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C a p ítu lo XVI

0 “ S U P E R O R G Â N IC O ” *
A . L. K roeber

N. R. Tendo sido êste estudo publicado pela


primeira vez há trinta anos, o Professor Kroeber
queria acrescentar aqui o seguinte prefácio, qúe
escreveu especialmente para a presente edição:

. Trinta anos depois de publicado pela primeira


vez, êste ensflio se assemelha, a uma declaração ir­
restrita de independência quanto a dgmmãnçia. da
QxpllfíQÇão Miológiça. Até que ponto a declaração
resultou de uma necessidade daquela época, eu di­
ficilmente posso julgar; de qualquer maneira, essa
libertação parece agora - ter sido realizada com su­
cesso. Se existem atualmente alegações contra a au­
tonomia da explicação cultural, elas ressurgiram por
parte, da Psicologia.
Duas reservas são necessárias nestes meados do
século X X . Em primeiro lugar, sociedade e cultu­
ra já não podem ser fundidas como_ constituindo o
"social”, mas tem de ser formalmente distinguidàs.
As formigas e as térmitas possuem sociedades, mas
não culturas. O homem é o único animal que pos­
sui tanto a, sociedade como a cultura, em inter-rela-
çõès consistentes, embora sejam elas conceptualmen-
te diferenciáveis. .. . .... .....

(* ) “ The Superorganic” , de A. L. Kroeber, revisão publicada em


1927 por The Sociological Press, do artigo original publicado em
American Anthropologist, Vol. XIX, Nó. 2 (abril-junho de 1917). Tra­
duzido por Asdrubal Mendes Gonçalves e publicado aqui com a per­
missão, gentilmente concedida, do autor e de Sociological Press.
232 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

Em segundo lugar, eu retiraria, como afirma-


ção desenecessária e injustificável, as referências —
no ultimo paragrafo e no décimo e no sexto a partir
do último -— a “ substâncias”, “ materiais” ou “ te­
cidos orgânicos, sociais e c u l t u r a i s E ’ certamen­
te necessário considerar estas diferentes, espécies de
fenômenos como sendo de diferentes ordens, a serem
tratadas em niveis separados de compreensão. E’
êste fato mais geralmente aceito hoje do que há trin­
ta ano? atráz. Mas isto não constitui razão para que
se atribuam, metafísicamente, aos diferentes niveis
■ de fenômenos ou ordens de atributos, realidade, ou
certa espécie de substância.
A concepção de que cultura “ não é ação men­
tal, mas sim um corpo ou corrente 4e produtos do
exercício mental, pode ser contestável — além da
sua fraseologia um tanto antiquada — e está sendo
ainda hoje debatida. Parece, que não chegamos
ainda a uma definição concisa, clara, ampla, e deli­
mitada de “ cultura*’.
Reconheço que o ensaio é um tanto retórico.
■ Espero que isto me seja perdoado — como o foi no
passado — pois isto é uma conseqüência de ardor
das realizações que me pareceriam importantes.
"j • Berkeley, Califórnia

■ Janeiro de 1947
Tem sido .modo’ de pensamento característico de
civilização o cidental uma formulaçãp. de, antíteses complemèii-
tares, um equilíbrio ,de contrários ..que se excJiiem. Um dês-
ses pares de idéias com que o nos3o inundo vem lidandp liá
cerca de dois mil anos se exprime nas palavras corpo e alma.
Outro par que já teve a sua utilidade; mas de que a ciência
está agora muitas vezes se esforçando por descartar-se, pelo
menos em certos aspectos, é a distinção entre o físico e o men­
tal. Há uma terceira-discriminação..que é entre o vital e o
sQcial. ou, p.or' outras palavras, entre o orgânico e. o cultural.
O reconhecimento "implícito da diferença entre qualida­
des e processos orgânicos e qualidades e processos sociais
vem de-longa data. Contudo, a distinção formal é recente. -
CONCEITOS NO ESTUDO DA OKGANIZAÇÃO SOCIAL 233

De fato pode dizer-se que o pleno alcance da importância da


antítese está apenas raiando sôbre o mundo. Para caçla oca­
sião em que alguma mente humana &epara nitidamente as
fôrças 'orgânicas e sociais, há dezenas de outras vezes em que
se não cogita da diferença entre elas, ou em que ocorre uma
real confusão das duas idéias.
Uma das razões p_ara essa confusão og^rente' do orgâpico
e do 'social é o predomínio, na fase presente da história, do
pensamento, da idéia de..evolução. Essa idéia, uma das mais
antigas, das mais simples e também das mais vagas jamais
concebidas pelo espírito humano, recebeu a sua mais sólida
base e fortalecimento no domínio do orgânico; por outras
palavras, através da ciência biológica. Aparece, também, ao
mesmo tempo, uma evolução, ou crescimento, ou desenvolvi­
mento gradual, em. outros domínios que não os da vida vege­
tal e animal. Temos teorias da evolução estelar ou cósmica,
e é evidente, mesmo para os menos ilustrados, um crescimen­
to ou evolução da civilização. Pela natureza das coisas, pou­
co perigo há em aplicar os princípios darwinianos ou post-
darvvinianos da evolução da vida ao reino dos sóis incandes­
centes e das nebulosas sem vida. Por outro lado, a civiliza­
ção húmana ou progresso, què existe apenas nos membros
vivos da espécie e por via dêles, é externamente tão seme­
lhante à evolução das plantas e animais, que se tornou ine­
vitável se fizessem amplas aplicações dos princípios do desen­
volvimento orgânico aos fatos do cresicimento cultural. Isto,
está claro, é raciocinar por analogia, ou argumentar que, poi*-
que duas coisas se assemelham^entre si num ponto, serão
também semelhantes noutros. Na ausência de conhecimento,
essias suposições se justificam como suposições. Cjontudo,
têm elas muitas vezes por efeito predeterminar a atitude
mental, resultando disso que, quando a evidência começa a
acumúlar-se, o que podia confirmar ou infirmar a suposição
baseada na analogia, essa evidência já não é mais encarada
imparcial e judiciosamente, mas é simplesmente distribuida
e dela se dispõe de tal modo que não interfira com a convic­
ção estabelecida, em que se transformára há muito a conje-
tura provisória original.
Foi isso que aconteceu no campo da evolução orgânica
e da evolução social. Essa distinção entre elas, tão óbvia que
pareceu a épocas anteriores, exceto incidental e indireta-
234 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

mente, banal lugar comum, tem sido em grande parte obscu-


recida, nos últimos cincoenta anos, pela influência que os
pensamentos ligados à idéia da evolução orgânica tiveram
sôbre os espíritos da época. Parece mesmo razoável dizer
que essa confusão foi maior e mais geral enti*e aqueles para
quem o estudo e o trabalho científico são tarefa ,cotidiana
do que para o resto do mundo. -
E, no entanto, muitoa aspectos: da diferença, entre o orgâ-
Q Í Ç í U - S - ^ - . n a . _ _ y i d a _ H u m i S ã A . J ^ g § D Í ç o , são tão
simples que uma criança pode apanhá-los, e que todos os
sêres humanos,., inclusive os mais autênticos selvagens, em­
pregam constantemente a distinção. Todos sabem que nasce­
mos com certos poderes è adquirimos outros. Não é preciso
argumentar para provar que algumas coisas de nossas vidas
e iconstituiçao provêm da natureza pela hereditariedade, e
que outras coisas nos'chegam> através de outros agentes com
os quais a hereditariedade nada tem que vêr. Não apareceu
ainda ninguém que afirmasse ter um ser humano nascido com
o conhecimento inerente da táboa da multiplicação, nem, por
outro lado que duvidasse de que os filhos de tim negro nas­
cem negros pela atuação de forças hereditárias. Contudo, cer­
tas qualidades de todo indivíduo são claramente sujeitas a de­
bate, e quando se compara o desenvolvimento da civilização
como um todo com a evolução da vida como um todo, a dis­
tinção dos processos envolvidos apresenta muitas vezes falhas.
Refere-se correntemente que, faz alguns milhões de anos,
a seleção natural ou algum outro agente evolucionário fez
pela primeira vez surgirem os pássaros no mundo. Êles se
originaram dos reptis. As condições eram tais que toma­
vam ardua a luta pela existência sôbre a terra, ao passo que
no ar havia segurança e espaço. Gradualmente, quer seja
por uma série de graduações quase imperceptíveis, através
de uma longa linha de gerações sucessivas, quer por saltos
mais marcados e súbitos num período mais curto, evolveu-
se o grupo, de pássaros, de(seus ancestrais reptis. Nêsse de­
senvolvimento, adquiriram-se penas e perderam-se escamas;
a faculdade de agarrar das pernas fronteiras converteu-se na
capacidade de manter o corpo no ar. Cederam-se as van­
tagens da resistência possuidas por uma organização' de san­
gue frio em troca da compensação equivalente ou maior, cons-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 235

tituida pela atividade superior qu,e acompanha o sangue


quente. O resultado líquido- dêsse ícapítulo da história
evolucionária foi que um novo poder, o da locomoção aérea,
se acrescentou ao total das faculdades possuidas pelo mais
alto grupo de animais, os vertebrados. Contudo, os animais
Vertebrados em conjunto não foram afetados. A maioria
dêles não tem o poder de voar, como o não tinham os seus
ancestrais de há milhões de anos. Os pássaros, por sua. vez,
haviam perdido certas faculdades que outrora possuiam, e
que presumivelmente possuiriam ainda, se não tivessem adqui­
rido as asas.
Não faz muitos anos que os sêres humanos atingiranbi
também ao poder da locomoção aérea. Mas o processo pelo
qual êss-e poder foi alcançado, e os seus efeitos sôbre a espé­
cie, são icompletamente diferentes daqueles que caracteriza­
ram a aquisição, pelos primeiros pássaros, da faculdade de
voar. Nossos meios de voar são exteriores aos nossos corpos.
O pássaro nasce com um par de asas; nós inventámos o aero-
plano. O pássaro renunciou a um par potencial de mãos para
obter as suas asas; nós, porque a nossa nova faculdade não é
parte de nossa constituição congênita, conservamos todos os
órgãos e capacidades de nossos antepassados, acrescentando-
lhes a nova capacidade. O processodo desenvolvimento.da
.civilização ..é claramente acümulativo:... cónser.va-§ç ^ff^antigo,
apesar da aquisição dQuioy o . Na evolução orgânica, a intro­
dução de novos traços só é geralmente possível mediante a
perda ou a modificação de orgãos ou faculdades existentes.
Em suma, O crescimento de novas espécies de animais
processa-se através de mudanças na sua constituição orgânica,
e de fato nelas consiste. Por outro lado, no que respeita ao
crescimento da civilização, io exemplo citado é suficiente para
mostrar que a mudança e o progresso podem efetuar-se
por meio de uma invenção sem qualquer alteração constitu­
cional da espécie humana.
Há uma outra maneira de encarar essa diferença. E’
iclaro que quando surge uma nova espécie, ela resulta intei­
ramente do- indivíduo ou indivíduos que pela primeira vez
mostraram os traços particulares que a distinguem. Quando
dizemos que ela deriva dêsses indivíduos, significamos, lite­
ralmente, que dêles descende. Por outras palavras, a espécie
236 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

compõe-se somente desses indivíduos que contêm o “ sangue”


—h o plasma germinativo — de determinados ancestrais.
A hereditariedade é, assim, o meio indispensável de trans­
missão. Quando, todavia, se faz uma invenção, tôda a raça
humana é capaz de aproveitá-la. Pessoas que não têm o mais
leve parentesco consanguíneo com oe primeiros projetàdores
de aer*oplanos, podem voar e estão voando hoje em dia.
Mais de um pai usou, desfrutou e aproveitou a invenção do
filho. Na evolução dos animais, o descendente pode valer-se
da herança a ele transmitida de seus ancestrais e pode elevar-
se a maiores poderes e mais perfeito desenvolvimento; mas_,p
ancestral é, pela própria natureza das coisas, impedido, de va-
p lçr-se de seu descendente. Em sruna, a evolução orgânica está
j essencial e inevitavelmente ligada aos processos hereditários;
^ por outro lado, a evolução aocialjque caracteriza. ,.o -^progresso
] d» civilização não está, ou nãò está necessariamente, liga tia
I aos ^gentes hereditários. .
^ A baleia não é só um mamífero de sangue quente, mas
é reconhecida como o descendente remoto de animais terres­
tres carnívoros. Em alguns milhões de anos, conforme se cora*
putam usualmente essas genealogias, êsse animal perdeu suas
pernas para correr, suas garras para segurar e dilacerar, seu
pêlo original e as orelhas externas que, no mínimo, nenhuma
utilidade teriam na água, e adquiriu nadadeiras è cauda, um
corpo cilíndrido, uma camada de banha e a faculdade de
reter a respiração. Muita coisa perdeu a espécie, mais, talvez,
em conjunto, de que ganhou. É certo que algumas de suaa
partes degeneraram. Mas houve um novo poder que ela
adquiriu: o de percorrer indefinidamente o oceano. .
Encontramos o paralelo e também o contraste na aqui­
sição humana da mesma faculdade. Não transformamos, por
alteração gradual de pai a filho, no&sos braços em nadadeiras
e n ã o adquirimos uma cauda. Nem precisamos absoluta­
mente entrar na água para navegar. 'Construimos um barco.
E isto quer dizer que preservamos intatos nossos corpos e
facilidades de nascimento, inalterados com relação aos1 de
nossos pais e dos mais remotòs ancestrais. Os nossos meios
de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento
natural. Nós os fazemos e utilizamos, ao passo que a baleia
original teve de transfôrmar-se ela mesma em barco. Foram-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL . 237

lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição


atual. Todos os indivíduos que não lograram conformar-se
ao tipo não deixaram descendente algum, ou nenhum que
esteja no sangue das baleias de nossos dias. :
Podemos, do mesmo modo, ccgnparar os sêres hiimanõs e
animais quando grupos dêles passam a viver num ambiente
ártico, oii quando o clima da região em que se estabeleceu
a raça se torna, a pouco^ e pouco, cada vez mais frio.
Os mamiferos não humanos adquirem então um pêlo denaò.
O urso polar é peludo; o seu parente de Sumatra, sem pêlo.
A lebre ártica é revestida de uma pele macia; já o jack-rabbit
norte-americano não tem quase pêlo e é cheio de falhas.
As boas peles provêm do extremo norte e perdem a sua opu­
lência, qualidade e valor qiiando são extraídas de animais
da mesma espécie que habitam regiões de mais ameno clim a.
E essa diferença é racial, não individual. O coelho pere­
ceria lepidamente ao terminar o verão na Groelândia; o urso
polar engaiolado sofre com o calor moderado, dentro da pele
ma&siça de que o revestiu a natureza.
Ora, há pessoas que procuram a mesma espécie de pecu­
liaridades ( inaTâs no esquimó e no eib eríano_ árticosr js ja s
acham po^gue as procuram. Ninguém pode asseverar que o
iesquimó é peludo; de fato,somos mais peludos que êle. Mas
afirma-se que êle ó protegido pela gordura, como a foca co­
berta de banha que lhe serve de alimento; e que devora gran­
de quantidade de carne e óleo porque dêles necessita. Resta
a ser averiguada a verdadeira quantidade de banha, com­
parada com a de outros sêres humanos. Ele tem provàvel-
mente mais que o europeu, mas não mais que o samoaiio e o
havaiano puros normais dos trópicos. E quanto à sma dieta,
se ela consiste em foca, e só foca, durante todo o inverno, não
é por úma necessidade congênita do seu estômago, mas, por­
que ele não sabe como obter qualquer, outra coisa. O mineiro
do Alaska e o explorador ártico e antártico, não se abarro­
tam dé banha. Farinha de trigo, ovos, café, açucar, batatas,
legumes em conserva — o que quer que permitam as exigên­
cias do ofício e o custo do> transporte — compÕem-lhes a
alimentação. 0 . esquimó está sempre pronto a acompanhá-
los, e tanto êle com {^04 outros, ptodem fortalecer-se com uma
ou outra dieta.
238 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

