como um dado intuitivo. Dicionário de Política. a sua realização por obra da vontade racional.237 Bobbio.. p. Brasília/DF: Editora Universidade de Brasília. 1986. Gianfranco. o fazer-se da história. além de possuir uma estrutura econômica e uma estrutura ideológica determinada. que monopoliza a “violência legítima” e cuja principal função é manter sob a sujeição de uma classe dominante todas as demais classes que dependem dela. acolhido pela grande maioria por responder às necessidades manifestadas num contexto ambiental que é marcado pela intervenção do homem e se transforma por isso em móbil de ação. 987-992. esclarece que toda sociedade. a vontade é racional porque suscitada por um pensamento historicamente baseado. 239 Ibid. Os conceitos elementares do materialismo histórico.. citado por Bobbio. Isto é. 197-202.148 Harnecker. São Paulo: Global Editora. O termo atividade nos adverte da superação do velho materialismo naturalístico. possui um conjunto de aparelhos institucionais e normas destinadas a regulamentar o funcionamento da sociedade em seu conjunto. Estes aparelhos institucionais e normas constituem a estrutura jurídicapolítico da sociedade e fazem parte da superestrutura.

Para Scherer-Warren. o descaso dos governantes em relação à efetiva prestação dos serviços essenciais para uma vida digna. podemos observar em nosso país a contraposição: de um lado. Ilse.149 Portanto. Práxis que se realiza através da atividade produtiva e finalmente Práxis que se realiza por meio da atividade política. de outro. a dramática realidade vivida pela maioria da população excluída e marginalizada. A precária situação em que vivem milhares de 240 SHERER-WARREN. 1989. Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Movimentos Sociais – um ensaio de interpretação sociológica. em sua busca da Práxis transformadora do social: Práxis que se realiza em conexão com a atividade teórica. Após quase vinte anos da promulgação da Constituição Federal de 1988. que vivem em condições precárias de moradia e alimentam-se mal ou passam fome. 3. Uma outra alternativa são os caminhos institucionais para a solução de conflitos sociais. mas Práxis que modifica. tomada numa acepção onde ela não é mais a Práxis que se modifica. pelo menos três atividades principais são enfocadas por Marx.6 O controle judicial da omissão do Estado na implementação de políticas públicas sociais.24. que não dispõe de um atendimento de qualidade mínima nos serviços públicos. p. É o que veremos em seguida. . 240 Nesse sentido. na concepção marxista. na visão marxiana. a história da humanidade é luta de classes e com ela se identifica a Práxis. a passagem de uma teoria crítica para uma Práxis revolucionária pode se dar através do movimento de libertação da classe social oprimida.

Revista de Informação Legislativa nº 144. 241 Dessa forma. trabalho. por meio de leis. Diante os anseios da sociedade em buscar a concretização dos direitos fundamentais sociais. habitação. mas sim direitos por meio do Estado. O Estado. 240. Andréas J. . assistência. evidencia o fracasso do Estado brasileiro em implementar políticas públicas sociais. política ou social da 241 KRELL.) que facultem o gozo efetivo dos direitos constitucionalmente protegidos. Outubro/Dezembro 1999. Os direitos sociais não são direitos contra o Estado. tem crescido o debate acerca da função e dos limites da atuação do Poder Judiciário na efetivação dos direitos sociais. conforme as circunstâncias. exigindo do Poder Público certas prestações materiais. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa). garantidos em nossa Constituição Federal. p. enquanto responsável pelos atos de administração do Estado.150 pessoas em nosso país. etc. o qual afirma que a política (policy) designa “um padrão de conduta que assinala uma meta a alcançar. geralmente uma melhoria em alguma característica econômica. Brasília. as chamadas “políticas sociais” (educação. com o objetivo de promover condições para que tais direitos possam ser efetivamente usufruídos. executar e implementar. saúde. Antes de tratarmos do controle judicial diante da omissão estatal em implementar as política públicas sociais previstas em norma constitucional. a elaboração de políticas públicas. previdência. impõem ao Poder Executivo que promova. deve definir. a constitucionalização dos direitos fundamentais sociais e a ratificação de tratados internacionais que dispõem sobre esses direitos para que possam ter efetiva implementação. faz-se necessário apresentar algumas conceituações de políticas públicas. atos normativos e da criação real de instalações de serviços públicos. As bases para o conceito de política pública foram elaboradas por Ronald Dworkin.

