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Caro aluno

Você está recebendo o primeiro livro da Unidade Técnica de Imersão (U.T.I.) do Hexag Vestibulares.
Este material tem o objetivo de retomar os conteúdos estudados nos livros 1 e 2, oferecendo um
resumo estruturado da teoria e uma seleção de questões dissertativas que preparam o candidato
para as provas de segunda fase dos principais vestibulares. Além disso, as questões dissertativas per-
mitem avaliar a capacidade de análise, organização, síntese e aplicação do conhecimento adquirido.
É também uma oportunidade de o estudante demonstrar que está apto a expressar suas ideias de
maneira sistematizada e com linguagem adequada.
Aproveite este caderno para aprofundar o que foi visto em sala de aula, compreender assuntos que
tenham deixado dúvidas e relembrar os pontos que foram esquecidos.
Bons estudos!

Herlan Fellini

SUMÁRIO

ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA 3
INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 19
LITERATURA 27

ENTRE FRASES
REDAÇÃO 45

BETWEEN ENGLISH AND PORTUGUESE


INGLÊS 63
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2021
Todos os direitos reservados.

Autores
Lucas Limberti
Murilo Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira
Rodrigo Martins

Diretor-geral
Herlan Fellini

Diretor editorial
Pedro Tadeu Vader Batista

Coordenador-geral
Raphael de Souza Motta

Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


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Editoração eletrônica
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Leticia de Brito Ferreira
Matheus Franco da Silveira

Projeto gráfico e capa


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GRAMÁTICA
FORMAÇÃO DE PALAVRAS

Exemplo: guarda (flexão do verbo guardar;


formação de palavras sentinela) + roupa (vestuário) = guarda-rou-
As palavras da língua portuguesa são formadas basica- pa (mobiliário).
mente pelos processos de derivação e composição, mas São dois os processos de formação por composição:
também por onomatopeia, neologismo e hibridismo.
§ Composição por justaposição: quando não ocorre
a alteração fonética das palavras. A justaposição tam-
Formação por derivação bém pode ocorrer por hifenização.
No processo de formação por derivação, a palavra primiti-
va (primeiro radical) sofre acréscimo de afixos. São seis os Exemplos: girassol (gira + sol); guarda-chuva
tipos de formação por derivação. (guarda + chuva).

§ Derivação prefixal: acréscimo de prefixo à pala- § Composição por aglutinação: quando ocorre alte-
vra primitiva. ração fonética, em decorrência da perda de elementos
das palavras.
Exemplo: in-capaz.
Exemplos: aguardente (água + ardente); embora
§ Derivação sufixal: acréscimo de sufixo à pala- (em + boa + hora).
vra primitiva.
Exemplo: papel-aria.
Outros processos
§ Derivação prefixal + sufixal: acrescenta-se um pre-
fixo e um sufixo a um mesmo radical de modo sequen- Neologismo
cial, ou seja, os afixos não são encaixados ao mesmo Neologismo é o nome dado ao processo de criação de
tempo. Percebe-se facilmente, ao remover um dos afi- novas palavras. São três tipos: Semântico (a palavra já
xos, a presença de uma palavra com sentido completo. existe no dicionário, mas adquire um novo significado); Le-
Exemplo: in-feliz-mente. xical (criação de uma palavra nova, sem necessariamente
seguir regras formais); Sintático (construção sintática que
§ Derivação parassintética: acréscimo simultâneo de um
passa a ter um significado específico).
prefixo e de um sufixo a um mesmo radical ou à palavra
primitiva. Em geral, as formações parassintéticas originam- Exemplo:
-se de substantivos ou adjetivos para formarem verbos. Originalmente, a palavra bonde significava certo
Exemplo: en-triste-cer. veículo utilizado como meio de transporte. Hoje,
na variedade linguística utilizada por falantes inse-
§ Derivação regressiva: ocorre redução da palavra pri- ridos no estilo do funk carioca, foi dado um novo
mitiva. Nesse processo, formam-se substantivos abstratos significado para a palavra bonde: turma, galera.
por derivação regressiva de formas verbais.
Exemplo: ajuda (substantivo abstrato da deriva-
ção regressiva do verbo ajudar).
§ Derivação imprópria: ocorre a alteração da classe
gramatical da palavra primitiva.
Exemplos: (o) jantar – de verbo para substantivo;
(um) Judas – de substantivo próprio para comum.

Formação por composição


Nos processos de formação de palavras por composição,
ocorre a junção de dois ou mais radicais. Palavras com
significados distintos formam uma nova palavra com um
novo significado.

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ARTIGOS, SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS

Artigo Preposições o, os
Artigos
a, as um, uns uma,
Artigo é a palavra que se antepõe a um substantivo (é um umas
marcador pré-nominal), com a função inicial de determiná- a ao, aos à, às — —
-lo ou indeterminá-lo. Subdivide-se em dois grupos: defini-
de do, dos da, das dum, duns
duma,
dos e indefinidos. dumas

§ Artigos definidos: determinam o substantivo de ma- em no, nos na, nas num, nuns
numa,
numas
neira precisa. São eles: o(s), a(s).
por pelo, pelos pela, pelas — —
Exemplo: Preciso que você me traga a cadeira
branca. (O artigo definido marca a necessidade
de se pegar uma cadeira determinada.) Substantivo
§ Artigos indefinidos: determinam o substantivo de Classe de palavras variável que dá nome aos seres, obje-
maneira vaga/imprecisa. São eles: um(uns), uma(s). tos e coisas em geral. Os substantivos são classificados em
Exemplo: Preciso que você me traga uma cadeira próprios, comuns, concretos, e abstratos. Eles se fle-
branca. (O artigo indefinido marca a necessidade xionam em número, gênero e grau.
de se pegar uma cadeira qualquer, indeterminada.)
Adjetivo
Artigo combinado com preposições Palavra que acompanha e modifica o substantivo, podendo
A contração de artigos com preposições é um movimento caracterizá-lo ou qualificá-lo.
essencial para a demarcação de sentido em construções
textuais. Muitas vezes, fazer ou não fazer a contração do Nomes substantivos e
artigo com a preposição pode alterar significativamente o nomes adjetivos
entendimento que se tem de um texto. Esses eventos tex-
tuais serão discutidos no próximo tópico (o artigo aplicado No contexto de uma frase, é possível identificar palavras de
ao texto). Ficaremos aqui com as possibilidades de contra- outras classes, entre elas os adjetivos, que se transformam
ção do artigo com a preposição. em nomes (substantivos) desde que precedidas de um artigo.

VERBOS: NOÇÕES PRELIMINARES E MODOS INDICATIVO E SUBJUNTIVO

Verbo
§ Infinitivo
Formas nominais do verbo O comer demais faz mal. (substantivo)
O infinitivo, o particípio (regular e irregular) e o gerúndio O viver é bom. (substantivo)
são chamados formas nominais do verbo porque podem § Gerúndio
funcionar como nomes – substantivo, adjetivo, advérbio. Ela bebeu chá fervendo. (advérbio)
Fervendo, desligue. (advérbio)
§ Particípio
A feira foi inaugurada. (adjetivo)
O parque foi inaugurado. (adjetivo)

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Modos e tempos verbais § Também pode indicar fato ocorrido até o momento
da declaração:
Os modos verbais traduzem a intencionalidade com que
se emprega a forma verbal. São classificados em indi- Tenho comprado muitos carros iguais a este.
cativo (fato), subjuntivo (desejo, hipótese) e imperativo
(ordem, apelo). Pretérito imperfeito
Quando lemos, falamos ou escrevemos, posicionamo-nos § Indica um processo ocorrido anteriormente ao mo-
em um determinado tempo. No momento do enunciado, mento da declaração, mas contemporâneo a outro
os verbos ocorrem (presente), ocorreram (passado) ou fato passado.
ocorrerão (futuro), dependendo do modo verbal. Eu ouvia samba quando se deu o estouro.
Ele comia quando da sua chegada.
Tempos do modo indicativo
§ É empregado para indicar processo em desenvolvimento.
Presente
Eu dançava quando ele entrou.
§ Indica processo no momento da fala.
Faço minhas escolhas. (atualmente, agora) § Indica processo em continuidade, habitual, constan-
te, frequente.
§ Indica processo habitual, constante, fato real, verdade.
Eu residia nesta casa.
Ela cumpre seus acordos. (ação habitual)
§ Indica processo idealizado, não realizado.
§ Indica processo ocorrido até o momento da declaração.
Pretendíamos ir à Bahia, mas o frio repentino
Moro com meus colegas. não permitiu.
§ Em narrativas históricas (presente histórico), em lugar § Como manifestação de cortesia, de polidez, em lugar
do pretérito perfeito. do presente do indicativo ou do imperativo.
Colombo chega à América e, em 1492, conquis- Queria só um abraço.
ta o Novo Mundo.
§ Em lugar do futuro do pretérito do indicativo.
§ Em acontecimento próximo, em lugar do futuro.
Se ele pagasse, já estávamos (em
Não posso almoçar contigo amanhã.
vez de “estaríamos“) na França.
§ Em expressões condicionais (se...), em lugar do subjuntivo.
Pretérito mais-que-perfeito
Se tudo corre bem, podemos viajar.
§ Indica uma ação passada, um fato concluído que acon-
Pretérito perfeito teceu antes de outro fato (ambos no passado).
§ Indica um processo, algo já realizado, concluído, termina- O trem partira quando ele enfim chegou.
do, sem necessidade de referência à outra ação anterior Ela estivera presente a toda reunião.
ou contemporânea.
Ele dançara muito.
João saiu ontem.
Fiz as compras. § Em construções exclamativas.
Cheguei. Quem lhe dera tê-la nos braços naquela tarde!
§ Em lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo.
§ Indica processo ocorrido antes da declaração expressa
pelo verbo. Nadou como se estivera (estivesse) à beira
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia. da morte.

§ É frequente o emprego do pretérito perfeito compos- § É bastante frequente o emprego do mais-que-perfeito


to – presente do indicativo do verbo auxiliar “ter“ ou composto – imperfeito do verbo auxiliar “ter“ ou “ha-
“haver“ e particípio do verbo principal. ver“ e particípio do verbo principal.

Pode indicar ato habitual: Eu tinha falado bastante.


Eu tenho lido bastante. Já havia ocorrido o pior.
Os alunos têm estudado muito.

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Futuro do pretérito § Como forma polida, em vez do presente.

§ Exprime ação futura em relação ao passado, ação que te- Mas como foi que aconteceram? E eu lhe direi:
ria ocorrido em relação a um fato já ocorrido no passado. sei lá, aconteceram: eis tudo. (Drummond)
Eu iria se você chegasse a tempo. § É frequente o emprego do futuro do presente compos-
to – futuro do presente do verbo auxiliar “ter“ ou “ha-
§ Designa ações posteriores à época em que se fala.
ver“ e particípio do verbo principal.
Ainda ficaria. Esperaria a noite.
Quando você chegar, eu já terei ido.
(Marques Rabelo)
§ Indica ação futura a ser consumada antes de outra.
§ Designa incerteza, probabilidade, dúvida, suposição so-
bre fatos passados. Quando o guarda chegar, já teremos fugido.
Seriam mais ou menos dez horas quando che- § Indica possibilidade de um fato passado.
garam. (Monteiro Lobato) Terá passado o furacão dentro de oito dias?
§ Forma polida do presente para denotar um desejo. § Indica certeza de uma ação futura.
Eu precisaria namorar aquela moça. Se não voltarmos em algumas horas, teremos
§ O futuro do pretérito composto expresso – verbo auxi- perdido a oportunidade.
liar “ter“ ou “haver“ no futuro do pretérito e particípio
do verbo principal. Tempos do modo subjuntivo
Eu teria dito (diria) umas verdades a você.
Presente
§ Indica fato que teria acontecido no passado mediante
§ Expressa hipótese, desejo, suposição, dúvida.
certa condição.
Tomara que você tenha boas festas!
Teria sido diferente, se eu a amasse.
(Ciro dos Anjos) Bons ventos o levem!

§ Indica possibilidade de um fato passado. Pretérito imperfeito


Teria sido melhor não escrever nada.
§ É empregado nas orações subordinadas da oração
(Ruben Braga)
principal em que o verbo esteja no pretérito imper-
§ Indica incerteza sobre fatos passados em certas frases feito, no pretérito perfeito ou no futuro do pretérito
interrogativas. do indicativo.
Ele só teria falado ou também...? Ela desejava que todos morressem.
Esperei que eles fizessem os trabalhos direito.
Futuro (do presente)
Apreciaria que você me beijasse.
§ Indica a ação ainda não ocorrida, mas já declarada
pelo verbo. Futuro simples
Ora (direis) ouvir estrelas! / (...) E eu vos direi: § Designa fato provável, eventualidade futura.
amai para entendê-las! (Olavo Bilac)
Quando ela vier, encontrará uma bagunça.
§ Empregado para indicar um fato aproximado ou para
enfatizar uma expressão.
Na África, quantos não estarão mortos de fome!
§ Indica incerteza, probabilidade, dúvida, suposição.
Há uma várzea em meu sonho, mas não sei onde
será. (Augusto Meyer)
§ Indica fatos de realização provável.
Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depres-
sa, acharás tua mãe morta. (Machado de Assis)

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VERBOS: MODO IMPERATIVO E VOZES VERBAIS

Modo imperativo Voz passiva analítica


O modo imperativo manifesta ordem, conselho, súplica ou § A voz passiva dos verbos é formada pelo verbo auxiliar
exortação do emissor e pode ser imperativo afirmativo ou ser, conjugado no tempo e na pessoa desejados, segui-
imperativo negativo. do do particípio do verbo principal: A árvore foi cortada
pelo lenhador./ Muitas mansões foram alugadas em Bra-
§ Se beber, não dirija!
sília./ Muita gente ainda vai ser julgada inocente.
§ Dorme, que já está na hora!
§ A voz passiva analítica sempre é formada por tempos
TABELA PARA CONJUGAÇÃO DO MODO IMPERATIVO compostos – ser + verbo principal transitivo direto –,
presente imperativo
imperativo negativo
presente bem como pelos verbos auxiliares ter e haver.
do indicativo afirmativo do subjuntivo
(ainda que) Têm sido (foram) alugadas muitas mansões
eu compro x x
eu compre em Brasília.
(ainda que)
tu compras compra tu* compres tu
tu compres Voz passiva sintética
(ainda que)
ele compra compre você compre você § Formada com o verbo principal transitivo direto na voz
ele compre
(ainda que) ativa, na terceira pessoa do singular ou do plural, acom-
nós compramos compremos nós compremos nós
compremos nós panhado da partícula apassivadora “se“.
(ainda que)
vós comprais comprai vós compreis vós
vós compreis Aluga-se casa.
(ainda que) Alugam-se casas.
eles compram comprem vocês comprem vocês
eles comprem
Compra-se apartamento.
*As duas passagens do Presente do Indicativo para o Imperativo Afirmativo
implicam na perda do “S” final que compõe a construção verbal.
Compram-se apartamentos.

Vozes verbais Voz reflexiva


O fato expresso pelo verbo pode ser representado em três vozes. § Necessariamente formada pelos verbos pronominais
– acompanhados de “me“, “te“, “se“, “nos“, “vos“,
§ João cortou árvores. “se“ –, cuja ação designada parte do sujeito e volta-se
O fato (cortou) é praticado pelo sujeito (João). Por- para ele mesmo.
tanto, o verbo está na voz ativa.
Eu me feri. (O ato e o efeito do ferimento par-
§ Árvores foram cortadas por João. tem e voltam para o “eu”, que é o sujeito.)
O sujeito (árvores) é alvo, ou seja, sofre a ação de Tu te feriste.
João. Portanto, o verbo está na voz passiva.
Ele se machucou.
§ João cortou-se com o machado.
O sujeito (João) é alvo (cortou-se) do machado. Nós nos prejudicamos.
Portanto, o verbo está na voz reflexiva. Eles se feriram com faca.

ADVÉRBIOS

Advérbios advérbios, cada qual com intenções bastante específicas.


Os advérbios formam uma classe de palavras invariá- § Associam-se a verbos para indicar com maior precisão
veis que se associam a verbos, a adjetivos ou a outros as circunstâncias da ação verbal.

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Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo;
“ontem” indica com maior precisão quando de muito; por completo; extremamente; intensamente;
Paula viajou.) grandemente; bem (aplicado a propriedades graduá-
§ Associam-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já veis), etc.
apresentado. § Interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como;
Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. por que; empregados em interrogações diretas ou indi-
(O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo pre- retas – entende-se por interrogações diretas aquelas em
ocupado.) que as palavras em destaque iniciam uma frase interro-
§ Associam-se a advérbios para intensificar outro advér- gativa. As interrogações indiretas, por sua vez, são aque-
bio já apresentado. las em que os termos destacados não iniciam a frase.

Exemplo: O jogador do Corinthians está se Interrogação direta Interrogação indireta


recuperando muito bem. (O advérbio “muito” Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu.
intensifica o outro advérbio “bem”.)
Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora.
Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio.
Classificação dos advérbios Aonde você vai? Quero saber aonde você vai.
Donde vem esse rapaz? Necessito entender donde vem esse rapaz.
Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferen-
tes relações semânticas, que são as seguintes: Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta.

§ De lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá;


atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto; Locuções adverbiais
aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; ne- Locuções adverbiais são expressões formadas a partir de
nhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; exter- duas ou mais palavras que exercem função adverbial. Em
namente; a distância; a distância de; de longe; de perto; geral, são constituídas por uma preposição seguida de ou-
em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta, etc. tra palavra, como substantivo, advérbio ou verbo, que seja
§ De tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outro- capaz de indicar a circunstância.
ra; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; antes; § De lugar: à esquerda; à direita; de longe; de perto;
doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; para dentro; por aqui, etc.
enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente; imediata-
mente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; § De afirmação: por certo; sem dúvida, etc.
às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de repente; de vez § De modo: às pressas; passo a passo; de cor; em vão;
em quando; de quando em quando; a qualquer momen- em geral; frente a frente, etc.
to; de tempos em tempos; em breve; hoje em dia, etc.
§ De tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à tarde;
§ De modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; de- hoje em dia; nunca mais, etc.
balde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa; à Amanhã precisarei acordar cedinho.
vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse
Ela mora pertinho daqui.
modo; dessa maneira; em geral; frente a frente; lado a
lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que termi-
nam em ”–mente”: calmamente; tristemente; proposi- O advérbio aplicado ao texto
tadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; Em relação aos advérbios aplicados ao texto, existe uma
escandalosamente; bondosamente; generosamente, etc. gradação semântica entre os advérbios frásicos e advérbios
§ De afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; extrafrásicos, além da distribuição de advérbios modais
efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubita- (terminados em –mente).
velmente, etc. § Advérbios frásicos: são aqueles que se relacionam com
§ De negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; um elemento específico da frase. Não apresentam mar-
de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum, etc. cas de deslocamento (vírgulas).
§ De dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavel- Exemplo: O veículo corre muito.
mente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe, etc. § Advérbios extrafrásicos: são aqueles exteriores à frase,
§ De intensidade: muito; demais; pouco; tão; em exces- que estão no âmbito da enunciação e, geralmente, des-
so; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão; locados por vírgula.

9
Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje. Quando ocorre uma frase que congrega mais de um
Observação: os advérbios extrafrásicos atuam advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con-
como elementos de avaliação do enunciador tração dos advérbios centrais (retirar o termo “– men-
acerca do conteúdo enunciado. te”) e preservar apenas o último advérbio flexionado.

§ Distribuição textual de advérbios modais (mais de um Errado: Ele saiu calmamente, sorrateiramen-
advérbio terminado em “–mente”) te e rapidamente.
Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente.

PRONOMES PESSOAIS

Pronome fim, para apontar a pessoa de quem se fala (3ª pessoa), são
utilizados ele(s) e ela(s).
Pronome é a palavra variável que identifica os participantes De acordo com o posicionamento nos processos sintáticos,
da interlocução (pessoas do discurso), os seres e objetos os pronomes pessoais podem funcionar como:
no mundo, além de eventos ou situações aos quais o dis-
curso faça referência. § Caso reto: são pronomes pessoais que, em uma cons-
trução sintática, ocupam a posição de sujeito ou de
Em geral, os pronomes, operam em conjunto com os subs- predicativo do sujeito.
tantivos (nomes), podendo substituí-los, referenciá-los ou,
ainda, acompanhá-los em um processo qualificativo. Exemplos: Eu fiquei bastante chateado. (sujeito)
O encarregado do projeto sou eu. (predicativo
Pronomes pessoais do sujeito)

Os pronomes pessoais são aqueles que substituem os § Caso oblíquo: são pronomes pessoais que, em uma
substantivos. Eles se caracterizam por evidenciar as três construção sintática, ocupam a posição de comple-
pessoas do discurso. Para designar a pessoa que fala (1ª mento verbal (objeto direto ou indireto) ou
pessoa), são usados os pronomes eu (singular) e nós (plu- complemento nominal.
ral). Para marcar a pessoa com quem se fala (2ª pessoa), Exemplo: Compraram-nos alguns presentes. (O
são utilizados os pronomes tu (singular) e vós (plural). Por pronome é complemento do verbo comprar.)

PRONOMES DEMONSTRATIVOS E POSSESSIVOS

Pronomes possessivos ou em relação a um contexto. Esses processos ocorrem em


relações espaciais, temporais e sintáticas.
São pronomes que acrescentam à pessoa gramatical a § Os pronomes demonstrativos dividem-se em dois gru-
ideia de posse sobre algo. pos: os variáveis e os invariáveis.
Exemplo: Este dinheiro é meu.
§ Variáveis: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s),

Pronomes demonstrativos aquela(s).


§ Invariáveis: isto, isso, aquilo.
Os demonstrativos são utilizados para situar, no espaço e
no tempo, a pessoa ou a coisa designada. O aspecto funda-
mental dos pronomes demonstrativos é sua capacidade de
Relações espaciais
indicar um objeto sem nomeá-lo. Também evidenciam o po- § Os pronomes este, esta e isto indicam que o item/
sicionamento de uma palavra em relação a outras palavras objeto está perto de quem fala.

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Exemplo: Usarei este lápis (aqui) mesmo. de rua, chamados de orelhões. / Aquelas praças
costumavam ser seguras.
§ Os pronomes esse, essa e isso indicam que o item/
objeto está perto da pessoa a quem se fala.
Exemplo: Usarei esse lápis (aí) mesmo.
Relações Sintáticas
§ O pronome este e suas variantes são utilizados para
§ Os pronomes aquele, aquela e aquilo indicam que
anunciar/adiantar o que será dito na sequência frasal
o item/objeto está afastado tanto de quem fala ou para remeter a um termo imediatamente anterior
como da pessoa a quem se fala. (recém-mencionado).
Exemplo: Usarei aquele lápis (ali) mesmo. Exemplo (anunciando informação): O maior
problema está neste relatório: ele não dá conta
Relações temporais de explicar todos os problemas.
§ O pronome este e suas variantes são utilizados para Exemplo (retomando termo recente): Não
indicar tempo presente em relação ao momento em sei se eu adquiro uma moto ou um carro. Acho que
que se fala. este (último = carro) é um pouco mais seguro.
Exemplo: Esta noite eu vou ao shopping / Neste § O pronome esse e suas variantes são utilizados
mês chove bastante. para retomar um termo, uma ideia ou uma oração
já mencionados.
§ O pronome esse e suas variantes são utilizados para
indicar tempo futuro ou passado recente em relação ao Exemplo: Duas vezes por ano, o Sol atinge sua
momento em que se fala. maior declinação em latitude. Esse fenômeno é
conhecido como solstício.
Exemplo (futuro): Nessa reunião definiremos
os parâmetros de venda. § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para
retomar um termo mais distante entre dois apresenta-
Exemplo (passado): Esse aumento da crise
dos em uma sentença (em geral, ele é trabalhado em
ocorreu em todos os países da América do Sul. conjunto com o pronome este, que retomará o item
§ O pronome aquele e suas variantes são utilizados mais próximo).
para indicar tempo passado distante em relação ao Exemplo: Na empresa há dois funcionários que
momento em que se fala. se destacam: Pedro e Rogério. Este pela sua or-
Exemplo: Naquela época ainda havia telefones ganização, e aquele pela sua eficiência.

PRONOMES RELATIVOS, INTERROGATIVOS E INDEFINIDOS

Pronomes indefinidos Exemplo: A escola tem um calendário que pos-


sui muitos feriados.
Os pronomes indefinidos fazem referência à 3a pessoa do dis- No exemplo apresentado, o pronome “que” recupera o subs-
curso, dando-lhe caráter indeterminado, vago ou impreciso. tantivo calendário (o antecedente).
Exemplo: Alguém quebrou os copos da cristaleira. Observação 1: Os pronomes que, o qual, os quais, a qual
Nota-se que o termo alguém refere-se a uma terceira pes- e as quais são equivalentes; no entanto, o pronome que é
soa (de quem se fala), mas não é possível atribuir identi- invariável, cabendo em qualquer circunstância, enquanto os
dade a essa pessoa, pois a informação é vaga e imprecisa. demais necessitam de um substantivo já determinado.
Exemplo: Esta é a garota com a qual conversei.
Pronomes relativos Observação 2: Para evitar ambiguidades e outros pro-
Pronomes relativos são aqueles que se referem a nomes blemas de sentido, o pronome relativo onde deve ser uti-
anteriormente mencionados (antecedentes), estabelecen- lizado para recuperar lugares físicos/localidades (regiões,
do com eles relação. cidades, ambientes, etc.).

11
Exemplo: Este é o armazém onde estocamos
os produtos. Pronomes interrogativos
Observação 3: O pronome relativo cujo não realiza a re- Os pronomes interrogativos são utilizados nas formulações
cuperação de um antecedente, mas aponta para uma rela- de perguntas diretas ou indiretas. Fazem referência direta
ção de posse com o consequente. aos pronomes de 3ª pessoa. Os principais pronomes in-
terrogativos são que, quem, qual e quanto (e suas va-
Exemplo: A mulher cuja casa foi invadida já riações). Entende-se como pergunta direta aquela em que
está em segurança. o pronome interrogativo aparece no início do questiona-
Observação 4: O pronome quem faz referência a pesso- mento (há sinal de interrogação no fim da pergunta). A
as e ocorre sempre precedido de preposição. pergunta indireta, por sua vez, é aquela em que o pronome
interrogativo aparece em outra posição na frase, e não no
Exemplo: Aquele é o sujeito a quem devo mui-
início (não há sinal de interrogação).
to dinheiro.
Pergunta direta Pergunta indireta
Quanto custou a Gostaria de saber quanto
reforma da casa? custou a reforma da casa.

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U.T.I. - Sala deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
1. (Fuvest 2018) Leia o texto. com mães chamadas Maria,
Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à ordem fiquei sendo o da Maria
divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos gregos, Pro- do finado Zacarias.
meteu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant que Prome- Mas isso ainda diz pouco:
teu representa no Olimpo uma vozinha de contestação, espécie de há muitos na freguesia,
movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide esconder dos por causa de um coronel
homens o fogo, antes disponível para todos, mortais e imortais, na que se chamou Zacarias
copa de certas árvores – os freixos – porque Prometeu tentara tape- e que foi o mais antigo
á-lo numa repartição da carne de um touro entre deuses e homens. senhor desta sesmaria.
Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que cui- Como então dizer quem fala
dadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas assadas ora a Vossas Senhorias?
com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao resto do Vejamos: é o Severino
povo – animais que naquela época eram gente – eles só davam as da Maria do Zacarias,
taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na boca. Os lá da serra da Costela,
outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar as chamas. limites da Paraíba.
Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica firme, no máxi- Mas isso ainda diz pouco:
mo dá um sorrisinho. se ao menos mais cinco havia
Betty Mindlin. O fogo e as chamas dos mitos. com nome de Severino
Revista Estudos Avançados. Adaptado. filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e já finados, Zacarias,
“sorrisinho”, consideradas no contexto, produz o mes- vivendo na mesma serra
mo efeito de sentido nos dois casos? Justifique. magra e ossuda em que eu vivia.
b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma Somos muitos Severinos
festa para fazê-lo rir (...). Todos fazem coisas engraça- iguais em tudo na vida:
das”, substituindo o verbo “fazer” por sinônimos ade- na mesma cabeça grande
quados ao contexto em duas de suas três ocorrências. que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
2. (Unicamp 2018) Enquanto viveu em Portugal, o es-
sobre as mesmas pernas finas,
critor Mário Prata reuniu centenas de vocábulos e ex-
e iguais também porque o sangue
pressões usados no português falado na Europa que
que usamos tem pouca tinta.
são diferentes dos termos correspondentes usados no
português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos ver- E se somos Severinos
betes de seu dicionário. iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
Descapotável mesma morte severina:
É outra palavra que em português faz muito mais sentido do que que é a morte de que se morre
em brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, de velhice antes dos trinta,
do que conversível? de emboscada antes dos vinte,
Mário Prata. Dicionário de português: schifaizfavoire. de fome um pouco por dia
São Paulo: Globo, 1993, p. 48. (de fraqueza e de doença
é que a morte severina
a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “des- ataca em qualquer idade,
capotável” a partir do substantivo “capota” (cobertura e até gente não nascida).
de um automóvel) e explique a função de cada um. NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida severina e outros
poemas em voz alta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
b) Explique por que o autor considera, com certo humor,
que a palavra “descapotável“ do português europeu O meu nome é Severino,
faz mais sentido de que o termo “conversível”, usado não tenho outro de pia. (l. 2-3)
no português brasileiro.
E se somos SEVERINOS
3. (Uerj 2018) MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL iguais em tudo na vida,
PERNAMBUCANO) morremos de morte igual,
mesma morte SEVERINA: (l. 40-43)
O retirante explica ao leitor quem é e a que vai
— O meu nome é Severino, No poema, o autor lança mão da mudança de classe de
não tenho outro de pia. palavras como recurso expressivo da criação poética.
Como há muitos Severinos, a) Com base nisso, indique a classe gramatical das pala-
que é santo de romaria, vras sublinhadas, na ordem em que aparecem.

13
b) Em seguida, explique o sentido que o termo severina Pelo amor e seus contrastes,
assume na expressão “morte severina”, tendo em vista Comunica-se com os deuses.
a representação que se faz do retirante. (As metamorfoses, 2015)
1
apascentar: vigiar no pasto; pastorear.
4. (Uerj 2018)
Ao oferecer-se para ajudar o cego, o homem que depois roubou o a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial
carro não tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer inten- desse poema opera uma perturbação ou quebra do
ção malévola, muito pelo contrário, o que ele fez não foi mais que discurso lógico.
obedecer àqueles sentimentos de generosidade e altruísmo que b) Sem prejuízo para o sentido dos versos, que expressões
são, como toda a gente sabe, duas das melhores características poderiam substituir os termos “onde” (2º verso da 1ª es-
do gênero humano, podendo ser encontradas até em criminosos trofe) e “pelo” (4º verso da 3ª estrofe), respectivamente?
bem mais empedernidos do que este, simples 1ladrãozeco de au-
tomóveis sem esperança de avanço na carreira, explorado pelos
verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aprovei-
tando das necessidades de quem é pobre. (...) Foi só quando já
U.T.I. - E.O.
estava perto da casa do cego que a ideia se lhe apresentou com 1. (Unesp) A questão a seguir toma por base um poema
toda a naturalidade (...). Os cépticos acerca da natureza humana, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
que são muitos e teimosos, vêm sustentando que se é certo que
Fuga
a ocasião nem sempre faz o ladrão, também é certo que o ajuda
muito. 2Quanto a nós, permitir-nos-emos pensar que se o cego De repente você resolve: fugir.
tivesse aceitado o segundo oferecimento do afinal falso samarita- Não sabe para onde nem como
no, naquele derradeiro instante em que a bondade ainda poderia nem por quê (no fundo você sabe
ter prevalecido, referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer a razão de fugir; nasce com a gente).
companhia enquanto a mulher não chegasse, quem sabe se o
efeito da responsabilidade moral resultante da confiança assim É preciso FUGIR.
outorgada não teria inibido a tentação criminosa e feito vir ao de Sem dinheiro sem roupa sem destino.
cima o que de luminoso e nobre sempre será possível encontrar Esta noite mesmo. Quando os outros
mesmo nas almas mais perdidas. estiverem dormindo.
Ir a pé, de pés nus.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. Calçar botina era acordar os gritos
São Paulo: Companhia das Letras, 1995. que dormem na textura do soalho1.
O narrador de Ensaio sobre a cegueira emite uma opi-
Levar pão e rosca; para o dia.
nião sobre o homem que roubou o carro ao chamá-lo de
Comida sobra em árvores
ladrãozeco (ref. 1).
infinitas, do outro lado do projeto:
a) Considerando os diferentes tipos de narrador, clas- um verdor
sifique o do romance de José Saramago. eterno, frutescente (deve ser).
b) Em seguida, indique o processo de formação da pala- Tem à beira da estrada, numa venda.
vra ladrãozeco e aponte o morfema responsável pela O dono viu passar muitos meninos
avaliação depreciativa que se faz do ladrão. que tinham necessidade de fugir
e compreende.
5. (Unesp 2018) Leia o poema de Murilo Mendes (1901- Toda estrada, uma venda
1975). para a fuga.
O pastor pianista
Fugir rumo da fuga
Soltaram os pianos na planície deserta
que não se sabe onde acaba
Onde as sombras dos pássaros vêm beber. mas começa em você, ponta dos dedos.
Eu sou o pastor pianista, Cabe pouco em duas algibeiras2
Vejo ao longe com alegria meus pianos e você não tem mais do que duas.
Recortarem os vultos monumentais Canivete, lenço, figurinhas
Contra a lua. de que não vai se separar
(custou tanto a juntar).
Acompanhado pelas rosas migradoras As mãos devem ser livres
1
Apascento os pianos: gritam para pesos, trabalhos, onças
E transmitem o antigo clamor do homem que virão.

Que reclamando a contemplação, Fugir agora ou nunca. Vão chorar,


Sonha e provoca a harmonia, vão esquecer você? ou vão lembrar-se?
Trabalha mesmo à força, (Lembrar é que é preciso,
E pelo vento nas folhagens, compensa toda fuga.)
Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Ou vão amaldiçoá-lo, pais da Bíblia?

14
Você não vai saber. Você não volta nunca. Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de
(Essa palavra nunca, deliciosa.) beleza deslumbrante.
Se irão sofrer, tanto melhor.
Do seu rosto, irradiava singela expressão de encantadora ingenuida-
Você não volta nunca nunca nunca.
de, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar
E será esta noite, meia-noite.
por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a
em ponto.
ponto de projetarem sombras nas mimosas faces.
Você dormindo à meia-noite. Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o quei-
(Menino antigo, 1973) xo admiravelmente torneado.
1
soalho: o mesmo que “assoalho”. Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um
2
algibeira: bolso de roupa. nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de fas-
cinadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença.
a) Identifique uma forma verbal e um substantivo que, bas- Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria
tante retomados ao longo do poema, ilustram seu tema. e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente.
b) Em seguida, valendo-se dessa informação, explique
a oposição entre o último verso e o restante do poema. Visconde de Taunay. Inocência. São Paulo: Ática, 2011.
graúna – pássaro de plumagem negra, canto me-
2. (Uerj) Inocência lodioso e hábitos eminentemente sociais
livro de horas – livro de preces
Depois das explicações dadas ao seu hóspede, sentiu-se o mineiro
secundou – respondeu
mais despreocupado.
lavrados – na província de Mato Grosso, cola-
— Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha. res de contas de ouro e adornos de ouro e prata
lobrigar – enxergar
— Com muito gosto, concordou Cirino. escabelo – assento
E, saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas facultativo – médico
cercas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fron- — Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os
teira a magnífico laranjal, naquela ocasião todo pontuado das bran- dias se juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um barulho dos
cas e olorosas flores. meus pecados. Nocência gosta muito disso e vem sempre coser de-
1
— Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos baixo do arvoredo. (ref. 1)
os dias se juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um barulho
dos meus pecados. Nocência gosta muito disso e vem sempre coser
Nesta passagem, há duas palavras, de mesma classifica-
debaixo do arvoredo. É uma menina esquisita...
ção gramatical, empregadas pelo locutor para indicar a
proximidade ou distância do elemento a que se referem.
Parando no limiar da porta, continuou com expansão: a) Cite essas palavras e identifique sua classificação
2
— Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e gramatical.
perguntas que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de horas b) Transcreva o trecho em que uma dessas palavras se
da minha defunta avó... Pois não é que 3um belo dia ela me pediu refere a uma informação presente no próprio texto.
que lhe ensinasse a ler? ... Que ideia! Ainda há pouco tempo me disse
que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei: E sabe você o que 3. (G1 CP2) ANTIGUIDADES (fragmento)
é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moça Quando eu era menina
muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, bem pequena,
muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio em nossa casa,
tonto. 4E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?! ... Parece certos dias da semana
que está falando com eles e que os entende... (...) Quando Cirino pe- se fazia um bolo,
netrou no quarto da filha do mineiro, era quase noite, de maneira que, assado na panela com um 1testo de 2borralho em cima.
no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, além de
diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em
Era um bolo econômico,
uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. (...)
como tudo, antigamente.
Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproxima- Pesado, grosso, pastoso.
ram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e pu- (Por sinal que muito ruim.)
xando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se
encolheu toda, e voltou-se para os que entravam. Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
— Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.
abria os olhos para aquele bolo
— Boas noites, dona, saudou Cirino. que me parecia tão bom
e tão gostoso.
Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu
papel de médico, se sentava num escabelo junto à cama e tomava
A gente mandona lá de casa
o pulso à doente.
cortava aquele bolo
Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo com importância.
e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por trás da nuca. Com atenção.

15
Seriamente. décadas de 1970 e 1980, estão aí de prova. Desalojaram comunidades,
Com vontade de comer o bolo todo. inundaram enormes extensões de terra e destruíram a fauna e flora
Era só olhos e boca e desejo daquelas regiões. Balbina, a 146 quilômetros de Manaus, significou a
daquele bolo inteiro. inundação da reserva indígena Waimiri-Atroari, mortandade de peixes,
escassez de alimentos e fome para as populações locais. A contrapar-
Minha irmã mais velha tida, que era o abastecimento de energia elétrica da população local,
governava. 3Regrava. não foi cumprida. O desastre foi tal que, em 1989, o Instituto Nacional
Me dava uma fatia, de Pesquisas da Amazônia (Inpa), depois de analisar a situação do Rio
tão fina, tão delgada... Uatumã, onde a hidrelétrica fora construída, concluiu por sua morte
E fatias iguais às outras 4manas. biológica. Em Tucuruí não foi muito diferente. Quase dez mil famílias
E que ninguém pedisse mais! ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Diante desse
E o bolo inteiro, quadro, em relação à Belo Monte, é preciso questionar a forma antide-
quase intangível, mocrática como o projeto vinha sendo conduzido, a relação custo-be-
se guardava bem guardado, nefício da obra, o destino da energia a ser produzida e a inexistência de
com cuidado, uma política energética para o país, que privilegie energias alternativas.
num armário, alto, fechado, (...)
impossível.
A persistência governamental em construir Belo Monte está baseada
Cora Coralina. Melhores poemas. 2. ed. São Paulo: Global, 2004. numa sólida estratégia de argumentos dentro da lógica e vantagens
1
testo: camada; comparativas da matriz energética brasileira. Os rios da margem direi-
2
borralho: brasido coberto de cinzas; cinzas quentes, rescaldo; ta do Amazonas têm declividades propícias à geração de energia, e o
3
regrar: traçar linhas ou regras sobre; Xingu se destaca, também, pela sua posição em relação às frentes de
4
mana: irmã; expansão econômica (predatória) da região central do país. O dese-
nho de Belo Monte foi revisto e os impactos reduzidos em relação à
Na terceira estrofe, o eu lírico caracteriza a si mesmo, proposta da década de 80. O lago, por exemplo, inicialmente previsto
quando criança, por meio de um adjetivo. para ter foi reduzido, depois do encontro, para Os socioambientalistas,
a) Transcreva esse adjetivo. entretanto, estão convencidos de que além dos impactos diretos e in-
b) Copie o verso por meio do qual o eu lírico justifica diretos, Belo Monte é um cavalo de 1troia, porque outras barragens
essa sua característica. virão depois, modificando totalmente e para pior a vida na região.

Fonte: <www.socioambiental.org/esp/bm/indez.
4. (G1 CP2) A POLÊMICA DA USINA DE BELO MONTE asp>. Acesso em: 24 out. 2011.
(fragmento) 1
Cavalo de Troia – A lenda do Cavalo de Troia diz que os gregos
A polêmica em torno da construção da usina de Belo Monte na Ba- deram de presente aos troianos um grande cavalo de madeira como sinal
cia do Rio Xingu, em sua parte paraense, já dura mais de 20 anos. de que estavam desistindo da guerra. O cavalo, porém, escondia, em
Entre muitas idas e vindas, a hidrelétrica de Belo Monte, hoje con- seu interior, soldados gregos, que, durante a noite, saíram e abriram os
siderada a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimen- portões de Troia para o exército grego. Este invadiu e dominou a cidade.
to (PAC), do governo federal, vem sendo alvo de intensos debates
na região, desde 2009, quando foi apresentado o novo Estudo de Para expressar seu pessimismo com as mudanças pro-
Impacto Ambiental (EIA) intensificando-se a partir de fevereiro de postas, o autor propõe uma equivalência entre o adjetivo
2010, quando o MMA [Ministério do Meio Ambiente] concedeu a econômica e um outro adjetivo. Que adjetivo é esse e de
licença ambiental prévia para sua construção. que maneira ele produz tal efeito?
Os movimentos sociais e lideranças indígenas da região são con- Textos para a próxima questão
trários à obra porque consideram que os impactos socioambientais
não estão suficientemente dimensionados. Em outubro de 2009, Texto I – ETNIA (fragmento)
por exemplo, um painel de especialistas debruçou-se sobre o EIA Somos todos juntos uma miscigenação
e questionou os estudos e a viabilidade do empreendimento. Um E não podemos fugir da nossa etnia
mês antes, em setembro, diversas audiências públicas haviam sido Todos juntos uma miscigenação
realizadas sob uma saraivada de críticas, especialmente do Mi- E não podemos fugir da nossa etnia
nistério Público Estadual, seguido pelos movimentos sociais, que
apontava problemas em sua forma de realização. Índios, brancos, negros e mestiços
Nada de errado em seus princípios
Ainda em outubro, a Funai [Fundação Nacional do Índio] liberou a O seu e o meu são iguais
obra sem saber exatamente que impactos causaria sobre os índios Corre nas veias sem parar
e lideranças indígenas kayapó enviaram carta ao Presidente Lula Costumes, é folclore, é tradição
na qual diziam que, caso a obra fosse iniciada, haveria guerra. Para
Capoeira que rasga o chão
culminar, em fevereiro de 2010, o Ministério do Meio Ambiente con-
Samba que sai da favela acabada
cedeu a licença ambiental, também sem esclarecer questões centrais
É hip hop na minha embolada [...]
em relação aos impactos socioambientais.
1
Maracatu 2psicodélico
(...)
Capoeira da pesada
Exemplos infelizes como a construção das usinas hidrelétricas de Tu- Bumba meu rádio
curuí (PA) e Balbina (AM), as últimas construídas na Amazônia, nas 3
Berimbau elétrico

16
Frevo, samba e cores Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Cores unidas e alegria Não fui para a sarjeta porque herdei uma
Nada de errado em nossa etnia. [fazenda de gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Lucio Maia e Chico Science. In: <http://vagalume. Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
com.br/ chicoscience-nação-zumbi/etniahtml>.
faço coisas inúteis.
1
Maracatu: dança e música de origem africana, em que se executam pas- No meu morrer tem uma dor de árvore.
sos e sapateados ao som de violas, flautas, cuícas, chocalhos, pandeiros etc.
Manoel de Barros. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
2
Psicodélico: que remete a coisas muito coloridas.
3
Berimbau: instrumento musical usado na capoeira. Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá--los me
sinto como que desonrado e fujo para o
Texto II – Na Bélgica, presidenta destaca diversidade Pantanal ONDE sou abençoado a garças.
cultural brasileira
a) A palavra “onde”, destacada acima, remete a um ter-
Na abertura do Festival 1Europalia, em Bruxelas, a presidenta Dilma
mo anteriormente expresso. Transcreva esse termo.
Rousseff fez uma homenagem à diversidade cultural do Brasil, que es-
tará presente em manifestações artísticas e culturais na capital da Bél- b) Nomeie também a classe gramatical de “onde”, sub-
gica. Segundo ela, são exposições desde a pré-colonização até a “van- stitua-a por uma expressão equivalente e indique seu
guarda mais experimental em mais de 400 atividades envolvendo as valor semântico.
mais variadas linguagens artísticas e manifestações regionais do país”.
7. (G1 CP2) A DEVASTAÇÃO, UMA HERANÇA PARA AS
Para a presidenta Dilma, a cultura é a expressão maior da alma de FUTURAS GERAÇÕES
uma sociedade e, no momento em que o mundo precisa reaprender
a importância do diálogo, o Brasil e a América do Sul têm a oferecer Quando fecho os olhos à noite, onde quer que esteja, minha mente
a capacidade de conviver em paz nessa diversidade. volta com frequência ao passado, à época em que o recém-constru-
ído Calypso flutuava sob o céu do Mediterrâneo. O barco foi meu lar
“A diversidade cultural do Brasil integra nossas raízes históricas. durante a infância, embora nunca tivesse nele um local só para mim.
2
Somos um país mestiço, no qual migrantes de todas as regiões do
Eu dormia num beliche diferente todas as noites, às vezes com mi-
mundo somam-se às três matrizes onde surgiram o povo brasileiro: a
nha mãe, às vezes com meu pai, e algumas vezes dentro da gaveta
indígena, a europeia e a africana. Eis uma mistura que nos orgulha e
da cômoda. O Calypso foi minha identidade infantil.
define. 3Os brasileiros orgulham-se muito de seu patrimônio cultural
e de suas tradições populares, mas também ousam reinventá-los e Tive sorte: o barco de meu pai foi minha base, o começo de meu
reinterpretá-los. Mostraremos aqui, na Europalia, 4um pouco dessa futuro. À medida que o Calypso percorria os mares do mundo, ele
cultura viva em movimento permanente.” passou a abarcar a filosofia de que a vida em nosso planeta é frágil,
e sua beleza, embora aclamada, é perecível.
5
A presidenta avaliou ainda que o Festival Europalia poderá contri-
buir para que a Europa supere “os percalços do momento”. Além Meu pai imbuiu em mim a convicção de que não somos donos dos
disso, acrescentou, “é mais um passo no aprofundamento do co- recursos do mundo, apenas seus administradores. Somos responsá-
nhecimento mútuo, fundamental para a construção do mundo mais veis pela proteção daquilo que legaremos a nossos sucessores.
democrático, aberto e plural que todos queremos”.
Hoje, tento viver por essa cartilha, mas em minhas viagens me dou
Disponível em: <blog.planalto.gov.br>. Acesso em: 4 out. 2011. conta de quão raramente os adultos pensam nas gerações futuras.
1
Europalia: Festival Internacional de Cultura da Eu- No mundo inteiro, vemos pais que parecem pouco se importar com
ropa, que homenageia, este ano, o Brasil. a condição do planeta que seus filhos herdarão.
Poluímos os rios e mananciais que serão a fonte de água potável
“SOMOS UM PAÍS MESTIÇO (...)” (TEXTO II, REF. 2)
de nossos filhos, interferimos com a camada de ozônio, que pro-
tege nossos filhos contra os perigosos raios solares. Pusemos em
5. Que substantivo do texto I tem sentido semelhante ao
andamento o que parece ser um perigoso aquecimento da Terra,
do adjetivo do trecho acima?
ameaçando nossos filhos com a seca e a calamidade. As crianças por
6. (Uerj) AUTORRETRATO FALADO nascer não podem se pronunciar, mas nem por isso somos menos
responsáveis por gerações que não conhecemos.
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da [...]
Marinha, onde nasci. Atentem para o caso, agora clássico, de Wezip Alolum, que tem que
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do ver simplesmente com a lama. Alolum, habitante da aldeia Jobto, na
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios. província papua de Madang, era dono de terras com matas nas quais
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de havia um poço de lama. Durante gerações sua família ganhou a vida
estar entre pedras e lagartos. trocando bolas de lama e potes de lodo barrento por alimentos. O
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz. poço, sua herança, lhe fora confiado intacto por seus ancestrais.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
sinto como que desonrado e fujo para o Um dia chegaram estrangeiros, que lhe pediam permissão para
Pantanal onde sou abençoado a garças. abater árvores nas terras de sua família. “Você não precisa mais
Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo de lama, agora que tem dinheiro”, disseram. Alolum hesitou, mas
que fui salvo. finalmente concordou.

17
Contudo, ele não percebera que a companhia pretendia abater ou quei- 1
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
mar todas as árvores, não deixando nenhuma para o replantio. Nunca a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
lhe passara pela cabeça que a companhia trataria a terra sem o menor chamava para o café.
respeito por seu futuro. Não demorou para que todas as árvores desa- Café preto que nem a preta velha
parecessem e, com a resultante erosão, o poço de lama fosse afetado. café gostoso
café bom.
Seu barro ficou arruinado, seco demais para ser utilizado. Pouco de-
Minha mãe ficava sentada cosendo
pois, o dinheiro de Alolum acabou. Sem lama, pela primeira vez na
olhando para mim:
história de sua família ele estava pobre.
— Psiu... Não acorde o menino.
Alolum procurou a companhia florestal, exigindo que o reembolsas- Para o berço onde pousou um mosquito.
se pela perda do poço, mas quem paga compensação por lama? No E dava um suspiro... que fundo!
entanto para Wezip Alolum o poço de lama representava o capital
herdado de seus antepassados. 2
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
Ele fora dono e administrador, mas agora não tinha nada para deixar
E eu não sabia que minha história
para seus filhos, e o ciclo de sua família fora rompido. Alolum foi
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
vítima da falta de visão ao trocar recursos por dinheiro.
Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa.
Mas o que dizer de nós? Ao desperdiçarmos recursos naturais não Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
estamos nos comportando irresponsavelmente em relação a nossos
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
filhos? Quando perceberem que lhes legamos um sem-número de
a ninar nos LONGES da senzala – e nunca se esqueceu (ref. 1)
perigos ambientais, um inventário de recursos completamente exau-
rido, o que pensarão de nós, a despeito de nossa tendência a lhes Lá LONGE meu pai campeava
comprar o que há de melhor ao nosso alcance? no mato sem fim da fazenda. (ref. 2)
O Calypso foi mais que um presente da infância. Ele continua sen-
Classifique gramaticalmente as palavras sublinhadas e
do uma herança para mim, um lembrete de continuidade e o ideal
aponte a diferença de sentido entre elas.
de herança combinada com responsabilidade. Ele é um documento
vivo, minha Constituição do amanhã.
10. (Unicamp) UM CHAMADO JOÃO
Talvez, se modificarmos nossos modos, uma Constituição global pro- João era fabulista?
teja um dia o ar, a água, as florestas e a vida selvagem – nossa heran- fabuloso?
ça natural – para futuras gerações. Nossos filhos talvez a escrevam. fábula?
Jean-Michel Cousteau, em reportagem publicada no Jornal da Tarde Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Releia o seguinte trecho do texto: Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
“Meu pai imbuiu em mim a convicção de que não somos donos dos
inenarrável narrada?
recursos naturais do mundo, APENAS seus administradores.”
Um estranho chamado João
Reescreva-o, substituindo o termo sublinhado por outro para disfarçar, para farçar
que mantenha o mesmo sentido. o que não ousamos compreender?
(...)
8. (Fuvest) Leia a seguinte fala, extraída de uma peça Mágico sem apetrechos,
teatral, e responda ao que se pede. civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
Odorico – Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo de Pre- a chamado geral?
feito, aqui estou para receber a confirmação, ratificação, a autentica- (...)
ção e, por que não dizer, a sagração do povo que me elegeu.
Ficamos sem saber o que era João
Dias Gomes. O Bem-Amado: farsa sócio-político-patológica em 9 quadros. e se João existiu
deve pegar.
a) A linguagem utilizada por Odorico produz efeitos
Carlos Drummond de Andrade, em Correio da Manhã,
humorísticos. Aponte um exemplo que comprove essa 22/11/1967, publicado em Rosa, J.G. Sagarana.
afirmação. Justifique sua escolha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
b) O que leva Odorico a empregar a expressão ”por que
não dizer”, para introduzir o substantivo ”sagração”? a) No título, ”chamado” sintetiza dois sentidos com que
a palavra aparece no poema. Explique esses dois senti-
9. (Uerj) INFÂNCIA dos, indicando como estão presentes nas passagens em
que ”chamado” se encontra.
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo. b) Na primeira estrofe do poema, ”fábula” é derivada em
Meu irmão pequeno dormia. ”fabulista” e ”fabuloso”. Mostre de que modo a forma-
Eu sozinho menino entre mangueiras ção morfológica e a função sintática das três palavras con-
lia a história de Robinson Crusoé, tribuem para a formação da imagem de Guimarães Rosa.
comprida história que não acaba mais.

18
INTERPRETAÇÃO
DE TEXTOS

19
FUNÇÕES DA LINGUAGEM

A teoria das funções da linguagem afirma que a lingua- § Referencial ou denotativa: foco no contexto ou na
gem apresenta funções mais amplas do que simplesmen- referência de mundo (o assunto, situação ou objeto so-
te as de caráter informativo. Nesse sentido, os sistemas bre o qual se fala);
comunicativos seriam pautados por seis funções da lin- § Fática ou de contato: foco no canal de comunicação
guagem, que seriam determinadas a partir de um “foco” ou a partir da abertura de contato (físico ou psicológi-
(ou uma ênfase) que recai em pontos específicos da men- co) com terceiros;
sagem observada. As funções seriam as seguintes:
§ Poética: foco nos modos de elaboração da mensagem
§ Emotiva ou expressiva: foco no emissor, locutor ou e do texto que a compõe;
enunciador (a pessoa que fala ou escreve);
§ Metaliguística: foco no código comunicativo (nas
§ Apelativa ou conativa: foco no receptor ou interlo- bases prévias de comunicação, sejam elas verbais ou
cutor (a pessoa para quem se fala ou escreve, ou, em não verbais).
algumas abordagens, aquele com quem se conversa);

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

A variação linguística é a diversificação dos sistemas de uma § frases inacabadas, porque foram cortadas ou inter-
língua em relação às possibilidades de mudança de seus ele- rompidas;
mentos (vocabulário, fonologia, morfologia, sintaxe). § uso frequente da omissão de palavras;
Exemplo: Eu vou com minha mãe e com meu pai; em-
Linguagem formal versus presta o seu caderno?
linguagem informal § formas contraídas;
a. Norma culta/padrão: é a denominação dada à varieda-
Exemplo: prof, med, refri, facul
de linguística dos membros da classe social de maior prestí-
gio dentro da classe literária. § afastamento das regras gramaticais;

Observação: não se trata da única forma correta. Exemplo: Eu vi ele.

b. Linguagem informal/popular: é a denominação dada § possibilidade de adequar o discurso de acordo com as


reações dos ouvintes.
à variedade linguística utilizada no cotidiano e que não exige
a observância total da gramática. b. Língua escrita: recorre a sinais de pontuação e de
acentuação para exprimir os recursos rítmicos e melódicos
Língua falada versus língua escrita da oralidade:

a. Língua falada/oral: dispõe de um número incontável de § uso de descrições ricas;


recursos rítmicos e melódicos – entonação, pausas, ritmo, flu- § obedece às regras gramaticais com maior rigor;
ência, gestos – porque, claro, o emissor (pessoa que fala ou
§ sinais de pontuação e acentuação para transmitir a ex-
transmite uma mensagem numa dada linguagem) está pre-
pressividade oral;
sente fisicamente. Algumas das características principais são:
§ frases longas, apesar de também poder usar frases curtas;
§ frequência da ocorrência de repetições, hesitações e
bordões de fala (“Pois, eu aaa... eu acho que... pronto, § uso de vocabulário mais amplo e cuidadoso;
não sei...“, “Cara, o que é isso, cara?“); § conectivos e estruturas sintáticas para garantir a coe-
§ frases curtas; são textual.

20
Variação diatópica Variação diamésica
Também conhecida como variação regional ou variação Ocorre quando a linguagem apresenta variações de acordo
geográfica, ocorre quando a linguagem apresenta va- com os diferentes “meios” em que ela é usada, entenden-
riações de acordo com o espaço em que ela é operada. do esses “meios” como espaços de uso oral da linguagem
É por meio dessa variação que são estudados os so- (fala) e uso escrito.
taques ou dialetos interioranos (como o dialeto caipira).
Preconceito linguístico
Variação diacrônica Denomina-se preconceito linguístico aquele gerado
Também conhecida como variação histórica, ocorre quan- pelas diferenças linguísticas existentes dentro de um mes-
do a linguagem apresenta variações de acordo com o tem- mo idioma. Ele está associado a diferenças de base lin-
po em que ela é operada. Parte-se do pressuposto que a guística, especialmente as regionais (envolvendo dialetos,
linguagem é um sistema vivo e constantemente mutável. socioletos, regionalismos, gírias e sotaques). Também é ge-
rado em menor grau pelos outros tipos de variação.
Variação diastrática O preconceito linguístico tem sido muito praticado na atu-
Também conhecida como variação social, ocorre quando a alidade (de modo voluntário e involuntário), sendo forte
linguagem apresenta variações por causa de dois fatores marcador de exclusão social.
mais gerais: fatores socioeconômicos e uso de socioleto (na
Não existe uma forma “certa“ ou “errada“ dos usos da
linguística, um socioleto é a variante de uma língua falada
língua e que o preconceito linguístico, gerado pela ideia
por um grupo social, uma classe social ou subcultura).
de que existe uma única língua correta (baseada na gra-
mática normativa), colabora com a prática da exclusão
Variação diafásica social. No entanto, é necessário lembrar que a língua é
Também conhecida como variação situacional, ocorre quan- mutável e vai se adaptando ao longo do tempo de acordo
do a linguagem apresenta variações de acordo com o con- com as ações dos falantes.
texto/situação em que ela é usada. É verificável quando um Além disso, as regras da língua, determinada pela gramá-
indivíduo, adaptado a um tipo de uso linguístico, é obrigado tica normativa, não incluem expressões populares e varia-
a fazer uma alteração momentânea em seu registro por cau- ções linguísticas, como gírias, regionalismos, dialetos, etc.
sa de uma situação de mundo específica.

FIGURAS DE LINGUAGEM

Figuras de palavra Figuras de sintaxe


Também conhecidas como tropos (figuras em que ocorrem O objetivo das figuras sintáticas é dar maior expressivida-
mudanças internas ou externas de significado), as figuras de ao significado geral de uma frase. As principais figuras
de palavra funcionam a partir da “realização de um em- sintáticas do português são as seguintes:
préstimo“ de uma determinada palavra ou expressão que, 1. Hipérbato
por uma aproximação de sentidos, funciona de maneira
2. Anáfora
específica dentro de um contexto determinado. Observe a
seguir as principais figuras de palavra do português: 3. Pleonasmo
4. Catáfora
1. Metáfora
2. Comparação ou símile 5. Elipse
3. Catacrese 6. Zeugma
4. Metonímia 7. Silepse
5. Antonomásia ou perífrase 8. Anacoluto
6. Sinestesia 9. Polissíndeto

21
10. Assíndeto
Figuras de pensamento
11. Hipálage
As figuras de pensamento são formadas a partir do empre-
go de termos conotativos, contrariando a expectativa do
Figuras de som ou de harmonia ouvinte. As principais figuras de pensamento são:
As figuras de som ou de harmonia são aquelas formadas 1. Antítese
a partir de parâmetros sonoros da língua. São divididas da
seguinte forma: 2. Paradoxo ou oximoro

1. Aliteração 3. Eufemismo

2. Assonância 4. Ironia

3. Paronomásia 5. Hipérbole

4. Onomatopeia 6. Prosopopeia ou personificação


7. Apóstrofe
8. Gradação
9. Quiasmo
10. Preterição

U.T.I. - Sala
1. (Ufjf) Observe a charge abaixo:

Agora, responda:
a) Qual é a temática principal da charge acima?
b) Quais são os elementos verbais e não verbais utilizados na charge para construir o seu significado? Justifique sua
resposta por menção direta a esses elementos.

2. (G1 CP2) O SAL DA TERRA Pra banir do mundo a opressão


Para construir a vida nova
Anda!
Quero te dizer nenhum segredo Vamos precisar de muito amor
Falo nesse chão da nossa casa A felicidade mora ao lado
Vem que tá na hora de arrumar... E quem não é tolo pode ver...

Tempo! A paz na Terra, amor


Quero viver mais duzentos anos O pé na terra
Quero não ferir meu semelhante A paz na Terra, amor
Nem por isso quero me ferir O sal da...
Vamos precisar de todo mundo

22
Terra! interpretações possíveis. Wilkins poderia ter objetado que, no seu re-
És o mais bonito dos planetas lato, o senhor tinha certeza de que a cesta mencionada na carta era a
Tão te maltratando por dinheiro mesma levada pelo escravo, que o escravo que a levara era exatamen-
Tu és a nave nossa irmã te o mesmo a quem seu amigo dera a cesta, e que havia uma relação
entre a expressão “30” escrita na carta e o número de figos contidos
Canta! na cesta. Naturalmente, bastaria imaginar que, ao longo do caminho,
Leva tua vida em harmonia o escravo original fora assassinado e outra pessoa o substituíra, que
E nos alimenta com seus frutos os trinta figos originais tinham sido substituídos por outros figos, que
Tu que és do homem, a maçã... a cesta foi levada a um destinatário diferente, que o novo destinatário
não sabia de nenhum amigo ansioso por lhe mandar figos. Mesmo
Vamos precisar de todo o mundo assim seria possível concluir o que a carta estava dizendo? Entretanto,
Um mais um é sempre mais que dois temos o direito de supor que a reação do novo destinatário seria algo
Pra melhor juntar as nossas forças do tipo: “Alguém, e Deus sabe quem, mandou-me uma quantidade de
É só repartir melhor o pão figos menor do que o número mencionado na carta que os acompa-
Recriar o paraíso agora nha.” Vamos supor agora que não apenas o mensageiro tivesse sido
Para merecer quem vem depois...
morto, como também que seus assassinos tivessem comido todos os
figos, destruído a cesta, colocado a carta numa garrafa e a tivessem
Deixa nascer o amor
jogado no oceano, de modo que fosse encontrada setenta anos depois
Deixa fluir o amor
por Robinson Crusoé. Não havia cesta, nem escravo, nem figos, só
Deixa crescer o amor
uma carta. Apesar disso, aposto que a primeira reação de Robinson
Deixa viver o amor
Crusoé teria sido: “Onde estão os figos?”
Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Disponível em: <http://
letras.terra.com.br>. Acesso em: 05 dez. 2009. Adaptado de: ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação.
São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 47-49.
Na quinta estrofe do texto, o uso da linguagem colo-
quial é evidente. Reescreva o verso que exemplifica a a) Explique como se ilustra no Texto a relação entre a in-
afirmação, empregando o registro formal. terpretação de um texto e as circunstâncias de sua leitura.
b) Umberto Eco imagina contextos alternativos para a
3. (PUC-RJ) No começo de seu “Mercury; Ou: O Mensa- circulação da carta mencionada por John Wilkins. Ex-
geiro Secreto e Rápido“ (1641), John Wilkins conta a plicite o conteúdo que se mantém inalterado nos difer-
seguinte história: entes contextos imaginados.

O quanto 1essa Arte de escrever pareceu estranha quando da sua 4. (UFSC) Leia as citações a seguir e responda à questão
Invenção primeira é algo que podemos imaginar pelos Americanos proposta.
recém-descobertos, que ficaram espantados ao ver Homens con-
versarem com Livros, e não conseguiam acreditar que um Papel “Mas muito lhe será perdoado, à TV, pela sua ajuda aos doentes, aos
pudesse falar... velhos, aos solitários.“
BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de
Há um relato excelente a esse Propósito, referente a um Escravo Janeiro/São Paulo: Record, 2004, p. 486.
Índio; que, ao ser mandado por seu Senhor com uma Cesta de Fi-
“Sinhô e Sinhá num mêis ou dois mêis se há de casá!“
gos e uma Carta, comeu durante o Percurso uma grande Parte de
LIMA, Jorge de. Novos poemas. Rio de Janeiro:
seu Carregamento, entregando o Restante à Pessoa a quem se Lacerda Editores, 1997, p. 3.
destinava; que, ao ler a Carta e não encontrando a Quantidade
“... eu osvi falá que os bugre ero uns bicho brabo...“
de Figos correspondente ao que se tinha dito, acusa o Escravo de
CASCAES, Franklin. O fantástico na Ilha de Santa Catarina.
comê-los, dizendo que a Carta afirmava aquilo contra ele. Mas o
Florianópolis: Editora da UFSC, 2004, p. 27.
Índio (apesar dessa Prova) negou o Fato, acusando o Papel de ser
uma Testemunha falsa e mentirosa. “... morreu segunda que passou de uma anemia nos rim...“
Machado de Assis. Brás, Bexiga e Barra Funda.
Depois disso, sendo mandado de novo com um Carregamento se- São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 55.
melhante e uma Carta expressando o Número exato de Figos que
deviam ser entregues, ele, mais uma vez, de acordo com sua Prática Levando em conta as diferentes formas linguísticas
anterior, devorou uma grande Parte deles durante o Percurso; mas, utilizadas pelos autores na composição de suas obras,
antes de comer o primeiro (para evitar as Acusações que se segui- comente sobre a linguagem usada como recurso na
riam), pegou a Carta e a escondeu sob uma grande Pedra, assegu- construção dos textos. Para tanto, considere as duas pro-
rando-se de que, se ela não o visse comer os Figos, nunca poderia posições a seguir:
acusá-lo; mas, sendo agora acusado com muito mais rigor do que a) variação linguística versus erro linguístico;
antes, confessou a Falta, admirando a Divindade do Papel e, para o b) funções da linguagem na literatura.
futuro, promete realmente toda a sua Fidelidade em cada Tarefa.
Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (as- 5. (Uerj) COPLAS1
sim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua I
criação (e, consequentemente de seu referente intencionado), flutua O GERENTE - Este hotel está na berra2!
(por assim dizer) no vácuo de um leque potencialmente infinito de Coisa é muito natural!

23
Jamais houve nesta terra verbal e a função da linguagem predominantes na fala
Um hotel assim mais tal! dirigida aos criados.
Toda a gente, meus senhores,
Toda a gente ao vê-lo diz:
Que os não há superiores
Na cidade de Paris!
U.T.I. - E.O.
Que belo hotel excepcional 1. (Unesp 2018) Para responder à questão, leia o soneto
O Grande Hotel da Capital de Raimundo Correia (1859-1911).
Federal!
Esbraseia o Ocidente na agonia
CORO – Que belo hotel excepcional etc...
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
II
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
O GERENTE – Nesta casa não é raro
Protestar algum freguês:
Delineiam-se, além, da serrania
Acha bom, mas acha caro
Os vértices de chama aureolados,
Quando chega o fim do mês.
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Por ser bom precisamente,
Uns tons suaves de melancolia...
Se o freguês é do bom-tom
Vai dizendo a toda a gente
Um mundo de vapores no ar flutua...
Que isto é caro mas é bom.
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
Que belo hotel excepcional!
A sombra à proporção que a luz recua...
O Grande Hotel da Capital
Federal!
A natureza apática esmaece...
CORO – Que belo hotel excepcional etc...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
O GERENTE (Aos criados) – Vamos! Vamos! Aviem-se! Tomem as Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
malas e encaminhem estes senhores! Mexam-se! Mexam-se!...
(Vozerio. Os hóspedes pedem quarto, banhos etc... Os criados res- a) Transcreva da primeira estrofe um exemplo de perso-
pondem. Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria, outros nificação. Justifique sua resposta.
pela direita.) b) Cite duas características que permitem filiar esse
soneto à estética parnasiana.
CENA II
O GERENTE, depois, FIGUEIREDO 2. (Uerj 2018) MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL
O GERENTE (Só.) – Não há mãos a medir! Pudera! Se nunca houve
PERNAMBUCANO)
no Rio de Janeiro um Hotel assim! Serviço elétrico de primeira or-
01
O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.
dem! Cozinha esplêndida, música de câmara durante as refeições da
02
— O meu nome é Severino,
mesa redonda! Um relógio pneumático em cada aposento! Banhos
03
não tenho outro de pia.
frios e quentes, duchas, sala de natação, ginástica e massagem!
04
Como há muitos Severinos,
Grande salão com um plafond3 pintado pelos nossos primeiros artis-
05
que é santo de romaria,
tas! Enfim, uma verdadeira novidade! – Antes de nos estabelecer- 06
deram então de me chamar
mos aqui, era uma vergonha! Havia hotéis em S. Paulo superiores 07
Severino de Maria;
aos melhores do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi organizada 08
como há muitos Severinos
a Companhia do Grande Hotel da Capital Federal, que dotou esta 09
com mães chamadas Maria,
cidade com um melhoramento tão reclamado! E o caso é que a 10
fiquei sendo o da Maria
empresa está dando ótimos dividendos e as ações andam por empe- 11
do finado Zacarias.
nhos! (Figueiredo aparece no topo da escada e começa a descer.) Ali 12
Mas isso ainda diz pouco:
vem o Figueiredo. Aquele é o verdadeiro tipo do carioca: nunca está 13
há muitos na freguesia,
satisfeito. Aposto que vem fazer alguma reclamação. 14
por causa de um coronel
15
que se chamou Zacarias
AZEVEDO, Arthur. A capital federal. Rio de Janeiro: 16
e que foi o mais antigo
Serviço Nacional de Teatro, 1972. 17
senhor desta sesmaria.
1
espécie de estrofe 18
Como então dizer quem fala
2
estar na moda 20
ora a Vossas Senhorias?
3
teto 21
Vejamos: é o Severino
22
da Maria do Zacarias,
O texto faz parte de uma peça de teatro, forma de ex- 22
lá da serra da Costela,
pressão que se destacou na captação das imagens de um 23
limites da Paraíba.
Rio de Janeiro que se modernizava no início do século XX. 24
Mas isso ainda diz pouco:
a) Aponte o gênero de composição em que se enquadra 25
se ao menos mais cinco havia
esse texto e um aspecto característico desse gênero. 26
com nome de Severino
b) A fala do gerente revela atitudes distintas, quando se 27
filhos de tantas Marias
dirige aos criados e quando está só. Identifique o modo 28
mulheres de outros tantos,

24
29
já finados, Zacarias, Tenho a impressão que os únicos que gostam dos moradores de
30
vivendo na mesma serra rua são os cachorros. Aliás, de raça ou não, não conheço nenhum
31
magra e ossuda em que eu vivia. cachorro que não tenha um mendigo pra cuidar.
32
Somos muitos Severinos
Moradores de rua são uma espécie rara de seres humanos: Eles não
33
iguais em tudo na vida: têm dentes, eles não cortam os cabelos, eles não tomam banho,
34
na mesma cabeça grande pedem-nos esmolas, dormem no nosso caminho de casa, e nós, a
35
que a custo é que se equilibra, não ser que peguem fogo, simplesmente não os vemos.
36
no mesmo ventre crescido
37
sobre as mesmas pernas finas, É difícil vê-los. Somos cristãos demais para enxergá-los. E tem mais,
38
e iguais também porque o sangue dizem que são invisíveis a olho nu.
39
que usamos tem pouca tinta. Mas não são, suas sombras miúdas se arrastam em nossas orações,
40
E se somos Severinos para o deleite da nossa hipocrisia. Fingir que gostamos de deus é a
41
iguais em tudo na vida, melhor forma de agradar o diabo.
42
morremos de morte igual,
Um ser humano pegando fogo na calçada e os nossos joelhos doen-
43
mesma morte severina:
do de tanto rezar pela nossa felicidade material...
44
que é a morte de que se morre
45
de velhice antes dos trinta, Deus sabe o que faz, a gente não. Devia ser o contrário.
46
de emboscada antes dos vinte,
Se dependesse de mim, a humanidade (?) já tinha pegado fogo há
47
de fome um pouco por dia
muito tempo. Um por um.
48
(de fraqueza e de doença
49
é que a morte severina VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia: histórias de um povo
50
ataca em qualquer idade, lindo e inteligente. São Paulo: Global, 2011. p. 67-68.
51
e até gente não nascida).
Segundo o Dicionário Houaiss, ironia é “figura por meio
João Cabral de Melo Neto. Morte e vida severina e outros da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender“
poemas em voz alta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. (2001, p. 1651). Localize no texto de Sérgio Vaz dois casos
vivendo na mesma serra em que se emprega a ironia e explique a utilização delas.
magra e ossuda em que eu vivia. (l. 30-31)
4. (Unesp 2018) Leia o poema de Murilo Mendes (1901-
a) Na descrição da serra, observa-se o emprego de uma 1975) para responder à questão.
figura de linguagem. Nomeie essa figura.
b) Indique, ainda, a relação estabelecida entre a per- O PASTOR PIANISTA
sonagem e o ambiente, a partir do efeito produzido por Soltaram os pianos na planície deserta
essa descrição. Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista,
3. (UFJF-Pism 1) SOMBRAS MIÚDAS Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
A história de Ivanildo é que ele simplesmente não tem história. Mora-
Contra a lua.
dor de rua, virou notícia porque teve corpo queimado por gasolina e
faleceu na última terça-feira (27), e é só, mais nada.
Acompanhado pelas rosas migradoras
O assassino, conforme as investigações policiais, era outro mo- Apascento1 os pianos: gritam
rador de rua, e o crime, vejam vocês a ironia da miséria humana, E transmitem o antigo clamor do homem
foi motivado por conquista de território. Dizem que precisavam
de mais espaço para viverem na rua. Que reclamando a contemplação,
Sonha e provoca a harmonia,
Pois é, as calçadas! Há pessoas em guerra pelas calçadas frias da
Trabalha mesmo à força,
cidade de São Paulo. Não conheci Ivanildo nem o seu algoz piro-
E pelo vento nas folhagens,
maníaco, mas tenho uma vaga ideia de quem sejam os infelizes.
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Já os vi queimando na retina dos meus olhos, numa dessas noi-
Pelo amor e seus contrastes,
tes geladas e indignas, em suas casas de papelão que se movem
Comunica-se com os deuses.
como fantasmas pela nossa imaginação.
(As metamorfoses, 2015.)
Ivanildo não devia ter documentos, tampouco identidade. Indigen-
1
apascentar: vigiar no pasto; pastorear.
te, deve ter sido enterrado com seus trapos numa vala qualquer, de
um cemitério qualquer, que é o lugar certo para qualquer um de
a) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos
nós, miserável ou não.
pianos. Que outro elemento também é personificado
Outro dia vi um Ivanildo fuçando uma lata de lixo à procura de nessa estrofe? Justifique sua resposta.
comida que sobra dos nossos pratos, mas o dono da lanchonete b) Quem é o sujeito do verbo “comunica-se” (3ª estro-
apareceu para expulsá-lo com um cabo de vassoura. fe)? Justifique sua resposta.
Fiquei com a impressão de que mendigos trazem má sorte para o
5. (Unesp) A questão focaliza um trecho de um poema
comércio, e que restos de comida não são para restos de pessoas.
de 1869 do poeta romântico português Guilherme Bra-
“Nós, os filhos de Deus, privatizamos até as migalhas”. ga (1845-1874) e uma marcha de carnaval de Wilson

25
Batista (1913-1968) e Roberto Martins (1909-1992), Para entrar o desespero
gravada em 1948. Donde fugiu a alegria!
Empenha em vão tudo, a esmo,
EM DEZEMBRO Pouco dinheiro lhe fica,
E não lhe cobre esse mesmo
Olhai: naquele operário
As despesas da botica.
Tudo é força, ânimo e vida;
Pobre mãe, pobres crianças!
Se o trabalho é o seu calvário
Já, de momento em momento,
Sobe-o de cabeça erguida.
Vão minguando as esperanças,
Deus deu-lhe um anjo na esposa,
Vai crescendo o sofrimento;
E as filhas são tão pequenas
Que delas a mais idosa (Heras e violetas, 1869)
Conta dez anos apenas.
PEDREIRO WALDEMAR
Tem cinco, e todas tão belas
Que, ao ver-lhes a alegre infância, Você conhece
Julga estar vendo as estrelas O pedreiro Waldemar?
E o céu a menos distância; Não conhece?
Por isso, quando o trabalho Mas eu vou lhe apresentar
Lhe fatiga as mãos calosas, De madrugada
Tem no suor o fresco orvalho Toma o trem da Circular
Que dá seiva àquelas rosas, Faz tanta casa
[...] E não tem casa pra morar
Depois, da ceia ao convite, Leva a marmita
Toda a família o rodeia Embrulhada no jornal
À mesa, aonde o apetite Se tem almoço,
Faz soberba a humilde ceia. Nem sempre tem jantar
[...] O Waldemar,
No entanto, como a existência Que é mestre no ofício
Não tem em si nada estável, Constrói um edifício
Num dia de decadência E depois não pode entrar.
Este obreiro infatigável, (Roberto Lapiccirella (Org.). “Antologia
Por ter gasto a noite inteira musical popular brasileira”, 1996.)
Na luta, cede ao cansaço,
E cai da máquina à beira, Explique o caráter metafórico do emprego da palavra
E a roda esmaga-lhe um braço... rosas na quarta estrofe do trecho reproduzido do poe-
Ai! o infortúnio é severo! ma de Guilherme Braga.
Bastou por tanto um só dia

26
LITERATURA

27
FUNDAMENTOS PARA ESTUDO LITERÁRIO: ARTE E TÉCNICA

Prosa e poesia na expressão do “eu poético” ou “eu poemático” – voz que


fala no poema, não necessariamente correspondente à voz
Prosa e poesia são formas diferentes de comunicação lite- do autor.
rária. A prosa é mais referencial e se vale do uso do texto
corrido organizado da esquerda para a direita no papel Menos grandiosos que os da epopeia, seus temas dizem
ocidental sem preocupação com a forma, apenas com o respeito ao mundo interior do eu lírico, aos sentimentos,
conteúdo e as linhas cheias. ao individualismo, às relações consigo mesmo. Pronomes
e verbos vêm normalmente na primeira pessoa do singu-
Já o poema está primordialmente preocupado com a for- lar e predominam emoções, rimas, ritmo, sonoridade das
ma e adquire, no decorrer da história, várias estruturas a palavras, metáforas, repetições, entre outras figuras de lin-
partir da lógica do verso, que é a linha do poema, e de guagem que trazem aos versos musicalidade e suavidade.
um conjunto deles, denominado estrofe. Estão imersos
num trabalho de ritmo e rimas que podem ou não seguir O gênero lírico é subdividido em: soneto, elegia, ode, ma-
padrões de tamanho e convenção. Os termos “poesia”, drigal, écloga etc. São formas poéticas mais afeitas ao
“poética” e “poeta” derivam dos termos gregos poíesis, gênero lírico.
poiêtikê, poiêtês, que significam criar.
Natureza das rimas
O que é gênero literário? § Ricas – entre palavras de classes gramaticais diferentes:

Gênero é o modo como se veicula a mensagem literária, Cristina e ensina


o padrão a ser utilizado na composição artística. Há gran- § Pobres – entre palavras de mesma classe gramatical:
des diferenças entre o conteúdo e a forma dos textos. Um
Precisava esconder sua afeição...
poema não se confunde com um conto, e um romance
segue padrões bastante próprios em relação a uma peça Na Idade Média, uma imortal paixão
de teatro, por exemplo. § Toantes – entre sons vocálicos repetidos:
Na Antiguidade Clássica, Aristóteles conceituou o con- hora e bola; saltava e mata
teúdo como elemento constitutivo da representação das
paixões, das ações e do comportamento humano. A for- § Aliterantes – entre sons consonantais idênticos
ma desse conteúdo, a princípio aplicada apenas à poesia, ou semelhantes:
compreende três gêneros: épico, lírico e dramático.
vozes, veladas, veludosas, vozes

O gênero épico vagam nos velhos vórtices velozes

Épico é derivado do grego épos que, entre outras coisas, § Consoantes – entre sons e letras repetidos:
significa palavra, verso, discurso. Esse gênero, também terra e serra;
chamado de epopeia, nasceu com a Ilíada e a Odisseia,
de Homero. Oriundas das tradições orais, as epopeias amoníaco e zodíaco;
contam histórias que auxiliam os homens a entender a rutilância e infância
trajetória de seus povos.
§ Esdrúxulas – entre palavras proparoxítonas:
Narrados de maneira elevada e com vocabulário grandilo-
quente e solene, os assuntos históricos sofrem influência É um flamejador, dardânico
uma explosão de rápidas ideias,
do imaginário e não se privam de recorrer à imaginação,
que com um mar de estranhas odisseias
bem como à mitologia. As epopeias são divididas em “clás- saem-lhe do crânio escultural, titânico!...
sicas ou primárias” ou de “imitação ou secundárias”.
(Cruz e Sousa)

O gênero lírico § Agudas – entre palavras oxítonas:


dó e só; fez e vez; ti e vi
Esse gênero nasceu na Grécia antiga, cujos poemas eram
acompanhados musicalmente pela lira. É o gênero centrado § Preciosas – entre palavras combinadas:

28
múmia e resume-a; réstea e veste-a; Caracterizam o gênero dramático a ausência de narrador,
águia e alague-a; estrela e vê-la o discurso direto – estrutura dialogada – e as rubricas –
instruções que sinalizam ao diretor e aos atores a postura
§ Versos brancos – verso sem rimas.
no palco, o tom de voz etc.
Classificação das rimas Em vez do narrador, o texto dramático conta a história pre-
tendida por meio do diálogo entre os personagens, que
§ Monossílabos: uma sílaba.
estabelecem com o público uma relação direta, a fim de
§ Dissílabos: duas sílabas. comprometê-lo emocionalmente com a história contada e
§ Trissílabos: três sílabas. com os personagens dela. O termo teatro deriva do grego
théatron, que significa “ver”, “contemplar”.
§ Tetrassílabos: quatro sílabas.
Esse gênero subdivide-se em tragédia, comédia, drama,
§ Pentassílabos: cinco sílabas ou redondilha menor.
auto e farsa.
§ Hexassílabos: seis sílabas.
§ Heptassílabos: sete sílabas ou redondilha maior. O gênero narrativo
§ Octossílabos: oito sílabas. Oriunda do gênero épico, a narrativa organiza uma história
§ Eneassílabos: nove sílabas. levando em consideração aspectos primordiais de sua es-
trutura: apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho.
§ Decassílabos: dez sílabas.
Os gêneros narrativos apresentam-se como:
§ Hendecassílabos: onze sílabas.
§ Dodecassílabos: doze sílabas ou alexandrino. § Conto
Narrativa curta centrada em um único acontecimento. Apre-
§ Verso bárbaro: mais de doze sílabas.
senta uma ação que se encaminha para uma tensão (clí-
max) entre personagens, delimitados num tempo e espaço
Classificação dos versos reduzidos. Exemplos: Amor, de Clarice Lispector; O menino
§ Monossílabos – uma única sílaba. do boné cinzento, de Murilo Rubião; e A causa secreta, de
§ Dissílabos – duas sílabas. Machado de Assis.

