UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

JOSÉ SÁVIO DA COSTA MAIA

A FLORESTANIA, O DENVOLVIMENTO (IN)SUSTENTÁVEL E AS NOVAS FRONTEIRAS DA SÓCIODIVERSIDADE NO VALE DO RIO ACRE NA VIRADA DO SÉCULO XX: O CASO DOS TRABALHADORES EXTRATIVISTAS.

Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em História.

ORIENTADORA: PROF.ª. Drª. CLAUDIA WASSERMAN

PORTO ALEGRE -2009

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

A FLORESTANIA, O DENVOLVIMENTO (IN)SUSTENTÁVEL E AS NOVAS FRONTEIRAS DA SÓCIODIVERSIDADE NO VALE DO RIO ACRE NA VIRADA DO SÉCULO XX: O CASO DOS TRABALHADORES EXTRATIVISTAS.

JOSÉ SÁVIO DA COSTA MAIA

PORTO ALEGRE – 2009

Aos meus pais José Augusto Maia (em memória) e Anézia Rodrigues da Costa Maia, um cearense e uma acreana nascidos na segunda década do século XX e que, singrando rios, atravessando florestas, vencendo tempos e percalços, constituíram uma família numerosa, da qual seus filhos e netos certamente se orgulham.

AGRADECIMENTOS:

- Aos meus pais, José Augusto Maia (em memória) e Anézia Rodrigues da Costa Maia; meus irmãos e irmãs (os vivos e os que partiram antes), sobrinhos e sobrinhas, primos e primas, pois cada um, do seu modo, prestou inestimável contribuição e me apoiou em todos os momentos; - A professora Claudia Wasserman que não só recebeu um “estrangeiro” como orientando, mas que, ao longo desse contato, demonstrou muita competência e paciência, além de grande respeito e confiança de que o trabalho seria realizado;

- Ao CNPq e a UFAC, o primeiro pela bolsa que favoreceu minhas idas e vindas e estadia em Porto Alegre e a UFAC por ter propiciado meu afastamento para dedicação a este trabalho;

- Aos funcionários dos órgãos do Governo do Estado do Acre e da Assembléia Legislativa, que propiciaram acesso a diversos documentos, necessários à pesquisa;

- Aos funcionários do Museu da Borracha que permitiram acesso à coleção de jornais daquela Instituição;

- Aos professores e colegas do mestrado e doutorado em História da UFRGS que, através das leituras e conversas, me propiciaram novos instrumentos de análise e novas formas de ver o mundo;

- Aos sobrinhos João Paulo Maia Guilherme e Ricardo Augusto Maia Guilherme pela colaboração na coleta de materiais e um agradecimento especial a também sobrinha Maria José Maia Nascimento pela dedicada correção do texto final.

RESUMO:

Entre os anos finais do século XX e iniciais do XXI, o Estado do Acre viveu processos de aceleradas mudanças. A emergência de políticas desenvolvimentistas, promovidas pelos governos militares e seus aliados civis, marcadas pela violência em todos os níveis, desencadearam reações que se iniciaram dentro dos seringais, realizadas pelos seringueiros, caracterizadas principalmente pelos empates, que depois ganharam dimensões nacionais e internacionais, invertendo as idéias de desenvolvimento e fronteiras que orientavam as ações militares. A organização de sindicato de trabalhadores rurais, em meados da década de setenta, seguida pelas ações da Igreja Católica, por meio de suas Comunidades Eclesiais de Base e Comissão Pastoral da Terra, da chegada da CONTAG, dos militantes políticos de esquerda e, mais tarde, das ONGs, projetaram para fora dos seringais as lutas pela terra, transformando-as em lutas políticas contra as formas predatórias de desenvolvimento, até então apresentadas, para em seguida dar-lhe contornos de luta ambiental. Desse modo, os seringueiros do Acre e da Amazônia que viviam encobertos pelo imenso chapéu verde da floresta tornaram-se protagonistas dessas mudanças. De representação do bárbaro, do não-civilizado, do atraso econômico, passaram a representação do “guardião” das florestas, do ecológico e ambientalmente desejável. Esse protagonismo dos seringueiros, contudo, foi mudando de eixo e grande parte de sua capacidade de representação foi transferida para o Governo do Estado e para outras estruturas representativas, tais como o CNS, as ONGs e outros órgãos governamentais, principalmente a legislação ambiental, que a partir da criação do IBAMA e do MMA passaram a exercer forte influência nos ativos ambientais. O balanço possível desses eventos é a nova configuração política, social e econômica das populações do Estado do Acre, envolvida pelos conceitos da florestania e do desenvolvimento sustentável, oriundas de um Governo que se diz herdeiro das tradições seringueiras e respeitador do meio ambiente e o quadro de instabilidade que teima em repetir conflitos e a manter desigualdades. PALAVRAS-CHAVE: Extrativismo. Desenvolvimento Sustentável. Florestania.

Sociodiversidade. Políticas Públicas.

ABSTRACT:

Among the final years of the XX century and early of XXI, the State of Acre lived process of accelerated change. The emergence of development politics, promoted by government military and their allies civilians, marked by violence at all levels, triggered reactions that were initiated within the rubber, made by the rubber tappers, characterized mainly by the draws (deadlock), which later gained national and international dimensions, reversing borders of the ideas that guided the military actions. The organization of rural workers union in the mid-seventies, followed by the actions of the Catholic Church, through its Base Ecclesial Communities the Pastoral Land Commission, the arrival of CONTAG, the left-wing political activists, and more afternoon NGOs, designed out of rubber struggles for land, turning them into political struggles against predatory forms of development, so far presented, then give it to fight environmental contours. Thus the rubber tappers of Acre and the Amazon living hidden by huge green hat forest have become protagonists of these changes. The representative of the barbarian, nocivilized, the economic backwardness, came to represent the "guardian" of forests, the ecological and environmentally desirable. The role of rubber tappers, however, changed in priority and much of its capacity of representation was transferred to the State Government and other representative structures, such as the Council National of the Rubber Tappers (CNS), NGOs and other government bodies, particularly the environmental legislation that the creation of IBAMA and the MMA began to exert strong influence on environmental assets. The balance of these events is a possible new configuration political, social and economic of the people of the state of Acre, involved the concepts of Florestan (Florestania) and sustainable development, from a government that says rubber heir traditions and respectful of the environment and context of instability keep on repeating that conflicts and maintain inequalities. KEY WORDS: Extrativism. Sustainable Development. Florestans. Sociodiversity. Public Policy.

LISTA DE SIGLAS:

ABONG - Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais. AMOREB - Associação dos Moradores da Reserva Extrativista de Brasiléia. APA - Associação de Prefeitos do Acre. BANACRE - Banco do Estado do Acre. BASA - Banco da Amazônia S/A. BEC - Batalhão de Engenharia e Construção. BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento. BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento. BIS - Batalhão de Infantaria e Selva. CDDH - Centro de Defesa dos Direitos Humanos. CDRFS - Conselho de Desenvolvimento Rural Florestal Sustentável. CEA - Casa do Estudante Acreano. CEAA/BID - Comissão Estadual de Acompanhamento e Avaliação do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre CEB - Comunidade Eclesial de Base. CEDI - Centro de Estudos de Direito Internacional. CELAM - Comissão Episcopal Latino Americana. CEMACT - Conselho Estadual de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia. CEPAMI - Centro de Estudos e de Pastoral dos Migrantes. CFE - Conselho Florestal Estadual. CGT - Central Geral dos Trabalhadores. CIMI - Conselho Indigenista Missionário. CNS - Conselho Nacional dos Seringueiros. COLONACRE - Companhia de Desenvolvimento Agrário e Colonização do Estado do Acre. CONTAG - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. CPI - Comissão Pró-Índio. CPT - Comissão Pastoral da Terra. CSC - Corrente Sindical Classista.

CTA - Centro dos Trabalhadores da Amazônia. CUT - Central Única dos Trabalhadores. DCE - Diretório Central dos Estudantes - UFAC. EIA/RIMA - Estudos de Impactos Ambientais e Relatório de Impactos Ambientais. FETACRE - Federação de Trabalhadores na Agricultura do Acre. FPE - Fundo de Participação dos Estados. FSC - Forest Stewardship Council. FSE - Fundo Social de Emergência. FUNAI - Fundação Nacional do Índio. GTA - Grupo de Trabalho Amazônico. GTZ - Cooperação Técnica Alemã. IBAMA - Instituto de Meio Ambiente do Acre. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. INESC - Instituto de Estudos Sócio-Econômicos. INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. ISA - Instituto Sócio-Ambiental. ITTO - International Tropical Timber Organization. MAP - Madre de Dios, Acre, Pando (refere-se ao fórum que leva esse nome). MMA - Ministério do Meio Ambiente. ONG - Organização Não Governamental. ONU - Organização das Nações Unidas. OXFAN - Comitê de Oxford para o Combate a Fome. PAE - Programa de Ajuste Estrutural e Programa de Assentamento Agro-Extrativista. PIN - Programa de Integração Nacional. PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. PPG7 - Programa Piloto para Conservação das Florestas Tropicais no Brasil. PROBOR - Programa da Borracha. PUC - Pontifícia Universidade Católica. RESEX - Reserva Extrativista.

STR - Sindicato de Trabalhadores Rurais. SUDAM - Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. SUDHEVEA - Superintendência do Desenvolvimento da Hévea. (borracha). UDR - União Democrática Ruralista. UFAC - Universidade Federal do Acre. UFRJ/CPDA - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Centro de Pesquisa do Desenvolvimento Agrário. USP - Universidade de São Paulo. WWF - World Wildlife Fund. ZEE - Zoneamento Ecológico Econômico.

LISTA DE SIGLAS PARTIDÁRIAS:

ARENA - Aliança Renovadora Nacional. FPA - Frente Popular do Acre. MDB - Movimento Democrático Brasileiro. PC do B - Partido Comunista do Brasil. PCB - Partido Comunista Brasileiro. PDC - Partido Democrata Cristão. PDT - Partido Democrático Trabalhista. PFL - Partido da Frente Liberal. PL - Partido Liberal. PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro. PMN - Partido da Mobilização Nacional. PPB - Partido Progressista Brasileiro. PPR - Partido Progressista Republicano. PPS - Partido Progressista Socialista. PRC - Partido Revolucionário Comunista. PRN - Partido da Reconstrução Nacional. PRONA - Partido da Reedificação da Ordem Nacional. PSB - Partido Socialista Brasileiro. PSD - Partido Social Democrático. PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira. PSL - Partido Social Liberal. PT - Partido dos Trabalhadores. PT do B - Partido Trabalhista do Brasil. PTB - Partido Trabalhista Brasileiro. PTR - Partido Trabalhista Renovador. PV - Partido Verde. RDA - Renovação Democrática do Acre. UDN - União Democrática Nacional.

INDÍCE DE FIGURAS:

Figura 01...............................................................................................................................47 Figura 02...............................................................................................................................48 Figura 03...............................................................................................................................66 Figura 04...............................................................................................................................67 Figura 05...............................................................................................................................68 Figura 06...............................................................................................................................70 Figura 07...............................................................................................................................72 Figura 08.............................................................................................................................148 Figura 09.............................................................................................................................166 Figura 10.............................................................................................................................166 Figura 11.............................................................................................................................166 Figura 12.............................................................................................................................166 Figura 13.............................................................................................................................167 Figura 14.............................................................................................................................167 Figura 15.............................................................................................................................168 Figura 16.............................................................................................................................168

SUMÁRIO:

INTRUDUÇÃO:..................................................................................................................16

CAPÍTULO I: O ACRE NO CONTEXTO DO BRASIL MILITARIZADO......................46 1.1 Os “grandes projetos” dos militares para a Amazônia e seus efeitos para as populações tradicionais...........................................................................................................................47 1.2 O Acre como fim do Brasil ou porta de chegada/saída para o Pacífico: as estradas como redenção................................................................................................................................64 1.3 Desmatar é desenvolver: estradas e pecuária para um novo Acre.................................79

CAPÍTULO II: AS NOVAS FORMAS DE APRISIONAMENTO DA TERRA E AS MUDANÇAS NA ESTRUTURA PRODUTIVA................................................................90 2.1 Dos seringais às fazendas de gado; das “colocações” às posses: os patrões, os fazendeiros, os colonos e os extrativistas disputando territórios e

espaços..................................................................................................................................91 2.2 Os estranhamentos e a violência entram em cena: as convulsões sociais no Vale do Rio Acre....................................................................................................................................107 2.3 As diversas reações dos moradores da floresta, dos colonos e dos fazendeiros: sindicatos, empates e associações......................................................................................122

CAPÍTULO III: OS ESCUDOS DOS EXTRATIVISTAS: O CORPO, A IGREJA, OS PARTIDOS, OS SINDICATOS E AS ONGs....................................................................139 3.1 Da fragmentação à organização: “a floresta era uma coisa sem fim”..........................140 3.2 Os aliados urbanos dos seringueiros: o papel da Igreja Católica................................155 3.3 Outros aliados urbanos: partidos de esquerda, confederações de trabalhadores e centrais sindicais..............................................................................................................................177 3.4 As representações sindicais..........................................................................................194 3.5 As ONGs: aliadas de outras causas..............................................................................206

CAPÍTULO IV: AS NOVAS FORÇAS POLÍTICAS NO ESTADO DO ACRE E AS TESES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E DA FLORESTANIA COMO POLÍTICA DE GOVERNO...............................................................................................225 4.1 Fincando uma cunha no bi-partidarismo: a formação da Frente Popular do Acre (FPA)..................................................................................................................................227 4.2 O Desenvolvimento Sustentável: origens do ambientalismo/ecologismo que nortearam as políticas da FPA.............................................................................................................248 4.3 O surgimento da Florestania: novos lugares, novos espaços e novos sentidos para as lutas dos povos da floresta..................................................................................................274 4.3.1 O neoextrativismo e os produtos florestais não-madeireiros....................................288 4.4 Políticas públicas e mecanismos de inclusão voltados para os povos da floresta........304

CONCLUSÃO:..................................................................................................................323

REFERÊNCIAS:................................................................................................................341

INTRODUÇÃO:

A perspectiva desta tese é construir uma análise da história do movimento dos trabalhadores extrativistas das florestas (seringueiros1) do Vale do Rio Acre, e suas interconexões com os espaços urbanos, no último quartel do século XX e início do XXI. O que objetivamos analisar são as inter-relações que foram sendo moldadas a partir do momento em que se encontraram, nos mesmos lugares e espaços2, setores representantes do Estado, empreendedores (fazendeiros, madeireiros, especuladores de terras, grileiros, etc.), trabalhadores extrativistas, colonos vindos de outras regiões do país, pequenos proprietários locais, ecologistas/ambientalistas, religiosos, entidades sindicais (classistas), Organizações Não Governamentais (ONGs) e partidos políticos, destacando o forte papel do Estado numa ponta e dos trabalhadores extrativistas na outra, que através de intensos conflitos engendraram um re-ordenamento não só agrário, mas também social, político, econômico e cultural, gerando a organização de novos modos de vida, estabelecendo novas fronteiras para a sociodiversidade e criando novas referências nas relações homem-natureza neste espaço território-temporal. Na análise dessas inter-relações, há que se destinar especial atenção para a substituição do conflito agrário, pela emergência da luta ambiental. O conflito agrário, matriz principal das mobilizações dos trabalhadores extrativistas inicialmente, foi, paulatinamente, se deslocando do discurso sindical, cedendo espaço para os novos componentes e as novas abordagens que cercam os conceitos de desenvolvimento sustentável e da florestania3. Estes conceitos, de certa forma, contribuíram para engendrar
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- Desde o início da exploração da borracha na Amazônia, em meados do século XIX, a designação de seringueiro abrangia todos os trabalhadores no extrativismo, mesmo os que só trabalhavam com a coleta da castanha, por exemplo. Servia também para os mateiros, caçadores, ribeirinhos, pescadores, coletores de outras drogas do sertão, etc. A referência era morar na floresta. Isso se dá devido à importância que a produção gomífera desempenhou ao longo dos anos na região, ou seja, tudo circundava a produção de borracha. A partir da década de setenta, a tendência é de denominar esses trabalhadores como extrativistas e, desde meados dos anos oitenta, como povos da floresta, incluindo-se os povos indígenas.
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- Lugares e espaços - A compreensão de lugar se diferencia de espaço pela maior abstração do segundo. O lugar é visto como elemento topográfico, mentalmente conhecido, delimitado, enquanto o espaço deve ser entendido como mais abrangente, envolvendo as articulações, as relações humanas, as relações com o ambiente que se desenrolam sobre o lugar. (CARLOS, 1996)
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- Os conceitos de desenvolvimento sustentável e de florestania serão apresentados no capítulo IV, contudo, destacamos antecipadamente que tanto um quanto o outro, não são conceitos com formulações precisas, haja

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uma espécie de encobrimento, ou agiram no sentido de atenuar a radicalidade da luta pela terra. Todas essas mudanças (econômicas, políticas, sócio-ambientais e sócio-culturais) estão no centro do processo de transição da antiga forma de propriedade da terra, o seringal, para as novas modalidades as fazendas e, de certa maneira, para as reservas extrativistas, as unidades de conservação e os projetos de assentamento/colonização. Processos que diferem da forma anterior, mas que provocam uma incômoda sensação de permanência, como veremos, adiante. A operacionalização de mudanças no setor produtivo, promovida pelo Estado e por setores civis parceiros deste, ou seja, a substituição do sistema extrativista baseado na borracha e na castanha por investimentos em pecuária e indústria (exploração) madeireira, seguida de alguns projetos de assentamento/colonização com vistas à produção agrícola foram articulados nos espaços urbanos, sem considerar as populações que viviam sob a proteção do imenso chapéu verde da floresta. Esta mudança da matriz produtiva estava, por conseqüência, inteiramente ligada ao projeto de substituição do sistema de transportes projetado pelos militares para a Amazônia, isto é, a substituição dos rios, igarapés, paranás e lagos (caminhos naturais e lentos) pelas estradas (caminhos artificiais e rápidos), necessários para complementar à concepção geopolítica de defesa e integração regional. Entre o final dos anos oitenta, início dos anos noventa e seguintes, houve uma retomada, um retorno ao extrativismo, desta feita, qualificado como neo-extrativismo, também articulado nos espaços urbanos, ou, no mínimo, fortemente influenciado por segmentos urbanos, que tem buscado estimular práticas de mercado aos produtos oriundos da floresta. (trataremos desta questão no Capítulo IV). O que motivou a proposta dos militares e dos setores civis que os apoiavam foi à visão de incorporação e integração da Amazônia ao que eles consideravam o centro do país (Sudeste, Sul e de alguma forma, partes do Centro-Oeste e do Nordeste). Por conseqüência, a base desta proposta estava assentada numa concepção de que a Amazônia era a última
vista a grande quantidade de posicionamentos divergentes sobre os dois termos, mormente o segundo, pois seu caráter de neologismo o posicionava inicialmente como uma situação contrária à cidadania, o que foi sendo negado posteriormente por seus formuladores, indicando-o como sendo mais próximo de um novo modo de vida do que a um estado meramente demarcatório com outra situação posta. O querer morar na floresta, o querer preservar modos de vida construídos na floresta e as novas formas de apreensão do relacionamento homem-natureza, aliados às necessidades contemporâneas, talvez indiquem melhor a interrelação que confere estatuto articulador entre os dois termos.

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fronteira a ser incorporada, a ser explorada, a ser civilizada pelo “centro” que eles representavam. Neste sentido, a natureza que servia de morada e de meio de vida para as populações tradicionais, os posteriormente denominados “povos da floresta” (índios e extrativistas), era vista como principal inimigo a ser vencido na guerra que se desencadearia nesse processo de incorporação, integração, exploração e civilização da Amazônia. As ações dos setores governamentais, incluindo a União, o Estado e os Municípios, na articulação das mudanças no sistema produtivo, incluindo os transportes, marcaram profundamente os modos de vida que haviam se constituído na região do Vale do Rio Acre no período pós Segunda Guerra, imprimindo novas formas de colonialidade4 e criando um novo modelo de organização política e sócio-econômica com vistas à manutenção da subalternidade que oprimia os trabalhadores extrativistas. Mas essas ações do poder instituído, serviram também de motivo para a gestação de outro movimento que, por sua vez, produziu outro modelo de trajetória fronteiriça. No entanto, essas fronteiras atravessadas pelo movimento de trabalhadores extrativistas, não estão limitadas aos aspectos físicos ou políticos, elas buscam antes a angulação do relacionamento homem-natureza, saberes-conhecimento, experiênciatecnologia e, depois, outros limites antrópicos, marcados por encontros e desencontros com o outro. É uma fronteira porosa e flexível, que permitiu o encontro/desencontro com o ambiente modificado, com o outro (estranhos e mesmo estrangeiros), bem como com seus semelhantes. O espaço fronteiriço aqui compreendido é portador de ambivalências humanas, de transições geográficas, de transições interior e exterior, no sentido nacional e transição dos fluxos e dos fixos, dos espaços internos e externos, no sentido da história. Milton Santos, comentando essa relação espaço/movimento, assinala que:
A história é sem fim, está sempre se refazendo. O que hoje aparece como resultado é também um processo; um resultado hoje é também um processo que amanhã vai tornar-se outra situação. O processo é o permanente devir. Somente se pudéssemos parar a história é que teríamos um estado uma situação permanente. (...) Toda situação é do ponto de vista estático um resultado, e do ponto de vista dinâmico, um processo. Numa situação em movimento, os atores não têm o mesmo ritmo,

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- Colonialidade é uma expressão utilizada por Boaventura de Sousa Santos (2005) que, além da característica de subalternidade inerente ao termo, serve também para caracterizar os “epistemicídios”, isto é, a morte dos conhecimentos locais, perpetradas pela emergência e expansão da ciência ocidental moderna. A utilização neste caso, serve para demonstrar como os projetos exógenos para ocupação da Amazônia, descuraram da importância dos conhecimentos adquiridos e praticados pelas populações que aqui viviam.

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movem-se segundo ritmos adversos. Portanto, se tomarmos apenas o momento, perdemos a noção do todo em movimento. (...) Os cortes do tempo nos dão situações em um determinado momento. Não captam o movimento, são, apenas, uma fotografia. Já o movimento é diacrônico, e sem isso não há história. Não haveria dialética se o movimento dos elementos se desse de maneira sincrônica. (SANTOS, 1997, p. 95)

Nesse sentido, as fronteiras ultrapassadas (ou a ultrapassar) pelos trabalhadores extrativistas adquirem já no princípio, novas conformações, não obstante, à compreensão comum de que as fronteiras estão nas bordas, vêm do civilizado para o selvagem (como pensavam os militares, por exemplo), neste caso elas parecem ter sentido inverso. Elas iniciam também dentro das colocações5 no meio da mata, e vão paulatinamente se espalhando de dentro dos seringais rumo às cidades, até ganhar contornos nacionais e internacionais. Falamos em sentido inverso porque numa colocação o horizonte é estreito, a visão é limitada pela floresta e pelas estruturas sociometabólicas, em todos os sentidos. Porém, através dos ramais e varadouros, pés descalços e ligeiros e vozes compassadas e graves vão estabelecendo vias de comunicação, vão alargando horizontes, principalmente quando se direcionam para as “margens” dos rios ou da rodagem (estrada) e, destes espaços para as cidades e das cidades para outros limites não imaginados. O tema escolhido, com boa dose de intencionalidade, tem relação direta e pessoal com o nascimento dentro de uma colocação, num longínquo seringal do alto Rio Tarauacá e o percurso acompanhado dessa transição da vida nas florestas para as novas fronteiras (cidades, fazendas, neo-extrativismo, Bolívia, empates, Igreja, ONGs, sindicatos, reservas extrativistas, florestania, etc.), que foram sendo construídas num período que, de algum modo fomos contemporâneos. As mudanças pelas quais passamos foram, em alguma

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- Colocações é o nome que se dá aos lugares onde estavam dispostas e localizadas as estradas de seringa e, conseqüentemente, onde se estabelecia o seringueiro. Esses lugares não têm contornos definidos de forma linear, mas sim acompanhando a distribuição natural das madeiras de seringa, previamente identificadas por um mateiro e reconhecidas no padrão conceitual da estrutura do seringal. Por se situarem distante das margens dos rios e bem no meio da mata, eram também denominadas “centro” em oposição à “margem”, que no caso era à margem do rio. (Essa concepção é oposta aos sentidos que vigoram nas cidades, no seringal a “margem” equivale ao que é centro nas cidades). O formato da colocação, além da disposição desigual das seringueiras, consistia de uma reduzida clareira onde se erguia a “barraca” – habitação tosca, comumente um vão cercado de paxiúba e coberto de palha. Na mesma clareira, bem próxima da “barraca”, estava o defumador, uma construção ainda menor, só com uma cobertura de duas águas, onde era coagulado o látex, dando-lhe o formato de uma bola de borracha, a “péla”. Embora sejam denominadas estradas de seringa, nada nessa estrutura pode ser comparada ao que conhecemos como estrada. A “estrada de seringa”, consiste mesmo em uma estreitíssima picada no meio da mata ligando uma árvore a outra, comumente formado duas voltas oitavadas, o que facilita o processo de corte e recolha das tigelas com o látex, permitindo que o seringueiro volte para o local de início quando termina a tarefa do dia.

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medida, compartilhadas (sentidas) por mais de setenta por cento da população do Estado do Acre a partir da década de setenta do século passado. Os caminhos não foram lineares, é certo, os caminhantes eram diversos e os percursos e percalços imprimiram graus diferentes de rotação, ao ponto de muitos retornarem ao ponto inicial, onde, embora mudados, permanece(ra)m. No caso particular, por exemplo, chegar à única universidade do Estado, nos meados dos anos oitenta, que embora se chamasse Universidade Federal do Acre, só funcionava na capital (Rio Branco), vindo de uma cidade do interior, que exceto por via aérea ou fluvial, continuava (continua) tão isolada quanto era no início do século XX quando foi fundada, era passar por um funil com bico dosador e filtro extrafino. Mas esse funil me mostrou um mundo mais claro, uma espécie de campo aberto, onde a grande disponibilidade de lentes favoreciam olhares diversos. O momento da chegada à universidade e, portanto, à capital (segunda metade da década de oitenta), foi também o período em que os conflitos que marcam as novas fronteiras para as populações extrativistas estavam mais agudos. Os assassinatos de lideranças dos trabalhadores extrativistas, de capatazes de fazendeiros, a movimentação dos “empates”6, os movimentos pela democratização do país, a atuação dos sindicatos urbanos e rurais, a presença da Igreja Católica com uma ala que operava ao lado dos pobres, à volta a legalidade de alguns partidos e a fundação de outros, os movimentos estudantis retornando de seu mergulho imposto pela ditadura, ou seja, na capital fomos apresentados a um mundo desconhecido, efervescente, desafiador, cheio de siglas e símbolos, um verdadeiro caldeirão de novidades, considerando que nesse período a polícia ainda agia sob condição “especial”, isto é, tinha mais matiz de polícia política.

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- Empate foi o termo utilizado pelos seringueiros de Xapuri e Brasiléia para identificar o ato de impedir (na linguagem local, empatar), os desmatamentos e as queimadas, promovidos pelos “paulistas” que queriam expulsá-los de suas colocações para transformar as matas em pastos para seus bois. O empate é uma manifestação coletiva, com sentido solidário, que marcou o início da organização dos seringueiros no Acre. O movimento provocou forte impacto social, político, econômico e cultural a partir de meados da década de setenta, principalmente, nas regiões do vale do Acre e sul do Amazonas. A ação se constituía com a reunião de vários moradores, incluindo mulheres e crianças, que marchavam para os locais onde estavam ocorrendo derrubadas e formavam uma barreira humana entre as árvores e os peões encarregados pelas derrubadas. Os líderes sempre tentavam convencer os chefes das derrubadas alegando que o corte das árvores afetava suas possibilidades de sobrevivência. Enfatizavam que o movimento era pacífico, mas todos portavam espingardas, facões e, alguns, revólveres.

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Desde o primeiro ano de faculdade (1986), o envolvimento com o movimento estudantil e depois com o sindical e partidário, permitiram o contato com os acontecimentos que se desenvolviam paralelos ao mundo anterior, aquele da vida isolada no interior. Obviamente não houve uma percepção imediata de todos os seus significados, mas paulatinamente fui através das reuniões, das leituras e das trocas de opiniões com segmentos muito diferentes da composição social que interagiam naqueles espaços, aprendendo a mediar os motivos das lutas presentes, seus discursos e reivindicações, com as respectivas alterações nos modos de vida que estavam em processo. Mesmo considerando que o envolvimento com lutas políticas em momentos de conflitos comumente são alimentadas por paixões, entendemos que elas foram fundamentais para maturar uma condição de distinção entre sujeito e objeto, que vão mais tarde permitir a separação entre o conjuntural e o estrutural, requisito importante para a inserção na produção do conhecimento. Nessa perspectiva é que almejamos distinguir os tempos diversos, porém, não desconexos, de saída da condição de participante, para a de historiador/narrador desse enredo. Condição que vai se constituindo a partir da apreensão da necessidade de sempre primar por um tratamento adequado das fontes, conferindo-lhes um rigor crítico, capaz de diferenciá-las entre questões conjunturais, interesses imediatos e o estabelecimento de seus vínculos com as questões que apresentam tendências mais perenes, sejam elas apreendidas através de entrevistas, discursos, relatos de vida, jornais, atas de assembléias de sindicatos, documentos produzidos pelas diversas áreas do governo, das ONGs, etc., desde que seja possível perceber as tendências políticas, econômicas e sociais que elas representam. Hardt e Negri comentando a concepção de tendência, em Marx, escreveram:

Na idéia de tendência está implícita a idéia de periodização histórica. A cada dia que passa ocorrem efetivamente mudanças infinitesimais na história, mas também existem grandes paradigmas que por longos períodos definem nossos modos de pensamento, nossas estruturas de conhecimento, o que parece normal e anormal, o que é evidente e obscuro, e até mesmo o que é imaginável ou não e que a certa altura mudam drasticamente para constituir novos paradigmas. A passagem entre os períodos é a mudança de uma tendência para outra. A produção capitalista contemporânea é caracterizada por uma série de passagens que dão nome às diferentes faces da mesma mudança: da hegemonia do trabalho industrial à do trabalho imaterial, do fordismo ao pós-fordismo e do moderno ao pósmoderno. A periodização enquadra o movimento da história em termos da passagem de um paradigma relativamente estável a outro. Cada período é caracterizado por uma ou várias formas comuns que estruturam os diferentes elementos da realidade social e do pensamento. (...). (HARDT e NEGRI, 2005, p.190, 191)

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Nesse sentido é que consideramos fundamental, no caso desta pesquisa, a investigação sobre a evolução da questão da propriedade da terra e sua transição dos seringais para as fazendas, projetos de colonização, depois para as reservas extrativistas e outras modalidades de uso, haja vista que essa transição é notadamente caracterizada pela permanência da grande propriedade e onde o seringueiro/extrativista/posseiro/colono permaneceu sem títulos de propriedade, embora tivesse em alguns casos, autorização para habitar certas localidades, como permissionário. Os exemplos dos seringais e das reservas extrativistas são eloqüentes e emblemáticos para analisarmos essa condição de não proprietários de terras dos trabalhadores extrativistas, mesmo considerando que a existência das reservas extrativistas são resultados de reivindicações e lutas empreendidas pelos sindicatos e outros agentes que representavam os seringueiros. Esses acontecimentos, vale lembrar, mobilizaram outros setores da sociedade como as Organizações Não Governamentais (ONGs), setores da Igreja Católica, especialmente os ligados à Teologia da Libertação, ecologistas, ambientalistas e estudiosos das ciências sociais que ingressaram nesse espaço, alguns somando esforços ao lado dos trabalhadores extrativistas, no sentido de lhes dar garantias de ação na busca pela manutenção dos seus modos de vida, outros para praticarem a biopirataria e, ainda, os que aqui vieram para defender interesses, nem sempre explícitos, mas, comumente, conectados com idéias apaziguadoras de conflitos, atuando sempre no sentido de desconstruir, ou desmotivar as ações mais agudas que levavam à radicalização da luta para posições políticas de cunho revolucionárias. Enquadram-se nesse campo, representantes de muitas ONGs, da Confederação de Trabalhadores na Agricultura - CONTAG, de Centrais de Trabalhadores como a CUT, representantes de alguns segmentos religiosos e, mesmo partidários, como setores do PT e do PMDB, que faziam oposição ao regime militar, mas não tinham perspectivas de mudanças estruturais no campo da propriedade privada, por exemplo. Ou seja, estavam ao lado dos trabalhadores contra algumas arbitrariedades cometidas por patrões, fazendeiros, policiais e outras autoridades do Estado, especialmente, as que estavam ligadas à violência física, mas tinham um limite para suas intervenções políticas. (Comumente respeitam a propriedade, sem investigar a forma como ela se constituiu).

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A reação dos trabalhadores extrativistas (seringueiros) contra a destruição de seus modos de vida ajudou a remodelar os planos do Governo do Estado, da União, dos fazendeiros, dos compradores de terras e dos especuladores e grileiros que “invadiram” o Acre nesse período. Serviu também para produzir uma série de interpretações historiográficas que no dizer de Gerson Albuquerque, priorizaram as análises estruturalconjunturais, como:
“Ascensão capitalista na Amazônia”, “integração amazônica”, “formação e movimentos de capitais na Amazônia”, “fronteira do capitalismo”, “ocupação das terras acreanas pelo grande capital”, “acumulação de capitais”, “luta entre capital e trabalho”, “seringueiros e índios como mão-deobra explorada pelo capitalismo mundial”, e outros dessa natureza, que pouca ou nenhuma atenção dão aos trabalhadores rurais enquanto sujeitos com uma visão própria da forma como viram e/ou viveram esse e outros processos. (ALBUQUERQUE, 2001, p.17) 7 (grifos do autor).

Nossa proposição é, portanto, percorrer um caminho que me permita analisar esse período, buscando não reproduzir a visão de que todos os movimentos sociais aqui realizados tinham suas ações determinadas pelos movimentos do capitalismo, mas também não me afastando do entrecruzamento de interesses antagônicos que mobilizaram trabalhadores e empreendedores para, e no Estado do Acre, desde meados do século XIX e ao longo do século XX, como também sem me afastar dos axiomas que apontam para uma sociedade que tinha se estruturado hierarquicamente, sob uma forma extremamente rígida, com poucas possibilidades de mobilidade para fora de suas redes de opressão interconectadas, tanto nos espaços urbanos, como florestais - extrativistas8.

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- Destacado militante estudantil (secundarista e universitário), ex-dirigente do Partido Comunista do Brasil no Acre, o hoje professor da UFAC. Acompanhou de perto os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos na organização de seus sindicatos, primeiro como participante e, depois, como pesquisador, passou a criticar as análises generalistas que se fazia desses movimentos. Quando desenvolveu sua tese de doutoramento intitulada Espaço, cultura, trabalho e violência no vale do Juruá, no Programa de Pós-Graduação em História Mestrado e Doutorado - PUC-SP, 2001, ele destacou as relações sociais que se desenvolviam no seio das comunidades, na perspectiva de “deixar” essas comunidades falarem, ao invés de falar sobre elas.
8

- A recorrência em denominar os seringueiros como “trabalhadores extrativistas”, ao invés de trabalhadores rurais, se faz necessária porque falar de zona rural no Acre, bem como em grande parte da Amazônia Legal, até a década de setenta, aproximadamente, é estar usando uma referência com significado bastante distintos dos sentidos que ela se nos apresenta em outras regiões do País. Por trabalhadores extrativistas naquela época entende-se um conjunto de habitantes espalhados pelas florestas, com acesso aos modestos centros urbanos apenas por via fluvial, após percorrer vários dias de viagem a pé, atravessando estreitos ramais e varadouros, até chegar às margens do rio mais próximo para, depois, através de uma embarcação nem sempre movida a motor, deslocar-se até a cidade. Há muitas pessoas que nasceram e morreram nos seringais sem nunca terem feito esse trajeto até uma cidade, ou seja, nunca tiveram nenhum contato com o significado de “mundo

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Quando dizemos que não queremos reproduzir uma visão de que os conflitos aqui localizados, obedeceram a uma determinação a priori do capital, referimo-nos a compreensão de uma definição rígida para a existência da luta de classes, isto é, que a mera presença do capital já escala do outro lado seus oponentes, os trabalhadores (proletários). Entendendo que os conflitos com características classistas não se estabeleceram de forma mecânica a partir da separação dos interesses entre patrões (seringalistas, fazendeiros, etc.) de um lado, e seringueiros, posseiros, colonos, etc., do outro. Nesse sentido, faz-se valiosa a utilização dos conceitos de E. P. Thompson (1987), quando ele demonstra a necessidade da classe construir-se e constituir-se no processo de lutas em que ela se enreda, como ele registra no prefácio de A formação da classe operária inglesa:
A classe operária não surgiu tal como o sol numa hora determinada. Ela estava presente ao seu próprio fazer-se. (...) por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como da consciência9. (THOMPSON, 1987: 09).

A história desses brasileiros invisíveis, ou não visíveis, que viviam embrenhados na floresta só foi revelada quando, na contramão da proposta de desenvolvimento encabeçada pelos Governos da União, Estadual e Municipais, construíram uma forma de se mostrar, de se tornarem visíveis diante dos novos mecanismos de extermínio de seus modos de vida que estavam em curso. O que os uniu foi uma luta por terras, pela sobrevivência, pela manutenção do seu modo de vida, mas esse objetivo sofrerá no seu percurso modificações, incorporações e adaptações às novas configurações que o processo recheado de novos agentes foi exigindo. Quando iniciamos esta proposta de pesquisa, pensamos na realização de um grande levantamento com base em entrevistas e relatos de vida do maior número possível de seringueiros, imaginando que assim estaríamos fugindo da “obrigação” de

moderno”, diferentemente dos trabalhadores rurais das Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, que comumente tem seu pequeno lote e praticam a agricultura, com o objetivo de venda nas cidades.
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- Nesse livro (Thompson, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.) o autor desenvolve importante contribuição historiográfica sobre o conceito de classes, sendo inclusive considerado como um marco da historiografia marxista do século XX.

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“fazer” uma história a partir dos registros oficiais, que estaríamos de fato fazendo uma “history from below”10. Porém, depois de algumas reflexões sobre as conversas que tivemos com muitos desses seringueiros, observamos que eles sempre mencionavam, além de sua união, a importância de agentes externos no desenrolar de suas mudanças de condições de vida. A forma como entendiam a participação da Igreja, dos ambientalistas, dos sindicatos, do próprio governo e fazendeiros, nos alertaram para as interconexões existentes nesses modos de vida e suas articulações, mesmo que as entendamos como involuntárias, com esses segmentos externos. Foi então que passamos a buscar outras fontes, onde pudéssemos absorver melhor compreensão acerca dos acontecimentos que contribuíram para as agitações sociais que movimentaram o Acre, principalmente nas duas últimas décadas do século XX. Dessa forma, lembramos da minha fase de vendedor do jornal “Varadouro”, quando ainda morava em Tarauacá e os comentários, as caras de aprovação, ou de repúdio, de raiva mesmo, que ouvia e via a respeito daquele jornal. Voltando-nos para as matérias publicadas pelo jornal, que há época não havia motivos para destinar muita atenção, a não ser faturar alguns trocados com a venda, compreendemos a riqueza de informações e interpretações sobre as áreas de tensões que o Acre tinha atravessado, então resolvemos incluir como fonte de pesquisa, não só o jornal Varadouro, como também os jornais Gazeta do Acre (posteriormente denominado A Gazeta), Página 20 e o jornal da Prelazia do Acre – Purus, “Nós Irmãos”, na busca de identificar como esses meios de comunicação abordaram os acontecimentos e como influenciaram as diversas tendências que se engalfinhavam na busca de aliados para suas concepções de mundo. Deixamos de fora outros jornais que circularam no Estado porque a quantidade de matérias encontradas nos pesquisados já nos colocaram diante de um conjunto de informações bastante satisfatório para o uso pretendido, mas os relacionamos para efeito de uso por outros interessados por este tipo de fontes. Circularam também nesse período os

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- History from below, numa tradução livre, a história vista de baixo, ou a história a partir de baixo é uma expressão que segundo Hobsbawm (1998, 216), tem como um dos formuladores pioneiros, George Rude e significa a história da gente comum, dos movimentos populares, uma espécie de contraponto a história escrita para glorificação de governantes e outras figuras poderosas.

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jornais O Rio Branco, um dos mais antigos e ainda em circulação, A Tribuna, O Estado (os dois mais recentes) e Folha do Acre, este último já fora de circulação, a não utilização desses jornais neste trabalho não desmerece a quantidade de informações e de pontos de vista que eles representam. A perspectiva de incluir os jornais e, obviamente, os pontos de vista ali externados serviram também como elemento qualificador, no sentido de ampliar os pontos de apoio, da crítica às informações obtidas de alguns interlocutores (seringueiros, sindicalistas, religiosos, políticos, ou ambientalistas), que poderiam aparecer como privilegiados neste contexto, como portadores de uma história consolidada e sem outras possibilidades. O desenrolar dessa mobilização dos trabalhadores extrativistas contribuiu para que entre os anos finais do século XX e os iniciais do XXI, o Estado do Acre venha sendo apontado, em alguns meios de comunicação e por algumas Instituições, entidades e Organizações Não Governamentais (ONGs), como referência no que diz respeito à preservação/conservação ambiental, bem como vem apresentando alternativas de desenvolvimento sustentável, que são representadas pelas técnicas de manejo florestal, pela demarcação das reservas extrativistas, na demarcação de áreas de conservação, no estabelecimento de corredores ecológico-biológicos, na criação de pólos agro-florestais, etc. e criando outros referenciais como, por exemplo, o conceito de florestania, neologismo que expressa uma idéia de vocação para a garantia de direitos e de respeito às populações que habitam as áreas de florestas, ou que serve mesmo para expressar um novo modo de vida (como propõe o jornalista Antônio Alves, um dos principais entusiastas do termo). Estas referências são acolhidas em amplos espaços e setores dentro do Estado, como também no âmbito de fóruns ligados à ecologia, ao ambientalismo, ONGs e de alguns organismos multilaterais internacionais (ONU, BID e BIRD) e federais (IBAMA, MMA) que costumam ressoar manifestos em defesa da natureza. Uma breve idéia dessa formulação sobre as “peculiaridades” do Acre pode ser encontrada no documento final do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), onde na sua parte introdutória, denominada Trajetórias Acreanas, assim descreve, ou prescreve sua concepção de importância do Estado no contexto amazônico:

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O estado do Acre desempenhou um papel relevante na história da região Amazônica durante a expansão da economia da borracha no final do século XIX pelo potencial de riqueza natural dos rios acreanos e pela qualidade e produtividade dos seringais existentes em seu território. O Acre foi cenário do surgimento de organizações sociais e políticas inovadoras nas últimas décadas do século vinte baseadas na defesa do valor econômico dos recursos naturais. E hoje, tendo optado por um modelo de desenvolvimento que busca conciliar o uso econômico das riquezas da floresta com a modernização de atividades que impactam o meio ambiente, resume a importância estratégica no futuro da Amazônia. O Acre vem mostrando que é possível crescer com inclusão social e proteção do meio ambiente. (ZEE, 2006, p. 1) (grifamos).

Mas, o que há de diferente no Acre, que vai além de sua representação como o Estado longínquo, incrustado nos limites ocidentais do Brasil, fruto de uma disputa territorial com a Bolívia? O que há de diferente daquele Estado que antes era apresentado e percebido pelos outros brasileiros apenas pela sua representação estilizada dos seringueiros ou, dos coronéis da borracha, que agora chama a atenção de setores urbanos, nacionais e internacionais? Como foi possível inscrever, na última passagem de século, um seringueiro como herói, no livro dos Heróis do Brasil, sendo que há muito os seringais haviam falido? Ou, mais, o que levou esse seringueiro a ser reconhecido mundialmente como símbolo da luta ecológica? Será mesmo o Acre o resumo das possibilidades de desenvolvimento para toda a Amazônia? Como estão vivendo os seringueiros remanescentes do extrativismo tradicional? São eles os “guardiões das florestas”? Quais são as bases da sustentabilidade pretendida como modelo e exemplo para outras regiões? E o que pensar das opiniões que colocam os seringueiros como exemplos de modernidade ecológica? A busca de resposta para essas questões partirá, então, da análise das inter-relações que foram sendo moldadas a partir do momento em que se encontram, nos mesmos lugares e nos mesmos espaços, alguns setores representantes do Estado, setores empreendedores (fazendeiros, especuladores, grileiros), trabalhadores extrativistas, colonos vindos de outras regiões do país, pequenos proprietários locais, ecologistas, ambientalistas, religiosos, entidades classistas, etc., e os novos modos de vida que foram engendrados a partir dos encontros/desencontros desses diferentes segmentos sociais no espaço territorial do Acre, especialmente as zonas mais conflituosas, partindo da capital do Estado, Rio Branco, até Brasiléia, município que faz fronteira com Cobija, capital do Departamento de Pando, Bolívia e Assis Brasil, que faz fronteira com Iñapari, município do Departamiento de Madre de Dios, no Peru, passando pelo município de Xapuri, também fronteiriço com a

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Bolívia, numa distância de trezentos e trinta quilômetros, aproximadamente, ao longo da BR - 317. A forma para encontrar essas respostas será centralizada na pesquisa e na análise dos fatos e na maneira como eles foram tratados pelos diversos agentes envolvidos, ou seja, como e onde eles registraram suas ações no processo. Para alcançar esse objetivo lançaremos mão da utilização de jornais, entrevistas e a leitura de documentos produzidos por sindicatos, ONGs, governo e estruturas governamentais, como o IBGE, o INCRA, o IBAMA, ou do Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre (ZEE), bem como das teses e dissertações produzidas por docentes da UFAC, abordando o tema, além de livros publicados por outros pesquisadores que trataram o assunto. A utilização desses materiais permitiu a sistematização e apreensão das novas linguagens que foram introduzidas no contexto histórico que marcaram essa transição e formataram o novo desenho sóciometabólico desta região do Estado do Acre. As fontes utilizadas (jornais, entrevistas, documentos produzidos pelo Governo como o ZEE, as tese e dissertações, os dados do IBGE, do IBAMA, do INCRA, ou documentos dos sindicatos ou ONGs) certamente não trarão respostas prontas para todas as questões propostas, mas serviram como roteiro para a proposição de situar historicamente esses acontecimentos. O que estamos considerando situar os acontecimentos significa que não queremos tratar, exclusivamente, as formas como os seringueiros viram as mudanças que estavam em processo e que os afetava diretamente, pois um dos objetivos da pesquisa é estender a percepção sobre as formulações do Estado e dos “empreendedores” que também foram protagonistas desse roteiro, no sentido de compreender os conflitos, também na relação de utilização da natureza, que vai dominar a cena que substituiu (encobriu) o conflito agrário, localizando-o no eixo de conflito ambiental. Há muitas evidências de que houve profundas mudanças nas relações tradicionais que marcaram a sociedade acreana, de sua formação até os dias atuais. Da inclusão do Acre como território brasileiro, no início do século XX, até a década de setenta desse mesmo século, não há como negar que a organização sócio-econômica e política girava em torno da produção de borracha e da coleta de castanha e esses eram os dois principais produtos garantidores da sustentação do Estado, mesmo considerando que essa produção conviveu

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com crises bem delineadas e sua importância esteve vinculada às oscilações do mercado e da conjuntura política internacional. A expansão populacional brasileira em direção ao Centro-Oeste e a Amazônia, a partir da segunda metade do século XIX e durante o século XX, é uma prodigiosa demonstração da relação homem-natureza, no sentido de fronteira a ser conquistada, de aproveitamento predatório dos recursos naturais mais acessíveis e que proporcionavam lucros imediatos. Das “drogas do sertão”11 aos minérios, ou ao “agribusiness”, tudo o que podia ser extraído da natureza era motivo para o deslocamento. A relação homem-natureza era moldada pela prática do uso/esgotamento/descarte/avanço. A submissão do seringueiro aos mecanismos da dívida contraída junto ao barracão, ou noutra forma de ver, instituída por este, atravessaram o século XX, como modelo mais perceptível da desigualdade dessa modalidade produtiva. Euclides da Cunha alertou que o seringal é a mais imperfeita organização de trabalho que engendrou o egoísmo humano. “O sertanejo realiza ali, uma anomalia a qual nunca é demasiado insistir: é o homem que trabalha para escravizar-se”12. Após a década de setenta, contudo, essa base econômica vai sofrer uma interferência por parte do Governo do Estado, instruída, organizada mesmo pelo Governo Federal. O Estado se apresentará propondo novos investimentos em outros segmentos econômicos, sem deixar de lado a lógica predatória de uso/descarte, como forma de incrementar a economia que se encontrava em ruínas desde a segunda falência dos seringais nativos no pós Segunda Guerra (a primeira ocorreu após a entrada da produção dos seringais de cultivo do Leste asiático, no início do século XX). A opção do Governo do Estado em financiar a agropecuária e as conseqüências dessa ação é que vão conduzir as mudanças sociais que levaram ao surgimento dos movimentos de trabalhadores extrativistas. Serão esses movimentos que, de alguma forma, estarão no centro dos debates que conduziram o Estado do Acre à condição de centro das atenções, tanto devido aos conflitos sociais, como pela emergente discussão sobre as questões ambientais.
11

- Por “drogas do sertão” entende-se o conjunto de especiarias que eram levadas para a Europa e para os centros urbanos das colônias. Eram plantas, sementes, flores, frutas tidas como exóticas e que ganharam destaque na indústria e na culinária dos estratos sociais mais elevados. As principais especiarias são: pimentado-reino, castanha-do-pará, urucum, baunilha, âmbar, canela, anil, pau-brasil, cacau, cravo, etc.
12

- CUNHA, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Cultrix, Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1975, p. 35.

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Porém, num mundo em que os meios de comunicação fazem questão de ressaltar a modernidade das cidades, representadas por suas largas avenidas e por onde circulam potentes automóveis, seus aeroportos, supermercados, shoppings centers, túneis e linhas de metrôs, aonde a modernidade tecnológica ganha destaque nos lançamentos de naves espaciais que vão da terra até estações orbitais e voltam, com a precisão de um vôo de colibri em torno do núcleo de uma flor, ainda somos surpreendidos pela existência de movimentos que reivindicam a vida no meio da floresta. Num mundo em que as novas tecnologias, a globalização econômica, a interligação do planeta pelas vias da rede mundial de computadores fazem parte de um cotidiano veloz, que tudo aproxima, pode parecer estranho apresentar um tema que aborda um assunto ligado a trabalhadores extrativistas, que tecem sua existência, mergulhados num outro modo de vida, onde as distâncias ainda são medidas em dias de caminhada ou navegação e os alimentos, por exemplo, precisam ser pescados em rios, igarapés, lagos, igapós, caçados nas matas ou, cultivados em roças que ainda utilizam à coivara como técnica de adubação e preparo do terreno, ao invés de serem adquiridos nas sempre bem abastecidas e regulares gôndolas dos supermercados. Ainda bem que, para atenuar esse predomínio das esferas urbano/indústria/tecnologia, Henrique Leff (1998), escreveu que vivemos em:
Tiempos de la hibridación del mundo – la tecnologización de la vida y la economización de la naturaleza -, de mestizaje de culturas, de diálogos de saberes, de dispersión de subjetividades, donde se está desconstruyendo y reconstruyendo el mundo, donde se están resignificando identidades y sentidos existenciales a contracorriente con el proyecto unitario e homogeneizante de la modernidad. Tiempos donde emergen nuevos valores y racionalidades que reconducen la construcción del mundo. Tiempos en que los que se descongelan, se decantan, se precipitan y se reciclan los tiempos históricos pasados; donde hoy se reenlazan sus historias diferenciadas y se relanza la historia hacia nuevos horizontes. (LEFF, 1998: 9).

Então, pensando exatamente nas assimetrias e hibridizações do mundo contemporâneo é que percebemos as possibilidades de diversificar as interpretações sobre os fenômenos ditos globais, mormente os que pretendem enclausurar todas as sociedades no mesmo lastro interpretativo, ou seja, queremos nos posicionar numa angulação diferente daquelas correntes de pensadores13 que projetam o mundo a partir do cotidiano veloz de alguns setores da vida urbana.
13 -

Francis Fukuyama, com seu livro O Fim da História e o Último Homem, de 1992, é um dos articuladores dessa idéia. Ele entende que o setor produtivo industrial, auxiliados pelas novas tecnologias, pela informática

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Contrariando essa perspectiva, insistimos que é possível diferenciar-se dos que olham para uma parte e vêem o todo e, mesmo não querendo discutir a validade das interpretações de tendências observáveis, tipo alguns aspectos da globalização, como a informática, os transportes, as comunicações, o comércio, a moda, etc., que aparentam certa padronização14 (homogeneidade) e que norteiam as convicções de muitos pesquisadores nas diversas áreas das ciências, entendemos que sem a observância das singularidades, todas as interpretações sobre temas amplos, como o estudo das relações humanas, por exemplo, estão fadadas à generalização e/ou à exclusão de aspectos dos modos de vida que se materializam a partir da construção e reconstrução de fazeres cotidianos de outros homens, mulheres e crianças diferentes, que articulam sua sobrevivência em lugares também diferentes, muitas vezes, indiferentes às manifestações dos aspectos sustentados como globais. Quando manifestamos posição contrária à homogeneização, a leitura de mundo como linear, não estamos, com efeito, pensando na tese de que a vida de cada homem, fragmentariamente apreendida daria uma história, pois como escreve Costa Lima (2006, 324), falando da literatura: “Que eu saiba, nunca ninguém se questionara se cada vida seria um poema, pois o poema não era pensável como algo independente da linguagem que o compõe.”, pensamos, portanto, nos diferentes corpus e, principalmente, nas redes que os conectam aos seus lugares e espaços, ou no tempo saturado de agoras, de Walter Benjamin. Mais ainda, em se tratando de movimentos sociais, as formulações marxianas de que as classes existem, independentemente da consciência que se tenha delas e thompsiniana de que classes sociais existem e que elas podem ser entendidas como um fenômeno histórico, “que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente

e pela inovação, teria atingido um nível que ultrapassaria a necessidade da existência do trabalhador, promovendo a melhor organização sócio-econômica engendrada pelo homem. Já Paul Virilio, 1997, fala de fim da geografia, fundado na idéia de que as distâncias já não importam, ao passo que a idéia de uma fronteira geográfica é cada vez mais difícil de sustentar no mundo real. Também Immanuel Wallenstein, 1999, entende que a economia-mundo (leia-se capitalismo), se desenvolve com tanto sucesso que destrói, desintegra as condições sociais em todas as partes. Porém, Wallenstein, ao contrário de Fukuyama, não nega a existência de alternativas fora do capitalismo.
14

- Referimo-nos as idéias de que o mundo atual seria impossível sem a existência dos aviões, dos telefones celulares, dos microcomputadores, da internet, etc., divulgadas nos diversos meios de comunicação, como se toda a humanidade dispusesse dessas condições ou usasse esses aparelhos e seus recursos.

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desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como da consciência” (THOMPSON, 1987), é que optamos pela proposição de que o mundo não corresponde à teimosa tentativa de homogeneidade, principalmente na raia das divergências de interesses entre empregados e empregadores. Thompson (1987) mesmo reforça essa questão quando assevera que:
“A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus”. (THOMPSON, 1987: 09, 10).

Na observação da convivência contraditória entre o que se considera contemporâneo e o que se considera arcaico é que poderemos perceber as novas fronteiras em que a sociodiversidade acreana, principalmente no caso em estudo, uma parte dos chamados “povos da floresta” se imbrica, no sentido de permanecer nos seus limites, ou atravessá-los, para reorientar suas possibilidades de sobrevivência, nos, cada vez mais raros, lugares que eles podem usar para esse fim. Até porque não estamos pensando apenas na fronteira física, que envolve a luta pela terra, por exemplo, mas sim pensando também na luta travada para acompanhar os novos significados das mudanças em que estão enredados, as novas possibilidades de relacionamentos com os outros espaços que vão se formando ao seu redor, ou seja, uma espécie de fronteira cultural, no sentido empreendido por Peter Burke, pois, mesmo considerando os ambientes diferentes a que ele se refere, podemos entender que:
A idéia de fronteira cultural é um conceito atraente. O problema é que a idéia é atraente demais, de modo semelhante à própria idéia de "cultura", já que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Usar o conceito representa um perigo constante de passar do sentido literal da expressão para um sentido metafórico, de fronteiras lingüísticas, tais como aquela que separa o francês do alemão na Alsácia, por exemplo, para as ''fronteiras" entre classes sociais, entre o sacro e o profano, entre o sério e o cômico, entre a história e a ficção15. (BURKE, 2007: 03).

Estendendo o conceito de fronteira para além do físico e do político, podemos dizer que da mesma maneira em que há uma visão de um mundo globalizado, homogêneo, há também o de uma Amazônia homogênea. Construiu-se com relação à Amazônia, uma configuração que dilui as singularidades dos Estados que a compõe, onde a afirmação dos
15

- BURKE, Peter. Revista Cult – Fronteiras Culturais (formato eletrônico), publicado no site: www.revistacult.uol.com.br. Acesso realizado em 23.04.2007.

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potenciais econômicos, das riquezas minerais e biogenéticas, sua biodiversidade enfim, são suas únicas formas de visibilidade. Não se pode perder de vista que há realmente uma variedade de categorizações para a Amazônia, isto é, que há uma eleição complexa de significados que potencializam essas visões de grandiosidade extrema: ela já foi apresentada como o paraíso verde e o inferno verde, o continente perdido e a selva habitada por índios exóticos, o deserto amazônico, o reino das águas e o pulmão do mundo, uma província mineral e a terra pobre e sem recursos, ou seja, sempre informada ou conformada como representação ou expressão de um gigantismo ambivalente e ambíguo, fronteiriço, proporcional a sua extensão territorial16. Contudo, a Amazônia, na contracorrente do simbólico, é marcada pela heterogeneidade, tanto humana, como ecológica e, no meio desses enfoques interpretativos, encontramos homens fincados em lugares, ou buscando um, em que possam se estabelecer e, nessa busca, obviamente, deixando pistas para outras interpretações acerca de sua interação com os outros mundos que vão encontrando em seus percursos. Note-se que, mesmo tendo uma matriz comum no seu processo de ocupação/formação, os estados que compõem a Região Amazônica guardam hoje fortes traços diferenciais, que vão desde a composição étnico-social até as características geofísicas, que implicam modos particulares do relacionamento homem-natureza (moradores de terras-firmes e moradores de áreas alagadiças, áreas de mineração e reservas extrativistas ou indígenas, por exemplo). Também é necessário destacar que, nos últimos trinta anos do século passado, houve uma inversão na ordem da distribuição populacional na casa de setenta por cento, ou seja, de uma população que vivia majoritariamente nas florestas, hoje temos essa proporção concentrada em núcleos urbanos17. Porém, por mais contraditório que possa parecer, nessa construção/reconstrução de modos de vida, de significados e re-significados para e na Amazônia, houve a penetração
16

- Penso, dentre outras, nas seguintes obras: GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994; CUNHA, Euclides da. Um Paraíso Perdido; ensaios, estudos e pronunciamentos sobre a Amazônia. Org. LEANDRO, Tocantins. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1994; MARINS, Francisco. Território de Bravos. São Paulo: Melhoramentos, 1976; SOUZA, Márcio. Breve História da Amazônia. São Paulo: Melhoramentos, 1994; TOCANTINS, Leandro. Amazônia: natureza, homem e o tempo: uma planificação ecológica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
17

- Manaus (AM), por exemplo, com toda a extensão territorial do Estado, concentra quase cinqüenta por cento de sua população, do mesmo modo Rio Branco, capital do Estado do Acre, concentra quase a metade da população absoluta deste Estado. (Dados publicados pelo IBGE, 2005 – www.ibge.gov.br).

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de fatores exógenos que interferiram nos processos dos rearranjos econômicos, políticos e sócio-culturais das populações entendidas como tradicionais da e na região: são as novas fronteiras que se interpõem para incluir ou excluir as pessoas em seu processo contínuo de disputas entre as posições defendidas pela modernidade, representadas na tecnologização, no iluminismo e no conhecimento científico, contra (ou com) as formas caracterizadas pelos saberes e pelas experiências adquiridas ao longo da presença e dos relacionamentos estabelecidos pelos homens nesta biota. No curso do debate que envolve as diversas concepções de desenvolvimento para a Amazônia, a forma como o Estado do Acre vem sendo apresentando, tem favorecido a apreensão, por alguns segmentos do mundo globalizado, como sendo elaborador de uma forma diferenciada de abordar a temática. Os dois últimos governos, bem como o atual, em curso (2007/10), oriundos da mesma força política têm afirmado serem defensores de um modelo de desenvolvimento que adota a idéia de sustentabilidade como requisito fundante. Pensando nessa perspectiva, cabe re-posicionarmos a pergunta: qual é o impacto dessa adoção? Qual é a necessidade de sua afirmação e a que se contrapõe? Estudando a literatura a respeito do tema18, encontramos uma resposta aparentemente convincente, ou seja, que essa concepção política surge como uma reação aos projetos militares iniciados nas décadas de sessenta e setenta, já que eles (os militares) viam a questão do desenvolvimento numa perspectiva hierarquizada, onde o crescimento econômico baseado na indústria e na agropecuária, por si, comandaria todas as possibilidades desse modelo, sem demandar preocupações com as questões sócioambientais, por exemplo. Mas será que essa explicação é bastante? A cunhagem do termo florestania e a montagem do escudo desenvolvimento sustentável representam bem essa re-significação das concepções socioeconômicas e políticas para o Acre, pois tentam integrar os sujeitos não reconhecidos, não cidadãos, marginais e marginalizados, tidos por muito tempo como redundantes19, ou seja, com a
18

- IANNI, Octávio. Colonização e Contra-Reforma Agrária na Amazônia. Petrópolis: Vozes, 1979; HAGEMANN, Helmut. Bancos, incendiários e florestas tropicais: o papel da cooperação para o desenvolvimento na destruição das florestas tropicais brasileiras. Rio de Janeiro: FASE, IBASE e ISA, 1976; BECKER, Berta K. Síntese do processo de ocupação da Amazônia. Brasília: MMA, 2001; COSTA SOBRINHO, Pedro Vicente. Capital e trabalho na Amazônia. São Paulo: Cortez, Rio Branco: UFAC, 1992.
19 -

É um termo usado por Zygmunt Bauman (2005), para identificar pessoas que ultrapassaram a condição de desempregados, pois para ele as palavras desigualdade e despropósito que também usam o prefixo (des)

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florestania haveria o reagrupamento desses agentes que representavam o atraso e o anticrescimento econômico, integrando-os na nova concepção sóciometabólica promovida pelo Estado. Esta adoção tenta afastar esses agentes da condição subalterna, imposta pelos segmentos proprietários, estatais e de outros setores urbanos ligados ao comércio e a indústria, que eram aliados dos militares. Mesmo assim, além da novidade (florestania), o Estado não perde de vista o charmoso e atraente discurso do desenvolvimento, que agora seguido pela adjetivação sustentável ou sustentado, permanece incólume e invulnerável na sua marcha para o “progresso”. Então, percebemos que o Estado continua sendo propositor do “desenvolvimento”. Qual é a novidade dessa concepção? Terá o Estado do Acre conseguido elaborar, de fato, um modelo que consegue conciliar o crescimento econômico, a inclusão social e o respeito à natureza que o coloca como vanguarda mundial? Não acreditamos que possamos nos livrar facilmente do enredo para esse quadro híbrido e assimétrico do sociometabolismo acreano que tem como referência o advento do Governo Militar. É que, para dar lastro às suas concepções de desenvolvimento, a sua concepção geopolítica e, principalmente, a seus compromissos com o capital interno e externo, os militares esquadrinharam a Amazônia, reservando ao Acre o papel de fronteira agropecuária praticada em latifúndios. Esse é um aspecto bem sentido pela população do Estado, pois seus impactos foram marcantes. Entretanto, uma última pergunta, será o projeto dos militares a causa única para a organização de outra base para o desenvolvimento? No período de implementação do projeto dos militares e da base civil que os acompanhavam, as referências ao crescimento e ao desenvolvimento se davam pela quantidade de hectares desmatados e queimados20. Os conflitos sociais, causados por esses
costumavam indicar um afastamento da norma. O redundante não anuncia nenhuma situação de anormalidade ou anomalia, nenhum indício de doença ou lapso momentâneo. Redundância sugere permanência e aponta para a regularidade da condição. Nomeia uma condição sem oferecer um antônimo prontamente disponível. Sugere uma nova forma de normalidade geral, e o formato das coisas que são imanentes e que tendem a permanecer como são.
20

- A esse procedimento de derrubadas e queima da vegetação nativa (florestas) dava se o nome de “benfeitoria”, ou seja, o simples fato de se produzir qualquer tipo de trabalho em determinada área, mesmo que fosse um trabalho de atear fogo na vegetação, já era considerado pela legislação agrária como sendo uma benfeitoria. Essa denominação ainda é encontrada na legislação agrária atual. Isto facilitava enormemente a vida dos novos compradores de terras no Acre, pois, na maioria dos casos, os antigos moradores só praticavam agricultura de subsistência, praticamente não desmatavam, enquanto os novos compradores de

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desmatamentos e queimadas, eram tratados como casos de polícia e suas vítimas retratadas como subversivas que estavam a serviço do comunismo internacional e que concorriam para atravancar o desenvolvimento do País. Naquele momento, todas as ações dos militares eram realizadas sob a égide de um nacionalismo exacerbado, quase maniqueísta, obedecendo aos princípios da Doutrina de Segurança Nacional, das formulações contra-insurgentes que também orientavam os países ligados a OTAN, sob liderança dos EUA. Portanto, o “inimigo interno” deveria ser combatido com a mesma intensidade com que se combatiam os inimigos externos, ou seja, adotou-se internamente um discurso que era originário da “guerra-fria”21. Logo visualizamos que esse projeto se desenvolveu a revelia das populações locais e, mais ainda, dos movimentos de resistência, que foram se articulando ao longo das disputas travadas entre extrativistas/posseiros e os novos proprietários, tanto nas lutas por terras, como pela manutenção de um modo de vida ligado ao extrativismo que havia se organizado na região após a falência dos seringais nativos, no pós Segunda Guerra. O autoritarismo e a extemporaneidade dos militares, de certa forma, marca a entrada do Estado como controlador de mudanças, não só na estrutura produtiva, como também nos aspectos sócio-políticos nesta região do País. As denúncias contra os desmatamentos, que contribuíam para desarticular os modos de vida tradicionais e imprimiam reveses ecológicos, só vão surtir efeito quase vinte anos depois, já nos anos finais da década de oitenta e início da década de noventa, quando se tentou reverter a lógica desenvolvimentista dos militares. Foi nesse período, também, que foram fundados no Acre os princípios da florestania e do desenvolvimento sustentável, amparados numa vertente neo-extrativista e ecológico-ambientalista, que se diz respeitadora da natureza e reconhecedora da importância dos seringueiros e pequenos produtores. Essa reação foi resultado de uma articulação de segmentos urbanos e dos “povos da floresta”, que inauguraram uma nova maneira de relacionamento entre o mundo da floresta e o mundo urbano.
terras, os pretensos fazendeiros, já chegavam desmatando e ateando fogo em milhares de hectares, portanto se transformavam, pela legislação em “benfeitores”, isto é, proprietários.
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- IANNI, Octávio. Imperialismo na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988. BANDEIRA, Moniz. Relações Brasil-EUA no contexto da globalização. Rio de Janeiro: Senac, 1997. CHOMSKI, Noam. Novas e Velhas Ordens Mundiais. São Paulo. Scritta, 1996. CHOMSKI, Noam. O que o tio Sam realmente quer. Brasília: Editora da UNB, 1992.

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Essa nova forma de compreender a relação homem-natureza não surgiu de uma idéia original, nem estava desvinculada dos acontecimentos no cenário das crises do capitalismo, bem como não perde sua característica mais marcante, que é a de transformar a natureza em mercadoria, mas, por sua vez, tenta racionalizar a ordem capitalista, predatória de uso e descarte, mantendo, por parte do Estado, uma forte perspectiva de controle social. István Mészáros (2002), referindo-se a outro ambiente, mas focando esse flerte do capital com a ecologia, escreveu:
Há dez anos a ecologia podia ser tranquilamente ignorada ou desqualificada como totalmente irrelevante. Atualmente, ela é obrigada a ser grotescamente desfigurada e exagerada unilateralmente para que as pessoas – suficientemente impressionadas com o tom cataclísmico dos sermões ecológicos – possam ser, com sucesso, desviadas dos candentes problemas sociais e políticos. Africanos, asiáticos e latino-americanos (especialmente estes últimos) não devem se multiplicar como lhes aprouver – nem mesmo de acordo com a vontade de Deus, caso sejam católicos apostólicos romanos -, dado que o desequilíbrio demográfico poderia resultar em “tensões ecológicas intoleráveis”. Em termos claros, poderia até pôr em perigo a relação social de forças prevalecente. Analogamente, as pessoas deveriam esquecer tudo sobre cifras astronômicas despendidas em armamentos e aceitar cortes consideráveis em seu padrão de vida, de modo a viabilizar os custos da “recuperação do meio ambiente”: isto é, em palavras simples, os custos necessários à manutenção do atual sistema de expansão da produção de supérfluos. Para não mencionar a vantagem adicional que constitui o fato de se compelir a população em geral a custear, sob pretexto da “sobrevivência da espécie humana”, na sobrevivência de um sistema socioeconômico que se defronta com deficiências derivadas da crescente competição internacional e de uma mudança crescente na própria estrutura de produção, em favor dos setores parasitários. (MÉSZÁROS: 2002, p. 987).

Os mecanismos do controle social, usados pelo Estado para influenciar na remodelagem das relações econômicas e, mesmo das relações homem-natureza no Acre, estão inseridos, também, no contexto da adoção de uma espécie de padrão mundial de preocupação com o meio ambiente e com a preservação/conservação de recursos naturais, expandidos a partir da Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, denominada Eco-72, acontecida em Estocolmo na Suécia, no ano de 1972. Nesta Conferência realizou-se uma forte denúncia contra os padrões de alto consumo e sua relação com a destruição dos recursos naturais, bem como se denunciou a precarização da vida no planeta, causada pela adoção do padrão de consumo em massa de supérfluos, principalmente o praticado nos Estados Unidos e na própria Europa Ocidental. Mészáros (2002), fazendo uma severa crítica a pouca atenção dispensada pelos países ditos desenvolvidos e sua relação com as questões ambientais, asseverou:
Afinal, naqueles dias, os figurões políticos e seus assessores não viajavam no carro-chefe da ecologia, mas nas cápsulas espaciais esterilizadas da fantasia astronáutica e militar. Aqueles dias em

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que nada parecia demasiado grande, demasiado distante ou demasiado difícil para os que acreditavam – na religião da onipotência tecnológica e de uma Odisséia no Espaço na virada da esquina. (MÉSZÁROS: 2002, p. 987).

No caso do Acre, a virada crítica não se deu em cima do padrão de consumo, que é diametralmente oposto ao dos EUA e Europa Ocidental, mas sim, em torno da questão ecológica. Partiu de uma forte denúncia contra as queimadas e os desmatamentos que embasavam o tipo de desenvolvimento que havia sido proposto e executado pelos governos militares e seus representantes no Estado, ou seja, naquela prática já referida, de uma economia baseada na pecuária extensiva, que havia no início da década de setenta, devastado grandes áreas das florestas desta região da Amazônia para transformá-las em pastos. Um dos fatores mais marcantes dessa virada no sistema produtivo do Acre, isto é, o abandono do extrativismo tradicional, para dar marcha à produção agropecuária extensiva e depois seu retorno a uma perspectiva extrativista, nesta nova fase polissêmica que atende por neo-extrativismo, desenvolvimento sustentável ou, florestania, foi o papel do Estado na promoção, organização, financiamento e sustentação desses projetos, coordenando ou, no mínimo, fortemente influenciando os interesses diversos que disputavam politicamente, posições e privilégios em seus investimentos e demandas. Essa afirmação parece ser contraditória com a tese de que os movimentos populares no Acre, principalmente o dos seringueiros, foram participantes privilegiados na construção de uma nova configuração social a partir das organizações sindicais que através dos empates, nortearam as mudanças em curso. Em todo caso o elo não se perde, pois o que queremos destacar é que o Estado também se aproveitou das mobilizações dos trabalhadores extrativistas, mesmo estando sujeito às contradições, ambivalências, controvérsias e tensões que esse relacionamento demandava, mas sempre atuando no sentido de controlar os processos conflitivos, reprimindo os trabalhadores, considerados sem direito a terra, por não terem documentação comprobatória de suas posses, por outro lado, se colocando como agente participante, prometendo a conclusão de estradas, ramais e o assentamento em outras localidades com acesso a escolas, postos de saúde, etc., que faziam parte das reivindicações dos trabalhadores mobilizados.

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Esse enfoque no papel do Estado tem sido recorrente porque há significativas evidências do quanto era limitada sua intervenção no sistema extrativista tradicional, representado pelo sistema de aviamento que regia a empresa seringal, onde o patronato e o coronelismo eram responsáveis pela ordem econômica e política em seus domínios22. Porém, o Estado, na sua forma de representação pela via de reconhecimento republicano (Executivo, Legislativo e Judiciário), não atuou sozinho nesse processo de montagem/desmontagem da configuração sociometabólica acreana. Outros agentes colaboradores da ordem instituída participaram ativamente dessa remodelagem. Algo parecido com a idéia foucaultiana de formas de poder, ou seja, para ele, força nunca está no singular e tem como característica essencial o relacionamento com outras forças23. A Igreja Católica, os partidos políticos, a confederação dos trabalhadores na agricultura (CONTAG), as centrais sindicais (CUT e CGT) formadas na transição do regime autoritário, os sindicatos de trabalhadores rurais (STRs) e as organizações não governamentais (ONGs), são exemplos destes outros atores que ajudaram nessa travessia inconclusa da recente história do Acre. Esse conjunto diverso foi ao longo do tempo produzindo marcas também diversas de suas participações nos processos dessas travessias que embalaram as disputas entre os movimentos sociais e as forças opressoras ligadas às elites e articuladas pelo, ou com, os Governos dos municípios, do Estado e da União. Para identificar o registro dessas participações, recorremos a alguns tipos de fontes que foram constituídas a partir de interesses diferentes e muitas vezes divergentes, mas que, revisitadas a partir de indagações do presente, servem de instrumento orientador para as considerações relativas à tessitura da narrativa a que nos propomos. Então, além dos dados fornecidos por órgãos governamentais, como INCRA, IBGE e IBAMA, que trataram ao

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- Trataram sobre esse assunto, dentre outros: CUNHA, Euclides da. À margem da História. Lisboa: Livraria Lello & Irmãos, 1946; COSTA, João Craveiro. A Conquista do Deserto Ocidental: subsídios para a História do Território do Acre. São Paulo: Editora Nacional, Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973; RANZI, Cleuza D. Raízes do Acre: 1870/19. Rio Branco: UFAC, 1988; TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979 (vol. I e II); MARTINELLO, Pedro. A “Batalha da Borracha” na Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências para o vale amazônico. Rio Branco, UFAC, 1988.
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- FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1977. Nessa obra ele aborda a composição do poder e sua forma de exercício, a violência, mostrando que a força por si não tem objeto nem sujeito a não ser a própria força. O exercício da força já é demonstração de poder e a força não se exerce de uma única direção.

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longo dos anos, dos conflitos agrários, das questões estatísticas, tanto econômicas, quanto populacionais e das questões ecológicas, respectivamente, serviram-nos também as páginas de três jornais laicos (Varadouro, A Gazeta e Página 20), que circularam e veicularam informações sobre os conflitos em tela e, do jornal confessional, da Igreja Católica, “Nós Irmãos”, editado pela Prelazia do Acre-Purus, que também tratou dessas questões em suas edições. Para identificar outras opiniões, principalmente daqueles que não tiveram a oportunidade de serem ouvidos por órgãos do governo ou por representantes dos meios de comunicação, ditos de massa, recorremos ao mecanismo das entrevistas com alguns seringueiros, selecionando os que militaram ou militam em sindicatos ou, associações e os que não desenvolviam relações diretas com estes, na perspectiva de obter pontos de vistas diferentes, num ambiente com características que apontam para as semelhanças, tanto nos problemas quanto nas soluções buscadas e/ou encontradas. Utilizamos, ainda, o acervo de teses e dissertações da Universidade Federal do Acre, onde encontramos o registro de trinta e sete trabalhos que tratam diretamente dos temas ligados ao desenvolvimento sustentável, às questões ambientais e aos movimentos sindicais de trabalhadores rurais no Estado. Esses trabalhos adquirem um caráter diferenciado, pois suas abordagens são mais voltadas para estudos de alguns efeitos desse processo, apresentando perspectivas mais ou menos engajadas em relação às políticas que permeiam os eventos. O certo é que elas estão presentes, combatendo ou apoiando as concepções de desenvolvimento econômico, as relações sociais e ambientais ou descrevendo as novas situações que foram passíveis de apreensão por seus autores. No geral, aparecem como enriquecedoras das possibilidades de novas interpretações e/ou variações sobre esse tema. Na pesquisa realizada nos jornais, delimitamos a atenção para os editoriais, as manchetes, as reportagens, as notas, os artigos, e outras abordagens que fizessem menção aos seguintes assuntos: ações ligadas à reforma agrária, desenvolvimento sustentável, neoextrativismo, florestania, reservas extrativistas, sindicatos de trabalhadores rurais, empates, luta pela terra, colonização/assentamento, conflitos envolvendo seringueiros, posseiros, colonos, patrões e fazendeiros. Dos três jornais pesquisados o jornal Gazeta do Acre, que em 1989 passa a se denominar somente A Gazeta, é o de maior longevidade e o que contém o maior número de 40

incidências de notícias sobre os temas pesquisados. Este jornal circula principalmente na capital (no interior a circulação é reduzida e irregular), de terça a domingo com regularidade (deixa de circular nos feriados). Embora seus dirigentes tenham uma longa história de ligação com o PMDB, alguns deles são oriundos do jornal Varadouro e, talvez por isso, tenham mantido em seus quadros muitos jornalistas que tinham vínculos com partidos mais à esquerda como o PC do B e o PT. Como o PMDB no Estado tinha um viés de oposição, mesmo que um de seus principais dirigentes (dono?), tenha sido Prefeito Biônico da capital e depois Governador, Senador, novamente Prefeito e depois Deputado Federal, os editores tentaram fazer um tipo de jornal que funcionasse com desenvoltura comercial, portanto, destacando em seus editoriais uma característica de independência, onde seria priorizada a cobertura dos “fatos como eles são”, ou seja, seria um jornal no padrão clássico, isto é, que se apresenta como sendo isento, apolítico e apartidário. Pesquisamos nesse jornal o período compreendido entre os anos 1980 a 2000 e encontramos mais de duas mil e quinhentas incidências sobre os temas relacionados, tendo fotografado mais de mil e quinhentas, selecionando as que mais nos interessavam para a abordagem dos temas relacionados24 Já o jornal Nós Irmãos, que circulava até recentemente em formato de papel ofício grampeado e rodado em mimeógrafo com stencil (atualmente já é diagramado eletronicamente e impresso em formato tablóide), publicado pela Diocese do Acre-Purus e tem circulação mensal e algumas vezes bimensal, apresenta-se como tendo a função principal de fazer circular informações entre as paróquias ligadas à Diocese, com sua mensagem evangelizadora, mas independente de sua característica religiosa, representou durante algum tempo o único veículo que abordava a questão da violência praticada contra os seringueiros, posseiros e colonos, tomando posição de defesa destes. Embora o arquivo da Diocese não tenha preservado todos os exemplares, manuseamos boa parte das edições relativas aos anos compreendidos entre 1980 e 1990, também tendo realizado registro fotográfico de mais de cem matérias relativas à temática.
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- A seleção se faz necessária porque muitas vezes um mesmo fato é tratado em muitas edições sem adicionar elementos que mudem o curso do processo abordado. Como estava trabalhando com fotografia, já que a maioria dos arquivos não permite mais os processos de fotocópias (xérox), e embora isso não implique em custos financeiros significativos, o volume de fotos interfere no uso do programa escolhido no computador, por isso a seleção.

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Neste jornal, a coluna sob responsabilidade da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mensalmente estava enfocando aspectos da violência contra os seringueiros e populações dos bairros periféricos constituídos em sua maioria por ex-seringueiros e, denunciando os fazendeiros, capatazes e policiais responsáveis por essas práticas. Essas denúncias também eram enfatizadas na coluna reservada à mensagem do Bispo da Prelazia, que entre os comentários evangelizadores, cunhava críticas e clamores contra o desamparo das populações que viviam nas florestas e nas periferias de Rio Branco e cidades próximas. No jornal Varadouro, que circulou de forma irregular no período compreendido entre maio de 1977 e setembro de 1981, perfazendo ao todo vinte e quatro exemplares, se autodenominou, o “Jornal das Selvas”, é considerado tanto por intelectuais acreanos como de outros Estados, uma das melhores documentações sobre a situação indígena, dos seringueiros, colonos e das lutas travadas por eles contra os desmatamentos, os patrões, fazendeiros, grileiros e arbitrariedades cometidas pelo Estado nesse período. Articulado por antropólogos, jornalistas, sociólogos, advogados e outros, circulava sempre com denúncias bem fundamentadas contra os fazendeiros, grileiros especuladores, policiais e outros setores governamentais, bem como manejava com maestria suas tintas na crítica ao regime militar e suas políticas de desenvolvimento. O que causa espécie neste jornal é o período em que circulou, considerado pela historiografia recente como, ainda, de forte repressão, bem como de ação ainda intensa dos serviços de inteligência do Governo Militar. O outro jornal pesquisado, o Página 20, foi criado em 1995, quando boa parte dos conflitos por terras já havia amainado (mas não resolvido), e as questões ligadas à ecologia ganhavam maior destaque. Esse jornal já nasceu sob forte influência das forças políticas que faziam oposição aos governos conservadores oriundos do bipartidarismo herdado da ditadura militar. Alguns setores petistas, principalmente após as eleições municipais de 1992, que levaram a coligação denominada Frente Popular do Acre (FPA – PT, PC do B, PSDB, PDT, PV e PSB), a conquistar a Prefeitura da capital, detinham influência direta na linha editorial do jornal, que iniciou sua circulação como semanário, tendo se transformado em diário cinco anos depois. Por efeito dessa relação política (não assumida, mas bastante perceptível) esse jornal voltava suas críticas, diretamente para o modelo de desenvolvimento em curso e para

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os governantes do Estado, que eram apontados como insustentáveis, pois eram responsáveis pela destruição da natureza e dos modos de vida tradicionais ali inseridos25. Outros documentos importantes, utilizados para dar suporte a determinadas temáticas, foram os produzidos pelo Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre (ZEE - AC), composto por três volumes, em sua primeira fase e um volume resumo na sua segunda fase, esta acompanhada por um conjunto de mapas na escala 1:250.000 que, de acordo com seus formuladores, se constitui como o melhor estudo já realizado no Brasil, sobre as configurações geomorfológicas, geopolíticas e econômicas de uma região. Utilizamos, ainda e as cartas (atas), dos encontros denominados MAP (Madre de Dios - PE, Acre - BR, Pando - BO), que são encontros realizados desde 1998 com o intuito de discutir propostas de melhorar a integração e o relacionamento econômico, político, social e cultural da região da fronteira dos três países. O fórum é composto, em sua grande maioria, por entidades ambientalistas, sindicais, associativas, mas conta também com militantes de partidos políticos e algumas representações institucionais, sejam ligadas as universidades, sejam aos governos dos Departamentos e Estado, envolvidos. A leitura das matérias encontradas nos jornais, os dados fornecidos pelo IBGE, INCRA, IBAMA, IMAC, ZEE, as teses e dissertações, as atas das reuniões do MAP, as entrevistas, os documentos publicados pelos sindicatos e ONGs, todas essas fontes nos permitem entrever que os últimos anos do século passado foram marcados por intensas convulsões nas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais no Estado do Acre. Hoje, fala-se de uma nova cultura, de um novo pensamento, de novas relações que permeiam a sociedade acreana. Diz-se que ela perdeu a rigidez do sistema de aviamento do antigo seringal, e que agora é mais plural, mais híbrida, mais flexível e que procura enlaçar os conhecimentos tradicionais com as inovações tecnológicas. Entretanto, conforme as considerações precedentes, vamos constatar que sobre a Amazônia e, particularmente, sobre o Acre, construiu-se uma representação simbólica, uma
25

- Sobre os jornais que circularam e que circulam no Acre desde a década de setenta, exceto o jornal da Igreja Católica, todos os outros nasceram ligados às forças políticas que atuavam no Estado. Nenhum tinha autonomia financeira, isto é, não conseguiriam funcionar sem os contratos de publicidade com o governo ou com a prefeitura da capital. Até hoje, todos os jornais recebem e publicam os realeses feitos pela Assessoria de Comunicação do Governo ou da Prefeitura, diariamente. As mudanças de governo produzem alterações também nas linhas editoriais ou impõem situação falimentar em jornais de oposição. Quando aconteciam situações em que o Governo do Estado estava nas mãos de uma força política e a Prefeitura da Capital em outra, as “afinidades” determinavam à ordem de distribuição dos recursos de cada órgão, mas quando Governo do Estado e Prefeitura estavam com a mesma força política, havia a necessidade de adaptação.

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espécie de imaginário que na, nossa forma de ver, não corresponde às relações sociais existentes na região, ou seja, há uma diferença muito grande entre a configuração do discurso de sustentabilidade e florestania e as condições de vida reais da população, ou mesmo o discurso sobre as reais condições de vida dos trabalhadores extrativistas, ribeirinhos e até de colonos assentados pelo INCRA, que sofrem influência das construções imaginárias. Então, coloca-se como premente o papel do investigador/historiador para avaliar criticamente essas construções tão diversas. Então, frente à complexidade e a diversidade de construções constatadas, não seria inoportuno perguntar: diante da plêiade de significados do vocábulo “sustentável”, o que significou a sustentabilidade para os milhares de seringueiros que perderam suas terras e, conseqüentemente tiveram que modificar seus modos de vida? Conseguiu o Estado, ao apostar na agropecuária, se tornar “independente” na sua relação de “dependência” econômica com a União? Terá a concepção de florestania contribuído para reduzir as assimetrias da disposição campo-(floresta)-cidade, incluindo os povos da floresta nos benefícios fornecidos aos moradores das cidades? Entendendo que respostas para essas questões cairiam fatalmente no campo da relatividade, primamos por percorrer trilhas que apontem para a investigação dos significados dos novos modos de vida que se formaram nesse percurso em que estão inseridos os trabalhadores extrativistas. Percorrendo as notícias sobre sua existência, procuramos expressar, no âmbito das novas fronteiras, suas contradições, controvérsias, assimilações, consentimentos, perspectivas e disposição de sempre querer seguir adiante. Partimos, no primeiro capítulo, analisando os efeitos da virada econômica proposta, pelos militares, ou seja, a de situar a Amazônia e, por conseqüência, o Acre no contexto do Brasil militarizado, enfocando os aspectos da geopolítica e das perspectivas de “conquista”, integração, civilização e defesa da Amazônia concebida por eles. A transformação do Acre, no contexto dos chamados “grandes projetos”, que apresentaram para este Estado a construção de estradas e a pecuária como única alternativa ao extrativismo e o efeito dos desmatamentos e queimadas para as populações locais, impostos por um modelo de desenvolvimento fundado na concepção de que desmatar significava desenvolver. No segundo capítulo destacamos a mudança no status da propriedade da terra, ou seja, a transição dos seringais para as fazendas, das colocações para os lotes e as 44

incompatibilidades das novas práticas com os modos de vida tradicionais, enfocando como o Governo do Estado, instruído pelo Governo da União foi propositor, organizador e financiador do empreendimento pecuário, facilitando a venda das terras e dando garantias e incentivos fiscais, além de salvaguardas jurídicas a cerca da propriedade das terras em litígio e fornecendo o aparato policial que assegurava os investidores contra a reação de posseiros e pequenos proprietários, até a eclosão do “Empates”. No terceiro capítulo examinamos a participação de outros segmentos que deram apoio à luta dos trabalhadores extrativistas, como as CEBs (Igreja Católica), A CONTAG (depois a CUT), as ONGs, alguns partidos políticos (clandestinos inicialmente, depois legais) e, ainda, como algumas dessas entidades e instituições atuaram no sentido de atenuar os impactos das mudanças patrocinadas pelo Estado contra esses trabalhadores. Analisamos os fatores que permitiram a saída da condição fragmentária em que se encontravam para a aglutinação bem como a organização em sindicatos, associações e, posteriormente, suas alianças com segmentos ambientalistas, que contribuíram para a substituição das lutas pela terra por lutas ambientais. No quarto capítulo nos dedicamos à descrição do surgimento das novas forças políticas no Estado e os novos modelos de ocupação da terra propostos por esses agentes, principalmente os que dizem respeito ao neo-extrativismo, ao desenvolvimento sustentável e a concepção de florestania, avaliando os efeitos da implantação das reservas extrativistas, das unidades de conservação, dos pólos agro-florestais, dos arrendamentos de terras do Estado e os novos modelos de propriedade que eles comportam. Investigamos, também, a tentativa de sistematização e controle de todas as atividades econômicas do Estado, através do mecanismo do Zoneamento Ecológico-Econômico. Enfocamos, por fim, o debate que confronta as idéias de sustentabilidade e insustentabilidade da fusão entre economia, ecologia e ambientalismo, tentando apreender os efeitos desse debate entre os habitantes dos espaços urbanos e das florestas.

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CAPÍTULO I – O ACRE NO CONTEXTO DO BRASIL PÓS-GOLPE MILITAR DE 1964.

Neste capítulo apresentaremos o viés da integração proposta pelos militares para o Acre, principalmente a idéia de integração pela via do povoamento, através dos projetos de colonização e da construção de estradas. Enfocaremos as características predominantes na compreensão dos militares a respeito da grandiosidade (ufanismo) da tarefa para qual estavam se propondo, bem como sua inépcia para tal realização, demonstradas pelo fracasso dos projetos de interligação pelas estradas e falência dos projetos de assentamento. O outro enfoque é para a proposta do governo local, de sua tentativa de mudança da estrutura produtiva do Estado, acompanhando o governo federal, num projeto de larga escala para transformar o Acre em campo especial para investimento na pecuária. Destacaremos, ainda, os conflitos que essas ações desencadearam no Acre a partir da década de setenta, por desconhecimento da existência e das condições de vida das populações extrativistas. Faremos uso de material bibliográfico, documentos do governo (Planos de Governo), dados do IBGE, matérias de jornais e entrevistas para construirmos a narrativa proposta.

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1.1 – OS „GRANDES PROJETOS‟ DOS MILITARES PARA A AMAZÔNIA E SEUS EFEITOS PARA AS POPULAÇÕES TRADICIONAIS.

Localização do Acre no mapa da America do Sul.
Figura 01

A linha escura demarca uma parte do percurso da BR-364 (Porto Velho – Rio Branco) e dentro do Acre parte da BR-317, até as fronteiras com a Bolívia e o Peru, área do Vale do Rio Acre, onde se desenrolaram os principais conflitos pela terra entre seringueiros e fazendeiros. Em outro mapa na página 67, está indicado o roteiro seguido pela BR-364, que projeta alcançar os mesmos portos peruanos partindo de Cruzeiro do Sul, na parte mais ocidental do Estado. (Foto: ZEE, 2006).

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O Estado do Acre está localizado no cantão mais ocidental do território brasileiro e geograficamente está situado entre as latitudes de -7º06‟56 N e -11º08‟41 S, e as longitudes de 68º42‟59 W e 73º48‟05 WGr. Sua superfície é de 164.221,36Km2, o que corresponde a 4,26% da área amazônica e a 1,92% do território nacional (IBGE, 2007). Sua extensão territorial é de 445 km no sentido Norte-Sul e 809 km entre seus extremos Leste-Oeste, fazendo fronteiras internacionais com o Peru e a Bolívia e nacionais com os Estados do Amazonas e Rondônia. Em termos de fronteiras com os vizinhos latino-americanos, temos a seguinte situação, vizualizada no mapa abaixo, onde se destacam os Departamientos e cidades vizinhas, bem como uma das almejadas rotas de “saída” para o Oceano Pacífico, através dos portos de Ilo e Matarani no Peru:

Figura 02

Imagem capturada a partir dos documentos-resumos da reunião MAP IV. Sem dados de autoria.

Suas características gerais estão assim descritas no Zoneamento Ecológico Econômico - ZEE, do Estado do Acre: 48

O relevo é composto, predominantemente, por rochas sedimentares, que formam uma plataforma regular que desce suavemente em cotas da ordem de 300m nas fronteiras internacionais, para pouco mais de 110m nos limites com o Estado do Amazonas. No extremo ocidental situa-se o ponto culminante do Estado, onde a estrutura do relevo se modifica com a presença da Serra do Divisor, uma ramificação da Serra Peruana de Contamana, apresentando uma altura máxima de 734m. Os solos acreanos, de origem sedimentar abrigam uma vegetação natural composta basicamente de florestas, divididas em dois tipos: Tropical Densa e Tropical Aberta, que se caracterizam por sua heterogeneidade florística, constituindo-se em grande valor econômico para o Estado. O clima é do tipo equatorial quente e úmido, caracterizado por altas temperaturas, elevados índices de precipitação pluviométrica e alta umidade relativa do ar. A temperatura média anual está em torno de 24º C, enquanto que a temperatura máxima fica em torno de 32º C, aproximadamente uniforme para todo o Estado. Sua hidrografia é bastante complexa e sua drenagem é bem distribuída. É formada pelas bacias hidrográficas do Juruá e do Purus, afluentes da margem direita do Rio Solimões. (ZEE: 2006, 24).

Desde sua incorporação ao Brasil, com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, sua administração foi exercida no status de Território Federal, por governadores nomeados pela Presidência da República. Em 15 de junho de 1962 é elevado à condição de Estado e no mesmo ano elege seu primeiro governador na modalidade de voto direto. Porém, com pouco mais de um ano de mandato, o então governador, José Augusto de Araújo, foi deposto em 07 de maio de 1964, (alguns textos falam em “renúncia” (sic), mas na verdade o ultimato foi dado pelo Capitão do Exército, Edgard Pedreira Cerqueira Filho, que assumiu o poder na seqüência) pelo Marechal Castelo Branco, que assumira a Presidência da República em nome dos militares golpistas que tomaram o poder em março de 1964. De 1964 a 1982, foi administrado, também, por governadores “eleitos” em eleições indiretas. Um deles, Francisco Wanderley Dantas, indicado para o período de 1970-75, vai ser o responsável pela implementação de uma mudança significativa no setor produtivo do Estado, movimentando estruturas que haviam se configurado desde a ocupação dessas terras pelos empreendimentos gomíferos, iniciados na segunda metade do século XIX. As mudanças que ocorreram nesse período, contudo, são resultantes de muitos outros fatores que foram sendo articulados para sua consecução. Ruy Mauro Marini26 (1977, 76-84) escreveu: “o Estado capitalista adota relações mais ou menos combinadas com os ambientes onde está inserido, por exemplo, quando está inserido numa sociedade
26

- MARINI, Ruy Mauro. Estado y Crisis en Brasil. In Cuadernos Políticos, número 13, Ediciones Era, México, julio-septiembre de 1977, pp. 76-84. Disponível em www.marini-escritos.unam.mx – consultado em 23.03.2006.

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dependente é considerável o grau de autonomia relativa que goza”. Para Marini, isso é um fundamento que deriva de uma lei geral da sociedade capitalista, segundo a qual essa autonomia relativa do Estado está em razão inversa da capacidade da burguesia para levar a cabo sua dominação de classe, dito de outra forma, um Estado capitalista forte é sempre a contrapartida de uma burguesia débil. No caso do Estado do Acre, podemos observar que de sua formação até a falência dos seringais, principalmente sua crise geral, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, as determinações políticas e econômicas estavam sob responsabilidade dos seringalistas. Eram eles que dirigiam todo o ordenamento produtivo e organizacional de suas propriedades. Os governantes do estado e dos municípios tinham funções secundárias e muito restritas, competindo tão somente à organização de certos serviços públicos nos débeis espaços urbanos existentes. Como até a década de setenta algo em torno de 72% da população do Estado vivia, predominantemente, nos seringais, conforme dados do Censo do IBGE de 1970, os seringalistas e grandes proprietários, de certa forma, comandavam boa parte dessa população, isto é, não havia necessidade de um Estado forte e presente, pois o setor privado se responsabilizava pela garantia da ordem e da produção. Isso quer dizer que serviços típicos da responsabilidade do Estado, tais como escolas, postos de saúde, transportes coletivos, saneamento, iluminação elétrica, segurança, etc., não estavam à disposição dessas populações, capitaneadas pelos seringalistas. Qualquer afastamento dos centros urbanos, por menor que fosse, era também o afastamento desses serviços que, mesmo nos espaços urbanos eram precários. Para exemplificar melhor, em 2002, o Governo do Acre anunciava com pompas a implantação do ensino médio em “várias” sedes municipais, haja vista que até aquela data, naquelas localidades (municípios), não havia essa modalidade de ensino. Na mensagem governamental de abertura da 1ª Sessão Solene Deliberativa da 4ª Sessão Legislativa da 10ª Legislatura da Assembléia Legislativa do Estado do Acre, o então Secretário de Administração Evaristo de Luca, representando o Governador Jorge Viana, destacou:

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Na educação infantil o Estado era praticamente omisso, mesmo sendo obrigação constitucional dos municípios, o Estado investiu, construindo e colocando para funcionar mais de 10 escolas infantis só em Rio Branco. A rede de ensino, de um modo geral estava sucateada. Na sua recuperação o governo investiu em torno de 50 milhões de reais em reformas e construção de novas escolas. Outra parte significativa de recursos foi gasta em equipamentos escolares. Antes de assumirmos o governo, vários municípios não tinham implantado o 2º grau. Em 2 anos de Governo implantamos o 2º grau em todos os municípios do Acre. (...) Hoje a educação é motivo de orgulho e é o setor básico e estratégico da nossa proposta de desenvolvimento para o Acre. (Diário Oficial do Poder Legislativo, 15/02/2002).

Porém, antes, vamos considerar os antecedentes, analisando os fatos decorrentes do enfraquecimento do principal produto de exportação, a borracha, e o conseqüente afastamento dos seringalistas dos empreendimentos gomíferos, pois foi a partir de então que houve a necessidade de entrada de outro ente organizacional para ordenar o território e suas articulações antrópicas, passando o Estado, na sua forma Governo, a ser um dos protagonistas dessa nova tarefa. Octávio Ianni (1988), apontando o Estado como centro de decisão, sintetiza:

A participação do aparelho estatal nas atividades econômicas em geral está intimamente relacionada com as flutuações do desenvolvimento econômico no Brasil. Na base desse fenômeno está o predomínio do setor secundário, em substituição à supremacia do setor primário, com suas implicações sociais e políticas. Naturalmente (como se verá adiante) o próprio contexto social e político do sistema joga um papel decisivo nas oscilações da atividade estatal. Todavia, convém fixar desde já a existência de uma conexão permanente entre o ritmo e as tendências das atividades econômicas e as atuações do Estado. Ao examinar as manifestações mais notáveis deste século, verificamos que há épocas em que a atuação do governo é de natureza assistencial, protetora, enquanto que em outras oportunidades ele orienta, incentiva e dinamiza as atividades produtivas. De conformidade com os estímulos recebidos dos diferentes setores da produção (e note-se que alguns possuem interesses ou vinculações que ultrapassam as fronteiras do país), ou segundo as orientações das tensões sociais geradas com o agravamento dos desníveis nas rendas, o Estado responde sempre com medidas de alcance variável, tornando-se uma presença constante e crescente em determinadas esferas da vida econômica. (IANNI, 1988, p 36-37)

Nos primeiros sintomas apresentados de quebra dos seringais, o Estado serviu como amparo para os seringalistas que se encontravam nessa situação falimentar, articulando financiamentos nos bancos estatais e incentivando novos investimentos em outros setores econômicos, destacadamente na pecuária e nos seringais de cultivo27.

27

- Foi o período áureo da Superintendência de Desenvolvimento da Hévea (SUDHEVEA), dos Programas da Borracha (PROBOR I e II), e do incentivo para os seringais de cultivo, marcas do final da década de setenta e início dos anos 80, que distribuíram dinheiro para os desmatamentos e para os investimentos de muitos fazendeiros em ampliação de seus rebanhos e pouco, muito pouco, na verdadeira finalidade que era o seringal de cultivo.

