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Folha deSão Paulo, caderno sinapse, terça-feira, 25 de outubro de 2005

 
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Educação

Professor norte-americano explica por que as crianças não devem ter o mundo ao alcance dos
seus dedos numa tela de computador

A um clique de distância
Lowell Monke
da "Orion Magazine"

Thomas Edison foi um grande inventor, mas era péssimo em fazer prognósticos. Quando, em 1922,
previu que os filmes iriam tomar o lugar dos livros didáticos, ele deu início a uma longa seqüência de
previsões equivocadas sobre a capacidade que diversas tecnologias teriam de revolucionar o ensino.
Até hoje, nenhuma dessas previsões satisfez as expectativas. Mesmo o computador, que já é comum
na maioria das escolas, não tem uma performance consistente quando se trata de melhorar o ensino.
"Nos últimos dez anos não ocorreram avanços que possam ser atribuídos com segurança à ampliação
do acesso aos computadores", disse o professor de educação Larry Cuban, da Universidade Stanford,
em 2001, resumindo as pesquisas existentes sobre a computação na área educacional. "O vínculo
  entre as melhoras nos resultados de testes e a disponibilidade e o uso de computadores é ainda mais
contestado." O problema se deve em parte, ele observou, ao fato de que muitos computadores
presentes nas salas de aula simplesmente não são usados. Pesquisas mais recentes, incluindo um
estudo feito pela Universidade de Munique com 174 estudantes em 31 países, indicam que os alunos
que fazem uso freqüente do computador apresentam resultados acadêmicos piores do que aqueles que
o usam pouco ou não usam. Sejam essas avaliações conclusivas ou não, está claro que o computador
não cumpriu as promessas feitas em seu nome.
Os promotores da tecnologia educativa já retrocederam para uma posição muito mais modesta, a de
que o computador é apenas uma ferramenta a mais -"é o que você faz com ela que conta". Essa
resposta, no entanto, deixa de levar em conta o impacto das tecnologias. Longe de ser neutras, elas
reformulam todos os elementos num ambiente, alguns para melhor, outros para pior.
Instalar um laboratório de informática numa escola pode significar que os estudantes têm acesso a
informações que jamais conseguiriam obter de outro modo mas também pode significar que as
crianças passam menos tempo brincando ao ar livre, pode exigir a redução do dinheiro gasto com
materiais de arte e, pela primeira vez na história da educação nos EUA, tornar necessários "acordos
de uso aceitável" para informar os pais de que a escola não se responsabiliza pelos materiais que os
alunos encontram enquanto estão nas salas de aula.
O argumento de que o computador é apenas uma ferramenta não leva em conta o fato de que, sempre
que optamos por uma atividade de aprendizagem, estamos decidindo que tipos de encontro com o
mundo são válidos para nossos filhos.
Alguns anos atrás, participei de um debate na Televisão Pública de Iowa que focou algumas das
"melhores práticas" para o uso do computador em sala de aula. No início do programa, um vídeo
mostrou como os alunos de uma classe de quarta série de uma escola rural de Iowa usavam o
computador para gerar trabalhos em hipertexto sobre um clássico da literatura infantil, "Charlotte's
Web", de E.B. White. No vídeo, os alunos orgulhosamente apresentaram seu trabalho, que incluía
uma "aranha" gerada por computador que saltava pela tela e uma figura animada de menino
dependurado de uma corda em um paiol. No final, um estudante falou das lições importantes que
aprendera com o trabalho: que se devem ajudar as outras pessoas e tratá-las com cortesia.
O vídeo encerrou lições importantes também para os espectadores. As imagens dos alunos
conversando em torno dos computadores desfizeram (na minha opinião, com razão) a idéia de que o
computador sempre isola seu usuário.
Além disso, a professora explicou que os alunos estavam tão entusiasmados com o projeto que
optaram por ir ao laboratório de informática em lugar do recreio. Ela pareceu impressionada com
essa dedicação, mas é justamente isso que demonstra a primeira influência preocupante do
computador: ele é tão atraente que afasta as crianças do tipo de atividade por meio da qual elas
sempre descobriram a si mesmas e o lugar que ocupam no mundo.

Se a criança não puder mergulhar os


pés nas águas da atividade social
não-supervisionada, é provável que
ela jamais aprenda a nadar no mar
da responsabilidade cívica

E essas oportunidades estão desaparecendo em toda parte nos EUA. Até 2000, de acordo com um
relatório de Judith Kieff, professora da Universidade de Nova Orleans, mais de 40% das escolas de
ensino fundamental e médio dos EUA haviam eliminado o recreio por completo. Enquanto isso,
estatísticas do Departamento de Educação dos EUA indicam que, entre 1990 e 2000, os gastos com a
tecnologia nas escolas tiveram aumento de mais de 300%.

