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SAGA WILLIAM DIETRICH 02 A CHAVE DE ROSETA
Tradução Mário Vilela 2008 Unicórnio Azul
uni cór nio azu l

Escaneado, Formatado e Revisado Por:

Para minha filha Heidi A posse do saber não elimina o maravilhamento e o mistério. Sempre há mais mistério. Anais Nin Caros leitores, Ethan Gage está encrencado de novo, e vocês são os únicos culpados! Graças à maravilhosa acolhida e interesse que tiveram para com As Pirâmides de Napoleão, e a época pitoresca que aquele romance descreve, o meu americano jogador, "eletricista", protegido de Benjamin Franklin, atirador certeiro e mulherengo de meiapataca (a sorte de Ethan com as senhoras é inegavelmente irregular) está de volta em A Chave de Roseta. Desta vez, ele se vê metido na invasão da Terra Santa por Napoleão Bonaparte e na ascensão do general ao poder na França, tudo isso em 1799. Muitos de vocês se

perguntam o que teria acontecido à Astiza, a namorada de Ethan, e ao conde Alessandro Silano, o vilão, depois que os dois despencam no fecho do livro anterior. Escrevi A Chave de Roseta para descobrir o mesmo. Assim como As Pirâmides de Napoleão, o novo romance baseia-se num episódio real da assombrosa carreira do general francês, combinando os primórdios da ciência da eletricidade e os ensinamentos de Franklin com um mistério - apoiado em fatos - sobre o Livro de Tot, os templários, o misticismo judaico e a Pedra de Roseta. As batalhas realmente aconteceram, e muitas das personagens do livro (Sidney Smith, o aventureiro inglês; Antoine de Phélippeaux, o francês fiel ao Antigo Regime e rival de Napoleão; Al-Djezzar, ou "o Açougueiro"; Gaspard Monge, o matemático; e Haim Farhi, o judeu desfigurado) existiram. No trabalho de pesquisa para esta narrativa, chapinhei nos túneis subterrâneos de Jerusalém, percorri as muralhas de Acre e subi as trilhas da cidade perdida de Petra. Igualmente verdadeiro é o golpe de Estado que levou Napoleão ao poder na França. A maneira pela qual ele transformou seu fracasso na Terra Santa em triunfo em Paris é o mistério histórico que está no âmago desta narrativa. Qual era o segredo de Napoleão? Recebi mensagens de muitos leitores que apreciaram o ritmo rápido, o humor irônico e a pesquisa cuidadosa da primeira caça ao tesouro levada a efeito por Ethan, e penso que vocês terão mais dessas características em A Chave de

Roseta. Já nas primeiras páginas destas novas peripécias, mesmo quem ainda não conhece Ethan Gage e suas aventuras, será imediatamente conquistado pela maneira de ele de ver as coisas. A Chave de Roseta vem para completar o ciclo da narrativa, que ao fim me deixa um pouco sem fôlego após tantas aventuras. Mas sempre há mais mistério... Boa leitura. William Dietrich

PARTE 1 -1Encararmos mil mosquetes apontados para o peito tende mesmo a nos fazer ponderar se não tomamos a decisão errada. E ponderar, eu ponderei - com cada boca de mosquete tão escancarada quanto a boca de um cão de rua a querer nos morder num beco do Cairo. Mas não: embora eu seja humilde ao extremo, também tenho minhas pretensões à superioridade moral e, no meu entender, não fora eu quem se perdera, mas o exército francês. Coisa que eu poderia ter explicado a meu ex-amigo, Napoleão Bonaparte, se ele não estivesse lá nas dunas, fora do alcance da minha voz, desinteressado e irritantemente distraído, com seus botões e suas medalhas reluzindo ao sol do Mediterrâneo. Na primeira vez em que eu estivera numa praia com Bonaparte, quando o homem desembarcara seu exército no Egito, em 1798, ele me disse que os afogados ali seriam imortalizados na história. Agora, nove meses depois, do lado de fora do porto palestino de Jafa, eu é que viraria história. Os granadeiros franceses preparavam-se para atirar em mim e nos infelizes cativos muçulmanos entre os quais eu fora jogado - e, mais uma vez, eu, Ethan Gage, tentava achar um jeito de passar a perna no destino. Vede bem, era uma execução em massa, e eu caíra em

desgraça junto ao general de quem um dia procurara ser amigo. Ah, quanto chão nós dois havíamos percorrido em nove curtos meses! Entre os coitados dos prisioneiros otomanos, fui me enfiando atrás do maior que achei, um gigante negro do alto Nilo que calculei ter espessura suficiente para deter uma bala de mosquete. Todos nós havíamos sido arrebanhados, tal qual gado perplexo, numa linda praia. Os olhos se mostravam arregalados e brancos até nas caras mais escuras, e o vermelho-escarlate, o amarelo-nata, o verdeesmeralda e o azul-safira dos uniformes turcos estavam sujos da fumaça e do sangue após a cidade ter sofrido pilhagem atroz. Havia marroquinos esbeltos e ágeis, sudaneses altos e macambúzios, albaneses pálidos e truculentos, soldados de cavalaria circassianos, artilheiros gregos, sargentos turcos - a mistura de tropas de um vasto império, todos humilhados pelos franceses. Não apenas eu ficava confuso diante daquele falatório ininteligível, mas também eles freqüentemente não entendiam uns aos outros. A multidão se mexia para lá e para cá, com os oficiais já mortos, e tal desordem oferecia um contraste com as fileiras impecáveis de seus vitoriosos carrascos, dispostos como se estivessem desfilando em parada. A resistência otomana enraivecera Napoleão (não se deve jamais colocar numa estaca a cabeça de emissários), e o número de prisioneiros famintos ameaçava tornar-se um estorvo para a força

invasora. Assim, fizeram-nos marchar através dos laranjais até uma faixa de areia com o formato de um crescente, logo ao sul do porto capturado, com o mar espumante adquirindo um maravilhoso tom verde e dourado nos baixios, e a cidade queimando, já sem chamas, no alto do morro. Eu enxergava algumas frutas que ainda se prendiam aos galhos de árvores estouradas pelos projéteis. Meu ex-benfeitor e recente inimigo, montado em seu cavalo à maneira de um Alexandre, estava (pelo desespero e pelo cálculo extremo) a ponto de exibir uma crueldade de que seus próprios marechais falariam, aos cochichos, por muitas campanhas ainda. E, no entanto, ele agora não tinha sequer a cortesia de prestar atenção! Estava lendo outro daqueles romances sorumbáticos, seguindo o hábito de devorar uma página, arrancá-la e passá-la aos oficiais. Eu, descalço e ensangüentado, estava a apenas vinte milhas em linha reta do lugar onde Jesus Cristo morrera para salvar o mundo. Meus dias imediatamente anteriores, de perseguição, tormenta e guerra, não me haviam convencido de que os esforços de nosso Salvador conseguiram melhorar de todo a natureza humana. "Preparar!" Puxaram-se os cães de um milhar de mosquetes. Eu tivera de marchar com os outros prisioneiros para a praia porque os sicários de Napoleão haviam me acusado de espião e traidor. E, sim, as circunstâncias tinham dado um quê de verdade a tal caracterização. Mas de modo

e olhem que sou um sujeito afável! Minha mais recente nêmesis francesa era um patife chamado Pierre Najac. de fanáticos muçulmanos. e duas polegadas para a direita. ou savants. alguém cujos incipientes conhecimentos de eletricidade (e a necessidade de fugir a uma injustíssima acusação de homicídio) fizeram que fosse incluído na companhia dos cientistas. como atesta o volume anterior. de pelotões franceses . Como já tive ocasião de observar. Levara tiro da cavalaria mameluca. cutucando-me as costas com um sabre de cavalaria. da mulher que eu amava. um assassino e larápio que não conseguia superar o fato de que certa vez eu o baleara na diligência para Toulon. quando tentou me roubar um medalhão sagrado. E uma história complicada. Lá em Paris. Era simplesmente um americano em Paris.algum eu começara com esse objetivo. tudo parece começar com a jogatina. O canalha estava antegozando meu iminente passamento com a mesma sensação de triunfo e asco que se tem ao esmagar uma aranha particularmente irritante. Najac reaparecera em minha vida tal qual uma dívida que nos persegue. de belonaves britânicas. obrigara-me marchar na fileira de prisioneiros. de degoladores árabes. fora um jogo de cartas o que me rendera o misterioso . de Napoleão durante a brilhante conquista do Egito pelo general. quando atirara nele. Já eu lamentava não ter apontado um tantinho mais alto. e ele. Eu também desenvolvera aptidão para estar do lado errado na hora errada.

Agora. e é tolice confiar na sorte. o que parecia um jeito simples de recomeçar . convencera-me de que precisávamos salvar o mundo do amo de Najac. o conde e feiticeiro franco-italiano Alessandro Silano. Ethan Gage. Mas. não trabalhar. Ela. podia-se argumentar.tirar cada xelim dos perplexos marujos da HMS Dangerous antes que os britânicos me desembarcassem na Terra Santa .não resolvera absolutamente nada e. Permitam que eu repita: o jogo é um vício. Tudo isso. e o Egito trouxe minha linda. essas duas ambições são tão opostas quanto a eletricidade positiva e a negativa. passei a maior parte dos meus trinta e quatro anos tentando ficar longe de demasiada confusão e de demasiado trabalho. Eu. por sua vez. O anseio por uma. Foi minha aversão ao trabalho pesado o que reforçou meu gosto pela jogatina. "Apontar!" Mas estou colocando o carro na frente dos bois. colocou-me do lado contrário a . rendendo o medalhão. que me levou ao Egito com metade dos vilões do mundo em meu encalço. levara-me à presente enrascada. assim como a dor de cabeça que se segue ao álcool ou à traição que causam as belas mulheres.medalhão e dera início à encrenca. meio sem que eu esperasse. Como por certo diria o grande e falecido Benjamin Franklin (meu mentor e ex-empregador). vai quase certamente fazer gorar a outra. não arrumar confusão. trata-se de uma lição que esquecemos com a mesma freqüência em que as aprendemos. Astiza a mim. e perdida.

para que eu fizesse investigações. depois sacerdotisa do Egito caíra do balão no Nilo. Desde então. Eu avisei que era uma história complicada. com aflição redobrada pelo fato de que as últimas palavras de meu inimigo a Astiza foram: "Sabes que ainda te amo!". só para perder tudo o que eu prezava quando me vi obrigado a fugir de balão. encontrei uma entrada secreta para a Grande Pirâmide e fiz as descobertas mais surpreendentes de todos os tempos. e agora lá estava eu. no final de outubro de 1798. junto com meu inimigo. Silano. minha bela e exasperante Astiza . Uma coisa levou a outra.Bonaparte.primeiro candidata a assassinar-me. aquele inglês maluco. apaixonei-me. encarando mil bocas de mosquete. quando me vi sem escapatória no convés da fragata . eu vinha tentando desesperadamente saber o paradeiro dela. desembarcasse-me na Palestina logo adiante do exército invasor de Bonaparte. No decorrer dos acontecimentos. "Fogo!" Antes que eu lhes conte o que aconteceu quando os mosquetes cuspiram fogo. Que tal uma coisa dessas para vir nos espreitar o pensamento à noite? Qual era afinal o relacionamento entre Astiza e Silano? Foi por isso que concordei em deixar que sir Sidney Smith. talvez deva voltar ao ponto em que se interrompera meu relato anterior. Fosse como fosse. depois minha serva.

as gotinhas a secar em estrelas de sal. Eu estava um pouco cansado de aventuras frenéticas e mais do que disposto a voltar correndo para Nova York e assumir um belo emprego de contador.a bandeira inglesa desfraldada. era justamente o tipo de iniciativa militante e viril que eu aprendi a detestar. os vários canhões a orvalhar-se pela espuma do Mediterrâneo.Astiza. Quão animado era tudo aquilo . os robustos marujos a puxar as rijas cordas de cânhamo com uma cantoria enérgica. os altivos oficiais de chapéu bicorne a percorrer o castelo de popa. Pior: eu enfim decidira o que era importante para mim no mundo . ser resgatada. e proles ingênuas e nada merecedoras. Em outras palavras. A vida era mais simples quando eu não tinha princípios. lépida. o qual eu finalmente despachara para um inferno condizente. cuidando de testamentos chatíssimos para viúvas trajadas de preto.Dangerous. singrando o mar espumoso. escriturário ou talvez despachante. uma escrivaninha e uns livros-caixa empoeirados . Eu não poderia simplesmente arrumar passagem para casa sem saber se ela sobrevivera à queda com o vil Silano e se poderia. de algum modo. E.aquilo sim é vida! Mas sir Sidney não queria saber de nada disso. . que rumava para a Terra Santa com velas enfunadas. tendo escapado por pouco à carga violenta de um guerreiro mameluco na Batalha das Pirâmides e ao sem-número de traições de um árabe adorador de cobras chamado Achmed bin Sadr.

eu poderia fazer indagações sobre o paradeiro de Astiza. arquitetando uma borrasca de planos e mais planos. dissera-me que seria vantajoso para nós dois se eu me unisse a ele. maronitas. católicos. um buraco otomano tomado pela sujeira e história. turcos. . greco-ortodoxos. por outro lado. todos recordando ofensas feitas uns aos outros vários milênios antes. aquela cidade semi-esquecida. ao mesmo tempo que avaliava as diversas facções que poderiam alinhar-se contra Napoleão. pelo fanatismo religioso e pela doença. só sobrevivera impingindo o turismo obrigatório aos crédulos e facilmente logrados peregrinos de três religiões. Assinalou que seria temerário de minha parte tentar voltar para o Egito e encarar sozinho a ira dos franceses. curdos e palestinos. gritara sir Sidney. um antro poliglota de muçulmanos. Será que ele enlouquecera? Segundo todos os relatos. após ter-me pescado do Mediterrâneo. Recebera a incumbência de ajudar os turcos e seu Império Otomano a frustrarem mais avanços dos exércitos de Bonaparte do Egito para a Síria. já que a esperança do jovem Napoleão era abocanhar para si um império no Oriente. quando se era um guerreiro e maquina-dor inglês como Smith. Mas.Smith estava paramentado como almirante turco. judeus. Na Palestina. Jerusalém tinha a vantagem de ser uma encruzilhada da complexa cultura da Síria. beduínos. Sir Sidney precisava de aliados e informações e. drusos. "Jerusalém!".

Mas. e. perdi-o para não me afogar e roubei um balão de meu amigo e colega savant Nicolas-Jacques Conte. tínhamos realmente uma espécie de aliança. que queimara navios franceses e escapara de uma prisão parisiense fazendo sinal das grades da janela para uma de suas excompanheiras de cama. após aquela bagunça no Nilo. se ele de fato contivesse as chaves para a imortalidade e o domínio do universo. Com isso. a bem dizer. E Smith era um herói de verdade. Jerusalém se tornava o paradeiro mais provável do objeto. depois que baleei Najac.Sinceramente. fiz um pouso forçado no mar e me vi encharcado e totalmente desprovido de dinheiro no castelo de popa da Dangerous. podia? De um modo ilógico. Eu o conhecera num acampamento cigano. Smith me imaginava um cúmplice de confiança. Depois que peguei um tesouro faraônico sob a Grande Pirâmide. eu não podia de jeito nenhum esquecê-lo. e só o fiz porque Astiza convenceu-me de que Moisés roubara das entranhas da Grande Pirâmide um livro sagrado da antiga sabedoria. o tal Livro de Tot só rendera dissabores. eu nunca me aventuraria nem a cem milhas daquele lugar. e de que os descendentes dele haviam levado o livro para Israel. havia mesmo lógica em ir para Jerusalém. O sinete que Smith me dera salvou-me de ser enforcado no mastro pelo almirante Nelson. com o destino me pondo outra vez cara a cara com sir Sidney e me deixando tão à mercê dos britânicos quanto eu estivera dos franceses. Meus sentimentos (de . Até aquele momento.

cujo nome significava "o Açougueiro".." Ele me segurou pelo ombro." "Exatamente. se Bonaparte estiver levando um exército para lá. "Assim. afável. disso eu tinha certeza. Uns e outros encantados com a perspectiva. Gage. "Eu penso que és justamente o homem para esse tipo de trabalho: esperto. e. a Coroa . "Mas só tenho rudimentos de árabe e não sei nada sobre a Palestina". com quem os britânicos contavam para combater Napoleão. As pessoas te contam coisas.que eu já estava bastante farto de guerra e tesouros e me encontrava pronto para voltar para casa. Perfeito para o que queremos. Ethan. errante e desprovido de escrúpulos e crenças. "Isso não é problema para um agente sagaz e intrépido como tu. na América) foram alegremente desconsiderados. enquanto investigas na Palestina síria o paradeiro dessa mulher com quem te encantaste.. Gage. podes também sondar os cristãos e judeus a respeito da possível resistência a Bonaparte". Em Jerusalém. dizia-me Smith. nossos amigos turcos vão precisar de toda a ajuda que puderem conseguir. e não britânico nem francês. era o notoriamente cruel e despótico paxá de Acre. observei sensatamente." Al-Djezzar. porque acham que não tens importância!" "É só porque sou americano. "Pode ser que eles tomem o partido dos franceses. Djezzar vai se impressionar com o fato de que até um homem superficial como tu tenha abraçado a causa.

Assim. e o buraco no meu coração era tão grande que uma bala de canhão podia atravessar por ali sem esbarrar em nada pelo caminho. Aliás. boa frase para usar com uma mulher.. Jericó tem até contatos no Egito! Alguns dias com tua manha diplomática. seremos considerados dois verdadeiros heróis. mais a oportunidade de caminhar por onde andou o próprio Jesus. O sacrifício que ela fizera para salvar-me fora o pior momento da minha vida (sinceramente. pior até do que quando meu adorado fuzil da Pensilvânia explodiu). e eu queria tentar essa tirada com Astiza.eu estava mesmo curioso a respeito do Livro de Tot e vinha me afligindo com a lembrança de Astiza. como vens nos alertar. logo. Entrementes. tendo solucionado todos os teus problemas. é .pela batalha de Bunker Hill! . Mas .. é hora de checar se já não nos furtaram nada. vou ajudar Djezzar a organizar a defesa de Acre no caso de Bonaparte marchar para o norte. e estarás de volta com nada mais sério que poeira nas botas e alguma relíquia sagrada no bolso. É mesmo formidável como essas coisas se resolvem. Logo.tem um colaborador de codinome Jericó. Ele pode te ajudar a procurar essa Astiza e trabalhar para nós. um ferreiro de ofício que já serviu na nossa marinha. festejados nos salões de Londres!" Sempre que as pessoas começam a nos elogiar e usar palavras como "formidável".

No mínimo. disse o capitão-de-mare-guerra britânico. no mínimo.claro que eu disse sim . já que estava tão ansioso para alistar-me. perfeita para acompanhar claramente os movimentos de tropas.a palavra mais perigosa do idioma. Mas eu posso te emprestar uma lunetinha. O que vai te manter a salvo é a sagacidade. Gage." Ele me deu uma pequena bolsa com uma quantidade variada mas reduzida de moedas de prata. "E ganhaste um bronzeado bem trigueiro. mas eles adquiriram valor sentimental. Para passar por nativo. Minha primeira idéia fora penhorá-los. isso poderia te fazer parar numa cadeia turca se desconfiarem que és espião." "Ainda não falastes em dinheiro." "A verba régia será mais que suficiente. basta arranjar turbante e capa em Jafa. eram uma reserva de metal precioso que eu preferia não revelar. Quanto a levar alguma arma inglesa. um tanto vergonhosamente. Então. piastras . bronze e cobre: reais (espanhóis). uns anjinhos ajoelhados que Astiza afirmava provirem do cajado de Moisés e que eu. assinalei. "Mas vede . sem armas e sem dinheiro". A única coisa que eu conseguira reter da Grande Pirâmide haviam sido dois pequenos serafins de ouro. Ela é formidável. "Esse teu gosto por roupa árabe vem perfeitamente a calhar". que Smith me desse uma verba. enfiara nas ceroulas. apesar de me provocarem coceira.estou sem roupas.

Gage. pensei com meus botões: talvez eu e os tripulantes que não estivessem de serviço pudéssemos matar o tempo com um joguinho cordial de cartas. aguçando minhas habilidades de jogador. Ah. um copeque (russo) e dois risdales (holandeses). gostava de conversar sobre as leis da probabilidade com figuras ilustres como o matemático Gaspard Monge e o geógrafo EdmeFrançois Jomard.(otomanas). Cuidado para que eles não fiquem com o teu desjejum!" —2— . "Será que posso chamar vossos homens para um carteado?" "Hum. Eles me haviam estimulado a pensar de modo mais sistemático sobre probabilidade e vantagem da banca.. hein? Estica os tostões! Deus sabe que o Almirantado tem de fazer a mesma coisa!" Bem. porque elas te denunciariam num instante. eu já podia começar a mostrar capacidade ali mesmo.. Mas és homem de muita capacidade. Quando eu ainda não caíra em desgraça como savant na expedição de Napoleão ao Egito. a verba governamental! "Mas isto mal paga o desjejum!" "Não posso te dar esterlinas.

deu-me boa . As chances são iguais. após várias horas. eu trazia alguma prática dos salões de Paris (só o Palais Royale tinha cem salas de jogo em meros seis acres). a banca (eu) lança uma aposta que os outros precisam igualar. Nisso. se as duas primeiras cartas são iguais. propus jogos que pareciam exigir mais sorte que outra coisa. Eu então começo a virar outras cartas até achar par para uma das duas primeiras. ganha o apostador. Por conseguinte. na realidade. a mão me deixava mais armado que a cinta repleta de ferros e bocas de fogo de um bei mameluco). No lansquenê. a banca ganha de imediato. dependendo como é o blefe. ganho eu. após haver tirado deles o máximo possível. a da esquerda a minha. naturalmente. não é mesmo? Mas. numa ligeira vantagem matemática que. Só que.Comecei com brelan. a da direita a do apostador. se é o par da carta da esquerda. Se é o par da carta da direita. Viram-se duas cartas. as coisas não seriam assim. e os honrados marujos britânicos não eram páreo para alguém que eles logo estavam chamando de francês duas-caras. Marinheiros e tenentinhos que já haviam perdido meio mês de soldo num jogo de habilidade vieram ansiosamente apostar o soldo inteiro num jogo pura e simplesmente de azar. para tanto fingindo que tinha cartas melhores (ou insinuando estar vulnerável quando. que não é ruim para jogar com marujos simplórios.

sois meus salvadores. mas havia tanta gente querendo levar a melhor sobre mim que. a qual é do apostador. Ademais. quando o que aconteceu foi exatamente o oposto: quanto mais o jogo se estendia. Quanto mais eles pensavam que a sorte inevitavelmente me abandonaria. entretanto." "E. eles acharam que com o tempo levariam a melhor sobre mim. vamos recuperar o dinheiro que perdemos.margem de lucro e os fez implorar por um jogo diferente. Afinal. é importante tranqüilizá-lo com a certeza de que ele jogou brilhantemente e foi apenas vítima dos caprichos do azar. os ganhos eram parcos. quando avistamos o litoral da Palestina. e estou em dívida convosco. mais minha vantagem se tornava inexorável. "Já virou coqueluche em Paris. a banca ganha sempre que as cartas são iguais. Meu velho amigo Monge teria simplesmente dito que a matemática reina soberana. Numa fragata que ainda não apresara nada. Quando se tira dinheiro de um homem. jogando a noite toda. é um jogo ainda mais vantajoso para a banca. minha pobreza já se remediara. "Vamos então experimentar faraó". e ouso dizer que distribuí tamanha solidariedade em tal grau que me tornei . E não se conta a última carta no baralho de cinqüenta e duas. Não obstante a obviedade de minha vantagem. pois esta ganha automaticamente a primeira carta. e tenho certeza de que a sorte dos senhores vai mudar. mais minha pilha de moedas aumentava. sugeri. ianque trapaceiro!" Faraó.

Dois de meus oponentes. "Tens a sorte do capeta". "Ou a sorte dos anjos". procurando parecer tão afável quanto Smith me descrevera. Ele disse aquilo enquanto contava e recontava os dois tostões que lhe restaram." Dei de ombros. porém. "Aí veremos se és mesmo sortudo. Quando devolvi o medalhão com retrato de namorada que um dos tolos penhorara. aventei. e isso enquanto eu embolsava lucro suficiente para instalar-me em Jerusalém em grande estilo. mantiveram-se teimosamente insensíveis a tal charme. eles já estavam prestes a me eleger presidente. "Fui apenas feliz. disse o fuzileiro. de cara vermelha.amigo do peito de figuras que eu espoliara ao extremo. "Homem nenhum consegue ser tão sortudo por tanto tempo. Agradeceram-me por eu ter feito quatro empréstimos a juros altos aos perdedores mais lamentáveis. Em seguida. que atendia pelo bastante preciso apelido Big Ned. "Jogaste de modo magistral." ." "Meu caro nauta. com mirada tão estreita e torta quanto uma viela de Alexandria. observou com olhar furioso um enorme fuzileiro naval. Os dados são os olhos do demônio. mas parece que a divina providência tem sorrido para mim nesta longa noite. tentei reprimir um bocejo. uma das marcas do homem inteligente é a relutância em confiar nos dados de outrem." Dei um sorriso de orelha a orelha. meu camarada." "Eu quero que jogues com os meus dados".

Não vais . Ele disse aquilo com mais entusiasmo do que eu gostaria de ter ouvido." "E. "Eu acho que ele quis dizer que trapaceou". Tom ostentava a vileza compacta de um cão de rinha. mas talvez devêsseis estudar a matemática das probabilidades. já nos batemos a noite toda. acho que esse americano é meio covardão". estou certo de que destes o melhor de vós e admiro tal perseverança. já que eles também não reaveriam seu dinheiro de nenhuma outra maneira. ora. "Muito pelo contrário. É o homem quem faz a própria sorte. escarneceu o amigo do fuzileiro. "Ora. declarou um capitão-tenente de quem eu abiscoitara cinco xelins.nas cartas." Se Ned tinha a massa de um cavalo. Lamento que tenhais perdido. um homem mais atarracado e mais feio que chamavam de Little Tom. quis saber Big Ned.." "Estudar o quê?". senhores . interpretou Little Tom. mas os fuzileiros estão pondo em dúvida a tua honra. Comecei a ficar receoso. Gage". "Está morrendo de medo de dar uma colher de chá a dois honrados fuzileiros. Outros marujos acompanhavam o diálogo com interesse cada vez maior." "Ora. não há por que falarmos em desonestidade. estou simplesmente satisfeito em jogar o meu jogo e deixar-te jogar o teu. "Consta que és um atirador e tanto e que lutaste bastante bem contra os franceses."Estás com medo de me dar a chance de recuperar o que perdi?" "Não..

deixar esses fuzileiros questionarem o teu bom nome. subi ao castelo de . teremos ainda mais tranqüilidade para discutir o assunto lá entre os canhões." Os presentes aprovaram aos brados.. eu imploraria para devolver todos os meus ganhos do jogo. quando já tivesse sido amassado o bastante." Ele disse isso num resmungo. vais?" "Claro que não." Bem. joga com estes dados ou encontra-me no convés da bateria ao meio-dia. Que seja ao meio-dia. com um sorriso afetado apenas o suficiente para irritar. "É. só demorou um pouquinho mais do que a fofoca de um encontro amoroso clandestino levava para ir de uma ponta a outra da Paris revolucionária. "Devolve o nosso dinheiro." Big Ned martelou o punho contra o convés. então. "Ao meio-dia já estaremos em Jafa".. Ficou claro que Ned era de um tamanho tal que não estava acostumado a perder. por conta de cada tostão que ganhara. respondi. precisas mesmo aprender uma lição. o que eu devia fazer estava suficientemente claro. A fim de distrair desse futuro desagradável minha tão fértil imaginação. saindo pela tangente. Para que a notícia da briga se espalhasse por toda a Dangerous. e um par de dados saltou de sua manopla como se fossem pulgas. Aí. "Então. Levantei-me. A marujada supôs que seria uma luta na qual eu. me debateria dolorosamente ante o peso da mão e a força dos braços de Big Ned. mas todos vimos que foi um joguinho jus.

Em Paris. e o pequeno porto estava cheio de dhows e faluchos. Terra adentro. ancoramos em mar aberto. constituía-se de um farol numa costa que de resto era plana e nevoenta. havia laranjais e palmeiras e. Assim como as outras embarcações grandes. torres e minaretes. Havia tantas árvores frutíferas que a próspera cidade mais parecia um castelo na floresta. Estandartes otomanos tremulavam à brisa morna do outono. testando a nova luneta. e me preparei para partir. Canhões negros se projetavam de seteiras. campos dourados e pastagens castanhas. ouvíamos os gemidos dos muezins a chamar os fiéis para a prece. e o principal porto da Palestina. havia alguns recifes de aspecto perigoso. Próximo à costa. encontrava o cais do porto. afamadas porque a casca espessa possibilita que sejam transportadas para a Europa. eu provara laranjas de Jafa. qual pilha de tijolos. mesmo de duas milhas de distância. mais além. e o cheiro dos fogos a carvão vegetal chegava à água. Era um telescopiozinho de visão muito nítida. . na direção do mar. meses antes de Napoleão vir a tomá-lo. tapetes pendiam dos balaústres. e suas construções de teto abobadado desciam em degraus para todos os lados. sinalizados por pequenos anéis concêntricos brancos. Jafa coroava uma colina com fortes. Tudo estava cercado por uma muralha que. e. Uma flotilha de pequenas balsas árabes veio ver que negócios poderia oferecer.popa para observar nossa aproximação de Jafa.

Mas pareces bem lépido. disse sir Sidney. sendo tão tapado quanto. "Gage. essa tua cachola vá pagar o pato. mas desconfio que. supunha-se.Depois. fariam esta fragata adernar." "A tripulação está inflamada para diabo e só vai poder desembarcar em Acre. "É. Big Ned não está acostumado a perder. Desci para procurar Big Ned e o achei perto do fogo da cozinha. para que eu não tivesse como segurá-lo. se eles fossem um tantinho mais pesados. "Poderíamos ter uma palavrinha em particular?" .e tem músculos para calar qualquer reclamação. passando-me o saco de bolachas de bordo que. deveria bastar para me alimentar até Jerusalém." Ele riu." "Poderíeis proibir a luta. ele já usou de trapaça com mais de um desses infelizes que foram alistados na marra . Que pena que. Um bom arrancarabo ajuda a sossegá-los. eu até tentaria jogar com os dados de Big Ned. que eu tivesse me acertado com aquele fuzileiro descontente. eu soube que a tua famosa sorte te meteu num rolo com Big Ned". Tens algum plano para embromá-lo?" "Sir Sidney. é claro. na briga. Os ingleses não são conhecidos pela boa culinária. Não foram poucos os que gostaram de ver-te passar a perna nele. onde ele ia passando banha na imponente musculatura. hein? Faze-o dançar!" Deveras. "O homem é um touro e tem cabeça de aríete. Brilhava tal qual um ganso na mesa de Natal.

mas ávido. afirmava que a riqueza aumenta as preocupações. Mas. "Maldito sejas . Não sei quem deve o que a quem. Farias bem em te lembrares disso. Vem comigo e vamos acertar tudo longe dos olhares dos outros. o meu mentor. "Escondi o dinheiro aqui embaixo. Descemos à parte mais baixa da fragata.vais me dar o triplo!" "Então vem até a coberta inferior para que eu lhe mostre a minha bolsa sem criar escarcéu." "De jeito nenhum. Mas ainda tenho o meu amor-próprio. Vais devolver o que deves não apenas a mim. eu disse." "Que se dane o rebelde do Franklin! Ele devia ter sido enforcado!" ."Estás arregando. para que ninguém o furtasse". levantando um alçapão que levava ao porão. "Ben Franklin. eu te devolvo o dinheiro em dobro." Big Ned bamboleou atrás de mim como um urso de circo obtuso. "Acabo de ponderar o assunto e cheguei à conclusão de que o nosso inimigo comum é Bonaparte e de que não há por que hostilizarmos um ao outro. mas a cada marujo e fuzileiro deste navio!" "Impossível. se me acompanhares agorinha mesmo e prometeres me deixar em paz. Seus dentes pareciam grandes como as teclas de um desses pianos modernos." Agora os olhos deles brilhavam. lá onde se guardavam os suprimentos. e atrevo-me a dizer que ele tinha razão. não?" Abriu um sorriso de orelha a orelha. gananciosos.

ai. O homem era pesado como um saco de farinha..Enfiei o braço pelo alçapão." Fiquei ali de pé.." Olhei bem em volta e. Céus.. com o tronco atravessado no alçapão. antes que ele pudesse urrar bastante na água sebosa do fundo do navio... Talvez possamos achar um gancho.. "Ianque canalha." "Justamente .. com uma vigorosa levantada.. Acho que caiu. mas isso.a bolsa saiu do lugar. e. espichando-se e tateando.. foi uma vantagem.vês aquele brilho da prata? Estica o braço o mais que puderes. erguendo a vista para aquele Golias ameaçador. eu já fechara e trancara o alçapão." Big Ned resmungou. "Perdeste quanto no jogo? Três xelins?" "Por Deus. ai ." "Ali. foram quatro!" "Então triplica isso. Big Ned caiu. que linguajar vinha agora lá de baixo! A fim de abafá-lo.agora estás me devendo dez!" "O teu braço é mais comprido que o meu.. Será que podes me dar uma ajuda?" "Estica o braço tu mesmo!" "Eu só consigo tocar a bolsa com a ponta dos dedos. ouviu-se um baque e um chape." Ele se abaixou e enfiou a cabeça pelo alçapão. com cara de perdido. eu o fiz seguir o resto do caminho para o porão. . depois que ele já estava mesmo indo abaixo. "Ai. rolei alguns barris de água para cima do alçapão. à direita . "Não estou vendo porcaria nenhuma. usei do mesmo desamparo fingido que várias mulheres haviam usado para comigo. Nisto.

Não vou brigar com cada homem deste navio. Smith sabia que. chamou Tom. gritando. vem dar o que esse americano merece!". "Será que ele foi tirar uma soneca lá nos mastaréus?" Ergui os olhos para o velame e então me diverti vendo Little Tom subir para escalar o mastro com dificuldade. Passei algum tempo ali embaixo. não. de mangas arregaçadas. peguei a bolsa de onde estava realmente escondida (entre dois barris de bolacha de bordo). ele provavelmente perderia seu mais recente . Little Tom estava rubro. é? Bem. não vou culpá-lo por não querer me enfrentar. eu é que vou te dar uma sova!" "Não vais. "Ele se escondeu. se eu não saísse logo da Dangerous. "Por Satanás. "Quanto tempo vamos ficar esperando esse covarde? Eu e vós sabemos que temos assuntos a tratar em terra firme.Depois. enfiei-a nas calças e subi saltando. "Em nome do rei Jorge. para o convés da bateria.e único ." "Ned. mas não houve resposta." A tripulação estava visivelmente decepcionada e extremamente desconfiada. berrando e suando. eu me voltei para Smith. onde foi que ele se meteu?" Ergueu-se um coro a chamar Big Ned aos gritos. "Os sinos do navio deram meio-dia!". Mas não teve resposta. ensaiei movimentos de boxe." Só para manter as aparências. Depois. gritei. portando-me como um galo impaciente. tão logo ousei fazê-lo.

Eu não tinha muito tempo. Tom sumira lá para baixo. já passa de quinze do meio-dia.agente americano. de modo que. "Para a praia. mas me deixaram passar até a escada do navio. cochichei para o barqueiro." Houve um urrar de descontentamento. é claro. deixei-me cair nas sujas redes de pesca de uma balsa árabe.. Eu próprio empurrei a balsa para longe da fragata. o que ainda equivalia à metade do que eu teria preferido. Vai-te. berrou Smith à marujada. Eu preferiria antes partir para a China! Em especial quando houve uma agitação no convés da bateria e a cabeça de Big Ned despontava subitamente. Eu o olhei pela . Tão logo eu descobrisse o paradeiro de Astiza e tirasse conclusões satisfatórias acerca do Livro de Tot. e cumpre tua tarefa em nome do amor e da liberdade. Tom. rubro de raiva e esforço. que se engalfinhavam já fazia um milênio. Voltei-me para acenar para Smith. não tinha nenhuma intenção de chegar perto nem dos ingleses nem dos franceses. tal qual um gato aflito. e o capitão muçulmano começou a remar para as rochas e o porto de Jafa com o dobro do vigor de costume. Gage. "É. Smith verificou a ampulheta. Eles escarneceram.e vais ganhar uma moeda a mais se fores bem depressa". "Mal posso esperar para que nos vejamos de novo!" Mentira deslavada. pulou de novo para aquele convés. "Não jogueis cartas se não podeis vos dar ao luxo de perder!". agora mesmo . como a de uma marmota do chão. ofegante e frustrado. e Ned teve a chance dele.

Simbá?" "Sim . A cidade tinha apenas um portão terrestre. mas eu tinha moedas o bastante para pagar em dobro pela miserável rede e mantê-lo remando. peguei uma das redes de pesca do meu barqueiro e. cachorro covarde! Vou te arrancar os braços e as pernas!" "Acho que o covarde és tu.por mais uma moeda. Ned! Foste tu que não apareceste na hora combinada!" "Tu me ludibriaste. Ainda assim. antes que este pudesse fazer objeção. Sir Sidney levantou o chapéu. tanto que eles começaram a girar em círculos. Os fuzileiros navais ingleses já corriam a baixar uma lancha. numa saudação irônica. Saltei para o cais de pedra um bom minuto antes daqueles que vinham . com Big Ned urrando na proa. eu me esconderia bem o suficiente. e era preciso guia para locomover-se pelo lugar. vociferando insultos tais que fariam corar um sargento-instrutor. Com uma boa dianteira. "Volta aqui. pois os musculosos fuzileiros batiam as ondas tal qual roda-d'água. Smith já me inteirara a respeito de Jafa. Assim. isto sim!" Mas estava ficando difícil ouvir à medida que íamos sacudindo para longe. efêndi. "Dá para ir um pouquinho mais depressa. A rede se emaranhou nos remos de estibordo.nova luneta e vi que parecia ter sido batizado com lodo. arremessei-a na rota da lancha (que já se achegava)." Foi uma regata disputada. ianque trapaceiro!" "Eu fiz que aprendeste uma lição. Meu barqueiro reclamou.

falafel. -3Jafa se ergue qual um filão de pão no litoral do Mediterrâneo.decepção! . A irmã . com praias vazias a curvarem-se na cerração para o norte e para o sul. Burros tropeliavam para cima e para baixo nas pedras do pavimento. algodão e sabão. e de laranja. ou "o Açougueiro"). sinagogas e igrejas que encimavam a cidade. Havia fluxo constante de peregrinos. Jafa ainda era. o lugar perdera importância para Acre. atrás da qual pude me esconder enquanto o bando de fuzileiros britânicos subia por uma viela e descia por outra. Como porto comercial.era desprovida de encantos. que eram exportados pelo porto. próspera cidade agrícola. uma laranja e uma sacada com tela.reivindicar o que consideravam seu. eles logo se revelaram inestimáveis quando um moleque de rua me convidou à taverna de sua irmã. num andar superior. correndo na inútil busca por . mesquitas. que chegavam para visitar Jerusalém. Anexos domésticos se projetavam ilegalmente sobre vielas escuras. porém. Por mais que meus ganhos no jogo pudessem ser de origem discutível. ao norte (lá onde ficava o quartel-general de AlDjezzar. As ruas eram um labirinto que conduzia às torres. Estava determinado a localizar Astiza e dar o fora fazendo votos de nunca mais rever Big Ned nem Little Tom. Mas o dinheiro me proporcionou pão sírio.

Nesse meiotempo. Ali descobri que não havia diligência para a cidade santa. o resultado me fazia parecer mais um membro exótico de um império poliglota.minha vil carcaça. Como Smith previra. faixa de cintura. com cabo de osso de camelo. com mangas. Esbaforidos e afogueados. Comprei um manto beduíno de listras grená e brancas. economizei comprando uma adaga árabe curva. circulei sorrateiramente para gastar mais de meus ganhos no jogo. E qualquer mosquete seria . soldados otomanos que usavam botas de cor vermelha e amarela. mas eu já vira quanto eles haviam se mostrado medíocres contra os mosquetes franceses durante as batalhas de Napoleão no Egito. Como exíguo armamento. a madrepérola marchetada das coronhas é linda. mais botas novas. Financeiramente. desde que eu tomasse o cuidado de ficar longe dos arrogantes e inquiridores janízaros. suficiente para levar-me até lá e não muito além. calças bufantes de beduíno (tão mais confortáveis no calor que os apertados calções europeus!). eu era demasiado prudente (Ben Franklin. Tenho pouca habilidade com espadas e não me animei a adquirir um dos mosquetes muçulmanos. outra vez) para comprar ou alimentar um cavalo. eles acabaram parando numa taverna cristã no cais. colete. que são compridos. duas camisas de algodão e pano para turbante. nem mesmo uma estrada que prestasse. Por conseguinte. desajeitados e rebuscados. adquiri um burro dócil. para falarem de minha perfídia enquanto tomavam vinho palestino de má qualidade.

Estaríeis talvez fugindo de inimigos?" "Claro que não.. Se o tal Jericó era metalurgista. Sabes como é. Já te disse que sou uma pessoa afável. aprendido porque os mercadores francos dominavam o comércio do algodão. eu prefiro partir lá pela meia-noite.." "Como quiserdes. "Pois muito bem. Eu também escapuliria da cidade sem ser visto. talvez pudesse me fazer um substituto! Para ser meu guia e guarda-costas em Jerusalém. nós dois conseguíamos nos comunicar. acordar cedo.. barbudo e muito vivo na hora de regatear. para o caso de algum fuzileiro ainda estar à espreita por ali." "Mohammad. se partíssemos logo. escolhi um tipo empreendedor. Ainda preocupado com o dinheiro. Como dizia Ben Franklin. Entre o meu árabe rudimentar e o tosco francês de Mohammad. Tenho dinheiro bastante. eu poderia economizar um dia de pagamento pelos serviços de Mohammad. efêndi.muitíssimo inferior ao lindo fuzil da Pensilvânia que eu sacrificara em Dendara para poder escapar com Astiza. sabes que paguei adiantado metade do preço extorsivo que me cobras." Balançou a cabeça e sentiu arrepios. "Nem Satã conseguiria aplacá-las. Esposa ruim? Já vi as esposas cristãs. nome que parecia ter sido dado a metade dos varões muçulmanos de Jafa. chamava-se Mohammad." "Então só pode ser dos credores. Mohammad." "Ah.." . então é mulher. evitamos o trânsito e desfrutamos o revigorante ar da noite. calculei que.

demasiado ocupado para passar a perna nele. se Big Ned tivesse alguma persistência. com uma insistência que desconcentrava. mas finalmente me conduziu pelo labirinto de vielas escuras até o portão que. Não obstante as condenações das mais variadas religiões. Sou homem. pensei melhor e resolvi esperar para buscar alívio em Jerusalém. desde as mais monótonas até as mais pervertidas. Minhas tribulações no Egito me levaram a decidir reforçar a autodisciplina. todas as variedades de sexo. não sou monge. Combinados?" A despeito da dor pela perda de Astiza e da aflição em descobrir o paradeiro dela. e lá estava eu. com o chão coberto de esterco. confesso que me passou pela cabeça procurar uma ou duas horas de companhia feminina em Jafa. gostava de dizer Franklin. tendo passado pelo primeiro teste."Basta que estejas pronto à meia-noite. dava para terra adentro. eram objeto de propaganda pelos moleques árabes nas ruas. e já fazia mesmo uns dias. "A consciência limpa é um Natal permanente". muito embora copular na Cidade Santa fosse o tipo de coisa que deixaria meu antigo pastor apoplético. Exigia-se propina para que o abrissem à noite. seria bem próprio da minha sorte que o fuzileiro me encontrasse enrolado com alguma rameira.. Mohammad chegou uma hora atrasado. Mas o navio de Smith continuava ancorado ao largo.. e atravessei a arcada com a curiosa euforia que advém ao iniciarmos . e. Por isso. A verdade era que a abstinência e a fidelidade a Astiza faziam que eu me sentisse bem.

Mas não: deitara-se de caso pensado. Fiquei impaciente pela chance de. "Efêndi. imaginando se ele não teria desmaiado. disse no escuro o guia.. "Continuarmos sozinhos não é só arriscado . apesar de meus devaneios de tornar-me contador. apesar de meus instintos lúbricos. É . E. por segurança. recuperara temporariamente a solvência graças à habilidade no jogo e saíra numa missão que nenhuma semelhança tinha com trabalho de verdade. podia ser que ele estivesse em algum lugar. iremos junto com ele.uma nova aventura. Afinal. dando à viagem o caráter otimista de uma caça ao tesouro. que os crentes acreditavam capaz de proporcionar desde a sabedoria científica até a vida eterna. eu realmente ansiava por Astiza. meu primo Abdul conduzirá uma caravana de camelos para lá. Ninguém consegue relaxar como um otomano. perguntei ao subitamente deitado Mohammad. no qual os próprios ossos parecem então dissolver-se.e paramos. eu sobrevivera a oito tipos de inferno no Egito. passamos a passos largos pelo portão . "O que é que estás fazendo?". displicentemente. e nós.é insano. e. os bandoleiros beduínos infestam a estrada para Jerusalém e roubam todo e qualquer peregrino desarmado". no entanto. provavelmente já não existia. por intermédio do agente de Smith em Jerusalém. Assim. tal qual um cão após dar voltas no tapete da lareira. descobrir de algum modo o que acontecera com ela. Mais tarde.. O Livro de Tot.

e saímos. voltou a dormir. Assim. tendo dito isso. estávamos cinqüenta jardas para fora das muralhas. emprestaram-me uma pistola turca e cobraram-me mais cinco xelins tanto por ela quanto pela escolta adicional e outro xelim pela forragem do burro. Em seguida. e minha bolsa de dinheiro já minguava. e era bem possível que ele tivesse razão. até que finalmente Abdul e seus camelos resfolegantes se reuniram mesmo no portão." E. Eu estava na Palestina havia menos de vinte e quatro horas. e partimos através dos laranjais. com a estrada orlada de tamareiras. Uma milha depois. surgiu um fio de luz quando as estrelas se desvaneceram. ou caudilhos às turras uns com os outros. bem antes do nascer do sol. Maldição! Bem. O céu clareou. passamos por campos de algodão e trigo. os galos e os pássaros . O rangido das selas e o badalo dos sinos dos camelos vinham assinalar nossa passagem. era o meio da noite. ou saqueadores vindos do deserto. preocupado com a possibilidade de que os fuzileiros britânicos aparecessem por ali. Na madrugada." "Mas e aquela conversa de sairmos cedo?" "Pagastes. eu me afligi durante três horas.assim que eu e Alá cuidamos de nosso hóspede americano. A Palestina era tristemente célebre por estar tomada por bandoleiros. apenas os latidos dos cães indicavam onde elas ficavam. Por fim. preparamos um chá. eu tinha pouca idéia da direção a seguir. não se viam as casas de telhado de palha. Fizeram-se as apresentações.

do governo imperial em Constantinopla.começaram a cantar. desde que sufocara uma revolta das tropas mercenárias dele próprio. Mas. infelizmente com célebre crueldade. à medida que o alvorecer se avermelhava. lá onde transcorrera tanto da história bíblica. estava sob o controle da Sublime Porta. eu soube que a Palestina era nominalmente parte da Síria. uma província otomana cuja capital. eu enxergava os montes escarpados mais adiante. e. ele mesmo um ex-mameluco. essa desumanidade era necessária. aquela planície costeira parecia tão luxuriante e agradável quanto a viçosa região dos colonos alemães da Pensilvânia. A invasão do Egito lançara ainda mais refugiados na Terra Santa. com os . As árvores de Israel haviam sido eliminadas para fazer carvão e cinza de sabão. Era a Terra deveras Prometida. Por meu guia. a Palestina estava sob o controle do bósnio Djezzar. que há um quarto de século governava o Acre. Damasco. cada um deles tão à vontade entre os outros quanto um calvinista num piquenique no Vaticano. Na opinião de Mohammad. após o deserto egípcio absolutamente árido. e mesmo assim. assim como o Egito estivera na realidade sob o controle dos mamelucos (independentes até que Bonaparte os expulsou). ou seja. A província se fragmentava num número excessivo de grupos religiosos e étnicos. mutilara os conselheiros mais próximos para lembrá-los de quem mandava ali e afogara generais ou capitães de navio que lhe desagradaram. Djezzar estrangulara várias esposas para não ter de aturar rumores de infidelidade.

O ambiciosíssimo Bonaparte estava organizando um corpo de camelos com o qual ele esperava atravessar os desertos orientais de modo mais eficiente que Alexandre Magno conseguira. eu grande demais para meu burro. cuja espinha era dura como uma barra de nogueira." . comentei com Mohammad enquanto cavalgávamos. seita e culto sopesavam as vantagens e desvantagens de Djezzar e dos até então invencíveis franceses. Eu também sabia que Napoleão ainda tinha esperanças de juntar forças com Tippu Sahib. abalavam o Império Otomano. e todo clã. a última das quais fora a supressão de uma revolta no Cairo. galopando todo o caminho até a índia meridional para reunir-se ao "cidadão Tippu" e privar a Grã-Bretanha de sua colônia mais rica. o corso queria superar o macedónio. "A Palestina me parece uma barafunda repleta de donos da verdade e da virtude". Metade da população espionava a outra metade. Tropas otomanas recémrecrutadas chegavam em quantidade. o sultão francófilo que lutava contra os Wellesley na índia.fugitivos mamelucos do bei Ibrahim procurando ali um ponto de apoio. "Aqui há tantas facções quanto numa vereança de New Hampshire. prevendo a invasão francesa. ao mesmo tempo em que o ouro e as promessas de ajuda naval dos britânicos acirravam ainda mais as coisas. Segundo Smith. eu teria de extrair sentido daquele angu. Aos vinte e nove anos. As notícias das assombrosas vitórias napoleónicas no Egito.

nem alguém comigo. Era um trajeto cansativo e serpeante. igualmente santo. Astiza. de religião diferente. Franceses e britânicos são exemplos perfeitos. com sua guilhotina ensangüentada. quando tudo o que tinha para me preocupar eram as cartas do baralho. as mulheres e às vezes um contrato de navegação. Napoleão. Pela milésima vez. Em meus tempos de Paris. disparando canhonadas uns contra os outros para ver quem é mais democrático: se os republicanos franceses. e cá estava eu. e aí está a raiz de metade do derramamento de sangue do mundo. chegando lá ao crepúsculo do terceiro. e . pois outro homem estar convencido de que ele tem razão é insinuar que podemos estar errados. instigando minha diminuta montaria rumo à capital mundial da discordância teimosa. disse Mohammad. "e não existe nada mais irritante que um vizinho."Aqui todos os homens são santos". perguntei-me como é que eu fora parar ali. com suas prisões para inadimplentes. por caminhos que teriam sido desdenhados por qualquer cabra que tivesse algum amor-próprio (era evidente que a estrada não recebia manutenção desde a época de Pôncio Pilatos). a campanha egípcia. levamos três longos dias para alcançar Jerusalém. Devido a nosso atraso e ao passo majestoso da caravana. Aí veio o medalhão. ou se os parlamentaristas britânicos. eu não me lembro de ter ficado muito aborrecido com alguém. Sidney Smith." Amém.

faixas de cintura. Passamos por frades de hábito marrom. missionários armênios de sotaina. com a relva acastanhada pelo outono. em cores brilhantes. cobertos de arbustos. mercadores sírios. que em quatro ocasiões exigiram pedágio. Em cada uma dessas vezes. Beduínos desciam encostas conduzindo rebanhos de carneiros e cabras que pareciam derramar-se ali como água. Subimos a garganta do Bab al-Wad até umas matas de pinheiro e zimbro. descemos e demos voltas e voltas. Também deparamos com bandos de cavaleiros malencarados. Os lugares que se intitulavam estalagens. camelos respingados de baba que peidavam e carroceiros cujos bois batiam cabeça enquanto os dois condutores batiam boca. ficaram íngremes como os Apalaches.em pouco tempo os montes castanhos. equilibrando cuidadosamente na cabeça jarros de barro. e moças de aldeia gingavam de modo bem interessante à beira da estrada. mostravam-se bem menos atraentes: eram pouco mais que pátios murados que serviam principalmente de curral para moscas. Subimos. oscilavam no balanço dos quadris. passando por burros que zurravam. usando turbante e cajado. judeus ortodoxos de barba e longos cachos nos lados da cabeça. e seus olhos escuros brilhavam como pedras negras no fundo de um rio. meus . um ou dois comerciantes de algodão franceses radicados na Palestina e muçulmanos de incontáveis seitas. O ar se tornou perceptivelmente mais frio e mais seco. ou khans.

já que cobrar tributo para nos proteger dos ladrões é coisa que todos os governos fazem. Aqueles parasitas me pareciam simples assaltantes. como se pudéssemos ouvir os ecos dos heróis hebreus. O ar também tinha gosto de poeira. não? Aqueles rústicos armados eram uma mistura de policiais com extorsionários. quando eu não estava resmungando sobre o interminável esvaziamento do meu bolso. como se houvesse sido respirado vezes demais.acompanhantes ficaram na expectativa de que eu contribuísse com mais do que parecia ser minha justa parte. mas Mohammad insistiu em que eram valentões das aldeias locais que mantinham à distância bandoleiros ainda piores. e cada vila tinha direito à parte desse pedágio. Mohammad provavelmente dizia a verdade. Foi num daqueles khans que me fizeram lembrar de que eu não deixara totalmente para trás o . por conta de todas as sandálias e botas que as haviam percorrido antes de nós. Israel tinha seus encantos. Assim como no Egito. de santos cristãos e conquistadores muçulmanos de um passado remoto. ela ainda assim parecia bem rodada. as pedras que calçavam o caminho para as bicas e poços eram côncavas e lisas. Pedaços diversos de entulho histórico se projetavam de cada elevação. Mas. Quando parávamos para tomar água. Se a Palestina não chegava a ter aquele ar de antiguidade do Egito. com o lenho retorcido por incontáveis séculos. Oliveiras tinham o diâmetro de barris de vinho. a luz apresentava uma limpidez muito diferente do que se via na brumosa Europa.

murmurou ele em árabe. "São relíquias pessoais. tendo dito isso. Apófis! Era esse o nome de um deus-cobra (ou demônio- . Cobri os serafins com a roupa de baixo. "O quê?" "Os dedos de Satã. Que Alá tenha misericórdia de vós. Um velhote de religião e idade indeterminada recebia seu magro sustento do estalajadeiro para que servisse de faz-tudo. Eu teria tido olhos para alguma serviçal. eu não ficava tão perplexo desde que o maldito medalhão realmente funcionara. Ainda assim. e de início pensei que o velho mendigo vira alguma coisa que queria furtar. mas um esfarrapado com vassoura de gravetos não atraía minha atenção. consternado e temeroso. Ficou de olhos arregalados em face dos anjinhos de asas abertas. ouviste?" "Meu imã me confidenciou sobre elas. e era tão humilde e discreto que só reparávamos nele para pedir um copo de água ou mais uma pele de carneiro onde deitar. ele se virou e fugiu. dei de costas com o homem e me sobressaltei antes de ter percebido que ele estava ali. quando estava me despindo altas horas e expus momentaneamente meus serafins de ouro." E.mundo do medalhão. "Apófis. seu olhar de assombro e desalento me deixou apreensivo." "A furna?" Os serafins tinham vindo do subterrâneo da Grande Pirâmide. Da furna. Nada de falar delas a ninguém. Ora. "A bússola". Mas ele apenas recuou. e o brilho sumiu como se a luz houvesse se apagado. de modo que." Ele estava claramente maluco.

cá estavam falando dele outra vez! Pela fuça de Anúbis. correndo e de novo escondendo os serafins na roupa. o estalajadeiro contou que o criado aparentemente pegara seus escassos pertences e se escafedera.. o norte.cobra) que Astiza afirmara estar nas entranhas do Egito. um homem da razão. eu estava farto de divindades transviadas a meter-se na minha vida como parentes indesejados que vinham deixar marcas no chão com barro de suas botas.. de duas milhas de . A coisa não tinha sentido. mas a coincidência era inquietante. sou discípulo de Franklin. e em três de seus lados o terreno despenca abruptamente para vales estreitos. e saí apressadamente de meu cubículo para procurar o velho e lhe perguntar o que significava aquele nome. E agora um velho faztudo trazia novamente o nome à baila. Oliveiras. E chegamos bem à legendária Jerusalém. Mas não o achei em lugar nenhum. A cidade fica encarapitada num monte entre outros montes. vinhedos e pomares recobrem as encostas. e eu achava ter deixado isso e seu nome bem para trás. um homem do Ocidente). que os invasores sempre vêm. Eu não a levei a sério (afinal. No entanto. De manhã. Reconheço que se tratava de uma visão impressionante. mas havia mesmo algo lá embaixo num poço fumarento. era verdade. É pelo quarto lado. Muralhas colossais. e jardins proporcionam pontos de verde no interior da cidade. no Egito. Tornei a me vestir.

área que agora servia de base para a grande mesquita.a mesquita principal . minaretes e torres de igreja. flores e arbustos brotavam das mal conservadas muralhas. Aparentemente. Eu encontraria pedras semelhantes no Monte do Templo. Eu logo descobriria que uns quatro mil eram muçulmanos. com suas ameias encimadas por uma torre redonda como um farol. erguidas por um sultão chamado Suleíman. três mil. Trepadeiras. subsistindo economicamente dos peregrinos e da inconstante indústria da cerâmica e do sabão. Por toda a parte.comprimento. o horizonte estava pontuado de cúpulas. a plataforma do antigo templo judaico. o Portão de Jafa era a antiga cidadela. os alicerces de Jerusalém haviam sido assentados por gigantes. O efeito era tão competitivo quanto barracas de verduras a rivalizar entre si numa feira de domingo.tinha uma cúpula dourada que brilhava como um farol ao poente. Menos de nove mil pessoas moravam ali quando cheguei. cristãos. . O que fazia a cidade sobressair eram suas edificações. Pedras tão descomunais quanto as que eu vira no Egito constituíam as fundações da cidadela. O Domo da Rocha . Mais perto de onde estávamos. legado deste ou daquele cruzado ou conquistador. circundam por completo a população de Jerusalém. judeus. e dois mil. com os sinos cristãos tocando enquanto os muezins gemiam e os judeus entoavam suas preces. cada um deles tentando deixar um edifício santo que compensasse sua respectiva variedade nacional de matança. o Magnífico.

Do lado de fora da cidade. "A maioria dos homens vem para cá procurando alguma coisa". respondi. erguia-se o olhar para ver pássaros rodopiando diante de palácios celestiais de nuvens." Eu sabia que Jerusalém. fora atacada. espero. fumacentos devido à queima de lixo. onde queira Deus que as preces por ambas as coisas sejam atendidas.e palmeiras marcavam praças e jardins. Sabedoria era o que se presumia que estivesse contido no Livro de Tot. tudo nítido e detalhado. de modo que é bom que tenhais vindo para cá. meu amigo?" "Sabedoria". Desse buraco infernal. Com o sol baixo.pelos óculos de Franklin! ." "Tomara que sim. Muitos homens procuram a vida inteira sem achar sabedoria nem amor.eu bem que precisava de alguma. e . assim como Jafa. "E. comentou Mohammad enquanto fitávamos a antiquíssima capital." "Ah. com sua pedra calcária fermentando aos raios amarelos do sol. fileiras de oliveiras desciam marchando para vales rochosos e tortuosos. do outro lado do chamado Vale da Cidadela. . notícias de quem amo. e era bem verdade. "O que procurais. era da cor do mel. justamente porque a consideravam tão sagrada. queimada e saqueada mais vezes do que qualquer outro lugar da Terra. "Vou te pagar agora e ir atrás do homem com quem me hospedarei." Tentei não fazer tinir em demasia a bolsa de dinheiro enquanto contava o restante da paga de Mohammad. Jerusalém.

efêndi. "Nenhum mimo por ter compartilhado convosco meus conhecimentos da Terra Santa? Nenhuma recompensa por terdes chegado em segurança? Nada por esta vista gloriosa?" "Imagino que também te consideres responsável pelo bom tempo. resmungou. contorcendo-me na sela para que ele não visse quão pouco me restava. tomando-me por europeu. "E que a paz esteja convosco!" Uma bênção que acabou não tendo efeito. vi que Jerusalém era uma semi-ruína. "Eu achava que os francos saíssem por aí com coisa melhor". eu . Ele fez uma reverência e agradeceu efusivamente. "Procurei ser vosso servo.Ele a pegou avidamente e então reagiu com um assombro muito ensaiado e praticado. -4Quando segui pela trilha de terra e atravessei uma ponte de madeira até o ferro negro do portão de Jafa e a feira mais além. Um policial. "Que Alá sorria para vossa generosidade!" Não consegui esconder o azedume em meu "Vai com Deus". mas deixou que eu conservasse minha reles adaga. dei-lhe uma gorjeta que eu não podia muito permitir-me." Ele pareceu magoado. revistou-me à procura de armas (elas não eram permitidas nas cidades otomanas mais importantes). apesar dos trajes." Assim. "Sou um simples peregrino". ou subashi.

Barracas de feiras orlavam as principais ruas. . Metade das casas parecia abandonada. e peregrinos de uma dúzia de seitas davam graças ao entrar nos locais sagrados. os armênios.lhe disse. "Pois que continues assim. Jerusalém era sonolenta. Mohammad me explicara que a cidade se dividia em quatro bairros. mas seus toldos desbotados e suas prateleiras semivazias só enfatizavam a melancolia secular. impostos extorsivos e rivalidade religiosa haviam atravancado a prosperidade de Jerusalém até não mais poder. até o quadrante noroeste. e governadores inoperantes. os outros cristãos de modo geral e os judeus." Depois. vendi meu burro pelo que pagara por ele (ao menos eram algumas moedinhas de volta!) e me localizei. Mercadores se encontravam com caravanas. passava um tráfego constante. Segui por vielas tortuosas da melhor maneira possível. construídas de pedra antiquíssima. frustravamse quaisquer fantasias que eu tivesse de um Oriente opulento. As residências habitadas. Através do portão. para os muçulmanos. decaíam tal qual a pele das velhas. construído ao redor da igreja do Santo Sepulcro e da sede franciscana. com as aves tendo ocupado as torres da cidades. Assim como no Egito. Mas a autoridade otomana estava em declínio havia dois séculos. Seu olhar era cético. com barracões e sacadas de madeira projetando-se como pústulas. O trajeto era tão despovoado que eu topava com galinhas na rua o tempo todo. saqueadores beduínos.

Mais adiante. Bati vigorosamente na portinha de entrada.. Após alguns minutos." A viseira se fechou. Fiquei surpreso em deparar com um olhar de mulher . eu me acostumara a porteiros muçulmanos corpulentos e esposas confinadas. Estou aqui. um depósito de metal e carvão vegetal. Ademais. a fachada não tinha traços distintivos. e eu sentia o cheiro do carvão vegetal da forja de Jericó. Estava no pátio de trabalho de um ferreiro. Projetando-se ligeiramente por sobre essas três alas. encimado por uma ferradura. as pupilas eram cinza-claro. no mais. como se por vontade própria. disso não havia dúvida. A parte esquerda do pátio era uma venda abastecida de implementos prontos. estava a moradia. à direita.no Cairo. "Meu nome é Ethan Gage e trago carta de apresentação de um comandante de navio inglês para o homem a que chamam Jericó. esperei e tornei a bater com força. de uma translucidez incomum no Oriente. de pé.As vagas orientações de Smith e meus próprios pedidos de informação me levaram a um sobrado de pedra calcária com sólido portão de madeira. Por instrução de Smith. comecei em inglês. vi o fulgor de uma forja. bem à maneira árabe. De um lado havia uma porta menor. acessível por . também de madeira. até que enfim a porta se abriu. imaginei se estava mesmo no endereço certo. e entrei cautelosamente. num barracão térreo cujas paredes estavam cobertas de ferramentas penduradas. até que se abriu uma pequena viseira.. Continuei ali. com as pedras do piso manchadas de cinza pela fuligem.

aquela sutil curva meridional. quando consegui que nossos olhares se encontrassem. com a pele muito clara para aquela parte do mundo. O portão se fechou às minhas costas.uma escada de madeira sem pintura e tendo na frente uma sacada. O nariz tinha aquele ligeiro arco mediterrâneo. baixou o seu. músculos . e. e a mulher afastou púdicamente o rosto. recatada. Entretanto. Tendo feito aquele reconhecimento instintivo. ela. O rosto exibia a beleza arredondada de uma pintura renascentista. de intensa curiosidade. Os lábios eram cheios. O cabelo estava todo coberto. a cabeça estava coberta por um lenço. Algumas pétalas haviam caído nas cinzas ali embaixo. O talhe do corpo era bastante esbelto. Ela passou por mim como um fantasma. à moda de todas as religiões na Palestina. o que me surpreendeu. seus olhos me examinando com uma mirada fugaz e oblíqua. com rosas murchas a cascatear de vasos de ferro. que eu acho tão sedutora. mas será que eu era mesmo tão interessante assim? O vestido lhe ia do pescoço às canelas. eu me voltei para ver um homem de barba. E então a mulher desapareceu por um vão de porta. sem dizer palavra. tendo uma lisura de casca de ovo. e percebi que a mulher ficara escondida por ele. exceção feita a alguns fios soltos que escapavam do lenço e indicavam uma cor surpreendentemente clara. mas ficava difícil dizer mais que isso. E verdade que sou um safado vistoso. vi o suficiente para chegar a uma conclusão fundamental: ela era bonita.

"Jericó. Teriam as ondas atirado vikings na Síria? No entanto. vindo de um homem rijo como um toco de carvalho. "Naturalmente." "Irmã." "Deveras?" Bem." .é só que a beleza feminina desperta uma curiosidade natural em todo varão saudável. é louvável que ela aparentemente entenda o inglês. O homem descalçou uma luva de couro e estendeu a mão calejada. grossos como pernis e marcados pelas inevitáveis queimaduras.rijos e avental de couro vir caminhando da forja a passos largos. Ethan Gage". Tinha antebraços de ferreiro. Não que eu estivesse esquecendo Astiza por um momento que fosse . era bem claro. algo que me fazia pensar na gravidade bondosa que sempre associei a José. A fuligem do ofício não ocultava o cabelo cor de areia nem os surpreendentes olhos azuis. o Carpinteiro. confirmei ao apertar uma palma dura como lenho. "Ela fica encabulada com estranhos." O homem podia ter boca de mulher.. e sempre é mais seguro saber em que pé estão as coisas. que me miravam com certo ceticismo. "Gage. já era um passo na direção certa. não?" "É. "Como tua esposa talvez já tenha explicado. Em todo o caso. mas seu aperto de mão era um torno.." O recado. Por isso. não a constranjas. a constituição do homem era suavizada em alguma medida pelos lábios cheios e pelo rubor que se escondia sob a barba nas faces (um viço querubínico que ele comparrilhava com aquela mulher).

já que morou na Inglaterra. de modo que posso te oferecer alojamento temporário e um conselho que vem resistindo ao teste do tempo: qualquer estrangeiro que tenha pretensões a entender a política de Jerusalém não passa de um tolo. "Smith mandou-me avisar sobre tua missão. Lá não há mais muralhas. "Então quem sabe minha tarefa seja breve? Eu pergunto. Jericó." Só consegui desconcertá-lo." Conservei a afabilidade de sempre." Eu estava decidido a continuar tentando. Um bom homem para termos do nosso lado." "Encantadora. logo. As melhores senhoras são assim." Ele me olhou de alto a baixo." Ele reagiu a minha verve com tanta animação quanto um ídolo de pedra. não entendo a resposta e vou embora para casa como qualquer peregrino. aquela sobre o desabamento das muralhas de Jericó? Tu me pareces sólido como uma rocha. e achei que ela poderia ser útil no souk e na cafeteria."Seria surpreendente se não entendesse. não consigo imaginar que vás desabar logo. não?" "Jericó é a vila onde nasci. "Sabes a história bíblica. porém indisponível. Comigo. Ela não tem nenhuma relação com nossos assuntos. Falo um pouco de árabe. "Preferes a indumentária árabe?" "E confortável e anônima. "Quanto a ti." .

o tal ferreiro. Os marujos me deram esse meu apelido. Eu havia conhecido Smith na marinha. Se bem entendi. continuei.". de ascendência breve e. mongóis. As raízes de minha família são bem antigas." "Sentíamos falta do sol. "Sangue dos cruzados. melhor . não ficaste por lá. hesitante. Todas as raças passaram por Jerusalém cruzados. mas nossa geração acabou saindo bem clara. persas. concordei em ficar de ouvidos atentos aqui. Eles fazem o que ele manda fazer. os britânicos são brancos como vermes. Os meus vizinhos pensam que eu simplesmente me aproveito de saber inglês para acolher hóspedes de vez em quando.. Eu me vi na expedição de Bonaparte . quanto antes esquecida..está aí uma das vantagens dos Estados Unidos. Descobrem pouca coisa que se aproveite. Pela passagem de volta e algum pagamento. obviamente."E eu não esperava encontrar olhos azuis na Palestina." Inteligente e direto. E tu?" "Americano." "Mas. etíopes. Hospedo os amigos de Smith. em Tiro. "Sidney Smith acredita que ele e eu podemos nos ajudar mutuamente. e. eu me alistei numa fragata inglesa e aprendi a fazer reparos no ferro. Era minha obrigação. opiniões e nações. Os padres católicos que nos acolheram nos contaram alguma coisa do mundo. e não estão lá muito errados. Fui aprendiz de ferreiro em Portsmouth e mandei buscar minha irmã. Deveríamos ser uma mistura de cores. não?" "Miriam e eu ficamos órfãos por causa da peste. aprendeste inglês na marinha deles. Todos os credos.

Não sem dinheiro." "Uma mulher? Intima de ti?" Ele parecia tranqüilizado por meu interesse em alguém que não fosse a irmã. Ele está tentando ajudar Djezzar a organizar a resistência aos franceses." "Então não vais me ajudar?" "Quem não vai te ajudar são meus contatos no Egito. mas apenas me dizendo a verdade. dei-lhe uma dica da outra coisa que eu . os judeus e os drusos podem fazer. Não são poucos os que vão considerar os franceses seus libertadores. Mas também preciso de ajuda para mim mesmo. "Esse tipo de investigação é mais caro do que ficar ouvindo as fofocas políticas em Jerusalém." Avaliei que ele estava não tentando me explorar. um tirano que está sempre pisando no pescoço deles.. Disseram-me que tens contatos no Egito..ao Egito. nesse caso. Agora." "Exatamente. Para ser mais preciso..Com gente que odeia Djezzar.. Se eu quisesse chegar a algum lugar com minha busca. vou levá-la a Smith. ela caiu no Nilo. como resgatá-la." ". precisaria de um parceiro." "E Smith quer saber o que os cristãos. "Desconfio que mais do que podes pagar." "Se a mensagem é essa. Conheci no Egito uma mulher que está desaparecida. e quem melhor que aquele ferreiro de olhos azuis? Assim." "Quão mais caro?" Ele me olhou de alto a baixo. Quero saber se está viva e. os franceses estão planejando vir para cá.

aqui mesmo em Jerusalém. eu te prometesse uma parte do maior tesouro do mundo?" Ele finalmente riu." "Queres que eu gaste o meu dinheiro procurando por essa tua mulher?" "Eu quero que invistas no teu futuro. E ele tinha a mesma ganância de todos nós: não há quem não sonhe com tesouros enterrados. "Talvez tu possas colaborar. em troca." Eu o fisgara. Os muçulmanos preferem . E onde estaria esse tesouro?" "Espero que bem debaixo de nossos narizes. E se. "Eu posso ver se não custa demais. "Eu também preciso de outra coisa." "Tens idéia de quantos tolos já alimentaram a esperança de descobrir tesouros em Jerusalém?" "Não serão os tolos a descobri-lo.procurava." "Ah. "Smith achou um biltre bem descarado e atrevido. Mas ele poderia fazer de um homem um rei. mas também estava curioso." Ele passou a língua pelos lábios. embora o ofício de ferreiro lhe desse alguma prosperidade. Eu apostava que pagar por notícias de Astiza não lhe custaria assim tão caro. Um bom fuzil. "O maior tesouro? E qual seria ele?" "É segredo. não?" "E és ótimo juiz de caráter!" Ele podia estar cético." Jericó vivia com simplicidade. Sendo cristão. sua casa tinha mais mobiliário que uma moradia islâmica.

sentamos em posição alta e formal. e tão desconcertante quanto.um lugar despojado como um convento. . mas básica: pão. caros e escassos. eram de uma simplicidade puritana. vinho e quaisquer verduras que Miriam conseguisse comprar na feira a cada dia. de modo que o frio mais intenso era contido por sacos de serragem que ficavam nelas por toda a estação. Jericó tinha mesa.o hábito da tenda beduína nunca foi deixado para trás. estamos acostumados a ter a cabeça mais perto do calor do teto que do frescor do chão. Embora o inverno já se aproximasse. os cristãos. O piso de tábuas estava desprovido de tapetes. mas o produto era relativamente raro e caro. num atravancamento estacionário de mobília. a irmã. cadeiras e grandes armários.almofadas. as velas e o óleo. não vidraças. o que vinha reforçar a escuridão e a melancolia outonais. exceção feita ao calor que vinha do carvão a queimar no fogo e na forja lá embaixo. porém. musculoso e esfomeado. De vez em quando. ela trazia carne para o irmão. não havia nada para o aquecimento. A comida era farta. o vento. azeitona. Em vez das almofadas e arcas islâmicas. mantinha a casa imaculada. pois estas podem ser movidas para que as mulheres fiquem isoladas quando chegam convidados do sexo masculino . A água das bacias era gelada. penetrante. Já nós. As janelas tinham treliça. A carpintaria e a marcenaria. por isso. e nós dormíamos e levantávamos muitíssimo cedo. e os ornamentos nas paredes de estuque se limitavam a um ou outro crucifixo ou imagem de santo . Miriam.

o quarenta-e-cinco já basta. indiferentemente. ranhuras profundas. imagino. "Já trabalhei em alguns. reservado e aplicado (todos atributos que. Ferro doce. Jericó era constante. a velocidade do fuzil permite que se usem balas menores que as de mosquete. uma caída na coronha para que os olhos fiquem na altura da mira. eu deveria tentar imitar) e conquistara o respeito da cidade. "Não vai ficar desajeitado demais?" "O comprimento dá precisão e potência à bala. mas o primeiro tiro já acerta mesmo alguma coisa. a regra são as armas de alma lisa. cristãos e judeus) que apareciam naquele pátio coberto de fuligem para comprar implementos de ferro. "Estás falando de um fuzil alemão como o Jäger? Um fuzil de caça?". O que primeiro nos uniu foi a fabricação de meu fuzil. mas a fronte permaneça longe da chama. mas ele já estava adiante de mim. e dá para municiá- . O melhor fuzil que já vi consegue pregar três em cada cinco pregos a cinqüenta jardas. eu posso levar mais munição." "Por aqui.Para um parisiense boa-vida como eu." Esbocei um cano de quarenta e duas polegadas. Achei que eu pudesse orientá-lo no projeto de uma boa arma. Quanto ao calibre. a Palestina foi um baque. Leva um minuto inteiro para carregar e socar. perguntou quando lhe descrevi a arma que eu perdera. São rápidas na hora de recarregar. no olhar dos homens (muçulmanos. Via-se isso. Mostra-me na areia o comprimento que queres. para uma mesma quantidade de bucha e pólvora. hábil. e assim.

Podes cobrar dele para saldar tua própria dívida comigo. Para mim.se for necessário. partiam direto para o arranca-rabo brutal. homens que." "Não sei nada dessas coisas." Trabalho honesto? A idéia era instigante (verdade seja dita. até seixos. Nos dias de pouco movimento. Vou dar duro procurando enquanto fabricas o fuzil." Como era difícil brincar com ele! Jericó olhou para o esboço na areia. mas também podemos errar e muito o alvo." "No combate aproximado." "Não." Ele balançou negativamente a cabeça. tentar lutar com um mosquete comum é como ir ao bordel de olhos vendados ." "Ser preciso é ser certeiro. "E fácil prometer dinheiro que não se tem. "São quatrocentas horas de trabalho. E pretendes usar o tal tesouro para me pagar por isso?" "Em dobro. eu às vezes invejo tipos sérios e . mas também em outros. ao abordarem um navio inimigo. podes caçar tesouros enterrados ou ouvir rumores suficientes para satisfazer a Sidney Smith. Será uma experiência nova para ti fazer trabalho de verdade. "E o tiro certeiro ao menos impede que se aproximem de nós.podemos até conseguir o que queremos. Para essa tua arma. não apenas nesse serviço. Vais ajudar. a rapidez ao recarregar leva às vezes a melhor." Jericó tinha a parcialidade dos marujos com os quais servira. vamos necessitar de balas precisas.las com qualquer coisa .

responsáveis como Jericó). e joguei carvão com a pá. Jericó primeiro pegou uma haste metálica cilíndrica. Aí. regateei. Nessa altura. Segurei o mandril e lhe passei ferramentas enquanto Jericó colocava a fita numa das ranhuras da bigorna apropriada e começava a martelar para ir formando o cano. "Miriam acha que és um bom homem. Poderia acontecer muita coisa até lá. "Pois então usa o fole para avivar aquele fogo. O ferreiro aqueceu uma fita de aço carbonizado de Damasco. e virei tanto metal que meus ombros doíam." E. de calibre ligeiramente menor que o do cano pretendido para meu futuro fuzil. Fazia aquilo uma polegada de cada vez. eu sabia que tinham alguma confiança em mim. "Ajudarei na forja". "mas precisas me garantir horas suficientes para que eu cisque por aí. depois que obedeci de um átimo. mas também assustadora. que teria o mesmo comprimento do cano da arma. mas a primavera estava bem longe. própria para fazer armas de fogo." Com o endosso dela. eu já terei achado o tesouro e conseguido o dinheiro com Smith. ou mandril. retirando o mandril enquanto o metal ainda estava ligeiramente maleável e mergulhando o resultado do trabalho na água. de má vontade. quando Napoleão chegar. Que tenhas o fuzil pronto no final do inverno. Ele enrolaria a fita em torno do mandril." Conseguir arrancar alguma coisa do Almirantado é como extrair caldo de cadarços. . Jericó balançou a cabeça.

" "Eu também não. Eu comia com simplicidade. Aconteceram outras coisas..voltava a reaquecer. Nunca encontrei a moça certa. Ela morreu quando estava grávida do meu filho. Recatada. "Cuida de ti. enrolar outra polegada do aço. Era uma faina tediosa. ficaram ainda mais rijos. E Miriam. e o trabalho braçal duro produzia sua própria satisfação. já tonificados pelo Egito." Agora eu estava entendendo. Tentei fazer que o ferreiro se abrisse. dormia bem e até vim a me sentir à vontade na singeleza devota de minhas acomodações. insisti. Jericó?" "Vês alguma esposa por aqui?" "Mas um homem próspero e bem-apanhado como tu?" "Eu não quero saber de casar. martelar e ressoldar." O olhar dele encontrou o meu. Mas aí houve essa mulher no Egito. A obrigação me mantinha aquecido.. de polegada em polegada. E assim íamos.. o irmão enlutado.. incomodado." "E tu tens essa mulher no Egito. Eu fui para o navio britânico. Obediente. mas também curiosamente apaixonante. "Já fui casado." "Mas é uma moça tão adorável! Doce." "E se aparecer um pretendente?" "Ela não quer saber de pretendentes." . Aquele cano seria meu novo companheiro. Meus músculos." "Teremos notícias dela. "Não és casado." "Então são só tu e tua irmã". Ele parou de martelar. "Assim como cuido dela.

As confluências da cidade eram as feiras. Ele precisava de uma ou duas taças de vinho para se soltar." . Jerusalém estava acostumada com peregrinos. resumiu. eu convencia Jericó a vir junto. Talvez eu possa arranjar alguém para ti. onde os ricos e os pobres se misturavam e os janízaros faziam casualmente refeições com artesãos comuns. as cafeterias atraíam homens de todos os credos para bebericar café. atendiam aos desamparados. De vez em quando. inglês e francês. ou refeitórios beneficentes. Ou de um vagabundo. já que estou aqui. Se os khaskiyya. eu posso oferecê-la assim mesmo!" Eu sorri de orelha a orelha. e meus sotaques não chamavam a atenção. mas. aconselhei. juntos."Precisas casar". "Em Jerusalém. Com o café. ele resmungou. Quando o trabalho era leve. fumar narguilé e debater." "Eu não preciso da ajuda de um estrangeiro. procurando garimpar informações úteis com meu conhecimento do árabe. "E ter uns filhos para fazer-te dar risadas. "o que significa que. o forte fumo turco e o haxixe. quando começava. suas relutantes explicações sobre a terra natal se mostravam inestimáveis. todo o mundo acha que está bem mais perto do Céu que os outros". variava ligeiramente a indumentária. eu saía para conhecer Jerusalém." "Mas. eles criam seu próprio Inferno particular. o ar era inebriante. e nós voltamos a malhar metal. Dependendo do bairro aonde ia.

Bonaparte ainda não fora derrotado. Aspirantes a déspota religioso de meia dúzia de credos sonhavam em estabelecer suas respectivas utopias puritanas. Queria ser amigo de todos. Mesmo que Smith tivesse esperança de que eu fosse recrutar adeptos para a causa britânica. lugar de paz e devoção?" "Até o momento em que alguém pisa na devoção dos outros. Eu ainda gostava dos ideais republicanos franceses e dos homens com os quais servira no Egito."Mas não é esta uma cidade desarmada. Por que deveria eu tomar o lado dos arrogantes britânicos. minha pessoa não tinha nenhuma intenção de realmente fazê-lo. Djezzar dominava implacavelmente a região havia um quarto de século. coisa que fora de verdade em Paris. . e a Palestina não passava de uma ilhota no vasto Império Otomano. e não discordava necessariamente dos sonhos de Napoleão de reformar o Oriente Próximo. A cidade estava tão tomada por rumores da chegada de Napoleão que zumbia como uma colmeia. mas não havia consenso sobre qual lado levaria a melhor. não estava de maneira alguma claro quem pegaria em armas contra quem. Os ingleses controlavam o mar. eu explicava que era representante comercial dos Estados Unidos. Embora xiitas e sunitas estivessem às turras nas comunidades muçulmanas e tanto os cristãos como os judeus fossem minorias indóceis e desconfiadas uma da outra." Se alguém perguntava sobre minha presença ali. Dizia estar esperando para fazer negócio com o vencedor.

"Como é que fazes isso?" "Trago misteriosos poderes da França e da . depois. mas ali havia muita gente com passado nebuloso que procurava um monte de coisas. Estava sendo vendido como amuleto vistoso e brilhante. com um inseto preservado lá dentro. E. e foi inevitável que se espalhasse a notícia sobre o infiel em indumentária árabe que estava trabalhando na forja de um cristão. mas vi nele um objeto de ciência. -5– Para passar o inverno. dei o melhor de mim para mexer com Miriam. Ela se voltou num átimo. Assim. descobri o que pude na cultura de café e narguilé que tinham ali.que haviam combatido tão cruelmente a independência de minha própria nação? Tudo o que eu queria de fato era ter notícias de Astiza e descobrir se existia alguma possibilidade de que esse legendário Livro de Tot ainda estivesse por aí após três mil anos. Numa ocasião em que Miriam estava depenando e limpando um frango. esfreguei o âmbar energicamente em minhas roupas e aí ergui a mão por sobre as peninhas.esperar. eu encontrara um pedaço de âmbar. cheguei de fininho por trás. Eu era só mais um e me dedicava àquilo em que consiste maioritariamente a vida . Na feira. Era uma cidade pequena. Algumas flutuaram para a minha palma. fugir daquele hospício.

é um truque elétrico que aprendi com meu mentor. usa o teu âmbar para depenar o próximo frango!" Ri e passei-lhe o âmbar pelo queixo. Miriam fez o sinal-da-cruz. embora Miriam hesitasse. Os dedos eram fortes. desfrutando o pretexto para tocá-la." "Sou curioso. "És um descarado." Virei a palma da mão para cima. com os desconfiados olhos de Miriam por cima.América". experimenta. Benjamin Franklin. "Vamos. entoei. esfreguei o âmbar em sua manga e a segurei sobre as penas." "Não se trata de magia . só isso. ele atrai coisas." Peguei-lhe a mão. atraindo com ele fios de seu lindo cabelo." Miriam torceu o nariz e me devolveu o âmbar." Eu criara um véu louro. "E coisa de ímpios trazer magia para esta casa. sem muita convicção. Em seguida. . "Como é que arrumas tempo para brincadeiras inúteis?" "Mas talvez não sejam inúteis. Damos a essa mágica o nome de eletricidade. E não deu outra coisa: algumas levitaram para grudar-se à manga." "Curioso de quê?" Ela ruborizou tão logo perguntou isso. "Talvez o âmbar possa servir de pente. "Os antigos gregos já faziam isso. e coloquei o âmbar em seus dedos. disse Miriam. "E agora és também uma eletricista. Quando se esfrega o âmbar." "Que idéia tola"." "Se és tão esperto. avermelhados pelo trabalho. de modo que Miriam pudesse ver o âmbar que eu estava segurando. Eu sou um eletricista.

mas estava na pior cidade do mundo para isso. agora começas a me entender. É coisa que faz mesmo um homem pensar antes. Com o tempo. da maneira que Franklin me ensinara. Teria sido possível que os antigos houvessem transformado tais mistérios em poderosa magia? Teria sido esse o segredo de suas civilizações? A ciência era também um modo de elevar meu status durante . Também não havia muita tentação carnal numa cidade onde as mulheres estavam mais cobertas que criança de colo numa nevasca do Maine. mas os encantos delas eram envenenados pelas histórias lúgubres que se ouviam nas cafeterias sobre a mutilação genital levada a efeito nos mais galantes por pais ou irmãos furiosos. Ah. as mulheres me lançavam de vez em quando olhares cativantes (eu tenho algum estilo). eu conseguia fazer uma faísca passar entre os lábios de um casal) adquirira caráter mais sério após minha estada no Egito. além disso. Jerusalém oferecia menos diversão que um piquenique quacre. acabei ficando tão frustrado e entediado que busquei inspiração na brincadeira do âmbar e resolvi mexer com eletricidade."Ah. Mas Miriam não deixou as coisas irem. O que parecera um esperto passatempo parisiense para encantar os salões com um beijo elétrico (tão logo dava uma descarga elétrica numa mulher com minhas máquinas." Dei uma piscadela. meu celibato de Jafa estava sendo involuntariamente prolongado. Eu tivera a esperança de fazer o tempo ocioso passar com um ou outro jogo de cartas. Assim.

Ganhei ainda mais fama de feiticeiro quando eletrifiquei meus braços e usei os dedos para atrair lascas de latão.eram minhas garrafas de Leiden improvisadas.aquele inverno do descontentamento em Jerusalém. Quando eu a virava contra coxins ligados a um arame. Os estudiosos da natureza humana não ficarão surpresos em saber que homens faziam fila para levar choque. fazendo-o girar com a manivela. . e reconheço que gostei da notoriedade. O brilho roxo que resultou iluminou o barracão e deixou as crianças da vizinhança extasiadas. retirei o ar de um globo de vidro. a carga estática se transmitia aos jarros de vidro que eu revestira com chumbo . Os homens começaram a cochichar a respeito de meus poderes. com um disco de vidro para servir de gerador. um mago. Com a relutante tolerância de Jericó. pois a eletricidade constituía novidade ali. e estendi a palma da mão sobre ele. muito embora duas velhas tenham desmaiado. Percebi então que me tornara um conde Silano. Usei filamento de cobre para ligar em seqüência essas baterias de faísca e enviar a uma corrente de metal eletricidade o bastante para fazer os fregueses saltarem se a tocassem. construí uma manivela de fricção. que os fazia tremer de espanto com suas extremidades formigando. deixando seus braços e pernas dormentes por horas. No Natal. um rabino tenha saído ruidosa e furiosamente do recinto e um padre católico tenha estendido o crucifixo em minha direção.

" "Pelo contrário: sábios da França e da Alemanha acreditam que choques elétricos possam curar a doença ou a loucura." "E o que são os franceses senão infiéis e ateus?"." "Ugh!" "E os músculos dos mortos realmente se movem. nós obtemos eletricidade? Não. "Boa coisa a eletricidade não dará. rebateu o padre. criminosos mortos. "Na França. ou tiramos água de um poço. e Franklin achava ser a força que anima o universo. fazemos isso o tempo todo. para tranqüilizá-los."É só um truque de salão"." "Blasfêmia!" "A eletricidade está em nossos corpos." "Mas por que a eletricidade aguilhoa? Era isso o que Ben Franklin queria entender. há algo de especial naquilo. os vizinhos de Jericó não acaram lá muito impressionados com essa perspectiva. E a eletricidade o que nos dá vida? E se pudéssemos domar essa força tal qual domamos o fogo ou os músculos de um cavalo? E se os antigos egípcios já faziam isso? ." Mas. não?" "Mas por quê? Quando batemos leite para fazer manteiga. disse eu." "Ela vem quando se gira a manivela. Talvez seja a eletricidade o que anima as nossas almas. Eletricistas vêm tentando reanimar com a eletricidade. Miriam também continuava ressabiada. embora o espírito já tenha partido. "Parece trabalho demais só para dar uma aguilhoada em alguém. como todo o mundo sabe que os médicos matam mais do que curam.

cada viela. inescapável e persistente do tempo. mas os lugares que visitei transmitiam uma sensação palpável. os cruzados foram à carga nesta praça. ficamos imaginando se os homens não tinham tal poder no passado.A pessoa que soubesse como fazer poderia ter um poder inimaginável. é uma plataforma pavimentada de meia milha de comprimento e trezentas jardas de largura. Jerusalém aplicava sua própria magia. Construído por Herodes. que consistia num vasto tabuleiro artificial construído no topo do monte onde Abraão ofereceu o sacrifício de Isaac ." "E é isso que procuras." Entrementes.o Monte do Templo. Não sei se a história humana consegue encharcar o solo como a chuva de inverno. O Templo de Salomão ficava nesse monte até que primeiro os babilônios e depois os romanos o destruíram. E então os muçulmanos construíram . Mas tudo aquilo apenas para um templo? Por que precisara ser tão grande? Estaria a plataforma cobrindo algo escondendo algo . Cada parede tinha uma lembrança. O mais extraordinário era o canto sudeste da cidade.mais crucial? Isso me fez lembrar nossas intermináveis especulações sobre o verdadeiro propósito das pirâmides. Salomão deu as boas-vindas à rainha de Sabá ali. Ethan Gage? Poder inimaginável?" "Quando vemos a pirâmide. Jesus caiu aqui. Por que não podemos reaprendê-lo?" "Talvez porque cause mais mal do que bem. o Grande. uma história. Saladino retomou a cidade do outro lado daquela muralha.

Ali. El-Aqsa. cujas formas tinham sido distorcidas por anexos feitos pelos cruzados. havia outra mesquita. e constava que existiria uma pequena gruta debaixo dele. De vez em quando. Na extremidade sul. sussurrando que eu era um djinn. Apesar de minha fama. Talvez tivessem a esperança de me converter ao islã. elevando-se acima da cidade comercial como o próprio Céu.sua mesquita dourada naquele mesmo local. Os muçulmanos me deixavam em paz. quando eu me demorava . Num dos lados da rocha havia um poço. será que algum tesouro hebraico não fora ocultado no mesmo lugar? Mas ninguém estava autorizado a descer à gruta. O domo era sustentado por quatro imensos pilares e doze colunas. e ovelhas pastavam. Será que alguma coisa estava mesmo escondida lá? Se um dia o Templo de Salomão se erguera ali. Debaixo dele. Kubbet es-Sakhra. onde Abraão oferecera o filho em sacrifício e onde Maomé subira para percorrer o Céu. um gênio da garrafa. eu subia a passos largos pelo Portão da Corrente e passeava pelo perímetro. e. deixavam-me às vezes entrar no próprio Domo da Rocha. Cada religião tentara deixar sua marca ali. ou talvez por causa dela. a mesquita azulejada de azul. observando com minha lunetinha os montes circundantes. que explorava poderes sombrios. ficava a rocha sagrada. e seu interior era adornado com mosaicos e escrita islâmica. crianças brincavam. mas o resultado geral era um vazio sereno. pedra fundamental do mundo. Eu tirava as botas antes de pisar em seu tapete vermelho e verde.