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O outro lado, ou seja, os seringueiros permaneceram isolados e sem nenhum tipo de ajuda para aliviar a situação de abandono em que se encontravam. Nessa condição desenvolveram formas alternativas de sobrevivência nas matas ou buscaram outras condições nas cidades ou, ainda, atravessaram a fronteira para os países vizinhos Peru e Bolívia, especialmente este último, onde as condições de trabalho no extrativismo ainda eram compensadoras e lá, não sofreriam as perseguições e violências dos novos proprietários de terras, como vinha ocorrendo no Acre. Então, quando os militares tomam pra si a responsabilidade de reordenar os territórios e espaços na Amazônia, seus conhecimentos sobre a Região eram precários, limitados e principalmente, distanciados. Uma das concepções dos militares sobre a Amazônia estava refletida nas publicações do general Golbery do Couto e Silva, que já na década de cinqüenta, mais precisamente em1957, havia publicado um livro intitulado Geopolítica do Brasil, reeditado com pompas em 1967, onde segundo Marini (1991), Golbery:
Toma como elementos centrais de sua análise a questão da integração nacional e a aliança do Brasil com os Estados Unidos. A obra reflete a problemática nacional dos anos 50, quando o país recém ascendia à posição de primeira potência sul-americana, graças à colaboração com os Estados Unidos na guerra e ao afluxo de investimentos estrangeiros, principalmente norte-americanos, e era ainda assombrado pelos fantasmas que o obsecavam desde o século XIX: a rivalidade com a Argentina e a cobiça estrangeira pela Amazônia. É nessa perspectiva que o autor exalta o papel unificador do planalto central brasileiro, frente às tensões dissociativas criadas pelo rio Amazonas, ao norte, e pelo rio da Prata, ao sul, e preconiza uma estreita aliança com os Estados Unidos, no contexto da guerra fria, em troca do reconhecimento por estes da importância do Brasil no Atlântico Sul 28.

Referindo-se a mesma obra de Golbery, José Fernandes do Rêgo (1992) assevera que a questão geopolítica no Brasil assumiu uma feição ideológica de justificativa da integração do Estado Brasileiro na chamada “Guerra Fria”, concebida pelos geopolíticos da Escola Superior de Guerra (ESG), como um componente da guerra total e absoluta entre os blocos de países que à época rivalizavam sob as bandeiras do capitalismo ocidental contra o socialismo que era formado pelo bloco oriental. Nesse sentido, Golbery já postulava essa ação preventiva na Amazônia, nos seguintes termos:
28

- MARINI, Ruy Mauro. Brasil: da Ditadura à Democracia, 1964-1990. Fuente: Archivo de Ruy Mauro Marini con la anotación “Este texto foi preparado, entre fins de 1990 e março de 1991, para uma enciclopédia italiana”. Disponível em www.marini-escritos.unam.mx - consultado em 12.03.2006.

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Mas por outro lado, a penetração mais ou menos dissimulada, a coberto de nosso indiferentismo e do abandono em que deixamos aquelas paragens (Amazônia), é coisa que bem se pode admitir para breve, que já está mesmo acontecendo segundo notícias que nos chegam daqui e dali, e que poderá acarretar no futuro conseqüências desastrosas... Mas o que mais vale é antes evitar que remediar, sobretudo quando só se poderá remediar com processos drásticos e sangrentos. O Tamponamento efetivo dos caminhos naturais de penetração, que de além-fronteiras conduzem à Amazônia, é medida que se impõe com urgência, para que como dissemos, possamos levar a cabo, quando oportuno, tranqüila e metodicamente, um plano de integração e valorização daquele imenso mundo ainda perdido29. (COUTO e SILVA, 1967: 55)

Nesta posição dos militares com relação à Amazônia, que Golbery entende como “Inundar de civilização a Hiléia Amazônica”, os seringueiros do Acre não contavam nas estatísticas, nem como favorecidos, nem como entraves. Formavam, portanto, um contingente de desconhecidos pelo poder público, tanto é que eles, os militares, viam esse imenso território quase da mesma forma que espanhóis e portugueses na época da colonização. Se aqueles tinham a região como “tierras no descubiertas”, os militares a viam como “uma terra sem gente para acomodar uma gente sem terras”, referindo-se aos sem-terra das regiões Sul, Sudeste e Nordeste que deveriam ser deslocados para os projetos de assentamento que seriam organizados visando “integrar para não entregar” a Amazônia. O próprio Estatuto da Terra, criado pela Lei nº. 4.504, de 30/11/1964, propunha uma colonização, “sobretudo com vistas à necessidade de expansão da nossa fronteira agrícola e à ocupação dos vazios geográficos que a vastidão do nosso território ainda está apresentando”30. Na proposta de incorporação da Amazônia que se enquadrava no que a historiografia denominou Grandes Projetos, estavam intuídas concepções marcadamente geopolíticas e industrializantes, representadas no trinômio „desenvolvimento, integração e segurança‟ e, suas principais manifestações se deram através dos seguintes instrumentos de intervenção: 1) “Operação Amazônia”, lançada pelo Presidente Castelo Branco, em 1º de setembro de 1966, visando através de uma nova e abrangente ação do Estado, modernizar a economia regional de acordo com relações tipicamente capitalistas, procurando
29

- RÊGO, José Fernandes do. Amazônia: do extrativismo ao neoextrativismo. 1992. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Economia – Mestrado e Doutorado) UFPB, João Pessoa, 1992. Mimeo. Faz uma análise das intervenções dos militares nas políticas públicas determinadas para a Amazônia.
30

- Mensagem do Presidente Castelo Branco ao Congresso Nacional encaminhando o Estatuto da Terra. (Mensagem nº. 33, de 1964) In. CONTAG. Questões Agrárias – Estatuto da Terra e Decretos reguladores. Brasília, 1973, p. 10.

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inicialmente, como já se fizera no Nordeste, o caminho da substituição de importações de bens industriais, porém concentrando-se depois na agropecuária e agroindústria; 2) Programa de Integração Nacional (PIN), que tinha o objetivo de dar operacionalidade aos incentivos fiscais reorientando-os para a agropecuária e a agroindústria, com vistas à ocupação econômica e a absorção dos fluxos migratórios para atenuar os conflitos no Nordeste e Centro-Sul, promovendo a ocupação demográfica da Amazônia. Este programa foi criado pelo Decreto-Lei nº. 1.106, em 16 de junho de 1970; 3) Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e do Nordeste (PROTERRA) tinha como objetivo criar condições de acesso à terra aos trabalhadores rurais e pequenos proprietários minifundiários, melhorar as condições de emprego e de trabalho rurais e promover a agroindústria no Nordeste e na Amazônia; 4) Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia

(POLAMAZÔNIA), criado com a finalidade de promover o aproveitamento integrado das potencialidades agropecuárias, agroindustriais, florestais e minerais em áreas prioritárias da Amazônia, com investimentos públicos orientados para viabilizar a implementação de atividades produtivas de responsabilidade da iniciativa privada; 5) Programa de Desenvolvimento Integrado da Região Noroeste

(POLONOROESTE), programa que visava apoiar a colonização oficial que se desenvolvia na década de setenta ao longo da rodovia Cuiabá - Porto Velho; 6) Zona Franca de Manaus (ZFM), mecanismo que criava incentivos com vistas à industrialização, via criação de um Distrito Industrial em Manaus. A Zona Franca teve sua abrangência ampliada com a criação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), que estendeu suas ações para toda a Amazônia Ocidental; 7) Programa Grande Carajás (PGC), gigantesco projeto integrado de desenvolvimento (sic), abrangendo uma área de 900.000 Km2, (área muito maior do que a de grande parte dos Estados brasileiros), criado com vistas à mineração, a agropecuária e a exploração madeireiras para exportação. Dentre seus principais objetivos consta o de: “aumentar nossa capacidade de pagamentos externos, mediante a venda de minérios de

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ferro, minerais não ferrosos, produtos siderúrgicos, florestais, rurais e agroindustriais, agregando o máximo possível de elaboração com vistas a proteger o trabalho nacional”31. No contexto da “Operação Amazônia”, implantada em 1966, foram criadas: a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM, o Banco da Amazônia S/A - BASA, a Superintendência da Zona Franca de Manaus - SUFRAMA e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA, este último com abrangência nacional, mas os outros três organismos criados exclusivamente para dar suporte e garantias aos empresários e aos Estados da região, com recursos para aplicar no processo de desenvolvimento que os militares tinham como imprescindíveis para a manutenção da soberania sobre o território. Com a apresentação dessa estrutura funcional e as conseqüentes linhas de financiamentos, foram se destacando duas vias de atuação para os incentivos dotados pelos militares: os grandes projetos privados e as grandes obras públicas. Os projetos privados objetivavam sua inserção nos campos sídero-mínero-metalúrgicos, industriais,

agropecuários e madeireiros como demonstram o Projeto Grande Carajás, o Complexo Albrás-Alunorte, o Complexo Alcoa e o Distrito Industrial de Manaus com a sua Zona Franca, além dos incentivos e financiamentos para projetos agropecuários, como os dos Grupos Bordon, Bradesco, Paranacre, Alcobrás e madeireiras instaladas principalmente em Belém e Manaus com vistas à exportação. Na ação dos grupos particulares, das agências financiadoras e dos militares, podemos observar as tendências modernizadoras que emulavam suas idéias. Sant‟Ana Jr. (2004), assim descreve:

Novamente, podemos aqui, pensar todo este grande movimento de ocupação da região amazônica, desencadeado a partir das políticas implementadas pelos governos militares, como iniciativas modernizadoras que, calcadas em uma dada significação imaginária da modernidade, procuram domar, dominar e explorar a floresta amazônica, nem que para isso fosse necessário destruí-la. Estas iniciativas sustentadas por sucessivos governos federais, agências financiadoras internacionais ou grandes empresas capitalistas e implementadas por grupos econômicos, em grande parte, sediados fora da Amazônia, podem ser aproximadas, com alguma adaptação, do conceito de Wagner de “ofensivas modernizadoras vindas de cima”. (SANT‟ANA Jr., 2004, p. 122).

31

- Esta relação de instrumentos citadas estão bem desenvolvidas na dissertação de mestrado intitulada Amazônia: do extrativismo ao neoextrativismo, produzida por José Fernandes do Rego. João Pessoa, UFPB, 1992. Mimeo e no livro Estado e Políticas Públicas: a reocupação econômica da Amazônia durante o regime militar. São Luis: EDUFMA, Rio Branco: UFAC, 2002.

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No campo das obras públicas os destaques ficam com a construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, Balbina e Samuel que deveriam dar suporte as grandes necessidades de energia demandadas pelo setor sídero-mínero-metalúrgico e industrial, bem como da construção das grandes rotas rodoviárias que interligariam esses complexos às regiões consumidoras e exportadoras desses produtos. Nasciam no seio desse rearranjo, as necessidades de construção da Transamazônica, da Perimetral Norte e, conclusão da BR364, que havia sido iniciada ainda no governo de Juscelino Kubitscheck. Como os próprios nomes deixam entrever essas estradas tinham significados geopolíticos: a Perimetral Norte sairia da confluência do Brasil com as Guianas ao Norte e faria uma espécie de arco beirando as fronteiras até o Sul da Amazônia, na confluência com a Bolívia; a Transamazônica, que atravessaria (pelo meio, partindo de João Pessoa, na Paraíba e de Recife, em Pernambuco e se encontrando em Picos, no Piauí), no sentido Leste – Oeste, quase toda a região e; a BR 364 seria um braço desta, fazendo a ligação direta entre Cuiabá (MT), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC), chegando até Cruzeiro do Sul, no Acre (fronteira com o Peru), na época a cidade mais ocidental do Brasil, ou ainda, o percurso total da Transamazônica, que no projeto inicial deveria sair de João Pessoa na Paraíba e atravessar toda a Região norte, no sentido Leste-Oeste, tendo como base dentro da Amazônia, o município de Marabá, no Pará. Como para os militares esses espaços estavam desocupados, eles imaginaram os grandes projetos de assentamento na Amazônia, acompanhando os estirões de estradas que estavam construindo. Esses projetos resolveriam ou, no mínimo, atenuariam os problemas fundiários, principalmente das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, que vinham preocupando as autoridades federais naquele período. Ianni (1979), registra que:

A migração de trabalhadores rurais e seus familiares para a região amazônica intensificou-se bastante desde 1970. Ela já ocorria em escala notável antes dessa data, se tomarmos, por exemplo, o que vinha ocorrendo no Sul do Pará, desde a construção da rodovia Belém – Brasília nos anos de 1956 – 60. Ao construir-se essa rodovia e estabelecer-se uma ligação, por terra, entre Guaraí, que se acha sobre essa rodovia, e Couto Magalhães, a margem do rio Araguaia, começou a crescer o afluxo de populações de origem rural para as terras indígenas e devolutas do Pará. Foi assim que em 1960 – 1970, já estava crescendo bastante a chegada de migrantes nas terras situadas em torno de Conceição do Araguaia, Santana do Araguaia, São Geraldo do Araguaia, Marabá e algumas outras. (IANNI, 1979, p. 11).

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Nesse afluxo de migrantes do Nordeste e do Centro – Sul para a Amazônia, Octávio Ianni (1979), identifica a conveniência dos militares em aproveitar esse canal para excluir a reforma agrária como solução para as tensões provocadas pelos excedentes de força de trabalho (resultantes das modificações capitalistas), perante a concentrada estrutura fundiária. A migração contribuía para conservar, de um lado, o latifúndio e, de outro, a modernização com concentração fundiária da agroindústria açucareira no Nordeste e da agricultura empresarial de exportação no Sul do País, toda ela de base monocultora. A proposta dos militares para ocupação da Amazônia foi, portanto, toda pensada em termos de uma perspectiva modernizante. Para eles, o desenvolvimento significava abrir estradas e povoar suas margens, desmatando imensas áreas e tornando “produtivas” as terras, até então, tidas como improdutivas. Sant‟Ana Jr. (2004), a esse respeito escreveu:

As políticas de desenvolvimento implementadas pelos governos militares, a partir de 1964, foram elaboradas lançando mão de um discurso justificador claramente modernizante. Os militares, concebendo o Brasil como o “país do futuro”, capitanearam um modelo de ofensiva modernizadora vinda de cima que se caracterizava por forte controle do Estado sobre a economia, num processo imposto de cima, sem participação popular e excludente tanto em termos de classe e grupos sociais, quanto em termos regionais. Esta ofensiva desencadeou um processo de industrialização acelerada que efetivamente consolidou a formação de um grande e moderno parque industrial, e alçou o Brasil para o rol das dez maiores economias mundiais. Tudo isso sem alterar, ou melhor, até mesmo aprofundando, as seculares desigualdades econômicas, sociais e regionais que caracterizam o país. (SANT‟ANA Jr., 2004, p. 110).

No caso da Amazônia, Sant‟Ana Jr. (2004) evoca ainda o sentido faústico usado por Marshall Berman (1986), em sua obra “Tudo que é sólido desmancha no ar”, por causa das suas dimensões. Para ele, uma ação grandiosa de confronto com a natureza resistente, entendida como entrave à plena realização humana e objeto de controle e sujeição era a tônica dominante, usando a Transamazônica e a Usina Hidrelétrica de Tucuruí como exemplos contundentes desse espírito que dominou os governos militares da época. A noção geopolítica que os impulsionava destacava o papel do Estado no domínio e ocupação, bem como na responsabilidade pelo desenvolvimento da região. Como a Amazônia era vista como um imenso território selvagem, despovoado, rico e com grandes potencialidades econômicas, os militares colocaram em prática a idéia de fronteira que deveria ser conquistada. Na sua lógica não iriam enfrentar outros inimigos militares, mas mesmo assim travar uma guerra, embora fosse contra as forças da natureza.

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A concepção da natureza como um entrave, como um inimigo que deveria ser derrotado, é que dava a dimensão da tarefa que os soldados teriam de enfrentar e que preparava os espíritos para a mudança na paisagem que a ação de implementação dos “Grandes Projetos” iria trazer como conseqüência. O Acre não foi afetado diretamente pelos grandes empreendimentos sídero-mínerometalúrgicos e nem pela construção das grandes usinas hidrelétricas, pois seu território havia sido considerado de fraco potencial nessas áreas produtivas. Esses investimentos foram priorizados para os Estados do Pará, Amazonas e os, até aquela época, Territórios do Amapá, Roraima e Rondônia32. As maiores implicações em seu ordenamento se deram na intervenção direta dos militares na construção da BR -364, iniciada na década de sessenta e na organização de projetos de assentamento que se estabeleceram a partir da década de setenta. O que se pretende enfatizar sobre essa questão é o seu caráter centralizado, onde as políticas públicas, longe de estabelecer vínculos com as populações tradicionais das áreas afetadas pelos grandes projetos, atuavam com convicção na perspectiva de que suas ações eram portadoras do desenvolvimento. O Estado, no seu sentido de governo, funcionava como idealizador, como provedor e como único mediador das propostas executadas para integrar a Amazônia. Não se pode negar que esses Grandes Projetos acarretaram uma série de mudanças, principalmente no que diz respeito à paisagem, pois a abertura de estradas, a mineração, a exploração madeireira, a agropecuária e a construção de usinas hidrelétricas são, por excelência, modificadores de paisagens. No caso das estradas, as clareiras que se seguiram às linhas traçadas por estas foram não só modificando os territórios, como servindo de realocação para muitos dos desalojados por força dos imensos lagos que se formaram com as barragens construídas pelas hidrelétricas em outras regiões. Quando se pensa na perspectiva de resolução de alguns problemas urbanos gerados pelo êxodo dos seringais, como o grande contingente de mão-de-obra à disposição, mesmo que fosse de difícil absorção, por ser desqualificada para as novas modalidades de trabalho que se apresentavam, esses grandes empreendimentos também serviam como justificativa
32

- Os Territórios Federais do Amapá e Roraima passaram à condição de Estados com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Enquanto que Rondônia havia conquistado essa condição um pouco antes, em dezembro de 1981, tendo sido instalado oficialmente como estado, em 04 de janeiro de 1982.

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usada pelos governantes para anunciar novos postos de trabalho, no sentido de absorver essa mão–de–obra, excedente. Nesse momento, o Estado se apresenta como organizador da mão-de-obra e dos empreendimentos econômicos, inclusive se responsabilizando pelo emprego e desemprego. Essa nova modalidade de presença do Estado na Amazônia, confronta-se com as formas anteriores de organização do trabalho. Na modalidade anterior, isto é, na unidade seringal, comandada pelo patrão, a exploração extrativista do látex e da castanha, por exemplo, tinha uma limitação muito grande no sentido da mudança da paisagem, já que os produtos de interesse pressupunham a existência e a permanência das árvores produtoras, havendo inclusive punição para o seringueiro que, no processo de extração do látex ferisse muito fundo a casca da seringueira, o que conseqüentemente a levaria a morte, só que nesse caso, a punição era feita pelo próprio patrão do seringal. Na outra modalidade extrativista, a coleta da castanha, o trabalho consiste em recolher o ouriço no chão quando ele se desprende naturalmente da árvore, não havendo necessidade de contato direto com a árvore produtora, ou seja, nas duas modalidades extrativistas, são poucas as alterações de paisagem e espaço, favorecendo o controle do trabalho e do trabalhador. Não estamos afirmando com esses exemplos que os seringueiros estavam isentos de interferências nocivas ao meio-ambiente, que eram „guardiões da floresta‟33, haja vista que boa parte da fauna que habitava as florestas tropicais úmidas foram extintas ou ficaram seriamente comprometidas no processo de caça para obtenção de couro para comercialização. Muitos animais, principalmente os felídeos, foram severamente caçados para obtenção, exclusivamente da pele, que era bem valorizada no mercado e podia ser negociada com os marreteiros, fugindo da fiscalização do patrão, ou mesmo sendo negociadas com eles. Os grandes projetos, pensados desde fora do contexto amazônico, cometeram pelo menos dois erros clássicos de avaliação: primeiro, não avaliando os impactos ambientais dessas ações, impondo uma onda de desmatamento jamais vista na região até aquela época. Inundaram áreas extensas, também sem avaliação dos impactos ambientais, pois
33

- A expressão é utilizada por Esteves na sua tese de doutorado, descrevendo algumas das mutações dos trabalhadores extrativistas. ESTEVES, B. M. Gomes. Do “manso” ao guardião da floresta. Estudo do processo de transformação social do sistema seringal, a partir do caso da Reserva Extrativista Chico Mendes. 1999. Tese de Doutorado (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agrário – Mestrado e Doutorado) - UFRJ/CPDA. Rio de Janeiro, 1999.

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construíram imensas barragens em locais com relevo caracterizados como planícies, determinando a eliminação de vasta flora e envenenando a fauna aquática com a decomposição de plantas nos espaços alagados e, por último; esterilizaram outras áreas com práticas predatórias e arcaicas de mineração, como as praticadas em Serra Pelada (PA), na Serra do Navio (AP) e, no Rio Madeira e seus afluentes (RO), esses tendo suas águas e peixes contaminados pelo mercúrio usado no amálgama do ouro34; segundo, demonstraram um desconhecimento elementar, tanto da geografia e do clima, como dos costumes e tradições das populações já residentes na Amazônia. Ao desconsiderarem as condições climáticas, principalmente o regime das chuvas e seus impactos na região, condenaram a viabilização dos projetos de assentamento, que tinham como fundamento a produção agrícola. Mas, cometeram enganos também ao não avaliarem criteriosamente os solos e as bacias hidrográficas, o que contribuiu para que as estradas e os ramais previstos para dar escoamento à produção dos novos assentados, não garantissem trafegabilidade, nem perspectivas de manutenção. Basta lembrar que até então, todo o sistema de abastecimento e transportes estava baseado nas vias fluviais. As estradas de rodagem ainda não haviam sido testadas e, principalmente no caso do Acre e das áreas de várzea do Amazonas, onde praticamente não existem pedras, sua construção se mostrou mais complexa do que se havia planejado. No início da década de setenta, durante o governo Médici, a “Operação Amazônia” ganhou um reforço com a instituição do PIN (Programa de Integração Nacional). Esse novo conjunto de medidas, contudo, tinha efeito mais propagandístico do que efetivo, pois a Amazônia já havia sido incorporada ao contexto nacional, tanto como uma fronteira a ser explorada, como também, uma região que poderia absorver parte dos indesejáveis conflitos pela posse da terra, como vinha se verificando nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, como

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- O mercúrio é utilizado nos garimpos para facilitar a extração do material lavado na fase de préconcentração e na fase de amalgamação do ouro, quando a liga mercúrio/ouro é “queimada” para separar o ouro e dar-lhe forma. Nas duas fases ele chega ao meio ambiente. Na primeira, vai na forma metálica pelas águas drenadas do instrumental do garimpo diretamente às águas e ao solo. Nestes ambientes, passa da forma inorgânica para a forma orgânica, formando dimetil-mercúrio ou metilmercúrio, material de efeitos tóxicos elevados, principalmente nesta segunda forma. Na segunda forma de utilização, a amalgamação, o mercúrio queimado de forma rudimentar ao ar livre polui a atmosfera, e seus vapores são respirados pelos garimpeiros, intoxicando-os inevitavelmente. A parte que vai para a atmosfera retorna à superfície por meio das águas das chuvas e atingem os rios e o solo, contaminando, como na primeira forma de utilização, peixes, vegetais e animais, que acabam por contaminar o homem que deles se alimenta. KOWARICK, Marcos. Amazônia/Carajás: na trilha do saque. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 1995. (239).

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demonstra o grau de importância que foi conferido ao INCRA, um dos órgãos mais valorizados nesta fase, tendo sido encarregado de “povoar” as margens das rodovias que os militares vinham construindo na região. Em 1974, a iniciativa privada ganha um programa específico para implementar políticas de colonização e exploração mineral na região, o Programa de Pólos de Desenvolvimento Agropecuário e Agromineral da Amazônia (POLAMAZÔNIA). Esse programa foi uma espécie de transição das ações do INCRA, para a colonização particular, já que o governo vinha sendo criticado pelos colonos assentados, que denunciavam a inoperância do órgão federal e a situação de abandono em que se encontravam e, por outro lado, os empresários exigiam recursos para seus projetos de concentração da terra. Porém, todas as iniciativas militares e mesmo civis esbarraram nas condições climáticas e ambientais. Trabalhadores de diferentes regiões do país, como os do sertão nordestino, foram assentados próximos aos trabalhadores oriundos do Paraná, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Espírito Santo, todos eles estranhos entre si e, principalmente estranhos para e ao ambiente. O resultado foi o expressivo abandono das terras por parte dos colonos. José Porfiro da Silva (1998) descreveu assim essa situação:

Na fronteira amazônica, à medida que se aprofundavam os problemas nas áreas de fronteiras, abrangidas pelos projetos de colonização de Mato Grosso e Rondônia, por exemplo, os migrantes, sem o apoio necessário do poder público, não conseguiam se fixar em suas parcelas de terras. Em cada empreitada mal sucedida, buscavam novas áreas para começar uma „nova aventura‟. Novamente, sem a certeza que encontrariam amparo governamental. Neste contexto, a migração não reflete um processo de deslocamento espontâneo dos segmentos sociais, e sim a caracterização de uma dinâmica de „mobilidade forçada‟ que vai ao encontro dos interesses da expansão do capitalismo nacional (formação de mão-de-obra) e atende ao projeto do governo de povoar a fronteira, esvaziando as pressões políticas e demográficas nas áreas de transformação onde o processo de modernização da agricultura se deu de forma acelerada35. (SILVA, 1998, p.15-16).

Essa situação de deslocamento de trabalhadores ocorreu em dois sentidos. O primeiro e mais viável era buscar novas áreas, penetrando ainda mais nas linhas de fronteiras, onde as disputas por terras eram menos freqüentes. A segunda estava relacionada a uma tentativa de retorno aos locais de onde tinham partido, mas com a certeza de que não iriam encontrar nenhuma facilidade para se reassentar. Esses trabalhadores que retornaram

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- SILVA, J. Porfiro da. Preservação e sutileza: a política de desenvolvimento do Governo do Acre (1984/1990). Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agrário – Mestrado e Doutorado) CPDA/UFRJ. Rio de Janeiro, 1998.

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a seus locais de origem reproduzem o que José Vicente Tavares dos Santos (1985) chama de gestação da recusa. Para o referido autor:

(...) os colonos retornados dos projetos de colonização da Amazônia Legal constituem personagem pleno de significados sociais e políticos para a sociedade agrária do Sul. Por um lado, é a manutenção da produção camponesa nesta região que permite aos colonos regressarem a suas áreas de origem – não excluindo que muitos sigam adiante, para as frentes agrícolas de Rondônia, Acre, Amazonas ou Roraima – onde têm sido acolhidos na teia de relações de parentesco e de vizinhança que lhes oferecem oportunidades de ganhar a vida, mesmo que precárias e instáveis. Reinseridos em sua base social, os colonos retornados não só têm possibilidades de participar como de realimentar, pelo relato de suas experiências, os movimentos dos camponeses meridionais. Ao passarem a recusar a opção estatal de reassentamento em projetos de colonização na Amazônia Legal, esses movimentos sociais acentuam a crise de legitimidade das propostas do Estado brasileiro para a questão agrária 36. (TAVARES dos SANTOS, 1985 p. 167, 168).

Os constantes deslocamentos e as constantes rearticulações por parte dos colonos são as características conflitantes com as expectativas dos militares. Em sua estratégia eles haviam planejado uma reforma agrária organizada em lotes simétricos e bem distribuídos ao longo dos ramais e esses, por sua vez, teriam como pontos de confluência, as estradas que ligariam os produtores aos centros consumidores. Tudo combinado com o sistema de controle desses trabalhadores, o que sustentava o princípio da „segurança‟, pois os ramais tinham saída única e de, pensavam eles, fácil fiscalização. Não consideraram a ocupação anterior e as experiências das populações tradicionais que tinham outro modelo de utilização do território, baseado em lotes assimétricos e respeitando, principalmente os cursos d‟água, abundantes na região, ou outros acidentes naturais (lagos). Outro elemento desconsiderado foi a questão ambiental, não que ela representasse já preocupação com uma legislação que objetivasse a proteção do meio ambiente. Neste caso, estamos nos referindo à adaptação de trabalhadores de outras regiões, onde clima, relevo, flora, fauna, bacias hidrográficas e culturas eram diferentes e suas dificuldades de interação com o novo ambiente no qual estavam buscando inserção. A recorrência a essa questão se dá para ressaltar que, nos aspectos ambientais e culturais, os Grandes Projetos dos militares para integrar a Amazônia não pouparam a natureza e as culturas dos povos que viviam nas florestas e os que foram deslocados para lá. Tanto os projetos governamentais como os da iniciativa privada causaram grandes
36

- SANTOS, J. Vicente Tavares dos. A gestação da recusa: o “colono retornado” dos projetos de colonização da Amazônia. In. SANTOS, J. V. Tavares dos. (Org.) Revoluções camponesas na América Latina. São Paulo: Ícone, 1985.

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desmatamentos, alagamento de extensas áreas, poluição de mananciais, com a prática de um tipo de mineração predatória e arcaica e, principalmente, deslocamentos populacionais, com consideráveis alterações dos espaços naturais e antrópicos. A tendência dos estudos que analisam os efeitos dos chamados Grandes Projetos dos militares para a Amazônia, nesse período é, portanto, apontar para os malefícios causados ao ambiente e as populações tradicionais e chegantes à Região, principalmente a partir dos anos oitenta, quando os conflitos por terras, também atingiam a Amazônia e, quando as questões ambientais tornaram-se mais agudas, mas que também, já o regime militar se encontrava enfraquecido e as possibilidades de críticas, já começavam a se tornar „toleradas‟.

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1.2 O ACRE COMO FIM DO BRASIL OU PORTA DE CHEGADA PELO PACÍFICO: AS ESTRADAS COMO REDENÇÃO.

O processo da produção extrativista, durante os dois surtos da borracha no Acre, engendrou uma simbiose espaço-tempo-clima-homem, que está bem representada na frase/título de um livro de Leandro Tocantins (1982): „O rio comanda a vida‟. Foi assim por quase cento e cinqüenta anos: os rios, os igarapés, os paranás e os lagos como únicas (principais) vias de acesso. Desde as primeiras incursões de portugueses, espanhóis, turcos, sírios, libaneses, depois nordestinos etc., que, a partir de meados do século XIX, vinham singrando os rios e estabelecendo entrepostos produtivos e comerciais, no que mais tarde viria a ser o Estado do Acre, que o acesso à região se dava, exclusivamente, pelas inumeráveis vias fluviais. Os primeiros a se aventurarem por essas plagas o fizeram em atos heróicos, subindo os rios em barcos impulsionados por tração humana, uma tarefa das mais penosas, pois sabemos que, pela condição desses cursos d‟água no tocante à profundidade, correnteza e características das margens que, comumente estão em processo de erosão por conta de serem rios recentes e em processo de formação e, principalmente, pela ausência de pedras, que seus leitos e suas margens acumulam, principalmente na estação chuvosa, uma vasta camada de lama, o que dificulta sobremaneira operações de impulsão a partir da utilização de varejões, ou arrasto a partir de suas margens, até então, praticamente intransponíveis, devido à densa vegetação que as recobria. Mesmo representando sérias dificuldades para a navegação, foram os rios as únicas vias de comunicação entre os empreendimentos gomíferos (seringais) e o mundo urbano, que a partir da segunda metade do século XIX, necessitava de borracha. A invenção e utilização dos motores a vapor e, posteriormente, os motores à explosão ajudaram a amenizar o sofrimento dos remadores e varejadores, bem como serviram também para reduzir o tempo para realização de uma viagem, entre Manaus e Tarauacá, por exemplo, que durava até seis meses, para algo em torno de quarenta e cinco dias a um mês. Porém, essa relação com os rios também contribuiu para forjar uma identidade com as águas. Se os primeiros que chegavam a essa região vinham da Serra do Baturité, da Serra da Ibiapaba, ou do sertão de Caruaru, da Região do Cariri, da Serra da Borborema, depois de algumas 64

gerações as terras tinham perdido o valor da referência. Samuel Benchimol ponderou que na Amazônia:
A Pátria do homem não é a terra, mas o rio. Quase não se vê ninguém dizer “sou filho de Porto Velho, de Lábrea ou Santa Isabel”. A terra não tem expressão humana. O homem vive para o rio. Ele diz, portanto: “Sou filho do (rio) Madeira”, “Nasci no (rio) Purus”, “Vim do (rio) Negro”. A própria borracha é do rio. O seringal não é rico. O rio é que é “bom de leite”. Os acontecimentos sociais de significação na vida regional são filhos do rio, nunca da terra ou cidade. O caboclo não a utiliza quase em sua linguagem: “Casei-me no (rio) Madeira”, “batizei-me no (rio) Solimões”, “Ele morreu no (rio) Juruá”. Essas é que são expressões legitimamente amazônicas. Explica-se. A terra não oferece para a memória ou para o coração nenhuma lembrança. Ele é que marca o regime da vida, é a bem dizer a estação na economia do caboclo. (BENCHIMOL, 1946: 244).

Essa forma de identidade foi se construindo num processo de relações diretas entre o homem e a natureza. Suas relações de dependência, desde a questão alimentar, auxiliada pela caça e a pesca, até a questão do tratamento de saúde, utilizando sua „montaria‟37 (canoa) para se deslocar até o barracão ou, uma cidade estava condicionada pelo regime do rio que os ligava ao outro ponto (porto). A saudade da terra natal, da namorada que morava rio abaixo ou rio acima, ou a espera de uma carta de um parente distante, tudo isso ganhava relevo na memória ao olhar as águas do rio. Era por ele que chegaria, ou não, boa parte dos desejos, alegrias ou tristezas do homem amazônico. No caso do Acre, os rios que formam as duas bacias hidrográficas mais importantes, a Bacia do Rio Juruá e a Bacia do Rio Purus, pela sua característica geográfica, nascem no lado Leste da Cordilheira dos Andes e correm de Sudoeste para Nordeste, desaguando no Rio Amazonas, são rios paralelos, isto é, atravessam o Estado sem comunicação entre si. A outra bacia importante, a do Rio Acre é tributária da Bacia do Purus. Mesmo assim, o que ressalta, o que sobressai na sua distribuição é o paralelismo comum aos rios da Região.

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- Castelo Branco, escrevendo sobre a importância dos rios na vida dos acreanos, disse: O homem particular nos seu negócios, passeios e visitas só conhecia o rio, tendo amarrada à soleira da porta, nas enchentes, ou acorrentada num toco fincado no barranco ou na praia, na estiagem a sua “montaria”, verdadeiro cavalo da região. Quem não possui, o que é raro, anda a pé, num círculo limitadíssimo, ou quando deseja ir mais longe recorre a um vizinho que a tem. É certo que com o progresso dos seringais, a vereda, o varadouro, a estrada foram tomando vulto e prestam grandes serviços à condução de gêneros para os seringueiros e a de seus produtos, por meio de pedestres, muares e carro de boi. O caminhão a gasolina chegou a ser tentado sem resultado. Mas isso não diminuiu o valor das correntes fluviais porque, mesmo nos seringais no seu movimento interno, muitos seringueiros por elas trafegam”. (Apud. GUERRA, 2004: 119).

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Representação do paralelismo dos rios que cortam o Estado do Acre.

Figura 3

Os rios em destaque no mapa são: Juruá, na parte esquerda que tem o município de Cruzeiro do Sul, como principal núcleo urbano. Os Rios Tarauacá e Envira (afluentes do Juruá), na parte centro-esquerda do mapa, que tem os municípios de Tarauacá e Feijó, como principais núcleos urbanos. O Rio Purus, na parte centrodireita do mapa, que tem os municípios de Manuel Urbano e Sena Madureira, como principais núcleos urbanos e, finalmente, o Rio Acre, na parte mais a direita do mapa, afluente do Purus, que tem nos municípios de Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e Rio Branco, seus principais núcleos urbanos.

O fator paralelismo, por si, já representava uma característica forte na distribuição populacional. Muitos parentes que saíram juntos do Nordeste, por exemplo, foram separados ao serem escolhidos por patrões diferentes, de rios diferentes, quando eram contratados nos portos de Manaus ou Belém. Advém desse aspecto a lembrança que o parente foi para o rio X, ficando registrada como única referencia que os ligava a uma perspectiva de encontro futuro. Contudo essa não era a única característica dos rios que significavam separação e possibilidades de encontros. Os rios principais apresentam formas meândricas, com pequenos trechos retilíneos. Esta característica, acrescida pelos desmatamentos em suas margens, leva à formação de bancos de areia no leito aumentando as dificuldades de

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navegação, bem como as distâncias, haja vista a sinuosidade. Todavia, mesmo com todas essas peculiaridades, foram e na maior parte do Estado continuam a ser as principais vias de deslocamento de populações, produtos extrativistas e mercadorias, sentimentos de saudades, alegrias e tristezas, em geral.

Figura 4

Representação da característica meândrica (sinuosidade) do Rio Juruá (foto aérea). Cópia a partir do Blog do Edvaldo. (In.www.aleac.ac.gov.br/aleac.edvaldomagalhaes/).

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Rio Iaco, este na bacia do Purus.

Figura 5

Vista parcial dos meandros do Rio Iaco – Bacia do Purus. Fonte: ZEE – 1999

O posicionamento geográfico dos rios acreanos, cujo acesso se dá partindo do litoral atlântico e subindo o Rio Amazonas e, a partir dele penetrando nos seus inumeráveis afluentes, é que traduziu a idéia de que os rios que foram sendo conhecidos por último, no processo de expansão das fronteiras, os de mais difícil acesso, representavam o fim do Brasil. Como os rios que formam as bacias hidrográficas do Acre ocuparam essa posição temporal de descobrimento, as outras regiões olhavam-na com o referencial do fim, pois como eles nascem nas bordas Leste da Cordilheira dos Andes, no Peru, enquadram-se na idéia de que onde eles começam, termina as possibilidades de habitação humana, haja vista, às condições adversas apresentadas pelas altitudes e condições climáticas da cordilheira e da selva que a antecedia e margeavam esses rios. 68

Essa estrutura de transporte (fluvial), em que pese todas as dificuldades que apresenta, foi compatível com o ritmo da produção gomífera, que se dá por safra anual e o produto, a borracha, não é perecível, podendo ser estocado a céu aberto. O mesmo acontecendo com a castanha que tem safra, também anual e a rusticidade do invólucro das amêndoas garante-lhe boa proteção, não necessitando também de muitos cuidados na armazenagem. (considerando os padrões sanitários da época). Mesmo após a falência dos seringais essa matriz se manteve, tanto para o transporte de pessoas, como de mercadorias que abasteciam a região. As novas necessidades, contudo, foram impondo transformações no estilo das embarcações. No lugar dos navios, dos gaiolas e das „Chatas‟, vieram os rebocadores, empurrando balsas metálicas, mais largas e mais rasas, com maior capacidade de cargas e mais adaptadas a vencer os inúmeros bancos de areia e tronqueiras que prejudicavam a passagem dos barcos de maior calado. Porém, essas novas modalidades de embarcações não resolveram o problema do tempo, que permanece ainda em torno de trinta dias para uma viagem de subida de Manaus até a cidade de Tarauacá, como no exemplo já citado e, dependem do regime das chuvas, pois mesmo essas balsas projetadas para navegar em lâminas de água mais finas, só podem fazer esse trajeto na época das cheias dos rios menores. (todos os que cortam o Acre se incluem nesta condição).

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Figura 6

Vista aérea de uma “volta” do Rio Tarauacá em época de verão Amazônico (vê-se parte do Bairro da Praia, no município que tem o mesmo nome do Rio). Neste, como em outros rios da Região, formam-se muitas praias e bancos de areia no meio do rio. Esta foto foi capturada na internet sem identificação de autoria.

O tempo e a integração foram os fatores mais utilizados pelos militares para justificarem sua opção pela mudança da matriz de transportes na Amazônia. As novas tendências apresentadas como alternativa para o desenvolvimento da Região, tais como a pecuária, a mineração, a agricultura e a indústria eram incompatíveis com um tipo de transporte tão lento. Então, foi lançada a proposta de se construir estradas para substituir essa matriz e acelerar os processos de transportes. Obviamente, há muitos motivos para se perguntar: por que não se pensou em outras modalidades, como otimizar a navegação com o aprofundamento do leito dos rios através da dragagem, a canalização, a construção de barragens e compotas, ou a construção de ferrovias, que comprovadamente são mais compatíveis para o transporte de grandes volumes de cargas, como os movimentados pelos setores industrial, agrícola e minerometalúrgicos, propostos para o desenvolvimento da Amazônia?

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As respostas a essas perguntas devem ser buscadas nos outros interesses que moviam os militares, ou seja, no complemento do triplo sentido da ação dos militares na Amazônia: o quesito segurança. É, vale lembrar, com base nessa estratégia, que abarcava as noções de desenvolvimento, integração e segurança, do Programa de Integração Nacional (PIN), que em 1973, cria-se o Plano de Viação Nacional. Nesse plano constavam algumas das estradas que fariam a integração de boa parte da Região Norte e, do Acre, eis algumas delas:  Perimetral Norte, com 2.450 km, ligando Macapá (AP) – Caracaraí - Içana-Mitú (na fronteira com a Colômbia e a Venezuela) e Benjamin Constant (AM), até Cruzeiro do Sul no Acre; (Fronteira com o Peru);    Manaus – Humaitá (AM) - Porto Velho (RO), com 760 km; Abunã (RO) - Guajará-Mirim (RO), com 130 km; Porto Velho – Abunã - Rio Branco – Sena Madureira – Manoel Urbano - Feijó – Tarauacá - Cruzeiro do Sul, com pouco mais de 1.300 km; (prosseguimento da BR -364);   Humaitá – Lábrea, uma extensão da Transamazônica, com 230 km; Lábrea – Boca do Acre – Rio Branco – Xapuri -, BR – 317, com 880 km (Essa estrada vai, na verdade até Brasiléia-Epitaciolândia (AC), na fronteira com Cobija, capital do Departamento de Pando, na Bolívia e se estende até Assis Brasil, na fronteira do Estado com o município de Iñapari que pertence ao Departamiento de Madre de Dios, no Peru).

Cruzeiro do Sul (AC) – Benjamin Constant (AM) – Içana - Cucuí, nas fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, respectivamente38.

38

- É importante considerar que entre os grandes fracassos dos militares na Amazônia, consta o da não conclusão das estradas projetadas. No caso do Acre, a ligação asfáltica com Porto Velho, por exemplo, que é a capital de Estado mais próxima, só foi concluída em 1992. E, Cruzeiro do Sul, que era o outro ponto de referência, por ser o segundo maior município acreano e fazer fronteira com o Peru, até os dias atuais ainda não tem ligação asfáltica, nem com a capital, nem com a extensão da Perimetral Norte que ligaria esta cidade a outros centros da Região Norte, partindo de Macapá. Outro fiasco foi a construção da estrada Manaus-Porto Velho que, construída em terreno alagadiço, não durou cinco anos e está desativada há mais de vinte anos.

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Figura 7

Proposta inicial de construção da Transamazônica. Fonte: MORAIS, F; GONTIJO, R; CAMPOS, R. de Oliveira. Transamazônica, Brasiliense, 1970.

O que se pode notar na projeção dessas estradas é que as preocupações com a viabilização dos transportes tinham como características mais acentuadas a busca por chegar até as fronteiras do Brasil com seus vizinhos e otimizar as possibilidades de controle interno. Iniciando com a Perimetral Norte, que faz um arco desde as fronteiras com as Guianas, passando pelas fronteiras com Venezuela, Colômbia, Peru chegando à fronteira com a Bolívia, mais ao Sul, até as estradas que cortavam por dentro o território brasileiro, indo direto na direção das fronteiras, como vias rápidas para rápidas ações, caso fossem necessárias, ou seja, os efeitos das „Doutrina de Segurança Nacional‟ e da Doutrina da Contra-Insurgência, processos insuflados pela Escola das Américas e „Aliança para o Progresso‟, em verdade, relações mantidas com os Estados Unidos, orientando nossas necessidades. Com a construção dessas estradas os militares agiram de forma prática na perspectiva do controle interno. Federalizaram algo em torno de 396.000 Km2 de terras na 72

Amazônia, pois estabeleceram que, para dar condições de funcionamento aos projetos de colonização que estavam previstos para seqüenciarem o eixo das estradas, cada uma de suas margens, numa faixa de 100 km de cada lado, seriam destinadas para esse fim, tornando-se, portanto, posse da União. Ianni (1981) descreve essa questão nos seguintes termos:
“...o governo do general Médici (1969 – 1974) decide criar e forçar as condições para que os excedentes populacionais do Nordeste sejam encaminhados para a Amazônia. Ao mesmo tempo, ao descobrir que a luta dos posseiros pela terra poderia ser base de movimentos políticos organizados, fortes e combativos, trata de reprimir os focos guerrilheiros nascentes e desenvolver uma política de regularização das ocupações ou posses. Nesse espírito, a política de terras do Governo Federal (que deve ser obedecida pelo governo dos estados, territórios e municípios) passa a ser concebida em termos de segurança interna. O problema principal, nessa orientação, é encaminhar a resolução da questão da terra para eliminar, reduzir ou controlar as condições econômicas e políticas que poderiam propiciar o desenvolvimento e a resolução das contradições sociais ligadas à luta pela terra. Essa preeminência da segurança interna torna-se, ainda mais explícita, no Decreto-Lei Nº. 1.164, de 1º de abril de 1971, que declara indispensáveis à segurança e desenvolvimento nacional as terras devolutas situadas na faixa de 100 km de largura em cada lado do eixo das rodovias da Amazônia Legal. A essa época já estava concretizado o antagonismo de posseiros (antigos e recentes) com os latifundiários e empresários que reavivam seu interesse pela terra, devido aos estímulos, favores e proteções do poder estatal, canalizados através da SUDAM, BASA e outros órgãos federais”. (IANNI, 1981).

Essa é uma variável de resposta à pergunta, “por que estradas?”, ao invés de outros meios de transportes e viação. Kowarick (1995, p. 41) explica que foi essa necessidade de controlar, dirigir, dominar a população e a idéia de ocupação da Amazônia, que levaram os militares a desenvolver esses inúmeros projetos que, em sua opinião, na maioria fracassaram, de integração da Amazônia. Num viés mais crítico José de Souza Martins (1986), liga a questão ao sentido autoritário dos governos militares, pois para ele, cada uma das ditaduras conhecidas pela sociedade brasileira, passando pelos proclamadores da República, pela ditadura Vargas e a dos militares, esse autoritarismo sempre se ergue contra a sociedade civil e mais, a tradição autoritária tem sido centralizadora e antiliberal, pois:
...o autoritarismo brasileiro vem da tradição do absolutismo monárquico – o rei, senhor de monopólios econômicos, contra câmaras municipais, contra a liberdade plena e republicana dos homens bons e livres. Esse autoritarismo tem sido a base do Estado brasileiro, com intervalos „democráticos‟, isto é, de abertura política em favor das oligarquias regionais e locais e sua tradição mercantil agrária, em favor do poder pessoal. Com o desaparecimento da figura do monarca, o absolutismo monárquico foi herdado pelo Exército que, como corporação, tem personificado a tradição autoritária absolutista, desenvolvimentista e modernizadora. Basicamente porque as rupturas representadas pelo desenvolvimento e pela modernização têm sido impostas pela força contra as oligarquias. (MARTINS, 1986, p. 81)

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Porém, em que pese os vieses autoritários dos militares, eles conseguiram conquistar a maior parte das populações amazônicas, incluindo as populações tradicionais (extrativistas), os índios e as chegantes (pecuaristas, mineradoras, colonos, garimpeiros, grileiros e especuladores em geral), acerca da necessidade de construção de estradas. O discurso prático e ideologicamente competente converteu os diversos setores sociais em defensores engajados da construção das estradas. As argumentações dos militares iam muito além das questões meramente geopolíticas. Para seduzir as populações eles usaram o discurso modernizador e envolvente da criação de condições favoráveis de exportação pelos portos do pacífico que, do ponto de vista geográfico, são bastante atraentes para as agroindústrias e criadores de gado dessa parte do território brasileiro, haja vista as distâncias em relação aos portos atlânticos que distam o triplo, em relação aos do Pacífico, via portos peruanos de Ilo e Matarani. Outro fator atrativo, alegado pelos militares, era o crescimento das cidades, que demandavam cada vez mais cereais, frutas, hortaliças, leite, ovos, carnes (suínos, ovinos, bovinos, avicultura, etc.). Tudo isso tinha relação direta com a construção de estradas, ramais e o assentamento de produtores rurais. As idéias de crescimento, de progresso, de integração, de melhorias nas condições de vida soavam como boas novas, nas cabeças dos trabalhadores. A construção de estradas era apresentada como remédio para todos os males, inclusive para a ausência crônica do Estado que, até então, faltara ao encontro com essas populações. Com as estradas o Estado poderia abrir escolas, postos de saúde, enviar técnicos para auxiliar os produtores, atender as necessidades de escoamento dos produtos, etc., tudo que se pudesse pensar em perspectiva de benefícios estariam ao alcance desses trabalhadores, inclusive, no caso dos “Soldados da Borracha”, reencontrar os parentes que haviam sido separados quando da chegada, pois as estradas fariam à integração das bacias hidrográficas. Para os estrategistas do governo, vigia a concepção genérica de que: “Meios de transportes favoráveis são fator chave para a exploração comercial de riquezas naturais. Não se pode explorar novos potenciais econômicos onde não há infra-estrutura” (HAGEMANN, 1996, p. 35).

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Não foram avaliadas as novas tensões que emergiram provocadas pelo reordenamento da questão fundiária, da revalorização da terra e das expectativas criadas nos donos e ex-donos de seringais que viam no processo possibilidades de valorização de „suas‟ propriedades. Os arranjos conservadores, que opunham interesses entre posseiros e proprietários não foram mediados: o exército, o INCRA, a polícia, os patrões (grandes proprietários), as autoridades do estado e dos municípios, todos respeitavam as leis e essas asseguravam „direitos para quem os tem‟. Para Martins (1986), os posseiros não se enquadravam nesse conjunto, pois:

A política de incentivos fiscais, para que as empresas do Sudeste e do Sul fizessem investimentos subsidiados na região amazônica, foi detonador de todo esse processo, por meio do qual, ao invés de suprimir os entraves representados pela propriedade da terra ao desenvolvimento capitalista, o Estado militarizado optou pelo subsídio ao capital e pela preservação política da renda fundiária. Forçou, assim, a associação entre a propriedade da terra e o capital, convertendo o capital em proprietário de terra, inteiramente fora do padrão clássico. Nesse sentido, o Estado Militar, coerente com a tradição do autoritarismo centralizador, iniciou um amplo processo de destruição do regionalismo oligárquico e minou mais ou menos profundamente as bases da ordem política centrada no poder pessoal dos proprietários de terra, da ordem privada que se sobrepunha à ordem pública. (MARTINS, 1986, p.86).

Os resultados desse complexo quadro de mudanças na estrutura produtiva e a tentativa de inclusão do Estado do Acre ao Brasil, pela via anexionista e conservadora dos militares, provocou o agravamento dos conflitos pela posse da terra nesta região, ampliando os rastros de violência que acompanham essas disputas em todo o território nacional. Em suas ações, os militares abriram picadas na densa floresta, assentaram colonos e, em seguida, os grileiros e ricos empresários de outras regiões aproveitaram os incentivos fiscais e os recursos abundantes, oferecidos pelas agências de fomento, para comprarem terras baratas e comandarem o re-ordenamento das propriedades no Estado. Saiam de cena os grandes seringais e emergiam as grandes fazendas. A proposta de abertura de estradas no Acre foi acompanhada, portanto, de altos impactos no rearranjo agrário, econômico, político e social que se forjou a partir da ação do Governo Federal e sua proposta de integração. Muitas das estradas planejadas pelos militares não chegaram a ser concluídas, mas os efeitos causados pela parte construída e pela perspectiva de seu prosseguimento marcaram de forma irreparável, o ambiente e as populações tradicionais e, mesmo as chegantes, com destaque para os danos causados às populações indígenas, afetados por 75

doenças trazidas pelos colonos, exploração de suas áreas de habitação e destruição ou contaminação dos seus recursos naturais pelas mineradoras e garimpos oficiais e clandestinos. Por outro lado, as populações oriundas do Sul do Brasil, também sofreram percalços. Situados numa relação oposta à dos indígenas, que morriam com as doenças trazidas pelos colonos, contra as quais eles não tinham defesas, os colonos sofreram com as doenças endêmicas da floresta, contra as quais também não tinham imunidade. Dessa forma, além da violência, muitos sucumbiram diante das intempéries e doenças das regiões tropicais. No caso das populações do Sul, as hepatites, a malária, a febre amarela, a leishmaniose, dentre outras, transformaram alguns projetos de assentamento em verdadeiros cemitérios. Sem poderem sair para as cidades em busca de socorro, e sem poderem retornar às suas regiões de origem enquanto não passasse o período invernoso, os colonos internados na floresta definhavam a mercê da própria sorte. É nesse sentido que as idéias dos militares e suas perspectivas de um desenvolvimento rápido para a Amazônia, centrado na lógica de investimentos na abertura de estradas e seu povoamento com colonos e empreendimentos privados de grande envergadura, redundou em desânimo e frustração para grandes contingentes de colonos que vieram espontaneamente, ou que foram deslocados para cá, por força das condições nos seus locais de origem e; na outra ponta, endividamento para o Estado, pois no geral a década de oitenta, conhecida no Brasil como a „década perdida‟, foi também para o Estado brasileiro um momento de forte debilidade econômica, política e social39.
39

- Atílio Boron (2003) diz que: Los ochenta y noventa fueron décadas en las cuales los países de la región se embarcaron en programas de “reformas del estado”. La puesta em práctica de estas “reformas del estado” en América Latina y el Caribe giraron en torno a tres ejes: a) Desmantelamiento del sector público, o recortes salvejes del presupesto fiscal acompañados por un costoso programa de despidos masivos. Tendencia que no solo va en dirección contraria a las tendências predominantes en los países del “Primer Mundo” sino que además, y por comparación com los vigorosos estados de los países de la OECD, hace que los estados latinoamericanos aparezcan como enanos deformes y viciosos, cuantitativamente pequeños y grotescamente desproporcionados y, para colmo de males ineficientes y corruptos, aunque en grados variables según los países. b) Crecientes grados de “debilidad estatal” definida por la dificuldad cada vez mayor que presentan estas instituciones a la hora de disciplinar a empresas y mercados, beneficiados por una liberalización y desregulación sin precedentes y resistir las presiones de otros estado más poderosos. c) Fenomenal deterioro de la noción de “responsabilidad estatal”. Los estados latinoamericanos han desertado de sus responsabilidades fundamentales en ciertas áreas críticas de su gestión tales como el bienestar general, el desarrollo econômico, la seguridad y la administración de justicia substituyendo estos viejos objetivos, por una meta suprema: la conquista y preservación de la “confianza de los mercados”. Los viejos derechos se

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A promessa de transformar o Acre, de mudar seu status de dependência crônica (que se estabeleceu com a falência da borracha) com relação à União, a partir de uma diversificação da produção, de uma mudança na sua base produtiva e da sua estruturação viária, não foi conseguida pelos dirigentes nacionais e locais. Porém, criou-se com essas ações uma „esperança‟ de que dias melhores viriam com a construção dessas estradas. Esse argumento vem servindo nos últimos trinta anos como bandeira eleitoral de todos os partidos que compõem o quadro político do Estado. Todos prometem retomar a construção das estradas projetadas pelos militares e os eleitores avaliam qual promete melhor, para ungir como novo empreendedor, ou como o novo gerente dos rentáveis negócios de construção das estradas que interligariam os municípios acreanos. No discurso, o Acre deixou de ser o „fim‟ do Brasil e se transformou em rota de passagem, em porta aberta para o escoamento da produção agropecuária para a Ásia, via portos do Pacífico, como bem sintetizava um dos slogans da campanha levada a cabo pelo Governador Francisco Wanderley Dantas (1971 – 75), no intuito de atrair investidores para o Estado: “Investir no Acre, produzir no Acre e exportar pelo Pacífico”. A autonomia econômica e a redenção social ainda não chegaram, mas a consolidação de uma concepção formatada no “desenvolvimento” está galvanizada nas mentes dos variados estratos sociais. Até os ecologistas mais engajados titubeiam ou sucumbem diante da „solidez‟ dos argumentos articulados em torno da necessidade da construção de estradas, mesmo sabendo que elas resultam em desastres ecológicos incomensuráveis, pois desde o pequeno produtor, o extrativista, os colonos chegantes, até as populações carentes dos diversos municípios isolados, passando por ricos fazendeiros e governantes em geral, todos defendem que o desenvolvimento só será possível com a construção de estradas. Há mais de trinta anos os mesmos discursos ressoam em época de eleições e as bandeiras da redenção se erguem outra vez, embriagando as mentes acostumadas a pensar na idéia de progresso e desenvolvimento, de melhoria de vida a partir de uma ação do Estado.

convierteron en mercancías cuyo disfrute lejos de ser una responsabilidad de los gobiernos pasó a depender, gracias a las desregulaciones y privatizaciones de áreas enteras de gestión gubernamental, de los bolsillos de los ciudadanos. (BORON, 2003: 42, 43).

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As frustrações também se renovam em cada fim de mandato sem a realização do sonho sonhado, mas a permanência da esperança supera as desilusões e, afinal, „sonhar não custa nada‟, mesmo que até agora não se tenha chegado à realização do sonho ou, a uma conclusão sobre a situação do Acre após a ação dos militares e seus apoiadores civis. Será mesmo o fim do Brasil, ou um dia será rota de passagem para o Pacífico?

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1.3 DESMATAR É DESENVOLVER: ESTRADAS E PECUÁRIA PARA UM NOVO ACRE.

A crença numa única perspectiva de desenvolvimento, ou seja, um tipo único de desenvolvimento40 vinculado à questão econômica, foi à base para a tentativa de inclusão tanto do Acre, como da Amazônia em geral, ao núcleo considerado mais consolidado do país, isto é, o Nordeste e o Centro-Sul do Brasil. Para quem via o Acre a partir do Centro-Sul do país, sua característica de incorporação tardia ao território nacional e, principalmente, suas características ambientais como: densa vegetação, fauna diversificada e abundante, clima quente e úmido com longa estação chuvosa, distância, isolamento, etc., tudo isso conjugado revelava sem grandes dificuldades ao observador, a noção de fronteira, a visão do inexplorado, de algo que estava à espera para ser (des)envolvido. Aquilo que estava envolvido pela floresta, que não tinha semelhanças com o mundo urbano, aquilo que se mantinha quase em estado natural, precisava ser civilizado, emergir para o progresso, fazer parte da Nação. Uma Nação que na década de setenta, no entendimento de seus dirigentes, estava unida no sentimento de construir um „Brasil Gigante‟, onde o Estado tinha a responsabilidade por esse crescimento e, precisava achar a solução para essa inclusão. Nesse contexto, a década de oitenta se inicia sem nenhuma novidade, se nos referenciarmos no pensamento do Governo Federal para a Amazônia. Os ideais do governo Figueiredo não eram diferentes dos ideais dos governos anteriores. No caso da Amazônia eles foram revelados numa mensagem enviada ao Congresso Nacional, em 1980, pelo então Ministro do Interior, Mário Andreazza onde ele repetia a ladainha entoada na década anterior e propunha que a "exploração" da região se desse com base no desmatamento, mas que fosse:

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- O conceito de desenvolvimento é polissêmico e, embora a maioria das referências que se faz ao termo destaque o aspecto do „crescimento econômico‟ (outro conceito não menos problemático), há autores, como é o caso de Amartya Sen (2001) que destaca outros aspectos e vincula o desenvolvimento às liberdades. Para Sen não é possível falar em desenvolvimento sem liberdade, concebendo liberdade como possibilidade de escolha. Para ele, portanto, o conceito de desenvolvimento está deslocado da questão geográfica, nacional, política e mesmo da situação econômica dos países, pois de nada vale um país ter um grande PNB, se seus habitantes não dispõem de condições mínimas de escolha, entendendo escolha como conceito expandido para além da possibilidade de votar, ou de ir e vir. Pois, escolha, é antes uma condição individual e coletiva que se realiza na liberdade de ter e fazer escolhas (Agency Achievement), ou seja, a mobilidade social baseada na condição e na possibilidade de escolha é que deve articular todos os outros setores para garantir o desenvolvimento.

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“um desmatamento menos predatório e que mantivesse o equilíbrio ecológico da região”. A essa forma de “exploração” ele denominava „política florestal‟. No entanto essa idéia de política florestal, embora vista como fadada ao erro, foi recebida pelos governos e também por alguns jornalistas da região, como um “mal necessário” para o desenvolvimento. Numa matéria publicada no jornal Gazeta do Acre, podemos entender o caráter da “grandeza” que o Estado Militar devotava à questão da Amazônia. Observemos o que diz a matéria:

Nunca antes em nossa história propôs-se a uma geração tamanha tarefa. Ela pode ser definida: ocupação e colonização de outro País confiado à soberania do Brasil em desenvolvimento. A Amazônia tem as dimensões de um país inexplorado. É algo assim como nos desafiarem a desenvolver outro país de dimensões igual à do Brasil. Estamos capacitados para isso depois de termos repetido fracassos no Nordeste? Embora a resposta seja negativa, a realidade apresenta o problema amazônico sob a pressão de interesses econômicos extrativistas, madeireiros e agropecuários. Não há como fugir à questão. E esta, tal como se verifica no projeto de política florestal para a Amazônia, exige de nós a conciliação sábia entre a utilização das potencialidades econômicas da região e a preservação de seus recursos naturais. (Política Amazônica. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, março de 1980, p. 03).

Essa idéia de gigantismo que os militares tinham dos recursos naturais brasileiros é também percebida por Luis Fernando Cerri (2000), que ao estudar o sentido da propaganda do período em que os militares ocuparam o poder, elaborou uma forte crítica ao projeto. Escreveu ele:

Se pensarmos o regime militar como o momento em que a educação praticamente se generaliza para a população, tanto no sistema escolar quanto através dos meios de comunicação de massa, é possível afirmar que as falas desse período sobre o gigantismo e as virtudes do espaço ocupado pela nação tiveram um papel bastante relevante na constituição dos padrões de identidade nacional que perduram até hoje. Já se mencionou uma das linhas dessas falas, que é a questão do mar territorial. Outra, com um apelo igualmente poderoso, é a fala que se refere à Amazônia e sua integração. Assim, não só nos discurso e na propaganda política, mas também nos grandes planejamentos e na ação governamental cotidiana, a ditadura do período em estudo ataca a temática do componente espacial da identidade nacional: o mapa é vivenciado e internalizado pelo noticiário que coloca em foco, dia a dia, as ações em torno do mar territorial de 200 milhas e do desbravamento da Amazônia, posta como grande desafio, como última fronteira a ser integrada à nação. Não por acaso, o mar e a floresta são dois importantes símbolos de massa. Ambos são compostos por pequenas unidades que, sozinhas, pouco significam, mas reunidas às suas semelhantes, formam massas gigantescas, na exata dimensão do gigantismo que se propõe para o sujeito coletivo da identidade brasileira 41. (CERRI, 2000, p.12).

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- CERRI, Luis Fernando. Espaço e Nação na Propaganda Política do “Milagre Econômico”. Ponta Grossa: UEPG - Revista de História Regional, 2000. Vol. 05, Nº. 02. Disponível em www.rhr.uepg.br – consulta realizada em 12/03/2006. As referências seguintes ao autor fazem parte deste mesmo trabalho, também publicado na Revista Brasileira de História Nº. 43, em 2002.

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O sentido da inclusão, contudo, revela que os projetos pensados cumpriam funções meramente econômicas ou de segurança. O olhar era voltado para as possibilidades de exploração de alguma riqueza que viesse ser encontrada, tais como minérios, madeiras, alguns outros produtos florestais ou, em último caso, trazendo para cá colonos que, além de povoar deveriam fazer produtiva a região através da pecuária e da agricultura, assim como o mar era visto também, como plataforma de defesa e de exploração pesqueira, mineral e energética. Como no Acre não foi encontrado nenhum tipo de riqueza mineral, nos primeiros momentos, a exploração madeireira e os projetos de colonização visando à agricultura e a pecuária foram priorizados. A montagem e a organização dos empreendimentos, sempre consideravam a região como despovoada e as terras como livres para ocupação e titulação, era um „outro Brasil‟. É com base nesta concepção que os governos militares haviam montado sua estratégia, bem como haviam motivado seus exércitos para cumprirem tal esforço. Se não havia outro exército a ser vencido, havia a natureza. Desbravar era a palavra de ordem dos comandantes para suas tropas. Cerri (2000) diz que, para a propaganda militar:

O papel da estrada é central: ela quebra a monotonia das árvores entrelaçadas, rompe o seu denso tecido, e faz presente a ação do coletivo nacional sobre a floresta inimiga, como um adversário que é cortado de feridas por onde esvai a sua força, o que permite subjugá-lo. Para esse imaginário, a floresta amazônica não tem serventia como está: só presta pelas suas riquezas, e para fazê-las vir à tona é preciso destruir – ou ao menos subjugar – a imponente arrogância e indiferença com a qual a floresta nos olha. (CERRI, 2000 p. 13).

Para os filósofos fardados, a floresta é entificada e qualificada: “é imponente, arrogante e nos olha de forma indiferente”. Para esses estrategistas militares e civis, incumbidos de desbravar a Amazônia, tudo o que era floresta era visto como representação do atraso, do feio, do selvagem, do não civilizado. Era inimigo a ser derrotado, a ser vencido, ser subjugado, ser dominado, pois incorporar e integrar a Amazônia se tratava de uma guerra e a Nação não poderia perder nenhuma batalha. É nesse contexto que se urde um estilo de propaganda bem colocado, calcado nos conceitos múltiplos e polissêmicos de desenvolvimento, modernização, civilização, avanço, da „Ordem e do Progresso‟, para fazer o “país caminhar em passos largos para o desenvolvimento”, tão bem representados nas musiquetas encomendas como: “Esse é um 81

país que vai pra frente...”, ou “As praias do Brasil ensolaradas...” no estilo Dom e Ravel; ou das vozes guturais dos locutores oficiais, falando de uma Amazônia gigante que “acordava de sono profundo, para se mirar nos efeitos do progresso que começava a chegar com as estradas”; que: “cortando o coração da floresta estavam homens destemidos lutando por uma pátria unida e forte”. Uma espécie de rádio-dramaturgia tomou conta da região, através da Rádio Nacional de Brasília e essa propaganda bem colocada surtiu o efeito desejado. Até mesmo os habitantes tradicionais das florestas tiveram nos primeiros momentos e muitos mantém até hoje certa sensação de satisfação, causada pelas propagandas das mudanças anunciadas, ou ainda frustração pela saída dos militares do poder, pois só eles teriam concluído as estradas. A perspectiva de deslocamentos rápidos para as cidades, de escolas para seus filhos e netos, de assistência médica, etc., chegou a animá-los. Mas, para seu desencanto, Luis Fernando Cerri (2000), adverte que:

Os índios e sertanejos que viviam embrenhados nas entranhas do inimigo (a floresta) não eram homens, ou pelo menos não eram homens "como nós", no mesmo patamar de humanidade, portanto, logo iriam perceber que os possíveis beneficiados com a construção de estradas não seriam eles .

Para Cerri, há uma flagrante contradição na propaganda do governo Médici, por exemplo, quando projetava benefícios para as populações pobres da Amazônia, ao mesmo tempo em que usava imagens de pobres de outras regiões que deveriam ser enviados para povoarem os „espaços vazios‟, ou seja, por que não visualizava os próprios pobres da região? Os próprios governos locais, nomeados pelos militares instalados no Planalto Central, percebiam a situação contraditória nas propostas a serem executadas. Num trecho extraído do documento denominado “Plano de Ação do Governo do Acre”, de 1980, no item que trata sobre organização agrária, sob o título “Dez mil sem a terra”, publicado no jornal Gazeta do Acre, lemos:

A existência de um grande contingente de trabalhadores rurais, caracterizados como posseiros, sem domínio sobre a terra, o desemprego e o subemprego da parcela significativa da população periférica dos centros urbanos, principalmente Rio Branco, bem como a perspectiva de ocorrência de intenso fluxo migratório vindo do Sul e Centro-Sul do país são fatores que vêm determinando ou tendem a determinar uma demanda crescente por terra nos próximo quatro anos. Assim, pode-se esperar que um contingente não inferior a dez mil famílias pressionará fortemente por acesso à terra no longo

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desses quatro anos, aspiração que deve ser basicamente atendida pela ação do Poder Público, em vista da confusa situação fundiária não oferecer condições de operação para colonização particular. O Incra deveria assentar, no período, 4.500 famílias em Rio Branco e Sena Madureira o que ainda deixaria uma demanda não satisfeita de 5.500 famílias a serem atendidas pelo Governo do Estado via Colonacre. Uma limitação crucial tem sido a falta de domínio do Estado sobre a terra em face da indefinida situação fundiária. Na verdade o Governo do Estado não dispõe de terras que possam ser destinadas a colonização. (Dez mil sem a terra. Gazeta do Acre. Rio Branco: 05.03.1980, p. 3).

Como podemos perceber, esta passagem de um documento do Governo do Estado contrasta com os planos do Governo Federal, no sentido de que já detectava aqui, problemas com a questão agrária, ou seja, já identificava um número significativo de trabalhadores rurais sem acesso a terra, mas principalmente, indicava uma impotência do Estado em resolver essa questão por causa dos problemas jurídicos então existentes, gerados pela falta de definição da propriedade da terra no Estado, questão esta que se desenrolava nos meios judiciários desde que o Acre foi incorporado ao Brasil pela via do Tratado de Petrópolis, assinado com a Bolívia, em 17 de novembro de 190342. O aspecto contrastante reside fundamentalmente na perspectiva do Governo Federal em ver a região como um vazio demográfico a ser preenchido e o Governo Estadual já estar às voltas com a existência de trabalhadores extrativistas, sendo expulsos de suas posses pelos „legítimos‟ proprietários, isto é, os que tinham obtido titulação dessas mesmas terras. A opção de desenvolvimento pela via da agricultura e da pecuária extensivas serviu também com estopim para a eclosão desses problemas fundiários e dos conseqüentes problemas sociais, que vinham sendo tratados como casos de polícia ou, simplesmente, sendo executados com requintes de crueldade e violência por pistoleiros contratados pelos pretensos donos para fazerem à “limpeza” das áreas adquiridas. Muita dessa violência nem chegava ao conhecimento do público urbano ou mesmo de outros seringais, pois eram praticados em locais de difícil acesso e comumente sob a proteção de autoridades que concordavam com essas ações. A limpeza humana e o seu significado de retirada do homem de seu ambiente e a limpeza do ambiente, no sentido de devastação da natureza, sintetizam os dois processos mais agudos da ação de incorporação/integração do Acre ao Brasil. Nesse contexto os

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- No Acre muitos proprietários (herdeiros) de terras apresentam títulos que foram concedidos pelo Governo boliviano, antes da “Revolução Acreana”, sendo que grande parte desses títulos haviam sido reconhecidos como legítimos pelo governo brasileiro, através de cartórios dominados pelos agentes que tinham interesses na manutenção dos latifúndios representados pelos seringalistas.

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seringueiros também passaram por situações contraditórias, pois funcionaram como mãode-obra para os serviços de desmatamento, tornando-se peões de derrubadas e, ao mesmo tempo em que estavam empregados, contribuíam para a destruição de seu modo de vida tradicional. A abertura das estradas que, em tese, serviriam para sua melhor mobilidade, para dar acesso aos serviços públicos prestados aos moradores das cidades, também serviram para trazer os novos ocupantes que disputariam terras com eles. Foi necessário um determinado lapso de tempo para que percebessem a armadilha em que estavam enredados. Martinello (1991) descreveu assim essa situação:

Desencadeava se assim uma nova fase da história econômica do Estado, bem como uma área de tensões sociais que surgirão no bojo do choque entre os ocupantes das terras que já as trabalhavam e os novos pretensos donos. Na verdade, uma das conseqüências mais calamitosas que a venda das terras acreanas aos „sulistas‟ acarretou, foi à expulsão de um grande número de famílias que dependiam da floresta e do extrativismo para sua subsistência. Com a progressiva desarticulação dos seringais e a falência do aviamento, a maior parte deste contingente populacional começou a migrar para os centros urbanos, mormente Rio Branco. Os que teimavam em permanecer em suas terras em regime de subsistência, sofreram toda sorte de arbitrariedades e violências. (MARTINELLO, 1991, p. 15).

A versão mais comum, após a venda das terras para os “sulistas” ou “paulistas”, é de que aos seringueiros só restavam duas alternativas: fugirem rapidamente para a periferia das cidades ou, deslocarem-se para os seringais bolivianos que na época estavam desocupados e apresentavam boa capacidade produtiva. Porém, ainda na década de setenta, surge uma terceira alternativa, que vai estar ligada diretamente à presença da Igreja Católica (Prelazia do Acre-Purus que tinha uma linha progressista identificada com a Teologia da Libertação), das ONGs, da CONTAG, de um certo embrião de partidos de esquerda (PC do B, PRC e depois PT) e, ao surgimento do movimento sindical rural na região. Essa terceira vertente defende a permanência e a luta de resistência pelos espaços tradicionalmente ocupados.

A saída das áreas ocupada anteriormente se dava pela necessidade de preservação de suas vidas e de seus familiares, já que no processo de limpeza humana dos territórios adquiridos, os capangas contratados para o serviço, estavam instruídos para a intimidação e para a promoção da violência física, econômica e psicológica, contra os moradores. Essa 84

violência era sistematicamente tolerada pelo Estado, já que este havia dado garantias aos compradores. Esse “clima” de impunidade e de acobertamento por parte do poder político estatal, contudo, não era novidade para os seringueiros, pois eles já vinham sendo molestados ao longo dos anos pela aliança entre patrões e detentores de cargos nessa estrutura. Nesse processo de limpeza humana, as práticas mais comuns foram: incêndio das plantações, abatimento das criações por alvejamento com armas de fogo de grosso calibre, espancamentos de seringueiros e seus familiares e, demolição seguida de incêndio das moradias dos seringueiros, além das ameaças que eram constantemente repetidas, pelos porta-vozes dos “novos proprietários”. O senhor Bartolomeu Moreira da Silva, que morou mais de vinte anos na Bolívia, após sua saída do Acre, nos conta:

Eu trabalhava nessa rodagem que vai pra Rio Branco, lá perto do Araxá, mas quando chegou esses paulistas, esses pessoal, esses paranaenses, que eles compraram lá, lá era dos Vilelas, não é? Ai quem não saísse eles tocava fogo na casa, ai o cara corria. Eu morava na beira da rodagem, era cinco minutos pra rodagem. Ai eu digo eu não sou disso, porque um homem tocar fogo na minha casa comigo dentro, isso não vai dar certo, ai eu digo eu vou m‟embora, ai encontrei um doido que era mais doido do que eu, e vendi por setecentos cruzeiros, ai fui m‟embora. (BARTOLOMEU MOREIRA DA SILVA. Entrevista concedida ao autor em junho de 2001).

Atingidos por essa forma implacável de violência, boa parte desses trabalhadores vai deslocar-se para as cidades próximas ou para o espaço territorial boliviano, promovendo uma travessia que imprimiria mudanças significativas no seu relacionamento sócioambiental e sociocultural. Comentando a questão agrária do Acre no final da década de setenta, o bispo da Diocese do Acre-Purus, Dom Moacyr Grechi, alertava:
“Além destas irregularidades (prática da “grilagem”, falsificação de títulos, “esticamentos”), bastante generalizadas, agravam-se os problemas sociais a partir do momento em que começam as derrubadas nas áreas adquiridas pelas empresas para formar pastagens. Sendo que a terra geralmente é ocupada por famílias de seringueiros ou agricultores um dos primeiros objetivos dos fazendeiros é o de “limpar a área”, isto é, tirar das terras os moradores que nela trabalham 5, 10, 20 ou 40 anos, sem o menor respeito pelos direitos dessa gente. Aproveitando-se do fato de os seringueiros e colonos não conhecerem as leis agrárias e os direitos que elas garantem ou por não ter como fazê-los respeitar, é comum a prática de expulsar posseiros através de métodos como: a) não fornecimento de mercadorias para os seringueiros, obstrução de varadouros, proibição de desmatar e fazer roçados; b) destruição de plantações, invasão de posses, derrubadas até perto das casas dos posseiros, deixandoos sem ou quase sem terra para trabalhar; c) compra de posse e benfeitorias por preços irrisórios ou, quando muito, em troca de uma área muito inferior ao módulo, o que não permitirá ao posseiro e família trabalhar e progredir; d) atuação de pistoleiros que amedrontam os posseiros numa guerra psicológica através de ameaças ou mesmo com espancamentos e outras violências; e) ameaças feitas por policiais a serviço dos proprietários, prisões de posseiros por questões de terra sem ordem

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judicial, ou por ordem judicial sem que tenha sido movida ação competente. (...) Esta nova conquista das terras acreanas que, sem dúvida, se situa dentro da lógica das empresas com capital acumulado em outras regiões do País, veio encontrar apoio na política oficial que defende a “mentalidade empresarial”, que vê na grande empresa agropecuária a única forma de integrar a Amazônia à economia do País e que viabiliza esta política através dos “incentivos fiscais”. (“Como expulsar posseiro”). Jornal Varadouro. Rio Branco, dezembro de 1979. (Entrevista com Dom Moacyr Grechi, Bispo do Acre e Purus, p. 14).

A expressão “fui m‟embora”, é recorrente no linguajar dos seringueiros e pequenos produtores que habitavam o espaço fronteiriço do Brasil com a Bolívia, nos municípios de Brasiléia, Xapuri e Assis Brasil. Tanto pode ser um “fui m‟embora” para as cidades mais próximas (Xapuri e Brasiléia), ou para Rio Branco, como pode também, ser para outro seringal no país vizinho. Neste mesmo contexto há os trabalhadores que permaneceram nos espaços onde, tradicionalmente, articulavam sua sobrevivência e serão esses que irão se destacar na recente história acreana, pela introdução de um mecanismo de resistência que ficará conhecido como “empate”. No momento enfocaremos a situação dos que deixaram suas antigas posses, deslocando-se para outros espaços motivados pelas imposições do processo de desenvolvimento articulado à sua revelia. Nesse sentido, é importante destacar que os que vieram para as cidades não encontraram no ambiente urbano um espaço receptivo. As agruras das matas vão se repetir, de forma ampliada, no novo espaço. De uma vida onde a moeda era praticamente dispensável, para uma vida onde tudo dependia dela. De uma vida onde as letras não haviam sido apresentadas, para uma onde elas se tornavam indispensáveis para a articulação com o novo meio. Do abandono dos símbolos de referência na mata, para os sinais de trânsito. Dos ramais e varadouros estreitos, onde necessariamente se anda bem pelo meio, para evitar os galhos, cipós e espinhais, às largas ruas, onde se tem que andar pelas beiradas para ceder lugar aos automóveis, motocicletas, bicicletas e carroças. Do isolamento por falta de gente para conversar, para um isolamento por não saber falar no meio de tanta gente. Do local de um só patrão, para um local de muitos patrões. Da passagem de uma atividade que se repetia ano após ano, para atividades diferentes a cada dia. O que podemos perceber é que a abertura das picadas que serviriam para a construção das estradas que não chegaram a ser concluídas, em que pese todos os seus 86

percalços e equívocos, contribuíram para promover mudanças significativas, se não na economia, mas pelo menos no modo de vida das populações tradicionais, especialmente os seringueiros e castanheiros, que viviam do extrativismo e das pequenas roças. Os grandes desmatamentos, seguidos das queimadas e a expulsão desses trabalhadores de suas antigas posses, movimentaram governos, empresários e trabalhadores rurais (florestais) em geral. Será necessário ainda um grande esforço para podermos expressar o significado dos grandes desmatamentos e a construção das grandes fazendas para criação de gado e seus impactos nos setores sócio-econômicos do Estado, bem como para identificarmos o significado do „desenvolvimento‟, ocorrido a partir desses empreendimentos. Algumas pistas nos são acessíveis a partir de depoimentos como o do senhor Antônio Pedro da Silva, ex-seringueiro que em 2001, aos sessenta e oito anos e naquela data, morando no Bairro da Bahia, em Rio Branco, falando sobre sua vida, nos disse:

Eu gostaria de tá cortando seringa, né? Porque é o seguinte, lá dentro do seringal, nós que é acostumado dentro do seringal, sabe? Nós que temos aquele costume dentro do seringal, num dia de domingo, por exemplo, que nem hoje, a gente pega a espingarda, põe no ombro e se põe na mata, mata um veado, mata um porco, mata uma paca, um quatipuru, qualquer coisa, né? Só sei que no outro dia a gente tem aquela carne pra dar de comer aos filhos e pra gente também. E assim a gente vai levando, agora aqui é tudo mais difícil, num tem caça, num se pode mariscar que os fiscais tomam tudo, eu sei que é assim, mais difícil. (ANTÔNIO PEDRO DA SILVA, entrevista concedida ao autor em julho de 2001).

Os impactos mais visíveis, contudo, são os da mudança da paisagem e dos modos de vida dos retirados (expulsos). Os grandes desmatamentos que acompanham os eixos traçados para a construção das estradas causaram as mais diversas reações: nos primeiros momentos, reações favoráveis, pois estavam ligadas às perspectivas dos investidores e dos governos que viam na devastação o embrião do desenvolvimento. Era o homem “domando a natureza”. Posteriormente, os impactos ambientais, a fumaça das queimadas, o assoreamento de rios e igarapés, a secagem de lagos, a redução acentuada do pescado e das caças e os conflitos sociais provocados pela expulsão dos seringueiros de suas colocações gerariam reações contrárias ao modelo de desenvolvimento praticado. Por outro lado, as populações urbanas que não tinham acesso às carnes dos animais silvestres que eram caçados pelos seringueiros, sentiram com o advento da pecuária uma melhora no acesso à carne bovina, que até a década de oitenta era rara nos mercados das cidades menores e mesmo da capital. 87

Portanto, se formos comparar quesitos geradores de bem-estar para os diversos setores populacionais do Estado, entraríamos num debate perigoso e relativista, pois o entendimento do conceito de segurança alimentar está vinculado também ao acesso da população às fontes energéticas necessárias para seus organismos. A oferta de mais carne nos mercados públicos, alegadas pelo governo e fazendeiros como símbolo de desenvolvimento43 não significaram, por outro ângulo, melhoria das possibilidades de ingestão desse alimento por segmentos que não dispunham de rendas para tal, enquanto que nos seringais esse acesso estava mais ligado às habilidades do seringueiro, tanto no manejo da espingarda, como no dos equipamentos de pesca, ou ainda, para se livrar de uma “panema”, para esse acesso. A referência do senhor Antônio Pedro da Silva de que no seringal seria melhor porque lá ele tinha mais liberdade para acessar os alimentos que a mata disponibilizava, nos revela também uma contradição com a noção de que a cidade representa, desde a Idade Média, a realização da liberdade (Huberman, 1979). Para os seringueiros deslocados das florestas para as cidades, o urbano e seus mecanismos de organização eram vistos como obstáculos. Desde as condições de moradia, com muitos casebres amontoados em pequenos espaços (na mata estão eles e o mundo para encontrar outro vivente), os transportes, os tipos de trabalhos e, principalmente, a presença do Estado que tudo regula (no caso ele reclama do IBAMA que não permite a pesca em determinadas situações), tudo aparecia como limitador. Deslocamentos e limitações sociais, são as definições que opõem as perspectivas de desenvolvimento pensado e implementado pelas elites civis e militares para a inclusão do Acre ao Brasil. No lugar de facilidade de acesso, as estradas abriram uma mão-única para a expulsão de antigos moradores de suas posses. No lugar do crescimento econômico se praticou uma exploração e destruição de parte significativa do ambiente natural causando um desastre ecológico de proporções ainda não avaliadas. No lugar das populações tradicionais, vieram os colonos que grosso modo foram abandonados à própria sorte com a falência dos projetos de assentamentos.
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- No Acre virou moda um adesivo usado por fazendeiros em suas camionetes, com a frase: “Você já comeu carne hoje? Agradeça a um fazendeiro”. A idéia era expressar a importância dos fazendeiros para o “desenvolvimento” do Estado, muitas vezes questionadas pelas ONGs ligadas ao ambientalismo e, mesmo por sindicatos de trabalhadores urbanos, preocupados com os impactos ambientais causados pelos desmatamentos.

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Os múltiplos objetivos dos militares, povoar e desenvolver, para integrar e defender a Amazônia padeceu de um mal crônico que acomete as elites, ou seja, elas pensam e executam projetos que são voltados para satisfação imediata de lucros e nunca consideram as camadas menos aquinhoadas que teimam em viver nos espaços solicitados por essas elites para a realização de suas pretensões. A exclusão social e o tratamento providencialista promovido pelas elites militares e civis são os resultados visíveis dessas ações. Primeiro provocam os desastres sócio-econômicos e ambientais, com o apoio do governo, depois exigem que esse mesmo governo resolva os problemas sociais e ainda os ajude a vencer as crises econômicas em que se enredaram. A abertura das intrafegáveis estradas projetadas pelos Governos Militares, a implantação da pecuária extensiva, e a organização de projetos de assentamento no Acre, causaram impactos naturais e sociais que mudaram a paisagem da região. Os grandes desmatamentos, seguidos das grandes queimadas, que foram apresentados inicialmente como ações para o progresso, não cumpriram suas promessas, pois o Estado continua com forte tendência extrativista, embora a borracha e a castanha tenha perdido espaço para a exploração madeireira e a pecuária. Porém, como um tiro que sai pela culatra, os desmatamentos e a abertura das estradas, revelaram segmentos sociais que estavam escondidos sob o imenso chapéu verde da floresta. O (des)envolvimento da floresta acabou envolvendo parte de seus habitantes, num processo de contestação que também passara a fazer parte da história, como protagonistas: os desflorestamentos (des)envolveram os „povos da floresta‟.

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CAPÍTULO II: AS NOVAS FORMAS DE APRISIONAMENTO DA TERRA E AS MUDANÇAS NA ESTRUTURA PRODUTIVA.

Este capítulo destina-se a apresentar os efeitos mais diretos da implementação das políticas dos governos militares, em nível nacional e civil no nível local, sobre os trabalhadores extrativistas, principalmente o que diz respeito à nova condição de uso da terra. Destacaremos também a entrada em cena de novos agentes sociais (os colonos, os fazendeiros e os grileiros) vindos de outras regiões e suas interações com o novo ambiente e as populações locais. No item destinado ao estudo das convulsões sociais geradas por esses encontros/desencontros, enfocaremos a questão das diversas formas de violência, geradas pelos estranhamentos entre os agentes locais e os chegantes, mas também, buscando compreender a violência no contexto da própria ocupação mais tradicional desse território. Utilizaremos como fontes, na questão da terra, os dados estatísticos produzidos pelo INCRA, pelo ZEE, matérias publicadas em jornais, Planos de Governo e materiais produzidos por entidades de classe, além de material bibliográfico.

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2.1 DOS SERINGAIS ÀS FAZENDAS DE GADO; DAS COLOCAÇÕES ÀS POSSES: OS PATRÕES, OS FAZENDEIROS, OS COLONOS E OS EXTRATIVISTAS DISPUTANDO TERRITÓRIOS E ESPAÇOS.

O processo inicial de ocupação das terras do Acre por não índios foi um movimento aleatório, no sentido de que não houve uma divisão prévia para donatários, arrendatários, sesmarias etc. A busca pelas „drogas do sertão‟ e, posteriormente, pelo „ouro negro‟ – a borracha - determinou o ritmo dessa ocupação, sempre seguindo o curso dos rios. O escritor Leandro Tocantins (1982) chega a considerar que o Acre foi uma realização brasileira do século XIX pois, para ele, após a descoberta da vulcanização da borracha, por Thomas Hancock, na Inglaterra e por Charles Goodyear nos Estados Unidos, em 1844, abriu-se um vasto campo para a utilização desse produto que era exclusivo da região, principalmente para a indústria de pneumáticos, após as experiências de John Boyd Dunlop, que resultaram na invenção do pneu, em 1888. De acordo com Martinello (1988), os primeiros seringais foram organizados no Estado do Pará, mais precisamente na região das ilhas, inclusive na grande ilha de Marajó. Porém, a intensa procura pelo produto fez com que alguns problemas fossem revelados, dentre eles a escassez de mão-de-obra e a baixa produtividade naquela região. Esses fatores desencadearam ações que visavam recrutar mais mão-de-obra, bem como expandir as áreas produtoras, para atender a demanda e ampliar as oportunidades de negócios. Logo se descobriu que para além do Pará, Amazonas e Rondônia, na direção Oeste, seguindo a calha de alguns rios, havia abundância de hévea brasiliensis (a seringueira), era a „descoberta‟ do Acre como grande produtor de borracha. É nesse contexto que se aliam os problemas fundiários do Nordeste, com os efeitos da seca de 1877 e a expectativa de enriquecimento fácil na Amazônia, anunciado pelos recrutadores de mão-de-obra, que repetiam a tese do Eldorado na Amazônia. Embora exista uma corrente historiográfica que defende a noção de que a grande seca de 1877, no Nordeste, tenha sido a principal causa da vinda de milhares de nordestinos para o Acre, há também que se pensar que o povoamento da região se deu de forma mais acelerada, justamente cerca de dez anos após essa seca, ou seja, por volta de 1888, o que contradita com a tese da seca como fator determinante. A esse respeito, Roberto Santos 91

(1980), já havia destacado vários outros pontos que serviam de “atrativo” para que o nordestino viesse para a Amazônia, dentre eles: o preconceito que eles tinham em se dirigir para os cafezais do sudeste, pois consideravam o trabalho naquela lavoura como coisa de escravos; a ânsia de enriquecimento fácil propiciado pelo boom da borracha; a perspectiva de apropriação de terras, etc. No texto sobre o processo de ocupação territorial do Acre, do Zoneamento Ecológico Econômico do Estado, lemos:

A migração não se realizava só em função das secas periódicas que a região atravessava, mas pelo pensamento do nordestino, que, por causa da intensa propaganda, sonhava com o eldorado amazônico como uma nova opção de vida, num contexto em que a borracha era tida como a salvação para seus problemas de sobrevivência. Uma rápida análise para a compreensão desse nordestino como força de trabalho pode captar o seu direcionamento para a extração do látex, tendo em vista que existia uma carência para essa atividade econômica. Dessa forma influenciado por nações estrangeiras, preocupadas com o lucro extraído da atividade gomífera, houve a preocupação, por parte do governo brasileiro, de incentivar a ida desses imigrantes para a Amazônia. É evidente que nesse panorama, estava embutida no imaginário do imigrante a idéia de “paraíso perfeito”. Mero engano, pois o que, em princípio, era “paraíso”, tornou-se um temível “inferno”, e o tão sonhado enriquecimento fácil transferiu-se para outros setores que não o seu. (ZEE, 2000, v. II p. 19).

Como se pode ver nesse fragmento, o empreendimento gomífero não resulta apenas de uma iniciativa de nordestinos pobres, desamparados e expropriados. Antes, há toda uma articulação de setores governamentais e privados, que financiavam e organizavam a empresa. A aleatoriedade, comentada acima, só se deu no processo de ocupação das terras, por parte dos organizadores, pois cada empreendedor subia os rios com uma leva de trabalhadores e após definir uma região como propícia, desembarcavam e iniciavam os procedimentos para estabelecimento da unidade de produção, ou seja, a localização das seringueiras para, posteriormente se fazer às estradas de seringa e construir a sede do seringal, região da qual se apropriava e passava a defender de outros empreendedores. Nessa fase, funcionava o princípio da posse por ocupação e os limites das áreas eram imprecisos, comumente acompanhavam a distribuição das madeiras identificadas nas colocações, ou seja, basicamente, formava uma propriedade aquilo que um „patrão‟ conseguia ocupar e defender, uma espécie de “uti posidetis”. Por outro lado, não foi um processo individualizado, atomizado, foi antes um empreendimento que contava com redes articuladas de indivíduos detentores de muitos recursos (capitais), para dar inicio ao recrutamento de homens e aquisição de equipamentos que seriam necessários para o êxito do negócio, isto é, havia gente de fora que “apostava”, que investia na empresa. 92

O seringal foi por excelência uma construção social, onde desde o seringueiro mais distante até as casas aviadoras e exportadoras, tudo tinha que funcionar dentro de um sistema que o tornava produtivo. Porém, essa construção social tinha uma formatação que anulava as possibilidades de ganhos por parte dos seringueiros, funcionando rigidamente em benefício dos seringalistas e das casas aviadoras e exportadoras. O seringal construído por muitos, pertencia a um patrão, tinha a função de lhe garantir lucros. Quando verificamos a questão de posse e propriedade nos seringais identificamos que as constantes disputas entre patrões sob a alegação de invasão de propriedade do outro, é que vai desencadear a necessidade de titulação das terras por „eles desbravadas‟. No caso do Acre, como legalmente o território ocupado pertencia à Bolívia, as autoridades brasileiras não podiam interferir, o que fez com que muitos „proprietários‟ conseguissem títulos com autoridades bolivianas, peruanas e mesmo o Estado do Amazonas se arvorava como autoridade para conceder títulos de áreas que não estavam sob sua jurisdição, o que originou uma forte indefinição fundiária quando o Acre passou a fazer parte do território nacional brasileiro. As irregularidades eram tantas que, na década de sessenta, com a reorientação econômica da região, proposta pelos governos militares, surgiu nova necessidade de demarcação e titulação. Num texto do Zoneamento EcológicoEconômico, que apresenta a estrutura fundiária do Estado do Acre, lemos:

A irregularidade das pretensas propriedades só emergiu quando o Governo Federal estimulou a reorganização do espaço econômico. Com o propósito de “modernização” e efetiva integração da Amazônia ao território nacional, o Governo Federal cria, então, mecanismos de atração de capitais do centro-sul do país. Na nova situação, a terra assume efetivamente o caráter de mercadoria. O processo de reorientação da economia amazônica, particularmente acreana, contou, de um lado, com a retirada de apoio financeiro aos seringalistas, e, de outro com incentivos fiscais, financiamentos e propaganda junto aos potenciais investidores. Com o extrativismo gomífero em crise no mercado, sem apoio creditício, os seringalistas são induzidos a vender suas terras, que apresentam, nesse contexto, preços extremamente atrativos. O Acre foi incorporado marginalmente nesse processo, pois seu isolamento não o tornava particularmente atrativo aos investimentos. Assim, o que parece ter contado mais, foi a junção da crise dos seringais com a campanha empreendida pelo então Governador Francisco Wanderley Dantas, buscando atrair investimentos externos, como forma de se incorporar à “modernização” amazônica. O esforço foi bem sucedido. Segundo estudo do CEDEPLAR (1979), entre 1972 e 1974, a valorização das terras não foi menor que 1000%, tendo sido maior nas áreas já servidas por rodovias, onde teria chegado a 2000%. (ZEE, 2000, p. 31 e conforme cadastro do INCRA, 1999).

Fato que para a população comum, essa titulação não era acessível. Apenas os “homens influentes”, os seringalistas, tinham algum tipo de título de propriedade. Essa 93

situação perdurou até a década de setenta do século XX, quando se iniciaram os esforços do Governo Estadual e do Governo Federal, no sentido de montar outra estrutura produtiva, em substituição ao extrativismo. No processo de venda dos antigos seringais para os novos empreendedores do Centro-Sul, realizou-se uma nova tentativa de garantia de posse por parte dos adquirentes, das áreas alegadas pelos seringalistas (vendedores) como sendo suas, pois na verdade, antes da chegada dos “paulistas”, a terra titulada estava nas mãos de poucos, embora para seus donos elas estivessem improdutivas, ou servissem apenas para cobrança de renda dos extrativistas que se mantinham em suas antigas colocações, mesmo após a falência dos seringais. Com a aquisição dessas terras pelos “paulistas”, em quase nada mudou a situação fundiária. A terra manteve-se na mesma ordem de concentração, ou seja, se 98,4% das terras pertencia a menos de 01% da população, ela apenas se concentrou um pouco mais, pois alguns dos novos empreendedores compraram vários seringais contíguos. No jornal Varadouro, encontramos a seguinte descrição:

Antes da chegada dos grupos econômicos do Centro-Sul do País, as terras já estavam nas mãos de poucos, embora improdutivas devido à decadência dos seringais nativos. Por volta de 1970, nada menos do que 98,4% das propriedades existentes tinham áreas acima dos mil hectares, colocando o Estado nos primeiros postos em termos de concentração da propriedade. Com essa concentração, cerca de 85,3% das famílias que viviam no campo eram de não proprietários. A partir de 1970, com a venda (ou “grilagem”) dos seringais a situação permaneceu inalterada: dos 4.280 mil hectares vendidos a proprietários de fora, no período de 1970 a 1974, mais de 30% passou ao poder de apenas quatro proprietários. No Acre, aconteceram desses fatos dificilmente repetíveis em qualquer outra parte: as fazendas Novo Oeste, do grupo Atlântica Boa Vista, e a Califórnia, do Grupo Atalla (Copersúcar), ocupam nada menos do que uma área 1,9 milhões de hectares. (A terra nas mãos de poucos. Jornal Varadouro, nº. 07, novembro de 1978)

A aquisição dessas grandes porções de terras por parte dos grupos econômicos forâneos, cumpria parte do projeto dos governos Estadual e Federal de atrair grandes grupos econômicos para o Estado, mas estava longe de garantir o desenvolvimento que eles planejaram. Alguns dos grupos que adquiriram terras enviavam apenas uns poucos administradores para efetuar os processos de limpeza humana das áreas, promovendo o que o jornalista Lúcio Flávio Pinto (Varadouro, nº. 07, nov. 1978) denominou “um mero negócio imobiliário, uma alta jogada financeira, um procedimento especulativo”. Apontando que de 1970 a 1977, essas terras tiveram uma valorização de até 2.000%. O mesmo jornalista diz que: “Nos principais hotéis de Rio Branco e de alguns municípios 94

hospedam-se permanentemente verdadeiras “gangs” especializadas em repassar terras adquiridas já de terceiros”. Ou seja, as terras do Acre tornaram-se nesse período, objeto de nova apropriação, de nova definição de seu perfil fundiário. Lúcio Flávio assinala ainda que: “aqui se identifica à figura do bandido remetido pelo mocinho”, isto é, os grileiros atuando impunemente, em nome de grandes investidores. A transição do sistema seringal para o sistema fazendas agropecuárias aconteceu em ajustes feitos pelo alto, ou seja, entre os antigos patrões seringalistas e os novos patrões fazendeiros, com plena concordância das estruturas estatais. O resultado, após dez anos de inicio do processo, estava expresso na seguinte configuração: 78% dos imóveis rurais do Estado são minifúndios que ocupam menos de 2% da área total cadastrada. Os latifúndios representam 20% do número de imóveis, detendo 94% da área total. O restante de imóveis, 2,5%, é de empresas rurais, ocupando 4% da área total. (Terra nas mãos de poucos. Jornal Varadouro. Rio Branco: edição nº. 07, de nov. de 1978). Em 1980, uma acirrada discussão entre os advogados Jersey Pacheco e João Tezza (defensores de seringalistas e fazendeiros, respectivamente) de um lado e, Océlio de Medeiros (defendendo desapropriações com base no Decreto-Lei Nº. 6.739), de outro, tomou conta das páginas do jornal Gazeta do Acre. A polêmica foi levantada por Océlio de Medeiros que citou alguns seringais como o Carmem, em Brasiléia e o Valle del Rio Chandless, em Sena Madureira, como exemplos de áreas que poderiam ser desapropriadas pelo governo, sob a vigência do Decreto-Lei nº. 6.739, de 05 de dezembro de 1979, denominado Decreto Contra Grilagem, ao que foi interpelado pelo advogado Jersey Pacheco que defendia os proprietários do último, de que o seringal era totalmente documentado, registrando assim sua defesa:
1) O Título de Concessão da região gomífera “VALLE DEL RIO CHANDLESS”, foi expedido à Frederico Carlos Jãna, pelo doutor Andrés S. Muñoz, Delegado Nacional do Supremo Governo Boliviano nos Territórios de Aquiry e Alto Purus, em Puerto Alonso, a 2 de dezembro de 1899, conforme publicou o jornal “EL ACRE”, na mesma data e local, consoante o concessionário ter efetuado o pagamento de dezesseis anuidades correspondentes ao valor da gleba, conforme recibo expedido pela Dirección del Tesouro Nacional Boliviano; 2) O referido Título foi transcrito a 5 de dezembro de 1899 no “Notário Especial del Território del Aquiry y Alto Purus, em Puerto Alonso, acompanhado do Mapa Plano Topográfico, expedido pelo Ministério do Governo e Fomento da Seção de Topografia da Bolívia; 3) Em data de 1º de outubro de 1933, Manoel Meireles de Queiróz, adquiriu de Frederico Carlos Jãna e sua mulher Carolina Jãna o Imóvel “VALLE DEL RIO CHANDLESS” por 100.000 pesos bolivianos, através de Escritura Pública de Compra e Venda lavrada no 3º Ofício de Notas de Cobija, Departamento de Pando – Bolívia; 4) O mesmo foi cadastrado na Prefeitura Municipal de Sena Madureira, conforme certidão expedida a 3 de janeiro de

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1944, sua Escritura de compra e venda transcrita às fls. 139/140 do Livro nº. 3 do Registro Geral de Imóveis e com os demais documentos registrados às fls. 55 do Livro nº. 2, da Comarca de Sena Madureira; 5) No INCRA, foi cadastrado à 9 de fevereiro de 1974 e recadastrado à 9 de agosto de 1878. (NUNES, Jersey P. Títulos se perdem na história. Jornal Gazeta do Acre, trecho de carta publicada na edição de 5 de fevereiro de 1980).

