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PETIÇÃO 10.

654 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. RICARDO LEWANDOWSKI


REQTE.(S) : JOAO PEDRO DE SOUZA E SILVA
ADV.(A/S) : JORGE NORMANDO DE CAMPOS RODRIGUES
ADV.(A/S) : RODRIGO CAMARGO BARBOSA
ADV.(A/S) : ANA MARIA DOS SANTOS ROSINHA
ADV.(A/S) : LETICIA MOUNZER DO CARMO
REQDO.(A/S) : JAIR MESSIAS BOLSONARO
ADV.(A/S) : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

Trata-se de queixa-crime ajuizada por João Pedro de Souza Silva


em desfavor do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro,
imputando-lhe a possível prática, na data de 16 de outubro de 2022, do
crime de injúria qualificada (arts. 140 e 141, §2º, III, todos do Código
Penal - CP).

Nessa linha, o querelante sustenta que:

“[...] Em 12 de outubro de 2022, durante um evento


realizado no Complexo do Alemão, o ex-presidente Luís Inácio
Lula da Silva apareceu trajando um boné com a sigla ‘CPX’, um
presente de René Silva - fundador do jornal Voz das
Comunidades e articulador da caminhada que aconteceu no
Complexo do Alemão.
O boné, na verdade, é a abreviação da expressão
‘Complexo de Favelas’, sendo utilizado inclusive por
autoridade em redes sociais e documentos oficiais para se
referir à região, conforme esclarecimentos do Correio
Braziliense (disponível em:
>ttps://www.correiobraziliense.com.br/holofote/2022/10/5044834-
sigla-cpx-em-bone-usado-por-lula-significa-complexo-e-nao-tem-
relacao-com-faccao.html> Acesso em 17.10.2022). .
No entanto, os apoiadores do querelado começaram a
divulgar mensagens associando indevidamente a sigla CPX a
traficantes e ao crime organizado – o que, obviamente, ofende a
reputação dos moradores do Complexo do Alemão.

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Três dias depois, o querelado insistiu no discurso


preconceituoso durante a campanha que realizava em Teresina
(Piauí), alegando que:
‘Esse ladrão, no BNDES [Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social] fez obras para fora
do Brasil. Não olhou para o seu povo, não olhou para os
mais pobres, não olhou para o desenvolvimento. Olhou
apenas para seus amigos, seus cupinxas e seus CPX (veja-
se em: https://www.metropoles.com/brasil/eleicoes-
2022/em-ato-no-piaui-bolsonaro-usa-sigla-cpx-para-
atacar-lula-ladrao. Acesso em 17.10.2022). (DOCUMENTO
1 – ANEXO 12)’
Não satisfeito, o querelado declarou mais uma vez -
durante o debate dos presidenciáveis que aconteceu na noite de
16 de outubro e foi transmitido pela TV Band – suas falas
preconceituosas:
‘Eu conheço o Rio de Janeiro, o senhor esteve no
Complexo do Salgueiro. Não tinha um policial do seu
lado, só traficante. Tanto é verdade sua afinidade com
traficantes e bandidos que nos presídios do Brasil, cada
cinco votos, você teve quatro votos (Disponível em:[...] .
Acesso em 17. 10. 2022)’
Ressalte-se que o ex-presidente, apesar de afirmar que
conhece o Rio de Janeiro, confundiu o Complexo do Salgueiro
com o Complexo do Alemão - onde de fato foi realizado o
evento ao qual ele se referia. Mas o pior de tudo foi que, mesmo
depois de ter tido tempo suficiente para se informar sobre o real
significado de “CPX”, o querelado continuou desqualificando
durante o debate todos os moradores e participantes do ato
realizado na agenda de campanha do candidato Lula,
afirmando que ao lado dele só havia “traficante” (conforme
matérias em anexo).
Acontece que, na contramão das falas do querelado, a
população se reunia pacificamente, sem armas, em ato que
transcorreu dentro da legalidade.
Após essas declarações, o querelante, que participou da

