Introdução

o livro que o leitor tem em mãos é produto das reflexões de um conjunto de autores que se dedica à pesquisa urbana no Brasil e que, há três anos, no rio de Janeiro, decidiu se debruçar sobre o tema da “produção do espaço urbano”. Foi o marco inaugural de um período de debates realizados no âmbito do Grupo de Estudos Urbanos (geu), com o objetivo de colaborar para pensar o mundo contemporâneo a partir do espaço e da Geografia. nascido em 2001, nos bastidores do encontro da Associação nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege) – realizado no departamento de Geografia da universidade de São Paulo (usp) –, o geu tem por finalidade o aprofundamento do debate sobre o fenômeno urbano brasileiro como momento necessário à construção da compreensão da realidade, em seu movimento, como possibilidade de exercício constitutivo de uma Geografia urbana. o grupo é composto por oito geógrafos (Ana Fani Alessandri Carlos, Jan Bitoun, Marcelo Lopes de Souza, Maria Encarnação Beltrão Sposito, Mauricio Abreu, Pedro de Almeida Vasconcelos, roberto Lobato Corrêa e Silvana Maria Pintaudi) que, durante as duas últimas décadas, têm estado envolvidos com a realização dos Simpósios nacionais de Geografia urbana (Simpurbs), almejando colaborar para torná-los espaços de um debate denso sobre o modo como a Geografia pode colaborar para compreender a realidade brasileira a partir do recorte urbano. Assim, a proposta de criação desse grupo de estudos surgiu da necessidade de encontrar formas, sempre renovadas, de realizar o debate acadêmico consistente, cioso do “tempo lento” da produção do conhecimento científico, o qual, em sua provisoriedade, nos propõe, sempre, novos desafios interpretativos, em função do movimento

apresentadas em eventos científicos. fundamentalmente. justamente. a construção do conhecimento deve se basear numa atitude questionadora diante do mundo em que vivemos. o qual constitui um desvirtuamento da nossa imprescindível relação com o empírico. coletivamente. Pensamos que o debate acadêmico reside na possibilidade de realização da crítica sem acusações ou “rotulações” simplistas e. cada vez mais. como possibilidade de entendimento do que nos parece indecifrável. em cuja esteira o pensamento abstrato passa a ser visto de maneira puramente pejorativa (como se pudesse existir ciência ou filosofia sem diferentes graus de generalização e de dialética entre o geral e o particular – vale dizer. o geu vem buscando se afirmar como um modesto. Coloca-se em questão. exercidas pelas próprias agências de fomento. Como contratendência. é também uma crescente intolerância para com o “tempo lento” da produção do conhecimento. com muita dificuldade têm-se mantido. o desenvolvimento do pensamento geográfico envolve. equivaleria a negar a própria história e o sentido da produção do conhecimento. À luz disso. que sabota a possibilidade de uma elucidação crítica da realidade. decorre daí o preconceito em relação à reflexão teórica (como se a boa teoria não fosse. presente e futuro). bem como de superação do presente. o que se vê. do ponto de vista da teoria. porém decidido “território de resistência”. na direção contrária à tendência produtivista atual – que satura a universidade. indissociável da práxis!). A banalização do conhecimento como imposição do “tempo rápido” tem produzido um novo comportamento acadêmico esterilizante. Havia e há questões que emergem dos resultados de nossas pesquisas. em detrimento da construção de argumentos capazes de questionar raciocínios e de problematizar o já estabelecido. por sua vez. em meio a exigências e pressões burocratizantes. a partir da análise geográfica. As atividades do grupo. um modo de pensar e contribuir para o desvendamento da cidade e do urbano no Brasil (passado. e não raro também oportunista. Mas não se trata apenas de empirismo. na atual quadra da nossa história acadêmica. constantemente. o saber adquirido. do debate e da crítica. desconfiando de nossas próprias conclusões. com isso. do método e da política. a sua crítica. ao longo dos anos. questões essas que mereciam e merecem ser detalhadas e aprofundadas por meio da reflexão. a “rotulação” fácil e apressada ganha terreno. ora. como momento de sua própria superação. como perspectiva de um devir que contenha o novo. de abstração). é evidente que a imposição de um caminho único. Por isso mesmo. sem troca e sem debate não há produção de conhecimento. sem intolerância e preconceitos – posturas que dificultam ou impedem o debate e qualquer possibilidade de troca frutífera. visando à preservação da academia como um lugar da reflexão e do debate diante |10| .A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O inexorável da realidade. que terminam por enquadrar os pesquisadores –. E o geu pareceu-nos o caminho possível em direção à tentativa de construir. bem como o questionamento da própria disciplina.

