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CADERNO 13 t.

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CADERNOS DO CÁRCERE
• c;:;t~' -~ (\:>:··~,
fazer ironia barata. Maquiavel jamais diz que pensa em, ou se propõe dirigentes e as rersonalidades imediatamente re§PQ.!l.§áyd~_p\';.l_o_Qg_~~{ ';,·?, '
ele mesmo, mudar a realidade, mas visa apenas e concretamente a Osfenômenos orgânicos d:ã'~~ l~g~~ :~_Ç~j_i}·z~__l:lj_s_!_§_~i_ç_~-::~'?~_i~2 _g_11e
mostrar como deveriam operar as forças históricas para se tor_narem ~~--g~~nde~~p~~entos, ~--ª-L~!ll.s!ª§.-~~()_ª_?_irp.~çl!aJa:-" C: i~''
eficientes [22]. íiiei1ter~s p-~ nsá veis e do p_essoal__<i__itig_~D_t.~· ~!!_c!g_~~-~§tl:l:<:Lª_~.!ll .,,_;: ··" · :
perfÕdo hi~r6~1co~-~~~-i~=se a grande iii1 pqrt~nci_a_.dessa .. _gi1)_tipç_?,Q. ,;_:; "' ,,;:
---1:\§ 17. Análise das situações: relações de força. É o problema das Tem 1ugar uma crise. que, às vezes, pr()longa~s~__ por .c:i~2<enas de_a.nQs_, }'; ,;);
relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exa- Esta ~h~r~ção excepcional sigi}ifica que se__~eyelara!I_l (c;_he_g~r-~m à,v·
tidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das for- ~aturidade) contradiçÔes insanáveis na_ estruturc:t e que as fo_rçaspÓlí~
ças que atuam na história de um determinado período e determinar a ticas que atualll_ pQ§i_t!y_ª_Il:l_C:!:!_te __p9:rac()nservar e_ defender a própria '"' '
relação entre elas. É necessário movet:::se no ª_mbito de dois princípios: estrutÚrae~f~~çam-se para saná--:las derttrode C(;!rtosliglit~se superá- l
1) o de que .nenhu~daek--~~põe t~r~fas p;;~­ l~s. Estes esforços inc~ssantes e perseve_E_~_!l!~§__(_@_~ ne_g_h~m-ª--f_orm----ª
d~~ã~ exi~t:~;;-~~IÇõeSnecêssaría~~~~ntes, ou quc::__pelp so~ia~onfes;ará-que f()fSuper_ada) formam o terreno cig_:_'_Q_gl- í/
j;}efíos f1ãü ~~Eej a-rriem- viâ5--;k;parec~;-~-.~-e ct~~~n~ol~~_r·;~~.Q.~que­ sfüí{~í''~-llÕ-quafse-Ofg~Qg;;~- aS- f~~Ça_~!itªgQg_iSt~S-qUe teii_~m a çle-QR<)fr1Ul 0

nenhuma-so~ied~d~se dissolve ~- pode- se~ substituída antes que se ~~~!rar_{4~jp-~~~!~-~-~~()9~~~-~~ti]'ti~~ ar1álise,só tem êxi~o e é ":'_er- {i
t~rli-i.~~- desenvolvido todas as formas de ~ida i~pÜçitas-~w_1>IIas rel~-:: ~-:dei~~" -~e se to~11a nova realidade, s_e_as forças a~t.agomstas;tr~un- (vo-a.cfl'i'
ções (verificar a exataenunciação destes princípios). farri~ mas que imediatamente se exphc1ta numa sene de _pql~J:Ill_Ç~SwoL>f'iicl6
--- ["Nenhuma formação social desap~~-~~~-;~te~-- que se desenvol- td~~lógicas,. religiosas, filosóficas, polítiças,jl!rfdic:as, etc., cujo _ça_rá-'-f-e.,•<>•"·
vam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem t~r-~~~~-r~to pocie ser avaliadQp_ela medida em que__setornam c.onyin--·A 7,"~'
relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no centes e deslocam. o .!llinhament() _pr~e:x_isteiJ,!e t:l_asf().rças__1>oc:j_a~_s_Lg___q__~~;~b!.l
seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua exis- jft'
exi;tem as condições necess;iJ:_í;ls e. suficientes para qw~ qeter_m_i!1a.~ __...A
tência. Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos das tarefas possam e, portanto, devam __~er_.re.sqJyidas _historicamerJ.te ~
que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes (devam, já que a não-realização dodey_c::rhi.sté)rico_;lUIP-~nt? a<:lesor-
objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em ges- d-~ ~ecessária e prepara catástrofes .lllais gr.av_es_):
tação as condições materiais para sua realização" (Prefácio à Crítica - O erro em que ~e inc-~rref~~qÜent~~ente nas análises histórico-
da economia política )] [23]. políticas consiste em não saber encontrar a justa relação entre o que é
Da reflexão sobre estes dois cânones pode-se chegar ao desenvol- orgânico e o que é ocasional: chega-se assim_ Ol,!_~_t:_~_or_c;omo iilledi:3:_:_
vimento de toda uma série de outros princípios de metodologia histó- tamente atuantes causas qu~,~~r:i.o,atuam mediataJ11ente,_ou a.