Cortaram-se tantas gargantas que a água do subsolo deveria ser sangue.. dobradiças e todas as diversas ferragens do cotidiano. "Não venhas me dizer que estás à procura da Arca da Aliança! Isso é mito de lunáticos. fiquei especulando. Subterrâneos? Deve haver mais Jerusalém lá embaixo que aqui em cima!" "Essa coisa que estou procurando foi trazida pelos antigos israelitas. Não te esqueças de que esta cidade já foi saqueada por metade das nações do mundo. incluindo os teus cruzados. "Será que nesta cidade há subterrâneos onde algo de valor pudesse ficar oculto por um tempo longo?" Jericó deu uma risada nada amistosa. Ela pode ter estado um dia no Templo de Salomão. mas não há menção da arca desde 586 antes de Cristo. Assim.demais. não. um zelador muçulmano me tocava para longe." "Não. tenazes. ou pelo menos nutria a esperança de que a arca me levasse ao livro. eu não me refiro a isso. "Subterrâneos em Jerusalém? Todo porão leva a um labirinto de túneis abandonados e ruas esquecidas. ou de que fossem . quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém e levou os judeus para o exílio." Ele grunhiu. E ruína em cima de ruína em cima de ruína. foices. para não falar de uma mixórdia de grutas e pedreiras." Mas me referia. Tive ampla oportunidade para fazer perguntas a meu anfitrião.. sim. e dei duro com Jericó para malhar ferraduras.

não até aquele momento." Embora Miriam fosse uma mulher calada. e teoricamente a Arca da Aliança era a caixa de acácia revestida de ouro na qual os hebreus que escaparam do Egito mantinham os Dez Mandamentos. Só depois que eu trabalhara um tempo com Jericó na forja. "Ótimo. Nos primeiros dias de minha estaca.os dois a mesma coisa. Diziam que tinha misteriosos poderes e que roi de ajuda na hora de derrotar os inimigos dos hebreus. Desce rastejando pelos buracos se quiseres. e a relutância dos irmãos era curiosa. ela preparava e servia nossas refeições. mas tudo o que encontrarás serão cacos de louça e ossos de rato. Miriam falava apenas quando se dirigiam a ela (mais uma vez. já que Astiza acreditava que Moisés o pegara. Afinal. Era natural que eu perguntasse a mim mesmo se o Livro de Tot também não seria um recipiente. não estávamos predispostos a segregar os sexos como os muçulmanos. Arca é caixa. Por diferentes que ela e Astiza fossem na personalidade. Mas não revelei nada disso. conquistando pequeno grau de confiança. mas comia à parte. o oposto de Astiza) e parecia ter pouca necessidade de expressar-se. e desconfio que não terminarias com mais do que começaste. foi que consegui induzir os dois a concordarem que ela ficasse conosco à mesa. . De início. Levarias toda a eternidade para escavar Jerusalém. eu aos poucos percebi que aquele silêncio era o véu de uma inteligência aguçada. eram gêmeas no intelecto. com intensa curiosidade a respeito do passado histórico.

eu bem podia ficar satisfeito com minha virtude forçada). No jantar. minhas jornadas pelo Mississippi até Nova Orleans e as ilhas açucareiras das Antilhas. E aí eu gemia. gostavam de minhas histórias sobre Paris. Também estavam curiosos acerca do . tentando pensar em eletricidade. Eu continuava a me orgulhar de minha castidade (já que achar uma aventureira em Jerusalém era como tentar achar uma virgem nos salões de carteado de Paris. eles se assemelhavam a uma cachoeira dourada. e acabava recorrendo ao punho. tão claros quanto eram escuros os cabelos de Astiza. Os irmãos eram pessoas que tinham visto um pouco do mundo. minhas primeiras incursões no comércio de peles nos Grandes Lagos. as pernas esbeltas e fortes que meu cérebro tão frustrado cogitava. mas relutava em tirar o lenço dos cabelos à mesa. Eu não conseguia deixar de tentar imaginar seus seios e seu ventre. com riachos de água e sabão a caírem em cascata pela topografia perfeita das coxas. a infância e juventude na América. em pé numa cuba. mas fiquei assombrado com o fato de que tal beldade ainda não tivesse sido levada embora por algum admirador persistente. O pescoço era longo. e as maçãs do rosto. a rotundidade de suas ancas. panturrilhas e tornozelos. Quando o fazia. Miriam desfrutava nossa conversa com olhar rápido e animado. encantadoras.Como eu já desconfiara. À noite. ela era realmente linda (uma beleza que sempre me fazia pensar em frutas com creme). Por isso. banhava-se cuidadosamente. eu ouvia os sons da água enquanto Miriam.

Entrementes. e essa manta branca foi seguida de um céu azul-claro e um sol tão desprovido de calor quanto uma pipa. que eu visitara bem mais ao sul. aliás do que o irmão. eu vagava pelos montes no inverno gelado. Não lhes falei dos segredos da Grande Pirâmide. Do lado de fora das muralhas.Egito." Jerusalém era um lugar carregado de passado. eu lhe perguntava. quando a luz projetava longas sombras sobre ruínas anônimas. resguardada dos homens e livre de crianças. Quando se forjou por completo o cano. da Galiléia (por onde Jesus caminhara). dos pontos de interesse cristãos que eu poderia visitar no monte das Oliveiras. o vento cortante trouxe uma neve leve. Miriam também começou a fazer sugestões acanhadas. Jericó me falou da Palestina. no estudo de livros que comprava na feira ou pegava emprestado nos conventos. e eu podia ver que Jericó estava gostando da perícia artesanal exigida. indicando que ela conhecia muito mais sobre a Jerusalém histórica do que eu teria imaginado. Conhecia muito mais. Ela não apenas sabia ler (coisa já bem rara entre as mulheres em terra islâmica). continuava o trabalho no fuzil. mas descrevi o Nilo. Após alguma hesitação. as grandes batalhas terrestres e navais do ano anterior e o templo de Dendara. nós o alargamos no sentido longitudinal até . "O que estás lendo?". como também lia avidamente e passava grande parte de seus inenciosos dias. Certa vez. Ao iluminar a paisagem. ele a transformava em açúcar. "O passado.

a donzela Miriam me surpreendeu ao pedir para tomar as medidas de meu braço e meu ombro. ele ficou ainda mais reto. "Mostra a caída e o desaprumo que queres na coronha. cada uma delas feita por uma broca que girava pelo cano. Havia o polimento. o acabamento da coronha." O bordo era uma árvore inexistente . a grande quantidade de peças de metal para a pederneira. o gatilho. que precisa ficar ajustada ao tamanho do atirador tal qual um casaco. Um dia. explicou Jericó. Minhas mãos ajudaram. Eram sete ranhuras. Aquecendo e malhando o cano com habilidade. Já que a broca não podia cortar fundo.duzentas vezes para cada ranhura. Os momentos em que ele ficava mais feliz eram aqueles em que podia trabalhar em silêncio. Era trabalho pesado. Jericó aferiu o resultado esticando um fio pelo furo. "Ela tem olho de artista". Eu girava a manivela enquanto Jericó empurrava o cano (firmado com braçadeiras) em minha direção. A própria Miriam se propusera para a tarefa. A feitura das ranhuras que fariam a bala girar no cano foi esmerada e laboriosa.o diâmetro correto. o recozimento do aço. cujas manoplas carnudas se mostravam capazes de produzir resultados dignos de uma prendada donzela com a agulha. a vareta etc. Seria ela quem entalharia a coronha. e procurando sombras e rebarbas que assinalassem imperfeições. bem firme. Depois que acabamos isso. mas a perícia era toda de Jericó. era preciso girá-la à mão pelo cano . E isso foi só o começo.

de modo que Miriam empregou a mesma madeira usada na Arca da Aliança. surpreso com a enxurrada de emoções que me corriam pelas veias. Enquanto ele agradecia acanhadamente nossa hospitalidade e comia como um esfomeado. Assim eu levava a vida. da caravana da feira do dia. resistente. Miriam traduziu minha sugestão em curvas graciosas. mas dura. e o homem foi servido de água (era muçulmano e recusou todo e qualquer vinho).na Palestina. que lembravam os fuzis da Pensilvânia. Quando ela tomou minhas medidas para as dimensões da coronha. despachando para Smith avaliações políticas e militares tão vagas que teriam confundido qualquer tolo estrategista o suficiente para dar atenção a elas. Vede quão casto eu me tornara. azeitona e pão. declarou o visitante. Astiza fora encolhendo em minha lembrança. O ferreiro foi ver quem era e voltou com um viajante barbudo e empoeirado. uma noite. Depois que fiz um esboço tosco de como queria que a madeira diferisse do desenho das armas de fogo árabes. tremi como um garoto de escola ao toque de seus dedos. Foi a vez de meu coração bater com força no peito. . nosso jantar foi interrompido quando vieram bater com força na porta de Jericó. Até que. a acácia do deserto . firme. eu aguardava com apreensão. Durante aquelas semanas com Miriam.mais pesada do que eu preferiria. Sentamos à mesa simples de cavaletes. "Trago notícias do Egito para o americano".

O mensageiro engoliu. insisti. impaciente. febre intermitente. Houve o de praxe: as saudações.Agora. Alguns desconfiam que ele tenha sido morto na pirâmide. começou. mas não existe consenso sobre o que teria acontecido a ele. Os . Vários relatos alegam que o americano estaria aqui ou ali. as expressões de agradecimento ao Divino. hidropisia. "Há rede um balão francês que se perdeu durante a revolta de outubro no Cairo". Consta que estava investigando a Grande Pirâmide e então sumiu. Por fim. sentimentos enterrados havia meses latejavam em minha cabeça como se Astiza ainda estivesse em meus braços ou eu a visse balançar desesperadamente numa corda abaixo de mim. sacudindo da barba as migalhas de pão. Miriam me observava." "Mas com certeza há notícias do que aconteceu ao conde Silano". "O conde Alessandro Silano está igualmente desaparecido. dizem que ele simplesmente desapareceu ou desertou do exército francês. dores e desfaleratos. um relatório sobre a saúde (por conta da prevalência da gota." Olhou de relance para mim e então baixou a vista para a mesa. "Ninguém confirma vossa história. "Nada sobre o americano a bordo. o "Como estás?" é uma das mais profundas indagações de minha e uma lista das provações da viagem. a pergunta: "Quais são as notícias da amiga deste homem?". oftalmia. Corei. sentindo a comichão da ansiedade. Outros acham que voltou para a Europa. frieiras. os votos de prosperidade.

" "Não. ela não deve nunca ter reaparecido." "Mas ela também caiu no Nilo! Um pelotão inteiro viu!" "Se assim foi. A morte de Astiza. . nega que algum dia ela tenha posto os pés lá. "Nem sinal?!" "A casa de Qelab Almani. Yusuf al-Beni. E quase como se ela nunca houvesse existido." “E Astiza?" "Não achamos nem sinal dela. seja no Cairo. "Ele caiu do balão!" "Não há notícia disso." Eu estava abismado. mas. A soldadesca fala de uma mulher atraente. não!". meu amigo. Correm boatos de que uma linda mulher acompanhou a força expedicionária do general Desaix ao alto Egito. mas ninguém afirma tê-la visto ou conhecido. Do mameluco Ashraf que mencionastes. não tivemos nenhuma notícia. é verdade. o homem que chamais Enoque. ela também sumiu. Só estou vos contando o que dizem por lá. onde afirmais vos hospedado. Ninguém se recorda da presença de Astiza." Fiquei deprimido. que dissestes ter hospedado essa mulher em seu harém. se isso de fato aconteceu. o sepultamento de seu corpo após o afogamento. Essa mulher parece ter sido uma miragem.crédulos acreditam que o conde tenha desaparecido por mágica. seja em Alexandria. objetei. efêndi. ficou vazia depois que o assassinaram e foi requisitada para servir de quartel aos franceses.

por isso o . sim. Teria Astiza sobrevivido de algum modo e ido embora com ele? Tal idéia me agoniava ainda mais! "Deveis saber algo mais que isso! Deus do Céu. O olhar de Miriam era agora mais direto do que jamais fora. mas também a ciência de que a egípcia me mantivera longe da irmã dele.era algo para que eu me preparara. mesmo como prisioneira. não é mesmo?" Os humanos conseguem adaptar-se a tudo menos à incerteza . Solidariedade. o sol ofuscante enquanto o balão subia para longe. solidário. o exército inteiro a conhecia! Napoleão falou dela! Importantes sábios franceses a levaram no barco deles! E agora não se tem notícia nenhuma?!" O homem olhou para mim. Jericó me olhava com desalento. Naquele instante. e nele vi uma compreensão pesarosa. percebi que também ela perdera alguém.. Deus às vezes deixa mais perguntas do que respostas. Sua sobrevivência. efêndi. Mas seu total desaparecimento?! Será que o rio a carregara. os gritos. Depois. para nunca mais ser vista nem receber enterro decente? Que tipo de resposta era aquela? E Silano também se fora? Isso era ainda mais suspeito. ela a cortar a corda. Mas ali estava eu. a ressoar em minha cabeça: "Acha-o!". "Sinto muito. a cair com Silano.os piores monstros são aqueles que ainda não encontramos.. algo pelo que eu nutrira esperança. Por isso não se encorajavam pretendentes. Teria sido tudo aquilo um pesadelo? Não! Fora tão real quanto aquela mesa. ainda ouvindo as últimas palavras de Astiza.

conhecido Astiza etc. nem o perdão pelo crime que eu nunca cometera em Paris.. ele também partiu. -6Minha primeira reação foi querer sair de Jerusalém. pela perda de meu amigo Antoine . etc.irmão continuava a ser a companhia mais chegada." O visitante se levantou. zarpado de Toulon." E. Os amigos de Jericó ficarão de ouvidos atentos. mas sou apenas o mensageiro. passou. "Sinto que eu não possa ter trazido notícias melhores. e.nem riquezas. Eu até perdera o fuzil! Meu único motivo real para ter vindo à Palestina fora descobrir o paradeiro de Astiza. naquela mesma hora.tinha o gosto mais amargo possível. passando por batalhas pavorosas. toda a grotesca odisséia com Bonaparte ter escapado de Paris. Ela se foi. E para sempre. "Eu só queria uma resposta clara.. visto a tomada de assalto de Alexandria. "Vossa resposta é que o que passou. é claro. agora que a notícia era que não havia . Mas não tenhais esperanças. nem a filiação permanente aos estimados sarants que tinham acompanhado a expedição napoleónica. Aquilo não dera em nada .". nem o amor duradouro pela mulher que me arrebatara e enfeitiçara.alma e pelo cruel segredo da Grande Pirâmide . Agora. sussurrei. tendo dito isso. Estávamos todos unidos pela dor. do maldito Oriente...

Não havia cadáver. ter possuído seu corpo às margens do Nilo!. sua vulnerabilidade e seu erotismo quando acorrentada no Templo de Dendara.mas não esquecê-las.. Minha determinação de dar tudo por encerrado e partir estava paralisada pelo simples fato de não saber.notícias (pode alguma mensagem ser mais cruel que isso?).. Eu não me importava com a iminente invasão da Síria. a carreira de sir Sidney Smith. Astiza assombrava meus pensamentos. Em um ou dois séculos. tudo o que encontráramos na pirâmide fora um repositório vazio para ele e. sua beleza quando sentada no pátio de Enoque. Eu também ainda guardava lembranças demais de Astiza . o destino do Açougueiro.. mas e se não fosse e estivesse mesmo em algum lugar sob meus pés? Jericó estava perto de completar um fuzil em cuja . Como é que eu fora parar naquela insana necrópole do ódio? Já era hora de voltar para casa na América e dar início a uma vida normal.. E. ter-me ajudado a conter Ashraf na fúria da Batalha das Pirâmides. talvez se consigam superar lembranças como essas . no entanto. ela tampouco estava definitivamente morta. seria assombrado pelo resto da vida. os cálculos políticos dos drusos. Se Astiza parecia não estar viva. minha missão parecia vã. judeus e todo o resto daqueles que estavam presos em seus infindáveis ciclos de vingança e inveja. então. podia bem ser mito (afinal. Quanto ao Livro de Tot. Se eu partisse. E. o cajado escarninho de Moisés). talvez.ela terme mostrado a estrela Sírio quando subíamos o Nilo.

maravilhosa. e eu era um estrangeiro folgazão. Eu era um jogador. às vezes. apesar da frustração. . Jericó vigiava a nós dois com mais atenção e. de uma fidelidade canina. e Jericó também era homem sabia o que qualquer de seus iguais desejaria. esperando por uma virada nas cartas. que eu adivinhava ter sofrido alguma perda trágica antes da minha e que era minha parceira no pesar. interrompia nossas conversas com interjeições rudes. eu me vi resolvendo ficar um pouco mais. Para quem eu precisava voltar na América? Para ninguém. e seu tom de voz . Queria terminá-lo e ver-me indo embora. mas agora nossos olhares se encontravam por mais tempo.feitura eu dera uma mão e que parecia destinado a ser superior ao que eu perdera.estaria eu imaginando coisas? era mais suave. E estava curioso acerca do que Miriam perdera. Assim. Com Astiza desaparecida. um caçador de tesouros cujo futuro era incerto. Percebi que ele começava a despender mais horas em meu fuzil. Talvez uma nova carta aparecesse agora. pele menos até que a arma estivesse pronta. Ela me tratava com a mesma circunspecção decorosa de antes. cuja comida eu comia e cujas mãos estavam dando forma à madeira de minha própria arma parecia de repente ainda mai. E havia Miriam. Como é que eu podia culpá-lo? Miriam era uma linda colaboradora. Eu não conseguia deixar de sonhar em possuí-la. mais solidário. Pior: eu poderia carregá-la para a América. a mulher cuja morada eu compartilhava. Quando punha meu prato ela ficava perceptivelmente mais perto.

num impulso. e a guerra se avizinhava.Suportamos as chuvas do final do inverno. perto da fronteira com a Palestina. Então. relatava novos triunfos e novas e espetaculares ruínas bem acima no Nilo. Eu a segui a distância. ou uma maneira de dar a volta pela frente para que nosso encontro parecesse coincidência. quando Miriam saiu para buscar nas feiras da cidade um tempero que faltava para o jantar. os humanos. o melhor general de Bonaparte. andava rápido demais. Como é estranho que nós. Eu estava solitário. precisemos elaborar tão tortuosamente maneiras de expressar o que nos vai no coração! Ela. tudo para preparar-se contra a ofensiva de primavera de Napoleão. Queria uma oportunidade para falar-lhe longe da presença protetora de Jericó. Constantinopla e o bloqueio de Alexandria. rejeitou os produtos de outras duas e então pegou as vielas para as feiras . homem seguir mulher solteira era indecoroso. procurando pensar em algum motivo plausível para abordá-la. resolvi ir atrás dela. Tropas francesas se acumulavam em El-Arish. entretanto. mas talvez se apresentasse a chance de conversarmos. eu. com Jerusalém cinzenta e silenciosa. O que pretendia dizer a Miriam? Não sabia. O sol ia ganhando forças e lentamente aquecendo as pedras da cidade. comprou alimentos numa barraca. desceu para o longo souk que dividia a cidade. Ladeou os tanques de Ezequias. Em Jerusalém. numa manhã escura. Chegavam notícias de que Desaix. Smith zanzava pelo mar entre Acre.

Como já disse. seguindo apressadamente diante de portas trancadas. rumo ao Portão da Escuridão. amedrontada. ouvi uma fala rude e insistente. Pisquei. ela estava descendo a Via Dolorosa. no instante seguinte. no Monte do Templo. eu estava desarmado. E curioso como um cheiro ou um som conseguem chacoalhar a memória. umas ruínas que às vezes eram usadas como redil de cabras. para além da residência do paxá. Num instante. Quatro brutos. e à torre de El-Ghawanima. Mas eles ainda não tinham me visto.do bairro muçulmano de Bezeta. E. cercavam a moça. Não me pareciam o tipo de homem suscetível a blefes. exceção feita à adaga árabe que eu levava na faixa de cintura. do pátio adjacente a um antiquíssimo arco romano que atravessava a rua. Retrocedi e então. já sumira. e por isso olhei rapidamente em volta. "Ser obrigado a usar das próprias habilidades é ser jogado no próprio colo da . Será que notara que eu a seguia e tentara me evitar? Acelerei o passo. confuso. usando capotes franceses e botas européias. à cata de alguma arma melhor. até enfim perceber que eu já correra longe demais. Depois de uma grade de ferro. e eu seria capaz de jurar que havia algo de familiar naquela voz masculina. "Eu não sei!" A mulher parecia aterrorizada. adentrei um pátio escuro e coberto de entulho. o que me dava a vantagem da surpresa. E aí Miriam desapareceu. "Para onde é que ele vai? Onde é que ele está procurando?" O tom era ameaçador.

Agora o bando de canalhas se levantava contra mim. gritei para a meiga Miriam. costumava dizer Ben Franklin. É . havia muito fora desfigurado e castrado por muçulmanos ou cristãos que procuravam obedecer às injunções referentes a falsos ídolos e a pênis pagãos. Miriam olhou para mim. Já haviam rasgado as roupas dela. como se fosse uma boneca esquecida ali. "Corre para casa!". A estátua jazia de lado no entulho. naquele meio-tempo. aos pulos. Moça valente! Tinha mais tutano. Ouvi o baque do impacto. Tinha um terço de minha altura . Miriam o chutou nas bolas com força e com a precisão de quem dançava uma giga. assentiu temerosamente. do que eu imaginara. Mas eu o fiz. Acertei as costas do amontoado de biltres como se fossem pinos de boliche. mas. avistei um cupido de pedra que. Então Miriam soltou-se e saiu correndo pelo portão. xingando. e eles desabaram uns sobre os outros. rezei uma prece ao Amor e arremessei. que fez o patife congelar tal qual flamingo em nevasca canadense.era bem pesada e felizmente não estava presa ao chão por nada que não fosse o próprio peso. . Mal consegui erguêla acima de minha cabeça. mas. eu tornara a erguer o cupido e segurar o querubim pela cabeça.Fortuna". largado ali. mesmo enquanto era agarrada. Achei que e l e talvez a puxasse para o chão. deu um passo para partir e aí girou de repente quando um dos patifes a agarrou de novo. e conhecimento da anatomia masculina. Por fim.só que ele tinha mais habilidades que a maioria.

vizinhos tinham ouvido a balbúrdia e estavam armando uma gritaria. O homem pareceu sibilar e se desvencilhou tão violentamente que larguei o cabo da adaga. uma estaca passou . quando me voltei na viela para confrontálo da melhor maneira possível. violando todas as leis. e algo me queimou o lado da cabeça. enfiando-lhe a lâmina. eu o atara com minha adaga árabe. eu nunca apunhalara ninguém. até então oculta (e obviamente passada às escondidas pela polícia de Jerusalém). Enquanto isso. estava sem arma nenhuma. Um terceiro biltre começou a desembainhar uma espada. tenebroso. meio cego — era hora de bater em retirada! Troquei pernas até a rua. Cambaleei.Girei num círculo completo e soltei a estátua. E então. Tropecei para longe. Entrementes. e fiquei surpreso com quão depressa a lâmina mergulhou nele e quão lugubremente ela roçou uma costela nesse processo. não era possível que ele fosse arriscar-se a disparar na cidade santa. Apesar de todas as brigas em que me metera antes. e o cupido se despedaçou. e assim. antes que ele pudesse terminar de fazê-lo. quando vozes já se levantavam! Mas a arma disparou com estrondo. Ah. Quem diabos era ele? O impacto da bala me deixara tão zonzo que eu me movia com muita dificuldade. Agora. as abas de seu capote esvoaçantes como asas. Dois dos vilões se estatelaram. mas o desgraçado vinha atrás de mim. sua chama como o clarão do relâmpago. a espada desembainhada. aquele que vinha interrogando Miriam sacara uma pistola.

Ele deu uma tossidela medonha e escorregou. quase impossibilitado de falar. eu sabia. e fiquei imaginando se o ferimento acabara sendo fatal. este oculto. é claro. "Tu?!". armado até os dentes? Mas. no luscofusco da viela calçada de pedra: reconheci primeiro o emblema que o mastro arremessado por Miriam fizera ficar para fora da camisa dele . atentou aos . Ele tentara tomar-me o medalhão. Pois. Antes que eu tivesse chance de confirmar isso. por mim. E. caindo sentado.procurar por segredos antiquíssimos. perplexo. arquejante. disse o homem. Eu o deixara ali urrando. Olhava para mim não para ela. O francês era agente de Silano e não desistira. durante minha fuga de Paris. Estava claro que não. porém. "Por que não estás morto?!" Tampouco estás. Que diabos ele fazia agora em Jerusalém. no ano anterior. e eu acabara baleando-o com meu fuzil enquanto Sidney Smith acertava outro bandido.o compasso e o esquadro maçônico. Estava ali pelo Livro de Tot. aparentemente. pensei comigo mesmo. me abordara na diligência para Toulon. com o G no centro . Fora Miriam quem pegara um mastro de barraca de feira e o arremessara como uma lança! Eu tenho mesmo jeito para achar mulheres competentes. e sabia com horror que ele tinha o mesmo propósito que eu . ele se ergueu com dificuldade. tão atônito quanto ele.e depois o rosto moreno do "fiscal de alfândega" que. Olhou para cima.voando por mim e acertou o desgraçado ali na fronteira da garganta com o peito.

" A boca de Miriam estava entreaberta. tendo meu braço ao redor dos ombros dela. A volta era uma subida íngreme (nenhuma parte da cidade é plana." "Quem são aqueles homens?" "O que atirou em mim é francês." Ela olhou como se me visse pela primeira vez. "Acho que já é hora de fazê-lo. mas agora nos abraçávamos instintivamente. A bem dizer. para tomarmos fôlego e nos certificarmos de que minha cabeça latejante estava indo mesmo pelo caminho certo." “Ethan!" "Ele tentava me assaltar. ofegando. era coisa mais importante. "Eu sinto muito por aquilo disse a Miriam.berros da vizinhança e aos gritos dos vizinhos e fugiu. de modo que depois de um tempo. Eu já o vi antes." . e o bairro cristão é mais elevado que o muçulmano). Não contei a ti e teu irmão a história completa. com os ratos afastando-se leves e ligeiros enquanto eu olhava para trás. Corremos para o outro lado. eu o baleei. paramos por um momento na reentrância de um vão de porta. Peguei algumas das travessas menos óbvias que eu descobrira em minhas andanças por Jerusalém. Nunca havíamos estado fisicamente próximo. Uma pena que eu não o tenha matado naquela oportunidade. Miriam tremia enquanto voltávamos para a casa de Jericó." "Viste onde?" "Na França. "Não era assunto de dinheiro. É de mim. verificando se nos seguiam. "Não é atrás de ti que eles estão.

Astiza. Alguns vêem isso como simplesmente uma variação da arte cristã. muito antiga. uma sacerdotisa. uma branca e a outra negra." "Quem era ela?" "Uma estudiosa dos tempos antigos. O universo está em tensão . quando eu me esforçara ao máximo para entender a maçonaria. ao que tudo indicava uma cristã devota. já ouvistes falar." Miriam disse isso num sussurro. "Todas as coisas são duais. Nossos pensamentos recônditos e nossos pensamentos conscientes. Eu nunca ouvira falar de uma deusa pagã que circulasse tanto. respondeu Miriam. "Era. Ísis. "Como o dia e a noite"." Interessante. Bem e mal. Sono e vigília. mas de uma deusa egípcia muito." "A Virgem Negra. muito antes de Jerusalém e de Jesus. sabia também alguma coisa sobre ela. Ísis surgira repetidamente durante minha busca no Egito. "Mas por que branca e negra?" Lembrei-me do padrão xadrez das lojas maçônicas parisienses. era parte dessa história?" Miriam falava em voz baixa. E as duas colunas. mas outros dizem que na verdade se trata de uma continuação do culto a Ísis. A Virgem Branca e a Negra. Alto e baixo. E agora essa mulher. e esse é um ensinamento que vem dos tempos mais longínquos. Homem e mulher. Na realidade. que ladeavam o altar das lojas."E aquela mulher. "Quem?" "Existe há muito um culto a imagens de Nossa Senhora talhadas em pedra negra.

ou gnosis." "Espera. "Também perdeste alguém. apesar disso. por conseguinte.permanente. O que antes era brincar de caça ao tesouro se transformara em perigosa busca. "Mas o que aqueles homens querem?" "A mesma coisa que procuro." Eu a puxei de volta para o escuro. E o G significa God. e o esquadro de carpinteiro traça um quadrado. não é verdade?" . em grego. Vou precisar de ajuda de Jericó." Ela me pegou pelo braço." "Astiza me disse a mesma coisa. conhecimento. O compasso descreve o círculo." "O herético Rito Egípcio teve início na Inglaterra". outra vez. não?" "Tu te referes ao símbolo maçônico do esquadro e do compasso sobrepostos?" "Eu o vi na Inglaterra." Miriam assentiu." Miriam ainda tremia. os opostos precisam juntar-se para fazer o todo. e. "Os dedos dele eram como garras. O dual. A mesma coisa que Astiza e eu procurávamos. "O homem que atirou em ti usava uma medalha que expressava isso. Eles podem ter querido te seqüestrar para pedir resgate e chegar a mim. permissão para fazer uma pergunta mais pessoal. disse eu. "Estamos numa corrida para descobrir a verdade antes deles. Senti que nossos apuros nos tinham dado certo grau de intimidade emocional e. "Então vamos tratar de consegui-la. em inglês." Senti-me culpado por inadvertidamente tê-la arrastado para aquilo.

observando a eficiente matança que levou a cabo as tropas européias. Acabou sendo mandado para o Egito e nunca voltou. Que desperdício! “Sinto muito"." Bem. a questão era essa. Ele poderá ser de alguma ajuda?" “Ajuda para quê?" "Para pôr fim a toda a mortandade e violência. precisamos nos apressar. Ele descobriu. "É a guerra. conheci um homem. pois meu irmão se enciumou. E agora Bonaparte pode vir para cá. Fiquei imaginando se já não foste casada ou prometida és bonita demais. não houve?" Miriam hesitou." "Vi isso no teu olhar quando o mensageiro disse que não havia mais traço de Astiza. "Por favor. Ficamos noivos em segredo. estivera do lado oposto na mesma batalha.Ela se impacientou. Para tornar esta cidade outra vez santa. A guerra e o destino." Ela estremeceu.." Eu. meu noivo foi recrutado à força para o exército otomano. e os pretendentes o aborrecem. insuficientemente. Antes que pudéssemos fazê-lo. Jericó e eu éramos muito unidos como órfãos. e houve uma altercação.. mas o perigo também abrira uma brecha em seu recolhimento. "Por intermédio de Jericó. disse eu. Mas houve alguém. mas eu estava decidida a casar. Morreu na Batalha das Pirâmides. naturalmente. não era mesmo? Astiza e seus aliados nunca tinham tido certeza sobre se poderiam usar o misterioso Livro de Tot para o . "Esse segredo que procuras. um aprendiz de ferreiro em Nazaré.

Para evitar que eu me comprimisse contra ela. pelo menos um pouco. foi com um pequeno suspiro. disse Jericó quando lhe contei nossa história. e eu tinha uma dor de cabeça danada. que tirava vantagem de nosso turbilhão emocional. desviou a vista de meus olhos para minha têmpora. "Vamos lá falar com teu irmão. "Magnífica idéia. De fato. um homem fica abalado quando a coisa é assim por . Ainda que a bala de pistola tivesse me pegado apenas de raspão. Não consegui evitar (a ação e a intimidade tinham me excitado). com mais bravura do que sentia. resolvi beijá-la. "Sei apenas que será ruim se aquele desgraçado que atirou em nós chegar a ele primeiro. "É só um arranhão"." "É melhor terminarmos esse teu fuzil". o lado da cabeça estava úmido e quente. Quando ela de fato se afastou. Doía um pouco." Era uma maneira de não falar o que acabáramos de fazer. muito embora eu estivesse duro contra sua coxa. Eu gostaria também que me forjasses um machado de guerra como os dos índios americanos. Foi um beijo roubado.bem ou se precisavam simplesmente evitar que ele caísse em mãos erradas e fosse empregado para o mal. respondi. mas seus dedos fortes se mostravam maravilhosamente delicados ao colocar a bandagem. "Estás sangrando." Tendo dito isso. e o modo pelo qual Miriam retribuiu o beijo me fez saber que ele era recíproco. Ai!" Miriam estava enfaixando meu ferimento. mas Miriam não se afastou de imediato.

gostei de que ela cuidasse de mim. deixaria o fuzil mais desajeitado e atrapalharia na hora de colocar a pólvora e a bala. Não podia ser boa idéia. Precisaremos de toda vantagem que pudermos conseguir. O desconhecido. mirei um inimigo e acertei o camelo dele. a idéia era absolutamente ridícula." "Bem. tenho uma idéia para aprimorá-lo. "Não existe coisa mais útil que essas machadinhas. já que ninguém a tentara antes. . ficaria fascinado com esse tipo de improviso. Jericó andava para lá e para cá." Ora. E se a usássemos para te ajudar a mirar?" "Mas como?" "Prendendo-a ao cano do fuzil. para o caso de esses bandidos aparecerem por aqui. "Se esse fuzil é mesmo tão certeiro quanto afirmas. No entanto.. que assusta a maioria dos homens. reparei que ficas espiando pela cidade com tua luneta. tu não sairás desta casa." Ela abriu a boca. Miriam. Tu dizes ser difícil mirar alvos no alcance máximo da arma. não é?" "Certa vez. mas logo a fechou. atraía-o como a uma sereia.um triz. Agora. e perdi a minha. Aquilo só aumentaria o peso." "Teremos de montar guarda. E se ajudasse mesmo a ver de perto os alvos distantes? "Será que funciona?” Franklin. eu sabia. verdade seja dita. Aquela mulher e eu havíamos nos tocado mais naquela última hora que em todos os quatro meses anteriores.

Caçamos essa coisa no Egito."Podemos tentar. no Egito. o problema é que. "Pois é. Precisava também de prática de tiro. Será que só descobriram minha presença quando chegaram aqui? Ou será que ficaram sabendo de longe? Jericó. Achas que mataste um deles?" "Eu o apunhalei. Vou mandar notícias a sir Sidney". pode estar enterrado algo que poderia influenciar todo o curso da guerra. essas pessoas que fizeram indagações sobre Astiza no Egito podem ter deixado escapar que estou aqui?" . O que está acontecendo de fato?" Já passara da hora de eu confiar neles. Baleei o líder deles na França . A minha busca talvez se mostre impossível. lembrou Miriam. E precisaremos de aliados caso aquele bando ainda esteja na cidade.e cá está ele exuberante.. E agora os franceses estão aqui. E Miriam diz que tudo isso tem alguma coisa que ver com o tesouro que vives prometendo. ambos continuavam vindo atrás de mim mesmo depois de feridos diversas vezes. A cidade é um monte de entulho. Parece que tenho muita dificuldade em dar cabo das pessoas.” Pensei em Silano e em Achmed bin Sadr. em Jerusalém. toda vez que encontro uma escada que leva para baixo. "A presença dos agentes franceses aqui pode ser importante o suficiente para que os britânicos mandem ajuda. eu com algum tipo de beco sem saída. Vai saber. certamente atrás da mesma coisa. Eu não precisava só do fuzil. disse Jericó." "Eles fizeram perguntas a teu respeito". "Aqui.. mas acabamos concluindo que ela só pode ter vindo para Israel.

um medalhão que eu tinha e que era a pista de onde estaria o livro." "Um livro?" Jericó ficou decepcionado."O combinado não foi esse. A única maneira de escapar da pirâmide foi nadando por um túnel.. "Não precisas acreditar em mim.. um pavilhão de mármore e um repositório de ouro para o livro. Passei o inverno inteiro fazendo um fuzil em troca de um livro?!" "Os livros têm poder. Tudo o que restava era um cajado. Perdi tudo. Os judeus talvez tenham enterrado um tesouro diferente aqui em Jerusalém. poder e. o medalhão era a chave para uma porta secreta na Grande Pirâmide." Seu semblante era inexpressivo.. Astiza me . Ao fim. "Pensei que tivesses falado em tesouro. Olha a Bíblia. em Paris. "E o livro?" "O repositório estava vazio. jogaram serpentes em meu leito e perseguiram-se de camelo e barco para pegar esse livro ." Jericó tinha a mesma expressão cética que eu costumava ver em madame Durrell. Mas espera aí . deixado ao lado. Tudo o que sei é que atiraram em mim." "Mas então já tens o tesouro?" "Não. Ou o Corão." "Magia. E esse livro é diferente . eu poderia ter-me afogado. Com o peso do ouro e das jóias.. exatamente? Que tesouro é esse que procuras?" Tomei fôlego. Jericó. porta pela qual Astiza e eu adentramos. Descobrimos um lago subterrâneo entupido de tesouros. magia.ou melhor.achar o quê.é um livro de sabedoria. quando lhe explicava o atraso no pagamento do aluguel. "O Livro de Tot.

sabendo o que tudo aquilo devia parecer. dividir as águas e manter os israelitas alimentados no deserto do Sinai. foge do país e então volta para libertar os escravos hebreus após ter conversado com uma sarça ardente. de repente. mas aquele patife estava aliado ao meu maior inimigo. O que significa que o tempo é curto. e não teria contado a ti e a Miriam se não tivéssemos visto aquele francês. . "Aí está . Ele era príncipe. sabia como entrar e sair da pirâmide." "Um livro que Moisés furtou." Hesitei. ele apenas piscou. uma dádiva divina .convenceu de que o cajado tinha sido trazido pelo homem que furtou o livro e que esse homem só pode ter sido. não? E. Precisamos achar o livro antes dele.mas e se Moisés descobriu instruções que lhe disseram como fazer aquilo? Era nisso que Astiza acreditava." Por um instante. "Quem?" "Moisés. um riso vociferante e desdenhoso.. A maioria dos homens diz que foi simplesmente milagre.eu venho hospedando um demente! Será que Sidney Smith sabe que és insano?" "Eu não contei tudo isso a ele. Tu acreditas em tudo isso. a qual não passava de despiste e marco para proteger o livro dos indignos.. "E isso é assim tão impossível? Um príncipe egípcio mata um capataz num acesso de raiva. Sei que parece estranho. consternado. Moisés tem o poder de invocar pragas. Depois riu. o conde Silano.

mas os franceses também acreditam nisso. cada um deles com quatro polegadas de comprimento. e os olhos de Jericó se arregalaram. Eu sabia que não era apenas o resplendor do ouro. fugi de Paris. fé e especulação desde que. ainda tão vívido após milênios. apenas para ser engolido pelo mar Vermelho." O ferreiro me fitou. "Então por que estou com isto aqui?" E enfiei a mão em meu manto para sacar os dois serafins de ouro. quando o Faraó descobre que o livro se foi." Balancei a cabeça. Mais adiante. ele persegue Moisés e os escravos hebreus com seiscentas bigas. Era também o fato de que esses anjos ajoelhados. "Um velho que encontrei os chamou de bússola". Esta é uma adversidade tão real quanto os machucados nos braços e ombros de Miriam.a qualidade da obra era boa demais. essa tribo de ex-cativos entra na Terra Prometida e começa a conquistá-la aos habitantes civilizados ali estabelecidos. "És mesmo louco. um ano atrás. Miriam ficou boquiaberta. aqueles homens não teriam seqüestrado tua irmã. Mas como? Graças a uma arca com poderes misteriosos? Ou a um livro de sabedoria antiga? Sei que parece improvável. "Não sei o que ele queria dizer. Não era um truque barato que eu pudesse ter arranjado numa loja de artesão . Mas as pirâmides parecem . continuei. Do contrário. e o ouro. e. com as asas abertas na direção um do outro. tamborilando.Moisés o pega. Tenho 'ávido à base de ciência. Não sei quanto dessa história é verdadeiro. pesado demais. constituíam uma réplica minúscula daqueles que outrora ornaram a tampa da Arca da Aliança. frustrado.

que têm sonhos para si próprios e para seu pervertido Rito Egípcio da maçonaria? E se Silano sobreviveu à queda do balão. que sonha em ser outro Alexandre? Ou pelos sequazes do conde Alessandro Silano. ela parece ter brotado já totalmente constituída." "Mas seus sucessores entraram." "Moisés nem sequer chegou à Terra Prometida". Tot teria escrito um livro da sabedoria. Reza a lenda que : conhecimento humano da arquitetura. escrita. E se esse livro era parte ou complemento da arca? E se ele foi escondido sob o Templo de Salomão? E se ele sobreviveu à destruição do Primeiro Templo pelos babilônios de Nabucodonosor e do Segundo Templo pelos romanos de Tito? E se ainda estiver aqui. contra-argumentou Miriam. que se tornou divindade egípcia.codificar uma matemática sofisticada que nenhum povo primitivo teria como conhecer. tão poderoso que poderia ser usado tanto para o mal como para o bem. do outro lado do rio Jordão. "Ele morreu no monte Nebo. percebendo a força desse livro. Os faraós. o livro talvez tenha sido trazido . salvaguardaramno sob a Grande Pirâmide. medicina e astronomia veio de um ser chamado Tot. esperando para ser redescoberto? E se for achado primeiro por Bonaparte. com a arca. E de onde veio a civilização? No Egito. È . mesmo que Astiza não o tenha conseguido? Esse livro poderia ser decisivo no equilíbrio do poder. Deus não permitiu que ele entrasse.para cá pelos judeus. Mas. se Moisés o furtou.só pode ter sido trazido! . predecessor do deus grego Hermes.

" "Moras na minha casa. trabalhas na minha forja." "Não! Impedir que as pessoas erradas .os renegados do Rito Egípcio da maçonaria . um falso ídolo. destruí-lo. não um privilégio. Tu foste chamado a me ajudar nisto. no entanto. Outros maçons os abominavam. que diziam ter práticas malignas. precisas me ajudar a achá-los..ou. Estamos numa corrida. Os franceses não desistirão. É um pesadelo." .preciso achá-lo e salvaguardá-lo . De Tot. se conheces túneis subterrâneos. se o pior acontecer." Minha frustração aumentava porque eu sabia quão insano estava parecendo. "O Rito Egípcio?" "Irmão. "Tentei deixar a ti e a Miriam fora disso. não um soldado. e só agora me contas isso?" Jericó estava irritado e. tu te lembras dos boatos sobre eles na Inglaterra"." "De Moisés não." "Eu sou ferreiro. Mas agora.usem o poder desse livro para o mal. " Uma sociedade secreta. não explorador. Tudo o que estou dizendo é que temos de olhar em cada um dos locais prováveis antes que aqueles franceses o façam. disse Miriam. As vezes somos chamados a fazer coisas." "Ah! Achar um livro escrito por um deus mítico.." "A achar o livro mágico de Moisés. olhava com curiosidade para meus serafins." "E eu sou apenas um representante comercial que se viu apanhado em guerras longínquas. Jericó.

Precisamos de lanternas. aliviado com o fato de que o ferreiro agora estava ajudando. “Não estás falando do agiota. objetou Jericó. e orientação de Haim Farhi. encorajando-a. "Coisas tangíveis. nem de livros perdidos ou maçons renegados." . Como eu conseguiria recrutado? "Mas nós sabemos que nesta cidade há um erudito que pesquisou os anti-caminhos". "Alguém que sabe mais do que qualquer um sobre os caçadores de tesouros que vieram antes de ti os cavaleiros cristãos que talvez tenham levado a melhor sobre ti nessa busca. irmão. auxílio de Sidney Smith. admitiu Jericó." Fiz uma careta. "Miriam ficou amiga dele. disse eu. reconheceu Miriam. que me ajudara no Egito."Isso. "Ele está mais para publicano mutilado. estás certa!". Não sei nada da Jerusalém antiga. "Desconfio que o homem que atacou tua irmã seja um deles. estás?!" “Ele é um estudioso do passado. picaretas. Aquilo lembrava Enoque. mas é fato que ninguém conhece tanto a história de Jerusalém"." "Mas eu trabalho com ferro duro e fogo quente". interrompi. nem de túneis ocultos.7 – Eu tinha a expectativa de que Haim Farhi exibisse algo da circunspecção e dignidade do antiquário ." "E quem é ele?".. perguntei alegremente.." “Um historiador?".

A orelha direita estava faltando. "Não demonstre pena. disse Miriam. Mas. respondeu o ferreiro. enquanto ela e o visitante se aproximavam de nós. falando baixinho. franzino. pois permaneceu fiel depois da tortura. sussurrei para Jericó enquanto Miriam pegava o capote do homem à porta. não seu cérebro. com os dois já adivinhando o motivo de nossos cochichos. Ele ostenta a sobrevivência como uma divisa de honra. em tom mais alto. Qualquer pessoa que investigue o passado fará bem em consultálo. Parte do nariz fora cortada. "Ele incorreu na ira do Açougueiro". uma figura a Aristóteles que se tornara meu mentor no Egito e fora assassinada por meus inimigos. restando uma órbita fechada por cicatriz. "Deus meu. eu estava fazendo força para não olhar embasbacado. É um dos mais poderosos banqueiros da Palestina e tem a confiança de Djezzar." "O rabino Farhi é um dos mais destacados historiadores da província". "É também um estudioso dos mistérios judaicos. Era principalmente porque ele fora mutilado para transformar-se num dos homens mais horrendos que já vi." ." "As pessoas o usam para fazer poupança e pedir empréstimos?" "O que lesaram foi seu rosto. de meia-idade. E o olho direito fora arrancado. agora. Não era só porque faltava a majestade de Enoque àquele judeu baixo. com cachos laterais em espiral e roupa escura e sombria.Enoque. o que aconteceu com ele?!". o que deixou uma fuça como a dos porcos.

No entanto. "Posso compreender porque viajastes para tão longe com tanta empolgação. não é mesmo?" Eu estava aprendendo a não confiar muito em ninguém. Jericó me disse que estais procurando segredos perdidos de importância estratégica.se quisermos avançar nesta questão. com voz serena. persistente." "E ides me dizer que eles tentaram o máximo possível e não conseguiram achá-los. Mas o isolamento que a mutilação causa me proporciona tempo para as lendas desta cidade. disse eu. Vejo a minha desfiguração refletida no olhar de cada criança assustada. respondeu ele. não?" "Possivelmente. "Assim como agradeço vossa tolerância para com minha desventura"." "Possivelmente? Ora vamos . ele já sabia o que eu contara a Jericó." Obviamente." . "Sei do efeito que causo nas pessoas. mas não lhe disse isso nem nada mais. tentando não ficar encarando Farhi. "Isso também não é verdade?" "É."De modo que agradeço vossa ajuda". precisaremos confiar uns nos outros. diplomaticamente. continuou Farhi. Homens já vieram a Jerusalém para procurar os mesmos poderes que vós. é minha triste responsabilidade avisar-vos de que talvez estejais setecentos anos atrasado. "E esses tópicos talvez tenham relação com a Arca da Aliança".

de um para outro. insistiu Jericó. Fiquei olhando os três. disse Miriam. Ou que. que lendas?" "Dos nossos ancestrais. Jericó me disse que tendes no máximo dias. Nem todos os monges guerreiros eram celibatários." "E onde estão agora?" . é improvável que também consigais.e. Por conseguinte. "E o que são as lendas senão ecos da verdade?". "O nome completo da ordem deles era os Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão. disse Miriam. os templários". descobriram ou não alguma coisa?" "Um conto de fadas". Eles procuraram durante anos. e reza a tradição que o nosso sangue descende do deles. se de fato não conseguiram. "Mas um conto fundamentado na história. mansamente. "Essas histórias de túneis são lendas bolorentas"." O que aquele mutilado sabia? "Achado exatamente o quê?" "Curiosamente. respondeu a irmã. zombou Jericó. Eles já haviam discutido aquilo antes."Pelo contrário — vou dizer-vos que eles podem ter achado justamente o que procurais. e alguns dizem que eles o acharam. dirigindo-se a Miriam. Um grupo de cavaleiros cristãos partiu de Jerusalém levando poderes inexplicáveis . "Mas. ficaram desamparados quando foram traídos. os eruditos ainda debatem a esse respeito. Os templários procuravam o mesmo que procuras. ainda assim. irmão". afinal.

"É uma história curiosa". que remontava a tempos muito. Átila tinha uma misteriosa espada com poderes místicos. Bernardo de Claraval. mais a idéia de que neste mundo há forças maiores do que as dos simples músculos e aços. "Nessa batalha." "Mais de mil e trezentos anos atrás." Esse nome também despertou uma recordação." . transmitiramse às gerações de francos que viriam a habitar a Champagne. o grande huno. disse Farhi. Ali." "A batalha de Chalons". Lendas de tal magia. grato por Franklin ter mencionado uma ou duas vezes esse quebra-pau da Antiguidade. derrotou Átila. foi um dos que ouviram tais histórias. Que podemos incorporar dimensões divinas em edifícios sagrados. Aécio.eu já ouvi falar dele. não. Essas eram pessoas que achavam existir mais coisas no mundo do que aquelas que podemos facilmente ver e tocar. disse eu. senhor Gage? Estais familiarizado com a região da Champagne. muito antigos. Lembrei-me de que o sábio francês Jomard o evocara logo que escalamos a Grande Pirâmide. o grande santo e mestre. o último dos romanos. a sudeste daquela capital e ao norte de Troyes?" "Já passei por lá e gosto dos produtos locais. "Vivestes em Paris. "Esperai .sobre Ele ser dimensões. Ele era um poço de informações esdrúxulas e lia livros de história tão grossos quanto três calços de porta juntos. travou-se ali uma das mais terríveis batalhas de toda a história. escritos por um inglês chamado Gibbon. Disse alguma coisa sobre Deus ser altura e largura .

que ocupava o Monte do Templo. tio de Bernardo. lembrando-me de meu falecido amigo jornalista. Mas a intenção deles parecia misteriosa já nos primórdios. conseguiram do governante de Jerusalém. altura e profundidade'. comentei. e suas arrebatadas teorias. "Montbard foi um dos nove cavaleiros que viajaram em missão especial à Terra Santa. compartilhava da idéia de que os antigos que conhecessem tais coisas podiam ser enterrado poderosos segredos no Oriente. debaixo do Templo de Salomão . fitando-me com o olho bom. esses homens da Champagne não recrutaram seguidores de início e fizeram pouco para patrulhar a estrada de Jafa. a pouca distância de onde estamos. Em vez disso. "No ano de 1119". não?" . uma autorização extraordinária para estabelecer base na mesquita de El-Aqsa. Enterrado. de monges guerreiros . Antoine Talma. talvez. o rei Balduíno II. disse o santo. E o poderoso cavaleiro André de Montbard. largura. e esses nove chegaram à cidade e pediram para formar uma nova ordem militar."Sim. "Coisa curiosa. 'O que é Deus? Ele é comprimento." "Os maçons acreditam nisso até hoje"." "Nove recém-chegados conseguem acantonar-se no Monte do Templo?" Farhi assentiu. Jerusalém já fora tomada pelos cruzados. Embora houvessem se proposto a defender os peregrinos cristãos.os templários. continuou Farhi. na extremidade sul do Monte do Templo.

13 de outubro de 1309 -. um peixe. uma mesa . Foram torturados e mortos às centenas.pois como pôde uma obscura ordem de cavaleiros ficar tão rica e poderosa em tão pouco tempo?" "Achais que eles descobriram a arca?" "Nunca se viu nem traço dela. o Graal tem sido também descrito como um caldeirão.e até um livro secreto. alguma coisa. Os templários eram agora inimaginavelmente ricos. e reis tremiam diante deles. uma lança. Com eles. numa única e terrível noite . um prato. acrescentou Miriam. "É aí que começamos a especular"." Ele me observava atentamente. uma espada.. Após a estada deles aqui. voltaram para a Europa.. disse eu. perguntei. E então." "Logo depois". disse Farhi." "A taça da Última Ceia". "Os rumores dão conta de que eles escavaram um túnel pelas entranhas do que havia sido o Templo de Salomão e encontraram. "O Livro de Tot!" . nos diversos relatos. receberam status especial do papa e se tornaram os primeiros banqueiros e a mais poderosa ordem militar do continente. morreram os segredos do que tinham descoberto em Jerusalém. os líderes templários acabaram detidos pelo rei da França num imenso expurgo. "começaram a surgir narrativas sobre cavaleiros em busca de um Santo Graal. "Mas. Os recrutas vinham em multidão para eles."E que relação esses templários têm com Moisés e a arca?".sexta-feira. "Essa é uma das histórias". E assim tiveram início as lendas . respondeu Farhi. uma pedra.

quando aprisionaram os templários. Pois bem. aquele que nós." "Na lenda alemã de Parzival." "Enoque era o nome que meu mentor no Egito adotava." ." "Isso não me surpreende. Imputaram-lhes rituais obscenos. Foi o primeiro grande autor. o sexo com outros homens e o culto a uma figura misteriosa que se chamava Baphomet . eu não o ouvi ser chamado assim. mestre de todas as lidas. Já ouvistes falar dele?" "Não. terminada em 1210. "Alguns eruditos acreditam que ele venha do francês treble escient."Até este momento. o herói vai aconselhar-se com um sábio e idoso eremita chamado Treurizent. ""Triplamente sabedor!' Que é o que significa o nome grego Hermes Trismegistus ." Agora. aprendi isso no Egito. eu sentia uma onda quente de empolgação tomar conta de mim. que por sua vez é o deus egípcio Tot!" "Sim. Mas a história que contastes a Jericó e Miriam é mesmo fascinante.o Bafomé. Reconheceis o nome?" Balancei negativamente a cabeça. Já sabíeis disso?" "Já.Hermes. a Primeira Inteligência. o originador da civilização. O deus Tot foi o precursor do deus grego Hermes. o três vezes sabedor. os judeus. estes foram acusados de heresia. Três Vezes o Maior. chamamos Enoque.

Sofia. "O rei Salomão. a segunda letra. Na cifra Atbash." "Bafomé. lereis sophia. "Mas então por que foram perseguidos?" "Porque o rei da França os temia e queria a riqueza deles. e assim por diante. pode ter sido uma corruptela do nome árabe Abufihamat. E quem poderia ser esse para homens que denominavam a si próprios os Cavaleiros do Templo?" Pensei por um momento." "Isto! Os elos continuam."Bafomé tem sido retratado como um diabo com cabeça de bode. Se ele se originou de Jerusalém. Durante as ocupações estrangeiras. Então os cavaleiros estavam se consagrando não a um demônio. Ethan. que significa 'Pai da Sabedoria'. mas à sabedoria?" "Essa é a minha teoria". "Não nos disseste. disse Farhi. Existe melhor maneira de desacreditar os nossos inimigos do que acusá-los de blasfêmia?" "Os cavaleiros talvez tenham se consagrado a algo mais tangível". com modéstia. os judeus antigos tinham também o hábito de às vezes escrever códigos secretos usando cifras de substituição. disse Miriam. ou Thoth. que é 'sabedoria' em grego. Mas há uma curiosidade nesse nome. cada letra do alfabeto hebraico corresponde na realidade a outra letra . Salomão. a penúltima. Se escreverdes Baphomet em hebraico e depois transpuserdes isso para a cifra Atbash. que Tot. é supostamente a origem da palavra inglesa thought?" .a primeira letra se torna a última do alfabeto.

é Salomão. o deus original de todo o conhecimento?" Eu estava atônito. 'Pensamento'. os pretensos ancestrais de minhas próprias lojas maçônicas fraternas... disse Jericó." Eu estava pasmado com as possibilidades. em paralelo à história comumente conhecida? "E como foi que Salomão se tornou tão sábio?". "Vosso Graal ."Sim.relatando que homens devotos procuravam apenas conhecimento ou que o conhecimento corrompia. sabido dessa antiga divindade egípcia? Teriam eles a cultuado? Estaria todo esse contra-senso relacionado de alguma maneira que ia dos maçons aos templários e destes ao antigo Egito.. respondeu Farhi. Teriam os templários. levando à riqueza e ao mal. Baphomet é o Pai da Sabedoria. "Se esse livro fosse coisa verdadeira e o rei estivesse de posse dele. bem devagar. mas não poderia ele também ser o pensamento. gregos e judeus? Haveria uma história secreta que se desenrolaria por todo o tempo do mundo. talvez o tenham perdido no expurgo que se seguiu". disse Miriam. Será que o conhecimento é bom ou ruim? Vede a história do Jardim do Eden e da Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal. é Sofia. "Pensais que os templários já acharam esse livro?" "Se acharam. "E assim as histórias se entrelaçam ." "E assim o encadeamento é ainda mais longo." "Corriam boatos sombrios de que Salomão tinha o poder de invocar demônios".. passando pelos romanos. Tot. As lendas e os debates pendem de um lado para o outro.

o último grão-mestre da ordem. completou Miriam. escavações provocaram distúrbios. Esses segredos poderiam abalar os alicerces de todas as religiões. Mesmo hoje. quando Jacques de Molay. E ambos morreram mesmo naquele período. seremos executados. e nenhuma fraternidade voltou a estar tão disseminada pela Europa. No passado. E. Nenhum grupo de cavaleiros jamais se igualou a eles." "Quereis dizer que não temos como entrar lá?" "Se tentarmos e formos descobertos. Seria como se tentássemos escavar a basílica de São Pedro. Ademais. prometendo que. "Possivelmente. e o islã é inimigo da feitiçaria. Só que nenhum poder sucedeu os templários." "Outra vez ocultado". em um ano.. os muçulmanos o guardam ciosamente. É solo sagrado.. o rei da França e o papa o seguiriam ao túmulo. Eles por certo já ouviram algumas das mesmas histórias que nós . "No Monte do Templo!". o livro fora de fato encontrado? Perdeuse? Ou foi. ele rogou uma terrível maldição.específico pode já não ser nada senão cinzas ou estar em outras mãos. para começo de conversa. quando Saladino retomou Jerusalém aos cruzados. pareceu ter-se perdido a possibilidade de penetrar no monte.mas não permitem nenhuma exploração ali. Assim. foi queimado na fogueira por ter-se negado a trair os segredos dos templários." "Então por que estamos conversando?" . mas em lugares tão profundos que não há como redescobri-lo com facilidade. bradei.

Mas. como teria contentado a Tot." "Coisas que Miriam disse poderem ser usadas para o bem e para o mal. Talvez sejais um mentiroso divertido. imagino. "Afinal. Se eu creio nisso? Não. meu amigo. não . suja. ou um tolo crédulo. apertada e provavelmente vã". perigosa. compreendi ." "Exatamente".Olharam rapidamente uns para os outros. disse Jericó. estávamos tratando apenas de uma vaga lenda histórica até que viestes afirmar que algo realmente extraordinário existiu no antigo Egito e pode ter sido trazido para cá." "Pela verdade e conhecimento. respondeu alegremente Farhi. naqueles meus meses de pesquisa." "Por uma parcela do tesouro. "Farhi sugeriu uma rota possível. em mútuo entendimento. quando a existência desse algo pode ter representado grande poder para meu povo? Não posso me dar a tal luxo." "E por que ele mesmo não a seguiu?" "Porque é encharcada. toda vez que um estranho proclama seu altruísmo e me chama de amigo. eu não descobrira nenhuma pista.é preciso que não sejamos pegos. "Ah. eu fico imaginando em qual de meus bolsos ele está metendo a mão." "Então nos guiareis?" "Tanto quanto for possível a um guarda-livros desfigurado. Mas quereis saber se descreio." Bem." "Pode-se dizer o mesmo do dinheiro.

onde Abraão ofereceu seu sacrifício a Deus . Djezzar me pediu que vasculhasse os antigos registros à procura de passagens subterrâneas para o Monte do Templo. que abastece o tanque de Siloé." "Mentistes?" "Foi uma confissão de fracasso que me saiu muito cara . Se assim for. e não apenas a coletores da água de chuva. a Kubbet es-Sakhra. os muçulmanos nunca nos veriam. Essas cisternas são ligadas entre si por túneis." . do lado de fora das muralhas da cidade. A fonte de Giom. explicou Farhi. "A água vem de antiquíssimas cisternas pluviais que estão bem fundo no monte do Templo. para que abasteçam umas às outras.como punição. fica a fonte de El-Kas". uma década atrás.a pedra fundamental do mundo. Por conseguinte. Ademais. Eu disse a ele que não encontrara nenhuma. fui mutilado.era mesmo? Talvez eu e ele pudéssemos usar um ao outro. relatos fragmentários. Alguns autores especulam que são parte de um retículo de passagens que talvez se estenda até mesmo debaixo da própria rocha sagrada. "Por onde começamos?" "Entre o Domo da Rocha e a mesquita de El-Aqsa. essas cisternas têm necessariamente de estar ligadas também a bicas. talvez ofereça um caminho. Mas o fiz porque de fato encontrei antigos registros. que indicavam uma rota secreta para poderes tão grandes que não se poderia jamais permitir que um homem como Djezzar os tivesse.

" "Até essas coisas terem sido talvez descobertas pelos templários". "E terem sido talvez outra vez ocultadas depois que Jacques de Molay morreu na fogueira. um registro que achei fazia referência a portas seladas ." "Os túneis estão bloqueados por água?" Eu tinha lúgubres lembranças de minha fuga da Grande Pirâmide."Pode ser que as cisternas". o livro e outros tesouros. homens decididos conseguem forçar qualquer porta". Entretanto. então. e. Jericó colara cuidadosamente dois fios de cabelo de Miriam na lente da luneta. onde os judeus teriam escondido a arca. perguntei. "Isso". vi que conseguia acertar constantemente um prato a duzentas . agora talvez esteja fechado. exclamou Farhi. Para dar-lhe o ponto de mira. "levem aos locais mais profundos. disse Jericó. "seria mesmo uma grande infelicidade. há mais um problema que me desestimulou a realizar qualquer exploração ali." "Com suficiente força bruta ou pólvora. disse Miriam. respondeu o banqueiro." Meu fuzil estava pronto. "Possivelmente." "E se os muçulmanos nos ouvirem fuçar lá embaixo?". mesmo se não estiverem. acrescentou Farhi. "Pólvora não!".o que um dia esteve aberto. "Queres acordar a cidade inteira?" "Força bruta. quando fui testar a arma fora da cidade. Mas.

dourado. empurradas pela bala. e comprei um pequeno crucifixo espanhol. um mosquete já seria impreciso após as cinqüenta jardas. Em comparação. caso algum dia topasse com esse jogo. Quando a noite de nossa aventura chegou. e que eu poderia capturá-lo e interrogá-lo a respeito de Astiza. "Ela conhece antigas lendas que me entediam". tal qual aqueles da Arca da Aliança. limpam os resíduos de pólvora a cada disparo. Fiquei tão satisfeito que dei ao desconfiado ferreiro algumas instruções de como ganhar no faraó.jardas. Miriam usara latão brilhante para marchetar dois serafins em cada lado da coronha. disse eu. Estas. como estojos onde eu guardaria minhas buchas. Mas era como se aquele bando nunca tivesse existido. comandando-os secretamente. Os serafins se agacharam com as asas estendidas. Jericó também me fez a machadinha. apesar do costume local de enclausurar as mulheres. "Vê coisas que não consigo ou não quero ver. . E não tenho a intenção de deixá-la sozinha enquanto os ladrões franceses estiverem rondando por aí. para Miriam." "Concordo". não fiquei de todo surpreso em ver que Miriam insistia em nos acompanhar. perscrutando até a vista doer. não vi nada. reconheceu Jericó. que Alessandro Silano estava ali. Mas. Teriam eles ido embora? Devaneei que não. quando levei o aparato ao telhado de nossa casa para vigiá-la contra os bandoleiros franceses.

"Miriam diz que tens habilidades de pele-vermelha. e. inserida num código numérico. possa ser lida em dois níveis. Farhi também veio. Meus poucos entreveros com eles tinham sido apavorantes. eu estive estudando o que os templários estudavam. desde nossa conversa. e . ou a vossa Bíblia.uma história oculta nas entrelinhas. O segundo seria o de outra narrativa."Além disso. O primeiro é o das narrativas que todos conhecemos." A bem dizer. acrescentou Jericó. Mas eu exagerara para Miriam as minhas façanhas no desbravamento da América (um mau hábito meu). disse ele. minhas habilidades de pele-vermelha haviam consistido primordialmente em evitar esses selvagens sempre que pude e comprá-los com presentes quando aquilo não mais se mostrou factível. os dois vão precisar de juízo feminino". e não adiantaria pôr as coisas a limpo naquele momento. "É importante que nos desloquemos furtivamente"." "A Bíblia é um código?" "Cada uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico pode ser representada por um número." "Mais livros? E esses servem para quê?" "Alguns de nós acreditam que a Torá. trajado de preto. O Zohar é isso. uma história sagrada . dirigindo-se a mim e ao irmão. "Também existem mistérios judaicos. "Minha presença talvez seja mais importante do que eu imaginava". inclusive a numerologia da cabala e dos livros do Zohar. disse ela. um mistério.

leste." Bem. "Por que estás carregando uma saca de argamassa?" "Para recolocar no lugar qualquer coisa que tenhamos de quebrar." Eu me voltei para Jericó.e as essências do universo — o fogo. os quais. Procurai acompanhar o nosso passo. Mas. Será que esse Livro de Tot pode ser lido da mesma maneira? Qual é a chave para ele? É o que veremos. a água. mesmo se apenas raras vezes conseguia concatenar com o que as pessoas estavam dizendo." "Dez o quê?" "Sephiroth. norte e sul. O segredo do furto é fazer parecer que ele não aconteceu. Está aí o código. por sua vez. oeste. o éter e Deus. Tanta gente parece acreditar em lendas.os quatro pontos cardeais. São as seis direções da realidade . se um banqueiro desfigurado como Farhi estava disposto a fazer papel de bobo metendo-se nas entranhas da terra por causa da numerologia judaica. Aparentemente.há mais dez números além desses." . Essas dez sephiroth e vinte e duas letras representam os trinta e dois caminhos da sabedoria. numerologia e prodígios matemáticos que eu também comecei a acreditar. mais o acima e o abaixo . a insanidade é contagiosa. era mais do mesmo palavrório obscuro que eu vinha encontrando desde que ganhara o maldito medalhão egípcio em Paris. representando as sagradas sephiroth. apontam para os setenta e dois nomes sagrados de Deus. "Então. sede bem-vindo. então isso também parecia valer meu dispêndio de tempo.

murmurei para Jericó. Estariam sentinelas muçulmanas nos perscrutando de lá? Enquanto seguíamos lenta e furtivamente. Descemos pela encosta rochosa até o Tanque de Siloé. e a invasão napoleônica já tivera início. o que deixava a encosta às escuras. Durante o percurso. e aquela noite de começo na primavera estava fria.Era o tipo de pensamento que admiro. que é parte dos encanamentos de Jerusalém desde os tempos do rei Davi. Estávamos no começo de março. mas Miriam parecia impressionada. e que agora se aproximavam de Jafa. formando uma linha escura contra o céu. tive a inquietante sensação de estar sendo observado. Atrás de nós. estavam as muralhas que cingiam a face sul do Monte do Templo. "Há gente ali". A verdade é que fico mais à vontade nos cassinos de Paris que nos sertões da América. Eu via lá em cima os contornos da mesquita de El-Aqsa e as paredes e abóbadas dos anexos que os templários :construíram ali. Enquanto passávamos com dificuldade por antigas minas. "Onde?" . eu animadamente lhes recomendava agachar-se aqui e apressar-se ali. saímos de fininho pelo Portão do Esterco. Depois que escureceu. cães latiam das choupanas de alguns pastores de ovelhas e cabras. Haviam chegado notícias de que os franceses tinham marchado de El-Arish (na fronteira do Egito com a Palestina) em 15 de fevereiro e obtido uma rápida vitória em Gaza. como se isso fosse mesmo o fidedigno costume dos índios algonquianos. Era lua nova.

aninhados na paredes de pedra do tanque. Degraus de pedra gastos iam descendo para uma plataforma (também de pedra) da qual as mulheres podiam mergulhar seus cântaros na água. E nosso grupo crescera. "Vós vos recordareis talvez do sucesso que tivestes em blefar melhor que eu nas nossas partidas de brelan. "Precisaremos dos braços deles no subsolo." ." Apalpei a machadinha e segurei o fuzil com ambas as mãos. da HMS Dangerous. que parecia um retângulo de breu perto do leito do vale." Ele olhou em torno. Eu os pressinto. Por fim. "Fui é afortunado em face de vosso destemor."Não sei. senhor Gage". Vós lhe tirastes seis meses de soldo. Pardais. Só um ligeiríssimo brilho dos rostos me indicava onde meus companheiros se apinhavam. sobre quem levastes a melhor no faraó. fui para o Tanque de Siloé." Mas a noite parecia tão vazia quanto a sacola preta dos mágicos. sabendo que os outros me esperavam." "Capitão-tenente Henry Tentwhistle. "Sir Sidney mandou mesmo ajuda". capitão-tenente. "Não ouvi nada." "Este é o segundo-tenente Potts. "Vós três seguis na frente. explicou Jericó. a vosso dispor. "Britânicos?" Agora eu entendia aquele meu pressentimento. faziam ruidinhos inquietos. Vou ver se pego alguém atrás. Acho que afugentaste os franceses. murmurou no escuro o comandante dos recémchegados." Gemi por dentro. mas não consigo vê-los.

com quanto menos pessoas falarmos. pode?" Balancei negativamente a cabeça. com certeza". "E o nosso dinheiro de volta." Mesmo na escuridão de meia-noite no Tanque de Siloé. "Sir Sidney achou melhor que todos nós trabalhássemos em conjunto."Não pode ter sido tanto assim." Mas claro. "Quão desesperadamente eu tenho necessitado desse dinheiro para concluir a missão atribuída a mim pela Coroa aqui em Jerusalém. explicou Little Tom. não podias ter-me deixado a par disto?" "Sir Sidney ensina que. Eram Big Ned e Little Tom." "E acredito igualmente que conheçais bem estes dois camaradas. respondi débilmente. chefe". como teclas de piano em barricada. -8“ Deverias era te sentir honrado. eu conseguia reconhecer o brilho de um sorriso inesquecivelmente largo e hostil." "Estou lisonjeado. disse o dono do sorriso. "Esta foi até hoje a única missão em que nos apresentamos como voluntários"." . disse Big. "Depois disto aqui. ainda me deves uma briga". melhor estaremos. "Jericó." "Foi por tua causa que a gente veio.

" . só pode ser algum tesouro escondido! E esse ianque pode acertar as contas com o Ned aqui. Não sois da mesma opinião? Afinal. vede: há certo perigo aqui. se uma cobra como tu estava neste negócio. mas existe também uma possibilidade real de que façamos história. disse alegremente Little Tom. Agora. era porque devia haver dinheiro em jogo". disse eu. "é bom contar com aliados que tivemos o prazer de conhecer em amistosas rodadas de jogos de azar. "Quando eles nos deram picaretas. Minha filosofia é que o que passou." "Não somos tão simplórios quanto pensas". e precisamos ser silenciosos como camundongos. caso Bonaparte venha a tomar esta cidade. e o que vier. É essa a nossa missão. passou. Pois muito bem.ou então dar a parte dele para nós'.Deveras. virá melhor para homens que se mantêm unidos. Não um tesouro. acrescentou Big Ned. olhando para essa turma de oficiais e fuzileiros indiscutivelmente pouco amistosa. tentando desconsiderar meu instinto de que aquilo tudo ia acabar mal. mas a possibilidade de descobrirmos um corredor secreto até o cerne do inimigo. cada tostão que tenho comigo vai para as necessidades da Coroa. "E então ele mandou mais quatro?" "Calculamos que. O próprio Ben Franklin dizia que três só conseguem guardar um segredo se dois já estão mortos. pensamos: 'Bom. companheiros". "Está claro que não. do jeito que prometeu lá no navio .

é claro que vós. já que é responsabilidade minha que nenhum de vós sofra mal algum."Necessidades da Coroa? E o que é essa bela arma que estás segurando?". Mas.que tal? No escuro. "Este fuzil?" A arma reluzia ostentosamente. podereis ficar com minha parte . assinalou Little Tom. quis saber Little Tom.." "Que estaremos todos juntos até cumprirmos a missão".eu me contentarei com este ou aquele pergaminho." "Quem?". "E que diabos quer dizer essa história dos gatos?" "Que somos uma porcaria de saco de gatos. perguntou Tom." Evitei a encarada de Jericó." "Bem carinha essa tua arma. corrigiu Tentwhistle. ou coisa assim. "Agora. nenhum conhecimento real da feitura de armas de fogo." "Em Jerusalém. Tão empetecada quanto uma vadia de luxo. todos os gatos são pardos. meus companheiros. resmungou Big Ned.. é só um lixo bonitinho. . trata-se de um exemplo capital! Ele é para vossa proteção.manufatura oriental. apontando para Miriam. se acharmos. A bem dizer. como Ben Franklin gostava de dizer. É nesse espírito de colaboração que eu gostaria de começar . "Pois então quem é essa rapariga?". Aposto que custou muito dinheiro. não posso prometer que acharemos algo de valor. "Sabeis como é . insisti. "Ora. "Um maldito rebelde que devia ter sido enforcado". não custou quase nada".

cortou Miriam.". avisei. Ned". "Irmã?!" Tom recuou como se tivesse levado um choque elétrico. não nós". fechada por um portão de ferro. disse Tom. "E quem é aquele ali atrás?" "Nosso guia judeu. áspera e abruptamente. "O joelho dela sabe onde estão as tuas bolas. "Construído para manter do lado fora as crianças e os animais. Assim. "Como se eu fosse deixar que fizésseis isso. é?" Ele a olhou com mais interesse." "Ah. nosso ferreiro fechou o portão atrás de nós. grunhiu Jericó. "Aqui. Pelo relvado da batalha de Lexington. levantando seu pé-de-cabra. um judeu também?" "Trazer mulher dá azar". Ele usou de força e alavancagem. aquilo era ou não era um rolo e tanto?! Eu não conseguiria angu pior se convidasse anarquistas para redigirem uma Constituição. trancando-o com um cadeado novo que ele próprio trouxera.. ó. entramos naquele tanque raso e. com água pelos joelhos.Ela se afastou. Depois que entramos." "Sabe. repugnada. "Toma cuidado. A corrente vinha de uma abertura semelhante à gruta. ouviu-se um estalo. "Para este eu tenho a chave. comigo totalmente intranquilo. disse Ned. vadeamo-lo até seu final. que ela vê". "Minha irmã". disse Jericó. "Trazes a irmã numa caça ao tesouro?! Para que diabos?" "Ela vê coisas".. acrescentou o parceiro. "E a gente não vai carregada". com um rangido. respondi." . e a grade enferrujada se abriu para dentro.

"Pagamos a nossos guias para que ficassem de boca fechada". contou-nos Farhi. fria mas não gelada. "Não tenho o hábito de chapinhar no escuro." Logo a água nos chegava às coxas. explicou Tentwhistle. perguntei. sussurrei para Farhi. para a longa margem do tanque. na defensiva. intrometeu-se Ned. "É. . Era uma canalização artificial que fora construída para trazer água de manancial à velha cidade do rei Davi. respondeu o capitão-tenente. "Não estou enxergando nada desde que saímos da casa de Jericó". e também não dissemos nada em Jerusalém". há?"." "Eu vos disse para ficar na surdina até escurecer!". "Estávamos em trajes árabes e não conversamos com ninguém". sibilou Jericó. da marinha inglesa. "Um momento . "Não há nenhuma possibilidade de que tenhais sido seguidos até aqui. fazendo que tropeçássemos.Olhei para trás.vós quatro. resmungou baixinho o banqueiro. Teria alguém se abaixado rapidamente para sumir de vista? "Vistes alguma coisa?". fui chapinhando até Tentwhistle. O leito era irregular. apresentando a textura de rocha submetida a picaretas antiquíssimas. entrastes na cidade?" "Só para conseguir comida. Quando já havíamos adentrado suficientemente o túnel para que Jericó se arriscasse a acender a primeira lanterna. exasperado. A passagem de túnel que vadeávamos tinha a largura de meus braços abertos e uma altura de dez a quinze pés.

arfando. "Eu cuido disso. "Acho melhor nos apressarmos. com o fuzil." De repente. "Todos vós pareceis tão árabes quanto Papai Noel! Essas carantonhas vermelhas não teriam dado mais na vista se tivésseis entrado marchando com a bandeira britânica". E tu. disse ele. exclamei. "Ah. Jericó começou a levantar a picareta. eu não ia vir até Jerusalém sem dar uma olhada..eu esbarrei?". "Que viesses nos receber com algum grude. Miriam gritou nas sombras. "Ei. perguntou lascivamente Little Tom. cuja fisionomia estava sombria à luz âmbar da lanterna. rebateu Big Ned. és nossa retaguarda." Enquanto eu abria caminho aos empurrões para o fim da fila." Bem. então a gente devia morrer de fome até de noite e depois cavar um buraco para vossa alteza?"."Ora essa. É uma cidade famosa!" "Trajes árabes?!". o que se podia fazer a respeito agora? Volteime para Jericó. deixei que a ponta do cano de meu novo fuzil acertasse em cheio a virilha de Ned.. mas segurei a mão dele. se querias tanto nos deixar do lado de fora desta tua preciosa cidade. boneca." "Deixei um cadeado forte na grade. "Não me toques!" "Desculpa . . acrescentou Ned. "Maldição!". vou te manter segura".

desculpa ."Oh. se todos mantivermos distância uns dos outros. "Ai! Essa cadela veio toda sorrateira por trás!" "Desculpa. "Segundo-tenente Potts! Cuidai da disciplina!" "Sim. girando a coronha tão abruptamente que ela raspou direitinho em uma das faces de Tom. Mantende distância se dais valor à vossa virilidade.a cratera no olho. disse eu.." "Eu vou te castrar com as minhas próprias mãos se tocares na minha irmã outra vez". "Desgraçado!" "Tenho certeza de que. o que foi que aconteceu com ele?!" Farhi passara à luz da lanterna. "E eu vou fazer os dois dançarem ao som da chibata".comportai-vos!" "Ah. só estávamos brincando. astutamente. senhor! Os dois aí . . o nariz como um focinho. completou Jericó..como sou desajeitado!". não ficaremos esbarrando em ninguém. a orelha arrancada." "Pois eu vou ficar onde bem entend. Tom deu um berro e um pulo. respondeu o judeu. eu vos avisei. e os perplexos britânicos viram pela primeira vez aquele rosto mutilado . "Senhores.. eu esbarrei?" Miriam segurava um péde-cabra. Os fuzileiros ficaram brancos de susto e se mantiveram o mais longe possível de Miriam. "Eu relei na irmã dele". Deus do Céu.." Nisto. disse Tentwhistle.

queixou-se Ned. e o túnel começou a ficar mais baixo à medida que nos aproximávamos dela. disse Farhi. de um cadeado ao ser quebrado bem lá atrás? Aquela distância. Acabei desistindo e me apressei em alcançar os outros. parei para ficar de ouvidos atentos enquanto os outros seguiam dificultosamente e a escuridão crescia à medida que eles se afastavam. Para mantê-los resfolegantes. porém. Não estavam habituados aos ambientes fechados nem ao trabalho em terra. O que era aquilo? O eco de um tinido.. "Estamos cada vez mais perto do manancial". Em certa altura. Logo teríamos de rastejar. e só a suposição de que conseguiriam riquezas antigas evitou que empacassem de vez.. era quase tão inaudível quanto a queda de um alfinete. Surgiu enfim o ruído de água corrente. E então. com todos nós vadeando num casulo formado por luz de lanterna. resmungou Little Tom. "Por que a gente não aproveita e carrega também um coche cheio de tijolos?". sugeri a Tentwhistle que Ned e Tom ajudassem a carregar a saca de argamassa de Jericó. Mas ele continuou forcejando como uma mula." "Já eu acho que estamos é no maldito cu".Se houve alguma vantagem na longa e árdua caminhada com água pelas coxas. e não escutei mais nada. . "Reza a lenda que o umbigo de Jerusalém está em algum lugar acima de nossas cabeças. foi que ela tirou um pouco do vigor dos ofegantes fuzileiros.

Em seguida. mais fracas. Eu não tinha idéia de quanto havíamos avançado ou de que horas eram . a fenda foi se abrindo.não teria ficado surpreso se me dissessem que havíamos caminhado. dessa vez) voltava obliquamente rumo à cidade principal. "Assim. o ar ficava mais impuro. Eu não teria adivinhado que ela levaria a algum lugar. Ned vivia batendo o cocuruto e praguejando. ele já estava coberto por um suor lustroso. não paredes de gruta. Ele subia num gradiente constante. . tão logo demos impulsão uns aos outros para subir por ela. um único homem poderia defendê-la contra um exército de invasores. Rastejamos sobre pedras grandes caídas do teto. e a mulher foi na frente. E então o túnel ficou novamente regular. com o teto apenas um pé acima de nós e o diâmetro pequeno demais para que mais de um homem passasse facilmente. com Miriam se mostrando mais ágil que qualquer um de nós. empurrando a saca de argamassa. vadeado e rastejado de volta para Paris. e uma passagem (seca. e as lanternas. encontramos pedra talhada. mas. Big Ned praguejava. apertada como o fecho da bolsa de um pão-duro." À proporção que seguíamos. Estamos no caminho certo. "A lenda diz que esta passagem foi construída com largura suficiente apenas para um escudo". pois mal conseguia espremer-se por ali. disse Farhi. Apareceu outro buraco estreito. obra de mãos humanas.Procuramos com nossas lanternas até que de fato achamos uma fenda escura acima de nós.

apesar das dificuldades . cada qual com umas dez jardas de largura. abruptamente. bem acima. De súbito. elevando também o piso. O teto era mais alto porque fora escavado. disse Jericó. o túnel terminou numa grande gruta. debaixo da própria plataforma do monte do Templo. Fazei o mínimo de ruído possível. e enfim nosso caminho terminou. todas estas passagens estariam submersas". portanto. uma vez mais. e as pedras tiradas dali enchiam a câmara pela metade. "Achamos as cisternas. cortando nosso caminho. ouvi o barulho de água mais adiante. O problema era que a porta já não estava mais lá e o vão fora completamente tampado com blocos de pedra e argamassa.a água vem só até o peito e é limpa". Além dali.esta trabalheira toda para nada!". "Será?". que nossas débeis lanternas mal abarcavam.e. o túnel continuava. "Estamos passando debaixo dela e." Continuamos vigorosamente. "Maldição . ofegante. informou. enxergávamos o alto de um vão de porta arcado." Do outro lado. Chegamos a outra cisterna e depois a uma terceira. o túnel voltou a subir para uma caverna seca. "Está tudo certo . disse Ned. "Numa estação mais chuvosa. Jericó me fez segurar sua lanterna enquanto ele entrava cautelosamente na água abaixo. Em seguida. construído de pedra. explicou Jericó. murmurou Jericó. "O que há por trás desta parede para que seus construtores não quisessem que chegássemos lá?" ."A muralha de Herodes".

aventou Tentwhistle. disse Farhi. disse Ned. silêncio é essencial". Algum tremor de terra . "e os árabes." "E tornar a vedar a passagem". "O tempo perdido nunca é reencontrado. diz o velho Ned. atirando a saca de argamassa no chão. "Fazia sentido selar a entrada". "Tendes de cavar antes das preces da alvorada. "Precisamos de um barril de pólvora". acrescentou Miriam. "Besteira". "Ela poderia ser usada como ponto de entrada por exércitos inimigos. "Chefe. disse o fuzileiro. cruzados ou templários a emparedaram. passando pedras soltas de um para outro até formar uma vala que chegava à base do vão emparedado. porque senão vou te chacoalhar pelas canelas até ficares vaziozinho." Mas." "E quem rouba nas cartas deveria devolver o que pegou. Foi preciso duas horas de trabalho árduo até afastarmos entulho suficiente para que se visse a entrada por inteiro: o largo portal subterrâneo estava arrolhado como uma garrafa por pedras calcárias de diferentes cores. Nós oito formamos uma corrente." Ele me olhou de soslaio. apesar da bazófia. dizia o velho Ben." "Os antigos judeus construíram a arcada". é melhor haver alguma coisa do outro lado desta parede. conjeturou Farhi. Tentei direcionar o pateta. interrompeu Miriam. ele e Little Tom acabaram pegando no oesado. "Não."Ou que não quisessem que saísse dali?".

e.fez o teto aesabar. secamente. "Ficai de guarda. o buraco ficou grande o bastante para que se rastejasse por ele. "Jericó e eu faremos o reconhecimento". e isto ficou esquecido desde então. usassem seus pés-decabra para deslocar a pedra. Justamente por isso. somos todos agentes da Coroa. expliquei aos britânicos. nós traremos para vós. cada um de um lado. a pedra deslizou para fora como uma gaveta travada e teimosa. reclamou Big Ned. qualquer bem que venha a ser tomado pertencerá à Coroa para posterior distribuição aos tripulantes segundo as leis do ." Jericó. "Sinto muito. Não ousávamos bater até quebrar. trabalhamos nas pedras adjacentes." A primeira pedra é sempre a mais difícil. mas devo concordar com meu subordinado".endas. Os músculos dos dois se estufaram. e eles a pegaram antes que chegasse ao chão e a deitaram sem fazer ruído. "Estamos todos numa missão naval. quebrando a argamassa e alavancando-as uma a uma. escuridão total. Assim. "Então. exausto." "Mas de jeito nenhum!". Farhi ficava olhando para o teto. Se houver alguma coisa lá. Eu me inclinei até a baforada de ar bolorento que saía de nosso buraco. Por fim. como se de algum modo pudesse ver a reação dos guardas muçulmanos muito acima de nós. sendo lembrado apenas pelas . gostemos ou não. disse Tentwhistle. de modo que removemos a argamassa e deixamos que Ned e Jericó. senhores. ergueu o pé-de-cabra. mãos à obra.

havia serpentes e crocodilos atrás de cada buraco. o que significa que ou todos atravessamos juntos este buraco. Ele estava certo.apresamento. entre dentes." Pus a mão no cano de meu fuzil. não como caçador de tesouros em regime privado. "E o senhor foi enviado a Jerusalém como agente da Coroa. Ned e Tom agarraram o cabo de seus alfanjes. não como guarnição de uma nave apresada". pelo rei e pela pátria. ensaiei. "Mas estás a soldo de sir Sidney Smith. teremos todos os muçulmanos de Jerusalém à nossa espera! Não podemos nos dar ao luxo de brigar. "Fostes enviados como mão-de-obra para o trabalho subterrâneo. "Então. é claro. que eu deixara encostado à parede da gruta. disse Farhi. protestou Jericó. "Estais loucos? Se começarmos a lutar aqui. qual de vós quer ir primeiro? No Egito. mas depois baixamos as mãos." Tentwhistle levou a mão à pistola. e o segundo-tenente Potts fez o mesmo." . ou não atravessa ninguém. Ficamos estremecendo tal qual cães rivais no açougue. "Parai!". Vossas contribuições serão plenamente consideradas. disse Tentwhistle. Jericó ergueu o pé-de-cabra como se fosse uma lança. "E Gage também é agente dele. não?"." Hesitamos." "Não estou mais na vossa marinha". Suspirei.

era inquietante ver uma fileira de caveiras. E em cemitérios de igreja. que a caveira com as tíbias cruzadas remonta no mínimo aos cavaleiros da ordem?" "Eu também a vi associada a ritos maçônicos. Não eram caveiras de verdade. Os outros vinham rastejando atrás de mim. e. "Piratas não. chefe." Por conseguinte. esperei um momento para certificar-me de que nada estava me mordendo e então puxei pela abertura uma lanterna. Eu não vira nada parecido no Egito. e seguimos por ele para um recinto maior. a ordem de cavaleiros cujos líderes acabariam na fogueira. à medida que deparavam com aquele mórbido friso. as exclamações dos britânicos iam de um "Jesus!" ao mais esperançoso "É tesouro de piratas!". só esculturas. "Parece que és o único com experiência. Tive um sobressalto. Ainda assim. Caveiras arreganhavam os dentes para mim. O piso estava coberto de lajotas de mármore no conhecido padrão . eu me retorci para passar pelo buraco. meus senhores." "A mortalidade obceca a todos nós. Esse friso em ossada é típico dos templários. não é mesmo?" As caveiras ornavam um corredor.Fez-se um silêncio apreensivo. Ali vimos outros ornatos que eu também achava terem-se originado com os maçons. estenderse como um friso pela junção das paredes com o teto. com ossos cruzados por baixo. Farhi tinha uma explicação mais prosaica. senhor Gage. Sabíeis.

. que tinha comprimento de cinqüenta passos. havia um altar de pedra. dois cavaleiros medievais montados num único cavalo. Atravessamos o recinto. deusa da estrela Sírio? "Todas as coisas são duais". a entrada pela qual viéramos estava ladeada por duas enormes colunas.xadrez. Tinha as dimensões de um refeitório. bem curioso: as lajotas pretas ziguezagueavam contra as brancas. Do outro. De resto. cada qual com uma estátua do que parecia a Virgem. Na outra ponta do recinto. mas robusta o suficiente para sustentar a plataforma herodiana que ficava em algum lugar lá em cima. O teto era uma abóbada de berço. uma preta e a outra branca. Como um enorme relâmpago. De um lado. a outra de ébano . porém. chã. Engastada na face do altar. mostrava o desenho tosco de uma igreja com cúpula. dos arquitetos dionísicos. preto-e-branco. o padrão era outro. O resto do recinto era totalmente despojado. Havia um nicho de cada lado. Estranho. Por que um relâmpago? Desse lado.a Virgem Branca e a Virgem Negra. e talvez os cavaleiros se banqueteassem ali quando não estavam ocupados cavando túneis em busca do tesouro de Salomão. viase uma placa ornamental dupla. em raio. murmurou Miriam. No centro. a primeira de alabastro. com um nicho escuro atrás. o lugar estava decepcionantemente vazio. A Virgem Maria e Maria Madalena? Ou a Virgem Maria e a antiquíssima Isis.

" "Nada exceto os assuntos da Coroa". simbolizando o local do Templo de Salomão. com uma abertura tão estreita que precisaríamos nos . exatamente como a mesquita em cima de nós. O segundotenente empurrara a mão estendida dessa Nossa Senhora (erguida como numa bênção). "E."O selo dos templários!". afastando-se e revelando uma escada ascendente. olhando em volta. Vede. Ele fora examinar a Virgem Branca." "Outros argumentam que o selo significa que os dois são aspectos do uno". ali está o Domo da Rocha. "Mas olhai isto aqui!"." "Aqui não há porcaria nenhuma". exclamou Farhi. Verso e reverso. rebati. interrompeu Big Ned. resmungou Little Tom. senhor Gage. disse o segundo-tenente Potts. a pedra deslizou atrás dela. E os dois cavaleiros num cavalo só? Alguns acreditam que isso fosse uma marca da pobreza voluntária da ordem. chamando-nos. "Isso confirma que foram eles a construir isso. circular e serpeante. Noite e dia. Quando fez isso. "Comentário sagaz". disse Tentwhistle. "Masculino e feminino. o americano nos ferrou direitinho". "Uma porta de serviço? Ou uma passagem secreta?" Nós nos aglomeramos em volta. e a imagem deu um giro. disse Miriam. origem da designação templários. "Parece que tivemos um bocado de trabalho por nada. acidamente.