§ Trissílabos – três sílabas. § Novela


Narrativa situada entre a brevidade do conto e a longevi-
§ Tetrassílabos – quatro sílabas.
dade do romance. Exemplos: A hora e a vez de Augusto
§ Pentassílabos ou redondilha menor – cinco sílabas Matraga, de Guimarães Rosa; e Os crimes da rua Morgue,
§ Hexassílabos – seis sílabas. de Edgar Allan Poe.
§ Heptassílabos ou redondilha maior – sete sílabas. § Crônica
§ Octossílabos – oito sílabas. Narrativa breve baseada na vida cotidiana, delimitada por
§ Eneassílabos – nove sílabas. tempo cronológico curto, em linguagem coloquial e leve to-
§ Decassílabos ou Medida Nova – dez sílabas. que de humor e crítica. Exemplos: Comédias da vida priva-
da – 101 crônicas escolhidas, de Luís Fernando Veríssimo.
§ Hendecassílabos – onze sílabas.
§ Dodecassílabos ou Alexandrinos – doze sílabas. § Romance
§ Bárbaros – mais de doze sílabas. Narrativa longa que discorre sobre um grande conflito cen-
tral que dá origem a outros secundários, compreendendo
O gênero dramático vários personagens em constante conflito psicológico, envol-
A característica e a finalidade primordiais do gênero dramático vidos pela trama que caminha para um clímax. Exemplos:
(do grego drân: agir) é ser levado à representação, à “ação”. Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; São Bernardo,
de Graciliano Ramos; e O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien.
Compreende o gênero teatral, cuja encenação, no entanto,
escapa à alçada da literatura propriamente. O eu poético § Anedota
relaciona-se com um tu/vós, segunda pessoa do discurso, Relato de um acontecimento curioso ou engraçado. Como o
a plateia. O texto dramático pressupõe essa plateia, que o provérbio, a anedota, além da tradição oral, vem inserida em
vivencia e tem probabilidade de fruir emoções mediante a textos literários. Exemplos: O asno de ouro, do escritor latino
representação do texto. Apuleio, é uma constelação de pequenas aventuras picantes.

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§ Apólogo caixinha de costura. Faze como eu, que não abro cami-
nho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Historinha entre objetos inanimados com moral implícita
ou explícita. Um apólogo, de Machado de Assis, trata da Contei esta história a um professor de melancolia, que
conversa entre uma agulha e uma linha que discutem so- me disse, abanando a cabeça:
bre a importância delas. Observe o último parágrafo em – Também eu tenho servido de agulha a muita linha
que está implícita a moral: ordinária!”
“Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, § Fábula
de cabeça grande e não menor experiência, murmurou
à pobre agulha: Difere do apólogo, uma vez que seus personagens são ani-
mais. Esse gênero teve ilustres cultores na literatura ociden-
– Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para tal, como Esopo, Fedro e La Fontaine, cujas fábulas estão
ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na reunidas em doze livros.

TROVADORISMO E HUMANISMO

Contexto Tipos de cantiga


§ Idade Média (século XII–XIV). As cantigas trovadorescas são divididas em dois grupos:
as líricas, que falam de sentimento e são subdivididas em
§ Formação dos países europeus e de suas línguas.
cantigas de amor e cantigas de amigo; e as cantigas
§ Reconhecimento do reino de Portugal, no ano de 1179. satíricas, intencionalmente críticas e cômicas, também
subdivididas em cantigas de escárnio e de cantigas
§ Feudalismo.
de maldizer.
§ Teocentrismo (Deus como centro do Universo / motivo
de tudo). Líricas
§ Sociedade com estamentos estáticos: o clero (os padres A poesia lírica diz respeito à lira, instrumento musical da
= homens de oração), a nobreza e a cavalaria (poder Antiguidade clássica que acompanhava as canções expres-
mundano e defesa militar) e os servos (o povo = tra- sando sentimentos.
balhadores).
cantigas de amor cantigas de amigo
O código do amor cortês eu-lírico masculino, pobre eu-lírico feminino, pobre
amor impossível saudade
Os termos que definiam as relações feudais foram trans-
poucos refrãos muitos refrãos
postos para as cantigas, caracterizando a linguagem do
Trovadorismo: a mulher era a senhora, o homem era o seu ausência de paralelismo paralelismo

servidor. Eram muito prezadas a generosidade, a lealdade linguagem refinada (amor cortês) linguagem popular

e, acima de tudo, a cortesia. submissão à dama


grau de igualdade
“mulher idealizada”
“mulher atrevida”
As cantigas de amor do Trovadorismo desenvolvem um mes- (vassalagem amorosa)

mo tema: o sofrimento provocado pelo amor não correspon- coita d’amor amor correspondido

dido – a “coita de amor”. Como o princípio do amor cortês é origem em Provença, sul da França península Ibérica (galega)

a idealização da dama pelo trovador, os textos não manifes-


tam a expectativa de correspondência amorosa. Satíricas
As cantigas satíricas passeiam por muitos temas, sempre As cantigas satíricas fazem críticas ao comportamento das
expressando um olhar crítico sobre a conduta de nobres, pessoas em suas ações sociais e usam o humor e o vocabu-
homens e mulheres, nas esferas individual e social. É bas- lário chulo para denunciar alguns nobres e damas.
tante comum os trovadores ridicularizarem um nobre que Além disso, a sátira se estende a instituições sociais, censu-
se envolve com uma serviçal ou que não percebe a trai- rando os males da sociedade ou dos indivíduos, quase tudo
ção da esposa. com tom sarcástico, irônico e obsceno.

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Cantigas de escárnio Cantigas de maldizer Produção literária
Crítica sutil Crítica direta
§ Crônicas – histórias curtas sobre o cotidiano dos no-
Linguagem ambígua e velada Linguagem direta e clara
bres que queriam registrar seus grandes feitos. O mais
Vocabulário comedido Vocabulário agressivo
famoso cronista de Portugal foi Fernão Lopes, nome-
ado cronista-mor da Torre do Tombo, por D. Duarte.
Três cancioneiros § Poesia palaciana – poemas compostos em redondi-
lhas, sem o acompanhamento musical, e impressos,
Os cancioneiros são manuscritos, coletâneas de cantigas
feitos para declamação dentro dos palácios; além de tra-
com características variadas e escritas por diversos autores.
tar da vida da corte, retomavam os temas das cantigas
Os mais importantes são os três cancioneiros que concen- trovadorescas, porém com preocupação técnica e novas
tram boa parte da produção conhecida dos séculos XII, XIII e formas poemáticas, como é o caso do Vilancete, da Trova
XIV: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Biblioteca Nacio- e da Esparsa. Toda a produção de poesia palaciana foi
nal e Cancioneiro da Vaticana. reunida num volume chamado Cancioneiro geral, or-
ganizado por Garcia de Resende.

As novelas de cavalaria § Teatro – voltado para temas religiosos e didáticos,


ou seja, feito para ensinar religião. Representava ce-
As novelas de cavalaria são os primeiros romances, nas bíblicas, vidas dos santos e mártires da Igreja. O
ou seja, longas narrativas em verso, surgidas no século teatro propriamente dito, com texto elaborado, inau-
XII. Elas contam as aventuras vividas pelos cavaleiros an- gurou-se em Portugal com a obra de Gil Vicente, que
dantes e tiveram origem com o declínio do prestígio da mostrou peças cheias de sátira à sociedade, com te-
poesia dos trovadores. mas tanto profanos, nas farsas, como religiosos, nos
Estão organizadas em três ciclos, de acordo com o tema autos. Seu teatro desenvolveu essencialmente “tipos
que desenvolvem e com o tipo de herói que apresentam: sociais”, isto é, personagens que representavam figu-
§ Ciclo clássico: novelas que narram a guerra de Troia ras que desenvolviam papéis específicos na sociedade
e as aventuras de Alexandre, o Grande. O ciclo recebe e apontavam os defeitos da personalidade humana.
essa denominação porque seus heróis vêm do mundo A sua crítica alcançou desde os mais pobres aos mais
clássico mediterrâneo. ricos ou mais graduados clérigos. Sua obra aponta o
equilíbrio entre a razão e a emoção, que norteou a
§ Ciclo arturiano ou bretão: histórias envolvendo o rei arte do século XV, considerando que ele alcançou o
Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. Nessas nove- século XVI e viveu o início e o auge do Renascimento.
las, podem ser identificados vários núcleos temáticos: a Por isso, notam-se em sua obra valores teocêntricos e
história de Percival, a história de Tristão e Isolda, as aven- antropocêntricos.
turas dos cavaleiros da corte do rei Arthur e a demanda
do Santo Graal.
§ Ciclo carolíngio ou francês: histórias sobre o rei
Carlos Magno e os Doze Pares de França.

Humanismo .

Contexto
§ Século XV – fim da Idade Média.
§ Grandes navegações.
§ Desenvolvimento das cidades e do comércio.
§ Burguesia.
§ Período de transição dos valores medievais para os va-
lores do Renascimento, ou seja, do teocentrismo para o
antropocentrismo.
§ Valorização da cultura.

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RENASCIMENTO: CLASSICISMO E LUIS VAZ DE CAMÕES

Classicismo Literatura
O poeta Dante Alighieri, autor da Divina comédia, intro-
Contexto duziu o verso decassílabo, chamado de “medida nova”, o
dolce stil nuovo (doce estilo novo), em contraponto à re-
§ Renascimento – século XVI – resgate da Antiguida-
dondilha, considerada como “medida velha”. O poeta Fran-
de clássica.
cesco Petrarca, criador do soneto, influenciou vários poetas
§ Crescimento do comércio e fortalecimento da burguesia. europeus, entre o quais o inglês William Shakespeare e os
§ Descobrimentos. portugueses Luís Vaz de Camões e Sá de Miranda.

§ Antropocentrismo (homem como centro das preocu- Em 1527, Sá de Miranda, retornando da Itália, introduziu
pações). em Portugal a “medida nova”. Contudo, foi Luís Vaz de
Camões quem se destacou na literatura portuguesa des-
Produção artística se período.

O classicismo seguiu os modelos da cultura greco-latina,


uma vez que representavam o equilíbrio e a perfeição. Luis Vaz de Camões
Nesse sentido, as características gerais do período fo-
Luís Vaz de Camões teria nascido em 1524 ou 1525, pro-
ram o racionalismo, o universalismo, a perfeição formal,
vavelmente na cidade de Lisboa (talvez Coimbra ou San-
o resgate da mitologia clássica e o humanismo.
tarém). Morreu em 10 de junho de 1580. Curiosamente,
A Itália foi onde essa tendência renascentista apareceu o herói da poesia portuguesa expirou quando se iniciou o
com mais intensidade, sendo o palco desse retorno ao declínio do poderio imperial de Portugal, no mesmo ano
mundo da Antiguidade, ou seja, fez renascer, desde me- da União da Península Ibérica, em que o país ficou sob o
ados do século XIII, os ideais de valorização dos gregos e domínio da coroa espanhola.
latinos, dos esforços individuais, da perfeição, da superio-
ridade humana e da razão como parâmetro de observação Em 1572, publicou Os Lusíadas, sua obra-prima. Em 1595,
e interpretação da realidade. foi publicada a obra Rimas, com uma compilação de sua
obra lírica, de versos redondilhos elaborados à maneira
Pintura, escultura e arquitetura medieval, e também de seus sonetos decassílabos de in-
fluência petrarquiana.
Na pintura, alguns dos principais traços do Renascimento
foram a noção de perspectiva e a tematização de elemen-
tos da Antiguidade, bem como a humanização do tema
sacro. A técnica era levada em conta acima de tudo, e o
Camões épico
sombreado realçava a ideia de volume dos corpos. Também Engenho e arte
teve início a utilização da tela e da tinta a óleo.
A obra épica Os Lusíadas é a mais importante epopeia
Na escultura, o que mais chama a atenção é a busca pela em língua portuguesa. Teve como modelos estruturais as
representação ideal do homem, normalmente retratado nu epopeias da Antiguidade: a Ilíada e a Odisseia. Entretan-
a fim de exaltar as formas humanas. to, Camões introduziu uma novidade, pois, em Os Lusía-
A arquitetura também se inspirou nos traços clássicos, retra- das, o herói é coletivo, ou seja, é o povo português;
tando a figura humana e o conceito de beleza dos templos ao contrário do que ocorre nas epopeias modelares. Essa
construídos de maneira harmônica, normalmente cobertos modalidade de escrita passou a ser chamada de epo-
por uma cúpula. peia secundária.
Entre os artistas mais importantes da arte renascentista es- Os Lusíadas conseguiu conciliar a mitologia pagã (fruto do
tão Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475- gosto renascentista pelo estudo da cultura pagã) e a mito-
1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). logia cristã (ideologia pessoal do autor).

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Estrutura da obra Camões lírico
A obra de Camões apresenta 8.816 versos decassílabos, di-
vididos em 1.102 estrofes, todas em oitava-rima, organizada “Tu, só tu, puro amor”
em dez cantos. Além disso, existem outras cinco partes:
A obra lírica de Camões compreende poemas feitos na me-
§ Proposição (canto I, estrofes 1 a 3) dida velha e na medida nova. A medida velha obedece à
O poeta apresenta o que vai cantar, ou seja, o tema dos fei- poesia de tradição popular, na forma e no conteúdo. São
tos heroicos dos ilustres barões de Portugal, o herói, Vasco exploradas as redondilhas, de cinco ou de sete sílabas (me-
da Gama, e o destino da viagem. nor ou maior, respectivamente).
Os poemas em medida nova são relacionados à tradição
§ Invocação (canto I, estrofes 4 e 5) clássica: sonetos, éclogas, elegias, oitavas, sextinas. Quan-
O poeta invoca as Tágides, ninfas do rio Tejo, pedindo a elas to ao conteúdo, a poesia lírica clássica se relaciona com
para inspirá-lo na composição da obra. o petrarquismo. Francesco Petrarca foi o responsável por
fixar a forma do soneto, no século XIV; o conteúdo de sua
§ Dedicatória ou oferecimento (canto I, estrofes
poesia delineia um lirismo amoroso platônico, relacionado
6 a 18)
indissoluvelmente a uma mulher inacessível, Laura, a que
O poeta dedica seu poema a D. Sebastião, rei de Portu- dedicou perto de 360 sonetos, no seu Cancioneiro.
gal na época em que o poema foi publicado, visto como
a esperança de propagação da fé cristã e continuação dos A lírica amorosa
grandes feitos de Portugal.
O tema amoroso é explorado na lírica camoniana sob du-
§ Narração (canto I, estrofe 19 até canto X, es- pla perspectiva. Com frequência, aparece o amor sensual,
trofe 144) próprio da sensualidade renascentista, inspirada no paga-
nismo da cultura greco-latina. Predomina, porém, o amor
O poeta relata a viagem propriamente dita dos portugueses
neoplatônico, espécie de extensão e aprofundamento da
ao Oriente. O desenrolar dos fatos começa In Media Res, ou
tradição da poesia medieval portuguesa ou da poesia hu-
seja, no meio da ação, quando Vasco da Gama e sua esqua-
manista italiana, em que o amor e a mulher se configuram
dra se dirigem ao Cabo da Boa Esperança.
como idealizados e inacessíveis.
§ Epílogo
Em Camões, percebe-se o conflito entre o sentimento espi-
É a conclusão do poema (estrofes 145 a 156 do canto X), ritual, idealizado, e o sentimento de manifestação carnal. O
em que o poeta demonstra cansaço e, em tom melancólico amor é, dessa forma, complexo, contraditório.
e pessimista, aconselha ao rei e ao povo português que Esses sentimentos contraditórios, bem como certo pessimis-
sejam fiéis à pátria e ao cristianismo. mo existencial que marca a poesia lírica de Camões, fogem
ao espírito harmonioso e racional do Renascimento e pre-
nunciam o movimento literário do século XVII: o Barroco.

LITERATURA EM TERRAS TUPINIQUINS: LITERATURA


DE FORMAÇÃO E LITERATURA DE INFORMAÇÃO

Contexto histórico literário, e a linguagem é predominantemente referencial


ou denotativa.
§ Século XVI.
Considerada o primeiro documento da literatura no Brasil,
§ Início da colonização do Brasil. A carta, de Pero Vaz de Caminha, inaugurou, em 1500, a
chamada literatura informativa.
Literatura de informação
Textos criados para enviar a Portugal notícias sobre as Literatura de formação ou jesuítica
terras descobertas. Esses relatórios, denominados “crôni- Ao lado da prosa informativa, ocorreram manifestações
cas de viagem”, possuem caráter mais histórico do que em poesia e teatro escritas por jesuítas com a finalidade

33
de catequizar os índios. Essa produção é denominada literatura de formação, em decorrência do aspecto didático que
apresenta. Seus principais expoentes são os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega.

ESTÉTICA BARROCA: A DUALIDADE

Gregório de Matos Poesia lírica filosófica


A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um poeta que,
Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco tal qual os clássicos, transmite um forte senso do “descon-
brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica no certo do mundo”, ocupando-se com a transitoriedade da
Brasil. Em sua obra, Gregório acolheu a poesia religiosa, os vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do homem.
costumes e a reflexão moral. Em relação aos temas, convi-

Antônio Vieira
vem em seus poemas um desenfreado sentimento de sen-
sualismo, erotismo e paixão idealizada. Seus poemas são
dados ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras. Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do
O “língua de trapo” Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto à literatu-
Irreverente como poeta lírico, Gregório seguiu e ao mes- ra portuguesa quanto à brasileira. Sua característica mais
mo tempo implodiu os modelos barrocos europeus. Foi marcante é a de orador e pregador da fé cristã.
apelidado de Boca do Inferno, graças à sua poesia As qualidades de Vieira como orador são incomparáveis.
satírica, dirigida aos governantes corruptos, a religiosos Dotado de boa formação jesuítica, pronunciou sermões
licenciosos e às hipocrisias da sociedade. que se tornaram ao mesmo tempo a expressão máxima do
Poesia satírica Barroco em prosa sacra e uma das principais expressões
ideológicas e literárias da Contrarreforma. Pregou no Brasil,
Não poupa aspecto algum do sistema e do poder, o que faz em Portugal e na Itália, sempre com grande repercussão.
dele um poeta maldito. Provoca os políticos e ridiculariza
os que viviam para bajular e louvar os poderosos, traços Entre sua vasta produção de mais de duzentos sermões e
que contribuíram para o “abrasileiramento” do Barroco quinhentas cartas, destacam-se:
importado da Europa. § Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real de
Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte de pregar.
Poesia lírica: sacra e amorosa
§ Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal con-
A poesia lírica de Gregório de Matos é idealista, às tra as de Holanda, proferido na Bahia, em 1640, posi-
vezes emocional, às vezes conceitual, mas frequente-
ciona-se contra à invasão holandesa.
mente preocupada em entender contradições. A lírica
sacra ressalta o senso do pecado ao lado do desejo do § Sermão de Santo Antônio (aos peixes), proferido no
perdão. O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela Maranhão, em 1654, ataca a escravização de índios.
ambiguidade da mulher, vista como uma dualidade entre § Sermão do mandato, proferido na Capela Real de Lis-
matéria e espírito. boa, em 1645, desenvolve o tema do amor místico.

ESTÉTICA NEOCLÁSSICA: O ARCADISMO

Arcadismo § Retomada da cultura clássica.


§ Linguagem simples.

Contexto histórico Brasil


Europa § Inconfidência Mineira.
§ Iluminismo – século XVIII (o século das Luzes).

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Características Manuel Maria Barbosa
du Bocage
A partir da segunda metade do século XVIII, junto às
profundas transformações sociais e econômicas que
anunciavam revoluções intelectuais nas sociedades euro- Bocage entrou para a história da literatura portuguesa como um
peias, desenvolve-se um novo estilo literário, o Arcadismo. poeta erótico, embora sua poesia lírica árcade seja considerada
O Arcadismo foi chamado também de Neoclassicismo, um superior. A obra Rimas, de 1791, valeu-lhe o convite para a Nova
novo Classicismo, em decorrência da retomada dos modelos Arcádia, onde usava o pseudônimo Elmano Sadino.
clássicos. As principais características do estilo são: A fase inicial da poesia de Bocage é marcada por formas e
§ Busca pela perfeição. temas próprios do Arcadismo: o ambiente bucólico (fugere
urbem), o ideal de vida simples e alegre (aurea mediocritas),
§ Referências mitológicas.
a simplicidade e a clareza das ideias e da linguagem, etc.
§ Racionalismo.
Idílios marítimos, Rimas (três volumes) e Parnaso bocagia-
§ Pastoralismo. no reúnem a produção literária de Bocage. Os sonetos de
§ Bucolismo: proposta de uma vida no campo como Rimas são o ponto alto de sua produção. e alguns estudio-
alternativa à agitação das cidades e contraponto às sos chegam a compará-lo a Camões. A solidão, a desilu-
normas sociais e religiosas. são amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver
impactaram de tal maneira sua poesia que ela acabou se
§ Valorização da cultura greco-latina.
afastando da estética árcade para se enveredar pelo cam-
§ Eu lírico = pastor. po dramático e confessional, fato que inseriu Bocage num
§ Uso de psudônimos. contexto pré-romântico.
A produção satírica de Bocage foi uma das que mais se po-
Autores de destaque pularizou, embora seja considerada inferior à poesia lírica.
Foi por meio dessa poesia que o poeta recebeu a alcunha
Em Portugal, Manuel Maria Barbosa Du Bocage, que
já prenuncia o Romantismo. de “poeta maldito”, uma vez que tratava de temas de na-
tureza grosseira, vulgar e obscena.
No Brasil, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel
da Costa, Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão e
Basílio da Gama. Arcadismo no brasil
Os poetas brasileiros, na verdade, refletiam a maneira de Os escritores brasileiros do século XVIII assumiram uma
pensar dos europeus, porque estudaram na Europa, apesar postura peculiar em relação ao Arcadismo importado de
de o país ainda ser colônia. Portugal. Por um lado, procuravam seguir os princípios
estabelecidos pelas academias literárias portuguesas e
Para recuperar a perfeição e o equilíbrio dos clássicos e do
se inspiravam em escritores clássicos consagrados, como
Renascimento, era comum entre os autores o uso de cli-
chês árcades ditos sempre em latim: Camões, Petrarca e Horácio. Ao mesmo tempo, com o
intuito de tornar a literatura da Colônia mais universal
§ Carpe diem (aproveitar o dia). e equipará-la às literaturas europeias, tentavam eliminar
§ Fugere urbem (fugir da cidade). vestígios pessoais ou locais.
§ Locus amoenus (lugar tranquilo). Dessa maneira, apresentaram em suas obras aspectos di-
§ Aurea mediocritas (equilíbrio de ouro, desprezo aos ferentes dos prescritos pelo modelo importado. Na poesia
bens materiais). de Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, a natureza
aparece mais bruta e selvagem do que na poesia euro-
§ Inutilia truncat (cortar o inútil).
peia; o mito do “homem natural” culminou na figura do
índio, personagem das obras de Basílio da Gama e San-
Arcádias ta Rita Durão; a expressão dos sentimentos, em Tomás
As Arcádias eram academias literárias. Em Portugal existi- Antônio Gonzaga e Silva Alvarenga, é mais espontânea
ram duas importantes academias árcades: a Arcádia Lu- e menos convencional. Esses aspectos da poesia árcade
sitana, que efetivamente deu início ao movimento árcade brasileira foram mais tarde recuperados e aprofundados
em Portugal, e a Nova Arcádia (1790), da qual participou pelo Romantismo, movimento que buscou definir uma
o maior poeta português do século XVIII: Bocage. identidade nacional à literatura.

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Além dessa espécie de adaptação do modelo europeu, não
se pode esquecer da forte influência barroca ainda durante o Os poetas árcades e a
século XVIII. As igrejas de Ouro Preto só tiveram sua constru-
inconfidência mineira
ção concluída quando o Arcadismo já vigorava na literatura.
Os escritores árcades mineiros Tomás Antonio Gonzaga,
Destacam-se entre os autores árcades brasileiros:
Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa participa-
§ Líricos: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gon- ram diretamente do movimento da Inconfidência Minei-
zaga e Silva Alvarenga. ra. Ao voltarem de Coimbra com ideias enciclopedistas
§ Épicos: Basílio da Gama, Santa Rita Durão e Cláudio e influenciados pela independência dos EUA, eles não
Manuel da Costa. apenas se somaram aos revoltosos contra a exploração
pelo erário régio, que confiscava a maior parte do ouro
§ Satíricos: Tomás Antônio Gonzaga. extraído da Colônia, mas ajudaram a divulgar o ideal de
§ Encomiásticos: Silva Alvarenga e Alvarenga Peixoto. um Brasil independente, contribuindo para a organização
do grupo inconfidente.

ESTÉTICA ROMÂNTICA: PROSA

Romantismo em Portugal A Segunda Geração (Camilo Castelo Branco), ultrarromân-


tica, levou o movimento ao exagero, e prevaleceu entre os
Partidários do liberalismo de D. Pedro e antimiguelistas, os anos 1840 e 1860.
jovens escritores Almeida Garrett e Alexandre Herculano ti- A Terceira Geração (Júlio Dinis), de transição para o Re-
veram de exilar-se na Inglaterra e na França, onde tomaram alismo, marcou presença nos anos de 1860. Nesses três
contato com as obras de Lord Byron, Walter Scott e William momentos, a poesia, o romance, o teatro, a historiogra-
Shakespeare. fia e o jornalismo se desenvolveram de forma inédita
De volta, em 1825, Garrett publicou uma biografia roman- em Portugal.
ceada concebida em versos brancos chamada Camões. Com
esse poema, introduziu-se o Romantismo em Portugal. Suas 1.ª Geração
características viriam a firmar-se no espírito romântico: ver-
sos decassílabos brancos, subjetivismo, nostalgia, melancolia
e a grande combinação dos gêneros literários.
Almeida Garrett
§ É um dos principais escritores do romantismo português.
O Romantismo português durou aproximadamente 40
anos, como nos demais países europeus, o Romantismo § Em 1832, participou do cerco à cidade do Porto, empre-
português atrelou-se ao liberalismo e à ideologia burguesa endido pelos liberais.
e assumiu compromissos com o novo público leitor. § Escreveu romances, poesia e teatro.
§ Viagens na minha terra é um relato-personagem
Gerações do Romantismo que registra o pitoresco da terra natal. Trata-se de
um misto de diário, literatura de viagens, reporta-
português gens e ficção, cujo fio narrativo é uma viagem de
Nos anos caóticos de lutas entre liberais e conservadores, Lisboa e Santarém. É organizada em capítulos que
os românticos foram, pouco a pouco, implementando as relatam os acontecimentos e as reflexões do narra-
reformas literárias que modificariam o quadro estético ne- dor sobre vários assuntos, entre os quais amor, polí-
oclássico português. tica, curiosidades.
O Romantismo português conheceu três momentos distintos.
Alexandre Herculano
A Primeira Geração (Almeida Garrett e Alexandre Hercula-
no), entre os anos de 1825 e 1840, muito contribuiu para § Assim como Garrett, engajou-se na luta ao lado dos
a consolidação do liberalismo no país. pedristas (liberais).

36
§ A obra literária de Herculano obedece ao princípio ro-
mântico de busca da realidade ideal para o país me- O romance brasileiro e
diante a reconstituição das formas sociais mais signifi- a busca do nacional
cativas de sua história. Esse historicismo tem sua origem
no romantismo histórico e social do escritor inglês Wal- Nas décadas que sucederam a Independência do Brasil, os
ter Scott e do francês Victor Hugo. romancistas se empenharam no projeto de construir uma
cultura brasileira autônoma, que exigia dos escritores o re-
§ A ficção histórica é constituída por 3 obras: O bobo, conhecimento da identidade de nossa gente, da nossa lín-
que trata da formação de Portugal em meio a uma gua, das nossas tradições e diferenças regionais e culturais.
intriga romântica; Eurico, o presbítero, que registra a
situação histórica portuguesa sob o domínio mouro e Nessa busca, o romance se voltou para os espaços nacio-
discute criticamente a questão do celibato clerical; e O nais, identificados como a selva, o campo e a cidade, que
monge de Cister, romance que marca o momento his- deram origem, respectivamente, ao romance indianista e
tórico da centralização política monárquica. histórico (a vida primitiva), ao romance regional (a vida ru-
ral) e ao romance urbano (a vida citadina).

2.ª Geração O mais fértil ficcionista romântico brasileiro foi o cearense


José Martiniano de Alencar (1829-1877), cuja meta era
Camilo Castelo Branco formar uma literatura nacional autêntica, que rompesse os
vínculos com a lusitana e retratasse a realidade brasileira.
§ Camilo concentrou seus esforços profissionais na car- Esse objetivo foi alcançado.
reira de escritor, fonte de seu sustento. Sua vasta obra
compreende as temáticas com foco no mistério, nas
questões históricas e na crítica aos costumes.
José de Alencar
José de Alencar (1829-1877) foi o principal romancista
§ A novela camiliana atende ao gosto popular, com
brasileiro da fase romântica.
predomínio do ultrarromantismo e do passiona-
lismo, traço distintivo e força artística. O mundo é Sua vasta produção literária compreende vinte romances,
frustrado sob o ângulo das grandes paixões: Carlota oito peças de teatro (como Mãe e O jesuíta, encenadas
Ângela (1858), Amor de perdição (1863), Amor de à época), crônicas, escritos políticos e crítica literária. Em
salvação (1864), A doida do Candal (1867), O retra- razão da abrangência de seus romances, eles foram clas-
to de Ricardina (1868). sificados de acordo com o tema.
§ A obra que rompe com as características típicas do § Romances indianistas: O guarani (1857); Iracema
romantismo é Coração, cabeça e estômago, livro que (1865); e Ubirajara (1874).
realiza uma crítica aos costumes como numa antecipa- § Romances regionalistas: O gaúcho (1870); O tron-
ção ao realismo. co do ipê (1871); Til (1871); e O sertanejo (1875).
§ Romances históricos: As minas de prata (dois vo-
3.ª Geração lumes: 1865 e 1866); Guerra dos mascates (dois vo-
lumes: 1871 e 1873); Alfarrábios (1873, composto de
Júlio Dinis O garatuja, O ermitão da Glória e A alma de Lázaro).
§ Criava seus personagens sob a lógica dos tipos so- § Romances urbanos (ou “perfis de mulheres”):
ciais e substituiu o ultrarromantismo pelas anteci- Cinco minutos (1856); A viuvinha (1857); Lucíola
pações realistas, em que a oralidade e os compor- (1862); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Sonhos
tamentos observáveis passaram a figurar em suas d’ouro; Senhora (1872); e Encarnação (1877).
narrativas. No entanto, é estudado ainda no Roman-
tismo, por conta do processo de redenção nas con- Principais obras
clusões de suas tramas.
O guarani, 1857, romance histórico-indianista que
§ Suas principais obras são: As pupilas do senhor rei- mostra a convivência entre portugueses e as tribos in-
tor (1867), A morgadinha dos canaviais (1868), Uma dígenas da época. A obra se articula a partir de alguns
família inglesa (1868), Serões da província (1870), fatos essenciais: a devoção e fidelidade do índio goitacá
Os fidalgos da casa mourisca (1871), Poesias (1873), Peri a Cecília; o amor de Isabel por Álvaro e o amor deste
Inéditos e esparsos (1910) e Teatro inédito (1946-47). por Cecília. A morte acidental de uma índia aimoré, pro-

37
vocada por D. Diogo, e a consequente revolta e ataque
dos Aimorés, ocorre simultaneamente a uma rebelião dos
Outros autores da prosa
homens de D. Antônio, liderados pelo ex-frei Loredano, romântica brasileira
homem ambicioso e devasso que queria saquear a casa § Bernardo Guimarães – criou o romance regiona-
e raptar Cecília. lista. Tornou artísticos os “casos” da literatura oral,
valendo-se das técnicas narrativas dos folhetins. Suas
Iracema, 1865, romance histórico-indianista que desen-
obras mais lidas são O seminarista (1872) e A escrava
volve a lenda da fundação do Ceará e a história de amor
Isaura (1875), construídas com temas básicos dos ro-
entre a índia Iracema e o português Martim. Guardadora
mances de ênfase social de sua época, respectivamente
dos segredos da Jurema, Iracema faz um voto de castida-
o celibato clerical e a escravidão.
de, que rompe ao tornar-se esposa de Martim.
§ Visconde de Taunay – É também autor do roman-
Abandona sua tribo e segue com ele. Dá à luz um filho –
ce regionalista. Por conta de suas andanças no Mato
Moacir –, símbolo do homem brasileiro miscigenado. Martim Grosso, soube reproduzir com precisão aspectos visuais
tem de partir para Portugal por um longo tempo. Quando da paisagem sertaneja, especialmente da fauna e da
regressa, encontra Iracema à morte. Enterra-a ao pé de uma flora da região. Foi autor do romance Inocência (1872),
palmeira e retorna a Portugal, levando consigo o filho. sua obra-prima, e de livros sobre a guerra e o sertão,
Til, 1871, romance regionalista em que o narrador uti- como Retirada da Laguna (1871).
liza descrições pormenorizadas da região e de cenários § Franklin Távora – Nasceu no Ceará e estudou Di-
em torno do rio Piracicaba. A história do romance gira reito no Rio de Janeiro. Foi um dos mais polêmicos e
em torno do misterioso nascimento de Berta, uma jovem radicais escritores regionalistas. Rebelou-se contra a
muito bondosa e bonita que mesmo sendo uma típica “literatura do Sul”, especialmente a de Alencar, seu
heroína romântica, abnega de seus desejos para cuidar conterrâneo, alegando que ele se deixava levar pelos
daqueles a quem quer bem. Por trás de tudo isso, o ro- modelos estrangeiros – nos romances urbanos – e que,
mance mostra uma visão patriarcal e senhorial presentes ao dedicar-se a romances regionalistas, nem sequer
no Brasil escravista e patriarcal. Os preconceitos de classe conhecia a região retratada – em O gaúcho. Com O
e as relações de poder são enfocadas na obra. cabeleira, inaugurou um dos veios mais férteis de nos-
sa ficção regional. Trouxe à tona problemas até então
Senhora, 1875, romance urbano, é uma das últimas
pouco conhecidos em outras regiões do país, como o
obras escritas por Alencar. Ao tematizar o casamen-
banditismo, o cangaço, a seca, a miséria, as migrações,
to como forma de ascensão social, o autor deu início à
mais tarde retomados e aprofundados por Graciliano
discussão sobre certos valores e comportamentos da so-
Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado.
ciedade carioca da segunda metade do século XIX. Au-
rélia Camargo é uma moça pobre e órfã de pai, noiva § Joaquim Manuel de Macedo – Foi autor do primei-
de Fernando Seixas, bom rapaz, que ambiciona ascender ro romance brasileiro propriamente dito, A moreninha
socialmente. Em razão disso, troca Aurélia por outra moça (1844), depois de algumas tentativas malsucedidas
de dote mais valioso. Aurélia passa a desprezar todos os no gênero. Embora formado em Medicina, Macedo se
homens. Eis que, com a morte de uma avó, torna-se mi- dedicou ao jornalismo e à política. A moreninha confe-
lionária, e consequentemente, uma das mulheres mais riu-lhe ampla popularidade, mantida com a publicação
cortejadas do Rio de Janeiro. Como vingança, manda ofe- de outros romances.
recer a Seixas um dote de cem contos de réis, sem revelar § Manuel Antônio de Almeida – Como escritor,
seu nome, que seria conhecido só no dia do casamento. produziu uma única obra. O descompromisso com o
Seixas aceita e se casa. Na noite de núpcias, Aurélia reve- sucesso e um grande senso de humor lhe permitiram
la-lhe seu desprezo. Seixas cai em si e percebe o quanto criar uma das obras originais do Romantismo brasileiro:
fora vil em sua ganância. Memórias de um sargento de milícias.

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ESTÉTICA ROMÂNTICA: POESIA

As gerações do Romantismo Canção do exílio é um dos mais conhecidos poemas de


Gonçalves Dias, escrito em Coimbra, em julho de 1843.
Tradicionalmente, são apontadas três gerações de escrito- Além dele, há também o poema indianista I - Juca Pirama,
res românticos. a história do último descendente da tribo tupi feito prisio-
neiro dos timbiras. O guerreiro seria sacrificado e devorado
Essa divisão, contudo, compreende, principalmente, os au-
numa festa canibal. Pelo amor ao pai, já velho e cego, o
tores de poesia.
prisioneiro implora ao chefe dos timbiras que o liberte para
Os romancistas não se enquadram muito bem nessa divi- cuidar do pai. Julgando-o um covarde, o chefe timbira de-
são, uma vez que suas obras apresentam traços caracterís- siste do sacrifício e solta o prisioneiro.
ticos de mais de uma geração.
§ Primeira geração: nacionalista, indianista e religio- 2.ª Geração
sa, com destaque para Gonçalves Dias e Gonçalves de
Magalhães. Álvares de Azevedo
§ Segunda geração: marcada pelo “mal do século”,
Álvares de Azevedo (1831-1852) é o principal nome da
apresenta egocentrismo exacerbado, pessimismo, sa-
geração ultrarromântica de nossa poesia. Paulista, fez os
tanismo e atração pela morte. Foi bem representada
estudos básicos no Rio de Janeiro e cursava o quinto ano
por Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes
de Direito, em São Paulo, quando sofreu um acidente (que-
Varela e Junqueira Freire.
da de cavalo), cujas complicações o levaram à morte, antes
§ Terceira geração: formada pelo grupo condoreiro, de completar 21 anos.
desenvolve uma poesia de cunho político e social. A
O escritor cultivou a poesia, a prosa e o teatro. Os sete livros,
maior expressão desse grupo é Castro Alves. Duran-
discursos e cartas que produziu foram escritos em apenas
te o Segundo Reinado, os românticos foram firman-
quatro anos, período em que era estudante universitário.
do o projeto de uma literatura autenticamente na-
cional, liberta da portuguesa. Houve três momentos Além disso, o autor também se utilizou constantemente
no desenvolvimento da poesia romântica brasileira, da ironia, empregada pelo poeta como recurso para
cujos poetas reúnem distintas gerações com carac- quebrar a noção de ordem e abalar as convenções do
terísticas em comum. mundo burguês.
Enquanto o lado Caliban do poeta se situa em uma das
1.ª Geração linhas que compõem o Romantismo – a linha orgíaca e
satânica –, a ironia levada às últimas consequências dos
Gonçalves de Magalhães poemas de Álvares de Azevedo acessa um veio novo: o
O médico, diplomata, poeta e dramaturgo Domingos José antirromântico, o que constitui outro paradoxo. O mais ro-
Gonçalves de Magalhães (1811-1882) foi o iniciador do mântico dos nossos românticos lançou o germe da própria
Romantismo na literatura brasileira. Sua meta foi imple- superação do Romantismo, ao ironizar algumas das atitu-
mentar a nova corrente literária no País, com o apoio do des mais caras à sua geração, como a pieguice amorosa e
imperador D. Pedro II. a idealização do amor e da mulher.

Gonçalves Dias Casimiro de Abreu


Gonçalves Dias criou o indianismo romântico, impondo-se Casimiro de Abreu (1839-1860) é um dos poetas român-
como uma das maiores figuras da nossa literatura. Seus ticos mais populares. Natural de Barra de São João, no Rio
versos carregavam eloquência, lirismo, grandiosidade e de Janeiro, escreveu a maior parte de sua obra poética, Pri-
harmonia. Sua obras poéticas são: Primeiros cantos, Se- maveras, em Portugal. Apesar de ligado à segunda geração
gundos cantos, Últimos cantos, Sextilhas de Frei Antão, Di- da poesia romântica, Casimiro contribuiu para desanuviar
cionário da língua tupi, Os timbiras; as teatrais são: Beatriz o ambiente noturno que Álvares de Azevedo deixara ao
Cenei, Leonor de Mendonça, Boabdil e Patkul. morrer, sete anos antes.

39
3.ª Geração Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Castro Alves Novo reino, que tanto sublimaram;
(...)
Castro Alves (1847-1871), o “poeta dos escravos”, é consi- Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
derado a principal expressão condoreira da poesia brasilei- Destemperada e a voz enrouquecida,
ra. Nascido em Curralinho, hoje Castro Alves (BA), estudou E não do canto, mas de ver que venho
Direito em Recife e em São Paulo. Na evolução da poesia Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
romântica brasileira, sua obra representa um momento de
Não no dá a pátria, não, que está metida
maturidade e de transição. Maturidade em relação a certas No gosto da cobiça e na rudeza
atitudes ingênuas das gerações anteriores, como a idealiza- Duma austera, apagada e vil tristeza
ção amorosa e o nacionalismo ufanista, substituída por pos-
3. Durante o século XIV, a poesia trovadoresca entra em
turas mais críticas e realistas. Transição porque a perspectiva
decadência, surgindo uma nova forma de poesia, total-
mais objetiva e crítica com que trata a realidade aponta para mente distanciada da música, apresentando amadureci-
o movimento literário subsequente, o Realismo. mento técnico, com novos recursos estilísticos e novas
formas poemáticas. Qual é o nome deste momento literá-
Castro Alves cultivou a poesia lírica e social, de que são
rio e qual a determinação dada para a poesia da época?
exemplos Espumas flutuantes e A cachoeira de Paulo Afon-
so; a poesia épica: Os escravos; e o teatro: Gonzaga ou 4. (UFG) Leia os textos que seguem:
Revolução de Minas. Seus poemas tratavam das questões Sub Tegmini Fagi
sociais, da arte engajada e também da temática lírica. [...]
Vem comigo cismar risonho e grave...

U.T.I. - Sala
A poesia - é uma luz... e a alma - uma ave...
Querem - trevas e ar.
A andorinha, que é a alma - pede o campo.
Leia o texto a seguir para responder às questões 1 e 2. A poesia quer sombra - é o pirilampo...
P’ra voar... p’ra brilhar.
À SUA MULHER ANTES DE CASAR [...]
Discreta, e formosíssima Maria, ALVES, Castro. “Espumas flutuantes”. São
Enquanto estamos vendo a qualquer hora Paulo: Ateliê Editorial, 1998. p. 105
Em tuas faces a rosada Aurora, poiesis II
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:
luz lapidada
de ourives segredo
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora, incorruptível brilho
Quando vem passear-te pela fria: faz da sua chama
meu ideograma
“Goza, goza da flor da mocidade, MAGALHÃES, Carlos F. F. de.
Que o tempo trata a toda ligeireza, “Perau”. Goiânia: Vieira, 2004. p. 203.
E imprime em toda a flor sua pisada,
A estrofe de Castro Alves e o poema de Carlos Fernan-
Oh não aguardes, que a madura idade, do F. de Magalhães apresentam aspectos que os aproxi-
Te converta essa flor, essa beleza, mam e os distinguem.
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”. Tendo em vista esse fato, indique
(Gregório de Matos) a) um aspecto comum aos dois textos;
b) dois aspectos que os diferenciam.
1. Explique quais aspectos do tema da efemeridade da
vida revelam aspectos do contexto histórico da estética 5. (UFBA) AVES DE ARRIBAÇÃO
barroca. Além disso, determine a estrutura formal do IV
poema em seus vários aspectos. É noite! Treme a lâmpada medrosa
Velando a longa noite do poeta...
2. Leia o trecho a seguir de Luiz Vaz de Camões e deter- Além, sob as cortinas transparentes
mine de qual obra ele foi retirado. Em seguida, justifi- Ela dorme... formosa Julieta!
que do ponto de vista temático e formal sua resposta. Entram pela janela quase aberta
As armas e os Barões assinalados Da meia-noite os preguiçosos ventos
Que da Ocidental praia lusitana, E a lua beija o seio alvinitente
Por mares nunca dantes navegados, - Flor que abrira das noites aos relentos.
Passaram ainda além da Taprobana, O Poeta trabalha!... A fronte pálida

40
Guarda talvez fatídica tristeza... 2. Determine as características que justificam sua clas-
Que importa? A inspiração lhe acende o verso sificação.
Tendo por musa - o amor e a natureza!
E como o cáctus desabrocha o medo 3. A estrutura paralelística é, neste poema, particularmen-
Das noites tropicais na mansa calma, te expressiva, pois revela uma relação importante com o
A estrofe entreabre a pétala mimosa aspecto da temática. Determine qual é esta relação.
Perfumada da essência de sua alma.
No entanto Ela desperta... num sorriso Leia o texto a seguir para responder às questões 4 e 5.
Ensaia um beijo que perfuma a brisa ...
... A Casta-diva apaga-se nos montes ... Mote:
Luar de amor! acorda-te, Adalgisa! Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.
(ALVES, Castro. OS MELHORES POEMAS DE CASTRO ALVES.
Seleção de Lêdo lvo. 4 ed. São Paulo: Global Ed., 1988. p. 78.) Volta:

Quais as características da lírica romântica - conteúdo e Perdigão que o pensamento


linguagem - presentes na poesia de Castro Alves? Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Escreva um texto sobre essas características, ilustran-
Ganha a pena do tormento.
do-as com exemplos retirados do poema anterior.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
6. (PUC-RJ) Texto 1
Não há mal que lhe não venha.
Beijei na areia os sinais de teus passos, beijei os meus braços que (Camões)
tu havias apertado, beijei a mão que te ultrajara num momento
de loucura, e os meus próprios lábios que roçaram tua face num 4. De que fase da poesia de camões este poema se en-
beijo de perdão. quadra?
Que suprema delícia, meu Deus, foi para mim a dor que me causa-
5. Do ponto de vista formal, como pode se classificar o
vam os meus pulsos magoados pelas tuas mãos! Como abençoei
poema classicista de Luís Vaz de Camões?
este sofrimento!... Era alguma cousa de ti, um ímpeto de tua alma,
a tua cólera e indignação, que tinham ficado em minha pessoa e
Leia o texto a seguir para responder às questões 6 a 8.
entravam em mim para tomar posse do que te pertencia. Pedi a Deus
que tornasse indelével esse vestígio de tua ira, que me santificara Passada esta tão próspera vitória,
como uma cousa tua! Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
.................................................................. Quanta soube ganhar na dura guerra,
Quero guardar-me toda só para ti. Vem, Augusto: eu te espero. A minha
vida terminou; começo agora a viver em ti. O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
(José de Alencar. “Diva”. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. p.121.)
Aconteceu da mísera e mesquinha
O texto acima é um trecho do último capítulo de “Diva”, Que despois de ser morta foi Rainha.
romance de Alencar que, ao lado de “Senhora” e “Lucí- (Luis Vaz de Camões)
ola”, forma a trilogia de “perfis femininos”. Trata-se de
uma carta escrita por Emília, protagonista da estória, 6. De que obra de Luis Vaz de Camões o trecho apresen-
ao jovem médico Augusto. A partir da leitura do texto, tado foi retirado?
indique as características românticas presentes no frag-
mento, justificando com exemplos. 7. Qual o ano da publicação da obra em que o trecho
se enquadra?

U.T.I. - E.O. 8. O texto faz menção a uma passagem importante da


obra que se enquadra. Qual é esta passagem e qual o
Leia o texto a seguir para responder às questões 1 a 3. seu significado no todo da obra?
Ondas do mar de Vigo,
Leia o texto a seguir para responder às questões 9 a 11.
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá1 cedo! Eu cantarei de amor tão Docemente,
Ondas do mar levado2, Por uns termos em si tão concertados,
se vistes meu amado! Que dois mil acidentes namorados
E ai Deus, se verrá cedo! Faça sentir ao peito que não sente.

Martim Codax
1. verrá = virá\ 2. levado = agitado Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
1. Segundo a tradição da poesia medieval, como pode- Brandas iras, suspiros magoados,
-se classificar a cantiga de Martim Codax? Temerosa ousadia e pena ausente.

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Também, Senhora, do desprezo honesto 15. (UFJF-Pism)
De vossa vista branda e rigorosa
Contentar-me-ei dizendo a menor parte. TEXTO I
SONETO DO EPITÁFIO
Porém, para cantar de vosso gesto
Lá quando em mim perder a humanidade
A composição alta a milagrosa,
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Aqui fala saber, engenho e arte.
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
9. De que fase da obra de Luis Vaz de Camões o trecho Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
a cima foi retirado?
Não quero funeral comunidade,
10. Camões possui temas fundamentais em sua poesia. Que engrole “sub-venites” em voz alta;
Determine qual a temática predominante no texto “Eu Pingados gatarrões, gente de malta,
cantarei de amor tão docemente”? Eu também vos dispenso a caridade:

11. Do ponto de vista formal, como se pode classificar o Mas quando ferrugenta enxada edosa
poema acima? Justifique com pelo menos um aspecto. Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
Leia o texto a seguir para responder à próxima questão.
“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam Passou vida folgada, e milagrosa;
os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”.
própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os
(BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. In: LAJOLO, Marisa.
reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das provín- (Org.) Literatura Comentada: Bocage. São Paulo: Abril
cias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com Cultural, 1980. p. 91. Ortografia atualizada.)
força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um
homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo TEXTO II
do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam, são LEMBRANÇA DE MORRER
enforcados, estes furtam e enforcam.
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Padre Antônio Vieira – “Sermão do bom ladrão” Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
12. O jesuíta padre Antônio Vieira ficou famoso por seu Em pálpebra demente.
poder de argumentação em função do projeto de coloni-
zação catequética de Portugal. Um de seus instrumentos E nem desfolhem na matéria impura
era o “silogismo aristotélico”. Determine suas premissas A flor do vale que adormece ao vento:
e conclusão no trecho do “Sermão do bom ladrão”. Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
13. Qual é o documento que na história da Literatura
pode ser considerado a “Certidão de nascimento da Eu deixo a vida como deixa o tédio
Literatura Brasileira”? Determine também quem foi o Do deserto, o poento caminheiro
responsável por sua autoria e a data de sua publicação. – Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
14. (UFLavras) Leia os seguintes fragmentos de “Marília Como o desterro de minh’alma errante,
de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga. Onde o fogo insensato a consumia:

Texto 1 Só levo uma saudade – é desses tempos


Que amorosa ilusão embelecia.
Verás em cima de espaçosa mesa
[...]
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grandes livros,
Descansem o meu leito solitário
E decidir os pleitos. Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Texto 2
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.
Os Pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado; Sombras do vale, noites da montanha
Com tal destreza toco a sanfoninha, Que minha alma cantou e amava tanto,
Que inveja me tem o próprio Alceste. Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Responda:
Em qual dos fragmentos o sujeito lírico é caracterizado Mas quando preludia ave d’aurora
de acordo com a convenção arcádica? Explique. E quando à meia-noite o céu repousa,

42
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!
(AZEVEDO, Álvares de.Lira dos Vinte anos. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. p. 188-189.)

Com base nos textos I e II, responda:


a) Quais são as características do soneto de Bocage
(texto I) que nos permitem identificá-lo como satírico?
b) Os poemas de Bocage (texto I) e Álvares de Azevedo
(texto II) tratam diferentemente do mesmo tema. Iden-
tifique esse tema e explicite as maneiras como cada au-
tor o trata, relacionando-as com o contexto de época.

43
REDAÇÃO

45
DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA

DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA: é o gênero textual em que se discute um tema, a partir da defesa de um posicionamento
sustentado por argumentos. Trata-se de um tipo de texto frequentemente exigido nos exames vestibulares do país.

1. Estrutura da dissertação argumentativa


Trata-se do parágrafo inicial do texto. Ele tem função de situar o leitor a respeito do assunto e da problemática a
INTRODUÇÃO serem tratados e de anunciar o direcionamento a ser desenvolvido ao longo do texto, isto é, a tese.
O desenvolvimento da redação ocorre nos parágrafos intermediários do texto. Eles apresentam os argumentos
DESENVOLVIMENTO selecionados para a defesa da tese.
Trata-se do parágrafo de encerramento da redação. A depender do vestibular, pode apresentar uma reiteração da
CONCLUSÃO tese e dos argumentos desenvolvidos ou apresentar uma intervenção para o problema discutido. (ENEM)

2. Elementos básicos da dissertação argumentativa


TESE: É o posicionamento a respeito do tema. Trata-se de um período dentro do texto que resume ao leitor qual será o
ponto de vista defendido ao longo da redação. Geralmente, a tese aparece ao final do 01º parágrafo, isto é, da introdução.
ARGUMENTO: É uma ideia que sustenta a tese. Deve ser apresentada e discutida por meio de dados, fatos, citações,
exemplos ou analogias artísticas.

3. Reflexão Crítica
A elaboração da redação exige um momento de reflexão especial do candidato. Na maior parte dos casos, é mais produtivo
dedicar um tempo maior para a análise do tema e para a seleção dos argumentos que para a própria escrita, uma vez que
a construção de um ponto de vista claro e objetivo é a principal finalidade do texto.
Uma das maneiras de refletir criticamente sobre um assunto é separar o “joio do trigo”. No caso das dissertações xargu-
mentativas, a reflexão pode ser iniciada separando o senso comum do senso crítico. O SENSO CRÍTICO se encarrega
de analisar a fundo as problemáticas discutidas observando seu surgimento, suas causas e seus principais
agentes; o SENSO COMUM, por sua vez, apenas reflete uma opinião superficial ou limitada, usualmente
baseada em hábitos, crenças e preconceitos ou numa visão menos esclarecida sobre determinada situação.

A LINGUAGEM NA DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA

OBJETIVIDADE A linguagem utilizada na redação deve respeitar a norma padrão da língua portuguesa e prezar pela clareza e pela objetividade. Os termos
E CLAREZA que atribuem incerteza e imprecisão às afirmações devem ser deixados de lado.

§ Nota-se que... § É importante abordar...


§ Observa-se que... § Não se pode esquecer...
IMPESSOALIDADE
§ É possível perceber... § Torna-se fundamental reavaliar ...
Predomínio da 03º § Pode-se afirmar... § É necessário rever...
pessoa do singular
§ Vale mencionar que... § Passa-se a discutir...
§ Convém ressaltar... § É notável que...

46
APRESENTAÇÃO DA OPINIÃO
Vale dizer também que veículos de mídia distorcem as informações fornecidas pelos entrevistados.
Alguns verbos A elite brasileira ignora a noção de cidadania e, assim, submete os outros a uma relação de hierarquia.
no presente
No entanto, tal discurso deturpa a visão da sociedade a respeito de política.
A sociedade civil é conivente com as ações...
Adjetivos As ações vinculadas à cultura são inexpressivas...
A adoção de uma postura crítica é essencial aos sujeitos...

Há uma hipocrisia no discurso de parte da classe média brasileira.

Substantivos abstratos Logo, nota-se o desprezo da opinião pública em uma questão que deveria ser de interesse coletivo.
Assim, esse cenário apenas fortalece o desconhecimento sobre o assunto.

Diante disso, nota-se que o racismo continua presente no cotidiano brasileiro, ainda que parte da sociedade civil negue
sua existência.
Verbos de ligação Tornou-se comum negar o próprio discurso.
Além disso, vale dizer que o corpo docente permanece distante do interesse de seus alunos.

ESPECIFICIDADES DO ENEM

Características principais da redação ENEM:


§ Elaborar um texto em prosa, do tipo dissertativo-argumentativo, com tema de ordem social, científica, cultural
ou política. (Geralmente, discute-se problemas da sociedade).
§ Compor o texto a partir de uma tese que seja comprovada por argumentos.
§ Sugerir uma intervenção para o problema abordado. (A sugestão deve respeitar os direitos humanos).

1. Competências
COMPETÊNCIA 01: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
Dicas:
§ Esteja muito atento à construção sintática das orações e aos problemas de acentuação, pontuação, concordância
e ortografia;
§ Dê preferência ao emprego de períodos menores, em que as subordinações e orações intercaladas possam ficar mais
claras e organizadas aos olhos do leitor;
§ RELEIA o seu rascunho antes de passar a limpo procurando eliminar quaisquer desvios da norma padrão e usos lexicais
da informalidade.
COMPETÊNCIA 02: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para
desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.
Dicas:
§ Leia com MUITA ATENÇÃO o recorte temático proposto, buscando elaborar uma redação que atende integralmente ao
que se pede;
§ Construa seus parágrafos de modo a deixar claro que seu texto possui uma introdução com uma tese, desenvol-
vimento conclusão;
§ Utilize ao menos dois repertórios externos na redação que estejam vinculado ao tema e que sejam provenientes de
outras áreas do conhecimento: literatura, história, sociologia, filosofia, direito, cinematografia, música, etc.

47
COMPETÊNCIA 03: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos
em defesa de um ponto de vista.
Dicas:
§ Construa uma tese que já anuncie ao leitor quais serão seus argumentos:
§ Elabore seus parágrafos de desenvolvimento com sua opinião (introduzida pelo tópico frasal) e com explicações, infor-
mações e fatos que a comprovem. Para isso, utilize a estrutura do parágrafo-padrão.
COMPETÊNCIA 04: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção
da argumentação.
Dicas:
§ Capriche na coesão entre os períodos e parágrafos de seu texto. Lembre-se que as ideias devem estar sempre muito
bem amarradas;
§ Use a coesão referencial para retomar temos apresentados anteriormente, evitando ao máximo a repetição de palavras.
§ Use os conectivos para ligar seus períodos e parágrafos. Evite repetir conectivos: a pontuação máxima também depende
de um repertório amplo de operadores argumentativos.
COMPETÊNCIA 05: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direi-
tos humanos.
Dicas:
§ Faça uma proposta concreta. Pense em ações possíveis e evite clichês.
§ Não se esqueça de nenhum dos elementos: AGENTE, AÇÃO, MEIO, FINALIDADE. Lembre-se também de que ao
menos 1 desses elementos precisa estar DETALHADO.

EXEMPLO: REDAÇÃO ENEM 2019 – Nota 1000


Na obra “A Invenção de Hugo Cabret”, é narrada a relação entre um dos pais do cinema, Georges Mélies, e um menino órfão,
Hugo Cabret. A ficção, inspirada na realidade do começo do século XX, tem como um de seus pontos centrais o lazer propor-
cionado pelo cinema, que encanta o garoto. No contexto brasileiro atual, o acesso a essa forma de arte não é democratizado, o
que prejudica a disponibilidade de formas de lazer à população. Esse problema advém da centralização das salas exibidoras em
zonas metropolitanas e do alto custo das sessões para as classes de menor renda.
Primeiramente, o direito ao lazer está assegurado na Constituição de 1988, mas o cinema, como meio de garantir isso, não
tem penetração em todo território brasileiro. O crescimento urbano no século XX atraiu as salas de cinema para as grandes
cidades, centralizando progressivamente a exibição de filmes. Como indicativo desse processo, há menos salas hoje do que
em 1975, de acordo com a Agência Nacional de Cinema (Ancine). Tal fato se deve à falta de incentivo governamental – seja
no âmbito fiscal ou de investimento – à disseminação do cinema, o que ocasionou a redução do parque exibidor interiorano.
Sendo assim, a democratização do acessoao cinema é prejudicada em zonas periféricas ou rurais.
Ademais, o problema existe também em locais onde há salas de cinema, uma vez que o custo das sessões é inacessível às
classes de renda baixa. Isso se deve ao fato de o mercado ser dominado por poucas empresas exibidoras. Conforme teorizou
inicialmente o pensador inglês Adam Smith, o preço decorre da concorrência: a competitividade força a redução dos preços, en-
quanto os oligopólios favorecem seu aumento. Nesse sentido, a baixa concorrência dificulta o amplo acesso ao cinema no Brasil.
Portanto, a democratização do cinema depende da disseminação e do jogo de mercado. A fim de levar os filmes a zonas periféri-
cas, as prefeituras dessas regiões devem promover a interiorização dos cinemas, por meio de investimentos no lazer e incentivos
fiscais. Além disso, visando reduzir o custo das sessões, cabe ao Ministério da Fazenda ampliar a concorrência entre as empresas
exibidoras, o que pode ser feito pela regulamentação e fiscalização das relações entre elas, atraindo novas empresas para o
Brasil. Isso impediria a formação de oligopólios, consequentemente aumentando a concorrência. Com essas medidas, o cinema
será democratizado, possibilitando a toda a população brasileira o mesmo encanto que tinha Hugo Cabret com os filmes.

Trecho extraído de redação nota 1000 publicada na Cartilha do participante – Redação ENEM 2020

48
COMENTÁRIO DO INEP
C1: O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez
que a estrutura sintática é excelente e não há presença de desvios em seu texto.

C2: Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apre-
senta introdução em que expõe seu ponto de vista, desenvolvimento de justificativas que comprovam
esse ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertati-
vo-argumentativo. O tema é abordado de forma completa, revelando uma leitura cuidadosa da proposta
de redação: ainda no primeiro parágrafo, o participante anuncia a problemática ao abordar a centralização das salas
de cinema e o preço elevado dos ingressos que impedem a democratização efetiva do cinema. Observa-se também o
uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta pelo participante em mais de
um momento do texto: no primeiro parágrafo, o filme “A Invenção de Hugo Cabret” foi utilizado com o objetivo de
contextualizar o tema, apresentando o cinema como um lugar de lazer; no segundo parágrafo, o participante compara
o que é assegurado pela Constituição Federal com a situação atual do país; e, no terceiro parágrafo, ele se vale de um
argumento de autoridade, encontrado no pensamento de Adam Smith, para fundamentar a justificativa de que o preço
dos ingressos é alto porque há poucas empresas atuando no Brasil.

C3: Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, com informações,
fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em
defesa do ponto de vista. No primeiro parágrafo, o participante destaca a importância do cinema como fonte de lazer e
apresenta a situação dessa arte no Brasil: de acordo com ele, o acesso ao cinema é prejudicado porque as salas estão
centralizadas emg randes cidades e o preço dos ingressos é alto. Esses dois aspectos serão aprofundados de forma orga-
nizada, cada um em um parágrafo próprio. No segundo parágrafo, discutem-se as causas da centralização das salas do
cinema nas grandes cidades, o que fez com que as áreas rurais ou periféricas ficassem sem acesso a ele. Já no terceiro
parágrafo, as causas do alto custo das sessões de cinema são apresentadas e detalhadas. No último parágrafo, são apre-
sentadas propostas de solução para os dois problemas discutidos no texto, reforçando a importância de se proporcionar
esse tipo lazer à população brasileira.

C4: Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inade-
quações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Ademais”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de
um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “seus pontos centrais”, “essa forma de arte”, “o que”; 2º parágrafo: “mas”, “desse
processo”, “Sendo assim”; 3º parágrafo: “também””, “uma vez que”, “enquanto”; 4º parágrafo: “dessas regiões”, “Além
disso”, “Com essas medidas”, entre outros).

C5: Por fim, o participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desen-
volvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos ao propor investimentos em salas de cinemas em
lugares afastados e aumento da competitividade entre as empresas exibidoras.

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PLANEJAMENTO DE TEXTO

Siga as orientações abaixo para produzir um projeto de texto produtivo no vestibular:

PASSO 01. Análise do tema


Dedique alguns minutos a refletir sobre o recorte temático. Analise as palavras chaves que aparecem na proposta. Use-as
na hora de introduzir o tema na sua redação. Caso tenha dificuldades, procure transformar esse recorte em perguntas para
ajudar seu planejamento.

TEMA PERGUNTAS POSSÍVEIS


Por que o acesso ao cinema não é democratizado no Brasil?
A democratização do acesso ao cinema no Brasil
Essa democratização ocorre efetivamente?

Desafios para a formação educacional Quais são os desafios dessa formação?


de surdos no Brasil Quais problemas a formação desse indivíduos precisa enfrentar?

Eutanásia: entre a preservação à


A eutanásia representa mais uma liberdade de escolha ou um atentado à vida? Por quê?
vida e a liberdade de escolha

PASSO 02. Leitura da coletânea


§ Destaque as informações principais;
§ Analise a fonte de cada um dos excertos;
§ Relacione as informações dadas pela coletânea. Você deve avaliar os posicionamentos dos autores, analisar criticamente
os dados de infográficos, e verificar como todas essas informações aparecem no meio social abordado, podendo criar
orações que ilustrem a reflexão gerada a partir dessas análises.

PASSO 03. Brainstorm


§ Faça uma tempestade de ideias acerca do tema. Anote tudo aquilo que vier na cabeça: exemplos, analogias, compara-
ções, citações, definições, ilustrações, etc.;
§ Defina sua tese: a partir daqui você já sabe qual posicionamento defender.

PASSO 04. Aplicação de critérios de seleção


§ Selecione os argumentos que apresentem uma relação mais direta com a tese a ser desenvolvida e com a
temática abordada na coletânea;
§ Selecione os argumentos que tenham uma melhor sustentação: exemplo, argumento de autoridade, dado histó-
rico, comparação, etc;
§ Selecione o argumento que possa ser embasado por alguma teoria (sociológica, filosófica).
§ Após selecionar os argumentos e seus respetivos repertórios para comprovação, aproveite e selecione também o
repertório a ser utilizado na introdução para apresentar o tema.

50
PASSO 05. Crie uma lista organizada ou um mapa mental com
as ideias que você vai defender em cada parágrafo
§ Organize a ordem se aparecimento das informações em seu texto, inserido frases, orações das ideias que serão apresen-
tadas em cada um dos parágrafos.

LISTA ORGANIZADA POR PARÁGRAFOS

§ Repertório: A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – todo ser humano tem o direito de ser reconhecido
como pessoa perante a lei.
01.º § Problema: No entanto, essa situação não se concretiza de modo efetivo no Brasil/ muitas pessoas ainda se tornam
vítimas do tráfico humano no país/ tratadas como mercadoria.
§ Tese: O problema ocorre em função do desconhecimento civil sobre o assunto e é reforçado pela ação ineficaz do Estado.

§ Falta de informação entre a população.


02.º § Explicação: Baixa escolaridade + más condições econômicas
§ Exemplo: Caso “Fada madrinha” – Franca SP

§ Ações do Estado são pouco eficazes.


03.º § Explicação: falta de controle sobre os dados/b estratégias de fiscalização
§ Legislação: Isso contraria o Código civil brasileiro que prevê aperfeiçoamento.

§ Intervenção 01: MDH – informar a população sobre os riscos – campanhas em massa (tv/redes/transportes públicos)
– diminuir o número de vítimas
04.º § Intervenção 02: Gov. Federal – aperfeiçoar o sistema de segurança – criação secretaria tecnologicamente especializada
no recolhimento das informações – a fim de desmontar as organizações criminosas com mais facilidade
§ Assim, o Brasil poderá garantir maior proteção, como determina a DUDH.

MAPA MENTAL

2º) PARÁGRAFO 4º) PARÁGRAFO


1º) PARÁGRAFO
Falta de informação Intervenção I:
Repertório: A Declaração entre a população.
Universal dos Direitos Humanos MDH/informar a população sobre
Explicação: Baixa escolaridade + os riscos/campanhas em massa
(DUDH) – todo ser humano tem
más condições econômicas = (tv/redes/transportes públicos)/
o direito de ser reconhecido
como pessoa perante a lei. Exemplo: Caso “Fada diminuir o número de vítimas
madrinha” – Franca SP.
Problema: No entando, essa
situação não se concretiza de
modo efetivo no Brasil / muitas
pessoas ainda se tornam vítimas
do tráfico humano no país /
tratadas como mercadoria.
3º) PARÁGRAFO 4º) PARÁGRAFO
Tese: O problema ocorre em Ações do Estado são Intervenção:
função do desconhecimento civil pouco eficazes.
sobre o assunto e é reforçado Gov. Federal – aperfeiçoar o sistema
pela ação ineficaz do Estado. Explicação: Falta de controle sobre de segurança – criação secretaria
os dados/estratégias de fiscalização tecnologicamente especializada no
Exemplo: Isso contraria o que recolhimento das informações – a
o Código civil brasileiro que fim de desmontar as organizações
prevê aperfeiçoamento. criminosas com mais facilidade.
Assim o Brasil poderá garantir maior
proteção, como determina a DUDH.

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A Declaração Universal dos Direitos Humanos – documento do qual o Brasil é signatário – prevê que todo ser humano
tem o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei. Todavia, essa situação não se concretiza de modo efetivo
no Brasil, já que muitas pessoas ainda se tornam vítimas do tráfico humano no país, e passam a ser tratadas como mer-
cadoria por diferentes organizações criminosas. Nesse contexto, pode-se afirmar que a dificuldade em se combater tal
questão ocorre em função do desconhecimento civil sobre o assunto e é reforçada em virtude da ação ineficaz do Estado
no controle das ocorrências.
Inicialmente, a falta de informação da população mostra-se como um dos principais entraves no enfrentamento ao
problema. Isso porque pessoas com baixa escolaridade e más condições econômicas são enganadas pelas quadri-
lhas ao buscarem melhor qualidade de vida e, assim, aceitarem falsas promessas de emprego. Um exemplo dessa
articulação foi descoberto no município paulistano de Franca, onde uma quadrilha foi denunciada por traficar jovens
transexuais para fora do país. Na ocasião, os criminosos ofereciam o pagamento da cirurgia de mudança de sexo
como remuneração pelo trabalho, o que sugere a facilidade de tais organizações em se aproveitarem de grupos mais
vulneráveis da sociedade.
Cabe salientar, ainda, que a ineficácia do Estado em coibir a ação dessas quadrilhas acentua a gravidade do proble-
ma. Isso se deve ao fato de, mesmo diante das denúncias, não haver um sistema que organize os dados coletados
por diferentes entidades – como a polícia Federal e delegacias regionais – e, com eles, produza ações estratégicas de
combate às quadrilhas. Esse cenário contraria o Código Civil Brasileiro, que determina a ampliação e aperfeiçoamento
das políticas de repressão ao tráfico humano no país. Nesse sentido, nota-se que o problema também carece de ações
na esfera da administração pública.
Diante desse contexto, é fundamental aprimorar o combate ao tráfico humano no Brasil. Portanto, cabe ao Ministério
da Mulher, Família e Direitos Humanos informar a sociedade a respeito da ação das quadrilhas, por meio da ampliação
em massa de campanhas que alertem sobre os riscos de propostas atraentes, com o objetivo de diminuir o número de
vítimas. Além disso, o Governo Federal deve implantar um sistema de controle das ocorrências desse crime, mediante a
criação de secretarias tecnologicamente preparadas para reunir as informações e repassá-las aos órgãos competentes, a
fim de que estes ajam de modo mais efetivo. Desse modo, o Brasil se aproximará da proteção ao indivíduo prevista pela
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Redação Modelo - Hexag Vestibulares
ESPECIFICIDADES DA FUVEST E DA VUNESP

Especificidades da Fuvest
Proposta com viés mais Os recortes temáticos costumam trazer discussões mais amplas que abordem questões referentes ao indivíduo
ou à sociedade como: os limites da arte, a menoridade do homem, a interferência do passado na compreensão
abstrato/reflexivo do presente, o papel da ciência do mundo contemporâneo, entre outros.

A FUVEST avalia a capacidade do aluno de desenvolver o tema apresentado. De modo geral, o tema não
é avaliado apenas pela sua pertinência à proposta, mas sim pela sua profundidade e articulação com as
Desenvolvimento ideias sugeridas nos textos motivadores.
do tema e leitura
Nesse sentido, ela exige que o aluno desenvolva o tema de modo profundo, a partir de um ponto de vista crítico,
da coletânea que transcenda os elementos da coletânea e analise as relações tensivas entre todos os elementos enfocados
na proposta.

Evite fórmulas prontas: procure fugir de estruturas pré-fabricadas e mostre ao leitor que possui competência para
elaborar um texto argumentativo a partir de suas próprias reflexões.
Autoria
Autoria dentro da estrutura dissertativa argumentativa: busque a construção de um texto que único que atenda
ao gênero e ao tema proposto.

Fundamente seus argumentos e crie sua introdução a partir de um repertório sociocultural diferente e criativo:
procure selecionar autores, teorias, livros, filmes, etc. que efetivamente tenham uma relação próxima com o tema
Repertório pessoal e que acrescentem à discussão realizada. Evite usar “citações-coringa” muito divulgadas na internet como base
de seus argumentos.

Analise o tema de modo aprofundado: Na Fuvest, é fundamental fugir do senso comum sobre o tema abordado.
Reflexão crítica Sempre procure ler os textos da coletânea e encontrar uma abordagem mais profunda para a temática discutida,
valendo-se, sobretudo, de teorias que possam fundamentar seus argumentos.
Atente à escolha do léxico: A Fuvest valoriza não apenas o uso da norma culta do português, mas também
Valorização do uma seleção vocabular expressiva que contribua para a construção das ideias dentro de um determinado
vocabulário expressivo tema. Portanto, procure empregar um vocabulário preciso, conciso e adequado ao tema discutido, evitando
clichês e frases feitas.

