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O desenho da voz

José Fernando Guimarães

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José Fernando Guimarães

O desenho da voz

1

1.

Acaso a poesia é matéria, a matéria

do olhar que resta dos dias, infiltrando-se

pela noite dentro? Lugar de sombras, enuncia

o que hesita entre a penumbra e a luz

que, crua, desvenda o pó, as manchas

das palavras sobre o vidro. E é percorrendo-o

que descobriremos, um dia, o peso

da transparência, que é cor

por onde as palavras hão-de passar

para o outro lado dos espelhos

e, tranquilas, reflectir-se na sua ausência.

2

2.

Quando enunciada, a palavra

é corpo. Convoca o tempo

que a pele demora a cicatrizar,

outras palavras, a interioridade

que as corrói. Se lida,

soberana na margem

de sombra da sua demarcação,

é apenas um esboço prestes a perder-se,

um soluço, uma lágrima, um desenho,

o longínquo desenho da voz.

3

aquele que cega. E no nada que antecede o poema. uma síncope de palavras. não as palavras que o compõem. as palavras. nesse momento de loucura súbita. o desejo é o corpo feminino. – «O desejo é esse corpo ou o olhar que o percorre»? Com as palavras sucede o mesmo: fundo é o poema. 3. são a vertigem. um acumular de sílabas e sílabas rasgadas. A palavra já existe no poema antes dele ser poema e dela ser palavra. Todavia. em que cada palavra se mede com a outra. 4 . da sua impossível dádiva. que irrompe o ser que a palavra anuncia. Olha-se para um corpo feminino. É uma névoa difusa. E é da cegueira. nesse instante onde cada sílaba descobre o seu peso. as que toldam o olhar na escrita do poema.

No seu manto de ouro e cinzas. Nesse entrelaçar. a palavra é vermelha. um alvoroço de sangue. 4. a palavra resgata o vazio. Como feroz é a palavra. mas o que nos antecede. aquela que liga. 5 . um estremecimento de pão que. de tão verde. ligando-se. semente na vertigem das colheitas. mesmo sobre a mesa. é feroz no desenlace que suporta. o que nos encaminha para a morte. é sol. Também o cume das videiras. Não um qualquer vazio.

perseguindo-se. sob a palavra. é conceito. Entre uma e outra. das cores ternas da tarde. Como sob a pergunta. Também a palavra se persegue. Está cheia de si. E. 5. 6 . Olhemos para aquela rapariga que o verão desnuda. Mínimo dizer.«Era a palavra ou a sua sombra»? Há sempre. a sombra. entranha-se na procura. a pergunta. . A sombra habita-a. A pergunta inaugura-a. o poema vacila. do rumor das águas.

os seus legítimos contornos. 7 . sendo mortos. Todavia. O corpo centra-se sobre si e. edificando-se. o corpo é dócil. lhe inauguram a morte. 6. procura os sons de outrora. encontra-se em si. encontra olhares que. conquista o interior do tempo. na humildade de centrar-se. E dá-se aos outros e aos que. Com eles edifica-se e. idos. são o peso da memória que o infiltra.

dá-se. sobe desamparado à boca. o resgata da morte. esse segredo. E. 8 . 7. o rosto é confronto. Dobra-se sobre si. Diante de si. Aí. nesse momento em que a palavra nasce. Até que um outro rosto o inaugura. rasga-se. questiona o sentido do outro rosto. O rosto olha-se no rosto que o envolve. rasgando-se. E nesse olhar-se olhando. o olhar incendeia-se. o rosto é apenas um indizível abandono.

Encoste-se o ombro ao dia até que este seja só assombração e o ombro. devido ao ritmo que o satura. 8. Aí. há uma altura em que se distanciam. nesse centro. 9 . seja um conceito desamparado. Apesar de ombro e dia viverem uma tensão íntima. para serem recuperados no caminho que transportam. começa a luz.

quase sempre desamparada. Desconheço o alfabeto das lágrimas. E que rasgam sulcos no rosto. 9. Como desconheço qual a sua cintilação. Que. nas mãos que as acolhem. o íntimo rubor. o seu talhe de veludo. 10 . Das lágrimas apenas sei que caem. acolhendo-as. buscam o seu sentido para sempre perdido.

