4 INTRODUÇÃO

Neste trabalho monográfico pretendemos apresentar como Rousseau preparou a sociabilidade do homem que vivia no estado de natureza para conviver no estado civil. Jean – Jacques Rousseau nasceu no dia 28 de junho de 1712, em Genebra, sendo filho de Isaac Rousseau, de uma família de relojoeiro por tradição, e de Suzanne Bernard, filha de pastor da localidade, Suzanne morreu de parto do menino Jean – Jacques. Ainda criança, o pai teve de ser expatriado pelo resto da vida, não participando mais do seu desenvolvimento. Rousseau ficou sobre a tutela de seu tio Bernard, partir de então começa uma grande aventura em sua vida, muitas viagens, conhecendo novas pessoas que futuramente influenciaria sua maneira de pensar, como a senhora de Warens, hume, entre outros, muitos estudos, como também algumas amantes. Durante a revolução francesa em 1778, no dia 02 de julho falece Jean – Jacques Rousseau, deixando para as gerações futuras um número considerado de obras, entre elas estão as mais destacadas, como também motivo de perseguição por autoridades de Genebra, as obras Emílio e o Contrato Social. É baseado nesta obra que iremos trabalhar. Rousseau começa por mostrar como era a liberdade e a maneira de viver do selvagem no estado de natureza, percebendo a sua estrutura física, como se desenvolveu do uso da palavra e o moral físico do amor. No segundo capítulo Rousseau nos mostra como era a liberdade nas primeiras sociedades, como a família e o estado, e como viviam os homens em relação a esta liberdade. Perceberemos o inicio do processo de sociabilidade do selvagem, ou seja, aprendem a usar a razão mais do que o instinto. Como nem tudo é perfeito, teremos conseqüências não agradáveis, como o direito que se titula, o direito do mais forte. Será que um homem por ter poder tem direito sobre o outro homem? Rousseau mostra a diferenciação do senhor e do escravo. Vendo que tudo estar como um estado de guerra, Rousseau propõem o pacto

5 social, que dará uma vida nova aos contratantes e este aliena sua liberdade para assegura a propriedade e conforto dentro da sociedade civil. Já no terceiro capítulo, depois do pacto aparece a imagem do soberano que vem guiar a comunidade no bem comum, tendo em vista o bem da sociedade. Sabendo que a soberania é absoluta, logo é inalienável e indivisível, é também limitada por ser constituída de homens e que não pode visar o interesse próprio. Mostra-nos também como o nosso autor pensava sobre lei e qual a sua concepção, sabemos que a lei para Rousseau é universal. Vamos perceber a ação de todo o corpo governamental da sociedade a partir do pacto social, que nos propõe uma vida digna e de soberania, apresentando-nos as varias formas de governos, sendo eles democrático, aristocrático, monárquico e misto. Será possível também percebermos os limites do governo e as conseqüências que o povo sofrerá com um mau governo.

6 CAPITULO 1. ESTADO DE NATUREZA

1.1. O HOMEM FÍSICO

Rousseau apresenta o homem selvagem como um bom selvagem, ou seja, menos educado e sendo corporalmente igual a cada um de nós, que tem os mesmos sentimentos, vontades e desejos. Só que quando estudado mais de perto, a partir dos relatos dos viajantes, se percebe que esse ser é um verdadeiro animal no qual depende de tudo da natureza, essa que o acolhe, sustenta-lhe, na alimentação e abrigo não deixa faltar-lhe nada e estar sempre ao seu dispor. Todas as ações do selvagem são controladas pela natureza, pois sem ela, ele não sobreviveria; o seu agir, modo de portar-se, costumes e necessidades estão envoltos a natureza “Eu o suporei conformado em todos os tempos como vejo hoje: andando sobre dois pés, utilizando suas mãos como o fazemos com as nossas, levando seu olhar a toda a natureza e medindo com os olhos a vasta extensão do céu. Despojado esse ser (...) considerando-o, numa palavra, tal como deve ter saído das mãos da natureza, vejo um animal menos forte do que uns, menos ágil do que outros, mas, em conjunto, organizado de modo mais vantajoso do que os demais” (ROUSSEAU,1983:238).

O homem selvagem foi ensinado pela natureza a sobreviver a todos e quaisquer desafios e assim conquistar o seu alimento, adquirindo desta forma uma estrutura robusta1 que amedronta algumas feras, no caso menos forte do que ele, adquiriu também uma agilidade em subir em árvore. Mas se a fera for mais forte do que ele, este foge para floresta na qual tem uma harmonia, de uma forma tão veloz, que não se imagina um homem qualquer. O homem selvagem

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Torna-se robusto em relação ao homem civil porque a natureza exige deles muito esforço físico para sobreviver na floresta, enquanto o homem civil tem a industria que faz todo o trabalho pesado para ele.

7 não conhece armas, mas tem coragem para lutar e conseguir aquilo o que quer, só com a ajuda do próprio corpo e de pedras. Assim afirma Rousseau que: “Nenhum animal guerreia naturalmente com o homem a não ser no caso de sua própria defesa ou de uma fome estrema”.(ROUSSEAU,1983: 240). Rousseau acrescenta que o homem selvagem não precisa da medicina dos homens civis, pois não conhecem muitas doenças que vem da sociedade, tais como tuberculose, cólera e outras. O homem selvagem é sadio ao viver de acordo com a natureza, sua alimentação não contém toxinas, vive ao ar livre, “eles quase não conhecem outras doenças senão as feridas e a velhice”. (ROUSSEAU,1983: 241) E destas a natureza sabe muito bem como cuidar. O homem selvagem sacia-se por completo na natureza a partir do seu instinto. Portanto não podemos dizer que os selvagens são mãos ou violentos, pois suas ações são oriundas do instinto. Assim os “os selvagens não são maus precisamente porque não sabem o que é ser bons” (ROUSSEAU, 1983: 252). Todos os seus desejos têm a ver com as suas necessidades físicas e dessas somente a natureza resolve, e nesta o selvagem confia.

1.2. O USO DA PALAVRA

Para Rousseau o selvagem não precisava do outro para viver. Vive pois, na sua individualidade, só que o uso da linguagem veio tentar quebrar os limites existentes entre a individualidade e a relação com seus semelhantes. Rousseau mostra que seria fazer uma má comparação entre, família contemporânea e família natural, em relação ao uso da palavra quando afirma: “Que as línguas nasceram no comércio doméstico dos pais (...). Seria cometer a falta daqueles que, raciocinando sobre o estado de natureza,
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transportam para ele as idéias pertencentes à

sociedade e vêem sempre a família reunida numa mesma

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Para Rousseau estado de natureza significa um estado individual de um homem não educado, como também pode ser considerado um estado hipotético antes da organização social.

8 habitação e seus membros guardando entre si união tão intima (...) nesse estado primitivo, não tendo nem casa, nem cabanas, nem propriedade de qualquer espécie, cada um se abrigava em qualquer lugar e, freqüentemente, por uma única noite”.

(ROUSSEAU, 1983:247).

Tendo em vista que a família natural usufruía toda a natureza para viver, sem que tivesse algo em comum que unissem aos seus semelhantes. Já na família da sociedade civil há um objetivo comum que faz com que os seus semelhantes se unam e vivam em partilha e diálogo. A natureza acolhe muito bem o selvagem sem que fosse preciso que este procure refugio em outro lugar, e muito menos se comunicar. Como a criação humana é incompleta, mesmo no estado puro de natureza, eles também são incompletos. Quando crianças “Tendo o filho todas as suas necessidades para exprimir e, conseqüentemente, mais coisas para dizer à mãe do que esta ao filho, deveu (sic) fazer os maiores esforços de invenção e a língua empregada por ele devera ser, em grande parte, obra sua”. (ROUSSEAU,1983: 247). Precisam de ajuda tanto da natureza, como também de sua mãe para sua subsistência, logo, não sabem andar e muito menos procurar comida. Rousseau supõe agora como necessária o uso da palavra e como se estabelecer. Assim conclui que o homem selvagem teve um desafio enorme para poder desenvolver esta arte da comunicação, tendo em vista, que nunca fez um esforço qualquer para se ouvir um som articulado e o que poderia ser isso. Logo o homem selvagem tem seus sentidos mais bem desenvolvidos do que seu intelecto. “Se os homens tiveram necessidade da palavra para aprender a pensar, tiveram muito mais necessidade ainda de saber pensar para encontrar a arte da palavra”. (ROUSSEAU,1983: 247). Sem saber como surgiu o som da voz, sem ter um objeto sensível para estimular o uso do pensar e do falar, percebemos que a natureza teve uma grande parcela de contribuição no desenvolvimento desta arte, como já dissemos antes que o selvagem tem os sentidos mais desenvolvidos que o

9 intelecto, assim Rousseau pressupõe que “a primeira linguagem do homem (...) é o grito da natureza 3” (ROUSSEAU,1983:248) quando este se encontra em situações constrangedoras de perigo e de dor. A comunicação segundo Rousseau era feita a partir de gestos e imitação4 e mesmo assim ficava a desejar, por que os gestos só falavam das coisas presentes e muitas vezes o que um gesto dizia a um, não era a mesma coisa que dizia ao outro, ou seja, não havia uma comunicação exata a partir de gestos, eram inteligíveis, mas foi um grande passo da comunicação, para quem não expressava nada. Os gestos mostra que são capazes de comunica-se e que tudo ficaria mais fácil. “Exprimiram, pois, os objetos visíveis e móveis graças a gestos, e aqueles que atingem a audição, graças a sons imitativos; mas, como o gesto só indica os objetos presentes ou fáceis de serem descritos e as ações visíveis, como o gesto não é de uso universal, porquanto a obscuridade ou a interposição de um corpo o torna inútil” (ROUSSEAU,1983: 248).

