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ACADEMIA DE CIÊNCIAS SOCIAIS E TECNOLOGIAS- ACITE

MESTRADO EM GLOBALIZAÇÃO E SEGURANÇA

SÉRGIO ALFREDO MACORE

POLÍTICA EXTERNA E DIPLOMACIA DA ÁFRICA DO SUL DE 1994 À 2021

LUANDA, ANGOLA
MAIO 2022

Autor: Sergio Alfredo Macore, 846458829 – Pemba Mozambique Pá gina 1


SÉRGIO ALFREDO MACORE

POLÍTICA EXTERNA E DIPLOMACIA DA ÁFRICA DO SUL DE 1994 À 2021

LUANDA, ANGOLA
MAIO 2022

Autor: Sergio Alfredo Macore, 846458829 – Pemba Mozambique Pá gina 2


ÍNDICE

1.Introdução................................................................................................................................3

1.1.Objectivos.........................................................................................................................4
1.1.1.Objectivos gerais........................................................................................................4
1.1.2.Objectivos específicos...............................................................................................4
2.Metodologia.............................................................................................................................4
3.Revisão de Literatura...............................................................................................................5
3.1.Marco teórico....................................................................................................................5
3.2.A Nova Política Externa: de Mandela a Zuma.................................................................6
3.3.A normalização das relações no Governo Mandela..........................................................7
4.As políticas dúbias de Mbeki...................................................................................................8
5.Redimensionando as relações regionais...................................................................................9
6.A visão de Mandela...............................................................................................................10
6.1.A áfrica do sul pós-apartheid..........................................................................................11
6.2.A África do Sul e o contexto externo pós-apartheid.......................................................12
7.África do sul e o novo contexto internacional.......................................................................13
7.1.África do sul e os conflitos africanos..............................................................................14
8.Renascimento africano...........................................................................................................15
9.As relações diplomáticas: o jogo dos opostos (1947-1974)...................................................16
9.1.Integração regional e relações Sul-Sul: a política externa da administração Zuma.......17
Conclusão..................................................................................................................................18
Bibliografias..............................................................................................................................19

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1.Introdução

A África do Sul é um país de importância singular para compreender as Relações


Internacionais contemporâneas. Localizada na parte mais austral do Continente Africano,
banhada pelos Oceanos Atlântico e Índico, a África do Sul ocupa uma posição geopolítica e
geoeconómica estratégica. Com o fim do regime do Apartheid, no início da década de 1990, o
país inicia um período de reinserção internacional que tem como componente fundamental a
normalização das relações com os demais países africanos, em especial, seus vizinhos da
África Austral. O objetivo deste trabalho é analisar a política externa da África do Sul tendo
como fio condutor o papel que a inserção regional tem para as ambições sul-africanas no
sistema mundial.

Em 1994, a eleição de Nelson Mandela na África do Sul colocou fim a quase meio século de
apartheid, regime de segregação racial que dividiu o país durante grande parte da Guerra Fria.
Em termos de política externa, o fim do apartheid assinala também o término de uma fase da
diplomacia sul-africana, época em que a defesa de regimes brancos na África Austral era a
principal meta do governo. Essa postura bélica e antidemocrática, que procurava impedir a
ascensão de determinadas raças ao poder na região, acabou isolando a própria África do Sul
do sistema internacional.

É na última década do século XX que se encerra o período da África do Sul como Estado-
pária da comunidade internacional e que começa a Renascença Africana. A nova política
externa sul-africana é reconhecida por diplomatas e estudiosos de relações internacionais
como bastante distinta daquela vigente até a década de 1990.

Um conjunto de fatores externos e internos contribuíram para o fim do apartheid.


Externamente, o colapso da União Soviética e o impacto do fim da Guerra Fria no continente
africano tornaram impossível a manutenção de um governo cujo principal argumento de
inserção na comunidade internacional ainda era o combate ao comunismo na região. Uma vez
derrubado este argumento, pouco restou ao governo sul-africano para resistir aos apelos anti-
segregacionistas da comunidade internacional.

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1.1.Objectivos

1.1.1.Objectivos gerais

 Analisar a Política externa e diplomática da áfrica do sul de 1994 à 2021.

1.1.2.Objectivos específicos

 Encontrar uma série de condicionantes internos que possam nos ajudar a explicar, de
forma ampla, a reformulação pela qual passou a política externa da África do Sul;
 Definir, em linhas gerais, o contexto do continente africano e da política internacional
no período pós-1994; e
 Analisar como esses fatores se combinaram no New Partnership for Africa´s
Development (NEPAD), um dos principais projetos da política sul-africana nas eras
Nelson Mandela e Thabo Mbeki.

2.Metodologia

A metodologia científica deve ser adequada para testar se o marco teórico consegue ou não
fornecer respostas aos problemas levantados pelo pesquisador. No campo das ciências sociais,
há duas formas de se testar teorias: experimentação e observação. Experimentação, no
problema aqui proposto, é impossível para o pesquisador, já que as variáveis não são
controláveis e a pesquisa se debruça sobre fatos já ocorridos. O método mais adequado que
escolhemos foi o da observação através de estudo de caso.

