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COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS - Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102

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Os sintomas de que uma empresa está a caminho da falência ou concordata podem ser 1 notados muito antes que ocorra o desenlace Quem garante é Stephen Charles Kanitz , professor de Análise de Demonstrativos Financeiros da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, que apresenta aqui um novo método para prever falências.

Como prever falências de empresas

Em 1971, um banco paulista recebia uma solicitação de financiamento de uma revendedora de automóveis. Os balanços da empresa, assim como outros dados indicativos de sua performance, foram exaustivamente analisados. Embora os balanços apresentassem alguns pontos negativos, a empresa foi considerada boa e, no conjunto, o parecer dos analistas do banco foi plenamente favorável. Seis meses mais tarde, a concessionária entrava com um pedido de concordata.
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Stephen Charles Kanitz, 28 anos, é doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, onde é professor de Análise de Demonstrativos Financeiros. Além disso, é Master em administração de empresas pela Harvard Business School e chefiou a equipe técnica que processou os dados da edição "Os Maiores e os Melhores”; de EXAME, setembro de 1974. Como consultor de empresas, presta assessoria na área de análise de investimentos.

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Em abril de 1972, depois de um ano de trabalho, uma conceituada empresa internacional de auditoria, com escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, entregava a uma empresa-cliente um parecer de auditoria dando como satisfatório o balanço da empresa auditada. Do ponto de vista financeiro, o balanço era impecável, exceto por um ou outro detalhe de menor importância: Onze dias apos a entrega do parecer, a empresa falia. No dia 26 de novembro de 1973, uma fábrica recebia um pedido milionário de fornecimento para uma cadeia nacional de supermercados. O supermercado se comprometia a comprar 40% da produção da fábrica e o pedido foi prontamente aceito. Quatro meses mais tarde a cadeia de supermercados pedia concordata Exatamente um mês depois, a fábrica que vendia 40% de sua produção ao supermercado ia à falência. Os primeiros sintomas de uma insolvência surgem muito antes que ela se concretize

Nesses três casos, os demonstrativos financeiros das empresas foram exaustivamente analisados. No primeiro, os balanços da revendedora de automóveis foram dissecados pelo departamento técnico do banco que emprega quinze economistas para este tipo de tarefa. Para cada balanço, foram elaborados aproximadamente dezesseis índices, o que consumia dois dias de trabalho de um analista financeiro. Diante de fatos aparentemente absurdos como esses, a primeira indagação é: de que vale uma análise profunda do balanço, se não for capaz de revelar os sintomas de uma insolvência iminente? Ou, quem sabe a culpa não é dos analistas, que não sabem localizar nos demonstrativo os sinais da insolvência? Afinal, existem vários estudos mostrando que as empresas insolventes começam a acusar sinais de dificuldades bem antes de chegarem ao ponto crítico de uma falência ou concordata. É intuitivamente compreensível que á insolvência, sendo um processo que tem começo, meio e fim, se inicia muito antes de se concretizar. Portanto, deve existir nos balanços publicados antes da tragédia final alguns indícios do que está para acontecer. Basta saber localizá-los. Mas qual o caminho a ser seguido se, a rigor, qualquer empresa tem probabilidade de falir? TaIvez seja impossível prever uma falência com 100% de certeza, mas é perfeitamente possível identificar aquelas empresas que têm maiores possibilidades de falir em futuro não muito distante. Aliás, o objetivo desse trabalho é justamente mostrar que é possível avaliar o grau de solvência de qualquer empresa. Ou seja: descobrir com antecedência e um razoável grau de segurança, qual a situação financeira de uma empresa. Para tanto, como veremos adiante, é preciso, primeiro, determinar o que chamamos de fator de insolvência. E, depois, verificar sé o valor obtido coloca a empresa numa faixa perigosa ou não, em termos de solvência (para facilitar essa verificação elaboramos um termômetro de insolvência que indica a maior ou menor probabilidade de falência). Antes, porém é preciso se lembrar de que nem toda empresa vai obrigatoriamente à falência por estar enfrentando dificuldades em determinado momento. Afinal, qualquer empresa bem administrada pode se recuperar de uma situação difícil. Portanto, o fator de insolvência é um indicador daquilo que pode acontecer em futuro próximo, caso a empresa não corrija os rumos que está seguindo. É importante, ainda, ressaltar que o fator de insolvência não é apenas um desagradável prenúncio de concordatas e falências. Uma aplicação menos pessimista surge quando nos concentramos do outro lado da cerca, isto é, do lado da solvência. Por exemplo: como o gerente de um banco deve decidir sobre pedidos de empréstimos ou financiamento de duas empresas, quando os recursos disponíveis, no momento, permitem atender a um pedido apenas? Uma das formulas para, sair do impasse seria escolher a empresa que tivesse o melhor índice de solvência – e, conseqüentemente, melhor situação financeira. Em resumo, a análise do índice de solvência permite: 1) descobrir empresas em estado de pré-insolvência; 2) hierarquizar as empresas numa escala de solvência/insolvência, a fim de selecionar clientes prioritários; e 3) determinar previsões para a conta "devedores duvidosos", segundo á probabilidade de insolvência de cada cliente.