" "Quem liga para o que eles ouvirem?". disse Farhi. Ficamos ali parados. "Uma ligação com o velho acantonamento dos templários. disse Miriam. na mesquita de El-Aqsa. como algo que os templários tenham construído. disse Ned. Se qualquer dos dois grupos der por nós. não importando com quanta força Potts empurrasse o braço. um pedaço de cada vez. sentindo a frustração. perguntei. circuncidar-nos. "Não avisei que os templários chegaram aqui antes de vós?" "Mas esta câmara parece européia. e não que tenham descoberto. Ela foi ao lado oposto do recinto.o ruído provavelmente subiria como por uma chaminé. a estátua não se moveu." "Tentemos também a Virgem Negra". vão cegar-nos." "Tolo . mas precisamos mais do que nunca fazer silêncio . Por que eles construiriam ." "Ah. mas desta vez. A passagem está provavelmente bloqueada. "Ela deve levar à plataforma do templo".estás em solo sagrado muçulmano e judeu. E era uma subida íngreme. O dualismo de Miriam não parecia estar em vigor. Farhi?". "Onde está o tesouro do templo. torturar-nos pela invasão e depois desmembrar-nos.espremer de lado para entrar. "Aqui não há nada mesmo.

nada aconteceu. rubra e negra pela ferrugem." "As paredes são nuas e sólidas". Degraus desciam para a escuridão. Potts e eu. "Com força!" De início. estava outra fileira vertical de . arfando. no Egito. revelouse um buraco embaixo. Tem de haver outra porta. Após um tempo. "Acho que Big Ned deve empurrar aquela mesa de pedra ali". sim. Quando o altar deslizou de lado pelo piso. a coisa melhora de figura". verdes com a idade. Descemos e nos apinhamos numa ante-sala abaixo da câmara principal. As lajes pretas e brancas formavam diagonais que se irradiavam do altar. a busca. só pode ter ocorrido em outra câmara. Na outra ponta do recinto. duas fileiras de três. Entre essas duas. Havia um disco no alto e. e por fim Little Tom. "Então isto era para cerimônias". Estava marcada por dez discos de bronze do tamanho de pratos. abaixo. descendo. porém mais baixo. Depois. inferiu Miriam. ouviu-se um ruído de raspar. e olhei rapidamente para o piso." "Aqui embaixo não há janelas". "Mas a atividade para valer. Lembrei-me de minha experiência em Dendara. e o altar começou a girar sobre um pivô instalado num de seus cantos. disse eu. todos grunhindo pelo esforço.isto? E um jeito bem trabalhoso de conseguir um refeitório. veio juntar-se a ele Jericó. "Agora. via-se uma grandiosa porta de ferro. disse Ned. disse o irmão. observou Potts.

assinalei. mas a peça não se moveu. "Para mim. disse eu. e os muçulmanos virão para as preces. quando Jericó e Ned empurraram e puxaram aquela porta maciça.três." "O que quer dizer que ela talvez não tenha sido aberta nem saqueada". E." "Mas o quê?" . "É firme como uma rocha". ela nem sequer se estremeceu. do formato do Sol. raciocinou Ned. No centro de cada disco. "Não temos ferramentas para mexer nesta porta. "Talvez cada uma dessas trancas gire uma lingüeta nesse batente de ferro. "Talvez nem seja uma porta. "Ou dez fechaduras". com mais argúcia do que eu teria imaginado. "Logo será a alvorada na plataforma lá em cima." Tentou uma das trancas. disse o ferreiro. parece boa notícia. recordando-me do mistério do medalhão no Egito. uma tranca. perguntou Tentwhistle. alguém acabará nos ouvindo." "E o tempo vai-se acabando".. "Dez maçanetas?". o americano talvez tenha descoberto mesmo alguma coisa.. No final das contas. bem no fundo de uma toca de coelho como esta?" "Dez fechaduras? Não há buracos de chave". disse Jericó." "Esperai". Meu palpite é que isso significava alguma coisa para os templários. Se começarmos a bater nesse ferro. "E um padrão. Dez é um número sagrado. alertou Farhi. não achais? Dez discos. O que alguém poderia ter que fosse tão precioso que o colocariam atrás de uma porta destas? E. para completar.

netzach. a coroa. "É a Árvore. e depois binah." . Devem ter-se interessado por todos os símbolos que fossem de ajuda na sua busca por conhecimento. confirmou Miriam. "Todos os aspectos de um Deus que está além da compreensão. a intuição.. força. vitória. O que vemos aqui é o parirão das dez sephiroth. “É. E assim por diante." "Grandeza. enunciando-as.a Árvore da Vida!" "A cabala". com keter. Chesed. tifered. disse Farhi. misericórdia. majestade. ou reino". Não conseguimos apreendê-lo." "Os egípcios acreditavam que as palavras eram mágicas". assim como quaisquer outros..mas eram ecumênicos quando se tratava de procurar antigos segredos". consigo ver os nomes judaicos lavrados em hebraico." "Mas o que significa isso na porta?" "Acho que é um quebra-cabeça". "Devem ter estudado os textos judaicos à cata de pistas de onde cavar no monte. disse Miriam. lembrei-me. bem devagar. Textos muçulmanos também... eles conseguiam invocar deuses ou poderes. recitou Miriam. defronte a chokhmah. no alto. "e que." "Os templários eram judeus?!" "Decerto que não . sim . "O misticismo e a numerologia judaicos. fundamento e soberania."As sephiroth".agora estou vendo! A Etz Hayim . glória. somente essas manifestações de seu ser. respondeu Farhi. a sabedoria. Ele aproximara a lanterna." "Árvore?" Farhi recuou de súbito. "Sim.

"Keter.vamos pensar". explicou Jericó. pacientemente. "Vitória? Eles eram guerreiros. "Aqui em Jerusalém respeitamos outros credos. talvez nenhuma das trancas vá funcionar. Thoth. thought." Mas essa tranca. disse eu. que blasfêmia pagã! Esses cavaleiros de que falais adotaram as coisas dos judeus? Não admira que tenham morrido na fogueira!" "Não as adotaram .eles apenas as usaram"." "Primeiro. mesmo quando brigamos com eles." "Pensamento?" "Se traçarmos retas de disco a disco. como Tot. disse Farhi. perguntou Farhi. "Esperai . "Isto pode ser um teste para manter afastados os imerecedores. "E esse centro não representa para os cabalistas a incognoscível mente de Deus? Não é esse centro o . "Pensamento. como o livro que Ethan procura. Sabedoria? Se o tesouro fosse um livro. tal qual as outras." "Vou tentar." "O que um templário escolheria primeiro?". "Por Deus. Glória? Eles encontraram a fama. disse Miriam. lá no alto. Talvez as trancas devam ser giradas na ordem certa." "Ou talvez disparemos alguma armadilha". elas se entrecortarão aqui no centro". não cedeu.Big Ned fez o sinal-da-cruz. Intuição?" "Pensamento". a coroa". "Se cometermos um erro. sugeri. Os templários queriam dizer alguma coisa com este arranjo aqui. apontou ele. recordando os monolitos que quase acabaram comigo na pirâmide.

disse Farhi. o círculo lavrado afundou." Miriam traçou retas dos dez discos para aquele ponto central. talvez denominemos alma?" "Estás certa".pensamento em si? A essência? Aquilo que nós. até pousar com um golpe surdo no piso empoeirado mais além. com um estrondo angustiante. Tentwhistle e Potts apontaram suas pistolas navais." "E. uma . exatamente naquele círculo. "Preparai-vos!" Ergui o fuzil. houve um clique. a grande porta se abriu para dentro e para baixo. Nisto. Ela foi baixando pesadamente. "mas não há nenhuma tranca ali. "Vamos todos ficar ricos!"." E. com a parte de cima presa por correntes. "Alguma falha fundamental na Terra". ela pegou o pé-de-cabra com o qual espetara Little Tom e golpeou o ferro da porta com a ponta. os cristãos. e então vimos que a porta servia de ponte sobre uma fenda no chão. sussurrou Ned. O abismo se estendia para a escuridão. Ergueu-se uma nuvem cinzenta. Ned e Tom desembainharam os alfanjes. "Só que aqui há um pequeno círculo lavrado. conjeturou Farhi. Quando as trancas pararam de girar. antes que alguém pudesse impedi-la. e de repente todas as dez trancas em todos os dez discos de bronze começaram a girar em uníssono. "Esta é uma montanha sagrada desde o início dos tempos. o único lugar sem tranca é o coração. como uma ponte levadiça. Jericó deu um empurrão e. obscurecendo momentaneamente o que jazia ali. Ouviu-se um estrépito surdo e ressoante que sobressaltou a todos. perscrutando lá embaixo.

mas que talvez tenha suas raízes no mundo inferior. Mas nossa ganância nos fez atravessar do mesmo jeito. Não havia nada. porém. nem grego. nem árabe. havia uma esfera que aparentemente recebera douradura e provavelmente representava o Sol. ar fresco foi bafejado para cima. um pedestal de pedra que chegava à cintura de um homem. outros. No vértice da abóbada. signos zodiacais e criaturas estranhas de alguma época primeva. A nova câmara era bem menor que o salão templário mais acima. Todos estávamos receosos. de minha parte. Este era ornado com pinturas de uma profusão de estrelas. .. Da fenda na rocha. como a base de uma estátua ou um expositor. nem latino. Baús de madeira e bronze se amontoavam pela Deriferia do recinto. pareciam vermes contorcidos ou labirintos minúsculos. triângulos e círculos.quadrados. um turbilhão de simbolismo que me trouxe à lembrança o teto que eu vira em Dendara. e. E dentro deles havia. repetiu Miriam. me lembrava daquele poço do inferno na pirâmide. No centro do recinto. secos e corroídos pelo tempo. Era diferente também do que eu vira no Egito. As paredes exibiam escrita num alfabeto com o qual eu nunca topara antes. Muitos caracteres tinham forma geométrica ." "Todas as coisas são duais". mas que estava vazio.rocha que se dirige ao Céu . nem hebraico. Ela não era muito maior que uma sala de estar.. com teto baixo e abobadado.

pois nem mesmo Farhi sabia. "O que dizem as paredes?". Ninguém respondeu. Talvez levado pelos templários para a Europa. Se algum dia existira um tesouro ali . aquela piada cruel. recordei-me da Grande Pirâmide. rogou Farhi. e um grande estrondo transformou o baú numa chuva de lascas. ele já se fora havia muito. dando pontapés nos baús. "Maldição!" Eram Ned e Tom. "Precisais quebrar coisas para que os guardas muçulmanos nos ouçam? Este Monte do Templo é uma peneira formada de grutas e passagens!" Ele se voltou para Tentwhistle. olhando para aqueles curiosos caracteres. onde o depositório do livro estivera vazio. que estava contando. tolos!". E.Mais uma vez. Um castigo atrás do outro. apontou para uma pequena saliência ali onde as paredes se encontravam com a abobada. "Além dos vossos famosos corações de carvalho. os marinheiros ingleses também têm cérebros do mesmo material?" O capitão-tenente ficou rubro. Astiza. perguntei.. Mas então Miriam. agora. Ned arremessou um deles contra a parede de pedra. ou escondido em outro lugar quando os líderes deles foram para a fogueira. reouveram ou transferiram. Podia ser até que o tesouro já estivesse desaparecido desde que os hebreus foram escravizados por Nabucodonosor. Depois. sim -. o livro que se fora. "Não há nada aqui! Já saquearam tudo!" Saquearam. Primeiro. Havia candeeiros .e eu desconfiava que existira.. "Silêncio.

e aí um filamento de fogo se moveu por uma canaleta de óleo para acender o candeeiro seguinte. até o que antes era escuro ter-se tornado um lugar que pulsava com luz e sombra. Vi que a abóbada tinha vigas de pedras que subiam para o vértice. como é possível tal coisa?" "E um mecanismo acionado pela porta". Este se acendeu. exclamou. "Após tantos anos. Agora. E não era tudo. e em cada uma delas havia um sulco. .esculpidos na tela. "Acendê-los para compreender. "Setenta e dois". como se para receber velas ou lâmpadas de óleo. numa cor roxa e lúgubre semelhante ao que eu vira em experiências elétricas com tubos de vidro dos quais se retira o ar." Jerico se aproximou. alguma maneira de lançar luz sobre o mistério que havíamos descoberto." Supus que se tratasse de magia templaría. os candeeiros irromperam em chamas. "Vamos acendê-los". "Farhi. murmurou Little Tom. "Há óleo pingando neles!". Um depois do outro. "O antro de Satanás!". disse eu. inflamando-se em cadeia pelo perímetro da abobada. disse bem devagar. esses sulcos começavam a brilhar com o calor ou a luz mais abaixo. "Como os setenta e dois nomes de Deus. com súbita convicção. O banqueiro mutilado o fez. conta-os". aventou Miriam. E então Jericó pôs fogo num pedaço de madeira de baú com o pavio de sua lanterna e tocou o óleo do candeeiro mais próximo. disse ela. admirado.

Olhei para o teto.. e uma porta semelhante àquela atrás da Virgem Branca ia se abrindo. . como o raio de eletricidade que eu invocara no Natal. A Virgem Negra estava girando com ele. O braço. ela parecia apontar para a porta recém-aberta. que antes estava imóvel. Quando a estátua parou. Sem isso. como se fôssemos testemunhar um milagre. "Ela está girando!" -9Corremos escada acima para a estátua. Vi que havia um orifício no centro do pedestal. gritou o segundo-tenente Potts da escada que levava de volta ao salão dos templários. E então se ouviu um rangido lancinante. Onde talvez se houvesse mantido um livro ou rolo de papel ou pergaminho. procurando sinais de desabamento. agora girava sobre seu próprio eixo.No ponto mais alto da abóbada. a esfera de aparência solar que eu imaginara ter apenas recebido douradura começou a brilhar intensamente. a luz de cima podia resplandecer pela abertura.. E dela partiu um raio de luz roxa. Os britânicos estacaram e se puseram a escutar. "E a Virgem Negra!". Jericó e Miriam faziam o sinal-da-cruz. como o de uma engrenagem enferrujada. Esse raio incidiu diretamente no pedestal no centro do recinto. algo que teria sido bloqueado caso um livro ou rolo estivesse pousado ali.

gritei. . "Puxa com toda a força. Teriam as pessoas lá em cima um dia sabido que aquela passagem existia? "Onde diabos estamos?". Por conseguinte. disparado quando o livro fosse tirado dali? "Não sabemos o que isto significa!" Mas os quatro britânicos já arremetiam pela passagem. Ned!". e Jericó e eu os seguimos relutantemente. ordenou Tentwhistle. reparei que a outra face da porta era rocha irregular . Remontariam elas aos tempos de Salomão? Ou mesmo de Abraão? O túnel subia em espiral e terminava numa laje com uma grande alça de ferro. As paredes toscas da escadaria me fizeram lembrar o acabamento do túnel de água do tanque de Siloé: eram antigas. este seria mesmo uma espécie de chave que levava a mais tesouros? Ou algum alarme templário. possibilitando que o brilho penetrasse pelo orifício. declarou Ned."Por todos os santos!". ela pareceria apenas parte da parede de uma gruta. "Espera aí!". "Puxa isso. subindo uma passagem íngreme e serpeante. enquanto ele lentamente abria a passagem. com Miriam e Farhi formando a retaguarda. para acabarmos de vez com este negócio! Já é quase dia!" O fuzileiro assim fez. Se o estranho espetáculo de luz acionava de algum modo aquela abertura. perguntou Potts. e.do outro lado. "Só pode ser o tesouro!" Potts já sacara a pistola e inclinou-se para entrar primeiro. muito mais velhas que os templários. era só porque o livro não estava no pedestal.

Num instante. "Tesouro. Então. No outro. "Meu palpite é que saímos na gruta sob a própria rocha sagrada". "Allah akbar!" Deus é grande! Os muçulmanos tinham nos ouvido bater cabeça em seu local mais sagrado e chamaram a guarda de janízaros! E.e do Domo da Rocha. Nisto. "Bem onde quaisquer vigias da mesquita podem ouvir intrusos do lado de baixo". . seus miolos eram borrifados sobre todos nós. Através da fumaça. Os britânicos não iam esperar. uma trovoada de disparos e balas ressoou furiosamente ao nosso redor. explodiu. e nos lançamos ao chão. vi um amontoado de homens recarregarem as armas. "Estamos bem debaixo da Kubbet es-Sakhra . rapazes!" Ned e seus companheiros irromperam no corredor. "Queres dizer que os muçulmanos. "Abaixai-vos!". gritei. empolgado e resfolegante pelo esforço de seguir nosso grupo. coitado. ergueu-se um grito em árabe. Potts desabou como uma marionete cujos cordões houvessem sido cortados.a raiz do mundo . A fumaça de pólvora preencheu a estreita passagem com seu conhecido fedor." "Bem debaixo do que já foi o Templo de Salomão!". "Onde talvez se guardassem os segredos do templo .Adiante. Estava indo tudo depressa demais.ou mesmo a própria Arca da Aliança. havia uma gruta mais larga .e luz. e a cabeça de Potts. alertou Jericó. o segundo-tenente me puxara com louco entusiasmo. respondi num sussurro. havíamos mexido num vespeiro. disse Farhi.

praguejando. Somente pela passagem arcada talvez ainda tivéssemos uma chance. de modo que Ned urrou tal qual um urso e investiu contra os janízaros. eles nos massacrariam por sacrilégio. assim que começamos a empurrá-la para fechar. Descemos correndo a escada serpeante até o salão vazio dos templários. Atrás e acima de nós. os janízaros arremeteram. acertando outro janízaro. A pistola de Tentwhistle também disparou. Ele deu um pinote para trás. "Apressai-vos. e agora era a vez deles de girarem aos trambolhões para proteger-se. até o buraco que . Corremos pelo corredor com o friso de caveiras. pelo amor de Deus! Voltemos por aquela porta!" Mas. mas outras armas de fogo dispararam. Se nos pegassem. Aí. Ned soltou um berro portentoso e golpeou algumas delas com o alfanje. e Little Tom levou um tiro no braço. "Batamos em retirada!". ele bateu a porta. pegando um de nossos pés-de-cabra para emperrá-la temporariamente até que os janízaros pudessem abri-la à força. atirei. e ouviu-se um berro em resposta. e uma dúzia de mãos maometanas se agarrou à borda da porta do outro lado. A porta estava sendo inexoravelmente empurrada para permanecer aberta. dissera Farhi. Lá na passagem para o manancial. um só homem conseguiria conter um exército. descendo o alfanje como um louco até que os braços sumiram de vista. bradei.Por isso. decepando dedos. ouvíamos o pesado impacto de uma marreta à medida que os muçulmanos batiam na porta de pedra.

entretanto. A abertura que fizéramos no vão emparedado diminuíra. Os franceses certamente haviam nos seguido (como eu temera). somente a perfídia de Silano. monsieur Gage!". Mas ou a cal aglomerante se solidificava depressa. Desta feita. enquanto Little Tom cambaleava como um . disse-me pelo buraco encolhido uma voz conhecida. e o buraco ficava pequeno demais. De algum modo. Mais uma vez. A pedra derradeira foi encaixada na nossa cara. ou a alvenaria estava reforçada do outro lado com entulho e vigas. Eu. ganharia tempo para os outros enquanto eles fugiam. bradou Ned. Estávamos encurralados por nossa própria previdência. Ned começou então a bater com os punhos no vão emparedado. ele falava pelo que agora era o vazio de um único bloco de pedra! Então não era mágica coisa nenhuma. Eles então começaram a tapar nossa rota de fuga com a saca de argamassa que Big Ned deixara ali. prendendo-nos ali. mudara. arrebentado o cadeado de Jericó na grade do Tanque de Siloé e ouvido nossos gritos quando não achamos tesouro algum.escaváramos apenas uma hora antes. Que mágica era aquela? "Au revoir. era a voz do pretenso inspetor de alfândega que tentara assaltar-me na França e com quem eu lutara em Jerusalém quando seus capangas pegaram Miriam. as pedras estavam se reempilhando. pois o fuzileiro quicou como uma bola ao lançar-se contra ela. usando alfanje e fuzil. Que maldita bagunça! Algo. "A argamassa ainda não secou!".

As balas ricochetearam e impuseram alguma hesitação. de modo áspero e abrupto. Virando-se de lado. Houve um estrépito. de cujos dedos pingava sangue. explicou ele. disse Tentwhistle. nosso golias pegou a Virgem Branca e a arrancou do nicho. "Não temos tempo para isso!". Logo atrás do judeu. "Os muçulmanos vão conseguir passar por aquela porta de pedra lá em cima e descer pela escada da Virgem Negra!" "A escada da Virgem Branca!". Big Ned empurrou até mesmo a mim à frente dele. Ned mal conseguiu espremer-se pela entrada da escadaria enquanto arrastava a Virgem pela cabeça. olhando admirados e então berrando quando nos avistaram no lado oposto. Por fim. comprimindo-nos um após o outro para subir os degraus. Jericó empurrava a irmã com força. Do lado oposto. Farhi se espremeu para passar pela Virgem Branca e começou a subir aquela escadaria.bêbado. Com os músculos quase explodindo. "É nossa única chance!" Corremos de volta para o salão templário. e o eco de belicosos berros em árabe desceu pela escadaria da estátua escura. Isso colocou entre . o resto de nós também bateu em retirada pelo salão dos templários. "Eu cuido dessa corja!". Eles haviam passado! Tentwhistle e eu chispamos para o pé da escadaria e atiramos às cegas para cima. Depois. Agora os perseguidores estavam adentrando o salão dos templários. fazendo que o corpo de pedra da estátua obstruísse a estreita passagem. gritou Farhi. segurando o braço com a mão.

correndo desnorteadamente. Aproveitei a pausa para recarregar o fuzil. Dispararam-se mais tiros.nós e eles um tapadouro parcial. a escadaria da Virgem Branca só podia ter sido construída para possibilitar o acesso secreto da sede principal dos templários às câmaras e túneis abaixo. O ferro reverberou como um gongo. Voltamo-nos e subimos com dificuldade. Eles começaram a puxar para soltar a Virgem. com a fileira de arcos e janelas elevadas fazendo do enorme espaço interior um cruzamento arquitetônico de palácio árabe com igreja européia. as balas. Corremos desabaladamente para a porta da mesquita. Seguimos desesperadamente escadaria acima. certamente para avisar os compatriotas do Monte do Templo de nossa iminente saída. na mesquita de El-Aqsa. Eu ouvia a turba lá embaixo berrar de frustração enquanto investiam contra a estátua que bloqueava nossa rota de fuga. urrando de raiva e decepção. que nos fechava do lado de dentro. Topamos com um portão gradeado de ferro. Saímos no alto do Monte do Templo. empurrando-o violentamente e fazendo-o bater na parede. Na imensa plataforma do templo. ricochetearam inofensivamente nos degraus mais baixos. Deramse alarmes. arremeteu contra a obstrução e retrocedeu. Reparei em como ela fora modificada pelos cruzados. iluminada apenas pela luz tênue do céu antes do . Uma onda de muçulmanos. Tentwhistle estourou o fecho com um disparo de pistola e escancarou o portão. porém. Como Farhi adivinhara.

havia poucos janízaros e poucas armas de fogo. com um grande urro. tudo pesando bem mais de uma tonelada . A multidão cantava. eu enxergava a azulejaria azul e a coroa dourada do sereno Domo da Rocha. Afortunadamente. Mais além. voltou-se em uníssono e veio à carga. disse-me Ned. "Mas que porcaria é estar contigo!". com sua porta fervilhando enquanto homens entravam e saíam consternados de lá. dava gritos de alarme. pululavam centenas de muçulmanos toscamente armados. que podem ser baixadas com cordas brancas de algodão. Quando a multidão veio irrompendo por ali. Então. caindo com enorme estrondo ao sepultar o líder da turba e dispersar o restante. a mesquita de El-Aqsa é alumiada por enormes lâmpadas pendentes de bronze.estava suspensa sobre a entrada principal. À noite. Uma dessas lâmpadas .alvorecer. como abelhas numa colmeia que acabasse de ser chacoalhada. mirei. numa base de metal de dez pés de largura. Foi o bastante para dar a nosso destacamento de trogloditas sujos e cobertos de sangue os preciosos segundos necessários para . olhando ressabiados para cima. e aí aquela gente toda. brandia porretes. Nossos perseguidores retrocederam momentaneamente. A bala rompeu a corda.com diversas dúzias de chamas individuais. pus no retículo de fios cruzados a corda e o gancho que a segurava no teto decorado e atirei. eu mirei pela luneta do fuzil. e a lâmpada desceu como se fosse uma guilhotina. Alguns dos muçulmanos acabaram nos vendo.

e desta vez a porta se arrebentou e se abriu. E. ou o Buda em suas andanças? Seriam todos os credos.que nos retirássemos rumo à parte traseira da mesquita. cingindo a cidade lá embaixo. Teria também ele ouvido falar do Livro de Tot? O que aprendera Jesus no Egito. entrando nas pequenas ante-salas além do grande salão. ouvi a multidão bradar. mitos e narrativas um interminável entrelaçar e exagerar de antigos textos. no ponto onde a El-Aqsa e o Monte do Templo encontravam a muralha da periferia da cidade. temendo muitíssimo algum beco sem saída que nos encurralasse ali. de mistérios ocultos por ainda mais mistérios? O que eu estava pensando era heresia . de sabedoria constituída sobre a sabedoria anterior. procurando e talvez achando a sabedoria. Mas. . a muralha se voltava para oeste. eu não conseguia deixar de matutar. havia outra porta trancada. Corremos o máximo que podíamos pelos gastos tapetes vermelhos que cobriam as lajes da mesquita. A muralha acompanhava a extremidade sul do Monte do Templo num declive. com as lascas de madeira retorcida parecendo feridas novas na madeira antiga. cercando Jerusalém. Numa torre. "Eles pegaram as sagradas relíquias de Maomé!". Olhamos para fora. de repente. fiquei imaginando se a viagem noturna do Profeta a Jerusalém e a ascensão dele aos Céus seria apenas um mito ou se Maomé também estivera verdadeiramente ali. no centro religioso do mundo. Big Ned correu de encontro a ela a toda a velocidade.mas ali.

tendo as cimitarras prontas para que não pudéssemos fugir da cidade. em pé. prontos. Quando os primeiros dentre nossos perseguidores preencheram a porta pela qual acabáramos de sair. conseguiremos despistá-los". Nisso. e Ned caminhou de volta. Ele. cheio de dentes. golpeando com os alfanjes. com o Portão do Esterco fechado por um subpelotão de janízaros. embora as balas passassem com aquele curioso chiado quente que nos deixa paralisados se paramos para pensar no assunto. de alfanje na mão. os muçulmanos recuaram. Mas dispararam poucos tiros contra nós. vendo a lâmina molhada de sangue. Acima de nós. Jericó. Enquanto isso. Então descemos pela escada da muralha para uma rua de Jerusalém. foram tu e a biscate da tua irmã que mostraram o caminho. "Causaste o mal". disse ele." E batemos em retirada mais uma vez. nós atiramos. os parapeitos estavam . "Se bem me lembro. parecia nauseado. arfante. "Agora eles vão pensar duas vezes". ferreiro. Tentwhistle e eu recarregávamos nossas armas no parapeito e Ned e Jericó ficavam parados. Ned e Jericó arremeteram para a fumaça."Se entrarmos naquele labirinto de ruas. rumo aos degraus que desciam para o Portão do Esterco. rápido e firme. disse Farhi. os três cambaleando de exaustão. Ouviram-se berros. começaram a andar em passo rápido e constante pelo parapeito da muralha. Se a multidão estivesse mais bem armada. teríamos sido mortos. Miriam e o ferido Little Tom. com um sorriso de orelha a orelha. disse ele ao fuzileiro.

Farhi desapareceu. iluminada por tochas que formavam uma cobra de fogo. conduziu-nos morro acima para a Sinagoza de Ramban e o Portão de Jafa. e sinos cristãos badalavam. Ide para casa!" . Em instantes. A menos que conseguíssemos socorro. indo para o outro lado. exortou Farhi. Multidão colidiu com multidão. ofegante. Cristãos alertavam que o verdadeiro objetivo dos muçulmanos era a igreja do Santo Sepulcro. A multidão muçulmana vinha atrás. Judeus se apressaram a conter a multidão que irrompia no bairro deles. Com isso. berrou Farhi para os aflitos judeus quando estes saíram correndo para as ruas. Mesmo se eu conseguisse tempo para recarregar o fuzil. tínhamos agora um escudo. criou-se o caos. ovelhas baliam. Cães uivavam. "É nossa única chance!" Agora se ouviam gritos de alarme dos minaretes. "Para o bairro judeu!". o tiro único que poderia dar não deteria em nada a fúria despertada por termos passado por baixo do Domo da Rocha. Tínhamos acordado a cidade inteira. "Arranjai aliados cristãos! Os muçulmanos estão se sublevando!" "As sinagogas! Salvemos nossas casas sagradas!" Com isso. Farhi.apinhados de muçulmanos que chispavam aos gritos para a escada. vós morais aqui. Uma cabra apavorada passou a galope por nós. Gente aos berros correu para as ruas. "Eles querem queimar as sinagogas de Ramban e de Yochanan ben Zakaü". estávamos perdidos. Eu instei com os outros: "Vamos nos separar! Jericó e Miriam.

Tentwhistle me puxou." Coloquei os serafins nas mãos de Miriam. "Leva-os e esconde-os até que nos reencontremos. "Não . Smith está organizando a defesa de Acre. "Vai. olhei para trás." Jericó me fitou com um misto de raiva. "Então pegai o que puderdes e escapai para o litoral. com amargura. antes que seja tarde demais também para nós!" E assim nos separamos." "Vem conosco!". pois sois da terra. desalentado. saindo às ocultas quando escurecer. quando o acharmos. Nós. desespero e esperança. "Vão saquear e queimar a minha casa. "Ainda haveremos de achar o que procuramos!" . Nós nos encontraremos em Acre. seremos ricos. Procurai lá a proteção dele. Não te preocupes. "Vinde. rogou Miriam. "Não podemos mais ficar em Jerusalém. insisti." "Perdi a minha casa e o meu bom nome por um subterrâneo vazio". antes que seja tarde demais para a tua irmã!" Ao mesmo tempo." Ele me olhou feio. Vamos na direção oposta. Enquanto corríamos. "Tu sabes que havia. apertando-as.sozinhos. para o casal de irmãos. disse Jericó. "Havia alguma coisa ali". vai." A culpa me deu náuseas. O resto de nós dá tanto na vista quanto bonecos de neve no verão. para dar-vos tempo. A pergunta é: onde estará esse algo agora? Em todo o caso. podemos correr ou sumir de vista. os europeus."Ouvi muçulmanos chamarem o meu nome". disse Jericó. Fui reconhecido. provavelmente conseguireis viajar sem que vos molestem.

" "Mas e o tesouro?"." . com o braço pegajoso de sangue. Ele saberá onde tentar agora. Little Tom. provavelmente para controlar os distúrbios ou procurar por nós . "Ficamos por aquilo mesmo? Vamos desistir?" "Vistes que ele não estava lá. Os guardas tinham saído. "Se viajarmos à noite. O céu mal começava a avermelhar-se. mas seguia em frente. Desaferrolhamos as grandes portas. as chamas. Precisamos ver onde procurar em seguida. "Daremos a volta à muralha da cidade até o norte e pegaremos a estrada para Nablus". Queira Deus que eles não tenham pegado Farhi. demasiado devagar e demasiado sem esperança. as tochas e a aurora que se aproximava tinham alaranjado o céu acima das muralhas da cidade. À nossa direita. perguntou Tentwhistle. mas Jericó e Miriam já haviam se perdido nas multidões tal qual restos de naufrágio no mar agitado.Eu e os britânicos nos dirigimos ao Portão de Sião. Mais adiante. Entramos no bairro armênio e chegamos ao portão.e isso era nosso primeiro golpe de sorte em todo aquele fiasco. com o Tanque de Siloé em algum lugar na escuridão lá embaixo. poderemos chegar a Acre em quatro dias e levar informações a Sidney Smith. ainda havia sombras protetoras. íamos aos tropeções. não conseguia apressar-se. Lá atrás. o Vale de Hinom. disse eu. À esquerda. brioso. empurramos com força e passamos para campo aberto. Olhei de novo para trás. estavam o Monte Sião e a Tumba de Davi.

e atirei. Tentwhistle tossia sangue. Nisto. "A gente sempre cuida de salvar primeiro a própria pele"." Outra bala zuniu acima de nós. com as balas acertando a poeira. Ele tombou. Tinham saído na surdina do Tanque de Siloé. "Potts . e o som de um disparo ecoou pelo morro acima. "Tudo o que conseguirás é atrair a mira deles com o clarão da tua arma". Eu me agachei ao lado de Tentwhistle e mirei. então. Vou segurá-los por um momento. acho que ele está nos traindo. "Está certo. Ned pegara a pistola de Tentwhistle e disparou também. os mesmos franceses que haviam pegado Miriam."Não. Por que precisava sair de fino daquele jeito?" Isso também me encafifava. ouvido o pandemônio e esperado ao pé da muralha até que alguém aparecesse. mas nossos agressores não estavam dentro do alcance de balas de pistola. Depois veio outro.que nos faças ganhar tempo. chefe . Recarreguei. e mais outro. freneticamente. Tentwhistle sentou com um grunhido. Ele não viveria muito mais. já bem grogue. eu lhe disse. com Tom seguindo-os. "Leva Tom e o capitãotenente de volta pelo portão. o capitão-tenente pareceu ter um espasmo. Lindo fuzil. e seus olhos estavam vidrados. disse Big Ned." Ned começou a arrastar Tentwhistle de volta. Minha luneta achou um dos tocaieiros. e depois podemos despistá-los no bairro armênio. E então ouvi as palavras em francês: "Eles estão ali! Espalhai-vos! Não os deixeis fugir!" Era o grupo que tentara nos emparedar nos túneis.

e de fininho. no sentido do portão." Estava ficando mais claro. como o capitãotenente mandou!" "Ele está acabado. não é verdade?" "O quê?! Vais me deixar à mercê deles?!" "Talvez possas liderá-los como nos lideraste. mal cheguei à muralha. És tu quem sabe dos segredos do tesouro. "Ned! Abre!" Então ouvi uma ordem em francês. olhei de relance para trás. Eu estava tal qual um condenado no muro de fuzilamento. e. fui de costas..morto. Os britânicos já haviam entrado pelo portão. És mesmo uma inspiração desgraçada. e nós também. Elas bateram como granizo contra o ferro do portão. Então. aí.era hora de ir! Agachado. Acabamos perdendo os amigos. chefe." "Não acho que esses franceses vão se preocupar muito com os coitados de uns britânicos. Ned . dois de nós feridos. Tornei a atirar e. disse Ned em voz alta. trancando-me do lado de fora. Não era mais hora de recarregar . ouvi um rangido . Não compensa roubar de marujos honestos no carteado." .o portão estava se fechando! Chispei para lá. "Sozinhos? Pelo amor de Deus. não?" "Maldição.. chefe". "Depressa eles estão chegando!" "Acho que vamos seguir sozinhos.fiquemos juntos. Ouvi o baque surdo da trava. Vultos escuros se achegavam como lobos a rondar a presa. Balas ricocheteavam à medida que os franceses se aproximavam em bando. e me atirei de cara no chão antes do disparo de uma salva de balas. o portão foi batido com estrondo.

Pierre Najac.só fui mais esperto!" "Dá na mesma.. a vosso dispor. "Ned!" Debruçado. "Ned! Deixa-me entrar!" Mas não deixou." "Ned."Mas eu não roubei . Só que eu também tenho . monsieur?" Eu me levantei devagar. "Tendes mesmo talento para estar em todo lugar. O mais alto dos agressores sorriu." — 10 — . Os franceses haviam se insinuado até poucas jardas de onde eu estava.ou não?" O dele era o sorriso dos torturadores. bati com força no ferro inflexível. lá da diligência de Toulon. "Saíram frustrados de um jogo de cartas. Ele tirou o tricornio em saudação e fez uma reverência. é claro. abre este portão!" Mas não havia resposta. enquanto eu fazia força para ouvir por sobre o tumulto da cidade a retirada deles. só o portão mudo. gritou o líder. "Imagino que ainda vos lembrais de mim. O que aconteceu com vossos amigos. Então teu verdadeiro nome é Najac?" "Verdadeiro o bastante." "Eu me lembro de ti .. Voltei-me. "Nós nos despedimos por baixo do Monte do Templo e agora tornamos a nos encontrar!".o inspetor de alfândega que se revelou ladrão. monsieur Gage. e vários mosquetes apontavam para mim.

Era o que eu lhe causara um ano antes. A pequena cratera ficava poucas polegadas abaixo do mamilo esquerdo. tão logo o assamos o bastante. "Abala quebrou uma costela". de mãos e pés amarrados. explicou. Depois. descobri que talvez estivésseis vivo e que eu poderia ajudar meu amo a ir em vosso encalço. Primeiro. não concordais?" "Saberás a resposta quando eu finalmente te matar.e." Ele riu de minha piadinha. após a convalescença. mais para o mesmo flanco. ergueu-se e me chutou a têmpora com tanta força que a noite se dissolveu em pontos brilhantes de luz. quando viemos para cá. num tronco que certamente não via sabão nem água fazia um mês.Eu soube que estava no inferno quando Najac insistiu em mostrar seu ferimento de bala. Isso divertiu muitíssimo meus captores. abriu o bico e disse tudo sobre ter encontrado um franco que levava consigo os anjos de ouro de Satanás. confirmando que minha pontaria não fora perfeita por pouco. melhor. Foi aí que eu soube que devíeis estar por perto. e foi a lenta combustão de minhas roupas e a dor resultante que enfim me incitaram o suficiente para me contorcer para longe. cometestes a estupidez de mandar fazer perguntas no Egito. quanto mais frio. mas o fato é que eu . Caí de frente na fogueira. rubro e coberto de crosta e cicatriz. pegamos um tolo caduco que. Agora eu também sabia que ele fedia. A vingança é um prato que se come frio . "Imaginai minha satisfação quando.

não percebera que alguém (Big Ned ou Little Tom.sempre gostei mesmo de ser o centro das atenções. Minha insistência em que não acháramos nada no subsolo . sendo ladrão. Ali. o bando de Najac inchara para dez valentes. um sinal de que eu estaria ficando melhor em dar cabo de meus inimigos. ele se apropriou. Tive a esperança de havê-lo liquidado. perguntaram. Era a noite subseqüente à nossa partida de Jerusalém. a queimadura me manteve febril. segundo presumi) me surrupiara a bolsa de moedas. Eu confiara os serafins a Miriam e. metade deles eram franceses. estava faltando não só metade da dentição dessa turma. tão desalinhados e sujos que pareciam ser o rebotalho da Arábia. uns sapos. O que. mas também o francês que eu apunhalara na briga por Miriam. e o medo e a dor eram as únicas coisas que me faziam continuar consciente. beduínos. Mas talvez também ele estivesse convalescendo. com toda aquela agitação. Estava exausto. e os restantes. sonhando com o dia em que poderia igualmente me capturar e chutar. eu estivera fazendo lá embaixo se não havia o que descobrir? . De algum modo.não caiu bem.em que Jerusalém se mostrara uma decepção tão grande quanto o Egito . O humor de Najac não melhorou com a descoberta de que eu não levava nada de valor além do fuzil e da machadinha. Em seguida. dolorido e terrivelmente sozinho. coisas de que. de tão feios.

Vendo a pedra fundamental do mundo pelo outro lado. armando tendas brancas diante das muralhas de Jafa. estavam de . Então continuamos por uma trilha batida que ia desde os montes de Jerusalém até a planície litorânea. "Eu vos assaria agora mesmo se Bonaparte e o amo não vos quisessem vivo". as passagens sob o Monte do Templo deviam estar tão agitadas quanto um formigueiro. tive uma estranha sensação de volta ao lar quando chegamos ao acampamento de Napoleão. Ele deixou que os árabes se entretivessem usando suas adagas para jogarem brasas em meus braços e pernas. respondi. Eu enfim apaguei numa escuridão exausta. de modo que eu era a única pista que tinham. com o horizonte já marcado por colunas de fumaça. Nessa altura dos acontecimentos. mas hesitavam em matarme. Eu marchara com o exército de Bonaparte e encontrara a divisão de Desaix em Dendara. na manhã seguinte. A balbúrdia acabara com qualquer chance de que aquela quadrilha franco-árabe pudesse voltar. Eles me espancaram. Ainda haveria bastante tempo para fazer-me berrar de dor. O exército francês andava bem ocupado. com os muçulmanos provavelmente sem entender o que procuráramos. sacudiram-me dolorosamente para um desjejum de água e pasta de grão-de-bico. Agora. até que. rosnou Najac. Apesar do cativeiro. mas não muito mais que isso.

e seu esterco tinha aquele cheiro adocicado familiar. Os baldaquinos e os tapetes pendurados haviam sumido. zonzo e fatalista. homens olhavam com curiosidade para o bando de Najac. e alguns. De modo similar. apontavam para mim porque me reconheciam.novo homens em uniformes europeus. Terra e areia frescas estavam sendo escavadas para as obras de cerco. e tivera aquela mesma vaga sensação de nauseado . onde haviam sido amarrados a estacas. muitas das laranjeiras que abrigavam o exército de Napoleão haviam sido reduzidas a lenho bruto pelo fogo de artilharia otomano. e as fortificações exibiam as feridas frescas das balas de canhão. mais uma vez. e eu fiquei sem chapéu ao sol do Mediterrâneo. À medida que passávamos montados pelas fileiras. Senti o cheiro de comida conhecida e. surpresos. Certa vez. mas desta feita via-a da perspectiva do sitiador. relinchando e arrastando os cascos com o canhoneio. Estava sedento. e longas fileiras de animais da cavalaria francesa se agitavam nervosamente à sombra. E agora lá estava eu. desertor e prisioneiro. Não muito antes. Suas caudas espantavam as moscas como metrônomos. eu fora um de seus savants. Najac entrou no amplo pavilhão de lona de Bonaparte. ouvi a sonoridade alegre e elegante da língua francesa. eu caíra de um despenhadeiro no rio São Lourenço. que lhes arrancara a copa. girando sem parar. A própria Jafa me era familiar.

até quicar num arbusto. e ir parar dentro do rio.tens notícias de Astiza?" "A mulher? Mas ela foi embora contigo!" "É. "Gaspard!". mas acabaram nos apartando. homem .arrependimento . como ele ficou furioso com essa patuscada! Flutuastes para longe. o homem que ajudara a solucionar parte do enigma da Grande Pirâmide. chamei." "Embarcastes os dois num balão . "Gage?" Ele forçou a vista ao aproximar-se. como também desconhecia nossa entrada na pirâmide. O rosto mostrava uma barba de vários dias. Seu traje civil estava cada vez mais surrado.. mas pareces não ter mesmo nenhum juízo. acima das pedras.. Agora. Como o resto de nós vos invejou!.. "O que fazes aqui? Achei que te houvesse mandado voltar para a América!" "Eu tentei." "Nisso. e bem depressa resolvi que seria . O homem tinha cinqüenta e dois anos e estava esgotado.." Ele não apenas não sabia nada do paradeiro de Astiza. nós dois concordamos. doutor Monge. o célebre matemático francês. Ah. E agora estás de volta a este manicômio?! Por Deus. Monge acompanhava o exército à Palestina. Ele era confidente de Napoleão desde os triunfos do general na Itália e o orientara e educara tal qual teria feito com um sobrinho genioso e cabeçudo. Escuta .eu sabia que não eras um savant de verdade.foi o que Conte me disse. Era Monge. em voz alta. com as calças remendadas nos joelhos e o casaco esfarrapado. E ali talvez estivesse também meu arbusto salvador.

expliquei. "Astiza caiu no Nilo. o aeronauta da expedição francesa. o que aconteceu contigo?!" "Ele é espião inglês". saindo da tenda. Se os franceses porventura ficassem cientes de que havia coisas de valor lá embaixo. um trapalhão. por isso. Ninguém o levaria a sério como espião. já que lhe furtara o balão de observação. queimado.melhor não lhe contar. eles explodiriam a edificação." Nisto. um errante. "Estás sujo. Conte propôs um plano bem brilhante ." Monge se interrompeu. de mãos atadas?" Ele parecia confuso. apareceu o próprio Bonaparte. cientista. e. "E tu. desamparado . "Nicolas também está aqui?" Eu estava um pouco apreensivo ante a possibilidade de encontrar Conte. ele voltou para o sul para organizar o embarque de nossa artilharia de sítio.construir carroções de várias rodas para transportar os canhões através do deserto. e o balão acabou descendo no Mediterrâneo". respondeu Najac. percebendo que estava divulgando segredos. com a lona da entrada da tenda se enfunando .meu Deus. estamos nos arriscando ao trazer a artilharia por mar." "Espião inglês? Não sejas ridículo. "Felizmente para ti. Gage é um diletante. Melhor deixar que Faraó descansasse em paz." "Não? Nosso general leva. um parasita. Só que Napoleão não tem tempo para novas invenções. corres o risco de também se tornar suspeito só por falar com ele. "Mas o que fazes aqui.

a passada. "É verdade. os olhos cinzentos eram gelados. e. embora ainda tivesse apenas vinte e nove anos. Agora. os cabelos escuros. o sucesso e a responsabilidade haviam conferido uma dureza nova a seu rosto. Com cinco pés e meio de altura. os planos de reformar o Egito com base em princípios republicanos franceses haviam sido rechaçados e lhe valido a condenação como infiel. Gage? Desertaste para o inimigo? Rejeitaste o republicanismo. o racionalismo e o reformismo em favor do monarquismo. Assim como todos nós. mon general". O homem parecia um dedo-duro de escola. receoso. "Então. mais afalcoada.grandiosamente. como se insuflada pela eletricidade dele. era mais baixo que eu e." "Ele passou para os britânicos. e ele precisara sufocar um sangrento levante no Cairo. Josefina era adúltera. dos reacionários e dos turcos?" "As circunstâncias nos obrigaram a seguir caminhos diferentes. Eu venho . Não consegui deixar de me encolher. impaciente. disse Najac. Marchou até mim e parou. a fisionomia. general. Bonaparte se inclinou para bem junto de mim. e tinham sido abertas brechas nas muralhas de seu romantismo. quase um ano antes. Napoleão estava mais moreno que quando partíramos de Toulon. desgrenhados. és tu mesmo! Achei que tivesses morrido. espichado pelo poder. e eu já começava a desejar tê-lo baleado na língua. O idealismo de Napoleão estava sitiado. ainda assim.

. um mentiroso e um hipócrita que lutou na companhia de homens da marinha inglesa! Talvez sejas espião de fato. Gage." Então. Eu também sei que ele tem demonstrado admirável lealdade e perseverança apesar da queda que sofreu nas pirâmides. "Estou bastante ciente da tua antipatia pelo conde Silano. Gage. "Não! Se há uma coisa que aprendi. Eu tenho convicção disso!" "Silêncio!". Vós vos lembrareis de Astiza." "Aquela que fica atirando nas pessoas. Teria o conde fingido que . eu estava procurando fazer certa pesquisa histórica. inimigo de todos os verdadeiros maçons. como Monge também teve ocasião de assinalar. Minha experiência é de que o amor faz mais mal do que bem. interrompeu Bonaparte. onde Najac te apanhou?" "Na qualidade de savant. como Najac diz. "Ele é capanga do conde Alessandro Silano e adepto do herético Rito Egípcio. quando eu já estava compromissado com vossa expedição. é que não és savant coisa nenhuma! Não me faças perder tempo com absurdos! És um viracasaca. As notícias não paravam de piorar. Silano está vivo. Isso se não fosses tão tolo. O traidor é ele!" "Foi ele quem me baleou!". pensei..simplesmente tentando descobrir o paradeiro da mulher que conheci no Egito. disse Najac. esse Najac aí tentou roubar meu importantíssimo medalhão na França." Ele explodiu. E esperavas achá-la em Jerusalém." "Senhor.

" "Napoleão.. mas das pirâmides? E por que ninguém falava em Astiza? "Se fosses tão leal quanto Silano. Gage! Foste acusado de homicídio. não é mesmo?". Olha para Gage. Sou tão-somente um pesquisador americano. e ainda assim mudas de lado. como podeis ver pela minha presente condição. mon general". peremptório.. Ah.caíra não do balão. A verdade é apenas esta! Tudo o que digo é verdade. não a traição. como um pêndulo!" "O caráter sempre se revela nas ações. presunçoso.aquele comercialismo e ganância dos americanos. não terias condenado a ti próprio como o fazes agora". apanhado numa guerra que não é a minha. "O pecado dele é a incompetência. O que poderia ele saber?" Procurei sorrir como um parvo (coisa nada fácil para um homem fundamentalmente sagaz como eu). "Tudo não passou disso ." "Nenhum." "Eu buscava conhecimento". como eu queria esganá-lo! "Estavas era procurando um tesouro. é evidente que o homem está mais para tolo que para inconfidente". eu te dei todas as oportunidades. disse Najac. com um quê de verdade. corrigi. "Por todos os santos. interrompeu Monge. quis saber Napoleão. sê sincero. continuou Bonaparte. calculando que a avaliação de Monge era um . general. "E que conhecimento descobriste? Se dás valor à vida.

. "Posso dizervos que a política de Jerusalém é muito confusa". Os clarins franceses começaram a soar em resposta." Eu engoli em seco. "Ah. Todos olhamos para a cidade. "Talvez eu pudesse ajudar o doutor Monge. Meus soldados não têm muita paciência. e homens desciam o monte. com um bilhete dizendo que espias para mim. não depois da resistência que o inimigo ofereceu em El-Arish e Gaza. No lado sul. mon general!" "Tenho de ir repelir uma investida. judeus e drusos são realmente leais. "Najac!" "Oui. cornetas e gritos de guerra. não sei se mando fuzilar-te ou se te faço ir tentar a sorte com os turcos. resmungou Napoleão. "Chega!" Bonaparte fez carranca para todos nós. uma coluna de infantaria otomana transbordava de Jafa contra os franceses. ensaiei. rumo a uma plataforma de artilharia francesa ainda semiconcluída." E então se ouviu o som de disparos. com certeza!" . enquanto os canhões turcos retumbavam. ligeiros.. "Gage. Ou talvez eu devesse mandar-te para Djezzar. Eu deveria é despachar-te para dentro de Jafa e deixar que esperasses por minhas tropas lá. Consegues descobrir o que ele realmente sabe?" O homem sorriu de orelha a orelha. "Maldição". "Não está claro a quem os cristãos. Agitavam-se bandeiras.progresso em relação à de Najac.

vários soldados tinham se oferecido entusiasticamente para ajudar a quadrilha de Najac a cavar o buraco e construir a armação de tronco de palmeira em que me dependuraram.. tentou Monge mais uma vez. torturar-me era uma recompensa para o peculiar sortimento de sádicos. Quando informados de que eu era espião inglês.. será apenas para ouvir suas últimas palavras. então Bonaparte correu para o som dos disparos. sob os apupos de uma quadrilha de degoladores franco-árabes."." E. Oficialmente. chamando seus ajudantes-de-ordens. a idéia era arrancar de mim quaisquer segredos que eu ainda não houvesse compartilhado. Extra-oficialmente. . doutor Monge. algo me faz querer dizer a eles qualquer coisa que queiram ouvir .só para fazer que o maldito sangue pare de acumular-se na minha cabeça! Os franceses tinham rechaçado a investida otomana."Então vai e traz essas informações para mim. deixa que eu fale com ele. "Se voltardes a falar com ele." "Napoleão. tarados. lunáticos e ladrões de Najac. vou mandar fuzilá-lo. Não sou nenhum covarde. mas. mas não antes que os bravos turcos tomassem a bateria incompleta e matassem franceses em quantidade suficiente para que o exército de Bonaparte se enfurecesse. quando se é pendurado de cabeça para baixo num buraco de areia nas dunas mediterrâneas. Se ele não tiver mesmo serventia.

A tortura é para o torturador. e. perguntou retoricamente Najac. respondi. "Não há nada lá embaixo!" E: "Não consegui nada!" E: "Nem sei exatamente o que estou procurando!" Mas. É. até aí. com os braços livres para se agitarem. "Apófis". "O quê?" "Apófis!". repeti. obter a verdade não é realmente a razão de ser da tortura. ante o fato . venerado pelo assassino renegado Achmed bin Sadr. já que a vítima dirá qualquer coisa para fazer a dor parar. em seguida. com a voz turvada pelo fato de a boca estar onde deviam estar os pés. não?". pois se tratava do nome daquele antigo deus-cobra egípcio. quando então declararam que já estava de bom tamanho para ser meu túmulo. amarraram-me pelos calcanhares e me dependuraram da viga sobre o buraco na areia. Eu já dissera a verdade uma dúzia de vezes. um dos beduínos se adiantou com uma cesta de vime e despejou o conteúdo daquilo no buraco. mas os árabes compreenderam. Meia dúzia de serpentes caíram no fundo do buraco e se contorceram. sim. Assim. sibilantes e indignadas. mais alto. E. "Jeito interessante de morrer. Cavaram um buraco de uns bons dez pés antes de darem em alguma coisa dura. eu já topara com aquele mesmo bando desprezível. Encolheram-se ao ouvir a palavra.os quais existiam para fazer os servicinhos sujos da invasão. Ele fingiu não entender.

Vai para o inferno. mas ouvi fragmentos como "Apófis". Nós vos mataremos mais depressa. e tudo o que eu conseguia ver era uma fileira de botas e sandálias cujos proprietários faziam pouco de mim. "Eu vos amaldiçoarei pelo nome de Tot!"." "Já recebi ofertas mais tentadoras. berrei." "Depois de vós. Aquilo me fez lembrar a morte traiçoeira de Talma. Isso semeou a dúvida entre eles. recurvando as costas de modo a olhar direto para baixo. As serpentes continuavam lá. monsieur Gage. serpeando como elas gostam de fazer. coitado. A corda parou outra vez." Ele se voltou para os homens que seguravam as cordas. "Silano". Najac continuava fingindo não dar pelo nome. eles se retorceram como se estivessem trocando de pele. Depois. Não consegui acompanhar a violenta enxurrada de palavras. e teve início uma altercação em árabe. "feiticeiro" e .de eu conhecer o nome. se nos disserdes atrás do que estais realmente e o que realmente descobristes. Minha cabeça desceu ao nível do solo. e todos os fétidos delitos que Silano e sua corja haviam cometido para chegar ao livro. mais corda.o misterioso eletricista de Jerusalém . Puxei a cabeça para cima e para trás. "A morte por picada de cobra é terrivelmente dolorosa e excruciantemente demorada.sabia verdadeiramente? Fosse como fosse. meu corpo oscilava sobre a cova. monsieur. "Ide baixando . Mas quanto eu .sem parar!" A corda começou a desenrolar-se aos trancos.

A voz de Najac. Então eu adquirira certa fama.baixai-o! Devagar. rogando. elevou-se acima daquelas de seus capangas. tendo um dos pés. calçado com sandália. Gritei tudo o que achava que pudessem querer ouvir. houve o estampido de um disparo de pistola. virado sobre a borda do buraco. a . um solavanco quando caí mais dois pés e outra estancada. porque pelo menos me baixaram aos pouquinhos. Um beduíno que polemizara demais com Najac jazia morto. Muito mais daquilo. furiosa e insistente. E então. eu implorei mesmo. para que possa implorar!" Ah. "Então. para que eu continuasse oferecendo entretenimento. hein?! Eles estavam apreensivos. "O próximo que discutir comigo vai dividir a cova com o americano!". contorcendo-me. Vi uma serpente atrás da outra. Não sou orgulhoso quando se trata de evitar picada de cobra. Mas não adiantou nada . com as serpentes quatro pés abaixo. concordais comigo agora? Ótimo . Todo o meu corpo já estava dentro do buraco. O grupo ficara silencioso. De repente. e eu apagaria. meus olhos ardendo com o suor."eletricidade". alguém deu um empurrão para que eu balançasse de um lado para outro. quando minhas abjetas lamúrias começaram a ficar tediosas. como um possesso. Era uma sensação vertiginosa. Deixaram a corda descer mais um pé e pararam de novo. transpirando. Eles só podiam ter achado que eu nascera para os palcos.ou quase nada. avisou Najac. pois a discussão continuava.

se o arredondado da areia que cobria aquilo servia de alguma indicação. pois tinha o vermelho-tijolo de um cântaro ou telha de argila. assim. monsieur Gage".afinal. estavam sibilando. O sol subira. É isso que a gente consegue quando diz a verdade. Só que. talvez eu tenha visto uma coisa". Vi de novo a pá.enrolarem-se de agitação.cilíndrico. "Ergue-me. falando alto. agora. preparando-se para picar-me na cabeça. espera!" Eu estava começando a entrar realmente em pânico. "Espera. não tinha sido eu a colocá-los ali. "Bem. Não era justo que aqueles répteis estivessem tão bravos . desgraçadas. e sua luz ia pouco a pouco cobrindo meu túmulo. Não! Era um cano. Parecia um cano. "Não seria mais fácil se explicásseis o que vistes sob o Monte do Templo?" "Já te disse . monsieur Gage. e a rocha arranhada onde meus coveiros haviam parado de cavar. baixaram-me mais um pé. mas então percebi outra coisa." A corda tornou a descer. eu já não achava que fosse rocha coisa nenhuma. e eu te conto!" Eu pensaria em alguma coisa! Algumas serpentes se agitavam para cima. . disse Najac. Reparei que o formato também era regular . "Não sou de muita paciência.nada!" E. corrigime. As serpentes. com serpentes se enrodilhando ao redor. "Há uma pá aqui embaixo!" "Para tapardes vossa cova tão logo tenhais sido picado.

" A corda desceu mais. agarrei a pá e a brandi desesperadamente. Meus torturadores viram o que eu tentava fazer e me baixaram mais algumas polegadas.fato que arrancou estrondosas gargalhadas. "Acho que podeis me contar daí mesmo". "Então dizei onde ele está. disse Najac. meio retorcido ." Mais algumas polegadas para baixo. E lá fui eu descer mais uma polegada. contorcendo-me para que pudesse balançar e passar sobre o cabo da ferramenta. como meus captores estavam se divertindo! "Se me matares. Nisto. e movi abruptamente os braços para cima. e ouviu-se mais um coro de risadas. as serpentes se ergueram. e mais outra. Estiquei para baixo meus braços oscilantes.. eu estiquei a mão. uma serpente arremeteu no sentido de minha mão. Agora. prontas. perderás o maior tesouro da Terra!". "Só posso levar-te a ele se poupares a minha vida!" Eu estava de olho na pá e nas serpentes. avisei.. "Ele é. Se pelo menos as cortesãs parisienses conseguissem me achar tão divertido!.. eles estavam apostando em minha capacidade de pegar a pá antes que fosse picado por répteis rastejantes. forçando os dedos. Ainda me faltava um pé de distância para alcançar a pá largada. perscrutando por sobre a borda do buraco.. o mais que pude.Agora que eu pensava a respeito. e aí. no que elas arremeteram. Ah. "E que tesouro é esse?" Outra serpente investiu na minha direção. Acertei dois . berrei. concluía que ele se estendia para o mar.

e meu cabelo estava mergulhado num efluente que fedia a esgoto e água do mar. minhas orelhas ou minhas pálpebras. "É o Graal!" . Peguei a pá com ambas as mãos. Ninguém ficou mais surpreso do que eu. E ele se despedaçou! Jorrou líquido no buraco. "Para cima. fazendo que meu peso levasse a tosca ponta da pá contra o cano de barro. Abri os olhos.dos répteis e os atirei contra as paredes de areia do buraco. tão insatisfeitas com tudo aquilo quanto eu. Pelo bom e velho dólar. Seria aquilo alguma infame descarga de Jafa? Fechei os olhos. haviam rastejado para os cantos do buraco. para cima! Pelo amor de Deus. A corda desceu outro pé enquanto os homens lá em cima gritavam de perplexidade. Minha cabeça caiu outra vez. será que eu ia escapar da peçonha só para me afogar de cabeça para baixo?! "O Graal!". Eram cobras do deserto. fugindo do jorro fétido. pronto para a mordida de presas em meu nariz. Mas o irado sibilar estava se esvanecendo. As serpentes. Elas se agitaram desesperadamente quando caíram de volta no fundo do buraco. por favor. dobrei-me dolorosamente para cima o mais que pude. urrei. puxa-me!" "Qual é o tesouro. monsieur Gage? O que é ele?" Não consegui pensar em outra coisa para fazer. bem apertados. fiz muita pontaria e então me deixei cair de novo. dando início a uma pequena cascata ofídica. e agora a testa raspava nessa fossa pegajosa.

um resmungo furioso. começou a erguer-se de todo o exército que sitiava Jafa. com voz entrecortada e débil. Mas e se minha alegação se revelasse importante para Bonaparte? Nisto. Os árabes estavam em polvorosa. E então minha cabeça subiu acima do nível do solo. com as serpentes tentando escalá-lo e voltando a cair. dizendo que eu era um feiticeiro que operara alguma espécie de milagre elétrico para tirar água da areia. Najac olhava incrédulo para a pá em minhas mãos. e eles começaram a alçar-me. — 11 — . Agora podes. por favor. peremptoriamente. me dar um tiro?" E é claro que ele teria gostado de fazer isso. o buraco continuava a encher.Com isso. "O que dizíeis?!". perguntou Najac. e meu tronco girava como um corte de carne de boi no gancho. "O Graal". "O Santo Graal. Lá embaixo. respondi. Meus calcanhares continuavam amarrados. crescendo até transformar-se em bramido indignado. Najac deu uma ordem ríspida.

Não podemos justificar as atrocidades, mas às vezes podemos explicá-las. As tropas de Bonaparte vinham lutando contra a desilusão desde o verão anterior, quando desembarcaram no Egito. O calor, a miséria e a hostilidade da população - tudo isso, enfim - foram um choque para os franceses. Eles haviam tido a expectativa de ser recebidos como salvadores republicanos que traziam as dádivas da Ilustração. Em vez disso, precisaram enfrentar resistência militar, foram vistos como infiéis e ateus, e os remanescentes dos exércitos mamelucos vinham do deserto para fazer incursões contra eles. Nas aldeias, as guarnições viviam sob a constante ameaça do envenenamento, ou da punhalada no escuro. A resposta de Napoleão foi continuarem marchando adiante. Em Gaza, a resistência se mostrou inesperadamente acirrada. Prisioneiros turcos haviam sido libertados após terem prometido que não voltariam à luta, mas oficiais franceses, com lunetas, viram que as mesmas unidades guarneciam agora as muralhas de Jafa - e aquilo violava uma norma fundamental do modo europeu de guerrear! Mesmo isso, porém, talvez não houvesse desencadeado os massacres que se seguiram. O que causou a tormenta de fúria foi a decisão do comandante otomano, o agá Abdalla, de responder à oferta de rendição apresentada por Napoleão matando os dois emissários franceses e enfiando as cabeças deles em estacas.

Isso foi precipitação da parte de um muçulmano orgulhoso cujas tropas se encontravam em inferioridade numérica de três para um. O exército francês, como um leão provocado, rugiu. Agora, não poderia haver nenhuma clemência. Passados minutos, teve início o canhoneio - uma detonação quando ocorria o disparo, um sibilar quando os projéteis cortavam o ar, uma erupção de poeira e fragmentos quando eles atingiam a alvenaria da cidade. A cada impacto certeiro, as tropas francesas davam vivas, até que o bombardeio, desgastando constantemente as defesas de Jafa, se estendera por horas e horas e se tornara monótono. Pelo leste e pelo norte, cada canhão disparava de seis em seis minutos. Pelo sul, onde a artilharia francesa apontava para a cidade por sobre uma ravina com vegetação densa (que daria boa cobertura para tropas que viessem tentar o assalto às fortificações), os canhões estrondeavam de três em três minutos, abrindo lentamente uma brecha nas muralhas. A artilharia otomana respondia, mas com peças antigas e pontaria enferrujada. E é claro que teria gostado de fazer isso. Mas e se minha alegação se revelasse importante para Bonaparte? Nisto, um resmungo furioso, crescendo até transformar-se em bramido indignado, começou a erguer-se de todo o exército que sitiava Jafa. Najac se deteve para ver suas serpentes se afogarem e depois me acorrentou a uma laranjeira enquanto observava o bombardeio e ponderava o que eu dissera. A batalha era um pandemônio a

que ele preferiu não deixar de assistir, mas presumo que arranjou um minutinho para informar Napoleão de minha tagarelice sobre o Santo Graal. A noite chegou, as fogueiras pareciam pulsar em Jafa, mas não me deram comida nem água, só me restando o monótono bater de tambor da artilharia. Acabei dormindo ao som desse rufar. O nascer do sol revelou uma grande brecha na muralha meridional. As casas brancas, empilhadas como um bolo de noivas, estavam marcadas por novos buracos escuros, e a fumaça encobria Jafa. Os franceses apontaram sua artilharia como se fossem cirurgiões, e a brecha se alargou de modo firme e constante. Eu via dezenas de balas sólidas de canhão jazerem no entulho da base da muralha, tal qual uvas-passas em massa de panificação. Em seguida, duas companhias de granadeiros, acompanhadas por sapadores que levavam pólvora, começaram a aglomerar-se na ravina. Atrás delas, mais tropas se aprestavam. Najac me desacorrentou. "Aí vem Bonaparte. Provai vossa utilidade se não quiserdes morrer." Napoleão estava em meio a um aglomerado de oficiais. Era o menor em estatura, o maior em personalidade, aquele que gesticulava mais vigorosamente. Os granadeiros estavam marchando em fila pela ravina, batendo continência para o general ao se aproximarem da brecha na muralha de Jafa. As balas de canhão otomanas caíam com estrépito, agitando violentamente a folhagem como um urso ao aproximar-se da presa. Os soldados seguiam sem

deter-se pelo fogo impreciso e pela concomitante chuva de folhas cortadas. "Veremos agora quais cabeças acabam na estaca!", disse um sargento em voz alta quando eles passaram com baionetas caladas, e pisadas duras e ritmadas. Bonaparte sorriu de modo sinistro. Os oficiais nos ignoraram por um tempo, mas, quando as tropas avançadas iniciaram o assalto, Napoleão voltou sua atenção abruptamente para mim, como se quisesse ocupar os momentos de ansiedade em que aguardaria o sucesso ou o malogro do assalto. Ouviu-se um clangor de mosquetes quando os granadeiros saíram do arvoredo e investiram para a brecha, mas o general nem sequer olhou para lá. "Então, Gage, eu soube que agora operas milagres, tirando água de pedra e afogando serpentes." "Eu achei uma velha tubulação." "E, se bem entendi, o Santo Graal." Tomei fôlego. "Trata-se da mesma coisa que eu estava procurando nas pirâmides, general, e da mesma coisa que buscam o conde Alessandro Silano e seu depravado Rito Egípcio, para possível prejuízo de todos nós. O Najac, aqui está ele próprio mancomunando com biltres que..." "Gage, eu venho suportando tuas divagações há muitos meses, e não me lembro de ter obtido algum benefício com isso. Se te recordas, eu te propus uma parceria, a oportunidade de reconstruirmos o mundo por meio dos ideais de nossas duas revoluções, a francesa e a americana.

Mas preferiste desertar de balão - é ou não verdade?" "Mas foi só por causa de Silano..." "Tens esse Graal ou não?" "Não." "Sabes onde ele está?" "Não, mas estávamos procurando quando o Najac aqui..." "Sabes ao menos o que é esse Graal?" "Não exatamente, mas. Bonaparte se voltou para Najac. "É evidente que ele não sabe coisa nenhuma. Por que o tiraste da cova?" "Mas lá ele disse que sabia!" "E quem não diria qualquer coisa quando as tuas malditas cobras estão lhe mordendo a cabeça? Chega de bobagens tuas e dele! Quero que esse homem sirva de exemplo - ele é não só inútil, mas também enfadonho! Faremos o americano marchar diante da infantaria e ser fuzilado como o vira-casaca que é. Estou cansado de maçons, feiticeiros, cobras, deuses decrépitos e todos os outros tipos de lenda idiota que ouvi desde que iniciei esta expedição. Sou membro do Institut de France! Nossa pátria é a encarnação da ciência! O único "Graal" é o poder de fogo!" Nisto, uma bala de mosquete arrancou o chapéu da cabeça do general e acertou o peito de um coronel ali atrás, matando o homem. Bonaparte teve um sobressalto, fitando de olhos arregalados enquanto o oficial caía. "Mon Dieu!" Najac fez o sinal-da-cruz, o que eu considerei o cúmulo da hipocrisia, já que sua religiosidade cristã valia tanto quanto o dinheiro fajuto que o Congresso Continental emitira durante nossa

Guerra de Independência. "É um sinal! Não deveis falar como falastes!" Napoleão empalideceu momentaneamente, mas recuperou a compostura. Franziu o cenho para o inimigo, que pululava nas muralhas; olhou para o coronel estatelado; e apanhou o chapéu no chão. "Foi Lambeau quem levou o tiro, não eu." "Mas o poder do Graal!..." "Esta é a segunda ocasião em que a estatura me salva a vida. Se eu tivesse a altura do nosso general Kleber, já teria morrido duas vezes. Está aí o teu milagre, Najac." Meu captor estava paralisado pela visão do buraco no chapéu do general. "Talvez seja um sinal de que ainda podemos ajudar uns aos outros", ensaiei. "E quero o americano não só amarrado, como também amordaçado. Mais uma palavra, e eu mesmo vou fuzilá-lo." Com isso, minha situação não melhorou em nada, e Bonaparte se afastou a passos largos e pomposos. "Pois muito bem, já temos uma cabeçade-ponte! Lannes, põe naquela brecha um dos canhões ligeiros!" Perdi muita coisa do que aconteceu em seguida, e sou grato por isso. As tropas otomanas resistiram com ferocidade, tanto que um capitão dos engenheiros chamado Du Bois-Aymé precisou descobrir um caminho pelos porões de Jafa para surpreender o inimigo por trás - e à baioneta. Então, soldados franceses furiosos começaram a enxamear-se pelas vielas da cidade.

Entrementes, no lado norte de Jafa, o general Bon transformou seu ataque diversionário num assalto pleno, que conseguiu penetrar as defesas por aquela direção. Com as tropas entrando em grande número, o moral dos defensores ruiu, e os recrutas otomanos começaram a render-se. Mas a ira francesa ante a tola decapitação dos emissários não amainara, e a matança e os saques primeiro não foram reprimidos e depois viraram furor coletivo. Fuzilaram-se e baionetaram-se prisioneiros. Pilharam-se residências. Quando a noite veio ocultar os resultados de uma tarde sangrenta, soldados aos berros cambaleavam pelas ruas sob o peso do butim. Enfiavam mosquetes pelas janelas das casas e disparavam lá para dentro. Brandiam sabres úmidos de sangue. Os saqueadores se negavam até a parar para ajudar seus próprios feridos. Oficiais que procuravam deter o massacre eram ameaçados e empurrados para o lado. Arrancavam-se véus dos rostos das mulheres, seguindo-se as roupas. Todo marido ou irmão que tentava impedir era abatido a tiros, e as mulheres, estupradas à vista dos cadáveres deles. Não se respeitaram mesquita, igreja nem sinagoga, e muçulmanos, cristãos e judeus, indistintamente, morreram nas chamas. Crianças jaziam aos berros por sobre os corpos dos pais. Filhas imploravam por misericórdia enquanto eram violadas em cima das mães moribundas. Prisioneiros eram arremessados do alto das muralhas. Os incêndios encurralaram os idosos, os doentes e os insanos nos cômodos onde estes haviam-se escondido. O sangue corria pelas

sarjetas tal qual água de chuva. Em uma única e monstruosa noite, todo o medo e toda a frustração de quase um ano de implacável campanha militar foram descontados numa única e impotente cidade. Um exército de racionalistas, vindo da capital da Razão, ensandecera. Bonaparte sabia que não devia tentar estancar esse transbordamento; reinara a mesma anarquia em milhares de saques anteriores, desde Tróia até as pilhagens dos cruzados em Constantinopla e Jerusalém. "Nunca se deve proibir o que não se tem poder para impedir", comentava ele. Ao amanhecer, a comoção entre os soldados já se esgotara, e eles, exaustos, esparramavam-se no chão como suas vítimas, atônitos com o que tinham feito, mas também saciados, como sátiros após uma orgia. Aplacara-se uma ira ávida e demoníaca. Na seqüência, Bonaparte se viu com mais de três mil prisioneiros otomanos - homens macambúzios, famintos, aterrorizados. Napoleão não se esquivava de decisões difíceis. Apesar de toda a sua admiração pelos poetas e artistas, ele era fundamentalmente um homem da artilharia e da engenharia. Estava invadindo a Palestina e a Síria - uma terra de dois milhões e meio de habitantes - com treze mil soldados franceses e dois mil auxiliares egípcios. Quando Jafa caiu, algumas dessas tropas já exibiam sintomas da peste bubônica. O extravagante objetivo de Napoleão era marchar até a índia, tal qual Alexandre antes dele, liderando um exército de recrutas orientais, estabelecendo um império.

Mas Horatio Nelson já destruíra a esquadra francesa e o impedira de receber reforços; Sidney Smith estava ajudando a organizar a defesa de Acre; e Bonaparte ainda precisava aterrorizar o Açougueiro o bastante para que este capitulasse. Não ousava libertar os otomanos aprisionados, nem tinha condições de guardá-los ou alimentálos. Assim, resolveu executá-los. Foi uma decisão abominável numa carreira controversa, ainda mais porque eu era um dos prisioneiros que ele decidiu executar. Eu não teria nem mesmo a dignidade e a glória de, notável espião, desfilar diante dos regimentos reunidos; em vez disso, Najac me enfiou na massa de marroquinos, sudaneses e albaneses pululantes, como se eu fosse mais um recruta otomano. Os coitados ainda não sabiam o que estava acontecendo, já que haviam se rendido na suposição de que suas vidas seriam poupadas. Estaria Bonaparte fazendo-os marchar para embarcar em navios para Constantinopla? Seriam mandados para o Egito como mão-de-obra escrava? Ficariam tão-somente acampados do lado de fora das muralhas fumegantes da cidade até que os franceses seguissem adiante? Mas não - não era nada disso, e as sombrias fileiras de granadeiros e fusiliers com os mosquetes, em posição de descanso, logo começaram a desencadear o rumor e o pânico. Cavalarianos franceses haviam sido estacionados em ambas as extremidades da praia, para assim impedir a fuga. A infantaria estava de costas para os laranjais, e nós, de costas para o mar.

"Eles vão nos matar!", começaram a gritar alguns. "Alá nos protegerá", asseguraram outros. "Assim como protegeu Jafa?" "Olha, eu ainda não achei o Graal", sussurrei para Najac, "mas ele existe - é um livro -, e, se me matares, nunca o acharás. Não é tarde demais para fazermos sociedade..." Ele pressionou a ponta do sabre contra minhas costas. "O que se está para fazer é crime!", disse eu, entre dentes. "O mundo não esquecerá!" "Bobagem — na guerra, não há crime." No começo desta narrativa, já descrevi a cena subseqüente. Um dos aspectos notáveis de quando estamos nos preparando para ser executado é que os sentidos se aguçam. Eu conseguia perceber as diversas camadas sobrepostas do ar como se tivesse asas de borboleta. Conseguia distinguir os cheiros do mar, do sangue e das laranjas. Conseguia sentir cada grão de areia debaixo de meus pés (então descalços) e ouvir cada estalo e rangido das armas que iam sendo aprestadas, os arreios que iam sendo puxados por cavalos impacientes, o zumbido dos insetos, o grasnar e o piar das aves. Ah, quão pouco disposto a morrer eu estava! Homens imploravam e soluçavam numa dúzia de idiomas. As preces se avolumaram até virar zunido. "Pelo menos eu afoguei as tuas malditas cobras", assinalei. "Sentireis a bala entrar no corpo tal qual eu senti", rebateu Najac. "E depois outra, e outra. Torço para

e mais prisioneiros que giravam sobre si próprios tombavam. com os braços erguidos em súplica. colocando-o entre mim e os mosquetes justamente quando se disparou a salva de balas. o que me salvou? O gigante negro. mas isto é quase tão bom quanto. tentando escapar a um pesadelo demasiado medonho para parecer real." Quando os mosquetes foram apontados. porque o chumbo dói muito mesmo. alguns caíram de joelhos. e a massa de prisioneiros oscilou. Eu teria preferido as serpentes. correu atrás de Najac como se o canalha pudesse lhe conceder a suspensão da execução. A água era jogada para cima em lâminas ofuscantes à medida que centenas de nós corríamos para ela. Alguns pisaram em falso. inclusive eu. e tanto sangue espirrou em mim que. Um que estava junto a mim tossiu sangue pavorosamente. Uma fileira de prisioneiros desabou. "Fogo!" Outra fileira desbaratada. Mas. "Fogo!" Houve um estrondo.que demoreis a morrer. temi que parte dele tivesse saído de meu corpo. depois ficaram . então. O impacto das balas fez voar sangue e carne. ele se afastou a passos largos. fugiu instintivamente para a água. Dos que ainda continuavam de pé. e alguns correram para os soldados franceses. de início. mas ele ainda assim constituiu um escudo temporário. berrando. tropeçavam. Estas jogaram o negro para trás. Outro perdeu o cocuruto num jato rubro. Mas a maioria. Ele se achata e corta a carne.

subindo nele e cambaleando para o lado do mar aberto.rastejando e berrando nos baixios. o mar estava apinhado de cabeças e costas de otomanos fuzilados ou afogados. Com isso. rodopiaram e caíram na espuma. As salvas ordenadas haviam degenerado numa confusão generalizada de disparos. os atiradores chamavam uns aos outros e apontavam alvos. com a água na altura do peito. Estavam paralisados. atraímos o fogo dos mosquetes. que já ficava rósea de sangue. As ondas rolavam sobre sua crista. Dúzias dentre nós alcançaram esse tablado serrilhado. homens contorceram-se. A cerca de cinqüenta jardas da praia. . Os feridos e os imobilizados pelo medo estavam sendo liquidados como porcos no abate. Outros seguravam braços e pernas feridos. "Fogo!" No que as balas passaram sibilando acima de mim. quando então os franceses entraram na água com seus sabres e achas. percebendo então que a maioria dos turcos a meu redor não sabia nadar. O ritmo do fuzilamento se moderara. Atrás de mim. Homens que se afogavam agarravam-se a mim. havia um recife aplainado. Avancei várias jardas e olhei para trás. Rogava-se estridente e desesperadamente a Alá. Eu os empurrava e continuava em frente. mergulhei e nadei vigorosamente. agora que os soldados arremetiam de baionetas caladas. deixando baixios de um ou dois pés de profundidade. Outros soldados franceses iam calmamente recarregando as armas e mirando aqueles de nós que tinham ido mais adiante na água.

enfiei a cabeça debaixo da água e abri os olhos. como uma pequena gruta subaquática. Mergulhei. O recife terminou. Aquele que corria para cima e para baixo na areia seria Najac. Enxerguei nele um buraco. A rocha era cortante e lodosa. entrei e tateei. procurando freneticamente por meu cadáver? Recifes mais altos afloravam mais perto de Jafa propriamente dita. aquilo parecia venturosamente apartado do medonho tumulto na superfície.Era uma insanidade! Eu ainda estava tão miraculosamente incólume quanto Napoleão. na margem externa no recife. sem vontade de assistir ao massacre até o fim. que observava das dunas. e mergulhei com louca desesperança em água mais profunda . olhando homens se amontoarem até as balas os acharem. no que estiquei ao máximo a mão. . sumira de vista. ao qual homens se aferravam. Não sabendo mais o que fazer. batendo débilmente os braços. Será que eu conseguiria achar alguma espécie de esconderijo? Vi que Bonaparte. Eu me impulsionei para a frente e vim à tona lá dentro. Vi debaterem-se as pernas dos prisioneiros que se agarravam a nosso refúgio e os tons esmaecidos de azul à medida que o recife descia para as profundezas. Quanto mais não fosse. E então. tão tristemente expostos quanto moscas em papel coberto de cola. Os franceses já estavam saindo em pequenos barcos para dar cabo dos sobreviventes. ela se debateu no ar livre. Alcancei o afloramento.para onde poderia ir? Fiquei à deriva.

tiritando com o frio cada vez maior. disparos ressoavam. Os soldados eram metódicos. mas agora eles estavam abafados. não ousei anunciar em voz alta a minha descoberta. onde a única iluminação vinha de uma fenda estreita acima de mim. Eu era o único sobrevivente.Eu conseguia respirar! Estava num bolsão de ar da gruta submarina. como brasas empilhadas com o céu ao fundo. de modo que eu corria pouco risco de afogar-me. em prantos. eram passados pela espada ou despachados a baioneta. fez-se o silêncio. As estrelas brilhavam o bastante para que a . O Mediterrâneo praticamente não tem marés. tremendo. depois que acabaram os xingamentos e rogos. E assim fiquei. Assim. "Ali! Pegai aquele lá!" "Olha como o rato se contorce. e anoitecia quando juntei coragem para emergir. com a pele tão enrugada quanto a de um cadáver. boiando para o mar." "Este aqui ainda está vivo!" Por fim. Ouvi outra vez os gritos e disparos. enquanto cascos de madeira davam no recife. Um ou dois corpos passaram boiando por mim. mantive-me na vertical. E agora? Entorpecido. Era de manhã quando nos fizeram marchar para a praia. e os últimos prisioneiros. esperei. De todo o modo. e meus dentes batiam uns contra os outros. só havia espaço para um. Eu estava em trapos. Eu conseguia ver que Jafa ainda estava em chamas. não queriam deixar testemunhas. Por medo de que os franceses me achassem. pela longa permanência na água.

avistei um barco. "Socorro. Era uma pequena balsa árabe. "Efêndi?" Estremeci. "Mohammad?" "O que estais fazendo no meio do mar. com as estrelas rodando lá em cima e Jafa ficando menos nítida. Eu conhecia aquela voz. e acenei. Fiquei deitado no meio da balsa. exausto. rouquenho e tossindo. Infelizmente. um grito.linha de vegetação ao longo da praia se mostrasse em silhueta. Surrupiei este barco e remei para fora do porto. piscando para o cinza do céu e não inteiramente certo de estar vivo ou morto.um barril de pólvora vazio. e eu me agarrei a ela . boiou alguma coisa escura que não era cadáver." Minha voz era pouco mais que um sussurro. amolecido como uma água-viva. A meu lado. O barco se aproximou. quando eu mesmo vos deixei em Jerusalém?" "Quando foi que viraste marinheiro?!" "Quando a cidade caiu. um som de risada amarga. como os de um animal atento. descartado por franceses ou otomanos durante a batalha. Braços fortes me pegaram e me puxaram para o barco. Olhei para o bruxulear das fogueiras dos acampamentos franceses e ouvi aqui e ali um disparo. E então. Chamei. quase vinte e quatro horas após o início das execuções. não faço a . Passaram-se horas. na luz fraca antes do alvorecer. do tipo que me levara da HMS Dangerous para Jafa. Minhas forças estavam sendo sugadas pelo frio. com olhos arregalados me perscrutando por sobre a beirada.

alianças com paxás remotos. Mohammad". Na maioria de nós. A balsa tinha um mastro e uma vela latina. que acaba universalmente liberado durante as guerras.obtiveram . Estou apenas à deriva. Para poderem liberá-lo.e isso depois os persegue para sempre. vi que estávamos bem ao largo. Podemos procurar um navio amigo." Com grande dificuldade. Mas eu fora mais sincero da primeira vez. é recôndito. disse eu. e eu conduzira embarcações não muito diferentes no Nilo. O trabalho dos eruditos será inútil. estudos científicos. "Não todo o mundo." Ele parecia desolado. Daqui a muitos anos. é claro". os homens se desinteressam de tudo mais. Sem dúvida. ao massacre de Gaza. Aliviado. Os franceses . mas alguns se entregam a ele. A guerra não tem nada a ver com a razão e tem tudo que ver com a emoção. tinha amigos ou familiares que tinham sido apanhados pelo cerco. Se alguma lógica a guerra tem. corrigi-me. "Eu sei velejar. "És uma bênção. é a lógica maluca do inferno. sonhos reformistas . os historiadores quebrarão a cabeça para explicar o raciocínio estratégico que levou às invasões do Egito e da Síria por Napoleão. destampando um caldeirão que eles mal sabem que está em ebulição ." "Mas o que está acontecendo em Jafa?" "Todo o mundo morreu. às marchas sem objetivo definido.apesar de toda a mixórdia de ideais republicanos. fora do alcance de qualquer francês.menor idéia de como velejar. ainda bem rouco. consegui sentar. Todos temos algum mal dentro de nós.

"Pois bem." "Sim. Mohammad." Ele ficou radiante. contas que quero acertar com alguns deles. tão revigorantes quanto o formigar da eletricidade. Vamos estabelecer o curso para Acre e os navios ingleses. caso contrário não teríeis sobrevivido. E pão." Ele assentiu. "Estais fadado a isso. em meu novo e robusto barco! Eu vos levarei aos ingleses!" Recostei-me na pequena amurada. "Obrigado pelo resgate. penso que depois achareis. e tenho notícias que preciso levar-lhes." E. efêndi .acima de tudo uma catarse medonha. não é mesmo? E por acaso achastes o que procuráveis em Jerusalém?" "Não. A guerra é a glória envenenada. "Alá sabe o que faz." Que consolo seria ter tanta fé! "Ou talvez eu não devesse ter procurado e esteja sendo punido por ter visto o que não devia. E umas tâmaras. seguida da plena consciência de que o que eles haviam liberado acabaria certamente por consumi-los. amigo." Dei as costas ao brilho triste do litoral." "Se assim foi. ajuda-me a meter vela." "Então já somos colegas de marinhagem." Deu-me água e comida. perguntou Mohammad. pensei comigo mesmo. "Talvez os britânicos. "Tens água?" "Tenho.mais uma vez serei vosso guia. "E só vou cobrar dez xelins pelo serviço!" . "Mas conheceis algum navio amigo?".

sir Sidney Smith. Os navios eram encabeçados pelas naus de linha Tigre e Theseus. comandante!" "Traição? Mas eles disseram que desertaste!" Era ou não era uma mentira descarada de Big Ned e Little Tom? Eles por certo me julgavam morto e incapaz de contradizê-los. quando passamos a sotavento da capitânia. Era bem o tipo de distorção da verdade a que eu mesmo poderia ter recorrido. mas porque me vinguei dos franceses dando informações providenciais aos inimigos deles. o que me deixou ainda mais indignado. Mohammad e eu localizamos o esquadrão britânico no segundo dia de nossa jornada." . saudei ninguém menos que aquele demônio simpático. disse meu companheiro de bordo. Não é mesmo. Mohammad?" "Os franceses tentaram nos matar". és mesmo tu?". e. falando alto. não porque escapara à execução em massa em Jafa. "Achamos que tivesses voltado para o lado dos franceses! E agora voltas para nós?" "Fui-me para os franceses pela traição de vossos próprios homens. "Ele me deve dez xelins. perguntou ele. "Muito pelo contrário! Vossos excelentes fuzileiros me trancaram do lado de fora durante a brava retirada deles! Vós nos deveis uma medalha. "Gage.PARTE 2 — 12 —Eu chegaria a Acre como herói.

e então bateram o portão de ferro na minha cara. a Tigre. "Reconhece. ele é um rebelde americano . Smith e seus oficiais me encaram com ceticismo. parecendo um leviatã quando comparada à frágil balsa na qual navegáramos." . Bem. Os oficiais britânicos revistaram Mohammad como se a qualquer momento ele pudesse sacar uma adaga e me lançaram olhares duros. "E sair das piores enrascadas. interrompeu um capitão-tenente.. Além disso.. apresentei minha versão dos acontecimentos.ah. sobe a bordo.. e vamos esclarecer esta situação. "Um momento . que fora capturada aos franceses anos antes e ainda conservava o nome gálico.. justamente quando o bando de canalhas franceses e árabes já me cercava."E aqui estás.para um homem que aparece em todo lugar." Assim. que foi levada a reboque. é difícil saber qual é o teu. tinha um trunfo. Termos te achado foi um tanto extraordinário. Ethan: pareces mesmo passar com excessiva facilidade de um lado para o outro"." "É.imaginais mesmo que os franceses me deixaram escapar de Jafa?" "As informações dão conta de que ninguém mais conseguiu. Assim." Mas. Mas eu já estava decidido a bancar o injustiçado e ofendido. se é". Era uma nau de setenta e quatro canhões. "Maldição . ". em lugar da indignação e solidariedade que eu bem merecia. disse Smith. escalamos as cordas para subir à capitânia. no meio do Mediterrâneo?" Smith coçou a cabeça.

vamos colocar as coisas em pratos limpos. Talvez possas discutir . apesar do considerável investimento feito pela Coroa. "Ora. "Big Ned está lotado em terra. meus comandados relatam que adquiriste um fuzil bem caro e extravagante. "Se eu passei para os franceses. com grande parte da tripulação da Dangerous.. não recebi tanta informação útil de ti em Jerusalém. E aposto que é mais homem que o senhor." "Little Tom perdeu o braço e foi mandado para casa". Sinceramente. respondi. Apesar da raiva que eu sentia. ferido. Gage.. apontando para Mohammad."E quem é esse pagão?". para fortalecer as defesas de Djezzar em Acre. perguntou outro oficial. disse Smith.não há necessidade disso. num barquinho com um cameleiro muçulmano e sem arma nenhuma?" Eu estava furioso. Smith interveio às pressas. e eu estava provavelmente a ponto de ser desafiado para um duelo. "É meu amigo e meu salvador." Agora eles se eriçaram. por que não estou bebericando um Bordeaux na tenda de Napoleão? É. "Se é verdade que eu passei para os franceses. a notícia me fez parar para pensar. queimado. e tens o direito de responder a elas. Temos o direito de fazer perguntas difíceis. então o que diabos estou fazendo aqui em trapos. Chamai aqueles fuzileiros canalhas agora mesmo. ora . Ademais. Perder um membro era ser condenado à miséria. Onde está ele?" "Foi roubado por um maldito ladrão e torturador francês chamado Najac".

Fiquei imaginando se ela ainda estaria com meus serafins." Ora. eis-te aqui. Miriam estava em segurança. Jericó diz igualmente ter achado que morreste ou desertaste. "Mas eles me disseram uma coisa. sir Sidney. mamelucos. Eles me penduraram de cabeça para baixo sobre uma cova cheia de serpentes. Ele está reforçando as fortificações. não se obteve nada . mais os nossos valentes ingleses." Já era hora de usar meu trunfo. não é verdade?" Ele me fitou atentamente. menti. Tomei fôlego. ainda assim. "Disseram o quê?" . Temos até um francês." "Estais aliados a um francês e ainda assim me questionais?" "Ele ajudou a providenciar minha fuga da prisão do Templo. boas notícias. são uns bárbaros! Não lhes contaste nada. com a irmã. e posso demonstrar minha lealdade com isso. em Paris. Temos uma mixórdia de homens rijos para conter Bonaparte . Antoine de Phélippeaux. Tom ficou aleijado. Eu andara ocupado com meus próprios problemas. "Potts e Tentwhistle morreram. mercenários e cafajestes." "Por Deus. por ora.e.uma mistura de turcos.a questão com ele lá. e é o camarada mais leal que se pode desejar. oficial monarquista de artilharia. contaste?" "Claro que não". "Posso garantirvos. que não quero mais nada com os franceses. mas senti uma onda de alívio ao saber que. Curioso como os homens escolhem lado em épocas perigosas." "Falastes também com Jericó?" "Ele está em Acre.

" É claro que choveu. e estes levavam em seus porões peças de artilharia de sítio. E então os franceses toparam conosco na manhã de 18 de março. que disparam balas de vinte e quatro libras. A cerração logo fez os ingleses pensarem que eu era outra vez um agente duplo. como se eu pudesse controlar o clima. fui . Mas outros seis não conseguiram.as deles são maiores que as nossas e muito bem enfeitadinhas. isso mudaria as coisas. podemos capturá-la por completo antes que as tropas dele cheguem a Acre. Eles as distribuem a mancheias. havíamos capturado a mais potente arma de Napoleão. Com um único golpe. e podes apostar que guardarei uma para ti se . Por aquela manhã de trabalho. capitão-de-fragata Standelet. e eu te dou uma medalha . estes enfrentavam apuros ainda piores para evadir-se a nós. Com sorte. Gage. diminuindo ainda mais a visibilidade. O nevoeiro também era inimigo deles. incluindo o de Standelet.dou mesmo! Uma bela medalha turca .para variar estiveres mesmo falando a verdade." "Deveras? Bem. se tínhamos dificuldade para achar os franceses. não?" Smith ficou radiante."Que a artilharia de sítio de Bonaparte está vindo por mar. escaparam. e depois veio o nevoeiro. quando o comandante deles. Três navios. Mas. "Acha esses canhões para mim. reduzindo nossas chances de localizarmos a flotilha francesa. tentava circular o cabo Carmelo e entrar na pequena baía que tem Haífa ao sul e Acre ao norte.

A cidade fica numa península que se projeta para o Mediterrâneo. para que eu pagasse a Mohammad e ainda ficasse com umas moedinhas. e o porto é formado por um quebra-mar. Também ganhei uma medalha turca adornada com jóias. a Ordem do Leão. Acre é uma linda cidade. as muralhas marítimas confinam com recifes da cor . com muralhas marítimas e terrestres com menos de uma milha e meia de circunferência. Acre era menor em área que Jerusalém. Em tempos normais. mas era mais próspera e quase tão populosa quanto. "E. terias a pedra filosofal". os franceses já a estavam isolando do lado que se prolongava terra adentro. dois terços da cidade são cercados pelo mar. Na época em que lá cheguei. o guardião do mar profundo. repreendeu-me. A península se estende para sudoeste a partir da terra firme. tenho lido o teu Franklin. na extremidade norte da baía de Haifa. Bandeiras tricolores a tremular marcavam o arco dos acampamentos de Bonaparte. "Se soubesses como gastar menos do que possuis. que Smith então comprou de mim. mas seria em Acre que se decidiria a disputa." E assim desembarquei na velha cidade dos cruzados.proclamado o baluarte de Acre. Por conseguinte. Haviam chegado relatos sobre uma série constante de escaramuças entre os regimentos franceses e os combatentes muçulmanos do interior. cujo avanço era marcado por colunas de fumaça. a raposa de Jafa. Nossa rota marítima corria paralela ao caminho terrestre das tropas de Napoleão.

interrompe um encantador horizonte urbano de telhas. Mas podia Acre ser de fato defendida? Ficava claro que muitos achavam que não. com campos verdejantes. contrabalançando esse encanto. Um antiquíssimo aqueduto. peixe fresco e especiarias.a torre amaldiçoada. Andares superiores se projetavam sobre ruas sinuosas. estava o palácio do governante. torres e toldos. não mais em uso. Havia três grandes complexos de hospedagem e armazenamento para visitantes marítimos: o Khan el-Omdan. juntando-se numa torre maciça. um bloco implacável à moda dos cruzados. levava do fosso defensivo às linhas francesas. A parte administrativa e religiosa ocupava o quarto nordeste da cidade. junto com um minarete com feitio de agulha. o Khan el-Efranj e o Khan a-Shawarda. e as muralhas terrestres têm face para o norte e o leste.de água-marinha. e as terrestres. Feiras sombreadas por toldos de cores brilhantes enchiam as principais vias. Na muralha setentrional. A sólida fortaleza e a tortuosa cidade medieval coberta de telha me faziam pensar num diretor de escola rígido e severo a supervisionar uma animada classe de crianças ruivas. Esta seria tão fundamental para o cerco subseqüente que os franceses acabariam por denominá-la la tour maudite . Levamos o pequeno barco de Mohammad para . O porto cheirava a sal. A cúpula verde de cobre da mesquita central. com uma torre redonda em cada canto. suavizado apenas pelo fato de que as janelas do harém davam para jardins amenos entre a mesquita e o palácio.

seu conjunto de café de prata. "Não ligues para esta ralé". quando chegamos ao cais. com olhos escuros e boca trêmula. Uma mulher suarenta levava nos braços. Uma linda menina de dez anos. e." "Não confiam na própria guarnição deles?" "A guarnição deles não confia em si mesma. disse Smith. Smith. que se contorcia no colo. "Estamos melhor sem eles. e histórias de massacres haviam corrido litoral acima. a área estava apinhada de refugiados aflitos para escapar da cidade.terra. segurava um filhote de cachorro. Os teus canhões poderão nos ajudar. enquanto os filhos bem pequenos a seguravam com força pelo vestido e abriam um berreiro. como um bebê. A maioria se constituía de mulheres e crianças. dinheiro pode ser sinônimo de sobrevivência. Na guerra. Um banqueiro usava uma cunha de escravos africanos para abrir caminho até a frente. Um mercador de algodão enfiara pistolas carregadas numa faixa onde se tinham costurado moedas de ouro. mas não eram poucos que eram comerciantes ricos que tinham pagado propinas exorbitantes a Djezzar pelo direito de partir. Teremos peças de artilharia maiores que as de Bonaparte e colocaremos uma bateria delas bem . Djezzar tem tutano. Mohammad e eu passamos aos empurrões por uma multidão que estava à beira do pânico. Pessoas agarravam aos poucos pertences que podiam carregar e davam lances por passagem nos navios mercantes ao largo. seguindo a chalupa da Tigre. mas os franceses arrasaram cada um dos exércitos que já encontraram pela frente.

