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Kathrin Buhl e Claudia Korol (Orgs.) Criminalização dos protestos e movimentos sociais 1ª edição: outubro
Kathrin Buhl e Claudia Korol (Orgs.) Criminalização dos protestos e movimentos sociais 1ª edição: outubro

Kathrin Buhl e Claudia Korol (Orgs.)

Criminalização dos

protestos e

movimentos sociais

(Orgs.) Criminalização dos protestos e movimentos sociais 1ª edição: outubro de 2008 – São Paulo 5

1ª edição: outubro de 2008 – São Paulo

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Copyright 2008, por IRL e Rede Social Coordenação Editorial: Natália Codo Organizadoras: Kathrin Buhl e

Copyright 2008, por IRL e Rede Social

Coordenação Editorial: Natália Codo

Organizadoras: Kathrin Buhl e Claudia Korol

Revisão: Matrix Idiomas

Kathrin Buhl e Claudia Korol Revisão: Matrix Idiomas Projeto gráfico, diagramação e capa: Estação das Artes

Projeto gráfico, diagramação e capa: Estação das Artes Produções Gráficas Ltda

e capa: Estação das Artes Produções Gráficas Ltda Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem prévia autorização do Instituto Rosa Luxemburg.

1ª edição: outubro de 2008 – São Paulo

INSTITUTO ROSA LUXEMBURG STIFTUNG RUA FERREIRA DE ARAÚJO, 36 - ALTO DE PINHEIROS CEP 05428-000 - SãO PAULO - SP - BRASIL TEL.: +55 (11) 3796-9901 www.RLS.ORG.BR

REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS RUA CASTRO ALvES, 945 - ACLIMAÇãO CEP: 01532-001 - SãO PAULO - SP - BRASIL TELS.: +55(11) 3271-1237/3275-4789 E FAX.: 011 3271 4878 www.SOCIAL.ORG.BR

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Apresentação (Claudia Korol e Kathrin

 

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Testemunhos da criminalização

 

Frente Popular Darío Santillán (Buenos Aires - Argentina)

 

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Coordenadora de Mulheres de Oaxaca Primero de (Oaxaca - México)

 

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Frente de Povos em Defesa da Terra (San Salvador Atenco - México)

 

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O Crime de ser MST - Leandro Gaspar (Porto Alegre - Brasil)

 

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La Legua York – Gustavo “Lulo” (Santiago – Chile)

 

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– Gustavo “Lulo” (Santiago – Chile)   .253 7 7 Estas são as digi- tais de

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Estas são as digi- tais de Ernesto Guevara de La Serna, mais conhecido como Che Guevara ou El Che.

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7 Estas são as digi- tais de Ernesto Guevara de La Serna, mais conhecido como Che

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CriminAlizAção dos movimentos soCiAis O que é um assalto a um banco, comparado com a
CriminAlizAção dos movimentos soCiAis O que é um assalto a um banco, comparado com a

CriminAlizAção dos movimentos soCiAis

O que é um assalto a um banco, comparado com a fundação de um banco?

Bertold Brecht

Quais são as modalidades atuais de criminalização dos movimentos sociais? Que relação existe entre esta e outras formas repressivas tradicionais? De que modo

os movimentos populares enfrentam as políticas que tendem a estigmatizá-los, invisi- bilizar ou deslegitimar suas demandas, de maneira que, ante a sociedade e perante a “justiça”, as lutas sociais sejam tratadas como delitos? Que relação existe entre o nível de implementação do modelo neoliberal e as novas formas de criminalização? Qual é

o impacto da política-modelo de criminalização do protesto no desenvolvimento dos

movimentos sociais? Estes e outros problemas foram compartilhados no Seminário convocado pela Fundação Rosa Luxemburgo, em junho de 2008, na Escola Nacional Florestan Fernandes do Movimento Sem Terra do Brasil. Ali realizamos uma experiência de- safiante sobre a lógica de fragmentação promovida pelo neoliberalismo com a inten- ção de isolar nossas lutas, nossos movimentos e privatizar os conhecimentos forja- dos nas resistências. Partilhamos e debatemos as análises que os diferentes coletivos, integrados por militantes de movimentos populares, intelectuais e grupos de direitos humanos realizaram em nossos países, para olhar em conjunto esta problemática. Assim, a partir do México, Chile, Brasil, Paraguai, Argentina, fomos re- conhecendo quanto há de comum nas realidades que chamamos de “nacionais” na América Latina Avançamos um pouco mais no diálogo com coletivos que na Alemanha vêm desenvolvendo luta sistemática em defesa dos direitos humanos e pudemos constatar o quanto se “globalizou” a repressão e seus argumentos, justifica- tivos das modalidades de “ordem” do capitalismo transnacionalizado do século 21. vamos compartilhar nesta publicação nossos trabalhos locais. Contudo, não

o fazemos como uma soma de fragmentos, mas sim como diálogo de experiências que se enriqueceram no encontro. Quiséramos transmitir àqueles que se aproximam destes textos o sentido coletivo que foi sendo criado durante o seminário, o qual não teve apenas mo- mentos de análise e intercâmbio dos textos e contextos de nossos estudos. Esteve marcado também por uma cálida e fraternal convivência que permitiu que os

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duros e comoventes testemunhos apresentados pudessem ser recebidos a partir do lugar do afeto reparador
duros e comoventes testemunhos apresentados pudessem ser recebidos a partir do lugar do afeto reparador

duros e comoventes testemunhos apresentados pudessem ser recebidos a partir

do lugar do afeto reparador para aqueles que, mesmo sofrendo as conseqüências brutais da repressão, não aceitam o lugar de vítimas, mas buscam caminhos para continuar as lutas populares: a única maneira de derrotar o terror com que o poder pretende nos isolar. Desse modo evitamos dois lugares-comuns que nos estigmatizam: tanto o de “criminosos” como o de vítimas. O seminário foi um encontro de mili- tantes, como nós, que anseiam transformar o mundo desumano em que vive- mos, que questionamos suas profundas injustiças, que queremos criar víncu- los solidários em nossa caminhada pela vida, forjando identidade em nossos sonhos e em nossas diferenças.

A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) do Movimento Sem Terra

do Brasil (MST) foi um marco adequado para nossos diálogos. Erguida com o trabalho voluntário de militantes e amigos do MST – um dos movimentos du- ramente criminalizados neste momento da América Latina –, é precisamente

um signo das possibilidades de construir, tijolo a tijolo, um espaço comum que contenha nossos mundos diversos. Das paredes da ENFF nos saudavam a cada manhã o Che e Rosa Luxem- burgo, Paulo Freire e Olga Benário, entre muitas lutadoras e lutadores que em seu tempo e no nosso desfraldaram projetos revolucionários e os encarnaram em suas vidas. A história dos vencidos que continuam forçando os limites do possível para abrir não apenas as “grandes alamedas”, mas também antigos e novos territórios de liberdade.

O objetivo do seminário era traçar um panorama dos mecanismos de re-

pressão e de resistência por parte das comunidades locais e criar um espaço para o intercâmbio de informações sobre instrumentos de incidência, formação, mobiliza- ção e articulação entre organizações e movimentos em diversos países, com intuito de construir ações conjuntas de resistência e solidariedade. Iniciou-se com uma aná- lise de conjuntura, que situou alguns elementos fundamentais para contextualizar os estudos nacionais. Em seguida, foram apresentados os estudos particulares e, a partir daí, se começou a analisar o comum e o diferente que encontrávamos neles, para abrir passo à elaboração de sugestões que permitissem fortalecer nossas ações locais e acordar iniciativas para ampliar o trabalho comum. Da apresentação dos trabalhos de pesquisa, na primeira jornada, surgiram alguns temas de debate e a necessidade do seu aprofundamento, como aqueles as- sinalados no começo deste comentário, e outros como:

• Quais os efeitos produzidos nas práticas cotidianas dos movimentos pela judicialização das organizações e de seus integrantes?

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• Como incide o fechamento dos espaços públicos e dos grandes meios de comunicação nas
• Como incide o fechamento dos espaços públicos e dos grandes meios de comunicação nas

• Como incide o fechamento dos espaços públicos e dos grandes meios de

comunicação nas formas de expressão das demandas dos movimentos?

• Que relação existe entre esse fechamento de possibilidades de intervenção

social, a redução de espaços de negociações legais e a realização dos protestos?

• De que maneira se legitimam ante a sociedade as diversas práticas popu- lares de desobediência civil?

• Como elucidamos a relação das políticas de criminalização dos movi-

mentos sociais com o caráter “progressista” de alguns governos?

• Como distinguimos as relações entre as políticas locais e nacionais e sua

vinculação ou contradições com as políticas estatais de controle social? Durante o debate ficou evidente a existência de um “estado de segurança preventiva” em nossos países e foram mencionadas diferentes modalidades de re- pressão. Além das mais conhecidas, destacam-se outras como a repressão simbólica ou a privatização de alguns aparelhos de repressão. Examinou-se o papel crescente dos serviços de inteligência, de controle e uso de novas tecnologias, bem como os avanços na coordenação internacional da repressão (e, comparativamente, foi pos- sível estabelecer que esta não atinge o nível alcançado entre os Estados da União Européia). Foi analisada a relação entre as políticas e as legislações repressivas que estão sendo implementadas, e as pressões em tal direção realizadas pelo governo dos EUA e seus planos de militarização do continente, destinados a reproduzir e fortalecer sua hegemonia mundial. Sustentou-se que a criminalização não é individual, é sempre coletiva. O castigo de um militante não é pessoal e individual, mas é parte de uma criminali- zação geral dos movimentos que lutam pela emancipação social. Foi considerado o lugar dos grandes meios de comunicação como parte do poder e como instru- mentos privilegiados na manipulação do consenso. Analisou-se a ampliação dos “protagonistas do conflito social”. Por um lado, se encontram os Estados nacionais, provinciais (ou estaduais), municipais, as empresas transnacionais, os interesses econômicos do poder. De outro lado, entre os afetados é maior o impacto ou a visibilidade das lutas e, como conseqüência, a criminalização dos movimentos de jovens, mulheres, indígenas, camponeses, tra- balhadores desempregados ou precarizados, populações afetadas pelos empreen- dimentos do novo modelo de “desenvolvimento” do capitalismo neoliberal. Constatou-se que nas universidades geralmente não se inclui o estudo dos direitos humanos, tampouco se transmite uma visão social. Os direitos pri- vados são tratados como absolutos. Foi sugerida, em conseqüência, a promoção de campanhas para que sejam exigidas matérias de cunho social e a formação em direitos humanos nos concursos públicos para a Magistratura e Ministérios.

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Também foi proposta a necessidade do domínio de todos os ramos do Direi- to por
Também foi proposta a necessidade do domínio de todos os ramos do Direi- to por
Também foi proposta a necessidade do domínio de todos os ramos do Direi- to por

Também foi proposta a necessidade do domínio de todos os ramos do Direi-

to por parte de quem advoga para os movimentos populares, destacando-se que a boa formação técnica em todos os setores jurídicos é fundamental para

o desempenho dos advogados que atuam na luta social. Nesse sentido, viu-se a

possibilidade de manter intercâmbios sistemáticos entre as redes de advogados defensores de direitos humanos e a necessidade de criação de redes e de forma- ção de advogados com essa orientação nos lugares onde estes são escassos para as demandas crescentes dos movimentos. Outra análise deu conta de que, apesar de haver experiências importantes, ainda existe uma debilidade muito grande na articulação entre os movimentos sociais e os meios de comunicação alternativos. Seu alcance, em muitos casos,

é o dos especialistas e não chega a todos os militantes. Em muitos casos, essa

mídia enfrenta conflitos legais para sua atuação. Também são fracas as políticas dos movimentos para influir nos grandes meios de comunicação e no diálogo com os trabalhadores da imprensa e jornalistas que ali atuam.

Um momento especialmente impactante, mesmo para aqueles que perma-

nentemente convivem com as denúncias de setores afetados pela repressão, foi o painel em que se partilharam diferentes testemunhos de criminalização dos movi- mentos sociais em nossos países, os quais foram transcritos para este livro. Na última jornada foram trabalhadas idéias e propostas, concernentes às questões jurídicas e da comunicação, e se analisaram possibilidades de ação co- mum nos movimentos urbanos, estudantis, de camponeses, de indígenas, de luta contra os megaempreendimentos. Entre outros temas, foram propostos como sugestões e necessidades:

• Um maior intercâmbio sobre os temas jurídicos. Elaborar um estudo

comparativo das legislações repressivas dos diferentes países e das formas como são utilizadas.

• Desenvolver iniciativas (comunicacionais, pedagógicas e jurídicas), no

sentido de deslegitimar as leis antiterroristas e as legislações repressivas.

• Analisar a organização das forças policiais e de segurança. A partir disso, traçar uma estratégia comum para agir diante da repressão.

• Compartilhar as modalidades de resposta e de resistência dos movimen-

tos populares ante a criminalização.

• Compartilhar recursos e fortalecer as redes de meios alternativos, e entre eles e os movimentos populares.

• Desenvolver uma estratégia a partir dos movimentos para incidir nos meios de comunicação do sistema.

• A partir dos movimentos populares, dos meios de comunicação alter-

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nativos e em todos os espaços em que seja possível atuar, é necessário: divulgar

de forma permanente os conflitos sociais, permitindo que sejam visibilizados do ponto de vista dos protagonistas, discutir os discursos de criminalização dos pro- testos, ressignificando os termos com que somos estigmatizados. Ter sempre uma grande preocupação com a linguagem utilizada em nossos materiais.

• Promover iniciativas que permitam visibilizar as estratégias de crimi-

nalização dos movimentos sociais, aproveitando formas alternativas de comu- nicação, tais como: murais, mensagens pelos celulares, teatro de rua, atividades em praças públicas, tribunais populares. Foi sugerida a elaboração de panfletos explicativos, acessíveis a possíveis afetados por estas políticas.

• Debateu-se a possibilidade de criar um observatório de criminalização

dos movimentos sociais latino-americanos, ou outro tipo de publicação na Inter- net, que divulgue esses fatos e as pesquisas e denúncias sobre eles.

• Foi proposto o desenvolvimento de oficinas de educação popular nos mo-

vimentos para enfrentar as políticas de criminalização (estudo de seus mecanis-

mos, como trabalhar com o discurso, como atuar diante da repressão, dos meios

de comunicação, etc.). Insistiu-se na necessidade de formação de militantes com preparação teórica e técnica, com capacidade para enfrentar lutas que requerem cada vez mais preparação e conhecimento em todos os planos.

• Promover ações como ocupações de terras, manifestações, marchas,

recorrendo na medida do possível a formas criativas, para chamar a atenção da população sobre as violações aos direitos humanos.

• Foi sustentada a necessidade de desenvolver a solidariedade ativa com

todos os presos políticos, independentemente dos fatos de que são acusados pelo poder. A batalha pela liberdade é um objetivo irrenunciável do movimento de direitos humanos.

• Levando em consideração o avanço na criminalização dos pobres, foi co-

locada a necessidade de sustentar políticas solidárias com os presos comuns e a necessária defesa do conjunto de seus direitos. O encerramento do encontro foi muito emotivo. Uma companheira fez um canto a Oxalá… e nele sentimos as vozes de todas as pessoas que foram negadas nestas terras, em mais de 500 anos de genocídio, escravidão, desaparições, oculta- ções, silencioso extermínio. No abraço final, sentimos vivo o grito que alentou a liberdade nos quilombos brasileiros, nas manifestações chilenas, nos piquetes da Argen- tina, nas comunidades guaraníticas do Paraguai, Brasil, Argentina, Bolívia, nos territórios mapuche da Patagônia, nas comunidades em luta no Méxi- co, nas batalhas de rua da Europa, contra uma globalização que fecha as

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fronteiras para os seres humanos “outros”, e as deixa abertas para o “livre” trânsito dos
fronteiras para os seres humanos “outros”, e as deixa abertas para o “livre” trânsito dos

fronteiras para os seres humanos “outros”, e as deixa abertas para o “livre” trânsito dos capitais. Denunciar a criminalização dos movimentos populares é o caminho para defender coletivamente a legitimidade de cada um de nossos direitos. Para tor- nar visível o que dizia uma publicação de um coletivo mexicano: o verdadeiro crime é reprimir. O que se pretende com esta publicação é contribuir para um esforço apa- rentemente simples: sustentar o direito a defender os direitos. E se espera que seja um estímulo a todos aqueles movimentos populares que, aprendendo coletiva- mente uns de outros, sintam fortalecer sua capacidade de ação transformadora, baseada na criação de novos vínculos, opostos aos que promovem a dominação. vínculos que promovam relações de solidariedade, de confiança, de cooperação, nos quais nos reconheçamos em um mesmo caminho feito de muitas sendas aber- tas na história. Que permitam também identificar no horizonte os sonhos vivos dos lutadores e lutadoras do passado, do presente e do futuro. E olhar de frente aqueles que os criminalizam, com palavras verdadeiras, brotadas de corpos insub- missos, de resistências milenares, de gritos da terra e dos bosques que pronunciam desejos, esperanças e ações que humanizam a vida.

Kathrin Buhl e Claudia Korol 1

que humanizam a vida. Kathrin Buhl e Claudia Korol 1 1 Kathrin Buhl Kathrin Buhl é

1 Kathrin Buhl Kathrin Buhl é diretora da Oficina Regional da Fundação Rosa Luxemburg no Cone Sul. CLaudia KOROL é integrante do Centro de Pesquisa e Formação dos Movimentos Sociais Latino (CiFMSL) e da Equipe de Educação Popular Pañuelos em Rebeldia.

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ArGentinA CriminAlizAção dos movimentos soCiAis nA ArGentinA 2 Roxana Longo – Claudia Korol 3 As

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ArGentinA CriminAlizAção dos movimentos soCiAis nA ArGentinA 2 Roxana Longo – Claudia Korol 3 As batalhas

CriminAlizAção dos movimentos soCiAis nA ArGentinA 2

CriminAlizAção dos movimentos soCiAis nA ArGentinA 2 Roxana Longo – Claudia Korol 3 As batalhas populares

Roxana Longo – Claudia Korol 3

As batalhas populares em defesa dos direitos legítimos – ou pela possibili-

dade de conquistar novos direitos –, uns e outros ameaçados pelo avanço do capi-

talismo transnacional, têm que enfrentar formas repressivas insuficientemente conhecidas pelas pessoas que delas são vítimas.

A criminalização dos movimentos populares é um aspecto orgânico da

política de “controle social” do neoliberalismo. Articula diferentes planos das es-

tratégias de dominação, que vão desde a criminalização da pobreza e a judicializa- ção do protesto social, até a repressão política aberta e a militarização. São dife- rentes mecanismos tendentes a subordinar os povos às lógicas políticas do grande capital, para assegurar o controle dos territórios, das populações que os habitam, dos bens da natureza, e para reduzir ou domesticar as dissidências. Este estudo observa algumas modificações produzidas no capitalismo nas últimas décadas e a forma como interagem com as mudanças no Estado, que per- mitem reproduzi-las e afiançá-las; partindo do fato de que as novas modalidades repressivas – entre as quais é central a criminalização da pobreza e do protes- to social – não são “vestígios do passado ditatorial não desmantelado”, mas sim mecanismos funcionais de controle de acordo com os padrões de acumulação do capitalismo do século 21.

O trabalho analisa algumas iniciativas ensaiadas para reforçar o disciplina-

mento do mal-estar social, lista uma seleção significativa de casos concretos 4 , com as idéias que foram construídas a partir do poder e a partir dos setores populares sobre a legitimidade (ou não) da luta social, e sobre a pertinência (e inclusive o desejo) de sua

2 Este trabalho, coordenado por Claudia Korol e Roxana Longo, é parte de uma pesquisa realizada pelo Centro de investigação e Formação dos Movimentos Sociais Latino-americanos (CiFMSL), com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, da alemanha, cujo texto completo será publicado na argentina. Foi realizada em consulta com os

coletivos Rede Eco alternativo, FiSYP, Mopassol, Fidela, Frente Popular darío Santillán e a Equipe de Educação Popular “Pañuelos en Rebeldia”. 3 CLaudia KOROL e roxana longo integrantes do Centro de investigação e Formação dos Movimentos Sociais Latino-americanos (CiFMSL) e da Equipe de Educação Popular “Pañuelos en Rebeldía”.

4 Estes casos, que figuram no estudo completo como anexo i (Estudo de casos) são: i.1. a resposta do governo de

Neuquén ante o protesto social; i.2. a persistência da impunidade: a situação em General Mosconi; i.3. avassala-

mento do Movimento Nacional Campesino e indígena; i.4. O massacre da Ponte Pueyrredón – avellaneda; i.

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repressão. vincula aquilo que se tem promovido no plano cultural e comunicacional para possibilitar a
repressão. vincula aquilo que se tem promovido no plano cultural e comunicacional para possibilitar a

repressão. vincula aquilo que se tem promovido no plano cultural e comunicacional para possibilitar a maior criminalização social, com as demandas cidadãs que recla- mam “maior segurança”, e a pretendida homogeneização cultural que estigmatiza “os diferentes” como perigosos. Observa a maneira de agir das forças repressivas e algu- mas das mudanças realizadas nas legislações, em função das políticas estadunidenses de “guerra ao terrorismo” 5 . Discute os discursos e as políticas de direitos humanos, que separam a análise dos crimes de terrorismo de Estado das atuais violações aos direitos humanos dos pobres e excluídos, daqueles que exercem seu direito ao protes- to; socializa buscas populares que fortalecem sua capacidade de resistência, e inclusive de existência, em um mundo que as nega de muitas maneiras.

