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Instruções para o estudo mediado de Redação:

1) Responda, de forma completa, as perguntas e envie, posteriormente, digitadas, para o email

para o cibelemoncorvo1982@gmail.com

2) As dúvidas em relação às questões devem ser tiradas gradativamente no privado da plataforma

“Google Classroom”.

3) O gabarito será postado no dia 01/04/20.

O Homem Trocado  
(Luís Fernando Veríssimo)

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma
enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.
– Eu estava com medo desta operação…
– Por quê? Não havia risco nenhum.
– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca
de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca
entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora
viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a
mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
– E o meu nome? Outro engano.
– Seu nome não é Lírio?
– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e…
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o
vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se
enganara, seu nome não apareceu na lista.
– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que
pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
– Por quê?
– Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia.
Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
– O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
– Se você diz que a operação foi bem…
A enfermeira parou de sorrir.
– Apendicite? – perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

Responda o questionário sobre o texto:

1) Quais elementos o cronista utilizou para gerar humor no texto?

2) Justifique o título do texto.

3) Indique que consequências os seguintes fatos têm na narrativa:

a) Troca na maternidade
b) A ida de outro bebê para sua mãe
c) Engano do cartório.
d) Engano do computador
e) Engano da companhia telefônica
f) Engano do médico

4) Observe a fala do médico: “— O senhor está desenganado”. Qual o sentido da


palavra “desenganado”?

5) Por que o narrador não fica apreensivo com este diagnóstico?

6)Por que, no contexto, o uso da palavra “ desenganado” gera humor?

7)Comente o final da crônica. Como se produziu o humor nessa passagem?

Roteiro básico da crônica


 Uma introdução rápida; (composta, pelo menos por dois períodos)
 A descrição de eventos do cotidiano, como uma partida de futebol, por exemplo, dividida
em dois parágrafos de desenvolvimentos (pensando no nosso modelo de avaliação)
 Uma clímax (planeje-o antes de escrever o texto), em outras palavras a “grande sacada”
da produção textual.
Um exemplo de “grande sacada” foi  o famoso “complexo de vira-latas” (exemplificado na
próxima crônica), que usou pela primeira vez para explicar os motivos de uma derrota da
seleção brasileira.

1) Estruturar as ideias

Para estruturar as ideias, faze-las surgir e organizá-las podemos completar as seguinte


frases:

“Quando soube eu fiquei”…


“Na minha opinião esse fato é”…
“Sobre esse acontecimento, estão falando”…
“Se eu estivesse nessa situação, eu”…
“Essa situação está relacionada comigo, pois”…
“Quando penso nesse susto, a primeira coisa que me vem à cabeça é”…

OBS: O ponto de partida pode ser o próprio fato, mas também podemos chegar a ele
no decorrer da crônica, isso vai do estilo (que deve ser cultivado, com a prática) de
cada um. Lembre-se de que é uma HISTÓRIA, você deve CONTAR um fato cotidiano.

Sobre o fato cotidano é bom saber...

 Personagens: São poucos nesse gênro textual.


 Tempo: Quando tudo aconteceu, geralmente presente e passado.
 Espaço: São poucos os espaços. Em geral, apenas um ou não é mencionado no texto,
mas é importante ter isso claro no seu planejamento textual.
 Foco narrativo: Quem conta a história, é alguém que viu e tem um conhecimento
parcial? É uma das personagens? É um observador onisciente, que conhece até os
sentimentos e pensamentos das personagens? (este último é mais comum em contos
do que nas crônicas).

IMPORTANTE!!!!!!!!!
 Pode abusar dos adjetivos,
 Descreva os lugares, para o leitor se
sentir imerso na história
 Leia vários tipos de crônica para se
familiarizar com o gênero
Não esqueça do ponto de vista pessoal,

COMPLEXO DE VIRA-LATAS
Nelson Rodrigues
“Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já
partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas
esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se
classificar!”. E, aqui, eu pergunto:
— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si
mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na
alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode
curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2
x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo
passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros,
Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós
o título como se fosse um dente.
E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que
funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o
pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer
esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do
mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60
milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia
responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:
— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo,
digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-
fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem:
— não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento
com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra
de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de
improvisação, de invenção. Em suma:
— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas
qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a
imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca,
voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no
futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por
que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu
de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo.
Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a
vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo
muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de
futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.
O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e
vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo
e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.
Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão. “ 

Nelson Rodrigues, Texto extraído dos livros:“As cem melhores crônicas brasileiras”,


editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119.

Em relação ao texto acima, de acordo com as aulas em sala e seus apontamentos no


caderno, responda:

A) Essa crônica é narrativa ou argumentativa? Justifique a sua resposta.


B) Qual o foco narrativo?
C) Em sua opinião, você concorda com o autor em sobre o complexo de
vira-latas do brasileiro?
D) Identifique no texto os adjetivos empregados. Em que medida eles
refletem o ponto de vista do autor?
Agora é a sua vez!

A partir dos trechos de crônicas, construa:

a) Uma introdução

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... Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.

O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto emburrado:
a gente também não tem nenhum direito nessa casa – pensava. Um dia ainda faço um
estrago louco. Meu único amigo, enxotado dessa maneira!
– Que diabo também, nessa casa tudo é proibido! – gritou lá do quarto, e ficou esperando a
reação da mãe.
– Dez minutos! – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não faço mais
nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração.
– Sua alma, sua palma.

b) Um desenvolvimento, com um clímax

“Tocam a campanhia e há um estrondo em meus ouvidos. A empregada estava de


folga, o remédio era atender o mau-caráter que me batia à porta à quela hora da
manhã. Vejo o camarada do bigodinho com o embrulho largo e enfeitado.

- É aqui que mora a senhorita Regina Celi?”

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c) Um desfecho inesperado:
O lixo

Luís Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez
que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida
em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha,
às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tin ha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu
lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de
papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que
foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo
da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa
vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte
mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
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