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j )--ica. Todavia, no estudo cie uma estrutura, devem-se distinguir o-ª
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ãfirmé1J"_que=~;~;-us-~sJm~di~t~-s-~ã~oas úni~-~; :~ausas. efici~nte,s. Num
_ , d'i'; ' :movimentos org~nic()s{relativamente permanentes) dos mqv:üg_~ntos
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~~~.tem-se excesso de "economicismo" ou de doutrinarismo pedan-
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Sé! _apr~se_llt_;:J._JJJ._Ç_Qroo te; no outro, excesso de "ideologismo"" Num caso, superestimam-se
' ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenômenos de as causas mecânicas; no outro, exalta-se o elemento voluntarista e
_ ,, ~o~juntura dependem, certamente, de mov'J:iilellto;-~-gâ~],i_ç:q~.:!.!!l.élS_.S~l1 individual. (A distinção entre "movimentos" e fatos orgânicos e movi-
__ _ s'igmiiCã·do'fião-tem u~- amplO alCance histórico: eles dãoJt1g:::u:~ q__gm-a mentos e fatos de "conjuntura" ou ocasionais deve ser aplicada a
L cdtica política miúda,_ do dia-a-dia, que envolve os peql1_enos_,.g_]:"]:l_pc_:>s todos os tipos de situação, não só àquelas em que se verifica um pro-
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CADERNOS DO CÁRCERE CADER~JO 13

cesso regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se verifica um este período. De fato, só em 1870-1871, com a tentativa da Comuna,
processo progressista ou de prosperidade e àquelas em que se verifica esgotam-se historicamente todos os germes nascidos em 1789, ou
uma estagnação das forças produtivas.) _Q_g_~x9. .clúü~rjc_o entre as ~s seja, não só a nova classe que luta pelo poder derrota os representan-
ordens de movimento e, portanto, cie pesquisa dificilm_ej1t_e c~-:-~e:­ tes da velha sociedade que não quer confessar-se definitivamente
cido de modo correto; e, se o erro é grave na historiografia, mais gra- superada, mas derrota também os novíssimos grupos que consideram
ve ainda se torna na arte política, quando se trata l1ãôd.e~eco;-strgir já ultrapassada a nova estrutura surgida da transformação iniciada
a'' história passada, mas de construir a história presente e futu.r_ª_:_Q_~ em 1789 e demonstra assim sua vitalidade tanto em relação ao velho
próprios desejos e as próprias paixões baixas e imediatas. CQ!.l:~JiJ:uem como em relação ao novíssimo. Além do m~s_,__ s;g_m_gs_ªC911,!~_<~:jil1eP­
a causa do erro, na medida em que substituem a análise objef~Yª.e tos de 1870-1871,perde eficácia o conjunto de princípios de estraté-
imparcial e que isto se verifica não como "meio" consciente par~_esti­ gE1e. tática políticà nasddôs prati~~~e~te. ~~ 1789 ~ desenvolvidos
rÍmlar à ação, mas como auto-engano. O feitiço, também neste caso, i'deólogicamente em torno de 1848 (os que se sintetizam na fórmula
se volta contra o feiticeiro, ou seja, o demagogo é a primeira vítima de da "revolução permanente": seria int~ressante estudar em que medida C!?//',
sua demagogia. essa fórmula passou para a estratégia mazziniana- por exemp-lo, ,.LI
[O fato de não se levar em consideração o momento imediato das para a insurreição de 1853 em Milão - e se isto ocorreu consci~pte:-l?s</.
.. . /..-'; . ·;~:·~

"relações de força" liga-se a resíduos da concepção liberal vulgar, da mente ou não) [24]. Um elemento que mostra a justeza deste ponto de,:-~'-~\'"
qual o sindicalismo é uma manifestação que acreditava ser mais avan- vista é o fato d~ que os historiadores de modo nenhum concordam (é'"·"''·····
çada quando, na realidade, representava um passo atrás. Com efeito, é impossível que concordem) na fixação dos limites daquela série de
a concepção liberal vulgar, dando importância à relação das forças acontecimentos que constitui a Revolução Francesa. Para alguns
políticas organizadas nas diversas formas de partido (leitores de jor- (Salvemini, por exemplo), a revolução se completa em Valmy: a
nais, eleições parlamentares e locais, organizações de massa dos parti- França criou um novo Estado e soube organizar a força político-
dos e dos sindicatos em sentido estrito), era mais avançada do que o militar que o sustenta e que defende sua soberania territorial. Para
sindicalismo, que dava importância primordial à relação fundamental outros, a revolução continua até Termidor, ou melhor, eles falam de
econômico-social, e só a ela. A concepção liberal vulgar também leva- muitas revoluções (o 10 de agosto seria uma revolução em si, etc; cf.
va em conta implicitamente esta relação (como transparece através de La Révolution {rançais e de A. Mathiez, na coleção Colin) [25]. A
muitos sinais), mas insistia mais na relação das forças políticas, que maneira de interpretar o Termidor e a ação de Napoleão apresenta as
era uma expressão dlaboutra e, na realdidade, a englobavda. Estes redsí- J, mais agudas contradições: trata-se de revolução ou de contra-
duos da conc;epÇ~() i eral vu 1gar p() ~rn se!"_~D.<::9Blrª-O.S.~IJl-.!Q. a \ revolução?, etc. Para outros, a história da Revolução continua até
~a séried-~ análises . qJJ.e
. ....se __dizem
--- . ___ lig~d;;
------- à filosofia da_m:áxis~e.
..___________
-----------~
1830, 1848, 1870 e mesmo até a guerra mundial de 1914.
c!_eram lugar a formª~ji1.f~tis de otimismo e de estupidez.] Em todas estas maneiras de ver há uma parte de verdade.
--Estes critérios metodológi'2õs- podem adqu~l e didatica- Realmente, as contradições internas da estrutura frances<!,_~~
mente todo o seu significado quando aplicados ao exame de fatos his- 4;s_~gvo}Y:~~-:;[~p-~~~~_1789,__~ú encontr:amJJma_r_elativa CQtp_pQ§iç-ª_2.
tóricos concretos. Seria possível fazer isso com utilidade para os acon- c:om a Terceira Repúblic--ª·'-~ a Fral)._Ça tem _s_ess.enta.an.os_de vidª-polí::
tecimentos que se verificaram na França de 1789 a 1870. Parece-me ti-~ã eq{:tülbra~gii'de _Qj!_~!!.tSl.ªt:!Q~--g~__ti_é!nsfot:_i!!ª_ç_Ões em .9n.d~.
que, para maior clareza da exposição, seja necessário abranger todo c~ªi~:i~~----~ªi§~_l<;>pg_~~=---~?_ª2~.1?J.'<.!:2~1?22.,_;t8J)3_,_1R15,_1_83.Q_,J.8A.8_,.