1. do trânsito do “estado neoliberal” ao estado neoliberal “em trânsito”

O trânsito do chamado “estado de bem-estar” ao “estado neoliberal” pro-

duziu modificações nas pautas de integração e de inclusão social, de controle da população, de “ordenamento” cultural e de repressão às possíveis ameaças à hege- monia. Na Argentina, este processo iniciado com a ditadura militar (1976-1983) continuou no governo de Raul Alfonsín (1983-1989), atingiu seu maior apogeu durante o governo de Carlos Menen (1989-1999) – favorecido pela incorporação do peronismo ao ideário consagrado do “fim da história” – e seguiu seu curso no governo da Aliança (De La Rúa-Chacho Alvarez, 1999-2001) 6 .

A rebelião popular de 19 e 20 de dezembro de 2001 expressou uma crise

profunda nessa modalidade de exercício da dominação. As conseqüências da apli- cação das políticas devastadoras, que consideravam faixas inteiras da sociedade como “descartáveis”, encontraram um limite na fúria popular. O cansaço social provocou a crise de legitimidade das forças políticas do sistema, obrigando a mu- dança das regras de jogo das diversas frações do poder, que tiveram que readequar o modelo de gestão das políticas neoliberais, introduzindo mediações estatais, que tendem a combinar o neoliberalismo com políticas neodesenvolvimentistas.

É necessário analisar de que forma influíram neste contexto os aconteci-

analisar de que forma influíram neste contexto os aconteci- 5 No estudo completo podem ser aprofundadas

5 No estudo completo podem ser aprofundadas estas análises nos trabalhos apresentados como anexo ii: discurso

da mídia e criminalização do protesto. Elaborado pela Rede Eco alternativa. anexo iii: algumas considerações

sobre o papel da Polícia Federal argentina diante das diversas formas de protesto social. Elaborado por Gerardo Etcheverry (FiSYP). anexo iV: O contexto da “luta antiterrorista” proposto pelos EE.uu. Elaborado por Rina Bertaccini (Mopassol). (Estão publicados em www.cifmsl.org).

6 uma figura simbólica deste continuísmo é a de domingo Cavallo, presidente do Banco Central, durante a di-

tadura, e Ministro de Economia de Carlos Menem e de Fernando de la Rua. Em dezembro de 2001, domingo Cavallo era Ministro de Economia, e tinha promovido as medidas financeiras que desataram a rebelião popular dos dias 19 e 20, que liquidou com o governo de Fernando de La Rúa.

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mentos do 11 de setembro de 2001 nos EUA 7 , e no nível local a rebelião popular

de 19 e 20 de dezembro. Nesta análise caracterizamos duas etapas: a que vai desde

o fim da ditadura até 2001; e a que vai dessa data até os dias de hoje 8 . Enquanto 2001, no plano internacional, foi o momento de avanço da im- posição das pautas culturais do “neoliberalismo de guerra” 9 , paradoxalmente na Argentina a resistência popular ultrapassou os limites desse modelo de acumula- ção conhecido como “neoliberalismo”. O Estado neoliberal começou a transitar na

direção de um outro Estado, cujos alcances e contornos ainda não estão suficiente- mente reconhecidos.

O “neoliberalismo de guerra” cultivou as noções de “guerra infinita”, do en-

frentamento em todo o planeta entre o “Eixo do Mal” e o “Eixo do Bem” – em uma versão fundamentalista da cultura, da história e da política –, dando um novo giro à antiga “Doutrina de Segurança Nacional” – com as diferentes versões da “Segurança Democrática” – que têm como base comum os interesses de conservar

e reforçar a hegemonia “política, econômica, social, alimentária, energética, etc.” estadunidense e dos centros do capitalismo mundial.

A apropriação de territórios, de bens da natureza, alimentos, biodiver-

sidade, e a destruição dos povos que pudessem constituir obstáculos para tal objetivo, foram justificadas com o argumento da “segurança”, pretendendo legiti-

mar do mesmo modo invasões, massacres de populações, autênticos genocídios.

A “guerra dos ricos contra os pobres” assumiu uma dimensão mundial, fazendo

crescer de maneira brutal as assimetrias de forças e de oportunidades. Funcionais

para o enfoque de estigmatização “dos pobres”, “dos diferentes” e daqueles que desafiam o poder, foram postas em prática diversas expressões de “criminalização

da pobreza” e de “criminalização dos movimentos sociais”. Os meios de comunicação desempenharam um papel central na construção

de uma subjetividade que destrói os laços de solidariedade, identificando os mais vulneráveis como ameaça para aquela parcela da sociedade que continua com suas necessidades básicas satisfeitas. O discurso da mídia se vê reforçado pelas políticas públicas que fragmentam o campo social, e inclusive o territorial, com propostas diferenciadas de educação, saúde, moradia, construindo geografias que acentuam

a distância entre incluídos e excluídos, até dentro dos próprios setores populares. Muitas universidades, centros de pesquisa, fundações e outros âmbitos de produção intelectual que respondem às agendas de interesses apontadas pelo Banco Mundial e pelos grandes centros do poder produzem um amplo espectro de interpretações que tendem à dissociação dos saberes, à funcionalidade com os

7 atentado contra as Torres Gêmeas, e sua interpretação no discurso hegemônico norte-americano.

8 Trabalhamos na análise de casos até junho de 2008.

9 “Neoliberalismo de guerra”, caracterização feita por Pablo González Casanova.

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interesses do poder mundial, à apropriação dos saberes populares e à assimilação inclusive dos discursos
interesses do poder mundial, à apropriação dos saberes populares e à assimilação inclusive dos discursos

interesses do poder mundial, à apropriação dos saberes populares e à assimilação

inclusive dos discursos progressistas, para fundamentar propostas de desarticula- ção das possíveis alternativas populares.

O discurso pós-moderno age como um poderoso mecanismo de re-

troalimentação das visões fragmentadas da realidade, esvaziando os espaços de produção de sentidos dos aportes do pensamento crítico e desqualificando-os em

função do pragmatismo que tudo transforma em mercadoria, desde a água até a ciência; desde o alimento imprescindível para a vida até os saberes populares que estão sendo patenteados e apropriados pelas corporações transnacionais. Coincidente no tempo, porém com um sentido e uma direcionalidade diferentes, o “basta!” popular, expressado na rebelião de 19 e 20 de dezembro de 2001, foi um momento de desnaturalização e de desorganização de alguns núcleos básicos da cultura capitalista da globalização como: a supremacia da propriedade privada sobre o direito à vida, a mercantilização de todas as dimensões humanas, o conceito positivista de “desenvolvimento”, a alienação do protagonismo popular na representação parlamentar, a colonização do saber, o triunfo de um modo de vida que sepulta a existência humana nos confins da sobrevivência, bem como a legitimação de um modo hierárquico de organização das relações sociais capita- listas, patriarcais e neocoloniais.

As tendências contraditórias se expressam, entre outros modos, em discur-

sos que – a partir do poder local – em alguns trechos se “engancham” com a lógica hegemônica, e em outros trechos a problematizam. Assim, embora constitua um avan- ço significativo na vida cotidiana um conjunto de medidas que os governos pós-re- belião vêm desenvolvendo com intuito de desarticular as políticas de impunidade dos crimes de Estado e mitigar com políticas assistenciais as arestas mais agudas da des-

proteção social, esses “alívios” são utilizados, ao mesmo tempo, para obturar qualquer crítica às atuais violações dos direitos sociais e políticos, configurando um status quo que multiplica territórios de desigualdade e exclusão, tornando-os estruturais. Dessa maneira, acentua-se uma fratura no discurso dos direitos humanos, que tem dois recortes claramente observáveis: 1) a reivindicação dos direitos hu- manos em relação às demandas contra os responsáveis da última ditadura militar encontra-se dissociada das demandas pela vigência atual dos direitos humanos “para todos”; e 2) um recorte classista: esse “para todos” que não é reconhecido, está sobredeterminado pela criminalização da pobreza, funcional às lógicas de ex- clusão estrutural do capitalismo.

Se os direitos sociais e os direitos humanos foram arrasados no trânsito ao

Estado neoliberal, a crítica realizada a esse modelo de acumulação capitalista pe- los setores populares desaparecidos socialmente requer o questionamento de uma

versão dos direitos humanos que reproduz em seu interior as lógicas de exclusão.

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versão dos direitos humanos que reproduz em seu interior as lógicas de exclusão. book.indd 21 21

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É altamente desmoralizante para as novas vítimas das violações dos direitos hu- manos o fato
É altamente desmoralizante para as novas vítimas das violações dos direitos hu- manos o fato

É altamente desmoralizante para as novas vítimas das violações dos direitos hu- manos o fato de alguns organismos históricos desconhecerem, na atualidade, os crimes que são cometidos cotidianamente: as mortes de jovens por “tiros aciden- tais”, os regimes de torturas e confinamento em delegacias e prisões – que são verdadeiros depósitos de pobres –, as sistemáticas invasões policiais às popula- ções mais vulneráveis, o incremento das figuras legais para castigar aqueles que protestam pela perda de direitos, ou a prisão política de lutadores e lutadoras. É por isso que, com o registro de formas concretas de criminalização social, discutimos o discurso hegemônico de uma fração do movimento de direitos hu- manos que, ao se fecharem às demandas diante das violações atuais desses direitos, terminam por contribuir para a formação de um consenso hegemônico que isola as novas vítimas do capital.

consenso hegemônico que isola as novas vítimas do capital. 2.1. Argentina: 1983-2001 A ditadura militar (1976-1983)

2.1. Argentina: 1983-2001

A ditadura militar (1976-1983) utilizou o terrorismo de Estado para criar as condições objetivas e subjetivas de reconfiguração do capitalismo que tornaram possível a ascensão do capital especulativo ao posto de comando da economia, e um ininterrupto processo de concentração e centralização da riqueza, estrangeirização da economia por meio das privatizações e do endividamento externo, destruição da natureza, desindustrialização, incremento da exploração e precarização da força de trabalho, e exclusão de extensas faixas da população dos direitos sociais básicos. No se trata apenas da destruição de conquistas históricas dos trabalhadores. Era necessário remodelar a subjetividade forjada nas batalhas populares por aque- las conquistas, deslegitimando o horizonte utópico que propunham as gerações de lutadores e lutadoras dos anos 1970, que imaginavam como projeto possível e desejável a libertação nacional e o socialismo 10 . Os mecanismos de destruição daquele imaginário de transformação social, tanto o dos setores mais radicalizados da população como o da maioria dos setores populares, foram, primeiro, o uso maciço e intensivo do terror e, na pós-ditadura, a impunidade dos responsáveis pelo genocídio – o que reforçava a internalização do medo 11 –, assentados em componentes ideológicos fortemente difundidos a partir dos grandes meios de comunicação, como a “teoria dos demônios”. Por esse disposi- tivo buscava-se equiparar os responsáveis das violações massivas dos direitos huma-

10 Por isso, foi sumamente favorável à dominação, à crise e à desestruturação do mundo que se conhecia como

“socialismo real”.

11 isto ficou muito evidente quando, em setembro de 2006, aconteceu o desaparecimento de Jorge Julio López,

testemunha do julgamento ao repressor Miguel Etchecolatz. Reapareceram então os “fantasmas” alojados no “in- consciente coletivo”. a internalização do medo continua a se reproduzir por ocasião das detenções de ativistas, ou nos atuais seqüestros de militantes, nas ameaças que uma e outra vez se referem aos tempos da ditadura.

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nos, com as correntes que desafiaram a ordem capitalista, para responsabilizar tanto uns como outros
nos, com as correntes que desafiaram a ordem capitalista, para responsabilizar tanto uns como outros

nos, com as correntes que desafiaram a ordem capitalista, para responsabilizar tanto uns como outros pela violência, reforçando a chantagem onipresente do fabuloso castigo que recebem aqueles que se atrevem a questionar a dominação. Colocaram-se em um mesmo plano o terrorismo de Estado e a luta revolu- cionária, tentando explicitar a diferença entre esses atores históricos e um campo de supostos “inocentes” que ficariam “à margem” enfrentando-se a ambos. Ao suprimir da análise o difícil tema da cumplicidade civil com a ditadura, o que se pretendeu foi romper qualquer identificação entre os setores populares orga- nizados e os movimentos revolucionários, de modo a perpetuar um “status quo democrático”, que não questionasse os limites do sistema de dominação. Mas era necessário avassalar ainda mais a consciência social, desorgani- zando inclusive o ideário populista, nacionalista, estatizante, que se galvanizou em torno do peronismo. Para esse trabalho, foi fundamental a contribuição do “mene- mismo”* que “de dentro” do peronismo promoveu a perda da identidade e dos va- lores da experiência popular, tornando possível, assim, avançar mais claramente na aplicação das políticas neoliberais. O governo Menen foi a expressão mais acabada do projeto sistematizado pelo Consenso de washington 12 . Conseguiu avançar na desarticulação das resistências que não haviam sido disciplinadas pela ditadura. Mas foi também nessa etapa que começaram a se expressar as lutas populares que desafiaram as conseqüências das políticas neoliberais; e surgiram movimentos que desenvolveram suas estratégias e propostas nos limites da sobrevivência. Diante da perda dos direitos à alimentação, à moradia, à terra, à identidade, desenvol- veram-se novas maneiras de protestar, caracterizadas pela ação direta, por formas de organização em assembléias, pela identificação e a confrontação aberta com os fatores do poder responsáveis por estas políticas.

com os fatores do poder responsáveis por estas políticas. 2.1.1. A confrontação com o modelo neoliberal:

2.1.1. A confrontação com o modelo neoliberal: os primeiros sinais (1989-2001)

Citaremos aqui alguns marcos da mobilização social, desenvolvida entre 1989 e 2001, que dão conta do crescimento das resistências. - Saques em maio/julho de 1989 motivados pela fome 13 . Puseram fim ao go-

* Refere-se aos partidários do ideário do presidente Carlos Menen (N.da T.).

12 Em novembro de 1989, o institute for internacional Economics realizou em Washington dC um seminário no

qual foi sistematizado o “catecismo neoliberal”, em torno de um conjunto de medidas: ajuste econômico, redução

do Estado, política antiinflacionária baseada na recessão, desindustrialização, flexibilização das relações de tra- balho, disciplina fiscal, taxas de câmbio “competitivas”, liberalização do comércio, investimentos estrangeiros, privatizações e desregulamentação . O debate foi publicado no livro O consenso de Washington (J. Williamson, Latin america adjustment: how much has happened? Washington d.C. 1990).

13 Embora a situação de descontentamento social tenha sido alardeada por “informantes” do Partido Justicialista

interessados em desestabilizar o governo radical, a dimensão dos fatos que se desataram está diretamente relacionada

com a acumulação de cansaço e enojo diante de situações-limite, como a fome, a miséria, a falta de trabalho.

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verno de Alfonsín 1 4 . Embora não representassem um nível de consciência crítica or-

verno de Alfonsín 14 . Embora não representassem um nível de consciência crítica or- ganizada, sua massificação expressou o cansaço popular diante da exclusão.

- Década de 1990 – Mobilizações multitudinárias contra a impunidade em Cata-

marca, pelo esclarecimento do crime contra María Soledad Morales, jovem de 17 anos

estuprada e assassinada por criminosos ligados ao poder político. As “Marchas do Silên- cio” revelaram a impunidade existente na província. Durante sete anos foram realizadas 83 marchas, que mobilizaram, em algumas ocasiões, mais de 40.000 pessoas. Derrubou- se o governo provincial e foram conseguidas algumas condenações de responsáveis, mas

o julgamento não chegou ao fim pelo encobrimento político e policial do crime.

- 16 e 17 de dezembro de 1993 – O “Santiagazo”. Manifestação popular em Santiago

del Estero, iniciada por trabalhadores estatais que eram demitidos ou tinham os salários re-

duzidos e ficavam vários meses sem receber. A manifestação popu-lar assaltou e incendiou os edifícios dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e as casas de dirigentes políticos

e sindicais do governo e da oposição. Na noite do dia 16, o Governador Juárez foi destituído

e o Congresso Nacional decretou a intervenção nos três poderes provinciais, aprovando um projeto do Poder Executivo que, simultaneamente, enviou agentes e policiais federais à província. O “Santiagazo” foi um momento de inflexão, a partir do qual começaram a ser desenvolvidos novos níveis de mobilização e ação direta.

- 1994-1995 – Grandes mobilizações de trabalhadores municipais e estatais

em La Rioja, Jujuy, Salta, Chaco, Tucumán e Entre Ríos.

- Jujuy foi centro de importantes lutas dos trabalhadores municipais e estatais,

com apoio popular e elevado nível de organização para enfrentar a repressão policial.

No dia 29 de março os trabalhadores estatais atacaram a Casa de Governo e a casa do governador. Alguns dias depois, em 4 de abril, tentaram entrar na Legislatura.

- Em Salta no dia 8 de abril uma marcha de protesto dos professores terminou

com o saque e incêndio de móveis e papéis de dois escritórios da Legislatura.

- Em julho foi realizada a primeira Marcha Federal, com colunas que parti-

ram de diferentes pontos do país e convergiram para a Capital Federal, convocada pela Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), pelo Movimento dos Trabalha-

dores Argentinos (MTA, integrante da CGT) e pela Corrente Classista e Com-

bativa (CCC). Estas organizações convocam uma greve geral em agosto de 1994.

- Em 1995 multiplicaram-se as mobilizações por todo o país. No dia 12 de

abril foi assassinado, durante uma mobilização, o operário da construção civil víctor Choque (37 anos). Foi o primeiro morto durante protestos sociais desde o retorno à

14 É interessante a análise que faz Nicolás iñigo Carrera destes saques. Em uma entrevista publicada no diário Clarín destaca:

“– Já tinham ocorrido saques antes de 1989? – Claro que sim. dou uns poucos exemplos: houve saques em Jujuy, em torno dos fatos de 17 de outubro de 1945; no “Rosariazo” em 1969; nos anos 1930 e 1931, quando os desempregados de Villa Esperanza e Villa aceptación chegam até Corrientes e Canning e saqueiam lojas. – O que é, então, que distingue os velhos saques dos

novos? – Que em 1989 e 1990 os saques não são um elemento marginal do protesto, mas o protesto em si mesmo

algo simi-

lar pode-se dizer dos bloqueios de estrada: sempre houve – nos anos 1970, as ligas agrárias –, mas por algum motivo – talvez porque não estejam inseridos dentro de outro fato dominante, mas porque são o fato em si mesmo – os dos últimos anos são

mais significativos”. Nicolás iñigo Carrera. Clarín. 18 jan. 1998. O protesto social que nasceu com o ajuste.

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democracia. Nessa repressão, realizada pela Polícia da Terra do Fogo, houve outros 26 feridos. O
democracia. Nessa repressão, realizada pela Polícia da Terra do Fogo, houve outros 26 feridos. O

democracia. Nessa repressão, realizada pela Polícia da Terra do Fogo, houve outros

26 feridos. O Governador era José Estabillo, o Ministro do Interior, Carlos v. Corach

e o Presidente, Carlos S. Menen. A polícia provincial recebeu o apoio do governo nacional, que enviou 300 agentes de reforço.

- 1995-1996 – Importantes mobilizações docentes e estudantis em oposição

à Reforma Educativa.

- Junho de 1996 – Manifestações populares em Cutral Có e na Praça Huin-

cul (Neuquén). No dia 20 de junho, 1.000 pessoas bloquearam a estrada contra o despejo. Em 26 de junho, diante da chegada de 400 agentes com ordens de liberar

a estrada, 20 mil pessoas – quase a metade dos habitantes dessas localidades – se autoconvocaram para o bloqueio.

- 26 de setembro – Mobilização no âmbito da greve geral de 36 horas de-

clarada pela CGT com o apoio da CTA, que reuniu mais de 70.000 pessoas.

- 1997 – Manifestações populares em Cutral Có (Neuquén), Tartagal e

General Mosconi (Salta), em Cruz del Eje (Córdoba) e em diferentes localidades

de Jujuy 15 . Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país 16 .

- Em abril a manifestação popular em Cutral Có começa com uma mobili-

zação docente. Em 12 de abril de 1997, foi assassinada Teresa Rodríguez (empre-

gada doméstica, 24 anos) 17 .

- Maio de 1997 – Manifestação popular em Libertador General San Martín

(Jujuy), estendida a 21 bloqueios de estrada em diferentes localidades. Multiplica-

ram-se as “cozinhas comunitárias” e as “Multissetoriais”* A luta forçou a renúncia de três governadores de Jujuy.

- De 7 a 14 de maio – Primeiro bloqueio de estrada em Mosconi e Tartagal

(Salta). Foi iniciado pelos comerciantes de Tartagal, pelos devedores do Banco da

Nação, do Banco da Província, pelos madeireiros e pelos ex-trabalhadores da YPF (empresa petrolífera). Participaram 15.000 pessoas.

- Os bloqueios de estrada em massa – piquetes - de Cutral Có, Jujuy e

Mosconi, marcam o nascimento do movimento “piqueteiro”, integrado principal- mente por trabalhadores desempregados, ou por trabalhadores que vêem que os

desempregados, ou por trabalhadores que vêem que os 15 “Os governadores de Neuquén e de Jujuy

15 “Os governadores de Neuquén e de Jujuy tiveram que sentar para escutar os manifestantes – o próprio povo – e

negociar com eles. Foi interessante: o povo estava reunido diante das autoridades, sem mediadores. Nessa relação

direta já há formas concretas de organização que talvez depois não se institucionalizem. Mas se forem dissolvidas podem reconstituir-se rapidamente. E essas organizações mostram que já têm metas, objetivos precisos e diver- sos.” Nicolás iñigo Carrera. Ob. cit.

