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O Mundo das Partículas

Brian Southworth
Georges Boixader
O Mundo das Partículas
De que é feito o nosso Universo
De onde vem?
Porque se comporta assim?

Não temos ainda as respostas para estas perguntas, no entanto, nos últimos anos temos descoberto uma grande
quantidade de informação sobre o Universo que nos rodeia.

Esta pesquisa tem-nos revelado que, para além da evidência daquilo que os nossos olhos permitem ver, há um mundo
diferente de partículas minúsculas e mensageiros que viajam entre elas … mudando constantemente no espaço, no tempo
e na energia. Este livro de banda desenhada apresenta o fascinante mundo das partículas e parte do seu maravilhoso
comportamento.

Um dos laboratórios onde se fazem pesquisas relacionadas com as partículas, é o CERN, O Laboratório Europeu de Física
de Partículas.

Apresentaremos aqui, as poderosas máquinas do CERN: os aceleradores e os detectores, máquinas onde se criam e
estudam as partículas.

Assim, sem mais preâmbulos, vamos às partículas …


Capítulo 1
Partículas
Fundamentais e
Interacções
O CERN continua a tradição de observar o
nosso mundo e procurar compreendê-lo.

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Esta investigação tem sido feita, pelo menos, desde o tempo dos filósofos gregos.
Os cientistas no CERN procuram os
pedaços mais pequenos da matéria, e
estudam, como é que estes constroem o
nosso mundo. Eureka!

Fogo Ar

Água
Terra

Recentemente, os físicos já
Nós já aprendemos bastante mas, ainda há muitas
No século 19, os químicos identificaram os átomos de muitos encontraram partículas ainda mais
perguntas sem resposta. São essas respostas que os
elementos. pequenas no interior do átomo.
cientistas do CERN procuram.
Eureka!

Eureka!

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Emissão de luz
Senhoras e senhores:
No início do século O electrão!
XX, os cientistas Sou a partícula que
aperceberam-se dá origem à …
de que a nuvem
de partículas
(nuvem À electricidade
electrónica) que
existe no exterior
dos átomos é
a responsável,
por quase todo o À electrónica
comportamento
da matéria. Às propriedades
mecânicas
À química

E agora … Mas agora, também descobriram que


Nós somos a origem de todas as nós, o neutrão e o protão,
o núcleo! formas de energia nuclear e, alguns
Então, descobriu- contemos peças ainda
se que o minúsculo de nós, somos usados; na medicina, mais pequenas.
núcleo que está no na indústria e na agricultura.
centro dos átomos, de
diâmetro menor que,
a milionésima parte
de uma milionésima de
centímetro, contém
outras partículas
chamadas protões e
neutrões.

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Descobriram-se muitas partículas …
É bastante estranho, mas podes apanhar numa gota de água,
… e estudou-se as suas propriedades. mil milhões de milhões de milhões de partículas como eu; os
cientistas no CERN, necessitam de grandes e complicados
equipamentos para averiguar como eu sou.

Descobrimos que as partículas podem Muitas delas parecem girar Temos visto partículas pesadas com
ter carga eléctrica. como piões. propriedades insólitas, chamadas: Charm
(encanto), Bottom (fundo), Top(topo) e
Strangeness (estranheza)

Top
Bottom
Charm

Strangeness

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As partículas, podem-se classificar
em famílias de acordo com as suas
Os membros de cada família comportam-se
propriedades.
todos da mesma maneira.

Mas se descobrimos
tantas partículas
com todas essas
propriedades tão raras,
será que estaremos
realmente a aprender
como funciona o nosso
Universo? Como poderemos
pôr ordem nesta
confusão?

E por que é que se comportam de igual maneira os


membros da mesma família?

Porque dentro delas existem


outras partículas menores,
que lhes dizem como se devem
comportar …

Por exemplo, num protão


descobriu-se umas partículas
pequeníssimas a que chamamos
quarks.

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Com os quarks constroem-se partículas como os protões e os neutrões, e com estes, constroem-se os núcleos que, juntos com os electrões, dão lugar aos átomos.
Será que encontrámos como é feito o nosso Universo?