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zação alcançado pelos vários grupos sociais. Este momento, por sua
!_~29_:, É exatamente o estudo dessas "ondas" de diferente oscilação
vez, pode ser analisado e diferenciado em vários graus, que correspon-
que permite reconstruir as relações entre estrutura e superestrutura,
dem aos diversos momentos da consciência política coletiva, tal como
por um lado, e, por outro, entre o curso do movimento orgânico e o
se manifestaram na história até agora. O primeiro e mais elementar é
curso do movimento de conjuntura da estrutura. Assim, pode-se dizer
o _econQ.m.icQ_:-_ÇQJ::po_r.ªÜY.o: um comerciante sente que deve ser solidá-
que a mediação dialética entre os dois princípios metodológicos enun-
rio com outro comerciante, um fabricante com outro fabricante, etc.,
ciados no início desta nota pode ser encontrada na fórmula político-
mas o comerciante não se sente ainda solidário coin o fabricante; isto
histórica da revolução permanente.
é, sente-se a unidade homogénea do grupo profissional e o dever de
Um aspecto do mesmo problema é a chamada questão das rela-
organizá-la, mas não ainda a unidade do grupo social mais amplo.
ções de força. Lê-se com freqüência, nas narrações históricas, a ex-
Um segundo momento é aquele em que se atinge a consciência da soli-
pressão genérica·: relações de força favoráveis, desfavoráveis a esta ou
dariedade de interesses entre todos os membros do grupo social, màs
àquela tendência. Assim, abstratamente, esta formulação não explica
nada ou quase nada, pois não se faz mais do que repetir o fato que se ainda no campo meramente econômico.Já §_e~p.õe...neste....IDotrl:~.ll"tQ.-ª
questão do Estado, mas apenas no terreno da obtenção de uma igual-
deve explicar, apresentando-o uma vez como fato e outra como lei .. ....... ····-·· ... -· .. .. .. . . ···-·· ...•.. ··-··· . ····•·· ... . - .. . . -·· . .. .. . .. .. . . .. ()
dade politico-jyxíçl.i_c_a cornos gruposdominantes, já que se reivindicá~~
abstrata e como explicação. Portanto, o erro teórico consiste em apre-
o direito de participar da legislação e da adiTl.iiiistraÇão. emesmo de~
sentar um princípio de pesquisa e de interpretação como "causa
modificá-las, de reformá-las, mas nos quadros fundamentais existen-
histórica".
Na "relação de forç_a", _____________
é necessário distinguir diversos momentos tes. pm ~erc~iro momento é aquele em que se adquire a consciência de
-------.:._ .--~----------- --------~~-----
· que os próprios interesses corporativos, em seu desenvolvimento atual
ou _ graus_,_qg~J:l_~ fu!J:g.§l_J:D_entªLs]g_~~gu~!ltes:
e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente econô-
1) Uma relação de forças sociais estreitamente ligada à estrutura,
objetiva, independente da vontade dos homens, que pode ser mensu-
e
~~c-o; podeO"l e devem tornar-se os interesses de. outros gr~pos
rada com os sistemas das ciência~ exatas ou físicas [26]. Com base no subordinados. Esta é a fase mais estritamente política, que assinala a
grau de desenvolvimento das forças materiais de produção, têm-se os passagem nítida da estrutura para a esfera das superestruturas com-
agrupamentos sociais, cada um dos quais representa uma função e plexas; é a fase em que as ideologias geradas anteriormente se trans-
ocupa uma posição determinada na própria produção. Esta relação é formam em "partido", entram em c9nfrontação e lutam até que uma
o que é, uma realidade rebelde: ninguém pode modificar o número delas, ou pelo. menos uma única combinação delas, tenda a prevale-
das empresas e de seus empregados, o número das cidades com sua cer, a se impor, a se irradiar por toda a área social, determinando,
dada população urbana, etc. Este alinhamento fundamental permite além da unicidade dos fins econômicos e políticos, também a unidade
estudar se existem na sociedade as condições necessárias e suficientes intelectual e moral, pondo todas as questões em torno das quais ferve
para uma sua transformação, ou seja, permite verificar o grau de rea- a luta não no plano corporativo, mas num plano "universal", criando
lismo e de viabilidade das diversas ideologias que nasceram em seu assim a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série
próprio terreno, no terreno das contradições que ele gerou durante de grupos subordinados. O Estado é certamente concebido como
seu desenvolvimento. organismo próprio de um grüpo, destinado a criar ~-- ....... as-- ~~ndições
~ . . . favo-

2) O momento seguinte é a relação das forças políticas, ou seja, a ráveis à expansão máxima desse grupo, mas este desenvolvimento e
avaliação do grau de homogeneidade, de autoconsciência e de organi- ·esta expansão são concebidos e apresentados como a força motriz de

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uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as energias ças reacionárias internacionais e as representava no seio da unidade
"nacionais", isto é, o grupo dominante é coordenado concretamente territorial francesa; assim, na Revolução Francesa, Lyon representava
com os interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal é uma conexão particular de relações, etc.).