16 Entre 1989 e 1996, a imprensa escrita informou a realização de 1.734 manifestações de protesto. Entre

elas, apenas 50 foram de bloqueio de estradas, ou seja, menos de 10 por ano. Federico Schuster. Protestas sociales en argentina 1989-1996. informe sobre la situación de los derechos Humanos en argentina 1997, Buenos aires: CELS-EudEBa, p. 362, 1998.

17 Seu assassinato continua impune: o inquérito por homicídio está arquivado, com os imputados absolvidos. Os quatro poli-

ciais condenados por abuso de armas receberam uma sentença que foi suspensa, o que evitou que fossem presos e já voltaram à ativa. do governo nacional, o Ministro do interior Carlos Corach advertiu sobre “rebrote subversivo” para justificar a re- pressão. O governo provincial de Felipe Sapag reagiu argumentando que o tiro pode ter sido dado por franco-atiradores, mas as perícias indicaram que saiu de uma arma 9 milímetros, o calibre usado pela polícia. O presidente era Carlos Menem.

* Multisetorial: agrupamento de várias organizações populares e sindicais com uma finalidade comum (N. da T.).

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seus postos de trabalho estão ameaçados diante do avanço das políticas de priva- tização e
seus postos de trabalho estão ameaçados diante do avanço das políticas de priva- tização e
seus postos de trabalho estão ameaçados diante do avanço das políticas de priva- tização e

seus postos de trabalho estão ameaçados diante do avanço das políticas de priva- tização e suas conseqüências.

- Entre os dias 8 e 11 de julho realizou-se a Segunda Marcha Federal, sob a denominação de “Marcha por Trabalho para Todos”.

- 1999 – Junho-dezembro – Acampamento de autoconvocados e blo-

queio da ponte Corrientes – Chaco. No dia 17 de dezembro houve forte re- pressão policial (uma semana depois da posse do governo de Fernando De La Rúa). Foram assassinados Mauro Ojeda (18 anos, desempregado) e Francisco Escobar (25 anos, papeleiro) e houve 28 feridos 18 . O governo de Fernando De

La Rúa decretou Intervenção Federal.

- De 11 a 21 de dezembro de 1999 – Bloqueio de estrada pela União de Tra-

balhadores Desempregados de General Mosconi, em Refinor. Começa a ser blo- queada a entrada a centros de produção, principalmente o petroleiro; produzem- se o choque e as negociações diretamente com as transnacionais.

- 2000-2001 – Manifestações Populares em General Mosconi e Tarta-

gal (Salta). No dia 9 de maio de 2000 foram assassinados Orlando Justiniano

(21 anos, pedreiro) e Matías Gómez (18 anos). Em 10 de novembro foi as- sassinado Aníbal verón (37 anos, funcionário da empresa de transportes Atahualpa). Começa a revolta popular. Em Tartagal foi incendiada a sede

da polícia, o diário El Tribuno, a empresa de transportes Atahualpa, e a Em- presa Distribuidora de Energia S.A. (Edesa); houve saques ao comércio. Em Mosconi puseram fogo na Prefeitura, na Secretaria de Finanças, na polícia

e na casa do intendente. Junho de 2001: bloqueio de estrada. Foram assas-

sinados Oscar Barrios (17 anos, desempregado) e Carlos Santillán (27 anos, desempregado). Houve oito feridos à bala.

- Tanto em La Matanza como no sul da grande Buenos Aires a ação

coordenada entre setores sindicais, de desempregados e de organizações lo- cais, fortaleceu a presença pública dos piquetes no principal conjunto indus-

trial do país. A Federação de Terra e Habitação (FTv) organizou, em 2001,

o “Matanzazo”. Durante cinco dias um piquete manteve bloqueada a Rota n.º

3 e fez com que o protesto se localizasse muito perto do poder central. Cinco mil moradores se instalaram na estrada e outros 20 mil se mobilizaram até o local para solidarizar-se.

- 19 e 20 de dezembro de 2001 – Rebelião generalizada em diversas ci-

dades do país, com epicentro na Capital Federal, o que provocou uma profunda

18 a repressão foi realizada pela Polícia Nacional, sob as ordens de Ricardo alberto Chiappe, ex- repressor nos campos de concentração de La Perla e Campo de Mayo. O Ministro do interior era Federico Storani, e o Presi- dente, Fernando de La Rúa.

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crise institucional. Com a repressão, 37 foram assassinados 1 9 e houve centenas de feridos.
crise institucional. Com a repressão, 37 foram assassinados 1 9 e houve centenas de feridos.

crise institucional. Com a repressão, 37 foram assassinados 19 e houve centenas de feridos. Segundo informe do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) 20 ,

durante esses dias foram detidas 4.500 pessoas em todo o país. A rebelião provo- cou a caída de Fernando De La Rúa.

- Em 28 de dezembro de 2001 produziu-se um novo “panelaço” na Plaza de

Mayo e em distintos bairros portenhos. Doze policiais ficaram feridos e mais de 30 pessoas foram presas nos arredores da Plaza de Mayo e do Congresso. No dia 30 de dezembro de 2001 o Presidente Adolfo Rodríguez Sáa apre- sentou sua renúncia irrevogável perante a Assembléia Legislativa. No dia 1.º de ja- neiro de 2002 a Assembléia Legislativa elegeu como presidente da Nação Eduardo Duhalde. O acordo político que levou Eduardo Duhalde à Casa Rosada integrou a União Cívica Radial (UCR) e parte da Frente País Solidário (Frepaso). Diante da crise de representação o poder cerrou filas.

Diante da crise de representação o poder cerrou filas. 2.1.2. Alguns dados gerais desse período -

2.1.2. Alguns dados gerais desse período

- Na década de 1990 aconteceram nove greves gerais nacionais 21 . Um estu-

do realizado pelo Grupo de Estudos sobre Protesto Social e Ação Coletiva, do Instituto Gino Germani da Universidade de Buenos Aires, considerando o total

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O nome dos companheiros/as assassinados/as são: Graciela acosta, 35 anos, Santa Fe; Carlos “Petete” almirón,

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anos, Buenos aires; Ricardo alvarez Villalba, 23 anos, Rosario; Ramón arapi, 22 anos, Corrientes; Ruben

aredes, 24 anos, Ciudad Oculta; Elvira avaca, 46 anos, Cipolletti, Rio Negro; diego avila, 24 anos, Villa Fiorito, Buenos aires; Gustavo ariel Benedetto, 23 anos, Plaza de Mayo; Gastón Riva, 30 anos, motoqueiro, Buenos ai- res; Walter Campos, 17 anos, Rosario; Jorge Cárdenas, 52 anos, ferido perto do Congresso, faleceu vários meses depois; Juan delgado, 28 anos, Rosario; Víctor ariel Enríquez, 21 anos, almirante Brown, Buenos aires; Luis alberto Fernández, 27 anos, Tucumán; Sergio Miguel Ferreira, 20 anos, Córdoba; Julio Hernán Flores, 15 anos, Merlo, Buenos aires; Yanina García, 18 anos, Rosario; Roberto agustín Gramajo, 19 anos, almirante Brown, Bue- nos aires; Pablo Marcelo Guías, 23 anos, San Francisco Solano, Buenos aires; Romina iturain, 15 anos, Paraná, Entre Ríos; diego Lamagna, 26 anos; Cristian Legembre, 20 anos, Castelar, Provincia de Buenos aires; Claudio “Pocho” Lepratti, 35 anos, Rosario; alberto Márquez, 57 anos, Buenos aires; david Ernesto Moreno, 13 anos, Córdoba; Miguel Pacini, 15 anos, Santa Fe; Rosa Eloisa Paniagua, 13 anos, Entre Ríos; Sergio Pedernera, 16 anos, Córdoba; Rubén Pereyra, 20 anos, Rosario; damián Vicente Ramírez, 14 anos, Gregorio de Laferrere, Buenos aires; Sandra Ríos, 19 anos, avellaneda, Buenos aires; José daniel Rodríguez, Paraná; Mariela Rosales, 28 anos,

Lomas de Zamora, Buenos aires; ariel Maximiliano Salas, 30 anos, Gregorio de Laferrere, Buenos aires; Carlos Manuel Spinelli, 25 anos, Pablo Nogués, Buenos aires; Juan alberto Torres, 21 anos, Corrientes; José Vega, 19 anos, Moreno, Buenos aires. Fonte: arquivo de Casos elaborado pela Coordenadoria contra a Repressão Policial e institucional Policial e institucional (CORREPi) e outros informes provinciais.

20 O protesto de dezembro de 2001 na argentina – CELS.

21 Em 9.11.1992, convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) por 24 horas; em 2.8.1994, convocada

pelo Congresso (depois Central) dos Trabalhadores argentinos (CTa) e pelo Movimento de Trabalhadores argen- tinos (MTa) por 24 horas; em 21.4.1995, convocada pela CTa e pelo MTa por 24 horas; em 6.9.1995 convocada pela CGT com adesão da CTa e do MTa por 12 horas, com mobilização da CTa e cozinhas solidárias do MTa. Em 26 e 27.9.1996 convocada pela CGT, incluído o MTa, com adesão da CTa por 36 horas com mobilização para a Praça de Maio; em 26.12.1996, convocada pela CGT (com exceção de alguns dirigentes menemistas) com adesão da CTa e do MTa por 24 horas sem mobilização; em 14.8.1997, por 24 horas com mobilizações no interior do país, convocada pela CTa, pelo MTa, pela Corrente Classista e Combativa (CCC), e pela união Operária Metalúrgica (uOM) (apesar de fzaer parte da CGT, que não adere à greve) e as 62 Organizações Peronistas; em 6.7.1999, convocada pela CTa por 24 horas com mobilização (Jornada de Protesto Nacional).

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do período 1989-2003 2 2 , destaca: Entre o final de 1999 e o final
do período 1989-2003 2 2 , destaca: Entre o final de 1999 e o final
do período 1989-2003 2 2 , destaca: Entre o final de 1999 e o final

do período 1989-2003 22 , destaca:

Entre o final de 1999 e o final de 2002 é mais difícil identificar um ciclo de protestos. No entanto, apesar do ritmo mais descontinu-

ado, a partir do segundo trimestre de 2000 até o primeiro trimestre de 2002, cada uma das fases de intensificação dos enfrentamentos é mais importante que a anterior, em termos de quantidade de protestos. Os dados levantados mostram que as crises políticas não se produzem necessariamente como conseqüência de um incremento na quan- tidade de protestos. Em outros termos: a quantidade – ou o volume

– de protestos não mantém uma relação direta com o seu impacto

político. Em 1997 houve 56% a mais de protestos que ao longo de 2001; entretanto, as conseqüências estratégico-institucionais daquelas foram significativamente menores que as destas. Considerando todo o período, 2001 é um dos três anos com menor quantidade de protestos. Inclusive, durante esse ano registraram-se mais protestos no segundo trimestre que durante o quarto, quando terminou abruptamente o governo de Fernando de La Rua. [ ] Não obstante, o impacto político dos protestos de 2001 em geral,

e os do último trimestre em particular, foi notável, tanto no que se re- fere a sua performance política como a suas conseqüências estratégico- institucionais. As manifestações de 2001 – e talvez também as do ano seguinte – foram massivas e envolveram maior quantidade de medidas de ação direta, embora não tenha crescido o número total de protestos. Por outro lado, um processo crescente de organização dos atores ou um maior nível de articulação podem explicar também uma menor quanti- dade global de protestos. Esse argumento também pode ser considerado de outro ponto de vista: enquanto em 1997 apenas uma de cada quatro manifestações de desempregados tinha uma organização de piquetes como motor da ação, em 2001 essa proporção se eleva a quase metade do total, para chegar aos 61% em 2002. É necessário considerar tam- bém, que em 2002 as organizações “piqueteiras” protestaram em uma proporção similar à dos sindicatos. Um relatório do CELS sublinha:

22 Transformações dos protestos sociais na argentina 1989-2003 – Federico L. Schuster – Germán J. Pérez – Sebastián Pereyra – Melchor armesto – Martín argelino – analía García – ana Natalucci – Melina Vázquez – Patricia Zipcioglu GEPSaC (Grupo de Estudos sobre Protestos Sociais e ação Coletiva) Maio de 2006 – in- stituto de Pesquisa Gino Germani – Faculdade de Ciências Sociais – universidade de Buenos aires – argentina. disponível em: http://www.iigg.fsoc.uba.ar

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Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país e esta prática foi
Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país e esta prática foi

Em 1997 houve 104 bloqueios de estrada em todo o país e esta

prática foi se incrementando durante os anos seguintes. Em 1998, uma rodovia foi bloqueada por semana, em 1999, uma a cada dia e meio, e em 2000 houve pelo menos um bloqueio diário. Em 2001, a média

Muitas ações das pessoas que

participaram em manifestações durante a segunda metade da década de 1990 foram consideradas ilegais pela justiça criminal, impedindo que pudessem encontrar amparo no exercício legítimo do direito à liberdade de expressão. Foi registrada a imposição de condenações a manifestantes e ativistas, mas o fenômeno de maior transcendência foi o fato de os participantes terem sido processados. Além disso, em muitas outras ocasiões as manifestações populares foram reprimidas ilegalmente por forças de segurança da Nação ou das províncias. Estes casos se caracterizaram por um uso abusivo da violência, o que produ- ziu várias mortes e uma grande quantidade de feridos em todo o país, durante toda a década.

foi de quatro a cinco bloqueios por dia

toda a década. foi de quatro a cinco bloqueios por dia 2.2. os dias 19 e

2.2. os dias 19 e 20 de dezembro de 2001

Não é objetivo deste trabalho analisar profundamente o conjunto de sentidos discutidos pela rebelião popular de 19 e 20 de dezembro de 2001. Mas é imprescin- dível apontar esse momento como o ponto de virada nas possibilidades de as classes dominantes aplicarem o modelo neoliberal com o desenho de governabilidade que vinha sendo sustentado até então. O conflito social se alastrava pelo país. A capaci- dade de destituir intendentes, governadores, ministros e inclusive presidentes dava conta de uma forte crise de legitimidade da direção política do país que tinha emer- gido do Pacto de Olivos 23 . A palavra de ordem central dessas jornadas – “que se vão todos” – assinalava os alcances e também os limites do momento. A energia desatada naquelas jornadas prolongou-se por vários meses. No espaço liberado na subjetividade popular, multiplicaram-se assembléias populares, movimentos “piqueteiros”, fábricas sem patrões, movimentos culturais, meios de co- municação alternativos. Entre as características principais destes movimentos está a desconfiança do poder e do Estado, dos partidos políticos tradicionais, das hierar- quias; o desenvolvimento de formas assembleísticas de organização e de democracia de base, métodos de luta de ação direta, propostas de construção de poder popular, centradas no trabalho territorial. Desenvolveram-se respostas autônomas à exclusão,

23 O Pacto de Olivos foi um conjunto de acordos destinados a manter a governabilidade, firmados em 1993 entre

o ex-presidente Raúl alfonsín e o então presidente Carlos Menem. Este pacto possibilitou a Reforma da Consti- tuição argentina em 1994.

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dirigidas a reinventar o trabalho, a resolver coletivamente o problema da comida, da saúde, do
dirigidas a reinventar o trabalho, a resolver coletivamente o problema da comida, da saúde, do
dirigidas a reinventar o trabalho, a resolver coletivamente o problema da comida, da saúde, do

dirigidas a reinventar o trabalho, a resolver coletivamente o problema da comida, da saúde, do lazer, a compartilhar a poesia, as apresentações musicais, a multiplicar as mensagens radiais e nos meios alternativos de comunicação… Expressou-se a decisão de recuperar o perdido e de reinventar o necessário. Nenhum dos projetos políticos existentes conseguia canalizar toda essa energia, e nenhum deles era suficientemente confiável para os setores mobili- zados. A Argentina plebéia tornou-se um gigantesco laboratório de ensaios de alternativas. Multiplicaram-se formas de resistência. Nos dias 19 e 20 de dezem- bro se generalizaram as manifestações populares, com epicentro na Capital Fe- deral. O espaço público foi recuperado. A memória foi honrada com a ocupação simbólica da Plaza de Mayo. Para aqueles que haviam reescrito a arquitetura das relações sociais, colocando o protagonismo nas repartições oficiais e circuns- crevendo a participação à representação parlamentar, essas jornadas sacudiram a rotina das práticas políticas e de suas interpretações acadêmicas. Diante do privado emergiu o público; diante do individual, o social; diante da implosão, a explosão. Os saques generalizados daqueles dias foram – no terreno simbólico – operações coletivas de recuperação do que havia sido expropriado de forma selvagem pelo grande capital. O incêndio dos grandes bancos e das fi- nanceiras foi uma maneira de “marcar a ferro e fogo” os símbolos da nova ordem mundial: as catedrais do dinheiro. Foi uma insurreição da dignidade, de povos levantando-se de décadas de esmagamento. A rebelião foi um ato de saúde social que ameaçou a impunidade dos poderosos. Os escrachos que aconteciam em qualquer lugar em que se identificasse um símbolo do poder levaram seus representantes a se sentir vulneráveis, o que logo se traduziu na exigência do restabelecimento da “ordem” perdida. Esses setores logo se constituíram em ativos demandantes de políticas de “segurança cidadã”, que pretendiam desalojar o espaço público, confinar os excluídos nos territórios de miséria, exigindo “mão dura” para quem saísse deles. A rebelião colocou em evidência a ausência de alternativas populares que dessem rumo à energia desatada a partir do coração indignado dos pobres, mas atuou como fa- tor reconstituinte de energias, de subjetividade, de consciência, de memória, de cultura de rebeldia e de novas formas de organização popular.

2.3. A institucionalização e a domesticação do protesto social

O bloco de poder compreendeu que não poderia continuar aplicando as mesmas receitas que provocaram a rebelião e percebeu que estava esgotada a equa- ção de neoliberalismo e governabilidade. Suspeitou que já não havia condições

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para uma política fundada no autoritarismo, quando o povo na rua derrogou, em 19 de
para uma política fundada no autoritarismo, quando o povo na rua derrogou, em 19 de

para uma política fundada no autoritarismo, quando o povo na rua derrogou, em 19 de dezembro, o Estado de Sítio decretado por De La Rúa. Desde os dias 19 e 20 de dezembro de 2001 até o dia 26 de junho de 2002,

o movimento popular continuou a dinâmica de mobilização social. Um relatório

da Secretaria de Segurança Interior do Ministério de Justiça publicado em 2002 no diário Clarín, intitulado “Conflituosidade social na República Argentina” , que compreende os meses de janeiro a maio desse ano, refere-se ao levantamento de um total de 11.000 manifestações no período. Surgiram novas formas de protesto, como ações diretas contra os centros produtivos das transnacionais e mobiliza- ções contra as políticas destruidoras da natureza. O governo de Eduardo Duhalde eludiu a crise com base em um conjunto de medidas destinadas a restabelecer “a ordem”: a multiplicação das políticas assistenciais nas zonas de maior conflito 24 ,

a criminalização do movimento “piqueteiro” e a antecipação das eleições. Nesse

contexto ocorreu um duro embate entre os setores populares que tentavam man- ter os espaços ganhos e as lógicas do poder que combinaram medidas judiciais e policiais dirigidas à “normalização” do país. Destacam-se nessa etapa alguns fatos repressivos destinados a forçar o re- cuo dos movimentos populares:

- Em 6 de fevereiro de 2002 um veículo “Ford Falcón” invadiu um bloqueio de estrada realizado pelo Movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD) sobre a Rota 205 na cidade de Jagüel, no marco de um plano de luta reclamando emprego e alimentos para os comedores populares. Seu condutor era Jorge “Bata- ta” Bogado, um conhecido “informante” vinculado ao intendente de Ezeiza, Ale- jandro Granados – ontem duhaldista, anteontem menemista e hoje kirchnerista –, que desceu do veículo atirando e feriu mortalmente um dos manifestantes, Javier Barrionuevo (31 anos, peão), militante do MTD local. A pressão da mobilização popular colocou Bogado atrás das grades, acusado de homicídio simples, embora uma sentença da Câmara tenha permitido que aguardasse o julgamento em liber- dade, com certas restrições.

o julgamento em liber- dade, com certas restrições. 2.4. Continuidades e rupturas no governo de Kirchner

2.4. Continuidades e rupturas no governo de Kirchner

O governo de Néstor Kirchner (25 de maio de 2003 – 10 de dezembro de 2007), resultado da nova correlação de forças, terminou sendo o instrumento mais capaz das frações das classes dominantes para conter e disciplinar a energia popu- lar, a partir de uma política cultural ancorada em dados básicos da identidade e das lógicas políticas do peronismo: a resolução a partir do Estado–governo das

24 No ano de 2002 produziu-se o auge da pobreza, que alcançou 56,8% da população.

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demandas foi oferecida como mecanismo quase único de ação política “viável”. A disjuntiva proposta foi:
demandas foi oferecida como mecanismo quase único de ação política “viável”. A disjuntiva proposta foi:

demandas foi oferecida como mecanismo quase único de ação política “viável”. A disjuntiva proposta foi: “integrar-se” ao governo e seus mecanismos de clien- telismo e de cooptação política, ou ficar confinados a lugares de exclusão. Assim, conseguiu-se reverter o crescente desafio ao modelo, avançando-se em um pro- cesso de domesticação das rebeldias, tendente à institucionalização das organiza- ções populares, ao fechamento do espaço público e à reorganização de núcleos ideológicos substanciais à dominação. Segundo Maristella Svampa:

substanciais à dominação. Segundo Maristella Svampa: o governo nacional não teve dúvidas em alimentar a

o governo nacional não teve dúvidas em alimentar a estigma-

tização do protesto – contrapondo a mobilização de rua à exigência da “normalidade institucional” –, impulsionando ativamente a difusão de uma imagem da democracia supostamente “acossada” pelos grupos de piquete. Pouco importava que as decisões governamentais dessem conta de um vaivém perigoso que ia da ameaça de tratar judicialmente o reco- nhecimento das necessidades dos desempregados, do questionamento da representatividade das organizações, à afirmação do direito legítimo de protestar, da proposta de criar uma brigada “anti-piquete” ou impedir o acesso dos piqueteiros à Plaza de Mayo, à declaração – uma e mil vezes repetida – de que o governo nacional não reprimiria. O cenário principal desta desigual contenda política entre o governo nacional e as organiza- ções opositoras de desempregados foi à cidade de Buenos Aires. Foi em suas ruas, em suas praças, em seus edifícios públicos, que chegou à sua máxima expressão e corolário essa pugna desigual entre os que clamavam pela institucionalização e exigiam o recuo das forças mobilizadas (a de- manda do instituído) e os diferentes atores mobilizados, especialmente as organizações de desempregados (a demanda dos excluídos). O resultado foi o avanço do tratamento judicial e da criminalização dos conflitos soci- ais e a instalação de um forte consenso antipiquete, sustentado e apoiado por amplos setores da opinião pública 25 .