a qual. desse modo. por exemplo. vive-se. pode causar séria indigestão intelectual. o qual vai moldando e (de)formando a nossa cultura acadêmica. mal embasados empiricamente e fracamente fundamentados conceitual e teoricamente. também e sobremaneira na Geografia. obscurecida a necessidade de desvendar as contradições do mundo contemporâneo. A banalização (ou a negligência) de vários debates importantes anda de mãos dadas. na Geografia brasileira de nossos dias – e diferentemente. dialeticamente. e de maneira entrelaçada com isso. com o produtivismo e suas implicações – ou seja. de preferência imediatamente útil para o capital e o Estado. paulatinamente. degradando a universidade à condição de uma usina produtora de “saber técnico/ tecnológico”. pelo contrário. que não têm sido poucas. a universidade vem. em que não é raro encontrar textos que. um generalizado desinteresse pela atividade teórica. definitivamente. dá-se fora de um contexto econômico e institucional mais amplo. nada disso. sofrido de modo especialmente angustiante. como tem acontecido no âmbito da exploração do trabalho de orientandos de graduação e pós-graduação). com a substituição paulatina da verdadeira criação intelectual pela produção apressada. um momento de crise teórica e real (social. Paralelamente a isso. e assim segue. como já salientamos. vivemos. Presa ao universo mercantil.I N T RO D U Ç Ã O das estratégias de cooptação promovidas pelas instituições que reproduzem (e se beneficiam) da burocratização e da mercantilização dos processos de produção do saber acadêmico. política e |11| . sob a camuflagem de um discurso da ação voltada para o “bem comum”. cada vez mais definida nos limites estreitos da sociedade de consumo. com a ignorância em relação à história ou trajetória de um determinado tema ou debate. simplesmente. da década de 1980 –. toda essa situação é uma das marcas do empobrecimento de nossa sociedade. produzindo um saber que serve para municiar estratégias políticas e empresariais. ao mesmo tempo em que se cria a aparência de um compromisso do Estado e dos ambientes empresariais com a sociedade como um todo. ao número de artigos que produz (não importa se assinando trabalhos que nem sequer redigiu. desconsideram (até mesmo por puro e simples desconhecimento) tudo o que já foi publicado sobre tal ou qual assunto. com o eclipse do estudo sério e da pesquisa bem construída em favor de trabalhos “impressionistas”. deve derivar do contato com a realidade e nos permitir. intervir criticamente sobre esta). muitas vezes. por isso e com isso. vêm. é tomada como sinônimo de algo distanciado da realidade (esquecendo-se que a teoria. nesses marcos. no qual a produção acadêmica do passado não é bem digerida e a do presente vai sendo mastigada de maneira constrangedora. um reforço do empirismo. entretanto. Essas estratégias. Experimenta-se. A Geografia tem. o “fast food acadêmico” estimulado pelo produtivismo. em que o pesquisador é medido pela quantidade de informação que registra relativamente aos congressos de que participa. cada vez mais.

