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Título original:

@ Les Éditions

La Civilisation

Romaine

Arthaud,

Paris,

1984

Tradução

de Isabel

St. Aubyn

Capa de Edições 70

Depósito

ISBN

legal n

- 97244-0113-8

73 171/93

Todos os direitos

reservados

para a língua

portuguesa

por Edições 70, L.", Lisboa -

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será passível

PIERREGRIMAL

A CIVILIZAÇÃO

ROMANA

.~

edk;oes

70

J

('11.1"/1aclamações são capazes de conferir a investidura imperial: o

CAPíTULO

VI

povo e o Senado - como na República - mas

I'lIjn voz é legítimo ouvir. Por fim, é diante das coortes pretorianas q\H' Ga]ba apresenta o filho adoptivo. Nem poderia ser de outro mo-

cio. A assembleia popular, já reduzida à insignificância no tempo da república oligárquica, diminuíra ainda mais de importância depois das reformas de Augusto. O Senado, dividido, mostrara que, privado

do seu guia, o princeps, já não possuía a sua antiga auctoritas. Res-

tava o exército que, esse, possuía pelo menos a força e afides.

como for, Roma regressava à antiga moda da colação do poder. O ve-

também

o exército,

Seja

lho mito republicano

-

o cedant

arma

togae (<<queas armas

se apa-

guem perante

a toga»),

leitnwtiv

da

teoria

ciceriana

da

cidade

-

não

todos os vestíl,rios da democracia civil; no seu lugar surl,riu uma de-

mocracia militar, imposta pela lÓl,ricada tradição romana que seis séculos de oligarquia não tinham conseguido abolir. Curiosamente

o

elegem como rei, por este meio, recorda os costumes macedónicos, perpetuados pelas monarquias he]enísticas. Os pretorianos são o exército da Cidade; o imperator que aclamam tem mais possibilida- des de se impor do que qualquer outro. Mas os exércitos das provín- cias usam do mesmo direito, cada um deles proclama o seu próprio general e surge de novo a guerra civi1. Venha o momento em que o

(mas será por acaso?) a aclamação

resistiu

à prova

dos factos.

O principado

augustano

destruíra

do chefe pelos

soldados,

que

exército tome consciência da sua unidade - à custa de longas crises

-

e o Império,

deixando

de enar

em busca

de um princípio

do po-

der, de osci1ar entre

uma monarquia

esc]arecida

estoicizante

e uma

teocracia de inspiração semítica, encontrará finalmente alguma es- tabilidade na tirania militar de um Diocleciano. Aconteceu já tarde, quando o Império, envelhecido, privado de forças vivas, se encami- nhava para o fim.

A VIDA E AS ARTES

O Império de Roma não teria passado de uma conquista efémera

se se tivesse limitrldo a impor ao mundo, pela força, uma organiza- ção política e até mesmo leis. A sua verdadeira grandeza talvez resi- da mais naquilo que foi - e continua a ser - o esplendor espiritua1. Foi ele que, no Ocidente, abriu imensas regiões a todas as formas de

cultura e do pensamento

da espiritualidade e da arte helénica sobrevivessem e conservassem

a sua virtude fecundante. Por vezes, pode ser tentador sonhar com

um mundo do qual Roma estivesse ausente mas, vendo bem, isso só nos permitiria avaliar melhor o papel imenso que desempenhou na

e que, no Oriente, permitiu que os tesouros

história

do pensamento

humano.

 

Entre

todos os milagres

que contribuíram

para

fazer

de Roma o

que ela foi, o mais surpreendente talvez tenha sido aquele que per- mitiu que a língua dos camponeses latinos se tornasse, em poucos séculos, um dos instrumentos de pensamento mais eficazes e mais

duradouros que a humanidade jamais conheceu. Desta história da língua latina, muitas páginas nos escapam. O paciente trabalho dos

fi1ólogos

-

esses

arqueólogos

da

linguagem

-

restituiu-nos

algu-

mas delas e sabemos hoje que a língua latina,

milénios

viu

quando a fala do rústico Lácio, onde se tinham misturado elementos de diversas origens, itálicos, etruscos, e talvez outros mais, recebeu

a incumbência

tamente tinham surl,rido no interior da cidade romana. Também sa-

bemos que a língua escrita, a dos autores que, para nós, se torna-

ram clássicos, n:10 é idêntica à que os

C.,

que se

Cícero e VirgI1io, é o resultado

ta] como a escreviam

evolução

iniciada

mas

11 a.

de uma

longa

no próprio

seio da comunidade

acelerada

entre

indo-europeia,

VI

e

bruscamente

o século

o século

de exprimir

as concepções

de toda a espécie que len-

Romanos falavam todos os

dias: as regras e a própria estética do latim litenh;o resultam

uma escolha consciente,

filcilidades oferecidas pela língua falada, que esta por vezes conser-

as discip]i-

nas

vou e que surgem

de

vo]untáJ;o que recusou mil

de um trabalho

nos textos

novamente

tardios,

quando

se tornam

menos estJ;tas.

 

Uma

das

primeiras

tarefas

dos escritores

latinos

consistiu

em

atinl,rir

uma

clareza

perfeita

e uma

notável

precisão

do enunciado,

134

135

~

não

dando

lugar

a qualquer

contestação.

É surpreendente

que os

textos mais antigos que conservamos

sejam

fórmulas

juridicas,

sem

dúvida

porque

a lei foi o primeiro

domínio

em que se sentiu

neces-

sidade

também é verdade - a história

tra-o

de assegurar

-

que

a permanência

trabalho

da

palavra

das

sobre

da redacção

incidiu

o primeiro

frase.

Doze Tábuas

o enunciado

e

da

Mas

mos-

oral,

sendo

a fórmula

apresentada

à memória

antes

de ser

gravada

na

madeira

ou no bronze.

Ora,

o enunciado

oral que pretende

ser me-

morável

deve obedecer a leis, descobrir o ritmo da língua, submeter-

-se a repetições de palavras ou mesmo simplesmente

sonoridades.

Por muito profundamente

que penetremos

na língua

latina,

encon-

tramos sempre essa preocupação

com a fórmula

encantatória

(que

não é necessariamente

mágica)

em que o pensamento

se encerra

se-

gundo um ritmo

monótono

e se apoia

simultaneamente

na

alitera-

ção

e

na

assonância,

ou. mesmo

na rima.

A primeira

prosa

latina,

nos seus humildes

primórdios,

aproxima-se

muito

da poesia

espon-

tânea

«dança» da linguagem, por vezes gesto ritual de oferenda, repetição

sedutora,

a que

os Romanos

sonora

chamavam

carmen

o real.

e

que

estas

é,

por

duas

vezes,

neces-

ligação

que encerra

Entre

sidades -

de precisão

total,

para

não

deixar

escapar

nada

dessa

realidade

que se pretende

abranger,

e de ritmo

-

a prosa

não

tarda

a disciplinar-se,

a sublinhar

fortemente

as

articulações

da frase,

inicialmente

simples

cavilhas

servindo

de sutura,

depois sinais de

classificação

que afectam

os diferentes

momentos

da exposição,

por

fim verdadeiros

instrumentos

de subordinação

que permitem

cons-

truir frases complexas e hierarquizadas. Simultaneamente,

o voca-

bulário enriquece-se; a fim de definir as noções, criam-se palavras

novas, que a frase justapõe num leque de matizes. A riqueza

do vo-

cabulário, que Cícero usará amplamente,

não

é

na

língua

latina

uma exuberância

gratuita,

mas o resultado

de um trabalho

de aná-

lise

desconfiança em relação às definições abstractas e às fórmulas ge- rais, enumera tanto quanto possível todos os aspectos de um objec- to, de um aeto ou de uma situação.

