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Sobre o Pragmatismo de William James.

Verdade e Realidade 1

Sobre o Pragmatismo
de Wiliam James

Verdade e Realidade 1

Como falar do pragmatismo depois de William James? E o


que poderíamos dizer sobre isso que já não se encontre dito, e bem
melhor dito, no livro surpreendente e encantador do qual temos a
tradução fiel? Nós evitaríamos tomar a palavra, se o pensamento de
James não fosse o mais freqüentemente diminuído, ou alterado, ou
falseado pelas interpretações que lhe são dadas. Muitas idéias
circulam que arriscam a se interpor entre o leitor e o livro, e a
difundir uma obscuridade artificial sobre uma obra que é a própria
claridade.
Compreender-se-ia mal o pragmatismo de James, se não se
começasse por modificar a idéia que se faz de modo corrente da
realidade em geral. Fala-se do “mundo” ou do “cosmos”; e essas
palavras, de acordo com sua origem, designam alguma coisa de
simples ou, ao menos, de bem composto. Diz-se “o universo”, e a
palavra faz pensar em uma unificação possível das coisas. Pode-se
ser espiritualista, materialista, panteísta, como se pode ser
1
 Este ensaio foi composto para servir de prefácio à obra de William JAMES
sobre o Pragmatismo, tradução de E. LE BRUN (Paris, Flammarion, 1911).

Henri Bergson
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indiferente à filosofia e satisfeito com o senso comum: sempre se


representa um ou muitos princípios simples pelos quais se
explicaria o conjunto das coisas materiais e morais.
É que nossa inteligência é apaixonada pela simplicidade.
Ela economiza o esforço, e quer que a natureza seja arranjada de
modo a não reclamar de nós, para ser pensada, senão a menor soma
possível de trabalho. Ela dá como justo o que é necessário em
matéria de elementos ou de princípios para recompor com eles a
série indefinida de objetos e de eventos.
Mas se, em lugar de reconstruir idealmente as coisas para
maior satisfação de nossa razão, nós nos ativéssemos pura e
simplesmente àquilo que a experiência nos dá, nós pensaríamos e
nos exprimiríamos de maneira inteiramente diferente. Enquanto
nossa inteligência, com seus hábitos de economia, se representa os
efeitos como estritamente proporcionais às suas causas, a natureza,
— que é pródiga, — coloca em causa muito mais do que é
requerido para produzir o efeito. Enquanto nossa divisa é “Apenas
o que é preciso”, a da natureza é “Mais do que é preciso”, — muito
disso, muito daquilo, muito de tudo. — A realidade, tal como James
a vê, é redundante e superabundante. Entre essa realidade e aquela
que os filósofos reconstroem, eu creio que foi estabelecida a mesma
relação que entre a vida que nós vivemos todos os dias e aquela que
os atores nos representam, à noite, sobre o palco. No teatro, cada
um não diz senão aquilo que é preciso dizer e não faz senão aquilo
que é preciso fazer; há cenas bem recortadas; a peça tem um
começo, um meio e um fim; e tudo está disposto da maneira mais
parcimoniosa possível em vista de um desfecho que será feliz ou
trágico. Mas, na vida, diz-se uma multidão de coisas inúteis, faz-se
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uma multidão de gestos supérfluos, não há situações nítidas; nada


