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O IMPACTO DA PANDEMIA NO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA

TERCEIRA INFÂNCIA

THE IMPACT OF THE PANDEMIC ON THE PSYCHOSOCIAL DEVELOPMENT OF


THIRD CHILDREN

SANTOS, Ana Isabeli dos; FERREIRA, Antoniele de Carvalho; BORBA, Camily Peres; BELMIRO,
Renata de Paula.

RESUMO

Tal pesquisa realizada pelas discentes do segundo termo da graduação de Psicologia do Centro
Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos, tem como objetivo expor e compreender os
impactos positivos e negativos do período de isolamento social na vida e no desenvolvimento das
crianças que se encontram na Terceira Infância (dos 6 aos 11 anos). Procurou-se verificar os
aspectos sociais, econômicos, familiares e educativos das crianças observadas para entender os
fenômenos comportamentais das mesmas e suas reações diante da situação vivenciada. Para a
obtenção dos dados dessa pesquisa foi aplicado um questionário contendo 7 perguntas fechadas e 3
abertas, respondidas por pais e responsáveis da parcela amostral, durante o mês de novembro de
2021. Trata-se, portanto, de uma abordagem exploratória quantitativa e qualitativa para o
levantamento e análise das informações; com técnica de amostragem probabilística, sistemática e
estratificada. Foram utilizados métodos de categorização e tabulação; para análise dos resultados,
utilizaram-se figuras, de forma a verificar suas inter-relações. Partindo dos resultados, foi possível
identificar uma crescente fragilidade comportamental e emocional das crianças em geral, em grande
parte adquiridos pelo constante medo se tratando da doença covid-19, os efeitos do confinamento
(em tempo, qualidade e intensidade em cada lar) e do trauma coletivo adquirido pela população geral.

Palavras-chave: Pandemia; Desenvolvimento infantil; Uso das telas; Transtornos de comportamento.

ABSTRACT
This research, carried out by the students of the second term of the Psychology degree at the
University Center of the Integrated Faculties of Ourinhos, aims to expose and understand the positive
and negative impacts of the period of social isolation in the life and development of children in Third
Childhood (from 6 to 11 years old). We sought to verify the social, economic, family and educational
aspects of the children observed in order to understand their behavioral phenomena and their
responses to the situation experienced. To obtain the data for this research, a questionnaire was
provided with 7 closed and 3 open questions, answered by parents and guardians of the sample,
during the month of November 2021. It is, therefore, a quantitative and qualitative exploratory
approach for the collection and analysis of information; with a probabilistic, systematic and stratified
sampling technique. Categorization and tabulation methods were used; to analyze the results, figures
were used in order to verify their interrelationships. Based on the results, it was possible to identify a
growing behavioral and emotional fragility of children in general, largely acquired by constant fear in
terms of covid-19 disease, the effects of confinement (in time, quality and intensity in each home) and
collective trauma acquired by the general population.

Keywords: Pandemic; Child development; Use of screens ; Behavior disorders.