Assim vendo que a comunicação a partir de gestos era inútil e percebendo a necessidade da melhor comunicação resolveram substitui-la pela articulação da voz, ou seja, o uso da palavra, que mesmo na dificuldade obtiveram e de forma unânime o consentimento, a aceitação de todos. Mesmo assim tinham dificuldade na comunicação, onde uma coisa tinha uma nomenclatura, para outro objeto da mesma espécie tinha outra nomenclatura. “Cada objeto, a princípio, recebeu um nome particular, sem levar em consideração os gêneros e as espécies, que esses primeiros instituidores não estavam em condições de distinguir”. (ROUSSEAU,1983: 248).

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Este grito do qual Rousseau se refere é grito do instinto humano, suas ansiedade, e a verdadeira vontade de ser livre sem depende de ninguém. 4 Imaginavam os primitivos que fosse mais fácil, pois, estes eram hábeis. Só não imaginavam que pudessem confundir a comunicação.

10 Rousseau mostra que a idéia é abstrata5 e para se concluir na linguagem 6 temos que ter uma experiência com o real, ou seja, com o natural. É preciso que o nosso sentido tenha contato com a coisa para termos idéia do que é, e assim verbalizá-la. “Toda idéia geral é puramente intelectual (...) tentai traça-vos a imagem de uma árvore em geral e jamais conseguireis; mesmo que não o queirais, será preciso vê-la pequena ou grande (...) se dependesse de vós nela não ver senão o que encontra em todas as árvores, essa imagem já não se pareceria com uma árvore”. (ROUSSEAU,1983: 249).

Assim sem conhecermos o que é a nomenclatura, o dicionário ficou muito grande, pois, uma só coisa tinha vários sentidos, logo cada selvagem denominava uma coisa de acordo com a sua experiência, seu modo de vida e a maneira de manipula-la.

1.3 O MORAL DO FISICO DO AMOR

Para Rousseau o selvagem estar sujeito a poucas paixões, logo não sabe o que é bom ou o que é ruim, age pelo instinto. Rousseau traça uma linha da vertente do moral do físico e do amor. Explica que o físico, sua estrutura corpórea atrai a atenção do sexo oposto. A moral7 é o que ordena que essa atração fixe a um objeto (homem ou mulher) ou aumente a estima em relação a eles. Assim como diz Rousseau que o moral no amor, é um sentimento artificial, ou seja, não é fundamentado em nada, a qualquer instante acaba a atração.

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Para a idéia deixar de ser abstrata temos que assimilar o real colocar em nossa mente concretiza-lo no pensar e fazer o juízo da coisa 6 A linguagem deixa de ser mera comunicação verbal para ser concretização do juízo das idéias.

11 “Comecemos por distinguir, no sentimento do amor, o moral do físico. O físico é esse desejo geral que leva um sexo unir ao outro. O moral é que determina esse desejo e o fixa exclusivamente num só objeto ou que, pelo menos faz com que tenha por esse objeto preferido um grau bem maior energia” (ROUSSEAU,1983: 255). Afirma ainda que “esse sentimento (...) um selvagem é incapaz de ter, e em comparações que não está em condição de fazer, deve ser quase nulo para ele” (ROUSSEAU,1983: 255), pois o selvagem não se preocupa com o outro, pensa só em si, por causa de seus instintos. Onde “os machos e as fêmeas uniam-se fortuitamente segundo o caso, a ocasião e o desejo” (ROUSSEAU,1983:247) desejo esse de ter relação, mas nada de sentimental, pois, quando acaba a noite, sai como se nada tivesse acontecido e quando se encontram era como não se conhecessem. “Ele ouve unicamente o temperamento que recebeu da natureza e não o gosto que não pôde adquirir qualquer mulher lhe convém”. (ROUSSEAU,1983: 255). O selvagem não sente o prazer do amor em si, pois é frio e cauteloso, para ele deliberar todas as energias é uma necessidade do instinto. Assim “uma vez satisfeita a necessidade, extingue-se todo o desejo” (ROUSSEAU,1983: 256). Tudo isso é porque o selvagem não conhece e não sabe o sentido do valor do ato sexual, como também da relação conjugal. A principio eles agem pelo puro instinto. Não é incômodo para o selvagem ter relação sexual com uma fêmea aqui, logo depois ter uma outra relação com uma outra mais adiante. Para o selvagem é ate normal o ato do encesto, todavia, quando na idade adulta não reconhece sua mãe ou suas filhas, passam por meras fêmeas. “O amor” dos selvagens é puro físico, eles não compreendem a moral no amor.

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A moral determina que a união dos sexos seja pelo menos em sexo oposto, e que se pratique a monogamia.

12 CAPITULO II AS PRIMEIRAS SOCIEDADES

2.1 A PROPRIEDADE

A propriedade, ou seja, o seu uso é o passo inicial para uma vida civil aonde os indivíduos vão se perceberem uns ao outros. Vão ter uma vida comunitária. O processo em que a idéia de propriedade não veio de forma imediata. A própria natureza se encarregou de mostrar que o homem primitivo necessita do outro ou de outros meios para tirar sua subsistência. “À medida que aumentou o gênero humano, os trabalhos se multiplicaram com os homens. A diferença das terras, dos climas, das estações pôde forçá-los a inclui-la na sua própria maneira de viver” (ROUSSEAU, 1983:260). Assim aos poucos o homem foi deixando seu jeito animal e aprendendo como viver em comunidade. O processo de inclusão de uma vida comunitária foi lento mas o homem foi aprendendo, mesmo assim não deixou de tirar proveito sobre o outro, em momentos oportunos o mais forte se aproveitava do mais fraco. A vida comunitária deu seu passo inicial quando ‘’unia-se a eles em bandos ou, quando muito, em qualquer tipo de associação livre, que não obrigava ninguém, e só durava quando a necessidade passageira que a reunira. (...) cada um procurava obter vantagens do melhor modo, seja abertamente, se acreditava poder agir assim, seja por habilidade e sutileza, caso se sentisse mais fraco.” (ROUSSEAU,1983:261).

Assim a reunião se dá pelo interesse e faz com que a concorrência desconfie um do outro. A propriedade trouxe sentimento consigo, o homem percebe que a natureza lhe oferece meios para viver uma vida fora de risco, mas também trouxe a violência. Quando um homem queria tomar posse da propriedade do seu vizinho, então lhe dava em combate violento; trouxe também o amor

13 conjugal, o homem percebe que ao morar na cabana junto com a sua família é um bem-estar, logo, ”nenhum deles certamente procurou apropriar-se da de seu vizinho, menos por não lhe pertencer do que por ser-lhe inútil e não poder apossar-se dela sem expor-se a um combate violento com a família ocupante (...) o hábito de viver junto fez com que nascessem os mais doces sentimentos que são conhecidos do homem, como o amor conjugal e o amor paterno”

(ROUSSEAU,1983:262).

É na propriedade que começa a desigualdade. A necessidade de agrupar-se em região diferente, ou seja, criando assim comunidade e então a linguagem se articula por região. Nestas comunidades o primeiro passo da desigualdade é o homem que melhor sabe fazer as coisas, que agrada comunidade, logo, é o mais considerado. “Aquele que cantava ou dançava melhor, o mais belo, o mais forte, o mais astuto ou o mais eloqüente, passou a ser o mais considerado, e foi esse o primeiro passo tanto para desigualdade quanto para o vicio; dessa primeira preferência nasceram, de um lado, a vaidade e o desprezo, e, de outro, a vergonha e a inveja” (ROUSSEAU,1983:263). a

O desejo de ser também considerado reina na idéia dos homens e começa da vaidade e do orgulho, acabando com a felicidade e a inocência.