O advogado Jersey Pacheco ainda argumenta que toda a transação está respaldada pelo texto do Tratado de Petrópolis, que assegura legitimidade aos atos das autoridades bolivianas, que tratavam da concessão de terras, praticados antes desse Tratado, bem como teve sua legitimidade, reforçada pelo texto da Exposição de Motivos Nº. 77/78, de 10 de outubro de 1978. Conforme ele alega, estar escrito na alínea “c": “Os expedidos pelos Governos da Bolívia, do Peru, do Estado do Amazonas e do ex- Estado Independente do Acre, em data anterior a sete de abril de 1904 e concernentes a terras rurais acreanas, observados, sempre que possível, os requisitos de morada habitual e cultura efetiva”. (Idem). Já o advogado dos fazendeiros e também fazendeiro João Tezza se insurge mesmo é contra o Decreto-Lei, que segundo ele coloca em dúvida a propriedade de todas as terras do Acre:
“Essa lei terá compulsoriamente, quando aplicada, a argüição do princípio da constitucionalidade, porque ela nega um dos mais antigos direitos constitucionais adquiridos, o princípio do contraditório. Por esse princípio, qualquer ato jurídico para ter sobre ele uma sentença destruindo-o necessita que a parte prejudicada seja ouvida em processo regular, para poder aduzir suas razões. Essa lei é arbitrária e violenta, própria de um regime de exceção que ainda vivemos”. (Titulação: agora, críticas ao regime. Jornal Gazeta do Acre. Entrevista com o advogado João Tezza, publicada na edição de 25 de janeiro de 1980).

As reações dos „proprietários‟ e seus representantes, nos dão uma dimensão da fragilidade em que estavam montadas suas titulações. No caso das argumentações do advogado Jersey Pacheco Nunes, notamos que a base da documentação foi montada a partir da concessão por autoridades bolivianas, inclusive com os registros cartoriais tendo sido expedidos em cartórios de cidades bolivianas. Esse parece um fato lógico, já que não se poderia efetuar o registro em cidades brasileiras, por estar a área pretendida, dentro das fronteiras bolivianas àquela época. O único porém, é que em 1898-9, não havia a menor possibilidade das autoridades bolivianas, que acabavam de chegar à região, ter domínio topográfico, por exemplo, da área onde hoje estão localizados os municípios de Sena Madureira ou, mesmo de Brasiléia, já que quando chegaram à região, aportaram numa base 96

no rio Acre, que denominaram Puerto Alonso (atual Porto Acre), local que é relativamente distante da cidade de Sena Madureira e, mais distante ainda da cidade de Cobija, a capital do Departamento de Pando. Fato que por si os impossibilitava de condições e agilidade para delimitação precisa das áreas dadas como registradas, conforme alega o advogado. Outro aspecto que corrobora com a tese de que os tratados assinados em época posterior à tomada do Acre da Bolívia, respaldam a propriedade dos seringalistas, reside exatamente no fato de que a guerra (e a História), da tomada desse território foi feita pelos próprios seringalistas, que ajudados pelos seringueiros e alguns agentes que se envolveram na disputa, movidos por interesses diversos, mantiveram a propriedade e posse das áreas em litígio. Neste caso, nada mais elementar que as autoridades brasileiras, através de sua diplomacia, também tratassem de forma diferenciada esses seringalistas, concedendo-lhes as terras reivindicadas, em mais um ajuste pelo alto, visando não complicar as relações entre as elites. Já na argumentação do advogado João Tezza, a inconstitucionalidade do DecretoLei e a argüição de arbitrariedade e violência, são antepostas à possibilidade do Governo Federal ou Estadual intervir no sentido de desapropriação das áreas onde a titulação não tinha a devida comprovação. O fato de se ter usado da violência para aquisição das terras, ou expedientes, no mínimo, suspeitos para titulá-las, não constitui ilegalidade, pois, por seu prisma, ela só pode ser argüida quando se coloca contra a manutenção de pretenso direito à propriedade. A explicação para as paixões em defesa da grande propriedade no Acre, deve ser buscada no resultado do seu processo de ocupação. Alberto Passos Guimarães, em sua importante obra Quatro Séculos de Latifúndio (1977), mostra que, exatamente o Acre, pelos dados do Censo de 1960, era o Estado brasileiro onde o grau de concentração da propriedade era o mais elevado. Em outros termos, isso significava que nesse Estado o número de propriedades com mais de 1.000 hectares ocupavam aproximadamente 94 por cento do total das propriedades cadastradas. José Fernandes do Rêgo, que em 1980, era Secretário de Fomento do Estado do Acre, em depoimento a CPI da Terra, da Câmara Federal, afirmou que:

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“Se compararmos o Acre com um Estado de idênticas proporções na extensão, como é o caso do Ceará, veremos como é grave a nossa posição, pois, enquanto os estabelecimentos agrícolas de mais de 1.000 hectares somam 98,4 por cento do total em meu Estado, no Ceará, esta proporção é de apenas 28 por cento”. (RÊGO, José Fernandes do. Como encurtar o latifúndio. Jornal Varadouro. Rio Branco: Edição de dezembro de 1979, p. 14).

A propriedade da terra no Acre evoluiu a partir dessa imprecisão topográfica do seringal para um quadro de preservação hereditária dessas propriedades, gerando uma concentração extremamente injusta e desproporcional. Os dados de 1960, apontados por Alberto Passos Guimarães, referentes à concentração, como algo em torno de 94%, estão muito próximos dos apresentados por Lúcio Flávio Pinto, para os anos 70, de José Fernandes do Rêgo, para os anos 80 e, mantendo-se quase no mesmo nível de concentração em 1999, de acordo com o INCRA, ou seja, as mudanças de donos e de propósitos na utilização das terras passaram longe da resolução da questão fundiária, embora nesse ínterim, a União tenha tomado posse de muitas terras, com o intuito de organizar projetos de assentamento. Usando dados do INCRA, da FUNAI e do IBAMA, relativos à situação das terras do Estado do Acre para o ano de 1999, os organizadores do Zoneamento EcológicoEconômico, apontavam que após a intervenção do Estado na regularização da propriedade das terras, elas adquiriram a seguinte configuração: terras destinadas ao Poder público correspondiam a 49,04% das terras do Estado. Estas estavam distribuídas entre projetos de assentamento e colonização (9,00%), projetos de assentamento agroextrativista – PAE (1,27%), reservas extrativistas (9,68%), terras indígenas (14,20%), florestas nacional e estadual (1,56%), unidades de conservação (6,00%), terras públicas (áreas arrecadadas pelo INCRA, não destinadas 7,37%). (ZEE, 2000. Vol. II, p. 35)44. No caso das terras particulares ou reivindicadas por particulares, temos o total de 48,08%, da área total do Estado, sendo que apenas 25,99%, são discriminadas pelo INCRA, permanecendo um total de 22,09% de terras reivindicadas por particulares sem discriminação. Os outros 2,84% das terras pertencem às áreas urbanas, militares, estaduais, etc., ou seja, como o Acre tem um total de 15.314.990 hectares, quase metade dessa área está nas mãos de particulares, obedecendo a uma distribuição exageradamente desigual, como já tratado, acima. (Idem).
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- Na segunda fase do ZEE, publicado em 2006 esses números já estão mais atualizados e apontam um domínio das terras do Estado como sendo de 55,65%.

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Há casos em que os herdeiros – proprietários nunca chegaram a colocar os pés na área reivindicada, mesmo assim alegavam à propriedade da terra, apresentando como justificativa os títulos conseguidos através de manobras cartoriais. Muitas vezes foram esses “herdeiros” que atuaram na venda dessas terras para os paulistas. A transição de donos de seringais para donos de fazendas obedeceu a um protocolo cartorial. Na década de setenta, década da transição, alguns „investidores‟ (podemos ler também, alguns grileiros e especuladores) denominados na região como paulistas, chegaram a comprar terras por estimativa. Como o hectare era muito barato, em torno de Cr$ 2,00 (dois cruzeiros), os novos compradores fechavam o negócio sem ter a devida delimitação topográfica das áreas, para depois fazer a medição. O processo de „esticamento‟ fazia a complementação da transação. Em matéria publicada no jornal Varadouro, lemos:

Eles começaram a chegar em 1972. Prepostos de grupos nacionais ou estrangeiros, especuladores de terras, grileiros ou simples aventureiros. Vinham de braços dados com seus jagunços, e aqui encontravam outros aliados: o então governador Wanderley Dantas, os chefes de cartórios, alguns juízes e a polícia. Em pouco tempo, dois ou três anos, compraram a maior parte dos 15 milhões de hectares que o Acre possui, e desarrumaram a vida de 40 mil famílias de seringueiros. A nova ordem econômica decretada ou estimulada pelo governo federal era a pecuária em vez da borracha. O boi no lugar do homem. (“Os novos donos do Acre”. Jornal Varadouro. Rio Branco, 1980. Nº. 19, edição publicada em maio de 1980, p. 8).

Nesse processo de transferência das terras, foi fundamental o apoio institucional, tanto do Governo Federal, com os financiamentos e incentivos fiscais, como o apoio coercitivo da polícia e do judiciário, em nível Estadual. Em outro trecho da matéria, citada acima, destaca-se essa importância:

Os incentivos fiscais, os financiamentos fartos da Sudam, Basa e Sudhévea, que eram vergonhosamente liberados, operavam o milagre de transformar grileiros e jagunços em “empresários de boa fé”. Ainda que eles queimassem barracos de seringueiros, fizessem desmatamentos não autorizados, se apossassem de terras indígenas e confinassem peões nas fazendas, em trabalhos escravos, continuavam sendo de “boa fé” para o governo e os órgãos de “desenvolvimento”. Ainda que demonstrassem o interesse puramente especulativo com relação às áreas adquiridas, que eram retalhadas e revendidas, e que desviassem os recursos oficiais para fins não previstos (como adquirir mais terras ou aplicar em open-marketing), não perdiam a idoneidade. (Idem).

Eis a representação de outra das grandes contradições dos projetos de desenvolvimento pensados e implementados pelas elites civis e militares para desenvolver o Acre: Ao mesmo tempo em que criavam o INCRA, com a incumbência de resolver as 99

questões fundiárias do país, criavam também, através das chamadas agências de desenvolvimento regional (SUDAM, BASA, SUFRAMA, SUDHÉVEA e outras), os recursos e incentivos que possibilitavam a concentração de terras em proporções nunca imaginadas pelos especuladores mais bem articulados. O Estado, através dessas agências foi o principal protagonista da reconfiguração (reconcentração) da propriedade da terra no Acre. Em primeira instância, financiou e deu suporte logístico para o estabelecimento duradouro do latifúndio e da especulação fundiária dos „novos donos do Acre‟. A atuação do Estado no financiamento da aquisição de terras e dos especuladores nos „esticamentos‟ proporcionaram situações tão esdrúxulas, ao ponto de alguns municípios terem áreas de terras cadastradas que extrapolavam em mais de 80%, sua área total, como é o caso de Sena Madureira, com área cadastrada correspondendo a 185,3%, Brasiléia, com 164,4%, Manoel Urbano, com 123,0%, Rio Branco, com 118,6%, Xapuri, com 108,0% e assim prossegue para outros municípios. No geral, o Estado do Acre, mantém ainda hoje, uma situação fundiária indefinida, haja vista, que muitos processos de reconhecimento de titulação se arrastam na justiça há décadas e o INCRA não conseguiu fazer a delimitação das propriedades particulares45. Tendo localizado os atores ditos proprietários, ou seja, seringalistas e fazendeiros, apresentaremos as outras pontas das disputas de terras no Acre, qual sejam, seringueiros e castanheiros (extrativistas), ribeirinhos, pequenos proprietários e colonos assentados vindos de outras regiões. Os primeiros a sofrerem as conseqüências de não possuírem titulação das terras foram os trabalhadores extrativistas, mais propriamente os ribeirinhos, os seringueiros e os castanheiros, que desde o início do processo de ocupação dos seringais, foram internados nas colocações e enredados num sistema de trabalho que lhes aprisionava numa rede de endividamento junto ao barracão (patrão) de onde era praticamente impossível se desvencilhar da dependência, imposta através dessa dívida perene. Toda a estrutura do seringal estava montada na permanência do extrativista na colocação, tanto para manter o ritmo de produção estabelecido pelo patrão, como também para garantir o lucro do setor mercantil ligado ao sistema produtivo. Esse sistema mercantil
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- Esses dados foram coletados no texto sobre Estrutura Fundiária do Estado do Acre, no livro II do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), publicado em 2000 (p. 32), estando também disponível no cadastro do INCRA, disponibilizado em 1999.

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servia a duas funções bem articuladas: 1) complementava o lucro do patrão, ao mesmo tempo em que garantia a subsistência dos trabalhadores e; 2) aprofundava a dependência dos extrativistas, que compravam no barracão todos os víveres e bens necessários para a vida na mata. A colocação, local em que estava inserida a unidade de produção do extrativista, pertencia ao dono do seringal e não ao trabalhador lá colocado. A benfeitoria, ou seja, a estrada de seringa e as castanheiras existentes, também pertenciam ao patrão. O que importava na estrutura do seringal era o número de madeiras de seringa e castanheira, que naquela época representavam à riqueza. Naquele período, a terra praticamente não tinha valor. Ao extrativista competia simplesmente extrair o látex e preparar a péla de borracha e coletar a castanha no período da safra, para posteriormente entregá-la ao patrão como pagamento dos víveres e outros produtos adquiridos junto ao barracão. Com a falência do sistema de aviamento, causada pela queda no preço da borracha nativa, que ficou desvalorizada diante da concorrência com a borracha oriunda dos seringais de cultivo da Ásia, no início do século XX, os patrões em sua grande maioria, abandonaram os seringais, deixando em seu lugar um gerente. Mantiveram apenas um reduzido estoque de mercadorias que não se destinava mais ao aviamento, mas sim à venda direta aos seringueiros em troca de sua produção. Nesse período se fortalece a figura do regatão, que ganhou mais liberdade para navegar pelos rios, bem como para realizar negócios diretos com os seringueiros e ribeirinhos. A reativação dos seringais se dá durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após os ataques japoneses a Pearl Habour, quando foi cortado o suprimento de borracha para o Ocidente. Numa ação rápida em busca do produto, se firmam os “Acordos de Washington”, onde o Brasil faria um esforço de guerra para abastecer os Aliados com esse produto, que havia se tornado matéria estratégica para sua força bélica. A mobilização de centenas de milhares de, novamente, nordestinos para a Amazônia, agora como “soldados da borracha”, reanima os donos dos seringais, que diante dos fartos financiamentos dos Aliados e do Governo brasileiro retornam aos postos de comando de seus seringais para novamente colherem os lucros com o aumento da produção devido à mão-de-obra abundante, fruto do sucesso da mobilização promovida pelo governo brasileiro e os agentes

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estrangeiros, principalmente estadunidenses, na consecução do esforço de guerra. (MARTINELLO, 1988). Esse novo surto durou até o fim da Segunda Guerra, quando os “Aliados” recuperaram o acesso ao produto gomífero dos seringais de cultivo asiático, rompendo praticamente todas as cláusulas dos “Acordos de Washington” e deixando novamente a empresa seringal sem aportes de recursos para sua manutenção. Novamente os seringalistas se retiram e, desta vez, muitos não deixam sequer um gerente para tomar conta do seringal. Alguns chegam a arrendar os seringais para não perderem totalmente a possibilidade de manter algum lucro com aquelas terras, outros deixam “ao Deus dará”. Foi nesse ínterim que os seringueiros, não tendo mais o barracão como fornecedor de víveres, passaram a utilizar suas antigas colocações para produzirem seu sustento, através da construção de roçados, retomando a prática da coivara, que era comum no Nordeste e adaptando-a a Amazônia. Mesmo assim, mantiveram as atividades extrativistas como prática complementar. Dessa situação surge o seringueiro autônomo, ou semi-autônomo, ou seja, um seringueiro que não dependia mais do aviamento (inexistente) do barracão para sua subsistência, mas que permanecia sob constante ameaça dos patrões, por não deterem a propriedade da terra. Por sua vez, para continuar obtendo lucro com “suas” terras os patrões (donos dos seringais), mantinham a cobrança da taxa, denominada “renda”, sobre a produção dos seringueiros para que eles pudessem permanecer em “suas” propriedades, mesmo que eles não estivessem mais abastecendo os seringais com mercadorias, nem desenvolvendo qualquer tipo de assistência àqueles produtores. Independente desses percalços, muitos seringueiros que vieram nas primeiras levas para desbravarem as matas e transformarem essas áreas de selva em seringais foram deixando suas colocações para seus filhos. Algumas dessas famílias já estavam há mais de cinqüenta anos morando na mesma colocação e, ainda que isso representasse toda uma vida, nunca adquiriram direito à propriedade de suas posses, mas com toda a adversidade, vinham permanecendo nessas áreas. Em alguns seringais as redes de familiares, que foram se estabelecendo e se constituindo ao longo dos anos, ajudaram na articulação dessa permanência na terra. Às vezes, as relações de compadrio com os patrões, ou mesmo as trocas de favores, ajudavam nessa permanência. 102

O arrendamento dos seringais, prática usual no período pós–Segunda Guerra, que era feita pelo dono, para outro indivíduo explorar „seu‟ seringal, quebrava a relação paternalista que alguns patrões haviam desenvolvido com os seringueiros. O arrendamento colocava diante dos seringueiros (posseiros), um novo patrão que vinha disposto a fazer valer o estilo tradicional de exploração. Essa relação conflituosa marcava a vida dos seringueiros do período pós–Segunda Guerra até a década de setenta, quando, ao invés do simples arrendamento, os seringais foram vendidos e seus compradores pretendiam utilizálos para uma finalidade, onde as seringueiras e castanheiras perdiam sua utilidade. Essa nova situação é que vai ensejar os conflitos agrários no Estado do Acre a partir da década de setenta. A transição da propriedade e a nova finalidade, isto é, a saída do extrativismo como atividade principal e a entrada da agropecuária como nova possibilidade de realização econômica, colaboraram para promover uma valorização da terra, invertendo a unidade de valor anterior, que era exatamente o que estava sobre a terra, ou seja, as seringueiras, as castanheiras e os homens que as trabalhavam. Outros membros da estrutura dos seringais, como comboieiros, caçadores, pescadores, mateiros e até guarda-livros, também buscaram alternativas para sobreviverem, iniciando em áreas próximas as sedes dos seringais algum tipo de atividade produtiva, seja ligada a agricultura, seja a pecuária de subsistência e em alguns casos de guarda-livros e outros ajudantes diretos do patrão, que por disporem de alguns recursos a mais, investiram em um pequeno comércio que visava suprir a carência (ausência) do barracão, obviamente, mantendo a prática dos preços extorsivos e adulterações de pesos e medidas, inspirados naquela estrutura. É essa articulação que vai permitir que muitos moradores dos seringais permaneçam nas áreas, mesmo após a falência e o abandono da unidade pelos patrões, sem significar que mudasse substancialmente seu status, pois conviveria sempre com a insegurança a respeito da questão alimentar e da propriedade da terra. Mas é inegável que a ausência da força coercitiva do patrão e da estrutura do seringal, possibilitou novas experiências, ou seja, novas fronteiras foram estabelecidas para os trabalhadores extrativistas, ribeirinhos, ou povos da floresta em geral, como mais tarde foram denominados.

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Os outros moradores da floresta, no caso, os colonos que chegaram para povoar a Amazônia, trazidos para os projetos de assentamento e oriundos das várias regiões do País, constituem o outro ator da diversa configuração social que hoje forma a população acreana. Incentivados pelo Governo Federal, milhares de pessoas saíram do Espírito Santo, do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, de Mato Grosso do Sul, de Goiás, de Mato Grosso e vieram ocupar lotes franqueados em projetos de assentamento pelo Governo, às margens da recém aberta Rodovia 364, estrada que liga Cuiabá (MT) a Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC) e, dentro do Acre, indo até Cruzeiro do Sul, extremo Oeste do Estado. Como a maior parte dessas terras já estava ocupada por extrativistas (e comunidades indígenas), a simples ação de reorganização das áreas (100 km de cada lado do eixo da estrada) reivindicadas (retomada), pelo Governo para implementar os projetos de assentamento, causou grande impacto nessas populações residentes. Porém, feitos os loteamentos e assentados os novos colonos, o descumprimento das promessas de construção das agrovilas, estradas vicinais, escolas, postos de saúde, sementes e etc., aliados a não titulação das terras, por parte do Governo, em nome dos colonos, o que os impedia de ter acesso aos financiamentos bancários para iniciar a produção, a situação foi se agravando. Nesse período, eram freqüentes as notícias de jornais veiculando a situação de abandono em que se encontravam os assentados. No jornal Gazeta do Acre, entre os anos 1980 e 1990, encontramos diversas matérias enfocando o descontentamento dos parceleiros assentados nos lotes distribuídos pelo INCRA. As reclamações mais constantes são as da falta de estradas e da falta de escolas. Numa matéria publicada no jornal Gazeta do Acre, lemos:
José Pereira, colono paranaense de Itaipu transferido juntamente com a família e outros agricultores para as margens da BR 317, afirmou que não terão condições de enfrentar mais um período invernoso, sem estradas trafegáveis e apoio do Governo. É necessário uma atenção do Governo, acrescentou, para solucionar os problemas de transportes, pois se repetir o quadro atual por mais um ano, muitos paranaenses abandonarão os lotes. Uma agricultora, de origem alemã, garantiu que neste próximo verão, quando as estradas melhorarem vai se mudar para o Estado do Mato Grosso, onde mora uma filha: “Aqui, nessas condições não dá pra ficar”. Segundo declarações de outros produtores, o Incra teria prometido colocar à disposição dos parceleiros paranaenses um veículo que ficaria sediado no km 62, mas até o momento esse veículo não apareceu. (“Paranaenses não agüentam outro inverno”. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, 1982. Publicado em, 24/03/82).

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Outra matéria, também publicada no jornal Gazeta do Acre, conta a história de outro colono que desanca o INCRA, por se achar enganado por esse órgão público, nos seguintes termos:
O colono Herbert Martins Kerger, que no final de agosto chegou com toda a família e pertences ao Acre, depois de viajar durante 22 dias pela BR 364, está retornando a São Paulo, para se empregar numa fazenda, depois de enfrentar sérios problemas no Projeto Pedro Peixoto. Herbert era mecânico em São Paulo. No início deste ano vendeu tudo o que tinha para vir em busca de um pedaço de terra onde pudesse trabalhar. Logo foi assentado numa gleba no (Projeto de Assentamento Dirigido) PAD Pedro Peixoto, onde fez derrubadas e preparava-se para iniciar o plantio, quando foi obrigado a deixá-la, porque a área estava sendo reivindicada por um posseiro. Semanas depois o Incra deu um novo lote ao agricultor este, porém, situado num local de “mata bruta”, sem condições de fazer qualquer plantio para a próxima safra, por já haver passado a época de preparo do terreno. (...) Herbert diz que “o Incra lá no sul ilude o pessoal pra vir para o Acre e depois quando o agricultor chega é abandonado à própria sorte, enfrentando sérias dificuldades para sobreviver”. Diz que “está voltando numa pior, por ter sido jogado no mato que nem bicho”. (“Os sonhos e esperanças de um sulista morrem no Acre”. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, 1982. Edição de 04/11/82).

As notícias nos jornais relatando a agruras sofridas pelos colonos chegantes nos dão uma dimensão das necessidades e dificuldades que eles enfrentavam. As chamadas das matérias sempre demonstram algum tipo de reivindicação nesse sentido, tipo:
“Colonos reclamam de estradas „péssimas‟”, “Colonos da Cooperativa já não acreditam mais que escola saia”, “Agricultores estão sem estradas”, “Sessenta colonos sem estradas”, “Paranaenses que chegaram ao Acre estão preocupados”, “Governo promete saída à produção”, “Colonos pressionam prefeito”, “Em Plácido, restrições ao crédito provoca revolta”, “Colonos malham Colonacre e querem título de terra”, “Colonos estão com cereais apodrecendo por falta de estradas”, “Colonos cobram promessas”. (Títulos publicados no Jornal Gazeta do Acre).

Todas essas são matérias que com poucas modificações nos títulos, vão se repetindo ao longo dos anos, desde meados da década de setenta. Os desenganos dos colonos chegantes e suas desavenças e reclamações com o INCRA e com os Governos nas três esferas, contudo, não foram suficientes para encobrir o foco principal do conflito de terras no Acre. Basta dizer que das mais de mil inserções tratando da questão fundiária, encontradas no jornal Gazeta do Acre, no período de 1980 a 1990, algo em torno de oitenta por cento tratava da questão que envolvia os seringueiros e os posseiros da própria região e não os colonos e parceleiros do INCRA, como eram designados os chegantes. O aparecimento de colonos (parceleiros), peões de fazendas e fazendeiros, num ambiente onde tradicionalmente existia o patrão, os seringueiros e os ribeirinhos, imprime 105

uma nova configuração dos conflitos e possibilidades econômicas, sociais, políticas e culturais desse espaço amazônico que compreende o Estado do Acre. As formas de organização, através das cooperativas, dos sindicatos de classe, e das associações de criadores (nome genérico da União Democrática Ruralista - UDR) e seus relacionamentos com o Estado, serão os ingredientes basilares para a reconfiguração das lutas e organização dos novos modos de vida que emergiram no bojo da mudança na estrutura produtiva e relacional desse espaço territorial e antrópico. A luta pela propriedade e posse da terra vai marcar o ambiente dos novos relacionamentos que se foram constituindo. Os novos agentes e suas ações impactantes no que se refere às mudanças impressas na paisagem e nos relacionamentos sócio-econômicos forçaram os seringueiros e outros agentes sociais nas matas e nas cidades a buscarem alternativas para a manutenção de modos de vida que estavam fadados à extinção pela ação governamental.

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2.2 OS ESTRANHAMENTOS E A VIOLÊNCIA ENTRAM EM CENA: AS CONVULSÕES SOCIAIS NO VALE DO ACRE.

A violência é uma componente muito presente na história do Acre. Portanto, não vamos tratar os eventos ocorridos a partir da década de setenta como episódios extemporâneos, ou inéditos dessa trajetória. A perspectiva, então, é apresentar os novos agentes das contendas, situando-os no contexto histórico que os fez emergir para a cena, como protagonistas nesta fase. Os estranhamentos e a violência foram localizados, mas não foram produzidos exclusivamente no local ou nos espaços das contendas. Suas origens são inter-relacionadas, envolvem estruturas endógenas e exógenas, que marcam o curso da “conquista de fronteiras” e do avanço do capitalismo. Estudando as mais diversas formas de violência que atravessaram o século XX e penetraram no XXI, Octávio Ianni (2004), atribui as também diversas mutações do capitalismo, essa capacidade de manter-se sempre remodelando e assustando o mundo:

O capitalismo pode ser visto como um vasto, complexo e sempre expansivo processo históricosocial. Nasce e transforma-se com os tempos modernos, compreendendo o mercantilismo, o colonialismo, o imperialismo e o globalismo, nos quais se inserem nacionalismo e tribalismo. Pode ser definido como um modo de produção e processo civilizatório, pelas contínuas e reiteradas mudanças que provoca em outros modos de produção e civilizações. Caracteriza-se pelo desenvolvimento intensivo e extensivo das “forças produtivas”, isto é, capital, tecnologia, força de trabalho, divisão do trabalho social, planejamento e violência; simultaneamente ao desenvolvimento das “relações de produção”, compreendendo os princípios jurídicos-políticos da liberdade, igualdade e propriedade, organizados no contrato e codificados em instituições tais como a empresa, a corporação e o conglomerado, o mercado e o Estado; bem como em outros institutos codificados em termos jurídicos-políticos, entre os quais estão aqueles relativos ao ensino, saúde, previdência, trabalho sindicato, partido e outros. Cabe ressaltar, no entanto, que o capitalismo é um vasto, complexo e sempre expansivo processo político-econômico e sociocultural que leva consigo a vocação de produzir e reproduzir, criar e recriar, inovar e substituir, engendrar e destruir. Há como que uma voragem persistente, contínua e insistente no âmago desse processo, de tal modo que, para expandir-se e renovar-se está sempre a destruir. (IANNI, 2004, p. 143, 144).

Situando nesse percurso a História do Acre, identificaremos que a começar pelos chamados desbravadores, a violência cercava o empreendimento. Reconhecidamente, os desbravadores, não eram homens gentis, que resolviam seus problemas com base no diálogo, como pressupõe a idéia de civilidade. A idéia de civilização/civilidade, tão cara aos iluministas, aqui ganhava outros significados. Na própria organização das primeiras

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“expedições”46 a disciplina e a hierarquia eram bem estabelecidas. A hierarquização se impunha a partir de um tipo de violência mais sutil: a condição de mando, a condição de organizador, a quantidade de homens sob ordem, a violência psicológica, ou mesmo, a violência econômica que submete pela necessidade. Ao ingressarem numa expedição, cada membro sabia (ou aprenderia rapidamente) sua posição no grupo. Por seu turno, a disciplina era mantida pela aplicação da violência física, dos castigos e das punições, que impõem privações do próprio ser. O encontro dos “desbravadores” com as populações indígenas também foram marcados pelos complexos e diversos tipos de violência, com destaque para a violência física e psicológica. As diversas etnias que habitavam ao longo dos rios eram tratadas como empecilhos a serem removidos, como seres inferiores ou, em alguns casos, incorporados como trabalhadores subalternos, ou escravos. Sobre este tipo de violência Ianni, escreveu:
A história do Mundo Moderno, desde o descobrimento e a conquista do Novo Mundo, compreendendo também a colonização da África, Ásia e Oceania, é uma história dos mais prosaicos e sofisticados meios e modos de violência, com os quais se forja e mutila a modernidade . (2004, p. 170).

Também Hobsbawm (1998), vê o século XX como um período em que a barbárie esteve em crescimento. Desde a Primeira Guerra Mundial até as guerras da Iugoslávia (Kosovo, Bósnia), passando pela Guerra Fria, Vietnam e Guerras de Libertação na África. Para ele, o que se registra são violações cruéis aos próprios princípios liberais da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, seguidos de exaltações a pretensos direitos naturais de determinados povos sobre outros inferiorizados e subalternizados por suas diferenças. Por sua vez, Mauro Leonel descreve esse processo como sendo de uma violência endocolonial e que ele trás dos processos coloniais a violência que lhes é característica:
Na fronteira econômica devem ser considerados estes fenômenos semelhantes à “acumulação primitiva” e à Revolução Industrial. À semelhança de processos anteriores, vê-se que, embora o empobrecimento e a perda de solidariedade comunitária sejam generalizadas, manifestam-se diferentemente a cada condição social, por exemplo, aos índios, aos seringueiros, aos ribeirinhos, aos pescadores das periferias, aos colonos recém-chegados, aos barrageiros, peões de madeireiras e aos garimpeiros. O trabalho repetitivo, alienado, coincidindo com a perda dos laços comunitários, a perda da autonomia, como na Revolução Industrial européia, igualmente tão violenta e desagregadora quanto à doença ou a miséria, às quais se soma. (LEONEL, 1998, p. 230).
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- Expedição: era o nome que se dava às viagens organizadas para reconhecimento de um rio. Comumente elas eram financiadas por um governo de província com o intuito de alargar seus domínios e descobrir novas riquezas a serem exploradas. Algumas delas foram organizadas por indivíduos endinheirados em busca de expansão de seus negócios.

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No período de instalação dos seringais, além da violência que cercava a montagem do empreendimento em si, houve essa vertente, com características mais sofisticadas, que foi o confronto com os elementos indígenas. Nesse caso, os seringalistas conseguiam convencer os seringueiros da “justeza” de lutar contra os índios, colocando a questão da sobrevivência como elemento mobilizador. O princípio era questionável na elaboração, mas tinha como respaldo a unilateralidade da voz da autoridade do patrão, pois, para ele, ou os seringueiros ajudavam a dizimar os índios ou seriam dizimados por eles. Uma lógica perversa, sem dúvidas, mas eficiente em seu propósito. A prática para extermínio das populações indígenas ficou conhecida como “correrias”47. As correrias consistiam na organização de grupos bem armados, que liderados por homens que tinham conhecimento da região e de alguns hábitos das tribos da localidade, promoviam ataques surpresa, causando o maior número de baixas possíveis naquela tribo. Os alvos preferidos eram velhos, mulheres e crianças, pois além do extermínio físico, abatiam também psicologicamente os indígenas adultos, que certamente não entendiam os motivos para tais atos. Enfraquecidos pela quebra de suas condições de vida, muitos adultos, quando não eram mortos em combates desiguais, eram capturados, ou se colocavam à disposição, para servirem como escravos nos serviços dos barracões. Muitos donos de seringal também premiavam seus seringueiros para que eles em ação isolada abatessem índios. A prática de abater índios, bem como as recompensas recebidas pelos seringueiros por tais atos, criava um sentimento de prestígio deste para com o patrão, bem como uma “fama” de “valentia” para o seringueiro que a praticava. Os massacres contra as diversas etnias indígenas, contudo, não são características apenas dos períodos dos dois surtos da borracha. No período da ditadura militar, com a abertura das estradas na Amazônia essa prática retornou com muita força. Nos Estados do Pará, Rondônia, Amapá, Roraima, Amazonas, Mato Grosso e Acre, fosse pela implantação de fazendas, fosse pela exploração de garimpos, construção de hidrelétricas, abertura de ramais para projetos de assentamento, etc., ocorreram massacres e tribos inteiras foram
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- As “correrias”, as matanças indiscriminadas de indígenas são aspectos marcantes das ditas “conquistas” em toda a América desde as áreas árticas até as antárticas. Neste caso específico para a Amazônia e o Acre, sobre as correrias, consultei especialmente: TAUSSIG, M. Xamanismo, colonialismo e homem selvagem. Um estudo sobre o terror e a cura. São Paulo: Paz e Terra, 1993; MARTINS, E. Nossos índios, nossos mortos. Rio de Janeiro: Codecri, 1978; IGLESIAS, M. Piedrafitas & AQUINO, T. Vale. Kaxinawá do Rio Jordão – História, território, economia e desenvolvimento sustentado. Rio Branco: CPI, 1994.

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dizimadas pela força das armas, ou pelas doenças trazidas pelos “brancos”. (MARTINS, 1991). Entramos no século XXI e os conflitos persistem, perduram. No entanto a violência nessa característica de uma ação contra o outro, não ficou restrita à luta contra os indígenas, muitas vezes ela alcançou o âmbito da simples “briga” de um seringueiro contra um patrão, na maior parte das vezes motivadas por reação de um seringueiro contra a exploração, contra o aumento de sua dívida por meios espúrios, que as tornava impagáveis e, ainda, a modalidade de violência entre os próprios seringueiros, por causa de mulheres, ou por motivos fúteis, como bebedeiras, etc., que acabavam por envolver familiares e se prolongava em ações de vinganças de ambos os lados. O fato é que a “fama” de ser “respeitado”, que significava também ser temido, era importante na vida do seringal. A possibilidade de se impor perante o outro era almejada, era desejada. Os patrões que dificilmente iam para o confronto direto com o seringueiro, tinham mais facilidade no exercício do poder, pois sempre usavam o corpo do capataz e seus jagunços como agente de sua autoridade. Já os seringueiros conseguiam-na ou perdiam-na, usando o próprio corpo, portanto em desvantagem dentro da estrutura hierarquizada do seringal48. Outro fator que é marcante no período de auge dos seringais é que são poucas, ou pouco conhecidas as manifestações coletivas de seringueiros contra patrões, temos notícias de poucos episódios de revoltas de seringueiros. Todavia como já dissemos anteriormente, a violência não é uma questão endêmica do Acre ou dos processos fronteiriços:
Sob vários aspectos, a violência é um evento heurístico de excepcional significação. Revela o visível e o invisível, o objetivo e o subjetivo, no que se refere ao social, econômico, político e cultural, compreendendo o individual e o coletivo, a biografia e a história. Desdobra-se pervasivamente pelos poros da sociedade e do indivíduo. É um evento heurístico de excepcional significação, porque modifica as suas formas e técnicas, razões e convicções de conformidade com as configurações e os movimentos da sociedade, em escala nacional e mundial. Explicita nexos insondáveis da subjetividade de agentes e vítimas, em suas ilusões e obsessões, ao mesmo tempo que explicita modalidades inimagináveis e verdadeiros paroxismos de processos e estruturas de dominação e subordinação. Revela a alucinação escondida na alienação de indivíduos e coletividades. Nasce como técnica de poder, exercita-se também como modo de preservar, ampliar ou conquistar a propriedade,
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- Lembro que na minha infância, antes de sair do seringal, comumente nos finais das tarde de domingo, quando se reuniam alguns jovens no seringal, sempre se organizavam para “jogar uns pontinhos na praia”. Essa brincadeira consistia numa espécie de “queda-de-corpo”, onde o vencedor era aquele que conseguia derrubar o maior número de adversários. Obviamente naquela “brincadeira” estava embutida uma idéia de predomínio sobre os demais, era mesmo um momento de afirmação ou reafirmação de uma condição de força adquirida. Outro caso bem corriqueiro era o da véspera de uma festa, quando os rapazes passavam boa parte da tarde “amolando” (afiando) sua faca, como preparação para o evento. A resolução dos desentendimentos pela violência estava sempre presente, havia mesmo uma preparação para a “eventualidade”.

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adquire desdobramentos psicológicos surpreendentes no que se refere aos agentes e as vítimas. Entra como elemento importante da cultura política com a qual se ordenam, modificam ou transformam as relações entre os donos do poder e os setores sociais subalternos, os governantes e a população, as elites e as massas. Sob vários aspectos os atos de violência revelam aspectos recônditos, insuspeitados e fundamentais de como se formam e transformam os jogos das forças sociais, as tramas das formas de sociabilidade, levando indivíduos e coletividades como em um vendaval em fúria. (IANNI, 2004, p. 169).

Quando ocorreu a segunda desmontagem da empresa seringal, no período pósSegunda Guerra, houve uma redução dos conflitos nas áreas dos seringais diante do grande esvaziamento, haja vista, o abandono destes por parte dos seringalistas e os deslocamentos de muitos seringueiros para as cidades. Algumas escaramuças persistiram entre os remanescentes, ou seja, alguns gerentes que permaneceram representando os donos, os arrendatários chegantes e os seringueiros que decidiram ficar em suas colocações. Esses conflitos, no entanto, passaram a ter outro foco, comumente se davam por causa da cobrança da renda, mas, num certo sentido, o gerente ou o arrendatário mantinham um nível de pressão dentro do tolerável para não obrigar o seringueiro a abandonar de vez a colocação, o que redundaria em perda total de qualquer possibilidade de negócio e, obviamente, obtenção de lucro com o principal agente produtor do seringal. Com a venda das terras dos antigos seringais para os “paulistas”, a partir do início da década de setenta, recrudesce a violência, pois a proposta de transformar os antigos seringais em fazendas para criação de gado implicava em dois tipos de limpeza: 1) a dos territórios adquiridos, que consistia na limpeza da cobertura vegetal, ou seja, a derrubada e queimada das árvores para o plantio do capim (provocando um desastre ecológico ainda não avaliado) e; 2) a limpeza humana, ou seja, a retirada de seringueiros, colonheiros49, posseiros, antigos moradores, todos os que pudessem trazer algum tipo de complicação para o empreendimento modernizador em curso. O tipo de violência empregado pelos paulistas para fazer a limpeza da terra tinha característica bem diferente da violência praticada pelos patrões dos seringais. Podemos dizer que era oposta, no sentido de que nos seringais a violência era aplicada para manter o
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- Esse deslocamento de seringueiros e ex-seringueiros para as cidades foi usado durante muito tempo como explicação única para o crescimento da violência nos ambientes urbanos, embora eu não conheça nenhum estudo mais profundo que comprove essa afirmação. Mesmo assim os jornais não faziam cerimônia em apresentar como verdadeira essa elaboração. Situação muito parecida com a que ocorreu após a abolição da escravidão no Brasil que também foi apontada como causa do aumento da violência nas cidades para onde os ex-escravos se deslocaram, ou seja, os controladores das informações sempre atribuem aos “estranhos” das classes mais baixas, as responsabilidades pelos conflitos sociais.

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seringueiro preso ao sistema, enquanto que no caso dos fazendeiros e grileiros, a violência era exercida exatamente para o oposto, isto é, para expulsá-los. Nos primeiros momentos, os paulistas tentaram uma tática de expulsão mais simples, que estava baseada no desconhecimento, na não visualização, ou no ocultamento do outro. Chegaram e passaram a agir como se tivessem comprado somente terras. Então ordenaram os desmatamentos e as queimadas como prática natural. Logo esses desmatamentos foram encontrando as casas e as pequenas plantações dos trabalhadores que habitavam essas áreas, então, diante da resistência demonstrada por alguns em desocuparem “suas” terras, os novos proprietários, iniciaram a outra fase, a fase da expulsão. Como os antigos moradores eram apenas “posseiros” e não proprietários, nem podemos sequer, etimologicamente, falar em expropriação, pois mesmo que esses moradores tivessem construído suas casinhas e cultivado suas roças nesses locais, não dispunham de nenhuma comprovação documental de que a terra lhes pertencia, ou seja, não eram proprietários na visão dos “tomadores de decisão”. A ordem era para desocuparem a área e a punição para o não cumprimento era a retirada à força, fosse esta exercida pela polícia ou pelos jagunços do próprio “novo” dono da área. Obviamente que para os novos compradores de terra e, principalmente, para seus advogados, a expulsão desses antigos moradores das áreas adquiridas era a realização do pleno exercício de cidadãos imbuídos dos mais nobres propósitos de tornar produtivas áreas tão selvagens, afinal os “investidores” estavam ali atendendo a um convite do próprio Estado. Porém, para quem estuda essas práticas de expansão de negócios nos moldes do que vinha ocorrendo, o que estava acontecendo não era apenas um fato superficial de aquisição de terras. Martins (1991) entende que o que estava acontecendo no Acre, bem como em outras áreas Amazônicas era, não uma simples expansão da fronteira, mas sim, uma expansão do capitalismo. Para ele a expropriação e a exploração capitalistas, que na história clássica do capitalismo se deu em fases diferentes, no Brasil, conseguiu articular ao mesmo tempo as duas fases, pois:

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O mesmo grupo econômico, nacional ou multinacional que utiliza técnicas sofisticadas e contratuais na exploração do trabalho operário em São Paulo ou nas grandes capitais européias, utiliza a violência do jagunço, sobrepõe o poder privado ao poder público, para expropriar o posseiro na Amazônia, e até mesmo emprega o trabalho escravo para abrir fazendas. (...) Não se trata, portanto, de encarar expropriação e exploração como dois momentos históricos que se sucedem. No caso de nossa sociedade, são processos que estão ocorrendo simultaneamente, articulados pelo mesmo agente, que é o capital. Seria extremada inocência supor que em São Paulo determinada multinacional é capitalista e na Amazônia a mesma multinacional é feudal. (MARTINS, 1991, p. 17, 18).

Para uma boa demonstração de que esta tese tem fundamento, basta lembrar que entre os principais compradores de terras no Acre constam, dentre outros, o Banco Bradesco, o Banco Itaú, a fábrica de conservas Swift, a Bordon, o Grupo AtallaCopersucar, a seguradora Atlântica Boa Vista, a Coloama, a Manasa, a Viação Garcia, a Varig, o Café Cacique, todos, grupos nacionalmente conhecidos com atuação em áreas diversas dos sistemas produtivos e de serviços. Robert Kurz (1993) denomina essas situações que estavam ocorrendo no final do século XX, em países “atrasados”, de “processos recuperadores da acumulação primitiva”. Mesmo sendo marcas conhecidas que costumavam aparecer no cenário midiático nacional como empresas relevantes para o crescimento do país, suas atuações na Amazônia, especialmente no acre, no que diz respeito a compras de terras e os tratamentos dispensados às comunidades locais, foram processos marcados pela crueldade humana e pela depredação ambiental. Nesta matéria, temos um exemplo dessas ações:

As 50 famílias de posseiros que vivem na Fazenda Baixa Verde localizada no km 38 da BR-317 estão sendo ameaçadas de expulsão pelo representante da PLANCAP – proprietária da fazenda Jiácomo Trento, como denunciaram ontem 36 posseiros da área. Ontem pela manhã posseiros e o representante da multinacional se reuniram na sede do Mirad onde nada ficou decidido. “Tanto o Mirad como o Sindicato dos Trabalhadores Rurais aconselharam a gente a deixar a área. Eles estão comprados” dizem os posseiros. A fazenda com mais de 150 mil hectares pertence ao Grupo PLANCAP, cuja sede está localizada em Vitória no Espírito Santo e é filial da multinacional holandesa MICHELIN. A propriedade está sob hipoteca e penhorada para a SUDAM; Banco do Brasil e Iapas, aos quais deve mais de Cz$ 20 milhões pelo não pagamento de impostos, encargos sociais e falsa aplicação de recursos sacados nessas entidades financeiras. Ezimar Fidelis Maia, pai de quatro filhos e natural do Acre é um dos posseiros e disse que “nós não vamos sair de lá. Podem mandar até a polícia mais a gente não sai. Os proprietários da terra vivem lá no Espírito Santo. Isto é grilagem”. (Conflito de terra ameaça posseiros da Baixa Verde. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, abril de 1988).

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As ameaças e a violência contra os seringueiros e “posseiros” eram desencadeadas em múltiplas frentes, que partiam dos jagunços, passando por policiais, inclusive delegados, funcionários públicos, políticos (senadores, deputados, vereadores, prefeitos, governadores), até os juízes. Os atos começavam com os recados enviados pelos “donos”, que tinham como porta-vozes jagunços ou policiais armados para que as famílias saíssem das áreas. Em seguida, a ação de desocupação que poderia ser feita também por policiais ou por jagunços, já usando métodos baseados na violência física, como derrubada das casas usando motos-serras ou mesmo incendiando as casas, que comumente eram construídas em madeiras ou paxiúbas e recobertas por palhas, o que significava rápida combustão e nenhuma possibilidade de salvar o que tinha dentro delas. O ato seguinte da violência se dava quando o posseiro procurava as autoridades do Estado para reclamar de sua situação e buscar reparação para os prejuízos causados pelos jagunços e/ou policiais. Primeiro, que como haviam perdido sua referência no mundo, tinham ficado sem lugar para abrigar-se e à sua família, o posseiro já vinha para a cidade numa condição de extrema penúria, sem a possibilidade de abrigar-se, sem acesso a alimentação, vestimentas, etc. Segundo, que para ser recebido por uma autoridade teria que esperar por vários dias e o resultado era, comumente, a sentença de que ele não teria “direito” porque o fazendeiro havia comprados às terras e tinha a documentação. Esse caminho foi percorrido por muitos e os resultados contribuíram para sua recusa em buscar os chamados meios legais. A situação chegava a ser tão esdrúxula que até o Superintendente da Polícia Federal, no caso falamos de Mauro Spósito, que em tese, não deveria se envolver em conflitos localizados, “batia boca”, através dos jornais locais, com dirigentes dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais por ser acusado por eles de manter ligação com fazendeiros e proteger assassinos. Num desses episódios, ocorrido em 1988, o sindicalista Chico Mendes (à véspera de seu assassinato), acusou o delegado da Polícia Federal, Mauro Spósito de proteger e passar informações ao fazendeiro (posteriormente condenado pelo assassinato do próprio Chico Mendes), Darli Alves da Silva, que vinha sendo procurado pela polícia do Paraná, acusado de assassinato naquele Estado, ao que foi respondido também via imprensa local, pelo delegado Spósito, de que Chico Mendes seria colaborador da Polícia Federal. Numa das matérias que trataram publicamente as discussões, lemos: 114

Continuam tensas as relações entre o superintendente da Polícia Federal Mauro Spósito e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Chico Mendes. Depois de ser acusado pelo sindicalista de ter facilitado a fuga de Xapuri do fazendeiro Darli Alves, acusado de assassinato, o delegado Spósito tomou a ofensiva e divulgou um dossiê acusando Chico Mendes de ser colaborador da Polícia Federal desde 1980 e de ter, neste período, delatado vários companheiros por “formação de partido clandestino”. Ele afirma também que Chico Mendes estaria “sendo subvencionado por entidade alienígena multinacional”, no caso da Fundação Ford, entidade americana que apóia vários programas de educação e meio ambiente em todo o mundo. Chico Mendes refuta todas as acusações e diz que elas são fruto do desespero e do despreparo do superintendente da federal que não tem como se esquivar ou se explicar em relação às declarações dos pistoleiros de Xapuri que afirmam ter a cobertura da PF para seus atos. (...) (Esquenta a briga de Chico Mendes e Mauro Spósito. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, dezembro de 1988).

No mesmo sentido encontramos nos jornais notícias de que grupos de fazendeiros buscavam o apoio dos comandantes militares para combater as lutas dos sindicalistas, que eles identificavam como subversivos, ou seja, quando os jagunços assassinavam trabalhadores e líderes sindicais, não era subversão, no entanto quando os trabalhadores revidavam a uma agressão a situação virava caso de intervenção militar:

Cerca de 20 pecuaristas foram ontem de manhã ao 4º Batalhão Especial de Fronteiras pedir garantias de vida e trabalho, já que alguns deles estão temerosos de ir até suas fazendas no município de Brasiléia, onde, na semana passada foi morto o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Wilson de Souza pinheiro e, na última segunda feira, o gerente da fazenda Nova Promissão II, Nilo Sérgio de Oliveira. Os pecuaristas entregaram também ao comandante do 4º BEF, coronel Gondim, uma fita gravada com os discursos pronunciados por líderes sindicais e outras entidades, domingo último, em Brasiléia, quando do ato público em homenagem aos trabalhadores rurais daquele município. O comandante do 4º BEF não quis fazer comentários a respeito da entrevista que teve com os pecuaristas, mas o Presidente da Federação da Agricultura, Francisco Diórgenes de Araújo, garantiu que ele havia prometido “tomar a frente das investigações”. Os pecuaristas, segundo Diórgenes Araújo, contaram ao comandante do 4º BEF que em Brasiléia “existem grupos fortemente armados de trabalhadores”. Por sua vez, o advogado e pecuarista Antônio Luciano, membro do sindicato patronal rural de Rio Branco disse que se recorrem aos órgãos federais por acharem que “o governo do Estado se mostra impotente para contornar situações de conflitos que se agravou nestes últimos dias”. A Polícia Federal, o Governador e a Secretaria de Segurança Pública, deverão receber, hoje, documento sobre a questão fundiária. (...). (Pecuaristas recorrem ao Exército: há nota e; Pecuaristas pedem garantias ao 4º BESF. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, julho de 1980).

O clima de conflagração era tão intenso que alguns políticos e pessoas influentes nos municípios de Rio Branco, Brasiléia e Xapuri, chegavam mesmo a defender, através dos meios de comunicação, que a solução para os problemas criados pelos sindicatos de trabalhadores rurais só se daria com a morte de seus líderes, vejamos um caso:

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O Secretário da Prefeitura Municipal de Xapuri, seringalista Guilherme Lopes, afirmou, na reunião que a Sudhévea realizou dia 17 passado naquela cidade, que “a única maneira de resolver os problemas de terras que estão surgindo aqui é matar o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores rurais, o Delegado da Contag e os padres que vivem instigando os seringueiros”. Essas declarações do Secretário Guilherme Lopes foram ouvidas por autoridades de vários órgãos governamentais que estavam presentes ao encontro, e foram transmitidas pelos microfones da Rádio Seis de Agosto, do município, que cobriu o encontro. Além do Presidente e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Luiz Damião, que fora convidado para a reunião, também estavam no recinto o diretor da Sudhévea, José Cezário, o prefeito Jorge Haddad, gerentes de bancos, representantes do Incra, seringalistas, fazendeiros e convidados. As afirmações de Guilherme Lopes foram apoiadas pelo seringalista Lamberto Ribeiro e por outros fazendeiros, que também pediram a cabeça de alguns delegados sindicais e do vereador Francisco Mendes (Chico Mendes), recentemente escolhido presidente da Comissão Regional Provisória do Partido dos Trabalhadores, no Acre. (Seringalista sugere matar para resolver o problema fundiário. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, junho de 1980).

Em outra matéria sobre reunião de “homens importantes”, esta realizada em Rio Branco, tendo como público rotarianos e maçons, lemos:

O assassinato de Wilson Pinheiro de Souza do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia foi discutido, na noite de quarta-feira, em reunião do Rotary Clube de Rio Branco ocasião em que o grão-mestre da maçonaria no Estado, Ocírodo de Oliveira pediu ao general Moreno Maia, do Incra, providências “porque estão pregando a subversão no Acre”. Em resposta o general declarou que “nós não vivemos mais em 1.800 e o homem do campo, hoje, conversa de igual pra igual com qualquer um da cidade e conhece o Estatuto da Terra”. O encontro dos rotarianos tinha como tema central a discussão do projeto Redenção, mas Ocírodo de Oliveira, em certo momento interviu para afirmar que “a subversão está ai e nós estamos de braços cruzados”, sendo aplaudido pelos sócios do Clube. Ocírodo afirmou então: “General do nosso glorioso exército, é preciso que se tome providências senão isso aqui viverá um só caos”. O chefe da maçonaria defendeu a colonização do Acre através de trabalhadores de outros Estados. Por sua vez o general Moreno Maia – hoje na reserva – declarou que “o homem do campo não é mais bobo. Ele não acredita mais em promessas, não acredita mais em nós. Se confia, não é uma confiança total”. (“O colono não é mais bobo”, diz o general. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, julho de 1980).

A articulação de vários segmentos ligados aos fazendeiros e seringalistas nas cidades, envolvendo as Associações de Criadores de gado, Associações Comerciais, rotarianos, leoninos, maçons, clubes fazendários, etc., criava um clima de hostilidade de muitos segmentos urbanos, contra os trabalhadores rurais. Essa perversa situação de desamparo e falta de apoio à suas reivindicações individuais foram pedagógicas para que essas populações percebessem que agindo sozinhas não conseguiriam manter-se em suas colocações. Foi nesse processo conturbado que os seringueiros, que sempre tiveram um estilo de vida com pouca sociabilidade, devido às distâncias e as imposições da labuta diária, sentiram a necessidade de juntar-se para defender-se.

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Para consecução desse fato receberam apoio da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), que passou a atuar no Acre em 1975 e, principalmente das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica, que já vinham atuando desde o início desta década e tinham passado a agir na defesa dos mais pobres, iniciando um processo de orientação sobre a questão da terra, informando sobre o usucapião, por exemplo, que mesmo tendo sido regulamentado em 1964, com o Estatuto da Terra, era praticamente desconhecido nessas áreas onde predominava o analfabetismo e a ausência de qualquer tipo de resguardo à lei. O jornal Nós Irmãos, foi um instrumento importante da divulgação dos direitos dos posseiros e da legislação agrária. Não que os posseiros soubessem ler e tivessem acesso fácil a qualquer publicação impressa, mas principalmente porque auxiliava os agentes das CEBs no entendimento e na melhor forma de abordar o assunto junto aos trabalhadores. O jornal publicava sob forma de cartilha os principais pontos sobre os direitos dos posseiros. O fato de ter em mãos a posse do jornal da Igreja tornava o agente pastoral mais interessante, mais prestigiado aos olhos dos trabalhadores extrativistas. Paradoxalmente, havia entre eles uma espécie de maior crença no que estava escrito, embora a maioria não soubesse ler, ficavam mais atentos quando o interlocutor ao invés de usar unicamente a fala, passava a ler sobre seus direitos. O processo de construção dessa união entre os seringueiros era, inicialmente, desprovido de elaborações e reivindicações mais apurados. Comumente, diante da ameaça de jagunços efetuarem uma derrubada que afetasse uma residência de um morador da área, reuniam-se os vizinhos naquela casa e tentavam impedir o desmatamento, ou juntavam-se todos para irem até a cidade pressionar as autoridades para que resolvessem o problema. Ilustrando essa situação, transcrevemos a seguinte matéria, publicada no jornal Gazeta do Acre em pleno ano de 1988:

Mais de trezentas famílias de posseiros que foram expulsas das terras do empresário Tufic Assmar encontram-se acampadas há quatro dias na sede do MIRAD onde exigem uma solução para o problema. Eles denunciam que mais de trezentas casas já foram destruídas e queimadas por quatro operadores de motos-serras e outros quatro empregados do empresário que acompanhados de 50 PMs, cinco policiais civis e um oficial de justiça serram os barrotes das palhoças e ateia fogo a tudo. (...) (Colonos resistem a jagunços. Gazeta do Acre. Rio Branco, setembro de 1988).

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Como se pode perceber nesta notícia, o contingente de policiais e os equipamentos usados pelos jagunços tinham grande poder de destruição e, dificilmente, seriam derrotados em suas ações de desocupação ou, derrubada de um barraco. Diante de tamanha força era melhor evitar o enfrentamento e dirigir-se a cidade para buscar outros meios de impedir sua expulsão, neste caso os trabalhadores expulsos, acamparam na sede do Ministério da Reforma Agrária e Desenvolvimento (MIRAD), mas em outras situações, vinham conjuntamente em busca de apoio do Governo do Estado, como demonstra essa outra matéria:
Cerca de quarenta agricultores e seringueiros do seringal São João do Balanceio, km 124 da BR – 364, vieram à cidade sexta-feira denunciar ao governador Joaquim Macedo e ao coordenador do INCRA ameaças de expulsão de suas posses que estão sendo feitas por alguns indivíduos que eles conhecem por “paulistas”. Os agricultores contam que esses indivíduos têm feito espalhar pelo seringal que todos os agricultores serão expulsos porque eles adquiriram o seringal. Na sede da CONTAG (Confederação Nacional dos trabalhadores), os agricultores receberam um funcionário do Incra que informou que o seringal São João do Balanceio ainda não foi discriminado e por isso não se sabe se pertence à União ou a particulares. (...). Os colonos que também estiveram reunidos no Palácio Rio Branco com o Governador Joaquim Macedo a quem queixaram-se das péssimas condições de tráfego que oferece a BR-364. Contaram que para vir a cidade tiveram que percorrer cerca de 60 km a pé quando então puderam tomar um ônibus. (...) (Agricultores denunciam ação de grileiros. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, 09 de março de 1982).

Algumas vezes, os seringueiros e colonos, diante da dificuldade de acesso às autoridades, denunciavam diretamente a um jornal, na perspectiva de que daquela forma chamasse atenção, não só de autoridades, mas também da sociedade, para sua situação como nesse caso:
Os colonos que cultivam uma faixa de terra do Seringal Campo Esperança, localizado no km 31 da estrada de Xapuri, o qual pertence a José Francisco Ribeiro, conhecido com “Zé Português”, denunciaram à GAZETA DO ACRE a intimidação policial de que foram vítimas dois colonos, um deles, um velho de 61 anos, quando no último sábado trabalhavam em suas terras. Antônio Léo e Raimundo Gomes encontravam-se nas colônias que exploram há cerca de um ano, quando dois policiais da PM, acompanhados de dois civis chegaram ao local e intimaram os agricultores a acompanhá-los até a secretaria de Segurança em Rio Branco. De acordo com os colonos “os policiais até revólver botaram” e não permitiram que eles sequer tomassem banho ou almoçassem, obrigandoos a acompanhá-los imediatamente. Ao chegar a Rio Branco, porém, os policiais alegaram que já era muito tarde e que não haveria mais tempo de irem até a Secretaria de Segurança, o que só poderia ser feito na segunda-feira. Por essa razão disseram que iriam soltá-los na rua, o que de fato foi feito, tendo os colonos que retornar ao Quinari. Para os colonos esse fato é uma forma encontrada pelo proprietário da fazenda para ameaçá-los porque um dos civis que acompanhava os policiais, era um seringueiro conhecido por Chico Noêmio, o qual é testemunha de Zé Português no processo que este move contra os colonos. (Colonos dizem que foram intimados pela polícia. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, abril de 1982).

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A presença da polícia em conflitos pela posse da terra, sempre defendendo o lado dos grandes proprietários e fazendeiros, esteve bem evidenciada nos jornais por mim pesquisados. Em muitos casos não estavam obedecendo a uma ordem superior, mas sim, agindo de forma autônoma, valendo-se do cargo público para auferir dividendos, ou prestígio junto a um fazendeiro ou grande proprietário, nessa matéria, lemos:
Interessante! Durante os últimos sete, oito anos, os seringueiros e posseiros do Acre quase sempre levaram a pior no confronto com grileiros, jagunços, empresários e grupos econômicos que se apoderaram de 1/3 das terras do Estado. Milhares de seringueiros foram expulsos a bala dos seringais, centenas de posseiros tiveram suas casas destruídas, suas plantações pisoteadas pelo gado, muitos foram espancados, humilhados e roubados nos seus mais elementares direitos. A ação das autoridades locais ou federais, civis ou militares, em favor dos trabalhadores foi praticamente inócua; quando muito os trabalhadores recebiam a invariável promessa de “estamos investigando, estamos investigando”, “vamos tomar providências” e outras evasivas do gênero. Pois bem, depois de apanhar bastante e sofrer todas as conseqüências possíveis e imagináveis do capitalismo selvagem que se esparramou sobre este lado da Amazônia, os seringueiros e posseiros, tendo aprendido a lição de organização em seus sindicatos, começaram a reagir, numa ação legitima de defesa dos interesses da classe, contra uma nova investida dos “paulistas” que está se esboçando. E o que está acontecendo agora? Essas mesmas autoridades já se mostram irritadas, indignadas com a ação dos trabalhadores e algumas até estão proferindo ameaças surdas e arrasadoras. Depois não querem admitir ou tentam escamotear, quando são acusadas de estarem fazendo o jogo de interesses do capital, dos poderosos e dos opressores! Esta hipocrisia, no entanto, não está passando desapercebida dos trabalhadores e, no momento mais oportuno, eles saberão desmascará-las. (De que lado estão as autoridades. Jornal Varadouro. Rio Branco, outubro de 1979).

Este tipo de ação policial não deixava registros. Eram ações “autônomas”, ou seja, os policiais muitas vezes agiam por conta própria ou com a conivência de outras autoridades, mas para quem viveu em municípios pequenos, como eu, não raro fomos testemunhas de como se colocavam em prática métodos muito eficientes, usados pelos fazendeiros para manterem policiais e outras autoridades como seus aliados. Por exemplo, o fazendeiro que encontra o policial na rua e comenta “rapaz quando é que tu vai olhar o novilho que separei pro teu filho” ou, “tenho um carneiro pra você assar no Natal, é só ir pegar lá na fazenda”. Outra forma é manter as autoridades em seu circulo de influência, convidando-as para um churrasco, ou de vez em quando dando um “agrado”, ou seja, distribuindo algum dinheiro para ajudar o “amigo” com as despesas. Esses “agrados” eram (são) distribuídos conforme a importância do cargo. Outras autoridades, como políticos do executivo, do legislativo e membros do judiciário, também vão recebendo os seus “agrados” conforme o “favor” ou “serviço” prestado. O fato é que ao ser avistado na companhia de uma autoridade, ou receber a visita de uma autoridade em sua fazenda, garantia ao fazendeiro uma aura de poder e dava uma demonstração de que 119

aquelas autoridades estavam ao seu lado. Na prática articulava-se um círculo de amizade que interferia na aplicação (pretensamente) equânime da lei. Porém, o grande paradoxo dessa reestruturação agrária e produtiva ocorrida no Acre a partir da década de setenta foi à condição de colocar em choque os próprios trabalhadores extrativistas. Não os que permaneceram nas áreas de floresta, mas esses, contra os que ao serem expulsos, deslocaram-se para as cidades e depois foram contratados como peões de derrubadas, ou peões de fazendas, capatazes, etc., que voltavam à floresta, nessa condição para fazer o trabalho de desmatamento e/ou desocupação que desalojaria seus exsemelhantes. Os estranhamentos e os conflitos dificilmente colocavam frente a frente os extrativistas e os fazendeiros. As artimanhas do capital se encarregavam de criar as condições onde os próprios trabalhadores entravam em rota de colisão, promovendo seu encontro/desencontro nessa condição de estranhos. As situações reais de um “encontro” entre peões de derrubada e trabalhadores extrativistas numa ação de “empate”, por exemplo, criam vários ambientes de “desencontros”, onde as animosidades entre indivíduos ganham conotações diversas. O fato de um olhar, um empurrão uma palavra que desagrada o outro, vira motivo para uma “rixa” que envolverá familiares, amigos e será sempre aproveitada pelo capataz ou fazendeiro para ajudar na resolução de seu problema, usando outros corpos e outros motivos. O mesmo se dá com os policiais menos graduados, que comumente são originários das camadas menos abastadas e, também, são insuflados contra os trabalhadores, motivados por questões sem conotação de classe, mas suficientes para motivá-los à prática de uma ação violenta. Dessa forma, o cenário da vida na floresta a partir da chegada dos “paulistas” passou a apresentar um clima persistente de uso da força física para disciplinar a limpeza do território pretendido: incêndio de casas e plantações, matança indiscriminada de animais pertencentes aos extrativistas e posseiros, prisões ilegais, ameaças de morte, assassinatos anunciados e executados, listas de condenados a morte circulando nas cidades, espancamentos de trabalhadores, truculência policial, porte ostensivo de armas de fogo por parte dos jagunços, devastação da floresta através de derrubadas e queimadas, tudo isso contribuindo para ampliar o clima de tensão que se estabeleceu no Acre a partir da execução do plano de mudança na estrutura produtiva. Uma espécie de Far West (faroeste) 120

se estabeleceu em plena véspera do século XXI. Homens montados em cavalos, com seus chapéus, botas com esporas e cinturões com fivelas enormes estilo cowboy, alguns portando ostensivamente suas armas, passeavam pelas ruas de Xapuri, Brasiléia e mesmo Rio Branco, capital do Estado. Se considerarmos que foi violento o planejamento da mudança no sistema produtivo no Estado do Acre, por não ter incluído os segmentos sociais que viviam do extrativismo no processo de “alavancagem para o progresso”, constatamos que mais violento ainda foi a sua execução, exatamente por ter ido além da simples exclusão dos trabalhadores extrativistas. A mudança no sistema de propriedade da terra, bem como a mudança na sua utilização, isto é, o abandono do extrativismo em benefício da pecuária extensiva, não se realizava só com a exclusão das populações tradicionais, ela necessitava de sua eliminação. Foi no cenário de violência que se construiu também a reação, que se abriram novas fronteiras para os trabalhadores extrativistas. A fronteira para os “paulistas”, ou seja, o que eles entediam e viam como a terra bruta, já era uma terra que acolhia os modos de vida dos posseiros e extrativistas. Mas, a mudança na paisagem vai obrigar os trabalhadores a reelaborarem seus relacionamentos não só com a natureza, mas também com seus semelhantes. Os estranhamentos e a violência fizeram amanhecer a organização e a resistência, abriram também novas fronteiras.

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2.3 AS DIVERSAS REAÇÕES DOS MORADORES DA FLORESTA, DOS COLONOS E DOS FAZENDEIROS: SINDICATOS, EMPATES, ASSOCIAÇÕES.

Os investimentos dos governos militares e seus aliados civis na Amazônia trouxeram para a cena da vida na floresta, novos atores, entre eles, no caso do Acre, destacaram-se os colonos, que vieram para ocupar os lotes de terras distribuídos pelo Governo nos projetos de assentamento que margeavam as novas estradas que estavam sendo construídas e, os fazendeiros, que adquiriram terras e foram agraciados com financiamentos e incentivos fiscais para investirem nesta região. Acompanhando esses dois grupos distintos, vieram também levas de grileiros, especuladores e aventureiros em busca de enriquecimento fácil. (DUARTE, 1987) Os colonos formavam uma massa plural, pois eram grupos diversos e provenientes de regiões também diversas, com destaque para os sulistas (catarinenses, paranaenses, sulrio-grandenses) e capixabas, mas vieram também, mineiros, goianos, paulistas, etc. Entre eles figuravam sem-terras, desalojados por barragens e pequenos produtores que, com pouca terra para sustentar suas famílias em suas regiões de origem, buscavam novas áreas onde pudessem dispor de melhores condições de vida. O segundo grupo, embora tenha recebido a denominação de “paulistas”, também era plural em sua composição, mas basicamente formado por paulistas, goianos, paranaenses, mato-grossenses, gaúchos, mineiros e sul-mato-grossenses. O terceiro grupo, o dos grileiros e especuladores, também, em sua maioria, era proveniente dos mesmos Estados dos fazendeiros, algumas vezes, trazidos ou enviados por eles para fazerem o papel de “laranja”, ou de “testas-de-ferro” desses grandes empresários, e sua função era fundamental para não manchar o nome das empresas de seus patrões. Costa Sobrinho descreve assim esse momento:
O movimento em direção ao Acre mobilizou grandes, médios e até pequenos proprietários do Centro-Sul. Os pequenos e médios proprietários foram atraídos pela possibilidade de se tornarem fazendeiros prósperos e bem-sucedidos, já que a venda de suas propriedades de dimensões menores no lugar de origem, permitiria adquirir glebas de terra que variavam de 100, 500 a 1000 hectares. Os grandes empresários, por sua vez, não vieram tão-somente interessados em implantar grandes projetos de pecuária extensiva de corte, motivados pelos incentivos fiscais e crédito fácil e subsidiados, mas também pela utilização da terra como “reserva de valor” e mais precisamente para especular com terras. A alienação de grandes áreas de terra, que vinha ocorrendo com a venda dos seringais nos últimos anos da década de 1960 e começo dos anos de 1970, foi fortemente acelerada a

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partir de 1972, evoluindo progressivamente até 1976 quando daí por diante, obstáculos foram sendo antepostos à especulação, grilagem e ação predatória dos novos colonizadores. (COSTA SOBRINHO, 1992, p. 145).

Esses três grupos se encontraram e desencontraram com os outros dois grupos residentes, formados na região e compostos por seringueiros e posseiros (colonheiros). Os desencontros aconteceram porque as visões de mundo dos grupos chegantes eram muito diferentes das formas de ver, pensar e agir dos grupos residentes. Os grupos chegantes, mesmo com as grandes diferenças existentes entre colonos, fazendeiros e grileiros, traziam uma noção de produção para o mercado, de valorização da terra como fundamento para obtenção de meios de vida e de lucro, respectivamente. Podemos mesmo dizer que traziam uma noção maior de valorização da propriedade da terra. Os colonos por já terem vivenciado conflitos e situações de deslocamentos por causa ou por falta de terras. E os fazendeiros e grileiros, porque sabiam muito bem da importância de titulação para a posse real das terras adquiridas e para realizarem suas operações lucrativas. A situação dos seringueiros e dos posseiros (colonheiros) da região era bem diferente. Não haviam enfrentado, ainda, graves problemas de disputas por terras, haja vista que a exploração extrativista estava montada na existência e na permanência de homens na terra (seringal), ou seja, o que era valorizado pelo seringalista não era a quantidade de terras de que dispunha, mas sim, a quantidade de seringueiros que estavam “colocados” em seus seringais. A produção gomífera dependia do número de árvores de seringa e da quantidade de braços para fazer o corte, a coleta e a defumação do látex. Os conflitos desses grupos com os proprietários dos seringais existiam, mas eram de outra natureza. Eram muito mais combates contra a exploração do trabalho, contra a majoração exorbitante dos preços dos aviamentos, contra a cobrança de renda, contra a elevação aleatória das dívidas do seringueiro, contra a “quebra” e a “tara”50 etc., do que luta por um pedaço de terra.
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- Quebra e tara são dois mecanismos usados pelos patrões para aumentar seus lucros nas relações com os seringueiros. A quebra consiste numa avaliação unilateral, feita pelo patrão ou gerente do seringal, que “avalia”, quanto cada péla de borracha vai perder de água. Esse procedimento acontece porque logo que o processo de coagulação é concluído considera-se que a péla está “verde” e no processo de armazenagem ela vai perdendo líquidos residuais do processo de fabricação e, embora o seringueiro tenha consciência que ela “quebra” de fato, sempre o patrão ou gerente, avaliam para cima a possibilidade dessa quebra. A tara da balança (norma técnico-formal de aferição das balanças) é outro mecanismo muito usado para adulterar o peso real da péla. Através de artifício fraudulento, muda-se a configuração real da balança para reduzir o peso da borracha.

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Além desses aspectos quando os donos dos seringais deixaram de aviar os barracões e, por conseqüência, os seringueiros, de certa forma afrouxaram o controle sobres estes, permitindo a formatação dos modos de vida que evoluíram para o que se passou a considerar “seringueiros autônomos”, ou seja, os modos de vida que conjugavam as práticas extrativistas com o cultivo de alguns cereais, leguminosas, tubérculos e frutas, o que junto com a criação de pequenos animais (galinhas e porcos eram os mais comuns), a caça e a pesca, dependendo da localidade, auxiliava o sustento dessas famílias. Porém, com a mudança de donos da terra e as modificações na paisagem causadas pelas novas modalidades produtivas, os choques dos antigos moradores da Amazônia e os chegantes, começaram a eclodir. Os processos sumários de expulsão promovidos por fazendeiros e grileiros, contra os extrativistas e posseiros, desencadearam reações e revelaram processos que vinham se desenvolvendo no meio da floresta e que não estavam visíveis aos governantes e empreendedores. Este modo de vida relativamente autônomo, desenvolvido pelos seringueiros, está assim configurado nesta descrição feita por Márcio de Souza:
Chico Mendes e seus amigos, Wilson Pinheiro e Raimundo Barros, nasceram e se criaram ali nos seringais do Acre. Suas famílias viviam por lá havia pelo menos cinqüenta anos, tirando o sustento da extração da borracha, da castanha e das lavouras. (...). Todos eles se lembravam de outros tempos menos amargos, tempos de pobreza e isolamento, mas sem as angústias desses dias. Quando eram jovens, os meses de chuva era o tempo de plantar, nas terras firmes, mandioca, pés de cana e banana. Era o tempo de reparar as mudas de seringueira, semear as sementes ou fazer canteiros com galhos ou estacas, porque era preciso repor as árvores que se esgotavam ou morriam atacadas por parasitas. Como as chuvas impediam os seringueiros de trabalhar, porque a água entrava no tronco e estragava o leite da seringueira, todo mundo procurava outra ocupação: rachar lenha, plantar na terra firme ou juntar as sementes das seringueiras, que caíam de maduras. (SOUZA, 2005, p. 9).

Note-se que Márcio de Souza expressa que esses seringueiros “se lembravam de tempos menos amargos, tempos de pobreza e isolamento, mas sem as angústias desses dias”, ou seja, diz que a vida não era fácil, mas que a chegada do “progresso” e do “desenvolvimento”, transformava suas vidas de maneira não desejada. Estabelece-se ai um dos motivos para a decisão de lutar contra essa mudança de condição, imposta pelos chegantes. Para os governantes e fazendeiros foi assustador, quando de repente viram surgir essa população que estava espalhada no meio da floresta e que vivia do extrativismo e das pequenas roças, sem grandes demandas ao poder público e sem grande dependência das 124

cidades. Muitos não eram sequer contabilizados pelos censos do IBGE, haja vista as distâncias e o isolamento a que haviam se submetido. Porém, mais assustador, ainda, foi perceber que alguns desses trabalhadores não queriam obedecer passivamente às ordens de desocupação das áreas reivindicadas pelos novos proprietários. O desencadeamento das resistências individuais foi seguido pela resistência familiar e depois, da resistência mais difusa, uma resistência coletiva que foi denominada “empate”. Essas ações deram início aos conflitos por terras nessa fase de transição do setor produtivo no Estado do Acre. Chico Mendes descreve assim, os empates:
Os Empates são feitos através de mutirões dos seringueiros. À medida que os seringueiros tomam conhecimento de que têm companheiros ameaçados pelo desmatamento dos fazendeiros, se reúnem várias comunidades, principalmente a comunidade afetada, organizam-se assembléias no meio da mata mesmo e tiram-se grupos de resistência que vão se colocar diante das foices e das motos-serras de maneira pacífica, mas organizada51.

Também, analisando a situação José de Souza Martins entende que o tipo de resistência adotado pelos seringueiros foi uma das ações mais criativas, pois:
Os trabalhadores desencadearam um movimento de resistência que ficou conhecido como “empate”, isto é, criação de obstáculos para impedir a derrubada da mata e a abertura das fazendas de gado. Trata-se de resistência pacífica, pela qual os seringueiros identificam os lugares em que estão sendo iniciados desmatamentos, ocupam os acampamentos, expulsam feitores e peões, depois de explicarlhes o que significa seu gesto e quais as implicações da devastação, e bloqueiam pistas de pouso de aviões, abertas no meio da floresta para abastecimento dos desmatadores. Foram realizados 40 empates, dos quais apenas 15 resultaram em desapropriações de terras para fins de reforma agrária por parte do governo federal. A resistência pacífica dos seringueiros do Acre teve, entre outras, duas vítimas, cuja morte representa uma clara tentativa de impedir a continuidade de sua luta: em 1980, foi assassinado Wilson de Souza Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, na própria sede do Sindicato; no final de 1988, foi morto Chico Mendes, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Xapuri, em sua própria casa. No caso de Wilson Pinheiro, trabalhadores é que foram processados por terem denunciado o crime e protestado contra a impunidade dos criminosos. (MARTINS, 1991, p. 172).

O processo de devastação da floresta promovido pelos fazendeiros, além da característica de violência e desigualdade, serviu também para revelar outro fato que ainda não havia sido percebido, qual seja, a mudança de relacionamento dos trabalhadores extrativistas com a natureza. No capitulo anterior dissemos, com base nos estudos realizados por Tocantins, Benchimol, Cunha e outros, que toda a vida do seringal estava vinculada ao rio, “o rio comandava a vida”, nas palavras de Leandro Tocantins.
51

- SOUZA, Carlos Alberto Alves de. “Varadouros da Liberdade: Empates no Modo de Vida dos Seringueiros de Brasiléia – Acre. São Paulo: PUC, 1996. p. 38 - Tese de Doutorado.

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Contudo, a partir da falência do sistema de aviamento e do início da reestruturação produtiva, com os desmatamentos e a reação dos trabalhadores extrativistas, foi-se percebendo que muito daquela relação “margem-centro”, aviador-patrão-marreteiroseringueiro, produção de borracha-obtenção de mantimentos, tinha sido desmantelada e os seringueiros haviam desenvolvido uma relação muito diferente e muito maior com a própria floresta. Tinham se tornado mais independentes em relação aos espaços urbanos e seus intermediadores (patrões e regatões) e, aprendido, com o tempo e com as experiências ancestrais, a ir tirando da floresta a base do seu sustento, desde a alimentação até sua medicação, utilizando as propriedades das plantas e articulando modos de vida mais cooperativos. Márcio de Souza descreve assim, o trauma vivido pelos trabalhadores extrativistas, quando começaram a sentir os efeitos dos desmatamentos:

Mas um dia chegaram os fazendeiros com tratores e as motos-serras. De repente, não era só a borracha que não valia mais nada. Era a árvore da seringa, era o próprio seringal, era a posse dos seringueiros expulsos sob a mira dos jagunços. Ficou difícil entender o que estava acontecendo. Através da Rádio Nacional, com o apoio do órgão oficial de fomento à borracha, o governo dizia para os seringueiros preservarem os seringais e aumentarem a produção. Mas, do outro lado oferecendo generosos incentivos fiscais e linhas de crédito oficiais, o governo favorecia grandes grupos econômicos, atraindo-os para a exploração da madeira e para implantação de enormes áreas de criação de gado. A devastação indiscriminada da selva abocanhava as posses dos seringueiros. (SOUZA, 2005, p. 10).

A realização do modo de vida, relativamente independente, que haviam desenvolvido foi um dos principais motivos para a organização da resistência desses trabalhadores contra os desmatamentos. A garantia para sua sobrevivência estava na manutenção da floresta, isto eles perceberam desde cedo, quando começaram a abertura das estradas e o ronco dos tratores espantava as caças e facilitava a vinda de gente das cidades para praticarem a caça predatória, o que deixava mais precária sua estrutura alimentar. Com a chegada dos fazendeiros e o início das derrubadas e das queimadas, então, tudo virou certeza: aquele tipo de “progresso”, aquele tipo de “desenvolvimento”, definitivamente, não os interessava. E. P. Thompson (1987), referindo-se ao progresso técnico do século XVIII e, Amartya Sen (2000 e 2002), referindo-se ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do século XX, escreveram sobre o conceito de qualidade de vida e as relações de padrão de vida, envolvendo a questão de qualidade de vida e da satisfação, no sentido de que a 126

qualidade “está associada a um tipo diferenciado de comunidade, com um modo de vida característico” (THOMPSON, 1987, 343) e, no caso de Sen, onde a qualidade só pode ser medida quando ela envolve os conceitos de liberdade e condição de escolha. Os dois, mesmo que Thompson esteja referindo-se a sociedades bastante diferentes, acabaram por descrever, guardada as diferenças temporais, históricas e culturais em que se referenciavam, a situação dos seringueiros do Acre. Não queremos com isso dizer que esses “povos da floresta” tinham alcançado um padrão de vida que causasse inveja ou que servisse de modelo a ser adotado, Thompson e Sen também não desenvolveram teses passadistas, longe disso, estamos apenas sugerindo que os seringueiros, mesmo que ainda não fosse de forma coletiva, tinham consciência de que uma mudança para as cidades e/ou as opções de sobrevivência naqueles espaços, lhes eram desfavoráveis, em relação ao padrão de vida que haviam alcançado com as condições desenvolvidas na floresta. Isto por si, justificava a recusa, pois o que significava o “progresso” e o “desenvolvimento” para as elites militares e civis, responsáveis pelos “investimentos” no Acre, para aqueles “povos da floresta”, estava implicando em redução da sua qualidade de vida. Estava mesmo implicando em redução de sua segurança alimentar, em sua condição de trabalhar, em sua capacidade de abrigar-se e à sua família. É por isso que essa grande movimentação populacional, promovida em nome do avanço, do desenvolvimento e do progresso, não foi bem recebida pelos grupos que habitavam e mantinham relação com a floresta, ou seja, nem todos os antigos moradores da floresta foram convencidos a ver com bons olhos essas mudanças, mesmo diante da forte propaganda governamental que os convidava a fazer parte desse progresso (ainda que sua participação fosse simplesmente desocupando as áreas, onde ele, o progresso, vicejaria). Aceitar esse “convite” para sair de suas colocações e posses e contribuir com o “progresso”, os colocava na contramão do que eles tinham construído. Os caminhos e as possibilidades de escolhas para eles estavam, na verdade, sendo reduzidas, podemos mesmo dizer que estavam, praticamente sendo anuladas e que, definitivamente, não eram desejadas. A alternativa de deslocamento para as cidades, que era colocada como opção, já estava aberta desde a segunda falência dos seringais, não era novidade e, mais, eles sabiam que a vida nas cidades não era mais fácil do que na mata e, comumente recusavam essa “alternativa”, embora muitos desejassem a obtenção de alguns benefícios oferecidos nas 127

cidades, como acesso a educação e medicamentos, mas que esses benefícios fossem oferecidos na sua localidade. Muitos viram na travessia para os seringais da Bolívia ou, para os seringais do Peru, uma saída para se livrar da violência dos fazendeiros e do Estado, bem como, para não serem obrigados à mudança para uma das cidades próximas. Por isso, seguiram para buscar (arrumar) “colocações” nestes países. Mas essa também não era uma mudança que lhes agradasse, pois perderiam tudo o que haviam construído em suas colocações, que embora não fosse muito, era o necessário, o suficiente para satisfazer suas pretensões de vida. A travessia temporária e espontânea para a Bolívia52, muitos já haviam feito. Eles também já conheciam essa opção, mas essa travessia permanente e compulsória não os agradava. Note-se nesta narração do diálogo de um jornalista com um emigrante, a recusa persistente a qualquer opção que representasse sua desvinculação com a mata:
“(...) Ir para um lugar estranho, um país diferente, pouco importa para Francisco Bonifácio. Ele tem consciência de que não lhe sobram muitas alternativas. Além disso, o futuro parece que não o perturba. “A gente que é pobre não tem escolha “seu” menino. Vou tentar a sorte por lá. Tenho fé em Deus...”. Diz ele, tirando o chapéu, invariavelmente, quando pronuncia o nome de Deus. Haveria sim, a rigor, algumas escolhas. Uma delas poderia ser a cidade. Francisco Bonifácio é ainda bastante novo, forte, acostumado ao trabalho duro. Poderia ser ajudante de pedreiro ou qualquer outra categoria braçal. Mas... ”Não dá, não, “seu” menino. A gente viveu na mata a vida inteira. Minha mulher, os filhos, somo tudo sem letra...”. E que tal se empregar como “peão” numa das fazendas que estão se implantando, ali mesmo pela região de Tarauacá: a Cinco Estrelas ou a Paranacre, por exemplo: “Também nois não quer. Lá nos altos corre uma zoeira muito feia dos “paulistas”. Nunca encrenquei com ninguém e ninguém encrencou comigo. Não quero me meter em confusão, “seu” menino”. Sim, haveria outras alternativas que não fosse a Bolívia para o seringueiro Francisco Bonifácio e tantos outros, cerca de 85% que não possuem terras no Acre. Uma delas seria a Reforma Agrária (...). (Rumo à Bolívia. Jornal Varadouro. Rio Branco, maio de 1979.

A mudança compulsória de colocação e de país era também uma resignação em não aderir aos métodos violentos dos seus opositores. Quando o senhor Francisco Bonifácio diz que “nunca encrencou com ninguém” e “que já ouviu muita coisa feia dos paulistas”, está expressando um sentimento de impotência e recusando trabalhar em condições piores do que a insegurança que envolve um processo de mudança para um local desconhecido e de

52

- Até a década de setenta era comum entre as famílias de seringueiros que habitavam as áreas de fronteiras o deslocamento de alguns de seus membros para algum seringal na Bolívia, onde trabalhariam nos períodos de safra do látex e da coleta de castanha, retornando logo depois para sua colocação de origem no lado brasileiro, era um movimento espontâneo, sazonal, para aproveitar a boa produção de látex e de castanha no lado boliviano.

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toda uma tentativa de recomeçar a vida nos seringais de outro país. Mas ele sabe que a violência dos “paulistas” é muito cruel, decididamente, não quer se submeter. É desta insatisfação com a perda de sua posse, da revolta contra essa condição de não poder opinar a cerca de sua condição de vida, de suas preferências, que muitos se recusaram a seguir qualquer uma dessas “alternativas” (ir para a cidade ou para outro país) e iniciaram a luta para permanecer nos “seus” lugares e espaços. O seringueiro e exsindicalista Osmarino Amâncio, falando no II Simpósio Nacional de Geografia Agrária realizado pelo Departamento de Geografia da USP, em 2003, referindo-se a organização dos sindicatos e dos empates, disse:

(...) Às vezes, a gente achava impossível vencer, por isso muitos companheiros desistiram no meio do caminho; outros saíram para a Bolívia, foram pra periferia das cidades. O latifúndio conseguiu expulsar mais de 40 mil pessoas para a Bolívia. Queimaram quase 4 mil casas no meio da floresta e expulsaram muita gente. Mas um grupo de seringueiros começou a fazer a trincheira e segurou, e os outros foram vendo. E, quando eles começaram a assassinar os nossos companheiros, ai foi criando um certo levante de revolta e foi ai que o movimento se fortaleceu, porque a gente não tinha tradição de coletividade, pela forma como a gente vivia na floresta: isolado, cada um tinha que fazer as suas próprias leis, cada um tinha que criar sua própria cultura, criar costumes, que eram muito difíceis, porque era muito longe e era difícil o acesso. Então, a gente viveu esse processo muito difícil 53.

Da valentia individual, que é bem representada pela frase “daqui só saio morto”, da vontade de continuar vivendo nos lugares e espaços em que tinham construído suas vidas e, principalmente, após receber o apoio da Igreja Católica, da CONTAG e de alguns militantes de partidos de esquerda que ajudaram a respaldar e organizar essa “rebeldia”, nasceu à possibilidade de se materializar uma resistência coletiva. Primeiro, com a organização dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), entre os anos de 1975 e 1977 e, depois, com a realização dos empates54 e os novos significados que posteriormente foram sendo agregados a esse movimento, como a luta ecológica e as reivindicações por cidadania, por exemplo.

53

- AMÂNCIO, Osmarino. Os seringueiros do Acre e os impasses na Exploração da floresta. In. OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. & MARQUES, Marta Inez M. (Orgs.) O campo no século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. São Paulo. Casa Amarela e Paz e Terra, 2004.
54

- O Primeiro empate que se tem notícia aconteceu em 1976, no município de Brasiléia, no seringal Carmem, já sob a liderança do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia, que havia sido fundado em dezembro de 1975 e tinha como líder (organizador) Wilson de Souza Pinheiro, que viria a ser assassinado em julho de 1980, iniciando uma série de assassinatos de líderes sindicais que culminaria no assassinato de Chico Mendes, em dezembro de 1988.

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Referindo-se à transição da resistência individual para a resistência coletiva, Costa Sobrinho escreveu:
O clima de terror durava quase dois anos; esgotada a resistência individual e os apelos às autoridades, os posseiros resolveram agir coletivamente. Após alguns encontros, nos quais definiram o que fazer, 96 posseiros armados com suas espingardas se dirigiram ao acampamento dos peões, que estava instalado numa localidade, nas imediações da BR-364, denominada “quatro bocas”, cercaram e ocuparam a área. O objetivo do cerco era ajustar contas com os fulanos Valdevino, Osório e outros jagunços, e expulsar os peões que faziam as derrubadas. (COSTA SOBRINHO, 1991, p. 155).

É este tipo de ação coletiva que inaugura a nova modalidade de resistência. Além da oposição à presença dos paulistas que ela representava, era também um indicativo de que os seringueiros e posseiros queriam manter seus ritmos de vida, ou seja, queriam voltar a seus trabalhos cotidianos, colher o látex, coletar castanhas e botar seus roçados, práticas que estavam sendo proibidas pelos novos proprietários. É nesse ambiente de negação das alternativas de mão única, representadas pelo abandono da área e ir para a cidade, ou atravessar a fronteira e ir para outro país (desde que a área pretendida pelo fazendeiro ou grileiro ficasse “limpa”), que surge a via da permanência, a via da organização, da união para manter seus modos de vida. Os empates são, portanto, as marcas mais significativas desse período, que vai de 1976 a 1990, no sentido da organização dos trabalhadores extrativistas e da negação de uma ordem oriunda das elites que dominavam a cena socioeconômica, política e cultural do e no Estado. A organização dos empates foi a grande novidade no curso “natural” do processo de reorganização do modelo econômico do Acre. Seus significados, no entanto, são muito diferentes para as categorias sociais que figuravam no núcleo do conflito. Para os fazendeiros, representava um obstáculo ao seu empreendimento (era uma questão econômica). Para o Estado, uma questão jurídica, talvez um caso de polícia. Para os seringueiros e posseiros, a própria sobrevivência. Para os grileiros e especuladores, oportunidades de negócios. Mas os empates ganharam contornos que extrapolaram as concepções específicas de cada setor envolvido. O simples fato de juntar trabalhadores, que até então, sofriam com a exploração dos patrões, mas nunca tinham reagido coletivamente e de forma tão organizada, definitivamente, rompia todo um ciclo de resignação e subalternidade à que estiveram relegados durante anos. 130

Juntar gente pobre e analfabeta, que tinha pouco acesso às informações e, principalmente, sobre os significados do que estava acontecendo com o País, ou mesmo com seu Estado, para se opor às forças bem informadas e articuladas, como as que haviam adquirido terras no Acre, não era um ato corriqueiro nem um fato de fácil compreensão. Mas, ainda assim, o empate adquire mesmo uma característica paradoxal: de um lado colocava homens, mulheres e crianças pobres e, em sua maioria, analfabetas, que se reuniam e marchavam para determinados locais, algumas vezes em silêncio, em outras, entoando cânticos religiosos ou trechos do Hino Nacional e que, se abraçando as árvores, tentavam explicar seus gestos através do diálogo, no intuito de convencer seus oponentes que aquela ação representava sua sobrevivência, enquanto do outro lado, postava os peões e suas motos-serras, policiais e capatazes armados ameaçando-os, oficiais de justiça portando ordens judiciais autorizando os desmatamentos e a desocupação das áreas. Formava-se, afinal, um quadro, uma imagem monocromática. Eram trabalhadores contra trabalhadores. Os “paulistas”, a outra parte, a parte de fato opositora, ficava distante, comandando seus negócios e pouco se importando com os conflitos entre iguais que se desencadeavam no meio da mata, para eles importava simplesmente, a “limpeza” do território. Ficavam ali no meio da floresta frente a frente, homens basicamente com a mesma origem, ou seja, peões de derrubada, capatazes e soldados que em sua maioria, eram oriundos de famílias que haviam saído dos seringais e eram quase tão pobres quanto àqueles a que ora se opunham, seringueiros e posseiros. Porém, ali naquele lugar e naquele espaço, representavam concepções de mundo muito diferentes: era a representação do “desenvolvimento” contra a manutenção de formas de vida “arcaicas”. Não era um diálogo fácil o que se estabelecia, pois os seringueiros e posseiros, que eram vistos nos espaços urbanos como os símbolos do atraso, da improdutividade, estavam ali, buscando convencer pela palavra, que aquelas ações tidas como necessárias para o desenvolvimento, significavam para eles, a população residente, rebaixamento das condições de vida. Para Teixeira, há uma explicação para essa resistência, pois:

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Esse agrupamento originalmente nordestino estabeleceu com a mata vínculos tão profundos que só às sociedades indígenas foram dados a conhecer. Eles conhecem a mata em minúcias, desde os lugares mais discretos onde sabem encontrar um certo tipo de cipó que lhes sacia a sede até aqueles mais recônditos, onde nesses tempos difíceis de desmatamento sabem encontrar caça que lhes dá alimento. É a mata, portanto, e não o rio, o elemento pelo qual o seringueiro articula a sua linguagem e elabora as categorias do seu pensamento. (TEIXEIRA, 1997, p. 55).

O empate, portanto, ganhava contornos que iam além da oposição entre desenvolvimento e manutenção de modos de vida. Para muitos seringueiros defender a floresta, principalmente as árvores das seringueiras e das castanheiras, era como se estivessem defendendo suas “mães”, vejamos como este seringueiro se refere às árvores:
“O que se está fazendo com a castanheira e com a seringueira é um verdadeiro crime. É um crime derrubar uma árvore como esta. A castanheira, a seringueira são como se fosse nossas mães, pois quando nossos pais vieram do nordeste para cá, tiraram delas o sustento. Foi com leite de castanha que nos criaram. Foi com leite de seringa que nos vestiram”. (“Mãe”, para os acreanos, “Vaca Sagrada”55, para os paulistas. Jornal Varadouro. Rio Branco, junho de 1978. Depoimento de Francisco Vieira de Azevedo).

Para o trabalhador extrativista, portanto, não era apenas a terra que lhe interessava, ela (a terra) sem seus recursos naturais, não lhes tinha muita serventia. O aparentemente simples fato de reunir trabalhadores para organizar lutas de resistência, ou lutas reivindicatórias, que sabemos não é cena inédita na história humana, pois em outras partes do mundo outros trabalhadores pobres já se juntaram e se manifestaram pelos mais diversos motivos, neste caso, há as peculiaridades da forma e dos significados objetivos e subjetivos que os juntaram. Para aqueles homens, mulheres e crianças isolados pela natureza e, principalmente, por se tratar dessa região que havia entrado na cena nacional como área fronteiriça, onde a subalternidade e a desigualdade social estavam engessadas pelo sociometabolismo constituído por uma estrutura de poder unilateral, onde o patrão detinha o monopólio da ordem, qualquer tipo de reação vinda dos “de baixo”, era não só inesperada, como representava um acontecimento singular.

55

- Os “paulistas”, diante das leis de proteção das seringueiras (Lei sancionada em 1942 – que não permitia a derrubada dessa árvore) e das castanheiras (protegidas desde 1967), que eram argüidas pelos seringueiros, tentando pressionar o governo para que este interviesse contra os desmatamentos e as queimadas, chamavam essas árvores de “vacas sagradas”, numa alusão a situação das vacas na Índia.

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De repente, as elites se viram diante de uma força desconhecida, que não acatava passivamente o re-ordenamento socioeconômico proposto e mais, que estava mesmo disposta a desobedecer à ordem. Aqueles seringueiros, até então, subalternos, pacatos, não visíveis e excluídos do projeto de Estado pretendido pelas elites, estavam ali, se fazendo visíveis e dispostos a iniciar todo um processo de negação de uma lógica expansionista, exploratória e excludente, articuladas contra eles. Para as elites militares e civis, uma ruptura nos seus projetos sociopolíticos, econômicos e culturais, era algo que podia acontecer de forma “natural”, faz parte dos riscos imanentes aos “negócios”. Planejavam os novos empreendimentos e manejavam seus instrumentos para sua consecução. Ancoravam-se na oportunidade de realização. Tinham em seu favor a capacidade de tomar as decisões, bem como as condições de mobilidade territorial. Administravam negócios e interesses em várias partes do país, alguns em várias partes do mundo, e não se envolviam diretamente com os atingidos por suas decisões. Mas não perdiam (não perdem) investimentos de forma tranqüila. Também se organizavam e agiam coletivamente. Logo após sua chegada ao Acre, os fazendeiros criavam em cada município o “Clube dos Fazendários”, todos com características sociais, no intuito de atrair a “elite” urbana para festas e celebrações, tentando demonstrar com esses gestos de aproximação com a população, que um novo tempo estava chegando para a região. A finalidade precípua, contudo, era reunir as pessoas “importantes” da cidade em que se estabeleciam, para formarem o escudo de proteção contra as ações contestatórias oriundas de suas ações contra os seringueiros e posseiros. Fundaram também as “Associações de Criadores” e os Sindicatos Patronais, que na década de oitenta deram base para a sustentação da União Democrática Ruralista, a UDR, que servia, entre outras finalidades, para “enquadrar” as autoridades, pressionar politicamente os governantes e influenciar na vida política nacional, através da conquista de cadeiras nos diversos níveis do parlamento, prefeituras, governos estaduais, chegando mesmo a disputar com candidato próprio à Presidência da República, no final da década de oitenta, quando ocorreu a transição do regime militar para o regime civil e foram realizadas as eleições diretas em 1989.

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Dentre outras finalidades da UDR, estava a de financiar grupos de jagunços para eliminar lideranças populares e sindicais que eram identificadas como prejudiciais às ações dos fazendeiros em diversas regiões do país. Esta, inclusive, é uma característica que persiste neste início de século XXI. Os grandes proprietários, sejam fazendeiros ou madeireiros, continuam usando o expediente dos jagunços e pistoleiros para eliminarem seletivamente, lideranças sindicais ou ecológicas que no seu entender, perturbam seus negócios. Em 2003, o então presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno, comentando o aumento das mortes em conflitos rurais no campo, chega mesmo a falar que neste início de século se “criaram novas articulações de defesa da propriedade e reanimaram outras tidas como extintas, inclusive a defunta UDR – União Democrática Ruralista. Isso veio naturalmente acompanhado de recrutamento de milícias privadas, bem armadas, e muita falação grossa na mídia”. (OLIVEIRA e MARQUES (Orgs.), 2004, p. 20) Mas suas ações não se restringiam a pratica de violência contra trabalhadores pobres e desamparados, no Acre, por exemplo, sua influência era tão grande que eles desafiavam até os governantes locais, quando seus interesses encontravam algum tipo de obstáculo, vejamos o tom usado nesta matéria:
Governo Estadual e Federal, Incra, Igreja e a Contag, foram criticados, duramente, por empresários rurais do Acre que estiveram reunidos anteontem à noite, na sede da Codisacre, com o presidente da Confederação da Agricultura, Flávio Brito da Costa. A grande maioria dos empresários que foi ao encontro com Flávio Brito era formada pelos investidores que não se conformam com as recentes desapropriações de suas terras e temem que o Governo Federal venha declarar novas áreas como de interesse para desapropriação. (...). Flávio Brito ia aumentando o tom de sua voz, à medida que discorria sobre as dificuldades dos empresários, quando falou da Igreja e do governo já mostrava muita irritação. “Eu estou cansado de ir à missa e não ter sermão que não seja contra o empresário. Outro dia em Brasília, um padre chegou a dizer, durante o sermão, que o pobre não precisava jejuar, porque isso ele faz o ano inteiro...”. Do governo, o presidente da Confederação disse que ele, em todas as solenidades, só fala dos trabalhadores “e isso eu não posso aceitar; o mal do empresário é produzir. E se isso for crime...”. (Pecuaristas não pouparam ninguém. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, outubro de 1980).

Na década de oitenta, principalmente no período de elaboração da Nova Constituição Federal, a União Democrática Ruralista estava bem articulada em âmbito nacional. Segundo matéria publicada no jornal “Nós Irmãos”, essa organização:

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Segundo uma pesquisa, no Congresso Constituinte encontram-se pelo menos 56 deputados e senadores ligados à UDR (União Democrática Ruralista). Ronaldo Caiado, presidente da entidade, diz que o número é de 60 a 70. Caiado, afirma que, se preciso for, os latifundiários ligados à UDR, estão dispostos a vender até 10% de suas propriedades e usar este dinheiro para pressionar os constituintes contra a Reforma Agrária. Já fora distribuído um documento em todo o país, onde a UDR ataca violentamente a CNBB, a CPT, a CUT e o PT. Ensina como evitar a desapropriação de fazendas e também recomenda aos fazendeiros a contratação de “vigilantes” – pistoleiros. Esta entidade, apesar de ser contrária aos anseios do povo brasileiro, especialmente dos pequenos produtores rurais, tem livre acesso aos órgãos federais. A UDR investiu e investe muito dinheiro no Congresso Constituinte e tem sido a responsável por muita violência e mortes no campo, na maioria das vezes com a colaboração da “justiça” e do governo. No ano de 1985 cerca de 320 pessoas morreram em conflitos entre trabalhadores rurais e latifundiários; em 1986, cerca de 220 e em 1987 já aconteceram mais de 50 mortes, além de 120 casos de ameaças de morte, especialmente bispos, agentes de pastoral e sindicalistas. (Reforma Agrária já era: UDR no governo. Jornal “Nós Irmãos”. Rio Branco, dezembro de 1987).