Electrão

Quark

Núcleo Eureka?
Protão
Átomo

Porque existirão esses “fulanos” a mais, se não fazem falta


Não, de forma nenhuma. Ao estudar os para construir o nosso mundo?
quarks, descobrimos que existem mais coisas Haverá mais alguma coisa dentro
do que as necessárias para formar átomos. dos quarks? E nos electrões?
Temos ainda muitas perguntas sem
resposta!

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A mais conhecida é a força electromagnética que junta o nosso conhecimento sobre o
magnetismo … … e a electricidade, como no caso dos electrões, (de
carga negativa) que se mantêm ligados à volta do núcleo
(de carga positiva) para formar os átomos.
Ao estudar
estas partículas, Muito atractivo
constituintes de
toda a matéria,
julga-se que
todo o seu
comportamento
é controlado por
diferentes tipos
de forças.

O neutrão, quando se desintegra, dá origem a


No entanto, há uma força, chamada de E também há, uma força “fraca”
outras partículas. A desintegração do neutrão
“forte” cem vezes mais forte. menos intensa que as outras!
Que mantém unidos os protões e os é uma forma de radioactividade.
neutrões nos núcleos.

Cheio de Pobre neutrão


força! tão fraco!

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… utilizando partículas mensageiras, chamadas fotões
que todas as partículas carregadas emitem em todas as
Os electrões, negativos, comunicam com os direcções.
Já compreendemos como se comportam as
protões, positivos, para formar átomos …
partículas quando sujeitas à influência de forças
electromagnéticas

A permuta de fotões mantém unidas as partículas carregadas, tal como acontece com as bolas de um malabarista. Este,
A comunicação, estabelece-se, quando outra apesar de trocar as bolas consegue mantê-las juntas.
partícula recebe um destes fotões.

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A força forte, mantém unidos os núcleos e, prende fortemente os quarks dentro dos protões, de tal
maneira que, ainda não foi possível retirar um quark sem que ele traga consigo partículas mensageiras.
Por isso, as partículas mensageiras que
transportam a força forte chamam-se gluões (do
inglês “glue”, cuja tradução é cola).

No entanto, o efeito da
força gravítica sobre as
partículas mais pequenas, é
Há outra força bem tão insignificante que podemos
conhecida, a força ignorá-la.
gravítica, que nos
mantêm sobre a Terra
e, por sua vez, a Terra
ligada ao Sol.

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A força fraca, que desintegra os neutrões, Isto aplica-se também a umas partículas muito
parece ser muito misteriosa. difíceis de apanhar chamadas neutrinos Grandes quantidades de neutrinos
escapam em todas direcções
provenientes das reacções existentes no
Sol e noutras estrelas.

A interacção dos neutrinos com as outras partículas, é de tal


forma fraca que estas podem atravessar a Terra sem dificuldade.
Agora que os conhecemos
Neste momento, estás sendo atravessado por milhões e milhões
melhor, poderemos
de neutrinos.
produzi-los e estudá-los no
CERN.

Enquanto as estrela brilharem, estas irão produzir neutrinos e a


força fraca actuará.

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Na década 1970, os cientistas deram um grande avanço para a compreensão do comportamento Isto é muito surpreendente, porque a força fraca é mesmo,
das partículas. muito fraca.

Lá se vai um neutrino!

Conseguiram uma teoria única para explicar conjuntamente a força electromagnética e a força fraca.

Esta descoberta permitiu a dois cientistas do CERN ganhar


o prémio Nobel, em 1984.
A nova teoria foi
confirmada no CERN
através da grande
descoberta das
partículas mensageiras Sou fraco
pesadas, chamadas W
e Z, que transportam a
força fraca, da mesma
maneira que os fotões
transportam a força
electromagnética.

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Este mundo das partículas e o seu comportamento são estudados no CERN … … e descritos pelos físicos em diagramas matemáticos

O grande sonho dos cientistas do CERN, é um dia serem capazes de compreender todas estas coisas complicadas e traduzi-las em poucas e simples leis.

