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JOSUÉ DE CASTRO'S PRESENCE IN GEOGRAPHY LA PRESENCIA DE JOSUÉ DE CASTRO EL LA GEOGRAFÍA

Graduado em Geografia, Mestre em Educação e Doutor em Geografia pela UNESP - Rio Claro. Professor de Epistemologia da Geografia, Pensamento Geográfico Brasileiro e Geografia Política no curso de Geografia da PUCCampinas (São Paulo – Brasil). Endereço eletrônico: ruicampos@puc-campinas.edu.br.

A PRESENÇA NA GEOGRAFIA DE JOSUÉ DE CASTRO

Rui Ribeiro de CAMPOS

Resumo Este artigo trata da citação ou não das obras de Josué de Castro nas publicações referentes à Geografia, principalmente no Brasil, durante o século XX. Discute-se se ele pode ser considerado geógrafo ou não, seu ponto de vista sobre a Geografia, sua proposta de divisão regional e a visão da Geografia oficial do período. Procurou-se ainda verificar a presença do autor em livros didáticos, em revistas especializadas e em alguns livros. No final, levanta algumas hipóteses que ajudam a entender o seu esquecimento pela Geografia. Palavras-chave: Josué de Castro – Geografia Brasileira – Livros didáticos – Divisão Regional. Abstract This article concerns the presence mention or not of Josué de Castro's works in the Geography publications, mainly in Brazil, during the 20 th century. Discusses if he can or can't be considered a geographer, his point of view about Geography, his proposal for regional division and the official Geography view of the period. It intended also to verify the presence of the author in didactic books, specializes magazines and some books. At the end, raises some hypotheses that help to understand his oblivion by Geography. Key Words: Josué de Castro – Brazilian Geography - Didactic books – Regional division Resumen Este artículo trata de la mención o no de las obras de Josué de Castro en las publicaciones de Geografía, principalmente en Brasil, durante el siglo XX. Discute si él puede ser considerado un geógrafo o no, su punto de vista acerca de la Geografía, su proposición de división regional y la visión de la geografía oficial del periodo. Se buscó aún verificar la presencia del autor en libros didácticos, en revistas especializadas y algunos libros. Por fin, hace una sugerencia de hipótesis que ayudan a comprender su olvido por la Geografía. Palabras clave: Josué de Castro – Geografía Brasilera – Libros didácticos – División regional.

Introdução
“[...] na ciência, o objeto de investigação não é a Natureza em si mesma, mas a Natureza submetida à interrogação dos homens.” (Heisenberg)

Josué Apolônio de Castro (1908-1973) teve, durante a sua vida, pouca atenção da Geografia oficial brasileira às suas obras, apesar de sua marca em estudos populacionais e na questão relativa à fome. Este texto procura demonstrar aspectos que

O que se constatou foi que.. ele permaneceu ausente. O trecho aqui presente é uma parte do quinto capítulo. Mas. apesar de capítulos sobre Este artigo é uma pequena parte da tese: CAMPOS. em revistas especializadas. notadamente nos capítulos relativos à fome e à questão demográfica. mapas. em discursos dos geógrafos mais comprometidos com as mudanças sociais. p. 41). pois chegou. uma tese de doutorado em Ciências Sociais.. estas obras “[. somente encontramos o trabalho de SILVA (1998). Imaginava-se que. somente uma monografia de conclusão de Estágio de Especialização no setor de Desenvolvimento Rural. combatente do determinismo fisiográfico e das idéias malthusianas e neomalthusianas. com a marcante atuação das correntes que integravam a chamada Geografia Crítica. já na edição de 1998. Tese (Doutorado em Geografia) . na década de 1980. 2004.. até a década de 1970. Análise do Tema Foram investigados alguns livros didáticos de Geografia do Brasil para o ensino médio. até o ano de 2. inclusive nos didáticos. Estudioso do fenômeno da fome. Segundo este autor. existiam poucos trabalhos de pósgraduação em Geografia sobre ele2. Odeibler Santo GUIDUGLI. 1980. Universidade Estadual Paulista. Rio Claro. embora por caminhos oficialmente não-geográficos.2 foram discutidos em uma tese1 sobre ele. de MARCHI (1998). 1 .. havia três livros na bibliografia e referências ao autor no capítulo sobre a fome. Em Adas (1985) não constava da bibliografia e nem era citado no capítulo Fome versus crescimento demográfico. Na UNESP (Rio Claro). 41) Apesar da redescoberta deste autor estimulada. a receptividade da obra de Josué de Castro no exterior foi em razão do tratamento que soube dar aos problemas específicos do Terceiro Mundo. Dr. era de se esperar u’a maior presença nos livros relativos a estes temas. se obteve projeção internacional por Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. em alguns livros e também algumas hipóteses que ajudam a entender o seu esquecimento pela Geografia. Foi um trabalho de preservação da memória de um cientista brasileiro que fez uso da ciência geográfica. salvo citações bibliográficas ou referências esporádicas. 430 f: il. Em alguns. 2 No estado de São Paulo.” (MONTEIRO. p. ele estaria mais presente. A dimensão populacional na obra de Josué de Castro. possuía também um “acentuado caráter acrítico. Rui Ribeiro de.] não despertaram entusiasmo em nossa comunidade”. A geografia brasileira. além do “acentuado grau de dependência do exterior”. um indivíduo que não possuía uma maneira de pensar exclusiva e seu pensamento social se inseria em uma categoria mais ampla. próximo a concepções presentes. gráfs.000. que a utilizou para pensar e propor sobre um problema que até hoje nos aflige: a fome. Foi orientada pelo prof.Instituto de Geociências e Ciências Exatas. elaborador de uma teoria demográfica. O que se pretende tratar aqui é da relação da Geografia brasileira com sua obra e verificar a presença deste autor em livros didáticos. (Ibidem.