11 . caminha pela imagem dentro. Busca-se na infância a infância. antes um suspiro. Nesse modo de vir. a infância é uma ferida. ainda que alheio e tardio. Brusca. a infância dá-se. E a busca perturba a claridade da noite. dando-se. Que não é bem uma imagem. como quando se encontra algo familiar. E. 10. a que permitiu o grito. um rasto desamparado.

11. onde árvore alguma poderá recolher o seu desenho. Apesar do seu interior aveludado. lentos movimentos de agonia. 12 . de afogamento. a que alaga cavando sulcos fundos. No exterior a água. Sendo a água em demasia. como só a água o consegue ser. mesmo no inverno. esses sulcos são rupturas.

como a súplica. E a poesia. E a súplica.«Libera me». . disse alguém que se aproximou do poema. as palavras inaugurais. das palavras por dentro das quais o poema caminha.«Libera me». 12. não pode ser enunciada sequer. como qualquer súplica. . «Libera me» é apenas isso: «Libera me». é o indizível. O poema caminha pelas palavras dentro. 13 . Assim.

E a penumbra? Ou o seu limite. é apenas sinal de desamparo. Quando. 13. a fala lhe surge. persegue a vertigem do assombro. Dobrado sobre si. embaciamento da retina. a sombra da cegueira? 14 . Nada dói mais do que o olhar. terrível. centra-se na sua secreta miopia. Sobre a alma fala o olhar.

o seu espelho arruinado? O poema caminha ao encontro do leitor. 14. Apenas nesse instante. é certo. com a mão subitamente quente. ocultas. mais uma vez a medo. configuram a alma do leitor. o leitor nota a cegueira que o invadiu. O que é a cegueira senão o interior da alma. O leitor abre o livro a medo e. 15 . essa comporta da desmesura. prestes a transbordar do seu leito para o leito do leitor. a partir de dentro das palavras que estão agora ocultas e. esse fio de palavras. segue o fio das palavras. fecha o livro. que. É um rio.

16 . carregadas de pólen. quente até. silêncio. apenas opacidade. um vento macio. Antes um silêncio anterior a qualquer silêncio. Vira-se a alma do avesso e o que se encontra? Há muito que a sua pele não é suave como veludo. Assim a alma. o seu destino. 15. vento. envergonhado. ao mais ínfimo rumor. Não aquele silêncio das manhãs de verão. um silêncio petrificado.

inseguro. as suas faces. uma voz ainda pouco audível. a flor é assombramento e. limadas a partir de dentro. as raízes são subtraídas à terra e transportadas para o poema. se o pólen aveluda a pele. por exemplo. 16. Escolhe-se a palavra certa. A poesia assemelha-se à cristalografia. Cristal ínfimo de sons. obrigando-a a girar sobre si. num primeiro gesto desordenado. caminharia para a morte. E se as pétalas surgem pacificadas. Ressentindo-se. 17 . nos contornos da página. são o percurso de um corpo suspenso na margem da página. Diz-se. Assim. não fosse ser conceito. procurando o eixo que sintetiza um percurso. flor. procura o conceito que o há-de resgatar. o corpo que a desenha na margem do poema e que. enquanto a caligrafia vai desenhando.

Um e outro estão atentos à coloração das sombras que invadem o coração. À sua volta outras palavras confluem. o dia erra entre a luminosidade agreste e a condensação da luz. Então. o leitor sabe-o. Diz-lhe como o tempo passa. até as desfigurar. Desconheço aquilo que o destino há-de tecer. Como um resto. uma mulher. 18 . a palavra reconquista o seu peso. se abriga nas margens da página. como procura o sol. Uma mulher pega na palavra e reconforta-a. o mar. e com ele o ciclo das marés. como desconheço o leitor que. Diz que jamais seremos resgatados no limite que a própria palavra não acolhe. Nem sempre maio é assim. de súbito. E a dificuldade no uso preciso do adjectivo mostra como a palavra erra. indicando o caminho a seguir. 17. Rasura a fala que a sustenta e. tentando abri-la ao mundo. como se de um filho se tratasse. o leitor. insuspeita. com ela. É maio. que olhar algum resgatará. Também a palavra está isolada no poema. delimita-as. A pupila cerra-se na solidão das coisas. Chove. suspensa da sua própria sombra. o declinar do sol.

mais dilacerada que o vento». E se a mesma mulher. o poema. afagando os cabelos. restituindo a tranquilidade ao olhar. dizendo: .«Agora e na hora da nossa morte». se deitasse na areia molhada. E. com ela. o dia torna-se mais claro. desvairada pela paixão. o agora e na hora da nossa morte? Entre a orla da praia e o horizonte. como quem figura um círculo. Talvez a mulher tenha adormecido. Não. 18.«O mar é a superfície mais dilacerada. enunciava uma prece. o mar continua-se. presente na morte. Na areia. às mãos. Este agora. Talvez seja noite e os medos atravessem a brisa ainda quente. . Não é que a oração tenha sido decisiva. Por isso. E. a mulher é um destino alucinado. confronta-nos com o limite. não seria. na intimidade da prece. 19 . afinal. se uma mulher irrompesse aqui e agora.