concebida como uma contínua formação e superação de equilíbrios 3) O terceiro momento é o da relação das forças militares, imedia-
instáveis (no âmbito da lei) entre os interesses do grupo fundamental tamente decisivo em cada oportunidade concreta. (O desenvolvimen-
e os interesses dos grupos subordinados, equilíbrios em que os interes- to histórico oscila continuamente entre o primeiro e o terceiro mo-
ses do grupo dominante prevalecem, mas até um determinado ponto, mento, com a mediação do segundo.) Mas também esse momento não
ou seja, não até o estreito interesse econômico-corporativo. Na histó- é algo indistinto e identificável imediatamente de forma esquemática;
ria real, estes momentos implicam-se reciprocamente, por assim dizer também nele podem-se distinguir dois graus: o militar em sentido
horizontal e verticalmente, isto é, segundo as atividades econômico- estrito, ou técnico-militar, e o grau que pode ser chamado de político-
sociais (horizontais) e segundo os territórios (verticalmente), militar. No curso da história, estes dois graus se apresentaram numa
combinando-se e cindindo-se variadamente: cada uma destas combi- grande variedade de combinações. Um exemplo típico, que pode ser-
nações pode ser representada por uma própria expressão organizada vir como demonstração-limite, é o da relação de opressão militar de
econômica e politica. Deve-se ainda levar em conta que estas relações um Estado sobre uma nação que procura alcançar sua independência
internas de um Estado-Nação entrelaçam-se com as relações interna- estatal. A relação não é puramente militar, mas político-militar: com
cionais, criando novas combinações originais e historicamente con- efeito, este tipo de opressão seria inexplicável sem o estado de desa-
cretàs. Uma ideologia, nascida num país mais dese~volvido, difunde- gregação social do povo oprimido e a passividade de sua maioria.
se em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combi- Portanto, a independência não poderá ser alcançada com forças pura-
nações. (A religião, por exemplo, sempre foi uma fonte dessas combi- mente militares, mas com forças militares e político-militares. De fato,
nações ideológico-políticas nacionais e internacionais; e, com a reli- se a nação oprimida, para iniciar a luta pela independência, tivesse de
gião, as outras formações internacionais, como a maçonaria, o Rotary esperar a permissão do Estado hegemônico para organizar seu pró-
Club, os judeus, a diplomacia de carreira, que sugerem recursos polí- prio exército no sentido estrito e técnico da palavra, teria de esperar
ticos de origem histórica diversa e os fazem triunfar em determinados bastante tempo (pode ocorrer que a reivindicação de ter um exército
países, funcionando como partido político internacional que atua em próprio seja concedida pela nação hegemônica, mas isto significa que
cada nação com todas as suas forças internacionais concentradas; mas uma grande parte da luta já foi travada e vencida no terreno político-
religião, maçonaria, Rotary, judeus, etc., podem ser incluídos na cate- militar). A nação oprimida, portanto, oporá inicialmente à força mili-
goria social dos "intelectuais", cuja função, em escala internacional, é tar hegemônica uma força qu.e é apenas "político-militar", isto é, opo-
a de mediar entre os extremos, de "socializar" as descobertas técnicas rá uma forma de ação política que tenha a virtude de determinar refle-
que fazem funcionar toda atividade de direção, de imaginar compro- xos de caráter militar, no sentido çfe que: 1) seja capaz de desagregar
missos e alternativas entre as soluções extremas) [27]. Esta relação intimamente a eficiência bélica da nação hegemônica; 2) obrigue a
entre forças internacionais e forças nacionais torna-se ainda 1nais força militar hegemônica a diluir-se e dispersar-se num grande territó-
complexa por causa da existência, no interior de cada Estado, de rio, anulando grande parte de sua eficiência bélica. No Risorgimento
várias seções territoriais com estruturas diferentes e diferentes rela- italiano, pode-se notar a ausência desastrosa de uma direção político-
ções de força em todos os graus (assim, a Vendéia era aliada das for- militar sobretudo no Partido de Ação (por incapacidade congênita),

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mas também no partido piemontês-moderado, tanto antes como cidades e do campo, especialmente destas últimas, atormentadas pela
depois de 1848, não certamente por incapacidade, mas por "malthu- miséria endémica. De qualquer modo, a ruptura do equilíbrio entre as
sianismo econômico-político", ou seja, porque não se quis sequer forças não se deu por causas mecânicas imediatas de empobrecimen-
fazer menção à possibilidade de uma reforma agrária e porque não se to do grupo social interessado em romper o equilíbrio, e que de fato o
queria a convocação de uma assembléia nacional constituinte, mas se rompeu; mas ocorreu no quadro de conflitos superiores ao mundo
pretendia apenas que a monarquia piemontesa, sem condicionamen- econômico imediato, ligados ao "prestígio" de classe (interesses eco-
tos ou limitações de origem popular, se estendesse a toda a Itália, atra- nômicos futuros), a uma exasperação do sentimento de independên-
vés da simples aprovação de plebiscitos regionais. cia, de autonomia e de poder. A questão particular do mal-estar ou do
Outra questão ligada às anteriores é a de ver se as crises históricas bem-estar econômicos como causa de novas realidades históricas é
fundamentais são determinadas imediatamente pelas crises econômi- um aspecto parcial da questão das relações de força em seus vários
cas. A resposta a essa questão está implicitamente contida nos pará- graus. Podem-se produzir novidades ou porque uma situação de bem-
grafos anteriores, onde são tratadas questões que constituem um ou- estar é ameaçada pelo egoísmo mesquinho de um grupo adversário,
tro modo de apresentar aquela a que nos referimos agora; mas é sem- ou porque o mal-estar se tornou intolerável e não se vê na velha socie-
pre necessário, por razões didáticas, dado o público específico, exami- dade nenhuma força capaz de mitigá-lo e de restabelecer uma norma-
nar cada modo sob o qual se apresenta uma mesma questão como se lidade através de meios legais. Pode-se dizer, portanto, que todos estes
se tratasse de um problema independente e novo. Pode-se excluir que, elementos são a manifestação concreta das flutuações de conjuntura
por si mesmas, as crises econômicas imediatas produzam eventos fun- do conjunto das relações sociais de força, em cujo terreno verifica-se
damentais; podem apenas criar um terreno mais favorável à difusão a transformação destas relações em relações políticas de força, para
de determinados modos de pensar, de pôr e de resolver as questões culminar na relação militar decisiva. Se não se verifica este processo
que envolvem todo o curso subseqüente da vida estataL De resto, de desenvolvimento de um momento a outro - e trata-se essencial-
todas as afirmações referentes a períodos de crise ou de prosperidade mente de um processo que tem como atares os homens e a vontade e
podem dar margem a juízos unilaterais. Em seu compêndio de histó- capacidade dos homens-, a situação se mantém inoperante e podem
ria da Revolução Francesa (Ed. Colin), Mathiez, opondo-se à história ocorrer desfechos contraditórios: a velha sociedade resiste e garante
vulgar tradicional, que apríoristicamente "encontra" uma crise para para si um período de "tomada de fôlego", exterminando fisicamente
coincidir com as grandes rupturas de equilíbrios sociais, afirma que, a elite adversária e aterrorizando as massas de reserva; ou, então,
por volta de 1789, a situação econômica era bastante boa no nível verifica-se a destruição recíproca das forças em conflito com a instaw·
imediato, pelo que não se pode dizer que a catástrofe do Estado abso- ração da paz dos cemitérios, talvez sob a vigilância de um sentinela
luto tenha sido motivada por uma crise de empobrecimento (cf. a afir- estrangeiro.