O livro sobre o Brasil. leu-se com mais atenção os capítulos intitulados A explosão demográfica e A fome. Até livros não didáticos que possuíam como tema básico a população ou a fome. 1996). 103) “Torna-se evidente que o problema da fome qualitativa está intimamente associado à explosão demográfica.] um país em equilíbrio populacional onde as mulheres correspondem a 50.a. 1994. p. mas uma oportunidade de lucro para a família. relativamente rara no mundo contemporâneo. mas. colocou o seguinte: Enquanto Josué de Castro defende a ‘argumentação biológica’ – em estado de penúria alimentar as famílias são mais prolíferas. no qual houve pouco destaque à colonização.. muitas vezes. a respeito da fome no Brasil. no item relativo aos aspectos econômicos da alta taxa de natalidade. O responsável pelo texto. ou ausente na bibliografia com uma breve citação no texto (MAGNOLI. 1997. ignoravam. PEREIRA. citou um trecho de O livro negro da fome (CASTRO. p. [.. era.3 crescimento populacional. citado na bibliografia.. mostrando que em um país pobre a criança é fonte de despesa para o Estado. o primeiro sobre população e geografia e. afirmou que o crescimento anual da população da Terra era de pouco mais de 2% a. o segundo. continha apenas uma referência à sua obra3. às vezes. Em outros.” (ANTUNES. para verificar a presença do autor em questão. 1996. Yves Lacoste não foi citado na bibliografia do capítulo.” (ANTUNES. No texto. sob o prisma citado. 1986.. o autor em questão. ao modelo econômico internacional e ao latifúndio. 55) No capítulo referente à fome. grifo nosso) e que o Brasil era “[. Ilustravam esta última situação os livros de Damiani (1998) e Lima Sobrinho (1981). Geografia da fome. 3 . (ANTUNES.” (Ibidem. escrito por Santos e Silveira (2001). “[. 1986. Em um livro sobre problemas geográficos do século XX.] uma vez que os números crescem em termos de uma progressão geométrica. 46) Também escreveu: “Alta natalidade e subdesenvolvimento econômico sempre andaram juntos. não era citado na bibliografia e nem no texto (COELHO.]” (Ibidem. como fator de compensação fisiológica –. mas este assunto foi abordado. citou. Yves Lacoste inclina-se por uma ‘tese social’. Algumas frases do livro escrito em 1977 provocariam frontais discordâncias de Josué de Castro.” Na página 32. MAGNOLI. SENE. e refere-se à 2a parte de Ensaios de Geografia Humana: “Um ensaio de geografia urbana: a cidade de Recife”. 1986.2% da população. p. p. como em Vesentini (2000) e Moreira (1998). Em um texto superficial e favorável ao controle demográfico – sob a aparência de colocar os dois lados –.. 50) Foi a única referência a ele. 1960) em que apontava algumas mudanças necessárias para solucionar esta questão no Brasil e citava alguns números referentes à situação alimentar. 1998). em Geopolítica da fome. p. Entre elas: “A fome quantitativa é assustadora. na pequena bibliografia.. mas ausente no texto. e que isto era assustador. 49.

Não há. Talvez o ano de 1970 ajudasse a explicar a omissão. O artigo de maior destaque. enquanto este era mais dirigido ao ensino. 1998. de 1970. 362) 4 5 . Também não se encontrou registro de sua participação nas conhecidas Tertúlias Geográficas.4 (Ibidem. 108. realizamos um levantamento dos artigos publicados no Boletim Geográfico (BG). 113) Afirmou ainda que os países subdesenvolvidos possuidores de pirâmide demográfica de base muito larga. no período compreendido entre 1939 e 1995. uma vez que ele havia sido cassado pela ditadura militar. jul. Seu nome apareceu mais em citações bibliográficas ou em resenhas. em depoimento..] numa dessas conferências da AGB foi convidado o Josué de Castro. 218 (set/out. Dada a importância desta revista. grifo nosso). no período compreendido entre abril de 1943 e dezembro de 1978. “O homem distribui-se irregularmente pela superfície da Terra e a maior parte das terras que poderiam ser cultivadas não o são plenamente. concorrente do BG. um único artigo elaborado especialmente para o BG. foi uma transcrição4. “cujas ‘necessidades energéticas’ são inferiores às do adolescente e do adulto”. 156. embora estivesse ausente de algumas bibliografias importantes para os professores de Geografia. Pesquisando os duzentos e cinquenta números da revista.” (Ibidem) Anterior a isto.” (Ibidem. tenha afirmado que. “[. com um terço ou mais com menos de 12 anos. Por exemplo: no BG nº. 93-102) há uma bibliografia sobre Geografia do Brasil e nenhum livro de Josué de Castro foi citado. que trouxe uma bibliografia sobre Geografia do Brasil – Regionalização. constatou-se que a presença de Josué de Castro na mesma foi pouco significativa. a rigor. p.” (SILVA.. p. Rio de Janeiro – DF). 1951). talvez. outra publicação do IBGE e. 90-107). que eram realizadas semanalmente e tinham seus temas e seus participantes relatados no BG5. a RBG estava mais comprometida com o poder federal e voltada para as necessidades do planejamento O artigo foi publicado originariamente na revista Formação (n.. a fome não deve servir como indicação ou ‘sinônimo’ de subdesenvolvimento econômico. foi aí que eu o conheci. 104) Sobre as causas da fome: “Outra razão tecnológica está apoiada no ‘descompasso entre o ritmo de crescimento populacional e o ritmo de crescimento alimentar: [. pois estão superpovoadas. p. com pirâmides demográficas mais equilibradas. 215 (março/abril de 1970. entre as publicações do IBGE. p. p..” (Ibidem. foi a única que manteve uma preocupação constante com o professor de Geografia. possuíam uma situação alimentar “superior à de países subdesenvolvidos. p. p. Embora Orlando Valverde.]” (Ibidem. até porque. O espírito geográfico da filosofia moderna (CASTRO. O mesmo aconteceu no nº. na Revista Brasileira de Geografia (RBG). a quase inexistência de artigos dele pode significar que sua influência na geografia escolar tenha sido pequena. notadamente face à importância do autor no cenário internacional. no Rio de Janeiro. 110) “No entanto. Mas. Procedeu-se também uma investigação. Nos dois casos. 1951. a inclusão de Geografia da Fome era importante.