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caminhada junto com sua esposa e sua filha, afirma que se


sentiu profundamente desonrado com as falas preconceituosas
do atual presidente.
Ressalte-se que o discurso do querelado desqualifica a
honra subjetiva do querelante e de todos os presentes naquele
ato político, uma vez que, ao serem comparados com
traficantes, foram completamente humilhados.
Aliás, registre-se que, ao contrário do que afirma o
querelado, o ato contava com a presença de inúmeros policiais
que acompanharam toda a manifestação de apoio a Lula.
Noutro viés, merece destaque que se estima existirem no
Complexo do Alemão cerca de 300 fuzis – ou seja, o total de
traficantes que atuam na região – é bem pequeno em cotejo com
a população local de 250 mil habitantes.
Não há como deixar de ressaltar, igualmente, que, por
conta de discursos preconceituosos e, porque não dizer,
criminosos, como o proferido pelo querelado, os moradores da
periferia, especialmente das favelas do Rio de Janeiro, têm que
provar diariamente sua inocência para além dos muros da
comunidade, já que são obrigados a andar com nota fiscal dos
produtos que carreguem como celulares, tablets, bicicletas etc.
[...]
A fala do querelado, portanto, coloca ainda mais à
margem da sociedade milhares de pessoas honestas que
residem na região e fomenta o discurso de ódio contra essa
população, rebaixada em rede nacional pela pessoa que se diz
apta a representá-las enquanto Presidente da República.
Desse modo, em razão de ter sido violentamente ofendido
em sua honra pelo querelado, que lhe imputou conduta
injuriosa, o querelante não vê outra alternativa senão a
propositura desta queixa-crime para punir o querelado por suas
falas preconceituosas e irresponsáveis.” (e-doc.1)

Ao final, pede o seguinte:

“[...] A. A citação do querelado para apresentar sua defesa,

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sob pena de confissão e revelia, junto ao descrito na conduta a


fim de processar, condenar e punir o ato típico consistente
pronunciamento abusivo e criminoso, nos termos do art. 140 e
art. 141, caput, § 2º e inciso III, Decreto Lei nº 2848/40;
B. A manifestação do i. Ministério Público Federal, nos
termos da Lei n º 8.038/90;
C. Ao final, após a comprovação dos indícios de autoria e
materialidade do fato já fartamente expostos nesta inicial, seja o
querelado condenado nas penas cominadas no art. 140 do
Código Penal, como também seja a pena máxima em concreto
aplicada, com a causa de aumento de pena ao triplo, do art. 141,
§ 2º, do CP;
D. Pleiteia-se, ademais, que este Egrégio Supremo
Tribunal Federal arbitre o valor dos danos causados pelo crime,
nos termos do art. 387, IV, do CPP, e que o referido valor seja
revertido para entidades de combate à violência no Complexo
do Alemão – Rio de Janeiro ou escolas públicas e creches
localizadas na comunidade;
E. A concessão dos benefícios da justiça gratuita, por ser o
autor hipossuficiente, conforme preceitos do artigo 5º, LXXIV
da Constituição Federal e art. 98, CPC.” (e-doc. 1)

É o relatório. Decido.

Registro, inicialmente, que o art. 21, § 1º, do Regimento Interno do


Supremo Tribunal Federal atribui ao relator o poder de negar seguimento
a pedido contrário à jurisprudência dominante ou manifestamente
improcedente. Pode, inclusive, dispensar a manifestação da Procuradoria-
Geral da República - PGR, nos termos do art. 52, parágrafo único, daquele
ato normativo.

Examinados os autos, constato, de plano, irregularidade processual


na queixa-crime apresentada nestes autos.

Como é cediço, o Código de Processo Penal - CPP prevê balizas

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normativas mínimas para o oferecimento de ação penal privada por


procurador regularmente constituído, dentre elas a outorga de poderes
especiais e a menção expressa ao fato criminoso no instrumento do
mandato. Veja-se:

“Art. 44, do CPP: A queixa poderá ser dada por


procurador com poderes especiais, devendo constar do
instrumento do mandato o nome do querelante e a menção do
fato criminoso, salvo quando tais esclarecimentos dependerem
de diligências que devem ser previamente requeridas no juízo
criminal.” (grifei)

Dito de outro modo, não basta a simples indicação do tipo penal


imputado ao querelado, exigindo a lei processual a concessão de poderes
especiais e a indicação suficiente do fato criminoso no instrumento de
mandato outorgado ao procurador, circunstâncias que não estão
presentes no caso em exame.

