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ISBN 85-33b-1258-3
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9 788533 6 7
Tratado Sobre
a Tolerância
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I
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Martins Fontes
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o r".,. SJny" Toler4ncill, de Voltaire,
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pela liberdade. Esta lição de uruversali-
.., que continua válida ainda em nos-
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.... o auminiamo. No mundo em que
fttClDOlt doia sku.los depois de Voltaite,
• uniyenalidade faz da tolerincia um
cIewr.
TRATADO SOBRE
A TOLERÂNCIA
TRATADO SOBRE
A TOLERÂNCIA
A propósito da morte de Jean Calas
Volta ire
Introdução, notas e bibliografia
RENÉ POMEAU
Tradução
PAULO NEVES
Martins Fontes
São Paulo 2000
I lhhiBDlIRlhUi. ij(jh123Kj-;'IMÉRANCE.
Copyright © Flamar;on, Paris, Í989, para' o aparelho crítico.
Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
São Paulo, 1993, para a presente edição.
I' edição
setembro de /993
2' edição
junho de 2000
Tradução
PAULO NEVES
Tradução do prefácio
Maria Ermantina Galvão
Revisão da tradução
Eduardo Brandão
Revisão gráfica
Andréa Stahel M. da Silva
Ivete Batista dos Santos
Produção gráfica
Geraldo Alves
PaginaçãolFotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial 16957-7653)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)
VOltair., 1694-1778.
Tratado sobre a tolerância: a propósito da morte de Jean Calas I
Voltaire ; introdução. notas e bibliografia René Pomeau ; tradução
Paulo Neves. - 2. ed. - São PauJo : Martins Fontes, 2000. -
(Clássicos)
Título original: Traité sur la tolérance.
Bibliografia.
ISBN 85-336-1258-3
1. Filosofia francesa 2. Literatura francesa I. Título. 11. Série.
00-1860 CDD-I94
Indices para catálogo sistemático:
1. Filosofia francesa 194
2. França: Filosofia 194
Todos os direitos para a língua portuguesa reservados à
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (11) 239-3677 Fox (11) 3105-6867
e-mail: info@martinsfontes.com
http://wWw.martinsfontes.com
Índice
Introdução ...................................................... ~ . . . . . . VII
Cronologia .............................................................. XXXIII
I. História resumida da morte de Jean Calas.
lI. Conseqüências do suplício de Jean Calas ..
lI!. Idéia da Reforma do século XVI ................ .
IV. Se a tolerância é perigosa, e em que povos
ela é permitida ............................................ .
V. Como a tolerância pode ser admitida ....... .
VI. Se a intolerância é de direito natural e de
direito humano ............................................ .
VII. Se a intolerância foi conhecida pelos gre-
gos .......................................................... .
VIII. Se os romanos foram tolerantes ................. .
IX. Acerca dos mártires ..................................... .
X. Acerca do perigo das falsas lendas e acer-
ca da perseguição ..... , ................................. .
XI. Abuso da intolerância ................................. .
XII. Se a intolerância foi de direito divino no
judaísmo e se foi sempre posta em prática
XIII. Extrema tolerância dos judeus ................... .
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XIV. Se a intolerância foi ensinada por Jesus
Cristo .................. ······························ ............ .
XV. Testemunhos contra a intolerância ............ .
XVI. Diálogo entre um moribundo e um ho-
mem saudável ............................... ···············
XVII. Carta escrita ao jesuíta Le Tellier, por um
beneficiado, em 6 de maio de 1714 .......... .
XVIII. Únicos casos em que a intolerância é de
direito humano ............................ ··················
XIX. Relato de uma disputa de controvérsia na
China ............................. ···················· ........... .
XX. Se é útil manter o povo na superstição .... .
XXI. É preferível a virtude à ciência .................. .
XXII. Acerca da tolerância universal ................... .
XXIII. Oração a Deus ........................................... ..
XXIV. Pós-escrito .................................. ···················
XXV. Continuação e conclusão ........................... .
Artigo posteriormente acrescentado, no qual se
fala da última sentença pronunciada em favor da
família Calas ................................. ···························
Notas ...................................................................... .
Bibliografia ......................................... ··················· .
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Introdução
"
Voltaire não esperou o processo Calas para se preocu-
par com a tolerância. A questão já agitava o meio em que foi
criado: é notório o clima de discussões religiosas e de per-
seguições em que terminou, durante a juventude de Arouet,
o longo reinado de Luís XIV.
Quando da morte do rei, em 1º de setembro de 1715,
as prisões estavam cheias de jansenistas, pessoas muito
honestas, vítimas de sua fidelidade à teologia da "graça
eficaz". Infelizmente, Luís XIV obtivera da corte de Ro-
ma, reticente, a bula Unigenitus. Arouet, por sua família
e círculo de amigos, vira de perto essa última tentativa de
reduzir os partidários de Jansênio, de Arnauld, de Ques-
nel. Depois, com o advento do Regente, abrem-se as pri-
sões, a pressão atenua-se, mas não desaparece. O sécu-
lo inteiro será preenchido pelos esforços do poder para
sufocar ou adormecer um partido religioso, poderoso,
inerradicável. O Tratado sobre a tolerância evoca as fa-
ses de crise desse enfrentamento prolongado. Como sói
acontecer, o conflito religioso permite que tensões de
outra ordem se manifestem. Na capital, o bairro jansenis-
ta por excelência vem a ser o mais miserável: o de Saint-
Médard, povoado de pobres-diabos, de indigentes. Um
VII
___________ Voltaire _________ _
diácono da paróquia, chamado Pâris, asceta que literal-
mente se matou de tantas privações, é reconhecido por
essa gente pobre como seu semelhante e herói, que con-
denava, com seu exemplo, a religião corrompida dos bair-
ros ricos e da corte. É "canonizado" pelo povo. Ao seu
túmulo afluem multidões, sacudidas de crises histéricas.
São Pâris realiza milagres: as "convulsões" que agitam
seus fiéis passam por curá-los de suas doenças. Tendo a
polícia fechado o cemitério ("Em nome do rei, é proibi-
do a Deus/Fazer milagre neste local"), as "convulsões"
continuam a portas fechadas, nos sótãos. Alguns anos
mais tarde, o caso dos atestados de confissão faz recru-
descer a perseguição. O Tratado sobre a tolerância, no
capítulo dezesseis, refere-se a esse episódio, ainda re-
centíssimo no momento da publicação da obra. O arce-
bispo de Paris, esperando acabar com o jansenismo,
tivera uma idéia que se revelou das mais desastradas. Os
últimos sacramentos só deviam ser administrados aos
agonizantes que pudessem apresentar um atestado de
confissão de um padre que acatasse a bula Unigenitus.
Ora, numerosos fiéis falecem sem poder cumprir o re-
quisito. Resulta daí ser-lhes recusada a sepultura cristã.
Conseqüência mais grave: esses cristãos, não tendo sido
lavados de seus pecados pelo supremo sacramento, cor-
rem o risco da danação eterna. A emoção em Paris se
transforma em rebelião. O Parlamento apodera-se do ca-
so. Agonizantes fazem lavrar, por tabelião, a recusa do
sacramento. Depois disso, o tribunal de justiça processa
os párocos culpados de terem obedecido ao seu arcebis-
po. Luís XV intervém, exila os parlamentares, depois os
chama de volta. Ainda, à véspera de 1789, o jansenismo
continua bem vivo. Tirará sua desforra ao inspirar larga-
mente a Constituição civil do clero, de 1790.
VIII
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
Quando lemos o Tratado de Voltaire, devemos re-
memorar o ambiente da antiga França, onde o poder se
arrogava mui normalmente o direito de atormentar ho-
mens por suas crenças. Dentre as vítimas, os mais dignos
de pena eram seguramente os protestantes.
* * *
A consciência francesa ficou marcada pela lembran-
ça das guerras religiosas do século XVI, até que "93"
viesse apagar antigos horrores por outros mais recentes.
Voltaire não se enganava ao escolher, por volta de 1720,
para sua Henríade épica, um herói e um tema que con-
tinuavam a repercutir na opinião contemporânea. Reper-
cussão amplificada ainda pela atualidade da perseguição
antijansenista, bem como pelo que sobreviera aos pro-
testantes.
O fracasso da Revogação do edito de Nantes ficou,
no século XVIII, patentíssimo. Ao assinar o edito de Fon-
tainebleau, em 15 de outubro de 1685, Luís XIV pensava
que venceria a resistência dos últimos recalcitrantes. Num
regime autoritário, os relatórios que chegam ao príncipe
infelizmente dizem não o que é, mas o que este deseja'
ouvir. Fazia meses que só se falava ao rei de calvinistas
que aderiam aos magotes à verdadeira religião. Ele não
se interrogava sobre a solidez de conversões, quer com-
pradas pela Comissão de Pellisson (às vezes após escan-
dalosas barganhas), quer extorquidas pelos dragões, cujas
práticas eram todavia conhecidas: pilhagens, roubos,
estupros, brutalidades de toda espécie ... A amplitude do
êxodo protestante surpreendeu as autoridades. Muitos,
porém, não conseguiram emigrar. Subsistiram massas
IX
___________ Voltaire----------
compactas, intactas, em especial nas Cevenas. Luís XIV, no
momento em que devia fazer frente nas fronteiras, com
dificuldade, à Europa coligada, foi também obrigado a
guerrear os camisards, seus súditos protestantes revolto-
sos, no coração do reino.
Depois da morte do rei, teria sido sensato aprender
a lição com o fracasso. Ora, foi a decisão contrária que
se adotou. O duque de Bourbon, primeiro-ministro, faz
o jovem Luís XV declarar que o desígnio do rei da França
continuava a ser o de extirpar a heresia (1724). As anti-
gas leis voltam a viger: pena capital contra os pastores sur-
preendidos no exercício de seu ministério; quanto aos
protestantes presos em flagrante delito de praticar o cul-
to, galés perpétuas para os homens, prisão perpétua para
as mulheres. Houve empenho na aplicação de um códi-
go tão cruelmente repressivo. Resolvia-se assim, é verda-
de, um difícil problema: recrutar remadores para as gale-
ras do rei. Enviavam-se os camponeses languedocianos
presos pelos guardas nas assembléias do "Deserto" para
remar em Marselha e Toulon: duzentos apenas nos anos
1745 e 1746, segundo Antoine Court. Voltaire, por sua
vez, calcula que, entre 1745 e 1762, oito pastores foram
enforcados por decisão da justiça. Ainda que provações
tão rudes atingissem apenas pequeno número de protes-
tantes, todos, em compensação, eram sujeitos a medidas
discriminatórias muito penosas. Não tinham estado civil.
Seus nascimentos, seus casamentos fora da Igreja não
eram legalmente reconhecidos. Seus filhos eram consi-
derados bastardos, com todas as conseqüências daí de-
correntes, notadamente no que tange à transmissão das
heranças. Por isso, a maior parte dos protestantes se re-
signava a atos puramente formais de catolicidade. Jean
x
_------- Tratado sobre a tolerância _______ _
Calas, por exemplo, fora batizado pelo pároco católico
de seu local de nascimento. Mais tarde, casara-se regu-
larmente na igreja, não em Toulouse, mas numa aldeia
da Ile-de-France, onde o cura da paróquia não levantara
a menor dificuldade para administrar o sacramento. Jean
Calas batizara católicos seus seis filhos. Seus quatro fi-
lhos homens realizaram seus estudos no colégio dos je-
suítas da cidade. Nem por isso deixaram de ser hugue-
notes, com exceção de um. Oficialmente, depois da Re-
vogação, já não existe no reino da França nenhum pro-
testante: somente "católicos novos". Mas todos sabiam
que esses supostos "católicos novos" que se abstinham
de assistir à missa, de se confessar, de comungar, eram
realmente fiéis da R.P.R. ("religião pretensamente refor-
mada"). Eram tratados como tais. Em particular, eram
excluídos de grande número de profissões, vedadas aos
protestantes. Na verdade, ao longo dos anos, para tornar
possível a vida cotidiana, as autoridades prestavam-se a
acordos. De modo que, graças a apóstolos como Antoine
Court, recomeçara certa vida religiosa na comunidade
reformada. Um sínodo nacional pudera até efetuar-se na
clandestinidade, em 1744. Mas esse despertar inquietava.
O bispo de Agen fizera, por uma carta pública, em 1751,
o elogio da Revogação do edito de N antes, denunciando
paradoxalmente, no calvinismo, "uma religião que con-
sagra os vícios, que permite a licenciosidade". Um abade
de Caveyrac, em 1758, publicara uma Apologia da Re-
vogação e do massacre de São Bartolomeu; o Tratado de
Voltaire se referirá a essa escandalosa obra. Renasce, no
local, uma tensão entre católicos e protestantes, manifes-
tada, em torno de 1760, por vários processos quase si-
multâneos.
XI
___________ Voltaire ______ ~ - - - -
Em 14 de setembro de 1761, uma patrulha de guar-
das prende perto de Caussade, ao norte de Montauban,
um rapaz de uns vinte anos. Um vagabundo? Não. Ele
declara sua identidade: é o pastor Rochette. Sabe que
sua franqueza vai fazê-lo incorrer na pena de morte. No
dia seguinte, dia de feira em Caussade, os camponeses
huguenotes afluem à cidadezinha. Rebentam tumultos.
Três irmãos, fidalgos fabricantes de vidro, tentam libertar
Rochette. São· presos e chamados a juízo com ele diante
do parlamento de Toulouse. Um protestante de Montau-
ban, Ribotte-Charron, solicita a Voltaire que intervenha.
O grande homem o faz, mas sem muito ardor (tendo ele
próprio rixas com os pastores de Genebra) e, infelizmen-
te, sem resultado. Os quatro huguenotes são condena-
dos à morte. O pastor, de camisa, pés descalços, trazen-
do no pescoço um cartaz, "Ministro da R.P.R.", é condu-
zido ao suplício com seus companheiros pelas ruas de
Toulouse, apupados pela multidão. Ao pé do cadafalso,
Rochette reza longamente. Exorta seus companheiros.
Sobe ao patíbulo cantando salmos. Os três irmãos abra-
çam-se antes de colocar suas cabeças sobre o cepo. Pois,
sendo fidalgos, têm a honra de ser decapitados.
Essa cena atroz (conhecida por uma carta de Ribotte-
Charron a Rousseau) se passava em 19 de fevereiro de
1762. Alguns dias antes, começara em Mazamet o pro-
cesso Sirven: a filha de um geômetra-agrimensor, louca,
matara-se atirando-se num poço. Acusam o pai, um pro-
testante, de tê-la assassinado para impedir sua conversão·.
Alguns dias mais tarde, o protestante Jean Calas será tor-
• Voltaire esperará o desfecho do processo Calas para encarregar-se da
causa de Sirven e de sua família.
XII
_.:..-------- Tratado sobre a tolerância _______ _
turadO na roda na mesma praça Saint-Georges de Toulouse
onde haviam sido executados Rochette e os três irmãos.
• • •
Na noite de 13 de outubro de 1761, Jean Calas, co-
merciante de tecidos na Rue des Filatiers, jantara com a
família, em seu modesto apartamento no primeiro andar,
em cima da loja. Recebiam o jovem Gaubert Lavaisse, de
uma família protestante de Toulouse, então fazendo es!
tágio com um armador de Bordeaux; vinha dizer adeus
aos seus antes de partir para São Domingos. À sobreme-
sa, o filho mais velho, Marc-Antoine Calas, levanta-se e
desce; vai, pensam, dar uma volta pela cidade, como
está habituado. Por volta das 9h30min da noite, Gaubert
Lavaisse se despede. O irmão caçula, Pierre Calas, acom-
panha-o na escada, de vela na mão. Tendo chegado ao
corredor do térreo, avistam na loja o corpo de Marc-An-
toine, morto por estrangulamento: o pescoço tem as
marcas de uma corda.
Ante os gritos da família, os vizinhos saem à rua. As
pessoas do bairro se ajuntam. Um boato espalha-se na
mesma hora: Marc-Antoine ia converter-se, como fizera
alguns anos antes seu irmão mais novo, Louis. Para im-
pedi-lo, os Calas, ajudados por Gaubert Lavaisse, agente
de um complô calvinista, com toda evidência, o assassi-
naram. Pouco depois, chega o chefe da polícia, o magis-
trado municipal David de Beaudrigue. A versão da rua
parece-lhe convincente. Cerca de meia-noite, encarcera
na prisão do Capitole todas as pessoas da casa: Jean Ca-
las e sua mulher, seu filho Pierre, Gaubert Lavaisse e,
também, a velha criada católica, Jeanne Viguiere.
XIII
___________ Voltaire __________ _
Entrou em ação uma máquina infernal que nada de-
terá mais.
Em 9 de março, o tribunal criminal de Toulouse con-
dena à morte Jean Calas. No dia seguinte, o condenado
é, perante uma multidão reunida, executado pelo suplí-
cio da roda.
Drama da intolerância, por certo. Voltaire tinha toda
razão em escolhê-lo como ponto de partida de sua cam-
panha contra a perseguição religiosa. A família Calas so-
frera as coerções da legislação antiprotestante. Foi esta
que criou as condições do drama. Jean Calas exercia ha-
via uns quarenta anos seu modesto comércio. Em sua
casa exígua, criara seis filhos: quatro filhos, seguidos de
duas filhas·. Com eles morava a velha Jeanne Viguiere, a
seu serviço por um quarto de século, considerada parte
da família. Era, segundo a sentença, católica e muito de-
vota. Seu testemunho é decisivo para inocentar os Calas.
O terceiro filho, Louis, com vinte e cinco anos em
1761, convertera-se cinco anos antes ao catolicismo, sob
a influência de Jeanne Viguiere e do abade Durand. Rom-
pera então com sua família. O bispo, após a abjuração,
obrigara o pai, como exigia a lei, a quitar as dívidas de
Louis e a pagar-lhe uma pensão. Desde então, o rapaz le-
vava uma vida preguiçosa, incapaz de ocupar um empre-
• Rosine, vinte anos, e Nanette, dezenove anos, ausentes em 13 de outu-
bro: como todos os anos, foram ao campo para as vindimas. Os defensores do
crime calvinista pretenderam que os pais as afastaram a fim de executar à von-
tade o assassínio de Marc-Antoine. O mais jovem dos filhos, Donat, também
está ausente: está como aprendiz em N1mes. - Sobre a família Calas e a docu-
mentação judiciária do drama da Rue des Filatiers, o estudo fundamental é o
de Jean Orsoni, L 'a.ffaire Calas avant Voltaire, tese de doutorado do terceiro
ciclo, Universidade de Paris, Sorbonne, três volumes datilografados de 605
páginas ao todo, trabalho infelizmente não publicado.
XIV
_-------Tratado sobre a tolerâncía _______ _
go fixo, subsistindo apenas da mesada paterna. Depois
da morte de Marc-Antoine, diziam que também o filho
primogênito ia converter-se, e que esta era a causa do
assassínio.
Marc-Antoine ia completar vinte e nove anos. Auxi-
lia conscienciosamente o pai na loja, substituindo-o com
freqüência, pois Jean Calas, de 63 anos, sente o peso da
idade. Marc-Antoine assumirá logo a direção do negócio.
Mas sonhara algo diferente dessa vida tacanha de comer-
ciante. Culto, amante da literatura eVoltaire o qualifica
"homem de letras"·), estuda direito. Gostaria de entrar na
advocacia. Mas esbarra na legislação antiprotestante: é
uma profissão vedada aos "pretensamente reformados".
Terá ele pensado, para afastar o obstáculo, em aderir ao
catolicismo? Tudo prova que se recusou a isso. O inqué-
rito sem dúvida estabeleceu que ele costumava freqüen-
tar os ofícios solenes da Igreja. Era apreciador da bela
música. Um homem de condição tão humilde não tinha
acesso aos concertos da boa sociedade. Não podia satis-
fazer seu gosto senão nas cerimônias abertas a todos nas
igrejas da cidade. Mas não adiantou procurarem o padre
a quem ele se teria aberto sobre suas intenções de abju-
rar: o encontraram. Em compensação, os inquirido-
de registrar o testemunho categórico de Jeanne
ela "jamais soube que ele tivesse alguma dispo-
slçao para se converter" ••.
Marc-Antoine vivia, portanto, ensimesmado, habitual-
mente taciturno e melancólico. Aos seus mostrou-se as-
sim, durante a refeição de 13 de outubro à noite. Ou tal-
..............
• Tratado sobre a tolerância, p. 4.
•• Citado por Jean Orsoni, L'a.ffaire Calas avant Voltaire, p. 88.
xv
___________ Voltaire ________ ~ _
vez não tenham prestado atenção nele, ocupados que
estavam com a conversa de Gaubert Lavaisse. Será que,
quando desceu ao térreo, ele se suicidou na loja por en-
forcamento? A resposta dependia da posição do corpo
quando o descobriram. Nesse ponto capital os Calas di-
vergiram, o que agravou a presunção da sua culpabilida-
de. Na noite do dia 13, Pierre, apoiado pelo pai, afirmou
que o corpo estava estendido no chão: primeira versão,
por certo verídica. Tal posição não excluía a tese do sui-
cídio por enforcamento; mas combinava melhor com um
.assassínio por estrangulamento. Por isso, os Calas, já no
dia seguinte, mudaram seu depoimento. Teriam encon-
trado Marc-Antoine pendurado numa corda fixada num
rolo de madeira (destinado a enrolar os tecidos), estan-
do o referido rolo equilibrado nas duas folhas entreaber-
tas da porta que fazia a comunicação entre a loja e o de-
pósito. Suicídio acrobático, mas existem alguns assim.
O inquiridor, David de Beaudrigue, não era um Mai-
gret, menos ainda um Sherlock Holmes. Negligenciou
seguir pistas que, talvez, teriam levado à verdade. Marc-
Antoine havia trocado à tarde, por ordem do pai, prata
em luíses de ouro. Não encontraram esses luíses. Que fim
levaram eles? Beaudrigue não formulou a questão. Marc-
Antoine os teria perdido, no jogo ou de outro modo, o
que explicaria o suicídio? Estaria um assassino amoitado
no quintal da casa, espreitando-o para roubá-lo, ou por
outra razão (o inquérito não se interessou pelas amiza-
des femininas desse moço de vinte e oito anos)? Nunca
o saberemos.
Pois o inquérito orientou-se para uma única direção,
que se revelou um impasse: o crime calvinista. Os senti-
mentos de intolerância foram aqui determinantes. Beau-
XVI
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
drigue sente pelos protestantes uma invencível aversão.
Ao seu redor, a cidade manifesta, durante as semanas da
instrução, uma viva hostilidade por essa gente de uma
minoria reprovada. Como se a conversão de Marc-An-
toine fosse um fato estabelecido, a confraria de cogula
dos penitentes brancos apodera-se de seu cadáver, en-
terra-o na igreja de Saint-Étienne, faz em sua honra uma
procissão em que ele é representado por um esqueleto
articulado empoleirado num catafa1co. Lançam uma es-
candalosa "monitória": uma advertência aos fiéis lida em
todas as igrejas. O texto apresentava como incontestável
o crime calvinista; os ouvintes eram intimados, sob pena
de excomunhão, a dizer tudo quanto sabiam sobre a con-
versão de Marc-Antoine, sobre o assassínio deste pelos
seus por motivo de religião. Recolheram assim apenas
mexericos.
Nem todos os parlamentares do tribunal criminal es-
tavam, por certo, cegados pelo fanatismo. Hesitaram. Ti-
nham contra os Calas presunções fundamentadas nas
contradições destes quanto à posição do cadáver, na ati-
tude embaraçada do velho comerciante, nem um pouco
preparado para enfrentar tamanha provação ao termo de
uma vida pacata. Mas indícios não bastavam. A pressão
da opinião pública supriu a falta de provas. Faltavam dois
votos de maioria para uma sentença capital. A mudança
de opinião de um juiz no último momento permitiu ob-
tê-los. Entretanto, a sentença de morte ainda trai as in-
certezas do tribunal. Na hipótese do crime calvinista,
cumpria que toda a família fosse coletivamente culpada,
notadamente dada a exigüidade da moradia dos Calas.
Em boa lógica, o promotor requereu para o pai e o filho
Pierre a morte pelo suplício da roda, para a mãe a morte
XVII
___________ Voltaire-----------
por enforcamento. A sorte de Gaubert Lavaisse e de
Jeanne Viguiere seria decidida posteriormente. Mas o tri-
bunal não ousou ir tão longe. Condena em 9 de março
de 1762 apenas Jean Calas a ser "quebrado vivo", depois
estrangulado e "atirado numa fogueira ardente". "Esta úl-
tima pena", especifica a sentença, "é uma reparação à
religião cuja feliz escolha feita pelo filho foi verossimil-
mente a causa de sua morte" (grifo nosso). Assim, Jean
Calas foi condenado a uma morte atroz com base numa
mera "verossimilhança". Fizeram um cálculo: durante a
execução, Jean Calas faria afinal a confissão de seu crime.
O suplício ia trazer a prova, sempre ausente, que justifi-
caria o suplício.
Os juízes não tiveram o que esperavam. Em 10 de
março, o condenado foi, conforme a lei, previamente à
execução, submetido à questão "ordinária" (seus mem-
bros são esticados por talhas), depois à "extraordinária"
(fazem-no ingerir dez moringas de água). Beaudrigue,
ansioso, fica perto dele. Suplica-lhe, para abreviar o tor-
mento, que confesse por fim, no momento de compare-
cer perante Deus, a verdade, ou seja, que matou Marc-
Antoine. Mas Jean Calas não pára de protestar sua ino-
cência. Conduzido ao cadafalso, repete que morre ino-
cente. Deitado na roda, com braços e pernas quebrados
a golpes de barra de ferro, fica lá, com o rosto voltado
para o céu, agonizando durante duas horas, tendo ao
seu lado o padre Bourges. Depois é estrangulado, e seu
corpo queimado. Quando tudo terminou, o promotor cor-
reu ao confessor: "Nosso homem confessou?" Não, não
"confessou". O padre Bourges testemunha lealmente a
firmeza de alma de Jean Calas.
Os juízes ficam desconcertados. Já não ousam con-
denar os outros acusados, como logicamente deveriam
XVIII
__ ------Tratado sobre a tolerância _______ _
fazer. Em 18 de março, pronunciam contra Pierre uma
sentença de banimento e põem os outros réus para "fora
do tribunal"; noutras palavras, absolvem-nos. Era reco-
nhecer implicitamente o erro judiciário.
Não podemos ter dúvida disso hoje. Por culpa de
uma instrução dominada pela prevenção e, por isso, mal
conduzida, estamos até hoje reduzidos à "verossimilhan-
ça". Mas a maior verossimilhança é a favor da inocência
de Jean Calas e dos seus.