De fato, o que faz o habitante humano de latitudes in­


clementes, não é desenvolver um sistema digestivo peculiar*
nem tão pouco adquirir pelo. Ele muda o seu ambiénte é
pode assim conservar inalterado, o seu çòrpo original. Cons-
troi uma casa fechada, qué ó protege contra o vento e lhe
permite conservar o calor" do icorpo. Faz uma fogueira ou
acende uma lâmpada, Esfola uma foca ou um caribú, ex-
traíndo-lhe a pele com que a seleção natural, ou outros pro­
cessos de evolução orgânica, dotou êsses animais; sua mulher
faz-lhe uma camisa e calças, sapatos e .luvas, ou duas peças
de cada um; êle os usa, e dentro de alguns anos, ou dias, está
provido da proteção que o urso polar e a lebre ártica, a
zibelina e o tetraz, levam longos periodos a adquirir. Demais,
o seu filho e o filho de seu filho, e seu centésimo descen­
dente, nasiceram tão nús e fisicamente tão desarmados como
êle e o seu centésimo ancestral,
Não é necessário afirmar* que essa diferença no método
de resistir a um ambiente d ifíc il'" seguido respectivamente
pela espécie do urso polar e pela raça humana 'é&qpiimó, é
absoluta. Essa dperença é incontestàvelmente profunda."
Este ensaio ..tem por objeto estabelecer que ela é tão impor­
tante quão tem sido muitas vezes negligenciada.
E’ costume antigo dizer-se que a diferénça é a que existe
e n t r e . i ç . q u e os animais têm o físico adapta­
do às suas. circunstâncias, mas que a inteligência superior
do homem habilita-o a elevar-se acima dessas necessidades
mesquinhas.,Mas não é êsse o ponto mais importante da dife­
rença. E’ verdade que sem as faculdades mentais muito maio­
res do homem, não podia êle conseguir aquilo cuja.falta man­
tem o animal acorrentado às limitações de sua anatomia. Mas
a maior inteligência humana em si não causa a diferença exis­
tente. Essa superioridade psíquica constitui apenas a con­
dição indispensável do que é peculiarmente humano: a civi­
lização. DiretaméjQtCi é a^ civilízaçãb em que é criado todo
esquimó, todo mineiro do Alaska ou explorador ártico _e
nenhuma outra faculdade inata maior, qtie o conduz â cons­
truir casas, fazer fogueiras e 'usar agasalho. A distinção im­
portante entre o animal e o homem nao)é a que existe entre
o físico o mental, qpae é.uma diferença de grau relativo, mas.
a entre o còrgâniçó~je o social, que. é de qualidajie;, 0 animal
tem mentalidade, e nós temos corpos; jnas o ^oi^em te*** $g>
civilização o que nenhum animal possxíi. . ■ - ■
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 239

Que essa distinção é realmente alguma coisa mais que a


do físico e o mental, ressalta 'de um exemplo que pode ser
escolhido no campo não corporal: a linguagem.
Superficialmente, a linguagem humana e á animal, apesar
da im*ensamente maior riqueza e complexidade da primeira,
são muito parecidas. Amhas exprimem emoções, possivel­
mente idéias, em sons formados por orgãos corporais e com­
preendidos pelo indivíduo que escuta. Mas a diferença en­
tre a chamada linguagem dos animais e a dos homens é infi­
nitamente grande, como o demonstrará uma ilustração fami­
liar.
Um cachorrinho recem-nascido é criado cOm uma ninhada
de gatinhos por uma gata. Contrariamente às anedotas fami­
liares e aos tópicos de jornais, o cachorrinho latirá e rosnará,
não miará. Ele nesn mesmo experimentará miar. A pri­
meira vez que se lhe pisar na pata êle ganirá e não guinchará,
tão certo como, quando ficar enfurecido, morderá, como o
faria a sua mãe desconhecida, e nunca procurará arranhar,
tal como viu a sua mãe adotiva fazer. Um longo retiro pode
privá-lo da vista, do som ou do icheiro de outro cão. Mas
se acontecer chegar-lhe aos ouvidos um latido ou ganido, ei-lo
todo atento — mais do que a qualquer som emitido pelos
gatinhos seus companheiros. Que se repita o latido, e então
o interesse- dará lugar à excitação, e êle latirá também, tão
certo como, posto em contato com uma cadela, manifestar-
se-ão nêle os impulsos sexuais da sua espécie. Não pode
haver dúvida de que a linguagem canina constitui, de modo
inextirpável, parte da natureza do ícachorro, tão plenamente
nela contida sem treino ou cultura, quanto fazendo inteira­
mente parte do organismo canino, como os dentes, pés, estô­
mago, movimentos oü instintos. Nenhum grau de contato
com os gatos, ou privação' de as30.ciaçã0 com a sua própria
espécie, fará com que o cão aprenda a linguagem do gato,
ou perca a sua, nem tão pouco o fará enrolar o rabo em
vez de abaná-lo? esfregar os flancos no seu dono ao invés de
saltar nêle, ou adquirir bigodes è levar as orelhas erectas.
Tomemos um bebê franõês, nascido na França de país
franceses, descendentes êstes, através de numerosas gerações,
de ancestrais que falavam francês. Confiemos êsse bebê,
imediatamente depois de nascer, a uma pagem muda, com
instruções para que não permita que ninguém fale com a
240 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

criança ou mesmò a veja durante a viagem que a levará


pelo caminho mais direto,^ ao interior da China. Lá che­
gando, entrega ela o bebê a um casal de chineses, que ò ado­
tam legalmente, e o criam como seu próprio filho. Suponha­
mos agora ique se .passem três ou dez ou trinta anos. Será
necessário debater sôbre que lingua falará o jovem oii adul­
to francês? Nem uma só palavra de francês, mas o puro chi­
nês, sem um vestigio de sotaque, e com a fluência chinesa,
e nada mais.
E’ verdade que há a ilusão comum, freqüente mesmo
entre pessoas educadas, de que alguma influência oculta de
seus ancestrais de lingua francesa sobreviverá no jovem, chi­
nês adotado: que bastará mandá-lo à França com um punhado
de verdadeiros chineses, para que êle adquira a língua ma­
terna com apreciàvelmente maior facilidade, fluência, corre­
ção e naturalidade que os seus companheiros mongólicos.
Contudo, se uma crença é comum, tanto se torna susceptível
de ser rotulada de superstição comum como de verdade co­
mum. E um biólogo razoável, por outras palavras, um perito
qualificado para falar de hereditariedade, se pronunciará sô­
bre êsse problema de hereditariedade com eBta palavra: su­
perstição. Poderia êle apenas escolher uma expressão mais
polida.
Ora, há nisso algo de profundo. Nenhuma dose de convi­
vência com os chineses transformaria em olhos pretos os olhos
azuis de nosso jovem francês ou os tornaria oblíquos, ou lhe
achataria o nariz, ou lhe tornaria áspero ou duro o cabelo
ondeado, de secção oval; no entanto, a sua linguagem é total­
mente a dos seus associados, e não a de seus parentes consan-
guíneos. Os olhos, o nariz, o cabelo — todos êsses. traços lhe
advêm por hereditariedade; sua linguagem não é.hereditaria,
do mesmo modo que não o são o comprimento que êle permite
atinja o seu cabelo, ou o orifício que, de conformidade com a
moda, pode êle ou nêfo mandar fazer nas orelhas. Não impor­
ta muito que a.linguagem seja mental e as proporções faciais
sejam físicas; a distinção que tem sentido e alcance é que a
linguagem humana é social e não-hereditária; a côr dos olhos
ev a forma do nariz,Jiereditárias e orgânicas. Pelo mesmo cri­
tério, a linguagem do,^ão,-e tudo a que.se chama vagamente
de linguagem dos animaf^pertenoe ;à mesma iclasse. que çs
CONCEITOS NO EáfcUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 241

narizes dos homens, as proporções de seus ossos, a côr de sua


pele e a obliquidade de seus olhos, e não à mesma classe que
o idioma humano* É herdada, e portanto orgânica. Segun­
do o padrão humano, não constitui ela em realidade abso­
lutamente uma linguagem, exceto- pela espécie de metáfora
que fala da linguagem das flores.
É verdade que se poderia de vez em quando encontrar
uma criança francesa que, nas condições da experiência men­
cionada, aprendesse o (chinês mais devagar, menos idioma­
ticamente, e com menor poder de expressão que o chinês mé­
dio. Mas haveria também crianças francesas, e tão nume­
rosas, que aprenderiam a língua chinesa mais rapidamente,
com mais fluência, com mais rico poder de revelar suas emo­
ções e definir suas idéias, do que o chinês normal. Trata-se,
porém, de diferenças individuais, que seria absurdo negar,
mas que não afetam a média, e são sem importância. Pode
um inglês falar melhor a lingua inglesa que outro, e pode êle
também por precocidade aprendê-la muito mais cedo-; mas
nem por isso deixam um e outro de falar a mesma língua
^glêsa.
Há uma forma de expressa» animal sobre a qual se tem
alegado ás vezes ser a influêiicia da associação maior que a
da hereditariedade. É o canto dos pássaros. Há bastante
divergência de opinião e, ao que parece, de evidência, nêsse
ponto. Muitos pássaros têm mu forte impulso inerente para
imitar tos sons. Ê fato, também, que o canto de um indiví­
duo estimula'O outro, o que acontece com os cães, lobos, ga­
tos, sapos e a maioria dos animai* bulhentos. Pode prova­
velmente admitir-se que, em certas espécies de pássaros íca-
pazes de modular um canto complexo, não alcançarão mui­
tas vezes o pleiio desenvolvimento vocal os indivíduos cria­
dos na impossibilidade de ouvirem cantar os seus semelhan­
tes. Mas parece claro qu-e tôda espécie tem um canto oú
chamada que lhe é peculiar; que todo membro normal do
sexo cantador pode atingir êsse mínimo sem associação, logo
qüe sejam adequadas as condições de idade, nutrição e calor
e se apresente o estímulo necessário, a saber, o ruído, ou o
silêncio ou o desenvolvimento sexual. 0 fato de ter havido
sério conflito de opinião a respeito da natureza -do canto dos
pássaros deve atribuir-se, em última análise, principalmente
ao pronunciamento, sôbré matéria, daquêles que vêem nos
242 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

animais os seus propnos estsdos c atividades 'mentais


falácia comum icontra a qual todo estudante de Biologia é
agora cuidadosamente treinado desde o início da carreira.
Como quer que seja, quanto a saber se um pássaro “ aprende”
ou “ não aprende” , até certo grau, de outro, não há nenhum
elemento de prova de que o canto dos pássaros seja uma tra­
dição, de que, como a linguagem ou a música humanas, êle
se acumule e desenvolva de épopa para época, que se altere
inevitávelmente de geração para geração pela moda ou o cos­
tume, e qúe lhe seja impossível permanecer sempre o mes­
mo, por outras palavras, que seja uma coisa social ou devida
a um processo mesmo remotamente afim àqueles que afetam
os constituintes da civilização humana.
É também verdade que há na vida humana uma série
de expressões vocais que são do tipo dos gritos de animais.
Um homem que sofre geme sem intuito de comunicação. O
som é literalmente forçado a sair dêlç. Uma pessoa possuída
de pânico pode soltar gritos. . SabemOs que o seu grito é
involuntário, que é o a que o fisiologista chama de ato re­
flexo. 0 verdadeiro grito pode tão bem escapar à vítima
imobilizada na via férirea à frente do trem sem maquinista
que se aproxima, como a quem é perseguido por inimigos
que pensam e planeiam. 0 lenhador esmagado sob uma
roícha à distância de setenta quilômetros do mais próximo ser
humano gemerá do mesmo modo que o citadino vitima de
atropelamento, o qual cercado de uma multidão, espera a
ambulância. Esses gritos pertencem â mesma categoria que
os dos animais. Com efeito, para compreender realmente.a
“ linguagem” . dos animais, precisamos imaginar e$tarmos
numa situação em que as nossas expressões vocais se restrin­
gissem totalmente a esses gritos instintivos, “ inarticulados” ,
tais como são em geral, ainda que muitas vezes erradamente,
designados. ,3^um .sentido e x a t o ,;n ã p 4 Constituem êles abso­
lutamente a linguagem.
É essa precisamente a questão. Temos indubitàvelmen-
te certas manifestações vocais, certas faculdades e hábitos de
produzir sons, que correspondem em verdade aos dos ani­
mais, e temos também alguma coisa mais que é completa­
mente diferente e não tem paralelo entre os animais. É
fatuidade negar que algo de puramente animal está à base
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 243

da linguagem humana; mas seria igualmente estreiteza crêr


que, porque nossa linguagem tem base animal, .e se, origina,
dessa base, nada mais é , . portanto, que a mentalidade e as
expressões vocais dos... animais .grandemente, ..ampliadas,
Pode uma casa ser construída sôbre um rochedo e talvez: fos­
se impossível erigí-la sem essa base; mas ninguém afirma*,
rá que a casa nada mais é, por \Conseguinte, que a pedra me­
lhorada e dignificada. •
Em realidade, pequeno é o elemento puramente animal
contido na linguagem humana. Além do riso e do grito, ra­
ramente se exprime ele. Os filologos negam às nossas inter­
jeições a qualidade de verdadeira linguagem, ou quando mui­
to o admitem em parte. Efetivamente, elas diferem das pa­
lavras completas por isso que não- são emitidas geralmente
para veicular, nem para ocultar um sentido. Mas mesmo
essas partículas são modeladas e ditadas pela moda, pelo cos­
tume, pelo tipo de civilização a que pertencemos, em suma,
por elementos sociais e não por elementos orgânicos. Quan­
do, batendo o martelo, magôo o meu polègàr em vez de atin­
gir a cabeça do prego, pode escapar-me um “ diabo” involun­
tário tão facilmente —■talvez mais facilmente —- se eu esti­
ver sòzinho em casa como se tivèr companheiros de um lado
e de outro. Até aí, não preenche a exclamação a finalidade
da linguagem, e não é linguagem. Mas o espanhol dirá “ ca-,
ramba” e não “ diabo” , e o francês, o alemão, o chinês se ser­
virão de expresÕes ainda diferentes. 0 americano dó Norte
diz outch quando ferido. Outras nacionalidades não com­
preendem essa sílaba. Cada povo tem o seu som próprio;
alguns povos têm mesmo dois, um usado pelos homens e o
outro pelas mulheres. O chinês compreenderá uma risada,
um gemido, o choro de uma criança, tão bem como o com­
preendemos, e tão bem .como um cachorro compreende a ros-
nadura de outro cachorro. Mas precisa êle .aprender o signi­
ficado de outch para compreendê-lo. Por outro lado, ne­
nhum cão emitiu jamais üma nova rosnadura, ininteligível
aos outros cães, em resultado de se tér criado num meio dife­
rente. Assim, mesmo êsse elemento inferior da linguagem
humana, .esse, meio-falar involuntário -de exclamações, è por­
tanto
. . . . . .
joiodeládo
• ... ■-
,'pelas

influências
••
sociaip. ..., .... ‘
244 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