Os “empresários” rurais, embora viessem recebendo todo tipo de apoio das diversas estruturas do governo para seus “investimentos”, como créditos, subsídios, isenções, segurança policial e judicial para defender “suas” propriedades, não descuidavam da manutenção de rigorosa vigilância sobre esta Instituição. A pressão era constante, para ampliar os níveis de “benefícios”.
“Os governos da Federação e do Estado não tem competência para fazer colonização neste país”, foi o que disse ontem, o empresário “paulista”, João Batista Tezza, a respeito da desapropriação de sete seringais no Estado. Segundo Tezza, o “máximo” que o Governo pode fazer, pelo seu imobilismo total, é não atrapalhar o desenvolvimento. (Pecuarista afirma que os governos são incompetentes. Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, agosto de 1980).

Agindo dessa forma, os “empreendedores”, mantinham uma permanente vigilância sobre setores do governo que já eram seus aliados, mas que também precisavam ser tratados sob pressão para garantirem a colaboração, não só nas concessões de subsídios, incentivos e isenções fiscais, mas acima de tudo, para garantirem adesão ao seu modo de enxergar a sociedade, ou seja, queriam também o apoio ideológico. Os resultados dessas pressões foram as consignações para estruturação dos projetos de colonização privados, que tiveram mais sucesso no Mato Grosso e Rondônia e a concentração de terras nas regiões Centro-Oeste e Norte, que se consolidaram na década de noventa como o “paraíso do latifúndio” no Brasil. (OLIVEIRA, 1994) O fato é que nesse percurso de trinta anos, as lutas pela terra, pela manutenção de modos de vida e a luta ecológico-ambiental, articularam formas de resistência que em alguma medida serviram para reorientar os níveis de conflito entre as elites e as populações

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tradicionais no Acre, compreendendo os empates como os exemplos mais bem elaborados dessa resistência. Por outro lado, também contribuíram para aprimorar os níveis de organização dos grupos de elite. Seus mecanismos de defesa e ataque foram se adaptando às novas condições, sofisticando suas ações e mantendo, no uso da violência, mesmo que uma violência mais seletiva (eliminação das lideranças sindicais e ecológicas), seu campo de afirmação. No âmbito das disputas entre seringueiros e posseiros contra os grupos chegantes (fazendeiros, grileiros e colonos), os colonos que vieram para os projetos de assentamento foram os que menos se envolveram em confrontos diretos pela posse da terra, pois seus problemas foram de outra natureza, comumente associados às péssimas condições de produção e deslocamento em que foram confinados os lotes que receberam. Suas ações de contestação geralmente se dirigiam ao órgão responsável pelo seu assentamento (INCRA) e para as autoridades do Governo. E suas reivindicações giravam em torno das cobranças por melhoria nos ramais e estradas, funcionamento das agrovilas, estabelecimento de escolas e postos de saúde e transportes, que lhes havia sido prometido pelos órgãos responsáveis no processo de atração desses colonos em seus Estados de origem. Depois de alguns anos de muitas lutas individuais, esses colonos também organizaram suas associações, mas mantiveram seus objetivos mais voltados para a cobrança de promessas feitas pelos diversos governos no sentido de melhorar as condições de transportes, tanto de pessoas como da produção, educação, saúde, financiamentos e subsídios. Essas associações de colonos assentados constituíram também forte instrumento de pressão social, principalmente contra os governos que só priorizavam os grandes latifundiários, mas raramente entraram no conflito que envolvia os fazendeiros e os extrativistas e posseiros. Essa situação de eqüidistância do foco do conflito se deve ao fato deles terem sido assentados em áreas previamente estabelecidas pelo Governo, ou seja, em terras já demarcadas e devidamente desapropriadas e, embora não dispusessem de titulação imediatamente após o assentamento, viviam sempre com a promessa de que os títulos logo chegariam.

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Mesmo assim, passaram-se muitos anos para que alguns recebessem os títulos definitivos de posse das terras e, outros, estão há mais de trinta anos a espera desses documentos. A partir dos anos noventa, essa base colona, já estava mais integrada às lutas gerais dos seringueiros e muitos ingressaram nos sindicatos de trabalhadores rurais, até porque muitas de suas reivindicações passaram a convergir com a dos seringueiros e posseiros. Enfim, desse entrelaçamento das políticas públicas para modernizar o Acre, da ação dos fazendeiros e grileiros, dos extrativistas e posseiros e, dos colonos vindos para os projetos de assentamento, nasceram os sindicatos, as associações, isto é, os movimentos sociais que desencadearam novas modalidades de participação nas relações

socioeconômicas, sociopolíticas, socioculturais e sócio-ambientais neste Estado nos últimos anos do século XX e início do século XXI. O quadro complexo que se formou a partir dos embates teóricos sobre conceitos de desenvolvimento, das lutas práticas contra os desmatamentos e as queimadas, dos conflitos pela posse da terra e das acirradas lutas para influenciar interna e externamente os governos, os sindicatos e associações patronais e de trabalhadores, sobre as questões fundiárias e ambientais, não nos permite apontar vencedores, há apenas indícios, pistas que podem ser seguidas para melhor compreensão dos fatos que movimentaram esses grupos sociais heterogêneos e sua também heterogênea forma de relacionamento com os territórios e espaços nesse cantão da Amazônia. Porém, podemos apontar que esses diversos conflitos serviram para trincar as estruturas monolíticas do poder no Estado. Não acabaram com os latifúndios, nem conseguiram barrar completamente os desmatamentos e as queimadas, mas por outro lado, principalmente, os organizadores dos empates e dos partidos políticos que faziam oposição ao regime militar, conseguiram emergir para a cena política como protagonistas. A cena política do Estado hoje é dominada por fazendeiros, ex-sindicalistas, ambientalistas, representantes de ONGs, sendo que os dois últimos representantes dos seringalistas e das velhas estruturas bipartidárias dos tempos dos militares, foram aposentados pelas urnas no início da década de noventa, restam poucos em atividade. A organização dos empates, em meados da década de setenta, em conjunto com a organização de sindicatos e associações de trabalhadores na floresta e nas cidades, ajudou a 137

reconfigurar a ordem política e, sem dúvidas, complicaram os projetos econômicos articulados pelo Estado e parte das elites civis que viam na exploração (devastação) das florestas o único meio para o desenvolvimento do Estado. Há controvérsias, mesmo quando nos referimos as mudanças nos estratos políticos. Há quem diga que mudaram os nomes, mas que as orientações permanecem, que permanecem as grandes fazendas com sua produção pecuária e a exploração madeireira também persiste, influenciando diretamente as ações do governo, mesmo que esse se autodenomine “governo da floresta”. Contudo, podemos indicar uma diferença com relação ao monolitismo dos períodos anteriores, isto é, do período de predomínio dos seringalistas e do período de predomínio dos militares: após a organização dos empates e dos sindicatos, os trabalhadores que eram calados e dispersos, passaram a ter voz e se juntaram, isto significou uma ruptura com o passado de subalternidade, sem reação organizada, que caracterizou, nesse espaço, essas populações. No mínimo, podemos identificar que o Acre após os empates viu emergir para a cena das disputas novos interlocutores: a política deixou de ser monocórdia.

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CAPÍTULO III – OS ESCUDOS DOS EXTRATIVISTAS: A IGREJA CATÓLICA, OS PARTIDOS DE ESQUERDA, A CONTAG, OS SINDICATOS E AS ONGs.

Neste capítulo apresentaremos uma caracterização dos principais aliados dos trabalhadores extrativistas: a Igreja Católica, neste caso representada pela Prelazia do AcrePurus; os partidos de esquerda; as Confederações e os Sindicatos de Trabalhadores Rurais e, por último, as Organizações não Governamentais. Nesta caracterização, procuramos demonstrar como cada um desses aliados foi se inserindo no universo dos seringueiros e quais as manifestações impactantes de cada um nos processos que se desencadearam a partir de suas intervenções. A questão que pretendemos analisar é em que medida cada uma dessas intervenções serviu para a construção de novos modos de vida ou dos novos arranjos sócio-econômicos e sócio-políticos que foram se construindo nesses momentos de resistência dos trabalhadores extrativistas. Analisaremos ainda o fato de que, em alguns casos, mais evidentes nos casos das ONGs e dos partidos, essa participação passou também pela afirmação/reafirmação destas estruturas que se colocaram como “escudos” destes trabalhadores. Utilizamos como fontes, predominantemente, os recortes de jornais que, de maneiras diferentes, foram cobrindo esses eventos, mas em alguns casos faremos uso também de documentos produzidos por essas próprias organizações, como no caso da Igreja o jornal próprio desta Prelazia, ou no caso das ONGs, suas próprias publicações e sites na internet, onde costumeiramente publicam seus “produtos” e outros dados. No caso dos partidos, confederações e sindicatos, além dos documentos publicados por estes, também nos valemos de teses e dissertações que trataram suas participações, além de entrevistas realizadas pelo autor ou, realizadas por outros pesquisadores, com seus principais interlocutores.

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3.1 DA FRAGMENTAÇÃO À ORGANIZAÇÃO: A FLORESTA “ERA UMA COISA SEM FIM”.

Em um Simpósio de Geografia Agrária, organizado pela USP em 2003, o seringueiro/sindicalista Osmarino Amâncio (2004, p. 308), pronunciou uma frase emblemática. Nessa frase ele expressa uma concepção que estava presente na cabeça de muitos trabalhadores extrativistas do Acre, antes da intervenção de setores do Estado e elites empresariais que colocou em lados opostos: a existência da floresta versus progresso/desenvolvimento. Falando sobre as lutas que esses trabalhadores tiveram que travar contra os desmatamentos e sua expulsão da floresta, ele disse: “a gente nunca imaginava que ia ser ameaçado numa floresta que, para nós, era uma coisa sem fim”. Para os seringueiros era mesmo assim, isto é, foi assim por mais de um século. Até a década de setenta, não só o Acre, como praticamente toda a Amazônia, mantinha-se na condição de relativamente povoada, mas, ao mesmo tempo, preservada. No entanto, para os seringueiros “autônomos”, sempre havia a possibilidade de mudança ou, mesmo de, em se mantendo na mesma colocação, fazer um novo roçado abrindo uma pequena clareira na mata, haja vista, que sua produção era de subsistência e, nessa modalidade, os impactos desses desmatamentos não eram significativos, pois, além de serem descontínuos, havia inclusive, a possibilidade de regeneração (secundária) das clareiras abertas e abandonadas. Ademais, sabemos que a dispersão/concentração populacional da/na Amazônia, causada pela forma de ocupação e pela atividade econômica que mobilizou, inicialmente, milhares de nordestinos para os mais recônditos lugares onde os rios permitiam chegar, é uma característica das relações antrópicas na região. Por exemplo, enquanto o seringal promovia a dispersão, o garimpo ao contrário, promovia a concentração. Além disso, os fluxos populacionais mais duradouros estiveram sempre ligados à demanda do produto borracha nos mercados internacionais e, obviamente, a distribuição natural das árvores de seringa. Já as mobilizações ocorridas em torno dos garimpos são temporárias e mais localizadas, exceto as atividades de mineração, que trabalha com minerais não-nobres, que tem caráter mais duradouro. Na modalidade garimpo, há que se registrar, os impactos ambientais que são devastadores e, dependendo do minério e da forma de extração, os resíduos contaminam grandes áreas. 140

As últimas levas de chegantes, no início da década de setenta, que marcam outra etapa no modelo de ocupação, foram mais diversas e incluíram populações de outras regiões, tais como Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Porém, os motivos, para a grande maioria dos recém chegados, continuavam a ser os mesmos que mobilizaram os nordestinos nas etapas anteriores, ou seja, a busca de melhores condições de vida. Neste último caso, contudo, o foco central era melhorar as condições de vida, adquirindo terras. Só que, concomitante aos colonos e pequenos investidores, chegaram também grandes grupos empresariais, especuladores e grileiros de “grande experiência” nos “negócios” com terras em outras regiões. Seus objetivos na obtenção de terras eram, portanto, muito diferentes. Aqui começa a desconstrução da idéia de “florestas sem fim”. As terras colocadas à disposição desses chegantes eram as terras arrecadadas pelo Governo Federal (cem quilômetros de cada lado das rodovias) ao longo das rotas demarcadas para a construção das estradas que, no planejamento dos militares, interligariam a Amazônia ao “centro do Brasil”; as terras dos antigos seringais, colocadas à venda por seus “proprietários”, e por fim; terras devolutas, não discriminadas e não demarcadas. Esse avanço em busca de terras, mais uma vez, iria influenciar fortemente a distribuição populacional. Entendemos, no entanto, que o avanço sobre essas terras não constituem um caso típico de “acumulação primitiva”, assim como Marx e Engels descreveram os “cercamentos” no livro I do Capital, parece mais com outro tipo de acumulação, denominado por Paul Sweezy (1984), como “regime de acumulação financeirizada mundial”. Com essa denominação um tanto complexa, o referido autor quer demonstrar o caráter exarcebadamente rentista dessa operação, ou seja, os compradores de terras não as adquiriam na perspectiva de tê-las como fonte produtiva imediata. Não se apossariam rapidamente de nenhuma renda com a produção sobre a terra, mas sim, alimentavam a perspectiva de uma renda futura, que viria com a valorização destas. Na verdade, estava em processo um tipo de investimento onde a terra era adquirida como uma mercadoria, como uma reserva de valor que se valorizaria por si. Não necessitava, objetivamente, passar pelo circuito produtivo para gerar renda (lucro) aos seus compradores.

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Mas, permaneçamos no campo dos impactos imediatos. Daqueles impactos que implicavam em fragmentação/deslocamento/concentração populacional no Acre, para sermos mais específicos nesse estudo. Interessante anotar, antes de prosseguirmos, que a castanha, outro produto de grande importância econômica desde a primeira fase extrativista, sempre foi tida como atividade complementar e não motivou grandes movimentações populacionais, pelo menos, não na região acreana. Porém, não podemos dizer o mesmo quando se trata da castanheira, a árvore em si, responsável por uma madeira de excelente qualidade. Esta sim, embora proibida sua derrubada desde o ano de 196756, provocou fortes mobilizações de madeireiros e peões de derrubada. Mas, tratando especificamente da questão fragmentação/concentração e a título de reforço do poder de mobilização que os ativos econômicos representam, apresentamos outro exemplo clássico de fluxo e refluxo populacional na Amazônia, que são as áreas de garimpo, onde o de Serra Pelada, próximo ao município de Marabá, no Pará, talvez se apresente como um dos mais extraordinários. Esta área, num transcurso de dez anos (1980 – 1990) sofreu uma variação populacional geométrica, saindo de um contingente em torno de trezentos habitantes para mais de trinta mil (estima-se que passaram pelo garimpo mais de trezentas mil pessoas nesse curto prazo), sendo que o refluxo também se deu de forma espetacular, deixando a área como se fosse um deserto. Uma reedição caricaturada e mais breve dos desastres representados pela exploração das minas de prata de Potosi, na Bolívia no século XVII, áreas classificadas como sendo um cemitério a céu aberto, durante e após seu período de atividades. Podemos, ainda, apresentar como exemplo, bastante ilustrativo, a criação da Zona Franca de Manaus, que com seu Distrito Industrial atraiu não só pessoas do entorno, como também, de várias outras regiões do país para aquela capital. Esse afluxo promoveu um inchaço populacional repentino e configurou aquela cidade como concentradora de quase

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- A legislação que proibia o corte das castanheiras está regulamentada pela Portaria/Decreto Nº 10, de 20 de junho de 1975, de acordo com a Lei Nº 4771, de 15 de setembro de 1965 e com o Código Florestal Nº 289, de 28 de fevereiro de 1967.

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sessenta por cento da população do Estado do Amazonas57, situação que permanece com percentuais muito aproximados, mesmo passados trinta anos de sua criação. A ocupação assimétrica da Amazônia, por mais que queiramos evitar determinismos, tem como fator preponderante o avanço das fronteiras econômicas. Foi com a abertura de possibilidades de realizações lucrativas que se moveram e, continuam movendo-se, determinados contingentes populacionais, tanto inter, como intra-regional. Não foram fatores ecológicos, políticos, sociais e culturais que mobilizaram e estabeleceram as populações não índias para algumas áreas específicas desta região, embora estes aspectos de alguma forma se articulem, se entrecruzem. Esta dispersão/concentração populacional, com efeito, também não tem uma ligação direta com a fragmentação/flexibilização do trabalho na forma em que a conhecemos hoje, isto é, após a substituição dos modelos “fordista/taylorista” (produção em série e em massa), pelos modelos “toyotista”, “just in time”, “kan ban”, “small is beautiful” (produção fragmentada e em pequenas e eficientes empresas, produção sob encomenda, produção no tempo certo, etc.), registradas também no último quartel do século XX e início do XXI, comandadas pela indústria capitalista. Isto não significa, contudo, que não tenha de algum modo sido influenciada por ela. Para isto, basta considerarmos, por exemplo, a forma como Imannuel Wallerstein (2000) concebe o capitalismo, ou seja, como sistema-mundo, tendo se iniciado a partir do século XVI na Europa Ocidental e se espraiado paulatinamente pelo planeta. Mas, consideremos a distância temporal e os objetivos em cada época. Como argumentou Aziz Ab‟Sáber, escrevendo sobre a Região Amazônica:

Uma visão concreta da Amazônia, como espaço descontínuo de homens e comunidades, projetados interferentemente sobre as heranças da natureza, é imprescindível para quem queira entender as especificidades da área de máxima biodiversidade preservada in situ, na face do planeta terra, sobretudo para quem queira se atrever a fazer proposições de melhoria (AB‟SABER, 1994).

A análise de Ab‟Sáber, apontando a questão da descontinuidade na distribuição populacional, nos leva a refletir também, sobre o período em que se efetuou a transferência de terras dos antigos seringais para os “paulistas”, considerando o fato de sabermos, hoje,
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- Mesmo atualmente, depois de muito esforço dos governos para tornar os outros municípios mais atraentes, Manaus ainda mantém uma população acima dos 50% da população do Estado do Amazonas. Segundo a estimativa populacional do IBGE, com base em 2007, O Estado do Amazonas conta com uma população aproximada de 3.220.000 habitantes, enquanto a cidade de Manaus perfila algo em torno dos 1. 670.000 habitantes.

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que naquela época estava em processo, uma fase de alteração sociodemográfica relativamente espontânea, ou seja, sem o comando direto de um poder centralizado, fosse ele um “patrão” ou, o Estado. Essa mudança se processava em pelo menos três direções, isto é, tanto dentro dos próprios seringais, quanto para fora ou paralelos a eles, da seguinte forma: 1) A mudança interna estava centrada, principalmente, na concentração de famílias que buscavam colocações próximas de seus parentes num mesmo seringal; 2) As mudanças paralelas, que consistia na mudança de familiares e amigos de seringais diversos para um único seringal ou, para colônias próximas as cidades e, por fim; 3) A mudança para fora, era representada pela procura de espaço nas cidades mais próximas ou, na Bolívia e/ou Peru, o que produziu o rápido crescimento de algumas cidades, especialmente as capitais. Este último fator contribuiu significativamente para a alteração na distribuição populacional, reduzindo demograficamente algumas áreas e, invertendo a tendência secular de maior concentração populacional nas áreas de florestas. Porém, foi mais uma vez, a mudança na matriz econômica, comandada pelo Estado e por agentes privados de outras regiões que, contraditoriamente, não só estancaram essa movimentação espontânea, como também, vão influenciar na organização dos trabalhadores extrativistas. Portanto, podemos considerar que: 1) a reação e a busca de organização por parte destes trabalhadores obedeceu à lógica de responder de forma prática a uma situação não desejada e; 2) A idéia de juntarem-se para resolver situações para as quais sozinhos não conseguiam respostas satisfatórias, se deu, objetivamente, por uma questão prática e de observação dos efeitos das lutas individuais e coletivas. Insistimos na afirmação de que o fato de buscar o estabelecimento de uma organização, por parte dos trabalhadores extrativistas, é um fato singular, pois sabemos que esses extrativistas-seringueiros tinham uma tradição de vida isolada e, podemos considerar até mesmo competitiva. Não queremos com isso negar ou, fazer tábula rasa da característica que os ancestrais dos seringueiros, principalmente os nordestinos, haviam desenvolvido, do conhecimento de práticas de trabalhos comunitários, especialmente no âmbito familiar, em suas regiões de origem. Porém, queremos ressaltar o aspecto de que os nordestinos que vieram para a Amazônia, em sua grande maioria eram jovens, vieram 144

sozinhos e, mais, no ambiente do seringal o estilo de vida articulado pelo patrão, impôs o isolamento e o individualismo. Durante muito tempo vigorou a lógica de que o bom seringueiro era aquele homem solteiro, “que gostava de trabalhar”, que não andava em festas, que não se metia em confusão, que produzia mais de mil quilos de borracha por ano e, principalmente, que tinha saldo na mão do patrão. Ou seja, havia uma espécie de estatuto social que privilegiava o individualismo, embora esse “estatuto” fosse contrário à natureza dos jovens que andavam quilômetros e quilômetros para participar de uma festa ou, para se “perder”, em uma caçada e “sair” na casa de outro seringueiro onde morasse uma moça solteira. Por ser a produção extrativista assim caracterizada, o fato de, a partir da década de setenta, esses mesmos seringueiros buscarem cooperação em seus afazeres e em seus modos de vida, merece maior atenção. Uma das pistas que podemos seguir localiza-se no fato de que em boa parte dos seringa is, a partir da década de sessenta, havia se estabelecido certo lapso de poder centralizado, motivado pela crise da borracha que se agravara no pós Segunda Guerra e, conseqüentemente, o deslocamento de investimentos dos “empreendedores” seringalistas para outros setores da economia, como montar lojas nas cidades, ou investir em pequenas fazendas, também nos arredores das cidades. Esses fatos, por si, contribuíram também para essa maior movimentação dos seringueiros. O antropólogo Mauro Almeida, escrevendo sobre esse período de transição, com base em Schmink e Wood (1992), destaca que:

O relativo êxito do movimento dos seringueiros, apontaram para o fato de que a complexidade da conjuntura mundial criou novas oportunidades para que os grupos locais conquistassem vitórias, imprevistas por uma visão determinista da história. Com efeito, em um contexto de expansão agressiva do capitalismo não é possível prever o que ocorrerá em um local particular, em uma luta particular que envolva um sujeito histórico específico. Surgem, assim, espaços de relativa liberdade para conduzir conflitos em direções historicamente criativas, construídas como resultado de discussões e choques entre vozes, representadas por grupos de explorados e poderes externos. Em conseqüência, ocorreram eventos inesperados que apenas em retrospecto, parecem ser evidentes e previsíveis. (ALMEIDA, 2004 p. 03).

A situação que se pôde observar em pleno final do século XX é que aqui ainda se realizava parte do problema apontado por Marx acerca das formações econômico-sociais, principalmente, aquelas típicas das discussões entre correntes marxistas, sobre a questão das sociedades pré-capitalistas. Sobremaneira, o seu processo de evolução, no tocante às 145

tendências que se engalfinhavam no debate, nem sempre amistoso, entre os que defendiam a tese de evolução em escala e os que, omitindo o “modo de produção asiático”, pregavam uma evolução “universal” e unilinear58. Articulando a situação dos seringueiros no contexto dos anos setenta com o pensamento de expansão do capitalismo de Marx, Almeida, argumenta:
A Amazônia, na década de 1970, parecia seguir um curso histórico terrivelmente previsível: o caminho da modernização capitalista orientado para ocupar espaços vazios sob a direção de um bloco formado pela ditadura militar e por classes dominantes ansiosas por lucros rápidos na fronteira. Numa economia em rápida expansão, financiada pelo capital financeiro internacional, com uma geografia política dividida entre terras monopolizadas pelo grande capital e terras livres ocupadas por índios e caboclos, o cenário da acumulação primitiva parecia irreversível, no sentido dado a esse termo por Marx, qual seja, o da separação entre comunidades e a natureza, seguida do surgimento simultâneo de uma classe de proletários sem terra e da terra como meio de produção. (ALMEIDA, 2004, P. 3).

Essa compreensão nos permite ir identificando os motivos que levaram os trabalhadores extrativistas a iniciar um processo de organização para resistir ao processo de mudança comandado pelo “alto”: primeiro, a perspectiva de privação de um meio imprescindível para sua sobrevivência: a terra; segundo, eles perceberam que mesmo que recebessem outros lotes em outras áreas, os processos de destruição causados pelos desmatamentos, estavam comprometendo de forma irremediável seus modos de vida baseados na combinação extrativismo, roça, caça e pesca. Outro fato destacável, nesse caso dos seringueiros do Acre e, de boa parte das regiões gomíferas da Amazônia, é que houve um rearranjo da distribuição populacional entre a cidade e a floresta, de forma que os que permaneciam na floresta buscavam aglutinar familiares e “conhecidos”, numa perspectiva de trabalho cooperativo. A idéia era mesmo muito primitiva de defesa e segurança alimentar e contra interesses exteriores, isto é, visavam com essa aglutinação estabelecer garantias de permanência e sobrevivência naqueles territórios/espaços. Revelando essa alternativa, Almeida escreveu:
Mas o caso do movimento dos seringueiros, que se auto-organizou a partir de planos desconectados, realizados em diferentes escalas, que só depois se combinaram para adquirir um lugar de destaque no cenário político-ambiental, se torna mais compreensível como ilustração do potencial criativo de processos que nascem de situações de desordem, e em que, como resultado, uma periferia aparentemente passiva se afirma como fronteira ativa. (ALMEIDA, 2004, p. 3).

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- Esses conceitos podem ser encontrados em Hobsbawm – Marx, 1985; Sweezy ,1983 e 1985; Dobb, 1986; Hill, 1988; Wallerstein , 2000 e 2002.

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É nesse contexto de certa “desordem”, que boa parte das populações remanescentes que viviam em áreas descontínuas, sem definições precisas e que praticavam suas atividades conforme permitiam os recursos de mão-de-obra e equipamentos, reataram laços sociais, praticamente impossíveis quando havia o domínio de um patrão e do sistema de aviamento, haja vista, que um dos únicos locais de sociabilidade do seringueiro era justamente o “barracão” que estava permanentemente sob a vista do patrão e/ou de seus capatazes. Para agravar mais ainda essa situação, um seringueiro só poderia sair de sua colocação em casos extremos de doença ou, por falta de mantimentos ou equipamentos necessários à produção, ocasionado por algum contratempo que o impedisse de esperar o próximo comboio. Já como seringueiro “autônomo”, ele adquiriu possibilidade de desenvolver outros meios de sociabilidade. Os encontros entre iguais, sem a severa vigilância dos patrões, fundamentaram outras bases, outras possibilidades de reação: a mobilidade e a condição de mobilização. O efeito desta “luta”, desencadeada pelos seringueiros em busca de sua sobrevivência, repercutiu em alguns setores políticos da sociedade que tinham militância meramente urbana. Na verdade, alguns setores políticos urbanos, ligados à esquerda, viram nos seringueiros os “agentes históricos” que realizariam as “tarefas” emancipatórias da sociedade, ou seja, como no Acre não havia indústrias, portanto, não havia operários, os trabalhadores extrativistas assumiam o papel daqueles ou, no mínimo, atuariam no combate ao regime militar. Por outro lado, os seringueiros, que não tinham nenhum apoio institucional nas cidades, viram nessa relação à possibilidade de fortalecer suas lutas. Foi dessa troca de interesses políticos que se gerou uma intrincada e duradoura relação entre setores políticos de esquerda, antes com atuação meramente urbana, e os trabalhadores extrativistas, moradores típicos das florestas. Vejamos a capa do Jornal Varadouro, de outubro de 1979. Nesta capa, de um jornal que circulava preferencialmente nas cidades, podemos dimensionar o impacto desta manchete, tanto para os trabalhadores extrativistas, no sentido de que estavam se tornando visíveis as suas lutas, como por outro lado, no setor dos “investidores” e das autoridades encarregadas de manter a lei e a ordem.

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Figura 8

Foto da capa do Jornal Varadouro, de outubro de 1979: Arquivo pessoal.

Não é que existisse uma tendência de esquerda entre os trabalhadores extrativistas, longe de terem essa compreensão estratégica, de elucubração teórica sobre esquerda e direita. Porém, o relacionamento desses trabalhadores com seus antigos patrões e com as autoridades da cidade, sempre se reproduziam por um viés autoritário, onde o patrão e seus congêneres urbanos sempre apareciam como superiores em relação aos moradores das florestas. Por outro lado, com os militantes da esquerda e até da Igreja Católica, após a década de setenta, o relacionamento era mais equânime. Na verdade, para alguns setores da esquerda os seringueiros eram vistos como vanguarda, como agentes que viabilizariam as 148

lutas que os intelectuais das cidades presumiam como fundamentais para o desencadeamento revolucionário. Relacionando os efeitos da militância política urbana com o movimento de trabalhadores extrativistas, Francisco Afonso Nepomuceno (o Carioca), líder estudantil universitário no início da década de oitenta e que, na época, era militante do Partido Revolucionário Comunista – PRC, em entrevista concedida no ano 2000, já como militante petista e Assessor Político do Governo do Acre, disse:
“O PRC fez uma leitura de que no Acre teria que ter uma relação direta com a classe trabalhadora, aquilo que se vinculava diretamente com a economia do Acre, o extrativismo e os seringueiros. Tinha, portanto, uma relação direta com a intelectualidade acadêmica, via movimento estudantil, e o outro pé estava fincado na base. Por isso, foi eleito (o município de) Xapuri que começava ter uma resistência, através dos empates, ao modelo pecuário-madeireiro implementado a partir da década de 70. Assim, o movimento estudantil, via PRC, mantinha essa relação porque o partido estava organizado nos dois setores. As atitudes dos militantes do PRC era presidida pela utopia da luta de classes e os seringueiros vistos como a classe revolucionária, pois questionavam o status quo, através da disputa pela terra, dos empates, do enfrentamento com o Estado e dos setores que representava o Capital” (Entrevista realizada em 24/11/2000. In. Sant‟Ana Júnior, 2004, p.206-207).

No caso dos seringueiros, esse relacionamento tinha outro significado na sua construção política estratégica, o que estava em questão era assegurar apoios as suas reivindicações. Então, qualquer apoio oriundo da cidade representava muito para eles, principalmente quando incluía a intervenção religiosa, que tinha efeito aglutinador. Num trecho de uma entrevista concedida no ano de 1999, o seringueiro e sindicalista Osmarino Amâncio relata:
Realmente aqui a gente começava a reunião do PT e terminava com as orações dos fiéis, o Pai Nosso era o que fechava. Isso tem um sentido, um porque disso. Primeiro que a Igreja aqui deu muito apoio a certos líderes que militavam na clandestinidade e quando surgiu o PT, aqui o berço do PT foi a Igreja Católica. Foi através dos sociólogos da Igreja ligada às Comunidades de Base, através dos teólogos, dos padres e freiras. E devido aos conflitos, porque estava todo mundo envolvido nos conflitos. Então, tanto fazia ser do PT, como ser do sindicato, na hora de discutir estavam ali as mesmas pessoas. Então, quando fazia uma reunião, para não perder tempo, fazia logo as reuniões do sindicato, do partido e da Igreja. Pegava um domingo, que era o dia das reuniões, e que vinha todo mundo. Para não perder muito tempo, fazia a reunião das Comunidades de Base da Igreja, depois fazia a discussão do sindicato e fechava com a discussão do PT. No final dava o sermão, rezava o Pai Nosso e ia todo mundo pra casa. E cada um pegava aquilo na mente que mais lhe interessava, porque alguns ficavam para assistir a reunião do PT, outros ficavam para assistir a reunião das comunidades de base e outros ficavam porque estavam interessados na discussão sindical. (Entrevista realizada em 04/08/1999 – In. Sant‟Ana Júnior, 2004, p.204).

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Outro aspecto muito complexo nessa relação de resistência dos trabalhadores extrativistas foi o surgimento entre eles de “lideranças”. Calaça (1993), Cardia (2004), Souza (1996), Esteves (1999), Montysuma (2003), Andrade de Paula (2003), Simione (2005), são alguns dos autores que destacaram o papel dessas lideranças na articulação da resistência, nos primeiros momentos dos embates com os paulistas, mas que também interagiram no processo de internalização das questões ambientais num momento posterior. O fato de pessoas analfabetas e/ou semi-analfabetas terem ganhado importância que extrapolava o ambiente local, constitui aspecto de grande complexidade, pois sabemos que numa segunda etapa dos enfrentamentos eles receberam influências externas, mas as idéias iniciais de se juntarem, primeiramente num núcleo familiar, depois numa articulação mais difusa, com intuito de defenderem seus modos de vida, não foi uma atitude sugerida desde fora. Chico Mendes, em entrevista concedida à Secretaria de Meio Ambiente da CUT, em setembro de 1988 e publicada por Edilson Martins em 1998, explica assim um desses momentos de organização:
Foi um trabalho difícil, tivemos que enfrentar jagunços e polícia. Começamos a reocupar essas áreas criando comunidades. Na medida em que criávamos uma comunidade organizada, ela ia trazendo famílias e colocando nas áreas desocupadas. Quando havia uma ação policial de despejo, a comunidade se organizava muito bem e reocupava. E conseguimos, com todas as limitações do Estatuto da Terra, defender as áreas, baseados no decreto 4504 – que diz que o posseiro não pode ser despejado de sua terra. Conseguimos também eliminar o desconto que o patrão fazia, até 1970, de 10% do peso da borracha do seringueiro, além de 30% de aluguel que era obrigado a pagar. Fizemos um trabalho para evitar que o seringueiro pagasse renda, para que ele começasse a construir sua autonomia. (MARTINS, E. 1998: 82-3).

Além desse fator, convém lembrar que a conjuntura política do país em meados da década de setenta, não favorecia nenhum tipo de articulação popular que tivesse características políticas. Aqui mesmo na Amazônia/Centro-Oeste, isto é, no Sul do Estado do Pará e no Norte de Goiás, no início da década de setenta, os militares então no poder, haviam mobilizado imensos contingentes de tropas para aniquilar um grupo guerrilheiro, formado por pouco mais de 70 militantes do PC do B, no episódio conhecido como “Guerrilha do Araguaia”. O fator organizativo dos trabalhadores não chamava a atenção apenas dos órgãos repressivos dos militares, havia uma boa articulação civil das elites que também combatia os “desvios” políticos dos trabalhadores.

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O bispo da prelazia do Acre Purus D. Moacyr Grechi, respondendo ao jornalista Edilson Martins sobre as repercussões da morte de Chico Mendes comentava que:
Eu sempre vejo a morte de Chico dentro de um contexto. Ele foi o octagésimo-quarto homem ligado ao campo, à floresta, à terra, assassinado no ano de 1988. E até o final desse ano o número chegaria a 96, segundo os dados apurados pela CNBB. Trata-se de um processo de extermínio de lideranças. A maioria são sindicalistas, posseiros, religiosos ligados ao problema da terra, advogados. No caso do campo, o movimento é ainda fraco. Quando se eliminam as lideranças fica mais fácil, porque até haver a reestruturação do movimento leva-se um tempo. (...) A Igreja abriu suas portas e assumiu os riscos. Acho que se nós, padres, não assumíssemos a luta dos colonos e dos seringueiros, estaríamos traindo a fé. Nessa época as lideranças dos sindicatos vinham da Igreja. (...) Na época da morte do Wilson Pinheiro (1980), por exemplo, houve um período de repressão muito grande, violento. Foi um período assustador. O exército torturou oito homens que nada tinham a ver com o movimento. Um desses homens teve a unha perfurada a canivete e logo depois perdeu o dedo por apodrecimento. Eu achava que naquele ano o movimento seria liquidado. (MARTINS, E. 1998: 42-3).

Embora os primeiros “empates” só tenham ocorrido na segunda metade da década de setenta, a construção, isto é, seu engendramento foi se elaborando durante toda essa década. Considerando que havia forças dominantes apontando para um modelo de ocupação da Amazônia, em bases que excluíam esses trabalhadores extrativistas, convém saber o que os levou a adotar essa atitude de resistência e enfrentamento. Quem ou, o que, os conduziu a essa situação? Já apontamos, anteriormente, que muitas famílias de seringueiros e ex-seringueiros haviam conseguido juntar os parentes mais próximos e também que haviam construído comunidades que se ajudavam mutuamente nesse processo de sobrevivência. Identificamos, portanto, nessa união para articular os interesses comuns de sobrevivência, a célula matricial para organização da resistência. A materialização dessa união para construir modos de vida mais eficientes, isto é, mais vantajosos, foi fundamental para orientar as ações dos trabalhadores extrativistas na hora em que precisaram se defender das forças externas que visavam expulsá-los de suas colocações. Suas experiências de tentarem resistir sozinhos ou, de “buscarem ajuda” junto as autoridades localizadas nas cidades haviam sido frustrantes, mas, contraditoriamente, educativas no sentido de que elas contribuíram para a união entre iguais e fortaleceram suas próprias defesas. A história de D. Valdízia, relatada em matéria publicada no jornal Varadouro é bastante ilustrativa:

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“Bolando nesses seringais – diz ela – fomos morar, eu, meu marido e meus filhos no seringal “Sacado”, que pertencia ao seringalista Zeca Paixão. Meu marido e eu fizemos estrada de corte, um pequeno campo e estávamos começando a levantar uma casa quando as terras foram vendidas para uns paulistas. Eles começaram a derrubada da mata, iam derrubando e tomando devagarzinho as colocações. Ai a seringueirada ficou revoltada, porque procurava seus direitos e não encontrava”. (...) Procurar direitos foi exatamente o que Valdízia fez de melhor que os outros. Depois que os sulistas foram à sua colocação dizer que não devia plantar mais nada e aguardasse uma indenização para abandonar as terras não sossegou mais. Primeiro tentou reunir 10 seringueiros para vir a Rio Branco procurar as autoridades, mas só encontrou “esmorecimento”. Depois decidiu sair sozinha para expor a situação ao Incra. “Uma doutora que me atendeu virou pra mim e disse que, o que o Castelo Branco tinha assinado e Médici confirmado não tinha mais valor nenhum”. Coincidiu com a fase aflitiva de dona Valdízia a instalação em Rio Branco da delegacia regional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), órgão de defesa do homem do campo, que a partir de novembro de 1975 criaria sindicatos de trabalhadores rurais no Acre. O delegado da Contag prometeu ir a sua “colocação” reunir com os posseiros, e Valdízia voltou ao seringal para fazer a arregimentação do pessoal. Ela recorda: A seringueirada toda reunida, foi aquela animação. Uns ainda tinham dúvida de que alguém vinha fazer alguma coisa por eles. A não ser o padre, nunca ninguém tinha entrado naquelas terras para falar com seringueiro. (...). (A Mulher do Sindicato. Jornal Varadouro, Nº 07, fevereiro de 1978).

Esse é um percurso que, com pequenas variações, ocorreu na trajetória de organização e lutas dos trabalhadores extrativistas. As pequenas variações residem no aspecto de saber quem apoiaria uma reivindicação desses trabalhadores na cidade, pois para eles estava claro que, com as ditas autoridades constituídas, não teriam muitas chances de atendimento. Nesse sentido, sabemos que uma das precursoras dessa “ajuda” foi a Igreja Católica do vale do Rio Acre, liderada inicialmente pelo bispo Dom Giocondo Maria Grotti e depois pelo bispo D. Moacyr Grechi. Em seguida, foi vez da CONTAG, dos partidos de esquerda e só mais tarde, alguns segmentos da Universidade Federal do Acre e as Organizações Não Governamentais respectivamente, entrariam nessa base de apoio. Mas, o forte dessa resistência, foi mesmo a obstinação de alguns seringueiros que não só se posicionaram contra os desmatamentos que destruíam suas colocações, como sua capacidade de elaborar e convencer os outros de que era possível enfrentar os “poderosos”. A partir desse “convencimento pessoal”, começaram a percorrer suas áreas tentando convencer os outros de que era possível. Foi nesse ínterim que os varadouros deixaram de servir apenas para escoar a produção e passaram a servir como corredor de mensagens e idéias. A solidariedade e a união não constituíam aqui, naquele momento, elementos de retórica. Na verdade, foi à prática desses conceitos, representadas no “vamos se juntar”, que garantiram o êxito dos empates e serviu de base para a construção dos sindicatos. As 152

andanças de muitos pais e mães de família pelos varadouros convidando seus pares para “se juntar”, foram tecendo uma rede de agentes que estavam dispersos e frágeis em sua vontade de resistir. A resistência, contudo, não podia ficar restrita ao seu ambiente, pois esses trabalhadores tinham conhecimento que o processo de mudança que os estava afetando, tinha origem nas cidades. Desde cedo eles sabiam que, mesmo que as idéias de organização ganhassem força com a sua união no âmbito da floresta, suas principais reivindicações estavam fatalmente relacionadas com estruturas urbanas. Os problemas fundiários passavam pelo crivo do INCRA e da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado, sem estender para as perspectivas empresariais civis. As próprias atitudes de mudança na estrutura produtiva do Estado tinham sido bancadas fundamentalmente pelos financiamentos, incentivos e isenções patrocinadas pelos Governos Estadual e Federal, então, não podiam esperar nada deles. A cidade, até então distante e fora de seus planos de relacionamento, ia se forjando como elemento distinto para a resolução de seus problemas, mesmo que eles estivessem localizados nas florestas. Essa é uma mudança fundamental no relacionamento urbano – rural – florestal desse período. Porém, a passagem dessa nucleação familiar para uma organização de cunho mais classista, no sentido de que a reunião de trabalhadores para lutar por objetivos comuns, pôde corroborar com essa formação, foi o grande evento na relação organizativa dos trabalhadores extrativistas dessa região. Nesse sentido, o antropólogo Mauro Almeida reitera:
Os seringueiros amazônicos eram invisíveis no cenário nacional nos anos de 1970. Começaram a se articular como um movimento agrário no início dos anos de 1980, e na década seguinte conseguiram reconhecimento nacional, obtendo a implantação das primeiras reservas extrativas após o assassinato de Chico Mendes. Assim, em vinte anos, os camponeses da floresta passaram da invisibilidade à posição de paradigma de desenvolvimento sustentável com participação popular. (ALMEIDA, 2004: 12)

Alcançar essa posição de paradigma de desenvolvimento sustentável foi, de fato, uma construção bastante significativa. Principalmente se considerarmos que o estereótipo do seringueiro nas cidades amazônicas, era de um posicionamento muito abaixo do “jeca 153

tatu”, do caipira de outras regiões. Portanto, sair da invisibilidade e se constituir como modelo, como exemplo, foi a tessitura de uma rede com muitos pontos, mas a linha, ou seja, a matéria prima, a amarração dos pontos, foi mesmo a seringueirada. Nem a floresta “era sem fim”, nem eles estavam tão isolados, tão fragmentados como todos imaginavam. Nas contradições do sistema hegemônico, aqueles que aparentemente eram os elos mais fracos, demonstraram que era possível causar reveses aos planos unilaterais das elites dominantes. Desmontar integralmente esses planos, ai já é outra história. Entendemos que a percepção de “finitude” da floresta e a reestruturação territorial, que revelaram as possibilidades de união dos trabalhadores extrativistas,

contraditoriamente, ao uní-los, engendrou outros mecanismos para sua paulatina extinção. Agindo na contramão de suas lutas por terras e manutenção de seus modos de vida tradicionais, muitos de seus “escudos” (aliados), revelaram-se como verdadeiros “cavalos de tróia”, infestando essas organizações com idéias que inibiam ou até excluíam possíveis avanços no sentido classista dos sindicatos e associações desses trabalhadores. As ambivalências, contradições e contraditoriedades são, portanto, características marcantes, nessa trajetória. Os eventos que levaram os seringueiros a se reconhecerem e serem reconhecidos como “povos da floresta”, os impeliu ao mesmo tempo, a conviver com a redução da floresta e a rede(in)finição da propriedade da terra, isto se pensarmos a terra como Marx, por exemplo, quando ele diz que: “É somente através do trabalho, da agricultura, que a terra existe para o homem”. Vejamos, então, como os diversos “aliados” dos seringueiros agiram na construção/desconstrução de seus modos de vida e/ou contribuíram para o avanço/retração de suas lutas, de seus objetivos.

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3.2 OS ALIADOS URBANOS DOS SERINGUEIROS: O PAPEL DA IGREJA CATÓLICA.

A re-estilização dos modos de vida dos trabalhadores extrativistas do Vale do Rio Acre, na década de setenta, foi operacionalizada num processo em que movimentos paralelos agitavam diversos segmentos sociais tanto nas cidades como nas florestas. Por um lado, agiam alguns segmentos urbanos, como funcionários públicos, principalmente professores e bancários (especialmente quando, ainda havia o Banco do Estado do Acre BANACRE), lavadeiras, moradores dos novos bairros formando suas associações e, por outro, os governos e seus aliados civis, não só comandando a repressão, como também investindo em suas organizações sindicais patronais e seus clubes, passando pelos “clubes dos fazendários” (mais tarde unidades da UDR), maçonarias, até os Lions, e Rotarys, que no Acre serviam para reunir os ricos e influentes das cidades. Mesmo setores tradicionalmente conservadores, como a Igreja Católica, também passavam pelo crivo de reavaliações e de novas interpretações de suas práticas evangelizadoras e dos impactos sociais que elas causavam nas diversas populações. Gómez de Souza (2004), escrevendo sobre as várias faces da Igreja Católica no Brasil, aponta para o marco do Concílio Vaticano II, num âmbito mais geral e, para duas Conferências Episcopais da América Latina (CELAM), a de Medellín, na Colômbia realizada em 1968 e a de Puebla, no México, em 1979, como bases para essa virada de importantes setores da Igreja na direção dos trabalhadores rurais e da educação popular. Para Gómez de Souza, desde a criação da Ação Católica, na década de trinta, já era possível identificar divergências no seio dos movimentos católicos no Brasil. Na sua avaliação:

De 1930 a 1945, podemos detectar duas presenças significativas: D. Leme no episcopado, Amoroso Lima no laicato. Mas em 1943 faleceu D. Leme e, logo depois, Amoroso Lima abandonou a direção da Ação Católica, por incompatibilidade com o novo arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jayme de Barros Câmara. Vai surgindo nesse momento outra figura, que será central na Igreja dos próximos anos, o então sacerdote Hélder Câmara. Chegou ao Rio de Janeiro vindo de Fortaleza, onde participara da Ação Integralista, da qual também se afastou. Em 1947, foi nomeado Assistente Nacional da Ação Católica. Esta, que nascera calcada na Ação Católica italiana criada pelo Papa Pio XI, evoluiu a partir da influência francesa, belga e canadense, para a Ação Católica especializada, com seus setores, principalmente de jovens, do mundo rural (JAC), estudantil (JEC), independente, isto é, de classes médias (JIC), operário (JOC) e universitário (JUC). Essa Ação Católica, na década de 1950 e início da de 1960, foi responsável por um forte dinamismo da Igreja e por sua presença na

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sociedade mais ampla. Um movimento teria uma influência particular, a Juventude Universitária Católica (JUC), entre 1959 e 1965, quando lançou a idéia de procurar um “ideal histórico” para o Brasil (1960), participando intensamente da política universitária e fornecendo quadros dinâmicos para a educação popular. Atacada por setores tradicionais, foi defendida por D. Hélder Câmara em 1960, em documento que enviou aos bispos: “A JUC [...] está vivendo uma hora plena e merece o apoio e o estímulo do exmo. episcopado”. A partir da JUC, e já como um movimento não ligado à Igreja, surgiu, em 1962, com a presença de cristãos e não-cristãos, a Ação Popular, grupo político de orientação socialista democrática, nesse momento. (GÓMEZ DE SOUSA In. ESTUDOS AVANÇADOS Nº 18, 2004 p. 78/79).

Para a questão da vinculação com os trabalhadores rurais, contudo, o autor em referência credita que o papel principal está na CELAM e nas dificuldades criadas para a ação pastoral pelo regime militar. Nesse contexto, escreve:

Porém, nos vinte anos seguintes do regime militar (1964-1985), quando se fecharam no país lugares de articulação política, sindical e social, a Igreja foi um espaço de relativa liberdade de organização e de ação. A CNBB e alguns bispos foram, o que se chamou depois, “a voz dos sem voz”. Nesses anos surgiram a Comissão da Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e se desenvolveram a pastoral operária e as pastorais de juventude. Mas a presença decisiva foi das Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs), que foram brotando em diferentes igrejas locais (Vitória, Goiás, Crateús e, logo depois, na periferia de São Paulo). Eram pequenos grupos de cristãos de setores populares que se reuniam para momentos de oração e de celebração de sua fé, mas também de reflexão sobre seus problemas concretos de trabalho, saúde, educação, direitos humanos etc. Havia uma ligação muito profunda entre fé e vida concreta, que estaria na base da reflexão latinoamericana desses anos, em torno à Teologia da Libertação. (GÓMEZ DE SOUSA In. ESTUDOS AVANÇADOS 18, 2004 p. 81).

No caso do Estado do Acre, esse papel da Igreja vai ser facilmente distinguido. Há duas prelazias/dioceses: uma no Vale do Rio Juruá, com abrangência para os Rios Tarauacá e Envira e, outra; no Vale dos Rios Acre e Purus. A primeira é conduzida por um bispo da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos), sob influência alemã, e tem como característica principal o conservadorismo. Essa corrente não investiu numa ligação mais ampla com o povo, ou seja, não estimulou a formação das CEBs e pastorais, por exemplo. A segunda é conduzida por um bispo da Congregação dos Servos de Maria (Marianos), comumente de origem italiana e, a partir do final da década de sessenta, vem incorporando a corrente de vertente dita progressista e, não só estimulou a organização das CEBs e pastorais, como se engajou no combate ao que considerava causas da pobreza, abraçando as teses ligadas à Teologia da Libertação. Registremos que internamente cada Prelazia/Diocese convive com dissidências, mas no conjunto maior, cada uma segue seu líder, ou seja, seu bispo.

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Assim, a posição da Igreja Católica no vale do Rio Acre, local onde ocorreram os maiores conflitos entre seringueiros, “fazendeiros” e agentes do Estado, foi uma posição decidida, de defesa dos mais fracos nas contendas. Na verdade, essa defesa dos trabalhadores extrativistas, constituía mais um viés da tomada de atitude deste setor da Igreja, a exemplo do que vinham fazendo ao longo da ditadura militar, o bispo, os padres, as freiras e os evangelizadores leigos (agentes pastorais), na crítica e no combate as atrocidades cometidas pelos militares e seus apoiadores. Seguindo a orientação do Concílio Vaticano II e das Conferências Episcopais de Medelín, na Colômbia e Puebla, no México que incentivavam a Igreja a buscar uma conciliação entre os evangelhos e a vida das pessoas, a Prelazia do Acre-Purus iniciou em 1971 a organização das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, no Acre, que incluíam os agentes leigos como importantes na evangelização e, principalmente, adotou os preceitos da “opção preferencial pelos pobres”, preconizados pela Teologia da Libertação. Mas nem sempre foi assim. No tempo mais largo da vida da Igreja no Acre, ela, com raríssimas exceções, havia sempre se posicionado ao lado dos mais fortes. Nos tempos áureos dos seringais, quando um padre subia em “desobriga” pelos rios, comumente hospedava-se na casa dos patrões dos seringais, criando uma espécie de vínculo que os afastava dos fiéis, pois o “barracão”, como era conhecida a casa de morada do patrão, não podia ser freqüentado por seringueiros. Muitos padres, inclusive, advertiam, admoestavam, repreendiam mesmo, seringueiros que ousavam reclamar dos patrões. Por outro lado, também havia alguns padres que preferiam ficar em suas canoas, para não se submeterem à “hospedagem” de alguns patrões, que reconhecidamente tinham fama de maltratar seus trabalhadores, bem como para “fugir” das vinculações com essas estruturas de poder. Mas eram poucos os que adotavam essas posturas. O senhor Piauí, ex-seringueiro e que no início da década de setenta era morador da antiga “Vila Quinari”, hoje município de Senador Guiomard, que veio a ser membro de uma CEB, comentando para um jornal a mudança na postura dos padres, disse:
Antes os padres, quando iam fazer uma desobriga nos seringais, iam pra dentro da casa do patrão. O seringalista era quem convidava os seringueiros para comparecerem em sua casa, quando o padre passava. Os padres não falavam em posse de terra, só davam razão e elogiavam os patrões. (COMUNIDADES...VARADOURO, Rio Branco, 1981, AGO/SET. Nº 23, p. 9).

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Mas, tratando prioritariamente da Igreja ligada a Prelazia do Acre-Purus, que foi a Igreja que se destacou nessa iniciativa de ser a “voz dos sem voz”, vamos identificar como principais articuladores dessas idéias de vinculação popular e “opção preferencial pelos pobres”, dois bispos, são eles: D. Giocondo Maria Grotti (morto em 1971, em um acidente aéreo) e seu sucessor, o bispo D. Moacyr Grechi (atualmente bispo diocesano de Porto Velho – RO). Não queremos, ao nominá-los, diminuir a importância dos padres, freiras e evangelizadores leigos que partilharam essas idéias e experiências. Apenas o fazemos, preservando a ordem hierárquica que preside essa instituição, pois sabemos que sem as bênçãos, digamos, sem a autorização destes, nenhum processo desse porte se desenvolveria, bem como suas “vontades” também não obteriam êxito, caso não houvesse um conjunto de outros agentes conscientes e convencidos da importância da tarefa. Para ilustrar essa importância de outros nomes na organização das CEBs, recorremos a essa matéria do jornal Varadouro, cobrindo o aniversário de dez anos do nascimento das CEBs no Acre, onde se pode ler:

Maria de São Pedro, Faustino, Virgínia, (Pe.) Pacífico, Amâncio, Nilson, (Pe.) Asfuri, no bairro da Estação Experimental. Piauí, Guilherme, Isa, Silvana, Neusa, no Quinarí. Luisina, Stéfano, Carlos, João, no bairro Seis de Agosto. E Dom Giocondo Grotti. A história de dez anos das Comunidades Eclesiais de Base da Prelazia do Acre e Purus começa com esta gente, em 1971. (COMUNIDADES... Jornal VARADOURO, Rio Branco, ago/set. 1981).

Em 1997, Nilson Mourão, um dos agentes pastorais leigos do grupo que compõe o núcleo considerado como “fundadores” das CEBs em Rio Branco, concedeu um depoimento/entrevista ao pesquisador Sílvio Simione da Silva, onde entre outras informações, traça um roteiro de sua trajetória nesse campo. Nesse sentido, o entrevistado ponderou:

Na década de setenta no Acre nós vivemos uma situação inteiramente inusitada. A base econômica fundamental, de organização da produção, foi inteiramente desestruturada, com os seringais desativados, milhares de pessoas chegavam em Rio Branco. Eu estava despertando para a vida da Igreja, fui fundamentalmente incentivado a participar desse processo através do então Pe. Pacífico que havia chegado de Roma recentemente, onde havia se ordenado e trazia as idéias renovadoras do Concílio Vaticano II. Nós decidimos, o então Pe. Pacífico, junto comigo e com o atual Pe. Leôncio Asfuri, com permissão do bispo, naturalmente, iniciar uma experiência nova na Igreja. Nos inserimos no bairro da Estação Experimental, compramos uma casa e começamos a desenvolver um trabalho popular, visitando famílias, conversando com elas e trazendo-as para participar da vida da Igreja. Líamos o Evangelho, comentávamos o Evangelho e a partir daí ligávamos o Evangelho com a vida. Esse era, fundamentalmente, o método. (...) O povo gosta muito de debater sobre religião, é uma

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coisa extraordinária como o povo gosta de se apropriar dos textos sagrados (...) inclusive entra em detalhes impressionantes. Nós propiciávamos esse debate com a orientação clara: formar lideranças populares, com uma visão renovada da Igreja e com uma orientação na “Teologia da Libertação”. (In. SIMIONE da SILVA. Entrevista realizada em Rio Branco, 1997).

Porém, mais que permitir que outros agentes atuassem no campo da evangelização, os bispos que dirigiram essas prelazias nesses momentos turbulentos, não ficavam dentro das suas cúrias. Decididamente, não ficavam apenas coordenando o trabalho de “seus subordinados”. Antes, eles eram os próprios exemplos de dedicação, estavam à frente das ações e se expunham com despreendimento no combate ao que consideravam injustiça. Em outra entrevista concedida ao pesquisador citado, acima, em 1998, D. Moacyr comenta:

(...) É nesse período, o período da ditadura, então, que a Igreja, além de ter fornecido um clima, uma convicção de que o cristão tem que se engajar na luta pela justiça; além de ter fornecido os primeiros líderes, era também um ambiente de segurança. As reuniões, os cursos eram feitos nos ambientes da Igreja, mas tivemos repressão da polícia e do exército, que numa reunião em Xapuri invadiram tudo, tomaram aparelhos, que até hoje, ainda não devolveram. Tentavam gravar as reuniões. Eu creio que sem a Igreja os sindicatos não teriam resistido nos momentos, principalmente, de violência como por ocasião da morte do Wilson Pinheiro e do Nilo. Então, ai a repressão abateu violentamente sem nenhuma resistência, foi só a Igreja que resistiu para que não houvesse um massacre e, houve mesmo assim; houve tortura e prisões arbitrárias de pessoas que não tinham nada a ver com o assassinato, por vingança. Então, eu creio que nisso a Igreja estava extremamente unida; estava na raiz e era solidária a essa luta. Pouco a pouco, os sindicatos tomaram maior autonomia e, embora tenha havido sempre um relacionamento de colaboração e respeito, a mística da Igreja servia também para a continuidade da luta. (In. SIMIONE da SILVA, 2005: 305).

Foi assim, usando a “mística” da Igreja, que os agentes pastorais conseguiram se aproximar das comunidades. Primeiramente, se aproximaram das dezenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nas periferias das cidades, principalmente Rio Branco, ajudando-os a superar a mudança de seu modo de vida e organizando as associações de moradores, no sentido de fortalecer aqueles desvalidos em suas lutas cotidianas para sobreviver nesses novos espaços. Depois, num esforço ainda maior, começaram a percorrer os seringais, para ajudar os que ainda não haviam saído, a permanecer em “seus” lugares. Baseados no exemplo de miséria em que se encontravam os que haviam sido expulsos de suas colocações, ou mesmo, os que haviam sido pressionados a abandoná-las, para evitar a violência; os monitores e líderes das comunidades saíram pelos seringais e colônias, reunindo esses trabalhadores estimulando-os a resistir, a lutar pelo que, pela primeira vez, alguém vinha dizer que era seu: o pedaço de terra em que viveram por toda a vida. 159

Essa incursão dos membros da Igreja, não só pelos bairros, como também pelos seringais e colônias é que vai caracterizar essa nova fase, essa nova concepção de ver e estar no mundo dos pobres. Ressaltamos isso porque os indivíduos que se envolveram nessas práticas eram jovens padres, freiras e evangelizadores leigos que tinham vindo da Itália ou de algum Estado do Sul, ou ainda, eram jovens seminaristas nascidos nas cidades acreanas mesmo, mas, quase todos sem o devido conhecimento da vida nos seringais. A tarefa de andar pelos seringais não é um exercício fácil. Subir e descer os rios ou, se aventurar por estradas enlameadas, atoleiros, ramais e depois varadouros e picadas estreitas é tarefa para quem tem muita coragem e força de vontade. Esse mérito tem que ser creditado na conta não só dos bispos, mas dos padres, das freiras, dos agentes pastorais leigos, que não mediam esforços para alcançar os seringueiros mais isolados e levar até eles a mensagem do evangelho e da organização, da unidade que eles precisavam para enfrentar os inimigos que os ameaçavam. Uma matéria do jornal Gazeta do Acre registra assim, um desses momentos da vida do bispo D. Moacyr Grechi:
“ENTRE UM TOMBO E UM ESCORREGÃO SE CHEGA ATÉ ELES”. Na proa do batelão o bispo arregaça as calças, equilibra-se medindo com os olhos a distância do pulo e diz com voz solene: agora, um passo seguro e equilibrado. Vem o pulo e ele chafurda sua excelência até os joelhos na lama mole do Purus. As águas haviam baixado vários metros, deixando praias no meio do rio e o lamaçal onde antes elas corriam tranqüilas, fazendo com que o passo medido e calculado do bispo se transformasse em uma cena de filme de pastelão. Minutos depois o grupo de viajantes está matando a fome em goiabeiras carregadas e D. Moacyr Grechi, bispo do Acre e Purus, presidente da Comissão Pastoral da Terra da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, está lembrando, bem humorado de um livro de uma pesquisadora amazonense onde ela fala com entusiasmo daquela lama onde antes ele atolou. Aquilo, diz a escritora, é fertilíssimo, puro humos, mal aproveitado pelos ribeirinhos na estiagem. Mais do que como ex-aluno de D. Moacyr, o jornalista acompanhou-o nesta viagem exatamente para testemunhar as transformações por que passou seu antigo mestre. E, ali está ele, costeletas já brancas aos 44 anos, mochila ou sacola nas costas, novamente chafurdando no lamaçal, agora na outra margem do rio, entre escorregões, segurando em touceiras de capim, buscando o caminho melhor para atingir o chão firme do barranco. (...) (Entre... Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, 07.01.1981).

É esse o despreendimento a que nos referimos anteriormente. Mas, só despreendimento não era muito, pois as dificuldades não residiam apenas nos percalços dos rios e dos caminhos, das adversidades físicas e geográficas amazônicas. Ao mesmo tempo em que se deparavam com esses problemas cotidianos, em que precisavam confrontar-se com os poderes instituídos, tais como polícia, exército, juízes, prefeitos, governadores e congêneres, os bispos, padres, freiras e agentes pastorais leigos, também tinham que lutar 160

contra outros desafios: enfrentar seus fiéis influentes e seus próprios pares. Aqui mesmo pertinho deles, na outra prelazia, a do Juruá, outro bispo, D. Luis Herbst fazia aliança com os seringalistas e grandes empresários de sua base territorial, para impedir que os seringueiros daquela região pudessem usar a rádio “Verdes Florestas”, pertencente à Igreja, para enviar suas mensagens. Essa atitude do bispo da Prelazia do Juruá, um caso tópico, à guisa de ilustração, havia sido tomada cedendo à pressão exercida por um dos maiores empresários do Acre, que mais tarde viria a ser Governador do Estado, Orleir Cameli. Tudo para fazer oposição à organização de uma cooperativa de seringueiros, que queria viver sem vínculos com patrões e regatões, vendendo sua produção e comprando seus aviamentos sem intermediários e, obviamente, sem pagar a “renda”. Para que essa questão não pareça extemporânea, um caso de somenos importância, registramos que, no Acre, as emissoras de rádio constituíam/constituem o melhor meio de comunicação entre as populações que vivem nas florestas, nas áreas ribeirinhas, nos seringais, nas colônias e projetos de assentamento. Ouvir o rádio nas horas dos programas de mensagens fazia parte de um ritual quase sagrado. Os seringueiros realizavam grandes esforços para adquirir as pilhas, que eram caras, mas, na concepção deles necessárias para seu modo de vida. Os programas de mensagens eram, de longe, os de maior audiência das rádios acreanas e, até nos dias atuais, as populações de ex-seringueiros que “se mudaram” para as periferias das cidades mantém o costume. Tão arraigada era a prática nas matas, que continuam não só a ouvir, mas se comunicar com parentes e amigos que moram em outros bairros ou, outros municípios via mensagens enviadas através do rádio. No caso da proibição de uso da rádio “Verdes Florestas” em Cruzeiro do Sul, havia não só o impedimento das comunicações entre as diversas comunidades que faziam parte de uma cooperativa. Representava, antes, o cerceamento do fluxo de informação sobre a compra e a venda dos produtos, como também, da própria mobilização e organização dos seringueiros para as reuniões dos seus sindicatos e associações. Com muito cuidado, para não criar maiores desavenças, mas muito contundente na defesa dos seringueiros, D. Moacyr, assim comentava a decisão de seu par, conforme matéria publicada no jornal A GAZETA:

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“O bispo da Diocese de Cruzeiro do Sul ao proibir os seringueiros do Alto Juruá através do Conselho Nacional dos Seringueiros, de divulgar mensagens de apoio ao não pagamento de renda, diverge e nega o que preconiza a Campanha da Fraternidade de 89, que tem como tema “Comunicação para a verdade e a Paz””. D. Moacyr disse que respeita a postura de seu colega do Juruá, mas que a função da rádio católica deveria ser “a conscientização do povo sobre seus direitos”. (D. Moacyr dá apoio a seringueiros do Juruá. Jornal A GAZETA. Rio Branco, 1989).

Foram muitas as frentes que esses setores da Igreja comprometidos com a defesa dos mais pobres, tiveram que atuar ao longo desses últimos trinta anos do século XX. Numa carta dirigida ao Presidente da República Gal. João Baptista de Figueiredo, em abril de 1981, quando de sua visita ao Estado do Acre, o bispo D. Moacyr denunciava, corajosamente a utilização da Lei de Segurança Nacional, contra trabalhadores extrativistas e seus aliados. Na carta ele dizia:

(...) Mesmo considerando o acerto das desapropriações de terra em nosso Estado e o esforço de alguns órgãos para regularizar a situação fundiária, é forçoso reconhecer que em muitas áreas ainda vigoram o abuso, a violência e o desrespeito ao trabalhador rural. São de nosso conhecimento casos recentes de posseiros expulsos de suas terras pelo uso da violência, de casas queimadas, de indenizações fraudulentas feitas sob coerção, contrariando frontalmente até mesmo as determinações assumidas pela comissão de “alto nível” formada pelo Governo. É preciso reconhecer também que, devido o avanço do latifúndio em nosso Estado, estimamos que existem pelo menos 30.000 brasileiros morando na Bolívia. Aos poucos esses trabalhadores, contra a sua própria vontade, vão sendo obrigados a assumir a cidadania boliviana, ou são levados a mentir e enganar as autoridades daquele país, ficando assim expostos aos rigores da lei, enquanto, ansiosos, alimentam a esperança de conseguir terra e condições de trabalho na própria pátria. (...) Sr. Presidente, sentimo-nos profundamente amargurados quando vemos que irmãos nossos, como Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes) e João Maia, homens honestos, inteiramente dedicados aos serviços do bem-estar e da promoção do trabalhador rural estão indiciados na Lei de segurança Nacional, e hoje, no mesmo dia em que V. Excia., chega ao nosso Estado, estes amigos, junto com outros companheiros do Sul (Lula), estão sendo interrogados pela justiça militar. Não podemos aceitar que esses irmãos sejam injustamente enquadrados na Lei de Segurança Nacional, sem terem cometido crime algum. Doutra parte, a experiência tem mostrado que a Lei de Segurança Nacional, ao invés de oferecer segurança para o povo, o expõe constantemente ao arbítrio e ao abuso de poder. (...) De fato, enquanto líderes populares são enquadrados na Lei de Segurança Nacional, assassinos de líderes sindicais e de populares, permanecem soltos e impunes, sem que se perceba empenho das autoridades para esclarecer os crimes e punir os culpados. (...). (D. Moacyr escreve ao Presidente. Jornal Nós Irmãos. Rio Branco, maio de 1981).

Mas o foco principal da atuação não era um confronto contra a ditadura militar. Ela também era alvo da crítica desse setor da Igreja, porém os esforços convergiam mesmo era para a organização dos povos das periferias e das matas. No momento em que se agravavam os conflitos entre os antigos posseiros das áreas dos seringais e seus novos donos, a igreja “apareceu” imprimindo a idéia de resistência pela permanência na terra. Em 1974, lançou, no 1º Encontro do Vicariato do Acre, no município de Xapuri, um documento 162

oficial, tratando da questão fundiária e conclamando seus agentes pastorais a se mobilizarem em defesa do trabalhador rural, do seringueiro, do posseiro e do colono. As orientações da Igreja foram publicadas no boletim “Nós Irmãos” e, entre os diversos exemplares que trataram o assunto, encontramos um destacava na chamada de capa o seguinte título: ORIENTAÇÃO DA IGREJA DO ACRE E PURUS SOBRE O PROBLEMA DA TERRA. As indicações contidas são claras, no sentido de garantir a defesa dos trabalhadores que estavam sendo expulsos de suas áreas, vejamos os termos do manifesto, que embora seja longo, entendemos como necessária sua transcrição para melhor compreensão do forte papel desempenhado por essa ala da Igreja Católica na contenda:

Em face da grave situação criada pelo problema no Estado do Acre e em particular no território desta Prelazia, a igreja acre-puruense não entrando no lado técnico deste problema, mas inspirada no Evangelho de Cristo faz questão de dar a esse respeito suas diretrizes para todo o povo de Deus. A problemática das terras preocupa em especial os posseiros, colonos e seringueiros que vivem na maioria das vezes há vários anos no interior de nossos seringais e colônias sobre quem pesa a ameaça de deixarem suas posses sem perspectiva alguma de sobrevivência. Na realidade, com o passar dos dias, multiplicam-se os casos de posseiros, colonos e seringueiros que de maneira mais arbitrária e mesmo violenta vem sendo expulsos de suas posses sem o menor respeito a dignidade da pessoa e mesmo a lei vigente. Igualmente essa problemática vem preocupar os investidores do Sul, em especial aqueles que com toda vontade vieram investir seus capitais num Estado onde os títulos de terras em geral não se encontram devidamente legalizados e daí o fato de inúmeras vendas de terras se processarem de forma irregular. A orientação da igreja no que diz respeito aos posseiros é a seguinte: a. Conscientizar os posseiros de seus direitos segundo as orientações do INCRA, sobre a posse da terra; b. Urgir junto aos órgãos competentes a necessária documentação dos trabalhadores em consonância com a legislação trabalhista; c. Denunciar aos órgãos competentes: INCRA, 4ª Cia., Polícia Federal, Polícia Militar, Secretaria de Segurança as arbitrariedades cometidas contra estes trabalhadores; d. Defender mesmo na justiça, indivíduos ou grupos, quando nenhuma outra providência for tomada pelos órgãos de direito; e. Sugerir ao Governo do Estado e ao próprio INCRA, levando em conta o futuro destes trabalhadores, o enquadramento dos mesmos num plano geral de colonização do Estado. A orientação da igreja no que diz respeito aos investidores é a seguinte: a. b. Esclarecer no diálogo aberto com os investidores a real situação das terras no que diz respeito aos títulos em conseqüência com as diretrizes do INCRA; Fazer sentir ao Governo e aos compradores o problema do futuro dos colonos e seringueiros, que passado o ciclo das derrubadas e tiradas as possibilidades de subsistência ficarão totalmente marginalizados sem perspectivas; Fazer ver um diálogo com o governo do Estado a situação atual das terras que vem gerando preocupações, não só aos colonos mas também aos próprios compradores; Manter um contato constante com o INCRA, 4ª Companhia, Polícia Militar, secretaria de Segurança, Polícia Federal e justiça em vista do encaminhamento adequado desta problemática.

c. d.

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Estas orientações, dirigidas a todo o povo de Deus desta Prelazia, tem por finalidade a ação o mais rápido possível de todos os seus agentes pastorais em face de tão delicado problema ficando as posições públicas sobre o conjunto da igreja de competência exclusiva do Bispo e do Conselho Presbiteral. (Nós Irmãos. Rio Branco: junho, 1974).

Este documento foi assinado por Dom Moacyr Grechi, bispo da Prelazia do Acre e Purus, pelo padre Francisco Carmineo, providencial da Ordem dos Servos de Maria – Província do Brasil e mais onze padres, de vários municípios acreanos. Naquele momento, representava uma atitude de envergadura e, principalmente, de coragem, haja vista a situação do país à época, quando defender trabalhadores significava, no mínimo, receber o rótulo de subversivo. No caso do Acre, foi ainda mais emblemático, devido à tradição autoritária, entremeada nas bases fundadoras dessa sociedade, onde o coronelismo tinha deixado muitos herdeiros e adeptos ávidos de uma possibilidade de exercício do seu poder. Paralelo a este documento a Prelazia, acima retratada, também passou a reconhecer outro, anteriormente distribuído, pelos agentes pastorais, de autoria do padre do município de Sena Madureira, Paulino Baldassari, mas que não tinha recebido a chancela da Prelazia respectiva. Trata-se do CATECISMO DA TERRA, que ensinava aos seringueiros, colonos e posseiros a existência de alguns direitos e, principalmente, nomeava os órgãos responsáveis pela aplicação desses direitos. De forma bem didática, o CATECISMO DA TERRA procurava ensinar, especialmente aos seringueiros, a maneira de preservar o seu direito sobre a terra, já que tradicionalmente, estes não trabalhavam com a agricultura e por isso não produzia “benfeitorias” sobre as áreas ocupadas e usadas na extração do látex e coleta de castanhas. Uma das principais preocupações do CATECISMO DA TERRA era explicar aos seringueiros, ribeirinhos e pequenos produtores rurais as diversas modalidades de usucapião. Pois, no processo de limpeza das terras os “novos” proprietários não respeitavam nem mesmo as famílias que viviam há mais de duas gerações na mesma terra. Por vezes foram expulsas famílias que viviam há mais de cinqüenta anos na mesma localidade. Para Costa Sobrinho:
O documento significou um punhado de areia nos olhos dos “paulistas”. A pretensa arrogância (sic) dos supostos donos da terra agora era contestada por uma instituição de verdade e prestígio no seio dos humildes. A profunda desconfiança nas autoridades estaduais estava explícita no documento, ao orientar os trabalhadores a procurar instituições federais. (COSTA SOBRINHO, 1992: 163).

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Costa Sobrinho traduz dessa forma a importância dessa participação da Igreja no meio desses trabalhadores extrativistas e o impacto que essa presença causava aos “paulistas”. Note-se que ele deixa patente a confiança que essas populações devotavam a Instituição Igreja. A ativa participação da Igreja nesse período que vai do início da década de setenta até a virada do século, pode ser aferida com a leitura do boletim Nós Irmãos, criado em 1971. Neste boletim, as várias colunas se articulavam numa sincronia invejável nas formas de abordar os assuntos ligados ao problema da terra, da evangelização, do combate às arbitrariedades cometidas por “autoridades” do Estado, principalmente aos desmandos cometidos pelas polícias, fosse ela federal, militar, civil ou dos comandos militares. No boletim “Nós Irmãos”, a coluna “O Bispo Fala” e a coluna “Dos Setores”, são as mais articuladas nas denúncias. A coluna “Dos Setores”, trazia os informes das diversas áreas de atuação da Igreja, com destaque para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que divulgava todos os eventos e informações pertinentes à defesa da posse aos trabalhadores extrativistas; o Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), que denunciava às diversas formas de violência contra os trabalhadores e populações pobres dos bairros e seringais, além da violência política cometida pela ditadura militar; o Setor de Comunicação, que articulava notícias políticas internacionais e nacionais com a realidade local; do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que apresentava os informes sobre a situação indígena e; das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que noticiava os eventos que aconteciam nas diversas comunidades, incluindo as das áreas urbanas e rurais, que iam das dificuldades de acesso aos locais de moradia dos seringueiros, até os problemas do diaa-dia enfrentados por eles, como a carestia, a falta de escolas, a violência policial e a dependência dos marreteiros e atravessadores. Outra característica bem marcante no boletim “Nós Irmãos” é que sua profunda crítica às desigualdades sociais estava articulada às idéias de combate ao capitalismo, em alguns momentos defendendo mesmo teses revolucionárias. Muitas charges e até mesmo capas do jornal expunham essas referências, vejamos alguns exemplos:

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Figura 9

Figura 10

Na original (foto ampliada), lê-se na bandeira: “Eu os plantarei em sua terra e não serão mais arrancados da terra que eu lhes dei, disse Deus”. (Amós 9,15) Figura 11 Figura 12

Dos desenhos acima extraímos que, em se tratando de um boletim da Igreja Católica, as representações, as expressões das pessoas, demonstram muita animosidade. Em quase todas as edições há charges, caricaturas e desenhos opondo “gordos” proprietários e esquálidos trabalhadores ou, trabalhadores rurais apresentados como

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“decididos” e organizados, contra os “gordos” proprietários, representação típica dos fazendeiros, seringalistas ou, políticos de direita, encontradas no boletim. Vemos também, muitas representações de trabalhadores diante de cercas, trabalhadores reunidos para debater temas atinentes a seus afazeres, opondo-se a desenhos e representações de desmatamentos, caminhões carregados de toras de madeiras, tais como:

Figura 13

Figura 14

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Figura 15

Figura 16

Aliando traços de desenhos rústicos, feitos a lápis ou, no máximo, usando nanquim, quando havia necessidade de melhor traço, o boletim usava linguagem simples, em muitas colunas seguia o ritmo das mensagens utilizadas no rádio, pois se sabia que o público leitor ou ouvinte, não tinha muita intimidade com a escrita, muito menos uma escrita que usasse vocabulário rebuscado, aliado ao fato de que muitos líderes comunitários eram pessoas sem muitos conhecimentos formais da língua portuguesa. Podemos inferir, portanto, que essa disposição quase maniqueísta de representação dos conflitos sociais expressa no jornal emanavam, em parte, dos conhecimentos trazidos e traduzidos para a realidade do Acre, por jovens padres, freiras e agentes pastorais leigos provenientes da Itália ou sul do Brasil. No caso dos italianos, embora alguns tenham vindo muito cedo para o Brasil, vários deles tinham fortes ligações com a esquerda italiana ou, no mínimo, tinham noção da divisão política característica daquele país (Esquerda X Direita X Democracia Cristã), onde os partidos que representam os socialistas/comunistas sempre tiveram uma forte representação parlamentar e sindical. Nesse sentido, não é de se estranhar que alguns desses membros da Igreja desenvolvessem vínculos organizativos com setores partidários, mesmo que clandestinos, da esquerda acreana e tivessem como meta a formação dos sindicatos. Essa vinculação foi fundamental para a organização dos sindicatos de trabalhadores rurais na década de setenta

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e corroborou nos anos oitenta para uma forte influência na fundação do PT no Acre, rompendo, de certa forma, com os outros partidos com viés mais classista. Em sua dissertação de mestrado, Nilson Mourão (1988), um dos fundadores das CEBs e depois do PT, no Acre, comenta como foi se dando essa transição da vida religiosa para uma convergência com a vida partidária. Para Mourão, “esse momento de transição foi acontecendo quase naturalmente”. Quando se comemorava os dez anos de CEBs no Acre, em 1981, coincidentemente, estava se dando também o nascimento do PT em níveis local e nacional. Então as reflexões sobre esses dez anos exigiam novas diretrizes, novas orientações para a ação. Não foi difícil, a partir dessa conjuntura, entrelaçar os elos, formar a corrente. As orientações para as Comunidades Eclesiais de Base e, principalmente, para seus dirigentes, apontavam para a necessidade de uma vinculação partidária, fosse pelo voto, pela militância, pela filiação, ou até pela candidatura à representação, ou seja, para a Igreja que comandava as CEBs naquele momento, não havia incongruência na sua ação, com a ação político-partidária, desde que os membros das comunidades orientassem essa participação para:

Partidos que sejam populares, mesmo, isto é, que dêem oportunidade ao povo de participar de forma crescente até nos postos de liderança; que defenda os direitos dos oprimidos; que visem à mudança social e não a sua própria manutenção; que combatam a ditadura e todo poder opressor; que lutem contra a dependência econômica do Brasil; que tenham uma orientação socialista, isto é, que visem colocar o poder e a economia nas mãos do povo organizado. (MOURÃO, 1988: 226/7).

Na verdade, pela interação dos itens com o programa do PT, só faltaria acrescentar que fosse voto, militância, filiação ao PT, haja vista serem as indicações inteiramente vinculadas às propostas desse partido em seu nascedouro. O bispo D. Moacyr, contudo, não concorda que as CEBs tenham “assumido” integralmente as propostas do PT, para ele as CEBs são anteriores e já vinham defendendo essas teses de que era preciso organizar as populações mais pobres, que era preciso evoluir para ações que fortalecessem os sindicatos, porque eles eram mais amplos e abrigavam pessoas de outras crenças, mas que se irmanavam na defesa de seu direito a vida:
“Nós queríamos então que o povo conhecesse o Evangelho, confrontasse com a própria vida e fizesse as mudanças necessárias e, onde se valorizasse o leigo e que ele assumisse a animação da

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comunidade, enfim que assumissem as tarefas. É o primeiro momento, então, as comunidades se expandem e atingem os seringais, colônias e projetos que estavam começando. Esse aspecto de liderança de leigo, essa ligação entre Evangelho e vida, leva então a organização sindical. A comunidade é mais para os que têm fé, são católicos; depois os sindicatos já é expressão do amor de alguém que participa da comunidade, mas se une também a membros de outras Igrejas e pessoas que não tem opção de fé, pelos direitos do trabalhador”. (Apud. Simeone da Silva. 1998: 305).

Se considerarmos a evolução da doutrina social da Igreja, como faz Enrique Dussel (1996), veremos que D. Moacyr tem razão, pois a Igreja já havia aderido ao método marxista, antes do surgimento do PT, enquanto partido que se reivindicava também, marxista. Para Dussel:

Na verdade, historicamente, antes da teologia existiu a práxis cristã e a fé da Igreja, de grupos cristãos e dos futuros teólogos. As questões que a teologia latino-americana nascente devia expor, justificar, para servir aos militantes cristãos, foram razões teológicas que deram conta do sentido do “compromisso político” desses cristãos. Mas por que comprometer-se politicamente? Para efetuar uma mudança social, econômica e política, que permitisse que as classes exploradas (primeiro), os pobres (mais teologicamente) e o povo latino-americano (por último) alcançassem uma vida justa, humana, realizada. A dupla exigência de pensar teologicamente o “compromisso político” para servir aos oprimidos, aos “pobres”, ao povo exigia que a nascente teologia usasse outros instrumentos analíticos interpretativos, que não eram os mesmos utilizados pela tradição teológica anterior. Ante a ausência de uma filosofia adequada constituída, era preciso utilizar as ciências sociais críticas latino-americanas. Não só ciências sociais (como a sociologia e a economia etc.), mas ciências sociais “críticas” (porque se tratava de descobrir e situar a realidade da injustiça) e “latinoamericanas” (porque nosso continente tinha questões “próprias” para resolver). Assim, não foi uma decisão a priori, dogmática ou epistemológica. A partir da práxis e da fé cristãs, e por critérios fundamentalmente espirituais e pastorais (o “fato” de que os cristãos comprometiam-se politicamente a lutar contra a injustiça, tal como exigia a doutrina social da Igreja), era necessário que houvesse categorias de análise. (DUSSEL, E. Teologia da libertação e marxismo. 1999: 491/2 In. LOWI, M. O marxismo na América Latina. São Paulo. Ed. Fundação Perseu Abramo, 1999).

Mais ainda, na concepção de Dussel (1999), esse foi o caminho que levou a Igreja a adotar, no nascimento da teologia da libertação, alguns instrumentos e categorias marxistas. Considerando que esse procedimento pode, inclusive, ser classificado como uma “revolução epistemológica” na história mundial da teologia cristã, pois foi a primeira vez em que se usou “ciências sociais críticas” e, mesmo considerando que houve uma filtragem muito eficiente dentro do pensamento marxista, para separar pontos mais conflituosos, a adoção dessas categorias ainda assim, provocou áreas de tensão, crises mesmo, dentro do corpo doutrinário cristão. A filtragem realizada pelos teólogos cristãos sobre que categorias marxistas adotariam, explicava-se diante de uma realidade onde a injustiça condenada, a pobreza e suas causas, eram também efeitos de ações, em muitos pontos, coadjuvadas pela própria 170

Instituição. Dussel localiza as principais vertentes categoriais marxistas adotadas pela nova teologia cristã na seguinte passagem:
Entre os marxismos possíveis existe uma negação unânime do “materialismo dialético”. Nenhum dos teólogos da libertação aceita o materialismo de Engels na Dialética da natureza, nem o de Lênin, Bukarin ou Stalin, como “filosofia”, ao estilo de Konstantinov. Marx é aceito e adotado como crítico social. O próprio acesso a Marx é duplo; por um lado, pelas leituras secundárias (como Yves Calvez, na França, ou Welte, na Alemanha); por outro, principalmente no início, por meio do “jovem” Marx (até o Manifesto de 1948). Na primeira geração de teólogos (de Juan Luis Segundo a Coblim, Gustavo Gutiérrez, ou em minha posição ao início da década de 1960), a influência francesa foi determinante. De J. Maritain passou-se a E. Mounier, e daí ao pensamento de Lebret, em Economia e humanismo. Teilhard de Chardin também inspirou o pensamento dessa época. Mas Marx chega por meio da Revolução Cubana (1959), e por isso a leitura é simultânea: o jovem Marx, obras de Che Guevera, Gramsci e Lukacs. (...) Isto é, um Marx “humanista” – de acordo com a denominação da época – não dogmático, nem economicista, nem materialista ingênuo. Os padres Cardonel e Blanquart, franceses, também influem na primeira “recepção” do marxismo na futura teologia da libertação. Não houve acesso direto ao Marx “definitivo” ( a partir de 1857; e, como veremos, será pouco freqüente até hoje). (Idem. P. 492/3).

Nesse mesmo sentido, Frei Betto, um dos principais “teólogos da libertação”, escrevendo sobre Cristianismo e marxismo, asseverou que:

O marxismo é, sobretudo, uma teoria da práxis revolucionária. Isso não impede que certos marxistas queiram transformá-lo numa espécie de religião com seus dogmas, fundada na leitura fundamentalista que faz das obras de Marx, Engels e Lênin uma nova bíblia. Afinal, o marxismo, como qualquer obra teórica, jamais poderá ter uma única leitura. O processo epistemológico ensina que um texto é sempre lido a partir do contexto do leitor. Esses “óculos” da realidade determinam a interpretação da teoria. Assim, a obra de Marx pode ser lida pela ótica do materialismo positivista de Kautsky, do neokantismo de M. Adler, do hegelianismo voluntarista de Gramsci ou objetivista de Lukacs, do existencialismo de Sartre, do estruturalismo de Althusser, bem como à luz da luta camponesa de Mao Tsé-Tung, da guerrilha cubana, da realidade peruana de José Carlos Mariátegui ou da insurreição popular sandinista. (BETT0, 1999: 486. In. LOWI, M. 1999).

Tanto para Frei Betto, como para Enrique Dussel, o que parece adquirir mais importância é o fato de se usar um instrumento, no caso o marxismo, como um referencial que possa se compatibilizar com o cristianismo. Nesse caso, os dois vêem o marxismo como ferramenta de libertação dos povos oprimidos e, assim sendo, compatível com as novas proposições que a Igreja almejava para sua também nova visão da prática cristã, ou seja, a luta contra a injustiça, contra a pobreza, contra as desigualdades econômico-sociais. Nesse sentido, a utilização de categorias marxistas como ferramentas de libertação, vai implicar também uma releitura do próprio marxismo no seio de boa parte da militância

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comunista e socialista que há época também viviam um processo de reavaliação da utilização do marxismo como “religião”. Para Frei Betto:

(...) o marxismo e os marxistas não podem ignorar o novo papel do cristianismo como fermento de libertação das massas oprimidas da América Latina. Contudo, para apreender esse potencial revolucionário do cristianismo, o marxismo deverá romper a camisa-de-força de sua ótica objetivista e reconhecer o papel da subjetividade humana na história. Isso implica a superação da tendência economicista e, nos regimes socialistas, de uma certa “metafísica do Estado”, para se admitir a autonomia relativa das superestruturas. A prática revolucionária extrapola o conceito e não se esgota em análises estritamente científicas, pois encerra necessariamente dimensões éticas, místicas e utópicas. O progresso alcançado pelos países socialistas e a ideologia encarnada pelo partido são insuficientes para equacionar todos os aspectos da relação interpessoal e suas conseqüências sociais e políticas. (BETT0, 1999: 486. In. LOWI, M. 1999).

Inegavelmente, a interseção do pensamento marxista com o cristianismo de certos setores da Igreja criou uma realidade impar no contexto da América Latina, com implicações em diversos ambientes de atuação desses dois segmentos. Afinal, a luta contra as injustiças sociais, pela reforma agrária e, até contra a ditadura militar, empreendida por esses setores ditos progressistas da Igreja, constituía a mesma argamassa dos comunistas e socialistas que militavam no país, mesmo considerando as variegadas interpretações de cada corrente. Diante dessa heterogeneidade, tanto no seio da Igreja, como dos diversos partidos que se reivindicavam comunistas ou socialistas, tendemos a concordar mais uma vez com Gómez de Souza, quando ele pondera que:

Não é fácil escrever sobre uma instituição tão complexa e heterogênea como a Igreja Católica, com suas divisões e tensões internas. Para Émile Poulat é um típico caso de conflito no consenso ou de consenso no conflito. Nela se cruzam diferentes tendências que têm a ver com a diversidade social, política, cultural e claro está, espiritual da sociedade mais ampla onde ela se insere. Assim, alguém que faz parte de uma pastoral comprometida com lutas sociais, como a Comissão da Pastoral da Terra (CPT) tem uma prática e opções diferentes de um membro de Opus Dei. Mas além disso, temos de distinguir entre a Igreja Católica como instituição, com suas estruturas de poder eclesiástico e como comunidade de fiéis, ou povo de Deus, para empregar uma expressão do Concílio Vaticano II. No caso brasileiro, é bom levar em conta ainda, a Igreja é um ator importante na vida social, política e cultural do país. (GÓMEZ de SOUZA, 2004. p 77).

De outra face, também não é fácil escrever sobre as diversas correntes de interpretação marxista que dominava os partidos, pois como observou Frei Betto: “A riqueza e a originalidade da teoria marxista reside justamente em estar vinculada à prática revolucionária que, em sua dinâmica, confere e contesta a teoria que a inspira”.

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Valemo-nos dessas passagens de Dussel, Gómez de Souza e Frei Betto, não para reduzir o debate do marxismo sobre objetividade e subjetividade, nem sobre o que é dialético e revolucionário nas práticas da Igreja, mas sim, para aproximar parte de um debate teórico que ocorria no âmbito da igreja enquanto instituição e as diversas realidades cotidianas que seus agentes participavam. Nessas décadas de setenta e oitenta são vários os exemplos de bispos, padres, freiras e agentes pastorais leigos que se envolveram em lutas revolucionárias, inclusive luta armada, como nos casos da Nicarágua e El Salvador, ou em outras lutas como a luta pela reforma agrária no Brasil. No mesmo período, tivemos a ação de outros bispos, padres, freiras e agentes leigos que militavam juntos em organizações como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), em direção oposta, mas não menos radical de militância que também tinham vinculações sociais, mesmo que as consideremos como ações conservadoras e reacionárias. Percebemos, portanto, que o aspecto de uma militância engajada, fosse de direita ou de esquerda, unia e separava segmentos clericais e marxistas no desenrolar dos conflitos, tanto no ambiente interno da igreja, como entre igreja e partidos políticos mais “dogmáticos”, no plano externo. Sem contar que há, ainda, casos emblemáticos do pensamento marxista latinoamericano, como é o caso de José Carlos Mariátegui (2008), que no início do século XX, ao observar a devoção e o fervor com que os indígenas peruanos participavam das procissões e rituais cristãos, ao mesmo tempo em que mantinham seus rituais milenaristas, asseverou que uma revolução no Peru, teria que passar por uma forte análise das influências religiosas no seio do povo. Alerta que ele fazia também aos partidos comunistas, indicando que os povos Incas representavam um grande exemplo de comunismo primitivo na América, que não havia sido objeto de estudo pelos formuladores das teorias marxistas européias. Não podemos perder de vista, também, que ao longo da história da América, tanto hispânica, quanto portuguesa, vários nomes ligados a Igreja, desempenharam importantes papéis ao abraçarem causas populares ou se posicionarem na defesa de indígenas e das classes populares subalternas, como é o caso de Bartolomé de Las Casas, na América Central, os padres Hidalgo e Morelos, no México, o Padre Antônio Vieira e Frei Caneca, 173

no Brasil, o bispo Oscar Romero, em El Salvador, entre tantos outros que, no mínimo, podem ser considerados como verdadeiros expoentes no desencadeamento de lutas populares e algumas vezes, até mesmo revolucionárias, pela forma engajada com que se incluíam na realidade do seu tempo. Ou seja, a igreja no Acre estava envolvida numa discussão que não era nova em âmbito latino-americano, mas ao mesmo tempo era inédita nessa região e, principalmente, para população à qual estava engendrada. Passados, portanto, pouco mais de trinta anos dessa intervenção e ainda vivendo no curso de uma mesma geração, da qual somos contemporâneos, observamos que as contendas persistem e vão ganhando dimensões para além da subjetividade. Mas, à guisa de conclusão sobre o papel da Igreja nesse processo, é possível interpretar que as contradições, contraditoriedades, ambigüidades e ambivalências existentes no nível interno da Igreja acerca do tipo de marxismo a ser adotado e, principalmente, do nível de radicalidade em que as lutas deviam ser travadas, serviram de alavanca nas mobilizações e organização dos trabalhadores em alguns momentos, ao tempo em que no momento subseqüente, servia de atravancamento para outras possibilidades de resolução dessa mesma luta. Há, contudo, um grande mérito podemos até dizer, um mérito inquestionável, na ação Católica para os seringueiros do Vale do Acre, para os índios, os ribeirinhos e as populações pobres das periferias das cidades acreanas, principalmente de Rio Branco, Brasiléia e Xapuri, nesse período que vai do início da década de setenta até a virada do século. É o mérito de ter sido a precursora dentre as instituições urbanas a tomar sua defesa, a acolhê-los, quando em muitos casos não restava mais nem o “bispo a quem reclamar”, a quem recorrer. Quando relacionamos os índios entre os povos beneficiados, não estamos nos referindo a nenhum tipo de missão evangelizadora, catequética daqueles, mas sim, a defesa pela demarcação de suas terras e, nesse caso, até mesmo a exigência de que fossem respeitados em sua identidade, como é característico da ação do Conselho Indigenista Missionário, o CIMI. Esse mérito reside ainda no fato de que a “ajuda”, o acolhimento, não se dava apenas quando os seringueiros chegavam à cidade de “mudança” ou, vinham à cidade em 174

busca de “seus direitos”, mas dava-se, principalmente, no fato de ir até eles, se embrenhar nas matas e falar de “seus direitos”, lá onde outras “autoridades” não colocavam os pés, a não ser quando enviavam policiais para defenderem os “direitos de quem os tinha”, obviamente estamos falando dos “donos” das terras. Por outro lado, as divergências, as confrontações internas, também serviam como “freio”. Partes dos ativistas religiosos eram pressionados por seus “fiéis” da cidade a não pregarem, a não aderirem ao “comunismo”. As acusações feitas pelos fazendeiros e pelos políticos de direita de que a Igreja estava apoiando os comunistas, ou mesmo de que alguns padres eram comunistas, não eram pouco importantes. Afinal, a Igreja até aquela data também tinha sua base quase que totalmente vinculada às cidades. A não ser nas “desobrigas”, os contatos com os “povos da floresta” eram insignificantes. Como os bispos e padres faziam parte do conjunto de “autoridades” das cidades, suas situações eram questionadas por alguns pares e por alguns fiéis, que não entendiam, ou não aceitavam aquela “virada” da Igreja. Em meio a essas pressões externas e mergulhados em suas próprias contradições internas, alguns setores da Igreja, foram no decurso dos anos, formatando uma tez mais conservadora, introduzindo uma noção de limites para suas ações e de seus pares. A visão “humanista” era sempre argüida para estabelecer esses limites. Quando, por exemplo, alguns líderes sindicais tentavam introduzir as idéias de vingar os sindicalistas e seringueiros mortos pelos jagunços ou fazendeiros, esses setores cuidavam de desarticular as idéias. Para eles a existência do sindicato já era um fator equacionador das questões, que “dava voz a quem não tinha”, e a voz e a fé já eram suficientes para mudar o rumo das coisas. É nesse sentido que a fundação do PT, junto com a arregimentação de grande parte das lideranças das Comunidades Eclesiais de Base para esse partido, vai deslocar o foco das lutas diretas contra os fazendeiros e contra as estruturas do Estado, para o chamado campo institucional. Muitas lideranças são chamadas a participar como candidatos nas eleições municipais, partidarizando (aparelhando) os sindicatos e desconfigurando a radicalidade política de sua configuração original. Como não podemos reconstruir o passado em outras bases que não sejam as apontadas pelos fatos históricos, para testarmos as alternativas hipotéticas, por exemplo, 175

saber que rumo teria sido dado para as lutas sindicais na configuração proposta por alguns líderes, para responder a morte de cada seringueiro, de cada posseiro, com a morte de um fazendeiro, temos que percorrer os caminhos realmente trilhados, ou seja, na luta dos seringueiros, entre muitos caminhos possíveis, eles seguiram também o da pacificação, proposto pela sua aliada de primeira grandeza, a Igreja.

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3.3 OUTROS ALIADOS URBANOS: PARTIDOS, CONFEDERAÇÕES E CENTRAIS SINDICAIS.

Embora tenhamos destacado como um tópico diferente, a história desses outros aliados urbanos dos trabalhadores extrativistas, está ligada à ação da Igreja Católica, conforme perceberemos na articulação dos temas. Dizemos isso porque, no início da década de setenta, quando começaram os conflitos entre seringueiros e fazendeiros, foi também uma época coincidente com uma das fases “duras” do regime militar. Se considerarmos a situação partidária, por exemplo, veremos que no Acre vigorava aquele bipartidarismo “tradicional”, instituído pelos militares (ARENA X MDB), ou seja, era uma existência partidária consentida pelos militares e que abarcava apenas setores muito restritos da sociedade, na linguagem dos economistas, “os homens que contam”, isto é, aqueles “endinheirados”, que ocupavam postos de comando, tanto na economia como na política, o que “coincidentemente”, recaia sobre os mesmos nomes. Ademais esses partidos tinham vida prioritariamente urbana e, mesmo nesse espaço, sua ligação com a população era pequena. Como o Acre era até 1962 Território Federal e todos os seus sete municípios, existentes até então, estavam circunscritos no que se denominam áreas de fronteira, a população não tinha mesmo muita identificação com processos eleitorais, já que os cargos de governador e prefeitos eram nomeados pela Presidência da República. Após o Golpe Militar de 1964, a situação não mudou, pois logo após a destituição de José Augusto de Araújo, primeiro Governador eleito pelo voto popular, em 1962, o general de plantão voltou a nomear governador e prefeitos. Se a população urbana não tinha intimidade com eleições, tinha muito menos com os partidos, que desde sempre eram coisa de “gente grande”, isto é, de patrões seringalistas, anteriormente e, depois de comerciantes, fazendeiros e madeireiros. Portanto, se a maioria da população urbana não tinha participação política diretiva, muito menos tinha a população dos altos rios, dos seringais. Em se tratando de movimento sindical, o distanciamento também era considerável. Só nas cidades se tinha algum embrião de vida organizada de trabalhadores, especialmente servidores públicos, mais com viés associativista, recreativo, do que propriamente sindical.

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Essa situação de distanciamento da população, não só dos partidos, mas da vida política que identificamos no Acre, contudo, não era (é) uma situação episódica, regional. O distanciamento político de grandes parcelas da população, dos centros de poder, sejam eles políticos ou econômicos, é uma característica que percorre todo o Brasil, na verdade, essa é uma condição que com raríssimas exceções, podemos estender para toda a América Latina. Basta lembrarmos os “quatelazos”, “bogotazos”, “pinochetazos” “revoluções”, golpes e contragolpes em que estão enredados os comandos militares dos países latinoamericanos e as elites conservadoras ou liberais que os acompanham. Mesmo sabendo que quando amanhecia a década de oitenta do século XX, quase todos os países do cone Sul estavam vivendo o que Guilhermo O'Donnel (1984), classificou como a “transição dos regimes autoritários”, isto é, estavam vivendo a transição para a “democracia”, entendida neste contexto como sinônimo de eleição, ou retorno de um civil à Presidência da República. Mesmo tendo atravessado esse século marcado pelo autoritarismo, pelo militarismo, há quem afirme que o século XX, com todos os percalços, consolidou a democracia no nosso continente. Homero Costa, por exemplo, escrevendo sobre “democracia, eleições e partidos políticos”, afirma:

A democracia moderna, consolidada no século XX, especialmente nos países desenvolvidos, é produto de um lado, da criação e o aperfeiçoamento de instituições políticas que regulam os conflitos sociais através da competição política, e por outro lado, da implantação do sufrágio universal, como forma privilegiada de participação política. A democracia tem como fundamento à competição política, que supõe, como condição essencial, sistemas políticos competitivos, com partidos políticos organizados e na qual as eleições são fundamentais como fonte de legitimação (COSTA, 2004: 01).

