Você está na página 1de 8

COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS - Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102

95

Os sintomas de que uma empresa está a caminho da falência ou concordata podem ser 1 notados muito antes que ocorra o desenlace Quem garante é Stephen Charles Kanitz , professor de Análise de Demonstrativos Financeiros da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, que apresenta aqui um novo método para prever falências.

Como prever falências de empresas

Em 1971, um banco paulista recebia uma solicitação de financiamento de uma revendedora de automóveis. Os balanços da empresa, assim como outros dados indicativos de sua performance, foram exaustivamente analisados. Embora os balanços apresentassem alguns pontos negativos, a empresa foi considerada boa e, no conjunto, o parecer dos analistas do banco foi plenamente favorável. Seis meses mais tarde, a concessionária entrava com um pedido de concordata.
1

Stephen Charles Kanitz, 28 anos, é doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, onde é professor de Análise de Demonstrativos Financeiros. Além disso, é Master em administração de empresas pela Harvard Business School e chefiou a equipe técnica que processou os dados da edição "Os Maiores e os Melhores”; de EXAME, setembro de 1974. Como consultor de empresas, presta assessoria na área de análise de investimentos.

conseqüentemente. deve existir nos balanços publicados antes da tragédia final alguns indícios do que está para acontecer. foram elaborados aproximadamente dezesseis índices. Quatro meses mais tarde a cadeia de supermercados pedia concordata Exatamente um mês depois. Portanto. Ou seja: descobrir com antecedência e um razoável grau de segurança. permitem atender a um pedido apenas? Uma das formulas para. que não sabem localizar nos demonstrativo os sinais da insolvência? Afinal. a análise do índice de solvência permite: 1) descobrir empresas em estado de pré-insolvência. porém é preciso se lembrar de que nem toda empresa vai obrigatoriamente à falência por estar enfrentando dificuldades em determinado momento. caso a empresa não corrija os rumos que está seguindo. melhor situação financeira. Aliás. ainda. verificar sé o valor obtido coloca a empresa numa faixa perigosa ou não. Diante de fatos aparentemente absurdos como esses. meio e fim. entregava a uma empresa-cliente um parecer de auditoria dando como satisfatório o balanço da empresa auditada. a primeira indagação é: de que vale uma análise profunda do balanço. E. exceto por um ou outro detalhe de menor importância: Onze dias apos a entrega do parecer. o fator de insolvência é um indicador daquilo que pode acontecer em futuro próximo. uma conceituada empresa internacional de auditoria. no momento. 2) hierarquizar as empresas numa escala de solvência/insolvência. existem vários estudos mostrando que as empresas insolventes começam a acusar sinais de dificuldades bem antes de chegarem ao ponto crítico de uma falência ou concordata. isto é. Para tanto. sendo um processo que tem começo. determinar o que chamamos de fator de insolvência. os balanços da revendedora de automóveis foram dissecados pelo departamento técnico do banco que emprega quinze economistas para este tipo de tarefa. ressaltar que o fator de insolvência não é apenas um desagradável prenúncio de concordatas e falências. Basta saber localizá-los. a empresa falia. . Portanto. Antes. qual a situação financeira de uma empresa. Afinal. uma fábrica recebia um pedido milionário de fornecimento para uma cadeia nacional de supermercados. Uma aplicação menos pessimista surge quando nos concentramos do outro lado da cerca. qualquer empresa tem probabilidade de falir? TaIvez seja impossível prever uma falência com 100% de certeza. sair do impasse seria escolher a empresa que tivesse o melhor índice de solvência – e. o que consumia dois dias de trabalho de um analista financeiro. Os primeiros sintomas de uma insolvência surgem muito antes que ela se concretize Nesses três casos.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 96 Em abril de 1972. do lado da solvência. Por exemplo: como o gerente de um banco deve decidir sobre pedidos de empréstimos ou financiamento de duas empresas. a fábrica que vendia 40% de sua produção ao supermercado ia à falência. como veremos adiante. depois de um ano de trabalho. segundo á probabilidade de insolvência de cada cliente. é preciso. o balanço era impecável. se inicia muito antes de se concretizar. depois. O supermercado se comprometia a comprar 40% da produção da fábrica e o pedido foi prontamente aceito. qualquer empresa bem administrada pode se recuperar de uma situação difícil. a fim de selecionar clientes prioritários. É importante. Do ponto de vista financeiro. quem sabe a culpa não é dos analistas. mas é perfeitamente possível identificar aquelas empresas que têm maiores possibilidades de falir em futuro não muito distante. Mas qual o caminho a ser seguido se. Para cada balanço. No dia 26 de novembro de 1973. primeiro. É intuitivamente compreensível que á insolvência. se não for capaz de revelar os sintomas de uma insolvência iminente? Ou. os demonstrativos financeiros das empresas foram exaustivamente analisados. em termos de solvência (para facilitar essa verificação elaboramos um termômetro de insolvência que indica a maior ou menor probabilidade de falência). No primeiro. a rigor. Em resumo. com escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo. quando os recursos disponíveis. e 3) determinar previsões para a conta "devedores duvidosos".COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . o objetivo desse trabalho é justamente mostrar que é possível avaliar o grau de solvência de qualquer empresa.