Lembre-se das especificidades da FUVEST


§ Proposta que discute temas abstratos, amplos ou atemporais;
§ Coletânea composta por textos de diferentes gêneros: pinturas, poemas, textos da filosofia, sociologia ou história;
DICAS:
§ Evite fórmulas prontas ou muito engessadas: Você não precisa estruturar seu texto com mecanismos de coesão tão
comuns como “Em primeira análise..” etc.
§ Fundamente seus argumentos e crie sua introdução a partir de um repertório sociocultural diferente:
Evite citações “coringas”. Nesses casos, prefira referir-se ao conceito do autor.
§ Analise o recorte temático e a coletânea de modo profundo: Na FUVEST, o aluno é avaliado pela capacidade
de desenvolver aquele tema. Ou seja, mais do que compreendê-lo, é fundamental estabelecer uma análise profunda
da discussão proposta.
§ Atente à escolha do léxico.

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Especificidades da Vunesp
Proposta com viés As provas frequentemente abordam temas sociais, políticos, culturais, econômicos ou científicos que estão em
discussão na mídia, nas esferas legislativas, nas redes sociais, etc. (Uberização/aborto/descriminalização da maco-
mais polêmico nha/eutanásia/educação domiciliar/DST entre jovens, etc).

Os excertos escolhidos pela VUNESP costumam apresentar pontos de vista divergentes sobre o assunto em
questão. Essa escolha não é aleatória: ela induz o candidato a criar argumentos que sejam capazes de corro-
Polarização de ideias borar ou contestar os posicionamentos apresentados na coletânea, fazendo – sobretudo – o uso de ressalvas.
Sendo assim, é importante observar se os argumentos escolhidos para sustentar a tese já não estão “invalida-
dos” por um desses excertos da coletânea.

É preciso muita atenção ao ler o recorte temático proposto pela VUNESP. Isso porque ele costuma abordar
Atenção ao recorte um mesmo assunto a partir de recortes diferentes. Exemplo: O voto nulo é um ato político eficaz? (UNIFESP
2017)/ O voto deveria ser facultativo no Brasil? (UNESP 2018). Ambos os temas falam sobre votos e eleição,
temático mas possuem recortes diferentes. Além disso vale considerar que esse recorte pode ser apresentado em forma
de perguntas ou de afirmações.

Diferentemente da FUVEST, a VUNESP possui um modelo padronizado de apresentação da proposta. Ele


consiste na seleção de 2 a 5 textos que servem de auxílio para a compreensão do tema e para a elaboração
dos argumentos pelo candidato. Como a maior parte desses excertos é proveniente do meio jornalístico,
Padrão de coletânea entende-se que as propostas da VUNESP dialogam com temas em constante debate na mídia, o que facilita
a construção dos argumentos. No entanto, é importante saber interpretar todos os gêneros textuais: quadri-
nhos, charges, textos filosóficos, poemas, etc, pois – eventualmente – algumas coletâneas são compostas de
diferentes tipos de texto.

Adote um posicionamento claro. É fundamental que o ao ler o recorte temático e a coletânea, você já
Adoção de um saiba ao menos qual das ideias quer defender. Evite “ficar em cima do muro”, pois corre-se um risco
posicionamento claro muito alto de cair em contradição. Assuma seu posicionamento, e escolha ao menos dois argumentos
para provar que você está correto em sua argumentação.

Lembre-se das especificidades da VUNESP


§ Proposta que discute temas contemporâneos diante dos quais o aluno precisa se posicionar;
§ Coletânea composta por visões e posicionamentos polarizados;
§ Recortes temáticos com assuntos polêmicos;
DICAS:
§ Atente do recorte temático proposto: cuidado com a fuga ao tema.
§ Adote um posicionamento claro: evite cair em contradição ao longo do texto
§ Valorize seu repertório pessoal: procure legitimar suas ideias com repertórios exteriores à coletânea.
§ Capriche no desenvolvimento de seu parágrafo:
§ Apresente a polêmica ao leitor: Faça contra-argumentos ou mencione, em ao menos um momento do texto, a
invalidade dos argumentos contrários ao seu.

54
INTRODUÇÃO I - ESTRUTURA

1. Composição da introdução:
Uso de um repertório para a contextualização do tema, apresentação do recorte temático proposto e apresentação da tese.

1. Repertório: Inicie o texto com algum repertório sociocultural para poder criar uma analogia com o tema a ser
CONTEXTUALIZAÇÃO discutido. (Literatura; História; Sociologia; Filosofia; Legislação).

2. Apresentação do tema: A partir da analogia estabelecida, apresente o tema da redação. Use palavras próximas
DIRECIONAMENTO ao recorte temático para garantir a compreensão do tema.
3. Tese: Apresente o seu posicionamento a respeito do tema proposto.

2. Estratégias de introdução
Esse modelo de introdução, usado por muitos alunos, é um dos mais seguros para os que possuem mais
Apresentação dificuldade de iniciar a redação. Ele pode ser iniciado por afirmações, declarações gerais e até mesmo
da questão exemplos a respeito do assunto, seguidos de exposição da problemática que envolve o tema e, finalmente,
a tese do autor.

Esse modelo consiste em apropriar-se de uma imagem/metáfora que, de alguma forma, relacione-se com o as-
sunto em questão. Trata-se selecionar uma imagem (dentro de um universo simbólico) que conduzirá o raciocínio
Uso de imagens a ser construído.
Essa imagem pode ser uma história, uma anedota, um dito-popular, isto é: algo que aparentemente não se
relaciona com o tema, mas que é usado como forma de construir uma analogia.

O uso de dados históricos é um dos modelos mais usados na redação, justamente por ser uma forma segura de
iniciar o período.
Dados históricos No entanto, é preciso ter cuidado: a informação deve estar diretamente relacionada com o tema e deve ser usada
apenas para introduzir a questão. Muitas vezes, alguns alunos exageram nos detalhes históricos e esquecem o
objetivo principal, deixando a introdução longa e tediosa.

Outra forma produtiva de se iniciar uma redação é a partir do uso de referências da ficção, isto é, menções a
filmes, livros, séries, poemas e até mesmo pinturas. Para empregar essa técnica, é preciso criar uma relação
entre um aspecto da obra e a realidade do tema abordado, estabelecendo semelhanças, diferenças e outras
Referências ficcionais analogias possíveis.
No entanto, a recomendação é a mesma do uso de dados históricos:a referência ficcional só deve entrar se ela
efetivamente puder criar uma analogia com o tema discutido.

Também é possível introduzir a redação apresentando dados de leis que se relacionem com o tema abor-
dado. É comum encontrar redações que se referem à Constituição Federal Brasileira, ao Estatuto da Criança
Uso de Leis e do Adolescente e a outras determinações legais, estabelecendo uma relação entre tais leis e os recortes
temáticos propostos.

Usar recortes teóricos da filosofia e da sociologia na introdução da redação pode ser uma boa alternativa para o
Uso de teorias seu texto, pois essas áreas dialogam, direta ou indiretamente, com questões sociais, políticas, científicas, culturais
filosóficas/sociológicas e comportamentais que estão presentes em muitas propostas de redação.
e de outras áreas A dica é tentar selecionar um repertório bem adequado à temática discutida e caprichar na conexão entre esse
científicas repertório e a apresentação do tema. Além disso, é fundamental conhecer bem o conceito e saber escrever o
nome do autor da obra, pois isso trará legitimidade e veracidade às analogias estabelecidas.

55
3. Exemplos de introdução
EXEMPLO ENEM: A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO BRASIL

O dramaturgo alemão Bertold Brecht, na peça “A exceção e a regra”, afirma que as pessoas devem desconfiar
1. REPERTÓRIO daquilo que se apresenta como aparentemente natural, já que o cotidiano da sociedade da época estava repleto
de confusões e conflitos capazes de produzir enganos e injustiças no convívio entre os cidadãos.

Embora a concepção do autor esteja presente em uma obra ficcional do início do século XX, é possível dizer
2. APRESENTAÇÃO DO que essa recomendação seria providencial para o momento contemporâneo brasileiro, uma vez que boa
TEMA/PROBLEMA: parte da população do país naturaliza a violência contra determinados grupos sem refletir atentamente
sobre tal hábito.

Nesse sentido, pode-se afirmar que a ausência de uma consciência histórica entre a sociedade civil e a legi-
3. TESE: timação da violência por parte do Estado são umas das principais razões para a persistência desse processo
de banalização.

EXEMPLO VUNESP: A ESPETACULARIZAÇÃO DA NOTÍCIA NA TELEVISÃO: ENTRE O COMPROMISSO COM A INFORMAÇÃO


E AUSÊNCIA DE POSTURA ÉTICA

Noticiar fatos, eventos ou testemunhos a partir de um relato jornalístico mais apelativo ou emocional não é algo
recente na história da comunicação brasileira. Na passagem do século XIX para o XX, era comum encontrar no-
1. REPERTÓRIO tícias de violência, suicídio ou atropelamentos sendo apresentadas de modo dramático e até mesmo cômico em
veículos de grande projeção, como no jornal o Estado de São Paulo.

Atualmente, essa mesma lógica baseada no espetáculo ainda pode ser vista na mídia nacional, seja ela impres-
sa ou televisiva, pois muitos jornais, revistas, programas policialescos e até mesmo atrações vespertinas voltadas
2. APRESENTAÇÃO DO a temas variados se valem dessa narrativa chamativa para apresentar os fatos do dia a dia. Nesse contexto,
TEMA/POLÊMICA: muitas emissoras de televisão defendem que essa espetacularização se trata apenas de um modo diferente
de informar a opinião pública, marcado, sobretudo, por uma forte ligação com os telespectadores e pelo uso
constante da linguagem popular.

No entanto, convém ressaltar que tais atrações não se mostram tão comprometidas com a informação e, ain-
3. TESE: da, rompem com a ética ao explorarem as dores e os traumas dos indivíduos e ao banalizarem discussões
importantes para a vida em sociedade.

EXEMPLO FUVEST: DE QUE MANEIRA A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA LIDA COM AS EMOÇÕES?

1. REPERTÓRIO + O cientista Charles Darwin, em 1872, escreveu o livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais”
buscando evidenciar o modo como as espécies reagiam emocionalmente em diferentes situações. No século
APRESENTAÇÃO XX, Sigmund Freud também procurou estudar o funcionamento da mente humana e sua relação com as ações
DO TEMA e emoções dos indivíduos.

No entanto, apesar dos avanços e esforços históricos da ciência em compreender o funcionamento das emoções
humanas, pode-se afirmar que o sujeito contemporâneo não apresenta uma relação positiva com tal ques-
2. TESE: tão: em vez reconhecer a naturalidade das emoções, a sociedade de hoje recusa tais afetos e assim passa
a sofrer graves consequências com essa escolha.

56
INTRODUÇÃO II - ELABORAÇÃO DA TESE

1. Características
De modo geral, a escrita da tese não costuma ser muito extensa. Em geral, ela é redigida em um ou dois períodos
de modo sucinto a fim de que o leitor consigo identificar facilmente qual será o ponto de vista adotado naquela dissertação.
Além disso, também tem a função de mostrar ao leitor qual será o projeto de texto adotado ao longo da redação,
fazendo possíveis referências aos argumentos a serem discutidos nos parágrafos de desenvolvimento. Essa apresenta-
ção permite ao corretor identificar um planejamento prévio por parte do aluno e também a existência de uma possível progres-
são textual ao longo da dissertação.
Há também um outro detalhe importante, por se tratar de um posicionamento do autor, é fundamental que a tese seja com-
posta por enunciados argumentativos, que possam ser questionados, contestados e que, obrigatoriamente,
pressuponham explicações. Lembre-se das sugestões oferecidas na AULA 02 para redigir suas teses.

Tema: Democratização do acesso ao cinema no Brasil – Enem 2019 – 1ª aplicação

“O cinema, considerado a sétima arte, é um importante meio de difusão do conhecimento, entretenimento e


cultura. Por oferecer tamanha carga intelectual, ele deveria ser de fácil acesso a todos. No Brasil, entretanto,
Exemplo: percebe-se que, no decorrer dos anos, o acesso a essa arte tornou-se pouco democrático devido
a fatores históricos e à reduzida a atuação estatal para resolver essa problemática.
Trecho extraído de redação nota 1000 do ENEM 2019, publicada na cartilha “Redação a Mil 2.0”
A tese do candidato descreve que o cinema se tornou pouco democrático devido a fatores históricos e devido à
baixa atuação do Estado para promover essa democratização. Da mesma forma, o autor se vale de substantivos
Comentário: abstratos e adjetivos “fatores históricos” e “atuação reduzida” para declarar seu posicionamento e determinar
seu desenvolvimento.

Tema: O PAPEL DA CIÊNCIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO – Fuvest 2020


A produção de conhecimento acompanha o ser humano desde as origens da espécie, paulatinamente, foi pos-
sível transformar a roda em carro e este em avião. No entanto, algumas épocas históricas elucidam mais clara-
mente a valorização da razão e da ciência, fazendo uma ruptura com o passado, como o Renascimento. Inscrito
em um quadrado e em um círculo, o “Homem-Vitruviano” de Leonardo da Vinci sintetiza essa exaltação do saber
Exemplo: e da potencialidade humana, opondo-se, assim, aos saberes dogmáticos da “Idade das Trevas”. Contudo, a
sociedade contemporânea caminha ao contrário da história da humanidade: vem desvalorizando
a luz da ciência, retornando às sombras do passado.
(Trecho extraído de redação nota 48 da Fuvest 2020 – Estatísticas e desempenho dos
alunos da 108ª turma da Faculdade De Medicina da Universidade De São Paulo.)

O posicionamento adotado pelo autor da redação defende que ciência tem sido desvalorizada, o que tem levado
a sociedade de volta às sombras do passado. É possível perceber que essa tese mostra um ponto de vista claro
Comentário: e direto sobre o tema abordado, ao empregar os verbos no gerúndio “desvalorizando a luz da ciência” e “retor-
nando às sombras do passado”.

VESTIMENTAS RELIGIOSAS NO ESPORTE: LEGITIMAÇÃO DA OPRESSÃO OU LIBERDADE DE MANI-


Tema:
FESTAÇÃO RELIGIOSA? – Unifesp 2020
Recentemente, uma marca de materiais de esporte optou por suspender as vendas de seu hijab esportivo, um
traje demandado por algumas praticantes de corrida islâmica, o que gerou controvérsias entre segmentos da co-
munidade global. Por um lado, políticos nacionalistas ocidentais, como Aurore Bergé, defendem que a existência
do hijab esportivo é uma legitimação da opressão às mulheres e afronta os valores ocidentais; por outro lado, há
quem enxergue na vestimenta um modo de tornar o esporte acessível às mulheres islâmicas. De qualquer forma,
Exemplo: a presença de vestimentas religiosas no esporte configura-se em uma liberdade de manifestação
religiosa, uma vez que a opção pelo seu uso é uma escolha individual de cada mulher e permite
que sua integração ao esporte seja acompanhada da preservação de sua cultura.
(Trecho extraído de redação nota 47,727 do vestibular UNIFESP 2020 – Disponível em: Estatísticas dos
estudantes aprovados em medicina na Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo.)

A tese em destaque no trecho acima mostra uma resposta direta à pergunta elaborada pela banca, bem como
Comentário: traça o desenvolvimento dos argumentos que comprovam essa tese: o fato de se tratar de uma escolha individual
e o fato de tal ação permitir a integração ao esporte acompanhada da preservação da cultura.

57
1.1. Exemplos
A) ENEM
§ A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
A adoção sistemática dessas ações bárbaras é fruto da grande dificuldade do país em combater, no discurso e na prática,
as ações que inferiorizam as mulheres. E tal ineficiência apenas reforça os ciclos violentos, pois transformam a omissão de
todos em uma regra a ser seguida.
§ O Histórico desafio de se valorizar o professor
Nesse contexto, torna-se ainda mais difícil valorizar a profissão docente, pois, apesar de sua importância, ela ainda enfrenta
uma forte estigmatização diante da opinião pública que é reforçada pela ausência de incentivos salariais por parte das
instituições de ensino.

B) VUNESP
§ O fracasso da lei de cotas para deficientes: negligência das empresas ou falha do estado?
No entanto, pode-se afirmar que a ineficácia da lei reside, sobretudo, na falta de interesse das empresas em contratar os defi-
cientes, ao subjugar a capacidade destes em atuar profissionalmente e ao burlar a legislação com a finalidade de não ser punida.
§ Uberização: entre a autonomia do trabalhador e a perda de direitos trabalhistas
Nesse contexto, pode-se afirmar que o processo de uberização, de fato, representa uma perda grave dos direitos trabalhistas,
afetando tanto a saúde quanto a qualidade dos trabalhadores. E a pretensa autonomia conquistada por tais indivíduos nesse
processo apenas legitima a precarização de sua função.

C) FUVEST
Como os temas abordados pela FUVEST trazem sempre abordagens mais amplas, reflexivas e atemporais, é importante
que o aluno treine diferentes formas de elaborar sua tese, seja utilizando alguns verbos no presente, verbos de ligação,
adjetivos ou substantivos abstratos. A melhor solução é trabalhar bem com todos os recursos argumentativos disponíveis
para que sua tese tenha autoria e possa ser clara e objetiva em relação ao tema abordado.
É muito comum ouvir da boca de jovens hoje em dia que são apolíticos ou que a política não os diz respeito.
Ainda assim, o Brasil possui um gigante movimento estudantil que participa das mais variadas discussões e
lutas. É possível não ser engajado – seja por preguiça ou acomodação – mas apolítico, nunca. A
política está presente em toda e qualquer detalhe da vida econômica e social, ela é indispen-
sável e ser apolítico é uma ilusão.
(Trecho extraído de redação modelo do exame FUVEST 2012 -
Tema: Participação Disponível www.fuvest.br (Acesso em 17.07.2017)
política: indispensável
ou superada? O surgimento da ciência política remonta à época da Antiguidade, ainda quando os gregos se organizavam em torno
da pólis e começavam a definir os primeiros conceitos de cidadania que, posteriormente, difundir-se-iam pelo mundo.
É indiscutível a importância da política para a, então, formação da sociedade tal como ela é conheci-
da na contemporaneidade. A partir dela, foram definidos direitos e deveres e, ainda mais relevante,
tornou-se possível a participação do povo nas decisões que dizem respeito à vida em comunidade.
(Trecho extraído de redação modelo do exame FUVEST 2012 -
Disponível www.fuvest.br (Acesso em 17.07.2017)

58
Discussão temática: o IV. ATORES OU SITUAÇÕES QUE PODEM
SER MOBILIZADOS NA DISCUSSÃO
saneamento básico no brasil DO TEMA (PROPOSTA ENEM)
É IMPORTANTE SABER (COBRANÇA POR PARTE DA POPULAÇÃO)

Portanto, a existência de uma política pública, institucionalizada por

I. DADO ESTATÍSTICO RELEVANTE meio da legislação, não significa a efetiva solução do problema. É
necessário que a população se mobilize para fiscalizar e cobrar dos
De acordo com estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil, os estados
governos a solução do problema. Protestos públicos organizados
que menos receberam investimentos em saneamento básico entre 2015
pela população são consideradas formas de avaliar o mérito da po-
e 2017 foram Amazonas, Acre, Amapá, Alagoas e Rondônia, totalizando
lítica pública, podendo influenciar o governo a pensar em soluções
1,7%. Todos esses Estados são da Região Norte do país, onde se encontra
mais efetivas ou a reformular a política vigente.
a maior concentração de pobreza, portanto, onde há menos acesso a in-
fraestrutura, está também a maior concentração de pobreza – junto com Maria Luísa Brasil Gonçalves Ferreira - Bacharel em Direito pela Es-
a Região Nordeste. cola Superior Dom Helder Câmara. Pós-graduanda pela Escola Supe-
“A desigualdade de acesso ao saneamento básico” rior de Advocacia da OAB. Assistente jurídica no Tribunal de Justiça
https://domtotal.com/ / (04.12.2019) de Minas Gerais.

“A desigualdade de acesso ao saneamento básico” http://


II. DADO HISTÓRICO RELEVANTE ecossocioambiental.org.br/ (Acesso em 20.02.2020)

A primeira obra de saneamento básico no Brasil é datada de 1561. Estácio


de Sá, militar português responsável por expulsar os franceses da região V. ANALOGIA LITERÁRIA
da baia de Guanabara e fundar a cidade do Rio de Janeiro, mandou cons- Monteiro Lobato era muito envolvido com os problemas do Brasil.
Prova disso é que ele criou um personagem que nos ajuda a discutir
truir um poço para abastecer a cidade.
a questão da saúde do nosso País: o Jeca Tatu (o qual virou símbolo
Outra obra importante do período foi o primeiro aqueduto do país, dos matutos que vivem no interior do Brasil). Por meio dele, Lobato
denunciou as péssimas condições de saúde e de saneamento das
hoje conhecido como Arcos da Lapa, também no Rio de Janeiro. Con-
populações que vivem no campo e falou sobre doenças típicas das
siderada a obra arquitetônica de maior importância do período colo- áreas rurais, como o amarelão.
nial do Brasil, os Arcos da Lapa transportavam água do Rio Carioca
“Monteiro Lobato e Jeca Tatu” https://siteantigo.
para o Chafariz. A obra começou a ser construída em 1673 e só foi portaleducacao.com.br/ (Acesso em 20.02.2020)
concluída em 1723.

“História do saneamento básico no Brasil” http://etes- VI. LEGISLAÇÃO


sustentaveis.org (Acessado em 08.12.2019)
Art. 2o Os serviços públicos de saneamento básico serão prestados com
base nos seguintes princípios fundamentais:
III. ARGUMENTO DE AUTORIDADE I - universalização do acesso;
Consultor do Painel Saneamento Brasil, o professor Fernando Garcia de II - integralidade, compreendida como o conjunto de todas as atividades
Freitas, da consultoria EXANTE, comenta em nota: e componentes de cada um dos diversos serviços de saneamento básico,
propiciando à população o acesso na conformidade de suas necessidades
“Geralmente, jovens que moram em residências sem acesso à água e e maximizando a eficácia das ações e resultados;
ao serviço de coleta de esgotos sofrem com doenças e se afastam de III - abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e ma-
suas atividades escolares. Isso afeta o tempo livre em que eles poderiam nejo dos resíduos sólidos realizados de formas adequadas à saúde pública
estar estudando e os indicadores mostram que acabam tendo baixo ren- e à proteção do meio ambiente;
dimento em provas como o ENEM”. IV - disponibilidade, em todas as áreas urbanas, de serviços de drenagem
e manejo das águas pluviais, limpeza e fiscalização preventiva das res-
“Falta de acesso a saneamento básico resulta em baixa renda e gasto
pectivas redes, adequados à saúde pública e à segurança da vida e do
com internações, diz estudo” https://g1.globo.com (23.04.2019)
patrimônio público e privado; (Redação dada pela Lei nº 13.308, de 2016)
V - adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as pecu-
liaridades locais e regionais;
VI - articulação com as políticas de desenvolvimento urbano e regional,
de habitação, de combate à pobreza e de sua erradicação, de proteção
ambiental, de promoção da saúde e outras de relevante interesse social
voltadas para a melhoria da qualidade de vida, para as quais o sanea-
mento básico seja fator determinante;

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2007/lei-11445-
5-janeiro-2007-549031-normaatualizada-pl.html

59
multimídia: vídeo multimídia: podcast
Fonte: Youtube Fonte: JornalUsp
Saneamento básico no Brasil - Sala Debate JORNAL DA USP: Momento Sociedade #41:
Conheça os desafios da implementação
do novo marco de saneamento básico

multimídia: vídeo multimídia: podcast


Fonte: TV Câmara Fonte: JornalUsp
Privatizar o saneamento básico é a solução? JORNAL DA USP: Momento Sociedade
#44: Falta de avanço no saneamento é
resultado do excesso de burocracia

Proposta Enem
TEXTO 1
A situação do saneamento é dramática no Brasil. Hoje, apenas um em cada dois brasileiros têm acesso à coleta e tratamento de esgoto. Mas da
mesma forma que em áreas como educação e saúde, o número médio esconde grandes desigualdades regionais. Dados oficiais levantados por
EXAME mostram o tamanho da variação nos dados de população com coleta de esgoto de 2018. Nenhum estado nordestino passa da faixa dos
40%, por exemplo, embora a Bahia chegue perto.

Santa Catarina, um dos estados mais ricos do país, não chega sequer a 30% neste quesito enquanto o vizinho Paraná passa dos 70%, número
próximo de Minas Gerais e Paraná.

A mesma situação se repete na questão do acesso à água tratada. Ainda que a média nacional seja bem mais alta, de 83%, há estados como São
Paulo e Distrito Federal próximos da universalização enquanto três estados da região Norte (Acre, Pará e Rondônia) não chegam sequer à faixa de 50%.

A importância do saneamento também ficou ainda mais escancarada diante da pandemia do novo coronavírus. Em maio de 2020, uma pesquisa
da Universidade Federal de Pelotas (UFP) nos maiores municípios de cada região do país foi feita para identificar quais tinham maior incidência de
casos per capita de coronavírus.

Nos municípios que ocupam o topo do ranking, o abastecimento de água é precário. Essa carência impossibilita a higiene frequente das mãos, uma
das medidas mais recomendadas pelos médicos.

Uma coisa é certa: investir em saneamento básico é um ganho também para a economia - tanto no sentido de produtividade quanto de equi-
líbrio fiscal. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cada dólar investido em saneamento significa uma economia de 4,3 dólares na saúde.

“Falta de saneamento básico reflete desigualdades do Brasil e afeta saúde” https://exame.com/ (30.06.2020)

60
TEXTO 2

http://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2017/02/maranhao-ocupa-23-posicao-em-saneamento-basico-diz-pesquisa.html (21.02.2017)

TEXTO 3
Moradores de locais sem saneamento básico ganham salários menores do que a população com acesso a água, coleta e tratamento de esgotos.
Também estão mais vulneráveis a doenças comuns em áreas em que essa infraestrutura inexiste ou é precária – e o efeito disso é uma elevação nas
despesas com saúde pública. Doenças como diarreias, verminoses, hepatite A, leptospirose e esquistossomose, dentre outras, estão entre as mais
comuns que afetam moradores de áreas sem saneamento ou com serviço precário de água e esgoto.

“Falta de acesso a saneamento básico resulta em baixa renda e gasto com internações, diz estudo” https://g1.globo.com (23.04.2019)

TEXTO 04
Cinco meses após a sanção do novo Marco Legal do Saneamento Básico, o presidente Jair Bolsonaro editou hoje (24) decreto para regulamentar os
repasses a governos locais para apoiar licitações.
O decreto define as regras para que a União envie recursos e ofereça apoio técnico para que estados e municípios se adaptem às novas regras do
setor de saneamento. O texto também estabelece uma série de atividades a serem executadas pelo governo federal para facilitar a transição dos
governos locais ao novo modelo.
O novo Marco Legal do Saneamento Básico torna regra a realização de licitações para contratação de companhias de água e esgoto. Pelo novo
modelo, a iniciativa privada passará a disputar as concorrências em igualdade de condições com as estatais locais.
Como no Brasil, a responsabilidade pelo saneamento cabe aos municípios ou a consórcios de municípios, o novo modelo prevê que a União forneça
apoio técnico e financeiro aos governos locais para a formulação dos processos de licitação.
Segundo o decreto, os governos locais precisam cumprir critérios para receber a ajuda técnica e os repasses da União, como a obediência a normas
da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o comprometimento com a regionalização do serviço de saneamento.

“Decreto regulamenta novo Marco Legal do Saneamento Básico”


A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua
formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o
tema A PRECARIEDADE NO SANEAMENTO BÁSICO BRASILEIRO, apresentando proposta de intervenção que respeite
os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de
seu ponto de vista.

61
Proposta vestibular
TEXTO 01
Atualmente, na maior parte dos municípios, é o Estado quem cuida da rede de água e esgoto, mas o acesso a esses serviços ainda é bastante limita-
do no país e o nível de investimentos no setor é muito baixo. Metade da população (mais de 100 milhões de pessoas) não tem acesso a um sistema
de esgoto, enquanto 16% (quase 35 milhões) não tem acesso a água tratada, segundo dados de 2018 do SNIS (Sistema Nacional de Informações
sobre Saneamento). Só 6% das cidades são atendidas pela iniciativa privada. Nas outras 94%, o serviço é feito por companhias estaduais ou muni-
cipais, com ajuda do governo federal. Apesar dessa diferença, as empresas privadas respondem por 20% de todo investimento.

“O que muda com a lei do saneamento? Água e esgoto podem ficar mais caros” https://economia.uol.com.br (24/06/2020)

TEXTO 02
Os governos federais, estaduais e municipais, em geral, pouco se dedicaram a questão do saneamento básico. Pra se ter ideia da dimensão do
descaso, o Ranking do Saneamento 2019 do Instituto Trata Brasil indica que, em 2017, o país lançou aproximadamente 5.622 piscinas olímpicas de
esgoto não tratado na natureza. O cenário é vergonhoso e abriu uma brecha enorme para quem defende a privatização. Na verdade, sem grandes
exemplos que confirmem que este é o melhor caminho.
Em 94% das cidades, o serviço é feito por companhias estaduais ou municipais, com suporte do governo federal. Nas restantes, o serviço é realizado
pela iniciativa privada, que responde por 20% do investimento no setor, o que não significa que tudo vai bem. Faz vinte anos que algumas cidades
privatizaram o sistema de esgoto e a gestão da água e faltam boas notícias: centenas de milhões de reais em concessões passaram por quatro
concessionárias, que tiveram prorrogação de contrato e alívio de metas.
O tema é complexo e alguns exemplos colocam em xeque a eficácia da privatização, como em Manaus, a maior capital da floresta amazônica, ba-
nhada pela maior bacia hidrográfica do mundo, como destaca o projeto Água, sua linda. Faz 19 anos que o serviço de esgoto é gerido por empresas,
mas somente 10,18% do esgoto é coletado na cidade, ou seja, praticamente 90% é jogado em córregos, igarapés, lagos e no rio Negro. Na periferia,
a população não tem acesso à água potável.

Monica Nunes. “Privatização do saneamento básico: o que muda com a aprovação da nova lei” https://conexaoplaneta.com.br/ (25.06.2020)

TEXTO 03
É vergonhoso o desempenho do Brasil no saneamento básico, e não há nenhum argumento favorável à sua manutenção nas mãos de empresas
públicas estaduais que consiga explicar o fato de que, entra governo e sai governo (independente do partido), não conseguimos entregar um serviço
digno (menos de 50% de esgoto coletado). Como contra fatos não há argumentos, precisamos, sim privatizar. Porém, as lições, não só domésticas,
mas de todo o mundo (que, na década de 1990, embarcou na “onda” das privatizações) são valiosas demais para serem deixadas de lado! O ideal
é sempre aprender com o erro dos outros, e também, no mínimo, aprendermos com os próprios erros.

Diogo de Faria. “Privatização no saneamento: precisamos fazer certo” https://saneamentobasico.com.br/ (Acessado em 25.02.2021)

TEXTO 04
Para Christian Borja-Vega, economista sênior do Banco Mundial, especialista em água e saneamento, o marco legal traz inovações positivas para a
resolução do que é um dos maiores e mais antigos problemas brasileiros.
No entanto, Borja-Vega entende que apenas a abertura ao setor privado não será suficiente para preencher os gargalos do setor no Brasil, país em
que 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada e mais de 100 milhões de cidadãos não têm esgoto canalizado. A meta é chegar a 99%
da cobertura até 2033.
“É um erro considerar que apenas a abertura para o setor privado vá resolver os problemas do saneamento. O que mais vai importar é a qualidade
da sua implementação. É uma boa lei. A qualidade é uma condição necessária, mas não suficiente”, diz Borja-Vega à CNN.
O economista lista algumas coisas que devem ocorrer para que o país tenha sucesso. Um dos principais é a necessidade de fortalecimento da
atuação da Agência Nacional de Águas (ANA) como órgão regulador, que garanta que estados e municípios sigam as regras gerais de governança,
independentemente se quem foi contratado para gerir o serviço for uma empresa privada ou uma estatal.”É preciso que a lei faça cumprir os con-
tratos de concessão, dando também seburança ao setor privado. O importante dessa lei é a mistura entre o recurso público e o recurso privado e a
possibilidade de revisão dos contratos com desempenho a melhorar”, explica o economista.

“Só privatizar não resolve saneamento, avalia economista do Banco Mundial” https://www.cnnbrasil.com.br/ (24.06.2020)

Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva um texto dissertativo-argumentativo,
empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema

A PRIVATIZAÇÃO DO SANEAMENTO BÁSICO COLABORA PARA A UNIVERSALIZAÇÃO DESSE DIREITO?

62
INGLÊS

63
OVERVIEW AND ANALYSIS

Tipos de provas vocabulário ou gramática. Além disso, os enunciados e


alternativas dessas questões podem ser apresentados em
No Brasil, existem dois tipos de provas de vestibular que português ou inglês.
são comuns: as provas compostas por questões de múltipla
escolha e as provas compostas por questões dissertativas Provas Dissertativas
com respostas em português. Além desses dois casos, é
A principal característica das provas de Inglês dos princi-
comum encontrar provas de somatória e provas com ques-
pais vestibulares é a prevalência de questões que deman-
tões do tipo certo/errado.
dem domínio de vocabulário e leitura de texto. Questões
objetivas sobre gramática são cada vez mais raras. No
Provas de múltipla escolha entanto, três tópicos ainda são muito comuns: Pronomes,
Os vestibulares brasileiros, em sua maior parte apresen- Conectores e Modal Verbs. Estes temas são pedidos exa-
tam questões de múltipla escolha, sendo que elas podem tamente porque sem esse domínio não se faz uma leitura
demandar habilidades de leitura e compreensão de texto, de texto correta neste idioma.

DO YOU UNDERSTAND? (TEXT INTERPRETATION)

Alguns falsos cognatos § condom (preservativo)


§ convict (condenado)
importantes § corporate (cabo na hierarquia militar)
§ actual (real, verdadeiro) § costume (fantasia)
§ actually (na verdade, na realidade, o fato é que) § deception (fraude, falsificação)
§ admiral (almirante) § devolve (transferir)
§ alias (pseudônimo, nome falso) § diversion (desvio)
§ amass (acumular, juntar) § durex (preservativo)
§ animus (rivalidade) § eventually (finalmente, por fim)
§ anthem (hino) § exit (saída, sair)
§ appoint (nomear, indicar) § fabric (tecido)
§ argument (discussão, debate) § grip (agarrar algo firmemente)
§ beef (carne bovina) § hospice (albergue)
§ braces (aparelho dental) § idiom (expressão idiomática)
§ collar (gola) § ingenious (engenhoso)
§ college (faculdade) § inhabitable (habitável)
§ commodity (mercadoria) § injury (ferimento)
§ comprehensive (abrangente, extenso, amplo) § interest (juros)
§ compromise (entrar em acordo, fazer concessão, acordo) § lecture (palestra, aula)

64
§ library (biblioteca) § realize (perceber)
§ lunch (almoço) § requirement (requisito)
§ mayor (prefeito) § retired (aposentado)
§ novel (romance escrito) § retribution (represália, punição)
§ office (escritório) § scholar (erudito)
§ parents (pais) § sensible (sensato)
§ phony (trapaceiro , mau caráter) § service (atendimento)
§ prejudice (preconceito) § support (appoiar, apoio)
§ preservative (conservante) § tax (imposto)
§ private (recruta) § tenant (inquilino)
§ push (empurrar)

WHO IS WHO?

Personal pronouns Em linhas gerais, a função desSa classe de pronomes nas


duas linguagens é similar: pronomes substituem nomes.
Não é comum repetirmos o mesmo nome muitas vezes,
Subject Pronouns Object Pronouns mas sim usar um pronome, uma vez que sabemos a quem
I ME tal pronome se refere.
YOU YOU

HE HIM
Exemplos:
SHE HER
Kate loves Brian.

IT IT She loves Brian.


WE US O exemplo acima faz a substituição do nome Kate pelo
YOU YOU
pronome She. Observe o exemplo a seguir

THEY THEM Brian loves Kate.


Brian loves her.
Os personal pronouns da língua inglesa podem, com al-
A diferença entre eles é que no exemplo 1 o nome Kate
gumas variacões, ser relacionados aos pronomes pesso-
tem função de sujeito e foi substituído por um pronome
ais da língua portuguesa. O que o português chama de
de sujeito (She). Já no exemplo 2, o nome Kate tem
pronomes pessoais do caso reto, a língua inglesa chama
função de objeto e foi substituído por um pronome de
de subject pronouns, e os pronomes oblíquos são análo-
gos aos object pronouns. objeto (her).
Veja mais exemplos:
Observe alguns usos dos subject pronouns:
Brazilians agree with you.
I am Brazilian – Eu sou brasileiro
You are Brazilian – Você(s) é(são) brasileiro(s) We agree with you.
He is Brazilian – Ele é brasileiro They agree with other Brazilians.
She is Brazilian – Ela é brasileira
They agree with them.
It is Brazilian – Isto/Esta coisa é brasileira
We are Brazilian – Nós somos brasileiros The police officer will adress the issue
They are Brazilian – Elas/Eles são brasileiros(as) She/He will adress the issue.

65
Possessive pronouns Exemplo:
I can’t find my pen. Can I use yours?
Possessive Adjective Possessive Substantive (Eu não consigo encontrar minha caneta. Pos-
Pronouns Pronouns so usar a sua (caneta)?
MY MINE
2. Quando o substantivo a que se refere o pronome estiver
YOUR YOURS antes do próprio pronome.
HIS HIS
Exemplo:
HER HERS
It belongs to a friend of mine.
ITS -------
(Isto pertence a um amigo meu).
OUR OURS
3. Após preposições.
YOUR YOURS
THEIR THEIRS Exemplo:
They will come with their parents, and we’ll come
Os pronomes desse tópico, como o próprio nome supõe, with ours.
introduzem uma relação de posse com um substantivo (Eles virão com os pais deles e nós, com os nossos).
e são bastante semelhantes ao que encontramos na
língua portuguesa. Mas aqui podemos enfrentar alguns
problemas. Se por um lado o português apresenta mar-
Reflexive pronouns
cação quádrupla de pronomes (Eu – meu, minha, meus,
minhas) e o inglês apresente marcação simples para eles, Reflexive Pronouns
este tem dois tipos de pronomes possessivos (Adjective Myself
e Substantive), enquanto aquele tem apenas um, o que Yourself
pode gerar algumas dificuldades. Himself
Herself

Possessive Adjective ou Itself

Possessive Substantive? Ourselves


Yourselves

Em alguns casos, pode ser pedido que o vestibulando opte Themselves

entre os dois tipos de pronomes acima mencionados. Além


de ser um ponto que gera uma dúvida razoável, ele tam- O uso dos pronomes reflexivos é de certa forma simples. Uti-
bém é muito solicitado em questões gramaticais. lizado como uma autorreferencia do sujeito. Ao contrário do
que ocorre na Língua Portuguesa, a autorreferência não faz
Tenha em mente que os pronomes Possessive Adjectives uso do mesmo pronome do objeto e sim de um específico. É
(my, your, his, her, its, our, their) são aqueles que
uma referência a si mesmo e que não possui tradução direta.
são normalmente usados. Você só os substituirá pelos
Possessive Substantives (mine, yours, his, hers, ours, Exemplo:
theirs) em situações específicas. São elas: Farei isso por mim mesmo.
1. Quando o substantivo a que se referir o pronome estiver I will do it by myself (jamais me, como
omitido/subentendido. uma tradução direta poderia sugerir)

THE HERE AND NOW

Simple present (regra geral) To need = precisar, necessitar


I need to work better. (Eu preciso trabalhar melhor)
Ao contrário do português, que apresenta múltiplas desinên- You need to work better. (Você precisa traba-
cias, o inglês tem como regra geral (exceções serão vistas no lhar melhor)
final deste item) a adição da letra “s” às terceiras pessoas do He needs to work better. (Ele precisa trabalhar
singular (he, she, it). Observe os exemplos a seguir: melhor)

66
She needs to work better. (Ela precisa trablhar
melhor)
Formas interrogativas
Para que se obtenham as formas interrogativas do verbo to
It needs improvements. (Isto precisa de melhorias)
be, deve-se apenas inverter a posição do verbo e do sujeito.
We need to work better. (Nós precisamos trab-
lhar melhor)
You need to work better. (Vocês precisam trab-
There to be
lhar melhor) A estrutura there to be é usualmente entendida como o
verbo haver, existir, ocorrer. Ele apresenta duas formas no
They need to work better. (Eles/elas precisam tra- presente there is (para o singular) e there are (para o plural).
blhar melhor)
Deve-se acrescentar a partícula not às formas afirmativas
Percebe-se que, enquanto a língua inglesa acrescenta ao do there to be para que se obtenham suas respectivas for-
bare infinitive dos verbos (infinitivo sem a partícula ‘to’) a mas negativas.
letra ‘s’ aos pronomes de terceira pessoa do singular (he,
she, it), a língua portuguesa acrescenta várias desinências Formas interrogativas
ao verbo (preciso, precisa, precisamos, etc).
Para que se obtenham as formas interrogativas do verbo
there to be, deve-se apenas inverter a posição do verbo e
Formas negativas do simple present do sujeito.
A forma negativa dos verbos no simple present segue uma

Present continuous
norma bem simples: acrescente do not (don’t) quando o
sujeito for I, you, we, they; acrescente does not (doesn’t)
quando o sujeito for he, she, it.
Importante: Após o uso dos auxiliares do ou does, utilize
(present progressive)
o base form (infinitivo sem o to). O Present Continuous apresenta enorme semelhança com
o tempo verbal Presente Contínuo da língua portuguesa.
Ele é um tempo verbal que serve para expressar ações que
Formas interrogativas estão acontecendo simultâneas à fala. O Present Conti-
Para que se obtenham as formas interrogativas dos ver- nuous (ou Progressive) é formado pelo presente do verbo
bos no simple present, deve-se fazer uso dos verbos au- to be (concordando com cada sujeito) mais um outro verbo
xiliares do (para os pronomes I, you, we, they) e does (he, no gerund (sufixo ING).
she, it), colocados antes dos respectivos sujeitos.
Veja os exemplos:

To be
§ I am composing a song right now. (Eu estou compon-
do uma música neste exato momento.)
O verbo to be não segue as mesmas regras que orientam a § You are listening my music. (Você está ouvindo minha
maioria dos verbos em inglês. Ele é o único que apresenta música.)
três formas de presente. São elas:
§ He is composing a song on his acoustic guitar. (Ele está
§ I am Brazilian. (Eu sou brasileiro)
compondo uma música em sua guitarra.)
§ He, she it is from the Netherlands. (Ele/ela/isto é da
Holanda.) § She is singing in her room. (Ela está cantando no quar-
§ You, we, they are thirsty. (Você(s), nós, eles(as) estão to dela.)
com sede) § It is working very well. (Isto está funcionando mui-
Talvez a maior dificuldade ao se lidar com o verbo to be to bem.)
resida no fato de que, ao ser vertido para o português, ele § We are watching a very interesting movie.
possa ter tanto estar quanto ser como significado, depen-
dendo do contexto em que o verbo está inserido. § (Nós estamos assistindo um filme muito interessante.)
§ You are wasting money. (Vocês estão desperdiçando
Formas negativas dinheiro.)
Para se conseguir as formas negativas do verbo to be, deve-se § They are surfing the web on their computers. (Elas(es)
apenas acrescentar a partícula not à forma afirmativa. estão navegando na internet em computadores.)

67
As formas interrogativas do Present Continuous são dadas As formas negativas do Present Continuous são dadas pela
pela inversão do sujeito com o to be. adição de not às formas do to be.
§ She is not (isn’t) composing a music. (Ela não está
Exemplos: compondo uma música.)
§ Are you paying attention to the instructions? (Você § I am not thinking about it. (Eu não estou pensando
está prestando atenção às instruções?) sobre isso.)
§ Is it working properly? (Isto está funcionando cor-
retamente?)

FOCUS ON THE PAST

Simple past língua inglesa se parece com a portuguesa, apresentan-


do formas verbais variadas (daí o termo irregular), e as-
sim como para aprender o português, também se torna
Regular verbs (verbos regulares) necessário memorizar tais formas. Entretanto, tenha em
mente que há apenas uma forma de passado para cada
Os verbos regulares são os “queridinhos”dos alunos bra-
verbo, independente do sujeito. Seguem-se apenas al-
sileiros por se configurarem de forma mais simples. Para
guns exemplos.
obter o passado dos verbos regulares, basta acrescentar
o sufixo ED a sua base form (infinitivo sem a partícula to), § to take – took (past)
independente de quem seja o sujeito. Observe os exem- I took the subway to work. (Eu peguei o metro
plos a seguir: para trabalhar)
to need (precisar, necessitar) She took the subway to work. (Ela pegou o me-
I needed to be smarter (Eu precisei ser mais in- tro para o trabalho)
teligente.) We took the subway to work. (Nós tomamos o
You needed to be smarter (Você precisou ser metro para o trabalho)
mais inteligente.) § to go – went (past)
He needed to be smater. (Ele precisou ser mais You went to school. (Você foi para a escola)
inteligente)
He went too far. (Ele foi longe demais.)
She needed to be more careful. (Ela precisou ser
mais cuidadosa.) They went home together. (Eles foram juntos
para casa)
It needed to be practical(Isto precisava ser mais
prático.) § to eat – ate (past)
We needed to be more practical. (Nós precisa- I ate the whole pizza (Eu comi a pizza inteiro)
mos ser mais práticos(as).) The dog ate our food (O cachorro comeu a nos-
You needed to be more practical (Vocês precisa- sa comida)
ram ser mais práticos)
We ate pasta toguether (Nós comemos ma-
They needed to be more practical. (Elas(es) preci- carrão juntos)
saram ser mais práticos(as).)
Formas Negativas
Irregular verbs (verbos irregulares) Para chegar as formas negativas dos verbos no simple
Encarar os verbos irregulares talvez seja a maior dificul- past, é preciso acrescentar, após o sujeito e antes do
dade para o estudante brasileiro quando esse se depara verbo principal, o verbo auxiliar did mais a partícula not,
com o simple past da língua inglesa. Nesse aspecto na independentemente do verbo ser regular ou irregular.

68
Formas interrogativas Formas negativas
Para se verter uma frase para a forma interrogativa quando Para chegar as formas negativas de passado do there to be,
um verbo está no simple past é preciso acrescentar o verbo é preciso acrescentar a palavra not às formas afirmativas.
auxiliar did antes do sujeito da oração. O verbo principal
deve permanecer no base form (infinitivo sem to). Formas interrogativas
Ao trocar a posição da forma verbal was ou were com o
To be pronome there, obtém-se a forma interrogativa do verbo
there to be.
O verbo to be tem duas formas de passado: was (I, he, she,
it) e were (you, we, they).
Observe os exemplos: Can
I was at work yesterday. O verbo can tem todas as suas formas de passado (incluí-
(Eu estava no trabalho ontem). das as de subjuntivo) concentradas na palavra could com
qualquer que seja o sujeito envolvido.
You were at home yesterday.
(Você estava em casa ontem.) Sophia could play sing very well when she was
He was an French singer. a child. (Sophia podia cantar muito bem quando
(Ele era um cantor francês.) ela era criança.)

She was an Spanish doctor. Two years ago we could buy a car, but today this
(Ela era uma médica espanhola) is impossible. (Há dois anos nós podíamos com-
prar um carro, mas hoje isto é impossível.)
The bike (it) was here four hours ago.
(A bicicleta estava aqui há quatro horas atrás.) I would go home if I could. (Eu iria para casa se
eu pudesse.)
We were busy yesterday.
(Nós estávamos ocupados(as) ontem.)
They were bought in Russia in 2019.
Used to
(Eles foram comprados na Rússia em 2019.) Ao se deparar com textos em língua inglesa, o aluno sem-
pre lida com um problema comum de quem tem português
Formas interrogativas como língua materna: as formas de passado do inglês são
correspondentes aos nossos verbos do pretérito perfeito ou
Para chegar as formas interrogativas de passado do do pretérito imperfeito? Como devo entender uma frase
verbo to be, deve-se trocar a posição do verbo com o como ‘I played very well’? ‘Eu joguei muito bem’ ou ‘Eu
sujeito da oração. jogava muito bem’?
As frases grafadas em simple past em inglês usualmente
Formas negativas correspondem ao que nós nomeamos como pretérito per-
Para chegar as formas negativas do verbo to be no passa- feito (ex: joguei, comi, bebi). Para se obter o mesmo sig-
do, deve-se inserir a palavra not após o verbo. nificado das nossas sentenças no pretérito imperfeito (ex:
jogava, comia, bebia), a língua inglesa faz uso da estrutura
There to be used to. Em linhas gerais, ela é utilizada para expressar
uma ação que era verdadeira no passado, mas que não é
Assim como no presente, duas formas de passado para o mais. Observe os exemplos:
verbo there to be se apresentam: there was (para passa-
do singular) e there were (para passado plural). Veja os I used to play basketball very well. (Eu costuma-
exemplos a seguir. va jogar/jogava basquete muito bem)

There was a restaurant near here. She used to be a great singer. (Ela era/costu-
mava ser uma grande cantora)
(Havia/existia um restaurante perto daqui.)
Did you use to travel to the country when you
There were many restaurants here.
lived abroad? (Você costumava viajar/viajava
(Havia/existiam muitas restaurantes perto daqui.) para o interior quando você morou no exterior?)

69
I didn’t use to like it, but now I do. (Eu não Estude os exemplos abaixo:
costumava gostar disso, mas agora eu gosto) Didn’t they like their new clothes? (Eles(as) não
gostaram de suas novas roupas?)
Past continuous Didn’t you talk to him? (Você não conversou
com eles?)
Muito parecido com o caso previamente apresentado do
present continuous, o past continuous da língua inglesa é Weren’t you at home yesterday? (Você não es-
um tempo verbal utilizado para expressar uma ação que tava em casa ontem?)
estava acontecendo simultaneamente à outra, no passado Wasn’t there a person waiting here? (Não havia
e é formado por uma forma de passado do verbo to be uma pessoa esperando aqui?)
(was ou were) mais um outro verbo de ação acrescido do
sufixo ING (gerund). Estude os exemplos: Couldn’t you ride bicycles when you were 6?
(Você não conseguia andar de bicicleta quando
When you called, I was taking a shower. (Quan- você tinha 6 anos de idade?)
do você ligou eu estava tomando banho)
Apêndice #2: Uso enfático do auxiliar did
Were you sleeping when I called you yester-
Além das formas interrogativas e negativas,há outro uso
day? (Você estava dormindo quando eu te
para o auxiliar did: o enfático. Veja os exemplos a seguir.
liguei ontem?
I liked the show (Eu gostei do show) – I did like
She wasn’t paying attention when the teacher as-
the show (Eu gostei muito do show)
signed her homework. (Ela não estava prestando
atenção quando o professor passou a lição de casa.) She told you not to be mad (Ela te pediu que
não se chateasse) – She did tell you not to be
Apêndice #1: formas interrogativa-negativas
mas (Ela realmente te pediu/foi muito clara
As diversar formas verbais abordadas nesta unidade (sim-
ao te pedir que não se chateasse.)
ple past, to be, there to be e can) mostram, além das for-
mas apresentadas (afirmativa, negativa e interrogativa) Apêndice #3: Tabela dos 150 verbos mais comuns da
uma quarta forma: a interrogativa-negativa. As formas língua inglesa (regulares e Irregulares). A segunda coluna
interrogativa-negativas são obtidas a partir das formas ne- apresenta as formas de passado desses verbos, e a terceira
gativas, cada um dos verbos seguindo suas próprias regras. coluna as formas de particípio passado (past participle).

LOOKING FORWARD

Existem duas estruturas verbais básicas para se apresentar Those two countries will face a war. (Aqueles
ações futuras em língua inglesa: will e going to. dois países vão encarar uma guerra.)

Will Negativa: Sujeito + WILL NOT


(WON”T) + verbo (base form)
É a forma mais comum. Serve para expressar um futuro
mais incerto, sem data definida ou que acontecerá em um
futuro mais distante. Exemplos:
I will not (won’t) marry to her. (Eu não vou ca-
Afirmativa: Sujeito + WILL sar com ela)
+ verbo (base form) She will never forgive me. (Ela nunca me perdoará)
Those two countries will not (won’t) face a
Exemplos: war. (Aqueles dois países não vão enfrentar
I will buy a house (Eu vou comprar uma casa.) uma guerra)
She will forgive me someday. (Ela um dia vai
me perdoar.)

70
Interrogativa: WILL + Sujeito Negativa: Sujeito + to be (present)
+ verbo (base form) + NOT + going to + verb
Exemplos: Exemplos:
Will you marry her? (Você vai casar com ela?) You are not going to buy it! (Você não vai
comprar isso!)
Will she ever forgive you? (Ela algum dia irá
te perdoar?) People are going to accept any changes. (As
pessoas vão aceitar quaisquer mudanças)
Will those two countries face a war? (Aqueles
dois países enfrentarão uma guerra) This is going to be designed in China. (Isto vai
ser projetado na China)
WILL: expressa também decisão
pessoal súbita, sem programação. Interrogativa: to be (present)
Exemplo: + sujeito + going to + verb
“Look that dog! It is very cute. I will buy it!” Exemplos:
Are we going to accept his apologies? (Nós
Observações: vamos aceitar suas desculpas?)
Am I going to obey you? (Eu vou obedecer vocês?)
NUNCA utilize to antes ou depois do verbo au-
xiliar WILL. Is Laura going to live abroad? (Laura vai viver
no exterior?)
I will to help you. (incorrect)

I will help you. (correct) Going to: expressa também ideia de


NUNCA acrescente ‘s’ no verbo auxiliar WILL para futuro a partir de evidências notáveis.
as terceiras pessoas do singular she, he, it. Exemplo:
She wills help you. (incorrect) “The sky is cloudy. It is going to rain soon.”
She will help you. (correct) Apêndice #1
Embora muito menos comuns, existem duas outras estru-
turas verbais que também apresentam ações futuras. Estu-
Going to de os exemplos abaixo:
A estrutura verbal going to é utilizada para expressar um
futuro mais próximo, com data ou preparação já definidos.
Present Continuous
Exemplos:
Afirmativa: Sujeito + to be I can’t go to the club with you because I am
(present) + going to + verbo seeing my dentist tomorrow. (Eu não posso ir
para balada com você porque eu vou no meu
Exemplos: dentista amanhã)
I am going to marry her. (Eu vou casar com ela.) They are answering the e-mail very soon. (Eles
George is going to take your credibility into ac- estarão respondendo ao e-mail muito em breve)
count. (George vai levar em conta sua credibilidade.)
Simple Present
Japan is going to host the 2020 Olympic Games.
(O Japão vai sediar os jogos olímpicos de 2020) Exemplos:
Those two countries are certainly going to face Governments are likey to face challenges in a
a war (Aqueles dois países certamente vão entrar near future. (Governos estão propensos a ter de-
em guerra.) safios em um futuro próximo)

71
His schoolmates play basketball every Friday sin- mais comumente encontrado associado aos sujeitos I e
ce 1993. (Os colegas de escola dele jogam bas- WE. Estude os exemplos a seguir:
quete toda sexta-feira desde 1993)
I shall/will talk to the principal about that. (Eu
Apêndice #2 conversarei o diretor sobre isso)

O verbo auxiliar SHALL tem a mesma função de WILL, We shall/will not pass beyond this point. (Nós
embora seja muito mais formal e raro. SHALL é muito não iremos além desse ponto)

SHOULD WE CONTINUE

Os verbos modais são: can, could, may, might, should,


must, ought to, will, shall e would. Should, must, ought
Veja as regras gramaticais dos verbos modais: to, have to
§ Não adicione ‘s’ à terceira pessoa do singular. Normalmente expressam sugestões, conselhos, ordens,
§ Não são usados verbos auxiliares para frases negativas proibições e obrigações. Eles são normalmente entendi-
ou interrogativas. dos em português como os verbos dever (ria) ou ter que.

§ Nunca acrescente a partícula to nem antes nem depois Todos os verbos desse grupo são verbos auxiliares, ou seja,
de um verbo modal (com exceção de have to e ought to). não têm sentido sozinhos, mas somente associados ou re-
ferindo-se a outros verbos.

Can/could, may/might Formas negativas


Expressam capacidade, habilidade, possibilidade, probabi- As formas negativas dos modal verbs são obtidas através
lidade, para pedir e dar permissão e pedir auxílio. Todas da adição da palavra not.
as leituras possíveis incluem, no português, o verbo poder,
sendo que o verbo can está sempre no presente. Could, Formas interrogativas
além de ser a forma de passado de can, também pode ser As formas interrogativas dos modal verbs são obtidas atra-
compreendido como futuro do pretérito do verbo can (po- vés da inversão do sujeito da oração e do verbo modal.
deria, poderíamos). May e might também são usualmente
compreendidos como poderia, poderíamos, etc.

PERFECTION

1. Present Perfect saiu da casa e ainda não retornou.


Be quiet, please! I haven’t finished it yet. (Fi-
HAVE/HAS + PAST PARTICIPLE que quieto, por favor! Eu ainda não terminei.)
O Present Perfect é um tempo verbal utilizado para expres- Ou seja, eu comecei algo e ainda estou executan-
sar uma ação que começou no passado e cujas consequên- do esta tarefa.
cias se estendem (e são relevantes) até o momento da fala. § Ele é utilizado para expressar ações que têm se repeti-
Exemplos: do nos últimos tempos.

I have lost my bag (Eu perdi minha bolsa). Exemplos:


Neste caso, meu passaporte continua perdido. She has worked a lot recently. (Ela tem traba-
She has left the house(Ela saiu da casa). Ela lhado muito recentemente)

72
I have slept very well since I changed room with A definição e o uso são quase os mesmos. Eles servem
my sister. (Eu tenho dormido muito bem desde para expressar uma ação que está no passado do pas-
que eu troquei de quarto com a minha irmã.) sado. Ou seja,caso se faça necessário expressar duas
We have been responsible for her for 5 years. ações não simultâneas no passado, a ação mais antiga
(Nós somos/temos sido os responsáveis por (que aconteceu primeiro) deve ser estar no Past Perfect,
ela nos últimos 5 anos.) Nós começamos e ainda enquanto a mais recente (que aconteceu depois), deve
somos responsáveis por ele. estar no Simple Past. Estude os exemplos a seguir.
§ Ele é utilizado por ações que acabaram de acontecer
ou estão quase acontecendo. Exemplos:
Don’t be mad! When you arrived work, we had
Exemplos: already finished the meeting (Não fique bravo!
I have just sent you my report. (Eu acabei de Quando você chegou ao trabalho, nós já tínha-
te mandar meu relatório) mos terminado a reunião.)
Rush! The plane has arrived. (Apresse-se! O Portugal and Spain had already signed the
avião está chegando) Tordesilhas treat when Pedro Àlvares Cabral ar-
§ Com as palavras ever (ou never) normalmente expres- rived in the Brazilian Coast in 1500. (Portugal e
sam-se experiências de uma vida inteira. Espanha já tinham/haviam assinado o trata-
do de Tordesilhas quando Pedro Álvares Cabral
Exemplos: chegou na costa brasileira em 1500)
Have you ever seen a lion? (Você já viu um
leão?) Ou seja, desde o nascimento até o mo- Past Perfect Continuous
mento da fala.
HAD + BEEN + VERB (ING)
No, I have never seen a lion. (Não, eu nunca
vi um leão) Ou seja, desde o nascimento até o O Past Perfect também pode ser utilizado em sua forma
momento da fala. contínua, e, assim como o Present Perfect Continuous, a
She has never been abroad (Ela nunca esteve ênfase está na duração e continuidade da ação.
no exterior)
Exemplos:
Present Perfect Continuous I was short of breath on the phone because I
had been running in the park. (Eu estava
HAVE/HAS + BEEN + VERB(ING)
ofegante ao telefone porque eu tinha corrido/
É uma variação do Present Perfect. Ele é utilizado quando estava correndo no parque.)
se quer enfatizar a continuidade de uma ação que come-
She had been waiting for a long time when
çou no passado e continua no presente.
you arrived. (Ela havia esperado/ esteve esperan-
do por um longo tempo quando você chegou.)
Exemplos:
She has been washing the dishes since she
arrived. (Ela está lavando louça desde que ela Future perfect continuous
chegou) Ou seja, ela não interrompeu a lavagem Mesmo que sejam muito mais raros, é possível que você
em nenhum momento. encontre os dois tempos acima em textos mais sofisticados,
They have been married for 35 years. (Eles es- portanto, vamos aprender um pouco sobre eles. Ambos são
tão casados há 35 anos.) Ou seja, há 35 anos, usados para expressar ações no futuro que se iniciaram em
eles estão casados. algum ponto do passado.

Estude os exemplos a seguir:


Past perfect In a near future, Brazil will have hosted the two greatest
HAD + PAST PARTICIPLE events in the world. (Em um futuro próximo, o Brazil terá se-
diado os dois maiores eventos do mundo.) – Future Perfect.
O Past Perfect corresponde ao tempo verbal que a lín-
gua portuguesa chama de Pretérito mais-que-perfeito. By 2030, I will have been living for 59 years. (Quando

73
2030 chegar, eu terei vivido por 59 anos.) – Future Per- TEXTO II
fect Continuous.
EXPERIENCE, NOT THINGS

Formas interrogativas Alan Krueger devoted part of his career as an economist to studying
happiness. Alan died last March 16, at 58, from suicide. News of
As formas negativas dos tempos perfeitos são conseguidas his death sent shock and sadness through the world of economics
por meio da inversão do verbo auxiliar to have com o su- – including his fellow economists at Princeton and elsewhere; his
former colleagues in the Obama and Clinton administrations; and
jeito da oração.
journalists whom Alan had informally tutored over the years.

Formas Negativas “To some economists, investigating happiness probably seemed


silly,” Catherine Rampell, the Washington Post columnist,
As formas negativas dos tempos perfeitos são consegui- wrote. “But Alan saw it as a central mission of his discipline.
das através da adição do advérbio not junto ao verbo The whole point of economics is to figure out how, in a world of
auxiliar to have, ou em alguns casos por meio da adição scarce resources, we can make people’s lives better.”
do advérbio never.
The first lesson that Alan gave us comes from a finding that sounds a
bit like a letdown: people waste a lot of money on gifts. Surveys show
that gift recipients don’t have much use for many objects that they
receive. They usually appreciate the thought behind the gift, but the
actual item isn’t of much value to them. In economic terms, they place

U.T.I. - Sala a lower value on the gift than it cost.But experiences are different.
When someone receives an experience – say, a nice meal out – they
Leia ambos os textos para a resolução das questões 1 a 4 often both appreciate the thought and enjoy the actual gift.

TEXTO I The second lesson involves spending time with friends. It’s one of the
best ways to increase happiness, according to the survey data.Alan
HE’S HAPPIER, SHE’S LESS SO said this finding had stayed with him. At the end of a long day or long
week, he said his instinct was sometimes to skip a social gathering.
Researchers added a twist to something known as a time-use In the moment, he felt too tired. But the data had persuaded him to
survey. Instead of simply asking people what they had done push through his fatigue more often. Sure enough, he was almost
over the course of their day, the researchers also asked how
always glad he had, he said.
people felt during each activity. Not surprisingly, men and
women often gave similar answers about what they liked to Alan pushed for economics to become less theoretical and more
do (hanging out with friends) and didn’t like (paying bills). But empirical. He did pathbreaking work on the minimum wage,
there were also a number of activities that produced different occupational licensing and other subjects. He threw himself into
reactions from the two sexes: Men apparently enjoy being with messy policy debates. He wrote not just for other economists but for
(__1__) parents, while women find time with their parents to the rest of us too.
be slightly less pleasant than doing laundry.
He relished debate: three different times, he stepped out of academia
Alan Kruger, a Princeton economist who studies happiness, figures to serve in the federal government, including to help the Treasury
that there is an explanation for the difference. For a woman, time Department fight the financial crisis in 2009.
with (__2__) parents often resembles work, whether it’s helping
them pay bills or plan a family gathering. “For men, (__3__) tends The New York Times, March, 19th, 2019 (adaptado).
to be sitting on the sofa and watching football with their dad,”
1. According to the text I, Women are sadder than
said Mr. Krueger, who is analyzing time-use studies over the last
men because.
four decades. He has found a pattern. Since the 1960s, men have
gradually cut back on activities they find unpleasant. They now work
2. The best alternative that fill the blanks 1, 2 and 3 in
less and relax more .Women, on their turn, have replaced housework
the text I is:
with paid work – and, as a result, are spending much time doing
things they don’t enjoy as in the past. But women are not actually
3. Descreva as lições deixadas pelo economista Alan
working more than they were 30 or 40 years ago. They are instead
Krueger segundo o jornalista autor do texto II.
doing different kinds of work. They’re spending more time on paid
work and less on cleaning and cooking. 4. Os textos I e II têm tempos verbais predominantes
What has changed – and what seems to be the most likely bem definidos. Identifique que tempos verbais predo-
explanation for the happiness trends – is that women now have minantes são estes e por que são utilizados.
a much longer to-do list than they once did (including helping
their aging parents). They can’t possibly get it all done, and many
end up feeling as if they are somehow falling short.

The New York Times, September, 26th, 2007 (adaptado).

74
U.T.I. - E.O.
1. ECONOMICS is “not a ‘gay science’,” wrote Thomas Carlyle in 1849. No, it is “a dreary, desolate, and indeed
quite abject and distressing one; what we might call, by way of eminence, the dismal science.”
Carlyle was a fine one to talk. He was a brooding curmudgeon who thundered against industry, progress and the young science that sought to
explain them. He found economists dismal not for the obvious reasons, such as their1 dry arithmetic or their gloomy preoccupation with scarcity and
subsistence. Instead, he took against them2 because they were so wedded to the idea of happiness.

The economists of his3 day took their cue from Jeremy Bentham and his “utilitarian” philosophy. They calculated happiness, or utility, as the sum of good
feelings minus bad, and argued that the pursuit of pleasure and the avoidance of pain were the sole springs of human action. One even looked forward
to the invention of a hedonimeter, a “psychophysical machine” that would record the ups and downs of a man’s feelings just as a thermometer might
plot his temperature. Such people, Carlyle complained, fancied that man was a “dead Iron-Balance for weighing Pains and Pleasures on”.

Fonte: <www.economist.com> (adaptado).

Pronomes substituem nomes e substantivos e são usados para retomá-los ou evitar a repetição dos mesmos. Indique
o que os pronomes marcados com 1, 2 e 3 retomam ou substituem.

2. A quem ou o que o pronome THEM, no quarto quadro, se refere? Qual o efeito cômico da tira?

3. Qual o tempo verbal na fala do personagem do cartum? Como isto explica o efeito cômico da tirinha?

4. No último quadrinho, o garoto faz uso de qual tempo verbal? Qual o efeito cômico obtido?

75
5. Campanhas publicitárias de sucesso são reconhecidas pela forma engenhosa com que trabalham a língua, criando
efeitos inusitados ou inesperados. Esta campanha da Leo Burnett foi amplamente premiada pela forma como veicu-
lou a ideia do impacto dos fatos inesperados na vida das pessoas de forma muito adequada ao principal de seu clien-
te, a seguradora SwissLife. Descreva a ideia presente e o efeito obtido para cada um dos três cartazes da campanha
indicados acima.

6. Com base na leitura da charge, explique, em português, qual é o ponto de humor apresentado.

7. Indique o tempo verbal mais usado na história escrita por Calvin. Em seguida, retire, em inglês, dois verbos regu-
lares conjugados nesse tempo.

76
8.

a) A figura 1 refere-se a uma campanha. Qual é o objetivo dessa campanha?


b) Por que o cachorro que aparece na figura 2 não consegue abrir a porta? Justifique sua resposta.

9.

a) Cite os conselhos irônicos que o primeiro pôster dá aos adolescentes que se sentem incomodados pelos pais.
b) Explique as duas leituras possíveis do segundo pôster.

77
10.

a) O texto acima corresponde ao modelo de um documento. De que documento se trata? Qual seria a cor dos olhos
da sua pretensa portadora?
b) Em que mês a pretensa portadora do documento teria nascido e a que se refere a data expressa pela sequência
numérica ”09-30-08”?

11. Lolita
By Vladmir Nabokov
First published in France by a pornographic press, this 1955 novel explores the mind of a self-loathing and highly intelligent pedophile named
Humbert Humbert, who narrates his life and the obsession that consumes it: his lust for “nymphets” like 12-year-old Dolores Haze. French
officials banned it for being “obscene,” as 1did England, Argentina, New Zealand and South Africa. Today, the term “lolita” has come to imply an
oversexed teenage siren, although Nabokov, for his part, never intended to create such associations. In fact, he nearly burned the manuscript in
disgust, and fought with his publishers over whether an image of a girl should be included on the book’s cover.

Transcreva do trecho sobre o livro “Lolita” o que é solicitado:


a) o vocábulo substituído por DID (ref. 1);
b) um conectivo que estabelece uma relação de oposição de ideias;
c) um conectivo que introduz uma exemplificação;
d) as palavras que expressam o mesmo sentido de BECAUSE IT WAS.

12. Global Handwashing Day


October 15, 2009
Although people around the world wash their hands with water, very few wash their hands with soap at critical moments. Global Handwashing
Day will be the centerpiece of a week of activities that will mobilize millions of people across five continents to turn handwashing with soap before
eating and after using the toilet into an ingrained habit. This could save more lives than any single vaccine or medical intervention, cutting deaths
from diarrhea by almost half and deaths from acute respiratory infections by about a quart.

Adaptado de: <www.globalhandwashingday.org/Global_Handwashing_Day_2nd_Edition.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2009.

a) Que hábito a campanha descrita no texto pretende incentivar?


b) Segundo o texto, em quanto esse hábito pode reduzir as taxas de mortalidade?

78
Caro aluno

Você está recebendo o primeiro livro da Unidade Técnica de Imersão (U.T.I.) do Hexag Vestibulares.
Este material tem o objetivo de retomar os conteúdos estudados nos livros 1 e 2, oferecendo um
resumo estruturado da teoria e uma seleção de questões dissertativas que preparam o candidato
para as provas de segunda fase dos principais vestibulares. Além disso, as questões dissertativas per-
mitem avaliar a capacidade de análise, organização, síntese e aplicação do conhecimento adquirido.
É também uma oportunidade de o estudante demonstrar que está apto a expressar suas ideias de
maneira sistematizada e com linguagem adequada.
Aproveite este caderno para aprofundar o que foi visto em sala de aula, compreender assuntos que
tenham deixado dúvidas e relembrar os pontos que foram esquecidos.
Bons estudos!

Herlan Fellini

SUMÁRIO

HISTÓRIA
HISTÓRIA GERAL 81
HISTÓRIA DO BRASIL 107

ENTRE PENSAMENTOS e ENTRE SOCIEDADES


FILOSOFIA 131
SOCIOLOGIA 145

GEOGRAFIA
GEOGRAFIA 1 157
GEOGRAFIA 2 197
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Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2021
Todos os direitos reservados.

Autores
Eduardo Antôno Dimas
Tiago Rozante
Alessandra Alves
Vinicius Gruppo Hilário
Márcio Cavalcanti de Andrade

Diretor-geral
Herlan Fellini

Diretor editorial
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Coordenador-geral
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Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


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Editoração eletrônica
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Leticia de Brito Ferreira
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Projeto gráfico e capa


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Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a le-
gislação, tendo por fim único e exclusivo o ensino. Caso exista algum texto a respeito
do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição para
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HISTÓRIA GERAL

81
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE HISTÓRIA

Historiador e Historiografia naturalmente, seguia uma organização cronológica e


utilizava acontecimentos marcantes para determinar o
A História é uma ciência humana. Como uma ciência, a fim de um período e o começo de outro. O fim de um
História possui métodos para investigar o passado. His- período, no entanto, não significava o registro de mudan-
toriografia é o termo utilizado para designar o campo de ças profundas e imediatas, mas indicava a partir daquele
estudo, as reflexões e os exames de discursos, narrativas e marco o acontecimento de mudanças significativas com
pesquisas sobre o passado. O historiador é o profissional o passar do tempo. Apesar de muitos historiadores ques-
apto para pesquisar e construir o saber histórico, definindo tionarem a datação dos marcos de cada período, ela per-
linhas de pesquisa, objetivos e, sobretudo, utilizando docu- manece em vigência e é utilizada como mecanismo para
mentação para a análise do passado. organizar o estudo da História e facilitar o ensino.
Para iniciar um trabalho de pesquisa histográfica, o histo- Através de uma concepção eurocêntrica do mundo,
riador precisa utilizar documentação, ou seja, algum ele- difundiu-se uma linha do tempo baseada em eventos
mento humano que seja um vestígio do período que ele ligados ao contexto do continente europeu. Esta linha
estuda. Por exemplo, a utilização de fontes textuais, ev- do tempo, considerada “oficial”, divide-se tradicional-
idências arqueológicas, fontes de cultura material, mente em:
representações pictóricas (gênero da pintura, com o
§ Pré-História: Surgimento dos primeiros hominídeos
objetivo de representar a aparência visual do sujeito, em
até cerca de 4 mil anos a.C., com o surgimento dos
geral um ser humano, embora também possam ser repre-
primeiros tipos de escrita.
sentados animais) e registros orais.
§ Idade Antiga: até 476 d.C. (Queda do Império Romano)
É a partir destes vestígios que o historiador elabora a sua
ideia, monta a sua pesquisa com o objetivo de compreender § Idade Medieval: até 1453 (Tomada de Constantinopla)
o que ocorreu. § Idade Moderna: até 1789 (Revolução Francesa)
§ Idade Contemporânea: Dias atuais.
Periodização da História Esta linha do tempo é um recorte eurocêntrico e, portanto,
Ao longo do tempo, os historiadores convencionaram-se limitada à não oferecer dados para a compreensão históri-
a organizar os eventos em períodos. Essa periodização, ca e temporal de diversas outras sociedades humanas.

“PRÉ-HISTÓRIA”

A periodização tradicional divide a História em duas gran- estudo desse período advém, sobretudo, de metodologias
des partes: “Pré-História” e “História”. Ou seja, o critério interdisciplinares.
utilizado por essa visão histórica para dividir os dois perí-
Portanto, o conhecimento desse período advém, por exem-
odos é o surgimento da escrita. Vale destacar, porém, que
plo, dos vestígios e dos estudos arqueológicos e paleon-
essa visão é amplamente criticada. Colocar a escrita como
um critério de divisão se mostra arbitrário e até mesmo tológicos, como pinturas rupestres, instrumentos antigos,
preconceituoso, reduzindo sociedades ágrafas como “infe- restos de fósseis, etc. Com ajuda desses vestígios é possível
riores”. Aliás, como a própria denominação “Pré-História” elaborar teorias sobre esses povos.
explicita, é como se esses povos, por não terem uma cultu- Os historiadores, durante suas pesquisas, fizeram uma
ra literária, nem ao menos teriam, portanto, História. divisão em dois períodos da pré-história, esses perío-
De qualquer forma, estudar esse antigo e importante perío- dos foram denominados como: Período Paleolítico e
do da História humana é uma tarefa bastante complexa. O Período Neolítico.

82
Período Paleolítico Período Neolítico
O período Paleolítico ou também conhecido como Idade da O período Neolítico ou também conhecido como Idade da
Pedra Lascada, ocorreu aproximadamente por volta de 2,7 Pedra Polida ocorre aproximadamente 10 mil a.c. até 3 mil
milhões de anos atrás até 10 mil a.C. a.c., ou seja, ele ocorre desde a Revolução Neolítica até a
criação da escrita.
O Paleolítico foi o maior período da pré-história, esse pe-
ríodo é chamado de Idade da Pedra Lascada porque uma O Neolítico começa pela Revolução Neolítica, processo mar-
das características principais desse período é o começo do cado pelo momento em que alguns agrupamentos humanos
desenvolvimento de ferramentas e de instrumentos de tra- começaram a desenvolver a agricultura e a domesticação dos
balho provenientes da pedra. animais. A partir desse contexto, o processo de sedentarização
se intensificou e os agrupamentos humanos passaram por um
O período Paleolítico foi marcado pelo domínio do fogo, o
grande aumento demográfico, transformações que deram ori-
nomadismo (mobilização de grupos humanos sem local fi-
gem as primeiras civilizações da humanidade. Ao longo desse
xos), caça em grupo, divisão de tarefas, coletas de recursos
processo, por volta de 6000 a.C, o desenvolvimento da meta-
na natureza (frutos e raízes), as primeiras manifestações
lurgia e o surgimento de instrumentos de metal acabaram por
artísticas (pinturas rupestres), uso da pele de animais, uso
aperfeiçoar ainda mais os utensílios humanos, dando origem
de cavernas como abrigos naturais e o domínio do fogo.
ao período denominado “Idade dos Metais”. Ainda nessa
conjuntura de grandes transformações, vale ressaltar que, por
volta de 4000 a.C. teria surgido a cultura letrada, a escrita.

ANTIGUIDADE ORIENTAL

Egito e Miquerinos, da terceira dinastia, fundada por Djoser em


cerca de 2850 a.C. , com a nova capital era Mênfis.
A civilização egípcia desenvolveu-se no nordeste da África. A
vida girava em torno do ciclo de cheias e vazantes do rio Nilo. Império Médio (2000-1750 a.C.)
O rio Nilo dividia o Egito em duas partes bem distintas: o Entre 1800 e 1700 a.C., chegam os hebreus, mas são os
Alto e o Baixo Egito. O Alto Egito é a região do interior hicsos, vindos da Ásia, que criam as maiores dificulda-
do território, com cerca de 10 quilômetros de largura e des. Trazem cavalos e carros de combate, que os egípcios
que chega até a primeira catarata. O Baixo Egito é a desconhecem. Dominaram a região e instalaram-se no
região do delta, cheia de alagadiços e que se alarga à delta de 1750 a 1580 a.C.
medida que se aproxima do Mediterrâneo.
Império Novo (1580-1085 a.C.)
Império Antigo (3200-2200 a.C.)
Depois da expulsão dos hicsos, a nova fase, de enorme desen-
A história do Egito começa quando as populações que vi- volvimento militar, transformou o Egito em potência imperia-
viam às margens do Nilo tornam-se comunidades dedica- lista. O Novo Império marca o apogeu da civilização egípcia.
das mais à agricultura do que à caça ou à pesca. No quarto
milênio antes de Cristo, evoluem para pequenas unidades No reinado de Tutmés III (1480-1448 a.C.), o império
políticas, chamadas nomos. Formaram-se dois reinos, um atingiu sua maior expansão territorial, ampliando-se até o
ao norte e outro ao sul. Por volta de 3200 a.C., o faraó rio Eufrates, na Mesopotâmia.
Menés (ou Narmer) unificou os reinos, com capital em Tínis, Marido da rainha Nefertiti, Amenófis IV empreendeu
daí o período até 2800 a.C. chamar-se Tinita. uma revolução religiosa, provavelmente para anular o
Os sucessores de Menés organizaram uma monarquia poder e a autoridade da camada sacerdotal, instituindo
poderosa e de maior prosperidade do Antigo Império. En- o culto monoteísta ao deus Áton, simbolizado pelo dis-
tre 2700 e 2600 a.C., foram construídas as célebres pirâ- co solar, chegando a mudar seu nome para Akhenaton
mides de Gizé, atribuídas aos faraós Quéops, Quéfren (“aquele que agrada a Aton”).