Há tempos o estudo de caso tem sido alvo de críticas dos cientistas sociais por não oferecer
métodos adequados para isolar variáveis perturbadoras do estudo. Por exemplo, um estudo de
caso que se limite a estudar o impacto de duas variáveis dependentes em um fenômeno
raramente consegue neutralizar ou isolar este fenômeno da influência de outros fatores
randômicos, que também podem ser determinantes no processo. Essas limitações devem ser
superadas pelo pesquisador ao definir variáveis dependentes e independentes em um ambiente
uniforme. Mas mais importante para o pesquisador é que o estudo de caso oferece ferramentas
para investigação dos processos. O elo causa-efeito que existe entre as variáveis

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independentes e o resultado observável pelo pesquisador é dividido em partes menores. Em
cada uma dessas partes, são investigadas evidências da relação causa-efeito.

3.Revisão de Literatura

3.1.Marco teórico

Para analisar a formação da política externa de um país, combinando fatores externos com
condicionantes internos, foi preciso encontrar um marco teórico que não se restringisse a
enxergar os problemas de relações internacionais unicamente nos clássicos “níveis de
análise”. É corrente, nos estudos de relações internacionais, a utilização dos “níveis de
análise”, que mostram aos investigadores onde procurar as causas do comportamento do
Estado, “classificando explicações concorrentes (ou variáveis independentes) de acordo com
unidades em que são conceitualizadas”.

No entanto, apenas um restrito número de problemas em relações internacionais se permite tal


tipo de análise em níveis. Estudos empíricos formulados em apenas um nível de análise,
doméstico ou internacional, têm sido suplantados por esforços teóricos que combinem os dois
planos na mesma explicação. Teorias que abarcam apenas o nível do sistema internacional
tende a interpretar falsamente o Estado como um ente racional e de composição unitária. Por
outro lado, os marcos teóricos que se detêm sobre aspectos da política interna de um país
ignoram os condicionantes externos que influem nas ações diplomáticas.

Um dos desafios dos atuais teóricos é encontrar um marco que não exclua nenhum dos dois
níveis de análise, e que, além disso, combine ambos fatores para gerar explicações a cerca de
um determinado fenômeno. Neste sentido, uma importante contribuição foi a elaboração da
teoria dos jogos em dois níveis, por Robert Putnam, em 1987. Putnam argumenta que o
formulador da política externa de um determinado país busca, no exercício de sua função,
conciliar simultaneamente imperativos domésticos e internacionais.5 Assim, a política externa
deste país é definida por um agente que atua (ou “joga”) em dois “tabuleiros” simultâneos.

Putnam vê as relações internacionais como um jogo que é praticado nos tabuleiros doméstico
e internacional. No nível I, ou seja, no plano internacional, os Estados atuam em relação um
ao outro conforme regras de balança de poder, semelhantes às definidas nas obras dos teóricos
realistas das relações internacionais. No nível II, o plano doméstico, acontece o que Putnam
chama de “jogo de ratificação”, ou seja, quando os governantes buscam apoio interno para

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suas iniciativas internacionais. A “vitória” nos dois tabuleiros é determinante para o sucesso
da política externa de um governo, que não pode prescindir de nenhum dos níveis.

3.2.A Nova Política Externa: de Mandela a Zuma

Entre o final da década de 1980 e início da década de 1990, a África do Sul passou por um
processo de transição profunda em suas estruturas sociais, econômicas e políticas. O ocaso do
Apartheid proporcionou condições para o fim do isolamento do país no Sistema Internacional.
Até meados da década de 1980, a África do Sul buscou a preservação do sistema como o
objetivo principal e quase único de sua política exterior. O Regime racista buscava justificar
suas ações na defesa dos interesses e valores da elite branca, inseridos esses no contexto da
Guerra Fria. Esse regime segregacionista, reativo e defensivo tinha, entretanto, características
ofensivas em ações que lhe permitiram extraordinário sucesso a curto prazo, notoriamente na
vizinhança. Logo, a partir do final do anos 1970, o colapso do colonialismo português afetou
também a balança de poder na África Austral.

Assim, o regime do Apartheid se esvaiu, entre os anos 1980 e 1994, pelas pressões domésticas
e circunstâncias do meio internacional, decorrentes da mudança do sistema internacional.
Internamente, aliado à onda de violência e protestos sociais, ocorria gradualmente o
esgotamento do modelo de produção no qual o regime do Apartheid se assentou por décadas,
baseado na geração de mão-de-obra excedente nos bantustões para suprir as atividades
econômicas dos centros africâneres.

