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1.

Introdução

A dignidade da pessoa humana assume, a cada dia, papel mais importante no contexto
do Estado Democrático de Direito. No passado, a humanidade sofreu com as
malvadezas provocadas pelo Estado. Superada aquela infeliz fase da história mundial,
com o advento da Declaração Universal da ONU, de 1948, foram impostos limites aos
poderes estatais, que permitiram aos indivíduos conviver em um cenário de maior
segurança, paz e dignidade em suas vidas, (Moraes, 2003).

Contudo, não se pode olvidar que o princípio da dignidade da pessoa humana possui
conexões com os direitos fundamentais e que os operadores do direito tentam ou
tentarão fazer uso, cada vez mais, dessas pretensões constitucionais. Todavia, a
utilização incorrecta desses institutos poderá causar banalização e descrédito dos
mesmos, (Sarmento, 2004).

Assim, os direitos fundamentais são direito público de pessoas (física ou jurídicas),


contidos em dispositivos constitucionais e, portanto, que encerram carácter normativo
supremo dentro do Estado, tendo como finalidade potenciar o exercício do poder estatal
face da liberdade individual (idem).

Considera-se que o Estado e a sociedade evoluíram e, como consequência, houve o


desenvolvimento dos direitos e das garantias fundamentais. Atualmente, o campo de
abrangência dessas pretensões públicas cresceu, já que, além de defender a pessoa
contra os entes estatais, também constitui instrumento de defesa contra outros
particulares.

À vista disso, o presente projecto infere-se do cenário de terrorismo em Cabo Delgado,


sobretudo a deslocação da população nos distritos afectados, pois, verifica-se diversas,
graves e complexas as consequências que tem o terrorismo, sobre a vida, a qualidade de
vida, a saúde, a atenção da saúde e a prevenção das doenças naquele ponto geográfico
do país. Ao pretender descrevê-las, é inevitável o cruzamento entre formas específicas
de violência e suas principais vítimas. Ao mesmo tempo, observa-se que vários
fenómenos podem ser igualmente expressão e consequência do conflito e, portanto,
afectar diversas vítimas e alterar tanto sua qualidade de vida como as distintas
dimensões físicas, afectivas e psicossociais da saúde.

Autor: Sergio Alfredo Macore Pemba - Mozambique sergio.macore@gmail.com /


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1.1.Justificativa

Desde 2017 que começou o terrorismo em Cabo Delgado, na cidade de Pemba, o


número de pessoas deslocadas provenientes dos distritos mais assolados pela guerra
continua aumentando. Espalhados por toda cidade. Encurralada em meio à violência que
envolve aos terroristas, grande parte da população civil, especialmente nas zonas rurais,
vêem-se obrigadas a fugir de suas terras e vilas.

Alguns encontram-se em um sistema de assistência ou protecção consolidado e forçados


a viver em situação quase de abandono, obrigados a reassentam-se em condições de
total precariedade junto das famílias existentes na cidade de Pemba. Desprovidos de
seus lares e muitos de seus bens, obrigados a viver na miséria quase absoluta, separados
de familiares e amigos e em geral discriminados, nalgumas vezes as mulheres optam
prostituírem-se para alimentar, em geral de natureza interna, a deslocação de pessoas
aumentou e passou a ser vista como problema social e ambiental.

Sua principal característica é que as vítimas, mesmo fugindo de suas regiões de


residência habitual, alguns deslocados cruzam as fronteiras internacionais e outros não
cruzam. Trata-se, essencialmente, de um problema causado ou exacerbado por violações
de direitos humanos. Como tal reflete descompassos sociais graves e, em grande parte
dos casos, não encontra solução durável apenas por meio de políticas estatais internas
não eficazes em termos de protecção e apoio.

Mesmo elevado ao topo das discussões humanitárias das Nações Unidas, tendo sido
inclusive tema de debates e resoluções do Conselho de Segurança, muito pouco se fala,
no país, sobre questões relativas a pessoas deslocadas internas sobretudo a dignidade
dessas pessoas. Moçambique, muito honrosamente, além de ter ratificado os
instrumentos internacionais pertinentes ao tema, ainda tem uma lei nacional versando
exclusivamente sobre a questão central.

O pais, apesar de fazer parte de um continente que convive diariamente com a crise
humanitária mundial que percebemos na actualidade, ainda é pouco desenvolvido no
assunto, mas demonstra estar buscando um maior desenvolvimento para lidar com a
questão. Entretanto, não basta que Moçambique tenha leis nacionais ou seja parte de
instrumentos internacionais para que efectivamente lide com os direitos e deveres dos
deslocados. É mais do que necessário que procedimentos internos sejam adoptados para

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uma maior satisfação da protecção dos deslocados, visando garantir sua segurança e
bem-estar.

Por sua vez, devo ressaltar que não é somente do Estado a total responsabilidade pela
protecção dos deslocados, o Alto Comissariado das Nações Unidas e outras instituições
internacionais que lidam com refugiados ou deslocados, por não terem território
próprio, actuam nos territórios dos Estados, visando a efectivação da protecção da
população obviamente com a permissão do próprio Estado. No entanto, cabe dar
destaque ao facto de que a protecção dos deslocados não tem por fim o momento da
aceitação das províncias em receber esses indivíduos em seu território, vai além, muito
além.