se passa tão simplesmente, nem tão completamente, nem tão
agradavelmente quanto quereríamos; as cenas apropriam-se umas
das outras; as coisas não começam nem terminam; não há desfecho
inteiramente satisfatório nem gesto absolutamente decisivo, nem
dessas palavras decisivas e sobre as quais se permanece: todos os
efeitos são deteriorados. Assim é a vida humana. Assim é, sem
dúvida também, aos olhos de James, a realidade em geral.
Certamente, nossa experiência não é incoerente. Ao
mesmo tempo em que ela nos apresenta coisas e fatos, ela nos
mostra parentescos entre as coisas e relações entre os fatos: essas
relações são tão reais, tão diretamente observáveis, segundo Willian
James, quanto as coisas e os fatos eles mesmos. Mas as relações são
flutuantes, e as coisas são fluidas. Está longe daí esse universo árido
que os filósofos compõem com elementos bem recortados, bem
arranjados, e onde cada parte não está mais somente ligada a uma
outra parte, como nos diz a experiência, mas ainda, como quereria
nossa razão, coordenada ao Todo.
O “pluralismo” de William James não significa outra
coisa. A Antiguidade representava-se um mundo fechado, parado,
finito: é uma hipótese que responde a certas exigências de nossa
razão. Os modernos pensam, de preferência, em um infinito: é uma
outra hipótese que satisfaz outras necessidades de nossa razão. Do
ponto de vista onde James se coloca, — que é aquele da
experiência pura ou do “empirismo radical”, — a realidade não
aparece mais como finita nem como infinita, mas simplesmente
como indefinida. Ela corre, sem que nós possamos dizer se é em

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uma direção única, nem mesmo se é sempre e em toda parte o


mesmo rio que corre.
Nossa razão está menos satisfeita. Ela se sente menos à
vontade em um mundo onde ela não encontra mais, como num
espelho, sua própria imagem. E, sem nenhuma dúvida, a
importância da razão humana está diminuída. Mas o quanto a
importância do próprio homem, ele mesmo, — do homem inteiro,
vontade e sensibilidade, tanto quanto inteligência, — vai se
encontrar aumentada!
O universo que nossa razão concebe é, com efeito, um
universo que ultrapassa infinitamente a experiência humana, sendo
próprio da razão prolongar os dados da experiência, estendê-los
pela via da generalização, enfim, fazer-nos conceber muito mais
coisas do que jamais perceberíamos. Em semelhante universo, o
homem é considerado como fazendo pouca coisa e ocupando pouco
espaço: o que ele concede à sua inteligência, ele retira de sua
vontade. Sobretudo, havendo atribuído ao seu pensamento o poder
de tudo abraçar, ele está obrigado a representar-se todas as coisas
em termos de pensamento: suas aspirações, seus desejos, seus
entusiasmos, ele não pode pedir esclarecimentos sobre um mundo
onde tudo aquilo que lhe é acessível foi considerado por ele, de
antemão, como traduzível em idéias puras. Sua sensibilidade não
saberia esclarecer sua inteligência, da qual ele faz a própria luz.
As filosofias, em sua maior parte, restringem, pois, nossa
experiência no lado sentimento e vontade, ao mesmo tempo em que
a prolongam indefinidamente no lado pensamento. O que James nos
pede é não mais prolongar a experiência pelas vias hipotéticas, é
também não a mutilar naquilo que ela tem de sólido. Nós não
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estamos inteiramente seguros daquilo que a experiência nos dá; mas


nós devemos aceitar a experiência integralmente, e nossos
sentimentos fazem parte disso ao mesmo título que nossas
percepções, ao mesmo título, por conseqüência, que as “coisas”.
Aos olhos de Willian James, o homem inteiro conta.
Ele conta mesmo muito em um mundo que não o esmaga
mais com sua imensidade. Fica-se espantado com a importância que
James atribui, em um de seus livros , à curiosa teoria de Fechner
2

que faz da Terra um ser independente dotado de uma alma divina. É


que ele vê aí um meio cômodo de simbolizar, — talvez mesmo de
exprimir, — seu próprio pensamento. As coisas e os fatos dos quais
se compõe nossa experiência constituem para nós um mundo
humano , ligado sem dúvida a outros, mas tão distanciado deles e
3

tão perto de nós que devemos considerá-lo, na prática, como


suficiente para o homem e suficiente para si mesmo. Com essas
coisas e esses eventos nós fazemos corpos, — nós, quer dizer, tudo
aquilo que nós temos consciência de ser, tudo aquilo que nós
experimentamos. Os sentimentos poderosos que agitam a alma em
certos momentos privilegiados são forças tão reais quanto aqueles
das quais se ocupa o físico; o homem não as cria, não mais do que
ele não cria o calor ou a luz. Banhamo-nos, de acordo com James,
em uma atmosfera atravessada por grandes correntes espirituais. Se

