Introducao Fisico Quimica
Introducao Fisico Quimica
Introducao Fisico Quimica
Físico-Química I
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2 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
Marcus V. C. Cardoso
Departamento de Química
Universidade Federal de Ouro Preto
1 de agosto de 2022
2 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
Apresentação
A Físico-química como o próprio nome indica, é a área de química que busca
compreender e explicar os sistemas e os processos químicos através das leis e teo-
rias físicas. Inerentemente, a Físico-química lança mão de equações matemáticas
e teorias físicas, sendo, portanto, conhecimentos prévios, em nível básico, de cal-
culo diferencial e integral bem como de disciplinas básicas de física (mecânica,
eletromagnetismo) e de química (átomos, moléculas, funções químicas, ligações
químicas, interações intermoleculares, ..., etc). Não é de se admirar que alunos e
ex-alunos considerem a Físico-Química como sendo a área mais difícil e problemá-
tica de um curso de química. Pode-se, no entanto, afirmar que o estudo de Físico-
química requer habilidades que, geralmente, não são requeridas em outras áreas
da química. Infelizmente, o muito que se fala e discute sobre um curso de Físico-
química em nível introdutório ou avançando se reduz ao fato de ser ou não “difícil”
. O certo e mais importante da Físico-química é que ela é uma das áreas mais inte-
ressantes, não somente do curso de química, mas também de todo o conhecimento
de um modo geral. A físico-química busca, em última instância, desvendar as cau-
sas, identificar as forças motrizes que regem os fenômenos, não somente daqueles
reproduzidos nos experimentos laboratoriais, mas todos os fenômenos naturais ob-
serváveis. As perguntas a serem respondidas podem ser várias, desde o porquê do
azul do céu, como funciona o processo fisiológico da visão, ou ainda, sendo mais
audaciosos, como a vida começou. A propósito, “O que é a vida?” talvez esta tenha
sido a pergunta mais feita pela humanidade e que fora brilhantemente respondida
pelo físico Erwin Schrödinger. Despindo-se de quaisquer considerações místicas
ou religiosas, a vida, segundo Schroedinger, nada mais é do que um conjunto de
processos (bio)químicos regidos pelas leis físicas, obedecendo a mecânica quântica
nos níveis atômico-molecular e às leis Termodinâmicas em nível macroscópico. O
estudo de físico-química e a compreensão das leis que regem o nosso universo pro-
veem uma ferramenta que o homem dispõe para melhor compreender o mundo e a
essência da vida.
volume (V ), pressão (P), massa (m), e outras que serão subsequentemente defini-
das. A Termodinâmica nasce ainda no século XVIII a partir de experimentos e
observações realizados com gases, em especial para se compreender melhor como
os balões de ar quente funcionam. Mas foi no século XIX que ganhou corpo e
robustez com formulações precisas. Todos os fenômenos e as consequências da
Termodinâmica são completamente descritos por três princípios baseados em ob-
servações experimentais e fenomenológicas. Estes princípios mostraram-se invio-
láveis e válidos para quaisquer sistemas macroscópicos, desde uma gota de água
até uma galáxia. Estes princípios são, portanto, chamados de Leis da Termodinâ-
mica. Na verdade existe um quarto princípio ainda mais fundamental que as três
primeiras Leis da Termodinâmica e que, por ser tão óbvio e facilmente observado,
fora somente reconhecido após os três primeiros princípios já terem sido formula-
dos e é, portanto chamado de Lei Zero da Termodinâmica. A formulação da TD
não precisa da hipótese atômica e é válida para qualquer sistema de qualquer tama-
nho e composição. As suas relações e Leis tem validade geral. Sejam experimentos
realizados no interior de um tubo de ensaio, ou de um béquer, ou uma planta, ou
até mesmo um ser humano, todos os sistemas macroscópicos obedecem às Leis da
TD. Tais leis, no entanto, falham na descrição de sistemas formados de pequenos
números de partículas e nem podem descrever o comportamento individual de áto-
mos e moléculas. Para tais sistemas torna-se necessário os princípios da mecânica
quântica, pois em escala atômico-molecular, as leis da mecânica clássica não são
válidas. A Termodinâmica Estatística (vide Fig. 1.1) leva em consideração os prin-
cípios de mecânica e química quântica lançando mão da natureza estatística devido
às populações de partículas (átomos e moléculas) serem astronomicamente gran-
des nos sistemas termodinâmicos, até mesmo os sistemas vistos em microscópio.
