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RECENSÃO CRÍTICA

“Reflexions on fieldwork in Morocco”

Paul Rabinow

Discente: Mariana Maria | 93872

Docente: António Medeiros

Unidade Curricular: Debates Contemporâneos

2021/2022

ISCTE-IUL
O livro “Reflexions on fieldwork in Morocco” foi escrito por Paul Rabinow,
um antropólogo americano, que aborda a cultura marroquina e a importância da
realização do trabalho de campo.

Considero este livro, quase como um diário de campo do antropólogo, pois é


escrito “cronologicamente”, ou seja, relata situações e é-nos transmitido os
sentimentos do autor, desde a sua saída de Chicago (1968) até ao final da sua estadia
em Marrocos, que durou dois anos. Na época em que Paul Rabinow realizou esta
viagem, “the world was divided into two categories of people: those who had done
fieldwork and those who did not; these were not anthropologists 'really', regardless of
what they knew about anthropological topics” (Rabinow, 1997, p. 3). Desta forma, o
autor faz esta viagem para se “completar” como antropólogo e “deixar claro” que
existe uma relação coesa entre o trabalho de campo e as teorias/conceções académicas.

Foi através do espírito de grupo, que se deu início à formação daquilo a que
chamamos sociedade, na qual as pessoas coexistem, entreajudam e por isso
sobrevivem. O mesmo acontece com a realização dos trabalhos de campo, ou seja,
estes só conseguem “sobreviver”, se o antropólogo conseguir obter informação de um
indivíduo que esteja disposto a cooperar, ou seja, a ajudá-lo.

O antropólogo conta-nos todos os encontros que teve com todos aqueles que
lhe forneceram manancial informativo desde a sua chegada a Marrocos (Planície de
Sais), ou seja, desde o seu primeiro contacto com o Sr.Richard aos restantes elementos,
como Ali, Ibrahim e Malik. Através da leitura do livro é-nos permitido reconhecer que
a maioria dos elementos de Rabinow pertenciam à classe média e estavam relacionados
com redes de prostituição e chantagem pecuniária, porém, possuíam negócios que
serviam como disfarce,branqueando os lucros obtidos nos negócios ilícitos. O facto de
alguns desses elementos pertencerem à classe média, permitiu ao autor obter um certo
estatuto na sociedade marroquina.

Malik, um dos elementos de Rabinow, possuía uma posição social elevada e,


por conseguinte, todos os residentes das aldeias mais próximas respeitavam-no. Desta
forma, Malik era um elemento “valioso” para o antropólogo, pois era uma pessoa
rigorosa e regrada, que lhe abriu novos campos de estudo, como o parentesco. Para
além disso, a relação entre o antropólogo e Malik legitimou a presença do primeiro
como pesquisador social. Desta forma, o autor salienta a importância dos elementos
informantes durante a realização do trabalho de campo, visto que estes é que
permitiram que ele obtesse informação, assim como, um estatuto dentro da sociedade
marroquina. Outro fator interessante consiste no autor possuir apenas informadores do
género masculino, todavia, interessou-se pelo dia-a-dia das mulheres que eram
parentes dos seus amigos, assim como, o papel das mulheres no “trabalho sexual” em
Sefrou.

A “barreira social” entre o antropólogo e a sociedade marroquina devido às


diferenças culturais, foi outro fator que me interessou. O autor elucida-nos, para a sua
dificuldade na integração social nas aldeias, antes de obter o estatuto de pesquisador
“However much one moves in the direction of participation, it is always the case that
one is still both an outsider and an ob- server. That one is an outsider is incessently
appar- ent. The cloud of official approval always hung over me, despite my attempts to
ignore it…” (Rabinow, 1997, p. 79). Sempre que o autor tentava comunicar com algum
indivíduo marroquino, tinha que ultrapassar uma “barreira” criada pelos estereótipos,
que eram gerados pelo “medo” da diferença. Por conseguinte, o autor salienta a
importância da abordagem à cultura durante a observação participante, pois através da
informação recolhida, da interpretação de factos e das atividades do quotidiano, ele
percebeu que a cultura não possui uma única forma, visto que todo o facto cultural
pode ser interpretado e explicado de múltiplas maneiras.

Na minha opinião, este receio da diferença é bem visível, em algumas ocasiões


tais como: quando o autor chegou a uma aldeia e pensavam que o propósito dele era
espalhar a sua fé; também quando desapareceram ovelhas e os aldeões pensaram que
o antropólogo é que era o ladrão, entre outras.

Desta forma, o autor viu-se obrigado a desconectar-se do seu “mundo”, isto é,


da sua cultura para conseguir compreender e interpretar a cultura circundante. Logo, o
autor revela-nos que é necessário evidenciar os valores culturais da sociedade que
pretendemos analisar, ao invés de menosprezar aquilo que nos é “normal”. Assim, o
autor dá-nos a entender que sempre que o investigador obtem alguma informação, deve
refletir e comparar com a sua realidade, pois "understanding of the i goes through the
deviation of understanding from the other" (Rabinow, 1997), visto que, a análise do
outro pode sempre explicar algo sobre nós mesmos ou sobre a sociedade onde nos
inserimos.
Assim sendo, qualquer detalhe possui uma grande relevância, pois pode ser um
ponto de partida, para uma nova investigação. Todavia, para conseguirmos dar
importância aos detalhes de uma nova cultura que estamos a estudar, o antropólogo tem
que adotar uma “personagem neutra”, isto é, não deve menosprezar a cultura de outrém
e deve ter atenção à postura e ao comportamento que adota, sempre que se aproximar
da cultura que pretende analisar, visto que, “The anthropologist is suppose to be aware
of this and control himself, the informant is simply suppose to be himself” (Rabinow,
1997, p. 47).

Deste modo Rabinow ensina-nos que ao estabelecermos um diálogo com um


indivíduo, é necessário valorizar e entender o seu discurso para conhecer o seu
quotidiano, ou seja, a comunicação é uma parte importante na realização do trabalho
de campo “Particularly in its early stages when there is little common experience,
understanding, or language to fall back on, this is a very difficult and trying process;
the ground is just not there. Things become more secure as fhis liminal world is
mutually constructed but, by definition, it never really loses its quality of externahty”
(Rabinow, 1997, p. 153). Um dos conselhos que o autor nos dá ao longo do livro é
dominar a língua da comunidade ou sociedade que pretendemos estudar, visto que, se
conhecermos a língua, a comunicação torna-se mais fácil e, por conseguinte, a
probabilidade de haver más interpretações e informações falsas, é menor. Assim, é
mais fácil a aproximação do antropólogo às pessoas e, logo torna-se mais fácil estudar
os costumes e a cultura dessa comunidade.

O autor também salienta a importância da análise que o mesmo faz à


informação transmitida pelos vários interlocutores, pois essas informações são
interpretações baseadas nos costumes e nas estórias dos mesmos, logo, por vezes
poderiam não ser fidedignas. Através destas ideias, Paul Rabinow revela-nos que a
antropologia nunca poderá ser considerada uma ciência exata, pois não se baseia em
dados objetivos.

Em suma, após a leitura deste livro é-nos possível afirmar que esta obra pode
ser considerada/comparada a um diário de campo ou a um manual de práticas de
campo, pois o autor transmite conscientemente e por outras vezes inconscientemente
conselhos ao leitor de como realizar um bom trabalho de campo.

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