9% Quais são.9 1.7 -74. Concentramo-nos.3 35.2% -18.6 24.) e.4 660. avaliar a situação da empresa e quais os que não levam a conclusões definitivas? De imediato.3% 80.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 97 Para mostrar como se aplica. Portanto.7 4. analisamos uma centena de balanços de empresas que posteriormente.2% -572.4 -81.0 96.6% 117.9 0.7% -118.8% 3.8% 181.6 5.6 1. tanto para o exercício imediatamente anterior ao pedido de concordata quanto para o próprio exercício em que se deu a concordata (através de projeções que indicam a provável situação do balanço. caso a concordata não se tivesse concretizado). Comércio de Veículos é uma empresa pequena (patrimônio líquido de 1.0 0.5 Projeção para 1973 1.4% -7.8% 81. Comércio de Veículos (nome fictício que demos a uma empresa real.7 0.8% 42. realmente. tendem a trabalhar exclusivamente com .7 1.6% 7. então. É a triste realidade de sempre: são as pequenas e médias empresas que estão mais expostas à insolvência. porque inúmeras empresas estão na mesma situação e.3% 564. equipamentos. os indicadores que devem merecer maior atenção na análise? A seguir.2 -2.5% 8. nem por isso. Comércio de Veículos (em Cr$ milhões) 1972 Patrimônio Líquido Exigível a Curto Prazo Exigível a Longo Prazo Ativo Circulante Realizável a Longo Prazo Capital de Giro Próprio Capital não Imobilizado Ativo Fixo Lucro Líquido Índice de Liquidez Corrente Índice de Liquidez Geral Índice de Liquidez Seca Grau de Endividamento Capital de Terceiros sobre Patrimônio Líquido Capitalização do Patrimônio Exigível a Longo Prazo sobre Patrimônio Líquido Patrimônio Líquido sobre Exigível Total Rentabilidade do Patrimônio Líquido Rentabilidade do Ativo Total Rentabilidade do Ativo Fixo Grau de Alavancagem Ativo Fixo sobre Patrimônio Líquido Exigível a Longo Prazo sobre Ativo Fixo Ativo Circulante sobre Ativo Fixo Exigível a Longo Prazo sobre Capital de Giro Capital de Giro sobre Ativo Total Capital de Giro sobre Ativo Circulante Capital de Giro sobre Ativo Fixo 2. As empresas insolventes. o índice de solvência.9 164.2% 41.5% 0.0% 69. parte de seu capital de giro. ainda. A seguir. S.1 1.0% Variação 72/71 -32.3% 147. O quadro abaixo mostra a evolução dos dados do balanço da S.3% 2.9 0.6% -277.8% 17. na prática.7% -99.8 24.6 491. desatacamos os mais importantes: 1) capital de giro próprio: As empresas financeiramente sólidas em geral dispõem de recursos próprios suficientes para financiar pelo menos uma parcela de seus investimentos em ativo fixo (máquinas. que entrou em concordata em 1973) servirão de base para comprovar a tese de que os primeiros sintomas de falência ou concordata surgem muito antes de que ela ocorra efetivamente.2% -97.055.1% 3.8 90. Comércio de Veículos.6% 10. porém. á beira de uma falência. É o que chamamos de capital de giro próprio. notamos que os índices de liquidez – normalmente os mais usados pelos analistas financeiros para determinar a situação de uma empresa – estão bem próximos de 1.4% 81.COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . notamos que a S.3 -88.A.3 -3.3 52. imóveis etc.2% 434. Que lições se podem tirar da análise desses balanços? Quais os indicadores que.7 -98.A.4 0. vieram a falir ou a pedir concordata.7% 40.A.0 0.0 -7.8% 997.3 462. então.5 295.1% -193.0 -3.5 266.7% 2.0 -43. Os balanços da S.8 5.7% 10.060.0% 193. O que não quer dizer muita coisa.8 37.9 38.3 -97.0 -1.3 -5. num único exemplo para facilitar a análise. ao contrário do que se costuma pensar.7% 31.2% -82.0 -0.9 309. os índices de liquidez não são um indicador seguro do estado de solvência das empresas.9% -22.A.5 milhão de cruzeiros).6 4. permitem.0% 969.3 -5.1 -97.3% 0.

