Introdução

o livro que o leitor tem em mãos é produto das reflexões de um conjunto de autores que se dedica à pesquisa urbana no Brasil e que, há três anos, no rio de Janeiro, decidiu se debruçar sobre o tema da “produção do espaço urbano”. Foi o marco inaugural de um período de debates realizados no âmbito do Grupo de Estudos Urbanos (geu), com o objetivo de colaborar para pensar o mundo contemporâneo a partir do espaço e da Geografia. nascido em 2001, nos bastidores do encontro da Associação nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege) – realizado no departamento de Geografia da universidade de São Paulo (usp) –, o geu tem por finalidade o aprofundamento do debate sobre o fenômeno urbano brasileiro como momento necessário à construção da compreensão da realidade, em seu movimento, como possibilidade de exercício constitutivo de uma Geografia urbana. o grupo é composto por oito geógrafos (Ana Fani Alessandri Carlos, Jan Bitoun, Marcelo Lopes de Souza, Maria Encarnação Beltrão Sposito, Mauricio Abreu, Pedro de Almeida Vasconcelos, roberto Lobato Corrêa e Silvana Maria Pintaudi) que, durante as duas últimas décadas, têm estado envolvidos com a realização dos Simpósios nacionais de Geografia urbana (Simpurbs), almejando colaborar para torná-los espaços de um debate denso sobre o modo como a Geografia pode colaborar para compreender a realidade brasileira a partir do recorte urbano. Assim, a proposta de criação desse grupo de estudos surgiu da necessidade de encontrar formas, sempre renovadas, de realizar o debate acadêmico consistente, cioso do “tempo lento” da produção do conhecimento científico, o qual, em sua provisoriedade, nos propõe, sempre, novos desafios interpretativos, em função do movimento

equivaleria a negar a própria história e o sentido da produção do conhecimento. o desenvolvimento do pensamento geográfico envolve. por sua vez. o saber adquirido. o que se vê. porém decidido “território de resistência”. como possibilidade de entendimento do que nos parece indecifrável. Pensamos que o debate acadêmico reside na possibilidade de realização da crítica sem acusações ou “rotulações” simplistas e. o geu vem buscando se afirmar como um modesto. em meio a exigências e pressões burocratizantes. indissociável da práxis!). do ponto de vista da teoria. a construção do conhecimento deve se basear numa atitude questionadora diante do mundo em que vivemos. A banalização do conhecimento como imposição do “tempo rápido” tem produzido um novo comportamento acadêmico esterilizante. decorre daí o preconceito em relação à reflexão teórica (como se a boa teoria não fosse. a “rotulação” fácil e apressada ganha terreno. com muita dificuldade têm-se mantido. As atividades do grupo. sem troca e sem debate não há produção de conhecimento. como momento de sua própria superação. de abstração). é evidente que a imposição de um caminho único. fundamentalmente. coletivamente.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O inexorável da realidade. a sua crítica. cada vez mais. é também uma crescente intolerância para com o “tempo lento” da produção do conhecimento. o qual constitui um desvirtuamento da nossa imprescindível relação com o empírico. justamente. em cuja esteira o pensamento abstrato passa a ser visto de maneira puramente pejorativa (como se pudesse existir ciência ou filosofia sem diferentes graus de generalização e de dialética entre o geral e o particular – vale dizer. E o geu pareceu-nos o caminho possível em direção à tentativa de construir. como perspectiva de um devir que contenha o novo. do debate e da crítica. que sabota a possibilidade de uma elucidação crítica da realidade. na direção contrária à tendência produtivista atual – que satura a universidade. apresentadas em eventos científicos. na atual quadra da nossa história acadêmica. Mas não se trata apenas de empirismo. bem como o questionamento da própria disciplina. Coloca-se em questão. presente e futuro). do método e da política. constantemente. À luz disso. em detrimento da construção de argumentos capazes de questionar raciocínios e de problematizar o já estabelecido. desconfiando de nossas próprias conclusões. questões essas que mereciam e merecem ser detalhadas e aprofundadas por meio da reflexão. Como contratendência. com isso. exercidas pelas próprias agências de fomento. e não raro também oportunista. que terminam por enquadrar os pesquisadores –. ora. bem como de superação do presente. visando à preservação da academia como um lugar da reflexão e do debate diante |10| . Por isso mesmo. ao longo dos anos. a partir da análise geográfica. Havia e há questões que emergem dos resultados de nossas pesquisas. um modo de pensar e contribuir para o desvendamento da cidade e do urbano no Brasil (passado. sem intolerância e preconceitos – posturas que dificultam ou impedem o debate e qualquer possibilidade de troca frutífera.