1 INTRODUÇÃO
Este estudo tem como principal objetivo apresentar sobre os efeitos da
pandemia em crianças que se encontram na terceira infância. Levando em
consideração os efeitos positivos e negativos que foi gerado sobre a criança devido
ao isolamento social, apontando também os efeitos da tecnologia sobre os mesmos.
Alguns especialistas afirmam que esse novo modo de vida, pode levar
muito mais facilmente ao estresse ou a comprometimentos psicossociais,
independente da faixa etária, a especialista Sônia das Dores Rodrigues,
psicopedagoga e psicomotricista, vice-presidente da Associação Brasileira de
Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (ABENEPI), diz, que questões
relativas ao como, por exemplo, manter a saúde mental das crianças e suas famílias
na quarentena, que antes as rotinas previsíveis, agora súbito abaladas, com o
fechamento de empresas, comércio, clubes e escolas, afetam a vida familiar, em
especial as crianças e adolescentes.( ARAUJO, 2020)
Trazendo para realidade que houve a necessidade de todos a se adaptar
às rotinas, a presença de aparelhos eletrônicos no cotidiano das famílias se
tornaram muito mais frequentes, estudos mostram que as brincadeiras tradicionais
que envolviam apenas um indivíduo ou mais, como andar de bicicleta, pega-pega,
soltar pipa, esconde-esconde e outros estão sendo substituídos por tablets,
celulares, computadores e televisão, acarretando na utilização por longos períodos e
má postura acarretando a altos riscos de desenvolvimento de doenças durante o
crescimento e desenvolvimento das mesmas, trazendo transtornos na vida adulta,
levando a problemas como obesidade, isolamento social e familiar, dores
musculares, problemas posturais e osteoarticulares, déficit de atenção e
audiovisuais, depressão, enxaqueca, hiperatividade, aceleração da sexualidade,
diminuição do rendimento escolar, dessensibilização dos sentimentos e
favorecimento à vícios (tabagismo, alcoolismo e uso de drogas), gerando
preocupação aos profissionais da saúde (PAIVA; COSTA, 2015)
Tendo em vista os pais ou responsáveis pela criação dos seus filhos, é
importante manter um controle frente a exposição e modos de usar os aparelhos
eletrônicos, ocasionando assim riscos à saúde durante o desenvolvimento e
crescimento (C MARA, 2020).
Einstein (2019), afirma que com muito mais frequência crianças em
idades precoces têm o acesso fácil ao acesso aos dispositivos eletrônicos, além dos
computadores que são usados pelos pais, irmãos ou família, em casa, nas creches,
em escolas ou mesmo em quaisquer outros lugares com o objetivo de fazer com que
a “criança fique quietinha”. Vale lembrar que, o acesso pelas crianças aos meios
digitais seja para fins escolares ou para estar em contato com pessoas queridas que
se tornou frequente, também são utilizados para entretenimento e lazer para
crianças que se encontram confinadas em seus lares, distantes de amigos, colegas
e seus familiares, assim como das atividades em grupos.
É de extrema importância e relevância a estratégia de planejar o dia e
mantê-lo o mais próximo possível da rotina habitual, pode ser um fator contra o
surgimento de sintomas relacionados à ansiedade e outros transtornos relacionados.
Ter uma rotina, como por exemplo, horário para acordar, fazer as refeições e dormir,
assim como para realizar as diversas atividades, ajudar nas tarefas do dia dentro de
casa, também pode ser um aliado na sensação de bem-estar. Separar um tempo
dedicado ao descanso também é importante, assim como o lazer em família não
pode ser esquecido. As crianças precisam se divertir, movimentar-se, e as atividades
que envolvam o corpo são extremamente necessárias, mas diversificar e adaptar e
estimulá-los em outras brincadeiras, que conhecem coisas novas e interessantes,
também outras brincadeiras como jogos, desenhos, contação de histórias
(FIOCRUZ).

2 MATERIAL E MÉTODO

A pesquisa foi realizada com uma amostra composta por 57 crianças


selecionadas através de uma técnica de amostragem probabilística. As crianças
selecionadas encontram-se atualmente, cursando a primeira etapa da educação
básica. Com relação à idade, constatou-se variabilidade de 6 a 11 anos. Quanto ao
gênero, 58% são do gênero feminino e 42% do masculino. Buscou-se um estudo
focado nos impactos que a pandemia trouxe ao desenvolvimento psicossocial na
terceira infância com uma abordagem exploratória quantitativa e qualitativa. Para
coleta de dados, foi aplicado um questionário, contendo sete perguntas fechadas e
três abertas, apresentadas aos participantes dos dias 03 a 18 de novembro de 2021.
A coleta ocorreu após a autorização dos coordenadores das escolas, que estando
cientes dos objetivos dessa pesquisa, encaminharam o questionário para os pais ou
responsáveis dos alunos que cursam o Ensino Fundamental I nas redes públicas e
privadas nas cidades de Siqueira Campos, Jacarezinho e Piraju.
As perguntas foram formuladas com objetivo de verificar a existência de uma
relação entre o uso das telas com o comportamento dos sujeitos observados;
também desejou-se saber quais são as influências do uso exacerbado da tecnologia
no desenvolvimento infantil. A coleta de dados realizou-se sob as orientações dos
professores regentes das disciplinas de Análise Quantitativa e Qualitativa,
obedecendo à ordem de seleção, com um cuidadoso exame dos dados; compilação,
através de técnica operacional de categorização e tabulação com a disposição dos
dados de forma a verificar suas inter-relações e, para a análise dos resultados,
optou-se pela utilização de figuras.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir dos resultados da pesquisa foi possível observar o grande prejuízo