] [

A ascensão de Néstor Kirchner gerou nos setores populares, cansados de ex- clusão, uma esperança de mudança de rumo, a partir de um discurso oficial que se tornou forte com um conjunto de símbolos significativos em relação aos reclamos históricos dos movimentos, e o incremento – que já estava sendo efetivado desde que assumiu Eduardo Duhalde – dos planos assistenciais. A sensação de melho-

25 as fronteiras do governo de Kirchner: entre a consolidação do velho as aspirações do novo. 24 jul. 2006. di- sponível em: <www.maristellasvampa.net>.

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ria foi reforçada por certa reativação econômica, conseqüência da passagem a um modelo produtivo orientado
ria foi reforçada por certa reativação econômica, conseqüência da passagem a um modelo produtivo orientado

ria foi reforçada por certa reativação econômica, conseqüência da passagem a um modelo produtivo orientado para a substituição de importações, favorecido pela rentabilidade das exportações (de milho, soja transgênica, minérios, petróleo, entre outras), beneficiadas pela desvalorização e pelos altíssimos preços internacionais. Em um curto resumo do rumo econômico assumido pelo governo de Kirchner, escreve Claudio Katz 26 :

A conjuntura internacional favorável, o barateamento de ativos

e a virada da política econômica induzem a gestação de um modelo

neodesenvolvimentista. O esquema atual recolhe a centralidade agrária do regime agro-exportador, a prioridade industrial da substituição de

importações e a regressão social do caminho neoliberal. O governo

transfere subsídios aos empresários porque privilegia a revitalização

da indústria. Com a troca da dívida e o pagamento antecipado ao FMI

procurou reduzir o veto dos credores a essas subvenções e ao seu coro- lário cambial. Também são regulamentados os serviços privatizados para reduzir os custos industriais e incrementar o resguardo fiscal ante futuras crises. Ao propiciar o agrocapitalismo concentrado, há um crescimento de renda que os ruralistas não querem compartilhar.

O aumento dos benefícios e da produtividade não se transfere aos sa-

lários. O esquema atual convalida a informalidade, estimula as altas taxas de exploração e transfere aos trabalhadores precarizados a po- breza que inicialmente golpeou os desempregados. Também afiança

a desigualdade e posterga os aposentados. Apesar do incremento da arrecadação, não é modificado o sistema tributário regressivo.

As primeiras medidas assumidas por Kirchner, no marco de uma crise de representação tão forte, visaram restabelecer a legitimidade das instituições ques- tionadas pela rebelião: mudanças na Corte Suprema de Justiça (para acabar com a hegemonia menemista), troca da cúpula militar, pressão sobre o Parlamento para conseguir “superpoderes”. A política de direitos humanos, de solução de dívidas históricas ligadas à ditadura, foi o timão de proa do discurso oficial para chegar a um consenso que permitisse restabelecer níveis básicos de credibilidade. Para- doxalmente, essas conquistas favoreceram a prédica que deslegitimava qualquer reclamação nesse campo. A desqualificação de reconhecidos lutadores quando não acompanhavam o rumo governista foi realizada por representantes principais do governo e também por certas lideranças históricas na defesa dos direitos huma-

26 a virada da economia argentina. Claudio Katz. La Haine, 3 fev. 2007.

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nos. Foi sendo gerado um imaginário com vítimas de “diferentes status”. Se para os excluídos
nos. Foi sendo gerado um imaginário com vítimas de “diferentes status”. Se para os excluídos

nos. Foi sendo gerado um imaginário com vítimas de “diferentes status”. Se para os excluídos e as excluídas as chaves do consenso ao governo foram as políticas as- sistencialistas, para os setores médios a chave foi a política de direitos humanos.

2.4.1. exclusão e a precarização da vida

Uma pesquisa coordenada por Claudio Lozano 27 demonstra que, consideran- do todo o período de crescimento de 2003 a 2007, 20% da população de maiores re- cursos apropriou-se de 50% da renda gerada pelo processo de crescimento econômi- co; 30% da população de maiores recursos capturou 62,5% das rendas geradas nesse período. O reverso desta brutal apropriação de renda é a constatação de que os 70% restantes só ficaram com 37,5% dos novos rendimentos. E para 40% da população de mais baixa renda só restaram 12,8% de toda a renda gerada. Por sua vez, Claudio Katz 28 assinala:

A política social regressiva constitui o ponto de maior continui- dade entre o rumo econômico atual e seu precedente neoliberal-finan- ceiro. O PIB já se situa em um nível superior ao do começo da crise

já se situa em um nível superior ao do começo da crise Em 2005, 77% das

Em

2005, 77% das companhias com ações na bolsa declararam incrementos muito significativos, e o lucro das 500 principais empresas do país du- plicaram os obtidos dois anos antes. As cifras da produtividade são mais contundentes e se situam no nível mais alto dos últimos 15 anos. Atual- mente são fabricados mais produtos com menos trabalhadores, porque

os custos foram de 16% a 30% mais baixos que em 2001. O modelo blo-

queia a transferência dessas melhorias para os salários que, em média, estão 20% mais baixos que os que prevaleciam antes do início da crise

O esquema regressivo dos salários afeta duramente os trabalhadores in-

formais. Existe um terrível abismo entre a renda média dos precarizados (391 pesos) e dos formalizados (1.072 pesos). No primeiro segmento está situado 44% da força de trabalho, 60% dos empregados que não ganham o suficiente para comprar uma cesta básica e 30% dos que so- frem a indigência. O emprego sem registro não é uma atividade mar- ginal. Encontra-se amplamente difundido em ramos de alta rentabili-

dade (como a agricultura e a construção civil) e inclui o próprio setor público, que mantém 11,7% de seus funcionários sem formalização

(1998), mas nenhum indicador social recuperou esse patamar

27 Crescimento e distribuição: notas sobre o acontecido 2003-2007, publicada pelo instituto de Estudos e

Formação da CTa.

28 Claudio Katz. Op.cit

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O esquema neodesenvolvimentista sustenta os capitalistas industriais à custa da maioria popular. Este modelo inclui
O esquema neodesenvolvimentista sustenta os capitalistas industriais à custa da maioria popular. Este modelo inclui

O esquema neodesenvolvimentista sustenta os capitalistas industriais à

custa da maioria popular. Este modelo inclui um estratégico alicerce no setor agrário que relembra o esquema agro-exportador. Diferentemente

da indústria, o PIB desta área cresceu de forma ininterrupta nos últimos

quinze anos a uma elevada taxa de 5,7%, sem enfrentar nenhum freio significativo. Mas este impulso consolida um esquema baseado na pro-

eminência da soja, na destruição dos cultivos regionais, no deslocamen-

to dos camponeses e na concentração da terra. Aprofunda a moderniza-

ção capitalista que gerou um grande salto de produção, com lucros para poucos e tecnologias que ameaçam a fertilidade da terra”.

2.4.2. As políticas de criminalização dos movimentos populares

A íntima relação entre as características atuais do modelo neoliberal e a política de criminalização da pobreza e dos movimentos de resistência não é advertida – ou é ocultada – por aqueles que tratam cada caso de “gatilho fácil” 29 , de repressão institucional ou de estigmatização pela mídia de um movimento popular, como “excessos” cometidos por determinadas forças policiais, ou por determinados governos locais. Nesta etapa, as mobilizações sociais continuaram, mas com organizações frag- mentadas pela forte incidência das políticas oficiais, agravando-se os processos de rup- tura e inclusive de enfrentamento entre diferentes frações do campo popular, estimula- dos pela beligerância governamental tendente à cooptação de alguns e à estigmatização daqueles que não entraram no jogo. Em seguida mencionamos alguns dos conflitos que expressam um salto nas políticas de criminalização dos movimentos sociais, de sua judicialização, no fechamento de espaços públicos, ou na militarização de algumas regiões do país, bem como a continuidade das resistências 30 .

país, bem como a continuidade das resistências 3 0 . 29 Gatilho fácil é o nome

29 Gatilho fácil é o nome utilizado na argentina para fatos de abuso de poder no uso de armas de fogo por parte da

polícia. Em geral, as vítimas do gatilho fácil são, sobretudo, jovens pobres das periferias, vítimas de processos de disciplinamento compulsório realizado pelas forças policiais. a Correpi (Coordenadoria contra a Repressão Policial e institucional) tipifica este método como execuções sumaríssimas aplicadas pela polícia e que, geralmente, costumam ser encobertas como “enfrentamentos”. Esta “pena de morte extralegal” se distingue por duas etapas: o fuzilamento e o encobrimento.

30 Estes dados foram selecionados das cronologias do conflito social, realizadas por OSaL (Observatório Social da

américa Latina), CLaCSO. disponível em: <http://www.clacso.org.ar/difusion/secciones/osal/>.

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2003 - 18 de julho – Piqueteiros marcham até a casa de Governo do Chaco
2003 - 18 de julho – Piqueteiros marcham até a casa de Governo do Chaco
2003 - 18 de julho – Piqueteiros marcham até a casa de Governo do Chaco

2003

- 18 de julho – Piqueteiros marcham até a casa de Governo do Chaco

reclamando o subsídio de desemprego, o envio de comida para os bairros pobres, assistência para os aborígines e a “cessação da criminalização do pro- testo social”. A casa de governo é invadida.

- 25 de setembro – Piqueteiros bloqueiam as bilheterias do metrô em

demanda de 500 postos de trabalho. A polícia reprime com um saldo de dez

detidos e dois feridos.

- Piqueteiros se instalam diante do Ministério de Desenvolvimento Hu-

mano e Trabalho, em La Plata, em demanda de assistência social e alimentar. A polícia reprime, três pessoas são detidas e 50 retidas para averiguação.

- 26 de setembro – Três mil pessoas marcham por Mendoza para expressar

seu rechaço à anunciada presença de efetivos das forças armadas norte-america- nas, no marco do operativo Águia III. Conseguem que o operativo seja suspenso.

- 9 de outubro – Manifestação popular em Libertador General San

Martín, Jujuy, pelo assassinato de Cristian Ibáñez (24 anos), que apareceu

morto em uma delegacia. O protesto culminou com saques ao comércio e destruições na delegacia e no centro da localidade. Durante esses enfren- tamentos, Luis Marcelo Cuellar (19 anos) morreu baleado. Os jovens eram militantes da Corrente Classista e Combativa (CCC) 31 .

- 4 de novembro – 30 mil pessoas marcharam até a Plaza de Mayo com a pa-

lavra de ordem “Por trabalho e salário, romper com o FMI. Não à criminalização do protesto”. Repudiaram as versões da criação de uma brigada antipiqueteira.

- 20 de novembro – A polícia de Salta desalojou os piqueteiros que desde o dia

4 de novembro mantinham bloqueada a entrada à destilaria de Campo Durán. Os moradores de Mosconi saíram de suas casas ao ouvir a notícia da repressão em uma rádio local. Ocuparam uma petroleira e incendiaram um tanque de combustível.

Entraram nos escritórios das empresas Refinor e Tecpetrol, sacaram computadores e os queimaram na Rota 34. Tentaram ocupar outros locais onde estavam as forças

policiais. Oito manifestantes foram detidos. À noite bloquearam a entrada da cidade para pedir a liberdade dos presos. A UTD denunciou que a destruição das máquinas foi provocada por efetivos policiais infiltrados na manifestação.

- 25 de novembro – 200 desempregados realizaram uma assembléia no

bairro San Lorenzo, em Neuquén, para protestar contra a decisão do governo lo-

31 Nilda de ibáñez, a mãe do jovem que apareceu morto no calabouço, recordou que “em Jujuy há vários jovens que apareceram mortos nas delegacias como vítimas de suicídio, mas o meu filho foi morto pelos efetivos, e os golpes são evidentes em todas as partes do corpo”.

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cal de utilizar cartões bancários para o pagamento de planos sociais municipais e provinciais. Foram
cal de utilizar cartões bancários para o pagamento de planos sociais municipais e provinciais. Foram

cal de utilizar cartões bancários para o pagamento de planos sociais municipais e provinciais. Foram reprimidos pela polícia. Durante todo o dia os moradores se somaram ao protesto que se estendeu às zonas próximas. Os manifestantes res- ponderam com pedras e barricadas para impedir o avanço policial com motos, carros fortes e outros veículos. A repressão deixou 22 pessoas feridas, sendo cinco com balas de chumbo.

2004

- 27 de janeiro – Rosario. Assassinato de Sandra Cabrera, dirigente da AM-

MAR (trabalhadoras sexuais) de Rosario. Suas companheiras asseguram que o autor material está ligado à polícia provincial. Sandra havia denunciado nos Tri- bunais da Província de Santa Fé os Chefes da Divisão de Moralidade Pública da Polícia por “receber dinheiro dos bares para impedir o trabalho das mulheres na

rua e tirar do mercado as competidoras; por amparar locais de exploração sexual infantil e por cobrar propinas das prostitutas para não levá-las presas” (volante da CTA de Rosario). Sandra e sua filha de oito anos haviam sido ameaçadas várias vezes. No dia 9 de janeiro, por ordem do subsecretário de Segurança, Alejandro Rossi, foi retirada a proteção policial da casa de Sandra. Rossi argumentou: “Não podemos dar proteção pessoal para uma prostituta de rua”.

- 26 de março – Mulheres piqueteiras ocuparam o depósito de tanques de

petróleo cru da empresa Termap, em Caleta Oliva, demandando postos de trabalho.

- 28 de março – Em Santiago del Estero 10 mil pessoas convocadas por

familiares e amigos das jovens assassinadas no duplo crime de La Dársena, Leyla Bshier Nazar e Patricia villalba, marcharam para apoiar o anúncio de intervenção federal na província. A governadora e seu marido foram presos.

- 30 de março – Ocupação da sede comercial da Repsol-YPF na Capi-

tal Federal. No expediente aparecem filmes, fotografias e outras ações de inteligência desenvolvidas sobre as organizações que participaram do fato.

O ex-juiz federal Juan José Galeano autorizou, a pedido do promotor Car- los Stornelli, que fossem realizadas tarefas de inteligência sobre o Movi- mento Teresa Rodríguez.

- 12 de abril – O governador de San Luis ordenou que fossem reprimidos os

professores que ocupavam a Legislatura. Trinta mil pessoas marcharam exigindo a intervenção na província.

- 29 de abril – Em uma megaoperação, na qual intervieram mais de quinze

efetivos da 6.ª Delegacia de La Plata, o Comando Patrulha e o Grupo de Prevenção Urbana deteve em casa a Gabriel Roser, militante do MUP (que é parte da Frente

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Urbana deteve em casa a Gabriel Roser, militante do MUP (que é parte da Frente book.indd

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Darío Santillán), destruindo parte das instalações do “copo de leite” que funcio- nava ali. Acusado de roubo ao supermercado de um ex-agente dessa delegacia – o que foi uma armação, como ficou demonstrado no processo judicial –, Gabriel Roser foi libertado depois de um ano e sete meses de detenção.

- 30 de abril – Duas mil pessoas da Multisetorial de San Luis cercaram o edifício do Poder Executivo com piquetes em demanda da renúncia do governador. Foram

reprimidos violentamente pela polícia, com um saldo de 15 feridos e 55 detidos.

- 5 de maio – Foi aprovada a Lei 25.892, que endureceu os procedimentos para solicitar e outorgar a liberdade condicional.

- 4 de junho – Piqueteiros marcharam por La Plata, armados com bastões

e com os rostos cobertos, para reclamar que fosse investigada a morte de um mili- tante em um caso de gatilho fácil. Assim, desafiaram a disposição pedida por um promotor para que fossem filmados os manifestantes que se negassem a deixar seus bastões e a descobrir os rostos para protestar.

- 25 de junho – Foi assassinado com sete tiros, em sua casa, Martín “Oso”

Cisneros, dirigente do Comedor Los Pibes de La Boca. Militantes da Federação de Terra e Moradia ocuparam a delegacia 24 da Boca para exigir justiça.

- 16 de julho – A Casa Legislativa portenha aprovou um projeto de lei para

reformar o Código de Convivência. Piqueteiros, vendedores ambulantes, prostitu- tas, travestis e militantes de partidos de esquerda se concentraram para rechaçar

o tratamento dado aos artigos. A polícia reprimiu e, além de 23 detidos, oito poli- ciais saíram feridos. - 26 de julho – Desempregados ocupam a refinaria da empresa Termap (Terminais Marítimos Patagônios) por tempo indeterminado para exigir postos de trabalho às empresas Repsol-YPF, vintage e Panamerican Energy.

- 29 de julho – Os 700 trabalhadores da Altos Hornos Zapla ocuparam a

empresa em Palpalá (Jujuy), reclamando o pagamento correspondente ao Progra-

ma de Propriedade Participada (PPP), que deveriam ter recebido por ocasião de sua privatização em 1992.

- 18 de agosto – Sancionada a Lei 25.928, que modificou o artigo 55 do Có-

digo Penal, permitindo a imposição de penas de 50 anos de prisão ou reclusão.

- 19 de agosto – Cerca de 200 pessoas ocuparam o pátio dos tanques da fir-

ma Termap reclamando trabalho efetivo. Depois de 48 horas do fim do protesto, o juiz criminal Marcelo Bailaque baixou uma ordem de detenção contra 24 pessoas

e abriu inquérito a quase 60. Seis pessoas foram presas preventivamente durante

seis meses, acusadas dos delitos de privação ilegal da liberdade agravada, ameaças, danos, usurpação, resistência à autoridade e entorpecimento da atividade do exer- cício de direitos no espaço público.

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- 31 de agosto – Reprimido um protesto na porta do Ministério de Econo- mia,
- 31 de agosto – Reprimido um protesto na porta do Ministério de Econo- mia,

- 31 de agosto – Reprimido um protesto na porta do Ministério de Econo-

mia, para repudiar a presença ali do diretor do FMI, Rodrigo de Rato. Foram deti- das 102 pessoas. O juiz federal Juan José Galeano incorporou à causa um relatório elaborado pela Divisão de Operações do Departamento de Segurança de Estado

da Polícia Federal Argentina, detalhando a investigação realizada sobre os advoga- dos de defesa.

- 10 de setembro – Mobilização na Plaza de los dos Congresos para exigir a

retirada dos lutadores sociais dos processos.

- 28 de setembro – Mais de 3.000 habitantes de Neuquén se mobilizaram contra

a criminalização do protesto social nas audiências dos seis dirigentes da CTA Zapala e

Cutral Có, levados a julgamento pelos incidentes de 9 de junho do ano de 2000.

- 30 de setembro – Desempregados da Caleta Olivia ocuparam o local da

Termap em demanda de postos de trabalho efetivos no setor petroleiro. Os efe- tivos da empresa de segurança impediram a passagem de manifestantes que se mobilizaram bloqueando a Rota Nacional 3.

- 2 de outubro – O Corpo Nacional de Gendarmes e a polícia de Santa Cruz

prenderam 15 desempregados que realizavam um bloqueio na Rota 3 da Caleta Olivia e 21 piqueteiros que ocupavam os tanques da Termap.

- 27 de novembro – A Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) denunciou

que um militante dessa organização, Esteban “Chirolita” Armella, integrante da Orga-

nização de Bairro Tupac Amaru e coordenador de um comedor comunitário, morreu ao receber duríssimos golpes na Brigada de Investigações da polícia de Jujuy 32 .

- 1.º de dezembro – 70 desempregados que ocupavam um local da empresa

petroleira Oil ONS, empreiteira da Repsol YPF, na localidade de Las Heras, Santa Cruz, foram desalojados por gendarmes e pela polícia provincial. vinte e cinco pessoas foram detidas.