É verdade que se relacionar com outras crianças no recreio também pode ser uma experiência
difícil e marcante, com agressões e humilhações. E também é verdade que o computador oferece uma
alternativa confiável aos perigos das brincadeiras livres e soltas, sem supervisão, e que se torna
atraente justamente por esse motivo. Mas, freqüentemente, as escolas utilizam o computador ou
outras atividades altamente estruturadas para impedir que essas características perturbadoras da
infância venham à tona -por medo ou pela compulsão de alimentá-las à força com a maior quantidade
possível e disponível de informações.
Isso nega à criança o treino e o "feedback" de que ela tanto precisa para desenvolver as habilidades e
as disposições de uma pessoa amadurecida. Se a criança não puder mergulhar os pés nas águas da
atividade social não-supervisionada, é provável que ela jamais aprenda a nadar no mar da
responsabilidade cívica.
Infelizmente, depois de ter assistido ao Discovery Channel e trabalhado com simulações
computadorizadas que comprimem tempo e espaço, as crianças costumam se decepcionar quando
conhecem um lago ou riacho real pela primeira vez: os peixes não estão saltando, os veados não
estão tomando água. As experiências eletrônicas dos estudantes os levaram a ter a expectativa de ver
tudo isso acontecendo. Esse fenômeno deixa os estudantes apáticos e impacientes em ambientes
diversos, desde discussões em sala de aula até experimentos sociais. Existe uma diferença profunda
entre aprender com o mundo e aprender sobre o mundo. Qualquer leitor jovem pode encontrar na
internet uma abundância de informações sobre minhocas. Mas o computador só pode ensinar ao
aluno sobre minhocas por meio de símbolos abstratos: imagens e textos apresentados numa tela
bidimensional.
Compare-se isso com o modo como as crianças aprendem sobre minhocas da maneira direta:
cavoucando a terra. É isso o que pode infundir um sentimento de reverência a uma descoberta,
levando-a para além da simples ingestão e manipulação de símbolos. Em vez de procurar compensar
a crescente desconexão com a natureza, as escolas parecem estar cada vez mais decididas a reforçá-
la. Esse é um problema que começou muito antes do uso dos computadores nas escolas.

A pedagogia ocidental sempre deu preferência ao conhecimento abstrato, em lugar do aprendizado


prático. Mesmo a dependência excessiva ou precoce dos livros inibe a capacidade das crianças de
criar relações diretas com os temas que estudam. Em razão de sua potência, os computadores
exacerbam essa tendência.
Durante o tempo em que trabalhei com jovens e internet, senti-me constantemente frustrado por
estudantes que, de uma hora para outra, sumiam dos bate-papos virtuais relacionados aos trabalhos.
Eles indicaram que viam esses afastamentos como maneira de exercer controle sobre
relacionamentos que se desenvolvem on-line.
Essa maneira de evitar interações potencialmente difíceis também veio à tona em um grupo de alunos
da classe dos "mais talentosos e dotados" de minha escola. Eles preferiam falar de diversidade
cultural com estudantes do outro lado do mundo, pela internet, do que conversar com os alunos
estrangeiros de suas próprias escolas. Aqueles estudantes inteligentes temiam as conseqüências
incertas do contato cara a cara com os imigrantes.
O que diferencia o computador de outros artefatos é o elemento do controle. A mensagem mais sutil
e impressionante transmitida pelo vídeo do livro clássico é que as crianças podiam assumir o controle
do próprio aprendizado. Em lugar de estar passivamente ouvindo uma aula expositiva, elas estavam
interagindo diretamente com o conteúdo educacional, em seu ritmo.
Para desenvolver-se normalmente, qualquer criança precisa aprender a exercer algum controle sobre
seu ambiente. Mas o controle oferecido pelo computador é ilusório e, em última análise, perigoso. É
bom lembrar que o computador sempre tem um pedagogo oculto -o programador-, que desenhou o
software e que, invisível, controla as opções abertas aos estudantes a cada passo do caminho. Antes
de poder ter qualquer controle que seja, o estudante precisa se render ao "pensamento" hiperacional
do computador.
E qual é o prêmio que a criança ganha? Nele está encerrado um dos perigos menos observados da era
digital: a natureza problemática do poder que a criança ganha com o computador, além da falta de
disciplina interna no uso que ela faz desse poder. A criança pressiona uma tecla e o computador
desenha um X na tela. A criança não desenhou aquele X, ela ordenou ao computador que o fizesse, e
a máquina empregou uma quantidade enorme de habilidade adulta para concluir a tarefa. Ao perder
ou enfraquecer sua capacidade de realizar ela própria uma imensa gama de atividades abstratas
complexas, a criança ganha controle sobre essas atividades. Lamentamos os casos de alunos que
usam corretor ortográfico ou calculadora em lugar de aprender a escrever e fazer contas
corretamente. Mas o sacrifício do crescimento interior em prol do poder exterior costuma operar em
nível mais sutil quando uma criança monta uma exposição em Power Point usando pouco ou nenhum
material que ela própria criou.