acarretado sob as crianças, ao que se referem os aspectos cognitivos, educacionais,
emocionais e sociais, durante o período de isolamento nos anos de 2020 e 2021.
Segundo Ghebreyesus1 (2020), “os efeitos indiretos da COVID-19 na criança e no
adolescente podem ser maiores que o número de mortes causadas pelo vírus de
forma direta”.
Muitos pais/responsáveis puderam observar e identificar os danos refletidos
nas crianças através das mudanças físicas, emocionais e comportamentais.
Infelizmente alguns transtornos advindos pela pandemia podem gerar sérios
problemas que necessitam de atenção e tratamento adequado. Na pesquisa
realizada foi observado que diante das mudanças negativas, reações emocionais e
alterações de comportamento foram frequentemente apresentadas pelas crianças,
destacam-se dificuldades de concentração, irritabilidade, medo, inquietação, tédio,
sensação de solidão, alterações no padrão de sono e alimentação, e especialmente
crises ansiosas. Abaixo será apresentado os resultados e dados coletados no
questionário:

1 Diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS)


Figura 1: Durante o período de isolamento social, quais dos
comportamentos/sintomas abaixo foram observados nele (a)? (obs: pode ser
selecionada mais de uma opção listada abaixo):

Ao analisar o seguinte gráfico percebeu-se que a permanência em


isolamento social, o impedimento do acesso às atividades externas e da interação
com outros colegas impossibilitou que as crianças trabalhassem certos sentimentos
de forma adequada, fazendo que esses aflorassem muito mais intensamente.
Um estudo publicado na revista The Lancet2 no Reino Unido, em fevereiro
de 2020 e comentado pela Fundação Oswaldo Cruz afirma que:

Ninguém é forte o tempo todo e os momentos emocionais difíceis devem ser


compreendidos e respeitados. Existe um processo de luto pela perda da
liberdade, pela ausência da escola, dos amigos que é necessário ser vivido.
Medos, preocupações, alterações de sono, apetite e no humor são
esperados em algum momento durante esse período (FEGERT et al, 2020.
FIOCRUZ, 2020a).

Dessa forma, compreende-se que alterações emocionais e comportamentais


são esperadas diante de situações como essa, especialmente se tratando de
grandes mudanças ocorridas de forma brusca e intensa a nível mundial, é um
processo necessário para a recuperação do equilíbrio psíquico. É necessário

2 The Lancet é uma revista científica sobre medicina e com revisão por pares que é publicada
semanalmente. É uma das mais antigas e conhecidas revistas médicas do mundo e descrita como
uma das mais prestigiadas. É publicada pela Elsevier no Reino Unido pelo Lancet Publishing Group.
portanto uma atenção maior à forma com que esse sujeito se comporta e reage à
situação, ocasionalmente necessitando de cuidados alternativos.
Muitas das alterações citadas acima se devem a um fenômeno cada vez
mais frequente entre as crianças e adolescentes, o uso exagerado da tecnologia por
eles. Um estudo realizado pelo Laboratório de Bem-Estar Digital do Hospital Infantil
de Boston revelou que mesmo após o período de isolamento e o retorno gradativo
das atividades normais nos EUA, as crianças permanecem usando aparelhos
eletrônicos e em um nível ainda maior que no período pré-covid-19.
Ao questionar os entrevistados sobre o uso das telas por seus tutelados,
obteve-se os seguintes resultados.

Figura 2: Essa criança teve contato com telas e aparelhos eletrônicos durante o
período de isolamento social? Se sim, quanto tempo ela consumiu?