Heródoto conta-nos que ura rei egípcio, desejando verifi­


car qual a lingua-mater da humanidade, ordenou que algumas
crianças fossem criadas isoladas da sua espécie, tendo somen­
te cabras como companheiros e para o seu sustento. Quan«
do as crianças, já crescidas, foram de novo visitadas, gritaram
a palavra bekos, ou, mais provavelmente,, bek, suprimindo-se
o final, que o grego padronizador e sensível não pódia tple-
rar que se omitisse. 0 rei mandou então emissários a todos
os países a fim de saber em que terra tinha esse vocábulo al­
guma significação. Êle verificou que no idioma frígio isso
significava pão, e, supondo que as crianças estivessem recla­
mando alimento, concluiu que usavam o frígio para falar a
sua linguagem humana “ natural” , e que essa língua devia
ser, portanto, a língua original da humanidade. A crença
do rei numa língua humana inerente e congênita, que só òs
cegos acidentes temporais tinham decomposto numa multidão
de idiomas, pode parecer simples; mas, ingênua como é, a in­
quirição revelaria >que multidões de gentfe civilizada ainda
a ela aderem.
Contudo, não é essa a nossa moral da história. Ela está
no fato de que a única palavra, bek, atribuida às crianças,
constitui a apenas, se a história tem qualquer autenticidade,
um reflexo ou imitação — como o conjeturaram ha muito os
comentadores de Herodoto — do grito das cabras, que foram
as línicas companheiras e instrutoras das crianças. Em suma,
se for permitido deduzir qualquer inferência de tão apócrifa
anedota, o que ela prova é que não há nenhuma língua hu­
mana natural e, portanto, nenhuma língua h u m a n a orgânica.
Milhares de anos depois, outro soberano, o imperador
mongol Akbar, repetiu a experiência com o propósito de ave­
riguar qual a religião 44natural” da humanidade. 0 seu ban­
do de crianças foi encerrado numa casa. Quando, decorrido
o tempo necessário, se abriram as portas na presença do im­
perador expectante e esclarecido, foi grande o seu desaponta­
mento: as crianças sairam tão silenciosas como se fossem sur*
das-mudas. Contudo, a fé custa a morrer; e podemos suspei­
tar que será precisa uma terceira texperiência, em condições
modernas escolhidas e controladas, para satisfazer alguns cien*
tistas naturais e convencê-los de que a linguagem, para. o.indi­
v í d u o humano como para a raça humana, é uma coisa inteira-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 245

mente adquirida e não hereditária, completamente externa


e não interna — um produto social e não um crescimento or­
gânico. ' ....... *
A linguagem hiimanajs.a animal, se bem que uma se origi­
n e da outra, são, pois, na natureza, de ordem diferente."" "Elas
se assemelham apenas como o vôo de um pássaro se assemelha
ao de um aeronauta. Que a analogia entre elas tenha fre­
quentemente induzido em erro, isso prova apenas a candura
do espírito humano. Os processos operativos são completa­
mente diferentes; e isto, para aquêie que deseja"cdmprèénüer,
é touitò rüais importante que à semelhança de eféitÒV 0 sel­
vagem e o campônio que curam limpando a fáca e sem cuidar
da ferida, observaram certos fatos incontestáveis. Sabem
que a limpesa coadjuva a cura, que a sujice em geral a im­
pede. Têm a faca como a causa, a ferida como o efeito, e
apreendem, também, o princípio correto de que o tratamen­
to da causa é em geral mais susceptível de ser eficiente do que
o tratamento do sintoma. 0 único erro dêles é não investigar
o processo que póde estar envolvido. Nada conhecendo da
natureza da sepsia, das bgctérias, dos agentes de putrefação e
retardamento da cura, recorrem êles a agentes que lhes são
mais familiares, e usam, o melhor que podem, o processo Ha
mágica entrosado com o da medicina. Limpam cuidadosamen­
te a faca, âzeitam-na e conservam-na brilhante. Os fatos em
que se baseiam são corretos, sua lógica é bastante boa; apenas
não distinguem entre dois processos irreconciliáveis — o da
magia e o da química fisiológica — e aplicam um em lugar do
outro. 0 estudioso de hoje, que vê o espírito dos homens, mo­
delado pela civilização, na mentalidade de um cão ou macaco,
ou que procura explicar a civilização, isto é, a história, pelos
fatores orgânicos, comete um êrro que é menos antiquado e
mais na moda, mas da mesma espécie e natureza.
A diferença entre o homem e o animal é apenas em pe­
queno gráu uma questão de mais e de menos. Muitas ativi­
dades puramente instintivas dos animais conduzem a reali­
zações muito mais complexas e difíceis do que alguns dos
costumes análogos desta oú daquela nação humana, 0 cas­
tor é melhor arquiteto que muita tribo selvagem. Êle abate
maiores árvores, arrasta-as a maior distância, constrói uma
casa mais fechada, fabrica-a quer acima quer abaixo da água,~
e faz o que muitas nações nunca tentaram fazer; provê êlé

16
246 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

uma topografia adequada para o seu habitat, erigindo um di­


que. Mas o ponto essencial não é, afinal de contas, que um
homem possa fazer mais que um castor, ou que um castor pos­
sa fazer tanto como um liomem; é que o que o castor realiza o
faz por um meio, e o homem por outro . 0 mais rude selvagem,
capaz quando muito de construir uma cabana varejada pelo
vento, pode aprender, e inúmeras vezes se lhe tem ensinado,
a serrar tábuas e pregá-las juntas, a ligar pedras por meio de
cimènto, a fazer alicerces, a erigir uma estrutura de aço.
Tôda a história humana trata principalmente dessas mudan­
ças. Que eram os nossos próprios ancestrais, de nós outros,
europeus e americanos, que fazemòs construções de aço, senão
os selvagens que viviam em toscas cabanas há alguns milha­
res de anos — periodo tão curto que é apenas suficiente para
a formação de uma nova espécie ocasional de organismo? E,
por outro' lado, quem se aventuraria a afirmar que dez mil
gerações de exemplo e instrução poderiam transformar o cas­
tor dò que é num . carpinteiro ou pedreiro, ou, levando em
conta a deficiência física que ]he advem da falta de mãos,
num engenheiro projetista? ,
Não se poderá talvez apreender plenamente a divergência
entre as fôi*ças sociais e orgânicias enquanto, não se compreen­
der inteiramente a mentalidade dos chamados insetos sociais,
as abelhas e as formigas. A formiga é. soçial, no sentido de
associar-se, mas tão longe está de ser social no sentido de.pos­
suir civilização, de ser influenciada por forças não. orgânicas,
que seria mais exato designá-la..como o ardmal anti-social.
Os maravilhosos poderes da formiga não podem ser subesti­
mados. Não há ninguém a quem a plena exploração da com­
preensão deles prestaria maior serviço que o historiador.
Mas êle não usaírá essa compreensão aplicando o conhecimen­
to da mentalidade da formiga ao homem. Utiliza-lo-à para
fortalecer e tomar precisa, por inteligente contraste, a sua con­
cepção dos agentes que amoldam a civilização humana. A
sociedade das formigas é tão pouco uma verdadeira sociedade
no sentido humano, como uma càricatura é um retrato.
Tomem-se uns poucos ovos de formiga dos dois sexos;
ovos frescos, não chocados. Destruam-se todos os indivíduos e
todos os outros ovos da espécie. Dê-se a cada par um pouco
de atenção no que respeita ao calòr, humidade, proteção e ali­
mento. A íntegra da “ sociedade” das formigas, tôdas as ca-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 247

pacidades, poderes, realizações e atividades da espécie, cada


‘•pensamento” que porventura tenha tido, serão reproduzidos
sem diminuição, numa geração. Mas coloquem-se numa ilha
deserta ou numa circunvalação duas ou três centenas de be­
bês humanos do melhor estoque tirados da mais alta classe da
nação mais civilizada; forneça-se-lhes a necessária incubação
e alimento; deixem-se-qs completamente isolados da sua es­
pécie, e que teremos? A civilização da qual foram arreba­
tados? Uma décima parte dela? Não, nenhuma parte, ne­
nhuma fra.ção das? realizações da civilização da mais rude tri­
bo selvagem. Somente um par ou um bando de mudos, sem
artes, sem conhecimentos, sem fogo, sem ordem nem religião.
A civilização desapareceria dentro dêsses limites — não por ,^
desintegração, não por ter sido ferida ho seu íntimo, mas Ses- ^
triiida de uma feita. A hereditariedade preserva para a for*
miga, de geração para geração, tudo que elá tem . Mas a h e - _
reditariedàde nãò mantem, e não inantéve, porque não pôSe
manter, nem uma só partícula da civilização, que é a coisa
especificamente humana. ^
A atividadejgaental dos animais é em -parte instintiva1, em
parte baseada na experiência individual; o conteúdo, peío
menos, dè iíòssás próprias mentes chega-nos através da tradi­
ção, no sentido mais lato da palavra. O instinto é o quê fica
marcado, padrão inalterável inerente às coisas, indelével e
inextinguível, porque o modêlo nada mais é que ó tecido pron­
to e acabado saido do tear da hereditariedade. .
Mas a tradição, o ique é “ transmitido” , passado de um pa- 4
ra outro, é apenas unia mensagem, que deve, é claro, ser veicu*
lada; mas o mensageiro, afinal de contas, é extrínàeco' ão que
ela encerra. Assim, uma carta deve ser escrita, porém,’ como"''' '
sua significação está no sentido das palavras, como o valor
de uma nota não está na fibra do papel mas sim nos caracte­
res inscritos na súa superfície, assim também a tradição é algo
acrescentado aos organismos que a_ carregam, imposto, exte­
rior a êles. EI como a mesma folha pode conter qualquer
uma de milhares de inscrições, da mais diversa fôrça e valor,
e pode mesmo até certo ponto ser raspada e receber novas ins­
crições, o mesmo acontece com o organismo humano e os
incontáveis^ conteúdos què a civilização pode nêle derramar.
A diferenga^essencial entre o animal e o homem, nêste exem-
248 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

pio. não é que o último tenha a mais fina ou a mais puxa


qualidade de material; é que sua estrutura» sua natureza e
sua tessitura são tais que nêle se pode inscrever, e que no ani­
mal não se pode. Química e fisicamente, pouca diferença
há entre um pedaço de polpa e uma folha de papel. Qímica
e fisicamente, não vale a pena perturbar-se com tão insigni­
ficante diferença. Mas, química e fisicamente, é menor a di­
. ferença entre uma nota que têm a marca “ um” e uma que tem
a marca “ mil” ; e áinda menor entre o cheque que leva uma
assinatura honrada e o cheque escrito com a mesma pena, a
mesma tinta, até com os mesmos traços, por um falsário. A
diferença que importa entre o cheque válido è o cheque falsi­
ficado. não é a linha mais larga ou estreita, a curva continua,
em vez de interrompida de uma letra; mas sim a diferença
puramente social entre o signatário que tem um saldo a fa­
vor nò banco e o outro que não tem, fato êsse que é por cer­
to extrínseco' ao papel e mesmo à tinta qúe o cobre.
Exatamente paralela a isso é a relação entre o instintivo
e o tradicíonãl, entoe o orgânico e o social. O animal, no que
respeita às influências sociais, é tão impróprio para material
de escrita come um prato de mingau, ou quando, oomo na
areia da praia, nêle se pode escrever, pela domesticação, não
pode êle reter-nenhuma impressão permanente, como espé­
cie. Daí não ter êle sociedade, nem portanto, história. Con­
tudo, o homem compreeir3e dois aspectos: é uma sustância
orgânica, quê pode ser encarada como substância, e é tam­
bém, uma taboleta sôbre a qual se escreve. . Tão válido e tão
justificável é um aspecto como o outro, mas constitui êrrofiin-
damental confundi-los.
O pedreiro constrói com granito e faz a cobertura com
ardósia. A criança que aprende as suas letras nada conhece
das qualidades da sua ardósia, mas hesita em escrever c ou k.
0 mineralogista não dá precedência a uma das pedras sôbre
a outra; cada qual tem uma constituição, uma estrutura, pro­
priedades e usos. O educador ignora o granito; mas, ainda
que use a ardósia, nem poa* isso lh e dá mais valor, ou nega »
utilidade do outro material; êle toma a sua substância como
a acha. O seu problema é de saber se a criança deve come­
çar com palavras ou' letras; em que idade, em que horário, em
que aequência e em que condições deve principiar a sua alfa-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 249

