Gestão de Riscos na Indústria de Petróleo e Gás

fNa esfera profissional estudamos riscos de várias naturezas – para fins de seguro, para aplicações financeiras, no desenvolvimento de software, etc.. No caso do presente artigo vamos nos dedicar aos riscos de SMS – saúde, meio ambiente e segurança ocupacional, abrangendo as perdas patrimoniais, que também caracterizam um acidente de SMS. Não existe uma definição única para risco, universalmente aceita, mas podemos dizer que o risco é a combinação entre a probabilidade de ocorrência de um evento indesejado e a magnitude da(s) conseqüência(s) desse evento. Neste caso, estamos associando risco a algo ruim, sempre, como nos interessa profissionalmente. Concluímos, então, que para mensurar um risco precisamos considerar esses dois fatores: a probabilidade de ocorrência e os efeitos dessa ocorrência. Quando o risco se manifesta, ele deixa de ser uma probabilidade e passa a ser um acidente e, nesse caso, teremos de investigar as causas do acidente, saindo da esfera do risco – probabilidade - para o caso real indesejável. Perigo, outra definição importante, é o potencial de uma situação provocar danos a pessoas, ao meio ambiente, a instalações e equipamentos ou a uma combinação destes. Pode-se dizer que o perigo “é a fonte de dano potencial”. Faz-se muita confusão entre esses dois conceitos – perigo e risco. É bom lembrar que todo o trabalho de análise e avaliação de riscos começa com a identificação de perigos e dos riscos a eles associados. São conceitos distintos, mas complementares. Não existe atividade humana que não possa ser associada a algum perigo e risco, mas na indústria de petróleo e gás essa associação é maior, mais imediata, mais visível. Isso faz com que a avaliação de riscos esteja presente em todas as atividades dessa indústria. A diretriz 3, Gestão de SMS – Avaliação de Riscos, da Petrobras, diz: “Riscos inerentes às atividades da empresa devem ser identificados, avaliados e gerenciados, de modo a evitar a ocorrência de acidentes e/ou assegurar a minimização de seus efeitos”. Um dos requisitos dessa diretriz fala da “incorporação de processos de avaliação de riscos a todas as fases dos empreendimentos e produtos ... “. Enfatizando: todas as fases. Para que os processos de avaliação de riscos sejam incorporados a todas as fases do empreendimento e do produto se faz necessário um sistema de gestão de riscos, capaz de integrar todos os seus subprocessos (desde a identificação dos perigos até o tratamento e monitoramento dos riscos). Esse sistema também deverá garantir que tais processos e subprocessos sejam executados de forma sistemática, ou seja, mediante procedimentos estabelecidos, revisados e continuamente melhorados. É a mesma abordagem dos processos da qualidade, de SMS e de responsabilidade social. As empresas criam sistemas de gestão para incorporar esses temas a todas as suas atividades. A Petrobras, tomando-a novamente como exemplo, estabeleceu em normas próprias um modelo de sistema de gestão de riscos, a ser seguido em todas as suas unidades. Outro modelo é proposto pela norma AS/NZS 4360, elaborada pelos organismos normativos da Austrália e da Nova Zelândia (um de seus autores, Kevin Knight, atual Chairman & Convenor do grupo internacional da ISO para o desenvolvimento de padrões para Gestão de Riscos, proferiu uma palestra em Angra dos Reis/RJ neste mês de maio). Esse modelo é composto dos seguintes elementos: a) Comunicação e consulta: trata do envolvimento das partes interessadas internas e externas em cada etapa pertinente do processo de gestão de riscos. b) Estabelecimento dos contextos: aborda o conhecimento do ambiente externo no qual a organização opera, a compreensão e análise da organização, o estabelecimento de objetivos, metas, estratégias, escopo e parâmetros da atividade ou da parte da organização onde se dará a gestão de riscos, o estabelecimento de critérios em relação aos quais os riscos serão avaliados e a definição de uma estrutura lógica (resultante da subdivisão de atividades, processos, projetos e mudanças), para garantir que os riscos significativos não serão esquecidos ou negligenciados. Nilson Gonçalves Diretor da Solução Consultoria e Treinamento Ltda., Professor do IBEC/UFF e da Universidade Estácio de Sá