2005. 2001. p. os meios alocados para a realização das metas e. finalmente. 242 Destaca Eduardo Áppio que a finalidade da política pública é assegurar igualdade de oportunidades aos cidadãos. o autor conceitua políticas públicas como “instrumentos de execução de programas políticos baseados na intervenção estatal na sociedade com a finalidade de assegurar igualdade de oportunidades aos cidadãos. através da execução de políticas públicas. 138 abr. Curitiba: Juruá. as metas nas quais se desdobra esse fim. tendo por escopo assegurar as condições materiais de uma existência digna para todos os cidadãos”.151 comunidade. pelo fato de implicarem que determinada característica deve ser protegida contra uma mudança hostil”. a elaboração dessas políticas deve seguir os 242 DWORKIN. São Paulo. 13. p. os processos de sua realização. Sendo assim. Ensaio sobre o juízo de constitucionalidade de políticas públicas. Maria Paula Dallari. Ressalta ainda que: políticas públicas funcionam como instrumentos de aglutinação de interesses em torno de objetivos comuns. 243 244 APPIO. que passam a estruturar uma coletividade de interesses. BUCCI. apud COMPARATO. In: Direitos Humanos e Políticas Públicas. p. ou seja. Brasília a. . ainda que certas metas sejam negativas. Fábio Konder. Controle Judicial das Políticas Públicas no Brasil. Revista de Informação Legislativa. 244 Fernando Aith destaca que a promoção e proteção dos direitos humanos e demais direitos reconhecidos no ordenamento jurídico são realizadas pelo Estado. 35 n. Os elementos das políticas públicas são o fim da ação governamental. 136. Polis. Buscando um conceito de políticas públicas para a concretização dos direitos humanos. 44./jun. sendo que. Maria Paula Dallari Bucci afirma que as políticas públicas são programas de ação de governo para a realização de objetivos determinados num espaço de tempo certo. 243 A esse respeito. 1998. deve-se buscar a promoção da diminuição das desigualdades socioeconômicas e garantir igualdade real de oportunidades através da atuação dos órgãos da Administração Pública. Segundo uma definição estipulada: toda política pública é um instrumento de planejamento. racionalização e participação popular. Eduardo.

imediatamente. ou através dos demais poderes estatais constituídos (Legislativo e Judiciário). 2006. Fernando Mussa Abujamra.. 218 . o autor considera a política pública como uma “atividade estatal de elaboração. Políticas públicas de Estado e de governo: instrumentos de consolidação do Estado Democrático de Direito e de promoção e proteção dos direitos humanos. Políticas Públicas reflexões sobre o conceito jurídico. In: BUCCI. a dar cumprimento às políticas públicas sociais. planejamento. Dessa forma. sendo que qualquer política pública que não tenha essa finalidade torna-se. São Paulo: Saraiva. Esclarece Fernando Aith que o Estado tem por finalidade a garantia dos direitos dos seres humanos que o integram. bem como à efetiva implementação destas. Já os governos representativos têm por finalidade executar políticas que busquem a promoção e proteção dos direitos humanos. Maria Paula Dallari. A Constituição Federal de 1988 confere ao legislador uma margem substancial de autonomia na definição de forma e medida em que o direito social deve ser assegurado. por força de decisão judicial. e toda e qualquer ação desenvolvida pelo Estado deverá ser feita no sentido da proteção desses direitos. p. seja através da Administração Direta ou Indireta (autarquias. Partindo desse posicionamento passaremos para a discussão da possibilidade do Poder Executivo ser responsabilizado e compelido. execução e financiamento de ações voltadas à consolidação do Estado Democrático de Direito e à promoção e proteção dos direitos humanos”. sob pena de descumprir norma constitucional de ordem pública. inviolável e auto-aplicável. Em 245 AITH. 245 Compete ao Estado elaborar e planejar as políticas públicas. 246 Ibid. 246 Dessa forma. uma política inconstitucional (ou ilegal). 232. entende-se que o Poder Executivo não poderá se eximir da responsabilidade de elaborar as políticas públicas sociais. empresas públicas. sociedades de economia mista ou fundações).152 ditames da Constituição e dos demais instrumentos normativos do ordenamento jurídico. imperativa.