Obteve-se uma amostra onde 44% das crianças ficam muito frequentemente
em frente às telas; 39% das crianças consomem frequentemente; 17% das crianças
ficam razoavelmente e 0% das crianças ficam raramente ou nunca em frente às
telas, notasse que de alguma forma, todas as crianças tiveram acesso algum tipo de
tela, seja para comunicação, entretenimento ou atividades escolares.
Atualmente muito tem se discutido sobre até onde vai o uso saudável dos
aparelhos eletrônicos na vida das crianças, considerando o tempo e qualidade do
material acessado. "O principal, para os pais, é a questão de as crianças estarem
passando muito tempo nas telas, não estarem interagindo o bastante com as
pessoas pessoalmente, não estarem dormindo, não saírem para a rua, é o que
afirma Bickham (2021) ao BBC News Brasil.
Durante o período de suspensão das aulas presenciais foi necessária uma
migração total das atividades para o modelo remoto, aumentando por si só
significamente o tempo das crianças online. Outro fator relevante nesse contexto
está no fato de que as redes sociais se tornaram quase que exclusivamente, o único
meio de contato entre as pessoas durante o isolamento social, corroborando para a
dependência dos indivíduos a essas tecnologias.
Segundo o estudo de Fires (2017), o uso prolongado de aparelhos
eletrônicos pode acometer o desenvolvimento de dores agudas e crônicas, devido à
má postura das crianças durante o uso dos aparelhos, causando assim riscos
posturais. Durante o isolamento social e a privação do contato com outras crianças,
esses aparelhos assumiram a função principal de entretenimento, especialmente
entre as famílias onde a criança ficou sob os cuidados de terceiros, o alto nível dos
estímulos afetam as áreas cerebrais provocando a sensação de prazer, contribuindo
para a formação de um vício.
Uma preocupante ameaça associada à quarentena e o uso da internet foi o
aumento do risco de exploração sexual online. Devido ao grande tempo que as
crianças e adolescentes passam online aumentou o risco de contato com
abusadores, especialmente através de jogos e redes sociais que até então pareciam
inofensivas. É de extrema importância que os pais e responsáveis estejam sempre
atentos e supervisionem os conteúdos acessados pelas crianças.
Ao mesmo tempo é inegável os inúmeros outros benefícios que as
tecnologias têm a acrescentar na vida cotidiana, tanto aos adultos quanto às
crianças. Além da facilidade na comunicação a longas e curtas distâncias ela
apresenta um leque infinito de conhecimentos a um fácil acesso, permitindo novas
possibilidades de aprendizagens. O problema real não se encontra diretamente na
tecnologia, mas na má condução e utilização desses aparelhos. Durante o retorno
gradativo às atividades de forma presencial os educadores encontrarão um grande
desafio para driblar o “vício tóxico” dos educandos, pois o modelo de educação
tradicional já não é suficiente para suprir as demandas de aprendizagem da geração
atual .
Outro ponto importante abordado durante a investigação está relacionado à
dinâmica familiar, vivenciada por essas crianças no período de isolamento. Com as
medidas protetivas de lockdown inúmeros profissionais, de todas as áreas de
atuação, foram prejudicados direta ou indiretamente. De acordo com os dados
publicados pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 13,5%
dos brasileiros se encontravam desempregados durante o ano de 2020, em 2021
esses números sobem para 14,7%, um quadro preocupante e que assola milhões de
famílias, especialmente nas classes sociais mais baixas. Essas preocupações
financeiras anexas ao medo e insegurança relacionadas a contaminação da covid-
19 e o isolamento social torna os lares suscetíveis ao aumento do estresse
intrafamiliar, desestabilizando os responsáveis e afetando diretamente as crianças.

Figura 3: Como estava a dinâmica familiar dessa criança nos últimos 2 anos? (ex:
ficou o tempo todo com os pais, os pais trabalham fora, ficou com com os avós, ficou
com a babá, etc.)