A concepção de Costa, respeitada a ressalva aos países desenvolvidos, é pertinente para o nosso continente, desde que admitamos que ele expressa a compreensão de que, embora vivêssemos numa América Latina que apresentava conjunturas manifestadamente autoritárias e excludentes, alguns partidos, e isso é inegável, se mantiveram ao longo do século XX, como partidos “consolidados”, sem levarmos em consideração, obviamente, os métodos que usaram para se manterem ou, para se sagrarem vencedores dos processos eleitorais. Basta lembramos o Partido Revolucionário Institucional (PRI), no México, que passou mais de setenta anos no poder, ou o Partido Colorado, no Paraguai, que também ficou mais de meio século no poder (só perderam sua hegemonia no início do século XXI), 178

os dois sendo acusados de serem especialistas em fraudes eleitorais, mas fraudes estas que aconteciam exatamente para derrotar o(s) adversário(s), o que demonstra a existência de competitividade. No Brasil, embora mudando de siglas, há uma permanência de revezamento entre um partido conservador e um liberal no poder e, desde 1922, uma incômoda presença de um ou mais partido comunista (legal ou clandestino) e, um ou outro dito “Trabalhista”, fincando bandeiras de oposição e tentando organizar a classe “operária”, da qual eles se colocam como representantes. Devemos considerar ainda que no Brasil, há um campo fértil para a caricaturagem partidária, a exemplo do que foram as eleições de Jânio Quadros para presidente pelo PDC, de Fernando Collor pelo PRN, ou mesmo do vice-presidente dos dois governos de Luis Inácio Lula da Silva, o empresário José de Alencar no primeiro mandato pelo PL e no segundo pelo PRB, todos eles construíram novas siglas para acomodar suas candidaturas, ou seja, fica demonstrado que os indivíduos conseguem serem maiores dos que os próprios partidos. No Brasil pós Regime Militar, especialmente após a promulgação da Constituição de 1988, o quadro havia se mantido quase inalterado, exceto pela volta à legalidade dos partidos comunistas e a criação de uma série de outros que orbitavam nos espectros do centro, da direita e da esquerda. José Gomes da Silva (2004), escrevendo sobre os partidos políticos na década de oitenta, assegura que:
A frágil e recente organização partidária brasileira ainda pode ser tipificada pela classificação simplista de “esquerda e direita”. Assim mesmo, nos marcos do atual presidencialismo-imperial (que a Nova Constituição não conseguiu eliminar), mesmo esse discutível matiz ideológico é anulado por práticas primitivas como o fisiologismo, regionalismo, clientelismo populismo e caudilhismo, todos embrulhados num imenso manto de pobreza que impede ou dificulta o exercício de virtudes maiores como as do civismo, cidadania, coerência ideológica etc. Sem embargo, exatamente na questão da Reforma Agrária tem sido possível diferenciar as posições esquerda-direita de forma mais nítida. (GOMES da SILVA, 2004: 169- 170).

Ou seja, para Gomes da Silva são temas específicos e conjunturais e não projetos políticos das organizações partidárias, que permitem definir os perfis dos partidos no Brasil. No caso em análise ele identifica essas posições pela aproximação com o tema da Reforma Agrária na Constituinte de 1987/88, detectando que as oscilações dos blocos conservadores, são tão marcantes que no processo Constituinte eles chegaram a fundar o “Centrão”, que reunia parlamentares de praticamente todos os partidos para tomada de

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decisão de certos temas, orientados que eram esses parlamentares, por seus interesses regionais, pelo clientelismo, pelo fisiologismo, ou mesmo por critérios ideológicos. É nesse contexto de uma América Latina e de um Brasil em que a existência partidária sempre esteve vinculada a ambigüidades, contradições e transições, que vamos encontrar no Estado do Acre, os partidos permitidos pelo regime militar na busca de um ajuste que o integrasse ao País pelas vias de uma mudança econômica, política e social, moldada numa formulação positivista de ordem, desenvolvimento e progresso. Nos anos iniciais do último quartel do século XX, o Estado do Acre vai apresentar um quadro político muito parecido com um resumo da situação da América Latina, ou seja, constituía-se, ainda, como um cenário transitório, uma espécie de palco fronteiriço, onde os atores procuravam seus papeis em meio a conjunturas voláteis, imprecisas. Nas duas décadas anteriores (50-60), pelo menos, havia o movimento autonomista, que defendia a passagem do Acre à condição de Estado, que servia de divisor de posições, de fermento para as disputas e para expressar as diferenças entre os partidos, mas com a passagem do Território Federal a Estado, em 1962, essa bandeira, desbotou, desfiou. A partir de então, os partidos passaram a disputar sobre quem era mais “amigo”, ou menos “amigo”, do poder central, para se credenciar como interlocutor daquele, já que o Estado, desde a falência da borracha, sobrevivia (sobrevive) dos repasses de recursos federais, garantidos na rubrica do Fundo de Participação dos Estados (FPE). A única instituição mais permanente, no sentido de manter uma maior influência sobre a população, era exatamente a Igreja Católica que, como já vimos anteriormente, desde o início da década de sessenta, também estava abalada por movimentos reformistas. Mas, será esta instituição, especialmente o setor ligado a Teologia da Libertação, que de fato, vai estar presente nas articulações políticas que envolveram esses outros atores, fora do palco dos dois partidos conservadores. Então, vejamos qual era mesmo essa conjuntura a qual nos referimos como sendo um resumo da situação de transição que caracterizava a América Latina naquele momento. Como já referimo-nos, os partidos políticos tradicionais (conservadores e/ou liberais), nunca atuaram no sentido de romper com a dependência sistêmica oriunda do período colonial, salvo os combates individuais de alguns membros desses partidos nas lutas pela independência, nos discursos nacionalistas, ou desenvolvimentistas, mas, uma 180

tomada de posição enquanto partido mesmo, pragmática, orgânica, com uma avaliação forjada desde dentro, isso não vamos encontrar. No campo da esquerda, também convivemos com indefinições estruturais. Marta Harnecker (2000) nos fala de uma tripla origem para a crise teórica que vive a esquerda na América Latina, nos seguintes termos:
Em primeiro lugar, a sua incapacidade histórica de elaborar um pensamento próprio, que parta da análise da realidade do subcontinente e de cada país, das suas tradições de luta e das suas potencialidades de mudança. Salvo escassos esforços que se fizeram nesse sentido (destaca Mariátegui nos anos 20; os esforços inconcluídos de Che Guevara e de alguns teóricos da dependência nos anos 60; além das contribuições de Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, entre outros) a tendência foi antes de extrapolar esquemas de análise próprios de outras latitudes. Analisava-se a realidade com parâmetros europeus: por exemplo, considerava-se a América Latina como uma formação feudal quando era capitalista dependente, ou aplicava-se o esquema de análise classista europeu a países que tinham uma população majoritariamente indígena, o que levava a desconhecer a importância do fator étnico-cultural (destaca o estudo de José Aricó, 1988 que aponta essas tendências). Em segundo lugar, ela não foi capaz de realizar um estudo rigoroso das experiências socialistas – tanto de seus êxitos como dos seus fracassos - , e isto tem em parte a ver com a escassa ou nula divulgação científica que delas se fez (destaca os trabalhos do francês Charles Bettelheim, como exceção); e também não realizou uma análise séria das causas das suas derrotas. (HARNECKER, 2000: 319).

Podemos, em termos gerais, considerar que era assim que o Acre se encontrava: por um lado, os partidos permitidos pelo regime militar se esforçando para agradar o poder central, buscando aqui reproduzir políticas que estivessem sincronizadas com o pensamento daqueles, principalmente reproduzindo suas concepções de progresso/desenvolvimento e segurança, por outro, os partidos de esquerda, respeitadas as limitações da clandestinidade e depois, na década de oitenta das incipientes organização/reorganização, que permitiram suas “legalizações”, também reproduzindo análises onde a realidade local era amoldada aos receituários produzidos em outros parâmetros, por exemplo, ver os seringueiros como camponeses (estilo europeu) e os funcionários públicos como as classes operárias industriais. Contudo, em que pese os equívocos de análise conjuntural, a existência desses partidos de esquerda serviram de caixa de ressonância para os problemas sociais que as políticas institucionais vinham acarretando contra os trabalhadores extrativistas. Dizendo de outro modo, a presença de militantes partidários (comunistas e socialistas) nos meios religiosos, estudantis e de categorias de servidores públicos, contribuiu para estabelecer linhas de enfretamento, de contestação e de organização desses trabalhadores em suas diversas formas de luta, fosse na radicalidade com que aderiram à idéia dos empates, 181

fazendo-se caixa de ressonância nos espaços urbanos dessas lutas dos trabalhadores extrativistas, fosse na força das reivindicações que sugeriam, que apresentavam para os sindicatos, inserindo novas reivindicações à monotemática questão da terra. O fato dos militantes da esquerda no Acre terem abraçado as causas dos seringueiros nas suas lutas pela terra, misturando sua militância contra a ditadura, com uma causa de raiz local, também serviram para orientar a militância no sentido de um envolvimento fora do tradicional ambiente dos comunistas no Brasil, que era a classe média urbana e alguns segmentos intelectuais, dentro e fora das universidades. Isso significa que houve uma troca de interesses entre os militantes partidários e os trabalhadores extrativistas. Essa complexa aproximação vai dar sustentação para a construção de uma força partidária que toma corpo no final da década de oitenta e vai se tornar muito forte durante a década de noventa, tornando-se hegemônica na primeira metade da década que iniciou o terceiro milênio. Esses desdobramentos serão tratados no próximo capítulo. Duas novidades marcam também esse cenário pós-Golpe Militar de 64, que de alguma forma influenciariam as relações políticas futuras no Estado a partir de então, principalmente na capital, Rio Branco. A primeira foi a fundação da Universidade Federal do Acre, mais especificamente a criação dos cursos de Direito, em 1964; de Economia em 1968 e a de mais cinco cursos em 1970; resultando na formação de um Centro Universitário que redundaria na criação da UFAC, em 1974 e; segunda, a chegada de várias unidades das Forças Armadas (Batalhão de Engenharia e Construção - BEC, Batalhão de Infantaria e Selva - BIS, etc.), essas no início da década de setenta, com o intuito de “resguardar as fronteiras” (BIS) e atuar na construção das estradas (BEC) (BR-364, BR-317), que faziam parte da estratégia de integração projetada pelos militares e elites civis que comandavam o país. Não seria demasiado repetir que o movimento autonomista, a recente transformação do Território Federal em Estado, a eleição do primeiro Governador do novo Estado pelo voto direto e, em seguida sua destituição pelo regime militar, junto com a chegada da Universidade, das unidades do exército, das levas de compradores de terras (paulistas), das levas de colonos para os projetos de assentamento, agravados pelos deslocamentos (expulsões e êxodos forçados) das populações tradicionais, dentre outras mudanças, a situação do Estado era, no mínimo, muito agitada. 182

Consideremos ainda, as alterações que provocavam em cidades pequenas, a chegada de quinhentos, mil, ou mais soldados de uma só vez, que além das bebedeiras e “agitos” próprios da faixa etária dos recrutas, do impacto econômico, pela movimentação dos diversos ramos do comércio, tais como: alimentício, imobiliário, hoteleiro, vestuário, comércio de bebidas, etc., causavam também um frisson entre as mulheres de todas as faixas sociais. Era uma profusão de casamentos, namoros e, também incremento da prostituição, bastante significativos. Adicione-se que além dos soldados e patentes mais elevadas da carreira militar, vinham também outras levas de civis: operadores de máquinas pesadas, engenheiros, topógrafos, etc., que incrementavam essa leva de “solteiros” nas cidades, deixando os jovens nativos numa situação de desigualdade na competição por uma namorada, uma futura esposa. A chegada dos soldados, do exército em si, causava espécie por toda a sua indumentária instrumental, especialmente a figura do “comandante” e das patentes mais elevadas, que literalmente “mandavam e desmandavam” nessas localidades, com destaque também para seus outros significados: fardas, máquinas pesadas, caminhões, carros, aviões, helicópteros e, principalmente, as promessas de construção das estradas e os anúncios do progresso, que mexiam com a imaginação e o imaginário das pessoas. Para aquelas pequenas cidades em que o ritmo era marcado pela lentidão dos transportes fluviais, em que as novidades eram raras, inclusive, eram raras as pessoas diferentes que se aventuravam por aquelas plagas, esse novo momento, esse conjunto de acontecimentos não passavam sem significação. O outro acontecimento importante, a instalação da Universidade, ficou mais restrito à capital. Sua repercussão nos movimentos sociais e partidários que compõem esse quadro de mudanças só vai ser mais visível a partir do final da década de setenta, quando alguns professores e estudantes começam a ter uma vida política mais ativa, no sentido de demonstrar preocupações com a falta de democracia e com a situação social dos trabalhadores rurais. O que queremos explicitar é que, de todo esse conjunto “novidadeiro”, que gerava expectativas e oportunidades para poucos, tinha contornos, especialmente contornos sociais, definidos. As idéias de ordem, desenvolvimento, integração e progresso, dentre

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outras, não eram por excelência, inclusivas, longe disso e pelo contrário, eram arquiteturas sociais excludentes e repressoras. As imagens dos desmatamentos, seguidas pelo ateamento de fogo, deixava entrever uma paisagem diferente, não só no aspecto da mudança física, mas também pelo vazio humano que provocava. Eram extensas áreas desmatadas e queimadas que ficavam vazias por muito tempo, já que os critérios dos órgãos financiadores qualificavam como benfeitoria o simples fato do desmatamento, ou seja, o gado só chegaria bem mais tarde, mas os financiamentos eram consignados como se já houvesse uma produção que serviria de aval. Segundo Paula (2002), até mesmo os castanhais (naturais) e as pequenas roças dos seringueiros e posseiros, eram consideradas como “benfeitorias” dos pretensos donos das terras, para efeito de consignação de financiamentos. Como suas ações eram voltadas para alterar a paisagem típica das florestas, através dos desmatamentos para estabelecimento das fazendas para criação de gado e da construção das estradas, incluindo-se os projetos de assentamentos, que traziam populações de outras regiões (colonos) para o Estado, o que ocorreu foi uma modificação extraordinária nos modos de vida das populações tradicionais, daí a necessidade do surgimento de “aliados urbanos”, para essas populações tradicionais que estavam sendo desalojadas de suas terras e sendo obrigadas a mudar completamente seus modos de vidas. Já dissemos anteriormente que o processo de destruição, provocado pelas ações de “desenvolvimento”, foi avassalador, para as populações tradicionais das florestas, bem como dissemos também que alguns setores da Igreja Católica, foram os primeiros a tomar uma atitude de defesa dos segmentos mais afetados por essas ações, mas, no curso dos acontecimentos surgiram outros atores que somaram na defesa desses trabalhadores, dentre eles: os partidos políticos de esquerda e as confederações de trabalhadores e centrais sindicais, além das ONGs, que trataremos à parte. É esse ambiente que será apreendido pelos partidos de esquerda para se colocarem como articuladores de outra concepção de sociedade, outra concepção de progresso, de desenvolvimento. As alianças que estabeleceram com os servidores públicos e com os trabalhadores extrativistas, especialmente, que eles viam como representação real do fracasso das políticas dos governantes representantes dos militares, dos velhos patrões seringalistas e dos novos patrões fazendeiros e madeireiros, que serviram de argumentação 184

para construção das idéias aglutinadoras desses grupos, que embora majoritários, eram excluídos dos processos em curso. No caso do Acre, os principais partidos de esquerda que atuaram inicialmente na defesa dos trabalhadores extrativistas, foram: O Partido Revolucionário Comunista (PRC), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), esses dois com atuação desde meados da década de setenta, ainda clandestinos e mais tarde, no início da década de oitenta foi criado o Partido dos Trabalhadores (PT) e, no final da década de oitenta, surgiram também o Partido Verde (PV) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB). De maneira muito discreta, durante a década de oitenta, atuaram, ainda alguns militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), numa pequena base dentro da universidade, mas no final desta década, nos efeitos residuais dos estragos causados pelos “ventos do Leste Europeu”, esse grupo foi desaparecendo da cena, até se tornar uma sigla cartorial na década de noventa. No início, a busca de inserção dos partidos comunistas na luta desses trabalhadores extrativista se devia basicamente a duas situações de interpretação da realidade acreana: 1) a difícil condição de militância na zona urbana, tanto por estarem na clandestinidade, como por falta de condições objetivas de atuação em espaços tão vigiados (pequenas cidades cheias de militares, inclusive do serviço de inteligência do exército) e por dificuldade mesmo de falar de comunismo num ambiente dominado pela propaganda anticomunista, característica desse período, também conhecido mundialmente como Guerra-Fria, e; 2) uma leitura marxista de base maoísta, que os impulsionava para buscar no campo aliados que colaborassem para consolidação do “cercamento” das cidades, ou no mínimo, que favorecesse uma aliança campo-cidade, defendida em vários manuais como fundamentais para a luta revolucionária. A percepção da capacidade de mobilização dos trabalhadores extrativistas, demonstradas após a realização dos primeiros empates, animou aqueles militantes comunistas de que era possível integrar seus pressupostos teóricos com a luta prática daqueles grupos de trabalhadores. Com essa perspectiva, passaram a buscar contatos com as principais lideranças sindicais que estava despontando, principalmente nos municípios de Brasiléia e Xapuri, onde já se projetavam na cena sindical os nomes de Wilson Pinheiro, Raimundo Barros,

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Chico Mendes, Elias Rosendo, Osmarino Amâncio, Osmar Facundo, João Bronzeado, dentre outros. As adesões desses militantes sindicais a esses partidos não foram significativas, pois essas lideranças estavam também sob a área de influência das CEBs e da CONTAG, que moderavam os limites da atuação sindical com a atuação partidária. Só na década de oitenta, com a fundação do Partido dos Trabalhadores, essa adesão de trabalhadores extrativistas para dentro dos partidos, no caso o PT, vai se dar de forma mais significativa, até porque este novo partido contava com o apoio não só da Igreja, como também da CONTAG. Esse processo de “intermediação” da Igreja e da CONTAG, sobre a participação partidária de seus líderes, não gerava um conflito aberto com os militantes comunistas, pois esses eram muito discretos nas suas intervenções, para não chamar a atenção dos órgãos de repressão e porque não tinham força mesmo para enfrentar as estruturas dessas duas “parceiras” dos trabalhadores extrativistas. As divergências só se tornaram mais efetivas quando esses partidos adquiriram a legalidade, em meados da década de oitenta. No Acre, especialmente o PC do B, rivalizaria com o PT durante alguns anos na disputa pela hegemonia da esquerda, numa concorrência muito acirrada pelo controle dos sindicatos, sendo que o PC do B predominava nos espaços sindicais urbanos e o PT nos espaços sindicais rurais59. Com a realização das eleições presidenciais de 1989, contudo, forma-se em nível nacional a Frente Brasil Popular (FBP), que reuniu o PT, o PC do B e o PSB, no apoio a candidatura de Lula à Presidência da República, esse fato vai de alguma forma reorientar as disputas entre esses dois partidos (na época o PSB não estava organizado no Acre), fazendo com que, a partir da década de noventa estas siglas atenuem as suas disputas que eram desgastantes para ambas, encaminhando a construção de uma aliança, que só se desfez nas eleições municipais de 1996, mas que foi reatada em 1998, mantendo-se até esta data.

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- O PRC acabou fundindo-se com o PT e depois da criação deste partido, virou uma tendência e com o tempo desapareceu no Acre, seus militantes se espalharam por diversas correntes petistas, dentre elas O Trabalho, Tendência Marxista e até mesmo na Articulação, corrente majoritária do PT e da CUT, ligada a Igreja.

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Durante todo esse período, contudo, manteve-se no campo sindical um enfrentamento bastante acirrado entre os dois partidos (PT versus PC do B), cada um investindo mais na conquista de bases tanto nos espaços urbanos, como nos espaços rurais, já que os partidos considerados de direita (PMDB, PFL, PDS e suas variações, etc.). No Acre o PSDB, não tinha muita organicidade e esteve por alguns anos na coligação dirigida pelo PT/PC do B, inclusive uma militante desse partido (Regina Lino), ocupou o cargo de vice-prefeita da capital, quando essa frente ganhou a eleição em Rio Branco em 1992, com Jorge Viana do PT, sendo eleito prefeito e, outro (Edson Cadaxo), foi eleito vicegovernador, no primeiro mandato de Jorge Viana, quando este se elegeu governador, durante muito tempo, não deram importância as estruturas sindicais urbanas, exceto o PMDB que atuava no sindicalismo rural desde a chegada de João Maia ao seu quadro militante no início da década de oitenta. A partir do final da década de noventa, esses partidos também começaram a concorrer às eleições do DCE-UFAC e de alguns sindicatos. Sendo que o PMDB vem desde o final da década de oitenta, dirigindo a Casa do Estudante Acreano - CEA, que é a representação estudantil secundarista no Estado e o Sindicato dos Servidores Municipais de Rio Branco (SSMRB). Além do movimento sindical urbano e rural, PC do B e PT disputavam também a hegemonia no movimento estudantil universitário, tendo como palco exclusivamente a Universidade Federal do Acre, que era a única instituição de ensino superior, até o final da década de noventa, quando surgiram algumas faculdades particulares. Nesse ambiente o PC do B levava vantagem sobre o PT, tendo dirigido o DCE-UFAC por muitas gestões, entrecortado por uma ou outra gestão petista. Desde a metade da primeira década do novo século, contudo, a exemplo de muitos sindicatos, o movimento estudantil universitário entrou em refluxo, tendo não só diminuído sua intervenção no âmbito universitário, como também junto à sociedade. Igualmente, a aliança eleitoral entre os principais partidos do campo da esquerda atuantes no Movimento Estudantil, tanto em nível nacional, como estadual e municipal, atenuou as disputas ocasionando em alguns momentos a articulação de alianças dessas forças outrora divergentes.

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Mesmo diante de todas essas disputas anteriores nos campos eleitorais, nos movimentos sindicais, estudantis, etc., esses partidos estabeleceram uma ligação duradoura com os trabalhadores extrativistas, especialmente no Vale do Rio Acre, inicialmente, mas que na segunda metade da década de oitenta já fincavam raízes também no Vale do Rio Juruá. É desse ambiente que vai se erguer toda a arquitetura política de uma estratégia que abrange a luta pela terra, passando pela luta ambiental e chegando as teses do desenvolvimento sustentável e da florestania. A defesa desses trabalhadores não foi construída exclusivamente sob o argumento da “terra para quem nela vive e trabalha” da Cartilha da Pastoral da Terra, foi antes, reforçada por toda uma construção de cunho ambientalista e devidamente lubrificada pelo conceito de Inclusão Social, do Desenvolvimento Sustentável, do Equilíbrio Ambiental e do Respeito à Pluralidade. Para defenderem os trabalhadores extrativistas, os partidos de esquerda que atuavam em seu meio, foram ao longo do tempo moldando uma proposta de inserção política desses trabalhadores, na perspectiva de construir uma alternativa de poder em âmbito Estadual, que levava em consideração alguns aspectos de inclusão das suas reivindicações, como manutenção de suas terras, ou defesa contra os desmatamentos, bem como foram construindo outras, que consideravam como sendo benéficas para eles, comumente propostas com cunho ambientalista, contrárias ao entendimento de desenvolvimento construído pelos militares e elites civis. Fundou-se assim, o mito de origem, na compreensão utilizada por José Murilo de Carvalho (2005), ou inventou-se uma tradição, como Hobsbawm e Ranger (1997) conceituaram. De fato, o momento era de crise e não havia outra saída para enfrentar o mito da modernidade/modernização. A construção da idéia de que os modos de vida dos seringueiros eram mais avançados do que as propostas de modernização/modernidade dos militares e governos civis que os acompanhavam, foi uma criação desse conjunto de aliados políticos de primeiro momento (Igreja, CONTAG, partidos políticos, CUT), incrementados pela chegada das ONGs. Vejamos como Carvalho descreve esses momentos:

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Em situações de confrontos sociais e disputas de projetos políticos, os grupos envolvidos buscam um mito de origem, com freqüência disfarçado de historiografia, ou talvez indissoluvelmente nela enredado. O mito, ao procurar estabelecer uma versão dos fatos real ou imaginada, visa ser um instrumento de dotação de sentido e legitimidade às forças em disputa. No caso de uma solução, mesmo que temporária, para o conflito, o mito estabelecerá a verdade dos vencedores contra as forças do passado ou da oposição. Se não são abertamente distorcidos, os fatos adquirirão, na versão mitificada, dimensões apropriadas à transmissão da idéia de desejabilidade e de superioridade da nova situação. A mesma distorção sofrerão as personagens envolvidas, sendo relegadas a um plano secundário ou ao esquecimento ou, ainda, à categoria de heróis, constituindo um novo panteão. (CARVALHO, 2005: 13-14).

Esta relação (partidos de esquerda - trabalhadores extrativistas) como podemos perceber, tinha mão-dupla. Os partidos buscavam consolidar uma base de apoio que sustentasse suas pretensões de disputas políticas, isto é, os partidos que iniciaram esse processo tinham intenções de ter uma base para suas pretensões revolucionárias, como é o caso do PRC e do PC do B, que no momento posterior, foi substituída pelas pretensões de manutenção de uma base para seus projetos eleitorais, incluindo nessa segunda fase o PT e mais tarde o PSB e o PV. Desse quadro nasce uma terceira força política no Acre. Uma força que não tinha base nos velhos caciques da política que eram os seringalistas, ex-seringalistas e seus aliados comerciantes e fazendeiros das cidades. Se durante toda a década de oitenta, quando participavam isolados e disputando entre si essas bases de trabalhadores, as tentativas desses partidos de esquerda não atingiram muito êxito nas eleições disputadas (elegendo um deputado em 1982 (Ivan Melo) pela legenda do PT e outro (Manoel Pacífico) do PC do B usando a legenda do PMDB, e alguns vereadores nas eleições municipais seguintes), no início da década de noventa, os resultados começaram a se concretizar enquanto ocupação de cargos nos legislativos (Câmaras Municipais e Assembléia Legislativa), nas prefeituras e no final da década (1998), com a eleição do Governador do Estado, uma Senadora e Deputados Federais. Depois das eleições de 2002, essa força política torna-se hegemônica no Estado, mantendo maioria na Assembléia Legislativa, Câmara Federal e Senado, chegando em alguns momentos a deter os três cargos de Senador sob suas legendas60.

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- Na verdade os três senadores com mandato na atualidade, Marina Silva, Tião Viana e Geraldo Mesquita Jr., todos foram eleitos pela Frente Popular do Acre, os dois primeiros filiados ao PT e o terceiro que era filiado ao PSB (partido que compõe a Frente Popular do Acre), desligou-se deste partido e, depois de passar por vários outros, agora está filiado ao PMDB, partido que mesmo sendo da base de apoio de Lula, em nível nacional, no Acre é oposição à Frente Popular.

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Porém, o aspecto mais importante, intuímos assim, é o da construção da relação representante/representado, que se estabeleceu entre os trabalhadores extrativistas, principalmente no Vale do Acre, e os partidos de esquerda, com destaque para o PT, que conseguiu maior inserção nesse campo, não só porque tinha alguns de seus filiados dirigindo os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, o Conselho Nacional dos Seringueiros, as Associações de Moradores das Reservas Extrativistas, como também por ter atraído para seus quadros, as principais lideranças desses setores. Essa relação que se estabeleceu nesse percurso, contudo, não obedecia a uma ordem hierárquica, onde os membros da cidade tinham maior influência do que os das matas. A organização partidária de esquerda, especialmente o PT, nesse período priorizava a valorização das lideranças que haviam se forjado nas lutas pelos direitos desses trabalhadores, nesse sentido a importância de Chico Mendes, Raimundo Barros, Wilson Pinheiro, líderes seringueiros, eram da mesma grandeza de Marina Silva, Júlia Feitoza, Nilson Mourão, entre outros, que eram oriundos do movimento estudantil universitário, ou das CEBs, dentro das instâncias deliberativas do PT, pelo menos no início da vida organizada desse partido no Estado. No PC do B, a direção do partido desde sua volta a legalidade em 1985, até o final da década de noventa, foi prioritariamente formada por sindicalistas urbanos (bancários, professores e urbanitários e, por estudantes universitários e secundaristas) e a partir do final da década de noventa, vem sendo introduzida a participação de trabalhadores extrativistas, principalmente do Vale do Juruá, incrementada pela participação indígena, segmento onde esse partido tem boa penetração. Esses indígenas também são provenientes, em sua maioria, do Vale do Juruá, que é a região que concentra sua maior população no Estado e do alto Purus, especificamente no município de Santa Rosa do Purus, também área de grande concentração indígena. No PV e no PSB, dois partidos mais constantes na formação da Frente Popular do Acre (FPA), as direções também são prioritariamente compostas por profissionais liberais, sindicalistas urbanos e estudantes. Mesmo o PV que por sua característica inicial de ser um partido ligado à defesa do meio ambiente, não conseguiu no Acre, ter uma boa inserção entre as lideranças de trabalhadores extrativistas.

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Nos processos eleitorais, contudo, essa representação não conseguia reproduzir, nas urnas a importância das lideranças seringueiras e indígenas, exceto nas Câmaras Municipais, onde se conseguia eleger alguns líderes como vereador e até prefeito, nas pequenas cidades. Na Assembléia Legislativa, apenas o sindicalista Osmarino Amâncio ocupou durante um período o mandato de Deputado Estadual (era suplente) e depois, só no novo século (XXI) outro trabalhador rural, oriundo dos movimentos de seringueiros (Juarez Leitão), voltou a ocupar uma cadeira de Deputado. (Há dois municípios, Jordão e Santa Rosa do Purus, onde se registra exceções, no aspecto de eleição de indígenas para viceprefeitos e vereadores, pois nesses municípios suas populações são majoritárias). No geral, quase todos os políticos que se destacaram a partir da década de oitenta e seguintes, nesse campo da esquerda, eram oriundos do movimento sindical urbano ou rural. Os nomes de Marina Silva, Sérgio Taboada, Nilson Mourão, Ronald Polanco, Zico Bronzeado, Marcos Afonso, Jorge Viana, Naluh Gouveia, Edvaldo Magalhães, Maria Antônia, Moisés Diniz, Júlio Barbosa, Osmarino Amâncio, Manoel Pacífico, Raimundo Barros, Márcio Batista, Perpétua Almeida, Binho Marques, Henrique Afonso, Ériton Macedo, Zequinha, Chagas Batista, Luis Meleiros, Sibá Machado, dentre outros, representam bem essa fase. (Os médicos, Júlio Eduardo, Tião Viana e Eduardo Farias, que exerceram ou exercem mandatos em diferentes estruturas, também militaram em seus sindicatos, mas suas trajetórias são mais marcadas pelas atuações nos seus campos profissionais). Outra exceção é o índio Antônio Apurinã, do PC do B que foi eleito 2º suplente de senador na chapa de Marina Silva, mas mesmo ela tendo passado cinco anos como Ministra do Meio Ambiente, seu primeiro suplente Sibá Machado, exerceu o mandato integralmente. A formação partidária com característica de esquerda no Acre seria estruturada, portanto, no mesmo ambiente em que se trançou a luta pela terra, as lutas estudantis e lutas sindicais, por exemplo, mas ela adquiriu maior complexidade no sentido de que passou a ser um pólo que se constituiu como força de oposição a todas as práticas políticas então estabelecidas. Nas cidades, especialmente em Rio Branco, as associações/sindicatos de servidores públicos (professores, bancários, saúde, urbanitários, entre outros), faziam passeatas e se colocavam contra a corrupção, lutavam por melhores salários, denunciavam o descaso dos 191

governos com a educação pública; os estudantes universitários e secundaristas, protestavam contra os aumentos das passagens de ônibus e exigiam “passe livre” ou “meia-passagem”, queriam votar pra reitor, queriam mais vagas nas universidades, mais professores, creches, restaurante universitário, abolição de taxas, combatiam a privatização das universidades, ou seja, agiam de forma radicalmente contrária aos políticos tradicionais. Expunham-se nas ruas e se reivindicavam como os reais representantes dos trabalhadores, sempre apontando os políticos dos partidos tradicionais como responsáveis pela miséria, pela corrupção e pelos desmandos administrativos que sucateavam os serviços públicos essenciais, como educação, saúde, falta de saneamento básico, iluminação, desabastecimento, etc. No campo, os sindicatos passavam a reivindicar, além da terra, os títulos de posse, a construção de ramais, de escolas, de postos de saúde, de financiamentos, de assistência técnica, o direito a aposentadoria; os “soldados da borracha” começavam a, também, se organizar e cobravam seus “direitos”, ou seja, as pautas de reivindicações foram agregando itens que colocavam essas categorias em oposição aos setores administrativos estabelecidos. A sincronização das reivindicações dos trabalhadores urbanos e trabalhadores rurais se davam na medida em que muitas das lideranças das associações de servidores públicos e sindicatos eram oriundas da mesma base de sustentação, ou seja, tanto eram da Igreja, como dos partidos políticos de esquerda, líderes do movimento estudantil, das associações de moradores, transitavam nas mesmas instâncias, não só de construção das idéias, como de atuação prática. O grande mérito dos líderes partidários, principalmente os comunistas e socialistas, que atuavam nesse meio, foi adaptar os discursos à realidade local. Não combatiam diretamente o capitalismo, mas sim, os governos que o representavam, ou seja, taticamente combatiam os efeitos do capitalismo ao mesmo tempo em que difundiam as idéias de que com aqueles governos não era possível se processar nenhum tipo de mudança. E qual seria essa mudança? Na busca de resposta para essa questão é que vamos encontrar a construção de uma posição política que se mostrava não como alternativa dentro do mesmo processo, como era comum aos partidos tradicionais. Essas novas forças políticas se colocavam como oposição a tudo o que vinha sendo construído desde o início dos governos militares. Essa oposição 192

estava centrada na concepção de que a proposta dos governos locais, que era imposta desde fora, não servia para o conjunto da população acreana. Os efeitos dessas políticas estavam visíveis na pobreza que imperava nas periferias e; nas matas com o surgimento da violência no campo, ocasionada pelos desmatamentos e a expulsão dos seus moradores e; nas cidades com o descaso com a educação, com a saúde, com o saneamento básico, com as condições de vida dos servidores públicos, com a carestia, contrastando com os baixos salários. Todas essas condições serviram, inicialmente, de base para a montagem dessas novas forças políticas. Os partidos que se originaram, ou que se reorganizaram a partir desse campo oposicionista, foram moldando um discurso de inclusão social, de busca de outros referenciais. Dessa forma, foi se construindo não só um novo ambiente político, mas também uma idealização de que ali estava se forjando uma concepção nova de organização partidária, onde o foco da diferença consistia na inclusão de uma base social que havia sido descartada do processo pelos outros modelos políticos. Então, a participação dos trabalhadores, tanto urbanos, como rurais (florestais/extrativistas), nas instâncias deliberativas desses partidos já representava essa diferença. Porém, antes e/ou concomitante a organização/reorganização dos partidos de esquerda, houve a atuação de outros componentes diretivos importantes nesse contexto conturbado das mudanças socioambientais, econômicas, políticas e culturais no Estado, que de certa forma permitiram a existência daqueles. Referimos-nos especialmente a CONTAG, a CUT, aos STRs e ao CNS.

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3.4 AS REPRESENTAÇÕES SINDICAIS No campo sindical inicialmente, foi com a presença de um delegado da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), a partir de 1975 e, no início da década de oitenta com a atuação discreta da Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que esse apoio aos trabalhadores extrativistas vai se iniciar, sendo que a partir da década de noventa a CUT, mesmo dividida em várias correntes, junto com a Corrente Sindical Classista (CSC) vão ser as principais representantes tanto de trabalhadores rurais, como urbanos no Estado. Não é de se estranhar que a corrente predominante da CUT no Acre, desde a sua fundação, seja exatamente a corrente denominada “Articulação”, que é oriunda das Comunidades Eclesiais de Base, e recebia apoio direto de membros dirigentes da Diocese do Acre-Purus. A chegada da CONTAG, ainda na década de setenta, representa segundo pesquisa realizada por Costa Sobrinho (1992: 169), uma iniciativa quase espontânea, empreendida pela Presidência Nacional da Confederação, através de seu presidente, a época, José Francisco da Silva. Uma ação que se dava dentro de um contexto de expansão das ações da Confederação para todos os Estados e como essa área do Acre-Rondônia (Rondônia a época ainda era Território Federal) estava “descoberta”, resolveu deslocar o sindicalista João Maia para o Acre e contratar o advogado Pedro Marques, com a finalidade de organizar a Confederação por aqui, ressaltando que o fazia também, por entender que essa era uma área onde se estava presenciando muitos conflitos. De acordo com Paula (2002), a escolha de João Maia, que havia sido seminarista por dez anos e tinha se graduado em Filosofia e pós-graduado em Ciências Sociais Rurais, para cumprimento dessa tarefa no Acre se deu porque o Presidente da Confederação, José Francisco da Silva, admirava as qualidades dele no sentido da habilidade que tinha para lidar com os setores da Igreja e com os órgãos governamentais, como ele já havia demonstrado em seis anos de atuação junto a Cooperativa de Tiriri, em Pernambuco. Mas, ainda de acordo com Costa Sobrinho, no Acre suas habilidades para lidar com os órgãos governamentais não renderam muito, pois as primeiras atividades da CONTAG:

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Foram marcadas por algumas ações na justiça. Logo foi percebido que por ai o caminho era difícil, além da natureza conservadora dos juízes, havia também a própria ineficiência do poder judiciário. Logo nos primeiros dias de instalação, ainda em julho de 1975, a Delegacia foi chamada a intervir no caso do seringal Porvir, em Xapuri. A orientação da CONTAG foi a permanência na terra, pois havia lei que protegia, e que os posseiros teriam advogados para defendê-los na justiça. Ao mesmo tempo se falava na necessidade de organizar o sindicato para que o trabalhador tomasse consciência de que ele era o principal defensor de si mesmo. (COSTA SOBRINHO, 1992: 169).

Essa perspectiva de resolução de problemas pela via institucional era uma característica da CONTAG em nível nacional, porém as decepções sofridas pelos seus agentes no Acre, logo de início, serviram de experiência de que no Acre eles estariam lidando com uma realidade diferenciada. A percepção rápida dessa diferença regional, o que demonstra uma das qualidades desses dirigentes da CONTAG, fica bem dimensionada no perfil de João Maia, traçado por Paula (2003), nos seguintes termos:
Na condição de representante da Delegacia Regional da Contag, João Maia revelou desde o início raro domínio de quatro habilidades essenciais naquele tipo de conjuntura: 1) Apesar de ser um estranho, conseguiu rapidamente “mergulhar” naquele universo social e em pouco tempo adquiriu enorme confiança e respeito tanto das bases como das lideranças sindicais que foram se formando; 2) impressionante capacidade de articulação na esfera da “sociedade política”, onde era igualmente respeitado e, não raro, admirado; 3) dominava o conteúdo do Estatuto da Terra e tinha boa formação teórica sobre a questão agrária em geral; 4) coragem para enfrentar as pressões do latifúndio – escapou de várias tocaias – e muita disposição física para percorrer aquela imensa floresta. Além de reunir essas qualidades, João Maia contava com grande apoio da direção da Contag e de setores da Igreja Católica ligados a Teologia da Libertação. (PAULA, 2003:103,104).

Nesse sentido, a CONTAG centrará esforços na organização dos sindicatos, campo onde contará com o apoio das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja, que já vinham atuando com esse intuito, mesmo assim, essa não seria uma tarefa fácil. A reação dos seringalistas e dos fazendeiros à presença da CONTAG se fazia sentir pela proibição de entrada do delegado em determinados seringais, pelas ameaças de morte e pela articulação mesmo de um processo de desmoralização das ações da entidade tanto na cidade, como no campo (seringais). As diversas tentativas de enquadramento de João Maia e Chico Mendes, por exemplo, na Lei de Segurança Nacional, ou de qualificá-los como “baderneiros”, “agitadores”, “subversivos”, “organizadores de guerrilhas”, etc., funcionavam como mecanismos de desestabilização e de inibição não só dos líderes dos movimentos de seringueiros, mas também como elemento desmobilizador de todo o esforço de fundação dos sindicatos. Em 1980 o jornalista Antônio Dias, fez uma avaliação da atuação da CONTAG onde ele relata essas dificuldades enfrentadas pelos dirigentes sindicais no Acre: 195

Inicialmente a Delegacia da CONTAG procurou manter contato com autoridades, Igreja local e outros setores diretamente ligados ao meio rural, para inteirar-se melhor da situação e mesmo para explicar os propósitos do trabalho que pretendia desenvolver. Nem por isso o trabalho da Delegacia da CONTAG teve facilitada a sua atuação do lado do Poder. Em certo momento do governo Geisel, o da distensão, por ordem do Ministro da Justiça de então, Armando Falcão, a Polícia Federal compareceu à sede da Delegacia da CONTAG, em Rio Branco, para efetuar apreensão de livretos destinados a difundir a legislação de terras em linguagem popular, por julgá-los perigosos à Segurança Nacional. (Sindicato e Resistência. Gazeta do Acre: Rio Branco, junho, 1980).

E conclui o jornalista:
Com destemor, a Delegacia da CONTAG partia sempre dos conflitos emergentes. Foram promovidas reuniões para se esclarecer a legislação aos posseiros e, simultaneamente, se lançava a idéia de criação do Sindicato como instrumento capaz de favorecer-lhes a luta pela permanência na posse das terras que ocupavam, obstando as expulsões iminentes. Como a situação já era de há muito conflituada, logo os Sindicatos se expandiram por todo o Estado. Dada a acentuada dispersão demográfica e as grandes distâncias, sem meios fáceis para vencê-las, a Delegacia Sindical de Base foi instrumento eficaz utilizado na organização dos associados dos Sindicatos. (idem).

De fato, a estratégia da CONTAG foi bastante eficiente no sentido da formação de uma rede de contatos baseados nos Delegados Sindicais. Reunindo os seringueiros em várias comunidades, elegia aquele com maior capacidade de representação, com maior capacidade de mobilização e o encarregava de municiar a Delegacia Central da CONTAG, sediada em Rio Branco, com informações sobre sua área. Dessa forma, ia também criando uma vinculação daqueles trabalhadores, tanto entre eles, como entre eles e uma representação sindical urbana, ou seja, quando uma comunidade sofria algum tipo de pressão advinda de fazendeiros ou policiais em nome daqueles, já sabiam que podiam recorrer à sede de sua representação na cidade. A presença de uma estrutura que comportava advogados, por exemplo, deixava os seringueiros mais a vontade, isto é, mais encorajados, para buscar “seus direitos”, situação que até então era impensável, diante das impossibilidades de mobilização de qualquer órgão público governamental em sua defesa. Para os seringueiros, o advogado da CONTAG representava um semideus, uma espécie de escudo com o qual eles se tornavam mais aptos a enfrentar os combates para os quais estavam escalados. Essa situação se justifica na medida em que se observa a realidade na qual estavam inseridos esses trabalhadores. Durante a maior parte de suas vidas viveram sem relações diretas com o mundo urbano e, principalmente, distanciados dos espaços consignados ao mundo jurídico, ou seja, não sabiam que tinham direitos e esses direitos nunca lhes haviam sido apresentados. O mundo das letras era uma realidade muito distante do mundo das 196

matas. Para se ter melhor noção da situação, um levantamento realizado pela Diocese de Rio Branco, em parceria com o Centro de Estudos e de Pastoral do Migrante (CEPAMI) de Ji-Paraná (RO) e o Vicariato de Pando-BO, nessa área de fronteira dos Estados do Acre, Rondônia e o Departamento de Pando, envolvendo 470, num total estimado de 2.500 famílias, realizado entre o final de 1990 e início de 1991 e publicado em junho de 1991, demonstrava que, entre os moradores dos seringais percorridos pelos pesquisadores, algo em torno de 66% dessas populações permaneciam analfabetas, 46% não possuíam nenhum tipo de documento e 97,90% não tinham acesso a hospitais ou postos de saúde. Porém, o dado mais relevante, em se tratando do aspecto comunitário se dá quando foram perguntados sobre participação em atividades comunitárias, tipo sindicatos, associações, cooperativas, igrejas e partidos, quando 78,80% responderam que não participavam de nenhumas dessas instâncias, contra 10,68% que responderam participar de alguma atividade e outros 10,52% que preferiram não responder. Note-se por esses dados que mesmo considerando todo o esforço das instituições e entidades envolvidas nessa tarefa de organizar os trabalhadores, as distâncias e o isolamento ainda persistiam e, a inclusão mesmo no sindicato, na igreja, etc., era também uma tarefa por realizar, já que esses dados foram coletados no final de 1990 e início de 1991, ou seja, vinte anos depois da chegada das CEBs, quinze depois da chegada da CONTAG e, sete anos depois da chegada da CUT. Essas situações de isolamento demonstram que, além dos problemas com as autoridades no nível urbano, os dirigentes sindicais tinham outras não menos importantes nas suas próprias áreas de atuação, ou seja, as distâncias e o isolamento decorrentes das dimensões da região, agravados pelas crônicas deficiências de transportes, deixavam de fora da rede de interligação dos sindicatos boa parte das populações afetadas pelas investidas das elites modernizadoras. Em que pese estes altos índices de pessoas fora de qualquer tipo de atividades comunitárias, o número de sindicalizados desde o período inicial das atividades da CONTAG e das CEBS, cresceu de forma vigorosa. Segundo Paula:
Em 1976, um ano após a sua instalação no Acre, a Delegacia Regional da Contag já havia fundado quatro sindicatos, que já contavam com 6.090 filiados (Contag, 1976). Em 1977, os sete municípios existentes no estado até 1976 contavam com sindicatos organizados. Aproximadamente 20 mil trabalhadores filiaram-se a essas organizações até meados dos anos 80. (PAULA, 2003: 103).

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Mas o papel da CONTAG na fase inicial dos conflitos foi muito mais importante. O destaque vai para a organização de sindicatos de trabalhadores rurais nos sete municípios acreanos num curto espaço de tempo. Não que esses sindicatos representassem de uma hora para outra, uma fortaleza ideológica, mas principalmente porque na dureza das derrotas que vinham sendo perpetradas contra os trabalhadores extrativistas, eles (os sindicatos) serviram de contenção nos primeiros momentos e, depois, de trincheira de onde partiu a reação ao que foi denominado como “modernização conservadora”, ou seja, a chegada da CONTAG a esse cenário assimétrico de disputas que era o Acre, antes da organização sindical, representou a possibilidade de sobrevivência e permanência de muitos seringueiros e posseiros em suas áreas de terra. A organização sindical proposta pela CONTAG no início de sua atuação no Estado do Acre, no intuito de atrair os trabalhadores extrativistas, partiu de uma avaliação estratégica extremamente simples, isto é, canalizou sua atuação para resolver a questão da terra no seu sentido mais emergente, que era a permanência dos extrativistas em seus tradicionais locais de moradia, mostrando para eles que havia uma legislação que os amparava. Praticamente toda a ação da CONTAG nesses primeiros momentos de sua atuação no Acre, se deu distribuindo panfletos (livretos) contendo informações sobre a Lei do Usucapião, sobre o Estatuto da Terra e palestrando sobre os direitos dos posseiros, coisa que a Igreja também já vinha fazendo. Aqui, inicialmente, não se discutiam propostas de reforma agrária, de previdência social, de financiamento para produtores, de construção de escolas, ramais, postos de saúde e outras reivindicações típicas das lutas sindicais rurais. A questão mais imediata era a permanência na terra, e foi esse o elemento mobilizador que ajudou a CONTAG no processo de organização e união desses trabalhadores. Todas essas reivindicações, elencadas acima, vão ser incorporadas, um pouco mais tarde, no que consideramos processo de complexificação das pautas de reivindicação dos sindicatos de trabalhadores rurais do Acre (STRs). Não é que o vocábulo reforma agrária, por exemplo, não estivesse presente, não fosse conhecido pelos dirigentes. O problema é que ele era desconhecido da maioria dessa população seringueira, portanto a ênfase na permanência na terra funcionava como uma mensagem mais fácil de ser assimilada. Em Rio Branco algumas associações de servidores públicos, como a associação dos Professores 198

do Acre (ASPAC), ou mesmo o boletim Nós Irmãos, por exemplo, já ousavam escrever em seus informativos sobre a necessidade da reforma agrária, mas era uma mensagem que ficava restrita à cidade, não chegava às áreas das florestas e a seus moradores. É neste aspecto que, esta mensagem simples, de permanência na terra, aparece como suficiente para a mobilização desses trabalhadores rumo à organização dos sindicatos. Foi assim que eles foram ganhando mais e mais adesões, mesmo considerando as dificuldades de cobrir às distâncias e os obstáculos que os separavam. O saldo positivo para a CONTAG é que após dez anos de atuação, quando ela vai, em meados dos anos oitenta, perder espaço para o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e para a CUT, por exemplo, ela, juntamente com a Igreja, haviam deixado uma base de sindicatos organizados em todos os municípios acreanos. Ou seja, não seria honesto por parte de qualquer historiador, por razões ideológicas ou filiações programáticas, partidárias ou sindicais, tentar diminuir o relevante papel da CONTAG, enquanto representação política, ou de seu principal dirigente no Acre, o ex-sindicalista João Maia, pelos rumos posteriores que deram às suas trajetórias, enquanto entidade e indivíduo. A influência da CONTAG nesse meio vai perdendo força desde o início da década de oitenta e se intensifica após o movimento das diretas, principalmente, durante o Governo Sarney, quando em nível nacional ela encampa a proposta de reforma agrária apresentada por aquele governo, que por sua vez, recebia a oposição da CUT e do recém fundado Partido dos Trabalhadores. Nesse sentido, os sindicalistas cutistas passaram a fazer a “denúncia” de que a CONTAG estava atrelada ao PMDB e ao governo Sarney, criando um cisma, entre os até então aliados. (muito já se escreveu sobre a natureza da CONTAG, especialmente sobre sua ambivalência, ou seja, o fato de representar os trabalhadores rurais, que é incontestável, mas a crítica por ela ser uma Confederação “tipo institucional”, isto é, permitida pelo governo e não criada diretamente pelos trabalhadores. Ver, por ex. Paula 1991; Gonçalves 1999; Grzybowski, 1994). Como no Acre a CONTAG havia recebido amplo apoio dos setores da Igreja, especialmente das CEBs, no processo de formação dos sindicatos, e como esses setores corroboraram para a fundação do PT no Estado e quase todos estavam ligados à fundação da CUT, as divergências sobre o apoio ao governo Sarney e sua proposta de reforma

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agrária, foi cindindo a aliança desses dois segmentos. Sobre essa cisão, Sant'Ana Júnior escreveu:
Em agosto de 1984, é fundada a CUT-AC (Central Única dos Trabalhadores do Acre). Neste período, houve uma cisão nacional no movimento sindical de trabalhadores rurais. A CONTAG orientava seus sindicatos a não se envolverem na criação da CUT. No Acre, os STRs de Xapuri e Plácido de Castro desobedeceram esta orientação e em Brasiléia, Rio Branco e Sena Madureira foram criadas oposições sindicais que participaram ativamente da fundação da CUT/AC. (SANT'ANA JÚNIOR, 2004: 214).

Essa postura da CONTAG se justifica porque em nível nacional seus principais dirigentes mantinham ligações com as políticas do PMDB e, em nível estadual seu principal dirigente, João Maia, que havia sido um dos signatários da criação do PT, com a vitória de Nabor Júnior, do PMDB, para o Governo do Estado nas eleições de 1982, desfiliou-se do PT e passou a fazer parte dos quadros do partido governista, levando consigo parte considerável dos dirigentes e militantes dos sindicatos de trabalhadores rurais para essa posição. Em 1983, João Maia funda a Federação dos Trabalhadores Rurais do Acre (FETACRE), contando com o apoio da CONTAG em nível nacional e do PMDB local. Essa medida aprofunda as divergências no seio do sindicalismo rural acreano, especialmente na área que envolve o eixo que vai de Rio Branco na direção de Xapuri, Brasiléia/Epitaciolândia e Assis Brasil, onde os conflitos por terras eram mais agudos. A partir de 1985, a CONTAG perde cada vez mais influência emergindo em seu lugar o modelo de sindicalismo cutista, que diante da conjuntura política do país, vai dar novo conteúdo para as pautas de reivindicações dos STRs, marcadamente reforçando a luta pela reforma agrária. As bandeiras de luta da reforma agrária pleiteada pela CUT incluíam o estabelecimento de limites às propriedades, bem como a desapropriação de áreas improdutivas e de terras cuja titulação fosse passível de questionamento, ou seja, se diferenciava da posição da CONTAG no sentido da radicalidade, pois iam além do mero cumprimento do que prescrevia a lei. A CUT pleiteava não só a celeridade na aplicação do que era já legal, como também, a mudança da lei para ampliar os benefícios e o alcance de outras terras por parte dos trabalhadores sem terras. Essa tomada de posição, considerada mais avançada do que os mecanismos de luta da CONTAG, vão se dar também por causa dos resultados, considerados fracos, das respostas obtidas nos diversos processos movidos na justiça sobre as demandas dos 200

trabalhadores a respeito da posse da terra. Como a CONTAG, privilegiava a “luta institucional” e a legislação favorecia os grandes proprietários, toda a mobilização dos sindicatos acabava esbarrando nesses obstáculos legais, isto é, nos trâmites jurídicos. A mudança de rumos, contudo, não se resumem à CONTAG e aos sindicatos, Paula (2003: 131) indica que desde o início dos anos oitenta, não só as mudanças em nível Nacional, mas também em nível Estadual, com a eleição de um governador pelo voto direto em 1982 e toda a reestruturação por que havia passado o INCRA, por exemplo, impeliam os sindicatos à outra tomada de posição, representada na “busca pela aplicação da lei e pela mudança da lei”. A mudança da lei com o claro objetivo de resgatar terras da União que haviam sido apropriadas por grandes proprietários e grileiros, com a falsificação de documentos, bem como, de garantir a desapropriação para fins sociais. No mais, os reflexos das greves no ABC paulista nos finais dos anos setenta e início dos oitenta, aliados a fundação do PT, impulsionavam os trabalhadores para outras lutas que iam além das reivindicações tradicionais por melhores salários, melhores condições de trabalho, etc., nesse novo momento os sindicatos se apresentavam como:

Portador de um projeto de sociedade voltado para os interesses das classes subalternas, genericamente definido como socialista. Nesse sentido, a luta pela terra passa a ser tratada como parte integrante de uma estratégia de ascensão das classes subalternas ao poder político. Pode-se imaginar a reação dos “donos do poder” a essa nova iniciativa das lideranças dos trabalhadores. Se nos anos 70 um setor das oligarquias percebia nos “paulistas” a principal ameaça ao monopólio do poder político, nos 80 o sindicalismo rural e o PT passam a representar outra ameaça potencial, um novo concorrente a ser combatido, uma vez que os trabalhadores queriam mais que a posse da terra, pretendiam, também, disputar o poder político. (PAULA, 2003: 128).

Nesse sentido, a metodologia indicada de luta pelos meios jurídicos tradicionais estava esgotada. Era preciso avançar para outras metodologias que apresentassem alternativas com possibilidade de melhores resultado, é ai que surge a CUT com sua bandeira de “reforma agrária sob controle dos trabalhadores”. Embora a luta pela reforma agrária da CUT se diferenciasse da modelagem adotada pela CONTAG, por, como diz Paula (2003: 151) “se esforçar pela aplicação da lei e pela mudança da lei”, o efeito de uma “reforma agrária sob controle dos trabalhadores”, tinha suas limitações. Ela tentava mediar relações diferentes, em diferentes regiões do país, onde as demandas eram também muito diferentes. Em algumas regiões já não se colocava mais

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uma luta unicamente pela posse da terra, mas sim, uma luta de colonos, já proprietários, que queriam melhorar suas condições de produção, que exigiam financiamentos, preços mínimos para seus produtos, condições de escoamento, etc., enquanto no Acre, a luta ainda era por manutenção da posse e, principalmente de um tipo de posse diferente, que não era o lote simétrico dos projetos do INCRA, mas sim, a manutenção da área da colocação, preservada, com seu padrão ecológico, que permitia a reprodução do modo de vida do seringueiro. Como a concepção de reforma agrária encampada pela CUT era baseada num modelo que privilegiava os lotes simétricos, em áreas contíguas, ficava difícil para os seringueiros entenderem e defenderem essa proposta. No seu caso, reforma agrária desse modo, também não lhes servia, porque desestruturava a lógica das suas colocações tradicionais. Foi assim que nasceu a idéia de outro tipo de representação que fosse caudatário das lutas específicas dos seringueiros, já que os sindicatos, ligados as suas federações, confederações ou centrais, pela natureza de suas instâncias deliberativas, não estavam conseguindo entender. É nesse contexto que nasce o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), em 1985, numa reunião realizada em Brasília, no ambiente propiciado pelo I Encontro Nacional dos Seringueiros, evento que reuniu um número em torno de 130 seringueiros representando os estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará, cujo objetivo era demonstrar que havia uma especificidade no modo de vida dos seringueiros, que os sindicatos, as federações, confederações e centrais, não conseguiam representar. O Jornal “Nós Irmãos”, noticiou assim, a realização do Encontro:

Nos dias 11 a 17 de outubro de 1985 realizou-se em Brasília o primeiro Encontro Nacional de Seringueiros no qual participaram cerca de 170 seringueiros dos estados de Rondônia, Acre, Pará e Amazonas. Foi um acontecimento histórico para os Seringueiros pois pela primeira vez representantes de diversos Estados se reuniram para discutir juntos os problemas que enfrentam e apresentar às autoridades competentes diversas reivindicações à respeito de: Reforma Agrária; Desenvolvimento da Amazônia; Política para a Borracha; Política de Abastecimento; Saúde; Educação e Cultura; Aposentadoria e Assistência Social. (Encontro Nacional de Seringueiros da Amazônia. Jornal Nós Irmãos. Rio Branco, 1985).

Nesse evento e, principalmente, nas reuniões preparatórias, os líderes sindicais destes Estados vinham avaliando os resultados das lutas sindicais e os reflexos em suas necessidades cotidianas. Os diagnósticos apontavam os êxitos e a importância dos 202

sindicatos, mas algumas questões específicas dos moradores das florestas não estavam sendo contempladas, por exemplo, a proposta de reforma agrária defendida pela CUT, que tinha como base os lotes simétricos, de aproximadamente cinqüenta hectares, não permitia a reprodução dos modos de vida dos seringueiros, pois não respeitava as estradas de seringa, os igarapés, nascentes de águas, territórios de caça, etc., foi a partir desta análise que se discutiu a necessidade de criar uma entidade representativa dos seringueiros que não estivesse vinculada a estrutura vertical dos sindicatos e de suas centrais. Na experiência de vida orgânica dos sindicatos, os seringueiros que haviam participado na criação dos sindicatos de trabalhadores rurais no Acre, vinham tendo dificuldade para explicar suas teses de uma reforma agrária diferente na Amazônia, haja vista que as decisões nos ambientes diretivos das Federações, Confederações e Centrais, se dão por votação majoritária, em congressos onde o número de delegados de determinadas categorias, devido a seu tipo de organização, podem se sobrepor ao de outras, por seus critérios de participação. Em entrevista publicada por Cândido Grzybowski (1989: 26), Chico Mendes, um dos articuladores da criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, argumenta que o CNS “não pretendia ser um sindicato paralelo, mas uma entidade de seringueiros, porque os seringueiros nunca foram reconhecidos como classe”. Ou seja, o próprio Chico Mendes, um dos criadores dos STRs no Acre, distinguia que havia diferenças entre o ser sindical de outras categorias e o ser sindical dos seringueiros, mesmo avaliando que os sindicatos cumpriam importante papel, mas, no seu entender, não conseguiam representar as peculiaridades dos seringueiros. Em 1985, já estavam chegando ao Acre os outros aliados urbanos dos seringueiros, pesquisadores de grandes universidades, especialmente do Sudeste e as Organizações Não Governamentais - ONGs, fato que “ajudou” os seringueiros a se situarem em posição diferenciada em relação aos outros trabalhadores rurais do país, não só em relação à reforma agrária, mas também pela indução, sugestão, orientação, percepção, de que eles eram portadores de outras responsabilidades, por exemplo, a defesa da Amazônia, a defesa do meio ambiente, a defesa da biodiversidade.

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Sobre a criação e ações iniciais do CNS, Elder Andrade de Paula, escreveu:
Inicialmente em Xapuri e posteriormente no Sudeste do Pará e Maranhão, o CNS apoiou-se no sindicalismo mais mobilizado. Em alguns municípios com Brasiléia, Sena Madureira, etc., articulouse com as oposições sindicais e estabeleceu como meta conquistar as direções dos respectivos sindicatos. Em regiões onde não havia organização sindical (como Rondônia) ou a sua presença era pouco expressiva (Vale do Juruá, Acre) procurou estruturar outras formas organizativas como associações de seringueiros e comissões (municipais e regionais) do CNS. (PAULA, 2003: 155).

Não nos é possível avaliar o tamanho da influência desses segmentos acadêmicos, vindos de outras regiões, na formulação do novo quadro reivindicatório dos seringueiros acreanos, pois sabemos também que esses dirigentes sindicais, embora com pouca instrução acadêmica formal, tinham uma capacidade intelectual extraordinária na compreensão de sua singularidade em relação ao mundo. Esse aspecto da diferenciação subjetiva de alguns líderes sindicais no processo de luta pela manutenção da terra, nos primeiros momentos, e depois pela manutenção de seu modo de vida e envolvimento nas lutas ambientais, é uma característica que vai além dos relacionamentos externos ou, dizendo de outra maneira, essa clarividência, essa sensibilidade para aspectos tangenciais para os outros seringueiros, era uma característica que já estava presente nesses líderes, que de certa forma se desenvolveu antes da chegada dos “intelectuais” vindos das universidades, ou mesmo das ONGs. A própria Igreja e os partidos de esquerda já vinham ajudando e sendo ajudados por essas lideranças. Lideranças seringueiras como Wilson Pinheiro, Raimundo Barros, Chico Mendes, Júlio Barbosa, Ivair Higino, Dona Derci Teles, João de Deus, Osmarino Amâncio, Osmar Facundo, João Bronzeado, Chicão, Leide, Dona Valdízia, e outros, nessa parte do Vale do Rio Acre; e Raimundo Lino (o Trovoada), Manoel Caxinauwá, Antônio Macedo, “Txai” Suero, João Claudino, Chico Ginú, entre outros, no Vale do Juruá, escreveram seus nomes nas páginas recentes da História do Acre, por suas capacidades não só de liderança, mas, especialmente, pelos exemplos dados, expondo suas próprias vidas, algumas dessas ceifadas por seus oponentes que não conseguiam com argumentos derrotá-los. O que queremos demonstrar com esses exemplos é que, obviamente, houve influência, indução de “intelectuais” vindos de fora para a complexificação das bandeiras de luta dos trabalhadores extrativistas, mas antes de suas chegadas, já havia elaboração por parte de membros da própria comunidade que buscavam alternativas para manutenção de seus modos de vida, rompendo com a estrutura hierárquica aqui vigente. 204

Essa busca de rompimento com a hierarquia vem desde os movimentos contra o pagamento da renda e passa pelos empates, como símbolo mais concreto de uma organização, de uma atitude, que vem de baixo. Pensando nessa perspectiva é que situamos a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros como uma ação que representa bem essa busca de autonomia dos seringueiros, baseados numa análise realizada por eles que os colocavam numa posição diferente dos outros trabalhadores rurais do Brasil. Por outro lado, está evidente que não bastava essa capacidade de compreensão da realidade, destacada em alguns dos líderes do movimento dos seringueiros, para entendermos que por si, essas características os teriam levado tão longe, não só na elaboração de políticas, como também na complexificação de suas pautas de reivindicações, ou mesmo de sua organização. Desde o início vimos destacando que uma das maiores dificuldades de organização da resistência dos trabalhadores extrativistas, residia exatamente, na sua pouca condição de mobilidade. Como explicar então que esses trabalhadores tivessem condições de organizar um evento em Brasília, permitindo a presença de 130 seringueiros representando outros seringueiros de quatro Estados? Como explicar os deslocamentos de lideranças dos seringueiros para outros Estados e até para outros países, quando sabemos que a arrecadação das contribuições sindicais não permitia fazer frente a essas despesas? A resposta a essas e outras questões abordaremos no tópico seguinte, destinado a estudar as relações das Organizações Não Governamentais (ONGs), com o movimento dos trabalhadores extrativistas.

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3.5 AS ONGs: ALIADAS DE OUTRAS CAUSAS

A luta dos trabalhadores extrativistas vai inscrever entre seus principais colaboradores, especialmente a partir de meados da década de oitenta, as Organizações Não Governamentais (ONGs). A chegada das ONGs ao meio do movimento de trabalhadores extrativistas foi bem articulada. Seus representantes foram chegando aos poucos, como observadores ou estudiosos dos movimentos sociais e, logo depois, iniciaram os processos de colaboração, passando a assessorar com informações sobre os direitos desses trabalhadores para em seguida, iniciarem os procedimentos mais entrelaçados, mais intensos de financiamento e gerenciamento dos movimentos, obviamente, reorientando as lutas desses trabalhadores para a equalização com os interesses das ONGs que representavam. Um recorte do jornal A Gazeta, nos remete ao pensamento de um “executivo” de uma ONG Internacional, a Cultural Survival, que estava chegando para atuar no Acre. Com o título de “Dólares para os povos da floresta”, a matéria registra essa passagem:
A Cultural Survival é dirigida pelo antropólogo da Universidade de Harvard David Maybury-Lewis, que nos anos 50 a 80 por períodos morou no Brasil, onde trabalhou no Museu Goeldi, em Belém, e na Fundação Ford, como orientador no programa de pós-graduação em Ciências Sociais. Nos países das Américas, a Survival trabalha com índios e em outras partes do mundo ajuda tribos e grupos étnicos com financiamento de pequenos projetos no valor de US$ 500 a 10 mil dólares. Como metodologia de trabalho a entidade dispensa assessoria técnica “de fora” nos projetos que financia. “Achamos que quem recebe muito dinheiro, fica dependente do dinheiro e idéias. Mas se for pouco há mais interesse em fazer os projetos irem para a frente”. Comentou James Clay, atual representante desta ONG no Brasil. (Jornal A Gazeta. Rio Branco, março de 1989). (destaque nosso).

Em outra matéria com título: “Seringueiros vão exportar: Xapuri busca o mercado dos EUA com ecologista”, o mesmo James Clay, deixa mais algumas pistas de suas intenções:
O representante da Cultural Survival, entidade norte-americana de apoio ao movimento popular, James Clay, viajou ontem para Xapuri a fim de fechar contrato com a cooperativa de seringueiros do Sindicato de Trabalhadores Rurais. Ele pretende manter contatos também com o Conselho Nacional dos Seringueiros para acertar a aquisição de 80 toneladas de castanha este ano, fornecidas pelas cooperativas de Reservas Extrativistas, como meio de apoiar a preservação da floresta. James Clay informou que já obteve na Fundação de Tecnologia do Acre (FUNTAC), amostras de 13 produtos para levar à indústria de sorvetes Ben & Jerry‟s, para futura ampliação das compras da produção dos seringueiros, por parte de empresas ligadas ao movimento ambientalista nos Estados Unidos. (...) “Vou falar nos Estado Unidos sobre como fazer para crescer esse mercado. Tenho certeza de que vamos ganhar dinheiro com os produtos da floresta. E podemos dar parte do dinheiro na frente, pagando preços que vão ser, no mínimo, o dobro do que eles recebem

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agora. Há um interesse aqui e lá, onde o mercado dos ambientalistas tem cerca de dez milhões de membros”. Afirmou. (Jornal A Gazeta. Rio Branco, março de 1989). (grifamos).

Como se pode perceber em quatro passagens, destacadas, dessas matérias, estão registradas algumas características desta ONG, que podemos reputar como sendo a de muitas outras que, no decorrer dos anos, principalmente depois da morte de Chico Mendes, em 1988, foram chegando ao território acreano. No primeiro trecho a definição de um campo de atuação: tribos indígenas e grupos étnicos; no segundo, fala-se de atuação junto aos movimentos populares, depois a defesa da floresta, mas destaca-se também, a definição da ONG como facilitadora da realização de negócios. Seguindo essas pegadas, vejamos outros aspectos da chegada desse novo aliado dos trabalhadores extrativistas do Acre. Na sua estratégia de aproximação, inicialmente, os agentes das ONGs não entraram em confronto com os agentes pastorais das CEBs, nem com os da CONTAG, CUT, que já atuavam junto aqueles trabalhadores, pelo contrário, sempre se mostravam solícitos e dispostos a colaborar também com essas entidades. Mantinham distanciamento relativo com os partidos, especialmente com os comunistas PRC e PC do B, mas não se negavam a contribuir com o PT. O afastamento das ONGs com relação aos partidos comunistas se dava porque a maioria dos militantes comunistas no Acre eram oriundos do movimento estudantil universitário, onde as questões ligadas ao imperialismo eram relativamente bem debatidas, principalmente as relações estrangeiras do Brasil com os países considerados “imperialistas”. Um exemplo clássico era a oposição/denúncia que a União Nacional dos Estudantes (UNE) e, por conseqüência, o Diretório Central dos Estudantes (DCE-UFAC) travavam contra os “acordos MEC-USAID e, como a maioria das ONGs eram estrangeiras, havia também por parte desses partidos, muitas restrições a suas interferências na vida dos trabalhadores locais. Essas “interferências” comumente eram entendidas como intervenção estrangeira, por esses militantes61. A grande vantagem das ONGs em relação às outras instituições e entidades que atuavam junto aos trabalhadores extrativistas, se dava pela capacidade de financiamento de algumas atividades necessárias a organização desses trabalhadores, tais como: manutenção
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- Esse fato talvez tenha sido detectado naquele momento, o que fez com que muitas ONGs estrangeiras estimulassem a criação de seções nacionais de suas matrizes, ou até mesmo apoiassem a criação de ONGs nacionais ou locais com as mesmas idéias daquelas.

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de uma sede, recursos financeiros para transportes, alimentação e outras doações, que as outras parceiras dos seringueiros não dispunham. Enquanto a Igreja, a CONTAG, a CUT e os partidos de esquerda amargavam perpétua soçobra financeira, as ONGs já chegaram ao Acre com recursos suficientes para atraírem a atenção desses trabalhadores. A existência dos sindicatos de trabalhadores rurais no Acre sempre foi marcada pela carência de recursos financeiros, pois embora houvesse um bom número de filiados, o pagamento da contribuição sindical não rendia o suficiente, sequer para a manutenção de uma sede, pois entre os sindicalizados poucos detinham a condição de garantir regularidade no pagamento de sua contribuição sindical. As primeiras ONGs que se destacaram na atuação junto aos trabalhadores extrativistas do Vale do Acre, no sentido de financiamento e orientação de políticas a serem adotadas foram a Fundação Ford e a OXFAN que juntas com o Centro de Estudos de Direito Internacional - CEDI-SP, o Instituto de Estudos Sócio-Econômicos – INESC (essas duas últimas ONGs brasileiras) e alguns professores das Universidades de Brasília, Unicamp e USP, participaram como observadores do I Congresso dos trabalhadores rurais de Xapuri, em 1984, Congresso esse que serviria de base para a organização do I Encontro Nacional de Seringueiros que se realizaria em Brasília em 1985 e que fundaria o Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS. Esse Congresso dos Seringueiros em Brasília, por exemplo, só foi possível com os recursos provenientes dessas organizações não governamentais. A participação da Fundação Ford e da OXFAN, junto com a Fundação PróMemória, órgão do Governo Federal, que financiaram esse I Encontro Nacional de Seringueiros, foram fundamentais na articulação de contatos que “abriram as portas do mundo” para algumas lideranças dos trabalhadores extrativistas. Vejamos o que diz Costa (1997), sobre essa relação ONG/Trabalhadores Extrativistas:

Quanto ao mito Chico Mendes, basta mencionar que foi criado graças a atuação da antropóloga Mary Allegretti, que teve como primeiro “mentor” na rede ambientalista o inglês Toni Gross, representante da ONG britânica Oxfan no Brasil, cuja principal área de ação era a região Amazônica. Em 1985, Allegretti foi trabalhar como especialista em direito indígena no Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (INESC), ONG de Brasília que representa um dos principais enlaces brasileiros com o aparato ambientalista internacional. No mesmo ano, organizou um Encontro Nacional de Seringueiros, a partir do qual Chico Mendes seria lançado em sua meteórica carreira de campeão das causas ambientais. Para tanto, Allegretti contou com a preciosa colaboração de ONGs situadas no alto escalão da rede ambientalista internacional, como Environmental Defense Fund (EDF), cujo

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principal agente no Brasil, o antropólogo Stephan Schwartzman, levou Chico Mendes duas vezes a Washington. Como conseqüência, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) foi pressionado para suspender empréstimos para a construção, por razões alegadamente ambientais, da rodovia BR-364 – contra a qual Allegretti chegou a depor no Congresso dos EUA – artéria crucial para o desenvolvimento econômico do Acre, pois ligaria a região ao Pacífico. (Costa Nilder, 1997. In. www.alerta.inf.br. Acesso realizado em 18. 10.07).

Os contatos com os agentes das ONGs e com alguns professores/pesquisadores de universidades do Centro-Sul do país, entre outras questões, foram moldando as novas pautas no organograma de lutas desses trabalhadores. Mas, Zhouri (2006), credita ao advento da internet, a melhora na possibilidade de articulação entre as ONGs nacionais e as internacionais, especialmente européias e estadunidenses, que projetaram uma atuação em rede. Esse modelo de atuação permitiu com que:

Nesse processo, atores praticamente desconhecidos no cenário político nacional, fossem projetados na arena global, onde passaram a assumir papéis e significados diversos dos que tinham no contexto doméstico. Um exemplo clássico é Chico Mendes: de liderança local entre seringueiros e sindicalistas, ele foi projetado internacionalmente como ambientalista. De forma análoga, várias lideranças indígenas foram igualmente deslocadas dos contextos e agendas locais (conflitos com fazendeiros e agentes da Funai, por exemplo) e lançados no espaço global para apresentações públicas e reuniões com políticos em Washington, em Londres e demais cidades européias. As lideranças indígenas atuavam, inclusive, como símbolo para muitas organizações nos EUA e na Europa. (ZHOURI, 2006: 144-5 – Revista Horizontes Antropológicos, POA, ano 12, n. 25, p. 139169, jan/jun. 2006).

Com as duas citações acima (Costa e Zhouri), não quero defender a tese de que Chico Mendes, bem como outras lideranças indígenas, foram ou são meros joguetes nas mãos dos representantes de ONGs, pois seguindo essa tese qualquer um poderia ter sido o escolhido. Obviamente os escolhidos não o foram também, por acaso, houve troca nas relações estabelecidas. Chico tinha um perfil diferenciado no meio dos seringueiros que ele já representava. Além de ser alfabetizado, coisa rara entre os seringueiros, tinha recebido algumas noções políticas de um velho comunista62 que havia se auto-exilado nas florestas acreanas, fugindo das ditaduras no Brasil e na Bolívia onde também havia militado.

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- O “velho comunista” a que nos referimos é Euclídes Fernandes Távora – antigo “tenente” aliado de Prestes, que havia fugido de Fernando de Noronha onde cumpria prisão. Após sua fuga veio para a Bolívia, tendo militado junto aos movimentos populares naquele País e de onde, também perseguido, fugiu para o Acre, tendo fixado moradia próximo a colocação onde morava a família de Chico Mendes.

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O que as ONGs faziam com maestria era escolher bem os seus parceiros, no sentido de garantir boa penetração de suas idéias, pois não era fácil redirecionar uma luta que estava enraizada, como é o caso da luta pela terra, no caso dos seringueiros, para a luta ambiental como propunham as ONGs, além do mais, seus representantes, por mais recursos que dispusessem, não conseguiriam fazer o trabalho de base que os sindicatos, a CONTAG, a Igreja e os partidos de esquerda vinham fazendo. A estratégia correta era estabelecer um relacionamento engajado com as lideranças que já circulavam bem nos ambientes escolhidos para sua atuação. Antes de seguirmos adiante na descrição do envolvimento das ONGs com os trabalhadores extrativistas no Vale do Rio Acre, porém, vamos destacar algumas formas de apreensão sobre o surgimento das ONGs e seus objetivos, para podermos caminhar melhor nesse entrelaçado mundo onde as aparências comumente se confundem com a realidade. Não há como precisar uma data de nascimento para as ONGs, pois organizações com essas características multissetoriais, podem ser encontradas desde tempos remotos na história. Se pensarmos, por exemplo, que sua tipificação se dá pelo caráter “nãogovernamental”, poderíamos incluir clubes, associações de bairros, igrejas e até alguns tipos de sindicatos, o que redundaria num conceito muito amplo. Entendemos que as diferenças residem, portanto, na sua forma de organização, que é formatada em articulação com o objetivo traçado pelos criadores da ONG, sem o devido lastro social na composição, que é como se formam os sindicatos, associações e clubes, por exemplo. As ONGs são formadas para, segundo elas “ajudarem” o social, enquanto que sindicatos e associações são formados por e pelo segmento social propriamente dito. Em termos de Brasil, o conceito de ONG passou a ser utilizado com mais intensidade a partir dos anos 80 e provém do inglês Non-Governmental Organizations (NGO), na mesma acepção que vem sendo usado pela ONU desde 1950, para caracterizar organizações internacionais que não haviam se estabelecido a partir de acordos governamentais63. No seu nascimento, suas características principais eram o apoio a grupos étnicos e movimentos populares, no sentido mais caritativo, ou ainda, na defesa dos direitos humanos, depois foram ampliando seu leque de ação para o campo ambiental até se
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- GONÇALVES, Hebe Signorini (Org.). Organizações Não Governamentais: Solução ou Problema. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. Nessa obra há vários textos que tratam sobre o surgimento, indicações e perfil das ONGs.

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transformarem em grupos de pressão, com forte matiz política, atuando nos mais diversos setores. Porém as ONGs que combinam as características de defesa da biodiversidade com justiça social, como as que estamos estudando, possuem um “DNA” já mapeado. Segundo Gilberto Montibeller Filho (2004) houve uma evolução rastreável do movimento ambientalista que dá lastro as ONGs, desde o seu surgimento até constituir-se em global. Com base em estudos publicados por Leis e D‟Amato (1995), Montibeller traça o seguinte roteiro:
Assim, os anos 50 são vistos como os do ambientalismo dos cientistas, pois é pela via da ciência que emerge a preocupação ecológica em âmbito mundial. A década de 1960 é descrita pelos autores, como a das organizações não governamentais: diversos grupos e organizações aparecem de forma exponencial nesse período. A seguinte, anos 70, é a da institucionalização do ambientalismo. Foi marcada pela Conferência de Estocolmo-72 sobre meio ambiente, a qual evidenciou a preocupação do sistema político – governos e partidos – e da própria Igreja Católica, com a questão. Surgem no período, diversas agencias estatais vinculadas ao meio ambiente. Os anos 80 são marcados pela Comissão Brundtland e pela proeminência dos partidos verdes que haviam surgido na década anterior. A Comissão iniciou seus trabalhos em 1983 e quatro anos depois publicou seu famoso Relatório, no qual sintetiza o conceito de desenvolvimento sustentável.(...) No Brasil, a constituição do ambientalismo deve ser situada nos anos 70, “quando começam a configurar-se propostas provenientes tanto do Estado quanto da sociedade civil”. (MONTIBELLER FILHO, 2004: 38-9).

Lino et al. (2005), tratando o tema em nível internacional, destacaram que:
Embora as ONGs tenham recebido tal denominação e status internacional no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), no período do pós-guerra, a sua rápida propagação institucional ocorreu como parte da reestruturação da entidade mundial levada a cabo pelo então secretário-geral Boutros Boutros-Ghali, na década passada. Porém, já na década de 1960, a Fundação da Comunidade Britânica se empenhava em fomentar o crescimento de tais organismos como células de subversão contra os Estados nacionais, vendo nelas perfeitas portadoras de uma cultura de relativismo promovida pelos círculos hegemônicos encabeçados pela oligarquia anglo-americana, que facilitariam as tarefas do desmonte dos Estados nacionais e, em muitos casos, os valores cristãos associados a eles. Em suma, as ONGs deveriam funcionar como veículos para a aceitação da cultura da “Nova Era” – indigenismo, ambientalismo, malthusianismo etc. -, como meios de subversão dos valores, tanto da razão como da fé. (LINO et. al. 2005: 240).

Já Michel Chossudovsky (1999) assegura que a proliferação de ONGs, tanto no Brasil quanto na América Latina e no terceiro mundo em geral, se deu nos anos oitenta, como resultado de políticas estimuladas por organismos multilaterais, especialmente o Fundo Monetário Internacional - FMI, o Banco Mundial – BIRD, o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, e alguns organismos da Organização das Nações Unidas – ONU, como o PNUD, a FAO, a UNESCO e o UNICEF, diante do que esses organismos 211

estabeleceram como condicionalidades, ou seja, regras impostas por essas agências para liberar recursos para esses países, principalmente os recursos do Fundo Social de Emergência – FSE. Essas condicionalidades significam que, para um país pobre fazer jus ao FSE, precisa se “ajustar”, precisa trabalhar para “redução da pobreza” em critérios definidos pelo Banco Mundial. Para Chossudovsky:
O FSE exige uma abordagem de “engenharia social”, um esquema político para “administrar a pobreza” e aliviar a inquietação social a um custo mínimo para os credores. Os chamados “programas com metas estabelecidas” destinados a “ajudar os pobres”, combinados com a “recuperação dos custos” e a “privatização” dos serviços de saúde e educação, são considerados um meio “mais eficiente” de liberar programas sociais. O Estado retira-se e muitos programas sob a jurisdição de ministérios alinhados serão, daí em diante, administrados por organizações da sociedade civil sob patrocínio do FSE. Este também financia, sob os auspícios da “rede de seguridade social”, pagamentos de indenização por demissão e/ou projetos de “mínimo emprego” destinados aos funcionários públicos demitidos em conseqüência do programa de ajuste. O FSE sanciona oficialmente a retirada do Estado dos setores sociais e a “administração da pobreza” (no âmbito microssocial) por meio de estruturas organizacionais separadas e paralelas. Várias organizações não governamentais (ONGs) financiadas por “programas de ajuda” internacionais têm absorvido gradualmente muitas das funções do governo de cada país. Produção em pequena escala e projetos de produção artesanal, subcontratação por firmas de exportação, treinamento com base comunitária e programas de emprego, etc., são organizados sob os auspícios da “rede de seguridade social”. Assegura-se, desse modo, uma precária sobrevivência para as comunidades locais, ao mesmo tempo em que se diminui o risco de sublevação social. (Chossudovsky, 1999: 58-9).

Só não concordamos integralmente com as ponderações de Chossudovsky, porque no caso dos seringueiros do Vale do Rio Acre, na verdade podemos considerar toda a extensão desta Unidade Federativa, não houve uma substituição do Estado por essas organizações da sociedade civil. O caso do Acre é singular porque desde seu debut na cena do Estado brasileiro, a iniciativa privada sempre comandou a vida nos seringais. Todo o ordenamento nos seringais obedeceu à lógica da empresa privada, então, nesse caso as ONGs entraram num espaço onde já se registrava um vazio de Estado, ou melhor, entraram em ação contra as políticas do Estado que, por sua vez, eram contra aqueles trabalhadores e não em substituição as suas ações, mas, em todo caso, sua base de atuação também foi a de investir em projetos de pequena escala, em ancorar a produção dos trabalhadores extrativistas em modelos artesanais, introduzindo as preocupações ambientais. Movendo todas as suas ações para responder as demandas dos organismos multilaterais citados por Chossudovsky.

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Andréa Zhouri (2006), outra estudiosa do papel da ONGs e do ativismo internacional, aponta a década de setenta como a época que marcou maior enlevo com as preocupações ambientais, destacadamente a eleição da Amazônia como área privilegiada desse “ativismo além-fronteiras”. Zhouri escreveu que:
Os enormes impactos socioambientais decorrentes dos projetos de “desenvolvimento” financiados pelos bancos multilaterais mobilizaram, sobretudo durante os anos 1980, ambientalistas do Norte e do Sul em defesa da floresta amazônica. Se as queimadas simbolizaram à época o processo de destruição, a partir dos anos 1990 foram as imagens das toras de madeira empilhada nas carrocerias dos caminhões, nos pátios das serrarias ou mesmo nos rios que passaram a galvanizar as diversas preocupações. (...) Nesse contexto é que as principais organizações não-governamentais (ONGs), entre elas o Greenpeace, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a Amigos da Terra (Friends of the Earth), associaram-se aos empresários do setor madeireiro para desenvolverem um esquema de certificação florestal conhecido como Forest Stewardship Council – FSC, ou Conselho de Manejo Florestal, destinado a melhorar as práticas florestais mundo afora.

Para Zhouri, as peculiaridades da Amazônia também serviram para modelar os tipos de ONGs que passaram a atuar na região. Ela indica que se podem delinear três tipos de tendências: as que lidam com árvores, as que lidam com gente e as que lidam com árvores e gente, ou seja, entre as próprias ONGs, há diferenças sobre o campo de atuação, mas quase todas elas concorrem para o canal denominado “desenvolvimento sustentável”, nos moldes como esse conceito foi indicado pelo Relatório Brundtland em 1987, documento que passou a orientar determinadas políticas públicas, bem como a reforçar necessidades de defesa do meio ambiente, por isso também ficou conhecido como Nosso Futuro Comum. Mas, há autores que destacam outros aspectos, que conferem outros papéis a presença das ONGs, por exemplo, James Petras (1999), pondera que:
No início da década de oitenta, os setores mais perceptivos das classes dirigentes neoliberais perceberam que suas políticas estavam polarizando a sociedade e provocando um descontentamento social de grandes proporções. Os políticos neoliberais começaram a financiar e a promover uma estratégia paralela “de baixo”, a promoção de organizações “comunitárias de base” (“Grass roots”) com uma ideologia antiestatal para intervir nas classes potencialmente conflitivas, para criar um “amortecedor social”. Tais organizações dependiam financeiramente das fontes neoliberais e disputavam diretamente com os movimentos sociopolíticos pelo engajamento e fidelidade dos líderes locais e das comunidades militantes. Na década de 1990 havia milhares dessas organizações descritas como sendo “não-governamentais”, as quais recebiam por volta de 4 bilhões de dólares do mundo todo. (PETRAS, 1999: 44).

Sobre o caráter benfazejo das organizações não governamentais, Petras destaca que:

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A confusão existente com relação ao caráter político das ONGs originou-se na década de 1970, durante os tempos da ditadura. Nessa época, elas eram ativas prestando apoio humanitário às vítimas das ditaduras militares e denunciando violações dos direitos humanos. As ONGs apoiaram “sopões dos pobres” que permitiam que famílias sobrevivessem à primeira onda dos tratamentos de choque administrados pelas ditaduras neoliberais. Esse período gerou uma imagem favorável das ONGs, até mesmo entre setores de Esquerda. Elas eram consideradas como sendo parte do “acampamento progressista”. Mesmo naquela época, contudo, a limitação das ONGs era evidente. Enquanto elas atacavam as violações dos direitos humanos das ditaduras locais, raramente denunciavam os seus patrocinadores norte-americanos e europeus que os financiavam e aconselhavam. Nem havia um esforço sério para ligar as políticas econômicas neoliberais e as violações dos direitos humanos à nova volta do sistema imperialista. Obviamente, as fontes externas de financiamento limitavam a esfera da crítica e das ações em prol dos direitos humanos. (idem)

No Brasil, um dos quadros que mais se encaixam nesse perfil traçado por Petras para a atuação das ONGs, talvez seja a forma com Herbert de Souza, o Betinho, concebia a participação das ONGs na vida nacional. Para Betinho (1992) as ONGs, especialmente as do primeiro mundo foram mais solidárias e universalistas do que as instituições oficiais. Betinho evidencia que:

O não-governamental não veio por acaso. De alguma forma, as ONGs constituem a crítica moderna aos fracassos e descaminhos do Estado e as deficiências de instituições clássicas como os partidos, sindicatos, empresas, universidades, que se submeteram ou se acomodaram à dinâmica do mundo oficial, entrando na órbita do capital e do Estado. (...) As ONGs do primeiro mundo foram mais solidárias e universalistas que as instituições oficiais. (...) Ao serem capazes de verem a cara humana ou desumana do desenvolvimento, foram capazes de também ver suas conseqüências. (...) No chamado terceiro mundo, as ONGs – vivendo as conseqüências do capitalismo e o social-liberalismo, e sua forma primária no terceiro mundo, como as ditaduras militares e os autoritarismos de todo o tipo – foram mais contra-governamentais que não-governamentais. Tiveram que viver na margem, contra o rumo da ordem64.

Essa concepção de Betinho a respeito das ONGs, principalmente o fato dele achar que elas são suprapartidárias, supra-religiosas, que não tem fins lucrativos, que não se ligam ao mercado e não se submetem a lógica de nenhum poder ou hierarquia, como expressa no artigo supracitado, não é uma posição consensual, James Petras, por exemplo, ao contrário de Betinho, pensa que as ONGs, em sua maioria, são bem articuladas ideologicamente e que para ele:
As ONGs tornaram-se a “face da comunidade” do neoliberalismo, intimamente relacionadas aqueles no topo e complementando o seu trabalho nocivo aos projetos locais. Efetivamente, os neoliberais organizaram uma operação “pinça” ou uma estratégia dupla. Infelizmente, muitos da esquerda concentraram-se somente no “Neoliberalismo” de cima e de fora (FMI, Banco Mundial) ao invés de

64

- SOUZA. Herbert. O Papel das ONGs e da Sociedade Civil em Relação ao Meio Ambiente. In. Planejamento e Políticas Públicas, revista editada pelo IPEA, nº 7, junho de 1992.

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se concentrarem no neoliberalismo de baixo (ONGs, microempresas). Uma das principais razões para que esse fato tenha sido passado por alto foi a conversão de diversos ex-marxistas à formula e prática das ONGs. O pós-marxismo foi o passe ideológico da política de classe para o “desenvolvimento comunitário”, do Marxismo às ONGs. (PETRAS, 1999 p. 45-46).

Também para a pesquisadora do Museu Emílio Goeldi, Rosineide Bentes (2005), o início dos anos de 1980, com a ascensão de governos neoliberais, especialmente em países do G-7, marcam uma reorientação da atuação dos organismos multilaterais em todo o mundo, no sentido de que:
Os líderes neoliberais que ascenderam ao poder, em particular na Inglaterra e nos Estados Unidos, elegeram como organizações internacionais apropriadas para lidar com questões econômicas e de desenvolvimento somente as organizações nas quais o G-7 tem maior controle político, relegando a ONU, que passou a enfrentar problemas financeiros. Em Stormy Weather, Guy Dauncey e Patrick Mazza mostram que, no Banco Mundial e no FMI, em vez de democracia, vigora um sistema no qual cada membro tem direito ao mesmo número de votos mais um voto para cada cem mil dólares de contribuição. As nações que compõem o G-7 contribuem com mais dinheiro, portanto, elas decidem sobre como os fundos do Banco Mundial serão usados. Os países “subdesenvolvidos” e “em desenvolvimento” somam 83% das nações do mundo, mas controlam só 39% dos votos. Essas instituições financeiras priorizam os financiamentos de projetos que beneficiam as corporações econômicas de países do G-7. (BENTES, 2005: 227).

Para Bentes, esse “descredenciamento” da ONU e a ascensão do Banco Mundial e FMI para o papel de interlocutores privilegiados, vai redirecionar também o papel das principais ONGs, que adotaram uma postura mais conservacionista, priorizando a defesa da floresta, ao invés de manterem sua política ambiental, que era mais voltada para a qualidade de vida dos seres humanos. Essa mudança se deu porque os projetos financiados pelo Banco Mundial, especialmente, favoreciam as grandes empresas dos países do G-7, que estavam associadas à exploração do petróleo e outros minérios extremamente poluentes, mas que por sua vez, garantem o lucro dessas empresas e o status e a qualidade de vida das populações naqueles países, acrescente-se ainda que essas populações beneficiadas com os lucros daquelas empresas, são os principais financiadores dessas ONGs, então, seria contraditório, incongruente mesmo, para estas organizações manterem a defesa de uma política ambiental que era frontalmente contrária aos interesses de seus financiadores Porém, nesse contexto de avaliação do papel das ONGs, há autores que vêem, ainda, na sua atuação a intervenção estrangeira modelando uma nova forma de colonialismo. Lino et. al., argumentam a existência de um engendramento ideológico: “habilmente planejado, 215

criado e mantido por poderosos grupos hegemônicos internacionalistas, com o propósito de conter a expansão dos benefícios da sociedade industrial-tecnológica a todos os povos e países do planeta e manter o processo de desenvolvimento sob o seu controle”. (LINO et al. 2005: 11). Situando essa construção no pós Guerra, como uma herança do New Deal e da orientação anticolonialista do presidente Franklin D. Roosevelt, os autores (op. cit. 13), argumentam sobre a existência de um colonialismo de novo tipo, onde se “força os indivíduos subjugados a organizar-se contra os interesses da própria nação, bastando ao novo poder colonial difundir e canalizar os conceitos e crenças que alimentam as mentes colonizadas”. Nesse sentido, ressaltam que:
Para catalisar as percepções e ações das massas de indivíduos submetidos a semelhante cativeiro mental, os poderes oligárquicos, especialmente o seu componente anglo-americano, criaram uma pletora de ONGs, muitas das quais com atuação em dezenas de países, que atuam como um verdadeiro exército irregular de intervenção. De fato, alguns especialistas têm proposto o conceito de “guerra de quarta geração” para o tipo de estratégia protagonizada pelas ONGs ambientalistasindigenistas internacionais que atuam em países como o Brasil, em que o Estado nacional sofre o fustigamento de agentes não-estatais, que podem ou não estar a serviço de potências estrangeiras. Em certo sentido, estamos em presença de um novo tipo de pirataria, na qual interesses externos impossibilitados de atuar ostensivamente impõem suas políticas por intermédio de “patentes de corso” modernas, implementadas por ONGs internacionais. A proliferação dos chamados “selos verdes” se enquadra nessa categoria. (LINO et. al. 2005: 16).

Para esses autores:
Os propósitos dessa nova forma de colonialismo são os mesmos de antes: manter o controle de fontes de recursos naturais estratégicos, como minerais, fontes de energia e alimentos, e o bloqueio do crescimento populacional e do desenvolvimento dos povos submetidos ao processo, impedindo-os de competir pelo uso de seus próprios recursos naturais limitados, dentro do conceito malthusiano de escassez, que está na raiz do ambientalismo. Uma das formas de se fazer isso é o estabelecimento de reservas naturais e indígenas de grandes dimensões, que dificultam ou impossibilitam, tanto a exploração dos recursos naturais nelas existentes, como a implementação de projetos de infraestrutura, principalmente energéticos e viários. Com isso, logra-se um controle geopolítico sobre vastos territórios que, embora permaneçam formalmente sob a soberania dos Estados nos quais se situam, na prática, seu destino fica atrelado a desígnios exógenos de entidades supranacionais. (idem. p. 16, 17).

As linhas de percepção do papel das ONGs parecem tão diversas quanto a sua quantidade e a variedade de temas que elas elegem como área de atuação. Touraine (1997), por exemplo, chega a considerar as ONGs como movimentos sociais. Entre os que defendem sua atuação e os que são contrários, há ainda uma série de outras opiniões que

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divergem sob seu caráter alienígena, ou da inexistência de controle por parte das autoridades governamentais. Porém, independente do juízo que se possa fazer a posteriori, o fato é que no Acre, as ONGs se integraram aos movimentos dos trabalhadores extrativistas e passaram a fazer parte do conjunto de forças políticas que desde o início dos anos 1990, vem se apresentando, especialmente no Acre, como portador de um modelo de desenvolvimento que tem como base a sustentabilidade. Corroborando com essa idéia de deslocamento das ações das ONGs, Porto Gonçalves escreveu:
Desde a segunda metade dos anos 1990 há um deslocamento da atuação de algumas grandes organizações não-governamentais, não só com relação ao mercado como também em relação à ação das corporações multinacionais e do próprio Banco Mundial, quando muitas delas passam a pôr em prática uma visão acerca dessas instituições muito diferentes daquela que a maior parte das organizações populares vinham mantendo até então. Observemos que no universo discursivo do mundo das ONGs cada vez mais se fala de profissionalismo, competência e agenda positiva, e menos em militância, amadorismo e contestação. (PORTO GONÇALVES, 2004: 141).

O autor em destaque chega mesmo a alertar que em alguns casos o afastamento é tão gritante que algumas ONGs em nome do “uso racional dos recursos naturais”, negam a primazia das populações tradicionais na gestão de seus próprios recursos naturais, o que passaria a ser feito por empresas. Para ele, isso configura um forte etnocentrismo, que marca ainda mais a colonialidade do saber e do poder, pois considera racional apenas aquele tipo de uso que se faz “com base no saber técnico-científico convencional”. No Acre a atuação das ONGs de grife (Greenpeace, WWF, Friends of the Earth, The Nature Consevancy - TNC, etc.), chegou um pouco mais tarde, ou apenas estabeleceram contato e ajudaram outras ONGs da e na região. As que tiveram atuação mais destacada desde os primeiros momentos, dentro do contexto do que consideramos grandes ONGs ou ONGs de grife internacionais, foram a OXFAN65, a Fundação Ford, a Cooperação Técnica Alemã66 (cuja sigla em alemão é GTZ,), a Cultural Survival, a Survival International, o Enviromental Defense Fund (EDF), o Serviço Alemão de
65

- OXFAN: é uma ONG fundada na Inglaterra em 1942, cuja sigla significa Comitê de Oxford para ajuda contra a fome, teve sua atuação inicial voltada para amenizar os sofrimentos causados pela Segunda Guerra, depois incorporou outros países e fundou a Oxfan International - OI, diz em seu site que trabalha para gente pobre, influenciando gente importante.
66

- Cooperação Técnica Alemã - GTZ - é um organismo que se define como empresa pública de direito privado ligada ao Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha. No Brasil, atua como se fosse uma ONG.

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Cooperação Técnica e Social (Deutscher Entwicklungsdienst - DED), o Instituto Sócio Ambiental (ISA), o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais - PPG7. Dentre as ONGs nacionais, destacamos: o Centro Ecumênico de Documentação e Informação - CEDI, que mais tarde foi incorporado pelo Instituto Socioambiental (ISA), que se classifica como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), o Instituto de Estudos Sócio-Econômicos - INESC, o Grupo de Trabalho Amazônico GTA, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Centro dos Trabalhadores da Amazônia - CTA, o Comitê Chico Mendes e, o próprio Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS, SOS - Amazônia e o Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agro-Florestais do Acre - PESACRE. Há grandes diferenças, contudo, na atuação das ONGs. Há as ONGs, como vimos denominando, de “grife”, que se especializaram na busca de espaços nos grandes canais de comunicação para divulgar “suas” idéias e as que atuam mais dentro, ou mais próximas as comunidades, que querem passar despercebidas, pois “suas” idéias são menos nobres, como as que praticam a biopirataria, por exemplo. Nesse sentido temos as que têm bons propósitos e as que nem tanto. Os bons propósitos de uma atuação prática, como contribuir para a alfabetização, para melhoras na qualidade da alimentação ou na saúde, entretanto, não as absolve de, por seu turno, atuarem ideologicamente contra, no sentido de desarticularem movimentos mais políticos, como a participação nos sindicatos ou em partidos mais “radicais” no combate ao capitalismo. E há aquelas como escreveu Zhouri (2004), que trabalham com árvores, as que trabalham com gente e as que trabalham com árvores e gente. Vamos apresentar, então, do ponto de vista da nossa observação um exemplo de cada uma delas no contexto da história dos trabalhadores extrativistas do Acre. Iniciamos com uma que pelo seu perfil, identificamos como uma ONG que trabalha com gente. Trata-se do Centro dos Trabalhadores da Amazônia - CTA. Essa ONG surgiu em 1983 em Rio Branco, mas com área de atuação voltada para os seringais situados entre os municípios de Xapuri e Brasiléia e teve entre seus dirigentes, as principais lideranças políticas do Estado, passando por Chico Mendes, liderança dos seringueiros, até chegar as lideranças urbanas, que se destacaram mais por atuarem nas estruturas do governo, fossem nas instâncias parlamentares, fossem nas executivas, como Marina Silva (Senadora e ex218

Ministra do Meio Ambiente), Jorge Viana (ex-Prefeito da capital e ex-governador por dois mandatos) e o atual Governador do Estado Arnóbio Marques, além de um número bastante significativo de outros dirigentes intermediários que se revezam em cargos públicos e nas diretorias desta ONG. Esta ONG, a partir de suas parcerias internacionais, que financiavam seus projetos, elaborou formas de inserção junto às comunidades extrativistas, dando “suporte técnicoinstitucional ao movimento dos seringueiros” e suas ações foram pioneiras não só na metodologia, como também no ineditismo das propostas. Suas ações no campo da educação, com o projeto “Educação na Floresta” que, pela primeira vez, levou uma escola aquelas localidades, apresentando desde o início uma proposta pedagógica diferenciada, com base no método Paulo Freire, ganhavam tanto a adesão das comunidades, como iam tornando-se referência, pelo fato simples de estarem presentes, aonde as estruturas formais (estatais), não chegavam. Na área da saúde, o pioneirismo se dava também por uma estratégia de respeito aos saberes locais, observando o uso das plantas medicinais e do conhecimento tradicional. No histórico de apresentação do CTA, lemos:

A idéia central era o desenvolvimento de uma proposta pedagógica adaptada a lógica e a linguagem das populações extrativistas. A partir daí com o envolvimento direto do movimento social da época e das comunidades fora possível, sem a presença do estado, a implementação da primeira escola formal e o primeiro posto de saúde nas florestas do Estado do Acre. Com o objetivo de melhorar as condições de saúde nas reservas extrativistas, áreas onde a população não tinha acesso aos serviços básicos de saúde, o CTA estruturou o Programa de Saúde da Floresta, voltado para a formação de agentes de saúde locais e de professores, que garantiu permanência das pessoas na área, além de gerar empregos nas reservas. No início da década de 1990, o CTA já era responsável pelo acompanhamento de 51 escolas e mais de mil crianças matriculadas por ano. Neste mesmo período também acompanhava 32 postos de saúde. (In. www.cta-acre.org, página de apresentação. Acesso realizado em 27/10/2007).