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Para mostrar como se aplica, na prática, o índice de solvência, analisamos uma centena de balanços de empresas que posteriormente, vieram a falir ou a pedir concordata. Concentramo-nos, então, num único exemplo para facilitar a análise. Os balanços da S.A. Comércio de Veículos (nome fictício que demos a uma empresa real, que entrou em concordata em 1973) servirão de base para comprovar a tese de que os primeiros sintomas de falência ou concordata surgem muito antes de que ela ocorra efetivamente. O quadro abaixo mostra a evolução dos dados do balanço da S.A. Comércio de Veículos, tanto para o exercício imediatamente anterior ao pedido de concordata quanto para o próprio exercício em que se deu a concordata (através de projeções que indicam a provável situação do balanço, caso a concordata não se tivesse concretizado). Que lições se podem tirar da análise desses balanços? Quais os indicadores que, permitem, realmente, avaliar a situação da empresa e quais os que não levam a conclusões definitivas? De imediato, notamos que a S.A. Comércio de Veículos é uma empresa pequena (patrimônio líquido de 1,5 milhão de cruzeiros). É a triste realidade de sempre: são as pequenas e médias empresas que estão mais expostas à insolvência. A seguir, notamos que os índices de liquidez – normalmente os mais usados pelos analistas financeiros para determinar a situação de uma empresa – estão bem próximos de 1. O que não quer dizer muita coisa, porque inúmeras empresas estão na mesma situação e, nem por isso, á beira de uma falência. Portanto, ao contrário do que se costuma pensar, os índices de liquidez não são um indicador seguro do estado de solvência das empresas. S.A. Comércio de Veículos
(em Cr$ milhões) 1972 Patrimônio Líquido Exigível a Curto Prazo Exigível a Longo Prazo Ativo Circulante Realizável a Longo Prazo Capital de Giro Próprio Capital não Imobilizado Ativo Fixo Lucro Líquido Índice de Liquidez Corrente Índice de Liquidez Geral Índice de Liquidez Seca Grau de Endividamento Capital de Terceiros sobre Patrimônio Líquido Capitalização do Patrimônio Exigível a Longo Prazo sobre Patrimônio Líquido Patrimônio Líquido sobre Exigível Total Rentabilidade do Patrimônio Líquido Rentabilidade do Ativo Total Rentabilidade do Ativo Fixo Grau de Alavancagem Ativo Fixo sobre Patrimônio Líquido Exigível a Longo Prazo sobre Ativo Fixo Ativo Circulante sobre Ativo Fixo Exigível a Longo Prazo sobre Capital de Giro Capital de Giro sobre Ativo Total Capital de Giro sobre Ativo Circulante Capital de Giro sobre Ativo Fixo 2,6 24,6 1,8 24,7 0,0 -0,0 -1,7 4,3 -5,1 1,0 0,9 0,8 90,8% 997,2% 41,0% 69,7% 10,0% 193,8% 17,6% 117,6% 10,9 164,8% 42,3% 564,7% 2.055,5% 0,3% 0,3% 2,0% Variação 72/71 -32,8% 81,2% -82,7% 40,7% -99,2% -97,7% -118,4% -7,6% -277,9% -22,3 -3,3 -5,4 0,8 5,6 491,0 -43,7 -74,3 462,5 266,9 309,3 -88,8 37,4 -81,3 52,4 660,1 -97,7 -98,3 -97,5 Projeção para 1973 1,3 35,6 5,9 38,9 0,0 -3,2 -2,6 4,0 -7,7 1,0 0,9 1,0 96,8% 3.060,4% 81,2% 434,1% 3,2% -572,2% -18,1% -193,7% 31,5 295,3% 147,0% 969,8% 181,6% 7,5% 8,3% 80,9%