14 A posse da propriedade se dá também pelo trabalho, pois, os que não tem nada trabalha para os que têm terra, ou seja, na agricultura quem não tem terra arrenda-a, para o cultivo8. “Somente o trabalho, dando ao cultivador um direito sobre o produto da terra que ele trabalhou, dá-lhe conseqüentemente direito sobre a gleba pelo menos até a colheita, assim sendo cada ano; por determinar tal fato uma posse contínua, transforma-se facilmente em propriedade” (ROUSSEAU,1983:266).
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Aparece agora uma dicotomia

na comunidade onde os que têm

posses precisa de trabalhadores e os que não tem precisa de trabalho. “O homem, de livre e independente que antes era, devido a uma multidão de novas necessidades passou a estar sujeito, por assim dizer, a toda a natureza e, sobretudo, a seus semelhantes dos quais num certo sentido se torna escravo, mesmo quando se torna senhor: rico, tem necessidade de seus serviços; pobre, precisa de seu socorro, e a mediocridade não o coloca em situação de viver sem eles” (ROUSSEAU,1983:267).

Tanto o rico como o pobre depende um do outro para sobreviver na sociedade, na individualidade não dá para sobreviver.

2.2

FAMILIA

Rousseau começou a demonstrar o inicio da passagem do estado de natureza para o estado civil, como sendo o inicio de uma sociabilidade, sem
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Esta tomada de posse da terra pode ser levada em conta depois do pacto, a questão do uso capião, o lavrador trabalha a terra por muitos anos e o proprietário nem se preocupa em rever o contrato, logo o lavrador, por esperteza, ganha a terra por produtividade. 9 Não e uma dicotomia total, mas parcial pois criamos a classe dos ricos e a classe dos pobres.

15 perder a “liberdade e a igualdade (...) pretende encontrá-las no estado de sociedade, mas transformadas, tendo sofrido uma espécie de modificação química, desnaturadas”. (CHEVALLIER, 1957:142) O homem natural vivia bem esses estados de liberdade e igualdade, só que com a passagem do estado natural para o estado civil, estes estados sofreram, pois tiveram que ser regido por uma moralidade comum a todos, deixou de ser natural para ser convencional.10 Segundo Rousseau “o homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros” (ROUSSEAU, 1983:22) a liberdade humana é conquistada desde o primeiro dia de vida. O homem por ser um Ser inacabado 11, dependente; assim o seu processo de formação depende de uma convenção que o forme e o prepare para viver independente das coisas e que sejam iguais a todos com quem convivem “é a da família; ainda assim só se prendem os filhos ao pai enquanto dele necessitam para a própria conservação” (ROUSSEAU, 1983:23) sendo a mais antiga das convenções, o filho depende da família para sua formação, educação e preparação para viver livre. Devendo apenas obediência aos pais, os filhos saem de casa para ser independentes de sua família, tornando-se igual a ela, “essa liberdade comum é uma conseqüência da natureza do homem” (ROUSSEAU, 1983:23) quando os filhos tomam consciência de que são capazes de viverem sem depender diretamente do outro, se tornam homens livres. O sinal de sua capacidade de viver livre e construir uma família, é o uso da razão. Sendo racional ele saberá cuidar de seus filhos, educando-os dentro de uma moralidade na qual foi formado.

2.3 DO DIREITO DO MAIS FORTE

Rousseau levanta uma problemática do direito que ainda não chega a uma determinada conclusão. Diz que “o mais forte nunca é suficientemente forte
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São convenções; a nossa escolha entre todas as convenções possíveis é guiada por fatos experimentais, mas ela permanece livre apenas é limitada pela necessidade de evitar toda contradição (LALANDE, 209) 11 É inacabado não na sua forma corpórea, mas nas suas necessidades, sociabilidade e eticidade dentro de uma convenção

16 para ser sempre o senhor, senão transformando sua força em direito e a obediência em dever. Daí o direito do mais forte” (ROUSSEAU, 1983: 25), mas um direito que é conquistado pela força, não é um direito legitimo, é um direito forçado, imposto dentro de uma sociedade que vive tendo sua liberdade alienada12. É questionado por Rousseau esse direito, quando ele diz: “a força é um poder físico; não imagino que moralidade possa resultar de seus efeitos” (ROUSSEUA, 1983: 25). O homem que cede à força mesmo que por necessidade, aliena-se, mesmo também quando tenta tirar proveito desse direito, sendo forçado a viver com uma moralidade injusta. Assim não há expectativa de como será essa sociedade que tem sua liberdade alienada, pois, quando acabar a força como ficará essa sociedade? Terá ela uma moralidade justa, ou não saberá como conduzir os membros dessa sociedade, pois sempre dependeram de um dominador. Como diz Chevalier “não existe o direito do mais forte” (CHEVALIER, 1957:142), pois, a força não é perpetua um dia ela acaba; da mesma forma questiona Rousseau “ora, que direito será esse, que perece quando cessa a força?” (ROUSSEAU, 1983:26). O homem deve viver livre pela sua própria consciência, não submetendo a normas de uma vontade particular, pois não há direito só para o singular. “Ninguém deve obedecer a outro, mas sim todos à Lei” (REALE, 1990:771). A lei é universal, é permanente e torna homens livres. A lei nunca cessa.

2.4

DA ESCRAVIDÃO

Já confirmado que a força não faz o direito e que o homem não deve obedecer a ninguém senão a Lei universal, então Rousseau começa por analisar a palavra alienar que quer dizer segundo Rousseau “é dar ou vender”. (ROUSSEAU;1983: 26) Vender sua liberdade à outra pessoa em particular, é dar-se em serviços de servidão a uma pessoa que explora sua liberdade, é uma

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Etimologicamente, a palavra implica apenas uma definição metafísica e verbal: alienatus, aquele que não se pertence (LALANDE, 43)

17 coisa repudiada por Rousseau, que refuta, que não é aceitável na sociedade um homem vender ou dar sua liberdade para um particular. “Afirmar que um homem se dá gratuitamente constitui uma afirmação absurda e inconcebível; (...) aquele que o pratica não se encontra no seu completo domínio de seus sentidos. Afirmar a mesma coisa de todo um povo, é (sic) supor um povo de loucos; a loucura não cria direito”. (ROUSSEAU, 1983:27).

É deixar de viver sua própria liberdade, de ser sociável, para ser submisso do homem. Rousseau não aceita de forma alguma que um homem seja submisso de outro homem. Pois um homem que chega a idade da razão não deve deixar ser dominado por um só homem, pois, a razão demonstra que ele é um ser livre para viver e pensar, logo quem raciocina contribui para a conquista de seus direitos. Para Rousseau o ato de renúncia é renunciar os direitos da humanidade como também sua dignidade. “Renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade, e até aos próprios deveres”. (ROUSSEAU;1983:27) O homem sadio de seus sentidos e de sua razão não teria coragem de se entregar a outro homem para ser escravo; perdendo assim o direito de ser membro de uma sociedade; logo só é aceitável um ser humano ser dependente de seu pai até quando não chega à idade da razão. Ser escravo não é o fim ultimo do homem e sim sua liberdade na sociedade e com outro. Rousseau quando fala de escravidão, em relação ao direito da vida, no qual todo homem tem direito, logo é um direito natural, inato, algo que já lhe pertence desde o dia que nasce. Dá exemplo de um estado de guerra, um efeito pela causa. As guerras não provêm do homem para com o homem, de um povo para com um povo, mas por causa da ambição de um estado para com outro estado; e quem sofre é o individuo, que não é povo, muito menos patriota, mas é considerado como um soldado que é mandado por outra pessoa que não sofrerá um pouco das dores desse soldado. Assim afirma Rousseau:

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“A guerra não representa, pois, de modo algum, uma relação de homem para homem, mas uma relação de Estado para Estado, na qual os particulares só acidentalmente se tornam inimigos, não o sendo nem como homens nem como cidadãos, mas como soldados, e não como membros da pátria, mas como seus defensores”. (ROUSSEAU, 1983: 28).

Assim esses soldados que perdem a guerra, por si tornarem escravos de um só, de um particular, perderam sua humanidade e serão tratados como nada, ou seja, como individuo que não tem pátria; não terão direito à vida, pois não são reconhecidos como membro de uma sociedade, mas como guerrilheiros, em defesa de um só. Assim para demonstra seu repudio a escravidão, considera Rousseau “assim, seja qual for o modo de encarar as coisas, nulo é o direito da escravidão não por ser ilegítimo, mas por ser absurdo e nada significar”. (ROUSSEAU, 1983:29) logo por mais difícil que seja a vida, e tendo consciência que todo homem tem direito a propriedade e que a dignidade do homem encontra-se também no trabalho, assim ninguém tem o dever de ser escravo de outro, devemos apenas obedecer de forma geral a lei, e esta por ser universal.

2.5.

O PACTO SOCIAL

Rousseau, percebendo o estado de vida que os homens estavam levando, existindo no seu convívio um desrespeito com a dignidade humana, começa-lhes a apresentar o pacto, de uma forma de suposição. Supõe que já superado tudo o que antes refutava, como o homem ser submisso a outro homem, isto é, alienar sua liberdade em fim de um particular. Rousseau apresenta o pacto e diz que o estado de natureza perece, e com ela perecerá o homem, caso não se associe ao estado social, através do pacto.