1939) ao volume 57 (no 3. praticamente. Neste período. Foram verificados os Anais da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). Foram dezessete assembléias gerais e. Investigou-se o índice de assuntos do volume 1 (no 1. Embora o artigo se dedicasse a publicações referentes ao estado de Pernambuco. ou seja. . um ensaio de Geografia Urbana – ‘Fatores de Localização da Cidade do Recife’.5 estatal. após a publicação de seus livros mais famosos) e só encontramos duas linhas sobre ele: “[. Isto evidencia sua pouca atuação e/ou presença nos eventos significativos para a comunidade geográfica brasileira. de abril de 2001.” (ROCHA... o “[. desde março de 1949.. a inexistência de qualquer análise do ensaio citado ou a respeito do autor. mas “[.” (MONTEIRO. p. grande parte dos textos publicados pelo IBGE não fugia da política de defesa da indústria como fator de solução aos problemas nacionais e do próprio nacionalismo econômico do período.. Também se investigou o assunto no Boletim Paulista de Geografia (BPG). no período anterior à sua cassação política. revista editada pela AGB. com artigos de interesse geográfico.] de caráter nitidamente complementar a um campo de investigação cuja produção própria seria ainda incapaz de sustentar totalmente a revista. 1980.] e o prof. ela se valeu da contribuição de estudiosos de outras ciências. Não se encontrou artigos dele e nem artigos específicos sobre fome ou explosão demográfica.13) Além disto. seção de São Paulo. 51).” (MONTEIRO. ele não participou de nenhuma delas. malthusianismo e neomalthusianismo. Efetuamos vistas em todos os exemplares até o número 77. como explosão demográfica. p. Josué de Castro editou. 20) Pesquisando a RGB não se encontrou artigo de ou sobre Josué de Castro.. 1980. Temas caros para o autor em questão. contemplados. p. em 1948. em um exemplar do BPG. que se engajou no planejamento pelo progresso social. 1954. em um total de 227 revistas e quase nada se encontrou tratando especificamente da fome. não foram. Já sobre geografia urbana – análise fatorial.. do grupo liderado por Pierre George. a chamada Geografia Ativa. hierarquias. Em seu período inicial. pode ser um indicativo da não consideração do mesmo como um geógrafo importante. na era Vargas. nem mesmo no item Geografia da População.] número de artigos sobre geografia e planejamento é bem significativo na RGB e a abordagem geográfica associada ao planejamento é especialmente expressiva no Nordeste onde o trabalho dos geógrafos se incorpora à atuação da SUDENE. Nos anos JK. pelos anais. modelos e outros – o rol foi grande. A linha editorial da revista e seu atrelamento ao governo federal ajudavam a explicar a ausência de referências ao autor e aos temas por ele abordados. Encontrou-se. um artigo intitulado A geografia moderna em Pernambuco. influenciou um pequeno grupo de geógrafos do IBGE. escrito em 1953 (portanto. 1995). de 1945 a 1962.