Por que motivo é que durante o presente trabalho, dedicar-se-á um momento para
demonstrar a real efectividade da protecção, demonstrando o mais detalhadamente
possível a presença de acções que viabilizem a maior satisfação dos direitos e a
reposição da dignidade dos deslocados e uma efectiva protecção. Por fim, objectivando
analisar a efectividade da protecção do Estado moçambicano aos deslocados no âmbito
do Poder Judiciário, uma pesquisa jurisprudencial será realizada, demonstrando o real
posicionamento do referido Poder.

Por ser uma questão actual e por presenciarmos a maior crise humanitária que acontece
desde 2017 na província de Cabo Delgado, a atenção volta-se com maior força para o
tema. Não basta que somente o governo lide com tal questão, é necessário maior
empenho da sociedade civil, buscando inserção desses indivíduos na sociedade, tendo
em vista a dificuldade em buscar um novo lugar em uma cultura geralmente diferente.

À primeira vista, muitos podem se perguntar sobre o interesse que a temática possa
suscitar em Moçambique, ao argumento de que, em razão das geográficas da província e
do país, provavelmente a população mais afectada não seriam forçados a se deslocar
para outros distritos ou mesmo províncias do país por causas da guerra, ainda que
agravadas pelo terrorismo.

Ambiguamente, muitos consideram que o tema diga somente respeito dos outros países
africanos que vivem em guerra em todos anos, e que, por isso, não mereça a atenção de
uma tese em direitos humanos em Moçambique, sobretudo na província de Cabo
Delgado.

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Em uma perspectiva internacional imediata, já se verifica a relevância do tema para o
posicionamento de Moçambique quanto ao estatuto jurídico que deva ser aplicado às
pessoas que buscam abrigo após terem deixado suas zonas de origem em razão de
contextos de guerra (terrorismo).

Por exemplo, muitas pessoas têm buscado melhores condições de vida em alguns
distritos da província de Cabo Delgado, sendo que esta província é uma das do país, que
mais sofre com a escassez de água, falta de serviços básicos sociais e infra-estruturas
que podem alavancar o desenvolvimento da população residente. Em uma perspectiva
internacional mediata, a relevância do tema parece ainda mais clara. As causas de
guerra que orientam e provoca o deslocamento forçado de pessoas (em evento
intrinsecamente multicausal) resultam da relação estabelecida entre o homem e a
descobertas dos recursos naturais valiosos, que, além de insustentável, do ponto de vista
do desenvolvimento social, expõe enormes dificuldades as comunidades que menos
teriam contribuído menos de enfrentar guerras.

Do ponto de vista do discurso de protecção dos direitos humanos, que inclui a protecção
da existência humana digna, afrontada pelos efeitos do agir humano sobre a ganância, o
tema também é central.

1.2.Formulação do problema

Desde o início do terrorismo no ano de 2017, na província de Cabo Delgado, verifica-se


o aumento de número de população a deslocar-se para cidade de Pemba com objectivo
de procurar protecção e segurança, esses desejos tão necessitados pelos deslocados neste
momento, estão prescritos nos Direito Internacional Humanitário (DIH).

A província em causa, também atende um país de Estado Democrático, que é proposto


para que o Estado deve assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a
liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como
valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos (Alves et al,
2009). Como forma de atentar para a relação existente entre os Direitos Humanos e a
Dignidade da Pessoa Humana, buscando primar os pontos relevantes existente entre
esses institutos, uma vez que se usa com frequência a invocação da dignidade da pessoa
humana como o remédio para todos os males que atingem e conflituam os Direitos mais
nobres do ser humano que é a sua dignidade.

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Isto por que o Direito Humano por ser é um meio de mitigar as desigualdades para o
encontro de soluções justas e que a lei é um instrumento para garantir a igualdade de
todos.

Assim, Castilho (2011), faz repensar que a expressão direitos humanos representa o
conjunto das actividades realizadas de maneira consciente, com o objectivo de assegurar
ao homem à dignidade e evitar que passe por sofrimentos. (…) Que todas as pessoas
nascem livres e iguais em dignidade e direitos, são dotadas de razão e consciência e
devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Diante ao exposto, percebe-se que, o Direitos Humanos tem o condão de auxiliar no


entendimento dos dispositivos regulado e supralegal, para que o valor máximo do
homem, para que sua dignidade seja resguardada.

Tratando a todos com respeito e consideração, ao mesmo tempo em que preservará suas
prerrogativas e o direito de receber igual tratamento das pessoas com as quais se
relacionam, garantido a todos que seja concedido tratamento condizente com a
dignidade da pessoa humana, civilizar o tratamento a todos com respeito e consideração,
ao tempo em que preservará seus direitos e prerrogativas, devendo exigir igual
tratamento de todos com quem se relaciona (Abebe, 2011).

As normativas referentes aos direitos humanos, que são aplicáveis tanto em período de
guerra como em situações de conflito armado, também fornecem uma importante
protecção aos deslocados internos. Tem como objectivo evitar o deslocamento de
pessoas e garantir os direitos básicos, caso ele venha a ocorrer (Abebe, 2009).

A proibição da tortura, do tratamento ou da punição brutal, desumana ou degradante, e o


direito de desfrutar pacificamente da própria propriedade, da vida doméstica e familiar
são particularmente importantes para evitar o deslocamento. (Alves at al, 2009). O
direito à segurança pessoal e a um lar, assim como os direitos à comida, abrigo,
educação e acesso ao trabalho oferecem uma protecção essencial durante o processo de
deslocamento. Muitos desses direitos também desempenham um papel importante no
retorno (Idem).

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Entretanto, na prática, não é o que acontece. As populações atingidas pelo terrorismo
em Cabo Delgado, deixaram suas casas por causa dos combates. Milhões de pessoas
que lutam pela sua sobrevivência e obrigadas a fugirem para cidade de Pemba, sendo
abrigadas em casas de família de outras comunidades.