por

que

tem

a ambição

de não deixar

nada

na

sombra

e que,

Neste

esforço para

apontar,

sem equívoco,

o valor

de uma

afir-

mação, a língua monta uma maquinaria delicada, com todas as pe- ças: não basta enunciar um facto, também é preciso indicar em que

medida aquele que fala assume esse enunciado, se lhe quer conferir

uma objectividade plena e total, se, pelo contrário, se apresenta ape- nas como porta-voz de outro ou se se limita a evocar uma simples possibilidade. A forma do verbo utilizado mudará consoante os ca- sos. Os gramáticos, depois, distinguiram um grande número de ca- tegorias: por exemplo, o modo «real», o modo «potencial» (quando a possibilidade é concedida como pura visão do espírito), o modo «ir-

real» (quando

do ponto de

vista daquele que fala, desmentido pela realidade). Haverá também todo o sistema do estilo indirecto, que objectiva o enunciado tornan-

do-o um objecto subordinado ao verbo introdutor, desligando-se do

o que é teoricamente

possível

se encontra,

136

sujeito que fala, salvaguardando a possibilidade de exprimir os dife- rentes aspectos (temporais, modais, etc.) introduzidos pelo primeiro sujeito, aquele cujas palavras são transmitidas. Aquilo que, hoje, se apresenta aos jovens latinistas como um dédalo inextricável, dá pro- vas de um maravilhoso instrumento de análise capaz de descobrir inflexões que escapam a muitas línguas modernas e impondo ao es-

pírito

distinções

que o obrigam

a pensar

melhor.

Nesta

evolução

sintáctica,

o exemplo

das construções

gregas não

parece ter exercido uma influência apreciável. O que os gramáticos do século anterior consideravam helenismos pertence, de facto, na maior parte das vezes, a tendências próprias do latim. Os helenis- mos de sintaxe surgem muito tarde, quando a língua clássica atingi- ra já a plena maturidade. Não acontece o mesmo com o vocabulário que desde muito cedo admitiu termos vindos do grego. Em Roma, o

grego estava presente em toda

a parte: comerciantes, desde o século

VI, viajantes vindos da Itália meridional, em breve escravos trazi- dos para o Lácio depois da conquista dos países gregos ou heleniza-

«sa-

bir» italo-helénico

(oral, mediata ou imediata) introduziram-se assim nomes de moe- das, de utensflios domésticos, de termos técnicos trazidos pelos na- vegadores, pelos comerciantes, pelos soldados. Todos estes elemen- tos foram rapidamente assimilados, incorporados profundamente na língua. Abundam em Plauto, cujo teatro se destinava ao público popular. Mas, depois das guerras púnicas, surgiria um novo proble- ma, só um século mais tarde solucionado. A chegada a Roma dos filósofos, depois da conquista da Macedó-

dos. Existiu,

nessa

Itália

em

que as raças

a história

se misturavam,

do latim.

Por

um

que marcou

via popular

nia, fora preparada, como dissemos, por

qual prosseguiu a helenização das elites romanas. E verdade que al- gumas famílias, de tradição rústica, opusemm uma séria resistên- cia à invasão do pensamento grego, mas o Pl'ÓP1;0exemplo de Catão o Censor, o mais ardente adversário do helenismo, mostra-nos bem

que se tratava de u,ma resistência desespemda: Catão sabia grego, falava-o, até o lia. E significativo que a primeira obra histórica con-

em

o

um longo J~eríodo durante

sabrrada

a Roma

tenha

sido

escrita

-

por

um

senador

romano

-

grego, na mesma

Nessa

prosa literária latina nasceu muito tempo depois de ter começado a

poesia nacional. Os filósofos vindos em embaixada, em 155 a. C. não tiveram qualquer dificuldade em se fazer compreender por um vasto público ao qual falavam em grego e podia parecer que a litemtura

ce-

dendo ao grego os domínios do pensamento abstracto. Apesar deste sério handicap, os escritores romanos conseguiram, em poucas gera- ções, cl;ar uma prosa latina capaz de rivalizar com a dos histOl;ado- res e filósofos helénicos. Apoiando-se nas conquistas já realizadas _ em particular as da língua política moldada pela redacção dos textos jurídicos e dos relatórios das sessões do Senado - não hesita-

latina estava condenada

o grego; a

época em que Plauto

cultural

ainda

compunha

não

as suas

mas

comédias.

altura,

a língua

é o latim,

a contentar-se

com a expressão

poética,

137

ram em começar por redigir relatos históricos, para os quais o voca- bulário tradicional era suficiente e que podiam beneficiar dos exem- plos dados pela!> epopei~s nacionais compostas, no fim do século IH,

por Névio(*) e Enio(*). E muito provável que o livro das Origens, es- crito pelo próprio Catão em latim, devesse muito à Guerra Púnica

do

da vida política impunham aos homens de Estado a obrigação de

falar em público: por ocasião dos complicados debates que se de- senrolavam no Senado, quando se tornava necessário agir sobre a massa popular reunida diante dos Rostros ou ainda quando o orador devia defender uma causa no tribunal e persuadir um júri. Infeliz- mente, conservamos escassos fragmentos desta prosa latina do sé- culo H a. C. O único texto de Catão que está completo é o livro Sobre a Agricultura: a exposição, puramente técnica, não comporta a elo-

primeiro

e aos Anais

do segundo.

Ao mesmo tempo,

as exigências

serve-se, por vezes, da palavra philosophia, mas quando pretende designar a técnica em ,si; em outras ocasiões, recorre a um equiva-

lente

utilizado

por

Enio,

e escreve

sapientia

-

que

possui

um

significado na língua e não pode aplicar-se à especulação filosófica

senão

não era a dialéctica

mais terra-a-terra, a do homem cheio de bom

guir pelo caminho mais curto, mas mais na sua conduta do que nos caminhos do conhecimento. Compreende-se a importância, para o próprio futuro da filosofia romana, desta transposição inicial. Na verdade, as palavras assim solicitadas mantinham a sua utilização

senso habituado a se-

por uma transposição

de sentido.

de verdade,

Sapientia,

para

um romano,

muito

em busca

mas uma qualidade

habitual, as suas ligações semânticas, um peso, associações que não podiam cair subitamente e que inflectiam o pensamento. A sapien- tia continuou sempre a ser a ciência de regulação dos costumes,

quência

nem

os benefícios

de um

relato

vivamente

conduzido.

No

aquilo

a que nós chamamos

sabedoria,

antes

de ser arte

de pensar.

entanto, adivinha-se nesse mesmo texto e nos fraf:,rmentos dos dis-

Outro

exemplo não menos extraordinário

é a história

da palavra

cursos de Catão que conhecemos,

que

a prosa

latina

adquiriu

uma maturidade

notável.

É verdade

que ainda

apresenta

uma

certa

rigidez;

a frase

é muitas

vezes breve,

cortante

como uma fórmula

de

lei, as proposições justapõem-se paralelamente umas às outras em

séries intermináveis, m~s, por vezes, a sua própria monotonia con-

as

tém

conquistas realizadas pela arte oratória, a necessidade de persua-

força e grandeza.

A herança

rítmica

do carmen

juntam-se

dir, começando

por

apresentar

aos

auditores

todos

os aspectos

de

um pensamento,

resumind~

depois

numa

breve formula

susceptí-

vel de se gravar profundamente no espírito. Nesta prosa eloquente

já se unem

as duas

riedade)

e o número;

qualidades

da frase

ciceriana,

a grauitas

a

sua

própria

rigidez,

semelhante

à das

(a se-

está-

tuas arcaicas

da arte helénica,

contribui

para

dar uma impressão

de

autoridade:

no tempo

de Catão,

o latim

tornou-se

verdadeiramente

uma língua

digna

dos conquistadores

do mundo.