insculpido no art. Brasília a. 249 Ressalta. tendo em vista que se tratava apenas de uma hermenêutica pobre. Comparato que “o juízo de constitucionabilidade. Curitiba: Juruá. faz-se necessária a revisão do dogma da “separação dos poderes” 247 em relação ao controle dos gastos públicos e da prestação dos serviços sociais básicos do Estado Social. p. 46. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. o que se queria vedar era o controle judicial sob questões ‘de política’ (lato sensu)”. normalmente há uma delegação constitucional para o legislador concretizar o conteúdo desses direitos.ed. 2º da Carta de 1988. nessa matéria tem por objeto não só as finalidades. 249 COMPARATO. tem por objetivo o 247 Afirma Bontempo que é recorrente no Poder Judiciário o argumento de que a viabilização desses direitos representaria uma violação ao princípio da separação dos poderes. sendo que. quando. No atual ponorama jurídico brasileiro. (BONTEMPO. 68 CF/34). Direitos Sociais. Fábio Konder. 2006. 248 KRELL. Andréas J. expressas ou implícitas. nessa matéria. 266). Afirmando inclusive. o Poder Judiciário não deve intervir em esfera reservada a outro Poder para substituí-lo em juízos de conveniência e oportunidade. na verdade. “que essa clássica falsa objeção de muito já está esclarecida. nº 144 out/dez 1999. ainda.153 princípio. Brasília a. 248 Comparato afasta a clássica objeção de que o Judiciário não tem competência. Revista de Informação Legislativa. 36. Explica o autor que esse entendimento negativo teve origem na Constituição de 1934 que vedava “ao Poder Judiciário conhecer questões exclusivamente políticas” (art.1. tendo em vista que os Poderes Legislativos e Executivos no Brasil se mostraram incapazes de garantir o cumprimento racional dos direitos sociais. 35 n. A eficácia dos direitos fundamentais sociais a prestações materiais depende naturalmente dos recursos públicos disponíveis.240-241. 138 abr. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa). . para julgar “questões políticas”. Ensaio sobre o juízo de constitucionalidade de políticas públicas. mas também os meios empregados para se atingirem esses fins”. Revista de Informação Legislativa. p. p. defende-se que “o juízo de constitucionalidade. Alessandra Gotti. de uma política pública. No entanto. pelo princípio da divisão dos Poderes./jun. 1998.

251 O reconhecimento dos direitos fundamentais sociais como direitos plenos só se alcançará quando forem superados os obstáculos que impedem a sua adequada justiciabilidade. sendo apenas admitido um exame jurídico ou até jurídico-político – contemplação das finalidades predispostas pela norma. O que qualificará a existência de um direito social como direito pleno não é simplesmente o cumprimento de uma conduta por parte do Estado. Abramovich entende como justiciabilidade a “possibilidade de reclamar ante um juiz ou tribunal de justiça o cumprimento ao menos de algumas das obrigações que derivam de um direito”. 45-46 ABRAMOVICH. . O controle jurisdicional só será aplicado se houver por parte do Poder Executivo desvio ou abusividade governamental. no caso de haver divergências. 250 Dessa forma.surjournal. Victor. dentro de um exame de compatibilidade ou não entre a atividade estatal e os ditames da norma. sociais e culturais: instrumentos e aliados. a existência de algum poder jurídico que possa ser utilizado pelo titular do direito em caso de 250 251 Ibid. mas. In: Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos. SUR – Rede Universitária de Direitos Humanos. afirmando que “o Poder Judiciário não tem como tarefa projetar políticas públicas. p. que deverá ser excepcional. não será um exame unicamente político – juízo sobre o meio mais adequado para atender o bem estar coletivo -.. pode-se afirmar que é possível o controle jurisdicional das políticas públicas. reenviar a questão aos poderes pertinentes para que eles ajustem sua atividade”. Nesse mesmo sentido é o entendimento de Victor Abramovich. p. ano 2. (Disponível em formato eletrônico no site www. mas sim confrontar as políticas assumidas com os padrões jurídicos aplicáveis e. 2005. 205. não só com os objetivos constitucionalmente vinculantes da atividade de governo.154 confronto de tais políticas. mas também com as regras que estruturam o desenvolvimento dessa atividade”. ou seja. Linhas de trabalho em direitos econômicos. 2005.org).