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Tijolos e argamassa da Natureza
Partículas fundamentais da matéria

Quarks Leptões

charm top electrão muão tau


up

strange botton neutrino do electrão neutrino do muão neutrino – tau


down 2ª 3ª 1ª geração 2ª 3ª
1ª geração

a matéria normal é constituída por partículas da primeira geração-as mais leves. As partículas mais pesadas são produzidas e estudadas em laboratórios como o CERN

e as partículas que interactuam entre elas

Gravitões – que se prevê


serem transportadores … e os gluões que
das interacções fotões que transportam a As partículas W e Z transportam
transportam a interacção
gravitacionais- ainda não interacção electromagnética interacção fraca …
forte.
foram encontrados.

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Capítulo 2
Os Aceleradores
Vêm para usar as grandes máquinas do
laboratório, onde as partículas são aceleradas até
altas energias.
Mais de 7000 cientistas de centros de investigação de todo o mundo participam nas experiências do CERN

Tudo isto para estudar como se


Pode-se fazer com que estas partículas … e o resultado das suas colisões pode ser visto nos grandes detectores de partículas comportam as partículas mais
de alta energia choquem umas contra
pequenas
as outras …

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Também, quanto maiores são as
energias das partículas aceleradas, mais
profundamente elas podem penetrar na
matéria Nos aceleradores do
CERN, fabricam-se
e estudam-se novas
partículas e, assim, os
cientistas procuram
mais a fundo no
interior da estrutura
Se houver suficiente energia numa colisão,
da matéria.
pode-se criar novas partículas, já que a matéria
e a energia se podem inter-relacionar (E=mc2)

Assim como o peso de um elefante não tem grandes efeitos … mas tem um efeito drástico ao concentrar-se sobre um
A quantidade de energia das quando se distribui sobre uma grande superfície … alfinete.
partículas aceleradas é bastante
pequena. O que conta é a sua
concentração.

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A maior parte dos aceleradores não Um televisor tem quase todas as características básicas das máquinas do CERN: uma
são muito grandes ou fora do comum. fonte de partículas e meios para acelerar, guiá-las e detecta-las
Muitos de nós temos um em casa

E os campos electromagnéticos
aceleram estes …

Libertam-se electrões aquecendo


um filamento metálico … … sendo
detectados
E guiando-os … quando chocam com os
ecrãs do televisor

A minha imagem é feita com


Eu tenho tido um pequeno CERN em
electrões acelerados.
casa todo este tempo!!

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Por exemplo, um electrão que passa entre
duas peças metálicas ligadas a uma bateria
Os grandes aceleradores funcionam assim:
de 1,5 V …
As partículas são aceleradas Terminamos com
porque têm carga eléctrica. altas energias

Somos
injectados
a baixas
energias
Viajamos no vazio
para não chocarmos
com as moléculas do
ar
… é empurrado do terminal negativo para
o terminal positivo

Com este pequeno “ponta-pé”, Nos aceleradores do


a energia do electrão aumenta CERN, estes” ponta-
1,5 electrões- volt(eV) pés” são repetidos …

… milhões de
vezes para
alcançar os ímanes conduzem-nos por
Em cada volta, os campos
altas energias uma trajectória circular e
eléctricos dão-nos um “ponta-pé”para
aumentar a nossa energia assim, voltamos para receber outro
“ponta pé”

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Os protões resultam dos átomos de
O primeiro acelerador do CERN usava protões. Era do tipo hidrogénio aos quais foram retirados os
“sincrociclotrão”, usado principalmente para estudar o núcleo. electrões através de campos eléctricos … seguindo uma trajectória curva no campo do íman circular
gerados no centro da máquina … da máquina.

Os electrões movem-se em espiral à medida que foram adquirindo … transformando-o em interessantes formas
acelaração em cada volta, até que alcançam uma energia de 600
milhões de electrovoltes (600 MeV)

Esta energia é suficiente para alterar


um núcleo …

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Com o sincrociclotrão iniciou-se um programa de investigação
Os núcleos podem ser estudados em condições
que continua até hoje no CERN, chamado ISOLDE. No ISOLDE
Mas, infelizmente em quantidades extremas, como as que ocorrem quando se
transforma-se o chumbo em ouro.
muito pequenas. São outros núcleos que introduzem partículas, a mais, dentro deles
interessam aos cientistas do CERN.