Quais são, então, os indicadores que devem merecer maior atenção na análise? A seguir, desatacamos os mais importantes: 1) capital de giro próprio: As empresas financeiramente sólidas em geral dispõem de recursos próprios suficientes para financiar pelo menos uma parcela de seus investimentos em ativo fixo (máquinas, equipamentos, imóveis etc.) e, ainda, parte de seu capital de giro. É o que chamamos de capital de giro próprio. As empresas insolventes, porém, tendem a trabalhar exclusivamente com

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capital de terceiros, como ocorre no caso dá S.A. Comércio de Veículos, em que o capital de giro próprio é negativo. Ou seja: na tentativa de superar dificuldades financeiras, elas aumentam suas dívidas sem que, no entanto, tenham condições de pagá-as. A ausência de capital de giro próprio é, portanto, um passo importante no caminho da insolvência. 2) grau de endividamento: Esse indicador serve para caracterizar um ciclo vicioso. Por não disporem de recursos próprios, as empresas insolventes apresentam invariavelmente um elevado grau de endividamento, pelo menos um ou dois anos antes da falência ou concordata. Na verdade, ela está contraindo dívidas para pagar dívidas, ao contrario de uma empresa sadia que busca no endividamento o indispensável complemento dos recursos próprios para realizar investimentos produtivos (ampliar as instalações, comprar novas máquinas etc.). Neste caso, a empresa insolvente se assemelha à pessoa que, não tendo condições de saldar suas dívidas, recorre a empréstimos bancários sucessivos. Quando vence um empréstimo num determinado banco, ela recorre a outro para pagar o primeiro e assim sucessivamente, até que um dia ela esgotou a sua capacidade de conseguir empréstimos, e a corrida chega ao fim (a não ser, é lógico, que sua situação financeira tenha melhorado sensivelmente nesse período e ela possa saldar os empréstimos com recursos próprios). No caso da S.A. Comércio de Veículos, verifica-se que seu grau de endividamento era de 90,8% no balanço anterior ao pedido de concordata. Em 1973, segundo a edição "Os Melhores e os Maiores", de EXAME, a média de endividamento de todos os setores analisados foi de 39,8%. 3) rentabilidade do patrimônio líquido: Nas empresas insolventes, este índice geralmente é baixo. Entretanto, uma empresa bem administrada pode agüentar prejuízos durante algum tempo e, ainda assim, se recuperar. No último balanço da S.A. Comércio de Veículos a rentabilidade do patrimônio líquido era de menos 193%. No balanço projetado para o ano seguinte ao pedido de concordata, a rentabilidade cairia para menos 572%, mostrando o agravamento da situação (que a levou, inclusive, a entrar com um pedido de concordata, antes de chegar à falência). Mas a análise do balanço de outras empresas mostra que até mesmo firmas com boa rentabilidade sobre o patrimônio (em outras palavras, com um bom lucro líquido) também podem falir. Nesse caso, não basta analisar os indicadores mencionados anteriormente. É preciso ficar de olho em outros dois índices: 4) ativo fixo sobre patrimônio liquido: Este índice revela se a empresa não está investindo acima de suas possibilidades. Geralmente, isto ocorre com empresas que já têm boa parte do seu capital imobilizado em instalações antigas e, ao mesmo tempo, estão investindo em novos equipamentos e na ampliação das instalações atuais. Quando o ativo fixo for 100% maior que o patrimônio líquido (o da S.A. Comércio de Veículos era 164,8% maior no balanço anterior à concordata), a empresa estará se descapitalizando perigosamente e abrindo caminho para a insolvência, mesmo que tenha lucros elevados. Portanto, é aconselhável acompanhar atentamente o crescimento do ativo fixo, sobretudo das pequenas e médias empresas que conseguem bons resultados no final de um exercício e, por isso, se sentem fortes para crescer rapidamente. Andar mais rápido que as pernas pode levar a tropeções. Fluxo de fundos (S/A COMÉRCIO DE VEÍCULOS) Fontes de Recursos Financeiros Patrimônio Liquido.............................................................. Exigível a Longo Prazo....................................................... Exigível a Curto Prazo ....................................................... Ativo Fixo ........................................................................... Realizável a Longo Prazo .................................................. TOTAL................................................................................ Aplicação de Recursos Financeiros Ativo Fixo .......................................................................... Realizável a Longo Prazo .................................................. Ativo Circulante ....................................................... Patrimônio Liquido ............................................................. Exigível a Longo Prazo ...................................................... TOTAL................................................................................ 0 0 63% 2% 35% 100%