2
 A Pluralilistic Universe, Londres, 1900. Traduzido para o francês na “Biblioteca 

de Filosofia Científica” sob o título de Filosofia da Experiência.   
3
  Muito engenhosamente, André CHAUMEIX sinalou semelhanças entre a
personalidade de James e aquela de Sócrates (Revue des Deux Mondes, 15
outubro de 1910). O cuidado de levar o homem à consideração de coisas
humanas para ele mesmo tem algo de socrático.
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muitos dentre nós aí se obstinam, outros se deixam levar. E existem


almas que se abrem inteiras ao sopro benfazejo. Estas são as almas
místicas. Sabe-se com que simpatia James as estudou. Quando
apareceu seu livro sobre A Experiência Religiosa, muitos aí não
viram senão uma série de descrições muito vivas e de análises
muito penetrantes, — uma psicologia, diziam eles, do sentimento
religioso. — Quão enganados estavam sobre o pensamento do
autor! A verdade é que James debruçava-se sobre a alma mística
como nós saímos, em um dia de primavera, para sentir a carícia da
brisa, ou como, à beira-mar, olhamos os pássaros e vemos os barcos
e o inchaço de suas velas para saber de onde sopra o vento. As
almas que o entusiasmo religioso preenche são verdadeiramente
elevadas e transportadas: como não nos levariam elas a perceber o
real, assim como numa experiência científica, a força que transporta
e que eleva? Aí está, sem dúvida, a origem, aí está a idéia
inspiradora do “pragmatismo” de William James. As verdades que
ele mais nos induz a conhecer são, para ele, verdades que foram
sentidas e vividas antes de serem pensadas . 4

Em todos os tempos diz-se que há verdades que despertam


o sentimento tanto quanto a razão; e em todos os tempos também se
diz que, ao lado das verdades que nós encontramos feitas, existem
outras que nós ajudamos a formar, que dependem em parte de nossa
vontade. Mas é preciso observar que, em James, esta idéia toma

4
 No belo estudo que consagrou a William James, — Revue de métaphysique et
de morale, novembro de 1910, — Émile Boutroux faz ressaltar o sentido todo
particular do verbo inglês to experience, que quer dizer, não constatar friamente
uma coisa que se passa fora de nós, mas provar, sentir em si, viver por si mesmo
tal ou qual maneira de ser.
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uma força e uma significação novas. Ela desabrocha, graças à


concepção da realidade que é peculiar a esse filósofo numa teria
geral da verdade.
O que é um julgamento verdadeiro? Nós chamamos
verdadeira a afirmação que concorda com a realidade. Mas em que
pode consistir esta concordância? Nós gostamos de ver aí algo
como a semelhança do retrato ao modelo: a afirmação verdadeira
seria aquela que copiaria a realidade. Reflitamos sobre isso, todavia:
nós veremos que é unicamente em raros casos, excepcionais, que
esta definição do verdadeiro encontra sua aplicação. Aquilo que é
real é tal ou qual fato determinado, acontecendo em tal ou qual
ponto do espaço e do tempo, é do singular, é do inconstante. Ao
contrário, a maior parte de nossas afirmações são gerais e implicam
numa certa estabilidade de seu objeto. Tomemos uma verdade tão
vizinha quanto possível da experiência. Esta por exemplo: “o calor
dilata os corpos”. De que poderia ela a reprodução? É possível, em
certo sentido, reproduzir a dilatação de um corpo determinado em
momentos determinados, fotografando-o em suas diversas fases.
Mesmo, por metáfora, eu posso ainda dizer que a afirmação “esta
barra de ferro se dilata” é a reprodução daquilo que se passa
quando eu assisto à dilatação da barra de ferro. Mas uma verdade
que se aplica a todos os corpos, sem concernir especialmente a
algum daqueles que eu vi, não copia nada, não reproduz nada. Nós
queremos, todavia, que ela reproduza alguma coisa e, em todos os
tempos, a filosofia procurou nos dar satisfação sobre esse ponto.
Para os filósofos antigos, havia, acima do tempo e do espaço, um
mundo onde tinha sede, por toda eternidade, todas as verdades
possíveis. As afirmações humanas eram, para eles, tanto mais
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verdadeiras quanto mais fielmente copiavam essas verdades eternas.