mação exata de Mathiez) [28]. Deve-se observar que o Estado estava Mas a observação mais importante a ser feita sobre qualquer aná-+
envolvido numa crise financeira mortal e se punha a questão de saber lise concreta das relações de força é a seguinte: tais análises não
sobre qual das três ordens sociais privilegiadas deveriam recair os podem e não devem ser fins em si mesmas (a não ser que se trate d~
sacrifícios e o peso de um reordenamento das finanças do Estado e da escrever um capítulo da história do passado), mas só adquirem uni
Coroa. Além do mais, se a posição econômica da burguesia era prós- significado se servem para justificar uma atividade prática, uma ini'-
pera, certamente não era boa a situação das classes populares das ciativa de vontade. Elas mostram quais são os pontos de menor resis-

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tência, nos quais a força da vontade pode ser aplicada de modo mais degenerações economicistas, o tiro sai pela culatra [29]. O nexo entre
frutífero, sugerem as operações táticas imediatas, indicam a melhor ideologias livre-cambistas e sindicalismo teórico é especialmente evi-
maneira de empreender uma campanha de agitação política, a lingua- dente na Itália, onde é conhecida a admiração por Pareto de sindica-
gem que será mais bem compreendida pelas multidões, etc. O elemen- listas como Lanzillo & Cia [30]. Mas o significado destas duas ten-
to decisivo de cada situação é a força permanentemente organizada e dências é bastante diverso: a primeira é própria de um grupo social
há muito tempo preparada, que se pode fazer avançar quando se jul- dominante e dirigente; a segunda, de um grupo ainda subalterno, que
ga que uma situação é favorável (e só é favorável na medida em que não adquiriu ainda consciência de sua força e de suas possibilidades e
esta força exista e seja dotada de ardor combativo). Por isso, a tarefa modos de desenvolvimento e, por isso, não sabe sair da fase deprimi-
essencial consiste em dedicar-se de modo sistemático e paciente a for- tivismo. A formulação do movimento do livre-câmbio baseia-se num
mar esta força, desenvolvê-la, torná-la cada vez mais homogênea, erro teórico cuja origem prática não é difícil identificar, ou seja,
compacta e consciente de si. Isso pode ser comprovado na história mi- baseia-se na distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de.
litar e no cuidado com que, em qualquer época, os exércitos estiveram distinção metodológica é transformada e apresentada como distinção
preparados para iniciar uma guerra a qualquer momento. Os grandes orgânica. Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da
Estados foram grandes Estados precisamente porque sempre estavam sociedade civil e que o Estado não deve intervir em sua regulamenta-
preparados para inserir-se eficazmente nas conjunturas internacionais ção. Mas, dado que sociedade civil e Estado se identificam na realida-
favoráveis; e essas eram favoráveis porque havia a possibilidade con- de dos fatos, deve-se estabelecer que também o !iberismo é uma "re-
creta de inserir-se eficazmente nelas. gulamentação" de caráter estatal, introduzida e mantida por via legis-
lativa e coercitiva: é um fato de vontade consciente dos próprios fins,
§ 18. Alguns aspectos teóricos e práticos do cceconomicismo". e não a expressão espontânea, automática, do fato econômico. Por-
Economicismo- movimento teórico pelo livre-cambismo- sindica- tanto, o !iberismo é um programa político, destinado a modificar,
lismo teórico. Deve-se ver em que medida o sindicalismo teórico se quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico
originou da filosofia da práxis e em que medida derivou das doutrinas do próprio Estado, isto é, a modificar a distribuição da renda nacio-
econômicas do livre-câmbio, isto é, em última análise, do liberalismo. nal. Diverso é o caso do sindicalismo teórico, na medida em que se
Por isso, deve-se ver se o economicismo, em sua forma mais comple- refere a um grupo subalterno, o qual, por meio desta teoria, é impedi-
ta, não é uma derivação direta do liberalismo, tendo mantido, mesmo do de se tornar dominante, de se desenvolver para além da fase eco-
em suas origens, bem poucas relações com a filosofia da práxis, rela- nômico-corporativa a fim de alcançar a fase de hegemonia ético-
ções, de qualquer modo, apenas extrínsecas e puramente verbais. É política na sociedade civil e de tornar-se dominante no Estado. No
desse ponto de vista que se deve examinar a polêmica Einaudi-Croce, que se refere ao !iberismo, tem-se o caso de uma fração do grupo diri-
determinada pelo novo prefácio (1917) ao livro Materialismo storico: gente que pretende modificar não a estrutura do Estado, mas apenas
a exigência, formulada por Einaudi, de levar em conta a literatura de a orientação governamental, que pretende reformar a legislação
história econômica suscitada pela economia clássica inglesa pode ser comercial e só indiretamente a industrial (pois é inegável que o prote-
satisfeita neste sentido, o de que tal literatura, por uma contaminação cionismo, especialmente nos países de mercado pobre e restrito, limi-
superficial com a filosofia da práxis, originou o economicismo; por ta a liberdade de iniciativa industrial e favorece patologicamente o
isso, quando Einaudi critica (na verdade, de modo impreciso) algumas surgimento de monopólios): trata-se de alternância dos partidos diri-

