Etnocentrismo, alteridade e cultura

Material didático preparado para a disciplina de Antropologia Cultural/EAD

Prof. Dr. Lucas Graeff Centro Universitário La Salle

Objetivos do estudo
Iniciar o aluno nas premissas que fazem a singularidade da Antropologia frente às demais ciências; Consolidar a compreensão dos conceitos de etnocentrismo e relativismo cultural, mostrando a sua utilidade para a compreensão das diferenças culturais; e Apresentar as noções de cultura correntes no senso comum ou na disciplina antropológica.

Plano da apresentação
Parte 1: Cultura e etnocentrismo Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos Parte 4: O conceito de cultura em quatro noções.

Parte 1: Cultura e etnocentrismo .

podemos dizer “ele tem cultura”. uma maneira de chamar um conjunto de prédios históricos. De uma sociedade estranha à nossa. – – – De alguém que é letrado e frequenta atividades culturais. por exemplo. afirmamos: “é a cultura deles”. cujas práticas sociais consideramos incompatíveis com as nossas. Mas como essas maneiras de dizer e classificar as coisas como “cultura” se referem à Antropologia? O que é cultura. afinal? .Parte 1: Cultura e etnocentrismo Muito se fala sobre cultura no dia-a-dia. museus e galerias de arte é “centro cultural”.

nem tampouco como um conjunto de artefatos produzidos pelas diferentes sociedades e grupos sociais. a cultura é um esquema complexo de símbolos. a cultura não deve ser entendida como uma forma de apreciar ou depreciar as propriedades intelectuais e as práticas sociais de um determinado indivíduo. uma “rede de significados” (GEERTZ. Para a Antropologia.Parte 1: Cultura e etnocentrismo Do ponto de vista da Antropologia. . 1989) que media e informa todas as relações que os seres humanos estabelecem com o mundo.

a cultura é um esquema complexo e estruturado de significados que inclui todas as produções e formas de comunicação humanas. Imagem disponível em: http://www.com/materia/cultura:_um_conceito_antropologico.grupoescolar.html .IMAGEM? Em Antropologia.

todo grupo ou indivíduo interpreta os outros a partir de sua própria cultura. . Sob esse ponto de vista.Parte 1: Cultura e etnocentrismo Concebida como um esquema complexo de símbolos. a cultura se apresenta como uma espécie de lente através do qual cada ser humano interpreta a si mesmo e aos outros.

uma demonstração de etnocentrismo. O elemento diferencial de toda demonstração de etnocentrismo é a hierarquização de práticas e artefatos culturais a partir de um ponto de vista dominante.Parte 1: Cultura e etnocentrismo Em Antropologia. Nesse sentido. o ato de avaliar os outros a partir de sua cultura não é. por si. fala-se em etnocentrismo quando um dado grupo ou indivíduo avalia os outros a partir de sua própria cultura determinando que o seu modo de vida é necessariamente superior ou mais evoluído que os dos outros. .

IMAGEM? Em Antropologia. fala-se em etnocentrismo quando um dado grupo ou indivíduo determina que o seu modo de vida ou de pensar é superior ou mais evoluído que os dos outros.wikispaces.com/ethnocentrism . Imagem disponível em: https://rundle10.

Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações .

rejeição de aptidões e características pessoais consideradas inadequadas. “naturais” ou “essenciais”. violências de gênero. . classificação de formas elementares de respeito e reconhecimento social como fruto da demagogia e da imposição arbitrária do “politicamente correto”. fetichizados. reafirmação de traços identitários de grupos dominantes que. se afirmam como “universais”. classe e cor.Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações A propensão para hierarquizar e desqualificar os modos de vida dos outros pode derivar em diferentes tipos de situações e posturas: – – – – – apreciações negativas de padrões culturais diferentes.

. preconceito de classe e racismo.Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações Revestido de misogenia. o etnocentrismo é uma das armas dos grupos dominantes para resguardar a supremacia de valores e de práticas culturais.

muitas vezes. um locus privilegiado de divulgação de preconceitos de classe.IMAGEM A publicidade é. gênero e cor. .

Assim. aquilo que costuma ser chamado “politicamente correto”.Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações Na medida em que a ética multiculturalista se impõe nas práticas e costumes. arautos da “liberdade de expressão” surgem para criticar o respeito à diferença – ou. cronistas. escritores e outros comunicadores surgem defendendo a retirada de toda limitação à sua vontade de expressar suas perspectivas etnocêntricas. humoristas. . articulistas. mais precisamente.