Os modernos fizeram descer a verdade do céu sobre a terra. Mas
eles a vêem ainda como alguma coisa que preexistiria às nossas
afirmações. A verdade estaria depositada nas coisas e nos fatos:
nossa ciência iria aí procurá-la, retirando-a de seu esconderijo,
trazendo-a para a luz. Uma afirmação tal como “o calor dilata os
corpos” seria uma lei que governa os fatos, que reina, senão acima
deles, ao menos em meio a eles, uma lei verdadeiramente contida
em nossa experiência e que nós nos limitaríamos a extrair dela.
Mesmo uma filosofia como aquela de Kant, — que quer que toda
verdade científica seja relativa ao espírito humano, — considera as
afirmações verdadeiras como dadas por antecipação na experiência
humana. Uma vez esta experiência organizada pelo pensamento
humano em geral, todo o trabalho da ciência consistiria em
atravessar o invólucro resistente dos fatos no interior dos quais a
verdade está alojada, como uma noz em sua casca.
Esta concepção da verdade é natural ao nosso espírito e
natural também à filosofia, porque é natural representar-se a
realidade como um todo perfeitamente coerente e sistematizado
sustentado por uma armadura lógica. Esta armadura seria a própria
verdade. Nossa ciência não faria senão encontrá-la. Mas a
experiência pura e simples não nos diz nada de semelhante, e James
atém-se à experiência. A experiência nos apresenta um fluxo de
fenômenos. Se tal ou qual afirmação relativa a um deles nos permite
dominar aqueles que se seguirão ou mesmo simplesmente prevê-los,
nós dizemos desta afirmação que ela é verdadeira. Uma proposição
tal como “o calor dilata os corpos”, proposição sugerida pela vista
da dilatação de um certo corpo, faz com nós prevejamos como
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outros corpos se comportarão em presença do calor; ela nos ajuda a


passar de uma experiência antiga a experiências novas, é um fio
condutor, nada mais. A realidade corre, nós corremos com ela. E nós
chamamos verdade a toda afirmação que, em nos dirigindo através
da realidade móvel, nos dá domínio sobre ela e nos coloca em
melhores condições para agir.
Vê-se a diferença entre esta concepção da verdade e a
concepção tradicional. Nós definimos, de ordinário, a verdade por
sua conformidade àquilo que já existe; James define-a por sua
relação com aquilo que não existe ainda. O verdadeiro, segundo
William James, não copia alguma coisa que foi ou que é: ele
anuncia aquilo que será ou, de preferência, prepara nossa ação sobre
aquilo que vai ser. A filosofia tem uma tendência natural a querer
que a verdade olhe para trás. Para James, ela olha para frente.
Mais precisamente, as outras doutrinas fazem da verdade
alguma coisa de anterior à ação bem determinada do homem que a
formula pela primeira vez. Ele foi o primeiro a vê-la, dizemos nós,
mas ela o esperava, como a América esperava Cristóvão Colombo.
Alguma coisa a escondia de todos os olhares e, por assim dizer, a
encobria. Ele a descobriu. Muito diferente é a concepção de
William James. Ele não nega que a realidade seja independente, em
grande parte ao menos, daquilo que nós dizemos ou pensamos dela;
mas a verdade, que não pode ligar-se senão àquilo que nós
afirmamos da realidade, parece-lhe ser criada por nossa afirmação.
Nós inventamos a verdade para utilizar a realidade, como nós
criamos dispositivos mecânicos para utilizar as forças da natureza.
Poder-se-ia, parece-me, resumir todo o essencial da concepção
pragmatista da verdade em uma fórmula tal como esta: enquanto
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para as outras doutrinas uma verdade nova é uma descoberta, para