Isso permite obter nova informação acerca Alguns destes novos núcleos, chamados isótopos, usam-se na indústria,
… e o conhecimento de como
do núcleo, de modo semelhante ao de um na medicina, e na agricultura …
se unem os núcleos entre
botânico que recolhe dados sobre diferentes
si serve para explicar a
híbridos de uma planta.
formação das estrelas

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Em 1959, o CERN pôs em funcionamento o que então era o
Os protões do sincrotrão atingem quase a velocidade
acelerador de maior energia do mundo, uma máquina de 28 mil
da luz e a sua “massa relativa” aumenta até ser quase
milhões de electrão volt (28 GeV) chamado sincrotrão de
trinta vezes maior que em repouso
protões

O sincrotrão de protões foi uma máquina com muito êxito, utilizada em centenas de experiências e chegou a acelerar mil vezes mais protões do que o esperado.
Agora acelera partículas de vários tipos que passam por outras máquinas.

Todos a bordo do sincrotrão de


protões!

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No sincrotrão de protões, os cientistas descobriram que Essa foi a primeira indicação de que as interacções
por vezes um neutrino podia colidir com um protrão e fracas e as electromagnéticas seguem as mesmas Noutras experiências mediu-se o pequeno campo
sair como neutrino umas vezes e outras vezes como regras. magnético de umas partículas chamadas muões, com
sendo outra partícula. uma precisão de poucas partes por milhão.

Isto confirma a nossa teoria do electromagnetismo As experiências no sincrotrão de protões têm sido a
fonte de muitas partículas, o que tem aumentado o nosso
conhecimento sobre este mundo das partículas

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Ela está instalada num túnel a 40 metros
Para poder penetrar mais Esta máquina tem sete quilómetros de circunferência, e cruza a de profundidade de modo a não perturbar o
profundamente no conhecimento da fronteira franco – suíça ambiente.
matéria, o CERN construiu um super
sincrotrão de protões que entrou em
funcionamento em 1976, alcançando
energias de 400 GeV

Dispara feixes de E estas podem chocar


protões com altas Os ímanes podem com os protões num
seleccionar um tipo grande volume de As partículas resultantes
energias contra
determinado de partículas hidrogénio ou de outro podem ser detectadas e
alvos tais como
entre todas as que saem material. analisadas
peças de metal

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O acelerador proporciona feixes de altas
energia e intensidade … Por exemplo,
feixe de neutrinos

Alguns dos estudos mais precisos sobre o


comportamento dos neutrinos foram feitos
por esta máquina

O super sincrotrão de protões já acelerou núcleos, por exemplo de chumbo, até se


alcançar energias enormes, com a esperança de libertar quarks e gluões de um estado
Também se realizaram experiências que mostram que os quarks dos núcleos se semelhante à “sopa” de partículas que pode ter existido pouco depois do aparecimento
comportam de forma diferente dos quarks em partículas independentes do Universo.

Os estudos desta “sopa” continuarão na nova


máquina do CERN: o LHC, Grande Colisionador
de Hadrões.

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Quando se fazem colidir feixes de altas Quando os protões provenientes do super protão sincrotrão colidem com um alvo estacionário, sucede algo parecido com o que
energias, passa a haver mais energia se passa numa mesa de bilhar; após o choque das bolas, a maior parte da energia vai para o movimento das bolas.
disponível para criar ou transformar
partículas.

A colisão de feixes é semelhante à de duas bolas de bilhar quando chocam uma Porém, é necessário armazenar As primeiras colisões intensas, entre feixes
com a outra; toda a energia da colisão está disponível para produzir fenómenos muitas partículas por cada feixe, de protões, foram produzidas, no CERN, em
interessantes caso contrário, as colisões seriam 1971 numa máquina célebre: ISR, anéis de
pouco prováveis, como ocorre com armazenamento interceptados.
dois disparos simultâneos em armas
de caça os “Chumbinhos”passam uns
através de outros

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Os colisionadores de feixes são As antipartículas são criaturas estranhas.Parecem ser iguais às
mais baratos se for possível fazer partículas, só que têm propriedades opostas.
com que as partículas viajem em
sentidos opostos, num só anel de
ímanes

O truque está em enviar partículas para um lado


e, antipartículas para outro; os campos eléctricos
que empurram os protões num sentido puxam os
antiprotões em sentido contrário.