as empresas insolventes apresentam invariavelmente um elevado grau de endividamento.............. Quando o ativo fixo for 100% maior que o patrimônio líquido (o da S..........A............)........ elas aumentam suas dívidas sem que... ela recorre a outro para pagar o primeiro e assim sucessivamente... Nesse caso. a média de endividamento de todos os setores analisados foi de 39... No caso da S...... Exigível a Curto Prazo .... Entretanto... Exigível a Longo Prazo .. no entanto.. e a corrida chega ao fim (a não ser....... Em 1973....... de EXAME...........Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 98 capital de terceiros..... mesmo que tenha lucros elevados..................8%. pelo menos um ou dois anos antes da falência ou concordata......... Aplicação de Recursos Financeiros Ativo Fixo .. comprar novas máquinas etc.... em que o capital de giro próprio é negativo.......... Exigível a Longo Prazo... antes de chegar à falência)... a rentabilidade cairia para menos 572%.. a empresa estará se descapitalizando perigosamente e abrindo caminho para a insolvência..... não tendo condições de saldar suas dívidas........................ não basta analisar os indicadores mencionados anteriormente... Patrimônio Liquido ...... portanto. com um bom lucro líquido) também podem falir............................................................ mostrando o agravamento da situação (que a levou....... ainda assim..... Comércio de Veículos a rentabilidade do patrimônio líquido era de menos 193%........... Geralmente.... Ativo Fixo ............ 2) grau de endividamento: Esse indicador serve para caracterizar um ciclo vicioso............. 3) rentabilidade do patrimônio líquido: Nas empresas insolventes...................... ao mesmo tempo... por isso..... Comércio de Veículos era 164..... inclusive...... Ou seja: na tentativa de superar dificuldades financeiras......... A ausência de capital de giro próprio é......... Fluxo de fundos (S/A COMÉRCIO DE VEÍCULOS) Fontes de Recursos Financeiros Patrimônio Liquido.... Andar mais rápido que as pernas pode levar a tropeções.. a empresa insolvente se assemelha à pessoa que.... sobretudo das pequenas e médias empresas que conseguem bons resultados no final de um exercício e. é aconselhável acompanhar atentamente o crescimento do ativo fixo..... a entrar com um pedido de concordata............. No balanço projetado para o ano seguinte ao pedido de concordata.........A.............. ao contrario de uma empresa sadia que busca no endividamento o indispensável complemento dos recursos próprios para realizar investimentos produtivos (ampliar as instalações... Comércio de Veículos............ verifica-se que seu grau de endividamento era de 90...... Portanto................ isto ocorre com empresas que já têm boa parte do seu capital imobilizado em instalações antigas e........ Na verdade.................... Comércio de Veículos............................. se sentem fortes para crescer rapidamente... uma empresa bem administrada pode agüentar prejuízos durante algum tempo e.......... recorre a empréstimos bancários sucessivos.................. um passo importante no caminho da insolvência......................... TOTAL.... estão investindo em novos equipamentos e na ampliação das instalações atuais......... que sua situação financeira tenha melhorado sensivelmente nesse período e ela possa saldar os empréstimos com recursos próprios)............. Quando vence um empréstimo num determinado banco................................. 0 0 63% 2% 35% 100% 0 0 51% 7% 42% 100% ...... No último balanço da S. ela está contraindo dívidas para pagar dívidas... Realizável a Longo Prazo .. Mas a análise do balanço de outras empresas mostra que até mesmo firmas com boa rentabilidade sobre o patrimônio (em outras palavras........ TOTAL........A...........COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS ... Por não disporem de recursos próprios.................. se recuperar.. como ocorre no caso dá S........... este índice geralmente é baixo......... tenham condições de pagá-as........... É preciso ficar de olho em outros dois índices: 4) ativo fixo sobre patrimônio liquido: Este índice revela se a empresa não está investindo acima de suas possibilidades................8% no balanço anterior ao pedido de concordata.. Ativo Circulante ..........8% maior no balanço anterior à concordata)..... Neste caso.. é lógico.....................................A...... até que um dia ela esgotou a sua capacidade de conseguir empréstimos.... segundo a edição "Os Melhores e os Maiores"..... Realizável a Longo Prazo ..........................