19 Não teria sentido o homem fazer o pacto e viver uma vida como que estivesse ainda no estado natural. “Então, esse estado primitivo já não pode subsistir, e o gênero humano, se não mudasse de modo de vida, pereceria”. (ROUSSEAU, 1983:31) Assim o estado natural por causa também da desigualdade social que nele predominava, o homem não sobreviveria por muito tempo, pois viviam num extremo estado de guerra. Para conservação da humanidade o homem é conduzido a fazer o contrato, e deixar para traz a liberdade instintiva, e em busca de uma liberdade convencional, ou seja, uma liberdade racional. O homem não cria uma nova força de subsistência com o pacto, mas sim, unem as forças para conservar sua existência na sociedade. A força e a liberdade de cada homem dentro da sociedade é um grande meio de fazer subsistir o homem como membro da sociedade. “Quanto mais as forças naturais são mortas e anuladas, tanto mais as forças adquiridas tornam-se grandes e duradouras e tanto mais a própria instituição torna-se sólida e perfeita”. (REALE, 1990:770) Rousseau mostra o objetivo do pacto, que não é criar uma nova geração, mas conduzi-la para uma vida social e conservação do ser e de seus bens. “Encontra uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece contudo a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes.” (ROUSSEAU, 1983:32) assim o homem aliena a sua liberdade natural, transformando-a em liberdade convencional. O homem continua sendo dono de si mesmo, só que agora ele é conduzido pela moral da convenção a qual pertence, tendo sua liberdade e seu direito comum a todos os associados. “Tal contrato não projeta o retorno à natureza originária, mas exige a construção de um modelo social, não baseado nos instintos e nos impulsos passionais, como modelo primitivo, nem porém na pura razão, isolada e contraposta aos sentimentos ou a voz do mundo pré-racional, mas na voz da consciência global do homem, aberto para a comunidade.” (REALE, 1990:769)

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Continuando na suposição, Rousseau diz que o homem, o próprio associado, para manter o bem estar e a vida social a partir do pacto com a sociedade, ele deve renunciar aquilo que é contingente e eventual para a convivência na comunidade, com isso ele é bem visto e torna-se moralmente sociável. “Se separa-se, pois, do pacto social aquilo que não pertence à sua essência, ver-se-á que ele se reduz aos seguintes termos: ‘cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo seu poder sob a direção suprema da vontade geral, e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo” (ROUSSEAU, 1983:33) Para ter a comodidade comunitária o homem tem que alienar sua vontade subjetiva, para torna-se um eu com o outro; é viver sob a direção não da vontade individual, mas da vontade geral13, do senso comum da sociedade; só assim pode-se haver uma harmonia entre os associados, onde todos têm os mesmos direitos e deveres dentro do todo. Chevalier ao comentar o contrato diz: “O individuo que pelo contrato se torna homem social, recupera o equivalente da igualdade natural. Com efeito, a cláusula

fundamental do contrato social é, como se sabe, a mesma para todos. Todos os cidadãos se comprometem ‘sob as mesmas condições e devem gozar todos dos mesmos direitos”

(CHEVELLIER, 1957:145).

Logo o contrato a segura a igualdade entre todos os homens, não tendo distinção entre os associados, onde todos são livres e permanecem livres e obedecendo apenas a lei que é universal.

13

é uma vontade que tenha em vista o bem comum da sociedade e não de um só homem

21 2.6 . O ESTADO

Segundo Rousseau, o Estado é o segundo passo de viver de um homem que sai do estado de natureza para o estado civil, depois de deixar sua família, ele pertence a um estado, ou seja, torna-se membro de uma sociedade. Rousseau não pretende fazer uma oposição entre o estado e a família, quando diz que a família é “o primeiro modelo das sociedades políticas: o chefe é a imagem do pai; o povo, a dos filhos, e todos, tendo nascidos iguais e livres, só alienam sua liberdade em proveito próprio”. (ROUSSEAU, 1983:23-24) começa na família uma educação social e política onde a partir de então se tornam membros da sociedade. O estado é, portanto para Rousseau um lugar de pura felicidade, de vivência em comum onde todos têm o mesmo padrão de vida. Não teriam um governo, mas um chefe que regeria uma moralidade comum para todos. Só que no instante que o egoísmo predominar na vida de um homem sendo ele o chefe, este aliena sua liberdade, sobrepondo um sistema no estado, onde cai a imagem do chefe e aparece uma imagem de um dominador. Grotius diz que o homem nasce predestinado, quando afirma que “os homens em absoluto não são naturalmente iguais, mas nascem uns destinados à escravidão e outros à dominação”.(ROUSSEAU, 1983:24) cai também a imagem do povo e a imagem que emerge é uma imagem de escravos que não tem liberdade. A natureza cria certos seres: um para comandar, por ser dotado de razão, e outro para servir, por ser dotado de uma estrutura corpórea que facilita a servidão. Assim a imagem é a de Senhor e escravo e não mais a de chefe e povo. Para Rousseau o estado civil transforma “um animal estúpido e limitado, um ser inteligente e um homem” (ROUSSEAU, 1983:36), portanto o estado civil educa o individuo transformando-o em homem que pensa e deixa de ser um individuo que age pelos impulsos, agindo agora pela razão, tendo em vista o Bem comum do Estado.

22 CAPITULO III ESTADO CIVIL

3.1. O SOBERANO

Segundo Rousseau, o povo é livre, e agora permanece livre na sociedade civil; só que uma liberdade conduzida pela moral social. “Que não há nem pode haver qualquer espécie de lei fundamental obrigatória para o corpo do povo, nem sequer o contrato social”
14

(ROUSSEAU, 1983:34) a liberdade é

direito de todos, e o todo não deve obedecer a uma parte, mas o particular é que deve obedecer ao universal; portanto o soberano não existe por si mesmo, mas pela força do pacto; como diz Rousseau: “ o corpo político ou o soberano, não existindo senão pela integridade do contrato” (ROUSSEAU, 1983:34) então o soberano15 não deve segui sua vontade, mas uma vontade que seja universal. Mas como nada é perfeito, e por traz de um soberano há interesse particulares, pois este é formado, colocado em cargo, pelos particulares. Assim diz Rousseau “o soberano, sendo formado tão-só pelos particulares que o compõem, não visa nem pode visar a interesse contrário ao deles” (ROUSSEAU, 1983:35) Rousseau antecipa a corrupção dentro da soberania16, onde os súditos não podem derrubar um soberano que já é absoluto que visa interesses particulares, torna-se legal, pois elabora leis que garanta segurança, propriedade e comodidade para os associados, assim não percebam que o soberano trabalha em torno de si e de particulares. Se um homem perceber a corrupção e começa a desobedecer à lei este será humilhado perante a assembléia “aquele que recusar obedecer à vontade geral a tanto será constrangido por todo um corpo, o que não significa senão que o forçarão a ser livre” (ROUSSEAU, 1983:36) logo a liberdade natural para aquele que concordou com o contrato, torna-se nula e inoperante, assim, recusar a vontade geral é sair de uma
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Rousseau não se põe em contradição ao afirmar que não haja uma lei obrigatória a ser seguida, nem mesmo o contrato, e quando diz que o homem deve apenas obedecer à lei universal. O homem não é obrigado a nada, é livre para viver; mas no instante em que adere ao contrato, deve-o seguir as normas da convenção, se quiser romper com a convenção entra sempre noutra. 15 Algo que acima do qual não há nada de mais elevado (LALANDE, 1037). 16 Característica daquilo que é soberano (LALANDE, 1037)

23 convenção e entra noutra, permanecendo livre e seguro pela norma da sociedade.

3.1.1

SOBERANIA INALIENAVEL

Para Rousseau na soberania o que deve predominar é a vontade geral, que torna os homens igualmente livres por convenção; e o interesse não deve ser particular do soberano, mas o Bem comum da comunidade, que seja igualitária e justa. “Ora, somente com base nesse interesse comum é que a sociedade deve ser governada” (ROUSSEAU, 1983:41) o soberano não pode se alienar, isto é, não pode agir em proveito próprio e esquecer a vontade geral, pois, se este tomar o papel de dominador acaba a sociedade e acaba também a qualidade de povo. O soberano é o seu próprio representante; não pode ser representado por mais ninguém, para que não haja corrupção na soberania. O soberano é quem faz cumprir a vontade cuja expressão é a Lei, que busca a igualdade entre os associados. “E, pela mesma razão de que não pode ser alienada, a soberania não pode ser representada” (CHEVALLIER, 1957:147), mas só o poder de governar é que pode ser transferida, menos a vontade geral que é universal e permanente; pode passar vários soberanos na sociedade, mas não muda a vontade geral.