o que poderia ser uma das hipóteses da ausência de artigos. de julho/agosto de 1986. Após o curto período de docência na área (de Geografia Humana. p. Em exames. como ocorreu em artigo de Gomes (1982). achamos relevante pesquisar a importante revista Annales de Géographie. procurou-se na Bibliographie Géografique Internationale. I ao XXX) e do Boletim Carioca de Geografia. Milton de Almeida Santos (1926-2001). A tradução de sua obra. embora restritos demais. um La géographie de l’alimentation (a. Em todo este período. não foi publicado nenhum artigo dele na referida revista. p. publicando seis artigos. 6 . LXIV. Isto nos leva a crer que Castro pouco fez para se projetar no meio geográfico nacional. Citou mais de uma centena de nomes mas. o resultado foi semelhante: não encontramos nenhum artigo dele. foram importantes para a geografia brasileira. Na Association de Géographes Français. n. n. o que colabora para explicar sua marginalização no período. 344. em outras publicações. n. que pugnava por uma política de alcance mundial na luta contra a fome. da AGB – seção Rio de Janeiro (de 1948 a 1962). Concluímos a investigação no número 530. 325. Géopolitique de la faim. achou-se somente uma citação a respeito da tradução de Géopolitique de la faim (item IV. especificamente. Entretanto. 201) e. entre eles. Foi citado em dois artigos6 publicados pelo seu amigo Max Sorre. no próximo item. A cassação dos seus direitos políticos. parece que não se preocupou em participar da Geografia. encontramos ainda algumas citações a respeito de Josué de Castro. treze anos após sua morte. em um artigo publicado em 1955 (1994). de uma forma ou de outra.6 No BPG. Iniciamos a verificação pelo ano de 1935 (a. Isso ocorreu com os índices da Revista do IHGB (do v. LXI. José Veríssimo da Costa Pereira (1904-1955). p. o que demonstrava que a referida publicação não dificultava a publicação por parte de nãoeuropeus. não figuravam os de Manoel Bomfim (1868-1932) e Josué de Castro./août 1955. Sua preocupação maior com a fome provocou a procura de outras áreas e de outros organismos. também não foi merecedora de muitos estudos nos exemplares avaliados. juil. 300-302). na Universidade do Brasil). outro geógrafo brasileiro. teve uma significativa participação. Passou a viver na França. onde fundou o Centre Internatíonal pour le Développment (CID). Voltou a lecionar Geografia Humana como professor estrangeiro associado ao Centro Universitário Experimental de Vincennes (Universidade de Paris). foi citada na Bibliographie Géografique Internationale (ASSOCIATION. Geografia Humana. em 1964. de 1968 até a sua morte (1973). 44. 184-199) e Deux ouvrages sur le Brésil (a. fez um minucioso levantamento de pessoas que. pois foi a partir deste período que ele começou a publicar com maior intensidade seus trabalhos. A fome. que o citou por algumas linhas. 1956. 201). 247). na década de 60 e início da seguinte. mas não o colocou na bibliografia. Por esta razão. p. mai-juin 1952. inclusive no exterior. levou Josué de Castro ao exílio.

que procurou estabelecer seus estudos a respeito da fome. Nele constava: “Rigorosamente de acordo com o programa oficial do 3o ano seriado”. A classe dominante. didático. 7 . Seus artigos publicados no exterior também o foram em revistas não ligadas. O esquecimento imposto. Entretanto. após 1964. Paris: Librairie Armand Colin. a hipótese não deve ser de todo descartada. Outra possibilidade é a de ele não ser realmente um geógrafo. neutro. se dá ao trabalho de procurar estabelecer o que – e como – deve ser lembrado e o que deve ser esquecido. intitulada Économie alimentaire du globe (Paris: Librarie de Médicis. um texto asséptico. Apesar do elevado número de artigos por ele escritos. que Josué de Castro permaneceu à margem da chamada geografia oficial. de acordo com o conceito acadêmico de Geografia. 1996.1953. tanto pelo método utilizado em diversas obras quanto pelos temas abordados. Foi com base em geógrafos que procurou verificar a ação do meio na alimentação. Apesar de. Como. A referência foi colocada com a publicação de Michel Cépède e Maurice Lengelle.1952 .” 8 Porto Alegre: Livraria Globo. para os padrões da época. Encontrou-se uma dissertação sobre a formação do pensamento geográfico brasileiro que não o incluiu na bibliografia e somente se referiu a ele em um parágrafo (SILVA. mas analisou temas geográficos. diretamente. seu livro mais citado nos meios acadêmicos era Geografia Humana8. p. eles não eram direcionados aos estudantes e profissionais de Geografia. muitas vezes. analisando e fazendo uso da Geografia para propor soluções. 123). considera-se que o autor em questão deve ser considerado um geógrafo. às vezes. Talvez grande parte de sua obra fosse considerada como não-geográfica. se contrapôs à corrente dominante na época e foi útil para uma melhor compreensão do país. de não ter realizado de fato uma abordagem geográfica da sociedade e dos temas analisados. 1953) e dizia o seguinte: “Trés importante étude sur les problèmes de l’alimentation des différentes collectivités humaines. Outra ainda é de que a sua ausência seja mais um exemplo do uso da estratégia do silêncio: o não dizer proposital. à Geografia. provisoriamente. Este texto compõe a primeira parte do livro Ensaios de Geografia Humana (1957c). 1999). Não foi um teórico da Geografia. aparentemente prisioneiro das fontes mas. com o intuito de analisar as mudanças ocorridas em um estado nordestino (SAMPAIO. A explicação de sua ausência nos Bibliographie Géografique Internationale – 1951 . 1939. de Castro. Estes levantamentos levaram a concluir. diz mais sobre a história do que o insistentemente lembrado. Também uma tese que destacou algumas das suas concepções sobre a fome. esta estratégia foi utilizada por governos militares. 1956. não pode ser considerado criador de alguma escola geográfica. qui apporte des compléments utiles aux travaux de J. para dificultar que certos problemas fossem conhecidos.7 pequeno texto que lhe fazia referência7. em Geografia da Fome. não avançou do ponto de vista epistemológico. no Brasil. afirmar ter se utilizado do método geográfico e proposto uma nova divisão regional com base nas áreas alimentares. na época.