0 0 51% 7% 42% 100%

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Finalmente, é bom não perder de vista, também, um outro índice: 5) ativo circulante sobre ativo fixo: Quando este índice é alto (5,64 no caso da , S.A. Comércio de Veículos), a empresa está financiando demais as suas vendas. E, conseqüentemente, se expondo demais aos problemas de seus clientes. É a velha história do castelo de cartas: caindo a primeira, caem todas. Da mesma forma, a falência de um cliente pode levar o fornecedor pelo mesmo caminho, se ele estiver financiando demais esse cliente ou mesmo, como no terceiro exemplo citado no início deste artigo, quando uma parcela importante de suas vendas estiver comprometida com esse cliente. Neste último caso, recomenda-se a saudável política de diversificar produtos, mercados e clientes para diminuir os riscos inerentes ao negócio. Empréstimos a curto prazo são a última tentativa para escapar à falência

Os cinco índices analisados anteriormente são importantes para determinar a possível insolvência de uma empresa. Porém não basta analisa-los num determinado momento para afirmar que a empresa vai - ou não – falir. Como dissemos no início, uma empresa bem administrada pode se recuperar de uma situação difícil. Da mesma forma, uma empresa que apresenta um balanço em boas condições num determinado ano pode eventualmente falir no ano seguinte. Por isso é indispensável verificar, depois que se constataram índices desfavoráveis no balanço de uma empresa, se tais índices, melhoraram ou pioraram em relação ao ano anterior. Se melhoraram, é possível que a empresa esteja saindo de uma situação difícil. Se pioraram, está provavelmente mais perto da falência ou concordata. A S.A. Comércio de Veículos apresenta duas tendências comuns à maioria das empresas insolventes: 1) redução do patrimônio líquido, provocada por prejuízos constantes e crescentes; e 2) diminuição do capital de giro próprio. O balanço de 1972 da S.A. Comércio de Veículos mostra, em relação ao de 1971 (ver quadro) que o patrimônio líquido sofreu uma queda de 32,8%. O capital de giro próprio, outra queda de 97,7%. Uma tendência também comum às empresas insolventes é o aumento do grau de endividamento – a última tentativa para escapar à falência. No caso da S.A. Comércio de Veículos esse aumento não foi expressivo (0,8% em relação a 1971), provavelmente, porque, como a pessoa que recorre a empréstimos bancários sucessivos para pagar empréstimos anteriores, ela chegou ao fim da linha, isto é, a um ponto em que não mais conseguiu obter empréstimos. De qualquer forma, nunca é demais lembrar que os empréstimos podem retardar a falência mas não conseguirão evitá-la. Com relação aos índices de liquidez, é interessante notar que eles se deterioram de 1971 para 1972, mas apresentam uma estranha melhora no balanço projetado de 1973, ano em que a S.A. Comércio de Veículos pedia concordata. Essa tendência é comum à maioria das empresas insolventes e acreditamos que isso decorra, pelo menos em parte de artifícios contábeis para "embelezar" esses índices.Afinal, os índices de liquidez são a bíblia segundo a qual os bancos costumam conceder empréstimos. O último recurso das empresas que estão à beira da falência é tentar obter novos empréstimos, pelo menos para retardar a falência ou concordata. Mais uma vez se comprova que tais índices são pouco úteis, para determinar se uma empresa está em boa ou má situação financeira. Além da análise comparativa dos dados de balanço, existe uma outra, a meu ver mais eficiente, que serviria para confirmar o diagnóstico da empresa. Trata-se da análise do demonstrativo do fluxo de fundos. Inicialmente, esta análise mostra o que a diretoria fez durante o exercício fiscal: onde obteve os recursos e como os aplicou. Uma empresa financeiramente sólida tem como fontes de recursos: 1) Patrimônio líquido: lançamento de novas ações, lucros acumulados de exercícios anteriores. 2) Exigível a curto prazo: crédito de fornecedores, desconto de duplicatas. 3) Exigível a longo prazo: empréstimos de bancos de investimento, Resolução 63.