A comunidade protestante ficara abalada por tão
horrível desfecho. As minorias perseguidas sabem orga-
nizar-se. Ribotte-Charron, o negociante marselhês Domi-
nique Audibert, seus amigos de Genebra, alertam Voltai-
re. O grande homem, depois de um exame que teria du-
rado três meses, depois de interrogar longamente o mais
jovem dos Calas, Donat, vindo a Ferney, formou uma
"convicção íntima": "o furor da facção e a singularidade
do destino concorreram para assassinar juridicamente na
roda o mais inocente e mais infeliz dos homens, para
dispersar-lhe a família e para reduzi-la à mendicância" (a
Audibert, 9 de julho de 1762). Desde então encarrega-se
do caso. Multiplicando as diligências, as intervenções em
Versalhes, acabará obtendo, em 9 de março de 1765, a
reabilitação de Jean Calas.
O Tratado sobre a tolerância, começado em outubro
de 1762, situa-se num momento crucial dessa longa cam-
panha. Uma vantagem decisiva foi obtida, em 7 de mar-
ço de 1763, quando o Conselho do rei autorizou a ape-
lação do julgamento do parlamento de Toulouse. Voltaire
difunde no início de abril o Tratado, impresso em Gene-
bra pelos Cramer. Envia exemplares a Madame de Pompa-
dour, aos ministros de Estado, ao rei da Prússia, a prínci-
pes da Alemanha (carta a Moultou, 3 de abril de 1763). É
XIX
___________ Voltaire __________ _
perante a Europa das luzes que ele advoga a causa dos
Calas, e vai ganhá-la.
• • •
Partindo do "caso", o Tratado amplia as perspecti-
vas. O drama tinha, manifestamente, como primeira ori-
gem, a legislação antiprotestante. Voltaire propõe modi-
ficá-la. Mas procede aqui com extrema prudência, cons-
ciente das poderosas oposições que encontrará. Um de
seus princípios é que "é preciso sempre partir do ponto
em que se está e daquele a que chegaram as nações"·.
Durante seu exílio na Inglaterra, ficara impressionadíssi-
mo com o pluralismo religioso instituído nessa "ilha da
razão;', em contraste com a situação francesa. Existe, tan-
to além-Mancha como aquém, uma Igreja de Estado: na
Inglaterra, a Igreja anglicana, "aquela em que se faz for-
tuna", escrevia maldosamente (quinta Carta filosófica).
Mas, ao lado dessa Igreja oficial, deixam viver em paz os
dissidentes: quakers, presbiterianos, socinianos. Voltaire
não pede, no Tratado, uma liberdade comparável para os
calvinistas do reino da França. Que concedam aos pro-
testantes apenas uma situação análoga à dos católicos no
Reino Unido (dos quais as Cartasfilosóficasnão haviam,
aliás, dito uma só palavra). Sem "templos públicos", sem
acesso "aos cargos municipais, às funções graduadas".
Mas que lhes restituam o estado civil de que a Revoga-
ção de 1685 lhes despojou: validade dos casamentos, le-
gitimidade dos filhos, direito de herança, "franquia" das
pessoas. Em 1763, ainda era pedir demais. Nas últimas
• Tratado sobre a tolerância, p. 31.
xx
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
décadas do Antigo Regime, a monarquia francesa parece
atingida por uma impotência para realizar até mesmo as
reformas mais necessárias. O processo Calas teve, decer-
to uma conseqüência nos fatos. Acabou-se com as exe- ,
cuções de pastores, com a prisão em massa de hugueno-
tes "no Deserto" para abastecer as galés. Mas não se mo-
dificou em nada a lei. Podia, portanto, ser a qualquer
momento reativada. Foi somente em 1787 que Luís XVI
decidiu-se a promulgar um edito de tolerância, em favor
de seus súditos que não pertenciam à religião católica (o
texto não especificava se a medida era aplicável também
aos judeus). Vinte e quatro anos depois do Tratado de
Voltaire, o rei adotava-lhe as recomendações. Restituía
aos protestantes o estado civil. Tolerância, portanto, e
tlada mais. Estamos, porém, a alguns meses da convoca-
;ão dos estados-gerais. O Edito vai ser rapidamente su-
Derado. De fato, a Declaração dos direitos do homem de
L 789 institui que "todos os cidadãos [. . .] são igualmente
ldmissíveis a todas as funções graduadas, colocações e
públicos [. . .] sem outras distinções além daque-
as de suas virtudes e de seus talentos". Assim termina a
dos protestantes, exclusão de há muito inad-
nissíveI, pois que, em 1777, Luís XVI havia nomeado
:omo principal ministro, e tornado a nomear em 1788,
um protestante convicto e até mesmo militante.
Declaração de 1789 não afirma explicitamente a liber-
lade do culto público, como pedira o pastor Rabaut
:aint-Étienne, deputado na Assembléia Nacional. O arti-
iO X estipula somente que "ninguém deve ser importu-
lado por suas opiniões, inclusive religiosas, contanto que
Ua manifestação não perturbe a ordem pública estabe-
pela lei". Mas o artigo seguinte, ao afirmar que "a
XXI
___________ Voltaire'-----------
livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um
dos direitos mais preciosos do homem", implicava uma
liberdade de culto que era, na verdade, daí em diante
praticada sem entraves.
O Tratado de 1763 deveria, por uma evolução nor-
mal, redundar em mais do que mera "tolerância". A argu-
mentação desenvolvida por Voltaire acarretava conse-
qüências que iam muito além dos tímidos pedidos de seu
capítulo cinco. O Tratado sobre a tolerância revelava a
substância de um "Tratado sobre a liberdade de pensar".
• • •
Abordando a questão da tolerância, Voltaire alia-se a
textos clássicos: Locke, Bayle. Retoma-lhes as idéias, mas
se estabelece, com relação a eles, numa perspectiva nova.
Uma nota do capítulo onze remete à "excelente Car-
ta de Locke sobre a tolerância". Obra de forma bem dife-
rente do Tratado. Locke redigiu, em latim, Epístola de to-
lerantia, esse texto compacto, que será traduzido em se-
guida para o inglês e do inglês para o francês. Com toda
evidência, a Epístola se dirige a um público de doutos. O
Tratado de 1763 visa, ao contrário, ao grande público.
Faz parte de uma estratégia voltairiana que se esforça por
mobilizar a opinião pública.
Daí a divisão em capítulos curtos, entremeados de di-
tos espirituosos e que apelam, no final, para a emoção.
Locke escreve por volta de 1685-1686, exilado na Holan-
da. Tem como objetivo a situação inglesa sob o reinado
do derradeiro dos Stuart, pouco antes da Revolução de
1688, que expulsará do trono de um país protestante o
católico intolerante Jaime 11. Portanto, Locke desenvolve
XXII
__ ------Tratado sobre a tolerância _______ _
como idéia principal "a distinção entre a comunidade po-
lítica e a sociedade religiosa, a distinção e a separação
radical entre as funções da Igreja e as do Estado"·. Desse
argumento, Voltaire quase que só retém a recusa galica-
na ao poder dos papas de distribuir as coroas e de cole-
tar as anatas (capítulo I1I). A separação entre a Igreja e o
Estado na França nunca foi um de seus objetivos. Ad-
voga, ao contrário, uma subordinação da Igreja ao Esta-
do: vê nisso um meio de garantir a tolerância. O apelo
ao Conselho do rei no processo Calas prende-se a essa
política. O Estado não pode desinteressar-se da religião,
pois, "em todos os lugares onde há uma sociedade esta-
belecida, uma religião é necessária". É desejável que seja
uma "religião pura e santa", isenta de superstição e de
fanatismo: "não se deve procurar alimentar de frutos sil-
vestres aqueles que Deus se digna alimentar de pão".
Mas Voltaire - quiçá para espanto de muitos - concede
que, numa população grosseiramente primitiva, as su-
perstições, "desde que não sejam destruidoras", podem
ser justificadas. "O homem sempre necessitou de um
freio." Por isso era, outrora, "bem mais razoável e útil
adorar aquelas imagens fantásticas da divindade [faunos,
silvanos, náiades, etc.] do que entregar-se ao ateísmo"
(capítulo XX).
Voltaire citou Locke como penhor de uma idéia que
ele extrai de fora do contexto da Epístola: é permitido "a
cada cidadão acreditar apenas em sua razão e pensar o
que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar". For-
mulação que está muito mais próxima de Bayle do que
..............
• Raymond Polin, John Locke, Lettre sur la tolérance, PUF, 1965, introdu-
ção, p. XLVIII.
XXIII
___________ Voltaire __________ _
de Locke. Sabe-se como em seu Commentaire pbiloso-
pbique sur ces paroles de jésus-Cbrist "Contrains-les d'en-
trer" (1686), Bayle fundamenta a tolerância numa teolo-
gia da consciência. Expõe que o conhecimento absoluto
da verdade, em matéria metafísica, ultrapassa o alcance
do espírito humano. Logo, basta que tenhamos o senti-
mento interior de seguir a verdade. Em outras palavras,
o que produz o valor de um credo não é seu conteúdo,
mas a fé de que procede. Contra essa fé, a autoridade
não tem direito algum de empreender o que quer que
seja. Voltaire, por sua vez, bem diferente do crente se-
gundo Bayle, não é muito inclinado ao exame interior ou
ao ensimesmamento. Vê-se no Tratado e em outras obras
que ele tem tendência a reduzir a fé a seus elementos in-
telectuais, e ainda os mais fúteis: os de uma obscura teo-
logia. Cita a procissão do Espírito Santo (na Trindade, o
Espírito Santo procede apenas do Pai ou do Pai e do Fi-
lho, Filioque?); ou ainda a questão de saber se Jesus,
homem e Deus, tinha só uma ou duas vontades (capítu-
lo XI); ou a do Logos. ele foi feito ou gerado? Com toda
a certeza, "seria o auge da loucura pretender levar todos
os homens a pensarem de uma maneira uniforme sobre
a metafísica" (capítulo XXI). Mas, nas guerras de religião
que "ensangüentaram" a terra, os dogmas absconsos foram
algum dia algo mais que um pretexto?
Voltaire não insiste, pois, como Bayle, nos direitos
da "consciência errante". Recorre a critérios mais exterio-
res. O valor supremo para ele é "o bem físico e moral da
sociedade" (capítulo IV). "O interesse das nações" exige
a tolerância, é isso que ele desenvolve através de um
amplo panorama histórico.
O pluralismo religioso da humanidade deve-se ao
fato de que, nessa matéria, "a educação faz tudo", pelo
XXIV
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
menos quase tudo. Bayle já propusera esse apólogo: su-
ponhamos uma cidade metade cristã, metade muçulma-
na; se forem trocados os recém-nascidos entre as famí-
lias das duas religiões, é evidente que o bebê nascido
cristão será muçulmano, e o inverso. Voltaire levara ao
palco uma situação análoga. Sua Za'ire, nascida de pais
cristãos, criada desde o berço no serralho de Orosmane,
é muçulmana. Ela mesma fazia sobre seu caso pessoal
uma declaração de relativismo religioso:
Teria eu sido perto do Ganges escrava dos falsos deuses,
Cristã em Paris, muçulmana neste lugar.
Que nem a prédica nem a força conseguem eliminar
uma religião em proveito da outra, ficou suficientemen-
te demonstrado pelo fracasso da política antijansenista e
antiprotestante de Luís XIV, e o processo Calas acaba de
fornecer a sangrenta ilustração desse fato. Voltaire, no
Tratado de 1763, amplia o campo de visão. "Saiamos de
nossa pequena esfera e examinemos o resto de nosso
globo" (capítulo N). Uma vista-d'olhos mundialista faz a
humanidade aparecer como um imenso mosaico de reli-
giões. Desse modo, os vastos impérios, necessariamente
pluriconfessionais, praticam todos a tolerância. Voltaire
os examina. O império otomano tolera os cristãos gregos
e latinos, os coptas, os judeus, os guebros, os banianos,
etc. Assim também a Índia e a Pérsia. Da mesma forma o
império russo, desde Pedro, o Grande. A China confucia-
na tolera o budismo ("as superstições de Fô"). Se o
imperador, que Voltaire escreve Yung-Ching, expulsou
os jesuítas, foi porque tais jesuítas eram intolerantes. A
Roma imperial acolhia liberalmente os cultos orientais,
xxv
___________ Voltaire __________ _
mesmo os mais estranhos ao espírito romano. Mas per-
seguiu os cristãos. Voltaire esforça-se por responder à
objeção: os cristãos eram combatidos não como cristãos,
mas como facciosos, que recusavam celebrar o culto de
Roma e do Império·. E talvez esses mártires cristãos não
tenham sido tão numerosos como pretende a tradição.
Voltaire acrescenta, por fim, uma espécie de argu-
mento ad hominem: os próprios judeus antigos eram to-
lerantes. Sabe-se hoje que o judaísmo arcaico era antes
monolátrico do que monoteísta. Embora a comunidade
judaica se consagrasse apenas ao culto de Javé, reconhe-
cia paralelamente a autêntica qualidade divina dos deu-
ses venerados por Estados, tribos, povos vizinhos e ini-
migos. O povo de Javé chegava a invocar essas divin-
dades rivais, de poderio reconhecido como incontestá-
vel. Voltaire, que leu muito o Antigo Testamento, notou
os vestígios desse estado primitivo das coisas nos textos.
Os juízes no deserto, assinala, adoraram não só o bezer-
ro de ouro (que ele identifica com o deus egípcio Ápis)
mas também Moloch, Renfa, Kium. As infidelidades ao ciu-
mento Deus de Israel nem sempre eram reprimidas. O
próprio Moisés teria sido "obrigado a fechar os olhos à
paixão do povo pelos deuses estrangeiros" (capítulo XII):
tolerância ...
Quanto ao judaísmo na época das origens cristãs,
Voltaire salienta que está muito longe de ser um bloco
• o que também admitem historiadores modernos: ver Pierre Grimal, Les
erreurs de la liberté, Paris, Les belles lettres, 1989. Durante a primeira perse-
guição, sob Nero, "os cristãos eram tidos L .. l como um grupo de facciosos, ini-
migos, precisamente, da ordem estabelecida, profetizando a derrocada de
Roma".
XXVI
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
homogêneo. Os judeus contemporâneos de Jesus se di-
videm entre várias seitas: fariseus, saduceus, essênios, em
desacordo sobre dogmas essenciais e mais diferentes
entre si do que são os protestantes dos católicos. Contu-
do, conseguem coabitar. Assim, Voltaire se diz espanta-
do de encontrar entre os judeus "a maior tolerância em
meio aos horrores mais bárbaros" (capítulo XIII).
Jesus Cristo teria vindo pôr fim a essa paz religiosa?
Voltaire, depois de Bayle, é levado a examinar o "Obriga-
os a entrar" (Contrain;;-les d'entrer), invocado para justl-
ficar a perseguição. E conhecida a parábola de Lucas,
XIV. Um pai de família preparou uma grande ceia, mas
nenhum dos convidados compareceu. Para substituí-los,
ele manda buscar cegos e mancos. Como sobram ainda
lugares vazios, envia um empregado: "Sai pelos caminhos
e atalhos e obriga todos a entrar." Deve-se compreender
que o empregado brutalizou os novos convidados e que,
a seu exemplo, os dragões de Luís XIV apenas aplicaram
um preceito evangélico? Voltaire observa que um só cria-
do não podia obrigar pela força tanta gente. "Obriga-os a
~ n t r a r " só pode evidentemente significar "rogai, suplicai,
mstai, obtende". "Qual a relação, vos pergunto, dessa sú-
plica e dessa ceia com a perseguição?" Jesus pregou "a
doçura, a paciência, a indulgência". Ele mesmo foi vítima
da intolerância do sinédrio. "Se quereis vos assemelhar a
Jesus Cristo", conclui Voltaire, "sede mártires e não car-
rascos" (capítulo XIV) .
•••
o fato de a filosofia da história de Voltaire abrir-se
para uma visão religiosa fica mais evidente, do que em
XXVII
___________ Voltaire __________ _
qualquer outra parte, nas últimas páginas do Tratado so-
bre a tolerância. Pode-se lamentar que tenha achado
bom acrescentar após o vigésimo terceiro capítulo mais
três capítulos de "post-scriptum", para levar em conside-
ração o estado presente da polêmica e os progressos do
processo Calas. Na realidade, o Tratado culmina e con-
clui com a impressionante "Prece a Deus": "Já não é aos
homens que me dirijo, é a Ti, Deus de todos os seres, de
todos os mundos e de todos os tempos." Tal "prece", di-
rigida ao "Ser supremo", não é única na obra de Voltaire.
Um de seus primeiros textos, a Epítre à Uranie (Epístola
a Urânia) (ou Le pour et le contre), é também uma "prece
a Deus". Bem como os versos que concluem a profissão
de fé em quatro partes de La [oi naturelle:
Ó Deus que não reconhecemos, ó Deus que tudo
anuncia ...
Essas eloqüentes declarações são provavelmente uma
das raras expressões assumidas, em Voltaire, por certo
sentimento religioso. Qualquer um que as aceita sem pre-
venção não pode deixar de ficar comovido com seu tom.
É impossível não lhes reconhecer a sinceridade. Na "pre-
ce a Deus" final se revela a evidência da qual procede o
alegado de Voltaire em defesa da tolerância. Com o "Deus
de todos os seres, de todos os mundos e de todos os
tempos" são confrontadas "fracas criaturas perdidas na
imensidão e imperceptíveis ao resto do universo": os
"átomos chamados homens". Esses insetos produziram,
ao mesmo tempo que suas "linguagens insuficientes", seus
"costumes ridículos", suas "leis imperfeitas", suas "opi-
niões insensatas", as religiões em cujo nome se dilace-
XXVIII
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
ramo Quanto mais Voltaire exalta o Ser dos seres, mais
rebaixa-lhes as crenças irracionais, que tende a reduzir
ao nível de práticas derrisórias: "círios em pleno meio-
dia", batinas de pano branco ou mantos de lã negra, jar-
gão antigo ou novo, hábitos tingidos de vermelho ou de
roxo. Seria loucura para os homens degolarem-se por
tais misérias.
Com vistas a esse final, foram colocadas indicações
nos capítulos anteriores, às quais correspondem temas
abundantemente desenvolvidos por Voltaire no resto de
sua obra. Por exemplo, a alusão à "adoração simples de
um único Deus", esse "culto dos descendentes de Noé" ,
ou seja, da humanidade primitiva. Voltaire preza a idéia
de que o teísmo foi a primeira religião dos homens e se
conservou na China de Confúcio (capítulo IV). A religião
pura degenerou noutros lugares em superstição e em
fanatismo, que produziram a intolerância. Mas um pou-
co em toda parte encontram-se vestígios das origens: "os
antigos povos civilizados [. . .] reconheciam todos um Deus
supremo", ainda que, deploravelmente, associassem-lhe
"uma quantidade prodigiosa de divindades inferiores" (ca-
pítulo IV). Os romanos, mormente, reconheciam esse Deus
supremo (capítulo IX). Voltaire acalenta a esperança de
que a humanidade voltará à religião natural de seus pri-
mórdios. É a isso que tende o esforço de tolerância. Não
vão as formigas, perdidas na imensidão cósmica, dizer
consigo, cada uma de seu lado, "o meu formigueiro é o
único que é caro a Deus, todos os outros lhe são odiosos
por toda a eternidade". Voltaire prega: "Digo-vos que é
preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. -
Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o judeu?
o siamês? - Sim, sem dúvida, não somos todos ftlhos do
XXIX
___________ Voltaire __________ _
mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?" O que termina
na invocação da "Prece a Deus":
Possam todos os homens
lembrar-se de que são irmãos!
* * *
Que pensar hoje dessa filosofia da tolerância? Dirão
que Voltaire dava provas de demasiado otimismo. "Os
costumes se abrandaram", nestes cinqüenta anos, cons-
tatava ele. Abrandaram-se, certamente, no seio de uma
elite européia, mas bastante estrita: muitos acontecimen-
tos posteriores mostrarão que o movimento era menos
extenso e menos profundo do que se julgava. Não se
pode ler sem um aperto no coração a página em que ele
anuncia que a "Irlanda povoada e enriquecida não verá
mais" católicos e protestantes matarem-se uns aos outros
(capítulo IV). Será mesmo indubitável que a multiplici-
dade das seitas as enfraquece, por um efeito quase me-
cânico? Não vemos ainda algumas que, instaladas em
número de quatro ou cinco num mesmo território, se
combatem, de armas à mão, com um ardor que sua plu-
ralidade não diminui?
O otimismo do Iluminismo se estribava numa filoso-
fia da história que já não parece aceitável. Nossa antro-
pologia já não é a de Voltaire, tampouco a de Rousseau.
Quem se atreveria a afirmar que os pequenos grupos ori-
ginais de Romo erectus ou de Romo habílis adoravam o
Ser supremo sem a sombra de uma idéia supersticiosa?
Quem pode esperar que a humanidade do futuro, liber-
ta dos fantasmas do irracional e dos furores do fanatis-
mo, comungará no culto puro do Ser dos seres, conforme
xxx
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
o voto de Voltaire? A disparidade das culturas subsiste e
estas, justapostas e pouco assimiláveis entre si, não c;n-
duzem, mais do que à reconciliação, ao "choque dos
mundos", para repetir a expressão com que Alain Pey-
refitte define o início do contato da Europa com a China
no século XVIII*?
Contudo, tanto no universo atual como no Século
das Luzes, delineia-se uma evolução em sentido inverso.
é de espantar que Voltaire, nas Cartas filosóficas,
deslgne como um dos lugares privilegiados da tolerância
a Bolsa de Londres (Carta VI). Ora, quanto progrediu
desde então a internacionalização dos intercâmbios! A
rapidez, a facilidade das comunicações de um extremo a
outro do a interdependência entre todas as par-
tes deste nao cessa de acentuar a mundialização de nos-
sa civiliza?ão. Impõe-se, por esse fato, uma ética que pres-
c:eve aceitar, na terra inteira, o estrangeiro em sua alte-
ndade. Aqueles que ainda pretendem encerrar-se em seu
campo fechado, eriçados contra os outros, macerando
em seu próprio fanatismo, condenam-se a si mesmos.
. O movimento ascendente do Tratado chega a enfa-
tizar uma fórmula, inscrita no título do vigésimo segun-
do capítulo: "Acerca da tolerância universal." Ressaltare-
mos o epíteto. No mundo em que vivemos dois séculos
depois de Voltaire, a universalidade faz da um
dever.
RENÉ POMEAU
..............
F
• Alain Peyrefine, L 'empire immobile ou te choc des mondes Paris
ayard, 1989. ' ,
XXXI
Cronologia
1572. 24 de agosto: Noite de São Bartolomeu. Por ordem
do rei Carlos IX, encorajado por sua mãe Catarina
de Médicis, massacre dos protestantes em Paris e
nas províncias.
1598. 13 de abril: Henrique N põe fIm às guerras de re-
ligião pelo edito de Nantes. A liberdade de culto é
garantida aos protestantes sob certas condições.
1685. 18 de outubro: revogação do edito de Nantes por
Luís XIV. A religião reformada é proibida no reino
da França. Os protestantes convertidos à força são
tidos como "novos católicos".
1694. Voltaire, de nome François-Marie Arouet, nasce
em Paris.
1702. Guerra de Sucessão da Espanha.
1704. Voltaire inicia estudos no colégio dos jesuítas Louis-
le-Grand.
Derrota dos exércitos franceses em Hochstedt.
1706. O príncipe Eugênio e Marlborough apoderam-se
de Lille.
1702-1710. Revolta dos camisards, camponeses protestantes
das Cevenas.
1710-1712. O convento dos religiosos cistercienses de Port
Royal des Champs (vale de Chevreuse), reduto do
XXXIII
__________ Voltaire----------
jansenismo, é destruído por ordem de Luís XIV. Os
soldados devastam o cemitério. Cenas escandalosas.
1713. Estada de voltaire em Haia como secretário do
embaixador da França.
8 de setembro: Luís XIV obtém do papa Clemente
XI a bula ou constituição Unigenitus que condena
o jansenismo.
Paz de Utrecht.
1715. Morte de Luís XIV; o duque de Orléans, regente,
assume o poder.
1717. Voltaire é encerrado durante onze meses na Bas-
tilha.
1718. Ele alcança seu primeiro grande sucesso com
Oedipe, tragédia.
1719. Inflação: o "sistema" de Law.
1720. Voltaire visita lorde Bolingbroke, no castelo de la
Source, perto de Orléans.
1721. Em Londres, Robert Walpole torna-se primeiro-mi-
nistro; ocupará o cargo até 1742.
1722. Voltaire faz uma viagem à Holanda: admira a tole-
rância e a prosperidade comercial desse país.
1723. Publica La Ligue, primeira versão de La Hentiade,
poema épico sobre as guerras de religião e Henri-
que IV.
1726. 4 de fevereiro: é espancado por ordem do cavalei-
ro de Rohan.
17 de abril: preso na Bastilha.
5 de maio: embarque para Londres.
O cardeal Fleury governa a França; conservará o
poder até sua morte (1743).
1727. Janeiro: Voltaire é apresentado ao rei da Inglater-
ra, Jorge I.
XXXIV
~ _ - - - - - Tratado sobre a tolerância ______ _
Dezembro: publica dois opúsculos em inglês: Essay
on Civil W a ~ , Essay on Epic Poetry.
1728. Publica em Londres, por subscrição, La Henriade,
dedicada à rainha da Inglaterra.
Novembro: retoma à França.
O abade Prévost converte-se ao protestantismo e
refugia-se em Londres.
1729. Montesquieu na Inglaterra.
1730. 15 de março: morte da grande atriz Adrienne Le-
couvreur. Tendo o clero recusado a sepultura, o'
corpo é lançado à lixeira. Voltaire indigna-se con-
tra isso no poema La mort de Mademoiselle Le-
couvreur.
Agitação jansenista: convulsões sobre o túmulo do
diácono Pâris.
1731. Voltaire publica L'histoire de Charles XII, iniciada
em Londres.
1732. Agosto: sucesso triunfal de Zai're, tragédia de Vol-
taire dedicada ao mercador inglês Falkener.
1733. Janeiro: Voltaire publica Le tem pie du gout [O tem-
plo do gosto].
Junho: ligação com Madame du Châtelet.
Julho: acrescenta às Lettres philosophiques [Cartas fi-
losóficas] o texto Remarques sur Pascal [Notas so-
bre Pascal].
1734. As Cartas filosóficas são divulgadas em Paris.
Voltaire refugia-se em Cirey, na Champanha, no
castelo de Madame du Châtelet.
Montesquieu: Considérations sur les Romains.
1735. Voltaire obtém a permissão de voltar a Paris.
1736. Le mondain [O mundano]: Voltaire refugia-se du-
rante algumas semanas na Holanda.
xxxv
__________ Voltaire----------
1737. Publica os Éléments de la pbilosopbie de Newton.
1738. Temporada em Cirey.
1740. Subida ao trono de Maria Teresa da Áustria.
Subida ao trono de Frederico 11, rei da Prússia, que
invade a Silésia.
Voltaire encontra Frederico 11, pela primeira vez,
em Cleves.
1741. Guerra de Sucessão da Áustria.
1742. Mabomet, tragédia de Voltaire, é proibida em Paris.
1743. Voltaire faz representar Mérope, tragédia.
Realiza uma missão secreta em Berlim.