ausência de estação fria. as influências e as conexões dos múltiplos fatores que interferem nas manifestações do fenômeno. como agentes da modificação do meio. o estudo da situação social o possibilitou concluir que não era um fatalismo. dificultando a sobrevivência de vermes parasitas) e as altas taxas na Zona da Mata (clima quente.. no Sertão do Nordeste (chuvas restritas e irregulares. Ele se agregou a uma escola (a Regional Francesa) que emprestou sua concepção de ambiente (milieu) da ecologia e não era. pois aqui também a nacionalidade e a identidade cultural não são totalmente coincidentes. ele afirmou que grande parte dos estudos sobre a fome se limitava a aspectos parciais.. solo arenoso.” (SILVA. que o permitiu explicar a pouca incidência de verminoses intestinais. do conjunto. mas fruto das causas do pauperismo regional. Para tal fim lançamos mão do método geográfico no estudo do fenômeno da fome. que obedecessem “[. por ele utilizado. em um país como o Brasil. Se as condições naturais favoreciam a disseminação do parasitismo no Nordeste úmido. foi uma decisão acertada. pôde ser verificada no clássico artigo do engenheiro-geógrafo Fábio de Macedo Soares Guimarães (1906-1979). uma ciência social porque era muito mais “dos lugares e não dos homens” (LA BLACHE.] de maneira compreensiva as ligações. 1985. Foi o método geográfico. Na busca de uma visão panorâmica. do parasitismo. 47) e considerava estes últimos como edificadores das construções sobre a superfície. chuvas regulares). p. resultante da correlação entre os diversos fatos geográficos . pela Geografia. verdadeiramente. Como propor soluções inovadoras com base em uma escola que carregava uma bagagem conservadora e reacionária e que propunha uma atividade científica neutra? A fome exigia propostas subversivas e elas não se encaixavam em posturas positivistas. a razão básica da opção pelo método geográfico em Geografia da fome foi por sua maneira de ver as coisas como um conjunto. 77) Ou seja. na qual se destacavam “[.8 livros e em trabalhos acadêmicos de Geografia deve ser buscada mais nas características da própria ciência geográfica brasileira do que no autor.. de modo que cada uma delas apresente uma certa unidade de conjunto. p. e que a solução dos problemas sociais era o remédio. 1998. Dividir o estudo da alimentação por regiões. Procurou estabelecer uma maneira geográfica de se estudar a fome e de incluí-la no rol dos temas da ciência. com uma nação predominante de modo absoluto – as nações indígenas pesam pouco no aspecto quantitativo –..] à disposição determinada pela natureza. dando uma visão unilateral do problema. a impossibilidade da aceitação. pouca profundidade – facilitando a evaporação e o tornando mais seco – e elevada temperatura do solo. Nele defendeu a utilização de regiões naturais. Entretanto. Em entrevista concedida em 1947. da repartição do país em áreas alimentares.

aproximadamente. quanto por se opor à concepção dominante e não atender às demandas oficiais.. tais semelhanças e tais contrastes que os problemas apresentam.. tanto pelo pouco interesse em expor este drama nos livros didáticos. (GUIMARÃES. embora não devesse demarcar a maioria das regiões com base. p. 1941.. Baseada. num dado momento. sob a imposição da situação climática. inclusive de diferentes épocas.” (GUIMARÃES. 321) Sua proposta era a de dividir. é a que foi proposta pelo Professor Delgado de Carvalho e adotada nos programas do ensino secundário [. p..] . Afirmou ele: É clássica. No período predominou a orientação de se dividir o território em regiões naturais. 1941. decorrem dos fatos geográficos. nos limites das unidades políticas – o que só não o fez com o Nordeste Açucareiro – pois a finalidade era outra. permite um melhor estudo da situação dum país. Uma divisão baseada nas ‘regiões humanas’. problemas esses completamente diferentes dos que ocorrem na Amazônia. em um único fator (alimentação).. no Brasil. existiam áreas de transição e áreas. para facilitar a comparação dos dados estatísticos. a relativa identidade de problemas que apresentam os Estados nordestinos. como o Vale do Jequitinhonha . A repartição em regiões naturais era tida como mais estável. praticamente. referente aos fatos econômicos. para se ter u’a melhor idéia do conjunto. pois muitas apresentavam problemas administrativos semelhantes. “[. [. p. O que Josué de Castro propôs não tinha condições de ser adotado.. Foi correta a proposta feita.. 368). pela comparação dos dados estatísticos referentes a diversas épocas. 1941.] de acordo com os fatos da Geografia Física. em particular. em uma clara demonstração do significado do termo na época. Uma divisão baseada nas ‘regiões naturais’ tem a grande vantagem da estabilidade. de se utilizar uma única divisão para fins de análise geográfica e fins administrativos e pedagógicos.. 318) Falava-se em fato geográfico como sinônimo de fato natural ou em região natural ou geográfica. (GUIMARÃES. Após definir região natural. duradoura. Propôs uma divisão em regiões naturais para fins administrativos com base nas unidades políticas. a divisão se caracterizaria pela instabilidade se o problema fosse atacado. quando for dada maior importância à comparação no espaço. 368/369) A proposta pelo autor de Geografia da fome era fundamental para estudar o problema em questão e o ideal era que a situação que a provocara se transformasse e eliminasse a própria divisão proposta.]” (Ibidem. e. com base em um conjunto de fenômenos significativos. concluiu que a melhor. estabelecer o método de sua caracterização e analisar diversas propostas de divisão territorial. de umas partes com as outras. permitindo um melhor estudo da evolução dum país através do tempo.9 que nela se observem. p. surgindo principalmente por imperativo do meio físico.