Com efeito, a procuração - que alicerçou a propositura da presente


queixa-crime - materializou a transferência dos poderes do ofendido para
seu representante legal nos seguintes moldes:

“[...] O que podem fazer:


Em conjunto ou separadamente poderão defender os
interesses do outorgante (cliente), e terão poderes especiais para
agir, transigir (fazer acordo), discordar, dar e receber quitação,
desistir, juntar e retirar documentos, apresentar pedidos
perante repartições públicas federais, estatuais e municipais,
requerer os benefícios da justiça gratuita, substabelecer
(transferir) a presente procuração, com ou sem reserva de
poderes, bem como praticar todas as medidas que sejam
necessárias para o cumprimento do mandato.” (e-doc. 2)

Como se nota, a procuração trazida aos autos deixou de observar


todas as diretrizes normativas previstas no art. 44, do CPP. Daí por que a

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omissão de referência ao fato criminoso torna, por consequência, o


instrumento do mandato outorgado carente de formalidade exigida pela
legislação processual.

Rememoro, a propósito, que a compreensão hermenêutica desta


Corte consolidou-se no sentido da imprescindibilidade da especificação
do fato criminoso, como forma de resguardar eventual responsabilização
pelo crime de denunciação caluniosa:

“RECURSO ORDINÁRIO EM "HABEAS CORPUS" —


CRIME CONTRA A HONRA — QUEIXA-CRIME —
INSTRUMENTO DE MANDATO JUDICIAL QUE NÃO
PREENCHE OS REQUISITOS DO ART. 44 DO CPP —
OMISSÃO SOBRE A NECESSÁRIA REFERÊNCIA
INDIVIDUALIZADORA DO FATO CRIMINOSO —
IMPOSSIBILIDADE DE REGULARIZAÇÃO —
CONSUMAÇÃO DO PRAZO DECADENCIAL (CPP, ART. 38)
— RECONHECIMENTO DA EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE
DO ORA RECORRENTE E CONSEQUENTE TRANCAMENTO
DA AÇÃO PENAL — RECURSO PROVIDO.” (RHC 105.920,
Rel. Celso de Mello, Segunda Turma)

Não bastasse tudo isso, no plano das condições da ação, cumpre


sublinhar que o sujeito passivo do crime de injúria (art. 140 do CP) é a
pessoa natural que tem a sua dignidade ou decoro violados, e não
genericamente um conjunto de pessoas ou a coletividade. Isso porque,
diferentemente da calúnia ou da difamação, o bem jurídico tutelado é a
honra subjetiva da vítima. Confira-se, nesse sentido, a redação da figura
penal:

“Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou


o decoro:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.”

Nesse panorama, convém destacar que a doutrina exige também

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a configuração do elemento subjetivo especial do tipo, de sorte que, não


existindo qualquer indicação no sentido de que o querelado tenha
dirigido ofensas contra a honra do querelante, a peça exordial descortina-
se inepta. Nos dizeres de Cezar Roberto Bitencourt, in verbis:

“Enfim, o elemento subjetivo do crime de injúria é o dolo


de dano, constituído pela vontade livre e consciente de injuriar
o ofendido, atribuindo-lhe um juízo depreciativo.
Mas, além do dolo, faz-se necessário o elemento subjetivo
especial do tipo, representado pelo especial fim de injuriar, de
denegrir, de macular, de atingir a honra do ofendido. Simples
referência a adjetivos depreciativos, a utilização de palavras que
encerram conceitos negativos, por si sós, são insuficientes para
caracterizar o crime de injúria.” (BITENCOURT, Cezar Roberto.
Tratado de Direito Penal, parte especial: dos crimes contra a pessoa,
Vol. 2, 12. Saraiva, 2012, p. 349-350).

Fixadas essas premissas, constato, de forma indene de dúvidas, que


falece ao querelante legitimidade ativa ad causam no presente feito.

Isso porque, ao que se extrai da própria causa de pedir da exordial


acusatória, as graves conjecturas e ilações lançadas pelo querelado –
associando a sigla “CPX”, constante nos bonés utilizados pelo ex-
Presidente Luís Inácio Lula da Silva em visita eleitoral ao Estado do Rio
de Janeiro, a suposta prática criminosa - não identificam o querelante,
nem tampouco fizeram menção, em nenhum momento, ao nome dos
participantes daquele ato eleitoral.

Dito de outro modo, a petição inicial não aponta injúria qualificada


dirigida expressamente ao requerente, de sorte que, por corolário lógico,
não lhe é conferida legitimidade ativa para o exercício da ação penal
privada.

Isso posto, com fulcro nos arts. 21, §1º, do Regimento Interno do

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Supremo Tribunal Federal e 395, I, do CPP, nego seguimento à presente


queixa-crime.

Intime-se a Procuradoria-Geral da República.

Publique-se. Arquive-se.

Brasília, 26 de outubro de 2022.

Ministro Ricardo Lewandowski


Relator

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