Faltava

anexar

à prosa

latina

o domínio

da especulação

pura.

Para tal, era necessál;O levar a língua a exprimir o abstracto,

o que

 

não deixava de apresentar b>Tavesdificuldades. O latim possuía todo

um jogo de sufixos herdados

-os com moderação e geralmente para designar qualidades Ülcil- mente entendíveis, ainda muito próximas do concreto. O abstracto era-lhe praticamente estranho. Nestas condições, como traduzir na

língua nacional os jogos dialécticos dos filósofos f:,>Tegos?Os primei- ros escritores que tentaram fazê-I o estiveram prestes a renunciar.

O desabafo

materna,

de Séneca sucedem-se

público latino o pensamento

noção de filosofia não respondia a nenhuma palavra da língua. Era preciso criar um dialecto novo copiando a própria forma dos vocábu- los gregos, ou alterando-a. Os dois processos foram utilizados si- multaneamente, mas com intenções e contextos diferentes. Cíce'l'"o

de Epicuro

do sistema

indo-europeu,

mas

usava-

de Lucrécio(*),

queixando-se

da pobreza

mais

da sua

língua

ficou célebre;

outras

ao poeta

observações,

subtis,

de Cícero e

a um

que decidira

tornar

acessível

e de Demócrito.

A própria

138

uirtus,

quanto os Gregos se serviam de um termo infinitamente mais inte-

lectual, a palavra do apE't 11,que implica uma ideia de excelência, de perfeição, os Romanos empregaram um termo de acção que designa o poder do homem no seu esforço sobre si mesmo. A língua traiu as- sim a inflexi'io imposta ao pensamento helénico. Dir-me-ão que se trata mais do efeito de uma incompreensão da raça romana, incapaz de se guindar até ao pensamento puro, do que do resultado de um

trabalho

Contudo, não podemos ne-

gar que os escritores, capazes de pensar e compor até mesmo trata- dos filosóficos em grego, de conversar demoradamente com os filóso- fos brregos que recebiam de boa vontade em suas casas, recorriam, quando se exprimiam em latim, a um vocabulário cujas insuficiên-

a efec-

cias e traições

que

serviu

para

traduzir

o conceito

grego

de virtude.

En-

consciente

sobre o vocabulário.

não ignoravam,

mas que julgavam

mais

apto

tuar

a

necessária

transposição

para

desenvolver

um

pensamento

verdadeiramente

romano.

 
 

Toda

a literatura

da

época

dominada

pela

figura

de Cícero(*)

testemunha este trabalho sobre a língua, que é, ao mesmo tempo,

gerador de um pensamento orif:,rinal. Criou-se, assim, todo um arse-

nal de conceitos, a partir

do modelo

dos Gregos,

mas com variações

importantes

-

e

o curso

da

história

determinou

que

o pensamento

ocidental herdasse não directamente os arquétipos helénicos, mas a sua cópia latina. O que não deixou de ter grandes consequências no

futuro.

O logos grego tornou-se,

em Roma, ratio; o que

era

«pala-

vra»

passou

a

ser

«cálculo»

-

lavras,

está também

na atitude

e o contraste

intelectual

não

está

apenas

nas

pa-

que simbolizam.

As condições

*

em que se fundou

a língua

literária

bastam

para

mostrar

que

a

sua

literatura

não

foi

-

dos Romanos

nem

podia

ser

-

um simples

decalque

da literatura

f:,rrega.Não só a O1;f:,rinalidade

 

139

dos autores latinos e o seu temperamento próprio tendiam a criar obras diferentes das dos antecessores, mesmo quando as tomavam por modelos, como o instrumento de que se serviam os arrastava pa- ra novos caminhos.

Veremos

mais

adiante

quais foram as origens do teatro romano,

carregado de elementos vindos da tradição itálica. Mesmo quando os autores pediam temas a Menandro ou Eurípides, encenavam-nos

num estilo muito particular, muito mais próximo das origens po- pulares dos jogos cénicos do que as obras gregas. No seu modelo, es- colhiam aquilo que podia adaptar-se às condições do teatro nacional

e desprezavam

imitado, com meio século de distância, comédias gregas pertencen- tes ao mesmo repertório - o da Nova Comédia -, compuseram,

apesar de tudo, peças que apresentam entre si diferenças considerá-

veis: Menandro

a Menandro,

sível aos problemas

de

cação infantil,

cada um viver a existência que quiser), Plauto utiliza as intrigas forneci das pela comédia grega para defender a velha moral tradicio-

nal

tentações da vida grega. Seria impossível conceber teses mais opos-

tas -

preciso mostra-nos que a influência da literatura grega não impe- diu de modo algum os autores romanos de cliarom obras Oliginais e

capazes de exprimir as ideias e as tendências raç~.

o resto. Foi assim que Plauto(*) e Terêncio(*), tendo

adaptado

por Plauta

só de muito longe se assemelha

Enquanto

Terêncio

é mais

sen-

pelo tema (problemas

da edu-

da liberdade

de recusar

as

tal como o vê Terêncio.

-

morais

suscitados

do papel

do amor

o perigo

na vida dos jovens,

a necessidade

de Roma

da liberdade,

e, no entanto, a matéria da comédia é a mesma. Este exemplo

do seu tempo

e da

sua

E também

com as Oligens populares

e itálicas

que devemos

rela-

cionar a invenção de um género que os Gregos ignoram

por comple-

to e que conheceu um

enorme

sucesso,

a sátira.

São assim

chama-

das,

a partir

do século

II a.

C., as obras

em prosa

e versos,

estes

de

métlica tão diversa quanto o desejasse a imabrinação do poeta. Nes-

tas sátiras,

ataques

sa

de Lucí-

lio(*), por exemplo, que se tornou o mestre

trocadas entre Cipião

havia

de tudo: récitas,

páginas

de crítica

cenas

de mimo, reflexões

morais,

pessoais,

literária.

que

Era como uma conver-

nas

deste

sátiras

género

cerca

de

livremente

desenvolvida

e é verdade

130 a. C., se faz referência

às considerações

Emiliano e os amigos nas horas de lazer, e também durante as vela-

das

protector.

nesta conversa sen-

sata, mais preocupada com a perfeição formal, que é a sátira hora- ciana, encontra-se sempre o antigo realismo italiano, o sentido da

o seu

de armas

em Numância,

até

onde

Horácio

Lucílio

acompanhara

Um século mais tarde,

um estilo

diferente;

apoderar-se-á

da sátira

e

confelir-Ihe-á

no entanto,

vida por vezes levado até -

tipicamente romano

a via do bom senso.

à caricatura, e - o que constitui um traço

de lhe indicar

a vontade

de instruir

o leitor,

Também

eloquência

dissemos

como, no século

II antes

era, da vida pública

da nossa

romana

se desenvolveu:

as condições

a

ft!'-

140

ziam da arte oratória uma necessidade quotidiana. A multiplicação

dos processos políticos, assim como a importância crescente dos de-

bates parlamentares no Senado, o peso cada vez

popular nos últimos anos da República provocaram o aparecimento

de numerosos

Perante esta emulação, a eloquência aperfeiçoou-se; os oradores re-

flectiram

maior

uns

da opinião

aos outros.

oradores,

a

sua

ávidos

de se suplantarem

sobre

arte,

o que teve certamente

como consequên-

cia torná-Ia

mais

eficaz, embora

também

tenha

provocado

a forma-

ção de uma estética

oratória

e

de uma

pedagogia

cuja

influência

 

ainda se faz sentir no nosso ensino.