83
Tutancáton, seu sucessor, restaurou o deus Amon e pôs fim
à revolução. Mudou o próprio nome para Tutancâmon.
Os faraós da dinastia de Ramsés II (1320-1232 a.C.) en-
frentaram novos obstáculos, como a invasão dos hititas,
vindos da Ásia Menor. O Império entrava em declínio. Em
525 a.C., o rei persa Cambises derrota o faraó Psamético
III. A independência acabou. Nos séculos seguintes, os po-
vos do Nilo seriam dominados pelos gregos e, finalmente,
cairiam nas mãos do imperialismo romano, em 30 a.C.
Pirâmides de Quéops, Quefren e Miquerinos
Sociedade e Economia Seus escritores se inspiravam em temas morais, poéticos ou
A agricultura de regadio era a principal atividade econô- religiosos, como o Texto das Pirâmides e o Livro dos Mortos.
mica no Egito Antigo. Estava diretamente ligada às obras hi- Tinham três tipos de escrita. Uma sagrada, em túmulos e
dráulicas que tornavam possível o controle das águas do Nilo. templos, a hieroglífica; uma versão mais simplificada, a
A economia egípcia pode ser enquadradada no modo hierática, em documentos administrativos; e a demócri-
de produção asiático, em que coexistiam comunida- ta, mais popular.
des caracterizadas pela propriedade coletiva do solo e
organizadas sobre as relações de parentesco, com um
poder estatal que representava a unidade verdadeira ou
Mesopotâmia
aparente de tais comunidades. Mesopotâmia (atual Iraque), é uma palavra de origem grega
que significa “terra entre rios”. Localizava-se numa exten-
O Estado organizava as atividades produtivas por meio sa faixa de terra conhecida como Crescente Fértil, entre
de uma rígida estrutura repressiva. A população campone- os rios Tigre e Eufrates
sa pagava impostos em produto ou em trabalho, numa
A Mesopotâmia era formada por cidades-Estado com au-
estrutura denominada servidão coletiva.
tonomia religiosa, política e econômica e governadas por
O governo do Egito antigo era teocrático. O faraó era con- um sacerdote.
siderado filho de Amon-Rá, o deus Sol, e encarnação
de Hórus, simbolizado pelo falcão. A nobreza era formada Sua cidade mais famosa foi Acad, que deu origem ao termo
pelos parentes do faraó, altos funcionários do palácio, oficiais acádios. Estes estabeleceram uma organização centralizada
do exército, chefes administrativos e sacerdotes. em seu Império, afastando a influência dos sacerdotes. Por
volta de 2330 a.C., o rei semita Sargão unificou as cidades
Camponeses e artesãos eram a camada inferior da socieda- sumérias, criando o Primeiro Império Mesopotâmico.
de, mas deles dependia a prosperidade do país. Recebiam
míseros pagamentos em forma de produtos, moravam em
cabanas, vestiam-se pobremente e comiam pouco. Aquilo
Sociedade e economia
que poupavam, guardavam para o funeral, para garantir Marcadas pela agricultura de regadio e pela servidão
uma vida melhor após a morte. coletiva, várias civilizações mesopotâmicas inseriram-se
no chamado modo de produção asiático. A estrutura social
Cultura e religião mesopotâmica assemelhava-se à egípcia

Os egípcios eram politeístas, ou seja, adoravam vários deu-


ses. Antropozoomórficos esse deuses apresentavam forma
Primeiro Império Babilônico
de homem e animal. As principais divindades eram: Osíris, (1800-1600 a.C.)
Amon-Rá, Isis, Hórus, Ápis e Anúbis. Hamurábi foi um dos primeiros reis babilônicos (1728-
1686 a.C.). Ampliou o Império e foi sobretudo um legisla-
Para os egípcios, a morte apenas separava o corpo da alma.
dor, responsável pelo primeiro código de leis que se conhe-
Por isso, era preciso conservar o corpo. Com essa finalidade,
ce: o Código de Hamurábi.
os egípcios desenvolveram técnicas de mumificação.

Ciência e arte Império Assírio (1875-612 a.C.)


A arquitetura egípcia é reconhecida pelos seus templos, as Com origem por volta de 1800 a.C., o Império Assírio teve
pirâmides, as mastabas e os hipogeus. seu período de maior expansão entre 883 e 612 a.C.,

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conquistando a Síria e o Egito. O Império Assírio chegou destruído e os hebreus foram levados como escravos para
ao fim com a invasão e o domínio dos medos. a Babilônia (Cativeiro da Babilônia).
Em 539 a.C. termina o Cativeiro da Babilônia. Os hebreus
Novo Império ou Segundo retornam à Palestina, reconstroem o Templo de Jerusalém
Império Babilônico e se tornam parte do Império Persa. Situados nos territórios
da antiga tribo de Judá, os habitantes dessa região passa-
(612-539 a.C.) ram a ser chamados de judeus.
Nabucodonosor (605 a 563 a.C.) tomou Jerusalém em Os judeus foram dominados por vários povos. Em 63 a.C.,
587 a.C., levou numerosos israelitas cativos para a Babilônia), a Palestina foi conquistada por Pompeu e transformada em
conquistou a Síria, a Fenícia e construiu grandiosas obras, província do Império Romano. Em 70 d.C., os judeus se
como os Jardins Suspensos da Babilônia e a Torre de Babel. O rebelaram contra o domínio dos romanos, que destruíram
Segundo Império Babilônico foi tomado por Ciro em 539 a.C. Jerusalém, inclusive o Templo, e expulsaram os judeus da
Palestina. A dispersão dos judeus pelo mundo ficou conhe-
Cultura e religião cida como Diáspora.
Estado teocrático, a religião mesopotâmica tinha cará-
ter politeísta. Sociedade e economia
A escrita era em forma de cunha (cuneiforme). Na literatura, A economia era predominantemente agropastoril. Durante
as principais obras foram o Poema da Criação e a Epopeia o Período dos Reis, a terra ficou concentrada nas mãos da
de Gilgamesh. Também avançaram em Matemática, criando aristocracia ligada ao Estado. Camponeses, pastores e uma
tábuas de multiplicação e divisão. Na astronomia, desenvol- pequena parcela de escravos estavam subordinados a essa
veram um calendário baseado nos ciclos da Lua. A arquite- aristocracia.
tura se destacou pela construção de palácios e zigurates.
Cultura e religião
Hebreus No Direito, os hebreus produziram o Código Deuteronô-
mio, e sua literatura está contida no Antigo Testamento.
A Palestina, localizada no Oriente Próximo, era formada Constituíram a única civilização monoteísta da antigui-
pelo vale do rio Jordão, as áridas terras da Judeia e a planí- dade oriental. Vale dizer que o monoteísmo judaico exerceu
cie costeira. Inicialmente habitada por cananeus, filisteus e grande influência sobre o cristianismo e o islamismo.
arameus, foi povoada por volta de 2000 a.C. pelos hebreus,
povo de origem semita.
Segundo a Bíblia, Abraão foi o primeiro patriarca, tendo Fenícios
conduzido seu povo à terra prometida por Deus, Canaã,
ou Palestina. De seu neto, Jacó, originaram-se as 12 tri- Os fenícios
bos de Israel. A estreita faixa de terra entre as montanhas e o mar Medi-
Por volta de 1800 a.C., as secas obrigaram os hebreus a terrâneo, atualmente região do Líbano, começou a ser ocu-
emigrarem para o Egito. Os hebreus deixaram o Egito rumo pada por povos de origem semita por volta de 3000 a.C.
à Palestina por volta de 1250 a.C.
A luta pela reconquista da Palestina desencadeou um pro- Sociedade e economia
cesso de unificação das tribos hebraicas e centralização Na Fenícia, a agricultura cedeu lugar ao comércio, à pesca
política, cujo desfecho foi a fundação do reino de Israel. e a um rico artesanato. As vastas florestas de cedros e
As relações comerciais com a Fenícia foram intensificadas. os bons portos naturais favoreceram a atividade marítimo-
A morte do rei Salomão, em 933 a.C., desencadeou uma -comercial. Isso fez dos fenícios os principais navegantes
crise política conhecida como o cisma hebraico, resul- e comerciantes da antiguidade. Era uma sociedade de
tando na divisão do reino em duas partes: o Reino de Judá castas constituída por sacerdotes, aristocratas, comerciantes,
(duas tribos), situado ao sul, e o Reino de Israel (dez tri- homens livres e escravos.
bos), localizado no norte. Em 722 a.C., o Reino de Israel A Fenícia não constituiu um Estado unificado com um go-
foi conquistado por Sargão II e transformado em província verno centralizado. Agrupavam-se em cidades-Estado,
do Império Assírio. O Reino de Judá foi conquistado por de governo autônomo e soberano.
Nabucodonosor em 587 a.C. O Templo de Jerusalém foi

85
Cultura e religião cunhada em ouro e prata, facilitou a integração econômica
das regiões e dos povos do império.
A religião era politeísta, de divindades associadas às forças
A rede de estradas reais, o dárico e a padronização dos
da natureza. A principal contribuição dos fenícios foi a in-
pesos e medidas possibilitaram o desenvolvimento das ati-
venção do alfabeto fonético. Criaram 22 sinais dos sons
vidades comerciais.
das palavras. Com as vogais, tornou-se o alfabeto grego.
A elite persa era composta pelo imperador e sua família e
por altos burocratas, comandantes militares e sacerdotes.
Império Persa A massa da população era sujeita ao trabalho compulsório
nos sistemas de regadio e/ou nas obras públicas, e ainda
Dois grupos arianos ocuparam o Irã a partir de 2000 a.C.,
tinha que pagar uma pesada tributação.
os medos e os persas. Tornaram-se pequenos reinos rivais
no século VIII a.C.. No século VI a.C., Ciro I, rei dos persas,
conquistou o Reino da Média, provocando a unificação po- Cultura e religião
lítica dos povos do Planalto Iraniano em 550 a.C. OIs persas desenvolveram uma arquitetura monumental. Ti-
nham uma religião dualista, em que o deus do bem, Ahura-
Sociedade e Economia -Mazda (ou Ormuz), opunha-se ao deus do mal, Arimã. E fun-
damentava-se na crença do Juízo Final, onde o bem triunfaria
Ocorreu um rápido expansionismo territorial durante o go- sobre o mal, descritos no livro sagrado Zend Avesta, escrito
verno de Ciro I (559-529 a.C.). O dárico, moeda-padrão pelo lendário Zoroastro ou Zaratustra.

CIVILIZAÇÃO GREGA

Geografia Os dórios, último grupo de povos arianos a penetrar na


Grécia, chegaram enquanto a civilização micênica se ex-
O território grego era composto por duas regiões distintas: a pandia em direção à Ásia. Aguerridos, nômades e conhe-
parte continental, ao sul da península dos Balcãs, e a Grécia cedores de armas de ferro, os dórios arrasaram as cidades
insular, que ocupava as ilhas do mar Egeu e a costa da Ásia gregas, causando fugas para o interior e para o exterior.
Menor. Com a expansão colonial, ela ocupou também a cos- Numerosas colônias gregas formaram-se na costa da Ásia
ta egeia da Ásia Menor e o sul da península Itálica. Menor e nas ilhas do mar Egeu. Essa foi a Primeira
Diáspora Grega.
Período Pré-homérico
(2000-1200 a.C.) Período Homérico (séc. XII-VIII a.C.)
De origem indo-europeias, os gregos ou helenos chegaram
à Grécia em cerca de 2000 a.C.
Antes deles, os aqueus já ocupavam as melhores terras. Os
aqueus formaram os núcleos urbanos de Micenas, Tirinto e
Argos. Os habitantes de Micenas integraram sua cultura à
dos cretenses, cuja civilização era bastante avançada, o que
deu origem à civilização creto-micênica.
Com a chegada de novos grupos indo-europeus, os jônios
e os eólios, por volta de 1700 a.C., os núcleos arianos ins-
talados na Grécia foram fortalecidos. Os troianos, outra im-
portante civilização pré-helênica, desenvolveram-se ao norte O nome “homérico” é baseado em dois poemas épicos atri-
da Anatólia. Troia tinha uma população aparentada com os buídos a Homero: a Ilíada e a Odisseia.
primeiros gregos, e foi erguida por volta de 1900 a.C. No Depois do século XII a.C., a célula básica da sociedade
início do século XII a.C., os gregos destruíram Troia. grega era o genos (comunidade gentílica), uma grande

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família. Os descendentes de um mesmo antepassado vi- situação vigente de privilégios da aristocracia e de do-
viam no mesmo lar. Cada membro (gens) dependia da minação sobre os escravos.
unidade da família, cujo chefe era o páter-famílias. Seu Esparta regrediu culturalmente com as mudanças estru-
poder era passado para o filho mais velho. turais do século VII a.C. O governo passou a estimular o
A sociedade era igualitária e sem classes sociais. Os meios laconismo: falar tudo em poucas palavras, o que limitava
de produção e o resultado da produção pertenciam à co- a capacidade de raciocínio e o espírito crítico dos falantes.
munidade. A falta de terras férteis e o crescimento demo- Rigidamente militarista, a educação dos esparciatas con-
gráfico levou as comunidades gentílicas a lutas internas e tribuía significativamente para a manutenção dessa estru-
desagregação. Era o fim do Período Homérico. tura política e social fechada. Aos sete anos de idade, os
Os gregos passaram do sistema de propriedade coletiva para meninos eram entregues aos cuidados do Estado para que
o de propriedade privada. Os parentes mais próximos do pa- tivessem uma rígida educação militar. Dos dezoito aos ses-
ter, os eupátridas, ficaram com as áreas mais férteis; aos seus senta anos, serviam no exército. Só depois dos trinta anos,
parentes mais distantes, os georgóis (agricultores) destirna- quando então recebiam seu lote de terra e passavam a ser
ram as restantes. Os denominados thetas (marginais) fica- cidadãos, poderiam casar.
ram sem terra. Uma parte deles se dedicou ao comércio e ao A fim de evitar mudanças radicais e de garantir o domínio
artesanato. Os demais deixaram a Grécia e fundaram colô- da minoria dória sobre a maioria escrava, Esparta perma-
nias nos mares Negro e Mediterrâneo, processo conhecido neceu nesse sistema até o século IV a.C.
como Segunda Diáspora Grega (século VIII a.C.).
Foram os eupátridas que originaram a aristocracia grega, A cidade-estado democrática, Atenas.
cujo poder resultava da posse de terra. Eles uniam-se em ir- Atenas foi fundada numa planície, a Ática, uma península
mandades, as frantrias, que se uniam em tribos. Da reunião do mar Egeu. Os atenienses se consideravam originários
de seus vilarejos surgiu a organização política da antiga dos povos aqueus, eólios e jônios.
Grécia: a cidade-Estado (pólis).
A economia de Atenas, no século VIII a.C., era ainda essen-
cialmente rural. Mas atividades artesanais e comerciais já
Período Arcaico (séc. VIII-VI a.C.) ultrapassavam os limites da Ática. A proximidade de Ate-
A evolução e consolidação das cidades-Estado foi o que nas do mar Egeu abriu-a a influências externas, facilitou
marcou o Período Arcaico grego. Isoladas geograficamente, sua participação no movimento de colonização e transfor-
evoluíram de modos distintos, gerando modelos por vezes mou-a numa pólis de navegadores e comerciantes.
antagônicos e rivais. Os eupátridas, grandes proprietários de terras, eram a
camada social dominante. Os georgois eram agriculto-
Esparta, a cidade-estado militarista. res donos de terras pouco férteis perto das montanhas. Os
Esparta foi uma das primeiras cidades-Estado gregas, fun- thetas eram os marginalizados (recebiam menos de 200
dada pelos invasores dórios no século IX a.C. Sem saída medimnos por ano).
para o mar e isolada pelas montanhas, Esparta era uma Na região litorânea, concentravam-se os artesãos (demiur-
cidade-estado avessa a influências externas. gos), trabalhadores livres. Cerca de 100 mil estrangeiros
A sociedade espartana se dividida em: espartanos ou residiam em Atenas, os metecos, dedicados ao artesanato
esparciatas, a camada dominante; periecos, agriculto- e ao comércio. A maioria da população de Atenas era de es-
res livres, dedicavam-se também ao artesanato e ao co- cravos, que desempenhavam todas as atividades manuais.
mércio; hilotas, a camada mais baixa da sociedade es- A primeira forma de governo de Atenas foi a monarquia ou
partana, servos pertencentes ao Estado e à disposição dos realeza. No século VII a. C. ocorreu a substituição da realeza
esparciatas para o cultivo da terra. pelo arcontado, órgão de caráter executivo. Assim o regime
de governo passou de monárquico para oligárquico.
Política Em 507 a.C., ocorreu uma insurreição do partido popular
A economia e sociedade imobilistas explicam o governo (demos) e a ascensão de Clístenes ao governo de Atenas.
espartano menos progressista e mais conservador.
Apenas uma minoria de cidadãos, os esparciatas, par-
A democracia ateniense
ticipava do governo oligárquico, os homoioi (iguais). Clístenes, apesar de sua origem aristocrática, traçou um
Seu objetivo fundamental era conservar o status quo, a governo baseado na isonomia, a igualdade dos cidadãos

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perante a lei. A primeira medida foi a divisão da população
da Ática em três zonas: o litoral (parália), o interior (me-
Período Helenístico (séc. IV-I a.C.)
sógia) e a cidade (ásty). Cada uma dessas zonas foi divi- No século IV a.C., Filipe apoderou-se da Grécia. Conhe-
dida em dez unidades. Da reunião das unidades de cada cedor do individualismo das cidades-Estado e de muita
zona formou-se uma tribo, totalizando dez tribos. A menor astúcia política, respeitou-lhes a autonomia. Assim, foi pro-
unidade de divisão eram as demos, base desse sistema de clamado hegemon (líder), com o direito de chefiar uma liga
governo, razão pela qual a reforma de Clístenes ficou co- contra os persas, a Liga de Corinto.
nhecida pelo nome de democracia. Filho de Filipe II, Alexandre Magno assumiu o trono com
uma Macedônia organizada e bem armada pelo exército,
Período Clássico (séc. V e IV a.C.) usou de violência e arrasou as cidades gregas, exceto Ate-
nas. Como líder supremo do helenismo, deveria libertar
Período de hegemonias e imperialismo no mundo grego.
as cidades da Ásia e levar os gregos à vingança contra os
Atenas foi a primeira potência dominante, seguida por Es-
persas. Alexandre rumou para a Ásia com 40 mil homens,
parta e Tebas. A vitória dos gregos nas guerras médicas
12 mil dos quais na infantaria, o forte de seu exército.
ou pérsicas projetaram a hegemonia ateniense até a Guer-
ra do Peloponeso. Filipe II anexou o mundo grego ao Reino Recusou o acordo de paz oferecido por Dario III, derrotou-o
da Macedônia e, na fase seguinte, ao Império Helênico de em pleno centro do Império Persa em 331 a.C. Já impera-
Alexandre Magno. dor persa, avançou para a Índia, percorreu a região do rio
Indo e só não chegou ao Ganges porque os soldados recu-
A hegemonia de Atenas (443-429 a.C.) saram-se ir com ele. Aos 33 anos, morreu na Babilônia em
323 a.C., deixando um dos mais vastos impérios já criados.
Atenas alcançou seu apogeu sob o governo de Péricles. O con-
trole do mar Egeu, o comando da Confederação de Delos e a
prosperidade econômica contribuíram para o fortalecimento Cultura e religião
do partido democrático formado pelos ricos comerciantes e Os gregos eram politeísta: cultuavam grandes deuses, que
armadores. Sob a direção desse partido, Atenas desenvolveu, habitavam o Olimpo, e os heróis, homens que praticaram
ao mesmo tempo, uma política democrática e imperialista. ações extraordinárias e se igualavam aos deuses. Mito-
logia é o conjunto dos mitos, as lendas que contam as
aventuras de deuses e heróis.

Partenon

A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.)


A Grécia foi assolada por uma terrível guerra, envolvendo
todas as cidades-Estado gregas. A disputa era entre a Liga
do Peloponeso, liderada por Esparta, e a Confederação de
Delos, por Atenas. Estátua de Poseidon - o deus dos mares - em Hua Hin, Tailândia.

Essa disputa entre as duas pólis foi se tornando tão acir- Atenas abrigou alguns dos maiores pensadores e artistas
rada que desembocou em um conflito de grandes propor- que a humanidade conheceu.
ções. No final do conflito, do qual Esparta saiu vencedora, a A filosofia grega divide-se em antes e depois de Sócrates.
Grécia se encontrava materialmente arrasada, com grande Foram pré-socráticos: Tales de Mileto (fim do século VII-iní-
diminuição de sua população masculina mais jovem e en- cio do século VI a.C.); Pitágoras (582-497 a.C.); Demócrito
fraquecida militarmente. Esparta, assim como Atenas, ado- (460-370 a.C.); Heráclito (535-475 a.C.); e Parmênides
tou uma política imperialista. (540-? a.C.). No tempo de Sócrates, predominava a escola

88
dos sofistas, que se serviam da reflexão para atingir fins A Matemática de Euclides e os teoremas de Tales e Arqui-
imediatos, ainda que por falsos argumentos. O maior dos medes foram incorporados ao patrimônio cultural da hu-
sofistas foi Protágoras. manidade. Hipócrates, o mais ilustre médico da Antiguida-
Sócrates (470-399 a.C.) – fundou a filosofia humanista. de, impulsionou o conhecimento do corpo humano.

Platão (427-347 a.C.) – principal discípulo de Sócrates, Atenas e seu regime democrático serviu de exemplo para
fundou a Academia de Atenas. todos os povos.

Aristóteles (384-322 a.C) – considerado por muitos o


maior filósofo de todos os tempos, compreendeu todos os
conhecimentos de seu tempo: Lógica, Física, Metafísica,
Moral, Política, Retórica e Poética.
Marcada pela harmonia, a simplicidade, o equilíbrio e uma
decoração perfeitamente adaptada ao conjunto, a arte
grega era religiosa e manifestada em templos e esculturas
representando deuses e passagens mitológicas.

A arquitetura grega desenvolveu três estilos: o dórico, mais


antigo, era simples e despojado; o jônico, leve e flexível; o
coríntio, mais recente, era complexo e rebuscado.
A Acrópole é um de seus monumentos mais belos. O es-
plendor da arte grega ainda pode ser admirado nas ruínas
do Partenon e na Acrópole de Atenas.

CIVILIZAÇÃO ROMANA

Origens Sociedade e economia


Acredita-se que Roma tenha sido fundada por latinos em Em razão de sua terra de melhor riqueza e graças ao caráter
fuga das invasões etruscas. Roma era um pequeno povo- aristocrático de sua sociedade, Roma baseou sua economia
ado na península Itálica influenciado por diversos povos. em atividades agropastoris. Grandes proprietários rurais,
os patrícios, formavam a camada social dominante. Os não
O poeta Virgílio, em sua obra Eneida, leva a crer na mítica
proprietários, clientes, prestavam serviços e beneficiavam-
fundação de Roma por Rômulo e Remo, descendentes do -se da proteção de famílias patrícias. Estrangeiros, artesãos,
guerreiro troiano Enéas. pastores, comerciantes e donos de pequenos lotes pouco
férteis eram os plebeus e não pertenciam a um clã.
Os escravos não possuíam grande peso na sociedade e
na economia romanas, pois ainda eram pouco numerosos.
Isso mudaria em consequência das guerras de expansão,
quando as conquistas externas transformaram a economia
romana num sistema de produção escravista.

Monarquia (séc. VIII-VI a.C.)


Da fundação de Roma até a implantação da República, exis-
tiu um governo monárquico, em que o rei (rex) tinha função
A loba capitolina representa a loba das narrativas romanas de chefe supremo, sumo sacerdote e juiz, poderes esses de
sobre a fundação de Roma. origem divina. A realeza apoiava-se no Imperium (comando

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supremo) e no Auspicium (conhecimento da vontade divina). zelar pela tradição e pela religião, além de supervisionar
Os chefes das principais famílias patrícias assessoravam o rei as finanças públicas.
e compunham o Conselho de Anciãos e o Senado.
Os mais altos magistrados eram os cônsules, responsá-
Roma teve sete reis, dos quais os quatro primeiros fo- veis pelo comando do exército e pelo controle da adminis-
ram latinos, e os três últimos, etruscos, de acordo com a tração, além de exercer o Poder Executivo. Participavam das
tradição lendária. Durante o período de reinado etrusco, reuniões do Senado e propunham leis.
houve uma série de tentativas dos reis de limitarem o po-
Seriamente discriminados, os plebeus recebiam sempre
der patrício ao se aliarem a setores populares. Tarquínio, a menor parte dos espólios de guerra; se precisassem
o Antigo (616-578 a.C.), iniciou a construção de grandes contrair empréstimos, não conseguiam pagar os juros;
obras públicas. Sérvio Túlio (578-534 a.C.) edificou a pri- julgados por magistrados patrícios e com base em leis
meira muralha de Roma e estabeleceu um regime censi- orais, os devedores acabavam escravizados por dívida. Há
tário, dividindo a população em cinco categorias sociais indícios de cinco revoltas levadas a cabo pelos plebeus,
de acordo com sua renda. entre 494 e 287 a.C.
Por fim, o terceiro rei etrusco, Tarquínio, o Soberbo, edi- § Primeira revolta (494 a.C.) – a primeira greve de
ficou o Templo de Júpiter e construiu a Cloaca Máxima caráter social da História, em razão da qual os patrí-
(sistema de esgoto de Roma). Governou com o apoio dos cios tiveram de conceder a criação dos tribunos da
plebeus e latinos inimigos dos patrícios. Dessa forma, plebe, magistrados que atuavam em defesa
manteve os patrícios praticamente fora do poder político dos direitos e interesses da plebe no Sena-
decisório das cidades. Em razão disso, os patrícios cons- do. Em 471 a.C., os plebeus constituíram a Assem-
piraram e o derrubaram por meio de um golpe de Estado, bleia da Plebe para eleger seus tribunos, o que
no ano 509 a.C. aumentou seu poder de veto e de ação.
§ Segunda revolta (450 a.C.) – os patrícios enviaram
República (séc. VI-I a.C.) representantes a Atenas para estudar as leis com a
promessa de resolver os problemas da plebe. O re-
A queda da monarquia foi um ato reacionário dos patrícios, sultado foi a criação do primeiro código de direito
que afastaram a realeza comprometida com as camadas escrito em Roma, a Lei das Doze Tábuas. A plebe
populares. O monopólio do poder passou ao patriciado, e a conseguiu que as leis votadas em sua Assembleia ti-
plebe ficou à margem. vessem validade, mesmo dependendo da aprovação
do cônsul ou do Senado.
§ Terceira revolta (445 a.C.) – a Lei das Doze Tábuas
manteve a proibição de casamento entre patrícios e
plebeus, o que levou os plebeus a se revoltarem pelo
fim da proibição, conscientes de que os casamentos
mistos quebrariam a tradição patrícia de exercer o
poder com exclusividade. A reivindicação foi atendida
com a Lei Canuleia, mas apenas para os plebeus
que tinham mais posses.
§ Quarta revolta (367-366 a.C.) – a pressão da plebe
resultou na Lei Licínia Sextia, promulgada pelo
senado romano, obrigando que, a cada ano, um dos
Cícero acusando Catilina no senado (afresco
de Cesare Maccari, século XIX)
dois cônsules fosse um plebeu. Mais tarde, em 326
a.C., foi abolida a escravidão por dívidas por meio
O Senado era, sem dúvida, uma das mais importantes da Lei Papiria Poetelia.
instituições da República, pois praticamente detinha o
poder, apesar das demais instituições. Era composto por § Quinta revolta (287-286 a.C.) – os plebeus conse-
guiram impor aos patrícios a validade das leis vota-
300 senadores de origem patrícia. Entre outras tarefas,
das na Assembleia da Plebe para todo o Estado: era
cabia-lhes eleger os magistrados, autorizar ou não a
a decisão da plebe ou plebiscito.
concessão das honras do triunfo aos generais vencedo-
res, conduzir a política externa, administrar as provín- A preocupação com as leis levou os romanos a desenvolver
cias, dar seu parecer sobre a escolha de um ditador e minuciosamente o seu direito. Sendo adotado por vários

90
outros povos europeus, o Direito Romano mantém e
conserva sua importância até os dias atuais.
A expansão romana e
suas consequências
Conquistas, a expansão romana Com a expansão, o vasto comércio que se desenvolvia
ocupava o lugar antes pertencente à atividade agrícola. A
A dominação da península Itálica constitui a primeira concorrência com gêneros advindos das províncias e do la-
fase das conquistas romanas. Inicialmente, dominaram as tifúndio patrício, cujo crescimento dependia da mão de obra
tribos latinas próximas de Roma. A conquista da Campâ- escrava, levou ao desaparecimento da ampla camada de
nia, em 290 a.C., região ameaçada pelos samnitas, abriu pequenos proprietários.
as portas para a conquista das cidades gregas do sul da
Itália. Posteriormente, Roma subjugou o norte (Etrúria), Efeito direto da expansão, o crescimento da escravidão
cujos domínios compreendiam a Itália central e parte da esteve ligado à miséria da plebe, visto que grande parte dos
escravos era prisioneira de guerra. Mesmo abolida a escra-
Itália setentrional. Os romanos demonstraram um talen-
vidão por dívida, denominada “nexo” na Roma Antiga, ao
to notável para converter antigos inimigos em aliados e
plebeu endividado só restava entregar a terra ao patrício em
finalmente cidadãos romanos, ao estender seu domínio
troca da dívida. Paulatinamente, Roma entrou em um proces-
sobre a península Itálica.
so de concentração fundiária, com as grandes propriedades
patrícias transformadas em latifúndios voltados para a pro-
As guerras púnicas dução extensiva de exportação, ideal para o trabalho escravo.
Um processo de êxodo rural, devido à miséria da plebe sem
terra e sem trabalho no campo, acabou concentrando em
Roma uma massa miserável, aumentando a tensão social
e política. Com a finalidade de alienar essa multidão, cuja
potencialidade revolucionária era evidente, o Estado forne-
cia pão, vinho e espetáculos (política do pão e circo).

Expansão romana
Com a conquista do Mediterrâneo, foram criadas condi-
ções para um grande desenvolvimento da manufatura e do
comércio. A consequência dessa prosperidade econômica
foi a formação de uma nova classe de comerciantes e mi-
Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/ litares que enriqueceram com as guerras: os homens no-
Guerras_Púnicas>. Acesso em: 22 Dez. 2015. vos ou cavaleiros. Ao mesmo tempo em que sua condi-
Roma travou longa guerra contra Cartago, outra grande ção plebeia impunha-lhes uma situação de marginalização
política, sua riqueza tornava-os naturalmente adversários
potência do Mediterrâneo ocidental, assim que consoli-
da oligarquia patrícia, fato que também representou um
dou sua supremacia na Itália. Fundada em 800 a.C. pelos
elemento a mais a conspirar contra a ordem republicana.
fenícios, a cidade norte-africana tornara-se um próspero
entreposto comercial. Um império que abrangia a África No rastro das conquistas romanas e da necessidade de uma
do Norte, as regiões do litoral meridional da Espanha, a força militar mais eficiente, o exército romano passou por um
Sardenha, a Córsega e a Sicília ocidental. processo de profissionalização, uma força permanente cujos
guerreiros recebiam o soldo para combater (origem do ter-
O confronto romano-cartaginês acabou se transformando mo soldado). Uma força à margem da estrutura republicana,
numa disputa pela hegemonia marítimo-comercial no Me- que alimentou as ambições políticas dos generais.
diterrâneo ocidental e desdobrou-se em três guerras púnicas.
Novas lutas sociais assinalaram a crise da República,
Em seguida, os romanos ocuparam a Espanha e a Gália desencadeadas por essas transformações em Roma.
do sul, constituindo a província da Gália. A conquista da

Crise na república
região do Mediterrâneo Oriental foi completada por uma
rápida sucessão de campanhas militares. No fim do sé-
culo I a.C., o Mediterrâneo havia se transformado num
“lago romano” (mare nostrum = nosso mar). Foram tam-
(133-27 a.C.)
bém conquistados os reinos do Ponto, Bitínia, Síria, Egito, Alguns senadores, depois das transformações resultantes
Macedônia e Grécia. da conquista do Mediterrâneo, concluíram que a estrutura

91
do Estado precisava de reformas. Uma das primeiras medi- que lhe fora restituída. Em 60 a.C., Julio César, um político,
das, a votação secreta nas assembleias, permitiu a eleição Pompeu, um general, e Crasso, um abastado banqueiro,
de magistrados bem-intencionados, os irmãos Tibério e compuseram um triunvirato para tomar o poder em Roma.
Caio Graco.
Tibério Graco foi eleito tribuno da plebe e conseguiu a
aprovação de uma lei agrária que limitava a extensão dos
latifúndios da aristocracia patrícia e autorizava a distribui-
ção de terras para os desempregados. Tibério Graco e mais
de 300 partidários seus foram assassinados e lançados ao
rio Tibre por proprietários rurais que se opuseram-se à apli- Primeiro triunvirato: (da esquerda para a direita)
cação da lei agrária em 132 a.C. Pompeu, Julio César e Crasso

Caio Graco, irmão mais novo de Tibério, eleito tribuno da Pontífice Máximo, questor eleito pela assembleia do povo
plebe em 123 a.C, retomou e aplicou a lei de reforma agrá- e cônsul, Júlio César subiu depressa. Pompeu havia voltado
ria em Cápua e Tarento; permitiu aos cavaleiros o acesso do Oriente, e o Senado desaprovara seu trabalho de reor-
aos tribunais que julgavam as finanças provinciais; prome- ganizar as províncias orientais. O ambicioso Crasso fez uma
teu a cidadania romana aos aliados itálicos e decretou a aliança secreta com César e Pompeu a fim de tomar o poder
Lei Frumentária, que determinava a venda de trigo a preços do Senado: nascia o primeiro triunvirato.
baixos aos plebeus. Reeleito em 122 a.C., mas derrotado
Em 55 a.C., Pompeu ficou com a Espanha; Crasso, com as
no ano seguinte, Caio tentou um golpe de Estado, que re-
províncias no Oriente; e César, com a Gália (França atual).
sultou no massacre de seus seguidores. Foi morto por um
Em 53 a.C., Crasso morreu combatendo os partas na Síria,
escravo, seguindo suas próprias ordens.
povo que reconstruiu o Império Persa. Sobreveio uma crise
agravada pela ação de bandos armados que espalhavam o
Mario e Sila, duas ditaduras terror em Roma. Contra as ambições políticas de César, em
militares (107-79 a.C.) 49 a.C., o Senado confiou a Pompeu a defesa da República.
A crise da República, agravada pelo fracasso das reformas Julio César entrou em Roma à frente de seus exércitos,
propostas pelos irmãos Graco, mergulhou Roma numa pronunciando a famosa frase Alea jacta est, (A sorte está
sangrenta guerra civil, abrindo caminho para as ditadu- lançada), configurando um inegável golpe de Estado. Aba-
ras militares dos generais Mario e Sila. De origem plebeia, lado com o prestígio popular de César, Pompeu fugiu para
Mario era o homem mais rico de Roma, um homem novo a Grécia, onde foi derrotado em 48 a.C.
que, graças à sua riqueza, foi galgando postos dentro do
exército romano, no qual chegou a general. Mario foi eleito A ditadura de César (48-44 a.C.)
para o cargo de cônsul, já que dispunha de grande prestí-
gio entre as camadas populares. O Senado concedia cada vez mais títulos a César. Tais po-
deres permitiram numerosas reformas. César acabou com
Com o apoio do exército, Mario implantou uma ditadura a guerra civil, começou a construção de obras públicas e
em Roma e, violando as leis, reelegeu-se seis vezes para o pôs as finanças em ordem.
consulado. Aumentou o poder dos cavaleiros e reduziu a
autoridade do Senado. Tentou unificar o mundo romano, chegou a elevar gaule-
ses ao Senado. Nomeava pessoalmente os governadores
Em 86 a.C, após a morte de Mario, o general Sila, aristocra- e mantinha-os sob controle, para evitar que espoliassem
ta apoiado pelos patrícios e pelo Senado, assumiu o poder as províncias.
e proclamou-se ditador perpétuo de Roma. Líder da reação
do partido aristocrático, Sila realizou uma violenta repres- César instigou a plebe contra o Senado a fim de se tornar
são contra os cavaleiros e as camadas populares, restabe- rei, título que era sinônimo de traição depois que o Senado
lecendo os privilégios da aristocracia patrícia e restaurando abolira a monarquia. Sofrendo forte oposição do Senado,
a autoridade do Senado. A crise da República piorou com a que via nele uma clara ameaça graças a sua ambição de
instaurar uma monarquia hereditária, em 44 a.C., Julio Cé-
ditadura de Sila, que morreu em 79 a.C.
sar foi assassinado por um grupo de aristocratas liderados
por Cássio e Bruto.
O primeiro triunvirato (60-48 a.C.)
A República estava ainda ameaçada por comandantes milita-
O segundo triunvirato (43-30 a.C.)
res que se serviam das tropas em seu próprio interesse políti- Marco Antônio sublevou o povo contra os assassinos de
co. O Senado não conseguiu impor efetivamente a autoridade César, que não tomaram o poder. Cícero aconselhou o

92
Senado, que entregou o poder ao sobrinho e herdeiro de do Império Romano. A segunda marcou o declínio do Im-
César, Caio Otávio, que parecia não ter ambições políticas. pério Romano e sua destruição pelas invasões germâni-
Os senadores tinham-no como um instrumento em suas cas. A cidade de Roma chegou a possuir uma população
mãos. Otávio atacou Antônio em Módena para, em segui- de 1,2 milhão de habitantes, e o império abrangia uma
da, aliar-se a ele e a Lépido, banqueiro que havia fornecido área de 5 milhões de km2 em seu auge.
dinheiro para a guerra contra os assassinos de César. O
Segundo Triunvirato estava formado. O governo de Augusto (27-14 a.C.)
Em 40 a.C., os triúnviros dividiram novamente o Império Otávio Augusto, durante seu governo, assumiu o controle
pelo Acordo de Brindisi. A Itália foi considerada neutra. An- das principais magistraturas, concentrando mais poderes
tônio ficou com o Oriente; Lépido, com a África; e Otávio, ainda em suas mãos. Foi reconhecido como Princeps Sena-
com o Ocidente. tus, ou seja, o líder do Senado (razão pela qual seu governo
Otávio aumenta suas posses na África ao conseguir elimi- também ficou conhecido como principado). Como impera-
nar Lépido do triunvirato, no ano 36 a.C. dor, assumiu o comando supremo do exército.
A política do pão e circo foi a forma que Augusto encon-
trou de apaziguar a plebe romana, distribuindo alimentos gra-
tuitamente e realizando monumentais espetáculos públicos.
Otávio Augusto inaugurou o que os romanos chamavam de
pax romana, período esse em que as províncias romanas
foram pacificadas, estradas foram construídas, portos foram
reformados e pântanos foram drenados. Os aquedutos le-
Segundo triunvirato: (da esquerda para a direita) vavam água fresca para grandes parcelas da população ro-
Marco Emílio Lépido, Marco Antônio e Octavio August mana e o sistema de esgoto eficaz melhorou a qualidade
Para garantir a fidelidade de Antônio, Otávio tinha arran- de vida. Na política externa, as guerras de conquista foram
jado o casamento dele com sua irmã, Otávia. Porém, An- substituídas pela política de consolidação das fronteiras.
tônio separou-se de Otávia em 36 a.C. para se casar com Em14 d.C., Otávio morreu, e recebeu a apoteose, isto é, o
Cleópatra. Deixou sua herança para ela, nomeada também direito de ter um lugar entre os deuses.
regente do filho que tivera com César, a quem Antônio con-
siderava igualmente herdeiro, Cesarion. Dinastias que governaram Roma durante o Alto Império: a
Dinastia Julio-Claudiana (Tibério, Calígula, Cláudio e Nero)
Revoltado, Otávio partiu para combater Antônio. Em Ácio,
estava ligada à aristocracia patrícia romana; a Dinastia
perto da Grécia, Antônio foi derrotado e fugiu com Cleópa-
Flávia (Vespasiano, Tito e Domiciano) ascendeu ao poder
tra para o Egito. Antônio e Cleópatra se suicidaram.
pelo exército e estava associada aos grandes comercian-
O Egito era considerado por Otávio sua conquista pessoal. tes da Itália central; a Dinastia Antonina (Nerva, Trajano,
Apoderou-se do tesouro dos faraós, acumulado durante milê- Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo) ligava-se
nios, e, com essa fortuna, organizou 70 legiões, o que o tornou às famílias italianas estabelecidas na Espanha e na Gália
indestrutível. Otávio voltou à Roma triunfante, recebido como (o governo dessa dinastia marcou o apogeu do Império
um deus. Otávio ganhou o controle das duas maiores fontes Romano); a Dinastia Severa (Sétimo Severo, Caracala, He-
de poder: o exército e a plebe romana. Surgia o imperator, uma liogábalo e Severo Alexandre) assinalou a transição do Alto
nova forma de governo exercido pelo comandante do exército. para o Baixo Império.
Em 27 a.C., Otávio recebeu o título de Augusto (escolhi-
do dos deuses), fato que marcou o fim da República e o O cristianismo
início do principado, inaugurando o culto ao imperador.
Sob controle romano desde 64 a.C., a região da Palestina
foi o local do surgimento do cristianismo, uma dissidên-
O Império Romano cia do judaísmo.

(27 a.C.-476 d.C.) O cristianismo se fundamenta nas pregações de Jesus, que


se dizia o Messias, isto é, o Filho de Deus. A crença na exis-
tência de um só Deus, que enviou à Terra seu filho para
O Alto Império (27 a.C.-235 d.C.) redimir os homens, era o princípio fundamental do cristia-
O Império Romano se dividiu em duas fases: o Alto Impé- nismo. Foram os discípulos de Jesus, os apóstolos, que
rio e o Baixo Império. A primeira fase assinalou o apogeu difundiram a nova religião pelo mundo romano.

93
No século I da Era Cristã, durante a Dinastia Júlio-Claudia- pressões externas abriam novas brechas no dispositivo de
na, começou a perseguição aos cristãos, que, crentes na defesa militar provocadas pelas invasões bárbaras.
existência de um único Deus, recusavam-se a reconhecer
Descendentes dos indo-europeus ou arianos, os povos
os deuses oficiais do politeísmo romano e negavam-se a
bárbaros germânicos habitavam os territórios da Europa
prestar culto ao imperador. Além disso, graças a sua men-
Centro-Oriental. Enfraquecido por uma crise mais agu-
sagem redentora, o cristianismo obteve enorme sucesso
da, o Império Romano do Ocidente foi destruído pelas
entre os excluídos da sociedade romana, o que lhe rendeu
invasões germânicas. Sob o impacto delas, o Império
um caráter subversivo.
fragmentou-se e seus territórios foram ocupados por dife-
rentes povos germânicos, que neles fundaram os Reinos
O Baixo Império (284-476) Bárbaros da Idade Média.
Em 313, Constantino (313-337) promulgou o Édito de
Milão, concedendo liberdade religiosa aos cristãos. Em
330, fundou uma nova capital, Constantinopla, no local da
A cultura vinda de Roma
antiga colônia grega de Bizâncio. A cultura grega influenciou a cultura desenvolvida pelos
romanos. Na religião politeísta, os deuses romanos tinham
Em 391, Teodósio (379-395) transformou o Cristianismo
por modelo os deuses gregos. A literatura romana teve
em religião oficial do Império Romano pelo Édito de
grandes nomes: Cícero, Virgílio (Eneida), Horácio, Ovídio,
Tessalônica. Em 395, dividiu o império em duas unidades
Tito Lívio e Plutarco. As grandes obras da arquitetura roma-
político-administrativas: o Império Romano do Ocidente e
na foram o Panteon e o Coliseu. Na filosofia, o epicurismo
o Império Romano do Oriente.
de Lucrécio e o estoicismo de Sêneca, Epiteto e Marco
Os bárbaros esfacelaram o Império do Ocidente ao lon- Aurélio deixaram legado. Gaio, Ulpiano e Paulo foram os
go do século V. Os visigodos saquearam Roma em 410, os maiores jurisconsultos romanos.
vândalos, em 455, e, em 476, os hérulos depuseram Rômu- Os etruscos deixaram muitos legados para os romanos,
lo Augústulo, o último imperador. mas o maior foi o uso do arco e da abóbada nas cons-
truções. Esses elementos arquitetônicos permitiram aos ro-
O Império Romano e a crise manos criar amplos espaços internos. Assim, nos edifícios
O Império Romano começou a declinar a partir do século destinados à apresentação de espetáculos – os anfitea-
III. Entre inúmeras razões, destaca-se a crise do escra- tros – os construtores romanos, usando filas sobrepostas
vismo. Desde o final do século II, as guerras de conquista de arcos, obtiveram apoio para construir o local destinado
praticamente cessaram, fato que diminuiu muito o nú- ao público. Isso pode ser observado no mais belo dos anfi-
mero de escravos à venda. Com isso, o preço deles foi teatros romanos: o Coliseu.
ficando cada vez mais alto. Os proprietários começaram
a arrendar partes das suas terras a trabalhadores livres
denominados colonos. A partir do momento em que os
colonos ganhavam o direito de cultivar a terra, eram
obrigados a ceder parte de sua colheita para o senhor
e a trabalhar, gratuitamente, alguns dias da semana nas
plantações do senhorio. Esse novo sistema de trabalho
foi denominado colonato. A diminuição da produção e
o declínio do comércio foram resultantes da crise do es-
cravismo e do advento do colonato.
O desequilíbrio entre a arrecadação fiscal do Estado e sua
despesa com a manutenção do aparelho administrativo e Coliseu
militar foram a origem da crise financeira. A falta de
gêneros alimentícios e a inflação provocaram o êxodo
urbano e o despovoamento das cidades.
De 235 a 285, grassaram os motins militares e guerras civis,
e muitos imperadores foram assassinados. Ao mesmo tempo
em que desmoronavam os pilares internos do império, nas
fronteiras do Reno, do Danúbio e do Eufrates, as contínuas

94
IMPÉRIO BIZANTINO

Império Bizantino insuportáveis. As pressões da arrecadação desencadearam,


em 532, um violento levante conhecido por Revolta de
A morte do imperador Teodósio, em 395 d.C., determinou Nika, que foi duramente reprimida por Justiniano.
o fim da unidade do Império Romano, que foi dividido en- A publicação do Corpus Juris Civilis ou Código de
tre os seus filhos em duas partes: o Império Romano do Justiniano, que serviu de referência para códigos civis de
Ocidente e o Império Romano do Oriente, com sede em diversas nações, foi a grande realização de Justiniano no
Constantinopla, antiga Bizâncio. Dessa forma, o Império campo jurídico. O código resultou de uma compilação do
Romano do Oriente se consolidou como Império Bizantino. Direito Romano.

Economia e sociedade A Igreja bizantina


A região oriental, dotada de estruturas econômica, políti- No Oriente, o cristianismo foi integrado à cultura local,
ca e administrativas mais sólidas, teve mais capacidade de incorporando aspectos da realidade bizantina, inteiramen-
absorver a crise do Império Romano. Sua agricultura so- te diversos da realidade ocidental. Assim, o cristianismo
freu um pequeno declínio, mas a manufatura e o comércio oriental passou a ter características próprias, diferencian-
mantiveram-se articulados. As levas bárbaras do Oriente do-se cada vez mais do ocidental, com grande ênfase na
chegaram a ocupar algumas províncias, mas Constantino- valorização da espiritualidade.
pla conseguiu manter sua autoridade.
Os cristãos orientais denominavam de ícones quaisquer ima-
O comércio proporcionou o enriquecimento de Bizâncio, gens tridimensionais de Cristo ou santos incorporadas às ce-
que se tornou a maior metrópole do Oriente. Centro de rimônias religiosas. Dentre os principais produtores de ícones
importantes rotas comerciais, a cidade passou a controlar o encontravam-se os monges, que auferiam grandes lucros
intercâmbio de produtos entre o mar Mediterrâneo e o mar nesse ramo comercial. Isentos de tributação, proprietários de
Negro. No setor agrícola, predominavam os latifúndios. A grandes propriedades, exercendo grande influência na socie-
Igreja concentrava em suas mãos uma ampla porcentagem dade, representavam uma ameaça ao poder central.
da riqueza agrária, tornando os mosteiros as entidades
A corriqueira utilização de ícones nos templos e mesmo
mais ricas do império.
nas casas era vista por muitos como uma prática idólatra,
A sociedade era urbanizada. Banqueiros, mercadores, ma- ou seja, de adoração de ídolos.
nufatureiros e grandes proprietários de terras constituíam
Com o intuito de enfraquecer o poder dos monges, o im-
uma elite extremamente enriquecida. Nas camadas inter-
perador Leão III, em 725, proibiu o uso de imagens tridi-
mediárias estavam os trabalhadores urbanos do comércio
mensionais nos templos, determinando sua destruição ou
e das manufaturas. No campo, predominavam os servos,
iconoclastia. O papa manifestou-se declarando herética
proibidos de saírem das terras onde nasceram. Os escravos
a proibição de imagens, aprofundando os desentendimen-
realizavam trabalhos domésticos.
tos entre o imperador e a Igreja.
O Estado beneficiou-se do enriquecimento proporciona-
do pelo comércio, possibilitando seu fortalecimento como
uma monarquia centralizada, despótica, teocrática e here-
O Cisma do Oriente (1054)
ditária. O imperador tinha grandes poderes políticos, além O patriarca de Constantinopla era a figura eclesiástica de
de ser o chefe do Exército e da Igreja, com direito de intervir maior poder no Oriente. Ele recusava a supremacia do
nos assuntos eclesiásticos (cesaropapismo). papa sobre sua Igreja, considerando-se o supremo man-
datário do povo cristão.
O auge do império: Justiniano As inúmeras divergências levaram à separação entre as
(527-565 d.C.) igrejas orientais e ocidentais em 1054. O chamado Cisma
do Oriente levou à formação de duas igrejas distintas: a
O principal imperador bizantino foi Justiniano (527-565). Igreja Católica Apostólica Romana, dirigida pelo
Durante seu governo, o poder imperial atingiu seu auge. Os Papa, e a Igreja Cristã Ortodoxa, liderada pelo Patriarca
gastos militares forçaram a elevação dos impostos a níveis de Constantinopla.

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Decadência do Império Bizantino
Além do fortalecimento do poder dos grandes proprietários
rurais, do enfraquecimento do poder do imperador e das
disputas religiosas, contribuíram para o declínio do Império
Bizantino os constantes ataques que Bizâncio passou a so-
frer, especialmente das cidades italianas, a partir do século
XIII, e das investidas de bárbaros e árabes.
Depois de um longo cerco, em 1453, os turcos otoma-
nos, comandados pelo sultão Maomé II, conquistaram
a cidade de Constantinopla, ou Bizâncio, destruindo o
Império Bizantino. Constantinopla tornou-se a capital
de outro Estado poderoso, o Império Otomano, pas-
sando a se chamar Istambul e permanecendo, até os
dias atuais, como a maior e mais importante cidade da
República da Turquia.
A tomada de Constantinopla marcou a transição
da Idade Média para a Idade Moderna.
A entrada de Maomé II em Constantinopla,
de Jean-Joseph-Benjamin Constant

CIVILIZAÇÃO MUÇULMANA

A Arábia é uma península árida localizada no Oriente Por volta de 610, já com quase 40 anos, Maomé teve sua
Médio. Os diversos povos da Arábia estavam divididos primeira visão do anjo Gabriel, que lhe teria ordenado “re-
em várias tribos; portanto, não formavam um Estado citar o nome do Senhor” e que “havia um só deus, Alá,
com unidade política. Mas tinham elementos culturais e um só profeta, Maomé”. No ano de 622, Maomé teria
comuns, como o idioma árabe e certas crenças religio- realizado um milagre para provar que era profeta de Alá:
sas. A principal cidade árabe era Meca, onde havia um “quebrou” a Lua. Provavelmente tratava-se de um eclipse
santuário religioso, Caaba (casa de Deus), que reunia as e talvez Maomé tivesse informações sobre o acontecimen-
principais divindades de toda a Arábia (mais de 300 ído- to, porque tinha muito contato com o Oriente, onde a as-
los pertencentes às tribos do deserto). Ali estava a Pedra tronomia era altamente desenvolvida.
Negra, provavelmente um pedaço de meteorito protegi-
Perseguido pelos coraixitas, que mandaram assassiná-lo,
do por uma tenda de seda preta, na forma de um cubo,
Maomé fugiu para Iatreb (Yathrib), cidade rival de Meca,
que era bastante venerada, pois se acreditava ter sido
onde já possuía seguidores. Esse evento ficou conhecido
trazida do céu pelo anjo Gabriel.
como Hégira, e é utilizado como marco inicial do calen-
O santuário ajudou a transformar Meca no centro religioso dário muçulmano. Em latreb, Maomé conquistou rapida-
e comercial dos árabes, já que a cidade era o ponto de mente prestígio e poder, controlando a cidade que passou
encontro de pessoas e de mercadorias de diversas regiões. a ser chamada de Medina al Nabi – a Cidade do Profeta.
O responsável pela unidade política e religiosa da península Depois da conquista de Iatreb, o alvo principal passou a
Arábica foi Maomé, criador e divulgador da religião muçul- ser a cidade de Meca. O crescente número de seguidores
mana. Nas suas viagens, Maomé entrou em contato com possibilitou a formação de um exército numeroso, que
povos e religiões diferentes. Esteve várias vezes no Egito, cercou a cidade, preservando apenas a Caaba. Em segui-
Palestina, Pérsia, regiões onde fervilhava o espírito religioso. da, Maomé fez um acordo com os coraixitas, estabelecen-
Conheceu principalmente o cristianismo e o judaísmo, so- do a peregrinação a Meca como uma das obrigações da
frendo profunda influência dessas crenças religiosas. religião muçulmana.

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Em 632, Maomé morreu, deixando difundida sua doutrina fundamentais. O principal fundamento da religião é o
religiosa. Ao mesmo tempo, a península Arábica, que era monoteísmo, a crença no Deus único Alá e em seu
um aglomerado de tribos e clãs dispersos, teve sua unifi- profeta Maomé.
cação política realizada por meio da unificação religiosa.

Expansão islâmica
A partir do século VII, os árabes muçulmanos expandiram-
-se, dominando vasta extensão territorial que se estendia
da Ásia à Europa, passando pelo Norte da África. Essa
expansão teve origem na unidade política e religiosa
implantada por Maomé, no início do século VII, quando
foi criado um estado teocrático islâmico.

Fases da expansão
Depois da morte de Maomé, os membros mais influentes
dos conselhos municipais das cidades de Meca e Medina
Caaba, Grande Mesquista em Meca
decidiram apontar um califa, isto é, um sucessor de Mao-
mé, que deveria concentrar em suas mãos o poder político, Os fundamentos da religião estão no livro sagrado – Alco-
militar e religioso. O primeiro califa foi Abu Bekr, sogro de rão ou Corão –, que determina a total submissão do
Maomé, e os outros três que o sucederam foram também homem à vontade de Alá (Islão).
apontados entre seus familiares. Um aspecto importante da religião islâmica são as inter-
As conquistas tiveram início com esses califas de Meca. pretações e os significados que foram sendo agregados à
Sucessivamente, a partir de 634, a Síria, a Palestina, a Ásia jihad, que passou cada vez mais a ser interpretada como
Menor, a Mesopotâmia, a Pérsia, o Egito e a Tunísia caíram Guerra Santa e vinculada ao expansionismo. Foi graças à
sob o domínio muçulmano. concepção do jihadismo como “esforço” de difusão da fé
no islamismo que a expansão territorial foi estimulada e as
Alguns anos depois dessas conquistas, o novo império foi
conquistas de vários territórios pelos árabes muçulmanos
abalado por lutas internas, e o controle do califado passou
foram consumadas.
para as mãos de outra família, os Omíadas, que transferi-
ram a capital para Damasco, na Síria. Sob a liderança dos Outra característica importante do islamismo é o secta-
Omíadas (660-750), os árabes retomaram o processo de rismo, com a formação de seitas rivais desde a morte de
expansão conquistando territórios na Ásia central (Índia), Maomé, quando ocorreram sérias divergências em rela-
Norte da África e península Ibérica. Os muçulmanos só fo- ção à liderança religiosa e política dos muçulmanos. As
ram contidos na Europa pelos francos, liderados por Carlos principais seitas são xiitas e sunitas. Os primeiros acei-
Martel, da dinastia carolíngia, em 732, na Batalha de Poi- tam somente o Corão como fonte de verdade, bem como
tiers. O domínio árabe sobre a costa do Mediterrâneo con- um chefe político religioso descendente de Maomé. Os
tribuiu para a crise do comércio e a feudalização europeia. sunitas admitem, além do Alcorão, os ensinamentos con-
Em 750, a dinastia Omíada chegou ao fim, sendo derrota- tidos no Suna, livro de relatos de seguidores próximos de
da por uma conspiração interna que inaugurou a dinastia Maomé, bem como admitem que o chefe possa ser esco-
Abássida (750-1258). A capital passou de Damasco para lhido entre os fiéis que reúnam as virtudes necessárias.
Bagdá, mudança essa que provocou a primeira divisão do
mundo islâmico. A divisão do Império Islâmico foi uma con- A cultura árabe
sequência de sua enorme expansão, obtida em um período Os árabes foram os responsáveis pela difusão, no Oci-
muito curto de tempo. As seitas religiosas sunita e xiita dente, dos conhecimentos adquiridos pelos impérios bi-
contribuíram para esse fenômeno. zantino e persa.
Na Astronomia, os muçulmanos traduziram a obra de Pto-
A religião muçulmana lomeu, que passou a ser conhecida pelo nome de Alma-
A doutrina islâmica, muçulmana ou maometana é mar- gesto. Na Matemática, desenvolveram a álgebra e a trigo-
cada pelo sincretismo religioso. Possui elementos do nometria, além dos conhecimentos deixados pelos gregos.
cristianismo e do judaísmo, de onde provêm suas bases Propagaram o sistema numérico arábico, cuja invenção

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provém dos hindus. Na Química, descobriram substâncias na Europa até o século XVII. Na Literatura, destacam-se os
como o álcool, o ácido sulfúrico e o salitre. Foram os pri- poemas épicos e de amor e contos de aventura, como a co-
meiros a descrever os processos químicos de destilação, letânea As mil e uma noites e Rubaiat. Nome célebre é
filtração e sublimação. o de Averróis, filósofo de Córdova, que traduziu as obras de
Aristóteles para a língua árabe e introduziu-as no Ocidente.
Na Medicina, fizeram importantes descobertas, como o contá-
gio proveniente da água e do solo e o diagnóstico de doenças Merece destaque a arquitetura de palácios e mesquitas. Gra-
como a varíola e o sarampo. O mais famoso médico muçul- ças à dominação da península Ibérica, o árabe influenciou a
mano foi Avicena, cuja obra Canon foi o manual médico formação da língua portuguesa.

REINO FRANCO

Reino Franco Nesse período, um novo sistema econômico se estrutu-


rou – o feudalismo –, com a ruralização da economia e
Rômulo Augusto, o último imperador romano, foi deposto, o fortalecimento das relações pessoais entre o rei a seus
em 476, por Odoacro, líder hérulo que decretou o fim do vassalos. A fidelidade ao rei, suserano de um feudo, era es-
Império Romano do Ocidente, marco utilizado pelos his- tabelecida mediante o juramento da vassalagem,composta
toriadores para determinar o fim da Idade Antiga e o pelos senhores feudais e pelos cavaleiros, que assumiam o
início da Idade Média. compromisso de servir ao soberano. Em troca, o rei oferecia
proteção, terras e outros bens, mantendo o sistema de ser-
Os reinos bárbaros vidão e enfraquecendo o poder dos monarcas merovíngios.
O encontro entre romanos e bárbaros reuniu características O poder nobiliárquico também se baseava no contato direto
culturais de ambos os povos e deu início à estrutura do dos majordomus (mordomos ou prefeitos do palácio) com os
sistema feudal. reis. Oriundos de famílias nobres, os majordomus passaram
a exercer o poder no reino, a partir do comando do exército,
À medida que os bárbaros entravam no Império Romano
da administração e divisão das terras e, por fim, da coleta de
do Ocidente, formavam reinos que, de maneira geral, não
impostos. Aos reis eram atribuídas funções cerimoniais.
tinham longa duração. Por esse motivo, os povos germâni-
cos não resistiram às pressões externas e foram dominados Pepino de Heristal, majordomus do Reino da Austrásia,
ou destruídos. Entretanto, os francos conseguiram organi- conseguiu submeter os outros majordomus, promovendo
zar uma estrutura política na Gália. A centralização do po- a centralização do Reino Franco. Mas foi somente com seu
der foi fundamental para manter a conquista do território, sucessor, Carlos Martel, que os majordomus passaram a
atualmente a França. A formação desse reino teve início ser considerados reis.
no período da Alta Idade Média europeia, a expansão ter- Carlos Martel conquistou prestígio e poder ao liderar os
ritorial ocorreu entre as dinastias Merovíngia e Carolíngia. francos na vitória contra os muçulmanos na Batalha de
Poitiers, na França, no ano de 732, contendo o avanço
Dinastia Merovíngia (481-751) islâmico sobre a Europa ocidental.
Chefiados por Meroveu, os francos venceram os hunos no
final do século V, na Batalha dos Campos Catalúnicos. Mas
a dinastia Merovíngia foi consolidada, efetivamente, por
seu neto, Clóvis, a partir da unificação das tribos francas.
Clovis reinou durante os anos de 482 a 511. Nesse período,
aliou-se à Igreja Católica, oferecendo-lhe proteção militar;
em troca, obteve o apoio do papado, o que contribuiu para
o fortalecimento da sua autoridade real. Com a morte de
Clóvis, em 511, o Reino Franco foi dividido em quatro par-
tes, entre seus filhos, de acordo com o costume germânico
de divisão do poder. Mais tarde, uma nova divisão ocorreu
entre os netos de Clóvis. Carlos Martel na Batalha de Poitiers. Charles Steubem (1788-1856)

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Ao ser considerado pela Santa Sé como o “salvador do O imperio de Carlos Magno também foi marcado pelo estímu-
cristianismo ocidental”, Carlos Martel fortaleceu sua au- lo imperial ao desenvolvimento cultural. Ocorreu um grande
toridade pessoal, fato aproveitado por seu filho Pepino, incentivo à cultura e às artes, quando houve um florescimento
o Breve, que, com o apoio do papa Zacarias, destronou cultural e intelectual, o Renascimento Carolíngio.
o último rei merovíngio Childerico III, no ano de 751, e
Em 806, Carlos Magno fez seu testamento dividindo o
proclamou-se rei dos francos, iniciando a Dinastia Car-
império entre seus filhos, conforme o costume sucessório
olíngia, que perdurou até 987.
germânico, mas acabou sendo sucedido por seu filho mais
novo, Luís I, o Piedoso, que governou de 814 a 841,
Dinastia Carolíngia (751-987) mantendo o império e a estrutura político-administrativa
Pepino iniciou a administração de seu reinado lutando con- herdados de seu pai.
tra os lombardos na Itália. Os territórios conquistados, no
A decadência do Império Carolíngio teve início após a mor-
centro da península Itálica, foram cedidos à Igreja, que pela
te de Luís I, em 841, quando se iniciou um conflito entre
primeira foi dona de suas terras, concedendo maior poder
ao Papa e fortalecendo ainda mais a aliança entre a Igreja seus filhos pelo trono. Lotário, Carlos e Luís travaram várias
e o reino fanco. Os territórios da Igreja ficaram conhecidos batalhas, arruinando as finanças e enfraquecendo militar-
como Patrimônio de São Pedro. mente o império.

Pepino foi sucedido por seu filho Carlos Magno, em 768, Em 843, a disputa foi solucionada com a assinatura do Tra-
que governou até 814, tornando-se o mais importante rei tado de Verdun, que estabeleceu a divisão do império en-
franco, concedendo seu nome à dinastia Carolíngia. Carlos tre os netos de Carlos Magno: Lotário recebeu a Lotaríngia,
Magno ampliou as fronteiras do reino franco, anexando a que correspondia aos Países Baixos, Suíça e Norte da Itália;
Itália lombarda, a Saxônia, a Frísia e a Catalunha, tornan- a Luis, o Germânico, coube a parte oriental do Império (Ger-
do-se o único rei da Europa cristã. mânia); e a Carlos, O Calvo, coube o território da França. O
Tratado de Verdun marcou, segundo as divisões dos
A expansão foi favorecida pelo apoio da Igreja e da nobre-
períodos da História, o final da Alta Idade Média.
za guerreira. O reino de Carlos Magno tornou-se o maior
Império Ocidenta, durante o período medieval. No Natal do A quebra da unidade política e o enfraquecimento militar
ano 800, Carlos Magno foi coroado pelo Papa Leão III im- favoreceram as invasões externas – magiares, árabes e vi-
perador romano do Ocidente. kings –, levando o império franco ao declínio.

SISTEMA FEUDAL

Origens do feudalismo A nova onda de invasões dos séculos VIII ao X


Na Europa, a Idade Média caracterizou-se pelo surgi-
mento de um sistema econômico, político e social de-
nominado feudalismo. Esse sistema foi fruto de uma
lenta integração entre algumas características de duas
estruturas sociais: a romana e a germânica. Esse pro-
cesso de integração, que resultou na formação do feu-
dalismo, ocorreu no período histórico compreendido
entre os séculos V e IX.
Próximo ao fim do Império Romano do Ocidente, os gran-
des senhores romanos começaram a abandonar as cida-
des, fugindo da crise econômica e das invasões germâni-
cas. Os senhores rumaram para latifúndios no campo, onde
passaram a desenvolver uma economia agrária voltada
para a subsistência. Fonte: <28Fonte: 28navegadores.blogspot.com.br/2013_04_01_achive.html
navegadores.blogspot.com.br/2013_04_01_achive.html>.

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Um grande contingente de romanos de menos posses pas- da economia, as cidades foram despovoadas, completando
sou a buscar proteção e trabalho nas terras desses grandes o processo de ruralização da sociedade. O poder político
senhores. Para utilizar as terras, eram obrigados a ceder ao descentralizou-se em uma multiplicidade de poderes loca-
proprietário parte do que produziam. Dessa forma, nesses lizados e particularistas. O feudalismo se estabeleceu em
centros rurais conhecidos por vilas romanas, começaram a sua plenitude.
ser criados os feudos medievais. Com algumas alterações fu-
turas, esse sistema de trabalho resultou nas relações servis
de produção, um dos traços fundamentais do feudalismo. Características gerais
Com a contínua ruralização do Império Romano, o poder A sociedade feudal era estamental, ou seja, os indiví-
central foi perdendo controle sobre os grandes senhores duos nasciam num determinado estamento (grupo social)
agrários. Gradativamente, as vilas romanas tornaram-se e dificilmente poderiam ascender a outro; tendiam a per-
cada vez mais autônomas, à medida que o poder político manecer sob a própria condição de nascimento. Segundo
descentralizava-se, permitindo ao proprietário de terras ad- a divisão clássica, a sociedade medieval era formada pelos
ministrar de forma independente sua vila. seguintes estamentos: clero, nobreza e servos.
O contato dos romanos com os povos de origem germâni- Os senhores feudais eram os proprietários ou os pos-
ca promoveu a troca de hábitos e costumes entre eles, prin- suidores do feudo. Originários da nobreza e do clero, for-
cipalmente num momento de ruralização e de organização mavam uma aristocracia dominante. A nobreza se subdivi-
de uma economia baseada nas atividades agropastoris. As dia em duques, condes, barões e marqueses.
várias tribos germânicas viviam de maneira autônoma, es- Os senhores feudais eclesiásticos, vinculados à Igreja
tabelecendo relações apenas quando se defrontavam com Romana, também pertenciam à alta hierarquia do clero.
um inimigo comum, unindo-se, nessas ocasiões, sob o co-
Em geral, eram bispos, arcebispos e abades.
mando de um só chefe.
O estamento dos dependentes, que compreendia a maioria
As relações entre o suserano e o vassalo, fundamentadas
da população medieval, compunha-se de servos e vilões.
na honra, lealdade e liberdade, tiveram suas origens no
Os servos não tinham a propriedade da terra, embora,
comitatus germânico. O comitato era um grupo forma-
na maioria dos casos, tivessem posse parcial dela, o que
do pelos guerreiros e seu chefe com obrigações mútuas
justificava o fato de estarem adstritos a ela. É importante
de serviço e lealdade. Os guerreiros juravam defender seu
observar que, embora fossem trabalhadores semilivres –
chefe, que se comprometia a equipá-los com cavalos e
donos de seus instrumentos de trabalhos, sementes, etc. –,
armas. Mais tarde, essas relações de honra e lealdade de-
apenas uma pequena parcela do que produziam era desti-
ram origem às relações de suserania e vassalagem.
nada ao próprio sustento.
A formação do Direito no feudalismo também teve influên-
cia germânica. Baseando-se nos costumes orais, e não nas Em número reduzido, havia outro tipo de trabalhador me-
leis escritas, o direito era considerado uma propriedade do dieval: o vilão. Os vilões não estavam presos à terra e des-
indivíduo, um direito inerente a ele em qualquer local em cendiam de antigos pequenos proprietários romanos. Não
que estivesse. Essa forma do Direito, produto dos costumes podendo defender suas propriedades, entregavam suas
e da sua prática reiterada e constante, sem ser resultado de terras em troca de proteção de um grande senhor feudal.
um processo formal de criação das leis escritas, é denomi-
nada direito consuetudinário. Economia feudal
As invasões dos séculos VIII e IX aceleraram a lenta integra- As terras eram divididas em domínio senhorial, cuja pro-
ção entre aspectos da sociedade romana e da sociedade ger- dução destinava-se ao senhor feudal, manso servil, cujo
mânica. Em 711, os muçulmanos, vindos do Norte da África, produto do trabalho pertencia aos servos, e terras comu-
conquistaram a península Ibérica, a Sicília, a Córsega e a nais, isto é, pastos e florestas utilizadas tanto pelos senhores
Sardenha, fechando o mar Mediterrâneo à navegação e ao como pelos camponeses. O feudo, cujas terras eram des-
comércio dos europeus. Ao norte, no século IX, os norman- contínuas, constituía-se como a unidade geral de produção.
dos também se lançaram à conquista da Europa. Penetraram
A terra arável era dividida em três partes: o terreno de
no continente europeu pelos rios, saqueando suas cidades.
plantio da primavera, o de plantio do outono e outro
A leste, os magiares (húngaros), cavaleiros nômades originá-
que ficava em pousio (descanso). Esse sistema surgiu na
rios das estepes euroasiáticas, invadiram a Europa oriental.
Europa, no século VIII, e ficou conhecido como sistema
O comércio, com o desaparecimento quase total da moe- dos três campos. Nessa sociedade rural, de economia
da, regrediu ao patamar da troca direta. Com a agrarização essencialmente agrária, a propriedade e a posse da

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terra determinavam a posição do indivíduo na hierarquia § capitação: pagamento de imposto per capita dos fa-
social. A terra era a expressão da riqueza, da influência, miliares dos servos; e
da autoridade e do poder.
§ mão-morta: pagamento de imposto pelos filhos do
Além da obediência e fidelidade por juramento que os ser- servo morto para que continuassem ocupando as terras
vos deviam ao seu senhor, as obrigações nas formas de fornecidas a seu pai pelo senhor.
trabalho e produtos eram as seguintes:
O feudo produzia tudo o que necessitava e consumia tudo que
§ corveia: obrigação de trabalhar nas terras do senhor produzia. Era uma economia autossuficiente, organizada
feudal sem direito ao que era produzido;
para suprir as necessidades do próprio feudo. O comércio não
§ talha: obrigação de entregar parte da produção no desapareceu da Europa, mas era retraído e sem relevância
manso servil ao seu senhor; econômica. A troca de mercadorias realizava-se semanalmen-
§ banalidades: pagamento de impostos com produtos te dentro do próprio feudo, em um mercado junto de uma
ou trabalho pelo uso de instrumentos do senhor: ferra- Igreja, de um castelo ou na própria aldeia. As trocas ocorriam
mentas, moinhos, armazéns; de bens por bens. O uso de moedas não era frequente.

O senhorio medieval
Manso comum
Os produtos retirados dessas terras eram de uso tanto dos servos quanto dos
senhores. As terras comunais eram constituídas de pastos para criar animais
e de florestas e baldios, onde os camponeses colhiam frutos e raízes, extraíam
a madeira e o mel. A caça nas florestas era exclusiva dos senhores.

No senhorio, em geral, também havia coleiros para armazenar a colheita;


um moinho para triturar os grãos; e fornos para assar os pães.

Domínio Senhorial
Os produtos dessas
terras perteciam
exclusivamente
ao senhor. Nelas
trabalhavam servos
e outros camponeses.
Ali se produzia tudo o
que o senhor necessitava
para manter sua família
e outros dependentes.

Manso servil
Terras destinadas aos servos. Nelas os servos
produziam o que era necessário para a sua
sobrevivência, devendo em troca cumprir
Ilustração atual de
uma série de obrigações para com o senhor.
como poderia ter sido
um senhorio medieval.
Fonte: historiademestre.blogspot.com.br/2014/10/a-idade-media-e-o-feudalismo.html
Fonte: <historiademestre.blogspot.com.br/2014/10/a-idade-media-e-o-feudalismo.html>.

Política feudal Os laços de suserania e vassalagem estabeleciam


os vínculos e a hierarquia entre a nobreza feudal. Um
Notadamente durante os séculos de IX ao XII, havia um rei, senhor feudal, proprietário de grandes porções de ter-
cujo poder era meramente formal. ra, doava uma parcela dela a outro nobre. O doador
No feudo, cada senhor feudal era o soberano supremo e passava a ser o suserano, e o recebedor, o vassalo. Es-
detinha o monopólio da força como chefe do exército. Esse sas relações eram estabelecidas por contrato de direi-
monopólio, porém, não ultrapassava seu pequeno exérci- tos e deveres. Entre outras obrigações, o vassalo obri-
to mantido dentro de seus domínios feudais. Quando em gava-se a pôr seu exército à disposição do suserano,
estado de guerra, havia uma centralização político-militar a dar-lhe hospedagem quando necessário, a contribuir
desses exércitos sob as ordens e comando do rei. para o dote e o armamento de seus filhos. Ao suserano,

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por seu vez, cabia proteger militarmente o vassalo, ga- estruturas feudais fossem progressivamente modifica-
rantir a posse do feudo doado, tutelar os herdeiros e a das: as cidades ressurgiram, a figura do rei voltou a ga-
viúva do vassalo depois de sua morte. Para oficializar a nhar progressiva centralização e a cultura teocêntrica
vassalagem, havia uma série de cerimônias conhecida foi gradualmente substituída pela antropocêntrica – o
como homenagem. O vassalo ajoelhava-se diante do homem como centro do Universo.
senhor, com a cabeça descoberta e sem espada, pu-
nha as mãos entre as mãos do suserano e pronunciava Cultura feudal
as palavras sacramentais do juramento. Em seguida,
o senhor permitia que ele se levantasse, beijava-o e A cultura feudal era fundamentalmente teocêntrica, ou
realizava a investidura com a entrega de um objeto seja, caracterizou-se pela visão do homem voltado para
simbólico – um punhado de terra, um ramo, uma lança Deus e para a vida após a morte.
ou uma chave – que representava a terra enfeudada. A moral religiosa condenava o comércio, o lucro e a usura
Os laços de suserania e vassalagem vinculavam toda (empréstimo a juros). As artes, as letras, as ciências e a
a nobreza feudal. Nos últimos anos do século XI, no filosofia eram determinadas pela visão religiosa imposta
início das Cruzadas, o feudalismo entrou em gradativa pela Igreja, sempre com predominância de temas e inspi-
decadência. O Renascimento comercial fez com que as ração religiosos.