o pragmatismo ela é uma invenção . 5

Não se segue daí que a verdade seja arbitrária. Uma


invenção mecânica não vale senão por sua utilidade prática. Do
mesmo modo, uma afirmação, para ser verdadeira, deve aumentar
nosso império sobre as coisas. Ela não é menos a criação de um
certo espírito individual, e ela não preexistia, não mais, ao esforço
desse espírito, como o fonógrafo, por exemplo, não preexistia a
Edison. Sem dúvida, o inventor do fonógrafo deveu estudar as
propriedades do som, que é uma realidade. Mas sua invenção
sobrepôs-se a esta realidade como uma coisa absolutamente nova,
que não seria talvez jamais produzida se ele não houvesse existido.
Assim uma verdade, para ser viável, deve ter sua raiz nas
realidades; mas essas realidades não são senão o terreno sobre o
qual esta verdade brota, e outras flores bem poderiam brotar, se o
vento para aí trouxesse outras sementes.
A verdade, de acordo com o pragmatismo, é, pois, feita
pouco a pouco, graças aos aportes individuais de um grande número
de inventores. Se esses inventores não houvessem existido, se
outros houvessem existido em seu lugar, nós teríamos tido um corpo
de verdades inteiramente diferente. A realidade foi e evidentemente
permanece aquilo que ela é, ou quase; mas outros teriam sido os
caminhos que haveríamos de traçar para a comodidade de nossa

5 Eu não estou seguro de que James tenha empregado a palavra “invenção”, nem
de que ele tenha explicitamente comparado a verdade teórica a um dispositivo
mecânico; mas eu creio que essa aproximação é conforme ao espírito da
doutrina, e que ela pode nos ajudar a compreender o pragmatismo.

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circulação. E não se tratam aqui somente de verdades científicas.