- 28 de dezembro – Forças especiais antimotim (Uespo) de Neuquén desaloja-

ram sem ordem judicial as famílias mapuche que bloqueavam estradas utilizadas pela empresa Pioneer Natural Resources. Carlos Marifil foi ferido por bala de chumbo.

- 30 de dezembro – Massacre do Cromagnon – Como conseqüência da cor-

rupção, da falta de cuidado e de controles, produziu-se um incêndio em um salão

de baile da Capital Federal, onde morreram 190 jovens. A partir de então foram iniciadas mobilizações por justiça, contra a corrupção e a impunidade.

por justiça, contra a corrupção e a impunidade. 32 armella faleceu no Hospital Pablo Soria de

32 armella faleceu no Hospital Pablo Soria de Jujuy após permanecer três dias em terapia intensiva, como con- seqüência de fortes pancadas e torturas sofridas na Brigada. Tinha sido detido no dia 22 de novembro para ave- riguação de antecedentes e esteve por 24 horas no lugar denominado “chancho” (cela de castigo), de onde saiu com poucas possibilidades de sobreviver. a CTa denunciou que armella sofreu “privação ilegítima da liberdade, torturas (físicas e psicológicas) seguidas de morte sem que os culpados do fato tenham recebido castigo”.

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2005

- 6 de janeiro – Mais de dez mil pessoas marcharam em direção à Plaza de

Mayo reclamando justiça para as vítimas do Cromagnon. Quando começaram a se desconcentrar, a Polícia Federal as reprimiu com jatos de água e deteve 42 pessoas, muitas delas jovens sobreviventes do Cromagnon e parentes das vítimas.

- 15 de janeiro – O promotor geral Germán Garavano afirmou que aplicaria

o Código de Contravenções para punir os dirigentes de organizações sociais que

encabeçassem protestos.

- 4 de março – A Multisetorial de Neuquén marchou até a casa de governo

em repúdio à escalada de ameaças aos trabalhadores de Zanon, do sindicato ce- ramista, à defensora dos Direitos da Criança e sua adjunta. Em Centenário, se- qüestraram a mulher de um operário de Zanon que foi surrada e ameaçada.

- 1.º de abril – No marco da paralisação docente, algumas professoras fize-

ram um protesto sentando-se na Plaza 9 de Julio de Salta. A polícia impediu a manifestação a golpes, atirando balas de borracha e gases lacrimogêneos. vinte e oito pessoas foram detidas e várias feridas, entre as quais uma menina de seis anos,

ferida na perna por perdigões de borracha.

- 21 de abril – Em villa La Angostura, a Comunidad Paichil Antrito foi despeja-

da violentamente de suas terras no cerro Belvedere por ordem do juiz Rolando Lima.

- 30 de abril – Sob as palavras de ordem “não à contaminação”, “não às fábri-

cas de papel”, 40 mil pessoas do Uruguai e da Argentina marcharam em direção à

ponte internacional que une Gualeguaychú, na Argentina, a Fray Bentos, no Uru- guai, interrompendo o trânsito durante seis horas em repúdio à instalação de duas fábricas de celulose às margens do Rio Uruguai.

- 20 de junho – Os desempregados que ocupavam um local da Repsol-YPF na

localidade de Cañadón Seco, Santa Cruz, foram reprimidos pela polícia com gases

lacrimogêneos e pauladas, sendo detidas 60 pessoas, entre elas mulheres e crianças.

- 28 de julho – No marco da multiplicação da luta dos trabalhadores da

saúde, o ministro de Saúde, Ginés González García, qualificou de “terroristas sani- tários” os trabalhadores não-profissionais do Hospital Garrahan.

- 25 de agosto – Em Santa Cruz, desempregados bloquearam o acesso a um local

da petroleira Repsol-YPF, em Pico Truncado, para exigir postos de trabalho. Foram re- primidos pela polícia. Mais de dez manifestantes ficaram feridos e 12 foram detidos.

- 12 de outubro – Quatro delegados do Hospital Garrahan foram citados

pela justiça, acusados de delito de coação.

- 15 de outubro – Rebelião na prisão de Magdalena, província de Buenos

Aires, que culminou com 32 internos mortos por asfixia.

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- 1.º de novembro – Passageiros destruíram a estação Haedo da ex-estrada de ferro Sarmiento,
- 1.º de novembro – Passageiros destruíram a estação Haedo da ex-estrada de ferro Sarmiento,

- 1.º de novembro – Passageiros destruíram a estação Haedo da ex-estrada

de ferro Sarmiento, queimando 15 vagões em protesto pelo cancelamento de uma viagem e o mau serviço prestado pela empresa Trens de Buenos Aires. A polícia desatou uma forte repressão que deixou um saldo de 87 detidos e 21 feridos.

- 4 de novembro – Cúpula das Américas em Mar del Plata, à qual compare-

ceu o Presidente Bush. Foi realizada simultaneamente a III Cúpula dos Povos. A cidade foi militarizada. Foi reprimida uma manifestação contra a presença de Bush, com um saldo de 80 detidos. Em Buenos Aires, organizações populares re- alizaram uma marcha. Foram detidas oito pessoas e oito policiais saíram feridos.

2006

- 8 de janeiro – Um grupo de camponeses de Campo Gallo, Santiago del Es- tero, tentou impedir o desmatamento de um terreno em litígio judicial, produzindo-se enfrentamentos com a polícia que deixaram três policiais e um camponês feridos.

- 26 de janeiro – Em Neuquén, 150 mapuches se concentraram diante do

Conselho Deliberante, onde eram celebradas as sessões para a reforma da Constitui- ção. Ao ficar sabendo que não seriam incluídos os direitos das comunidades indíge-

nas, tentaram entrar no edifício para protestar, sendo reprimidos pela polícia.

- 7 de fevereiro – Em Las Heras, Santa Cruz, mais de mil pessoas, entre trabalha-

dores e seus familiares, concentraram-se diante da delegacia para exigir a liberdade de Mario Navarro, representante de um setor dissidente do sindicato petroleiro. A polícia reprimiu, produzindo-se enfrentamentos que deixaram um policial morto, seis feridos à bala e manifestantes feridos. O governo nacional enviou mais de 300 gendarmes.

- 13 de fevereiro – O corpo de delegados do sindicato de petroleiros de Santa

Cruz convocou assembléias de base em cada local de trabalho em protesto pela de-

cisão das empresas de não pagar 100% dos dias não trabalhados na greve e para exigir a retirada da Gendarmería de Las Heras. Os gendarmes controlaram os aces-

sos às baterias de desidratação do óleo cru, ao mesmo tempo em que o Grupo de Operações Especiais (GOE) da polícia realizava revistas na entrada das refinarias.

- 10 de março – Os trabalhadores da Federação Argentina Sindical do

Petróleo e do Gás Privados (FASP/GP) e da União Operária da Construção da

República Argentina (UOCRA) realizaram uma paralisação total em Las Heras, Caleta Olivia, Pico Truncado e Río Gallegos, Santa Cruz, para denunciar a milita- rização da província, as demissões e os descontos dos dias parados.

- 5 de maio – Moradores do bairro Cuadro Estación, em Mendoza, lan-

çaram-se sobre um trem para apoderar-se do carvão mineral que era transpor- tado, para ter com que se aquecer e cozinhar. A polícia disparou balas de borracha

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tado, para ter com que se aquecer e cozinhar. A polícia disparou balas de borracha book.indd

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e de chumbo. Mauricio Morán de 14 anos morreu com um tiro no peito. Outro adolescente foi ferido à bala.

- 22 de maio – Em Mendoza, estudantes secundários marcharam em direção

à Casa de Governo protestando pela falta de gás em 255 escolas da província. A polí- cia deteve 60 pessoas, acusando-as de danificar automóveis e um carro de polícia.

- 26 de maio – Um juiz inocentou cinco enfermeiros do hospital Garrahan,

acusados de abandono de pessoa no marco de um conflito sindical, porque foi verifi- cado que nenhum dos pacientes piorou de saúde por falta concreta de atendimento.

- Em Ensenada concentraram-se 500 trabalhadores do Estaleiro Rio San-

tiago agrupados na Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), para recla-

mar ao governador a aceleração do acordo com a venezuela para a construção

de navios. Produziram-se choques entre os manifestantes e o pessoal de segu- rança da empresa, ficando feridos dois trabalhadores.

- 5 de junho – Integrantes do Movimento Independente de Aposentados e

Desempregados (MIJD ) concentraram-se diante dos tribunais em Buenos Aires para

apoiar seu dirigente Raúl Castells, durante o juízo oral pela acusação de extorsão àraiz de uma reclamação de alimentos à empresa Mc Donald’s em 2004. O promotor pediu uma pena de quatro anos e oito meses de cárcere; afirmou que a polícia tem medo de atuar contra os piquetes, os quais define como um cenário de coação permanente.

- 7 de junho – Processo contra as autoridades da comunidade Lonko Purán,

Martín velásquez Maliqueo e Fidel Pintos, e da Coordenadoria de Organizações Mapuche (COM), Florentino Nahuel e Roberto Ñancucheo, acusados de “pertur-

bação da propriedade” pela empresa estadunidense Pioneer Natural Resources em 2001 (atualmente Apache Corporation). Como protesto, representantes de comu- nidades da região paralisaram poços de gás e petróleo da empresa.

- 9 de junho – Organizações de direitos humanos de Mendoza protestaram

contra a “mão dura” da polícia do governo provincial e reclamaram o esclare-

cimento de três casos de gatilho fácil, que deixaram como resultado dois jovens mortos e outro gravemente ferido. Também protestaram pela detenção de 43 estu- dantes secundários que reclamavam do governo a calefação para suas escolas.

- 11 de junho – Um juiz federal processou 13 trabalhadores da empresa de

segurança TAS por um piquete que no dia 2 de novembro do ano anterior havia

interrompido a entrada e saída de passageiros ao aeroporto de Ezeiza.

- 16 de junho – Militantes do MTR-CUBa (Coordenadoria de Unidade de

Bairro – Movimento Tereza Rodriguez) se concentraram diante dos tribunais para exigir a liberdade do dirigente Ricardo Berrozpe, detido pelos incidentes em Mar Del Plata, em novembro de 2005, acusado de “incitação pública à violência cole- tiva e de fabricação de artefatos explosivos perigosos”.

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- 18 de setembro – Desaparecimento de Jorge Julio López, ex-preso e tes- temunha no
- 18 de setembro – Desaparecimento de Jorge Julio López, ex-preso e tes- temunha no

- 18 de setembro – Desaparecimento de Jorge Julio López, ex-preso e tes-

temunha no julgamento do genocida Miguel Etchecolatz, Diretor Geral de Inves- tigações da Polícia Bonaerense durante a última ditadura militar. Continua desa- parecido até hoje.

- 27 de setembro – Em Orán, Salta, a população marchou para repudiar a

morte por espancamento de um jovem indígena, pobre e desnutrido, nas mãos de

16 guardas da segurança privada do engenho Tabacal Agroindústria, quando, com outros rapazes, roubava laranjas para sobreviver.

- 2 de outubro – Estendida a greve de fome de 14.000 presos(as) nos cárceres

de Buenos Aires e em três prisões federais, que pediam a aceleração de suas causas

criminais, a derrogação da lei de solturas, a sanção de uma lei processual que respei- tasse os tratados internacionais de direitos humanos e a Constituição Nacional.

- 9 de outubro – Por ocasião de uma assembléia realizada pelo pessoal

não médico e filiados do Hospital Francês, reclamando o pagamento de salários

e em defesa da fonte de trabalho, um grupo de “barrabravas”* com apoio policial

golpeou os participantes, deixando seis feridos.

- 12 de outubro – Em Jujuy, no marco do Encontro Nacional de Mulheres,

dois mil participantes marcharam até a Unidade Penal 3, onde se encontra presa

a jovem Romina Tejerina, condenada a 14 anos de prisão por matar, no momento

do nascimento, seu filho, produto de um estupro. Pediram a liberdade da jovem e

a prisão do estuprador.

- 27 de dezembro – Em Escobar, Buenos Aires, desapareceu Luis Gerez,

pedreiro e militante peronista de 51 anos. No dia 19 de abril testemunhou contra o ex-policial Luis Patti, denunciando a participação dele nas torturas que sofreu em uma delegacia de Escobar, em 1972. Gerez reapareceu no dia seguinte.

2007

de Escobar, em 1972. Gerez reapareceu no dia seguinte. 2007 - 13 de fevereiro – A

- 13 de fevereiro – A multinacional Meridian Gold processou moradores de Esquel que se opuseram à sua prática de contaminação.

- 1.º de março – O militante do Movimento dos Trabalhadores Desempre-

gados de Lanús (MTD-Lanús ) e da Frente Popular Darío Santillán, Carlos Leiva, foi seqüestrado e submetido a um simulacro de fuzilamento.

- 29 de março – Em Santa Cruz, à paralisação docente que se havia ini-

ciado há quatro semanas, somou-se uma greve de trabalhadores estatais; em Río Gallegos marcharam cinco mil trabalhadores gritando “que se vão todos”. Houve marchas em 16 cidades da província. Em Neuquén, docentes da Associação de

* Barrabravas – diz-se das torcidas organizadas muito violentas (N. da T.).

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Trabalhadores da Educação de Neuquén (ATEN), em greve por aumento salarial, interromperam o trânsito em duas pontes de comunicação com as cidades de Ci- polletti e Cinco Saltos, em Rio Negro e na Rota nacional 22 de Zapala. Também pararam e se mobilizaram os trabalhadores provinciais filiados à ATE por aumen-

to salarial. Estavam em conflito os docentes de Santa Cruz, Salta, La Rioja, Tierra del Fuego, Corrientes, Neuquén, La Pampa e Jujuy.

- 31 de março – Na Caleta Olivia, Santa Cruz, docentes da Associação de

Docentes de Santa Cruz (Adosac) decretaram uma greve de 72 horas e marcharam

pela cidade para repudiar a decisão do governo provincial de enviar custódia poli- cial, militar e da Gendarmería às escolas e outros edifícios públicos, com a descul- pa de evitar uma eventual invasão dos estabelecimentos por parte dos docentes.

- 4 de abril – Em Neuquén docentes em greve desde o dia 5 de março, lutando

por aumento salarial, tentaram bloquear a Rota 22 para impedir o acesso aos centros turísticos. A polícia impediu o bloqueio disparando balas de borracha e gases lacri- mogêneos. O professor Carlos Alberto Fuentealba (40 anos) foi assassinado quando

uma bomba de gás disparada à curta distância por um policial atingiu sua cabeça.

- 5 de abril – Militantes de diferentes agrupações marcharam em direção à Casa da

Província de Neuquén em Buenos Aires, para repudiar a repressão aos docentes. Como a polícia impediu que passassem, dirigiram-se para um imóvel do governador Sobisch, e o

incendiaram com bombas molotov. Dezesseis manifestantes foram presos.

- 9 de abril – Em repúdio à repressão ocorrida em Neuquén aconteceu, com

alta adesão, a greve geral nacional de 24 horas convocada pela CTA (Central dos Trabalhadores Argentinos) e pelos sindicatos docentes. Foram realizadas marchas multitudinárias: 30 mil manifestantes em Neuquén, igual número em Buenos Aires,

9 mil em Rosario; 6 mil em Mar de Plata, 10 mil em Jujuy, 13 mil em Salta, 2 mil em Tucumán, 3.500 em Córdoba, 9 mil em Mendoza, 2 mil em San Luis, 2.500 em Bariloche, 5 mil em Río Gallegos, 400 em Ushuaia.

- 17 de abril – Em Buenos Aires, militantes de diferentes organizações participaram de um ato pelo Dia do Preso Político. Foram detidos três militantes de Quebracho.

- 5 de junho – Em Buenos Aires, 400 trabalhadores do Cassino Flutuante

se concentraram diante do Ministério de Trabalho para reclamar o pagamento de seus salários e a reabertura do estabelecimento, fechado desde o dia 3 de maio; houve choques com a polícia com um saldo de quatro manifestantes e cinco poli-

ciais feridos, e cinco detidos.

- 6 de junho – Em apenas uma hora e meia foi aprovada no Senado a Lei

Antiterrorista, com 51 votos a favor e 1 contra. No dia 13 de junho, na Câmara de

Deputados a situação atingiu o quorum e o projeto do Poder Executivo Nacio- nal n. 449/2006, que reforma o Código Penal, foi firmado pelo presidente Néstor Kichner, e se converteu em lei.

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- 7 de junho – Militantes de Quebracho realizaram um escracho a um juiz federal
- 7 de junho – Militantes de Quebracho realizaram um escracho a um juiz federal

- 7 de junho – Militantes de Quebracho realizaram um escracho a um juiz

federal em demanda da liberdade de vários companheiros que se encontravam presos; houve choque com a polícia e oito manifestantes foram detidos.

- 14 de julho – Em Buenos Aires, a polícia expulsou vendedores ambulantes

da Plaza Cortazar; produziram-se incidentes, tendo sido feridos dois vendedores; quatro foram detidos.

- 8 de agosto – À raiz da morte por desnutrição desde o mês de julho de

11 indígenas do El Impenetrable, no Chaco, dirigentes indígenas marcharam em

direção à Casa de Governo em Resistência, para pedir a renúncia do Ministro Pro- vincial de Saúde e que fosse declarada emergência sanitária e alimentar. - 17 de agosto – Enquanto o Presidente Kirchner e sua mulher faziam proselitismo em Río Gallegos, Santa Cruz, três mil trabalhadores estatais e do- centes participaram de uma marcha de protesto convocada pela Mesa de Unidade Sindical. Rodeado por manifestantes, o ex-ministro de Governo, Daniel varizat, atropelou-os com sua caminhonete, deixando 17 feridos.

- 18 de agosto – Em Concordia, Entre Ríos, a Gendarmería impediu o blo-

queio da estrada por ambientalistas assembleístas, por ordem de um juiz federal, por causa de uma denúncia dos comerciantes da zona.

- 21 de agosto – Em Buenos Aires, os trabalhadores do Hotel Bauen realizaram

um ato e um festival para rechaçar a sentença judicial que implicaria seu despejo. Militantes de organizações de esquerda realizaram um ato em homenagem

aos guerrilheiros fuzilados no Massacre de Trelew. Após o ato, integrantes de Que- bracho dirigiram-se para a Casa da Província de Santa Cruz para repudiar a re- pressão e a militarização dessa província. Após confluírem com militantes das Or- ganizações Livres do Povo (OLP), protagonizaram choques com a polícia diante da Chefia do Governo portenho. Foram detidos 44 militantes.

- 27 de setembro – No porto de Mar del Plata, trabalhadores que fazem

filés de merluza, concentraram-se diante da empresa El Dorado para exigir seu registro como assalariados. Dispararam de dentro da fábrica ferindo um jovem. Os manifestantes, juntamente com militantes da CTA e de partidos de esquerda, romperam janelas de automóveis e de fábricas e enfrentaram a polícia, que os re- primiu com gases lacrimogêneos e balas de borracha. Três policiais ficaram feridos

e houve três detenções.

- 31 de outubro – Em Mar del Plata, os trabalhadores que elaboram os filés

de pescado para as processadoras e que estavam em greve tentaram realizar uma manifestação no porto, que foi impedida pelo grupo especial Albatroz da Polícia Naval, que a dispersou disparando balas de borracha e gases lacrimogêneos.

- 4 de novembro – Trinta e sete internos do presídio masculino n.º 1, pertencente

ao Serviço Penitenciário Provincial de Santiago del Estero, faleceram em um incêndio, cujas causas ainda não foram esclarecidas. Em um presídio com capacidade declarada para 200 pessoas, havia no momento do incêndio 267 processados e 215 condenados.

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para 200 pessoas, havia no momento do incêndio 267 processados e 215 condenados. 45 book.indd 45

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- 13 de novembro – O Movimento Camponês de Santiago del Estero (Mo- case), denunciou ataques de guardas armados a serviço de empresários da soja, amparados por juízes e pelo governo provincial, para despojar os camponeses de suas terras.

Algumas considerações para análises

Embora o relato desses fatos repressivos não abarque o conjunto deles, mas apenas alguns dos mais relevantes, é possível apresentar algumas idéias que sur- gem ao estudá-los:

1. A criminalização dos movimentos populares faz parte de um

repertório mundial de ações e práticas de controle social, com as quais o poder organiza sua governabilidade, a fim de continuar o processo de re-

produção ampliada do capital.

2. Este processo – mesmo sendo parte de uma política global – as-

sume modalidades concretas em cada país. No caso da Argentina, vai to- mando as características específicas requeridas para responder ao nível que atingiu a resistência popular.

3. No núcleo do processo de criminalização dos movimentos

populares encontra-se a ação cultural destinada a apresentar as lutas pelos direitos sociais como delitos, e os sujeitos sociais que as promovem como delinqüentes. Isto facilmente se observa na maneira como os meios de co-

municação informam (ou desinformam) sobre as manifestações sociais, ocultando suas motivações, a legitimidade das demandas, e pondo ênfase

nas formas mais ou menos violentas de expressão do descontentamento social. Por sua vez, ao invisibilizar ou deslegitimar as lutas, os meios de co- municação de massa fazem com que elas, para adquirir maior impacto, ou simplesmente para serem conhecidas pela sociedade, recorram crescente- mente a formas de “ação direta”, que reforçam a idéia de que o que está em curso não é uma reivindicação de direitos, e sim um delito.