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gentes no governo, não de fundação e organização de uma nova socie- 1900, até chegar a 1919 e à formação do Partido Popular: a distinção
dade política e, menos ainda, de um novo tipo de sociedade civil. A orgânica que os clericais faziam entre Itália real e Itália legal era uma
questão apresenta-se com maior complexidade no movimento do sin- reprodução da distinção entre mundo econômico e mundo político-
dicalismo teórico: é inegável que, neste último, a independência e a legal), que são muitas, no sentido de que pode existir semi-absten-
autonomia do grupo subalterno que ele diz exprimir são sacrificadas cionismo, um quarto de abstencionismo, etc. Ao abstencionismo está
à hegemonia intelectual do grupo dominante, já que o sindicalismo ligada a fórmula do "quanto pior, melhor" e também a fórmula da
teórico não passa de um aspecto do !iberismo, justificado com algu- chamada "intransigência" parlamentar de algumas frações de deputa-
~as afirmações mutiladas e, por isso, banalizadas da filosofia da prá- dos. Nem sempre o economicismo é contrário à ação política e ao par-
xts. Por que e corno se verifica este "sacrifício"? Exclui-se a transfor- tido político, mas esse é considerado como mero organismo educativo
mação do grupo subordinado em dominante, ou porque o problema de tipo sindical.
sequer é formulado (fabianismo, De Man, grande parte do trabalhis- Um ponto de referência para o estudo do economicismo e pai:a
mo), ou porque é apresentado sob formas incongruentes e ineficazes compreender as relações entre estrutura e superestruturas é o trecho
(tendências social-democratas em geral), ou porque se afirma o salto da Miséria da filosofia onde se afirma que uma fase importante no
imediato do regime dos grupos àquele da perfeita igualdade e da eco- desenvolvimento de um grupo social é aquela em que os membros de
nomia sindical. um sindicato não lutam mais apenas por seus interesses econômicos,
. É no mínimo estranha a atitude do economicismo em relação às mas para a defesa e o desenvolvimento da própria organização (ver a
expressões de vontade, de ação e de iniciativa política e intelectual, afirmação exata; a Miséria da filosofia é um momento essencial da
como se estas não fossem uma emanação orgânica de necessidades formação da filosofia da práxis; pode ser considerada como o desen-
econômicas, ou melhor, a única expressão eficiente da economia· volvimento das Teses sobre Feuerbach, ao passo que a Sagrada Fa-
. .... . ' mília é uma fase intermediária indistinta e de origem ocasional, como
ass1m, e mcongruente que a formulação concreta da questão hegemô-
n~ca seja interpretada como um fato que subordina o grupo hegemô- se revela nos trechos dedicados a Proudhon e sobretudo ao materialis-
mco. O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que sejam mo francês [31]. O trecho sobre o materialismo francês é, mais do que
levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os outra coisa, um capítulo de história da cultura e não um texto teóri-
quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de co, como é geralmente interpretado, e como história da cultura é
compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem admirável. Recordar a observação de que a crítica contida na Miséria
econômico-corporativa; mas também é indubitável que tais sacrifícios da filosofia contra Proudhon e sua interpretação da dialética hegelia-
e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a na pode ser válida para Gioberti e, em geral, para o hegelianismo dos
hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômi- liberais moderados italianos. O paralelo Proudhon-Gioberti, embora
ca, não pode deixar de ter seu fundamento na função decisiva que o representem fases histórico-políticas não homogêneas, ou melhor,
grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica. exatamente por isto, pode ser interessante e fecundo) [32]. Deve-se
O economicismo apresenta-se sob muitas outras formas além do recordar ao mesmo tempo a afirmação de Engels de que a economia
!iberismo e do sindicalismo teórico. Dele fazem parte todas ~s formas só em "última análise" é o motor da história (nas duas cartas sobre a
de abstencionismo eleitoral (exemplo típico é o abstencionismo dos filosofia da práxis, publicadas também em italiano), que deve ser dire-
clericais italianos depois de 1870, cada vez mais atenuado a partir de tamente conectada ao trecho do prefácio à Crítica da economia po-

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lítica, onde se diz que os homens adquirem consCiencia dos etc., que trazem consigo a aplicação de novos métodos na construção
conflitos que se verificam no mundo econômico no terreno das ideo- e no funcionamento das máquinas [36]. Apareceu nos últimos tempos
logias [33]. toda uma literatura sobre o petróleo: pode-se considerar como típico
Em várias ocasiões, afirmou-se nestas notas que a filosofia d~ prá- um artigo de Antonino Laviosa na Nuova Antologia de 16 de maio de
xis está muito mais difundida do que se admite [34]. A afirmação é 1929. A descoberta de novos combustíveis e de novas energias motri-
exata desde que se entenda como difundido o economicismo históri- zes, bem como de novas matérias-primas a transformar, tem certa-
co, que é como o Prof. Loria denomina agora suas concepções mais mente grande importância porque pode modificar a posição dos
ou menos desconexas; e que, portanto, o ambiente cultural se modifi- Estados, mas não determina o movimento histórico, etc.