 

Na verdade,

enquanto

as actividades

puramente

literárias

-

a

poesia, a história, a composição de obras filosóficas - eram suspei-

própria gratuidade, a elo-

quência apresentava-se como o melhor meio de servir a pátria. Ago-

ra que os exércitos eram permanentes, que a caITeira militar pare- cia aberta sobretudo a alguns especialistas encarregados de manter

a ordem

tural formar a juventude para os combates do forum, pelo menos tanto como para os da guerra. Assim, vemos Cícero(*) resignar-se contrariado a fazer campanha na Sicília como procônsul, mas con-

sagrar

a

vida do pensamento, sem lhes fornecer um certo número de receitas

Parece-lhe

tas aos olhos dos romanos devido à sua

nas

províncias

e a segurança

nas

fronteiras,

parecia

na-

longas

horas

à redacção

de tratados

sobre

a arte

dos jovens

oratória.

para

ser o melhor

meio de abrir

o espírito

puramente

formais

-

como

faziam

os

retóricos

gregos

-

mas im-

pregnando-os de uma cultura verdadeira, beneficiando das conquis-

tas mais nobres da filosofia. É para realizar este programa que livros como Orator ou De Oratore tentam elevar a concepção já tra- dicional da eloquência e, respondendo às objecções platónicas - que -

a consideravam

expressão mais alta e mais fecunda da humanidade. Outrora, era costume propor aos jovens a comparação de Cícero com Demóstenes. Talvez cada um possa, segundo as suas preferências, atribuir um prémio a um ou a outro, colocar o Discurso sobre a Coroa acima das Catilinárias, mas é evidente que a perfeição formal de Demóstenes,

a

apenas

como a arte

das

aparências

torná-Ia

a

subtileza dos seus raciocínios, o poder da sua indignação não têm

o

mesmo

peso, na história

da cultura

humana,

que a doutrina

coe-

rente da eloquência como instrumento de pensamento que Cícero sdube elaborar e impor, para além da morte, a toda a romanidade.

os

sucessos da sua caITeira política, a formação do orador torna-se o objecto quase único da educação romana. Quintiliano(*), o represen-

tante mais ilustre destes mestres da juventude, foi um discípulo re-

do

mestre numa época em que novas preferências corriam o risco de

moto de Cícero. ContJibuiu fortemente para manter o ensino

Depois

de Cícero, que ficou a dever

ao poder

da sua

palavra

arrastar

a literatura

para

fora

do classicismo

-

e talvez

tenha

con-

tl;buído,

assim,

para

acelerar

a decadência

das letras

latinas

com-

batendo

com todas

as forças

tudo

o que pudesse

contribuir

com a

mais

leve renovação.

Foi Quintiliano

que, no tempo

de Vespasiano,

 

141

começou a ministrar um ensino oficial, pago pelo Imperador. Depois da magnífica exuberância de talentos que marcara o reinado de Ne- 1'0, coube-lhe a tarefa de restaurar o velho ideal ciceriano, e de- vemos-lhe uma obra, fruto das suas reflexões de professor, que ins- pirou muitos séculos mais tarde os teóricos dos estudos literários, desde o Renascimento até à época de Rollin. Por seu intermédio, o nosso ensino tradicional mergulha as raízes em plena romanidade,

alimenta a sua seiva no pensamento

brar, humanamente, o gosto pela beleza, a perfeição formal e as exi-

gências da verdade. O orador deve agir sobre os homens - é esse o

seu ofício - mas, para tal, existem receitas. Cícero e Quintiliano sa- bem que só o pensamento justo e sincero, pacientemente amadureci-

do, conduz

retórica, o nosso ensino literário tem por carácter essencial formar

os espíritos para a compreensão recíproca: o orador deve compreen- der os auditores, prever as suas reacções, esquecer-se de si mesmo

e, identificando-se com o outro, levá-Io a pensar como ele. Só é pos- sível persuadir e instruir dentro de uma total clareza. É esta, sem

de Cícero

desejoso

de equili-

a uma persuasão duradoura. Talvez por ter origem na

dúvida,

a lição mais

duradoura

de uma

eloquência

que se sabia rai-

nha da cidade,

mas se recusava

a exercer

a tirania.

As origens

itálicas

*

da literatura

latina

nunca

serão

renegadas.

tendências profundas da raça: o gosto pelo realismo, a curio-

sidade por todos os aspectos, mesmo pelos mais aberrantes, do hu-

mano; e também o desejo de instruir

res, tudo isso se encontra em todas as épocas nos autores romanos. Todos querem, a vários níveis, servir a cidade, a pátria - como Tito Lívio(*), que redif:,riua sua História para glorificar o povo-rei - ou, quando se pensou que Roma podia ser a pátria de todos os homens, essa cidade universal com que os filósofos sonhavam. Todos preten- dem igualmente demonstrar: são raras as obras f:,'Tatuitas, justifica- das unicamente pela beleza. Esta beleza tem, de resto, uma função na OJodemdo mundo: Lucrécio é poeta, retrata em versos admiráveis

a filosofia epicurista,

a força profunda

pensamento,

trica, alegando a utilidade de apresentar de forma af:,'Tadável uma filosofia árdua, comparando os ornamentos poéticos com o mel com

que os médicos

poções amargas. Parece nunca ter tomado plena consciência de que

a

beleza, a tensão da forma

a sua poesia emana directamente

Certas

os homens,

de os tornar

melho-

reencontrando

numa

série de intuições

geniais

de um sistema

que se tornou

o corpo do seu próprio

este recurso

à mé-

bebem

de que

dessa

expe-

mas sente

untam

necessidade

os bordos

épica

de justificar

da taça em que as crianças

da intuição

metafísica,

pertencem

à essência

riência em parte inefiível, inedutível a um simples encadeamento

de conceitos.

Quer instruir,

converter

Mémio, seu protector

e amigo,

a

uma

filosofia

que confEH;rá calma

e serenidade

à alma

humana.

Seria, sem dúvida, difícil encontrar em toda a poesia f:,'rega seme-

142

lhante

calor apostólico,

muito

diferente

de qualquer

diletantismo

es-

tético.

Mas a poesia

latina,

as vo}úpias

mesmo

antes

pela

do seu pleno desenvolvimento,

Sem remontar

os poetas

não ignorava prio Enio -

da arte

arte.

ao pró-

se lhe

o Pai Enio(*), como lhe chamaram

que

seguiram

-

e

ao

seu

poema

sobre

a Gastronomia

(Hedyphagetica),

que mais

não

é

do que

uma

obra

de puro

virtuosismo

feita

a partir

do modelo

dos

mais

decadentes

gracejos

helenísticos

(mas

ainda

com intenções didácticas), formou-se, no tempo de Cícero e de Cé- sal', uma escola de poetas «novos" (foram eles próprios que assim se chamaram), reclamando-se de Alexandrinoso Quiseram dotar Roma

é,

de um luxo sem dúvida,

les

novo, o da poesia;

o poema

a obra

os longos

mais

típica

desta

estética

(relativamente

desprezar

longo para

poemas)

um discípulo

escrito

por

daque-

Catu-

que

afirmavam

10(*), cantando

do poema é dedicada

divina, como nos diz o poeta, representara o mito de Ariana. A filha

de Minos, raptada por Teseu, é abandonada, adormecida, nas praias do Naxos. Acord,a no momento em que a vela de um barco que devia

no horizonte; desespera mas, subi-

Dionisos, que a atrai para núp-

levá-Ia para a Atica desaparece

tamente, surge no céu o cortejo de

cias divinas. Aparentemente, tudo é gratuito neste poema, puro or-

as núpcias

míticas

de Tétis

e Peleu.