Morte de Fleury. Entrada dos irmãos d'Angerson
no ministério.
1745. Luís XV alcança a vitória de Fontenoy e toma Ma-
dame de Pompadour como favorita.
Voltaire é nomeado historiógrafo do rei.
. 1746. É eleito para a Academia Francesa.
1747. Encontra dificuldades na corte. Zadig.
1748. Em Nancy, Lunéville, Commercy, freqüenta a corte
de Stanislas, sogro de Luís XV.
Paz de Aix-Ia-Chapelle.
Montesquieu: L 'esprit des lois.
1749. Morte de Madame du Châtelet.
1750. Nomeado secretário particular de Frederico lI, Vol-
taire parte para Berlim.
Rousseau: Discours sur les sciences et les arts.
1751. Voltaire publica Le siecle de Louis XIV.
Publicação do tomo I da Encyclopédie.
1752. Contra o cinismo filosófico de La Mettrie (e de Fre-
derico 11) Voltaire compõe La loi naturelle, poema
inicialmente intitulado La religion naturelle.
1753. Rompe com Frederico 11.
XXXVI
______ Tratado sobre a tolerância ______ _
Luís XV proíbe-lhe aproximar-se de Paris; passa
uma temporada na Alsácia.
1755. Instala-se em Délices, nos arredores de Genebra.
Morte de Montesquieu.
Rousseau: Discours sur l'origine de l'inegalité.
1756. Voltaire publica Essai sur les moeurs et l'esprit des
nations [Ensaio sobre os costumes e o espírito das
nações].
Início da Guerra dos Sete Anos.
1757. Desastre do exército francês em Rossbach.
Perseguições contra os mósofos: a publicação da
Encyclopédie é interrompida.
1758. Voltaire adquire o castelo de Ferney, em território
francês, na fronteira com a Suíça.
O duque de Choiseul é nomeado para o ministério.
1759. Voltaire publica Candide.
1761. O parlamento de Paris inicia o processo que cul-
minará com a supressão dos jesuítas .
Rousseau: La Nouvelle Héloi'se.
13 de outubro: Marc-Antoine Calas, após um jantar
em família, é encontrado morto na loja de tecidos
da Rue des Filatiers, em Toulouse.
1762. 19 de fevereiro: execução em Toulouse do pastor
Rochette e três nobres protestantes.
9 de março: o parlamento de Toulouse condena à
morte Jean Calas. Ele é executado no dia seguinte.
Por volta de 20 de março, em Ferney, Voltaire é
informado por Dominique Audibert.
9 de junho: após a publicação do Contrat social e
do Émile, Rousseau é condenado pelo parlamento
de Paris por ter escrito a Profession de foi du vicai-
re Savoyard. Ameaçado de prisão, é obrigado a fu-
gir para a Suíça. Mas Genebra e Berna condenam
igualmente a Profession de foi.
XXXVII
__________ Voltaire _________ _
7 de julho: A Monseigneur le chancelier, assinado
por Donat Calas, mas redigido por Voltaire.
Agosto: Voltaire publica Histoire d'Elisabeth Canning
et de Jean Calas.
Mémoire pour Anne-Rose Cabibel (a viúva de Jean
Calas), pelo advogado Mariette.
Mémoire à consulter, por Élie de Beaumont.
Mémoire pour Donat, Pierre et Louis Calas, por
Loyseau de Mauléon.
1763. Janeiro: Réflexions pour dame Anne-Rose Cabibel,
por Mariette.
10 de fevereiro: o tratado de Paris põe fim à Guer-
ra dos Sete Anos.
7 de março: o Conselho do rei autoriza o recurso
contra o julgamento de Toulouse.
Abril: a impressão do Traíté sur la tolérance pelos
Cramer é concluída. A difusão do livro na França,
onde é proibido, enfrenta dificuldades.
1764. Fevereiro: intervenções de Voltaire em favor dos
galerianos huguenotes.
5 de maio: o parlamento de Toulouse condena a
família Sirven.
Junho: primeira edição do Dictionnaire philoso-
phique portatif.
1765. 9 de março: reabilitação de Jean Calas.
1766. 1 Q de julho: o cavaleiro de La Barre, de 19 anos de
idade, condenado por sacrilégio, é decapitado.
Luís XV recusara seu indulto. O Dictíonnaire phi-
losophique é queimado sobre seu corpo.
Voltaire refugia-se por algum tempo na Suíça e pu-
blica La relatíon de la mort du chevalíer de La Barre.
XXXVIII
_-----Tratado sobre a tolerância ______ _
1767. Voltaire publica L'ingénu [O ingênuo].
1770. Queda de Choiseul.
1771. O novo parlamento de Toulouse ("Parlamento Mau-
peou") pronuncia a absolvição definitiva de Sirven.
1774. Subida ao trono de Luís XVI. Ministério de Turgot.
1778. Retorno de Voltaire a Paris: apoteose e morte.
1787. 19 de novembro: Luís XVI assina o edito de Tole-
rância que restitui aos protestantes seus direitos
civis.
1789. Agosto: a Assembléia Nacional vota a DeclaraçãO',
dos direitos do homem e do cidadão.
1790. 12 de julho: a Assembléia Nacional adota a Cons-
tituição civil do clero.
1791. 11 de julho: transferência das cinzas de Voltaire
para o Panthéon.
1801. 15 de julho: Bonaparte, primeiro cônsul, conclui
com o papa Pio VII a Concordata que restabelece
na França a paz religiosa.
1905. 9 de dezembro: lei de separação da Igreja e do Es-
tado.
1948. 10 de dezembro: a Assembléia da ONU em Paris
adota a Declaração internacional dos direitos do
homem, cujo artigo XVIII declara que "qualquer
pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de
consciência e de religião".
XXXIX
TRATADO SOBRE
A TOLERÂNCIA
A PROPÓSITO DA MORTE
DE JEAN CALAS
CAPÍTULO I
História resumida da morte
de Jean Calas
o assassínio de Calas, cometido em Toulouse com o
gládio da justiça, a 9 de março de 1762, é um dos mais sin-
gulares acontecimentos que merecem a atenção de nossa
época e da posteridade. Esquece-se facilmente a quantida-
de de mortos em batalhas sem conta, não somente por tra-
tar-se da fatalidade da guerra, mas porque os que morrem
pela sorte das armas podiam também dar a morte a seus
inimigos, e não morreram sem se defender. Lá onde o peri-
go e a vantagem são iguais, o espanto cessa, e a própria
piedade diminui; mas, se um pai de família inocente é en-
tregue às mãos do erro, da paixão, ou do fanatismo; se o
acusado só tem como defesa sua virtude; se os árbitros de
sua vida, ao decapitarem-no, apenas correm o risco de se
enganar; se podem matar impunemente através de uma
sentença, então o clamor público se levanta, cada um teme
por si próprio, percebe-se que ninguém está seguro de sua
vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida dos
Cidadãos, e todas as vozes se juntam para pedir vingança.
Tratava-se, nesse estranho caso, de religião, de suicí-
dio, de parricídio; tratava-se de saber se um pai e uma
mãe haviam estrangulado seu filho para agradar a Deus,
Se um irmão havia estrangulado seu irmão, se um amigo
3
___________ Voltaire __________ _
havia estrangulado seu amigo, e se os juízes deviam ser
censurados por terem feito morrer no suplício da roda
um pai inocente, ou por haverem poupado uma mãe, um
irmão, um amigo culpados.
Jean Calas, de 68 anos de idade*, exercia a profissão
de negociante em Toulouse há mais de quarenta anos e
era reconhecido por todos que com ele viveram como
um bom pai. Era protestante, assim como sua mulher e
todos os seus filhos, com exceção de um, que havia ab-
jurado a heresia e a quem o pai concedia uma pequena
pensão. Jean Calas parecia tão afastado desse absurdo fa-
natismo que rompe todos os vínculos da sociedade, que
aprovou a conversão de seu filho Louis e mantinha em
sua casa, há trinta anos, uma dedicada empregada cató-
lica que ajudara a criar todos os seus filhos.
Um dos filhos de Jean, chamado Marc-Antoine, era
um homem de letras: diziam-no um espírito inquieto, som-
brio e violento. Esse jovem, não conseguindo nem entrar
no comércio, ao qual não se ajustava, nem ser aceito
como advogado, porque exigiam certificados de catolici-
dade que ele não pôde obter, decidiu acabar com sua
vida e fez pressentir esse propósito a um de seus amigos;
firmou-se em sua resolução através da leitura de tudo o
que até então se escrevera sobre o suicídio.
Certa vez, enfim, tendo perdido seu dinheiro no jo-
go, decidiu naquele mesmo dia executar seu propósito.
Um amigo seu e da família, chamado Lavaisse, jovem de
19 anos, conhecido pela candura e delicadeza de seus
hábitos, filho de um advogado célebre de Toulouse, ha-
via chegado de Bordéus na véspera!; casualmente jantou
• Jean Calas nasceu em 1698 e morreu em 1762, portanto aos 64 anos.
Trata-se aqui, sem dúvida, de um equívoco de Voltaire. (N. do E.)
4
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
na casa dos Calas. O pai, a mãe, Marc-Antoine, o filho
mais velho, e Pierre, o segundo, jantaram juntos. Após o
jantar retiraram-se para uma pequena sala. Marc-Antoine
desapareceu; enfim, quando o jovem Lavaisse quis par-
tir, Pierre Calas e ele, tendo descido a escada, encontra-
ram no térreo, junto à loja, Marc-Antoine de camisolão,
enforcado numa porta, e sua roupa dobrada sobre o bal-
cão; seu camisolão estava em perfeito estado; os cabelos
continuavam bem penteados; não havia no corpo ne-
nhum ferimento, nenhum machucad0
2

Damos aqui todos os detalhes apresentados pelos
advogados; não descreveremos a dor e o desespero do
pai e da mãe; seus gritos foram ouvidos pelos vizinhos.
Lavaisse e Pierre Calas, fora de si, correram a procurar
cirurgiões e a Justiça.
Enquanto cumpriam esse dever, enquanto o pai e a
mãe estavam aos soluços e em lágrimas, o povo de Tou-
louse junta-se em torno da casa. Esse povo é supersti-
cioso e violento; vê como monstros seus irmãos que
não são da mesma religião que ele. Foi em Toulouse que
agradeceram solenemente a Deus pela morte de Hen-
rique III e que juraram decapitar o primeiro que falasse
em reconhecer o grande, o bom Henrique IV. Esta cida-
de soleniza ainda todos os anos
3
, por meio de uma pro-
cissão e fogos de festa, o dia em que massacrou quatro
mil cidadãos heréticos, dois séculos atrás. Em vão seis
decisões do conselho proibiram essa odiosa festa, os to-
losanos sempre a celebraram como o faziam com os jogos
florais*.
..............
• Referência a um concurso poético anual, com esse nome, existente em
Toulouse desde 1323, inicialmente com o intuito de manter as tradições do sul
da França. (N. do T.)
5
___________ Voltaire __________ _
Algum fanático da populaça gritou que Jean Calas ha-
via enforcado seu próprio filho Marc-Antoine. Esse grito,
repetido, logo tornou-se unânime; outros acrescentaram
que o morto pretendia fazer abjuração no dia seguinte; que
sua família e o jovem Lavaisse o haviam estrangulado por
ódio contra a religião católica. Um momento depois, nin-
guém duvidava mais; toda a cidade foi persuadida de que
é um imperativo religioso entre os protestantes que um pai
e uma mãe devem assassinar seu filho tão logo ele queira
converter-se.
Uma vez excitados, os espíritos não mais se detêm.
Imaginou-se que os protestantes do Languedoc haviam
se reunido na véspera; que haviam escolhido, em delibe-
ração conjunta, um carrasco da seita; que a escolha recaí-
ra sobre o jovem Lavaisse; que esse jovem, em vinte e
quatro horas, recebera a notícia de sua eleição e chegara
de BOrdéus para ajudar Jean Calas, sua mulher e seu filho
Pierre, a estrangularem um amigo, um filho, um irmão.
O senhor David, magistrado de Toulouse, excitado
por esses rumores e querendo valorizar-se por uma ação
imediata, fez um processo contrário às normas. A família
Calas, a empregada católica e Lavaisse foram postos na
prisão.
Publicou-se uma citação eclesiástica não menos vi-
ciosa que o processo. Foram mais longe: Marc-Antoine
Calas morrera calvinista e, se atentara contra a própria
vida, devia ser arrastado na lama; inumaram-no com a
maior pompa na igreja Saint-Étienne, apesar do pároco,
que protestou contra essa profanaçã0
4

Há, no Languedoc, quatro confrarias de penitentes,
a branca, a azul, a cinza e a negra. Seus membros vestem
um longo capuz, com uma máscara de pano provida de
6
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
dois buracos para deixar a visão livre; tentaram fazer com
que o senhor duque de Fitz-James, comandante da pro-
víncia, entrasse na corporação, e este recusou. Os con-
frades brancos prestaram a Marc-Antoine Calas um servi-
ço solene, como a um mártir. Jamais uma Igreja celebrou
a festa de um mártir verdadeiro com maior pompa; mas
essa pompa foi terrível. Elevaram acima de um magnífi-
co catafalco um esqueleto que faziam mover e que re-
presentava Marc-Antoine Calas, tendo numa das mãos
uma palma e na outra a pena com que devia assinar a '
abjuração da heresia, e que escrevia, na verdade, a sen-
tença de morte de seu pai.
Ao infeliz que atentara contra si, só faltava mesmo a
canonização. Todo o mundo o via como um santo; alguns
o invocavam, outros iam rezar junto ao seu túmulo, ou-
tros pediam-lhe milagres, outros relatavam os que havia
feito. Um monge arrancou-lhe alguns dentes para ter re-
líquias duráveis. Uma devota, um pouco surda, disse que
escutara o som dos sinos. Um padre apoplético foi cura-
do após ter tomado o vomitório. Prepararam-se relató-
rios sobre esses prodígios. O autor do presente relato
possui um testemunho de que um jovem de Toulouse
ficou louco por ter rezado várias noites junto ao túmulo
do novo santo e não ter podido obter um milagre que
implorava.
Alguns magistrados eram da confraria dos penitentes
brancos. A partir desse momento a morte de Jean Calas
pareceu irreversível.
O que preparou seu suplício foi, sobretudo, a proxi-
midade dessa festa singular que os tolosanos celebram
todos os anos em memória de um massacre de quatro
mil huguenotes. 1762 era o ano do bicentenári0
5
• Prepa-
7
___________ Voltaire _________ _
rava-se na cidade o aparato dessa solenidade, o que ati-
çava ainda mais a imaginação exaltada do povo; dizia-se
publicamente que o cadafalso sobre o qual seriam supli-
ciados os Calas seria o maior ornamento da festa; dizia-
se que a própria Providência trazia essas vítimas para se-
rem sacrificadas à nossa santa religião. Vinte pessoas ou-
viram tais discursos, e outros mais violentos ainda. E isso
em nossos dias! E isso num tempo em que a filosofia fez
tantos progressos! E isso quando cem academias escre-
vem para inspirar a suavidade dos costumes! Parece que
o fanatismo, indignado com os recentes êxitos da razão,
debate-se com maior furor a seus pés.
Treze juízes reuniram-se diariamente para concluir o
processo. Não tinham, não podiam ter nenhuma prova
contra a família; mas a religião enganada fazia as vezes
de prova. Seis juízes persistiram por muito tempo em
condenar Jean Calas, seu filho e Lavaisse ao suplício da
roda, e a mulher de Jean Calas à fogueira. Sete outros,
mais moderados, queriam ao menos que se averiguasse.
Os debates foram reiterados e longos. Um dos juízes
6
,
convencido da inocência dos acusados e da impossibili-
dade do crime, falou vivamente a favor deles; opôs o ze-
lo da humanidade ao zelo da severidade; tornou-se o
defensor público dos Calas em todas as casas de Toulou-
se, onde os clamores contínuos da religião equivocada
exigiam o sangue desses infortunados. Um outro juiz,
conhecido por sua violência
7
, falava na cidade com tanta
exaltação contra os Calas quanto o primeiro se empe-
nhava em defendê-los. Enfim, a grita foi tão grande que
ambos foram obrigados a julgar-se incompetentes, reti-
rando-se do caso.
Mas, por estranha infelicidade, o juiz favorável aos
Calas teve a delicadeza de persistir em seu afastamento,
8
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
enquanto o outro voltou para dar seu voto contra aque-
les que não devia julgar: esse voto é que determinou a
condenação ao suplício da roda, pois foram apenas oito
votos contra cinco, havendo um dos seis juízes contrá-
rios, ao final, após muitas contestações, passado para o
partido mais severo.
Creio que, quando se trata de um parricídio e de lan-
çar um pai de família ao suplício mais terrível, o julga-
mento deveria ser unânime, porque as provas de um
crime tão inusitadd deveriam ser de uma evidência sen-'
sível a todo o mundo: a menor dúvida em semelhante
caso deve ser suficiente para fazer tremer um juiz pres-
tes a assinar uma sentença de morte. A fraqueza de nos-
sa razão e a insuficiência de nossas leis se fazem sentir
diariamente; mas em que ocasião percebe-se melhor sua
miséria do que quando a preponderância de uma única
voz condena ao suplício um cidadão? Eram necessárias,
em Atenas, cinqüenta vozes além da metade para ousar-
se pronunciar uma sentença de morte. Que resulta disso?
O que sabemos muito inutilmente, isto é, que os gregos
eram mais sábios e mais humanos do que nós.
Parecia impossível que Jean Calas, velho de 68 anos,
tendo há muito tempo as pernas inchadas e fracas, tives-
se estrangulado sozinho e enforcado um filho de 28 anos,
que tinha uma força acima do comum; era absolutamen-
te necessário que tivesse sido auxiliado nessa execução
por sua mulher, por seu filho Pierre Calas, por Lavaisse e
pela empregada. Eles não haviam se separado um só
momento na noite dessa fatal aventura. Mas tal suposi-
ção era tão absurda quanto a outra: pois como é que uma
dedicada empregada católica teria podido suportar que
huguenotes assassinassem um jovem criado por ela, a
9
___________ Voltaire __________ _
fim de puni-lo por amar a religião dessa mesma empre-
gada? Como é que Lavaisse teria vindo expressamente
de Bordéus para estrangular seu amigo, de quem ignora-
va a suposta conversão? Como é que uma mãe afetuosa
teria atacado seu filho? Como é que todos juntos teriam
podido estrangular um jovem tão robusto quanto eles to-
dos, sem um combate longo e violento, sem gritos terrí-
veis que teriam alertado a vizinhança, sem golpes reite-
rados, sem ferimentos, sem roupas rasgadas?
Era evidente que, se o parricídio pudesse ter sido
cometido, todos os acusados eram igualmente culpados,
por não se haverem separado em nenhum momento;
era evidente que não se haviam separado; era evidente
que o pai não podia ser o único culpado; não obstante
a sentença condenou apenas esse pai a expirar no suplí-
cio da roda.
O motivo da sentença era tão inconcebível quanto o
resto. Os juízes favoráveis ao suplício de Jean Calas per-
suadiram os outros de que esse velho fraco não poderia
resistir aos tormentos e de que confessaria, sob os gol-
pes do carrasco, seu crime e o de seus cúmplices. Fica-
ram perplexos, quando Q velho, ao morrer na roda, cla-
mou a Deus em testemunho de sua inocência e conju-
rou-o a perdoar seus juízes.
Estes foram obrigados a pronunciar uma segunda
sentença, contraditória com a primeira, ordenando a sol-
tura da mãe, de seu filho Pierre, do jovem Lavaisse e da
empregada. Mas, tendo um dos conselheiros notado que
essa sentença desmentia a outra, que elas se condena-
vam mutuamente e que, como os acusados sempre esti-
veram juntos no momento do suposto parricídio, a or-
dem de soltura dos sobreviventes provava cabalmente a
10
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
inocência do pai de família executado, decidiram então
banir Pierre Calas, seu filho. Esse banimento parecia tão
inconseqüente, tão absurdo quanto o resto, pois Pierre
Calas era ou culpado ou inocente do parricídio; se fosse
culpado, devia ser submetido ao suplício como seu pai;
se fosse inocente, não tinha cabimento bani-lo. Mas os
juízes, assustados com o suplício do pai e a comovedo-
ra piedade com que morrera, imaginaram salvar sua
honra dando a entender que perdoavam o filho, como se
perdoar não fosse uma nova prevaricação; e acreditaram '
que o banimento desse jovem pobre e sem apoio, não
tendo conseqüências, não era uma grande injustiça, de-
pois daquela que haviam tido a infelicidade de cometer.
Começaram ameaçando Pierre Calas, no cárcere, de
que teria a mesma sorte de seu pai, se não abjurasse sua
religião. É o que este jovem
9
atesta por juramento.
Pierre Calas, ao sair da cidade, encontrou um abade
convertedor que o fez voltar a Toulouse; encerraram-no
num convento de dominicanos e lá foi constrangido a
cumprir todas as funções da catolicidade. Era em parte o
que queriam, era o preço do sangue de seu pai; e a reli-
gião, que acreditaram vingar, parecia satisfeita.
As filhas foram retiradas da mãe e encerradas tam-
bém num convento. Essa mulher, quase regada com o
sangue de seu marido, tendo amparado nos braços seu
filho primogênito morto, vendo o outro banido, privada
de suas filhas, despojada de todos os bens, estava só no
mundo, sem pão, sem esperança e sucumbindo ao peso
de sua infelicidade. Algumas pessoas, tendo examinado
com ponderação todas as circunstâncias dessa horrível
aventura, ficaram tão chocadas que instaram a senhora
Calas, retirada na solidão, a ousar pedir justiça ao pé do
11
___________ Voltaire _________ _
trono. Ela não podia, então, sustentar-se, extinguia-se;
além disso, tendo nascido inglesa, transplantada a uma
província da França desde a juventude, o simples nome
da cidade de Paris a assustava. Supunha que a capital do
reino devia ser ainda mais bárbara que a do Languedoc.
Mas o dever de vingar a memória de seu marido acabou
prevalecendo sobre sua fraqueza. Ela chegou a Paris
quase morta. Ficou espantada de ali encontrar acolhida,
amparos e lágrimas 10.
Em Paris a razão prevalece sobre o fanatismo, por
maior que este seja, ao passo que, na província, o fana-
tismo quase sempre prevalece sobre a razão.
O sr. de Beaumont, célebre advogado do parlamen-
to de Paris, assumiu inicialmente sua defesa e redigiu um
parecer que foi assinado por quinze advogados
ll
. O sr.
Loiseau, não menos eloqüente, compôs um memoriap2
em favor da família. O sr. Mariette, advogado no conse-
lho, elaborou um requerimento jurídico
13
que levava a
convicção a todos os espíritos.
Esses três generosos defensores das leis e da inocên-
cia destinaram à viúva o lucro das edições de seus arra-
zoados!4. Paris e a Europa inteira encheram-se de pieda-
de e exigiram justiça com essa mulher infortunada. A sen-
tença foi pronunciada pelo público bem antes que
pudesse ser assinada pelo conselho.
A piedade penetrou até no ministério, apesar do
contínuo caudal de questões
15
, que geralmente exclui a
piedade, e apesar do hábito de ver infelizes, que pode
endurecer ainda mais o coração. Devolveram-se as fi-
lhas à mãe. As três foram vistas, cobertas de luto e ba-
nhadas de lágrimas, suscitando lágrimas também em seus
juízes.
12
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
No entanto essa família teve ainda alguns inimigos,
pois se tratava de religião. Várias pessoas, que na França
são chamadas devotas
16
, disseram abertamente que era
preferível deixar supliciar um velho calvinista inocente
do que expor oito conselheiros do Languedoc a admiti-
rem que haviam se enganado. Serviram-se inclusive des-
ta expressão: "Há mais magistrados do que Calas"; e dela
inferiam que a família Calas devia ser imolada em honra
à magistratura. Não se imaginava que a honra dos juízes
consiste, como a dos outros homens, em reparar suas.
faltas. Na França não se acredita que o papa, assistido
por seus cardeais, seja infalível: poder-se-ia, do mesmo
modo, crer que oito juízes de Toulouse não o são. As
pessoas sensatas e desinteressadas diziam que a senten-
ça de Toulouse seria anulada em toda a Europa, ainda
que considerações particulares impedissem que fosse
anulada no conselho.
Tal era o estado dessa espantosa aventura, quando
ela fez surgir em pessoas imparciais, mas sensíveis, o pro-
pósito de apresentar ao público algumas reflexões sobre
a tolerância, sobre a indulgência, sobre a comiseração,
que o abade Houteville chama de dogma monstrnos(P,
em seu discurso empolado e errôneo sobre fatos, e que
a razão chama de apanágio da natureza.
Ou os juízes de Toulouse, arrastados pelo fanatismo
da populaça, fizeram supliciar um pai de família inocen-
te, o que é inédito; ou esse pai de família e sua mulher
estrangularam seu filho primogênito, ajudados nesse par-
ricídio por um outro filho e um amigo, o que é antinatu-
raI. Num caso ou no outro, o abuso da religião mais sa-
grada produziu um grande crime. É, portanto, do interes-
se do gênero humano examinar se a religião deve ser
caridosa ou bárbara.
13
CAPÍTULO 11
Conseqüências do suplício
de Jean Calas
Se os penitentes brancos foram a causa do suplício
de um inocente, da ruína total de uma família, de sua dis-
persão e do opróbrio que só deveria associar-se à injus-
tiça, mas que está associado ao suplício; se a precipita-
ção dos penitentes brancos em celebrar como um santo
aquele que, segundo nossos costumes bárbaros, deveria
ter sido arrastado na lama, levou ao suplício um pai de
família virtuoso; essa infelicidade deve certamente torná-
los penitentes de fato para o resto de suas vidas; eles e
os juízes devem chorar, mas não com uma longa túnica
branca e uma máscara que ocultaria suas lágrimas.
Todas as confrarias merecem respeito: elas são edifi-
cantes. Todavia, por maior que seja o bem que possam
fazer ao Estado, igualar-se-á esse bem ao terrível mal que
causaram? Elas parecem instituídas pelo zelo que, no
Languedoc, anima os católicos contra aqueles a que cha-
mamos huguenotes. Dir-se-ia que fizeram voto de odiar
seus irmãos, pois temos religião de sobra para odiar e
perseguir, e pouca para amar e socorrer. E o que seria,
se tais confrarias fossem governadas por fanáticos, como
o foram outrora algumas congregações de artesãos e de
senhores 18, nas quais convertia-se em arte e sistema o
15
___________ Voltaire _________ _
hábito de ter visões, como diz um de nossos mais sábios
e eloqüentes magistrados? O que seria, se nas confrarias
se estabelecessem essas câmaras escuras, chamadas câ-
maras de meditação, onde eram pintados diabos arma-
dos de chifres e garras, abismos de chamas, cruzes e pu-
nhais, com o santo nome de Jesus acima do quadro? Que
espetáculo para olhos já fascinados e para imaginações
tão inflamadas quanto submissas a seus diretores!