Podemos imaginar um mundo global que seria o


contrário do nosso, com átomos feitos de antielectrões
(chamados de positrões) com antiprotões e antineutrões
nos núcleos.

Foi feita a previsão de existência


de antimatéria em 1928, e
foram descobertas as primeiras
antipartículas cinco anos mais tarde.

A previsão foi feita com base em equações


matemáticas que tinham duas soluções:
uma para a matéria e outra para a
antimatéria.

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Actualmente as antipartículas fazem-se de uma maneira rotineira. A partir
da colisão de um feixe de partículas contra um alvo. Quer as partículas quer as
O positrão foi a
antipartículas emergem.
primeira antipartícula
a ser descoberta.
Esta partícula foi
encontrada quando se
observava, no topo de
um edifício alto, os raios
cósmicos.

No início do Universo, no Big Bang, matéria e antimatéria


Ao juntar-se a matéria e a antimatéria, dá-se uma explosão dando lugar a energia. formaram-se em quantidades iguais. No entanto,
Se um homem pudesse dar a mão a um antihomem, o resultado seria catastrófico. a natureza preferiu a matéria. Para saber porquê,
necessitamos de estudar a antimatéria

33
Depois estes foram conduzidos por campos magnéticos para um
Não é fácil juntar suficientes Produziram-se muitos feixes anel especial.
antiprotões num feixe para desordenados de antiprotões
colidirem contra protões. a partir de um alvo.

No entanto, no CERN
inventou-se uma forma
de o fazer.

Observa-se o seu … e a informação envia-se para


Depois de várias horas, milhões e milhões de antiprotões são colocados,
comportamento num outro ponto, para que os campos
formando um feixe organizado.
ponto do anel … eléctricos os possam ordenar.

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Depois desta invenção, foi possível ao CERN, fazer colidir
Eles tinham, suficiente energia combinada para produzirem partículas W e Z, confirmando a junção dos fenómenos
os protões e os antiprotões no super sincrotrão de
eléctrico, magnético e radioactivo.
protões.

O super sincrotrão de protões, já não se usa


… por exemplo, capturando antiprotões e
como colisionador. Agora, o CERN utiliza os
Isto deu-nos, a nós, cientistas, a esperança de positrões em garrafas magnéticas e misturando-
seus antiprotões em experiências de muito
compreender todos os fenómenos da mesma maneira. os para conseguir átomos de antihidrógeno.
baixa energia …

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Os cientistas têm que fazer um esforço de imaginação para Presentemente les podem escolher entre colisionadores de electrões e de positrões, os quais dão colisões
decidir quais as máquinas de que irão necessitar para as suas simples mas são mais difíceis de elevar a altas energias,
investigações nos próximos anos.

… ou os colisionadores de protões, que permitem as altas energias mas que têm a complicação de muitos
quarks e gluões. O CERN está a construir uma máquina deste tipo o LHC, o grande colisionador de Hadrões.

Em 1989, o CERN pôs em funcionamento


o LEP, o maior colisionador de electrões e … para investigar a matéria em
positrões do mundo. condições que nunca antes se havia
conseguido.

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… instalado em túnel de uns quatro metros de diâmetro, perfurado com uma precisão de um centímetro num anel de
27 km de circunferência.
O LEP encontra-se a dezenas de metros abaixo dos
campos franceses e suíços,

Os aceleradores de protões do CERN já existentes


foram modificados para injectarem electrões e
positrões no LEP

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Durante a construção do LEP, foram desenvolvidas novas tecnologias, incluindo o uso de betão,
para separar lâminas de ferro de imanes, de campos magnéticos baixos

Para absorver moléculas de gás, mantendo-as afastadas das partículas


circulantes, utilizou-se na câmara de vácuo, mais de 20 km de um material,
a “cinta captadora”, que também é utilizada nos aparelhos de televisão

… e as cavidades supercondutoras aceleram as partículas no seu


percurso.

Ímanes especiais
concentram as
partículas em feixes
concentrados …

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A construção do LEP, que foi o maior instrumento científico do mundo, com os seus milhares de complexos componentes de alta tecnologia, é um triunfo para a industria e
tecnologia europeias.

quatro grandes detectores de partículas,


conhecidos como ALEPH, DELPHI, OPAL e
L3,estudaram as colisões de electrões-
positrões às mais altas energias nunca
alcançadas.