4. Esta transmutação é possível pela mesma lógica que criou, subje-

tivamente, o medo ao outro, a desconfiança daquilo que é diferente, estimu- lando a fragmentação da sociedade até o ponto em que os diferentes grupos sociais se tornam alheios e irreconhecíveis entre si.

5. A ação repressiva do Estado tende a transformar a questão social

em questão criminal. Tornam-se mecanismos principais de criminalização do protesto social a legislação – que vai incrementando as modalidades de crimi- nalização do “delito” – e a interpretação que dela se faz nos âmbitos judiciais.

6. As diferentes modalidades de criminalização dos movimen-

tos sociais são favorecidas pela impunidade que permite que numerosos

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efetivos policiais formados na ditadura continuem sendo parte das forças policiais e de “segurança”, e
efetivos policiais formados na ditadura continuem sendo parte das forças policiais e de “segurança”, e

efetivos policiais formados na ditadura continuem sendo parte das forças

policiais e de “segurança”, e que a “eficácia” dos seus métodos de tortura e repressão seja transmitida aos novos efetivos.

7. O papel dos meios de comunicação é central na criação de um

“sentido comum” que estigmatiza os movimentos de resistência. Constrói uma demanda de “normalidade” e sob a bandeira de “segurança cidadã” organiza culturalmente as bases de um novo “partido da ordem”.

8. A consideração fragmentada de cada fato repressivo como ex-

ceção, reforça a legitimação das políticas neoliberais e oculta a modalidade geral assumida pela dominação, e também o conhecimento do padrão de acumulação do capital nesta etapa.

9. Faz parte da resistência dos movimentos populares avançar na

revelação desses mecanismos, e na ação político-ideológica tendente a questionar seus núcleos fundamentais, não só no plano discursivo, mas também naquilo em que afetaram a subjetividade popular.

10. O reconhecimento de que as demandas de normalidade e de se-

gurança constituem uma chantagem que permeia o imaginário popular de

sentidos conservadores e reacionários obriga a repensar as modalidades de denúncia, de ação, de solidariedade, de recriação dos laços sociais.

11. É imprescindível contribuir com a solidariedade às vítimas ime-

diatas desses processos de criminalização. A fragmentação tem conduzido a atitudes em que cada organização tende a tomar distância dos afetados, res-

guardando sua própria “segurança” e estabilidade; e inclusive até tem aconte- cido de alguns setores populares estigmatizarem os movimentos em luta.

12. O dispositivo de criminalização dos movimentos sociais articula

diversos eixos: a) a criminalização da pobreza; b) a criminalização dos mo- vimentos populares, de seus integrantes e a judicialização do protesto so- cial; e c) a militarização de regiões e territórios em caso de necessidade.

de regiões e territórios em caso de necessidade. a. A criminalização da pobreza Como conseqüência das

a. A criminalização da pobreza

Como conseqüência das políticas neoliberais de exclusão social e de pre- carização de todos os aspectos da vida, produzem-se novos fenômenos nas rela- ções sociais. O medo ao “outro” é um dos dados significativos que “organizam” estas relações de desigualdade, desconfiança e diluição das solidariedades. A fragmentação social funciona como estímulo daqueles medos que expressam a insegurança generalizada diante do horizonte de exclusão. Aqueles que não habitam o “mundo” da negação social preferem não reconhecê-lo como parte de seu próprio espaço possível. Os novos “desaparecidos sociais” representam um

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fantasma aterrorizante, em um corpo social várias vezes ferido e vulnerado por uma continuidade de perdas materiais e simbólicas.

A exclusão social leva a satisfazer as carências-urgências de modo imediato

para garantir a sobrevivência, tanto em termos individuais como coletivos, ge- rando no imaginário construído a partir da hegemonia cultural a identificação das zonas de pobreza como territórios de crime. Por sua vez, estes sentidos que estimulam respostas conservadoras são alimentados pelos grandes meios de co- municação que ativam deliberadamente os mecanismos do terror, para levantar as exigências de “segurança”, entendidas, em última instância, como garantias para os direitos do capital, e especialmente da propriedade privada. Ao fazer parecer a exclusão como algo “natural” vulneram-se não só os dire- tamente afetados por essas políticas. Aqueles que sentem a pressão e a ameaça de ficar “de fora” aumentam o medo, o que estimula a ruptura de solidariedades entre esses mundos, cujas fronteiras se tornam valas cada vez mais profundas, tanto para impedir que sejam atravessadas fisicamente como para evitar que aqueles que habi- tam de um lado e do outro possam “ver-se” mutuamente (salvo pela Tv). Se para setores significativos da população o único caminho de acesso ao consumo é por meio da Tv – o que por sua vez incrementa o mal-estar diante das carências –, para aqueles que gozam de uma precária inclusão o lugar de encontro com os excluídos

são as notícias policiais, ou quando uma mobilização social ou piquete “interrompe”

o circuito de sua vida cotidiana. No entanto, há um outro mundo, o daqueles que go-

zam das “vantagens” e do “bem-estar” oferecidos pelo sistema e por sua maquinaria de consumo, que dificilmente se encontram com aqueles que habitam os setores da pobreza e da miséria; porque seus habitantes construíram muros e guetos de “segu- rança” em suas casas, bairros, clubes, locais de estudo, de trabalho e de lazer.

O desencontro entre esses mundos rompe as possibilidades de identificação

social. O “outro” negado, como não é reconhecido, não existe, e se “aparece” com suas lutas, ou seja, quando existe, interfere no “bem-estar” das camadas sociais

beneficiárias desse modo de organização da vida. A ruptura de identidades leva

a perceber a pobreza, a marginalidade, a miséria do outro como ameaça, e a im-

pregnar esse sentimento de conteúdos racistas, xenófobos, violentos, repressivos

e autoritários. Estes mecanismos de alienação social são reforçados pela perda de

sentido e pela despolitização da luta social, que favorecem que ela entre para o index da criminalização como “causa penal”. Dessa maneira, se as ruas ou as es- tradas são ocupadas por setores marginalizados, isso aparece como uma ameaça, enquanto o mesmo fato, com outros protagonistas, é saudado efusivamente pelos

meios de comunicação do poder. Foi paradigmática a mobilização promovida por Juan C. Blumberg (pai de Axel Blumberg, um jovem assassinado). O espaço público foi ocupado maciçamente

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em várias oportunidades por setores sociais que reforçaram diante desse assassinato (de um jovem branco,
em várias oportunidades por setores sociais que reforçaram diante desse assassinato (de um jovem branco,

em várias oportunidades por setores sociais que reforçaram diante desse assassinato (de um jovem branco, de classe média alta) sua sensação de terror ante o desloca- mento das fronteiras da morte, que chegava a seu próprio campo. O tratamento da mídia foi o estímulo à mobilização, quando não diretamente o seu artífice. Algo similar produziu-se diante das manifestações de apoio às demandas da Sociedade Rural e dos grupos que protagonizaram o lockout “do campo” em- presarial. Nesses casos, o suposto “conflito de direitos” que se apresenta quando os grupos excluídos se mobilizam por suas demandas diluiu-se rapidamente em favor do direito à propriedade privada e aos lucros do capital, à “segurança cidadã”, e na exigência de resguardá-la, endurecendo ainda mais as respostas repressivas, já não para quem protesta em geral, mas sim diante dos reclamos daqueles que protestam a partir das zonas de exclusão. Analisando este fenômeno, Susana Murillo 33 interpreta:

[…] o pobre, o jovem e o não-branco emergem como os pos- síveis causadores de todos os males, e os pedidos de justiça são acom- panhados pelas demandas de redução da idade penal e de diversas medidas que tendam ao endurecimento da repressão. As diatribes contra organismos de direitos humanos, o pedido de voto qualifi- cado, o mais escancarado racismo, são manifestados por alguns lí- deres dessas marchas “apolíticas” promovidas, em alguns casos, por figuras vinculadas a repressores da década de 1970. Entretanto, em muitos cidadãos, o terror bloqueia as mediações reflexivas e a alma pede a gritos “tolerância zero” mediada por uma lei que, estabelecida sem deliberações – só baseada na exigência das “pessoas” –, cause para os outros a morte própria que se deseja outra vez denegar. A angústia que revela tal violência verbal ou física – que reclama a le- galização da repressão e que não vacila em denunciar anonimamen- te os sujeitos nos quais tal tensão se personaliza – está sustentada, ademais, na abolição de algumas normas universais e sua substitui- ção por uma legalidade baseada na urgência e no pragmatismo. Boa parte da população se envolve também em operações de vigilância e denúncia dos possíveis delinqüentes que geram insegurança. E esta é retroalimentada a partir dos meios de comunicação que vieram ocupar, em boa medida, o lugar dos dispositivos disciplinares em seu papel de intervenção moral na vida doméstica.

em seu papel de intervenção moral na vida doméstica. 33 El Nuevo Pacto Social, la criminalización

33 El Nuevo Pacto Social, la criminalización de los movimientos sociales y la “ideología de la seguridad”. Susana Murillo. OSaL 14. 2004

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Um aspecto essencial para reforçar a dominação é a criação de dispositivos de controle da
Um aspecto essencial para reforçar a dominação é a criação de dispositivos de controle da

Um aspecto essencial para reforçar a dominação é a criação de dispositivos de controle da pobreza. Escreve Esteban Rodríguez 34 :

controle da pobreza. Escreve Esteban Rodríguez 3 4 : Neste contexto, caracterizado pela irrupção da exclusão,

Neste contexto, caracterizado pela irrupção da exclusão, o Estado redefiniu sua intervenção. Porque o Estado continuará inter- vindo, embora desta vez já não tenda à integração social. Sua inter- venção será exclusiva. Intervém para reassegurar essa exclusividade, para manter a exclusão, ou o que dá no mesmo, para evitar a ir- rupção. A intervenção estatal se torna diruptiva, isto é, fragmenta- dora. A dirupção é a forma assumida pelo controle social quando se trata de manter a exclusão, quando o inviável se torna insustentável e, portanto, já não cabe inclusão alguma. Essas tecnologias de con- trole estão relacionadas com: a) as agências políticas que, baseando- se no clientelismo, organizam a cooptação; b) as agências sociais que, baseando-se na cooptação, organizam o subsistencialismo; c) as

agências repressivas que articulam diferentes práticas (gatilho fácil, antitumulto, esquadrões da morte), que são formas de gerir o crime

e o crescimento do protesto social; e d) as agências judiciais que or- ganizarão a criminalização da pobreza e depois a criminalização do

protesto. [

Quando as multidões irrompem, é preciso intervir, e

a intervenção será brutal, embora focalizada, contundente, embora

imperceptível, se a multidão não se resignar. Da “doutrina de segu- rança nacional” passamos à “tolerância zero”, da mesma maneira que

a “mão invisível” se torna a “mão dura”. Uma mão que se faz punho,

mas permanecerá invisível, intermitente, difusa e errante. Por isso

é que não pode ser percebida como tal. O terror de que falamos é

um terror espectral, que já não tem sua base real em um ponto de- terminado, em uma instituição, mas que permanecerá disseminado entre diferentes práticas que organizam e gerenciam a dirupção. Isso será o terrorismo de Estado nesta nova época marcada pela crise de representação: um punho sem braço.

]

O informe da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) assinala na apresentação do arquivo de casos 1983-2007:

Desde dezembro de 1983 os governos “democráticos” mataram, desapareceram, torturaram até a morte ou massacraram em cárceres e mobilizações 2.334 pessoas. Mais da metade tinha menos de 25 anos.

34 un puño sin brazo. ¿Seguridad ciudadana o criminalización de la multitud? La criminalización de la protesta social. HiJOS La Plata y Ediciones Grupo La Grieta, nov. 2003.

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A esmagadora maioria era de pobres. Quase 60% fuzilados pelo ga- tilho fácil. 30% morreram
A esmagadora maioria era de pobres. Quase 60% fuzilados pelo ga- tilho fácil. 30% morreram

A esmagadora maioria era de pobres. Quase 60% fuzilados pelo ga-

tilho fácil. 30% morreram nos cárceres e delegacias. Desde 1995 até 2007, cinqüenta e um companheiros caíram sob as balas de forças pro- vinciais ou federais em marchas e mobilizações populares 35 .

Referindo-se ao governo de Néstor Kirchner o informe agrega:

O Estado argentino, durante o governo kirchnerista, exerceu

o controle e o disciplinamento social mediante o gatilho fácil, as

torturas em cárceres e delegacias, as batidas e as detenções arbi-

trárias, entre outras medidas como a saturação policial e o uso dos gendarmes e de agentes de segurança para militarizar os bairros. Também desenvolveu a repressão política mediante a perseguição das organizações populares, as ameaças, as perseguições, a re- pressão em mobilizações, o uso de quadrilhas governamentais

e patronais, os processos criminais e o encarceramento por mo-

tivos políticos. É necessário destacar a persistência, como política de Estado, da sistemática aplicação de tormentos a pessoas legal ou ilegalmente detidas, o que, em muitos casos, ocasiona a morte do tor- turado. Uma parte significativa das mortes em cárceres e delegacias corresponde a torturas seguidas de morte, apesar de que não chegam

a

uma dúzia em todo o país as condenações por esse delito. Paralela

e

complementarmente ao uso habitual de métodos de tortura como

o

espancamento, o submarino seco (saco plástico) ou o choque elé-

o submarino seco (saco plástico) ou o choque elé- trico, o Judiciário resiste a qualificar fatos

trico, o Judiciário resiste a qualificar fatos óbvios de tortura como tal, porque essa figura legal mostra com mais clareza que qualquer outra

a responsabilidade institucional. Em relação às mortes nas delegacias,

cabe destacar também que a maior parte das pessoas que morreram não estava detida por delitos e à disposição da justiça, mas tinha sido vítima de seqüestros policiais para estabelecer identidade (averigua- ção de antecedentes) ou contravenções e faltas, provando assim que estas faculdades das forças de segurança para deter pessoas arbi- trariamente são cruciais para dar ensejo à tortura. O Estado faz uma defesa irrestrita das normas que permitem às polícias deter indiscriminadamente “suspeitos”, cujo perfil sempre coincide com

o que eles mesmos descrevem como “moreno, jovem e de bairros onde há conflitos.

35 Ver: apresentação do arquivo de casos 2007, disponível em: <http://correpi.lahaine.org>.

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A pesquisa efetuada pela Correpi aponta que: Em 2003 houve 1.508 casos de torturas, com

A pesquisa efetuada pela Correpi aponta que:

A pesquisa efetuada pela Correpi aponta que: Em 2003 houve 1.508 casos de torturas, com uma

Em 2003 houve 1.508 casos de torturas, com uma média de 12 pessoas mortas por mês; em 2004, 1.684 casos, mantendo a média de 12 pessoas mortas por mês; em 2005, 1.888 casos, com uma média de 15 casos de morte por mês; em 2006, 2.114 casos, mantendo-se a média de 15 pessoas mortas por mês e no fim de 2007 foram re-gistrados 2.334, com uma média de 16 pessoas mortas por mês. Nos últimos meses são estimadas 192 mortes.

por mês. Nos últimos meses são estimadas 192 mortes. A seletividade do sistema penal se manifesta

A seletividade do sistema penal se manifesta no fato de que são os pobres que enchem as prisões. O informe assinala que durante esse gover- no foram assassinados mais jovens e pobres: um levantamento nos arquivos revela 847 mortos durante os 54 meses de gestão. Isso significa mais de 16

jovens e pobres assassinados por mês por policiais, militares, gendarmes ou agentes do serviço penitenciário. “Um jovem a cada 40 horas, em quatro anos e meio de governo.”

O “gatilho fácil” – da mesma forma que as batidas nos bairros pobres – atua

como dispositivos de disciplinamento, sem outro critério que não o castigo à po- breza, e o de fazer com que se acostumem à violência como a única face da lei. As invasões às comunidades, justificadas pela perseguição ao narcotráfico ou à “delin- qüência”, são moeda corrente nos setores marginalizados. Produzem verdadeiros assaltos à população mais vulnerável, tendentes a estabelecer a ordem armada di- ante dos mais fracos. A militarização dos bairros carentes institucionalizou-se por meio de dispositivos como o Plano de Proteção Integral dos Bairros – iniciado em novembro de 2001 – com a ocupação de três grandes “vilas de emergência” em

Buenos Aires pelas forças policiais.

Esta nova escalada da criminalização, visível na militarização dos bairros carentes, torna natural a associação entre “pobreza” e “deli- to” através da categorização das populações pobres como “classes peri- gosas”, distinguindo-as do resto da sociedade e rotulando seus núcleos habitacionais como mera fonte de delito. No entanto, esta correlação que se estabelece entre “insegurança”, “delito” e “pobreza” põe em evidência a emergência de novas fronteiras políticas e jurídicas. O surgimento dessas novas fronteiras abre as portas à possibilidade de que, em nome da conservação da ordem social, sejam instituídas zonas despojadas de direito – zonas de não direito ou “estados de ex-

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ceção”, segundo a conceituação de Agamben 3 6 – onde a auto-estima e o respeito
ceção”, segundo a conceituação de Agamben 3 6 – onde a auto-estima e o respeito

ceção”, segundo a conceituação de Agamben 36 – onde a auto-estima e o respeito coletivo não contam, e onde torna a primar uma pura lógica de ação policial 37 .

Nos últimos anos também se avançou na militarização de estradas e redes ferroviárias, com a presença de postos da Gendarmería nas estações de trem. Isto tem sido enquadrado em fatos que provocaram violenta repressão, como os que aconteceram na estação de Haedo, no dia 1.º de novembro de

2005 38 . Em 2006, o governo nacional anunciou o início de operações do proje- to Trem Alerta, que consiste na instalação de câmeras de televisão nas estações da ex-ferrovia Mitre, operada pela Trens de Buenos Aires (TBA). As câmeras enviam imagens em tempo real ao Departamento Central da Polícia Federal e

a uma página da Internet de acesso público. Em 2007, o projeto foi estendido

à ex-ferrovia Sarmiento, reforçando-se a vigilância nas estações do metrô com

câmeras e policiais. Um caso emblemático destas modalidades de criminalização da pobreza, que se entrelaçam com a judicialização do protesto social, foi a repressão desatada na Casa Legislativa no ano de 2004, quando era discutida a modificação do Código de Contravenção Penal, com um conjunto de medidas que prejudicavam precisa- mente os setores mais vulneráveis 39 . A repressão brutal – amplificada pelos meios de comunicação – mostrou a decisão de avançar na “limpeza das ruas” de pessoas

a decisão de avançar na “limpeza das ruas” de pessoas 36 G. agamben, El Estado de

36 G. agamben, El Estado de excepción, Buenos aires, adriana Hidalgo, 2004.

37 R. Gargarella. M. Svampa. Las fronteras del derecho, p. 12, 1.º fev. 2003. Citado no informe de alerta argen-

tina, 2005.

38 Nessa ocasião, quando os usuários de trem se queixavam dos maus serviços, produziu-se uma tentativa da Polí-

cia Bonaerense de desalojar violentamente os milhares de usuários das plataformas com balas de borracha e gases lacrimogêneos (algumas testemunhas dizem que também atiraram com balas de chumbo). a reação das pessoas foi violenta. Foram incendiados quinze vagões, parte da estação de Haedo, algumas lojas foram saqueadas e vitrines foram quebradas. Tudo isso durou mais de cinco horas, e, com a chegada ao local de mais de 40 carros das polícias federal e de Buenos aires e da Gendarmería Nacional, desatou-se uma caçada humana indiscriminada em busca dos “culpados”. Vieram as detenções, mais de oitenta, depois torturas e prisão. diante desses fatos, apesar de não terem sido esclarecidos, sete jovens entre 19 e 30 anos ficaram detidos nas prisões federais de Ezeiza e Marcos Paz e um menor de idade foi internado “em resguardo” no instituto Roca. Existem mais de 60 pessoas sendo processadas pelos mesmos fatos, acusadas pelos delitos de lesões leves com agravante contra efetivos das forças de segurança, atentado e resistência à autoridade, obstrução ao transporte público, incêndio agravado pelo perigo

comum para os bens e para a autoridade e perigo de morte para alguma pessoa, dano agravado por ser executado em prejuízo de bens de uso público.

39 Entre essas medidas estão: dar mais poder à polícia permitindo que atue de ofício como denunciante, testemu-

nha e autoridade, podendo armar provas, causas e aplicar propinas e extorsões para sua “caixinha”; penas de prisão e multas impagáveis na quase totalidade das contravenções; criminalização do protesto social, das manifes- tações e do vandalismo: castigo com arresto das ações para impedir leilões públicos, prática que tem sido usada para impedir que os bancos se apropriem de residências únicas e familiares para cobrar créditos hipotecários. Criminalização da venda ambulante com multa, perda da mercadoria e até do dinheiro, condenando 20.000 tra- balhadores ambulantes de parques e praças, catadores de papel e quantidade não determinada de artesão, artistas de rua, mendigos, lavadores de carros; criminalização da oferta de sexo em via pública e condenação a mulheres e travestis em estado de prostituição nas zonas controladas pelo proxenetismo policial e mafioso.

