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AS TRANSFORMAÇÕES DA PAISAGEM:

Documentação e Memória Social

PIMENTA, MARGARETH DE CASTRO AFECHE

1. Universidade Federal de Santa Catarina. Departamento de Arquitetura e Urbanismo


Endereço Postal: Campus Universitário, Trindade, 88040-900 Florianópolis/SC
E-mail: afeche@arq.ufsc.br

Introdução.

As paisagens brasileiras transformam-se incessantemente, com


processos substitutivos que apagam as marcas da história do lugar.
Quando resquícios dos objetos herdados ainda permanecem, sua
percepção fica diminuída entre as novas e impositivas construções, em
geral, de maior porte e, às vezes, de grande imponência. Os pequenos
exemplares antigos, cujas escalas ficavam limitadas pelas técnicas
tradicionais empregadas, veem-se, assim, destituídos de seu contexto, e
inseridos em um ambiente que faz com que se tornem praticamente
imperceptíveis na paisagem. Dessa forma, sem serem notados, são
presa fácil de processos de substituição. Sem que sejam reivindicados,
podem desaparecer, sem causar impactos sobre a opinião da população
local.

Se as políticas patrimoniais são frágeis o suficiente para se oporem a


esses processos de destruição do legado histórico, resta tentar fazer
com que a promoção da consciência patrimonial possa dar lugar a
movimentos de preservação que impeçam os sucessivos processos
substitutivos do ambiente construído. Como iniciar, então, um processo
de educação patrimonial? Talvez, em primeiro lugar, disponibilizando, de
forma sistemática, os documentos que podem ser recuperados e que
podem nos mostrar as características dos tempos passados. Mas, a
história é sempre reconstituição. Desta forma, além da sistematização e
acesso aos arquivos, cabe à Universidade transformar os documentos
encontrados em material analítico.

As ferramentas disponíveis, hoje, permitem um amplo acesso a arquivos


ou documentos. A maior parte dos documentos escritos ou imagens
aparecem, no entanto, na internet, de forma desorganizada, o que não
permite, ao leigo, compreender suas conexões e, assim, as relações
históricas que se estabelecem em períodos históricos determinados.
Faltam as relações que podem ser estabelecidas entre imagens,
documentos ou entre períodos históricos. Ao aumento das informações
disponibilizadas para acesso público não corresponde, imediatamente, a
possibilidade de compreensão da realidade em que se vive. Faz-se
necessário o processo de elaboração que transforma determinada
imagem ou texto em documento histórico.

Na tentativa de contribuir para a constituição da Rede Latino-Americana


de Documentação em Arquitetura e Urbanismo, o Núcleo Cidadhis
começou a montar uma página centrada nas paisagens históricas de
Florianópolis (arq.ufsc.br/cidadhis), visando, por um lado, organizar o
acervo, sobretudo iconográfico que existe, mas também transformá-lo
em instrumento de educação patrimonial.

A vontade de impor certa permanência à vulnerabilidade do ambiente,


imposta pela lógica político-econômica, fez pensar que a evocação da
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memória pudesse estimular um sentimento de defesa da preservação
cultural. Se os objetos históricos desaparecem silenciosamente, sem
reação, tudo se passa como se esse processo fosse praticamente
natural. Para desnaturalizá-lo pensou-se, então, na revalorização das
paisagens históricas. Mas como proceder? Certamente, disponibilizar
um montante cada vez maior de imagens antigas não é suficiente para
aumentar o nível de compreensão da importância da história de um
lugar.

Procedeu-se, então, de duas formas consideradas complementares. Por


um lado, houve a constituição de arquivos iconográficos, catalogando,
datando e contextualizando as fotos e imagens antigas que podem ser
facilmente utilizadas para pesquisas cientificas, mas também, podem se
constituir em material a ser relacionado de diversas maneiras. Os locais
datados podem permitir estabelecer a relação entre os diversos
componentes que coexistiram em um determinado tempo histórico, ou
detectar as transformações de um lugar ao longo do tempo.

Esses procedimentos necessários para sistematizar material histórico


documental, pareceu insuficiente para evocar os sentimentos de
preservação a partir da compreensão da história. Procurou-se, então,
elaborar alguns sistemas de elaboração simples de alguns documentos.
Um deles foi a demonstração das tentativas frustradas de preservação
do centro histórico, apresentando trabalho de revitalização da área
central (Projeto Patrimônio Vivo), que foi ignorado, e mesmo combatido,
pela Prefeitura Municipal. Outras tentativas iniciais foram a
reconstituição da linha do tempo e a recomposição de paisagens se
transformando, situadas geográfica e historicamente. São apenas
ensaios iniciais na direção da elaboração de metodologias que
consigam combinar um saber erudito com a difusão ampla do
conhecimento.