Este processo de acolhimento deveria é meramente do Estado de construir centro de


acolhimento aos deslocados, de modo a não transferir as responsabilidades para os
familiares, que de certa forma encontram-se em condições de extrema pobreza e
vulnerabilidade. Esses e outros direitos humanos devem ser assegurados para qualquer
pessoa sem discriminação, incluindo a discriminação fruto do deslocamento. O Direito
Internacional Humano é aplicável em situações de conflito armado, seja ele de âmbito
internacional ou nacional.

Se os deslocados internos estiverem em um Estado envolvido em conflito armado,


desde que não estejam tomando parte das hostilidades, serão considerados civis e, dessa
forma, terão direito à proteção garantida aos civis.

Para ser cientificamente válido, a preocupação que justifica este trabalho é saber, De
que forma a Estratégia da SADC no combate ao terrorismo tem contribuído na
estabilização de Cabo Delgado?

1.3.Objectivo geral

 O objectivo geral deste trabalho, é de Analisar a Estratégias da SADC no


combate ao terrorismo.

1.3.1 objectivo específico

 Avaliar os mecanismos de Cooperação Internacional em matéria de combate


terrorismo.
 Caracterizar a Estratégia das acções conjuntas das forças de defesa da SADC no
combate ao terrorismo;
 Descrever Impacto socioeconómico provocado pela acção terrorista em Cabo
Delgado.
 Examinar o papel das organizações internacional no combate aos crimes
organizado e financiamento do terrorismo
 Propor possíveis medidas de melhoria quanto a protecção, segurança e
manutenção de bem-estar dos deslocados no âmbito do Poder Jurídico.

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1.4.Variáveis

Variáveis

Independente Dependente

1.Estratégias de acções conjuntas  Combate ao terrorismo em Cabo


Delgado.
2.Mecanismo de combate ao terrorismo
 Combate ao terrorismo em Cabo
Delgado
3, Papel das Organizações Internacional
 Combate aos Crimes organizados e
do financiamento do terrorismo

Fonte: Adaptado pelo autor, 2022

2.METODOGIA

2.1.Metodologia/técnicas de pesquisa

Para a concretização dos objectivos traçados na presente pesquisa foi necessário


recorrer a certos métodos e técnicas de pesquisa que permitiram que as hipóteses de
estudo fossem comprovadas. Dentre os métodos e técnica usada, os destaques vão para
a revisão bibliográfica, pesquisa documental, inquérito, entrevista.

Para o alcance dos objectivos previamente traçados no âmbito da realização do trabalho


científico, é necessária a aplicação de métodos que, para Marconi (2001), consistem em
uma aplicação de uma série de regras com finalidade de resolver determinado problema
ou explicar um facto.

Um conjunto das actividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e


economia, permite alcançar o objectivo de conhecimentos válidos e verdadeiros,
traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista
(Lakatos e Marconi, 2003).

Num trabalho científico de modo geral, inicia-se com a colecta de dados sejam eles
bibliográficos ou de pesquisa de campo, supostamente importantes para um referido
problema (Marconi, 2001).

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Para a recolha dessa informação na perspectiva de Campenhoudt e Quivy (1992), não
existe dentro da diversidade de métodos científicos existentes os melhores, a escolha
deles depende dos objectivos do modelo de análise e das características do campo de
análise.

Nesta óptica de ideia, o presente trabalho tem uma forma de abordagem que é
qualitativa que, prende-se em analisar descrevendo e interpretando o fenómeno de
deslocamentos populacionais devido a guerra em Cabo Delgado. O estudo é
exploratório e descritivo em que, segundo De Assis (s/d), a exploratória tem a finalidade
de proporcionar maiores informações sobre determinado assunto, facilitar a delimitação
de um tema de trabalho.

Para Gil (2008), são desenvolvidas com objectivo de proporcionar visão geral, é
realizado especialmente quando o tema escolhido é pouco explorado e enquanto a
descritiva, visa observar, registar, analisar, clarificar e interpretar os dados na
perspectiva de De Assis (s/d) e para Gil (2008), tem como objectivo primordial a
descrição das características de determinada população ou fenómeno ou
estabelecimento de relações entre as variáveis.

A pesquisa bibliográfica, constitui o procedimento metodológico mais aplicado neste


trabalho que implica em um conjunto ordenado de procedimentos de busca por
soluções, sempre realizada para fundamentar teoricamente o objecto de estudo,
contribuindo com elementos que subsidiam a análise futura dos dados obtidos e tem
sido um procedimento bastante utilizado nos trabalhos de carácter exploratório-
descritivo (Mioto e Lima 2007).

A pesquisa bibliográfica, consistiu também na pesquisa documental que, foi efetuada a


partir da recolha institucional de informações e pesquisa de artigos científicos, que
abordam o assunto de deslocados, guerra, direitos humanos, para além de relatórios de
tratados internacionais sobre proteção, segurança e bem-estar dos deslocados.

A fonte de colecta de dados na pesquisa documental está restrita a documentos, escritos


ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias. Estas podem ser feitas no
momento em que o facto ou fenómeno ocorre, ou depois (Marconi e Lakatos, 2003).

A recolha institucional de informações úteis ao trabalho, será feita ao nível das


direcções que lidam com os assuntos de deslocados na cidade de Pemba, tais como

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INGD e Liga dos Direitos Humanos informações, mas também algumas Organizações
Não Governamentais (ONG‟s) que estão na linha da frente no apoio aos deslocados.