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pobres. Dessa repressão resultaram 15 presos: vendedores ambulantes, mulheres em situação de prostituição, com poucas
pobres. Dessa repressão resultaram 15 presos: vendedores ambulantes, mulheres em situação de prostituição, com poucas

pobres. Dessa repressão resultaram 15 presos: vendedores ambulantes, mulheres em situação de prostituição, com poucas possibilidades de se defenderem e pouco apoio de suas também precárias organizações. Essa prisão foi “um exemplo” da decisão de aplicar a mão dura. Também foi um salto no tipo de figuras às quais se

imputaram delitos como “privação ilegítima da liberdade, resistência à autoridade, e coação agravada”.

resistência à autoridade, e coação agravada”. A esse respeito sublinha Roberto Gargarella 4 0 :

A

esse respeito sublinha Roberto Gargarella 40 :

 

Essas condenações, depois revertidas pela instância revisora,

 

testemunham o incrível grau de leviandade com que se administram as penas privativas de liberdade de certos setores sociais (neste caso, com total ausência de provas); e a arbitrariedade com que são selecio- nadas as figuras criminais a serem utilizadas em cada caso. Ao mesmo tempo, as absolvições que podem chegar depois – como neste caso

são incapazes de reparar as injustiças já cometidas através do encar-

ceramento dos imputados (e que implicaram, no exemplo citado, em rupturas familiares, ou grave prejuízo da saúde e do desempenho das atividades de trabalho e educativas de algumas das partes, de seus fi- lhos e parentes), ao mesmo tempo em que testemunham o modo cor- porativo da ação judicial, incapaz de chamar a atenção ou sancionar de algum modo a atuação irresponsável das instâncias inferiores. A mensagem que se expressa é então muito clara: se alguém tem razões de queixa diante do poder, que não as expresse, porque pode ser víti- ma de um “erro” que implique em vários meses de prisão; enquanto que aquele que ocupa o papel de juiz pode seguir lendo as normas de aplicação do modo que bem entender, porque nenhum funcionário judicial estará disposto a repreendê-lo por aquilo que se vê, em todo

caso, como uma “desafortunada” interpretação do direito [ ]

E

diz também:

As políticas criminais parecem desenhadas ao calor das de- mandas conjunturais dos grupos melhor situados. Eles têm mostrado reiteradamente, nestes anos, sua capacidade para influir no redesenho do Código Penal argentino, e do mesmo modo em que bloquearam reformas mais racionais (embora não obviamente justificáveis) sobre

o mesmo, converteram o referido Código em um catálogo disforme de

penas severas para os delitos que mais temem, que não são necessaria- mente os delitos mais graves que se cometem no país.

40 Roberto Gargarella. Expresiones de violencia en un contexto de fragmentación social.

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a.1. Feminização da pobreza e criminalização das mulheres A dimensão de gênero na análise da
a.1. Feminização da pobreza e criminalização das mulheres A dimensão de gênero na análise da

a.1. Feminização da pobreza e criminalização das mulheres

A dimensão de gênero na análise da pobreza implica assumir que a posição

social da mulher é desigual, e que a sua experiência de pobreza pode ser diferente e mais aguda que a dos homens, em virtude das formas de exclusão e discriminação que as mulheres vivem cotidianamente. As organizações de mulheres vêm denunciando diversos casos de feminicí- dios, entre os quais um dos mais aberrantes é o dos assassinatos de mais de 20 mulheres que exerciam a prostituição em Mar del Plata, que não foram resolvidos, embora se saiba que a responsabilidade é da polícia provincial. Também foram denunciados assassinatos de mulheres em Santiago del Estero e Cipolletti. Em grande parte desses casos, ficou demonstrada a conexão dos crimes com as redes de tráfico de pessoas ou de prostituição.

O movimento de mulheres assinala que mais de 500 mulheres foram “de-

saparecidas na democracia”, pelas redes de tráfico de pessoas. Uma declaração da Campanha diz:

Nem mais uma mulher vítima das redes de prostituição:

A resposta estatal é a repressão às vítimas nos bordéis ou na rua,

como sucede com a aplicação dos códigos de contravenção e de

faltas, que em sua redação e aplicação cada vez mais repressiva, são herdeiros dos velhos editos policiais. A polícia utiliza o seqüestro,

os maus-tratos, a ameaça e a propina, convertendo-se em sócia do

proxenetismo, quando não diretamente em proxeneta. Nunca se chega aos grandes responsáveis da exploração sexual das mulheres

e crianças, aos chefes das redes de prostituição, aos funcionários,

legisladores, empresários, promotores, delegados e juízes que par-

ticipam do negócio

e judicial são responsáveis pelo que fazem, mas também pelo que

não fazem. Não perseguem os exploradores, não respeitam nem protegem os direitos humanos das vítimas, não destinam leis, pro- gramas e orçamento para a criação de abrigos, para a assistência médica, jurídica e psicológica, para a capacitação para o trabalho, para a criação de empregos.

O Estado, os governos, os poderes legislativo

de empregos. O Estado, os governos, os poderes legislativo vale a pena chamar a atenção para

vale a pena chamar a atenção para o tratamento desse tema por parte do governo nacional e de determinadas ONGs, respondendo às imposições da política norte-americana, que coloca o tráfico de pessoas não como um problema de direi-

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tos das vítimas – fundamentalmente as mulheres –, mas como um a mais entre os
tos das vítimas – fundamentalmente as mulheres –, mas como um a mais entre os
tos das vítimas – fundamentalmente as mulheres –, mas como um a mais entre os

tos das vítimas – fundamentalmente as mulheres –, mas como um a mais entre os múltiplos problemas que integram sua agenda de “segurança” (junto com migra- ções, narcotráfico, lavagem de dinheiro, terrorismo, pobreza). Em consonância com esses critérios, aprovou-se na Argentina a Lei contra o Tráfico de Pessoas, na qual se estabelece que, para que se constitua o delito, no caso de maiores de 18 anos, o Estado ou as afetadas devem “provar” que houve recrutamento mediante engano, fraude, violência, ameaça, coerção ou abuso de autoridade. Esta lei torna vulneráveis as mulheres maiores de 18 anos e cria a idéia de que existe um tráfico ilegítimo que se penaliza, e outro legítimo no qual as vítimas dariam seu consen- timento para ser prostituídas. As vítimas devem “provar” que seus exploradores as violentaram, o que supõe a pretensão de que as vítimas são as responsáveis por sua própria defesa, meca-nismo pelo qual são revitimadas. Outro caminho para penalizar as mulheres pobres é a criminalização do aborto. Na Argentina, o aborto é a primeira causa de morte materna. A inter- nação por aborto no país aumentou em 57% entre 1995 e 2000. Quarenta por cento dessas hospitalizações correspondem a menores de 20 anos. Calcula-se que morre uma mulher por dia em razão de abortos clandestinos (são realiza- dos em torno de 500.000 abortos por ano). Houve, nestes anos, vários casos de mulheres processadas por realizar um aborto, e de médicas por praticá-lo. Mesmo que constem do Código Penal as causas de aborto não-puníveis, a falta de um protocolo claro que permita o atendimento nesses casos faz com que os abortos não sejam realizados nos hospitais públicos. Tampouco se cumpre o protocolo de assistência humanitária pós-aborto, com a Lei de Saúde Sexual e Procriação Responsável, nem com o Programa de Saúde Sexual e Procriação responsável. Estes fatos põem em risco as mulheres pobres – que são as que não têm acesso aos abortos clandestinos por falta de meios. São modalidades de criminalização e judicialização das mulheres pobres, e de controle de seus corpos a partir do Estado 41 .

b. A criminalização dos movimentos populares e a judicialização do protesto social

Há uma linha de continuidade entre as políticas de criminalização da pobre- za e de judicialização do protesto social, que foi se produzindo simultaneamente

41 um caso exemplar é o de ana María acevedo, uma jovem de 20 anos, de Santa Fé, com câncer no maxilar, a quem se negou a ligadura tubária – contemplada em lei nacional. ana Maria tinha três filhos nascidos por cesari- ana. Foram-lhe detectados um câncer e uma gravidez de três meses. diante do pedido da família para que fosse praticado um aborto terapêutico, contemplado no artigo 86, inciso 1, do Código Penal, foi-lhe negado esse direito e postergou-se o tratamento de quimioterapia que necessitava com urgência. após 24 horas morreu o recém-nascido, e ela faleceu no dia seguinte.

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à criminalização dos movimentos populares. O fato de situar os excluídos como

ameaça e suas ações como delito interfere na simbologia que considerava o lutador ou a lutadora social como militantes solidários, justiceiros. Quando esses ou essas militantes eram reprimidos ou encarcerados, ninguém duvidava em solidarizar- se. No entanto, hoje, aqueles que lutam são apresentados como delinqüentes, e sua prisão é mostrada como castigo exemplar. Torna-se a escrever, assim, uma história de heróis e vilões, em que as vítimas de hoje, uma e outra vez, são obrigadas a demonstrar a legitimidade dos seus clamores.

A repressão, a prisão, a tortura, em um país em que ainda doem as feridas

da ditadura são apresentadas como “necessárias” para serem justificadas pelo sen- tido comum, manipulado intensamente pelo poder. Para isso estão sendo feitos complexos esforços que tentam fazer retroceder a consciência democrática criada na batalha contra a ditadura e contra a impunidade. Assim, nas diferentes fases da implementação do modelo neoliberal, foram difundidos diferentes argumentos legitimadores dessas políticas. Se nos anos 1990 atacava-se o Estado para justificar

as privatizações e torná-las quase “desejáveis”, na atualidade a defesa das políticas em curso – a multiplicação de indústrias extrativistas, contaminadoras, depreda- doras da natureza, etc. – se realiza em nome do “desenvolvimento”, do “progresso”. Aqueles que se opõem a elas são desqualificados, reconfigurando-se o paradigma “civilização ou barbárie” com que o capitalismo da “Geração de 1880” fundou a “República”, sobre a base do extermínio dos povos indígenas, e de uma pretendida “homogeneização cultural” realizada a partir de uma concepção eurocêntrica da inserção argentina no capitalismo mundial.

A colonização tende a fortalecer a subordinação argentina – como a da

América Latina – ao capitalismo transnacionalizado, e esta se constrói a partir de diferentes mecanismos de formação de opinião pública, mas também de transmis- são e de valorização (e desvalorização) de saberes, como o sistema educativo e o

comunicacional. Se para as corporações transnacionais é essencial – por exemplo

– despojar de suas terras os povos originários, ou as populações camponesas, para

poder estabelecer aí seus negócios e aumentar seus superlucros, a possibilidade de cumprir com essa meta está diretamente ligada ao papel dos governos locais (nacional, provinciais, municipais), que pregam as supostas bondades dos inves- timentos naqueles projetos de mineração, represas, petróleo, desmatamento para

o cultivo de soja, eucaliptos, pinho, etc., complexos turísticos, construções ligadas

Iniciativa de Integração Regional Sul-americana (IIRSA); e também ao papel daqueles que desde um suposto “saber científico” constroem o consenso a essas políticas. Quem se opuser a esta inserção global será imediatamente desautoriza- do, e, caso se rebele, será processado.

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A partir do governo têm sido utilizados intensamente os grandes meios de comunicação para produzir
A partir do governo têm sido utilizados intensamente os grandes meios de comunicação para produzir

A partir do governo têm sido utilizados intensamente os grandes meios de comunicação para produzir uma forte desqualificação do protesto social. As con- clusões da pesquisa realizada pela Rede Eco Alternativo 42 assinalam que

realizada pela Rede Eco Alternativo 4 2 assinalam que os meios apostam na omissão ou invisibilidade

os meios apostam na omissão ou invisibilidade dos protagonis- tas, ações e reclamos que organizações sociais e políticas empreendem. Esta lógica da mídia se modifica quando os sujeitos sociais decidem coletiva e organizadamente empreender ações que compreendem a ocupação do espaço público (mobilizações, bloqueio de ruas ou es- tradas, ocupação de edifícios, etc.). Nesses casos, a cobertura é quase imediata e a desqualificação do protesto social adquire nos meios exa- minados uma força maior: pela ocupação do espaço coletivo, das “ins- tituições do sistema” ou de empresas privadas. Dissimuladamente, os meios adotam um discurso que convoca à judicialização do protesto, justificando, além disso, a repressão. O tratamento assumido pelos meios analisados é: o desaparecimento discursivo do reclamo que dá origem a tais medidas (como também o contexto em que se desenvolve e as circunstâncias político-econômicas que o originam) e a estigma- tização tanto das ações, catalogadas como delitivas e, portanto, ilegais, como dos protagonistas por pertencerem a agrupações, organizações políticas e sociais. Esta caracterização se modifica em alguns casos quando, como conseqüência da repressão com que se pretende deter o protesto social, as “forças da ordem” matam um manifestante.

É nesse tipo de caso que os meios mudam temporariamente o eixo informativo. Deixam de lado a desvalorização das ações por uma cobertura centrada na preocupa- ção “humanitária” “pela vida”. Mas essa cobertura isola o manifestante assassinado de qualquer relação que o crime possa ter com a organização sindical, piqueteira, etc.; com o reclamo inicial que motiva a ação e com a necessidade que tem este sistema de sustentar e recorrer às forças repressivas. … As vozes que se difundem para explicar os acontecimentos são as de funcionários públicos, nacionais e provinciais, políticos de organizações que representam os interesses do sistema, e da própria mídia. Neste último caso, os meios, por meio dos seus editoriais ou de jornalistas muito próximos à linha editorial, questionam as ações “antidemocráticas” desvalorizando e tergiversan- do o clamor. Pelo contrário, a palavra dos protagonistas do conflito é desprezada e em alguns dos fatos analisados nem aparece, ou aparece apenas como reforço do cenário “violento” criado pelas imagens e palavras difundidas por esses meios. Os jornais an-

42 Su versión completa está publicada en la edición argentina de esta investigación.

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lisados (e sua reprodução discursiva pelos meios que integram o grupo) constroem padrões de sentido
lisados (e sua reprodução discursiva pelos meios que integram o grupo) constroem padrões de sentido

lisados (e sua reprodução discursiva pelos meios que integram o grupo) constroem

padrões de sentido para que “as pessoas” associem o protesto social ao caos. A reitera- ção de certos qualificativos dados aos protagonistas, às ações e à reclamação fortalece

a formação de paradigmas de sentido, para que, tão logo seja mencionado um desses

termos, a ilação mental se dê imediata e diretamente e, portanto, a valorização social

do reclamo seja de desaprovação e condenação. Esta construção de padrões de sentido cria consenso social para justificar a repressão ao clamor e instala no sentido comum uma matriz de pensamento que vincula a reivindicação dos setores sociais com a ile- galidade e o delito e, portanto, propende à sua “ilegitimidade social” 43 . Foi intensamente utilizada nos grandes meios de comunicação a idéia de que

o protesto social vulnera os direitos de determinados setores da sociedade. A hierar-

quização de direitos realizada pelo capitalismo coloca no alto da pirâmide o direito à propriedade privada, e os que estão associados a ela, como a “liberdade de empresa”,

a liberdade para a reprodução e circulação do capital. Para deslegitimar o movimento

piqueteiro, o bloqueio de estradas foi apresentado como um conflito entre o direito a

pleitear e o direito a circular. Assinalam Maristella Svampa e Claudio Pandolfi:

Desde o começo, o poder judicial haveria de dar mostra cabal de um rechaço a estas novas formas de protesto, ao estabelecer julgamen- tos muito questionáveis, pronunciando-se sem maior reflexão a favor do direito de livre circulação. Os bloqueios de estrada começaram a ser tratados prioritariamente como um assunto criminal, através da aplicação das figuras previstas pelo código penal, particularmente em seu artigo 194, relativo à obstrução das vias públicas 44 .

Neste novo cenário de criminalização da pobreza e do protesto, um mecanis- mo fundamental é a mudança nas figuras penais empregadas nos processos, uti- lizada pelo sistema judicial para evitar as solturas. Assim, o castigo se produz no próprio processo. A passagem pelas torturas nas delegacias, nas prisões, os meses de encarceramento, formam parte do dispositivo de criminalização da pobreza e do protesto. O Dr. Antonio Cortina, assessor letrado da Federação Judicial Argen- tina, ilustra com clareza essa situação:

o verdadeiro perigo dos processos criminais não está na condenação, mas no próprio processo, que significa toda uma série de restrições e ameaças encobertas ou silenciosas. As cau- sas são ativadas, desativadas, não mantêm um ritmo constante às vezes ficam meio esquecidas ou relegadas nos trâmites, pe-

vezes ficam meio esquecidas ou relegadas nos trâmites, pe- 43 Esta pesquisa está publicada de forma

43 Esta pesquisa está publicada de forma completa no livro que contém o conjunto do trabalho realizado pelos

coletivos que interagiram para elaborar essas conclusões que aqui apresentamos.

44 Pandolfi Svampa. Las vías de la criminalización de la protesta en argentina.

disponível em: <www.maristellasvampa.net>.

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didos de informações ou perícias, e de repente reaparecem no momento oportuno. Essas causas têm
didos de informações ou perícias, e de repente reaparecem no momento oportuno. Essas causas têm

didos de informações ou perícias, e de repente reaparecem no

momento oportuno. Essas causas têm uma periculosidade e po- tencialidade repressiva constante, e por isso mesmo é que são iniciadas. Muitas vezes o denunciante sabe perfeitamente que

o fato não é suficiente para uma denúncia, mas a faz do mesmo

jeito, porque dessa maneira cria um risco. E uma denúncia não

muito sustentada, somada a outra com as mesmas característi- cas, a outra mais e a outra mais, termina armando um pacote,

uma rede de contenção que não é visível, salvo para a pessoa que

a tem sobre sua cabeça 45 .

salvo para a pessoa que a tem sobre sua cabeça 4 5 . A criminalização dos

A criminalização dos movimentos sociais em luta e a judicialização do protesto tornaram-se uma enorme chantagem sobre as organizações sociais. Milhares de lutadores têm pendentes processos judiciais que podem compro- meter sua liberdade, o que constitui uma maneira de evitar ou conter novos conflitos. É por isso que, quando Néstor Kirchner assumiu o governo, no ano de 2004, no marco da enorme mobilização dos setores populares que prosseguia depois dos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, alguns organismos de direitos humanos apresentaram projetos para descriminalizar os militantes populares. No entanto, nenhum desses projetos foi aprovado. Em entrevista coletiva rea- lizada em setembro de 2004, a Central de Trabalhadores Argentinos divulgou um documento que assinalava:

A CTA manifesta sua profunda preocupação pelo avanço da

criminalização, uma vez que a pressão dos grupos econômicos que não querem perder seus privilégios, acompanhada por um discurso que sustenta a mão dura e a repressão em defesa de uma suposta se- gurança, levou não apenas a que se mantenha o processo a mais de cinco mil compatriotas que enfrentaram as injustiças do modelo, mas também que, nos últimos tempos, tem-se aprofundado a perseguição

e repressão a dirigentes sindicais e sociais em todo o país.

São apresentados exemplos tais como:

a província de Neuquén onde desde o ano de 1998 até hoje foram processadas 1.550 pessoas. Existem entre elas alguns casos em- blemáticos, como o do companheiro Julio Fuentes, dirigente da ATE

45 Revista En Marcha, Federación Judicial argentina, n. 31, abr. 2003.

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e da CTA, que responde a 50 processos criminais e Horacio Fernán- dez, atual secretário
e da CTA, que responde a 50 processos criminais e Horacio Fernán- dez, atual secretário

e da CTA, que responde a 50 processos criminais e Horacio Fernán- dez, atual secretário general da CTA, que responde a 20 processos, [e agrega que] também na província de Jujuy, o companheiro Nando Acosta, titular da CTA, enfrenta 50 processos judiciais e na cidade de Bahia Blanca são 115 os processados. As respostas institucionais aos protestos sociais que enfrentaram o modelo de fome e entrega se car- acterizaram pela repressão direta, incluído o assassinato de 47 pes- soas desde o ano de 1995 até hoje, e pela perseguição de milhares de delegados sindicais, trabalhadores desempregados, dirigentes sociais, religiosos, produtores rurais, pequenos e médios empresários, etc.

Outro caso exemplar é o de José “Pepino” Fernández, dirigente da União de Trabalhadores Desempregados (UTD) de General Mosconi, contra quem há mais de 80 processos abertos. Um informe do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) sobre Direitos Humanos em 2008 diz que:

O fenômeno da criminalização do protesto social consiste em iniciar milhares de processos judiciais à margem da lei, com a única finalidade de controlar ilicitamente os reclamos sociais. O que se busca com esta atividade é desestimular a participação em manifes- tações públicas mediante a apresentação de grande poder coercitivo que um processo judicial implica para quem é imputado, indepen- dentemente do resultado final que esse processo tenha… 46

do resultado final que esse processo tenha… 4 6 Então, algumas das formas em que se

Então, algumas das formas em que se manifesta a criminalização dos movi- mentos populares é o avanço do processo de judicialização dos conflitos, visível na multiplicação e no agravamento das figuras criminais, na maneira como elas são apli- cadas por juízes e promotores, no número de processos a militantes populares, na es- tigmatização das populações e grupos mobilizados, no incremento das forças repressi- vas e na criação especial de corpos de elite, orientados para a repressão e militarização das zonas de conflito. Por todos esses caminhos, os problemas sociais e políticos se transformam em processos judiciais, nos quais o povo não tem como intervir, a não ser como espectador ou como “acusado”. De possíveis atores sociais, os sujeitos em conflito ficam reduzidos a excluídos, a vítimas, ou a potenciais criminosos. O movimento popular encontrou-se então diante da dupla exigência de expressar seus direitos e de legitimar as modalidades dessa expressão. Teve que justificar as formas populares de “irrupção” na história e no presente cotidiano.

46 informe 2008 – Centro de Estudos Legais e Sociais.