Em relação à documentação, não se trata somente de tornar acessível


uma nova quantidade de dados até então dispersos ou ignorados. Trata-
se de torná-los compreensíveis, ou seja, que sejam tratados para que se
tornem efetivamente fontes de pesquisa, ou de elucidação de trajetórias
concretas, percorridas pelas diferentes realidades sociais. Se a
velocidade de inserção de informações é cada vez maior, ela estimula,
por outro lado, o desaparecimento dos processos explicativos, que
poderiam permitir que a história em geral e as histórias em particular
pudessem se tornar inteligíveis, já que os dados aparecem, muitas
vezes, de forma isolada, fragmentada, sem o estabelecimento de
conexões.
O que aquela imagem do passado tem a ver com a minha cidade? A
forma como ela é oferecida ao público sugere mais a contemplação
imediata, do que a vontade de ser levado à compreensão do espaço
atual de vida, compreendendo-o como resultado de acumulações
desiguais de tempos históricos.

Trata-se, no caso das cidades brasileiras, de bloquear o trabalho do


esquecimento, de constituir as paisagens históricas em lugares de
memória. (Nora, 1993) A memória é a possibilidade de acesso a um
acontecimento do qual não participamos, essa aproximação ao fato que
depende da existência de traços escritos, orais, monumentais ou
arqueológicos. Sem eles, resta o esquecimento.

É a história que desdobra uma massa de elementos que devem ser


isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados,
organizados em conjuntos.

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Como, então, trabalhar os documentos? Eles são a expressão de
sociedades historicamente definidas, mas são, também, uma das visões
que foi ali produzida. A fotografia, por exemplo, pode permitir novas e
diferentes interpretações da história social. O pesquisador precisa situar
a fotografia em um determinado tempo e espaço, e perceber, numa
sequência, as alterações efetuadas nos costumes e nos lugares. De
preferência, a documentação fotográfica deve tentar compreender, com
a ajuda de outros documentos, o conjunto de variáveis que compõem os
diversos períodos, sem esquecer que a história é sempre uma recriação.

Como deve ser analisada a paisagem, já que, além dos objetos que a
compõem e da inserção no ambiente, a paisagem é carregada de
significados simbólicos? Compreendê-la pode implicar na consideração
de seus elementos contraditórios, percorrendo da objetividade da
construção do espaço urbano à subjetividade do olhar sobre a
paisagem.

Para valorizar paisagens históricas singelas como as catarinenses, que


não possuem grandes e ricas construções, fez-se necessária a
ampliação da conceituação patrimonial, atribuindo um valor específico à
memória histórica. A característica monumental cede lugar ao lugar de
memória que, este sim, pode ser trabalhado na memória social. Da
noção de lugares de memória (Nora, 1993), pode-se inferir que
atravessamos sociedades invadidas por memórias múltiplas. (Vidal,
2007, p.8)

Analisar as paisagens históricas de uma cidade comum, a partir de sua


sucessão de imagens, coloca o desafio de inseri-las num percurso que
poderia ter apresentado diversos finais. Florianópolis, em seus tempos
produtivos, significou diversas organizações sociais ritualizadas. A
cidade viveu seu tempo lento até praticamente os anos 60. Suas
paisagens foram pouco a pouco, ou mesmo rapidamente, sendo
transformadas. Procuram-se hoje as identidades perdidas. Dispersam-se
buscas e informações, sem conseguir fazer pensar o movimento
contraditório das diversidades que compõem a história local.

Do esquecimento nascem novas possibilidades. A organização de


arquivos, mas também, de relatos imagéticos podem ser uma
possibilidade de trabalhar com essa história esquecida. Poder pensar
sobre uma imagem significa que ela pode ser considerada como um
documento. Para se tornar um documento, a imagem contextualizada
tem que permitir que a curiosidade especulativa possa entrar em relação
com diversas escalas espaciais e diferentes tempos históricos. Ao
mesmo tempo, como linguagem, cede lugar à controvérsia, estimula
várias versões. Aqui consiste o desafio de tornar público um saber
elaborado.

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