5°. inerentes a essas entidades. 252 ABRAMOVICH. resulta de abstenção. § 2º. englobando ainda. Considerar plenamente um direito econômico. ocorrendo. no caso. 37-38. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. 243 e 247). a inconstitucionabilidade por omissão corresponde a um non facere. b) organização sindical. da Constituição Federal “Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional. podem ajuizar para defesa. turístico. 5º. entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano. . inciso LXXI. 103. O art. expresso no art. inciso III. 2006. ou associados.1. Direitos Sociais. a bens e direitos de valor artístico. em defesa dos interesses de seus membros ou associados”. à soberania e à cidadania”. à soberania e à cidadania. 5º. instituída pela Lei 7374/85. dispõe que “Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdade constitucionais. Los derechos sociales como derechos exigibles. 253 Art. 5º inciso LXX da CF/88: “o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional. mas de direito líquido e certo de seus membros. inciso LXXI). mediante uma demanda ou queixa. podendo ser ajuizada no caso de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente. 254 Art. não de direitos próprios. Victor. Os remédios jurídicos de proteção aos direitos sociais contra a omissão inconstitucional são: ação direta de inconstitucionalidade por omissão (art. COURTIS. § 2º) e o mandado de injunção (art. Christian. inércia ou silêncio do poder público que deixa de praticar determinado ato exigido pela Constituição. social ou cultural como direito é possível unicamente se – ao menos em alguma medida – o titular/credor está em condições de produzir. 129. para fazê-lo em trinta dias”.155 descumprimento da obrigação devida. em se tratando de órgão administrativo. outros interesses difusos e coletivos. paisagístico. inciso LXX. Madri: Trota. A esse respeito comenta Alessandra Bontempo. 252 A nossa carta Constitucional de 1988 estabeleceu alguns instrumentos jurídicos capazes de assegurar a concretização dos direitos sociais. no art. O mandado de segurança coletivo254 também é um instrumento que vem garantir o acesso à justiça. será dada ciência ao poder competente para a adoção das providências necessárias e. e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. De acordo com Bontempo a concessão do mandado de injunção está condicionada a uma relação jurídica de causa e efeito: a uma causa – a falta de norma regulamentadora – a ordem jurídica atribui uma conseqüência – a inviabilidade do exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. o instituto da substituição processual. Mandado de segurança coletivo é ação de rito especial que determinadas entidades. e prevendo-a. ao consumidor. 253 Pode também ser utilizada como alternativa judicial a Ação Civil Pública.ed. p. Alessandra Gotti. 103. (BONTEMPO. estético. p. Curitiba: Juruá. enumeradas expressamente na Constituição. os ditames de uma sentença que imponha o cumprimento da obrigação gerada pelo direito. histórico. 2002.

que lhe deu aplicabilidade. no caso. da Constituição de 1988. que prevê a impossibilidade de o Judiciário deixar de apreciar lesão ou ameaça de lesão a qualquer direito. CF/88: “qualquer cidadão é parte legitima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe. parágrafo 1º. inciso LXXIII.Espanã.uaemex. (Estando disponível pelo endereço eletrônico http://redalyc. se a Administração Pública ou um particular – ou mesmo – o Legislativo – de quem se reclama a correta aplicação do direito. principalmente por força do artigo 5º.mx/redalyc/pdf/282/28281509. em cada decisão que a esse respeito tomar. O que se sustenta – é. Isso significa que. produzir efeito. salvo comprovada má-fé. 5º. atribuir ao Judiciário o desempenho de funções que são próprias do Legislativo – ou seja. sendo que passou a partir de 1988 a tutelar também o meio ambiente e o patrimônio histórico e cultural. estando expresso no art. tendo sua previsão expressa do art. o Poder Judiciário poderá ser acionado para o fim de aplica-lo.882. Araucaria Revista Iberoamericana de Filosofia. Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos no Brasil: desafios e perspectivas. . cumprir ao Poder Judiciário assegurar a pronta exeqüibilidade de direito ou garantia constitucional imediatamente aplicável. Política y Humanidades Nº 15. inciso LXXIII. instituída em 1999 através da Lei 9.156 De acordo com Piovesan e Vieira outra alternativa judicial para defesa dos direitos sociais é a Argüição de Descumprimento de Preceitos Fundamentais. abril de 2006. Renato Stanziola. 5º. à moralidade administrativa. Flávia.. Sevilla . Esse mecanismo jurídico é utilizado com vistas a reparar lesão ou ameaça de lesão a preceito fundamental decorrente de ato do poder público. meramente. ficando o autor.pdf). quer sob a consideração de política governamental.) o Poder Judiciário é o aplicador último do direito. 255 Em relação à proteção do direito social ao meio ambiente.. sob o manto do princípio da supremacia da Constituição – é. destaca-se como importante modalidade de ação judicial a Ação Popular. Universidade de Sevilla. nega-se a fazê-lo. a de produção de ato administrativo. p. quer sob as vestes de norma jurídica. inciso XXXV da Constituição de 1988. 256 Art. nisso.) Não se pretende. 142. dever que se lhe impõe e mercê do qual lhe é atribuído o poder. que tradicionalmente era voltada para a defesa do patrimônio público. Segundo entendimento de Eros Roberto Graus: (. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. 102.256 O Poder Judiciário tem a responsabilidade pelo controle jurisdicional das políticas públicas sociais.. 257 255 PIOVESAN. na autorização que para tanto recebe. (.. de. isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência. VIEIRA.