IGREJA CATÓLICA MEDIEVAL

A Igreja católica foi a grande catalisadora dos aconteci- da Santa Inquisição, em 1231, pelo papa Gregório
mentos e da vida medieval; nesse período, sua trajetória foi IX. A principal função do Tribunal era julgar e punir as
marcada pelo crescimento e desenvolvimento em virtude heresias. As penas variavam de simples penitências ao
do grande poder conquistado. confisco de bens, além da excomunhão, torturas e mor-
O crescente poder da Igreja católica na Europa ocidental te na fogueira.
durante a Idade Média pode ser explicado pelo acúmulo A Igreja contava com uma rígida organização hierárquica.
dos poderes espiritual e temporal. O poder espiritual cor- Havia o alto clero e o baixo clero; este era composto de
responde ao controle sobre a religião e o monopólio da elementos vindos das camadas mais pobres da sociedade;
interpretação das Escrituras Sagradas, permitindo o con- aquele, ligado à aristocracia, detinha os cargos de direção:
trole ideológico e a interpretação da realidade vigente. O dele faziam parte o Papa, os bispos, os abades, etc.
poder temporal era exercido politicamente como resulta-
Os mosteiros eram os responsáveis pela preservação da
do do controle da Igreja sobre um número crescente de
cultura, além de serem importantes centros econômicos. O
populações que a alimentavam mediante pagamento dos
clero regular era constituído por todos os clérigos consa-
dízimos, doações, além de outras ações realizadas por fiéis
grados da Igreja católica, que seguiam as regras de uma
crentes da salvação em troca de seus recursos materiais.
determinada ordem religiosa, dona de sua própria hierar-
A Igreja concentrava uma grande quantidade de terras, re- quia e de títulos específicos.
sultado da acumulação de um montante significativo de
riquezas materiais.
A Igreja era responsável pela educação, mantendo uma
série de escolas nos mosteiros, conventos e, mais tarde,
nas paróquias. No século XIII, começou a organizar as
universidades. Com isso, o poder da Igreja sobre os fiéis
era incontestável. Os pecadores deviam cumprir penitên-
cias, que variavam de orações e jejuns a peregrinações e
participação nas Cruzadas.
Um importante instrumento de manutenção do domínio
da Igreja Católica Medieval foi a criação do Tribunal

102
U.T.I. - Sala desgosto. Ao mesmo tempo que evitamos ofender os ou-
tros em nosso convívio privado, em nossa vida pública
nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa
1. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) definiu a cidada- de um temor reverente, pois somos submissos às autori-
nia em Atenas da seguinte forma: dades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para
socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, tra-
A cidadania não resulta do fato de alguém ter o domi-
zem aos agressores uma desonra visível a todos.
cílio em certo lugar, pois os estrangeiros residentes e os
escravos também são domiciliados nesse lugar e não Oração fúnebre de Péricles, 430 a.C. In: Tucídides. História da Guerra
são cidadãos. Nem são cidadãos todos aqueles que par- do Peloponeso. Brasília: Editora UnB, 2001, p. 109. Adaptado.

ticipam de um mesmo sistema judiciário. Um cidadão a) Quais as principais características do regime polí-
integral pode ser definido pelo direito de administrar tico de Atenas?
justiça e exercer funções públicas. b) Qual a cidade que foi a principal adversária de Ate-
Adaptado de Aristóteles, Política. nas na Guerra do Peloponeso?
Brasília: Editora UnB, 1985, p. 77-78. c) Cite e comente as principais diferenças entre elas.
Relacionando aquilo que você aprendeu sobre o tema 5. Cite o nome e a principal característica de cada um
com o texto acima, quais as duas principais condições dos três Períodos da História de Roma.
para que um ateniense fosse considerado cidadão na
Grécia clássica? 6. O historiador grego Heródoto (484-420 a.C.) viajou
muito e deixou vivas descrições com reflexões sobre os
2. Num antigo documento egípcio, um pai dá o seguinte povos e as terras que conheceu. Deve-se a ele a seguin-
conselho ao filho: te afirmação: “o Egito, para onde se dirigem os navios
gregos, é uma dádiva do rio Nilo“.
Decide-te pela escrita, e estarás protegido do trabalho
árduo de qualquer tipo; poderás ser um magistrado de “No Antigo Egito, existia uma profunda ligação entre o
elevada reputação. O escriba está livre dos trabalhos meio natural e a vida daquele povo.”
manuais [...] é ele quem dá ordens [...]. Não tens na mão
Explique a afirmação acima, relacionando seus conhe-
a palheta do escriba? É ela que estabelece a diferença
cimentos sobre o tema com o texto.
entre o que és e o homem que segura o remo.
Apud Luiz Koshiba. História – origens, estrutura e processos. 7. “Com relação ao ornamento, Roma não correspon-
dia, absolutamente, à majestade do Império e, além
Lendo o texto e lembrando o que você aprendeu sobre disso, estava exposta às inundações, como também
o tema, argumente sobre a seguinte afirmação: aos incêndios. Porém, Augusto fez dela uma cidade
Nas Civilizações do Antigo Oriente, a Escrita é um dos tão bela que pode se envaidecer, principalmente por
fundamentos da própria ideia de “Civilização”. ter deixado uma cidade de mármore no lugar onde en-
contrara uma de tijolos”.
3. Alguns povos da Antiguidade foram mercadores e
Adaptado de: Suetônio. A vida dos doze Césares.
praticavam intensamente o comércio marítimo. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 91.
a) Qual a relação entre a localização geográfica da
Fenícia e as características econômicas de seu povo? Considerando o texto e o período de Otávio Augusto no
b) Cite o nome de suas três principais cidades. governo de Roma, responda:
c) Cite e comente um legado importante que os fení- a) Qual a relação da reurbanização de Roma durante
cios deixaram na História. o Governo de Otávio Augusto, com aquilo que simbo-
lizava a PAX ROMANA?
4. Vivemos numa forma de governo que não se baseia b) Identifique uma medida social e uma medida polí-
nas instituições de nossos vizinhos; ao contrário, servi- tica estabelecidas por Augusto para adaptar as tradi-
mos de modelo a alguns, ao invés de imitar outros. [...] ções romanas àquele momento histórico.
Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para
a solução de suas divergências privadas, quando se tra- 8. Grande parte da presença humana na Terra é explica-
ta de escolher (se é preciso distinguir em algum setor), da pelos historiadores tendo como referência o termo
não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, "pré-história". Sobre esse período, discorra sobre os
que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, seguintes tópicos:
a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de a) o significado da revolução neolítica;
prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela b) as limitações conceituais do termo "pré-história".
obscuridade de sua condição. Conduzimo-nos liberal-
mente em nossa vida pública, e não observamos com
uma curiosidade suspicaz [desconfiada] a vida privada de
nossos concidadãos, pois não nos ressentimos com nosso
U.T.I. - E.O.
vizinho se ele age como lhe apraz, nem o olhamos com 1. A palavra árabe iman significa ‘ter certeza’ e desig-
ares de reprovação que, embora inócuos, lhe causariam na fé, no sentido da certeza. A fé, por conseguinte, não

103
contradiz o conhecimento nem a compreensão. Pelo Sobre as relações entre Estado e Igreja, no período me-
contrário, o desejo de saber é uma obrigação religiosa, dieval, responda:
e os tempos pré-islâmicos (século VI) na Arábia são cha- a) Qual o papel administrativo desempenhado pela
mados pelos islâmicos de jahiliya, ignorância. Igreja católica durante o Período Medieval?
Adaptado de: Burkhard Scherer (Org.). As grandes religiões: b) Como o Poder Real dos francos – merovíngios e
temas centrais comparados. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 77. carolíngios – contribuiu para a expansão do cristia-
nismo na Europa ocidental?
Como a fé e o conhecimento científico estavam relacio-
nados entre si no mundo islâmico na Alta Idade Média? 6. Qual a importância do ponto de vista geopolítico da-
quele período, o surgimento, estabelecimento e expan-
2. “O desenvolvimento da arte bizantina da produção são do Islão a partir do século VII?
de ícones em mosaicos não contradiz as razões que ori-
ginaram o Cisma do Oriente, em 1054.” 7. O Imperador Justiniano (527-565) entre outras reali-
zações, consolidou o conceito e as práticas do Cesaro-
Explique essa afirmação justificando-a. papismo, que iriam ter muitas consequências ao longo
do tempo naquela região, particularmente no Leste eu-
3. A famosa “Batalha de Poitiers”, ocorrida no ano de ropeu e na Rússia.
732, teve em Carlos Martel, líder dos francos e avô de
Carlos Magno uma figura central. O que é Cesaropapismo?
a) Do ponto de vista religioso e cultural, qual o sig-
nificado dessa batalha para as regiões ocidentais do 8. “O aparecimento da polis constitui, na história do
continente europeu? pensamento grego, um acontecimento decisivo (...). O
b) Qual a nova força militar que desempenhou um que implica o sistema da polis é primeiramente uma
papel fundamental nessa batalha e que depois se extraordinária preeminência da palavra sobre todos os
tornaria durante todo o período medieval uma das outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento
instituições de sustento ao feudalismo? político por excelência, a chave de toda a autoridade no
Estado, o meio de comando e de domínio sobre outrem
4. Qual o significado simultaneamente político e reli- (...). Uma segunda característica da polis é o cunho de
gioso da coroação de Carlos Magno, ocorrida no Natal plena publicidade dada às manifestações mais impor-
do ano 800? tantes da vida social. Pode-se mesmo dizer que a polis
existe apenas na medida em que se distinguiu um domí-
5. Observe a ilustração e leia a citação a seguir. Em se- nio público, nos dois sentidos diferentes mas solidários
guida, responda ao que se pede. do termo: um setor de interesse comum, opondo-se aos
assuntos privados; práticas abertas, estabelecidas em
pleno dia, opondo-se a processos secretos. Essa exigên-
cia de publicidade leva a apreender progressivamente
em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o
conjunto de condutas, dos processos, dos conhecimen-
tos que constituíam na origem o privilégio exclusivo.”
(Jean-Pierre Vernant. As origens do pensamento grego. 1984.)
a) O que era a polis?
b) Por que a PALAVRA é tão importante nesse contex-
to ao qual o autor se refere?

9. O que significa o termo “Mesopotâmia” e qual a rela-


ção entre esse significado e as civilizações que surgiram
nas várias cidades-Estado daquela região?

Nascida nos quadros do Império Romano, a Igreja ia aos 10. As perseguições aos cristãos no Império Romano
poucos preenchendo os vazios deixados por ele até, em estavam ligadas especialmente a uma atitude dos cris-
fins do século IV, identificar-se com o Estado, quando o tãos com relação à figura do Imperador e que era ao
cristianismo foi reconhecido como religião oficial. (...) mesmo tempo política e religiosa.
Estreitavam-se, portanto, as relações Estado-Igreja. (...) a) Qual era essa questão?
No Império Carolíngio, a aliança entre os reis e a Igreja
b) Por que ela era simultaneamente política e religiosa?
foi fundamental para a consolidação de ambos os po-
deres e, por vezes, a Igreja assumia funções que hoje 11. O documentário O Ateliê de Luzia – Arte Rupestre
consideramos ser do Estado e este por sua vez interfe- no Brasil, dirigido por Marcos Jorge, apresenta as des-
ria nos assuntos religiosos. cobertas atuais da arqueologia através dos vestígios
FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média. Nascimento do visuais do homem brasileiro. No decorrer do filme, o di-
Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. p. 67 e 71. retor mostra diferentes sítios arqueológicos, como eles

104
foram descobertos e vestígios que datam dos períodos
paleolítico e neolítico. Segundo a antropóloga Maria
Beltrão, uma das entrevistadas,

A pintura rupestre pode se revestir de intenções no de-


correr dos tempos pré-históricos. Ela pode ser apenas
uma manifestação artística em algum tempo, ela pode
estar escondendo alguma prescrição ecológica, ela
pode demonstrar um autoconhecimento astronômico,
pode estar ligada ao mundo mágico-religioso etc.

Ao final do documentário, o antropólogo Andrei Isnar-


dis faz um paralelo entre as inscrições realizadas pelo
homem pré-histórico e as pichações e grafites nas gran-
des cidades.
Com base nos conhecimentos sobre pré-histórica e man-
ifestações culturais urbanas na contemporaneidade, cite
seis similaridades entre os grafismos rupestres pré-históri-
cos e os grafites/pichações realizados na atualidade.

105
HISTÓRIA DO BRASIL

107
FORMAÇÃO DE PORTUGAL E NAVEGAÇÕES ULTRAMARINAS

Portugal e sua formação


Guerra de reconquista
Da guerra dos cristãos contra os mouros (muçulmanos do
norte da África) nasceram os reinos de Aragão, Leão, Castela
e Navarra.
Com a união desses reinos cristãos, iniciou-se a Guerra de
Reconquista, com o objetivo de expulsar os mouros da pe-
nínsula Ibérica.
Henrique de Borgonha (nobre francês), em virtude da sua Batalha de Aljubarrota (1385)
atuação na Guerra de Reconquista, recebeu do rei Afonso
A burguesia, a pequena nobreza e a população pobre
VI, de Leão, em 1094, o condado Portucalense e a mão de
derrotaram os castelhanos na Batalha de Aljubarrota (Pa-
sua filha Tereza. Afonso Henriques foi fruto deste casamento.
deira), consolidando a independência portuguesa em
Ele lutaria contra a submissão do condado Portucalense a
1385. A aliança entre a dinastia de Avis e a burguesia for-
Leão, no ano de 1139, proclamando sua independência
taleceu a centralização monárquica e abriu caminho
e tornando-se o primeiro rei da dinastia de Borgonha.
para as grandes navegações.

A Borgonha (1139-1383)
Foi a primeira dinastia e configurou plenamente as ca- As grandes navegações
racterísticas do feudalismo português. Durante os séculos XV e XVI, os europeus, principalmente
Sem se mostrar capaz de acompanhar as transformações so- portugueses e espanhóis, lançaram-se aos oceanos com
ciais e econômicas ocorridas em Portugal, a dinastia de Bor- dois objetivos principais: descobrir uma nova rota marítima
gonha se indispôs com a classe dos mercadores, que cresce- para as Índias e encontrar novas terras.
ra bastante nesse período; assim a dinastia de Avis, mais As navegações ajudaram a marcar a passagem da Idade
ligada aos interesses comerciais e urbanos, tomou seu lugar.
Média para a Idade Moderna e impulsionaram o aumento
Portugal era predominantemente agrário, e nos fins do sé- do comércio da Europa com a Ásia e a África. Além disso,
culo XIV, passou a desenvolver uma economia mais voltada resultaram na descoberta, em 1492, de um novo continen-
para a navegação e o comércio. te a ser explorado pelos europeus: a América.

Revolução de Avis (1383-1385) O “Novo Mundo” dividido


A morte de D. Fernando desencadeou uma luta pela su-
Os reis da Espanha e de Portugal passaram a disputar en-
cessão do trono português, em 1383, e serviu de estopim
tre si a posse das terras descobertas e das terras a serem
para a Revolução de Avis. O rei não havia deixado um filho
descobertas, assim que a notícia do descobrimento da
varão, e sua filha, D. Beatriz, era casada com D. João I, de
América chegou à Europa.
Castela. Se ela herdasse a coroa, o reino se tornaria domí-
nio de Castela e perderia a independência política. Em 1493, os reis da Espanha obtinham o apoio do papa
A nobreza portuguesa era partidária da união com Cas- Alexandre VI, espanhol de nascimento, na edição da Bula
tela, que era feudal. A burguesia, que considerava a per- Inter Coetera. A Bula determinava uma divisão do mun-
da da independência uma ameaça aos seus interesses, do ultramarino, tomando-se por base um limite a 100 lé-
apoiava as pretensões de D. João, mestre de Avis, irmão guas a oeste de Cabo Verde. Portugal ficaria com as terras
bastardo do rei. Quando D. João foi proclamado rei, Cas- a leste dessa linha. As terras situadas a oeste dessa linha
tela invadiu Portugal. imaginária caberiam à Espanha.

108
Tratado de Tordesilhas A expansão ultramarina e suas consequências
§ implantação do trabalho compulsório indígena na Amé-
rica espanhola; expansão do comércio europeu;
§ afluxo de metais preciosos para o continente europeu,
Ilhas
Canárias

Cabo

que gerou uma enorme inflação na Europa, processo


Verde
ilhas
Equador

conhecido como a Revolução dos Preços, em razão


Linhas de demarcação coloniais
entre Espanha e Portugal nos
da desvalorização da moeda e do aumento geral dos
séculos XV e XVI.
Linha do Papa Alexandre VI
(Bula Inter Caetera, 1493)

Tratado de Tordesilhas (1494)


preços; diversificação dos artigos de consumo: batata,
Tratado de Zaragoza (1529)
tabaco, cacau e o milho oriundos da América;
Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_dos_
Descobrimentos>. Acesso em 23 dez. 2015. § destruição das civilizações pré-colombianas astecas
e incas;
Devido à insignificância dos territórios lusos, Portugal se opôs
§ enriquecimento da burguesia mercantil europeia;
a essa Bula,o que levou a sua revogação e assinatura, em
1494, do Tratado de Tordesilhas. Pelos termos do novo § fortalecimento dos Estados absolutistas;
Tratado, deslocava-se para 370 léguas a oeste de Cabo § europeização do mundo, ou seja, a difusão da cultura
Verde o limite entre os domínios portugueses e espanhóis. europeia (vestimentas, língua, hábitos alimentares).
§ mudança do eixo econômico europeu do mar
Algumas nações europeias não iriam respeitar O Tratado de
Mediterrâneo para o oceano Atlântico;
Tordesilhas, pois julgavam injusta a partilha do mundo en-
tre as nações ibéricas. Os países mais contrariados foram: a § expansão do mercantilismo;
Grã-Bretanha, o Reino dos Países Baixos e a França. § implantação do sistema colonial na América;
§ adoção do trabalho escravo e consequente intensifica-
ção do tráfico negreiro;
§ expansão da fé cristã.

AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA, MERCANTILISMO E


ADMINISTRAÇÃO ESPANHOLA NA AMÉRICA

América pré-colombiana .
Conheciam a astronomia, uma vez que foram encontrados
registros de datas muito antigas. Também conheciam a es-
crita e sistemas matemáticos. Muitos traços e tradições dos
Olmecas olmecas sobreviveram entre as diversas culturas que os su-
cederam, como é o caso das culturas dos astecas e maias.
Originada na costa sul do golfo do México, a cultura olmeca
é considerada a primeira cultura elaborada da Mesoaméri-
ca e matriz de todas as culturas posteriores dessa área. As Maias
características marcantes do Império olmeca, que se esten- Ocupando as planícies da península do Iucatã, os maias
deu do México ocidental à Costa Rica, foram a presença de elaboraram uma das mais complexas e influentes culturas
centros cívicos religiosos a que se subordinavam áreas da América.
periféricas e a escultura monumental.
A economia agrícola considerava o milho um alimen-
A população olmeca era bastante desenvolvida. Espalhada to sagrado do qual teria se originado o homem. A terra era
pelo império, dividia-se entre uma minoria (sacerdotes, cultivada coletivamente e os camponeses eram obrigados
artífices de elite), que habitava os centros cerimoniais, a pagar o imposto coletivo. A pecuária ainda era des-
e a maioria do povo (camponeses), que vivia nas aldeias. conhecida, e a caça e a pesca atividades complementares.
A arte olmeca se caracterizou pela valor religioso. A escultura
era bastante desenvolvida: monumentais cabeças de pedra Os maias formavam uma sociedade rigidamente hie-
com rosto redondo, lábios grossos e nariz achatado; estatue- rarquizada, em que a posição social era determinada pelo
tas com formas humanas; e outras apresentando uma mistu- nascimento. Uma elite (militares e sacerdotes) constituía
ra de traços humanos e felinos. o grupo dominante, de caráter hereditário, que habitava os

109
numerosos centros cerimoniais circundados pelas aldeias a base da pirâmide social. A maior parte de terra pertencia
onde vivia a numerosa mão de obra de camponeses sub- aos sacerdotes e elites locais (líderes dos clãs), enquanto as
metidos ao regime de servidão coletiva. comunidades camponesas conservavam pequena parcela
para uso familiar.
Responsável pela política interna e externa e pelo recolhi-
mento do imposto coletivo das aldeias, acredita-se que o go-
verno maia fosse uma teocracia de caráter hereditário

Pirâmide do Sol

Pirâmide de Kukulcán, em Chichén Itzá O imperador possuía representação religiosa, militar e políti-
ca, seja por suas conquistas, seja pelo domínio sobre vários
Os maias construíram templos de forma retangular sobre povos, o que tornou o Império Asteca um Estado milita-
pirâmides truncadas com escadarias que se estendiam ao rista e teocrático.
redor de praças. Também edificaram palácios, que prova-
velmente serviam de residências dos sacerdotes. Construíram obras arquitetônicas colossais: templos e pa-
lácios com terraços em forma piramidal, objetos decorati-
Ao preverem os eclipses solares, o movimento dos planetas vos, obras de ourivesaria em prata, ouro e pedras preciosas
e elaborarem um calendário cíclico, bem como ao desen- utilizadas na decoração de palácios e templos. Os astecas
volverem noções avançadas, como um símbolo para o zero também se destacaram na astronomia, ao elaborarem um
e o princípio do valor relativo, os maias fizeram notáveis calendário solar que lhes possibilitava planejar as épocas
progressos na astronomia e na matemática. de plantio e colheita.
Por volta do ano 900, a civilização maia sofreu declínio de A religião asteca era politeísta, com prática de sacrifícios
população. Há estudiosos que atribuem o abandono dos humanos. Na crença asteca, para que o mundo fosse pre-
centros maias à guerra, à insurreição, à revolta social, a servado, os deuses exigiam oferendas do bem mais precio-
invasões bárbaras, etc. A exploração intensiva de meios de so que os homens possuíam: a vida.
subsistência inadequados, que provocaram a exaustão do
solo, ao lado dos intensos conflitos entre as cidades-Esta-
do, são as hipóteses mais prováveis. Até a conquista defi- Incas
nitiva pelos espanhóis, a cultura maia posterior se fundiu A região ocupada pelos incas ainda se estendia ao lon-
com a dos toltecas. go da cordilheira dos Andes, ocupando parte dos atuais
territórios de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Ar-
Astecas gentina. Originariamente nômades, os incas faziam parte
do grupo quéchua. Entre os séculos XII e XIII, realizaram
Os astecas ocuparam originalmente a região noroeste do
várias conquistas na região andina (civilizações de Tiahua-
atual México. Guerreiros e expansionistas, domi-
naco, Huari e Chimu), alcançando seu apogeu na época da
naram os toltecas e outros povos da região. Construíram pa-
conquista espanhola no século XVI.
lácios, templos, mercados e canais de irrigação e, em 1325,
fundaram a cidade de Tenochtitlán, capital do império. A propriedade era divida em terras do Estado, terras dos
sacerdotes e terras comunitárias. Rigidamente estratifica-
Com destaque para o cultivo do milho, do algodão, do fei-
das, essa sociedade experimentou a formação de classes
jão e do cacau, cuja semente era utilizada como moeda, a
sociais, tornando-se estamental. Abaixo do imperador,
economia era essencialmente agrária.
havia uma elite de sacerdotes e militares (nobreza);
A sociedade era rigidamente hierarquizada: o imperador e artífices do Estado, médicos e contabilistas com-
sua família ocupavam a posição mais elevada da pirâmi- punham o grupo intermediário; a base da pirâmide so-
de social; em posição intermediária estavam os artesãos cial era constituída por escravos e uma grande massa
e comerciantes; os camponeses e os escravos ocupavam de camponeses.

110
Em 1503, a Coroa espanhola criou as Casas de Con-
tratação, órgão responsável por fiscalizar a cobrança
do quinto. Com o passar do século XVI, a Espanha foi
aprimorando seu sistema de administração colonial e
foram criadas as Audiências, instituições com compe-
tência jurídica instaladas nas mais importantes regiões
da América hispânica. Para centralizar a administração
da colônia espanhola, foi criado o Conselho das Ín-
dias em 1524.
O passo final para a melhor administração das terras ame-
Machu Picchu foi, ao lado de Cuzco, um dos dois ricanas foi sua divisão em Capitanias (terras de menor
mais importantes centros urbanos da civilização inca.
representatividade econômica) e Vice-Reinos (terras de
O imperador era considerado um deus (Sapa Inca), descen- maior valor econômico).
dente direto do Sol. Os incas acreditavam em vários deuses
vinculados a elementos da natureza. Construíram grandes
templos e faziam sacrifícios animais e humanos.
Mercantilismo
A estruturação do capitalismo comercial coincidiu com
Sem escrita, a cultura era transmitida oralmente. O idio-
ma quéchua serviu de instrumento unificador do Império a formação dos Estados nacionais, organizando e impondo
Inca. Um conjunto de nós e barbantes coloridos, denomi- uma série de práticas econômicas visando a proporcionar o
nados quipus, permitiu aos Incas desenvolverem um en- acúmulo de metais preciosos como forma de dinami-
genhoso sistema de contabilidade. Na astronomia, foram zar as relações comerciais e fortalecer as moedas nacionais.
autores de um calendário. Na matemática, utilizavam o Essa política econômica dos Estados modernos ficou conhe-
sistema numérico decimal. cida como mercantilismo.
A intervenção do Estado na economia e o me-
a conquista espanhola e o talismo (acúmulo de metais preciosos) foram as princi-
pais bases do mercantilismo. A principal forma de obtenção
choque de civilizações e acúmulo de metais era o comércio, o que levou os gover-
Os impérios existentes na América foram vistos pelos coloni- nos a estimularem as exportações e a inibirem, mediante
zadores espanhóis como as principais ameaças ao projeto de protecionismo marcado por altas taxas alfandegárias, as
exploração do novo território. Os astecas e os incas foram os importações de artigos estrangeiros, caracterizando, assim,
que mais sofreram com o contato com os europeus. uma balança comercial favorável. Eram muito fortes os
estímulos governamentais à produção de artigos manufatu-
Uma grande vantagem dos espanhóis sobre os ameríndios
rados cujos preços eram bastante elevados no exterior e nas
foi o fato de possuírem armas de fogo, canhões e cavalos,
áreas coloniais.
todos elementos desconhecidos na América. Outro fator
que contribuiu para uma rápida conquista por parte dos Chamado também de sistema colonial, o colonialismo
europeus foi a disseminação de doenças até então inexis- figura como parte integrante da política mercantilista. Ele
tentes na América (ex.: gripe). correspondia ao conjunto de relações entre metrópoles
e colônias, quando aquelas impuseram uma série de re-
Sob a administração da Espanha strições à economia colonial. As determinações metropoli-
tanas às colônias baseavam-se no monopólio e na comple-
No início, a Coroa espanhola não desejava gastar muitos mentaridade, conhecidas por Pacto Colonial.
recursos com a exploração das colônias americanas. Assim,
indivíduos que investiam seus recursos particulares para Matérias-primas – gêneros tropicais
explorar as novas terras eram chamados de adelanta-
dos. Eles ganhavam uma série de prerrogativas jurídicas
e militares, como o direito de fundar núcleos de ocupação, Colônia Pacto colonial Metrópole
explorar o solo e erguer fortalezas. Em troca, entregavam
um quinto de tudo o que fosse explorado na América e
Manufaturas – escravos
promoviam a cristianização dos ameríndios.

111
PERIODO PRÉ-COLONIAL, ADMINISTRAÇÃO
COLONIAL E INVASÕES FRANCESAS

Brasil: período A partir de 1530, a posição de Portugal em relação ao Brasil


mudou. As necessidades portuguesas de garantir a posse
pré-colonial (1500-1530) do território e obter uma nova fonte de lucros que substitu-
ísse o decadente comércio oriental levaram a Coroa a dar
Logo depois do Descobrimento, o Brasil permaneceu ligado início à colonização da nova terra.
à sua Metrópole por umas poucas expedições ocasionais
Para dar início ao empreendimento, foi organizada a expedi-
que aqui chegavam com o objetivo de reconhecer mais
ção comandada por Martim Afonso de Souza, em 1530,
amplamente o litoral ou de explorar o pau-brasil, ma-
com o objetivo de percorrer o litoral e, quando necessário,
deira com possibilidade de comercialização, ou, ainda, de
explorar o interior em busca de ouro e prata, expulsar os
afugentar os franceses, atraídos pela mesma mercadoria.
franceses, criar núcleos de povoamento e aumentar o domí-
As primeiras expedições de reconhecimento e explo- nio português até o Rio da Prata.
ração foram comandadas respectivamente por Gaspar Le-
Em 1532, ao voltar do Rio da Prata, Martin Afonso fundou
mos, em 1501, e Gonçalo Coelho, em 1503.
São Vicente, no litoral do atual estado de São Paulo. São
A crescente presença de franceses exigiu mais esforços para Vicente foi dotado de um engenho para produzir açúcar,
garantir a segurança das novas terras. A mão de obra além de ser o primeiro núcleo de colonização no Brasil.
livre dos índios mediante escambo, que consistia na tro-
ca de objetos de pouco valor – espelhos, miçangas, objetos
de ferro – pelo corte e transporte do pau-brasil até locais
Capitanias hereditárias (1534)
na costa, era favorável aos contrabandistas franceses, que O Estado português adotou o sistema de capitanias he-
não tinham compromisso com o Tratado de Tordesilhas. reditárias. Assim, a iniciativa privada arcaria com os gas-
tos da colonização.
Esses fatores forçaram a colonização do litoral, que mu-
dou radicalmente a política oficial do Estado português e o Em 1534, a costa brasileira foi dividida em quinze faixas
montante de investimentos por parte da burguesia. de terra. Chamavam-se capitanias hereditárias, pois pas-
sariam dos donatários a seus herdeiros. Os donatários
Os portugueses criaram as feitorias – estabelecimentos
dispunham de grandes poderes sobre as terras, inclusive o
fundados no litoral da Colônia para armazenar o pau-brasil
de distribuir sesmarias (porções de terra que permane-
e assegurar a posse do território contra os invasores.
ceriam em poder do sesmeiro e seus descendentes desde
A exploração do pau-brasil era monopólio do rei (Estan- que eles as cultivassem) àqueles que as requeressem para
co Régio), como toda atividade ultramarina. Só poderia estimular a colonização.
se dedicar a ela quem tivesse uma concessão da Coroa,
que cobrava por isso o quinto (20% do lucro adquirido Martim Afonso de Sousa, em São Vicente, e Duarte Co-
com o produto). elho, em Pernambuco, foram os únicos donatários que
tiveram sucesso (em parte porque receberam muita ajuda

Início da colonização brasileira


do rei de Portugal e de banqueiros flamengos). Ataques
constantes de índios, falta de recursos, a longa distância

(1530-1580) até a Metrópole, as dificuldades de comunicação entre as


capitanias e a descentralização político-administrativa fo-
ram os principais motivos do fracasso do sistema de capi-
tanias hereditárias.

Governo-Geral (1548)
Depois do fracasso do sistema de capitanias, Portugal
criou o Governo-Geral, que deveria corrigir as falhas das
capitanias hereditárias e não extingui-las. O novo órgão
Obra de Benedito Calixto, “Fundação de São Vicente”, mostra a visão deveria centralizar a administração colonial,
do artista sobre a chegada dos portugueses no litoral paulista. sendo o Governador-Geral a maior autoridade da Colônia

112
e representante direto do rei. O sistema de Governo-Geral Além disso, problemas internos na França colaboraram
foi criado por D. João III (o colonizador), que, por meio do para a formação de um núcleo colonial no Brasil: a Fran-
Regimento de 1548, determinou as principais funções do ça Antártica.
Governo: ajudar os donatários no que fosse necessário;
§ Mem de Sá (1558-1572)
combater índios e piratas; fundar núcleos de povoamento;
estimular a catequese e defender a fé cristã e organizar O terceiro Governador-Geral iniciou a luta contra os
expedições em busca de metais preciosos. franceses. O Forte de São Sebastião do Rio de Janeiro,
que seria o núcleo inicial da cidade do Rio de Janeiro, foi
Câmaras municipais fundado, em 1565, pelo sobrinho do governador, Estácio
de Sá, para auxiliar na luta contra os franceses. Dois anos
As vilas e cidades coloniais eram administradas pelas câ- depois, os franceses foram expulsos da região e a França
maras municipais, que representavam os interesses Antártica foi destruída.
de ricos proprietários chamados de homens bons.
D. Luís de Vasconcelos, nomeado como quarto Go-
Por vezes, as câmaras municipais gozavam de enorme au- vernador-Geral, não chegou ao Brasil, pois sua es-
tonomia, ignorando leis impostas pela capital e apostando quadra foi destroçada por corsários franceses. Também
na ausência de qualquer punição, considerando a precarie- morreram nessa ocasião quarenta jesuítas que acompa-
dade dos meios de comunicação e transporte. nhavam o governador. Ficaram conhecidos na história
como os Quarenta Mártires do Brasil.
Governadores-Gerais O Brasil foi dividido em dois governos: o do norte, com
§ Tomé de Souza (1549 – 1553) capital em Salvador e governado por Luís de Brito
Almeida, e o do sul, com capital no Rio de Janeiro e
Primeiro Governador-geral do Brasil. Chegou acompa-
governado por Antônio Salema.
nhado de aproximadamente mil homens (soldados, pro-
fissionais, funcionários públicos, etc.) a fim de construir Luís de Brito Almeida ficou apenas quatro anos no poder.
a primeira cidade do Brasil, Salvador, que se tornou Ele foi substituído por Lourenço da Veiga, que governava
a capital, sendo originalmente denominada Salvador da quando, em 1580, Portugal e sua Colônia passaram para o
Bahia de Todos os Santos. domínio espanhol, na chamada União Ibérica.
§ Duarte da Costa (1553-1558)
Um novo grupo de jesuítas, dentre os quais o padre José
Conselho Ultramarino
de Anchieta, desembarcou no Brasil acompanhado do se- D. João IV se tornou rei, pondo fim à União Ibérica depois
gundo Governo-Geral, que, juntamente com Manuel da da restauração do trono português, em 1640, quando foi
Nóbrega, fundou, em 1554, o colégio de São Paulo criado o Conselho Ultramarino, regulamentado em 1642.
de Piratininga, origem do povoado que se transforma- O novo órgão nasceu subordinado à Secretaria de Estado
ria na cidade de São Paulo. dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos e esta-
A invasão francesa no Rio de Janeiro, em 1555, foi va encarregado exclusivamente da administração colonial,
também um fato marcante desse governo. Ela estava concluindo o processo iniciado em 1548 com a instalação
vinculada aos problemas enfrentados pelos franceses na do Governo-Geral, sendo um passo decisivo para a centra-
extração do pau-brasil por causa do maior policiamento. lização administrativa colonial.

ECONOMIA COLONIAL, SOCIEDADE E INVASÕES HOLANDESAS

A cana-de-açúcar § A possibilidade de atrair investimentos externos.


§ Solo e clima favoráveis, especialmente o solo de massa-
(séculos XVI e XVII) pé e o clima quente e úmido do Nordeste.
§ O açúcar era um produto altamente lucrativo.
A cana-de-açúcar foi o produto escolhido para dar início
à ocupação econômica do Brasil por uma série de razões: § A aceitação do produto no mercado europeu.

§ A experiência portuguesa na produção de cana na cos- No Brasil, a atividade açucareira funcionava da seguinte ma-
ta africana (Cabo Verde, Madeira, São Tomé). neira: os portugueses ficavam responsáveis pela produção, e

113
os holandeses financiavam a montagem dos engenhos, bem A substituição da escravidão indígena pela escravidão dos
como controlavam o transporte, o refino e a comercialização negros foi favorecida pela questão da obtenção de escra-
do açúcar, obtendo a maior porcentagem de lucros. vos. Os índios brasileiros eram nômades e seminômades e,
portanto, migravam constantemente. Além disso, a exten-
A primeira grande divisão de terras foi fundamental para
são do território era outro fator que dificultava a captura
determinar o modelo de colonização. Esse modelo ficou co-
de índios. Já os negros eram obtidos na África por meio
nhecido como plantation e baseava-se em três elementos:
de escambos entre os traficantes e os próprios africanos,
grande propriedade (latifúndio), monocultura e tra-
que capturavam negros de tribos rivais e trocavam-nos por
balho escravo (escravismo).
aguardente, rapadura e fumo trazido do Brasil.
O rei simplesmente legalizava a escravidão do índio sob pre-
texto de defendê-lo. Para aprisionar índios, foram organiza-
dos as chamadas bandeiras, expedições que se tornaram
um dos principais fatores da atual extensão do território
brasileiro, principalmente na região mais ao sul do Brasil
Colônia (atual Sudeste).

A organização da produção
do engenho
A grande produção só começa oficialmente com Martim Negros no porão de um navio negreiro
Afonso de Souza, em 1533, em São Vicente. As construções Havia a prática de aborto, infanticídio, suicídio e o banzo”(-
principais são a casa-grande, a senzala, as estrebarias e caracterizando por greve de fome e depressão por conta da
as oficinas. As principais instalações do engenho são: moen- privação da liberdade). Menos comum, mas ocorrente, era o
da, caldeira e casa de purgar. ataque à casa do senhor e a sua família. A resistência negra
A unidade produtora da agromanufatura açucareira era o podia se dar por meio de fugas indivíduais, fugas coletivas e
engenho, que se constituía basicamente de: a formação de quilombos.
§ Casa do engenho: formada pelas instalações desti-
nadas à produção de açúcar. Engenhos e a sociedade
§ Casa-grande: residência, geralmente assobradada, Essencialmente a sociedade colonial era:
onde viviam o senhor e sua família. Nela também mo-
§ Inculta – pois mesmo os membros da elite só recebiam
ravam os empregados de confiança (capatazes) que
o ensino das “letras básicas”, que não passavam do
cuidavam de sua segurança. Era a central administra-
aprender a ler, escrever e contar de modo primário.
tiva das atividades econômicas do engenho.
§ Aristocrática – porque dominada pelos ricos propri-
§ Capela: local das cerimônias religiosas.
etários de terras e de escravos.
§ Senzala: habitação de um único compartimento, rústi-
§ Rural – porque a vida econômica baseava-se na agri-
ca e pobre, onde viviam os escravos.
cultura. A vida urbana ainda era muito incipiente, com
a quase totalidade da população habitando o campo.
§ Escravista – porque a força de trabalho baseava-se
na escravidão do índio ou do negro.
§ Sem mobilidade social – porque não havia opor-
tunidade para trabalhadores e escravos saírem de sua
condição e ascenderem socialmente.
Engenho de açúcar movido a água
§ Patriarcal – porque o proprietário rural e pai de família,
ao considerar-se responsável pelo provimento material
Escravidão negreira do lar, impôs a obrigação de ser respeitado e obedeci-
A escravidão dos negros permitia a obtenção de grandes do no âmbito familiar. Esse poder sobre a família era
lucros por parte dos traficantes portugueses, que domina- estendido à sociedade, já que, como dono das riquezas
vam áreas fornecedoras de escravos na África, como Ango- materiais, o senhor considerava toda a população não
la, Goa, São Tomé e, posteriormente, Moçambique. proprietária dependente dele.

114
Invasões holandesas Bahia e a invasão holandesa
(século XVII) (1624-1625)
A Companhia das Índias Ocidentais planejou a conquista
da Bahia. Para os holandeses, conquistar o Nordeste bra-
União Ibérica (1580-1640) sileiro significava assegurar o controle da produção açuca-
Em 1578, ocupava o trono português D. Sebastião, que reira, manter o funcionamento da economia metropolitana
viria a ser o último monarca da Dinastia de Avis. As dificul- e opor-se com eficácia ao embargo espanhol.
dades socioeconômicas e o espírito cruzadista levaram-no a Atacadas de surpresa, as forças luso-brasileiras, coman-
lutar contra os mouros no norte da África. dadas pelo bispo D. Marcos Teixeira e pelo governador
D. Sebastião desapareceu, não deixando herdeiros, durante Mendonça Furtado, foram forçadas a uma rápida rendi-
a batalha de Alcácer-Quibir. O velho cardeal D. Henri- ção em maio de 1624. O bispo escapou e refugiou-se no
que, único sobrevivente masculino da linhagem de Avis, as- Arraial do Espírito Santo, nos arredores de Salvador, de
sumiu a regência enquanto não se solucionava o problema onde iniciou a resistência, apoiado pelo governador de
da sucessão. Em 1580, o cardeal-regente morreu. Felipe II, Pernambuco, Matias de Albuquerque.
rei da Espanha, neto de D. Manuel, o Venturoso (o mes- Embora tivessem obtido com certa facilidade a rendição
mo que organizara a esquadra de Pedro Álvares Cabral), luso-brasileira, Jacob Willekens e Johan van Dorth, os co-
achou-se no direito de ocupar o trono português. mandantes das forças holandesas, não conseguiram con-
Portugal ficou submetido à Espanha durante 60 anos. Con- solidar a conquista. Faltou-lhes maior apoio da Holanda
sequentemente, o Brasil também passou para o domínio que, envolvida na Guerra dos Trinta Anos contra a Espa-
espanhol, sofrendo alterações em sua estrutura interna e no nha, não enviou reforços, suprimentos, armas e munições.
seu relacionamento internacional. A ocupação holandesa ficou ameaçada e não resistiu aos
Em 1580, quando da união das Coroas Ibéricas, Portu- frequentes ataques de grupos de guerrilheiros sediados no
gal viu-se envolvido pelas rivalidades espanholas, so- Arraial do Espírito Santo. Em maio de 1625, os holandeses
foram expulsos da Bahia.
bretudo com relação à Holanda. Rebelados desde 1567
contra os altos impostos e a repressão religiosa do cató-
lico Felipe II contra o calvinismo, os holandeses tiveram Invasão holandesa em
de sustentar longos anos de lutas para preservar sua Pernambuco (1630-1654)
liberdade diante do poderio espanhol. Visando preju-
Em 1630, os holandeses decidiram atacar a Capitania de
dicá-los, Felipe II decretou o fechamento dos portos do
Pernambuco, a maior produtora de cana-de-açúcar, que
Brasil, de Portugal e de qualquer domínio espanhol aos tinha uma defesa menos eficiente que a da Bahia, além
navios e comerciantes flamengos. de ser mais próxima da Europa.
A Holanda não teve outra alternativa senão lançar-se em A resistência foi organizada pelo Governador-Geral Matias
busca de mercadorias nas áreas produtoras. Paulatinamen- de Albuquerque, mas os flamengos não encontraram difi-
te, a hegemonia holandesa se firmou no Oriente, à custa do culdades para ocupar Olinda.
recuo dos portugueses que, sem autonomia, dependiam de
Os holandeses contaram com o apoio de Domingos Fer-
ações espanholas na região.
nandes Calabar, profundo conhecedor da região que os au-
Assim, já nos últimos anos do século XVI, os holandeses ti- xiliou em várias batalhas, inclusive na conquista do Arraial
nham atingindo o Oriente pela rota do Cabo, e, em 1602, do Bom Jesus.
fundaram a Companhia das Índias Orientais, que con- Apesar da resistência, os holandeses conquistaram novas
quistou o monopólio do comércio oriental, compreendido posições, consolidando sua ocupação de uma área que
entre o Cabo da Boa Esperança e o Estreito de Magalhães ia do Rio Grande do Norte ao Sergipe. A Companhia das
por todo o Índico e o Pacífico. Índias Ocidentais passou a organizar a administração da
Os holandeses fundaram, então, a Companhia das Ín- região conquistada.
dias Ocidentais, também conhecida pela sigla em inglês Tanto os senhores de engenho como os holandeses queriam
WIC (West Indian Company), monopolizando o comércio um ambiente de ordem e paz para que pudessem obter lu-
no Atlântico. A luta entre Espanha e Holanda impediu que cros com a atividade açucareira. A Companhia enviou ao Bra-
os holandeses se abastecessem de produtos americanos sil o conde João Maurício de Nassau Siegen, nomeado
como o açúcar e o tabaco. Governador-Geral do Brasil holandês (Nova Holanda).

115
Nassau, um governo habilidoso a Espanha, enfrentando dificuldades econômicas. Essas
dificuldades provocaram mudanças na atitude da Com-
(1637-1644) panhia das Índias Ocidentais em relação ao Brasil, ele-
Maurício de Nassau chegou ao Brasil em 1637 e desen- vando impostos e cobrando dívidas dos senhores de en-
volveu uma habilidosa política administrativa: genho. Os colonos passaram a lutar pela expulsão dos
holandeses, movimento iniciado em 1645 e conhecido
§ Obras urbanas – a cidade do Recife foi remodelada e
como Insurreição Pernambucana. Essa mudança
foram construídas pontes e obras sanitárias.
de atitude levou ao desentendimento entre Nassau e
§ Concessão de crédito – a Companhia concedeu
a Companhia.
créditos aos senhores de engenho, destinados ao rea-
parelhamento dos engenhos, à recuperação dos cana- Com o fim da trégua dos dez anos assinada em 1641, Por-
viais e à compra de escravos. tugal passou a lutar abertamente contra os holandeses, que
§ Vida cultural – o governo de Nassau promoveu a se renderam em 1654.
vinda para o Brasil de artistas, médicos, astrônomos,
naturalistas, etc. As invasões holandesas e
§ Tolerância religiosa – as diversas religiões da po- suas consequências
pulação (catolicismo, protestantismo, judaísmo, etc.) A decadência da lavoura de cana-de-açúcar pode
foram toleradas pelo governo de Nassau. Deve-se notar, ser apontada como a principal consequência da expulsão
entretanto, que a religião oficial era o protestantis- dos holandeses do Brasil.
mo calvinista,.
Os flamengos dominaram as técnicas de produção de ca-
Insurreição Pernambucana na-de-açúcar (plantation) e e se estabeleceram na região
das Antilhas. Assim, dominaram completamente o merca-
(1645-1654) do, mas sem depender de Portugal e da produção brasilei-
O trono português foi restaurado com a ascensão de D. ra, que não tinha como vencer a concorrência.
João IV, dando início à Dinastia de Bragança. Portugal as-
Restou a Portugal se aproximar da Inglaterra, que viria a se
sinou, em 1641, uma trégua de dez anos com a Holanda.
aproveitar da crise da lavoura açucareira para colocar Por-
A Holanda se beneficiaria com essa trégua por estar en- tugal sob sua esfera de influência, gerando uma tutela eco-
volvida na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) contra nômica e política que penduraria por quase dois séculos.

BANDEIRISMO, MINERAÇÃO E TRATADOS DE LIMITES

Bandeirismo e expansão em meados do século XVI. Ela faz parte da lógica de


exploração colonial numa região sem condições econô-
micas de utilizar o escravo africano em virtude do seu
territorial alto custos.
Em janeiro de 1554, os jesuítas fundaram o colégio que
deu origem à vila de São Paulo de Piratininga. Se, por Essa empreitada de captura dos índios pode ser dividida
um lado, a localização geográfica de São Paulo dificulta- em duas fases. A primeira vai de meados do século XVI
va o contato com a região litorânea, por outro facilitava ao início do século XVII. Nesse período, os grupos de
o acesso ao interior. apresamento, os sertanistas, pouco preparados e inex-
perientes, saíam de São Vicente, alcançavam o povoado
Em São Paulo foi organizada a maior parte das bandei-
ras em direção ao interior. A prática comum na região de São Paulo e partiam para capturar os índios no inte-
acabou por dar a São Paulo a futura alcunha de “Terra rior da mata inexplorada e desconhecida.
dos Bandeirantes”. No final do século XVII, essas expedições, denominadas ban-
deiras, tornaram-se grandes negócios, verdadeiras empresas
Bandeirismo de apresamento que envolviam centenas de homens e muitos recursos.
A atividade de apresamento de indígenas, com o obje- O tráfico negreiro e os centros de abastecimento de es-
tivo de escravizá-lo, remonta ao início da colonização, cravos na África haviam sido dominados pelos holandeses.

116
Com isso, o apresamento dos indígenas tornou-se muito
Bandeirismo de caça ao ouro ou
cobiçado em razão dos grandes lucros que rendia.
sertanismo de prospecção
Nesse período, os jesuítas de São Paulo tentaram impedir
A perda do grande mercado comprador de mão de obra indí-
a saída das expedições, despertando uma reação imediata
gena em decorrência da crise da economia agrícola obrigou
dos colonos paulistas. Em 1641, tentaram expulsar os je- o bandeirismo a transferir seus esforços para outro objetivo:
suítas de São Paulo, fato conhecido como a botada dos a procura de metais preciosos.
padres para fora.
Percorrendo extensas regiões à procura de índios para es- Formação de missões jesuíticas
cravizar, os bandeirantes, simultaneamente, abriram cami- O Governador-Geral Tomé de Sousa trouxe para o Brasil, em
nho para a integração e ocupação do interior. 1549, o primeiro grupo de jesuítas, liderados por Manuel da
Nóbrega. O principal motivo de sua presença na América era
A rivalidade entre jesuítas e bandeirantes se estendeu pe-
promover a catequese dos nativos. Com esse intuito, funda-
los séculos XVII e XVIII, ficando muito violenta em várias
ram vários aldeamentos conhecidos como missões ou redu-
situações, levando os dois lados a recorrer à Coroa Por- ções, onde educavam e catequisavam os nativos.
tuguesa. A contenda entre eles só foi resolvida durante o
governo do Marquês de Pombal, o qual, por não concordar Os jesuítas entravam com frequência em atrito com os colo-
nos, pois não aceitavam a escravidão indígena. Eram cons-
com as práticas dos jesuítas, expulsou-os do Brasil, mas
tantes os ataques de colonos, especialmente bandeirantes,
também proibiu a escravização de indígenas.
aos aldeados, com o objetivo de capturar índios para utilizá-
-los como escravos.
Sertanismo de contrato Os jesuítas foram os principais responsáveis pela educação
O bandeirismo, ou sertanismo de contrato, era formado por colonial até sua expulsão, em 1759, de Portugal e do Brasil,
expedições de caráter militar, contratadas por governantes, por ordem do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do rei
donatários e proprietários rurais para capturar escravos fu- D. José I.
gidos das lavouras, arrasar quilombos e submeter popula-
ções indígenas hostis.
Mineração
O sertanismo de contrato assegurou aos grandes proprie-
As primeiras jazidas de metais preciosos foram descobertas
tários de engenhos e plantações do litoral e aos criadores na última década do século XVII, por volta de 1693, por
de gado do sertão a posse de largas extensões de terras. bandeirantes paulistas, no território do atual estado de Mi-
nas Gerais. As expedições para a região das Gerais se mul-
Ataque a Palmares tiplicaram, e a região se povoou rapidamente, tornando-se
o mais importante centro econômico da Colônia no século
Os quilombos eram agrupamentos de escravizados fugi-
XVIII. Depois do ouro de Minas Gerais, foram realizadas
dos que resistiam em várias partes do sertão, desde o século descobertas menos importantes no Mato Grosso (1718) e
XVI, tornando-se uma das mais relevantes formas de rebe- em Goiás (1725). Dessa forma, a atividade mineradora deu
lião dos cativos. Palmares, liderado por Zumbi, foi um dos impulso à ocupação do interior do Brasil.
quilombos mais importantes, situado ao sul de Pernambuco,
no atual estado de Alagoas.. 2.5. Consequências da mineração
A Coroa contratou um grupo de sertanistas já fixados em As minas esgotaram-se no final do século XVIII, e a ati-
fazendas de gados no sertão da Bahia. Formavam um bando vidade mineradora entrou em declínio, bem como toda a
de quase mil homens, liderados por Domingos Jorge Velho. região, uma vez que não existia outra atividade que pu-
Depois de uma primeira tentativa fracassada, os sertanistas desse substituí-la. A mineração provocou profundas trans-
organizaram uma nova expedição com a ajuda governa- formações e consequências econômicas, sociais, políticas e
mental, e um novo ataque iniciou-se em janeiro de 1694. culturais na Colônia.

Comandados por Zumbi e entricheirados na serra da Bar- § Aumento populacional, em razão da descober-
riga, os palmarinos resistiram até a morte. Zumbi e alguns ta das minas.
companheiros ainda conseguiram romper o cerco e fugir, § Urbanização, com a fundação de vilas e cidades,
mas foram capturados e mortos algum tempo depois. como Mariana, Vila Rica, São João del-Rei, Sabará e

117
Congonhas do Campo, onde se desenvolveram ativi- comércio no estuário platino.
dades tipicamente urbanas de comércio, artesanato,
§ Tratado de Lisboa (1681): a Espanha reconheceu a
marcenaria, etc.
Colônia de Sacramento como legítima possessão portuguesa.
§ Crescimento e diversificação de um segmento
§ Tratado de Utrecht (1713): estabelecia que o rio
médio na sociedade e ampliação da camada dos ho-
Oiapoque, ou Vicente Pinzón, seria considerado como
mens livres.
limite entre o Brasil e a Guiana Francesa.
§ Mais mobilidade social, pois a mineração possibilitou
§ Tratado de Utrecht (1715): assinado entre Portugal
o enriquecimento e a melhoria na vida de muitas pessoas.
e Espanha, na cidade de Ultrech, na Holanda, restabe-
§ Surgimento do mercado interno para abastecer a lecia a posse da Colônia de Sacramento a Portugal, que
região mineradora e desenvolvimento de rotas comerciais. havia sido tomada pelos espanhóis.
§ Melhoria das estradas, com o intuito de favorecer o § Tratado de Madrid (1750): em relação à Colônia de
abastecimento das minas e controlar o fluxo do ouro. Sacramento, vigoraria o velho princípio de direito ro-
mano do “uti possidetis, ita possideatis”, ou seja, as-
§ Mudança do eixo econômico do Nordeste para o
sim “como possuis, assim possuais”. Quem possui de
Centro-Sul.
fato deve possuir de direito. A propriedade da terra foi
§ Transferência da capital da Colônia de Salvador para atribuída a Portugal, seu ocupante de fato. Portugal, no
o Rio de Janeiro (1763). entanto, aceitaria negociar a Colônia de Sacramento
§ Incentivo às artes, bem como desenvolvimento cultu- recebendo em troca as terras de colonização portugue-
ral da Colônia. sa além de Tordesilhas e uma região denominada Sete
Povos das Missões, localizada a noroeste do Rio
§ Conflitos, como a Guerra dos Emboabas, entre paulis- Grande do Sul, onde existiam aldeamentos guaranis di-
tas e forasteiros, pelo direito de explorar as minas, sobre rigidos por jesuítas espanhóis. Portugal aceitou de ime-
as quais os paulistas queriam exclusividade. diato. Ficou estabelecido também que, se porventura
§ Aumento da opressão fiscal, em razão da minera- as duas nações entrassem em guerra na Europa, a paz
ção, que fez aumentar os impostos e acirrar a fiscalização deveria continuar reinando nas colônias da América.
administrativa, burocrática e militar por parte da Coroa. § Tratado de El-Pardo (1761): assinado entre Es-
§ Revoltas, em razão da forte opressão e dos altos impos- panha e Portugal, revogou o Tratado de Madrid. Em
tos, como a Revolta de Vila Rica e a Inconfidência Mineira. face da vigorosa resistência dos jesuítas espanhóis dos
Sete Povos das Missões, Portugal teve muitas dificul-
dades para ocupar aquela região, recebida em troca da
Tratados de limites Colônia de Sacramento. De 1754 a 1756, as tropas
portuguesas e espanholas atacaram e venceram
Posteriormente ao Tratado de Tordesilhas, de 7 de junho de
um grande número de índios na região. Todavia,
1494, Portugal celebrou uma série de outros tratados com
terminada a luta, o comandante português, Gomes
países europeus, visando solucionar problemas de frontei-
Freire, julgou seguro apoderar-se da área que ain-
ras do Brasil Colonial.
da contava com muitos índios rebelados. Todo o
O Tratado de Tordesilhas foi deixado de lado, uma vez que Tratado de Madrid perdera sua validade, sendo anulado
os bandeirantes, as missões jesuíticas e os criadores de gado pelo Tratado de El Pardo.
não o respeitavam mais.
§ Tratado de Santo Ildefonso (1777): no reinado de
As desavenças entre portugueses e espanhóis no Sul giravam D. Maria I, os portugueses cederam os Sete Povos das
em torno da Colônia de Sacramento, surgida em 1680, na Missões à soberania espanhola, celebrando o acordo
margem esquerda do rio da Prata. Os portugueses fundaram que transferia à Espanha o controle exclusivo sobre o
essa colônia comprometendo a segurança de Buenos Aires, rio da Prata.
prestes a se tornar vice-reino espanhol. Os espanhóis ataca-
§ Tratado de Badajós (1801): os conflitos travados
ram Sacramento e aprisionaram todos os seus ocupantes.
em solo europeu entre Portugal e Espanha surtiram
efeitos sobre os seus territórios na América e resul-
Colônia de Sacramento taram na assinatura do Tratado de Badajós. Embora
A Colônia do Santíssimo Sacramento foi fundada em 1680, ele tenha determinado que a Colônia de Sacramento
na margem esquerda do rio da Prata, próxima a Buenos Ai- passaria para a Espanha e tenha se omitido em relação
res, pelo governador e capitão-mor da capitania do Rio de aos Sete Povos das Missões, passado algum tempo, os
Janeiro, D. Manuel Lobo. O avanço português em direção gaúchos recuperaram a região de Sete Povos e incor-
ao Sul, especialmente na região da Bacia do Prata, visava poraram-na definitivamente ao Brasil, em 1804, com o
garantir acesso às minas de prata de Potosí, bem como ao reconhecimento da Espanha.

118
CRISE DO SISTEMA COLONIAL, REVOLTAS NATIVISTAS
E MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS

Sistema colonial em crise prietários de terras foi a escravização de indígenas. Contudo,


logo se defrontaram com a resistência dos jesuítas, que se
A crise do sistema colonial brasileiro resultou, além do co- opunham à escravização dos índios.
lapso do mercantilismo português, das próprias contradi- Em busca de uma solução para a questão da escassez de mão
ções internas da colonização. A partir da segunda metade de obra escrava, a coroa portuguesa criou, em 1682, a Com-
do século XVIII, exatamente por ocasião do apogeu da eco- panhia Geral de Comércio do Maranhão, que seria responsável
nomia mineradora, as relações e interesses entre a Colônia pelo monopólio do comércio de escravos na região pelo perí-
e a Metrópole começaram a apresentar suas contradições. odo de 20 anos. Ela deveria garantir a entrega, na capitania,
de 500 escravos negros por ano.

Rebeliões nativistas Entretanto, a Companhia Geral de Comércio não cumpriu


suas funções de modo satisfatório: trazia poucos e caros
As primeiras rebeliões não ocorreram em defesa da inde- escravos. A companhia também não oferecia valores sa-
pendência do Brasil. Na verdade, eram a expressão dos tisfatórios pelos produtos produzidos pelos colonos. Esses
conflitos de interesses entre os habitantes da Colônia e fatos causaram grande descontentamento e provocaram
os portugueses ou reinóis. Essas manifestações, denomi- uma revolta contra a Companhia e contra os jesuítas.
nadas rebeliões nativistas, por serem comandadas pela
Comandados por Jorge Sampaio e pelos irmãos Manoel
população “nativa”, a princípio contestavam aspectos
e Tomás Beckman, grandes proprietários de terras, auxi-
específicos do pacto colonial e não a dominação da Me-
liados por outros fazendeiros, expulsaram os jesuítas do
trópole. Elas eram regionalistas e não expressavam uma Maranhão, fecharam os armazéns da Companhia Geral de
consciência nacional, uma vez que a ideia de nação foi Comércio e tomaram o poder na capitania.
construída posteriormente.
A revolta levou à abolição do monopólio da Companhia e à
Aclamação de Amador Bueno (1641) nomeação de Gomes Freire de Andrade como novo gover-
nador do Maranhão. Contudo, ao chegar de Portugal em
Em 1641, os paulistas, incitados pelos espanhóis que mo-
1685, o governador determinou a prisão e o enforcamento
ravam na região, tentaram se desligar de Portugal e acla-
de Manoel Beckman, líder da rebelião, e a condenação dos
maram rei Amador Bueno de Ribeira, membro de uma rica
demais envolvidos à prisão perpétua ou ao degredo.
família de origem hispânica.
O que incomodava os espanhóis era o fato de Portugal ter
restaurado seu trono e coroado D. João IV, rei que os hispâ-
Guerra dos Emboabas (1708-1709)
nicos não reconheciam. Os paulistas ficaram profundamente incomodados com
esse grande fluxo de forasteiros em Minas Gerais, uma
A notícia da coroação do novo rei foi recebida festivamen- vez que atribuíam a si a façanha de descobridores das
te. Os motivos para isso foram a atitude dos espanhóis de minas. Os portugueses, por sua vez, como representantes
insuflar a população contra Portugal e o desejo dos pau- da coroa na Colônia, acharam-se no legítimo direito des-
listas em manter o comércio com a região do rio da Prata. se privilégio e assumiram a exclusividade da exploração
Um grande número de pessoas se dirigiu à casa de Ama- das minas.
dor Bueno, aclamando-o rei de São Paulo. Contudo, gra- Uma série de conflitos armados ocorreu na região.
ças à insistente recusa do aclamado, o ânimo da popu- Derrotados, muitos paulistas saíram da região em direção
lação esfriou e o movimento não chegou a passar de um ao oeste de Minas Gerais. Ali, descobriram novas minas e
episódio histórico que deixou um legado significativo: a iniciaram a ocupação dos territórios dos atuais estados de
noção de que era possível unir pessoas contra Portugal. Mato Grosso e Goiás.

Revolta de Beckman (1684) Guerra dos Mascates (1710-1711)


No Maranhão, a falta de escravos para as plantações tor- O conflito denominado Guerra dos Mascastes ocorreu
nou-se um grave problema. A solução encontrada pelos pro- em função das diferenças de interesses entre os senhores

119
de engenho, cuja maioria morava em Olinda, então sede dos Estados Unidos ajudaram a desenvolver na Colônia a
do poder público da capitania de Pernambuco, e os co- consciência da opressão colonial.
merciantes do Recife, de maioria portuguesa, chamados Gradativamente, foi amadurecendo uma incipiente ideia
pejorativamente de mascates. da necessidade de defesa da liberdade política, econômica
Em 1709, Recife ganhou autonomia em relação à Olinda, e cultural da Colônia. As lutas não mais se restringiam à
uma vez que foi elevada à categoria de vila. Inconformados, simples resistência aos monopólios ou aos impostos, mas
os senhores de engenho, moradores de Olinda, invadiram se voltavam contra o pacto colonial e a favor do rompimen-
Recife e destruíram o pelourinho, símbolo da autonomia da to político de dependência da Metrópole.
vila. Os mascates revidaram o ataque, desencadeando uma
série de conflitos entre as duas vilas. Inconfidência Mineira (1789)
Os combates só terminaram em 1711, mediante a firme A Inconfidência Mineira foi o primeiro movimento a pregar
intervenção das autoridades coloniais. No mesmo ano a separação política da capitania de Minas Gerais em rela-
chegaram à Colônia as novas autoridades enviadas pela ção a Portugal, uma vez que a ideia de Brasil ainda não era
Coroa portuguesa. Embora conciliador, o novo governa- consistente. A Inconfidência Mineira ocorreu em 1789, em
dor vindo de Portugal confirmou a autonomia de Recife, Vila Rica, hoje cidade de Ouro Preto. Entre as causas que
que foi transformada em capital de Pernambuco. determinaram o movimento, é possível destacar:
§ os excessos cometidos pelas autoridades portuguesas
Revolta de Filipe dos Santos para administrar a região das Minas;
ou de Vila Rica (1720) § a decadência da produção de ouro e o sistema de co-
brança dos quintos. Caso a arrecadação do ouro não
Em 1719, devido à criação das casas de fundição em Mi-
chegasse a 100 arrobas (cerca de 1,5 mil quilos), era
nas Gerais, a circulação de ouro em pó foi proibida, fa-
decretada a derrama: a diferença que faltava para com-
tor que criou diversos inconvenientes para a população
pletar a quantia determinada era cobrada de toda a
da cidade, que estava acostumada a usá-lo como moeda
população pela força das armas;
corrente. Além disso, as casas de fundição tornavam mais
efetivo o controle da Coroa portuguesa sobre o imposto do § as ideias liberais trazidas por brasileiros que estudavam
quinto, ou 20% do ouro encontrado no Brasil. Ao fundir as nas universidades europeias; e
barras de ouro, já era realizada a cobrança do imposto. As § a independência dos Estados Unidos, cujos colonos,
punições sobre quem fosse pego sonegando o pagamento também revoltados contra o sistema fiscal de sua me-
do imposto aumentaram e se tornaram mais severas. trópole, tinham conseguido se libertar da Inglaterra.
Essas medidas causaram forte impacto sobre os minera- Os objetivos dos inconfidentes eram os seguintes:
dores, provocando uma revolta, que eclodiu em 1720, sob § estabelecer um governo independente de Portugal,
a liderança de Filipe dos Santos. As principais reivindica- abolindo todos os vínculos coloniais;
ções do movimento eram: redução de impostos sobre § adotar o regime republicano;
a atividade mineradora, diminuição dos preços dos
§ instituir o serviço militar obrigatório;
produtos cujo comércio era monopolizado pelos por-
§ adotar uma bandeira com o lema Libertas quae sera
tugueses e fechamento das casas de fundição.
tamen (Liberdade ainda que tardia);
Os revoltosos procuraram o governador das minas – o
§ criar indústrias, particularmente a têxtil e a bélica;
conde de Assumar – e apresentaram suas reivindicações.
§ transformar São João del-Rei na sede do governo; e
O governador prometeu atendê-los. Na verdade, ganhou
tempo para organizar tropas e, em seguida, ordenou que § criar uma universidade em Vila Rica.
suas tropas invadissem Vila Rica, prendessem os insurretos Os inconfidentes foram traídos e denunciados por três partici-
e reprimissem violentamente qualquer tipo de manifestação. pantes da conspiração. Eles procuraram o então governador,
Alguns mineradores foram punidos com o degredo e Filipe Visconde de Barbacena, e delataram o movimento.
dos Santos foi enforcado e esquartejado.
Barbacena expediu ordens de prisão contra os inconfidentes e
Movimentos emancipacionistas deu início ao processo de devassa, que durou até 1792. Feita
a triagem, 30 conjurados, acorrentados e algemados, ouvi-
O aumento do número de profissionais liberais e de ho- ram a sentença pelos seus “hediondos crimes e infâmias”
mens livres, o desenvolvimento das classes proprietárias, a praticados contra Portugal: nove foram condenados à morte
influência das ideias liberais da Europa e da independência na forca, e os outros, ao degredo perpétuo. Sobre Joaquim

120
José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado líder, recaiu a A insatisfação popular foi impulsionada pelos ideais da
violência maior da devassa: foi condenado à morte na forca Revolução Francesa, pelo sucesso da independência das
e ao esquartejamento. Treze Colônias Inglesas, pelas ideias iluministas divulga-
das por lojas maçônicas, como a dos Cavaleiros da Luz,
e pelo propagandista dessas ideias, o cirurgião e filósofo
Cipriano Barata.
A rebelião baiana propunha mudanças verdadeiramente re-
volucionárias na estrutura da Colônia. Pregava a igualdade
de raça e cor, o fim da escravidão (inspirados nos processo
de independência do Haiti) e a abolição de todos os privi-
Bandeira dos inconfidentes que inspirou a légios, o que permite considerá-la a primeira tentativa de
atual bandeira doEstado de Minas Gerais.
revolução social no Brasil. No dia 12 de agosto de 1798,
a cidade de Salvador amanheceu com os muros cheios de
Conjuração Baiana ou panfletos. Os rebeldes desejavam conclamar o povo por
Revolta dos Alfaiates (1798) meio dos informes espalhados pela cidade.

Em 1798, ocorreu em Salvador a Conjuração Baiana, resulta- Entretanto, a pouca organização e preparação dos rebeldes
do da insatisfação das camadas médias urbanas e da popula- e o grande número de analfabetos facilitaram a rápida ação
ção pobre com o agravamento da crise econômica da região. do governo. No dia 25 de agosto, a prisão da maioria dos
envolvidos destruiu qualquer possibilidade de levante. Os
Foi um movimento de caráter popular, também denominado líderes negros e mestiços foram presos. Os únicos brancos
Revolta dos Alfaiates (ou Revolta dos Búzios), graças ao consi- detidos foram Cipriano Barata e Aguilar Pantoja. Depois do
derável número de participantes que exerciam essa profissão. julgamento, quatro envolvidos foram condenados à forca:
A situação econômica provocou desemprego, fome e mi- os mestiços João de Deus Nascimento, Manuel Faustino dos
séria, além de deixar a região fora do interesse dos comer- Santos, Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens. Como
ciantes, que preferiam enviar seus produtos para o Sudeste sempre acontecia nesses casos, foram executados e esquar-
e o Sul, onde encontravam melhores preços. tejados para servir de exemplo.

PERÍODOS POMBALINO E JOANINO

As reformas pombalinas Entre as alterações na divisão administrativa da Colônia,


foi extinto o sistema de capitanias hereditárias, e
(1750-1777) o Estado do Brasil foi elevado à categoria de vice-reino,
com o objetivo de possibilitar maior controle dos exce-
Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pom- dentes coloniais.
bal, foi primeiro-ministro do Rei D. José I entre os anos de Quando morreu D. José I, Em 1777, o governo de Pom-
1750 a 1777. Influenciado pelas ideias iluministas, procu- bal apresentava fortes sinais de desgaste. Havia acu-
rou realizar em Portugal um governo nos moldes do des- mulado vários fracassos e assistia ao crescimento da
potismo esclarecido. oposição de seus velhos inimigos: clero e nobreza, que
Os objetivos de Pombal eram: modernizar a administra- tiveram um momento de triunfo com a ascensão de D.
ção pública portuguesa; implementar uma série de medi- Maria I, adversária das “ideias francesas”, como eram
das com o intuito de ampliar e maximizar os lucros pro- conhecidas as ideias Iluministas. Pombal foi demitido e
o novo governo revogou boa parte de sua obra, num
venientes da exploração colonial; e tornar a Metrópole
processo denominado sugestivamente de Viradeira.
menos dependente das importações de produtos indus-
trializados, incentivando a instalação de manufaturas em
Portugal e na colônias (principalmente o Brasil). Período Joanino (1808-1821)
Outro objetivo da política pombalina foi perseguir im-
placavelmente os jesuítas, expulsá-los da Metrópole e A transferência da Corte
das colônias e confiscar-lhes os bens. portuguesa para o Brasil
121
No início do século XIX, a Europa estava quase inteira- O embarque e fuga da Corte portuguesa para o Brasil foi re-
mente sob o domínio de Napoleão Bonaparte, impe- alizado às pressas, com cerca de 15 mil pessoas fugindo ape-
rador da França. Em 1806, em mais uma investida contra a nas um dia antes das tropas napoleônicas ocuparem Lisboa.
Inglaterra, Napoleão decretou o Bloqueio Continental,
Na manhã do dia 29 de novembro de 1807, partia a es-
obrigando todas as nações da Europa a fecharem seus por-
quadra britânica, transportando o Estado luso para o Rio
tos ao comércio inglês.
de Janeiro.
Portugal era governado pelo Príncipe Regente D. João, pois
A população portuguesa assistiu atônita a toda essa movi-
sua mãe, a rainha D. Maria I, encontrava-se impedida de
mentação. Não podia acreditar que estava sendo abando-
exercer suas funções por sofrer das faculdades mentais.
nada pela Coroa e demais membros do Estado, ficando to-
Portugal não queria aderir ao Bloqueio Continental por- talmente desamparada para enfrentar as tropas francesas.
que a economia portuguesa dependia basicamente da
Junot, general francês responsável pela tomada de Lisboa,
Inglaterra. A Inglaterra, por sua vez, também não queria
apesar de estar com sua tropa muito desfalcada, não en-
perder seu velho aliado, principalmente porque o Brasil
controu dificuldade para tomar a cidade.
representava um excelente mercado consumidor de seus
produtos. Além disso, Portugal tinha uma grande dívida
financeira com a Inglaterra. A abertura dos portos às
Pressionado pelo embaixador inglês Lorde Strangford, D. nações amigas (1808)
João assinou uma convenção secreta com a Inglaterra, Ao desembarcar em Salvador, o Príncipe Regente D. João as-
mediante a qual a Família Real Portuguesa seria transfe- sinou a Carta Régia de 28 janeiro de 1808, determinando
rida para o Brasil escoltada por uma esquadra britânica. O a abertura dos portos brasileiros às nações amigas de
acordo estabelecia ainda que a Inglaterra teria direito a um Portugal. Essa medida marcou o fim do Pacto Colonial,
porto livre na Ilha da Madeira e outro em Santa Catarina, uma vez que extinguiu o monopólio português sobre o co-
bem como poderia comercializar livremente com o Brasil. mércio brasileiro. No entanto, tal medida tinha caráter tran-
sitório; deveria vigorar apenas no período em que a Corte
portuguesa permanecesse no Brasil.
Com a Família Real instalada no Rio de Janeiro, iniciou-se
um período de desenvolvimento econômico e político no
Brasil, criando bases fundamentais para sua independên-
cia política.

A liberdade industrial e outras


medidas econômicas
D. João assinou o Alvará de Liberdade Industrial,
permitindo a instalação de manufaturas e fábricas no Brasil
e anulando as proibições impostas pelo Alvará de 1785,
assinado por sua mãe, D Maria I.
D. João VI. Partida do príncipe regente de Portugal para Com a criação de algumas manufaturas têxteis e siderúrgi-
o Brasil, 27 de novembro de 1807. Litogravura, de F.
cas, ocorreu um relativo surto industrial, mas a medida não
Bartolozzi (gravador) e H.L.E. Vêque (desenhista).
foi suficiente para promover a industrialização no Brasil. Não
Ao tomar conhecimento do acordo anglo-português, Na- havia capital suficiente para ser aplicado em fábricas, o mer-
poleão Bonaparte assinou com a Espanha o Tratado de cado consumidor era pequeno, a concorrência inglesa era in-
Fontainebleau, estabelecendo a invasão de Portugal por superável, e, principalmente, o investimento do capital estava
tropas franco-espanholas, a deposição da dinastia de Bra- voltado quase exclusivamente para o mercado de escravos.
gança e a divisão das colônias portuguesas entre os dois O Príncipe Regente determinou a criação da Casa da Moe-
países. Entretanto, Napoleão rompeu o acordo com a Es- da, responsável pela emissão monetária, e do Banco do
panha e, durante a marcha francesa em direção a Portugal, Brasil, que serviria para atender às necessidades bancá-
ocupou o território espanhol com suas tropas, depondo o rias das elites portuguesas e brasileiras e regulamentar a
rei da Espanha. Ao mesmo tempo, era iniciada a invasão arrecadação tributária, extremamente necessária para cus-
francesa no território português. tear o aparelho burocrático montado no Brasil.

122
Tratados de 1810 A Revolução Pernambucana de 1817
Em 1810, Lorde Strangford, representante inglês, e Sousa A presença da Corte portuguesa no Rio de Janeiro deman-
Coutinho, ministro de D. João, firmaram os seguintes acor- dava altos gastos para o Estado e, para sustentá-la, D. João
dos: o Tratado de Aliança e Amizade e o Tratado de promovia constantes aumentos de tributos, elevando
Comércio e Navegação, que estabeleciam: ainda mais o custo de vida e a expropriação dos brasileiros.
§ nomeação de juízes ingleses para julgar os súditos bri- Esse cenário levou alguns segmentos sociais pernambuca-
tânicos que viviam no Brasil; nos, influenciados pelas ideias iluministas, pela Revolução
§ liberdade religiosa para os ingleses (na sua maioria pro- Francesa e pelo liberalismo político do movimento de Inde-
testantes anglicanos); pendência dos EUA, a organizarem um movimento revolu-
cionário cujo objetivo era a independência de Pernambuco.
§ cobrança de taxa de 15% na importação de mercadorias
inglesas, mais baixa que os 16% cobrados das mercado- Os revolucionários pernambucanos queriam a adoção de
rias portuguesas e que os 24% cobrados de mercadorias uma República Federalista, o fim dos monopólios
de outras nacionalidades; comerciais e dos tributos excessivos, a adesão de
§ um porto livre: o de Santa Catarina; outras províncias do norte e nordeste contrárias à presença
da Corte portuguesa no Brasil e o fim das políticas imple-
§ proibição da atuação da Santa Inquisição no Brasil, que mentadas pelos portugueses.
julgava quaisquer desvios da fé católica;
Os revoltosos anteciparam o levante, tomando o poder e
§ gradual extinção do tráfico negreiro para a Colônia. instituindo um governo provisório. Enquanto não era con-
O resultado direto desses acordos foi a total abertura do mer- vocada uma Assembleia Constituinte, foi instituída uma
cado consumidor brasileiro aos produtos ingleses. Lei Orgânica, que determinava a adoção do regime re-
publicano e a liberdade de comércio e de imprensa.
Nos 13 anos em que permaneceu no Brasil, D. João tomou
uma série de medidas que contribuíram para o desenvolvi- A reação do governo português foi imediata. Enviou
mento e a autonomia do Brasil: tropas da Bahia e do Rio de Janeiro, que bloquearam o
porto de Recife e atacaram os revoltosos por terra e mar.
§ instalação da imprensa e da Biblioteca Régia;
Despreparado, o exército revolucionário foi derrotado fa-
§ criação do Horto Real (Jardim Botânico); cilmente pelas tropas leais ao governo Joanino.
§ criação das Escolas de Medicina de Salvador e do Rio
de Janeiro; A política externa
§ criação da Escola de Comércio e da Escola Real de Ar- O Período Joanino foi marcado por intensos combates
tes, Ciências e Ofícios; visando à defesa do território ou à anexação de alguma
região, sempre usando como pretexto a ameaça francesa
§ financiamento de uma Missão Artística Francesa, lide-
ou espanhola.
rada por Joachim Lebreton, que trouxe para o Brasil
pintores como Nicolas Taubay e Jean-Baptiste Debret, Em 1809, com o apoio militar britânico, D. João VI orde-
o escultor Auguste Taunay, o arquiteto Grandjean de nou a invasão da Guiana Francesa. Embora tenha sido
Montigny e o gravador Marc Ferrez; a Missão lançou as anexado pelo Brasil, o território foi devolvido para a Fran-
bases para a Real Academia de Belas Artes; ça em 1817, por determinação do Congresso de Viena.
§ fundação da Academia Real Militar e Academia da Em 1816, o velho sonho português de estender as frontei-
Marinha; ras brasileiras até o rio da Prata se tornou realidade com a
invasão do Uruguai. Liderados pelo general Lecor, as tropas
§ criação da Fábrica de Pólvora;
luso-brasileiras dominaram Montevidéu em 1821. A região
§ criação das fábricas de ferro Ipanema (Sorocaba-SP) e foi anexada ao Brasil com o nome de Província Cispla-
Patriótica (Congonhas-MG); tina. Em 1828, ao conquistar sua Independência, ganhou o
§ inauguração do Real Teatro São João, no Rio de nome de Estado Oriental do Uruguai.
Janeiro;
§ instalação de novos bairros, sistema de esgoto, drena-
Revolução Liberal do Porto (1820)
gem dos pântanos e calçamentos das ruas principais Depois da queda de Napoleão Bonaparte, o seu Império
do Rio de Janeiro. esfacelou-se. Os governos europeus trataram de se unir

123
para planejar a reordenação política da Europa. Organi- Dessa forma, os burgueses que defendiam uma Monarquia
zou-se, então, de 2 de maio de 1814 a 9 de julho de 1815, Constitucional começaram a se sentir fortalecidos. Entre
o Congresso de Viena, que, de fato, foi uma conferência 1817 e 1818, ocorreu o primeiro levante burguês de cunho
entre os embaixadores das principais potências europeias liberal; e, em 1820, teve início a Revolução Liberal do
com o objetivos de reordenar o mapa político da Europa, Porto, que reivindicava a volta de D. João VI para Portugal
restabelecer a colonização e tentar reviver o mundo colo- e a assinatura e o juramento de fidelidade à Constituição
nial, além de reconduzir ao trono as famílias reais subjuga- que seria elaborada, transformando o país numa Monar-
das por Napoleão, resgatando o Absolutismo. quia Constitucional.
No Brasil, com a morte da rainha-mãe, D. Maria I (1816), D. João Quanto ao Brasil, os liberais portugueses resolveram
foi, em 1818, aclamado rei com o título de D. João VI. que todas as concessões feitas aos colonos deviam ser
Em Portugal, por sua vez, o rei era representado pela Regência anuladas, uma vez que defendiam a recolonização do Bra-
do governo militar britânico de William Carr Beresford, o que sil. Sob a ameaça de perder o trono, D. João VI voltou para
provocava o descontentamento da população e o acirramento Lisboa no dia 25 de abril de 1821. Um de seus filhos, D.
da oposição ao governo do marechal inglês. Pedro, ficou como príncipe regente do Brasil.