Externamente, o conjunto de sanções internacionais, de natureza diversa, mas principalmente


econômica, que a partir do fim da década de 1980 começaram a ser impostas ao governo do
Apartheid isolaram o país. Estados Unidos da América, Inglaterra e outros membros da
Commonwealth fecharam as fronteiras para o comércio com a África do Sul e recomendaram
o fim dos investimentos externos diretos e operações financeiras naquele país. De fato, o
governo africâner passou a não mais financiar seus gastos com a repressão e a defesa e as
intervenções externas regionais, tendo que decretar moratória da dívida (1985). A recessão
econômica se agravou pela saída de empresas transnacionais do país e pela fuga de capitais.

A solução encontrada foi a transição negociada. O pacto entre o governo do Apartheid


(Partido Nacional) e os negros era visto como a única maneira de se garantir a manutenção
dos recursos à elite branca, ao mesmo tempo em que se incluía os negros no processo político.

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Esse processo não ocorreu de forma simples, pois ocorreram diversos conflitos internos com o
objetivo de desestabilizar o processo. O presidente Frederik de Klerk iniciou a desativar o
Regime com a libertação de Nelson Mandela (1990), com a Convenção Nacional da Paz
(1991) e com as eleições de 1994 que, com o direito ao voto de negros, indianos, mestiços e
brancos, elegeu-se Mandela para Presidente, pelo CNA. Em 1994 foram realizadas as eleições
e o CNA obteve a maioria dos votos (62,65%) e Mandela ascendeu à presidência, mas não
atingiu os dois terços necessários para aprovação da Constituição sem apoio de outros
partidos.

3.3.A normalização das relações no Governo Mandela

Nelson Mandela formou o Governo da Unidade Nacional com a finalidade de reorganizar o


país (com representantes de diversos partidos que se aliaram). Os braços armados do CNA e
do PAC foram integrados às forças de defesa do país, que já tinha um contingente próprio. A
situação dos negros vinculados ao desemprego, à precariedade da habitação, a falta de acesso
à terra, à educação, à saúde e as condições de desenvolvimento social deveriam ser
redimensionadas (o Programa de Reconstrução e Desenvolvimento consolidou tal
perspectiva).

Contudo, as metas desse Programa não alcançaram o sucesso pretendido, mas chamaram a
atenção para a possibilidade de investimentos externos diretos no país. Em 1996, ano da
promulgação nova Constituição, também foi criado o Programa Crescimento, Emprego e
Redistribuição (GEAR), com a proposta de crescimento de 6% ao ano, criação de mais de 1,3
milhões de empregos fora da agricultura e crescimento de 11% na exportação de manufaturas.
De forma geral, [...] o governo de Mandela consolidou a democracia no país, mas o direito de
ir e vir, do qual os negros passaram a dispor, levou milhares de pobres a abandonar as
reservas e se fixarem na periferia das cidades em busca melhores condições de vida [...].
(Visentini e Pereira 2010, 73)

As questões domésticas e internacionais, durante o mandato de Mandela estiveram


intrinsecamente ligadas a uma nova postura sul-africana. Eles se basearam na tese de que a
solução duradoura para os problemas internacionais viria por meio da consolidação da
democracia em todo o mundo. Muitos desses princípios eram encontrados no liberalismo
ocidental. Logo, esses princípios seguiam quatro definições, conforme Barber (2010): a) a
noção de divisão global entre o primeiro e o segundo mundo; b) o papel das organizações

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internacionais, centrais para se valorizar os direitos humanos, a paz e a igualdade; c) a
desmilitarização e, d) a posição da África do Sul no continente africano.

4.As políticas dúbias de Mbeki

Em 1999, o CNA se manteve no poder com a vitória de Thabo Mbeki (dois mandatos, entre
1999 e 2008). Nesse período, a África do Sul se consolidou como maior índice de
desenvolvimento do continente, cujo poderio econômico e militar se tornou comparativo do
Brasil em relação à América do Sul. Como Olivier argumenta, [...] Mbeki “pinta sua política
externa com um pincel largo e a sua visão da África é grandiloquente, autoestabelecendo uma
agenda que é, simultaneamente, ambiciosa, missionária e um pouco romântica, mas
intimidadora em complexidade e magnitude.” (2003, 815, tradução nossa)

Durante seu governo, a África do Sul obteve reconhecimento internacional como líder
regional. Laurie Nathan (apud Barber 2010) identifica três elementos nucleares em Mbeki:
democrático, africanista e anti-imperialista. Em complemento, Landsberg (2012) aponta que,
efetivamente, o governo Mbeki buscou compatibilizar políticas domésticas e externas, no que
se confirmou a “[...] Agenda Africana”; a Cooperação Sul-Sul; o diálogo Norte-Sul; e
questões socioeconômicas e político-securitárias (Landsberg 2012,80).