Os “parceiros” que financiam o CTA são os mais diversos, passando por estruturas dos poderes municipais, estadual e nacional, tipo Fundo Nacional de Desenvolvimento Econômico - FNDE, Secretarias de Governo e prefeituras, Petrobrás, até as internacionais, como USAID, ITTO, Fundação MOORE, WWF, etc., nesse contexto, o CTA também foi redefinindo suas áreas de atuação, colocando-se hoje como uma organização que ao compreender as mudanças por que passaram os trabalhadores extrativistas, foi se moldando para atuar com comunidades florestais, saúde e educação, políticas públicas e gestão de projetos, se auto-definindo assim: 219

Desta forma, para buscar alternativas produtivas que viabilizassem economicamente as reservas extrativistas e projetos agroextrativistas, conciliando o uso sustentável dos recursos florestais com a autogestão e melhoria da qualidade de vida das populações extrativistas, surgiu o Programa “Florestas Sustentáveis”, do Cta. Que a partir de processos educativos estimula a adoção de práticas sustentáveis do uso dos recursos florestais e o fortalecimento das comunidades extrativistas. (...) Através de ações de assessoria técnica, política e de formação visando a defesa de seus direitos e garantias, assim como na estruturação de alternativas econômicas que garantam o desenvolvimento social, econômico e cultural dessas populações dentro de um conceito de uso sustentável dos recursos naturais, através de processos de experimentação participativa e aprendizagem. (idem).

Como podemos perceber, a articulação básica do discurso de apresentação desta ONG, se baseia na qualidade de vida da população da área de atuação escolhida, obviamente não deixa de ter um conteúdo ambiental, pois essa é a carta de apresentação para qualquer ONG que atua na região, conseguir parcerias internacionais ou subsidiárias nacionais que financiem seus projetos. Outra ONG com razoável interferência na vida das populações extrativistas do Acre e que, podemos classificar como uma ONG que se preocupa com árvores, é a SOS AMAZÔNIA, que como diz em seu informativo de apresentação:
Fundada em 30 de setembro de 1988, a Associação SOS AMAZÔNIA foi criada com o objetivo de denunciar as agressões à floresta Amazônica, apoiar o movimento de resistência dos seringueiros aos desmatamentos das florestas no Acre e colaborar com a formação de uma opinião pública que valorizasse a conservação e a preservação ambiental. Na assembléia de criação participaram professores da Universidade Federal do Acre, servidores públicos e líderes do movimento social, destacando-se Chico Mendes.

Esta ONG, tem se especializado em participar dos processos de elaboração de Relatório de Impacto no Meio Ambiente - RIMA e Estudos de Impactos Ambientais - EIA, das principais obras propostas pelo governo no sentido da construção de infra-estrutura no Estado, especialmente estradas e demarcação de reservas indígenas, reservas extrativistas, parques nacionais, florestas nacionais, áreas protegidas, etc. defendendo uma concepção aproximada dos conceitos preservacionistas e, em alguns momentos, se voltando contra a presença até mesmo de populações tradicionais em áreas que ela entende dever ser preservada in situ. A atuação desta ONG é bastante significativa na divulgação de campanhas sobre os efeitos das mudanças climáticas, enfocando o caráter alarmista incorporado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pelo Protocolo de Kyoto.

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Embora esteja escrito na sua “apresentação” de que ela estaria também apoiando as lutas dos seringueiros, seu perfil está mesmo, mais voltado para “denunciar as agressões sofridas pela floresta Amazônica”. Colocando-se como disposta “a colaborar com a formação de uma opinião pública que valorize a conservação e a preservação ambiental”, ou seja, nas entrelinhas permite que se leia uma tendência a privilegiar a tese preservacionista, que é exatamente a corrente entre os ambientalistas que defende a manutenção de determinados locais sem a presença humana. A SOS AMAZÔNIA relaciona entre suas linhas de trabalho consolidar uma posição para:
Influenciar a política ambiental do Acre e da região, através do acompanhamento e de posicionamentos junto ao conselho de Meio Ambiente do Estado, ao Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), ao Programa de Ação Ambiental Integrada e do Zoneamento do Estado e, junto a Assembléia Legislativa e Câmaras Municipais, buscando sempre agir em articulação com outras entidades e colegiados que agrupam as ong‟s acreanas (Comitê Chico Mendes, GTA). (In. www.chicomendes.org/comitechicomendes_sosamaz.php, consultado em 11/02/07).

Embora os espectros dos objetivos de ação da SOS AMAZÔNIA sejam bastante amplos, também não são pequenos os recursos que eles utilizam para divulgarem suas idéias. Apostam numa formação de jovens estudantes e investem em recursos audiovisuais que lhes servem de suporte para palestras em escolas e centros que juntam pessoas, como associações de moradores e centros comunitários, articulando parcerias com professores e pais na orientação dos mais jovens para os “problemas” ambientais, mas o foco das ações está mesmo na manutenção de um corpo técnico qualificado para atuar junto as estruturas do governo no sentido de influenciar suas decisões. Não teríamos aqui como medir o nível de influência que esta ONG já atingiu junto a sociedade de forma mais ampla, contudo, junto ao governo, principalmente no que diz respeito às obras de construção de estradas e outras obras de infra-estrutura, já podemos avaliar que seus impactos são importantes, não ainda no sentido de impedir a realização de algumas delas, como por vezes ela reivindica, mas pelo menos no caráter protelatório têm sido grande os efeitos de sua pressão. Por último, como representante de uma ONG que se “preocupa com árvores e gente”, poderíamos nomear o Comitê Chico Mendes, que é uma ONG criada na noite da morte do sindicalista/ecologista Chico Mendes e que se autodefine como “uma articulação 221

de entidades não governamentais, sindicais e de estudantes”, de acordo com as informações contidas no seu site:

O Comitê foi criado na noite de 22 de dezembro de 1988. As pessoas do movimento social e político de esquerda do Acre ao tomarem conhecimento da morte do Chico, dirigiram-se para o centro da cidade na busca do encontro mútuo como que querendo arrancar do peito a bala que de alguma maneira atingiu a todos. O encontro se deu na casa do Bispo (Diocese de Rio Branco) onde foi criado o Comitê Chico Mendes que permanece até hoje. (In. www.chicomendes.org/comitechicomendes.php, pesquisa realizada em 12/03/2007).

Na definição de seus objetivos o Comitê Chico Mendes revela uma preocupação com a punição dos culpados pela morte do sindicalista, mas vai além, acrescentando a responsabilização do “latifúndio, da devastação antiecológica”, articulados pelas autoridades locais que geravam o quadro propício para o cometimento de tais crimes. Com a punição dos executores de Chico Mendes, mesmo que não houvesse a punição dos mandantes, o Comitê expandiu seus objetivos, acrescentando entre eles os de “acompanhar e apoiar juridicamente na justiça casos de trabalhadores que os sindicatos não consigam resolver sozinhos”, além de ter passado a assessorar juridicamente líderes sindicais e cooperativas de trabalhadores o Comitê passou a organizar toda a memória da vida de Chico Mendes e também passou a realizar anualmente a Semana Chico Mendes, que vai da data de seu aniversário (15) até o dia do seu assassinato em 22 de dezembro. Relacionar essas três ONGs serve somente como exemplo, como forma de revelar que os motivos são variados para a criação de uma organização não governamental e como elas se diferenciam mesmo quando querem tratar do mesmo assunto. O que nos leva a esta afirmação é o fato de que segundo informações da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG, há hoje no Brasil algo em torno de duzentas e setenta mil ONGs em atuação nos diversos campos em que elas orbitam. Na Amazônia, de acordo com o que vem denunciando o Comando Militar da Região, especialmente o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, mais de seis mil ONGs atuam por aqui, quase todas elas mantendo em seu perfil motivos que inserem a problemática da natureza, do ambiente, das comunidades indígenas, ribeirinhas ou extrativistas, como objeto de sua atuação, ou seja, se pensarmos que a maioria das ONGs tem atuação restrita, poderíamos incorrer no erro de destinar pouca importância ao seu papel. Todavia, como quase todas elas atuam articuladas pelos mesmos temas, e mais, 222

como muitas delas têm como financiadoras as mesmas fontes em nível internacional e, considerando também que essas fontes comumente determinam como deve ser seu nível de intervenção, mudaríamos completamente nossa noção do seu poder de interferência nas diversas áreas de suas atuações. Mas é assim, atuando em várias frentes que as ONGs se fazem presentes no meio das comunidades amazônidas. Da assessoria técnica para extração de um óleo de uma árvore; do manejo de uma espécie, animal ou vegetal; da coordenação de uma cooperativa, da articulação de comércio para determinado produto; da educação; da saúde; da assessoria jurídica, seja para demarcação de terras, seja para defesa contra a impunidade de mandantes de assassinatos; até a realização de protestos; a articulação de contatos intra e inter regional, nacional e internacional; enfim, onde se pode imaginar, sempre há uma ONG se colocando à disposição, ou se colocando como representante dos interesses de determinados conjuntos populacionais. No decorrer dos últimos trinta anos elas estão a cada dia, mais presentes. Como nossa proposta não é fazer um julgamento a respeito, mas sim apresentar os atores que participaram das lutas dos trabalhadores extrativistas no seu processo de resistência, podemos afirmar tranquilamente que as ONGs tem seu lugar destacado, nesse conjunto de forças que se articularam para fazer emergir o “guardião da floresta”, o neoextrativista, um seringueiro que deixou para trás o rótulo de símbolo do atraso para se transformar num outro símbolo (fico tentado a denominar de pós-moderno), o do homem que consegue sincronizar seu modo de vida com a defesa do meio ambiente. A simples existência dos seringueiros e dos indígenas, por exemplo, nos permitem entender outros relacionamentos do homem com a natureza, pois como se referiu Lobato Martins:
É necessário perceber que, para numerosas sociedades e grupos sociais, a natureza é mais do que mero meio de subsistência. Ela está diretamente ligada ao sistema de crenças e de conhecimento, de maneira que ela é um recurso sociocultural. Para diversos povos, na natureza estão inscritas as mais básicas noções de autodeterminação, de articulação social, de vivência e crenças religiosas, para não falar na existência física da sociedade. Outro preconceito a ser extirpado com a ajuda da antropologia é a insistência dos modernos ocidentais em qualificar como irracionais os usos que outros povos fazem dos recursos naturais existentes em seus ambientes, uma vez que estes usos não estão subordinados ao princípio da maximização dos rendimentos e das quantidades acumuladas. Então esses povos “irracionais” são chamados de pobres e/ou atrasados pelos modernos ocidentais, que os enxergam como seres constantemente oprimidos pela penúria. (LOBATO MARTINS, 2007: 35).

223

Considerando que esses povos não tinham articulação suficiente para realizarem uma amostragem dos seus próprios valores, para demonstrarem que seus relacionamentos com a natureza representavam mais do que uma combinação de falta de tecnologia para maior destruição com ausência de mercado para seus produtos, as ONGs, contribuíram não só para esta articulação, como em muitos casos assumiram a responsabilidade pelo desenvolvimento de políticas que influenciaram governos locais, nacionais e internacionais, bem como organismos multilaterais internacionais para a tomada de consciência da importância desses trabalhadores para a conservação de determinados ecossistemas. Há muitos casos em que a atuação das ONGs foram fundamentais, até mesmo para a preservação das vidas de muitos desses trabalhadores extrativistas, não no sentido econômico, mas sim no sentido de denúncia de violência praticadas contra eles, muitas vezes oriundas das próprias estruturas estatais. À guisa de conclusão deste capítulo, podemos considerar que desse relacionamento entre seringueiros, Igreja Católica, através das CEBs, da CPT e dos outros aliados como CONTAG/sindicatos, partidos políticos de esquerda e ONGs, elaborou-se uma nova composição político-social, que vem tentando remodelar as bases econômicas e culturais da população acreana. O meio ambiente foi sem dúvidas o tema que articulou boa parte dessas forças sociais que entraram em cooperação e confronto. Não que a natureza em si tenha necessidade de mover forças sociais, mas uma parte da sociedade, sim, foi tomando consciência que sua existência depende de como se relaciona com ela. Nesse sentido, as lutas dos seringueiros pela sua sobrevivência, serviram como elementos mobilizadores, para a identificação de que a ação humana interage com a natureza e que os impactos dessas ações podem potencializar catástrofes que põem em risco os arranjos naturais que permitem a vida no planeta. Obviamente que esta não é uma constatação original, mas sim, um elo na instrumentalização de um complexo jogo de variantes que interpõem conjunturas que perpassam a geopolítica, o neocolonialismo e a expansão/refração do capitalismo. No próximo capítulo faremos um balanço entre essas ações dos aliados dos seringueiros, os próprios seringueiros e seus representantes nos espaços da política, nas novas percepções deles, tanto para dentro quanto para fora dos seringais nos entrecruzamentos do urbano e do florestal. 224

CAPÍTULO IV: AS NOVAS FORÇAS POLÍTICAS NO ESTADO E AS TESES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E DA FLORESTANIA COMO POLÍTICAS DE GOVERNO.

Neste capítulo objetivamos apresentar alguns aspectos da transição pela qual passou o Estado do Acre, especialmente, na virada do século/milênio, enfocando os aspectos políticos, econômicos, sociais e ecológico-ambientais que movimentaram os diversos integrantes das contendas ocorridas nas décadas anteriores. A morte de Chico Mendes, no final do ano de 1988, passou a funcionar como marco decisivo nas mudanças vividas no Estado, sobremaneira os impactos causados pela delimitação das Reservas Extrativistas, que aconteceram já no ano seguinte ao da sua morte, que não só atenuaram os conflitos pela posse da terra em algumas regiões conflituosas do Estado, como também ajudaram na articulação desses fatos com outros movimentos, sindicais e sociais, que ocorriam nos espaços urbanos. Essas articulações contribuíram para projetar as forças ligadas ao ambientalismo e as esquerdas para patamares importantes na cena política do Estado, culminando com a eleição de Jorge Viana, do Partido dos Trabalhadores (Frente Popular do Acre) para o Governo, em 1998. Dez anos após a morte do líder seringueiro, forças políticas que se apresentavam como herdeiras desta tradição sindical e ecológico–ambiental, chegavam à direção do Estado, não podemos dizer, contudo, que chegaram ao poder, mas sim, que se acercaram dele. Buscaremos, portanto, destacar o novo papel do Governo na implementação de políticas públicas diferenciadas, tanto no âmbito do atendimento às necessidades dos ditos povos da floresta, quanto nas diversas visões de ecologia e ambientalismo que passaram a influenciar essas políticas nos espaços locais, tendo os termos desenvolvimento sustentável e florestania a incumbência de representar essas mudanças. A marca mais distinta do Governo da Frente Popular do Acre é a de tentar desenvolver uma economia com lastro na sustentabilidade, na perspectiva de fundar uma nova condição social, uma nova forma de relacionamento homem-natureza. Vamos, portanto, apresentar algumas das alternativas utilizadas para tal e demonstrar alguns resultados dessa nova fase. 225

Utilizaremos como fontes os documentos dos governos, tais como, Planos Plurianuais, Planos de Gestão, discursos publicados no Diário Oficial da Assembléia Legislativa, teses acadêmicas que trabalharam essa transição, documentos das ONGs e documentos de partidos políticos, além de fontes bibliográficas que abordam os temas ecológicos – ambientais.

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4.1 FINCANDO UMA CUNHA NO BI-PARTIDARISMO: A FORMAÇÃO DA FRENTE POPULAR DO ACRE - FPA.

Desde que os militares tiraram do poder o primeiro governador constitucional eleito pelo voto popular do Estado José Augusto de Araújo, em oito de maio de 1964, até quinze de março de 1983, quando tomou posse Nabor Telles da Rocha Júnior, também eleito pelo voto popular, nas eleições de quinze de novembro de 1982, que o Estado vinha sendo governado por governadores da Aliança Renovadora Nacional - ARENA, partido que dava sustentação aos militares no poder. Com a eleição de Nabor Júnior em 1982, inicia-se o período de governança do PMDB, que tem seqüência com a eleição de Flaviano Flávio Batista de Melo, em 1986, para em seguida voltar a ARENA, agora sob a denominação de Partido Democrático Social - PDS com a eleição de Edmundo Pinto em 1990 e de Orleir Cameli, em 1994 pelo PPR. Em se tratando de eleições para governador esse quadro só se alteraria em 1998, com a eleição de Jorge Viana, do Partido dos Trabalhadores (PT), dentro da Frente Popular do Acre (FPA), sua reeleição, em 2002 e a eleição de Arnóbio (Binho) Marques, também do PT, na mesma Frente Popular, em 2006. Porém, a construção do ambiente que permitiu a eleição de Jorge Viana para o governo do Estado, em 1998 e os mandatos subseqüentes da FPA, com a reeleição de Jorge Viana (2002) e a eleição de Arnóbio (Binho) Marques (2006), não surgiu de uma hora para outra. Foram necessários longos anos e muito esforço e perseverança da militância dos partidos que compunham esse campo, para que essa possibilidade fosse concretizada. As vitórias do PMDB nas eleições de 1982 e 1986, tanto nos níveis executivos, como legislativos no Acre, seguiam uma tendência nacional de vitórias desse partido, no bojo das mobilizações pela democracia, pelas eleições diretas para presidente, levadas a cabo pelo movimento conhecido como “Diretas Já” e dos movimentos que defendiam o fim da ditadura militar, dos quais o MDB/PMDB era, institucionalmente, o partido da oposição. Num país que estava mergulhado no obscurantismo orquestrado pelos militares e civis que os apoiavam, onde seus principais dirigentes agiam “fazendo” suas próprias leis, as bandeiras da democracia, das garantias e direitos individuais eram tão importantes quanto às propostas de mudanças nas estruturas econômicas. Consideramos, portanto, que havia um cunho mais moral do que econômico, nos discursos que diferenciavam os 227

candidatos do PMDB e da ARENA naqueles anos. A questão da transparência administrativa, da democratização da vida pública, entre outras, ressoavam com apelo significativo em setores médios da população que havia sucumbido, perdido a liberdade mesmo, diante da barbárie dos tempos arbitrários do AI-5, das torturas, dos toques de recolher e das prisões sem mandados judiciais. O slogan do governo de Nabor Júnior, por exemplo, era “Participação e Mudança” e tinha como diretrizes principais: 1) Promoção do crescimento, da renda e do emprego; 2) Redução do nível de preços dos bens essenciais; 3) Reorganização da agricultura; 4) Estabelecimento de maior funcionalidade da economia acreana e; 5) Incentivo à participação comunitária. (Plano de Governo, 1983-86). Percorrendo esses itens percebemos que quatro, das cinco metas estabelecidas, se referem à economia, porém, todas elas funcionam como recurso retórico, eram mais intenções de rearranjos dentro do que estava ocorrendo, ou seja, não havia uma proposta de modificação na base da economia pecuário-madeireira predatória que havia se estabelecido no Estado durante os governos abençoados pelos militares. Quando dizemos que os quatro pontos que se referem à economia são recursos retóricos, não estamos fazendo uma ilação, posto que, entendemos como muito suspeito se falar em “reorganização da agricultura”, do item três, por exemplo, quando não se tinha uma agricultura operante e muito menos, terras que possibilitassem essa “reorganização”, já que em 1982, as terras do estado estavam nas mãos de poucos proprietários que as haviam adquirido em operações variadas, passando pela compra e pela grilagem. Ou, o que significava “estabelecimento de maior funcionalidade da economia acreana”, do item quatro, se o que estava em evidência eram os desmatamentos e as queimadas para a construção de fazendas para criação de gado, que sabidamente tinham concentrado ainda mais as terras e geram poucos empregos? E, o que dizer da extração de madeiras para exportação, que também não geram muitos empregos na área de extração, haja vista, não serem beneficiadas nestes locais? Os itens um e dois são mesmo manifestações de boa vontade, pois geração de empregos e aumento da renda podem sim ser atribuições do Estado, mas não um Estado 228

falido e totalmente dependente dos repasses do FPE, como era o caso do Acre no início da década de oitenta. Já a questão do controle de preços, sabemos que as várias tentativas dos governos, até mesmo do Governo Federal, tem redundado em fracasso, haja vista, nossa inserção no mundo globalizado a partir de uma economia dependente e os próprios mecanismos internos de uma economia capitalista que subordina/limita as ações do poder público. Salvo o item cinco, das Diretrizes do Governo, que dizia respeito ao “Incentivo a participação comunitária‟, que de fato, manteve alguns mecanismos de inclusão através das secretárias de fomento agrário e das políticas sociais levadas a cabo, ou ainda, da própria reorientação das polícias no tratamento dispensado aos movimentos populares organizados, que surtiram efeitos no sentido de fortalecimento desses movimentos, nada mais se operou de substancial durante esse governo. É nesse sentido que entendemos que as mudanças de partidos e dos processos de escolha dos novos governantes e legisladores, por meio de eleições diretas, não apontavam substancialmente um novo engendramento econômico para o Acre, mas sim, corroborava com uma reestruturação das configurações político-administrativas, o que de fato aconteceu. A partir de 1982, os processos de organização social se intensificaram e tiveram mais liberdade para atuar, principalmente as representações dos trabalhadores rurais, dos servidores públicos, das associações de bairros e das entidades estudantis. Esse ambiente de mais liberdade, inclusive, pode ser elencado como instrumento que ajudará a questionar a validade da mudança de governo, exatamente, porque essa mudança não refletia os anseios dos diversos segmentos sociais que haviam se movimentado contra a ditadura e, principalmente, que haviam se mobilizado contra a arquitetura econômica e social que os governos apoiados pelos militares haviam implementado nesta região. Seguindo essa compreensão, a derrota eleitoral do PMDB no governo do Acre, em 1990, não se deu também porque surgiu uma proposta nova que se diferenciasse substancialmente das concepções de desenvolvimento vigentes até então. Essa proposta existia e até disputou as eleições naquele ano, já organizada como Frente Popular do Acre (FPA), sem, contudo, obter êxito eleitoral. Porém, podemos creditar boa parte da derrota do

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PMDB, a muito empenho dos militantes da esquerda acreana, especialmente os militantes do Sindicato dos Bancários do Acre, à época liderados por militantes do PC do B. Dentre esses militantes, destacamos Sérgio Taboada, João Roberto Brãna, João Taboada, Perpétua Almeida, Maria Antônia, João Guimarães, Marcão, Façanha, Mariquinha, etc., e petistas, como Mário Evangelista, Raimundo, Elmira, Haroldo, Vanda, Jorge Nichelli e; do Sindicato dos Trabalhadores em Educação, que tinha à frente Edvaldo Magalhães, Vilminha, Valdomiro Andrade, Rita Batista, Moisés Diniz, Henrique Afonso, Almerinda Cunha, Naluh Gouveia, Rosângela Castro, Luzanira, Eriton Macedo, Cláudio Ezequiel, Raimunda Bezerra, Cleonice Duarte, Marília Vilas-Boas, Nádia França, Mark Clark, Olindina Pereira, Zé Maria, Moisés Diniz; do Sindicato das Empresas da Administração Indireta, liderados por Jair Santos e Gilson; do Sindicato dos Trabalhadores na Saúde, liderados por Chico Pereira, Costa e Zilmar Cândido; do Sindicato dos Urbanitários, tendo a frente Frank Batista, Evinaldo Barbosa e Doriane Brito; do Diretório Central dos Estudantes - DCE-UFAC, tendo a frente Gerson Albuquerque, Neiva Chemith, Sávio Maia, Sérgio Roberto, Ormifran Pessoa, Fábio Vaz, Francisco Feitosa (Fran), Hildo Montysuma, Márcio Batista, Wlisses James, Sanderson Moura, Mídia Maciel e vários outros, que passaram a denunciar ativamente os desmandos e a corrupção identificados naquele governo e nos direitistas que o seguiram. O Governador Flaviano Melo e Deusdeth Nogueira, Secretário de Estado da Fazenda, criaram, durante sua gestão, a conta fantasma denominada Flávio Nogueira, onde aplicavam os recursos do Fundo de Participação do Estado, atrasavam os pagamentos, inclusive dos servidores do Estado e ficavam com todos os recursos ganhos nas transações. Isso num tempo de inflação em alta foi responsável por uma acumulação estimada em centenas de milhares de dólares (nunca se chegou a um número fixo, mas as estimativas sempre apontavam para a casa dos milhões, na moeda estadunidense). Porém, o governo de Edmundo Pinto (PDS) que se elegera aproveitando-se dessa onda moralizante contra o PMDB, levada a cabo por movimentos que compunham a base da FPA, não tinha e não representava uma proposta diferente das concepções de desenvolvimento defendidas pelo PMDB, na verdade, a bandeira da campanha era o combate à corrupção, seguida por um “acreanismo” que se apoiava nas classes mais abastadas, como responsáveis pela criação de um modo de vida desejável por todos. Indene 230

a estas questões, desde o início, o “novo” governo do PDS logo demonstrou que seguiria o mesmo curso do governo anterior. O envolvimento de alguns secretários desse “novo” governo com agentes de empreiteiras e desvios de recursos levaram ao assassinato do próprio Governador. Fato ocorrido num hotel na cidade de São Paulo, às vésperas de um depoimento que ele prestaria a uma CPI da Câmara Federal, que investigava possíveis desvios de recursos em obras que envolviam algumas das maiores empreiteiras do país, dentre as quais a Odebrecht, à época responsável pelas obras do canal da maternidade em Rio Branco67. Com a sua morte assumiu o governo seu vice-governador, Romildo Magalhães, exdeputado estadual pelo PDS e antigo militante arenista no seu município de origem, Feijó, onde havia iniciado a sua “carreira” política como vereador. Homem de pouca escolaridade e acostumado a conquistar mandatos à base do clientelismo, transformou o governo numa repartição privada para benefícios próprios, enriquecendo rapidamente e dividindo as verbas de investimentos do Estado com os empresários aliados. O fato de ter deixado o Estado em franca decadência abriu espaço para o desejo popular de um “salvador da pátria”. E ele surgiu. Em 1994, elege-se governador um dos maiores seringalistas/empresários da Amazônia, Orleir Cameli, disputando a eleição pelo Partido Progressista Republicano– PPR, que nada mais era do que a velha ARENA/PDS travestida em mais uma sigla, dentre tantas outras em que viria a se transfigurar no decorrer dos anos seguintes. Nessas eleições ele venceu um dos caciques do PMDB, Flaviano Melo, outra vez candidato ao governo, e o médico infectologista Sebastião Viana, o Tião Viana, irmão de Jorge Viana, que disputava pela Frente Popular do Acre – FPA. Essa foi a primeira vez que ele concorria em uma eleição. A vitória de Orleir Cameli, era a resposta popular à chance que ela tinha dado aos “novos”, quando levou Edmundo Pinto e Jorge Viana para o segundo turno, na eleição anterior e, ao eleger o jovem Edmundo Pinto, ela tinha depositado sua esperança na mudança.
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- Oficialmente, a morte do governador Edmundo Pinto, que aconteceu dentro de um quarto do Hotel De La Volpe, na cidade de São Paulo, está configurada nos meandros policiais como sendo um latrocínio, porém há investigações paralelas (não oficiais), que apontam para crime encomendado. Há inclusive depoimentos de alguns participantes apontando para “contratantes”. Posteriormente ocorreu, inclusive, a morte de alguns dos participantes dentro de penitenciárias, que teria sido “queima de arquivo”.

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Agora era a hora de dar a vez a um empresário bem sucedido, que no dizer dos marqueteiros e dos mais pobres (convencidos por aqueles) “não precisava roubar” porque já tinha o suficiente e, principalmente, porque era um bom administrador, como já havia demonstrado nos negócios particulares, que o transformaram em um dos maiores empresários da Amazônia. Infelizmente, nem os marqueteiros e nem a população estavam certos. A governança de Orleir Cameli se fez pelo viés da ausência de democracia e pela utilização dos recursos públicos como se fossem seus, utilizou inclusive, os recursos do Instituto de Previdência do Estado, deixando a descoberto os aposentados e pensionistas, além de ter deixado sem salários os servidores públicos e, sem pagamento, os fornecedores do Estado. Os escândalos envolvendo a compra de um Boeing e a acusação de contrabando, o escândalo dos CPFs, a atuação do esquadrão da morte, além dos atrasos no pagamento dos servidores públicos, dentre uma série de outros desvios de conduta, fizeram do governo Orleir Cameli uma sucessão de desmandos que insultavam até os mais alienados. Esse caos vai suscitar na população novamente o desejo de mudança68. Antes de passarmos à frente, porém, vale destacar outros fatos nessas eleições de 1994, dentre os quais, a vitória de Marina Silva (PT-FPA), para o Senado, ficando a segunda vaga para o quase “eterno” cacique Nabor Júnior (PMDB) e; a performance geral da FPA que por pouco mais de 2%, não foi para o segundo turno, mesmo concorrendo com um candidato neófito (Tião Viana). Esse quadro ajudou a consolidar a presença da Frente Popular na política acreana, pois estava ficando patente que independente do nome lançado, essa Frente conseguia manter um razoável patamar de aceitação popular, quebrando o estigma de que os “meninos do PT” estavam ali apenas pra competir. Aliado ao desastroso Governo de Orleir Cameli, outro desastre administrativo acontecia na prefeitura da capital, onde a gestão de Maury Sérgio (PMDB), praticamente, desmontava um pouco da “arrumação” que Jorge Viana havia feito naquela casa (e na

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- Entre os anos de 1995 e 1998 o Governador do Acre virou notícia recorrente nos grandes meios de comunicação nacional, pelos escândalos em que se envolvia. Os mais noticiados foram o da compra de um Boeing para uso pessoal, que veio carregado com produtos importados não-declarados à Receita Federal e a denúncia, também feita pela Receita acerca do elevado número de CPFs, registrados em nome do Governador (em torno de dez). Além dos escândalos pessoais do Governador, o Acre figurava também nos noticiários nacionais pelos crimes do “esquadrão da morte”, liderado pelo ex-comandante da Polícia Militar, e à época Deputado Federal, Hildebrando Pascoal.

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cidade), durante seu mandato (1992-96). A conjugação desses fatores ajudou muito a consolidação do quadro que levaria às eleições de 1998. O ano de 1998 marca também a reunificação dos partidos fundadores da Frente Popular do Acre (PT e PC do B), bem como a eleição de Jorge Viana como governador por essa FPA, iniciando o período de predomínio das forças políticas que se apresentavam como oriundas dos movimentos populares e sindicais, das lutas dos seringueiros e dos povos da floresta. Nessas eleições, a Frente Popular do Acre já tinha adquirido uma configuração bem mais ampla, pois havia incluído o Partido Democrático Trabalhista – PDT, o Partido Social Democrata Brasileiro – PSDB, o Partido da Mobilização Nacional – PMN, o Partido Liberal – PL, o Partido Popular Socialista – PPS, o Partido Verde – PV, o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, O Partido dos Trabalhadores do Brasil – PT do B, o Partido Socialista Brasileiro – PSB, além, é claro, de PT e PC do B, que haviam iniciado a construção dessa Frente desde 1989. No total a coligação contava com doze partidos, seis a mais do que a coligação que havia se formado na disputa da prefeitura da capital, em que o mesmo Jorge Viana se elegeu prefeito. Tanto nas eleições municipais de 1992, como nas eleições estaduais de 1998, o candidato a vice, saíram dos quadros do PSDB. Regina Lino foi a vice-prefeita e Edson Cadaxo o vice-governador. Esta composição tão ampla se justificava a medida que os dirigentes e marqueteiros da FPA iam conseguindo imprimir uma concepção maniqueísta nos processos eleitorais, onde se consagrava a idéia de que havia um lado bom e um lado ruim na política acreana, e cabia aos partidos e a população escolherem de que lado ficar. O lado bom, obviamente, era o da FPA. Essa ampliação, contudo, gerava insegurança nos setores mais à esquerda dentro da própria FPA, que temiam por uma “contaminação”, já que muitos desses partidos que foram se incorporando à Frente, haviam se formado exatamente por dissidentes do PMDB e do PDS, além do que muitos desses políticos estavam ingressando também no PT. Importante salientar que no início da década de noventa (1992), a força da Frente Popular já havia se manifestado nas eleições municipais, quando ocorreu a eleição de Jorge Viana para prefeito da capital, tendo como vice Regina Lino do PSDB e de alguns vereadores da mesma coligação para a Câmara Municipal, com destaque para Francisca Marinheiro do PT, que era oriunda das CEBs, Marcos Afonso do PC do B, oriundo do movimento estudantil e sindical e o médico Júlio Eduardo do PV, com entrada em setores 233

médios da população da capital. Porém, esse parlamento não recebeu a mesma votação do candidato majoritário, deixando o prefeito em minoria naquela casa legislativa. O mandato conquistado pela Frente Popular em Rio Branco para o cargo de prefeito, com a eleição de Jorge Viana, marca também uma nova fase no relacionamento dos partidos que compunham a frente com os setores mais abastados da população acreana, bem como uma nova forma de dirigir os partidos dessa base, onde a “importância” de quem exercia os mandatos começava a suplantar as formas tradicionais das direções partidárias. Obviamente, identificamos nessa mudança o resultado de processos subjetivos, onde os detentores de cargos, se faziam “respeitar”, algumas vezes pela sua própria capacidade de convencimento, outras, pelo poder conferido pelo cargo. Jorge Viana, por exemplo, que havia ingressado no PT para disputar as eleições de 1990, demonstrou grande desenvoltura naquele processo e se transformou num quadro político muito respeitado em curto espaço de tempo. O novo tipo de relacionamento estabelecido com os setores mais abastados permitiu que nas eleições seguintes, as “facilidades” começassem a aparecer, tipo doações de campanha, que nas disputas anteriores eram impensáveis, “profissionalização das campanhas” com a contratação de marqueteiros, cabos eleitorais, etc. Tudo isso sendo apoiado pelo número crescente de assessores, que ao ocuparem cargos nas estruturas administrativas, passavam a “obedecer” mais a quem instituía, a quem nomeava, do que as estruturas partidárias tradicionais. Desde a primeira experiência administrativa da Frente Popular foi estabelecendo-se também uma disputa entre os militantes tradicionais, formados no calor das lutas para organizar sindicatos, para organizar os empates, para enfrentar governos corruptos, contra os novos e pragmáticos “militantes” que cercavam os postos administrativos. Esse fato vai afastar muitos dos antigos militantes e “empurrar” a Frente Popular para uma “profissionalização da militância”, ou seja, uma “profissionalização” que se parece mais com um eufemismo para a atualização dos “velhos” cabos eleitorais. O processo de ascensão da Frente Popular aos postos de mando nas estruturas político-administrativas do Estado vai, contraditoriamente, formar dois pólos de oposição: um proveniente das antigas forças políticas do Estado, que em alguns momentos conseguiram se unificar e; outro, entre setores dos próprios fundadores dessa frente, que enxergam nas políticas traçadas, uma negação dos seus princípios fundadores. Nesse campo 234

militam principalmente os que entendem como insustentáveis, ou insuficientes as políticas desenvolvidas pelos governos da Frente, no sentido da inclusão social e da defesa do meio ambiente. No âmbito da própria Frente Popular, nem sempre as coisas foram fáceis. Nas eleições municipais de 1996, a “Frente” na capital perdeu sua composição inicial, principalmente por disputas entre o PT e o PC do B. O fato conflitante que levou ao rompimento se deu em torno da saída do vereador Marcos Afonso, do PC do B, partido do qual era dirigente e havia sido eleito, para ingressar, logo em seguida, no PT. Como o PT o indicou como candidato a prefeito da capital, o PC do B se recusou a apoiá-lo, resultando num rompimento entre os dois partidos responsáveis pela formação da Frente Popular no Estado. Com esse “racha”, o PC do B saiu com candidatura própria, indicando o sindicalista e Deputado Estadual Sérgio Taboada, como candidato a prefeito. Essa divisão, mesmo que a população reconhecesse a boa administração da Frente, favoreceu a oposição, que ganhou as eleições com o candidato Maury Sérgio, do PMDB. O consolo nessas eleições veio do interior, onde pela primeira vez a “Frente”, que havia se mantido em alguns municípios, elegia prefeitos, um dos quais, Júlio Barbosa do PT - FPX, no município de Xapuri que era oriundo do movimento dos sindicatos de trabalhadores rurais e líder dos seringueiros dessa região conflagrada. Em outro município, Tarauacá, ganhou o médico Jasone Silva do PT - FPT, tendo como vice Moisés Diniz do PC do B, também oriundo do movimento sindical. O outro prefeito eleito nesse pleito, Jorge Almeida, do PT - FPMU, no município de Manuel Urbano, não tinha ligações sindicais. Mesmo após a esmagadora vitória de Jorge Viana para o governo do Estado em 1998, a Frente Popular não conseguiu eleger o prefeito da capital em 2000. Disputando com o professor Raimundo Angelim (PT-FPRB), candidato pela primeira vez, a Frente Popular de Rio Branco perdeu para o ex-prefeito, ex-governador e ex-senador Flaviano Melo do PMDB. Independente do revés sofrido na capital nessas eleições, o PT e os partidos aliados conseguiram ampliar suas participações nos legislativos municipais e ganharam dez prefeituras das vinte e duas em disputa, mas, as duas maiores (Rio Branco e Cruzeiro do Sul) ainda permaneceram sob o domínio dos partidos tradicionais.

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Em 2002, Jorge Viana é reeleito governador, dessa vez com um vice do próprio PT, o professor Arnóbio (Binho) Marques e, junto com ele, houve a reeleição de Marina Silva PT senadora e a eleição de Geraldo Júnior como senador, esse na sigla do PSB, também na Frente Popular. Nessas eleições as bancadas da Câmara Federal e da Assembléia Legislativa, também foram amplamente favoráveis aos quadros da Frente Popular, garantindo maioria a essa força política. Outro fato relevante que marcou essas eleições foi a derrota de Nabor Júnior para o senado, visto que ele representava um dos últimos remanescentes do poderio dos ex-seringalistas como mandatários da política acreana69. Um fato que chama bastante a atenção nesse processo de crescimento da força da Frente Popular do Acre é que a grande aceitação popular tem se dado mais a partir de um reconhecimento da competência administrativa, da organização da estrutura e prestação dos serviços sob encargo do Estado, do que a própria proposta de mudança na estrutura econômica que é a principal carta de apresentação dessa força política. Mesmo que, desde o primeiro mandato como Governador, Jorge Viana tenha batizado seu governo como “Governo da Floresta” e tenha adotado uma árvore estilizada como símbolo do governo, a sua visibilidade tem sido mais destacada em virtude da “arrumação” do Estado. Este fato se explica: desde o governo Nabor Júnior até o governo Orleir, o estado vinha paulatinamente sendo sucateado, não só os espaços públicos, como também os meandros da administração, que eram caracterizados pela corrupção, sendo que os governos de Flaviano Melo e Orleir Cameli ganharam mais destaque neste quesito, pois seus escândalos ocuparam mais espaços nas diversas mídias, inclusive nacional. Esse ritmo de crescimento também aconteceu nas eleições municipais de 2004, onde o agora deputado estadual Raimundo Angelim (PT – FPRB), ganhou as eleições para prefeito da capital e a bancada de vereadores eleitos pela Frente, também foi vencedora, garantindo maioria naquele parlamento. No restante do Estado, os partidos que compõem a Frente, conseguiram eleger a maioria dos prefeitos e ampliar suas bancadas nas Câmaras municipais.
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- Desses considerados políticos tradicionais, só resta Flaviano Melo em atividade, haja vista sua recente eleição em 2006 para a Câmara Federal. Pelo lado do antigo PDS, os remanescentes agora agregados no Partido Progressista – PP, atualmente fazem parte da Frente Popular do Acre. Seu último grande cargo foi exercido pelo ex-governador, ex-senador biônico Jorge Kalume, como prefeito da capital, em 1988 e, pelo “novato” Orleir Cameli, em 1994, mas este não era um político profissional, embora seja um velho “coronel”, no sentido do poder econômico que representava desde os tempos dos seringais.

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Como resultado desse processo de crescimento, nas eleições de 2006, Arnóbio (Binho) Marques que era vice-governador e nunca tinha disputado uma eleição diretamente, foi eleito governador, no primeiro turno. Tião Viana foi reconduzido tranquilamente ao senado e as bancadas de deputados federais e estaduais se ampliaram. Essa retrospectiva eleitoral, aqui apresentada, nos serve para dimensionar como essa nova força política foi conquistando, paulatinamente, os espaços institucionais dentro do Estado, fincando uma cunha no bi-partidarismo e elegendo outros conceitos norteadores do desenvolvimento como políticas públicas. Vejamos então, que outros fatores foram sendo articulados para que essa cunha fosse sendo cravada na bipolaridade reinante na política acreana até o início da década de noventa. Durante a década de oitenta as diversas forças políticas que coexistiam no Estado, situadas no campo da esquerda, embora com boas vinculações nos movimentos sociais, não conseguiam reproduzir suas influências nas urnas. Disputavam as eleições majoritárias e proporcionais sem causar grandes sustos as duas forças que dominavam a cena política, ou seja, PDS e PMDB. Em 1982, o PT chegou a disputar as eleições para governador tendo como candidato Nilson Mourão e como candidato a vice-governador Elias Rozendo, o primeiro, oriundo das Comunidades Eclesiais de Base e o segundo, oriundo do movimento sindical dos trabalhadores rurais. Nessas eleições o PT consegue eleger um deputado estadual, José Melo, o que foi considerado uma surpresa, pois o mesmo provinha do município de Cruzeiro do Sul, que embora seja o segundo maior município do Estado, em termos populacionais, era também, o mais distante da capital e onde o PT tinha pouquíssima influência. Fato que logo depois de eleito José Melo, por não ter nenhuma ligação, nenhuma afinidade ideológica e, pouquíssimo conhecimento das propostas do PT, foi se incompatibilizando com estas e acabou expulso do partido. O outro partido de esquerda o PC do B, ainda na clandestinidade, incluiu dois de seus militantes entre os candidatos do PMDB, na chamada “tendência popular”, conseguindo suas eleições, tratava-se do expadre, Manoel Pacífico, eleito deputado estadual e de Airton Rocha, eleito vereador na capital.

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Nas eleições de 1986, o PT lança novamente candidatos às eleições majoritárias, dessa feita com o agrônomo Hélio Pimenta tendo como vice o professor e sindicalista Antônio Manuel. Nessas eleições lançou também o ex-seringueiro José Mathias para o senado, Marina Silva para deputada constituinte e Chico Mendes para deputado estadual, nenhum obteve êxito. O PC do B já disputando pela sua própria sigla lançou seu deputado estadual, Manoel Pacífico para disputar uma cadeira de deputado constituinte e o professor e sindicalista, Paschoal Torres Muniz para a Assembléia Legislativa, também não obtendo êxito. Nessas eleições o PMDB não só elegeu o governador (Flaviano Melo), como também as duas vagas de senador que estavam em disputa com Nabor Júnior e Aluisio Bezerra, além de cinco das oito cadeiras de deputados federais, as outras três, obviamente ficaram com o PDS. Em 1988, nas eleições municipais essas forças políticas ligadas aos trabalhadores extrativistas e aos sindicatos urbanos, começam a galgar alguns degraus na escalada da política acreana. O PT concorre mais uma vez com candidatura própria para os cargos majoritários (prefeito e vice) com Nilson Mourão e Raulino Saraiva, nesse pleito contou com o apoio do Partido Verde (PV) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), não obtendo êxito, mas Marina Silva foi eleita vereadora pelo PT na capital como campeã de votos. No interior do Estado o PT consegue eleger também alguns vereadores, principalmente em Xapuri e em Brasiléia, focos dos conflitos de terras e berços dos empates, onde elege três e dois vereadores respectivamente. O PC do B concorre à prefeitura pela primeira vez sob sua própria legenda, com Luis Marques, que teve fraco desempenho, o mesmo acontecendo com seus candidatos a vereador. Nessas eleições sagrou-se prefeito o ex-governador e exsenador (biônico) Jorge Kalume do PDS. Durante toda a década de oitenta, além das frágeis participações nas eleições, as forças de esquerda ainda tinham que garantir energias para os embates internos e entre si. PT e PC do B, particularmente, se engalfinhavam em infindáveis disputas para saber quem era o responsável pelo “colégio eleitoral”, pela “eleição” de Sarney, e depois, pelo fracasso do socialismo na ex-URSS, pelos “assassinatos” na Praça da Paz Celestial na China, pelos crimes de Stálin e, obviamente, as disputas pelos sindicatos urbanos e rurais e organizações estudantis.

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Mesmo assim, algumas personalidades oriundas dos movimentos sindicais rurais e urbanos e das comunidades eclesiais de base vinham consolidando suas presenças nos espaços da política tanto local como internacional, Chico Mendes é o caso mais relevante. O reconhecimento dessas lideranças em nível nacional, inusitadamente, se deu depois que elas estavam já bastante conhecidas em algumas esferas do poder em nível internacional. Berta Becker (2004: 107), por exemplo, refere-se à criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), em 1985, como um marco histórico, um modelo inovador de representatividade, que junto com a criação das reservas extrativistas, redirecionaram as políticas públicas na Amazônia, fato que no Acre era, de pouca importância, principalmente para as estruturas governamentais. Para Becker, no entanto:

Dois processos opostos têm como marco o ano de 1985. Por um lado, o esgotamento do nacional desenvolvimentismo inaugurado na era Vargas com a intervenção do Estado na economia e no território, cujo último grande projeto na Amazônia é o Calha Norte. Por outro lado, neste mesmo ano, um novo processo tem início com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, simbolizando um movimento de resistência das populações locais – autóctones e migrantes – à expropriação da terra. À crise do Estado e à resistência social, somou-se a pressão ambientalista internacional e nacional para gerar um vetor tecno-ecológico (VTE) na dinâmica regional que, predominando entre 1985-1996, configurou na Amazônia uma fronteira socioambiental. (BECKER, 2004: 27). (destacamos).

No final desta década, contudo, a conjuntura local e nacional vão se cruzar por dois acontecimentos importantes, que terão impactos bem profundos no Acre. Primeiro o assassinato de Chico Mendes no final do ano de 1988 e toda a repercussão internacional ocasionada por este fato. Segundo a formação da Frente Brasil Popular (FBP), que juntou o PT, o PC do B e o PSB, em nível nacional no apoio à candidatura de Luis Ignácio Lula da Silva à presidência da República, em 1989. Essa coligação em nível nacional ajudou a juntar no Estado essas forças que teimavam em priorizar as disputas entre si, em detrimento do enfrentamento com as forças mais conservadoras. A campanha de Lula levada a cabo pela Frente Brasil Popular inaugurou a unidade das principais forças de esquerda no Acre, juntando as militâncias do PT e do PC do B, mais tarde reforçada pelo PV e PSB, que mudaram os rumos das campanhas políticas no Estado. Pela primeira vez saiam às ruas estudantes universitários e secundaristas, professores, sindicalistas urbanos e rurais, agentes pastorais das CEBs e moradores dos bairros mais diversos para, espontaneamente, fazer campanha política de casa em casa, bem 239

como para participar de comícios, bandeiraços e panfletagens. Os estudantes, especialmente, se encarregavam de cantar palavras de ordem e de transformar as reuniões em animadas festas. Na verdade houve uma substituição do velho “cabo eleitoral”, pelo militante político e ideologicamente engajado. Essas manifestações populares ajudaram a mudar o curso das campanhas políticas no Estado, haja vista que elas estavam engessadas no modelo dos comícios, onde comumente os partido tradicionais traziam um cantor de sucesso para servir como atração da população para seus eventos, onde as bandeiras eram agitadas por “cabos eleitorais” e os discursos eram rebuscados no sentido de projetar o candidato para a condição de grande debatedor, grande conhecedor dos problemas da população e, obviamente, o único capaz de resolvê-los. O comício como uma pantomima, que priorizava a forma e descartava o conteúdo. A entrada em cena da militância partidária, sindical, estudantil e popular foi mudando essa situação por introduzir conteúdo diferenciado aos “arrastões” e panfletagens, quando buscava convencer os eleitores através de explicações sobre os processos que estavam em curso no Estado, principalmente com a contestação do modelo pecuáriomadeireiro e a apresentação de uma visão de mundo ancorada no ambientalismo, no respeito a natureza e na diversidade, tanto cultural, como econômica. Becker, mais uma vez nos ajuda no reforço desse entendimento quando, projeta em termos mais amplos essas mudanças que estavam ocorrendo na Amazônia, na perspectiva de que:

Os conflitos das décadas de 1970 e 1980 transfiguraram-se, organizando suas demandas em diferentes projetos de desenvolvimento alternativos, conservacionistas, elaborados a partir de baixo. Para sua sobrevivência, graças às redes transnacionais, contam com parceiros externos, tais como ONGs, organizações religiosas, agências de desenvolvimento, partidos políticos, governos. Trata-se de novas territorialidades que resistem à exploração de experimentos associados à biosociodiversidade. Cada um desses experimentos se desenvolve em um dado ecossistema, com populações de origem étnica e/ou geográfica diferente, estrutura socioeconômica e política, técnicas e parcerias diversas. Enfim, a estratégia básica desses grupos é a utilização das redes de comunicação que lhes permitem se articular com atores em várias escalas geográficas. (BECKER, 2004: 28).

Assim como Becker, compreendemos os conflitos como geradores de novas possibilidades, de construções endógenas e exógenas, que influenciaram setores da população na articulação de novas fronteiras para o reposicionamento de seus modos de vida, mormente o que incluía a componente ecológico-ambiental como “fundamental 240

potencialidade”, não só para as populações diretamente envolvidas como também, para incluir outros setores que se viam afetados pelas políticas predatórias. Esta compreensão de Berta Becker está bem demonstrada numa fala de Jorge Viana, proferida numa mesa-redonda comemorativa da Semana do Meio Ambiente, que tinha como tema o “Desenvolvimento Sustentável: novos paradigmas X novas perspectivas para o Acre, conforme matéria do jornal A Gazeta:

A palestra contou com a participação do governador Jorge Viana (PT). Ele fez a abertura do evento ressaltando que a importância de se compreender e de se praticar o desenvolvimento auto-sustentável no Estado. Viana afirmou que o seu governo está trabalhando no sentido de estruturar esse desenvolvimento. Ele citou o lançamento da logomarca do seu governo como intenção deste propósito. A logomarca tem uma composição simples: uma árvore tipo seringueira. Viana explicou que a simplicidade da logomarca tem o significado do primeiro passo do estado para a valorização do desenvolvimento auto-sustentável. “Neste primeiro ano, lançamos uma árvore. No segundo, podemos lançar duas. No terceiro, três e, quem sabe no quarto uma floresta”, disse o governador. (Desenvolvimento sustentável é tema de palestra. Jornal A Gazeta. Rio Branco, 05/06/1999).

No ano de 1990, quando ocorreram as eleições estaduais, a esquerda manteve-se unida, formando a Frente Popular do Acre – FPA, que reuniu o PT, O PC do B, o PDT, o PCB e o PV, apresentando a candidatura do jovem engenheiro florestal Jorge Viana (PT) para o cargo de Governador e do médico comunista José Alberto (PC do B) para vice. Jorge Viana enfrentou no primeiro turno as candidaturas de Osmir Lima, pelo PMDB; Rubem Branquinho, pelo PFL, cuja candidatura estava ligada a UDR; Edmundo Pinto, pelo PDS e; Réssine Jarude, pelo PSDB, tendo Edmundo Pinto e Jorge Viana passado ao segundo turno com uma diferença de apenas 360 votos em favor do primeiro. No segundo turno, Edmundo Pinto venceu as eleições por pequena margem de votos, contando com o apoio dos outros concorrentes, exceto Réssine Jarude do PSDB e alguns setores do PMDB que apoiaram Jorge Viana. O marco nessas eleições é que pela primeira vez os “inimigos” históricos PDS e setores do PMDB, figuravam juntos no mesmo palanque (2º turno), contra uma força até então “impensável”, do que era consagrado na imprensa acreana como “os meninos do PT”. Essa expressão era usada também, em tom jocoso, pelo candidato Edmundo Pinto (que embora também fosse jovem, já era “antigo” na política, pois começou a exercer mandatos muito cedo, primeiro como vereador depois como deputado estadual), no sentido de

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desqualificar os candidatos da Frente Popular do Acre, por serem todos neófitos na política, ou por nunca terem exercido mandatos. Mesmo com a derrota, a candidatura de Jorge Viana inaugurou uma nova fase na política acreana onde, pela primeira vez na sua história, uma força política que não era oriunda do bi-partidarismo tradicional, disputava com chance de vitória uma eleição majoritária. Mas o fato diferenciador mesmo foi a manutenção de um ritmo de campanha espontânea, militante, que costurava bandeiras, fazia pinturas em muros, pintava camisetas e confeccionava o próprio material de campanha e usava orgulhosamente o adesivo do candidato no peito. Dessas lutas surgiram os militantes da Frente Popular do Acre. Nessas eleições de 1990, pela primeira vez também, foram eleitos parlamentares para a Assembléia Legislativa pela legenda da Frente Popular do Acre, oriundos do movimento sindical e das CEBs, sendo dois pelo PT (Marina Silva e Nilson Mourão) e um pelo PC do B (o sindicalista Sérgio Taboada), pelo PC do B ainda, embora tenha sido um dos mais bem votados, o professor e Jornalista Marcos Afonso não conseguiu legenda para a Câmara Federal. O PMDB ficou com cinco cadeiras e o PDS com três, das oito que o Estado ocupa naquela Câmara e a cadeira de senador em disputa, com Flaviano Melo do PMDB. Outro elemento diferenciador nessas eleições de 1990 foi a introdução de um novo discurso. Um discurso que ia além das pautas corriqueiras de melhorias na saúde, educação, na segurança, do combate a corrupção, etc. Os dois candidatos que foram ao segundo turno apresentavam perfil distinto, não só pela idade, os dois eram muito jovens, mas também pela introdução de uma espécie de acreanismo, que no primeiro turno justificava-se, tendo em vista que as pesquisas apontavam para a vitória de Rubem Branquinho, que além de não ser natural do Acre, representava os grupos dos fazendeiros e madeireiros. Porém, o acreanismo da Frente Popular do Acre tinha outros ingredientes: a defesa do meio ambiente, numa clara oposição ao modelo pecuário-madeireiro que havia se instalado no Estado e a representação dos povos da floresta, que eram apresentados como a verdadeira “cara” do Acre. Nesse sentido, se diferenciava da candidatura de Edmundo Pinto, que também fazia um discurso acreanista, mas era assessorado por “estrangeiros” e seu viés era apenas bairrista, anti-Rubem Branquinho.

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A vertente “ambientalista” da Frente Popular não se dava porque o candidato Jorge Viana era um engenheiro florestal, antes, se dava porque estava casada com a luta dos trabalhadores extrativistas, principalmente, relacionada com toda a trajetória iniciada com os empates. Nesse sentido, a morte de Chico Mendes e toda a repercussão que ela causou, por sua vez, alertaram alguns setores da sociedade para a importância que os temas ambientais estavam ganhando em nível internacional e projetou possibilidades de alianças com setores que poderiam contribuir para melhorar as propostas de um novo tipo de governo, que se julgava, era necessário para reorganizar o Estado e promover as mudanças no curso destruidor em que ele estava mergulhado. Juntando tudo isso ao fato de uma nova força política ter surgido no Estado, causando perplexidade aos “velhos coronéis” remanescentes do poderio dos seringalistas, aos grandes comerciantes e pecuaristas, estas eleições marcaram também a introdução do discurso ambientalista como orientador dos debates políticos que ganharam corpo ao longo daquela década, revertendo a bi-polaridade política e expondo de forma mais precisa os novos contornos dos segmentos sociais no Estado, especialmente a nova visibilidade dos seringueiros. Estamos cientes de que as lutas ambientais como assunto de Estado, não se originaram na campanha de 1990, elas já tinham ganhado importância desde pelo menos o início da década de oitenta, mesmo que consideremos que as lutas dos trabalhadores extrativistas até o início daquela década, se concentravam na questão da terra. Mas, é importante salientar que, desde o governo de Geraldo Mesquita (1975–1979), sucessor imediato de Wanderley Dantas, que a questão dos desmatamentos e da violência nos seringais vinha ganhando relevo na preocupação dos governantes, não ainda como política de governo, ou por preocupações ambientais, mas por causa dos “estragos” e conflitos sociais que vinham provocando. Porém, foi durante o governo de Flaviano Melo, iniciado em 1987, que fruto das pressões do PPG7 e das agências de financiamento BID e BIRD, principalmente, por conta da liberação de recursos para o asfaltamento da BR-364, no trecho Porto Velho (RO) – Rio Branco (AC), que elas vão paulatinamente se fazendo mais presentes na ordem do dia, mas, ainda não eram questões que constassem como pauta dos programas de governo. Sua existência estava restrita à adaptação de condições impostas pelos financiadores, ou seja, 243

para esses governos as preocupações ambientais entravam na pauta como transversalidades ou, como obrigações por conta das imposições para acesso a financiamentos, principalmente. Para termos uma imagem mais próxima, de como os organismos multilaterais foram ajudando a pautar as questões ambientais no Acre, identificamos essa matéria publicada no jornal Gazeta do Acre, em que o BID, segundo seu Gerente de Operações no Brasil a época, William Brisbane, informava que desde 1983, havia incluído nas suas exigências para concessão de financiamentos, preocupações ambientais e para fazer valer esse quesito o Banco criara um “Comitê de Meio Ambiente”, cuja função era informar a direção do mesmo sobre os impactos causados pela utilização dos recursos oriundos de seus empréstimos. Vejamos parte da matéria, cujo título é: BID tem US$ 1,5 milhão para extrativismo:
O gerente de Operações do BID no Brasil acrescentou que nos próximos seis meses a missão do Banco no Rio de Janeiro, com vinte técnicos, receberá um técnico habilitado para trabalhar com a classificação de projetos de Aspecto Ambiental Significativo – o primeiro a ser enviado para um dos escritórios do Banco no Mundo. Segundo ele, o BID trabalha com a questão do meio ambiente em dois tipos de projetos: para atenuar os impactos de iniciativas como no PMACI, e para melhorar o índice de contaminação ambiental, como na poluição ambiental de Cubatão. Na mudança de filosofia do Banco, disse Brisbane, “os ecologistas tiveram a contribuição de ajudar na conscientização muito positiva. Hoje qualquer organismo financeiro internacional não pode mais financiar projeto só pelo aspecto produtivo, mas de forma equilibrada com os aspectos sociais e ambientais. Impossível separar os dois fatores. Os ecologistas brasileiros nem do exterior vão deixar”. (BID tem... Jornal Gazeta do Acre. Rio Branco, 1988).

Nessa mesma matéria é possível perceber o papel dos ambientalistas internacionais participando ativamente das operações de liberação de recursos desse banco e das orientações para seu uso, vejamos outro trecho da matéria:
O gerente de Operações do Banco Interamericano de Desenvolvimento no Brasil, sediado no Rio de Janeiro, William D. Brisbane, disse ontem no SENAC, durante o seminário sobre meio ambiente na Amazônia, que a instituição financeira que representa, fixou um limite entre US$ 1 milhão e US$ 1,5 milhão de dólares para a implementação de uma reserva extrativista no Acre. O projeto, segundo ele, não incluía a compra de terras, - um problema a ser resolvido pelo governo do Estado – mas destinará recursos para criação de escolas, postos de saúde, crédito para reativar mini-usinas, e para a comercialização de produto final. William Brisbane ressaltou que não se trata de empréstimo, mas de doação a fundo perdido, e que com a colaboração da economista Susanna Hecht e do antropólogo Steve Schwartzman, o projeto já existente será atualizado para ser apresentado no BID no prazo de dois a três meses. O gerente de operações do BID no Brasil, quinta feira à noite, apresentou a proposta ao governador Flaviano Melo, que, segundo ele, demonstrou interesse na sua viabilização. (idem).

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Schwartzman, Hecht, Brisbane, Clay, Watson, Gross, são alguns dos sobrenomes estrangeiros de representantes de ONGs e organismos multilaterais que atuaram na Amazônia, dentre tantos outros, no sentido de cristalizar as temáticas ambientais como políticas de governo. Nesse sentido, as forças de esquerda no Acre, não só assumiram o discurso ambiental, como se fizeram aliados das corporações, ONGs e organismos multilaterais que apregoavam esse credo, com relativo sucesso, principalmente depois que começaram, na política partidária, a assumir os postos chaves do comando das cidades e do Estado. A década de oitenta, portanto, que é considerada em nível nacional como a “década perdida”, pelo fato do Estado brasileiro ter perdido sua condição de investimento, principalmente em “grandes projetos estruturantes” (o último na Amazônia havia sido o Calha Norte, natimorto devido a falta de recursos), permitiu que no vácuo de políticas do Estado (Governo) surgisse outra força, inicialmente paralela, depois superposta aquele, com caráter mais difuso, visto que a proposta de um novo tipo de desenvolvimento, que considerava as questões ambientais como determinantes, não tinha um único defensor, embora possa ter uma única origem. De qualquer forma, essa força foi ganhando espaço, não só entre os partidos de esquerda, mas também entre os órgãos institucionais e outros organismos multilaterais, bem como entre alguns segmentos sociais que não se enquadravam nessas estruturas. O próprio governador Flaviano Melo, que tinha dificuldade de lidar com os problemas ambientais, após viagem aos Estados Unidos para negociar com técnicos do BID e entidades ambientais a aprovação do Programa de Proteção ao Meio Ambiente e Comunidades Indígenas (PMACI), comentou:
“Os americanos e a Europa querem a preservação do meio ambiente. Então, devem ajudar nosso governo a fazer isso. Nós, acreanos, temos outra visão, pois queremos desenvolver o Estado e preservar o meio ambiente ao mesmo tempo, para sairmos dessa situação de miséria em que vive parte da população atualmente”. (...) “Os americanos e soviéticos sabem muito bem que, se continuarem pressionando apenas através de palavras, outras devastações iguais a Rondônia continuarão acontecendo. Precisam dar uma proteção real, ou seja, uma opção de desenvolvimento preservacionista que só pode ser conseguido através de financiamentos. Fora disso, não há nada”. (Flaviano: BID apóia o Plano de Desenvolvimento. Jornal A Gazeta. Rio Branco, 1989).

Na mesma matéria o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Marcilio Moreira de Matos, em conversa com o governador afirmou: 245

“O ambientalismo veio para ficar! O Brasil serve apenas no momento, como bode expiatório na questão como foco das atenções mundiais. Dependendo das respostas que o país apresente, a exemplo desse projeto, tudo voltará à calma dentro de poucos anos”. Ele afirmou ainda que naquela semana uma equipe americana e outra da União Soviética estavam em Washington decidindo que tipo de pressão passarão a exercer sobre os demais países do mundo para que preservem o meio ambiente. (idem). (grifamos).

Nem Flaviano Melo, nem Marcílio Moreira estavam certos em suas previsões, pois os Estados Unidos e a Europa continuaram sim, a pressionar os governos estaduais e federal à respeito das questões ambientais e, mais, não disponibilizaram recursos para tal empreendimento, nem em seus próprios territórios, nem nos dos demais países, na medida em que eles queriam, ou necessitavam. As derrocadas da ex-União Soviética e do leste europeu no final da década de oitenta e as crises do neoliberalismo a partir da década de 1990, deslocaram as atenções dos governos centrais para outros temas, ou melhor, para outros negócios. O que não significou que as entidades ambientais, especialmente as ONGs originárias daqueles países não continuassem pressionando sobre o tema. A proposta de planejamento, de valorização dos ativos ambientais, portanto, vai ser articulada quase que totalmente fora do organograma institucional do Estado. No caso do Acre, os vocábulos e conceitos que sustentam o ambientalismo, o desenvolvimento sustentável, e depois a florestania, vão fazer parte de um debate que opunha concepções de desenvolvimento, tendo como palco as campanhas eleitorais, as mobilizações sociais, os debates acadêmicos, de forma que sua presença não podia mais simplesmente ser ignorada. Com a ascensão ao poder da Frente Popular, não só estava fincada uma cunha no velho bi-partidarismo, como a própria natureza dos debates, estava sendo também modificada. Uma modificação tão profunda que “empurrou”, inclusive, os partidos de esquerda para essas “novas” temáticas. A cunha fincada separou conceitos e reorientou as lutas políticas. A fronteira socioambiental emoldurou outros territórios de atuação, incluiu alguns segmentos sociais subalternos, marginalizados, redundantes e elevou seu grau de importância para um grau que extrapolou, que transcendeu mesmo, as populações do entorno. Mas, como não poderia fugir do âmbito da política, a fronteira ambiental gerou um conflito de interesses que colocou de lados opostos os conservacionistas/preservacionistas e sustentabilistas, contra os “desenvolvimentistas”. Esse processo foi também,

paulatinamente, separando interlocutores. Se no início da década de setenta os militares e 246

seus aliados civis falavam em desenvolver a Amazônia, a partir dos meados desta mesma década, os seringueiros se organizavam para “empatar” aquele tipo de desenvolvimento. Naquele momento, eles “falaram” com suas ações. Porém, passadas pouco mais de duas décadas, mudaram praticamente todos os interlocutores, elegeram-se novos representantes e as palavras já não estão mais só com os representados, também extrapolaram seus ambientes. As bordas, as fronteiras dos conceitos de desenvolvimento colocados em oposição, não são pacíficas. As disputas eleitorais se elastizaram, isto é, se expandiram para disputas econômicas, sociais e culturais, ao ponto de gerarem processos agressivos, ameaçadores mesmo para seus defensores. Marina Silva, por exemplo, mesmo depois de eleita Senadora da República era “proibida” de descer em alguns aeroportos do Estado, acusada que era por políticos daqueles municípios de ser contra o asfaltamento da BR-364. Diferente dela, que era respaldada por um mandato popular, muitos militantes sem as mesmas prerrogativas, sofriam ataques e intimidações nos mais diversos rincões do Estado, por se posicionarem politicamente contra o modelo predatório de “desenvolvimento” defendido pelas forças políticas, até então, fortes no sentido eleitoral e econômico. A cunha que separou partidos políticos, que abriu espaço para outras forças, também contribuiu para separar segmentos sociais, à medida que as pessoas iam se posicionando contra e/ou em favor de determinadas opções, não só as da política partidária em si, mas também a dos projetos que cada uma representava. O espaço aberto pela cunha partidária trouxe consigo uma separação temática, constitutiva de novos modos de ver o mundo e se posicionar em relação a ele. No Acre, a temática ambiental, desde então, não é assunto apenas de seminários acadêmicos, pois a partir de dentro da mata, ela pauta debates, comportamentos e compromissos. Visto nesta perspectiva, está na hora de identificarmos quais são as bases do novo desenvolvimento, o desenvolvimento sustentável, proposto pelos novos representantes daqueles velhos lutadores de antão.

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4.2

O

DESENVOLVIMENTO

SUSTENTÁVEL:

ORIGENS

DO

AMBIENTALISMO/ECOLOGISMO QUE NORTEARAM AS POLÍTICAS DA FRENTE POPULAR DO ACRE.

A concretização de uma nova força política no Acre, a partir do final década de oitenta do século passado, além da novidade que representou a junção das militâncias dos partidos de esquerda, especialmente do PC do B e do PT, foi também marcada pela forte influência exercida por dois movimentos que, desde a década anterior, ganhavam força no mundo inteiro: o ambientalista e o ecológico. Essa influência partia, principalmente, dos espaços mais diretamente controlados pelos meios de comunicação ligados aos países mais desenvolvidos e de algumas estruturas governamentais e não governamentais desses países, que passaram a falar de desenvolvimento sustentável, pautando os governos locais. As preocupações ambientais e sociais evidenciadas pela poluição dos rios, dos solos e do ar, os desastres ecológicos causados pelos grandes desmatamentos e seus impactos na flora e na fauna e, os altos índices de pobreza registrados, principalmente nos países ditos de terceiro mundo (subdesenvolvidos) e, incluídos os denominados emergentes, passaram a mobilizar determinados setores dos países considerados desenvolvidos, influenciando ações de organismos multilaterais, como a ONU, o BID, o BIRD e o FMI. De acordo com Chaves e Rodrigues:
Nas últimas três décadas a discussão em torno da relação Estado-sociedade-natureza tem sido intensificada, tanto em níveis internacionais quanto nacionais, podendo ser identificados neste processo diferentes tendências de análise e interpretação, entre elas encontra-se a proposta de desenvolvimento sustentável. (...) Nessa forma de abordagem, considerada crítica e pragmática quanto a forma de desenvolvimento dominante proposto no pós-guerra, sua concretização se deu por meio de projetos, de níveis experimentais ou demonstrativos, buscando apoio em iniciativas de organizações populares locais, de militantes ou independentes, com apoio de organizações internacionais ou de agências públicas. Encontra limitações no aspecto econômico e político, tendo em vista sua proposta, que apresentava como necessidade para se discutir o ecodesenvolvimento, a necessidade de mudanças políticas nacionais e uma reestruturação das relações econômicas NorteSul. (CHAVES e RODRIGUES. Desenvolvimento Sustentável: limites e perspectivas no debate contemporâneo. In. INTERAÇÕES – Revista Internacional de Desenvolvimento Local. Vol. 8, N. 13, p. 99-106, Set. 2006).

Na mesma direção, Coelho (1994), assegura que as idéias de desenvolvimento sustentável, ou de ecodesenvolvimento, tem origens diversas, pois:

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O ecodesenvolvimento ou desenvolvimento sustentável surge da exigência de compatibilizar desenvolvimento com a não-agressão ao meio ambiente no final da década de 60. Busca-se com essa abordagem acrescentar à condição de sustentabilidade, entendida como auto-manutenção, estabilidade (equilíbrio) e durabilidade do desenvolvimento, pelo menos três dimensões consideradas fundamentais, quais sejam, a social, a ecológica e a econômica. As raízes históricas desta corrente encontram-se em diferentes vertentes do pensamento econômico e filosófico que têm em comum a busca permanente de equilíbrio ecológico. Esta linha de pensamento é, principalmente, fortemente influenciada pelo anarquismo, pelas idéias de Malthus, pelos filósofos orientais, pelos defensores do atendimento às necessidades básicas da população e pelos críticos das idéias de progresso dominantes no mundo ocidental. (COELHO, 1994: 381/382).

Numa análise mais contundente, que explicita mesmo o equívoco da montagem econômico-social recomendada no pós Segunda Guerra e, por conseqüência, da depredação ambiental e do crescimento das desigualdades do mundo na atualidade, provocado pelas políticas que prevêem um crescimento sem limites, Enrique Leff escreveu:

La degradación ambiental, el riesgo de colapso ecológico y el avance de la desigualdad y la pobreza son signos elocuentes de la crisis del mundo globalizado. La sustentabilidad es el significante de una falla fundamental en la historia de la humanidad; crisis de civilización que alcanza su momento culminante en la modernidad, pero cuyos orígenes remiten a la concepción del mundo que funda a la civilización occidental. La sustentabilidad es el tema de nuestro tiempo, del fin del siglo XX y del passo al tercer milenio, de la transición de la modernidad truncada e inacabada hacia una posmodernidad incierta, marcada por la diferencia, la diversidad, la democracia y la autonomia. (...) El principio de sustentabilidad emerge en el contexto de la globalización como la marca de un limite y el signo que reorienta el proceso civilizatorio de la humanidad. La crisis ambiental vino a cuestionar la racionalidad y los paradigmas teóricos que han impulsado y legitimado el crecimiento económico, negando a la naturaleza. La sustentabilidad ecológica aparece así como un criterio normativo para la reconstucción del orden económico, como una condición para la sobrevivencia humana y un suporte para lograr un desarrollo durable, problematizando las bases mismas de la producción. (LEFF, 1998, 9 e 15).

No Acre, assuntos como a luta pela terra, que moveram os trabalhadores extrativistas nos primeiros momentos de sua organização, foram paulatinamente sendo permeados por temas ambientais, ecológicos e que visavam o desenvolvimento sustentável, ou seja, elegeu-se uma modalidade de desenvolvimento que sofria adjetivação, embora essa adjetivação, a sustentabilidade, não tivesse um significado rígido, tampouco, consensual. Aproveitando-se das organizações dos trabalhadores extrativistas, agentes governamentais e não governamentais estrangeiros e/ou nacionais, iniciaram os processos de contato com esses trabalhadores que teria seqüência na orientação de atividades experimentais, planos pilotos de introdução em outras culturas produtivas, diversificação da produção e experiências educativas e em saúde. Numa matéria comentando a palestra de

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um diretor do INPA, Warwick Estevan Kerr, ministrada na UFAC, em 1977, o redator do jornal Varadouro escreveu:
O debate em torno da ecologia de modo geral tem sido esvaziado e até de certo ponto desmoralizado por ter se tornado uma prática diletantista, um quase modismo. No entanto, ele ganha seu pleno sentido a partir do momento em que os debatedores estejam dispostos a fazer perguntas objetivas. No caso do Acre da Amazônia em geral é de se perguntar, antes de tudo, sobre “quem sai lucrando com a devastação das florestas e a exploração do seu potencial mineral e vegetal”. O próprio diretor do INPA teve uma expressão adequada para responder esta questão: “Não devemos permitir – disse ele – que gaúchos, paulistas e outros venham acabar com as florestas da Amazônia. Eles chegam aqui: criam o boi; mandam a carne para a Alemanha e outros países; o dinheiro fica por lá e o homem da Amazônia fica apenas com o “berro do boi”. Em outras palavras, o cientista condena aqueles que preconizam e defendem uma política de ocupação da Amazônia baseada apenas em projetos agropecuários, na “bovinização”, e em vista das exportações, sem levar em conta o desenvolvimento harmônico e em proveito da população local. Ficar com “o berro do boi” significa exatamente isso: que o homem da Amazônia, mais uma vez, como aconteceu com o ciclo da borracha, não se beneficiará dos frutos do propalado desenvolvimento feito às custas de suas terras e sua mão-de-obra. (As moto-serras voltam ao trabalho. Jornal Varadouro. Rio Branco, maio de 1977: 05).

As análises nessa perspectiva já apontavam para um divisor de águas no debate, por um lado os cientistas que começavam a se aproximar das populações tradicionais e, por outro os agentes do “desenvolvimento”, que indicavam suas ações como necessárias para “trazer” o progresso para a região. O Acre foi palco dessa disputa entre a nova onda messiânica e redentora, dos investidores do Centro-Sul e Sul, de um lado, e os cientistas e ambientalistas de outro. Algumas áreas viraram laboratórios de iniciativas, experimentos, novos procedimentos, novas técnicas, etc., que foram sendo apresentadas às comunidades como sendo respostas aos problemas que elas vivenciavam. As temáticas ambientais perenizavam as questões econômicas e se sobrepunham mesmo às questões políticas e sociais. Esses contatos iniciais dos agentes não governamentais, ligados as questões ambientais e ecológicas foram fundamentais para ir engendrando, tanto entre os trabalhadores extrativistas, como entre as suas bases de apoio nas cidades, uma nova forma de ver e se ver no mundo. As idéias de uma nova forma de ver o mundo a partir de referenciais ecológico-ambientais também se fizeram presente entre os sindicalizados e os não sindicalizados, entre os militantes partidários e os que não faziam parte dos partidos, que viam nessas “novas alternativas”, perspectivas de modificarem as relações de trabalho, bem como projetavam sua inserção nos ambientes que estavam sofrendo um acelerado processo de transformação. 250

Para as forças políticas em construção, especialmente as do campo da esquerda, que não tinha vínculos com as forças dominantes nem em nível estadual, nem em nível federal, a possibilidade de interferir nessas comunidades, sem a necessidade de uso da máquina estatal, criava condições de diferenciação nos campos das disputas. A possibilidade de se mostrar como alternativa às políticas tradicionais não era desprezível, mesmo que não houvesse consenso na aceitação e aplicabilidade das propostas de resolução dos problemas dos trabalhadores por essa via. Lembremos que boa parte da militância de esquerda provinha de partidos ou tendências com fortes traços “revolucionários” e, convergiam no sentido de que a classe trabalhadora era um conjunto homogêneo e que sua transformação também seria em bloco. Nesse sentido, trabalhar com alternativas, localizadas, que diferenciavam trabalhadores, podia aparecer como um “desvio ideológico”. Sabe-se, também, que os seringueiros não podiam nem ser classificados como camponeses nem como classe operária, devido a sua inserção produtiva. Na sua fase “autônoma”, os seringueiros assemelhavam-se mais ao lúpem-proletariado, para os quais os comunistas não tinham políticas. Por outro lado, havia ainda uma parte significativa de militantes que há muito tempo tinham abandonado as teses revolucionárias e viam na militância ambiental uma “boa causa” para seu novo engajamento, ou seja, a fusão de militância de esquerda com militância ecológico-ambiental também era marcada pela pluralidade de interesses e perspectivas. Seguindo a compreensão de que há vários significados cercando o conceito de sustentabilidade, vamos tentar identificar alguns deles e as influências que exerceram na elaboração das novas políticas que formaram a base da oposição aos governos oriundos do bi-partidarismo (ARENA x MDB), herdeiros do desenvolvimentismo dos militares que protagonizaram o Golpe de 1964. Principiamos nossa análise a partir do pressuposto de que, embora exista uma relação aproximativa entre a ecologia e o ambientalismo, esses dois eixos têm gravitações próprias. Primeiro porque a ecologia é um ramo da ciência cujo objetivo precípuo é estudar “as relações através das quais as populações das várias espécies afetam e são afetadas pelo

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ambiente físico em que vivem”. (JOHNSON, 1997: 78). Isso implica que a ecologia, em si, pode “separar” um determinado território em vários campos de estudos, ou seja:
Do ponto de vida ecológico, a vida é organizada em ecossistemas, que consistem de todas as formas vivas que coexistem em relações recíprocas em um dado ambiente físico. A maneira como o ambiente físico é definido depende inteiramente dos interesses de quem o define. Pode ser tão pequeno como a gota d‟água de um tanque, por exemplo, tão grande como uma cidade ou país, ou incluir todo o universo. Na ecologia humana, os ecossistemas são sempre definidos em relação às populações humanas. (JOHNSON, 1997: 78).

Diante desta conceituação, entendemos que os estudos ecológicos podem sim, influenciar o ambientalismo, mas esse tem uma natureza mais política ao ponto de Lino considerar que:
O movimento ambientalista não é um fenômeno sociológico espontâneo, decorrente de uma conscientização sobre as necessidades reais de compatibilização das atividades humanas com certos requisitos de respeito ao meio ambiente no qual elas se inserem. Na verdade, trata-se de um engendro ideológico e político, específica e habilmente planejado, criado e mantido por poderosos grupos hegemônicos internacionalistas, com propósito de conter a expansão dos benefícios da sociedade industrial-tecnológica a todos os povos e países do planeta e manter o processo sob seu controle. (LINO et al. 2005: 11).

Consideramos, portanto, que o processo de mudança política que ocorreu no Acre a partir dos movimentos de resistência dos trabalhadores extrativistas, situou-se também, nesse cruzamento entre ecologia e ambientalismo, misturando ciência, ideologia, economia, política, impactos culturais e sociais, numa crescente exponencial que, operando com a realidade e a fantasia, com a certeza e a incerteza, com a segurança e o medo, de alguma forma influenciou comportamentos e estimulou atitudes dentro e fora de seu campo de atuação. Se, por um lado, os seringueiros organizavam os empates contra os desmatamentos, por perceberem na prática como esses desmatamentos os prejudicavam, numa demonstração de que conseguiam entender os acontecimentos locais, por outro, vamos encontrar cientistas e ambientalistas que, mesmo não sendo moradores, mesmo não estando diretamente ligados à região, também militavam contra os desmatamentos por terem chegado a outras conclusões que no final se cruzavam, por exemplo, a de que os desmatamentos na Amazônia afetavam a vida de outras populações do planeta e influenciavam na alteração do clima, no aquecimento global, no regime de desertificação,

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etc. Havia um desejo comum, o combate ao desmatamento, constituído através de uma rede de interesses estranhos, diversos e desterritorializados. Ou, analisando por outro prisma, poderíamos pensar também nas disputas entre as madeireiras asiáticas, européias, canadenses e estadunidenses que, a exemplo das disputas por petróleo, influenciam nas decisões a serem tomadas nos mais diversos países. Podendo decorrer daí formulações que encaminham os procedimentos de utilização dos recursos naturais nesses outros países, concorrendo para garantir canais de exploração por meios não explícitos. O certo é que desde a década de setenta a agenda ecológico-ambiental passou a fazer parte da agenda econômica-política de forma mais efetiva, tanto para ser acatada, como para ser refutada. Nesse sentido, foram vários os cientistas a fazerem prognósticos de que, mantidos determinados ritmos de desmatamento, o Acre estaria totalmente devastado em determinada data, ou seja, usavam alguns dados técnico-científicos para “advertir” sobre possíveis acontecimentos irreversíveis. Warwick Kerr, em 1976, quando a época era diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, por exemplo, em palestra proferida na Universidade Federal do Acre, prognosticou que mantido o ritmo de desmatamento que se verificava no ano de 1976, em 33 anos todo o Estado estaria desmatado, conforme noticiou o jornal Varadouro em sua edição de número 01, publicado em maio de 1977, nos seguintes termos:
Na segunda semana de dezembro do ano passado, o diretor do Instituto de Pesquisa da Amazônia (INPA), Warwick Estevan Kerr, revelava, em palestra proferida na Universidade local, que em 1974 o desmatamento no Acre era inferior a um por cento de toda a sua área florestal. Já no ano seguinte, porém, esse percentual havia duplicado: atingiu 1,8 por cento da área coberta. E no ano passado a devastação destruiu 3,5 por cento da floresta acreana. Se esse ritmo, se essa tendência se mantiver inalterada, afirmava desanimado o cientista, em menos de 33 anos todas as reservas florestais do Acre estarão completamente destruídas. Em linguagem mais simples ainda: não mais haverá mata no Acre! (As moto-serras voltam ao trabalho. Varadouro. Rio Branco, Maio de 1977: 5).

Dez anos mais tarde em 1987, o geógrafo Orlando Valverde também prognosticou que em 1995, o Estado estaria totalmente devastado caso fosse mantido o ritmo de desmatamento que se verificava na década anterior. O jornal Gazeta do Acre, assim informou a previsão de Valverde:

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O geógrafo Orlando Valverde, presidente da Campanha Nacional de Defesa e pelo Desenvolvimento da Amazônia, na manhã de ontem, durante o Seminário sobre o Meio Ambiente do Estado do Acre, no auditório da Eletroacre, disse que a extinção da floresta no Acre, a continuar o ritmo de desmatamento registrado no último decênio, poderá ocorrer em 1995. A informação foi extraída de uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) com base em medições de satélite, extrapoladas (estipuladas?) em cálculos de computação. Pela mesma pesquisa, o Estado brasileiro onde a floresta amazônica permanecerá em vida mais prolongada é o Amapá, que seria devastado no ano de 2.003, o Amazonas somente em 2.002, o Acre em 1995, o Pará em 1991, o Maranhão em 1990, o Mato Grosso em 1989 e Rondônia em 1988. (Geógrafo prevê que o Acre poderá estar completamente desmatado até 1995. Gazeta do Acre. Rio Branco, 1987: 2).

Os ritmos de desmatamento não seguiram nas mesmas proporção projetadas pelos especialistas e, felizmente, os prognósticos dos cientistas não se concretizaram, pois em 2005, portanto, vinte anos após a data indicada por Warwick Kerr e dez anos após a data indicada na previsão de Valverde, o desmatamento no Estado havia atingido o total de 19.243 Km², perfazendo um índice pouco maior que 12% da área total que é de 164.220 Km². (INPE, ZEE, 2006: 67). Ainda assim, as teses “científicas” continuam sendo anunciadas e as “ameaças” atualizadas, os ambientalistas estão cada vez mais fortes e os seringueiros ainda lutam para encontrar seus lugares, seus espaços em meio às mudanças que não cansam de apontar outros rumos. Concomitante aos debates, os fazendeiros o os madeireiros continuam seu processo de exploração, embora estes últimos tenham se especializado em retirar somente as madeiras mais nobres, a exemplo do mogno, que rende mais com menos investimentos. Referimo-nos às opiniões dos reconhecidos cientistas, acima citados, para ressaltar as características multipolares que permeiam os meandros da ciência, da militância ambiental e, dos negócios/mercados. Elas servem também para nos indicar que a importância da ecologia como ciência, foi evidenciar impactos profundos provocados pelos homens nos mais diversos ecossistemas, mas, ao mesmo tempo muitos dos estudos ecológicos são usados pelos ambientalistas para estabelecer um clima de medo, para defender interesses políticos e econômicos, ou ainda, para bloquear ações tecno-industriais ou de infra-estrutura sob encargo do Estado, que implicariam em melhoria nas condições de vida de imensos contingentes populacionais, direcionando o nível dos debates para um plano onde Lino reitera que:

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O fácil apelo popular do ambientalismo, com o discurso de uma alegada “proteção” da natureza contra os excessos das atividades humanas, o converte em um dos mais influentes fatores indutores da crise civilizatória em curso, ao lado da hegemonia conferida aos “mercados” na determinação das políticas econômicas. Em seu cerne, a ideologia ambientalista, baseada no conceito do biocentrismo, considera o ser humano como apenas mais uma entre as milhões de espécies da biosfera terrestre, ou seja, o rebaixa ao nível dos demais seres vivos e lhe nega qualquer primazia de um papel protagonista no presente estágio da evolução universal. Com isso, em uma insidiosa inversão de valores, o ambientalismo transforma o meio ambiente em uma entidade de direito próprio e condiciona o progresso e o bem-estar das comunidades humanas a um conjunto de requisitos para a “proteção” do mesmo, geralmente definidos com escasso rigor científico, quando deveria ser o contrário. O corolário é a falaciosa, cientificamente insustentável e moralmente inaceitável idéia que está no centro da agenda ambientalista: a de que as limitações de recursos naturais e da “capacidade de suporte” do planeta impediriam a plena extensão dos benefícios da sociedade industrial a todos os povos e países do mundo. (LINO et. al. 2005: 23).

Na década de setenta, no Acre, o apelo ambientalista não surtia muito efeito, pois como vimos nos números apresentados por Warwick Kerr, os índices de desmatamento estavam na casa de 1% do território total. Naquela época, ninguém via os desmatamentos como crimes ambientais, muito pelo contrário, quanto mais se desmatava mais se concebia esse ato como desenvolvimento, como progresso. As imagens de grandes quantidades de terras sendo desnudadas eram vistas como bonitas, benéficas (a legislação agrária até hoje denomina como “benfeitoria” qualquer modificação no ambiente natural feita pelo homem) e promissoras. No final daquela década, contudo, os impactos desses desmatamentos já não eram apenas sociais, já não eram apenas os seringueiros, ribeirinhos e pequenos produtores que reclamavam daquele processo, por terem sido desalojados de seus espaços. A grande cortina de fumaça que se erguia das queimadas, especialmente entre os meses de julho e setembro, começava a incomodar os moradores das cidades, pois a poluição do ar prejudicava a saúde dessa população, fechava aeroportos e os empregos prometidos por aqueles investimentos não apareciam. Sem contar as inúmeras espécies animais e vegetais que foram destruídas sem a devida catalogação. Também no final da década começaram a surgir com mais intensidade os questionamentos com relação aos impactos ambientais. O aparecimento do jornal Varadouro foi um marco dessa nova fase. Suas denúncias acerca da violência, dos impactos dos desmatamentos e queimadas, da corrupção dos “velhos” políticos e das suas propostas unilaterais de desenvolvimento e, principalmente, sua persistência em apresentar preocupações sobre a necessidade de realização de um debate público que buscasse

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soluções, que apontasse para outro tipo de desenvolvimento, um desenvolvimento que abarcasse todos os setores da sociedade, especialmente sua preocupação com os seringueiros e ex-seringueiros que haviam se mudado para as cidades, merecem destaque. Esse é o cenário de onde emergem as diferenças e as divergências sobre os conceitos de desenvolvimento e a organização de uma nova força política. Por um lado, a ação concreta dos fazendeiros e madeireiros e seus representantes políticos investindo na ampliação de seus campos e de suas serrarias, entendendo que seu enriquecimento era o gerador do progresso e, por outro, os seringueiros e seus aliados urbanos (locais, nacionais e internacionais) questionando aquele tipo de progresso e apresentando algumas formulações, ainda que apenas como perspectivas, como projetos experimentais, fragmentados, de estabelecimento de outro tipo de relacionamento homem-natureza, de modificação mesmo, da relação de convivência do homem no meio ambiente. O grande esforço dos articuladores da nova força política foi concatenar as preocupações ambientais com a realidade econômica, política e social, já que seus principais defensores em nível local pertenciam aos extratos mais baixos da divisão de classes, ou seja, eram pessoas que não dispunham da “autoridade” para projetar seus discursos, que não tinham “legitimidade” para propor soluções ou alternativas, pois eram desprovidos de “condições institucionais” para tal. Chico Mendes é talvez, o caso que mais chama a atenção, pois primeiro teve seu “reconhecimento” internacional, para depois se tornar conhecido nacionalmente, antes dessa projeção, nunca foi ouvido, nunca foi levado a sério, pelos governantes locais. Os cientistas e os jornalistas ligados às questões ambientais, aos quais se juntaram depois os políticos de esquerda que nutriam algum tipo de preocupação socioambiental, foram importantes nesse contexto, haja vista que, até então, não eram muito próximas as ligações entre os militantes políticos e as questões ecológico-ambientais. Até mesmo a separação entre ambientalistas e ecologistas não é consensual, havendo os que consideram que são sinônimos e os que a vêem de forma separada. Porto Gonçalves, assumindo-se como um ecologista, no sentido militante ambientalista, por exemplo, assegura que:

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De fato, parece não haver campo do agir humano com o qual os ecologistas não se envolvam: preocupam-nos questões que vão desde a extinção de espécies como as baleias e os micos-leões, a explosão demográfica, a corrida armamentista, a urbanização desenfreada, a contaminação dos alimentos, a devastação das florestas, o efeito estufa, as técnicas centralizadoras até as injunções do poder político que nos oprime e explora. (PORTO GONÇALVES, 2004: 7).

Porto Gonçalves admite que sua reflexão “invade” campos diferentes e emprega deliberadamente um estilo que “transita entre o rigor científico-filosófico e o manifesto político”. Para ele:
O discurso do ecodesenvolvimento tem sido diluído e, por meio de verdadeiras voltas à razão, se tem procurado ajustar as propostas ecologistas aos desígnios de uma racionalidade econômica crematística. Da crítica à própria idéia de desenvolvimento, tal como os ambientalistas a haviam formulado nos anos 1960-1970, se passou ao ecodesenvolvimento e, depois, ao desenvolvimento sustentável e, por esses tortuosos caminhos, a própria idéia de desenvolvimento foi ressuscitada e, passados trinta anos da Conferência de Estocolmo e dez da Conferência do Rio de Janeiro, não só se têm intensificado os ritmos de exploração e transformação dos recursos, como têm surgido novas estratégias de intervenção na natureza, assim como novas manifestações de seus impactos e riscos ecológicos. Tanto no senso comum como na retórica oficial, manejam-se conceitos antes reservados aos meios científicos acadêmicos, terminologia esta que se inscreve em novas estratégias epistemológicas que alimentam uma ecologia política e políticas ambientais, nas quais se expressam e se manifestam interpretações controversas e conflitos de interesses, assim como princípios e formas diferenciadas de reapropriação da natureza. (PORTO GONÇALVES, 2004: 162-3).

No entanto, Coelho (1994) vai um pouco além, no sentido de entender que o debate sobre o desenvolvimento sustentável, ou ecodesenvolvimento, sofre influências de outras bases filosóficas, inclusive místicas:
Alguns mentores do ecodesenvolvimento ou desenvolvimento sustentável criticam os valores, atitudes e comportamentos ocidentais, buscando inspirações na análise dos valores das culturas orientais, principalmente do sul asiático (culturas hindus, budistas e taoista) que apregoam a harmonia entre seres humanos e a natureza, e dos seres humanos entre si. Este é exemplo de Schumacker (1973) com a economia budista (Buddhist Economics). Alguns autores, nos quais os ecologistas têm buscado inspiração, assumem inclusive uma postura mística, como pode ser verificada, por exemplo, em Fritjof Capra (1982) que fala em Tao e Buda. (COELHO, 1994: 382/383).

Numa direção, fundamentalmente diferente, por buscar centrar esse debate numa base materialista de avanço do capitalismo, Michael Löwi, em ensaio que versa sobre o socialismo e a ecologia, identifica uma série de fatores que envolvem o ambientalismo e o ecologismo, como fenômenos que se articulam no mesmo eixo, nos seguintes termos:
Crescimento exponencial da poluição do ar nas grandes cidades, da água potável e do meio ambiente em geral; aquecimento do planeta, começo da fusão das geleiras polares, multiplicação das catástrofes “naturais”; início da destruição da camada de ozônio; destruição, numa velocidade cada vez maior, das florestas tropicais e rápida redução da biodiversidade pela extinção de milhares de

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espécies; esgotamento dos solos, desertificação; acumulação de resíduos, notadamente nucleares, impossíveis de controlar; multiplicação dos acidentes nucleares e ameaça de um novo Chernobyl; poluição alimentar, manipulações genéticas, “vaca louca”, gado com hormônios. Todos os faróis estão no vermelho: é evidente que a corrida louca atrás do lucro, a lógica produtivista e mercantil da civilização capitalista/industrial nos leva a um desastre ecológico de proporções incalculáveis. Não se trata de ceder ao “catastrofismo” constatar que a dinâmica do “crescimento” infinito induzido pela expansão capitalista ameaça destruir os fundamentos naturais da vida humana no planeta. (LÖWI, 2005: 41, 42).

Partindo sempre de construções muito amplas como a de Michael Löwi, retro, ou de um único aspecto como o desmatamento, assunto preferencial do biólogo estadunidense Thomas Lovejoy, encontramos autores que conceituam ecologia e ambientalismo, sempre a partir dos mesmos referenciais, os impactos das ações humanas no meio ambiente, na maioria das vezes responsabilizando, de forma generalizada, prejuízos que foram causados por empresas ou indivíduos. Montibeller Filho, corroborando em mais uma conceituação que segue essa direção, diz que:
Ambientalismo é o conjunto de ações teóricas e práticas visando à preservação do meio ambiente. Em sentido amplo, o meio ambiente compõe-se dos elementos físicos, químicos, biológicos, sociais, humanos e outros que envolvem um ser ou objeto. Em sua forma restrita, o conceito de meio ambiente refere-se aos aspectos físicos da natureza que interagem com o humano. (MONTIBELLER, 2004: 31).

A pluralidade de interpretações acerca dos temas desenvolvimento sustentável, ecologia e ambientalismo nos remetem a terrenos porosos, movediços, no sentido de que o engajamento com essas causas, por exemplo, pode fazer baixar um nevoeiro, uma cerração que nos impeçam enxergar pontos de referência, que nos permitam seguir com segurança pelos caminhos que se apresentam, ao ponto de Enrique Leff sustentar que:
En este proceso, la noción de sostenibilidad se há ido divulgando y vulgarizando hasta formar parte del discurso oficial y del lenguaje común. Empero, más allá del mimetismo discursivo que há generado el uso retórico del concepto, no há definido un sentido teórico y praxeológico capaz de unificar las vias de transición hacia la sostentabilidad. En este sentido, surgen los disensos y contradicciones del discurso del desarrollo sostenible; sus sentidos diferenciados y los intereses contrapuestos en la apropriación de la naturaleza. Dichos intereses manifestaron en las dificuldades para alcanzar acuerdos internacionales sobre los instrumentos jurídicos para guiar el tránsito hacia la sustentabilidad. En este sentido, algunos países del Norte se opusieran a la firma de una declaración com fuerza jurídica obligatoria sobre la conservación y desarrollo sostenible de los bosques, y han manifestado sus resistencias y intereses desde la aprobación, ratificación y protocolización de la conservación sobre la diversidad biológica. En el trasfondo de estos acuerdos están en juego las estratégias y derechos de apropriación de la naturaleza. En estas negociaciones, los países del Norte defienden los intereses de las empresas transnacionales de biotecnología por apropiarse los recursos genéticos localizados en el tercer mundo a través de los derechos de propriedad intelectual. Al mismo tiempo, grupos indígenas y campesinos defienden su diversidad biológica y étnica, es decir, su

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derecho a apropriarse su patrimonio histórico de recursos naturales y culturales. (LEFF, 1998: 19, 20).

A pluralidade sobre os conceitos de sustentabilidade, ambientalismo e ecologia fazem parte de um campo comum e estão mesmo, permeados de contradições e controvérsias. Porém, não há dúvidas que se podem delimitar áreas e possibilidades de estudos, por isso, queremos nos manter sempre na perspectiva de que há alguns parâmetros a serem sempre lembrados, dentre eles os conceitos que são considerados “divisores de águas”, tais como as concepções “produtivistas”, as “santuaristas” e as “sustentabilistas”. Para melhor compreensão, vamos referenciar as três concepções angulares, sabendo que todas elas de alguma forma, influenciaram na construção do eixo em que se movem os novos agentes políticos no Acre. A concepção produtivista é a que se apóia nos princípios capitalistas (liberais/neoliberais), onde o planeta, a natureza em primeiro plano, é vista como meio para a realização do lucro. De acordo com o professor da Universidade Federal do Amazonas UFAM, Eron Bezerra (2008) para os defensores dessa concepção:
O que importa é o crescimento econômico, sem nenhuma preocupação ambiental. Foi o que os países ditos de capitalismo avançado fizeram e, por isso mesmo, hoje se vêem às voltas com dificuldades objetivas de reduzirem a poluição, a degradação ambiental e até mesmo de disporem de recursos naturais adequados para o seu processo produtivo. (BEZERRA, E. Anotações sobre a Amazônia: a cobiça. In. www.vermelho.org.br – Consultado em 24/06/2008).

Os defensores dessa concepção são os herdeiros diretos e diletos dos colonizadores europeus e suas versões modernas, tanto do velho como do novo mundo, que vêm se atualizado ao longo dos anos: os descobridores/colonizadores/exploradores agora são industriais ligados ao agribusiness, que utilizando os recursos tecnológicos/informacionais, tudo patenteiam, de tudo se apropriam, ou tudo destroem/descartam/abandonam quando não mais lhes interessa; os bandeirantes de antão, agora são os biopiratas, que açambarcam, que roubam, saqueiam e contrabandeiam impondo severos prejuízos às populações nativas e autóctones; os “investidores” capitalistas liberais, agora são os neoliberais, desterritorializados, extraterritorializados, enfim, são os defensores do “progresso”, que só entendem o progresso como crescimento econômico sem responsabilidades cultural ou ecológico-social.

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Na base dessa concepção produtivista ergue-se o Estado, na sua forma governo, como responsável pela infra-estrutura, pela segurança, pelo fomento e pelo ordenamento político em geral, mesmo que o Estado em si, seja negado pelos neoliberais. Assim como agiram os militares após o Golpe de 1964, com relação à Amazônia, quando passaram a investir na construção de estradas, hidrelétricas, parques industriais, mineração, aeroportos, etc. sem se preocupar com os desmatamentos, os alagamentos causados pela barragem dos rios, a contaminação provocada pelas mineradoras e os impactos que causavam em populações autóctones, nativas e populações migrantes que haviam há muito ocupado partes da região. Mas, consideremos que o Estado também é um campo de disputa e sua direção também é objeto dessas contendas. Em oposição à concepção “produtivista”, que excluía e destruía homens e a natureza, surgiram duas outras vertentes, que de acordo com seus preceitos, são caracterizadas como “santuarista” e “sustentabilista”. A visão dos “santuaristas” está focada no biocentrismo, ou seja, no entendimento de que o homem é apenas mais uma entre todas as espécies e que todas têm importância equivalente e, assim sendo, deve-se preservar todos os ecossistemas que ainda não tenham sofrido ação humana, até porque, segundo essa perspectiva, como adverte Foster (2005: 30): “nós deveríamos ter muita cautela ao fazer mudanças ecológicas fundamentais, reconhecendo que, se introduzirmos no meio ambiente substâncias químicas novas, sintéticas, que não sejam produto de uma longa evolução, estaremos brincando com fogo”. Indo um pouco além no exarcebamento, Lino faz uma irônica crítica ao misantropismo que impera em alguns setores ambientalistas, principalmente o que diz respeito ao conteúdo de um documento lançado na Rio-92, denominado Declaração de Morélia, assinado por 41 ambientalistas, cientistas, ativistas políticos e intelectuais de 20 países e, posteriormente endossado por quase 900 participantes da Conferência, onde eles argumentam que:
Se a metade final do século XX ficou marcada por movimentos de libertação humana, a década final do milênio será caracterizada por movimentos de libertação entre espécies, de modo que algum dia possamos atingir uma igualdade genuína entre todas as coisas vivas. (LINO et. al. 2005: 25).

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Essa visão, de acordo com Lino, subscrita por alguns destacados cientistas, como os físicos F. Sherwood Rowland, que recebeu o prêmio Nobel em 1997, Amory B. Lowins, criador do conceito de “capitalismo ecológico”, o biólogo Thomas Lovejoy, conhecido pelas denúncias sobre o desmatamento da Amazônia e o agrônomo Lester R. Brown, que é fundador e presidente do mais importante centro ambientalista dos Estado Unidos, o Worldwatch Institute, contribuem para o aparecimento de teorias como a Hipótese Gaia, que é uma:
Teoria pseudocientífica elaborada pelo biólogo inglês James Lovelock e sua colega estadunidense Lynn Margullis. Batizada com o nome da antiga deusa grega que representava a terra, a Hipótese Gaia determina que nosso planeta é um ser vivo de direito próprio e presciente, dotado de mecanismos de auto-regulagem das condições físico-químicas favoráveis à sobrevivência dos organismos da biosfera, inclusive o homem. Assim, este último teria que se adaptar aos desígnios do superorganismo, condicionando as suas aspirações de progresso aos rígidos limites impostos por Gaia, sob o risco de ser implacavelmente eliminado como se fosse um vírus letal. (LINO. et al. 2005: 25).