PROCESSOS DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL


E DA AMÉRICA ESPANHOLA

Processo de independência integrantes temiam que a luta pela independência cau-


sasse mudanças na estrutura econômico-social do país,
do Brasil como a extinção do escravismo.
§ O grupo dos Radicais Liberais, liderado por Gonçal-
Em 1820 a burguesia de Portugal conseguiu se desven- ves Ledo, defendia que a independência fosse acom-
cilhar da ocupação inglesa, processo que deu início à re- panhada por reformas – abolição da escravatura, esta-
volução liberal e à convocação extraordinária das Cortes belecimento de um sufrágio amplo e mais autonomia
Constituintes de Lisboa para a elaboração da primeira das províncias.
Constituição portuguesa.
Os grupos dos Brasileiros e dos Radicais Liberais se uniram
Depois de algumas hesitações, D. João VI partiu no dia 25 nos anos de 1821 e 1822, lutando pela mesma causa: a
de abril de 1821, deixando D. Pedro como regente no go- independência.
verno do Brasil.
Era importante que houvesse um posicionamento claro do
O caráter recolonizador das Cortes gerou a reação príncipe regente. Pressionado pelo presidente do Senado e
anticolonialista dos brasileiros. Porém, a burguesia da Câmara, comprometeu-se diante do povo a permanecer
portuguesa não permitiu a separação. Por outro lado, a aris- no Basil. Essa decisão foi solenizada no Dia do Fico (9 de
tocracia rural brasileira não podia admitir a volta ao status janeiro de 1822). Além disso, foi convocada uma Assem-
colonial. Os grupos anticolonialistas haviam se fortalecido e bleia Geral e Constituinte.
seus ideais foram propagados e popularizados.
As tropas metropolitanas sediadas no Brasil movimenta-
Perante a ação das Cortes e a regência de D. Pedro, forma- ram-se contra o regente D. Pedro. Em desespero, as Cortes
ram-se três grandes agrupamentos políticos no Brasil: de Lisboa tomaram medidas radicais: declararam ilegítima
§ o Partido Português, formado principalmente por mi- a Assembleia Constituinte reunida no Brasil, o governo do
litares reinóis e por comerciantes portugueses radicados príncipe foi declarado ilegal e ele foi convocado a regressar
nas cidades brasileiras mais importantes, beneficiários imediatamente para Portugal.
da antiga política mercantilista e defensores da política Em agosto de 1822, D. Pedro viajou para São Paulo. José
recolonizadora das Cortes. Bonifácio enviou um mensageiro ao encontro de D. Pedro,
§ o Partido Brasileiro, formado por grandes proprie- no Ipiranga, em São Paulo. D. Pedro proclamou a inde-
tários de terras e de escravos, altos funcionários da pendência em 7 de setembro de 1822.
burocracia governamental e comerciantes brasileiros e O Império de D. Pedro I consolidaria a hegemonia dos lati-
ingleses. Liderado por José Bonifácio, o Partido Brasi- fúndios; o regime de trabalho escravo esvaziaria o ideal re-
leiro era a principal força no processo de independência, publicano, refutando o federalismo e optanado por uma for-
embora fosse caracterizado pelo conservadorismo. Seus ma unitarista, com o poder centralizado no Rio de Janeiro.

124
É possível associar a Independência do Brasil aos interesses federativa, renunciando ao centralismo que provocara
externos, com destaque para a atuação da Inglaterra, uma disputas acirradas.
vez que o país ambicionava a ampliação dos mercados con- Na América Central, depois da vitória de Iturbide, os cabil-
sumidores para seus produtos manufaturados. Ressalte-se dos começaram a declarar sua independência. Em 1823,
ainda que a maior parte da população não participou do formaram as Províncias Unidas da América Central.
processo de independência do Brasil, uma vez que ele foi Em face da tentativa de domínio da Guatemala sobre os
tão somente um acordo entre os detentores do poder eco- demais, a união começou a desintegrar-se, originando as
nômico e político que seria mantido no futuro Império. regiões autônomas da Guatemala, Nicarágua, Honduras, El
A Independência brasileira foi sui generis no contexto america- Salvador e Costa Rica. Esse processo de separação foi con-
no. O Brasil foi o único país, com exceção do México, a adotar cluído somente em 1888.
a monarquia como forma de governo. O processo de rompi-
mento com a metrópole foi liderado por um representante das América do Sul
elites dominantes, ou seja, por um defensor dos seus interesses
e os de outros países, como os da Inglaterra, por exemplo, que A campanha de Bolívar
não precisava, nem desejava, o apoio popular. Simon Bolívar teve uma importante participação nas in-
O liberalismo da Independência brasileira era essencial- dependências da Colômbia (1819), da Venezuela (1821),
mente econômico, não político nem social. O que explica a do Equador (1830) e da Bolívia (1825). A origem desses
marginalização popular e a manutenção da escravidão. países não fazia parte do seu projeto, que visava à consti-
tuição de uma nação forte e coesa, formada pela união dos
Os grupos dominantes temiam que a América Portuguesa se povos de uma mesma língua.
fragmentasse politicamente, como ocorria na América Espa-
nhola. Em razão disso, firmaram com D. Pedro um acordo por
meio do qual a monarquia aproveitaria o aparelho burocrático
Independência do Vice-reino de Nova
já instalado, mantendo um governo centralizado e afastando Granada e da Capitania Geral da Venezuela
os grupos sociais indesejados das decisões políticas. Em 1806, ocorreu uma primeira tentativa de independên-
cia num movimento liderado por Francisco de Miranda.

A independência da Com receio, no entanto, de que se repetissem os aconte-


cimentos ocorridos no Haiti, a própria elite criolla aliou-se
América espanhola ao exército realista. Em 1810 foi instalado um congresso
eleito num pleito em que apenas os homens com emprego
A Independência das colônias espanholas na América foi autônomo e renda poderiam votar. Em 5 de julho daquele
um processo que resultou na fragmentação dos anti- ano, foi proclamada a independência da Venezuela. A
gos vice-reinos e na criação de diferentes países. Primeira República tinha uma característica federalista: as
diversas províncias que a constituíam tinham grande poder
México e América Central de decisão e autonomia.
O federalismo foi duramente criticado por Bolívar, que via
O Vice-Reino da Nova Espanha corresponde à parte do ter- nele um instrumento fragilizado. A situação em Nova Gra-
ritório do México atual. As notícias a respeito da deposição nada era de disputa entre federalistas, que defendiam a au-
de Fernando VII, em 1808, pelas tropas napoleônicas, foram tonomia das diversas províncias, e centralistas, defensores
o estopim para o acirramento dos conflitos políticos entre os de um poder unitário centralizado. Em 1813, em Caracas,
peninsulares (espanhóis de nascimento), denominados rea- Bolívar liderou o movimento contra o domínio espanhol.
listas, e os criollos (espanhóis nascidos na América), chama- A Segunda República também não resistiu e, em 1814,
dos autonomistas. A proposta de subordinação à Espanha Bolívar e seus seguidores voltaram para Nova Granada.
acabou vencendo a disputa contra os autonomistas criollos.
Em 1819, o exército de Bolívar cruzou os Andes e entrou
O ambiente de tensão política persistiu no México e na Amé- na cidade de Bogotá. A repercussão da vitória na Colômbia
rica Central. Em 1821, foi promulgado o Plano de Iguala, abriu caminho para negociações e mais apoio ao exército
que defendia os princípios liberais da Constituição de Cádiz. bolivariano, que libertou a Venezuela em 1821.
O plano tinha por objetivo estabelecer a base constitucional
para um Império Mexicano Independente.
A campanha de San Martín e as
O idealizador do Plano de Iguala, assinado na cidade de Igua-
la, atual Guerrero, Agustín de Iturbide, tornou-se imperador em
independências da Argentina, Chile e Peru
1821, marcando a ruptura política definitiva com a Espanha. O libertador da porção meridional do continente foi José
Por ser muito centralista, o Império de Agustín teve curta de San Martín, que nasceu em 1778, na atual província
duração. Em 1824, o México estabeleceu uma república de Corrientes (Argentina).

125
Durante as discussões sobre a legitimidade do governo de enfrentou novos distúrbios e, em 1825, teve início um levan-
Bonaparte na Espanha, Buenos Aires jurou lealdade ao rei te que contou com a ajuda dos argentinos. Em 1828, houve
Fernando VII, mas recusou fidelidade à Junta Central. Nesse o estabelecimento do Estado Oriental do Uruguai,
imbróglio, a cidade, em 1810, declarou-se cabildo abier- livre dos domínios tanto brasileiro como argentino e garan-
to. O vice-rei, que não tinha apoio suficiente, entregou tido pela Grã-Bretanha, que desejava o mercado local para
o cargo e o poder ficou nas mãos do cabildo, que, dessa seus produtos.
forma, iniciava uma nova fase política, desencadeada pela
Revolução de Maio. A junta afirmou a igualdade básica Paraguai
entre indígenas e descendentes de espanhóis e esboçou a A região do atual Paraguai também pertencia à vice-pro-
adoção de princípios liberais. víncia do Prata. No entanto, não se juntou a Buenos Aires
no rompimento com a Metrópole, manifestando apoio à
Após sucessivas juntas de governo e disputas internas, foi
Espanha. Pouco depois, em virtude das ameaças argenti-
declarada, em 1816, a independência das Províncias
nas, buscou uma forma de convívio com esse país. Retirou
Unidas do Rio da Prata, na cidade de Tucumán. seu apoio à Metrópole e proclamou sua independência
Em 1813, San Martín passou a integrar o exército. Estava em em 1811. No entanto, tropas portenhas foram enviadas
curso a libertação do Peru. As lutas na região do Alto e Baixo para reprimir os paraguaios, que conseguiram vencer as
Peru não ocorreram como os portenhos supunham. Havia forças da futura Argentina. José Gaspar Francia assumiu
muito mais resistência leal à Espanha do que se pensava. o poder e obteve o título de “Ditador supremo” e, depois,
“Ditador perpétuo”. Francia exerceu o poder até 1840.
Foi nesse instante que San Martín ganhou destaque. Estra-
tegista, elaborou um plano para a libertação do Peru a partir
da consolidação da unidade territorial. A proposição de San Bolívia
Martín era de que a revolução não seria vitoriosa enquanto o Boa parte do território da Bolívia integrava o Vice-Reino do
Peru, realista, não fosse liberado, considerando sua indepen- Prata, região que despertava grande interesse em Buenos
dência fundamental para a liberdade de todo o continente. Aires por causa da prata. As disputas entre realistas e por-
As campanhas de Chacabuco (1817) e de Maipú tenhos fez com que os bolivianos passassem a alimentar o
(1818) consolidaram a independência do Chile, ten- desejo de um governo independente.
do Bernardo O’Higgins, militar e político chileno, assu- O clima de guerra civil na região levou a uma intervenção
mido o poder. das tropas peruanas. Em 1825, o general Sucre ajudou a
Usando Valparaíso, no Chile, como base, em 1820 San Mar- derrotar os partidários da Espanha e promoveu a inde-
tín e seu exército partiram de barcos para tomar a cidade pendência nomeando o novo país de Bolívia, em
de Lima, então capital do Vice-Reino do Peru. Após cercar a homenagem ao líder da independência, Simon Bolívar.
cidade, finalmente em julho de 1821, San Martín entrou em
Lima e proclamou a independência do Peru no dia 28 A independência do Haiti (1804)
de julho daquele ano, apoiado pelo general Sucre.
Em 1789, Santo Domingo (ex-Hispaniola, hoje Haiti) era
uma colônia francesa. Em 1791, parte da população
As independências de Uruguai, branca foi massacrada num levante de escravos. O es-
Paraguai e Bolívia cravo liberto Toussaint-Louverture liderou esse movi-
mento emancipacionista, enfrentando tropas francesas
Uruguai que vieram em socorro dos brancos. Toussaint-Louverture
Com os movimentos portenhos de 1810, o território conhe- saiu vitorioso, aboliu a escravidão e deu uma Constitui-
cido como Banda Oriental (à direita do rio da Prata) dividiu- ção à colônia.
-se. Aos poucos, os grupos ligados à Espanha venceram a Em 1802, Napoleão enviou um exército para derrotar Lou-
disputa interna, e os derrotados, liderados por José Gervá- verture, mas não obteve sucesso. Assinaram um tratado
sio Artigas, apoiavam Buenos Aires por causa do rompi-
de paz, mas Louverture foi traído, e acabou morrendo em
mento com a Metrópole espanhola. O caminho do Uruguai,
Paris, no cárcere.
que fazia parte do Vice-Reino do Prata, foi a negação da
unificação perseguida por Buenos Aires. Nesse contexto de O movimento emancipacionista foi retomado por Jean-Ja-
divisão, Portugal invadiu a Província Oriental, pois desejava cques Dessalines, Henri Cristophe e Alexandre Pétion, que
acesso ao rio da Prata e temia a propagação das ideias de in- conquistaram a independência do Haiti em 1804.
dependência. Em 1821, o Uruguai foi incorporado ao Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com a independência
do Brasil (1822), a Província Cisplatina, região incorporada,

126
U.T.I. - Sala
1. O triunfo holandês seria coroado com a chegada do conde Maurício de Nassau-Siegen, que desembarcou como
governador em janeiro de 1637. Transformado em mito de nossa história seiscentista, Nassau ficaria também ce-
lebrizado pela missão de pintores e naturalistas que financiou no seu governo. Frans Post (1612-1680) foi o mais
renomado componente da missão nassoviana, dedicando-se à pintura de paisagens, retratando a natureza tropical e
as construções humanas.

Adaptado de: Vainfas, R. “Tempo dos Flamengos: a experiência colonial holandesa”.


In: FRAGOSO, J.L.R.; GOUVEA, M. de F. (Org.). O Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

a) Quais as principais realizações do Governo Maurício de Nassau?


b) Do ponto de vista colonial, quais as principais diferenças entre a administração holandesa e a administração por-
tuguesa no Brasil?

2. No Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que comecem
mal, principiando pelo castigo que é o pau, contudo, prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e o vestir
como muitas vezes é o castigo, dado por qualquer causa pouco provada, ou levantada; e com instrumentos de muito
rigor, ainda quando os crimes são certos, de que se não usa nem com os brutos animais...
Adaptado de: ANTONIL, A.J. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1982. p. 89.
Coleção Reconquista do Brasil. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000026.pdf>. Acesso em: 1 ago. 2012.

De acordo com o texto, como o padre Antonil se posiciona perante a questão da escravidão?

3. Durante o processo de independência do Brasil, não haviam ideias claras sobre o federalismo. Empregava-se “fed-
eração” como sinônimo de “república” e de “democracia. Mas a historiografia oficial da independência procurou
ocultar a existência do projeto federalista, encarando-o apenas como resultado de impulsos anárquicos e de am-
bições personalistas e antipatrióticas.
a) Identifique no texto os dois significados opostos para o federalismo.
b) Qual o projeto político que dominou a conclusão do nossa independência?

4. “A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos
como são os das minas, que dificultosamente poderá dar-se conta do número das pessoas que atualmente lá estão.“
(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas.)

De acordo com o texto, quais as principais consequências da corrida do ouro no Brasil?

5. No início do século XIX, iniciaram-se as revoltas coloniais na América hispânica, acompanhando os movimentos
separatistas ocorridos no Brasil.
Qual a principal característica do processo de independência das colônias hispânicas e as diferenças marcantes entre
sua emancipação política e a emancipação ocorrida no Brasil?

6. As expedições destinadas ao apresamento dos nativos, como se pode observar no mapa abaixo,eram a principal
atividade econômica dos bandeirantes paulistas entre os séculos XVI e XVIII.

127
a) Qual a relação existente entre as expedições de apresamento e as atividades econômicas realizadas pelos mora-
dores da Capitania de São Vicente?
b) Cite um efeito dessas expedições para a colônia portuguesa na América nesse período.

7.

a) Identifique e analise dois elementos representados na imagem, ligados ao contexto histórico de Portugal na se-
gunda metade do século XVIII.
b) Cite e explique duas medidas tomadas pelo governo português com relação ao Brasil, nesse período.

8. A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou apenas dois meses antes da chegada do príncipe re-
gente, quando notícias do exílio real – tão “agradáveis” quanto “chocantes”, cheias de “sustos e alegrias” – foram
recebidas. Entretanto, como descobriram os residentes da cidade, os preparativos iniciais para acomodar Dom João e
os exilados marcaram apenas o começo da transformação do Rio de Janeiro em corte real, pois o projeto de construir
uma “nova cidade” e capital imperial perdurou por todo o reinado brasileiro do príncipe regente. Construir uma corte
real significava construir uma cidade ideal; uma cidade na qual tanto a arquitetura mundana como a monumental,
juntamente com as práticas sociais e culturais dos seus residentes, projetassem uma imagem inequivocamente pode-
rosa e virtuosa da autoridade e do governo reais.
Adaptado de: Kirsten Schultz. Versalhes tropical. 2008.

a) Qual o principal motivo que trouxe a corte portuguesa para o Brasil?


b) Cite duas transformações ocorridas na cidade do Rio de Janeiro com a chegada e presença da corte portuguesa.

128
U.T.I. - E.O.
1. Frans Post chegou ao Brasil em 1637 e fazia parte do grupo de artistas ligados ao governo holandês sob o comando
de Maurício de Nassau. Paisagens, cenas cotidianas e personagens foram os temas principais representados por Post
durante essa época. Observe atentamente a imagem abaixo, de sua autoria, e depois responda às questões.

Identifique na pintura: a instalação representada; a força motriz utilizada; a mão de obra predominante e o produto
processado.

2. “Por mais de um século, o Brasil foi o principal exportador mundial de açúcar. De 1600 a 1650, o açúcar respondia
por 90% a 95% dos ganhos brasileiros com exportações. Mesmo no período em torno de 1700, quando o setor açu-
careiro declinou, ele continuava a representar 15% dos ganhos do Brasil com exportações.”
SKIDMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 36.

Qual o principal acontecimento, ocorrido ainda no século XVII, que iniciou esse vertiginoso declínio?

3. “A primeira coisa que os moradores desta costa do Brasil pretendem são índios escravizados para trabalharem nas
suas fazendas, pois sem eles não se podem sustentar na terra”.
Adaptado de: GANDAVO, Pero Magalhães. Tratado descritivo da terra do Brasil. São Paulo: Itatiaia e Edusp, 1982, p. 42 [1576]

Nesse trecho, percebe-se que o autor compactua com sua afirmação sobre o Brasil do final do século XVI. Com base
no texto e considerando que Portugal era governado por uma hierarquia social aristocrática e católica, explique por
que, quando desembarcavam na América portuguesa da época, os colonos imediatamente procuravam se utilizar da
mão de obra escrava.

4. “O ser senhor de engenho, diz o cronista, é título a que muitos aspiram porque traz consigo o ser servido, obedecido
e respeitado de muitos.”
ANTONIL, A.J. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas

Relacionando esse texto acima com seus conhecimentos sobre o período colonial no Brasil, faça um comentário
a respeito.

5. No Brasil, em finais do século XVIII, havia grande descontentamento e revolta contra o governo metropolitano e
isso deu origem a rebeliões que questionavam o domínio político português. As rebeliões, que tiveram caráter clara-
mente separatistas, foram as Conjurações Mineira (1789) e Baiana (1798).
“Aviso ao Povo Bahiense
Ó vós, Povo, que nascestes para ser livres e para gozar dos bons efeitos da Liberdade, ó vós, Povos, que viveis flagela-
dos com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma
no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar. Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição,
sim, para vós ressuscitardes do abismo da escravidão, para levantardes a sagrada Bandeira da Liberdade. As nações
do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para todos. O dia da nossa revolução, da
nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar. Animai-vos que sereis felizes.”
Trecho do panfleto revolucionário afixado nas ruas de Salvador na manhã de 12 de agosto de 1798. Adaptado de PRIORE,
M. del e outros. Documentos de história do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Scipione, 1997.

a) Qual a diferença essencial entre as duas conjurações?

129
b) Relacione cada uma delas com os respectivos movimentos que as inspiraram.

6. Analise a imagem a seguir.

Pintada em 1822, esta obra era uma alegoria do Estado brasileiro na época da independência. Com ela se construiu
uma imagem positiva do Império e da figura política do monarca, chamado de “Defensor Perpétuo do Brasil”.
Mas durante o Primeiro Reinado, entretanto, a imagem de D. Pedro foi se modificando.
Diante disso e analisando a pintura, cite e explique:
a) uma característica do projeto político monárquico do Primeiro Reinado;
b) um dos motivos que levaram à mudança da imagem de D. Pedro I durante seu governo.

7. Os historiadores são quase unânimes em reconhecer que a atividade mineradora do século XVIII resultou numa
forma específica de colonização que a diferenciava do resto do Brasil.
FARIA, Sheila de Castro. Dicionário do Brasil colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 397.
Considere o contexto histórico da América portuguesa, no que se refere à sociedade e à economia colonial do século
XVIII, e diferencie esta forma de colonização daquela realizada no Nordeste açucareiro, dos séculos XVI e XVII.

8. Alguns historiadores afirmam que a história econômica do Brasil se divide em ciclos econômicos desde o período
colonial até a época atual.
Defina no contexto histórico brasileiro o conceito de “ciclo econômico”.

9. A solução dada à questão dinástica portuguesa, após o desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir
(1578), teve consequências na Europa e nas colônias.
No contexto da produção açucareira no Brasil, qual foi a consequência imediata?

10. Os tratados de 1810 trouxeram consequências econômicas para o Brasil bastante prejudiciais.
Quais foram elas?

130
FILOSOFIA

131
INTRODUÇÃO À FILOSOFIA GREGA

O mundo helenístico se beneficiou do momento histórico, caráter transitório e mutável das coisas – para explicar esse
quando as cidades-Estados na Grécia antiga eram prós- pensamento, emerge a metáfora que “não podemos nos
peros centros comerciais e culturais. Desse modo, favore- banhar no mesmo rio duas vezes”.
ceu-se o desenvolvimento do pensamento humano, isto
é, ocorreu a supremacia do logos, que significa “palavra”, Parmênides de Eleia (530-460 a.C.)
“discurso”, “razão”.
O filósofo Parmênides concentrou seu pensamento no imo-
bilismo universal, indo contra o mobilismo de Heráclito. Se-
Período pré-socrático gundo Parmênides, o ser era uno, indivisível, pleno e eter-
no, de modo que não há espaço para o não ser. Visto que,
ou cosmológico para o pensador, as coisas não surgiram do nada, isto é,
Sendo uma explicação racional e sistemática diante da ori- tudo que existe sempre existiu.
gem e da transformação da Natureza, a cosmologia nega
que as coisas tenham surgido do nada, pois a própria Empédocles (490-430 a.C.)
Natureza está em transformação. Os pensadores desse
período tiveram a preocupação de compreender a physis, O pensamento de Empédocles consistia em que as coisas
ou seja, os aspectos da Natureza ou da nossa realidade, eram constituídas por quatro elementos: fogo, terra, água
que se encontra em movimento. Assim, o termo filósofo e ar. Ele observa que o amor e o ódio aproximam e afastam
significa “investigador da Natureza”. os indivíduos, caracterizando-os como forças antagônicas
cósmicas. Isso quer dizer que o semelhante atrai o seme-
Tales de Mileto (624-546 a.C.) lhante e o dessemelhante repulsa o dessemelhante, num
Tales é um famoso matemático. Ele foi o primeiro a afir- movimento eterno – assim, ao se ter harmonia, o amor
mar que a água era a origem de todas as coisas, sendo a prevalece e, caso tenha desequilíbrio, o ódio está atuando.
fonte originária de explicação da physis. Diante disso, o filósofo inaugura o pluralismo, que orienta
e ordena a Natureza; não mais um único elemento, como
pensavam os outros filósofos.
Anaximandro (610-547 a.C.)
Anaximandro foi o primeiro a formular o conceito de uma Demócrito (460-370 a.C.)
lei universal presidindo o processo cósmico total, numa cla-
ra ampliação da visão de Tales. Segundo o pensamento de Demócrito, tudo o que existe
na physis, ou seja, na Natureza, é composto por átomos,
que eram partículas indivisíveis e eternas. Seu método foi
Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) a observação.
Heráclito preocupou-se com a questão da transformação,
ou seja, da physis. A base de seu pensamento consiste no

FILOSOFIA DE ATENAS

A cidade-Estado de Atenas tornou-se um centro cultu-


ral, feito este ocorrido no século de Péricles, época de Sofismo
maior florescimento da democracia ateniense. Com o Com o crescimento da polis grega, surgiu uma prática edu-
controle de quaisquer ataques de outras cidades, Ate- cacional, em que os seus integrantes eram chamados
nas se favoreceu econômica e culturalmente, desenvol- de sofistas, sábios que vendiam o conhecimento, mas di-
vendo a Filosofia. recionavam esse conhecimento conforme as suas próprias

132
convicções. Os principais sofistas foram Protágoras de Ab-
dera (490-421 a.C.), Górgias de Leontinos (487-380 a.C.),
Dialética socrática
Pródico de Creos (465-395 a.C.), dentre outros. Apresenta- O método de investigação desenvolvido por Sócrates, co-
vam-se como mestres da oratória, de modo que, para eles, nhecido como dialética, consistia em alcançar a verdade
era possível ensinar as técnicas de oratórias e da persuasão por meio do diálogo. O objetivo dessa dialética era des-
para qualquer cidadão. Devido a isso, muitos jovens procu- mascarar a falsa sabedoria, chegando a um conhecimento
ravam os sofistas para alcançarem status na cidade, onde da natureza do homem.
o logos era elemento fundamental. Afinal, numa cidade
democrática, o cidadão precisava saber falar e ser capaz de Das aparências ao mundo das ideias
persuadir os outros com o auxílio das palavras.
Com o pensador ateniense Platão (428-354 a.C.), a Filoso-
fia ganhou uma característica epistemológica. Após a mor-
de Sócrates, ele fundou a Academia, um recinto onde se
discutiam diversos temas, da Matemática, passando pela
Astronomia e até a Música. Na Academia, o conhecimento
deveria ser baseado numa episteme, ou seja, numa ciência,
com o intuito de ultrapassar o plano instável da opinião.

Reminiscência
Segundo o filósofo grego, o ato de conhecer as coisas signifi-
ca, necessariamente, o ato de lembrar, sustentando a hipóte-
Parthenon se da reminiscência, contida no diálogo Ménon. Nesse diálo-
go, Sócrates demonstra que, através de um escravo, o homem
Sócrates (469-399 a.C.) só precisa recordar as coisas que sua alma um dia aprendeu.
Nesse momento, Platão salienta que a alma é eterna.
O filósofo ateniense foi um dos maiores críticos à prática
Para o filósofo Platão, a concepção de mimesis significa “imi-
do sofismo, pelo direcionamento da verdade pelo sofista,
tação”. Nesse momento, o pensador faz uma separação do
além de discordar que eram filósofos, visto que não investi-
conhecimento e da arte, pautando a filosofia como o conhe-
gavam nada, só reproduziam fatos. Sócrates foi um marco
cimento baseado na verdade, enquanto a arte se postula na
na história da Filosofia, por modificar a investigação do
reprodução, na imitação, de modo a construir uma posição
pensamento, pretendendo direcionar para uma análise do
de superioridade e inferioridade entre esses elementos.
indivíduo, e não mais para a compreensão da physis.

MITO DA CAVERNA

O mundo das ideias


Platão apresenta que o conhecimento é elaborado quando
o indivíduo alcança a ideia, rompendo com as aparências,
enquanto que a opinião nasce da percepção da aparência.
Nesse instante, o filósofo compreende uma separação en-
tre dois mundos: o mundo inteligível e o mundo sensível.
§ Mundo inteligível: o filósofo encontra os elementos
com o olhar da ciência.
§ Mundo sensível: o homem vê as coisas não muito
claramente.
Com essa concepção, Platão questiona a realidade do mun-
do sensível, pois esse universo está em constante transfor-
mação, o que nos leva ao mundo das incertezas.

133
Alegoria da caverna Dessa maneira, o homem só atingirá a felicidade quando
abandonar o mundo sensível em direção ao mundo inteli-
Segundo Platão, o filósofo é o sujeito que consegue enxer- gível. Isso ocorre, pois no mundo inteligível estão as ideias
gar as coisas mais claramente do que as outras pessoas. perfeitas, como a beleza, a coragem, a justiça e a felicidade.
Para ilustrar essa ideia, surge a alegoria da caverna, conti-
do no Livro VII de A República: Política
Um grupo de pessoas acorrentado numa caverna só vê Para o filósofo, todos os tipos de governo existentes no mun-
sombras e julga que elas são a realidade. do são degenerados por natureza, pois a sua forma original
Um homem consegue escapar das correntes e sai da ca- tende a ter uma versão degenerada.
verna. Lá fora, ele vê um mundo bem diferente, o mundo
Forma original Forma degenerada
real. Ele volta à caverna para contar a novidade ao resto
das pessoas, porém, ofuscado pela luz (da verdade), parece Aristocracia Oligarquia

abobado. Com isso, os outros prisioneiros não acreditam Monarquia Tirania


na sua versão maluca e acabam matando o pobre infeliz. Democracia Anarquia

Diante disso, Platão defende que o melhor sistema de gover-


A felicidade, segundo Platão no deveria ser a monarquia, associada com o saber filosófico,
Para o filósofo grego Platão, o conceito de felicidade con- visto que somente indivíduos que detêm o conhecimento po-
sistia no resultado final de uma vida dedicada a um conhe- dem efetuar com melhor desempenho para o coletivo, sem
cimento progressivo. Numa valorização pelo conhecimen- sofrerem as interferências do pensar e agir particular. Sendo
to, Platão vai interligar a felicidade com a ciência. assim, os melhores governantes seriam os reis-filósofos.

ARISTÓTELES

Aristóteles (384-323 a.C.)


Aristóteles foi o último e mais influente dos grandes filó-
sofos gregos. Tornou-se o crítico mais feroz do pensa-
mento platônico.
Em 343 a.C., Filipe da Macedônia confiou a Aristóteles a
educação de seu filho, Alexandre. O jovem imperador da
Macedônia, já ganhando as titulações de senhor do mun-
do conhecido, mencionou que “Se a meu pai devo a minha
existência, a meu preceptor devo à arte de me saber con-
duzir. Se governo com alguma glória, a ele sou devedor”.
Em 335 a.C., em Atenas, fundou sua própria escola, o Li-
ceu, que foi muito superior à Academia.
O filósofo deixou muitos escritos, sendo a maioria tratados
bem fundamentados. Dividiu e subdividiu áreas de investiga-
ção, sendo o primeiro a fazer uma classificação do conheci-
mento, de modo que versou perante diferentes áreas, como
biologia, retórica, lógica, ética, dentre outras.
A crítica para Platão consiste em analisar corretamente os
Representação de Platão (à esquerda, apontando para cima) e de
fenômenos da natureza, indo além da superficialidade inte-
Aristóteles (que aponta para baixo)
ligível, construindo uma nova concepção de conhecimento.

134
Entre seus textos temos: bloco de construção básico de qualquer argumento era
o silogismo; constituído por premissas e uma conclusão,
§ A Física: aborda a relação dos quatro elementos (ter-
desenvolvendo um primeiro estudo da linguagem de ar-
ra, água, ar e fogo) com o planeta Terra. Seus princípios
gumentação baseada na coerência lógica. Logo, a lógi-
não são descritos com exatidão. Porém, essas estrutu-
ca se torna uma ferramenta na busca do conhecimento.
ras auxiliaram outros experimentos e tecnologias.
§ A Metafísica: trata da ciência das causas primeiras Todos os homens são mortais. premissa 1
do ser enquanto ser geral. O filósofo define quatro cau-
Sócrates é mortal. premissa 2
sas das coisas:
1. causa formal (a forma da coisa); Logo, Sócrates é mortal. conclusão

2. causa material (matéria de que uma coisa é feita);


§ Arte Poética: examina as formas de poesia – epo-
3. causa eficiente (a origem da coisa); e
peia, comédia e tragédia –, que tentam imitar a reali-
4. causa final (a finalidade do objeto). dade, porém, de modos diferentes. A poesia é o gênero
§ Ética a Nicômaco: apresenta a ética como algo pal- literário que mais se aproxima da filosofia, pois tende
pável, não sendo um elemento abstrato. Seguindo a para o conhecimento do universal.
teoria da justa-medida, ou seja, do equilíbrio, o filósofo § Arte Política: define que o homem é um animal po-
demonstra que, ao seguirmos esse equilíbrio em nossos lítico – politikón zoón – que vive naturalmente em so-
atos particulares, conseguimos atingir a felicidade, sen- ciedade. Ao tratar do tema em Política, Aristóteles, ao
do que existe uma inclinação para essa finalidade últi- contrário de Platão, não se interessa por idealizar uma
ma do ser humano. Entretanto, o conceito de felicidade cidade justa. Ele classifica as formas de governo em três:
varia de indivíduo para indivíduo e de como é sua vida. o governo de um só indivíduo (monarquia), de alguns
Para o filósofo, existem três tipos de vida: (aristocracia) e de todos (democracia). Cada um desses
1. vida dos prazeres: onde o ser se tor- regimes políticos apresenta vantagens e desvantagens,
na refém daquilo que deseja; formas boas e corrompidas. Aristóteles não questionou a
2. vida política: onde o ser busca a hon- escravidão e achava as mulheres despreparadas para a
ra pelo convencimento; e liberdade e para os direitos políticos.
3. vida contemplativa: onde o ser busca os ele- § A Arte: entende que o Belo é o resultado da justa-
mentos dentro de si, o prazer intelectual – essa -medida, da simetria. Assim, o Belo faz parte do ser hu-
vida contém a essência da felicidade. mano, podendo imitar a natureza, mas também abor-
dar o impossível e o inverossímil, podendo completar o
§ A Lógica: explica que a lógica não é uma ciência, mas
que falta na natureza.
um instrumento para o correto pensar. Para Aristóteles o

FILOSOFIA MEDIEVAL

Durante o período que corresponde ao Império Romano e à


Idade Média, a filosofia sofreu um processo de reclusão ao
acesso popular, estando cada vez mais reservada a poucos
nichos intelectuais. Desse modo, entre os séculos V e XV,
a filosofia e a religião estiveram interligadas intimamente,
tendo diversas correntes filosófico-católicas que monopoli-
zaram o conhecimento nesse período.

Agostinho (354-430 d.C.)


Com Agostinho – figura mundana que, já adulto, se con-
verteu de livre vontade para o mundo espiritual –, a filoso-
fia se mesclou com o cristianismo.

135
Agostinho propôs uma conciliação entre fé e razão. Com
a dualidade platônica, o pensador medieval ressaltou que Pedro Abelardo (1079-1142)
o conhecimento se consolida quando o homem tem aces- Na Idade Média, significou uma mudança do pensamen-
so ao eterno, ao divino, ou seja, tem acesso ao mundo in- to dos dominantes, seguiu-se o ideal de ora et labora
teligível platônico. (reza e trabalha). Assim, iniciou-se a “querela dos univer-
Para o pensador, Deus é eterno, portanto, está fora do sais”, a qual discutia a relação entre o nome e a coisa, a
tempo – que sempre existiu, num eterno presente; porém, linguagem e a realidade.
para o homem, o tempo começou quando o mundo foi
criado. Com o intuito de ilustrar esse procedimento, Agos- O nome da rosa
tinho propôs uma cidade de Deus, feita com as virtudes do
homem, e uma cidade do Diabo, constituída pelos vícios A palavra “rosa” pode sobreviver à morte ou ao desapare-
do ser humano. Essa ideia está contida em sua obra mais cimento da própria rosa; então, a palavra fala até de coisas
famosa, intitulada A cidade de Deus. Nesse instante, o fi- inexistentes. Como podemos entender isso? Nesse instan-
lósofo direciona os hábitos das pessoas, com o intuito de te, acontece uma questão ou querela de como os nomes
conseguir a iluminação divina. dos objetos não estão atrelados com os objetos. Os nomes
são elementos arbitrários que rotulam as coisas, não tendo
nenhuma relação direta com o próprio objeto.

Segundo Pedro Abelardo, os universais só existem no inte-


lecto, mas, ao mesmo tempo, mantêm relação com as coisas
particulares, à medida que lhes dão significado. Desse modo,
é como significado que os universais subsistem às coisas.
Sua obra mais conhecida é Sic et Non (Sim e Não), a qual
revitaliza a dialética, afirmando que esse processo era a
via para a verdade e fazia bem à mente.

Tomás de Aquino (1226-1274)


Com Tomás de Aquino, existe um domínio comum à razão
e à fé. Diante de uma forte influência de Aristóteles, buscou
organizar todos os ramos do conhecimento em um sistema
Ilustração do livro A cidade de Deus, de Agostinho completo. Foi um dos principais representantes da escolás-
Essa cidade de Deus só pode ser conhecida através da au- tica, uma das escolas medievais.
toridade infalível da Igreja. Assim, Agostinho comenta que o
Estado deve subjugar-se ao poder do clero, demonstrando
que o ser humano pode atingir o entendimento mediante
as leituras das Escrituras Sagradas, fato este que propicia a
esse indivíduo a felicidade. Entretanto, nem todos os homens
recebem a graça das mãos de Deus, sendo que somente al-
guns são predestinados à salvação. Agostinho se tornou o
principal filósofo da patrística.

Patrística
A patrística é a doutrina religiosa elaborada pelos pais
ou padres da Igreja (por isso o nome), nos séculos II ao
VIII, que tinha como objetivo ordenar as verdades da fé,
para defender-se dos ataques dos hereges. Para conso-
lidar o dogma religioso, tem uma construção lógica das
ideias. Os inúmeros textos dessa doutrina almejavam
orientar as ações dos indivíduos de dentro e de fora dos
muros da Igreja católica.

136
O pensamento de Aquino procura apresentar o equilíbrio
entre a fé e a razão. Para ele, quando há algum desacordo, Escolástica
a razão é sempre o elemento que se apresenta em equívo- A escolástica foi o método utilizado nos recintos educacio-
co, pois a razão que se excede torna-se indiscreta e invade nais da Idade Média, durante o século XI, principalmente
o terreno exclusivo da fé, que são os mistérios divinos – nas universidades. Seguindo um modelo romano de ensi-
fato que provoca, devido à desconfiança, a impossibilidade no, eram ensinadas Gramática, Retórica, Dialética, Geome-
de demonstrar a existência de Deus. Seu pensamento assu- tria, Aritmética, Astronomia e Música.
miu a condição de doutrina oficial do catolicismo.
A influência do aristotelismo na escolástica adentra no sé-
Em sua Summa contra gentilles, Aquino propõe-se a provar
culo XII, salientando a concepção de divisão de matérias,
para um não cristão, mediante um raciocínio natural, a im-
em que existem diversos tipos de conhecimento.
portância do cristianismo e a existência de Deus. Essa obra
é considerada um manual de teologia destinado a conver-
ter os muçulmanos, evitando, assim, o avanço do islã.

FILOSOFIA POLÍTICA

Diante das transformações sociais e políticas que a Europa que esse poder ficará eternamente para esse ser, pois o
passava durante a Baixa Idade Média – conjunto com os que vai garantir tal poder são suas ações no agrupamento
ideais e as ações do Renascimento Cultural, que privilegia social. Desse modo, o principal objetivo desse governante
o ser humano e as suas próprias criações –, emerge um é perpetuar-se no poder.
novo ramo na área da filosofia – a filosofia política –, que
Assim, para o pensador, a figura mais importante dessa so-
se debruça perante os limites e a organização do Estado
ciedade é o governante. Isso ocorre, pois esse indivíduo pos-
frente ao indivíduo. O termo “política” já existia na polis
sui algo que poucos têm: a virtù.
grega; porém, essa nova concepção representa um novo
olhar perante as relações da sociedade. Os pensadores com A virtù representa as qualidades que esse indivíduo terá
maior destaque nessa área foram Maquiavel e Hobbes. em determinadas situações, sendo ações ou atitudes que
devem ser tomadas rápidas, sem prejuízos ao seu maior

Nicolau Maquiavel objetivo, sem precisar seguir qualquer moral religiosa.


Só que esse governante também precisa ter ao seu favor
(1469-1527) a fortuna, ou seja, a sorte, de modo que ele não pode, de
forma alguma, renegar as situações de sorte que podem
O filósofo da região de Florença é considerado um teórico
surgir em seu caminho. Assim, para conseguir perpetuar-se
da política. Com uma observação perspicaz da história dos
no poder, o bom governante precisa, necessariamente, unir
governos, Maquiavel analisa as atitudes dos governantes e
a virtù e a fortuna.
como esse Estado é organizado.
Em sua obra mais conhecida, O príncipe (1513), Maquiavel
tinha como pretensão propiciar a união das províncias ita-
lianas, para garantir a paz nessas terras.

Tendo uma experiência de análise histórica, em conjunto


com uma orientação de valorização do governante, Ma-
quiavel tem a preocupação de saber como os governan-
tes agem de fato e como essas atitudes podem garantir ou
não a sua permanência no poder.

A estrutura do poder para Maquiavel


O poder, segundo Maquiavel, foi adquirido pelo uso da
força excessiva ou pela herança. Entretanto, não significa Maquiavel, pintura de Santi di Tito, século XV

137
Thomas Hobbes (1588-1679) Para romper essa situação de guerra, os homens decidem
sair do estado de natureza e partir para a sociedade civil,
criando um pacto social entre os integrantes dessa comu-
nidade, visando à tranquilidade e à paz. O que fundamen-
tará esse pacto é a preservação da vida, o grupo decide
ceder suas forças (ou armas) para um líder soberano, que
deveria cumprir com alguns deveres, como trazer a paz
para o grupo e o bem comum. Diante desse pacto, os ho-
mens não devem se rebelar contra o governante escolhido,
com a intenção de fomentar a tranquilidade desejada.

O leviatã: o perigo do monstro


O filósofo inglês Thomas Hobbes explanou a sua teoria sobre Hobbes aponta que nessa sociedade civil insurge um líder
a formação da sociedade. Foi um pensador jusnaturalista, supremo que precisa utilizar-se da força para se manter no
isto é, acreditava que os princípios e direitos dos homens poder. O problema é que, tendo o poder legal nas mãos, o
têm-se como ideia universal e imutável de justiça. Hobbes governante, se não tiver destreza, inclinará para um poder
foi uma das bases filosóficas para a consolidação do abso- incontrolável, absoluto, transformando-se num monstro com
lutismo europeu. poderes ilimitados. Aqui, Hobbes compara esse governante
incontrolável, tendo o aval das leis criadas por ele próprio,
Em seu livro O leviatã (1651), ele pretende compreender
com o monstro que dá título à sua obra, o leviatã (um pei-
a formação da sociedade. Segundo o filósofo, no início,
xe feroz citado no Antigo Testamento), que deve concentrar
os homens viviam no Estado de natureza, onde os seres
todo o poder em torno de si, para, assim, ordenar todas as
sobrevivem num conflito de todos contra todos, onde a re-
decisões da sociedade. Isso prejudica completamente a con-
gra máxima era a lei da sobrevivência. Nesse instante, a
solidação do pacto social, perdendo com isso o objetivo de
competição entre os indivíduos fazia com que a paz ficasse
preservação da paz entre os homens.
cada vez mais longe do convívio humano.

FILOSOFIA MODERNA

Erasmo de Rotterdam Michel de Montaigne


(1466-1536) (1533-1592)
Nascido Herasmus Gerritzsoon, o pensador humanista ne- O filósofo francês Michel de Montaigne reintroduz a ideia de
erlandês faz uma crítica mordaz e feroz sobre a insensibi- investigação crítica permanente, concebeu uma nova manei-
lidade dos detentores do poder, sobre a perda dos valores ra de descobrir o conhecimento.
da vida, com uma sátira da sociedade dos séculos XV e Com formação em Direito, acabou adentrando na política,
XVI. Assim, ele redigiu o seu Elogio da Loucura. sendo prefeito de Bordeaux, entre 1580 e 1581. No fim da
Nesse caso, a Loucura é uma deusa que se apresenta como vida, escolheu a reclusão, a fim de escrever a sua maior obra,
condutora das ações humanas, ou seja, a Loucura domina intitulada Ensaios, niciada em 1572.
o mundo, do modo que a felicidade suprema do homem Em seu ensaio mais famoso, intitulado Dos canibais, Mon-
está nas loucuras que comete. Com isso, Loucura é o próprio taigne apresenta uma crítica aos europeus, em relação às
mundo que o homem construiu, pois os seres se tornam práticas com os povos do Novo Mundo.
medíocres e hipócritas.
Analisa o cotidiano constituído por homens “estranhos” e
A crítica maior recai sobre a Igreja, sua hierarquia e suas ins- “absurdos”, mas também “milagres”. O homem é um ser
tituições. Assim, Erasmo propõe o retorno da Igreja à simpli- verdadeiro em sua contínua mutação; equívocas são as teo-
cidade dos tempos iniciais. Foi considerado o homem mais rias e as convenções sociais e políticas que pretendem apri-
erudito de sua época. sioná-lo em uma única imagem.

138
René Descartes (1596-1650) 1. Só aceitar ideias claras e definidas.
2. Dividir cada problema em tantas partes necessárias
O francês René Descartes é considerado o pai da filosofia à solução.
moderna. Na intenção de encontrar a certeza de alguma
3. Ordenar os pensamentos do simples ao complexo.
coisa, o filósofo utiliza a sua maior arma – a dúvida –, pro-
curando, assim, uma base de certeza em suas próprias fa- 4. Verificar exaustivamente se existe alguma falha.
culdades racionais. Esse pensamento está contido no Discurso do método: o
homem deve desconfiar de seus sentidos. Descartes, notou
que o único momento de que não se pode duvidar é quando
pensa, mesmo que pense estar sonhando ou se iludindo. As-
sim, se duvido, penso e, ao pensar, logo, existo.
Descartes supôs que a essência do ser era o pensamento, e
que a mente era separada do corpo. Surgira, assim, o pro-
blema mente–corpo, a qual o corpo tinha os seus próprios
princípios de movimento, agindo de forma mecânica.
Em seguida, era necessário comprovar a existência de Deus,
O ceticismo cartesiano consiste numa formulação sistemá- para garantir que nossas ideias claras e definidas são ver-
tica, em que não se trata mais de duvidar por duvidar, mas dadeiras e que não estamos sendo iludidos por um gênio
de examinar criteriosamente todas as coisas, a fim de nelas maligno. Se Deus é perfeito por ter uma causa, o homem, por
descobrir elementos sobre os quais possa recair alguma possuir inúmeros defeitos, não pode ser essa causa. Assim,
suspeita. A dúvida é conduzida por um método rigoroso: Deus deve ser a causa de nossa ideia de perfeição dele.

RACIONALISTAS

Baruch de Espinoza foi que o conteúdo bíblico não se refere à verdade, mas
apenas estabelece preceitos de conduta para guiar os ho-
(1632-1677) mens, o que reduz a nada todo o esforço da teologia.
Segundo Espinoza, existe uma só substância, que é um prin-
cípio científico unificador, figurando-se em Deus ou Nature-
za, do modo que a mente e a matéria são apenas atributos
da substância única. Deus é a causa primeira e eficiente de
todas as coisas, porém, isso não significa que seja o criador,
pois, sendo Deus a única substância, nada pode existir fora
dele. Assim, Deus é a causa do mundo, mas o mundo existe
em Deus, que é, por isso, causa imanente, isto é, causa que
produz efeito em si mesma. Em outras palavras, Deus é Na-
tureza (Deus sive Natura).
A filosofia de Espinoza tinha como propósito esclarecer a
identidade existente entre nossa mente e a natureza. Essa
identidade só acontece, quando conhecemos a nós mes-
mos e a própria natureza, como uma coisa una. Diante disso,
o conhecimento da natureza se concretiza quando enten-
demos a essência dos objetos.
O filósofo holandês Espinoza foi um dos grandes raciona-
listas do século XVII. Em sua obra Tratado teológico-polí- Espinoza foi um daqueles raros filósofos que, além de acre-
tico (1670), o filósofo submete o Velho Testamento a uma ditar no que dizia, era fiel a seus princípios. Chegou a recu-
rigorosa crítica, baseando-se numa análise gramatical da sar uma cátedra de Filosofia em Heidelberg, posição que,
língua hebraica e na história do povo judeu. A conclusão por ser oficial, implicava aceitar ideias e limitações oficiais.

139
Definições de Espinoza
I. Por sua causa entendo aquilo cuja essência implica a exis-
tência e cuja natureza só pode ser concebida como existente.
II. Diz-se finita no seu gênero uma coisa que pode ser li-
mitada por uma outra da mesma natureza. Por exemplo,
dizemos que um corpo é finito porque concebemos sempre
um outro maior. Do mesmo modo, um pensamento é limi-
tado por um outro pensamento. Mas nem um corpo pode
ser limitado por um pensamento nem um pensamento por
um corpo.
III. Por substância entendo aquilo que existe em si e por si
é concebido, isto é, aquilo cujo conceito, para ser formado,
não precisa do conceito de uma outra coisa.
Leibniz escreveu prodigiosamente sobre muitos temas das
IV. Por atributo entendo aquilo que o intelecto percebe
áreas filosófica e matemática. O filósofo procurou a harmo-
como a essência da substância.
nia entre elementos aparentemente díspares: o mundo na-
V. Por modo entendo aquilo que existe em outra coisa pela tural e o mundo moral; o corpo e a alma; Platão e Aristóteles.
qual também é concebido.
Em sua maior obra filosófica intitulada Monadologia, o
VI. Por Deus entendo o ente absolutamente infinito, isto é, pensador apresenta como a natureza é constituída, de
uma substância que consta de infinitos atributos, cada um modo a salientar uma lógica racional. A força motora da
dos quais exprime uma essência eterna e infinita. natureza é acionada por Deus, que também está conti-
Destinada aos homens livres, o filósofo trata também sobre da na própria natureza.
a Ética, obra escrita em axiomas, no ano de 1677. Para Es- Segundo Leibniz, todos os elementos da natureza são com-
pinoza, o que os indivíduos pensam reflete diretamente na postos por mônadas (do grego monas, que significa “uni-
sua maneira de viver, colhendo frutos positivos ou negati- dade”, o que é uno), concebidas como verdadeiros átomos
vos de suas ações. Seguindo uma lógica racional, o filósofo da natureza, elementos das coisas, fechadas, sem janelas,
tenta provar a natureza racional de Deus. reguladas, em seu funcionamento pela harmonia preestabe-
lecida, de modo que, cada mônada é diferente e reflete o

Gottfried Wiljhelm universo inteiro; porém, não está no espaço e nem no tempo.
Cada elemento que existente no universo é composto por
Leibniz (1646-1716) inúmeras mônadas, da sendo que alguns possuem mais
O filósofo alemão Leibniz é uma figura central na história que outras. Deus, por exemplo, também é composto por
da matemática e da filosofia, que concebeu as ideias de mônadas, sendo uma substância infinita, perfeita, criadora
cálculo diferencial e integral, sem sofrer influência dos es- de todas as coisas e da harmonia preestabelecida. As mô-
tudos de Isaac Newton. nadas que compõem Deus, criam as mônadas da natureza.

140
U.T.I. - Sala “O deus é dia noite, inverno verão, guerra paz, saciedade
fome; mas se alterna como fogo, quando se mistura a in-
censos, e se denomina segundo o gosto de cada.” (Fr. 67)
1. (UEL) Leia o diálogo a seguir.
“Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por to-
das, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias
Glauco: — Que queres dizer com isso?
ouro.” (Fr. 90)
Sócrates: — O seguinte: que me parece que há muito
estamos a falar e a ouvir falar sobre o assunto, sem nos Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural,
1973, p. 85 e 87. Col. Os pensadores.
apercebermos de que era da justiça que de algum modo
estávamos a tratar. A partir das citações acima:
Glauco: — Longo proémio – exclamou ele – para quem a) explicite quais são esses temas.
deseja escutar! b) comente cada um deles de modo a caracterizar a Fi-
Sócrates: — Mas escuta, a ver se eu digo bem. O princí- losofia de Heráclito.
pio que de entrada estabelecemos que devia observar-se
em todas as circunstâncias, quando fundamos a cidade, 5. (UFU) Há um abismo imenso que separa esta escala
esse princípio é, segundo me parece, ou ele ou uma das de valores que Sócrates proclama com tanta evidência
suas formas, a justiça. e a escala popular vigente entre os gregos e expressa
na famosa canção báquica antiga:
PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1993. p. 185-186. O bem supremo do mortal é a saúde;
O segundo, a formosura do corpo;
Com base nesse fragmento, que aponta para o debate
O terceiro, uma fortuna adquirida sem mácula;
em torno do conceito de justiça na obra A República, de
Platão, explique como Platão compreende esse conceito. O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude.
JAEGER, W. Paideia. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 528-529.
Leia o texto a seguir para responder às questões 2 e 3.
a) O que é o homem para Sócrates?
“... não é fácil determinar de que maneira, e com quem b) Qual é a relação entre o que define o homem e a máx-
e por que motivos, e por quanto tempo devemos enco- ima délfica “Conhece-te a ti mesmo”?
lerizar-nos; às vezes nós mesmos louvamos as pessoas
que cedem e as chamamos de amáveis, mas às vezes 6. (UFU) A respeito da fortuna, Maquiavel escreveu:
louvamos aquelas que se encolerizam e as chamamos de [...] penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra
viris. Entretanto, as pessoas que se desviam um pouco da de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela
excelência não são censuradas, quer o façam no sentido nos deixe governar quase a outra metade.
do mais, quer o façam no sentido do menos; censuramos MAQUIAVEL, N. O príncipe. Tradução de: Lívio Xavier. São Paulo:
apenas as pessoas que se desviam consideravelmente, Nova Cultural, 1987. Coleção “Os Pensadores”. p. 103.
pois estas não passarão despercebidas. Mas não é fácil
determinar racionalmente até onde e em que medida Com base na citação, responda:
uma pessoa pode desviar-se antes de tornar-se censurá- a) O que é a fortuna para Maquiavel?
vel (de fato, nada que é percebido pelos sentidos é fácil b) Como deve agir o príncipe em relação à fortuna?
de definir); tais coisas dependem de circunstâncias espe-
cíficas, e a decisão depende da percepção. Isto é bastan- 7. (Unesp)
te para determinar que a situação intermediária deve ser
louvada em todas as circunstâncias, mas que às vezes de- TEXTO 1
vemos inclinar-nos no sentido do excesso, e às vezes no
sentido da falta, pois assim atingiremos mais facilmente Para santo Tomás de Aquino, o poder político, por ser
o meio-termo e o que é certo.” uma instituição divina, além dos fins temporais que jus-
tificam a ação política, visa outros fins superiores, de
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro II. São Paulo:
Nova Cultural, 1996, p. 150 (Col. Os Pensadores). natureza espiritual. O Estado deve dar condições para a
realização eterna e sobrenatural do homem. Ao discutir
2. (UFPR) Agir de modo virtuoso é, segundo Aristóteles, a relação Estado-Igreja, admite a supremacia desta so-
agir sempre do mesmo modo? Por quê? bre aquele. Considera a Monarquia a melhor forma de
governo, por ser o governo de um só, escolhido pela sua
3. (UFPR) Uma vez que Aristóteles antes define as virtu- virtude, desde que seja bloqueado o caminho da tirania.
des como disposições de caráter e, na passagem acima,
acrescenta que as virtudes situam-se num “meio-termo”, TEXTO 2
de que modo devem ser definidos os vícios? Por quê?
Maquiavel rejeita a política normativa dos gregos, a qual,
4. (UFU) Os fragmentos abaixo representam três te- ao explicar “como o homem deve agir”, cria sistemas
mas fundamentais que configuram o pensamento de utópicos. A nova política, ao contrário, deve procurar a
Heráclito de Éfeso. verdade efetiva, ou seja, “como o homem age de fato”.

141
O método de Maquiavel estipula a observação dos fatos, 9. (UFU) Segundo Agostinho de Hipona (354-430), as
o que denota uma tendência comum aos pensadores do ideias ou formas originárias de todas as coisas, ra-
Renascimento, preocupados em superar, através da expe- zões estáveis e imutáveis das coisas de nosso mun-
riência, os esquemas meramente dedutivos da Idade Mé- do, estão contidas na mente divina e não nascem
dia. Seus estudos levam à constatação de que os homens nem morrem, e tudo o que, em nosso mundo, nasce
sempre agiram pelas formas da corrupção e da violência. e morre é formado a partir delas. Essas ideias eter-
nas não são criaturas, antes, participam da Sabedoria
Adaptado de: ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS,
Maria Helena. Filosofando. 1986.
eterna, mediante a qual Deus criou todas as coisas e
são idênticas a Ele. Assim, conhecemos verdadeira-
Explique as diferentes concepções de política expressa- mente quando nos voltamos para tais ideias; sendo
das nos dois textos. o fundamento da natureza das coisas são também
o fundamento para o conhecimento dessas mesmas
8. (UFU) Leia a afirmação a seguir e responda. coisas; assim, por meio delas podemos formar juízos
verdadeiros sobre elas.
A função que Hobbes atribui ao pacto de união é a de
INÁCIO, Inês. C.; LUCA, Tânia R. de. O pensamento
fazer passar a humanidade do estado de guerra para o medieval. São Paulo: Ática, 1988, p. 26.
estado de paz, instituindo o poder soberano.
Levando em consideração o texto acima e a teoria da
BOBBIO, Norberto. Thomas Hobbes. Rio de
Janeiro: Campus, 1991. p. 43. iluminação de Agostinho, responda:
a) O que são as ideias eternas?
a) Por que, sem o pacto, não há paz entre os homens?
b) Qual o seu papel ou função em nosso conhecimento
b) Por que a instituição do poder soberano é resultado do mundo?
de uma passagem?

10. (UEL) Leia o texto e o quadrinho a seguir.

Aqueles que somente por fortuna se tornam príncipes pouco trabalho têm para isso, é claro, mas se mantêm muito
penosamente. Não têm nenhuma dificuldade em alcançar o posto, porque por aí voam; surge, porém, toda sorte de
dificuldades depois da chegada. Tais príncipes estão na dependência exclusiva da vontade e boa fortuna de quem lhes
concedeu o Estado, isto é, duas coisas extremamente volúveis e instáveis.
Adaptado de: MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 55.

a) Desenvolva os conceitos de fortuna e de virtù, em conformidade com Maquiavel.


b) O que diferencia o pensamento político de Maquiavel daquele concebido pela tradição cristã?

U.T.I. - E.O. 3. Em 399 a.C., o filósofo Sócrates é acusado de gra-


ves crimes por alguns cidadãos atenienses. (...) Em seu
julgamento, segundo as práticas da época, diante de
1. O que significa dizermos que os primeiros filósofos um júri de 501 cidadãos, o filósofo apresenta um longo
tinham uma “preocupação cosmológica”? discurso, sua apologia ou defesa, em que, no entanto,
longe de se defender objetivamente das acusações, iro-
2. Platão considera as opiniões e as percepções senso- niza seus acusadores, assume as acusações, dizendo-se
riais, ou conhecimento das imagens das coisas, como coerente com o que ensinava, e recusa a declarar-se
fonte de erro, pois nunca alcançam a verdade plena. inocente ou pedir uma pena. Com isso, ao júri, tendo

142
que optar pela acusação ou pela defesa, só restou como Com base na leitura desse trecho e em outras informa-
alternativa a condenação do filósofo à morte. ções presentes na obra em referência, explique por que
não é toda e qualquer semelhança entre os homens que
(Danilo Marcondes).
motiva uma amizade verdadeira.
Com base no texto apresentado, explique quais foram
os motivos da condenação de Sócrates à morte. 6. (Unesp) “O homem é o lobo do homem” é uma das
frases mais repetidas por aqueles que se referem a
4. (UFPR) Se há, então, para as ações que praticamos, Hobbes. Essa máxima aparece coroada por uma outra,
alguma finalidade que desejamos por si mesma, sen- menos citada, mas igualmente importante: “guerra de
do tudo mais desejado por causa dela, e se não esco- todos contra todos”. Ambas são fundamentais como
lhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o síntese do que Hobbes pensa a respeito do estado na-
processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que tural em que vivem os homens. O estado de natureza
nosso desejo seria vazio e vão), evidentemente tal fi- é o modo de ser que caracterizaria o homem antes de
nalidade deve ser o bem e o melhor dos bens. Não terá seu ingresso no estado social. O altruísmo não seria,
então uma grande influência sobre a vida o conheci- portanto, natural. No estado de natureza o recurso à
mento deste bem? Não deveremos, como arqueiros que violência generaliza-se, cada qual elaborando novos
visam a um alvo, ter maiores probabilidades de atin- meios de destruição do próximo, com o que a vida se
gir assim o que nos é mais conveniente? Sendo assim, torna “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta,
cumpre-nos tentar determinar, mesmo sumariamente, o na qual cada um é lobo para o outro, em guerra de
que é este bem, e de que ciências ou atividades ele é todos contra todos”. Os homens não vivem em coope-
o objeto. Aparentemente ele é o objeto da ciência mais ração natural, como fazem as abelhas e as formigas. O
imperativa e predominante sobre tudo. Parece que ela acordo entre elas é natural; entre os homens, só pode
é a ciência política. ser artificial. Nesse sentido, os homens são levados a
estabelecer contratos entre si. Para o autor do Leviatã,
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, 1094a, p. 18-28. o contrato é estabelecido unicamente entre os mem-
Que razões Aristóteles alega para justificar a afirmação bros do grupo, que, entre si, concordam em renunciar
de que a ciência mais imperativa e predominante sobre a seu direito a tudo para entregá-lo a um soberano
tudo parece ser a ciência política? capaz de promover a paz. Não submetido a nenhuma
lei, o soberano absoluto é a própria fonte legisladora.
5. (Ufmg) Na Ética a Nicômaco, Aristóteles propõe uma A obediência a ele deve ser total.
compreensão da amizade em que a semelhança entre João Paulo Monteiro. Os pensadores. 2000.
os homens é importante, embora não a caracterize
completamente, como se comprova neste trecho: Caracterize a diferença entre estado de natureza e vida
social, segundo o texto, e explique por que a é atribuída
A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins a Hobbes a concepção política de um “absolutismo sem
na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao teologia”.
outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os
que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos são 7. (UFMG) Leia este trecho:
os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em ra-
Ouvi dizer a um homem instruído que o tempo não é
zão da sua própria natureza e não acidentalmente. Por
mais que o movimento do sol, da lua e dos astros. Não
isso sua amizade dura enquanto são bons – e a bondade
concordei. Por que não seria antes o movimento de
é uma coisa muito durável. E cada um é bom em si mes-
todos os corpos? Se os astros parassem e continuasse
mo e para o seu amigo, pois os bons são bons em absolu-
a mover-se a roda do oleiro, deixaria de haver tempo
to e úteis um ao outro. […] Uma tal amizade é, como se-
para medirmos suas voltas? [...] Ou, ao dizermos isto,
ria de esperar, permanente, já que eles encontram um no
outro todas as qualidades que os amigos devem possuir. não falamos nós no tempo, e não há nas nossas pala-
vras sílabas longas e sílabas breves, assim chamadas,
Com efeito, toda a amizade tem em vista o bem ou o porque umas ressoam durante mais tempo e outras du-
prazer – bem ou prazer, quer em abstrato, quer tais que
rante menos tempo?
possam ser desfrutados por aquele que sente a amiza-
de –, e baseia-se numa certa semelhança. E à amizade SANTO AGOSTINHO. Confissões (Livro XI: o Homem e o
entre homens bons pertencem todas as qualidades Tempo). Tradução de: SANTOS, J. Oliveira; PINA, Ambrósio
de. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 286.
que mencionamos, devido à natureza dos próprios
amigos, pois numa amizade desta espécie as outras Nesse trecho, o autor argumenta contra a identificação
qualidades também são semelhantes em ambos; e o do tempo ao movimento dos astros. Apresente o argu-
que é irrestritamente bom também é agradável no mento proposto por Santo Agostinho.
sentido absoluto do termo, e essas são as qualidades
mais estimáveis que existem. 8. (Unesp) “Três maneiras há de preservar a posse de
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de: Estados acostumados a serem governados por leis
VALLANDRO, L.; BORNHEIM, G. In: Os pensadores. próprias; primeiro, devastá-los; segundo, morar neles;
São Paulo: Abril, 1979, VIII, 3, 1156b. terceiro, permitir que vivam com suas leis, arrancando

143
um tributo e formando um governo de poucas pesso- A partir da leitura das informações acima, responda às
as, que permaneçam amigas. Sucede que, na verdade, seguintes perguntas.
a garantia mais segura da posse é a ruína. Os que se a) De acordo com Hobbes, os seres humanos são natu-
tornam senhores de cidades livres por tradição, e não ralmente sociáveis? Justifique sua resposta.
as destroem, serão destruídos por elas. Essas cidades
b) Quais seriam, para esse filósofo, as principais carac-
costumam ter por bandeira, em suas rebeliões, tanto a
terísticas do homem em estado de natureza?
liberdade quanto suas antigas leis, jamais esquecidas,
nem com o passar do tempo, nem por influência dos c) Tendo em vista o fragmento da reportagem publi-
favores que receberam. cada pelo jornal Folha Online, é correto dizer que o
Estado, hoje, do ponto de vista hobbesiano, cumpre
Por mais que se faça, e sejam quais forem os cuidados,
sua obrigação em relação aos cidadãos?
sem promover desavença e desagregação entre os ha-
bitantes, continuarão eles a recordar aqueles princípios
10. (UFU) Leia com atenção o texto abaixo em que o
e a estes irão recorrer em quaisquer oportunidades
autor comenta e cita Santo Agostinho, e, em seguida,
e situações”.
responda as questões apresentadas.
Adaptado de: Nicolau Maquiavel. Publicado originalmente em 1513.
“Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eter-
Partindo de uma definição de moralidade como con- nos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou razões não
junto de regras de conduta humana que se pretendem existem em um mundo à parte, como afirmava Platão,
válidas em termos absolutos, responda se o pensamen- mas na própria mente ou sabedoria divina, conforme o
to de Maquiavel é compatível com a moralidade cristã. testemunho da Bíblia.”
Justifique sua resposta, comentando o teor prático ou “Que a mesma sabedoria divina, por quem foram
pragmático do pensamento desse filósofo. criadas todas as coisas, conhecia aquelas primeiras,
divinas, imutáveis e eternas razões de todas as cois-
9. (UFU) Ser vítima de bala perdida é o maior medo atu- as antes de serem criadas, a Sagrada Escritura dá este
al dos cariocas e moradores da região metropolitana testemunho: No princípio era o Verbo e o Verbo estava
do Rio. Foi o que responderam 57% dos 4500 entrevis- junto de Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram
tados em levantamento do ISP (Instituto de Segurança feitas pelo Verbo e sem Ele nada foi feito. Quem seria
Pública), órgão ligado à Secretaria de Segurança do Rio, tão néscio a ponto de afirmar que Deus criou as coisas
divulgado na tarde desta terça-feira. [...] um quinto dos sem conhecê-las? E se as conheceu, onde as conheceu
entrevistados (21,7%) foi vítima de um dos 21 tipos de senão em si mesmo, junto a quem estava o Verbo pelo
crimes elencados na pesquisa (agressão, furto...). qual tudo foi feito?”
BELCHIOR, L. Mais da metade dos moradores do RJ não (Santo Agostinho, Sobre o Gênese, V, 29). COSTA, José Silveira
confia na PM. In: Folha Online, 19/08/2008. da. A FilosofiaCristã. In: RESENDE, Antônio. Curso de Filosofia.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar/SEAF, 1986, p. 78, capítulo 4.
Estatísticas como essas retratam a situação de medo e
de insegurança geral vivenciada nas metrópoles brasi- a) Explique a relação, sugerida neste texto, entre a teo-
leiras e conferem atualidade a teorias como a do filó- ria das Ideias de Platão e o pensamento de Agostinho.
sofo Thomas Hobbes. Para ele, a função do Estado e do b) Explique como Agostinho usa essa teoria para expli-
corpo político é a de garantir a paz e o direito de cada car o conhecimento humano, na sua conhecida Doutrina
um à vida, impedindo o desencadeamento natural da da Iluminação Divina.
guerra de todos contra todos.

144
SOCIOLOGIA

145
A SOCIOLOGIA: AUGUSTE COMTE

A Sociologia surge como um fruto das diversas transfor- Pensando no controle da sociedade, Comte estruturou que
mações do cotidiano, oriundo da Revolução Industrial, que todos os elementos deveriam ter a razão científica como
impulsionou ainda mais as desigualdades sociais entre os norteador dessas ações. Esse pensamento ganhou força na
homens – fato este que modificou as relações interpesso- Europa durante o século XIX, entre governos monárquicos
ais, tendo como referência as relações do trabalho e sua e republicanos. Uma nação que seguiu com toda ênfase o
desvalorização do trabalho humano. pensamento positivista foi o Império Austro-Húngaro.
Diante disso, emerge uma ciência que se preocupava em
oferecer uma explicação para os novos fenômenos sociais. Positivismo no Brasil
Com o início da República, no século XIX, o positivismo
Auguste Comte (1798-1857) ganhou força, principalmente na cidade do Rio de Janeiro.
Com suas características de que existe uma hierarquia, a
Comte introduz o positivismo, corrente filosófica que buscava
qual deve seguir uma ordenação científica, o positivismo
uma reorganização intelectual, moral e política da ordem so-
teve muitos adeptos dos altos oficiais do Exército e algu-
cial, com o intuito de controle de todas as instituições sociais.
O seu pensamento consistia em três estágios, contida em seu mas camadas da burguesia brasileira. Diante disso, a nova
Curso de filosofia positiva: bandeira do Brasil ganhou um lema positivista.

§ Estado teológico: corresponde à infância da humanida-


de, pois a mente humana se baseia a um conhecimento
provisório, ilusório, ou seja, tenta explicações da realida-
de por meio de entidades sobrenaturais. Segundo Com-
te, a religião se encaixa nesse estado, pois ela inicia o
processo do conhecimento; porém, é um tipo de conhe-
cimento não tão confiável.
§ Estado metafísico: as explicações dos fenômenos da re-
alidade são feitas por entidades abstratas, mas contêm
traços de elementos teológicos. Sendo um estado inter-
mediário para o conhecimento definitivo.
§ Estado positivo: representa a realidade, sendo a forma
definitiva. Aqui a ciência predomina, de modo que se
busca os fatos e não as causas ou princípios; se preo- Bandeira do Império Brasileiro
cupa com o processo do conhecimento, e não com os
motivos dessas causas.

Positivismo
O pensamento científico e experimental é o único guia para
o ser humano, de forma que a ciência é a base dessa doutri-
na, com o intuito de organizar todos os elementos da socie-
dade, inclusive a área religiosa.
Em sua obra Sistema de política positiva (1854), Comte cria
a religião da humanidade ou a religião positivista, que tem
como princípios ou diretrizes “o amor, por princípio”, “a
Bandeira da República Federativa do Brasil
ordem, por base” e “o progresso, por fim”.
Esse processo evolutivo também recairia entre as ciências Entre os brasileiros que propagaram o pensamento positivis-
positivas – matemática, física, astronomia, química, biologia ta, podemos destacar os primeiros presidentes da República
–, e teria como a maior entre essas ciências uma nova ciên- Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, os militares Benjamin
cia – a sociologia –, que englobaria todas elas. Constant e Cândido Rondon e o escritor Euclides da Cunha.

146
ÉMILE DURKHEIM

A Europa passava por um momento de tranquilidade polí- Já as características dos fatos sociais devem ter traços de:
tica e econômica, chamada de Belle Époque, entre o fim da § generalidade: comum a todos ou à maioria dos inte-
Guerra Franco-Prussiana, em 1871, e o começo da Primeira grantes desse grupo social;
Guerra Mundial, em 1914. § exterioridade: não depende do indivíduo; e
Diante da efervescência tecnológica da época, ocorreu uma § coercitividade: se impõe de diversas formas.
grande transformação nos hábitos das pessoas, que direcio-
nou os indivíduos para o consumo de bens de consumos e o A religião para Durkheim
encantamento desses produtos perante os indivíduos.
Émile Durkheim nota que o elemento primordial que entre-
laça todos os seres é a religião, pois, mesmo serem monote-
Émile Durkheim (1858-1917) ístas ou politeístas, todas as religiões separam radicalmente
o mundo profano do mundo sagrado. Ele considera todas as
religiões como iguais, contendo um sistema de crenças e de
cultos, conjuntos de atitudes rituais, nas quais os seus “movi-
mentos são estereotipados”. A religião constrói a sociedade,
na qual “as divisões em dias, semanas (...) correspondem à
periodicidade dos ritos, das festas”, sendo assim uma mani-
festação natural da atividade humana.
A religião, para Durkheim, é uma espécie de especulação de
tudo que escapa à ciência, ou seja, o sobrenatural, possuin-
do assim na sua essência um conjunto de símbolos (os ritos).
O homem é um ser social, porque pensa por conceitos. A
Um dos precursores da escola sociológica francesa, o soci- concepção de mito é entendida como a representação de
ólogo Émile Durkheim sofreu uma forte influência do positi- uma espécie de herói histórico.
vismo comteano, contendo traços do funcionalismo social,
em que considera as funções sociais contidas em seu obje-
to de pesquisa, trabalhando a moral, a religião etc. O método científico
Ele compreende a “cultura” como algo coletivo, um elemen- Durkheim inaugura o processo de investigação sobre os
to vivo por assim dizer, que acaba se transformando ao fenômenos sociais, pautado na observação dos fatos. Esse
longo do tempo. Assim, a sociedade se constrói mediante procedimento deve ser guiado por uma análise neutra do
essas transformações culturais, consolidando ou rejeitando pesquisador, pois é necessário a esse observador suprimir
princípios morais e éticos. todos os seus juízos de valores pessoais para que conclusões
não sejam precipitadas. Precisa, ainda, apresentar um retrato
O fato social fiel do objeto analisado, observando todos os elementos que
compõem essa estrutura vista. Nesse momento, Durkheim
Os fatos sociais são maneiras de pensar, agir e sentir que apresenta a importância da sociologia como a ciência.
existem independentemente das manifestações individu-
Nesse processo, é saliente notar que Durkheim aponta al-
ais, isto é, são ações exteriores ao indivíduo, sendo gene-
guns direcionamentos:
ralizados na sociedade, de modo que são dotados de uma
força imperativa e coercitiva perante os indivíduos. § o processo deve ser objetivo;
§ os fatos analisados podem ser normais ou anômicos; e
Segundo Durkheim, existem tipos de fatos sociais:
§ e como esses fatos se interligam ou afetam os inte-
§ Fato social normal: é o fato social coercitivos, feitos de
forma exterior, desencadeando ações coletivas e gerais. grantes desse grupo estudado.
§ Fato social patológico: é o fato que aponta elementos Assim, aconteceram fatos corriqueiros, que serão caracteri-
de desequilíbrio. zados como normais; e também fatos que fogem desse es-
§ Fato social anômico: é o fato que apresenta uma au- tereótipo de normalidade, que acarretarão anomias sociais,
sência de normas e de valores morais. isto é, coisas estranhas que fogem da normalidade.

147
DIVISÃO DO TRABALHO DURKHEIMIANA

O suicídio O sociólogo afirma que a sociedade existe pela reprodução


dos fatos sociais, transcendendo um consenso entre seus
Em sua obra intitulada O suicídio, de 1897, Durkheim pre- membros. Essa sociedade é constituída por duas formas de
tende provar que o suicídio é um fato social, ocasionado solidariedade, que distingue dois tipos de sociedade.
pela coerção exterior e independente do indivíduo. § Sociedades tradicionais: consolidadas pela solidarie-
Construindo uma definição útil do suicídio, classificando em dade mecânica, isto é, é um acordo presente em grupos
três tipos: sociais que compartilham os mesmos valores e crenças
sociais, os quais são responsáveis pela coesão social.
§ Egoísta: ato desencadeado pelo individualismo extre-
mo, de forma que o indivíduo encontra-se isolado de § Sociedades modernas ou contemporâneas: con-
seus grupos sociais. Esse tipo de suicídio predomina nas solidadas pela solidariedade orgânica, isto é, esses indi-
sociedades modernas. víduos não compartilham das mesmas crenças religiosas,
pois cada indivíduo possui uma consciência própria. Nes-
§ Altruísta: ato que desencadeado pelo indivíduo toma-
se tipo de sociedade, a divisão do trabalho é crescente,
do pela obediência coercitiva do coletivo. Um exemplo
sendo reproduzida pelas formas legais da sociedade,
desse altruísmo são os terroristas, chamados “homens/
com regras e leis.
mulheres-bombas”, que por uma ideologia, tiram as
suas próprias vidas em prol de um ideal. Solidariedade mecânica Solidariedade orgânica
§ Anômico: ato que representa uma mudança abrup- Sociedade simples Sociedade complexas
ta, anormal na taxa de normalidade do suicídio.
Com inúmeras formas
Apontada por uma crise social, como o desemprego Sem divisão do trabalho
de divisão do trabalho
ou por processos de transformações sociais, como a
modernização, que substituiu o homem no mercado Seres iguais Seres diferentes

de trabalho.
Funções iguais Funções especializadas

A divisão do trabalho social Consciência social menor Consciência social maior

Para Durkheim, a divisão do trabalho concretiza-se mediante Coerção pela força e violência
Coerção pelo
controle formalizado
uma interação social, inserida na sociedade.