betização. Resolver essas questões de acordo com a evidên­


cia cristalógica porque seus alunos escrevem sôbre uma va­
riedade de pedra, seria tão frívolo como utilizar o geólogo o
seu conhecimento das rochas para tirar inf erências quantó aos
princípios de pedagogia mais acertados. •
Assim, se o estudioso das realizações humanas devesse ex­
perimentar oretirar da observarão do especialista em história
natural e do filósofo do mecanicismo os sêres humanos sôbre
ps quais se inscreve a civilização que êle próprio investiga, se­
ria êle ridículo. E quando, per outro lado, o biólogo se pro­
põe escrever novamente a história, no todo ou em parte, por
meio da hereditariedade, revela-se êle sob uma luz pouco mais
favorável, embora tivesse a sanção de algum precedente.
Tem havido muitas tentativas para tomar precisa a dis-
tipção entre o instinto e a civilização, entre o orgânico e o so­
cial, entre o ánimal e o homem. 0 homem como ò . animal
que se veste, o animal que usa 0 fogo, o aui^al que iísa e faz
ferramentas, -a animal que fala — são todos predicados mais
ou menos a çro x ^ a á p s.. jV$as para a concepção da. discrimi­
nação que seja. ao., mesma tempo mais completa e mais oon-
densada, precisamos remontar, como para a primeira expres­
são; precisa de tantas das idéias com as quais operamos, ao
espírito sui-generis que impeliu Aristóteles. “ O homem é üm
aminál"'polítio^!. À palavra político mudou de sentido. Ao
invés dela, usamos o têrmo latino, “ social” .. Isto, como nos di­
zem tanto o filósofo como o filólogo, é 0 que diria o grande
grego, se falasse o inglês moderno. O homem é, pois, um ani­
mal s-ocial, iim organismo social. Êle tem constituição orgâ­
nica,mas tem iambém civilização. Tão miope seria quem
ignorasse um dos elementos como quem não visse o outro;
converter um no outro, quando cada um tem a sua realidade,
é negação. Datando essa formulação básica de mais de dois
mil anos, e sendo ela conhecida de tôdas as gerações, há algo
de mesquinho, bém como de obstinadamente demolidor, no es­
forço de anular a distinção, 'ou de impedir a sua mais comple­
ta realização. A tentativa moderna para tratar, o sociaj oomo
orgânico, para compreender a civijização como hereditária,^
tão essencialmente estreita quanto a conhecida tendência me-*
dieval para excluir o homem do reino da natureza e da inves-
252 LEITURAS BE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

por outro lado, o socialista, ou o intemacionalista, de­


clarado e completo, deve tomar a atitude oposta, por antipáti­
ca que lhe possa ela ser pessoalmente, ou renunciar às aspira­
ções que lhe são caras. Por conseguinte, a sua inclinação,
eendo em geral menos claramente definida, nem por isso'
é menos predeterminada e persistente.
Não é de esperar-se a imparcialidade nêsse grande caso,
exceto-, até certo ponto, por parte dos estudiosos realmente
independentes e portanto sem influência; de modo que o
máximo de afirmação e rancor, e o mínimo de evidência,
que prevalecem, devem ser aceitos como na verdade lamen­
táveis, mas como inevitáveis e dificilmente passíveis de‘
censura, '
O problema, que se apresenta insolúvel no estado atual
de nosso conhecimento, também não é realmente susceptível
de debate. Gpntüdo, o que é possível é compreender que
se pode dar uma explicação.. completa e coerente para as
chamadas diferenças ^raciaís^ fundamentando-a em causas pu­
ramente ligadas à civilização e não orgânicas, e chegar tanx-
bém a reconhecer que o simples fato de supor em geral o
inundo que essas diferenças entre um povo è outro èáo ina­
tas é inextirpáveis exceto por via de cruzamento não é prova
de que seja verdadeira a suposição . 1
0 argumento final, de que se podem realmente “vêr”
essas peculiaridades nacionais inatas em cada geração, e que
se torna desnecessário verificar a suposição porque a sua
verdade «alta aos olhos de todos, é <o menos ponderável de
todos. Pertence êle à mesma categoria que a afirmação de
que o nosso planeta é afinal de contas o ponto central fixo
do sistema cósmico porque todos podem vêr por si mesmos
que o sol e as estrelas se movem e que a nossa terra perma­
nece parada. Os campeões da doutrina de Copernico tinham
isto a favor dêles: lidavam com fenômenos aos quais a exa­
tidão era facilmente aplicável, acêrca dos quais se podiam
fazer previsões verificáveis ou'negativas, para os quais ser­
via ou não -uma explicação.^ No., domínio da história , huma­
na não é isso possível, ou não se conseguiu ainda tornar pos­
sível, de modo que não é de esperar-se presentemente igual
nitidez de demonstração, igual rigor de prova, â es-?;ita cor­
respondência da teoria- em relação aos fatos, à exclusão de
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 2 53

todas as teorias rivais. Mas a mudança de ponto de vista


mental e emocional é quase tão íündamental, tão absoluta, é
a modificação- da atitude envolvida quando se apela para o
pensamento .corrente no sentido de encarar...a. „ ciyilizaçã.o ^
como uma coisa não orgânica, como quando a doutrina de
Copernico desafiou a convicção anterior do mundo.
Em todo caso, a maioria dos etnólogos, está convencida
de que a esmagadora massa dos fatos históricos « errada­
mente chamados raciais )ora atribuídos a. obscuras cauTas
orgânicas, o-u ainda sujeitos a debate, serão finalmente por
tódos considerados como sociais e como mais inteligíveis nas
suas_.relaçõe3 _6c>ciais. Seria, dogmati&mo..negar. que possa
haver xim resíduo...em. que ~atqscara as.-influências .hereditá­
rias; mas mesmo esse resídu ode agentes .orgânicos^será tal­
vez reconhecido como atuando, de outras..maneiras que não
as que são habitualmente aduzidas-no .presente.
Pode-se, além disso, manter intransigentemente ,a opi­
nião' de que para o historiador — aquele que deseja com­
preender tôda sorte de fenômenos sociais — se torna hoje
uma necessidade inevitável descurar o orgânico como tal e
icuidar somente do social. Para o maior número dacjjuêles
que não sãouestudiosos profissionais da civilização, seria pro­
pósito de&arrazoado insistir nessas questões, dada a nossa
incapacidade atual para sustentá-las com provas. Por outro
lado, o social como algo distinto- do orgânico, é jconçeito bas­
tante antigo, e é ' fenômeno : bastante evidente para nós na
vida cotidiana, para justificar a pretensão de que não pode
ser completamente abandonado. É talvez demasiado esperar
dè alguem que esteja* deliberada ou inconscientemente, afer-
rado a explicações brgiânicas, que as rejfàla inteiramente
diante de prova tão incompleta como a de que se dispõe paxa s
contestar essas explicações. Mas parece justificável susten- ^
tentar sèm hesitações o postulado de que ã civilização e a he­
reditariedade são duas coisas que operam de formas sepa­
radas; que, portanto, qualquer substituição completa de uma
pela 'outra na explicação dos fenômenos humanos grupais é
êrra crasso ; e que a recusa em reconhecer pelo, menos a..pjos- ■
sibilidade de uma explicação das realizações, humanas to­
talmente diferente da tendência preponderante para..uma
explanação biológica, é um ato de intolerância. Quandtf se
254 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

tiver tomado geral tal reconhecimento da racionalidade des­


sa atitude de espírito, que é diametralmente oposta à. atitu­
de corrente, muito maior progresso ter-se-à alcançado no
sentido' de tim entendimento útil quanto à verdade, do que
por quaisquer das tentativas presentes para ganhar conver­
sos mediante argumentação. ... "
Um dos espíritos dotatjos de mais notável poder de per­
cepção e formulação que qualquer outro da última geração,
Gustave Le Bon, cujo nome se destaca, ainda que a sua co*
ragem serena não lhe tenha trazido senão poucos adeptos
declarados, levou a interpretação do social como orgânico
à sua conseqüência lógica. A sua Psychology of Peoples é
uma tentativa para explicar a civilização com fundamento
na raça. Le Bon é realmente um historiador de sensibili­
dade e perspicácia extraordinariamente agudas. Mas sua
tentativa declarada para converter a documentação relativa
à civilização, cpm que êle lida, diretamente em fatores orgâ­
nicos, leva-o, por um lado, a renunciar às suas hábeis inter­
pretações da história a ponto de subsistirem apenas clarões
intermitentes’, e, por outro lado, a basear as suas soluções
declaradas, em última análise, em essências místicas tais
como a “ alma de uma raça” . Como conceito ou instrumen­
to científico, a alma de uma raça é Jão intan^#èl e . inútil
como uma frase da filosofia medieval, e se emparelha ,oam
a fácil declaração de Le Bon de que o°* indivíduo está para
a raça como a célula está para o corpo. Se, ao invés de
alma da raça, tivesse o ilustre francês dito quer espírito da
civilização, quer tendência ou caráter da cultura, seus pro­
nunciamentos teriam despertada menos interêsse, porque
parecendo mais vagos; mas, não teria êle de apoiar o seu
pensamento numa idéia sobrenatural antagônica ao oorpo
da ciência à qual estava procurando ligar a sita obra, e, se não
fossem mecanísticos, ter-lhe-iam pelo menos os seus esfor­
ços grangeado o respeito dos historiadores.
Na verdade, Le Bon «opera claramente com fenômenos
sociais, por mais que insista em llies dar nomes orgânicos
e proclame que os resolveu organicamente. Biologicamente,
e sob qualquer aspecto, da: ciência que trata da causalidade
mecânica, constitúi ÚÍíkP «firmação' sem sentido dizer que
“não foi o 18 Brumáriò, mas sim a alma de sua raça que es-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 255

tabeleceu Napoleão” , porém torna-se ela excelente história ee


substituirmos “ raça” por “ civilização” , e tomarmos, é claro,
“ alma” num sentido metafórico.
Quando diz que “ o intercruzamento destrói uma civili­
zação antiga” , êle afirma apenas o que muitos biólogos esta-
riam prOntos a sustentar. Quando acrescenta: “ porque des­
trói a alma do povo <.que a possui” , dá úma razão que . deve
provocar no cientista um tremor. Mas, se substituirmos “ in-
tercruzamento” , isto é, a mistura de tipos orgânicos nitida­
mente diferenciados, por “ contato súbito ou conflito de
ideais” , isto é, a mistura de tipos sociais nitidamente diferen­
ciados-, o efeito profundo dêsse acontecimento é incontestável.
Outrossim, afirma Le Bon que o efeito do ambiente é
grande nas raças novas, nas raças formadas mediante o inter­
cruzamento de povos de hereditariedades contrárias, e que nas
raças antigas solidamente estabelecidas pela hereditariedade,
o efeito do ambiente é quase nulo. Ê óbvio que numa civili­
zação antiga e firme, o efeito ativamente transformador do
ambiente geográfico deva ser pequeno porque a civilização
teve, em longo período, de tempo, ampla oportunidade para
utilizar o ambiente de acôrdo com as suas necessidades, mas
que, por outro lado, quando a civilização é nova — quer seja
por ter sido transportada, por ter resultado da fusão de vários
elementos, ou devido simplesmente ao desenvolvimento inter­
no — deva a renovação da relação entre si mesma e a geogra­
fia física ambiente prosseguir em ritmo rápido. Ainda aqui
transformou-se ã boa história em má ciência por uma confusão
que, parece quase deliberadamente errada.
Dis Le Bon que um povo é governado, muito mais pelos
mortos do que pelos vivos. Êle. procura assim .estabelecer a
importância da hereditariedade nas existências nacionaisr 0
que está no fundo do seu pensamento, embora não o reconheça
êle, é a verdade que tôda civilização repousa no passado; que,.
conquanto os seus antigos elementos já não estejam vivos, for­
mam êles não obstante, o seú tronco e o seu corpo, em tom o
do qual a matéria viva de hoje é eòmente uma casca e uma
superfície. Que a educação imposta, coisa formal e conscien­
te, não pode dar a substância de uma nova ou de uma outra
civilização a um povoffTís uma verdade que Le Bon apreendeu
com vigor. Mas quando deduz essa máxima como inferên-
256 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA ÊOCIAL

cia do abismo intransponível que externamente existe entre


as raças, êle baseia um fato óbvio, que nenhuma pessoa de
discernimento jamais contestou, numa asserção mística.
Podia-se quase ter prèvi&td, depois das citações acima,
; que Le B on assentaria o ‘‘caráter” .de suas “ raças” na “ acu­
mulação por hereditariedade”,. Já se mostrou que se .há al­
guma coisa que a hereditariedade não faz, é acumular. Se,
por òutro lado, existe um método pelo quaX.se . possa defi­
nir a civilização como atuando, é precisamente o. da acumula­
ção. Acrescentamos o poder de voar, a compreensão do me­
canismo do aeroplano, a no 3sas realizações e conhecimentos
anteriores. 0 pássaro não o faz, êle trocou suas pernas e de­
dos pelas asas. É talvez verdade que o pássaro constitui
em conjunto, um organismo mais perfeito que o seu ancestral
reptil, qpe êle se adiantou mais na estrada do desenvolvimen­
to. Mas o seu avanço foi alcançado por uma transmutação
de qualidades, uma conversão de órgãos e faculdades, não
pela crescente acumulação dêles.
Toda a teoria da hereditariedade por aquisição repousa
na confusão dêsses dois processos tão diversos, o da heredi­
tariedade e o da civilização. Tem ela sido alimentada, tal­
vez, pelas necessidades insatisfeitas da ciência biológica, mas
nunca obteve a mais leve verificação incontestável da Biolo­
gia, e tem de fato recebido ataques por um instinto sadio e
vigoroso, bem como em conseqüência da falência da obser­
vação e da experiência, ataques esses partidos de dentro des­
sa ciência. É uma doutrina que constitui a exibição cons­
tante do diletante que sabe alguma coisa da história e da
vida, mas não cuida de compreender como operam uma e
outra. Consistindo os estudos de Le Bon numa tentativa para
explicar uma pela outra, poder-se-ia quase ter previsto a .sua
utilização, mais cedo ou mais tarde, da doutrina da heredi­
tariedade por aquisição ou acumulação.
De um temperamento diferente e menos agressivo parte
o lamento que Lester Ward exprimiu, por um elemento am­
plo e ambiciosamente sério. Êle argumenta que a heredi­
tariedade por aquisição deve realizar-se, ou então não have­
ria esperança alguma de progresso permanente para -a huma­
nidade. Acreditar que o que alcançámos não será me-
-nos ém parte incorporado a nossos filhos, afasta o incentivo
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 257