De acordo com Piovesan e Vieira em nosso país apenas 30% dos indivíduos envolvidos em disputas procuram a Justiça estatal.pdf). 36. mas a não-prestação real dos serviços sociais básicos pelo Poder Público.ed.1. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. ressalta Krell que a estrutura do Poder Judiciário é relativamente inadequada para dispor sobre recursos ou planejar políticas públicas. . Brasília a. 259 O maior problema que encontramos em nosso país não é a falta de leis ordinárias. seja pelo fato de o Legislativo não querer outro agente criador de direito.157 No entanto. Andréas J. acionáveis e justiciáveis. Sevilla . apud BONTEMPO. p.251. p. abril de 2006. Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos no Brasil: desafios e perspectivas. Alessandra Gotti. Universidade de Sevilla. é acentuadamente maior a utilização do Judiciário nas regiões que apresentam índices mais altos de desenvolvimento humano. nº 144 out/dez 1999. Curitiba: Juruá. 145.uaemex. 259 PIOVESAN. Direitos Sociais. o que revela uma apropriação ainda tímida da sociedade dos seus direitos fundamentais sociais como verdadeiros direitos legais. p. judiciário e executivo) ao controle judicial do mérito dos atos do Poder Público. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa). VIEIRA.Espanã. 258 No Brasil ainda é incipiente o grau de provocação do Poder Judiciário para demandas envolvendo direitos sociais. Revista de Informação Legislativa. A grande maioria das 257 GRAU. 2006. (Estando disponível pelo endereço eletrônico http://redalyc. Flávia. seja pelo fato do Executivo não querer ter suas atividade controladas. pelo fato de o Judiciário não querer assumir a responsabilidade desse controle. Política y Humanidades Nº 15. Aponta também a falta de meios compulsórios para a execução de sentenças que condenam o Estado a cumprir uma tarefa ou efetuar uma prestação omitida. Renato Stanziola. Araucaria Revista Iberoamericana de Filosofia. 258 KRELL. ou seja. há ainda uma certa resistência dos três Poderes (legislativo. ou. existindo uma clara relação entre índice de desenvolvimento humano e litigância. Além disso. ainda.mx/redalyc/pdf/282/28281509. 260.

mas em exigir do Estado enquanto ordenador das condições de vida política e garantidor das condições de sociabilidade. e cobrar sua responsabilidade. O Poder Judiciário não é o milagre por todos esperado para solucionar os problemas da sociedade. mas não têm o direito de usufruí-los. Judiciário ou Executivo. Os problemas e dilemas gerados pelo desenvolvimento industrial revelam uma crescente tensão e conflitos no âmbito da sociedade marcada pela intensa migração interna. seja Legislativo. pela urbanização acelerada. segundo . Além disso. partilhamos do entendimento de parte da doutrina brasileira que defende o controle judicial da omissão do Estado na implementação de políticas públicas sociais pelo Poder Judiciário. mas a garantia desses direitos esbarra na formulação. pois só assim poderá se discutir de quem é a culpa. O Estado se mostra incapaz de cumprir o seu dever de implementar políticas públicas sociais capazes de atender os direitos sociais. e principalmente pelo fracasso das políticas públicas sociais. tratados neste trabalho. implementação e manutenção das políticas públicas sociais. uma reforma política em todas as suas esferas. pelas desigualdades regionais. esse problema não se resume em responsabilizar os Poderes. mais especificamente os direitos a moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado da sociedade. Após essas breves considerações. Precisamos do empenho de todos – Estado e sociedade – para podermos alcançar o que José Reinaldo chama de Justiça Distributiva – pela qual se distribui. não usufruem de um meio ambiente ecologicamente equilibrado – “bem de um uso comum de todos”. Atualmente.158 normas para o exercício dos direitos sociais já existem. mas. tendo em vista os graves problemas sociais existentes em nossa sociedade. Possuem direitos sociais garantidos constitucionalmente. em nosso país milhares de pessoas ainda sofrem ao sobreviverem em moradias extremamente precárias e insalubres. proporcionalmente. O que fazer nessa situação? As demandas sociais são cada vez mais crescentes em nossa sociedade. pela crise ambiental cada vez mais eminente.