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Ao aplicar esses recursos, uma empresa bem administrada e saudável investe em: 1) Ativo fixo: novas instalações, máquinas e equipamentos. 2) Realizável a longo prazo: financiamento das vendas, compra de Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. 3) Ativo circulante: estoques, reforço do encaixe monetário, saldo bancário, Letras do Tesouro. Vejamos, agora, como se comportou a S.A. Comércio de Veículos. Pela analise do seu demonstrativo de fluxo de fundos (ver página 98), verificamos que ela teve como principal fonte de recursos exigível a curto prazo (63%) e o realizável a longo prazo (35%). O que nos leva a duas conclusões imediatas: 1) Ter o exigível a curto prazo como principal fonte de recursos significa que a empresa foi obrigada a recorrer a empréstimos a curto prazo para tentar sobreviver; 2) A presença de vultosos recursos originários do realizável a longo prazo indica que a S.A. Comércio de Veículos suspendeu, ou pelo menos diminuiu, o financiamento a seus clientes: Além disso, o patrimônio líquido - normalmente a melhor e mais barata fonte de recursos para uma empresa - não contribuiu para esses recursos, o que revela que a empresa não tinha mais condições de lançar ações e que não conseguiu acumular lucros no exercício. Vejamos agora como a S.A. Comércio de Veículos aplicou seus recursos: 1) Ativo circulante: recebeu 51% dos recursos, o que foi uma aplicação correta. 2) Exigível a longo prazo: 42% dos recursos foram aplicados em exigível a longo prazo, o que, normalmente, deveria ser uma fonte de recursos financeiros e não objeto de aplicações. Isto significa que a empresa teve que saldar compromissos de longo prazo. Provavelmente, porque algum banco, tomando conhecimento da situação de insolvência da S.A. Comércio de Veículos se recusou a renovar financiamentos ou empréstimos de longo prazo. A análise mostra, ainda, que a empresa não aplicou em ativo fixo e realizável a longo prazo, comprometendo sua saúde futura. Pior ainda: o demonstrativo revela que a S.A. Comércio de Veículos foi obrigada a vender equipamentos e máquinas para obter recursos. Evidentemente, é o começo do fim. Analisando o balanço projetado, caso a empresa não tivesse pedido concordata, veremos o que teria ocorrido: 1) Ativo fixo sobre patrimônio líquido: aumentou de 164% para 295%. Ou seja, a empresa investiu em ativo fixo apesar de não haver recursos a longo prazo. Para os contabilistas, isso quer dizer que o ativo fixo estava "a descoberto"; 2) Capital de terceiros sobre patrimônio liquido: no balanço de 1972, este índice era de 997%, em 1973 seria de 3.060%, mostrando que para cada cruzeiro próprio, a empresa deveria, 30 cruzeiros para terceiros. O que diferencia as empresas sólidas das que estão à beira da falência
Capital de Terceiros sobre patrimônio líquido 791% Lucro líquido sobre patrimônio líquido 12% Índice de liquidez geral 1,04 Índice de liquidez corrente 1,12 Índice de liquidez seca 0,55

Média das empresas que faliram Média das empresas que continuam operando Diferença

130% 508%

4% 300%

1,16 12%

1,25 12%

0,71 29%

A análise do balanço e do demonstrativo de fluxo de fundos da S.A. Comércio de Veículos foi apenas um exemplo. Um bom exemplo, porque real. Mais interessante, porém, é comparar os índices financeiros médios de um grupo de quinze empresas que faliram menos de um ano depois da publicação do balanço com os de outro grupo de quinze empresas que continuam operando normalmente até hoje (ver tabela na página anterior). Observando-se essa tabela veremos que:

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1) o capital de terceiros sobre o patrimônio é, em média, cinco vezes maior nas empresas que faliram do que nas empresas que continuaram operando até hoje; e 2) o lucro líquido sobre o patrimônio líquido é três vezes maior nas empresas solventes que nas insolventes. Por fim, é hora de jogar a última pá de cal nos “famosos” índices de liquidez. A comparação revela que eles não são substancialmente diferentes nos dois casos: o índice médio de liquidez geral, por exemplo, foi de 1,04 – no grupo das empresas que faliram – e de 1,16 – no grupo das empresas saudáveis. É bom não se esquecer, porém, de que os índices de liquidez podem ser úteis para confirmar uma tendência apontada por índices mais seguros, como os dois primeiros. Para calcular o ”fator de insolvência” (ver formulário abaixo), que mencionamos no início, usamos uma combinação de índices, ponderados estatisticamente, inclusive de liquidez. Quais são eles? 1) lucro líquido sobre patrimônio líquido (rentabilidade do patrimônio); 2) ativo circulante mais realizável a longo prazo dividido pela soma do exigível a curto e longo prazo (ou seja, o índice de liquidez geral); 3) ativo circulante menos estoques sobre exigível a curto prazo (índice de liquidez seca); 4) ativo circulante sobre exigível curto prazo (índice de liquidez corrente); e, finalmente; 5) exigível a curto prazo mais exigível a longo prazo sobre patrimônio líquido (ou seja, o grau de endividamento). Como calcular o fator de insolvência