cou completamente desde o tempo em que a filosofia da práxis iniciou Muitas vezes acontece que se combate o economicismo histórico
suas lutas; pode-se dizer, com terminologia crociana, que a maior pensando combater o materialismo histórico. É este o caso, por exem-
heresia surgida no seio da "religião da liberdade", tal como a religião plo, de um artigo do Avenir de Paris, de 10 de outubro de 1930 (trans-
ortodoxa, também sofreu uma degeneração, difundiu-se como crito na Rassegna Settimanale delta Stampa Estera, de 21 de outubro
"superstição", isto é, entrou em combinação com o !iberismo e pro- de 1930, p. 2303-4 ), que transcrevemos como típico: "Dizem-nos há
duziu o economicismo [35]. Porém, deve-se ver se, enquanto a religião muito tempo, mas sobretudo depois da guerra, que as questões de
ortodoxa se estiolou definitivamente, a superstição herética não terá interesse dominam os povos e fazem o mundo avançar. Foram os mar-
conservad9 sempre um fermento que a fará renascer como religião xistas que inventaram esta tese, sob a designação um pouco doutriná-
sup·erior, ou seja, se as escórias de superstição não são facilmente ria de 'materialismo histórico'. No marxismo puro, os homens toma-
liqi.Üdáveis. dos em conjunto não obedecem às paixões, mas às necessidades eco-
Alguns pontos característicos do economicismo histórico: 1) na nômicas. A política é uma paixão. A pátria é uma paixão. Estas duas
busca das conexões históricas, não se distingue entre o que é "relati- idéias exigentes só desempenham na História uma função aparente, já
vamente permanente" e o que é flutuação ocasional, e se entende por que, na realidade, a vida dos povos, no curso dos séculos, é explicada
fato econômico o interesse pessoal e de pequeno grupo, num sentido através de um jogo cambiante e sempre renovado de causas de ordem
imediato e "sordidamente judaico". Ou seja: não se levam em conta material. A economia é tudo. Muitos filósofos e economistas 'burgue-
as formações de classe econômica, com todas as relações a elas ineren- ses' retomaram este estribilho. Fazem certa pose para nos explicar a
tes, mas se assume o interesse mesquinho e usurário, sobretudo quan- grande política internacional por intermédio do preço do trigo, do
do coincide com formas delituosas contempladas nos códigos crimi- petróleo ou da borracha. Esmeram-se em nos demonstrar que toda a
nais; 2) a doutrina segundo a qual o desenvolvimento econômico é diplomacia é comandada por questões de tarifas alfandegárias e de
reduzido à sucessão de modificações técnicas nos instrumentos de tra- preços de custo. Estas explicações estão hoje no auge. Possuem uma
balho. O Prof. Loria fez uma exposição brilhantíssima desta doutrina pequena aparência científica e decorrem de uma espécie de ceticismo
aplicada no artigo sobre a influência social do aeroplano, publicado superior com pretensão de passar por elegância suprema. A paixão em
na Rassegna Contemporanea de 1912; 3) a doutrina segundo a qual o política externa? O sentimento em questões nacionais? Qual o quê!
desenvolvimento econômico e histórico decorre imediatamente das Isso é bom para as pessoas comuns. Os grandes espíritos, os iniciados
mudanças num determinado elemento importante da produção, da sabem que tudo é dominado por débito e crédito. Mas esta é uma
descoberta de uma nova matéria-prima, de um novo combustível, pseudoverdade absoluta. É completamente falso que os povos só se

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deixam guiar por considerações de interesse e é completamente verda- também um cânone objetivo de interpretação (objetivo-científico), a
deiro que eles obedecem mais do que nunca ao sentimento. O materia- pesquisa no sentido dos interesses imediatos deveria ser válida para
lismo histórico é uma boa idiotice. As nações obedecem sobretudo a todos os aspectos da história, tanto para os homens que representam
considerações ditadas por um desejo e por uma fé ardente de prestígio. a "tese" como para aque I es que representam a " ant1tese
• " . Jlgnorou-se,
T
Quem não compreende isto não compreende nada." A continuação do além disso, uma outra proposição da filosofia da práxis: a de que as
artigo (intitulado "La mania del prestigio") exemplifica com a políti- "crenças populares" ou as crenças do tipo das crenças populares têm
ca alemã e italiana, que seria de "prestígio" e não ditada por interes- a validade das forças materiais [38].
ses materiais. O artigo contém em poucas linhas uma grande parte dos Os erros de interpretação contidos nas pesquisas dos interesses
temas mais banais de polêmica contra a filosofia da práxis, mas, na "sordidamente judaicos" foram algumas vezes grosseiros e cômicos,
realidade, a polêmica é contra o economicismo destrambelhado de terminando assim por reagir negativamente sobre o prestígio da dou-
tipo loriano. De resto, o escritor não é muito versado na matéria tam- trina original. Por isso, é necessário combater o economicismo não só
bém por outros aspectos: ele não compreende que as "paixões" po- na teoria da historiografia, mas também e sobretudo na teoria e na
dem ser simplesmente um sinônimo dos interesses econômicos e que é prática políticas. Neste campo, a luta pode e deve ser conduzida de-
difícil afirmar que a atividade política possa ser um estado permanen- senvolvendo-se o conceito de hegemonia, da mesma forma como foi
te de exasperação passional e de espasmo; precisamente a política conduzida praticamente no desenvolvimento da teoria do partido
francesa é apresentada como uma "racionalidade" sistemática e coe- político e no desenvolvimento prático da vida de determinados parti-
rente, isto é, depurada de todo elemento passional, etc. dos políticos (a luta contra a teoria da chamada revolução permanen-
Em sua forma mais difundida de superstição economicista, a filo- te, à qual se contrapunha o conceito de ditadura democrático-
sofia da práxis perde uma grande parte de sua expansividade cultural revolucionária; a importância que teve o apoio dado às ideologias que
na esfera superior do grupo intelectual, na mesma proporção em que defendem as Constituintes, etc.). Seria possível realizar uma pesquisa
a adquire entre as massas populares e entre os intelectuais medíocres, sobre as opiniões emitidas à medida que se desenvolviam determina-
que não pretendem cansar o cérebro, mas desejam aparecer como dos movimentos políticos, tomando-se como típico o movimento
espertíssimos, etc. Como disse Engels, é cômodo para muitos acredi- boulangista (aproximadamente, de 1886 a 1890), ou o processo
tar que possam ter no bolso, a baixo preço e sem nenhum esforço, Dreyfus, ou então o golpe de Estado de 2 de dezembro (uma análise
toda a história e toda a sabedoria política e filosófica concentrada do livro clássico sobre o 2 de dezembro para estudar a importância
numa formulazinha [37]. Por se ter esquecido de que a tese segundo a relativa que nele se atribui ao fator econômico imediato e o lugar que
qual os homens adquirem consciência dos conflitos fundamentais no nele ocupa, ao contrário, o estudo concreto das "ideologias") [39].