" "Falais do Açougueiro?" "Não. mas é também o mais forte das muralhas. em Paris.e não perderá desta vez. Phélippeaux sempre tirou notas mais altas que as de Napoleão. fingindo-se de comissário de polícia que me transferiria para outra cela. ali onde as muralhas do mar e da terra se encontravam. Se a Revolução não tivesse obrigado o nosso amigo monarquista a fugir da França. Acreditas que o nosso Antoine Le Picard de Phélippeaux dividia uma carteira de escola com o biltre corso? Na adolescência. Gage. A torre de menagem dos cruzados fora reformada para incorporar não graciosidade. formou-se com mais louvor e foi designado para os melhores postos na carreira militar.no portão do Interior. Phélippeaux se infiltrou na França como agente secreto e me resgatou da prisão do Templo. Ele nunca perdeu para Napoleão . e dois terços da artilharia do Açougueiro estavam apontadas para o próprio . Vem conhecê-lo. Mas a torre do canto será a noz onde o diabo quebrará os dentes." O "palácio" de Djezzar parecia uma Bastilha transplantada. eu me refiro ao colega de turma de Napoleão na École Royale Militaire. E o punho de Acre. o aristocrata e o provinciano viviam chutando as canelas um do outro. até ficarem roxas. mas intervalos de onde canhões pudessem ser disparados das ameias. Ano passado. e nosso verdadeiro segredo é um homem que odeia Bonaparte mais até do que nós. ele provavelmente seria um superior de Napoleão. É o ponto mais distante do apoio da nossa artilharia naval.

Seu uniforme branco. a cidadela era tão implacável quando a mão de ferro de Djezzar. Já tendo irrompido num harém no Egito. "Há o arsenal no porão. a caserna no térreo. Vi janelas de harém gradeadas. Passamos por grandes e parrudas sentinelas otomanas e uma imensa porta de madeira guarnecida com ferro. Tímidos. e um francês. desceu aos pulos. os soldados nos olhavam das sombras. ouviram-se passadas rápidas na escada. apontando. como se solidárias. e adentramos o sombrio interior. do exército do Antigo Regime. Nisso. Era mais alto que Napoleão. estava sujo e surrado. Phélippeaux fez uma reverência cortês. ágil e mais enérgico. e o sorriso desfalecido e os olhos escuros pareciam avaliar . e não para os franceses. Pareciam muitíssimo desanimados. Pisquei ao olhar em volta. e ele tinha a lânguida autoconfiança que vem do berço nobre. tal qual as gaiolas de belas aves. voavam entre essas janelas e as palmeiras embaixo. e havia ali uma espartanidade militar.povo dele. eu não sentia nenhuma vontade de ir explorar esse aquelas mulheres tinham me dado medo. Andorinhas. explicou Smith. Quadrada e impassível. onde estavam limpando mosquetes e afiando lâminas. Após a luz deslumbrante do Levante. os gabinetes administrativos no andar de cima. Aquele era o andar em que se alojava a guarda fiel de Djezzar. o lado de dentro da fortaleza parecia um calabouço. o palácio de Djezzar no seguinte e o harém no topo de tudo". Aquele só podia ser Phélippeaux. seus movimentos eram elegantes.

que ironia! E um americano! Somos como Lafayette e Washington! Que aliança internacional está se formando aqui britânicos. era uma crista azul bem do outro lado da baía.tudo com o cálculo característico dos oficiais de artilharia. Pela experiência em Jafa. limpar e proporcionar calor à noite. eu soube que pudestes ter salvo a nossa cidade!" "Muito longe disso. Mais perto. franceses. americanos. judeus. "Monsieur Gage. o ar estava estonteante. pagos alegremente por homens que sentiam haver grande possibilidade de que estivessem prestes a . mamelucos." "Pois eu asseguro que vossos canhões franceses serão inestimáveis. tal qual uma grande quermesse de primavera. ao longe. otomanos. vamos dar uma espiada nele!" Eu já estava gostando daquele seu estilo impetuoso. Que vista magnífica! Após as chuvas dos dias anteriores. maronitas. Phélippeaux nos conduziu por uma escada serpeante até que saímos na cobertura do castelo de Djezzar.. bebida importada para estimular a coragem dos grupos de assalto. e o monte Carmelo. turmas de prostitutas e criadas para cozinhar. todos contra o meu ex-colega de classe!" "Realmente estudastes juntos?" "Ele colava de mim." Phélippeaux abriu um sorriso largo. Tendas e toldos pareciam florescer.. "Vinde. Ah. eu já sabia como devia ser a vida nas linhas francesas: comida farta. tudo a preços absurdos. os franceses que ali se concentravam estavam nítidos como soldadinhos de chumbo.

já sei que ele sabe que a torre é a chave. "Desconfio que será ali que Buonaparte estabelecerá seu quartel-general". ainda está a meses de ser concluído". "Vede bem. Ela era maciça. Numa crise." Segui o movimento largo de seu dedo indicador.morrer. porém. erguiase um morro de uns trinta metros de altura. com uns vinte pés de profundidade e cinqüenta de largura. e logo adiante havia um fosso defensivo seco. e lá eu discernia um agrupamento de homens e cavalos em meio a estandartes tremulantes. Eu assenti e disse: "Assim. estamos construindo um reservatório que encheremos bombeando água do mar. . fora do alcance de quaisquer de nossas armas. Na costa. Canhões estavam sendo alçados às muralhas. Nós dois faríamos a mesma coisa: ele estenderá suas trincheiras até aqui e tentará minar as nossas muralhas com sapadores. Então. eu o conheço e sei como ele pensa. disse Phélippeaux. mas nossos engenheiros têm uma idéia. Cerca de uma milha terra adentro. perto do portão do Interior. como um promontório. revestido de pedra." "Esse plano. disse Smith. tendes vossa torre".o fundo fica acima do nível do mar -. prolongando com aristocrático desdém a pronúncia italiana. "Nenhuma água no fosso?" "Ele não foi projetado para isso . ela poderá ser descarregada no fosso. neste meio-tempo. Imaginei que parecesse ainda mais alta quando vista do lado francês.

que ofereceria proteção contra o fogo de interdição. que eles trouxeram por terra. elas ficariam mesmo confinadas. Tendo outrora trazido água para a cidade."É o ponto mais forte das muralhas"." Procurei abarcar a cena com seus olhos de artilheiro e engenheiro. O aqueduto em ruínas se estendia dos franceses em direção às muralhas. Agora. As mulheres do harém provavelmente estavam acostumadas a freqüentá-lo. Se os republicanos conseguirem submetê-la. explicou Phélippeaux." Olhei para baixo. Se não conseguirem. perto da torre. "Já acrescentamos quase uma centena de canhões às defesas da cidade". O jardim era um oásis de sombra em meio aos preparativos militares. "mas também pode ser alvejada e assaltada dos dois lados. com tantos soldados e marinheiros guarnecendo os parapeitos lá em cima. "Agora . De um lado. "Aquilo logo estará repleto dos canhões mais leves. a infantaria deles terá perecido inutilmente. já estarão nos jardins e poderão espalhar-se para tomar nossas defesas por trás. havia o que se assemelhava a uma lagoa seca. disse Phélippeaux. interrompia-se quase em nossa muralha. "Eles esvaziaram esse reservatório aí para que tivessem uma depressão protegida onde instalar uma bateria". disse Phélippeaux. como se lesse meus pensamentos. longe das vistas. os franceses estavam fincando estacas de agrimensor. Vi que os franceses cavavam trincheiras ao longo dele. Dentro dela.

"E tu. Gage. Quero que digas a nosso aliado que aquela força pode ser batida porque. Mas primeiro tens de acreditar nisso. e um felino grande e sarapintado olhou-nos sonolento de uma almofada. Então. Tive mais ou menos essa impressão do Açougueiro. enquanto seus guarda-costas sudaneses nos vigiavam . Apenas ainda não encontrou ninguém tão combativo e obstinado quanto ele." "O que significa não deixar Djezzar desistir". ereto. Aves piavam em gaiolas douradas." "Eu?" "Viste o exército de Napoleão. se ele acreditar. Djezzar reconhecia que a própria sobrevivência dependia de seus novos aliados europeus." Não precisamos esperar por uma audiência. um recinto belamente decorado.que capturamos os canhões franceses mais pesados. és a chave para isso. E então? Acreditas?" Pensei por um momento. precisamos manter o inimigo à distância. emendou Smith. Fomos conduzidos à sala de audiências. como se estivesse ponderando se comer-nos justificava a trabalheira. poderá mesmo. com o teto esculpido em estilo florido e o piso de tapetes orientais justapostos. um macaquinho pulava para lá e para cá numa guia de couro. mas ainda assim modesto. vem conhecer o Açougueiro. com o torso idoso ainda transmitindo a idéia de força e poder. que estava sentado." "Exatamente. "Bonaparte não é mágico. Sentamonos de pernas cruzadas diante dele. Depois do que acontecera em Jafa.

" Naturalmente. Um cerco. apresentan-do-me. Tendes tanta habilidade e desembaraço quanto qualquer Napoleão. a pele curtida pelo excesso de sol e de água do mar .já matei mais homens e trepei com mais mulheres.as roupas de marinheiro emprestadas. mas a sobrevivência é a marca dos homens extraordinários. como se pudéssemos ser assassinos e não aliados.atentamente. "Paxá. Djezzar me avaliou num relance . Djezzar tinha setenta e cinco anos e parecia não um avô bondoso." Ele me analisou. e uma adaga jazia bem perto da mão.e não procurou esconder o ceticismo. No entanto." "É. Uma pistola estava enfiada na cinta.Napoleão. cruel. então agora temos um duelo de vontades. este é o americano de quem vos falei". "Tenho mais que ele. disse eu. O massacre foi horrível. o próprio açougueiro era um astuto sobrevivente. disse Smith. mas um arofeta irascível. se queres saber . os olhos. paxá. "És hábil e despachado. ""Escapaste de Jafa?" "Os franceses pretendiam me matar junto com os outros prisioneiros". E Alá me obriga a usar infiéis . Bem." "Como vós. A barba era branca e cerrada. "E ajudaste a capturar a artilharia do inimigo?" "Pelo menos parte dela. a boca. o olhar traía a insegurança do fanfarrão tirânico que se vê diante de outro . "Nadei mar adentro e achei uma pequena gruta nos recifes. Mas também estava curioso. duríssimos." Djezzar sorriu. acho eu. as botas sujas.

disse Djezzar." Ele deu de ombros. Napoleão está a centenas de milhas de sua base no Egito e a duas mil milhas da França." Eso parecia ingratidão. "Ouvi dizer que ocorreram mais em Jafa. para quebrar o ânimo dos inimigos. acrescentou Phélippeaux." "Mas ele é enérgico quando se trata de insistir no que quer". Eles estão sempre conspirando.para combater infiéis. "Então eu talvez devesse me render. sois superior a ele em artilharia. "Acredita em golpes rápidos. disse eu." Vi que o Açougueiro era sagaz." "Ele quase não tem tropas para guarnecer o que quer que capture. e o fogo deles é certeiro. mesmo sem os canhões". e não uma . de força avassaladora." "Já haviam surgido alguns casos no Egito". jogou-a na boca e a mastigou de lado enquanto falava." "E doentes"." Djezzar pegou uma tâmara numa taça e a examinou como se nunca tivesse visto nenhuma antes." "Com os navios britânicos. Em seguida. "Ele virá para vossa cidade logo. com ímpeto. "Mas fala-me desse Napoleão. "Correm boatos de peste. Eu não confio em cristãos. "No momento. As tropas dele são duas vezes mais numerosas que a minha guarnição. É um homem paciente?" "Nem um pouco. Ou fugir. confirmei." "Então podemos derrotá-lo antes que consiga mais canhões. estamos conspirando para salvar vosso pescoço. Os soldados de Napoleão são bons no que fazem. Seus soldados estão cansados e saudosos de casa.

Tive um sobressalto. Eu conhecia aquela voz! E." "Nós o bateremos aqui". Napoleão não obtém reforços nem novos suprimentos.nulidade otomana imposta pela Sublime Porta." . Está querendo conquistar a Ásia com dez mil soldados. prometeu Smith. disse outro. O homem está tentando realizar num único dia aquilo que outros homens precisam de um ano para fazer. "Rabino Farhi! O que fazeis em Acre?" "Servindo o amo dele". Napoleão estará liquidado. Ele reunia informações sobre seus inimigos como um estudioso. sem o livro. paxá. "O ponto fraco de Napoleão é o tempo. ao passo que a marinha britânica consegue trazer ambas as coisas para nós. senhor Gage. nas sombras. arrematou Djezzar.. "Esse homenzinho que ninguém bateu ainda. "A não ser que ele descubra algo mais poderoso que a artilharia". e é essa a fraqueza dele.. "Jerusalém se tornara um lugar muito desconfortável para nós. não havia motivo para permanecer lá. mais forças o sultão poderá enviar para cercá-lo. solene. disse Djezzar." "Ele irá embora". Eles já o tinham visto antes. E. Se conseguirdes agüentar firme. Quanto mais dias ele se detiver diante de Acre. e ninguém sabe melhor que ele que é tudo blefe no instante em que seus inimigos deixarem de temê-lo. da penumbra atrás do poleiro forrado de almofadas onde se sentava Djezzar. mas não demonstraram repugnância. surgiu de fato o medonho semblante de Haim Farhi! Smith e Phélippeaux piscaram ante aquela mutilação.

"Vosso aliado aqui não foi a Jerusalém apenas para vos servir. amo. resmungou o Açougueiro. e a soberba é o maior dos pecados." "Tesouro?" "Não é dinheiro". "Como sempre. perguntou Smith. havia uma mulher sobre quem ele fazia perguntas. Sabeis quem modificou minha aparência. comandante. "A boa aparência é mãe da vaidade. Deixei-vos porque o meu rosto atrai demasiada atenção e porque eu sabia que mais averiguações se faziam necessárias. emendou o banqueiro. Acho que todos acabamos saindo de Jerusalém de mãos vazias. se bem me lembro." "Fiz um favor a ele"." "Um livro de magia"." "Mãos vazias do quê?". E vá para o Céu. sois a própria generosidade." "Não. e ." "E um tesouro que homens muito perigosos estão procurando. incomodado com o fato de Farhi estar displicentemente divulgando meu segredo."Fostes conosco a serviço do paxá?" "Mas é claro. O que os franceses sabem acerca dos nossos segredos?" "Que a indignação dos muçulmanos impede que se volte a explorar os túneis. As cicatrizes de Farhi permitem que ele se concentre nos números. "É um livro. respondi." Farhi se inclinou numa reverência." "Mas então escapastes de Jerusalém!" "Por um triz. Eles não sabem nada e me ameaçaram com serpentes para descobrir o que sei. Farhi se voltou para o oficial britânico. "Correm rumores sobre ele há milhares de anos.

Ressuscitado. "Mas o livro não estava lá". "E eu". Se existe. ele nem existe. Quando pedimos a ajuda de vossos homens da marinha. Estávamos era atrás desse livro. a serviço de alguma figura misteriosa no Egito. não temos nenhuma maneira de procurar. O olhar de Smith ia de um para outro de nós. como disse o senhor Gage. disse Djezzar. "Afinal." Ele fazia bem em usar o substantivo no singular. disse Farhi. O tempo é. sim. disse eu. o que queres dizer. não estávamos procurando uma porta que possibilitasse contornar as defesas da cidade para penetrar em Jerusalém. "Disseram-me que o conde Silano continua vivo." "Assim como os franceses".se permanecermos sitiados por muito tempo poderá ser tarde para acharmos primeiro o que o conde Alessandro Silano ainda procura." Farhi encolheu os ombros. Imortal. inimigo dele. denotando dúvida e resignação. já que o patife cortara a outra orelha de seu auxiliar. acrescentei. eles são árabes." "Apesar disso. "Que. agentes estão fazendo indagações por toda a província da Síria". "Quase certamente." "Vivo." Farhi apontou para mim. porém.os templários o buscavam. "Esse homem . Haim?"." Senti um arrepio. perguntou Djezzar. "Na maioria. Mas também é um desafio para nós . o que todos os homens buscam talvez não exista. no tom do amo já muito impaciente com as divagações dos subordinados. "Farhi era o meu ouvido ali. isolados como estamos pelo exército de Napoleão.

deixando-a em fogo. varetas de mosquete. eu não sabia como me receberiam. o cabelo nas faces em cachos suados. chuços. para empurrar as escadas dos inimigos que tentassem escalar as muralhas. Miriam estava trabalhando no fole. martelando tal qual Thor os instrumentos da guerra . seus olhos brilharam em animada saudação. a transpiração a reluzir naquele vale da tentação entre o pescoço e os seios. antes que seja tarde demais. ali no porão do palácio. Mas. como era gostoso senti-la! A vontade de descer a mão para seu traseiro redondo era enorme. baionetas. Ah. O chumbo esfriava em moldes de balas de pistola e mosquete. e as sobras de metal eram empilhadas para que Jericó as transformasse em metralha. Seus músculos eram iluminados pelo fulgor de uma forja de ferreiro. . semelhantes a pérolas negras. ela disparou na minha direção e me abraçou. Ele estava nas entranhas do arsenal. e. até Jericó permitiu-se um sorriso relutante. na incandescência infernal da armaria. cabos compridos com forquilha na ponta. Fosse como fosse. Dado que haviam perdido sua casa em Jerusalém por causa do tumulto que causei. o irmão estava ali. naturalmente. "Nós achamos que tinhas morrido!" Ela me beijou a face. para que.espadas. quando Miriam me viu. a camisa úmida e perturbadoramente colada ao corpo. mas." Segui o cheiro de carvão vegetal até achar Jericó.precisa descobrir um modo de ir outra vez atrás do segredo. Segurei Miriam a uma distância segura.

eis-nos aqui. e assenti. vivos". dando-me conta de quanto sentira sua falta e quão angélicamente linda ela era. e eu decerto apagara o sorriso do irmão. soubemos o que aconteceu em Jafa. sua douta irmã e um americano jogador. mandrião e irresponsável." Julguei ter visto um rubor debaixo da fuligem. "Não precisamos batê-los — só temos de esperar até que se vejam compelidos a . e ela não queria tirar as mãos de meus ombros. "A notícia de que sobreviveste foi como néctar para um homem que está morrendo de sede. "Com um homem chamado Açougueiro. um judeu mutilado. finalmente. disse Miriam." Olhei para Miriam. "Ethan. um guia muçulmano. "Lamento que a nossa aventura vos tenha deixado presos em Acre.fisicamente. "E eu temi que o mesmo tivesse acontecido a vós"." Eu a soltei. com mais confiança do que de fato sentia. E se os franceses tomarem Acre?" "Não tomarão". Mas não importava . agora. respondi. meu entusiasmo por nosso reencontro não ficasse demasiado óbvio. num barco. mas eu realmente achava que encontraríamos um tesouro. não?" "Sem dúvida". Para não falar de um ferreiro parrudo. "Todos os três. Escapei de Jafa com meu amigo Mohammad. um capitão-de-mar-e-guerra inglês meio insano e um colega de escola de Napoleão Bonaparte que está muito contrariado com este. disse eu. disse Jericó. "E.eu não queria largar a cintura de Miriam. Parecemos o alegre bando de Robin Hood.

derrubaria os franceses no fosso. convencido de que eu continuava maluco como sempre.retirar-se. Seria como uma barreira de fogo. E tenho uma idéia para isso." Ele balançou a cabeça negativamente. "Foi uma idéia que tive quando estava no barco com Mohammad. "Estás dizendo que eles não conseguiriam segurarse à corrente?"." "Eletricidade?!" Jericó fez o sinal-dacruz." Jericó ficou curioso. mas." . perguntou Miriam. desta vez. "Tanto quanto conseguiriam se o metal estivesse incandescente. onde então poderíamos matá-los. Jericó. poderemos transmiti-la com um arame para uma corrente suspensa. o Açougueiro usará a corrente para nos enforcar. Daria o mesmo choque que demonstrei em Jerusalém. Se armazenarmos bastante faísca numa bateria de garrafas de Leiden. E então carregar as correntes de eletricidade. sobrou alguma corrente pesada na cidade?" "Vi algumas por aí. usadas por navios ou empregadas para fechar a saída do ancoradouro. Por quê?" "Quero estendê-las nas torres para dar as boasvindas aos franceses. "Isso poderia mesmo dar certo?" "Se não der. "Para dar-lhes uma mão na hora de escalarem as nossas defesas?" "Exatamente." Eu me tornara o próprio guerreiro sanguinário.

Miriam e eu não apenas trabalhávamos juntos. Nenhum homem quer ser covarde na presença de mulheres. cobre e garrafas em quantidade suficiente para fazer uma pilha gigantesca. Raramente desfrutei tanto um projeto. Nós dois trabalhávamos ombro a ombro. Miriam e eu nos púnhamos a reunir vidro. e agora Miriam exibia uma confiança vivaz que fortalecia a coragem de todos com os quais ela trabalhava. chumbo. e eu me recordava exatamente do ponto de minha face que seu beijo afogueara. enquanto Jericó se punha a coletar e juntar elos de corrente de ferro. O acanhamento recatado com que eu topara de início se perdera em algum lugar dos túneis de Jerusalém. de uma maneira que reeditava a aliança que eu estabelecera com Astiza. Até o porão do palácio de Djezzar tremia quando uma bala de ferro sólido acertava as muralhas externas. Dávamos duro ouvindo o eco dos canhões adversários.13 Eu precisava gerar carga elétrica numa escala com que nem mesmo Franklin sonhara. que procuravam acertar o alcance de tiro à medida que as trincheiras francesas avançavam rumo às muralhas. Não há nada mais desejável do que uma mulher que ainda não pudemos possuir. Franklin dera o nome bateria às fileiras de garrafas de Leiden porque elas o faziam lembrar uma . de modo que. roçando e tocando um no outro mais que o necessário. éramos parceiros..

e. Quando fiquei sabendo que Ned fora designado para ajudar a reparar o mais depressa possível a alvenaria do . vinha aguardando meu reencontro com esse fuzileiro avantajado. Em nosso caso. planejei cuidadosamente a lição que lhe daria. coisa que ele providenciaria tão logo eu parasse de esconder-me atrás das saias da namorada. Logo tínhamos tantas garrafas que o trabalho de eletrificar todas por fricção (usando manivela) pareceu ser uma tarefa de Sísifo. ainda ressentido com as perdas no jogo.bateria de canhões. alinhados pelos cubos das rodas para proporcionar fogo concentrado. como vamos girar os teus discos de vidro por tempo suficiente para fornecer força a este aparato imenso?". Assim. "Ethan. tosco e azedo. "Precisaremos de um exército para girar manivelas!" "Um exército não. Eu soube que Ned estava informado de minha miraculosa reaparição e andava se gabando de que ainda me devia uma sova. Bastam ombros largos e uma mente não muito brilhante. perguntou Miriam. empurrando interminavelmente morro acima uma enorme rocha. Era necessário vingarme daquela perfídia no portão de Jerusalém. Ned continuava a ser um gigante perigoso." Eu me referia a Big Ned. cada garrafa adicional poderia ser ligada à última para intensificar o choque potencial que eu pretendia aplicar nos soldados franceses. O xis da questão era não topar por acaso com ele quando eu estivesse em desvantagem. Desde que eu desembarcara em Acre. no entanto.

Enquanto mosquetes disparavam com fulgor e estrondo no escuro (ah. no escuro. incluído Ned. Meu braço ofereceu a cada um deles uma mão para que entrassem. Era um serviço que exigia coragem: os peritos atiradores britânicos trocavam disparos com seus equivalentes franceses enquanto uns poucos voluntários.fosso na base da torre mais crucial de Acre. cestas de pedras. é coisa que não tem preço. até que restou apenas Ned lá embaixo. homens pobres e analfabetos que tinham pouco do idealismo dos voluntários franceses. eu viera a admirar a rija determinação dos tripulantes ingleses. mas que demonstravam obstinada lealdade à Coroa e à pátria. A vingança tem lá suas recompensas. Ele deu um bom puxão na corda. como se fossem macacos apressados. . As muralhas se mostram mais fortes quando não têm fendas que facilitem a passagem de balas de canhão. apareci para dar uma mão na porta de saída da fortaleza. A cara que Ned fez quando aquela rota de fuga se soltou e caiu fazendo som de matraca. que saudades de meu fuzil!). que lavrava. argamassa e água eram baixadas para a turma de reparos. raspava e assentava. Apesar de meus problemas com Ned e Tom. mourejavam lá embaixo. e era esse o motivo de Smith e Phélippeaux quererem os reparos ali. Já perto do alvorecer. acima de onde ele estava. Ned possuía esse mesmo estofo. até virar uma pilha de corda a seus pés. com as balas ricocheteando em volta. eles finalmente correram de volta para uma escada de cordas.

e te ensinarei uma lição de verdade. "Ah. gritando ele lá embaixo. como cavalheiro." "Com os diabos. Big Ned". então! Já que não posso te esganar. "Não é nada gostoso ficar trancado do lado de fora. espada contra espada. com canhão!" "Eu falei em espada. achei que não ficarias a menos de cem milhas de honrados fuzileiros britânicos! E agora pretendes me largar neste fosso e deixar que os franceses façam o serviço por ti?" Juntou as mãos em concha e gritou: "O americano é poltrão .ah. com porrete. disse-lhe. vou mesmo! Vou lutar contigo com pistola. se alguma vez tiveres peito de cair no braço comigo!" "O valentão quer sempre tirar vantagem do tamanho. não". eu vou te arrancar os braços e as pernas.Eu me inclinei sobre a muralha. se é!" "Não. "Duela comigo do jeito justo. rebati. trapaceiro." "Deixa-me subir. "Só quero fazer que sintas o gostinho da tua vil traição e ver se és homem o bastante para me encarar. com faca. não é mesmo. juntaste coragem para sair do palácio do paxá. ianque lambão? Depois da lição que te dei em Jerusalém. baixei uma corda. alcei de novo a . "Encarar-te?! Por Deus. com o duelo marcado de modo satisfatório para mim. vou te cortar ao meio!" Assim. Ned?" A cabeça dele se aqueceu como uma cebola roxa quando me reconheceu cinqüenta pés acima." Os olhos dele saltaram como se estivessem cheios de vapor. em vez de bater portão na minha cara ou se esconder no porão do navio.

eu me pus a trabalhar. Franklin era sempre uma inspiração. cuidando para que Ned pudesse segurá-lo com firmeza. refleti que o sábio da Filadélfia usaria engenhosidade em vez de força bruta. disse eu. Sabotar Ned foi simples. coloquei em seu lugar um substituto de cobre. Retirei o cabo de pano e tecido do alfanje que ele usaria. o alfanje! Uma coisa que corte osso! E vou trazer os meus camaradas para te verem sangrar!" Olhou muito feio para os homens que estavam ali apreciando o diálogo. Assim.escada e fiz Ned voltar para dentro de Acre. eu não te deixaria pagar para sair desta nem se tivesses dinheiro para me devolver dez vezes o que levaste!" "Eu te encontro nos jardins do palácio. "Ninguém passa a perna em Big Ned. o sabre ou o alfanje?" "Por Deus. Preferes o florete. enquanto trabalhava na nova forja de Jericó. passando-lhe sermão enquanto Ned tirava argamassa das roupas e me fitava com fúria. "E eu estou a ponto de retribuir a compaixão que demonstraste no carteado. Vamos duelar e liquidar nossos assuntos de uma vez por todas! Agora. poli a peça . "Estou tendo mais compaixão para contigo do que tiveste para comigo". imediatamente antes que a luz do amanhecer o transformasse em alvo." Minha disposição para duelar com um animal daqueles vinha da minha capacidade de prever seus movimentos. e.

e tornei a cobrir o cabo com tecido. Os metais são condutores de eletricidade. "não importando o tamanho nem a perícia dele. Abri um vão no miolo do cabo. Meu oponente olhou de soslaio. Nada mais justo que isso. para minha própria segurança. ianque tratante de uma figa?" "Mágica". quando Ned apareceu no pátio. calculando que poderia lucrar bastante com toda aquela trabalheira) e então assumi uma pose de esgrimista na passagem do . mas que matador não fica agitando a capa? Dei alguns minutos até que a multidão de marujos e fuzileiros navais reunidos fizesse apostas contra mim (com um empréstimo do ferreiro. pouco antes da chegada de meu oponente. "Ei. eu as cobri inteiramente. coloquei uma cobertura de pano duas vezes mais grossa. Teu muque contra meu miolo. eu quero uma luta justa!" "E a terás. respondi. agora acumulando eletricidade no aço de meu alfanje. "E o que é isso agora.toda. e. advertiu Jericó." "A honra exige que nos batamos". com resignação igualmente ensaiada. revesti-o de chumbo. disse. Não tens chance contra Big Ned. Meu alfanje já foi mais complicado. segurei contra a ponta do cabo um arame grosso que saía da manivela que eu construíra para gerar eletricidade por fricção. do jeito que eu pedira. "Isto é loucura. aumentando o isolamento. não?" "Ethan. lâmina contra lâmina. ele vai te partir como se fosses uma vareta". Eu estava girando e girando sem parar a manivela." Imagino que não seja muito esportivo ludibriar o touro.

e Ned ficou todo cheio de si. Aparei o golpe. bradei. Mas não foi assim: quando o aço bateu no aço. e Ned se estatelou como Golias e ficou lá no chão. "Em guarda.jardim onde duelaríamos. Opinião contrária teve Alessandro Volta. Gostei de pensar que as moças do harém estariam olhando lá de cima. O alfanje do fuzileiro voou. Teria Ned morrido? Eu o toquei com a ponta de meu alfanje. errando por pouco um de seus companheiros de bordo. que fez os espectadores se sobressaltarem e gritarem. Eu desejaria poder dizer que exibi valorosa e hábil demonstração de esgrima ao contrapor destramente minha capacidade atlética à força bruta de Ned. tal qual disparo de arma de fogo. e sabia que Djezzar também estava. prometo te dar cada xelim. Mas. O outro alfanje ardia em minha mão. Então arremetemos um contra o outro. O ar cheirava a queimado. para quem uma . com os olhos virados. brandindo os alfanjes. houve simplesmente uma chuva de faíscas e um estampido agudo. e ainda assim Ned foi atirado para trás como se houvesse levado um coice de mula.1 1 Galvani pensou que este fenômeno de contração muscular era devido a uma "eletricidade animal". Ele estremeceu como um dos sapos das experiências de Galvani. ficarás em dívida de gratidão para comigo!" "Se perderes. pegarei o que me deves no picadinho em que terei te transformado." A multidão gargalhou ante tal verve. "Se eu perder. fanfarrão!". Nossas lâminas mal se tocaram. se perderes. mas eu ficara isolado do pior do choque.

Deus abençoe os tolos instintos dos marítimos britânicos para a jogatina. "Estou em dívida. abismada. eu te ensinarei a fazer o mesmo. Se te aliares a mim. as pernas agitam-se bruscamente como se o animal estivesse vivo. Por fim. Ned estremeceu. Ned conseguiu erguer-se o suficiente para ficar sentado no chão. Em 1786. em qualquer lado em que estejas. Um contramestre se apressou a atirar para mim a bolsa com o dinheiro das apostas.agora eu vejo isso. As observações de Galvani conduziram muitos fisiologistas a debruçarem-se sobre as relações entre eletricidade e fisiologia (eletrofisiologia). ." fonte de eletricidade era o conjunto das duas peças de metal. Ned. Tens estranhos poderes. à custa do sacrifício de milhões de rãs. piscou e se encolheu. "Ninguém nunca me venceu antes. Unindo dois metais diferentes de um lado e tocando com as outras extremidades em certos pontos do corpo da rã. Ned. Apontei meu alfanje para os outros. para desanuviá-la. Tu sempre sobrevives. chefe . grogue. Luigi Galvani fez experiências com pernas de rãs. temeroso. já disseste." "Caramba! O que fizeste comigo?" "Mágica". repeti. quem mais quer me desafiar?" Eles recuaram como se eu fosse leproso. pelo menos não depois que fiz oito ou nove anos e já conseguia sová-lo. Nem mesmo o meu pai." "Eu apenas uso o cérebro. Agora. "Não me toques!" "Não deverias pôr à prova quem é melhor que ti. "Venci nas cartas limpamente e venci este duelo. Foi esta teoria que lhe permitiu construir a pilha de Volta." "Vais finalmente me respeitar?" Ele balançou a cabeça.A multidão estava absolutamente silenciosa.

Ned?" "Se não me tocares.. escutai"." "Não. eu preciso da tua ajuda para fazer mais mágica. e nós esperávamos. como um gato inquieto. Quero servir contigo. confirmei. podemos ser amigos. Se o fizerdes. não brigar. disse ele." Ned se afastou às pressas. Consegues. de maneira que. Eu conseguia imaginar o formigamento nada natural que ele devia estar sentindo. homem!" "Ah. em voz baixa e áspera. "Bem. "Não toques na espada. tereis de vos acertar comigo." Deu-me um abraço. tal qual um símio gigantesco. "Todos os outros. Preciso de alguém que consiga fazer girar o meu aparato como o próprio capeta faria. resmungando a respeito da danação dos cristãos e de todos os infiéis. Smith e Bonaparte concordaram em fazer uma troca de prisioneiros. Eu e ele agora somos parceiros. estamos quites". no espírito do feriado." Fez-se uma estranha calmaria enquanto os franceses cavavam como formigas rumo às muralhas de Acre e assentavam os canhões que lhes restavam. "Não contrarieis o americano. com aquele moroso fatalismo que vai desgastando os sitiados. sentava . Era a Semana Santa. Djezzar andava para lá e para cá pelas muralhas. forcejou para colocar-se em pé e balançou de um lado para outro. "Agora. sim. permutando os homens que haviam sido capturados em incursões e escaramuças. Eles cavavam.." Desajeitadamente. só que desta vez contra os franceses."Certo. Depois.

" "E quanto a ti?" . era o tipo de homem que não sabia dizer não nem permitir-se uma redução da qualidade. No entanto. e ele estava intranquilo com minha crescente proximidade de Miriam. as vigas do teto tremeram com o bombardeio. desabávamos num sono espasmódico e exaurido. No combate aproximado nas muralhas. A oscilação fez voarem faíscas da forja. mais esticado. quando se acelerou o rufar da artilharia francesa. mas era difícil obter ajuda de Jericó. grogue de sono e cansaço. e os olhos tinham se ensombrecido. O ferreiro exibia sinais do esforço excessivo. Os canhões franceses troavam vinte e quatro horas por dia. Por isso. o aço seria tão importante quanto a pólvora. conjecturei. O rosto um tanto querubínico se tornara mais seco. "Os franceses estão testando as nossas defesas". Jericó raramente via sol. em cantos opostos do arsenal. pois o Açougueiro. Trabalhava até quando Miriam e eu. com pouco tempo para recarregar bocas de fogo. foi o ferreiro a acordar-nos na escuridão anterior ao amanhecer de 28 de março.numa grande cadeira na torre do canto para motivar seus soldados. "Mantém a tua irmã aqui embaixo. Mesmo nas profundezas do porão de Djezzar. Eu trabalhava exaustivamente em meu plano elétrico. Ambos sois mais valiosos como ferreiros que como alvos. Smith e Phélippeaux lhe mandavam constantes solicitações de armamento. prenunciando o ataque iminente. fitando-os com seu olhar feroz.

interrompida aqui e ali pelo impacto de uma bala de canhão na muralha ou pelo sibilar de outra que passava por cima. Então. árabe e aflitos gestos de mão. e as escadas e rampas estavam alumiadas por tochas. Esta tremia como uma árvore que estivesse sendo abatida. Phélippeaux corria como um louco pelas muralhas. mas vou ver como poderíamos usá-la!" Eram quatro da manhã. Seus clarões interrompiam o troar . com um estranho sorriso nos lábios. Nas linhas francesas. andando compassadamente atrás de um contingente de fuzileiros navais britânicos. Smith estava no parapeito. os clarões assinalavam onde se instalara a artilharia deles. nossos canhões começavam a disparar em resposta. Agora. No parapeito. lanternas de sinalização eram alçadas na torre do meio para chamar apoio naval."A minha corrente ainda não está pronta. Peguei emprestado um mosquete e disparei para onde imaginava que elas pudessem estar. cada um deles xingando em seu respectivo idioma. segui Phélippeaux até a torre. inglês. o bombardeio era uma sucessão constante de trovões. mas não enxerguei as tropas inimigas. Perscrutei a escuridão. para cima e para baixo. Ao mesmo tempo. numa onda de soldados turcos e de marujos e fuzileiros britânicos que subiam as muralhas. na esperança de atrair fogo que as denunciasse — mas os franceses eram demasiado disciplinados para isso. Fui levado de roldão para cima. dirigindo os disparos dos canhões da cidade com uma confusa mistura de francês.

Antes que Djezzar fechasse a . e então houve um estrondo quando uma delas passou raspando por uma ameia e os fragmentos de rocha resultantes se espalharam como estilhaços de granada. perguntei a Phélippeaux." Pelas calças de Casanova. Um canhão turco saiu da carreta e caiu pesadamente.uma mescla de sátiro com o profeta Elias. "Como posso ajudar?". e uma camisa de feltro para ser usada por baixo. Está no harém. Tinha duas pistolas enfiadas na cinta e segurava um velho sabre prussiano. A coisa toda me ferira os ouvidos.constante do fogo francês. e quase bati de encontro em Haim Farhi nos aposentos do paxá. os olhos brilhantes . barbudo. sem camisa. enferrujada." "Ele não pode ser incomodado. Ele é o único homem a quem seus soldados temem mais que Napoleão. o governante conseguia copular num momento daqueles?! Mas então se abriu uma porta numa escadaria que levava para cima. As balas começaram a voar mais alto. e sentia-se o fedor acre e intoxicante da pólvora queimada. As muralhas e o fosso tendiam a ecoar e amplificar os estrondos. Um escravo lhe trouxe uma malha de aço. procurando conter o tremor natural em minha voz." Fiquei grato pelo pretexto para correr de volta ao palácio. mas também proporcionavam aos artilheiros inimigos uma referência de mira. "Precisamos de vosso senhor para ajudar a fortalecer o ânimo dos soldados. "Vai chamar Djezzar. e apareceu o Açougueiro. e homens cegados pela explosão berravam.

porta atrás de si, eu ouvi a falação e o choro agitados das mulheres. "Phélippeaux precisa de vós", disse eu, sem necessidade. "Agora os francos vão chegar perto o bastante para que eu os mate", assegurou o paxá. Quando voltamos para a torre, a luz pálida do amanhecer recortava em silhueta o morrote que era o observatório de Napoleão. Vi que navios britânicos tinham se movido mais para perto da terra, na baía de Acre, mas que o fogo de seus canhões não alcançava a coluna de assalto francesa. Agora, eu distinguia lá embaixo uma massa humana em trincheiras rasas, como uma centopeia grande e escura. Homens carregavam escadas. "Eles abriram uma brecha na torre, logo acima do fosso", informou Phélippeaux. "Não é muito grande, mas, se os franceses conseguirem entrar, os turcos fugirão em debandada. Há muito falatório sobre o que aconteceu em Jafa - os nossos otomanos estão angustiados demais para lutar e apavorados demais para render-se." Inclinei-me por sobre a muralha para olhar para o negrume do fosso. Os franceses poderiam entrar nele até com facilidade, mas conseguiriam sair? "Usai um barril de pólvora", sugeri. "Ou meio barril, completando o resto com prego e bala. Atirai isso neles quando tentarem tomar a brecha." O coronel monarquista sorriu de orelha a orelha. "Ah, mon Américain sanguinaire!... Vossos instintos são de guerreiro! Pois muito bem,

iluminemos o caminho para o homem da Córsega!" "Napoleão!", bradou Djezzar, subindo para ficar de pé em sua cadeira na torre, tão visível quanto uma bandeira desfraldada. "Vem meter-te com este mameluco agora, vem! Vou te foder como acabei de foder as minhas esposas!" Balas sibilaram, miraculosamente sem atingi-lo. "É, vem me abanar como fazem as minhas mulheres!" Nós o puxamos à força para que descesse da cadeira. "Se morrerdes, estará tudo perdido", repreendeu-o Phélippeaux. "Eis o que eu penso da pontaria deles", disse o Açougueiro, e cuspiu. A malha de aço balançava enquanto ele se pavoneava de um lado para outro na torre, assegurando-se de que seus soldados agüentariam firme. "Não penseis que não estou de olho em vós!" Assim que a paisagem ficou cinza-claro pela aproximação do dia, vi quanto Bonaparte se mostrara apressado. Suas trincheiras ainda eram rasas demais, e uma vintena de seus homens já fora atingida. Diversos canhões franceses haviam sido postos fora de ação na bateria do reservatório de água, pois as fortificações de terra preparadas para eles eram inadequadas, e o velho aqueduto ia sendo mascado por nosso fogo, fazendo chover pedaços de alvenaria sobre as tropas que se amontoavam ali. As escadas que elas traziam pareciam ridiculamente curtas. Não obstante, ouviu-se um grande urro, agitou-se a bandeira tricolor, e os franceses arremeteram. Como sempre, demonstravam élan.

Era a primeira vez que eu via do lado oposto a temerária coragem deles, e foi um espetáculo assustador. Com alarmante rapidez, a centopeia assaltou e engoliu o terreno entre as trincheiras e o fosso. Os turcos e os fuzileiros britânicos tentaram diminuir-lhes o ímpeto com seus mosquetes, mas o hábil fogo francês de cobertura nos obrigou a ficar de cabeça baixa. Acertamos só alguns. O inimigo se derramou para o fundo do fosso. Suas escadas se revelaram mesmo curtas demais (o trabalho francês de reconhecimento fora feito às pressas), mas os mais destemidos pularam para dentro do fosso e as ergueram e seguraram para que seus camaradas descessem por elas. Outros disparavam por sobre o fosso para a brecha que tinham aberto, matando alguns de nossos defensores. As tropas otomanas começaram a lamuriar-se. "Silêncio! Estais parecendo as minhas mulheres!", esbravejou Djezzar. "Quereis descobrir o que farei convosco se fugirdes?" Agora, a infantaria francesa colocava suas escadas do outro lado do fosso. Chegavam no máximo a uma altura vários pés abaixo da brecha - um indesculpável erro de cálculo. Esse momento, em que os franceses se puxariam para cima, era aquele em que eles poderiam agarrar-se a uma corrente suspensa. Sem descarga elétrica, ela permitiria que invadissem a cidade em torrente, e Acre teria o mesmo destino que Jafa. Entretanto, se estivesse eletrificada... Os turcos mais valentes se inclinaram sobre o parapeito para disparar com as armas de fogo ou

arremessar pedras para baixo - mas, tão logo faziam isso, eram atingidos por franceses do outro lado do fosso. Um homem berrou e despencou lá para baixo. Eu mesmo usei um mosquete, amaldiçoando sua falta de precisão. Alguns otomanos começaram a largar as armas e fugir. Os fuzileiros britânicos tentaram detê-los, mas aqueles haviam entrado em pânico. Então, Djezzar desceu do alto da torre para bloquear a saída deles, brandindo o sabre prussiano e gritando. "Do que estais com medo? Olhai para eles! As escadas que trouxeram são curtas demais! Eles não conseguem entrar aqui!" Djezzar se inclinou por cima da muralha, descarregou as duas pistolas e as entregou a um turco. "Faz alguma coisa, velha medrosa - recarrega as pistolas!" Após esse corretivo, os otomanos voltaram a atirar. Por mais que estivessem com medo dos temíveis franceses, eles tinham pavor de Djezzar. E, então, uma estrela de fogo caiu da torre. Era o barril de pólvora que eu sugerira. Ele chegou ao chão, quicou e explodiu. Houve um estrondo e uma nuvem que irradiou lascas de madeira e estilhaços de metal. Aquela aglomeração de granadeiros oscilou abruptamente para lá e para cá, os mais próximos despedaçados, outros gravemente feridos, outros ainda atordoados pela explosão. Os homens de Djezzar deram vivas e começaram a atirar para valer no apinhamento de franceses, aumentando a devastação.

Assim, o assalto terminou antes mesmo de ter se iniciado. Os franceses, com artilharia impossibilitada de atirar contra alvos próximos demais das tropas de assalto, com escadas curtas demais, com uma brecha pequena demais, com oposição revigorada, haviam perdido o ímpeto. Napoleão apostara na velocidade e não nos tediosos preparativos de cerco - e perdera. Os atacantes deram meia-volta, retornando aos trambolhões pelo caminho inverso. "Vedes como eles correm?", gritou Djezzar para seus homens. E as tropas turcas começaram mesmo a bradar com assombro. Os implacáveis francos estavam em retirada! Não eram invencíveis afinal! E, a partir daquele momento, a guarnição se viu tomada por renovada confiança, que lhes serviria de esteio nas longas e sombrias semanas vindouras. A torre se tornaria o fulcro não apenas de Acre, mas de todo o Império Otomano. Quando o sol enfim coroou os montes a leste e iluminou por completo a cena, evidenciou-se a destruição: quase duzentos soldados de Napoleão jaziam mortos ou feridos, e Djezzar se negou a diminuir o fogo para que os franceses recolhessem suas baixas que ainda viviam. Muitos morreriam ali, aos berros, antes que os sobreviventes fossem finalmente carregados para um lugar seguro na noite seguinte. "Mostramos aos francos a hospitalidade de Acre!", tripudiou o Açougueiro. Phélippeaux ficou menos satisfeito. "Eu conheço o corso. Aquilo foi apenas uma sondagem. Da

próxima vez, ele virá mais forte." Virou-se para mim. "É melhor que o vosso pequeno experimento funcione." O fracasso da primeira investida de Napoleão teve efeito curioso sobre a guarnição. Os soldados otomanos encorajaram-se com o fato de terem logrado repelir o invasor. Pela primeira vez, cumpriam seus deveres com determinação orgulhosa, e não mais com resignação fatalista. Os francos podiam ser derrotados! Djezzar era invencível! Alá atendera a nossas preces! Mas, em compensação, os marinheiros e fuzileiros britânicos ficaram mais comedidos. Uma longa sucessão de vitórias navais os tornara arrogantes em face da possibilidade de enfrentar os franceses. Agora, entretanto, davam-se conta da coragem dos soldados inimigos. Bonaparte não se retirara. Ao contrário: suas trincheiras de ataque estavam sendo cavadas mais vigorosamente do que nunca. Os marítimos sentiam-se encurralados em terra. Os franceses usavam engodos para atrair nosso fogo e desencavavam as balas de metal sólido que nossos canhões lançavam, reutilizando-as contra nós. Não ajudava que Djezzar estivesse convencido de que os cristãos conspiravam contra ele, muito embora os franceses que atacavam a cidade representassem uma religião que abandonara o cristianismo. O Açougueiro colocou várias dúzias de cristãos locais em sacos e os atirou ao mar, junto com dois prisioneiros franceses. Nesse episódio, Smith e Phélippeaux foram tão impo-

tentes para deter o paxá quanto Napoleão o fora para deter as tropas francesas no saque de Jafa, mas muitos ingleses concluíram que aquele aliado era um louco impossível de controlar. A inquieta hostilidade de Djezzar não se limitava aos seguidores da Cruz. O bei Salih, um mameluco do Cairo que era velho arquiinimigo do paxá, fugira do Egito após a vitória napoleónica e viera unir-se a Djezzar contra os franceses. O paxá o acolheu calorosamente, deu-lhe uma chávena de café envenenado e jogou o cadáver no mar meia hora após a chegada do visitante. Big Ned mandou seus camaradas depositarem a confiança deles no "mágico" - eu. Ned garantia que os mesmos artifícios que me permitiram derrotá-lo, um homem com o dobro de meu tamanho, ajudariam-nos a triunfar sobre Napoleão. Assim, sob nossa direção, os marujos e fuzileiros construíram dois toscos cabrestantes, um em cada lado da torre. A corrente ficaria pendurada como uma grinalda naquela fachada, tendo a elevação controlada pelos cabrestantes. Em seguida, transferi minhas garrafas de Leiden e minha manivela de fricção para um andar na metade da torre, o da porta de saída de onde eu desafiara Big Ned. As garrafas iriam se ligar a uma haste de cobre, que se ligaria a uma corrente menor, que, por sua vez, também se ligaria por gancho à corrente maior. "Quando eles vierem, Ned, deves girar a manivela como louco, sem parar." "Chefe, eu vou acender esses francesotes como se eles fossem fogueira de Halloween."

Miriam ajudou a montar o aparato; seus rápidos dedos eram ideais para ligar as garrafas umas às outras. Será que os antigos egípcios também tinham tal feitiçaria? "Eu queria que o velho Ben estivesse aqui para ver o que estou fazendo", comentei quando descansávamos na torre num fim de tarde, com nossa feitiçaria metálica reluzindo a luz débil que passava pelas seteiras. "Quem é o velho Ben?", perguntou Miriam, num sussurro, encostada em meu ombro enquanto estávamos sentados no chão. Tal proximidade física já não parecia fora do comum, embora eu sonhasse com mais. "Benjamin Franklin, um sábio americano que ajudou a dar início ao meu país. Era um maçom que sabia a respeito dos templários, e alguns acham que Franklin tinha em mente as idéias deles quando criou os Estados Unidos." "Quais idéias?" "Olha, eu não sei exatamente. Acho que a idéia de que um país deve representar alguma coisa. Ter um propósito. Acreditar em algo." "E no que acreditas, Ethan Gage?" "É justamente a pergunta que Astiza costumava me fazer! Será que todas as mulheres perguntam isso?... Bem, eu acabei acreditando em Astiza - e, tão logo fiz isso, a perdi." Miriam me olhou com tristeza. "Sentes falta dela, não?" "Como certamente sentes falta do noivo que morreu na guerra. Como Jericó sente falta da

mulher; Big Ned, de Little Tom; e Phélippeaux, da monarquia." "Então, cá estamos nós, o nosso círculo de enlutados." Ela ficou calada por um momento. Em seguida, disse: "Sabes no que acredito, Ethan?" "Na Igreja?" "Eu acredito no Outro que a Igreja representa." "Tu te referes a Deus?" "Quero dizer que, na loucura da vida, existe mais do que apenas loucura. Eu acredito que, em todas as vidas, há raros momentos em que percebemos aquele Outro que está em toda a nossa volta. Durante a maior parte do tempo, ficamos trancados, solitários e cegos no mundo, como as aves no ovo. Mas, de vez em quando, conseguimos quebrar a casca para dar uma espiada lá fora. Os abençoados têm muitos desses momentos, e os ímpios não têm nenhum. Mas, quando os temos quando percebemos o que é verdadeiramente real, muito mais real do que o pesadelo em que vivemos -, tudo fica suportável. E eu acredito que, se conseguirmos achar alguém que crê como nós, alguém que forceja contra a casca que nos prende... Bem, aí os dois, juntos, conseguirão quebrar a casca por inteiro. E isso é o máximo a que podemos aspirar neste mundo." Tremi por dentro. Seria a guerra monstruosa em que eu me vira preso naquele último ano um sonho falso, uma casca que me envolvia? Teriam os ingleses sabido como quebrar a casca daquele ovo? "Não sei se já tive um único momento assim. Isso me torna ímpio?"

"Os ímpios nunca reconhecerão sê-lo, nem mesmo para si mesmos." A mão de Miriam apalpou meu queixo, com a barba de vários dias. Seus olhos claros eram como o abismo junto ao recife de Jafa. "Mas, quando este momento chegar, precisarás aproveitá-lo, para deixar a luz entrar." E então ela me beijou, desta vez um beijo pleno. Seu hálito estava quente, e o corpo se comprimiu contra o meu. Os seios se espremeram contra meu peito, e ela tremia. Eu neste momento me apaixonei, não apenas por Miriam, mas por todo o mundo. Será que isso parece insano? Pelo mais fugaz dos momentos, senti-me ligado a todas as outras almas atormentadas de nosso mundo louco, com um estranho sentimento de comunhão que me encheu de pesar e amor. Retribuí o beijo, agarrando-me a ela. Eu estava finalmente esquecendo a dor de não ter Astiza, perdida havia tanto. "Guardei os teus anjos dourados, Ethan", murmurou Miriam, puxando uma algibeira de veludo que trazia num cordão entre os seios. "Aqui estão." "Fica com eles. É um presente." Que utilidade teriam para mim? E então se ouviu um estrondo, cuspindo argamassa, e a torre inteira estremeceu como se um gigante a sacudisse para que fôssemos jogados para fora. Por uns instantes, temi que a construção fosse desmoronar, mas aos poucos ela parou de oscilar e acabou se assentando, com o piso ligeiramente inclinado. Soaram clarins. "Explodiram uma mina! Eles estão vindo!"

"Os sapadores cavaram um túnel debaixo da torre e o encheram de pólvora". disse eu a Phélippeaux. Desta vez. Eu me inclinei para fora." Voltei-me para Smith. fui perscrutar a névoa de fumaça e poeira. Quando eles se aglomerarem. mas mal se atingiu a base da muralha . "Acho que erraram os cálculos. uma coluna de tropas vinha a passo rápido junto ao aqueduto. "Fica aqui". contou-me. O fosso virou entulho. atirai neles com tudo o que temos lá embaixo e aqui em cima." Em seguida. Phélippeaux já estava lá. "Juntai vossos melhores homens na brecha". . "Aquela vossa diabrura está pronta?" Phélippeaux apontou para fora. disse eu a Miriam. As escadas eram agora mais compridas.Era hora de testar a corrente. "Tentarei ver o que está acontecendo. corri para o alto da torre. parecia tratar-se de uma brigada inteira. que estava .14 Por uma portinhola. Havia uma grande fenda na base da torre e uma nova passarela de entulho no fosso. "Bonaparte está decidido. sem chapéu." Ele se impulsionou para voltar ao parapeito e me agarrou pelo braço.não vejo rachaduras até em cima. inclinado sobre a beira do parapeito e indiferente à sucessão de balas disparadas pelos atiradores franceses. "Vou deter os franceses com minha corrente. porém." Assim como antes. balançando enquanto os soldados avançavam.

e. perderei força elétrica. Disparavam-se canhões em toda a parte. pedaços dos escombros eram atirados para o ar." "Já os teremos liquidado até então." "Não hesiteis. Em algum momento. obrigando-nos a berrar por conta dos estrondos. A vanguarda dos granadeiros franceses começava a correr. e eles quebrarão o meu aparato. "Farei cair sobre eles o fogo de Zeus. e eu os faço soltar faísca. eu para meu novo companheiro. de quando em quando destruindo ou fazendo tombar um canhão de campanha ou uma carroça de pólvora. preparai vossas bombas!" Ele arfava. carregando as escadas como lanças no rumo do fosso.ofegante após a rápida subida. e o furor da batalha era de tirar o fôlego. Nossos próprios projéteis de artilharia causavam grandes jorros de areia entre as posições francesas. e a nossa bateria de garrafas precisa estar totalmente carregada!" "Tu baixas a corrente. agora! Vem para a nossa sala e gira a manivela com toda a força de que for capaz! Eles já estão vindo." Coloquei alguns fuzileiros em cada um dos cabrestantes. quando elas acertavam. "Sir Sidney. Ned. "Agora. ele para a brecha." Phélippeaux e eu saímos correndo escada abaixo. chefe. mandando-os ficarem agachados até a hora de baixar a corrente. Desde a explosão da mina. havia estrépito e nuvens de poeira. irrompera um duelo de artilharia em larga escala. Quando os projéteis caíam na cidade. . Às vezes se avistavam as balas da artilharia atravessarem o céu acima de nós.

"Baixai a corrente!" Em ambas as extremidades.vede. Companhias inteiras deles estavam disparando salvas de mosquete contra nossas cabeças. caminhando para lá e para cá. Djezzar apareceu. até a sala onde estavam meus companheiros. Os franceses certamente pensaram que tínhamos enlouquecido. A corrente suspensa. Ned. no alto da muralha. apesar do fogo . foi raspando e deslizando pela face da torre na direção da base. parecendo uma guirlanda."Agora. O disco de vidro girava como uma roda de carroça a galope. e retribuíamos o cumprimento com metralha de canhão. atirai! Eles se darão por vencidos quando perceberem que não vamos fugir! A mina não funcionou . chefe!" "Esperemos até eles chegarem à corrente. a torre continua de pé!" Desci com toda pressa a escada da torre. entre seus soldados agachados ou estirados no chão. fazendo o aparato zumbir como colméia. os fuzileiros começaram a soltar os cabos dos cabrestantes. e os parapeitos já ficavam escorregadios por causa do sangue. com a corrente atravessada no buraco da torre. "Atirai. a passos largos. alheio ao fogo inimigo. Quando chegou à brecha. sem camisa e com o tronco reluzindo de suor. espiando por uma seteira. ainda usando a velha malha de aço tal qual um sarraceno ensandecido. como se fosse um improvável cordão para coibir a entrada. "Pronto. acionava freneticamente a manivela. Homens berravam ou abriam a boca num esgar ao ser atingidos." "Eles vêm vindo". bradei. disse Miriam. Correndo furiosamente. eu os fiz parar. Metal rangia. agora!".

e a bandeira caiu. "Está quase na hora. à medida que os franceses esticavam os braços para trás para alçar seus outros camaradas. Os atacantes alcançaram minha guirlanda de ferro e a agarraram. gritou Miriam. e seguiu-se um estrondo quando nossos homens na base da torre dispararam uma salva de mosquete e pistola. Longe de ser uma barreira. mais os grunhidos e berros de homens feridos.arrasador que lhes dizimava as fileiras. Ouvi Phélippeaux gritar uma ordem. Ned. Outros atacantes passaram arduamente sobre esses corpos." "Eu pus todo o meu muque nestas garrafas". e a bandeira foi de novo levantada. O efeito foi instantâneo . ela estava mais para uma ajuda na escalada. Houve um clarão e um estalo.um berro. que fez a haste de cobre da bateria ir de encontro à pequena corrente que estava ligada à grande. a corrente estava apinhada de soldados. Empurrei uma chave de madeira. arfante. como vespas num fio de melaço. disse ele. Alguns não conseguiram soltar-se. "Vamos! Agora!". gritando enquanto . Escutei o baque já familiar de quando o chumbo atingia carne. Num átimo. A vanguarda dos atacantes oscilou para trás. atirando para dentro da brecha. murmurei. "Reza a Franklin". e os granadeiros voaram da corrente como se houvessem levado coices. os granadeiros da dianteira (um deles carregando o pendão tricolor) arremeteram-se através da passarela de entulho que enchera pela metade o fosso e começaram a subir com dificuldade para o buraco que a mina abrira. faíscas.

Na mesma hora. os atacantes perceberiam como a corrente estava suspensa e a arrebentariam.queimavam e depois pendendo tremulamente da corrente. instalou-se a confusão. mas quanto tempo a carga elétrica poderia se manter? Ned respirava ruidosa e dificultosamente. enquanto os granadeiros franceses . Phélippeaux e seu bando de turcos e britânicos. "Continua girando a manivela!" Ele estremeceu. de baionetas caladas. mas agora zanzavam sem saber o que fazer. eu me vi no pleno furor da batalha. bradavam os granadeiros. "Onde está Miriam?" "Foi levar pólvora para Phélippeaux lá embaixo". mesmo com mais tropas afluindo para o fosso atrás deles. "Fogo!". Era pavoroso. O aparato ia funcionando. Soldados tentavam levantá-la ou puxá-la e caíam como bois atordoados. Mais disparos foram feitos de nossa torre. notei uma ausência e olhei desesperadamente em volta. Corri para a porta. "Aquela corrente tem um calor esquisito!". À medida que se aglomeravam. "Não! Preciso dela aqui!" A brecha devia estar parecendo um abatedouro. Homens a tocavam com as baionetas e retrocediam. respondeu Ned. "Certo. apinhavam-se na base da torre. gritou Phélippeaux lá de baixo. disparando e esgrimindo pela brecha. com os músculos geleificados. Em algum momento. De súbito. mais eram derrubados a tiros. e mais atacantes tombaram." Dois andares abaixo. sentindo o esforço. Senti o cheiro de sua carne.

Mais tropas francesas chegaram impetuosamente. Ambos os lados já haviam arremessado granadas. como se pretendesse atirá-la em meu dispositivo. O vestido estava rasgado e ensangüentado. e Miriam ia sendo arrastada para longe de nós . De onde eu estava. pedi numa prece sussurrada. "Puxa a haste de cobre para que não encoste mais na corrente!" Mas não havia como ele me ouvir. "Miriam. berrei. continua girando. berraram e foram arremessadas para trás. Continua girando. rubras de sangue. . Miriam fritaria! "Ned. um medonho buraco de luz e fumaça. Atravessou o peito de um tenente e talhou a cabeça de outro. os mortos se empilhavam. onde ela tentava arrastar um dos feridos para que não fosse liquidado pelas baionetas francesas.um soldado rastejara por baixo e a pegara pelas pernas. Ele começou a carregá-la de volta consigo. emaranhadíssimo. e pelo menos metade dos nossos estava morta ou ferida. Phélippeaux dava golpes e mais golpes de espada. tocaram a corrente.tentavam passar por baixo ou por cima da corrente. as mãos. o cabelo. Ouviu-se um grito de mulher. a brecha parecia uma caverna escancarada para todo o exército francês. Eu sabia que a carga elétrica iria se esgotar. Ned. preciso de ti lá em cima!" Ela assentiu. pára de girar a manivela!". Entre os franceses. "Malditos republicanos!" Uma pistola disparou. Arremeti atrás de Miriam. errando por pouco o rosto de Phélippeaux. Avistei Miriam bem lá na frente.

além de gritos em pelo menos três línguas. até que a arma se quebrou na parte mais estreita da coronha. O metal se descarregara. Uma dúzia de homens a arrastou para longe. Agarrei a bainha de seu vestido enquanto as botas avançavam e tropeçavam em nós. Homens bufavam e tombavam. Preparei-me para o pior. e ela caiu. recebi um golpe. e Miriam foi puxada de mim e atirada contra a corrente. Tropeçamos nos escombros enquanto éramos agarrados por mãos de ambos os lados em luta. com ela unhando os olhos do homem. Então. desta vez ainda mais ruidoso que a mina. fora enfim jogada do alto da torre por Sidney Smith.Foi uma investida contra os franceses que tinham rastejado por baixo da corrente. mas fui simplesmente pisoteado. Uma imensa bomba. pois não se limitara ao subsolo. e nós três nos debatemos. Miriam caíra com a corrente. derrubando homens como se fossem pinos de boliche. Tentei rastejar em meio ao assalto dos granadeiros. Ouvi disparos. Ela caiu sobre a massa de franceses que haviam se juntado diante da corrente e . Por fim. segurei o captor de Miriam. Mas nada aconteceu. olhando-a à cata da fonte daqueles misteriosos poderes. Cortaram a corrente nas pontas. E então veio outro estrondo. Peguei um mosquete caído e o brandi com fúria. na expectativa de que minha bruxaria matasse quem eu amava. elaborada com barris de pólvora. e os franceses se lançaram para a frente. Houve uma grande aclamação.

Piscou. Phélippeaux berrava ordens a sapadores e operários para que iniciassem os reparos na brecha. com força redobrada pelo fosso e pela torre. tiritando um pouco.explodiu.tão macio e tão liso por baixo da fuligem! O frescor acabou por fazer que ela se recobrasse. Eu me voltei. mas a audição começava a melhorar. não morta! Molhei um lenço na água. Abracei-me ao entulho quando o mundo se dissolveu em chamas e fumo. . O ar do jardim estava fumarento. Cinzas caíam como se tivessem passado por uma peneira. Phélippeaux estava dizendo alguma coisa. e então se ergueu. dando um grito que tampouco consegui ouvir. Sim . Braços. e apontando. os franceses batiam em retirada. que eu não conseguia ouvir. tendo sofrido baixas muito mais pesadas que antes. que estava rósea de sangue. pois seus corpos caíram sobre nós como vigas. flácida e calada. Deitei minha colaboradora no banco junto a uma fonte e levei o ouvido em seus lábios. Lá atrás. E então mãos vieram nos arrastar para trás. pernas e cabeças voaram tal qual palha miúda e quebrada. atravessando a torre. e limpei aquele rosto . Meus ouvidos zumbiam. "Miriam! Estás viva?" Ela jazia ali.um murmúrio de trêmula respiração! Miriam estava inconsciente. que a confinaram. Os homens que antes nos pisoteavam se transformaram num escudo sanguinolento. Fiquei momentaneamente surdo. Mais uma vez. Eu a carreguei dos destroços para os jardins do paxá.

"Vamos entrar." "Estás linda. "Meu Deus. Ela se portou como uma amazona. constrangido. irmão. seria necessário mais do que uma corrente eletrificada." Eu a ajudei a subir. como se aquilo fosse culpa dele. perguntou o ferreiro. ." Ela balançou negativamente a cabeça.abruptamente. cingindo meu ombro com o braço para apoiar-se. Miriam olhou para si mesma." Eu sabia que. mas queria ficar longe tanto de Jericó e sua forja quanto da muralha e seus combates. Ned ficou de lado. e ela se recostou em mim. Linda e coberta de sangue." Ela intercedeu. conduzido por um Ned aflito." "Eu poderia ter-te perdido. "Tu me disseste que Bonaparte é implacável. "Os homens precisavam de munição. "É tão horrível. "Estou parecendo um açougueiro. "Disseste que ela viria apenas ajudar na tua feitiçaria. e houve a tensão entre dois homens que queriam a mesma mulher por motivos diferentes." E aí se fez silêncio. "Miriam foi apanhada na luta pela brecha. e não participar. "Funcionou." Miriam pôs os braços ao redor de meu pescoço e se agarrou a mim." "Eu estou bem. "O que aconteceu?" Ela agora tremia." O tom dele era acusador. Comecei a nos levar na direção da mesquita. o que aconteceu?!". para derrotar Napoleão. Jericó. Nisto. Eu não sabia ao certo para onde levá-la. Ethan!" "Talvez eles não voltem mais. mudo. apareceu Jericó." Era verdade. Eles se retiraram.

Tua forja é tão barulhenta quanto uma fábrica. sujos. Atrás de nós. sempre se acha alguma coisa. mas." Dei um sorriso irônico. como se eu soubesse. frustrado. mas insistente." "Eu vou com Ethan. "Mohammad. "Nenhuma bala de canhão poderá nos atingir lá. E assim fomos. a Estalagem dos Pilares). em vez de partir de barco e nos deixar para Napoleão. "Vamos".cheirando a fumaça." "Não te quero com ela. Eu pusera um capote em Miriam. voltemos para a forja". "Estou com Ethan. agora. Meu amigo Mohammad. "Pagando um precinho. disse Jericó." "Todos os quartos estão ocupados. fui procurá-lo. precisamos de um lugar para descansar. "Será que poderíamos dividir este quarto contigo?" . respondi. E é abafada e suja. a artilharia ressoava como tambores distantes. irmão." O tom de Miriam era suave. Jericó. quando aparecemos no cômodo de Mohammad. alojara-se no Khan elOmdan (em árabe. parecíamos dois refugiados . efêndi!" "Mas com certeza. com os punhos fechando-se no nada. ela recostando-se em mim. o ferreiro lá no jardim. entretanto." A voz do ferreiro era categórica. severo. andrajosos. Na empolgação do trabalho na corrente. "para onde ela possa descansar. eu me esquecera dele."Pois bem." "Vai? Aonde?" Ambos olharam para mim.

Descansai. de olhos gentis. Para que serve o dinheiro se não o usamos?" Assim. Um mercador fugiu da cidade." Estávamos a uma distância suficiente das muralhas para que o som dos canhões fosse abafado. mas já encovados pela exaustão. e ele olhou para Miriam com curiosidade. passei-lhe a bolsa.Ele balançou negativamente a cabeça. não mereceis coisa melhor . e Mohammad sumiu. efêndi." Era um homem bem-apessoado.sabeis que não pretendo vos lograr. com os postigos fechados e a mobília coberta e empurrada contra a parede. Hesitei. Trocamos um aperto de mão." A casa estava às escuras. Era um cristão levantino. ele estava de volta. chamado Zawani. "Vamos lá . mais o que ganhaste no duelo. "Há um banho lá em cima." Mohammad estendeu a mão.. mas raramente aparece por lá. "Vinde. "Esta senhora precisa descansar. Ele me alugou as chaves. Sou médico.mas ela. "As paredes são finas. e a água é pouca. com abóbada de alvenaria . vazia. A fuga do proprietário deixara um ar de desolação. de Tiro. sim. e um jovem médico está usando a casa dele para dormir. Dai-me o resto do dinheiro que sir Sidney pagou pela medalha. O andar superior tinha um quarto de banho. Meia hora depois. "Usarei o dinheiro para comprar bandagens e ervas medicinais. e minha bolsa.." Fomos deixados a sós. Vós. e mal se podia dizer que o médico estava aboletado ali. Só volto amanhã. Não é lugar para uma senhora." "Não é necessário explicar.

gritando na segunda. E eu a possuí. Miriam subiu primeiro e deitou de costas. vagarosa e delicadamente. "Preparei um banho. Ethan". Será que eu ainda me lembrava de como se fazia? Parecia já ter se passado um milênio desde a última vez. mas ela me deteve e nos despiu. virginal. de maneira que eu pudesse vê-la à luz pálida. Sua doçura nos engolfa como o abraço do mar cálido." Fiz menção de sair. numa cama rebuscadamente entalhada. Seus seios eram pequenos. O quarto estava cheio de vapor quando a acordei. Era uma Madona. misteriosa e inexplorada. tremendo e arfando no final. e esfregou a nós dois para tirar o encardido do combate. A topografia do corpo de Miriam era uma serra nevada. de modo que pus as mãos à obra enquanto Miriam cochilava. sobre uma pequena piscina. Ela chorou na primeira vez e se agarrou ardentemente a mim. mas perfeitos. de mamilos rosados. atravessada por grossas vidraças coloridas.uma facada no coração. Mas então Miriam disse: "Este é um daqueles momentos de que te falei. A luz entrava em feixes multicoloridos. até que ela voltou a ter cor de alabastro. O ventre descia para pêlos claros. Havia lenha para aquecer a água. com os olhos umedecendo quando pensei primeiro em . Eu também me agarrei a ela.branca. com gaveteiro e dossel. O colchão do mercador chegava à altura de minha cintura. como um arcoíris prismado. Intrometeu-se então uma estranha e súbita lembrança de Astiza . Não há espetáculo mais lindo que uma mulher que nos quer. firmes.

Suspirando.. e adormecemos. depois em Miriam e em quanto tempo levaria para que os franceses voltassem. O piso estava gelado. "O que fazes aqui?".". com os canhões descansando." "Flecha? Por Isaac Newton. Fui atrás dele até outro cômodo naquele andar. o nome do destinatário fora escrito com bela caligrafia numa etiqueta: "Ethan . resmunguei. Os franceses usaram uma flecha para passar isto por sobre a muralha.. Agarrei uma pistola. sussurrei de péssimo humor. Virei a cabeça para que Miriam não visse lágrimas nem preocupações. segurando um cobertor em volta de mim como se fosse uma toga. E. eles matariam a todos nós. acordei ao me sacudirem. "Agora?" Assentiu enfaticamente. mas sir Sidney e Phélippeaux disseram que a situação não podia esperar. agora tão furiosos quanto haviam se mostrado em Jafa. depois em Napoleão. Se conseguissem entrar em Acre. mas então vi que era Mohammad. efêndi.Astiza. Vosso nome está escrito aqui. A cidade parecia silenciosa. "Será que não se pode ter um mínimo de privacidade?" Ele levou o dedo aos lábios e me fez sinal para que o seguisse. "Peço desculpas. de fato. desci da cama. em que século estamos?!" Um pequeno pedaço de aniagem estava amarrado à flecha. "Mas que diabos?. Por volta de meia-noite.

insistiu Mohammad. Franklin teria admirado aquela eficiência postal. Eu me deixei sentar. o exército francês mandaria assim o anel dela?" . o matemático francês que eu reencontrara em Jafa. Imagino que a província inteira esteja falando dela. exatamente. com a pedra do tamanho de uma cereja.15 – Mohammad me observava atentamente. ela estava no dedo de Astiza. pesadamente. "E vossa surpresa não é apenas do tamanho da pedra. A última vez que eu vira aquela jóia. "Como é que eles sabem que estou aqui?" "A corrente eletrificada é como um estandarte a anunciar vossa presença. mas o que nossos inimigos poderiam estar me enviando que fosse tão pequeno? Desembrulhei o que estava envolto na aniagem. Monge". . "Esse anel significa alguma coisa para vós?" "É só isto? Não há outra mensagem?" Monge era indiscutivelmente Gaspard Monge. "Conheci a mulher que usava o anel. A ele fora amarrada uma mensagem que dizia apenas: "Ela precisa dos anjos.Gage". Era um anel de rubi. é?". Fiz que o conteúdo rolasse para a palma de minha mão. Fiquei atordoado." Deveras." Astiza estava viva! "E por qual razão.

aos berros." "Não. nós nos esquecemos brevemente dele. "Querem que eu vá lá. Apesar dos protestos de Astiza. Por isso. E que anjos eram aqueles? Eram os dois serafins que encontráramos.É. Depois. por qual razão? Virei o anel nos dedos. recordando sua origem. Era como se Astiza tivesse sumido da face da Terra. quando enfim pude perscrutar as águas cobertas pelos reflexos ofuscantes do sol. eu insistira em que ela o pegasse no tesouro subterrâneo que descobríramos sob a Grande Pirâmide. um desesperado conde Silano se agarrava aos calcanhares de Astiza. não acho que seja armadilha. Astiza cortou a corda e despencou com Silano. até que Astiza tentou escalar a corda do balão desembestado de Conte para chegar à cesta." "Então é armadilha!". que dizia que aquelas riquezas estavam amaldiçoadas. em vez de arrastar-me para baixo até ficarmos ao alcance dos soldados franceses. "Eles temem a vós e vossa magia elétrica. no Nilo. e. As tropas francesas dispararam uma salva de mosquete contra mim. sob . onde eu estava." Eu não me convencia da lisonjeira idéia de que me considerassem um inimigo tão temível que precisariam atrair-me para fora das muralhas. não havia mais nada para ver. Naquele momento. mas não consegui. Eu teria de pegá-los de volta com Miriam. Ela lembrou a maldição e rogou que eu lhe tirasse o anel do dedo. O balão chispou para cima de modo tão abrupto e violento que não vi como os dois chegaram ao rio. disse meu companheiro. Até esse momento em Acre.

precisarei fugir pela Palestina. Uma vez que eu tenha Astiza e o que buscamos. era a perspectiva de rever Astiza. "Maior tesouro?" . completei." Ele empalideceu...pode render-te parte do maior tesouro do mundo". "Quero ajudar os franceses a achar o que procuramos . Mohammad.falso pretexto. Se havia uma maneira de tornarem a conseguir minha atenção." "Efêndi. "Mal consegui escapar de Jafa." ". "Eles simplesmente sabem que estou vivo. sem emoção. preciso de ajuda. efêndi! Enfiar-me agora entre os demônios francos. de que não tinham desistido de nossa busca em comum pelo Livro de Tot." Eu me pus a pensar.. Eu desconfiava. E sabem que a única coisa que me faria voltar para eles são notícias dessa mulher. O meu palpite é que isso diga respeito ao que eu estava procurando em Jerusalém. "Por causa de uma mulher?! Tendes uma bem aqui!" "Vou porque por aí há algo que está esperando para ser redescoberto e porque a maneira pela qual esse algo será usado influenciará os destinos do mundo para melhor ou para pior. não é possível que estejais pensando em sair destas muralhas!" Olhei de relance para onde Miriam dormia.e depois furtar isso a eles.. e descobriram alguma coisa em que posso ser útil.. isto sim. "Eu preciso. por causa da eletricidade. Para tanto.. Alguém com conhecimento local. apenas para que pudessem atirar em mim." Mohammad estava atônito.

"Nada está garantido. Eu acabara de dormir com a mulher mais doce que já conheci e estava pretendendo pegar meus serafins e sair de fininho para descobrir a verdade sobre Astiza sem dizer nenhuma palavra à coitada. um décimo será absolutamente razoável. uma questão pendente. no mínimo!" "Pretendo solicitar também a ajuda de outrem. Nós nos . "Primeiro vamos ver se conseguimos chegar a Monge sem levarmos nenhum tiro . Não que eu estivesse sendo desleal para com Miriam. Comida. É que eu estava sendo leal à memória da primeira mulher e amava ambas. é claro." Ele fez uma reverência. Uma ninharia. havia. uma beldade cuja busca pela sabedoria antiga era agora também minha. cinco por centro parece justo. "E qual seria a minha parte?" "Bem. e não tinha a mínima idéia de como explicar-me sem parecer canalha também." Mohammad ponderou a questão. irmãos e tios. Senti-me um canalha. Sete por cento é o máximo que tenho condições de oferecer. dos mistérios de antanho." Suspirei. Astiza se tornara a essência do Egito. E as despesas com cavalos e camelos.está bem?" Ao iniciarmos nosso urgente e animado planejamento. Mais uma pequena gratificação se obtivermos auxílio de meus primos. "Nesse caso. não achas?" "Para conduzir-vos pelos ermos da Palestina?! Um quinto. claro. se esse é mesmo o maior dos tesouros. Armas de fogo. só que de maneiras diferentes.

é mesmo formidável como essas coisas se resolvem.. "Devemos acordar vossa amiga?". Ned era um desses homens que não conhecem meio-termo era ou o meu mais implacável dos inimigos. Depois. não.. As mulheres podem ficar ranzinzas com tais coisas. enquanto a esposa se afligia lá na Filadélfia. Era perfeitamente compreensível sair procurando por Astiza .nós nos transformamos em parceiros numa busca e quase morremos na Grande Pirâmide.o anel acendera memórias tal qual fogo num rastilho —. ele se mostrou tão difícil de convencer quanto um cão cujo dono chamasse para passear. perguntou Mohammad. E então o quê? Bem. pois isso possibilita que façamos tudo o que de antemão já pretendíamos fazer". Assim. eu sairia para descobrir o significado do anel de Astiza. O velho Ben freqüentava bastante as senhoras. com o próprio Napoleão vindo a comandar a pequena investida que a capturou. mas . ou o meu mais fiel dos servidores. "É tão cômodo sermos criaturas racionais." Quando pedi a Big Ned que nos acompanhasse. mas estava um pouquinho embaraçoso explicar isso a Miriam. dissera Benjamin Franklin. resgatá-la e então.conhecêramos quando ela ajudou na tentativa de me matar. Não fôramos apenas amantes . garantira-me Sidney Smith. Convencera-se de que eu não só era um feiticeiro de raro poder. "Ah. Astiza salvara minha vida mais de uma vez e dera propósito à minha natureza vazia.

ordenei." "Não estarei sozinho . precisas de alguém sensato. Ele olhou para mim com um respeito que antes não tinha." "Tua irmã também pensa assim. procurando assim enganar a consciência. "Portanto cuida de Miriam enquanto eu estiver fora". antes que pudéssemos nos estranhar por causa daquele . se estiver viva. ainda que dúbia. Jericó. Ele pareceu tão satisfeito que." "Um pagão e um pateta? Será uma disputa para ver qual dos três causará um desastre primeiro." E. ao contrário. fiquei imaginando se não teria sido ele a enviar-me o anel.Mohammad e Ned virão comigo. Talvez tenhas mesmo estofo." Não se pode tentar um homem com a riqueza e depois deixar de fazer que ele anseie por essa perspectiva. Phélippeaux e o resto da guarnição precisam mais de ti do que eu. "Não posso deixar-te ir sozinho. desistira havia muito de todas as idéias de tesouro." "E esse alguém será Astiza. "Atravessar as linhas francesas é coisa arriscada. que eu ainda te darei uma parte quando acharmos o tesouro. Não. por um momento. mas esse interesse era só porque aquela mudança de rumo talvez me mantivesse longe da irmã. Mas então Jericó piscou e balançou negativamente a cabeça. Defende a cidade e Miriam. Ficou interessado quando o acordei para explicar que o anel de rubi pertencera a Astiza. Jericó. Smith.também estava apenas esperando o momento certo para sair distribuindo a riqueza de Salomão. Ethan Gage.

Acre não era mais que uma silhueta escura contra as estrelas. com o ar de superioridade dos savants. costuradas umas às outras como uma imensa lona de circo. esses homens que têm opiniões sobre tudo e não têm realizações em nada. vivandeiros e outros paisanos e de todos os soldados que se fazem de doentes e não estão lá muito acostumados com o sacar das armas. . cruzando os sulcos de carroça e as lavouras pisoteadas que a guerra produz. e por isso fomos no barco em que Mohammad fugira de Jafa. que é o lugar dos carroceiros. É mais fácil do que se poderia imaginar ir adentrando a pé num exército pela retaguarda. "Trago mensagem para Gaspard Monge de seus colegas acadêmicos no Cairo". "Visitai-o por vossa conta e risco. disse eu a uma sentinela." O soldado apontou para lá. Seríamos pegos no fogo cruzado se simplesmente saíssemos andando das muralhas. A fosforescência na esteira do barco era prateada. Descemos na praia de areia atrás do semicírculo das linhas francesas e nos esgueiramos para o acampamento deles pela retaguarda. parti com Mohammad e Ned. Mandei meus companheiros esperarem numa moita à beira de um riacho de águas tépidas e segui a passos largos e ritmados. para que os franceses tivessem tão poucos alvos quanto possível. já a incandescência das fogueiras inimigas produzia uma aurora atrás das trincheiras. "Ele está ajudando no hospital.assunto." Será que já havíamos ferido tantos franceses assim? O céu começava a clarear para leste quando achei as tendas do hospital.

Hesitei em acordá-lo. "És tu. gemendo baixinho. Eles pareciam estar ali em número excessivo para as baixas que infligíramos. assustado: havia pústulas no rosto e. suando. Gaspard. "Venho mais uma vez consultar-te. Tal qual já ocorrera antes. Retrocedi às pressas. As doenças são a sombra dos exércitos.Monge estava dormindo num catre e parecia ele próprio doente. Monge estava se erguendo o suficiente para sentar. piscando. apesar do sol. E se agora ela atravessasse as muralhas? Por outro lado. e mais magro. raramente estando limitada a só um dos lados em conflito. um inchaço funesto na virilha." Ele sorriu. que tremia espasmodicamente. jaziam em fileiras paralelas que sumiam na penumbra. seu rosto me lembrou um cão velho e sábio. Ele precisava vencer antes que a peste lhe dizimasse o exército. encovado pela enfermidade. um cientista e aventureiro de meia-idade que a expedição ia transformando em idoso. A peste. quando levantei-o lençol. Inclineime para olhar um deles. e a peste é a subalterna dos cercos. mas a confirmação despertou um pavor secular. Não admirava que houvesse atacado tão impetuosamente. Estava pálido. Soldados. "Primeiro pensamos que tinhas morrido. e recuei. Ethan?" Eu me voltei. Já corriam rumores de que a coisa vinha se agravando. desgrenhado e exausto. a doença impunha a Napoleão prazos apertados. Olhei rapidamente em volta. depois imaginamos que fosses o eletricista louco .

na escola. caindo no Nilo. não ele. assim como todos os homens que se encontram atrás daquelas muralhas. "Belos filósofos somos nós." "É. os cantos de sua boca se contraíram. e. O racionalismo sempre triunfará sobre a superstição." "Eu estava bem contente do outro lado." "Gaspard. diriam os judeus. ele riu. A revolução vai refazendo o homem após séculos de superstição e tirania." "Phélippeaux está do lado errado da história.de Acre." "Mas por quê?" . o invejoso era Bonaparte. aqui no fim do mundo!" "O centro do mundo. Depois.ou o homem mais confuso de ambos os exércitos. onde conseguiste este anel?" Estendi a jóia. um inglês lunático e um monarquista francês invejoso? Bobagem! Não acredito. os massacres e a peste. Todo exército acaba marchando pela Palestina. És mais racional do que demonstras ser. Nosso exército carreia a liberdade. a encruzilhada de três continentes." "Com um paxá tirânico. e agora te materializas ao meu chamado. decepcionado com minha intransigência. Gaspard." "Junto com a guilhotina." "Phélippeaux diz que. cuja pedra parecia uma bolha de sangue à luz pálida. "Astiza o usava quando a vi pela última vez." "Bonaparte ordenou que se enviasse aquela mensagem na flecha. por fim. Talvez sejas mesmo um mago . sem nunca saber de que lado está." Monge franziu o cenho para mim.

"Talvez.. Eu preciso vê-la.. Os dois ficaram furiosos ao saber que foste condenado em Jafa . Esteve em coma." "O que eu quero dizer é que ela cuida do conde. "Só podes estar brincando. continuou Monge." As batidas de meu coração eram como tambores em meus ouvidos. "E como ela está?" "Não a vi. mas tive notícias." "Monte o quê?" . "Agora Astiza se desvela por ele".. Disseram-me que Astiza se recuperou melhor do que ele.aquilo foi obra do palhaço do Najac. e ela enviou o anel. de modo que sentiu o grosso do impacto e atenuou a queda dela."Bem. não sei por que Napoleão não quis me escutar .. Tu sabes algo de que eles precisam. Desconfio que Silano bateu na água primeiro." "Astiza não está aqui. para começo de conversa. por um mês. Astiza me instruiu a perguntar por uns anjos. com Astiza por cima. sob os cuidados do conde Silano. Ele quebrou o quadril e mancará pelo resto da vida. Ah.e horrorizados com a notícia de que te executaram. Astiza não morreu. Vimos o teu truque com a eletricidade. Aquilo foi uma bofetada. Sabes a que ela se refere?" Mais uma vez. saber que." Meu coração disparou. Astiza não desistiu dessa curiosa busca em que todos vós pareceis estar. eu sentia os serafins comprimidos contra a pele. Depois correram os boatos de que não morreras. Ela e Silano foram para o monte Nebo.

que me aguardam em lugar seguro. Lá onde Moisés enfim avistou a Terra Prometida e onde ele morreu antes de poder adentrá-la." "Não há lugar seguro na Palestina .já que os pérfidos britânicos capturaram nossos canhões no mar -. "O que acontece no monte Nebo?" Monge deu de ombros.esta é uma terra pestilenta. Ah. Nosso amigo Conte concebeu complexos carroções para trazer mais artilharia de sítio do Egito . do outro lado do Jordão." Monge se referia aos combatentes muçulmanos que fustigavam as linhas de suprimento de Napoleão. Mas vais . Se este estava esperando canhões pesados."A leste de Jerusalém. "Vieste sozinho?" "Tenho comigo alguns amigos. com sinceridade. Ethan Gage. "Se te confidenciasses com teus colegas savants. respondi. mas tem sido um combate contínuo para fazê-los chegar aqui. por que eles estão assim tão interessados em Moisés?" Monge me observava atentamente. Agora. Gage. "E o que sabes desses teus anjos que deixa Astiza e Silano tão ansiosos por achar-te quanto tu por achá-los?" "Disso faço menos idéia ainda". então ele. e provavelmente Bonaparte. não estavam à par de tudo. talvez pudéssemos determinar teu futuro com mais exatidão. menti. o tempo era curto. O que Silano e Astiza estariam tramando? "Nem faço idéia". Essa gente não sabe reconhecer que perdeu.

" Monge se convencera de que meu medalhão do Egito era uma fraude moderna. quando Monge não podia ouvi-la. É como aquela busca inútil por conta do triângulo de Pascal que estava inscrito no teu medalhão . Gage: o teu lugar é do lado da ciência e da razão . agitado. "Monge está certo.o lado da revolução. Fiquei novamente admirado com sua habilidade para parecer maior do que era e com a maneira pela qual transmitia a sensação de sedutora energia.pelo que te dá na telha e acabas metido em confusão. o tempo inteiro. chamarao de tolo. não?"." A voz me fez ter um sobressalto. "E tu e a tua feitiçaria elétrica ajudaram para que levassem a melhor sobre nós. "Não tenho nada para confidenciar. disse ele. Astiza. com suavidade." . sim. saindo das sombras! Ele parecia estar em toda a parte.aliás. Era Bonaparte. e seus olhos cinzentos se impunham friamente." Precisei lembrar a mim mesmo de que nós dois éramos inimigos.como um cavaleiro a seu corcel. "Tentareis me fuzilar outra vez?" "Era isso o que o meu exército tentava fazer ontem. Ele não era tolo. Será que não dormia? Estava amarelo. tal qual fazia a tantos homens . tu afinal te livraste desse brinquedo velho?" "Ah." "Experimentos que mataram os meus homens. Eu estava simplesmente realizando experimentos com eletricidade quando mandaste este anel por cima das muralhas. mas carregava o ônus das certezas que vêm com o excesso de instrução (a correlação entre escolaridade e bom senso é extremamente limitada).

mas também pela literatura. seguindo as recomendações do louco do Najac. e. vos vejo a ler romances baratos!" "Os meus romances não são baratos. Assim. convida-os a um banquete e envenena a todos. não?" "E o que acontece?" "Os sonhos do herói são fadados ao fracasso depois que ele perde a visão em batalha. Acreditam nele. Ele diz a seus homens que precisa cobrir o rosto para que a radiância do Mádi não cegue aqueles que o contemplem. eu reconheço. Ele então arrasta os corpos para a vala. Acaso sabias que escrevi ficção quando era mocinho? Eu sonhava em vê-la publicada. ordena aos seguidores que cavem uma gigantesca vala para destruir a investida inimiga. Lá estava eu. Uma das minhas favoritas se chamava O profeta mascarado. procurastes me fuzilar ou afogar em jafa. A morbidez da adolescência. Depois. quando olho para cima." Fiquei curioso. Mas o herói não tem como vencer. é claro ." . e a soberba não deixa que ele se renda."Depois que. e tenho interesse não só pela ciência. põe fogo aos cadáveres e lança-se também às chamas. para manter em segredo essa desgraça. "Histórias de amor ou de guerra?" "De guerra.e de passionalidade. esconde o rosto com uma máscara de prata reluzente. Era sobre um fanático muçulmano do século viu que se acha o Mádi e vai à guerra contra o califa. Todavia. contra a vontade. O cenário é profético. Melodramático. encarando a eternidade.

general." "Melhor como a matança de Jafa?" "Momentos de crueldade podem salvar milhões. "Pelo menos pareceis mais afável que da última vez que nos encontramos. americano.'. mas é mais saboroso deixar que os três resolvam vosso mistério. mas os dois buscam o conhecimento .um traidor da própria pátria . De fato. o que sempre acalma nossos ânimos. portanto idênticos. Não fossem fanáticos como Smith e Phélippeaux . E uma coisa que estou vendo é que agora estás no teu devido lugar. do lado da ciência que nunca devias ter abandonado." Ele sorriu.Era essa a imaginação que agora atuava na Terra Santa? "Que mal vos pergunte. o que pretendíeis dizer com essa história?" "'Vede os extremos a que a obsessão pela fama pode levar um homem!. fui amaldiçoado com a capacidade de enxergar bem demais. Tu te julgas diferente do conde Silano. O mesmo vale para a mulher pela qual sois ambos atraídos. Ethan Gage. Ainda tenho esperanças de que reconstruamos o mundo para melhor. era esse o desfecho. Não desisti de persuadir-te. "Profético também.. foi para que esta guerra acabasse rápido. tendo os três uma curiosidade de gato." "Achas que a história era autobiográfica? Só que não sou cego." "Estou agora com uma visão mais clara do rumo que devo tomar. sois. Gage.nesse sentido. Se deixei claro para os otomanos os riscos que a resistência acarreta. não achas?" Suspirei.. Eu poderia mandar fuzilar-te.