Neste último caso. Comércio de Veículos esse aumento não foi expressivo (0.7%. esta análise mostra o que a diretoria fez durante o exercício fiscal: onde obteve os recursos e como os aplicou. recomenda-se a saudável política de diversificar produtos. existe uma outra. uma empresa bem administrada pode se recuperar de uma situação difícil. depois que se constataram índices desfavoráveis no balanço de uma empresa.A. Como dissemos no início. também.Afinal. a falência de um cliente pode levar o fornecedor pelo mesmo caminho. lucros acumulados de exercícios anteriores. O balanço de 1972 da S. um outro índice: 5) ativo circulante sobre ativo fixo: Quando este índice é alto (5.8% em relação a 1971). 3) Exigível a longo prazo: empréstimos de bancos de investimento. porque. Comércio de Veículos). Com relação aos índices de liquidez.A. Comércio de Veículos apresenta duas tendências comuns à maioria das empresas insolventes: 1) redução do patrimônio líquido. é bom não perder de vista. É a velha história do castelo de cartas: caindo a primeira. nunca é demais lembrar que os empréstimos podem retardar a falência mas não conseguirão evitá-la. caem todas. se ele estiver financiando demais esse cliente ou mesmo. está provavelmente mais perto da falência ou concordata. Trata-se da análise do demonstrativo do fluxo de fundos. Por isso é indispensável verificar.8%. ela chegou ao fim da linha. como no terceiro exemplo citado no início deste artigo. quando uma parcela importante de suas vendas estiver comprometida com esse cliente. uma empresa que apresenta um balanço em boas condições num determinado ano pode eventualmente falir no ano seguinte. pelo menos para retardar a falência ou concordata. se expondo demais aos problemas de seus clientes.ou não – falir. Porém não basta analisa-los num determinado momento para afirmar que a empresa vai .A. isto é. Mais uma vez se comprova que tais índices são pouco úteis. a um ponto em que não mais conseguiu obter empréstimos. é interessante notar que eles se deterioram de 1971 para 1972. desconto de duplicatas. A S. Comércio de Veículos mostra. O último recurso das empresas que estão à beira da falência é tentar obter novos empréstimos. Inicialmente. Uma empresa financeiramente sólida tem como fontes de recursos: 1) Patrimônio líquido: lançamento de novas ações. Da mesma forma. em relação ao de 1971 (ver quadro) que o patrimônio líquido sofreu uma queda de 32. que serviria para confirmar o diagnóstico da empresa. Uma tendência também comum às empresas insolventes é o aumento do grau de endividamento – a última tentativa para escapar à falência.64 no caso da . De qualquer forma.A. os índices de liquidez são a bíblia segundo a qual os bancos costumam conceder empréstimos. conseqüentemente. Se melhoraram. se tais índices. Da mesma forma. provocada por prejuízos constantes e crescentes. a empresa está financiando demais as suas vendas.COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . é possível que a empresa esteja saindo de uma situação difícil. Se pioraram. No caso da S. Resolução 63. S. O capital de giro próprio. a meu ver mais eficiente. para determinar se uma empresa está em boa ou má situação financeira. Comércio de Veículos pedia concordata. mas apresentam uma estranha melhora no balanço projetado de 1973. outra queda de 97. ano em que a S. como a pessoa que recorre a empréstimos bancários sucessivos para pagar empréstimos anteriores. provavelmente. e 2) diminuição do capital de giro próprio. Essa tendência é comum à maioria das empresas insolventes e acreditamos que isso decorra. pelo menos em parte de artifícios contábeis para "embelezar" esses índices. E. Empréstimos a curto prazo são a última tentativa para escapar à falência Os cinco índices analisados anteriormente são importantes para determinar a possível insolvência de uma empresa.A. Além da análise comparativa dos dados de balanço.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 99 Finalmente. mercados e clientes para diminuir os riscos inerentes ao negócio. . melhoraram ou pioraram em relação ao ano anterior. 2) Exigível a curto prazo: crédito de fornecedores.