A concepção de uma African Renaissance que tem ocupado o centro da Política Africana da
África do Sul, opera nesse contexto contraditório de pessimismo/otimismo. Ela reconhece os
efeitos do colonialismo, o seu legado que deixou os países com fronteiras arbitrárias,
convulsionadas por divisões étnicas, com instituições políticas instáveis e economias precárias
baseadas na produção declinante e exportação de matérias-primas; mas também reconhece
aquelas regiões que estão começando a se abrir para a modernização. Mais do que um projeto,
contudo, o Renascimento Africano é uma aspiração. (2000, 70, tradução nossa)

Suas relações com a Ásia (China e Japão) e o MERCOSUL (Brasil e Argentina,


especialmente) se acentuaram. E sua projeção em direção ao continente se aprofundou
(especialmente nas relações com a Nigéria, parceiro essencial para Mbeki). Essas relações
com a Nigéria se intensificaram com a queda de Abacha em 1999. Em outubro de 2000,
Mbeki fez uma visita oficial à Nigéria e recebeu a visita do Presidente Olusegun Obasanjo.
Com o Zimbábue, também houve uma aproximação intensa no período. Os esforços de Mbeki

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para o continente não se deram apenas no âmbito bilateral. No início de 2005, Mbeki se
envolveu em negociações nos conflitos da Costa do Marfim, Sudão, Burundi, República
Democrática do Congo, Ruanda e Comores, bem como no Zimbábue e Suazilândia.
A Organização da Unidade Africana (OUA) foi transformada em União Africana (UA) em
2002 em uma reunião em Durban, África do Sul. O apoio sul- africano, bem como o da Líbia
foi decisivo para a ampliação dos objetivos da organização e para a criação de condições para
uma cooperação mais intima entre os países do continente e para uma verdadeira integração.
Assim como o NEPAD, a UA sofreu com a incerteza sobre seu principal foco. Uma clara
diferença entre os governos de Mandela e Mbeki referiu-se ao emprego das forças sul-
africanas nas operações de manutenção da paz das Nações Unidas e da própria União
Africana, amplamente aceitas no período de Mbeki (UN Assistance Mission in Afghanistan,
2002; UN Assistance Mission in Iraq, 2003; UN Mission in Nepal, 2007; AU/UN Hybrid
Operation in Darfur, 2007; UN Organization Stabilization Mission in the Democratic
Republic of the Congo, 1999; UN Integrated Office in Burundi, 2007. Conforme SIPRI
2011).

5.Redimensionando as relações regionais

A reinserção da África do Sul após o encerramento do Regime do Apartheid tem sua base nas
relações regionais. Ao longo dos mais de quarenta anos em que o Partido Nacional esteve no
poder, as relações com os vizinhos foram fortemente abaladas pelas políticas deliberadas de
desestabilização e pela postura agressiva da África do Sul. A principal organização regional,
inclusive, tem sua origem na tentativa de conter a África do Sul. É no Estados da Linha de
Frente (FLS) que reside a motivação para a criação da Comunidade para o Desenvolvimento
da África Austral (SADC).

A SADC foi criada em 1980, com o nome de Conferência Coordenada para o


Desenvolvimento da África Austral, com a Declaração de Lusaka, envolvendo nove países7.
Após a independência de Moçambique, Angola e Zimbábue, de acordo com Murapa (2002),
os líderes do Estados da Linha de Frente sentiram a necessidade de abordar, também questões
econômicas. Após uma reunião na Tanzânia, foi decidido desenvolver a possibilidade de
criação de um mecanismo regional para questões de desenvolvimento econômico nos países
da África Austral. Reside neste encontro a origem da SADCC.

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Em 1992, com o Tratado de Windhoek, a SADC ocupa o lugar da SADCC e, dois anos mais
tarde, com o fim do Apartheid e no novo contexto político na África do Sul, esta ingressa na
Organização. O ingresso da África do Sul na SADC é um marco na sua reinserção regional e,
também, no redimensionamento dos objetivos da Comunidade.
A decisão do governo sul-africano de, rapidamente, passar a integrar o principal processo de
integração da região e um importante fórum de discussões evidência a preocupação de
Mandela em deixar claro para os vizinhos a postura da nova África do Sul pós-Apartheid. É
forçoso relembrar que, com o fim do regime de segregação, as visões conflitantes do Partido
Nacional e do CNA entraram em disputa: enquanto o Partido Nacional defendia uma inserção
internacional voltada para a liberalização comercial e a atração de multinacionais, o CNA
visava o desenvolvimento via integração regional. A participação na SADC, assim, era a
afirmação da segunda estratégia.

Alguns anos após a entrada da África do Sul, a SADC passa por uma mudança importante: a
criação do Órgão para Política, Defesa e Segurança (OPDS) em 1996. A criação do OPDS, de
certa forma, traz para dentro da SADC os Estados da Linha de Frente, que, como lembra
Malan (1998), tinham encerrado suas atividades independentes em 1994 e decidido atuar
como braço político-securitário da SADC. O órgão é criado, contudo, como uma estrutura
quase independente, em um formato de cúpula, que não se remetia a Cúpula da SADC.