o qual nos é demonstrado. É por aí que reconhecemos a fome. em artigo. A geógrafa francesa Beajeu-Garnier citou-o. Em suma. em seu clássico livro. Citando várias vezes o “médicin et géographe” e sua obra Geografia da fome.” (Ibidem. “É no reconhecimento dos equilíbrios regionais que o geógrafo pode trazer aos responsáveis uma ajuda preciosa. . p. 195) A fome. no Nordeste. As diferenças locais prendem-se ao conjunto dos traços do complexo geográfico. A fome era um fenômeno universal com intensidade diferenciada de acordo com os países. 1995. Daí ser correta.] rompeu com as falsas fronteiras que o positivismo criara entre as várias áreas do conhecimento científico e tornou-se um grande geógrafo. a sobrecarga demográfica não era uma causa e sim um efeito. Mas. (SORRE. 1958. p. entre a Mata e o Sertão. 150 e 401). era quase que afirmar que a região histórica era semelhante à natural e. 1952. traços naturais e traços humanos. por exemplo. também não subestimou a importância dos obstáculos naturais e dos tipos de regimes de alimentação. na bibliografia e em dois momentos do texto (1974. pelo prof. o geógrafo vai ao coração da realidade. Eles lhes dá sentido pleno. continuou insistindo no interesse geográfico de Geopolítica da fome. já no prefácio. as regiões naturais para análises sociais ou históricas. O tratamento geográfico. do mesmo modo que propôs uma geografia das doenças infecciosas. p. p. também era um fenômeno com conexões mais distantes. um dos maiores geógrafos brasileiros dos anos 40 e 50. além de um fenômeno ecológico – “a manifestação de um desequilíbrio entre o grupo e seu meio físico social” –.” (ANDRADE. nem a Economia. o que não fazem a Sociologia. ele tinha avançado na rota “a que agora parecem ter chegado os geógrafos. Para Andrade. p. Se o pernambucano insistiu nas causas humanas do atraso. ele “[. com bastante exatidão. “um fait regional avec des implications universelles. Se devêssemos durar bastante. 230) Para este autor. 199) Em outro artigo (1958). porque encara o fenômeno no conjunto das condições do meio.115). Utilizar. “Lá onde o estatístico fornece uma proximidade.” Para Castro. a Terra poderia fazer viver em condições normais aqueles que comportava e mesmo uma quantidade maior. o quadro da fome no mundo tem suas modalidades geográficas.10 mineiro. 1991. disse que o método para estudar um fenômeno tão universal e multiforme era o geográfico. se coincidiam. p. que não se enquadravam na região nas quais foram colocadas.” (SORRE. nem a História. mas discordava dele afirmando. sem estabelecer os critérios.” Abramovay referiu-se a ele como médico.. 112). é o que fornece os esclarecimentos mais complexos sobre esse fenômeno. a divisão por ele feita. podiam dar margem a interpretações deterministas. há mais. Sorre (1952). donc géographique.. Elas constituem uma descrição do gênero de vida. geógrafo e antropólogo (ABRAMOVAY. afirmou que deveríamos olhar “a geografia da alimentação como um capítulo capital da geografia humana”. Josué de Castro.

p. 291-292). 16) As posições de Castro foram encontradas em um livro.11 que o mais grave de nossos problemas era a explosão demográfica e seus efeitos sobre a “[. 1974.” (SINGER. 1974. acrescentou outras e concluiu que “[. 96. O princípio norteador era o de que a fome era provocada pela tecnologia agrícola rudimentar dos países pobres. p.. era “[.. que defendia que. p.] as experiências científicas e a prática provam o acerto da concepção de Josué de Castro. 95.” (PACHECO. p.] necessidade urgente de proporcionar a todos os homens o direito de alimentar-se adequadamente. 136.. graças a estes fatores. 19) Singer não defendia que o crescimento demográfico fosse sempre benéfico para o desenvolvimento. de um médico que também era nacionalista. Também enalteceu a tese do economista brasileiro (nascido na Áustria) Paul Singer. 137 e 230) e o autor concordava com a maioria de suas posições. na substituição de importações (começando com as de bens de consumo) e que. A base deste Fez a ele uma homenagem póstuma no final do livro – que já estava no prelo quando ele faleceu (PACHECO. Demonstrava isto a famosa Revolução Verde. Foi realizada para.. de modo positivo..] se tornasse elemento decisivo nas tensões sociais existentes em muitos países. 9 .[.. principalmente quando nestas últimas existem interesses políticoeconômicos e não humanitários. mas que a avaliação de seu papel deveria “[. naquele momento. necessariamente. publicada em 1970.] Se reduzirmos nossa taxa de crescimento permaneceremos pobres durante muito mais tempo. o que resultava em baixa produtividade. 19).” (BEAJEU-GARNIER. 94. compreensível pelo fato de que seus principais efeitos negativos começarem a aparecer. 97). (ROSA. referências na obra de Josué de Castro. sobre a qual inexistiam.. Somava-se a isso o fato de que a indústria química e de insumos apresentava uma capacidade ociosa considerável e tinha interesse em abrir novas oportunidades de negócios. 235) A simples constatação de um fato não conduz.. [. publicado em 19749. p. p. através de meios técnicos avançados..” (Ibidem.]” (Ibidem... praticamente. 1970.. 1998. diminuir drasticamente a fome no mundo. trabalhar e viver uma vida decente. inclusive pelo temor de que ela [. 98. a soluções adequadas. A solução. seria a introdução de técnicas de produção e de métodos de trabalho agrícola dos EUA. 13) Transcreveu as experiências com ratos citadas em Geopolítica da fome. na década de 1970. 1974.. p. o desenvolvimento necessitava se basear principalmente no mercado interno.] ser feita à luz das condições específicas em que cada país se encontra. 97. o que poderia ampliar o número de nações sob o regime comunista. com maior destaque.] o aumento da população é fator de desenvolvimento em países como o nosso. em diversas páginas (p. antineomalthusiano. de grande extensão e subdesenvolvido. Josué de Castro foi citado. portanto. antiimperialista e que defendia que “[.... [..] bem possível que o crescimento populacional constitua antes um fator positivo que um óbice ao processo.. Concordava também com várias de suas propostas políticas e encerrou o livro com uma homenagem póstuma. em determinados casos.]. que possuíam uma grande produção.