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E essa maneira de “existir”, em alguns casos, está associada diretamente à oportu- nidade de
E essa maneira de “existir”, em alguns casos, está associada diretamente à oportu- nidade de

E essa maneira de “existir”, em alguns casos, está associada diretamente à oportu- nidade de “sobreviver”. Por isso, coincidimos com a formulação de Roberto Gar- garella sobre a necessidade de reivindicar o direito ao protesto, considerado como “o primeiro direito”, como “o direito a ter direitos” 47 . O endurecimento do contexto repressivo tornou-se visível também a partir dos anos 1990 (quando a resistência popular começou a se incremen- tar), quando se começou a se munir mais intensamente as diferentes forças:

polícia federal, provincial, Gendarmería Nacional e Prefectura Naval Argen- tina (Polícia Marítima). No que se refere às formas repressivas que intervêm na repressão, o informe da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Ins- titucional (Correpi) aponta:

a Repressão Policial e Ins- titucional (Correpi) aponta: observa-se, nos anos mais recentes, que integrantes de

observa-se, nos anos mais recentes, que integrantes de

outras forças de segurança, como a Prefectura Naval ou a Gendar- mería, aparecem com maior freqüência como os que vitimam. Isso responde linearmente à crescente presença dessas formas, outrora limitadas às fronteiras ou aos cursos fluviais, no patrulhamento urbano, participando ativamente no controle territorial. A Gen- darmería Nacional tem sido desde meados dos anos 1990 a força favorita na hora de reprimir conflitos sociais, e a preferida nos cres- centes processos de militarização como em Santa Cruz ou no Hos- pital Francês. Igual caminho parece trilhar a Prefectura Naval, cujo grupo de elite Albatroz foi selecionado para ocupar o porto de Mar del Plata diante do persistente clamor dos trabalhadores pesqueiros de terra. Um parágrafo à parte merecem as estruturas de segurança, custódia ou vigilância privada, geralmente dirigidas por membros de alto posto do aparelho repressivo oficial, retirados ou em ativi- dade. Seus integrantes, na maioria dos casos, são membros dessas forças, incluindo exonerados, em disponibilidade ou suspensos por delitos diversos. A isso se soma o acionamento cada vez mais vi- sível de bandos paraestatais, em geral dirigidos ou compostos por elementos de choque vinculados à estrutura do partido do governo, que tomam em suas mãos, aparentemente “privadas”, a repressão aos trabalhadores organizados, por fora das burocracias.

] [

Outro tema importante é o das possibilidades que essas forças têm de re- alizar ações de inteligência nas organizações populares. Aponta o informe do

47 Roberto Gargarella. El derecho a la protesta. El primer derecho. Bs. as., ad-Hoc, 2005, p. 142 e 31.

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CELS já mencionado: Em nosso país, a inteligência nacional se encontra regulamenta- da pela Lei
CELS já mencionado: Em nosso país, a inteligência nacional se encontra regulamenta- da pela Lei

CELS já mencionado:

Em nosso país, a inteligência nacional se encontra regulamenta- da pela Lei 25.520 que, em seu artigo 4.º, inciso 2.º, estabelece: “nenhum organismo de inteligência poderá obter informação, produzir ações de inteligência ou armazenar dados sobre pessoas apenas por fatos de sua raça, fé religiosa, ações privadas ou opinião política, ou da adesão ou permanência em organismos partidários, sociais, sindicais, comuni-

tários, cooperativos, assistenciais, culturais ou trabalhistas, assim como a atividade lícita que desenvolvam em qualquer esfera de ação”. Dessa forma, a própria lei veda a possibilidade de desenvolver tarefas de in- teligência sobre pessoas apenas por seu pertencimento a organizações sociais – movimentos de desempregados, assembléias de bairros, orga- nizações de base, sindicatos, etc. O que a lei impede são os comporta- mentos persecutórios contra manifestantes, aqueles que estão dirigidos, antes que à descoberta de ilícitos, à criminalização dos manifestantes sociais. Apesar da norma parecer clara quanto ao que proíbe expres- samente – a realização de tarefas de inteligência sobre manifestantes e organizações sociais –, a forma como tem sido interpretada não esteve livre de conflitos. Assim, em diversas oportunidades foi o próprio Poder Executivo quem ordenou a realização de ações de inteligência ilegais sobre organizações sociais, enquanto que, em outras ocasiões, foram ar- ranjadas por iniciativa das instituições de segurança, e inclusive foram

ordenadas por juízes e promotores

Deste modo, observa-se de que

maneira no contexto das manifestações públicas as tarefas que se apre-

sentam como de “inteligência criminal”, confundem-se com as vedadas pelo artigo 4.º, inciso 2.º, da Lei de Inteligência.

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Na pesquisa realizada por Gerardo Etcheverry para este trabalho 48 , sublinhado que

está

faz muito tempo que o acionar policial diante das mo-

bilizações populares se caracteriza pela intensa participação de efetivos policiais sem farda, que ficam nos arredores da mobiliza- ção, ou inclusive se introduzem entre os manifestantes, com fins que indubitavelmente são incompatíveis com os objetivos decla- rados da Polícia Federal Argentina (PFA). Este acionar do pessoal da PFA com trajes civis, que provavelmente teve o seu momento

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48 Publicada na forma completa na versão argentina desse estudo.

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teve o seu momento ] [ 48 Publicada na forma completa na versão argentina desse estudo.

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mais trágico nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, quando seu pessoal, fardado
mais trágico nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, quando seu pessoal, fardado

mais trágico nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, quando seu pessoal, fardado ou não, assassinou e feriu dezenas de manifes- tantes na nossa cidade, tinha depois diminuído de intensidade (sem desaparecer em nenhum momento), mas, a partir do ano de 2004, recobrou nova força e periculosidade.

do ano de 2004, recobrou nova força e periculosidade. Mais adiante assinala Etcheverry que: Depois da

Mais adiante assinala Etcheverry que:

Depois da dissolução da Direção Geral de Inteligência no ano 2000, seu pessoal continuou em funções, embora com um papel ain- da mais obscuro pelas dificuldades de documentá-lo. Um dos casos nos quais foi possível detectar a presença desses agentes no marco de ações de repressão ao movimento popular foi o massacre de Puente Pueyrredón 49 , ocorrido em 26 de junho de 2002. […] Durante o primeiro ano do período presidencial de Néstor Kirchner, o Minis- tério de Justiça, Segurança e Direitos Humanos viu-se obrigado a emitir a Resolução 38/2003 que, no substancial, recordava às forças de segurança e à PFA a vigência das proibições contidas na nova Lei de Inteligência. Se foi necessário que as autoridades insistissem na vigência de uma lei e recordassem que as normas que se lhe contra- punham haviam sido derrogadas, é possível presumir que alguma das forças (ou a totalidade delas) desconhecia, em suas ações, a nor- mativa vigente. Hoje em dia, não há motivos para supor que a PFA tenha diminuído suas ações de inteligência dirigidas contra aqueles que protestam por seus direitos, e a utilização do pessoal civil con- tinua amplamente estendida, depois de um breve período durante o qual o pessoal não fardado identificava-se com amplos jalecos com a sigla “PFA”. Isso aconteceu imediatamente depois da interposição (em 22 de setembro de 2004) de uma denúncia criminal contra essa prática, que tramitou primeiramente sob os números 13967/04 (B-8449/04) ante o Juizado Nacional Criminal e Correcional n.º 1, Secretaria n.º 2 da Capital Federal, depois passando para o Juizado n.º 7, Secretaria n.º 13, cujo processo foi concluído este ano – depois de ter tido três apelações. Essa querela foi impulsionada por diversas organizações so- ciais: a Liga Argentina pelos Direitos do Homem, o MTR-CUBA, o

49 Ver o testemunho do massacre de Puente Pueyrredón nesta mesma publicação.

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Movimento Territorial de Libertação Martín Fierro, às quais se so- mou um “ahorrista” * com
Movimento Territorial de Libertação Martín Fierro, às quais se so- mou um “ahorrista” * com

Movimento Territorial de Libertação Martín Fierro, às quais se so- mou um “ahorrista”* com o patrocínio de letrados da Liga Argen- tina pelos Direitos Humanos (LADH), do Movimento Territorial de Liberação (MTL). e de Fundação de Investigação e Defesa Legal Ar- gentina – (Fidela). É conveniente destacar que, embora a citada Lei de Inteligência Nacional separe claramente as tarefas de inteligência criminal encomendadas à Direção Nacional de Inteligência Crimi- nal (DINIC), durante o governo de Néstor Kirchner, a Secretaria de Inteligência (SI), pouco mais que a velha Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) com novo nome, foi empregada para tarefas vin- culadas a delitos comuns (seqüestros com extorsão) e na atualidade existe pelo menos um caso no qual uma promotoria contravencional requereu a essa secretaria uma informação absolutamente proibida:

os dados relativos a uma organização piqueteira (o Movimento Ter- ritorial de Libertação) e um de seus dirigentes, por sua participação em uma atividade a favor dos trabalhadores contratados que foram deixados sem emprego pelo governo da Cidade de Buenos Aires en- cabeçado por Mauricio Macri.

Em outro trecho da pesquisa, Etcheverry dá conta da criação do Departa- mento de Segurança do Estado (DSE):

Esta repartição foi criada mediante uma Ordem do Dia Reser- vada (cujo conteúdo a Polícia Federal Argentina (PFA) se viu obrigada a acompanhar em uma causa judicial pelo seguimento a duas orga- nizações políticas, Quebracho e Patria Libre, durante a presidência de Carlos Saúl Menem). Podemos destacar neste sentido as ações do Departamento de Segurança do Estado (sucessor do Departamento de Proteção da Ordem Constitucional que foi, por sua vez, a versão re- ciclada em dezembro de 1983 da Coordenação Federal), teoricamente destinado “à perseguição e investigação da atividade de grupos que possam pôr em perigo o sistema democrático e a ordem institucio- nal com independência das atividades ou vinculações internacionais”; no caso de vinculações internacionais a tarefa corresponde ao De- partamento Unidade de Investigação Antiterrorista (DUIA), menina mimada dos EUA, dentro da PFA, com uma subunidade na Tríplice

dos EUA, dentro da PFA, com uma subunidade na Tríplice * São assim denominadas as pessoas

* São assim denominadas as pessoas que tiveram suas poupanças e investimentos bloqueados pelos bancos na crise financeira de 2001 (N. da T.).

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Fronteira. O DSE depende da Superintendência do Interior e Delitos Federais Complexos (antes chamada simplesmente
Fronteira. O DSE depende da Superintendência do Interior e Delitos Federais Complexos (antes chamada simplesmente

Fronteira. O DSE depende da Superintendência do Interior e Delitos Federais Complexos (antes chamada simplesmente de Superintendên- cia do Interior e, nos tempos da última ditadura, de Coordenação Federal) da PFA; sua subunidade operativa se chama precisamente Divisão de Operações e tem sido empregada em reiteradas oportuni- dades contra aqueles que protestam ou reclamam seus direitos.

vale assinalar também que o governo de Néstor Kirchner, apesar de auto- proclamar-se como “o governo dos direitos humanos”, é o governo que teve mais presos políticos desde 1983. Atualmente continuam presos seis camponeses para- guaios, com trâmite de extradição, aos quais o governo argentino não concedeu o refúgio que vieram solicitar a nosso país; seis presos detidos durante os protestos do povoado de Las Heras, na província de Santa Cruz (ver as cronologias anteriores); a militante de Filhos e Filhas pela Identidade e Justiça e contra o Esquecimento (Hi- jos por sua sigla em espanhol) Karina Germano (que foi presa no Brasil e extradi- tada para a Argentina); dois militantes chilenos requeridos pelo governo do Chile; e 23 integrantes da Assembléia de San Telmo, desalojados de um hotel. O caso dos militantes camponeses paraguaios é especialmente expressivo das mudanças que le- varam a que a Argentina, um tradicional país de asilo, tenha respondido ao pedido de refúgio político com a detenção desses militantes perseguidos em seu país. Quando se fala de judicialização do protesto social, é necessário denunciar também o papel dos juízes e promotores. Como se aponta no trabalho realizado por Gerardo Etcheverry:

Como se aponta no trabalho realizado por Gerardo Etcheverry: book.indd 66 os agentes policiais ou de

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os agentes policiais ou de inteligência não atuaram contra

os lutadores populares por decisão própria, mas sim por expressas ordens judiciais ou de promotorias. É necessário destacar então que o Poder Judicial não só desempenha o papel de garantir a impuni- dade do pessoal dos aparelhos repressivos e de inteligência (exceto casos excepcionais nos quais o custo dessa impunidade seja maior para o Estado que o dano ocasionado pela condenação de seus servi- dores) mas, além disso, promove, em muitos casos, de forma ativa a atividade repressiva ou as investigações ilegais em prejuízo daqueles que se manifestam ativamente contra o governo ou contra outros representantes da ordem estabelecida. O papel do aparato judicial para garantir o pleno poder dos órgãos repressivos e de inteligência não deve ser subestimado embora, por ser menos espetacular, des- perte menos atenção que os operativos policiais.

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b.1. A batalha pelo espaço público O protesto social emerge quando setores da sociedade perdem
b.1. A batalha pelo espaço público O protesto social emerge quando setores da sociedade perdem

b.1. A batalha pelo espaço público

O protesto social emerge quando setores da sociedade perdem a esperança de

tornar visíveis suas demandas. Diante da desconfiança sobre a possibilidade de resolver as demandas urgentes pela via da representação parlamentar e sobre a possibilidade de que possam ser escutadas por meios de comunicação – fortemente monopolizados –,

o único caminho para fazer com que o protesto fosse visível foi a ocupação do espaço

público. A tendência do movimento dos excluídos foi progressivamente ir encontrando

a forma de existir politicamente na ocupação de praças, ruas, no bloqueio de estradas,

no “escracho”. Esta modalidade de resistência foi inventada por Hijos 50 para denunciar

a impunidade dos genocidas, realizando esse ato de condenação social no território da

vida cotidiana, ali onde o genocida vive com sua família, onde estão seus vizinhos. Esta forma de denúncia, que identifica responsabilidades individuais, quando a justiça deixa de fazê-lo, estendeu-se a outros movimentos sociais, colocando em debate a legitimi- dade do sistema judicial, por um lado, e por outro a tranqüilidade que a impunidade oferecia àqueles que eram e são os responsáveis pelos crimes aberrantes. Os “escrachos” atualmente se realizam tanto a um genocida da ditadura como a um dirigente político

responsável por habilitar as políticas de contaminação e saque. No escracho, a vida pri- vada se torna pública. A vizinhança fica sabendo das responsabilidades sociais daqueles com quem compartilha o espaço territorial. Isso provoca não apenas inquietação, mas novas exigências de fortalecimento das medidas que afastem “os indesejáveis” dos locais habitados pelos setores sociais ligados ao poder por múltiplos laços. Nesta disputa se inscreve a batalha que vem sendo travada a partir de 2001, quando as forças sociais ocu- param o espaço público com iniciativas que desafiavam a negação social que o modela vinha criando para invisibilizar as zonas de exclusão.

A reorganização territorial realizada pela ditadura deixou a cidade de Bue-

nos Aires como “vitrine” de uma Argentina “branca, moderna, européia…”, lu- gar preparado para o turismo e para a ilusão dos setores médios portenhos de haver obtido o visto para o primeiro mundo. Essa concepção se reproduziu na maior parte das grandes cidades argentinas (Rosario, Córdoba, Mendoza, entre outras), dando lugar a políticas de “limpeza social” que impedem os setores em- pobrecidos de entrar na cidade. O impedimento só é aplicado a mobilizações e concentrações convocadas por organizações de desempregados que se opõem ao governo nacional. Quando alguns organismos de direitos humanos denunciaram

a arbitrariedade e a ilegalidade dessa disposição, o Governo mudou de estratégia, pondo condicionamentos direcionais a algumas marchas. Desde então, tem sido

direcionais a algumas marchas. Desde então, tem sido 50 HiJOS (Hijos por la identidad y la

50 HiJOS (Hijos por la identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio). Movimento integrado por filhos e filhas de desaparecidos políticos.

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uma constante a guerra contra os catadores 5 1 – reeditada nos primeiros tempos do
uma constante a guerra contra os catadores 5 1 – reeditada nos primeiros tempos do
uma constante a guerra contra os catadores 5 1 – reeditada nos primeiros tempos do

uma constante a guerra contra os catadores 51 – reeditada nos primeiros tempos do governo de Mauricio Macri na Capital Federal –, a proposta de criação de “zo- nas vermelhas” para a prostituição, o que confina as mulheres postas na rua pela miséria a verdadeiros guetos controlados pela autoridade policial, a perseguição aos vendedores ambulantes. Esta batalha pelo controle do espaço público tam- bém se estende ao fechamento das praças com grades (“para que os mendigos não durmam ali”), às grades com que são bloqueados os edifícios públicos e a Plaza de Mayo em momentos de conflito, à presença policial ou de segurança privada em lugares públicos, como as Universidades, violando abertamente a autonomia universitária. E também aos mecanismos de vigilância que transformam bairros inteiros em “bairros privados”. Assinala o CELS:

As relações informais e ilegais entre as agências de segurança pri- vada, pessoas vinculadas ao terrorismo de Estado durante a última di- tadura militar e funcionários da polícia de Buenos Aires, foram denun- ciadas por ocasião do assassinato do repórter gráfico José Luis Cabezas no dia 25 de janeiro de 1997. No julgamento que teve lugar entre 14 de dezembro de 1999 e 2 de fevereiro de 2000, ficou demonstrado que o homicídio tinha sido cometido em virtude da instigação que Gregorio Ríos, chefe da custódia privada do falecido empresário Alfredo Yabrán, exerceu sobre o ex-policial bonaerense Gustavo Prellezo. Por sua vez, a polícia tinha recrutado para concretizar o seqüestro e o homicídio de Cabezas a um grupo de pessoas do bairro Los Hornos, na cidade de La Plata. Também foi determinado que os ex-policiais Sergio Rubén Cam- maratta e Aníbal Luna deram apoio substancial para o homicídio, já que foram o nexo entre os imputados de Los Hornos e o ex-policial Prellezo. Segundo a Lei 12.297, art. 8.º, modificada pelas Leis 12.381 e 12.874, que regulam as atividades das pessoas jurídicas prestadoras de serviços de segurança privada, não podem atuar no âmbito da segurança privada quem tiver sido excluído das Forças Armadas, das forças de segurança, das polícias, do Serviço Penitenciário ou de organismos de inteligência, por delitos ou faltas, nem quem tiver antecedentes criminais ou pro- cessos judiciais em trâmite por delitos dolosos ou culposos relaciona- dos com o exercício da função de segurança. Segundo o presidente da Câmara Argentina de Empresas de Segurança e Investigação (CAESI),

51 Os exércitos de homens e mulheres, meninos e meninas, revolvendo o lixo à noite era uma visão demasiado “fantas- magórica” para os medos toleráveis pelo “sentido comum”.

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existem em todo o país aproximadamente 200.000 vigilantes privados, dos quais 50.000 trabalham sem contrato
existem em todo o país aproximadamente 200.000 vigilantes privados, dos quais 50.000 trabalham sem contrato

existem em todo o país aproximadamente 200.000 vigilantes privados, dos quais 50.000 trabalham sem contrato formal.

Em algumas zonas do país, a presença de seguranças privados de grandes empreendimentos vinculados à exploração de recursos naturais e propriedade da terra adquire características de grupos parapoliciais. Na província de Santiago del Estero foi denunciada a existência de grupos de segurança contratados por grandes proprietários que, além de guardarem suas terras, têm também a função de amedrontar os camponeses com os quais seus patrões têm disputas. Esses gru- pos atuariam encapuzados e fortemente armados.

b.2. As batalhas pelo território dos povos nativos e das populações camponesas

Nos espaços rurais estão sendo travadas batalhas decisivas pelo território, em torno das quais se estruturam elementos fundamentais da identidade e da cul- tura dos povos. A criminalização que é feita nessas ações reconhece práticas es- peciais, tanto nas políticas de terror que se aplicam nas comunidades como pelo tratamento que a mídia dá a elas. Assinalam Patricia Agosto e Claudia Briones em uma análise sobre a forma como se criminaliza o povo mapuche na Argentina 52 :

O protagonismo do povo mapuche na luta em defesa da natureza está ancorada em sua cosmovisão, em sua concepção de território e no lugar ocupado pela espiritualidade em sua cultura. […] Esta cosmovisão é incom- patível com os interesses das poderosas corporações transnacionais e nacio- nais, que utilizam recursos também poderosos para apropriar-se dos bens da natureza em território ancestral mapuche, e buscam a cumplicidade dos poderes políticos locais, provinciais e nacionais para enfrentar as resistências que as comunidades levantam diante da pilhagem. Assim, a militarização das zonas de disputa, a aprovação de leis terroristas, tentando aplicá-las aos que resistem, e a judicialização e criminalização das lutas, acusando muitas vezes seus protagonistas de “usurpadores” das terras em disputa, formam parte do quadro da situação. A repressão policial e de outras forças de segu- rança; as ordens de despejo e a abertura de processos criminais por parte da justiça; a venda ilegal de terras supostamente públicas; as permanentes

ilegal de terras supostamente públicas; as permanentes 52 Luchas y resistencias mapuche por los bienes de

52 Luchas y resistencias mapuche por los bienes de la naturaleza. Patricia agosto e Claudia Briones. OSaL 22.

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