com a ignorância em relação à história ou trajetória de um determinado tema ou debate. vive-se. com o produtivismo e suas implicações – ou seja. como tem acontecido no âmbito da exploração do trabalho de orientandos de graduação e pós-graduação). por isso e com isso. simplesmente. a qual. por exemplo. pode causar séria indigestão intelectual. vivemos. é tomada como sinônimo de algo distanciado da realidade (esquecendo-se que a teoria. dá-se fora de um contexto econômico e institucional mais amplo. com o eclipse do estudo sério e da pesquisa bem construída em favor de trabalhos “impressionistas”. na Geografia brasileira de nossos dias – e diferentemente. como já salientamos. desconsideram (até mesmo por puro e simples desconhecimento) tudo o que já foi publicado sobre tal ou qual assunto. no qual a produção acadêmica do passado não é bem digerida e a do presente vai sendo mastigada de maneira constrangedora. um reforço do empirismo. que não têm sido poucas. com a substituição paulatina da verdadeira criação intelectual pela produção apressada. o “fast food acadêmico” estimulado pelo produtivismo. também e sobremaneira na Geografia. em que o pesquisador é medido pela quantidade de informação que registra relativamente aos congressos de que participa. dialeticamente. entretanto. degradando a universidade à condição de uma usina produtora de “saber técnico/ tecnológico”. Essas estratégias. pelo contrário. nesses marcos. paulatinamente. sofrido de modo especialmente angustiante. da década de 1980 –.I N T RO D U Ç Ã O das estratégias de cooptação promovidas pelas instituições que reproduzem (e se beneficiam) da burocratização e da mercantilização dos processos de produção do saber acadêmico. A banalização (ou a negligência) de vários debates importantes anda de mãos dadas. a universidade vem. intervir criticamente sobre esta). cada vez mais definida nos limites estreitos da sociedade de consumo. um momento de crise teórica e real (social. Presa ao universo mercantil. e assim segue. um generalizado desinteresse pela atividade teórica. em que não é raro encontrar textos que. A Geografia tem. mal embasados empiricamente e fracamente fundamentados conceitual e teoricamente. nada disso. desse modo. de preferência imediatamente útil para o capital e o Estado. toda essa situação é uma das marcas do empobrecimento de nossa sociedade. política e |11| . sob a camuflagem de um discurso da ação voltada para o “bem comum”. obscurecida a necessidade de desvendar as contradições do mundo contemporâneo. muitas vezes. definitivamente. ao número de artigos que produz (não importa se assinando trabalhos que nem sequer redigiu. Experimenta-se. deve derivar do contato com a realidade e nos permitir. produzindo um saber que serve para municiar estratégias políticas e empresariais. o qual vai moldando e (de)formando a nossa cultura acadêmica. Paralelamente a isso. vêm. ao mesmo tempo em que se cria a aparência de um compromisso do Estado e dos ambientes empresariais com a sociedade como um todo. e de maneira entrelaçada com isso. cada vez mais.