O trabalho terá auxílio de algumas ferramentas legais, convenções e protocolos


internacionais sobre a segurança, protecção e bem-estar dos deslocados e refugiados que
vigor em Moçambique. Para fundamentar e enriquecer o conteúdo ou informações, far-
se-á entrevista semi- estruturada aos responsáveis das instituições seleccionadas que
lidam com os deslocados na província de Cabo Delgado.

2.2.Entrevista

As entrevistas serão fundamental para captar as informações dos deslocados sobretudo a


proveniência, facilidades e dificuldades que enfrentam.

2.3.Grupo alvo de entrevistas

O inquérito deverá abranger homens e mulheres provenientes dos distritos afectados na


província a serem seleccionados pelo estudo, que tenham uma idade igual ou superior a
18 anos.

2.4.Amostra

A definição da amostra foi feita obedecendo a fórmula da determinação da amostra para


um universo que não ultrapassa as 100 mil unidades e nesse caso, para o estudo o grupo
alvo, é estimado em 201.846, que representa o número da população da cidade de
Pemba (CENSO, 2017).

3.REVISÃO TEÓRICA

Este capítulo faz referência de diversos autores que, de alguma forma, abordam o
assunto em estudo, mas, sobretudo, os conceitos, com alguma limitação que se deve à
dificuldade encontrada na disponibilidade de trabalhos já feitos sobre o assunto.

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Como defendem Lakatos e Marconi (2003), a revisão bibliográfica visa a citação das
principais conclusões e ideias a que outros autores chegaram e permite salientar a
contribuição das pesquisas já realizadas e demonstrar contradições ou reafirmar
comportamentos e atitudes.

3.1.Conceito de guerra

CLAUSEWITZ (1832), considera a guerra como “um acto de violência para levar o
inimigo a fazer a nossa vontade”. Assim, diz o autor, “a violência, ou seja, a força física
(...) é, pois, o meio; a submissão compulsória do inimigo à nossa vontade é o objectivo
último”. O autor explica ainda que, para que o objectivo se atinja plenamente, o inimigo
tem que ser desarmado, sendo este o verdadeiro objectivo das hostilidades na teoria, já
que assume o lugar do objectivo final, colocando-o como algo que não pertence bem à
guerra.

Neste caso, Boniface (1997), afirma que Clausewitz via a guerra como um elemento
instrumental e intencional, e explica que foi dessa concepção política ou racional da
guerra que resultou a famosa fórmula de CLAUSEWITZ (1832): “a guerra é uma
simples continuação da política por outros meios”.

A guerra pode ser também entendida de outras formas. Segundo SANTOS (2000), a
concepção cataclísmica vê a guerra como uma catástrofe inevitável. A concepção
escatológica considera a guerra a forma de alcançar um estádio superior da vivência do
Homem na Terra, sendo essa uma situação de pureza exigida pela religião.

3.2.Deslocados internos

Recentemente contudo, em alguns casos, como as fronteiras, contrariando a tendência


global, têm vindo a tornar-se menos porosas (Cernea and McDowell, 2000), muitos dos
indivíduos permanecem dentro do território do seu país, designando-se de “deslocados
internos”. Não tendo atravessado uma fronteira, não beneficiam de nenhuma lei
internacional específica, nem de uma organização mandatada para responder
exclusivamente às suas necessidades.

As populações deslocadas, muitas das vezes, atravessam as fronteiras nacionais e


tornam-se refugiados num outro país, beneficiando da Convenção Internacional de 1951
sobre o Estatuto dos Refugiados e o seu Protocolo de 1967 (Office of the United
Nations High Comissioner for Human Rights).

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Os deslocados internos surgem nos trilhos dos conflitos internos ou regionais que têm
grassado em quase todos os continentes, desde o final da Guerra-Fria. O armamento que
os Estados Unidos e a União Soviética haviam distribuído aos seus aliados de ocasião,
vem sendo utilizado nas guerras entre clãs e grupos étnicos que despontaram nessa
altura. (Cohen e Deng, 1998).

Os actores presentes neste tipo de conflito, muitas das vezes, usam como estratégia a
expulsão de diferentes tribos ou grupos étnicos, sem distinção entre combatentes e não
combatentes (Hashimoto, 2003).

A decisão de não ter incluído os deslocados internos nos beneficiários da Convenção de


1951 repousa sobre vários motivos que nada devem aos contornos do conceito: recursos
limitados; vontade de impedir que os Estados se desresponsabilizassem pelo bem-estar
das suas populações, delegando esse imperativo noutros Estados ou comunidade civil; e,
particularmente, o receio de que a interferência nos assuntos dos deslocados internos
pudesse constituir uma ingerência nos assuntos internos dos Estados onde os deslocados
residiam, mutilando assim a soberania nacional dos mesmos (Rutinwa, 1999).

O facto de serem as autoridades nacionais a assumir a responsabilidade primária pelo


bem-estar dos deslocados internos, coloca, por vezes, sérios entraves à protecção física
e à assistência material concedida a estes migrantes. Na realidade, podem ser os
próprios governos a expulsar e a causar a fuga destas populações muitas vezes
confundidas com os grupos rebeldes ou podem, simplesmente, não ter capacidade ou
vontade de as apoiar (Castles, 2003).

Devido a estas contradições e ao reconhecimento de que estas inquinavam o


enquadramento analítico que vigorava, tradicionalmente, na explicação da violência
dentro dos Estados, têm surgido vozes defensoras de um conceito mais abrangente de
segurança humana, imbuído de preocupações com as ameaças à dignidade humana, e
que se centra na protecção dos indivíduos, por contraste à protecção exclusiva do
Estado (CERNEA,2000).