A maior

parte

à descrição

de uma

tapeçaria

em que uma mão

namento

como podia

ser,

nessa

época,

um

mosaico,

um quadro,

ou

um desses

preciosos

relevos

com que

se enfeitavam

as residências.

No entanto, pretendeu-se recentemente - e com alguma razão - que este poema encerrava um sentido misterioso: o mito de Ariana não se encontra frequentemente nos relevos dos sarcófagos, onde reveste, indubitavelmente, um significado religioso? Ariana ador-

mecida,

no sono que a prepara

para

a apoteose,

é então

a imagem

da alma que voará, ébria de Dionisos, para a imortalidade

Na verdade, ignoramos se Catulo quis dar esta interpretação do mi- to, se não foi sensível sobretudo às imagens estéticas e pitorescas

que lhe permitia criar. Mas, mesmo admitindo que não há mais na-

da neste epitálamo do que pura investigação

astra1.

estética,

não há dúvida

de que

os fiéis

de Dionisos

-

que

eram

numerosos

-

encontravam

nele o eco da sua fé. Assim como, em Roma, tudo está carregado de símbolos morais, também a poesia, mesmo nas obras aparentemen-

te mais gratuitas, tendia naturalmente para assumir o valor uma revelação.

de

A escola

dos jovens

poetas

teve a glória de incluir VirgI1io(*) en-

tre os seus, quando, ao sair da adolescência, se treinava em compor as suas próprias obras. Tal como Catulo, de quem era compatriota (Mântua não é muito longe de Sírmio), ele também parece ter prefe- rido começar por abordar temas de pura mitologia. Infelizmente, es- tas primeiras obras de VirgI1io, anteriores às Buc6licas, encontram- -se envolvidas em nebulosas. Aquelas que os manuscritos nos apre- sentam como sendo da autoria de Virgl1io talvez não sejam todas autênticas. Seja como for, é perfeitamente claro, se tivermos como

143

referência as Bucólicas, que VirgI1io iniciou a sua carreira como dis- cípulo dos poetas alexandrinos. As Bucólicas, esses cantos de pasto- res (ou antes, cantos de boieiros, pois não contêm nada que possa evocar as pastoras adornadas de fitas e os pacíficos carneiros de ou- tros tempos), são uma imitação dos Idílios de Teócrito, outro poeta italiano, pois partira da Sic11ia grega para conquistar o mundo li- terário de Alexandria. No entanto, comparando as duas obras, des- cobrimos rapidamente subtis transposições. Em vez do céu ardente, da secura, das cigarras de Teócrito, vemos em VirgI1io os prados

húmidos

canais

por

da Gália

artificiais.

cisalpina

Não

bordados

de salgueiros,

natureza.

irrigados

Nem

cantam

a mesma

o mesmo

ambiente humano: os .problemas urgentes da terra italiana são evocados por VirgI1io. E sabido que a primeira colectânea encena o drama que então se vivia um pouco por toda a parte em Itália. Para recompensar os veteranos que os tinham ajudado, Octávio e António atribuem-lhes terras, à custa dos proprietários provinciais. É pos- sível que VirgI1io também tenha sofrido com esta espoliação e que tenha ficado a dever a Octávio a obtenção de uma recompensa. A história é muito obscura mas, seja qual for o problema pessoal de VirgI1io, a sua poesia ultrapassa-o e retrata, com a alegoria de Títi-

1'0 e Melibeia, os sofi'imentos provocados pelas guerras civis aos pe-

quenos proprietários.

pelo sentido

Mais

uma

vez, o artista

puro

é ultrapassado

evolução:

a cada

romano

da cidade. de VirgI1io o poeta

Toda

a história

cabe nesta

vez maior importância atlíbuída, na sua obra, aos problemas da pá-

fundada por um herói justo e piedoso que Roma recebeu o império do mundo. A Eneida teve a ambição de revelar a lei secreta das coi-

sas e de mostrar

que o Império

era

o resultado

necessário

de uma

dialéctica universal,

fase

última

dessa

lenta

ascensão

para

o Bem,

da qual o poeta já tivera a intuição ao escrever aIV Écloga anuncia-

desta

epopeia, em que VirgI1io imitava simultaneamente

bém, fiel à estética dos <~ovens poetas», as Argonáuticas do alexan-

e tam-

dora da idade do ouro. É esta, sem dúvida, a base espiritual

Homero

drino

Apolónio

de Rodes.

Mas

a intenção

profunda

do poema

não

impediu

Virgílio

de criar

uma

obra,

rica

e pitoresca,

de ternura

e

grandeza. Assim, não surpreende

que

a

Eneida,

recentemente

publicada (por ordem expressa de Augusto, pois VirgI1io, quando

morreu

que fosse destruída), se tornou a Bíblia da nova Roma. Nas paredes

das

mais versos do poema. Roma encontrara, finalmente, a sua llíada,

em

19 a.

antigas

C., ainda

ainda

não a terminara

se vêem graffiti

e pedira

em testamento

um

ou

cidades

em que figuram

mais rica que os cantos do velho aedo, e também

mais

própria

para

despertar nos leitores a consciência da continuidade

nacional

e

a

dos valores morais e religiosos que constituíam a alma profunda de Roma.

Contemporâneo de VirgI1io e seu mais íntimo no círculo de Mece- nas(*), Horácio(*) também contribuiu para a obra de renovação em-

preendida

por Augusto,

e talvez

tanto

mais eficazmente

quanto

pa-

receu,

durante

muito

tempo,

não

querer

colaborar.

Desejando

«acrescentar

uma

corda à lira

latina»,

criou de raiz uma

poesia

líri-

tria. As Geórgicas, cujo tema foi pelo menos sugerido a VirgI1io por

ca directamente inspirada nos poemas eólios. Em primeiro lugar, foi

Mecenas, não sendo, como tantas

vezes

se tem

dito,

uma

obra de

necessário adaptar a métrica dos seus modelos gregos ao ritmo da

«propaganda» destinada a restituir

aos Romanos

o gosto pela

vida

língua latina, o que exigiu transposições delicadas. De resto, foi aju-

rústica, representam,

no entanto,

uma

tentativa

para

restaurar

os

dado pelos esforços dos seus antecessores, Catulo em particular, que

velhos valores morais venerados na sociedade rural e para mostrar

tinham tentado fazê-lo com algum sucesso. Em seguida, munido

que o ritmo «dos trabalhos

e dos dias»

é, entre

todas

as actividades

deste instrumento, procurou exprimir sentimentos que, até então,

humanas, o que melhor se insere na harmonia universal. Não se

não tinham expressão na literatura de Roma: aquilo que os poetas

tratava de arrancar

os ociosos da plebe

urbana

aos jogos

do circo,

alexandrinos tinham confiado ao epi[,'1'ama - a alegria de viver, os

mas de revelar ao escol bem pensante a eminente dignidade de uma classe social ameaçada. A poesia das Geórgicas, tão bela, tão pro- fundamente humana, procura sarar os ferimentos causados pelas guerras civis; expressão de uma filosofia da natureza e do homem

na natureza, contribui para restaurar a ordem e a paz nos espíritos e colabora, assim, na revolução augustana. O terceiro grau desta evolução da arte virgiliana encontra-se na