ao esforço. T odo o trabalho confiado à juventude do mundo


o seria em vão. As qualidades mentais nao estão, sujeitas à
seleção natural; daí deverem elas acumular-se no homem
aquisição e fixar-se por hereditariedade. Essa opinião pode
ouvir-se repetidamente de pessoas que chegaram a es&a atitu­
de através de suas próprias reflexões, que provàvelmente nun­
ca leram, direta ou indiretamente, Ward, e cujo mundo pa­
rece desahar quando se lhe abala o fundamento da heredi­
tariedade. Embora não seja profunda, é uma opinião comum,
e, por isso, a formulação de Ward, é, se bem que intrinsecamen-
te sem valor, representativa e importante. Ela revela a tenaci­
dade, a insistência com que muitos intelectos conscienciosos
da época não querem e nao podem ver o social a não ser pelo
prisma do orgânico, Que êsse hábito de espírito possa ser
em si deprimente, que êle limite para sempre o desenvolvi­
mento e acorrente eternamente o futuro às pobrezas e mes­
quinharias do presente, nem ocorre aos que se lhe dedicam;
é de fato provàvelmente a fixidez que lhe dá o seu apôio
emocional. .* ' ,
Pareceria provável que o maior dos campeões da: heredi -
taiiedade adquirida ,1 Herbert Spençer, tenha sido levado à
sua atitude por um motivo semelhante. 0 método preciso
pelo qual se efetiva a evolução orgânica é afinal de contas
um problema essencialmente biológico, e não filosófico-. Con­
tudo, Spencer, comb Comte, era sociólogo tanto qúanto fi­
lósofo. Compreende-se dificilmente que êle tenha podido
contestar com tanta obstinação o que -constitui em si uma
questão técnica de Biologia, a não ser que se suptonha ter
êle sentido que a questão lhe afetava vitalmente os prin­
cípios, e que, apesar de sua feliz introdução do têrmo que foi
escolhido como título do presente ensaio, não tenha êle icon-
cebido adequadamente a sociedade humana como encerran­
do um conteúdo específico* que não é orgânico.
Quando R. R. Marett, iniciando a sua Anthropology -—
um dos livros mais estimulantes produzidos nêsse campo —
define essa Ciência como “ a história inteira do homem tal
como é iluminada e penetrada pela idéia da evolução” , e acres­
centa que “ a Antropologiá é a filha de Darwin — o que, conso­
ante o darwnismo, se torna possível”, está êle infortunadamen-
te apresentado um quadro mais ou menos fiel -da condição re-
258 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

ceníe dessa ciência; mas, como programa ou como ideal, deve


a sua descrição ser impugnada. A Antropologia pode ser
Biologia, pode ser História, pode ser uma tentativa para de­
terminai* as relações das duas; mas como História, o estudo
do social, penetrado pela idéia da evolução) orgânica, consis­
tiria numa mistura confusa de métodos diversos, e, portanto,
não seria ciência em sentido algum da palavra.
De tôdas as misturas do cultural com o vital, aquela
qúe se cristalizou sob o nome do movimento de eugenia é a
mais amplamente conhecida e de mais direto interesse,..Como
programa construtivo para o progresso nacional, à eugenia é
uma confusão dos propósitos de feriar melhores homens ,e de
dar .aos homens melhores ideais; um estratagema orgânico
Par£L atingir o social; um “ atalho” biológico para um fim
moral. Ela contem a impossibilidade inerente a todos os
“ atalhos” . E’ mais refinada, mas nem por isso menos vã
que o “ atalho” seguido pelo selvagem, quando, para evitar
o aborrecimento e o perigo de matar o seu inimigo no corpo,
êle traspassa, com segurança e entre objurgações proferidas
na comodidade do seu próprio la!r, uma imagem em minia­
tura à qual dá o nome do inimigo. A eugenia, na medida
em que representa mais do que um esforço visando> a higiene
social num novo ícampo, é uma falácia, uma miragem como
a. pedra filosofal, o elixir de longa vida, o anel de Salomãój
ou a eficácia material da oração. Pouco há a argumentar
a respeito dela. Se os fenômenos sociais são apenas ou prin­
cipalmente orgânicos, a eugenia está certa, e nada mais há
que objetar. Se o social é algo mais que o orgânico, a euge­
nia é um êrro de pensamento confuso. ,
Galton, o fundador da propaganda eugênica, foi um dos
intelectos mais verdadeiramente imaginativos produzidos pelo
seu país. Pearson, o seu ilustre protagonista vivo, (*) com
armas científicas, possúi uma das inteligências mais pene»
trantes da geração. Centenas de homens capazes e eminentes
cofessaram-se convertidos. É claro que uma simples falácia
deve ter-se apresentado num envólucro de* sedutoras compli­
cações para toraar-se-Ihes aceitável. Esses homens não con­
fundiram, sem uma boa razão, coisas importantes' que são
\
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 259

intrinsecamente distintas. A explicação de que Galton,


Pearson e a maioria dos mais criadores dos seus adeptos eram
biólogos profissionais, e, portanto, inclinados a vêr o mundo
através das lentes do orgânico, é insuficiente. 0 mero in­
teresse por um só fator não leva sêres pensantes praticamen­
te a negar a existência de outros fatores. Qual é, pois, a ra­
zão da confusão' em que se precipitaram êles?
A causa parece ser o malogro em distinguir entre o so­
cial e o mental. Toda civilização existe, em certo sentido,
apenas na mente. A pólvora, as artes têxteis, a maquinaria,
as leis, os telefones não se transmitem de homem para homem
nem de geração, para geração, pelo menos não permanente­
mente. Ê a percepção, o conhecimento e a compreensão dê-
les, as sua s“ idéias” no sentido platônico, qüe são transmi­
tidos. Tudo que é social só pode existir pela mentalidade.
É claro que a civilização não constitui em si ação mental, ela
é veiculada pelos homens sem estar nêles. Mae a sua reiação
para com a mente, o seu enraizamento absoluto na faculdade”
humana, é evidente. ... ,
0 que ocorreu, pois, foi que a Biologia, que correlacio­
na e muitas vezes identifica o “ fisico” e o mental deu um
natural.se bem. que injustificado passo à frente, e admitiu o
social como mental; daí ser a explicação da civilização em
têrmos fisiológicos e mecânicos uma conseqüência inevitável.
Ora, a correlação feita pela ciência moderna entre o físi­
co e mental é certamente -correta, vale dizer que é justificá­
vel como método que pode ser logicamente empregado no
sentido de uma explanação coerente dos fenômenos, e que
oonduz a resultados intelectualmente satisfatórios e prati­
camente úteis. Todos os psicólogos fazem ou admitem a cor­
relação entre as duas séries de fenômenos; ela se aplica cla­
ramente a tôdas as faculdades e instintos, e tem certa defini:
da corroboração fisiológica e química, ainda que de uma
espécie mais crúa e menos completamente estabelecida do
que se imagina às vezes. De todo modo, essa correlação é um
axioma inconteste daquêles que se ocupam com a. ciência:
todo equipamento mental e tôda atividade mental tên^ uma
base orgânica. E isto, é. suficiente para os nossos fins pre­
mentes. - ‘ ‘ ..."
260 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SÓCIAL

Essa inseparabilidade do físico e do mental têm que ser


também verdadeira no campo da hereditariedade. É notó­
rio que o n d e os instintos são definidos ou especializados, como
nos insetos, êles são herdados tão absolutamente como o são
QSJQÍgãos ou a estrutura. DÉ fato de experiência comam que
os nossos próprios traços mentais variam tanto e tão frequen­
temente concordam com os dos ancestrais, como as feições
físicas. Nao há razão lógica, e nada existe na observação da v
vida icotidiana qúe contrarie a crença de que um gênio iras-
civel pode ser herdado como o é o cabelo vermelho com o
qual esta tradicionalmente associado, e que certas formas de
aptidão musical podem ser tão completamente congênitas
como os olhos azúis. ■ .
Bea "*> ■ ... . ;
É claro que há muita falsa inferência nessas questões,
quando se trata do homem, pela interpretação do realizado
como prova do grau, da faculdade, Nem sempre é fácil a
discriminação das duas coisas; ela requer muitas vezes o
conhecimento penosamente adquirido dos fatos, bem como
um julgamento cuidadoso, e é provável que o raciocinio po­
pular careça de ambos. Poderosa faculdade congênita pode ■
fazer com que o pai se estabeleça com pleno êxito numa
^profissão. Disso, por sua vez, pode resultar uma influência
ambiental, ou um treino deliberado, que elevará o filho
mediocre, no que respeita as suas realizações, muito acima
do que lhe assegurariam as suas faculdades naturais desa-.
judadas, e acima de muitos outros indivíduos dotados de
maiores capacidades inerentes. O ganho de um milhão de
dólares é normalmente indício de capacidade; mas normal­
mente é necessária mais intensa aptidão para ganhar um mi­
lhão partindo de nada do que começar com um milhão rece­
bido como donativo e aümentá-lo para três. O fato de ser,
mais frequentemente do que não ser, um músico filho de mú­
sico, pelo menos quando, se levam em conta os números rela­
tivos, não é absolutamente em si prova de que o- talento mu­
sical pode ser herdado, porque sabemos de influências pura­
mente sociais, como, por exemplo, na ícasta hindú, que levam '
a resultados semelhantes com muito maior regularidade do
que se possa afirmar produzam a hereditariedade mais as •
influências sociais entre nós. - ---------- ----- — ----------- —-----------
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 2 61

Mas tão pouco razoável seria exagerar essa ressalva ao


ponio de negar de pleno a hereditariedade mental, como
deixar completamente de levá-la em consideração.
Não há, pois, nada, num exame rápido da situação, que
leve a descrer, mas um grande acervo de experiência comum
í^ econ firm ã"e opinião de que os caractéres do- espírito são
sujeitos à hereditariedáde da mesma forma que os traços.âo
corpo. ...
Além disso, há uma prova, à qual, embora não seja ela
extensa, dificilmente se resiste. Galton, numa série bastante
grande de registros', achou que a quantidade de regressão —
índice quantitativo de potência da hereditariedade —-é a mes­
ma para a faculdade artística e para a estatura do cox*po.
Num outro trabalho, êle investigou os parentes consanguí-
neos de homens eminentes, descobrindo que a eminência
ocorre entre êles com uma frequência e num grau exatamente
iguais à influência da hereditariedade com relação áos ca­
ractéres físicos. Pearson verificou que a correlação — o grau
de semelhança, expresso quantitativamente, de fenômenos re<
presentados numèricamente — entre irmãos é substancial­
mente a mesma para a consciência como para a forma da ca­
beça, para a capacidade intelectual como para a côr do cabe­
lo, e assim por diante para outras qualidades mentais ou mo­
rais e físicas. Existe, é claro-, a possibilidade de que nos. da-
~ tios que fundamentam esses resultados, bem como os de Gál-
ton, tenha havido certa confusão do- temperamento com as
más maneiras, da inteligência inata com o treino do intelecto,
da faculdade artística c-ongênita com o gôsto cultivado. Mas
a atenção daqueles que fizeram os «registros parece ter sido
assaz definidamente dirigida para os traços individuais ina­
tos. Ademais, todos os coeficientes ou cifras relativos à heran­
ça dêsses característicos psíquicos concordam tão exatamente
quanto podia esperar-se com os coeficientes correspondentes
relativos aos traços físicas. O caso pode, portanto, ser ra­
zoavelmente considerado coxno substancialmente provado,
pelo menos até que se disponha de nova evidência.
Apesar da larga aceitação- que tiveram essas demonstra­
çÕes, especialmente por parte daqueles predispostos a simpa­
tizar conf^o^progresso biológico, encontraram elas também al­
guma oposição, e com mais ignorância do que se justifica

17
262 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

numa questão de interês&e geral. Pode em parte essa atitu.de


negativa ser devida à persistência de crenças religiosas, em
geral postas de lado mas não ainda mortas, que sé concen­
tram ertí torno do velho conceito da alma,e que veem em tôda
ligação do espírito com o corpo um eclipse da tão querida
distinção do corpo e da alma. Mas êsse conservantismo tar­
dio não será responsável pelo malôgi'o das demonstrações de
•Galton-Pearson em encontrar a aceitação universal ou provo­
car grandes entusiasmos.
Quanto ao resto da oposição, causaram-na os próprios
Galton, Pearson e seus adeptos, que nã;o se limitaram às suas
bem fundadas conclusões, mas se aventuraram a tirar outras
inferências que repousam apenas na afirmação. Que a here­
ditariedade opera tanto no d mente como no corpo,
é um^ coisa ; que, portanto a hereditariedade é mola da civili­
zação é proposição completamente diferente, sem necéssáriâ
conexão e sem conexão estabelecida com a primeira conclusão’.
Sustentar ambas as doutrinas, a segunda como corolário neces­
sário da primeira, tem sido hábito da escola biológica, e a
conseqüência foi que aqueles cujas inclinações intelectuais
eráin diférentès, oii que seguiam outro método de pesquisa,
rejeitaram expressa ou tàcitamente ambas as - proposiçoès.
A razão por que a hereditariedade mental tão pouco ou ■
nada tem que vêr com a civilização é que a civilização não
um corpo ou corrente de produtos
do exercício mental. Sendo á atividade mental, segundo os
biólogos, orgânica, qualquer demonstração que lhe diga res­
peito nada prova, em absoluto, consequentemente, no que
respeita a,os acontecimentos sociais. A mentalidade refere-
se ao indivíduo. Por outro lado, o social ou o cultural é,
em essência, não individual. A civilização, como tal, come- ’
ça somente onde o indivíduo termina, e para quem quer que
de qualquer modo não perceba êsse fato, ainda , qiíe seja
apenas como um fato grosseiro e sem raiz, nenhum sentido
pode ter a civilização, e a história deve ser apenas uma mis­
celânea fastidiosa, ou uma oportunidade para o exercício da
arte. ' ' ' ' V....... ' ... : ......... • ....."
Tôda Biologia tem necessariamente essa referência direta
ao indivíduo. Espírito social é ficção “tão sem sentido com o.'
*, ?ojP °^ e haver uma especie de “ organicidafeíT—
o orgânico em outroplano já não seria orgânico. A doutrina
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 263

darwiniana liga-se, é verdade, à raça; mas a raça, salvo como


abstração, é apenas uma coleção de indivíduos, e as bases des-
tà doutrina, a hereditariedade, a variação e a^competição, cui­
dam da relação entre indivíduo e indivíduo, e do indivíduo
contra Ô indivíduo. A chave do êxito dos métodos mendelia-
nós de estudar a hereditariedade está no isolar os traços e iso­
lar os indivíduos. '
Mas mil indivíduos nao fazem uma sociedade. S a ba­
se po^nçiár de iíma sociedade, mas nao são eles mesmos a
causa dela, e são também a base de mil outras sociedades po­
tenciais. ^ ' . -^
As descobertas da Biologia no que respeita à hereditarie­
dade, tanto física como mental, podem, pois, de fato devem,
ser aceitas sem xeserva. Mas que por isso acivilizaçao possa
ser compreendida pela análise psicológica, ou explicada pelas
observações ou experimentos sôbre a hereditariedade, oú,.para
novamente apresentarmos um exemplo concreto, que o des­
tino das nações possa ser predito por meio da ãnãlise da'cons­
tituição orgânica de seus membros, isso supõe que a sócieda-
dade é inèra coleção, de. indivíduos; que a civilização é ape­
nas um agregaíÍo.de_atiyMadeS-.psíquicas e não também uma
entidade que>as -transcende, em suma, que. o. social pójie"xe-"
solver-se completamente no mental como se acredita xesol-.
ver-se êste ho físico. ■ ... .... " • '*•- ...-
Ê, por isso1, nêste ponto do salto tentador do individual­
mente mental para o culturalmente social, que pressupõe mas
nao contem, a mentalidade, que se deve procurar a fonte das
transferências absurdas do orgânico para o social. Convem,
portanto, examinar mais acuradamente a relação dos dois.
Num brilhante ensaio escrito, sob a influência de Pear-
son, sôbre a hereditariedade nos gêmeos, Thorndike chega
também, e pelo uso convincente da evidência estatística, à
conclusão de que, no que respeita ao indivíduo, a heredita­
riedade é tudo e o ambiente nada; que o sucesso de nossa
carreira na vida é essencialmente determinado ao nascermos;
que o problema sôbre se cada um de nós excederá os seus
semelhantes ou será por êles superado, se estabelece no m o­
mento em que se unem as células germinaiis dos progenito-
res, e, já completamente terminadas quando a criança deixa ^
o útero, tôdas as nossas existências se desdobram sob a luz
264 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

