Teoria do consenso e do conflito.

Ao longo do tempo, o crime foi enxergado de maneiras distintas pela criminologia e pela sociologia. A s teorias criminológicas podem ser classificadas de duas maneiras distintas: as consensualistas e as do conflito. Durkheim, em seu ³As regras do método sociológico´ , trata o crime como um fato social inerente à sociedade. Onde houvesse sociedade , haveria portanto o crime, e este, teria ainda, diversas utilidades para a sociedade. Sendo o crime algo inerente a socied ade, vale então nos

perguntarmos: a quem interessa o combate ao crime tal como ele é realizado em nossa sociedade? O que está por trás dos discursos que prometem acabar com a violência, que prometem combater o crime com rigidez? Que prometem tratamentos mais severos àqueles que venham, por ventura, a entrar em conflito com a lei? A serviço de quem está o aparato repressor do Estado? Por que algumas condutas são mais desvaloradas que outras em nosso ordenamento? Para Marx, o direito penal funciona como instrumento de manutenção do proletariado pelas classes dominantes (burguesia) , enquanto o crime é para o proletariado uma forma de sobrevivência e de luta contra a exploração burguesa. O conflito é para Marx, então, uma conseqüência natural do modelo capitalista que produz desigualdade e exploração. O combate ao crime, realizado como verdadeiro combate, interessa unicamente as camadas dominantes da sociedade. Contudo, a cultura de medo criada pela mídia estimula na população o sentimento de da necessidade de ³cura´ dessa ³chaga´ que é o crime. A população não consegue conviver com o crime e com as diferenças de valores sempre presentes em uma sociedade plural como o são as sociedades atuais. Essa insegurança causada por essa cultura de medo abre espaço para a proliferação de políticas de combate ao crime que se constituem como

como produto de poderosos interesses econômicos e políticos que preferem antes combater o crime a combater às causas que levam alguém a praticar uma conduta distinta daquela tida como correta no ordenamento. o que acontece nos Estados Unidos. essa realidade no Brasil é ainda mais dramática . mas. seriam justamente aqueles que não estivessem de acordo com esse consenso e como tais deveriam ser removidos da sociedade para que a paz gerada pelo consenso global fosse retomada. como fica evidente. criminosos. segundo os valores consagrados nas políticas criminais americanas. a quem interessa essa ³rigidez´ no combate ao crime? A população que ao menor deslize pode se ver taxada de ³criminosa´? Ou a esses interesses econômicos milionários os quais apenas lucram com essa criminalização exacerbada? É do interesse das classes dominantes as quais detêm o poder estatal ³fim do crime´ como tantos prometem? Ou seu interesse se exaure. não como instrumento de proteção da população. dentro de um quarto de século o Brasil deve se tornar o campeão mundial de população carcerária. . por conseguinte. por exemplo.verdadeiros dínamos produtivos no sistema capitalista. nesse inacabável ³combate´ ao crime? Nessa luta sem fim que continua a gerar dividendos inimagináveis para alguns.5 milhões de pessoas atrás das grades. da sua diminuição de possibilidade de ascensão social? Essa também é uma realidade no Brasil que atualmente. É irreal a crença dos teóricos do consenso que constroem seu pensamento na crença de que a sociedade criminaliza certas condutas através de um consenso amplamente aceito pela sociedade. Todavia. o que representa ¼ da população carcerária do mundo. que nasceram como alternativa diante da ineficiência do Estado de comportar a quantidade de indivíduos que seriam. L á começa a se verificar a existência dos presídios privados. abriga mais de quinhentos mil presos em seus precários estabelecimentos prisionais. Mais uma vez. O crime e a criminalização funcionam então. Segundo pesquisa do instituto LFG. portanto. enquanto a população sofre cada vez mais com a oportunidade que lhe é negada de crescimento como indivíduo através do encarceramento e. que possui perto de 2. Veja. Os criminosos.

podemos então. para que o direito passe a ser um instrumento a favor do proletariado? Mais uma vez nos deparamos como o poder da mídia faz com que as grandes massas acreditem fielmente que o direito penal atua em seu beneficio. A sociedade. a falha dos consensualistas ao ignorarem a formação social e cultural de uma sociedade. cada qual com uma quantidade inestimável de valores os quais e ventualmente se chocam com os valores aceitos por outros grupos. acrescentaria que "mudança". portanto. se consolidam e evoluem não por causa do consenso ou acordo universal. Como salienta Dahrendorf . Outro fator primordial para que a população confie e aceite o direito tal como ele é posto.´. é formada por diversos grupos e subgrupos culturais e étnicos . que cada vez mais se agrava com a preservação do direito penal e das políticas criminais como estes são encarados pela sociedade brasileira na atualidade. esquecem -se eles. O ilustríssimo autor. fala da coesão existente entre a popul ação que é quebrada com o crime. Esse sentimento de superioridade causado nas ³pessoas de bem´ os faz achar que quanto mais gente estiver etiquetada como criminoso maior será a sua posição dentro da sociedade.Percebe-se. as organizações sociais existem. nos permitir a seguinte reflexão: por que então a população não exercita o seu poder de ³pressão´. "conflito" e "dominação" são os três pilares de todo modelo sociológico. . a ver o criminoso como um dedo podre que pre cisa ser amputado da sociedade. É essencial para a mudança de paradigma em nossa sociedade que a população tome conhecimento da verdadeira função que o direito penal exerce na dominação do proletariado e no aumento cada vez maior da desigualdade político e econômica. senão em virtude da coação e da pressão de umas sobre outras. Não se leva em consideração nas teorias consensualistas o intenso processo migratório evidente nos nossos tempos. Essa população se torna mais unida e passa. é encontrado em Durkheim. É evidente o desprezo desses teóricos por processos importantíssimos da formação das sociedade contemporâneas. de ³coação. ao tratar das utilidades do crime . Com base no modelo desse teórico do conflito . assim.

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