O doutor Monge é inquebrantável! Aprende com ele." E das sombras surgiu Pierre Najac.guardar-te é o castigo dele por não ter lidado mais inteligentemente contigo antes". "É ou não é. parecendo tão desalinhado e homicida quanto da última vez em que nos víramos. resmungou o homem. e nenhum sangue teria sido derramado. "Esse torturador não passa de um ladrão. dado o teu estranho histórico.não é verdade. "Ninguém fez mais do que tu. Gage!. Vai. Napoleão. "Estou cansado de ver-te zanzando em todas as direções. Pierre?" "Eu o levarei até Silano". Eu não me esquecera das queimaduras e sovas. Lembrate: sou membro do Institut de France. .." "Muito pelo contrário . disse Bonaparte. para unir a ciência à política e à tecnologia militar. a quem eu mesmo tenho servido de enfermeiro nas doenças que lhe sobrevêm. Creio que tendes interesse em ficar de olho um no outro. Eu irei me sujeitar aos ditames da ciência . Agora.-. retrucou Napoleão.. doutor Monge?" O matemático deu um leve sorriso. Não te deixes encurralar em Acre pela insensatez desses homens. descobre o que puder com Silano e Astiza e toma uma decisão de cientista acerca do que fazer com isso. haverás de entender que preciso designar uma escolta para acompanhar-te." "E ninguém trabalhou mais pela França do que o nosso doutor Monge. Não preciso que ele me escolte." "Mas eu preciso". eles já teriam se rendido. "Só podeis estar brincando.

de má vontade." Najac obedeceu." Bonaparte parecia estar se divertindo com aquilo. "É perigoso deixar o . não. Eu sabia que o fuzil atirava bem como o diabo. não terás. Eu a removi." "A arma nem é tão boa".teu fuzil é presa de guerra. Devolve." "Eu te desarmei ." "A precisão de uma arma depende do homem que a usa". terás sua chance de matar-me . Se estamos procurando um tesouro.assim como terei a minha de acabar contigo." Olhei para o que Najac estava carregando. arbitrou Napoleão. Najac te capturou. "O que achaste da luneta?" "Uma idéia estúpida." Eu sabia que ele certamente estaria com ela. "Não te preocupes. repliquei.e o farás também porque não consegues desistir desse mistério.eras meu prisioneiro!" "E agora sou teu aliado. Gage. tanto quanto não conseguirias desistir de um joguinho de cartas promissor. "Vais. Tu o farás pela mulher ." "Eu a ganhei de presente. Ele é tua passagem para aquela mulher. "Teu fuzil?" "Eu ajudei a fazê-lo em Jerusalém. "Com o meu fuzil. acrescentou o biltre. quer eu goste. e então esse bandido o roubou. eu preciso de luneta." Najac cuspiu. quer não. "Atira tal qual um bacamarte. "Dá a luneta a ele. Depois que acharmos o que quer que estejamos procurando. sim." "Pode esquecer!" "Não vou ajudar se não devolveres. ou não vais de jeito nenhum." Napoleão estava confuso. "E a minha machadinha. e ele está certo . Gage.Ou vais com Najac." "É justo".

" "Deveras. então talvez eu deva mandar-te de volta para o trabalho de polícia." "Tão logo descubramos esse maldito segredo. Se não consegues controlar o americano com uma dúzia de homens. Pierre. a luneta . "E tu pareces um ladrão brandindo o meu fuzil. e Gage. Najac: escolta-me de uma distância da qual eu não precise sentir o teu fedor." O homem fez careta. Gage.podeis mirar juntos!" A brincadeira irritante me fez querer embaraçar o general. Eu ansiava por ele. "Mas. "E imagino que desejais que eu me apresse?" Fiz um gesto em direção aos enfermos. Najac tem o fuzil. "A machadinha não é arma." "Entrega a ele.americano armado". "Isso aí é instrumento de selvagens. "Faze-me um favor. nós dois vamos mesmo acertar as contas de uma vez por todas. não de savants. "Apressar-te?" . mas ainda parecia tão grácil e liso quanto uma perna de donzela. quando tudo o que ele tem é uma machadinha." "Garanto que o farei de uma distância muito boa para o fuzil. é ferramenta. mas entregou a machadinha. avisou Najac." "As alianças raramente são tranqüilas"." Meu fuzil já estava arranhado e marcado (Najac tinha com as armas o mesmo desleixo que com as roupas)." Avaliei o peso gratificante da machadinha. Pareces um campônio carregando tal coisa por aí. gracejou Bonaparte. agora.

levaria sua divisão para varrer esses muçulmanos." . do mar da Galileia para o mar Morto). Mas não te preocupes demasiadamente com os prazos de minha campanha. Ela deve estar deixando vossas tropas em pânico. A França me aguarda. sim. apressa-te. Então. Agora. que desembarcara com Bonaparte na praia em Alexandria quase um ano antes. iríamos para o sul por conta própria.16 Eu presumira que viajaríamos direto para o monte Nebo com o bando de degoladores de Najac. acompanhando o legendário Jordão até que ele passasse junto ao sopé do monte Nebo. "A doença os faz sentir a urgência. mas ele riu quando mencionei isso. A Galiléia. "Teríamos de cortar caminho pelo exército otomano!" Desde que Napoleão invadira a Palestina. Em seguida. Meus companheiros e eu acompanharíamos as tropas de Kléber para leste. Estão em ação coisas maiores do que conheces."A peste. informou-me Najac. mas à Europa. a Sublime Porta vinha reunindo tropas para deter os franceses. o general Jean-Baptiste Kléber. . Tua busca diz respeito não só à Síria. até o rio Jordão (que corre no sentido sul." Mas eu nunca conseguiria vexá-lo. pululava de cavalaria turca e mameluca. A libertação trazida pelos franceses não estava sendo recebida com mais entusiasmo na Terra Santa do que o fora no Egito.

efêndi. exclamou Mohammad. "Isso aí equivale aos soldos de uma vida inteira!" "Mas não me viste usando o anel." Tirei o anel do bolso." "É. respondi. disse Ned. mas também podia mostrarse irascível e impulsivo. viste?" . mas eu soube que já tens outro brinquedo bonito". disse Ned. Lancei um olhar de desagrado a Mohammad. admirou-se Ned. Os otomanos estavam diretamente em nossa rota e sem nenhuma vontade de diferenciar entre um e outro grupo de europeus.Mohammad e Ned não ficaram satisfeitos por ter de viajar com os franceses. "Uma mulher que conheci no Egito está viva e me espera lá. "Trata-se de um encontro de estudiosos da Antiguidade"." "Amaldiçoado?!". chefe . "O monte Nebo?!". Dependeríamos de Kléber para abrir caminho na marra. "Aquilo é para cabras e fantasmas!" "Acho que para tesouros também". "O fuzileiro queria saber o que ocasionou a nossa expedição. não tínhamos opção. Kléber era um comandante popular. ele estava adivinhando as coisas certo demais. e esse tipo de despojo é sempre amaldiçoado. "Então ficai sabendo que isto dá azar. Veio da tumba de um faraó.vamos atrás das riquezas de Moisés?" Para um palerma. Porém. com argúcia. Ela irá me ajudar a solucionar o mistério que tentamos desvendar nos túneis de Jerusalém. "Por que mais o nosso mágico iria se alistar com os franceses outra vez? E então. que deu de ombros.

Quando o . estou gostando de estar do lado de fora das muralhas. deixando-nos cavalgar à frente da coluna para escapar à poeira mais densa. "Espalhafatoso demais. garantiu Mohammad.. Ned e Najac não gostaram um do outro logo de cara. não combina com a tua tez". concordou Ned.. marcharemos com os franceses até que possamos fugir. Lá eu me sentia preso." "E agora conhecereis a verdadeira Palestina". estando guardados tanto pelo bando de Najac quanto pelos batedores de Kléber. era justamente esse o problema."É. e o francês se ressabiava com a força do gigante. Mesmo assim. estávamos desarmados. "E escolhes mesmo muito mal as escoltas. "O mundo inteiro quer possuí-la. Esse tal de Najac tem jeito de quem cozinharia os próprios filhos se lhe pagassem uma pataca pelo ensopado. Éramos como cães caros mantidos na coleira." Pelo que eu podia ver.. comentou Ned. O fuzileiro se lembrava da emboscada que resultara na morte de Tentwhistle. Provavelmente estaremos em um ou dois arranca-rabos. Não tínhamos liberdade de movimentos." "Pois bem. chefe.". e nos deram boas montarias e nos trataram como convidados da expedição. só com esse teu machado de cortar lingüiça. Mas este nos mandou uma garrafa de vinho e seus cumprimentos.. Éramos aliados dos franceses? Ou seus prisioneiros? Exceção feita à minha machadinha. Ainda estais dispostos?" "Entrar em briga sem nenhum ferro e nenhum pau-de-fogo.

uma escrevedeira-amarela". se o teu pinto tivesse pelo menos metade do tamanho dessa tua língua solta. "Se o teu cérebro tivesse a metade do tamanho do teu muque. e as papoulas e mostardeiras acrescentavam a isso largas pinceladas de vermelho e amarelo. respondeu Najac. Já Ned bradou que não via uma rã tão feia desde que topara com certa perereca mutante no tanque atrás do bordel mais sujo e vagabundo da base naval de Portsmouth. não precisarias ficar procurando tanto por ele toda vez que baixas as calças". Havia ainda o arroxeado do linho. alertando-nos de que não estava para brincadeiras. o céu tinha o azul do manto da Virgem. A Terra Santa desperta uma paixão incomum. o dourado dos crisântemos em buquês naturais de caules entrelaçados. rebateu Ned. No norte. O trigo e a cevada crescem como capim.patife se aproximava de nós. Apesar das altercações. o branco dos lírios." A divisão de Kléber era uma cobra azul a serpear pelo Éden. eu talvez me interessasse pelo que tens a dizer". eu também estava gostando de termos podido sair de Acre. é bem irrigada e ostenta o verde da primavera. "Vede. Os . "Esse pássaro é sinal de que o verão está chegando. sempre abria bem o casaco. Seria aquele o jardim de Deus? Longe do mar. e a luz realçava a mica e o quartzo como se estes fossem minúsculas jóias. com a bandeira tricolor anunciando nosso fantástico irromper no Império Otomano. para mostrar as duas pistolas enfiadas na faixa de cintura. disse Mohammad. "E.

A rua principal é uma trilha de carroças. Ao final do segundo dia. até o rico e indolente Vale de Jezreel. onde o tráfego consiste. ficava Damasco. Carroças seguiam com . como se vigiassem um ao outro. Pegamos água no poço de Maria e visitamos a igreja da Anunciação. seguimos por espinhaços para o sul. Os soldados estavam animados. lá embaixo. celeiro da antiga Israel e via de passagem para exércitos durante três mil anos. satisfeitos em escapar do tedioso trabalho de cerco. subimos uma derradeira serra. marchamos novamente para o sul. Carroções cobertos de lona branca moviam-se a balançar. uma sopa azul numa imensa tigela verde e castanha. Em seguida. Peças de artilharia ligeira sacolejavam ao sol. Uma mesquita e um mosteiro franciscano ficam bem de frente um para o outro. e seu bronze parecia piscar como se transmitisse alguma mensagem militar. ao sul. Era um vasto lago. e. O gado pastava em morrotes cobertos de capim que outrora eram grandes fortalezas. lá longe. e a divisão dispunha de dinheiro suficiente (apresado em Jafa) para comer bem e não precisar saquear pelo caminho. Não descemos. enevoado e sagrado. rumo a célebre Nazaré.rebanhos de ovelhas se abriam como um mar para que passássemos. e avistei o mar da Galiléia. Em vez disso. Em algum lugar a nordeste. sem pavimentação. abaixo do nível do mar. uma gruta ortodoxa com o tipo de quinquilharia que provoca indigestão nos protestantes. de cabras. O lar do Salvador é um lugar poeirento e desanimado. sobretudo. Jerusalém.

Há as tropas de Damasco e Constantinopla. É loucura ficarmos com estes franceses — eles estão condenados. correm rumores de que os turcos estão se concentrando contra nós. Chegam mercenários de toda a parte. alguns dos soldados faziam o sinal-da-cruz ou murmuravam preces nos lugares santos. "Em todas as aldeias. Meus companheiros se impacientavam com aquele sinuoso trajeto militar. os homens se aproximavam de Deus.a Terra Santa! Ali. Ensaiei o que dizer a todo mundo. Afinal. mas as falas soavam banais. com mais homens do que o número de estrelas no céu. segundo a opinião geral. e Miriam me esperava em Acre. mas eu sabia que estava vivenciando o que poucos americanos podem ter esperanças de um dia ver .estrépito por estradas que as legiões romanas haviam percorrido. Entrementes. com um ruído tão familiar quanto o de grilos quando íamos dormir. Mohammad avisava que aqueles três mil soldados de Kléber não seriam suficientes. Os xiitas estão se unindo aos sunitas. quando a noite caía. eles afiavam as baionetas. não conseguira salvá-la. os mamelucos sobreviventes do bei Ibrahim e os combatentes dos montes da Samaria. Por mais ansioso que estivesse em ver Astiza. Ela estava mais uma vez enredada com o ocultista Silano. Apesar do ateísmo oficial da revolução. eu também me sentia apreensivo." . desde o Marrocos até a Armênia. Entretanto. Minhas alianças políticas eram agora mais confusas do que nunca.

é claro. Bonaparte quem regia a moral do exército. Nenhum dos generais reconheceria isto. rival de Kléber. pois seus colegas se submetiam mesmo era ao arrivista." O general Kléber. Aquela incursão independente para destruir os reforços otomanos era. no início da campanha palestina. ao passo que Reynier. ganhara elogios de Napoleão. E Kléber. apesar de todos os defeitos. Bonaparte quem possibilitava grandes descobertas arqueológicas. os louros da campanha egípcia haviam sido conquistados pelo corso. "Não temos escolha. o mais forte e o mais experiente. o astro solar em redor do qual orbitavam instintivamente. o mais alto.Gesticulei na direção dos canalhas de Najac. irritara-se um ano inteiro como subordinado de Napoleão. era o superior intelectual deles. competente para um general. Não importava que Kléber ostentasse a estatura. portanto. Assim como Bonaparte levantara . gostava de dizer o velho Ben. o porte e a cabeleira cacheada de herói militar que faltavam a Bonaparte. Era Bonaparte quem tinha destaque nos comunicados que se enviavam para a França. e nunca governa com sabedoria". a chance de Kléber para brilhar. tentava achar a tal hoste turca. não fugir a ela. e esperava flanqueá-la descendo das elevações nazarenas. Embora Kléber fosse o mais velho. Bonaparte quem ia enriquecendo com o butim. a divisão de Kléber tivera desempenho não mais que mediano. nem importava que ele atirasse e montasse melhor. mas Bonaparte. "A passionalidade governa. Pior: durante a batalha de El-Arish.

Encontraremos os turcos justamente quando o sol estiver se levantando e nos ofuscando. e a ambição de Kléber começou a ser moderada pelo bom senso. Logo se viram enxames de cavalaria turca correndo para lá e para cá. os franceses toparam com as guardas avançadas turcas só na alvorada. "Loucura!". Em vez de atacarem às duas da manhã como planejado. A única coisa que impediu que fôssemos aniquilados de pronto foi a confusão do inimigo . O sol nascente revelou que ele conduzira três mil homens para atacarem vinte e cinco mil. "Então o anel dá azar mesmo". "Será que Napoleão ainda está tentando executar-vos. cujos animais eram meio engolfados pelo trigo alto da primavera enquanto seus ginetes disparavam inutilmente mosquetes e pistolas para o ar. Eu realmente tenho talento para escolher o lado errado. nossa presa já tivera tempo de tomar o desjejum. efêndi. também Kléber resolveu partir no escuro para surpreender os turcos. resmungou Mohammad. só que agora de um jeito mais complicado?" Nós três ficamos de boca aberta ante a gigantesca e ameaçadora horda de cavalaria." De fato. "Estamos longe demais para pegá-los de surpresa. a marcha em torno do monte Tabor se mostrou muito mais longa do que Kléber previra. ninguém parecia estar no .acampamento no meio da noite para atacar os mamelucos nas Pirâmides antes que estes estivessem plenamente preparados.lá. Quando formamos fileiras para o assalto. disse Mohammad.

os restantes formaram dois quadrados de infantaria. Há tantos soldados que não conseguem se organizar. de modo que era impossível flanqueá-los.comando. hein?" Mas. O general francês pôs cem de seus homens para guarnecer o que restava das muralhas. para impedir . ele era um tático hábil. Víamos a gama policromática dos diversos regimentos otomanos." "Eles não precisam de organização". um comandado pelo próprio Kléber e o outro pelo general Jean-Andoche Junot. Esses quadrados eram como fortins humanos. e ainda tendas coloridas como numa grande quermesse. com grandes comboios de carroções atrás deles. disse eu. Fez-nos retroceder para um monte chamado Djebel-el-Dahy. como eu queria estar numa fragata! E lá é mais limpo. "Vede a desordem entre eles. tentando tranqüilizá-los. "Só precisam vir em bando e nos pisotear. do tempo dos cruzados. Se queres um espetáculo vistoso. grunhiu Big Ned. sobranceiro ao largo vale. "Parece uma repetição da Batalha das Pirâmides". com cada soldado voltando-se para um lado e as fileiras cobrindo as quatro direções. havia um castelo em ruínas. O exército turco era uma colcha de retalhos vindos de cantos demais do império. Os sargentos com os soldados veteranos se punham atrás das tropas mais inexperientes. de modo que estivéssemos no terreno mais elevado. vê a guerra antes que se iniciem os combates. Ah. embora Kléber tivesse se precipitado ao subestimar seus oponentes. Perto do cume.

O sol continuava subindo. e os cavalarianos inimigos mais próximos foram derrubados das montarias. ridiculamente. Os turcos. forçando a vista. Periodicamente. "Por que não atacam de verdade?" "Talvez estejam só esperando que fiquemos sem água e sem munição". disse Mohammad. Então. Nosso comboio de abastecimento e meu trio. ululando e agitando lanças. Os outros se afastaram para longe.que elas recuassem e pusessem a formação a perder. algumas centenas investiam contra nossos quadrados. com uma grande nuvem de fumaça branca. e os resultados eram os mesmos. Essa tática desconcertara os mamelucos no Egito e estava prestes a fazer o mesmo com os otomanos: de qualquer lado que atacassem. deram a Kléber tempo para formar fileiras e depois realizaram cargas de sondagem. "Que diabos eles estão fazendo?". com seus trajes coloridos a lembrar flores ceifadas. disparava-se outra salva de mosquete. Os franceses permaneceram absolutamente quietos até que soou a ordem: "Fogo!" Fez-se um clarão e um estrondo de disparos. Logo se formou um semicírculo de mortos à nossa volta. "Com a breca! Eles têm mais peito do que juízo!". resmungou Ned. galopando até perto de nossos homens ao mesmo tempo que davam gritos de guerra e brandiam espadas. . estavam no centro. deparavam com uma linha firme de mosquetes e baionetas. Cada vez mais cavaleiros otomanos afluíam para o ameno vale abaixo de nós. disse Ned. com os homens de Najac.

. e outros dormiam . Aquilo seria mesmo alguma espécie de ardil otomano."E pretendem fazer isso levando todo o nosso chumbo no bucho?!" Acho que os otomanos estavam aguardando que saíssemos de formação e debandássemos (seus adversários anteriores certamente haviam sido menos resolutos). em Acre. cavalgando lentamente para cima e para baixo entre as fileiras e encorajando os homens. eriçaram-se como um porco-espinho. à medida que o dia avançou. "Chegará ajuda. esporeavam. e ondas de cavalaria vinham contra nós como a rebentação na praia. Os turcos perceberam nossa apreensão. nossa resistência foi se minando. A pólvora escasseava. quando olhei pela luneta que sir Sidney me dera. procurando garantir ao máximo que as preciosas balas atingissem de fato os alvos. instruía ele. Kléber continuava montado. e os turcos não conseguiam fazer que seus cavalos se achegassem. Davam um grande urro. deixando-nos suar e ficar aflitos até que eles viessem à carga para valer? No entanto. incitando outros a virem nos enfrentar primeiro. Alguns se esparramavam no capim para comer. "Agüentai firme". aumentando. comecei a duvidar que tal ataque ainda ocorresse. Muitos turcos se detinham. não dando atenção ao silvo das balas.no auge da batalha! Mas. e a confiança deles. Começamos a refrear nossas salvas até o último segundo. Mas os franceses não tremeram." Ajuda? Bonaparte estava muito longe.

e o resto de nós ansiava pela mesma coisa. Agüentai. Agora era meio-dia. A elevação em que estávamos parecia tão seca quanto uma tumba egípcia. pois parecia que todos os muçulmanos do mundo haviam se juntado contra nós. Os feridos gemiam pedindo água..fogo!" Cavalos davam relinchos lancinantes e desabavam.. contornando os camaradas caídos .. Os campos tinham sido pisoteados até ficar apenas terra. Uma centena de franceses já caíra. e levantavam-se grandes colunas de poeira. Os ginetes mais destemidos continuavam esporeando. Fogo! Agora.. e Kléber ordenou que os dois quadrados se unissem num só. Deixai que venham. mas a mortandade era muito pior no lado turco. . suas montarias se empinavam. quando chegavam à linha de baionetas. Mohammad e eu ajudávamos a arrastar os franceses feridos para o centro do quadrado.. Pistolas e mosquetes produziam lacunas em nossas fileiras. a fileira de trás . Ned. Tantos cavalos mortos já atulhavam os campos que os turcos estavam tendo dificuldade em arremeter através deles para chegar a nós. Os turcos tentaram tomar de assalto o cume do Djebel-el-Dahy e vir sobre nós da parte de cima. e os turcos escarneciam uns dos outros para atiçar os companheiros a nos atacarem. engrossando as fileiras e dando aos homens uma confiança renovada e extremamente necessária.. Janízaros de coloridíssima indumentária tombavam em meio a nuvens de terra. sem intenção de seguir adiante."Agüentai. O sol interrompera no ápice sua trajetória pelo céu. parecendo que nos castigaria para sempre.mas.

"Agora!" Disparava-se uma salva. grave.homens diziam ter avistado o brilho de baionetas no vale a oeste." "Alá não manda um homem abandonar os amigos". mais um dentre eles. não podíamos ir a lugar nenhum. Alguns soldados desmaiaram por terem ficado tempo demais em pé no mesmo lugar. quando eles enfim nos atropelarem. Presumi que a coisa terminaria quando todos morrêssemos de sede. "Mohammad. ela era ofuscante e acre. com pedacinhos de bucha esvoaçando como neve. minha boca estava absolutamente seca. fazendo estrondo. retrucou ele. poderás ressurgir como muçulmano. Nisso. ergueu-se um brado novo . Pelo meio da tarde. "Lá vem o Pequeno Caporal!" . Montarias relinchavam desesperadamente. Assim. e galopavam para longe. Depois dentes rasgavam o papel dos cartuchos para despejar a valiosa pólvora nos canos dos mosquetes. sem cavaleiros. por causa da fumaça. Embora os otomanos parecessem inoperantes.mas os chasseurs (infantaria ligeira) e carabiniers (infantaria montada) que estavam no velho castelo os obrigaram a dispersar-se. O chão ficara branco por tanto papel descartado. finge-te de morto até tudo acabar. ainda deixando que lhe diminuíssemos o contingente ao atirarmos contra seus flancos. e o inimigo desceu inutilmente em ambos os lados de nossa formação. Não há necessidade de teres o mesmo destino que europeus malucos. Moscas zuniam sobre os mortos.

a terra verdejante engolira as manobras dos exércitos. alguns ainda gemendo. o capim alto formava ondas. Centenas de seus companheiros de armas já cobriam o monte abaixo de nós. Éramos como uma rocha azul num mar do vermelho.Kléber se mostrava incrédulo. até a encosta exposta do monte." Meu telescópio inglês se revelara capaz de oferecer uma mirada mais nítida que a das lunetas-padrão do exército francês. "Lá". Com certeza. Só que isso ainda não acontecera. "Vedes baionetas francesas?" Forcei a vista até os olhos doerem. Segui Kléber para fora do aconchego do quadrado. seu sangue era uma mácula no trigo verde. "Como Bonaparte conseguiria chegar aqui tão depressa?" Fez um gesto para mim. mas eu não sabia se isso se devia ao vento ou à passagem de alguma infantaria . suprimentos e milhares de vivandeiros e outros paisanos. bastaria uma única e enérgica carga de cavalaria para romper nossa formação! Os homens então debandariam. e seria o fim. Trazei vossa luneta naval. Na distância. A oeste. Para indignação. apontou Kléber. "Pode ser uma coluna . os turcos pareciam ainda mais numerosos agora que eu enxergava mais longe por sobre suas fileiras. "Vinde. Passamos por uma roda de muçulmanos caídos. As ruínas do castelo dos cruzados proporcionavam uma vista panorâmica. Milhares trotavam para cima e para baixo. viam-se suas tendas. branco e verde otomanos. gesticulando como se discutissem acaloradamente o que fazer.

Olhamos e vimos uma coluna de fumaça ser carregada pelo ar. mas vamos descobrir. começa a formar colunas. Esta.o socorro estava mesmo chegando! Os franceses começaram a dar vivas e até cantar. A cavalaria inimiga hesitou. As tricolores se agitavam ao descermos com passo pesado e firme o Djebel-el-Dahy. Não sei se há reforços vindo para cá. "Junot. disse Kléber." Ele desceu trotando para o quadrado. "Em frente!" Começamos a marchar morro abaixo. como se estivéssemos em parada. "Ou homens desertarão e acabarão degolados.francesa. e aquele estrondo eficiente era tão francês quanto um pedido feito aos gritos num restaurante parisiense. Homens choraram de alívio . como já dissestes. quando viu o quadrado dissolver-se em duas colunas. perscrutando o oeste. Partamos ao encontro daqueles que vêm nos render!" Os homens deram vivas. pois o capim está se movendo. E então um canhão foi disparado ao longe. . ficou mais animada: ali estava a chance de precipitarem-se sobre nossos flancos e nossa retaguarda. Mas. de que maneira ela poderia ter chegado tão depressa?" "Morreremos de sede se permanecermos aqui". comigo atrás. torcendo (contra as probabilidades) para que não estivessem apenas se abrindo para serem dominados pela cavalaria turca. Ouvíamos seus brados e a força de suas cornetas. Brandiram-se e agitaram-se lanças turcas. As diversas peças de artilharia têm sons muito distintos.

abaixai-vos e disparai só quando receberdes a ordem!". a munição armazenada explodiu. miraculosamente. dando ordens para que se preparasse uma investida. perseguindo o inimigo rumo ao Vale do Jordão. Vimos uma lagoa junto à aldeia de Fula. Otomanos foram caçados e mortos por todo o caminho até o rio. acrescentou Junot. parecendo irresoluto. na direção da infantaria da Samaria que guarnecia a aldeia. "Não saiais de formação!" "Quando eles vierem contra nós. tendo de escapar para leste por causa de alguns milhares de franceses. Houve disparos. E. com um estrondo. Suprimentos preciosos começavam a ser consumidos pelas chamas. um exército de vinte e cinco mil homens ruía em pânico. Em minutos. atiçados. "Atacar!" Dando vivas. A cavalaria de Napoleão irrompera na retaguarda turca e estava semeando o pânico. Entrementes. turcos fugiam também do que quer que houvesse surgido do oeste. correram o resto do caminho morro abaixo.E então começou a subir fumaça do campo inimigo. . A cavalaria de Bonaparte passou galopando por nós. baionetas e coronhadas. os franceses. e então o inimigo se pôs a correr em debandada. berros abafados e o soar triunfante dos clarins franceses. Nossa empolgação aumentou: havia ali um regimento otomano. "Calma!". disse Kléber a seus homens. Agora nossos oficiais galopavam para cima e para baixo pelas colunas. Ouviram-se disparos.

matando a sede. com os calções pardos de poeira. ainda que distantes várias milhas um do outro) e o proclamou "uma das vitórias mais desproporcionais da história militar . gritou.quero que todos os detalhes sejam transmitidos a Paris o mais depressa possível". e depois ficamos encharcados e pingando como bêbados.Mergulhamos na lagoa de Fula.17 Com seus instintos para a política. Bonaparte operava milagres. depois de ter lido os relatórios!" Sorriu. general. Em vez de sentir inveja. e poderíamos marchar para Bagdá e Constantinopla". Kléber!". Eu tinha certeza de que ele não se mostrara tão rápido para dar a notícia do massacre de Jafa. "Eu já desconfiava que fosses te meter em confusão. "Mais algumas divisões. Bonaparte de imediato batizou nosso quase desastre como Batalha do Monte Tabor (um pico muito mais imponente e pronunciável que o modestamente ascendente Djebel-el-Dahy. Napoleão chegou a galope. com as bolsas de cartuchos já vazias. "Eles fugiram só de ouvir um tiro de canhão!" . "Mais algumas divisões. ele agora parecia deslumbrado com o resgate providencial que seu comandante levara a efeito. e poderemos marchar para Damasco". disse Kleber. emendou . radiante como o salvador que de fato era. inebriado com a inacreditável vitória. "Parti para cá ontem.

eu seria senhor da Ásia!" Kléber assentiu. "Mas o nosso mundo é maior do que era o deles. comecei. continuamos na orla da Ásia. perdeu-se a batalha. e desenrolam- . disse Napoleão." "Franklin era sábio". Benjamin Franklin. não em proveito próprio. Gage?" "Parece que tirastes toda a oposição do caminho.. nem César sido apunhalado.". Razão pela qual vais agora encontrar Silano.ou seja. general". Tippu Sahib. nem Rolando se adiantado tanto. Com tão poucos homens.Napoleão. Não gostava de que duvidassem. Ele ficaria ansioso em solucionar mistérios antigos. "O quê?" "Só uma coisinha que meu mentor. "E se Alexandre não tivesse morrido na Babilônia. E teu mentor era um verdadeiro savant. não é mesmo. costumava dizer . respondi cordialmente. "Os macedônios não eram muito mais numerosos. "Todavia. Ele acreditava em não se descuidar dos detalhes. "A escrupulosa atenção aos detalhes é essencial aos soldados." "Por falta de um cravo de ferradura." Pareceu pensativo. a milhares de milhas da Índia e de vosso aliado lá. Ainda não tomastes nem Acre. que o que nos derruba são as pequenas coisas.. mas para o bem da ciência. E Alexandre teve também de fazer um cerco.. como pretendeis imitar Alexandre?" Bonaparte franziu o cenho. Bonaparte devastava exércitos tal qual Moisés dividia as águas.. "Maldito Nelson! Se ele não tivesse destruído a minha esquadra. em Tiro.

senti um desânimo: era a primeira vez que eu o via mencionar o livro. sempre ." "Estou mais ansioso do que qualquer um para voltar para casa".motivo pelo qual pensei em trazer socorro à tua expedição antes mesmo que precisaste disso. Kléber". batendo o dedo em riste enquanto disparava ordens. retrucou Bonaparte. Cumpre tua obrigação. e tuas descobertas talvez sejam mais importantes em Paris do que aqui." Ele me deu as costas e saiu a passos largos e pomposos com seu estadomaior." "Na França?". "Pensas em Paris quando ainda estamos lutando nesta cloaca?" "Eu procuro pensar em tudo. Gage. perguntou Kléber. Tenho muitas coisas a exigir minha atenção. porque o tempo urge para todos nós.se acontecimentos na França. Deu um tapa no ombro do general que. . Os franceses. obviamente. E Astiza lhes contara mais do que eu desejara. que nós dois ascenderemos juntos!" Kléber olhou para ele com desconfiança. Quanto a mim. com sua cabeleira. sabiam mais do que eu tinha esperança que soubessem. "Fica tranqüilo.solucionar o mistério das pirâmides e dos antigos com o conde Alessandro Silano! Cavalga sem descanso. não na França. pois o que estamos fazendo tem um propósito. secamente. respondi. "Nossa obrigação é aqui. "Então acha esse teu livro. É ou não é assim?" "E a obrigação desse americano é terminar enfim aquilo para que o trouxemos . avultava-se acima dele.

sombrio. procurando ignorar o fedor que já emanava do escuro campo de batalha. instrumentos de Silano e seu desonrado Rito Egípcio. com exceção dos pomares e prados ao longo do rio. disse eu. fuzileiro. A cidade agüentará até voltarmos. "Bem. Jantamos carnes e pastéis turcos capturados. em território seco que só sustentava cabras. Agora estávamos além dos campos." "Bem a tempo da pilhagem pelos franceses. Os templários tinham descoberto alguma coisa e sido mortos na fogueira por torturadores que ansiavam saber o que era aquele segredo. Não queria levar meus companheiros à destruição. "Ele não deixará ninguém correr nem render-se. igual a Jafa. completou Mohammad. A cavalaria francesa ainda estava perseguindo os remanescentes do desbaratado exército otomano quando nos pusemos a acompanhar seu rastro de terra e vegetação pisoteadas e descemos ao Vale do Jordão. Grande quantidade de santos seguira aquele curso . Eu sabia o que se passava pela cabeça do fuzileiro: achar o tesouro e fugir.Assim. então é isso". Eu só esperava que meu destino fosse mais benigno. Phélippeaux e Sidney Smith". Não posso dizer que eu discordava de todo." Ned olhou para mim maliciosamente." "E tem canhões. "Não te preocupes. comentou Big Ned. "Se uma horda como aquela não agüenta uns poucos franceses. lá estávamos nós." "Só que Acre tem o Açougueiro". que chance têm os meus camaradas lá em Acre? Vai ser outro maldito massacre.

como lobos decepcionados. eles têm a moralidade de deputados e a higiene de escravos das galés . instou-me. para evitar a fedentina. "Não penses que já não possuo poderes elétricos. A dúzia de árabes de Najac ia armada até os dentes. "Esse Najac fica de olho em ti tal qual o corvo esperando para bicar o olho do defunto. Conseguiremos o que viemos buscar e daremos o troco a essa corja. mosquetes. e avistamos dois bandos diferentes que se retiravam furtivamente. Ficamos bem longe deles.de rio. e os navios britânicos que Ned chamava de lar pareciam estar a dez mil milhas dali. pistolas e espadas." "É. À medida que avançávamos para o sul. de modo que tive de tranqüilizá-lo. Certa noite. lembra-te?" Ned resmungou. No rio. e cuidamos de só pegar água nas bicas. e João Batista atuara em algum lugar daquelas margens legendárias." . também encontramos corpos de soldados otomanos afogados ou baleados. o vale se tornava cada vez mais árido. A gente poderia vestir esses patifes de coroinhas que eles ainda assim assustariam a catedral inteira. vamos largar esses bandidos e continuar por conta própria". mas cavalgávamos como uma quadrilha. "Chefe. após terem olhado nosso armamento. Havia ainda outros malfeitores.mas precisamos deles para nos conduzir à mulher que usava o anel de rubi. inchados como balões de pano. o fuzileiro veio rastejando para cochichar comigo. com fuzis.

Em ravinas rochosas. . exceção feita ao Mohammad. A mais alta estava tanto para pico como para serra. explicou: "Lá está o monte Nebo". que veriam água só nas chuvas. como se tivessem pressa em fugir à salmoura. Montanhas se erguiam precipitadamente da margem do mar Morto. disse Mohammad. como se em dois dias houvéssemos avançado dois meses."Não vejo a hora de poder arrebentá-los. apontando para oeste. O ar do deserto era denso." Passamos a trote por uma trilha que Najac afirmou levar a Jericó. que se estendia até o horizonte. Nenhuma espécie de ave se juntava nos baixios. e a região era tão estéril que ficava difícil acreditar que algum dia houvessem construído ali uma cidade de imensas muralhas. de um azul brilhante. girando o braço na direção oposta. passando da primavera ao verão. quente e úmido. Aquela era uma terra estranha e irreal." "Eles não perdem por esperar. Não perdem mesmo. Odeio franceses. e nenhum peixe vinha à tona. salpicada de pinheiros-dealepo. Eu compartilhava do desassossego de Ned. "Jerusalém fica para lá". Não vi nada dessa aldeia. Ela merecia coisa melhor. Ned. florescia o rosa dos oleandros. Depois. Lembrei-me do ferreiro e senti outra vez culpa por ter abandonado Miriam. que gerava profetas e loucos em demasia. O mar Morto era o que se deduz do nome: uma margem incrustada de sal e uma água salobra. nevoento. Árabes também.

Nisto. uma tenda francesa num rebaixo. A nossas costas. com os cascos fazendo chape na terra macia e os cavalos bufando ao passarem por esterco de camelo. os resquícios do fogo .Najac. rebateu o francês. cabeça-dura". sim. que reluziu ao sol da manhã. e a encosta começou a recender a pinheiro-de-alepo. Sentimos a refrescância. mas enfim alcançamos o topo. com a relva verde ao lado dele indicando uma fonte. que usou o espelhinho mais uma vez. que dali parecia parda e brumosa. O mar Morto era um espelho azul. queixou-se Ned. "A morada final de Moisés!" Esporeamos e começamos a subir. exclamou aquele que nos escoltava. do outro lado do Jordão. Tendas beduínas haviam sido armadas nos terraços da montanha. Aguardamos. Passaram-se quatro horas. que pouco falara durante a jornada. Adiante. não vi nenhuma caverna que pressagiasse tesouros. estavam as ruínas baixas de alguma coisa. sem em nada evocar leite e mel. fez sinais com um espelhinho. "Sejas paciente. "Lá!". uma coluna de sinal de fumaça se ergueu do Nebo. "Esse ladrão desgraçado fez que a gente se perdesse". Era um alívio sair do Vale do Jordão para ares menos enfasteantes. talvez uma antiga igreja. avistávamos de fato a Terra Prometida. Subimos por uma trilha de caravana. Ali perto. e eu via meninos árabes de manto preto pastorearem rebanhos de cabras que zanzavam para lá e para cá. mas nada aconteceu. Havia. Vários homens nos esperavam junto a um fio de fumaça de fogueira.

As mulheres são flores. os lábios e maçãs dignos de uma Cleópatra. Tendo-a talvez idealizado na lembrança. entretanto.que se acendera para sinalizar para nós. trazendo encanto ao mundo. longe dos homens. os lustrosos olhos escuros. protegendo-a do sol. ela se pôs de pé. como se Astiza tivesse visto ou sentido coisas que preferiria não ter encarado. Não envelhecera mal (é equívoco achar que a idade seja um insulto às mulheres. com as tranças longas e negras tal qual eu me recordava. A beleza daquela mulher. mas os olhos estavam mais fundos. de repente. . eu viera contando com a possibilidade da decepção. que vinha observando nossa chegada. avistei uma pessoa sentada num afloramento rochoso abaixo das ruínas. e Astiza era um lótus. mostrava-se mais tangível do que me preparara para encontrar. a esbeltez grácil e equilibrada. vívida à luz do cume. pois a beleza delas simplesmente adquire mais caráter). Tecido e cabelo eram soprados de leve pela brisa da montanha. Estaria Silano entre aqueles homens? Antes que eu pudesse verificar isso. em carne e osso. envelhecera. Será que eu mudara da mesma maneira? Qual a última vez que eu me olhara no espelho? Levei a mão ao rosto e senti a barba de vários dias. Eu transformara Astiza num fantasma. Saí com meu cavalo da fila que formáramos e desmontei. e agora lá estava ela. Era uma mulher. mas não: o que eu imaginava continuava lá. um lenço branco caído. trajada de branco. e. Quando me aproximei. Ela.

"Vivi um inferno para achar-te. Ela ainda o acha amaldiçoado. "Disseram-me que desapareceras. Era como se ela tivesse ressuscitado.fiquei cônscio de minhas roupas. como se o anel estivesse pelando. Hesitei. tendo flutuado para longe no balão quando ela não pudera fazer o mesmo. A cintura era cingida por uma corda de seda. Astiza o arrebatou e o enfiou rápido na bolsa de couro da cintura." "Temi que tivesses morrido. Parecia um pedido de desculpas. O vestido estava sujo de poeira e repartido para que ela pudesse cavalgar. que mostrava uma pequena adaga curva e uma bolsa de couro.mas eu estava mesmo constrangido. Saquei a jóia. sujas da viagem. Estava ainda mais esguia. esquecendo o que ensaiara dizer. tão pequenas que talvez tivessem sido tomadas emprestadas a algum garoto tamborileiro do exército de Bonaparte. Acabei dizendo: "Mandei perguntarem por ti". Astiza usava botas de cavalaria." "Trouxeste o meu anel?" Era um jeito frio de iniciar a conversa. "Eu o usarei numa oferenda". explicou. Sobre a pedra onde se sentara. via-se um odre. com corpo de bailarina ." ." "Estás com os serafins?" Sua frieza era desconcertante. inclusive Tot. É como um milagre pareces um anjo ou espírito.mas todos nós havíamos emagrecido. cujo rubi brilhava. pensei. "A Ísis?" "A todos Eles. e só queres saber de jóias?" "Nós precisamos deles. canhestro e nada eloqüente .

pesar. aquilo doeu. eu podia têlas mandado por correio. Eu fracassara em puxá-la para a cesta . olhando para baixo da beira da cesta. Astiza cortara o cabo com minha machadinha." Bem.. raiva. de maneira que o balão subisse para longe do alcance dos mosquetes. e doeu muito. porque era verdade.. A última coisa de que me recordo é do teu rosto. só da queda.Percebi que Astiza estava fazendo grande esforço para não demonstrar emoção. Astiza se dependurara no cabo do balão. vi uma centena de emoções em teus olhos. Então. e alívio. eu te libertei do ônus que te impuseram . Foi a coisa mais terrível que tive de fazer na vida. arrependimento. saudade.a carga . "Quando usei aquela machadinha.e em livrarme do feiticeiro aristocrata que antes fora seu amante. e Silano se agarrara a seu corpo para que ela não pudesse subir à cesta. "Aquele desgraçado quase te matou. Se tudo o que queriam eram quinquilharias de ouro. Ethan. e seu tom se mantinha inexpressivo." "O horror era uma delas. E agora estavam juntos de novo? Em caso afirmativo." "Medo. foi Alessandro quem me salvou." Astiza desviou o olhar para longe. "Nós quem?" "Ethan. Quando cortei o cabo. A única razão pela qual não conseguiste escapar comigo foi que ele não deixou." Eu ia objetar. para o vale. enrubesci. "Não me lembro do impacto. eu não conseguia atinar por que diabos tinham mandado me buscar. Em vez disso. se bem me lembro. vergonha.

sendo tratada em segredo. Eu até o vi vasculhar manuscritos enegrecidos que só podem ter vindo da biblioteca queimada de Enoque. passara-se um mês. e eu soube que Astiza forcejava para não correr para meus braços. que precisávamos derrubar." "Astiza. Reuniu baús e mais baús de livros. mais uma vez me aliei a ele. Os sábios franceses tinham lhe dado instalações de estudo no Cairo. Não podíamos começar direito porque tínhamos coisas demais a dizer." "Disseste que presumias que eu fosse para a América. Eu te libertei de mim. e eu estava com Silano." . Mesmo assim.de salvaguardar o Livro de Tot. não podes cortar com machadinha a corda que nos une. Sabia que não saíramos da pirâmide com algo de útil e desconfiava que houvessem levado o livro para outro lugar. com olhar ardente e corpo trêmulo. "Quando acordei. Enquanto ia convalescendo do quadril fraturado. Silano não desistira. não voltaste para a América. eu não estava entendendo nada. Por isso. pois primeiro havia um muro invisível. nem por um momento sequer. para usá-lo de modo que eu pudesse alcançar-te de novo. Eu tinha esperança de que ainda estivesses no Egito ou em algum lugar próximo. Por que ela hesitava em fazê-lo? De novo. de obrigação e arrependimento." Então ela se voltou e me encarou de novo. E não podia tentar o contato. Silano continuava lendo todo e qualquer fragmento de escrita antiga que conseguissem achar para ele.

e o meu coração acelerou. Nessa tumba. percebi que o destino conspirava para nos reunir outra vez. Silano fez Bonaparte encarcerar o verdadeiro mensageiro e mandar um dos próprios homens a Jerusalém para desestimular-te." "Vós despedaçastes os ossos de um morto?" "Silano encontrara menção dessa possibilidade quando estudou em Constantinopla. contemplando a Terra Prometida e sabendo que. jamais poderia adentrá-la . E. tal qual os estudos de Silano indicaram. Haviam . já conheces o mundo em que vivemos. Ethan. Será que a queda te fez perder todo o juízo?" "No aclive logo acima de nós. há uma igreja."Reconheço que fui assaltada pela dúvida . e acharemos o livro. quando o conde começou a elaborar outro plano e Najac partiu para espionarte." "Astiza. hoje em ruínas. um mapa medieval.o velho deus da tua cultura era cruel. Ela assinala o lugar onde Moisés talvez tenha um dia se assentado. havia ossos e. alguns fugiram para esta parte do mundo. O mundo pode voltar a ser assim." "Para quê? Não pretendes apenas reenterrá-lo?" "Ele também pode ser usado para o bem. apesar de todo o sacrifício que fizera. Após a destruição dos templários na Europa. Depois ouvi que andavam fazendo perguntas. Ethan. Solucionaremos este mistério.eu sabia que talvez fugisses. O Egito foi outrora um paraíso de paz e conhecimento. A construção em si remonta aos tempos bizantinos. Achamos ali a tumba de um cavaleiro templário. escondido num fêmur. Mas isso não funcionou.

querendo saber se ele toparia contigo. "Ele me amava . não precisavas de mim aqui para trazer dois anjos dourados. ansioso por ouvir mais antes de ousar fazer a pergunta seguinte. como disseste no Nilo?" Claro que eu a amava. esta mais lógica.descoberto algo em Jerusalém e o esconderam numa estranha cidade que aquele mapa descreve. Do que mesmo o pobre Talma chamara Astiza? Bruxa? Feiticeira? Eu temia o poder que ela teria novamente sobre mim quando eu admitisse minha fascinação." "Ainda me amas. E quanto a Miriam.. "Eu te amo desde o momento em que te tirei dos escombros em Alexandria". E eu te amei na casa de Enoque. Ethan. afobado.ama ainda. "Eu te amei quando estávamos subindo o Nilo naquele veleiro." Fiquei ali em pé. coitada. Todas as antigas emoções estavam voltando em torrente.. Fomos amantes. Silano também descobriu algo mais. mas as mulheres precisam ser cuidadosas. Mas também a temia. E eu te amei até quando. "Não. uma coisa que pode estar relacionada à eletricidade e ao teu mentor Franklin.." "Algum dia amaste Alessandro Silano?" Astiza hesitou apenas um momento antes de responder. ainda sitiada em Acre? Todavia. nada disso importava. continuou. dei o anel a Monge. E agora.. mas que o teu corpo sumira. mas para mim seria difícil amá-lo." "Astiza. por um . Os homens se apaixonam facilmente.. acabei confirmando. Em desespero de causa. Depois soubemos que foras executado em Jafa. "Não me orgulho disso"..

Eu te amei a ponto de me juntar aos malditos britânicos só pela esperança de recuperar-te . mas não tive dificuldade para me apaixonar por ti. "Eu teria dificuldade para amar Alessandro. zonzo de euforia. Astiza deu um sorriso triste. ela balançou negativamente a cabeça. me juntar novamente aos malditos franceses. Ali. no limite." Cheguei mesmo a cambalear ligeiramente. Temos de trabalhar com ele e então traí-lo. E eu te amei quando achei que já estávamos condenados na Grande Pirâmide.. "Não. Ethan. eu oferecera o peito aos mosquetes. sim." Com olhos úmidos." Eu estava perdendo todo o controle. Não podemos ir embora e deixá-lo concluir a busca.e te amei a ponto de agora. o pescoço à lâmina do carrasco. Tudo vem conduzindo a este cume e às montanhas mais além. Acharemos o livro . e é o teu desde que ganhaste o medalhão em Paris.. e durante toda essa longa cavalgada montanha acima.. mesmo não tendo idéia do que te diria.hoje à noite. E agora. "Então partamos agora . fiquei à espera de que ela me dispensasse com uma palavra.. partiremos. Esse é o meu destino desde que conheci Alessandro no Cairo. segundo parece." .e aí. não? As mulheres fazem um homem perder o juízo mais rápido do que o uísque do Kentucky consegue. Amei até a esperança de ver-te quando eu estava no vale lá embaixo. ou de como te sentirias. sem fôlego. Silano sabe demais.instante. Precisamos acompanhar tudo e pegar o livro no momento certo. achei que me traíras no templo de Dendara. ou de que aparência terias.

fazendo que ele se transformasse de Pã num sátiro mais sombrio. e a dor endurecera sua bela estampa." "Agora. Silano não era mais o espadachim ágil de que eu me lembrava. . Havia escuridão no olhar e severidade na boca. Os outros nos observavam mais acima da encosta.. Fez um esgar ao descer uma trilha de cabras desde a igreja bizantina. e a mirada não era mais cativante. "Ah. Até tudo terminar.que montanhas além?" "A Cidade dos Espíritos. Olhei de relance para trás. é necessário que pensem que somos inimigos." "A o quê?" "É um lugar sagrado. Creio que nenhum europeu jamais esteve ali desde os templários. Alessandro Silano. de porte aristocrático. com toda a força de que foi capaz. Perdera a flexibilidade por causa da queda do balão." Gemi. de ambição frustrada. apenas obstinada. Nossa jornada ainda não se encerrou. mítico. eu e tu precisamos parecer brigados. o fazia com a máxima atenção." "Inimigos?" E então ela girou e me esbofeteou. para enganá-lo. e a bofetada de Astiza ainda doía em meu rosto. e não estendeu a mão nem ofereceu nenhum cumprimento. Mancava. Para quê? Éramos rivais. alto."Espera lá . O ruído foi de disparo de fuzil. pela ganância de Benedict Arnold!. Tu te farás de furioso porque voltei a unir-me a Alessandro.. e nós dois viajaremos como ex-amantes ressentidos.

"Eu e ele temos contas para acertar." Silano se voltou para mim. haverás de . Espero que Astiza aprenda a dar valor a tal coisa antes que te canses disso." Olhou de relance para Astiza. Mas isso não quer dizer que vá usálos para ajudar-te". "Não está convencido de que deveria nos ajudar. é claro. "Astiza me disse que trarias dois anjinhos de metal que vós dois achastes na Grande Pirâmide.Desconfiei de que Monge ou nossos outros médicos lhe houvessem dado drogas contra a dor." "E resolveste convencê-lo a bofetadas?" Ela deu de ombros. mandar matarme. Teríamos todos de ficar de olho um no outro. Eram aliados. não mais seguro que eu de quanto podia confiar na parceira. Em seguida. e Silano não era do tipo que tolera a frustração. "E então?". como já fizeste antes. Trouxeste?" Hesitei. não amantes. Vi que ela o desconcertava. sim. só para aborrecê-lo. "Ele os trouxe?" "Não quis dizer". americano. perguntou Silano. não é. Eu queria verificar quão hostil ele estava. Dado o nosso histórico. respondeu Astiza. "Ficarão em lugar seguro até que tenhamos conversado. Não é fácil vivermos com algo que não podemos ter. falei: "Trouxe. "Parece que não conseguimos mesmo escapar um ao outro. Não é uma mulher fácil de amar. Gage?" "Eu estava bastante bem até que tu e Astiza me chamastes com o anel." "E vieste atrás dela. Silano poderia.

escondido sob o piso. De fato. disse ela. Viam-se montículos e buracos de escavação. Comamos. Mas sócios não precisam ser amigos." Silano começou a subir a trilha mancando. Contudo o olhar de Astiza era não de desdém. "Digo o mesmo. quando então se voltou. às vezes é melhor que não sejam . E Astiza poderá seguir-te ou permanecer . que .me perdoar se eu disser que não confio plenamente em ti. Ela entendia quanto somos prisioneiros de nossos desejos e nossas frustrações.dessa maneira. procurando restabelecer a certeza de que ela desprezava aquele homem. "Mas sei o que ambos decidireis. duelista. "O cavaleiro era Michel de Troyes. mago." Olhei de relance para Astiza. Depois poderás decidir se queres ajudar. naturalmente.dependerá apenas da vontade dela. Astiza me mostrou o sarcófago." Ele fez uma reverência. Éramos sonhadores num pesadelo que nós mesmos criáramos. aquele diplomata. é-se mais sincero." "E se eu não quiser?" "Aí poderás voltar para Acre. Subimos a trilha a pé para a igreja sem teto. onde evidentemente haviam sido descobertos os ossos do templário. mas de tristeza. na qual a luz do dia brilhava no entulho. e te contarei uma história. não concordas? Vem. "Silano encontrou referências a este túmulo no Vaticano e nas bibliotecas de Constantinopla". erudito e maquinador. tenho certeza de que estás faminto após a viagem.

de modo que insisti que Ned e Mohammad também comessem em nossa companhia. mas não o encontrei." "Golpeaste os ossos com impaciência". Astiza se . O mapa assinalava o próximo passo. Levei algum tempo para perceber que a referência só podia ser ao monte Nebo. para meu desprazer. Foi então que mandamos buscar-te." "Por quê?" "Porque és seguidor de Franklin. "Golpeei. disse Astiza. Eu tinha a esperança de simplesmente achar o documento no túmulo do cavaleiro. Dentro desse tubo. "e enterrara em si próprio o segredo. meu próprio trio." Nesse momento. Um eletricista. Aqueles serviçais fizeram uma fogueira num canto da igreja em ruínas e depois deixaram a sós os membros mais importantes da expedição. Astiza e vários guarda-costas com que Silano viajava. Najac sentou conosco. já éramos mais de vinte — os homens de Najac. A noite caíra. "E uma rachadura no fêmur mostrou um quê de ouro.fugiu ao encarceramento dos templários em Paris e partiu para a Terra Santa. Silano. muito embora nunca se tenha encontrado a sepultura de Moisés." Ele relutou em admitir que se portara de modo passional. disse Silano." "Uma carta dizia que ele repousara seus ossos com Moisés"." "O quê? Eletricidade?" "Ela é a chave.devem ter cortado a perna e esvaziado o osso após a morte do cavaleiro. Haviam inserido ali um tubo fino . Explicarei tudo depois do jantar. estava um mapa medieval. com os nomes em latim.

Sentamos na areia que se acumulara sobre antigos mosaicos de cenas de caça romanas. é o que procuramos. Silano pegou um grão de areia. eis-nos finalmente juntos". mosteiros e túmulos do mundo. dando a deixa como cão adestrado que era. "Será que Tot pretendeu que se estabelecessem uniões como esta para desvendar os enigmas que ele deixou para nós? Será que. ." "Que centro. meus relutantes aliados. Esse centro. companheiro.ajoelhou. estamos seguindo os deuses o tempo todo?" "Eu acredito num Deus único e verdadeiro". "É". "E se eu vos dissesse que isto é o universo?" "Eu diria que podes ficar com ele e deixar o resto para nós". todos os seres e todas as crenças são manifestações. concordou Ned." "Assim como acredito no Uno". murmurou Mohammad. "ainda que tenhas escolhido o errado. "Então. numa atitude nada semelhante à sua habitual. iniciou Silano. Segui um milhão de trilhas por bibliotecas. Sem ofensa. sem percebermos. e Silano ocupou a posição central. e todas levavam ao mesmo centro. mestre?" perguntou Najac. "de cujo mistério todas as coisas. com animais que se empinavam ante os dardos arremessados por nobres numa floresta.disse Silano. Faíscas subiam voando para misturar-se às estrelas. replicou Ned. com o calor da fogueira criando um casulo contra o gelado céu do deserto.. acanhada.

e sim algo substancial o bastante para que quebrasses o quadril". por exemplo . O que é feito dos seres que se dão conta dessas coisas? Se as montanhas são apenas teia.. e que tudo o que sustém essa ilusão são energias misteriosas que não compreendemos? E se eu vos dissesse que essas energias talvez não sejam nada mais que o pensamento? Ou que a. Que uma construção possa abranger o divino. Que a queda de uma rocha ou de uma estrela seja uma simples regra matemática.O conde sorriu secamente.. não .. Suponhamos que as coisas mais sólidas .. Que uma mente possa apreender energias invisíveis. não podem ser movidas? Se o mar não passa do mais ralo vapor..... Que um formato possa ser sagrado. o sonho é nossa realidade..as pedras desta igreja. Mas aí está o segredo. jogou o grão para cima e o apanhou.embora sejamos apenas sonho.. não podem suas águas serem partidas? Pode o Nilo virar sangue ou uma praga de sapos ser engendrada? Quão difícil seria derrubar as muralhas de Jericó se elas não são mais que um tapume vazado? Quão difícil seria transmutar .sejam matrizes de quase nada. "Ilusão e mais ilusão . disse eu... eletricidade?" "Eu responderia que o Nilo no qual caíste não era nenhuma teia de aranha. "E se eu vos dissesse que o mundo à nossa volta é algo diáfano. tão insubstancial quanto os espaços numa teia de aranha. todos inspirados por Tot.é o que afirmam alguns dos escritos sagrados." "O ouro não passa de fio de aranha? O poder não arrebata nada senão vácuo?" "Ah.

soube que lograste usar a eletricidade como arma contra as tropas francesas. "Tu. Insultaste meu renome para me fazer parecer banal. negaste-me esse título uma vez. enrubesci." "Creio que precisaremos do conhecimento de Franklin quando estivermos próximos do Livro de Tot. disse Mohammad. perguntou Ned. És eletricista bom o bastante?" "Sou um homem da ciência." Mesmo sem querer. O homem não esquecia nada. Procurei entender as pistas misteriosas que foram deixadas para nós enquanto o resto de vós se debatia na lama. Sou um erudito!" E agora Silano se punha dificultosamente em pé. mas não estou entendendo patavina do que dizes. Vim para o Cairo quando a cidade ainda estava sob o domínio dos mamelucos e explorei antigos mistérios enquanto tu ainda estavas desperdiçando a vida." "Foi uma necessidade bélica. "O que dizes é a fala de Satã." Ele tampouco perdera o elevado conceito que fazia de si próprio. "Investigo tais enigmas há vinte anos." "Não. Eu seguia o rastro dos antigos enquanto vendias teu oportunismo aos franceses.chumbo em ouro se ambos são essencialmente pó?" "Estás louco". "E agora compreendo o que estamos procurando e o que precisamos utilizar para encontrar isso: temos de capturar o relâmpago!" "Capturar o quê?". "Gage." . com Najac dando-lhe uma mão de que ele se livrou tão logo pôde. Ethan Gage. ressabiado. num banquete diante de Napoleão.

disse o conde. com a configuração do raio. interveio Astiza. E. no entanto. nunca adentrara os recintos que eu explorara. Silano traçou dois círculos. não? As dez sephiroth da cabala. Eles trouxeram para o deserto o que haviam descoberto nos subterrâneos de Jerusalém e ocultaram isso na Cidade dos Espíritos. Precisamos atrair o relâmpago como Franklin fazia."É por isso que precisamos dos serafins. unidas". Najac. mas Alessandro e eu acreditamos que Tot também conhecia a eletricidade e que os templários a estabeleceram como teste para que se ache o livro. com mais suavidade. murmurou Astiza." "O que isso tem que ver com relâmpagos?" "Observa. eu venho estudando.estais ambos loucos. e ele. eu tinha certeza. ." "Então vou concordar com Mohammad . "encontraste um piso curioso. "Acreditamos que. unidos pelas margens." Curvando-se para a poeira no chão junto à fogueira. deparaste com um arranjo judaico. Não foi assim?" "Como sabes disso?". tão grande quanto os dois primeiros. nessa porta templária." "Nas galerias subterrâneas de Jerusalém". "Como já disse. portanto não vira aquela porta de ornamen¬tação esquisita. "E. E uma porta estranha. de algum modo. perguntei. "Todas as coisas são duais". eles apontarão para o derradeiro esconderijo que os templários usaram após a destruição de sua ordem. Ethan". Ele traçou outro círculo. disse Silano. Os documentos são obscuros.

"Qual parte disto?". A estrela egípcia é usada na nova bandeira do teu país." "Nada de talvez. "As duas são igualmente sagradas. Gage . As pistas deixadas pelos templários nos mandam usar o céu se quisermos descobrir onde está o livro. "Os profetas conheciam isto".tanto uma estrela de cinco pontas como uma de seis. Unindo os pontos. cauteloso. formando configurações .sobrepondo-se a ambos. E os templários o reaprenderam. não?" "Talvez. Tão surpreendente que chega a dar medo. E depois círculos sobre esses círculos. ele cravou dez pontos. "Os templários traçaram outra configuração com base neste formato". "Reconheces isto?". e a outra. "Talvez Jesus também. O símbolo do . explicou. disse ele. perguntei. judaica". o conde desenhou uma linha em ziguezague. "Aí está um relâmpago. num padrão cada vez mais complexo. Silano começou a traçar retas. mais e mais. Mais uma vez. às quais Haim Farhi nos apresentara antes de Silano. quis saber Silano. "Uma é egípcia. nos interstícios. todos pareciam estar falando línguas antigas que eu desconhecia e descobrindo significados no que eu teria considerado mera ornamentação." Onde os círculos se cruzavam.não achas que era esse o propósito dos maçons que ajudaram a fundar os Estados Unidos?" Por fim. disse ele. que constituíram o mesmo padrão distintivo que tínhamos visto no salão templário em Jerusalém as sephiroth.

. bebendo da concha retorcida do caracol. Sedento suga água com lábios secos. É bem eloqüente. Gage?" "Nos sertões. Silano. E então a clara luz enfim revela certa parte Que antes era ignota e irreconhecida por teu espírito." "Poema?" "Duas estrofes. Cum region deserta bibens ex murice torto Siccatis labris arida sorbet aquas Tum demum partem quandam lux clara revelat Quae prius ignota est nec repute tibi Opperiens cunctatur eum dea cândida Veri Floribus insanum qui furit atque fide "Isso para mim é grego.relâmpago está no mapa que achamos aqui . Eles não ensinam os clássicos nos sertões da América. Quando o deserto. e a tradução explica por que eu estava ansioso para que nos reencontrássemos." "Latim." Ele recitou: Aether cum radiis solis fulgore relucet Angelus et pinnis indicat ore Dei. os clássicos são bons para acender fogueira." Quando o céu fulgura com o relâmpago dos raios do sol E com as plumas o anjo aponta ao comando de Deus.e ainda há o poema." "Encontrei esse documento durante minhas viagens.

"E quanto às flores e à fé?" "Minha teoria é que se trate de uma referência aos próprios templários e à Ordem Rosa-cruz. da mesma maneira que teu mentor Franklin fez na Filadélfia. "Precisamos ir a um lugar especial na Cidade dos Espíritos". Senti um arrepio de reconhecimento.. e fundiu os ensinamentos de Jesus com os do Egito antigo." "E o deserto bebe de uma concha de caracol?" "De um temporal com relâmpago." Ou a outra coisa. a Verdade brilhante e divina espera aquele. criando um credo gnóstico. no ano 46. Entretanto. o relâmpago. mas uma delas diz que o sábio alexandrino Ormo foi convertido ao cristianismo pelo apóstolo Marcos. O que diabos significava aquilo? O mundo evitaria um bocado de confusão se todos se limitassem a dizer as coisas às claras. "e invocar as chamas da tempestade. ou a crença no ." "Qual parte do quê?" "Meu palpite é que seja de uma construção ou uma gruta. Tolo louco por flores.Prolongando-se. mas isso não parece ser nosso hábito. Chamar o relâmpago para os serafins e ver para qual parte eles apontam. Teremos a resposta se o procedimento der certo. que também confia por fé. havia naquelas palavras algo que despertava uma lembrança. As conjeturas sobre a origem dos rosa-cruzes variam. pensei com meus botões. disse Silano.. uma coisa que eu nunca compartilhara com Astiza nem com Silano. Desconfio que seja referência a alguma taça sagrada.

"Uma mulher?" "Talvez." "E masculino e feminino". mas o símbolo da cruz e da rosa é muitíssimo antigo." Silano me encarou para certificarse de que eu fizesse a correlação com o Livro de Tot. A Ressurreição. "Estás falando é de um pára-raios . ou desespero e esperança. dois.ou melhor. sendo esse um dos motivos para termos uma conosco. para que possamos montar os teus anjos." Resolvi guardar minhas suspeitas para mim mesmo. e precisaremos da tua para achar o esconderijo lá." Ponderei. respondeu Silano. disse Silano." "E depois? Dividiremos o livro ao meio?" "Não". no lugar determinado pelos documentos que encontramos." "E é por isso que as estacas de nossa tenda são de metal.conhecimento. Nós o . Precisarás de nossa ajuda para achar a cidade. "Não precisamos de um Salomão para resolver nossa rivalidade. "As correntes de pensamento vão surgindo e desaparecendo na história do mundo. simbolizando morte e vida. já que temos dois serafins. Creio que precisaremos de metal para conduzir a energia para o solo. se preferes." "Flor e fé simbolizam o caráter que se exige daqueles que querem descobrir o segredo". Venho planejando isto há meses. "Então pretendes atrair um raio para os meus serafins e ver o que acontece?" "Sim. "A cruz fálica e a flor vulvar. acrescentou Astiza.

se todas as coisas são possíveis." "A razão de Bonaparte?" Silano olhou de relance para Najac." Os olhos de Silano luziam. Olhei para o quadril dele. os políticos e os generais só compreendem até certo ponto." "Juntos?!" "Por que não. "Sou fiel ao governo que me empregou. não." "Mas estamos em lados opostos!" "Não estamos. então podemos deslocar rochas. e no comando de um mundo enfim regido pela razão. Os sacerdotes de¬sempenharam esse papel no Egito. terá início uma idade de ouro. Que trindade ímpia! Mas eu não conseguiria nada se não cooperasse. Os sábios é que governarão o futuro. reconciliar inimigos e curar feridas.usaremos juntos. E estamos ligados por Astiza. É isso o que o livro aparentemente nos diz como fazer. para o bem da humanidade." O sorriso de Silano se pretendia sedutor. Ela estava sentada junto a Silano. "Tendo tu recuperado a juventude. não era mesmo? Olhei para Astiza. O mundo anterior era brinquedo de príncipes e clérigos. prolongar vidas. podemos fiar e torcer a matéria. exatamente como faziam os antigos. E. O novo será responsabilidade dos cientistas. Todavia. . Todas as coisas são duais. se teremos poder ilimitado para fazer o bem? Se o mundo é como um tecido diáfano. Nós seremos os sacerdotes do futuro. não a mim. Gage." "Precisamente. Quando a razão e o oculto se unirem.

"Precisamos de ti para chamar o fogo celeste. Grande parte era listrada em camadas de coral. e o céu era uma distante risca azul lá em cima. Na base. cinza. como passadiço para algum mundo inferior num sonho de sátiro. talhada pela água em mil formas sensuais. era um serralho de carne ondulada. apertado e rosado como uma virgem. Mas. tal qual Benjamin Franklin. Precisamos de ti para submeter o céu. então aquela fenda amuralhada. tão agradáveis aos olhos quanto a favorita de um sultão. formava uma estrada tosca que descia rumo a nosso destino. acolá se assemelhava a uma cortina de renda. Enquanto caminhávamos levando bornais pelo leito ensombrecido do canyon. Aquilo fora um portão . vi que a natureza não era a única escultora ali. ali se intumescia como glacê. a sinuosa passagem não era mais larga que alguns passos. Ethan". menti.18 A entrada da Cidade dos Espíritos era um canyon de arenito. por vezes se inclinando como um teto. Os paredões se elevavam a seiscentos pés. esse abraço rochoso se mostrava inquietante. replicou Astiza. como fresta a fechar-se num terremoto."Ela nem me perdoou". E. rosa e azul. A rocha aqui pingava como melado congelado. O leito." . "Perdoarei se nos ajudares. se a pedra pode mesmo ser voluptuosa. quando olhei com atenção. de areia e pedra. branco e alfazema.

Camelos de arenito. "Eis o que se torna possível quando os homens sonham!" É. servira de aqueduto para a antiga cidade. De quando em quando. estávamos havia vários dias em jornada para aquele lugar. e tinham escavado no paredão uma calha. Tendo partido de Nebo. por nichos nos paredões que abrigavam deuses e entalhes geométricos. contornando verdes pastagens no planalto e passando pelas sorumbáticas ruínas de castelos que os cruzados construíram. Nossa comitiva seguira as elevações do Jordão. esse efeito fantasmagórico se intensificou muito. Ficamos boquiabertos. com manchas escuras que deixavam claro que ela. Passamos sob o desgastado arco romano que marcava a entrada superior do canyon e seguimos silenciosa e energicamente. Era como se os mortos tivessem sido transformados em pedra. "Vede!". e. que se abriam para o deserto de areias amarelas a oeste. Regatos minúsculos eram engolidos pela aridez. sacaroteavam conosco em baixo-relevo. vigiando-nos . com falcões a girar no ar ascendente e seco. e beduínos a tocar suas cabras para uádis laterais. proferiu Silano. descíamos a canyons profundos e escaldantes. Depois subíamos para o outro lado e continuávamos no rumo sul.de caravana. duas vezes maiores que o tamanho natural. quando viramos a derradeira quina do canyon. um dia. lugares tão esquecidos quanto os templários. com um misto de temor e admiração. o livro só podia estar ali.

os matemáticos. que. amigo meu. As mesmas imagens tinham sido usadas pelo sábio francês Edme-François Jomard. eu tivera tempo mais que suficiente para pensar nos versos latinos de Silano. embora eu nem imaginasse que forças poderiam estar em operação ali. Ele dissera que as dimensões da pirâmide codificavam um "número áureo" (1. era a representação geométrica de uma progressão numérica chamada seqüência de Fibonacci. quando escalamos a Grande Pirâmide. haviam escrito os templários. No percurso. Será que a pirâmide traduzia de fato alguma verdade fundamental sobre a natureza? E como isso se relacionava (se é que relacionava mesmo) ao lugar para onde estávamos indo agora? Tentei pensar como Monge e Jomard. . de uma distância segura. mas eu fora tomado de curiosidade. Essa progressão podia ser simbolizada por uma série interligada de retângulos e quadrados cada vez maiores. Aquilo de os anjos apontarem me parecia plausível até certo ponto. "E então a clara luz enfim revela certa parte que antes era ignota e irreconhecida por teu espírito". Mas o que me instigara a memória foram as referências à concha de caracol e flor.silenciosamente. até terminarmos de passar. O cerco de Acre parecia estar a um planeta de distância. afirmava Jomard. na disposição das pétalas nas flores. se eu bem me lembrava). por sua vez.618. e um arco ao redor dos retângulos gerava o tipo de espiral vista numa concha de náutilo ou. Meu amigo Talma concluíra que o jovem cientista era meio maluco.

ainda assim. Eu. agindo como se estivesse irritada. em certo entardecer. as ruínas eram amarelas. quando Ned já estava mergulhado em seu vigoroso ronco. saí de fininho e aguardei nas sombras. Astiza veio como um fantasma. Fibonacci. envolta num branco luminoso e diáfano. Subimos cavalgando através de um prado de flores silvestres que balançavam ao vento da primavera. Para os outros. Teria eu uma pista que me possibilitaria arrebatar o Livro de Tot bem debaixo do nariz de Silano? Acampávamos nos lugares mais defensáveis que achávamos e. éramos ex-amantes ressentidos. Era como se as flores assentissem para minha suposição. nas ameias. deu-me uma idéia extravagante. subimos um morro para pernoitar nos restos de um castelo que os cruzados haviam construído com arenito e sobre cujas torres destruídas as andorinhas voavam em círculos. com o luar leitoso entrando pela seteira.Aquilo parecia não significar nada. Ao poente. sussurravam elas. incitou seu cavalo adiante para cortar o caminho do meu. Ned e Mohammad tínhamos estabelecido o hábito de dormirmos um pouco apartados do bando de degoladores de Najac. Quando nos aglomeramos no portão semi-ruído para levar nossos cavalos ao pátio abandonado do castelo. mas. o mais longe possível de onde dormirmos". Ela aquiesceu de modo quase imperceptível e então. dei um jeito de cochichar para Astiza: "Encontra-me ao luar. Levantei-me e puxei-a para uma guarita longe dos olhares de quaisquer outras pessoas. e. com mato crescendo entre as pedras. Eu a .

"Najac está acordado e pensa que saí para as necessidades. Eu então fingirei trair-te e irei com ele. No resto do tempo. afastou-se na surdina. sozinho. "Ethan. "Muito bem. Posso confiar em ti?" Ela sorriu. sussurrou Astiza. Faze-te de frustrado." Tendo dito isso." "Não será difícil. "A confiança precisa vir do íntimo. seus lábios estavam gelados pelo frio noturno. Nós te abandonaremos. Necessitarei de tempo para tentar uma coisa. estava difícil conseguir sossegar o facho . Combinaremos como nos encontrarmos depois." "Sabes algo que não nos contaste." "Deixa o desgraçado contar. vamos estragar tudo!" "Se nos contivermos." Astiza pensou por um momento." Ela me empurrou para longe. tomamos o cuidado de parecer tão eriçados um com o outro quanto porcos-espinhos . eu vou explodir. "Depois que atrairmos o raio." Tentei abraçá-la. e seus dedos se entrelaçaram aos meus para controlar minhas mãos. mas escuta. É uma aposta. Respirei fundo. "Sejas paciente! Estamos quase lá!" Maldição! Desde que eu saíra de Paris.era exercício demais e mulher de menos.beijei pela primeira vez desde nosso reencontro. "Não temos tempo"." "Não. se não nos contivermos agora. Se esse truque do raio funcionar mesmo. tu precisarás me ajudar a ficar longe de Silano. diz a Alessandro que trocarás tua parte no livro por mim. Ele deve estar contando os minutos." "E és apostador. não é mesmo?" "Talvez.

vieram em nosso encalço membros de tribos locais. Havia uma sucessão de montanhas de aspecto lunar. vimos nela cavernas. mas era como se o confronto no monte Tabor tivesse feito as forças turcas desaparecerem temporariamente. um monstro de cem olhos. Parecia não existir passagem naquela formação. levando seus próprios bandoleiros. ou a um pão que crescera desmesuradamente. um furúnculo de arenito marrom.brigados. mas nossa comitiva também parecia rija e mal-encarada. arredondado e cheio de protuberâncias. e os nativos acabaram sumindo. Seguíamos pelas velhas trilhas de caravana.mas. uns homenzinhos rijos e mal-encarados. Em certa altura. ninguém mais nos seguia. nem ao redor . como uma varíola arenítica. Najac se afastou a cavalo para conversar com eles. primevo. montados em camelos. Percebi que a região estava salpicada desses afloramentos. Eu temia as patrulhas otomanas. Assemelhava-se a um ensopado que fora congelado com bolhas castanhas e tudo. quando nos aproximamos. em frente a elas. Neles começaram a surgir pilares e . O mundo parecia vazio. Entre nós e aquele ermo. erguia-se a mais estranha formação geológica que eu já vi. além de pobre. não dando a impressão de valer a pena nos assaltar. Minha esperança era que se tratasse realmente de um ardil de Astiza. Viramos para oeste e descemos da beira do planalto central para o distante deserto. recortadas e severas .e. Quando chegamos à cidade do mapa templário.

as enchentes repentinas e violentas ocorrem com mais freqüência nesta época do ano. Os templários sabiam disso e se valeram de tal informação. "Aqui. Entramos a pé e. quando clareou." E então. com as estrelas reluzentes e geladas. e temiam um carroção que surgira à beira de nosso acampamento em alguma hora da noite. Silano disse que as trilhas que percorreríamos na manhã seguinte eram demasiadamente estreitas e íngremes para montarias. Diante de nós. deixando de guarda alguns dos árabes de Najac. O carroção era aquadradado e estava coberto de oleados. Desapareceram todos os sons. menos o de nossos passos arrastados à medida que descíamos pelo leito. nós as amarramos a estacas na entrada do canyon. esclareceu Silano. depois de trovões e relâmpagos.degraus talhados. havia outro canyon. "Tempestades varreram pedras para o que foi uma estrada da Antiguidade". Notei que os cavalos estavam estranhamente nervosos. Eu quis investigar. de modo que. entre os suprimentos guardados ali. Acampamos num uádi seco. mas então o sol da manhã iluminou a escarpa e realçou o canyon e o convidativo arco romano. o cheiro da carne deixava os animais nervosos. perpendicular ao primeiro e . Nós faremos o mesmo. poucas jardas depois. segundo os registros. como já descrevi. relinchando e batendo os cascos. e Silano explicou que. chegamos à outra extremidade do canyon após uma milha de caminhada e ficamos boquiabertos. não enxergávamos mais nada do mundo lá atrás.

"Ela é uma estrela a guiarnos até o livro!" . Cinzelado nele e dele (não era simples coisa sobreposta ao paredão). onde os romanos haviam construído um templo para a mesma divindade no que agora era o terreno da Catedral de Notre-Dame. Eu vira aquele mesmo arranjo visual nos recintos sagrados do Egito antigo. estava o mais inesperado monumento que eu já encontrara. a cabeça erguida e atenta. o que atraiu meu olhar não foram esses querubins ou demônios. Imaginai um desfiladeiro vertical com centenas de pés de altura. a roupa pétrea num drapejado romano sobre os quadris. de seios desnudos e erodidos. Na cabeça. uma cornucópia. e os vãos entre as colunas abrigavam figuras de pedra com asas de anjo. o primeiro a rivalizar em esplendor com a imensidão das pirâmides. Águias esculpidas do tamanho de bisões se encarapitavam na cornija. mas não foi isso o que nos deixou assombrados . Senti um calafrio ante aquela estranha recorrência de uma deusa que vinha me assombrando desde Paris. frontões e cúpulas mais altos que uma agulha de campanário da Filadélfia. os resquícios de uma coroa constituída de um disco solar entre chifres de touro. um complexo edifício pagão com colunas. mas a figura central bem acima da escura porta do templo.e sim o fato de que. Era uma mulher. Era um templo talhado na rocha viva.tão imponente quanto aquele. tão róseo quanto as faces de uma donzela. "Ísis!". Todavia. no paredão oposto. Aninhada no braço. exclamou Astiza.

O livro está em algum lugar aqui perto." Fomos até a entrada do Khazneh. semelhantes a caixotes. porque as lendas locais alegam que o Faraó escondeu sua riqueza aqui. o canyon dava uma guinada para longe. "A menos que tenham concebido algum truque para este lugar . A nossa direita. perguntei. O templo era tão nu quanto um armazém vazio. "Não. que significa Erário ou Tesouro. "Ele serve para quê?" Parecia grande demais para uma moradia. Como Silano já dissera." "Estás dizendo que o livro se encontra lá?". Uma larga escadaria levava à escura entrada com colunas. mas não grande e luminoso o bastante para um templo. por exemplo -. O desfiladeiro fora cavoucado para dar origem a câmaras retas e perpendiculares. e então adentramos o templo. tão sem traços característicos quanto a câmara que continha o sarcófago vazio na Grande Pirâmide. . "Os árabes dão a este templo o nome Khazneh.suas dimensões matemáticas.Silano sorriu. Alguns minutos de verificação confirmaram que não existiam portas ocultas. Os recintos estão vazios e são pouco profundos. chapinhando ao atravessar o regato que corria pelo centro dessa nova fenda na terra. o lugar estava decepcionantemente desguarnecido. Ficamos um momento em pé no frescor do pórtico. disse eu. não há nada aqui". olhando para a rocha vermelha lá fora.

Não teremos de esperar. O oleandro florescia para refletir aquela estranha rocha. Por toda a parte. "O ar está pesado. Se há uma coisa que podemos confirmar. disse Silano. rebateu Silano. É por isso que a crueldade não constitui pecado." "Mas é sublime". a respeito disto aqui.Silano deu de ombros. com suas fileiras de assentos também talhadas no próprio desfiladeiro." O novo canyon se alargava lentamente à medida que seguíamos por ele. em castelos de massa de panificação. Os escarpamentos pareciam disparar para o céu em camadas de bolo. os paredões estavam perfurados de cavernas. é que o lugar não é elevado. em parte nas sombras. como um vasto pátio rodeado de muros. demos numa larga cavidade cercada por montanhas íngremes. Era uma cidade construída não sobre a terra. proporcionando-nos vislumbres cada vez melhores do labirinto de montanhas que penetráramos. "Não importa. Passamos por um grandioso teatro romano em semicírculo. em pães arredondados. "Só a mente é real. "Estamos com sorte". como tudo mais". O dia se enevoava. e o cheiro é de temporal. Ainda vamos descobrir o Lugar do Alto Sacrifício. Por fim. . de que falam os documentos. mas da terra. Tinham o formato retangular de portas humanas. mas estas não eram naturais. mas precisamos agir antes que se desencadeie a tempestade. "E uma ilusão." Saímos. e o canyon estava em parte ao sol. indicando que pessoas haviam escavado-as. murmurou Astiza.

Trilhas de cabra conduziam até lá. O ar estava quente e úmido. "Faz as pirâmides parecerem uma caixa de correio. "quem sonhava aqui?!" Um dos paredões era um espetáculo que rivalizava com o Khazneh. "Pelo amor de Isis". Eram centenas. Depois. milhares. É para acharmos um livro aqui?!" "E para tu achares." Silano sacara seu mapa templário e agora o examinava. Não. apontou. "Lá em cima? Mas onde?" "No Lugar do Alto Sacrifício. . havia ali espaço suficiente para comportar toda a Boston. janelas e portas. pedimentos. colunas. elevavam-se da terra. Colunas. conduzindo a uma verdadeira colméia de câmaras lá dentro. Comecei a contar as entradas e desisti. sussurrou Astiza. mas parecia ser plana no topo. no entanto. E. Templos sem teto se erguiam do entulho." Atrás de nós. plataformas. que já não tinham o que sustentar. uma profusão de escadarias. Entretanto." Uma senda fora construída de degraus toscos talhados no arenito. Tu e os teus serafins. Fora talhado de modo a ser a fachada de uma cidade fabulosa. uma montanha que se erguia acima do antigo anfiteatro fora escavada para criar parapeitos.Era o esconderijo perfeito para uma cidade. à proporção que subíamos. "Este lugar é imenso". e suávamos. "Lá em cima. acessível apenas por canyons estreitos e facilmente defendidos. disse eu.

via-se uma pia redonda com calha. A luz se arroxeava. disse eu. haviam recortado um retângulo do tamanho de um salão de baile. Para oeste. Silano consultou uma bússola. Nela. como uma piscina seca e muito rasa. "Não vejo nenhum lugar onde esconder um livro".a vista se alargava. Não vimos gente em parte alguma. outras montanhas escarpadas sem nenhum sinal de verde. encerrada pelos desfiladeiros. Bem lá embaixo. . "Para o sangue". como se já esperasse por aquilo. quatro degraus levavam a uma plataforma elevada que parecia ser alguma espécie de altar. O sol ia baixando na direção das cabeças de trovoada que. O capote dele se agitava ao vento. Uma brisa tórrida e úmida apanhava funis de poeira e os fazia girar ainda mais. como se fossem esqueletos. sem as lamentações de almas penadas. estava a cavidade poeirenta de muros descaídos e colunas tombadas. aproximavam-se rapidamente de nós como negras belonaves. e surgiam cada vez mais desfiladeiros salpicados de portas e janelas. Até a meseta onde estávamos fora aplainada com muita precisão por antiqüíssimas talhadeiras. nós nos vimos numa meseta de arenito com uma vista magnífica. "É. sentenciou. assomando. A cidade abandonada estava muda. contou-nos Silano. de onde vinha a tempestade. No centro. Mais além. como piões. Chegando ao topo. o retângulo está mesmo no sentido norte-sul".

abrupto. "E eu vejo o infinito. as lágrimas de Rá. Chegou a hora de usar os teus serafins. "Nem sabemos se conseguiremos decifrá-lo". Tu deverias confiá-lo a mim. acrescentou Astiza. retruquei. .sou neutro. Os savants são um bando de adoidados. irritadamente. mas imagino que o velho Ben também estivesse quando se propôs a empinar papagaio numa tempestade. "És incapaz de cuidar de uma lista de compras no armazém. E não estou realmente nem do lado francês nem do britânico . respondeu Silano. com aqueles dez mil buracos que marcavam o arenito como se fossem uma absurda colméia." "E que metal é esse?" "Os egípcios o chamavam Ra-ezhri. o Sol. Ethan Gage. "Espera aí . "Eu me refiro a saber quem fica com o livro". Parece que os meus serafins são o instrumento fundamental e que a minha habilidade em instalálos é a chave de tudo.O conde fez um gesto para a cidade lá embaixo. Eles são feitos de um metal mais sagrado que o ouro. insisti. "Alguém precisará ser o guardião dele." "Não terias achado este lugar por conta própria nem em mil anos". O deus vai tocar o metal e então apontar para onde devemos ir. resmungou Najac.o que acontecerá quando pegarmos o livro?" "Nós o estudaremos"." "E não conseguirias achar a tua orelha direita nem se ela estivesse amarrada às tuas bolas por um barbante". Invocaremos o dedo de Tot! A essência do universo irá nos dar um sinal!" Ele estava totalmente maluco.

"Pois eis minhas condições. Ethan. Silano. divertindo-se. e ganhas uma fatia do poder." Os homens de Najac apontaram os canos de suas armas. Ele olhou em volta. Pega-o. "Mas quero Astiza no lugar do livro." "Quero que nos deixes ir embora. no Rito Egípcio.. disse Silano com impaciência. a maior parte das provisões e a única esperança de decifrarmos o que estamos prestes a achar." "Chefe!"." "Ela não é minha para que eu possa dá-la." . Ademais. e não se fala mais nisso. Irritoume sobremaneira ter de olhar para a boca de meu próprio fuzil. que se acumulavam. e ficarás sem nada. ninguém conseguirá o livro. "Tu te juntas a mim. no Egito." "Juntar-me ao homem que. não?". Se der certo. Se não ajudares. por certo que a situação já está bem clara nesta altura das coisas. acharás o livro.." Apontei para as nuvens. "Ou podes ficar sem nada. Eu te ajudarei a aprestar os serafins. "Realmente não entendo o que Franklin viu em ti. estás tão curioso quanto eu. o fato de ter todas as armas de fogo. "Ora."Gage." "Não sejas tolo. Tens tanta dificuldade para enxergar o óbvio!." Olhei para Astiza. exclamou Ned. "A coisa não funcionará sem mim. mandou-me a cabeça de meu amigo?" Silano deu um suspiro. ali nas mãos sebosas de Najac." "E qual seria o teu título de posse do livro?" Eu precisava desempenhar meu papel. sem nos causar mal nem interferir conosco.

As estacas estavam em pontos opostos. Astiza evitou tanto o olhar dele como o meu. "Sim. a escolha é dela". para conduzir a eletricidade. alertou Silano.ali estava o alardeado trabalho de pesquisa de Silano! Ia ficando escuro. um sorriso tão frio quanto uma armadilha para castor num riacho canadense. e os trovões . "Precisamos ligar as estacas". Trouxeste algum?" Claro que não . Será que eu podia mesmo confiar nela? Aquilo daria certo afinal? Eu estava apostando tudo numa charada latina. "E tu ajudarás se eu concordar?" Assenti e disse: "É melhor nos apressarmos". disse eu. Não havia. nenhuma junção entre os furos. O arenito exibia ranhuras." Respirei fundo." "Feito. não minha". "Vamos fazer um pára-raios de Franklin. É tudo o que peço. "Agora. Assim. A fisionomia de Astiza era uma máscara sem expressão. confirmei. cheio de confiança. inserimos as estacas ali. "com fita ou fio metálicos. Enfiei a mão nas ceroulas para tirar dali meus suvenires das pirâmides e vi os olhos do feiticeiro brilharem quando ele os pegou. Examinei aquela superfície plana. porém. e Silano confirmou que eles eram mencionados nos documentos templários. instruí. formando uma estrela de seis pontas. "Usa os encaixes que os prendiam ao cajado de Moisés para montá-los no alto das tuas estacas de metal". "Mas a escolha é dela." Ele sorriu. ajuda-nos a preparar os serafins." Notei dois furos no chão da meseta. "Não tua.Silano olhou de relance para ela.

avisei. Mais trovões. Recuei para a beira da meseta. pensei no que poderia substituir o metal (pois aqueles meus inimigos tinham razão: eu estava tão curioso quanto qualquer um). "Usa o teu odre para encher essas ranhuras com água e acrescenta sal. mas ninguém mais parecia assustado. Meus estudos são infalíveis. Ned e Mohammad me acompanharam. evaporandose antes de chegarem ao chão. e não em mim. e a temperatura baixou. grandes sacas de chuva e trovão que adquiriam intenso brilho prateado ao . "Os templários afirmaram que funcionará. A tempestade caiu sobre nós como uma carga de cavalaria." "Água?" "Ben dizia que ela ajuda a conduzir eletricidade. Veio um de pé-de-vento atirando pedriscos e terra grossa. como plumas. "Não entendo o que as hastes poderão fazer se ficarem isoladas uma da outra".ribombavam à medida que as nuvens inchavam." A água preencheu as ranhuras até que a estrela fulgurou à luz densa e verde-arroxeada. e fomos atropelados pelas nuvens. Até Astiza aguardava esperançosamente. ziguezagueando e oscilando como ébrios. com o cabelo em torvelinho pela ventania e os olhos no céu. "Najac." O homem tinha um ego tão grande quanto o de Aaron Burr. Bem. O sol sumiu. Funis de poeira se moviam ligeiros pelo leito do vale. acabei dizendo. faz alguma coisa além da cara feia". e eu via os primeiros feixes de chuva descerem em espiral. Relâmpagos golpeavam o céu a oeste. Senti arrepios.

em outro templo do paredão de rocha. enviesando-se umas para as outras de modo que retas traçadas de cada um dos anjos se interceptavam umas vinte jardas adiante. banhando tudo com um fulgor roxo que não era muito diferente daquele que havíamos testemunhado na câmara sob o Monte do Templo. Nossas roupas tremulavam. cada vez mais perto. a duas milhas de onde estávamos. Voavam faíscas para todos os lados.avolumar-se e inflar. E aí houve um clarão ofuscante. que eram muito quentes e pesadas. As estacas de ferro giraram. um estrondo imediato. indo atingir um grandioso vão da entrada com colunas. e depois se desvaneceu.um dos pára-raios fora atingido! Senti as pernas bambas. encontraram-se em pleno ar. e uma luz azul brilhante foi de estaca a estaca pelas ranhuras molhadas da estrela e depois formou um arco no ar entre os dois anjos. exclamaram os capangas de Silano. O raio se manteve por um momento. e o raio único resultante riscou o espaço como uma bala de fuzil. como uma momentânea espiada do sol numa caverna sombria. O alto da . "Isso!". mas as estacas retinham força elétrica. como numa fonte. E então raios de luz emanaram das asas dos serafins. com os trovões soando como uma artilharia. Os serafins ficaram de um branco incandescente. e o silvo do vento se tornou um grito agudo. e as asas deles apontaram para nordeste. O relâmpago já passara. Raios lampejavam e atingiam os picos ao nosso redor. e a montanha estremeceu . mais parecendo chumbo derretido que água. Caíram gotas grossas. Voaram faíscas.

Era um aguaceiro. Todos sentíamos a eletricidade no ar. "Eu conseguiria achar o lugar de olhos fechados". Silano erguera os braços para o ar. pois sua conformação é a mesma . vinha mais chuva. Astiza estava rígida." Os olhos do conde se acendiam de energia. como . olhei para nossas estacas de metal.o conhecimento. tirando o cheiro de temporal do ar.afinal.montanha escureceu. ouvidos na infância. Deslumbrado. murmurou Big Ned. "E dos templários e de todos os que buscam a verdade. obra de Moisés!". estamos vendo a obra de Deus. garantiu Najac. Os serafins tinham derretido e se achatado. em triunfo. replicou Silano. "Não. estive numa expedição de savants . perguntou Silano. Com que fogo estávamos brincando ali? Ao mesmo tempo. Jeová ou Alá. mas. a água pingando dos anéis de cabelo colados às faces. Recordei sermões. A tempestade se deslocava para leste. lembrando cogumelos na ponta das estacas. "Foi obra do capeta". E não importa se esse deus é Tot. o vestido ensopado. em que Satã era uma serpente que prometia o conhecimento a Adão e Eva. com uma ponta de cobiça na voz. a água corria a cântaros por toda a parte.mas as palavras e o aspecto de Silano me inquietaram. Senhores. agora mais fresca. como se parte do raio o tivesse permeado. e nossos cabelos dançavam por ela. "Alguém marcou onde incidiu aquele raio?". Não tenho nada contra o conhecimento . atrás de sua rabeira flamejante. No alto dos desfiladeiros.