Eneida. Desta vez, é o próprio problema de Roma que está em

sa. Trata-se de assegurar o fundamento espiritual do regime nas- cente e, para tal, de descobrir o sentido profundo da missão desti- nada pelos deuses ao filho adoptivo de César. Mas VirgI1io não quis escrever um poema de propaganda política. Não trabalha para o su- cesso de um partido, no seio da cidade; está ao serviço de toda a ideia romana. Animado por uma fé intensa no destino da pátria, jul- gou descobrir o se[,'1'edo dos deuses: foi por a raça romana ter sUJo

cau-

144

f

tormentos e os prazeres do amor, a felicidade,

sões sentidas

Horácio temas para as suas Odes. Mas, pro[,'1'essivamente, vai-se li-

bertando desta poesia do quotidiano uma filosofia concreta, que muito deve ao epicurismo professado por Mecenas, mas que não tar- dou a superá-lo. Avesso a todas as dialécticas e a todas as demons- trações abstractas, Horácio exige apenas ao espectáculo do mundo

as mais leves impres-

-

tudo isto fornece

a

ao longo dos dias e das estações

-

em

um

rebanho

de

cabras

na

encosta

de

uma

as

ruínas,

oeste

a frescura

num

campo

de uma

gelado

nascente,

-

a revelação

vento

colina,

um

santuário

primeiras

rajadas

do que

o universo

de

con-

tém de mistério divino. E em breve esta sabedoria, cuja plenitude desabrocha em contemplação mística, autoriza o poeta a fazer-se

intérprete da vida religiosa romana. Como Vir[,'11io,vemo-Io cantar

em Augus-

to. As odes nacionais

a permanência

das grandes

virtudes

da raça encarnadas

emprestam

uma voz eloquente

a esta revalori-

145

zação do velho ideal

C., con-

sagrando o regresso da paz com os deuses, a grande reconciliação da cidade com os imortais, foi Horácio quem compôs o hino oficial can- tado no Capitólio por um coro de rapazes e raparigas. Pela mesma altura, Horácio, reflectindo sobre o papel do poeta na cidade, dirá que só ele, no meio do desencadeamento das paixões, saberá manter um coração puro: figura exemplar oferecida à imita- ção dos cidadãos, manterá a moderação, o sentido dos valores eter- nos, semelhante aos heróis lendários, Orfeu ou o tebano Anfião cuja

do para

que as guerras

civis pareciam

ter comprometi-

de

17 a.

sempre.

E, por ocasião dos Jogos Seculares

lira encantava os animais e as plantas - porque fora afinada pela

harmonia

secreta

do mundo

-,

ajudava

dades e a manter a lei.

os homens

a construir

as

ci-

O terceiro

poeta do círculo de Mecenas

-

dos únicos cuja obra se

conserva -,

Propércio(*), também contribuiu, se não para criar, pe-

lo menos

para

desenvolver

um género novo, o da elegia. Os historia-

dores da literatura antiga procuraram saber, durante muito tempo, quais podiam ter sido os modelos gregos da elegia romana. Hoje, es- tá praticamente demonstrado que estes modelos mais narrativos e mitológicos do que verdadeiramente líricos não exerceram uma in-

fluência

dos antecessores

pareceram) e de Tibulo que os poemas em dísticos elegíacos apren-

deram a exprimir os tormentos e as aleb'Tias do amor. Propércio con-

decisiva

na

formação

do género.

Foi em Roma,

as suas

nas

obras

mãos

desa-

de Propércio,

de Galo(*) (mas

vida-nos,

assim,

a seguir

as peripécias

do seu romance,

tumultuoso,

 

com uma

dama

bastante

volúvel

a quem

chama

Cíntia

e que

ora

o

procura ora o abandona para seguir protectores mais afortunados. Nas suas mãos, como nas de Tibulo, seu contemporâneo, a elegia as- semelha-se a um diário íntimo e encerra confidências amorosas.

Desta vez, a poesia parece ter descido definitivamente

se preocupar com a defesa da cidade. No entanto, tanto Tibulo como

mais íntimas poemas em que

cantam os !,'Tandes acontecimentos contemporâneos. Não são, é cer- to, cantos de vitória como talvez desejassem Mecenas e Augusto quando os exércitos do Império apagaram a recordação da derrota sofrida em Canes ou pacificaram as fronteiras da Germfmia, mas

Propércio incluíram nas suas obras

do céu

e não

composições mais duradouras, consagradas à vida moral da cidade.

Tibulo celebrou o santuário de Apolo Palatino, centro da relibrião au- gustana; Propércio, as velhas lendas relacionadas com determina- dos locais da cidade, escolhendo as que assumiam um significado particularmente importante na perspectiva das reformas religiosas

e políticas

de Augusto.

*

O extraordinário

desenvolvimento

da literatura

augustana

não

sobreviveu

ao desaparecimento

daqueles

que

tinham

sido os seus

artífices.

Depois

da morte

de Horácio,

em

8 a.

C., as

letras

latinas

146

parecem ter esgotado toda a seiva. A bem dizer, esta impressão de- ve-se sobretudo ao facto de não possuirmos qualquer das obras es-

critas pelos contemporâneos

dos últimos

anos

de

Augusto:

o no-

me de Ovídio(*) nos sugere

que se continuavam

a escrever,

incansa-

velmente,

sejam desprovidas de valor e interesse, representam apenas, na sua maior parte, uma exploração sistemática das invenções de Tibulo e Propércio. Em certos aspectos, Ovídio mostra-se, mais do que aque- les, fiel imitador da poesia alexandrina, cujas receitas conhece ad- miravelmente bem. Versificador fertil e fácil, lega-nos nas suas Me-

novas

obras.

Mas

as que

Ovídio nos

deixou,

embora

não

tamorfoses uma verdadeira

relaciona, melhor ou pior, o legendário romano. O tema

poema foi estranham ente escolhido: Ovídio quis desenhar um imen- so fresco representando as transformações sofridas ao longo dos

súmula

da mitologia grega, com a qual

geral deste

tempos pelas

dros pitorescos,

coisas

uma

e pelos seres; concepção

como pano

de fundo

resultante

da filosofia

destes

qua- pitagórica,

a

ideia

de que o universo

está

em perpétua

transformação

e não fixa-

do, de uma vez para sempre, numa ordem imutável. Ao julgarmos esta singular epopeia, não devemos esquecer que nunca deixou de

perseguir a ima/;,'inação dos artistas

menos

e escritores

da

Idade

Média,

sensíveis

à verosimilhança

científica

do que

ao simbolismo

intenso

que julgavam

adivinhar,

com ou sem razão,

neste

imenso

bestiário.

Ovídio, exilado

por Augusto

por um crime

misterioso

(talvez por

ter participado numa sessão de adivinhação), acabou os dias em To-

mes, na costa

penas longe da pátria e satisfazendo a sua paixão de versificador ao compor poemas na língua b{u'bara que se falava à sua volta. Com ele, morreu o último representante da poesia augustana.

do mar

Neb'1.'o,escrevendo

sempre,

contando

as suas

Contudo,

em Roma,

não faltavam

poetas.

Talvez

tenha

havido

alguns excelentes,

mas

a

sua

recordação

esfumou-se,

sem

dúvida

para sempre. Sabemos apenas

que !,'1.'assava a metromania;

manter-

-se-á até ao fim do Impél;o.

A poesia

é considerada

um

meio

de

expressão acessível ao «homem honesto». Mas, na maior parte das vezes, deixa de ser verdadeiramente sél;a, como era para Virgt1io, Horácio ou Propércio; faz-se poesia como jogo de salão e elobriam-se «as obras mais belas». São peças fugazes que recordam a antolo!,ria

grega, mas também

se

encontram

obras

consideráveis:

epopeias,

tragédias

sapareceu

deixou

nha

adivinhar

mas de Mecenas(*), que foi um estilista precioso, grande apreciador

de imagens surpreendentes palavras que o pensamento,

alTanque uma verdade mais secreta.

torturado,

destinadas

quase

à leitura

-

na

verdade,

o teatro

literál;o

de-

definitivamente,

É possível

beleza.

dando

lugar

ao mimo,

que

não

poesia

latina

desconhecida

te-

que

sobreviveram

deixam

os pequenos

poe-

de

marcas.

alguma

que esta

tido

Os fragmentos

tentativas

curiosas,

como por exemplo

na cl;ação

e hábil

de encadeamentos

como que permite

que se lhe

147

.-I

É preciso esperar

pelo reinado

de Nero para

encontrar

novamen-

te obras que tenham

sobrevivido

até aos nossos

dias. A segunda

me-

tade

do século

I

d.