KARL MARX

Karl Heinrich Marx


(1818-1883)
O filósofo alemão analisou as transformações ocorridas na
sociedade durante a Revolução Industrial no século XIX,
quando as máquinas começaram a substituir o trabalho
manual dos homens, modificando radicalmente as relações
humanas e os seus hábitos na sociedade. Com isso, Marx vai
ser um dos responsáveis em promover uma discussão crítica
da sociedade capitalista, bem como da origem dos proble-
mas sociais que este tipo de organização social originou. Tipo de fábrica do século XIX

148
Segundo Marx, nas sociedades capitalistas, a forma princi- Segundo Marx, o trabalhador acaba sendo alienado pelo
pal de conflito ocorre entre duas classes sociais fundamen- próprio processo de produção, do modo que esse traba-
tais: a burguesia e o proletariado. Essa formação assim se lhador não tem consciência do seu próprio papel na so-
constitui, porque a classe assalariada (o proletariado), que ciedade, pois ele, devido às suas necessidades, constitui
não tendo os meios de produção, cedem a sua força de toda a sua vida em torno do seu trabalho.
trabalho em troca de um benefício econômico, sendo parte Em 1848, redigiu com Friedrich Engels, o Manifesto do Parti-
fundamental do enriquecimento da burguesia, ou seja, os do Comunista. Nele, Marx convoca o proletariado à luta pelo
donos dos meios de produção exploram aqueles que não socialismo. Nesse período, ocorreram diversas manifestações
detêm os artifícios, pois só vendem o seu trabalho humano. de cunho liberal, socialista e democrático, denominada Pri-
Desse modo, o conflito entre essas duas classes acaba ge- mavera dos Povos.
rando uma mudança na história da humanidade, pois um Fundou, em 1864, a Associação Internacional dos Traba-
grupo pretende conquistar novas condições, que alguns lhadores – depois chamada de Primeira Internacional dos
entenderam como direitos, e o outro grupo não pretende Trabalhadores –, com o objetivo de organizar a conquista do
ceder essas condições, modificando-se a consciência e as poder pelo proletariado em todo mundo. Em 1867, publicou
próprias relações humanas. Entretanto, a classe dominante o primeiro volume de sua obra mais importante, O capital, na
(a burguesia) tem maiores chances de construir a história qual faz uma crítica ao capitalismo e à sociedade burguesa.
como deseja, visto que possuem o poder econômico e polí-
Marx é o principal idealizador do socialismo e do comu-
tico nas mãos; algo bem diferente da classe proletária, que
nismo revolucionário. O marxismo – conjunto das ideias
não têm esses meios de produção.
político-filosóficas de Marx – propõe a derrubada da clas-
Mediante a isso, Marx observa que no capitalismo o mer- se dominante (a burguesia) por uma revolução do prole-
cado é o centro das relações sociais, sendo que, no merca- tariado. Marx critica o capitalismo e seu sistema de livre
do, a força de trabalho é comercializada como mercadoria. empresa que, segundo ele, pelas contradições econômi-
Quando o trabalhador excede o tempo de trabalho neces- cas internas, levaria a classe operária à miséria. Propunha
sário, ele cria uma riqueza para os donos da produção, de- uma sociedade na qual os meios de produção fossem de
nominada mais-valia. toda a coletividade.

IDEOLOGIA

Ideologia
O processo de dominação social se utiliza de artifícios que
iludem a população. Esse encantamento se perfaz com o
auxílio das propagandas, que disseminam imagens e men-
sagens para um condicionamento social. Essas propagan-
das têm a tarefa de conquistar o outro para vender o pro-
duto, estimulando um comportamento social capitalista.
Segundo Karl Marx, a ideologia dominante, será respon-
sável por repassar ideias, formas de pensar e explicar o
mundo. Marx questiona que ao seguir uma ideologia, os
indivíduos não fazem uma crítica de seus atos. A ideologia
A capa da primeira revista traz o Capitão América
vem para enfeitiçar o público a um estilo ou a um condi- dando um soco em Hitler. A sua arma é um escudo,
cionamento social. simbolizando que ele só ataca para se defender.

Essa prática se consolida mediante ao processo de aliena-


A ideologia nos quadrinhos ção, que os indivíduos sofrem um processo de exterioriza-
As histórias em quadrinhos é um tipo de arte, que influen- ção de uma essência humana e um não-reconhecimento
ciam a indústria cinematográfica, apresentam também uma de sua atividade. Marx atrela a alienação ao trabalho, que
ideologia contida em seus quadrinhos e textos. Buscando condiciona ao ser a não pensar sobre os seus atos, tendo
privilegiar uma nação ou uma forma de governo. um estranhamento diante os seus atos.

149
Marx retrata a alienação em quatro tipos: Fetiche da mercadoria
§ em relação ao produto do trabalho;
O conceito de fetichismo da mercadoria foi desenvolvido por
§ no processo de produção; Marx, em sua obra “O Capital”, atrelado ao conceito de alie-
§ em relação à existência do indivíduo enquanto mem- nação. O produto perde a relação com o produtor e parece
bro do gênero humano; ganhar vida própria, ganhando novas formas em si.

§ em relação aos outros indivíduos. Para compreendermos esse processo de fetichismo, é preci-
so retornar a uma definição a mercadoria.
A estranheza de não se reconhecer no produto criado, isso
representa o primeiro tipo. Segundo Marx, todo e qualquer objeto, no sistema capitalis-
ta, possui um valor de mercadoria. Tendo uma utilidade nesse
No segundo tipo, essa alienação está no próprio proces- produto, quando foi pensado para a sua produção. Esse seria o
so do trabalho, condicionando ao indivíduo a viver pelo seu valor de USO, o que os condiciona a consumi-lo. Enquanto
trabalho, deixando de viver apenas para satisfazer às ati- o valor de TROCA do produto representa no sistema capi-
vidades laborais. talista, atrelado a esse produto um valor mercadológico.
O terceiro tipo, por sua vez, representa o individualismo, Assim, as mercadorias adquirem uma forma fantástica, ga-
que só pensará as suas atividades do trabalho referentes a nhando mais de uma utilidade ao indivíduo, podendo ser
si mesmo, sem se importar as outras pessoas. um status, um poder ou uma felicidade. Com esse proces-
O último tipo, representa no sujeito que não se reconhece so, o sujeito acaba dando novos elementos a mercadoria,
no trabalho e nem é reconhecido como parte essencial da de forma a humanizá-la, e consequentemente a própria mer-
vida humana. cadoria coisifica esse ser.

MAX WEBER

Max Weber (1864-1920) Observador da sociedade


O alemão Maximilian Karl Emil Weber consolida a ciência O sociólogo analisa as estruturas das sociedades, não se
sociológica, analisando os processos do capitalismo na so- concentrando nas particularidades individuais. Apropria-se
ciedade contemporânea. Grande parte de seus estudos se de um método compreensivo para suas análises. Para We-
ber, a Sociologia é uma ciência que pretender compreender a
preocupou para o capitalismo e no seu processo racionali-
Ação Social. Toda ação social segue certos requisitos:
zado, conjunto com um estudo sobre o desencantamento
do mundo. Seus trabalhos desenvolveram descobertas do § o ser lhe dá um sentido;
papel da subjetividade na ação e na pesquisa social. Weber § esse sentido se remete ao outro.
não admite que existe uma lei preexistente que regule o
desenvolvimento da sociedade. Ação Afetiva Determinada por sentimentos

Ação tradicional Determinada por costumes ou hábitos

Ação racional com Determinada por um valor e


relação a valores se realiza pelo mesmo

Determinada pelos fins que


Ação racional com
perseguem, predominantemente
relação a fins na vida econômica.

Weber faz uma crítica aos positivistas, entre eles Comte


e Durkheim, por não concordar que todos os tipos de ciên-
cias seguem o mesmo procedimento. Segundo Weber, a
sociologia precisa desenvolver procedimentos de investiga-
ção que permitem verificar os valores e as motivações que
condicionam as ações humanas.

150
O poder da religião Dominação - É a dominação burocrática no Estado;
Weber empreendeu análises comparativas entre as religiões,
com o objetivo de compreender as razões do desenvolvi- - Constituído por formas legais, hierárquicas, mediante
mento do capitalismo europeu. Ele conclui que o mundo Legal uma formação eleita ou nomeada;
- Deve seguir um estatuto.
oriental não oferecia condições para este tipo de organiza-
ção econômica, pois pregava valores de harmonia; enquanto - Dominação patriarcal;
as religiões cristãs incentivaram o trabalho e a competição. Dominação - Controle feito pelo “senhor” perante seus “súditos”;
Tradicional - Não é possível criar novos direitos diante das nor-
mas da tradição.
A dominação
- Dominação por uma devoção afetiva;
Para Weber, o capitalismo é dominado pela ascensão da ciên- Dominação
- Sendo um “líder” que constrói uma imagem de adora-
cia e da burocracia. Weber aponta uma relação entre domi- Carismática ção, controlando seus “súditos”.
nantes e dominados, constituídas com bases legítimas.

CAPITAL HUMANO

Pierre Bourdieu (1930-2002) Econômico Atrelado aos meios de produção e renda.

A saber: institucionalizado, com títulos e diplomas.


Com uma análise das sociedades capitalistas, que privile-
Cultural Incorporado: pela forma da expressão oral.
gia a reprodução social, o francês Pierre Bourdieu denota a
presença de trocas simbólicas. Objetivo: pela posse de quadros ou obras de arte.

Sendo o conjunto das relações sociais que dispõe um


Social indivíduo, a reprodução das relações sociais.

Atrelado ao reconhecimento, correspondendo ao con-


Simbólico junto de rituais, como etiquetas, protocolo.

Diante disso, um indivíduo que possui o capital econômi-


co teria mais oportunidades de adquirir e se apropriar dos
outros capitais.

Habitus
O habitus, para Bourdieu, condiciona que os indivíduos con-
vivam em um mesmo agrupamento social, tendo estilos de
O bem simbólico é um conjunto de práticas sociais regidas
vida parecidos, onde os “fatos sociais” se assemelham. O
pelo poder, consolidando uma dominação social, que con-
habitus qualifica a relação do sujeito com a sociedade, ten-
tém hierarquias e subdivisões, propagando uma desigual-
do uma base estratificação de poder.
dade nessa sociedade.

A escola A violência simbólica


Para Bourdieu, a instituição escolar é um exemplo de titulari- Segundo Bourdieu, a violência simbólica é uma violência
zação de bens simbólicos, pelo seu caráter de reprodutora de “invisível”, concretizada por formas de comunicação, ten-
costumes desiguais. Isso ocorre, porque a escola transmite do uma relação de subjugação e submissão, numa típica
aos estudantes a forma de conhecimento da classe domi- situação de dominação. Só que o dominado é cúmplice e
nante, tendo um discurso aparentemente neutro e oficial. aceita essa dominação.
O capital é um conceito que discute a quantidade de acú- A violência simbólica pode ser tomada pelas instituições da
mulo de forças dos agentes em suas posições no campo. Os sociedade, como o Estado, a mídia, a escola. Consolidando
quatro tipos de capital humano, a saber: uma forma de opressão entre os segmentos da sociedade.

151
Jessé Souza (1960) Camada popular que consegue melhorar a renda.

Características:
O sociólogo desenvolveu uma pesquisa empírica da realidade Trabalhadores
Não desenvolveram e consolidaram o capital cultu-
brasileira que caracterizou quatro classes nessa sociedade, que ral; trabalham em 2 a 3 empregos; são pentecostais.
segue a mesma lógica do capital humano de Bourdieu:
Pessoas que abaixo da linha de dignidade.
Camada que comanda o mercado.
Características:
Características: Ralé Serviços braçais, não são valorizados e nem
Endinheirados reconhecidas; não recebem estímulos familiares;
Tem elevado capital cultural e elevado capital eco- correspondem a 1/3 da população brasileira;
nômico; controlam e condicionam as ações sociais. precisam de proteção do Estado.

Classe que possui capital cultural e


parte do capital econômico.
Segundo Jessé, as desigualdades socioculturais são frutos de
Classe média uma reprodução de costumes ordenados por uma elite do-
tradicional Características: minante. Evidenciando, com isso, uma continuidade de uma
Possui a ilusão da meritocracia; domina a divisão social brasileira, que segregam culturalmente e espa-
classe subalterna (os trabalhadores).
cialmente boa parte da população.

O PROCESSO CIVILIZADOR: NORBERT ELIAS

Norbert Elias (1897-1990) Configuração e civilização


O sociólogo alemão inovou no desenvolvimento da teoria O conceito de configuração pode ser entendido como um
social ao elucidar os processos sociais, isto é, os processos padrão criado pelos homens, desencadeando ações entre
de interação humana na sociedade. esses homens, sendo um padrão flexível, que pode sofrer
alterações constantemente, ajustando-se conforme a cria-
Tendo uma abordagem crítica, Elias demonstra que os
ção da instituição social, servindo tanto para o domínio ex-
processos sociais baseiam-se nas atividades dos indiví-
terno como para o autodomínio individual.
duos de diferentes maneiras, construindo teias de in-
teratividade e formando as instituições sociais, como a O processo civilizador encontra meios externos e internos de
família, a cidade, o Estado e as nações. Seu pensamento controle social para limitar os impulsos animalescos. Com as
analisa as estruturas sociais não de uma forma estática, formas das leis e do Estado, é uma compreensão civilizatória
mas sempre em desenvolvimento. para os indivíduos, ao passo que as regras de etiqueta são
também uma representação dessa civilização. Tudo isso em
O processo civilizador prol do convívio humano para conter qualquer tipo de instin-
Escrito na década de 1930, esse texto apresenta sua teoria to e para não prejudicar o coletivo.
dos processos civilizadores, de modo que ocorre uma aná-
lise dos costumes da humanidade a partir da formação do
Estado Moderno, abrangendo também a cultura.
Karl Mannheim (1893-1947)
Sociólogo húngaro, com grande influência do marxismo,
Norbert Elias salienta que o processo civilizador pode ser
elaborou a sociologia do conhecimento. Sua análise con-
entendido como um processo transformador de longo pra-
siste em identificar que o conhecimento está vinculado aos
zo nas estruturas da personalidade e do comportamento
interesses sociais das classes. De modo que o conhecimen-
individuais. Traçando a evolução histórica dos costumes
to é historicamente relativo.
humanos, que será codificada no termo habitus, segundo o
autor alemão, as estruturas psíquicas individuais são mol- Mannheim salienta que o pensamento social só pode ex-
dadas por atitudes sociais. pressar a vida, e não explicá-la em definitivo, sendo que exis-
tem tendências em criar padrões para uma melhoria de vida.
Dessa maneira, a concepção de processo civilizador reflete as
mudanças nas cadeias de interdependência humana. Assim, A modernidade, segundo o sociólogo, não tem apenas
os hábitos podem ser modificados ao longo do tempo, numa custos e malefícios ao ser humano, ela apresenta novas
observação histórica, num processo social civilizador. esperanças e valores sociais solidários.

152
U.T.I. - Sala compreendidos como “coisa”. O texto adaptado retrata
as características dos fatos sociais.
1. (UFU) Segundo Aron, para Marx, “o tempo de traba- Não somos obrigados a falar a língua do nosso país,
lho necessário para o operário produzir um valor igual usar a moeda vigente ou adaptar-nos à tecnologia mo-
ao que recebe sob forma de salário é inferior à duração derna; mas se assim não o fizermos, nossas vidas serão
efetiva do seu salário”. um fracasso, portanto, não temos escolha, todos nós
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. somos coagidos a acatá-las. Estas decisões não são
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 148. determinadas individualmente, são exteriores à nossa
vontade, elas já estão prontas na sociedade.
Com base no trecho, faça o que se pede.
a) A proposição apresentada por Aron está ligada a BOELTER, C.; PLUMER, E. Sobre o pensamento de Durkheim
e Weber. In: TESKE, Ottmar (Coord.). Sociologia: textos e
qual conceito dentro da teoria marxista? Explique
contextos. Canoas: Ed. Ulbra, 1999, p. 41. Adaptado.
esse conceito.
b) Como este conceito, dentro da teoria marxista, pode Explique as características dos fatos sociais, na visão de
ser desdobrado como absoluto e relativo? Explique es- Émile Durkheim, contidas no texto acima.
ses desdobramentos, caracterizando-os e definindo-os.
4. (UEL) Leia o texto a seguir.
2. (Ufpr) O fragmento abaixo foi retirado do livro O que
é Sociologia? e refere-se ao pensamento do sociólogo O homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a
Max Weber. religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de
si do homem, que ou não se encontrou ou voltou a se
A Sociologia por ele [Max Weber] desenvolvida consi- perder. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado
derava o indivíduo e a sua ação como ponto-chave da fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Esta-
investigação. Com isso, ele queria salientar que o ver- do, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem
dadeiro ponto de partida da Sociologia era a compre- a religião, uma consciência invertida do mundo, porque
ensão da ação dos indivíduos e não a análise das “ins- eles são um mundo invertido.
tituições sociais” ou do “grupo social”, tão enfatizadas
MARX, Karl. Crítica à Filosofia do Direito de
pelo pensamento conservador. Com essa posição, não
Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 145.
tinha a intenção de negar a existência ou a importância
dos fenômenos sociais, como o Estado, a empresa ca- Na teoria do pensador Karl Marx, há um conceito que
pitalista, a sociedade anônima, mas tão somente a de explica essa inversão da realidade (por conseguinte, da
ressaltar a necessidade de compreender as intenções e consciência) e, em razão dela, da relação do sujeito (se-
motivações dos indivíduos que vivenciam estas situa- res humanos) com aquilo que, objetiva e subjetivamen-
ções sociais. A sua insistência em compreender as moti- te, ele produz.
vações das ações humanas levou-o a rejeitar a proposta
do positivismo de transferir para a Sociologia a meto- Com referência às ideias de Marx, responda aos itens
dologia de investigação utilizada pelas ciências natu- a seguir.
rais. Não havia, para ele, fundamento para essa propos-
a) Qual é esse conceito?
ta, uma vez que o sociólogo não trabalha sobre uma
matéria inerte, como acontece com os cientistas natu- b) O que significa inverter a relação sujeito-objeto? Ex-
rais [...]. Vivendo em uma nação retardatária quanto ao plique como isso se manifesta na religião.
desenvolvimento capitalista, Weber procurou conhecer
a fundo a essência do capitalismo moderno. Ao contrá- 5. (UEL 2017) Max Weber é considerado pioneiro em de-
rio de Marx, não considerava o capitalismo um sistema finir o Estado por duas características fundamentais. A
injusto, irracional e anárquico. Para ele, as instituições primeira é o monopólio legítimo do uso da força física.
produzidas pelo capitalismo, como a grande empresa, A segunda reside no fato de que tal monopólio é res-
constituíam clara demonstração de uma organização trito a determinado território. O controle das fronteiras,
racional que desenvolvia suas atividades dentro de um incluindo a permissão de quem pode adentrar e perma-
padrão de precisão e eficiência. necer em seu território segundo aquelas características,
seria prerrogativa do Estado. É necessário lembrar, en-
(MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia? São Paulo: tretanto, que o conceito de Estado elaborado por We-
Brasiliense, 2011, p. 69 e 72. Coleção Primeiros Passos.)
ber é um tipo ideal.
Com base nos conhecimentos sociológicos, caracterize
a Sociologia na perspectiva weberiana, discorrendo so- Com base nessas informações e nos acontecimentos
bre os aspectos relevantes dessa perspectiva aponta- da recente “crise migratória na Europa”, cujo fluxo de
dos no texto-base. refugiados exemplifica alterações significativas dos pa-
péis atribuídos ao Estado moderno, cite e explique um
3. (Uema) Émile Durkheim (1858-1917) é considerado um fato que se afasta do tipo ideal de Estado definido por
dos teóricos fundadores da Sociologia e definiu como Weber, apontando para algumas configurações recen-
objeto de estudo dessa nova ciência os fatos sociais, tes das ações ou reações dos Estados nacionais.

153
6. (UEL) Émile Durkheim considera o fato social o objeto 10. (Unesp) Leia os textos.
de estudo da Sociologia e propõe regras para explicá-lo.
Duas dessas regras são formuladas da seguinte maneira: TEXTO 1

I. A causa determinante de um fato social deve ser bus- Ora, a propriedade privada atual, a propriedade bur-
cada entre os fatos sociais anteriores, e não entre os guesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de
estados de consciência individual. produção e de apropriação baseado nos antagonismos
II. A função de um fato social deve ser sempre buscada de classes, na exploração de uns pelos outros. Neste
na relação que mantém com algum fim social. sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta
fórmula única: a abolição da propriedade privada. (…)
DURKHEIM, E. As regras do método sociológico.
5. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1968. p. 102. A ação comum do proletariado, pelo menos nos países
civilizados, é uma das primeiras condições para sua
Com base nas regras I e II e nos conhecimentos sobre o
emancipação. Suprimi a exploração do homem pelo ho-
fato social, explique como se dá a relação entre indivíduo
mem e tereis suprimido a exploração de uma nação por
e sociedade para Durkheim. Exemplifique essa relação.
outra. Quando os antagonismos de classes, no interior
7. Cada um desses estágios do desenvolvimento da das nações, tiverem desaparecido, desaparecerá a hos-
burguesia se fez acompanhar do correspondente pro- tilidade entre as próprias nações.
gresso político. Estamento oprimido sob a dominação Marx e Engels. Manifesto comunista. 1848.
dos senhores feudais, associação armada e autogover-
nante na comuna, ora república municipal indepen- TEXTO 2
dente, ora terceiro estamento tributável da monar-
quia; depois, à época da manufatura, contrapeso para Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho
a nobreza na monarquia estamental ou na absoluta, para nos livrar de nossos males. Segundo eles, o ho-
fundamento central de todas as grandes monarquias mem é inteiramente bom e bem disposto para com
– a burguesia por fim conquistou para si, desde o es- seu próximo, mas a instituição da propriedade priva-
tabelecimento da grande indústria e do mercado mun- da corrompeu-lhe a natureza. (…) Se a propriedade
dial, a exclusiva dominação política no moderno Esta- privada fosse abolida, possuída em comum toda a ri-
do representativo. O moderno poder estatal é apenas queza e permitida a todos a partilha de sua fruição,
uma comissão que administra os negócios comuns de a má vontade e a hostilidade desapareceriam entre
toda a classe burguesa. os homens. (…) Mas sou capaz de reconhecer que as
premissas psicológicas em que o sistema se baseia são
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto do Partido Comunista. uma ilusão insustentável. (…) A agressividade não foi
São Paulo: Penguin Classics/ Companhia das Letras, 2012, p. 46.
criada pela propriedade. (…) Certamente (…) existirá
A partir do texto, responda: Para Marx, qual a relação uma objeção muito óbvia a ser feita: a de que a natu-
entre sistema político e sistema econômico? reza, por dotar os indivíduos com atributos físicos e
capacidades mentais extremamente desiguais, intro-
8. (UEL) Considere os trechos a seguir. duziu injustiças contra as quais não há remédio.
A classe operária não pode apossar-se simplesmente da Sigmund Freud. Mal-estar na civilização. 1930. Adaptado.
maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para
os seus próprios objetivos. Qual a diferença que os dois textos estabelecem sobre
a relação entre a propriedade privada e as tendências
MARX, Karl. A revolução antes da revolução. São
de hostilidade e agressividade entre os homens e as na-
Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 399.
ções? Explicite, também, a diferença entre os métodos
Também do ponto de vista histórico, contudo, o “pro- ou pontos de vista empregados pelos autores dos tex-
gresso” a caminho do Estado regido e administrado tos para analisar a realidade.
segundo um direito burocrático e racional e regras
pensadas racionalmente, atualmente, está intimamente
ligado ao moderno desenvolvimento capitalista. U.T.I. - E.O.
WEBER, Max. Parlamento e governo na Alemanha
1. Em seu estudo sobre o suicídio, Émile Durkheim pro-
reordenada: crítica política do funcionalismo e da natureza
dos partidos. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 43. curou chamar a atenção para a dimensão sociológica
deste fato. Assim, “considerando que o suicídio é um
Com base nos trechos, compare as concepções clás- ato da pessoa e que só a ela atinge, tudo indica que
sicas de Estado formuladas nas obras de Karl Marx e deva depender exclusivamente de fatores individuais e
Max Weber. que sua explicação, por conseguinte, caiba tão somen-
te à psicologia. De fato, não é pelo temperamento do
9. (UFPR) Descreva dois dos principais acontecimentos suicida, por seu caráter, por seus antecedentes, pelos
históricos que favoreceram o surgimento da sociolo- fatores de sua história privada que em geral se explica
gia na Europa do século XIX. a sua decisão.[...]”. E complementa: “o suicídio varia na

154
razão inversa do grau de integração dos grupos sociais Em vista do exposto, faça o que se pede.
de que faz parte o indivíduo.” a) Defina o que é ação social para Weber.
O suicídio. Estudo de Sociologia. b) Caracterize os quatro tipos puros de ação social para
São Paulo: Martins Fontes, 2000. Weber.
a) Explique os tipos de suicídio definidos por Durkheim. 7. (UFF) Escrito em 1880, o livro de Friederich Engels,
b) Discorra a respeito da relação estabelecida por Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, buscou
Durkheim entre os tipos de suicídio e os tipos de sol- discutir os limites do chamado Socialismo Utópico. Os fi-
idariedade por ele definidos. lósofos do Socialismo Utópico acreditavam que a partir
da compreensão e da boa vontade da burguesia se po-
2. Qual o princípio da lei dos três Estados na teoria de deria transformar a sociedade capitalista, eliminando o
Auguste Comte? individualismo, a competição, a propriedade individual e
os lucros excessivos, todos responsáveis pela miséria dos
3. Segundo Augusto Comte, a sociedade humana deve trabalhadores. Como alternativa àquela corrente, Engels
passar por três estados: o teológico, o metafísico e, por e Marx propunham o Socialismo Científico.
último, o positivo. É nesse último estado que, para Com-
te, a Sociologia se torna tão importante. Com base nessa informação:
a) Qual a razão dessa importância? a) caracterize a alternativa proposta por Engels e Marx
b) Esse tipo de argumento continua sendo válido? – o Socialismo Científico – em relação ao papel dos tra-
balhadores na transformação da sociedade.
4. Explique qual a importância do conceito de coerção b) mencione uma proposta levada a efeito pelos socia-
segundo Émile Durkheim e o conceito de fato social. listas utópicos.
5. (Uel) A análise do tema modernidade, por pensado-
res clássicos da Sociologia, está presente também em 8. (Unesp)
autores contemporâneos, atentos às condições da so-
ciedade atual. No século XIX, Karl Marx, em seu livro TEXTO 1
O manifesto comunista, de 1848, refere-se à sociedade
burguesa de seu tempo como formação social em que O positivismo representa amplo movimento de pensa-
tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo que era mento que dominou grande parte da cultura europeia,
sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente for- no período de 1840 até às vésperas da Primeira Guerra
çadas a encarar com serenidade sua posição social e Mundial. Nesse contexto, a Europa consumou sua trans-
suas relações recíprocas. formação industrial, e os efeitos dessa revolução sobre
a vida social foram maciços: o emprego das descobertas
MARX, K.; ENGELS, F. O Manifesto Comunista. In: científicas transformou todo o modo de produção. Em
COUTINHO, C.N. et al. O Manifesto Comunista: 150 anos
depois. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. p. 11.
poucas palavras, a Revolução Industrial mudou radical-
mente o modo de vida na Europa. E os entusiasmos se
Zigmunt Bauman, em Confiança e medo na cidade, afir- cristalizaram em torno da ideia de progresso humano e
ma que se, entre as condições da modernidade sólida, a social irrefreável, já que, de agora em diante, possuíam-se
desventura mais temida era a incapacidade de se con- os instrumentos para a solução de todos os problemas. A
formar, agora – depois da reviravolta da modernidade ciência pelos positivistas apresentava-se como a garan-
“líquida” – o espectro mais assustador é o da inade- tia absoluta do destino progressista da humanidade.
quação. Temor bem justificado quando consideramos a
enorme desproporção entre a quantidade e a qualidade Giovanni Reale; Dario Antiseri.
História da filosofia. 1991. Adaptado.
de recursos exigidos por uma produção efetiva de segu-
rança do tipo “faça você mesmo”. TEXTO 2
Adaptado de: BAUMAN, Z. Confiança e medo na cidade.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. p. 21-22. O “progresso” não é nem necessário nem contínuo. A
humanidade em progresso nunca se assemelha a uma
Com base nesses trechos e nos conhecimentos sobre pessoa que sobe uma escada, acrescentando para cada
modernidade, apresente: um dos seus movimentos um novo degrau a todos aque-
a) uma característica particular para Marx e uma para les já anteriormente conquistados. Nenhuma fração da
Bauman; humanidade dispõe de fórmulas aplicáveis ao conjunto.
b) duas características comuns para ambos os autores. Uma humanidade confundida num gênero de vida único
é inconcebível, pois seria uma humanidade petrificada.
6. (UFU) Para Weber, a Sociologia é uma ciência que pro-
Claude Lévi-Strauss. A noção de estrutura em etnologia. 1985. Adaptado.
cura compreender a ação social; a compreensão implica
a percepção do sentido que o ator atribui à sua conduta. a) Considerando o texto 1, explique o que significa “eu-
ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. rocentrismo” e por que o conceito de progresso pressu-
São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 465. posto pelo positivismo é eurocêntrico.

155
b) Por que o método empregado pelo autor do texto 2 (e a experiência vivida dos outros) no contexto mais
é considerado relativista? Como sua concepção de pro- amplo das instituições sociológicas em que ocorre. A
gresso se opõe ao conceito de progresso positivista? utilização da ‘imaginação sociológica’ se fundamenta
na necessidade de conhecer o sentido social e histó-
9. (UFPR) Leia com atenção o fragmento abaixo. rico do indivíduo na sociedade e no período no qual
sua situação e seu ser se manifestam. Mills também
Segundo a citação de Maia e Pereira (2009, p. 7-8), re- sugere que “por meio da ‘imaginação sociológica’ os
tirada do livro Pensando com a Sociologia, “em seu fa- homens podem perceber o que está acontecendo no
moso livro sobre as formas de fazer sociologia, Wright mundo e compreender o que acontece com eles, como
Mills utilizou a expressão ‘imaginação sociológica’. [...] minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da
essa imaginação poderia ser aprendida e exercida por história, na sociedade” (MILLS, 1969, p. 14).
qualquer pessoa educada que se mostrasse curiosa
a respeito das relações entre biografia e história. Ou MAIA, João Marcelo Ehlert; PEREIRA, Luís Fernando Almeida.
Pensando com a Sociologia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
seja, a sociologia não seria simplesmente uma disci-
plina acadêmica ou uma ciência ultrassofisticada, mas No fragmento de texto acima, o autor usa o divórcio para
uma forma de argumento público capaz de revelar as exemplificar de que forma as experiências individuais se
conexões entre as transformações na vida cotidiana e conectam com as transformações sociais mais amplas.
os processos mais amplos de mudança histórica”. Nas Com base nos conhecimentos sociológicos, caracterize a
palavras de Wright Mills: “A ‘imaginação sociológica’ “imaginação sociológica”, discorrendo sobre os aspectos
é um ato que permite ir além das experiências e das relevantes dessa perspectiva apontados no texto-base, e
observações pessoais para compreender temas públi- mencione e explique outro fato social para exemplificar
cos de maior amplitude. O divórcio, por exemplo, é um o raciocínio da “imaginação sociológica”.
fato pessoal inquestionavelmente difícil para o mari-
do e para a esposa que se separam, bem como para 10. (UFU) Considere a seguinte citação.
os filhos. Entretanto, o uso da ‘imaginação sociológi-
ca’ permite compreender o divórcio não apenas como É evidente que, tecnicamente, o grande Estado moder-
problema pessoal individual, mas também como uma no é absolutamente dependente de uma base burocrá-
preocupação social. O aumento da taxa de divórcio re- tica. Quanto maior é o Estado e principalmente quanto
define uma instituição fundamental – a família”. Cabe mais é, ou tende a ser, uma grande potência, tanto mais
salientar que a ‘imaginação sociológica’ não consisti- incondicionalmente isso ocorre.
ria simplesmente em aumentar o grau de informação
das pessoas, mas numa “[...] qualidade de espírito que WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 1982, p. 246.
lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão,
a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo a) De acordo com a Sociologia de Max Weber, explique
no mundo e o que pode estar acontecendo dentro de- a diferença entre poder e dominação.
les mesmos” (MILLS, 1969, p. 11). A imaginação socio- b) Cite os três tipos puros de dominação legítima e ex-
lógica é uma forma crítica de pensar em sociologia, plique cada um deles.
que nos permite conectar a nossa experiência vivida

156
GEOGRAFIA 1

157
MOVIMENTOS DA TERRA

Movimentos da Terra Quando um corpo está no periélio, ele tem a maior velo-
cidade de translação de toda a sua órbita.
Do ponto de vista da ciência, a Terra possui um único mo- O afélio, por sua vez, é o ponto da órbita em que um plane-
vimento, que pode, dependendo de suas causas, ser divi- ta ou um corpo está mais distante do Sol. Quando um astro
dido nos seguintes componentes: está no afélio, ele tem a menor velocidade de translação de
§ movimento de rotação em torno de seu eixo; toda a sua órbita, proporcionando invernos mais longos no
HS e verões mais longos no HN.
§ movimento de translação em torno do Sol;
Movimento acelerado TERRA
§ movimentos de precessão e de nutação;
SOL
§ movimento dos polos;
Periélio Afélio
§ movimento em torno do centro de nossa galáxia.
Os dois primeiros são os principais, pois suas influências
Movimento retardado
podem ser sentidas diariamente.

Movimento de rotação Equinócio, solstício


O movimento de rotação ocorre quando a Terra gira em e estações do ano
torno de si mesma, de oeste para leste, isto é, em torno de Quatro pontos do trajeto de translação são significativos ao
um eixo imaginário que passa por seus polos. A duração longo do ano: dois solstícios e dois equinócios. Os dois equi-
do chamado dia sideral, ou seja, o tempo necessário para a nócios são os momentos nos quais os raios solares incidem
Terra completar uma volta em torno de seu eixo (360º exa- perpendicularmente no Equador. Dias 21 ou 22 de março e
tos), é de 23 horas, 56 minutos, 4 segundos e 9 décimos. 23 de setembro são datas que marcam, respectivamente, o
Em relação ao Sol, o tempo de rotação médio, o chamado início do outono e da primavera no hemisfério Sul e o início
dia solar médio, é de 24 horas. O dia solar é compreendido da primavera e do outono no hemisfério Norte.
como o período entre duas passagens sucessivas do Sol
sobre o meridiano local e varia ao longo do ano, sendo
sempre superior ao dia sideral.

Movimento de translação
A Terra, ao mesmo tempo em que gira em torno do seu eixo,
também realiza o movimento de translação, que consiste em
dar uma volta completa em torno do Sol. Para realizar esse
movimento, ela utiliza cerca de 365 dias – ou precisamente
365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. O trajeto per-
corrido com esse movimento é denominado órbita terrestre.
Já os solstícios são os momentos nos quais os raios so-
A órbita terrestre é elíptica, onde o Sol está ligeiramente des- lares incidem perpendicularmente sobre um dos trópicos.
locado em relação ao centro do movimento. Eles ocorrem em 22 de junho, no Trópico de Câncer (no
A Terra está mais próxima do Sol entre 4 a 7 de janeiro e hemisfério Norte), e em 21 de dezembro, no Trópico de
mais distante entre 4 e 7 de julho. Capricórnio (hemisfério Sul). Essas duas datas marcam,
respectivamente, o início do inverno e do verão no hemis-
Periélio e afélio fério Sul, e o início do verão e do inverno no hemisfério
Norte. No dia de solstício, os raios solares tangenciam um
O periélio é o ponto da órbita de um corpo, seja ele pla- dos polos, fazendo com que este tenha 24 horas de luz, e
neta, asteroide ou cometa, que está mais perto do Sol. o outro, 24 horas de escuridão.

158
COODERNADAS GEOGRÁFICAS E FUSO HORÁRIO

Coordenadas geográficas
Meridianos
Os meridianos são linhas imaginárias que ligam os Polos Norte e Sul, formando “meias circunferências” na Terra.
O meridiano de Greenwich divide a Terra em dois hemisférios: ocidental e oriental. A partir dele, é possível traçar diversos
meridianos, até o limite de 180°, tanto para Oeste quanto para Leste, o que totaliza os 360° da “circunferência” da Terra.

Paralelos
A linha imaginária traçada na parte mais larga da Terra é o paralelo de zero grau (0°), cujos pontos são equidistantes dos
polos. Ele foi denominado Equador, o principal paralelo, e divide o planeta em dois hemisférios, Norte e Sul.
Os outros paralelos são traçados seguindo a linha do Equador, tanto para o Norte quanto para o Sul. Além do Equador,
existem quatro paralelos notáveis: no hemisfério Norte, há o Círculo Polar Ártico (90° N) e o Trópico de Câncer (23° N); no
hemisfério Sul, há o Círculo Polar Antártico (90° S) e o Trópico de Capricórnio (23° S).

MERIDIANOS PARALELOS
antimeridiano Polo norte 90º N Latitudes
180º
de Greenwich norte


Greenwich

Equador
© César da Mata/Schäffer Editorial

Latitudes
0º sul
Longitudes Longitudes
oeste leste

Latitude e longitude
§ Latitude é a distância, medida em graus, que separa a linha do Equador de um ponto qualquer da superfície terrestre.
Ela varia de 0° a 90° ao Norte e ao Sul.
§ Longitude é a distância, medida em graus, do meridiano de Greenwich a um ponto qualquer da superfície da Terra. Ela
varia de 0° a 180° a Leste ou a Oeste.

LONGITUDES LATITUDES

159
Zonas de iluminação
Nas áreas próximas aos polos, onde a curvatura da Terra é
mais acentuada, os raios do sol se distribuem por uma su-
perfície menor, determinando menor concentração de calor.
Nas baixas latitudes (próximas ao Equador), os raios so-
lares tocam perpendicularmente a superfície do planeta,
determinando maior concentração e, consequentemente,
maior aquecimento. Temperaturas médias ocorrem nas
latitudes médias (entre os trópicos e os círculos polares).
1. Zona Tropical ou Tórrida (ou de baixas latitudes) –
situada entre os trópicos.
2. Zona Temperada do Norte (ou de médias latitudes)
– situada entre o Trópico de Câncer e o Círculo Glacial Ár-
tico.
Meridiano 0, marcado no Observatório Real
3. Zona Temperada do Sul (ou de médias latitudes) – de Greenwich, a leste de Londres

situada entre o Trópico de Capricórnio e o Círculo Glacial Definiu-se o antimeridiano de Greenwich, ou seja, a linha
Antártico. de longitude 180º, oposta ao meridiano inicial, chama-
4. Zona Glacial Ártica (ou de altas altitudes) – situada da Linha Internacional de Mudança de Data. Esse
ao Norte do Círculo Glacial Ártico. meridiano divide um fuso em que todos os lugares têm a
mesma hora, mas, a oeste da linha, a data está um dia na
5. Zona Glacial Antártica (ou de altas latitudes) – situa-
frente da data a leste.
da ao Sul do Círculo Glacial Antártico.

Fuso horário
Dividindo-se os 360º da “esfera” terrestre pelo número de
horas em que a Terra leva para completar seu movimento Fuso horário legal
de rotação, tem-se 15º (quinze graus), ou seja, a cada hora,
a Terra gira 15º. Partindo desse raciocínio, o planeta foi divi-
dido em 24 fusos horários, correspondentes às 24 horas do Fusos horários do Brasil
dia e limitados por meridianos, distantes 15º uns dos outros. § primeiro fuso (UTC-2): Atol das Rocas, Fernando de
Noronha, Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Trin-
O meridiano 0º tem como referência o observatório de
dade e Martim Vaz;
Greenwich. Como a Terra gira de Oeste para Leste, os fusos
à leste de Greenwich têm as horas adiantadas em relação § segundo fuso – horário de Brasília (UTC-3): regi-
ao fuso inicial. Os fusos situados à oeste, por sua vez, têm ões Sul, Sudeste e Nordeste; Estados de Goiás, Tocan-
as horas atrasadas em relação à hora de Greenwich. tins, Pará e Amapá; e o Distrito Federal;

160
§ terceiro fuso (UTC-4): Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima e a parte do Amazonas que
fica a leste da linha que interliga Tabatinga e Porto Acre;
§ quarto fuso (UTC-5): Estado do Acre e a porção do Amazonas que fica a oeste da linha.

Brasil: fuso horário


70° O VENEZUELA 60° O GUIA NA 50° O 40° O 30° O
FRA NCESA N
SURINA ME
COLÔMBIA
- 4:30 O L
horas RR GUIANA
OC S
AP EA
Linha do Equador NO

AT
L Â

N
TI
AM PA

CO
MA CE
RN
PB
PI
PE
AC AL
10° S TO 10° S
RO SE

MT BA
PERU

DF
GO

BOLIVIA MG
MS ES
20° S 20° S
PA RA GUA I
SP RJ
io
Capricórn
Trópico de

O
CHILE PR

IC
T
PACÍFICO

ÂN
OCEANO

SC L
AT
ARGENTINA RS O
N
A
E

Escala 1:40 000 000


30° S
C

400 200 0 400 km


30° S
O

URUGUA I
Projeção Policônica
70° O 60° O 50° O 40° O 30° O

- 5 horas - 4 horas - 3 horas -2 horas

Horário de verão

NOÇÕES DE CARTOGRAFIA

Cartografia
Definições de mapas e cartas
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “carta é a representação no plano, em escala média ou
grande, dos aspectos artificiais e naturais de uma área tomada de uma superfície planetária, subdividida em folhas delimitadas
por linhas convencionais – paralelos e meridianos – com a finalidade de possibilitar a avaliação de pormenores, com grau de pre-
cisão compatível com a escala”. Ainda segundo o IBGE, “mapa é a representação no plano, normalmente em escala pequena,
dos aspectos geográficos, naturais, culturais e artificiais de uma área tomada na superfície de uma figura planetária, delimitada
por elementos físicos, político-administrativos, destinadas aos mais variados usos, temáticos, culturais e ilustrativos”.
§ cadastrais – escalas de 1:500 a 1:10.000;
§ topográficos – escalas de 1:25.000 a 1:250.000;
§ geográficos – escalas de 1:500.000 a 1:1.000.000.

161
Escala
§ Escala numérica: representada por uma fração, na qual o numerador indica a distância no mapa, e o denominador
indica a distância na superfície real. Uma escala 1:100.000 (um por cem mil) significa que a superfície representada foi
reduzida 100 mil vezes. Nesse caso, 1 cm no mapa = 100.000 cm = 1.000 m = 1 km na realidade.
§ Escala gráfica: é uma linha reta graduada, por meio da qual se indica a relação da distância real com as distâncias
representadas no mapa. Por exemplo: 1 cm = 100 km.

2 1 0 2 4

km © César da Mata/
Schäffer Editorial

A fórmula para calcular a distância real entre dois pontos em um mapa é D = E × d, em que D é distância real, d é a distância
no mapa e E é a escala.

Construção e interpretação dos mapas


Orientação no mapa
A maioria dos mapas traz uma rosa dos ventos ou uma seta indicando o Norte. Quando não há essa indicação, convencionou-se
que o Norte está na parte superior do mapa.
N

Elementos de um mapa
§ Título: informa o tema que está sendo representado.
§ Legenda: mostra o significado dos símbolos e é importante para explicar o que o mapa comunicou visualmente.
§ Escala: indica quantas vezes o mapa foi reduzido, possibilitando o cálculo das distâncias e das dimensões reais do
espaço representado.

162
Topografia e curvas de nível

Exemplo de curva de nível e perfil topográfico

A interpretação das curvas de nível exige o conhecimento de algumas noções básicas:


§ Quanto maior a declividade do terreno representado, mais próximas são as curvas de nível; elas são mais afastadas na
representação de terrenos pouco íngremes.
§ Há sempre a mesma diferença de altitude entre duas curvas de nível.
§ Pontos situados na mesma curva de nível têm a mesma altitude.
§ Os rios nascem nas áreas mais altas e correm para as áreas mais baixas.

Exemplo de uma área maior representada em curvas de nível

Sensoriamento remoto
O sensoriamento remoto é uma tecnologia de obtenção de imagens e dados da superfície terrestre por meio da captação e
registro da energia refletida/emitida pela superfície, sem que haja contato físico entre o sensor e a superfície estudada (por
isso é denominado remoto).

163
Quando a imagem for capturada, ela será analisada, transformada em mapas ou constituirá um banco de dados georrefe-
renciados, caracterizando o que é chamado de geoprocessamento.

Esquema de um SIG

Principais projeções cartográficas


Quanto à superfície
Projeção cônica
Os paralelos formam círculos concêntricos, e os meridianos são linhas retas que convergem para os polos.
© César da Mata/Schäffer Editorial

Projeção cilíndrica
© Pearson Prentice Hall, Inc.

Os paralelos e os meridianos são linhas retas que convergem entre si.

164
Projeção azimutal, plana ou polar
Parte sempre de um ponto para a representação da(s) área(s) – por isso é usada para pequenas áreas. Pode ser de três tipos:
polar, equatorial e oblíqua (chamada também de horizontal).

© César da Mata/Schäffer Editorial


Equador

Eq
ua
do
r

Quanto às propriedades
§ Projeção conforme: preserva os ângulos e deforma as áreas.
§ Projeção equivalente: preserva as áreas e altera os ângulos.
§ Projeção afilática: não conserva propriedades, mas minimiza as deformações em conjunto (ângulos, áreas e distâncias).
§ Projeção equidistante: as distâncias se preservam, e as áreas e os ângulos (consequentemente, a forma) são deformados.

Projeção de Mercator ou cilíndrica conforme


Conserva a forma dos continentes, direções e ângulos, mas altera a proporção das superfícies, principalmente as regiões
de alta latitude.
© César da Mata/Schäffer Editorial

Projeção de Mercator.

Projeção de Mecator

Projeção de Peters ou cilíndrica equivalente


Conserva as áreas das superfícies representadas, apesar de distorcer suas formas.
© César da Mata/Schäffer Editorial

Projeção de Peters.

Projeção de Peters

165
ELEMENTOS DO CLIMA E FATORES CLIMÁTICOS

Clima e tempo
O tempo é algo momentâneo, de curta duração. Tempo é a condição atmosférica de um determinado lugar em um dado
momento.
O clima é algo duradouro, permanente, que não muda de um momento para outro. Clima é a sucessão habitual dos tipos de
tempo num determinado lugar da superfície terrestre.

Elementos do clima
Radiação solar
Uma parte da energia em forma de radiação eletromagnética emitida pelo Sol é interceptada pelo sistema Terra-atmosfera
e convertida em outras formas de energia, como calor e energia cinética da circulação atmosférica.

Temperatura do ar
Temperatura é a medida da energia cinética média das moléculas ou átomos individuais. A temperatura do ar é variável de
acordo com os seguintes fatores: radiação solar, massas de ar, aquecimento diferencial do continente e da água, correntes
oceânicas, altitude e posição geográfica.

Umidade do ar
Trata-se da presença de vapor de água no ar. As principais maneiras de descrever quantitativamente a presença de vapor
d’água no ar são a umidade absoluta e a umidade relativa (U.R.), que é a relação entre a quantidade de água existente no ar
(umidade absoluta) e a quantidade máxima que poderá haver na mesma temperatura (saturação). Isso significa que, em vez
de indicar a real quantidade de vapor de água no ar, esse índice indica quão próximo o ar está de se tornar saturado. Quando
o ar está saturado, a umidade relativa é de 100%.

Precipitação
Em meteorologia, precipitação descreve qualquer tipo de fenômeno relacionado à queda de água do céu. Isso inclui neve,
chuva e chuva de granizo. A precipitação é uma parte fundamental do ciclo hidrológico, sendo responsável por retornar a
maior parte da água doce ao planeta.

Tipos de chuvas

Representação dos diferentes tipos de chuva

166
§ As chuvas convectivas ou de convecção (I) são típicas da região intertropical, principalmente na Zona Equatorial, e
de verão, no interior dos continentes, devido às altas temperaturas. O calor do Sol esquenta o ar, que tende a subir e a esfriar
enquanto sobe. Dessa forma, o vapor de água contido no ar esfria e precipita. A evaporação também é intensa; assim, esse
ar que sobe carrega muita umidade; à medida que aumenta a quantidade de vapor no ar, aumenta também a instabilidade,
ou seja, o ar está à beira de atingir o ponto de saturação. A umidade elevada de tal forma atingirá níveis muito altos por
volta das 15/16 horas, desencadeando tempestades e aguaceiros. A chuva manifesta-se intensamente e é de curta duração,
sendo fácil identificá-la, pois decorrem de nuvens brancas, densas e algodoadas, os cúmulos. Quando há muita umidade, o
branco torna-se cinza-escuro e a nuvem ganha o nome de cumulonimbus, que verterá sua carga de modo particularmente
intenso, acompanhada de tormenta, raios e, às vezes, granizos. As chuvas são ditas de convergência, pois as massas de ar
sobem com a ajuda de ventos alísios, que convergem para as áreas equatoriais.
§ As chuvas frontais (II) resultam do encontro de duas massas de ar com características distintas de temperatura e
umidade. A partir desse choque, a massa de ar quente sobe e o ar esfria, aproximando-se do ponto de saturação,
originando nuvens e, é claro, chuva. São do tipo chuvisco, à passagem de uma frente quente; e do tipo aguaceiro, de
frente fria. Essas precipitações são típicas em áreas de baixa pressão, principalmente nas zonas dos trópicos ou tempe-
radas, onde ocorrem o encontro das massas de ar polares com as massas de ar tropicais. Caracteriza-se uma frente fria
quando ocorre precipitação pelo ar frio procedente dos polos. Contudo, também poderá ser causada por um processo
oposto: uma frente quente e úmida que atropela massas de ar em região fria.
§ As chuvas orográficas ou de relevo (III) são as que derivam de uma subida forçada do ar, quando, no seu traje-
to, apresenta-se uma cadeia de montanhas. Ao subir, o ar esfria, o ponto de saturação diminui, a umidade relativa
aumenta e dá-se a condensação e, consequentemente, a formação de nuvens e chuva. Essas chuvas são frequentes
nas áreas de relevo acidentado, ao longo de serras, de onde sopram ventos úmidos. Um bom exemplo de obstáculo
orográfico é a Serra do Mar em São Paulo.

Pressão atmosférica
Trata-se da força exercida pelo ar em um determinado ponto da superfície. Está intimamente relacionada à temperatura, ao
vapor d’água, à altitude e à latitude. Quanto mais baixa a altitude, maior a pressão atmosférica.

Velocidade e direção do vento


O vento consiste na circulação da atmosfera. Os ventos são denominados a partir da direção de onde eles sopram. Um vento norte
sopra do norte para o sul; um vento leste sopra de leste para oeste. Assim, a direção do vento é o ponto cardeal de onde vem o
vento: N, NE, E, SE, S, SW, W e NW. As medidas básicas do vento referem-se à sua direção e velocidade.

Fatores climáticos
Latitude
Altitude

O aumento da altitude faz com que o ar se torne mais rarefeito e frio.

167
Massas de ar
Correntes marítimas

Maritimidade e continentalidade
Relevo
Vegetação

DINÂMICAS CLIMÁTICAS

Atmosfera
A atmosfera é uma camada relativamente fina de gases e material particulado (aerossóis) que envolve a Terra. Cerca de 97%
da massa total da atmosfera concentra-se nos primeiros 302 km, contados a partir da superfície terrestre.
§ Troposfera;
§ Estratosfera;
§ Mesosfera;
§ Termosfera.

Circulação geral da atmosfera


§ de nordeste, entre cerca de 30°N e o equador, e de sudeste entre 30°S (os quais existem e chamam-se “ventos alíseos”);
§ de sudoeste entre 30°N e 60°N, e no noroeste entre 30°S e 60°S (os quais existem e chamam-se “ventos de oeste”);
§ de noroeste entre 60°N e 90°N, e de sudeste entre 60°S e 90°S (os quais existem e chamam-se “ventos polares”).
Como a convergência e divergência dos ventos na superfície estão ligados à regiões de baixa e alta pressão. A região de con-
vergência dos alíseos na região equatorial é chamada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).

168
Analisando essa atmosfera descrita numa seção vertical, observamos o aparecimento de três pares de células de circulação,
na escala global:
§ Célula de Hadley (entre 0° e 30°);
§ Célula de Ferrel (entre 30° e 60°); e
§ Célula Polar (entre 60° e 90°).
Célula polar

Alta polar

Célula de Ferrel
60º Frente polar

Baixa subpolar
Célula
Ventos contra alísios
de
Hadley

A Alta A
subtropical

Zona de
Ventos alísios
convergencial
Baixa 0º Intertropical
Equatorial (ZCTT)

B
B B

30º
A Alta A
subtropical

60º

Fenômenos meteorológicos devastadores


Tornados
Quanto mais intensas as correntes de ar ascendentes e descendentes dentro da nuvem, maior será a possibilidade de formar-se
um rodamoinho que evolui para o tornado e que aparece como uma protuberância na base da nuvem. Quando ocorrem sobre
o mar ou sobre grandes corpos d’água, os tornados recebem o nome de tromba d’água.

Formação de uma tromba d’água

169
2

3 4

Furacão, tufão e ciclone


Furacões e tufões são o mesmo fenômeno meteorológico: ciclones tropicais.
Para ser classificado como furacão, tufão ou ciclone, uma tempestade deve atingir velocidades de vento de pelo menos
119 km/h. São aglomerados de tempestades que têm origem em oceanos onde a temperatura superficial da água está
acima de 27 ºC.

El Niño
De tempos em tempos, as águas equatoriais do Pacífico aquecem de maneira anormal, resultando no aparecimento do
fenômeno El Niño, que altera profundamente o clima em escala planetária. Esse aquecimento manifesta-se nos meses de
setembro/outubro.
No Brasil, os efeitos de El Niño foram sentidos em diferentes regiões. O Nordeste foi flagelado por uma forte seca, enquanto
o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes. Na úmida região Norte choveu muito menos do que o esperado, propiciando o
aparecimento de grandes incêndios, como o que devastou 15% do estado de Roraima.

La Niña
La Niña também é um fenômeno cíclico cuja manifestação opõe-se a do El Niño. Acontece quando ocorre um resfriamento
maior que o normal das águas do Pacífico, em média, a cada dois ou sete anos, e pode durar aproximadamente um ano.
No Brasil, La Niña alterou o regime de chuvas nordestino e provocou uma primavera atípica na região Sudeste, com índices plu-
viométricos maiores do que a média nesse período, e temperaturas mais baixas que o normal, provocadas pela sucessão de dias
nublados ou chuvosos. As áreas em azul representam regiões frias, onde ocorre o fenômeno do La Niña.

170
Fonte: <https://sealevel.jpl.gov>
As manchas em azul indicam que as águas do Pacífico equatorial estão mais frias

Fonte: enos.cptec.inpe.br
frio

frio
seco e
quente

chuvoso
frio chuvoso seco
seco e frio seco chuvoso
e frio

frio e frio
chuvoso

Dezembro, Janeiro e Fevereiro

chuvoso frio e
chuvoso
frio chuvoso quente e seco
chuvoso
frio
quente
seco
chuvoso

Junho, Julho e Agosto


La Niña e seus efeitos sobre o clima

Os grandes climas do planeta Terra


Clima equatorial
As temperaturas médias anuais situam-se entre 24 ºC e 27 ºC.
As chuvas são abundantes o ano todo.

171
Clima mediterrâneo
Podemos afirmar que esse clima tem como características
gerais um verão quente, seco e prolongado e um inverno
suave, chuvoso e curto.

Clima tropical
A amplitude térmica anual é 15 ºC e 20 ºC. Clima temperado continental
O clima tropical caracteriza-se genericamente pela ex- § Considerável amplitude térmica anual.
istência de duas estações ou períodos: a estação mais
§ Pluviosidade é baixa.
úmida e a estação seca.

Clima desértico Clima temperado oceânico


§ As temperaturas médias anuais giram em torno de 20
A aridez, reforçada pela presença de correntes frias que
ºC e a amplitude térmica anual é considerável.
fornecem pouquíssima umidade para os litorais, é a princi-
pal característica do clima desértico. § Não há meses secos.

172
Clima subpolar Clima polar
As temperaturas médias anuais são muito baixas, e a A média do mês mais quente não chega a 10 ºC, e a média
média do mês mais quente não supera os 10 ºC; As chuvas do mês mais frio é muito inferior a 0 ºC. As chuvas inex-
são escassas e a maior parte das precipitações ocorre sob istem, e as precipitações ocorrem sob forma de neve.
forma de neve ao longo do ano.

Clima frio de montanha ou clima de altitude


Todas as precipitações ocorrem sob forma de neve, e as temperaturas chegam, nos pontos mais frios, a –30 ºC; durante o
verão não chegam a 10 ºC.

CLIMAS DO BRASIL

Elementos do clima do Brasil: as massas de ar


Frentes quentes e frentes frias
§ Frente quente: as frentes quentes deslocam-se do equador para os polos.
§ Frente fria: as frentes frias deslocam-se dos polos para o Equador.

O mecanismo das massas de ar no Brasil


As massas de ar constituem elemento determinante dos climas brasileiros porque podem mudar bruscamente o tempo nas
áreas onde atuam.
O Brasil sofre a influência de praticamente todas as massas de ar que atuam na América do Sul, exceto as que têm origem no
oceano Pacífico (oeste), cuja influência é limitada pela cordilheira dos Andes que barra a sua passagem para o interior do continente.
O mecanismo das massas de ar no Brasil depende da circulação geral da atmosfera na Terra.
Por ter 92% de seu território na zona tropical e estar localizado no Hemisfério Sul, onde as massas líquidas (oceanos e
mares) ocupam mais espaço do que as massas sólidas (terras), o Brasil é influenciado predominantemente pelas massas
de ar quente e úmida.

173
Massa equatorial continental (mEc)
Quente e úmida.

Massa equatorial atlântica (mEa)


Quente e úmida

Massa tropical atlântica (mTa)


Quente e úmida.

Massa tropical continental (mTc)


Quente e seca.

Massa polar atlântica (mPa) Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/


mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)
Fria e úmida.

Atuação das massas de ar no Brasil – inverno e verão


Clima tropical continental
O clima tropical envolve a maior parte da região Cen-
Brasil - Massas de ar Brasil - Massas de ar
Verão Inverno
tro-Oeste, do Sudeste e partes do Nordeste.
mEa
Equador mEa Equador

mEc mEc

mEa → Equatorial
atlântica
mEc → Equatorial
continental
mTa → Tropical
atlântica
mTc mTc → Tropical mTc mTa
continental
mTa mPa → Polar atlântica Alísio de
mPa sudeste
Fonte: educação.globo.com/geografia

Os fatores do clima no Brasil Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/


Diversos fatores podem modificar os elementos que compõem mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)

o clima. No caso brasileiro, destacamos a altitude, a latitude, a


continentalidade, a maritimidade e as correntes marinhas, que Clima tropical semiárido
podem ter maior ou menor influência no clima brasileiro.
O clima semiárido abraça uma região, cujo limite apre-
senta algumas variações nos diferentes mapas. É o clima
Altitude denominado sertão nordestino.

Latitude semiárido

Continentalidade e maritimidade
Correntes marítimas
Corrente do Brasil e a corrente das Guianas.

Climas do Brasil
Clima equatorial
O clima equatorial abrange a região norte brasileira, o norte Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/
do Mato Grosso e de Tocantins e, ainda, o oeste do Maranhão. mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)

174
Clima tropical úmido

Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)

Vai da divisa do Paraná e de São Paulo até próximo ao “cotovelo” do Rio Grande do Norte.

Clima tropical de altitude


Nos planaltos e serras do leste e sudeste do Brasil.

Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)

Em geral, as precipitações são pouco mais acentuadas que na região de clima tropical. A região com as maiores médias plu-
viométricas do Brasil estão na serra do Mar, no estado de São Paulo, e o lugar no qual já foram registrados os maiores índices de
precipitação do Brasil é Itapanhaú (próxima à cidade paulista de Mogi das Cruzes), onde já choveu 4500 mm num único ano.
No domínio do clima tropical de altitude, sobreleva-se a ação da massa tropical atlântica. Além disso, é frequente a ação
da massa polar atlântica. O encontro dessas duas traz muitas chuvas à região, sobretudo no verão, quando a mPa faz um
caminho quase marinho, chegando carregada de umidade às regiões serranas.

175
Clima subtropical
A parte do Brasil ao sul do Trópico de Capricórnio.

Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado)

HIDROLOGIA E BACIAS HIDROGRÁFICAS

Introdução à hidrologia
Ciclo hidrológico
Vapor transportado para
terra firme

Precipitação
Transpiração

Evaporação
Percolação Precipitação
Evaporação

Lago

Rio
Terra
Oceano

Fluxo subterrâneo

176
Mares e oceanos
§ Oceano.
§ 71% do planeta.
§ Pacífico, Atlântico, Índico e Glacial Ártico.
Mares fazem parte dos oceanos. Grandes massas de água salgada cercadas por terra, parcial ou completamente.
§ Mar fechado: é aquele que não possui nenhuma ligação com o oceano.
§ Mar interior (ou Mediterrâneo): possui uma pequena ligação com o oceano;
§ Mar aberto: é aquele que tem grande ligação com o oceano.

Mares da Europa

Oceano Atlântico Mar do Norte Mar Báltico


Mar da Irlanda

Canal da Mancha

Golfo de Vizcaya
Mar de Azov
Mar Caspio
Mar Negro
Mar Adriático

Mar de Mármara
Mar Mediterrâneo
Mar Egeo

Imagens do mar Cáspio (fechado), do mar do Norte ou de Berents (aberto) e do mar Mediterrâneo (continental)

Glacial Ártico

Oceano
Pacífico

Oceano
Oceano Oceano Índico
Pacífico Atlântico

Oceano Antártico

Distribuição dos oceanos no planeta Terra

177
Ondas e marés
As ondas são produzidas pelos ventos.

As marés correspondem ao movimento diário das águas que avançam e recuam, fenômeno esse resultante de forças gravi-
tacionais que o Sol e a Lua exercem sobre a Terra.

Correntes marítimas
As correntes marítimas são massas menores de água que se deslocam em direções distintas. Elas mantêm suas carac-
terísticas de cor, salinidade e temperatura, ou seja, não se misturam. Esse deslocamento é causado pela ação dos ventos
e pelo movimento de rotação da Terra. Em razão disso, as correntes marítimas se deslocam de acordo com os hemisférios
da Terra. No Hemisfério Norte, seguem no sentido horário e, no Hemisfério Sul, no sentido anti-horário.
Corrente do Golfo, corrente do Brasil, corrente de Humboldt e a corrente de Benguela.

Correntes marítimas – temperatura e direção

Degradação e poluição marinha


Derramamento de petróleo, lançamento de esgotos urbanos e de lixo atômico em águas marítimas e oceânicas são preocupantes.
Resultado: contaminação das águas marinhas com prejuízo de pontos turísticos litorâneos, da oferta e da saúde de peixes.

178
Infográfico das principais consequências dos vazamentos de petróleo

Águas continentais
Uma pequena parte de toda a água do mundo localiza-se nas áreas continentais. Os rios representam apenas uma pequena
porcentagem delas, e suas águas sempre foram um fator determinante para a fundação das cidades.
Será que as pessoas que vivem em áreas urbanizadas conseguem imaginar qual a origem dos rios que cortam sua cidade?

Diagrama de barras da distribuição da água na Terra

179
Rios

Boa porosidade e
Nível boa permeabilidade
hidroestático

Aquifero livre

Camada Fraca porosidade e


impermeável fraca permeabilidade

Aquífero cativo

Camada Boa porosidade e


impermeável boa permeabilidade

Lençol de água freático ou aquíferos

Origem:
§ Pluvial.
§ Glacial.
§ Lacustre.
Lençol freático, se esses lençóis atingirem a superfície, dão origem às nascentes dos rios.
Alguns nascem do degelo.
Existem rios perenes, ou seja, que nunca secam.

Regime fluvial
A variação do volume de água dos rios durante o ano.
Fatores também interferem no comportamento de um rio, como relevo, cobertura vegetal e natureza do solo.
Os rios que deságuam em outros rios são chamados de afluentes. Ponto onde termina o curso de um rio recebe o nome de foz.
§ Estuário.
§ Delta.
§ Mista.

Foz em estuário e foz em delta

180
Bacias e rede hidrográficas
Rede hidrográfica corresponde ao conjunto de rios de uma bacia.
Bacia hidrográfica corresponde à rede hidrográfica e à sua área de captação de água.
Tipos de drenagem:
§ Exorreica.
§ Endorreica.
§ Arreica.
§ Criptorreica.

A modelagem do relevo
Os rios realizam um trabalho ininterrupto de destruição, transporte e sedimentação, denominado ciclo de erosão fluvial. Eles
escavam seu próprio leito, enquanto que, em suas margens, a erosão forma as vertentes dos vales por onde eles correm. A
velocidade de suas águas é determinada pela declividade dos terrenos que cortam.

Grand Canyon sendo erodido pelo rio Colorado

Lagos
A maioria deles é formada por depressões ou falhas preenchidas por águas na superfície terrestre; outros, no entanto, como o
caso dos lagos do Canadá, possuem origem glacial.

181
Poluição das águas
Decorrente da expansão das atividades industriais e agrárias e do crescimento das cidades e da população mundial.
Principais fontes poluidoras são:
§ lixo sólido.
§ agrotóxicos em geral.
§ esgotos sem tratamento.
§ resíduos das mineradoras.

Espuma resultante da concentração de detergentes oriunda do esgoto no rio Tietê

Bacias hidrográficas
Principais bacias hidrográficas do Brasil
Bacia Amazônica

Bacia hidrográfica Amazônica

Maior bacia hidrográfica do mundo. Nasce no Peru, com o nome de Apurimac; ao entrar no Brasil, recebe o nome de Soli-
mões. Depois do encontro com o rio Negro, perto de Manaus, recebe o nome de Amazonas.

182
As águas dos rios amazônicos são barrentas, claras e negras.
Transporte hidroviário. É o caso dos rios Madeira, Xingu, Tapajós, Negro, Trombetas e Jari.

Encontro das águas dos rios Negro e Solimões

Hidrelétricas na Amazônia
§ Santo Antonio
§ Jirau
§ Balbina
§ Belo Monte

Usina de Belo Monte

183
Bacia do São Francisco
Nasce em Minas Gerais, na serra da Canastra, corta o sertão da Bahia, na divisa com Pernambuco e entre Alagoas e Sergipe,
e deságua no Atlântico.
Navegação, irrigação e produção de energia.

Bacia hidrográfica do São Francisco

Plenamente navegável até Petrolina, em Pernambuco. Paulo Afonso, Sobradinho e Itaparica, que são três usinas hidrelé-
tricas de grande porte.
Transposição do rio São Francisco.

Mapa dos eixos da transposição do rio São Francisco

Bacia do Tocantins-Araguaia
É a maior bacia localizada totalmente em território brasileiro, com 813 mil km2 e formada pelos rios Tocantins e Araguaia. O rio
Tocantins nasce em Goiás, ao norte da cidade de Brasília, percorre 2,6 mil km e desemboca na foz do rio Amazonas, junto à ilha
de Marajó. Usina de Tucuruí, no Pará. Rio Araguaia nasce na serra das Araras, no Mato Grosso, próximo à divisa com Goiás, e
desemboca no rio Tocantins.

184
Bacia hidrográfica do Tocantins-Araguaia

Hidrovia Araguaia-Tocantins tem sido muito questionada pelas ONGs em razão dos impactos socioambientais.

Escoamento de recursos minerais na hidrovia Tocantins-Araguaia

Bacia do Prata
É formado pelas bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai. Banha a área mais desenvolvida e urbanizada do país.

Bacia hidrográfica Platina

Bacia do Paraguai
§ Amplamente navegável;
§ Pequeno potencial hidrelétrico;
§ Pantanal.

185
Bacia do Uruguai
Pouco aproveitada para navegação e para geração de energia. Essa bacia é fronteiriça entre Brasil e Argentina e, portan-
to, exige acordos internacionais para a realização de projetos.

Bacia do Paraná
Maior potencial hidrelétrico
Garante o abastecimento de energia elétrica para a região Sudeste, região Sul e Centro-Oeste.

Bacias secundárias

As 12 Regiões
Hidrográficas Brasileiras
Amazonas
Tocantins-Araguaia
Atlântico NE Ocidental
Parnaíba
Atlântico NE Oriental
São Francisco
Atlântico Leste
Atlântico Sudeste
Paraná
Paraguai
Uruguai
Atlântico Sul

Fonte: ANA - Agência Nacional das Águas, 2005

Bacias hidrográficas mundiais

186
Grandes rios da África
Rio Nilo e Rio Congo.

Mapa físico da rede hidrográfica do continente africano

Principais rios da Europa


Rio Reno é famosa por abrigar o vale do Ruhr, rio Pó, rio Volga e o rio Ródano.

Principais rios da Europa

187
Principais rios da América do Norte
Rio São Lourenço, Colorado, rio Mackenzie, rio Yukon e a bacia do Mississipi-Missouri.

Mapa físico da rede hidrográfica da América do Norte

Principais rios da Ásia


Rio Jordão, rios Tigre e Eufrates, rio Huang-ho (rio Amarelo), Yang-tsé (rio Azul), rios Ganges e Indo e rio Mekong.

DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS I

Domínios morfoclimáticos
Formações florestais
Domínio das terras baixas florestadas da Amazônia (floresta Amazônica)
§ clima quente e úmido;
§ relevo com predomínio de planícies;
§ floresta latifoliada (folhas largas);
§ ombrófila;
§ higrófila;

188
§ perene (sempre verde);
§ densa (de difícil penetração);
§ heterogênea;
§ biodiversa;
§ solos pouco férteis (pouco húmus e muito lixiviado);
§ acelerado processo de desvastação;
§ política de integração intensificam os fluxos migratórios.

Domínio dos mares de morros florestados


§ clima quente e úmido;
§ relevo com predomínio de planaltos;
§ floresta latifoliada (folhas largas);
§ ombrófila;
§ higrófila;
§ perene (senpre verde);
§ densa (de difícil penetração);
§ heterogênea;
§ biodiversa;
§ ficou reduzida a menos de 7% da cobertura original.

Domínio do planalto das araucárias


§ clima frio e úmido
§ relevo planáltico;
§ floresta subtropical aciculifoliada;
§ aberta (de fácil penetração);
§ homogênea;
§ restam apenas pouco mais de 10% da mata original;
§ solos férteis (terra roxa).

Formações arbustivas
Domínio das depressões interplanálticas do semi-árido do nordeste
§ clima quente e seco;
§ relevo com predomínio de depressões;
§ vegetação xerófila e caducifólia;
§ solos ricos em sais minerais e pobre em húmus;
§ ocorrência de brejos em regiões mais úmidas;
§ produção de frutas;
§ rios intermitentes em sua maioria.

189
Domínios dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por mata galeria
§ clima tropical (chuvas no verão e estiagem no inverno);
§ relevo planáltico com chapadas;
§ solos com baixa fertilidade (alta concentração de alumínio);
§ 45% devastado em função da expansão agropecuária;
§ nascentes de rios importantes como o São Francisco.

Formação herbácea
Domínio das Pradarias mistas do Rio Grande do Sul
§ clima frio e úmido;
§ terras baixas com colinas (cochilias);
§ vegetação de gramíneas;
§ imensa pastagem (favoreceu a pecuária de corte);
§ rizicultura.

Formações complexas
§ Pantanal.
§ Mata dos Cocais.
§ Manguezais.

Brasil: domínios morfoclimáticos

190
Biomas do Brasil
Formações florestais: vegetação com árvores de grande porte
§ Floresta Amazônica.
§ Mata Atlântica.
§ Floresta de araucárias.
Formações arbustivas e herbáceas: constituíta por arbustos dispersos e isolados por vegetação rasteira
§ Cerrado
§ Caatinga.
§ Campos.
Formações complexas: ocorrem em áreas de transição entre formações a apresentam características de duas ou mais
dessas formações
§ Mata dos cocais.
§ Pantanal.
§ Mangue.

Áreas protegidas no Brasil


Unidades de conservação
São espaços destinados à conservação de paisagens naturais. Existem unidades de uso indireto, onde os recursos não po-
dem ser explorados. São elas: estação ecológica, monumento natual, parque nacional, refúgio de vida silvestre e
reserva biológica.
Outra categoria é a unidade é a unidade de uso sustentável (como a reserva extrativista), onde é permitido o uso racional dos recusos
naturais. São elas: área de proteção ambiental, área de relevante interesse ecológico, floresta nacional, reserva de
desenvolvimento sustentável, reserva de fauna, reserva extrativista e reserva particular do patrimônio natual.

191
U.T.I. - Sala
1. (UFPR 2019) As figuras A, B, C e D abaixo fazem a representação cartográfica da sede do município de Cornélio Pro-
cópio, obtidas de distintas bases de dados.

Diferencie-as sob o ponto de vista cartográfico e explique por que elas apresentam conteúdos distintos.

2. (Enem 2014 - Modificada) Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o Sol, todo mundo sabe, está se deitando na França.
Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr do sol.
SAINT-EXUPÉRY, A. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 1996.

A diferença espacial citada é causada por qual característica física da Terra?

3. (AVAJ 2020) A taxa de mortalidade infantil expressa o número de crianças de um determinado local que morre antes
de completar 1 ano de vida a cada mil nascidas vivas. Esse dado é um indicador da qualidade dos serviços de saúde,
saneamento básico e educação.

O mapa acima determina as regiões geográficas mundiais com maiores taxas de mortalidade infantil. Discorra sobre
a forma que as regiões do globo se apresentam no mapa, destacando qual técnica de representação cartográfica foi
escolhida no mapa.

192
4. (UFU 2019)

De acordo com a projeção cartográfica de Peters, utilizada para representar o mapa-múndi, responda.
a) Por que essa projeção do mapa-múndi é criticada e pouco utilizada?
b) Quais são as principais características dessa projeção?

5. (ENEM 2010 / Modificada) Pensando nas correntes e prestes entrar no braço que deriva da Corrente do Golfo
para o norte, lembrei-me de um vidro de café solúvel vazio. Coloquei no vidro uma nota cheia de zeros, uma bola
cor rosa-choque. Anotei a posição e data: Latitude 49°49’N, Longitude 23°49’W. Tampei e joguei na água. Nunca
imaginei que receberia uma carta com a foto de um menino norueguês, segurando a bolinha e a estranha nota.
KLINK, A. Parati: entre dois pólos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 (adaptado).

Defina o conceito de coordenada geográfica.

6. (CBM/SC 2018) Diariamente, os telejornais e os jornais, em seus serviços de previsão do tempo, mostram imagens de
satélites onde se veem as posições das frentes frias e quentes e das áreas de instabilidade, acompanhadas de informa-
ções de interesse meteorológico. A cada dia a situação muda, e mesmo dentro de um mesmo período de 24 horas podem
ocorrer alterações significativas, exigindo uma observação permanente para entender e, se possível, prever a variação
dos elementos que compõem o complicado mecanismo do clima. Indique quais são os elementos constitutivos do clima.

7. “El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais no
oceano Pacífico Tropical, e que pode afetar o clima regional e global, mudando os padrões de vento a nível mundial, e
afetando assim, os regimes de chuva em regiões tropicais e de latitudes médias”.
(Fonte: Copyright ©INPE/CPTEC 1995-2011 ).

“Os efeitos do ‘El Niño’ no Brasil podem causar prejuízos e benefícios. Mas os danos causados são superiores aos bene-
fícios, por isso o fenômeno é temido, principalmente, pelos agricultores.”
Laboratório de Meteorologia da universidade Estadual do Maranhão. Disponível em: WWW.uema.br. Acesso em: 6 de jul. 2009.

No Brasil esse fenômeno caracteriza-se por provocar: Estiagem no Sul seguida de estação chuvosa e aumento da seca
em todo o Nordeste. Considerando o texto Quais outros prejuízos esse fenômeno pode ocasionar?

8. (AVAJ 2020) Um avião decolou do aeroporto Internacional de Guarulhos (cidade A; 45°W) às 7 horas com destino à
cidade B (126°W). O vôo tem duração de oito horas. Que horas serão na cidade B quando o avião pousar?

193
U.T.I. - E.O.
1. Mapa de fuso horário

Fonte: <www.estudopratico.com.br/wp-content/uploads/2013/01/fuso-horario-mapa-conceito-em-geografia.jpg>
Um fotógrafo sai do Rio de Janeiro às 18:00 hs do dia 1º (sábado), em direção à Hong Kong. A duração do voo foi de
12 horas. Que horas será no Rio de Janeiro quando essa pessoa chegar no seu destino?

2. Os climogramas abaixo representam dois tipos climáticos que ocorrem no Brasil. Observe-os e responda:

a) Quais são os tipos de clima nas localidades A e B?


b) Discorra sobre as características dos dois climas e quais são as massas de ar que atuam nessas localidades.