É certo que a cor indicia a cegueira que o gesto continua. 19. Também a tela prolonga o olhar secreto. Será a cor. o gesto é pura suspensão. nada mais resta na pintura. numa procura obstinada. senão a ausência que se há-de revelar. Assim. a pintura resvala do avesso da realidade para a tela. 20 . Todavia. como a cor pura erosão que mão alguma poderá conter. na intimidade do olhar. a mancha? Ou esse secreto elevar do gesto a uma configuração para sempre destronada? Lugar de verdade.

tenta desvendar a memória. 20. os recantos mais secretos. Daí a tristeza que vai minando os arquitectos. 21 . . imperturbáveis. pensando o espaço. arquitectando. Que página e casa não comportam. E. O arquitecto pensa.«É a lógica do predador». a arquitectura que nos há-de arquitectar. do rasgão. na amplitude do gesto fundador. Para que página e casa permaneçam.

22 . desconhecemos se da mulher se doutrem. para o limite das ondas. da noite. desprevenido. como os seus pés. a nudez. Uma ruga no vestido ameaça-a levemente de nudez. a mulher olha para trás. e interroga a sua nudez.«Amo-te». a comissura dos lábios. É. como quem se aproxima do voo das aves. cai até às mãos. É verão. cansados da areia. Por instantes. O vestido da mulher é. Uma mulher caminha pela areia. o íntimo labor da noite ser um eco. a ponto de o fragor das ondas. por enquanto invisível. a mulher reconhece que a este paredão outros acabarão por se impor. E tudo se transforma. então. sempre mais além. que uma voz. na trajectória que os seus pés nus convocam: o nosso olhar que. do desassossego da mulher. do limite do mar. apercebendo-se de como a nudez é o limite da morte. à ruga do vestido. 21. No limite mais fundo de si. diz muito baixo: . em si mesmo. Leva as sandálias na mão e os pés sulcam a areia a medo.

rodando em torno da areia – limite insuspeito das marés. e o desejo corre ao sabor da pele. inquietos. Como radical é o vento rodando em torno das árvores. inauguram os dias. Porque as mulheres são o outro nome para musgo. dolorosamente radical. as palavras que hão-de fulminar os corpos. Só então a luz vibra. Cumpre à mão colhê-la. sangue. Eu sei que mão. o verão das sílabas. É certo que o desejo as invade. a sua ligeira penumbra. a árvore. percorrendo. limpando o olhar do olhar dos outros. a prumo. O seu corpo ergue-se. 22. do corpo das mulheres. luminoso. sílabas. Sussurrantes. a sua ambígua sombra. a areia. Olho a mão. o sangue encandeia as pálpebras. a voz é nítida. nada mais restando do que a súbita metáfora. É nessa teia que as mulheres amanhecem. os veios da madeira até repousarem junto à página. nos bosques. sombra cumprem-se num todo. corpo abandonado no estio. 23 . dos lábios. do musgo.

na evidência da resposta. É. é um súbito ritual de veias. sobre o curso do tempo? Sombra derramada pela página. O calor. então. que a mão fica visível enquanto o olhar se mantém distante. pergunte-se outra vez e talvez a pergunta se cinda. 23. O que é a mão quando pousada sobre o livro. de sinais. entretanto. marcou a página. um voo de aves aturdidas pelo peso da madeira. quase adormecido. Mas. 24 .

Mas. 24. nessa busca de sentido. a mão cumpriu-se na nobreza trágica de ser mão. Desconheço se a mão encontrou o caminho da outra mão. 25 .

A mão encaminha-se para a mão que sossega o rosto. E quando mão e mão se encontram. a música cresce por dentro do calor iluminando o rosto. E. nesse sossego. Delas. a mão. a solidão é o tenaz arquitecto. deslumbramento que atinge o calor da mão que o suporta. 25. o rosto é assombração. 26 .