6.A visão de Mandela

Os anos entre 1990 e 1994 foram de recomposição do ANC, movimento que durante os anos
do apartheid havia se desestruturado e se recomposto inúmeras vezes, com o exílio, prisão,
morte e fuga dos seus principais líderes. Em julho de 1991, Nelson Mandela assumiu o
comando do ANC, depois que o líder histórico da sigla, Oliver Tambo, renunciou por
problemas de saúde. Mandela conduziu o debate interno do partido, assim como as
negociações da ANC com o governo e com a comunidade internacional, sobre as questões
políticas urgentes: reforma constitucional, programa econômico, sanções internacionais e
eleições.

Em todos os campos, preponderou a preocupação do ANC e de Mandela de assegurar o apoio


internacional à causa do partido, o que ajuda a explicar a renúncia do ANC a idéias e atitudes
históricas, como a inclinação socialista e o uso da violência como forma legítima de protesto.
Em outubro de 1993, o partido publicou o texto “Foreign policy in a new democratic South

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Africa” (“Política externa em uma nova e democrática África do Sul”) em que declara que o
futuro da diplomacia de Pretoria será determinada pela “crença de que as relações exteriores
precisam espelhar nosso profundo comprometimento com a consolidação de uma África do
Sul democrática”.
O período entre 1990 e 1994 foi de intensa concorrência entre o NP, de situação, e o ANC,
agora legalmente de oposição. Mais do que o mero confronto entre dois partidos, dois
modelos de renovação – representados pelos novos líderes De Klerk e Mandela – concorriam
para fundar uma nova África do Sul. Enquanto negociavam entre si para estipular os novos
rumos políticos do país, Mandela e De Klerk viajaram pelo mundo em busca de apoio
internacional para seus partidos.

Entre 1990 e 1992, Mandela visitou 49 países, dos quais 20 eram na África. Em período
semelhante, De Klerk viajou a 32 nações, sendo recebido por chefes de governo da Grã-
Bretanha e França, entre outros. Devido às mudanças promovidas contra o apartheid, foi o
primeiro presidente sul-africano a ser recebido pelos Estados Unidos em mais de quarenta
anos.

Segundo Barber, dois objetivos principais norteavam as viagens internacionais dos líderes sul-
africanos. De um lado, buscavam projetar internacionalmente o nome dos seus partidos, assim
como suas causas e suas propostas para o país. Por outro, viam esse respaldo internacional
como elemento importante para conquistar o apoio da opinião pública sul-africana, já que
estava claro que o país teria de passar por novas e democráticas eleições. Além disso, tanto
Mandela quanto De Klerk já trabalhavam para arrecadar fundos para seus partidos, prevendo
a disputa eleitoral.

6.1.A áfrica do sul pós-apartheid

Em novembro de 1993, Mandela já havia delineado os princípios que guiariam a política


externa de Pretória no caso de uma vitória do ANC nas eleições. Os pontos básicos da
diplomacia sul-africana foram explicitados em um artigo para a revista Foreign Affairs.

Mandela escreveu:

Os pilares nos quais se basearão nossa política externa são as seguintes crenças:

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 De que assuntos de direitos humanos são centrais para as relações internacionais e que
uma compreensão de que eles se estendem além do político, abraçando também o
econômico, o social e o ambiental;
 Que soluções justas e duradouras para os problemas da humanidade podem apenas
acontecer através da promoção da democracia em todo o mundo;
 Que considerações de justiça e respeito por leis internacionais deveriam guiar as
relações entre as nações;
 Que a paz é a meta para a qual as nações devem convergir, e onde isso não acontece,
mecanismos combinados e não-violentos, incluindo regimes eficientes de controlo de
armas, devem ser colocados em prática;
 Que as preocupações e os interesses da África devem se refletir nas nossas escolhas de
política externa;
 Que o desenvolvimento econômico depende de uma crescente cooperação regional e
internacional em um mundo independente.

Além de definir os direitos humanos como a base das novas relações exteriores do país,
Mandela salienta no texto a preocupação do país em se integrar o continente africano:
A África do Sul não pode escapar de seu destino africano. Se nós não dedicarmos nossas
energias a este continente, nós também poderíamos nos tornar vítimas de nossas forças que
arruinaram várias partes. [...] A África do Sul exige uma prioridade especial em nossa política
externa. Nós somos parte intrínseca da África Austral e nosso destino está ligado ao da região,
que é muito mais do que um mero conceito geográfico.

Apesar da preocupação explícita com os direitos humanos, a crise econômica e os problemas


comerciais ocupam grande parte do discurso de Mandela. O então presidente do ANC diz que
o país não vai ceder às pressões do General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) para
abertura imediata da economia sul-africana ao resto do mundo. Mandela deixa claro que o
ANC é a favor do livre-comércio e da democracia, mas que uma liberalização apressada de
tarifas poderia resultar no fechamento desnecessário de postos de trabalho.

6.2.A África do Sul e o contexto externo pós-apartheid

Após o fim do regime do apartheid, logo percebeu-se na comunidade internacional uma


mudança de atitude em relação ao regime de Pretoria. Da condição de Estado-pária, o país

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passou a ser uma das mais atuantes e observadas nações no cenário global nos anos 1990,
aderindo, em poucos anos, a diversas instituições.