Houve épocas, sabe-se bem, em que as confrarias fo-
ram perigosas. Os fraticelli, os flagelantes, causaram pro-
blemas. A Liga começou por tais associações. Por que
distinguirem-se assim dos outros cidadãos? Acreditavam-
se mais perfeitos? Isso já é um insulto ao resto da nação.
Queriam que todos os cristãos entrassem na confraria?
Seria um belo espetáculo a Europa de capuz e máscara,
com dois pequenos orifícios redondos diante dos olhos!
Pensam de boa-fé que Deus prefere essa vestimenta ridí-
cula a um gibão? Tem mais: essa vestimenta é um unifor-
me de controversistas, que adverte os adversários a se po-
rem de guarda; é capaz de excitar uma espécie de guer-
ra civil nos espíritos e resultaria talvez em funestos ex-
cessos, se o rei e seus ministros não fossem tão pruden-
tes quanto os fanáticos são insensatos.
Sabe-se bem quanto isso custou desde que os cris-
tãos disputam sobre o dogma: o sangue correu, seja nos
cadafalsos, seja nas batalhas, do século IV aos nossos
dias. Limitemo-nos aqui às guerras e aos horrores que as
querelas da Reforma suscitaram e vejamos qual foi sua
origem na França. Talvez um quadro resumido e fiel de
tantas calamidades abra os olhos de algumas pessoas pou-
co instruídas e sensibilize os corações bem-feitos.
16
CAPÍTULO III
Idéia da Reforma do século XW
Quando, no renascimento das letras, os espíritos co-
meçaram a iluminar-se, houve queixa geral contra os
abusos; todo o mundo reconhece que essa queixa era
legítima.
O papa Alexandre VI havia comprado publicamente a
tiara, e seus cinco bastardos compartilhavam as vantagens.
Seu filho, o cardeal duque de Borgia, fez perecer, em man-
comunação com o papa, seu pai, os Vitelli, os Urbino, os
Gravina, os Oliveretto e cem outros senhores, para arreba-
tar seus domínios. Júlio 11, animado pelo mesmo espírito,
excomungou Luís XII, deu seu reino ao primeiro ocupan-
te e, ele próprio vestindo capacete e couraça, pôs a ferro e
fogo uma parte da Itália. Leão X, para pagar seus prazeres,
traficou com indulgências como se fossem gêneros alimen-
tícios num mercado público. Os que se insurgiram contra
tantos atos de banditismo não cometiam, pelo menos,
nenhum erro na moral. Vejamos se o cometiam contra nós
na política.
Diziam que, não tendo Jesus Cristo jamais exigido
anatas
19
nem reservas, nem vendido dispensas para este
mundo e indulgências para o outro, podiam eximir-se de
pagar a um príncipe estrangeiro o preço de todas essas
17
___________ Voltaire __________ _
coisas. Ainda que as anatas, os processos no tribunal de
Roma e as dispensas que subsistem ainda hoje nos cus-
tassem apenas quinhentos mil francos por ano, é claro
que já pagamos desde Francisco I, em duzentos e cin-
qüenta anos, cento e vinte e cinco milhões; e, conside-
rando os diferentes preços do marco de prata, essa soma
representa cerca de duzentos e cinqüenta milhões, atual-
mente. Pode-se, portanto, convir, sem blasfêmia, que os
heréticos, ao proporem a abolição desses impostos sin-
gulares que haverão de espantar a posteridade, não fa-
ziam com isso um grande mal ao reino, sendo antes bons
calculadores do que maus súditos. Acrescentemos que
eles eram os únicos que sabiam a língua grega e conhe-
ciam a Antiguidade. Não dissimulemos que, apesar de
seus erros, devemos-lhes o desenvolvimento do espírito
humano, por muito tempo enterrado na mais espessa
barbárie.
Entretanto, como negavam o purgatório, do qual não
se deve duvidar e que, aliás, muito beneficiava os mon-
ges; como não reverenciavam relíquias que devem ser re-
verenciadas, mas que proporcionavam benefícios ainda
maiores; enfim, como atacavam dogmas muito respeita-
dos
20
, a primeira resposta que lhes deram foi jogá-los na
fogueira. O rei, que os protegia e financiava na Alemanha,
marchou em Paris à frente de uma procissão, após a qual
foram executados vários desses infelizes. E eis qual foi
essa execução: eram suspensos na ponta de um compri-
do poste que oscilava sobre uma árvore; acendia-se uma
grande fogueira, sobre a qual o poste era abaixado e er-
guido alternadamente; assim experimentavam aos pou-
cos os tormentos da morte, até expirarem através do mais
longo e terrível suplício que a barbárie jamais inventou.
18
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
Pouco tempo antes da morte de Francisco I, alguns
membros do parlamento da Provença, animados por
eclesiásticos contra os habitantes de Mérindol e Ca-
brieres, solicitaram ao rei tropas para apoiar a execu-
ção de dezenove pessoas da região, por eles condena-
das; seis mil acabaram sendo mortas, sem perdoar o se-
xo, a velhice ou a infância; trinta burgos foram reduzi-
dos a cinzas. Esses povos, até então desconhecidos, eram
culpados, certamente, de terem nascido valdenses; era
sua única iniqüidade. Haviam-se estabelecido há tre>'
zentos anos em desertos e montanhas que tornaram
férteis por um trabalho inacreditável. Sua vida pastoril
e tranqüila relembrava a inocência atribuída às primei-
ras idades do mundo. As cidades vizinhas só eram co-
nhecidas deles pelo tráfico dos frutos que iam vender,
ignoravam os processos e a guerra. Eles não se defen-
deram: foram chacinados como animais fugitivos mor-
tos num cercad0
21

Após a morte de Francisco I, príncipe não obstante
mais conhecido por suas galanterias e seus infortúnios
do que por suas crueldades, o suplício de mil heréticos,
sobretudo o do conselheiro do parlamento Dubourg, e,
finalmente, o massacre de Vassy, armaram os persegui-
dos, cuja seita havia se multiplicado ao clarão das foguei-
ras e sob o ferro dos carrascos. A raiva sucedeu à paciên-
cia. Eles imitaram as crueldades de seus inimigos: nove
guerras civis encheram a França de mortandade; uma
paz mais funesta do que a guerra produziu a Noite de
São Bartolomeu, da qual não havia nenhum exemplo
nos anais do crime.
A Liga assassinou Henrique III e Henrique IV, pelas
mãos de um frade dominicano e de um monstro que ha-
19
___________ Voltaire _________ _
via sido frade bernard0
22
• Há pessoas que pretendem
que a humanidade, a indulgência e a liberdade de cons-
ciência são coisas horríveis; mas, em boa-fé, teriam elas
produzido calamidades comparáveis?
20
CAPÍTULO IV
Se a tolerância é perigosa, e em
que povos ela é permitida
Alguns disseram que, se usássemos de uma indul-
gência paternal para com nossos irmãos errantes que re-
zam a Deus em mau francês, estaríamos pondo-lhes ar-
mas nas mãos; que veríamos novas batalhas de ]arnac,
de Moncontour, de Coutras, de Dreux, de Saint-Denis,
etc. Ignoro isso, porque não sou profeta; mas parece-me
que não é raciocinar conseqüentemente afirmar: "Esses
homens insurgiram-se quando lhes fiz o mal; portanto se
insurgirão quando lhes fizer o bem."
Eu ousaria tomar a liberdade de convidar os que
estão à testa do governo e os destinados aos grandes
postos a examinarem com ponderação se devemos de
fato temer que a doçura produza as mesmas revoltas que
a crueldade faz nascer; se o que aconteceu em certas cir-
cunstâncias deve acontecer em outras; se os tempos, a
opinião, os costumes são sempre os mesmos.
Os huguenotes, certamente, deixaram-se tomar pelo
fanatismo e manchar de sangue como nós; mas a gera-
ção presente é tão bárbara quanto seus pais? O tempo, a
razão que faz tantos progressos, os bons livros, a man-
suetude da sociedade não penetraram nos que condu-
zem o espírito desses povos? E não percebemos que
21
___________ Voltaire __________ _
quase toda a Europa mudou de face de uns cinqüenta
anos para cá?
Por toda a parte o governo se fortaleceu, enquanto
os costumes abrandaram. Aliás, o policiamento geral, sus-
tentado por exércitos numerosos sempre existentes, não
permite temer o retorno daqueles tempos anárquicos em
que camponeses calvinistas combatiam camponeses ca-
tólicos arregimentados às pressas entre o plantio e as co-
lheitas.
Outros tempos, outros cuidados. Seria absurdo dizi-
mar hoje a Sorbonne por ter requerido outrora que a Don-
zela de Orléans fosse queimada; por não ter reconheci-
do a Henrique III o direito de reinar, por ter excomunga-
do, proscrito, o grande Henrique IV. Certamente não se
irá investigar outras corporações do reino, que comete-
ram os mesmos excessos naqueles tempos de frenesi:
isso seria não apenas injusto, mas tão insensato como
purgar todos os habitantes de Marselha porque tiveram a
peste em 1720.
Acaso iremos saquear Roma, como fizeram as tropas
de Carlos v, porque Sisto V, em 1585, concedeu nove
anos de indulgência a todos os franceses que pegassem
em armas contra seu soberano? Não é suficiente impedir
Roma de entregar-se a excessos semelhantes?
O furor que inspiram o espírito dogmático e o abuso
da religião cristã mal compreendida derramou sangue,
produziu desastres tanto na Alemanha, na Inglaterra e
mesmo na Holanda, como na França. Hoje, no entanto,
a diferença das religiões não causa nenhum problema nes-
ses Estados; o judeu, o católico, o grego, o luterano, o
calvinista, o anabatista, o sociniano, o menonita, o morá-
vio e tantos outros vivem como irmãos nesses países e
contribuem igualmente para o bem da sociedade.
22
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
N a Holanda, não mais se teme que as disputas de
um Gomar
23
sobre a predestinação façam rolar a cabeça
do grande pensionista*. Não se teme mais, em Londres,
que as querelas dos presbiterianos e dos episcopais, en-
volvendo uma liturgia e uma sobrepeliz, espalhem o san-
gue de um rei sobre um cadafals0
24
• A Irlanda povoada e
enriquecida não verá mais seus cidadãos católicos sacri-
ficarem a Deus durante dois meses os cidadãos protes-
tantes, enterrarem-nos vivos, suspenderem as mães em
forcas, prendendo as filhas ao pescoço delas e verem'-
nas expirar juntas; abrirem o ventre das mulheres grávi-
das, retirarem os fetos e darem-nos de comer aos porcos
e aos cães; colocarem um punhal na mão dos prisionei-
ros garroteados e conduzirem seus braços ao ventre de
suas mulheres, de seus pais, de suas mães, de suas filhas,
imaginando, assim, tornarem-nos mutuamente parricidas
e condenarem-nos à danação ao mesmo passo em que
os exterminavam todos. É o que relata Rapin-Thoiras,
oficial na Irlanda, quase contemporâneo; é o que relatam
todos os anais, todas as histórias da Inglaterra e o que
por certo jamais será imitado. A filosofia, a mera filoso-
fia, essa irmã da religião, desarmou mãos que a supers-
tição por muito tempo havia ensangüentado; e o espíri-
to humano, ao despertar de sua embriaguez, espantou-
se com os excessos a que o fanatismo o havia levado.
Nós mesmos, na França, temos uma província opu-
lenta em que o luteranismo prevalece sobre o catolicismo.
A universidade da Alsácia está em mãos dos luteranos;
eles ocupam uma parte dos cargos municipais; jamais a
• Nome dado ao representante da assembléia e do conselho de Estado
da Holanda com funções comparáveis às de primeiro-ministro. (N. do T.)
23
___________ Voltaire __________ _
menor querela religiosa perturbou o repouso dessa pro-
víncia desde que ela pertence a nossos reis. Por quê? É que
lá não se perseguiu ninguém
2s
• Buscai não perturbar os
corações, e todos os corações estarão a vosso dispor.
Não digo que todos os que não são da religião do
príncipe devam ter acesso aos postos e às honras dos
que são da religião dominante. Na Inglaterra, os católi-
cos, vistos como adeptos do partido do pretendente, não
podem aspirar aos cargos; pagam inclusive imposto do-
brado; mas, afora isso, gozam de todos os direitos dos
cidadãos.
Suspeitaram-se alguns bispos franceses de pensar
não ser de sua honra nem de seu interesse ter calvinistas
em sua diocese; seria esse o maior obstáculo à tolerân-
cia. Não posso acreditar. O corpo dos bispos, na França,
é composto de pessoas de qualidade que pensam e
agem com uma nobreza digna de seu nascimento; são
caridosos e generosos, é uma justiça que devemos fazer-
lhes. Devem pensar que seus diocesanos fugitivos não
se converterão, nos países estrangeiros, e que, voltando
para junto de seus pastores, poderiam ser esclarecidos
por suas instruções e tocados por seus exemplos; have-
ria honra em convertê-los, o temporal não sairia perden-
do e, quanto maior o número de cidadãos, tanto mais as
terras dos prelados renderiam.
Um bispo de Varmie, na Polônia, tinha um anabatis-
ta como feitor e um sociniano como coletor de impostos.
Propuseram-lhe expulsar e perseguir um, porque não
acreditava na consubstancialidade, e o outro, porque só
batizava seus filhos aos quinze anos; o bispo respondeu
que eles seriam eternamente condenados no outro mun-
do, mas que, neste, eram-lhe muito necessários.
24
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
Saiamos de nossa pequena esfera e examinemos o
resto de nosso globo. O Grande Senhor governa em paz
vinte povos de diferentes religiões; duzentos mil gregos
vivem com segurança em Constantinopla; o próprio
mufti [intérprete da lei muçulmana] nomeia e apresenta
ao imperador o patriarca grego; tolera-se aí um patriarca
latino. O sultão nomeia bispos latinos para algumas ilhas
da Grécia
26
, servindo-se da seguinte fórmula: "Ordeno-
lhe que vá residir como bispo na ilha de Quios, segundo
seu antigo costume e suas vãs cerimônias." Esse impérió
está repleto de jacobitas, nestorianos, monotelistas; há
coptas, cristãos de São João, judeus, guebros, banianos.
Os anais turcos não fazem menção de nenhuma revolta
provocada por alguma dessas religiões.
Ide à Índia, à Pérsia, à Tartária, e vereis a mesma to-
lerância e a mesma tranqüilidade. Pedro, o Grande, favo-
receu todos os cultos em seu vasto império; o comércio
e a agricultura ganharam com isso, e o corpo político
nunca foi prejudicado.
O governo da China jamais adotou, desde mais de
quatro mil anos que é conhecido, senão o culto dos noá-
chidas
27
, a adoração simples de um único Deus; no en-
tanto, tolera as superstições de Fô28 e uma quantidade de
bonzos que seria perigosa, se a sabedoria dos tribunais
não os houvesse sempre contido.
É verdade que o grande imperador Yung-Ching, tal-
vez o mais sábio e magnânimo que houve na China, ex-
pulsou os jesuítas; mas não porque fosse intolerante, e
sim porque os jesuítas, ao contrário, o eram. Eles mesmos
relatam, em suas Cartas cu riosas
29
, as palavras que lhes
disse esse bom príncipe: "Sei que vossa religião é intole-
rante; sei o que fizestes nas Manilas e no Japão; vós
25
___________ Voltaire __________ _
enganastes meu pai, não espereis enganar-me também."
Lede todo o discurso que ele houve por bem fazer-lhes
e encontrareis o mais sábio e o mais clemente dos ho-
mens. Podia ele, com efeito, acolher físicos da Europa
que, a pretexto de mostrar termômetros e eolipilas à cor-
te, já haviam incitado à revolta um príncipe real? E que
teria dito esse imperador se houvesse lido nossas histó-
rias, se conhecesse nossos tempos da Liga e da conspi-
ração dos barris de pólvora 30?
Para ele, era suficiente estar informado das querelas
indecentes dos jesuítas, dominicanos, capuchinhos, pa-
dres seculares, enviados da outra ponta do mundo a seus
Estados: vinham pregar a verdade e anatematizavam-se
uns aos outros. O imperador, portanto, não fez mais do
que mandar de volta perturbadores estrangeiros. Mas
com que bondade os mandou de volta! Que cuidados
paternos dispensou-lhes para a viagem e para impedir
que os insultassem no caminho! O próprio banimento
deles foi um exemplo de tolerância e de humanidade.
Os japoneses
31
eram os mais tolerantes de todos os
homens. Doze religiões pacíficas haviam se estabelecido
em seu império; os jesuítas vieram completar a décima
terceira, mas, logo, não querendo tolerar as outras, sabe-
mos o que resultou: uma guerra civil, não menos terrível
que a da Liga, assolou o país. A religião cristã foi, enfim,
afogada em ondas de sangue; os japoneses fecharam seu
império ao resto do mundo e passaram a nos ver como
animais ferozes, semelhantes àqueles que os ingleses ex-
purgaram de sua ilha. Em vão o ministro Colbert, sentin-
do a necessidade que tínhamos dos japoneses, os quais
não têm necessidade nenhuma de nós, tentou estabele-
cer um comércio com seu império: eles mostraram-se
inflexíveis.
26
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
Assim, portanto, nosso continente inteiro prova-nos
que não se deve anunciar nem exercer a intolerância.
Voltai os olhos para o outro hemisfério, vede a Caro-
lina, da qual o sábio Locke foi o legislador: bastam sete
pais de família para estabelecer um culto público apro-
vado por lei; essa liberdade não fez nascer nenhuma
desordem. Deus nos livre de citar esse exemplo para ins-
tar a França a imitá-lo! Só o relatamos para mostrar que
o maior excesso até onde pode chegar a tolerância não
foi seguido da mais leve dissensão. Mas o que é muito
útil e muito bom numa colônia nascente não é conve-
niente num antigo reino.
Que diremos, então, dos primitivos, chamados qua-
kers por derrisão e que, com costumes talvez ridículos,
foram tão virtuosos e ensinaram inutilmente a paz ao
resto dos homens? Na Pensilvânia, eles são em número
de cem mil; a discórdia, a controvérsia são ignoradas na
pátria feliz que construíram para si e o simples nome de
sua cidade de Filadélfia
32
, a lembrar-lhes a todo instante
que os homens são irmãos, é o exemplo e a vergonha
dos povos que ainda não conhecem a tolerância.
Enfim, essa tolerância jamais suscitou guerra civil,
enquanto a intolerância cobriu a terra de chacinas. Que se
julgue, pois, entre essas duas rivais, entre a mãe que quer
que matem seu filho e a mãe que o cede para que ele viva
33
!
Não falo aqui senão do interesse das nações; e respei-
tando, como devo, a teologia, considero neste artigo ape-
nas o bem físico e moral da sociedade. Imploro todo lei-
tor imparcial a pesar essas verdades, retificá-las e desen-
volvê-las. Leitores atentos, que se comunicam com seus
pensamentos, vão sempre mais longe que o autor
34

27
CAPÍTULO V
Como a tolerância pode
ser admitida
Ouso supor que um ministro esclarecido e magnâni-
mo, um prelado humano e sensato, um príncipe que sa-
be que seu interesse consiste no maior número de súdi-
tos, e sua glória na felicidade deles, dignar-se-á lançar os
olhos sobre este escrito informe e defeituoso: suprem-no
suas próprias luzes; ele diz a si mesmo: que risco corre-
ria eu em ver a terra cultivada e melhorada por mais mãos
laboriosas, os tributos aumentados, o Estado florescendo
mais?
A Alemanha seria um deserto coberto pelas ossadas
de católicos, evangélicos, reformados, anabatistas mor-
tos uns pelos outros, se a paz de Vestefália não tivesse
proporcionado enfim a liberdade de consciência.
Temos judeus em Bordéus, em Metz, na Alsácia
35
;
temos luteranos, molinistas, jansenistas - não podemos
tolerar e admitir calvinistas mais ou menos nas mesmas
condições que os católicos são tolerados em Londres?
Quanto mais seitas houver, tanto menos perigosa cada
uma será; a multiplicidade as enfraquece; todas são re-
primidas por justas leis que proíbem as assembléias tu-
multuosas, as injúrias, as sedições e que estão sempre
em vigor pela força coativa.
29
___________ Voltaire __________ _
Sabemos que vários chefes de família, que fizeram
grandes fortunas em países estrangeiros, estão dispostos
a retornar à sua pátria; não pedem senão a proteção da
lei natural, a validade de seus casamentos, a certidão re-
conhecida de seus filhos, o direito de herdar dos pais, a
franquia de suas pessoas; nada de templos públicos,
nada de direito aos cargos municipais, às dignidades - os
católicos não os têm em Londres nem em vários outros
países. Não se trata mais de dar privilégios imensos, áreas
de segurança a uma facção, mas de deixar viver um povo
pacífico, de abrandar editos talvez necessários outrora,
mas que já não o são. Não cabe a nós indicar ao minis-
tério o que ele pode fazer; basta implorá-lo em favor dos
infortunados.
Quantos meios de torná-los úteis e de impedir que
jamais sejam perigosos! A prudência do ministério e do
conselho, apoiada pela força, encontrará com facilidade
esses meios, que tantas outras nações empregam de
maneira exitosa.
Há fanáticos ainda na populaça calvinista; mas é
certo que os há em maior número na populaça convul-
sionária. A escória dos insensatos de Saint-Médard con-
tou muito pouco na nação; a dos profetas calvinistas,
quase nada
36
• O grande meio de diminuir o número de
maníacos, se restarem, é submeter essa doença do espí-
rito ao regime da razão, que esclarece lenta, mas infali-
velmente, os homens. Essa razão é suave, humana, ins-
pira a indulgência, abafa a discórdia, fortalece a virtude,
torna agradável a obediência às leis, mais ainda do que
a força é capaz. E não se há de levar em conta o ridícu-
lo hoje associado ao entusiasmo pelas pessoas de bem?
Esse ridículo é uma poderosa barreira contra as extrava-
30
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
gâncias de todos os sectários. Os tempos passados são
como se jamais tivessem existido. É preciso sempre par-
tir do ponto em que se está e daquele a que chegaram
as nações.
Houve um tempo em que se julgou necessário emi-
tir decretos contra os que ensinavam uma doutrina con-
trária às categorias de Aristóteles, ao horror do vazio, às
qüididades e ao universal por parte da coisa. Temos na
Europa mais de cem volumes de jurisprudência sobre a
feitiçaria e sobre a maneira de distinguir os falsos feiticei-
ros dos verdadeiros. A excomunhão dos gafanhotos e
dos insetos nocivos às colheitas esteve muito em moda e
ainda subsiste em vários rituais. A moda passou; Aristó-
teles, os feiticeiros e os gafanhotos foram deixados em
paz. Os exemplos dessas graves demências, outrora tão
importantes, são inumeráveis. De tempos em tempos
surgem outros; mas, quando fizeram seu efeito, quando
se está farto deles, desaparecem. Se alguém ousasse hoje
ser carpocratiano, ou eutiquesiano, ou monotelista, mo-
nofisista, nestoriano, maniqueu, etc., o que aconteceria?
Ririam dele, como de um homem vestido à antiga, com
um colarinho de pregas e um gibão.
A nação começava a entreabrir os olhos quando os
jesuítas Le Tellier e Doucin fabricaram a bula Unigenitus,
que enviaram a Roma. Acreditaram estar ainda naqueles
tempos de ignorância em que os povos adotavam sem
exame as asserções mais absurdas. Ousaram proscrever
esta proposição, que é de uma verdade universal em to-
dos os casos e em todos os tempos: "O temor de uma
excomunhão injusta não deve impedir de cumprir seu
dever." Era proscrever a razão, as liberdades da Igreja ga-
licana, e o fundamento da moral; era dizer aos homens:
31
___________ Voltaire __________ _
Deus vos ordena jamais cumprir vosso dever, contanto
que temais a injustiça. Jamais o senso comum foi ferido
tão acintosamente. Os consultores de Roma não presta-
ram atenção nisso. Persuadiu-se o tribunal de Roma que
essa bula era necessária e que a nação a desejava; foi as-
sinada, selada e enviada. Sabemos os desdobramentos;
certamente, se os tivessem previsto, teriam mitigado a
bula. As querelas foram acirradas; a prudência e a bon-
dade do rei finalmente as apaziguaram.
O mesmo ocorre numa grande parte dos pontos que
dividem os protestantes e nós: há alguns que não têm a
menor conseqüência; há outros mais graves, mas sobre
os quais o furor da disputa arrefeceu de tal maneira que
os próprios protestantes não pregam hoje a controvérsia
em nenhuma de suas igrejas.
É, portanto, esse tempo de fastio, de saciedade, ou
melhor, de razão, que podemos perceber como uma épo-
ca e uma garantia da tranqüilidade pública. A controvér-
sia é uma doença epidêmica a ponto de extinguir-se, e
essa peste, da qual nos curamos, não requer mais do que
um regime suave. Enfim, o interesse do Estado é que fi-
lhos expatriados retornem com modéstia à casa de seu
pai: a humanidade o exige, a razão o aconselha e a polí-
tica não se pode assustar com isso.
32
CAPÍTULO VI
Se a intolerância é de direito
natural e de direito humano
O direito natural é aquele que a natureza indica a
todos os homens. Educastes vosso filho, ele vos deve
respeito como a seu pai, reconhecimento como a seu
benfeitor. Tendes direito aos frutos da terra que cultivas-
tes com vossas mãos. Fizestes e recebestes uma promes-
sa, ela deve ser cumprida.
Em todos os casos, o direito humano só pode se fun-
dar nesse direito de natureza; e o grande princípio, o
princípio universal de ambos, é, em toda a terra: "Não
faças o que não gostarias que te fizessem." Ora, não se
percebe como, de acordo com esse princípio, um ho-
mem poderia dizer a outro: "Acredita no que acredito e
no que não podes acreditar, ou morrerás." É o que dizem
em Portugal, na Espanha, em Goa. Atualmente limitam-
se a dizer, em alguns países: "Crê, ou te abomino; crê, ou
te farei todo o mal que puder; monstro, não tens minha
religião, logo não tens religião alguma: cumpre que sejas
odiado por teus vizinhos, tua cidade, tua província."
Se fosse de direito humano conduzir-se dessa forma,
caberia então que o japonês detestasse o chinês, o qual
execraria o siamês; este perseguiria os gancares, que cai-
riam sobre os habitantes do Indo; o mongol arrancaria o
33
--_________ Voltaire _________ _
coração do primeiro malabar que encontrasse; o malabar
poderia degolar o persa, que poderia massacrar o turco
- e todos juntos se lançariam sobre os cristãos, que por
muito tempo devoraram-se uns aos outros.
O direito da intolerância é, pois, absurdo e bárbaro;
é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres
só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos
por parágrafos.