3.1.2

A SOBERANIA É INDIVISIVEL

O erro de todo soberano, afirma Rousseau, é dividir a soberania, tratando-a como uma coisa particular, finita, deixando predominar a vontade singular do soberano e de seus particulares que o circundam; considerando-a como um objeto que leva o soberano a alturas de seu governo; vivendo-a também como meio de subsistência, e não como um fim da felicidade do homem. “A soberania é indivisível pela mesma razão porque é inalienável, pois a vontade ou é geral, ou não o é; ou é a do corpo do povo, ou somente de uma

24 parte” (ROUSSEAU, 1983:44) Em verdade a soberania deve ser tratada como um todo, dentro da sociedade, fazendo predominar a vontade comum; no instante que a vontade torna-se particular, isto é, dividida em poderes de representação do soberano, começa então por disseminar a soberania; como diz Chevallier: “dividir a soberania em seu principio é mata-la” (CHEVALLIER, 1957:147) A soberania é indivisível, totalitária, é o povo que faz acontecer a vontade geral, sendo cada um sujeito e não meio, junto ao soberano. Sendo a vontade geral predominante na soberania, ela sendo também indivisível, assim ela não pode errar, não pode visar seus próprios interesses; ou interesses particulares, para que no fim não se torne a penas soma de interesses diferentes, ou soma de interesses particulares e que não engane o seu povo, seja este sujeito da sua historia e livre na conversão a partir do contrato e livre dentro da vontade geral. “conclui-se do precedente que a vontade geral é sempre certa e tende sempre à utilidade pública; donde não se segue, contudo, que as deliberações do povo tenham sempre a mesma exatidão” (ROUSSEAU, 1983:46) a vontade tem que estar sempre à disposição do povo, onde este opine por si mesmo, ou seja tenha autonomia, seja determinado e protagonista da sociedade; “que a vontade seja verdadeiramente e autenticamente geral, sem infiltração alguma de vontades particulares” (CHEVALLIER, 1957:148) sendo a vontade pública voltada para o povo, o soberano sendo autêntico consigo mesmo e com o povo, não se deixe corromper por interesses que venha de fora, fazendo assim uma soberania de poderes dividido entre legislativo e executivo, que não leva o crescimento da comunidade, mas trazendo a morte da soberania.

3.1.3 DOS LIMITES DO PODER SOBERANO.

Para Rousseau, a vontade geral é quem legitima a sociedade, o soberano mesmo sendo absoluto fica restrito e determinado pelas convenções, no qual visa um bem comum a todos, como também liberdade e igualdade.

25 “Assim como a natureza dá a cada homem poder absoluto sobre todos os seus membros, o pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus, e é esse mesmo poder que dirigido pela vontade geral ganha, como já disse o nome de soberania” (ROUSSEAU, 1983:48).

Rousseau tenta compara o poder do soberano com um poder natural do homem, onde por necessidade comanda todos os membros corpóreos para um fim particular e prazeroso, sendo que a soberania, o soberano comanda o corpo da comunidade para um fim social e comunitário na sociedade. Cada homem é soberano de si mesmo, mas regido por uma convenção, para que não haja um individualismo total na sociedade, e sim uma autonomia da subjetividade; que tenha como horizonte o bem comum a todos os contratantes. Segundo Rousseau o homem não tem a obrigação de servir o corpo social, mas este deve ter a consciência de que é membro de uma sociedade. Rousseau fica dividido entre o interesse particular e o interesse comum quando afirma que “não se pode trabalhar por outrem sem também trabalhar para si mesmo” (ROUSSEAU, 1983:49). Em outras palavras o homem só é digno de fazer algo pro outro, se ele for capaz de fazer por si mesmo. Sendo a liberdade perfeita e direito de cada um, por que não começar por si mesmo? Então seria contraditório de Rousseau apresentar uma sociedade de homens que buscam igualdade e liberdade para todos, e entre eles há homens que só ficam na teoria para ser conceituado por particulares, enquanto eles não praticam a liberdade consigo mesmo. Em suma, cada homem tem os direitos e deveres iguais assim “a vontade particular não pode representar a vontade geral” (ROUSSEAU, 1983:50). O soberano não pode fazer distinção entre os cidadãos ou onerar outros, caso contrário não seria mais soberano e sim magistrado que tem poder sobre os homens, e isso Rousseau repugna. Segundo Rousseau o soberano deve ver a totalidade, a sociedade em si. “O soberano conhece unicamente o corpo da nação e não distingue nenhum dos que a compõem” (ROUSSEAU,

26 1983:50) assim o pacto se realiza onde todos são iguais perante todos, ninguém é maior ou menor. Devemos tratar a todos da mesma forma que gostaríamos que nos tratassem e o mesmo direito que tenho o outro também tem, “quem deseja conservar sua vida à custa dos outros, também deve dá-la por eles quando necessário” (ROUSSEAU, 1983:51-52) assim o homem deve facilitar o crescimento do próprio homem, e de seu companheiro na sociedade. Segundo Rousseau aquele que infligir o pacto não é considerado homem da sociedade, isto é, perde todos os direitos legítimos assegurados pelo contrato. Como todos são soberano de si mesmo, regido pelo pacto, ninguém deve tirar a vida do outro, pois, ninguém tem poder de vida do outro, mas cada homem é livre para viver e não para matar. “Pelos seus crimes torna-se rebelde e traidor da pátria, deixa de ser um seu membro ao violar suas leis (...) deve ser isolado pelo exílio, como infrator do pacto, ou pela morte, como inimigo público” (ROUSSEAU, 1983:52). Rousseau se aproxima da teoria que só se deve matar em legitima defesa, não sendo senhor da vida do outro, mas senhor da própria vida. “Só se tem o direito de matar, mesmo para exemplo, aquele que não se pode conservar sem perigo” (ROUSSEAU, 1983:52) matar o outro em perigo da própria vida, isto é, conservar a própria vida no perigo, não é considerado como crime. Mas se fosse em vão como: suicídio, assassinato etc. este criminoso seria exilado. Logo o homem não tem direito da vida do outro quanto mais o de morte. “O poder do soberano por mais absoluto, sagrado e inviolável que seja, não passa nem pode passar dos limites das convenções gerais” (ROUSSEAU, 1983:50) Assim o homem não é senhor do outro. A liberdade à vida é direito de todos; e todos seguindo livremente vontade geral.

27 3.2 LEI

Como já sabemos que para Rousseau o que deve predominar é a vontade geral e não uma vontade individual no Estado. Rousseau faz uma diferença nos atos do homem do estado de natureza para o homem do estado civil. Onde o comportamento humano no estado de natureza é conduzido pela necessidade, enquanto no estado civil é pela Lei, esta sendo universal. O homem é convidado, pela Lei, a agir

moralmente, ou seja, socializar-se mediante a vontade geral e o bem comum da comunidade. “no estado de natureza, no qual tudo é comum nada devo àquele a quem nada prometi; só reconheço como de outrem aquilo que me é inútil. Isso não acontece no estado divil (sic), no qual todos os direitos são fixados pela Lei.” (ROUSSEAU,1983:54) Assim a lei dá ao homem a legalidade, a justiça17 ao uso da posse da propriedade. Segundo Rousseau, a Lei é a manifestação da vontade geral, onde tudo que é decretado ao uso do Estado é de acordo com a Lei; e esta não pode manifestar de hipótese alguma, por menor que seja, uma vontade particular. Assim Rousseau define a Lei sendo “a matéria sobre o qual se estatui é geral como a vontade que a estatui. A esse ato dou o nome de Lei” (ROUSSEAU, 1983:54) portanto a Lei é um ato livre da vontade geral. Esta lei sendo vontade geral não pode ter ato que conceda decretamente privilégios a ninguém, logo, esta acolhe a todos de maneira igualitária sem distinção, mas cria uma certa categoria18 de organização interna

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Para o homem natural a única lei justa é a Lei de Deus, logo, esta é justa para com todos não ver discriminação entre os homens, tratando-os com igualdade, com direitos e deveres. 18 Sem entrar em contradição do acolhimento do povo pela vontade geral. Essas categorias seriam uma melhor forma de organizar o povo em sociedade.

28 da sociedade. Como afirma um grupo de autores em concordância com Rousseau que “a Lei pode definir privilégios, no sentido rigoroso do termo, isto é, pode bem distinguir categorias, mas nunca pode ter preferências, que só o poder executivo pode ter, para nomear por decreto, as suas funções” (V.V.A.A.;2003:157).

Assim o povo que adere ao contrato fica submetido a viver de acordo com a Lei, sendo que de livre e espontânea vontade, sem perder sua dignidade. Todavia, a este lhe cabe a função de decretar a vontade geral no Estado. Assim Rousseau dá ao homem que se associa à convenção, o direito de ser protagonista de sua historia, sem infligir a moral e a regra do Estado. “o povo submetido às Leis, deve ser o seu autor. Só àqueles que se associam cabe regulamentar as condições da sociedade” (ROUSSEAU, 1983:55) enquanto ao homem que não se associa fica de fora de tudo que acontece no Estado.