No caso da Amazônia, muitos segmentos ligados a essa vertente, defendem a tese de que ela deve ser mantida intacta e, mais, deve ser considerada como patrimônio da humanidade, portanto, suas florestas, sua fauna e riquezas minerais não devem ser mexidas, não podem ser tocadas. Os defensores dessa concepção parecem não querer ver que a Amazônia, já não é mais um território intocado e que há muito, foi ocupada por diversos tipos de populações, passando por autóctones e chegando aos ditos civilizados e, sabemos que cada uma dessas levas de ocupantes, de uma forma ou de outra alteraram a paisagem natural, obviamente provocando diferentes formas de impactos nesse ambiente. Uns mais, outros menos, mas nenhum tanto quanto as últimas levas, principalmente após a década de setenta, quando ao invés de buscarem uma relação mais integrada com o ambiente, introduziram modificações, como semeadura de outras espécies, enxertia, adubação química, uso de defensivos, fertilizantes, etc., além do que, passaram a destruir a vegetação e alterar profundamente o curso dos rios e outros acidentes naturais, provocando profundas mudanças neste meio. Se não for por ingenuidade e, presumimos que não seja, esse tipo de comportamento é pior ainda, pois os defensores dessa concepção entendem que a Amazônia deve ser “elevada” a categoria de “patrimônio da humanidade”, como se “toda a humanidade” pudesse ser entendida como um corpo homogêneo, como se não houvesse diferença entre 261

um executivo estadunidense e um “primitivo” da Nigéria, ou um camponês do altiplano boliviano e um indígena não contatado que ainda percorrem regiões de floresta no Estado do Acre. Sem falar nos interesses de alguns estados nacionais e das grandes corporações que fazem guerras de todo porte para se apoderar de territórios e riquezas que não estão sob seu controle, descuidando dos conceitos de soberania nacional, que, bem ou mal, tem resguardado determinados direitos em nível internacional. A outra vertente de oposição aos “produtivistas” é a que se define como “sustentabilista”. Essa é a corrente que mais atrai adeptos, não só na Amazônia, mas em todo o mundo, pois se articula em torno de um preceito filosófico de que a humanidade precisa e pode se desenvolver respeitando a natureza. Para Eron Bezerra:
Hoje, a rigor, não se encontra ninguém que se assuma abertamente como “santuarista” ou “produtivista”. Todos se proclamam “sustentabilistas”, quando na verdade, há muitos “produtivistas” e “santuaristas” que apenas se disfarçam de sustentabilistas para continuarem disseminando suas torpes idéias. (BEZERRA In. www.vermelho.org.br – Consultado em 24/06/2008).

O apelo de considerar as questões ecológicas e sociais como requisitos para o crescimento econômico, que cercam os defensores das teses sustentabilistas, que se traduzem como questões humanitárias de respeito a vida natural, há muito vêm servindo para ancorar os argumentos de que é possível um desenvolvimento sustentável dentro dos marcos do capitalismo. Esse debate não é novo e remete ao materialismo de Marx, quando se tenta apresentar o autor alemão como um dos principais representantes do humanismo “especiesista”, ou seja, Marx como representante de um humanismo que dissocia radicalmente o homem dos outros animais, elegendo o antropocentrismo utilitário como seu principal ofício. (FOSTER, 2005: 25). Tratando as questões dessa forma identificamos uma arquitetura dual, conflituosa entre uma perspectiva antropocêntrica, baseada na ciência, na mecânica, na tecnologia, na informação e; outra ecocêntrica/biocêntrica, baseada no respeito à natureza ou, melhor, na sua entificação mesmo, creditando a esta última um vitalismo idealista que deve convergir para a resolução dos problemas dos seres vivos do planeta. O debate acerca das questões que envolvem os conceitos de desenvolvimento sustentável, ecologia e ambientalismo que influenciaram as forças políticas de esquerda no Acre, principalmente após a década de oitenta, como visto, não tem uma origem 262

consensual, embora encontremos muitos estudos como os de Ignacy Sachs (2002), Olivier Godard (2004), Rosineide Bentes (2005), Porto Gonçalves (2004), entre outros que situam a eclosão desses movimentos no pós-Segunda Guerra, especialmente entre o fim da década de sessenta e o início da década de setenta. Há outros estudiosos que buscam referências mais distantes, como é o caso de Michael Löwi e John Bellamy Foster (2005), que situam o debate a partir de estudos sobre a obra de Marx. Foster, por exemplo, diz que se baseia:

Numa premissa muito simples: a de que, a fim de entender as origens da ecologia, é necessário compreender as novas visões da natureza que surgiram do século XVII ao século XIX com o desenvolvimento do materialismo e da ciência. Além do mais, em vez de simplesmente retratar o materialismo e a ciência como inimigos de concepções prévias e supostamente preferíveis de natureza, como é comum na Teoria Verde contemporânea, a ênfase aqui está em como o desenvolvimento tanto do materialismo quanto da ciência promoveu – a rigor, possibilitou – modos ecológicos de pensar. (FOSTER, 2005: 13).

Focando sua lente para as obras de Darwin e Marx, Bellamy Foster desenvolve uma visão que associa a transformação social com a transformação da relação humana com a natureza, seguindo a trilha do que hoje, considera-se ecológico/ambiental. Priorizando Marx, por seu pensamento a respeito do materialismo e da liberdade, esboçado desde seus primeiros escritos, como em sua tese de doutoramento, onde grande parte desse trabalho se inspirou em Epicuro, Foster relaciona a evolução do pensamento materialista filosófico de Marx, relatando sua concepção materialista da história e os caminhos que ele percorreu até entrelaçá-lo com o materialismo ontológico e epistemológico. Para Foster uma das boas lições que Marx aprendeu com o estudo sobre Epicuro, foi que:

O materialismo epicurista enfatizava a mortalidade do mundo, o caráter transitório de toda a vida e existência. Os seus princípios mais fundamentais eram de que nada vem do nada e nada sendo destruído pode ser reduzido ao nada. Toda a existência material era interdependente, emanando dos átomos (e revertendo a eles) – organizada em padrões infindáveis para produzir novas realidades. A profundidade do materialismo de Epicuro, para Marx, revelava-se pelo fato de que dentro desta filosofia – e no conceito do próprio átomo – “a morte da natureza” (...) tornou-se a sua substância imortal. (...) Daí na filosofia de Epicuro não haver necessidade das causais finais aristotélicas; em vez disso, a ênfase recaía nos arranjos em constante mudança na natureza em si, concebida como mortal e transitória (mors immortalis). (FOSTER, 2005: 19).

Foster considera fato incontestável que há uma longa história de denúncias contra Marx, no que diz respeito a uma possível falta de preocupação com a ecologia ao longo de sua obra, porém, ele a contesta veementemente. Nesse sentido, concorda com o geógrafo 263

italiano Massimo Quaini quando este pondera que “Marx... denunciou a espoliação da natureza antes do nascimento de uma moderna consciência ecológica burguesa”. Foster considera, ainda, que nos últimos anos, até os mais ferrenhos críticos de Marx vêm admitindo numerosos e notáveis insights ecológicos em sua obra, mesmo assim não deixam de recorrer a seis argumentos intimamente conectados que servem para manter uma visão negativa do autor alemão com relação à ecologia, são eles:
O primeiro é de que as afirmações ecológicas de Marx são desconectadas como “apartes iluminadores” sem nenhuma correlação sistemática com o corpo principal de sua obra. O segundo é que consta que estes insights ecológicos emanam de modo desproporcionado da sua crítica inicial da alienação, e são muito menos evidentes em sua obra mais tardia. O terceiro é que Marx, segundo consta, não conseguiu em última instância lidar com a exploração da natureza (deixando de incorporá-la na sua noção de valor), tendo em vez disso adotado uma visão “prometéica” (prótecnológica, antiecológica). O quarto é que, como corolário ao argumento “prometéico”, afirma-se que, na visão de Marx, a tecnologia capitalista e o desenvolvimento econômico haviam resolvido todos os problemas dos limites ecológicos, e que a futura sociedade de produtores associados existiria sob condições de abundância. (...) O quinto é que Marx, alega-se, tinha pouco interesse pelas questões da ciência ou pelos efeitos da tecnologia sobre o meio ambiente, faltando-lhe pois base científica para análise de questões ecológicas. (...) O sexto é que Marx, diz-se, era “especiesista”, dissociando radicalmente os seres humanos dos animais e tomando partido daqueles em detrimento destes. (FOSTER, 2005: 24).

Michael Löwi também argüindo uma necessária atualização do marxismo quanto à questão ecológica, diz que:

A questão ecológica é, na minha visão, o grande desafio para uma renovação do pensamento marxista no início do século XXI. Ela exige dos marxistas uma ruptura radical com a ideologia do progresso linear e com o paradigma tecnológico econômico da civilização industrial moderna. Certamente, não se trata – isto é evidente – de colocar em questão a necessidade do progresso científico e técnico e da elevação da produtividade do trabalho: estas são duas condições incontornáveis para dois objetivos essenciais do socialismo: a satisfação das necessidades sociais e a redução da jornada de trabalho. O desafio é reorientar o progresso de maneira a torná-lo compatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta. (LÖWI, 2005, 38-39).

Tanto Bellamy Foster como Michael Löwi abordam de forma categórica, uma questão que permeia o campo político que adotou, no Acre, os preceitos do ecodesenvolvimento, do desenvolvimento sustentável como referência para suas ações. Qual o caminho a seguir para organizar a sociedade sem a forte influência das empresas capitalistas, ou mesmo do pensamento capitalista? A resposta a essa questão é um dos gargalos que enredou os militantes de esquerda das diversas tendências que se uniram em torno da Frente Popular do Acre, força política que hegemonizada pelo PT e PC do B, 264

assumiu a vanguarda do poder estatal no final da década de noventa e que vem se mantendo como representante dos trabalhadores extrativistas nesta primeira década do novo milênio. O fato das grandes corporações, principais responsáveis pela poluição do planeta, realizarem seminários, patrocinarem conferências, financiarem pesquisas em institutos e universidades, articularem a formação de ONGs, buscarem os “selos verdes”, se autopromoverem como ambiental e ecologicamente corretas, sustentáveis, etc., não as isenta dos grandes impactos causados por suas atividades poluidoras, mesmo assim, há quem, dentro do Governo do Estado, acredite e divulgue que com essa forma de agir elas estão se enquadrando nos princípios de respeito ao meio ambiente e a sustentabilidade. Esse quadro vai servir para revelar as divergências entre os campos “santuaristas” e “sustentabilistas” entre membros do próprio governo. Mesmo assim, esse debate acerca do relacionamento homem-natureza, empresaecologia-ambientalismo, desenvolvimento-exploração, está também, na matriz do arcabouço conceitual que projetou para os postos de mando no Estado do Acre, além das esquerdas e suas tendências, militantes e ex-militantes sindicais, estudantis, ambientalistas, tendências religiosas e militantes de movimentos populares. A organização e a convergência de diversas militâncias do campo das esquerdas, dos movimentos sindicais e populares, religiosos e dos ambientalistas para o eixo ambiental/ecológico/ “sustentabilista” e/ou “santuarista”, que polarizou as disputas com os defensores do “produtivismo”, que era representado pelos fazendeiros, seringalistas e exseringalistas, comerciantes e alguns membros do staff governamental, até então estabelecido, durante algum tempo, também serviu para atenuar as divergências entre “santuaristas” e “sustentabilistas” que militavam no mesmo campo. Chegando a este ponto, nos perguntamos. Qual é então a matriz da idéia de sustentabilidade que domina a política acreana após ascensão da Frente Popular do Acre? Jorge Viana, ex-prefeito da capital e ex-governador por dois mandatos no Estado do Acre, num texto intitulado “O mapa do sonho”, publicado como apresentação do Zoneamento Ecológico-Econômico em 2006, revela que o pensamento da Frente Popular vai além das questões ambientais, e se desloca na direção de outro tipo de formação social, pois para ele, há uma história do povo acreano que remonta uma certa tradição, um avanço natural que corrobora para a formatação da conjuntura como ela se apresenta no presente: 265

Simplesmente constatamos que, ao longo de um século, nas lutas, nos ciclos e fases da economia, nas migrações, nas enchentes e vazantes dos rios, na abertura de estradas, nas aldeias, vilas e cidades, o Acre foi se fazendo o que hoje é. A população foi se distribuindo e se concentrando, as regiões foram descobrindo potencialidades e vocações, cada um foi lutando e conquistando seu espaço. Esse é o Zoneamento real, feito pela vida. (VIANA. O Mapa do Sonho. In. ZEE, 2006: 14).

Essas palavras, escritas por um dos principais dirigentes do PT e da Frente Popular do Acre, não representam apenas um manifesto, mas sim, uma compreensão abraçada por muitos que compõem os altos escalões do Estado e dos partidos que participam da Frente. Nesse sentido, a construção de toda a arquitetura política que se ergueu contra o modelo desenvolvimentista (produtivista), para além das raízes ecológico-ambientais, o modelo sustentabilista da FPA também se apoiava numa busca de envolver os trabalhadores que “fizeram” o Acre. Seringueiros, indígenas, soldados da borracha, ribeirinhos, colonos, pequenos produtores, funcionários públicos, sindicalistas, etc., passaram a fazer parte do conjunto das atenções, no sentido de promover políticas que os contemplassem, isto é, na perspectiva de tê-los como referências na sua aplicação e como co-participantes na sua elaboração. O fato diferenciador na matriz ecológico/ambiental, sustentabilista/santuarista no Estado do Acre é que ela se articulou diretamente ou, a partir das comunidades que representavam modos de vida vinculados aos recursos naturais in situ. O mérito das forças políticas de esquerda foi se ligar a esses agentes sociais e, conjuntamente, elaborar um discurso prático e ao mesmo tempo ideológico que em certa medida traduzia, ou inventava uma tradição heróica para os seringueiros, para o “povo” acreano, que se “fez brasileiro por opção”. A mistura da trajetória de vida dos seringueiros com os aspectos

ecológicos/ambientais que gestaram as teses do desenvolvimento sustentável, foram marcadas por lutas reais pela sobrevivência, por terras, contra os desmatamentos, por direito de se organizar, conectadas a uma larga tradição esquerdo-marxista que, aqui, começava a assimilar temas, que até então, não eram considerados como importantes no âmbito do espectro teórico dessa corrente de pensamento, como a questão ambiental, por exemplo. A projeção do seringueiro para a condição de herói da Revolução Acreana, depois para a de protetor (guardião) das florestas e o destaque de seu modo de vida como condição

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sine qua non para a manutenção das mesmas, configuram momentos importantes dessa construção. Essa “mistura” de temáticas ecológico-ambientais com uma dose de história heróica, de uma espécie de saga do acreano comum, levou a formulações como esta, encontrada no documento que compõe a introdução do Plano Plurianual 2004/2007 do Governo do Estado do Acre, diz o texto:

Por quase duas décadas o desenvolvimento econômico do Acre foi interrompido e a qualidade de vida do povo deteriorou-se continuamente. A principal razão disto foi uma seqüência de governos sem um plano de desenvolvimento adequado e muitas vezes marcados pela corrupção. Sem o apoio nas políticas públicas, enfrentando sozinho a exploração econômica e a devastação ambiental, o povo acreano viveu alguns dos piores momentos de sua história. (...) Em outubro de 1998, a população acreana começou a mudar essa história. Experimentou apoiar novas idéias e propostas e realizou a maior mudança já vista na política, que teve como resultado uma reorientação completa na economia e em todos os aspectos da vida social. A história dessa mudança é, ao mesmo tempo, a história da construção de um plano de desenvolvimento. O Governo do Estado acumulou, ao longo dos anos de sua formação, várias idéias: as propostas dos índios e seringueiros liderados por Chico Mendes para valorização da floresta, as reivindicações dos sindicatos e movimentos sociais, a experiência das ONGs em projetos econômicos e sociais, além das experiências de administrações populares em outros estados do país. (PPA 2004/2007 – Anexo I, 05).

No mesmo documento do Plano Plurianual, encontramos na seqüência, outra formulação que aponta para uma construção histórica fundadora de uma “nova” etapa da política acreana, compreensão esta que nos revela uma das bases do pensamento de alguns dos militantes de esquerda que chegaram ao poder, vejamos:
Dessa forma, quando o Governo do Estado apresentou um plano para o Acre, em 1999, colocou nele alguns sonhos históricos do povo acreano, reivindicações antigas, promessas nunca atendidas. Mas, além de renovar os sonhos, o que o plano fazia era mudar a maneira de sonhar. Ao invés de uma lista de promessas, apresentava uma análise da situação do Acre e definia objetivos ousados para uma grande mudança. Mais ainda: propunha que se adotasse um novo conceito de desenvolvimento, diferente da idéia de “progresso” que até então predominara. O novo desenvolvimento deveria ser sustentável, ou seja, deveria modernizar e dinamizar a economia e corrigir as injustiças sociais e, ao mesmo tempo, conservar as florestas e respeitar as culturas dos vários povos que compõem o povo acreano. (PPA 2004/2007 – Anexo I: 05, 06).

Na mensagem de abertura da 1º sessão solene, da 1º sessão legislativa da 10º legislatura, da Assembléia Legislativa do Estado do Acre, realizada em 22 de fevereiro de 1999, portanto no primeiro ano de seu primeiro mandato como Governador do Estado, Jorge Viana, discursando sobre o que ele concebia como mudanças estruturais que deveriam ser implementadas, disse: 267

(...) Para atingirmos a situação que desejamos, é preciso promover mudanças estruturais profundas. A começar pela implementação de um novo e revolucionário plano de desenvolvimento. Um plano concreto e consistente, baseado na exploração inteligente e harmônica dos recursos naturais de que dispomos, vamos utilizar com sabedoria e da forma mais variada possível a riqueza de nossa floresta em benefício do homem. Mas vamos fazê-lo de forma sustentável, pensando na sobrevivência das futuras gerações. Faz muito tempo que o Acre não tem um plano de desenvolvimento, um rumo definido para criar oportunidade para as pessoas e fortalecer a sua economia. Os modelos utilizados nas últimas décadas estão falidos porque eram inadequados à região. O predomínio de uma mentalidade acomodada e pouco empreendedora de governos passados agravou ainda mais esta situação. O desejável, senhor presidente, senhores deputados, é considerar a floresta como a base para uma definição de rumo do desenvolvimento econômico. Os produtos florestais são a marca diferencial com o qual o Acre pode competir nos mercados nacional e internacional. Mas, além dos produtos materiais, temos também a cultura, o turismo e outras formas de produção que podem ter participação significativa nesse processo. (...). (Diário Oficial do Poder Legislativo, Nº 2.833, de fevereiro de 1999).

Esses trechos do Plano Plurianual e do discurso do já então governador Jorge Viana na abertura dos trabalhos legislativos, em 1999, revelam algumas das características que foram, ao longo dos debates iniciados na década de setenta, se consolidando como “pensamento” do PT, podemos dizer, da Frente Popular do Acre, principalmente os aspectos de se apresentar como representantes das lutas dos índios e seringueiros e de um modelo de desenvolvimento diferente, que respeitava a floresta e suas populações. O que não se pode deixar de observar, contudo, é que esse discurso não perde a perspectiva da ter a floresta como um ativo econômico, visando sua inserção na economia de mercado. Porém, pistas mais reveladoras dessa “nova” compreensão política, dessa “nova” base de pensamento, que vão além das alianças com os trabalhadores extrativistas, encontramos num relato escrito pelo jornalista Antônio Alves e pelo então candidato a governador, derrotado nas eleições de 1990, Jorge Viana, encaminhado à Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores e publicado na revista Teoria e Debate com o título “A República do Acre”. Neste artigo, o jornalista e o ex-candidato analisam o fato de naquele ano eleitoral apenas em dois Estados Amazônicos, o Acre e o Amapá, o PT ter conseguido passar para o segundo turno e conclamam o partido a “renovar” suas idéias a respeito de alianças internacionais, pois nas suas opiniões, o debate internacional sobre a Amazônia, não estava bem estudado pela direção nacional do partido. Na conclusão do artigo, escreveram:

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Da experiência desse período podemos extrair os temas que se impõem à reflexão no interior do partido. Entendemos que o PT deve conhecer e compreender o debate internacional sobre a Amazônia. Não pagar a Dívida Externa, por exemplo, não seria um dogma que nos impede de conhecer as propostas de conversão da dívida em projetos de proteção ambiental? Quem poderá fazêlo, sem participar do debate de alternativas atualmente apresentadas, no qual estão se construindo novas relações internacionais? Os interlocutores deste debate, além de governos e bancos, são organismos que trabalham com programas de cooperação em desenvolvimento econômico, meio ambiente, ciência e tecnologia. Estabelecem relações capazes de criar novas linhas de comércio, mercados para novos produtos, recuperação de áreas degradadas, apoio a populações marginalizadas, enfim, elementos de uma nova ordem internacional, cujo nascimento deve interessar a quem tenha pretensão de governar o Brasil. Ampliar a compreensão das relações em que se constrói um novo internacionalismo, exige, em contrapartida, a ampliação do número de interlocutores nacionais. (ALVES, Antônio e VIANA, Jorge. A República do Acre. In. ALVES, Antônio. Artigos em geral. Rio Branco s/d).

Quando propunham que a direção nacional do PT devesse buscar uma “nova” compreensão sobre os problemas da Amazônia, com base em arranjos internacionais corroborados por organismos multilaterais, Alves e Viana davam as dicas de que, os caminhos que se apresentavam e, que eles pretendiam percorrer, se distanciavam das concepções marxistas, que embalavam os partidos aos quais eles eram filiados, principalmente as que dizem respeito à relação capitalismo-natureza, onde Marx, por exemplo, via o seu avanço para além da exploração social, também como instrumento de decomposição ambiental. Por seu turno se distanciavam ainda do sentido de imperialismo, especialmente na forma apresentada por Lênin no seu livro Imperialismo: etapa superior do capitalismo, onde ele projetava as novas formas de colonialismo, marcadamente a exercida após a fusão do capital industrial e bancário. Como os dois não são neófitos na leitura do marxismo, especialmente o jornalista Antônio Alves, que é um quadro respeitável de grande qualidade na compreensão e formulação teórica, fica patenteado que eles concebiam que, naquela altura, isto é, na entrada da última década do século XX, estavam em curso mudanças estruturais também nos marcos do capitalismo mundial, que permitiriam outras formas de relacionamento, onde interesses opostos seriam respeitados. O fato mesmo de pensarem em políticas de desenvolvimento que buscavam o mercado interno e externo como solução para a fragilidade econômica em que se encontrava o Estado, nos sugere que, no mínimo, havia uma leitura idiossincrática da conjuntura internacional, que naquela década estava envolvida por uma bem orquestrada

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política de implementação do “Consenso de Washington” e, dos credos neoliberais, oriundos do Reaganismo-Tatcherismo da década anterior. A busca de cooperação internacional, tendo como interlocutores os diretores do BID, do BIRD, do FMI e de ONGs, é uma das marcas dos governos liderados por Jorge Viana a partir do final da década de 90. Os elos articuladores dessas cooperações sempre foram a busca do desenvolvimento sustentável. O envolvimento das comunidades extrativistas e indígenas, que a princípio eram tidas como fundamentos do novo governo foram passando, ao longo do tempo, a ser vistas mais como objeto de aplicação das políticas que se planejava nos fóruns administrativos, do que como propositoras de políticas que espelhassem suas próprias realidades. Essa variação do diálogo entre a estrutura governamental com os organismos multilaterais ligados ao núcleo do capitalismo mundial, as ONGs e as comunidades tradicionais dessa região, entrelaçaram os diversos interesses de cada um desses setores e formaram a base da concepção ambientalista, ecológica e sustentabilista/santuarista que emergiram das lutas dos trabalhadores extrativistas e sua posterior aliança com os povos indígenas. Obviamente que a força política que chegou ao governo no final da década de noventa não agiu só a partir desse eixo. Antes teve que dar respostas para as questões administrativas próprias do Estado, mas não menos influenciadas por “políticas globais”, liberais e neoliberais, tais como ajustar as contas, zerar os déficits, ou seja, tornar o Estado rentável para os investidores. Como o Estado do Acre vinha passando por administrações cujos governantes haviam se notabilizado pela incompetência gerencial e se envolvido no enredo tradicional das corrupções mais desbragadas, da violência cometida pelo esquadrão da morte que tinha raízes no oficialato da própria Polícia Militar, o novo governo se destacou por resolver o caos administrativo e desmontar parte do crime organizado, o que o projetou para índices importantes de apoio até mesmo entre as forças que o combatiam anteriormente, tais como fazendeiros, comerciantes e setores dos poderes judiciário e legislativo, antes arredios com as esquerdas em geral.

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O alinhamento com determinadas políticas internacionais, somada a um bom gerenciamento interno das contas públicas e de algumas políticas necessárias, tais como investimentos nos setores de educação, saúde e infra-estrutura urbana, tendo como exemplo mais visível o calçamento/asfaltamento de ruas, a reconstrução dos prédios públicos, o pagamento em dias dos salários do funcionalismo, etc., vêm garantindo a aprovação popular dos governos da Frente Popular do Acre. No Plano Plurianual 2004/2007, por exemplo, em sua introdução encontramos como destaque a seguinte passagem:

O novo plano se inicia apoiado em dois grandes projetos. O primeiro, que já está em pleno andamento, é destinado a completar as obras de infraestrutura urbana e conta com 40 milhões de reais financiados pelo BNDES. O segundo é voltado para a criação de uma economia rural e florestal moderna e tem financiamento (1ª etapa) de 108 milhões de dólares pelo BID, já contratados, e para a 2ª etapa, mais 132 milhões de dólares. Mas existe, tanto para estes grandes projetos como para todas as demais ações do futuro governo, uma orientação segura para o desenvolvimento sustentável. Trata-se do Zoneamento Ecológico-Econômico, que teve sua primeira etapa executada na atual administração e conta com financiamento garantido para a segunda etapa. Nesta primeira fase, o ZEE produziu mapas com a situação, as riquezas e o potencial futuro de todas as regiões do Estado. Na segunda fase, essas regiões serão detalhadas em novos estudos, de modo que cada comunidade poderá planejar seu futuro com segurança. Também os empresários, as cooperativas, os governos municipais, todas as forças econômicas e sociais poderão contar com as informações do ZEE. Assim, serão definidas as áreas mais adequadas para a atividade madeireira ou pecuária, tipo de agricultura mais adaptado a cada região, as áreas de proteção ambiental, etc. (PPA 2004/2007: 06, 07).

Ou seja, o governo se estabeleceu como representante dos povos da floresta, mas ampliou significativamente suas perspectivas gerenciais, incluindo pecuaristas, madeireiros, e outros empresários no projeto que desenvolveria para o Estado. Se antes a existência dos empreendimentos pecuário/madeireiros eram vistos como incompatíveis e até mesmo opostos à manutenção das florestas e suas comunidades tradicionais, nada que um bom planejamento, um bom zoneamento ecológico-econômico não pudesse resolver. A visão político-ideológica, nascida da luta dos seringueiros, que pregava a incompatibilidade entre preservação e economia pecuário/madeireira, estava sendo substituída por uma outra concepção, mais pragmática, mais abrangente, onde o ponto chave seria o desenvolvimento de uma capacidade técnica e gerencial (o manejo florestal sustentável). Os aspectos políticos podiam continuar orientando os discursos, mas era preciso agir e a “ação não podia ser tolhida pelas ideologias”. Nos aspectos mais ligados aos setores extrativistas as ações são menos visíveis que nas cidades, mas o fato de se criar uma Secretaria de Estado de Extrativismo e Produção

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Familiar (SEPROF), uma Secretaria de Floresta (SEF) e uma Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas, trazendo uma liderança indígena para o corpo do secretariado do governo, além da Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável (SEPLANDS), são sem dúvidas, demonstrações de manutenção de alguns elos com os povos da floresta, sem entrarmos no mérito de submeter a juízos a questão da materialidade de uma representação efetiva de suas necessidades e valoração política de sua participação. Fato que o “Governo da Floresta”, como se autodenominou o primeiro governo da Frente Popular do Acre, conseguiu atrair para seu seio os principais contendores das fases iniciais dos conflitos pela posse da terra no Acre. Os que, a partir da década de setenta disputavam terras, florestas e modelos diferentes de desenvolvimento e modos de vida, isto é, fazendeiros, madeireiros, extrativistas e indígenas, passaram a ter um representante, o Estado (Governo), como base aglutinadora e de contenção de tensões. Indene de dúvidas, constitui caso raro a montagem de um secretariado que comporta fazendeiros, empresários da construção civil, sindicalistas e indígenas, embora seja mais difícil, talvez, conciliar interesses tão distintos do que mantê-los em cargos políticos. Argüindo com freqüência a tese de ser o legítimo representante dos trabalhadores extrativistas e, principalmente, postulando a necessidade de compatibilizar os modos de vida tradicionais, a heróica saga dos acreanos, com a modernidade das fazendas, da indústria madeireira, dos grandes negócios da construção civil, em verdade, um grande gerente de “todos e para todos”, o governo da Frente Popular do Acre, vêm tecendo uma rede de relacionamento que o projeta para a condição de preceptor de uma nova base de construção político-social, ancorada na articulação de uma economia florestal ponderada e sustentável, ou seja, o governo do Acre se coloca como responsável pela elaboração de uma política que concilia interesses e debela conflitos, além é claro, de fazer tudo isso “respeitando o meio ambiente”. Em linhas gerais, as bases que sustentam as políticas dos governos da Frente Popular do Acre, não são inéditas, a não ser o fato de ter uma ligação mais direta com os trabalhadores extrativistas, indígenas e sindicalistas, do que outros governos, ou ainda, de ter incorporado as questões ecológico-ambientais como elementos importantes na articulação das perspectivas de desenvolvimento. Por outro lado, a idéia de sustentabilidade não consegue fugir das estruturas, das fronteiras delimitadas pelo mercado, no sentido de 272

que toda a produção e toda a formatação dos modos de vida propostos pelas “novas políticas” são fortemente influenciadas pelas perspectivas de ampliar as margens de possibilidades de consumo e incorporação do modo de vida da sociedade capitalista. O projeto de governabilidade da Frente Popular do Acre se fez herdeiro de duas “tradições” recentes: por um lado, a luta dos trabalhadores extrativistas e populações indígenas que ao se organizarem para defender seus modos de vida, deram um exemplo de força coletiva e; por outro, do forte discurso ambientalista internacional, que nas últimas décadas do século XX e anos iniciais do século XXI vêm substituindo outros mecanismos dos países ditos centrais na emanação de políticas cerceantes e controladoras contra os outros países do mundo. Porém, ou por causa dessa vinculação com o segundo item, o governo não conseguiu ampliar os processos de inclusão dos trabalhadores extrativistas e mesmo de outros setores da economia para dentro dos postos de comando do Estado, ou seja, o que se imagina como uma política pragmática, possível de ser realizada, impede a possibilidade de ousar no sentido de romper, ou pelo menos limitar, as bases de articulação do capitalismo e sua experiente e, como já demonstrou em várias ocasiões, grande capacidade de se apropriar do Estado para exercício de suas prerrogativas.

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4.3 O SURGIMENTO DA FLORESTANIA: NOVOS LUGARES, NOVOS ESPAÇOS E NOVOS SENTIDOS PARA AS LUTAS DOS POVOS DA FLORESTA.

Uma das mais importantes conquistas dos trabalhadores extrativistas, após a sua organização enquanto sindicato e da realização dos empates, foi o estabelecimento das Reservas Extrativistas. Além do significado de que era possível outro modelo de reforma agrária, as RESEXs simbolizam a capacidade de elaboração teórica dessa parcela da população, numa demonstração criativa e reafirmadora de sua disposição de continuar vivendo de acordo com seu modo de vida tradicional. Essa atitude criativa e reafirmadora estão na base, também, da criação da florestania. Podemos creditar a esses eventos (organização dos sindicatos, empates, criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, lutas pela criação das RESEXs, militância política e capacidade de encontrar parceiros de fora dos seringais) como aspectos marcantes da construção da florestania, embora ainda não existisse o vocábulo, a linguagem que representasse esse movimento crescente, que daria visibilidade a essas populações nãovisíveis anteriormente. Fazemos essa afirmação inicial para negar a primazia de alguns setores governamentais que se posicionam historicamente como “pais” da florestania. Embora o termo tenha sido criado num momento em que se consolidava a Frente Popular do Acre, força política que se coloca na cena do Estado como herdeira e continuadora das lutas dos trabalhadores extrativistas, localizam-se no seio dessas lutas anteriores e não externamente, as ações concretas que permitiram o seu surgimento, como catalizadora, como significante mesmo de um modo de vida específico. Melhor dizendo, não se criou o conceito primeiro, para depois se articularem ações que o sustentariam, pelo contrário, foram as ações práticas, as lutas dos trabalhadores extrativistas, dos sindicalistas, dos militantes políticos, dos agentes pastorais, dos agentes das ONGs, etc., que deram as bases para seu surgimento. Mais tarde, com efeito, o Governo administrado pela Frente Popular do Acre, vai se colocar como principal executor dos mecanismos que ajudariam na consolidação do conceito de florestania. Isto porque as lutas dos trabalhadores extrativistas, por si, não foram suficientes para modificar de forma estrutural nem o modelo econômico, nem a 274

forma clássica de propriedade da terra no Acre. Embora saibamos também que elas constituem parte importante das operações que influenciaram outros tipos de reordenamentos. Referimo-nos, especialmente, as lutas de resistência que contribuíram para a formação das Reservas Extrativistas, num primeiro momento e, depois, para o contexto que serve de base para a tese do “desenvolvimento sustentável” e, por fim, da construção do termo florestania e dos seus diversos significados. Não obstante a luta dos seringueiros, castanheiros, ribeirinhos e pequenos produtores, o termo florestania não será exclusividade destes. Outros segmentos sociais, inclusive urbanos, também vão se apropriar dos conceitos que o cercam e expandir suas possibilidades de atenção e atuação. No âmbito do Estado, desde a invenção do termo florestania, na década de noventa, no sentido da criação do vocábulo, até os dias atuais, o termo vem sofrendo adições e resignificações. Inicialmente, tinha a conotação de levar a “cidadania” aos povos da floresta, ou seja, não nasceu como oposição ao termo cidadania, pelo contrário, seria a construção de mecanismos de chegada do Estado até essas populações desassistidas. Com a florestania, o que se pretendia era levar escolas, atendimento médico, construir ramais, prestar assistência técnica à produção, e ainda resolver os problemas que atingiam os grandes contingentes de seringueiros que haviam migrado para as cidades, ou seja, mesmo na sua construção inicial, o termo florestania, na forma adotada pelo Estado, não se referia exclusivamente, às populações das áreas de floresta. Depois, o termo foi se constituindo como “a nova cara do Governo do Acre” e paulatinamente, foi sendo reconstruído, passando a significar um modo de vida, uma forma diferente de se relacionar com a natureza, onde as experiências dos povos da floresta precisavam ser valorizadas e reconhecidas nos espaços urbanos, transversalizando saberes e conhecimento, técnicas e empiria para se chegar a inovações recíprocas. Com efeito, essa transversalidade pretendia criar um “novo homem” no Acre, pois a concepção de florestania pensava na inclusão de toda a população do Estado, moldando sua vida em parâmetros referenciados no respeito à biodiversidade, a sóciodiversidade e em processos econômicos sustentáveis. Antônio Alves, jornalista e ex-secretário municipal, estadual e assessor do governo, narra assim, de forma sintética, como a idéia de florestania foi sendo modificada: 275

“Cidadania? Isso é coisa de gente da cidade. Aqui na Amazônia o que nós precisamos é de Florestania”. Foi assim, numa brincadeira que a palavra apareceu, na metade da última década do século XX. Havíamos passado quinze anos andando pela floresta, acompanhando a luta de índios e seringueiros, trabalhando em organizações não-governamentais com projetos de saúde, educação, cooperativas etc. A novidade, naquele momento, é que alguns de nós tinham sido chamados a participar da nova administração da Prefeitura de Rio Branco, capital do Acre. Uma cidade com trezentos mil habitantes, inchada, caótica, cheia de problemas. E com uma particularidade: a maioria da população havia migrado para a cidade há pouco tempo e ainda mantinha fortes traços culturais adquiridos em um século de vida na floresta. A cidadania a ser construída, portanto, deveria ser um pouco diferente. Em 98, a mesma equipe assumiu o governo do estado. O termo “florestania” revelou então, inúmeras possibilidades práticas na hora de elaborar políticas públicas para as áreas rurais. Deixou de ser uma palavra e passou a expressar um conjunto de idéias, propostas, maneiras de abordar os problemas do desenvolvimento numa parte significativa da Amazônia. Muitas pessoas entraram no debate, desenvolveram novos conceitos, fundamentaram com eles seus projetos que se transformaram em financiamento, produtos, serviços, ações. E o que começou como uma brincadeira virou um assunto muito sério. (ALVES, 2003: 129).

A síntese apresentada por Antônio Alves é reveladora de que, embora o termo seja um neologismo, as idéias que o projetaram não eram tão estranhas aos agentes que as manejavam, por exemplo, quando ele responde, no mesmo texto, à pergunta, “Mas o que é, afinal, essa tal de florestania?”, vai revelando outras faces do conceito, onde podemos perceber as vinculações com o pensamento de algumas ONGs que atuavam na Amazônia e que financiavam projetos voltados para a consolidação das idéias que cercam esse pensamento, pois, para Alves:

Além de um conjunto de relações sociais, direitos, deveres, leis e conquistas, a florestania é um sentimento que pode ser expresso da seguinte forma: a floresta não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. Esse sentimento nos induz a estabelecer não apenas um novo pacto social, mas um novo pacto natural baseado no equilíbrio de nossas ações e relações no ambiente em que vivemos. É um sentimento orientador para nossas escolhas econômicas, políticas e sociais – e por isso inclui a cidadania – mas orienta também nossas escolas ambientais e culturais – e por isso a transcende. O ser humano tem se considerado, nos últimos séculos, o centro do mundo. Ao mesmo tempo, pensa que seu próprio centro é o “eu” consciente. O resultado desse pensamento é a exploração devastadora da natureza e das culturas humanas a ela associadas, consideradas inconscientes e primitivas. Assim, atende-se às vontades econômicas e políticas não da humanidade mas de uma parcela muito pequena dela. O sentimento de florestania nos dirige à superação do antropocentrismo e do etnocentrismo que lhe é inerente. Há muitas riquezas neste planeta, a vida é a principal delas. Todos são herdeiros destas riquezas: os povos que nela habitam, as gerações que ainda virão habitá-lo, os animais, as árvores, a luz, a água e até as pedras. (ALVES, 2003: 129/130).

Como podemos ver, a noção de florestania, nesse campo intelectual, está fortemente influenciada por movimentos internacionalistas como já citamos, a exemplo da “Declaração de Morélia” que, ao ser apresentada na Rio - 92, surtiu impacto considerável entre os ambientalistas, onde se coloca esse princípio de entificação da natureza, na mesmo linha dos argüidos por Antônio Alves, tais como, “a floresta não nos pertence, nós pertencemos a 276

ela”, de “superação do antropocentrismo e do etnocentrismo”, chegando ao ponto de afirmar que:
O ponto inicial da florestania é, portanto, o respeito reverente pelos ecossistemas. O equilíbrio dinâmico dos ambientes, os ciclos da natureza como acontecem em cada lugar, as relações entre os seres e elementos que levaram milhões de anos para chegar à forma que hoje têm, essas são coisas que constituem um “terreno sagrado” em que devemos tirar as sandálias para entrar. O mínimo de impacto e alteração deve ser buscado. E há lugares em que esse mínimo é zero: áreas intocáveis, santuários, partes íntimas da natureza nas quais a soberania absoluta do não-humano deve ser reconhecida. O segundo ponto é o respeito – não menos reverente – pelos povos indígenas e as populações tradicionais, cujas culturas tendem a evoluir lentamente mantendo relações equilibradas com o ambiente do qual extraem sustento e sabedoria. E não se trata de uma atitude utilitarista, que prega a proteção aos povos indígenas porque “eles podem nos ensinar os segredos da natureza” economizando anos de pesquisa, por exemplo, na fabricação de medicamentos. Trata-se de reconhecer que esses povos são valiosos não apenas para “nós”, mas para si mesmos. (ALVES, 2003: 130).

Indene a essa discussão mais filosófica, a partir do referencial florestania, o Governo também tem agido na perspectiva de estabelecer resultados práticos para melhorar as condições de vida dos povos da floresta, seja no re-ordenamento de terras, seja no combate aos desmatamentos, ou na aplicação de políticas públicas voltadas para essas populações. Desde 1985, data da realização do I Encontro Nacional dos Seringueiros, ocorrido em Brasília, de onde emergiram as idéias de Reservas Extrativistas, até a aprovação e publicação do Zoneamento Ecológico Econômico, pelo Governo do Estado do Acre, em 2007, quando se dá estatuto técnico-científico para a utilização e redistribuição de terras no Estado se passaram pouco mais de vinte anos, porém, muitas alterações se processaram neste intercurso. Do conflito aberto entre fazendeiros e seringueiros iniciados na década de setenta, restam poucos focos, o que não quer dizer que a questão agrária tenha sido resolvida, porém o Estado tem se interposto, isto é, tem se colocado na perspectiva de solucionar os conflitos diretos, tentando dirimir os estranhamentos, operacionalizando novos

instrumentos não disponíveis nas décadas anteriores. Um dos recursos mais utilizados vem sendo a nova legislação ambiental que serve para disciplinar os desmatamentos e penalizar os infratores. A reconfiguração da utilização da terra, contudo, é feita em bases bem diferentes daquela do início da década de setenta, ao ponto de um dos principais dirigentes

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do STR de Xapuri e organizador dos empates, Raimundo Barros, falando, em 2003, sobre o significado da conquista das Reservas Extrativistas, afirmar que:

Primeiro, eu tenho de dizer que a partir daí acabou-se o conflito pela terra graças a Deus, hoje não só Xapuri, mas nessa região do Vale do Acre. Eu também não ouço nenhum comentário da região do Juruá que ainda haja conflito pela terra. Aqui no nosso Estado, devido esta grande luta o latifúndio e alguns patrões que ainda tinha, tiveram que aprender a respeitar a nossa pessoa e também aos nossos direitos. (Apud. SIMIONE da SILVA, 2006: 52/53).

O que se pode depreender da fala de Raimundo Barros é que ele passou a ver os novos modelos de conflito por outras lentes, a enxergar outras fronteiras. Como já dissemos anteriormente, a criação das RESEXs, bem como a discriminação de terras levada a cabo pelo INCRA, atenuaram os conflitos pela terra, principalmente nessas áreas onde se vivenciou conflitos mais agudos, o que não quer dizer que eles tenham sido abolidos, pois os conflitos continuaram em outras esferas e em outras áreas. Porém, tanto a questão da terra, como os níveis de conflito, modificaram-se tanto nesses vinte anos que não podemos estranhar a sua não visualização por parte do sindicalista. Se antes nós visualizávamos apenas a divisão entre proprietários e não-proprietários, ou seja, seringalistas e seringueiros, ou depois, fazendeiros e “posseiros”, após as lutas desencadeadas pelos trabalhadores extrativistas e as intervenções do governo, esse quadro sofreu alterações. No ZEE, por exemplo, encontramos um quadro completo e complexo das novas modalidades de configuração das terras no Estado, vejamos algumas das denominações e significados para melhor entendermos os embaraços deste e de outros sindicalistas para decifrar essa nova situação. As terras públicas, por exemplo, estão assim distribuídas: 1) Projetos de Assentamento; 2) Unidades de Conservação de Proteção Integral; 3) Unidades de Conservação de Uso Sustentável (inclui as RESEX); 4) Terras Indígenas; 5) Terras em Discriminação (sub judice); 6) Terras Públicas não destinadas; 7) Terras Dominiciais Estaduais (lotes titulados e a titular); 8) Áreas a serem discriminadas.

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Cada uma dessas denominações ainda se subdivide em outras modalidades, por exemplo, o Projeto de Assentamento, que em sua concepção original se destinava a ser um mecanismo do INCRA como “um conjunto de ações, em áreas destinadas a reforma agrária, planejada de natureza disciplinar e multisetorial integradas ao desenvolvimento territorial e regional”, hoje se subdivide em várias outras denominações que servem para selecionar o tipo de morador daquela área. Vejamos algumas dessas modalidades, assim descritas no ZEE:
Atualmente cerca de 9,81% das terras do Estado do Acre estão ocupadas por assentamentos de reforma agrária, nas modalidades de Projetos de Assentamento Dirigido (PAD), Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), Projeto de Assentamento Florestal (PAF) e Projeto Estadual Pólo Agroflorestal (PE). Além destes, existe o Projeto Casulo (PCA), que é descentralizado dos demais tipos de assentamento70. (ZEE, 2006: 100).

Na mesma linha, as Unidades de Conservação (UCs) também se subdividem dentro de cada uma das grandes áreas, ou seja, a Unidade de Conservação de Proteção Integral, que perfaz um total de 1.563.769 ha., se subdivide em: Parques Nacionais (PARNAS), como é o caso do Parque Nacional da Serra do Divisor; Estação Ecológica (ESECs), como é o caso da Estação Ecológica do Rio Acre e; Parques Estaduais (PEs), como é o caso do Parque Estadual do Rio Chandless. Já a Unidade de Proteção de Uso Sustentável, que perfaz um total de 3.544.067 ha., se subdivide em: Áreas de Proteção Ambiental (APA); Reservas Extrativistas (RESEX); Florestas Nacionais (FLONAS) e ; Florestas Estaduais (FLOES). Compõem ainda esse quadro de terras públicas, com razoáveis extensões, as terras indígenas (TIs), que perfazem um total de 34, com uma área de 2.390.112,26 ha., sendo que destas “24 já se encontram registradas na Secretaria de Patrimônio da União e nos cartórios de Registros de Imóveis dos respectivos municípios de localização” (ZEE:2006, 99). Juntando todas as terras consideradas públicas, o Estado se apresenta como responsável por pouco mais da metade de todo o conjunto de terras da unidade federativa, o que promove uma sensação de “questão resolvida”, se considerássemos a situação anterior,

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- O projeto casulo “é uma modalidade descentralizada de assentamento, implementado por meio de convênio do INCRA com Prefeituras Municipais. Destina-se à exploração agropecuária, instalado em áreas de transição, no entorno de núcleos urbanos”.(ZEE, 2006: 103). Essa é uma modalidade mais recente, criado em 1997, já para tentar dar maior capacidade econômica para áreas já desmatadas, colocadas sob posse de pequenos produtores.

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principalmente, a do início da década de setenta até final da de oitenta, quando a quase totalidade dessas terras era apropriada ou reivindicada pelo setor privado. É nesse sentido que os conflitos parecem ter sido debelados, pois para os extrativistas que estiveram no olho do furacão, como é o caso de Raimundo Barros, a criação das Reservas Extrativistas lhes dá as garantias desejadas, pois na RESEX, os extrativistas permaneceram com direito as suas colocações, reivindicação que ajudou a consolidar o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e, por conseqüência, a formatar as próprias Reservas Extrativistas como uma nova modalidade de reforma agrária. A nova condição de domínio do Estado sobre grandes quantidades de terras, às quais passa a distribuir como concessões de uso, mais ou menos dentro dos padrões reivindicados pelos trabalhadores extrativistas organizados, está na base da construção da idéia de desenvolvimento sustentável e florestania, que seria articulada no final da década de noventa pelo governo da Frente Popular do Acre (FPA). Essa tendência do Estado em se colocar como principal articulador do desenvolvimento do Acre, contudo, não constitui uma novidade nem aqui, nem na Amazônia como um todo, o que é novo nesse procedimento são os parâmetros utilizados, isto é, a nova forma e os novos objetivos da intervenção. No texto do Plano Amazônia Sustentável (PAS), aprovado e assinado por todos os governadores da região e pela Presidência da República, no início de 2008, temos uma perspectiva de ruptura com os modelos anteriores nos seguintes termos:
A visão que influenciou o planejamento regional no Brasil desde os anos 1950, que se manteve durante o regime militar, e ainda remanesceu até a década de 1990 acentuou a existência de desigualdades regionais. Sabe-se, porém, que o livre funcionamento das forças de mercado não apenas é incapaz de reverter tal tendência, como inclusive a agrava. Entende-se que cabe essencialmente ao Estado induzir o crescimento econômico das regiões menos dinâmicas, em geral por meio do fomento às atividades econômicas motrizes. Tais políticas, contudo, não previam mecanismos para evitar efeitos perversos como a concentração de renda, o agravamento da exclusão social e um padrão de crescimento econômico predatório de suas próprias bases naturais. As estratégias preconizadas pelo PAS ressaltam o papel do Estado, enfatizando, inclusive, a ampliação de sua presença na região em todos os níveis. Notadamente, esta presença se faz por meio de ações dos governos federal e estaduais destinadas a garantir uma maior governabilidade sobre os movimentos de ocupação e transformação socioeconômica em determinadas áreas; orientar o uso do território e de seus recursos; induzir a ampliação e modernização da base produtiva; além de assegurar adequada previsão de serviços públicos essenciais, como educação, segurança, saúde, habitação, assistência técnica, regularização fundiária e justiça. (PAS, 2008: 80). (grifamos).

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Não são pequenas, portanto, as perspectivas de intervenção do Estado na Amazônia a partir da elaboração do PAS, além do que ela se projeta para uma oposição políticoideológica de grande envergadura, haja vista o documento ter sido assinado nestes termos por todos os governadores da região, onde nem todos são de partidos da base de sustentação do governo federal, mesmo assim seguiu mantendo um texto claro de rompimento com as políticas liberais/neoliberais, quando afirma que “o livre funcionamento das forças de mercado não apenas é incapaz de reverter tal tendência, como inclusive a agrava”. É inquestionável a forte tendência, tanto do governo federal, como dos estaduais, em tentar materializar um novo ordenamento territorial, destacando-se a questão da proteção dos ecossistemas, ao mesmo tempo em que procuram conciliar essa proteção com outros investimentos em infra-estrutura, como bem demonstram os casos dos investimentos em estradas de rodagem, financiamento do “agribusiness”, construção de novas hidrelétricas, novos aeroportos e portos. Porém, não conseguem se esquivar de uma contradição: toda a investida do Estado sobre o ordenamento socioeconômico, visando o tão almejado desenvolvimento sustentável, vem sendo negado, na prática, pela perspectiva de estabelecer a concessão de florestas públicas à iniciativa privada para fins de manejo florestal, ou ainda, pela entrega de volumosos recursos às empreiteiras “licitadas” para a construção das obras de infra-estrutura. Por mais que possa parecer fora da lógica, partes significativas dos movimentos sociais, incluindo sindicalistas, religiosos e integrantes de ONGs, que atuaram para realizar os combates, os enfrentamentos com os ordenadores das políticas anteriores, consideradas predatórias pelos documentos dos governos atuais, ditos sustentáveis, agora voltem a se mobilizar para “empatar” algumas ações destes governos que, na análise feita por esses setores, aparecem como antagônicas aos seus interesses, principalmente as que se referem à construção de estradas, hidrelétricas e concessão de florestas públicas para atividades de manejo madeireiro. Isso não impede que ao mesmo tempo, outros sindicalistas, religiosos e ativistas de ONGs, que também faziam parte daquele ajuntamento crítico às políticas do regime militar, atualmente emprestem apoio aos governos para realização dessas políticas consideradas como sustentáveis, inclusive, em alguns casos, fazendo parte das equipes do governo, tanto em nível local como nacional.

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O projeto de sustentabilidade emanado dos governos, portanto, não parece ser consensual, pois consegue “dividir” parte dos movimentos sociais que em etapas anteriores estavam reunidos nos mesmos propósitos. As divergências podem ser pontuais em alguns casos (obras de infra-estrutura e concessão de florestas, por exemplo), mas em outros são também, políticas, de visão estratégica. O professor da Universidade Federal do Acre e ex-assessor do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Elder Andrade de Paula, um crítico da forma de sustentabilidade empreendida pelo governo, chega mesmo a dizer que as políticas de terras do governo do Acre, por exemplo, faz parte de uma estratégia de re-privatização do público que obedece à lógica de expansão do capitalismo:
Quanto à reprivatização, ela ocorre naquelas áreas que resultam da conjugação de terras arrecadadas e terras desapropriadas e passaram a constituir-se em propriedades do Estado, como as Florestas Nacionais, Florestas Estaduais, Projetos de Assentamento Agroextrativista etc. Essa reprivatização ocorre de duas formas: 1) desregulamenta os planos de uso dessas áreas a fim de liberar a extração de madeiras para fins comerciais. Através dos chamados “manejos sustentáveis” o setor madeireiro obtém “salvo conduto” para praticar o saque de terras públicas; 2) criação de leis – como Lei Estadual Nº 1.427, sancionada em dezembro de 2001 pelo governador do Acre – que facultam ao poder executivo estadual firmar contratos de concessão de uso com a indústria madeireira em terras públicas. A generosidade do poder público não se resume a essa oferta, ela prevê ainda a adoção de uma série de isenções fiscais e outros incentivos para “atrair” as indústrias de grande porte para a região. (PAULA, 2004: 14). (In. www.ces.uc.pt/LAB2004)

Essa é uma parte da contradição, por um lado, o Estado agindo no sentido de controlador e fomentador de modelos de desenvolvimento, que são marcados por essas ambigüidades típicas de uma leitura política conciliadora, por outro lado, pregando a necessidade de rompimento com as políticas predatórias dos regimes anteriores e; numa terceira vertente, se colocando como organizador do desenvolvimento sustentável e, indo além, se colocando como garantidor de um novo modo de vida, a florestania, que no fim, realoca as questões agrárias e ambientais para o contexto do desenvolvimento sustentável. Esta é a complexa formulação que resolve ou, melhor, que envolve todos os interesses possíveis. No tópico denominado “Florestania”, do Plano Plurianual 2004/2007, por exemplo, está escrito:
O plano estratégico está pronto. As metas estão estabelecidas. As oportunidades foram mapeadas e os parceiros escolhidos. O Acre conquistou o respeito e a credibilidade das autoridades nacionais e internacionais na área florestal. A população defende a opção pela floresta e avaliza o rumo apontado pela administração atual. Para este período, as metas são as seguintes: Fortalecer os programas de incentivo para elevar a produção e a industrialização de madeira com selo verde internacional. Com

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esse incremento, milhares de empregos diretos e indiretos serão criados, injetando milhões de reais na economia anualmente; Ampliar os programas de apoio às comunidades extrativistas para modernização e diversificação da produção extrativista, através do fortalecimento das organizações produtivas comunitárias, incorporação de tecnologias destinadas ao manejo e beneficiamento de produtos florestais e apoio à comercialização. (PPA, 2003: 98)

Os fatos que revelam as contradições nas novas políticas do governo oriundo dos movimentos sociais estão centrados na concepção política que o envolve. Não pode se esquivar dos compromissos com as exigências do mercado, tais como investimentos em infra-estrutura tipo, construção de estradas, investimentos em energia e financiamento dos ditos empreendimentos produtivos e das cadeias produtivas, no caso do Acre, mais visíveis no setor madeireiro, pecuário e, por último, agricultura de exportação (cana-de-açúcar), que requerem tratamento fiscal diferenciado, financiamentos e isenções, dentre outras benesses tradicionais que propiciam a transferência de recursos públicos para o setor privado e, por outro lado, não pode romper com as forças que o projetaram para a condição de comando. Desta situação deriva o olhar preferencial, seletivo mesmo, para determinadas áreas de atuação, senão vejamos o que diz o tópico “A indústria da floresta” no Plano Plurianual:
A política industrial do Governo do Estado é pautada pelo objetivo central de gerar empregos, orientou-se para a agregação de valor à matéria-prima regional. Para gerar e manter empregos é necessário desenvolver uma indústria que não exporte capital, ou seja, que tenha o máximo possível de insumos no próprio Estado. É necessário, portanto, implementar políticas públicas capazes de aumentar a oferta de produtos de qualidade no setor primário, ampliar o mercado interno e atrair investidores locais e externos. Os resultados das ações do governo na área social, infraestrutura e fomento ao setor produtivo, realizados nesta primeira etapa da gestão, tornaram o Acre um estado mais atraente ao investidor. Algumas empresas se estabeleceram aqui e muitas se fortaleceram. Torna-se necessário, daqui por diante, ampliar o acesso aos benefícios instituídos e criar novos mecanismos de estímulo. (PPA, 2003: 99).

E o Estado não se negou na sua “tarefa” de criar condições melhores para atrair “investidores”, no tópico denominado “Estabelecendo as Bases” se vangloria da:
Criação do pacote de incentivos governamentais, através de um conjunto de leis instituídas para oferecer ao setor industrial vantagens fiscais e infraestruturais, dentre outras, cuja gestão está a cargo da Comissão de Política de Incentivo às Atividades Industriais no Estado. (...) Ampliação e recuperação do Distrito Industrial de Rio Branco; Apoio à instalação de várias empresas no Estado; Instalação e estruturação de um setor responsável para desenvolver as atividades do Instituto Nacional de Propriedade Industrial no Estado. (PPA: 2003: 99/100).

Os documentos do Plano Plurianual são auto-explicativos, mas a tentação para comentar é grande, pois é um plano que quer estabelecer as bases da florestania, no sentido 283

de inclusão dos povos da floresta nos planos de desenvolvimento sustentável, mas se esmera em apresentar o Estado (Governo) como um propiciador de condições favoráveis para a instalação de indústrias, criando oportunidades de financiamentos, criando “agências de negócios”, etc., ou seja, será que esses investimentos têm repercussão na vida dos “povos da floresta”? Ou será que aqui temos estabelecida a dúvida que Alier (1998), levanta acerca dos termos livelihood (meio de vida, subsistência) ou quality of live (qualidade de vida)? Onde para ele as populações pobres pensam em (livelihood), enquanto as classes médias e ricas estão sempre preocupadas com (quality of live). Será que a apropriação do conceito de florestania por parte do Estado (Governo) mantém sincronia com as reivindicações dos trabalhadores extrativistas? Será que eles querem se transformar em empregados das indústrias e/ou outras oportunidades que venham a surgir a partir dos investimentos do Governo, ou só querem manter seus meios de vida tradicionais? As indagações nascidas da leitura dos Planos Plurianuais 2000/2003 e 2004/2007, do Planejamento Estratégico 2007/2010, ou mesmo da leitura do ZEE, não constituem uma desconfiança dos propósitos da Frente Popular, dos governantes do Acre, mas a persistência em tentarem credenciar o Estado (Governo) como pólo aglutinador de investidores nos instiga a refletir sobre as bases desse pensamento, até porque ele não é inédito, não constitui uma novidade, como é afirmado no texto introdutório do ZEE ou, refazendo a pergunta, onde está o ineditismo? Não era com esses mesmos propósitos que os militares desenvolveram seus projetos para a Amazônia? Não queriam os militares dotar a região de infra-estrutura necessária para atrair investidores e povoadores que tornariam a Amazônia integrada ao “território nacional”? Os que elaboraram o texto poderiam argüir que há semelhanças em alguns aspectos das ações, mas os propósitos são outros, pois na fase atual a base que estimula o governo é uma base originária da sociedade civil organizada, mais ainda, são aqueles que eram invisíveis pelos militares os que o Estado agora quer beneficiar. Não duvidamos, como já dissemos, dos propósitos e das ações do “governo da floresta”, como também não desconhecemos que houve uma modificação significativa no tratamento que o Estado passou a dispensar a alguns setores das classes trabalhadoras, especialmente aos que fizeram parte do agrupamento que resistiu, através dos empates, a corrida pelas terras e 284

contra os desmatamento a partir da década de setenta, porém, devemos considerar que o volume do campo dos trabalhadores e dos que não tem trabalho, se ampliou e outros segmentos apareceram na cena do Estado, sem manter vínculos orgânicos com a parcela dos extrativistas sindicalizados e, para estes, a situação não tem sido favorável. Podemos até distinguir que há três campos mais nítidos desse tratamento diferenciado destinado pelo Estado. Dois desses campos ligados aos trabalhadores, assim distribuídos: 1) os funcionários públicos nos espaços urbanos, devido à organização de seus sindicatos e a base de apoio que representa em disputas eleitorais; 2) os trabalhadores extrativistas, especialmente os que estiveram nas frentes de lutas pelos empates e para criação das Reservas Extrativistas e permaneceram em suas áreas ou arranjaram colocação em alguma das Reservas constituídas. Para estes últimos estão mais voltadas às políticas que visam concretizar as idéias do conceito de florestania e; 3) A terceira categoria é a que agrupa os empresários, principalmente os das grandes madeireiras, os fazendeiros e os ligados ao agribusiness, que começam a chegar ao Estado. Esses empresários (agropecuários e madeireiros), nunca foram “esquecidos” pelo Governo, mesmo que eles vivam reclamando das legislações ambientais, tachando-as de restritivas às suas ações produtivas. Os outros segmentos sociais que não fazem parte dessa base tripolar, passaram a figurar como entraves, são os novos “baderneiros”, “agitadores”, “agentes manipulados pela oposição” que querem desestabilizar o governo, etc. Linguagem muito parecida com a usada pelos militares e autoridades civis, contra os próprios extrativistas nos momentos iniciais de sua organização. Como já apontamos, além dos trabalhadores extrativistas que participaram da organização dos sindicatos e dos empates, um número, também bastante considerável, deixou os seringais para vir para as cidades ou seu entorno, enquanto outros foram para a Bolívia ou Peru, estes últimos tendo iniciado uma marcha de retorno, principalmente no final da década de noventa. Este contingente, acrescido de outros pequenos produtores que ao longo dos anos se viram obrigados a “vender” suas terras para os grandes fazendeiros, vem ampliando essa camada de novos problemas para o governo, que não conseguiu incluílos em seus planos de sustentabilidade e de florestania, ou, para não sermos injustos, tenta 285

incluí-los nos lastros dos “grandes investimentos” privados que em tese gerariam empregos e renda para essas camadas desempregadas. O resultado desse tipo de acomodação conciliadora, proposta pelo Estado, que já havia acontecido no período anterior e durante o regime militar, foi explicada por Rêgo nos seguintes termos:
A história recente da relação entre Estado e Extrativismo na Amazônia mostra que o Estado democrático prescreve políticas liberais, enquanto a ditadura militar típica adota políticas protecionistas para a borracha natural. Essa oscilação explica-se pela necessidade de organização da hegemonia da burguesia monopolista no bloco no poder e na sociedade e a forma como o Estado a realiza. O modo flexível pelo qual o Estado democrático unifica os interesses burgueses e os transforma em interesses da nação, permite que a fração burguesa do setor de artefatos de borracha consiga expressar o essencial de seus interesses na política estatal. O Estado de exceção estrito, ao instituir o projeto de ocupação da Amazônia pelo grande capital suscita uma reação dos seringueiros, posseiros e burguesia mercantil extrativista à aceleração da desestruturação das relações de produção tradicionais do extrativismo. A multiplicação das tensões sociais no campo criava uma situação de instabilidade social na região que afetava o processo de hegemonização. Era necessário acalmar a inquietação social que repercutia necessariamente no aparelho de Estado local. Não dispondo dos instrumentos flexíveis de organização de interesses, próprios da democracia formal, o Estado de exceção estrito age com um elevado grau de autonomia em relação às diferentes frações burguesas no bloco do poder. É por isso que, para fazer passar o projeto de ocupação econômica da Amazônia como do interesse da nação, o Estado de exceção se propõe a atender certas demandas dos trabalhadores rurais e da burguesia extrativista. (RÊGO, 2002: 406/407).

A análise de Rêgo é muito oportuna no sentido de nos permitir uma reflexão mais de fundo, acerca das reais condições de ação do Estado no processo de transição dos governos militares para os governos civis. O destaque que ele faz entre a adoção de políticas liberais e protecionistas é revelador, ou seja, não deixa margem para outras ações fora da estreita margem delimitada pelo mercado, pela propriedade privada, pelo ordenamento jurídico, enfim, pelo capitalismo. Noutro sentido, demonstra também que as contradições dentro do próprio capitalismo permitem movimentos não previstos. Os níveis variados de disputas dentro dos espaços criados pelo Estado (Governo), no Acre, nos remetem a um quadro onde podemos observar fazendeiros, madeireiros e agro-investidores competindo com seringueiros, castanheiros, ribeirinhos e pequenos produtores, não só pela direção do Estado (Governo), mas também, pelos recursos que este detém. No quadro de desembolso do PPA 2004/2007, por exemplo, a área de atuação denominada Gestão e Desenvolvimento Econômico Sustentável, que inclui vários programas que envolvem os trabalhadores extrativistas e os temas de proteção ambiental 286

são majoritários, entre eles se destacam os programas Florestas Sustentáveis; Promoção da Produção Vegetal; Proteção ao Meio Ambiente; Proteção Indígena, etc. obviamente, num cenário de disputa por recursos e investimentos, os empresário ligados aos setores agropecuários e madeireiros se ressentem por ter que dividir com um setor que antes não aparecia nessa distribuição. Outro indício dessa nova disputa está bem representado nos “Gritos da Terra”, eventos anuais comumente realizados no primeiro de maio, onde os trabalhadores rurais ocupam as principais praças das cidades para denunciarem a questão agrária e reivindicarem atenção para suas necessidades. Nos últimos anos, esses eventos têm sido marcados pela ocupação da frente dos bancos (BASA e Banco do Brasil), responsáveis pelos recursos do FNO (Fundo Constitucional do Norte), para que se tornem acessíveis também aos produtores extrativistas e pequenos produtores, já que anteriormente só os grandes investidores tinham acesso a esses recursos. Essas disputas nos revelam alguns dos fios que podem nos ajudar a “andar” pelo labirinto formado pelas novas configurações econômico-políticas do Estado do Acre. Como os representantes políticos dos grandes empresários não obtiveram êxito eleitoral nos últimos pleitos para os cargos majoritários, foi necessário que eles se aproximassem dos atuais governantes, no sentido de não perderem de vez as possibilidades geradas pelos “negócios” com o Governo. Então, em pleno campo de disputas, tiveram que flexionar posicionamentos e adotar outras perspectivas. Muitos empresários passaram a reconhecer a necessidade de melhorar seu sistema produtivo e seu relacionamento com as políticas ambientais, adotando algumas recomendações oriundas de ONGs e do próprio Governo, no sentido de se tornarem também, “social e ambientalmente sustentáveis”. O campo de construção da florestania e do desenvolvimento sustentável, portanto, não é um espaço sem conflitos. Mesmo a disputa pelo modelo econômico a ser seguido, ainda não é consensual, embora todos os segmentos que compões os diferentes lados da disputa aleguem serem seguidores das diretrizes da sustentabilidade, negando as visões produtivistas e santuaristas. Em contexto tão complexo, somos levados a considerar que as práticas nem sempre correspondem ao debate teórico.

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Por seu turno, o governo tenta influenciar os setores extrativistas na perspectiva de torná-los mais próximos de práticas produtivas consideradas mais apropriadas para seu “desenvolvimento”, como veremos a seguir.

4.3.1 O neoextrativismo e os produtos florestais não-madeireiros.

Uma das elaborações mais rebuscadas por parte do governo para resolver a questão da pouca produtividade dos povos da floresta, visando melhorar suas condições de vida e sua inclusão nos projetos de desenvolvimento sustentável e florestania, pode ser encontrada na introdução e no fomento de novas práticas extrativistas que tiveram como base, tanto o subsídio para os produtos tradicionais do extrativismo (borracha e castanha), como para o incentivo dado aos produtores, na perspectiva de que inserissem outros produtos na sua cesta de coletas tradicionais, visando aumentar suas rendas. Desde a consolidação da primeira Reserva Extrativista, em 1989, até 1999, ano em que tomou posse o primeiro governo da Frente Popular, os encargos de divulgar e incentivar a diversificação da coleta de outros produtos da floresta ficaram sob a responsabilidade dos STRs, das Centrais Sindicais, de órgãos dos governos federal e estadual, das ONGs, da CPT, das CEBs e dos partidos políticos de esquerda que tinham ligações com os trabalhadores extrativistas. A idéia central era que se aproveitasse o máximo outros produtos florestais não-madeireiros para demonstrar a viabilidade das RESEXs e, principalmente, consolidar a idéia de que a floresta em pé, renderia mais que sua devastação para extração madeireira e atividades ligadas à pecuária. A partir desse período, as idéias de desenvolvimento sustentável, de manejo florestal, de florestania, etc. passaram a fazer parte da pauta dos governos e da linguagem de seus interlocutores nos ambientes florestais, especialmente das reservas extrativistas. Da posse de Jorge Viana em diante, dificilmente se abre qualquer um dos jornais do Acre que não se tenha uma matéria enfocando uma questão ligada aos temas da sustentabilidade, tanto econômica, quanto ecológico/ambiental. Em muitas matérias que encontramos nos jornais pesquisados sobre o assunto, notamos uma tendência a fixar determinadas idéias, como se elas representassem também uma necessidade de auto-afirmação. Nesta, por exemplo, lemos: 288

O manejo florestal sustentado é a aplicação de um conjunto de técnicas para explorar a madeira e outros produtos da floresta de maneira permanente (passando de pai para filho, de filho para neto, e assim por diante), sem que ela se esgote. Para que a floresta nunca perca sua capacidade de produzir, deve-se retirar dela somente a quantidade que é capaz de repor pelo crescimento das árvores. De maneira simplificada, o manejo florestal consiste em dividir a área de florestas em várias partes de igual tamanho, onde explora-se uma dessas partes a cada ano. Com o auxílio de algumas técnicas (corte de cipós, eliminação de árvores sem valor comercial, plantio de mudas de espécies valiosas), a parte que foi explorada fica se recompondo e só será novamente explorada depois que todas as outras tiverem sido. Desta maneira é possível explorar a floresta continuamente sem que se esgote. (Manejo sustentado é conjunto de técnicas. Jornal A Gazeta. Rio Branco, 1999).

As perspectivas de utilização das práticas de manejo, comumente eram apresentadas, não só como uma inovação metodológica, mas sempre com uma conotação de valorização econômica dos ativos florestais. Nesta outra matéria que “explica” os objetivos do manejo sustentável, verificamos:
O manejo florestal é um método que se propõe, por meio de técnicas, a utilização dos recursos da floresta tropical – é o caso do Acre – de modo sustentável, de maneira contínua, e que beneficia muitas gerações. O projeto-piloto de manejo da Embrapa Acre busca, em primeiro lugar, a formação de produtores florestais. Através do repasse das técnicas, os produtores têm agora condições de dirigir projetos de manejo florestal. A idéia do modelo praticado pela Embrapa, que já desperta interesse em algumas regiões do país, foi concebida, pioneiramente, na Floresta Estadual do Antimary. A experiência foi batizada como Plano de Manejo Florestal de Uso Múltiplo da Floresta Estadual do Antimary. Desenvolvido pela Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o plano foi financiado pela Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO). O manejo tem como objetivo principal a viabilidade de um rendimento econômico anual e sustentável. Além disso, o manejo florestal procura valorizar as áreas de florestas que se constituem em reserva legal. Esse fato tem despertado, nos pequenos produtores, o interesse na conservação dos recursos naturais. Pelos métodos tradicionais, os produtores – é o caso da madeira – somam grandes prejuízos em função do alto nível de desperdício; baixa produtividade e agregação de valores que, além de não garantir sustentabilidade, são degradadores dos recursos naturais florestais. (Manejo utiliza técnicas da floresta tropical. Jornal A Gazeta: Rio Branco, 09/07/1998).

Nesse sentido, várias opções foram sendo apresentadas aos extrativistas, tais como, exploração de óleos vegetais, como o da copaíba, da andiroba, da pimenta longa e outros que servissem para fabricar amaciantes, corantes, repelentes para insetos, perfumes, sabão, etc.; exploração de sementes ou fibras, para confecção de artesanato; frutos para indústria alimentícia e outros produtos como o urucum ou côcos que servissem de bases para cosméticos; ou ainda, explorar plantas medicinais, ou seja, tudo o que pudesse ser extraído sem precisar derrubar árvores e sem prejudicar a natureza. Os modismos contagiavam vários setores sociais, um caso bem característico foi o da pimenta longa, vejamos essa matéria publicada no jornal A Gazeta com o título “Acre deverá produzir óleo da pimenta longa”: 289

A produção do safrol, óleo extraído da pimenta longa e que pode ser usado na fabricação de inseticidas biodegradáveis, cosméticos e produtos farmacêuticos, deve começar, ainda este ano, na Vila Extrema (RO). Uma destilaria será instalada na área para extrair o safrol. O anúncio é do chefe da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária no Acre (Embrapa), Judson Ferreira Valentin. No mundo, o consumo de safrol é estimado em 2 mil toneladas. O Brasil já foi o maior produtor de safrol do mundo. Para instalar a destilaria, segundo Judson, depende apenas de a Overseas Development Administration (ODA), a agência de fomento britânica, liberar os recursos. São 750 mil libras – cerca de R$ 1 milhão – para dois projetos com pimenta longa – um no Acre e outro no Pará. Em Extrema, segundo Valentin, a primeira coleta deve ser em novembro. Devem ser coletadas 5 toneladas de galhos e folhas para transformação em safrol. A descoberta de que o safrol pode ser extraído da pimenta longa, comum no Estado do Acre, foi feita por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. Eles descobriram também que o safrol se concentra nos galhos finos e folhas da pimenta longa. Em cultivos racionais, em oito meses já é possível realizar a primeira poda e após seis meses a planta está apta para novo corte. Estão sendo realizados mais estudos a fim de recomendar um sistema de produção economicamente adequado para exploração da pimenta longa. Em função disso, o Brasil poderá se tornar novamente o maior exportador mundial de safrol pois a Embrapa pretende repassar, em curto espaço de tempo, aos pequenos produtores, tecnologias de produção e formas de beneficiamento industrial. (Acre... Jornal A Gazeta: Rio Branco, 1998).

Tecnicamente, tudo muito bem pesquisado, muito bem explicado, financiamentos externos contatados, mas se alguém procurar os resultados desses empreendimentos dez anos depois não vai encontrá-los. Em outra matéria do mesmo jornal, com o título “Reservas exportam essências medicinais para americanos, a jornalista Kátia Chaves expõe:
Um negócio que pode representar uma renda de até R$ 300 para os produtores que vivem nas reservas extrativistas Chico Mendes e Alto Juruá pode ser fechado ainda este mês pelo Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais CNPT/Ibama e indústrias americanas. Uma das maiores empresas de produtos fitoterápicos do mundo, a Ray Tree, com sede no Texas (EUA) se propõe a comprar inicialmente 40 toneladas por mês de essências de espécies de reconhecido poder medicinal. O negócio será fiscalizado pelo governo federal. A produção receberá o selo de reserva extrativista do Acre. (...) Está sendo esperado para o próximo mês de abril a chegada da primeira equipe de técnicos da Ray Tree Nutrition para uma visita as reservas extrativistas. A indústria se propõe ainda a financiar projetos na área de manejo e investir na montagem e treinamento para manufaturar os produtos. O interesse é que o produto seja desidratado e seco na localidade. A indústria deve montar a base de beneficiamento. (...) Os produtores que serão cadastrados devem começar a exportar cinco espécies – casca de jatobá, casca de ipê roxo, folha de pata da vaca, cipó da unha de gato, casca de canelão e de catuaba. (...) A proposta da Ray Tree é comprar essências de 33 das 105 espécies medicinais. A indústria já gasta 60 milhões por ano em Manaus e Belém. “A linha da indústria americana é promover o desenvolvimento sustentável das populações tradicionais. A Ray Tree afirmou que vai gastar R$ 10 milhões com o marketing dos produtos”. (Reservas exportam essências medicinais para americanos. Jornal A Gazeta: Rio Branco, 1999).

Para dar esse caráter de cientificidade às ações e empreendimentos, alguns órgãos do governo, que antes tinham funções específicas, passaram a incluir em seus objetivos o desenvolvimento de políticas voltadas para os produtos florestais, principalmente, após a eleição de Jorge Viana para o governo do estado, em 1998. A Fundação de Tecnologia do 290

Acre (FUNTAC), por exemplo, foi um desses órgãos que passou a desenvolver projetos nessa linha. Na seção de economia do Jornal A Gazeta, encontramos a seguinte notícia:

Moradores da floresta estadual de Antimari receberão, em breve, orientações técnicas para explorar produtos não madeireiros naquela região. Essa pauta de trabalho faz parte do Projeto 94/90, que a Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac) mantém junto à ITTO (International Tropical Timber Organization – Organização Internacional de Madeiras Tropicais). Este projeto esteve parado por quase dez anos e foi reestudado e aprovado recentemente pela instituição japonesa. A Funtac deverá receber nos próximos dias a primeira parcela de liberação de recursos do ITTO para a floresta do Antimari. Para iniciar a aplicação desta verba, técnicos da fundação e de outras instituições se reunirão hoje e amanhã, no auditório da Funtac para participarem do workshop “Estratégias de Mercado para Produtos Não madeireiros”. A preocupação dos técnicos da Funtac é obter as informações sobre o mercado e a comercialização de plantas medicinais e sementes florestais. A pesquisadora da Funtac, bióloga Lucimar Araújo Ferreira, especialista em ecologia e manejo de florestas tropicais, explicou a comercialização de produtos como o óleo de copaíba, artefatos em jarina, borracha e bambu não são problemas para o projeto, mas o aproveitamento de plantas medicinais e sementes da floresta ainda guardam mistérios quanto à exploração, coleta, processamento e comercialização. (Produtos da floresta são pauta na Funtac. Jornal A Gazeta: Rio Branco, 25/05/1999).

Essas idéias de exportar produtos florestais não madeireiros, que em sua maioria não prosperaram, são oriundas do movimento ambientalista internacional, difundidas em nível local pelas suas diversas ONGs espalhadas pelos cantões da Amazônia, ou mesmo de grandes empresas, interessadas em manter relações amistosas com governos e entidades ligadas aos povos da floresta. Darrell Posey (1994) relata que em maio de 1990, ocorrera uma série de reuniões em Londres, denominadas “The Rainforest Harvest” (A Safra da Floresta), patrocinadas pela Sociedade Real de Geografia, pela Agência Britânica de Desenvolvimento Internacional (ODA) e pelo “The Body Shop”, que tinham como objetivo “estabelecer um caminho “mais verde” no sentido de salvar o planeta”. Posey escreveu:

O acontecimento parecia uma estranha mistura de ciência, governo e empreendimentos privados; os participantes representavam uma mistura mais estranha ainda de líderes indígenas da Amazônia, etnobiólogos, defensores dos direitos humanos, ambientalistas, membros do parlamento, pensadores, advogados internacionais, homens de negócios e realeza. As reuniões tentaram mostrar que a floresta viva e seus vivos habitantes guardam inúmeros segredos sobre produtos novos, naturais e produzidos de maneira sustentável, que estão praticamente saltando das árvores para alcançarem consumidores iluminados e preocupados no “Primeiro Mundo”. (...) Assim, consumidores mundiais poderiam unirse para “votar”, através de seu consumo individual, pela maneira que eles desejassem o futuro do planeta. Uma “democracia consumidora” internacional parece ser a melhor resposta a nova ordem mundial que dependeria mais de laços econômicos internacionais do que alianças geopolíticas. (1994: 345).

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Encontros desse porte em nível internacional e financiamento de atividades que visavam suas aplicações em nível local, além de uma infinidade de “workshops”, foram constantes nas duas últimas décadas do século passado. Porém, mesmo não questionando a validade dessas ações e a legitimidade dos que as organizavam, o que entendemos como de difícil aplicação eram os benefícios diretos aos extrativistas e aos que, na maior parte da Amazônia, estavam fora do alcance dessas ações. Basta imaginarmos a pesadíssima legislação sanitária dos países ditos desenvolvidos para ingresso de produtos oriundos de outras regiões, ainda mais produzidos em escala artesanal, sem as devidas regulamentações industriais, para termos uma idéia de quão distantes da realidade estavam essas propostas. Por outro lado, o que é uma vantagem, estes tipos de reuniões ajudaram a pressionar os Estados (Governos), no sentido de combater suas práticas usuais de financiar exclusivamente a monocultura. No Acre, o Governo passou, pressionado por suas relações internacionais, a ser um dos agentes difusores dessas novas práticas de relacionamento ambiental e econômico para os trabalhadores extrativistas, embora, como já demonstramos, sem muita eficácia no sentido geral de inclusão de outros trabalhadores e nãotrabalhadores. Mas não sejamos ingênuos de pensar que os governos e as grandes empresas dos países ditos desenvolvidos desistiram de acessar os produtos madeireiros, oferecidos pela floresta Amazônica. Nos mesmos jornais que noticiavam os investimentos em projetos de manejo sustentável de produtos não-madeireiros, encontramos, também, a oferta de vultosos recursos para “manejar” produtos madeireiros, vejamos uma dessas matérias a título de ilustração:
Os Ministérios do Meio Ambiente e da Fazenda, o Ibama, o Banco do Brasil e o governo alemão assinaram mês passado contrato de contribuição financeira no valor de 20 milhões de marcos alemães, a fundo perdido, que vai financiar 20 projetos de Apoio ao Manejo Sustentável na Amazônia (Promanejo). O Promanejo, que conta também com a cooperação técnica do governo britânico, será implementado durante o período de cinco anos, no âmbito do Subprograma de Unidades de Conservação e Manejo de Recursos Naturais Renováveis do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil – PPG-7, e tem como objetivo apoiar o desenvolvimento e a adoção de sistemas de manejo florestal na Amazônia, com ênfase na produção sustentável de produtos madeireiros, por meio de ações estratégicas e experiências piloto em áreas prioritárias. O projeto conta ainda com participação dos governos estaduais, do setor acadêmico e do setor empresarial, será coordenado pelo Ibama através da Superintendência estadual do Amazonas. (Amazônia terá R$ 20 mi para manejo. Jornal A Gazeta: Rio Branco, 06/06/1998).

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A esse movimento que tentava envolver os povos da floresta, para direcionar suas práticas econômicas, deu-se o nome, também, de neoextrativismo. José Fernandes do Rêgo descreveu essa nova modalidade produtiva nos seguintes termos:
Esse novo conceito de extrativismo transcende o nível econômico. Na verdade, a mudança conceitual corresponde às alterações ocorridas no bioextrativismo real. Este é, na Amazônia, cada vez mais uma atividade econômica de produtores “autônomos” e de organização comunitária. A produção adquire uma lógica, diversifica-se, mas se subordina sempre ao universo cultural e singular da população extrativista. É a consideração desse bioextrativismo concreto, de sentido mais amplo, que dá origem e pertinência ao conceito de neoextrativismo, entendido como um ambiente social específico, em simbiose e equilíbrio com a natureza e mais determinado pelo universo cultural do que pelas demais instâncias da vida social. A cultura das populações tradicionais é o cimento que dá unidade ao ambiente social extrativista. (RÊGO, 2002: 405).

Na explanação acima, encontramos uma formulação de difícil entendimento, que envolve os conceitos de neoextrativismo e, por conseqüência, de florestania, mas não como uma relação determinante. Quando o autor diz que há na Amazônia “cada vez mais uma atividade de produtores autônomos” e de “organização comunitária”, ele está reafirmando a natureza diferenciada dos trabalhadores extrativistas, o que é a base para a construção da florestania, ou seja, a atitude e as atividades práticas compõem o quadro interativo política, economia e elementos culturais. Para Rêgo (2002), as bases do neoextrativismo contemplam os componentes do “agro” e do “florestal”, além do extrativismo “puro”, ou seja, praticamente todos os elementos que compõem o quadro econômico do Estado do Acre, podem aparecer também como integrantes do campo econômico que lastreia as atividades predatórias da agropecuária extensiva e da exploração madeireira. O que não parece ser muito usual, pois há correntes que entendem que o desenvolvimento sustentável não inclui a opção agrícola. Referimo-nos aos defensores da tese que Becker (1993), denomina como opção ecológica radical, que acham possível a sustentabilidade do desenvolvimento regional sem o uso da terra. Seria uma espécie de desenvolvimento a partir de bens e serviços gerados pela própria floresta, tais como, “clima, serviços para a agricultura, medicina, indústria e ambientais decorrentes da mera existência dos ecossistemas florestais”. (BECKER, 1993: 130). Embora, para Rêgo esteja muito claro que o neoextrativismo ao qual ele se refere, não inclui: a “agropecuária e a silvicultura modernas, baseadas na revolução verde que acelerou a modernização agrícola, a especialização e o uso de fertilizantes e biocidas no Sudeste e no Sul”. Convencido de que é possível uma diversificação produtiva racional, ressalta: 293

Ao contrário, o agroflorestal do neoextrativismo envolve diversificação, consórcio de espécies, imitação da estrutura da floresta e uso de técnicas desenvolvidas pela pesquisa a partir dos saberes e práticas tradicionais, do conhecimento dos ecossistemas e das condições ecológicas regionais. Essa agricultura e essa silvicultura novas, fundadas nas necessidades, no conhecimento e nas pesquisas regionais, estão integradas às peculiaridades dos ecossistemas amazônicos e ao universo cultural dos povos tradicionais da região – seringueiros, índios, castanheiros, ribeirinhos e pequenos produtores agrícolas. (RÊGO, 2002: 406).

Esse seria, portanto, o principal mecanismo de expansão da florestania. Conseguir que, na prática, os trabalhadores extrativistas introduzissem em seus modos de vida tradicionais, as técnicas de diversificação de uso do solo e da floresta para ampliar suas possibilidades econômicas. Não se previa, por exemplo, que os extrativistas, diante da possibilidade de criar gado, fossem abdicar dessa condição em nome de um projeto de vida que é modelado em outra situação, em outra conjuntura. O apelo comercial de seus produtos residiria exatamente na forma de cultivo, criação e coleta dos produtos da floresta, respondendo às necessidades locais e, principalmente, credenciando seus produtos para um mercado externo “ávido em consumilos, por serem ambientalmente corretos”. Esta idéia está ligada a perspectiva de surgimento de um consumidor “verde”, que em tese, “salvaria” os produtores tradicionais, por valorizar ativos ecologicamente sustentáveis. O papel do governo nesse processo envolveria a questão de redemocratização das terras, o que até já vinha sendo feito pela própria luta dos extrativistas quando defendiam a delimitação das RESEXs e, agindo também para colocar fim aos desmatamentos, além de dar suporte técnico para essa diversificação da produção. O que acaba atrapalhando a execução dos procedimentos é que há outra contradição entre as percepções dos modos de vida tradicionais e as perspectivas de inserção desses trabalhadores numa ordem capitalista. Rêgo (2002) compreende que esse novo extrativismo, por exemplo, tem uma matriz que transcende o nível econômico, já que para ele “a cultura das populações tradicionais é o cimento que dá unidade ao ambiente social extrativista”. Por outro lado, as ações do Estado sempre buscaram algum tipo de envolvimento dos produtores no sentido de ter algo para aumentar a renda. Assim, as considerações de Rêgo de que:

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Essa cultura distingue-se pelo modo de vida particular e pela identidade ou auto-reconhecimento do grupo. O modo de vida tem sua matriz na dependência e simbiose com a natureza, no conhecimento empírico e simbólico dos ciclos e recursos naturais, e tal saber é a base dos sistemas de manejo de baixo impacto praticados. A produção apóia-se no trabalho familiar ou comunitário, depende do uso imediato dos recursos, subordina-se aos ciclos naturais e tem como racionalidade não o lucro, mas a reprodução social e cultural. Saliente-se, para prevenir reducionismos, que apesar da matriz comum, cada grupo tradicional (seringueiros, ribeirinhos, índios, etc.) tem características culturais próprias. Dentro dessa lógica de sobredeterminação cultural, o conceito de neoextrativismo abrange todo o uso econômico dos recursos naturais não conflitante com o modo de vida e a cultura extrativistas. No sentido econômico, neoextrativismo é a combinação de atividades estritamente extrativas, com técnicas de cultivo, criação e beneficiamento imersas no ambiente social dominado por essa cultura singular. (RÊGO, 2002: 405, 406).

A idéia de alavancar, de melhorar o nível de subsistência dos trabalhadores extrativistas, incentivando-os à diversificação da extração, também produziu um rompimento com os aspectos que norteavam o extrativismo tradicional. Aliás, a nova convivência dos extrativistas com os fazendeiros, foi modificando também suas percepções dos detalhes que separam os conceitos de subsistência (livelihood) e qualidade de vida (quality of live). Como as relações mercadológicas dos produtos extrativistas não respondiam, com a velocidade necessária, as perspectivas dos extrativistas, eles buscaram referência nos exemplos mais próximos e mais práticos. Nesse sentido, as fazendas de criação de gado, com as quais eles passaram a conviver nas fronteiras com suas concessões (colocações), são bem mais atrativas, isto é, bem mais rentáveis, o que foi levando paulatinamente, os extrativistas a “investirem” cada vez mais na criação de gado, ou seja, a investirem num produto não-madeireiro, mas não exatamente em um produto retirado da floresta. Nesse sentido, a lógica anterior que referenciava o modo de vida dos extrativistas, qual seja, sobreviver do que a floresta lhes oferecia, foi perdendo espaço para uma nova forma, para uma nova modalidade de produção, que introduz a criação de gado como elemento fundamental para a melhoria de sua condição de vida, situação essa contrária a idéia inicial, pois nessa modalidade retira-se a floresta e não da floresta as condições para o seu sustento. Mesmo dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, que é a reserva símbolo do êxito da luta dos seringueiros e suas organizações, por estar dentro da área que funcionou como centro dos conflitos que levaram a morte do líder que lhe dá nome, essa

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nova modalidade vem sendo amplamente praticada. Valério Gomes71 que há mais de dez anos estuda o fenômeno da expansão da pecuária na Reserva Extrativista Chico Mendes, alerta para o desvio de função do conceito de Reservas Extrativistas, pela falta de regulamentação das atividades que podem ser realizadas em seu âmbito. Na mesma linha, Mary Allegretti, escreveu que as reservas extrativistas estão passando por uma crise conceitual, pois para ela:

As reservas extrativistas não são somente um tipo de unidade de conservação com gente dentro que precisa ser ouvida quando se trata de fazer um plano de manejo ou criar um conselho consultivo. As reservas extrativistas são unidades criadas como solução a um conflito fundiário, pela iniciativa e vontade das comunidades que vivem na área, para reconhecer direitos e assegurar que os recursos naturais – dos quais essas pessoas dependem para viver e que se encontram ameaçados – continuem sendo utilizados e protegidos, em benefícios dela e da sociedade. Os direitos fundiários são reconhecidos na forma de unidade de conservação por uma opção destas comunidades e em benéfico público. (...) A crise conceitual deriva do fato de que, depois de criadas, as reservas extrativistas passam a ser entendidas como unidades de conservação de propriedade do governo e as comunidades como mero detalhe, ou seja, moradores a serem tolerados, ensinados, educados, moldados à burocracia. E deveria ser, no mínimo, uma relação entre iguais: as comunidades optam por uma unidade de conservação e o Estado fornece a elas os meios para desempenhar essa função. (In. www.reservasextrativistas.blogspot.com em 09/07/2008).

Entendemos que os problemas por que passam os moradores das reservas extrativistas, vão além da definição do estatuto da concessão da terra e o seu caráter de benefício público, pois para se chegar a esse estatuto, muitos fatores se combinaram. Não foi resultado somente da pressão exercida pelos trabalhadores extrativistas, mas tendemos a concordar com a autora no aspecto de que se perdeu a interlocução governo-comunidade, até porque de alguma forma, os mecanismos de representatividade dos trabalhadores extrativistas também sofreram modificações. A perda de representatividade dos sindicatos, por exemplo, e a ascensão do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e de outras entidades que passaram a fazer interlocução em nome desses trabalhadores, tais como as ONGs, contribuíram para diluir algumas reivindicações mais pontuais, elegendo em seu lugar pautas mais elaboradas e mais difíceis de serem contempladas. No Caso das RESEXs, por exemplo, o cumprimento do princípio administrativo das reservas (Conselho Deliberativo), que condiciona a criação de uma Associação de Moradores da reserva, já favorece o surgimento de outra modalidade
71

- As posições de Valério Gomes sobre a pecuarização das reservas extrativistas estão expostas em sua tese de doutorado, mas atualizadas no blog que ele coordena, acessado pelo endereço eletrônico www.reservasextrativistas.blogspot.com

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de representação, que em muitos casos, confronta com o Sindicato de Trabalhadores Rurais que já existia na área. A criação de gado, por exemplo, não está prevista na legislação que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), de junho de 2000, legislação esta que dá as diretrizes para o funcionamento das RESEXs. Porém, se formos seguir a tradição, pelo menos dos seringueiros autônomos, não é de se estranhar que queiram incluir a criação de algumas cabeças de gado em suas colocações, pois essa prática já existia antes da criação das reservas e, mais, porque isso significava melhora na condição de vida, alegada por muitos extrativistas, como recurso necessário para criar os filhos. Bettina Barros, tratando da questão da expansão da criação de gado nas Reservas Extrativistas escreveu, no Jornal Valor Econômico de 09/07/2008, um texto onde aponta dados relevantes sobre as crises provocadas por essa nova atividade, diz ela:
Símbolo do desenvolvimento sustentável na Amazônia, as reservas extrativistas personificadas pelo seringueiro Chico Mendes estão cedendo à pressão da pecuária de corte. Em algumas, sobretudo no Acre e Rondônia, o número de cabeças de gado já se iguala ou ultrapassa a de habitantes. Segundo o governo, que ainda vê passivamente o problema, as estimativas apontam para a existência de até 40 mil cabeças nas principais reservas do bioma Amazônia, criadas nos anos 80 justamente para impedir a substituição da floresta por pasto. “Podemos falar em uma cabeça por habitante”, diz Alexandre Cordeiro, coordenador-geral de Reservas Extrativistas e Desenvolvimento Sustentável do Instituto Chico Mendes, órgão (cindido do Ibama) que cuida das unidades de conservação do país. É o desdobramento irônico - e perverso – do conceito que tenta viabilizar as populações tradicionais da Amazônia, assegurando o uso sustentável dos recursos naturais. Mas a falta de alternativas motivou o processo conhecido como “pecuarização” das reservas. “O boi virou uma alternativa porque tem bom preço e liquidez. É a poupança para momentos de dificuldade dessas populações, não dá para competir com os preços em queda da borracha e da castanha” explica Paulo Amaral, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém. (IN. www.valoronline.com.br – Consultado em 12/07/2008).

Achamos precipitado falar de uma falência no sistema reserva extrativista, mas também não se pode falar de êxito somente. Há êxito, se considerarmos o freio que as reservas representaram nos conflitos pela terra em algumas áreas e, no combate aos desmatamentos mais acentuados promovidos pelos fazendeiros. Há êxito também em alguns programas de manejo que em algumas áreas conseguiu harmonizar interesses de diversos moradores, que trabalhando de forma cooperativa, desenvolveram sistemas de adensamentos, incluindo flora, fauna e até produtos madeireiros.

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Por outro lado, a criação de gado e a venda ilegal de madeira, praticada por outros tantos moradores das reservas, acendem um sinal de alerta sobre os mecanismos utilizados até então. Nesse sentido é que surgem propostas alternativas para melhorar a renda dos moradores das reservas, a principal delas é a que defende o pagamento de renda pela preservação, tanto a baseada no fato dos extrativistas estarem contribuindo com a manutenção das florestas, como a perspectiva de que esse fato contribui com outros ativos importantes para a preservação da qualidade de vida do planeta em outras regiões, a exemplo das equações que medem a redução do carbono na atmosfera, chamada de seqüestro de carbono. Essa tese de que o poluidor deve pagar os custos ambientais não é nova, segundo Montibeller (2004: 89), já vinha sendo discutida desde a década de 20 do século passado, dentro do contexto do que se considera economia neoclássica. A idéia de internalizar as externalidades, ou seja, incluir os custos ambientais ao sistema produtivo, através de taxas, multas e compensações, no entanto, nunca foi consensual. Nos últimos anos do século XX, uma boa demonstração foi dada pelo governo dos Estados Unidos quando o mesmo se negou a assinar o Tratado de Kyoto, que previa a redução das emissões de poluentes por parte das grandes empresas (multinacionais, transnacionais). Outro exemplo, talvez mais ilustrativo dessa “consciência” internacional, reside no fato de grandes corporações, tipo Monsanto, Simens, Bayer, etc. proibidas de produzir determinadas substâncias em seus países de origem, mudassem seus parques industriais para países “emergentes” e continuassem a produzir e distribuir essas substâncias em várias partes do mundo, sobremaneira, nos países ditos pobres. Embora muitas destas empresas, de forma particular, tenham assumido compromissos no sentido da preservação ambiental e do respeito as comunidades tradicionais, buscando assegurar os certificados de garantia de empresas ecológica e socialmente sustentáveis, que lhes renderia preferência entre os consumidores que se consideram responsáveis com o planeta, nenhuma delas, na prática, abdica de seus lucros em nome da natureza. Os cálculos para definir as reduções e/ou compensações, antes de tudo, são extremamente difíceis de serem aceitos pelas grandes empresas, que por sua vez, pressionam os governos para que assumam o ônus dessas operações, investindo em melhoria da qualidade do saneamento, reduzindo a carga de impostos, etc. o velho discurso 298

dos grandes empresários de responsabilizar sempre os governos pelos fracassos da iniciativa privada, ou seja, socializar os prejuízos e privatizar os lucros. Outro grave problema que atinge os moradores das reservas extrativistas está na questão do “direito de propriedade”, ou “propriedade intelectual”. Vários produtos, comprovadamente manipulados pelos extrativistas, durante gerações, foram patenteados pelas grandes empresas, muitas delas estrangeiras, de locais onde estes produtos sequer são cultivados. Exemplos clássicos dessas atitudes foram os processos de patenteamento do guaraná, do cupuaçu, do açaí, frutos reconhecidamente amazônicos que tiveram seus princípios ativos patenteados por empresas do setor alimentício, processos esses que a ação do governo brasileiro conseguiu, nos fóruns internacionais, reverter algumas dessas patentes, mas no campo dos fármacos há muitos outros exemplos de essências amazônicas que foram patenteadas, tais como a quina-quina, o quebra-pedras, o cipó unha de gato, etc. e, mais, seus principais descobridores, portanto, seus “proprietários intelectuais” nunca foram sequer consultados ou informados desses atos. Somando-se a esses fatos, encontramos uma série de empresas como a Natura, O Boticário e a Avon, por exemplo, que passaram a “vender a Amazônia” em seus produtos, apresentando-os como resultado de uma relação ecológica e ambientalmente sustentável com os povos da floresta. E os exemplos são muitos, de empresas que vendem madeiras ou móveis com “selos verdes”, “comprovando” que mantém relações sociais e ambientais sustentáveis com as sociedades tradicionais. Até as fazendas de criação de gado, aderiram a onda propagandeando e vendendo o “boi verde”72, não que esse caso seja uma relação de sustentabilidade, mas não deixa de se aproveitar mercadologicamente desse filão denominado “Amazônia”. Fato bastante significativo é que, nas condições atuais, os trabalhadores extrativistas não conseguem sobreviver apenas da coleta do látex e da castanha e, mais, as propostas de diversificação extrativista e de manejo pensadas até agora, não surtiram os efeitos econômicos desejados, empurrando esses trabalhadores para a busca de alternativas mais

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- O “boi verde” seria para os produtores, aquele animal criado em campos extensivos, sem o acréscimo de outros elementos químicos à ração, ou seja, um animal alimentado exclusivamente de capim, diferente dos animais criados em fazendas de produção intensiva, onde a alimentação tem como base farelos (inclusive de produtos transgênicos, ou de origem animal) e outros compostos processados em laboratórios.

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rentáveis, tendo a exploração madeireira predatória e a criação de gado surgido em seus horizontes como respostas mais viáveis. Em suma, essas assincronias entre o que se projeta como um desenvolvimento sustentável, uma ecopolítica ou economia política do meio ambiente, com as chamadas economias “lineares” de crescimento, não vem se constituindo tarefa fácil, mesmo quando os atores são, pelo menos pretensamente, qualificados como ecologicamente corretos, como é o caso dos trabalhadores extrativistas do Acre, que anteriormente haviam se envolvido em lutas contra os desmatamentos e, posteriormente, foram retratados como os “guardiões da floresta”. As políticas que tentaram ativar uma maior diversificação extrativista foram esbarrando numa situação contrastante. Por um lado, as alegações recorrentes acerca das riquezas e dos potenciais da diversidade biológica da Amazônia e, por outro, essa riqueza e esse potencial não se conformando aos moldes das estratégias traçadas para incorporar esses ativos ambientais às necessidades econômicas mais prementes das populações envolvidas. A não ser, é claro, o extrativismo madeireiro, praticado por grandes empresas, ou os empreendimentos garimpo/mineradores que também lucram bastante com a exploração a que se propõem. Como constatou Alex Fiuza de Mello:
A Amazônia, cenário de grandes investimentos infra-estruturais e industriais nas décadas de 70/80, considerada uma das últimas fronteiras de expansão capitalista, “celeiro do mundo”, almoxarifado de matérias-primas estratégicas para o desenvolvimento nacional e internacional, “espaço vazio” disponível para ser ocupado pelos empreendimentos “racionais” de exploração econômica, rompe os anos 90 e caminha para a virada do milênio sob enfoque invertido daquele outrora predominante. Os mesmos interesses que até recentemente defendiam a exploração intensiva e em larga escala de seus recursos naturais, em nome da ecologia e do chamado “desenvolvimento sustentável” passaram hoje a manifestar preocupações quanto à destruição do ecossistema nativo, cuja diversidade biológica alcançou notório reconhecimento científico internacional. (MELLO, 1994: 473).