um pouco de história. foram Amélia Luisa damiani. Angelo Serpa. podemos afirmar que este livro se insere numa perspectiva bastante ampla. alcançando um clima de debate franco e. um workshop em que debatemos o tema da “diferenciação sócio-espacial”. cerca de 15 pesquisadores discutiram questões de natureza teórico-metodológica. um encontro de organização. esse. Leila Christina dias. com a finalidade de preparar uma agenda de trabalho para os anos |12| . Marcelo Lopes de Souza.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O econômica). Eustógio dantas. nelba Azevedo Penna. como já se adiantou no primeiro parágrafo desta Introdução. no workshop do geu que se realizou na universidade Federal do rio de Janeiro em setembro de 2007. constituído na sustentação do individualismo exacerbado e agonístico. revistos e publicados no número 6 da revista Cidades. José Borzachiello da Silva. os quais destacaremos em seguida. na universidade. dessas ou de algumas dessas reuniões participaram vários colegas. envolvendo os integrantes do geu e alguns colegas convidados. há uma série de preocupações e interesses temáticos. além dos integrantes do geu. Arlete Moysés rodrigues e José Borzachiello da Silva) haviam preparado. o grupo reuniu-se periodicamente. o geu realizou. denso e aprofundado – o que cada vez menos é possível no âmbito de um evento de grande porte. tais textos foram. e que contextualizam a opção pelo tema do presente livro. colaboraram com textos publicados neste livro: Arlete Moysés rodrigues. essa crise revela a constituição de uma nova (anti)ética. em outubro de 2006. amiúde. tais colegas. do que foi exposto até aqui. posteriormente. que contribuíram enormemente para enriquecer o debate. o tema que orienta a elaboração do presente livro foi decidido. Paulo Cesar da Costa Gomes e Sergio Manuel Merêncio Martins – aos quais somam-se outros que. em 2007. Em sua existência até agora. porém. durante um dia. o desejo coletivo de promover reuniões periódicas. Alguns participantes desse encontro (Ana Fani Alessandri Carlos. Foi. objetivando debater as questões que embasam a pesquisa urbana. Foi uma experiência gratificante. Consolidou-se. previamente. na universidade de Brasília (unB). Agora. nesse momento. textos para orientar os debates. Glória da Anunciação Alves e Márcio Piñon de oliveira. no contexto da produção de um novo ser-no-mundo. compartilhados pelos três organizadores e igualmente por outros participantes dos eventos promovidos pelo geu. que é aquela da reunião e do debate de um grupo de geógrafos brasileiros com objetivos e posturas que vão na contramão do movimento hegemônico da universidade brasileira. roberto Lobato Corrêa. além de participarem das discussões. Para além disso.

a “reprodução do espaço”. julho de 2008). pode-se questionar o papel da intervenção do Estado. a produção do espaço se dê sob o signo de uma sobrevalorização do econômico no próprio imaginário. o presente livro tem em sua origem nesses debates que. realizados em São Paulo (usp. que sugere a relevância (ou mesmo a urgência) de se compreender criticamente o poder e o simbólico na contemporaneidade. tomou o mundo. apesar de todo o canto de sereia que empurra as universidades mais e mais para a burocratização (e. essa sequência de reuniões do geu (culminando com a elaboração de um livro). da extensão das periferias. e esse é o conteúdo do processo de globalização. em São Paulo (usp. é fundamental resgatar a importância e as especificidades do poder e do simbólico. em tudo e por tudo. da construção de um novo espaço. os debates substantivos sobre o tema foram travados durante os três workshops seguintes. no entanto. de que é possível recusá-la. os quais foram. este livro. envolve o desejo de traduzir nossas ideias na perspectiva de explicitar os problemas e a complexidade das cidades e da urbanização. repousa no fato de que o desempenho capitalista se expandiu. mais ainda. o entendimento de “produção” não se restringe a um sentido estreito. naquela ocasião. cremos que se trata. igualmente. com seus interesses geralmente muito contraditórios com os interesses dos grupos |13| . Muito embora. Como se verá pelos capítulos. consequentemente. bem como o fio condutor que nos possibilita compreender em que termos se efetua a redefinição da cidade e da urbanização. na esteira da expansão do capitalismo. nos marcos do capitalismo. março de 2010). elaborado a partir de um recorte específico de sua escolha e com o qual gostariam de trabalhar. incompatível com o espírito científico – e. ademais. cada vez mais é convertida em mercadoria.I N T RO D U Ç Ã O seguintes. ela própria. Ao se realizar. nessa direção. o resultado de um longo processo de debates e amadurecimento coletivo já é um sinal de que. Isso não seria apenas uma insuportável presunção: seria uma postura tola e absurda. um depositário de qualquer “verdade objetiva” incontestável. de um exemplo de como as coisas podem ser feitas diferentemente. com o espírito crítico. escalas e desafios nortearia as atividades dos participantes da rede de pesquisadores. por meio de uma publicação conjunta. a partir de distintos pontos de vista. nenhum de nós se pretende um oráculo. para a superficialidade). enfim. E é precisamente o fato de. não raro. pela seriedade das contribuições aqui reunidas. A “produção” e. para além do desejo de simbolizar e consolidar. atualmente. no momento em que a “cultura” (inclusive na sua expressão espacial!). novamente. desde que vinculado ao tema geral. de sua explosão. Presidente Prudente (unesp. que nos três anos subsequentes o tema geral A produção do espaço urbano: agentes e processos. É um exemplo. o prazer que sentimos na realização deles e na companhia uns dos outros. não aceitamos a lógica do “fast food acadêmico”. o simples fato de ser. a verdadeira alteridade ser destruída ou acuada e a verdadeira criação ser rebaixada a uma produção serial de mercadorias. decidiu-se. encorajados a preparar um pequeno texto. econômico-material ou economicista. junho de 2009) e.