X1=

Lucro Líquido Patrimônio Líquido

= = = = =

X 0,05

(1)

+
X2= Ativo Circulante + realizável a longo prazo Exigível curto + exigível longo X 1,65
(2)

+
X3= Ativo Circulante – estoque Exigível curto prazo X 3,55
(3)

X4= Ativo Circulante Exigível curto prazo X 1,06
(4)

X5= Exigível curto prazo + exigível longo prazo Patrimônio Líquido X 0,33
(5)

=
FATOR DE INSOLVÊNCIA (1) + (2) + (3) – (4) –(5)

Trata-se de uma ponderação relativamente complexa, mas que pode ser aplicada a qualquer empresa, utilizando-se, inclusive, informações que não constam de seus demonstrativos financeiros, tais como: idade média dos equipamentos e parecer dos auditores, entre outros. No Brasil, já existem modelos para se calcular o fator de insolvência, que combinam 25 índices diferentes, com alto grau de precisão. Depois de realizadas as operações indicadas na fórmula, obtém-se o fator de insolvência. Para facilitar a avaliação da situação de uma empresa com base no valor obtido, elaboramos o termômetro da insolvência (ver gráfico abaixo), que apresenta variações abaixo e acima de zero.

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Os valores abaixo de -3 indicam que a empresa se encontra numa situação que poderá leva-la à falência: Evidentemente, quanto menor esse valor, mais próxima da falência estará a empresa. Assim, por exemplo, se uma empresa apresentar um fator de insolvência de –18, podemos afirmar que ela terá 94% de possibilidade de falir no prazo de um ano. Da mesma forma, se uma empresa apresenta um fator de insolvência positivo (acima de zero), menores são as suas possibilidades de vir a falir. E essa possibilidade diminuirá à medida que o fator positivo for maior. A Metal Leve, por exemplo, empresa brasileira que apresentou o melhor desempenho em 1973, segundo "Os Melhores e os Maiores", tinha um fator de insolvência de 10. Quanto à área do termômetro compreendida entre 0 e –3, é o que chamamos de "penumbra" – ou seja, uma área em que a indicação do fator de de insolvência não é suficiente para determinar a situação da empresa. Entretanto, o uso de um número maior de índices para calcular o fator de insolvência ajuda a diminuir essa zona de penumbra no termômetro. O cálculo do fator de insolvência da S.A. Comércio de Veículos acusava, em 1972, o valor de 2,6, o que, se não indicava falência iminente, também não apontava um futuro promissor para a empresa. Já no balanço projetado de 1973, o fator de insolvência pulava para -7, indicando claramente que se a empresa não tivesse pedido concordata, a falência séria inevitável. Mas, como observamos no início, o fator de insolvência não é apenas um profeta de catástrofes empresariais. Em períodos de retração de crédito, por exemplo, ele permite ordenar empresas segundo o maior ou menor risco que ofereçam e, assim, conceder créditos com mais segurança. Três grupos financeiros já estão empregando essa técnica no Brasil, inclusive para calcular o risco de insolvência de pessoas físicas, como faz o Credicard. E chegaram a uma conclusão interessante: o número de pedidos de empréstimo e de financiamento rejeitados caiu de 25% para 2%, com o uso do fator de insolvência. Isso porque ele permite um grau de segurança muito maior quando se avalia a situação de uma empresa. . Outra conclusão interessante é a de que, apesar do grande número de pedidos de empréstimos e financiamentos rejeitados por analistas financeiros de bancos, muitas empresas que recebiam parecer favorável chegavam a falência menos de um ano depois, como ocorreu com os três exemplos citados no início. Com a adoção do fator de insolvência, o. número de empresas que faliam mesmo depois de receber um parecer de auditória favorável caiu de 1% para 0,4%.

Termômetro de Insolvência

⇒ SOLVENTE

⇒ PENUMBRA ⇒ INSOLVENTE