Estado esse, que muitas das vezes não tem tido condições para responsabilizar-se dos
deslocados internos, o agravante é de que não permite a ajuda externa para combater os
terroristas evocando questões de soberania (Idem).

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A questão da soberania constitui, efectivamente, um rastilho para o estalar de grandes
controvérsias com as quais as Nações Unidas se vêem envolvidas frequentemente,
quando o que está em causa é a assistência internacional prestada dentro dos limites de
um Estado que não conseguiu assegurar as suas responsabilidades no que toca a
protecção dos deslocados internos (COHEN, 2004).

Os governos não gostam que entidades externas venham interferir nos seus assuntos
internos, sobretudo no caso de guerras, pois temem que a assistência possa quebrar a sua
autoridade, ao legitimar seus oponentes, afugentando, por isso, a ajuda humanitária
(Inês, 2009).

Corre-se, assim, o risco de gerar situações dúbias, nas quais se aguarda que um Estado,
num cenário de emergência, julgue e decida o momento a partir do qual a comunidade
internacional pode entrar no território e começar a trabalhar com os terroristas
(Hashimoto, 2003).

3.3.Direitos Fundamentais

Dimoulis e Martins (2007) entendem que, para se falar em direitos fundamentais, há que
se estar presentes três elementos: Estado, indivíduo e texto normativo regulador da
relação entre Estado e indivíduos. Assim, “essas condições apresentaram-se reunidas
somente na segunda metade do século XVIII”. Ainda sustentam que, sem a existência
do Estado, esses direitos não poderiam ser garantidos e cumpridos.

Apesar de que o elemento indivíduo necessite existir para se conceber a ideia de


pretensões constitucionais, tais autores, salientam que, “no passado, as pessoas eram
consideradas membros de grandes ou pequenos colectivos (família, clã, aldeia, feudo,
reino), sendo subordinadas a tais colectivos e privadas de direitos próprios” (Silva,
2007).

Posteriormente, nas constituições modernas, o indivíduo passou a ser considerado um


ser moral, independente e autónomo, o que possibilitou o reconhecimento de direitos
individuais, tais como a liberdade, a igualdade e a propriedade.

Por sua vez, o terceiro requisito é o texto normativo regulador da relação entre Estado e
indivíduos que, conforme o aludido autor Silva (2007), é exercido pela Constituição,
que declara e, ao mesmo tempo, garante determinados direitos fundamentais.

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Na perspectiva de Silva (2007) enfatiza que “as teorias dos direitos fundamentais foram
formuladas de acordo com a organização do Estado em cada época histórica, em função
da relação entre o Estado e os súbditos, uma vez que nessa relação se estabelecem os
direitos, as garantias e as liberdades dos cidadãos”.

É bastante utilizada a expressão gerações dos direitos fundamentais, o que gera uma
ideia de gradação. As pretensões essenciais de primeira geração referem-se aos direitos
individuais e políticos, cuja finalidade era limitar o poder opressor do Estado a favor
dos indivíduos. Nessa época, vivia-se sob as batutas do Estado liberal, que se
posicionava distante das relações privadas (Pasqualini, 1999).

Esses direitos tiveram origem nas doutrinas iluminista e jus naturalista, dos séculos
XVII e XVIII, englobando a vida, liberdade, propriedade, igualdade formal, as
liberdades de expressão colectiva, os direitos de participação política e, ainda, algumas
garantias processuais individuais (Idem).

Com o declínio do Estado Liberal, surge o chamado Estado Social), cujo objectivo
primordial era minimizar a injustiça e permitir aos cidadãos uma melhoria na qualidade
de vida. Tem-se, nesse momento, um Estado intervencionista e assistencial, que
adoptava práticas no campo social. Daí serem de segunda geração tais direitos,
chamados de sociais (Nobre,2000).

Já os direitos de terceira geração relacionam-se aos direitos colectivos e difusos, vez


que transcendem o homem-indivíduo. Como exemplos citam-se o direito ao meio
ambiente sadio, o direito do consumidor, o direito ao desenvolvimento económico
sustentável e a conservação do património cultural (Rosenvald, 2008). Salienta-se que,
actualmente, tem-se falado em direitos fundamentais de quinta geração, sendo aqueles
relacionados à realidade virtual, em razão do grande desenvolvimento da internet, de
outro turno, refere-se a quinta geração dessas pretensões sob outra óptica, dizendo que
eles se relacionam ao direito à paz (Bonavides, 2008).

Faz-se atentar-se ao facto de que a terminologia gerações sugere, a princípio, uma


equivocada ideia de que cada nova geração substitui a anterior, o que não é verdade. Tal
facto pode ser comprovado através da análise da própria Constituição da República de
Moçambique, que engloba em seu corpo normativo direitos de todas as gerações.

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Na CR/2004 referências às pretensões essenciais são encontradas em diversas partes do
texto constitucional, destacando-se o título III: “Dos direitos, deveres e garantias
fundamentais”, que regulamenta direitos individuais, colectivos, sociais e políticos.

Dimoulis e Martins (2007) criticam a utilização do termo geração que, para eles, não é
cronologicamente exacto, pois, ao se considerar os aspectos históricos, “(…) pode-se
indicar que já havia direitos sociais garantidos nas primeiras Constituições e
Declarações do século XVIII e de inícios do século XIX”. Por essa razão, de acordo
com aqueles autores (2007), uma parte da doutrina prefere se referir às categorias dos
direitos fundamentais utilizando o termo “dimensões”.