A questão se refere a dinâmica familiar ou seja com quem as crianças


passaram a maior parte do seu tempo durante o período de isolamento devido a
pandemia, muitos pais acabam tendo que trabalhar em home office sendo assim
facilitando com que as crianças pudessem ficar ali com eles também, dessa forma é
possível observar que 21% das crianças ficaram com os pais; 19% ficaram somente
com a mãe. Alguns pais que continuaram trabalhando presencialmente contaram
com um grande fator negativo, o fechamento das escolas tendo que deixar seus
filhos com algum outro tipo de cuidador, algum familiar ou responsável, sendo 16%
que ficaram com babás e 16% com outros familiares, especialmente os avós.
A pandemia impôs às famílias uma nova reorganização da vida cotidiana.
Todos os membros precisam lidar com o estresse da quarentena e do
distanciamento social. O fechamento de escolas levou ao ensino em casa e os pais
têm experimentado uma pressão crescente para trabalhar em casa, para manter
empregos e negócios funcionando, bem como para cuidar dos filhos que estudam
em casa ao mesmo tempo, enquanto os recursos dos cuidadores, incluindo os avós
e a família em geral, foram restritos.
Se tratando de aspectos educacionais dessas crianças, é explícito que
houveram muitos danos a curto e longo prazo. As aulas no modelo remoto privaram
as crianças daquilo que é indispensável no processo ensino-aprendizagem, as
trocas e compartilhamento de conhecimentos, a interação com outras crianças, a
socialização, as noções de regras e limites, assim muitas perderam o ânimo e a
vontade de realizar as atividades.
Sem os professores para dar o suporte individual, as crianças contaram com
o auxílio dos próprios cuidadores para dar suporte nas atividades. Vejamos no
gráfico abaixo.

Figura 4: Qual foi o suporte dessa criança nas atividades remotas? (ex: os pais
ajudaram, ela acompanhou sozinha, os avós ajudaram, fez aula particular)
Diante da amostra observada, foi possível coletar os seguintes dados: 9%
das fez aulas particulares 5% receberam o auxílio dos pais e avós 21% receberá o
auxílio dos pais e avós 37% receberam o auxílio dos pais 14% receberam o auxílio
da mãe 5% realizaram as atividades sozinhas 3% receberam o auxílio dos avós e
5% receberam o auxílio de outras pessoas.
É possível perceber que a maior parte das crianças contaram com o auxílio
dos pais, esse é um fator importante pois o incentivo educativo e apoio emocional
são indispensáveis em quaisquer situações, mas especialmente nesse contexto o
incentivo é uma das melhores formas de motivar os educandos a se dedicar às
atividades escolares.
No entanto, se tratando de crianças no período da alfabetização, somente o
incentivo não garante a aprendizagem, sem o contato físico na relação aluno-
professor e sem um ambiente propício, dificulta-se muito esse processo,
corroborando para diversas defasagens carregadas ao longo de toda a vida.
Como observado, somente 9% das crianças contaram com reforço escolar
durante esse período, restringindo principalmente às famílias com condições
financeiras mais elevadas. O restante dos alunos contaram com o conhecimento e
suporte que os pais ou familiares poderiam oferecer, suporte este que muitas vezes
é regado por um conhecimento de senso comum, já que uma grande porcentagem
desses adultos concluíram a educação básica a muito tempo ou nem chegaram a
concluir. Além de que, o estresse represado pelas condições da pandemia
interferem diretamente na maneira e metodologia do ensino, de forma que quando a
criança se depara com uma dificuldade o adulto não sabe lidar e acaba se exaltando
desnecessariamente, prejudicando ainda mais a aprendizagem e o emocional da
mesma.
Em vista de tudo aquilo já mencionado na pesquisa, perguntou-se aos
entrevistados até que ponto as crianças foram afetadas os resultados obtidos foram
os seguintes:

Figura 5:Você acredita que o desenvolvimento dessa criança foi afetado durante a
pandemia da Covid-19? Se sim, quanto?