Neste capítulo, vamos relatar como foi a inserção do antigo Estado-pária no novo contexto
internacional dos anos 90. Vamos começar observando como a África do Sul estabeleceu
relações com o Ocidente, sobretudo com os Estados Unidos, uma vez que durante os anos da
Guerra Fria o ANC e países ocidentais muitas vezes estiveram em lados opostos no espectro
ideológico. Em seguida, passaremos a analisar como foi a integração da África do Sul às
novas instituições.

Por fim, passaremos para a análise da relação da África do Sul com os conflitos nos países
vizinhos. Este segmento tem especial atenção em nossa análise, pois é no contexto regional –
ou seja, dentro da África Austral – que os líderes sul-africanos vêem maior importância sobre
sua atuação diplomática. Thabo Mbeki, tanto em sua atuação como presidente como nos anos
em que foi chanceler, sempre destacou que o bem-estar sul-africano depende do bem- estar do
sul da África.

7.África do sul e o novo contexto internacional

No novo contexto internacional, a África do Sul pode ser considerada uma potência média, ou
seja, uma nação que – como o nome indica – age e se posiciona hirarquicamente entre Estados
grandes e pequenos. Cooper e outros autores elaboraram quatro critérios que definem o que
são as potências médias. São eles: a posição do Estado em relação aos demais países em
critérios facilmente quantificáveis – como extensão da área, tamanho da população, riqueza
da economia, contingente militar, etc. –, a posição geográfica do país em seu continente, a
reputação da nação em relação aos seus vizinhos e o seu comportamento perante os demais
Estados.

Segundo Cooper, e também Barber, a África do Sul se encaixa nos quatro critérios definidos,
apesar de que, nos três primeiros, possa haver ainda algumas dúvidas. Outros países, como
Canadá e Austrália, por exemplo, preencheriam os requisitos pensados para as “potências
médias” com menores margens de questionamento. Na questão da riqueza da economia, por
exemplo, o Produto Interno Bruto da África do Sul se aproxima do México e da Turquia. Sua
riqueza regional só é similar a de uma potência média na comparação com a África Austral. O

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comportamento da África do Sul a partir do governo Mandela, dentro dos critérios apontados
por Cooper, é exatamente o de uma potência média.

O discurso de Mandela – que Mills classifica de “moralista” – revela que a nova política
externa sul-africana se aproxima ao conceito de potência média. Uma primeira medida desta
nova política externa foi o estabelecimento das relações com os Estados Unidos, grande
potência vitoriosa da Guerra Fria.

7.1.África do sul e os conflitos africanos

Nos anos pós-apartheid, a África do Sul foi chamada a exercer sua liderança em diferentes
conflitos no continente. De 1995 em diante, Mandela e o ANC tiveram de lidar – seja através
de ação direta do governo, como de participação nos fóros multilaterais – com conflitos na
Nigéria, Congo, Zimbábue, Lesoto, Angola e Burundi.

Já em 1995, o ANC encontrava-se no mesmo dilema entre suas opções do passado e seus
novos compromissos. A maior parte dos ex-líderes – inclusive Thabo Mbeki – nutria simpatia
pelo regime militar que comandava o país. No entanto, o país também se mostrava simpático
à causa da oposição pró-democracia. A escalada de violência causada pela disputa entre o
ditador Sani Abacha e o candidato da oposição Moshood Abiola fez com que Mandela se
posicionasse contra o governo nigeriano, mesmo sob as acusações de alguns países do
continente de romper uma certa “solidariedade africana”.

No Lesoto, a atuação da África do Sul voltou a ser alvo de críticas. Em 1998, tropas da África
do Sul e de Botsuana invadiram o país para reinstaurar a ordem, depois de uma crise política e
uma convulsão social. A operação teve repercussão interna e externa muito ruim. Primeiro
porque falhou em estabelecer ordem no Lesoto e provocou um alto número de mortes.
Segundo porque a África do Sul foi criticada por incoerência. O país, que em outros conflitos
insistia na solução negociada entre as partes, não hesitou em agir militarmente quando alguns
interesses diretos estavam envolvidos.

As críticas mais fortes foram feitas à África do Sul durante a crise no Zimbábue, em 2001.
Um processo de reforma agrária iniciada pelo presidente Robert Mugabe deu início a uma
forte disputa, traduzida no campo político pelos dois movimentos políticos, o situacionista
Zanu-PF e o oposicionista MDC. A opção sul-africana por uma “diplomacia silenciosa”98 e a
relutância de Pretória de condenar as fraudes eleitorais praticada pelo governo nos pleitos
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parlamentares de 2000 e presidencial de 2002 geraram pressão sobre o presidente Thabo
Mbeki. Depois de fracassadas tentativas de mediação de Mbeki entre as partes, a África do
Sul decidiu apoiar a decisão de suspender o Zimbábue da Commonwealth. Mbeki chegou a
receber pressão direta da Grã- Bretanha e dos Estados Unidos, que ameaçaram boicotar o
New Partnership for Africa’s Development (NEPAD), principal ação sul-africana de política
externa para o continente.