terreno das ideologias não é de caráter psicológico ou moralista, mas Diante deste evento, o economicismo se pergunta: a quem interessa
sim de caráter orgânico gnosiológico, criou-se a forma mentis de con- imediatamente a iniciativa em questão? E responde com um raciocí-
siderar a política e, portanto, a história como um contínuo marché de nio tão simplista quanto paralogístico: favorece de imediato uma
dupes, um jogo de ilusionismo e de prestidigitação. A atividade "crí- determinada fração do grupo dominante e, para não errar, esta esco-
tica" reduziu-se a revelar truques, a provocar escândalos, a especular lha recai sobre aquela fração que evidentemente tem uma função pro-
sobre o salário dos homens representativos. gressista e de controle sobre o conjunto das forças econômicas. Pode-
Esqueceu-se assim que, se o "economicismo" é ou presume ser se estar seguro de não errar, porque necessariamente, se o movimento

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analisado chegar ao poder, cedo ou tarde a fração progressista do gru- dos elementos de força, mas também dos elementos de fraqueza que
po dominante acabará controlando o novo governo e o transformará tais movimentos contêm em seu interior: a hipótese "economicista"
num instrumento para utilizar o aparelho estatal em seu benefício. afirma um elemento imediato de força, isto é, a disponibilidade de
Trata-se, portanto, de uma infalibilidade muito barata e que não só uma certa contribuição financeira direta ou indireta (um grande jor-
não tem significado teórico, mas possui escassíssimo alcance político nal que apóie o movimento é também uma contribuição financeira
e eficácia prática: em geral, só produz pregações moralistas e polêmi- indireta) - e basta [40]. Muito pouco.
cas pessoais intermináveis.
Também neste caso a análise dos diversos graus de relação de for-
Quando se produz um movimento de tipo boulangista, a análise ças só pode culminar na esfera da hegemonia e das relações ético-
deveria ser conduzida realisticamente segundo esta linha: 1) conteúdo políticas.
social da massa que adere ao movimento; 2) que papel desempenha~a
esta massa no equilíbrio de forças que se vai transformando, como o § 19. Elementos para calcular a hierarquia de poder entre os
,,novo movimento demonstra através de seu próprio nascimento?; 3) Estados: 1) extensão do território, 2) força económica, 3) força mili-
qual o significado político e social das reivindicações que os dirigen- tar. O modo através do qual se exprime a condição de grande potên-
tes apresentam e que obtêm consenso? A que exigências efetivas cor- cia é dado pela possibilidade de imprimir à atividade estatal uma dire-
respondem?; 4) exame da conformidade dos meios ao fim proposto; ção autónoma, que influa e repercuta sobre os outros Estados: a gran-
5) só em última análise, e apresentada sob formá política e não mora- de potência é potência hegemónica, líder e guia de um sistema de
lista, formula-se a hipótese de que tal movimento necessariamente alianças e de pactos com maior ou menor extensão. A força militar
será desnaturado e servirá a fins diferentes daqueles que a massa de sintetiza o valor da extensão territorial (com população adequada,
seguidores espera. Ao contrário, esta hipótese é afirmada antecipada- naturalmente) e do potencial económico. No elemento territorial,
mente, quando ainda nenhum elemento concreto (ou seja, que se deve-se considerar concretamente a posição geográfica. Na força eco-
apresente como tal com a evidência do senso comum e não através de nómica, deve-se distinguir entre a capacidade industrial e agrícola
uma análise "científica" esotérica) existe para sufragá-Ia, de modo (forças produtivas) e a capacidade financeira. Um elemento "impon-
que ela aparece como uma acusação moralista de duplicidade e má-fé, derável" é a posição "ideológica" que um país ocupa no mundo em
ou de pouca sagacidade, de estupidez (para os seguidores). A luta cada momento determinado, enquanto considerado representante das
política transforma-se assim numa série de episódios pessoais entre forças progressistas da história (exemplo da França durante a Revo-
quem é bastante esperto para se livrar das complicações e quem é lução de 1789 e o período napoleónico).
enganado pelos próprios dirigentes e não quer se convencer disso por Estes elementos são calculados na perspectiva de uma guerra.
causa de uma incurável estupidez. Dispor de todos os elementos que, nos limites do previsível, dão segu-
Além do mais, enquanto estes movimentos não alcançam o poder, rança de vitória significa dispor de um potencial de pressão diplomá-
pode-se sempre pensar que constituem um fracasso, e alguns efetiva- tica de grande potência, isto é, significa obter uma parte dos resulta-
mente fracassaram (o próprio boulangismo, que fracasssou como tal dos de uma guerra vitoriosa sem necessidade de combater.
e depois foi definitivamente esmagado pelo movimento em defesa de
Dreyfus, o movimento de Georges Valais e o movimento do General § 20. Charles Benoist escreve no prefácio a Le Machiavélisme,
Gayda); a pesquisa, portanto, deve orientar-se para a identificação primeira parte: Avant Machiavel (Paris, Plon, 1907): "Há maquiave-

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