3. O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
de só cantar quando chove

“Chover, ou invocação para um dia líquido”


Mas o povo que sente na pele os efeitos diretos desse calor – extensivos à economia regional, pela ausência de
perenidade dos rios e de água nos solos – não tem dúvida em designá-lo simbolicamente por “verão”. Em con-
trapartida, chama o verão chuvoso de “inverno”. Tudo porque os conceitos tradicionais para as quatro estações
somente são válidos para as regiões que vão dos subtrópicos até a faixa dos climas temperados, tendo validade
muito pequena ou quase nenhuma para as regiões equatoriais, subequatoriais e tropicais.
AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003, p. 85.

Como bem exemplificou o professor Aziz Ab’Saber, os sertanejos costumam chamar o verão de inverno porque, irre-
gularmente, a Massa Equatorial Continental traz chuvas esporádicas à região. A partir do texto e da música do grupo
“Cordel do Fogo Encantado“, explique a origem da mancha semiárida no Nordeste brasileiro e o por quê desse deficit
hídrico, já que a mEc é uma massa úmida.

4. Os homens que vivem ao longo dos igarapés foram fadados a conviver com as sombras e a solidão. Trabalharam ou
trabalham para alguém que mal conhecem. Na qualidade de serem gregários, para garantir um tributo básico da con-
dição humana, transformaram os igarapés em caminhos vicinais. O “caminho da canoa” do índio tornou-se a via vicinal

194
dos amazônides, oriundos de muitas procedências étnicas e subculturas em contato. Ninguém melhor do que Euclides
da Cunha conseguiu fixar o drama dos habitantes da beira dos igarapés, tal como está gravado em seus escritos, como
o Judas Asverus, de “A Margem da História”.
AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003, p. 73.

Com base no texto, responda:


A qual domínio morfoclimático o texto se refere? Explique suas principais características, levando em consideração
os três patamares de vegetação existentes.

5. (UNESP 2018) O sensoriamento remoto é a técnica que permite a obtenção de informações acerca de objetos, áreas
ou fenômenos localizados na superfície terrestre. O termo restringe-se à utilização de energia eletromagnética no
processo de obtenção de informações, as quais podem ser apresentadas na forma de imagens, sendo as mais utili-
zadas, atualmente, aquelas captadas por sensores ópticos orbitais instalados em satélites, como ilustrado na figura.

a) Considerando a fonte de emissão de energia, especifique o tipo de sensor representado na figura e descreva o seu
funcionamento.
b) Mencione duas aplicações dos produtos derivados do sensoriamento remoto.

6. Observe a figura que mostra o esquema de circulação geral da atmosfera e responda:

a) O que são ventos alísios e contra alísios?


b) Qual é a relação dos ventos alísios com o fenômeno El Niño?

7. Dentre as estratégias de aproveitamento dos recursos hídricos superficiais do Nordeste Brasileiro, admite-se a
transposição de águas entre bacias hidrográficas. Sobre este tema, resolva os itens a seguir.

195
a) Indique dois possíveis projetos de transposição de águas entre bacias hidrográficas, que são discutidos na mídia.
b) Descreva dois prováveis impactos ambientais negativos resultantes desses projetos.

8. (Unesp) No mapa estão indicadas as principais correntes marítimas.

Explique a influência da corrente do golfo no Atlântico Norte sobre a Europa ocidental, e destaque os motivos das
cidades de Londres e Paris terem invernos mais amenos do que Montreal e Nova Iorque.

9. (UFPR) A bacia hidrográfica como unidade de análise ambiental tem ganhado destaque, o que pode ser exemplifi-
cado com o caso do Brasil, onde, nas últimas décadas, ela tem sido considerada um importante recorte espacial para
o planejamento e para diagnósticos ambientais. Explique o que é uma bacia hidrográfica, apresentando os elementos
que a compõem, e justifique por que ela é utilizada como recorte espacial para diagnósticos ambientais.

10. (Uerj) O potencial de produção de energia hidrelétrica está relacionado a um grupo de fatores naturais que inter-
ferem na construção de barragens em bacias hidrográficas. Observe no mapa abaixo a localização das dez principais
bacias hidrográficas brasileiras:

Considerando as características socioambientais da bacia I, cite duas consequências negativas ocasionadas pela cons-
trução de hidrelétricas nessa área.
Indique, ainda, dois fatores que favorecem a geração de energia elétrica nas usinas instaladas na bacia V.

196
GEOGRAFIA 2

197
INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO GEOGRÁFICO

Princípios da Geografia
§ Princípio da extensão: Segundo ele, o geógrafo, ao estudar um fato ou
área, deve proceder a sua localização e delimitação, utilizando os recursos
da cartografia. Nesse princípio, o importante é localizar fenômenos na
superfície terrestre.
§ Princípio da analogia ou geografia geral: Segundo eles, após a área
ser observada e delimitada, o geógrafo deve compará-la com outras áreas
buscando as semelhanças e as diferenças existentes.
§ Princípio da causalidade: princípio que propõe explicar as causas do
fato observado.
§ Princípio da conexão ou interação: esse princípio estabelece que os fa-
tos geográficos, físicos ou humanos nunca aparecem isolados; estão sempre
interligados por elos de relacionamento. Seu objetivo é identificar e analisar
as relações existentes.
§ Princípio da atividade: o princípio da atividade estabelece o caráter dinâ-
mico do fato geográfico que deve ser estudado em seu passado para poder
ser compreendido no presente e se ter uma imagem do seu futuro. Alexander Von Humboldt

1.2. Espaço geográfico

Alexander Von Humboldt


Espaço geográfico, um produto social, fruto das interações sociais e naturais da superfície terrestre. Esse conceito possui
várias visões conflitantes entre si. No entanto, há um consenso: o espaço geográfico representa a intervenção do homem
sobre o meio, ou seja, um produto (que, dependendo da abordagem, pode também ser um produtor) das relações humanas
e suas práticas sobre o substrato natural.

Determinismo geográfico (Séc XIX)


O homem é considerado um produto do meio, portanto, a natureza seria o fator determinante do seu modo de vida.

198
Possibilismo geográfico (Início do Séc XX)
Seus defensores acreditam na possibilidade de haver influências recíprocas entre o homem e o meio natural, e que o homem
se adapta ao meio natural. Como ser racional, o homem é elemento ativo e, portanto, tem condições de modificar o meio
natural e adaptá-lo às suas necessidades.

Método regional (1940)


Método que enfatiza a diferenciação de área não a partir das relações entre o homem e a natureza, mas a partir da integra-
ção de fenômenos heterogêneos em uma dada porção da superfície da Terra.

Karl Ritter

Nova Geografia / Geografia quantitativa (1950)


Uso de técnicas estatísticas e matemáticas para analisar os dados coletados e as distribuições espaciais dos fenômenos.
Geografia Quantitativa.

Geografia Crítica (1960 - 70)


De orientação marxista.

Karl Marx

Procurava analisar primeiramente os processos sociais, e não os espaciais, o oposto do que se costumava praticar na geografia
teórica quantitativa.

199
Conceitos importantes
Conceito de Lugar
“O homem não vê o universo a partir do universo, o homem vê o universo desde um lugar.”
Milton Santos

As análises geográficas pautadas no conceito de lugar concebem o espaço analisado não de uma maneira direta ou racional,
mas por meio da compreensão humana e, muitas vezes, com base em valores afetivos ou de identidade.

Conceito de Paisagem
“Tudo aquilo que nós vemos, que a nossa visão alcança, é a paisagem [...]. Não apenas for-
mada de volumes, mas também de cores, odores, movimentos, sons, etc.”
Milton Santos

Em algumas análises, a paisagem é diretamente definida como o “aquilo que a visão alcança” ou como o “mundo conforme
a sua aparência externa”. Portanto, a paisagem costuma ser definida como formas que se revelam diante dos nossos olhos
na produção do espaço geográfico.
Outras concepções desse modelo são apresentadas a partir da contestação desse conceito. Em muitas abordagens acadê-
micas, a paisagem é concebida não apenas a partir da visão, mas da multissensorialidade, ou seja, da utilização dos demais
sentidos (tato, olfato, paladar e audição). Além disso, a paisagem é, muitas vezes, reveladora de experiências e atrelada a
fatores da expressão humana e pessoais, o que lhe dá uma dimensão cultural.

Paisagem natural Paisagem modificada

Conceito de Território
“[...] o território é um nome político para o espaço de um país. Em outras palavras, a existência de
um país supõe um território. Mas a existência de uma nação nem sempre é acompanhada da pos-
se de um território e nem sempre supõe a existência de um Estado. Pode-se falar, portanto, de territoria-
lidade sem Estado, mas é praticamente impossível nos referirmos a um Estado sem território.”
Maria Laura Silveira e Milton Santos

O território, um termo muito empregado no âmbito da política, é normalmente definido como uma área delimitada por
fronteiras. Entretanto, nem sempre essas fronteiras são visíveis ou bem delineadas. Na maioria das abordagens geográficas,
o conceito de território está relacionado a uma configuração de poder. É, por isso, uma área apropriada, uma porção do
espaçogeográfico onde uma relação hierárquica se estabelece.

Conceito de Região
Na Geografia, a região é definida como uma porção superficial designada a partir de uma característica que lhe é marcante
ou que é escolhida por aquele que concebe a região em questão. Assim, existem regiões naturais, econômicas, políticas, entre
muitas outras.
Portanto, a região não existe diretamente, mas é uma construção intelectual humana. No âmbito da Literatura, essa noção
está vinculada ao conceito de regionalismo, que expressa o conjunto de costumes, expressões linguísticas e outros valores
que apresentam variação entre uma região e outra, dando uma identidade coletiva para os diferentes lugares.

200
GEOLOGIA

As eras geológicas
A história geológica do planeta é dividida em fases chamadas eras geológicas, divididas em períodos.

Escala geológica
Datação (em
Era Período Eventos no Planeta Eventos no Brasil
milhões de anos)
§ Solidificaçãodos minerais e
formação das primeiras rochas
Azoica - cristalinas - 4500 a 3800

§ Inexistência de vida
§ Formação das rochas
magmáticas e metamórficas
Arqueozoico § Formação das serras do Mar e da Mantiqueira 3800 a 2500
§ Formação dos escudos
Pré-cambriana cristalinos

Proterozoico
§ Formação das primeiras rochas § Formação dos escudos brasileiro e guiano 2500 a 590
sedimentares

Cambriano 590 a 500

Ordoviciniano § Glaciação e diastrofismo 500 a 438


§ Formação das bacias sedimentares antigas, do
§ Rochas sedimentares varvito de Itu (SP), e do carvão mineral do sul
Siluriano e metamórficas 438 a 408
Paleozoica do Brasil
Devoniano 408 a 360
§ Inícioda formação da bacia sedimentar do
Início do processo de formação do Paraná e do São Francisco
Carbonífero 360 a 286
carvão mineral
Permiano - 286 a 248
Triássico 248 a 213
§ Formação das bacias sedimentares do Paraná,
Sanfranciscana e do meio Norte
Jurássico 213 a 144
§ Grande atividade vulcânica § Formação das ilhas de Trindade, Martin Vaz e do
arquipélago de Fernando de Noronha e Penedos
Mesozoica § Formação de baciais de São Pedro e São Paulo
sedimentares
Cretáceo § Derrames basálticos na região Sul 144 a 65

§ Fomação do planalto arenito basáltico


Formação das grandes
Formação da bacia sedimentar (Ex.: bacia sedimentar
Terciário cadeias de montanhas 65 a 2
Cenozoica Amazônica)
(dobramentos modernos)

Quaternário Surgimento do homem moderno Formação da bacia sedimentar do Pantanal 2 a hoje

A estrutura da Terra
§ Litosfera – camada sólida da Terra formada por minerais e rochas, também chamada de crosta terrestre. Para fins eco-
nômicos, sua utilização limita-se a poucos quilômetros de profundidade, de onde são extraídas algumas riquezas minerais.
§ Hidrosfera – camada líquida formada por oceanos, mares, rios e aquíferos, lagos subterrâneos e água. Os interesses do
homem limitam-se a mais ou menos mil metros de profundidade.
§ Atmosfera – camada gasosa, formada por uma mistura de gases (oxigênio, gás carbônico e nitrogênio). Ela envolve a Terra
e a protege. É dividida em cinco camadas: troposfera, estratosfera, mesosfera, ionosfera e exosfera. A troposfera é a mais
importante, mais próxima da superfície terrestre (onde vive o homem e ocorrem quase todos os fenômenos metereológicos).

201
§ Biosfera – é o conjunto de todos os ecossistemas da Terra; ela inclui a biota e os compartimentos terrestres com os quais a
biota interage (Litosfera, Hidrosfera e Atmosfera).

As camadas da estrutura interna da Terra


A estrutura da Terra é formada por camadas de diferentes formações químicas (modelo 1) e físicas (modelo 2).

1) Modelo baseado na composição 2) Modelo baseado na rigidez dos materiais


dos materiais do interior da Terra. do interior da Terra. (B) magma pastoso
(A) litosfera ou crosta terrestre

Os dados que se tem a respeito do interior da Terra foram obtidos através de perfurações para extrair petróleo, e não ultra-
passam os 5 mil metros ou 6 mil metros de profundidade. Essas perfurações são executadas em bacias sedimentares, não
alcançando as estruturas rígidas mais profundas.
A divisão da estrutura da Terra foi baseada principalmente nos estudos sobre abalos sísmicos, pois o comportamento das
ondas sísmicas altera-se na passagem de uma camada para a outra em função da natureza dos materiais.

O modelo atualmente aceito da estrutura interna do planeta revela três grandes camadas: o núcleo (NiFe), o manto e a crosta
terrestre (litosfera).

Núcleo
Acredita-se que o núcleo da Terra, formado por níquel e ferro, possua uma divisão entre núcleo externo e núcleo interno.
Provavelmente o núcleo externo encontra-se no estado líquido, envolvendo o núcleo interno que, por estar submetido a altas
pressões, esteja no estado sólido, exibindo temperaturas superiores a 5.000 ºC.

Manto
O manto, encontrado em estado pastoso ou magmático, é responsável por 80% do volume total do planeta. As perturba-
ções geológicas que atingem a crosta, como terremotos e vulcanismos, são provocadas pela pressão exercida por ele. Para
entender melhor: o magma (composto essencialmente de silicatos de magnésio), que é expelido pelas erupções vulcânicas,
é componente do manto. O manto terrestre estende-se desde cerca de 30 km de profundidade até 2.900 km abaixo da
superfície (transição para o núcleo).

Crosta terrestre
A crosta terrestre é subdividida em duas camadas ou crostas: a crosta oceânica ou inferior (de constituição basáltica, com predo-
mínio de silicatos de magnésio e ferro – SIMA), que recobre toda a superfície do planeta, e a crosta continental ou superior, que
fica sobre a oceânica. Na crosta continental predominam silicatos de alumínio (SIAL), com espessura que varia de 30 a 70 quilô-
metros. É formada de rochas – granitos, migmatitos, basaltos e rochas sedimentares –, semelhantes às que afloram na superfície.

202
A gênese das rochas
Sua origem pode ser orgânica ou inorgânica e apresentam composição química definida.
As rochas se classificam em três grandes grupos conforme sua origem e características minerais de textura:

Rochas magmáticas ou ígneas


Exemplo: granito, basalto.
As rochas magmáticas foram formadas em ambiente com temperaturas muito elevadas, o que permitiu a existência de
materiais rochosos em fusão (magma). Formadas pela lenta solidificação (cristalização) do magma pastoso.
§ Rochas intrusivas ou plutônicas § Rochas extrusivas ou vulcânicas

Granito Basalto

Rochas sedimentares
Exemplo: calcário, arenito.
As rochas sedimentares podem ser provenientes da erosão de rochas preexistentes e da precipitação de substâncias ou,
ainda, de material correspondente a conchas e esqueletos de organismos mortos.

Arenito em Paria Canyon-Vermillion Cliffs Wilderness, Arizona, EUA.

Sedimentação num lago


ou num mar

Mais recente
Mais antiga

Ilustração de Bacia Sedimentar, local de ocorrência


das rochas sedimentares.

Rochas metamórficas
Exemplo: mármore, calcário. Elas são provenientes das transformações (metamorfismos) sofridas pelas rochas mag-
máticas, pelas rochas sedimentares ou por outras rochas metamórficas. Essas mudanças ocorrem em função das
condições de temperatura e pressão no interior da Terra.

203
GEOLOGIA DO BRASIL E EXPLORAÇÃO MINERAL

As macroestruturas e suas características


As macroestruturas do relevo terrestre estão representadas pelos escudos cristalinos, pelas bacias sedimentares e pelas cadeias oroge-
néticas; esta última não ocorre no território brasileiro.

Escudos cristalinos
Exemplo: Quadrilatero ferrífero (MG), Serra dos Carajós (PA).
Constituído durante o período Pré-cambriano.
Basicamente, é a porção das placas continentais que, durante um período mínimo de 100 milhões de anos, não sofre ações
diretas do tectonismo e do vulcanismo, o que caracteriza a sua estabilidade. É composto de rochas cristalinas (magmáticas
e metamórficas).
Os escudos são divididos em dois tipos principais de estruturas: os crátons cristalinos e as plataformas.

Bacia sedimentar
As bacias sedimentares começaram a se constituir efetivamente na era Paleozoica. Correspondem a 64% da estrutura
geológica brasileira – Amazônica, Meio Norte (Maranhão e Piauí) e Paranaica (Paraná).

Durante esse processo de constituição das bacias sedimentares muitos corpos ou restos de animais mortos e materiais
orgânicos foram “enterrados” pelos sedimentos que foram depositados no fundo dos oceanos. E, conforme as condições de
temperatura e pressão, parte dos restos desses materiais foi conservada, e deu origem aos fósseis.
Contudo, quando a pressão e as temperaturas (geralmente influenciadas pelo aquecimento provocado pelas camadas mais
baixas da Terra) são elevadas, a tendência é que esses restos orgânicos passem pelo processo de litificação e se tornem líquido.
Assim, conforme as condições de armazenamento, esse material acumula-se e transforma-se em petróleo.

204
Cadeias orogenéticas: dobramentos modernos

Cadeias do Himalaia

Os dobramentos modernos, também conhecidos como cadeias orogênicas ou cinturões orogênicos, são estruturas geológicas
que resultaram das ações do tectonismo e correspondem à formação de cadeias montanhosas, que apresentam as maiores
altitudes do planeta. Em geral, são compostos por rochas magmáticas e metamórficas. Como exemplo temos a Cordilheira dos
Andes, na América do Sul, e a Cordilheira do Himalaia, na Ásia, onde se encontra o monte Everest.
Do ponto de vista do tempo geológico, os dobramentos modernos são considerados de origem recente, com cerca de 250
milhões de anos.

Figura A Figura B

Ações tectônicas das placas convergentes

Combustíveis fósseis
Petróleo
O termo petróleo, a rigor, envolve todas as misturas naturais de compostos de carbono e hidrogênio, os chamados hidrocar-
bonetos, que incluem o óleo e o gás natural, embora seja também empregado para designar somente os compostos líqui-
dos. Na natureza ele ocupa os vazios existentes entre grãos de areia e rocha, ou pequenas fendas com intercomunicações.
Sua formação ocorre em regiões deprimidas da crosta terrestre depois do acúmulo de sedimentos trazidos pelos agentes
erosivos. A teoria mais aceita é a de sua origem orgânica, ou seja, da deposição de matéria orgânica e do seu consequente
soterramento em condições de falta de oxigênio, altas pressões e temperaturas.

Gás Natural
Se os materiais provenientes de plantas e animais são enterrados em profundidade e temperatura suficientes, elesse trans-
formam quimicamente em petróleo e gás natural. No Brasil, a produção de gás Natural se dá predominantemente no estado
do Rio de Janeiro (52%). Amazonas (19%), Bahia (9%) e Rio Grande do Norte (9%) também são estados produtores.

Carvão mineral
O carvão mineral, além de ser insuficiente no Brasil, apresenta baixo teor colorífico, alto teor de umidade, cinzas e sulfeto de
ferro. No Brasil, Santa Catarina (62,8%), Rio Grande do Sul (36,4%) e Paraná (0,8%) são os estados produtores.

205
GEOMORFOLOGIA: FORÇAS ESTRUTURAIS E ESCULTURAIS

A dinâmica do relevo
Os agentes modificadores do relevo podem, certamente, ser divididos em dois grandes grupos, de acordo com as origens de
suas ações: os agentes estruturais (internos) e os agentes esculturais (externos).
Os agentes estruturais, como o tectonismo, o vulcanismo e os abalos sísmicos ocorrem no interior da Terra e atuam de forma
temporária e concentrada.
Os agentes esculturais, como o intemperismo, as águas correntes, o mar, o vento, os animais, o homem, modificam externamente
a crosta terrestre e atuam de forma constante.

Teoria da tectônica de placas: o tectonismo


Os movimentos convergentes correspondem ao choque de duas placas tectônicas que se movimentam uma no sentido
da outra, como é o caso na cordilheira dos Andes, na América do SuL. No movimento divergente, as placas tectônicas,
quando se afastam, formam regiões geradoras de placas. A principal consequência disso é a abertura do oceano Atlântico.

Dorsal
Médio-Atlântica

Placa ricana Euro Placa


-Asi
r t e -Ame ática
No

Dorsal Mesoatlântica

Limites transformantes – um tipo de limite entre placas tectônicas em que elas deslizam e roçam uma na outra. Normal-
mente não há nem destruição nem criação de crosta.

Agentes internos (estruturais)


Vulcanismo
Tectonismo ou diastrofismo
Orogênese
São os movimentos geológicos que levam à formação de montanhas ou cadeias montanhosas.
Epirogênese
Lento movimento de subida e descida de grandes porções da crosta.

Sísmicos
Terremoto ou abalo sísmico é uma vibração da superfície terrestre.

206
Agentes externos (esculturais) Marinha ou abrasão
Duas formas básicas: o intemperismo e a erosão. O intem- Erosão acelerada (Antrópica)
perismo é responsável pelo desgaste e/ou fragmentação
das estruturas e a erosão é responsável pelo transporte do
material desagregado pelo intemperismo. Unidades geomorfológicas
Intemperismo Principais formas de relevo, relacionadas com a geomor-
fologia local:
Físico, químico e biológico.

Erosão (tipos)
Eólica (ventos)

§ Planícies;
§ Planaltos;
§ Depressões;
§ Montanhas;
§ Serras;
§ Escarpas;
§ Tabuleiros;
§ Chapadas;
Taça ou cálice, em Ponta Grossa, Paraná § Cuestas;
§ Inselberg.
Pluvial
Fluvial Relevo submarino
Plataforma continental
Talude continental ou vertente continental
Região pelágica
Região abissal

O Grand Canyon é um exemplo de intemperismo físico com gênese fluvial.

Glacial

207
CLASSIFICAÇÕES DO RELEVO

As classificações do relevo brasileiro


A classificação de Aroldo de Azevedo

A classificação de Aziz Ab’Saber

208
A classificação de Jurandyr Ross

Conceituando as formas de relevo


Planalto

Planalto em forma de serra (serra da Mantiqueira)

209
Planaltos em bacias sedimentares § Planaltos residuais Sul-Amazônicos

§ Planalto da Amazônia Oriental.

§ Planaltos em cinturões orogênicos.


§ Planaltos e serras do Atlântico Leste-Sudeste.

§ Planaltos e chapadas da bacia do Parnaíba.

§ Planaltos e serras de Goiás-Minas.


§ Serras residuais do Alto do Paraguai.

Planaltos em núcleos
§ Planaltos e chapadas da bacia do Paraná.
cristalinos arqueados
§ Planalto da Borborema.

Planalto em intrusões e coberturas § Planalto Sul-Rio-Grandense.


residuais de plataforma
§ Planalto e chapada do Parecis. Feições de planaltos
§ Planaltos residuais Norte-Amazônicos. § Relevo cuestiforme.

Frente de cuesta de Botucatu, São Paulo, Brasil

210
§ Relevo em chapada. § Coxilhas.

Chapada Diamantina Canela, Rio Grande do Sul

§ Serra.
Planície
§ Fluvial.
§ Fluvio-marinha.
§ Costeira.
§ Do Pantanal.
§ Amazônica.

Serra da Mantiqueira

§ Inselberg.

Inselberg, Pedra Azul, MG


Planície costeira, em Ipanema, Rio de Janeiro
§ Mares de morro.

Mares de morros, entre São Paulo e Rio de Janeiro Planície do Pantanal mato-grossense

211
Depressão
Formação de depressões relevantes na geomorfologia brasileira
§ Periférica.
§ Marginal.
§ Interplanáltica.
§ Relativa.
§ Absoluta.

Depressões absoluta e relativa

SOLOS

Gênese do solo
O solo é a camada superficial de terra arável dotada de vida microbiana. Pode ser espesso ou formado por uma delgada película.
As rochas que afloram na superfície do globo estão submetidas a ações modificadoras dos diversos agentes exodinâmicos. Um
dos processos mais importantes na formação dos solos é a alteração do material inicial, que fica no próprio local sem ser trans-
portado. O que pode ser solo também pode ser rocha decomposta. A diferença primordial é dada pelo estado mais avançado da
decomposição da rocha que não tem vida microbiana. Os solos possuem vida nascida geralmente com a alteração das rochas,
cujas associações vegetais desenvolvem-se com elas.
A pedogênese tem início com o aparecimento da vida microbiana.

212
O solo é o único ambiente em que se encontram reunidos
em associação íntima os quatro elementos: domínios das
O relevo na formação dos solos
rochas (litosfera); domínio das águas (hidrosfera); domínio § Infiltração;
do ar (atmosfera); e domínio da vida (biosfera). § Escorrimentos superficiais;
É um mundo vivo; pode ser jovem (de formação incomple- § Temperatura e umidade.
ta), adulto (bem formado), velho e morto (fóssil). Deve ser
considerado um quarto reino.
O clima na formação dos solos
§ Temperatura;
§ Precipitação pluvial;
§ Deficiência e o excedente hídrico;
§ Latitude.

O solo é um ambiente poroso onde circulam a água e os ga-


ses; atmosfera do solo. Não há luz nem fotossíntese, predo-
minando os processo de respiração ou oxidação. Em conse-
quência, os solos possuem menos oxigênio e muito mais CO2.
Siltes, areias e argilas apresentam proporções que determi-
nam uma das características mais importantes do solo, a Na região amazônica: solos bastantes intemperizados, pro-
textura, que determinará a facilidade ou não da penetração
fundos, essencialmente cauliníticos, muito pobres quimica-
de raízes, a quantidade de água, a temperatura, a oração e
mente, com reações bastante ácidas.
o fluxo dos nutrientes.
No Nordeste semiárido: solos pouco desenvolvidos, rasos
Intemperismo e ou pouco profundos, cascalhentos ou pedregosos e/ou
com relativa abundância de minerais primários pouco al-
composição dos solos terados e minerais de argila de elevada atividade coloidal.
O intemperismo é o conjunto de modificações físicas (de- Nos planaltos sulinos: solos com espessas camadas super-
sagregação) e químicas (decomposição) que as rochas so- ficiais escuras e ricas em matéria orgânica.
frem ao aflorarem na superfície da Terra.
Os fatores que controlam a ação do intemperismo são: Os organismos na
a) clima – que se expressa na variação sazonal da tem-
peratura e na distribuição das chuvas;
formação dos solos
b) relevo – que influencia no regime de infiltração e dre- Microflora, macroflora, microfauna e macrofauna.
nagem das águas pluviais;
c) flora e a fauna – que fornecem matéria orgânica para
reações químicas e remobilizam materiais; O tempo na formação dos solos
d) rocha – que, segundo sua natureza, apresenta resistên- O tempo é o mais passivo dos fatores de formação.
cia diferenciada aos processos de alteração intempérica;
e) tempo – que a rocha fica exposta aos agentes intem- A idade (cronologia) do solo é a medida dos anos transcor-
péricos. ridos desde seu início até determinado momento, enquanto
a maturidade (evolução) é expressa pela evolução sofrida,
Tipos de intemperismo manifestada por seus atributos em dado momento de sua
existência. Dessa forma, alguns solos podem apresentar
§ Intemperismo Físico;
idade absoluta relativamente pequena e serem bem mais
§ Intemperismo Químico. maduros do que outros com idade absoluta bem maior.

213
Classificação dos solos
Os solos estão agrupados em três categorias:

Zonais
Apresentam os horizontes (A, B e C) bem caracterizados.

Interzonais
Características do relevo local ou da rocha de origem.

Azonais
Referem-se aos solos cujas características não se apresentam bem desenvolvidas. São geralmente recentes e desprovidos
do horizonte B.
Quanto à origem, os solos podem ser:
§ Eluviais.
§ Aluviais.
§ Avermelhados.
§ Amarelados.
§ Claros.

Horizontes ou camadas do solo


Horizontes são seções horizontais isoladas encontradas no perfil do solo que sofreram a pedogênese.
Características: padrão granulométrico, composição mineralógica, hidratação e coesão.
Se bem formados, os solos apresentam horizontes, identificados pelas letras O, A, B e C e situados acima da rocha matriz (R):

Solos do Brasil
Os solos férteis de fato ocorrem em pequena quantidade e compreendem uma parcela relativamente restrita do ter-
ritório brasileiro.

214
§ Espessura – profundos.
§ Origem – subdivide-se em: eluviais e aluviais.

Grupos de solos
§ Latossolos – profundos (espessos), lixiviados e áreas tropicais úmidas.
§ Litossolos – rasos, sem diferenciação de horizontes. Relevo acidentado (encostas) e áreas secas (sertão nordestino).
§ Podzólicos – pouco profundos, vermelhos ou amarelos, e típicos de climas úmidos frios.
§ Aluviões – O horizonte superficial é cinzento. Espalham-se por todo o país, preferencialmente nas várzeas.

Problemas dos solos brasileiros


§ Lixiviação.
§ Laterização.
§ Compactação.
§ Salinização.

A “canga” pode ser observada na parte superior do solo.


§ Erosão.

Voçoroca no interior paulista

5.2.1. Combate à erosão e ao esgotamento dos solos


§ o terraceamento e as curvas de nível;
§ o reflorestamento;
§ o emprego de adubos e fertilizantes; e
§ a rotação de culturas e o pousio da terra.

215
Solos férteis do Brasil
§ Terra-roxa.
§ Massapé ou massapê.
§ Salmourão.
§ Solos aluviais.

PRINCIPAIS TIPOS DE SOLOS DAS REGIÕES BRASILEIRAS

Regiões Tipos e características dos solos

Solos rasos, formados por acumulação de sedimentos fluviais (litos solos aluvionais), com presença de materiais
Norte orgânicos.
1. Várzea
Solos profundos (latossolos), ricos em óxido de ferro e alumínio (apresentando intensa laterização), ácidos, de
2. Tessos e terra firme baixa fertilidade e coloração vermelho-amarela.

Solos profundos (latossolos) argilosos, originários da decomposição do calcário e gnaisse – massapé ou massapê
– de cor escura devido à presença de materiais orgânicos; são férteis e utilizados principalmente no cultivo de
Nordeste cana-de-açúcar.

1. Zona da Mata
Solos resultantes da decomposição do granito e gnaisse em clima semiárido; são rasos (litossolos) e ricos em sais
2. Sertão nordestino e Agreste minerais. No sertão, os solos são mais rasos e sujeitos à erosão devido às chuvas que aparecem concentradas e
torrenciais. No Agreste apresentam maior profundidade e estão menos sujeitos à erosão.

Latossolos – solos profundos de cor vermelho-escuro e vermelho-amarelado, formados em clima subúmido; apresen-
tam lateritas; em geral, são pobres em materiais orgânicos. Cobertos pelos cerrados, são usados principalmente para
Centro-Oeste a pecuária. Solos de terra roxa – principalmente no sul de Mato Grosso do Sul, onde aparecem em manchas. Solos
orgânicos nos vales fluviais no sul de Mato Grosso do Sul e de Goiás.

Latossolos roxos – solos profundos com a presença de óxido de ferro. Ocorrem principalmente no Triângulo
Mineiro e Nordeste de São Paulo.
Terra roxa – manchas de solo rico em materiais orgânicos, formado pela decomposição do basalto e dotado de
Sudeste muita fertilidade. Ocorrem principalmente no Estado de São Paulo.
Salmourão – solo argiloso originado da decomposição de granito e gnaisse em clima úmido. Aparece em áreas
do planalto Atlântico.

Solos pouco desenvolvidos, rasos, de cor avermelhada, formados em clima subtropical e originados de rochas ricas
em ferromagnesianos, o basalto. São os solos da floresta Araucária; Solos lateríticos, rasos, muito meteorizados,
Sul ligados também à presença de basalto, aparecem nas porções elevadas do planalto meridional, do Sudeste do
Paraná até o Norte do Rio Grande do Sul. Litossolos podzólicos de cor acinzentada, ricos em material orgânico e
pouco ácidos. São os solos da Campanha Gaúcha.

PROBLEMAS AMBIENTAIS MUNDIAIS

Oscilação Decadal do Pacífico


A Oscilação Decadal do Pacífico (ODP) representa as alterações climáticas da Terra decorrentes das variações de temperatura
das águas do oceano Pacífico.
Uma positiva, quando as temperaturas são mais elevadas, e outra negativa, quando elas diminuem.

216
ODP positiva, a tendência mais considerável são manifestações climáticas do tipo El Niño, na costa do Peru, que costumam ser
mais intensas do que a média. Por outro lado, na ODP negativa, a tendência mais considerável são manifestações climáticas
do tipo La Niña, que costumam ser mais frequentes e intensas do que a média de acontecimentos climáticos desse tipo.
Anomalias.
Oscilação Interdecadal do Pacífico (OIP). Essas mudanças influenciam na pressão do ar, na temperatura do mar e na di-
reção do vento, fenômenos que podem durar de semanas a décadas, dependendo da oscilação.

El Niño
Aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico tropical, influenciando diretamente a distribuição da temperatura da
superfície da água e o clima de diversas regiões do planeta.
Ventos alísios. O El Niño faz com que esses ventos soprem com menos intensidade, interrompendo a ressurgência e
provocando mudanças significativas nos climas de várias regiões.

Anomalia de temperatura da superfície do mar – dezembro de 1997

Esquema explicativo do funcionamento do El Niño

Influência do El Niño
Os Estados Unidos são afetados por secas intensas. Na Índia, as temperaturas sobem consideravelmente, e tempestades
torrenciais castigam todo o território australiano.

Efeitos do El Niño no Brasil


§ Norte.
§ Centro-Oeste.
§ Nordeste.

217
§ Sudeste.
§ Sul.

La Niña
Esquema explicativo do funcionamento do La Niña.

O La Niña é um fenômeno exatamente inverso ao El Niño. Em virtude do aumento da força dos ventos alísios, o La Niña
provoca o esfriamento irregular das águas do Pacífico. No Brasil, o La Niña causa intensificação das chuvas na Amazônia,
no Nordeste e em partes do Sudeste. Na América do Norte e na Europa, por exemplo, ocorre queda das temperaturas.

Aquecimento global
Causas do aquecimento global
Causa do aquecimento global é a intensificação do efeito estufa, fenômeno natural responsável pela manutenção, a emis-
são dos chamados gases-estufa seria o principal problema em questão.
§ Dióxido de carbono
§ Gás metano
§ Óxido nitroso
§ Hexafluoreto de enxofre
§ CFC

O dióxido de carbono (CO2) seria o grande vilão do aquecimento global.

§ Desmatamento das florestas.


§ Poluição dos mares e oceanos.

Consequências do aquecimento global


§ aumento das temperaturas dos oceanos e derretimento das calotas polares;
§ eventuais inundações de áreas costeiras e cidades litorâneas em razão da elevação do nível dos oceanos;
§ aumento da insolação e radiação solar em razão do aumento do buraco na camada de ozônio;
§ intensificação de catástrofes climáticas – furacões, tornados, secas, chuvas irregulares, entre outros fenômenos meteorológi-
cos de difícil controle e previsão; e

218
§ extinção de espécies em razão das condições ambientais adversas para a maioria delas.

Como combater o aquecimento global?


Fontes renováveis e não poluentes de energia e diminuir significativamente ou mesmo abandonar o uso de combustíveis fósseis.
Conscientização social, diminuir a produção de lixo e estimular a reciclagem.
Preservação da vegetação dos grandes biomas e dos domínios morfoclimáticos.

GRANDES BIOMAS DO MUNDO

Grandes biomas do mundo

Mapa com os principais biomas no mundo

Definições e histórico
§ Ecossistema é um sistema integrado e autofuncionante
que consiste em interações dos elementos bióticos e abi-
óticos cujas dimensões podem variar consideravelmente.
§ Bioma é um conjunto de vida (vegetal e animal) defini-
da pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e
identificáveis em escala regional, com condições geocli-
máticas similares e história compartilhada de mudanças,
resultando em uma diversidade biológica própria. Uma cidade como Los Angeles pode ser um ecossistema, mas não um bioma.

219
Sistema de Holdridge

Florestas tropicais

§ Baixas altitudes e próximas do equador, entre os trópicos de Câncer (30o N) e Capricórnio (30o S). No Brasil: floresta
Amazônica e mata Atlântica.
§ 6% da Terra, abriga mais da metade das espécies de plantas e animais do planeta.

A diversidade biológica é a grande característica das florestas tropicais.

§ Maior produtividade biológica da Terra.

220
§ Árvores que alcançam entre 18 e 46 metros de altura.

Queda de folhas forma a serrapilheira, lixiviação, o solo de uma floresta tropical seja pobre em nutrientes.

Floresta estacional no outono

Florestas temperadas
§ Entre os polos e os trópicos.
§ Decídua.
§ Florestas decíduas caducifólias.

Entre os polos e os trópicos, as florestas temperadas têm as estações dos anos bem definidas.

221
§ Solos são abundantes em matéria orgânica
§ Poucas espécies de plantas.

Savanas

§ América do Sul, África e Austrália.


§ Longos períodos de seca com incidência de fogo.
§ A vegetação é herbácea com arbustos espaçados.
§ Bosques e campos.

Campos temperados
A vegetação é herbácea, geralmente baixa.
De todos os biomas, esse é o mais utilizado e transformado por ações humanas. Diversos alimentos são produzidos nesses
biomas, como arroz e milho, além da criação de bovinos para leite e corte.

A agropecuária confunde e muda a paisagem dos campos temperados.

Desertos
§ Reduzida precipitação.

222
§ Áreas de alta pressão.
§ Clima é geralmente quente, embora existam desertos frios.
§ Oscilação de temperatura, que pode variar em até 30 °C entre a manhã e a noite.

Os desertos possuem pouca vida animal e vegetal.

§ Vegetação é rara e espaçada.


§ Plantas perenes.

Saguaro

§ A diversidade animal é pequena.

Taiga

§ Floresta setentrional de coníferas.


§ Abaixo do Círculo Polar Ártico, limitando o domínio.
§ Estações bem distintas, com o predomínio do inverno sobre o verão.

223
§ Árvores de conífera.

Tundra

§ Baixa temperatura.
§ Estações de crescimento curtas impedem o desenvolvimento de árvores.
§ Líquenes, musgos, ervas e arbustos baixos.
§ Círculo Polar Ártico, acima dos 57° N.
§ Um inverno longo e frio, com noites contínuas, e um verão curto, com temperaturas amenas.

Chaparrais
§ Região do Mediterrâneo.
§ Califórnia.
§ México.
§ Chile.

224
Hotspots ambientais
Em biogeografia, hotspots são pontos ou manchas de altís-
sima biodiversidade.

§ Arbustos e árvores de pequeno e médio porte.


§ O fogo é um fator ecológico relevante.

A mata Atlântica é um dos hotspots ambientais da Terra.

Existência de espécies endêmicas, isto é, restritas a um ecos-


Moradia na região próxima ao mar Mediterrâneo sistema específico, e grandes taxas de destruição do habitat.

Os 34 hotspots ambientais do mundo

225
U.T.I. - Sala
1. (AVAJ 2020) A ciência representa todo o conhecimento
adquirido através da pesquisa, estudo, ou da prática, ba-
seado em princípios certos. Ela pode ser definida a partir
de seus objetos de estudo e princípios metodológicos,
relacionando – se aos fenômenos humanos ou naturais.
A geografia é muito importante para a compreensão do
mundo em que vivemos, pois é a ciência que estuda o es-
paço geográfico e todas as suas inter-relações (socieda-
de X natureza), o qual está em constante transformação.
Além do espaço geográfico, as Categorias de Análise ge- 6. (IFSul-2019) “São formas do relevo mais ou menos
ográficas são conceitos fundamentais para a geografia, a planas ou suavemente onduladas, em geral de grande
exemplo da paisagem e do território. Com base em seus extensão e que o processo de deposição de sedimentos
conhecimentos sobre o assunto, defina essas categorias. supera o de desgaste”.

2. (Adaptado - Uece) A partir da citação de E. Hunting- ADAS, Melhem; ADAS, Sergio. Expedições Geográficas
ton : “Os climas temperados são excelentes para a civi- (6º ano). São Paulo: Moderna, 2015. p. 109.
lização... o calor excessivo, debilita... e o frio excessivo,
O fragmento de texto revela o conceito de qual forma
estupidifica”. Indique qual a corrente do pensamento
de relevo?
geográfico presente no texto e justifique sua resposta.
7. (COPEVE / UFAL 2017) A figura mostra os processos
3. (UFPR-2019) Os desastres naturais constituem um tema
tectônicos que formam o território japonês.
cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, indepen-
dentemente de residirem ou não em áreas de risco. Ainda
que num primeiro momento o termo nos leve a associá-los
com terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, ciclones
e furacões, os desastres naturais contemplam, também,
processos e fenômenos mais localizados, tais como desli-
zamentos, inundações, subsidências e erosão, que podem
ocorrer naturalmente ou induzidos pelo homem.
No [...] Brasil de uma forma geral, embora estejamos
livres dos fenômenos de grande porte e magnitude,
como terremotos e vulcões, é expressivo o registro de ac-
identes e mesmo de desastres associados principalmente
a escorregamentos e inundações, acarretando prejuízos
e perdas significativas, inclusive de vidas humanas.
(TOMINAGA et al., 2009.) O mergulho das placas tectônicas mostrado na figura
representa o movimento de placas do tipo:
Nos textos os autores afirmam que o Brasil está livre de
fenômenos como terremotos e vulcões. Justifique essa 8. (AVAJ / Modificada)
afirmativa.

4. (UEPI) A Teoria da Tectônica de Placas explica diversos


tipos de estrutura verificados na Litosfera. Observe a
ilustração a seguir.
De acordo com essa teoria, esse desenho esquemático
ilustra o (a):

Fonte: http://geoconexaomundo.blogspot.com.br/2012/08/charges-
aquecimento-global.html. Acesso em: 26-03-20

5. (Comvest 2003 / Adaptado) identifique às formas de Que praticas seriam mais viáveis para minimizar o efei-
relevo encontradas no bloco-diagrama, obedecendo à to acelerado do aquecimento global provocado pelas
sequência da ordem alfabética (A, B, C, D e E). atividades da civilização moderna?

226
9. (IESES 2017 / adaptada) O esquema acima é chamado de diagênese, que descreve
o processo de formação das rochas sedimentares. Discor-
ra sobre esse processo.

2. As bacias sedimentares se formaram a partir da era


Paleozoica, entrando também pela Mesozoica e pela
Cenozoica. Nesses terrenos, encontramos recursos com-
bustíveis fósseis, como o petróleo, o gás natural e o car-
vão mineral. A partir dos seus conhecimentos, explique
a formação do petróleo em áreas oceânicas.

3. A chuva é um dos agentes erosivos mais ativos, pois


provoca enchentes e enxurradas. Dependendo do grau
de intensidade das chuvas, ocorre erosão pluvial do
tipo superficial, laminar, de sulcos e de ravinamento.

Fonte: https://slideplayer.com.br/slide/15455465/, acesso em:27-03-20

Sobre o perfil dos solos, caracterize cada horizonte do solo:

10. (COPEVE/ UFAL 2017)

A figura anterior representa um processo de erosão. De-


fina esse processo e explique por que ele ocorre.

4.

As figuras mostram uma forma de identificar quais sis-


remas de dobras?

U.T.I. - E.O.
1.

EROSÃO

TRANSPORTE
a) Qual é a importância econômica dos escudos cristali-
nos e das bacias sedimentares?
b) Explique o processo de formação das estruturas geológi-
DEPOSIÇÃO
cas que compõem o relevo brasileiro.

5. Os fenômenos naturais podem acabar em desastres


SEDIMENTAÇÃO quando há uma relação inadequada entre o homem e a
natureza. Nas grandes cidades brasileiras, as vertentes
íngremes, consideradas a priori como zonas ilegais para
a construção, foram ocupadas por construções precá-
COMPACTAÇÃO rias, que acabaram, posteriormente, sendo legalizadas,
deixando seus moradores em situação de risco.
Adaptado de TEIXEIRA, WILSON et alii. Decifrando a
ROCHA SEDIMENTAR Terra. São Paulo: Ed. Oficina de Texto, 2000.

227
7. Atividades agrícolas podem degradar os solos, e a in-
tensidade dessa degradação varia conforme a natureza
do solo, uso da terra, tipo de cultura, técnicas utilizadas
e contexto geográfico de clima e relevo. Ao longo de
anos, por exemplo, pode ocorrer a perda de milhares de
toneladas de solos agricultáveis.

Igo F. Lepsch. Formação e conservação dos solos.


Oficina de Textos, 2010. Adaptado.
*Perda por erosão referente a um mesmo tipo de solo.

a) Cite um processo responsável pela degradação dos


A partir do texto e da foto, solos na zona intertropical brasileira. Justifique.
a) indique duas variáveis capazes de explicar o movi- b) Cite e explique uma medida conservacionista para di-
mento de terra observado na foto; minuir a degradação dos solos.
b) explique como os cortes nas encostas e os aterros re-
alizados pelos próprios moradores, sem planejamento
ou infraestrutura adequada, tendem a agravar a situ-
ação de risco.

6. Analise a representação cartográfica do estado de


São Paulo.

a) Caracterize dois fatores naturais do Oeste Paulista que


condicionam o seu grau de suscetibilidade à erosão.
b) Os processos erosivos podem ser minimizados ou con-
trolados com a aplicação de práticas conservacionistas.
Dentre as práticas, cite uma de caráter edáfico e outra de
caráter mecânico.

228
Caro aluno

Você está recebendo o primeiro livro da Unidade Técnica de Imersão (U.T.I.) do Hexag Vestibulares.
Este material tem o objetivo de retomar os conteúdos estudados nos livros 1 e 2, oferecendo um
resumo estruturado da teoria e uma seleção de questões dissertativas que preparam o candidato
para as provas de segunda fase dos principais vestibulares. Além disso, as questões dissertativas per-
mitem avaliar a capacidade de análise, organização, síntese e aplicação do conhecimento adquirido.
É também uma oportunidade de o estudante demonstrar que está apto a expressar suas ideias de
maneira sistematizada e com linguagem adequada.
Aproveite este caderno para aprofundar o que foi visto em sala de aula, compreender assuntos que
tenham deixado dúvidas e relembrar os pontos que foram esquecidos.
Bons estudos!

Herlan Fellini

SUMÁRIO

BIOLOGIA
BIOLOGIA 1 231
BIOLOGIA 2 251
BIOLOGIA 3 275

FÍSICA
FÍSICA 1 291
FÍSICA 2 303
FÍSICA 3 323

QUÍMICA
QUÍMICA 1 339
QUÍMICA 2 353
QUÍMICA 3 373
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2021
Todos os direitos reservados.

Autores
Caco Basileus
Edson Yukishigue Oyama
Felipe Filatte
Herlan Fellini
Kevork Soghomonian
Joaquim Matheus Santiago Coelho
Larissa Beatriz Torres Ferreira
Marcos Navarro

Diretor-geral
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Diretor editorial
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Coordenador-geral
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Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


Hexag Sistema de Ensino

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Leticia de Brito Ferreira
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BIOLOGIA 1

231
ORIGEMEXPERIMENTO
DA VIDA DE REDI

Teorias sobre a origem da vida larvas

Filósofos importantes, como Platão e Aristóteles, aceita-


vam certa explicação sobre a origem dos seres vivos. Dessa
interpretação, surgiu a teoria da geração espontânea ou
teoria da abiogênese, segundo a qual todos os seres vivos
originam-se da matéria bruta de modo contínuo. ausência
de larvas
Essa teoria, entretanto, foi contestada por vários cientistas,
que por meio de seus experimentos provaram que um ser
vivo só se origina de outro ser vivo. Surgiu, então, a atual-
mente aceita teoria da biogênese. frasco aberto frasco fechado com gaze
Experimento realizado por Redi, cujo
§ Teoria da abiogênese: os seres vivos originam-se da resultado reforçou a teoria da biogênese.

matéria bruta de maneira contínua. Principais defen-


sores: Aristóteles, Platão, Needhan, Virgílio, Aldovandro, Pasteur
Kricher e Van Helmont. Louis Pasteur, por volta de 1860, por meio de seus céle-
§ Teoria da biogênese: os seres vivos originam-se de bres experimentos com balões do tipo “pescoço de cisne”,
outros seres vivos. Principais defensores: Redi, Spallan- conseguiu provar definitivamente que os seres vivos origi-
navam-se de outros seres vivos. Além disso, constatou a
zani e Pasteur.
presença de micróbios no ar atmosférico.

Redi Este experimento mostra que um líquido, ao ser fervido, não per-
de a “força vital”, como defendiam os adeptos da abiogênese,
Por volta de 1660, Francesco Redi começou a combater a pois quando o pescoço do balão é quebrado, após a fervura do
teoria da geração espontânea. Para isso, colocou pedaços líquido, há aparecimento de seres vivos. O experimento rebate
de carne crua dentro de frascos, deixando alguns abertos e ainda outro argumento dos adeptos da abiogênese: a forma-
outros fechados com gaze. Veja esquema do experimento ção de ar viciado impróprio para a vida. O líquido fervido fica,
ao lado. neste caso, em contato com o ar atmosférico através do pes-
coço do balão e não ocorre o aparecimento de seres vivos, pois
Dessa forma, constatou a presença de numerosos ovos e
as gotículas de água que se acumulam nesse pescoço retêm
larvas de insetos sobre a gaze que fechava o recipiente e a
os micróbios contidos no ar que penetra no balão. A partir dos
ausência deles sobre a carne ali contida. Esse experimento
experimentos de Pasteur, a teoria da biogênese passou a ter
demonstrou que os insetos eram atraídos pela carne e que
preferência nos meios científicos.
o aparecimento de larvas era, portanto, proveniente
EXPERIMENTO dos
DE REDI
numerosos ovos colocados por esses animais. Os resulta- A hipótese da evolução gradual dos
dos de Redi fortaleceram a teoria da biogênese.
sistemas químicos
larvas
Essa hipótese sugere que moléculas orgânicas complexas
foram formadas a partir de moléculas simples nas condições
da Terra primitiva, antes do aparecimento dos seres vivos. Os
gases amônia (NH3), hidrogênio (H), metano (CH4) e vapor
de água da atmosfera primitiva, ao sofrerem os efeitos das
fortes descargas elétricas provenientes das frequentes tem-
pestades e da influência acentuada dos raios ultravioleta do
ausência
Sol, reagiram entre si, formando moléculas orgânicas sim-
de larvas
ples (aminoácidos, açúcares, álcoois). Essas moléculas teriam
sido, então, arrastadas pelas águas da chuva e se acumulado
nos mares primitivos, onde outras reações teriam ocorrido.
frasco aberto frasco fechado com gaze
Substâncias orgânicas formaram uma “sopa nutritiva’’.

232
As moléculas de proteína aproximam-se, formando vá- levando muito tempo para se tornarem complexos; portanto,
rios aglomerados proteicos envoltos por várias molécu- os biólogos não aceitam a hipótese autotrófica, porque ela
las de água. Esses aglomerados foram chamados por vai contra a teoria da evolução.
Oparin de coacervados.
Esses coacervados não eram seres vivos, mas sim A hipótese heterotrófica
uma primitiva organização das substâncias orgâni-
cas, principalmente de proteínas. Supõe que a forma mais primitiva de vida se desenvolveu
de matéria não viva, formando-se em um ambiente com-
Apesar de isolados, os coacervados podiam trocar subs- plexo um ser muito simples, incapaz de fabricar seu alimen-
tâncias com o meio externo, sendo que, em seu interior, to. A hipótese heterotrófica supõe que um ser muito sim-
havia margem para inúmeras reações químicas, permitindo ples evoluiu, vagarosamente, da matéria inanimada, e que
a duplicação e, assim, os primeiros seres vivos. isso aconteceu há milhões de anos, mas não ocorre mais.
De acordo com a hipótese heterotrófica, a vida teria surgido
O experimento de Miller por meio das seguintes etapas, ilustradas ao lado:
Stanley L. Miller construiu um aparelho que simulava as FORMAÇÃO DE AMINOÁCIDOS
condições da Terra primitiva e introduziu nele os gases que
provavelmente constituíam a atmosfera naquela época. FORMAÇÃO DE PROTEÍNAS CAPACIDADE DE REPRODUÇÃO
Esses gases foram amônia (NH3), hidrogênio (H), metano
APARECIMENTO DE AUTÓTROFOS
(CH4) e vapor de água. FORMAÇÃO DE COACERVADOS

ELETRODOS

TUBO PARA
SURGIMENTO DE HETERÓTROFOS PREDOMÍNIO DE AUTÓTROFOS
CRIAR VÁCUO POLO POSITIVO POLO NEGATIVO

AMÔNIA
METANO
HIDROGÊNIO OBTENÇÃO DE ENERGIA APARECIMENTO DE AERÓBIOS
VAPOR D’AGUA
SÁIDA DO VAPOR

CONDENSADOR
ENTRADA DE ÁGUA

ÁGUA FERVENTE PARA


GERAR VAPOR
Formação de proteínas
Na Terra primitiva, os aminoácidos teriam chegado às rochas
carregados pelas chuvas. A evaporação da água teria deixa-
RESULTADOS PARA
ANÁLISE

Experimento de Miller do os aminoácidos secos sobre a superfície das rochas quen-


tes. Em tais condições, teria ocorrido a formação de ligações
A água, ao ferver, forma vapor e promove a circulação em
peptídicas (síntese por desidratação) pela evaporação de
todo o sistema, de acordo com o sentido das setas. No
água e a consequente formação de proteínas; posteriormen-
balão em que se encontra a mistura gasosa, ocorrem des-
te, tais proteínas seriam levadas aos oceanos pelas chuvas.
cargas elétricas, simulando os raios que, naquela época,
deviam ocorrer com frequência.
Surgimento dos heterótrofos
Então, o experimento de Miller demonstrou que molécu-
Pode-se afirmar que não havia camada de ozônio na Terra
las orgânicas (aminoácidos) poderiam ter-se forma-
primitiva, portanto, a temperatura da superfície terrestre era
do nas condições da Terra primitiva, o que reforça a
muito alta.
hipótese da evolução gradual dos sistemas químicos.
Nesse cenário, as combinações de elementos simples le-
A hipótese autotrófica vavam à formação de substâncias complexas. Assim, foi
possível a formação de seres unicelulares heterótrofos. A
Como todo ser vivo necessita de alimento para sobreviver, única fonte de energia disponível era a própria sopa nutri-
é lógico admitir que os primeiros seres vivos tenham sido tiva (sem O2); portanto, eram heterótrofos fermentadores
capazes de produzi-lo, isto é, tenham sido autótrofos. Contra – liberavam CO2.
essa hipótese, existe uma objeção de que os autótrofos sin-
tetizam alimentos orgânicos (a partir de substâncias inor- Capacidade de reprodução
gânicas) à custa de uma série extremamente complexa Graças a sua capacidade de retirar alimentos e energia do
de reações químicas, exigindo que o organismo também meio e organizar as moléculas em padrões definidos, os
seja complexo. Acontece, porém, que a teoria da evolução heterótrofos anaeróbios primitivos teriam crescido gradati-
biológica, contra a qual não há objeções sérias, afirma vamente, a tal ponto que teria surgido a luta pela sobrevi-
que os primeiros seres vivos devem ter sido bastante simples, vência devido a problemas no volume celular.

233
Nessas condições, eles teriam perecido ou teriam se dividido, Aparecimento dos aeróbios
como meio de reduzir o volume. Nos organismos bem-suce-
didos, teriam surgido os ácidos nucleicos, moléculas que con- Os primeiros autótrofos, a partir de um suprimento de CO2,
trolam os processos básicos de reprodução e organização. Em enzimas de ATP e aparecimento de uma molécula (talvez a
tais condições, o primitivo organismo que tivesse DNA teria clorofila, capaz de absorver a energia luminosa), realizariam
encontrado o meio para se duplicar exatamente, transmitindo uma primitiva fotossíntese.
aos seus descendentes o mesmo padrão de organização con- No processo de fotossíntese, liberam-se moléculas de oxigênio.
seguido após todo o tempo de evolução transcorrido. Portanto, podemos supor que uma certa quantidade de gás te-
nha-se acumulado gradativamente, durante milhares de anos,
Aparecimento dos autótrofos como consequência do aparecimento dos autótrofos. Todavia,
a utilização de oxigênio para a obtenção de energia a partir da
Ao longo do desenvolvimento da vida na Terra, houve diversas
glicose libera muito mais energia do que a retirada de energia
mutações no material genético dos seres vivos. A partir delas,
na ausência de oxigênio, pois a fermentação fornece um sal-
há cerca de 2,7 bilhões de anos atrás, surgiram seres vivos
do energético de apenas 2 ATP, enquanto, na reação com o
unicelulares com capacidade de sintetizar matéria orgânica a
oxigênio, o saldo é de 38 ATP. Teriam, então, levado vantagem
partir de matéria orgânica, ou seja, organismos autótrofos.
os organismos capazes de executar respiração aeróbia, pois,
assim, retirava-se mais energia do alimento disponível.

EVIDÊNCIAS EVOLUTIVAS

A ideia de evolução Evidências evolutivas


A evolução biológica consiste no conjunto de modifica-
ções (mutações) sofridas pelas espécies ao longo de muito
Fósseis
tempo. Essas modificações podem permitir à espécie uma Correspondem à principal e mais notável evidência a favor
melhor adaptação ao meio em que vive, ou seja, realizar do transformismo e, portanto, da evolução. São, por definição,
com mais eficiência seus comportamentos reprodutivo, ali- restos ou vestígios de organismos de épocas remotas conser-
mentar e de exploração de seu habitat. vados até a atualidade. Representam uma evidência evolutiva,
pois mostram-nos que os organismos não foram criados si-
Portanto, uma espécie evoluída é adaptada ao meio em que multaneamente, ou seja, há fósseis de diferentes idades.
vive, não importando o seu grau de complexidade.
Logo, é interessante observar que tanto organismos sim- Datação radioativa dos fósseis
ples, como as bactérias, ou complexos, como os mamíferos, A idade de um fóssil pode ser estimada pela medição de
estão adaptados ao ambiente em que vivem. elementos radioativos presentes nele ou na rocha em que
está fossilizado. Em princípio, quanto mais profundo o ter-
As espécies reno, mais antigo é o fóssil.
Caso o fóssil apresente substâncias orgânicas em sua cons-
Espécies consistem em um conjunto de indivíduos, se-
melhantes anato, fisio e filogeneticamente, capazes de tituição, sua idade pode ser calculada com razoável precisão
realizar fluxo gênico entre si por mecanismos reprodu- pelo método do carbono-14 (14C), um isótopo radioativo
tivos diversos, com produção de descendentes com as do carbono (12C).
mesmas propriedades de transmissão hereditária.

Conceitos
Durante muito tempo, acreditou-se que os seres vivos que
conhecemos hoje, quase 2 milhões de espécies, fossem
exatamente iguais à época de sua criação. Essa teoria é
conhecida como fixismo.
Já o transformismo ou evolucionismo propõe que as es- Estudo comparativo ósseo entre membros anteriores (da esquerda
pécies são mutáveis, ou seja, modificam-se ao longo do tempo. para a direita) de homem, gato, baleia e morcego.

234
Anatomia comparada Estruturas análogas apresentam a mesma função ou papel
biológico, porém, apresentam origens embriológicas distintas.
No estudo dos vertebrados, é evidente que existe um padrão Veja a figura a seguir:
esquelético: um crânio ligado a uma coluna vertebral, que
apresenta uma cintura escapular, nela se conectam os mem-
bros anteriores e uma cintura pélvica, na qual estão conecta-
dos os membros posteriores. Portanto, todos os vertebrados,
apesar de diferentes, apresentam características em comum,
o que mostra parentesco e indica um ancestral comum, que,
por evolução, deu origem a todos os subgrupos.

Embriologia comparada
O estudo embriológico dos animais mostra que quanto mais
inicial é a fase de desenvolvimento do embrião, maiores
são as dificuldades de diferenciação e identificação do
grupo estudado. Isso quer dizer que o desenvolvimen-
to embriológico dos animais é extremamente semelhante
nas suas fases iniciais, ocorrendo a diferenciação só mais
tardiamente. Logo, entre espécies ou grupos evolutivamente
próximos existe uma semelhança embriológica muito grande
quanto às fases iniciais do desenvolvimento.

Bioquímica, biologia e Representação de homologia e analogia

genética molecular A homologia é evidente no processo de formação das es-


pécies, a partir de um ancestral comum, e caracteriza o que
Recentemente, estudos nas áreas da bioquímica, biologia e ge- chamamos de irradiação adaptativa.
nética molecular têm mostrado que a presença das mesmas pro-
teínas em organismos de grupos diferentes indica semelhança Estruturas vestigiais
no aparato metabólico e hereditário, o que, sem dúvida nenhu-
Trata-se de características biológicas encontradas em alguns
ma, evidencia parentesco e, portanto, ancestralidade comum.
grupos de seres vivos e que não são mais funcionais em ou-
tros grupos. Como exemplo, na espécie humana, podemos ci-
Homologias e analogias tar os músculos que movem as orelhas, a membrana nictante
Estruturas homólogas apresentam a mesma origem em- nos olhos, o apêndice intestinal, a musculatura abdominal, os
briológica, porém, podem ter destinos funcionais diferentes. dentes do siso e a presença de pelos cobrindo o corpo.

TEORIAS EVOLUTIVAS

As ideias de Lamarck mais altos das árvores, que provocariam um desenvolvimento


de ossos e músculos. As girafas com pescoços desenvolvidos
Lamarck acreditava que as características necessárias à transmitiriam essa característica a seus descendentes. Logo, ao
adaptação em um certo ambiente pudessem ser adquiri- longo das gerações, todas as girafas teriam pescoços grandes.
das, simplesmente, pelo uso intensivo do órgão ou estrutu- Para Lamarck, portanto, o ambiente tem um papel direcionador
ra envolvida (1), e que essa “transformação” pudesse ser na modificação das características, ou seja, na adaptação dos
transmitida aos descendentes, ou seja, hereditariamente organismos, uma vez que estes se modificam para atender às
(2). Logo, o lamarquismo está baseado em dois pontos: necessidades impostas pelo meio.
1. Lei do uso e desuso
2. Transmissão hereditária de caracteres adquiridos
Vejamos, neste exemplo, a aplicação dessa ideia: o compri-
Darwinismo
mento do pescoço das girafas pode ser entendido, se atentar- Darwin, por sua vez, defende a evolução em si como um
mos aos esforços diários nas tentativas de alcançar os ramos processo lento e gradual de pequenas mudanças, que vão

235
se acumulando de geração em geração até que resultem em § O mimetismo batesiano (de defesa) consiste na imita-
uma grande mudança em relação aos indivíduos ancestrais. ção de um modelo tóxico ou perigoso por espécies “não
repulsivas” ou inofensivas, que se privam de ser predadas.
Em seu livro A origem das espécies, Darwin expôs a sua
teoria da evolução por seleção natural, tomando como § O mimetismo mülleriano consiste na presença de
pontos de partida duas observações: padrões de coloração semelhantes entre espécies tó-
xicas ou impalatáveis. Devido a esta coloração de ad-
§ Os organismos vivos produzem grande número de se-
vertência, ambas ampliam o número de predadores
mentes ou ovos, mas o número de indivíduos nas po-
que passam a evitá-las.
pulações normais é mais ou menos constante, o que só
se pode explicar pela grande mortalidade natural. § O mimetismo reprodutivo é bastante comum entre
plantas que mimetizam a fêmea de insetos e aprovei-
§ Organismos de mesma espécie, ou então de uma po- tam a tentativa de acasalamento para sua polinização.
pulação natural, são muito variáveis em forma e com-
portamento, sendo a variabilidade muito influenciada Camuflagem
pela hereditariedade.
Trata-se de um conjunto de técnicas e métodos que permite
Portanto, havendo grande variabilidade e grande mortalida- a um organismo permanecer indistinto do ambiente que o
de, uns organismos terão maior probabilidade de deixar des- rodeia. A camuflagem pode ser vantajosa para o predador,
cendentes do que outros: a tal tipo de reprodução seletiva, que cerca a presa sem ser percebido, e para a presa, que se
Darwin chamou seleção natural. Como Darwin demonstrou, a confunde com o meio, passando despercebida pelo predador.
seleção natural ou “luta pela vida com sobrevivência do mais § Homocromia consiste na coloração semelhante do or-
apto” é o fator orientador da evolução, mas não a causa das ganismo com a do meio onde vive: cascas, galhos e folhas
variações, que ele foi incapaz de descobrir. A dificuldade de de árvores, cor da areia etc.
Darwin só foi resolvida com a descoberta das mutações ex-
§ Homotipia consiste na semelhança do indivíduo com
postas pelo mutacionismo, no século XX, por Hugo de Vries,
a forma de estruturas presentes no meio onde vive. É o
que são responsáveis pela origem das variações.
caso dos insetos bicho-folha e bicho-pau, que se asse-
O principal ponto do darwinismo, portanto, é a teoria da melham a folhas e gravetos, respectivamente.
seleção natural, que é a escolha que o ambiente faz das
características mais aptas.
Portanto, o darwinismo pode ser entendido sob três pon-
Neodarwinismo – teoria
tos básicos: sintética da evolução
1. Variabilidade intraespecífica
Na época em que Darwin propôs a sua teoria, os mecanis-
2. Seleção natural
mos da herança biológica não eram conhecidos. Apesar de
3. Adaptação
ter sido contemporâneo de Gregor Mendel – pai da genética
O meio ambiente e a adaptação –, eles não se conheceram. Descobertas recentes (século XX),
nos campos da genética, biologia molecular e paleontologia,
Segundo Lamarck, o ambiente tem um papel ativo, deram origem a uma teoria moderna de evolução conhecida
pois atua como um fator de modificação das espécies. Para como neodarwinismo ou teoria sintética da evolução,
Darwin, o ambiente tem um papel passivo, pois atua que integra esses novos conhecimentos às ideias de Darwin,
apenas selecionando as variações mais aptas preexistentes. esclarecendo principalmente as causas da variabilidade.
Ele não conhecia os mecanismos de transmissão hereditária. A moderna teoria sintética da evolução envolve quatro fato-
Isso só foi elucidado com o advento da genética. res básicos: mutação, recombinação genética, sele-
ção natural e isolamento reprodutivo. Os dois primeiros
Exemplos de vantagens adaptativas determinam a variabilidade genética, que é orientada pelos
dois últimos. Três processos acessórios também atuam no pro-
Mimetismo cesso: migração, hibridação e oscilação genética.
Determinados organismos, denominados mímicos, apre- A migração é responsável pelo fluxo gênico, que traz à po-
sentam características que os confundem com outro grupo pulação novos genes. A hibridação consiste no cruzamento
de organismos, os modelos. Em geral, essa semelhança entre popuIações com patrimônios genéticos diferentes. A
dá-se pelo padrão de coloração, textura, forma corporal, oscilação genética ocorre, quando, em populações finitas
comportamento, constituição química. Ela confere ao mí- pequenas, o equilíbrio de Hardy-Weinberg é alterado pelo
mico uma vantagem adaptativa. Existem três tipos de mi- tamanho da população. Se ocorrer mutação rara, o número
metismo: batesiano, mülleriano e reprodutivo. de portadores da mutação será baixo e, pela sua morte,

236
desaparecerá da população. Poderá aparecer novamente, As mutações são aleatórias, ocorrem ao acaso sem que
quando e se ocorrer nova mutação. Esses fatores podem haja relação com a utilidade ou não para que ela venha a
contribuir para a variabilidade genética. ocorrer. Em razão disso, alterações no DNA não são uma
Sob a designação de variabilidade, enquadramos as diferen- estratégia do organismo para se adaptar a alguma situ-
ças existentes entre os indivíduos da mesma espécie. As fontes ação. No entanto, caso ocorra uma mutação favorável,
de variabilidade são as mutações e a recombinação genética. ela será selecionada positivamente; assim, a população
desses indivíduos portadores dessa mutação tenderá a
As variações são submetidas ao meio ambiente, que, pela
seleção natural, conserva as favoráveis e elimina as desfavoráveis. aumentar. Observe-se que mutações não são necessaria-
Assim, quando as condições ambientais se modificam, algumas mente benéficas, podem ser neutras ou prejudiciais para
variações serão vantajosas e permitirão, então, aos indivíduos o organismo.
que as apresentam sobreviver e produzir mais descendentes do A seguir, alguns outros exemplos de seleção natural:
que aqueles que não as têm. Resumindo, temos:
§ Melanismo industrial: industrialização na Inglaterra,
1. Variabilidade intraespecífica
as mariposas claras e escuras.
§ mutação
§ recombinação genética: crossing-over § Resistência de bactérias a antibióticos.
2. Seleção natural § Resistência de moscas ao DDT.
3. Adaptação
Porém, a recombinação genética (crossing-over) pro- Seleção sexual
move o embaralhamento dessas modificações. As muta-
ções ocorrem em todo e qualquer organismo, enquanto Seleção sexual é a seleção natural voltada para o encontro
que a recombinação genética só ocorre naqueles que so- de parceiros e o comportamento reprodutivo.
frem meiose para produzir gametas, nos animais, e espo- Os leões-marinhos machos, por exemplo, brigam entre si para
ros, nos vegetais. Logo, os organismos que se reproduzem demarcar um território e, normalmente, o maior e mais forte
sexuadamente apresentam uma variabilidade muito maior conquista mais fêmeas, logo, deixarão mais descendentes.
em suas populações do que os organismos que se reprodu-
zem assexuadamente, uma vez que sofrem meiose.
Seleção artificial
Tipos de seleção natural A seleção artificial é conduzida pelo homem, consiste na
• Seleção direcional: ocorre quando as condições adaptação e/ou seleção de seres vivos – animais e plantas
ambientais favorecem um único fenótipo. –, cujo objetivo é realçar determinadas características desses
• Seleção estabilizadora: favorece indivíduos de organismos, como a produção de carne, leite, lã e frutas.
fenótipos intermediários, eliminando aqueles de Darwin chegou à conclusão de que a seleção artificial
fenótipos extremos. pode ser comparada à exercida pela natureza sobre as
• Seleção disruptiva: ocorre quando uma popula- espécies selvagens.
ção é submetida a diferentes pressões do ambien-
te, favorecendo indivíduos com fenótipos extremos.

ESPECIAÇÃO
Especiação é o processo evolutivo pelo qual as novas es- (gerando descendentes férteis) e que estão reprodutiva-
pécies se formam. Mas antes de falarmos mais sobre esse mente isoladas de outros grupos semelhantes, em con-
processo, falaremos primeiro sobre o que é uma espécie. dições naturais.
Melhor do que uma única definição para espécie, que facil- § Unidade ecológica: apresenta características
mente a associaria a um termo ou conceito, é preferível consi- próprias e mantém relações bem definidas com o am-
derar diferentes definições. biente e com outras espécies.
§ Definição biológica de espécie: são grupos de po- § Unidade gênica: dotada de um patrimônio gênico ca-
pulações naturais potencialmente capazes de se cruzar racterístico, que não se mistura com o de outras espécies

237
e evolui independentemente. Uma espécie, portanto, é o
maior acervo de genes possível em condições naturais.
Especiação é um evento que separa a linhagem que dá ori-
gem a duas ou mais espécies distintas, resultado de uma trans-
formação gradual de uma espécie em outra (anagênese) ou da Entre organismos da mesma espécie, há fluxo gênico,
separação de uma população em duas (cladogênese). que é consequência da semelhança e identidade genética,
além de mesmo número e tipos de cromossomos.
A origem das espécies
Uma dada população pode ser submetida a uma separação
Redução de fluxo gênico
em subgrupos a partir de um isolamento geográfico. Esse A especiação, no entanto, também pode ocorrer em po-
isolamento pode ser representado por uma cordilheira, rio, pulações sem barreiras extrínsecas específicas para o fluxo
lago, cachoeira, deserto, entre outros, e permitirá a formação gênico. Suponha uma população distribuída em uma am-
de duas subpopulações A e B. Essas subpopulações, ainda pla faixa geográfica em que o acasalamento não é alea-
pertencentes à mesma espécie, estão submetidas à seleção tório. Indivíduos num determinado ponto cardeal não têm
natural de seus meios, que são diferentes. Logo, as adapta- chance alguma de se acasalarem com indivíduos de outro
ções surgidas em uma subpopulação podem ser diferentes da ponto. Esse fluxo gênico reduzido não implica isolamento
outra e vice-versa. Com isso, teremos uma progressiva dife- total dessa população, mas pode ou não ser suficiente para
renciação ao longo do tempo e enquanto durar o isolamen- caracterizar uma especiação. Provavelmente, a especiação
to, até que, com o fim deste, os indivíduos de novas gerações requer a ocorrência de diferentes pressões seletivas nos
das duas subpopulações podem, então, tentar se reproduzir.
diferentes extremos opostos. Algo assim alteraria a frequ-
No entanto, pode ocorrer que eles não mais se encontrem e
ência gênica nesses indivíduos, a ponto de eles não serem
consigam reproduzir-se, o que quer dizer que estão isolados
mais capazes de se acasalarem, caso estivessem reunidos.
reprodutivamente, ou seja, agora pertencem a espécies
diferentes. Porém, mesmo diferenciados, podem conseguir se
reproduzir, significando que não estão isolados reprodutiva-
mente. Deste modo, constituem raças geográficas.
Tipos de especiação
POPULAÇÃO INICIAL
Na especiação, o papel crítico mesmo é a redução do flu-
xo gênico. A classificação dos modos de especiação de-
ISOLAMENTO DIFERENCIAÇÃO
GEOGRÁFICO PROGRESSIVA pende do quanto as espécies incipientes podem se separar
DE LONGA PRESSÕES SELETIVAS geograficamente. Observe na tabela a comparação entre
DURAÇÃO DO MEIO DISTINTAS
alguns dos modos de especiação, que, mesmo diferentes,
podem contribuir para a redução de fluxo gênico.
Origem das espécies – especiação. Hipóteses:
A × B = sem descendentes férteis > isolamento reprodutivo > são diferentes
A × B = com descendentes férteis > há fluxo gênico > subespécies / variedades / raças

Modos de especiação Características Representação

Alopátrica
As populações são geograficamente isoladas.
(alo = outros; pátrica = lugar)

Uma pequena população fica isolada na borda de uma população


Peripátrica (peri = perto)
maior.

Parapátrica (para = ao lado) A população é continuamente distribuída.

Simpátrica (sim = igual) População inserida na população ancestral.

238
Especiação alopátrica mo ocorrendo a cópula, esses mecanismos impedem ou
reduzem seu sucesso. Os principais tipos de isolamento
Ocorre por isolamento geográfico. pós-zigótico são:
§ Mortalidade do zigoto
Especiação peripátrica
§ Inviabilidade do híbrido
É um tipo de especiação com isolamento geográfico, na
qual a maior população é separada da menor. § Esterilidade do híbrido

Especiação parapátrica Zigoto é a primeira célula de um novo indivíduo, for-


mada quando o gameta feminino é fecundado pelo
Isolamento geográfico é um mecanismo que não faz parte
gameta masculino.
desse tipo de especiação. Pode ser devido à adaptação a
essas novas áreas, em que conjuntos de indivíduos, gradu- Híbrido é o nome dado a um indivíduo formado pela
almente, tornam-se espécies distintas. A especiação pode união de indivíduos de espécies diferentes. É o resul-
se caracterizar apenas pela distância entre os grupos. tado da mistura genética entre espécies distintas.

Especiação simpátrica
Contrariamente aos tipos anteriores, a especiação simpátrica
Exceção à regra
não requer distância geográfica em larga escala para redução Apesar de a regra dizer que híbridos são estéreis, há re-
do fluxo gênico entre indivíduos de uma população. A simples gistros de exceções a essa regra com filhotes de mula.
exploração de um novo nicho por uma subpopulação pode
contribuir para a redução do fluxo gênico entre indivíduos.
Cladogramas e parentesco evolutivo
Isolamento reprodutivo O processo da evolução determina o relacionamento entre
espécies. Conforme as linhagens (espécies) evoluem e se-
Pode-se dizer que o isolamento reprodutivo é um subprodu- param-se, herdam as alterações e diferenciam seus cami-
to da especiação. Resume-se à incapacidade total ou parcial nhos evolutivos, é produzido um padrão ramificado de
de os indivíduos de duas subpopulações cruzarem-se. Quan- relações evolutivas.
do elas entram em contato, o isolamento reprodutivo impe-
de a mistura de genes dessas subpopulações. Nesse cladograma, o ramo principal mostra o ancestral
comum, e cada ponto de ramificação são eventos de es-
Mecanismos de isolamento reprodutivo peciação que dão origem a novas espécies, a novas ca-
racterísticas. Cada dicotomia indica um ancestral comum
Esses mecanismos podem ser classificados em pré-zigóticos partilhado. Quanto mais próximos os ramos, maior
e pós-zigóticos. Os mecanismos pré-zigóticos impedem a é o grau de parentesco entre os grupos.
fecundação, consequentemente, a formação do zigoto.
Linhagem do Táxon monofilético
táxon A Táxon parafilético
§ Isolamento estacional ou sazonal (ramo)

§ Isolamento ecológico Linhagem do


táxon D
(ramo)
§ Isolamento etológico ou comportamental