Isis me conduziu a este lugar para que eu concluísse o que comecei. disse eu. "agora podes vir comigo. "Não posso deixar Alessandro ter o livro apenas para si. "Desçamos antes que anoiteça. sertanejo da América. Gage. tua companhia foi fascinante como sempre.podíamos deixar que um fruto tão tentador ficasse sem ser colhido? Olhei para Astiza. Fizeste teu acordo. Ethan. até dizer: "Mas não vou.realmente ocorrera alguma coisa . de maneira que agora posso dizer-te adieu. "Astiza". senhores. "Creio. mas ouso dizer que nenhum de nós dois lamentará muito a perspectiva de seguirmos caminhos diferentes. Acamparemos em frente ao templo que foi iluminado e iremos vasculhá-lo à primeira luz da manhã. disse o ansioso Najac." "Hein?" "Ficarei com Alessandro. proclamou Silano. mas acho que. "Entendo tua impaciência. não era mesmo? Astiza parecia estupefata . nosso objetivo não vai a lugar nenhum." Ela ficou longo tempo calada. minha bússola moral." "Mas eu vim por tua causa! Saí de Acre por ti!" Ostentei mais indignação que um advogado ao encarar provas irrefutáveis contra seu cliente." "Ou com tochas." Ele se inclinou numa reverência. Mas ela precisava evitar meu olhar. Pierre." . Ethan. hoje à noite mesmo". após mil anos. Não posso me afastar do livro depois de todo este sofrimento.e preocupada. que estamos prestes a fazer história".

se é que Astiza estava mesmo fingindo. resmungou Najac. O livro é mais importante do que tu." Com fingida frustração. "Se é assim.. mas o bando de Najac apontou os mosquetes em minha direção. Ethan. espero. Amaldiçoarás o trato que quiseste fazer!" "É". arranquei uma das estacas de ferro para usá-la como arma. desceram a trilha em fila. Eles são cria do diabo! Vem conosco ..vem comigo para a América. "Muito em breve." "Tu me usaste!" "Nós te usamos para achar o livro — de uma vez por todas." Silano sorria. Gage. Mais importante do que nós. que voltes para Acre e morras. "Não!" "Ela já escolheu." Deixei a estaca cair com um tinido. Nossa encenação dera certo . perceberás o que acabas de jogar fora". Ethan. Volta para os ingleses. ide embora da minha monta¬nha!". Dando sorrisos zombeteiros." Astiza balançou negativamente a cabeça."Mas Silano é louco! Vê quem são seus companheiros. "Adeus. Ele já esperava aquilo. em tom mais alto. com voz trêmula. o que o Rito Egípcio poderia ter-te proporcionado!." "Só ajudei com o raio para ficar contigo!" "Sinto muito. Gage. disse Silano. envolvendo a cabeça com o lenço. para mim. empunhando a pistola com firmeza. "Ah. não quis olhar para mim enquanto Silano a conduzia para fora da meseta. ordenei. levando com eles as estacas e os serafins . Eu vou com Alessandro. "Então. Astiza.

derretidos. No caminho, Astiza só relanceou para trás uma vez. Quando eles já estavam a uma distância suficiente para não nos ouvirem, Big Ned finalmente explodiu. "Por todos os santos, chefe, vamos deixar aquele carcamano patife roubar o tesouro que é nosso por direito?! Achei que tivesses mais peito!" "Miolo, Ned, miolo. Lembras como te superei no duelo?" Ele ficou com cara de quem falara bobagem e aceitava a repreensão. "Lembro." "Pois aquilo foi com miolo, não muque. Silano não sabe tanto quanto imagina, e isso quer dizer que agora temos nossa chance. Vamos achar uma trilha pela parte de trás desta montanha e fazer nossas próprias explorações, bem longe daquela súcia de degoladores." "Longe? Mas eles sabem onde está esse teu livro!" "Sabem onde o raio lançou a luz. Só que não acho que os templários seriam assim tão óbvios. A minha esperança é que eles tenham sido estudiosos da Grande Pirâmide." Ned não entendeu nada. "Estás falando de quê, chefe?" "A minha aposta é que o que acabamos de testemunhar foi uma tentativa de levar os outros a equivocarem-se. Sou um apostador, Ned. E a Grande Pirâmide incorpora uma sucessão de números conhecida como seqüência de Fibonacci. Tu já deves ter ouvido falar disso, não?" "Com a breca! Não ouvi, não."

"Os franceses me ensinaram isso no Egito. A tal seqüência é uma representação de certos processos básicos da natureza. É algo sagrado, se preferes essa palavra. Bem o tipo de coisa em que os templários estariam interessados." "Desculpa, chefe, mas eu achava que tudo isso tinha a ver com tesouros antigos e poderes secretos, não com números e templários." "São todas essas coisas juntas, Ned. Pois bem, existe uma razão numérica que aparece em qualquer representação geométrica da seqüência, uma proporção aprazível entre uma reta mais longa e uma mais curta. Essa proporção corresponde ao número 1,61 e uns quebrados e é denominada número áureo. Os gregos, os construtores das catedrais góticas e os pintores renascentistas a conheciam, e ela foi incorporada nas dimensões da Grande Pirâmide." "Áureo?" Ned me olhava como se eu fosse maluco, o que talvez fosse mesmo verdade. Tracei retas no chão. "Isso significa que o livro talvez esteja em ângulo com aquilo que vimos aqui. Pelo menos, é nisso que estou apostando. Vejamos... Vamos supor que a base da pirâmide seja representada pela reta que vimos disparar através do vale." Esbocei uma reta para as ruínas a que Silano e sua turma se dirigiam naquele momento. "Tracemos uma perpendicular que vai do ponto de origem daquela reta mais ou menos para oeste." Apontei a serra escarpada de onde viera a tempestade. "Em alguma interseção dessa nova reta, há um ponto que seria representado se, para completarmos um triângulo retângulo,

traçássemos o cateto oposto entre o lugar para onde foi Silano e a reta que imaginei para oeste." "Um ponto onde?..." "Exatamente. Precisaríamos saber o comprimento desse cateto oposto. Imaginemos que ele tenha aproximadamente 1,61 vezes o comprimento do cateto que vai daqui ao templo de Silano - a razão áurea, que é a representação física da seqüência de Fibonacci e da própria constante natural, como vemos na inclinação da Grande Pirâmide. É difícil estimar distâncias, mas, se supormos que o templo está a duas milhas, então o cateto oposto teria um pouco mais de três..." Ned forçou a vista, acompanhando meu braço enquanto este partia do templo e ia do norte para o oeste. "Meu palpite é que ele interceptaria minha linha imaginária para oeste mais ou menos ali onde está aquela imponente ruína. Olhamos fixamente para lá. No leito do vale, havia um antigo edifício que dava a impressão de ter sido castigado por artilharia durante uns cem anos. Na realidade, aquilo era apenas obra do tempo e da deterioração. Ainda assim, o edifício se erguia mais alto que todo o entulho ao redor. Uma fileira de colunas, sustentando nada, projetava-se do chão ao longo do que parecia ser um antigo passadiço ou corredor. "Vistes esse ângulo onde mesmo, efêndi?", perguntou Mohammad, procurando entender. "Na inclinação da Grande Pirâmide. Foi meu amigo Jomard quem me explicou."

"Quereis então dizer que o conde Diabo está indo para o templo errado?" "E só palpite, mas é a única chance que tenho. Amigos, estais dispostos a dar uma olhada e torcer para que os templários tenham dado a esse jogo dos números a mesma importância que os antigos egípcios davam?" "Aprendi a ter fé em vós, efêndi." "E, caramba, que piada seria descobrirmos o maldito livro antes deles!", riu Ned. "E aposto que vamos achar ouro também..."

- 19 Fingimos descer como se estivéssemos indo à entrada do canyon para sair da Cidade dos Espíritos. Mas, após termos avançado com cautela por entre algumas pedras, longe dos olhos de Silano, encontramos uma descida difícil por uma ravina, bela e encharcada, na face oeste da montanha. Passamos por mais cavernas e túmulos em ruínas, junto a cascatas criadas pela chuva (o deserto estava mesmo sedento, sugando a água tal qual os templários haviam profetizado), até que chegamos ao leito da cidade. Era a hora do luscofusco, e a chuva terminara. Usando uns morrotes como cobertura para ficar fora das vistas dos outros, alcançamos bem ao escurecer o grande templo que tínhamos visto. Estava fresco após a tempestade, e estrelas começavam a salpicar o céu.

Essa estrutura estava em pior estado que o templo que eu explorara em Dendara, no Egito, e era muito menos imponente. O teto se fora, e o que restava parecia um cercado de entulho sem janelas e com ornamentação mínima. O templo era enorme (as paredes pareciam ter cem pés de altura, com um arco de altura suficiente para que uma fragata passasse por ali), mas despojado. Não foi difícil achar um túnel que conduzia para baixo. Num dos cantos do interior do templo, havia uma cratera no entulho, como se alguém tivesse escavado à procura de tesouro; e, no fundo dessa cratera, viam-se tábuas brutas seguras por grandes pedras. "Então está aqui!", exultou Ned, falando baixinho. Atiramos as tábuas para o lado e deparamo-nos com degraus de arenito. Usando arbustos secos para fazer tochas toscas, acendemos uma (atritando aço com pederneira) e descemos. Logo, porém, ficamos desapontados: após trinta degraus, a escadaria se interrompeu abruptamente, e a continuação assemelhava-se a um poço, de paredes de arenito liso. Peguei uma rocha e a deixei cair ali. Passaram-se longos segundos, e então se ouviu uma pancada na água. Eu ouvia uma correnteza lá embaixo. "Um velho poço", disse eu. "Os beduínos o fecharam para que as cabras e as crianças não caíssem nele." Frustrados, voltamos para fora para explorar o perímetro, mas não achamos nada de interesse. Lá na frente, velhas colunas que já não sustinham nada se enfileiravam num passadiço abandonado. Mais montes de alvenaria quebrada marcavam

velhíssimas construções, ruídas havia muito. Todos eles davam a impressão de ter sido remexidos, com fragmentos de cerâmica por toda a parte. Eu vos direi o que é a história: são cacos e ossos esquecidos; é um milhão de habitantes achando que o momento em que vivem é o mais importante, todos reduzidos a pó. Dos desfiladeiros em volta, as cavernas pareciam bocas caladas. Sentamos, exaustos. "Parece que a tua teoria não funcionou, chefe", disse Ned, desalentado. "Ainda não, Ned. Ainda não." "Onde estão os espíritos, então?" Ele olhou ao redor, forçando a vista. "Cuidando dos próprios assuntos, espero. Acreditas em fantasmas?" "Acredito - eu já os vi. Companheiros perdidos rondam o convés nas nossas vigílias mais escuras. Mais algumas almas penadas, de naufrágios desconhecidos, ficam chamando lá das ondas. É, isso gela o sangue da marujada, podes ter certeza. E, numa casa de cômodos onde morei em Portsmouth, tinha morrido um bebê, e a gente costumava ouvir o choro quando. "Isso é conversa demoníaca", interrompeu Mohammad. "É errado ficar a lucubrar os mortos." "Sim, amigos, pensemos em nosso objetivo. Precisamos achar uma maneira de descer. Se há uma coisa que não falta em caça ao tesouro, é enfiar-se pela terra." "Deveríamos receber salário de mineiro, sim, senhor!", concordou Ned.

"De manhã, Silano entrará no templo que o raio atingiu, e ele ou achará alguma coisa, ou não achará nada. Estou apostando nessa segunda opção - mas precisamos descobrir o tesouro e já estarmos bem longe antes disso." "E a mulher?", perguntou Ned. "Estás desistindo dela, chefe?" "O combinado é que ela saia às escondidas e venha ao nosso encontro." "Ah, apostaste também nela? Bem, as mulheres não são boa aposta." Dei de ombros. "A vida nada mais é que uma aposta depois da outra." "Eu gosto do som do córrego", comentou Mohammad, para mudar de assunto. Eu sabia que ele também considerava a jogatina um ardil do diabo. "É raro que possamos ouvi-lo no deserto." Prestamos atenção. De fato, um riacho corria por um canal junto ao passadiço, parecendo rir ao bater água. "Foi a tempestade. Acho que, na maioria dos dias, este lugar não tem como ser mais seco", disse Ned. "Mas para onde será que vai a água?", continuou Mohammad. "Estamos numa cavidade natural." Levantei-me. É, para onde? O deserto, sedento, suga água com lábios secos. Repentinamente empolgado, desci com dificuldade os degraus quebrados do templo até o passadiço e o atravessei para chegar ao riacho temporário, que agora cintilava à luz das estrelas. Ele corria para oeste, no rumo das monta¬nhas, e então... sumia!

Uma coluna jazia tal qual tronco abatido e atravessado sobre o riacho, e, debaixo dela, a água desaparecia abruptamente. De um lado, o curso de água sussurrante. Do outro, seixos e areia secos. Entrei na água fresca, sentindo-a correr contra minhas panturrilhas, e espiei sob a coluna. Havia na terra uma fenda horizontal, como a pálpebra de um gigante sonolento, e era nela que a água se derramava. Eu conseguia ouvir o eco. Ah, não o olho de um gigante, mas a boca! Suga com lábios secos. "Creio que achei o nosso buraco!", berrei para os outros. Ned saltou para a água, ao meu lado. "Se escorregarmos para aquela fenda, chefe, podemos ser varridos para o inferno." Deveras. Mas, e se por algum milagre eu adivinhara certo e aquilo era uma pista de onde os templários tinham realmente ocultado seu segredo de Jerusalém? Parecia ser mesmo a solução. Saí da parte de baixo da coluna e olhei em volta. Aquela era a única que caíra por sobre o riacho. Qual a probabilidade de que essa coluna tivesse rolado justamente para onde uma caverna conduzia ao subsolo? Uma caverna, ademais, cuja presença só se fez conhecer após uma grande tempestade com raios e trovões? Segui o fuste da coluna até a encosta oposta ao templo. Ela cindia-se da base como num terremoto, e o que restava do pé ressaltava do solo tal qual um dente quebrado. Muito curiosamente, essa base parecia mais livre de entulho que a paisagem circundante. Alguém

(séculos antes? Ou naquele momento mesmo?) limpara o chão, talvez após ter tirado a armadura medieval de malha e a túnica branca com uma cruz vermelha. "Ned, ajuda-me a cavar. Mohammad, pega mais arbustos para fazermos tochas." O fuzileiro resmungou. "De novo, chefe?" "Ainda queres o tesouro?" Logo revelamos sob a base da coluna uma plataforma de mármore gasto. Por um momento, consegui visualizar o que a cidade devia ter sido no auge, com as colunas formando uma arcada umbrosa em ambos os lados do passadiço central, apinhado de comércios e tavernas pitorescos; com a água fresca jorrando de fontes azuis; e com os camelos, enfeitados com borlas, o lombo carregado de mercadorias, balançando em passo majestoso ao chegar da Arábia. Também haveria estandartes, trombetas, pomares... Ali - uma configuração no mármore! Triângulos entalhados sobressaíam-se da base quadrada da coluna. Percebi que, na realidade, eram duas camadas de calço, e uma delas era uma polegada mais alta e justapunha-se à outra. "Procurai um símbolo nesta cantaria", ordenei a meus companheiros. "Algo como o emblema dos pedreiros-livres - o compasso e o esquadro da maçonaria." Esquadrinhamos tudo. "Nada de nada", sentenciou Ned.

Ora, os templários eram monges guerreiros, não pedreiros. "E nenhuma cruz? Nenhuma espada? Nenhuma das sephiroth?" "Efêndi, é só uma coluna quebrada." "Não, não - há alguma coisa aqui. Alguma coisa com flor e fé, como dizia o poema. É uma porta fechada, e a chave é... Temos um quadrado dentro de um quadrado. Quatro ângulos mais quatro ângulos? Dão oito. Um número sagrado? O oito está na seqüência de Fibonacci." Os dois olharam para mim, sem entender nada. "Mas são dois triângulos também - três mais três. Seis. Não, não é isso. Oito mais seis são catorze, mas também não é isso. Maldição! Será que errei totalmente de rumo?" Senti que minhas tentativas eram contraproducentes. Eu precisava de Monge, ou de Astiza. "Se sobrepuserdes os triângulos, efêndi, tereis a estrela judaica." Claro! Seria tão simples assim? "Ned, ajuda a puxar esta base de coluna. Vejamos se os triângulos deste piso deslizam um sobre o outro." "Como é?" Mais uma vez, ele fez cara de quem me achava um lunático. "Puxa! Tal qual fizeste naquele altar nos subterrâneos de Jerusalém!" Parecendo estar apenas confirmando a própria danação, o fuzileiro se juntou a mim. Não creio que, sozinho, eu teria conseguido mover aquela cantaria intransigente, mas os músculos de Ned se incharam até quase explodir. Mohammad também ajudou. Com extrema relutância, a base começou mesmo a mover-se, e os mármores começaram a

mais facilmente eles deslizavam. Quando os triângulos se cruzaram. e repentinamente a base se moveu sem entraves. Tudo o que eu enxergava eram umas poucas estrelas. eles foram mais e mais constituindo uma estrelade-davi. Quando enfim formaram a estrela. . Quanto mais os triângulos se sobrepunham. O poço era demasiado alto para que conseguíssemos escalado e sair.antes que se feche!" Saltei e pousei no mármore que descia. "Pulai. lamuriou-se Mohammad. à medida que a base girava." Mas isso não aconteceu. a estrela-dedavi começava a afundar na terra. Ouvíamos o ranger de antiqüíssimos mecanismos enquanto descíamos. "Não. Ned. O aparato inteiro se tornara algo desprovido de peso . Ned e Mohammad fizeram o mesmo.justapor-se. puxa!" "Vais é atrair outro raio. Afundávamos por um poço em forma de estrela. que então deu um solavanco e parou no fundo. Após um momento de hesitação. homens . qualquer que fosse ela. ecoando na câmara subterrânea para onde estávamos descendo. Olhei para cima. "Estamos indo para o inferno!".e. ouviu-se um estalido.estamos indo é para o livro e o tesouro!" Agora o ruído de água era mais alto. com o árabe segurando as tochas improvisadas. Ficamos pasmados. "Puxa. sendo nossa plataforma aquele signo-de-salomão. girando sobre um pivô numa das quinas. chefe. pulai .

o deserto realmente sugava a água. amigos." A luz amarela fulgurou. "Acendamos uma tocha".."Como é que vamos subir de novo?". "Não é do tipo de que a gente consegue sair. Uma passagem horizontal baixa saía de nosso curioso poço na direção do som da água. Será que devíamos ter deixado um de nós lá em cima? Vinde. aquela inspirada na seqüência de Fibonacci. murmurou Ned. disse eu. fazia um ruído possante. A gruta onde estávamos era artificial e tinha formato de cornucópia ou funil descendente. Na saída do funil." . Mais ou menos na metade do comprimento da coluna caída lá em cima. Mas não foi isso que atraiu minha atenção. O livro irá nos dizer como sair. com largura suficiente para o andar de um homem. "Mas uma só podemos precisar das outras. "Hum. com razão. e seu padrão me lembrou a concha de náutilo que Jomard me mostrara na Grande Pirâmide. Fiquei boquiaberto. Nós nos agachamos e a seguimos. agora é tarde demais." Eu disse isso com mais confiança do que de fato sentia.. em algum lugar. A saliência se espiralava ao descer. A água. havia uma saliência de pedra. estreitando-se à proporção que baixava. quis saber Ned. Estávamos aglomerados no alto do funil. a água era uma lagoa turbulenta e voraginosa. Tolo louco por flores. demos numa gruta. que também confia por fé. O riacho criado pela tempestade se despejava da fenda que eu vira lá em cima . Pela periferia da gruta. "Um sorvedouro".

Bem." "Não. senti-me culpado por causa de Miriam. o que se combinava com a doce lembrança de seu corpo e com não pouca apreensão a respeito de sua mágoa. Aposto que não teriam construído tudo isto se não houvesse alguma coisa lá embaixo. "Diacho. não onde estava Silano. chefe. eu enfim teria tudo . Ned — trata-se de outro símbolo. efêndi . se Astiza viesse nos encontrar como prometido. este é um lugar sagrado. De alguma maneira. tesouro e mulher." "Não .estamos num lugar maligno. ou as pessoas que construíram esta cidade. Sabia que os loucos templários e seu relâmpago haviam colocado o segredo ali."Não. Engraçadas . mas isso se resolveria no devido tempo. Mais uma vez." "Subterrâneos construídos por loucos?" "Não. e que. Vós podeis esperar aqui. sobre o que está por trás do mundo comum.é um portal. procurando um atalho para a felicidade. Ou achais que teriam?" Olharam-me como se pensassem que meu lugar era no manicômio." Que também confia por fé.conhecimento." Ele balançou negativamente a cabeça. e os templários. trivial. como foi que eu acabei metido contigo?!" "Deveras. Mas eu sabia que matara a charada. duas mulheres. o universo é constituído de números. Éramos todos absolutamente malucos. "É só uma entrada de esgoto. Meu palpite é que o livro é sobre isso. Exatamente como os egípcios. estavam tentando imortalizar isso em pedra. o que não estava longe da verdade.

colocando a tocha de lado (no que ela se apagou de imediato. rezei a todos os deuses que consegui lembrar e mergulhei. roçavam em mim. Quão profundo era o poço? Demasiado fundo para que se recuperasse o que quer que os templários atiraram ali? Sim. estivessem ou não lá).as coisas em que pensamos quando estamos em apuros. porque eu não tinha nenhuma dúvida de que eles haviam lançado seu tesouro de Jerusalém por aquele funil. o lodo de séculos. eu já disse. rodopiando como num ralo. respirei fundo. com espuma verde a boiar na superfície como coalhos. a única luz era a tocha débil de Ned e Mohammad lá no alto). movendo-me lentamente pela saliência em espiral como um caramujo cauteloso. Talvez houvesse ali umas coisas a nadar. A água. agora. olhando para mim. mas não imunda. Tinha . era absolutamente escura. podíamos? Assim. Submergi na escuridão. confiando que os membros sobreviventes voltariam um dia e reconstituiriam a ordem daqueles monges guerreiros. Tomei coragem. brancas e flácidas no negrume (eu até as imaginei. Havia um bolor de caixão. Mas já não podíamos sair pelo mesmo caminho que entráramos. A água estava gelada. Lençóis macios e fibrosos de algas. minha tocha crepitou no ar encharcado. Meus companheiros ficaram lá em cima. Acendi outra tocha e desci. Quando cheguei aonde a água caía no breu da voragem. mas eu simplesmente fui tateando e mergulhando direto para baixo.

Não era brilhante. Eu vira o friso de caveiras na câmara templária de Jerusalém. porém suficientemente reconhecíveis. empurrando-me para uma luz cada vez mais larga. com dentes tão longos quanto dedos indicadores. e passei por um túnel . A correnteza já me preocupava. pernas e costelas. era luz de verdade. Aquilo fora um poço sacrificial ou uma câmara de execuções. Eu não podia retroceder e estava sendo arrastado para baixo e para adiante. vinda da frente. lívidas. Enxerguei um fundo. em medonha mistura de braços. Desta vez eram caveiras de verdade. mas se mostrava bastante bemvinda após longos segundos de escuridão absoluta. Mas então vi a verdadeira fonte do brancor e quase engoli água: o fundo não era areia.dois minutos para achar o que procurava ou me afogar. Comecei a entrar em pânico. mas osso. e órbitas tão vazias quanto covas funerárias. Estaria eu tendo alucinações com a falta de ar? Não. e ele era tranquilizadoramente branco. O todo estava envolto em pedras e em correntes de metal cobertas de filamento. como areia limpa. A correnteza me levou por sobre esse cemitério. Era um recife ósseo e alvejado. mas agora era cem vezes pior .um ossário dos condenados ao inferno. porque estava cada vez mais evidente que forcejar para voltar à superfície custaria mais tempo e fôlego do que eu tinha. Notei uma claridade esquisita.

curto e a vi ainda mais brilhante acima de mim. Embora a correnteza quisesse me arrastar para onde quer que o rio fosse, bati freneticamente as pernas para cima. Vim à tona com meu derradeiro fôlego, arfando - o horror daqueles ossos! Avistei uma saliência arenítica e me debati furiosamente para chegar lá. Agarrei-me a ela, tomei impulso e me deixei cair na beira daquilo como um peixe exausto. Por um tempo, fiquei apenas deitado, ofegante. Enfim, tomei fôlego o bastante para levantar meu tronco e olhar em volta. Eu estava no fundo de um poço de arenito. Bem acima, muito além de meu alcance, estava a fonte daquela luz débil. A correnteza subterrânea da qual eu escapara passava pela saliência e se derramava em outro túnel. Estremeci: haveria ainda mais ossos a jusante, aos quais se juntariam os meus? Ergui a vista para examinar a luz pálida e prateada da lua e das estrelas. Não consegui ver o céu, de modo que presumi que alguma coisa estivesse refletindo para baixo a luz celeste. A iluminação era muito fraca, mas suficiente para que eu verificasse que as paredes do poço eram lisas, sem frestas e sem pontos de apoio para os pés e mãos; além disso, o poço era demasiadamente largo para que eu pudesse subir pondo um pé e uma mão em cada lado. Não havia mesmo nenhuma possibilidade de sair escalando-o. E o que mais? Homens a observar. Pingando, levantei-me lentamente e me voltei àquela câmara sombria. Percebi que estava

rodeado de homens, imensos, barbados e sorumbáticos, ataviados com armaduras medievais. Tinham elmo, polainas de ferro e (apoiado no chão junto a estas) escudo em forma de pipa de empinar. Não eram, porém, homens de verdade, e sim estátuas de arenito, talhadas nas paredes do poço para formar um círculo de sentinelas eternas templários. Talvez fossem representações de grãomestres da ordem. Eram muito maiores que o tamanho natural, com uns bons nove pés de altura, e seu olhar era severo. Ainda assim, havia algo de reconfortante nesses meus novos companheiros, que nunca baixariam a guarda e, no entanto, ficavam de costas contra as paredes daquela câmara de pedra como se já esperassem que um dia seria encontrado o que eles guardavam. E o que guardavam eles? Um sarcófago, mas não um desprovido de tampa como o que eu vira na câmara régia da Grande Pirâmide. Esse agora seguia o estilo adotado nas igrejas européias, tendo na tampa a figura esculpida de um cavaleiro medieval. O sarcófago era de pedra calcária, e conjeturei que o templário fosse o primeiro deles Montbard, tio de São Bernardo. Um guardião por toda a eternidade. A tampa era pesada e, a princípio, pareceu firmemente assentada. Mas, quando lhe dei um empurrão mais forte, ela se deslocou ligeiramente, com ruído de raspagem, levantando poeira das bordas. Fazendo muita força, empurrei e empurrei, até que deixei o sarcófago entreaberto e depois

consegui baixar uma das beiradas da tampa até o chão. Em seguida, espiei lá dentro. Era uma caixa dentro de outra. O caixão que lá estava era de acácia, extraordinariamente bem conservada. Ainda que a idéia de abri-lo me fizesse parar para pensar, eu já viera longe demais para não fazê-lo. Levantei a tampa com um puxão. Dentro, estava o esqueleto de um homem, nada horripilante - ali, derradeiramente exposto, ele só parecia pequeno e nu. As carnes tinham se decomposto havia muito, e as roupas não passavam de pequenos fragmentos. O espadão se reduzira a uma sombra estreita e enferrujada da antiga potência. Mas a mão esqueletal ainda segurava um prodígio que não se corroera e continuava tão lustroso e intricadamente ornado quanto no dia em que o forjaram. Era um cilindro de ouro, largo como uma aljava e comprido como um rolo de pergaminho. Sua superfície mostrava uma profusão de figuras míticas, touros, falcões, peixes, escaravelhos e criaturas tão esquisitas e extranaturais que tenho enorme dificuldade para descrevê-las, tão diferentes eram de tudo o que eu vira antes. Havia ranhuras e arabescos, mais estrelas e formas geométricas, e o ouro era tão liso que meus dedos não resistiram a acariciar sua sensualidade. O metal parecia quente. Pelo peso, valeria o suficiente para uma vida inteira de riqueza. Pela concepção, não podia ter preço. O Livro de Tot só podia estar ali dentro. Mas, quando puxei o cilindro para tirá-lo do caixão, o esqueleto puxou na direção contrária!

Fiquei tão assustado que larguei, e o cilindro se deslocou de leve, assentando-se mais profundamente na ossada. Então percebi que eu apenas me surpreendera com o peso do objeto. Levantei-o de novo, e o cilindro soltou-se, ameno, liso, pesado. Não houve nenhum fulgor de relâmpago, nenhum estrondo de trovão. Eu prendera o fôlego sem perceber, e agora o soltava. Ali no escuro era simplesmente eu, segurando aquilo que se dizia que homens haviam procurado durante mais de cinco mil anos, chegando a lutar e morrer por isso. Estaria também aquele cilindro amaldiçoado? Ou seria ele o meu guia para um mundo melhor? E como abri-lo? Quando examinei o cilindro com mais vagar, tive um estalo - eu já vira alguns daqueles símbolos. Não todos, mas alguns estavam no teto do templo de Dendara, e outros, no dispositivo calendário que eu estudara no porão do L'Orient antes dessa capitânia francesa explodir na batalha naval do Nilo. Havia um círculo sobreposto a uma reta, exatamente como no calendário, e todas as outras coisas - animais, estrelas, uma pirâmide e o signo de Touro, a era astrológica em que se construíra a Grande Pirâmide. Lá estava não apenas a pirâmide, mas também a pequena representação de um templo com colunas. Vi que o cilindro tinha um eixo móvel, para que se pudesse deslocar e alinhar os símbolos, de maneira semelhante à dos círculos daquele calendário. Assim, experimentei mais uma vez o que eu já conhecia: o touro, a estrela de cinco pontas e o símbolo do solstício de verão, tal qual eu fizera no navio. Mas não foi

suficiente, e por isso acrescentei a pirâmide e o templo. Talvez eu tenha sido inteligente. Talvez eu tenha sido sortudo. Talvez existisse uma centena de combinações que também abririam o cilindro. Não sei. Sei apenas que ouvi um estalido e que o objeto se dividiu entre a pirâmide e o templo, como um salsichão cortado ao meio. E, quando puxei para lados opostos as duas metades douradas, surgiu o que eu esperava achar lá dentro: um rolo, o antigo formato dos livros. Eu o desenrolei, com os dedos trêmulos de empolgação. O papiro, se é que era esse mesmo o material, não se parecia com nenhum outro que eu vira ou manuseara antes. Era mais lustroso, mais resistente, mais maleável, e tremeluzia de um jeito inusitado. Não era couro, papel nem metal. O que seria? A escrita era ainda mais estranha. Não eram os pictogramas ou hieróglifos que eu encontrara no Egito, era mais abstrata. Era angular e vagamente geométrica, numa profusão de formas, barras diagonais, curvas irregulares, anéis e complexos caracteres. A crer nos lunáticos que vinham caçando aque¬la coisa, eu descobrira o segredo da vida, do universo ou da imortalidade e não conseguia 1er nem uma palavra! Em algum lugar, Tot decerto estava dando gargalhadas. Bem, eu já matara charadas antes. E, mesmo se o rolo se mostrasse indecifrável, o recipiente já garantiria uma vida de rei. Eu estava rico, de novo. Se conseguisse sair daquele buraco de rato.

Ponderei as coisas. Voltar nadando contra a correnteza era impossível, e, mesmo se eu lograsse fazê-lo, só retornaria a um poço que não tínhamos meios de escalar. Já seguir a correnteza iria me sugar numa tubulação subterrânea sem nenhuma garantia de que encontraria ar. Eu mal sobrevivera a coisa parecida na Grande Pirâmide e não me atrevia a tentar de novo. Eu não vira nenhum sinal de que aquele rio temporário emergisse em algum lugar. O que Benjamin Franklin faria na mesma situação? Eu me cansara totalmente dos aforismos dele quando tinha de ouvi-los todo santo dia, mas agora sentia falta de Ben. "O homem sensato não precisa de conselhos, e o tolo não os aceita." De fato, mas isso não ajudava muito naquele momento. "Esforço e perseverança conquistam tudo." Que perseverança? Cavar um túnel como fazem os mineiros? Vistoriei a câmara mais detidamente. Ao contrário das Virgens giratórias do Monte do Templo, as estátuas dos templários eram rígidas e inamovíveis. Não havia nenhuma inscrição nas paredes, nenhuma fresta, porta ou buraco onde inserir o cilindro de ouro na esperança de que ele pudesse servir como alguma espécie de chave. Bati de leve nas paredes do poço, mas não identifiquei espaço oco algum. Berrei, mas o eco não adiantou de nada. Golpeei as paredes, só para ver se algo cedia, mas não. Como diabos os templários chegavam ali? No intervalo das tempestades, o túnel ficava seco. Deveria eu esperar? Não, ouviam-se mais trovões, e um riacho como aquele poderia correr por dias e

dias. Chutei, puxei e urrei, mas nada saiu do lugar. "Nunca confundas agitação com ação", recomendara Ben. O que mais ele dissera? "O bem-feito é melhor que o bem dito." É, até onde eu sabia, tal máxima não chegava a ser propriamente útil naquele meu aperto. "Todos desejam a longevidade, mas ninguém quer ser velho." Nas circunstâncias, até a velhice parecia preferível à morte. "Nos rios e nos maus governos, o que vem à tona é a escória." Bem, esse pelo menos falava de rio... Vem à tona... Olhei para cima. Se a luz descia, tinha de haver uma saída! Era impossível escalar sem corda, sem escada, sem ponto de apoio. Se ao menos eu tivesse um dos balões de... Vem à tona. Diferentemente de quase todos nós, o que Ben fazia era pensar e só então agir. Por que isso é tão difícil? Fosse como fosse, tive finalmente uma idéia - uma idéia desesperada. E, tão importante quanto isso, eu não tinha nenhuma alternativa factível. Peguei a tampa do sarcófago, que estava encostada àquele caixote de pedra, e a arrastei, provocando um grande ruído agudo de raspagem, até a beira da água. Arfando, eu a coloquei de pé como uma porta, equilibrando-se numa das quinas e balançando sobre o rio subterrâneo. Mirei o melhor que pude o buraco escuro onde o rio desaparecia a jusante - e então, com um grunhido, empurrei a tampa para a água! A força da correnteza a lançou contra a boca do túnel, interrompendo o fluxo por ali.

No mesmo instante, a água represada começou a subir. Ela transbordou para a plataforma de arenito, cobrindo os pés das estátuas dos templários. Era bom que aquilo funcionasse! "Mil desculpas, Montbard ou quem quer que sejas." Ergui o caixão de acácia até a beira do sarcófago e despejei os ossos ali dentro. Eles chacoalharam no sarcófago de pedra calcária, produzindo uma misturada sacrílega, e a caveira me olhava com o que sou capaz de jurar que era reprovação - pois é, agora eu estava mesmo amaldiçoado. Equilibrei o caixão atravessando-o sobre o sarcófago, enfiei sob a camisa o cilindro dourado e entrei naquele esquife como se ele fosse uma banheira. A água subia depressa, quase um pé por minuto. Ela ultrapassou os joelhos dos templários, alcançou o alto do sarcófago, derramou-se lá dentro até enchê-lo - e então me fez flutuar. Roguei ao Deus cristão, roguei ao Deus judaico, roguei aos deuses egípcios. Aleluia, aleluia! Minha arca se elevou. Eu sabia que, à medida que o poço se enchesse e a coluna de água ficasse mais pesada, aumentaria a pressão sobre a tampa do sarcófago lá embaixo. Assim, só me restava a esperança de que ele agüentasse tempo suficiente. "Quem vive de esperança morre em jejum." Bem, meu conselho é escolher os aforismos que nos sejam mais convenientes, de maneira que, naquele momento, eu só fiz ter esperança e mais esperança. Fui subindo, um precioso palmo de cada vez. Dei-me conta de que meu plano também faria a água refluir para a

câmara em espiral lá atrás, na direção de Ned e Mohammad. Desejei que soubessem nadar. A luz tênue se intensificava à proporção que eu subia, e estrelas se refletiam no breu da água. Encontrei uma ou duas costelas que não haviam sido despejadas no sarcófago e, sem nenhuma cerimônia, atirei-as para fora, ponderando que eu não me importaria com o que fizessem com meus ossos depois que eles já não me fossem necessários. O caixão subia e subia, até que vi um disco prateado, reflexo da luz de um poço enviesado mais acima - e, nesse poço, havia degraus de arenito! Eu me pus de pé em meu esquife oscilante, estiquei os braços até segurarme ao primeiro degrau e tomei impulso. Era rocha sólida! Atrás de mim, a água ainda se elevava. Mas aí ouvi um baque, e a água pareceu arrotar e, com um ruído de sorvedouro, começou a desabar, levando meu caixão numa espiral - a tampa do sarcófago cedera à pressão. A água voltava a fluir por aquele ralo, mas eu não tinha tempo para isso. Subi os degraus, percebendo que se tratava do mesmo poço que encontráramos no templo em ruínas. Se não tivéssemos afastado aquelas tábuas, eu agora não teria nenhuma iluminação ali. Saí entre as paredes de pedra, passei com dificuldade sobre o entulho e atravessei correndo o passadiço para voltar à base de coluna por onde descêramos. "Ned! Mohammad! Ainda estais vivos?" "Por um triz, chefe, por um triz! O funil inteiro se encheu de água, e eu e Mohammad estávamos

prestes a nos afogar feito ratos! Mas aí a água baixou!" "Como chegastes aí em cima, efêndi? O que acontece?" "Ora, eu só queria dar-vos um banho, rapazes." "Mas como saístes?" "Peguei uma balsa." Eu podia ver seus rostos, virados para cima como duas pequenas luas. "Esperai, que tenho uma idéia para tentar trazervos para cima." A base da coluna caída, vós vos lembrareis, afastara-se do piso em forma de estrela para que a plataforma começasse a descer. Então eu a empurrei de volta para o lugar de origem, houve um estalo, e a plataforma lá embaixo começou a subir pelo poço de seção estrelada, com Ned e Mohammad gritando de alegria como dois insanos. Quando saíram dali, fiz que me ajudassem a empurrar a base de novo para o lugar de direito, selando novamente a entrada. E então Ned me abraçou como se eu fosse a mãe dele. "Com mil demônios, chefe, és mesmo um mago! Sempre te safas como um gato! E achaste o tesouro?" "Receio que não haja nenhum tesouro." Os dois agora eram o retrato da decepção. "Acreditai, eu procurei mesmo. Era só um túmulo templário, meus amigos. Ah, mas encontrei isto." Tal qual mágico, saquei o cilindro dourado. Ficaram boquiabertos. "Aqui, vinde sentir o peso." Deixei que o segurassem. "É ouro suficiente para que nós três nos estabeleçamos de maneira condigna." "Mas, efêndi", disse Mohammad, "e vosso livro? Ele está aqui? Está repleto de segredos mágicos?"

Em vez disso. sim. paramos só por insistência de Ned.e não consigo ler nem uma palavra!." Enquanto seguíamos adiante. enquanto as estrelas se apagavam e o céu enrubescia. Tenho certeza de que faremos um favor ao mundo se o mantivermos longe de Silano.um trabalho de Hércules . primeiro recolocamos as tábuas do poço no lugar. No trajeto.. para deixá-lo arrancar do chão um pinheirinho murcho. qual Sansão. coisa que eu não me atrevia a fazer. lá no templo (eu não queria a queda de uma criança pesando na minha consciência) e então fizemos o caminho inverso pela laboriosa rota que subia ao Lugar do Alto Sacrifício e depois descia. Talvez uma pessoa de erudição consiga algum dia entender o que está escrito ali.. já ofegantes e exaustos quando alcançamos o leito do canyon no anfiteatro romano em ruínas. "Busquemos Astiza. "Pelo menos já é um porrete". explicou."Está aqui. passamos pela meseta e dali descemos. "Um convento de freiras tem mais poder de fogo que a gente. para dar forma ao porrete." — 20 — A saída mais direta da Cidade dos Espíritos nos faria passar pelo acampamento de Silano. e é a coisa mais esquisita que já vi. ele ia arrancando os galhos com as manoplas." "Uma pessoa de erudição?" "Eu finalmente acho o livro . Uma . Subimos." Eles me olharam consternados.

não? "Astiza!" O nome ecoou como se zombasse de mim. Nós nos apressamos de volta pelo canyon principal da cidade. eu via o brilho de uma fogueira lá onde Silano acampara. Se fôssemos embora sem ela. Se Astiza saíra de mansinho. Enquanto os outros se ajoelhavam no riachinho para beber.milha ou mais atrás de nós. "Ela não está aqui". Os picos mais altos já estavam iluminados. e demos outra vez na fachada do Khazneh. o primeiro grande templo que víramos. o céu fulgurava. eu voltaria a ser torturado pelo arrependimento. do cinza ao azul. informei. preocupado. demoraria quanto até que percebessem sua ausência? Para leste. Maldição. eu subi os degraus aos pulos e adentrei o escuro templo. Se ficássemos tempo demais. meus amigos poderiam ser mortos. Tínhamos de partir antes que o conde visse que eu o conduzira a um buraco vazio! Mas eu não ia preferir à mulher que amava a um texto que não conseguia ler. Teria eu novamente me equivocado com aquela mulher? Teria Silano atinado com o que pretendíamos e feito-a prisioneira? Ou estaria ela simplesmente atrasada ou perdida? Corri para fora. disse Mohammad. "Então precisamos ir embora". "Astiza?" Silêncio. e o alto dos desfiladeiros começava a brilhar. O céu clareava. "Cada milha que colocamos entre nós e aqueles . Combináramos nos encontrar ali. rumo à es¬treita e sinuosa entrada.

Fui a primeira a deitar. Estava pálida. Ela sonhara com o livro muito. e que agonia esperar a noite toda até que ficassem quietos! Aí tive de rastejar umas cem jardas ou mais pelo leito do canyon. ." "Chefe." Astiza me agarrou os braços. eu o achei. inquiridores. Eu já ouvia débeis chamados do grupo de Silano ecoarem pelo canyon. "Por que demoraste tanto?" "Eles estavam tão entusiasmados que não conseguiam dormir." Seu vestido estava imundo. "Sim." "Mas eu pressinto que ela está vindo. "Só mais alguns minutos". Tirei o cilindro da camisa. "Será que a mulher vos enfeitiçou? Ela fará que sejamos todos apanhados . até passar por uma sentinela adormecida. podemos usar o livro numa troca. Astiza surgiu na curva do canyon. mesmo que ainda não soubesse se eram de empolgação ou de indignação." Ned tinha razão. eu nem quero fugir. Astiza ficou quase em fôlego.infiéis francos dobra nossas chances de escapar." Os olhos dela brilhavam." "Mas então por que raios viemos aqui?" De repente. um sorriso aberto como o de criança a esperar um presente. Voltei correndo até ela. ofegante pela corrida. espremendo-se contra a rocha para minimizar a probabilidade de ser vista. não podemos esperar." "Consegues correr?" "Se não achaste o livro. muito mais tempo do que eu. insisti.junto com vosso livro!" "Se necessário. com negras madeixas por sobre os olhos. "Acho que já perceberam que sumi.

Não lhe dei atenção. precisamos ir!". Arranquei o livro de Astiza e girei o cilindro para fechá-lo. Era o eco de um disparo de arma de fogo. espero. Um espelho parecia piscar ali. as coisas não têm mesmo como ficar muito piores. Astiza segurou o livro com ambas as mãos." "Chefe!" O berro de Ned nos tirou de nosso transe mútuo. Seus dedos exploraram o cilindro tal qual um cego o faria. Resolvi apostar que havia um ardil nas pistas que deixaram . eu lhe disse. disse Mohammad. A luz do sol começava a cobrir a fachada do templo. espantada. Mais uma vez."Sente o peso disto". fazendo que o desfiladeiro e a rocha talhada adquirissem um tom róseo brilhante. Mas não consigo lê-lo. girei o cilindro para abri-lo e desenrolei parte do livro. "Ele está mesmo aí dentro?" "Está. Mas Ned apontava para o lado de onde viéramos. . Eu o enfiei de novo por baixo da camisa e corri para onde o fuzileiro olhava. Ethan." "Isto mudará o mundo. apontando." "Para melhor." "Por Alá. Do meu ponto de vista.os templários exigiriam que os que buscassem o livro usassem a matemática das pirâmides para demonstrar que tinham o conhecimento necessário. efêndi. na direção do acampamento de Silano. chamando-me. impressionou-me quão estranhos pareciam aqueles caracteres. mas relutando em devolvê-lo. "Onde estava?" "No fundo da tumba de um templário. Ele levara a mão ao ouvido.

gritavam em árabe. ficando à frente da pedra cadente antes que ela atingisse com estrondo o leito do canyon. sendo engolidos num átimo pela estreita entrada do canyon e totalmente cegados por aquelas muitas curvas. Ouvimos berros bem lá em cima e."Estão sinalizando para alguém. os homens de Silano estão vindo!" "Então temos que tirar dos árabes aqueles cavalos lá na entrada. Estais preparados para tanto. Olhamos de relance: uma pedra do tamanho de um barril de pólvora estava ricocheteando entre os paredões ao cair pela fenda. então." Ned apontou para a meseta arenítica que a entrada do canyon cortava em duas partes. Os cabelos de Astiza esvoaçavam. houve um clarão e um estrépito . E aí corremos. "É para algum diabo que está lá em cima. Continuamos correndo. bradou Ned. "Vamos para casa! Vamos para a Inglaterra!". pronto a fazer rolar uma pedra grande. agora mais lentamente. "Mais depressa!" Corremos muito. com pedaços voando como metralha. Nisso. Os braços de Ned pulsavam com o esforço de segurar o porrete. Nossos passos ressoavam enquanto arremetíamos terreno acima. marujos?" Parecia o tipo de conclamação que Nelson ou Smith usariam." "Efêndi. Da beira da meseta. estampidos.os desgraçados tinham minado o canyon inteiro! Silano devia ter adivinhado que pretendíamos passar a perna nele e quis cortar nossa rota de .

movendo-nos com dificuldade sobre o entulho recém-criado. "Apressai-vos. uma vez montados. "Eu cuido disto". bradou Ned. e. através da nuvem de poeira. Sem fôlego. assustara os cavalos. porém. se todos os árabes estivessem lá em cima detonando pólvora. pois estávamos invisíveis. apontando um mosquete para nós. não facilites o disparo dele!" No instante em que o fuzileiro arremeteu. aliás. e uma pedra cortou o ar perto de . fazendo tremer o leito do canyon. vinha nos ocultar. Calculei que já houvéssemos percorrido mais de metade daquele buraco de cobra. "Ned. e desta vez empurrei meus companheiros para trás. A avalanche veio. então nos encolhemos debaixo de uma saliência rochosa. Havia um único árabe junto a ele.fuga.. o que atrasaria a perseguição por Silano. tonitruante. erguendo o porrete. Uma avalanche de pedras foi pelos ares após uma detonação de pólvora. Nós. antes que estourem outra carga!" Houve mais uma explosão. não teria ficado nenhum para guardar os cavalos. houve um silvo. e então já estávamos correndo de novo.. Era uma dessas jaulas volantes que eu vira ser usadas no transporte de escravos. afugentaríamos os cavalos restantes e. Balas sibilaram inutilmente. mas desta vez as pedras caíram atrás de nós. e depreendi que se tratasse daquele carroção coberto de oleados que. dobramos outra curva do canyon e vimos que nosso caminho estava bloqueado por um carroção. mais um dilúvio de pedra. que. perto do acampamento.

explicou. Ned e o leão urraram em uníssono e colidiram um com o outro. "Ned!". o humano gritando e o felino rosnando. no que o homem foi caindo como se estivesse grogue. Tive um vislumbre apavorante . O projétil passou longe. mesmo enquanto Ned era atingido pelas . e não impulsionada pelas próprias patas traseiras. numa confusão de pêlo e poeira. Astiza berrou.nossos ouvidos. Mas.a juba marrom. levando Ned junto pelo braço. justamente quando ele disparara o mosquete. O porrete foi deitando pancadas mesmo quando as mandíbulas do predador se fecharam e mastigaram o antebraço esquerdo do fuzileiro. com Ned na dianteira e Astiza atrás dele. ele acionou uma alavanca. os dentes brancos. A coisa saltou como se lançada por catapulta. e o porrete bateu de novo e de novo. mas também ouvi as costelas do leão se quebrarem quando o porrete de pinheiro golpeou seguidamente o flanco do animal. Quase com a velocidade de uma bala. Ned bramiu de agonia e raiva. Corremos a dominar o atordoado árabe e passar pelo carroção. O fuzileiro se levantou. "Quando era menino. eu tinha de manter os cães e chacais longe das ovelhas". com tanta velocidade e ímpeto que fez o leão cair de lado. batendo com estrondo no chão. e a rampa traseira da jaula se abriu. Olhei para trás: Mohammad tirara o turbante e o utilizara para improvisar uma funda. gritei. o rosado recôndito da bocarra. Os dois rolaram. Uma coisa sombria e imensa levantou e se aprestou. ela acertou o árabe na testa.

nisto. Foi nauseante. Contra todas as expectativas. O leão. e sua carne. Outra pedrada de Mohammad passou sibilando por mim e acertou o leão. e o felino largou o braço de Ned e rugiu de dor e fúria. berrando ante aquela reversão do que se esperava de sua arma secreta. Saquei minha machadinha. movendo violentamente a cauda e batendo o traseiro na terra. antes que eu pudesse ter ponderado as coisas e fugido como qualquer homem sensato. Subiu o canyon em disparada e. direto na fuça ensangüentada do leão. Eles. atacou os árabes de Najac que vinham tentar nos deter.garras. Nossa tresloucada arremetida o deixou confuso. fez uma pausa para quebrar-lhe o pescoço. ele fugiu. . Agora Astiza também atacava. mas. erguendo bem acima da cabeça uma pedra pesada. fazendo a cabeça dele virar depressa. passando aos saltos pela jaula volante que o trouxera. ouvi Astiza chamar. e depois partiu atrás dos outros e da liberdade nas montanhas mais além. Eu o acertei acima de um dos olhos. derrubou um. deram meia-volta e correram. tão insignificante quanto uma colher de chá. dilacerada. Suas roupas estavam sendo rasgadas. "Ethan!". que ela arremessou como uma atleta. também eu investi contra o bicho. ensangüentado. Essa distração foi tão oportuna que pude sair daquele corpo-a-corpo e golpear a cabeça do animal. como se ela estivesse muito longe. Os cavalos que puxavam o carroção relinchavam de pavor.

claro. entre dentes. Eu ainda sentia o fedor do felino." "Não dá mais. incólumes. Astiza se dobrara para a frente. à exceção de Ned. Correi.. e minha voz tremia quando me ajoelhei junto ao gigantesco fuzileiro. correi como loucos. e eu peso mais que o rei Jorge com a banheira dele. O sangue. um casquinar espirrado. Ned! Precisamos seguir em frente!" Eu resfolegava. enquanto ainda vale a pena." "Nós te carregaremos!" Ele riu. mas acho que o leão limpou caminho para nós. Ou melhor.o antebraço parecia ter sido retalhado por uma máquina.Estávamos em choque. "Tereis de continuar sem mim. Ned sangrava como um açoitado." Estendemos os braços para tentar erguê-lo mesmo assim. chefe. "O bicho me esfolou até as costelas. aquele cheiro râncido de mijo. vívido.. com o peito arfante. "Silano ainda está vindo atrás. carne e sangue. Sangue e pêlo se grudavam ao fio de minha machadinha. estávamos todos. mas Ned gritou de dor e nos empurrou para que nos afastássemos. com o coração disparado. "Ah. e lágrimas lhe marcavam as faces. Espantosamente. "Deixai-me . a perna parece que quebrou ou saiu do lugar. com os dentes cerrados e os olhos arregalados por já ter ciência do próprio destino. brilhava." . A arremetida de Ned contra as mandíbulas do leão foi a coisa mais corajosa que eu já vira. "Ned.todos sabemos que não vou conseguir voltar para a Inglaterra!" Gemeu." Ele falava com dificuldade. mas era inútil . Mohammad enrolava o pano do turbante no braço lacerado do gigante. arfou.

ele se levantou com obstinação. ali onde se agarrava ao porrete. Mas és uma companhia danada de interessante. agora!" Fugimos. faze a minha vida ter valido alguma coisa ." "Correi. efêndi. chefe. "Precisamos ir. se és!.. "Mas de jeito nenhum eu vou te deixar.vive! Eu posso me arrastar de volta para aquele monte de entulho e pegá-los quando passarem. afastando-nos. Diacho. primeiro ajoelhando. mas.. se por acaso achares a minha mãezinha.. e o teu livro do tesouro vai acabar na mão daquele conde doido e seu capanga lunático. És mais que apenas um ianque batoteiro . se tivéssemos ficado para enfrentar os franceses ." E. seu flanco era uma superfície sanguinolenta.. Não me orgulho dessa decisão.e.Os nós de seus dedos estavam brancos.. que sede me deu!" Fiquei paralisado. diacho! Correi . dá um pouco daquele ouro para ela. Uma caridade." "Eles vão te liquidar!" "Será uma caridade..ah. mas Mohammad me puxou. "Eu já tinha o pressentimento de que não tornaria a ver a Inglaterra se viesse contigo.. Ned! Não depois disto tudo!" "E morrerás se não o fizeres.. "Jesus. Ethan Gage. depois se pondo de pé. Começou então a cambalear de volta pelo caminho que fizéramos." Por que será que nossos piores inimigos às vezes se transformam em nossos melhores amigos? "Ned." Ele fez uma careta de dor.

mas o preço era a agonia do fuzileiro. alcançamos o castelo dos cruzados onde já acampáramos. Ao entardecer. pulamos por sobre aquele que o leão mastigara e subimos sem parar o aclive do canyon. O grupo de Silano surgira do canyon e nos encalçava com tenacidade. A distância entre nós e ele aumentava. menos três para muda. E então. entretanto. arquejando. de modo que soltamos os outros. Selamos os três melhores. já estávamos bem fora de alcance. Ned ainda tentava ganhar tempo para nós. levaríamos com certeza a pior e para quê? Assim. o grito tonitruante que um homem grande poderia dar quando submetido à dor insuportável.armados de Silano. ouvimos o eco de gritos e depois disparos atrás de nós. puxamos a corda com os outros e começamos a galopar por onde chegáramos ao canyon. Quando subíamos para o planalto. Apesar de escutarmos mais disparos. se fora. pegamos o rumo norte para Acre. olhamos para trás. Os cavalos estavam amarrados onde os havíamos deixado um dia antes. já meio esperando a cada curva que o felino enlouquecido saltasse sobre nós. mas a pé. chorosos e totalmente exauridos. Quando chegamos à entrada do canyon. davam relinchos agudos e reviravam os olhos. Não tínhamos como manejar tantos cavalos. passamos correndo pelo árabe esparramado junto ao carroção. Ressoou um berro. mas agora batiam os cascos. Nossos perseguidores precisariam de certo tempo para recapturá-los. O leão. Embora eu imaginasse que .

eu sei. Mesmo que os franceses e árabes estejam a pé e não tenham como chegar aqui logo. Astiza não se encontrava muito melhor que nós. disse Astiza. ainda meu guia e guardião. Estou tiritando. após termos perdido uma noite de sono pegando o livro e fugindo pelos canyons." "Estás tão exausto quanto nós. disse Mohammad. Ela se achegou . sumiu por ali. "Ele está nos deixando a sós de propósito"." Naquela época do ano. "Eu ficarei de vigia." Mohammad. Quando a noite veio lançar sua sombra. Mohammad e eu. As pedras do castelo se alaranjaram fugazmente à medida que o sol se punha. Por conseguinte. e a pedra ainda estará quente do calor do sol. "Vós dois dormireis primeiro"." "E é por isso que precisais substituir-me em poucas horas. há relva para servirvos de leito. Não ousamos acender fogueira. Mohammad. "É. Sou um apostador. e achamos parcas rações de pão e tâmara nos alforjes. estávamos bambos na sela. Naquele canto. paramos. ainda há salteadores por estas bandas. um lagarto se enfiou leve e rapidamente num buraco. a relva ainda estava verde e macia. Deitamos juntos ao lado da rocha cálida nossa primeira oportunidade de estarmos verdadeiramente próximos desde que Astiza me esbofeteara na frente de Silano.deveríamos ter seguido mais adiante." "Vem. Ficarei no alto da torre em ruína. e apostei que Silano e Najac não recuperariam os cavalos tão cedo.

tivemos de aproveitar o lugar e o momento disponíveis. Eu pretendia devolvê-lo em oferenda." Quando o fiz." "Ned não era mau sujeito.. e Astiza trouxera o anel. grande o bastante para que um homem pudesse viver com conforto o resto da vida... mas. Um rubi. um desejo não tanto pelo corpo um do outro quanto pela união tranqüilizadora contra ." "Os deuses tinham algum objetivo ao deixar que o achássemos?" "Não sei. assim como no Egito. "Dá-me o anel. "O livro já basta.. e me beijou. com as faces molhadas." Estendeu a mão.para que eu lhe desse calor e a confortasse. "Talvez ele traga boa sorte. com um ardor elétrico." Ela se agarrou ainda mais a mim.. Não sei... perdera-se.. não tu. ela ergueu o torso e atirou o anel no canto oposto do pátio em ruínas. O ato foi urgente.. "É sempre tão difícil!.. Ethan. Chega.." "Era tudo o que eu tinha de ti. Estava trêmula. "Caçados. Um dia talvez ainda tenhamos uma cama de verdade. Incapazes de ler o livro. atrapalhado." Ela me olhou com espanto. mesmo tendo dito que era amaldiçoado.e estamos juntos de novo. Um companheiro já morreu. Lembrei-me subitamente dele e o tirei de sua pequena bolsa.. Afinal. Fui eu que trouxe a desgraça para ele. nós apenas semidespidos. estamos com o livro ." Mas eu trouxera mesmo Ned. chega!" E então ela voltou a deitar. "Tu o conservaste." "Quem pôs o leão lá foi Najac. com olhar arrebatado. Ainda ouvi o tinido.

Bem. Eu tinha o livro. Ele nos acordou ao amanhecer.. . com denodo. e. E eles sabem disso. eu tinha Miriam. com os franceses dominando a Palestina. detalhe que eu cuidara não de dizer a Astiza. Ofegamos ao copular. resta apenas um lugar onde estaremos seguros Acre. forcejando como animais. acharemos um barco e navegaremos para lá". "Cortaremos para o litoral. seus olhos cintilavam. tendo nossas roupas de baixo emaranhadas como uma concha em torno de nós. "Está tudo bem. subitamente confiante.. eu tinha Astiza. perguntou Astiza. "Sinto muito. primeiro as prioridades. Mas precisamos seguir viagem logo. Mohammad!" Batalhávamos para nos vestir tão decorosamente quanto possível." "Como é que passaremos pelo exército de Napoleão?". e não preocupação. respondi. Eu me comprometi vagamente a substituir Mohammad tal qual combinado.ninguém se aproxima. Montamos e descemos a galope o morro do castelo. claro. Já perscrutei o horizonte . seus cabelos estavam magnificamente despenteados. pois quem sabe quando o inimigo recuperará os cavalos?" "Sim.um mundo frio. e depois nos deixamos cair juntos numa inconsciência quase imediata. efêndi. ela brilhava. Eu também me sentia revivido. traiçoeiro. E. provavelmente minutos depois que vos deixei. implacável. Astiza dando um grito abafado. Eu mesmo adormeci. Foi bom termos nos livrado do anel do faraó. Parecia rejuvenescida à luz cada vez mais forte.

os quais podiam ou não nos considerar aliados. Duas outras vezes. fazendo o caminho inverso para o monte Nebo e depois descendo para o mar Morto e o Jordão. Abutres orbitavam o morro onde resistíramos às investidas otomanas. um pesadelo incompreensível." E assim cavalgamos pelo trigo alto. dividindo-o a nossa passagem como se fôssemos Moisés. disse eu a meus companheiros. estaremos a salvo. e a grotesca morte de Ned. a levantarmos nuvens de poeira. "Arremeteremos para o litoral perto de Haifa". meu grupo ainda estava desarmado. ele não mencionara dinheiro nem uma única vez. A Cidade dos Espíritos era agora tão irreal quanto um sonho. avistamos cavaleiros otomanos e nos ocultamos também deles. vimos uma patrulha de cavalaria francesa e desmontamos para nos esconder num olivedo enquanto passavam a uma milha de nós. Cavalgamos tão celeremente quanto os cavalos agüentaram. A não ser pela machadinha. . Astiza e eu readquirimos aquele companheirismo fácil dos casais. ficando bem longe do campo de batalha de Kleber. Imaginamos que os montes de Jerusalém ainda pululassem de combatentes irregulares da Samaria. "Ali há pouca guarnição francesa. Se conseguirmos furtar um barco e chegar aos britânicos. Por isso. e Mohammad era nosso fiel acompanhante e parceiro.Não nos atrevemos a parar para a segunda noite. Em certa ocasião. Desde nossa fuga. continuamos no rumo norte pelo Jordão e voltamos ao vale de Jezreel.

Eles haviam não apenas nos alcançado. "Por que não nos apanham?". Mas não: quando fugimos para o norte. quis saber Astiza. não tínhamos como nos livrar. mas ficávamos desamparados sem armas. mas. com um grito. Desconfiei que os árabes de Najac fossem peritos rastreadores e tivessem adivinhado para onde íamos. mas uma salva de tiros noz fez voltar correndo. na direção de Nazaré ou do mar da Galiléia". Talvez pudéssemos nos esgueirar. mas também estabelecido aquela guarda avançada para nos apanhar em armadilha.Estávamos todos mudados. A salvação parecia próxima. e o grupo de Silano. Agora. o bastante para mantê-los a distância. Como era possível?! Eram Silano e Najac. sabendo que nos tinham encurralados. avistou-nos." Tentamos nos desviar para o Mediterrâneo naquela noite. sentindo o pavor chegar quando focalizei uma figura e depois outra. quando fomos para nordeste rumo às elevações do litoral e ao monte Carmelo (que cingiam Haifa). vimos uma fileira de cavaleiros esperando mais adiante. "Podemos até buscar refúgio com o exército turco em Damasco." . "Estão nos conduzindo para Napoleão. Exigimos muito das montarias. Escalei um pinheiro para olhar com minha luneta. A perseguição continuava! Eles tomaram o cuidado de manter-se sempre entre nós e o litoral. contornando-os. demos em campos abertos que não era possível evitar. Eles não pressionavam. podemos voltar para o interior. "Efêndi. sugeriu Mohammad.

Caso Silano ou os franceses nos sigam. como se quiséssemos nos render a Napoleão. Silano por certo as forçara brutalmente. Quando galopávamos. Nosso descanso no castelo dos cruzados custara muito caro."E perder tudo o que conseguimos?". entretanto. o plano é este: vamos em disparada para as linhas francesas. com gravidade. Eu os observava pela luneta e reconheci alguns cavalos. darão com o fogo dos ingleses e de Djezzar. e corremos para as muralhas de Acre. — 21 — Estávamos na planície litorânea quando o sol se levantou. O Mediterrâneo era uma tentadora travessa de prata cujo acesso. direto pelo acampamento. Também havia novas montarias. "Astiza! Quando nos aproximarmos do campo. "Bem. partiam também para o galope. . mas aí continuamos em frente." Olhei para trás. "Nós dois sabemos que os otomanos se apoderariam do cilindro num instante. Nossa única esperança era o elemento surpresa. eles. daqueles que nossos perseguidores tinham recapturado. efêndi?" "Torço para que nossos amigos não atirem em nós. que vinham poupando os animais. respondi." "E depois. nos era negado por nossos inimigos." E esporeamos para cobrir as derradeiras milhas.

a pleno galope. Agora os guardas estavam apontando sem muita convicção para nossos perseguidores. com os mosquetes aprestados e as baionetas caladas. inclinando-se concentradamente sobre o pescoço de seu cavalo. As sentinelas já estavam alertas. Eu estava apostando na confusão. com nossas montarias espumando. nós de cabeça baixa porque continuavam a disparar atrás de nós. erguendo um dos braços com o lenço a tremular atrás de si e endireitando-se o bastante para que vissem seu tronco feminino. Os guardas baixaram as armas. Aqueles ali não eram Monge e o boticário Berthollet? E não era Bonaparte a sair correndo da tenda? Disparamos através do círculo de soldados junto a uma . reforçada pelo fato de termos uma mulher conosco.agita o teu lenço como uma bandeira branca! Temos de confundi-los!" Ela assentiu. Passamos em tropel. com o vento comprimindo o vestido contra o busto. "Agora! Agita o lenço agora!" Astiza fez isso. O bando de Najac parecia mesmo uma turma de salteadores. "São bandidos e irregulares atrás de nós!". Ouvimos tiros atrás de nós. Passamos num átimo pelas tendas do hospital e saltamos as hastes das carroças. bradei. berrei para Astiza e Mohammad. mas se mostravam indecisas. as ilhargas arfantes. mas tentavam alertar as sentinelas francesas de que devíamos ser capturados. A milha final foi uma corrida de vida ou morte. Olhei para trás: os homens de Silano estavam muito fora de alcance. "Não afrouxeis!".

como se estivéssemos lançando uma investida contra Acre. Atrás de nós. com homens se espalhando e brasas voando. Começaram a atirar. depois que eu desertara sem dizer uma palavra? Ali! Uma cantina de campanha. Virei com o cavalo e chispei por eles. Talvez conseguíssemos mesmo. apontando furiosamente. levantando poeira. com a arma disparando inofensivamente. e as balas passaram sibilando como vespas insistentes. exclamavam e apontavam. Lá nas muralhas de Acre. O que pensaria Smith. Seguimos pelo corredor entre as tendas de um regimento. que ainda se encontrava a uma milha de distância. avançamos dando voltas entre as linhas. eu ouvi gritaria e altercação quando o grupo de Silano. teve de parar ante os guardas. com os homens desarmados e ocupados em cozinhar. Um sargento apontou uma pistola. tendo por base as coronhas e por ápice o encontro das bocas dos canos. com as baionetas a cintilar. Por isso. Por toda a parte. Mas não adiantou: agora uma cerca viva. mas dei uma guinada. e o homem foi jogado de lado pela parte dianteira de meu cavalo. estava se formando entre nós e as muralhas da cidade. soavam trombetas. saltando um dique de areia. dispersando-os. apanhou uma bandeira tricolor e a levou consigo. sagaz. Seus mosquetes descansavam em pequenas pirâmides bem ordenadas. de infantaria francesa.fogueira. militares se levantavam do desjejum. Mohammad. num espaço que se assemelhava a uma alameda. O fato de estarem ali em bom número e poderem ser .

galopando ao longo do velho aqueduto rumo à cidade. percebi que Mohammad e Astiza também haviam sido derrubados. Flavia uma pilha de escadas. Mas. com as mãos em carne viva. Empurrei Astiza escada acima. fazendo-a rolar por sobre a borda do aqueduto.alvejados nos protegeu de mais disparos. Mais disparos. "Efêndi. de modo que pudéssemos nos deixar cair na calha por onde a água costumava correr. Com o tornozelo torcido. e vi a corda que às pressas fora esticada para nos fazer cair. E então voei. e corri de volta para os outros dois. enquanto rolava. Balas ricocheteavam na . Por um momento. o aqueduto! Podemos usá-lo como proteção!" Assenti. reunidas ali para a investida seguinte dos franceses.. puxando impiedosamente Astiza para que ela não afrouxasse o ritmo. Caí em terra fofa e fui parar adiante dos trambolhões. e balas passaram zunindo. meio cego pela poeira.havíamos sido abatidos quando nossa meta já estava diante de nossos olhos! Levantei-me. Então saltei uma trincheira.. Um cozinheiro deu um grito de triunfo . Eu e Mohammad pegamos uma e a jogamos contra uma das colunas do aqueduto romano. Era um fiapo de proteção. não entendi o que acontecera e pensei que talvez meu cavalo tivesse levado um tiro ou repentinamente estourado o coração. mas também de tenacidade. sua expressão era de dor. com seus cavalos relinchando quando as patas estalaram.

Mas então um canhão inglês trovejou de Acre. Ela o empurrou para mim. agachados. é a ti que eles conhecem. Com as balas zunindo e ricocheteando. Najac parecia estar municiando meu fuzil. Dou graças a Tot que os mosquetes sejam armas sem precisão nenhuma! Adiante. que tinha menos de três pés de profundidade. Silano conseguira entrar lá e estava agora apontando. mais soldados franceses. em trincheiras avançadas. para sinalizar para eles. "Ficai abaixados e segui pela calha até que estejamos sob as armas dos britânicos". Astiza e Mohammad me seguiram com dificuldade. prometeu Mohammad. levantando uma nuvem de terra."Não. Não era hora para delongas. mas haviam decidido que qualquer inimigo dos franceses só podia ser amigo seu. Corre e consegue socorro. e mais outro. estavam se voltando para toda aquela agitação e apontando seus mosquetes e pistolas. "Astiza. e os franceses se abaixaram instintivamente nas trincheiras. Vou seguirte o mais depressa que puder. disse eu. Houve outro disparo de artilharia.pedra. vai na frente. . O acampamento francês inteiro estava em polvorosa." Aquela brava mulher se aferrara ao lenço mesmo após ter caído da montaria." "Ficarei com ela". Olhei por sobre a beira do aqueduto. Os defensores por certo não faziam idéia de quem estava se beneficiando com os disparos deles. corri pela calha.

o aqueduto explodiu entre nós. "Depressa". uma batalha inteira por nosso pequeno trio. Tudo o que eu queria era voltar correndo para matar o desgraçado. Najac estava justamente baixando meu fuzil.Outro estrondo. Mais cem jardas! Empenhava-se a artilharia de ambos os lados. e de novo. E nesse momento Astiza deu um grito. Corri agachado. Mas. Mais fumaça de uma bateria francesa. teso. berrei para os dois atrás de mim. um grito. fazendo fragmentos de pedra choverem sobre mim. Uma bala de canhão acertou a beirada superior. Pisquei e olhei para trás. mas continuava deter¬minada. e pedras explodiram em todas as . Seu peito ficou escarlate. a boca aberta numa expressão de surpresa. Os franceses certamente haviam trazido novas peças de artilharia de sítio para substituir aquelas que capturáramos no mar. Outro impacto certeiro. nisto. O aqueduto pareceu levantar-se. gritei para Astiza: "Deixa-o!" Agora eu esperaria por ela. e o aqueduto tremeu de novo. Eu me voltei. e as colunas do aqueduto foram atingidas por um projétil pesado a artilharia francesa! A estrutura toda tremeu. Foi um tiro perfeito de algum canhão grande. e mais silvos quando passaram os projéteis. Olhei na direção dos franceses. Mohammad vinha logo atrás dela. alguns deles atingindo as próprias trincheiras do exército sitiante. Astiza mancava. agitando o lenço como um louco e pondo todas as minhas esperanças num milagre. Mohammad se ergueu abruptamente. porém. e ele tombou. Em vez disso.

que eu te puxo para cima!" "Não. Voou poeira. corri como nunca antes. Os árabes de Najac vinham galopan¬do junto ao aqueduto. e então uma brecha se escancarou entre as colunas . seria por um triz. e. querendo pegar-me. agora completamente ereto. "Pula para baixo. eu desci para o chão. no ponto onde o aqueduto terminava em entulho antes de chegar às muralhas de Acre. mas não tinha como detê-la. Najac ainda poderia ter-me acertado. ouvindo os cavaleiros que me perseguiam . "Ele não me matará! Vou ganhar tempo para ti!" Ela rasgou parte do vestido e começou a voltar. Corri para o fosso. Ele estava a cinqüenta jardas. Se eu conseguisse. O fogo francês diminuiu.de repente. Eu agora já estava além das avançadas trincheiras francesas.continua sozinho!". enquanto prosseguia o duelo de artilharia. soldados apontavam o dedo para mim. mancando e agitando freneticamente o pano em sinal de rendição. Xinguei. Mas ele levaria um minuto inteiro para conseguir dar outro tiro. e a estratégica torre se avultava como um monólito. não . Na muralha de Acre. berrou. e os disparos dos demais não tinham precisão alguma. levantando poeira com as botas. Se fosse fácil recarregar um fuzil como o meu.direções. Astiza e eu estávamos em lados opostos de um abismo. Com as pernas latejando. virei e corri a toda para Acre. Desolado. curvados sobre o pescoço de suas montarias e indiferentes ao fogo inglês. apostando que a velocidade iria me tornar alvo difícil. Ouvi o ressoar de cascos e me voltei.

O fedor era nauseante. Lá de cima. Eu estava encurralado! . Olhei para trás: aqueles árabes abusados tinham entrado no fosso com cavalo e tudo e agora galopavam pelo fundo. escadas quebradas e as armas abandonadas que constituem o detrito das guerras. corri pelo fundo poeirento do fosso até o ponto em que ele encontrava o Mediterrâneo. A brecha na torre fora fechada. Mais além. estava a rampa sobre o fosso. rolando para o fundo seco. Não me ofereceram corda nenhuma. e canhões continuavam a disparar acima de mim.diminuírem a distância. homens por toda a muralha estavam atirando por sobre minha cabeça. e não havia jeito de escalar a muralha. Consegui ver os mastros de navios britânicos. No que alcancei o fosso. Phélippeaux não dissera que estavam construindo um reservatório de água do mar na extremidade do fosso? Mais gritos. homens forçavam a vista para olhar-me. junto ao chamado portão do Interior. Agora. pois alguns deviam ter sido atingidos. Viam-se corpos em decomposição. mas nenhum parecia ter percebido ainda quem eu era. o molhe negro e úmido do novo reservatório. e escutei cavalos relincharem e tombarem. deslizei sobre sua beirada como uma lontra-marinha num banco de neve. Sem saber mais o que fazer. decididos a pegar-me sem ligar para os soldados que tentavam baleá-los da muralha Silano obviamente sabia que eu estava com o livro! Mais adiante.

fragmentos voaram. Debatime. Estávamos sendo varridos ao longo do fosso. Foi quando vi minha corrente . estupefato. que raspava tal qual lixa. e o molhe negro se dissolveu diante de meus olhos. e percebi que eu era um alvo suspenso . que por acaso me atirou para o ar. Ela me puxou para fora da água como se eu fosse um balde de poço e começou a me arrastar para cima junto à áspera fachada da torre. Gage. tossindo. Imaginei ter sido um cavalo.ou. dirigindo-se a mim e a meus perseguidores. sem saber se estava virado para cima ou para baixo. Eu estava num caos de espuma. bem à frente. Consegui pôr-me de joelhos. pelo menos. Fui dando cambalhotas. e. levando-me como folha na sarjeta. A água me carreou de roldão junto com meus perseguidores. quando fomos arrastados por ali. Estás quase em casa!" Era Jericó. uma corrente que pendia da fachada da torre como uma guirlanda. e exatamente então a enxurrada me atingiu. todos nós de cambulhada com os cadáveres pútridos e o lixo acumulado de um cerco. A detonação me jogou para trás. eu me agarrei a ela. sem poder respirar direito. Agora balas de mosquete atingiam a muralha a meu redor. vi uma parede verde de água marinha virar espuma e começar a rugir pelo fosso.E aí houve outra explosão. Ela me arrastou pelo caminho inverso do que eu fizera. e fui atingido por uma coisa grande. E. "Segura firme. rumo à torre central. Escutouse um estrondo.

incapaz de ficar de pé. Eu me esparramei de costas no chão. Djezzar. comigo dependurado. a torre tremeu e a corrente oscilou.para o exército francês inteiro. mais o aspecto molhado. Aquilo não ia acabar nunca? Olhei para baixo. Se eu tivesse conseguido encolher mais. por sobre as ameias. Um homem boiava de barriga para cima. sofrido e sujo. queimado. O fluxo de água estava desacelerando. gritou Jericó. meio afogado. Smith. Outro impacto. desolado por causa do amor e dos companheiros que perdera. Troavam canhões. Contraí-me até parecer uma bola. e um projétil que parecia grande como uma casa atingiu a cantaria a algumas jardas de onde eu estava. talhado. teria simplesmente desaparecido. miraculosamente. nenhum furo . A torre inteira estremeceu e balançou como uma conta num colar de barbante. mas os ginetes árabes haviam sumido. Bastaria um tiro certeiro para que eu despencasse.eu tinha as vidas. arrastados para sabe-se lá onde. Eu me segurei desesperadamente. . de um gato de rua. contundido. e fui arrastado. e mais outro. Em cada uma das vezes. dissolvendo-se em estilhaços. como se fosse um peixe morto. ofegante. Ainda assim. E depois mãos fortes me agarraram. não apresentava. Destroços coalhavam a superfície da água. Juntou-se gente ao redor Jericó. ralado. Phélippeaux. "Alçai!". arfante.

"De que lado estás agora?" Mas olhei para além deles. Havia muita atividade nos bivaques de Napoleão. seus olhos arregalados e atônitos."Que diabo. combinados com uma maré crescente de indignação. "Era difícil explicar a razão. quis saber Djezzar. seu vestido coberto de pólvora e fuligem. os quais desabafavam o quanto estavam decepcionados com minha sobrevivência. tratava-se de uma centena de canhões franceses. E aí os franceses começaram a atirar para valer. E queria muito. quando mais precisamos ponderar cuidadosamente as coisas. um açude de compaixão e uma moringa de desconfiança. um afluente de confusão. falei. Do jeito que ela expressara. Ethan!". com unidades entrando em formação e dirigindo-se para as trincheiras. conseguiu finalmente articular. A muralha tremia sob nossos pés. saudou-me Smith. "Olá. com voz baixa e arranhada." "Do que o cristão estava correndo?". a coisa parecia pior. Eu me levantei e. para a única pessoa que atraíra instintivamente meu olhar. . trêmulo. Parecia que eu estava com algo que Bonaparte queria de volta. olhei para fora. com seus cabelos dourados. A experiência me ensina que. "Foste embora sem dizer nada?". Miriam me olhava com uma expressão que era misto de espanto e alívio. Miriam". mais coisas vêm nos atrapalhar o raciocínio. No caso em questão.

"Parece que de todo o exército francês". E estávamos pensando em fuzilar-te." Percebendo que um ataque talvez fosse iminente. Será que tens algum amigo no mundo?" "Foi por causa daquela mulher. ambos estávamos vindo para cá. mas ela foi recapturada. "Ela não morreu. e aquilo me surpreendeu e atingiu mais que uma . juntos. E ela estava mesmo viva..não depois da noite que passamos. Tive de descobrir. por deserção e traição." Era a primeira imprecação que eu ouvia de Miriam. os líderes de nossa guarnição começaram a gritar ordens.. "E conseguiste?"." "Será que eu signifiquei alguma coisa para ti?" "Mas é claro que sim! Eu me apaixonei por ti! É só que. Gage. mas não sabia como dizer-te . "Ele acha que sim . Agora. não?" Miriam adquirira jeito para ir direto ao ponto. Eu me dirigi a Miriam. "Eles não parecem gostar muito de ti." "E só o quê?" "Eu nunca deixei de amar Astiza. Apontei para as tropas que se acumulavam nas linhas francesas. comentou serenamente Phélippeaux. Astiza ainda estaria viva? Eu acabara de ver meu amigo muçulmano ser morto por minha própria arma e Astiza voltar rumo ao desprezível Silano." "Que te danes. expliquei a eles. perguntou Smith. e foste procurá-la. com os clarins soando por sobre o estrondo da artilharia. "Precisei pegar uma coisa antes que Napoleão o fizesse". "Os franceses me enviaram um sinal de que ela podia estar viva. eu acho.e está vindo pegar." Olhei para trás.

batalharia contra os franceses e. mas as mulheres têm certa satisfação felina em nos açoitar com palavras e lágrimas. planejaria uma estratégia para apagar o passado e cativá-la de novo. não? É. Mas nada disso era fácil de explicar quando o exército francês estava vindo contra nós. Há amor e crueldade de ambos os lados." "Perdeu a mim também. perdi Astiza outra vez. Eu procurava uma maneira de explicar. Decisões magoam pessoas . "Miriam. e aí o destino e um anel me desviaram de um modo que não antevi. Qual fora o erro nisso? Ademais.é simples assim. com seu avanço obscurecido pela fumaça do terrível canhoneio. "Eles estão vindo!" Grato por ter de encarar apenas as divisões de Napoleão. Tu sabes disso." Mas eu podia reconquistá-la. há sempre mais do que apenas nós dois.enfiada de ofensas de alguém como Djezzar. os homens são uns cachorros. Naquela noite. . Entretanto. subi com os outros para o alto da grande torre. a planura ganhara vida. após a defesa da torre. esta parecia insincera e oportunista. eu trazia sob a camisa um cilindro de ouro de valor incalculável. e não a mágoa de Miriam. deixando claro que estavam em jogo causas mais elevadas. até mesmo a mim." "Não. Cada trincheira era uma lagarta de homens apressados. eu e Miriam cedêramos à emoção." "Bem. não é mesmo? Portanto eu suportaria o desdém de Miriam. Lá embaixo. se sobrevivêssemos. toda vez que iniciava uma frase.

Outras tropas arrastavam peças de artilharia mais leve para a frente de combate. Não vi Silano nem Astiza. Era um enorme cedro. A ponta da tora estava inchada. Um grupo de homens em trajes árabes se aglomerara perto do aqueduto semidestruído. Saquei a luneta. e vinha recoberta.que diabos era aquilo? Parecia um aríete medieval. Soldados empurravam a carreta por trás e pelos lados. o qual . Uma tora se movia lentamente em nossa direção. Smith me puxou pelo ombro e apontou. "Que diabos é aquilo?" Girei a luneta para o que ele indicava. com alguma espécie de blindagem. os soldados que empurravam o dispositivo avançavam cheios de confiança. presumi. que transbordava da carreta de doze rodas onde o haviam colocado de comprido. eram os sobreviventes do bando de Najac. Ainda assim. Escadas balançavam à medida que granadeiros cruzavam o terreno irregular. Teria Napoleão enlouquecido? Aquilo me fez lembrar o tipo de aparato improvisado que poderia ter encantado Benjamin Franklin ou meu compatriota Robert Fulton. como se o cedro fosse um falo gigantesco. a fim de confrontar nossas forças dentro da fortaleza caso conseguissem uma brecha na muralha. e turmas de trabalho a galope traziam mais pólvora e balas de canhão para as baterias. A pergunta realmente se justificava . Ao que parecia. Bonaparte por certo não achava que podia começar a martelar contra nossas muralhas com armas que estavam ultrapassadas havia séculos.

o homem cujo balão Astiza e eu furtáramos no Cairo. e o petardo ganhou velocidade. "Não temos como inclinar os canhões o suficiente.zanzava por Paris com idéias amalucadas de coisas que ele denominava submarinos e barcos a vapor. se porventura acertei mesmo o tiro. mas. Embora outros também disparassem." . "É uma bomba!". Um ou dois foram atingidos. disse calmamente Smith. minha bala deve ter ricocheteado sem nenhum efeito no revestimento metálico. empurravam a carreta. "Atirai naquela ponta! Depressa! Atirai naquela ponta!" O petardo chegara a um ligeiro declive que levava ao fosso e estava começando a acelerar.. "O quê?". Aquela tora tinha todas as características da engenhosidade e capacidade de improvisação de Conte.. "Acertai-o com a artilharia!" "Tarde demais. Mas um aríete? Parecia coisa tão antiquada para um modernista como ele. é claro. E qual outro conhecido meu era um experimentador inveterado? Nicolas-Jacques Conte. Gage". os soldados turcos e fuzileiros navais britânicos ainda estavam mirando os homens que. "Há pólvora na ponta daquela tora! Precisamos detoná-la!" Peguei um mosquete e atirei. junto às rodas. Monge dissera que Conte inventara uma carreta reforçada para fazer que canhões pesados chegassem a Acre. mas o monstro simplesmente os atropelou ao caírem. perguntou Phélippeaux. A não ser que. gritei de repente.

balançaram preguiçosamente na queda. "Irmão!". "Ide para trás. Mais alguns segundos. E a frente do edifício se dissolveu ante meus olhos. Mas Phélippeaux se deixou ficar. corajosamente tentando diminuir a velocidade do aparato de Conte com uma pistola bem mirada. berrou Miriam. ou pelo menos foi esse o som que interpretei pelo movimento de seus . destacando-se e deslizando para um abismo infernal. Então. passando de raspão pelo atônito Jericó.Por isso. porque a bomba pode funcionar!" Smith também estava recuando. e o dispositivo explodiu com estrondo tão cacofônico que apagou minha audição. agarrei Miriam. e grandes pedaços de pedra voaram acima do alto da torre e. mas desta vez ela oscilou como um bebum encharcado de gim. Sir Sidney segurou-se nas ameias da parte de trás da torre. e. mas um deles parou tempo suficiente para puxar uma corda de disparo. Houve um clarão de estopim. com sua ponta se chocando contra a base da torre. antes que ela pudesse reclamar. O ar irrompeu em fumaça e chamas. depois. o aríete atingiu a beira do fosso e voou direto através dele. Phélippeaux e Jericó despencaram junto com ela. A construção tremera em ataques anteriores. a empurrei para os fundos da torre. e Djezzar já saíra dali para pavonear-se pelas muralhas e intimidar seus homens. Caí com Miriam enquanto eu a agarrava. Era loucura. Os soldados que vinham empurrando a carreta se afastaram correndo.

Miriam correu para a beira da torre. mas depreendi que estivesse convocando homens para irem à brecha. gritei. Bradava algo que o zumbido em meus ouvidos tornava inaudível. e percebi que se tratava de milhares de homens a dar vivas. com o fosso cheio de destroços até a borda. desnudando-nos. procurando por mim. Na base. Fui coleando para trás e puxei Miriam comigo. Smith recobrara o equilíbrio e desembainhara o sabre. corpos se misturavam à pedra no entulho. que se mantinha graças a pavimentos semidestruídos.lábios. que se contorcia numa plataforma que agora já se fora pela metade e inclinava-se perigosamente. "O resto da torre pode desabar!". Eu apostava que Najac estaria com eles. os quais cuspiam fumo como a garganta de um vulcão. Tudo o que eu conseguia ouvir era um zumbido. mal discernia: os franceses estavam arremetendo-se para a brecha que haviam aberto. Outro som veio afetar meus maltratados ouvidos. de uma maneira que eu. até que a apanhei e derrubei. Rastejando sobre seu corpo. Era como se as roupas nos tivessem sido arrancadas. olhei para os escombros lá embaixo. na confusão em que me encontrava. O terço frontal daquela que era a torre mais rija simplesmente se descascara. e o resto ficara exposto como um oco de árvore. "O quê?" "Temos que sair desta torre!" .

usando baioneta. o comandante da divisão francesa. tombou fatalmente ferido. perplexo. eu também caí. Louis Bon. Colidiram com as tropas francesas que irrompiam pelo entulho do fosso. parcialmente destruída atrás de nós. saltou da beirada de onde eu acabara de me afastar. praguejando sem som comigo mesmo. e escorreguei para a borda. projéteis de artilharia troavam em ambas as direções. Lancei-me à frente. certo de que a construção inteira ruiria a qualquer minuto e nos sepultaria num túmulo de pedra. e escadas portáteis eram colocadas como garras a estender-se para cima. Smith e um contingente de fuzileiros navais haviam descido a escada da torre. veio correndo para a refrega. balas de mosquete ricocheteavam. Por isso. Miriam caíra como um gato para as vigas que se projetavam do piso abaixo e estava descendo pelas beiradas do desabamento até Jericó. meio saltando. o ajudante-de-ordens. voltou-se para a vanguarda francesa e. com homens aos berros. comecei a seguida. Croisier. alfanje e coronha de mosquete. e chegaram à brecha ao mesmo tempo que nós. Eu. enegrecido pelo fumo . quase desarmado. Entrementes. Assentiu. Miriam caiu naquele inferno gritando freneticamente por Jericó. antes que eu pudesse detê-la. humilhado por Napoleão no ano anterior (quando não conseguira apanhar alguns escaramuçadores). Meio correndo.Ela tampouco conseguia ouvir. Depois. atiraram-se uns contra os outros. e houve um estrondo de mosquetes dos dois lados. tentando agarrá-la.

avançando aos trambolhões sobre um amontoado de cadáveres. Investiam contra nós com a fúria e a frustração que advêm de semanas de trabalho infrutífero de cerco . que deixavam essas coisas cair como se estivessem semeando trigo. disparando e dando golpes de sabre e alfanje. esganados. e o vermelho das túnicas inglesas formava com o azul das francesas um mosaico de cores em conflito. cara a cara com todo o exército francês. ferro e granada dos otomanos de Djezzar mais acima. ao mesmo tempo que iam à carga. e todos certamente morreríamos. Acre estaria perdida. Foi a luta mais feroz de que eu já participara. nós estávamos desesperados: caso eles penetrassem pela torre. Com suas barretinas e quepes altos e seus talabartes cruzados.lá estava a oportunidade de acabar com tudo de uma vez por todas. como haviam feito em Jafa! Urravam como as ondas numa borrasca. Fuzileiros navais britânicos corriam de encontro a eles. sem que se desse ou se pedisse quartel. Mas. Croisier submergiu no tumulto. chutados ou cegados. Não enxergávamos nada da batalha mais . Homens grunhiam e xingavam ao ser espetados. eles pareciam ter a altura de dois homens. Arrojavam-se e lutavam como touros. com a ponta do cedro estraçalhado a abrir-se para a frente tal qual uma flor desabrochada.de pólvora. eles sofriam com o dilúvio de pedra. baleado e espetado numa dúzia de lugares. gritando. tão corpo a corpo quanto os embates de gregos e troianos. Se os franceses eram obstinados.

ligeiramente torcida. observando-a girar até fincar-se no pescoço do soldado. só aquela peleja num morrote de entulho. sem chapéu. Jericó não apenas sobrevivera à queda. Um granadeiro se aproximava da direção oposta.ampla. Ele caiu como uma árvore abatida. foi a passos largos enfrentar os franceses que chegavam. que ela segurou com ambas as mãos e disparou à queima-roupa. e fui lá arrancar a machadinha. cravou-se nele uma meia dúzia de baionetas. Lembrei-me de minha machadinha e a arremessei. Metade da cabeça do francês voou pelos ares. Homens recuavam ante a energia insana com que ele brandia o ferro. como também rastejara para fora dos destroços. e. tal qual Sansão. tropas de Djezzar passaram correndo por nós e foram enfrentar os franceses. Um fusilier veio por trás mirando o mosquete. No que fizemos isso. mas ele encontrara uma barra de ferro. mas Miriam encontrara em algum lugar uma pistola de oficial. semi-enterrado. com a torre prestes a cair sobre nós. com a coluna provavelmente quebrada. Em resposta. fora do alcance das baionetas que ele parecia desesperado caso visse serem enterradas em seu corpo. Estava se formando uma sebe de cadáveres. Então eu e Miriam demos um jeito de agarrar Jericó pelos braços e puxá-lo um ou dois passos para trás. a . Suas roupas estavam meio queimadas e retalhadas. e sua pele se acinzentara de pó de pedra. Vi Phélippeaux. Smith. conseguir de algum modo puxar uma pistola que estava debaixo de si e dispará-la contra seus inimigos revolucionários.

dando. Voltei-me e vi minha nêmesis.ele estava usando o anel de rubi de Astiza! Entendi num átimo o que acontecera. Najac praguejava. Mohammad não resistira à tentação da jóia amaldiçoada que Astiza jogara para longe no pátio do castelo dos . com meu fuzil plantado pela coronha no entulho enquanto o patife começava a recarregar e seus capangas se mantinham fora do verdadeiro combate.cabeça ensangüentada. tiros e mais tiros por sobre as cabeças dos granadeiros que constituíam a vanguarda. alguma coisa passou sibilando junto a meu ouvido.ou faziam um ruído surdo quando topavam com carne. Minha audição voltara.pois sabiam o que provavelmente estava enfiado sob minha camisa. e berrei para Jericó e Miriam: "Temos de voltar para nossas linhas! Seremos de mais ajuda se estivermos lá em cima!" Nisto. sentindo uma ira e uma sede de vingança que me fizeram sentir os músculos e veias latejarem e os olhos se tornarem subitamente capazes de enxergar detalhes com precisão sobrenatural. Balas zuniam e ricocheteavam . e então mais alguém grunhia e tombava. disso não havia mais dúvida . usava o sabre como um possesso. ainda muito ruim. Eu percebera o clarão rubro no dedo do desgraçado . tão perto quanto uma vespa que viesse me advertir antes da picada. E assim me vi também tomado pela fúria de combate. porém. e Jericó levou um tiro no ombro e girou qual pião. talhando e talhando. Aquele disparo se destinara a mim! Tinham vindo para me matar.

Trinta segundos. desgraçados! Eu me sentia invulnerável a balas. era apreensivamente enfiada na boca da arma. fora quem acabara morto pelo fuzil de Najac ao corrermos no aqueduto. Enquanto dormíamos. pondo fim aos periódicos pedidos de mais dinheiro. ele se apropriara do anel. O bandoleiro francês depois fora verificar se o guia mulçumano estava mesmo morto e se apossara do rubi. eu a brandia num arco largo. O tempo desacelerou. Agora.tudo o que eu via era Najac. possesso como um templário a lutar por Cristo. contando os segundos. E Mohammad. a visão se aguçou e se concentrou . mas eu não sentia nada senão o vento. eu pegava a barra de ferro de Jericó e partia para cima de Najac. não eu. Enxergava as ondulações no ar fumarento à . Metal retinia quando eu o golpeava para que saísse do caminho. o ruído se abafou. sem conhecer a história da jóia. Precisei lutar através de um feixe de franceses para chegar a ele. Vinte segundos. Minha barra vibrava para lá e para cá naquele espinheiro de baionetas. Os franceses e árabes de Najac berravam e atiravam. com a vareta. e já se haviam passado dez segundos. A barra reverberava quando. sem saber o que era o medo. tal qual uma foice a abrir uma trilha. Ele levaria um minuto inteiro para recarregar a arma. Isto é por Mohammad e Ned.cruzados. A bala de fuzil estava envolta na bucha e. Soldados da infantaria se afastavam em face de meu desvario. com suas mãos trêmulas a colocar uma medida de pólvora no cano do fuzil.