3.2.1 LEGISLADOR

Um bom legislador segundo Rousseau, seria os deuses, que não se corrompem e dá Leis aos homens, logo é conhecedor de todos os desejos da comunidade, mas não se deixa persuadir por eles. O legislador deve ser alguém capacitado para mudar o homem que vem do estado de natureza pra conviver no estado civil. Este legislador segundo Rousseau “é um homem extraordinário no Estado.” (ROUSSEAU,1983:57) que tenha um bom discernimento na hora de legislar algo para a sociedade, que não seja um magistrado e nem soberano, mas um sábio, um homem virtuoso, para que como diz Rousseau no papel a ser desenvolvido pelo legislador que é “substituir a existência física e independente, que todos nós recebemos da natureza por uma existência parcial e moral.” (ROUSSEAU,1983: 57) logo o legislador é consciente desta transformação para uma vida coletiva, onde os associados iriam depender do outro. E tudo que ele

29 fizer, tem que ser feito em vista da moral e da vontade geral. Sua recepção à Lei do estado deve ser da mesma forma como ele outrora acolheu a Lei Divina. Como mostra Rousseau “obedecessem com liberdade e se curvassem ao julgo da felicidade pública” (ROUSSEAU,1983:59) reconhecendo que ambas as Leis levam para o mesmo fim dentro da sociedade. Em uma sociedade o legislador deve se adequar ao um sistema legislativo, que convém com a realidade da sociedade na qual convive, tendo em vista o crescimento da comunidade; e os vários sistemas têm o mesmo objetivo: “a liberdade, porque qualquer dependência particular corresponde a outro tanto de força tomada ao corpo do Estado, e a igualdade, porque a liberdade não pode subsistir sem ela.” (ROUSSEAU;1983:66) Dependendo de cada país, o legislador não pode perder de vista esses objetivos de liberdade e igualdade para todos, não ocorrendo uma dualidade financeira entre pobre e rico, mas uma moderação de finanças, para que haja uma felicidade dentro do país. Essa felicidade só se caracteriza, se o homem for obediente à Lei do pacto social.

3.2.2 DIVISÃO DAS LEIS

Dentro da sociedade civil não há uma relação padrão dos associados, de modo particular, de uma classe, ou seja, relativizar a relação do soberano com o povo. Mas há segundo Rousseau uma relação do todo. Rousseau enumera quatro tipos de relação que não pode deixar de existir dentro da sociedade. Começando com “a ação do corpo inteiro sobre si mesmo” (ROUSSEAU;1983:68) para Rousseau o povo tem a liberdade e autonomia de escolher a Lei, não de forma particular, mas de forma geral, sendo que, as Leis políticas podem ter boa ou má fé. Uma vez o povo percebendo a qualidade e o caráter da Lei e sendo do seu agrado acolhe-a ou não e ninguém o impede como afirma Rousseau: “o povo é sempre senhor de mudar suas Leis, mesmo as melhores, pois, se for do seu agrado fazer o mal a si mesmo quem terá o direito de impedi-lo?” (ROUSSEAU;1983:69)

30 A segunda relação para Rousseau “é a dos membros entre si ou com o corpo inteiro” (ROUSSEAU;1983:69) há uma certa defesa, no contrato, de uma vida independente19, isto é, o homem é semelhante ao outro, são iguais; mas são independentes um do outro, mas por outro lado ele estar impregnado ao Estado. Totalmente submisso ao que o Estado lhe coloca. Como diz Rousseau “só a força do Estado faz a liberdade de seus membros. É desta segunda relação que nascem as leis civis.” (ROUSSEAU;1983:69) O terceiro tipo de relação para Rousseau é “entre o homem e a Lei” (ROUSSEAU;1983:69) O homem deve obedecer à risca o que a lei a lhe “impõem”, sabendo ele que qualquer infração, sofrerá as conseqüências; em outras palavras, segundo Rousseau ”dá desobediência a pena”

(ROUSSEAU;1983:69) O ato do homem deve ser livre, mas, que não saia das normas da sociedade, o homem pode fazer tudo, é livre para tudo, mas, uma vez associado ao pacto, e conhecendo as conseqüências de seus atos dentro da norma, gozará de felicidade, fora da mesma, sofrerá pena. Por fim junta-se as três uma quarta relação que são os “usos e costumes, sobretudo, à opinião” (ROUSSEAU;1983:69) Rousseau afirma que esta é a mais importante, porque as leis perdem com o tempo o valor
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e o

homem, o que é natural de si mesmo não se perde. Percebendo o homem que uma determinada Lei estar perdendo o seu valor, a sua força, ele busca forças no seu interior, suas forças naturais, algo que ninguém ou nenhuma Lei as destrói. Em suma, Rousseau destaca apenas uma relação no seu assunto. Diz “entre essas varias classes, as Leis políticas, que constituem a forma do governo, são as únicas ligadas ao meu assunto.” (ROUSSEAU;1983:69), logo Rousseau estar preocupado com a maneira e o modo de vida do associado, tendo em vista que uma má legislação fará também uma má forma de governo. Como conseqüência uma vida de muito sofrimento para os associados, assim uma má forma de governo uma má forma de vida, uma boa forma de governo uma boa forma de vida.

19 20

Não no sentido egoísta, mas num sentido de liberdade de ação de acordo com a Lei. valor compreendido no sentido de validade na história.

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3.3 GOVERNO

Rousseau começa a falar do governo de uma forma que determina o governo em ação, ou seja, governo é aquilo e da maneira que governa. Diz ele: “toda ação livre tem duas causas que concorrem em sua produção: uma moral, que é a (sic) vontade que determina o ato e a outra física, que o poder que a executa (...) distinguem-se nele a força e a vontade, esta sob o nome de poder legislativo e aquela de poder executivo” 21 (ROUSSEAU;1983:73) Ele mostra um governo onde o povo legisla a lei, é uma autonomia de poder legislar uma lei que vise a vontade geral; e o corpo do governo executa e só este pode executar. Assim o governo tem que ter em vista a vontade geral como diz Rousseau: ”necessita, pois, a força pública de um agente próprio que reúna e ponha em ação segundo as diretrizes da vontade geral que sirva à comunicação entre o estado e o soberano” (ROUSSEAU;1983:74) o governo fica sendo como “uma ponte” de ligação entre o estado e o soberano, sem também esquecer que ele liga, e não deixa perder a vontade geral, o bem comum da comunidade; caso contrário quebra o contrato. Rousseau determina o que é realmente governo na sua concepção: ”chamo pois de governo ou administração suprema o exercício legitimo do poder executivo, e de príncipe ou magistrado o homem ou o corpo encarregado dessa administração” (ROUSSEAU; 1983:75) como realmente diz Rousseau que o governo é o exercício legítimo, sem corrupção, sem interesse próprio, uma ação voltada para o povo, para a comunidade, enquanto as pessoas que compõem o corpo têm que ser de bem, e que vise o bem estar da sociedade e para isso são

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não há uma quebra de poder, mas um trabalho compartilhado do povo com o governo. Poderia ate ser contraditório, quando falamos da soberania indivisível mas não é. É apenas um melhor agrupamento para o desenvolvimento da sociedade.

32 chamado de príncipe22. Então para Rousseau o príncipe deve ter um olhar de totalidade, deve criar uma relação universal do povo que exerce o poder de legislar. Com a totalidade do povo que obedece à lei, tem que fazer acontecer à igualdade e a liberdade fraterna na comunidade, então esse é um dos papeis a ser exercido pelo governo, como afirma Rousseau: “o governo recebe do soberano as ordens que dá ao povo e para que o estado permaneça em bom equilíbrio” (ROUSSEAU;1983:75) a estabilidade da comunidade é feita pelo o governo, este é quem fala diretamente com o povo, conhecendo a liberdade e igualdade que deve permanecer na sociedade, visto que, o governo deverá conhecer o território e a quantidade da população, para que ele consiga manter essa estabilidade, voltada para a vontade geral. Mas a partir do instante que seu estado aumenta, vem se criando as dificuldades, tanto populacionais como territoriais, ou seja, sem ter o controle de natalidade e o controle de imigração, logo, tende em acabar com a igualdade e a liberdade dos contratantes. 23 Como diz Rousseau: “quanto mais o estado aumenta, mais diminui a liberdade” (ROUSSEAU;1983:76) O governo ganha mais um desafio na sua administração que é manter o equilíbrio da comunidade que estar em fase de crescimento. A comunidade se sente até mais segura, logo, o corpo do governo terá mais atenção a esta comunidade crescente. Mas segundo Rousseau o corpo governamental mudará um pouco a sua postura, pois, “o governo para ser bom deve ser relativamente o mais forte na medida em que o povo for mais numeroso” (ROUSSEAU;1983:76) o governo terá que encontrar meios, caminhos que leve pelo menos a diminuir a desigualdade, mesmo que para isso, o povo tenha que perder um pouco a sua liberdade; por causa deste crescimento populacional. Não deixando transparecer um nervosismo por parte do governo, que leve ao povo uma desconfiança no