34
CAPÍTULO VII
Se a intolerância foi conhecida
pelos gregos
Todos os povos de cuja história temos algum conhe-
cimento consideraram suas diferentes religiões como pon-
tos de união entre eles: tratava-se de uma associação do
gênero humano. Havia uma espécie de direito de hospi-
talidade entre os deuses como entre os homens. Um es-
trangeiro, chegando a uma cidade, começava por adorar
os deuses locais. Não se deixava de venerar nem mesmo os
deuses do inimigo. Os troianos dirigiam preces aos deu-
ses que combatiam pelos gregos.
Alexandre foi consultar nos desertos da Líbia o deus
Amon, ao qual os gregos deram o nome de Zeus, e os la-
tinos de Júpiter, embora ambos tivessem seus próprios jú-
pitere Zeus. Quando uma cidade era cercada, fazia-se um
sacrifício aos deuses da cidade para torná-los favoráveis.
Assim, no meio da guerra, a religião reunia os homens e
abrandava, às vezes, seus furores, ainda que eventualmen-
te lhes inspirasse ações desumanas e horríveis.
Posso estar enganado, mas parece-me que, de todos
os antigos povos civilizados, nenhum impediu a liberdade
de pensar. Todos tinham uma religião; mas creio que pro-
cediam com os homens da mesma forma que com os
deuses: reconheciam todos um Deus supremo, mas asso-
35
___________ Voltaire __________ _
ciavam-Ihe uma quantidade prodigiosa de divindades in-
feriores; tinham apenas um culto, mas permitiam grande
quantidade de sistemas particulares.
Os gregos, por exemplo, por mais religiosos que fos-
sem, achavam bom que os epicuristas negassem a Pro-
vidência e a existência da alma. Não falo das outras sei-
tas, que feriam as idéias saudáveis que se deve ter do Ser
criador e que eram todas toleradas.
Sócrates, que mais se aproximou do conhecimento
do Criador, sofreu punição por isso, dizem, e morreu
mártir da Divindade; foi o único que os gregos fizeram
morrer por suas opiniões. Se esta foi, de fato, a causa de
sua condenação, não cabem honras à intolerância, já
que se puniu apenas o único a glorificar Deus, enquan-
to honravam-se os que davam da Divindade as noções
mais indignas. Os inimigos da tolerância não devem, em
minha opinião, prevalecer-se do exemplo odioso dos juí-
zes de Sócrates.
É evidente, aliás, que Sócrates foi vítima de um par-
tido furioso animado contra ele. Fizera-se inimigo irre-
conciliável dos sofistas, oradores, poetas, que ensinavam
nas escolas, e mesmo de todos os preceptores encarre-
gados dos filhos da elite. Ele próprio confessa, em seu
discurso relatado por Platã0
37
, que ia de casa em casa
provar a esses preceptores que não passavam de igno-
rantes. Tal conduta não era digna daquele que um orá-
culo havia declarado o mais sábio dos homens. Lança-
ram-se contra ele um sacerdote e um conselheiro dos
Quinhentos, que o acusaram; confesso que não sei pre-
cisamente de quê, vejo apenas algo vago em sua Apolo-
gia; atribui-se-Ihe, de maneira geral, a acusação de inspi:
rar aos jovens máximas contra a religião e o governo. E
assim que procedem diariamente os caluniadores no mun-
36
_-----__ Tratado sobre a tolerância _______ _
do; mas um tribunal requer fatos comprovados, pontos
de acusação precisos e circunstanciados: é o que o pro-
cesso de Sócrates não nos fornece; sabemos apenas que
ele chegou a ter duzentos e vinte votos a seu favor. O tri-
bunal dos Quinhentos possuía portanto duzentos e vinte
filósofos. É muito; duvido que fossem encontrados alhu-
res. A maioria, enfim, decidiu pela cicuta; mas considere-
mos que os atenienses, caindo em si, abominaram os
acusadores e os juízes; que Melito, o principal autor da
sentença, foi condenado à morte por essa injustiça; que
os outros foram banidos e que se ergueu um templo a
Sócrates. Jamais a filosofia foi tão bem vingada nem tão
honrada. O exemplo de Sócrates é, no fundo, o mais ter-
rível argumento que se possa citar contra a intolerância.
Os atenienses tinham um altar dedicado aos deuses es-
trangeiros, aos deuses que não podiam conhecer. Há uma
prova mais forte não apenas de indulgência para com
todas as nações, mas também de respeito por seus cultos?
Um homem fino, que não é inimigo da razão, nem
da literatura, nem da probidade, nem da pátria, justifi-
cando recentemente a Noite de São Bartolomeu, cita a
guerra dos fócios, chamada guerra sagrada, como se
essa guerra tivesse sido provocada pelo culto, pelo dog-
ma, por argumentos de teologia: tratava-se de saber a
quem pertenceria um território, é a questão de todas as
guerras. Feixes de trigo não são um símbolo de crença;
jamais uma cidade grega combateu por opiniões. Aliás, o
que pretende esse homem modesto e suave? Quer que
façamos uma guerra sagrada
38
?
37
CAPÍTULO VIII
Se os romanos foram tolerantes
Entre os antigos romanos, desde Rômulo até os tem-
pos em que os cristãos disputaram com os sacerdotes do
Império, não encontreis um único homem perseguido
por suas opiniões. Cícero duvidou de tudo, Lucrécio ne-
gou tudo, e não lhes fizeram a menor censura. A licença
foi inclusive tão longe que Plínio, o Naturalista, começou
seu livro negando a Deus e dizendo que há só um: o sol.
Cícero diz, ao falar dos infernos: "Non est anus tam ex-
cors quae credat; não há sequer velho imbecil que acre-
dite neles
39
." Diz Juvenal: "Nec pueri credunt (sátira II,
verso 152); nem as crianças acreditam." Cantava-se no
teatro de Roma:
Post mortem nibil est, ipsaque mors nibil.
(Sêneca, As Troianas, coro ao final do segundo ato.)
Não há nada após a morte, a própria morte é nada.
Abominemos essas máximas e, quando muito, per-
doemos um povo que os evangelhos não iluminam. Elas
são falsas, são ímpias. Mas concluamos que os romanos
eram muito tolerantes, já que elas não provocaram jamais
o menor murmúrio.
39
___________ Voltaire _________ _
o grande princípio do senado e do povo romano
era: "Deorum offensae diis curae; compete apenas aos
deuses cuidar das ofensas feitas aos deuses." Esse povo-
rei não sonhava senão em conquistar, governar e civili-
zar o universo. Foram nossos legisladores, assim como
nossos vencedores; e jamais César, que nos deu grilhões,
leis e jogos, quis forçar-nos a abandonar nossos druidas
por ele, embora sendo o grande pontífice de uma nação
nossa soberana.
Os romanos não professavam todos os cultos, não
davam a todos a sanção pública; mas permitiram todos.
Não tiveram nenhum objeto material de culto sob Numa,
nem simulacros, nem estátuas; em seguida ergueram-nos
aos deuses majorum gentium, que os gregos lhes fize-
ram conhecer. A lei das doze tábuas, Deos peregrinos ne
colunto, limitou-se a só conceder o culto público às di-
vindades superiores aprovadas pelo senado. Ísis teve um
templo em Roma, até que Tibério o demoliu, quando os
sacerdotes desse templo, corrompidos pelo dinheiro de
Mundus, fizeram-no deitar no templo, sob o nome do
deus Anúbis, com uma mulher chamada Paulina. É ver-
dade que Josefo é o único a relatar essa história; não era
contemporâneo, era crédulo e costumava exagerar. É
pouco provável que, numa época tão esclarecida como
a de Tibério, uma dama da primeira classe tivesse sido
tão imbecil para acreditar nos favores do deus Anúbis.
Mas, verdadeira ou falsa essa anedota, o certo é que
a superstição egípcia havia erguido um templo em Roma
com o consentimento público. Os judeus comerciavam
nessa cidade desde o tempo da guerra púnica; passaram
a ter sinagogas a partir de Augusto e as conservaram qua-
se sempre, assim como na Roma moderna. Há exemplo
40
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
maior de que a tolerância era vista pelos romanos como
a lei mais sagrada do direito dos povos?
Dizem-nos que, tão logo os cristãos apareceram, fo-
ram perseguidos por esses mesmos romanos que não
perseguiam ninguém. Parece-me evidente que esse fato
é completamente falso; tomo por prova o próprio São
Paulo. Os Atos dos Apóstolos nos mostram que
40
, tendo
São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a
lei mosaica em nome de Jesus Cristo, São Tiago propôs
a São Paulo que raspasse a cabeça e fosse purificar-se no
templo com quatro judeus, "e saberão todos que não é
verdade o que se diz a teu respeito; e que, pelo contrá-
rio, andas também, tu mesmo, guardando a lei".
Paulo, cristão, foi portanto cumprir todas as cerimô-
nias judaicas durante sete dias; mas os sete dias não ha-
viam ainda transcorrido quando judeus da Ásia o reco-
nheceram e, vendo que havia entrado no templo, não
apenas com judeus, mas com gentios, acusaram-no de
profanação. Paulo foi preso, levado ante o governador
Félix e, em seguida, enviado ao tribunal de Festo. Os
judeus em coro exigiram sua morte; Festo respondeu-
Ihes
41
: "Não é costume dos romanos condenar quem quer
que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus
acusadores e possa defender-se da acusação."
Tais palavras são ainda mais notáveis nesse magis-
trado romano, pois ele aparentemente não teve nenhu-
ma consideração por São Paulo, sentiu por ele apenas
desprezo; enganado pelas falsas luzes de sua razão, to-
mou-o por louco; diz ao próprio São Paulo que era insa-
n0
42
: Multae te litterae ad insaniam convertunt. Portanto,
Festo só escutou a eqüidade da lei romana ao dar sua
proteção a um desconhecido que não podia estimar.
41
__________ _________ _
Eis O próprio Espírito Santo a declarar que os roma-
nos não eram perseguidores e que eram justos. Não fo-
ram os romanos que se insurgiram contra São Paulo,
foram os judeus. São Tiago, irmão de Jesus, foi apedre-
jado por ordem de um judeu saduceu, e não de um ro-
mano. Foram somente judeus que apedrejaram Santo Es-
têvã0
43
; e, quando São Paulo vestia a capa dos executo-
res
44
, certamente não agia como cidadão romano.
Os primeiros cristãos por certo não tinham questões
com os romanos; tinham como inimigos apenas os ju-
deus, dos quais começavam a separar-se. Sabemos o
ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que
abandonam sua seita. Provavelmente houve tumulto nas
sinagogas de Roma. Suetônio diz, na Vida de Cláudio
(cap. XXV): judaeos, impulsore Christo assidue tumul-
tantes, Roma expulit. Ele se enganava, ao dizer que fora
por instigação de Cristo: não podia estar a par dos deta-
lhes de um povo tão desprezado em Roma como era o
povo judeu; mas não se enganava sobre a ocasião des-
sas querelas. Suetônio escrevia sob Adriano, no segundo
século; os cristãos ainda não se distinguiam dos judeus
aos olhos dos romanos. A passagem de Suetônio faz ver
que os romanos, longe de oprimir os primeiros cristãos,
reprimiam então os judeus que os perseguiam. Queriam
que a sinagoga de Roma tivesse para com seus irmãos
separados a mesma indulgência que o senado tinha para
com ela, e os judeus expulsos voltaram logo em seguida;
obtiveram até honrarias, apesar das leis que delas os
excluíam. É o que nos dizem Díon Cássio e Ulpian0
45

Será possível que, após a destruição de Jerusalém, os im-
peradores tivessem prodigalizado dignidades aos judeus
e perseguido, entregue aos carrascos e às feras, cristãos
que eram vistos como uma seita dos judeus?
42
_------Tratado sobre a to/erância _______ _
Nero, dizem, os perseguiu. Tácito nos conta que fo-
ram acusados do incêndio de Roma e que os entregaram
ao furor do povo. Tratava-se, em tal acusação, da crença
dos cristãos? Certamente que não. Diremos que os chine-
ses mortos pelos holandeses, há alguns anos, nos arre-
dores de Batávia, foram imolados à religião? Por mais
que queiramos nos enganar, é impossível atribuir à into-
lerância o desastre acontecido sob Nero a alguns infortu-
nados semijudeus e semicristãos
46
.
43
CAPÍTULO IX
Acerca dos mártires
Posteriormente houve mártires cristãos. É bem difícil
saber com precisão por que razões esses mártires foram
condenados; mas ouso pensar que, sob os primeiros Cé-
sares, nenhum o foi simplesmente por sua religião. To-
das eram toleradas; como poderiam visar e perseguir ho-
mens obscuros, que tinham um culto particular, num tem-
po em que todos os outros eram permitidos?
Os Tito, os Trajano, os Antonino, os Décio não eram
bárbaros: como imaginar que teriam privado somente os
cristãos de uma liberdade que a terra inteira usufruía?
Teriam ousado acusar apenas os cristãos de ter mistérios
secretos, enquanto os mistérios de Ísis, Mitra, da deusa
da Síria, todos estranhos ao culto romano, eram permiti-
dos sem contradição? Cumpre que a perseguição tenha
tido outras causas e que os ódios particulares, sustenta-
dos pela razão de Estado, tenham derramado o sangue
dos cristãos.
Por exemplo, quando São Lourenço recusa ao pre-
feito de Roma, Cornelius Secularis, o dinheiro dos cris-
tãos que tinha em sua guarda, é natural que o prefeito e
o governador ficassem irritados; eles não sabiam que São
Lourenço havia distribuído esse dinheiro aos pobres e
45
___________ Voltaire __________ _
que fizera uma obra caritativa e santa; julgaram-no um
rebelde, e o fizeram perecer
17

Consideremos o martírio de São Polieuto. Te-Io-ão
condenado apenas por sua religião? Ele vai ao templo,
onde rendem-se aos deuses ações de graças pela vitória
do imperador Décio; ali insulta os sacrificadores, derru-
ba e quebra os altares e as estátuas: em que país do mun-
do perdoariam semelhante atentado? O cristão que ras-
gou publicamente o edito do imperador Diocleciano e
que atraiu sobre seus irmãos a grande perseguição nos
dois últimos anos do reinado desse soberano não tinha
um zelo conforme a sabedoria e sentiu-se muito infeliz
por ser a causa do desastre de seu partido. Esse zelo irre-
fletido, que irrompeu com freqüência e foi inclusive con-
denado por vários padres da Igreja, provavelmente cons-
tituiu a origem de todas as perseguições.
Certamente não comparo os primeiros sacramentá-
rios aos primeiros cristãos: não coloco o erro ao lado da
verdade. Mas FareI, predecessor de João Calvino, fez em
Arles a mesma coisa que São Polieuto havia feito na Ar-
mênia. Levavam pelas ruas a estátua de Santo Antônio, o
eremita, em procissão; Farel lança-se com alguns dos
seus sobre os monges que levavam Santo Antônio, agri-
de-os, dispersa-os e atira a estátua de Santo Antônio no
rio. Ele merecia a morte, que não recebeu, porque teve
tempo de fugir. Se tivesse se contentado em gritar a esses
monges que não acreditava que um corvo tivesse trazido
a metade de um pão a Santo Antônio eremita, nem que
este tivesse conversado com centauros e sátiros, teria me-
recido uma forte reprimenda, porque perturbava a or-
dem; mas se, à noite, após a procissão, houvesse exami-
nado pacificamente a história do corvo, dos centauros e
dos sátiros, nada teriam a lhe censurar.
46
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
O quê! os romanos teriam suportado que o infame
Antínoo fosse colocado entre os deuses secundários e
teriam trucidado, entregue às feras, todos aqueles que
eram acusados apenas de adorar pacificamente um justo?
O quê! teriam reconhecido um Deus suprem0
48
, um
Deus soberano, senhor de todos os deuses secundários,
o que é atestado pela fórmula Deus optímus maximus, e
teriam perseguido os que adoravam um Deus único?
Não é verossímil que alguma vez tenha havido uma
inquisição contra os cristãos sob os imperadores, isto e,
que tenham vindo interrogá-los sobre suas crenças. So-
bre essa questão, nem judeus, nem sírios, nem egípcios,
nem bardos, nem druidas, nem filósofos foram jamais
perturbados. Os mártires, portanto, foram os que se re-
belaram contra os falsos deuses. Era muito ajuizado e
muito piedoso não crer nesses deuses; mas se, não con-
tentes de adorar um Deus em espírito e em verdade, ma-
nifestaram-se violentamente contra o culto estabelecido,
por mais absurdo que pudesse ser, somos forçados a re-
conhecer que eles próprios eram intolerantes.
Tertuliano, em sua Apologética, admite
49
que os cris-
tãos eram vistos como rebeldes. A acusação era injusta,
mas provava que não era apenas a religião dos cristãos
que excitava o zelo dos magistrados. Diz Tertulian0
50
que
os cristãos recusavam-se a ornar suas portas com ramos
de louro nos festejos públicos pelas vitórias dos impera-
dores: podia-se facilmente tomar essa atitude condená-
vel por um crime de lesa-majestade.
A primeira severidade jurídica exercida contra os
cristãos foi a de Domiciano; mas limitou-se a um exílio
que não durou um ano: "Facile coeptum repressit, resti-
tutis etiam quos relegaverat", diz Tertuliano (cap. V). Lac-
47
___________ Voltaire __________ _
tâncio, cujo estilo é tão arrebatado, admite que, de Do-
miciano a Décio, a Igreja foi tranqüila e florescente
5
'. Es-
sa longa paz, diz ele, foi interrompida quando esse exe-
crável animal Décio oprimiu a Igreja: "Exstitit enim post
annos plurimos exsecrabile animal Decius, qui vexaret
Ecclesiam" CApol., capo IV).
Não queremos discutir aqui a opinião do erudito
Dodwell sobre o pequeno número de mártires; mas se os
romanos tivessem perseguido tanto a religião cristã, se o
senado tivesse feito morrer tantos inocentes por suplí-
cios inusitados, se tivessem mergulhado cristãos no óleo
fervente, se tivessem exposto jovens nuas às feras no cir-
co, como teriam deixado em paz todos os primeiros bis-
pos de Roma? Santo Irineu conta como mártir entre esses
bispos apenas Telésforo, no ano 139 da era vulgar, e não
há nenhuma prova de que esse Telésforo tenha sido con-
denado à morte. Zeferino governou o rebanho de Roma
durante dezoito anos e morreu pacificamente no ano 219.
É verdade que, nos antigos martirológios, colocam-se
quase todos os primeiros papas; mas a palavra martírio
era tomada então apenas em sua verdadeira significação:
martírio queria dizer testemunho, e não suplício.
É difícil combinar esse furor de perseguição com a
liberdade que tiveram os cristãos de realizar cinqüenta e
seis concílios que os escritores eclesiásticos contam nos
três primeiros séculos.
Houve perseguições; mas se tivessem sido tão vio-
lentas como dizem, certamente Tertuliano, que escreveu
com tanta força contra o culto estabelecido, não teria mor-
rido em seu leito. Sabe-se bem que os imperadores não
leram sua Apologética; que um texto obscuro, escrito na
África, não chega até os encarregados do governo do
48
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
mundo; mas devia ser conhecido por pessoas próximas
ao procônsul da África, devia atrair muito ódio ao autor.
Tertuliano, porém, não sofreu o martírio.
Orígenes ensinou publicamente em Alexandria e não
foi condenado à morte. Esse mesmo Orígenes, que fala-
va com tanta liberdade aos pagãos e aos cristãos, anun-
ciando Jesus a uns, negando um Deus em três pessoas
aos outros, declara expressamente, em seu terceiro livro
contra Celso, "que houve muito poucos mártires, e só de
tempos em tempos. No entanto, diz ele, os cristãos nadà
negligenciam para que sua religião seja abraçada por
todo o mundo; percorrem as cidades, os povoados, as
aldeias".
É certo que essas missões contínuas podiam ser fa-
cilmente acusadas de sedição pelos sacerdotes inimigos.
No entanto, elas são toleradas, apesar do povo egípcio,
sempre turbulento, sedicioso e covarde; povo que havia
linchado um romano por ter matado um gato, povo des-
prezível em qualquer circunstância, não obstante o que
digam dele os admiradores das pirâmides
52

Quem haveria de incitar mais contra si os sacerdo-
tes e o governo do que São Gregório Taumaturgo, dis-
cípulo de Orígenes? Gregório vira durante a noite um
velho enviado por Deus, acompanhado de uma mulher
resplandescente de luz: essa mulher era a Virgem Santa,
e o velho, São João Evangelista. São João ditou-lhe uma
mensagem que São Gregório foi pregar. Indo à Neoce-
saréia, passou por um templo onde faziam oráculos e
onde a chuva o obrigou a passar a noite; ali fez vários
sinais da cruz. No dia seguinte, o sacrificador do templo
espantou-se de que os demônios, que lhe respondiam
antes, não mais quisessem transmitir oráculos. Chamou-
49
___________ Voltaire _________ _
os. Os diabos vieram dizer-lhe que não viriam mais; co-
municaram-lhe que não podiam mais habitar o templo,
porque Gregório nele havia passado a noite e fizera si-
nais da cruz.
O sacrificador mandou prender Gregório, que lhe
respondeu: "Posso expulsar os demônios de onde quiser
e fazê-los entrar onde me agradar. - Então faça-os voltar
ao meu templo", diz o sacrificador. Gregório rasgou um
pedaço de um papiro que tinha na mão e nele traçou
estas palavras: "Gregório a Satã: Eu te ordeno que voltes
a este templo." Puseram esse bilhete no altar. Os demô-
nios obedeceram e, naquele dia, transmitiram seus orá-
culos como de costume; após o quê, cessaram, confor-
me nos é dito.
É São Gregório de Nissa que relata esses fatos da
vida de São Gregório Taumaturgo. Os sacerdotes dos ído-
los certamente deviam odiar Gregório e, na sua ceguei-
ra, denunciá-lo ao magistrado; contudo, seu maior inimi-
go não esboçou nenhuma perseguição.
Conta-se na história de São Cipriano que ele foi o
primeiro bispo de Cartago condenado à morte. O martí-
rio de São Cipriano é do ano 258 de nossa era; portanto,
durante um longo tempo nenhum bispo de Cartago foi
imolado por causa de sua religião. A história não nos diz
que calúnias foram lançadas contra São Cipriano, que
inimigos tinha, por que o procônsul da África irritou-se
contra ele. São Cipriano escreve a Comélio, bispo de Ro-
ma: "Uma comoção popular irrompeu há pouco em Car-
tago e por duas vezes gritaram que eu devia ser jogado
aos leões."
É bem provável que os arrebatamentos do povo fe-
roz de Cartago tenham sido a causa da morte de Cipria-
50
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
no; e é óbvio que não foi o imperador Galo que o con-
denou de tão longe por sua religião, uma vez que deixa-
va em paz Comélio, que vivia sob seus olhos.
Tantas causas secretas se misturam com freqüência à
causa aparente, tantos motivos desconhecidos servem
para perseguir um homem, que é impossível identificar
nos séculos posteriores a origem oculta dos infortúnios
dos homens mais importantes e, com mais forte razão, a
do suplício de um indivíduo que só podia ser conhecido
por aqueles de seu partido. '
Observe-se que São Gregório Taumaturgo e São Dio-
nísio, bispo de Alexandria, que não foram supliciados,
viviam na mesma época de São Cipriano. Por que, sendo
tão conhecidos ao menos quanto o bispo de Cartago,
foram deixados em paz? E por que São Cipriano foi en-
tregue ao suplício? Isso acaso não parece indicar que um
sucumbiu a inimigos pessoais e poderosos, à calúnia, ao
pretexto da razão de Estado, que amiúde junta-se à reli-
gião, enquanto os outros tiveram a felicidade de escapar
à maldade dos homens?
É pouco provável que a simples acusação de cristia-
nismo tenha feito perecer Santo Inácio na época do cle-
mente e justo Trajano, já que permitiram aos cristãos
acompanhá-lo e consolá-lo quando o conduziram a Ro-
ma
53
• Houve freqüentes sedições em Antioquia, cidade
sempre turbulenta, onde Inácio era bispo secreto dos cris-
tãos. Talvez essas sedições, malignamente imputadas aos
cristãos inocentes, tenham chamado a atenção do gover-
no, que se enganou, como aconteceu muitas vezes.
São Simeão, por exemplo, foi acusado perante Sapor
de ser espião dos romanos. A história de seu martírio
conta que o rei Sapor propôs-lhe adorar o Sol; mas sabe-
51
--_________ Voltaire __________ _
se que os persas não prestavam culto ao Sol: considera-
vam-no um emblema do bom princípio, de Oromase, ou
Orosmade, do Deus criador que reconheciam.
Por mais tolerante que se possa ser, é impossível
deixar de sentir alguma indignação contra esses decla-
madores que acusam Diocleciano de haver perseguido
os cristãos assim que subiu ao trono. Confiemos em Eu-
sébio de Cesaréia: seu testemunho não pode ser recusa-
do; o favorito, o panegirista de Constantino, o inimigo
violento dos imperadores precedentes, deve ser acredi-
tado quando os justifica. Eis suas palavras
54
: "Os impera-
dores deram por muito tempo aos cristãos grandes sinais
de benevolência; confiaram-lhes províncias; vários cris-
tãos moraram no palácio; inclusive cristãs foram despo-
sadas. Diocleciano tomou por esposa Prisca, cuja filha
foi mulher de Maximiano Galera, etc."
Que esse testemunho decisivo nos ensine, pois, a
não mais caluniar. Convém considerar se a perseguição
provocada por Galera, após dezenove anos de um reina-
do de clemência e de benefícios, não deve sua origem a
alguma intriga que desconhecemos.
Que se perceba o quanto a fábula da legião tebana
ou tebéia, massacrada, ao que se diz, apenas por moti-
vos de religião, é uma fábula absurda. É ridículo que ti-
vessem feito vir essa legião da Ásia por causa do grande
São Bernardo; é impossível que a tivessem chamado
para apaziguar uma sedição na Gália, um ano depois
que essa sedição fora reprimida; não é menos impossível
que tenham massacrado seis mil homens da infantaria e
setecentos cavaleiros numa passagem em que duzentos
homens poderiam deter um exército inteiro. O relato des-
sa suposta carnificina começa por uma impostura eviden-
52
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
te: "Enquanto a terra gemia sob a tirania de Diocleciano,
o céu se povoava de mártires." Ora, essa aventura, como
foi dito, teria acontecido em 286, quando Diocleciano
mais favorecia os cristãos e quando o Império Romano
foi o mais ditoso. Enfim, o que deveria poupar toda essa
discussão é que nunca houve legião tebana: os romanos
eram demasiado orgulhosos e sensatos para formar uma
legião de egípcios que só serviam em Roma como escra-
vos, Verna CanoPi; é como se tivessem tido uma legião
judaica. Temos os nomes das trinta e duas legiões que,
compunham as principais forças do Império Romano; o
da legião tebana seguramente não consta. Classifique-
mos, pois, essa fábula juntamente com os versos acrósti-
cos das sibilas que prediziam os milagres de Jesus Cristo
e com tantas outras suposições que um falso zelo difun-
diu para abusar da credulidade.