e que contextualizam a opção pelo tema do presente livro. nesse momento. textos para orientar os debates. além de participarem das discussões. o grupo reuniu-se periodicamente. os quais destacaremos em seguida. roberto Lobato Corrêa. um workshop em que debatemos o tema da “diferenciação sócio-espacial”. que é aquela da reunião e do debate de um grupo de geógrafos brasileiros com objetivos e posturas que vão na contramão do movimento hegemônico da universidade brasileira. constituído na sustentação do individualismo exacerbado e agonístico. Marcelo Lopes de Souza. Para além disso. Foi. o tema que orienta a elaboração do presente livro foi decidido. com a finalidade de preparar uma agenda de trabalho para os anos |12| . amiúde. alcançando um clima de debate franco e. podemos afirmar que este livro se insere numa perspectiva bastante ampla. nelba Azevedo Penna. há uma série de preocupações e interesses temáticos. Angelo Serpa. envolvendo os integrantes do geu e alguns colegas convidados.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O econômica). tais textos foram. um pouco de história. Leila Christina dias. esse. Foi uma experiência gratificante. denso e aprofundado – o que cada vez menos é possível no âmbito de um evento de grande porte. foram Amélia Luisa damiani. o geu realizou. colaboraram com textos publicados neste livro: Arlete Moysés rodrigues. durante um dia. revistos e publicados no número 6 da revista Cidades. do que foi exposto até aqui. Paulo Cesar da Costa Gomes e Sergio Manuel Merêncio Martins – aos quais somam-se outros que. posteriormente. porém. um encontro de organização. no contexto da produção de um novo ser-no-mundo. tais colegas. que contribuíram enormemente para enriquecer o debate. essa crise revela a constituição de uma nova (anti)ética. Glória da Anunciação Alves e Márcio Piñon de oliveira. além dos integrantes do geu. em 2007. Consolidou-se. Agora. na universidade. na universidade de Brasília (unB). Eustógio dantas. em outubro de 2006. Arlete Moysés rodrigues e José Borzachiello da Silva) haviam preparado. cerca de 15 pesquisadores discutiram questões de natureza teórico-metodológica. dessas ou de algumas dessas reuniões participaram vários colegas. Em sua existência até agora. no workshop do geu que se realizou na universidade Federal do rio de Janeiro em setembro de 2007. o desejo coletivo de promover reuniões periódicas. como já se adiantou no primeiro parágrafo desta Introdução. previamente. objetivando debater as questões que embasam a pesquisa urbana. compartilhados pelos três organizadores e igualmente por outros participantes dos eventos promovidos pelo geu. José Borzachiello da Silva. Alguns participantes desse encontro (Ana Fani Alessandri Carlos.

a partir de distintos pontos de vista. para além do desejo de simbolizar e consolidar. envolve o desejo de traduzir nossas ideias na perspectiva de explicitar os problemas e a complexidade das cidades e da urbanização. os debates substantivos sobre o tema foram travados durante os três workshops seguintes. mais ainda. em tudo e por tudo. desde que vinculado ao tema geral. e esse é o conteúdo do processo de globalização. o prazer que sentimos na realização deles e na companhia uns dos outros. o entendimento de “produção” não se restringe a um sentido estreito. encorajados a preparar um pequeno texto. econômico-material ou economicista. nos marcos do capitalismo. a “reprodução do espaço”. incompatível com o espírito científico – e. consequentemente. nessa direção. de um exemplo de como as coisas podem ser feitas diferentemente. enfim. tomou o mundo. essa sequência de reuniões do geu (culminando com a elaboração de um livro). o resultado de um longo processo de debates e amadurecimento coletivo já é um sinal de que. este livro. elaborado a partir de um recorte específico de sua escolha e com o qual gostariam de trabalhar. de que é possível recusá-la. naquela ocasião. que sugere a relevância (ou mesmo a urgência) de se compreender criticamente o poder e o simbólico na contemporaneidade. Presidente Prudente (unesp. ela própria. cada vez mais é convertida em mercadoria. junho de 2009) e. pela seriedade das contribuições aqui reunidas. repousa no fato de que o desempenho capitalista se expandiu. Ao se realizar. por meio de uma publicação conjunta. ademais. com seus interesses geralmente muito contraditórios com os interesses dos grupos |13| . para a superficialidade). da extensão das periferias. em São Paulo (usp. que nos três anos subsequentes o tema geral A produção do espaço urbano: agentes e processos. não aceitamos a lógica do “fast food acadêmico”. na esteira da expansão do capitalismo. A “produção” e. não raro. o presente livro tem em sua origem nesses debates que. no entanto. no momento em que a “cultura” (inclusive na sua expressão espacial!). cremos que se trata. nenhum de nós se pretende um oráculo. com o espírito crítico. apesar de todo o canto de sereia que empurra as universidades mais e mais para a burocratização (e. bem como o fio condutor que nos possibilita compreender em que termos se efetua a redefinição da cidade e da urbanização. igualmente. março de 2010). É um exemplo. o simples fato de ser. de sua explosão. da construção de um novo espaço. os quais foram. a produção do espaço se dê sob o signo de uma sobrevalorização do econômico no próprio imaginário. E é precisamente o fato de. um depositário de qualquer “verdade objetiva” incontestável. realizados em São Paulo (usp. pode-se questionar o papel da intervenção do Estado. escalas e desafios nortearia as atividades dos participantes da rede de pesquisadores. a verdadeira alteridade ser destruída ou acuada e a verdadeira criação ser rebaixada a uma produção serial de mercadorias. Isso não seria apenas uma insuportável presunção: seria uma postura tola e absurda. atualmente.I N T RO D U Ç Ã O seguintes. Como se verá pelos capítulos. novamente. é fundamental resgatar a importância e as especificidades do poder e do simbólico. julho de 2008). decidiu-se. Muito embora.