Desconheço a cintilação do lugar mais secreto. da habitação interior mas. E quando chegares. as marcas que deixou. mesmo assim. à minha pele. os sinais que jamais poderão ser apagados. dirás: .«Caminho para ti como quem conhece o caminho». perturba a tranquilidade dos sentidos. 27 . A pele. procuro a tua pele na minha. 26. o fulgor da íris. É através da pele que caminho ao teu encontro. tardia mas radiosa. essa bússola íntima do sol.

Deles conhecemos a morada e a impossibilidade da palavra. 28 . o seu silêncio perturba-nos no limite da fala. rasura. E prepara-nos. Por isso. rasa à terra. A que. aguçando a memória. 27. a água. Dos mortos diz-se que são idos. num perpétuo ir que magoa as mãos.

outrora. cavam a simetria da terra. Os olhos foram. o seu rigor orvalhado. tudo sabem. Da água. A sua presença é simples. quase um sussurro. E mais secretamente de nós. São doutros tempos. E do vento. Cavos. das urzes. 29 . como claras foram as veias que lhes riscaram as mãos. um dia. os mortos. claros. sua sombra fugaz. 28.

29. um fio de água. É um momento breve que nada pode reter. Despertos. Desse sono restam algumas pétalas. que lhes é alheia. assombrados. seguem o prumo da terra. . a sua ardência tranquila. Nos seus castelos de saibro. resguardo-me. Aí. porque o coração tarda e as mãos não encontram outras mãos». Que pedem tempo. E como quem descobriu algo. os mortos aguardam a palavra crua. um fruto de outra estação qualquer. 30 .«É um respirar das pálpebras. uma sombra. a que desperta. estão os mortos. água.

a voz ganha uma outra transparência. Quando dizem. Recordo-os. o vinho. a morte.«Eis o peso das mãos. os amigos.«A noite é o nosso maior desassossego. Sombria. hesitante nas sílabas. Pegamos numa flor e dizemos: . apaixonados. o silêncio cresce. As árvores conhecem a textura desta fala e. por vezes. silenciosas. Daí a sua fala avulsa. que são os nossos também. as que adormecem quando o inverno se instala em nós». das pálpebras. justificando.». uma outra sabedoria que só os mortos compreendem. as pálpebras. a solidão. ladeia-nos. resgatam-nos. 30. E no interior do gesto. 31 . São estranhos. tecendo-as para a morte. não nos deixa a incandescência dos gestos bruscos. por exemplo: . Recordar é comungar o pão. precipita-se na boca. bordeja as mãos. assim. Eu sei que não podem levar sequer o alimento à boca. mas a sua equívoca presença esconde o peso da terra. indicam o limite dos seus contornos. contorna o jardim da melancolia. o rasto de cinza que deixaram em aberto.

Como o ar. naquela estação em que usavam cair. a neve dobra-se sobre si. 32 . de sufocar a respiração que atravessa as coisas. caindo. E. E cai num poema onde as aves caíam. Se é que ainda as há. 31. a neve rasga o ar. Mas. a sombra mais íntima do andar. Como o ar. ao contrário das aves. a neve cai e apaga o rasto. fere as aves. capaz de turvar o olhar.

Como as mulheres. uma imagem que alaga o olhar. As mãos podem. Julho. desprevenidas como sempre. 33 . levá-la aos lábios e inaugurar a tarde no esplendor de um sol capaz de ferir. é um perfil apenas. enquanto as mulheres caminham pela orla do verão. como as mulheres. a tarde teima em ser manhã ainda. a névoa que a povoa. a alma. Aro do arco das estações. 32. no seu ténue início. dessa mínima música. povoa também o interior da alma. Quando. abeirar-se do mar. intenso nos frutos que carrega numa mera adivinhação. então.

julho é assim. da cegueira que corrói as coisas. O lugar da névoa. a madeira. 34 . o vidro. tão desamparados quanto a palavra. Até que um mar qualquer o resgate. Espera. 33. Silencioso. fecha-se. Por vezes.