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Uma vez completa a tarefa do LEP, serão utilizados ímanes mais potentes para guiar protões e núcleos atómicos, em vez de electrões e positrões, em volta do anel de 27 km, no
novo Grande Colisionador de Hadrões, o LHC

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Um cabo muito fino de um supercondutor utilizado nos
Para produzir o campo magnético serão necessárias ímanes transporta tanta corrente como todos estes cabos
intensidades de corrente eléctrica muito elevadas. em cobre.

Para construir o LHC a


tecnologia tem sido forçada
ao limite. Os novos ímanes
curvos aceleradores serão os
mais poderosos que já se fez.

A supercondutividade é um fenómeno a baixa


temperatura de modo que todos os ímanes Uma linha de distribuição E para assegurar que não há nada no
serão arrefecidos por um superfluido de hélio com um projecto especial caminho dos feixes de partículas
líquido a cerca de transportará líquido criogénico
–271ºC à volta do anel.

o vácuo no interior do
acelerador será de melhor
qualidadedo que no espaço.

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… e os detectores
No passado, os físicos estudaram as partículas usando Uma câmara de bolhas, estava cheia de um líquido muito frio e a uma pressão muito
os detectores de partículas chamados câmara de bolhas elevada.
e fotografavam as marcas do percurso deixadas pelas
partículas.

As fotografias mostravam então, as


linhas formadas pelas bolhas, revelando
Quando as partículas passavam através da câmara, a pressão do onde as partículas estiveram.
líquido baixava e este entrava em ebulição.

Formavam-se bolhas ao longo do percurso das partículas


que aqueceram o líquido

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Aqui estão duas imagens típicas de uma
câmara de bolhas
A maior câmara de Continha 40 000
bolhas foi chamada litros de hidrogénio
de BEBCC - The Big líquido arrefecido
European Bubble à temperatura de
Chamber (a grande –247ºC
câmara de bolhas Nesta fotografia, uma
europeia) partícula sem carga não
deixa rasto, converte-se num
electrão e num positrão, cujos
rastos são visíveis.

Esta é uma fotografia histórica obtida em 1973, contém a primeira


evidência indirecta das partículas Z.

A câmara estava
envolvida por um poderoso
Baixando este pistão, baixa supercondutor magnético que
a pressão, permitindo a produzia um elevado campo
formação de bolhas. magnético, encurvando
o percurso das partículas
carregadas

46
Os detectores modernos, como
os do LEP, são electrónicos e A informação vinda de uma só
maiores que uma casa. colisão é equivalente à de uma lista
telefónica

Rodeiam o ponto de colisão


das partículas

Para recolher e analisar toda


Registam as direcções de saída das a informação são necessários
partículas e medem a sua energia. grandes computadores
Grandes ímanes encurvam as trajectórias das
partículas revelando qual a carga eléctrica que têm.

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Cortinas de fios são a base de muitos detectores de partículas

Quando uma partícula atravessa


O espaço entre os fios é preenchido por esta câmara- de- fios,”parte” os
E os fios estão com alta
gás átomos de gás provocando pequenos
Várias técnicas são usadas voltagem
distúrbios eléctricos …
para detectar partículas,
tais como, marcar as mais
pequenas perturbações
eléctricas causadas por
estas, no seu trajecto e em
resultado da ruptura dos
átomos.

Outra técnica é medir a energia que a


Para grande precisão, alguns detectores usam chips de silicone como os das
partícula perde nas suas colisões com
… os quais vão ser detectados pelo próximo fio, máquinas digitais para gravar os rastos deixados pelas partículas
as outras partículas,ao
dizendo aos cientistas onde é que a partícula
longo do seu caminho
passou.