71 29% A análise do balanço e do demonstrativo de fluxo de fundos da S. Provavelmente. Comércio de Veículos foi apenas um exemplo. Comércio de Veículos foi obrigada a vender equipamentos e máquinas para obter recursos. O que nos leva a duas conclusões imediatas: 1) Ter o exigível a curto prazo como principal fonte de recursos significa que a empresa foi obrigada a recorrer a empréstimos a curto prazo para tentar sobreviver.A.A. em 1973 seria de 3. normalmente. saldo bancário. caso a empresa não tivesse pedido concordata. veremos o que teria ocorrido: 1) Ativo fixo sobre patrimônio líquido: aumentou de 164% para 295%. Isto significa que a empresa teve que saldar compromissos de longo prazo. o que foi uma aplicação correta.04 Índice de liquidez corrente 1.não contribuiu para esses recursos. 2) Exigível a longo prazo: 42% dos recursos foram aplicados em exigível a longo prazo. uma empresa bem administrada e saudável investe em: 1) Ativo fixo: novas instalações.12 Índice de liquidez seca 0. que a empresa não aplicou em ativo fixo e realizável a longo prazo. porque algum banco. isso quer dizer que o ativo fixo estava "a descoberto". 3) Ativo circulante: estoques. A análise mostra. tomando conhecimento da situação de insolvência da S. Mais interessante. máquinas e equipamentos.normalmente a melhor e mais barata fonte de recursos para uma empresa . Comércio de Veículos suspendeu. porém. Comércio de Veículos aplicou seus recursos: 1) Ativo circulante: recebeu 51% dos recursos. Para os contabilistas. é o começo do fim.A. 30 cruzeiros para terceiros. o patrimônio líquido . a empresa investiu em ativo fixo apesar de não haver recursos a longo prazo.060%. Vejamos. o financiamento a seus clientes: Além disso. ainda. O que diferencia as empresas sólidas das que estão à beira da falência Capital de Terceiros sobre patrimônio líquido 791% Lucro líquido sobre patrimônio líquido 12% Índice de liquidez geral 1. compra de Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. 2) Capital de terceiros sobre patrimônio liquido: no balanço de 1972. 2) Realizável a longo prazo: financiamento das vendas. Ou seja. Vejamos agora como a S. o que revela que a empresa não tinha mais condições de lançar ações e que não conseguiu acumular lucros no exercício. é comparar os índices financeiros médios de um grupo de quinze empresas que faliram menos de um ano depois da publicação do balanço com os de outro grupo de quinze empresas que continuam operando normalmente até hoje (ver tabela na página anterior). Pela analise do seu demonstrativo de fluxo de fundos (ver página 98). deveria ser uma fonte de recursos financeiros e não objeto de aplicações. Evidentemente.25 12% 0.16 12% 1. reforço do encaixe monetário.A. Um bom exemplo. mostrando que para cada cruzeiro próprio. agora. Pior ainda: o demonstrativo revela que a S. como se comportou a S.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 100 Ao aplicar esses recursos.A. Analisando o balanço projetado.A. 2) A presença de vultosos recursos originários do realizável a longo prazo indica que a S. o que. Comércio de Veículos. verificamos que ela teve como principal fonte de recursos exigível a curto prazo (63%) e o realizável a longo prazo (35%). Letras do Tesouro. porque real.COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . ou pelo menos diminuiu.55 Média das empresas que faliram Média das empresas que continuam operando Diferença 130% 508% 4% 300% 1. a empresa deveria. Observando-se essa tabela veremos que: . comprometendo sua saúde futura. este índice era de 997%. Comércio de Veículos se recusou a renovar financiamentos ou empréstimos de longo prazo.