manter a perspectiva histórica e processual para pensar o espaço (a produção do espaço) e o constante “refazimento” da Geografia e das geografias. suas escalas e seus desafios – tendo em mente essas palavras de advertência. e não pela simples consulta. usualmente travestida de “participação popular”. que a impele na direção exclusiva da interpretação do presente dos lugares. que se realiza em espaços-tempos delimitados reais e concretos. pela intervenção dos interessados. em 1998. do Laboratório de Gestão do território (Laget) da ufrj. com a permissão do autor. As práticas de resistência precisam ser pensadas com o recurso à construção de um olhar teórico visceral e dialeticamente articulado. portanto. isso sim. o primeiro capítulo. com a práxis. de justificativa das ações do Estado em direção à criação dos fundamentos da reprodução – quanto do ângulo da (re)produção da vida. Muito embora não tenha podido preparar um texto especificamente para ser debatido. “Sobre a memória das cidades” representa uma contribuição que se coaduna bastante bem com o espírito deste livro e. foi originalmente publicado no número 4 da revista Território. os capítulos aqui reunidos trazem e desenvolvem abordagens que se propõem a oferecer algum esclarecimento do tema. diante da complexidade da sociedade urbana. porque Mauricio Abreu. “Apegada a uma lei castradora. pode-se pressupor que a produção do espaço constitui um elemento central da problemática do mundo contemporâneo. Correspondem a onze olhares sobre a mesma temática. do próprio geu: resgatar a memória. decidimos republicá-lo. em larga medida. por consequência. ainda que não necessariamente (ou nem sempre) divergentes. diversidade que emana tanto do fato de que seus recortes analíticos são múltiplos quanto da circunstância de que as perspectivas teórico-conceituais adotadas pelos autores são diversas. É mais que relevante. precisamente. escreve o autor. da autoria de Mauricio Abreu. refletir sobre a produção do espaço urbano – seus agentes e seus processos. como luta pelo “direito à cidade”. além de integrar o geu. que entretanto têm servido muito pouco para resgatar a sua memória”.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O humanos majoritários. em um movimento que revele o sentido e o fundamento dos conflitos que se estabelecem hoje. mas passa e tem de passar. em torno do espaço. e não no caminho da interpretação dos lugares. tanto do ponto de vista da realização do processo de acumulação capitalista – e. participou de vários encontros do grupo. a Geografia vem produzindo já há algum tempo valiosas análises sobre as cidades. |14| . A construção de um projeto para a cidade – para a sociedade! – não pode nascer das pranchetas.

Para o autor. no plano do debate conceitual. ao se produzir. oferecendo uma contribuição sobre esta temática. com papéis não rigidamente definidos. se queremos compreender a complexidade da atuação dos inúmeros agentes na transformação das cidades.I N T RO D U Ç Ã O Roberto Lobato Corrêa realiza. nessa perspectiva. têm uma participação fundamental na conformação das cidades. Esse raciocínio sugere a necessidade de considerar a reprodução da sociedade. portadores de interesses. a aproximação dos conceitos de lugar e centralidade baseia-se em conteúdos de ordem qualitativa e simbólica. os agentes não capitalistas. o que relativizaria a centralidade explicativa do que chamou de “as grandes categorias”. particularmente nas cidades dos países periféricos. sobretudo. no âmbito da produção do conhecimento geográfico. o faz num espaço determinado. capital financeiro etc. nestas. Para ela. realizando-se através da produção/reprodução do espaço. lançando também as bases para o aprimoramento de uma abordagem qualitativa. sem dúvida. o que pode atribuir. escala e produção do espaço. A segunda diz respeito à escala enquanto dimensão espacial na qual a ação humana. como capital imobiliário. um esforço bem-sucedido. afirma o autor. momento em que a espacialidade pode ser tratada como imanente à existência constitutiva da sociedade. visando a estabelecer algumas relações entre agentes sociais. Ana Fani Alessandri Carlos aborda. permitiria pensar a passagem do conceito de “organização do espaço” àquele de “produção do espaço” e. seja ela qual for. como os proprietários fundiários e. em sua totalidade. novos significados à análise dos lugares e de sua morfologia sócio-espacial nas metrópoles contemporâneas. no capítulo seguinte. apontar os fundamentos sociais da produção do espaço. no âmbito da