Najac nem perdeu tempo retirando a vareta. ele agora se atrapalhava para aprestar e puxar o mecanismo de disparo. caiu e tornou a subir. Quarenta segundos. minha barra de ferro continuava reverberando. reforços otomanos e ingleses irrompiam a minhas costas. Eu já quase o alcançara quando um de seus bandidos surgiu diante de mim. o brilho de olhares frenéticos. empunhando uma cimitarra acima da cabeça. um fuzileiro britânico morria. A bala. e vi as detonações atrás de Najac quando explodiram granadas e projéteis de artilharia. Tinha medo no olhar . e homens fugiam atabalhoadamente como o haviam feito ante o ferreiro Jericó. tapando a brecha com seu efetivo e seu sangue. Saltei sobre mortos e moribundos. usando seus corpos como pedras num riacho. . com as duas mãos.medida que as balas aceleravam. Ao mesmo tempo que eu me impelia à frente. o branco de dentes arreganhados. e dois outros espetavam sua presa a baionetadas. Uma bandeira tricolor tremulou. mas também ódio. teimosa. Cinqüenta segundos. Smith corria com seu sabre atrás de um chasseur. e ele se vergou de lado. ia sendo socada no cano. e tendo a fisionomia distorcida pelo urro que dava. balançando para trás e para adiante. com o perfeito equilíbrio de uma aranha. A barra acertou as costelas de um granadeiro imenso. Ao redor. Continuavam a chover escombros das muralhas. o sangue a jorrar de algum lugar obliquamente ao rosto de um jovem oficial.medo e desespero.

e eu. girei o braço e minha barra acertou aquele ladrão nos calcanhares. sufocando seus gritos agudos de dor. Ele também caiu. disparou direto contra meu peito. percebendo que ainda não morrera. Pensei: Isto é por Ned. O que estava acontecendo? Nisto. O patife. arrebentando-os. no que eu erguia o braço para o golpe final. Eu o esganei com tanta força que os tendões de meu pescoço latejaram pelo esforço. um estrondo. e Mohammad. Cai sentado. Mas. E continuei a esganá-lo enquanto ele ficava roxo e meu sangue pingava sobre minha vítima. antes de morrer. e todos os outros homens bons que trucidaste. com os olhos de Najac arregalados de pavor. uma carga de calor e fumaça. houve um clarão no mecanismo de disparo. rastejei para a frente. Eu via a vareta projetar-se de meu peito. e o fuzil. lançado para trás com violência. e Jericó. ainda com a vareta no cano. E agora. procurando a arma. e o agarrei pela garganta. Sua língua se inchou de modo obsceno. Senti seu gosto nos dentes. O olhar de Najac expressava um ódio impotente. senti as mãos de Najac em minha cintura e um puxão quando ele agarrou a minha machadinha. enquanto tropas arremetiam sobre nós. nessa tua vida desprezível. verme. não tendo conseguido dar cabo de mim com meu próprio fuzil.até que minha barra de ferro o atingiu na têmpora e seu crânio explodiu. que se contorcia. Seus braços se debatiam. com sangue respingando em todas as direções. resfolegando. agora queria .

E Najac. morreu com meu nome numa bolha rubra em seus lábios. Havia . Arranquei abruptamente a vareta. eu me debruçava sobre ele e empurrava a vareta com o cilindro. e finalmente me dei conta do que devia ter ocorrido: quando Najac atirara. penetrar-me a carne. mas o fizera exatamente onde estava o cilindro com o Livro de Tot. Escutei vivas.finalmente! . A cabeça da vareta se cravara no ouro macio. O esforço doeu para diabo.recuperei meu fuzil confeccionado sob medida. mas a vareta rompeu o esterno do desgraçado e então penetrou quase como faca na manteiga. de maneira que a vareta que ele disparara estivesse contra seu peito e seu coração. aquele projétil em forma de seta me atingira. Os olhos de Najac se arregalaram ao nos abraçarmos.me acertar na têmpora com meu próprio machado de guerra! Sem pensar muito. formando uma lagoa cada vez maior. sim. A ponta da vareta se quebrara e agora estava afiada como uma agulha de tricô. mas desta feita em inglês. O sangue jorrou tal qual num poço. jogando-me para trás sem. Olhei para cima. pernas e troncos de homens que tinham morrido atracados uns com os outros. Agora. senhor. O assalto francês estava malogrando. entretanto. sibilando como a víbora que era. e perfurei seu coração. diretamente em seu peito. uma medonha confusão de braços. A batalha fora a pior carnificina até aquele momento. pus-me de pé e . inclinei-me para a frente. enquanto Najac se desembaraçava e preparava o golpe com a machadinha.

A emoção me exaurira por completo. mais fatigado do que jamais estivera. Parecia que eu não tomava fôlego havia um século e não dormia havia um milênio. com os cadáveres se comprimindo ligeiramente à proporção que o inglês caminhava por eles. Bonaparte encontrará a torre reconstruída e mais reforçada do que nunca". e dezenas em ambos os lados do fosso encharcado.centenas de corpos na brecha. O próprio Smith me avistou e veio a passos largos até mim. Ethan! Ele disparará contra nós todos os canhões que tiver. Agacharam-se. disse o capitãode-mar-e-guerra. tremendo com todos os músculos. Sargentos começaram a dar ordens para que se erguesse uma tosca barricada na base da torre. disse-lhe. Os turcos também festejavam. Mas os franceses estavam em retirada. a torre . "Ao amanhecer. nós o superamos. com escadas de assalto despedaçadas e as muralhas de Acre lascadas e fendidas. para a possibilidade de que o inimigo voltasse. e seus canhões troavam num adeus às tropas de Bonaparte. "Por Deus. com uma veemência feroz. Seus homens não o .parece que ela podia ter desabado a qualquer momento!" "Bonaparte deve ter pensado o mesmo. aturdidos com o próprio sucesso. mas não voltará depois dessa surra. e depois recarregaram apressadamente as armas. Eu estava arfando. se a engenharia britânica tiver chance. sir Sidney". Os homens de Smith e Djezzar não ousaram sair em perseguição aos franceses. "Gage! Isso foi a coisa mais por um triz que já vi na vida! Meu Deus.

olhando feio para nós. "Eu o vi liderar a carga direto contra eles . "O corso está liquidado!" "Quê?. "Guarda minhas palavras.eles se recusarão a avançar. "Receio que ele já não tenha mais como combatê-los." . no entanto. O tirano republicano foi detido. disse. Dois corpos jaziam sobre o de Phélippeaux. Phélippeaux estava cego. estávamos prestes a ver que ele tinha mesmo razão.." Smith me fitou com olhos brilhantes. com suas melhores tropas trucidadas ou postas para correr. perguntou. "Mas onde está Phélippeaux?". Teu nome conhecerá a glória. sir Sidney.por Deus. aquilo que era coragem monarquista!" Balancei negativamente a cabeça. "Antoine. muito embora eu tivesse visto meia dúzia de baionetas o trespassarem como se fosse um quarto de boi. meu amigo. Como Smith podia ter tanta certeza? E. porque Bonaparte não tomará Acre." Voltamos olhando cuidadosamente onde pisávamos.. fazendo a cabeça do moribundo descansar em seu colo. Recuaram?" Embora seus olhos estivessem abertos. Gage: nunca mais irá se ouvir muito o nome de Napoleão Bonaparte. e por isso os arrastamos para o lado. Milagre dos milagres: o monarquista ainda respirava.permitirão . nós os rechaçamos!". Smith o puxou ligeiramente para cima. e generais politiqueiros como ele não resistem a uma derrota séria." Afirmou isso com um gesto de assentimento consigo mesmo. "Ele agora está lá naquele morrote.

aprestar vigas e misturar argamassa. voltai e desfrutai um pouco mais!" . as aves tinham desaparecido. A luta arrancara lascas do madeiramento.o corpo do ferreiro entre as longas fileiras de defen¬sores caídos que. eram depositados nos jardins do paxá. Não vi . inclinei-me e peguei meu fuzil. "O quê? Não apreciastes a minha hospitalidade? Ora. Depois caminhei de volta através do entulho da torre semi-destruída. deixando rasgos amarelos no padrão escuro. O paxá andava pomposamente pela muralha. A torre seria novamente remendada. Com a cacofonia da batalha.ainda bem! . Mas talvez Phélippeaux tenha tido um vislumbre de que não foi em vão e de que. Olhei para cima. com seus olhos cobertos por véu. pesarosa e temporariamente. na violenta insanidade do último e pior dia do cerco. mas as mulheres do harém.— 22 — Então o coronel Phélippeaux morreu. conquistara-se algo de fundamental. Engenheiros militares aos berros já começavam a alavancar pedras. dando tapas nas costas de seus homens exaustos e berrando para os franceses. minha machadinha e o anel. Retornei ao corpo de Najac. como um pavão. Teria ele realmente compreendido sua vitória quando a vida se esvaía de seu corpo? Não sei. Saí atrás de Jericó e Miriam. para lá e para cá. nos contemplavam das janelas gradeadas.

sujo de sangue e fumo de pólvora. Peguei o anel do faraó. Imaginei que meus olhos brilhassem no negror do rosto. Astiza. Como podia ter-se passado tanto tempo? Ainda pela manhã. Ouvi um chape. enquanto civis aglomerados me olhavam com receio. onde o Mediterrâneo parecia tão limpo após a sordidez da batalha. e o anel se foi. Olhei para trás. Foi como uma estrela cadente vermelha. Preparei o braço e arremessei. e a fumaça e a poeira haviam criado naquela direção uma cortina. com o frio me tomando a virilha e a seguir o peito. certificando-me de que estava finalmente pronto para fazer o que precisava ser feito. deixando o mar lavar um pouco da poeira e fuligem. Prendi a respiração o máximo que pude. anel que trouxera desgraça para toda pessoa que o tocara. que o sol declinante iluminava por trás. . tendo água até os joelhos e depois a cintura. Andei até chegar ao molhe do farol. E então vim à tona. Mohammad e eu havíamos chispado para a muralha. dirigindo-se ao azulcobalto que indicava a água profunda. mas minha mirada se fixava em algo a mil milhas dali.Bebi água na fonte da mesquita e depois caminhei pesadamente pela cidade. Será que existem mesmo maldições? O racionalista Franklin duvidaria disso. Mas eu já sabia o suficiente para não encostar os dedos no rubi enquanto entrava no mar gelado. abrindo os olhos na penumbra verde. Canhões ainda ribombavam. transformando-a numa escuridão tormentosa. Curvei-me e submergi. Simples assim. sacudindo a água de meu cabelo encharcado e comprido.

banqueteando-se. com o cabelo empastado e a parte superior do tronco envolta em bandagens manchadas. Miriam. todos nós. Serras chacoalhavam nas mesas. minha fala estava embotada. dos braseiros onde os instrumentos cirúrgicos de corte eram aquecidos antes do uso. Fiquei aliviado ao ver que Miriam estava cuidando de um irmão ainda vivo. num último acesso de frustração. eu. Bacias continham nacos de carne amputada. lixívia e carvão vegetal." Por conta da exaustão emocional. Mas ele se mostrava alerta e enérgico o bastante para me dirigir uma encarada cética quando fui até seu catre. Conseguimos. rósea. Jericó. Poeira descia das telhas para os olhos dos feridos. Moscas zumbiam. Talvez ele esperasse simplesmente arrasar o que não podia capturar. cujos recintos estavam apinhados com os feridos recentes. Os lençóis estavam rubros. O edifício tremia pelo canhoneio incessante. Jericó estava sem camisa. o ar era cortado por berros. pálido. Conforme Smith previra. Achei Miriam no hospital da cidade. e a água dos recipientes. mas também de gangrena. "Será que nada consegue te matar?" "Peguei o homem que te baleou. Tu. Napoleão parecia estar disparando contra nós tudo o que tinha. Periodicamente." "Mas aonde foste quando saíste da cidade?" . e havia cheiro não só de sangue. "Conseguimos defender a brecha.Tive um arrepio de alívio.

Ele estava mesmo lascado e quase perfurado onde a vareta do fuzil acertara." Ambos me fitaram. ela não. "Não é compensação." Sensatamente. "O tesouro?" "É. Tenho tido azar com tesouros.. mas estou ficando sentimental." Enfiei a mão debaixo da camisa e tirei o cilindro de ouro."E uma história comprida. que escondi da vista das outras pessoas no hospital. Jericó. "É pesado. mais ou menos." "Não se trata de compensação! Isto aqui não é pagamento nenhum! Por Deus. Miriam e Jericó arregalaram os olhos ante o brilho do metal.. Só pretendo ficar com o livro que está dentro do cilindro. Não consigo ler palavra do que está escrito ali. nem mesmo agradecimento." "Estás me dando o ouro todo?" "Estou dando para ti e para Miriam. não concluí a frase." Agora ele me fazia uma carranca." "Eu?" "Estou te dando. Mas tanto o invólucro do livro quanto meu corpo estavam intactos. Meu peito tinha uma equimose do tamanho de um prato. mas também a pureza de minha irmã. Quando a guerra acabar. É só o . estarás rico. Pesado o suficiente para construir duas vezes a casa. "Como é que é? Achas que podes compensar-me?" "Compensar-te?" "Por teres irrompido em nossas vidas e levado não só a nossa casa e o nosso ganha-pão. que deixaste em Jerusalém. Sabes aquela coisa que estávamos procurando em Jerusalém? Eu a achei. e duas vezes a forja.

que fariam mau uso dele. Agora. meu coração não suportaria perdê-la outra ." "Como é?!". porque. respondi. eu conseguirei retirá-lo por mar nos navios de Smith. "Perdeste totalmente o juízo?!" "Nunca estive mais são. disseram os dois. coitada. Quero casar com a tua irmã. Tu me farás um favor aceitando. mesmo se passarem pelas nossas defesas.que é justo. não mais calmo. Por certo. Terminei o que comecei. nunca mais pegarão o livro. estaria melhor sem mim. pura e simplesmente. Miriam me olhava sem conseguir acreditar. "Eu cuspo no teu presente!" Era óbvio que ele não estava entendendo. como fogo e gelo. Um ou outro deus estava me mostrando o caminho certo ao levar Astiza para longe de mim ." O rosto dele se contorcia de incredulidade. e peço a tua permissão.eu e ela éramos veneno um para o outro. que acabavam em perigo sempre que se juntavam. "Sei que o que fiz parece mais baixo que cobra na sarjeta. juntos. Jericó. a possuis. A egípcia. "Pois então cospes no humilde pedido de desculpas do teu futuro cunhado. mantendo este objeto longe dos franceses. Mas tive uma chance de concluir nossa busca. vais embora sem dizer nada e depois vens me trazendo isso?!" Jericó estava ficando mais bravo." Percebi que a resposta estivera debaixo de meu nariz." "Tu a seduzes. e foi o que fiz. "Eu me envergonho de ter ido embora sem me explicar e vos deixado na ignorância nessas últimas semanas". e agora volto para terminar o resto.

"Não vou mentir para ti. eu serei para ti. perguntou Miriam. com fisionomia inescrutável. Mas ela se foi. eu agora casaria com uma moça correta. E ali estava a meiga Miriam. e quão bom. e aí o ferreiro caiu na gargalhada. admirada. o caminho era aquele mesmo. com lágrimas a correr-lhe pelas faces. Miriam. esqueceria o pesar que a ausência de Astiza me causava e nunca mais teria nada a ver nem com batalhas. Riu até não mais poder. Essas últimas horas de inferno me abriram os olhos para mil coisas. e quão maravilhosa serás para mim. Quero mesmo casar com Miriam. então. Havia sido isso que eu encontrara de fato na Terra Santa. "Jericó?" O rosto se enrugou. ainda assim. Uma delas é o quanto te amo." Ele me encarou fixamente durante um bom tempo. e Miriam também começou a rir. e não aquele livro bobo! Por conseguinte. É. seu rosto se contorceu de modo estranho. tomaria jeito.e a perdi como também já aconteceu antes. era um exemplo de vida reta e tranqüila. O que raios estava acontecendo? . nem com Bonaparte. e eu gostaria de ter a tua bênção. Ainda a amo. uma boa mulher que aprendera a estourar a cabeça de um homem com pistola e. espero. Jericó. mas eu e ela não fomos feitos para ficar juntos. Eu a resgatei como já fiz antes . Não sei por que.vez. olhando-me com algo perturbadoramente próximo do sentimento de pena. E. "Mas e Astiza?". Eu a amei.

" Miriam esticou o braço e tocou minha mão com a dela. disse Miriam. eu me corrigi."A minha bênção?!" Era uma gargalhada estrondosa.. o teu senso de oportunidade é horrível. bemapessoado e. "Gage." Ela abriu os olhos. . Um médico que trabalha neste hospital. "Será que terei de esperar a guerra acabar para que possa casar?" "Ethan". arfando e produzindo um chiado ao respirar. que o lembrava do buraco em seu ombro. com raiva de mim mesma." "Era a casa de um médico." "Ethan. Jericó recuperou o autocontrole. considerando tudo." Eu estava cada vez mais confuso. eu bancara o bobo outra vez! Quando a cigana Sarylla lera o taro e me dera a carta do Louco. me encontrou em lágrimas." Eu me virei. devagar.. jovem. "Mas. "lembra-te de onde me deixaste quando foste procurar Astiza?" "Lembro. Com a breca. chegando em casa para conseguir algumas horas de sono. não. fitando algo para além de mim. trigueiro. suspirando. "Um homem que.. ele teve um esgar de dor. é claro que não. estava o cirurgião levantino. ela bem sabia o tolo que eu era. "Como se eu fosse mesmo dar!" Nisto. Foi numa casa aqui em Acre. confusa. vê bem. "Tu achas mesmo que o mundo fica parado enquanto sais nessas tuas aventuras?" "Ora. mais respeitável (apesar das mãos sujas de sangue) que um batoteiro e mandrião como eu." "Do que estás falando?" Olhei para um e depois para o outro.. Atrás de mim.

E foi uma libertação... Eu não ia a um bom bordel desde que fugira de Paris. Mas foi um alívio? Foi." "Ethan. mesmo quando são umas cavalgaduras. disse o homem." "Ele é o tipo de homem de que minha irmã necessita". senhor Gage". e lá estava a oportunidade de ser solteirão outra vez. .. ao diabo com tudo. que por certo ela devia ter esperado. eu passara de duas a nenhuma. mas pelo menos uma vez fizeste alguma coisa direito. o doutor Zawani fez de mim uma mulher honrada. quero te apresentar o meu novo noivo. que eu tinha duas mulheres me disputando a atenção e meu problema era escolher entre as duas. Na metade de um dia. dissera Smith. A experiência estava sendo humilhante? Estava. Mas também menos responsabilidade.. disse Jericó. "Ninguém sabe disso melhor que tu ." Sorriram enquanto eu tentava adivinhar se ele me cumprimentara ou insultara. O rubi e o ouro também se foram.e foste tu a reuni-los! És um ser humano frívolo e confuso." Eu quis dizer que Miriam estava apaixonada por mim. Hiram Zawani a vosso dispor. Solidão? Às vezes. Ela os faz parecer três vezes mais inteligentes do que nós. "Haim Farhi diz que não sois bem o finório que aparentas ser. "Mas."Ethan. Ethan Gage." "Dr. e eu me surpreendi com o quanto fora. "E mesmo formidável como essas coisas se resolvem". Bem. Eu antes estava mentindo para mim mesma acerca do que eu queria e precisava. com o tipo de entonação culta que sempre invejei.

"Parabéns".Eu embarcaria para casa. consegui dizer. E estavam construindo para o país uma nova capital lá nos brejos da Virgínia. daria o livro à Library Company para que eles quebrassem a cabeça tentando entendê-lo e tocaria minha vida. "Mas. longe das vistas dos americanos honestos. começaram a bater em retirada. Um dia depois. o maioral do comércio de peles. os franceses. Não tendo conseguido utilizá-los para que seus inimigos se desequilibrassem e perdessem o pé. Bonaparte dependia do ímpeto e da velocidade. precisasse de ajuda em seu negócio. em vista do que aconteceu. tendo esgotado grande parte de sua munição num derradeiro e feroz bombardeio que não mudou em nada os apuros estratégicos em que se encontravam. mencionando as batalhas que vencera e omitindo as que perdera. eu os observei enquanto saíam de fininho. Com minha luneta. os doentes e feridos que não conseguiam andar. ele agora se via em irremediável inferioridade numérica." E deixou Zawani dar uma espiada no ouro. acho que só vou te deixar nos ajudar a penhorar isso que está aí contigo. embuste e velhacaria para um homem com meus talentos. com voz aguda e embaraçada. Talvez John Jacob Astor. Centenas de homens. estavam . disse Jericó. "Eu ainda devia partir-te ao meio". Parecia justamente o tipo de antro de oportunismo. Sua única opção era voltar para o Egito e proclamar a vitória. Acre o detivera.

sentados ou estirados em carroças ou curvados sobre montarias. O cerco durara sessenta e dois dias. as baixas haviam sido pesadas. Em ambos os lados. A escassez de forragem e transporte animal era tão grande entre os franceses que eles abandonaram duas dúzias de canhões. Também explodiram as pontes dos rios Na'aman e Kishon. Astiza se fora de novo. estariam condenados. e grandes colunas de fumaça se ergueram no ar da primavera. Os franceses começaram a queimar vingativamente fazendas e aldeias ao longo da rota de sua retirada pelo litoral. e Acre estava fétida. Agora.nossa entorpecida guarnição não estava em condições de realizá-la. Se ficassem para trás. Eu me deslocava com cansaço e aturdimento. Atearam fogo aos suprimentos que não tinham como levar. A peste que se propagara pelo exército de Napoleão atravessara as muralhas para adentrar a cidade. Abandonadas ficaram também multidões de judeus e cristãos que haviam tomado o partido dos franceses na esperança de libertar-se dos muçulmanos. puxando pela correia um cavalo que carregava um soldado com ataduras. para retardarem uma perseguição que nunca viria . de modo que vi até Bonaparte a pé. lamuriavam-se como crianças perdidas. pois só podiam esperar de Djezzar uma cruel desforra. e a preocupação imediata era remover os mortos. de 19 de março a 21 de maio. Fazia muito calor. Coloquei o livro num bornal de couro e o escondi no alojamento em que me hospedei na Estalagem do . cativa ou morta.

com estandartes capturados ao inimigo. para apressar a morte e evitar que caíssem nas mãos dos combatentes irregulares muçulmanos vindos de Nablus. Eu apostava que podia tê-lo largado numa feira de rua que ninguém o pegaria. o grosso do exército seguiu para o Cairo. o Khan a-Shawarda. na Samaria. alardeando a vitória. tivera um braço despedaçado por uma bala de canhão turca e morrera de infecção junto a Acre. no Egito.Mercador. Em 2 de junho. Aos poucos. reforçando a guarnição local. ele abandonou Jafa. chegavam relatos da retirada de Napoleão. . tão esquisita era sua escrita. os derrotados soldados chegaram exauridos a El-Arish. Depois. Eu soube que Caffarelli. Tornou a entrar no Cairo em 14 de junho. deu-se ópio e veneno.Napoleão não podia dar-se ao luxo de apresentar um exército derrotado. mas essa alegação tinha sabor amargo. que o físico Étienne-Louis Malus contraíra a peste em Jafa e tivera de ser evacuado. e que tanto Monge quanto seu amigo boticário Berthollet pegaram disenteria e estavam entre os enfermos evacuados por carroção. o general de artilharia perneta. Uma semana após ter deixado Acre. Um termô¬metro colocado na areia do deserto registrou uma temperatura de cinqüenta e seis graus centígrados. A aventura de Napoleão estava se transformando em desastre para todos os que eu conhecia. Quando chegaram ao Nilo. conquistada a preço tão terrível. a marcha se interrompeu para que os homens descansassem e se recompusessem . Aos franceses mais acometidos pela peste.

Não tive interesse em alistar-me nessa expedição. A chave está em Roseta. Em 7 de julho. mas fortes garranchos masculinos. pronta para continuar para a baía de Abukir e recuperar o Egito. e estava endereçada a mim em caligrafia feminina. Eu ainda fazia planos de voltar para a América. Silano Parte 3 . O recado era simples.23 - . chegou uma esquadra com quase doze mil soldados otomanos. Vinha selada em cera vermelha com um sinete que mostrava a imagem de Tot. o deus provido de bico. no começo de julho. que eu duvidava que pudesse derrotar o principal exército francês. porém. Os reforços turcos de Constantinopla não tinham vindo depressa o bastante para ajudar Acre. mas. Meu coração disparou.Entrementes. Eu consigo lê-lo. um barco mercante me trouxe uma missiva do Egito. Smith oferecera seu esquadrão para apoiar o ataque. e ela está esperando. Smith se mostrava ansioso para dar cabo do arquiinimigo. Quando abri. encontrei não a letra de Astiza.

Apesar da exitosa defesa de Acre. Smith se mostrava entusiasmado por essa contra-ofensiva. Mustafá começou a erigir três linhas de fortificações. na esperança de que os franceses tivessem a cortesia de esticar as canelas ante as novas trincheiras. As tropas de Mustafá desembarcaram. Agora. Por isso. proclamando que ela acabaria de vez com Bonaparte. E era difícil dizer quem tinha menos confiança no sucesso daquela invasão. invadiram e cavaram com frenesi. porém. os otomanos ainda receavam confrontar Napoleão em campo aberto. não com o francês. se eu ou seu idoso comandante. o paxá Mustafá . Após a vitória ridiculamente desigual do corso na batalha do Monte Tabor. um ano e duas semanas depois que desembarcara ali com Napoleão.Cheguei de volta ao Egito em 14 de julho de 1799. tomaram um reduto francês a leste do vilarejo de Abukir. com suas barbas brancas. os paxás encaravam qualquer iniciativa própria como um desastre em formação.que. Forças de Bonaparte rapidamente se reuniam para cortar nosso acesso . forçaram a rendição de outro posto avançado francês na extremidade da península e pararam. Não pude deixar de notar. antevendo o inevitável contra-ataque de Bonaparte. massacraram os trezentos defensores. limitou o avanço a ocupar a minúscula península que formava um dos lados da baía de Abukir. Ali onde a língua de terra da península se juntava ao continente. que o inglês permaneceu ao largo com seu esquadrão de navios. eu estava com o exército turco.

Sem que me tivessem pedido. Corria o rumor de que Murad ousara ir à Grande Pirâmide. fora morto no cerco de Seringapatam. e já víamos os primeiros batedores franceses nos espiarem das dunas além da península. uma . e Smith acabava de receber a informação de que Tippu Sahib. As coisas. na Índia. Sim. Assim como Bonaparte se mostrara impaciente em Acre. estavam em constante mudança. o grandioso projeto estratégico original de Napoleão já fracassara. o sultão indiano com quem Bonaparte nutria esperanças de unir forças. com forças demasiadamente pequenas. entretanto. Porém. o avanço para a Ásia acabara detido em Acre. que mantinham cativa no Cairo.ao interior. também os otomanos haviam desembarcado demasiadamente rápido. e eu achava que aqueles turcos estariam melhor sob o sagaz Murad do que sob o cauteloso Mustafá. um contingente de cavalaria ligeira sob o comando do bei Murad. Era um gesto de comandante audaz. não queria compartilhar o comando e ficava apavorado com a idéia de sair da proteção de suas fortificações e canhoneiras. no Egito. A esquadra que viera com o corso fora destruída pelo almirante Nelson no ano anterior. pelo general inglês Wellesley. escalando-a até o topo e usando um espelho para sinalizar para a esposa. eu sugeri polidamente a Mustafá que ele arremetesse para o sul e tentasse unir-se com a resistência mameluca à qual meu amigo Ashraf se juntara. no momento em que Mustafá desembarcava. Mas o paxá não confiava nos arrogantes mamelucos.

eu precisava obter a "chave" de Silano. Estava ficando complicado calcular quem levaria a melhor. A vida já é dura o bastante sem que precisemos suportála para sempre.esquadra franco-espanhola adentrara o Mediterrâneo para opor-se à supremacia naval britânica. Será que o velho Franklin teria feito diferente? "O que torna tão difícil para as pessoas resistir à tentação é que elas não querem desencorajá-la por completo". Mas e o livro? Tanto Bonaparte como Silano tinham razão . Passáramos navegando por lá um ano antes. aluguei um falucho para que me levasse a Roseta. Se eu tivesse sucesso. resgatar outra vez Astiza e então resolver por mim mesmo o que fazer com o segredo. um porto na foz do Nilo. A única coisa de que tinha certeza era que. eu não queria ter nada a ver com ele neste mundo. Astiza talvez voltasse comigo. se o texto prometia a imortalidade. Enquanto os turcos se entrincheiravam no calor opressivo do verão. menos o próprio Egito. Resolvi que minha melhor aposta seria fazer negócio com Silano em Roseta. durante minha primeira estada no Egito. De algum modo. escrevera ele. voltaria correndo para o enclave turco antes que tal cabeça-de-praia sumisse e pegaria um barco que fosse para qualquer lugar.eu estava mais curioso ainda em saber o que significava aquela escrita misteriosa. tão depressa quanto possível. Depois. na parte oeste da foz do Nilo. com suas tendas num carnaval de cores. mas não me parecera um lugar que chamasse .

Logo fomos interceptados por um barco de patrulha francês. a explicação mais provável era que a mensagem de Silano fosse mentirosa e traiçoeira.particularmente a atenção. era um mistério o porquê de Silano querer encontrarse comigo ali. içar a vela a meio mastro para que eu pudesse fazer nela uma importante modificação . monsieur. eu o fiz jurar segredo. mas Silano enviara a senha para que me deixassem passar. "Neste caso." .para me fazer enfiar a cabeça na arapuca. mas havia iscas suficientes . Ele consultou o papel que trazia consigo. O tenente no chebek reconheceu meu nome (aparentemente. E então passamos uma vez mais do mar azul para a língua marrom do grande rio africano.a mulher e a tradução . mandei Abdul. Embora a localização conferisse algum valor estratégico a Roseta. um chebek. Este documento diz que isso se faz necessário para a segurança do Estado. o barqueiro. Por conseguinte. Respondi que preferia ficar em minha própria embarcação e segui-lo. Com o estímulo de algumas moedas. tenho ordens de confiscar vossa bagagem até o momento em que venha a encontrar-vos com o conde Alessandro Silano. minhas aventuras e mudanças de lado tinham me conferido certa má fama) e convidou-me para ir a bordo. Minha comodidade seria a última coisa que passaria pela cabeça do feiticeiro.coisa que ele aceitou como prova incontestável da maluquice de todos os estrangeiros.

Assim. na pior delas. há de aprovar o que vos proponho. fomos em frente. Suas construções. no delta do Nilo. na melhor das hipóteses."A minha bagagem é o que estou vestindo. à sombra das palmeiras.ou que. Estou aqui de livre e espontânea vontade e sou apenas um americano desacompanhado numa colônia francesa. exceção feita à mesquita. Se isso acontecer. eu os deixarei cair no Nilo." Estendi o bornal por sobre a beira do barco. com o chebek nos pastoreando como cão de guarda. o confisco não se mostrava factível. "Caso tenteis me tomar estes parcos pertences. portanto. eram todas de adobe marrom. Silano. seguir viagem. tenente. sejais levado à corte marcial . "O qual não tenho nenhuma intenção de disparar a menos que alguém tente tomá-lo de mim. pois traz uma pedra grande.ou estou enganado?" "Mas carregais um bornal. posso garantir-vos de que o conde fará que. sofrais algum feitiço antigo. que tinha um único minarete e fora construída de . No entanto. e aportamos em Roseta. Deixai-nos. Com certeza não pretendeis que eu desembarque nu . assaz incômodo. já que eu me postara na amurada com o fuzil numa das mãos e a outra estendida sobre o rio. acreditai. dado que as minhas façanhas me deixaram sem tostão e sem aliados." Ele resmungou e olhou mais algumas vezes para seu documento. retrucou ele. O último homem que procurou fazê-lo morreu." "Tendes também um fuzil"." "Deveras. E ele está pesado. Tratava-se de um vilarejo agrícola bem irrigado.

de modo que o rosto lindo. e o portão principal. e eles me olharam como se eu fosse bruxo.pedra calcária. Astiza expressava em alguma medida a autoridade de Silano." "Nós o guardaremos para vós." "Infelizmente. Deixei instruções com meu barqueiro e fui por caminhos sinuosos rumo a uma fortificação francesa ainda inacabada. interrompendo-nos. Estava de lenço na cabeça. Os soldados. não como espião. mas preocupado. Construções de tijolo e tábua recobriam . deixaram-me passar para o pátio. com um estalido. E Astiza surgiu. com a bandeira tricolor tremulando acima das muralhas de adobe e uma multidão de meninos de rua curiosos me seguindo. Estou aqui porque fui convidado. No portão. trajada recatadamente num vestido que lhe cobria os pés. disse uma voz feminina. "Não podeis entrar com esse fuzil." Aparentemente. fechou-se atrás de mim. O eletricista inofensivo se tornara algo entre incômodo e perigoso. os franceses." "Então não entro de jeito nenhum. chamada Fort Julian. e ele ia amarrado ao pescoço. relutantes. e não porque me tivessem ordenado que viesse. eles foram detidos por sentinelas com chapéus bicornes pretos e bigodes enormes. Minha má fama se confirmou quando esses soldados me reconheceram com clara expressão de repugnância." "O conde não fará objeções". lembrava uma lua. vós. Histórias de Acre haviam certamente chegado ali. tendes o hábito de pegar emprestado e não devolver. "Ele veio como savant.

as faces internas das muralhas daquele forte aquadradado e simples. "E irei embora contigo." "Bonaparte tem lá sua sabedoria. e ele. "Por que não consegues acreditar que te amo? Cavalguei contigo todo o caminho para Acre. "Precisamos descobrir se essa lenda contém alguma verdade e. e o que nos separou foi uma bala de canhão. baixinho. Dentro. que esperava em uma mesa . mais o perfume de Astiza (uma fragrância de flores e especiarias). O destino irá se encarregar do resto'." "Tu falas como Napoleão ." "Foi Silano quem te mandou dizer isso?" Ela pareceu decepcionada. disse Astiza. estava fresco e escuro. vi Silano. Ethan . chegamos à construção principal. Só peço que tenhas fé por um pouco mais de tempo. e vi mais sentinelas a vigiar-nos. deixaram-me zonzo. precisamos estabelecer uma sociedade de conveniência com Alessandro. Mais uma vez. E foi o destino que nos reuniu outra vez.somos ambos prisioneiros. com cobertura de telhas e varanda de sapé (ou melhor. e não uma escolha minha. depois.'Já fiz todos os cálculos." Nisso. com ou sem o teu fuzil. planejar o que fazer." "Não te enganes. Quando meus olhos se ajustaram à falta da luz ofuscante lá de fora. folha de palmeira). Um sol escaldante castigava a praça de armas. "Eu garanti a Alessandro que virias". uma estrutura térrea rebocada." Indicou com um gesto de cabeça as muralhas.

eu conhecia desde o desembarque francês em Alexandria: o general Jacques de Menou lutara com bravura e depois. Américain. a cara redonda de contador e o bigode fininho. Era fascinado pela cultura egípcia. eu não conhecia. Ah." "Não esperava ver-te de novo. respondi ao general. e não inimigos?" "Eu ficaria mais convencido disso se os teus outros amigos não vivessem atirando em mim." "Até os melhores amigos têm suas discussões. Silano se levantou. havia portas fechadas e. O outro.quem sabe estejamos fadados a ser amigos. Gage — mas nossos caminhos sempre se cruzam!" Fez uma ligeira reverência. não?" "Conheço.simples com dois oficiais. "Já deves com certeza reconhecer que se trata do destino . segundo constava. muito polida. continuou Silano. "Ele estava encarregado da construção deste forte quando seus homens escavaram um pedaço de entulho. com a calva. se convertera ao islamismo. eu descobriria. mas. o capitão Bouchard percebeu depressa a . "E este é o capitão Pierre-François Bouchard". um capitão bem-apessoado. O mais velho. "Estás sempre tentando escapar de mim. como o coitado do Nicolas ficou bravo quando roubaste o balão dele!" "Foi em decorrência do hábito de atirarem em mim". Felizmente. "Conheces o general De Menou." Fez um gesto em direção ao oficial mais velho. trancadas. não se tratava de um oficial de presença particularmente imponente. Em ambos os lados do recinto.

Hoje não conseguiríamos fazer igual. "Ele não se cansa nunca. "Tais múmias provocam medo. "Impressionante o brilho das cores. e esta tem agora a fama de assombrar Roseta. Eu te mostrarei. Não conseguimos igualar a beleza nem de uma coisa. mas disse aos soldados que o achamos aqui no local do forte". a janela. Creio que essa pedra de Roseta pode mudar o mundo. "Estou fazendo experiências. Talvez o nosso Omar me dê alguma dica uma noite dessas. do mesmíssimo modo que perdemos a fórmula dos vitrais medievais." "Pedra?" "Vem comigo." Silano nos conduziu à porta da esquerda. Pintado em cores vivas e extraordinariamente bem conservado. brincou Menou. ostentava pinturas que pareciam uma descrição da jornada de uma alma pela terra dos mortos." Toquei a tampa do esquife." "E mágico. nossa sentinela". "Há algum corpo aí dentro?" "O de Omar. talvez. uma fenda vertical estreita que dava para o pátio. fora coberta com pano para manter a privacidade. Quando se trata de manter os curiosos longe deste recinto. ela é melhor que uma naja." Apontou para alguns frascos de tinta num dos cantos da sala. Estava bastante escuro. nem de outra." "Sentinela?" "Eu o trouxe rio abaixo. destrancou-a e nos introduziu no recinto." . disse Silano.importância daquilo. A primeira coisa que me atraiu a atenção foi o esquife de madeira de uma múmia.

respondeu Silano. Entendi o que Silano quisera dizer com aquela mensagem misteriosa . Com isto. eu reconheci o que tínhamos visto no rolo de texto."E tu? Não acreditas em maldições?" "Acredito que eu esteja prestes a ser capaz de controlá-las.e a quarta. "E demótico.ele podia comparar as palavras gregas com as palavras secretas de Tot e possivelmente desvendar essa linguagem! "O que é este texto aqui?". e outro. "Vês? Eu estava mesmo destinada a ser recapturada. no alto e a mais recente. Ethan". Silano arrancou essa cobertura. logo acima da escrita dos templos. no alto." . de aproximadamente cinco pés de altura e um pouco menos de três de largura. Não sou nenhum lingüista. Viam-se escritas de diferentes idiomas. fez meu coração disparar. perguntei. a de Tot. a dos gregos. mas um grupo de palavras parecia grego. Eu me curvei. disse Astiza. a escrita egípcia que se seguiu aos hieróglifos". forçando a vista na luz ruim. uma coisa volumosa. a escrita que eu já encontrara em templos egípcios. na base. "O meu palpite é que as escritas estão numa ordem cronológica com a mais antiga." Junto ao esquife de madeira. Eram os mesmos símbolos curiosos que estavam no rolo de texto que eu achara na Cidade dos Espíritos. Com um gesto dramático. apontando para a escrita que eu não reconhecia." "Quando Alessandro me trouxe para cá. Uma terceira não consegui identificar . estava envolta num oleado.

Ou nada. . exclamou Bouchard. e meu bornal me foi arrancado do ombro e aberto bruscamente." "Mas."E agora quereis que eu vos ajude a decifrado". como se eu o tivesse de alguma maneira enfiado ali. O sentido da vida. se eu não colaborar. o mundo na palma da tua mão. "Queremos que nos dês o livro para que nós te ajudemos a decifrado". e Astiza abafou uma risada. Sinalizou com a cabeça. como se eu fosse uma criança particularmente obtusa. poder e imortalidade. Virou de cabeça para baixo aquela sacola de couro. A fisionomia de Silano se ensombreceu. e um rolo de pastel caiu lá de dentro. Espiaram até no cano de meu fuzil. resumi. O capitão Bouchard se moveu para trás de mim. "E ganho o que com isso?" "A mesma coisa que te ofereci antes. "Parceria. não tereis o livro .. e reparei que ele tinha uma pistola enfiada no cinto.é ou não é?" Vi Menou fazer um pequeno gesto. se preferires não colaborar. Gage"." Silano suspirou. "Não achaste realmente que eu te entregaria o livro tal qual um bom carteiro. "Pelo contrário. "Merdei".. verificaram as solas de meus pés. se a quiseres. achaste?" "Revistai-o!" Mas não havia rolo nenhum. disse Silano. o rosto de Deus. Talvez os segredos do universo. Entreabriram as solas de minhas botas. corrigiu Silano. O general e o capitão olharam sem entender. fazendo uma marca no chão de terra batida.

para que seja difundida ao mundo. Quero dar a tradução aos savants do Institut d'Egypte. que o livro seja traduzido para toda a humanidade. no Cairo . trabalhando juntos por ele. para trocá-la pelo livro. até que estabeleçamos uma sociedade de verdade. "Escondido. Quero que desistas dela." "Trazê-lo de onde? Acre?" "Poderás tê-lo em menos de uma hora. e não para os maçons renegados do Rito Egípcio. não importando quanto poder tenhas sobre nós. em Londres -. Ambos perdemos amigos.e nada!" Mais uma vez. E quero o fim do derramamento de sangue. Ou para generais ambiciosos como Napoleão Bo¬naparte. "Já revistamos o teu falucho e o maldito barqueiro.apalparam-me rudemente em lugares que me deixaram indignado. Quero que Bonaparte saiba que estamos todos aqui. Silano. irrompeu de sua máscara de urbanidade um pouco . Até ergueram o barco para procurar na quilha ." Ele mordeu o lábio.agora e para sempre. E quero Astiza de uma vez por todas. "Olhareis também dentro dos ouvidos?" "Onde é que está?" A frustração de Silano era evidente. para que nenhum de nós venha convenientemente a desaparecer. não representamos a liberdade e a razão? Pois então. Nós. Nós dois temos sonhos. E quero que ela prometa vir comigo para onde eu escolher . Promete-me tudo isso.e à Royal Society. os americanos e franceses. que trarei o livro a tu.

o que implicava que eu me comprometesse. "Concordo". Astiza me olhava esperançosamente." "E. "Concordas com aquela condição dele?" Percebi que era a segunda vez que eu pedia os afetos de Astiza em um mês. Esclareceremos e instruiremos o mundo inteiro! Mas não poderemos fazê-lo se não estiveres com o livro." "Impossível". "Os meus homens revistaram cada polegada daquele falucho. O importante é decifrar o código lingüístico e traduzir o livro. Gage. retrucou Bouchard. Eu me sentia feliz e apavorado ao mesmo tempo. "Quanta confiança." Ele fez um gesto de alguma impaciência com a mão. Eu devia estar ficando velho.. Nenhum dos dois pedidos fora terrivelmente romântico. para querer assim compromisso de uma mulher . onde está o livro?" "Mas e tu. conde Silano. respondeu ela.." "Mas eles não içaram a vela. mas ainda as¬sim.a um americano com mais perfídias do que consigo contar. Silano? Concordas com minhas condições?" "Sim. "Pois então. sim. "Dá-me tua palavra de nobre e de savant? Estes soldados são tuas testemunhas.daquela frustração impaciente que eu vislumbrara no Egito no ano anterior. Eu sorri... dou minha palavra ." Ele se voltou para Astiza." ." "Ele ficou no barco.

limitada em cima e embaixo por suas hastes de madeira. foi içada até enfunar-se. "O livro ficou exposto durante todo o percurso rio acima". A uma luz horizontal.". . disse Menou.. "Lá .24 Tínhamos duas tarefas pela frente. Dei uma ordem ríspida.. Meu barqueiro se acuara num canto de seu falucho (que fora puxado para a terra). verde.vede?" Olharam de perto. Uma era usar a pedra de Roseta a fim de traduzir para o francês os símbolos do texto de Tot. "Ele costurou essa coisa no pano. e pequenas garças estavam de pé nos baixios. apresentando caracteres estranhos e indistintos." . ainda mais demorada e laboriosa. ia da base ao topo da vela. parecendo esperar a própria execução a qualquer instante. comigo à frente. "Absolutamente ninguém notou.Saímos do forte até o Nilo. era traduzir e entender realmente o livro. que ondulavam à brisa tórrida. e uma luz cálida se derramava através das tamareiras. A outra. discerniase com dificuldade uma tira que. e a vela. parecia densa. O sol baixava. Eu não podia culpálo: tenho talento para levar azar à meus companheiros. A água. com certa admiração. proclamei.

dizia outro. e do poder de manipulá-la segundo nossa vontade". Aos poucos. Astiza também parecia aceitar nosso acordo. e cada conjetura mais abalizada levava algum de nós a consultar este ou aquele volume para verificar se uma construção era gramaticalmente plausível ou se uma referência tinha mesmo sentido. mas admirava seu empenho e seu zelo. e principiei a entender o que Astiza vira nele. Silano tinha charme. Silano exibia um pouco daquele encanto fidalgo com que seduzira as damas de Paris.Agora que tinha. decifrávamos títulos de capítulos do rolo de texto. Sumiram-lhe rugas do rosto. Melhor ainda: parecia conformado em ceder-me Astiza (muito embora eu às vezes o pegasse olhando ardentemente para ela). e o conde se mostrava animado e ansioso ao começar a tabular símbolos e tentar achar nexos. ia-se iluminando a pré-história obscura em que o Livro de Tot fora supostamente escrito. Sua aristocrática energia intelectual era sedutora. Penosamente. "Da liberdade pessoal e do destino inelutável". não? . nas mãos um texto que procurava havia anos. aquele era um problema e tanto. Bem. Mesmo a contragosto. o coxear ficou menos doloroso. O conde trouxera baús cheios de livros embolorados. Que estranho triunvirato de pesquisadores nos tornáramos! Eu não esquecera a morte de meus amigos nas mãos de Silano. aquela perspectiva me empolgava. Um deles era "Da natura diáfana da realidade.

"Da vida eterna. entretanto." Por que isso não funcionara para Moisés? "Do mundo inferior." O Inferno e o Céu? "Do poder de manipular as mentes humanas segundo nossa vontade." "Do poder de conquistar o coração de quem amamos. . e que o conhecimento e o mistério se aprofundem a cada volume. Podeis imaginar tê-los todos?!" "Os faraós acharam que mesmo esse nosso único rolo precisava ser mantido bem oculto"." Seria sucesso de vendas. Aparentemente." Teria Moisés lido aquilo? Não vi nenhum tópico sobre como dividir as águas do mar. aquele era apenas o primeiro de quarenta e dois rolos de texto. dessa Bonaparte ia gostar. no tempo certo.ter conseguido aquele primeiro já quase me matara! Silano. "É assombroso! Estou supondo que este livro seja um sumário. os quais Enoque. quinhentos e trinta e cinco rolos . uma lista de tópicos e postulados. Seriam encontrados apenas pelos justos. "Da eliminação das doenças." Ah. meu mentor egípcio. lembrei." Isso já bastou para me fazer gemer. "Dos quarenta e dois textos sagrados. e do mundo superior. sonhava com novas buscas. o corpo e a alma. em suas diversas formas." "Do poder de fazer o maná cair dos céus."Da união de forças entre a mente. Eu dava graças por não ser particularmente digno disso . e da cura da dor.uma centena para cada dia do ano espalhados pela Terra. afirmara serem apenas uma amostra de trinta e seis mil.

Este rolo de texto irá nos conduzir aos outros.poderão governar e colocar as coisas em ordem. A maior das bibliotecas ficou perdida por cinco milênios. O que temos aqui são mil anos de avanço científico.eu. obrigado a rastejar para voltar a cair nas graças do poder. Desde o fogo e a roda. legados por alguém . um mago ou algum ser excelso de sabe-se lá onde. Todo o progresso humano. E os homens mais sábios . Embora já tivéssemos alguns títulos de capítulo. "Isto é trabalho para universidades inteiras". A feitiçaria e o oculto reconquistariam o que o republicanismo lhe tomara. decidirei tudo com perfeito conhecimento de causa!" Ninguém acusaria Silano de humildade. o conde era um homem movido pela frustração. Ao contrário dos reis e tiranos. ou da Lua . Sua construção era em tudo estranha. o nosso mundo é a culminância de um milhão de idéias compartilhadas e registradas. talvez da Atlântida. advém do conhecimento. adulando democratas que antes haviam sido reles advogados e panfletários. por exemplo . atinar com o texto em si estava se mostrando fatigante. disse eu a Silano. Vamos . Gage.uma divindade. Privado da fortuna pessoal pela revolução. e simplesmente identificar as palavras não esclarecia o sentido."Os faraós eram homens primitivos que não dispunham nem da ciência nem da alquimia modernas.que fundou a civilização e agora é capaz de renová-la. e agora foi redescoberta. "Passaremos o resto de nossas vidas tentando deslindar o texto aqui em Roseta.

foste necessário para que se achasse o livro.. e em geral só penso nas outras criaturas do Senhor quando se trata de caçá-las." "E quanto a mim?" "Estranhamente. como se querendo demonstrar seu argumento.dar o trabalho ao Institut de France ou à Royal Society. Achei que eras tu a temer o mau uso do livro. Durante décadas.." "E a primeira vez que ouço esses charlatães dizerem uma verdade. para sermos dignos da tarefa. uma cigana leu o meu taro e me disse que eu era o Louco. desde longa data. só Tot sabe. o acaso é o alicerce da predeterminação fatalista". ou gatos a que dei valor por pegarem ratos. Acabei fazendo uma pausa rápida em nossa . ou aves cuja plumagem me deslumbrou. apanhá-las em armadilha ou usá-las como montaria ou animal de tiro. Mas houve cães de caça a que me afeiçoei. ele mandou me envenenarem. Não sou o mais bondoso nem o mais contemplativo dos homens. Foi por isso que alimentei o rato. procurando ver se esta ou aquela palavra encadeava-se a outra e se tinham algum sentido esquisitices como "Em vosso mundo." "Certa vez." E naquela noite. Fiquei acordado com o livro até mais tarde que Silano e Astiza. Astiza e eu labutamos muito. estudei as tradições referentes a essas palavras." "És um completo tolo. O porquê disso. Um tolo a procurar tolices. Gage? Deixar um savant comum meter-se com isto é como guardar pólvora em loja de vela.

girar e dar cambalhotas. aquele .varanda. ou ver que Tot usava mesmo frases na acepção moderna do termo. o rolo de texto tremulava. Pisquei. com olhos arregalados de pavor. Embora tenham demorado demais. Sentindo-me sociável naquela noite silenciosa. se conseguisse decifrar onde a frase terminava. Num canto do recinto. ainda que a presença de tais roedores fosse uma das razões para que tivéssemos colocado o livro num cofre. de repente notando como eles pareciam mudar e deslizar. Depois. com as letras borrando-se — eu parecia estar mais cansado do que me dera conta! Mas. Eram tantas opções! Eu me maravilhava com os símbolos. avistei um visitante periódico que já me divertira antes: um rato-espinhoso-do-cairo. "Astiza!".. Agora. Ele espumava. com tomate e cebola.. O rato. assim chamado porque seus pêlos espetam a boca de qualquer predador. e pedi a um ordenança que me trouxesse comida. tentei gritar. tendo a abundância de estrelas no breu úmido e compacto do céu de verão. receita egípcia que consiste em fava cozida e parcialmente macerada. Silano. voltei ao trabalho. produziu apenas um murmúrio. mas minha língua. caíra de lado e tiritava. Empurrei o prato para longe e me levantei. Dei um passo trôpego. veio enfim um prato. inchada. O que acontecia? Olhei para o canto. tão grande quanto uma pequena ratazana americana. que apenas eu ouvi. eu lhe joguei um pouquinho de fui. e tornei a entrar para sentar a nossa mesa e ir beliscando o fui medames.

Mas como Silano explicaria o homicídio a Astiza? Ou pretendia ele assassiná-la também? Não. durante o ano anterior. a qual exalava o odor de lótus e merda. e me carregaram como uma saca de farinha. sem nem mesmo ter certeza do que acontecera a minhas pernas. e o pânico deu algum movi¬mento a meus braços e pernas. Consegui sacudir-me para voltar à superfície e tomar ar. sem curiosamente parecerem muito preocupados com meu poder de recuperação. desamparado como um bebê. Homens entraram na ponta dos pés para me levarem dali. boiando na vertical. Com percepção enevoada. Saímos do forte por um pequeno portão lateral e descemos no rumo do rio e da latrina da guarnição. Os dois aspirantes a carrascos apenas observavam. Não . entretanto. Com um ruído de queda na água. vi o rato morrer. Balançando-me. e bati no chão com tanta força que luzes dançaram diante de meus olhos.desgraçado! Ele concluíra que não precisava mais de mim! Lembrei-me de sua ameaça de envenenamento no Cairo. gemendo os dois com o esforço. mas consciente . Em seguida. submergi. eu me senti caindo. o conde ainda a queria. Ergueramme. Eu estava tonto. Será que queriam que parecesse afogamento? Alas o impacto me despertou um pouco mais. presumiram que eu já estivesse morto. uma lagoinha do grande rio. arremessaram para lá o meu corpo. Para além dele. junto a um córrego.provavelmente porque mal provara da comida. O efeito da pequena dose de veneno já estava passando. Eles.

reconhecendo com abobalhada admiração a engenhosa perfídia daquilo. é um projétil de músculos e consegue entrar na água e sair com espantosa rapidez. nem para entrar na água e me liquidar a golpes de espada ou de machado.. foi até o Nilo para lavar-se ou admirar a noite. Mesmo tonto como eu estava.o crocodilo-do-nilo. e aí o crocodilo saiu da água e (coisa que já acontecera no Egito milhares de vezes) lhe papou. Os canalhas de Silano haviam acorrentado o predador na lagoinha para que ele me despachasse.. Foi então que ouvi um grande espirrar de água atrás de mim. entendi o que tramaram. Os elos agora serpeavam em minha direção.? Meus acompanhantes riram. vinham em minha direção as narinas salientes e os olhos reptilianos da mais asquerosa e medonha de todas as feras . Havia na lagoinha um cais baixo.perceberam que eu não tomara veneno suficiente? Não se mexeram para atirar em mim. Virei-me. Eu já ouvia a história que Silano contaria: o americano usou a latrina.. o livro e a mulher! Eu mal acabara de visualizar esse roteiro desagradável. Talvez eu pudesse nadar de cachorrinho e conseguir socorro. Que diabos. blindado com escamas. da grossura de uma tora. quando o .. e tão insensível quanto uma máquina. Esse pesadelo pré-histórico. E tão antigo quanto os dragões. No escuro. e uma corrente estava se desenrolando com ruído de matraca. Xeque-mate: o conde ficaria com a pedra.

O crocodilo e sua corrente me carregaram para cima. minha cabeça veio à tona. soltando minha perna. os dentes justapostos na longa boca. atingindo-o no céu da boca. ele não era mais capaz de me morder. Enquanto girávamos na água. tirei a machadinha do cinto e acertei o bicho no focinho. abocanhando minha perna sem mastigá-la ainda. as escamas musgosas. o vazio obtuso da expressão do animal . Puxei-me freneticamente para adiante na corrente. logo após as patas dianteiras. . até que cheguei aonde ela formava uma coleira no pescoço do monstro. e o animal tentava virar-se para me morder.por mais que o bicho se retorcia. e tomei fôlego. firme como um torno.animal deu o bote. como se acionadas por mola. Eu me segurei ali com a máxima firmeza . e nos fez rolar. e o choque me impeliu à ação apesar da dor e do veneno.tudo isso se registrou em minha mente. O absoluto horror daquela pegada. nisto. e eu o golpeei de novo. Suas mandíbulas se abriram num átimo. senti sua corrente resvalar em mim. Inconscientemente. Ele me pegou por baixo. e. A lagoa parecia explodir enquanto o crocodilo se contorcia. sem dúvida surpreendendo-o com essa minha picadinha tanto quanto ele me surpreendera. Não ousei deixar que sua boca chegasse perto. eu me agarrei a ela. onde a machadinha se fincou e ficou. Tornamos a mergulhar. ainda que cada mordida sua só pudesse fazer a machadinha enterrar-se dolorosamente mais fundo. seguindo o costume ancestral de afogar a presa.

nadamos no lodo do fundo raso da lagoinha e subimos outra vez. esperando que ele nadasse Nilo acima. Ouvi gritos confusos dos homens que haviam me atirado na lagoinha. larguei a corrente e nadei para lá. e o cheiro do sangue fazia o crocodilo debater-se de maneira ainda mais frenética. Homem nenhum já saiu da água com tanta rapidez . submergimos. Viemos de novo à tona. quando outra arremetida do crocodilo relaxou a tensão nos elos. Minha perna sangrava. Enquanto a fera puxava e sacudia com fúria a corrente.tendo alcançado a estrutura de madeira. levantei a laçada para soltar o animal. Meus captores tinham parado de rir. enrolado na própria corrente. Eu não tinha por onde matá-lo. e a corrente solta zuniu . eu me pus em pé voando. de modo que lhe bati repetidamente nos olhos. e eu me arrastava para subir pelas tábuas inclinadas. Em vez disso. o crocodilo irrompeu com metade do corpo para fora da água. A fera mordeu a madeira. e eu mal conseguia me segurar.Mergulhávamos. Agora. ele se agitava como cavalo chucro. quando nossa agitação nos trouxe para perto do cais. Assim. e veio atrás de mim. O crocodilo se voltou. eu podia ouvir o cais estalar e ranger atrás de nós. partindo tábuas ao meio e grunhindo com a dor que minha machadinha tornava a lhe causar. Seu focinho se chocou com estrondo no cais irregular. O cais começou a afundar rumo ao focinho do bicho. Avistei então a estaca onde tinham enrolado a corrente e.

acompanhavam nossa luta. Se não fosse. o atormentaria com o que ele estava para perder eu pegaria o livro e o jogaria no lugar mais fundo do Mediterrâneo. mas não contra mim. fazendo voar água. De jeito nenhum eu deixaria tudo para Silano. quase o partiu ao meio. Eu não tinha muito tempo.e. O réptil pegou um de meus algozes e. peguei o fuzil e espiei pela porta. com uma centena de homens abrindo todo . parei no portãozinho lateral por onde havíamos saído. O crocodilo irrompera direto por ali e estava no pátio. O homem gritava para alertar a guarnição. Seus olhos angustiados tinham avistado os homens que. o mataria. Eles fugiram aos berros. da margem. Ali. mas fiquei nas sombras. Homens começavam a atirar. Se fosse possível. Com cautela. percebendo que estava livre . Entrei. Eu me agachei quando ela sibilou pertinho de mim. O bicho caiu de novo na lagoa.como um chicote. Ferido pelos dentes do crocodilo. subi o caminho mancando. O crocodilo saiu da água para persegui-los. seguindo o rastro de areia que a cauda do crocodilo varrera ao bater de um lado para outro. arremeteu a toda a velocidade. esgueirando-me pelo perímetro do forte até meus aposentos. de repente. e um canhão disparou dando o alarme. O crocodilo estava ferido. Em seguida. deixou-o cair e foi atrás do outro. com as grandes patas espalmadas ao avançar. direto para o forte. com um furioso fechar de mandíbulas. pingando sangue. Os crocodilos conseguem correr distâncias curtas com a mesma velocidade que um cavalo a galope.

Tive de disparar por sobre todo o comprimento da praça de armas para. através de uma janela aberta. Quando esse homem caiu. fogo!" Cavalos relinchavam desesperadamente. acertando alguém que tentava organizar uma corrente de baldes desde o poço do forte. Mirei. a turma dos baldes se dispersou.o fogo que podiam contra ele. tornei a sair. Foi um dos melhores tiros que já dei. não ficavam longe do paiol. aumentando o caos. e fui para a sala onde haviam me envenenado. Ouvi oficiais gritarem: "O paiol! Jogai água no paiol!" Recarreguei e tornei a atirar. Assim. mais altas. os quais. e os cava¬los relinchavam e saíam em pânico do estábulo. e as chamas começaram a dançar no feno. . pedaços de outro humano já estavam presos em suas mandíbulas colossais. peguei uma das picaretas que estavam usando na construção do forte. Houve mais disparos. por sua vez. derrubar a lanterna sem apagar a mecha. Maldição . mas não a fera: visei uma lanterna nos estábulos do outro lado do pátio. Eu ia pôr fogo no forte. sem saber o que acontecia. mancando. confusa. e nisso os homens começaram a berrar: "Incêndio! Fogo. A lanterna caiu e se quebrou.o livro sumira! Lancei um olhar para fora. segurando o fôlego e puxando o gatilho com dedo firme. pois sentinelas atiravam para todos os lados. No caminho. As chamas disparavam. Uma luz estranha começou a iluminar as escamas e os dentes (semelhantes a sabre) do crocodilo. Ninguém olhava para mim.

isto sim! Silano me envenenou e tentou me dar de comer àquele réptil lá fora! Tu achas que não terias sido a próxima. Não para a ciência.e talvez de ti. disse ela. não para Bonaparte . a mesa vazia onde estivera o livro. o que fizeste?!" "Eu?! O teu ex-namorado. depois que ele tivesse te possuído e se cansado de ti? Ele quer o livro só para si. Há alguma saída desta ratoeira?" "Atrás daquela outra porta.Astiza apareceu correndo. "Não podemos permitir que Alessandro desapareça levando o livro!". os olhos arregalados de perplexidade." Agarrei Astiza. vamos destruir a cifra que o traduz e deixar Silano com um livro inútil." Escutaram-se mais gritos. se não podemos ter o livro." "Pois então. com alguma pólvora. e agora balas começavam a atingir a construção onde estávamos encolhidos. "Estás do meu lado?" "É claro. "Ethan. "Mas então por que é que fomos atrás daquilo? Não teria sido melhor deixar o livro onde estava?" "Por que é que as pessoas querem aprender o que quer que seja? E da nossa natureza!" "Não da minha. Viu minha perna a sangrar.e certamente não para nós. minhas roupas encharcadas." . Bateram a porta e se trancaram lá dentro. o cabelo solto e despenteado. de camisola." "Ele vai esperar e deixar que a guarnição dê cabo de mim . há uma armaria para os oficiais. O livro o levou à loucura!" "Eu o vi correr para a torre de vigia com Bouchard.

enquanto lá fora as chamas. Depois. tu ficas linda sob pressão!" Era uma porta pesada e trancada."Achas que temos como encarar a guarnição inteira?" "Podemos usar a pólvora para abrir um buraco na muralha dos fundos. Tirei dos frascos as tintas experimentais de Silano e usei um pouco delas para besuntar meu rolo de pastel. O tiroteio era agora menos intenso. só o lugar onde se guardavam as armas dos oficiais. Em seguida." Ergui aquele rolo de pastel que eu colocara no bornal para lograr Silano e seus comparsas e sorri de orelha a orelha. lúgubres. No pátio." "Não conseguirás levada! É pesada demais. peguemos a pedra para nós. "Céus. mas atirei uma vez e depois a golpeei com a picareta. Aquilo não era o paiol principal. Pus o fuzil a tiracolo e fui mancando para o recinto onde estava a pedra de Roseta. mas por Tot! . eu o passei sobre a parte superior da pedra de Roseta." Eu sorri. "Benjamin Franklin garante que consigo. A porta cedeu. cobrindo sua .lá estavam dois barris de pólvora. Desarrolhei um deles e deitei um rastilho até o recinto principal. encostei ambos os barris contra a parede que dava para fora do forte. "Agora." O negócio editorial sempre me pareceu uma barafunda. soldados haviam formado uma longa corrente que ia até o rio. projetavam sombras. e os baldes iam sendo passados por sobre o rabo do crocodilo morto. mas Franklin afirmava que era tão lucrativo quanto imprimir dinheiro.

. agora contra o texto grego. Hora de trabalhar! Enquanto Astiza ficava ali de pé. Astiza se contraiu. Ainda assim. mas deixando sem tinta os símbolos ali talhados. Comprimi Astiza outra vez.. "Por favor. pois alguns símbolos se perderam na cavidade da coluna dorsal." Então a beijei. e a empurrei para a pedra. eu investi contra o monumento. com seus trapos contra os seios." "Ethan!" "Eu preciso da tua pele. É que és mais lisa que eu. Não ficara perfeito. e parte dele chegou ao alto das nádegas.superfície com o pigmento. "Desculpa-me. Fiz a mesma coisa com o texto grego. e eu gostei mesmo da maneira que o pano da camisola parecia dilatar-se ao drapejar em suas ancas." "Pelo amor de Ísis . desnuda-te até a cintura.. torcendo para que algum savant não me amaldiçoasse anos depois.. estampara-se ali uma imagem idêntica à da pedra. atônita demais para já ficar brava.?" Segurei sua camisola pelos ombros e puxei. e então o quarto . três. mas para trincá-lo. Foi estranhamente erótico. e o granito começou a fenderse! Mirei pela última vez e usei a picareta com toda a força de que fui capaz. não para desfigurá-lo. dois. rasgando-a pelas costas enquanto Astiza dava um grito agudo.esses homens! É tudo em que consegues pensar numa hora des. "O que estás fazendo?" "Transformando-te em biblioteca.." Eu a puxei e fui olhar. Um golpe de picareta.. mas as mulheres realmente têm costas lindas. Tive de mirar no meio dos hieróglifos.

mas podemos colocá-lo na armaria. desta vez na armaria. Em seguida. "Ajuda-me a arrastar isto. Não dá para levar a pedra inteira. Olhei rapidamente para trás. Homens bradavam e corriam. Um instante depois. uma detonação atroadora que lançou destroços flamejantes para o ar. Isso fará que o livro permaneça inútil enquanto não conseguirmos recuperá-lo!" O fragmento era pesado.superior da pedra de Roseta soltou-se. Primeiro foi a vez do paiol do Fort Julian. Pedaços da pedra de Roseta voaram . e também de lá choveram destroços sobre nós. empurrá-lo e arrastá-lo pelo recinto de entrada até a armaria. houve outro estrondo. gritou ela. calculando que ele ajudaria a direcionar a explosão para a parede. O fragmento caiu no chão com estrondo. mas demos um jeito de puxá-lo." "E depois?" "Explodi-lo ao mesmo tempo que abrimos um buraco na parede. a concussão nos deixou estatelados no chão. olhando para fora. "Ethan!". E então o mundo inteiro explodiu. Eu o calcei contra os barris de pólvora. Astiza estava agachada junto à janela. Mesmo abrigados como estávamos. As chamas se avivavam. eu me retirei. levando consigo toda a escrita de Tot e parte dos hieróglifos. centenas de pés acima de nós. peguei uma vela e acendi o rastilho." "Ficaste completamente louco?!" "Agora temos a cifra no teu corpo. Vamos destruir este pedaço da pedra.

Após termos requisitado sem conhecimento do dono aquela roupa lavada. estava bem enfaixada." Eu sorri. Levando meu fuzil. que. não muito longe do bicho. o lindo torso de Astiza passava a ser o único registro daquele escrito de Tot. .o segredo da vida!" "Pois trata de arranjar capa para este livro.25 - Fugir a passo de carroça de burro não é a maneira mais célere de escapar aos inimigos. haviam pendurado roupa para secar junto a uma carroça de burro. o pérfido Silano talvez presumisse que eu estava na barriga daquele seu réptil gigantesco. A muralha de adobe do forte se rompera. eu tivera de deixar no crocodilo morto. talvez conseguíssemos nos safar. "És um livro. embora latejasse. Não vou zanzar nua pelo Egito. estávamos mais ou menos em trajes egípcios. e escalamos seu entulho para dar nas ruas de Roseta. abrimos caminho em meio à destruição da armaria. e agora minha perna. Minha esperança era de que. Astiza . . No fim da viela. Eu a toquei. por cavalos em disparada e por um paiol detonado. estava num curral. "A tinta já secou.agora." Fui buscar um capote de oficial. pelo menos até que alguém pensasse em abri-la. A machadinha. na confusão causada por um crocodilo alucinado. Com alguma sorte. muito apavorado. mas leva a vantagem de ser tão ridículo que as pessoas não tomam conhecimento.como metralha .

evidenciava-se a atrofia do poder militar otomano. tentando passar pelos barcos de patrulha." "E batalhas criam confusão . O panorama era desolador. Se perdêramos o livro. "Não podemos voltar". ir ao encontro do esquadrão de Smith. começou a fazer-se ouvir um ruído como o de trovão.talvez esta apresente alguma saída para nós. Travavase alguma batalha. ele perdera a possibilidade de continuar a decifrá-lo. O sucesso desse esquema começou a diminuir à medida que o sol se levantou e o dia foi ficando mais quente. "Silano iria nos localizar. disse Astiza. No que deixamos a verde planície aluvial do Nilo para adentrar o deserto vermelho que se estendia até Abukir. só podia ser o troar de canhões. que estava ao largo. os franceses então os bombardearam e depois os . a menos que os turcos vencessem e os franceses se desbaratassem. e regatear com Silano de algum lugar seguro." Deixamos a carroça e o burro ao abrigo de uma duna alta e a subimos para olhar a baía mais além. Com o céu tão límpido. Meu plano era vago: eu pretendia me esgueirar entre os franceses até as linhas otomanas. e isso significava que. todo o exército de Bonaparte estava em nosso caminho. O que lhes faltava era poder de fogo e bom senso tático. Não havia nada de errado com a coragem dos homens do paxá Mustafá. Mais uma vez. Os turcos ficaram esperando como uma lebre paralisada. Era o dia 25 de julho de 1799.Ou então ele poderia concluir que fugíamos pelo Nilo.

Em 1799. mas acabou bombardeada e privada de alimento até render-se. Ao preço de mil baixas. A guarnição do forte que ficava na extremidade da península agüentou teimosamente. tão logo as linhas turcas se romperam. Mais de dois mil dos guerreiros muçulmanos foram ceifados em terra. ainda havia fidalguia. Bonaparte destruíra outro exército otomano. Soubemos depois que Murat em pessoa capturou o comandantechefe turco em feroz combate corpo-a-corpo. disse que fora "uma das batalhas mais lindas que já vi". das quais três quartos eram feridos. Éramos espectadores de um desastre.atacaram com a cavalaria. mas também atravessava a segunda e a terceira. e então decepando alguns dedos do paxá a golpe de espada. Bonaparte usou o próprio lenço para improvisar uma bandagem na mão do homem. Escrevendo ao Diretório (a junta que. sendo atingido no maxilar por um tiro de raspão da pistola de Mustafá. então governava a França revolucionária). e o dobro desse número se afogou ao mergulhar no mar para tentar chegar a seus navios. fazendo que os defensores se esparramassem em pânico para fora de suas trincheiras e as tendas murchassem ao terem as cordas cortadas. Escrevendo a um colega. O resto. ele a . assistindo enquanto uma carga frontal dos cavalarianos de Joachim Murat não apenas rompia a primeira linha otomana. Era exatamente o triunfo de que ele precisava para restaurar sua boa fama após a batalha de Acre. Os corcéis avançavam correndo por todo o comprimento da península de Abukir. foi uma matança. de Paris.

deu mesmo uma sugestão. foi declarado filho de Zeus e Amon? Pois bem." ." E assim Astiza. "Continuar fugindo. elas apresentassem suas próprias idéias. é melhor não perdermos mais tempo. Só não sei para onde. à nossa frente." Acabaríamos ambos mumificados pelo calor e pela sede. Napoleão faria a mesma coisa. atrás de nós. Ambas as qualificações eram verdadeiras. de vez em quando. eu teria procurado um melhor. o que achas que devemos fazer?" Imagino ser lisonjeiro que as mulheres nos façam perguntas desse tipo em meio ao perigo marcial. moça valorosa. um monte de franceses furiosos em Roseta e. Astiza e eu tínhamos. "Se tivéssemos tido tempo. "Ethan. "Eu queria que o nosso burro não parecesse tão famélico e zonzo". "Lembra-te do oásis de Siwah. um exército francês vitorioso a saquear os restos de nossos aliados. Eu fugira das mandíbulas de crocodilo para me ver cercado por militares. Por conseguinte. Napoleão não domina o oásis vamos para lá. onde Alexandre. comentei. O sangue o ressuscitara. mas para onde mais poderíamos ir? Agora.pintou como "uma das mais terríveis". "Isso não fica depois de cem milhas de completo deserto?" "Nesse caso. mas eu não me importaria se. o Grande. Silano certamente nos mataria. acho eu." Engoli em seco.

"Venho tentando salvar-vos da feitiçaria. sem muita convicção. como se eu houvesse ressuscitado após os bíblicos três dias. O conde Silano chegara boquiaberto. general". só posso dar graças a Deus por teres mandado metade do meu forte pelos ares. Ele desarrolhou uma garrafa de Bordeaux.Mas não tinha importância: uma patrulha francesa estava à nossa espera quando descemos da duna. porém. Gage. com a perna mastigada por um crocodilo esfomeado. eu. Sei que teria sido mais corajoso ser insolente e mal-educado. Informes seriam enviados à Franca para descrever com detalhes fulgurantes sua nova vitória. estava agora bem agrilhoado. E eu.. previsivelmente. . Estandartes capturados aos turcos já estavam sendo preparados para embarque e exposição em Paris. não é mesmo?" Bonaparte tomou um gole de vinho.. parte da reserva pessoal que o irmão trouxera da França. "Mas foi só para despistar. respondi. a coisa não parecia nada boa. a amada amarrada.". estava de bom humor naquela noite. Napoleão. o fuzil apreendido e o burro voltando para o legítimo dono. Nada como a vitória para sossegálo. "E estavas tentando fazer isso agora? Com a tua bela víbora do lado?" "Silano procura poderes malignos que vos desencaminharão. estava tentando salvar nossas vidas. Realmente. o irritante moscardo do general. quando colocada naqueles termos." "Então. ensaiei dizer.

" "Vós. ele dizia: "Já estou farto de tentar te matar.Agora." "Imortalidade?!" Bonaparte riu. "Ele ajudará a vós e a todos aqueles que ascenderem convosco." "E o que esse livro nos revelaria exatamente?" "A magia". E o que restou da pedra possibilitará que os savants se concentrem nos hieróglifos. tendes o incentivo!" Napoleão se voltou para mim. Gage. explicou o conde. por exemplo. meu amigo. . "Era a chave para traduzir um livro da Antiguidade?" Por sorte. Talvez ele desvende o resto. Magia é apenas ciência avançada. "É um aborrecimento que tenhas quebrado a pedra. general. Eu sorri para ambos. Gage". A magia e a imortalidade. ainda havia dignidade suficiente para que ninguém tivesse pensado em desnudar Astiza. conde?" Ele passou a garrafa. "Eu também estou farto disso. respondeu Silano." "E quanto àquele pedaço de pedra que destruíste?". "Era. O que deixamos é a lembrança. perguntou Bonaparte. mas Silano já decifrou alguns dos símbolos. Dependendo de quem acabe por vencer aqui no Egito. "Ainda existe isso?" "Poderemos fazer que exista. "Fugir ao destino final?! Eu já sobrevivi quando tantos morreram. ela um dia irá para Paris ou Londres." "Acreditamos que o livro poderá vos ajudar a obter imortalidade de maneira mais literal". e a minha imortalidade não será esquecida. "Então.

Kléber sonha com o comando desde que desembarcamos aqui. Parece que. embora tenhamos alcançado a glória no Egito." "Eu poderia ficar por aí para contar a elas. e fomos expulsos da Alemanha e da Itália." Aquilo parecia muito descaramento. Napoleão já ganhara o que pudera.eu o surpreenderei com uma carta. Tippu Sahib morreu na Índia ao mesmo tempo que éramos rechaçados em Acre. o retorno a Paris. os acontecimentos na Europa vão se desenrolando depressa .e a França está outra vez em perigo. a conquista da Ásia.o poder." Bonaparte enfiou a mão numa pasta de couro e retirou dali um maço de jornais velhos. O Diretório está uma bagunça. e descobríramos o que ele mais queria encontrar . e meu irmão Lucien está em Paris tentando reformar aquela nossa Assembléia imbecil. "Smith me mandou isto como presente quando deixei os turcos recolherem seus feridos. A esquadra britânica logo terá de afrouxar o bloqueio para que possa reabastecer os britânicos em Chipre." "Receio que não. Será assim que poderei regressar à França para endireitar as coisas. Pois agora o terá .Multidões irão veda sem saber que havia um quarto texto. . "A França e a Áustria estão em guerra desde março." Foi então que pude confirmar que ele claramente abandonara um propósito. e adotara outro. O dever me chama. "O dever? E abandonar vossas tropas?" "Para preparar o caminho. de um jeito ou de outro.

representas agora um obstáculo tão perigoso quanto foste útil quando te trouxe para o Egito. Nesta altura. "É uma pena que tenhamos de matar. Só que até os gatos não têm mais que sete vidas. Em algumas coisas. quando se tratava de fugir ao tédio. e um inimigo demasiado capaz. Foi como se ele tivesse lido meus pensamentos. "A guerra e a política impõem necessidades". éramos iguais ." "Au revoir. eu sentia relutante admiração pelo safado tinhoso. O desgraçado estava abandonando os próprios homens pela política parisiense! Mas. Gage". Mas traíste a França pela última vez. verdade seja dita. Ambos também gostáva¬mos de mulheres bonitas. Éramos fatalistas.. sempre atrás da maior chance. já gastaste as tuas. Ethan Gage." "É isso aí o quê?!" "Sinto que estou sendo conduzido a um objetivo desconhecido e que tu. E agora atacaste Roseta. Ele que arranjou o crocodilo." Risco?! O risco estava em ficar com um exército ilhado no Egito. disse. mas lá estavas com a tua eletricidade em Acre. apostadores e sobrevivem tes. interrompeu-me Bonaparte. "Em outras circunstâncias. E de grandes aventuras. assumirei o risco de escapar à esquadra britânica.. mas é isso aí. não?" . Nenhum de nós pretendeu que acabasses com os malditos ingleses.Entrementes. poderíamos ter sido sólidos companheiros. Demonstraste ser um estorvo grande demais." "Só por causa de Silano.oportunistas.

o destino nos aguarda. tendo se desembaraçado de nós. e vossas línguas incharão tanto que tereis . Aos poucos. e já sentíamos sede. "Sabeis que a areia já basta para mumificar um cadáver?" "Quanta erudição. saiu em passo de marcha. de péssimo humor. quando seus capangas terminavam de colocar e bater areia ao redor de nossos corpos. mas só até o pescoço. tanto tempo atrás. Aquela que." "Não. ela atirou foi em mim!" "Pois é. general. Vossa pele fritará e acabará rachando. Um homem honrado teria simplesmente atirado em nós. retruquei. à medida que o sol levantar-se." Assim. Astiza e eu o lográramos o suficiente para que concluísse que merecíamos alguma dor. fitando um ao outro. "Deixarei que Silano seja criativo contigo e com a tua amante. atirou em mim em Alexandria. Tínhamos as mãos atadas às costas. e os pés também amarrados. com a cabeça já no projeto seguinte. Por que será que justamente as malvadas são tão lindas? Bem."Tereis de tirar a prova". "O tormento aumentará devagar. a poeira e a luz refletida induzirão a cegueira. explicou. fomos enterrados após a meia-noite. mas Silano era cientista. e ele tinha curiosidade em usar o ambiente local." E. A areia escaldante sugará qualquer líquido que retiverdes. Estávamos sem chapéu. e enlouquecereis gradualmente. "O que me agrada nisto é que podeis olhar um para o outro enquanto queimam e choram".

que o rei persa Cambises perdeu um exército inteiro numa tempestade de areia?" "Eu não diria que estou muito interessado. Estudo a tortura há muitos anos." "Pareces entender um bocado do assunto. Não é fácil fazer que um homem sinta dor excruciante e." Silano se inclinou e me deu tapinhas amigáveis no alto da cabeça. Gage." "Sou naturalista." "Nunca amaste ninguém que não fosse tu mesmo. o interessante é que o corpo abaixo do pescoço assará até ficar seco e preservado. que nos dá muito prazer quando entendemos seus refinamentos. intrometendo-me na conversa. como se eu fosse uma criança ou um cão. rezareis para que as serpentes ou os escorpiões venham apressar as coisas. Tu sabias. No presente caso. Os abutres torcerão para pegarvos antes que sejais comidos por completo. disse eu. ao mesmo tempo." Voltou-se para Astiza. É uma ciência requintada. "Tu sabes que te amei. "Escorpião gosta de ir direto para os olhos. . cujos cabelos negros pareciam um leque aberto sobre a areia. e formiga sobe pelas narinas para alimentar-se. Mas o que causa mais dor são as serpentes. se mantenha coerente o bastante para nos revelar algo de útil." "Eu estudo a história para não repeti-la." "Benjamin Franklin disse que o homem que ama a si mesmo não terá rivais no amor".dificuldade para respirar. Aí. Suponho que tenha sido com base nesse processo natural que os antigos egípcios tiveram a idéia da mumificação.

Gage? Quantos avisos e advertências? E ainda assim me traíste. Não conseguíamos ver o rosto dele. e o general não é do tipo que fica esperando." "Mas acreditarás." E eu imploraria mesmo. aquele monsieur Franklin." E aí nos deixaram. eu os deixo para que possam olhar um para o outro — e virar múmias. baixinho: "Tu mereces. "E." Ele riu. sim. E então Silano disse. depois que me deres um bom susto. muitas e muitas vezes. não? Até lá. Fez-se um longo silêncio. gritou Astiza. quando eu for atrás de ti."Ah. Creio que não tornaremos a nos encontrar. talvez joguemos um carteado." "Eu gostaria de ver-te implorar antes que o teu fim chegasse. para que fritássemos. "Mas receio que o destino também esteja me chamando." "Acreditas em fantasmas. se achasse que poderia adiantar alguma coisa. Voltarei com Bonaparte para a França. Gage." "Nem imagino o porquê disso. Também não é seguro afastar-se do corpo principal do exército. para que eu possa encostar-vos num canto como fizemos com o nosso amigo Omar?" "Alessandro. Silano?" "Acho que o meu interesse pelo sobrenatural não se estende à superstição. Partiste o meu coração. . Quem sabe não mando alguém vir escavar-vos daqui a algumas semanas. tão divertido! Eu por certo fui mais fiel a mim mesmo do que qualquer um de vós foi a mim! Quantas oportunidades de parceria eu te dei. não merecemos isto!". onde posso estudar mais profundamente o livro.

que refletia a luz. "Vamos acabar apagando. socorrei-nos! Chamai nossos amigos!" Ísis não respondeu. Sentia picadas agudas. o sol do verão egípcio nos martela a moleira. Mas depois. não doerá mais". e eu para o sul. O deserto é gelado à noite. a temperatura começou a subir. ela voltada para o norte. e. estávamos montados. Embora cada polegada de pele sentisse o calor crescente. Mesmo nas melhores circunstâncias. sem convicção. ao contrário. Agora. Minha orelha começou a queimar. Mas a dor. Minha cabeça logo latejava. Ethan". e esse meu amigo mameluco sabia achar água. eu me sentia como a bigorna de Jericó. A areia ficou mais quente. eu não podia me sacudir nem me abanar. disse eu. como mordidas. e ponto". de modo que nossas bochechas grelhassem por igual entre a alvorada e o crepúsculo. "Estou com medo. aumentou. Ouvi os primeiros sussurros de inseto. pelo menos. e a língua inchou. lembrei-me da fuga que.Astiza e eu nos encarávamos. Com indesejada nitidez. um ano antes. Daquela vez. sendo acentuada pela areia. murmurou Astiza. Astiza gemia baixinho. Ashraf e eu havíamos empreendido para o deserto. garanti-lhe. "Depois de um tempo. durante os primeiros minutos depois que o sol surgiu no horizonte. mas não tinha como . a calidez não foi desagradável. "Ísis. quando o céu perdeu o rosado para ganhar a cor leitosa do verão. a uns dez palmos de mim.

ardendo nos olhos. Meus dentes fritavam nas gengivas. O cérebro tem um jeito de fazer o pavor ampliar o medo. Meu queixo pegava fogo. "São como uma centena de abelhas de uma vez só". e a cabeça de Astiza se assemelhava mais a um ponto pequeno e distante do que a alguém reconhecível. Não. mas depois ficou silenciosa. e gemi por dentro. A temperatura subia sem parar. "Não. o calor aumentou. Será que já mencionei que a jogatina é um vício? O suor já me deixara meio cego. A vista se turvava com a luz forte e ofuscante. como na Cidade dos Espíritos. porém. contara um deles. Era preta. E então vi uma coisa passar rápido ao lado. mas logo secou. Astiza chorou por um tempo. não . em grandes ondas tremeluzentes. Já seria pelo menos meio-dia? Achei que não.é como segurar carvão em brasa contra a pele!". Soldados tinham me dito que as picadas de escorpião eram especialmente dolorosas. "Parece mais é . aquele lento resvalar para a inconsciência e a morte. Escutei o eco desfalecido de um estrondo. ficando o sal. O deserto. Estariam os combates recomeçando? Aquilo talvez fosse prenúncio de chuva. Minhas pálpebras já inchavam a ponto de fechar-se. Minha cabeça inteira parecia estar inchando. queria punir-me. E aguardava que me acontecesse o mesmo. afirmara outro.saber se algo já estava me comendo ou se era apenas o calor a roer minhas percepções. Rezei para que ela houvesse desfalecido.

. Uma bota empoeirada esmagara a criatura. Digo uma coisa . "Ou martelada no dedo!" Mais movimentos rápidos. afigurava-se um monstro. Eles se aproximavam de nós e então recuavam. Prometi a mim mesmo que faria toda a força para não berrar. sugerira outro ainda. como se mirando. O ribombar ia ficando mais alto. americano?" .. que. Será que não aprendes nada. "Pelas barbas do Profeta.faz um calor danado quando se fica parado no deserto! E cá estais vós dois. Ethan?!" "Ashraf?" Minha voz era um murmúrio de perplexidade. e ouvi uma voz conhecida. E aí. em situação ainda pior do que aquela em que nos separamos no verão passado. Ele parecia contemplar-me com o calculismo frio. Não ouvi nenhuma troca de sinais. será que nunca consegues cuidar de ti mesmo. tão descomunal quanto o crocodilo do Fort Julian quando visto daquela perspectiva. A bota pisou e repisou. Nutri a esperança de que o ataque deles não despertasse Astiza. como lobos. Pum! Contorci-me o máximo que minha prisão permitia. A cauda. erguida. fazendo que o escorpião triturado se misturasse à areia. fez um movimento brusco. obtuso e instintivo de seu minúsculo cérebro. a meus olhos devastados. Agora se aproximava um escorpião. mas pareciam juntar-se em bandos.ácido no olho!". Outro escorpião. "Eu vinha esperando que vossos algozes se afastassem o suficiente.

Ele tornara a nos salvar numa margem do rio. Tínhamos a cabeça vermelha e coberta de bolhas. dera-nos um cavalo e então se despedira. até um acampamento secreto de . Lembro apenas vagamente o que aconteceu em seguida. Dormimos sob um arremedo de tenda num oásis. os olhos não mais que ranhuras. e fomos amarrados em seu dorso. consegui dizer. E agora ele reaparecia?! Tot estava mesmo em ação. A água.Aquilo era mesmo possível?! O mameluco Ashraf fora primeiro meu prisioneiro e depois meu camarada. primeiro para o sul e o oeste. incapazes de cuidar de nós mesmos. quando fugimos do Cairo e fomos resgatar Astiza." "Amém". "Eu venho te seguindo há dias. E os teus amigos francos ainda resolveram enterrar-te vivo? Precisas de companhias melhores. para juntar-se às forças de resistência do bei Murad. acabamos sendo amarrados de novo ao camelo e conduzidos ainda mais profundamente no deserto. E ouvi o bendito raspar de uma pá. Depois seguimos montados rumo ao pôr-do-sol. dolorosamente úmida quando a sugamos para nossas gargantas inchadas. Ethan. os lábios rachados. o que explicava o ruído que eu ouvira. Estávamos indefesos. primeiro até Roseta e depois na volta de lá. Assim. depois para o leste. recuperando os sentidos. escavando-me. Não entendo por que estavas disfarçado de felá numa carroça de burro. Um camelo se ajoelhou. Uma aglomeração de mamelucos bem armados.

e avistei a vós dois na carroça de burro. Se subíssemos ao topo de uma duna próxima. o bei Ibrahim informou que o conde Silano rumara por terra para o norte e sumira em algum lugar da Síria. Depois. "Primeiro. mas eu sabia que desapareceras e fiquei desconfiado. respondeu. perguntei a Ashraf. soubemos que um ferreiro estava fazendo indagações sobre Astiza lá da longínqua Jerusalém". vimos chamas em Roseta. Assim. Então achei que te juntaras aos ingleses e ordenei que procurassem por ti na força de invasão otomana." "Não se fizeres o que desconfio que precisas fazer. "Como conseguiste nos achar?". O tempo ainda transcorria de modo indistinto." "E estou sempre em dívida para contigo. mas a cavalaria francesa estava demasiado perto." "E o que seria isso?" . Mulheres passaram ungüento em nossa pele queimada. O Cairo estava além. sim. e a alimentação fez que lentamente nos restabelecêssemos. "Era uma notícia estranha. E. O que podia estar acontecendo? Napoleão foi repelido em Acre. Ele já me relatara as escaramuças e batalhas com que vinha desgastando as forças francesas. meu amigo americano. esperei até que tivessem vos enterrado e os franceses tivessem se afastado. mas não voltaste para o Cairo com ele. Estou sempre tendo de salvar-te. invisível.Murad. poderíamos discernir a ponta das pirâmides.

partira com Monge. mas há jeito de fazer os sinais permanecerem lá por mais tempo." A hena é uma tintura que se usa para enfeitar as árabes com intricados arabescos castanhos. para decifrarmos o que Silano roubou. informando-o de que este agora estava no comando (preferira não encarar pessoalmente o general). as costas de Astiza estavam ainda mais estranhamente belas. "Se não é. "Será que esse livro é mesmo para ser lido?". Bonaparte. Berthollet e alguns outros savants como Silano e navegara bem . de detê-los na França. Quando terminaram. como tatuagens efêmeras. dois dias após Napoleão Bonaparte e Alessandro Silano terem feito o mesmo. e deixado recado para Kleber. depois de ter dado um tapinha no traseiro da amante Pauline Fourès. respondeu Astiza. O que são eles?" "Uma escrita antiga."Acaba de chegar a notícia de que Napoleão zarpou e levou consigo o conde Silano. Tanto para ele quanto para nós.26 - Ustiza e eu desembarcamos no litoral sul da França em 11 de outubro de 1799." . Ethan. a viagem fora longa." "A tinta está descascando. As criadas me disseram dos misteriosos sinais nas costas da tua dama. então o segredo dele morrerá comigo". despedindo-se assim dela. "Sou a chave de Roseta. Terás. Mandei as mulheres prepararem hena. perguntou Ashraf quando nos preparávamos para partir.

eu teria ficado satisfeito em deixar Napoleão ir-se embora. em Paris. Encorajados por Smith. Enquanto Bonaparte seguia vagarosamente para casa. Entretanto. fizemos rapidamente o caminho de volta. mesmo do alto do mastro. Caso Silano não o houvesse acompanhado. Já estávamos ao largo da Córsega e de Toulon duas semanas antes da chegada de Napoleão à França e. um barcopatrulha trouxe a informação de que ele descera primeiro na terra natal. Não era obrigação minha perseguir . embarcamos numa fragata britânica uma semana após Bonaparte ter deixado o Egito e. partimos diretamente para a França. Quando fomos em seu encalço. ferviam em banho-maria conspirações e contraconspirações. O trajeto escolhido fez que uma viagem de rotina tomasse quarenta e dois tediosos dias. Quão perto estivemos de Napoleão. isso eu não sei. a Córsega.próximo ao litoral norte-africano. o homem já estava muito à nossa frente. Por fim. a fim de interceptá-lo. a política francesa ficava mais caótica à medida que. avistam-se apenas algumas milhas quadradas de mar. Nossa viagem também foi demorada. descobrindo que não havia notícias dele por lá. O percurso dele para o norte foi marcado por multidões a aclamá-lo. Era o ambiente perfeito para um general ambicioso. e a notícia da arrasadora vitória de Napoleão em Abukir chegou à capital três dias antes. mas por motivo diferente. para evitar a Marinha britânica. de freqüentes calmarias. e depois na França. e o Mediterrâneo é bem grande. A lentidão o salvou.

sua pele recuperou o viço. lendo em nossa cabine ou olhando da amurada o mar brilhante. como marido e mulher. Só que gostei. Adorava como as roupas lhe caíam em dobras . Admirava-me com o fato de que eu. eu me enlevava. Decerto já fôramos parceiros na aventura . o tempo que ela tomou não foi. fugas cheias de perigo. às vezes com gentil cuidado. compartilhávamos a cabine de um capitãotenente (nossa intimidade causava certa inveja entre os solitários oficiais e praças) e tínhamos tempo de nos conhecer com vagar. claro. o lustro. melhor ainda era despi-la lentamente. Agora. caças ao tesouro. quando nos uníamos em nosso apertado alojamento. Com o descanso e a alimentação. às vezes com pressa. e o livro era perigoso nas mãos dele e potencialmente útil nas nossas. Em outras palavras. éramos também amigos. Mas tínhamos contas a acertar com o conde. Astiza se encorpou. o .e. Eu adorava simplesmente olhar para ela.e amantes. Agora. Astiza e eu raramente tivéramos oportunidade de respirar juntos: havia sempre campanhas militares. Mas nossas provações a tornaram mais triste. Quanto Silano já saberia? Quanto poderíamos decifrar com a chave de Astiza? Se nossa caçada por mar foi aflitiva e desanimadora. procurando fazer silêncio naquele navio de paredes finas. E. e seus cabelos. Adorava como seus cabelos se esvoaçavam à brisa. tempo suficiente para apavorar qualquer homem que visse a intimidade com um pé atrás. e sua beleza se afigurava agridoce.insistentemente generais ambiciosos.