do 30I, nada mais sendo do que o desenrolar, mais longo ou


mais curto conforme o acaso que foge ao nosso- controle, do
fio emolado n.O1 carretei antes do começo- da nossa vida.
Essa descoberta não só é completamente elucidada pelo
autor, como tem também o apôio; da nossa experiência co­
mum na vida. Ninguém pode negar contenha úma parte de
verdade o proverbial “ páu que nasce torto não endireita” .
Cada um pode apontar entre os seus conhecidos indivíduos
energia, com dextreza -e habilidade, com o que pareice
presciência fatal, ou com fôrça de caráter, que não. deixam
dúvidas em nosso julgamento de que, qualquer que seja a
sua sorte de nascimento, se elevariam acima de seus seme­
lhantes e seriam homens e mulheres notáveis. E, por outro
lado, também admitimos com pesar que haja indivíduos de­
sajeitados e indolentes., incompetentes e comuns, que, nasci­
dos em qualquer lugar, teriam se incluído entre os medío­
cres ou infelizes da sua época e classe. E’ suficientemente cer­
to que Napoleao colocado noutro pais e noutra época; não teria
conquistado um continente. Pode-se, parece, fazer razoàvel-
mente a afirmação contrária para manifestar a ausência de
compreensão da História. Mas a crença de que em outras cir-
Qunstâncias êsse eterno farol podia reduzir-se a uma lamparina
doméstica, que suas fôrças jamais teriam operado, que uma le­
ve alteração dos acidentes de época, lugar ou ambiente o te­
ria transformado num próspero e contente campônio, num co­
merciante óu burocrata, num militar aposentado — o sus­
tentar isso demonstra falta ou supressão perversa de conheci­
mento da natureza humana. É importante convencer-se de
que as diferenças congênitas não podem ter mais que um
efeito limitado sôbre a marcha da civilização. Mas é igual-
mete importante convencer-se de que podemos è devemos
admitir a existência dessas diferenças e sua inextin^uibili-
dade.
Segundo um dito que é quase proverbial, e verdadei­
ro na medida em que podem'ser verdadeiros tais lugares co­
muns, o escolar moderno sabe mais que Aristóteles; mas ê s s e
fato, soubesse o escolar mil vezes mais que Aristóteles, nem
por isso o, dota de uma fração do intelecto do grande gre­
go. Soci^Jgg^pté — porque o conhecimento deve ser uma
_circunstâcia social —• é o conhecimento, e não o maior de­
senvolvimento de um, ou outro indivíduo, que vale, do mes­
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIÀL 265

mo modo que na mensuração da verdadeira, fôrça da gran­


deza da pessoa, o psicólogo ou o geneticista não leva em con­
sideração o estado do esclarecimento geral, o gráu variá­
vel do desenvolvimento ligado à civilização, para fazer suas
comparações. Cem Aristóteles perdidos entre os nossos an­
cestrais habitantes das cavernas não seriam menos Aristóte­
les por direito de nascimento; mas teriam contribuido mui­
to menos para o progresso da ciência do que doze esforça­
das mcdiocxidades no século vinte. Um süper-Arquimedes na
idade do gêlo não teria inventado nem armas de fogo nem
o telégrafo. Se tivesse nascido1 no Congo ao invés de na Sa-
xõnia, não poderia Bach ter compOsto nem mesmo um frag­
mento de coral ou sonata, se bem que possamos confiar igual­
mente em que êle teria eclipsado os seus compatriotas em
alguma espécie de música. Quanto a saber se existiu algum
dia um Bach na Africa, é outra questão — à qual não se
pode dar uma resposta negativa meramente porque nenhum
Bach jamais por lá apareceu, questão que devemos razoa­
velmente admitir não ter tido resposta, mas em relação à qual
o estudioso da civilização, até que se apresente uma demons­
tração, não pode dar mais que uma resposta e assumir uma'
só atitude: supôr, não como uma finalidade mas como uma
condição de,,método, que existiram tais indivíduos ; q u e o ;
gênio e a, capacidade ocorrem com frequencia substancial­
mente regular, e que' tôdàs as raças ou grupos bastante
grandes de homens são .em. méjdia.,, substancialmente iguais e
têm as mesmas qualidades:..
Êsses são casos extremos, cuja iclareza é pouco suscep­
tível de provocar oposição. Normalmente, as diferenças en­
tre os indivíduos são .menos impressio^j^e.s,.jp^„tip.^dj&^8o*
ciedade mais semelhantes e,os- dois .eIementos envolvidos só
se podem separar pelo exercício.de alguma discriminação.
É aí que começam as confusões. Mas, se o fator dã socieda­
de e o da personalidade inata são distintos nos exemplos no­
tórios, são êles pelo menos distinguíveis nos exemplos mais
sutilmente matizados e intricados, contanto apenas que dese­
jemos separá-los.
Se isso. é verdade, segue-se que todos os chamados iü-
ventc_LÍ.:: de aplicações ou descobridores de pensamentos fa­
mosos eram homens extraordinariamente capazes, dotados
266 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

desde antes de nascerem de faculdades superiores, que o psi­


cólogo pode esperar analisar e definir, o fisiologista corre­
latar com funções de orgãos, e o biologo geneticista inves­
tigar nas suas origens hereditárias até alcançar não só o sis­
tema e a lei, mas também o poder verificável de predição.
E» por outro lado, o conteúdo da invenção ou descoberta de
nenhum modo resulta da constituição do grande homem, ou
da dos seus ancestrais, mas é puramente! um produto da civi-'
lii^ção em que êle, com milhões de outros, nasceu, sendo
ê.sse nascimento um fato sem significação e regularmente re­
corrente. Quanto a saber se êle em pessoa se -torna inven­
tor, explorador, imitador ou consumidor, é uma questão de
fôrças que interessa às ciências de causalidade mecanística.
Quer seja a sua invenção a do canhão ou a do arco, sua reali­
zação uma escala musical ou um sistema de.. harmonia, sua
formulação a da alma ou a do imperativo categórico, não é
ela explicável por meio da ciência mecanística — pelo menos
não o é pelos métodos ora dominantes na ciência biológ ica __
mas encontra o. seu sentido apenas em operações coni o ma-
terjal da civilização com que lidam a História, e, as. ciências
sociais,

Darwin, cujo nome tantas vezes citamos nas páginas pre­


cedentes, fornece uma bela exemplifiicação dêsses princípios.
Seria fatuidade negar a esse grande homem o gênio, a emi­
nência mental, a superioridade inerente sobre a massa do re­
banho humano. Na famosa classificação de Galton, atingi­
ria êle provavelmente, na opinião geral, pelo menos o grau
G, talvez o ainda mais alto — o mai&alto de todos — o grau
X . Vale dizer que êle foi um indivíduo nascido com capacida­
des tais como não as possuem mais do que quatorze, ou prova­
velmente uma ou ainda 'menos pessoas em cada milhão. Em
suma, ter-se-ia elevado muito acima de seus semelhantes em
qualquer sociedade. -
Por outro lado, ninguém pode razoavelmente acreditar
que a distinção do maior feito de Darwin, a formulação da dou­
trina da evolução pela seleção natural, seria agora levada ao
seu crédito se êle tivesse nascido cincoenta anos depois ou
antes. Se depois, note-se que teria êle sido infalivelmente
antecedido por Wallace; ou por outros, se uma morte prema­
tura tivesse eliminado Wallace. Que o seu espírito infativi -.
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 267

gável teria desenvolvido alto notável é muito provável, embo­


ra não seja esta a questão aqui; mas a glória da descober­
ta que fêz não teria sido sua. Se supuzéssemos, ao contrário,
que êle tivesse vindo ao mundo meio século antes, sua idéia
central não lhe teria ocorrido, como deixou de ocorrer ao seu
brilhante predecessor, o evolucionista Lamarck, pu, ter-lhe-ia
surgido no espírito, pomo surgiu quanto aó essencial no ' de
Aristóteles, apenas para ser afastada como de fato íogicamen-
tè possível, mas indigna de real consideração. Ou, finalmen­
te, podia na realidade o pensamento tèr germinado e se desen­
volvido nêle, mas sido ignorado e esquecido pelo mundo,
mero acidente infrútifero, até que a civilização européia es­
tivesse preparada, algumas décadas mais tarde, e tão ávida
como preparada, para usá-lo ■ —1 quando a sua redescoberta e
não a sua estéril descoberta formal teria sido o acontecimento
de importância histórica. Que esta última possibilidade nao
ç vã conjetura, evidencia-se pela sua realização no caso de um
dos maiores contemporâneos de Darwin, o seu éntão desco­
nhecido irmão de armas Gregor Mendel. .
É inconcebível que a o c o r r ê n c i a independente da ideia
da seleção como motivo propulsor da evolução orgânica, sin-
icrônicamente nos espíritos de Darwin e Wallace, tenha sido
questão de puro acaso. A imediata aceitaçao da ideia pelo
mundo nada prova quanto à verdade intrínseca do conceito,
mas estabelece que o mundo, isto é, a civilização da época,
estava pronto para receber a doutrina. E s e . a civilização es­
tava preparada e ávida da doutrina, a siíã enunciação parece
ter sido destinada ja vir quase precisam ^ ._,Xe*°'
Darwin levou consigo.o germe" da idéia da seleção natural
durante vinte longos anos ate aventurar-se a emitir a hipótese
que, se fosse apresentada antes, sentia-o êle, teria sido rece­
bida com hostilidade, e > qual êle deve ter pensado estivesse
insuficientemente armada. Foi. .glqpnente a expressão..inàis
breve do mesmo insight oferecido por W allace,que levou I>ar-
wín à publicidade. P o de imaginar-se, se Wallace tivesse^en-
contrado a morte no mar entre as Ilhas Malaias, e Darwin,
sem o estímulo da atividade do seu colega e competidor, ti­
v e s s e guardado hesitantemente a sua teoria em segredo por
mais alguns anos e dêpóis sucumbisse repentinamente a uma
. .doença mortãl, pode imaginar-se que nós do m u n d o civiliza",
do contemporâneo teriamos vivido todas as nossas vidás in-^
268 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

têlectuais. sem u:rn,inecanism0 definido para a evolução, e por­


tanto, sem^nenhum emprego ativo da idéia evolucionista __ e
que nossos .biólogos.çstariajri... ainda marcando passo no pon­
to em que Lineu, l^uvier, ou quando1 muito Lamarick se^deti-
I eragI ^ assim fosse, as grandes correntes da História se­
riam absolutamente condicionadas pelo alojamento ou desa­
lojam ento de um bacilo, certo dia, em determinada estrutu­
ra humana; convicção essa que atestaria tanta inteligência
quanto a que creditaríamos à pessoa que, encontrando nos
altos Andes a fonte última da pequenina corrente enorme­
mente afastada, em meandros tortuosos, por quilômetros e
quilômetros, do oceano Atlântico, puzesse o pé na fonte bor-
bulhante e acreditasse que enquanto lá o mantivesse, o Ama­
zonas cessaria de banhar um pontinente e de despejar as suas
águas no mar.
' 'ÇNaoj Q -seguir Wallace atrás de Darwin, de sorte que
a êle coubesse também parte, embora menor, da glória da des­
coberta, evidencia que atrás dêle marchavam ainda, outros,
nao nomeados e talvez para sempre inconsciêntes çles mes­
mos; e que, tivesse o lidei- òu o seu segundo sucumbido a um
dós inúmeros acidentes a que estão os indivíduos sujeitos, os
seguintes, um ou vários ou muitos, teriam prosseguido, para a
frente, teriam sido. impelidps para a frente, seria melhor di-
z®r5 e feito o seu trabalho, .imediatamente, segundo a, Histó­
ria .computa .o tem po,, - —
Já se aludiu ao fato de não terem as experiências revo­
lucionárias de Mendel sôbre a exata hereditariedade conse­
guido o menor reconhecimento, durante a vida do seu autor,
e por muitos anoa sucessivos, como exemplo do destino ine­
xorável reservado ao descobridor que antecipa a sua época.
Feliz é êle, na verdade, se lhe permitem acabar seus dias na
obscuridade, e escapar ao calvário que pareceu um castigo ade­
quado para o primeiro circunavegador da África qiie viu o
sol no seu norte. Tem-se dito que o ensaio de Mendel con­
tendo a maioria dos princípios vitais do ramo da ciência que
tráz agora o seu nome, apareceu numa publicação remota e
pouco conhecida, e portanto passou, p.or uma geração, des­
percebido aos biólogos. Esta última afirmação pode ser con­
testada como não provada e inerentemente improvável. É
muito mais verossímil que vários biólogos tenham visto o
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 269