Através da Termodinâmica Estatística, todas as equações e propriedades macros-
cópicas são obtidas baseadas unicamente em princípios estatísticos e na descrição
atômico-molecular da matéria. A Termodinâmica Estatística é o elo entre o mundo
atômico-molecular, descrito pelas leis quânticas, e o mundo macroscópico descrito
pelas Leis da Termodinâmica. As três áreas: Termodinâmica, Mecânica quântica,
e Termodinâmica Estatística são totalmente fundamentadas teoricamente. A parte
da Físico-química que lida com a velocidade dos processos químicos (cinética quí-
mica), por outro lado, apoia-se nas três áreas da Físico-química para a descrição
4 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
Parede
1. rígida - não permite variações de tamanho, logo não se pode trocar energia
na forma de trabalho mecânico. Um cilindro fechado como uma caldeira
apresenta paredes rígidas, pois as mesmas não alteram o volume.
Sistemas
uma típica unidade de densidade seria kg/m3 , ou ainda g/`, mg/m`. Pode-se re-
presentar as unidades na forma de razões da seguinte forma: kg m−3 = kg/m3 , ou
mg m`−1 e assim por diante.
Mole
n(mol)
c≡ . (1.2)
V (`)
A concentração molar é uma propriedade termodinâmica intensiva. Um litro de
vinagre de concentração de ácido acético 41 g `−1 apresenta a mesma concentração
que uma alíquota deste vinagre contendo 2,0 m`.
m
n= . (1.3)
M
em que M é o símbolo de massa molar cuja unidade na International Union of Pure
1.2. PROPRIEDADES TERMODINÂMICAS 7
Pressão A pressão, P, pode ser definida como força, F = [N], por unidade de
área, A = [m2 ], sendo portanto:
F
P≡ . (1.4)
A
N
n= . (1.5)
NA
Massa molar
g
M= . (1.6)
mol
8 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
Energia
d(mv)
F= = ma (1.8)
dt
A definição da 2a Lei de Newton na forma da Eq. (1.8) trata a magnitude do
momento linear e do módulo do vetor aceleração.
d~v d2~r
|~a| = = 2 (1.9)
dt dt
em que |~r| é o módulo do vetor deslocamento. A partir da Eq. (1.8) o vetor acelera-
ção é proporcional e co-linear ao vetor força. A massa é portanto a contante entre
a força e a aceleração.
Trabalho Mecânico
dw = F dr. (1.10)
A Equação (1.10) é uma simplificação para a situação em que ~F e~r são co-lineares.
Se a direção de aplicação da força e o deslocamento não forem os mesmos, então o
trabalho é calculado por
dw = F cos θ dr, (1.11)
sendo θ o ângulo entre o vetor ~F e o vetor deslocamento~r.
Para o caso de uma força que permanece constante durante sua aplicação, o
trabalho ao longo do deslocamento torna-se:
Z r1
w= F dr = F (r1 − r0 ) , (1.12)
r0
Energia Mecânica
Uma formulação matemática destas ideias pode ser escrita como o trabalho
realizado por uma força F(r) a qual provoca alteração da posição de um corpo
desde o ponto inicial, r0 , até uma posição r1 é:
Z r1
w= F(r) dr. (1.16)
r0
Z r1
w= F(r) dr = Ek1 − EK0 . (1.19)
r0
F(r) dr = −dU(r)
ou
(1.20)
dU(r)
F(r) = − .
dr
U(r) é a energia potencial que depende apenas da posição da partícula em rela-
ção ao campo de força. Há vários tipos de potencial energético tais como: eléc-
trico, magnético, gravitacional e químico. Este último tipo de potencial energético
pode parecer ainda obscuro, mas será bem definido em Físico-Química II após o
estudo inicial de Termodinâmica. O potencial químico, µ, representa as contri-
buições energéticas de um determinado componente químico quando encontra-se
num meio fazendo interações intermoleculares e podendo-se ordenar e distribuir de
diferentes formas. A forma funcional da Eq. (1.20) mostra que a força que atua
num determinado campo potencial, U(r), faz com que a energia alcance um valor
mínimo à medida que se desloca para regiões em que U(r) torna-se menor em sinal
e módulo. Por exemplo, um objeto de massa m que se localiza a uma altura h = 2 m
do solo, apresenta uma energia potencial gravitacional maior do que no nível zero.