. nos déssemos. . Naturalmente. Comecei a antever uma vida normal." Assim. protegendo-a com o manto. porém. não pudemos aportar no cais de Toulon. já sendo capazes de saber o que o outro pensava. "Ethan. eu perdia o vínculo com Astiza.. Era aí que eu temia perdê-la outra vez.. desembarcamos na França. Algumas vezes. Como conhecia ela o litoral da França? Numa noite sem luar.. a cada ano. enxergando coisas sombrias no passado ou no futuro. e ela. cercada por encostas íngremes e habitada apenas por um ou outro pastor de cabras. Silano vivendo para sempre e. Por fim. disse dos arbustos uma voz familiar. pensa nisto: Bonaparte com o poder de Moisés. Eu quis que pudéssemos navegar para sempre . "Aquele que descobriu o Louco. e seu olhar era de preocupação. Astiza conferenciou com o comandante da fragata. Nossa missão não estará concluída até que recuperemos aquele livro. dominando mais fórmulas arcanas e arrebanhando mais seguidores... e Astiza acendeu uma vela. estudou as cartas náuticas e. insistentemente. "E não é que voltou o tolo?". a egípcia mística. Mas realmente nos complementávamos.americano oportunista e inconstante. O destino a exigia tanto quanto eu. A França com o conhecimento secreto dos templários.e não achar Napoleão de jeito nenhum. indicou-nos uma angra obscura. trouxeram-nos num barco a remo para uma praia de seixos e nos deixaram sozinhos ali. ouviu-se um assobio.

pai de todo o pensamento. fato mais aprazível. disse Stefan. "Pelas cartas do taro. Fiquei agradavelmente espantado com o reencontro. morenos. encerrado num carroção cigano. a bela Sarylla. E agora. "Ora. Fora uma maneira agradável de completar a viagem para Toulon. originador da civilização. bênção e maldição dos reis. tendo na cintura faixas de cores vivas onde se viam facas prateadas. de botas e chapéu largo. que supostamente descendiam dos antigos). a salvo daqueles que estavam atrás de meu medalhão sagrado. O líder deles fez uma reverência. Depois que Najac e seus ratos de sarjeta nos emboscaram na diligência para Toulon. disse ser eu o tolo a procurar o Louco (outro nome de Tot) e me instruiu nas técnicas amorosas da Antiguidade. Eu conhecera aqueles roma. no ano anterior. eu escapara para as matas e achara refúgio com o bando de Stefan. esperando por ti. como alguns europeus chamavam aqueles andarilhos. "Bem-vindo de volta ao roma". o que fazes aqui?!". que leu minha sorte. é claro. eis que meus salvadores ciganos estavam ali outra vez. ou ciganos (ou ainda "egípcios"." . Foi lá que conheci Sidney Smith e. tal qual um coelho a despontar da toca. o cigano. quando eu e meu amigo Talma fugíramos de Paris para nos juntarmos à expedição de Napoleão." Surgiram homens. perguntei.

Mas os roma têm talento para pegar as coisas emprestadas. o que não fora a mais amena das apresentações. Precisais separar Bonaparte do livro e salvaguardar o texto. devemos nos apressar."Eu já mandara avisá-los por um cúter inglês". Coisas momentosas estão para acontecer. Eu serei. Tomara que o vosso dure cinco milênios .ou mais. "A viagem do general para Paris vem sendo uma marcha triunfal. explicou Astiza. Não tinham aqueles mesmos ciganos avisado com antecedência do medalhão e de minha chegada ao Egito? Coisa que quase fizera minha cabeça ser estourada pelo antigo senhor de Astiza. O esconderijo templário durou quase cinco séculos. viajamos para Toulon a passo de tartaruga. e a notícia das mais recentes vitórias no Egito já chegara antes dele". Basta uma ajudinha de Alessandro Silano para que ele alcance tudo o que deseja. mas apressar-se é a última coisa que pensei que os ciganos fossem capazes de fazer." "É verdade. Ah. e esses teus cavalinhos não conseguem puxar os carroções muito mais depressa. "Bonaparte chegou antes de vós dois. Faremos de conta que tu sejas algum deputado. Os homens têm esperança de que o conquistador do Egito possa ser o salvador da França. estou encantado e espantado em ver-te. . Se bem te lembras. Acharemos uma carruagem e duas parelhas rápidas e te conduziremos como um raio a Paris. disse Stefan." "Stefan." "É. e o desejo é algo perigoso." "Primeiro temos de alcançar Bonaparte.

Astiza. entoou Sarylla quando virou a carta do Carro." "Mas nem sequer estamos legalmente na França!." "Eles já não te matarão de qualquer jeito?" "Bem.digamos. e o André aqui. porém.." "A primeira coisa que fazemos ao voltar para a França é furtar uma carruagem e quatro cavalos?!" "Se te comportares como se os merecesses. "Não teremos problema em requisitar uma carruagem para teus propósitos." "Pois então? Mas vamos. isso lá é verdade.. Eu gosto do taro . com que carinho eu me recordava de seus ganidos!) permanecia tão linda quanto dela me lembrava.." "Estás vendo?". não parecerá furto. ficou calada e sentada junto a mim enquanto a cigana manejava as cartas de taro. e as duas se eriçaram silenciosamente. .ele consegue nos dizer qualquer coisa que queiramos ouvir. E continuo acusado de matar uma prostituta.." A cartomante cigana que me mostrara mais que meu futuro (Céus. Perguntaremos a Sarylla o que fazer. com os anéis a reluzir nos dedos e os brincos de argola a refletir a luz do fogo. Carlo será teu lacaio. como gatas desconfiadas. à maneira das mulheres. um capitão de polícia. e tua dama será tua senhora. "A sorte vos apressa". morena e misteriosa. Eu não estava de todo satisfeito em topar com uma ex-amante tendo Astiza a tiracolo. teu cocheiro. disse Stefan. contente. Meus inimigos poderiam usar o furto contra mim.

" Astiza pegou minha mão e sorriu." Lá estava a tal rivalidade. "Não tens escolha." Outra mulher? "E ainda teremos êxito?" Ela virou mais cartas. Grande perigo." Mais uma carta. "És apostador. Sarylla olhou para nós. "Há perigo para a tua nova dama." Outra carta. "Qualquer que seja o desfecho. Vi a Torre. Outra carta. será por um triz. Ethan Gage. Para o Mago? O Louco? O Imperador? Os Enamorados? Vosso caminho é perigoso. "Espera para ver quem é o quê. "Mas conhecerás uma mulher em circunstâncias de muita pressa. e acho que alguma coisa ainda mais pro¬funda que isso .o pesar." Sarylla olhou para nós com aqueles seus olhos escuros e grandes. Teu trajeto irá se tornar tortuoso. "Então está tudo dentro da normalidade. o Louco e o Imperador." Fitou as cartas e depois Astiza. não?" "Quando preciso. O Mundo. Sarylla virou outra carta." Fiz careta." Ela balançou negativamente a cabeça.Sarylla virou mais cartas. "Encontrareis estranhos aliados e estranhos inimigos. "Não sei para quem seria esta carta. o Mago. E talvez eu também devesse assassinar Bonaparte. A Morte. Os Enamorados." . "Precisais trabalhar juntos. com certeza. Nada mais. "O que queres dizer?" "Só o que as cartas dizem. A Roda da Fortuna. desconcertada." "Mas pelo menos será factível a tarefa?" A Morte era para Silano.

"Talvez haja luta". Ainda não é tarde demais para sinalizarmos para eles. Temi muito pela mulher a meu lado. o poder dele tinha algo de lúgubre. por mais que eu pudesse fazer pouco do taro. "O verdadeiro perigo para nós é o tempo. disse eu a Astiza. e então meneou a cabeça." Sarylla pareceu solidária e deu a Astiza a carta da Estrela. discordando. nós nos esgueiramos até a casa de um magistrado. "Tenho minha própria magia. um savant." Astiza se mostrou surpresa . Precisamos nos apressar. puxando o manto em torno de si. É para meditação e esclarecimento. Caso a primeira leitura que Sarylla fizera de minha sorte não tivesse se mostrado verdadeira. "Podes me esperar no navio inglês." Assim." Astiza ponderou as cartas e a cigana por algum tempo. a qual já alcançava o sul. fiquei embasbacado com o exuberante verde-dourado da região campestre. e já chegamos até aqui". "E convosco. Os campos estavam repletos de montes amarelos de feno. "Guardai isto. eu não teria dado atenção àquela nova. minha senhora. rotundas e gordas.e comovida.Isso me deixou aflito. tomamos "emprestados" a carruagem e os cavalos dele e partimos para Paris. Que a fé esteja convosco. Afinal. disse ela. As . Depois da estada no Egito e na Síria. Entretanto. desacostumada que estava com a friagem européia de outubro. As derradeiras uvas. sou um homem à moda de Franklin. pendiam das parreiras.

essas raparigas davam a impressão de estar seminuas. como se fôssemos mesmo importantes representantes da República. Até as moças de fazenda pareciam suculentas. Astiza?" Ela se mostrava mais preocupada com os céus enevoados. com. acrescentou sua esposa. os seios lembrando melões. de aspecto já gasto. que tudo cobriam. respondeu. olhos cinzentos e fogosos. de fermentado. Passamos várias vezes por localidades ornamentadas com bandeirolas nas três cores nacionais. disse um taberneiro. Tudo aquilo era prova da passagem de Napoleão. os quadris um alegre tonel. as panturrilhas tingidas pelo sumo das uvas. "Não é bonito. "Não estou vendo". "Cachos negros. as árvores a formar pérgulas indóceis por sobre as estradas. "Um verdadeiro galo!" "Bonito como o diabo".frutas remanescentes conferiam ao ar uma fragrância de maduro. Carroções sobrecarregados com as hortaliças do outono nos abriam passagem quando os homens de Stefan gritavam ordens e estalavam o chicote. mais pétalas secas nos caminhos e garrafas de vinho vazias e jogadas nas valas. Dizem que ele conquistou metade da Ásia!" "Dizem também que o tesouro dos antigos está chegando logo depois dele!" "Assim como seus bravos soldados!" . "O pequeno general?". as folhas a girar no chão. Seus lábios eram rubros e cheios pelas ameixas que chupavam. após as roupas do deserto.

com Paris a poucas horas de distância. De olhar frenético. tal qual as pernas de dois de nossos cavalos. Nossa carruagem se inclinou. À medida que íamos para o norte. E assim tropeliávamos adiante no anoitecer do quarto dia.Seguíamos viagem noite adentro e nos levantávamos antes do amanhecer. A carruagem chispava. agora. que relinchavam desesperadamente. Os ciganos pularam para longe. via-se uma mulher extraordinariamente elegante (suas roupas teriam custado o suficiente para levar um banqueiro à ruína). Os cavalos fumegavam quando parávamos para que bebessem água. dava para o alto. O eixo da frente se quebrara. capotando lentamente. Astiza e eu caímos para um dos lados. derrubando-se mutuamente. Cavalarianos que escoltavam quem quer que fosse com que colidíramos haviam desmontado e estavam indo de pistola na mão sacrificar os animais feridos e soltar os outros. mas o trajeto para Paris toma vários dias. o céu ficava mais cinza. "Imbecis!". Os animais relincharam e foram de encontro uns aos outros. saímos nos erguendo pela porta que. desfazendo o tapete de folhas caídas na estrada. e o outono avançava. "O meu marido pode mandar fuzilar-vos!" Trêmulos. quando outra bela carruagem com bons cavalos surgiu repentinamente de uma vereda à esquerda e deu uma guinada bem à frente de nós. equilibrou-se sobre duas rodas e então derrapou para uma vala. Berrando conosco da janela de sua carruagem. tinha a . gritou uma mulher.

Pressenti que estar com a razão não seria de muita valia naquele momento. muito embora a culpa tivesse sido da carruagem da mulher. "Afastai vossos cavalos dos meus!" "Mas foste tu que atravessaste nosso caminho!". propondo uma oferta fajuta de ressarcimento posterior. (Bonaparte. era imposta a todos os que chegavam do Oriente. para evitar epidemias. retrucou Astiza. com evidente sotaque. e perguntas seriam feitas. aliás. Dispararam-se dois tiros de pistola. sendo até onde sabia ainda procurado por homicídio e não tendo sequer cumprido a quarentena que. com voz aguda e histérica. Nossos ciganos haviam sensatamente se escondido na mata. mas não a reconheci de imediato. lá estavam soldados. "És tão mal-educada quanto incompetente!" "Devagar". Eu era um americano que voltava ilegalmente para a França. alertando-a. "Meus assuntos são de suprema importância para o Estado!".altivez dos parisienses. rebateu a outra. só para tirar a megera de nosso caminho. e aí os cavalarianos se voltaram para nós com as mãos no punho da espada. gritou a estranha. silenciando os relinchos mais excruciantes.) Agora. "Por acaso sabes quem sou? Posso mandar prender-te!" Avancei para evitar uma briga de mulher. também não se submetera a ela. em pânico. "Ela está com soldados. . "E és tão insolente quanto desastrada!"." Era tarde demais. disse eu.

isto é uma catástrofe! Pegamos o caminho errado. Agora ele já deve estar em casa. se eu conseguir achá-lo! Ah. apontei. quando . foi só um acidente". "Mas Paris fica para lá". Sou antes de tudo um galante. e o fato de não me encontrar lá vai apenas confirmar o pior!" "Pior como?" "Que sou infiel!" E ela irrompeu em lágrimas. e o choro desarma qualquer cavalheiro. sorrindo com meu encanto afável de sempre. vais para onde?" "Para onde estiver meu marido. argumentei. e acabei perdendo a oportunidade de encontrá-lo na estrada. "Mais um minuto. madame. Foi aí que reconheci seus traços. e pegamos aquele caminho para dar a volta e retornar. Agora. cochichei para Astiza. "Eu queria vir ao encontro de meu marido! Só que ele se adiantou a nós. respondereis por isso!" Eu achava que a guilhotina houvesse liquidado esse tipo de arrogância. Se vós me atrasastes demais. e já iremos embora. Era ninguém menos que Josefina. "Na véspera da Batalha das Pirâmides. A propósito."Por favor. os irmãos vão chegar a ele primeiro e contar mentiras sobre mim. mas aparentemente ela não cuidara de todos os casos. "É a mulher de Bonaparte". um tanto famosos nos círculos sociais parisienses cuja periferia eu freqüentara. a esposa de Napoleão! O que diabos ela fazia numa estrada sombria quando a noite já caía? E é claro que as lágrimas despertaram compaixão.

lábios carnudos." "Como é?!" Eu agora via que se tratava de uma mulher pequena. conhecemos vosso esposo. pretende traí-lo.soube que ela o traía. nariz retilíneo. Tinha tez cálida. Os cabelos eram escuros. Era esbelta. "Foi uma surpresa tão grande! Não tivemos nenhum aviso de que ele estava vindo. Ele poderia colocá-la diante do pelotão de fuzilamento." "Ele enfeitiçou Napoleão e vem tentando voltá-lo contra vós. grandes e. . A senhora e vosso esposo tentam a reconciliação?" Josefina. baixou a cabeça. olhos agradavelmente escuros. Alessandro Silano. Nós mesmos estamos correndo para avisá-lo de um perigo terrível. e as orelhas. com os olhos marejados. mesmo no desespero. "Como é que podeis conhecê-lo?" "Servimos com Bonaparte no Egito." "Vós o conheceis?! Que perigo? Um atentado?" "Um acompanhante. mas a pele estava manchada de rubro pelo choro." Astiza ponderou o assunto e então se moveu rápido até a porta da carrua¬gem. não sendo nem feia nem particularmente bonita." "O conde Silano? Eu soube que ele está vindo com meu marido. o general quase ficou louco." "É por isso que ela está apavorada?" "Nós dois sabemos como Bonaparte é volúvel. Consta que é confidente e conselheiro. belamente esculpidas. Mas podemos ajudar. "Madame. inteligentes.

mas é imperativo que cheguemos a vosso esposo. não achais?". disse-lhe. Ela poderá descobrir onde está o Livro de Tot quando tiver relações com o marido. Mas esses idiotas pegaram o caminho errado!" Ela se inclinou para fora da janela e agarrou Astiza pelos braços. chamando-nos. aí. "O que estás fazendo?".Saí correndo da casa de meu amigo mais querido para encontrá-lo. "Ele estará rodeado de soldados. "Os deuses?!" Puxei minha companheira para trás. De que outro modo teremos acesso a ele a não ser pela esposa? Josefina não tem sido fiel. poderemos auxiliar na vossa reconciliação. "Precisais dizer a ele que. apesar de tudo. ou coisa assim. Creio que podemos nos ajudar mutuamente. o que significa que ela se aliará a qualquer um que lhe convenha. entre dentes. poderemos surrupiar o livro!" "O que estais cochichando aí?" perguntou Josefina. "Madame. "Eis a chave para chegarmos a Bonaparte!". Isso quer dizer que precisamos trazê-la para o nosso lado. naquele momento em que os homens perdem o pouco juízo que têm . nossa carruagem está destruída. respondeu Astiza num sussurro." "Como?" . Astiza sorriu. disse Astiza.e. eu ainda o amo! Se ele se divorciar de mim. perderei tudo! Meus filhos ficarão na miséria! Eu tenho lá culpa se ele some por meses e anos?!" "Pois então os deuses devem ter providenciado este acidente. Se nos fizerdes o favor de deixar que sigamos caminho convosco.

Por outro lado..os jacobinos. e pegamos a dela para Paris. menti. Assim. que se mostrava ansiosa por qualquer ajuda. conspirando pela volta do trono. Era uma aposta que tínhamos de fazer. Temos a chave para um livro sagrado que poderá proporcionar grande poder a Napoleão. Assim. disse que os maçons estavam por trás da revolução . chegaremos a Paris ao amanhecer. largamos os destroços de nossa carruagem roubada. "Se seguirmos viagem. os jacobinos vivem dizendo que os maçons são na realidade monarquistas. "O padre Barruel. Josefina concordou. eu vejo que o futuro está com vosso marido".". ou vos porei para fora". e a indubitável fúria dele ante seus hábitos adúlteros. advertiu Josefina. forçando a vista. "Livro sagrado?" "Do Egito"." "Maçom?" Ela me olhou com desconfiança. todos eles."Meu companheiro é um sábio maçom." De modo um tanto surpreendente. "Que tipo de poder?" . deveis contar-me o que sabes. "Descobri um livro que transmite grandes poderes. Tão aturdida estava com o reaparecimento de Napoleão. Josefina ficou interessada em pesar os prós e contras.. naquele famoso livro. não importando quão inverossímil. com metade dos cavalos sacrificados e os ciganos escondidos. respondeu Astiza. não passariam de um complô maçom. que maçons sois vós?" "Madame. "Agora. no Journal des Hommes Libres. principiei.

conseguireis voltar aos aposentos de vosso esposo. "Parece a escrita de Satanás!" "Ou de Deus. "O conde Silano roubou esse livro e se grudou a Bonaparte como uma sanguessuga.. O tecido se abriu. se vencermos. exaurindo-lhe o espírito."O poder de convencer. talvez eterna." Josefina refletiu. Ela crescera na Martinica. O que sabíamos sobre Josefina? O tipo de mexerico de que Paris se nutria. "Que cifra é essa?" "A chave para um idioma estranho e antigo. homenagem às vitórias dele na campanha da Itália. De ter vida inaturalmente longa. sem aliados e sem armas.. A francesa ficou boquiaberta. com vossa influência. na recém-rebatizada rue de la Victoire.. tinha meia dúzia de anos mais e duas . quem vai querer saber de qual deles ela é?" Estaria Tot enfim sorrindo para nós? Chispamos para a casa de Bonaparte. revelando aquele intricado alfabeto inscrito em hena. E. De transmutar objetos..." Astiza se virou no assento da carruagem de Josefina e desatou o laço na parte de trás do vestido." Os olhos de Josefina se arregalaram. Eu proponho uma aliança: com nosso segredo.. então recuperareis vosso matrimônio. há muito perdido. livrar-nos de Silano e ajudar Napoleão." Ela estava desconfiada. confiamos naquela arrivista. Mas o livro ainda não foi traduzido .. De enfeitiçar. sem plano. Se a esposa do general puder oferecer-lhe a cifra sob a condição de que Silano seja afastado.só nós podemos fazê-lo. cobiçosos. "Bem.. conseguiremos recuperar nosso livro.

Eugène de Beauharnais (que pedira ajuda para recuperar a espada do pai). Desesperada. Quando um jovem oficial chamado Bonaparte viera visitá-la para louvar a conduta do filho. agora homem de negócios. Alexandre de Beauharnais. . as histórias de magia não lhe eram estranhas. voltou para as Antilhas. com os dentes manchados. mas ele ficara tão envergonhado dos modos provincianos da esposa que se recusara a apresentá-la à corte de Maria Antonieta. Josefina corria o risco de perder tudo justamente no momento em que Bonaparte buscava o poder supremo. diziam que era ninfomaníaca. Só o golpe de Estado que pôs fim ao Terror salvou-lhe a cabeça. Aos trinta e seis anos. ela o seduziu. Josefina separou-se. Casara com um jovem e rico oficial do exército. à boca pequena. apostou suas fichas naquele corso em ascensão e o desposou. quando chegou a notícia alarmante do retorno do marido. perdeu o marido na guilhotina em 1794 e acabou ela própria na prisão. Estava vivendo com um ex-oficial chamado Hippolyte Charles. Oriunda que era das ilhas açucareiras das Antilhas. fugiu de uma revolta de escravos para regressar a Paris no auge da revolução. Seus olhos se arregalaram com a explicação de Astiza sobre os poderes sobrenaturais. Alguns. mas depois dormiu com todo o mundo que lhe aparecesse pela frente enquanto ele estava na Itália e no Egito. ela podia não ter outra chance. Já que a revolução instituíra o divórcio.polegadas menos que Napoleão e era uma sobrevivente obstinada.

" Josefina tirou bruscamente a mão. disse Astiza." Peguei-lhe a mão. poderemos salvaguardá-lo."Esse livro é capaz de destruir os homens que o possuem". e este é Ethan Gage. um americano." "Gage? O eletricista? O assistente de Franklin?" "Madame. não minha! Dissestes que esse livro contém um poder terrível?" "Um poder do tipo que escraviza almas. Ajudemos a afastar de vosso marido esse veneno. Isso poderia levar Napoleão à insanidade. para que vosso idílio matrimonial retorne!" "Sim! É tudo culpa de Silano. "Espero que possamos ser aliados. Vosso conhecimento sobre ele vos dará enorme influência sobre vosso marido. bem do tipo que pode ludibriar o general e pôr a perder os sonhos dele. fico honrado em conhecer-vos e lisonjeado em saber que já ouvistes falar de mim. Precisais ajudar-nos a pegar o livro de volta. Fui vítima de uma acusação injusta. "Matastes uma aventureira barata! Ou não o fizestes?" "Eis um exemplo perfeito das mentiras de Silano. Silano enfeitiçou vosso esposo com sonhos de poder ilimitado. mas o conde Silano provocou o destino ao roubá-lo." "Mas quem sois vós?" "Eu me chamo Astiza." . "e devastar as nações onde o usem. "Mas sois um assassino!" Olhou-me cheia de dúvidas." "Mas de que jeito?" "Se nos derdes o livro. Os antigos sabiam disso e o esconderam.

" Josefina deu um sorriso lânguido e tomou fôlego. passando os dedos nas faces. mas ostentando mapas e plantas urbanas nas paredes. respondeu Astiza. Em seguida. com um roseiral no fim da floração e um terraço que Josefina cobrira com teto de madeira e decorara com bandeiras e tapeçarias. reclinou-se e sorriu. no decorrer daquele século. "Pareceis no controle da situação. uma região antes pantanosa onde os ricos haviam construído residências encantadoras. "Como estou?" "Estais como uma mulher que tem um segredo". "Tendes razão. de dois pavimentos. tendo suntuoso papel de parede e cortinado de renda. ainda que as botas de Napoleão estivessem jogadas na sala de jantar e o capote . O asseio e o capricho de Josefina eram evidentes. Era uma moradia modesta. Lá estavam as flores da patroa e os livros do patrão. e Josefina saiu.Ela pensou bem. alguns recém-desencaixotadas do Egito. um lar respeitável para aplicados servidores públicos de médio escalão. pilhas e pilhas deles. Por fim. entramos. sob tílias. A carruagem parou numa entrada de cascalho. Os cômodos eram uma curiosa mistura do feminino com o masculino. comprada por Josefina antes do segundo casamento. Deus veio à minha procura. ficava na parte elegante de Paris que era conhecida como Chaussée d’Antin." A casa de Bonaparte. ansiosa e agitada. chamadas folies (extravagâncias).

. disse eu. e uma empregada nos arranjou pão e queijo. ele também não é nenhum santo. Depois.dele tivesse sido largado numa cadeira. Ele já se decidira pelo divórcio. Explicai que nos persuadistes a ajudá-lo e que o futuro dele depende de nós três. Através da madeira do piso. juntando coragem." Eu não confiava em Josefina." "Os irmãos já devem ter-lhe contado tudo. fez-se silêncio. Ele vai me odiar! Não presto. subiu os vinte degraus até o andar de cima e bateu na porta do marido.eu gosto tanto do amor! E acha¬va que ele seria morto!" "Sois humana. acreditai. o silêncio. Josefina. "O general está no quarto dele". sussurrou ela. e pedidos lacrimosos de perdão. assim como ele". Não consigo evitar . pensei ter ouvido o estalido de uma fechadura a trancar-se. cochilamos. pedi perdão e dizei a ele que estivestes empenhada em recrutar aliados. "Ide até ele. mas de que outra arma dispúnhamos? Preocupava-me que Silano pudesse estar espreitando por ali. "Querido general?. Aí. ouvíamos a mulher implorar. Cansados que estávamos. a gritaria diminuiu. confortando-a. Uma escada conduzia ao andar superior. "E. .. e escutamos pisadas e batidas duras." Por um momento. sou uma mulher infiel. no porão. Em certa altura. e depois soluços. Desci a escada que levava à cozinha. Ide. e houve conversa em tom mais baixo. aguardando o desfecho da tormenta que desabava lá em cima. A criadagem se aglomerou como camundongos.

com uma despreocupação que eu não ouvira antes. Fomos conduzidos escada acima." "Só estamos tentando salvar este mesmo mundo.Perto do amanhecer." "Nós conseguimos. alegando que tendes um registro do que ajudastes a destruir. e o vencedor de Abukir e sua esposa. estou com ânimo generoso. Admiro a esperteza de vós dois. e. eu conquistaria o mundo. sussurrou." "Mas Silano disse que vos deixou enterrados! E minha mulher estava me contando as vossas historinhas. Bem. cobertos até o queixo. "A patroa quer ver-vos". estavam deitados lado a lado na cama. e a voz de Josefina respondeu "Entrai". podeis ter certeza de que uma coisa boa resultou dessa vossa longa noite: ajudastes a fazer que eu e Josefina nos reconciliássemos. general." "Queremos apenas o que é melhor para a França e para vós. "ainda não estás morto?! Se meus soldados conseguissem sobreviver como tu. por isso." . saudou-me Napoleão. Gage". "Por Deus." "Vós dois quereis o livro. Mas ninguém consegue lê-lo. recém-readmitida à fidelidade. A empregada bateu. general. Todo o mundo o quer. Adentramos o quarto. uma empregada nos acordou. ambos parecendo tão satisfeitos quanto gatos a beber leite à vontade." "E o que minha mulher me diz.

" Ele sorriu. seria melhor prendervos na Prisão do Templo.ato que representava um desembaraço e uma engenhosidade bem ao meu gosto.Eu também me animei muito. Comecei a olhar em volta. vais desnudar-te no toucador de minha mulher. em vez de simplesmente fuzilar-vos. isso em parte se devia ao fato de ter feito sinal pelas janelas da prisão para uma dama com a qual já dormira . Se o oficial da marinha britânica conseguira escapar. dezoito meses depois. Napoleão empunhava uma pistola. Quando tornei a olhar para a frente. poderá esperar até que sejas julgado pela morte daquela rameira. "Quanto a ti. Agora. Nisso. Gage. Um destacamento de gendarmes subia a escada.27 É irônico ser encarcerado num "templo" que originariamente foi construído como sede dos templários. Astiza e eu experimentávamos nós . e me voltei. Tua execução. ouvi passos pesados atrás de nós. enquanto ela e as criadas vigiam. de relance. "Minha mulher me convenceu de que. Talvez aquilo tudo viesse mesmo a dar certo." . Já convoquei secretários para que venham copiar teu segredo. procurando o livro. "Devo dizer que minha Josefina se mostrou incansável em teu favor. depois usado como calabouço para Luís XVI e Maria Antonieta antes da execução e por fim empregado como ineficaz cadeia para Sidney Smith." Apontou para Astiza.

mas interessante carcereiro Jacques Boniface. a ousadia das mulheres trajadas de peles e veludo. Astiza se vira humilhada quando a obrigaram a despir-se para copiarem a cifra. algo atraiu meu olhar para o portão principal. observando Paris através das barras de ferro. o alarido das feiras de couro. e essa foi uma maneira deprimente de apresentar Astiza a uma cidade grandiosa. tão familiar quanto uma dívida de aluguel e tão irritante quanto uma lembrança desagradável. Para minha companheira. que distraíra sir Sidney contando-lhe lendas dos templários. Éramos também observados. sendo nosso senhorio o corpulento. intrometido. estrategicamente abertos para oferecer um vislumbre dos seios e tornozelos. Quando entramos e descemos junto à torre dianteira. Seria possível que. sempre ansiosas por ver infelizes ainda mais desafortunados que elas. Fomos conduzidos para lá na carroça gradeada da prisão. pano e frutas. num pátio frio e desprovido de árvores. encardido. a cacofonia dos relinchos no trânsito e dos ambulantes nas calçadas. tudo era estranho: as grandes agulhas da catedral. pessoas fitavam pelas grades. a cidade parecia sem cor. Do lado de fora. estando as pessoas apreensivas e os céus cinzentos. e agora não estava falando. claro que não..? Não. servil. Em outubro. como animais. e tive um sobressalto ao avistar uma cabeça de cabelo seco e muito ruivo. obtuso. .mesmos aquelas acomodações..

eu teria encarado de bom grado aquele descanso. Do lado de dentro. A composição do Diretório. As celas em suas torres eram iluminadas por janelas apertadas e providas de barras. Eu já vira cárceres piores. Astiza e eu estávamos autorizados a passear pelo parapeito ao redor do telhado (ele era demasiado alto para que se tentasse pular de lá ou descer pelas paredes). Mas o Livro de Tot nos arrastava para si. Não fosse estarmos bem trancafiados e Bonaparte e Silano parecerem determinados a dominar o mundo. formado de cinco líderes políticos. lendas antigas e batalhas contemporâneas para nos fazer dar valor a uma boa soneca. era um castelo estreito e feio que se erguia duzentos pés até o pico de seu telhado piramidal. O fato de que a prisão estava basicamente vazia dizia algo da eficiência do Terror: os detentos monarquistas já haviam sido todos guilhotinados. Nada como caças ao tesouro. e a comida era melhor que em alguns dos khans que eu conhecera perto de Jerusalém. Afinal. que data do século XIII. davam para galerias ao redor de um átrio central. e Boniface era um fofoqueiro que gostava de relatar as intrigas de uma cidade em pé de guerra e sob pressão. e todo grupo de conjurados procurava "uma espada" que lhes proporcionasse a necessária força militar para tomarem o poder.A Prisão do Templo. vivia sendo modificada pelo Conselho dos Anciãos e pelo Conselho dos Quinhentos. Complôs e conspirações sucediam-se com rapidez. Essas duas câmaras legislativas eram barulhentas e . estávamos na França.

Pouca gente deseja a volta da monarquia. praticava-se uma corrupção descarada e tinha-se orquestra à mão para marcar a legislatura com canções patrióticas. "Estamos todos cansados da democracia. Imagino que a companhia dele se destinasse a ser parte de nossa tortura." Inste isso. e ainda prestava mais atenção. e a maioria dos generais tinha um olho no campo de batalha e o outro em Paris. o exército penava na indigência de suprimentos. A economia estava em frangalhos. Do ponto de vista dele. Boniface se mostrava mais tolerante com seus prisioneiros do que alguns anfitriões com os convidados. Precisamos da sabedoria de Salomão. "Precisamos de um líder". Tens sorte de estar aqui. longe da barafunda. não chegava a atrapalhar que Astiza continuasse ." "Precisas dela agora?" Estávamos jantando juntos em minha cela. nunca me sinto seguro. Gage. metade da França ocidental vivia uma revolta alimentada pelo ouro inglês. mas como alguém conseguiria tomar as rédeas dessa nossa Assembléia cheia de rixas? É como tentar controlar os gatos de Paris. Precisamos conservar a república. "Só que as pessoas não querem um ditador. mas eu adquirira um estranho apreço por ele. nelas se usavam togas romanas.empoladas. Quando ando pela cidade. Boniface fizera o mesmo com Smith. porque o carcereiro sentia o tédio e não tinha amigos. disse nosso carcereiro.

Bem. Boniface assentiu. Napoleão está liquidado.bem agradável aos olhos e que eu. e aquela estóica modéstia honra à tua jovem nação. homem que já esteve preso aqui! Os jornais. "Bonaparte quer ser um George Washington.. A mulher seria capaz de seduzir o papa e. na mesma toada. monsieur Boniface. mas não tem a mesma circunspecção. O que pretendia retornando do Egito sem ter recebido ordens para tanto? Vós dois têm lido Le Messager?" "Se recordais. sim. O corso voltou achando que seria alçado ao Diretório pelo clamor popular. Quando perguntei a Boniface sobre os templários que haviam construído aquele lugar. disse Astiza. Era nisso que dava negociar com Josefina. claro.. Gage." Taima me contara que Bonaparte tinha mais medo da imprensa hostil que das baionetas. andei estudando Washington. aceitando com relutância a condução da pátria. aquele bravo periódico atacou abertamente a campanha do Egito! Zombou dela! Um exército abandonado! Soldados atirados inutilmente às muralhas de Acre! Bonaparte humilhado por sir Sidney Smith. claro. levá-lo à miséria. fosse uma companhia extraordinariamente boa. É. aquela vadia intriguenta. "Ah. foi como ter . Mas o que ninguém sabia era que Napoleão estava com o livro e que Silano outra vez dispunha da cifra completa para lê-lo. em tom baixo e delicado. estamos confinados a esta torre". mas os superiores dele o receberam com frieza. são uma voz da Assembléia. vós sabeis.

depois. E onde foi parar aquilo que diziam ser a fonte do poder dos templários? De Molay não revelou nada e só falou quando foi para a fogueira. Ah.fatos e teorias vieram em borbotão.e aqui torturado! Temos fantasmas." "Tu falas de nosso julgamento?". meus jovens." Ele deu de ombros. aqueles templários não eram apenas monges guerreiros . perguntei. o calafrio que a multidão sentiu quando ele augurou isso! E era verdade! Meus amigos." "Imaginai como seria se tal poder fosse redescoberto.posto para funcionar uma bomba de água . "Um homem como Bonaparte se apoderaria do Estado num instante. murmurou Astiza. à francesa. mudanças para me¬lhor e para pior. Em Jerusalém. quando o rei chegou para pilhá-las. estamos prestes a ver mudanças .. espíritos que ouço soltarem gritos lancinantes nas noites de tempestade. Os templários foram tratados a queimaduras e pancadas até confessarem a pior espécie de abominação e adoração do diabo. "Não.e. haviam descoberto algo que lhes dera estranhos poderes. Lá. "O próprio Jacques de Molay foi grão-mestre aqui . No entanto. profetizou que o rei e o papa morreriam no espaço de um ano.. Bem. aí já estaríamos falando de quando fordes guilhotinados. onde foi parar o tesouro deles? Acreditava-se que os recintos em que estais confinados estivessem atulhados de riquezas. mas. encontrou tudo vazio. . eu vos digo. foram mandados para a fogueira.eram magos.".

mecânica. Estivéramos dentro da Grande Pirâmide? Ah. Américain? Não. Nossa era moderna se mostrava desinteressante. vinha trabalhando em prol do irmão em Paris. mas presidente da mais poderosa câmara legislativa da . E o Monte do Templo. e o racionalismo passava por cima dos prodígios. E as histórias sobre cidades perdidas no deserto? Se estavam perdidas. aos vinte e dois anos. Boniface. sugeri. nosso carcereiro trouxe uma notícia eletrizante: Lucien Bonaparte. muito antes de Napoleão ter deixado o Egito. e eu. não adianta balançar a cabeça! Sabes de alguma coisa. privada de maravilhas. como poderíamos nós tê-las achado? Boniface insistia em que os antigos não teriam tido como erigir seus grandes monumentos sem usarem de segredos espantosos. vou fazer-te desembuchar!" Em 26 de outubro. acabava de ser eleito presidente do Conselho dos Quinhentos! Eu sabia que Lucien. Era político talentoso. A ciência vinha subjugando o mistério. em Jerusalém? Era agora um local sagrado dos muçulmanos. Isso em nada se parecia com o Egito! "Mas e se aquilo tudo fosse redescoberto?". A magia se perdera com os sacerdotes de antanho. cética.O carcereiro ansiava por ouvir nossas aventuras. não. "Estás a par de alguma coisa. sim. Não havia nada para ver lá. e a entrada de cristãos estava proibida. cuja descrição modificamos prudentemente.

e o elegeram do mesmo jeito! De algum modo. O homem era um jornal ambulante. Foi uma insanidade." Seguiram-se mais notícias muito curiosas. é coisa de Napoleão. tiraram o Conselho dos Anciãos da cama. exclamou. é que todo o mundo sabe que mentiu. a fim de deliberarem lá. que impedirá que convoquem o apoio do populacho. nos subúrbios de Paris. Os deputados estão apavorados. no calendário revolucionário francês). ou enfeitiçados. e eles. "Foi como se os nossos parlamentares tivessem sido mesmerizados! Às quatro e meia da manhã. se necessário. votaram por retirar-se para o château de Saint-Cloud. e não faltam especulações . agora seria homenageado com um banquete. Boniface veio até nós de olhos muito arregalados. foram reunidos nas Tulherias.mas há mais do que isso para que Paris esteja vivendo em suspense. Estaria a opinião pública mudando e o general cativando os políticos da cidade para que tomassem seu partido? Em 9 de novembro de 1799 (ou 18 de brumário do ano viu. é claro.França?! "Pensei que fosse preciso ter no mínimo trinta anos para ocupar o cargo. e o Conselho dos Quinhentos vai imitá-los! Continua tudo muito confuso." "E o que seria?" . Lá. antes esnobado pelo Diretório. Napoleão Bonaparte. para cumprir o que diz a Constituição. porém. ainda sonolentos. "Não dá para acreditar!"." "É justamente por isso que Paris está em polvorosa! Ele mentiu sobre a idade . O fato. Fizeram isso de livre e espontânea vontade.tinha de mentir.

na linha.. ancestral de Salomão. algo que os leva a votar o oposto do que afirmavam dias ou mesmo horas antes. Belzebu. "Hein?" "Monsieur Boniface. "Mistérios do Oriente. não?" . perguntou Astiza. Há baionetas por toda a parte. inclusive Napoleão. Encantamentos estavam sendo elaborados e usados. mas outros afirmam que ele é o próprio arcanjo negro." "O comando da guarnição? São dez mil homens.". tendo sido destituído o general Moreau! Agora.todos os estudiosos do passado sabem do Três Vezes o Maior.. com suas mil aparências Baal. naturalmente." Sua voz se reduzira a um murmúrio. sabia. e outras formam barricadas. Mas o que poderia ser?" Eu. disse eu. En¬feitiçadas era de fato a palavra! A cidade inteira estava enfeitiçada. o Caminho e o Verbo. Astiza e eu nos olhamos: não havia tempo a perder. Bafomé!." "Justamente! Por que os parlamentares permitiriam uma coisa dessas? Está acontecendo alguma coisa esquisita. Silano progredira na tradução do Livro de Tot." "Esse livro está perdido há milhares de anos. de súbito. já ouvistes falar do Livro de Tot?". "Alguns dizem que Tot criou um paraíso terrestre que nos esquecemos de como conservar. Boniface pareceu surpreso. pai de todo o conhecimento.. e mentes.."Napoleão recebeu o comando da guarnição da cidade. tropas se deslocam para Saint-Cloud. toldadas. "Mas é claro . O exército de Paris era o que mantinha todos.

Jacques Boniface. Estás. o que uma dupla esdrúxula como nós estaria fazendo em Paris? E o que poderíamos saber que fosse tão perigoso para o Estado?" Boniface olhou para nós. "Tesouro?" A voz do carcereiro saiu num gritinho. de que saibamos o paradeiro de um tesouro . Quanto tempo mais desejas ficar aqui?" "Pelo tempo que os meus senhores. "Tais histórias. Boniface. sem amigos. sim. guardião deste cárcere. "É." Eu me inclinei para a frente. mas ainda não nos matou. Tu e nós. que somos os verdadeiros . levantando-me da mesa tosca aonde dividíamos uma jarra de vinho barato. ora! Não precisamos de acusações para manter-vos na prisão do Templo. por sobre a mesa.Agora ela parecia furtivo.." "Mas poderias ser um senhor. escondido desde aquela sextafeira 13 de 1309." "Ainda assim. O senhor de Tot. Correm histórias de que os templários. "Dos templários. disse eu. "Talvez. tenho estranhado isso. agudo e curto. desconfiado. Meu tom de voz ficava mais grave.. pois talvez possamos ser úteis outra vez. Ele nos confinou. são verdadeiras"." "Considera a possibilidade. não estranhas que Bonaparte nos tenha confinado aqui? Podes ver que estamos desamparados. Afinal. quando eles foram aprisionados e torturados pelo louco rei da França. tão preso quanto nós. Jacques Boniface.o maior do mundo. "Quais as acusações que se fazem a Astiza e a mim?" "Acusações? Nenhuma.

pois. num lugar onde calcularam que homem algum ousaria procurar". os templários esconderam mesmo sua riqueza. ao contrário do que faz o conde Alessandro Silano.e logo. pela maçonaria. mentindo. não daríamos segredos sagrados a tiranos ambiciosos como Bonaparte. Boniface .a coragem de tornar-te o homem mais rico e poderoso do mundo! Mas isso apenas se te dispuseres a cavar! E só um homem poderá conduzir-nos ao local exato! Silano vive tãosomente para sua própria cobiça. a respiração contida. Sim. precisamos agir . para tanto. deusa do Egito. No entanto. "Acho que sim. "Na Notre-Dame?!" A pobreza nos faz acreditar em qualquer coisa. foi redescoberto.ou não?" Ele coçou a cabeça. "Precisarás de picareta e de coragem. e o salário de carcereiro é mesmo vergonhoso. E esse golpe dependerá de quem estiver com um livro que. outrora perdido. pela tradição dos templários e pelos mistérios dos antigos! Estás comigo?" "Será perigoso?" . "Onde?".estudiosos do passado . Creio que o golpe de Napoleão será hoje à noite. Nós os preservaríamos para toda a humanidade . perguntou Boniface. construído na Île de la Cite no local exato onde os romanos ergueram seu templo a Ísis. e temos de capturá-lo e fazer o que é certo. só o livro irá nos dizer onde precisamente está o tesouro." "Mas. "Sob o Templo da Razão." Boniface arregalou os olhos. arrematei.

Segundo . Boniface informou que Bonaparte tomara de assalto o Conselho dos Anciãos quando eles rechaçaram sua exigência de que dissolvessem o Diretório e o nomeassem primeiro-cônsul. E o que era mais importante: o sacerdócio católico fora encerrado pela revolução. do contrário. O carcereiro conseguiria entrar na cripta com bastante facilidade. juntos. claro."Leva-nos aos aposentos de Silano. Aí. só isso. tudo podia acontecer. Mas. Enquanto Bonaparte se dirigia a milhares de soldados no Jardim das Tulherias. Deixar que saíssemos era. com generais apinhando-se em reluzentes uniformes na casa de Napoleão. Nessas circunstâncias. com Paris à beira de um golpe. eu talvez não tivesse conseguido convencê-lo. com a Assembléia em pânico. com tropas erguendo barricadas. sendo usada apenas por velhas devotas e varrida pelos pobres em troca de assistência. mudaremos a história do mundo!" Em tempos menos intranqüilos. flagrante descumprimento de suas obrigações. e a Notre-Dame se tornara um grandioso fantasma. Mas o advertimos de que nunca conseguiria achar nem ler o livro sem a nossa ajuda e de que. Poderás então esconder-te na cripta da NotreDame enquanto decifrarmos o segredo.. À noitinha.. trocando mexericos com os condenados em vez de herdar a riqueza e o poder dos templários. passaria o resto de seus dias como encarregado na Prisão do Templo. com a cidade escura e apreensiva. Boniface reunia ferramentas de sapa.

então Bonaparte. os conjurados farão o juramento de posse!" Posteriormente. alguns dos Quinhentos estão sendo detidos para fazer o mesmo. Ainda assim.todos os relatos. os homens submeteram-se à vontade dele". blefe e pânico. apesar disso. poderia ser dito que tudo foi resultado de baioneta. se o Livro de Tot já não estaria em ação. Pelo contrário: pareciam propensos a atender ao que o general demandava. tudo pareceu perdido para os conspiradores de Napoleão. Caso os feitiços do livro tivessem poder. Fiquei imaginando. "Agora. depois que as tropas mesmerizadas de Napoleão haviam limpado do Conselho dos Quinhentos o château de SaintCloud (com alguns dos deputados pulando das janelas para safar-se). o discurso de Napoleão foi torrencial e disparatado.ele estava berrando um palavrório sem sentido! Tudo parecia perdido. contou o carcereiro. enfim. Depois da meia-noite. os deputados não ordenaram a prisão dele nem se recusaram a reunir-se. novo senhor do país mais poderoso da Terra. Mas fiquei imaginando se o discurso sem sentido de Napoleão não teria contido palavras mágicas que não eram pronunciadas havia quase cinco mil anos. e. "Uma dúzia de vezes. tanto que seus próprios auxiliares o afastaram dali . palavras de um livro antiqüíssimo que fora enterrado com um templário na Cidade dos Espíritos. Por quê? Naquela noite. os Anciãos passaram um decreto que determinava que um "comitê executivo temporário" dirigido por Bonaparte substituiria o Diretório. logo seria senhor do planeta - .

ou não seriam grandiosas!" Parecia algo que o próprio Bonaparte diria.e tudo mais.. "Nós iremos para os aposentos de Silano e assumiremos o risco enquanto segues na frente para a Notre-Dame. o Rito Egípcio de Silano. para ajudar os conspiradores a tomar o governo. Há alguns guardas nas Tulherias." Ele assentiu. "Já descobriste. mas o velho palácio está basicamente vazio. poderás controlar a guilhotina ." Boniface olhou para nós. Boniface. mas a uma longa era das trevas. sem muita convicção e com as manchas de meia dúzia de jantares anteriores a salpicar-lhe a camisa. Precisávamos agir. Teria início um domínio de megalômanos ocultistas. "É só que isto tudo é arriscado." "Mas sou vosso carcereiro! Não posso deixar-vos a sós!" . "Tendes certeza de que Silano está com o segredo? Se falharmos." "Todas as coisas grandiosas são difíceis . a maioria das tropas marchou para Saint-Cloud. Mas consta que saiu esta noite... o castigo poderá ser a guilhotina!" "Tão logo tenhas o livro e o tesouro. onde Alessandro Silano se encontra?" "Ele vem realizando experiências nas Tulherias. sob a proteção de Bonaparte. Felizmente. com ele. Conseguireis ir aos aposentos de Silano e pegar esse vosso livro.e.. e a história humana assistiria não a uma nova aurora. Não estou certo de que seja a coisa certa. e os franceses gostam desse tipo de conversa.

) Depois. Os deputados haviam fugido. "Voltaremos com o livro e um Silano já prisioneiro. "E ali que deves preparar o caminho para nós". ou no palácio de Luxembourg. e fomos a pé para que pudéssemos contornar os postos de controle militar instalados pela cidade." Ele assentiu. Nós nos agachamos num vão de entrada quando um esquadrão de cavalaria passou em tropel. para chegar à margem norte do Sena. As grandes agulhas e arcobotantes da catedral na Île de la Cite se erguiam contra um céu cinzento. e por teatros que. trocando rumores sobre a tentativa de golpe. em vez de animados. A capital parecia em suspense. Bonaparte agora era rei. Jacques Boniface: não conseguirás livrar-te de nós!" Nosso trajeto por Paris era coisa de uma milha e meia. disse eu a Boniface. . Era uma falação impotente. Bonaparte estava em SaintCloud. Os deputados reuniriam o populacho. iluminado por uma lua encoberta. Passamos pelo Hotel de Ville (a prefeitura). passando pelo Louvre."Crês que partilharmos o maior tesouro do mundo não nos unirá mais firmemente que a mais forte das correntes? De uma coisa podes ter certeza. apontando a Notre-Dame. seguimos o rio para leste. Os deputados haviam se unido a Bonaparte. Viamse poucas luzes. Bonaparte fora preso. ou até em Versalhes. estavam às escuras. e as pessoas que estavam na rua formavam grupos. (Eu tinha gratas lembranças de seus saguões repletos de cortesãs a cortejar negócios.

Depois. tinham sido obrigados a mudar-se para lá durante a revolução. mas poderíamos ir para a cadeia se fôssemos parados levando armas de fogo. Elas estavam proibidas na cidade. perguntei a Astiza. "Viste uma mulher esquisita?". o edifício fora tomado de assalto pela turba e. Tinha um ar espectral de abandono. "Em Paris. coitados. Assim como muitos palácios europeus. oito vezes maior do que qualquer necessidade racional exigiria. Boniface arranjara um passe da polícia para que pudéssemos passar por uma sentinela entediada e sonolenta numa entrada lateral." Passamos pelo Louvre. ou qualquer outra coisa que servisse. Naqueles dias agitados. o clarão ruivo.Em certa altura. quem não tinha? "Eu não subiria com a mulher". aconselhou o soldado. Como se não bastasse. no Jardim das Tulherias. era uma coisa enorme. ainda ficara essencialmente abandonado após a construção de Versalhes. "Ninguém . desde então. O rio estava escuro e espesso. e. percebi que uma figura nos seguia e me voltei rapidamente para ela. Luís XVI e Maria Antonieta. mas só vislumbrei uma saia que desaparecia num vão de porta. dando uma olhadela em Astiza. encomendado por Catarina de Medici mais de dois séculos antes. era quase uma ruína. Teria eu apenas imaginado aquela mulher? Desejei estar com meu fuzil. viramos e acompanhamos a grandiosa fachada do Palácio das Tulherias. todos me parecem esquisitos. Explicamos que tínhamos assuntos urgentes a tratar ali. De novo.

recinto após recinto." "Tu te referes ao conde?" "Algo fica se mexendo lá em cima quando ele sai. A maior parte das obras de arte já desaparecera. Seguimos em frente. tetos abobadados que eram intricadamente entalhados. empalidecendo. O lugar é guardado por um fantasma. "Podeis deixar a moça comigo. perguntou Boniface. parques de madeira de lei que pareciam mosaicos. como num lugar que fosse visto interminavelmente graças a espelhos que se refletissem uns nos outros. "Estes são os aposentos de Silano". com seus dentes amarelos. "Ele não deixa que as sentinelas cheguem perto daqui. o carcereiro parou diante de uma porta. explicou Boniface. em 1792. Subimos a escada para o primeiro andar. "Já se ouviram coisas na noite. retrucou Astiza. Precisamos nos apressar.mais vai lá em cima." "Fantasma?". "Onde está esse fantasma?" . o papel de parede se descolava. Mas a pintura estava encardida. e o piso fora rachado e estragado por um canhão que." A sentinela sorriu de orelha a orelha. Nossos passos ecoavam." Olhou em volta. Algumas das grandiosas janelas ainda estavam quebradas e cobertas por tábuas. A opulência arquitetônica das Tulherias ainda estava lá: vastos salões que se abriam uns para os outros num longo encadeamento." "Eu gosto de fantasmas". lareiras que tinham futilidades suficientes para ornamentar metade da Filadélfia. o populacho arrastara por ali para confrontar Luís XVI. pois ele pode voltar a qualquer minuto. Por fim.

sussurrou Boniface. Silano andara ocupado. com os lábios retorcidos num rosnar congelado de dor. "Silano está mexendo com a idéia da ressurreição. Nós te encontraremos lá. Alfinetes unidos por filamentos de metal sobressaíam do cadáver.. Desde que nos apressemos. "Bem. "Uma experiência." Nosso carcereiro fez o sinal-da-cruz. respondi. longe. aves com o . enguias viscosas. acho eu". Ali paramos."Na tua imaginação"." "Acaso me tomas por algum tolo. Gage? Não vos deixarei até ter certeza de que esse conde tem mesmo algo que valha a pena procurar. Havia também dúzias e dúzias de frascos com conservante. e seu líquido." A fechadura da porta foi aberta com facilidade nosso carcereiro tivera tempo de sobra para aprender com os criminosos que hospedava. o pêlo borrado de tinta ou tosado para deixar a pele à mostra. disse Astiza. "Belo trabalho". "És o homem certo para penetrar a cripta. Assim." Ele olhou por sobre o ombro. sombria. o fato é que alguma coisa mantém os curiosos..a credulidade que os faz dar ouvidos a historinhas tolas. Jazia nela um cão morto." "Sim . A primeira coisa que atraía o olhar era uma mesa central. "Mon Dieu. o que é aquilo?!". As estantes estavam apinhadas de livros e rolos de texto que Silano devia ter despachado do Egito. atravessamos juntos uma ante-sala e adentramos uma câmara maior. estava repleto de organismos: peixes de olhos enormes e redondos. amarelo como a bile. indecisos. eu lhe disse.

éramos observados por aves e roedores empalhados ou mumificados. traços e símbolos de fontes arcanas. como uma cruz invertida e distorcida. Metade estava riscada e respingada de tinta. inscrito com estranhos símbolos do livro. pintara-se no chão um pentagrama. olhos que se assemelhavam a azeitonas ou bolas de gude e pareciam perturbadoramente humanos. mamíferos flutuantes e partes de coisas que não identifiquei por completo. Tudo era iluminado por velas que já haviam queimado além da metade Silano saíra fazia algum tempo. Perto da ponta. Havia braços e pernas de bebês e cérebros. Num recipiente. com olhos de vidro. conservante. . Via-se uma prateleira de caveiras e o esqueleto montado de uma criatura grande que não consegui sequer reconhecer. Pergaminhos e placas com símbolos variados pendiam das paredes. Avistei o padrão cabalístico que víramos nos subterrâneos de Jerusalém. línguas e outros órgãos de adultos. mas era óbvio que esperava voltar ainda naquela noite. um mar de folhas de papel. Mais frascos continham líquidos perigosos. A sala tinha um cheiro esquisito de tinta. e havia caixas de latão com muito pó químico. mais outras mixórdias de números. Sobre uma segunda mesa. limalha e certa podridão subjacente.bico enfiado na plumagem encharcada. Das sombras. repletos com os caracteres do Livro de Tot e as tentativas do conde de traduzir o texto para o francês. junto com velhos mapas e diagramas das pirâmides.

e as carretas estavam repletas de caixotes. ainda não desfizera toda a bagagem. "É por isso que precisamos tirar o livro de Silano". "Aposto que o conde espalhou a notícia." "Há um defunto ali dentro?" . "Se estás com medo. explicando por que se escolhera aquele apartamento específico era o mais cômodo para a entrada e saída de cargas. mas agora eu o via. vai agora". incitei-o. mas já me eram familiares. "É a múmia"." A maior parte do piso estava coberta por um enorme tapete de lã. respondeu Astiza. encostado verticalmente à parede da sala. como um galpão de fazenda. mas indubitavelmente deixado pelos Bourbon. Silano. Ele terminava numa sacada que dava para um espaço às escuras. Sua fisionomia era a de quem acaba de descobrir que fez um pacto com o diabo. Uma escada de madeira levava aonde estávamos. a coisa que evita que os homens fiquem xeretando aqui. os traços rendilhados da decoração antiqüíssima estavam cinzentos."Este lugar é maligno". "Não. Esse é o fantasma de que a sentinela estava falando. manchado e gasto. portanto. Ainda assim. disse eu. sussurrou Boniface. havia algo de estranhamente repulsivo naquele esquife. Por exemplo. um esquife de madeira. o andar térreo era pavimentado de pedra e tinha grandes portas duplas que se abriam para fora. O caixão de Roseta estivera oculto nas sombras. Lá embaixo. Quero ver esse livro. A luz fraca. Uma carruagem e três carretas se comprimiam lá dentro.

a múmia-guardiã. meu carcereiro. Ficaremos amaldiçoados por isso. Boniface. E Omar. não . Um dia."Defunto de milhares de anos." O carcereiro tornou a fazer o sinal-da-cruz. não obstante a animosidade jacobina à religião. Bandagens milenares se agitaram junto a seu rosto. Ele largou Omar como se a múmia estivesse pegando fogo. "O que estamos fazendo é errado. Já mandaste homens para a execução. Estás com medo de uma caixa de madeira?" "Caixa. Vês? Nós o chamamos de Omar. inclinou-se lentamente para fora e caiu nos braços dele." "Que Silano trouxe lá do Egito sem problema nenhum. de rosto quase negro. Dá uma espiada. órbitas vazias e fechadas e dentes arreganhados. "Ele está bem morto." . Boniface então juntou coragem." "Abrir aquilo?! Mas não mesmo! O guarda diz que a coisa ganha vida!" "Desconfio que não sem o livro. "Acalma-te". disse eu. e isso há vários milênios. e poeira bolorenta caiu-lhe nos olhos.caixão. e ainda não o temos." Instigado. foi a passos largos até lá e escancarou o tampo do esquife. A chave para a fortuna que se encontra debaixo da Notre-Dame pode estar naquele esquife. Boniface deu um grito curto e agudo. ficaremos todos daquele jeito. "Está vivo!" O problema de pagar salários de fome ao funcionalismo público é que não se consegue atrair o que há de melhor.

Também álbuns de imagística maçônica. Quanto risco és capaz de encarar? Vai para a catedral. Esconde-as e espera por nós. desenhos de hieróglifos egípcios. não existia tesouro nenhum debaixo da Notre-Dame e eu não tinha nenhuma intenção de ir até lá. e. "Tu ficas com as estantes daquele lado. Escuta. Eu esperava que fosse a última vez que o víamos."Só se perdermos a coragem. a hierarquia dos templários. afrodisíacos. longevidade. já que.a múmia ficaria mesmo imóvel. com as deste. teorias acerca dos rosa-cruzes e do mistério do Graal. recobrando parte da ganância. curas . Zoroastro. dá um jeito nos cadeados para entrar e esconde as nossas ferramentas." "Mas quando vireis?" "Tão logo consigamos o livro e respostas do conde.deve haver uma parte oca em algum lugar. feitiçaria. Ele assentiu. Havia tomos sobre alquimia. não? "Temos de achar o livro depressa". Quanto a ti. jogando-os no chão." Percorremos os livros rapidamente. a Atlântica e a Última Tule. até onde eu sabia. O negócio era terminar antes que o conde voltasse. e eu. para nosso alívio. disse eu a Astiza. Mitra. Silano tinha tratados sobre eletricidade. está ficando tarde. Omar nos fizera um favor. ele fugiu. "E vós dois prometeis vir?" "Só serei rico se eu for até lá. não é verdade?" Isso o satisfez. procurando em algum lugar atrás deles o rolo de texto de Tot. Olhei com cautela para o cadáver . já começa a bater de leve no piso da cripta .

e um espadim lhe tremeluzia na mão. a origem das doenças e a idade da Terra." Ousar olhar? Em Roseta. também nutri a esperança de que um dia eu tivesse a chance que tenho agora . para a frente e para trás. Pensei na pobre múmia. que vinha a passos largos em nossa direção. não nas ruas de Paris. tendo remoçado anos. liso e bem enrolado. mas não achamos o que buscávamos. E senti o livro. e o olhar do conde era homicida. aventei. "Ah. e por isso não repetirei o engano negligente que cometi no Egito.olhar. O coxear sumira. Voltei-me. enquanto avançava. desolado por termos sido pegos de surpresa. Embora eu houvesse desejado desencavar o teu corpo mumificado e pôlo para queimar no fogo de meu futuro palácio. "Talvez ele tenha levado o livro consigo". tendo sido removidos os órgãos vitais. Omar tinha uma fresta nas bandagens. Esconderijo engenhoso. Omar servira de sentinela. "Não se atreveria fazê-lo. Era Alessandro Silano. disse uma voz da porta dos aposentos. A gama das especulações a que ele se dedicava era infinita. Ele o escondeu onde não cogitaríamos . Com uma careta de repugnância. Seria possível? Eu a virei de frente. Ethan Gage.ou não ousaríamos . Estava aprumado e jovem. enfiei a mão lá dentro. tombada com o carcomido nariz no chão. então o rato descobriu o queijo".a chance de .herbóreas. e reparei que o tronco era oco. "És um homem difícil de matar.

onde tudo começou. com seu eterno sorriso arreganhado e o Livro de Tot ainda dentro de si. coisa que farei agora mesmo. Gage. levantei e agarrei Omar. "Pensei melhor." Astiza então jogou a caveira. Silano desfez o laço no pescoço para deixar a capa cair. quão diferente seria a tua vida se simplesmente me tivesses vendido o medalhão naquela primeira noite. ásperas e esfarelentas. "Que adequado que estejamos de volta a Paris. Os lábios do conde sorriram de sarcasmo. A múmia era leve e frágil. Motivado por pouco mais que a vontade de segurar o que viéramos buscar.logo." Silano lançou um rápido olhar para ela. "Já te perguntaste. As bandagens pareciam papel velho." . aqui em Paris?" "Claro. Ela. pegou uma caveira. Seu espadim se assemelhava a um varinha. na falta de coisa melhor. a caveira fez estrépito ao bater no piso - . Com a mão livre. e agora a terei de volta para fazer o que eu quiser .trespassar a vós dois. logo. só que letal. não é mesmo?". Eu não teria conhecido Astiza nem a tirado de ti. disse o conde.28 Tanto eu quanto Astiza estávamos desarmados. cujo braço estava preparado para arremessar a caveira. fazendo movimentos bruscos como a língua de uma cobra. Ele a desviou para longe com o cabo do espadim.

o cadáver egípcio. disse eu. seu olhar exibia um quê de insano. Havia algo terrivelmente errado com aquele rolo de texto que descobríramos. Parecia um homem que estava sem dormir havia semanas . "De qual deus és aprendiz?" "E simplesmente uma antevisão do lugar para onde estás indo. Ela estava tesa e amarelada.e que talvez nunca mais dormisse. Cambaleou para um lado. Silano xingou. O conde dava mesmo a impressão de estar mais moço . mas ele já não ligava mais. eram nublados pela fatiga. triunfante. Omar foi perfurado. como doeu! O espadim era como uma navalha. nesse momento o espadim atravessou Omar por completo e cortou meu flanco de raspão. Diabos. mas era uma juventude estranha. mas tateou dentro da cavidade da múmia e. Senti remorso por fazer o velho passar por tudo aquilo. passando pelas mesas. jogando-me para trás e afastando de mim. ele arremeteu.e Silano continuava a vir em minha direção. Por isso. e os olhos. Gage. mas a múmia deteve a ponta do espadim. . com o espadim ainda preso. às turras. embora brilhantes. girou o braço livre (ele recuperara a antiga flexibilidade) e me acertou um murro. E eu ergui meu macabro escudo.o livro fizera alguma coisa para ele -. torcendo o punho do conde. Alessandro". não era mesmo? Empurrei a múmia contra Silano. Porém. E indo agora mesmo!" Nisto. "A tua sala de estudos fede como o inferno. como se a pele tivesse sido esticada.

e senti o vento da bala a passar. O líquido se esparramou com ruído junto à sacada. atirando Silano para trás e quebrando a lâmina ao meio. mas torcendo aquele trambolho. o espadim quebrado cortou-me os nós dos dedos como uma picada de cobra. Olhei freneticamente em volta. e o recipiente se estilhaçou. Agora eu não tinha mais escudo nenhum. Astiza se agachara. Silano levantou o livro acima da cabeça. quando aquilo caiu aos pedaços. quando estendi o braço. deixando o espadim perfurar a madeira antiga. arrebentando o lenho decrépito. . tentando chegar até mim.arrancou de lá o rolo. de maneira que o agarrei e forcejei para virar aquela caixa desajeitada e usá-la como proteção. Joguei-me de costas contra a estante justamente quando a pistola disparou. soltou-se algo que estivera preso lá dentro. e uma coisa pálida e medonha deslizou no chão. Ela atingiu um dos recipientes de vidro na extremidade da sala. desafiando-me a dar o bote para que pudesse espetar-me. Silano. Meu fuzil! Mergulhei para pegá-lo. mas. O conde chutou raivosamente o esquife. Aparei o golpe com o esquife. e seu rosto se contorcia de ira e aversão. Rolei para longe enquanto Silano chutava para o lado a madeira estourada. tão dolorosamente que não consegui segurar o fuzil. enfiou o livro debaixo da camisa e investiu contra mim outra vez. e. coitado. Ele sacara uma pistola. quase se partira ao meio). esperando uma oportunidade. que já estava com a espada livre (Omar. O esquife! Ele já estava encostado na vertical.

estiquei o braço e o dedo. arranquei a camisa. um fedor de vapores combustíveis. "Maldito sejas!" Silano recarregava atrapalhadamente a pistola. quando me aproximei. relembrei. Enquanto eu escorregava pelo tapete. onde o . O recipiente quebrado tinha base metálica. Silano me olhou como se eu fosse um lunático. expandindo-se num átimo sobre meu corpo encolhido. Em seguida. Tirei o casaco e o atirei em Silano para distraí-lo. a energia que se acumulara em mim saltou. Produziu-se uma faísca. para o metal. e a sala explodiu. as carretas e os caixotes lá embaixo. Energia! Astiza se encontrava debaixo de uma das mesas. acumulei carga elétrica. mas eu precisava de pele nua e seca não existe nada melhor para criar fricção. Ao deslizar até a ponta da sala.Surgiu um cheiro tóxico. como o Deus de Michelangelo a quase tocar Adão. rastejando-se até o conde. Os vapores do preparado de bruxo de Silano se tornaram uma bola de fogo. Vede que a eletricidade é gerada por fricção e que o sal em nosso sangue nos transforma em baterias temporárias. indo em direção ao conde e Astiza e descendo para a carruagem. com um choque. A ardência da abrasão me fez ranger os dentes. E. Dei dois passos e mergulhei rumo ao vidro que se quebrara. E então o velho Ben veio em meu socorro. batendo no tapete de lã tal qual um nadador e escorregando sobre o torso. que se misturou ao da pólvora. "Energia e persistência tudo conquistam".

debatendo-se. Eu tinha líquido conservante nas roupas que me restavam. para esganá-lo. bucha. "Ethan. O conde estava ficando vermelho pela asfixia. enquanto o depósito das carretas pegava fogo. mas agora ele também forcejava para colocar-se em pé. Cheguei ao fuzil e disparei. o outro pela escorregada no tapete). mas ela se aferrou às costas dele. Enquanto os dois dançavam desajeitadamente. porém tateando outra vez em busca da pistola. Minha mão tremia. amaldiçoando pela primeira vez o trabalhoso ato de socar a munição no cano. Astiza e Silano giraram junto a mim. e apaguei a tapas um comecinho de incêndio nos calções. Era parte das bandagens de Omar! Rastejei para meu fuzil. Levantei-me com muita dificuldade. Pólvora. parecendo atordoado. Vi que Silano caíra. e vi o fuzil. num grotesco ménage à trois. chamuscando alguns. Foi quando Astiza se levantou por trás dele e lhe enrolou alguma coisa no pescoço. a pavorosa múmia pulava com eles. Silano.líquido conservante já pingara. tendo o cabelo crestado e os flancos a queimar (um deles pelo corte do espadim. A explosão fez os papéis sobre a mesa remoinharem no ar. mas segurava Astiza . depressa!" O chifre de pólvora e a bolsa de balas estavam lá. ergueu-a até que Astiza ficou suspensa no ar. e comecei a carregar a arma. bala. Uma névoa baça e fumarenta encheu a sala. mas houve apenas um estalido seco.

mas sua mira foi arruinada por Astiza.. maldição! Astiza e Silano bateram com força contra o corrimão da sacada. Retirei a vareta do cano às pressas. rumo às chamas abaixo. A fumaça ficou mais densa no teto da sala. Soquei a munição com a vareta. O conde enfim conseguiu colocar Astiza à sua frente. escudando-se nela ao ver meu fuzil. "Ele vai me queimar!" Atirei. fazendo parte dele despencar. e lutou para levantar e apontar a pistola. A múmia. O fogo subia lá de baixo. E então ele desabou pelo corrimão quebrado. A bala acertou-lhe a garganta. levando minha amada consigo. já na expectativa de ver Astiza em chamas. coloquei uma pitada de pólvora no mecanismo de disparo e comecei a apontar. Silano atirou. Corri até a ponta da sala e perscrutei lá embaixo. "Astiza!" Era uma reprise da queda do balão. Astiza deu um grito e se foi. Meu tiro precisava ser perfeito! Silano removera a bandagem do pescoço e agora estava estrangulando Astiza com ela. O berro de Silano foi um gargarejo sanguinolento. ficara . Seus olhos se arregalaram de espanto e dor. que se retorcia por ser lançada às chamas.pelos cabelos e se contorcia para pegá-la. continuava sua dança. Ergueu a pistola. presa ao par. Mas não: a múmia. com a caixa torácica e os músculos ressecados ainda firmes após milênios..

Finalmente. "Não temos muito tempo . brados.presa. Ao inferno com o maldito livro! Agarrei e puxei as bandagens. com os pés a debater-se sobre o incêndio. contorcendo-se na pira improvisada. moviam-se como se ele agonizasse! Estaria a múmia viva de algum modo? Ou seria aquilo uma ilusão criada pelo calor? Omar fora não uma maldição. Astiza se aferrara às bandagens de linho." . "Consegues andar?". transformando-se em tocha quando o pano foi atingido pelas chamas. Omar soltou-se e caiu. Astiza e eu nos agarramos um ao outro. O Livro de Tot estava junto a seu peito. Tot sorrira para nós. de onde agora pendia. Os braços e as pernas de Omar. Quando chegassem. Ouviramse sinos de igreja. E o livro? Enquanto as roupas de Silano se incineravam." "E o livro?!" "Foi-se com Silano. os segredos que homens haviam cobiçado durante milhares de anos já teriam virado cinza. O conde Silano ia sumindo no fogaréu.não ia deixá-la despencar com Silano outra vez! Quando a arrastei pela beira da sacada.precisamos fugir. mas um salvador. As chamas se avivavam à medida que a carne de Silano borbulhava. Olhei para lá. quebrados. perguntei a Astiza. peguei o braço de Astiza e a alcei . A múmia crepitou ao queimar com o amo. e recuei. vi o rolo torcer-se e espiralar-se no peito dissolvente do conde. o fragor de carroções: os bombeiros de Paris logo estariam ali. repugnado.

Não seria assim: um pelotão de gendarmes já vinha pesadamente pelo corredor. "É ele! É aquele ali!" Tratava-se de uma voz irritantemente familiar. "Estarás livre quando pagares o que me deves!" "Os credores têm memória melhor que a dos devedores". que eu não escutava havia um ano e meio. eu sabia que ele tinha razão. Ela nunca pusera fé em meu caráter e. Eu o negaria. Fomos lenta e claudicantemente para a porta pela qual entráramos. O corredor estava enfumaçado. Por experiência própria. de quem eu fugira em circunstâncias vexatórias. "Será que nunca me verei livre de vós?". Ouvi as portas de carruagem serem abertas e a água ser bombeada lá embaixo. nem era preciso. acusara-me de tentativa de estupro.e estão em melhor estado. quando nos despedíramos. era a ruiva misteriosa que me assombrava desde que eu voltara para a cidade. pois bastava olhar para madame Durrell. livro e papel estragado. fluido. disse eu. "E tendes me seguido como um dos secretas de Fouché?" . "Ele me deve o aluguel!" Madame Durrell! Minha ex-senhoria em Paris. Por um instante. mas. As pirâmides são mais novas que ela . gostava de dizer Benjamin Franklin. disso eu não tinha certeza. osso. tive a esperança de que o incêndio afastasse qualquer perseguidor até que conseguíssemos escapar. Pelo quê.Ela estava soluçando. gemendo. francamente. Estávamos chamuscados e ensangüentados e pisávamos sobre uma bagunça de vidro.

que é o teu lugar. ela era minha. Não tenho condições de pagar-vos. corri a pedir ajuda. Preparei-me para o pior. mas já estava convencida de que sairias de algum jeito . Bonaparte se aproximava pelo corredor com um enxame de generais e auxiliares.. Ele vive como um selvagem daqueles sertões . e atirei na fechadura. ele balançou negativamente a cabeça. Seus olhos cinzentos estavam gelados. após ter feito carranca. irada. "E essa arma aí? Não é aquela que furtaste do meu apartamento. podes ter certeza de que fiquei de olho na Prisão do Templo! Quando te vi entrar no palácio com aquele carcereiro corrupto. não em vós. "Isto é típico do americano."Eu te avistei na carroça da prisão. Mas. ." Mas Astiza pôs a mão em meu braço e olhou para além de minha antiga senhoria.. aquela com que tentaste atirar em mim?" "Eu não a furtei. não importando quantos policiais tragais. O conde Silano disse que ele mesmo cuidaria de ti! Mas. receio que eu haja perdido tudo outra vez. "Madame Durrell. Nem sequer é o mesmo fu. desconfiada. A última ocasião em que eu o vira tão furioso foi quando ele soube das infidelidades de Josefina e aniquilou os mamelucos na Batalha das Pirâmides.experimentai tentar fazê-lo pagar uma dívida!" Suspirei. quando voltei. e sua fisionomia." Ela forçou a vista. o lugar inteiro estava em chamas!" Ela se virou para os soldados. O domínio que Bonaparte tinha das broncas militares recheadas de imprecações era legendário.e para aprontar alguma! Oui.

" Madame Durrell não cabia em si de contentamento. Quando ninguém explodiu em face daquele absurdo. "Madame. . "Cem libras francesas". cônsul. ela acrescentou: "Mais cinqüenta de juros". fostes vós quem soou o alarme?" Ela se inchou de orgulho.. "Eu devia ter adivinhado. pões fogo num palácio régio e fazes que meus bombeiros encontrem dois corpos nas cinzas?" "Garanto-vos que estávamos impedindo que acontecesse coisa pior. "Isso diz respeito à segurança da França. Gage. disse madame Durrell. "Mas não deveis jamais dizer palavra sobre o que aconteceu aqui". outras cinqüenta libras como recompensa . "Madame.um presente do governo." Ele se voltou. "Eu mesma. tentou por fim. intrometendo-se. que ponderava até onde poderia inflacionar o verdadeiro total. paga duzentas libras a esta brava mulher. cargo para o qual fui eleito às duas horas desta manhã. em tom de sermão." "General." "Então me segues por duas mil milhas. "Berthier.exibindo um espanto relutante. que tenhas mesmo descoberto o segredo da imortalidade? "Sou apenas persistente." "Sim. disse-lhe Bonaparte. eu preferiria que vos referísseis a mim como primeiro-cônsul. ele me deve aluguel!". meu general." "Nesse caso. Será possível.. Quero dizer. E quanto ele vos deve?" Dava para ver a feitura dos cálculos na cabeça da senhoria.

a fim de contarem o dinheiro." Napoleão pôs-se a bater o pé de leve no chão. Consegues arcar com tal ônus. ele perscrutou a fumaça." "Foi. não tenho mais necessidade do livro. Podes identificá-los para mim." Franzindo o cenho como um senhorio ao ver uma goteira. Um soldado tornou a confiscar meu fuzil. chamado Omar." "Tenho certeza de que não ficareis na inação. ordenou a seus homens. . Sois uma verdadeira patriota. Parece que eu e ele não pudemos renovar sociedade. Gage. e a França ficará mais segura quando ele acontecer. é? Revistai-os"." "Entendo. "Então me traíste até o final." O auxiliar a puxou para longe. mas não havia nada para acharem." "Excelente. "Bem." "Lamentavelmente. grosseiramente. e o novo governante da França se voltou outra vez para mim. Gage?" "Um é o conde Silano. "Os corpos queimaram de modo tal que não há como reconhecê-los." Bonaparte suspirou. que começava a dissipar-se. eu consigo. madame?" "Por duzentas libras. teu fuzilamento já está mais do que atrasado. já que agora tenho a França. Acredito que ele tenha salvado nossas vidas. Tendo deixado essa providência a cargo de outros antes desta noite. "E o outro?" "Um velho amigo egípcio. Deverias olhar bem o que farei com ela. E eles o fizeram. "E o livro?" "Temo que tenha sido vítima do mesmo incêndio.e os destinos de nossa nação dependem de vossa discrição e coragem.

eu estava muito arrebentado . Se tenho mesmo uma sorte do diabo. O outono já fizera sumir a maioria das flores. cortado por espadim. pois vou fuzilar também a ti . "Não sentirás a falta dele. para compensar. Mas as histórias de Boniface nos estimularam a continuar procurando pelo vosso livro. Estávamos fatigados . É um simplório com imaginação fértil. se eu conseguir encontrá-lo." "Napoleão!"." "Neste caso. rogou Astiza. com o sono muito atrasado. meu amor condenado. disse eu. que minha história deveria terminar: Napoleão senhor de tudo. Mais uma vez." "Aquele idiota também deixou Sidney Smith escapar da Prisão do Templo". Bonaparte nos fez ficar de pé contra um muro decorativo no jardim.exausto. o Jardim das Tulherias é um lugar tão bom quanto qualquer outro. muito irritado. então eu sinto muita pena dele. Para isso. Tufos de fumaça se elevavam no céu cinzento de antes da alvorada. pouparei o carcereiro." "E verdade. o único carcereiro de quem já gostei.e ao carcereiro dos dois. ralado pela necessidade de produzir fricção." "Acho que ele está procurando por um tesouro na cripta da Notre-Dame"." Fomos conduzidos ao lado de fora. penso que cuidarei dela eu mesmo.sem sucesso algum. resmungou Napoleão. Seria ali. eu vos fuzilarei duas vezes. "Não o culpeis. numa agourenta manhã de novembro. "O mesmo Smith que depois precisei enfrentar em Acre. o livro perdido. general.

E." "Homem nenhum deveria ser capaz de lançar feitiços sobre outro. mas fico bem impressionado contigo. pensei. O que era agora? Abri cautelosamente os olhos. general. "Estás dizendo a verdade sobre o livro. Apontaram-se e prepararam-se os mosquetes. se queres saber." "Ele funcionava. a teu modo esquisito. até mesmo um intelectual.demais até para implorar. como eu. Gage. Eu sou a França. É possível enfeitiçar homens e fazê-los concordar com coisas extraordinárias. o que farias se eu te deixasse ir?" "Deixar-me ir? Vós me desculpareis se ainda não estou conseguindo pensar bem nisso. como eu.preciso pensar em milhões. como eu. Não preciso de magia quando tenho o Estado. Américain. Um oportunista. Não posso ceder a vinganças mesquinhas . O que fizeste foi um desperdício vergonhoso. Gage?" "Ele não existe mais. Pegou fogo. Quero dizer." "Minha posição se modificou. haverá eleição nos Estados Unidos. já encarara bocas de mosquete mais que suficientes) e ouvi o caminhar ruidoso de botas no cascalhinho quando Napoleão veio até nós. Eu fechara os olhos (em Jafa. Ano que vem. Parte dele. Assim. E então veio uma ordem abrupta: "Esperai". pelo menos." "Eu te desprezo. És um sobrevivente. Lá vou eu outra vez. não. e necessitarei de ajuda para melhorar as relações com o teu país. primeiro-cônsul. Estás ciente .

ou podem ajudar-se mutuamente. "E?" Fiz um gesto com a cabeça em direção a Astiza. As nossas nações podem ser inimigas. explicando uma nação à outra." "Gage. preciso de um enviado às Américas que pense e saiba desembaraçar-se com rapidez. como fizemos durante a vossa revolução. e ainda temos esperança de recuperar o Canadá. ou Columbia. Há estranhos relatos de artefatos no Oeste que talvez interessem a um pioneiro como tu. mas há limite para o que se pode discutir com Napoleão. Nunca. aquela que denominam Washington. A França possui interesses nas Antilhas e na Louisiana. Quero que vás para a vossa nova capital. Homem fascinante. vê o ." Olhei para a fileira de carrascos atrás dele." Eu tossi. "Ser um enviado?" "Tal qual Franklin. Tu me conheces tão bem quanto qualquer outro. "Desistiremos da acusação de homicídio contra ti e relevaremos este fiasco entre ti e Silano. "Sim.do fato de que as nossas duas nações vêm duelando no mar?" "Que infelicidade. Qualquer um vê isso. estás tão enfeitiçado por ela quanto eu por minha Josefina. mas nunca confiei nele. estou encantado com essa perspectiva." Os soldados pousaram a coronha dos mosquetes no chão. sim. e que Deus tenha piedade de nós! Vai com Astiza." Não era o que eu lembrava. "Sem dúvida. Senti a vida retornar a minhas extremidades. e examines algumas idéias para mim.

Meus auxiliares acharão um hotel para ti. Depois de quase dois anos de aventura. O teu incêndio é o pretexto para começar a reforma . não é mesmo?" "Estou bem ciente disso. não tenho um tostão. é isso. primeiro-cônsul. Pois bem." "Eu sou generoso com os amigos." Suspirei. é claro." "Feito. que medusa! Vou começar dando-te um pequeno estipêndio e confiar que não vás arriscá-lo nas cartas. Faremos algumas deduções até que eu receba minhas duzentas libras. "Se eu puder ter o meu fuzil de volta. a Inglaterra pode ser bem arrogante às vezes." "E que a França e os Estados Unidos compartilham os mesmos interesses contra a pérfida Albion?" "É. é claro. Napoleão se voltou e contemplou o palácio." . Mas estou disposto a fazer daqui o meu lar." "Tampouco confio em ti.mon Dieu.esta manhã mesmo!" "Que bom que eu pude ser de alguma ajuda." "Percebes que.que consegues aprender e descobrir e lembra-te: tu me deves duzentas de nossas libras!" Sorri com tanta afabilidade quanto possível. não vale a pena gastar as balas para matar-te?" "Penso exatamente assim. Mas trabalha comigo que alguma coisa poderá resultar disso . já que o teu caráter é tão vazio. longe daquela senhoria medonha . "É claro. Mas acho melhor confiscar a tua munição até que eu esteja bem fora de alcance." Quando me restituíram o fuzil (descarregado). És um velhaco. "O meu governo começará no Luxembourg. Gage.ainda não fizeste fortuna.

" "Não posso garantir tua segurança no Egito . Mas minha busca ainda não está de todo concluída. tanto quanto tens me amado. arrumo um emprego respeitável no novo governo da França . Ethan. As terras agrestes da América me seriam ainda piores. mas frio.não sei se conseguirei resgatar meu exército lá. fiz um exame de consciência e me dei conta de que o meu lugar é o Egito. Agora. Este não é o meu lugar . Eu te amo. Ainda não chegou a hora de ficarmos juntos." "Isis tem uma função para mim. perguntou ele a Astiza. e as florestas daqui ensombrecem a alma. moça?". consigo finalmente eliminar o ex-amante dela." Com a breca! Será que eu nunca posso dar sorte com as mulheres? Atravesso o Inferno de Dante. Vosso país é belo. "Não."E quanto a ti." Ela se virou. tanto quanto não o é para Ethan. mas compreendei por que preciso voltar para o Cairo e o Institut d'Egypte. "Sinto muito. com vagar e tristeza.e agora ela quer ir embora? Que insanidade! .. cônsul.e não creio que já tenhamos descoberto os derradeiros vestígios de Tot ou dos templários. Ela talvez ainda chegue. hesitou e então balançou negativamente a cabeça. Não: ela chegará.. Enviai Ethan em vossa missão. e não é do outro lado do oceano. "Estás pronta para conhecer a América?" Ela parecera preocupada enquanto Napoleão e eu conversávamos." "Não?" "Nestes dias longos e sombrios. com vossos savants.

vou. Ethan. — Nota Histórica — Se de fato aprendemos mais com os erros que com os acertos. O general francês provocou a . em 1799. então a campanha de Bonaparte na Terra Santa. Mas ela também é destino. Tu podes apostar".Mas seria mesmo? Eu ainda não estava com nenhuma vontade de estabelecer casa. e eu estaria livre do homem e pronto para planejar nosso futuro. Em Acre. uma rápida olhada em uma ou duas ilhas açucareiras ali." "Como é que vou saber se nos veremos outra vez?" Ela deu outro sorriso. "Não vais sentir minha falta?". e realmente não fazia idéia de onde aquela nova aventura poderia levar-me. Ethan Gage. de modo que ela poderia já ir tomando aquele caminho enquanto eu cumpria as tarefas de Napoleão na América. arrisquei perguntar. "Ah. triste. e esta suspensão de nossa execução é sinal de que devemos abrir a próxima porta e seguir o próximo caminho. pesaroso. Astiza tampouco era o tipo de mulher que me seguiria docilmente. E então sussurrou: "Tu podes apostar nisso. Alguns almoços diplomáticos aqui. mas doce. os ataques de Napoleão foram fruto de impaciência e se revelaram mal preparados. Astiza deu um sorriso triste. E eu estava muito interessado em saber mais sobre o antigo Egito. foi mesmo educativa ao extremo. e me beijou na face. A vida é pesar.

(Na realidade. o corso não apenas sobrevivera a uma debacle militar. E ainda assim. Antoine de Phélippeaux. Mas sir Sidney Smith. Ethan Gage e sua corrente de metal eletrificado constituem invenções. do mesmo modo que o torpedo-aríete de Napoleão. ao distribuir ópio e veneno aos moribundos da peste.hostilidade da maioria da população local. Ele não conheceria outro revés político-militar tão embaraçoso até a invasão da Rússia. A tragédia de Jafa. Phélippeaux morreu de exaustão ou insolação durante o cerco. ao encerrar-se o ano de 1799. Os políticos modernos que parecem revestidos de Teflon (no sentido de que nada de realmente negativo se cola a eles) nem se comparam a Napoleão Bonaparte em lábia e astúcia. em 1812. Os leitores de ficção que têm curiosidade por tais coisas gostarão de saber que grande parte deste romance é fato. embora eu tenha tomado liberdades com os detalhes. Também não se mostraram muito melhores os relatos de que Napoleão era culpado de praticar a eutanásia entre suas próprias tropas. . O saque e o subseqüente massacre dos prisioneiros em Jafa atingiriam a reputação dele pelo resto da vida. Como foi que ele conseguiu tal reviravolta após um desastre como aquele? É esse o mistério manhoso que está no cerne deste livro. a Batalha do Monte Tabor e o cerco de Acre ocorreram em larga medida como se descreve. Haim Farhi e Djezzar são personagens históricas. mas também manipulara tão habilmente a opinião pública francesa que se viu no cargo de primeiro-cônsul de sua pátria adotiva. a caminho de tornar-se imperador.

As evocativas aquarelas documentais pintadas em 1839 pelo artista inglês David Roberts estão reunidas em diversos livros de arte. durante longo . Napoleón in the Holy Lanã. eu recomendo Nathan Shur. Ainda que a estratégica torre e as muralhas do cerco de Acre não existam mais (em razão dos pesados danos sofridos por elas. foram fechados à visitação pelas autoridades muçulmanas). como os Estábulos de Salomão. Bonaparte in Egypt. Existem portões subterrâneos para túneis. inclui-se um escuro canal subterrâneo que sai do mais baixo dos tanques de Siloé e que este autor. Muito embora eu tenha imaginado algumas das galerias subterrâneas do Monte do Templo (uma necessidade.e não a baionetadas. Jerusalém está repleta de grutas e túneis. com água pela altura das coxas. sobra ar romanesco quando caminhamos pelas fortificações dessa linda localidade mediterrânea. pois mesmo espaços que antes puderam ser visitados durante longo tempo. e ali não fica difícil imaginar a estada de Gage na Terra Santa. À leste. Djezzar as substituiu por novas depois da batalha). uma rodovia para a Galiléia passa junto ao pé do morrote em que Napoleão instalou seu quartelgeneral durante o cerco.) Acre e Jafa (que hoje é subúrbio de Tel Aviv) conservam parte da atmosfera arquitetônica de 1799. Aos leitores interessados na história da campanha síria de Bonaparte. Christopher Herold. percorreu zelosamente para captar um quê da aventura subterrânea que descrevo. e J. Entre esses locais.

tratava-se mesmo de uma cidade perdida. cidade que foi construída pelos árabes nabateus pouco antes de Cristo e acabou sendo administrada pelos romanos. e pode-se ver pelo menos um como turista. pesquisadores já foram postos para correr de lá por multidões furiosas . muito do que descrevo está lá. encontram-se mais informações em As pirâmides de Napoleão. mas foi posteriormente demolida. Alguns leitores perceberão que a "Cidade dos Espíritos" são na realidade as deslumbrantes ruínas jordanianas de Petra. o Palácio das Tulherias foi iniciado em 1564 e destruído pelo fogo em 1871. Há de fato um Lugar do Alto Sacrifício. Sobre Tot.mas não é justamente isso que dá embasamento à idéia de que ainda possa haver revelações ali? Só não apareça no Monte do Templo com uma pá: você poderá provocar uma guerra santa. o simbolismo da cabala e a idéia do Livro de Tot são reais. debaixo do Monte do Templo. Em Paris. As narrativas tradicionais acerca dos templários. E. três meses após o general ter tomado o poder. sim. a qual deixaria pasmados os primeiros europeus a visitá-la. A época da visita de Gage. construíram a Catedral de Notre-Dame no local de um templo romano dedicado a Isis. Serviu de residência oficial para Napoleão e Josefina a partir de fevereiro de 1800. A Prisão do Templo também existia.tempo secretos. No passado. Não obstante eu ter tomado algumas liberdades evidentes. O monte está interditado aos arqueólogos por medo de que descobertas desencadeiem confrontos religiosos. o romance que . no século XIX.

bem como no evocativo trabalho de . quinhentos e trinta e quatro Livros de Tot.mas qual a causa da espantosamente rápida e avassaladora ascensão daquela ordem ao poder depois que seus cavaleiros fizeram escavações sob o Monte do Templo? O que.antecede este. se eles forem dignos de achá-los. eles acharam ali? Onde está a Arca da Aliança? Que segredos adquiriram as sociedades antigas? Sempre há mais mistério. os conservadores daquele museu talvez queiram colocar um pequeno aviso na caixa de vidro que protege a pedra. Mas trata-se apenas de sugestão. está desprovida da parte superior. Isso. Após lerem este livro. é claro. desculpando-se pela omissão e garantindo que estão se envidando todos os esforços para localizar o fragmento que um americano renegado mandou pelos ares em 1799. Minha afirmação de que o Livro de Tot foi descoberto pelos templários é coisa que inventei . — Agradecimentos — Para elaborar esta narrativa. afinal. assim como a idéia de que os arqueólogos fiquem de olho nos outros trinta e seis mil. o autor se baseou na erudição conscienciosa de uma multidão de historiadores. Devo sarcasticamente observar que pode ser surpresa para o Museu Britânico o fato de que a Pedra de Roseta. a mais importante. exposta com orgulho ali desde que as tropas britânicas a confiscaram aos franceses (1801).

Minhas máximas congratulações. e aos muitos outros que tornaram a publicação possível. o agente literário que me mantém no mercado. como sempre. à agente de comunicação Heather Drucker. Rakesh Satyal. ao editor de produção David Koral. Em especial. da Western Washington University. é claro. minha primeira leitora. meus guias em Israel. à copidesque Martha Cameron. providenciou o latim do epigrama dos templários. pelo trabalho duro que realizou para divulgar o livro. ao assistente editorial Rob Crawford. a Andrew Stuart.conservação arqueológica que faz de Israel e da Jordânia lugares tão gratificantes para quem os visita. meus especiais agradecimentos a meu editor. e Nancy Pearl trouxe à minha atenção a história de que Napoleão rasgava as páginas dos romances e as passava a seus oficiais. obrigado a Holly. Diane Johnson. e a Mohammed Helalat. E. agradeço a Paule Rakower e ao professor Dan Bahat. Na HarperCollins. meu guia na Jordânia. .