constituição do pensamento geográfico brasileiro. em seu texto. ora são comuns. Angelo Serpa propõe uma reflexão de cunho teórico-conceitual em que aprofunda a discussão sobre os conceitos de lugar e centralidade. ela também produzindo um espaço que lhe é próprio. efetivamente se realiza. o autor desenvolve sua linha de raciocínio na perspectiva de aproximar lugar e centralidade. Subjacentes a esse esforço estão duas teses: a primeira considera a produção do espaço como decorrente da ação de agentes sociais concretos. capital e mesmo de suas subdivisões. Pedro de Almeida Vasconcelos focaliza os agentes da produção do espaço. |15| . contradições e práticas espaciais que ora são próprios a cada um. esse movimento abre a possibilidade de se refletir sobre as relações sociais em sua dimensão espacial. Parte da premissa de que esta articulação viabiliza a construção de novos parâmetros teórico-metodológicos para a compreensão dos fenômenos urbano e metropolitano. de caráter exploratório. como condição de sua existência e por meio dessa ação.. os invasores e ocupantes de terrenos. tal enfoque aponta para a ideia de que a sociedade. o movimento teórico que. apontando a insuficiência das grandes categorias analíticas utilizadas na Geografia urbana como capitalismo. Partindo de uma abordagem de caráter também bastante amplo para situar o tema.

no momento atual. como é tão comum na Geografia (e no planejamento urbano). opaco. como possibilidade de esclarecimento do processo de produção do espaço. “revitalização” e muitas outras.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O o capítulo de Glória da Anunciação Alves visa a discutir o conceito de mobilidade. constantemente. Maria Encarnação Beltrão Sposito. o espaço. poderia ser interpretado como tênue. simplesmente não admite ser adequadamente apreendida por meio de uma “visão de sobrevoo”. enquanto fragmentação socioespacial. à produção e consumo de espaços comerciais no atual momento histórico. antes produzido como “obra”. Ela procura desvendar como a produção se estabelece enquanto movimento articulado ao processo de circulação. tais como “favela”. especificamente. como se o nosso vocabulário técnico. em sociedades tão complexas como as que vivemos. o espaço que se constrói. como alerta o autor. porque pertencem a outro momento histórico – caso específico dos mercados públicos. aborda o tema a partir da reflexão sobre a diferenciação socioespacial. Silvana Maria Pintaudi afirma que. Essa complexidade. não demandasse maiores cautelas. que consiste em considerar as sociedades e seus espaços exclusiva ou predominantemente “do alto” e “à distância”. expressões que apontam a importância de compreendê-lo no movimento da urbanização que transforma. a partir da sua relação concreta com a cidade e a |16| . Márcio Piñon de Oliveira tem por objetivo desenvolver uma reflexão crítica sobre o conceito de cidadania. no próprio discurso científico. Fica patente a dificuldade de se enxergar a complexidade de interesses envolvida na disputa simbólica em torno de determinadas palavras. refere-se. controlado. é repetido infinitas vezes. de determinadas palavras. agora é “produto” e. em seu capítulo. As escalas geográficas são tomadas como referência e recurso analítico. notadamente daquelas que se apresentam carregadas de forte significado político e ideológico. muito frequentemente. estabelecendo os nexos capazes de nos levar a compreender o estabelecimento dos meios e das ações que envolvem o sentido da mobilidade como elemento fundamental na compreensão dos conteúdos da produção do espaço. Agimos. “ocupação”. que compõem a vida urbana e a cidade. por sua vez. o tratamento das formas de reestruturação urbana e das cidades é feito considerando-se a redefinição da centralidade urbana e a tendência de complexificação das formas de segmentação da sociedade e do espaço. aqui. Marcelo Lopes de Souza. chama a atenção para o fato de não refletirmos o suficiente sobre o que estamos dizendo ou querendo dizer quando nos utilizamos. para enfocar como diferenças e desigualdades são produzidas no período atual. Para a autora. o que em sua perspectiva analítica pressupõe entender o movimento de formas comerciais que se chocam com outras que não têm o mesmo movimento. tão profundamente articulado (e até quase amalgamado) com o vocabulário do senso comum. procurando distingui-la das desigualdades socioespaciais. alguns aspectos nos auxiliam a compreender a urbanização engendrada pelo capital. indicando um consumo induzido. nesta condição.