4) ativo circulante sobre exigível curto prazo (índice de liquidez corrente). elaboramos o termômetro da insolvência (ver gráfico abaixo). obtém-se o fator de insolvência. ponderados estatisticamente. que apresenta variações abaixo e acima de zero. Para calcular o ”fator de insolvência” (ver formulário abaixo). é hora de jogar a última pá de cal nos “famosos” índices de liquidez. 3) ativo circulante menos estoques sobre exigível a curto prazo (índice de liquidez seca). utilizando-se. que combinam 25 índices diferentes. 2) ativo circulante mais realizável a longo prazo dividido pela soma do exigível a curto e longo prazo (ou seja. porém. e. Quais são eles? 1) lucro líquido sobre patrimônio líquido (rentabilidade do patrimônio).65 (2) + X3= Ativo Circulante – estoque Exigível curto prazo X 3. tais como: idade média dos equipamentos e parecer dos auditores.55 (3) X4= Ativo Circulante Exigível curto prazo X 1.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 101 1) o capital de terceiros sobre o patrimônio é. em média. Como calcular o fator de insolvência X1= Lucro Líquido Patrimônio Líquido = = = = = X 0. por exemplo. A comparação revela que eles não são substancialmente diferentes nos dois casos: o índice médio de liquidez geral.COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . o índice de liquidez geral).33 (5) = FATOR DE INSOLVÊNCIA (1) + (2) + (3) – (4) –(5) Trata-se de uma ponderação relativamente complexa. inclusive. No Brasil. 5) exigível a curto prazo mais exigível a longo prazo sobre patrimônio líquido (ou seja. cinco vezes maior nas empresas que faliram do que nas empresas que continuaram operando até hoje. já existem modelos para se calcular o fator de insolvência. informações que não constam de seus demonstrativos financeiros. Depois de realizadas as operações indicadas na fórmula. . É bom não se esquecer.05 (1) + X2= Ativo Circulante + realizável a longo prazo Exigível curto + exigível longo X 1. de que os índices de liquidez podem ser úteis para confirmar uma tendência apontada por índices mais seguros. e 2) o lucro líquido sobre o patrimônio líquido é três vezes maior nas empresas solventes que nas insolventes.04 – no grupo das empresas que faliram – e de 1. foi de 1. com alto grau de precisão. entre outros. que mencionamos no início.06 (4) X5= Exigível curto prazo + exigível longo prazo Patrimônio Líquido X 0.16 – no grupo das empresas saudáveis. mas que pode ser aplicada a qualquer empresa. o grau de endividamento). Para facilitar a avaliação da situação de uma empresa com base no valor obtido. inclusive de liquidez. finalmente. como os dois primeiros. Por fim. usamos uma combinação de índices.

segundo "Os Melhores e os Maiores". quanto menor esse valor. como observamos no início.4%. Da mesma forma. E chegaram a uma conclusão interessante: o número de pedidos de empréstimo e de financiamento rejeitados caiu de 25% para 2%. E essa possibilidade diminuirá à medida que o fator positivo for maior. como faz o Credicard. Com a adoção do fator de insolvência. inclusive para calcular o risco de insolvência de pessoas físicas. como ocorreu com os três exemplos citados no início. muitas empresas que recebiam parecer favorável chegavam a falência menos de um ano depois. o valor de 2. O cálculo do fator de insolvência da S. com o uso do fator de insolvência. Já no balanço projetado de 1973. se uma empresa apresenta um fator de insolvência positivo (acima de zero). . empresa brasileira que apresentou o melhor desempenho em 1973. indicando claramente que se a empresa não tivesse pedido concordata. o fator de insolvência não é apenas um profeta de catástrofes empresariais. se não indicava falência iminente. número de empresas que faliam mesmo depois de receber um parecer de auditória favorável caiu de 1% para 0. Três grupos financeiros já estão empregando essa técnica no Brasil. A Metal Leve. em 1972. Termômetro de Insolvência ⇒ SOLVENTE ⇒ PENUMBRA ⇒ INSOLVENTE .COMO PREVER FALÊNCIAS DE EMPRESAS . tinha um fator de insolvência de 10. por exemplo. assim. por exemplo. apesar do grande número de pedidos de empréstimos e financiamentos rejeitados por analistas financeiros de bancos. é o que chamamos de "penumbra" – ou seja. a falência séria inevitável. uma área em que a indicação do fator de de insolvência não é suficiente para determinar a situação da empresa. Isso porque ele permite um grau de segurança muito maior quando se avalia a situação de uma empresa. conceder créditos com mais segurança. Mas. mais próxima da falência estará a empresa. o fator de insolvência pulava para -7. Entretanto. Assim. o. por exemplo. Em períodos de retração de crédito. podemos afirmar que ela terá 94% de possibilidade de falir no prazo de um ano. também não apontava um futuro promissor para a empresa.A.6. ele permite ordenar empresas segundo o maior ou menor risco que ofereçam e.Stephen Charles Kanitz REVISTA NEGÓCIOS EM EXAME – Dezembro 1974 – Páginas 95 a 102 102 Os valores abaixo de -3 indicam que a empresa se encontra numa situação que poderá leva-la à falência: Evidentemente. Comércio de Veículos acusava. o que. o uso de um número maior de índices para calcular o fator de insolvência ajuda a diminuir essa zona de penumbra no termômetro. Quanto à área do termômetro compreendida entre 0 e –3. Outra conclusão interessante é a de que. se uma empresa apresentar um fator de insolvência de –18. menores são as suas possibilidades de vir a falir.