êxodo rural e inchação urbana 10. as sementes eram bem menos resistentes a pragas.. se alguém for procurar. por não possuírem condições genéticas para enfrentar estes inimigos. desmatamento. 10 . uma diminuição de sua variedade e uma redução das proteínas disponíveis à população. produzidas em laboratório (VAR – Variedades de Alto Rendimento – ou de VAP – atividades agrícolas..12 processo foi a introdução de sementes selecionadas. Variedades de Alta Produtividade).] nos países subdesenvolvidos. ainda que haja uma adequação calórica do regime alimentar. até hoje. a produtividade do solo e a do trabalho aumentariam. No entanto. de meios financeiros. chegará à conclusão de que ninguém morre de fome. Outra consequência importante foi o fato de a Revolução Verde ter provocado um aumento da produção de cereais e uma diminuição da de leguminosas.. através dos atestados de óbito. degradação pedológica e hídrica. Também os estudos de Geografia Médica. 29) Houve. “[. transformando as causas em consequências de uma alimentação deficiente. Se fossem ouvidos certos conselhos de Josué de Castro. insetos ou catástrofes naturais. 1991. perda de conhecimentos acumulados pelos agricultores tradicionais etc. pelo poder público. fertilizantes e venenos químicos. a pessoa estará subalimentada se lhe faltarem os alimentos protetores (proteínas. aproximadamente.” (ABRAMOVAY. vitaminas e sais minerais).. no período. eliminação de insetos benéficos. desde que “[. Onde ela foi realizada. intensificação das pragas já existentes e desenvolvimento de novas. outra. Permitiu a inversão das considerações das causae mortis. a piora das condições de vida das massas rurais pois estas modificações só foram possíveis através da colocação. menosprezando os elementos e os processos naturais que estavam envolvidos nas Outras consequências: erosão genética (diminuição ou extinção de variedades vegetais). com estas sementes. que possuem duas a três vezes mais proteínas que os cereais. Entretanto. ampliando a dependência externa.” (ROSA. Sendo assim. e estes chegaram. Demonstrou que. os resultados relativos ao aumento da produção foram grandes. portanto.] façam parte de um pacote tecnológico que inclui máquinas agrícolas. p. quem morre de fome ou de subnutrição. p. às mãos dos grandes proprietários. um aumento da produção de alimentos. 1998. 79) Consequência disto foi a necessidade de importação de tecnologia e de matérias-primas. diversos problemas poderiam ter sido evitados. metade das necessidades de proteínas eram supridas pelo consumo de leguminosas. em sua grande maioria. o que provocou concentração fundiária – devido falência dos pequenos produtores –. multiplicando a produção. poderiam ser muito úteis a certos grupos para operacionalizar o processo de internacionalização do aparelho reprodutivo. o que é aceito até hoje.

principalmente tropical. 1988). salário mínimo. energia nuclear.. dos países da periferia.] qualquer adolescente da França e do Canadá deve ter tido a oportunidade de ler alguns de seus escritos. as doenças. com a renda. ser . Entretanto. uma vez que seus textos fazem parte do currículo das escolas de 1o e 2o graus desses países. (SOBRAL. 1988. O fato de. merenda escolar. inclusive para Medicina. poluição. propor soluções que desagradavam as elites políticas e econômicas. Óbitos por avitaminoses. as últimas gerações desconheciam a figura e a obra dele. endêmicas ou epidêmicas. reforma agrária. exercidas e/ou estudadas por Josué de Castro. A relação entre as causas da mortalidade. foram temas e atividades. as doenças que repugnam os estrangeiros sejam mais específicas. estão as seguintes:  Incomodou muitas pessoas. “[. os defensores do feudo controlador da definição e do acesso acadêmico dos conhecimentos. as elites econômicas evitaram incentivar a lembrança de intelectuais que as criticaram e propuseram medidas para alterar o status quo. ela foi de alta significância no período em que viveu. em 1983. 85) Apesar de que. e por permanecer até o fim lutando contra as causas da fome.  A defesa do território da geografia tradicional por parte dos detentores dos critérios do que era ou não esta ciência. No próprio Nordeste. eram muito temidas pelas populações dos países do centro e poderiam desestimular ou inibir a vinda de funcionários graduados e suas famílias para essas regiões. guerra. Sociologia e Geografia.. Entretanto. por apontar causas estruturais da fome. desigualdade social. Entre algumas hipóteses que se pode levantar para pensar sobre este fato. Considerações Finais Superpopulação. segundo PIRES e SIMÕES (1992.” Quais seriam as razões? Uma delas seria a de que sua obra não foi significativa. 09). eram claras.13 Afinal. ou então. escritor de sucesso. A elevada mortalidade infantil possuía como uma de suas principais causas as doenças diarréicas. as causas das mortes na cidade de São Paulo. em alguns momentos históricos. o que justificaria a falta de lembrança. nos locais com menor renda. e a própria mortalidade infantil. comprovaram conceitos ou situações demonstrados por Castro. Em contrapartida. entre várias. e aumentava a mortalidade infantil à medida que se avançava para a periferia. presidência de órgãos públicos brasileiros ligados à alimentação e da FAO. p. p. atualmente. anemias e outras deficiências nutricionais também ocorriam na periferia. desarmamento. como vimos. em áreas encortiçadas (SOBRAL. fome.