C. conheceu

uma

«ante-estação»

poética

do grande

mais

madura,

e talvez

também

mais hábil,

que os sucessos

flo-

rescimento augustano. Os autores aprenderam o oficio, por vezes te-se bem; utilizam-no todas as audácias. como virtuoses e, nas suas mãos, a poesia permi-

ten-

tativa de passar para a poesia as especulações do estoicismo. O pri- meiro, obscuro, tenso, só teve tempo, durante a sua curta vida, para escrever algumas sátiras, frementes de indignação. Morreu com 28

as con-

vicções

anos (em 62 d. C.), deixando

Pérsio(*)

e Lucano(*)

representam,

no tempo

de Nero, uma

uma

da

obra em que se exprimem

senatorial

que

políticas

e morais

aristocracia

momen-

taneamente

julgara

poder

apoiar-se

em

Nero

mas

não

tardara

a

desiludir-se.

Estas

raras

páginas,

reveladoras

de

um

verdadeiro

temperamento de poeta, tornam-se mais densas pela influência, ainda muito recente, da retórica escolar.

também

A mesma

crítica

tem sido muitas

vezes feita

a Lucano,

ele um <<jovempoeta», pois foi uma criança prodígio e morreu aos 26 anos, executado por ordem de Nero por ter participado na revolta de

Pisão (65 d. C.). Tendo começado a escrever aos 15 anos, compôs um grande número de poemas de toda a espécie, em particular uma tra- gédia, mas só chegou até nós a epopeia A Farsália (o seu verdadeiro

título,

o au-

tos

tor concebera como uma imensa «crónica» da revolução que, entre

aquele

que Lucano lhe deu, é A Guerra Civil), cujos dez can-

Mas a morte

interrompeu

esta

obra,

que

estão

completos.

49 e 31 a. C., ensanguentou

Roma e da qual resultou

o regime

impe-

rial. Ao escrevê-Ia,

Lucano ambicionou

epopeia julia-

na baseada

num misticismo

conformista,

opor à Eneida, uma epopeia

de inspiração

senatoria1

susceptível

de exprimir

o pensamento

político

dos meios

estóicos.

E inexacto

pretender,

como fi'equentemente

se afirma,

que

A Farsália

tenha

sido originariamente

um manifesto da oposição

oligárquica,

hostil

ao Império. Só passou

a sê-Io quando

se produziu

o divórcio

entre

o re{,,'ime de Nero

e os senadores

estóicos

-

isto

é,

quando se acentuou a má-vontade contra Séneca (de quem Lucano

era

mente

bém que Lucano, inicialmente prote6.;do pelo Imperador, suscitou pelo seu talento a inveja daquele que o considerava um lival mais

dotado.

tam-

sobrinho).

Na verdade,

e que

inicia-se

com um hino a Nero

página

aduladora.

singular.

entusiasta

não é uma

Diz-se

E é verdade

que a obra, no seu desenvolvimento,

não deixa

de ref1ectir a evoluç1'io dos sentimentos

ditar que as razões pessoais que Lucano podia ter para se afastar de

do que a mudan-

ça de clima verificada em Roma depois do assassínio de Agripina,

de Burrus.

Nero desempenharam

do autor,

mas

devemos

acre-

um papel menos importante

da influência crescente de Popeia e, sobretudo,

da morte

Compreende-se que, progressivamente, Lucano tenha adquirido uma consciência cada vez mais nítida das consequências políticas do ideal estóico. Em sua opinião, a personalidade de Catão da Útica(*)

148

-

tão

celebrada

por

Séneca

-

ganha

em

importância.

No

debate

instituído entre as velhas formas republicanas e o novo mundo cuja

gestão

deuses no destino do mundo. A virtude de Catão eleva-o acima dos

outros homens; é a ele que pede inspiração, e os outros estóicos que morreram vítimas dos seus plimeiros anos.

como os

nos relata,

Catão

desempenha

o papel

de árbitro,

tal como faziam

Séneca

do tirano infiel ao ideal

Numa

Roma

renovada

-

aquela

que

quase

resultou

do ano

dos

«três

Imperadores»

-

A

Farsália

poderia

ter-se

tornado

a Eneida

do regime senatOlial restaurado. Os acontecientos desmentiram o sonho do poeta, mas o poema manteve-se para sempre fonte inspi- ração moral e testemunho da 6'1'andeza romana, contra todos aque- les que acusam Roma de decadência e de corrupção irremediável. Apesar das diferenças, das variações de ,gosto, das oposições de

princípios, vê-se que a epopeia romana, de Enio a Lucrécio, a Virgí- lio e a Lucano, se mantém fiel à sua vocação: pensar os grandes pro-

blemas

latina está impregnada de religião. Lucrécio procurou subestimar a

importância dos deuses no mundo, mas não deixou de lhes reconhe-

da cidade

e do mundo.

Vê-se também a que ponto a poesia

cer um papel essencial, o de transmitirem aos homens,

lacros que emanam dos seus corpos gloriosos, a imagem do soberano Bem, e o hino a Vénus, no início do poema, é uma das páginas mais comoventes do litismo religioso. Lucano também baniu de A Farsá-

pelos simu-

, lia o maravilhoso tradicional, mas foi para distinguir melhor, nos acontecimentos da história, a vantagem do Destino e a acção de uma Providência. Inelutavelmente, as formas mais elevadas do pen-

samento romano conduzem à meditação e à oração.

i, :1

*

Da literatura

claudiana,

tão profundamente

marcada pela 6'1'avi-

dade estóica, a personalidade mais eminente é, sem dúvida, Séne- ca(*). Este filho de um romano de Espanha, nascido em Córdova no início da era cristã, representa admiravelmente a evolução literária

e espilitual

deste

século

do qual

Pérsio

e Lucano

nos mostraram

o

resultado

final.

O pai, que fora discípulo

atento

dos grandes

retóri-

cos que ensinavam

no fim do reinado

de Augusto,

introduziu-o

des-

de muito

cedo nos meios literários,

para

os quais

a eloquência

era

o

objectivo

supremo da vida. Mas também se sentiu atraído, desde a

adolescência, pelos filósofos, reunindo numa mesma admiração o es- toicismo de Átalo ou dos dois Sextii e o pitagorismo místico de So-

tião. Com eles, aprendeu a desprezar os valores «vulgares» e a não se contentar com as pretensas verdades admitidas pela opinião pública. Admiravelmente dotado, teria provavelmente, com a idade, cedido aos costumes e percorrido com distinção a carreira das hon-

ras,

Fortuna não tivesse vindo contrariar o cumplimento dos votos que lhe eram dirigidos. Tendo adoecido no momento em que deveria

se a

praticado

como amador

os géneros

literários

mais

diversos,

149

~

É

preciso esperar

pelo reinado

de Nero para

encontrar

novamen-

-

tão

celebrada

por

Séneca

-

ganha

em

importância.