8.Renascimento africano

A primeira menção a um renascimento africano foi feita em discurso de Nelson Mandela em


junho de 1994 durante a 30ª Reunião de Cúpula da Organização da Unidade Africana (OUA).
Na ocasião, a África do Sul passou a ser o 53º país a ingressar na entidade, depois de um
longo período de exclusão devido ao apartheid. Ele culpou muitos dos problemas enfrentados
pelos governos africanos ao legado da colonização européia, mas também chamou os líderes
do continente a assumirem responsabilidade por más gestões.
Mandela disse:

Nós certamente precisamos encarar o assunto diretamente, que onde há algo errado na
maneira na qual nós nos governamos, precisamos dizer que a culpa não está nas nossas
estrelas, mas sim em nós mesmos, que somos mal-governados. A África clama por um novo
nascimento. Nós precisamos, além disso, dizer que não há obstáculo grande suficiente para
nos impedir de fazer surgir este Renascimento Africano. Nunca acontecerá novamente isso de
nosso país tentar dominar outro através do uso da força das armas, do poderio econômico ou
da subversão. Nossa política será a promoção da paz, de igualdade entre parceiros.

Mandela voltou a falar em Renascimento Africano dois anos depois, no dia 12 de julho de
1996, em discurso no Parlamento britânico.

Tão importante quanto qualquer outra pedra fundamental é o fato de que somos um país
africano. Com todas as nossas cores e raças combinadas em uma nação, nós somos um povo
africano. Os sucessos que nós procuramos, nós precisamos alcançar na política, na economia,
no desenvolvimento social. São os sucessos que precisam se tornar parte do Renascimento
Africano.

Autor: Sergio Alfredo Macore, 846458829 – Pemba Mozambique Pá gina 15


A mensagem positiva no discurso de Mandela passou a ser usada também para combater a
onda de “afro-pessimismo” que tomou conta do país. O jornal britânico The Independent,
escreveu em editorial sobre o que chamou de "novo sopro" no continente:
Nos olhos dos "afro-pessimistas", o continente inteiro está condenado a um ciclo infinito de
corrupção, autoritarismo, fome e guerra. [...] Mas, mais importante ainda, a África do Sul está
agora sentindo e afirmando sua liderançam continental. Esta posição não mais é contestada.
Os outros grandes países africanos - Sudão, Argélia, Zaire e Nigéria - estão todos em guerra
ou em caos e nenhum pode sequer começar a concorrer com a força econômica da África do
Sul ou com a imagem positiva que o presidente Mandela deu ao seu país.

9.As relações diplomáticas: o jogo dos opostos (1947-1974)

O final da Segunda Guerra Mundial significou, para as relações entre o Brasil e a União Sul-
Africana, um período de renovação e um marco nas relações bilaterais, tal qual havia
acontecido ao final da Primeira Guerra, quando o Brasil abriu o Consulado de Carreira na
Cidade do Cabo. Aliados, durante o conflito, as perspectivas para as relações bilaterais
apresentavam-se de forma positiva. No plano comercial, houve, durante a década de 1940, um
crescimento extraordinário das trocas comerciais, levando o Brasil grande vantagem; na
perspectiva política, a projeção alcançada pela União, sobretudo pela marcante presença
internacional de seu Primeiro-ministro, Jan Smuts, redobrou o interesse brasileiro em se
aproximar daquele país, interesse este que datava do final dos anos 1930, quando o então
Ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha, manifestou o interesse do Brasil em se
aproximar da União, com o desejo de abrir uma Legação em Pretória.

Outro fator estimulante para que os sul-africanos encetassem relações com o Brasil estava
ligado à expansão das relações exteriores da União Sul-Africana que, efetivamente, eram
muito modestas. Saliente-se que até o final dos anos 1940 a União se fazia representar, entre a
Europa e a América, somente em 11 países, a saber: Holanda (1929), Estados Unidos (1929),
Itália (1929), Portugal (1934), Bélgica (1934), França (1934), Alemanha (1934), Suécia
(1934), Canadá (1938), Argentina (1938) e Brasil (1943). Na África e na Ásia, as
representações da União se resumiam a um Consulado Geral em Moçambique (1920), um
Comissariado de Comércio para a África Ocidental e do Norte, estabelecido no Marrocos
(1938), Escritórios de Representação Comercial em Cingapura e na Índia e Comissários

Autor: Sergio Alfredo Macore, 846458829 – Pemba Mozambique Pá gina 16


Honorários de Comércio na Palestina e na China. Há ainda a ressaltar o fato de que, durante a
Segunda Guerra, e motivado pela sua conjuntura específica, o governo da União abriu
missões no Congo Belga, em Madagascar e no Egito (1942).