Suas decisões têm hoje a importância política de dar visibilidade às conseqüências concretas desta disputa política.141 261 Ibid. juntamente com a crise econômica mundial trazem reflexos sobre as políticas públicas. p. em termos culturais e jurídicos e práticas concretas. As políticas públicas difundidas pelo neoliberalismo são injustas e excludentes. que em nome da defesa das liberdade burguesas auxilia a reprodução das distorções sociais existentes. . Mas à falta de soluções gerais. Dessa forma. sendo que. 2005.. a necessidade. p. trouxeram como conseqüência a destruição da máquina pública e a diminuição de investimentos em políticas públicas sociais. o neoliberalismo e as regras de mercado. Direitos Humanos.159 os méritos. em nome de uma atuação transformadora sem meios para agir globalmente. a capacidade. Os governos separaram a economia da sua dimensão social. 142. ao serem adotadas em nosso país. 261 Não obstante a evidente incapacidade do Judiciário para resolver sozinho todos os problemas sociais. impondo às classes populares a conta do desenvolvimento nacional. é certo que “levar a sério” os direitos sociais implica em admitir a possibilidade do seu questionamento judicial em caso de inércia do Estado no tocante à sua implementação. José Eduardo. Direito subjetivo e direitos sociais: o dilema do Judiciário no Estado Social de Direito. observam-se nos dias atuais os descumprimentos constantes 260 LOPES. pois. ou legitimando uma ditadura do Judiciário. 260 Claro está. A globalização. 140 . José Reinaldo de Lima. In: FARIA. na alteração significativa das regras do jogo. Direitos Sociais e Justiça. podemos ver-nos diante de paradoxos incompreensíveis: ou legitimando uma tirania do Legislativo e do Executivo. de maneira igual os benefícios e os malefícios da vida comum. que o Judiciário transforma-se em arena de uma luta que o transcende. social e econômica em que se encontra a sociedade brasileira. ou. São Paulo: Malheiros. cercados por anéis burocráticos e interesses privatísticos. corre o risco de ser entendido como sinalizando o voluntarismo irracional.

saneamento. e o agravamento da questão social aumento da pobreza. isto é. O Estado Brasileiro deve se responsabilizar pela formulação e implementação de políticas que integrem saúde. geração de emprego e de renda. educação. Além disso. informação pública. até hoje.160 dos direitos sociais. acreditamos na possibilidade de um outro modelo de sociedade onde as políticas sejam de fato públicas. distribuição e acesso à terra. não conseguiram beneficiar a todos em igualdade de condições. Primeiramente os governos devem articular as políticas públicas para garantir uma vida com mais qualidade e a otimização dos recursos públicos. da exclusão. é imprescindível a participação da sociedade organizada (especialmente os movimentos sociais). Apesar de todos os problemas apontados. . o acirramento das desigualdades. uma vez que privilegiam uma minoria em detrimento da grande maioria da população pobre e marginalizada. meio-ambiente. da violência etc. As políticas públicas no Brasil. moradia. que somente tem acesso a políticas públicas sociais compensatórias. em benefício de todos. propondo e exigindo políticas públicas sociais capazes de propiciar uma vida digna para todos. alimentação e nutrição.