 Após 1964.  Havia um desapreço dos brasileiros por sua memória. a censura e os meios universitários cuidaram de escondê-lo. de levar o país à barbárie. música). Não se pregava mais o branqueamento nos livros e nas salas de aula. era a publicidade. ao eleger os seus estereótipos de beleza. Muitos docentes ainda partiam do princípio de que deveriam trabalhar com o que era considerado verdade no momento. Uma possibilidade foi o fato de que. Sociologia. desvalorizaram nos currículos universitários a história da própria ciência no Brasil e/ou não conseguiram trabalhar personalidades multifacetadas. o país era uma das dez maiores economias do mundo. desde o século XIX. poderia explicar a exclusão dos que nela não se encaixavam. tênis.  A repercussão de suas idéias. descaso decorrente de seu complexo de inferioridade – que os faziam valorizar mais o que é estrangeiro –. No início da década seguinte. mas a questão da exclusão social permanecia em níveis semelhantes. na segunda metade da década de 1950. através do surgimento. As imagens criadas para um novo Brasil. não só ofuscaram obras que realçavam nossas mazelas como deveriam ser ignoradas. basquete. que as dificultou de avançar mais rapidamente. de seu baixo nível de escolaridade e do fato de estes assuntos e estas discussões não terem sido trabalhados em salas de aula. Medicina. aliás. por deficiência da formação dos professores. em parte. Décadas depois. Geografia e outras. discutir afirmações adversas era mais útil do que a imposição de verdades. por darem uma imagem negativa de um país que alçava vôos em direção a um belo futuro. quem se encarregava disso. Os marginalizados continuavam os mesmos (negros e mestiços) que eram acusados. .14 suficiente uma geografia descritiva e estatística. concurso de misse. quando se tornou mais famoso. pois seus cursos se caracterizavam pela especialização restritiva e empobrecedora. não foi do tamanho merecido. agora. no processo educacional. das influências e das análises a respeito das Ligas Camponesas. esquecendo-se de que. de sua luta em prol de uma reforma agrária. a própria situação promoveu uma presença maior.  As ciências no Brasil não estudavam de modo adequado o passado que as construiu e preferiam trabalhar com o paradigma dominante. a euforia provocada pelo nacional-desenvolvimentismo tenha dificultado. mas localizada mais no Nordeste. de sucesso em diversas áreas (futebol. fato. boxe.

Foi sempre alguns deles? Não. O que é fome. Primeiros Passos. Intelectuais conservadores de esquerda o segregavam por não ter sido marxista. parece um termo restritivo. o fim da própria ciência.  Intelectuais conservadores de direita o omitiam porque não queriam realçar figuras que propuseram mudanças no sistema que defendiam. Especialista. 1998. acaba por se tornar um elogio ao autor. tinha-se dificuldade em trabalhar pessoas das quais se discordava ou que não se constituíam em modismos de um determinado período.Seção São Paulo. é alguém que foi importante para a construção da ciência e de um mundo melhor. para impedir a estagnação. impasses e desafios sócioespaciais. São Paulo: AGB . muitas vezes. ______. principalmente. AGB . o mesmo que gerava. e ampl. Panorama geográfico do Brasil. Referências Bibliográficas ABRAMOVAY. a morte da indagação. São Paulo: Moderna. em geral. por não fazer da revolução o meio de mudança e. aplicado. a pessoas que conhecem bem determinado assunto. ed. Foi demógrafo? Várias vezes. romper dogmatismos. . Melhem. São Paulo: Brasiliense. 1949-2001. 1991(c. sim. A dúvida referente ao fato de ele ter sido geógrafo ou demógrafo ou sociólogo ou nutrólogo. segundo ele. Um especialista em determinado tema que se tem a dificuldade de classificar. Dissolver os limites das especializações – aqui tomadas no sentido positivista –. 01-77. ns. ed. mas pouco de sua história e de seu significado para as ciências humanas em sua totalidade. Um grande cientista não pertence somente a um segmento científico. ao mesmo tempo em que conseguiam grandes avanços em outras áreas. rev.Associação de Geógrafos Brasileiros. Boletim Paulista de Geografia. 2a.15  Porque ele culpava também a própria ciência e suas técnicas. 3a ed. a miséria e a pobreza. reform. 102) ADAS. Nos meios acadêmicos. Foi Josué de Castro um geógrafo? Muitas vezes. por ele ter buscado soluções através de modificações no interior do próprio sistema capitalista. 9a. muitas vezes. 1985. Panorama geográfico do Brasil: contradições. constituem caminhos para novas elaborações. em razão de servirem mais aos dominadores e por camuflarem seus fracassos na obtenção de melhores condições de vida para as pessoas. São Paulo: Moderna. inclusive a bélica. Não ser classificado como geógrafo em seu tempo pode significar estar além do segmento dominante e ser o fornecedor do instrumento para superá-lo. Ricardo. pode ser um fato positivo.

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