Parte 2: Etnocentrismo: riscos e derivações Porém. criticar o “politicamente correto” não é uma forma de se lutar pela liberdade de expressão. O “politicamente correto” é uma expressão de respeito para com as diferenças étnicas. mas apenas uma maneira de se resguardar a supremacia de valores e de práticas culturais dominantes. . culturais e sociais que impõem obstáculos nas relações entre cidadãos.

sobretudo. “Sofrimento” (autor desconhecido) . culturais e sociais que impõem obstáculos nas relações entre cidadãos.O “politicamente correto” não é apenas uma expressão de respeito para com as diferenças étnicas. uma expressão de respeito ao sofrimento das pessoas que são vítimas de preconceitos relacionados a essas diferenças. É.

Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos .

mas a imagem pública que um grupo social ou minoria étnica dispõe em sociedade. . o que está em jogo não é a sua liberdade de dizer o que pensa. O papel do relativismo cultural é. atentados contra o “politicamente correto” são ações que contribuem ao fortalecimento de uma cultura ou ponto de vista em detrimento de outros. Ora. visto que todo grupo ou indivíduo interpreta os outros a partir de sua própria cultura.Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos Quando um humorista faz uma piada misógena ou quando um articulista defende que índios são seres incivilizados e atrasados. mostrar como o ponto de vista dominante é arbitrário e como ele conta com inúmeros suportes para se manter e proliferar. Considerando-se que os grupos e culturas em questão se encontram em situação de minoria ou dominação social. nesse contexto. a crítica do politicamente correto é um reforço da cultura ou ponto de vista majoritário ou dominante.

Afinal de contas. em ciências sociais. uma posição relativista contribui a uma liberdade de expressão mais ampla e democrática. cuja constituição se organiza antes de tudo pela valorização da pessoa humana e dos direitos e deveres de todos os cidadãos. mas falar o que se pode e se deve falar num Estado democrático de direito. chamamos de pré-noções.Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos Em outras palavras. liberdade de expressão não é dizer o que se quer quando se quer. de raça e de cor quanto para as violências contra minorias étnicas. o relativismo cultural se apresenta como um verdadeiro instrumento contra os preconceitos – ou aquilo que. Isso vale tanto para os preconceitos de classe. Ao demonstrar o caráter arbitrário do ponto de vista dominante. . uns em relação aos outros.

Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos: estamos relativizando. .Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos O relativismo cultural é uma mudança temporária de perspectiva com o objetivo de percebe os sentidos diversos das práticas humanas em diferentes contextos de produção. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta mas no contexto em que acontece: estamos relativizando. – – – Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição: estamos relativizando.

O relativismo cultural procura colocar em xeque esses dogmatismos a fim de ampliar os pontos de vista sobre as práticas e produções sociais dos mais diferentes grupos e sociedades.Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos O esforço de relativizar problematiza saberes e conhecimentos. estranhos. . novos. Toda forma de dogmatismo é baseada numa rejeição fundamental de saberes e conhecimentos estrangeiros.

Assim.Parte 3: Relativismo cultural: um instrumento contra as pré-noções e os preconceitos Ao mesmo tempo.cujo objetivo é atingir determinados valores que não correspondem aos da pessoa que se encontra na origem da crítica. muitas vezes revestido de projeto intelectual. é possível afirma que é o relativismo ético que permite a crítica do politicamente correto. trata-se de um ceticismo simplório ou parcial. . Se o primeiro é uma tomada de posição temporária que visa a compreensão de pontos de vista contrários. Nesse caso. não se deve confundir relativismo cultural e relativismo ético. o segundo é um cetismo durável em relação aos valores e normas estabelecidas.

Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções .

a cultura por vezes é identificada como a propriedade de um indivíduo ou coletivo (“fulano tem cultura”. é possível classificá-las em três grandes categorias ou noções. por outras é definida como um conjunto de práticas sociais estranhas ou diferentes. “os franceses têm cultura”).Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções As noções de etnocentrismo e relativismo são fundamentais para a compreensão das diversas concepções do conceito de cultura. . Simplificando. Como mencionado no início deste material. ou ainda costuma ser compreendida com a totalidade de expressões práticas e produções humanas. Tais pontos de vista são correntes no senso comum e na produção científica e cultural.

Tal “Cultura” é o objeto de práticas proselitistas que visam “cultivar” os ditas “camadas populares”.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções A primeira noção pode ser chamada de “Cultura erudita”. todos os grupos sociais cujos gostos e práticas não são considerados como pertencendo a uma “elite cultural”. . o que é a Cultura com C maiúsculo. Ela implica em definir. “os populares gostam de programas televisivos de baixo calão”. As derivações dessa concepção podem ser encontradas em asserções como: – “O Brasil não vai para frente porque o povo é ignorante”. “a qualidade do aprendizado da nova classe C é inferior às das classes B e A porque essas lêem mais que aquelas”. “os jornais brasileiros são ruins em relação aos europeus porque os povos de lá são mais cultos que o daqui”. etc. isto é. a partir de valores etnocêntricos.