com a práxis. portanto. como luta pelo “direito à cidade”. em um movimento que revele o sentido e o fundamento dos conflitos que se estabelecem hoje. além de integrar o geu. da autoria de Mauricio Abreu. que a impele na direção exclusiva da interpretação do presente dos lugares. em torno do espaço. do próprio geu: resgatar a memória. Correspondem a onze olhares sobre a mesma temática. e não no caminho da interpretação dos lugares. que se realiza em espaços-tempos delimitados reais e concretos. participou de vários encontros do grupo.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O humanos majoritários. tanto do ponto de vista da realização do processo de acumulação capitalista – e. os capítulos aqui reunidos trazem e desenvolvem abordagens que se propõem a oferecer algum esclarecimento do tema. porque Mauricio Abreu. |14| . suas escalas e seus desafios – tendo em mente essas palavras de advertência. ainda que não necessariamente (ou nem sempre) divergentes. escreve o autor. foi originalmente publicado no número 4 da revista Território. do Laboratório de Gestão do território (Laget) da ufrj. em 1998. que entretanto têm servido muito pouco para resgatar a sua memória”. A construção de um projeto para a cidade – para a sociedade! – não pode nascer das pranchetas. refletir sobre a produção do espaço urbano – seus agentes e seus processos. É mais que relevante. isso sim. o primeiro capítulo. a Geografia vem produzindo já há algum tempo valiosas análises sobre as cidades. por consequência. em larga medida. precisamente. “Sobre a memória das cidades” representa uma contribuição que se coaduna bastante bem com o espírito deste livro e. manter a perspectiva histórica e processual para pensar o espaço (a produção do espaço) e o constante “refazimento” da Geografia e das geografias. usualmente travestida de “participação popular”. Muito embora não tenha podido preparar um texto especificamente para ser debatido. diante da complexidade da sociedade urbana. As práticas de resistência precisam ser pensadas com o recurso à construção de um olhar teórico visceral e dialeticamente articulado. pode-se pressupor que a produção do espaço constitui um elemento central da problemática do mundo contemporâneo. com a permissão do autor. e não pela simples consulta. de justificativa das ações do Estado em direção à criação dos fundamentos da reprodução – quanto do ângulo da (re)produção da vida. mas passa e tem de passar. “Apegada a uma lei castradora. decidimos republicá-lo. pela intervenção dos interessados. diversidade que emana tanto do fato de que seus recortes analíticos são múltiplos quanto da circunstância de que as perspectivas teórico-conceituais adotadas pelos autores são diversas.

como condição de sua existência e por meio dessa ação. lançando também as bases para o aprimoramento de uma abordagem qualitativa. Para o autor. o que relativizaria a centralidade explicativa do que chamou de “as grandes categorias”. um esforço bem-sucedido. oferecendo uma contribuição sobre esta temática. no âmbito da produção do conhecimento geográfico. capital e mesmo de suas subdivisões. têm uma participação fundamental na conformação das cidades. Pedro de Almeida Vasconcelos focaliza os agentes da produção do espaço. ela também produzindo um espaço que lhe é próprio. a aproximação dos conceitos de lugar e centralidade baseia-se em conteúdos de ordem qualitativa e simbólica. realizando-se através da produção/reprodução do espaço. com papéis não rigidamente definidos. Parte da premissa de que esta articulação viabiliza a construção de novos parâmetros teórico-metodológicos para a compreensão dos fenômenos urbano e metropolitano. nessa perspectiva. afirma o autor. novos significados à análise dos lugares e de sua morfologia sócio-espacial nas metrópoles contemporâneas. particularmente nas cidades dos países periféricos. em sua totalidade. no plano do debate conceitual. capital financeiro etc. efetivamente se realiza. apontando a insuficiência das grandes categorias analíticas utilizadas na Geografia urbana como capitalismo. como os proprietários fundiários e. escala e produção do espaço. contradições e práticas espaciais que ora são próprios a cada um. de caráter exploratório. se queremos compreender a complexidade da atuação dos inúmeros agentes na transformação das cidades. o autor desenvolve sua linha de raciocínio na perspectiva de aproximar lugar e centralidade. ao se produzir.. Partindo de uma abordagem de caráter também bastante amplo para situar o tema. em seu texto. o faz num espaço determinado. ora são comuns. esse movimento abre a possibilidade de se refletir sobre as relações sociais em sua dimensão espacial. os invasores e ocupantes de terrenos. no capítulo seguinte. apontar os fundamentos sociais da produção do espaço. |15| . no âmbito da constituição do pensamento geográfico brasileiro. Subjacentes a esse esforço estão duas teses: a primeira considera a produção do espaço como decorrente da ação de agentes sociais concretos. Angelo Serpa propõe uma reflexão de cunho teórico-conceitual em que aprofunda a discussão sobre os conceitos de lugar e centralidade. visando a estabelecer algumas relações entre agentes sociais. permitiria pensar a passagem do conceito de “organização do espaço” àquele de “produção do espaço” e. como capital imobiliário. Para ela. tal enfoque aponta para a ideia de que a sociedade. os agentes não capitalistas. o que pode atribuir. nestas. o movimento teórico que. sem dúvida. Ana Fani Alessandri Carlos aborda. sobretudo.I N T RO D U Ç Ã O Roberto Lobato Corrêa realiza. Esse raciocínio sugere a necessidade de considerar a reprodução da sociedade. momento em que a espacialidade pode ser tratada como imanente à existência constitutiva da sociedade. seja ela qual for. A segunda diz respeito à escala enquanto dimensão espacial na qual a ação humana. portadores de interesses.