Do ponto de vista da União, diferentemente da perspectiva assumida pelo Itamaraty, a


diplomacia sul-africana percebia o Brasil não como um parceiro comercial importante, mas
sim como um eventual aliado político que poderia ajudar a romper a crítica à política racial
sul-africana e a possibilidade de isolamento crescente contra a União verificada no interior da
Organização das Nações Unidas.

Em decorrência da abertura proporcionada pela II Guerra Mundial, houve a perspectiva,


muito embora frustrada, de que haveria possibilidade de o comércio e as relações entre os dois
países entrar em ritmo constante e mais acelerado. No entanto, com o fim do conflito e a
reestruturação da economia internacional, Brasil e União Sul-Africana retomaram seus fluxos
de comércio com as tradicionais áreas reassumindo as posições anteriores, o que praticamente
encerrou o relacionamento que vinha se destacando no cenário atípico das relações comerciais
causados pelo efeito da guerra.

9.1.Integração regional e relações Sul-Sul: a política externa da administração Zuma

De modo geral, especulava-se que a administração Zuma traria algumas mudanças tanto no
âmbito interno como no externo ao país, uma vez que o novo governo sul-africano trazia na
base de apoio grupos como o Congress of South African Trade Unions, o South African
Communist Party e a ANC Youth League, estes contrários às políticas adotadas pelas
administrações anteriores. Logo, se no plano interno esperava-se atuação direcionada ao
rompimento com o desemprego, a melhora das condições de saúde e educação para grande
parcela da população, enfim, encontrar soluções a desafios herdados do regime do apartheid
não resolvidos pelas administrações anteriores, no âmbito das relações internacionais, as
expectativas giravam em torno da política que passaria a direcionar Pretória na África e no
mundo, principalmente a partir da transformação do Department of Foreign Affairs em
Department of International Relations and Cooperation, cuja finalidade objetivava reforçar
aos países africanos o caráter não hegemônico de sua atuação no continente (LANDSBERG,
2010).

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Ainda no âmbito econômico, porém, no que diz respeito à relação da África do Sul com o
mundo, o que se viu foram algumas transformações referentes ao posicionamento dos
principais parceiros comerciais de Pretória. Evidentemente que a União Europeia se manteve
como principal parceiro comercial da África do Sul, no entanto, ao longo dos anos 2005 e
2017, o que se viu foi a China ultrapassar os EUA e se transformar no segundo maior parceiro
comercial do país africano. Além disso, as trocas comerciais com o Mercosul também se
mantiveram relevantes, uma vez que, somada à continuidade nos exercícios navais do
IBSAMAR (II, III e V), demonstrou o interesse sul-africano em considerar o Atlântico Sul
(DTI, 2018a; 2018b; OTAVIO, 2017).

Conclusão

A política externa da Nova África do Sul tem se consolidado, com os governos Mandela,
Mbeki e Zuma, em maior ou menor grau, a partir do discurso e ações amplamente baseados
na noção de concretização da cooperação e de construção/consolidação de novas parcerias.
Esses novos direcionamentos, a Oeste ou Leste, mas mantendo a atenção com o Norte,
qualificaram a reinserção do país no sistema mundial pós-Guerra Fria.

A multipolaridade característica desse sistema tem possibilitado que novos atores com
relevância regional consigam consolidar sua ação no sistema, de forma a viabilizar a
formação de coalizões entre iguais, como o IBAS, o BRICS e as negociações na OMC.

Nesse sentido, o continente africano se consolidou, naturalmente, como a pauta essencial e


prioritária da política externa sul-africana. As demandas continentais, crises, conflitos e
processos de integração regional tornaram-se tema frequente durante os governos Mandela,
Mbeki e Zuma, porém com ações pontuais e específicas em cada qual. Enquanto Mandela
argumentava que todos os países africanos tinham a mesma importância para os sul-africanos,
num sentido de cooperação para a construção da paz e democracia no mundo, Mbeki – numa
noção clara de qual o tipo de equilíbrio de poder regional se buscava – priorizou as relações
com Nigéria e Zimbábue, como forma de legitimar ações regionais, dado o contexto ainda
relevante do governo de Mugabe até o final da década de 1990. Zuma, por sua vez, se
reaproximou de Angola, como contraponto à decadência zimbabuana na região, e levando em

Autor: Sergio Alfredo Macore, 846458829 – Pemba Mozambique Pá gina 18


conta a recuperação e a emergência de Luanda como polo de poder importante na África
Austral.

Nota-se, assim, que a política externa da nova África do Sul, ao priorizar as relações regionais
e atuar pontualmente na diplomacia continental, também revigorou os processos de
integração, como vetores da reaproximação sul-africana de seus vizinhos. Logo, a perspectiva
a médio e longos prazos é de consolidação desses processos baseada, por um lado, na
afirmação angolana e por outro, na manutenção sul-africana, constituindo dois polos de poder
regional alternativos.

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