É possível perceber claramente o quanto a pandemia afetou o


desenvolvimento infantil, apenas 2% das respostas afirmam que as crianças não
foram afetadas; 14% foram extremamente afetadas 35% foram muito afetadas; 26%
foram razoavelmente afetadas; 16% foram pouco afetada e por fim 7% foram muito
pouco afetadas.
O principal responsável por esses dados é o fato de que elas não puderam
estar presencialmente na escola, local de troca de experiências, momentos de
independência e iniciativa, é também um lugar no qual eles se sentem muito
confortáveis por estar no meio de crianças da sua mesma faixa etária, fazendo
também com criem sua própria identidade. Na escola por realizarem várias
atividades acabam distraindo a cabeça, realizando atividades físicas e a
consequência disso é que ajuda a diminuir a ansiedade, o medo, irritabilidade,
melhora suas atividades motoras e adquirem conhecimento, como afirma Vigotski "o
comportamento do homem é formado por peculiaridades e condições biológicas e
sociais do seu crescimento" (2001, p.63).
Para Piaget, a inteligência da criança vai se modificando e construindo a partir
da interação entre o organismo e o ambiente, por isso a idade escolar é muito
importante para o desenvolvimento da criança. É onde ela faz um constante
progresso nas suas habilidades como: a linguagem e a representação dos símbolos
a sua volta, processa e preserva informações, adquire independência e iniciativa,
começando a entender como o mundo a sua volta funciona. Com o isolamento social
as escolas foram fechadas e as crianças ficaram em suas casas, prejudicando a
idade escolar que é muito importante para a formação física, emocional, moral e
intelectual do sujeito.

4 CONCLUSÕES
Com o presente estudo, concluiu-se que a pandemia influenciou
significativamente no processo do desenvolvimento infantil das crianças de 6 a 11
anos, causando sintomas psicopatológicos, sentimentos negativos, traumas, queda
no desempenho físico e expressivas alterações comportamentais.
Observou-se que grande parte das crianças tiveram sintomas emocionais,
sendo eles os mais comuns a ansiedade, agitação, estresse e tédio, gerados por
vários fatores, como o distanciamento social que mudou drasticamente a rotina não
só das crianças, como também a dos pais, medidas preventivas de lockdown que
migraram as aulas para o modelo remoto, exigindo uma atenção maior dos
responsáveis em auxílio a seus filhos durante as atividades, questões financeiras
que eclodiram crises de estresse intra-familiar e insegurança quanto a questões de
saúde, temendo o contágio pelo Sars-Cov-19.
Os níveis de desenvolvimento foram muito afetados, poucas crianças
mantiveram-se estáveis, isto é, sem grandes alterações comportamentais. É
indispensável que os pais tomem consciência dos danos presentes e futuros
causados em seus filhos e procurem desde já intervenções profissionais como
acompanhamento psiquiátrico, psicológico e psicopedagógico.
Mediante o exposto, foi possível concluir que será muito difícil recuperar o
tempo perdido. Será essencial paciência e dedicação com os pequenos, pois
precisarão de apoio familiar e escolar para a recuperação dessas atividades. Uma
das possíveis soluções para esses danos gerados pela pandemia está na proposta
de atividades que instiguem as crianças a ter interesse e curiosidade pelo
conhecimento, como também ter uma ajuda extra curricular, podendo ser um reforço
dado pelos professores com uma dinâmica de ensino voltada para as necessidades
particulares das crianças.
É importante diminuir o uso de telas e estimular a criança a brincar e ter mais
contato com crianças da sua idade através de jogos e brincadeiras individuais e em
grupo. Nessa fase a independência, responsabilidade e imaginação estão sendo
formadas e estruturadas, e é nesse convívio social que a criança conhece sobre o
mundo que a cerca, os valores, crenças e culturas diferentes, que vão moldando sua
personalidade, subjetividade e a forma que ela agirá sobre essa realidade.
Por fim, é de extrema importância o acompanhamento com profissionais
especializados nas áreas físicas, mentais e emocionais para que daqui pra frente,
essas crianças trabalhem as questões que surgiram ao decorrer desses fenômenos
já mencionados, funcionando como suporte para orientação de como lidar de forma
positiva diante dos possíveis traumas que possam ter sido adquiridos no período de
isolamento.

REFERÊNCIAS

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