Ela procura desvendar como a produção se estabelece enquanto movimento articulado ao processo de circulação. à produção e consumo de espaços comerciais no atual momento histórico. alguns aspectos nos auxiliam a compreender a urbanização engendrada pelo capital. enquanto fragmentação socioespacial. o espaço que se constrói. Fica patente a dificuldade de se enxergar a complexidade de interesses envolvida na disputa simbólica em torno de determinadas palavras. estabelecendo os nexos capazes de nos levar a compreender o estabelecimento dos meios e das ações que envolvem o sentido da mobilidade como elemento fundamental na compreensão dos conteúdos da produção do espaço. para enfocar como diferenças e desigualdades são produzidas no período atual. controlado. aborda o tema a partir da reflexão sobre a diferenciação socioespacial. em seu capítulo. no momento atual. antes produzido como “obra”. expressões que apontam a importância de compreendê-lo no movimento da urbanização que transforma. agora é “produto” e. o que em sua perspectiva analítica pressupõe entender o movimento de formas comerciais que se chocam com outras que não têm o mesmo movimento. o espaço. “revitalização” e muitas outras. “ocupação”. porque pertencem a outro momento histórico – caso específico dos mercados públicos. no próprio discurso científico. Márcio Piñon de Oliveira tem por objetivo desenvolver uma reflexão crítica sobre o conceito de cidadania. Marcelo Lopes de Souza. Essa complexidade. que compõem a vida urbana e a cidade. Para a autora. como é tão comum na Geografia (e no planejamento urbano). não demandasse maiores cautelas. muito frequentemente. opaco. procurando distingui-la das desigualdades socioespaciais. As escalas geográficas são tomadas como referência e recurso analítico. a partir da sua relação concreta com a cidade e a |16| . em sociedades tão complexas como as que vivemos. Silvana Maria Pintaudi afirma que. como se o nosso vocabulário técnico. é repetido infinitas vezes. como possibilidade de esclarecimento do processo de produção do espaço. nesta condição. chama a atenção para o fato de não refletirmos o suficiente sobre o que estamos dizendo ou querendo dizer quando nos utilizamos. constantemente. aqui.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O o capítulo de Glória da Anunciação Alves visa a discutir o conceito de mobilidade. Agimos. especificamente. o tratamento das formas de reestruturação urbana e das cidades é feito considerando-se a redefinição da centralidade urbana e a tendência de complexificação das formas de segmentação da sociedade e do espaço. tão profundamente articulado (e até quase amalgamado) com o vocabulário do senso comum. poderia ser interpretado como tênue. Maria Encarnação Beltrão Sposito. como alerta o autor. simplesmente não admite ser adequadamente apreendida por meio de uma “visão de sobrevoo”. que consiste em considerar as sociedades e seus espaços exclusiva ou predominantemente “do alto” e “à distância”. de determinadas palavras. por sua vez. notadamente daquelas que se apresentam carregadas de forte significado político e ideológico. refere-se. tais como “favela”. indicando um consumo induzido.