Martínez (1995), afirma que “os direitos fundamentais são representantes de um sistema
de valores concreto, de um sistema cultural que deve orientar o sentido de uma vida
estatal contida em uma Constituição (…)”.

Nessa linha de raciocínio, Dimoulis e Martins (2007) exprimem que: “direitos


fundamentais são direito público-subjectivos de pessoas (física ou jurídicas), contidos
em dispositivos constitucionais e, portanto, que encerram carácter normativo supremo
dentro do Estado, tendo como finalidade limitar o exercício do poder estatal em face da
liberdade individual”.

A conceituação acima não é a melhor para ser adoptada nos dias actuais. Considera-se
que o Estado e a sociedade evoluíram e, como consequência, houve o desenvolvimento
dos direitos e das garantias fundamentais. Actualmente, o campo de abrangência dessas
pretensões públicas subjectivas cresceu, já que, além de defender a pessoa contra os
entes estatais, também constitui instrumento de defesa contra outros particulares
(Steinmetz, 2004).

A seu turno, Sarlet (2007), mais concatenado com o desenvolvimento da sociedade,


enfatiza que: “Os direitos fundamentais exprimem determinados valores que o Estado
não apenas deve respeitar, mas também promover e proteger, valores esses que, de outra
parte, alcançam uma irradiação por todo o ordenamento jurídico público e privado razão
pela qual de há muito os direitos fundamentais deixaram de poder ser conceituados
como sendo direitos subjectivos públicos, isto é, direitos oponíveis pelos seus titulares
(particulares) apenas em relação ao Estado”.

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Nesse mesmo diapasão encontra-se o conceito abaixo de Sarmento (2004): “Os direitos
fundamentais são concebidos como princípios supremos do ordenamento jurídico, não
só na relação do indivíduo com o poder público, actuando em forma imperativa.
Afectam, também, a relação recíproca dos atores jurídicos particulares e limitam sua
autonomia privada, regendo-se, então, como normas de defesa da liberdade e, ao mesmo
tempo, como mandados de actualização e deveres de protecção para o Estado”.

Na segunda dimensão, tais direitos actuam como fundamento da ordem político-jurídica


do Estado, que se propõem a emanar uma ordem dirigida ao Ente Público, no sentido de
que a ele incumbe a obrigação permanente de concretização e realização de tais
pretensões essenciais (Sarlet, 2007).

Destarte, os direitos fundamentais que no início objectivavam proteger o indivíduo do


Estado, actualmente, também visam à protecção contra outros particulares e, além disso,
por meio do conteúdo dessas pretensões, surge a possibilidade de o indivíduo receber
alguma prestação do Estado. Esses direitos relacionam-se com cada momento histórico,
em posições jurídicas essenciais que concretizam as exigências da liberdade, igualdade
e dignidade entre os seres humanos (Moraes,2003).

3.4.Dignidade da Pessoa humana

A raiz etimológica da palavra dignidade provém do latim dignus, que é aquele que
merece estima e honra. Segundo Rosenvald (2005): “A dignidade humana seria um
juízo analítico revelado a priori pelo conhecimento. O predicado (dignidade) que atribuo
ao sujeito (pessoa humana) integra a natureza do sujeito e um processo de análise o
extrai do próprio sujeito. Sendo a pessoa um fim em si jamais um meio para se alcançar
outros desideratos, devemos ser conduzidos pelo valor supremo da dignidade”.

Na actualidade, a tendência dos ordenamentos jurídicos é possibilitar ao ser humano o


exercício de suas actividades diárias com dignidade. De um modo geral, a actual
sociedade desaprova actos que atentem contra o ser humano.

Rosenvald (2005), cita Flórez Valdés (1990), para lembrar que “a dignidade da pessoa
humana é a razão de ser do direito e fundamento da ordem política e paz social. Todo
direito é constituído para servir ao homem (…). A dignidade situa o ser humano no
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epicentro de todo o ordenamento jurídico (…)”. Silva (2007), expõe que “se é
fundamento é porque se constitui num valor supremo, num valor fundante da república,
da federação, do país, da democracia e do direito”.

A Constituição moçambicana 2004, entre os princípios fundamentais, também já havia


proclamado “que todos os cidadãos têm a mesma dignidade e são iguais perante a lei.
Assim, percebe-se que a positivação constitucional da dignidade da pessoa humana
surgiu como uma resposta à prática de horrorosos crimes perpetrados contra os seres
humanos.

Consoante Moraes (2003), saber em que consiste a dignidade humana: “é uma questão
que, ao longo da história, tem atormentado filósofos, teólogos, sociólogos de todos os
matizes, das mais diversas perspectivas, ideológicas e metodológicas. A temática
tornou-se, a partir de sua inserção nas longas Constituições, merecedora da atenção
privilegiada do jurista que tem, também ele, grande dificuldade em dar substância a um
conceito que, por sua polissemia e o actual uso indiscriminado, tem um conteúdo ainda
mais controvertido do que no passado”.

Júnior (2000), faz referência a diversos doutrinadores, citando, em um primeiro


momento, Larenz (1978), para destacar que ele: “reconhece na dignidade pessoal a
prerrogativa de todo ser humano em ser respeitado como pessoa, de não ser prejudicado
em sua existência (a vida, o corpo e a saúde) e de fruir de um âmbito existencial
próprio”.