53
CAPÍTULO X
Acerca do perigo das falsas lendas
e acerca da perseguição
A mentira por muito tempo iludiu os homens; está
na hora de conhecer o pouco de verdade que se pode
identificar nessas nuvens de fábulas que cobrem a histó-
ria romana desde Tácito e Suetônio, e que quase sempre
envolveram os anais das outras nações antigas.
Como se pode acreditar, por exemplo, que os roma-
nos, esse povo grave e severo de quem conservamos as
leis, tenham condenado virgens cristãs, moças de caráter,
à prostituição? É conhecer muito mal a austera dignida-
de de nossos legisladores, que puniam tão severamente
as fraquezas das vestais. Os Atos Sinceros de Ruinart rela-
tam essas torpezas. Mas deve-se crer nos Atos de Ruinart
como nos Atos dos Apóstolos? Esses Atos Sinceros dizem,
segundo Bollandus, que havia na cidade de Ancira sete
virgens cristãs, de cerca de 70 anos cada uma, que o go-
vernador Teodecto condenou a passar pelas mãos dos
jovens da cidade; mas tendo essas virgens sido poupa-
das, como é de se supor, ele as obrigou a servirem com-
pletamente nuas aos mistérios de Diana, aos quais po-
rém jamais se assistiu a não ser com um véu. São Teodato,
que na verdade era taberneiro, sem por isso ser menos
fervoroso, pediu ardentemente a Deus para que fizesse
55
___________ Voltaire _________ _
morrer essas santas filhas, temendo que sucumbissem à
tentação. Deus lhe atendeu: o governador mandou que
fossem atiradas num lago com uma pedra no pescoço.
Logo elas apareceram a Teodato e rogaram-lhe não dei-
xar que seus corpos fossem comidos pelos peixes; estas
foram suas próprias palavras.
O santo taberneiro e seus amigos foram durante a
noite à beira do lago vigiado por soldados; uma tocha
celeste marchou sempre à frente deles e, quando chega-
ram no lugar onde estavam os guardas, um cavaleiro ce-
leste, armado dos pés à cabeça, perseguiu esses guardas
com a lança na mão. São Teodato retirou do lago os cor-
pos das virgens. Foi levado perante o governador, e o
cavaleiro celeste não impediu que lhe cortassem a cabe-
ça. Não cessamos de repetir que veneramos os verdadei-
ros mártires, mas que é difícil acreditar nessa história de
Bollandus e de Ruinart.
Será preciso contar aqui a história do jovem São Ro-
mano? Lançaram-no na fogueira, diz Eusébio, e judeus
que estavam presentes insultaram Jesus Cristo que deixa-
va queimar seus confessores, quando Deus havia tirado
Sidrach, Misach e Abdênago da fornalha ardente 55 • Mal
os judeus acabaram de falar, eis que São Romano sai
triunfante da fogueira. O imperador ordenou que o per-
doassem e disse ao juiz que não queria complicações
com Deus. Estranhas palavras para Diocleciano! O juiz,
apesar da indulgência do imperador, ordenou que cor-
tassem a língua de São Romano e, embora tivesse carras-
cos, mandou que a operação fosse feita por um médico.
O jovem Romano, nascido gago, falou com loquacidade
assim que teve a língua cortada. O médico foi repreendi-
do e, para mostrar que a operação fora feita segundo as
56
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
normas, pegou um transeunte e cortou-lhe o mesmo tan-
to de língua que havia cortado de São Romano, o que
fez o transeunte morrer na hora; pois, acrescenta sabia-
mente o autor, a anatomia nos ensina que um homem
sem língua não poderia viver. Em verdade, se Eusébio
escreveu semelhantes asneiras, se não foram acrescenta-
das a seus escritos, que confiabilidade pode ter sua His-
tória?
O martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos,
condenados à morte, segundo se diz, pelo sábio e piedo-
so Antonino, é-nos apresentado sem se indicar o autor
do relato.
É bem provável que algum autor mais zeloso que
verdadeiro tenha querido imitar a história dos Macabeus.
É assim que começa o relato: "Santa Felicidade era roma-
na, vivia sob o reinado de Antonino." Tais palavras dei-
xam claro que o autor não era contemporâneo de Santa
Felicidade. Diz que o pretor a julgou em seu tribunal no
campo de Marte; mas o prefeito de Roma tinha seu tribu-
nal no Capitólio, e não no campo de Marte, que, após ter
servido para os comícios, servia então para desfiles de sol-
dados, corridas e jogos militares. Somente isso já denota
a falsificação.
É dito ainda que, após o julgamento, o imperador
confiou a diferentes juízes a tarefa de fazer executar a sen-
tença, o que é inteiramente contrário a todas as formali-
dades daqueles e de todos os tempos.
Há também um Santo Hipólito, que se supõe ter sido
arrastado por cavalos, como Hipólito, filho de Teseu.
Esse suplício jamais foi conhecido dos antigos romanos,
e a mera semelhança do nome levou a inventar-se essa
lenda.
57
___________ Voltaire __________ _
Observe-se ainda que, nos relatos dos martírios, com-
postos unicamente pelos próprios cristãos, vemos sem-
pre uma multidão de cristãos vir livremente à prisão do
condenado, acompanhá-lo ao suplício, recolher seu san-
gue, enterrar seu corpo, fazer milagres com as relíquias.
Se tivessem perseguido apenas a religião, não teriam
imolado esses cristãos declarados que assistiam a seus ir-
mãos condenados e que eram acusados de fazer encan-
tamentos com os restos dos corpos martirizados? Não os
teriam tratado como tratamos os valdenses, os albigen-
ses, os hussitas, as diferentes seitas dos protestantes? Nós
os degolamos, os queimamos em massa, sem distinção
de idade nem de sexo. Acaso existe, nos relatos compro-
vados das perseguições antigas, um único traço que se
aproxime da Noite de São Bartolomeu e dos massacres
da Irlanda? Há um único só que se assemelhe à festa
anual ainda celebrada em Toulouse, festa cruel, festa que
deveria ser abolida para sempre, na qual um povo intei-
ro agradece a Deus em procissão e felicita-se por ter mas-
sacrado, há duzentos anos
56
, quatro mil de seus concida-
dãos?
Digo-o com horror, mas com verdade: nós, cristãos,
é que fomos perseguidores, carrascos, assassinos! E de
quem? De nossos irmãos. Nós é que destruímos cidades,
com o crucifixo ou a Bíblia na mão, e não cessamos de
derramar sangue e de acender fogueiras, desde os tem-
pos de Constantino até os furores dos canibais que habi-
tavam as Cevenas, furores que, graças a Deus, não mais
subsistem hoje.
Ainda enviamos, por vezes, ao patíbulo pobres coi-
tados do Poitou, do Vivarais, de Valence, de Montauban.
Enforcamos, desde 1745, oito dos chamados predicantes
58
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
ou ministros do Evangelho, cujo único crime foi ter ora-
do a Deus pelo rei em patoá e ter dado uma gota de vi-
nho e um pedaço de pão levedado a alguns camponeses
imbecis. Nada se sabe disso em Paris, onde o prazer é a
única coisa importante, onde se ignora tudo o que se pas-
sa na província e no estrangeiro. Tais processos fazem-se
em uma hora, mais depressa do que um desertor é julga-
do. Se o rei tivesse conhecimento deles, perdoaria.
Em nenhum país protestante os padres católicos são
tratados desse modo. Há mais de cem padres católicos
na Inglaterra e na Irlanda; são conhecidos, deixaram-nos
viver tranqüilos na última guerra
57

Seremos sempre os últimos a abraçar as opiniões
sensatas das outras nações? Elas se corrigiram; e nós, quan-
do nos corrigiremos? Foram precisos sessenta anos para
que adotássemos o que Newton havia demonstrad0
5B
;
mal começamos a ousar salvar a vida de nossos filhos
pela inoculaçã0
59
• Faz muito pouco tempo que pratica-
mos os verdadeiros princípios da agricultura, quando co-
meçaremos a praticar os verdadeiros princípios da hu-
manidade? E com que cara podemos censurar os pagãos
por terem feito mártires, quando temos sido culpados da
mesma crueldade nas mesmas circunstâncias?
Admitamos que os romanos tenham feito morrer
uma multidão de cristãos apenas por causa de sua reli-
gião: nesse caso, os romanos foram muito condenáveis.
Gostaríamos de cometer a mesma injustiça? E quando os
censuramos por ter perseguido, gostaríamos de ser per-
seguidores?
Se aparecesse alguém bastante desprovido de boa-
fé, ou bastante fanático, para perguntar-me aqui: Por que
59
___________ Voltaire __________ _
vindes denunciar nossos erros e nossas faltas? Por que
destruir nossos falsos milagres e nossas falsas lendas?
Elas são o alimento da piedade de várias pessoas. Há er-
ros necessários. Não arranqueis do corpo uma úlcera ar-
raigada que arrastaria consigo a destruição do corpo; eis
o que eu lhe responderia:
Todos esses falsos milagres com os quais abalais a fé
que devemos aos verdadeiros, todas essas lendas absur-
das que acrescentais às verdades do Evangelho extin-
guem a religião nos corações; muitas pessoas que que-
rem instruir-se, e que não têm tempo de fazê-lo suficien-
temente, dizem: Os mestres de minha religião me enga-
naram, portanto não há religião; mais vale lançar-me nos
braços da natureza do que nos do erro; prefiro depender
da lei natural do que das invenções dos homens. Outros
têm a infelicidade de ir ainda mais longe: vêem que a im-
postura lhes pôs um freio, e não querem sequer o freio
da verdade, inclinam-se para o ateísmo, tornam-se de-
pravados porque outros foram velhacos e cruéis.
Eis aí certamente as conseqüências de todas as frau-
des piedosas e de todas as superstições. Os homens em
geral só raciocinam pela metade; é um péssimo argu-
mento afirmar: Voragine, o autor da Lenda dourada, e o
jesuíta Ribadaneira, compilador da Flor dos santos, só dis-
seram tolices, logo, não existe Deus; os católicos liquida-
ram um certo número de huguenotes, e os huguenotes,
por sua vez, assassinaram um certo número de católicos,
logo, não existe Deus; serviram-se da confissão, da co-
munhão, e de todos os sacramentos, para cometer os cri-
mes mais horríveis, logo, não existe Deus. Eu concluiria
afirmando o contrário: logo, existe um Deus que, após
esta vida passageira, na qual o desconhecemos tanto, e
60
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
cometemos tantos crimes em seu nome, dignar-se-á a
consolar-nos de tão horríveis infortúnios: pois, conside-
rando as guerras de religião, os quarenta cismas dos
papas, quase todos sangrentos; as imposturas, quase to-
das funestas; os ódios irreconciliáveis acesos pelas dife-
rentes opiniões; considerando todos os males que o fal-
so zelo produziu, os homens há muito têm tido o seu in-
ferno nesta vida.
61
CAPÍTULO XI
Abuso da intolerância
Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua
razão e pensar o que essa razão esclarecida ou engana-
da lhe ditar? Exatamente
60
, contanto que ele não pertur-
be a ordem, pois nào depende do homem acreditar ou
não acreditar, mas depende dele respeitar os costumes
de sua pátria. E se dissésseis que é um crime não crer na
religião dominante, vós mesmos acusaríeis os primeiros
cristãos vossos pais e justificaríeis aqueles que acusais de
os ter entregue aos suplícios.
Respondeis que a diferença é grande, que todas as
religiões são obras dos homens e que apenas a Igreja ca-
tólica, apostólica e romana é obra de Deus. Mas, em boa-
fé, deverá nossa religião, por ser divina, reinar pelo ódio,
pelos furores, pelo exílio, pelo açambarcamento de bens,
as prisões, as torturas, os crimes, e pelas ações de graças
prestadas a Deus por esses crimes? Quanto mais divina a
religião cristã, tanto menos compete ao homem coman-
dá-la; se Deus a fez, Deus irá sustentá-la sem vós. Sabeis
que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes. Que
péssima alternativa! Enfim, gostaríeis que fosse mantida
por carrascos a religião de um Deus que carrascos fize-
ram perecer e que pregou tão-só a doçura e a paciência?
63
___________ Voltaire __________ _
Rogo-vos que vejais as conseqüências terríveis do
direito da intolerância. Se fosse permitido despojar de
seus bens, lançar no cárcere, matar um cidadão que, em
certo grau de latitude, não professasse a religião estabe-
lecida, que exceção eximiria os mandatários do Estado
das mesmas penas? A religião une igualmente o monar-
ca e os mendigos. Assim, mais de cinqüenta doutores ou
monges afirmaram este horror monstruoso: que era per-
mitido depor e matar os soberanos que não pensassem
como a Igreja dominante. E os parlamentos do reino não
cessaram de proscrever essas abomináveis decisões de
abomináveis teólogos
61

O sangue de Henrique, o Grande, ainda não secara
quando o parlamento de Paris aprovou um decreto que
estabelecia a independência da coroa como uma lei fun-
damental. O cardeal Duperron, que devia a púrpura a
Henrique, o Grande, insurgiu-se, nos estados-gerais de
1614, contra o decreto do parlamento, e mandou supri-
mi-lo. Todos os jornais da época relatam os termos que
Duperron utilizou em seu discurso: "Se um príncipe se
fizesse ariano, seríamos obrigados a depô-lo."
Seguramente não, senhor cardeal. Queremos preci-
samente adotar vossa suposição quimérica de que um de
nossos reis, tendo lido a história dos concílios e dos pa-
dres da Igreja, impressionado, aliás, pelas palavras Meu
pai é maior do que eu
62
, tomando-as ao pé da letra e osci-
lando entre o concílio de Nicéia e o de Constantinopla, se
declarasse a favor de Eusébio de Nicomédia: mesmo assim
eu obedeceria a meu rei, não me julgaria menos compe-
lido pelo juramento que lhe fiz; e se ousásseis erguer-vos
contra ele, e eu fosse um de vossos juízes, vos declararia
criminoso de lesa-majestade.
64
_-----Tratado sobre a tolerância _______ _
Duperron levou mais longe a disputa, e eu a abre-
vio. Aqui não é o lugar de aprofundar essas quimeras re-
voltantes. Limitar-me-ei a dizer, com todos os cidadãos,
que não é porque Henrique IV fora sagrado em Chartres
que lhe devíamos obediência, mas porque o direito in-
contestável de nascimento dava a coroa a esse príncipe,
que a merecia por sua coragem e por sua bondade.
Seja, pois, permitido afirmar que todo cidadão deve
herdar, pelo mesmo direito, bens de seu pai, e que não
se pense que ele mereça ser privado disso e arrastado à
forca, por ser da opinião de Ratram contra Paschase
Ratbert, e de Bérenger contra Duns Escoto.
Sabe-se que nem todos os nossos dogmas foram cla-
ramente explicados e universalmente aceitos em nossa
Igreja. Não havendo Jesus Cristo nos dito como procedia
o Espírito Santo, a Igreja latina por muito tempo acredi-
tou, com a grega, que procedia apenas do Pai: por fim
acrescentou que procedia também do Filho. Pergunto se,
após essa decisão, um cidadão que se apegasse ao sím-
bolo da véspera teria sido digno de morte. A crueldade,
a injustiça seriam menores em punir hoje aquele que
pensasse como se pensava outrora? Era-se culpado, no
tempo de Honório I, por acreditar que Jesus não tinha
duas vontades?
Não faz muito tempo que a imaculada conceição foi
estabelecida; os dominicanos ainda não crêem nela. Em
que momento os dominicanos começarão a merecer cas-
tigos neste mundo e no outro?
Se devemos aprender com alguém como nos condu-
zir em nossas disputas intermináveis, é certamente com
os apóstolos e os evangelistas. Havia motivos para pro-
vocar um cisma violento entre São Paulo e São Pedro.
65
___________ Voltaire __________ _
Paulo diz expressamente em sua Epístola aos Gálatas
63
que resistiu a Pedro porque este era repreensível, por-
que usava de dissimulação assim como Barnabé, porque
ambos comiam com os gentios antes da chegada de Tia-
go e em seguida retiraram-se secretamente, e separaram-
se dos gentios com receio de ofender os circuncisos.
Acrescenta Paulo: "Quando, porém, vi que não proce-
diam corretamente segundo a verdade do Evangelho, dis-
se a Cefas [Pedro] na presença de todos: Se, sendo tu ju-
deu, vives como gentio, e não como judeu, por que obri-
gas os gentios a viverem como judeus?"
Esse era um tema de querela violenta. Tratava-se de
saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. O pró-
prio São Paulo, nessa época, foi oferecer sacrifícios no
templo de Jerusalém. Sabe-se que os quinze primeiros
bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos, que ob-
servavam o sabá e abstinham-se das carnes proibidas.
Um bispo espanhol ou português que se fizesse circun-
cidar e que observasse o sabá, seria queimado num auto-
de-fé. No entanto, a paz não foi perturbada, por causa
dessa questão fundamental, nem entre os apóstolos, nem
entre os primeiros cristãos.
Se os evangelistas se assemelhassem aos escritores
modernos, teriam um campo bem vasto para combater
uns aos outros. São Mateus
64
conta vinte e oito gerações
de Davi a Jesus; São Lucas
65
conta quarenta e uma, e es-
sas gerações são absolutamente diferentes. Contudo, não
se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos so-
bre essas contradições aparentes, muito bem conciliadas
por vários padres da Igreja. A caridade não foi ferida, a
paz foi conservada. Que lição maior para tolerar-nos em
nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não
entendemos!
66
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma
convertidos ao cristianismo, dedica todo o final do ter-
ceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras
não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua
Epístola às doze tribos dispersas por toda a terra, capítu-
lo 11, não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem
as obras. Aí está o que separou duas grandes comunhões
entre nós
66
, mas o que não dividiu os apóstolos.
Se a perseguição contra aqueles com quem disputa-
mos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que
matasse o maior número de heréticos seria o maior santo
do paraíso. Que figura faria um homem que tivesse se
contentado em despojar seus irmãos e em jogá-los no
cárcere, perto de outro, mais zeloso, que teria massacra-
do centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui
a prova.
O sucessor de São Pedro e seu consistório não po-
dem errar; eles aprovaram, celebraram, consagraram a
ação da Noite de São Bartolomeu; logo, esta ação era
muito santa; logo, de dois assassinos iguais em piedade,
o que tivesse estripado vinte e quatro mulheres hugue-
notes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação
ao que só tivesse estripado doze. Pela mesma razão, os
fanáticos das Ceve nas deviam pensar que seriam glorifi-
cados na proporção do número de padres, religiosos e
mulheres católicas que tivessem liquidado. Estranhos tí-
tulos, esses, para a glória eterna.
67
CAPÍTULO XII
Se a intolerância foi de direito
divino no judaísmo e se
foi sempre posta em prática
Chamam direito divino, creio eu, os preceitos que
foram dados pelo próprio Deus. Ele quis que os judeus
comessem um cordeiro cozido com alfaces
67
e que os co-
mensais o fizessem de pé, com um bastão na mão
68
, em
comemoração do Phasé
69
; ordenou que a consagração
do sumo sacerdote se fizesse pondo sangue7° em sua
orelha direita, em sua mão direita e em seu pé direito,
costumes extraordinários para nós, mas não para a Anti-
guidade; quis que sacrificassem o bode Hazazel pelas
iniqüidades do pov0
7
\ proibiu que se alimentassem
n
de
peixes sem escamas, porcos, lebres, ouriços, corujas, ga-
viões, etc.
Instituiu as festas, as cerimônias. Todas essas coisas,
que pareciam arbitrárias às outras nações e submetidas
ao direito positivo, ao costume, tornavam-se, ao serem
ordenadas pelo próprio Deus, um direito divino para os
judeus, assim como tudo o que Jesus Cristo, filho de
Maria, filho de Deus, nos ordenou é de direito divino
para nós.
Não nos preocupemos aqui em saber por que Deus
impôs uma lei nova em substituição à que havia dado a
Moisés e por que havia ordenado a Moisés mais coisas
69
___________ Voltaire _________ _
do que ao patriarca Abraão, e mais a Abraão do que a
Noé7
3
• Parece que ele tem por bem adaptar-se às épocas
e à população do gênero humano: é uma gradação pa-
terna. Mas tais abismos são demasiado profundos para
nossa débil compreensão. Atenhamo-nos aos limites de
nosso tema; vejamos em primeiro lugar o que era a into-
lerância entre os judeus.
É verdade que, no Êxodo, nos Números, no Levítico,
no Deuteronômio, há leis muito severas sobre o culto, e
castigos mais severos ainda. Vários comentadores têm
dificuldade de conciliar as palavras de Moisés com as
passagens de Jeremias e Amós, e com o célebre discurso
de Santo Estêvão, relatado nos Atos dos Apóstolos. Amós
diz
74
que os judeus, no deserto, sempre adoraram Molo-
que, Renfã e Quium. Jeremias diz expressamente7
s
que
Deus não pediu nenhum sacrifício a seus pais quando
saíram do Egito. Santo Estêvão, em seu discurso aos ju-
deus, exprime-se assim: "Mas Deus se afastou e os entre-
gou ao culto da milícia celestiaF6 ... Ó casa de Israel, por-
ventura me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto
pelo espaço de quarenta anos, e acaso não levantastes o
tabernáculo de Moloque e a estrela do deus Renfã, figu-
ras que fizestes para as adorar?"
Do culto de tantos deuses estrangeiros, outros críti-
cos inferem que esses deuses foram tolerados por Moi-
sés e citam como prova as seguintes palavras do Deu-
teronômio
77
: "Não procedereis em nada segundo esta-
mos fazendo aqui, cada qual o que bem parece aos seus
0Ihos."78
Apóiam sua opinião no fato de não ser mencionado
nenhum ato religioso do povo no deserto: nenhuma ce-
lebração da Páscoa, nem de Pentecostes, nenhuma men-
70
_------Tratado sobre a tolerância _______ _
ção à festa dos tabernáculos, nenhuma oração pública
estabelecida; enfim, a circuncisão, sinal da aliança de Deus
com Abraão, não foi praticada.
Também citam a seu favor a história de Josué. Esse
conquistador diz aos judeus
79
: "Escolhei hoje a quem sir-
vais: se aos deuses a quem serviram vossos pais, que es-
tavam dalém do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus,
em cuja terra habitais." O povo responde: "Não, antes
serviremos ao Senhor." Josué replicou: "Deitai, pois, ago-
ra, fora os deuses estranhos que há no meio de v ó s ~ "
Portanto eles tinham incontestavelmente outros deuses
além de Adonai no tempo de Moisés.
É inútil refutar aqui os críticos para os quais o Pen-
tateuco não foi escrito por Moisés. Tudo já foi dito há
tempos sobre essa questão e, ainda que uma pequena
parte dos livros de Moisés tivesse sido escrita no tempo
dos juízes ou dos pontífices, eles não seriam menos ins-
pirados e menos divinos.
Basta, parece-me, estar provado pela Sagrada Escri-
tura que, apesar da extraordinária punição que atraíram
devido ao culto de Ápis, os judeus conservaram por
muito tempo uma completa liberdade. É possível até que
o massacre de vinte e três mil homens provocado por
Moisés por causa do bezerro erigido por seu irmão, o te-
nha feito compreender que nada se ganhava com o ri-
gor, obrigando-o a fechar os olhos sobre a paixão do
povo pelos deuses estrangeiros.
O próprio Moisés
80
parece em seguida transgredir a
lei que ditou. Proibiu todo simulacro, não obstante erigiu
uma serpente de bronze. A mesma exceção à lei verifica-
se depois no templo de Salomão: esse príncipe manda
esculpir
81
doze bois que sustentam a grande nave do
71
___________ Voltaire __________ _
templo; querubins são colocados na arca; têm uma cabe-
ça de águia e outra de bezerro; e foi aparentemente essa
cabeça de bezerro mal-feita, encontrada no templo por
soldados romanos, que fez pensar por muito tempo que
os judeus adoravam um asno.
Em vão o culto dos deuses estrangeiros foi proibido.
Salomão é pacificamente idólatra. Jeroboão, a quem Deus
concedeu dez partes do rein0
82
, manda erigir dois bezer-
ros de ouro e reina por vinte e dois anos, reunindo em
sua pessoa as dignidades de monarca e pontífice. O pe-
queno reino de Judá ergue, sob Roboã0
83
, altares e está-
tuas a deuses estrangeiros. O santo rei Asa não destrói os
altos
84
• O grande sacerdote Urias erige no templo, em
lugar do altar dos holocaustos, um altar do rei da Síria
8s

Não se vê, em uma palavra, nenhuma coerção sobre a
religião. Sei que a maior parte dos reis judeus extermina-
ram-se, assassinaram-se uns aos outros; mas isso foi sem-
pre por causa de seus interesses, e não de suas crenças.
É verdade que, entre os profetas
86
, houve aqueles
que invocaram o céu em sua vingança: Elias fez descer o
fogo celeste para consumir os sacerdotes de Baal; Eliseu
mandou vir ursas
87
para devorarem quarenta e duas crian-
ças que o haviam chamado de careca. Mas são milagres
raros, e fatos que seria um pouco duro querer imitar.
Objetam-nos, ainda, que o povo judeu foi muito
ignorante e muito bárbaro. É dito
88
que, na guerra contra
os madianitas
89
, Moisés ordenou que fossem mortas to-
das as crianças do sexo masculino e todas as mães, e que
os despojos fossem partilhados. Os vencedores encon-
traram no camp090 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil
burros e 32 mil meninas; fizeram a partilha e mataram o
resto. Vários comentadores afirmam inclusive que trinta
72
_-----Tratado sobre a tolerância _______ _
e duas meninas foram imoladas ao Senhor: Cesserunt in
partem Domini triginta duae animae.
91
Na verdade, os judeus imolavam homens à divinda-
de. Testemunham-no os sacrifícios de Jefté92 e do rei
Agag
93
, cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel. O
próprio Ezequiel promete-Ihes
94
, para encorajá-los, que
comerão carne humana: "Vós vos fartareis de cavalos e de
cavaleiros; bebereis o sangue dos príncipes." Vários co-
mentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos
próprios judeus, e os demais aos animais carnívoros. Não
se encontra, em toda a história desse povo, nenhum tra-
ço de generosidade, de magnanimidade, de beneficên-
cia; mas sempre escapam, na nuvem dessa barbárie tão
longa e tão terrível, raios de uma tolerância universal.
Jefté, inspirado por Deus, e que lhe imolou sua filha, diz
aos amonitas
9s
: "Não é certo que aquilo que Camos, teu
deus, te dá, consideras como tua possessão? Assim pos-
suiremos nós o território de todos quantos o Senhor nos-
so Deus expulsou de diante de nós." Essa declaração é
precisa: pode levar muito longe; mas, ao menos, é uma
prova evidente de que Deus tolerava Camos. Pois a Sa-
grada Escritura não diz: julgais ter direito sobre as terras
que dizeis vos terem sido dadas pelo deus Camos. Mas
diz, positivamente: "Tendes direito, tibi jure debentur", o
que é o verdadeiro sentido das palavras hebraicas otho
thirasch.