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Não no sentido vulga da se ter mordomias, mas no sentido de ação, de pessoa que trabalha pelo povo, comprometida com a comunidade. 23 O uso da propriedade é o que dá direito à posse ao território, logo, pressupõem que um determinado território governado a partir do pacto social já esteja com os seus determinados donos garantido. Ficaria uma situação difícil para os imigrantes que querem fazer parte do pacto e do território, logo não teria mais

33 contrato, mas deixar mostrar um interesse de bem estar social para todo o território político, onde compreende o contrato. Rousseau distinguiu a confusão que dá por causa dos termos: soberano, povo, governo, estado... ele tenta deixar claro o papel do governo que não é nem deve ser confundido com o do povo, como já vimos, o corpo governamental sai do povo, ou seja, uma pessoa apta para administrar o estado, enquanto o povo legisla à lei e ao mesmo tempo serve ao estado e a vontade geral. O soberano é um exercício da vontade geral, que coletivamente trabalha com o povo e o corpo político. Para Rousseau: “governo como um novo corpo no estado, distinto do povo e do soberano, e intermediário entre um e outro” (ROUSSEAU;1983:78) Um governo intermediário, como, já foi apresentado, com força própria para agir em favor do povo. Não deve deixar o egoísmo do corpo político predominar no estado, mas sim uma ação universal de deliberações, de resoluções, que vise a comunidade em si mesma. Mas Rousseau alerta o corpo político que “esteja sempre pronto a sacrificar o governo ao povo, e não o povo ao governo” (ROUSSEAU;1983:79) o povo não pode ser motivo de engrandecimento ou enriquecimento do governo, logo o povo não estar a serviço do governo, mas da sociedade, enquanto o governo é quem estar a serviço do povo. O governo deve fazer de tudo até se sacrificar para que se realize no estado à liberdade e à igualdade. Com o crescimento territorial e populacional, Rousseau nos apresenta várias formas de governo. Governo este apto para pequenos, médio e grandes territórios mas ele deixa claro que “em todos os tempos, discutiu-se muito sobre a melhor forma de governo, sem considerar-se que cada uma dela é a melhor em certos casos e a pior em outros” (ROUSSEAU;1983:83) Rousseau não absolutiza qual é a melhor forma de governo, pois, cairia no erro dos outros

propriedades livres, uma vez que o numero da população cresça mais que o de território. Uma situação que se agrava cada vez mais com o crescimento territorial e populacional.

34 pensadores. Apresentará a forma de governo baseada no povo e na sua cultura, aonde o contrato venha a se concretizar.

3.3.1 GOVERNO DEMOGRATICO

O governo do povo é como esta forma é conhecida. Rousseau começa a pensar de como seria interessante uma administração onde houvesse a união do legislativo e do executivo. Mesmo que seja uma utopia. Rousseau mesmo afirma que ”jamais existiu, jamais existirar uma democracia verdadeira” (ROUSSEAU;1983:84) onde não haja por parte do corpo do governo, corrupção, interesses privados, bem estar social particular; esquecendo assim de qualquer forma a comunidade e a vontade geral. Rousseau supõe o governo democrático quando reuni em si quatro fases principais na comunidade: “um estado pequeno (...) uma grande simplicidade de costume (...) bastante igualdade entre as classes e as fortunas (...) por fim um pouco ou nada de luxo” (ROUSSEAU;1983:85). Com a forma democrática fica bem mais fácil, reunir o povo em assembléia com pauta a ser discutida, sendo um povo simples onde todos se conheçam e reconheçam os seus limites, por tanto não há, nem pode haver, dificuldades em elaborar leis para o povo, pois, são todos iguais e tem cada um a sua propriedade assegurada pelo contrato. Não se deixando corromper pelo egoísmo e ganância do dinheiro, pois o que importa é o bem comum da comunidade. Tudo só

acontece se todo o corpo político tiver a mesma visão política, que é refletida na vontade geral. Rousseau também mostra que nem tudo é perfeito, logo acrescenta que “não há forma de governo tão sujeita às guerras civis e as agitações intestinais quanto a (sic) forma democrática ou popular” (ROUSSEAU; 1983:85) quando o corpo tem a visão política diferenciada, tem em vista não a vontade geral, mas a vontade particular, ambições privadas. Sendo este o grande perigo desta forma governo Para Rousseau esta forma é para um povo privilegiado, perfeito, correto. Como diz Rousseau: “se existisse um povo de deuses governa-se-ia

35 democraticamente. Governo tão perfeito não convém aos homens“

(ROUSSEAU;1983:86) porque este é de fácil acesso a corrupção , se ilude com pouca coisa visando o bem privado e esquecendo o contrato igualdade e libertação para todos.

3.3.2 GOVERNO ARISTOCRATICO

Esta forma de governo é conhecida como governo dos nobres, ou seja, administrada por pessoas influentes na comunidade, por condições financeiras ou hereditárias. Rousseau apresenta esta forma de governo, mostrando-nos que “as primeiras sociedades se governaram aristocraticamente” (ROUSSEAU; 1983:86), assim, era nas famílias que aconteciam as experiências aristocráticas, onde os pais eram quem governavam e os mais moços obedeciam as experiências de vida dos mais velhos. Com o passar do tempo foi aparecendo a desigualdade, ou seja, esqueceram o bem comum da comunidade, e tiveram ambição pelo o poder e pela a riqueza. Não podemos esquecer que para Rousseau há duas grandes imagens no corpo político que é o soberano e o governo, que buscam o bem da comunidade e falam pelo o povo. Rousseau apresenta “três espécies de Aristocracia: natural, eletiva e hereditária. A primeira só convém ao povo mais simples; a terceira é o pior de todos os governos. A segunda, o melhor governo, é a aristocracia propriamente dita” (ROUSSEAU; 1983:86) assim depois em que começou a aparecer à desigualdade por causa de interesses financeiros e particulares. A aristocracia passou a ser eletiva, onde o povo iria eleger pessoas capacitadas para assumirem os cargos e poderes do corpo político, tendo confiança que eles não cairiam no mesmo erro dos administradores anteriores, e que iriam valorizar a vontade geral, portanto para Rousseau a aristocracia era composta por membros da comunidade, não perdendo assim o valor do contrato.

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3.3.3 GOVERNO MONARQUICO

Como já vimos às outras duas formas de governos; a do povo, onde o povo era que governava; e a dos nobres, que eram escolhidos pelo povo para governa-los. Esta forma difere totalmente das outras, mas não deixa de ser legitimo. Como diz Rousseau: “temos agora de considerar esse poder reunido nas mãos de uma pessoa natural, de um homem real, o único que tem o direito de dispor dele segundo as leis. É o que se chama um monarca ou um rei.” (ROUSSEAU;1983:88). Enquanto às outras duas formas anteriores de governos, visavam o bem comum da comunidade e trabalhavam em conjunto com o corpo político, colocando todas as suas forças para atingir a máxima do contrato: liberdade e igualdade, e como ponto de partida a vontade geral. Na monarquia é tudo diferente, como afirma Rousseau: “o seu interesse pessoal estará principalmente em ser o povo fraco, miserável e nunca possa oferecer-lhes resistência” (ROUSSEAU; 1983:89) colocando em pé de igualdade todo o povo, onde todos são súditos e o rei soberano. O povo fraco e miserável vai respeitar o rei por ele ser o poderoso e agradando-os com pouca coisa e fazendo-os temer a sua autoridade. Segundo Rousseau a “monarquia só convém aos grandes estados” (ROUSSEAU; 1983:90) logo, o povo não terá nenhum contato direto com o administrador do Estado. Assim o povo submisso não se torna perante o rei nenhum obstáculo administrativo, logo, não terá disposição contraria a do rei 24. E para o rei poderoso e temível é melhor o aumento da população e do território, pois os reis como absoluto pode usar a força da população em seu interesse próprio. Rousseau faz uma critica a esta forma de governo, pois na sua coerência, reconhece a dificuldade e os desafios de se administrar um estado. Diz ele: “é difícil, porém um grande estado ser bem governado e, mais ainda, que o seja por

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O povo fica fraco diante do poderio autoritário do rei, não lhe causando nenhum temor. O rei reconhece a força do povo, logo a usa em seu favor.

37 um único homem” (ROUSSEAU; 1983:90). Este tem todo o poder a usa-lo pela lei, e que pode ser corrompido pelos interesses particulares, que não favoreça o bem comum do estado. E o povo é quem sofre todo o impacto da má administração do rei. Quando o rei morre há uma grande confusão para substitui-lo. A demora na escolha do novo rei faz com que haja corrupção. Muitas famílias quando chega ao reinado, para não ter este problema, decreta uma monarquia hereditária, sendo mais cômoda, rápida e tranqüila. E o povo sofre mais, pois o seu herdeiro, pela ganância, tortura a comunidade até conquistar o seu objetivo. O povo, no entanto não pode fazer nada contra o rei.