ensaio, que alguns mesmo o tenham lido mas que, todos não
o tenham compreendido — não porque fossem estúpidos de­
mais, mas porque careciam da superioridade transcendente
de raros indivíduos para vêr questões que excedem aquelas
com que o mundo da sua época está lutando. Contudo, a
pouco e pouco, com o correr do tempo, uma mudança do con­
teúdo do pensamento foi se preparando. O próprioJRayyjn
se interessara pela origem e natureza das variações. Quando
o primeiro abalo* causado pela novidade estonteante de sua
descoberta 'central^ íômé^âra à ser a s ^
cia" científica, essa questão da variação t e nd e ua impôr-sè.
As investigações de De Vries e Báteson, sé bêm que o s"èu"re­
sultado reconhecido parecesse apenas uma análise destrutiva-
de um dos pilares do darwinismo, estavam acumulando c*>
nhecimento quanto à atuação real da hereditariedade. .E eis
que, subitamente, em 1900, com brilho espetacular, três estu­
diosos, independentemente _e “ com intervalo de algumas se­
manas um do outro,” descobriram a descoberta de Méndel,
confirmaram-lhe as conclusões com experiências próprias, e
uma nova ciência foi lançada numa carreira de esplêndida
trajetória. -
Pode haver pessoas que vejam nêsses acontecimentos sen­
sacionais apenas um jôgo sem sentido do acaso caprichoso;
mas haverá outras às quais êles revelam um lampejo de uma
grande e inspiradora inevitabilidade que se ergue tão acima
dos acidentes da personalidade, como a marcha do& céos trans­
cende os contatos hesitantes de pegadas casuais das nuvens
sôbre a terra. Ponha-se de lado a percepção de De Vries,
Correns e Tschermak e é. ainda claro que, antes do decurso de
um ano, os prinoípios da hereditariedade mendeliana seriam
proclamados a um mundo preparado para recebê-los, e por
seis e não por três espíritos esclarecidos. O fato de ter Men-
del vivido no. século dezenove em vez de vinte, e publicado o
seu trabalho em 1865, é um fato que se revelou da maior e
talvez mais lamentável influência sôbre a sua sorte pessoal.
Hjistòricamente, a sua vida e descoberta não têm mais impor­
tância, salvo como antecipação profética, do que os bilhões de
mágoas e alegrias-, de vidas felizes ou mortes trágicas de ci­
dadãos, as quais têm sido o destino dos homens. A heredita-,
riedade mendeliana não data de 1865. descoberta em
270 LEITURAS DE SÔClOLOGlA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

i^OOjporque só então pudera ter sido descoberta, e porque


devera infalivelmente ser descoberta então, dado o estado da
civilização européia. ...... •
A história das invenções é uma cadeia de exemplos pa­
ralelos. O exame dos registros de patentes, feito com outro
espírito que não o comercial ou anedótico, bastaria para reve-
^ar f. ™exorabilidade qiue prevalece no avanço da civiíizaçaò?
ao monopólio da manufatura do telefone esteve por
muito tempo em litígio; a decisão final resultòu de um inter­
valo de horas entre o registro de descrições concorrentes feitas
por Alexander Bell e Elisha Gray. Se bem que seja parte do
nosso pensamento vulgar repelir esses conflitos como provas
de cupidez inescrupulosa e deficiência legal ou como melo­
dramática coincidência, compete ao. historiador lançar a vista
para além dêsses jogos infantis da inteligência.
A descoberta do oxigênio atribúe^e tanto a Piiestley
como a Scheele; a sua liquefação, a Cailletet bem como a
Pictet, cujos resultados foram alcançados no mesmo mês de
1877 e anunciados na mesma sessão. Tanto Kant como La
Place podem reivindicar a formulação da hipótese nebular.
Netuno foi predito por Adams e por Leverrier; o cálculo, feito
por um e a publicação dêste pelo outro, seguiram-se com o
intervalo- de alguns mêses.
Quanto à invenção do barco a vapor, á gloria é reivindica­
da, pelos seus compatriotas ou partidários, para Fulton, Jouf-
froy, Rumsey, Stevens, Symmington e outros; a do telégra­
fo, para Steinheil e Morse; na fotografia, Talbot foi o rival de
Daguerre e Niepce. Os trilhos com duplas bordas inventa’
dos por Stevens foram reinventados por Vignolet. O alu­
mínio foi pela primeira vez praticamente reduzido pelos pro­
cessos de Hall, Heroult e Cowles. Leibnitz em 1684 e Newton
em 1687 formularam o cálculo diferencial e o integral. Os
anestésicos, tanto o éter como o óxido nitroso, foram desco­
bertos em 1845 e 1846, por nada menos de quatro homens
da mesma nacionalidade. Tão. independentes foram as suas
realizações, tão semelhantes nos pormenores e tão estreita-,
mente contemporâneas, que as polêmicas, processos e agita­
ção política se seguiram por muitos anos, e nem um só dos
quatro deixou de ter a sua carreira amargurada, senão arrui­
nada, pelas animpsidades decorrentes do fato de não. se poder
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇAO SOCIAL 2 71

saber de quem era a prioridade. Até o polo sul, nunca dan­


tes pisado por seres humanos, foi por fim atingido duas vezes
no mesmo verão.
Poder-se-ia escrever um volume, abrangendo apenas o
trabalho de alguns anos, repleto de exemplos se repetindo
incessantemente mas sempre novos. Quando deixamos de
encarar a invenção ou a descoberta como alguma misteriosa
faculdade inerente a mentes individuais que o destino deixa
fortuitamente cair no espaço e no tempo; quando concentra­
mos nossa atenção na relação mais clara de um dêsses passos
avançados com as outros; quando, em suma, o interesse se
desvia dos elementos individualmente biográficos — que. só
podem ser dramaticamente artísticos, didaticamente mora*
lizadores oú psicologicamente interpretáveis — e se prende
inteiramente ao. que é social ou da civilização, as provas sôbre
êsse ponto' serão em quantidade infinita, e tornar-se-à irresis­
tivelmente evidente a presença das majestosas forças ou se­
qüências que penetram a civilização.
Conhecendo-se a civilização de umá epoca e uan’ paiSj po­
demos, então, substancialmente afirmar que as descobertas
que a distinguem, nêste ou naquele campo de atividade, nao
eram diretamente incidentais à personalidade dos yerdadei-
ros inventores que dignificaram o .período, mas teriapa. sido
feitas.sem êles,_ei_que .se, inversamente,.tivessem os grandes
espíritos luminosos de outros séculos e climas nascido na ci­
vilização em questão, ao inves de na deles, teriam provavel­
mente sido os autores das m a i s notáveis das;. suas_ realizações.
Ericsson ou Galvani podia há oito mil anos ter polido ou fu­
rado a primeira pedra, e, por sua vez, a mao e o cérebro cuja
atuação deu início à era neolítica da cultura humana estariam,
se fossem mantidos na sua infância em imutável catalepsia
desde aquêle tempo até hoje, inventando agora os telefones
sem fio e os extratoeres de nitrogênio.
Devem admitir-se algumas reservas a êsses princípio.
Está longe de ser estabelecido, antes pelo contrário, que a
capacidade extraordinária, por igual que seja em intensidade,
é idêntica «em direção. É altamente improvável que Beetho-
ven, posto no berço de Newton, tivesse realizado o cálculo
integral, ou que o último tivesse dado à sinfonia a sua forma
final. Podetnof cadentemente devemos admitir faculda­
272 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

des copgênitas que &ejamj3astante. especializadas. Tudo in­


dica que~aT faculdades mentais elementares, como a memo­
ra:! o interesse e a abstração, são por natüréz* desiguais ~em
indivíduos de capacidade equivalente màs de inclinação di-
I^ sa, e isto apesar do cultivo. O educkdor que proclamasse
a sua capacidade para converter uma memória natural para
números absolutos ou para fórmulas matemáticas numa me­
mória igualmente forte, de tons simples ou de melodias com­
plexas, seria alvo de suspeitas. Mas não importa essencial­
mente se a faculdade originaria é uma só ou se são várias na
mente. Se Eli Whitney não podia ter formulado â diferença
entre o subjetivo e o objetivo e Kant em seu lugar não teria
podido inventar uma máquina prática para beneficiar o al-
godao. Watt, ou Fulton, ou Morse ou Stephenson podia, no
ugar do primeiro, ter feito, a sua obra, e Aristóteles ou São
lomas de Aquino feito a tarefa do último. Nem é mesmo
talvez muito exato sustentar gue as individualidades do in­
ventor ou dos inventores desconhecidos do arco e da flexa e
as daqueles das armas de fogo pudessem ser permutadas por-
T 1*6 ^ Primeira Produção do arco envolve necessariamente a
faculdade mecânica e mesmo manual, a0 passo que a desco­
berta da pólvora e de súa aplicabilidade às armas pode ter
requerido a capacidade diferente de perceber certas qualida­
des peculiares de natureza mais altamente dinâmica ou
química.
^ Em suma, é questão discutível, se bem que d 0 maior in­
teresse psicológico, até que ponto pode a faculdade humana
dmdir-se. e subdividir-se em, espécies distintas. Mas a ques-
ta*» não é vital no presente contexto, porque dificilmente se
aventurara algúem a sustentar que existem tantas faculda­
des distintas, quantos são os-seres humanos separados; o que,
de fato eqüivaleria a afirmar que as capacidades não dife­
rem em intensidade ou grau mas somente em direção ou es-
pecie; em suma, que embora nã0. houvesse dois homens
iguaisy todos >eram iguais em capacidade potenciaL Se essa
opinião não e correta, ^então pouco importa se as espécies
de capacidade são várias ovu muitas, porque em todo caso
elas serao müito poucas comparadas com o numero enorme
e organismos humanos; porque haverá, assim,tantos. indi­
víduos possuidores de cada faculdade, que todas as épocas
devem conter pessoas providas de baixo, m é$ o e alto grau,
CONCEITOS NO ESfUDÓ Í)A ORGÁNlZAÇAO SOCIAL

de intensidade de cada uma, e os homens extraordinários de


uma espécie num periodo poderão, portanto, ainda ser subs-
tituidos pelos de uma outra época da maneira indicada.
Se, por conseguinte, alguém se sentir perturbado, na sua
interpretação da mentalidade, por algumas das equivalências
particulares que foram sugeridas, poderá facilmente achar
outras que pareçam mais justas, sem discordar do princípio
fundamental de que a marchá da História, ou como é costu­
me corrente chamá-lo, o progresso da civilização, indepen­
de do nascimento de determinadas personalidades;..desde
que, sendo estas ao que p a r e c e substáncialmente, em media,
iguais, tanto no que respeita, ao..gênio comp.. a normalidade,
cm todos ós tempos e lugares, fornecem elas o mesmo subs-
tratum para o social.
Temos, pois, aqui, uma interpretação que concede ao in­
divíduo, e por êle à hereditariedade, tudo que a ciência do
orgânico pode legitimamente reclamar quanto à força de suas
realizações efetivas; e que dá também ao social o mais pleno
escopo no seu próprio campo distintivo. A realizaçao do
indivíduo comparada com a de outros indivíduos, depende,
&q. não inteiramente pelo menos principalmente, de sua cons­
tituição orgânica tal como é determinada pela sua heredi­
tariedade. As realizações de um grupo, relativamente a ou­
tros grupos, são pouco ou nada influenciadas pela heredita-,
riedade porque os grupos suficientemente grandes são em
média muito semelhantes em constituição orgânica.
Essa identidade de média é incontestável para alguns
exemplos das mesmas nações em épocas que se sucedem a
pequeno intervalo — como Atenas em 550 e 450, ou a Ale­
manha em 1800 e 1900 — durante ,cujos breves períodos a
sua composição hereditária não podia ter se alterado numa
pequena fração do grau em que variou a realização cultural;
é certamente provável mesmo para pessoas do mesmo- san­
gue separadas por longos intervalos de tempo e amplas di­
vergências de civilização, e é provável, embora não exista
prova favorável ou contrária, que seja mais ou menos verda­
deira, como se sugeriu acima, para as raças mais distantes.
A diferença entre as realizações de um grupo de homens
e as de outro grupo, é , portanto, de o u t r a çate^oria q^e. nã.o
a da diferença entre as faculdades de uma pessoa e outia^
274 l e it u r a s DE s o c io l o g i a e a n t r o p o l o g ia - SOCIAL

...É ™ p o r - - e s 3 a . .distinção que se deve encontrar uma das quali-


•! dades essenciais da natureza do social. ......
O fisiológico e o mental estão" ligados como aspectos , da
mesma coisa, podendo um resolver-se no outro; 0 social, con­
siderado diretamente, não se. pode resolver no mental, ò
fato-, de existir êle somente depois que atúe a mentalidade
de certa espécie, levou à confusão doe dois, e mesmo à sua
identificação. O êrro dessa identificação é uma falta que
tende a se infiltrar no pensamento moderno sôbre a civili­
zação, e que deve ser dominada pela auto-disciplina antes
que nossa jcompreensão dessa ordem de fenômenos que en­
chem e colorem as nossas vidas possa tornar-se clara ou útil.
Se a relação aqui esboçada do indivíduo pana a cultura
é verdadeira, um ponto de vista em conflito às vezes assu­
mido è ao qual já aludimos, é .insustentável. Esse ponto de
vista é a opinião de que, embora não sejam tôdas as perso­
nalidades idênticas, são potencialmente. iguais em capacida­
de, sendo os gráus. variáveis.de realização delas .unicamente
devidos às medidas diferentes de ajustamento ao ambiente
social com o qual estão em contato, Essa opinião tem tal­
vez raramente sido formulada icomo principio genérico, mas
parece estar ela, se bem que usualmente 'de modo vago e
apenas implicitamente, na base de muitas tendências para
a treforma social e educacional, e é portanto provável que
seja algum dia formalmente enunciada.
Essa suposição, que seria por certo de extensa aplicação
prática se pudesse ser verificada, parece basear-se em últi­
ma análise, numa obscura porém profunda percepção -da in­
fluência da civilização. Se bem que essa influência da ci­
vilização se faça sentir mais completamente sôbre os desti­
nos das nações do que sôbre as existências individuais, ela
deve, não obstante, se exercer também sôbre estás últimas.
0 maoimetanismo —■ um fenômeno social abafando as
possibilidades imitativas das artes pictóricas e plásticas, afe­
tou evidentemente a civilização vde muitos povos, mas deve
também ter alterado as ícarreiras de muitas pessoas nascidas
em três continentes durante mil anos. Os talentos especiais
que possuiam êsses homens e mulheres para a representação
descritiva podem ter ^ífi-Q suprimidos sem compensação equi-
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 2.75

ss.“ sbíss ”s'— ÍSHr»


*íduos estavam sujeito* re d u za m , para cada um o « a
J- -a* a - 17
E sem dúvida o mesmo m
ambiente eievou *
inediocndade^ aÍ8 de um indiví-
alta 2 “ ” , e s p e c ia is , «m qualquer outra época e
duo cujos . o ara 6ua desvantagem pessoal.

rg S £ S = x tsts:rJ= -
a chefia altamente u __
rei religiosos, por exe P ’
indubitavelmente assegura­
brilhante em Marrocos que
da uma carreira mais prospera e nm uo .
na Holanda contemporânea.
m ,W tro de uma esfera de civilização nacional-
necessariamente resultados Be m ,
o. administrador por nattaeza, nas-
V ^ S S L S , J| .

