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HABEAS CORPUS 221.

760 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. EDSON FACHIN


PACTE.(S) : ROBERTO JEFFERSON
IMPTE.(S) : PAULO CESAR DE BRITO
COATOR(A/S)(ES) : MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES

Decisão: Trata-se de habeas corpus impetrado contra a decisão


monocrática do Ministro Alexandre de Moraes que decretou a prisão
preventiva do paciente em razão do descumprimento de medidas
cautelares impostas nos autos da PET 9.844/DF.
Aduz o impetrante que a decisão atacada é ilegal, pois “ o motivo de
sua revogação não guarda nenhum nexo com o anterior fato penal que gerou o
processo no qual se deu a aplicação da medida restritiva de direito pela prisão
domiciliar”.
Assim, requer a concessão da ordem para que sejam restabelecidas
as medidas alternativas ao encarceramento, com o monitoramento
eletrônico, a serem cumpridas na residência do paciente.
É o relatório. Decido.
1. A via eleita não é adequada.
Incognoscível habeas corpus voltado contra decisão proferida por
Ministro do Supremo Tribunal Federal ou por uma de suas Turmas, seja
em recurso ou em ação originária de sua competência.
A aplicação analógica do verbete consolidado na Súmula n. 606 do
Supremo Tribunal Federal encontra-se já assentada na jurisprudência do
Pleno desta Corte, em julgamentos tanto presenciais quanto virtuais, no
sentido, inclusive, de não admitir a impetração de writ originário para o
colegiado maior, quando inquinando como ato coator decisum oriundo de
seus órgãos fracionários ou de ordem unipessoal de quaisquer dos
Ministros integrantes desta Suprema Corte.
Nesse sentido: HC 181.680 AgR, Relator(a) Min. Rosa Weber,
Tribunal Pleno, julgado em sessão virtual de 08.05.2020 a 14.05.2020; HC
167682 AgR, Relator(a) Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgamento virtual
de 14.06.2019 a 21.06.2019; HC 137.701 AgR, Relator(a): Min. Dias Toffoli,
Tribunal Pleno, julgado presencialmente em 15.12.2016; HC 105.959, em

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que fui designado Redator para o acórdão, Tribunal Pleno, em


julgamento presencial, ocorrido em 17.02.2016. HC 193.894 AgR, Relator
(a) Min. Nunes Marques, 2ª Turma, julgado em sessão virtual de
12.02.2021 a 23.2.2021.
Ainda a esse respeito, colaciono precedente de minha relatoria:

“AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS.


DIREITO PROCESSUAL PENAL. IMPETRAÇÃO CONTRA
ATO DE MINISTRO RELATOR DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. DESCABIMENTO. NÃO CONHECIMENTO. 1. Não
cabe pedido de habeas corpus originário para o Tribunal Pleno contra
ato de Ministro ou outro órgão fracionário da Corte. 2. Agravo
regimental desprovido.” (HC 129.802/CE, Rel. Min. Edson Fachin,
Tribunal Pleno, julgado em 18.12.2016)

2. Lado outro, o impetrante não possui procuração nos autos e não se


tem informação de que a presente impetração seja do conhecimento do
paciente.
Não se desconhece que o habeas corpus, como relevantíssima garantia
constitucional convive com ampla legitimidade ativa e, em tese, qualquer
pessoa pode impetrá-lo em favor de determinada pessoa. Nada obstante,
não há como se olvidar da dimensão funcional e teleológica dessa larga
legitimação. Com efeito, tal circunstância tem como pano de fundo a
otimização da tutela judicial do direito de locomoção, com relevância
acentuada nas hipóteses em que o paciente não detém defesa técnica
constituída ou ainda que esse mister não seja desempenhado a contento.
Nesse cenário, não se admite que essa legitimação universal interfira
na conveniência e oportunidade da formalização da impetração, as quais
se inserem no contexto da estratégia defensiva, quadrante no qual, por
óbvio, deve ser prestigiada a atuação da defesa constituída. Afinal, a
legitimação aberta é para prestigiar o direito à liberdade e não para, ainda
que tangencialmente, prejudicar o exercício do munus técnico da defesa.
Em outras palavras, é da defesa técnica a prioritária escolha do se e do
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quando no que toca à submissão de determinada matéria ao Estado-Juiz.


A legitimação universal, via de consequência, tem força subsidiária, com
maior enfoque nas hipóteses em que há ausência ou deficiência de defesa,
sendo que, no caso concreto, a combatividade da atuação
da defesa constituída não se encontra em debate.
Nessa mesma linha, menciono que o art. 192, §3°, do Regimento
Interno do Supremo Tribunal Federal, ao disciplinar o rito dos habeas
corpus endereçados a esta Corte, prescreve que não se conhecerá de
pedido desautorizado pelo paciente. A disposição literal, portanto, já
evidencia a prevalência da defesa constituída sobre a impetração
formulada, bem como que os impetrantes em geral não possuem direito
subjetivo inafastável da apreciação de tais temas.
Especificamente no que toca a impetrações formuladas por terceiros,
registro que a Segunda Turma firmou o seguinte entendimento:

AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS.


PACIENTE COM DEFESA CONSTITUÍDA. WRIT IMPETRADO
POR TERCEIRO. INCOGNOSCIBILIDADE. INCOMPETÊNCIA
DESTA CORTE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INSTRUÇÃO
DEFICITÁRIA. RECURSO DESPROVIDO. 1. O habeas corpus
constitui relevantíssima garantia constitucional voltada à tutela do
direito de locomoção do paciente que, para a consecução dessa
finalidade, conta, em regra, com irrestrita legitimidade ativa. 2.
Considerando as peculiaridades do caso concreto, não é cabível
o manejo da via do habeas corpus por terceiro, mormente se
considerado que há defesa técnica constituída e atuante em
favor do paciente. Compreensão diversa, além de possibilitar
eventual desvio de finalidade do writ constitucional, poderia
propiciar o atropelo da estratégia defensiva, consequência que
não se compatibiliza com a destinação constitucional do
remédio processual. Precedentes. 3. As instâncias antecedentes
atestaram a deficiência de instrução das impetrações formalizadas, o
que, além de não configurar constrangimento ilegal, já que se trata de

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ônus imputável ao impetrante, impede o enfrentamento das questões


subjacentes no âmbito desta Suprema Corte, sob pena de indevida
supressão de instância. Precedentes. 4. O Supremo Tribunal Federal
não detém competência constitucional para, em habeas corpus, apreciar
originariamente a regularidade de atos imputáveis a Juízes singulares
ou Tribunais locais, mormente quando o paciente não figura no art.
102, CRFB, como apto a atrair a competência originária da Suprema
Corte. 5. Agravo regimental desprovido (HC 152.394 AgR, Rel. Min.
EDSON FACHIN, Segunda Turma, julgado em 15.6.2018) (g.n.).

No mesmo sentido, menciono ainda os HCs 155.181, 155.204 e


155.282, todos de minha Relatoria, em que reiterada idêntica
compreensão.
Assim, em razão da intransponibilidade de tais obstáculos, a
impetração não merece conhecimento, sendo manifestamente incabível.
3. Posto isso, com fulcro no art. 21, §1º, do RISTF, não conheço do
habeas corpus.
Publique-se. Intime-se.
Brasília, 3 de novembro de 2022.

Ministro EDSON FACHIN


Relator
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