Benda (1996) entende que a dignidade da pessoa humana possui: “como parâmetro
valorativo (…), o condão de impedir a degradação do homem, em decorrência de sua
conversão em mero objecto de acção estatal. Mas não é só. Igualmente, esgrime a
afirmativa, de aceitação geral, de competir ao Estado a procura em propiciar ao
indivíduo a garantia de sua existência material mínima”.

É de salutar importância analisar, de forma mais acurada, os pontos acima destacados, a


começar pela igualdade entre os homens. Destaca Júnior (2000) que “a igualdade entre
os homens representa obrigação imposta aos poderes públicos, tanto no que concerne à
elaboração da regra de direito (igualdade na lei) quanto em relação à sua aplicação
(igualdade perante a lei)”.

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Quanto à impossibilidade de degradação do ser humano, ela se liga a protecção
outorgada ao homem para que ele não seja reduzido à condição de mero objecto do
Estado e de terceiros. Nos ensinamentos de Júnior (2000), essa abordagem “passa pela
consideração de tríplice cenário, concernente às prerrogativas de direito e processo
penal, à limitação da autonomia da vontade e à veneração dos direitos da
personalidade”.

Júnior (2000), ressalta, ainda, que “a consagração constitucional da dignidade da pessoa


resulta na obrigação do Estado em garantir à pessoa humana um patamar mínimo de
recursos, capaz de prover-lhe a subsistência”.

Com relação ao conceito de dignidade da pessoa humana, Sarlet (2009) entende que “a
busca de uma definição necessariamente aberta mas minimamente objectiva impõe-se
justamente em face da exigência de um certo grau de segurança maior e estabilidade
jurídica.

Sarlet (2009), comunga do entendimento segundo o qual o melhor conceito jurídico de


dignidade da pessoa humana deve abranger (mas não se restringir) a vedação da
coisificação e destacar a dupla perspectiva ontológica e instrumental, compreendendo a
sua dimensão negativa (defensiva) e a positiva (prestacional). Assim, tem-se por
dignidade da pessoa humana:

“A qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz


merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade,

3.5.Relação entre a Dignidade da Pessoa humana e os Direitos Fundamentais

Miranda (2000) observou que “a constituição confere uma unidade de sentido, de valor
e de concordância prática ao sistema de direitos fundamentais, que, por sua vez, repousa
na dignidade da pessoa humana, isto é, na concepção que faz da pessoa fundamento e
fim da sociedade e do Estado”.

O princípio da dignidade da pessoa humana é de suma importância para as pretensões


públicas subjectivas constitucionais. Coelho (2009) enuncia que “não há dúvida que os
direitos fundamentais (…) são influenciados e tocados pelo primado da dignidade da
pessoa humana”.

Na preleção de Silva (2007), “a dignidade da pessoa humana é um valor supremo que


atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida”.
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Para Sarlet (2004), uma vez que os direitos e garantias fundamentais encontram seu
fundamento directo e imediato: “na dignidade da pessoa humana, do qual seriam
concretizações, constata-se que os direitos e garantias fundamentais podem ser
reconduzidos de alguma forma à noção de dignidade da pessoa humana, já que todos
remontam à ideia de protecção e desenvolvimento das pessoas”.

Andrade (2006), sustenta que o princípio da dignidade da pessoa humana radica na base
de todas as pretensões essenciais. O grau de vinculação dos diversos direitos àquele
princípio poderá ser diferenciado, de tal sorte que existem direitos que constituem
explicitações em primeiro grau da ideia de dignidade e outros que dele são decorrentes.

Dessa maneira, em conformidade com Sarlet (2004), o princípio da dignidade da pessoa


humana actua como elemento fundante e informador dos direitos e garantias
fundamentais e, ainda, serve de parâmetro para aplicação, interpretação e integração,
não apenas de tais pretensões constitucionais, mas de todo o ordenamento jurídico.

Portanto, os direitos fundamentais e a dignidade da pessoa humana apresentam, como


traço comum, o facto de que ambos “actuam no centro do discurso jurídico-
constitucional de forma indissociável”.

Verifica-se ser inseparável a inter-relação entre a dignidade da pessoa e as pretensões


constitucionais, mesmo em ordens normativas nas quais a dignidade ainda não mereceu
referência expressa, porque os direitos fundamentais são inerentes à pessoa humana.

Conforme Biagi (2005), tais direitos “são os pressupostos elementares de uma vida
humana livre e digna, tanto para o indivíduo como para a comunidade: o indivíduo só é
livre e digno numa comunidade livre; a comunidade só é livre se for composta por
homens livre e dignos”.

Consoante já salientado, Moraes (2003) pensa que o substrato material da dignidade da


pessoa humana compreende quatro princípios jurídicos, nomeadamente os da igualdade,
liberdade, integridade física/moral (psicofísica) e solidariedade que, segundo Sarlet
(2009), “encontram-se vinculados a todo um conjunto de direitos fundamentais”.

Ainda para Sarlet (2004), essas pretensões essenciais constituem explicitações da


dignidade da pessoa humana. Nesse ínterim, em cada direito fundamental se faz
presente um conteúdo ou, pelo menos, alguma projecção da dignidade da pessoa.

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Essa dignidade, na condição de valor fundamental, atrai o conteúdo de todos os direitos
fundamentais de qualquer dimensão (ou geração). Como consequências, “sem que se
reconheçam à pessoa humana os direitos fundamentais que lhe são inerentes, em
verdade estar-se-á negando-lhe a própria dignidade” (Haberle,2009).