A história de Mica e do levita, relatada nos capítulos
XVII e XVIII do livro dos Juízes, é também uma prova
incontestável da tolerância e da maior liberdade admiti-
da então entre os judeus. A mãe de Mica, esposa muito
rica de Efraim, havia perdido mil e cem peças de prata;
seu filho lhas devolveu; ela consagrou essa prata ao
73
___________ Voltaire __________ _
Senhor e mandou fazer ídolos com ela; construiu uma
pequena capela. Um levita encarregou-se do serviço da
capela, mediante dez peças de prata, uma túnica, um
manto por ano e sua alimentação. E Mica disse consigo
mesmo
96
; "Sei agora que o Senhor me fará bem, por-
quanto tenho um levita por sacerdote."
Nesse ínterim, seiscentos homens da tribo de Dã,
que buscavam apoderar-se de alguma aldeia da região e
nela estabelecer-se, mas não tendo sacerdote levita con-
sigo e necessitando de um para que Deus favorecesse
sua empresa, foram à casa de Mica e tomaram seu éfode,
seus ídolos e seu levita, apesar dos protestos desse sa-
cerdote e apesar dos gritos de Mica e sua mãe. Foram,
então, com segurança atacar a aldeia chamada Laís e ali
espalharam fogo e sangue por tudo, como era seu costu-
me. Deram o nome de Dã a Laís, em memória de sua vi-
tória; colocaram o ídolo de Mica num altar. E, o que mais
chama a atenção, ]ônatas, neto de Moisés, foi o grande
sacerdote desse templo, onde era adorado o Deus de
Israel e o ídolo de Mica.
Após a morte de Gedeão, os hebreus adoraram Baal-
Berite durante cerca de vinte anos e renunciaram ao cul-
to de Adonai, sem que nenhum chefe, nenhum juiz, ne-
nhum sacerdote clamasse por vingança. Seu crime era
grande, reconheço-o; mas se mesmo essa idolatria foi
tolerada, como devem tê-lo sido as diferenças no verda-
deiro culto!
Alguns dão como prova de intolerância que o pró-
prio Senhor, tendo permitido que sua arca fosse tomada
pelos filisteus num combate, puniu estes últimos apenas
com uma doença secreta parecida com hemorróidas, der-
rubando a estátua de Dagon e enviando grande quanti-
74
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
dade de ratos a seus campos; mas, quando os filisteus,
para abrandar sua cólera, devolveram a arca puxada por
duas vacas que nutriam seus bezerros e ofereceram a
Deus cinco ratos de ouro e cinco asnos de ouro, o Se-
nhor fez morrer setenta anciãos de Israel e cinqüenta mil
homens do povo por terem olhado a arca. Respondemos
que o castigo do Senhor não incide sobre uma crença,
sobre uma diferença no culto, nem sobre uma idolatria.
Se o Senhor tivesse querido punir a idolatria, teria
feito perecer todos os filisteus que ousaram tomar sua
arca e que adoravam Dagon; mas fez perecer cinqüenta
mil e setenta homens de seu povo, unicamente porque
haviam olhado a arca, que não deviam olhar. Assim, as
leis, os costumes dessa época, a economia judaica dife-
rem de tudo o que conhecemos; assim, também, os ca-
minhos inescrutáveis de Deus encontram-se acima dos
nossos. "O rigor exercido contra esse grande número de
homens, diz o judicioso dom Calmet, só parecerá exces-
sivo aos que não compreenderam até que ponto Deus
queria ser temido e respeitado entre seu povo e que jul-
gam os propósitos e os desígnios de Deus apenas segun-
do as fracas luzes de sua razão."
Portanto, Deus não pune um culto estrangeiro, mas
uma profanação do seu, uma curiosidade indiscreta, uma
desobediência, talvez até um espírito de revolta. Perce-
be-se bem que tais castigos só competem a Deus na teo-
cracia judaica. Nunca é demais repetir que esses tempos
e costumes não têm nenhuma relação com os nossos.
Enfim, quando, nos séculos posteriores, Naamã, o
idólatra, pergunta a Eliseu se teria permissão de seguir
seu rei
97
no templo de Rimon e ali adorar com ele, esse
mesmo Eliseu, que havia feito as crianças serem devora-
das pelas ursas, não lhe responde: Vai em paz?
75
Voltaire _________ _
Há mais ainda: o Senhor ordenou a Jeremias que pu-
sesse cordas no pescoço, cabrestos
98
e cangas, e os
enviasse aos reizinhos, ou melchim de Moabe Amom , , ,
Edom, Tiro e Sidom; e Jeremias transmitiu-lhes estas pa-
lavras do Senhor: "Agora eu entregarei todas estas terras
ao poder de Nabucodonosor, rei de Babilônia, meu ser-
VO."99 Eis aí um rei idólatra declarado servidor de Deus e
seu favorito.
O mesmo Jeremias, que o melk ou régulo judeu Se-
decias havia mandado encarcerar, tendo obtido deste o
perdão, aconselha-o, da parte de Deus, a entregar-se ao
rei da Babilônia!oo: "Se te renderes voluntariamente aos
príncipes do rei de Babilônia, então viverá tua alma."
Deus, portanto, toma enfim o partido de um rei idólatra;
entrega-lhe a arca, cuja mera visão havia custado a vida
de cinqüenta mil e setenta judeus; entrega-lhe o Taber-
náculo e o resto do templo, cuja construção havia custa-
do cento e oito mil talentos de ouro, um milhão e dezes-
sete mil talentos de prata e dez mil dracmas de ouro, dei-
xados por Davi e seus ministros para a construção da
casa do Senhor; o que, sem contar os denários emprega-
dos por Salomão, eleva a quantia a aproximadamente
dezenove bilhões e sessenta e dois milhões nos valores
da época. Idolatria nenhuma foi melhor recompensada.
Sei que essa conta é exagerada, que houve provavel-
mente erro de copista; mas reduzi a soma pela metade,
à quarta parte, à oitava inclusive, ela ainda vos espanta-
rá. Não menos surpreendentes são as riquezas que He-
ródoto diz ter visto no templo de Éfeso. Mas, enfim, os
tesouros não são nada aos olhos de Deus, e o nome de
seu servidor, dado a Nabucodonosor, é o verdadeiro te-
souro inestimável.
76
_------- Tratado sobre a tolerância _______ _
Deus!O! não favorece menos Kir, Koresch, ou Kosroes,
que nós chamamos Ciro; chama-o seu cristo, seu ungido,
embora ele não fosse ungido, segundo a significação co-
mum dessa palavra, e seguisse a religião de Zoroastro;
chama-o seu pastor, embora fosse usurpador aos olhos
dos homens. Não há, em toda a Sagrada Escritura, um si-
nal maior de predileção.
Lemos em Malaquias
lO2
que "desde o nascente do sol
até ao poente é grande entre as nações o meu nome [de
Deus); e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazi-
das ofertas puras". Deus preocupa-se tanto com os nini-
vitas idólatras como com os judeus; ele os ameaça, e os
perdoa. Melquisedeque, que não era judeu, foi sacrifi-
cante de Deus. Balaão, idólatra, era profeta. A Escritura
nos ensina, portanto, que Deus não somente tolerava
todos os outros povos, como tinha por eles um cuidado
paterno. E nós ousamos ser intolerantes!
77
CAPÍTULO XIII
Extrema tolerância dos judeus
Portanto, sob Moisés, sob os juízes, sob os reis, ve-
mos sempre exemplos de tolerância. Há muitos outros10
3
:
Moisés diz várias vezes que "Deus pune os pais nos fi-
lhos até a quarta geração"; essa ameaça era necessária a
um povo a quem Deus não havia revelado a imortalida-
de da alma, nem os castigos e recompensas numa outra
vida. Essas verdades não lhe foram anunciadas nem no
Decálogo, nem em alguma lei do Levítico e do Deu-
teronômio. Eram os dogmas dos persas, dos babilônios,
dos gregos, dos cretenses; mas não constituíam de modo
algum a religião dos judeus. Moisés não diz: "Honra teu
pai e tua mãe, se queres ir ao céu", mas: "Honra a teu pai
e a tua mãe ... para que se prolonguem os teus dias."I04
Ele só os ameaça com males corporais lOS, com a sarna se-
ca, a sarna purulenta, úlceras malignas nos joelhos e na
barriga da perna, com serem expostos às infidelidades
de suas mulheres, tomarem empréstimo a juros dos es-
trangeiros e não poderem emprestar a juros; com morre-
rem de fome e serem obrigados a comer seus filhos; mas
em lugar nenhum lhes diz que suas almas imortais sofre-
rão tormentos após a morte, ou gozarão da felicidade.
Deus, que conduzia pessoalmente seu povo, punia-o e
79
___________ Voltaire __________ _
recompensava-o imediatamente após suas boas ou más
ações. Tudo era temporal, e esta é uma verdade que War-
burton usa indevidamente para provar que a lei dos ju-
deus era divina
106
, porque, sendo o próprio Deus seu rei,
fazendo justiça imediatamente após a transgressão ou a
obediência, não havia necessidade de lhes revelar uma
doutrina que reservava para o momento em que não go-
vernasse mais seu povo. Os que, por ignorância, preten-
dem que Moisés ensinava a imortalidade da alma, reti-
ram do Novo Testamento uma de suas maiores vanta-
gens sobre o Antigo. Está escrito que a lei de Moisés
anunciava apenas castigos corporais até a quarta gera-
ção. No entanto, apesar do enunciado preciso dessa lei,
apesar da declaração expressa de Deus de que puniria
até a quarta geração, Ezequiel anuncia exatamente o
contrário aos judeus e lhes diz
107
que o filho não carrega-
rá a iniqüidade de seu pai; chega até a fazer Deus dizer
que lhes havia dado
108
"estatutos que não eram bons"I09.
Mesmo assim, o livro de Ezequiel foi incluído no d-
none dos autores inspirados por Deus. É verdade que a
sinagoga não permitia sua leitura antes da idade de trin-
ta anos, como nos informa São Jerônimo; mas era por
receio de que a juventude abusasse das descrições muito
ingênuas da libertinagem das duas irmãs Oolá e Oolibá,
que se encontram nos capítulos XVI e XXIII. Em uma pa-
lavra, seu livro foi sempre aceito, apesar da contradição
formal com Moisés.
Enfimllo, quando a imortalidade da alma foi um dog-
ma aceito, o que provavelmente começara já no tempo
do cativeiro da Babilônia, a seita dos saduceus continuou
acreditando que não havia castigos nem recompensas
após a morte e que a faculdade de sentir e de pensar
80
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
perecia conosco, como a força ativa, a capacidade de an-
dar e de digerir. Eles negavam a existência dos anjos. Di-
vergiam muito mais dos outros judeus do que os protes-
tantes divergem dos católicos; não obstante, permanece-
ram na comunidade de seus irmãos. Houve inclusive su-
mos sacerdotes de sua seita.
Os fariseus acreditavam na fatalidade
1l1
e na metem-
psicose
ll2
. Os essênios pensavam que as almas dos justos
iam para as ilhas afortunadas
ll3
e as dos maus, para uma
espécie de Tártaro. Não faziam sacrifícios; reuniam-se
entre si numa sinagoga particular. Em uma palavra, se
quisermos examinar mais de perto o judaísmo, ficaremos
espantados de encontrar a maior tolerância em meio aos
horrores mais bárbaros. É uma contradição, é verdade;
mas quase todos os povos foram governados por contra-
dições. Feliz aquela que produz costumes suaves quan-
do se tem leis de sangue!
81
CAPÍTULO XIV
Se a intolerância foi ensinada
por Jesus Cristo
Vejamos agora se Jesus Cristo estabeleceu leis san-
guinárias, se ordenou a intolerância, se mandou cons-
truir os cárceres da Inquisição, se instituiu os carrascos
dos autos-de-fé.
Há, se não me engano, poucas passagens nos Evan-
gelhos a partir das quais o espírito perseguidor pudesse
inferir que a intolerância, a coerção, são legítimas. Uma
é a parábola em que o reino dos céus é comparado a um
rei que chama os convidados às bodas de seu filho;
manda-lhes dizer através de seus servidores
114
: "Os meus
bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vin-
de para as bodas." Uns, sem se importarem com o con-
vite, saem para suas casas de campo, outros para seus
negócios; alguns ultrajam os servidores do rei, e os ma-
tam. O rei envia seus exércitos contra esses assassinos e
destrói sua cidade; ordena que seus servidores saiam pe-
las estradas a convidar ao banquete todos os que encon-
trarem. Um desses, estando à mesa sem a veste nupcial,
é manietado e lançado nas trevas exteriores.
Como essa alegoria refere-se apenas ao reino dos
céus, é evidente que não autoriza a nenhum homem o
direito de manietar e jogar no cárcere o vizinho que teria
83
___________ Voltaire __________ _
vindo comer em sua casa sem a veste nupcial adequada,
e não conheço na história príncipe nenhum que tenha
mandado enforcar um cortesão por tal motivo. Tampou-
co há que temer, quando o imperador, após matar seus
cevados, envia seus pajens aos príncipes do império con-
vidando-os a cear, que esses príncipes matem os pajens.
O convite ao banquete significa a pregação da salvação;
o assassinato dos enviados do rei simboliza a persegui-
ção contra os que pregam a sabedoria e a virtude.
A outra 115 parábola é a de um homem que convida
seus amigos para uma grande ceia e, estando tudo pre-
parado, manda seu servo chamá-los. Um desculpa-se di-
zendo que comprou uma terra e que precisa vê-la: essa
desculpa não parece justificada, pois não é à noite que
se vai inspecionar sua terra; outro diz que comprou
cinco juntas de bois e que deve experimentá-las; um ter-
ceiro responde que acaba de se casar e seguramente sua
desculpa é admissível. O pai de família, irado, manda vir
a seu banquete os cegos e os aleijados, e, vendo que ain-
da sobram lugares, diz a seu criado1l6: "Sai pelos cami-
nhos e atalhos, e obriga todos a entrar."
É verdade que não é dito expressamente que esta
parábola seja um símbolo do reino dos .céus. Abusaram
demais destas palavras: obriga-os a entrar. Mas é evi-
dente que um só criado não pode obrigar à força quem
ele encontra para vir cear na casa de seu senhor e ade- , ,
mais, convivas assim forçados não tornariam a ceia mui-
to agradável. Obriga-os a entrar não quer dizer outra
coisa, segundo os comentadores mais autorizados, se-
não: roga, suplica, insiste, esforça-te ao máximo. Qual a
relação, vos pergunto, dessa súplica e dessa ceia com a
perseguição?
84
_-------Tratado sobre a tolerância _______ _
Tomando as coisas ao pé da letra, seria preciso ser
cego, aleijado e conduzido à força, para estar no seio da
Igreja? Jesus diz na mesma parábola
1l7
: "Não convides os
teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem
vizinhos ricos." E por acaso alguma vez se inferiu daí
que não se devesse de fato jantar com seus parentes e
amigos tão logo tenham um pouco de fortuna?
Jesus Cristo, após a parábola do banquete, diz
1l8
: "Se
alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e
mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda sua própria
vida, não pode ser meu discípulo ... Qual de vós, preten-
dendo construir uma torre, não se assenta primeiro para
calcular a despesa?" Há alguém no mundo tão desnatu-
rado para concluir que se deve odiar seu pai e sua mãe?
E não é fácil compreender que tais palavras significam:
Não oscilai entre mim e tuas afeições mais caras?
Citam a passagem de São Mateus
1l9
: "E se recusar
também ouvir a Igreja, considera-o como gentio e publi-
cano." Isso não diz absolutamente que se deva perseguir
os pagãos e os coletores de impostos do rei: eles são
amaldiçoados, é verdade, mas não entregues ao braço
secular. Longe de retirar desses coletores de impostos
qualquer prerrogativa de cidadão, foram-lhes dados os
maiores privilégios; é a única profissão condenada na
Escritura, e a mais favorecida pelos governos. Portanto,
por que não teríamos por nossos irmãos errantes uma
indulgência equivalente à consideração prodigalizada a
nossos irmãos coletores de impostos?
Uma outra passagem de que se abusou grosseira-
mente é a de São Mateus
120
e de São Marcos
l2l
, onde é dito
que Jesus, tendo fome de manhã, aproximou-se de uma
figueira na qual encontrou apenas folhas, pois não era
85
___________ Voltaire _________ _
época dos figos: ele amaldiçoa a figueira, que seca em
seguida.
São dadas várias explicações diferentes desse mila-
gre; mas há uma só que possa autorizar a perseguição?
Uma figueira não pôde dar figos no começo de março e
foi tornada seca: será uma razão para fazer secar nossos
irmãos de dor em todas as épocas do ano? Respeitemos
na Escritura tudo o que pode fazer surgir dificuldades em
nossos espíritos curiosos e vãos, mas não abusemos dis-
so para sermos duros e implacáveis.
O espírito perseguidor, que abusa de tudo, busca ain-
da sua justificativa na expulsão dos mercadores do tem-
plo e na legião de demônios enviada do corpo de um
possuído ao corpo de dois mil animais imundos. Mas
quem não vê que esses dois exemplos são apenas uma
justiça feita pelo próprio Deus a uma contravenção da
lei? Era uma falta de respeito à casa do Senhor transfor-
mar seu adro numa loja de mercadores. Em vão o siné-
drio e os sacerdotes permitiam esse comércio para a co-
modidade dos sacrifícios: o Deus a quem sacrificavam
podia certamente, embora oculto sob a figura humana,
destruir essa profanação; podia do mesmo modo punir
aqueles que introduziam no país rebanhos inteiros proi-
bidos por uma lei que ele próprio havia estabelecido.
Tais exemplos nada têm a ver com perseguições relativas
ao dogma. O espírito de intolerância deve estar apoiado
em razões muito más, já que por toda parte busca os
menores pretextos.
Praticamente o restante das palavras e ações de Je-
sus Cristo prega a doçura, a paciência, a indulgência. É o
pai de família que acolhe o filho pródigo
122
; é o operário
que vem na última hora 123 e que é pago como os demais;
86
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
é o samaritano caridoso
12
\ o próprio Jesus justifica seus
discípulos por não jejuarem
125
; perdoa a pecadora
126
; con-
tenta-se em recomendar fidelidade à mulher adúltera127;
condescende inclusive à inocente alegria dos convivas
das bodas de Caná
12B
que, estando já afogueados de vi-
nho, pedem ainda mais: consente em fazer um milagre
em favor deles, transformando água em vinho.
Não se enfurece sequer contra Judas, que deve traí-
lo; ordena a Pedro jamais servir-se da espada
129
; repreen-
de
130
os filhos de Zebedeu que, a exemplo de Elias, que-
riam fazer descer o fogo do céu sobre uma cidade que
não quisera acolhê-lo.
Enfim, morre vítima da inveja. Se ousarmos compa-
rar o sagrado com o profano, e um Deus com um ho-
mem, sua morte, humanamente falando, tem muita se-
melhança com a de Sócrates. O filósofo grego perece
pelo ódio dos sofistas, dos sacerdotes e dos mandatários
do povo: o legislador dos cristãos sucumbe sob o ódio
dos escribas, dos fariseus e dos sacerdotes. Sócrates po-
dia evitar a morte, e não o quis; Jesus Cristo ofereceu-se
voluntariamente. O filósofo grego não apenas perdoou
seus caluniadores e seus juízes iníquos, como pediu-lhes
que tratassem seus filhos da mesma forma, se estes fos-
sem um dia suficientemente felizes para merecer seu ódio
como ele; o legislador dos cristãos, infinitamente supe-
rior, pediu a seu pai que perdoasse seus inimigos
l3l

Se Jesus Cristo pareceu temer a morte, se a angústia
que sentiu foi tão extrema que chegou a suar sangue 132,
o que é o sintoma mais violento e mais raro, foi porque
dignou-se aceitar toda a fraqueza do corpo humano, que
havia assumido. Seu corpo tremia e sua alma era inaba-
lável; ele nos ensinava que a verdadeira força, a verda-
87
___________ Voltaire __________ _
deira grandeza consistem em suportar males sob os quais
nossa natureza sucumbe. Há uma extrema coragem em
dirigir-se à morte temendo-a.
Sócrates havia chamado os sofistas de ignorantes e
acusara-os de que tinham má-fé; Jesus, usando de seus
direitos divinos, chamou os escribas
133
e os fariseus de hi-
pócritas, insensatos, cegos, maldosos, serpentes, raça de
víboras.
Sócrates não foi acusado de querer fundar uma nova
seita; também não acusaram Jesus Cristo de ter querido
introduzir uma 134. É dito que os príncipes dos sacerdotes
e todo o conselho buscavam um falso testemunho con-
tra Jesus para fazê-lo perecer.
Ora, se buscavam um falso testemunho, logo não o
censuravam de haver pregado publicamente contra a
lei. De fato, Jesus submeteu-se à lei de Moisés desde sua
infância até sua morte. Circuncidaram-no no oitavo dia ,
como todas as outras crianças. Se, depois, foi batizado
no Jordão, tratava-se de uma cerimônia consagrada en-
tre os judeus, como entre todos os povos do Oriente.
Todas as máculas legais limpavam-se pelo batismo. Era
assim a consagração dos sacerdotes: mergulhavam-nos
na água na festa de expiação solene, batizavam-se os
prosélitos.
Jesus observou todos os pontos da lei: festejou todos
os dias de sabá; absteve-se das carnes proibidas; celebrou
todas as festas e, inclusive, antes de sua morte, havia
celebrado a Páscoa; não o acusaram de nenhuma opinião
nova, nem de haver observado algum rito estranho. Nas-
cido israelita, viveu constantemente como israelita.
Duas testemunhas que se apresentaram o acusaram
de haver dito
135
que poderia "destruir o santuário de Deus
88
_-----Tratado sobre a tolerância --------
e reedificá-Io em três dias". Tal discurso era incompreen-
sível para os judeus materialistas; mas não era uma acu-
sação de querer fundar uma nova seita.
O sumo sacerdote o interrogou e disse-Ihe
136
: "Eu te
conjuro pelo Deus vivo que nos diga se és o Cristo, o
Filho de Deus." Não nos informam o que o sumo sacer-
dote entendia por filho de Deus. Algumas vezes essa ex-
pressão era utilizada para designar um justo
137
, assim
como empregavam-se as palavras filho de Belial para sig-
nificar um homem mau. Os judeus grosseiros não tinham
a menor idéia do mistério sagrado de um filho de Deus,
ele próprio Deus, descendo à terra.
Jesus responde-lhe
138
: "Tu o disseste; entretanto, eu
vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem
assentado à direita do Todo-Poderoso, e vindo sobre as
nuvens do céu."
Essa resposta foi considerada uma blasfêmia pelo
sinédrio irritado. Como este não tinha o direito de justi-
çar, Jesus foi levado ao governador romano da província
e acusado caluniosamente de ser um perturbador da or-
dem pública, que dizia não ser preciso pagar o tributo a
César e que, além do mais, se dizia rei dos judeus. É da
maior evidência, portanto, que foi acusado de um crime
de Estado.
O governador Pilatos, sabendo que ele era galileu,
primeiro o enviou a Herodes, tetrarca da Galiléia. Hero-
des julgou impossível que Jesus pudesse aspirar a ser
chefe de partido e pretender a realeza; tratou-o com des-
prezo e mandou-o de volta a Pilatos, que teve a indigna
fraqueza de condená-lo para apaziguar o tumulto excita-
do contra si próprio, tanto mais que já havia enfrentado
uma revolta dos judeus, pelo que nos conta Josefo. Pila-
89
__________ Voltaire _________ _
tos não teve a mesma generosidade manifestada depois
pelo governador Festo139.
Pergunto, agora, se é a tolerância ou a intolerância
que é de direito divino? Se quereis vos assemelhar a Je-
sus Cristo, sede mártires e não carrascos.
90
CAPÍTULO xv
Testemunhos contra a intolerância
É um sacrilégio tirar, em matéria de religião, a liber-
dade aos homens, impedir que escolham uma divinda-
de: nenhum homem, nenhum deus gostaria de um servi-
ço forçado. (Tertuliano, Apologética, capo XXIV.)
Se usassem de violência para a defesa da fé, os bis-
pos se oporiam a ela. (Santo Hilário, liv. I.)
A religião forçada não é mais religião; é preciso per-
suadir, e não coagir. A religião não se impõe. (Lactâncio,
liv. 111.)
É uma execrável heresia querer atrair pela força, à
base de pancadas e encarceramento, os que não pude-
ram ser convencidos pela razão. (Santo Atanásio, liv. I.)
Nada é mais contrário à religião do que a coerção.
(São Justino, mártir, liv. V)
Haveremos de perseguir aqueles que Deus tolera?,
indaga Santo Agostinho, antes que sua querela com os
donatistas o tornasse demasiado severo.
Que nenhuma violência seja praticada contra os ju-
deus. (Quarto concílio de Toledo, qüinquagésimo-sexto
cânone.)
Aconselhai, e não forçai. (Carta de São Bernardo.)
Não pretendemos destruir os erros pela violência.
(Discurso do clero da França a Luís XIII.)
91
___________ Voltaire _________ _
Sempre desaprovamos as vias de rigor. (Assembléia
do clero, 11 de agosto de 1560.)
Sabemos que a fé se persuade e não se impõe. (Flé-
chier, bispo de Ní'mes, carta 19.)
Não devemos sequer empregar termos insultantes.
(Bispo Ou Bellai, numa Instrução pastoral.)
Lembrai-vos que as doenças da alma não se curam
pela coerção e pela violência. (Cardeal Le Camus, Instru-
ção pastoral de 1688.)
A cobrança forçada de uma religião é uma prova
evidente de que o espírito que a conduz é um espírito
inimigo da verdade. (Oirois, doutor da Sorbonne, liv. VI,
capo iv.)
A violência é capaz de gerar hipócritas; não se per-
suade quando por toda parte se fazem ressoar ameaças.
(Tillemont, História eclesiástica, tomo VI.)
Pareceu-nos conforme à eqüidade e à correta razão
seguir o exemplo da antiga Igreja, que jamais usou de
violência para estabelecer e expandir a religião. (Adver-
tência do parlamento de Paris a Henrique lI.)
A experiência nos ensina que a violência é mais ca-
paz de irritar do que de curar um mal que tem sua raiz
no espírito, etc. (Oe Thou, Epístola dedicatória a Henri-
que IV)
A fé não se incute a golpes de espada. (Cerisiers, So-
bre os reinados de Henrique IVe Luís XIIL)
É um zelo bárbaro pretender plantar a religião nos
corações, como se a persuasão pudesse ser o efeito da
coerção. (Boulainvilliers, Estado da França.)
Com a religião ocorre o mesmo que com o amor: a
imposição nada consegue, a coerção muito menos; não há
nada mais independente do que amar e crer. (Amelot de la
Houssaie, a propósito das Cartas do cardeal d'Ossat.)
92
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
Se o céu vos amou o bastante para vos fazer ver a ver-
dade, ele vos proporcionou uma grande graça; mas cabe
aos fllhos que têm a herança do pai odiar os que não a
tiveram? (Montesquieu, O espírito das leis, liv. XX\fl40.)