Os aparelhos que medem esta energia são


chamados de calorímetros

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Sofisticados dispositivos electrónicos controlam
Num grande detector, a região da colisão está rodeada
o disparo dos detectores quando há uma colisão
por cortinas de fios, calorímetros e outros detectores
importante, Assim, os cientistas não têm de
para observar os resultados
estar sempre presentes

O inventor dos detectores


electrónicos no CERN foi
Toda a informação produzida por estes detectores é galardoado com o prémio Nobel Estes detectores aplicam-se por exemplo em hospitais.
analisada por computadores em
1992

49
Esta imagem mostra o rasto deixado por uma partícula. Resulta de uma das
Nesta imagem, uma partícula Z, criada numa colisão, originou um electrão e um
primeiras colisões no LEP em 1989. Os círculos brancos, são o limite exterior do
positrão, por decaimento. As linhas vermelhas, mostram o detector, as azuis e verdes,
detector, os azuis, são os rastos das partículas e, as caixas, representam a energia
os rastos do electrão e do positrão, e as caixas a respectiva energia.
registada nos calorímetros

Nesta, a partícula Z, sofreu um decaimento em duas partículas W, que, por sua


vez, decaíram ficando dois quarks. O que se vê no detector são quatro”jactos” de Esta imagem mostra uma das mais elevadas colisões
partículas distintos energéticas no LEP. Foi registada em 2000. Criou
uma grande expectativa porque poderia ter sido a
percursora de uma nova descoberta

50
Um dos detectores do LHC, é tão grande
No seu interior têm lugar
como um prédio de seis andares
uns 800 milhões de colisões
individuais protão- protão,
em cada segundo

As colisões protão-protão no
O que equivale a uns 800 milhões de
LHC permitirão aos cientistas
listas de telefone.
estudar as condições

… que existiam
quando o
Universo
nasceu.
Os detectores do sucessor do LEP, o LHC, tornam minúsculos os detectores do LEP

51
A quantidade de dados produzidos por
segundo é suficiente para encher uma
pilha de CD-ROM, com uma altura, Mesmo retirando aquilo que não
Analisar todos estes dados é várias vezes maior que a Torre Eiffel interessa, ainda resta muito para
um grande desafio analisar todos os anos

Sofisticados dispositivos electrónicos … para analisa-los, um novo conceito de trabalhar


foram desenvolvidos para filtrar e registar em rede, chamado “Grid”está a ser desenvolvido, com
dados … a “Grid” os cientistas terão uma
forte ferramenta informática de
acesso aos
dados …

Cientistas de todo o mundo serão


envolvidos

E de uma maneira tão fácil como acender uma lâmpada

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As massas ainda são muito importantes …
Este aparente conceito familiar contém ainda um mistério no
que diz respeito às partículas fundamentais.

Se os electrões fossem mais leves,


Uma das mais seríamos muito maiores …
importantes questões que
o Grande Colisionador de
Hadrões abordará, será a
estrutura da matéria e o
mistério da massa. … e se fossem mais pesados
seríamos muito mais
pequenos

E se as partículas W
Como vês, perceber a massa das partículas é na verdade
e Z fossem menos
muito importante
Se os electrões não tivessem massa não pesadas que os
existíamos electrões, o Sol podia
não ter o tempo
suficiente para a
formação da vida
inteligente

53
Matéria e antimatéria foram criadas em iguais mas, agora, toda a antimatéria parece ter desaparecido, as
quantidades no Big Bang experiências no LHC tentarão saber porquê

A massa não é a única


questão que o LHC irá
tratar esclarecer

Com os telescópios só conseguimos ver um Talvez uma “supersimetria” que junte a


décimo da matéria no Universo. O que se matéria e as partículas mensageira possa
Num outro novo projecto, o CERN fará disparar um feixe de neutrinos
passa com os restantes 90% de “ matéria explicar o que é.
para o laboratório de Gran Sasso, na Itália, para saber mais sobre
Escura”, ninguém sabe.
estas partículas elusivas.

54
Capítulo 3
A organização do CERN
À sua maneira, os cientistas têm que lutar para Apresentam as suas ideias à comissões que Para construir e manipular os grandes detectores,
decidir quem usa as máquinas do CERN. aceitam ou rejeitam as experiências assim como, executar as experiências, pode ser
necessária a colaboração de centenas de cientistas

Não têm nada que ver com


Não há nada de secreto nas experiências e, as aplicações da energia É investigação pura, sobre a natureza do Universo
todos os resultados são publicados nuclear. que nos rodeia.