34. Têm os seios pequenos e hirtos. o veio arável que sol algum há-de colher. pelas mãos num acaso de ternura. as pernas tocando-se no calor da tarde. 35 . delineando o caminho que mãos e cabelos vão compondo. que estremece os corpos no encontro. escondidos pelos cabelos. São duas adolescentes deitadas lado a lado. E timidamente sorriem. são o ardor da areia que as protege. Por momentos.

num gesto brusco e diligente. 36 . induzem o tempo na ilusão da passagem que o habita. não. Só os dias e. Tão desprotegida quanto os dias que a constroem. com eles. que os há-de rasurar. 35. Os dias seguem-se e. a nossa imagem desprotegida. para. ao lápis. Mas. Resta comprar mais folhas ainda para que os dias sigam o seu percurso inexorável junto ao papel. a dilacerarem num risco lúcido ou numa confirmação tardia. no seguir-se. o tempo não passa.

Just what is it that makes today's homes so different. como se. É certo que as casas são hoje diferentes. melancólico. o calor do mar. mera penumbra de folhas. Quando o sol deixa de incidir. Recebo correio. encostando a porta muito devagar. Porque a melancolia centra-nos. as veias de melancolia que rasgam o e-mail e toldam o olhar. Ou não o são? Num espaço de espera. a amplidão do silêncio é maior. de súbito. Há dias assim. foge por entre os dedos. Um e-mail refere-se a uma obra de Richard Hamilton. o silêncio que dilacera a casa. que é também de esquecimento. e à pop britânica. alguém tivesse saído. separa-nos do outro que acabou agora mesmo de anunciar o dia. obscurece o sol. so appealing?. como quando chega um e-mail e não se consegue decifrar 37 . por enquanto. Uma casa é um lugar de morte e a sua penumbra entontece os dias. Também o e-mail. por onde erra o olhar. 36. não se encontram. O mar sulca-se indefinidamente e a sua orla é apenas um pretexto para a circularidade do gesto. é percorrer a pele de um corpo e um corpo não se deixa aprisionar facilmente. tão apelativas quanto o e-mail que me é endereçado. outros são mais terríveis. Como o horizonte. atravessa a intranquilidade das mãos. Olhar é construir um sentido.

a sua nudez. O sol está vermelho para o lado do mar e a areia não sustenta os passos que a sulcam. E o desejo é tão agreste que desenha um corpo. de enlouquecer o perímetro das pupilas. como no mar. capaz de cegar. a vertigem seja um encontro. fulgurante. Aí. o silêncio. Apenas um vestido fino desenha a sua presença. 38 . o olhar desembacia-se e a luz é demais. É altura de abrir outra vez o correio e deixar o olhar perder-se. acentuando a melancolia. É a altura de regressar a casa. se abeiraram da praia.um rosto. entretanto. forram o interior. a chave sublinha a melancolia que povoa a casa. E os seus gestos contagiam. No ecrã. Afinal. a dilatação das narinas. As cortinas ainda preservam a luminosidade. E as mulheres? Terão finalmente alcançado a paz? Na porta. as árvores desenham o silêncio. as mulheres não voltaram da praia pacificadas. das mulheres que. as vagas repetem-se e um rosto é uma imagem desfocada. Sente-se o cheiro longínquo da maresia. No seu limite. o interior do mar. Resta caminhar melancolicamente de encontro ao mar para que.

trazer à fala. De que a madeira é. Abandonados ao seu silêncio. entretecem-se de pó. Recolhidos. à luz. de palavras. nem sequer podendo comungar da solidão dos outros. os sulcos breves que mão desprevenida há-de resgatar. o único testemunho. 39 . E. marcam as estrias da estante. conspiram no poder que os sustenta. estremecida. resgatando. seus congéneres de fileira ou tema. 37.

insegura a mão abre o livro. E a escuridão também. 40 . abri-lo no que o silêncio encerra. o sangue corre rápido. do vento que o há-de levar para outro livro. há que encontrar o ângulo certo. Caindo a luz aí. Percorrendo-o. E a labuta impõe-se. Tarefa das mãos. apenas olhar. E levando-o. a clara demarcação das páginas. 38. Nas suas margens entreabertas. o livro é uma longa silhueta alheia ao tremer das mãos. que perseguem um fio de água. Mesmo que a mesa permaneça fechada.

«A página. essa que amedronta. um deslumbramento de sombras. a página continuou a ser página. justifica tudo. Alguém disse: . essa que recolhe. recolheu-se ao silêncio. ao medo. No seu limite. página e morte equivalem-se. já não havendo sequer lugar para o medo. Aí. Porque a página. E. dizendo-o. apesar de limpar o olhar». 39. 41 .

42 . 40. Esta é a cor do vidro: a transparência.

43 .

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