|17| . deve ser considerada a possibilidade. entre revisores de língua portuguesa. chegando à dimensão do espaço. o mesmo não ocorre com “socioespacial” (ou “sócio-espacial”). cultural e econômica existente em cada espaço-tempo. em que se perdeu a noção de composição (o “socio”. voltado para si mesmo e seu interesse particular. por razões teórico-conceituais. “Socioespacial”. tem sido comum. negligenciando-se outra possibilidade. demarcando o nexo político-territorial da cidadania nas diferentes escalas de sua realização. de dupla grafia. nas quais se mantém a noção de composição. chamando a atenção para a mudança da matriz discursiva sem alteração do paradigma dominante. e analisado com base num conjunto de dimensões que inclui a dos direitos (civis. Sua reflexão aponta para a necessidade de um novo arcabouço teórico-metodológico. a exemplo de palavras como “socioeconômico” e “sociopolítico”. uma interpretação estreita e automática das normas ortográficas em vigor quanto ao uso do hífen. Arlete Moysés Rodrigues enfatiza a importância de se considerar o meio ambiente na Geografia urbana. uma breve nota sobre a grafia do termo “sócio-espacial”/“socioespacial”. nesse contexto. mostrando que os deslocamentos discursivos da produção e reprodução do espaço para o “consumo” e deste para o “meio ambiente” obscurecem as causas dos chamados problemas ambientais e as contradições expressas nas cidades e na vida urbana.I N T RO D U Ç Ã O urbanização. é a de “socioespacial” (ou “sócio-espacial”) com aquelas outras duas palavras. com instrumentais analíticos adequados. conceitualmente relevante: a da comparação não necessariamente com “socioeconômico” e “sociopolítico”. de uso mais ou menos corrente fora de um âmbito técnico especializado. segundo as quais. a financeirização da economia. o autor enfoca a categoria “território”. a acumulação flexível). Por último. se acham dicionarizados. políticos e sociais) e vai além deles. simplesmente. Ela permitiria avançar para compreender a complexidade dos processos e as relações societárias (as alterações do mundo do trabalho. mas também. com palavras como “austro-húngaro” e “dólico-louro”. dependendo das circunstâncias. Ao menos para alguns geógrafos – não há consenso a respeito –. geralmente feita pelos revisores. dissociado da comunidade – pode ser identificado na realidade concreta do mundo. A comparação. juridicamente formal. qualifica o “econômico” e o “político”). que se impõe como uma “condição continente” ao conteúdo político da cidadania e à organização social. recuperando o seu sentido original como nexo político-territorial ou geograficidade. também “socioespacial” deveria ser grafada sem hífen. o cidadão – aquele ser político genérico. ocorre que os vocábulos “socioeconômico” e “sociopolítico”. na direção de uma Geografia crítica radical.

seria uma representação gráfica de uma estrutura socioespacial – por mais que. em contraste. processos e práticas sócio-espaciais. “sócioespacial” diria respeito às relações sociais e ao espaço. só seria algo supérfluo se partíssemos do pressuposto de que a categoria espaço social engloba inteiramente ou se confunde completamente com a categoria relações sociais – o que corresponderia a um reducionismo assaz danoso. Ana Fani Alessandri Carlos Marcelo Lopes de Souza Maria Encarnação Beltrão Sposito |18| . por exemplo. essa estrutura reflita e sirva como uma chave para interpretar determinadas relações sociais –. se referiria somente ao espaço social (por exemplo. ao passo que os processos e práticas ali concretizados. seriam. evidentemente. do jogo em si ao confronte entre torcidas organizadas. considerando-o do ângulo do resultado de sua produção em um determinado momento). optou-se por se preservar a grafia escolhida pelo próprio autor de cada capítulo. em sentido forte. por meio de uma planta. À luz disso. simultaneamente (levando em conta a articulação dialética de ambos no contexto da totalidade social. na expectativa de que a escolha tenha sido feita com consciência das premissas e implicações envolvidas. mas preservando a individualidade de cada um). distinguir entre as duas grafias. a representação de um estádio de futebol. e não excludentes). Por essa razão.A P RO D U Ç Ã O D O E S PA Ç O U R B A N O sem hífen. com isso diferenciando uma da outra duas perspectivas (complementares.

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