Gestão de Riscos na Indústria de Petróleo e Gás
c) Identificação de riscos: fase em que se vai estudar profundamente os eventos que podem interferir na consecução dos objetivos, identificando-os e determinando onde, quando, como e por que podem ocorrer. d) Análise de riscos: é a etapa na qual se vão identificar a probabilidade e as conseqüências de um evento indesejável, à luz dos controles existentes, determinando-se, qualitativa ou quantitativamente, um nível de risco. Dessa forma, numa análise qualitativa o nível de risco vai ser expresso como alto, médio, baixo ou não-tolerável, moderado e tolerável. Já na análise quantitativa este nível vai ser expresso por um número, uma percentagem. e) Avaliação de riscos: é o momento no qual vamos comparar o nível determinado na fase anterior com os critérios estabelecidos na fase de determinação de contextos, tomando-se decisões sobre a extensão e a natureza dos tratamentos necessários e sobre as prioridades. Ou seja, nessa fase, se vai decidir sobre as condições de viabilidade de se conviver com o risco, que pode, ainda, ser inviável em determinadas condições e viável mediante o tratamento desse risco, de forma a reduzir seu nível a um nível tolerável. f) Tratamento de riscos: é a etapa de identificação, análise e avaliação das opções para tratamento dos riscos, envolvendo a preparação e implementação de planos de tratamento. Isso se traduz pela necessidade de determinar e de implantar medidas para a redução do nível do risco. Tais medidas podem envolver novos equipamentos, sistemas de segurança, mudanças nos processos, treinamento de pessoal ou a combinação delas. g) Monitoramento e análise crítica: trata da avaliação permanente dos riscos e da eficácia das medidas de tratamento, de forma a garantir a melhoria contínua da gestão de riscos na empresa. Não podemos deixar de reconhecer que se trata de um assunto extenso, complexo e de conhecimento geral na indústria de petróleo e gás. Ao estudar a questão de riscos nessa indústria com mais profundidade, podemos facilmente constatar que: - os acidentes ocorrem, geralmente, por um conjunto de fatores que se sobrepõem e não por fatores isolados; - existe a necessidade de formação de uma cultura de riscos, de forma que toda a força de trabalho esteja consciente de que evitar acidentes é tarefa de cada um e de todos; - apesar do amplo reconhecimento da necessidade de uma gestão de riscos eficaz, seus processos ainda são pouco sistematizados e falta, em geral, uma visão sistêmica do assunto; - boas análises de risco nas fases de estudo de viabilidade e projeto facilitam muito a gestão de riscos nas fases seguintes, construção/montagem, comissionamento, operação e descomissionamento. Mas, cabe registrar também que podemos observar progressos irrefutáveis. Até bem pouco tempo eram comuns atividades de risco em plataformas, que hoje são expressamente proibidas, como pescar, para dar um exemplo ameno. A Petrobras tem cuidado muito desse tema, possui uma gama de documentos normativos sobre gestão, avaliação e tratamento de riscos e tem investido fortemente na formação de seu pessoal. As empresas contratadas precisam despertar para a necessidade de se posicionarem rapidamente nos mesmos níveis de excelência de sua contratante. Somente criando uma linguagem comum, uma cultura e ações preventivas eficazes é que teremos no Brasil uma indústria de petróleo e gás, reconhecida não apenas pela sua tecnologia de ponta (o que já é muito), mas também pela segurança de suas operações. Acidente é atraso, é prejuízo. Chega de ser do terceiro mundo. Nilson Gonçalves é Diretor da Solução Consultoria & Treinamento Ltda. e Professor de cursos de graduação e pós-graduação.

Nilson Gonçalves Diretor da Solução Consultoria e Treinamento Ltda., Professor do IBEC/UFF e da Universidade Estácio de Sá

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