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CANCLINI, Nestor Garcia. Latinos - americanos à procura de um lugar neste século. São
Paulo: Iluminuras, 2008.

O autor nasceu na em La Plata, Argentina, em 1º de dezembro de 1939. Ele estudou filosofia


e fez doutorado em 1975, na Universidade Nacional de La Plata. Três anos mais tarde, com
uma bolsa de estudos concedida pelo CONICET, tornou-se PhD na Universidade de Paris. É
professor da Universidad Autónoma Metropolitana e pesquisador emérito do sistema
Nacional de Pesquisadores do México, além de ser um dos principais antropólogos a tentar
inserir a perspectiva latino-americana numa pós-modernidade cultural.

“O que significa ser latino americano?”, é com essa pergunta que Canclini inicia este livro e
apresenta todos os instrumentos necessários para que o leitor possa respondê-la. Ele fala da
transformação econômica, que levou vários latinos a deixarem seus países de origem e
emigrar para a Europa ou América do Norte em busca de melhores salários, tanto que em
vários países latino-americanos a remessa de divisas dos emigrados chegava a 10% do PIB.
Ele também ressalta coisas que nos identificam, como a linguagem, religião etc., e da
experiência de autores latinos, que para escreverem melhor sobre sua cultura tiveram que se
afastar do próprio país e, com o distanciamento, puderam fazer uma avaliação mais adequada.
Canclini afirma que embora a comunidade linguística e muitas convergências históricas
permitam agrupar os países latino-americanos, não se pode comparar México, Brasil e
Argentina, que são fortes produtores culturais, ao Paraguai e República Dominicana.

O significado da latino-americanidade não pode ser definido apenas observando o que


acontece dentro do território delimitado historicamente como América Latina. Ao estudar as
segmentações que representam a indústria cultural, percebe-se a diversidade evidente. O autor
fala das grandes corporações como a Nike e Mac Donald’s, por exemplo, que unem pessoas
do mundo todo através do consumo, alerta para a exploração dessas empresas aos
funcionários, que são unidos pelo “modelo Mac Donald’s de salários baixos, sem
contribuições nem direitos trabalhistas”.

Canclini afirma que a nossa multiplicidade cultural se espalha através da música, e que a
globalização não dissolve o que é local. Assim como latino-americanos configuram sua
identidade heterogênea com vivências de vários países, também os estadunidenses e europeus
reconhecem fragmentos seus na América latina. Em dado momento, o autor coloca a
indústria cultural como o centro das discussões e defende que se deem os devidos créditos aos
autores, muitas vezes engolidos pelas grandes empresas midiáticas que compram os direitos
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autorais e se apropriam das obras, reproduzindo e modificando-as sem sequer consultá-los. De


acordo com Canclini, é preciso indagar por que a América Latina não agrega sua variedade
literária, musical e comunicacional para se tornar uma economia cultural mais bem
interconectada e com melhores oportunidades de exportação.

Sobre concentração da riqueza, o autor traz dados de pesquisas (SESLA) evidenciando um


grave problema que o cidadão latino-americano tem, logo quando nasce, uma dívida de
US$1550 dólares. A diferença é que, enquanto algumas pessoas trabalham alguns dias, ou
mesmo horas para quitar esta dívida, a maioria de índios e camponeses precisa de cinco a dez
anos de salários para atingir esse numerário. Canclini diz que discursos políticos e
antropológicos costumam definir identidade como um repertório de ações, língua e cultura
que permitem a uma pessoa se identificar com determinado grupo, porém, defende uma ideia
de Warnier, de que nas interações transnacionais um mesmo indivíduo pode se identificar
com várias línguas e estilos de vida.

Canclini mostra os prós e os contras para latinos americanos com a globalização, o que
denomina como as duas tentações. Ele afirma que temos um repertório de matéria prima com
preço em queda, histórias comercializáveis e um ótimo pacote de clientes para manufatura e
tecnologias do norte. Mas também temos política instável, golpes militares frequentes, e baixo
poder de compra. Pagamos as dívidas vendendo o petróleo, os bancos e companhias aéreas, e,
ao nos desfazermos do nosso patrimônio para administrá-lo, nossa autonomia nacional e
regional se atrofia. Essa situação é muito bem exemplificada aqui no Brasil com a
privatização de estatais como a Vale e Banco do Brasil.

O autor expõe as grandes questões em torno do lento crescimento das culturas latino-
americanas, que se vêm praticamente abandonadas em suas localidades, mas apresenta uma
lista de possíveis soluções para esse impasse, como por exemplo: colocar pessoas e
sociedades no centro das prioridades ao invés dos investimentos financeiros; consolidar o
patrimônio histórico, desde monumentos, florestas e artesanato, até as línguas tradições e
conhecimento – e nisso concordo com o autor, pois a situação se mostra cada vez mais grave
em nosso país que já perdeu muito de sua língua nativa, do folclore e, especialmente na área
arquitetônica que a cada dia se deterioram os casarões históricos e surgem prédios em seus
lugares, sem contar com as matas que são destruídas em nome da ganância das construtoras
que usam o espaço para construir condomínios de luxo. Canclini alerta para a necessidade de
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se estruturar Ministérios de Cultura capacitados que promovam o capital cultural e o


dissemine entre as populações europeias e hispânicas, com crescente potencial de consumo.

A obra é interessante e o texto de fácil entendimento. A leitura de Latino-americanos a


procura de um lugar neste século é importante para estudantes não só de comunicação, mas
de todas as áreas, qualquer cidadão que tenha interesse na situação da América latina e seus
habitantes neste cenário globalizado, onde o capitalismo configura como protagonista. É
recomendado também para quem deseja apreender um pouco mais sobre o conceito de
indústria cultural, tão presente no nosso dia-dia. Conceito este criado por Theodor Adorno e
Max Horkheimer, porém, estudado e discutido por vários outros. Os discursos sobre
globalização e desterritorialização suscitam o que Canclini já expôs em Consumidores e
Cidadãos, que também discute a capacidade de consumo dos indivíduos e a identificação de
grupos através de marcas transnacionais como Nike e Mac Donald’s, o que causa uma
identificação imediata e certa ideia de complemento para quem já tenha tido a oportunidade
de ler ambas.

Qual é o papel da cultura latino-americana na globalização, ou melhor, de que maneira essa


representação cultural é difundida pelo mundo, e com que intensidade? Também esta pergunta
é respondida na obra deste filósofo e antropólogo que discorre livremente por todos os
assuntos pertinentes a este tema.

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