3.3.4 GOVERNOS MISTOS

Para Rousseau o governo misto, é uma administração feita pelo o povo e ao mesmo tempo por um chefe, logo este também seria súdito perante o soberano, e estaria em pé de igualdade com o povo. Afirma Rousseau: “É preciso que um chefe único tenha magistrados subalternos; é necessário que um governo popular tenha um chefe” (ROUSSEAU; 1983:93) é exaltada aqui à importância da figura do soberano, enquanto os magistrados “perdem” para o soberano suas forças, independentes, na administração do estado. Esta forma de governo só se legitima quando ela é conveniente em si mesma, como todas as outras formas, e dependente de cada caso que lhe convenha. Assim a relação administracional do governo e povo, é o que prevalece nesta forma de governo, e não caracteres rotineiros monárquicos, democráticos e aristocráticos.

3.3.5 INDICIOS DE UM BOM GOVERNO

Rousseau mostra que é difícil perceber se um determinado povo é bem ou mal governado. Logo, observador percebe na sua ótica e não em linha gerais

38 da sociedade. Assim o que é bom para um observador, pode não ser para outro. E vice-versa. Rousseau apresenta que um povo bem governado cresce na igualdade, tanto na quantidade de povo como de território. Diz Rousseau: “em condições iguais, o governo sob o qual, sem meios estranhos, sem naturalizações, sem colônias, os cidadãos mais povoam e mais se multiplicam, é infalivelmente o melhor. Aquele sob o qual o povo diminui e perece é o pior” (ROUSSEAU;1983:99).

Então podemos dizer que a melhor administração é quando fica percebível a prosperidade da sociedade, por meios próprios, ou seja, o governo é natural da própria comunidade a qual administra e de maneira popular conquista o crescimento comunitário dentro da igualdade e liberdade.

3.3.6 ABUSOS DO GOVERNO

Fica nítido para Rousseau que a vontade particular quer sobressair à vontade geral. O príncipe quando perde de vista o bem estar social, que defendido pelo pacto, por um interesse próprio, deturpa as regras do contrato. Rousseau fala de duas vias, o futuro do governo e o da vontade geral, isto é, quando o pacto é quebrado. Assim para Rousseau ”há duas vias gerais pelas quais um governo degenera, a saber: quando ele se contrai, ou quando o estado se dissolve” (ROUSSEAU; 1983:99). Quando o príncipe não respeita a lei do pacto, a liberdade e a igualdade do povo, concentrando em si mesmo todo o poder da comunidade. Assim há uma diminuição continua do corpo político, deixando de ser democrático para ser aristocrático, e depois deixando de ser aristocrático para ser monárquico. O governo em que outrora era governado por um corpo de maioria, passa agora a ser governado por um único homem. Na via da dissolução do estado “o príncipe não mais administra o estado de acordo com as leis e usurpa o poder soberano“ (ROUSSEAU;1983:101) a

39 mudança fica percebível, pois, o corpo político é suprimido pelo o egoísmo do príncipe, passando a ser um tirano. Assim uma vez quebrado o pacto social os cidadãos volta ao seu estado de natureza25. Como diz Rousseau: é “repostos de direito em sua liberdade natural, estão forçados, mas não obrigados a obedecer” (ROUSSEAU; 1983:101) assim o tirano pode obrigar o povo a servi-lo, pela força, mas eles não devem obedecer. Uma vez o pacto sendo quebrado não têm eles nenhuma função ou obrigação com o estado, visto que se encerra todo o trabalho em conjunto do soberano com o povo. Assim acaba todo o trabalho de uma sociedade que cresce no bem comum e no trabalho participativo.

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Esta volta ao estado de natureza não compreende viver da mesma forma que vivia antes, logo é inconcebível voltar às maneiras primitivas, visto que, uma vez o homem tendo experimentado o processo de sociabilidade não queira voltar ao estado da ignorância, mas um retorno a não obediência ao estado.

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Conclusão
Neste trabalho do pensamento de Rousseau sobre o processo de sociabilidade, concluímos que Rousseau não pretende fazer uma volta ao estado natural, nem criar um novo povo, Rousseau pretende resgatar a liberdade e a igualdade que há no estado natural e traze-los para o estado civil fazendo com que os selvagens aprendam a usar a razão, da mesma forma que o homem da sociedade civil a usa, sendo esta regida pela moralidade da convenção. Vimos que o selvagem é feliz por completo no estado natural não necessitando de nada, pois a natureza lhe oferece tudo. O selvagem só é robusto pois a natureza exige dele muito esforço físico para a sua subsistência, enquanto o homem na sociedade já tem meios, instrumentos que facilita o seu trabalho, não sendo necessário utilizar o corpo para realiza-lo. A questão fundamental é o conhecimento, pois como que o selvagem poderia ter o mesmo nível que os viajantes tinham? Logo os selvagens como sabemos não viviam em comunidade, nem sabiam o que era isso, assim não sabiam também o valor da comunicação e do amor. Com o contato com os viajantes o selvagem pôde aprender a vida social e o valor de se viver em comunidade nas primeiras sociedades, a família e o estado, eram submisso um ao pai e o outro ao chefe; não tendo liberdade em ação como tinham antes no estado de natureza, pois, como diz Rousseau que o homem nasce livre, mas, permanecer preso a algemas, ou seja, são dependentes um dos outros. Rousseau conclui que não há direito algum de um homem sobre outro homem. O único direito é ser obediente à lei que é universal. Rousseau repugna a escravidão e diz que o homem tende a liberdade geral e não ser servo. Assim o pacto social tira o homem desse estado de escravidão e dá-lhe um estado de liberdade; só que o homem aliena sua liberdade natural para viver a proteção e a

41 comodidade que o estado oferece, só que vivem no seguimento das regras morais da convenção, que é a vontade geral. O soberano sendo senhor de si mesmo, que visa o bem comum da sociedade, não precisa de representantes para que não corra o risco da vontade particular predominar na sociedade, ou seja, para que a sociedade não se corrompa. Da mesma forma a soberania é inalienável e indivisível, logo o todo também predomina no estado. O soberano mesmo sendo absoluto tem o seu poder limitado, pois a ninguém é dado o direito da vida do outro. O soberano não pode passar da vontade geral, é esta quem governa o estado civil. O pacto social é quem vai orientar a comunidade. Mas para isso são necessárias algumas regras, que para Rousseau é tudo feito a partir da vontade geral, ou seja, ações e matérias devem ser manipuladas em vista desta vontade. Assim, tudo o que for feito pelo bem da comunidade deve ser acolhido como lei. O legislador para Rousseau deve ser uma pessoa sábia, que tenha convivido com a comunidade civil desde o inicio do pacto. Que tenha capacidade de mudar o agir do homem do estado de natureza para um agir moral, coerente e comprometido com a comunidade. Assim a lei é desenvolvida a partir da vontade geral, manifestando-se em divisão como uma relação do povo com o corpo governamental. Ou seja, a lei se divide de acordo com o povo que a acolhe, e seu governante. O governo para o nosso autor é um governo que trabalha em conjunto, ou seja, o executivo e o legislativo agindo de forma igualitária, sem deturpar ninguém. Todos são iguais, só a função é que difere, para um melhor desenvolvimento da comunidade. A melhor forma de governo, segundo o nosso autor, é a forma democrática, logo, o povo participa das decisões do governo. Esta é também conhecida como de governo do povo. Já as outras não são boas para o pacto. Estas são de fácil corrupção, em relação à vontade geral, deixando-se levar pelo o egoísmo e a loucura do poder. O melhor governo é aquele que é natural, ou seja, o administrador conviveu sempre com a comunidade. faz prosperar a população e o território,

42 sem perder de vista a vontade geral. O governo que abusa do povo, não respeitando a sua liberdade, vai quebrar o pacto social e os contratantes não respeitariam as normas deste governo, pois não é legitimo. Não terão mais a segurança e a proteção do pacto, pois o administrador só se interessa pelos seus próprios interesses, não querendo mais saber da vontade geral. Assim cai a imagem do administrador e emergem a imagem do tirano.

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Referência Bibliográfica:

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do contrato social. Tradução Lourdes Santos Machado. 3.ed. São Paulo, Abril cultura, 1983. Coleção os pensadores.

___________ Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens. Tradução Lourdes Santos Machado. 3.ed. São Paulo, Abril cultura, 1983. Coleção os pensadores.

V.V.AA. Os filósofos através dos textos de Platão a Sartre. Tradução Constança Terezinha M. César. 2.ed. São Paulo, Paulus,2003. págs. 141-160.

REALE, Giovani e ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo, 1990. p.760-772. 2v. CHEVALLIER, Jean – Jacques. As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias. Tradução Lydia Christina. Rio de Janeiro, agir, 1957.

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