<i<i Ttidiá^s^Wfiíica substancialmente pjar a P


M a í o faío' 'a« póder vuri"nniSiêntc social afetar de al,
^as, o ia, ^ ; ; a^eÍra~<l’o indivíduo comparado com ,
S o ” indivíduos! nSo prova qü* êsse indivíduo seja in ^ jr^
•! S Ò produto de circunstâncias exteriores a
'} ^ m i V i u v e r s o n â o ,U -e r d a d e ,. is to J , q u « u m a . c a v A z -

’ cão seja up*nas a » « total dos prodaUw de um g™P» J "


Ç.—-w..í ............. mnldadas Ò efeito concreto de cada
mentes organicamente moldadas, ' ria ci-

até certo ponto in« u“ “ a^ ° M a x t o r t o a »3 considerações


r ? X S n c i a de £ S T * 6 - • *• **»*• " f * *
d o t S u o « fre su lta d o de s e u modelamento pela e o c £
dtde que o contem, é uma suposição extrema e em desacor
do com a observação. . ■ „
Por isso, .é-possível W » A .Í 5 W í ^ â ® ^
'• re la tiv rrciv iliz a çá o dos fenômeno* sociais,- s e m .jr M K ?
x . adátir o ponta de", vista., de que os s i m htnnffioii 3 ?? -
cãíais através d s t ^ a i s corre a « v d m s » , sao «o e n |e i
mente o 9 produtos de sua corrente. D e que a cultura re
276 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

pousa na faculdade huniàna específica, não se segue que essa


faculdade, *o que no homem é 'supra-animal, seja de deter­
minação social. A linha entre o social e k> orgânico, não
pode ser traçada ao acaso ou apressadamente. O limiar en­
tre a faculdade que torna possível o fluxo e o prosseguimen­
to da civilização., ,e a que impede mesmo o seu início, é a
demarcação — bastante duvidosa outrora, com tôda proba­
bilidade, mas se estendendo por um período mais longo do
que o nosso conhecimento alcança — entre o homem e o ani-
njí*!. Contudo, a separação entre. o .social . em si, a entida­
de a que chamamosCcivüização, =e o não social, o. pré-social
ou orgânico, é a diversidade de qualidade ou categoria que
existe entre o animal .p. o . homem conjuntamêrité. por um
lado, e os produtos das interações dos seres humanos, por
outro. Já subtraímos, nas páginas precedentes, o mental âo
social e acrescentámo-lo ao fisicamente orgânico que é .sujei­
to à influência da hereditariedade. Do mesmo modo, é ne­
cessário eliminar da consideração da civilização, o fator da
capacidade individual. Mas essa eliminação significa a sua
transferência ao grupo dos fenômenos organicamente con­
cebíveis, não a sua negação. De fato, nada se afasta mais do
_)caminho que nos leva à compreensão da História do cpie essa
negação das diferenças de grau das faculdades dos homens-
individuais. ’
a.ciência social, se pudermos tomar essa pa­
lavra como equivalente a História, não nega a individuali­
dade, como tão pouco não .nega o indivíduo. , Ela se recu­
sa a tratar, quer da individualidade quer do indivíduo como
tais, e baseia essa recusa unicamente na negação da valida­
de de qualquer dos dois fatores para a realização de seus
próprios fins. •
E’ verdade que os acontecimentos históricos podem tam­
bém ser encarad.os medânicamente e expressos finalmente
em têrmos de física e química. O gênio pode talvez ser de­
finido em caracteres considerados como unidades ou seja, a
constituição dos cromossomos, e suas realizações particula­
res em reações 'osmóticas ou elétricas das células nervosas.
Chegará quiçá o dia em que o fisiologista e o químico pos­
sam. estudar com proveito, ou mesmo determinar aproxima-
dameritea-a^pje ge passou no tecido do cérebro de Darwin
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 277

quando pela primeira vez lhe ocorreu o conceito da seleção


natural. Essa realização, destrutiva oomo possa afigurar-se
àqueles a quem a revelação amedronta, seria não só defen­
sável mas também de enorme interesse, e talvez de utilida­
de. Somente, isso não seria História, nem um passo em di­
reção à História on à ciência social.
O conhecimento das reações precisas ocorridas no siste­
ma nervoso de Darwin quando o iluminou a idéia da sele­
ç ã o natural em 1838, envolveria um genuíno triunfo da ci­
ência. M]as nada significaria historicamente, desde que a
História se interessa pela relação de doutrinas como a da se­
l e ç ã o natural com outros conceitos e fenômenos sociais, e
n ã ó c õ m V relação de Darwin para com os fenômenos so­
ciais ou outros fenômenos. Isto não constitui o ppnto de
vista còrrénte'da História; mas, por outro lado, 9, opinião
corrente baseia-se na suposição incessantemente repetida mas
evidentemente (ilógica) de que, porque.sem indivíduos não
podia" a civilização existir, a civilização é .portanto ápèiiãs
a sonia totãT dás operações psíquicas.de uma.. massa de_ iií-
divíduos.
^ Como, pois, há duas linhas de porfia intelectual na His­
tória e na ciência, tendo cada qual o seu objetivo distinto
e seus métodos, e como é só a confusão das duaa que resulta
em esterilidade, assim também duas evoluções completamen­
te díspares devem ser reconhecidas: a. da substância, a que
chamamos orgânica, e a dos fenômenos, chamada social. A
evolução social não tem antecedentes nos primórdios dá evo­
lução orgânica. Ela começa tarde no desenvolvimento da
vida — muito depois que os vertebrados, depois que os ma­
míferos, mesmo depois que os primatas aparecem. Não sa­
bemos qual o sen, ponto exato de ori gem, e talvez„nunca o
saibamos; mas podemos limitar o círculo dentro do qual
ê le .'cai. Esa origem, ocorreu numa série de formas orgâni­
cas mais adiantadas, em faculdade mental, dó qííe o gori­
la, e muito menos desenvolvidas do que a primeira raça co­
nhecida que seja unanimemente aceita como tendo sido hu­
mana, o homem de Neandertal è de Le Moüstier. Cronoló-
gicamente, êsses primeiijos portadores dos rudimentos da
civilização devem ser muito anteriores à raça de Neander-
tal, m?- 'Sfm de ser posteriores a outros ancestrais humanos
278 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

extintos que tinham aproximadamente o nível intelectual


do gorila e do chimpanzé modernos. *
O início da evolução social, da civilização, que é o ob­
jeto da História, coincide assim com êste mistério da mente
popular: o elo que falta. Mas o têrmo “elo” pode induzir
em êrro. Êle implica uma cadêia icontínua. Mas, com os
desconhecidos portadores dos comêços primeiros e gradual­
mente manifestos da civilização, realizou-se profunda alte­
ração, mais do que uma transmissão melhorada do que exis­
tia. Surgiu um novo fator que devia produzir suas pró­
prias conseqüências independentes, de modo lento e de pou­
ca importância aparente a princípio, onas ganhando pêso,
dignidadfe e influência; um fator que passara além da sele­
ção natural, que já não dependia inteiramente de qualquer
agente de evolução orgânica e que, sacudido e balançado
pelas oscilações da hereditariedade que estava por baixo dê-
le, não obstante flutuava insubmerso sôbre ela.
^ Assim, a aurora do social não é um J o numa cadeia,
( nem um passo riüm caminho, mas uim salto para outro pla-
\ no. Pode-se compará-lo à primeira ocorrência da vida no
universo até então sem vida, ao momento em qúe uma das
infinitas combinações químicas se operou, produzindo o or­
gânico e fazendo com que desse momento em diante hou­
vesse dois mundos em vez de um. As qualidades e os mo­
vimentos. atômicos não interferiram quando êsse aparente­
mente trivial aiconteciimento ocorreu; a majestade das leis
mecânicas do ^ diminuida, mas algo de nov
foi inextinguivelmente acrescentado à história dêste plane ^
Poder-se-ia comparar o início da civilização com o fi­
nal do processo de ferver lentamente água. A expansão do
líquido prossegue por muito tempo. A sua alteração pode
ser observada pelo termômetro, beim. com o no volume, no
seu poder dissolvente como na sua agitação interna. Mas
êle permanece água. Contudo, finalmente, é atingido o pon­
to de ebulição. Produz-<se o vapor; a taxa de dilatação do
volume toma-se mil vezes maior, e, em lugar de um fluido
que brilha e se esparze, desprende-se invisivelmente um gaz
volátil. Nem as leis da física nem as da quimica são vio­
ladas; a natureza não é posta de lado; mas no entanto hou­
ve um salto: as lentas transições que se acumularam'
CONCEITOS NO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL 279

zero até cem foram excedidas num instante, e uma condição


de substância aparece, com novas propriedades e novas pos­
sibilidades de efeito.
Tal deve ter s i d o ^ & p - ° resultado do apa-
recimento.._dessa_.nova cqi|a,..a civilização^ Não precisámos
considerar que ela aboliu 6 curso do desenvolvimento da
vida. Certamente não eliminou de forma alguma ó seu pró­
prio substratum do orgânico. E não há razão, para crêr que
ela nasceu já completamente acabada. Todos êsses inciden­
tes e maneiras do início do‘ social são, afinal de contas, de
pouca importância para a compreensão de sua natureza es­
pecífica, e da relação dessa natureza com o caráter da subs­
tância orgânica que a precedeu em tempo absoluto e que ain­
da a sustem. A questão é que honve um acréscimo de algo
novo em qualidade, um início daquilo que devia seguir o
seu próprio cursa;
Podemos representar gràficamente a relação que existe
entre as evoluções do orgânico e do social, (fig. I ). Üma
linha que se estende com o correr do tempo, eleva-se pouco
a pouco, mas sempre mais. fNum certo ponto, outra linha
começa a divergir dela, insensivelmente a princípio, mas su­
bindo sempre e afastando-se cada vez mais no seü próprio
curso, até que, no momento em qué a cortina do presente
nos impede de vêr, cada qual prossegue, mas longe da outra
e não influenciada por ela. ' -

• —*
— — — * ------------ ” ”

A---------- ^ c o
FIGU RA I .
Desenvolvimento do inorgânico, orgânico e civilização. ■

Nêsse gráfico, a linha contínua indica o- nível inorgâ­


nico; a linha quebrada, a evolução do orgânico; a linha pon­
tilhada, o desenvolvimento da civilização. A altura a par­
tir da base será o grau de adiantamento, quer seja êle-com •-
plexidade, heterogeneidade, grau de coordenação oü ^q^fV^
280 LEITURAS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA SOCIAL

quer outra coisa. A será o começo do tempo sôbre esta terra


tal como se revelou à nossa compreensão. B marcará O' pon­
to do verdadeiro 'elo que falta, do primeiro precursor huma­
no, o primeiro animal que veiculou e acumulou a tradição.
C indicará o estado alcançado pelo que costumamos chamar
o homem primitivo, êsse homo de Neandertal que foi nosso
antepassado em cultura, se não em sangue, e D o momento
. presente. ‘ •
E’ inevitável que, se há fundamento para os argumentos
apresentados, debater sôbre essas linhas deve ser inútil.
Afirmar, porque a linha superior subiu com rapidez exata­
mente antes de ser interrompida, que a linha inferior deve
taimbém ter-se elevado proporcionalmente mais nesse período
que em qualquer outro anterior, é óbvio, não convence nin­
guém. Que as nossas instituições, nosso eonhecimento, o
exercício de nossas mentes, se adiantaram confusamente em
vnte mil anos não é razão para que nossos corpos e cérebros,
nosso equipamento mental, e sua base fisiológica, se tenham
adiantado num grau correspondente como arguem às vezes
certos cientistas e admitem geralmente os homens. Seria
antes uma prova de que a linha mais baixa, a linha orgânica,
teve diminuida a sua taxa de ascensão. Os corpos e as men­
tes dessa linha continuaram a veicular a icivilização; mas
essa civilização encontrou tal luta nò mundo, que muito da
ênfase se desyiou dêsses corpos e mentes. Não sustentamos
que o progresso da evolução orgânica seja indicação prima
fade de que a matéria inorgânica é mais complexa, mais
adiantada em suas combinações, ou de qualquer modo “ mais
alta” do que há cincoenta milhões de anos; muito menos pre­
tendemos que a evolução orgânica se realizou através de uma
evolução inorgânica, como causa. Nem tão pouco podemos
inferir do desenvolvimento social, um progresso das formas
de vida hereditárias. '
J

De fato, não só é a correlação das linhas do desenvolvi­


mento orgânico e social tão injustificada teoricamente, como
o seria concluir da compressibilidade ou do pêso da água, a
do vapOr; mas tôda evidência nos leva à convicção de que
em períodos. recentes marchou,.a icivilização;,.a uma veloci-
^ac^e *£? slfR'?rÍ0'r iã<y ritmo da evolução /hereditária, que a .
últirpa^ se. não se manteve realmente estacionária, nãò fêz,
CONCEITOS NO ESTUDO DA. ORGANIZAÇÃO SOCIAL 281

segundo tôda as .aparências, relativamente, nenhum progres-


go,. Há uma centena de elementos de civilização lá onde
havia um no tempo em que o esqueleto de Neandertal encer­
rava um cérebro viVo, e não é só o conteúdo da civilização
como também a complexidade de sua organização que foi
centuplicada. Mas o corpo e a mente associada dêsse ho­
mem primitivo não atingiram um ponto icem vezes, nem mes­
mo duas vezes, mais fino, mais eficiente, mais delicado ou
mais forte, do que eram naquele tempo; é duvidoso se pro­
grediram de um quinto. Há, é verdade pessoas que afir­
mam o contrário. Entretanto-, parece qúe os espíritos sen­
satos devem confessar que essas afirmações não se baseiam
numa interpretação objetiva dos fatos, mas.no. desejo cíe achar
uma correlação, no desejo de fazer o fio da evolução único,
eem ramificações, dé vêr o social apenas còm^jMgânioO. ..
Temos que chegar, assim, aqui, à nossa conclusão, e aqui
paramos. A mente e o corpo não são ornais que facetas .do
mesmo material ou Atividade orgânica; a substância social—
ou, se se preferir, o tecido' insubstancial, — aquilo; a_ que
chamamos civilização, transcende-os, emborá esteja enrai­
zada na vida..... Os processos da civilização- sjto-nos quase
desconhecidos. Os fatores que lhe.. gorernam._os..fifeitQá__não
estão resolvidos. As fôrças e princípios da .ciência mecanís-
tica podem de fato analizar a nossa civilização, mas, fazen­
do-o, destróem-lhe a essência, e deixam-nos sem a compreen­
são daquilo exatamente que procuramos. 0 historiador não
pode até aqui fazer mais que descrever. Êle traça e liga' o
que_parece„múit.a3istante.;_equilibra,..integra,...mas^mQ^a::
lidade jaão.. explica, nem transforma., os. fenômenos em qual­
quer outra coisa. 0 seu método não. é .mecanístico;..mas. o
físico ou o fisiologista não- pode lidar com o material hiató-
rico e deixá-lo civilizaçã<T~ném convertê-ló em conceitos de
vida e nada mais deixar para. ser feito. 0 qúe todos pode­
mos fazer é compreender essa falha, d e l a nos compenetrar­
mos com humildade, e seguir o nosso caminho de um lado e
de outro do abismo sem nos jactarmos ilusòiiamente. de que
êle foi transposto. . ,

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