as pessoas que vivem em ocupações ilegais. além de muitas vezes serem vítimas do desemprego e da precarização social em geral. água e ar puro. como a contaminação por substâncias perigosas. as políticas públicas sociais relegadas a ações não prioritárias. Sem alternativa habitacional.161 4 CONCLUSÃO O processo de desenvolvimento atrelado à lógica do capital vem gerando conseqüências danosas para as cidades e os seus habitantes. muitas vezes. A não efetivação das políticas públicas sociais relacionadas ao direito à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado traz como conseqüência as ocupações ilegais. investindo na produção e na indústria. Sendo assim. deixando. sobretudo no que se refere à qualidade do meio-ambiente e à produção de condições de extrema desigualdade social e econômica. No Brasil. além de serem vítimas da exclusão social e ambiental. estando às margens da cidade e da cidadania. Como conseqüência desse processo. que passa a encarar esses direitos como verdadeiros privilégios das classes de maior poder econômico. pode-se constatar que existe atualmente uma total descrença nos direitos fundamentais sociais por parte da maioria da população excluída social e economicamente. de não terem acesso aos direitos sociais que lhes são garantidos . Frequentemente encontram-se expostas aos riscos decorrentes de más condições de moradia. a população pobre. O Estado passou a priorizar os interesses privados prevalecentes nas atividades econômicas. a falta de saneamento básico. a população pobre passa a ocupar os espaços desordenadamente. marginalizada e vulnerável não tem acesso aos direitos fundamentais sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

o que significa dizer que não é passível de interrupção. instituindo outras políticas públicas. Para assegurar o direito à moradia e a proteção do meio ambiente para as presentes e futuras gerações. A implementação dos direitos fundamentais sociais depende sobremaneira da atuação estatal nas suas três formas de poder. o serviço público nesses setores deve ser prestado de maneira contínua. Isto porque. A efetividade dos direitos sociais depende de uma estruturação do Estado. Contudo. é necessário que existam instituições de caráter permanente no âmbito da administração. numa democracia. do amadurecimento da política econômica e. legislativa. pois arcam com o maior custo do ônus do desenvolvimento. o que implica na sua oferta ao usuário com qualidade e regularidade. são também vítimas da injustiça ambiental.162 constitucionalmente e por organismos internacionais. que muitas políticas públicas são deixadas de lado assim que assume um novo representante eleito. Isso ocorre pela própria importância de que o serviço público se reveste. muitas vezes começando tudo do zero. pressupõe-se a alternância do poder. Tais fatores é que permitirão a concretização dos direitos sociais e das políticas públicas sociais na busca de um ambiente socialmente justo e ecologicamente equilibrado. do planejamento a longo prazo. Ocorre que. a prioridade deve ser a continuidade de políticas de médio e longo prazo. executiva e judiciária. na prática. o que significa. Ao analisar o caso da “invasão” Nova Vitória. principalmente. constata-se uma conduta omissiva do Estado no cumprimento das políticas sociais públicas voltadas para a garantia de uma moradia digna em um ambiente saudável. Tal omissão propiciou o aumento das invasões de terras na cidade de Manaus. . assim como com eficiência e oportunidade.

Felizmente para os moradores da ocupação Nova Vitória. inexistência de saneamento básico. No entanto. Pela lógica da classe dominante.163 A “invasão” Nova Vitória demonstra de forma crua e perversa a inversão das prioridades do poder público. a Grande Vitória. mais do que nunca. elas. deveriam estar imobilizadas e não realizando ocupações. A área em questão já foi doada ao Governo do Estado do Amazonas e existem recursos financeiros do Governo Federal para que o Estado realize a urbanização e a regularização da ocupação. percebemos que a dinâmica das populações empobrecidas é a do combate e da perseverança. as classes mais desfavorecidas. Se isso ocorrer. desabamentos. mas não realiza nem de forma mínima ações que possam ao menos mitigar o sofrimento e a injustiça ambiental a que são submetidos as mais de cinco mil famílias residentes na ocupação. pelas quais buscam resolver na luta e no sofrimento uma obrigação que é do Estado. É somente através da pressão popular que o poder público realiza o que deveria fazer como fruto de uma obrigação constitucionalmente estabelecida. existe uma luz no fim do túnel. tal fato demonstrará que as conquistas sociais para essas populações não vem de cima para baixo. que faz obras e melhorias nas áreas nobres da cidade. constituem o elevado preço a ser pago pelas classes ditas subalternas para que possam morar na metrópole. mas sim ao contrário. daí o nome da ocupação: Nova Vitória. falta de urbanização e de equipamentos públicos como escolas e hospitais. para que palavras como justiça social e eqüidade não sejam apenas palavras. Em vista disso. uma alusão e uma diferenciação da ocupação vizinha. ausência de água encanada. Malária. cabe à sociedade civil organizada cobrar dos órgãos fiscalizadores como o Ministério Público e o Legislativo o cumprimento dessas ações no Nova Vitória. . mas sim direitos inalienáveis.

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