Assim, o corpo ao ser solto tenderá a cair espontaneamente levando a um abaixa-
mento da energia potencial e um consequente aumento de sua energia cinética até
atingir o solo. Desprezando-se as forças de atrito, toda a energia potencial gravita-
cional, U(r) = mgh, converte-se em energia cinética, Ek = 21 mv2 . Este princípio de
conservação da energia mecânica é diretamente aplicado a outros potenciais ener-
géticos e conduz ao Princípio da Conservação da Energia Mecânica:
Z r1
F(r) dr = U(r0 ) −U(r1 ) = EK1 − EK0
r0
ou
U0 + EK0 = U1 + EK1 . (1.21)
A Equação (1.21) tem exatamente a forma de conservação entre os estados ini-
cial e final. A situação da queda de um corpo na presença de forças de atrito leva
diretamente ao fato de que parte da energia mecânica é convertida em calor. Este
princípio será estudado mais pormenorizadamente nas seções futuras. É importante
notar que embora seja possível definir um valor zero de energia cinética no repouso,
não é possível ter uma energia potencial U(r) = 0 a não ser que se faça uma de-
finição. O nível zero de energia potencial é, por convenção, definido como zero
quando as partículas interagentes encontram-se a uma distância infinita, U∞ = 0.
12 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
Equilíbrio
Figura 1.3: No topo dois Corpos A e B isolados do universo são colocados em con-
tato por uma parede {rígida, impermeável e diatérmica} até atingirem um estado
de equilíbrio térmico (base da figura).
percebem mais nenhuma mudança nas propriedades dos corpos A e B. Como visto
na Seção (1.2), o novo sistema constituídos dos corpos A e B alcançou o equilíbrio.
Como os corpos A e B são separados por uma membrana rígida e impermeável,
não pode haver transferência de energia mecânica nem de matéria entre os cor-
pos. Como suas propriedades alteram com o tempo até um ponto de equilíbrio, a
partir do qual suas propriedades permanecem constantes, pode-se dizer que A e B
apresentam uma propriedade em comum propiciada pela parede diatérmica. Essa
propriedade e denominada temperatura.
calor (q) - é a energia que se transfere entre dois corpos estando em diferentes
temperaturas.
ratura foi introduzida em 1698 por Dalencé o ponto de fusão da neve igual a -10°e
o ponto de fusão da manteiga +10°. Estas escalas não tiveram utilidade e não tive-
(a) ram abrangência geral. Em 1714 Gabriel Daniel Fahrenheit de origem germânica,
propôs uma escala de temperatura em que a mínima temperatura alcançável em seu
laboratório seria a temperatura de congelamento de uma solução aquosa saturada
de NaCl e como 90 a temperatura aproximada do corpo humano. Devido às impre-
cisões, a temperatura correspondente à temperatura normal do corpo humano em
valores corrigidos é 98,6 °F. Para Fahrenheit a temperatura de 100 °F seria a tempe-
ratura máxima do corpo humano o qual sucumbiria a morte ao atingi-la. A escala
de temperatura Fahrenheit só é usada nos Estados Unidos e mesmo na Alemanha
e no restante do mundo a escala mais empregada é a de graus Celsius. A escala
de temperatura adotada mundialmente tanto cientificamente quanto em questões
do dia a dia é a escala centígrada denomina de graus Celsius cujo símbolo é (°C)
em homenagem ao Astrônomo sueco Anders Celsius que empregou uma escala de
temperatura centígrada sendo o 0 a temperatura de ebulição ao nível do mar e 100
a temperatura de fusão da água pura. Posteriormente a escala fora usada em modo
reverso, i.e. 0 °C a temperatura de fusão da água, e 100 °C a temperatura de ebuli
cão da água a 1 atm de pressão. A temperatura de 0 °C corresponde a 32 °F e a
(b) temperatura de ebulição da água 100 °C corresponde a 212 °F.
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Exemplo - Uma temperatura de 100 °F corresponde a θ /°C = 9 (100 −
32)°F/°F =⇒ θ /°C = 37,78.
Figura 1.5: Termômetros esque-
máticos, (a) temperatura de equi-
líbrio água - gelo; (b) temperatura Praticando 1.1 - Determine a temperatura em °C correspondente a um dia quente
de equilíbrio água - vapor a 1,0 na região do Arizona de 112 °F.
bar de pressão.
Praticando 1.2 - Construa uma escala de temperatura baseando-se nos pontos de
fusão e ebulição do elemento químico Gálio. Atribua o zero °G (zero grau Gálio)
sua temperatura de fusão, e 1000 °G (mil graus Gálio), sua temperatura de ebu-
lição. Dados para os pontos normais de fusão e ebulição do elemento Gálio:
θfus = 27,76 °C; θebu = 2400 °C.
16 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO A FÍSICO QUÍMICA
1.5 Exercícios
Definições básicas
(a) litros;
(b) cm3 ;
(c) dm3 ;
(d) galões?
8. A pressão manométricca sugerida para os pneus de uma bicicleta speed é de
65 psi (libras por polegada quadrada). Expresse esta pressão manométrica
em unidades:
(a) N/m2 ;
(b) mmHg;
(c) atm;
(d) bar.
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