. “cultura asilar”. “cultura organizacional”. diz respeito à noção de que todo grupo humano ou conjunto de práticas significativas encerra um sistema simbólico específico. aqui definida como “Culturalista”. “cultura da violência”. “cultura do consumo”. fala-se em “cultura gaúcha”. etc.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções Uma segunda noção. A partir dessa noção. “cultura brasileira”. “cultura de vestiário”. “cultura educacional”. “cultura popular”.

. etc. . produções cinematográficas. inclusive os oriundos de minorias étnicas.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções A terceira noção. obras de arte. preservar e celebrar temas de todos os gêneros. as expressões das diferentes “culturas” que existem num dado espaço social também se incluem nessa noção. tecnologias.). comportamentos. que passa a colecionar. engloba o conjunto de expressões significativas (crenças. Utilizada por instituições governamentais. Por outro lado.. técnicas. regras morais. são valorizadas os elementos considerados “representativos” ou “importantes” de uma cultura. museus.) de um dado grupo humano. que podemos chamar de “patrimônio cultural”. valores. trata-se de um mix das duas noções anteriores. sociais e econômicas (“cultura popular”). – – Por um lado. instituições. o que se confunde geralmente com as suas grandes realizações (monumentos. a partir da adoção da ideia de “patrimônio imaterial”. ONGs e organismos supranacionais.

a “Cultura como sistema simbólico”. tecnologias.) de um dado grupo humano. nem como o conjunto de expressões significativas (crenças. técnicas. valores. regras morais. a saber. mas como a condição de possibilidade de toda e qualquer ação humana. Mas como essa noção se diferencia das outras. comportamentos. Aqui. instituições.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções A quarta e última noção é a que foi apresentada na abertura deste material. em especial as “Culturalista” e a “Patrimônio Cultural”? . a cultura não é entendida como uma representação ideal ou exata do real. etc.

de maneira que o estudo da cultura é o estudo do Homem. A sua qualidade distintiva está em definir que os seres humanos não são “produtores” de cultura. é possível dizer que os seres humanos agem sempre segundo sistemas de símbolo construídos historicamente. mas o universo em si. Nesse sentido. estejam essas “materializadas” ou não. os quais informam todas as suas reflexões e decisões . A cultura é um filtro incorporado que informa todas as ações humanas. Ou seja. não se trata de uma parte desse universo. Isso significa dizer que: – – A cultura se confunde com aquilo que podemos chamar de “universo” ou “mundo” humanos. mas verdadeiros seres culturais.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções Efetivamente. como se esta fosse algo independentemente do universo humano. a noção de cultura em Antropologia cruza e engloba as demais noções que acabamos de discutir.

os seres humanos interpretam e agem sobre o seu mundo ou universo a partir de um sistema complexo e hierarquizado de símbolos.Parte 4: o conceito de cultura em quatro noções Portanto. . por exemplo. até as mais complexas. como decidir o futuro de uma coletividade. Isso não significa que tal concepção seja falsa. – No caso da “determinação biológica”. mas que as formas de compreender os seres humanos e as decisões que daí derivam não podem ser “neutralizadas” culturalmente. mas que age de acordo com um sistema de crenças e valores. é possível dizer que a própria concepção da essência humana em termos de genótipos e fenótipos é determinada culturalmente. a Antropologia compreende que é incorreto dizer que o homem é um ser determinado biologicamente. como comer e se vestir. Das atividades mais banais.

Antropologia rejeita a hipótese de que é possível definir instância última que determina o que os seres humanos amam. o de descobrir.É nesse ponto final. rejeitam. . registrar. nessa concepção de cultura que o relativismo cultural se inscreve. promover e criticar toda forma expressão significativa – portanto. no final das contas. cultural –. O trabalho antropológico é. de maneira a ampliar a compreensão dos horizontes da experiência humana. Em sua concepção de cultura como sistema estruturado e estruturante de significados. podem ou não podem fazer.

Bibliografia de referência .

2003. Clifford. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: LTC. 1994. Convenção para a proteção do patrimônio mundial. A interpretação das culturas. 2002.dominiopublico.br/download/texto/ue000114. São Paulo: Martins Fontes. A retórica da perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Jorge Zahar. UNESCO. 1989 SAHLINS. José Reginaldo Santos. GONÇALVES. cultural e natural (s/d). ed.CASSIRER.gov. 2. Marshall. Ensaio sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura humana.pdf . Rio de Janeiro. Disponível em: www. GEERTZ. Ernst.

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