O que vem ocorrendo, portanto, é que o governo passou a ter uma ação dual nesse processo de ter que investir em dois setores que são diametralmente opostos nas suas concepções de vida, por um lado, continuar investindo na “modernização”, industrial, energética, sidero-minero-metalúrgica e, por outro, nesse novo ator, isto é, nas comunidades tradicionais, que a partir de suas lutas e de suas alianças se fizeram visíveis e, incômodas, nos processos de expansão capitalista.

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No ponto nodal, que é a inclusão das populações tradicionais, parece faltar uma competência concorrencial no sentido de fazer valer direitos internacionais na cobrança de royalties, referentes aos princípios ativos das plantas amazônicas que servem de base para a indústria dos fármacos, além de competência técnica, para fazer valer essa riqueza da biodiversidade, tão propagandeada, em benefício dessas populações. A alegação aqui está centrada, não na equação proposta pelos ecologistas, que se baseia na cobrança de ativos ambientais, numa ética ambiental, ainda não ponderáveis (tangíveis) de serem calculados, de serem cobrados, mais sim de uma posição política de cobrança de royalties que é uma operação técnica já realizada secularmente nos meandros da economia política. Fazendo uma crítica das “boas intenções” da indústria capitalista, contra as populações tradicionais, Boaventura de Sousa Santos escreveu:
O valor da biodiversidade como fonte de matéria-prima para a biotecnologia e a indústria farmacêutica aparece, contudo, como vertente mais visível da relação entre biodiversidade e atividade econômica. De fato, um dos elementos centrais da retórica global ambientalista sobre a preservação das florestas assenta no valor das mesmas como material potencial para elementos medicinais para a ciência moderna. O conhecimento indígena surge como a chave para a descoberta dessas formas medicinais. Mas esse fato atinge de ricochete a comunidade, pois as plantas têm vindo a desaparecer a uma velocidade-relâmpago devido ao consumo excessivo, assunto que até recentemente pouco interesse suscitava. Para a ciência moderna, a profundidade do conhecimento local das plantas é avaliada pela utilidade destas, com especial destaque para as plantas medicinais. O que realmente se verifica é que a discussão sobre os conhecimentos medicinais tradicionais é um lócus à volta do qual é possível agregar ambientalistas e comunidades, atribuindo-se a este conhecimento prático local um estatuto de importância relativa, que apenas pode ter significado se apropriado e transformado pelo saber científico. Tal como para o caso do ecoturismo, manter ou preservar algo equivale a dizer que, no espírito do atual desenvolvimento capitalista, é necessário atribuir-lhe um valor comercializável, seja ele estético ou conhecimento científico. Mas dotado de valor, o objeto, o saber, transforma-se em mercadoria, i.e., passa a pertencer a uma outra categoria do conhecimento moderno, podendo ser privatizado. (SOUSA SANTOS, 2005: 67).

A diversificação extrativista e os ativos florestais não-madeireiros não são alternativas a serem desprezadas, a priori, por não ter rendido no curto prazo os dividendos necessários para mudar as condições de vida das populações tradicionais, porém, a persistir os modelos que fazem crescer as diferenças estabelecidas entre os conceitos de “meios de subsistência” (livelihood) e “qualidade de vida” (quality of live), ou ainda, as diferenças que se estabelecem entre os conhecimentos práticos locais e o saber científico, certamente os recursos naturais oferecidos pela floresta não serão suficientes para atender esse tipo de demanda.

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Os exemplos dos níveis de consumo dos grandes fazendeiros que vivem nas fronteiras com as reservas extrativistas, com os pólos agro-florestais, com os projetos de assentamento, são deseducativos no sentido dos abismos sociais que representam. A permanência de desigualdades tão gritantes, tão próximas, não estimula a busca de soluções para os conflitos que há tão pouco tempo produzia a violência que ceifava a vida, principalmente dos trabalhadores extrativistas. A existência da grande propriedade e o que ela representa em termos de modelo inibe as práticas mais lúdicas de convivência harmoniosa com a natureza. Para que os projetos de sobrevivência a partir dos recursos não-madeireiros sejam compreendidos e abraçados pelas populações tradicionais, precisa que se combata as desigualdades de renda e de manutenção da grande propriedade. De outra forma, a permanecerem os níveis de desigualdades, as diferenças entre os modelos de “desenvolvimento”, hoje registrados, dificilmente os projetos de sustentabilidade e de ampliação dos conceitos de florestania atingirão níveis mais satisfatórios. Os esforços realizados para credenciar os ativos florestais, especialmente os produtos florestais não madeireiros, como fonte de renda e melhora nas condições de vida das populações tradicionais, têm sido freqüentemente inibidos pelas dificuldades de materialização mercadológica desses produtos, seja pela condições de extração, de beneficiamento, armazenamento, de escoamento, seja pelas dificuldades de encontrar parcerias que rompam as barreiras interpostas pelas condicionantes do capital, ou da barreiras sanitárias e protecionistas erguidas pelos mercados internos e internacionais. Essa não realização, contudo, não anula os esforços que vêm sendo empreendidos nesse sentido, bem como não invalida algumas experiências relativamente bem sucedidas, mesmo que sejam limitadas e de pouca abrangência em termos populacionais, de aproveitamento dos recursos não madeireiros disponibilizados pela floresta. O que não se pode é tentar convencer os trabalhadores extrativistas a continuarem gastando suas energias em práticas laborais com produtos não-madeireiros, em experiências ecologicamente corretas, mas de pouca rentabilidade econômica, enquanto nas bordas de suas áreas de terras, a indústria madeireira e as grandes fazendas “prosperam” e pressionam os governos para permitirem mais desmatamento e mais “autonomia” para suas iniciativas.

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As lutas entre as diversas correntes de pensamento, principalmente as que opõem os “desenvolvimentistas”, os “santuaristas” e os “sustentabilistas”, não se esgotaram com as eleições. Os que pensavam que esses processos se resolveriam apenas pela via das ações governamentais, cometeram um equívoco em sua análise. As mudanças que se anunciam nos planos de governo, os projetos pensados, as ações concretas junto às comunidades, tudo isso sofre alterações nos processos reais que se desencadeiam nas disputas pelas bases de poder não só da política, mas principalmente da economia. Assim as questões ecológico/ambientais vão se caracterizando como importantes elementos de mediação entre esses contendores, mas ainda não constituem, nem para os desenvolvimentistas, nem para os sustentabilistas, condições preponderantes para suas ações.

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4.4 POLÍTICAS PÚBLICAS E MECANISMOS DE INCLUSÃO VOLTADOS PARA OS POVOS DA FLORESTA.

Um dos efeitos mais visíveis provocados pela chegada da Frente Popular do Acre (FPA) ao Governo do Estado foi a criação de uma série de órgãos, voltados não só para a elaboração de políticas públicas, objetivando maior inserção das comunidades tradicionais para os ambientes de tomada de decisão, como também para tentar fazer o Estado chegar de forma mais concreta, no sentido de beneficiar essas comunidades ou de atraí-las para a base de apoio de suas políticas. Tanto nos discursos que marcaram o início do governo da Frente Popular do Acre, em 1999, como nos planos de governo que seqüenciaram os mandatos, vamos encontrar uma linguagem bem específica, relacionando diretamente toda a estrutura do governo para as questões que tinham ligação com a floresta e suas populações, enfocando que o acreano deveria desenvolver outra forma de se relacionar com o país e com o mundo. Para Jorge Viana:
O Acre sofreu, nas últimas décadas, um massacre cultural. Nosso povo foi desprezado e humilhado. Nossas tradições foram abandonadas para que se promovessem linguagens e valores que nos eram estranhos. Fomos coagidos a desvalorizar a floresta e os produtos regionais. Fomos forçados a aceitar uma falsa superioridade dos produtos importados e do ambiente urbano. Agora é hora de inverter essa tendência. É chegada a hora de dar valor ao que é nosso, às nossas tradições, à nossa história, aos conhecimentos já acumulados nesta terra que foi conquistada por nossos antepassados. É hora de darmos valor a nós mesmos, de conhecermos nosso passado, fortalecer nosso presente para melhor projetar nosso futuro, ao invés de ficarmos dando atenção a qualquer novidade trazida de fora. (Diário Oficial do Poder Legislativo. Rio Branco, 22 de fevereiro de 1999).

O distanciamento do Estado em relação às comunidades tradicionais, aos moradores das florestas, era uma característica bem distinta na história no Acre. Essa característica se forjou devido, fundamentalmente, ao processo de organização econômico-social desse espaço territorial, sua forma de ocupação, suas atividades econômicas e seus antecedentes sócio-políticos, marcados pela rígida estrutura hierárquica que comandava a empresa seringal. Algo próximo ao que Cláudio de Araújo Lima (1970) e Márcio de Souza (1987) caracterizaram como “os tempos dos coronéis de barranco”. Os governantes permitidos pelo regime militar, pós–64, comportavam-se também como “coronéis”: somente algumas características pessoais diferenciavam uns dos outros, pois em termos de políticas seguiam os mesmos ritmos dos diversos generais que se revezavam na Presidência da República. Os 304

pobres, os sindicalistas ou militantes políticos de esquerda, principalmente os comunistas, eram inimigos a serem combatidos. No período de transição para os governos civis, eleitos pelo voto popular, tivemos no Acre duas tentativas, anteriores a Frente Popular, de rompimento com essa forma autoritária de governo, que são representadas pelas gestões do PMDB, primeiro com a eleição de Nabor Júnior, em 1982 e depois com a de Flaviano Melo, em 1986, embora esses dois mandatos sejam alvo de muitas críticas, especialmente o segundo, por denúncias de corrupção, nesses dois governos as idéias de participação popular foram de alguma forma defendidas. O Governador Flaviano Melo, por exemplo, em seu discurso de inauguração do período legislativo de 1988, disse:
O atual estágio de desenvolvimento sociopolítico-econômico do nosso Estado não recomenda mais a administração de gabinete. Não se pode mais legislar ou governar sem levar em conta a voz do povo, as suas idéias e suas inquietações. Consciente da realidade atual e convicto de que o desenvolvimento requer a mobilização de forças sociais é que meu governo tem se pautado pelo respeito à participação popular organizada. Iniciei recentemente um programa de contato direto com o povo, através de visitas sistemáticas aos bairros e as comunidades rurais, atento as reivindicações e tratando de incorporá-las às ações do governo. (Diário Oficial do Poder Legislativo. Rio Branco 01/03/1988).

Durante os governos do PMDB (1982–1990), não pudemos verificar uma ação concreta de inclusão dos trabalhadores para postos de comando do Estado, embora o governo de Nabor Júnior tenha atraído para seu grupo de secretários um dos principais organizadores dos sindicatos de trabalhadores rurais do Acre, o representante da CONTAG, João Maia. Suas ações concorriam para fazer políticas públicas que “beneficiassem” essas populações, não que permitisse que as populações opinassem, que participassem dessas elaborações. Foi assim também no governo de Flaviano Melo, que até tentou atrair alguns sindicalistas e associações de moradores para seu núcleo de governo, mas sempre no sentido de interferir nas políticas que deveriam ser aplicadas para a população e não elaboradas com essa população. No geral, em que pese os percalços e as formas enviesadas de entenderem os conceitos de participação, essas duas administrações contribuíram para o avanço das organizações populares e sindicais no Estado, bem como “toleraram” as organizações sociais e sindicais que se iniciavam na cena política, oriundas dos partidos de esquerda, que também naquele momento davam seus passos iniciais nos processos de reorganização, caso do PC do B e PCB ou mesmo de criação, como é o caso do PT. 305

Os governos seguintes, de Edmundo Pinto, seguido pela administração de seu vice – Romildo Magalhães (após o assassinato do titular) e depois o governo de Orleir Cameli, representam uma espécie de retorno aos tempos dos militares. Edmundo Pinto, inobstante a sua arrogância clássica, pelo menos tinha uma característica de querer aproximação com o povo, mesmo que fosse só para ser elogiado. Já seu sucessor Romildo Magalhães e depois o governo de Orleir Cameli se consagraram pela brutalidade contra os movimentos social e sindical e pelos métodos truculentos de impor suas vontades. Esses buscavam realmente passar longe do povo. Orleir Cameli, até para chegar de suas constantes viagens, o fazia de forma “secreta”, raramente a população sabia se ele estava ou não na capital, ou mesmo no Estado. Os governos da Frente Popular tentaram, de toda maneira, se afastar dessas características, investindo numa outra forma de fazer política que, na sua visão, respondia aos anseios da grande maioria da população, mormente as populações das florestas, “vítimas principais das políticas anteriores”. No discurso proferido na abertura dos trabalhos legislativos de 2002, o Secretário de Administração, Evaristo de Luca, representando o Governador Jorge Viana, declarou:
O nosso governo, portanto, está fazendo um grande investimento para que haja uma mudança de paradigma. Somos ainda um Estado pobre, que até recentemente esteve completamente esquecido pelos diversos governos que passaram pelo comando do País. Hoje, mudamos efetivamente essa posição. O Acre é o estado da Região Norte que mais tem atraído recursos federais e, agora, recursos internacionais, para sustentar uma política de desenvolvimento diferenciada. No Brasil e no mundo temos uma marca – Governo da Floresta – que não é só um slogan. Tem significado, substância, consistência. Traduz compromisso em pôr à disposição do povo do Acre a nossa maior riqueza que é a floresta. (...) A nossa marca – Governo da Floresta – traduz também o nosso compromisso básico com o que temos de mais precioso, as nossas raízes, a nossa cultura e a nossa história, que estamos resgatando, com orgulho justamente no ano em que comemoramos 100 anos da Revolução Acreana. Temos consciência de que estamos fazendo uma nova revolução, desta vez contra um inimigo muito mais poderoso, que é o atraso, a miséria, o pessimismo, a ganância, a intolerância e a dominação política, a violência gerada pela impunidade, pelo banditismo. Temos sofrido agressões, ações dirigidas tentando dificultar o nosso trabalho. Lamentamos, mas temos que reconhecer que alguns teimam em continuar puxando o Acre para trás. (Diário Oficial do Poder Legislativo. Rio Branco, 15 de fevereiro de 2002). (grifamos).

Na mesma linha, no discurso inaugural do período legislativo de 2008, o Governador Arnóbio (Binho) Marques disse:

306

(...) A razão principal dos êxitos do nosso Governo tem sido a capacidade do povo acreano reconhecer o que é interesse público e se unir em favor do bem coletivo. Esta é uma boa prática iniciada com o ex-governador Jorge Viana e que nós devemos ter sabedoria para institucionalizar como uma qualidade dos políticos, autoridades públicas, militantes sociais e cidadãos do Acre. É esta capacidade de união que dá ao nosso Estado a credibilidade externa para captar recursos e a condição interna para trabalhar o desenvolvimento com a participação de todos. (...). (Diário Oficial do Poder Legislativo. Rio Branco 12/02/2008).

Os governos da Frente Popular, tentaram inicialmente fundar um marco, ou seja, definir sua primeira eleição como ponto de referência para todo o processo de mudança que estava acontecendo. Depois buscaram inverter o eixo da governança, isto é, se os governos anteriores “governavam para os de fora” (fazendeiros, madeireiros, empresários, etc.), os governos da Frente Popular prometiam governar para os povos da floresta, para aqueles que haviam sido “esquecidos” pelos governos anteriores e mais, queriam governar com eles, daí a idéia de orçamento participativo e criação de secretarias específicas para atender as demandas dessas populações, tais como as Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável, Secretaria de Extrativismo e Produção Familiar, Secretaria de Floresta, Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas, etc. Na transição dos governos autoritários para os governos eleitos e na transição dos eleitos para governos de esquerda, que passaram a representar muitos dos movimentos sociais que se organizaram e conquistaram espaços em lutas renhidas, travadas contra as hierarquias aqui estabelecidas, houve a transposição de muitos ideais, de acomodação das reivindicações dessas categorias, até então não representadas, para dentro das estruturas governamentais. No PPA 2000 – 2003, onde apresentou as diretrizes gerais do seu primeiro governo, Jorge Viana destacou:
A matriz econômica e o desenvolvimento social do Estado do Acre, está fortemente baseada na floresta. Por essa razão, o Estado foi duramente penalizado nos últimos anos por políticas que desconsiderava a vocação florestal do Acre, promovendo o fechamento ou desativando setores tradicionais da economia, aumentando o êxodo rural e conseqüentemente provocando crescimento nos índices de desemprego. Com o firme propósito de reverter este cenário, a nova Administração está buscando reestruturar o Estado. (...) Atualmente, o pensamento está centrado na defesa de que a floresta é a base para o desenvolvimento. Os produtos florestais são a marca diferencial com o qual o Acre pode competir no mercado. (PPA 2000 – 2003: 03).

Nesse campo de atuação, o governo da Frente Popular sempre buscava traduzir as lutas dos trabalhadores extrativistas como sendo lutas ligadas as questões ecológicoambientais, por isso, sempre procurou desenvolver mecanismos de inclusão desses temas, 307

como sendo respostas às questões gerais que afetavam a vida dos trabalhadores extrativistas. Embora muitos outros aspectos também pudessem ser elencados como problemas diretamente ligados a esses trabalhadores, tais como a manutenção dos latifúndios, da violência, etc., as orientações, os discursos e as ações sempre tiveram a ecologia e o ambientalismo como norteadores. O homem, o trabalhador extrativista era focado a partir de sua relação com a natureza, sempre na perspectiva de desenvolver novas técnicas de produção que ampliassem as condições de visibilidade dos projetos ecológicoambientais. Entre as políticas elaboradas pelos governos da Frente Popular e apresentadas às populações tradicionais, além da construção de escolas e manutenção de professores, de algum tipo de investimento em saúde, principalmente itinerante, os objetivos eram direcionados para as questões mais ligadas ao extrativismo, a saber: orientações técnicas para a coleta de óleos vegetais, coleta e armazenamentos da castanha, ou nesse caso incentivo e financiamento para a construção de usinas de beneficiamento, estabelecimento de programas de subsídios à borracha e a castanha e, principalmente, assistência técnica para processos de manejo florestal de produtos não madeireiros, mas inclusive, também para produtos madeireiros. Aliados a esses investimentos, podemos também considerar como políticas públicas nessa área a construção de ramais que facilitavam o transporte desses materiais e a aquisição de caminhões e canoas que faziam viagens por conta do governo para ajudar no escoamento da produção, dentre outras atividades73. O governo da Frente Popular foi imprimindo uma espécie de rótulo nos trabalhadores extrativistas, qual seja, o de que qualquer política que os beneficiasse tinha que ter um vínculo ecológico-ambiental, mas não o fazia de forma autoritária, no sentido governo-população, pelo contrário, a forma de apresentação era exatamente o oposto: funcionava como se todas essas demandas viessem da base para o governo.

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- Neste ponto fizemos uma redução do que o governo considera ações de políticas públicas voltadas para os trabalhadores extrativistas e políticas florestais como um todo. No seu Plano Plurianual 2004/2007, por exemplo, na Área de Atuação denominada “Gestão e Desenvolvimento Econômico Sustentável”, são exatamente vinte páginas descrevendo ações, projetos, atividades e objetivos, dentro dos diversos programas ali estabelecidos, passando pelos de Florestas Sustentáveis, Promoção da Produção Vegetal, Desenvolvimento Regional, Proteção ao Meio Ambiente, Convênios Internacionais, etc.

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Ao se colocar como herdeiro das lutas dos trabalhadores extrativistas, dos movimentos sindicais e das organizações não governamentais, por exemplo, o governo de forma quase automática, legitimava suas políticas. Um exemplo clássico dessa concepção pode ser observado quando, em 15 de fevereiro de 2003, ano em que iniciava seu segundo mandato como Governador, Jorge Viana, em discurso proferido na abertura dos trabalhos legislativos daquele ano, ressaltou:
Dediquei os últimos quatro anos da minha vida ao trabalho de governar o Acre. E, com a competência e o esforço da equipe e a colaboração de muitos, consolidamos a nossa idéia de governo da floresta. Com a ajuda de todos, ao lado da equipe de governo, pretendo dedicar os próximos quatro anos à consolidação do nosso trabalho. Agora é a hora de consolidarmos a economia da floresta. É a hora de construímos a florestania, de fortalecermos cada vez mais a identidade histórica e cultural do povo acreano. Para isso, aprovamos recentemente, com o apoio desta casa, uma organização do governo. Dividimos o governo em áreas prioritárias. Área da Produção e Negócios Sustentáveis, que tem como interlocutor o secretário Gilberto Siqueira; Gestão e Finanças Públicas, com o secretário Mâncio Cordeiro; Integração e Infraestrutura, com o secretário Sérgio Nakamura; e Desenvolvimento Humano e Inclusão Social, que tem como responsável o vice-governador e secretário de Educação Arnóbio Marques. Tivemos a ousadia de inovar no governo, criando as secretarias das Cidades, Esportes, Turismo, Juventude, Mulher e de Assuntos Indígenas. Estamos cada vez mais convencidos de que a melhor maneira de se fazer inclusão social é sendo governo. Mas o governo tem que ser eficiente. É por isso que estamos dedicando uma atenção especial para o planejamento estratégico e para o processo de gestão do nosso governo. Desde a transição temos buscado a participação dos mais diferentes segmentos da sociedade. Até abril, o trabalho de planejamento, de consulta, estará concluído. Se todos colaborarem, estou certo de que teremos êxito. Vamos assumir novos desafios e estabelecer resultados e indicadores a serem alcançados. (...). (Diário Oficial do Poder Legislativo. Rio Branco, 15/02/2003).

Esta criação de secretarias, de pastas específicas para cuidar das questões do desenvolvimento sustentável, das populações indígenas, além das secretarias de Floresta e da Secretaria de Extrativismo e Produção Familiar, criadas no primeiro governo, indicava a perspectiva desse governo em trilhar um caminho que aproximasse o Estado das populações tradicionais, mas será através dos diversos conselhos que essa participação se tornará mais evidente. Não vamos aqui pormenorizar os mecanismos de participação criados pela Constituição de 1988, assim como os conselhos gestores de políticas públicas, também denominados conselhos setoriais, tais como os conselhos de educação, de saúde, de previdência pública, pois são muito abrangentes e fogem do campo de nossa pesquisa. Citamos alguns apenas para explicitarmos que nesse contexto de mudanças que estavam acontecendo no Acre, também em nível nacional, havia um questionamento sobre os

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conceitos de democracia, opondo ou evidenciando, as concepções de democracia representativa e democracia participativa. No caso do Acre, especialmente após a posse de Jorge Viana para o seu primeiro mandato como governador, em 1999, houve uma maior ação no sentido de criação de mecanismos de participação das comunidades tradicionais nas instâncias consultivas e, em alguns casos, até mesmo normativas e deliberativas das políticas públicas, nomeadamente, ressaltamos as que dizem respeito às questões ecológico-ambientais. Como exemplos destas instâncias, podemos nomear: o Conselho Florestal Estadual (CFE), o Conselho de Desenvolvimento Rural Florestal Sustentável (CDRFS), o Conselho de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia (CEMACT), a Comissão Estadual de Acompanhamento e Avaliação do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre (CEAA-BID), e a Comissão Estadual do Zoneamento Ecológico-Econômico (CEZEE). De acordo com Meneses Filho, os marcos legais, finalidades e estrutura de espaços desses conselhos estão assim definidas:
O Conselho Estadual de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia – CEMACT, criado através da Lei nº 1.022/92, é um órgão colegiado, deliberativo e normativo que integra o Sistema Estadual de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia – SISMACT, na condição de Órgão Superior. Sua finalidade é racionalizar as ações de ciência, tecnologia e meio ambiente, de forma mais participativa, adequada às realidades locais, e propiciadoras de desenvolvimento econômico e sustentável. CEZEE – Comissão Estadual do Zoneamento Ecológico Econômico. A Comissão Estadual do Zoneamento Ecológico e Econômico foi instituída pelo Decreto 503 de 6/04/1999 com a finalidade de coordenar, acompanhar e avaliar a elaboração e implementação do Zoneamento Ecológico e Econômico do Estado. CDRFS – Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural e Florestal Sustentável. O Decreto 2544 de 21 de agosto de 2000 cria a primeira configuração do então chamado Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável – CEDERS. Em 11 de agosto de 2003, o Decreto 8423 revoga o decreto anterior e cria o Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural e Florestal Sustentável – CDRFS. A finalidade deste conselho é de deliberar sobre o Plano Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável – PDRFS, o Programa Estadual de Reforma Agrária e ações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF no Estado do Acre, com ênfase na produção agroflorestal, florestal e no extrativismo vegetal. CFE – Conselho Florestal Estadual. A Lei nº 1.426 de 27 de dezembro de 2001 dispõe sobre a preservação e conservação das florestas do Estado, institui o Sistema Estadual de Áreas Naturais Protegidas, cria o Conselho Florestal Estadual e o Fundo Estadual de Florestas. O Conselho Florestal é o órgão superior de

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caráter colegiado, normativo e deliberativo, responsável pela definição política, dos planos e das estratégias florestais do Estado. (MENESES FILHO, 2008: 11, 12).

Notemos que, dos conselhos elencados, apenas o Conselho Estadual de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia – CEMACT, criado em 1992, é anterior ao governo da Frente Popular do Acre, todos os outros foram criados após a ascensão do governo dessa força política. Isso não isenta o fato de que alguns desses conselhos tenham sido criados a partir de demandas de órgãos de financiadores, a exemplo do BID, que coloca como exigência para concessão de financiamentos a existência de um conselho com participação das comunidades afetadas pelos investimentos previstos em seus empréstimos. Porém, os outros são mesmo manifestações de abertura e de estabelecimento de canais de participação, criados na perspectiva de legitimar as políticas propostas. As composições desses conselhos, de acordo com Meneses Filho (2008), são bastante abrangentes, mas em nenhum deles a participação do governo é menor do que 43% e, em alguns casos, como exemplo, o CEMACT, chegando a 58%. A chamada sociedade civil, onde estariam incluídas as comunidades tradicionais, estão representadas em um contexto que abrange ONGs, representações sindicais, ou outras entidades representativas das comunidades, tais como as organizações indígenas, chegando, no máximo, a 36% da representatividade de um conselho, taxa alcançada no CDRFS, por exemplo. Os outros componentes que completam os conselhos variam entre bancos, instituições de pesquisa, conselhos profissionais, empresas e cooperativas, dependendo da natureza para a qual foi criado. Meneses Filho (2008) estudou a periodicidade de realização das reuniões e a assiduidades da sociedade civil nesses diversos conselhos, no período compreendido entre 2003 e 2007 e como é ligado a uma ONG, aponta com satisfação o percentual de participação sempre acima de 70% das ONGs, e com pesar, o baixo comparecimento das entidades representativas dos trabalhadores extrativistas, indígenas e sindicais, que se situam sempre abaixo dos 40%, o que cria uma dificuldade na defesa das teses defendidas pelas ONGs, que buscam aliança com esses trabalhadores nas propostas em que divergem com o Estado, ou com os empresários e pecuaristas. Obviamente, a presença dos representantes do Estado se registra com índices mais altos, exatamente por serem participantes de ofício. 311

Outro fator importante, detectado por Meneses Filho (2008), é o fato de que as representações de empresários e pecuaristas também registrem índices altos de comparecimento as reuniões e mais, são apontados pelos membros dos diversos conselhos como os mais preparados, em termos de estudarem com antecedência os assuntos pautados e, por sempre votarem em bloco, ou seja, são sistemáticos e organizados. Entre os diversos fatores que inibem uma participação mais efetiva dos membros da sociedade civil, isto é, daqueles diretamente ligados aos trabalhadores extrativistas e povos indígenas, por exemplo, estão os que se relacionam com as convocações extraordinárias, as distâncias que esses membros têm que percorrer para participar dessas reuniões e com a pequena quantidade de membros que estão credenciados e/ou qualificados para essas representações. Relacionamos ainda como elemento inibidor da participação das comunidades tradicionais, a dificuldade que muitos representantes apresentam em compreender a complexidade de alguns projetos, principalmente no que diz respeito aos financiamentos e comprometimentos do Estado, sobremaneira no seu nível de endividamento externo e compromissos assumidos com os organismos financiadores. Em meio a essas circunstâncias, os sindicatos e associações que têm membros representantes nesses conselhos até tentam melhorar seu nível de participação, promovendo cursos e seminários que abordam esses temas. A Central Única dos Trabalhadores – CUT/AC, através de sua Escola de Formação Sindical, o Conselho Nacional dos Seringueiros – CNS, a Federação de Trabalhadores na Agricultura do Acre – FETACRE e outros sindicatos rurais e urbanos já realizaram cursos de “tomadores de decisão”, de gerenciamento de projetos, de formação política e similares na tentativa de melhorar sua participação nesses conselhos, ainda assim não tem conseguido manter regularidade e eficiência em suas participações. Outros aspectos, como mudanças de diretorias e de representantes, além dos baixos níveis de escolaridade de alguns desses representantes, também contribuem para “desqualificar” essas participações. Aliado a esses fatores, sabemos que muitos membros do atual governo já foram militantes sindicais, o que os coloca, em termos relativos, não só com certa ascendência sobre seus ex-companheiros, mas como se fossem também, representantes dos interesses maiores da sociedade, dos quais os sindicatos e as representações indígenas, do mesmo modo, se colocam como responsáveis. 312

O próprio Governo do Estado fala muito em “empoderamento” das comunidades, no desenvolvimento local, nas cadeias produtivas solidárias, na economia solidária, no associativismo, etc., no seu discurso de abertura dos trabalhos legislativos da 1ª Sessão Solene da 2ª Sessão Legislativa da 12ª Legislatura, o Governador Arnóbio (Binho) Marques, disse:
(...) Senhoras Deputadas e Senhores Deputados, priorizando a inclusão social, nosso Governo tem três grandes objetivos estratégicos: 1) Garantir Serviços Públicos Básicos com qualidade para todos; 2) Fortalecer o Setor Privado para consolidar uma economia limpa, justa e competitiva sob forte base florestal e; 3) Promover o empoderamento das comunidades. Todos os programas e iniciativas que falamos aqui estão, de alguma forma, articuladas com estes objetivos estratégicos. (...). (D. O. P. L. Ata da 1ª Sessão Solene da 2ª Sessão Legislativa da 12ª Legislatura. Rio Branco, 12 de fevereiro de 2008: 04, 05).

O vocábulo “participação” é um dos mais encontrados nos discursos dos governos desde a eleição de Nabor Júnior do PMDB, em 1982, que à época se autodenominou “Governo de Participação”, com exceção, como já dissemos dos governos Edmundo Pinto/Romildo Magalhães e Orleir Cameli. Indene ao desgaste do termo, nos governos da Frente Popular, a partir de 1999, esse vocábulo foi sendo re-significado e coadjuvado por uma série de outros, como o “orçamento participativo”, o “empoderamento”, o cooperativismo, a gestão participativa, etc., todos referenciados numa perspectiva de que se está sempre vivendo um momento crucial, diferente do anterior e que de fato, se está representando os interesses da maioria. Porém, nos últimos tempos, o binômio inclusão/exclusão, vem substituindo paulatinamente o termo participação, mesmo que os dois termos também não sejam novos no contexto das teorias histórico-sociológicas, pois os encontramos na historiografia marxista, por exemplo, em abundância. Nos Grundrisse 1857-1858, o próprio Marx já fazia referência aos excluídos, ao que ele denominou pauper (pobre), como sendo aquelas pessoas, cujas forças de trabalho já não interessavam mais ao capital. Situação a qual Bauman (2005) também se referiu, classificando-os como redundantes. No caso do termo inclusão, José de Souza Martins (1997) classifica como sendo um paliativo criado pelo próprio capitalismo, pois para ele a exclusão é gerada por este, no sentido de que a “sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica” (MARTINS, 1997: 32).

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Mas, mesmo para os governos da Frente Popular, que têm seus núcleos dirigentes formados na escola das esquerdas socialistas, esse debate sobre a natureza da exclusão/inclusão não está posto, na maneira de que deva ser analisado como faces do capitalismo. O que importa é estabelecer um nível de gerenciamento do Estado (Governo) que aparente eficiência e crie a sensação (ilusão) de que se está buscando um novo modelo de gestão. Se examinarmos com acuidade os eixos do Planejamento Estratégico do governo de Arnóbio (Binho) Marques, o que ele estabeleceu como “programas estruturantes” para seu Plano de Gestão 2007 – 2010 notaremos que a linguagem pouco mudou nesta última década, preponderando elementos de uma economia que, só não pode ser classificada como capitalista clássica, ou neoliberal, pela adição de algumas preocupações ecológicoambientais e pelos aspectos diferenciais locais. Vejamos o que propõem os Programas Estruturantes no item Desenvolvimento Econômico e Infra-estrutura do seu Planejamento Estratégico:
1 – Implementação e Consolidação de Parques Industriais Baseados na Cadeia Produtiva Florestal; 2) Programa Integrado de Manejo Florestal de Uso Múltiplo; 3) Fomento e Modernização da Produção Agroindustrial; 4) Preservação e Conservação do Ativo Ambiental com Implementação do ZEE; 5) Turismo Gerador de Riquezas e Trabalho com Valorização Cultural; 6) Compras Governamentais Elevando a Renda do Produtor Rural e Fortalecendo as Micro e Pequenas Empresas; 7) Ciência, Tecnologia e Inovação como Fatores de Desenvolvimento Sustentável; 8) Infra-estrutura como Suporte ao Desenvolvimento Sustentável (Rodovias, Hidrovias, Aerovias, Energia e Comunicações); 9) Ações Transversais (Qualificação Profissional e Sistema de Defesa Animal e Vegetal). (Governo do Estado do Acre. Planejamento Estratégico. Gestão 2007 – 2010. Rio Branco, 2007).

No item que se refere aos programas de inclusão social do Planejamento Estratégico do Governo do Acre para a Gestão 2007 – 2010 destacam-se quatro pontos, assim distribuídos: 1) Programa Especial de Superação da Pobreza; 2) Programa Integrado de Saneamento Ambiental; 3) Programa de Habitação de Interesse Social (Parceria Iniciativa Privada); 4) Programa de Investimento em Obras Públicas. Esses pontos se articulam com os Objetivos Estratégicos do Governo, que são: 1) Garantir Serviços Públicos Básicos de Qualidade Para Todos; 2) Fortalecer o Setor Privado para Consolidar uma Economia Limpa, Justa e Competitiva, em Forte Base Florestal e; 314

3) Promover o Empoderamento das Comunidades”. Articulando todos esses eixos está a proposta do atual governo de tornar o Estado do Acre “o melhor lugar para se viver na Amazônia”, que é a sua principal promessa apresentada à população desde sua campanha. O que percebemos nesse complexo quadro apresentado pelo governo do Acre, envolvendo suas perspectivas estratégicas, seus objetivos e seus programas é uma ambigüidade latente. Por um lado, é possível captar as intenções de sair, de deixar de lado as formas tradicionais das orientações capitalistas, se apegando às formulações que interpõem políticas de inclusão social e que respeitam a natureza e, por outro, uma vexatória necessidade de manter garantias para a iniciativa privada, que claramente se impõe, sem subterfúgios semânticos, exigindo compromissos por parte do Estado, que em última instância, inibem qualquer passo rumo a alternativas afirmadoras dos conceitos de reciprocidade, redistribuição e solidariedade. Na leitura das propostas de gestão, dos arranjos administrativos dos governos da Frente Popular, entendemos que há uma angústia e uma sensação de incapacidade por parte dos dirigentes, por saberem, que nos meandros do capitalismo, não conseguirão responder às necessidades básicas a que se propõem, ao mesmo tempo em que não agem para superar essas angústias e incapacidades. Os arranjos produtivos propostos, em que pese a linguagem ecológico-ambiental que as cerca, são também formulações que reforçam um modo de vida comandado pelo mercado, isto é, pelo viés do capitalismo. Nesse sentido, nem mesmo as questões ecológico-ambientais vêm sendo equacionadas, pois não faz parte da natureza do capitalismo sentimentos de comiseração, nem com o homem, nem com o ambiente em que se desenvolve. Numa perspectiva bastante atual, de crítica ao sistema capitalista que impregna as sociedades contemporâneas e que podem ser comparadas as situações vivenciadas nas políticas públicas planejadas e executadas no Acre, Cattani escreveu:
Atualmente, o sistema capitalista domina o planeta e essa dominação é responsável, entre outros, por três gravíssimos problemas. O primeiro é decorrente da intensificação da sua natureza profunda: acumular e acumular, sempre e mais, disciplinando a criatividade humana em processos de trabalho que resultam na espoliação e na alienação do trabalhador. A organização da produção está baseada no princípio da fungibilidade física e intelectual do trabalho vivo. Sua ampliação ou sofisticação contemporâneas redefinem forças variadas de trabalho, mas não alteram a lógica de funcionamento.

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Para grande parte da humanidade, o trabalho é desenvolvido de forma desinteressante e estressante, assegurando a inserção subordinada na esfera social e garantindo acesso à sociedade de consumo alienado. O paradigma da “especialização flexível” e a intensificação da automação proporcionam vantagens para uma minoria, atemorizando, ao mesmo tempo, os demais com ameaças de exclusão ou de precarização. O segundo problema, conseqüência do primeiro, diz respeito à agravação das desigualdades. Nunca na história da humanidade foram produzidos tantos bens e serviços de interesse coletivo, mas nunca houve tamanha injustiça no seu acesso e fruição. (...) Os riscos ligados à sobrevivência física do planeta e da sua população correspondem ao terceiro problema decorrente da expansão do “capitalismo turbinado”. Depois de explorar as riquezas naturais de maneira predatória, a expansão industrial ameaça hoje o ar, a água, a vida enfim. Como a natureza não se vinga, mas revida, catástrofes constantes decorrentes de desequilíbrios ecológicos abalam regiões do mundo inteiro. (CATTANI (Org.), 2003: 09, 10).

A análise de Cattani se aplica ao contexto de execução das políticas públicas dos governos da Frente Popular do Acre, no sentido de que, mesmo com as boas intenções explicitadas nos projetos que, em muitos casos, visam criar condições de participação de setores historicamente excluídos, elas não têm se voltado para o combate à concorrência fratricida, nem para o combate à acumulação e concentração irracionais de riquezas, mantidas por alguns segmentos sociais. No caso do Acre, especialmente os fazendeiros e madeireiros, como relatamos anteriormente, contribuem para criar desigualdades sociais mais agudas do que as verificadas entre seringalistas e seringueiros da modalidade econômica predominante no Estado, anteriormente, em termos de riquezas acumuladas e em capacidade de excluir maiores parcelas da população de seu ambiente de trabalho. Um exemplo bem concreto das dificuldades do governo no Acre em mudar os paradigmas econômicos reside no aspecto de combate as queimadas. Como é um governo que se apresenta publicamente como o “governo da floresta” e que ressalta sua característica de praticar uma modalidade de desenvolvimento considerado sustentável, seria razoável que não apresentasse problemas com essa questão. Porém, o que se vê a cada ano é uma luta colossal, não só para combater as queimadas em si, mas também seus efeitos negativos, não só para a natureza, como para seus apoiadores externos, que exigem contrapartida ecológica para manter suas parcerias. Nesse aspecto, até mesmo os trabalhadores extrativistas que, em tese, seriam aliados incondicionais do governo no combate às queimadas, funcionam de forma inversa, pois destituídos de condições de praticarem atividades econômicas mais rentáveis, vêm paulatinamente abandonando o extrativismo ou mantendo-o apenas como atividade secundária e se ocupando com a pecuária que, mesmo de pequeno porte, necessita de 316

desmatamento e, conseqüentemente de queimadas para expandir os campos para suas criações, quando não praticam o corte clandestino de madeiras dentro das áreas das reservas extrativistas, onde mantêm suas colocações74. O fato é que, embora o governo tenha investido em criar políticas públicas diferentes, voltadas para essas camadas anteriormente excluídas, elas não foram precedidas, ou mesmo acompanhadas de um aparato teórico que ajudasse a convencer essas populações de que é possível outro modo de vida fora dos meandros do mercado. Elder Andrade de Paula (2008) e Silvio Simione da Silva (2008), entendem que com a eleição da Frente Popular do Acre, em 1998, o que ocorreu de fato foi uma captura do Estado por parte dos organismos multilaterais, principalmente o BID e o BIRD, para ser usado na execução de suas políticas de novo colonialismo, através do artifício denominado “Desenvolvimento Sustentável”. Escrevendo sobre as diversas utilizações do nome de Chico Mendes, muitas das quais para desconstruir suas principais bandeiras, disseram:
Esse movimento de cooptação ganha maior fôlego com a vitória da “Frente Popular” no estado do Acre nas eleições para o executivo estadual em 1998. Liderada pelo Partido dos Trabalhadores, essa coalizão de 13 partidos, a maioria de centro-direita, na figura de seus principais dirigentes, Jorge Viana (governador) e Marina Silva (senadora), aprofunda em nível a adoção das diretrizes do modelo de “desenvolvimento sustentável” imposta pelo Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento. A imagem de Chico Mendes, que já vinha sendo “destilada” de seu conteúdo passa a ser re-significada de forma mais ousada para fins de legitimação do grupo governante e, obviamente, abre passagem para um tipo de espoliação consentida pelos “de baixo” e aplaudida pelos de “cima”. Sob a insígnia do “desenvolvimento sustentável” foram tomadas diversas iniciativas – envolvendo empresas, governo, ONGs e organizações comunitárias – voltadas para a satisfação dos interesses das grandes corporações, do agronegócio, especialmente da madeira e pecuária. Instrumentos como a concessão de florestas públicas para exploração de madeiras por empresas privadas, instituídas através de legislação estadual e federal (Lei estadual 1427, aprovada na Assembléia Legislativa do Acre em 2001, lei 11284, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula em março de 2006), desregulamentação do uso das unidades de conservação como as Resex, para fins de exploração madeireira, legalização da grilagem de terras (MP 422/2008) linhas de crédito para a expansão da pecuária, denotam uma pequena amostra dessa monumental
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- Há uma grande diferença de visão entre os trabalhadores extrativistas que compõem os quadros dos diversos movimentos sociais e a apreensão que fazem deles os historiadores, os antropólogos, os sociólogos, os cientistas sociais e principalmente os políticos que comandam as ações do Estado, através de políticas públicas preparadas para eles. De acordo com Lúcia da Costa Ferreira (2001), nesse aspecto das políticas públicas que têm como referência as questões ambientais: “há basicamente duas opções, cabendo à grande variedade de abordagens o papel de variações sobre os mesmos temas. De um lado, a linha estruturalista compreende o desenvolvimento de ações coletivas ou movimentos sociais como resultado de mudanças sociais e econômicas nas formações sociais contemporâneas. De outro, a tradição culturalista compreende-o como resultado de alterações culturais e de mudanças de valores. Nesta linha estão aqueles atores preocupados com novos estilos de vida baseados em valores não materiais, possíveis graças à satisfação das necessidades básicas em sociedades pós-industriais”. Só esquecem de consultar os próprios trabalhadores, que tem suas maneiras de ver o mundo em que estão inseridos, muito mais pela lógica das possibilidades concretas que lhes estão postas.

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ofensiva nessa nova escalada da mercantilização da natureza em território amazônico. (PAULA e SILVA, 2008).

Embora não concordemos integralmente com o raciocínio desses autores75, neste trecho acima, entendemos, como eles, que as modalidades de políticas públicas adotadas pelos “governos da floresta” vêm sendo insuficientes ou, no mínimo, impactando menos do que o esperado, na melhoria da qualidade de vida das populações tradicionais e, mais, não tem sido nem um pouco eficazes no sentido da inclusão participativa, no sentido da formulação política. Exemplos de que há possibilidades e alternativas diferentes não são comuns, mas também não são desconhecidos. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terras e a Via campesina vêm operacionalizando em algumas de suas áreas de assentamento e até mesmo em acampamentos, alguns processos de educação e de economia solidária, baseadas na redistribuição e na reciprocidade, que se situam na contracorrente do sistema e da ideologia capitalistas. A prática de uma economia solidária, cooperativa, aliada a processos educacionais voltados para uma aprendizagem que prioriza não só a idéia de consumo solidário, como também de atitude racional e de aproveitamento dos recursos naturais, representam bem essas possibilidades, pois são elaboradas e executadas a partir de debates e reflexões coletivas, ou seja, os mesmos que elaboram, que formulam, são os que as praticam. Mas, para atingir esse grau de organização foi preciso um esforço muito abnegado de militantes políticos que se doaram para o movimento, passando de fato a conviver, a pensar, a elaborar conjuntamente. Diferente dos assessores do governo, que elaboram, mas só cumprem a função de divulgar, ou tentar impor suas teses, não testam na prática suas elaborações. Muitos dos ex-militantes sindicais que vêm participando dos governos da Frente Popular, de fato, se acomodaram com a nova situação “permitida” pelo Estado e “não querem mais o impossível”, como pregava o lema dos tempos em que eram oposição ao
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- A discordância reside apenas no sentido de que o resultado das eleições foi algo programado desde fora. Entendemos que há influência patente desses organismos multilaterais, porém devemos também considerar um movimento interno, oriundo das bases sindicais, tanto urbanas quanto rurais (florestais), que se engajaram desde o início dos anos 80 nos processos eleitorais e que tinham objetivos claros, de disputar esses eixos do poder no Estado, ou seja, há uma legítima participação popular nesses processos, que não estavam (estão) passíveis dessa “manipulação” externa.

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governo, isto é, no tempo em que tinham vinculações mais diretas com as classes trabalhadoras. O Governador Arnóbio (Binho) Marques anunciou no início de seu mandato, que havia chegado a hora de mudar a idéia dos projetos experimentais, dos projetos piloto e que a partir de seu governo seriam implementadas políticas mais “universalizantes”, mais enraizadas na vida da sociedade.
Nos dois primeiros mandatos da Frente Popular, foi criada a base para o desenvolvimento, com grandes obras de infra-estrutura econômica. Agora, o desafio é dar continuidade a este processo de desenvolvimento, fazendo com que ele chegue mais forte às comunidades, para intensificar a participação e a inclusão social. (...) Nosso governo vai ser marcado pela descentralização e pela autonomia, para que tenhamos uma sociedade fortalecida, com o envolvimento direto dos atores sociais, das igrejas, dos sindicatos e das comunidades. (...) Depois de oito anos no Governo é momento de reduzir os programas pilotos e centrar todos os nossos esforços e recursos em programas básicos e universalizantes. É momento de democratizar nossas vitórias. (Diário Oficial do Poder Legislativo, 2007).

O uso dessa linguagem, de que se está trabalhando para vencer a exclusão social, de que se está fortalecendo a sociedade, de que se está promovendo a inclusão social tem se articulado com a prática de administrações que demonstram grande capacidade de veicular sua mensagem de competência gerencial, que entre outros atributos, conseguiu definir um marco entre o antes e o depois da Frente Popular. Porém, ao mesmo tempo, esse discurso fortalece a posição do Governo como provedor, como único responsável pela condição de articular mudanças de paradigmas. Por outro lado, o governo e seus mecanismos de propaganda têm sido muito eficientes, pois mesmo não conseguindo resolver os problemas sociais mais evidentes, mantêm-se com altos índices de credibilidade frente à sociedade. Um aspecto que foi se caracterizando desde as primeiras tentativas de se chegar ao governo, a partir da formação da Frente Popular do Acre, em 1990, foi a de recontar a história do Acre, com referência na luta dos seringueiros, reativando a memória de Luiz Galvez, de Plácido de Castro, para se chegar a Chico Mendes, como líderes populares, conectando esses heróis à base popular e não mais aos seringalistas, como era feito anteriormente, com os dois primeiros. Os efeitos desse novo acreanismo de base popular, junto com a conquista das reservas extrativistas e com a sensível melhoria das condições estruturais das cidades em termos de urbanização e, dos serviços públicos com a construção e reconstrução de prédios, aparelhamento dos órgãos públicos, principalmente saúde e educação, além das obras de 319

infraestrutura, tais como as rodoviárias e aeroportuárias, vêm servindo para manter alta a popularidade dos governos da Frente Popular. O “senão” que se pode agregar a essas questões pode ser mais bem entendido a partir do que Cattani coloca como necessário para a fundação da “outra economia”, ou seja, uma economia para o “depois” do capitalismo, pois para ele:
Não basta ter orçamento participativo, empoderamento da associação de bairro, uma intensa vida cultural emancipadora e continuar submetido ao trabalho repetitivo, desprovido de sentido, alienado, explorado, seja ele executado na empresa capitalista padrão ou nas formas institucionais alternativas. Da mesma forma, o fato das cooperativas e das empresas autogestionárias não constituírem um universo apartado da economia capitalista pode levar à internalização dos mesmos princípios concorrenciais, à intensificação do trabalho executado sob regras hierárquicas e autoritárias, enfim, à auto-exploração. (CATTANI (Org.), 2003: 12).

A relativização das questões econômicas de fundo, isto é, do grau de dependência e colonialismo a que fomos (e estamos) submetidos, além do liberalismo e neoliberalismo praticados nessa época de globalização, a relativização da característica de economia de fronteira, aliada a essa recente polarização ecológico-ambiental, levaram os governos e até mesmo grande parte dos partidos que o compunham, mesmo os com tez de esquerda socialista, a privilegiarem análises conjunturais que desfocavam as causas originárias das desigualdades econômico-sociais estabelecidas nessas bordas fronteiriças. É como se tivéssemos retornado aos tempos dos debates que Marx e Engels travaram contra o idealismo filosófico alemão, expostos no seu trabalho, A Ideologia Alemã. Ver o mundo real pelas lentes focadas para um único ponto, nesse caso a questão ambiental, mesmo que consideremos a brutal força midiática desse movimento em nível internacional, com forte impacto em países como o Brasil, em nossa opinião, tem enfraquecido a possibilidade de desenvolvimento de políticas públicas que sejam capazes de se realizar, como diz Cattani (2003: 13): “em padrão social, ecológico, político e, também, tecnológico, superiores ao capitalismo convencional”. A perda das referências que separam o mundo do trabalho tem contribuído para direcionar as políticas públicas no sentido convencional, que tem o Estado como guardião da acumulação e concentração de renda, de manutenção de propriedades, inclusive as improdutivas, em um país onde milhares de seres humanos são confinados em acampamentos por não terem terras, ou ainda, de resguardarem todo o aparato tecnológico,

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fruto do esforço de grandes parcelas da humanidade, apenas para aqueles que podem manter “seus direitos de propriedade” como “legítimos”. A nossa constatação é que, a partir da inversão dos índices populacionais florestacidade, uma inversão que atingiu escala superior a setenta por cento nesses últimos trinta anos, logicamente que iria diminuir os conflitos sociais nas áreas de floresta. Porém, constatamos também que muitos desses conflitos se transferiram para as cidades, onde os índices de violência, mesmo que no governo da Frente Popular se tenha desmontado parte do “esquadrão da morte”, mantêm-se um tipo de violência “no varejo”, que vai desde a violência familiar, à violência contra a mulher, até os chamados crimes contra o patrimônio (roubos e furtos). Isto, por si, demonstra que, ao mesmo tempo em que se propõem políticas públicas voltadas para os povos que continuaram morando nas florestas, especialmente os que passaram a ocupar as áreas das reservas extrativistas, na mesma medida os governos precisariam se preocupar com os que vivem nas cidades ou foram obrigados a migrarem para essas áreas devido aos conflitos anteriores, ou seja, sem uma diversificação de sua capacidade produtiva, nem mesmo as promessas tradicionais dos capitalistas liberais, de que o crescimento econômico gera trabalho e renda, resolveriam a situação de desemprego que assola(va) as cidades acreanas. O mais grave dessa equação que movimenta os fatores da economia, sociedade, ecologia, ambientalismo, política e cultura, sem dúvidas, é a indefinição de rumos. Por um lado, temos o Estado preenchido ou pressionado por ONGs, organismos multilaterais, fazendeiros, empresários dos “agribusiness”, que intensificam ações para manutenção do status quo. Por outro, militantes políticos, sindicalistas e alguns setores da sociedade também manifestam insatisfação com a manutenção dessa orientação mercadológica para a elaboração de políticas públicas e, sugerem deslocamentos para posições de enfrentamento com essas forças que entravam as lutas por uma sociedade mais igualitária e mais justa. No meio, temos um Governo comandado por pessoas, muitas das quais divididas entre essas concepções, por não terem capacidade ou não quererem realmente se portar como agentes das mudanças necessárias para ultrapassar o estágio conflituoso do momento.

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O projeto de tornar o Acre o melhor lugar de se viver na Amazônia está em curso. Suas características, contudo, marcadas pelas ambigüidades, controvérsias e contradições não nos permitem nomear “para quem?”

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CONCLUSÃO:

O percurso temporal percorrido neste trabalho é muito breve, se o considerarmos em termos históricos, porém, as mudanças que se desenvolveram nesse curto espaço de tempo formataram várias configurações sociais, algumas delas diametralmente opostas ao que representavam no início da década de setenta, período que estabelecemos como marco inicial das mudanças aqui tratadas. O breve tempo, vale lembrar, não foi obstáculo para as rápidas mudanças que se sucederam nesse interregno. A sociodiversidade acreana (seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, caçadores, mateiros, pescadores, colonheiros, seringalistas, comerciantes, regatões, caixeiros, etc.) foi ampliada no curso desses anos, passando a conviver com militares, fazendeiros e seus capatazes, madeireiros, grileiros, colonos assentados, além das populações indígenas, que emergiram das matas profundas em busca de inserção no “novo mundo” que se erguia/destruía com a devastação da floresta e, juntaram-se aos novos personagens, tais como: agentes religiosos (pastorais católicas), militantes sindicais, militantes políticos, agentes de Organizações Não Governamentais (ONGs), ambientalistas, agentes de organismos multilaterais, agentes governamentais, ou seja, o processo de incorporação do Acre ao Brasil, iniciado pelos militares golpistas de 64, continuou após a transição para os governos civis e se prolonga até os dias atuais, envolvendo cada vez mais novos agentes que, de uma forma ou de outra, passaram a compor esse movimento plural nas idéias e diverso nas suas estruturas social, econômica, política e cultural. Nesse sentido, nosso objetivo inicial, que era analisar as trajetórias dos trabalhadores extrativistas e seus relacionamentos internos e externos, não só na direção floresta-cidade, mas também no seu inverso, foi se desenrolando para incluir as temáticas transversais76 que se avolumaram e passaram a influenciar atitudes e decisões, não só nos lugares de moradia, bem como nos espaços articulados por esses trabalhadores dentro e fora da floresta.
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- O que denominamos como temáticas transversais são aquelas que dizem respeito à organização de sindicatos, de federações e confederações de trabalhadores, de centrais sindicais, de entidades não sindicais como o Conselho Nacional dos Seringueiros – CNS, as questões ecológico-ambientais, tais como as idéias de desenvolvimento sustentável, florestania e todas as novas opções de uso e manejo da floresta que foram sendo introduzidas na vida das comunidades extrativistas, além das ONGs, que através dos seus diversos interesses, pautaram muitas ações tanto dos trabalhadores extrativistas, como do próprio Estado.

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Partimos dos eventos que cercam a falência dos seringais nativos, agravados no período considerado “segundo surto da borracha”, no pós Segunda Guerra Mundial, época que marca a maior intensificação da transição dos seringueiros para a condição de seringueiros autônomos. Passamos pelas intervenções dos militares na década de setenta, quando eles defendiam a tese de integrar a Amazônia ao Brasil, pela via de uma anexação fronteiriça, estruturada numa extravagante idéia de combate à natureza e na expectativa de exploração de recursos naturais, até chegarmos à virada do século/milênio com outra inversão nos conceitos desse relacionamento homem-natureza, inclusive com uma remodelagem das próprias instituições governamentais. Se no início da década de setenta, a modernização, a integração e a civilização estavam representadas pelos desmatamentos, pela transformação da floresta em pastos ou plantações, já na década seguinte, essa tese recebia suas mais fortes contestações, tanto internas como externas e, nas décadas subseqüentes, uma verdadeira inversão. Na última década do século XX, ao contrário do que pensavam os militares e seus colaboradores e seguidores civis, a manutenção das florestas é que passou a ser símbolo de um mundo “civilizado”. Ressaltemos que essa idéia, contudo, não é consensual, tendo como foco de resistência os grandes latifundiários, em especial os criadores de gado, no caso da Acre. As idéias de modernidade/modernização, no nível local, também foram reconfiguradas e o conceito de desenvolvimento, que as articulava, passou a ser adjetivado pela partícula sustentável. As tecnologias precisaram ser ajustadas ao novo formato, isto é, passamos a ser contemporâneas de um mundo que se preocupava com as condições de salubridade, presente e futura do planeta77. Até as populações que viviam nas florestas foram re-paginadas, deixando para trás a condição de representantes do atraso econômico, do primitivismo, do feio, etc., passaram a representação simbólica da preservação ambiental (guardiões da floresta) e a ter seus valores e seus “saberes”, aprovados como importantes, como avançados e desejáveis. Muitas vezes, até mesmo as lutas que esses trabalhadores extrativistas e indígenas travaram para se tornarem visíveis e se manterem
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- A linguagem encontrada nos textos das ONGs e outras entidades ambientais (o próprio Relatório da comissão Brundtland e mais recentemente do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), se esmeram em reforçar os conceitos de que a responsabilidade com o planeta é de todos, da mesma forma como condena a todos, julgando de forma genérica a população mundial como responsável pela degradação, pela poluição, pela contaminação e destruição dos ambientes naturais. Uma generalização, no mínimo, irresponsável, pois a contaminação, poluição e degradação do planeta têm diferenças marcantes no nível de responsabilidades, tanto em nível de países, como de empresas e, principalmente, de indivíduos.

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nesses lugares, foram “esquecidas”, retiradas de cena, em nome do que se passou a pensar que eles deviam ser e, não necessariamente, do que eles eram78. Todas essas mudanças nos levaram, ao longo da escrita, a formular questionamentos acerca dos interesses das populações afetadas, mormente as que se referiam à questão agrária e as que implicavam na mudança de tradições, tais como o uso de queimadas para fazer o roçado, a introdução de novas técnicas de manejo, o neoextrativismo, os limites legais para utilização do território, as organizações sindicais e outras entidades (ONGs, por exemplo), que foram sendo introduzidas no seu dia-a-dia, no sentido de mediar as interações com esses novos fazeres, com esses novos agentes. Na verdade, temos clareza de que não elaboramos respostas prontas e acabadas para as situações que fomos identificando nesse contexto. O que consideramos relevante são as conexões que estabelecemos entre os diversos agentes que atuaram nos processos iniciados, tantos pelos seringueiros, quando ainda buscavam sua “autonomia”, quanto pelos militares e seus projetos de anexação, ou pelos outros diversos agentes (governos estaduais, religiosos, políticos de esquerda, “ongueiros” (onguistas), sindicalistas, ambientalistas, etc.) que foram agregando novas possibilidades de viver na Amazônia, mas também de interpretar a Amazônia e seus desafios contemporâneos. Na trajetória dos seringueiros, mesmo antes das intervenções militares na Amazônia, eles já vinham reorganizando suas unidades produtivas, não só com a introdução de cultivos de roçados, onde passaram a plantar o arroz, o milho, o feijão, a cana-de-açúcar e, principalmente, a mandioca para produzirem a farinha, elemento importantíssimo de sua alimentação, bem como, vinham buscando reunir os parentes em

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- A preponderância da idéia de que os seringueiros, por sua condição de vida, representavam ser “guardiões” da floresta por excelência, mascara a realidade dos problemas vividos atualmente pelos governos para controlar a “pecuarização” das reservas extrativistas, por exemplo, praticadas pelos próprios moradores dessas reservas. Desde o início da vida nos seringais a perspectiva do enriquecimento sempre acompanhou as mobilizações de trabalhadores, principalmente dos nordestinos e seus descendentes, que compõem a maioria da população do Acre. Quando ocorreu a falência do sistema de aviamento, que inibia essa possibilidade, os seringueiros começaram a articular seus modos de vida autônomos, sempre mantendo a perspectiva de “melhorar” de vida, eufemismo para buscar o enriquecimento. É nesta perspectiva que ponderamos a presença, também constante, no meio desses trabalhadores de uma esperança de “desenvolvimento” que nem sempre estava cercada pelos criteriosos preceitos da sustentabilidade. Essa situação contrasta com alguns tipos de apreensão onde se concebe os moradores das florestas como homogeneamente preocupados com as questões ecológico-ambientais, ou com a descrição encontrada em alguns documentos do governo que apresentam a população do Estado como sendo “diferente”, isto é, mais preocupada com a questão ambiental do que a de outros lugares.

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colocações próximas, o que representava a agregação de organicidade na resistência, de melhor produtividade econômica e convivência social dessas comunidades. Concomitantemente, vinham também melhorando seus relacionamentos com as populações indígenas das áreas próximas e trocando com elas experiências nos seus relacionamentos com a natureza, aproveitando melhor as potencialidades da floresta na alimentação, na saúde e na sua referência cultural. Registramos que essa mobilização dos seringueiros, no sentido da sua concentração, estava promovendo uma reorganização “natural” dos seringais79, se considerarmos que as áreas mais remotas, paulatinamente estavam sendo desocupadas e as novas concentrações se realocavam em áreas mais próximas dos rios, que representavam vias naturais de transporte, ou mais próximas das cidades, também consideradas pólos de atração, no sentido de escoamento da produção extrativista e agrícola e, por outro lado, por servirem como entrepostos de abastecimento, ou seja, onde os seringueiros poderiam adquirir alguns gêneros básicos, como a munição, o sal, a banha, às vezes, o querosene, ou “combustol” e, até mesmo para tratamento de problemas de doenças. No entanto, as cidades também tinham virado foco de atração para famílias que buscavam “educar” os filhos, haja vista que para os seringueiros que moravam nas colocações o acesso a escolas era impossível80. Nessa nova forma de organização dos seringais, sem a presença ostensiva do dono, isto é, do seringalista, os relacionamentos em geral foram intensificados, tanto entre os próprios seringueiros, como com os regatões, o que não significa, neste último caso, que tenham sido mais favoráveis aos seringueiros. Ao mesmo tempo, os arrendatários ou os prepostos dos seringalistas (gerentes), mesmo sem manterem o sistema de abastecimento anterior (o aviamento), pretendiam manter os mesmos níveis de cobrança contra os

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- O que referenciamos como “natural”, talvez não seja a idéia mais adequada, pois essa condição só se tornara possível exatamente pela inexistência de forças coercitivas do Estado ampliado, isto é, nesses momentos nem o governo nem os empresários detinham condições de investimentos nessas áreas, o que tornou possível essa reestruturação, o que convenhamos, não é uma condição “natural” para uma área que se apresentava para o país como sendo uma área de fronteira. Nesse caso, podemos considerar também essa reorganização dos trabalhadores extrativistas como atípica.
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- Fazemos o destaque para os seringueiros que moravam em colocações, pois há registro de que em algumas sedes de seringais, havia seringalistas que permitiam a presença de uma professora, que comumente ministrava aulas de alfabetização e ensinava a tabuada (operações básicas), mas esses casos além de raros, atingiam apenas as pessoas que moravam nas proximidades, o que em termos de seringais significa algo em torno de, até três horas de caminhada de distância. Porém, colocações com essa distância eram também, raras, o comum eram distâncias bem maiores, muitas vezes, marcadas em dias de viagem.

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seringueiros. A cobrança, por parte dos arrendatários, de fidelidade na compra da produção e, dos seringalistas, de forma direta, ou indireta através dos seus gerentes, que mesmo não abastecendo os barracões queriam cobrar a renda, são partes dos conflitos que estavam estabelecidos antes da chegada dos militares e das mudanças propostas para a “ocupação da Amazônia”. Reportamo-nos a essa questão para não ficar subentendido que antes da chegada dos militares e dos “paulistas”, não havia conflitos na região. Ou seja, enquanto os militares, em nome do Governo Federal, e os Governos Estaduais e civis projetavam e executavam uma maneira de “ocupação da Amazônia”, essa Amazônia já vivia processos de conflagração social, movidos por interesses econômicos que, a exemplo daqueles planejados pelos militares e seus seguidores, também buscavam na exploração dos recursos naturais e dessa mão-de-obra “espalhada” no meio da região, incluir partes desses trabalhadores nos mecanismos de exploração do capitalismo. Os conflitos registrados entre seringueiros e patrões (seringalistas, arrendatários, prepostos e marreteiros), contudo, ficaram diminuídos se considerarmos os que se sucederam às intervenções posteriores, isto é, após a venda dos seringais para os “paulistas”. Diante de um Estado falido pela quebra estrutural do seu sistema produtivo (o seringal) e encorajado pela perspectiva da construção de estradas, o então Governador do Estado do Acre, Francisco Wanderley Dantas, resolveu gastar os poucos recursos existentes nos cofres públicos numa campanha nacional de atração de investidores para o Acre. Prometendo terras baratas e financiamentos, através dos bancos estatais e incentivos e isenções fiscais, garantidas pelo governo do Estado, esse Governador virou uma espécie de agente imobiliário, funcionando como articulador da venda de terras para os “paulistas”, em proporções e preços nunca antes praticados neste Estado. Como demonstramos no Capítulo II, os acontecimentos posteriores a essas ações do governo Dantas, simbolizaram não só a “pá de cal” no sistema seringal e a virada na estrutura produtiva do Estado, na direção da pecuária, como também desencadearam os desmatamentos e os conflitos que conflagraria boa parte do Estado, envolvendo de forma perversa, pela desigualdade de condições de enfrentamento, principalmente as populações extrativistas.

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Os militares e seus seguidores oficiais e civis agiram no sentido de preenchimento de uma fronteira vazia, onde para eles o “grande deserto ocidental” era “uma terra sem gente, para acomodar uma gente sem terras”, assim, a guerra que eles previam, isto é, que teriam contra a natureza, virou uma área de tensões contra populações locais, não catalogadas em seus projetos de “civilização”, especialmente os índios e os trabalhadores no extrativismo. Porém, no final da década de setenta, os militares já estavam em processo de descrédito interno e externo, o que de certa forma cortou seus acessos a recursos para os grandes investimentos na Amazônia. Este fato, aliado aos problemas político-sociais internos e agravados pela crise econômica em que o mundo estava enredado, tiraram de foco os militares, mas deixaram os civis que vieram na trilha de suas ações81. Mesmo tendo se retirado da cena principal, os militares continuaram, num segundo plano, marcando sua passagem pelo Acre, na perspectiva de que deram azo aos projetos de construção de estradas, difundindo uma tese desenvolvimentista, que ajudava a dissimular seus propósitos geopolíticos, embutidos na Doutrina de Segurança Nacional e nas insólitas justificativas da política de Contra-Insurgência. Dessa forma, ajudaram os governantes locais e os empresários “paulistas” a avançarem sobre as terras devolutas e as terras adquiridas a preço de liquidação, na “farra” propiciada pelos bancos estatais que, seguindo a cartilha da expansão capitalista, colocavam o próprio Governador como organizador desses empreendimentos, financiandoos (com recursos do Estado) e garantindo os investimentos em infra-estrutura e, obviamente, na manutenção da ordem, necessária para assegurar os lucros dos convidados privilegiados. Assim, os fazendeiros, os grileiros, os especuladores de terras e outros “investidores” tomaram as rédeas do processo de mudança que vinha ocorrendo na estrutura econômica e se transformaram, em curto espaço de tempo, nos principais adversários das populações tradicionais82.

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- Sobre essa fase de transição buscamos referência entre outros em Guilhermo O‟Donnel (1988 e 1996), Octávio Ianni (1992 e 1993), Noam Chomsky (1993) e José de Souza Martins (1991).
82

- Aqui nos baseamos nos estudos de Hélio Garcia Duarte (1987) e Adalberto Ferreira da Silva (1986).

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No Acre, a reconcentração da terra, primeiro, e depois os desmatamentos, marcaram a emergência de um tipo de conflito que ainda não havia chegado aqui, devido à distância e ao sistema produtivo dos seringais, que precisava de homens trabalhando no corte da seringa. A modalidade que substituiu o seringal, as fazendas para criação de gado, não precisavam dessa mão-de-obra, além do que, muitos compradores de terras as adquiriram mesmo, só para especulação. Então faziam os processos de “limpeza humana” apenas para garantir as posses adquiridas. O tipo de violência presente nos atos de expulsão dos seringueiros, que é um dos elementos diferenciadores desse processo, foi relativamente mais cruel do que a exploração e os mecanismos das dívidas a que estiveram submetidos anteriormente. As reações de algumas parcelas desses seringueiros também marcaram profundamente os rumos de sua reconfiguração como categoria, principiando um movimento na contramão do desenvolvimento, até então, apregoado como única via possível. A organização dos sindicatos de trabalhadores rurais, seguidas das mobilizações, conhecidas como empates configuraram as primeiras reações aos projetos modernizantes, civilizatórios e desenvolvimentistas, assim como revelaram os seringueiros para a cena política do Estado. Neste aspecto, os seringueiros do Acre, especialmente dessa região do Alto Rio Acre (Brasiléia, Xapuri), se tornaram pioneiros nos processos de resistência que ganharam importância na história recente. Gonçalves (2005), dá inclusive uma maior dimensão a esses movimentos. Para ele:

A Amazônia participou ativamente neste processo de redemocratização do país. Nomes como os do jornalista Lúcio Flávio Pinto, Elson Martins, Edilson Martins, Márcio de Souza entre outros, ou os jornais como Porantim (Manaus), Varadouro (Acre), num primeiro momento, ou Jornal Pessoal (Belém) ou a Folha do Amapá depois, procuraram expressar as aspirações amazônidas. Para não falarmos de toda uma imprensa de mimeógrafo amplamente utilizada por movimentos comunitários e sindicais. É a Amazônia o laboratório social de onde emerge a CPT (Comissão Pastoral da Terra) ou o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) ambos vinculados à Igreja Católica que, por meio das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), deu enorme impulso à organização da sociedade civil na Amazônia. A Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) assim como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) também se fizeram presentes no apoio a esses movimentos que emanavam em diversos pontos da Amazônia. (PORTO GONÇALVES, 2005: 128).

Esta primeira reação, como demonstramos no Capítulo II, foi motivada por uma questão de sobrevivência, de luta pelo lugar e o espaço que haviam articulado para reproduzirem seus meios de subsistência. Nessa fase organizativa, os seringueiros dessa 329

região receberam o apoio da Igreja Católica, através de seus bispos, padres, freiras e agentes pastorais leigos, de militantes dos partidos políticos de esquerda (clandestinos) e, a partir de 1975, da CONTAG. Nesse período registramos uma das fases mais conturbadas da vida política no Estado83, gerada pela insuficiência deste em determinar condições mínimas para assegurar os direitos dos trabalhadores. Essas poucas condições eram ainda mais graves, por estar o aparato governamental funcionando, deliberadamente, em favor dos grandes proprietários, tanto os residentes, quanto os chegantes denominados na região como “paulistas”. Destacamos também que nessa leva de chegantes, vieram muitos colonos pobres de outras regiões, arregimentados pelas promessas do Governo Federal, através do INCRA (ou do órgão equivalente de plantão), para ocuparem os “projetos de assentamento”, que também foram submetidos a tratamento desumano, abandonados em glebas inacessíveis durante os períodos de chuvas, sem acesso às cidades, sem acesso a escolas para os filhos, sem acesso a atendimento médico e, sem acesso a créditos que os permitissem iniciar à produção, situação agravada por não disporem de títulos das terras. (Os seringueiros já viviam assim, sem posse e, conseqüentemente, sem titulação das terras por eles ocupadas). Esses trabalhadores, em que pesem as condições a que foram submetidos, não ingressaram nos processos de lutas de resistência movidos pelos seringueiros, porém, mais tarde, os que não morreram nos primeiros anos, ou os que não conseguiram voltar para o Centro-Sul, vieram a se tornar elementos importantes nas lutas por titulação das terras e das reivindicações de melhoria para as populações que viviam nas áreas de floresta. No Capítulo III, demonstramos como foi se alargando o leque de colaboradores dos seringueiros e a importância deles para os êxitos obtidos em suas lutas. A entrada em cena da Igreja Católica, através da CEBs, da CPT e do CIMI, ajudando na formação dos STRs, juntamente com a CONTAG; dos partidos de esquerda, impulsionando as lutas de resistência; das ONGs e dos ambientalistas, que ajudaram na construção do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e na consolidação da aliança dos povos da floresta,
83

- As principais evidências das conturbações e da violência dessa fase estão registradas fundamentalmente nos jornais Varadouro e, no jornal da Prelazia do Acre-Purus, denominado “Nós Irmãos”. O primeiro, pela independência editorial, enfrentou os perigos e adversidades da empreitada. O segundo se respaldou no grande respeito que a Igreja ainda mantinha nesse ambiente e, também, na nova conduta que os dirigentes religiosos adotaram após o Concílio Vaticano II e as Conferências de Puebla e Medelín, que recomendavam a “opção pelos pobres”. (Como não pesquisei nos arquivos policiais e judiciários, não podemos avaliar a quantidade de informações contidas nesses arquivos, portanto, um campo aberto a novas explorações).

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incluindo os índios no processo, revestia o movimento desses povos de características diferentes das iniciais. Esses novos atores ajudaram a estruturar e a multiplicar os focos de atuação desses movimentos, isto é: se o surgimento do movimento se deu em relação à luta pela terra, com a inclusão dessas parcerias ela foi sendo ampliada por outras reivindicações, que se estendiam da luta ambiental ao combate a violência policial. Um dos fatores mais importantes, surgidos nesse momento, foi a construção da idéia de reserva extrativista, uma reivindicação surgida no I Encontro Nacional dos Seringueiros, realizado em Brasília em 1985, e que se concretizou após a morte de Chico Mendes, um dos principais defensores dessa idéia, por parte dos seringueiros. Em linhas gerais, o final da década de oitenta foi marcado, não só pela promulgação da nova Constituição Brasileira, em 1988, que pela primeira vez registrava a questão ambiental como responsabilidade do Estado e dos cidadãos, mas também pelo assassinato de Chico Mendes no final daquele ano e, para os trabalhadores extrativistas, pela delimitação da primeira Reserva Extrativista, no final de 1989, mesmo que tenha sido numa região menos conflagrada do Estado (Vale do Juruá), logo no início do ano seguinte, 1990, foi criada a reserva que levou o nome do sindicalista assassinado, a Reserva Extrativista Chico Mendes, abrangendo as áreas reivindicadas pelos seringueiros que viveram os maiores conflitos no Acre. Nesse sentido, desenvolvemos o entendimento de que a transição para os governos civis, a promulgação da nova Constituição, o fortalecimento dos sindicatos e centrais sindicais e a chegada das ONGs e ambientalistas durante a década de oitenta, permitiram um melhor posicionamento dos trabalhadores frente ao Estado (Governo), o que o pressionou para uma intervenção mais efetiva no controle das terras. A ação discriminatória das terras do Estado, realizada pelo INCRA, reposicionou o quadro fundiário no Acre, colocando o Estado como detentor de pouco mais da metade das terras, o que até então, era impensável, pois como destacamos no capítulo II, o quadro fundiário fazia do Estado uma anomalia, pois havia mais terra registrada nas mãos dos proprietários privados do que a área territorial real. Essa transição no sistema de propriedade da terra se configura como um dos aspectos mais importantes pelos quais passou o Governo do Acre desde o início da década de setenta. Digna de registro também são as mudanças pelas quais passaram os 331

trabalhadores extrativistas a partir dessa data quando iniciaram seus processos de resistência. No caso do Governo, essa discriminação de terras, significou maior capacidade de controle dos diversos níveis de conflitos em que vários segmentos de sua população estavam envolvidos, podemos mesmo dizer, estavam conflagrados, haja vista o clima de guerra que imperava em algumas áreas84. O Estado, na sua esfera administrativa, passou a ter a condição de mediar esses conflitos, por dispor agora, de meios para disciplinar a distribuição e nomear as novas possibilidades de uso da terra, aspecto que toma forma legal na aprovação do Zoneamento Ecológico Econômico pela Assembléia Legislativa. Para os seringueiros, a demarcação das reservas significou, em última hipótese, livrá-los do confronto direto com os, até então, ditos proprietários. Em outras palavras, não é que eles passaram a ter títulos de propriedade, pois ser morador de uma reserva extrativista é apenas uma concessão, uma permissão do Estado, mas, de outro modo, passaram a ter como interlocutor o Governo e, não mais os “proprietários” particulares. O fato do Estado (Governo) hoje ser responsável por 55,47% das suas terras (entre Áreas Naturais Protegidas e áreas destinadas aos Projetos de Assentamento, etc.), o que em termos absolutos representa mais de nove milhões de hectares, num total de pouco mais de dezesseis milhões, não pode de fato ser desconsiderado. Para um Estado que chegou a situação de ter um nível de concentração em torno de 97% de suas terras em mãos, ou reivindicadas por particulares há apenas 30 anos, podemos considerar esse aspecto, como um avanço significativo. Esse fato por si, já ajudou a reduzir bastante os conflitos fundiários, não fossem os estragos anteriores, causados pelas “limpezas de territórios”, promovidas pelos fazendeiros “paulistas”, que expulsaram os moradores das florestas, tanto para as cidades do entorno, como para o Peru e a Bolívia, e as conseqüências dessa movimentação populacional para cidades que não tinham as mínimas condições de absorvê-las, possivelmente a qualidade de vida dessa população seria bem melhor.
84

- Porto Gonçalves (2005: 56), escrevendo sobre a violência nos processos de “limpeza” das áreas compradas pelos paulistas diz: “Assim, sem nenhum exagero, pode-se dizer que a ocupação recente da Amazônia está banhada no sangue daqueles a quem só restou a alternativa de uma resistência heróica. Se associarmos que esse processo se passava num contexto de regime ditatorial no qual, entre outros, se incluía a censura à imprensa, pode-se compreender as dificuldades por que passaram essas populações sem que pudessem divulgar as injustiças a que se viam submetidas”.

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Acontece que, se por um lado, diminuiu o nível de conflito no campo, especialmente os conflitos com os trabalhadores extrativistas dessa região do Vale do Rio Acre, onde o avanço dos fazendeiros foi maior, por outro, aumentaram os níveis de conflitos nas cidades, que se viram, de uma hora para outra, “inchadas” e sem condições de oferecer opções de emprego e renda para essas populações deslocadas. Sem mencionar a piora nas condições dos que atravessaram as fronteiras com os países vizinhos, haja vista, terem perdido quase tudo, do pouco que tinham deste lado. Essa rarefação populacional, obviamente, contribuiu para a redução dos conflitos, o que também precisa ser contabilizado para não relativizarmos os efeitos dos processos de “limpeza”, pois na medida das necessidades iniciais dos novos proprietários, eles foram bastante eficientes. Para os trabalhadores extrativistas que permaneceram nas florestas, principalmente após a demarcação das reservas extrativistas e a chegada da Frente Popular ao governo, uma série de investimentos foram realizados, na tentativa de melhorar suas condições de vida, passando pelo incremento dos subsídios para os produtos tradicionais (borracha e castanha), chegando à introdução de novos produtos e novas técnicas para a diversificação extrativista, denominada de neoextativismo, tudo isso dentro dos amplos conceitos de desenvolvimento sustentável e florestania, que passaram a presidir, pelo menos teoricamente, as ações governamentais e não governamentais atuantes nesta região. A ascensão de uma força política, na década de noventa, que tinha sua base nos movimentos sindicais rurais e urbanos, em setores “progressistas” da Igreja Católica, além de setores médios e universitários, para os altos escalões do Governo do Estado, aliado ao avanço das ONGs e dos ambientalistas, compõem o novo quadro das lutas políticas, econômicas e socioculturais em que as populações extrativistas iriam passar a conviver. É nesse contexto que consideramos a ampliação das fronteiras para a sociodiversidade acreana, especialmente as fronteiras que se colocaram diante dos trabalhadores extrativistas. Os limites das colocações, dos seringais, se considerarmos os aspectos físicos do território, se modificaram, ou seja, se estreitaram, com as fazendas, com os projetos de assentamento, lançados pelos governos militares, em nível nacional e, pelos governos locais e civis. Porém, mais tarde, essas fronteiras voltaram a se expandir com as

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delimitações das reservas extrativistas, das unidades de conservação, enfim, com a nova configuração fundiária do Estado, estabelecida nos últimos dez anos do século XX. Todavia, há outras fronteiras que foram se estabelecendo, tão ou mais importantes do que as fronteiras físico-territoriais. Referimo-nos às fronteiras políticas e ecológicoambientais, especialmente. No aspecto das fronteiras políticas, saímos da situação em que os trabalhadores extrativistas não tinham a menor importância, ou no máximo, eram considerados como entraves ao desenvolvimento, para uma em que passaram a figurar como elementos decisivos para esses projetos. Obviamente, a valorização dos trabalhadores extrativistas não foi uma dádiva das elites governantes, na verdade, eles se fizeram ouvir, se fizeram notar, se fizeram presentes na história devido à suas lutas. O esforço empreendido para organizar seus sindicatos, para realizarem os empates, para construir o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), as alianças com os povos indígenas e, como demonstramos no capitulo III, suas alianças com os setores políticos, sindicais, religiosos e ambientalistas foram fundamentais nesse processo de elevação de sua posição social no Estado do Acre, depois ampliada para a Amazônia, até ganharem contornos nacional e internacional, ou seja, suas fronteiras se expandiram, ganharam dimensões extremamente complexas, ao ponto de alguns de seus membros, como Chico Mendes e Marina Silva, por exemplo, terem ganhado prêmios concedidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e ocupado importantes espaços nos fóruns e noticiários internacionais, tendo esta última, inclusive, assumindo postos de grande importância na República, como os cargos de Senadora e Ministra de Estado. Estas novas fronteiras, até então não vivenciadas, não percebidas, tais como a participação política, sindical, as lutas ambientais e as possibilidades que elas revelaram, ajudaram a consolidar ilhas de resistência, onde a defesa do meio ambiente, da reforma agrária, dos povos indígenas, da Amazônia, fazendo aqui uma referência ao seu ecossistema, ganharam esses novos atores. Contudo, devemos estar cientes que esse aprendizado, essa capacidade de participação, de organização política não se estendeu uniformemente para todos os trabalhadores extrativistas. Além disso, aqui também vivenciamos a formação de lideranças, que muitas vezes, se tornavam maiores do que o próprio movimento que representavam, atuando em outras faixas fronteiriças, onde a maioria dos seringueiros sequer sabia que existiam. 334

Alguns seringueiros e lideranças indígenas viraram palestrantes em eventos internacionais, passando a viajar por diversos países e, em alguns casos, a funcionar como consultores e representantes ad hoc de organismos internacionais, tanto governamentais como não governamentais, para tomada de decisão sobre questões amplas, como o financiamento de construção de uma estrada, de uma hidrelétrica, etc., ao mesmo tempo em que outros seringueiros e indígenas continuavam sendo submetidos às dificuldades inerentes à manutenção de sua sobrevivência no meio da mata. Com essa variação de atuação das lideranças e com a expansão dos pressupostos por que lutavam, alguns dos elementos iniciais, que ajudaram a agrupar os seringueiros, como a luta pela reforma agrária, a luta pela terra, foram sendo deixados de lado, ao mesmo tempo em que se dava prioridade às questões ecológico-ambientais. A acomodação com o novo formato da terra (a reserva extrativista), concebido como uma reforma agrária diferente, adaptada às condições Amazônicas, “acalmaram” as entidades sindicais e favoreceram o surgimento de outras propostas, tanto as oriundas do Conselho Nacional dos Seringueiros, que se especializou em orientar a elaboração de projetos com vistas a captar recursos de agências nacionais e/ou estrangeiras (governamentais e não governamentais), para serem aplicados em projetos que beneficiariam algumas comunidades, algumas famílias de determinada área, ou se submetiam aos projetos de algumas ONGs, que “sorteavam” algumas comunidades para aplicarem seus experimentos, sob a alegação de estarem realizando um projeto que objetivava melhorar as possibilidades de uso e/ou manejo sustentável do ambiente, naquelas comunidades. Com a eleição de prefeitos ligados a Frente Popular em alguns municípios, no início da década de noventa, e do Governador do Estado no final desta mesma década, esses projetos de uso e manejo sustentável dos recursos naturais foram ampliados por políticas públicas, que seguiam as mesmas diretrizes dos projetos das ONGs e agências multilaterais, ou seja, buscava-se levar benefícios para comunidades que estavam dentro do espectro de atuação de uma reserva, por exemplo, ou criando pólos agro-florestais, mas sempre orientando esses projetos para experiências que preenchessem os requisitos exigidos pela ONGs e agências financiadoras. Tanto no caso dos recursos das agências multilaterais, como das ONGs, nunca são repassados diretamente para as comunidades, em verdade, comumente são administrados 335

por estruturas montadas para essas tarefas, ou seja, o staff administrativo do governo ou da própria ONG, onde boa parte fica retida para esses encargos, o que favorece o aparecimento de uma espécie de “elite” entre os dirigentes de ONGs. No caso do governo, que é regido por outra estrutura burocrática, esses recursos são repassados para essa “elite” através dos mecanismos denominados consultorias. Quando chegam, já reduzidos, ao ponto final de sua destinação, esses recursos geralmente são alocados nas mãos das lideranças da comunidade, o que projeta até nesses níveis a criação de algum tipo de hierarquia, ou seja, aquela situação recíproca originária dos empates, foi cedendo lugar para outros modelos de organização social que criam ou reafirmam conceitos diferenciadores entre seus membros, ao invés de incentivar práticas cooperativas e solidárias. O que viemos tentando ressaltar é que, com a “desqualificação” do movimento sindical e o aparecimento de outros organismos “parceiros” dos trabalhadores extrativistas, essas organizações ajudaram a fragmentar a base seringueira, promovendo divisão entre as comunidades. Esse modelo de atuação, que elege comunidades específicas para “trabalhar” os projetos financiados, foi ao longo dos anos criando uma divisão entre os seringueiros, entre as comunidades, como se de repente houvesse algumas mais habilitadas e outras incompatíveis para receberem esses benefícios. Esses critérios de seleção contaminaram os próprios trabalhadores no extrativismo, ao ponto de representantes da Associação de Moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes de Brasiléia (AMOREB), em 2001, por exemplo, terem se posicionado contra o assentamento de brasileiros que estavam voltando da Bolívia, expulsos daquele país, por entenderem que aqueles não tinham as mesmas credenciais ecológico-ambientais que eles para morarem numa reserva. Para esses dirigentes, os brasileiros que haviam “fugido” para a Bolívia na época dos conflitos no Acre, não mereciam morar nas reservas porque tinham sido “covardes” nos momentos de enfrentamento, dos empates, das lutas pela demarcação das reservas85.

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- Nesse processo, acompanhamos parte da “disputa” entre membros do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia que eram favoráveis ao assentamento dos brasileiros retornados da Bolívia nas áreas da RESEX – Chico Mendes, contra os representantes da Associação de Moradores da Reserva Extrativista (AMOREB), que eram contra. Mas, nessa época o sindicato já não tinha o mesmo vigor do início da década de oitenta, por exemplo. Haviam aparecido outros interlocutores para o movimento.

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O problema principal, a ser resolvido, pelos defensores das teses do desenvolvimento sustentável, reside nestes aspectos: as propostas, os projetos, até mesmo as políticas públicas voltadas para os trabalhadores extrativistas são limitadas, pouco abrangentes. Enquanto se desenvolve um programa em uma comunidade, milhares de outras continuam sem contato, sem perspectiva de terem suas reivindicações atendidas, mas a questão mais grave ocorre com as milhares de pessoas que foram expulsas de suas antigas colocações e passaram a viver perambulando pelas periferias das cidades, ou mesmo pela zona rural e florestas, sem terem ocupação e renda definidas. A forma clássica de atuação do Governo, neste sentido, que mesmo após as eleições sucessivas de representantes da Frente Popular foi a de continuar a investir, ou apoiar a iniciativa privada, na perspectiva de que esta, ao desenvolver-se, gere empregos, renda e que absorva esse grande número de pessoas desempregadas. Mas, como já destacamos, as grandes empresas que atuam no Acre são as dos setores pecuários, madeireiros e, por último vem chegando a agricultura (monocultura) de exportação, todos esses são setores que, comprovadamente, geram poucos empregos e tendem a se especializar cada vez mais, a partir da utilização de tecnologias que dispensam a mão-de-obra menos qualificada86. Em termos práticos, as lutas dos seringueiros que engendraram um novo quadro político no Acre, criaram também as condições para a construção de novos caminhos, que deveriam ter como base os princípios da igualdade, do respeito à natureza e da geração de oportunidades para todos. Porém, essas idéias não estavam na cabeça de todos os segmentos da população. Até seria muito simples se essas condições fossem hegemônicas, mas, a consolidação dessas idéias não passava apenas pelos circunscritos círculos dos sindicalistas, dos religiosos, dos militantes de esquerda, dos membros das ONGs, dos ambientalistas e dos ecologistas, antes convivia com uma disputa que envolvia setores médios da sociedade até atingir os mais abastados. É nesse contexto que vemos nascer uma contradição. A participação nos processos eleitorais (como demonstramos no Capítulo IV), que permitiram a ascensão de militantes e colaboradores dos sindicatos, dos trabalhadores extrativistas, dos ambientalistas, enfim,
86

- Ricardo Antunes (1995) e Márcio Pochman (2003 e 2004) desenvolveram estudos recentes que apontam uma tendência do setor produtivo especialmente os setores primário e secundário, em reduzir os empregos e a renda dos trabalhadores, favorecendo somente setores especializados. No caso da mão-de-obra no Acre, a que mais precisa de emprego e renda é exatamente essa parte da população de menor escolaridade, que foi expulsa das matas, onde se observa uma incompatibilidade crônica com a “especialização”.

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desse conjunto que representava uma contestação ao projeto desenvolvimentista para os postos de governo, contribuíram, para desarticular os sindicatos e, por outro lado, fortaleceu aquelas posições, vestida neste período com a armadura sustentabilista, cujos membros são muito hábeis nos liames da estrutural estatal. Ao ocuparem os postos de comando no Governo do Estado do Acre, os “herdeiros” das lutas dos trabalhadores extrativistas passaram a se preocupar com questões mais abrangentes, com outras necessidades, ou se quisermos ser mais diretos, passaram a se preocupar com as necessidades das classes dominantes, que não haviam “deposto as armas”, embora tivessem feito concessões no processo político, pressionados pela inesperada reação dos trabalhadores extrativistas. A sensação é que os trabalhadores extrativistas estão nos dois pólos: por um lado, aparecem como sendo parte do governo, por outro, como sendo a parte que mais precisa do governo, se o pensarmos como responsável por políticas de inclusão social e de resolução dos problemas que envolvem os proprietários e os não-proprietários. Porém, essa disputa de posições não conseguiu afastar o espectro fundamental da economia capitalista, ou seja, manteve o princípio da busca de acumulação incessante de capital, que é sua razão de existir e a razão de ser de todas as estruturas criadas pelo capitalismo, mesmo quando forças políticas, que teoricamente representam interesses opostos, conseguiram se apossar de uma das estruturas do Estado. Mesmo sendo inegável que as disputas entre concepções diferentes forçaram uma remodelagem do papel do Estado, este se manteve fiel a uma de suas principais atribuições, que é a de disciplinar as condições de acumulação, recompensando quem consegue realizar com êxito a “tarefa” e punindo quem não consegue, ou seja, mesmo mudando os métodos, permaneceu como articulador da exploração capitalista. Nesse contexto, a economia do Estado do Acre, hoje, em que pese às configurações dos discursos, das imagens, da linguagem e da propaganda governamental que se autointitula o “governo da floresta”, tem como principais produtos geradores de acumulação a pecuária e a exploração madeireira, seguidas pela manutenção de uma, ainda, desproporcional concentração fundiária87.
87

- Desde 1999, o Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável vêm publicando um “anuário de bolso” denominado “Acre em Números”, onde podemos constatar a evolução dos principais setores produtivos do Estado, de onde recolhemos a informação sobre o

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A nova linguagem adotada pelos governantes do Estado, de valorização dos “povos da floresta”, de investimentos em um tipo de desenvolvimento inclusivo, respeitador da natureza (desenvolvimento sustentável, neoextrativismo, florestania, etc.), refletem as concessões possíveis na mediação das forças que se digladiaram nas disputas por espaços, territórios e concepções de mundo, no período em estudo, mas a persistente permanência da grande propriedade e dos modelos econômicos implementados, contrários a esse discurso, também demonstram as contradições e ambigüidades do mesmo. Neste sentido, faz-se mister questionar até onde as disputas entre os diversos agentes que passaram a interagir nesse espaço contribuíram para engendrar um reordenamento, não só agrário, mas também social, político, econômico, ecológico e cultural, gerando a organização de novos modos de vida, estabelecendo novas fronteiras para a sociodiversidade e criando novas referências para as relações homem-natureza nesta parte da Região Amazônica? Não é irrelevante o fato de encontrarmos nessa parte tão distante do Brasil, um Estado cuja composição de governo seja tão diversa e, mais, que mesmo considerando todas as contradições existentes em seus ambientes internos e em suas políticas públicas, consegue engendrar um nível de interlocução com segmentos sociais que vão desde latifundiários até índios e seringueiros. Como demonstramos, permanece um razoável desnível econômico separando esses contingentes adversos, ao mesmo tempo, impressiona a grandeza em que se encurtaram os desníveis políticos e sociais. Além disso, está evidente que as elites regionais, antigas e recentes, que sempre tiveram a primazia, na perspectiva de definir unilateralmente seus graus de relacionamento com o poder central e com as articulações empresariais nacionais e internacionais, não estão mais à vontade para centralizar esses processos. Os acreanos das colocações, dos varadouros, das aldeias, das beiras de rios também conseguiram formas de se fazer visível, de se fazer ouvir. As redes de interlocução podem não ser as mesmas das elites tradicionais, mas não é desconsiderável o poder que esses povos conquistaram a partir de suas alianças e de suas conexões políticas.

crescimento da pecuária e da exploração madeireira. Para se ter uma idéia melhor, vamos mencionar apenas o crescimento do rebanho bovino, que no início da década de 90 não atingia um milhão de cabeças, chega em 2006 a dois milhões e quinhentas mil cabeças, ou seja, um número quatro vezes maior do que a população do Estado.

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No caso do Estado, mais especificamente seu braço político, também não é mais o mesmo, mas sua estrutura ainda continua muito rígida, no sentido de manter-se na posição de controlar as mudanças ou de impedir que elas aconteçam na direção oposta à ordem capitalista. Mudaram métodos, não restam dúvidas, mas os propósitos, as diretrizes não são tão flexíveis. Diante desse quadro, é possível que a tese do desenvolvimento sustentável continue sendo acompanhada pelo impertinente antefixo (in), que usamos no título deste trabalho, pois, assim como os trabalhadores atravessaram muitas fronteiras no seu processo de reconhecimento, mesmo não conseguindo conformar uma que os contemplasse na sua plenitude, as novas forças políticas que ora ocupam os postos de comando no Governo também não conseguiram alargar os varadouros, assim como fizeram com as avenidas das cidades, apontando a direção de uma sociedade pós-consumista, mais solidária, mais voltada para a redistribuição, enfim, mais recíproca. Poderíamos também concluir que não há um culpado que possa ser nominado pela não materialização de outra estrutura socioeconômica, para ser levado ao banco dos réus. Os que vêem os novos ocupantes dos cargos de primeiro escalão do Governo como culpados, podem estar superlativizando, para o bem ou para o mal, o poder do Governo em relação ao Estado, compreendido na sua forma mais ampla. Estamos cientes de que o Governo tem sim, melhores e maiores condições de interferir nos rumos da sociedade, mas, ao mesmo tempo, sabemos que as camadas populares (o povo, as classes, as massas, as multidões, como quisermos definir) são essenciais para direcionar esse governo, nesse sentido, as condições de (in)sustentabilidade são pendulares e, os movimentos do pêndulo podem tomar outras direções, se forças diferentes o impulsionarem. Quantos serão na verdade os que lutam, os que querem uma sociedade pósconsumista, mais solidária, mais recíproca, mais redistributiva? Para os que acreditam que é possível construir uma sociedade não-individualista, não-liberal, não-predatória, os campos de batalha estão abertos, só nos resta seguir os versos da Internacional: “Bem unidos façamos dessa luta final uma terra sem amos...”.

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* Jornal “Nós Irmãos” – arquivo da Diocese do Acre-Purus em Rio Branco. Foram realizadas fotografias das matérias. * Relatórios do Zoneamento Ecológico-Econômico (Três volumes da 1ª fase e um da 2ª fase. Trabalho impresso com cópias disponíveis e também virtualmente no site do Governo do Acre. (www.ac.gov.br). * Relatório do Censo Demográfico – IBGE – 1970 – Sede do órgão em Rio Branco. * Relatório sobre situação fundiária do Acre – INCRA – 1999 – Sede da Superintendência Regional em Rio Branco.  Plano de Governo de Flaviano Melo 1987 – 1990.  Plano Plurianual 2000 – 2003 do Governo do Acre.  Plano Plurianual 2004 – 2007 do Governo do Acre.  Plano Estratégico do Governo do Acre 2007 -2010.  Plano Amazônia Sustentável – PAS 2008 – Governo Federal e Governos da Amazônia legal.  Diário Oficial da Assembléia Legislativa do Estado do Acre no período compreendido entre 1986 a 2008. Atenção especial para as Atas dos discursos dos Governadores em cada início de ano legislativo.  ALEAC – ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO ACRE – Seringueiros na Bolívia: Acre – Bolívia, Rio Branco, 1994.  Acre em Números – publicação anual desde 1999, sob responsabilidade da Secretaria Estadual de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável – SEPLANDS.

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ESTEVES, Benedita M. G. Do “manso” ao guardião da floresta. Estudo do processo de transformação social do sistema seringal, a partir do caso da Reserva Extrativista Chico Mendes. Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 1999. (Tese de Doutorado). FERNANDES, Marcos Inácio. O PT no Acre: a construção de uma terceira via. Natal: UFRGN, 1999. (dissertação de Mestrado). MONTYSUMA, Marcos Fábio Freire. Senhores das matas: experiência extrativista na RESEX Chico Mendes – Xapuri (1983 – 2002). São Paulo: PUC, 2003. (Tese de doutorado). MOURÃO, Nilson M. L. A prática educativa das comunidades eclesiais de base no Estado do Acre: popular e transformadora ou clerical e conservadora?. São Paulo: PUC, 1988 (Dissertação de Mestrado). PAULA, Elder Andrade de. Estado e desenvolvimento insustentável na Amazônia Ocidental: dos missionários do progresso aos mercadores da natureza. Rio de Janeiro: CPDA, 2003. (Tese de Doutorado). ______. Seringueiros e sindicatos: um povo da floresta em busca da liberdade. Rio de Janeiro: CPDA/UFRJ, 1991. (Dissertação de Mestrado). RÊGO, José Fernandes do. Estado capitalista e políticas públicas: Estado brasileiro, processo de ocupação capitalista e extrativismo da borracha na Amazônia. Campina Grande: UFPB, 1992. (Dissertação de Mestrado). SILVA, J. Porfiro. Preservação e sutileza: a política de desenvolvimento do governo do Acre (1987-1990). Rio de Janeiro: UFRRJ/CPDA, 1998. (Dissertação de Mestrado). SILVA, Sílvio Simione da. Resistência camponesa e desenvolvimento agrário na Amazônia-Acreana. Presidente Prudente: UNESP, 2005. (Tese de doutorado). SOUZA, Carlos Alberto A. de. Varadouros da Liberdade: Empates no Modo de Vida dos Seringueiros de Brasiléia. São Paulo: PUC, 1996. (Tese de Doutorado).

3 - ENTREVISTAS:

1 - SILVA, Pedro Celestino da. Seringueiro, 62 anos. Entrevista realizada no município de Xapuri em janeiro de 2001. 2 - BARROS, Raimundo Mendes. Ex–seringueiro, é um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri; atualmente é vereador deste município. Morou de

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forma espontânea na Bolívia na década de sessenta. Depoimento colhido em Xapuri, em janeiro de 2001. 3 - SILVA, Francisco Xavier da. Seringueiro, 56 anos. Depoimento concedido em janeiro de 2001, no município de Xapuri. 4 - SILVA, José Pereira da. Seringueiro. Depoimento concedido em janeiro de 2001, no município de Xapuri. 5 - SILVA, Raimundo Morais da. Seringueiro, 58 anos. Depoimento concedido em janeiro de 2001, no município de Xapuri. 6 - MONTEIRO, Francisco. “O Monteirinho”. Ex-seringueiro, é sindicalista e músico, morou na Bolívia na década de sessenta. Depoimento concedido em janeiro de 2001. 7 - AQUINO, José Maria. “O Boca”. É sindicalista e dirigente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Depoimento concedido em junho de 2001, no município de Brasiléia. 8 - SILVA, Simão Pedro da. Ex-seringueiro, atualmente vive de pequeno comércio e criação de gado. Depoimento concedido em janeiro de 2001, no município de Xapuri. 9 - SILVA, Bartolomeu Moreira da. Seringueiro, 67 anos, morou mais de vinte anos na Bolívia e está de volta tentando “arrumar” uma terras para trabalhar no lado Brasileiro. Depoimento concedido em junho de 2001, em Brasiléia. 10 - SILVA, Maria Carolina da. Depoimento concedido em junho de 2001, em Brasiléia. 11 - FREITAS, Rosildo Rodrigues de. É presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, 38 anos e ex-seringueiro. Entrevista concedida em janeiro de 2001. 12 - SOUZA, Francisco Cecílio de. Depoimento concedido ao autor em 19 de janeiro de 2001.

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