Qualquer leitor jovem pode


encontrar na internet informações
sobre minhocas, mas compare-se isso
à maneira como as crianças
aprendem sobre minhocas:
cavoucando a terra. É isso o que
pode infundir um sentimento de
reverência a uma descoberta

Talvez seja o fato de que essa ênfase sobre o poder externo ensina à criança uma maneira
manipuladora de relacionar-se com o mundo. O computador faz um trabalho excepcional no sentido
de facilitar a manipulação de símbolos e sua manipulação ilimitada. No mundo real, porém, é
precisamente a resistência de cada objeto à manipulação ilimitada que força as pessoas a reconhecer
as limitações físicas do mundo natural, os limites do poder que exercemos sobre ele e a necessidade
de respeitarmos a vontade dos outros seres deste mundo.
Para desenvolver-se normalmente, a criança precisa aprender que não pode obrigar um botão de rosa
a abrir-se, não pode machucar um amigo e simplesmente recomeçar tudo como estava antes. No
entanto, pais e educadores vêm se apressando a entregar ferramentas digitais às crianças muito antes
de elas terem aprendido essas lições no mundo real. E, apenas agora, estamos começando a ter o
primeiro vislumbre dos resultados disso.
No dia em que minha turma de tecnologia avançada de computação se conectou à internet, percebi
que estava prestes a conferir a meus alunos do ensino médio mais poder de fazer mais mal a mais
pessoas do que quaisquer "teens" já tinham tido na história. Eles poderiam provocar dor com alguns
toques no teclado e jamais precisariam ver as lágrimas derramadas. Será que alguém os ajudara a
desenvolver a força moral e ética necessária para impedi-los de utilizar esse poder?
Pelo contrário -entregamos máquinas tremendamente poderosas a nossos filhos, mesmo os pequenos,
muito antes de eles possuírem a capacidade moral necessária para fazer bom uso delas. Então, para
garantir que nossos filhos não passem por baixo das cercas eletrônicas que erigimos à sua volta,
depositamos nossa confiança em outras tecnologias -incluindo filtros na internet- ou no medo de
castigos draconianos. Não é assim que se preparam os jovens para serem membros de uma sociedade
democrática, que rejeita o controle autoritário.
É claro que nada disso acontece da noite para o dia nem com uma única exposição a um computador.
É preciso tempo, e é exatamente por isso que está errado oferecer objetos tão poderosos de formação
de visão de mundo a crianças em idade impressionável.

Nossa era tecnológica exige uma nova definição de maturidade: a aceitação dos limites corretos de
nosso próprio poder em relação à natureza, à sociedade e aos nossos próprios desejos. Desenvolver
esses limites pode ser o objetivo mais importante da educação no século 21. Dada a onipresença da
tecnologia digital, não é necessário nem sensato ensinar as crianças a rejeitar o computador. O que é
necessário é confrontar os desafios que a tecnologia nos coloca com sabedoria e grande cuidado. No
prefácio a seu livro reflexivo "The Whale and the Reactor" (a baleia e o reator), Langdon Winner
escreve: "Estou convencido de que qualquer filosofia da tecnologia digna de ser ouvida terá, algum
dia, que indagar: "Como poderemos limitar a tecnologia moderna de maneira a corresponder à
melhor idéia de quem somos e do tipo de mundo que queremos construir?'". Infelizmente, nossas
escolas formulam a pergunta inversa: "Como podemos limitar os seres humanos para corresponder à
melhor utilização de que nossa tecnologia é capaz e ao tipo de mundo que ela vai criar?". Em
consequência disso, nossos filhos muito provavelmente vão levar adiante esse processo de alienação,
numa tentativa vã de preencher materialmente vidas prejudicadas pelo vazio interno. Não devemos
nos surpreender quando eles "resolvem" problemas pessoais e sociais voltando-se às drogas, às
armas, aos blogs repletos de expressões de ódio e a outras "ferramentas" poderosas em lugar de
procurar força e apoio em seu interior ou nas outras pessoas da comunidade. Afinal, isso é
exatamente o que nós os ensinamos a fazer. Existe um paradoxo no cerne da relação entre criança e
tecnologia: o de que, quando maior o poder externo que a criança tem à sua disposição, mais difícil
será para ela desenvolver a capacidade interna de utilizar esse poder com sabedoria. Quando
educadores, pais e responsáveis políticos compreenderem esse fenômeno, talvez a educação comece
a enfatizar o desenvolvimento de seres humanos que vivem em comunidades, e não apenas o
virtuosismo técnico.

Tradução de Clara Allain

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