mostrando que os deslocamentos discursivos da produção e reprodução do espaço para o “consumo” e deste para o “meio ambiente” obscurecem as causas dos chamados problemas ambientais e as contradições expressas nas cidades e na vida urbana. chamando a atenção para a mudança da matriz discursiva sem alteração do paradigma dominante. na direção de uma Geografia crítica radical. é a de “socioespacial” (ou “sócio-espacial”) com aquelas outras duas palavras. o cidadão – aquele ser político genérico. nesse contexto. negligenciando-se outra possibilidade. a exemplo de palavras como “socioeconômico” e “sociopolítico”. cultural e econômica existente em cada espaço-tempo. conceitualmente relevante: a da comparação não necessariamente com “socioeconômico” e “sociopolítico”. entre revisores de língua portuguesa. Ela permitiria avançar para compreender a complexidade dos processos e as relações societárias (as alterações do mundo do trabalho. Por último. tem sido comum. voltado para si mesmo e seu interesse particular. “Socioespacial”. se acham dicionarizados. por razões teórico-conceituais. que se impõe como uma “condição continente” ao conteúdo político da cidadania e à organização social. também “socioespacial” deveria ser grafada sem hífen. Arlete Moysés Rodrigues enfatiza a importância de se considerar o meio ambiente na Geografia urbana. nas quais se mantém a noção de composição. juridicamente formal. e analisado com base num conjunto de dimensões que inclui a dos direitos (civis. com palavras como “austro-húngaro” e “dólico-louro”. qualifica o “econômico” e o “político”). uma breve nota sobre a grafia do termo “sócio-espacial”/“socioespacial”. simplesmente. com instrumentais analíticos adequados. o autor enfoca a categoria “território”.I N T RO D U Ç Ã O urbanização. de uso mais ou menos corrente fora de um âmbito técnico especializado. |17| . o mesmo não ocorre com “socioespacial” (ou “sócio-espacial”). chegando à dimensão do espaço. dependendo das circunstâncias. a financeirização da economia. mas também. geralmente feita pelos revisores. a acumulação flexível). recuperando o seu sentido original como nexo político-territorial ou geograficidade. Sua reflexão aponta para a necessidade de um novo arcabouço teórico-metodológico. deve ser considerada a possibilidade. segundo as quais. dissociado da comunidade – pode ser identificado na realidade concreta do mundo. em que se perdeu a noção de composição (o “socio”. ocorre que os vocábulos “socioeconômico” e “sociopolítico”. de dupla grafia. demarcando o nexo político-territorial da cidadania nas diferentes escalas de sua realização. Ao menos para alguns geógrafos – não há consenso a respeito –. uma interpretação estreita e automática das normas ortográficas em vigor quanto ao uso do hífen. políticos e sociais) e vai além deles. A comparação.

“sócioespacial” diria respeito às relações sociais e ao espaço. À luz disso. do jogo em si ao confronte entre torcidas organizadas. com isso diferenciando uma da outra duas perspectivas (complementares. mas preservando a individualidade de cada um). simultaneamente (levando em conta a articulação dialética de ambos no contexto da totalidade social. se referiria somente ao espaço social (por exemplo. Por essa razão.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O sem hífen. considerando-o do ângulo do resultado de sua produção em um determinado momento). ao passo que os processos e práticas ali concretizados. processos e práticas sócio-espaciais. a representação de um estádio de futebol. seria uma representação gráfica de uma estrutura socioespacial – por mais que. Ana Fani Alessandri Carlos Marcelo Lopes de Souza Maria Encarnação Beltrão Sposito |18| . na expectativa de que a escolha tenha sido feita com consciência das premissas e implicações envolvidas. seriam. só seria algo supérfluo se partíssemos do pressuposto de que a categoria espaço social engloba inteiramente ou se confunde completamente com a categoria relações sociais – o que corresponderia a um reducionismo assaz danoso. optou-se por se preservar a grafia escolhida pelo próprio autor de cada capítulo. e não excludentes). evidentemente. em sentido forte. por exemplo. distinguir entre as duas grafias. em contraste. por meio de uma planta. essa estrutura reflita e sirva como uma chave para interpretar determinadas relações sociais –.