Nós não podemos construir uma frase, nós não podemos mesmo
hoje pronunciar uma palavra, sem aceitar certas hipóteses que
foram criadas por nossos ancestrais e que poderiam ter sido
diferentes daquilo que elas são. Quando eu digo: “meu lápis acaba
de cair debaixo da mesa”, eu não enuncio, certamente, um fato da
experiência, porque aquilo que a visão e o tato me mostram é
simplesmente que minha mão se abriu e deixou escapar o que
segurava. O bebê fixado em sua cadeira que vê cair o objeto com o
qual brinca, não imagina, provavelmente, que este objeto continua a
existir; ou, de preferência, ele não tem a idéia nítida de um
“objeto”, quer dizer, de qualquer coisa que subsista, invariável e
independente, através da diversidade e da mobilidade das
aparências que passam. O primeiro que ousou acreditar nesta
invariabilidade e nesta independência elaborou uma hipótese: é esta
hipótese que nós adotamos de modo corrente todas as vezes que
empregamos um substantivo, todas as vezes que falamos. Nossa
gramática teria sido outra, outras teriam sido as articulações de
nosso pensamento, se a humanidade, no decorrer de sua evolução,
houvesse preferido adotar hipóteses de outro gênero.
A estrutura de nosso espírito é, pois, em grande parte,
nossa obra ou, ao menos, a obra de alguns dentre nós. Aí está, se me
parece, a tese mais importante do pragmatismo, ainda que ela não
tenha sido explicitamente destacada. É por aí que o pragmatismo
continua o Kantismo. Kant havia dito que a verdade depende da
estrutura geral do espírito humano. O pragmatismo acrescenta, ou
ao menos implica, em que a estrutura do espírito humano é o efeito
da livre iniciativa de um certo número de espíritos individuais.
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Isso não quer dizer, ainda uma vez, que a verdade depende
de cada um de nós: o mesmo equivaleria a crer que qualquer um de
nós poderia inventar o fonógrafo. Mas isso quer dizer que, das
diversas espécies de verdade, aquela que está mais perto de
coincidir com seu objeto não é a verdade científica, nem a verdade
do senso comum, nem, mais geralmente, a verdade de ordem
intelectual. Toda verdade é um caminho traçado através da
realidade; mas, entre esses caminhos, existem aqueles aos quais nós
poderíamos dar uma direção muito diferente, se nossa atenção fosse
orientada num sentido diferente ou se houvéssemos visado a um
outro gênero de utilidade; isso é o contrário de a direção ser
marcada pela própria realidade: isso é o que corresponde, se se
pode dizer, a correntes de realidade. Sem dúvida, estas dependem
ainda de nós numa certa medida, porque nós somos livres para
resistir à corrente ou para segui-la; e, mesmo que nós a sigamos,
podemos inflecti-la diversamente, estando associados ao mesmo
tempo em que submetidos à força que aí se manifesta. Não é menos
verdade que essas correntes não são criadas por nós; elas fazem
parte integrante da realidade. O pragmatismo chega assim a inverter
a ordem na qual temos o costume de colocar as diversas espécies de
verdade. Fora verdades que traduzem sensações brutas, seriam as
verdades de sentimento que teriam na realidade as raízes mais
profundas. Se nós convimos em dizer que toda verdade é uma
invenção, será preciso, eu creio, para permanecer fiel ao
pensamento de William James, estabelecer entre as verdades de
sentimento e as verdades científicas o mesmo gênero de diferença
que entre o barco à vela, por exemplo, e o barco a vapor. Um e
outro são invenções humanas, mas o primeiro não dá ao artifício
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senão uma fraca parte, ele toma a direção do vento e torna sensível
aos olhos a força natural que utiliza; no segundo, ao contrário, é o
mecanismo artificial que tem maior lugar; ele encobre a força que
põe em jogo e assina-lhe uma direção que escolhemos por nós
mesmos.
A definição que James dá da verdade integra sua definição
da realidade. Se a realidade não é esse universo econômico e
sistemático que nossa lógica gosta de se representar, se ela não é
sustentada por uma armadura de intelectualidade, a verdade de
ordem intelectual é uma invenção humana que tem por efeito
utilizar a realidade de preferência a nos introduzir nela. E se a
realidade não forma um conjunto, se ela é múltipla e móvel, feita
de correntes que se entrecruzam, a verdade que nasce de uma
tomada de contato com qualquer uma dessas correntes, — verdade
sentida antes de ser concebida, — é mais capaz que a verdade
simplesmente pensada de perceber e de armazenar a própria
realidade.
É, pois, enfim, a esta teoria da realidade que deveria fixar-
se primeiramente uma crítica do pragmatismo. Poder-se-á erguer
objeções contra ela, e o faríamos nós mesmos, no que lhe concerne,
certas reservas, mas ninguém contestará sua profundidade e
originalidade. Ninguém, não mais, após haver examinado de perto
a concepção da verdade que aí se correlaciona, desconhecerá sua
elevação moral. Diz-se que o pragmatismo de James não é senão
uma forma de ceticismo, que ele rebaixaria a verdade, que ele a
subordinaria à utilidade material, que ele desaconselharia, que ele
desencorajaria a pesquisa científica desinteressada. Uma tal
interpretação não viria jamais ao espírito daqueles que leram
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atentamente a obra. E ela surpreenderá profundamente aqueles que


tiverem a oportunidade de conhecer o homem. Ninguém amou a
verdade com mais ardente amor. Ninguém a procurou com mais
paixão. Uma imensa inquietude o incitava, e, de ciência em ciência,
da anatomia à psicologia, da psicologia à filosofia, ele ia, atento aos
grandes problemas, descuidado do resto, esquecido de si mesmo.
Toda sua vida ele observou, experimentou, meditou. E, como se não
houvesse feito o bastante, ele almejava ainda, embalando seu último
sono, almejava ele experiências extraordinárias e esforços mais que
humanos pelos quais ele poderia continuar, — depois da morte, —
a trabalhar conosco, para o maior bem da ciência, para a maior
glória da verdade.

BERGSON, Henri. La pensée et le mouvant. Essais et conférences. Presses


Universitaires de France, 27ª edição, 1950, pág. 239-251.

Tradução: Maristela Bleggi Tomasini mtomasini@cpovo.net


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