Você está na página 1de 3

DIREITO PENAL

CRIME: RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

RICARDO S. TORQUES

RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

A relação de causalidade é elemento da ação. Ela vem disciplinada no art. 13, do CP.

A primeira parte do dispositivo afirma que a relação de causalidade é própria dos crimes de

resultado. Na segunda parte, considera-se como causa a ação ou omissão, sem a qual o resultado não teria ocorrido, consagrando a Teoria da equivalência das condições ou conditio

sine qua non. Neste caso, de acordo com Bitencourt, “para verificar se determinado antecedente

é causa do resultado deve-se fazer o chamado juízo hipotético de eliminação, que consiste no

seguinte: imagina-se que o comportamento em pauta não ocorreu, e procura-se verificar se o resultado teria surgido mesmo assim, ou se, ao contrário, o resultado desapareceria em conseqüência da inexistência do comportamento suprimido” (p. 288: 2010).

Entretanto ressalta o referido autor, “a teoria da equivalência das condições tem a desvantagem de levar ad infinitum a pesquisa do que seja causa: todos os agentes das condições anteriores responderiam pelo crime! Na verdade, se remontarmos todo o processo causal, amos descobrir que uma série de antecedentes bastante remotos foram condições indispensáveis à ocorrência do resultado” (p. 289: 2010).

Em vista disso, a utilização de outros institutos do direito penal, como se vê abaixo, é importante limitador da referida teoria.

A relação de causalidade é valorada conforme o vínculo subjetivo do agente, sendo relevante a causalidade previsível, que pode ser mentalmente antecipada pelo agente.

São limitações à teoria da equivalência das condições:

1) Localização do dolo e da culpa no tipo penal; 2) Causas (concausas) absolutamente independentes e 3) Superveniência de causa relativamente independente que, por si só, produz o resultado.

No que tange à LOCALIZAÇÃO DO DOLO E DA CULPA, Bitencourt afirma que “toda conduta que não for orientada pelo dolo ou pela culpa estará na seara do acidental, do fortuito ou da força maior, não podendo configurar crime” (p. 289: 2010).

Desta forma, a adoção da teoria finalista que coloca dolo e culpa no tipo penal já se estabelece, de antemão, um limitador à teoria da conditio sine qua non, de forma tal que uma pessoa poderá ter dado causa a determinado resultado (como o vendedor de arma de fogo), e não ser possível imputar-lhe a responsabilidade por esse fato, por não ter agido nem dolosa nem culposamente.

Em relação às CONCAUSAS ABSOLUTAMENTE INDEPENDENTES, são condições que causam o resultado, mas são absolutamente independentes da conduta que se examina.

Tais causas podem ser:

DIREITO PENAL

CRIME: RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

RICARDO S. TORQUES

1) preexistentes ocorrem antes da existência da conduta; 2) concomitantes ocorrem simultaneamente com a conduta ou 3) supervenientes se manifesta depois da conduta.

Em se verificando concausa absolutamente independentes a causalidade da conduta é EXCLUÍDA do nexo causal.

Causas relativamente independentes. Ao contrário das analisadas acima, neste caso, a concausa auxilia ou reforça o processo causal, iniciado com o comportamento do sujeito. Segundo Bitencourt, deve se proceder o juízo hipotético de eliminação chegando a uma destas conclusões: “ou excluímos a causalidade do comportamento humano, porque um juízo hipotético de eliminação nos permite essa exclusão, e atribuímos a causação do resultado a um fato estranho à conduta, na hipótese, uma concausa absolutamente independente; ou não excluímos esse vínculo de causalidade, porque, pelo juízo hipotético de eliminação, a conduta foi necessária à produção do evento, ainda que auxiliada por outras forças na hipótese, uma concausa relativamente independente(p. 291/2: 2010), respondendo pelo dano causado.

Na hipótese de SUPERVENIÊNCIA DE CAUSA RELATIVAMENTE INDEPENDENTE QUE, POR SI SÓ, PRODUZ O RESULTADO, aplica-se o art. 13, §1º, do CP. Neste caso, excluem-se as causas preexistentes ou concomitantes, reportando-se somente às causas supervenientes.

Ocorrendo uma destas concausas exclui-se a imputação e o agente responde pelos fatos anteriores.

Resume o autor as possibilidades de concausas da seguinte forma:

“A situação deve ser interpretada da seguinte forma: quando alguém coloca em andamento determinado processo causal pode ocorre que sobrevenha, no decurso deste, uma nova condição produzida por uma atividade humana ou por um acontecer natural que, em vez de se inserir no fulcro aberto pela conduta anterior, provoca um novo nexo de causalidade. Embora se possa estabelecer uma conexão entre a conduta primitiva e o resultado final, a segunda causa, causa superveniente, é de tal ordem que determina a ocorrência do resultado, como se tivesse agido sozinho, pela anormalidade, pelo inusitado, pela imprevisibilidade da sua ocorrência” (p. 292:

2010).

Quanto estamos, portanto, diante de um causa superveniente, e queremos verificar se a conduta anterior é causa ou não, devemos partir, obrigatoriamente, do juízo hipotético de eliminação:

excluímos mentalmente a conduta anterior e verificamos se o resultado teria ocorrido. Se a resposta for não, podemos afirmar que há uma conexão causal entre a conduta anterior e o resultado” (p. 292/3: 2010).

Em se tratando da ocorrência de causa superveniente, teremos de suspeitar da possibilidade de tratar-se de causa superveniente nos termos do §1º, do art. 13. Por isso temos de formular uma segunda pergunta: essa causa superveniente se insere no fulcro aberto pela conduta anterior, somando a ela para a produção do resultado ou não? Se a resposta for afirmativa não excluirá o nexo de causalidade da conduta anterior, porque a causa posterior simplesmente somou-se à

DIREITO PENAL

CRIME: RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

RICARDO S. TORQUES

conduta anterior na produção do resultado. Ao contrário, se respondermos que não, isto é, que a causa superveniente causou isoladamente o evento estaríamos resolvendo a situação com base no §1º, afastando a relação de causalidade da conduta anterior. Neste caso, o autor da conduta anterior, responderá pelos atos praticados que, em si mesmo, constituírem crimes, segundo seu elemento subjetivo” (p. 293: 2010).

Nos crimes de resultado não há maiores dificuldades para se estabelecer o nexo causal. Entretanto, em relação aos crimes omissivos temos duas situações: nos crimes omissivos próprios e nos crimes comissivos por omissão (omissivo impróprio).

Nos CRIMES OMISSIVOS PRÓPRIOS, que consistem na desobediência de uma norma mandamental, não há investigação sobre a relação de causalidade, porque são delitos de mera atividade (ou inatividade), que não produzem qualquer resultado naturalístico.

Nos CRIMES COMISSIVOS POR OMISSÃO, no qual há um deve de agir para evitar o resultado, há, na realidade, um crime material, um crime de resultado, portanto. Como a doutrina entende que não há como se falar em causalidade nos crimes omissivos, fala-se em causalidade jurídica, ou seja, a ficção de reconhecer o nexo de causalidade no acontecimento do resultado, por conta da omissão do agente que deveria evitá-lo.

Em síntese, ao nexo de causalidade, afirma Bitencourt, que “o nexo de causalidade é um primeiro passo na indagação da existência de uma infração penal que, finalmente, para poder ser atribuída a alguém, precisa satisfazer os requisitos da tipicidade, da antijuridicidade e da culpabilidade” (p. 296: 2010).