No

debate

te obras que tenham

sobrevivido

até aos nossos

dias. A segunda

me-

instituído entre as velhas formas republicanas e o novo mundo cuja

tade do século I d. C. conheceu uma «ante-estação"

poética mais

gestão nos relata,

Catão

desempenha

o papel

de árbitro,

como os

madura, e talvez também mais hábil, que os sucessos do grande fIo-

deuses no destino do mundo. A virtude

de Catão

eleva-o

acima dos

rescimento augustano. Os autores aprenderam o ofIcio, por vezes bem; utilizam-no como virtuoses e, nas suas mãos, a poesia permi- te-se todas as audácias.

ten-

tativa de passar para a poesia as especulações do estoicismo. O pti-

meiro, obscuro, tenso, só teve tempo, durante a sua curta vida, para escrever algumas sátiras, frementes de indignação. Morreu com 28

as con-

vicções

anos (em 62 d. C.), deixando uma obra em que se exprimem

Pérsio(*)

e Lucano(*)

representam,

no tempo

de Nero, uma

políticas

e morais

da

aristocracia

senatotial

que

momen-

outros homens; é a ele que pede inspiração, tal como faziam Séneca

e os outros

estóicos

que morreram

vítimas do tirano infiel ao ideal

dos seus ptimeiros

anos.

Numa

Roma renovada

«três

Imperadores»

-

A

-

aquela

que quase

Farsália

poderia

ter-se

resultou

tornado

do ano dos

a Eneida

do regime senatOl;al restaurado.

sonho do poeta, mas o poema manteve-se para sempre fonte inspi-

ração moral e testemunho da 6'Tandeza romana, contra todos aque-

les que acusam

Os acontecientos desmentiram o

e de corrupção

irremediável.

Roma de decadência

taneamente

julgara

poder

apoiar-se

em

Nero

mas

não

tardara

a

Apesar

das

diferenças,

das

variações

de gosto, das

oposições

de

desiludir-se. Estas raras páginas, reveladoras de um verdadeiro

ptincípios,

vê-se

que a epopeia

romana,

de Énio a Lucrécio,

a Virgí-

temperamento de poeta, tornam-se mais densas pela influência, ainda muito recente, da retórica escolar.

também

ele um '00vem poeta», pois foi uma criança prodígio e morreu aos 26 anos, executado por ordem de Nero por ter participado na revolta de

Pisão

6'Tande número

gédia, mas só chegou até nós a epopeia A Farsália (o seu verdadeiro título, aquele que Lucano lhe deu, é A Guerra Civil), cujos dez can-

tos estão

tor concebera como uma imensa «crónica» da revolução que, entre

49 e 31 a. C., ensanguentou

A mesma

clitica

tem sido muitas

vezes feita

a Lucano,

(65 d. C.). Tendo começado a escrever

de poemas

de toda a espécie,

completos.

Mas a morte

intenompeu

aos 15 anos, compôs um

em particular

uma

tra-

esta

obra,

que

o regime

o au-

impe-

Roma e da qual resultou

rial. Ao escrevê-Ia,

Lucano ambicionou

opor à Eneida,

epopeia julia-

na baseada

num misticismo

conformista,

uma epopeia

de inspiração

dos meios

estóicos. E inexacto pretender, como frequentemente se afirma, que A Farsália tenha sido originariamente um manifesto da oposição oligárquica, hostil ao Impél;o. Só passou a sê-Io quando se produziu o divórcio entre o re6rime de Nero e os senadores estóicos - isto é, quando se acentuou a má-vontade contra Séneca (de quem Lucano

senatorial" susceptível

de exprimir

o pensamento

político

era

mente

sobrinho).

Na verdade,

e que

não

inicia-se

é uma

entusiasta

com um hino a Nem

singular-

página

aduladora.

Diz-se

tam-

lio e a Lucano,

Vê-se

latina está impregnada de religião. Lucrécio procurou subestimar a importância dos deuses no mundo, mas não deixou de lhes reconhe- cer um papel essencial, o de transmitirem aos homens, pelos simu- lacros que emanam dos seus corpos gloriosos, a imagem do soberano Bem, e o hino a Vénus, no início do poema, é uma das páginas mais

blemas da cidade e do mundo.

se mantém

fiel à sua vocação: pensar

também

os grandes

pro-

a que ponto

a poesia

comoventes do litismo religioso. Lucano também baniu

lia o maravilhoso tradicional, mas foi para distinguir melhor, nos acontecimentos da história, a vantagem do Destino e a acção de uma Providência. Inelutavelmente, as formas mais elevadas do pen-

samento

de A Farsá-

romano

conduzem

à meditação

e à oração.

*

Da literatura claudiana, tão profundamente marcada pela 6'Tavi-

dade

ca(*). Este filho de um romano

início da era cristã, representa admiravelmente a evolução literária

e espi1;tual deste século do qual Pérsio e Lucano nos mostraram o resultado final. O pai, que fora discípulo atento dos grandes retóri- cos que ensinavam no fim do reinado de Augusto, introduziu-o des-

estóica,

a personalidade

mais

eminente

é, sem dúvida,

nascido

Séne-

no

de Espanha,

em Córdova

bém que Lucano, inicialmente Prote6rido pelo Imperador, suscitou

de muito

cedo nos meios literários,

para

os quais

a eloquência

era

o

pelo seu talento a inveja daquele que o considerava um l;val mais

objectivo

supremo

da vida.

Mas também

se sentiu

atraído,

desde a

dotado. E é verdade que a obra, no seu desenvolvimento, não deixa

de reflectir a evolução dos sentimentos

ditar que as razões pessoais que Lucano podia ter para se afastar de

do autor,

mas

devemos

acre-

adolescência, pelos filósofos, reunindo numa mesma admiração o es- toicismo de Átalo ou dos dois Sextii e o pitagorismo místico de So-

tião. Com eles, aprendeu

a desprezar

os valores

«vulgares»

e a

não

Nero desempenharam

um papel menos

importante

do que a mudan-

se contentar com as pretensas verdades admitidas pela opinião

ça de clima

verificada

em Roma

depois

do assassínio

de Agripina,

pública. Admiravelmente dotado, teria provavelmente, com a idade,

da influência

crescente

de Popeia

e, sobretudo,

da morte

de Burrus.

cedido aos costumes e percorrido com distinção a carreira das hon-

Compreende-se que, progressivamente, Lucano tenha adqui1;do uma consciência cada vez mais nítida das consequências políticas do ideal estóico. Em sua opinião, a personalidade de Catão da Útica(*)

ras, praticado como amador os géneros literários mais diversos, se a Fortuna não tivesse vindo contrariar o cumpl;mento dos votos que lhe eram dirigidos. Tendo adoecido no momento em que deveria

148

149

abordar

seriamente

as

primeiras

magistraturas,

teve

de

passar

vários anos no EI,>ipto, onde entrou

em contacto

com os meios

a1e-

xandrinos, então atravessados por diversas correntes re1igiosas e fi-

10sóficas e que aprofundaram

ganhou fama de grande e10quência, imiscuiu-se nas intrigas da cor-

a

sua

cultura.

De regresso

a Roma,

.,

cem, porque são permanentemente confrontadas com uma experiên-

cia espiritua1 de particu1ar acuidade. O esti10 de Séneca - tão dife- rente do esti10 periódico de Cícero - é simu1taneamente um método

de pensamento e uma forma

de escrita. Compreende-se que, à sua

v01ta, se tenha

formado

uma

esc01a de jovens

ávidos

de renovação

e

te, de ta1 maneira que, quando Cláudio foi coroado imperador, a in-

revoltados contra a estética, para e1es bana1, da grande

prosa c1ássi-

fluência de Messa1ina destelTou-o

para

a Córsega.

Aí, no si1êncio do

ca. Para e1es, Séneca tinha enorme prestígio. Prosador

empo1gante,

eX11io- um eXl1ioao qua1 teve muita

foi-se 1ibertando 1entamente de tudo o que, até então, constituíra a

sua vida. E, quando foi chamado por Agripina, depois de esta ter substituído Messa1ina junto de C1áudio, renunciara sinceramente a