3.6.Direito Internacional Humanitário (DIH) e Direito Internacional dos Direitos


Humanos (DIDH)

A finalidade precípua do Direito Internacional Humanitário (DIH) e do Direito


Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) é a protecção da vida, da saúde e da
dignidade da pessoa humana, entretanto, sob ópticas distintas.

O Direito Internacional Humanitário regulamenta questões não contempladas pelo ramo


do Direito Internacional dos Direitos Humanos, como a condução das hostilidades, o
status de combatente e de prisioneiro de guerra, a protecção do emblema da cruz
vermelha e do crescente vermelho (BOCKENFORDE, 1993).

Em contrapartida, o Direito Internacional dos Direitos Humanos dispõe acerca de


aspectos da vida em tempos de paz, que não estão regulamentados pelo DIH, como a
liberdade de imprensa, o direito de reunião, de votar e fazer greve.

O DIH é um conjunto de normas internacionais, convencionais e consuetudinárias,


destinadas a regulamentar problemas causados directamente por conflitos armados
internacionais e não internacionais. Ou seja, protege as pessoas e os bens afectados, ou
que podem ser afectados por um conflito armado, ao mesmo tempo em que limita o
direito das partes conflituantes de escolher os métodos e os meios de fazer guerra
(UNAMI, 2016).

Os principais tratados de DIH aplicáveis em caso de conflito armado internacionais são


as quatro Convenções de Genebra e seu Protocolo Adicional I, de 1977. Em caso de
conflito armado não internacional, as principais disposições aplicáveis são o artigo 3º,
comum às quatro Convenções de Genebra e as disposições do Protocolo Adicional II.

Por sua vez, o DIDH é um conjunto de normas da mesma natureza que o DIH, mas que
estipula o comportamento e os benefícios que as pessoas ou grupos de pessoas podem
esperar ou exigir do Governo.

Neste contexto, os direitos humanos são aqueles inerentes a todas as pessoas, em razão
de sua condição enquanto seres humanos, sendo que muitos princípios e directrizes de
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índole não convencional (direito programático) integram também o conjunto de normas
internacionais de direitos humanos.

As principais fontes convencionais do DIDH são os Pactos Internacionais de Direitos


Civis e Políticos e de Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966), as Convenções
relativas ao Genocídio (1948), à Discriminação Racial (1965), Discriminação contra a
Mulher (1979), Tortura (1984) e os direitos das Crianças (1989).

Conclusões

As migrações forçadas de pessoas por causa de guerra agravada pelo terrorismo em


Cabo Delgado é resultado de uma função complexa que envolve diversas consequências
que colocam as populações dos distritos abrangidos em situação de vulnerabilidade.

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O alto nível de vulnerabilidade, decorrente da pobreza, fragilidade de instituições
políticas e sociais aptas a lidar com contextos de crise, além da insuficiência de
informações, combinados com o agravamento dos ataques terroristas podem gerar
grandes crises humanitárias e impõem a reflexão sobre medidas de protecção em âmbito
nacional e internacional, inclusive para garantia da segurança dos deslocados internos.

Terrorismo, por si só, apenas em contextos específicos forçou o deslocamento de


pessoas nos distritos abrangidos. Contudo, esses deslocamentos produziram efeitos
socioeconómicos que são capazes de agravar vulnerabilidades já existentes, devido a
pobreza. Ou seja, as consequências resultantes da guerra na Província de Cabo Delgado
actuarão em combinação com factores preexistentes que compõem a vulnerabilidade das
populações, multiplicando sofrimento, determinando assim o deslocamento forçado das
populações.

Causa-efeito intrínseca das deslocações forçadas, demonstra a fluidez e


interdependência dos órgãos que apoiam os deslocados, impondo uma análise
sistemática e consequências do agir do Estado e Organizações não-governamentais
(ONG). A protecção pelo direito humanitário pode garantir respostas rápidas e
emergenciais a situações de guerra. E mesmo quanto às respostas emergenciais, o
sistema actual de Moçambique carece de recursos financeiros suficientes para protecção
satisfatória das comunidades vulneráveis. Como a assistência humanitária é sempre
encarada como uma liberalidade, os recursos são disponibilizados aos Estados
considerados mais estratégicos aos doadores.

A protecção pelo sistema de direitos humanos é mais abrangente e inclui todo o género
humano. O fortalecimento dos direitos humanos reduziria a vulnerabilidade e criaria um
sistema sócia e económico coeso, enfrentando as causas para o deslocamento. Os
direitos humanos também funcionam como prisma para a protecção a ser garantida
durante o deslocamento e no reassentamento.

A Convenção de Kampala indica direitos humanos que devem ser resguardados e


promovidos em situações envolvendo o deslocamento interno de pessoas. Tal
documento tem por fim a estabilidade do movimento interno forçado, com a actuação
pelo próprio Estado. A previsão de cooperação de outros países, por meio desse
mecanismo, é apenas complementar e não vinculante. Contudo, tendo em vista que
Moçambique é denominado o um dos países mais pobre do mundo, instituições políticas

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são frágeis, onde carecem de infra-estrutura de protecção para situações de crise, a mera
enunciação de direitos humanos pouco garante em termos de protecção efectiva.

O problema dos deslocados internos na província de Cabo Delgado impõe, para o seu
enfrentamento de racionalidade organizada, voltada para restabelecer a dignidade das
populações afectadas.

As condições de sobrevivência dos deslocados requerem que se volte também aos


efeitos combinados e cumulativos de direitos dos deslocados, oriundos de várias fontes
de apoio, capazes de produzir efeitos estabilizador duma vida digna e duradoura para os
que estão nos centros de acomodação e os que estão nas casas de arrendamento ou
familiar.

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