57
No início da década de 1950, cientistas e políticos europeus decidiram criar
um grande laboratório de Física para manter a elevada qualidade dos físicos,
Em 2000, o CERN tinha 20 estados membros: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária,
na Europa e, ao mesmo tempo manter unidos os países que se encontravam
Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Noruega, Polónia,
divididos pela guerra.
Portugal, Reino Unido, República Checa, República Eslovaca, Suécia e Suiça

Começou por ser “O Conselho A convenção assinada em 1953


Europeu para a Investigação estabeleceu a organização.
Nuclear”, de onde provêm as
siglas CERN

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A máxima autoridade do CERN é o Conselho, que normalmente se reúne duas vezes por ano, no qual, cada estado membro está representado por um cientista e um funcionário de
administração científica

Independentemente da sua dimensão, cada país É o Conselho quem autoriza a maioria dos novos e grandes projectos ou melhoramentos nas instalações de investigação.
tem o mesmo peso nas votações do Conselho. Também vota o orçamento do CERN e nomeia o Director Geral do laboratório

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A comissão de Política Científica, que controla o
O Conselho é ajudado nas suas desenvolvimento científico do laboratório
tarefas por duas Comissões.

Esta, é constituída por cientistas seleccionados pelo seu


reconhecido valor científico, independentemente do seu país de
origem.

A administração do Laboratório é conduzida


A Comissão Financeira controla o É constituída por especialistas financeiros de cada Estado pelo Director Geral
desenvolvimento financeiro do CERN. Membro

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A proporção com que cada estado membro O orçamento anual, corresponde
a uma contribuição de cerca de A indústria europeia calcula que, em média, por cada franco suíço de negócios
contribui para o CERN está de acordo com o seu
dois francos suíços, por ano e com o CERN, se produz uns três francos suíços, na criação de novos negócios.
rendimento interno bruto.
por habitante, de cada Estado
Membro.

O CERN trabalha com a Indústria Europeia com a moderna tecnologia de ponta incluindo a electrónica, comunicações, vácuo, informática, meteorologia, engenharia civil,
supercondutividade, tecnologia de aceleradores e detecção de partículas. Foram os cientistas do CERN que inventaram a World Wide Web.

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Tudo isto acontece num lugar bonito perto de Genebra, na
Suíça. Genebra recebe assim, muitas organizações internacionais
O laboratório é facilmente acessível
para os cientistas que vão fazer as e, está bem apetrechada para as receber
suas experiências

Além disso, devido ao aumento das suas máquinas, o CERN estendeu-se ao “Pays
de Gex”, em França. É o único laboratório do mundo que cruza fisicamente uma
fronteira.

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Milhares de cientistas de estados não membros, sentem-se
também atraídos pelas inigualáveis instalações de investigação do
laboratório. O CERN, é um triunfo da ciência internacional

Hoje em dia, contribuem para o


CERN vários estados que não são
membros: Canadá, os Estados
Unidos, a Índia, Israel, Japão e
Rússia

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É necessário para a investigação em física de partículas que todos os que trabalham no CERN sejam especialistas em muitas áreas. Assim, pode-se dividir estes trabalhadores em
quatro categorias.

Mais de um terço, são cientistas e Um quarto, são técnicos ou


Um quarto, são operários E restos são administrativos
engenheiros desenhadores.

Quase todos os trabalhadores são


Cerca de 7000 pessoas trabalham no CERN. provenientes dos estados membros … mas,
E, entre esta gente toda, ninguém ainda me compreendeu … no
Destas, cerca de 2000 é pessoal do CERN, os não por quotas nacionais.
entanto continuam a tentar
restantes estão de passagem para as suas
investigações.

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E com isto nos despedimos Esperamos que tenham gostado, do mundo das partículas, tal como nós. Temos
ainda muito que aprender, para aumentar o conhecimento humano e o seu À nossa saúde!
controlo do seu meio ambiente …

FIM!

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Os autores, desejam exprimir o
seu agradecimento, ao falecido
professor Leon van Hove, a quem
se deve a ideia deste album.
Publicado pela primeira vez em 1978

Edição Janeiro de 2001

Tradução portuguesa: Manuela Alves Moreira do Amaral, em 2005

Produzido: CERN Desktop Publishing

Trabalho fotográfico do CERN

Organização Europeia para a Investigação Nuclear

Laboratório Europeu de Física de Partículas

http://www.cern.ch/