Poderíamos fazer um livro enorme, composto ape-
nas de semelhantes passagens. Nossas histórias, nossos
discursos, nossos sermões, nossas publicações de moral,
nossos catecismos, respiram todos, ensinam todos atual-
mente esse dever sagrado de indulgência. Por qual fata-
lidade, por qual inconseqüência desmentiríamos na pfá-
tica uma teoria que anunciamos todos os dias? Quando
nossos atos desmentem nossa moral, é que acreditamos
haver alguma vantagem em fazer o contrário do que en-
sinamos; mas certamente não há vantagem alguma em
perseguir os que não são de nossa opinião e em fazer-
nos odiar por isso. Há, portanto, mais uma vez, absurdo
na intolerância. Mas, dirão, os que têm interesse em ator-
mentar as consciências não são absurdos. É a esses que
se destina o capítulo seguinte.
93
CAPÍTULO XVI
Diálogo entre um moribundo
e um homem saudável
Um cidadão estava agonizando numa cidade da pro-
víncia; um homem em bom estado de saúde veio insul-
tá-lo em seus últimos momentos, dizendo-lhe:
O bárbaro
Miserável! pensa como eu imediatamente: assina es-
te papel, confessa que cinco proposições encontram-se
num livro que nem tu nem eu jamais lemos
l41
; admite já
a opinião de Lanfranc contra Bérenger, de Santo Tomás
contra São Boaventura; adota o segundo concílio de
Nicéia contra o concílio de Frankfurt; explica-me agora
mesmo de que maneira estas palavras: "Meu pai é maior
do que eu"142 significam expressamente: "Sou tão grande
quanto ele."
Omorlbundo
Mal escuto o que me dizes; as ameaças que me fazes
chegam confusamente aos meus ouvidos, perturbam mi-
nha alma, tornam minha morte medonha. Pelo amor de
Deus, tem piedade de mim.
9S
___________ Voltaire _________ _
O bárbaro
Piedade! não posso tê-la se não fores da minha opi-
nião em tudo.
Omorlbundo
Ai! percebe que nestes últimos momentos todos os
meus sentidos estão abalados, todas as portas do meu
entendimento fechadas, minhas idéias fogem, meu pen-
samento extingue-se. Tenho condições de discutir?
O bárbaro
Pois bem, se não podes crer o que quero, diz que
crês, e isso me basta.
Ornaribundo
Como posso perjurar para te agradar? Em breve esta-
rei diante de Deus, que pune o perjúrio.
O bárbaro
Não importa; terás o prazer de ser enterrado num
cemitério, e tua mulher, teus filhos, terão do que viver.
Morre como hipócrita; a hipocrisia é algo bom: é, como
dizem, uma homenagem que o vício presta à virtude
143
.
Um pouco de hipocrisia, meu amigo, o que isso custa?
96
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
O moribundo
Ai! desprezas a Deus ou não o reconheces, já que me
pedes uma mentira na hora da morte, tu que em breve
serás julgado por ele e responderás por essa mentira.
O bárbaro
o que dizes, insolente! Que não reconheço Deus?
O moribundo
Perdão, meu irmão, receio que não o conheças. Aque-
le que eu adoro reanima neste momento minhas forças
para dizer-te com uma voz moribunda que, se acreditas
em Deus, deves ter caridade para comigo. Ele me deu
minha mulher e meus filhos, não faças com que morram
de miséria. Quanto ao meu corpo, faz dele o que quise-
res: entrego-o a ti. Mas crê em Deus, eu te suplico.
O bárbaro
Faz sem discutir o que te disse. Estou te mandando!
, ,
o moribundo
E que interesse tens em me atormentar tanto?
O bárbaro
Como! que interesse? Se tiver tua assinatura, ela me
valerá um bom canonicato.
97
--------___ Voltaire _________ _
Ornarlbunda
Ah! meu irmão, eis meu último momento; peço a
Deus, ao morrer, que ele te toque e te converta.
Obdrbaro
o diabo carregue o impertinente, que não assinou!
Vou assinar por ele e falsificar sua letra
l44

A carta a seguir é uma confirmação da mesma moral.
98
CAPÍTULO XVII
Carta escrita ao jesuíta
Le TeUier, por um bene.ficiado,
em 6 de maio de 1714
145
Meu reverendo padre,
Obedeço às ordens que recebi de Vossa Reverência
para apresentar-lhe os meios mais convenientes de livrar
Jesus e sua Companhia de seus inimigos. Creio que não
restam mais de quinhentos mil huguenotes no reino, al-
guns dizem um milhão, outros um milhão e quinhentos
mil. Mas, seja qual for o número, eis aqui minha opinião,
que submeto humildemente à vossa, como é meu dever.
1 º É fácil pegar num só dia todos os pastores protes-
tantes e enforcá-los juntos numa mesma praça, não so-
mente para a edificação pública, mas pela beleza do es-
petáculo.
2º Eu mandaria assassinar em seus leitos todos os pais
e mães, porque se os matássemos nas ruas isso poderia
causar algum tumulto; vários inclusive poderiam esca-
par, o que deve ser evitado acima de tudo. Essa execu-
ção é um corolário necessário de nossos princípios; pois,
se devemos matar um herege, como tantos grandes teó-
logos o provam, é evidente que devemos matar todos.
3º Após a execução, eu faria todas as jovens serem
desposadas por bons católicos, visto que não convém
99
___________ Voltaire _________ _
despovoar demasiadamente o Estado depois da última
guerra; mas em relação aos rapazes de 14 e 15 anos, já
imbuídos de maus princípios, que não podemos vanglo-
riar-nos de destruir, minha opinião é que todos devem
ser castrados, a fim de que essa corja não mais se repro-
duza. Quanto aos garotos menores, serão educados em
vossos colégios e açoitados até que saibam de cor as obras
de Sanchez e de Molina.
4º Penso, a menos que esteja enganado, que o mes-
mo deve ser feito a todos os luteranos da Alsácia, visto
que, no ano de 1704, notei duas velhas daquela região
que riam no dia da batalha de Hochstedt.
5º A questão dos jansenistas parecerá talvez um pou-
co mais embaraçosa. Calculo que são uns seis milhões
pelo menos; mas um espírito como o vosso não se deve
assustar com isso. Incluo entre os jansenistas todos os
parlamentos, que tão indignamente apóiam as liberda-
des da Igreja galicana. Cabe à Vossa Reverência examinar,
com vossa costumeira prudência, os meios de submeter
esses espíritos indesejáveis. A conspiração dos barris de
pólvora, na Inglaterra, não teve o sucesso desejado, por-
que um dos conjurados teve a indiscrição de querer sal-
var a vida de um amigo; mas, como não tendes amigo,
não há que temer tal inconveniente: vos será muito fácil
fazer explodir todos os parlamentos do reino com a in-
venção do monge Schwartz, chamada pulvis pyrius
l46

Calculo que serão precisos, um acionando o outro, trin-
ta e seis barris de pólvora para cada parlamento, logo,
multiplicando doze parlamentos
147
por trinta e seis barris,
isso perfaz apenas quatrocentos e trinta e dois barris, que,
a cem escudos a peça, compõem a soma de cento e vin-
te e nove mil e seiscentas libras: é uma bagatela para o
reverendo padre geral.
100
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
Uma vez destruídos os parlamentos, dareis seus car-
gos aos membros de vossa congregação, que estão per-
feitamente a par das leis do reino.
6º Será fácil envenenar o cardeal de Noailles, que é
um homem simples e não desconfia de nada.
Vossa Reverência empregará os mesmos meios de
conversão junto a alguns bispos renitentes; seus bispa-
dos passarão para as mãos dos jesuítas, mediante uma
carta do papa. Sendo, então, todos os bispos do partido
da boa causa e todos os párocos habilmente escolhidos
pelos bispos, eis o que sugiro ao bom arbítrio de Vossa
Reverência.
7º Como dizem que os jansenistas comungam pelo
menos na Páscoa, não seria difícil salpicar as hóstias com
a droga utilizada para fazer justiça ao imperador Henri-
que VII. Um crítico me dirá talvez que se correria o risco,
nessa operação, de envenenar também os molinistas. A
objeção é forte; mas não há projeto que não tenha in-
convenientes, não há sistema que não cause danos sob
algum aspecto. Se nos detivéssemos diante dessas pe-
quenas dificuldades, jamais conseguiríamos nada. E, aliás,
como se trata de buscar o maior bem possível, não con-
vém escandalizar-se se esse grande bem arrasta consigo
algumas más conseqüências, que não merecem conside-
ração alguma.
Nada temos a nos censurar. Está demonstrado que
todos os pretensos reformados, todos os jansenistas, es-
tão prometidos ao inferno; assim, não fazemos mais que
apressar o momento em que devem tomar posse.
Não é menos claro que o paraíso pertence de di-
reito aos molinistas; logo, fazendo-os perecer inadverti-
damente e sem nenhuma má intenção, aceleramos sua
101
___________ Voltaire _________ _
alegria. Em ambos os casos, somos ministros da Provi-
dência.
Quanto àqueles que poderiam ficar um pouco as-
sombrados com o número, Vossa Paternidade poderá ex-
plicar-lhes que, desde os dias florescentes da Igreja até
1707, isto é, em cerca de catorze séculos, a teologia pro-
vocou o massacre de mais de cinqüenta milhões de ho-
mens; e não proponho enforcar, degolar, ou envenenar
senão uns seis milhões e quinhentos mil.
Poderão ainda contrapor, talvez, que minha conta
não é justa e que violo a regra de três; pois, dirão, se
em catorze séculos só pereceram cinqüenta milhões de
homens por distinções, dilemas e antilemas teológicos,
isso representa apenas trinta e cinco mil e setecentas e
catorze pessoas por ano, logo, eu mato seis milhões,
quatrocentas e sessenta e quatro mil e duzentas e oiten-
ta pessoas a mais na fração correspondente ao presen-
te ano.
Mas, em verdade, essa contenda é bastante pueril;
pode-se mesmo dizer que é ímpia, pois não percebem,
por meu procedimento, que salvo a vida de todos os
católicos até o fim do mundo? Jamais se faria nada, se se
quisesse responder a todas as críticas. Sou, com um pro-
fundo respeito a Vossa Paternidade,
seu mui humilde, devoto e benigno R ... 148
(natural de Angoulême, prefeito da Congregação)
Esse projeto não pôde ser executado porque o pa-
dre Le Tellier viu nele algumas dificuldades e porque Sua
Paternidade foi exilada no ano seguinte. Mas, como é
preciso examinar os prós e os contras, vejamos em que
casos se poderia legitimamente seguir em parte as idéias
102
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
do correspondente do padre Le Tellier. Parece que seria
difícil executar o projeto em todos os pontos; mas con-
vém examinar em que ocasiões deve-se aplicar o suplí-
cio da roda ou da forca, ou condenar às galés pessoas
que não são da nossa opinião. Esse é o objeto do próxi-
mo artigo.
103
CAPÍTULO XVIII
Únicos casos em que a intolerância
é de direito humano
Para que um governo não tenha o direito de punir os
erros dos homens, é necessário que esses erros não sejam
crimes; eles só são crimes quando perturbam a socieda-
de; perturbam a sociedade a partir do momento em que
inspiram o fanatismo. Cumpre, pois, que os homens co-
mecem por não ser fanáticos para merecer a tolerância.
Se alguns jovens jesuítas, sabendo que a Igreja os
reprovou com horror, que os jansenistas são condenados
por uma bula e que, portanto, os jansenistas são reprova-
dos, decidem queimar uma casa dos padres do Oratório
porque Quesnel, teólogo dessa congregação, era janse-
nista, é claro que será necessário punir esses jesuítas.
Do mesmo modo, se eles divulgaram máximas cen-
suráveis, se sua instituição é contrária às leis do reino,
não há como não dissolver sua companhia e abolir os je-
suítas para fazer deles cidadãos, o que, no fundo, é um
mal imaginário e um bem real para eles. Pois onde está
o mal de vestir um hábito curto em vez de uma batina, e
de ser livre ao invés de ser escravo? Nos períodos de
paz, regimentos inteiros são reformados sem queixas; por
que os jesuítas fazem tamanha gritaria quando os refor-
mamos para obter a paz?
105
___________ Voltaire __________ _
Se os franciscanos, tomados de um santo zelo pela
Virgem Maria, forem demolir a Igreja dos dominicanos,
que pensam que Maria nasceu no pecado original, sere-
mos obrigados a tratar os franciscanos mais ou menos
como os jesuítas.
O mesmo diremos dos luteranos e dos calvinistas.
Não importa que digam: Seguimos os movimentos de
nossa consciência; é preferível obedecer a Deus do que
aos homens
149
; somos o verdadeiro rebanho, devemos
exterminar os lobos. Nesse caso, é evidente que são eles
próprios os lobos.
Um dos mais espantosos exemplos de fanatismo foi
uma pequena seita na Dinamarca, cujo princípio era o
melhor do mundo
150
• Esses crentes queriam obter a salva-
ção eterna de seus irmãos; mas as conseqüências desse
princípio eram singulares. Eles sabiam que todos os re-
cém-nascidos que morrem sem batismo são condenados
e que os que têm a felicidade de morrer imediatamente
após receberem o batismo gozam da glória eterna. Saíam,
pois, a estrangular os meninos e meninas recém-batiza-
dos que encontrassem. Certamente, era fazer-lhes o maior
bem possível: a uma só vez eram preservados do peca-
do, das misérias desta vida e do inferno, e enviados infa-
livelmente ao céu. Mas essas pessoas caridosas não con-
sideravam que não é permitido fazer um pequeno mal
tendo em vista um grande bem; que não tinham nenhum
direito sobre a vida dessas criancinhas; que a maior parte
dos pais e mães são suficientemente materialistas para
preferirem ter junto deles seus filhos e filhas do que vê-
los estrangulados para ir ao paraíso, e que, em uma pala-
vra, o magistrado deve punir o homicídio, ainda que fei-
to com boa intenção.
106
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
Os judeus aparentemente teriam mais do que nin-
guém o direito de nos roubar e nos matar, pois, embora
haja centenas de exemplos de tolerância no Antigo Tes-
tamento, há também alguns casos e algumas leis de
rigor. Deus ordenou-lhes às vezes matar os idólatras, e
não poupar senão as jovens núbeis; eles nos consideram
idólatras e, embora hoje os toleremos, poderiam, de fato,
se dominassem, deixar no mundo apenas nossas filhas.
Teriam sobretudo a obrigação indispensável de as-
sassinar todos os turcos, não resta a menor dúvida. Pbis
os turcos possuem o país dos eteus, jebuseus, amorreus,
jerseneus, heveus, araceus, cineus, hamateus, samarita-
nos, e todos esses povos foram votados ao anátema;
suas terras, que tinham mais de vinte e cinco léguas de
comprimento, foram dadas aos judeus por vários pactos
consecutivos; estes devem retomar o que é seu e que foi
usurpado pelos turcos maometanos há mais de mil anos.
Se os judeus pensassem deste modo hoje, é claro
que não haveria outra resposta a dar-lhes senão mandá-
los às galés.
Estes são praticamente os únicos casos em que a in-
tolerância parece razoável.
107
CAPÍTULO XIX
Relato de uma disputa
de controvérsia na China
Nos primeiros anos do reinado do grande imperador
Kang-hi, um mandarim da cidade de Cantão ouviu de sua
casa uma grande gritaria vinda da casa vizinha. Mandou
averiguar se matavam alguém; disseram-lhe que era o
capelão da companhia dinamarquesa, um capelão da Ba-
távia e um jesuíta que discutiam; o mandarim chamou os
três à sua presença, mandou servir-lhes chá e doces, e
perguntou-lhes qual o motivo da discussão.
O jesuíta respondeu-lhe que era muito doloroso
para ele, que sempre tinha razão, ter de lidar com gente
que sempre estava errada; que a princípio havia argu-
mentado com a maior calma, mas que no final perdera a
paciência.
O mandarim fez-lhes ver, com toda a discrição pos-
sível, o quanto a polidez é necessária na disputa, disse-
lhes que na China jamais se irritavam e perguntou-lhes
do que se tratava.
Respondeu-lhe o jesuíta: "Excelência, faço-vos juiz
da questão; estes dois senhores recusam-se a submeter-
se às decisões do concílio de Trento.
- Isso me espanta - fez o mandarim. E voltando-se
para os dois refratários: "Parece-me que deveríeis respei-
109
___________ Voltaire __________ _
tar as opiniões de uma grande assembléia. Não sei o que
vem a ser o concílio de Trento; mas várias pessoas são
sempre mais instruídas do que uma só. Ninguém deve
acreditar que sabe mais do que os outros e que a razão
só habita em sua cabeça. É assim que ensina nosso gran-
de Confúcio. E se acreditais em mim, fareis muito bem
em confiar na autoridade do concílio de Trento."
O dinamarquês tomou então a palavra e disse: "Vos-
sa Excelência fala com a maior sabedoria. Respeitamos
as grandes assembléias como é nosso dever; assim, esta-
mos inteiramente de acordo com várias assembléias rea-
lizadas antes da de Trento."
- Oh! se é assim - tornou o mandarim -, peço-vos
perdão, poderíeis ter razão. Sois, portanto, da mesma
opinião, vós e vosso colega holandês, contra esse pobre
jesuíta?
- Em absoluto - respondeu o holandês. - Este
homem tem opiniões quase tão extravagantes quanto as
desse jesuíta, que procura aqui ser gentil convosco. Não
há como concordar com eles.
- Não vos entendo - disse o mandarim. - Não sois
todos os três cristãos? Não viestes todos os três ensinar o
cristianismo em nosso império? E não deveis por conse-
guinte ter os mesmos dogmas?
- Vede, Excelência - falou o jesuíta. - Esses dois aí
são inimigos mortais, e ambos disputam contra mim; é
evidente que ambos estão errados, e que a razão está
apenas do meu lado.
- Isso não é tão evidente - asseverou o mandarim. -
Poderia perfeitamente ocorrer que estivésseis todos os
três errados; eu teria curiosidade de vos ouvir um após o
outro.
110
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
O jesuíta fez então um longo discurso, durante o
qual o dinamarquês e o holandês davam de ombros; o
mandarim não compreendeu nada. Foi a vez de o dina-
marquês falar; seus adversários olharam-no com pieda-
de, e o mandarim continuou sem compreender. O holan-
dês teve a mesma sorte. Enfim falaram os três juntos, dis-
seram-se grosseiras injúrias. O honesto mandarim com
muita dificuldade conseguiu apaziguá-los e disse-lhes:
"Se quereis que tolerem aqui vossa doutrina, começai
por não serem intolerantes nem intoleráveis."
Ao sair da audiência, o jesuíta encontrou um missio-
nário dominicano; disse-lhe que havia ganho sua causa,
assegurando que a verdade triunfava sempre. O domini-
cano respondeu: "Se eu estivesse lá, não a teríeis ganho;
eu vos teria persuadido de mentira e idolatria." A quere-
la esquentou; o dominicano e o jesuíta agarraram-se
pelos cabelos. O mandarim, informado do escândalo,
mandou os dois para a prisão. Um de seus ministros per-
guntou-lhe: "Quanto tempo Vossa Excelência quer que
eles fiquem detidos? - Até que estejam de acordo, res-
pondeu o mandarim. - Ah!, fez o ministro, então ficarão
na prisão pelo resto da vida. - Pois bem, replicou o man-
darim, até que se perdoem. - Eles jamais se perdoarão,
disse o outro; eu os conheço. - Pois então, concluiu o
mandarim, até que finjam perdoar-se."
111
CAPÍTULO XX
Se é útil manter o povo
na superstição
Tal é a fraqueza do gênero humano e tal sua perver-
sidade, que, para ele, certamente é preferível ser subju-
gado por todas as superstições possíveis, contanto que
não sejam mortíferas, do que viver sem religião. O ho-
mem sempre teve necessidade de um freio e, ainda que
fosse ridículo fazer sacrifícios aos faunos, aos silvanos, às
náiades, era bem mais útil e razoável adorar essas ima-
gens fantásticas da divindade do que entregar-se ao ateís-
mo. Um ateu argumentador, violento e poderoso seria
um flagelo tão funesto quanto um supersticioso sangui-
nário.
Quando os homens não têm noções corretas da di-
vindade, as idéias falsas as substituem, assim como nos
tempos difíceis trafica-se com moeda ruim, quando não
se tem a boa. O pagão deixava de cometer um crime, com
medo de ser punido pelos falsos deuses; o mala bar teme
ser punido por seu pagode. Onde quer que haja uma
sociedade estabelecida, uma religião é necessária: as leis
protegem contra os crimes conhecidos, e a religião, con-
tra os crimes secretos.
Mas, quando os homens abraçam uma religião pura
e santa, a superstição torna-se não apenas inútil como
113
___________ Voltaire __________ _
muito perigosa. Não se deve querer alimentar com bolo-
tas aqueles que Deus digna-se alimentar com pão.
A superstição é, em relação à religião, o que a astro-
logia é em relação à astronomia, a filha muito insensata
de uma mãe muito sensata. Essas duas filhas subjugaram
por muito tempo a terra inteira.
Quando, em nossos séculos de barbárie, havia ape-
nas dois senhores feudais que tinham em sua casa um
Novo Testamento, podia ser perdoável apresentar fábu-
las ao vulgo, isto é, a esses senhores feudais, a suas mu-
lheres imbecis e aos brutos, seus vassalos; faziam-nos
acreditar que São Cristóvão havia levado o Menino Jesus
de uma margem do rio à outra; alimentavam-nos com
histórias de feiticeiros e possuídos; eles imaginavam fa-
cilmente que São Genou curava a gota e que Santa Clara
curava os olhos enfermos. As crianças acreditavam no lo-
bisomem, e os adultos, no cordão de São Francisco. O
número de relíquias e{a incontável.
A ferrugem de tantas superstições subsistiu ainda al-
gum tempo entre os povos, mesmo depois de a religião
ter sido finalmente depurada. Sabe-se que, quando o
bispo Noailles mandou retirar e lançar no fogo a supos-
ta relíquia do umbigo santo de Jesus Cristo, toda a cidade
de Châlons moveu-lhe um processo; mas ele teve cora-
gem e devoção, e acabou convencendo os habitantes da
região de que era possível adorar Jesus Cristo em espíri-
to e em verdade, sem ter seu umbigo numa igreja.
Os chamados jansenistas contribuíram bastante para
desenraizar insensivelmente no espírito da nação a maior
parte das falsas idéias que desonravam a religião cristã.
Deixou-se de acreditar que bastava recitar a oração dos
trinta dias à Virgem Maria para obter tudo o que se que-
ria e para pecar impunemente.
114
_ _______ Tratado sobre a tolerância --------
Enfim a burguesia começou a suspeitar que não era
Santa Genoveva quem trazia ou parava a chuva, mas que
o próprio Deus dispunha dos elementos. Os monges fica-
ram espantados de que seus santos não fizessem mais
milagres; e, se os escritores da Vida de São Francisco Xa-
vier voltassem ao mundo, não ousariam escrever que este
santo ressuscitou nove mortos
151
, que foi visto ao mesmo
tempo no mar e em terra, e que, tendo seu crucifixo caí-
do no mar, um caranguejo o veio trazer-lhe de volta.
O mesmo aconteceu com as excomunhões. Nossos
historiadores nos dizem que, quando o rei Roberto foi
excomungado pelo papa Gregório V, por ter desposado
sua comadre, a princesa Berta, seus criados lançavam
pelas janelas as carnes que haviam servido ao rei e que
a rainha Berta deu à luz um ganso, em punição desse ca-
samento incestuoso. É improvável hoje que os mordo-
mos de um rei da França excomungado lançassem seu
jantar pela janela e que a rainha trouxesse ao mundo um
gansinho em semelhante caso.
Se persistem alguns convulsionários em alguma es-
quina de arrabalde152, trata-se de uma pediculose que só
afeta a mais vil populaça. A cada dia a razão penetra na
França, tanto nas lojas dos comerciantes como nas man-
sões dos senhores. Cumpre, pois, cultivar os frutos des-
sa razão, tanto mais por ser impossível impedi-los de
nascer. Não se pode governar a França, depois de ela ter
sido esclarecida pelos Pascal, os Nicole, os Arnauld, os
Bossuet, os Descartes, os Gassendi, os Bayle, os Fonte-
nelle, etc., como a governavam no tempo dos Garasse e
dos Menot.
Se os mestres de erros, refiro-me aos grandes, por
tanto tempo pagos e honrados para embrutecer a espé-
115
___________ Voltaire __________ _
cie humana, ordenassem hoje que o grão deve apodre-
cer para germinar
l53
; que a terra está imóvel sobre seus
fundamentos, que ela não gira ao redor do Sol; que as
marés não são um efeito natural da gravitação, que o arco-
íris não é formado pela refração e a reflexão dos raios lu-
minosos, etc., e se se baseassem em passagens mal com-
preendidas da Sagrada Escritura para fundamentar suas
ordens, como seriam vistos por todos os homens instruí-
dos? O termo animais seria demasiado forte? E se esses
sábios mestres empregassem a força e a perseguição para
fazer reinar sua ignorância insolente, o termo animais
ferozes seria descabido?
Quanto mais as superstições dos monges forem des-
prezadas, tanto mais os bispos serão respeitados e os pa-
dres considerados; estes fazem apenas o bem, enquanto
as superstições monacais causam muito
mal. Mas, de todas as superstições, a mais perigosa não
é a de odiar o próximo por suas opiniões? E não é evi-
dente que seria ainda mais sensato adorar o santo umbi-
go, o santo prepúcio, o leite e o manto da Virgem Maria,
do que detestar e perseguir seu irmão?
116
CAPÍTULO XXI
É preferível a virtude à ciência
Quanto menos dogmas, menos disputas; e quanto me-
nos disputas, menos infelicidades. Se isso não for verda-
de, estou errado.
A religião é instituída para nos tornar felizes nesta e
na outra vida. O que é preciso para ser feliz na vida futu-
ra? Ser justo.
Para ser feliz nesta, dentro do que permite a miséria
de nossa natureza, o que é preciso? Ser indulgente.
Seria o cúmulo da loucura pretender fazer todos os
homens pensarem de uma maneira uniforme sobre a me-
tafísica. Seria bem mais fácil subjugar o universo inteiro
pelas armas do que subjugar todos os espíritos de uma
única cidade.
Euclides conseguiu sem dificuldade persuadir todos
os homens sobre as verdades da geometria. Por quê? Por-
que não há uma só que não seja um corolário :vident:
deste pequeno axioma: dois e dois são quatro. se da
exatamente a mesma coisa na mistura da metaflslca com
a teologia. . .
Quando o bispo Alexandre e o padre Anos, ou Anus,
começaram a discutir sobre a maneira como o. Logos era
uma emanação do Pai, o imperador Constantmo escre-
117
___________ Voltaire __________ _
veu-Ihes estas palavras inspiradas em Eusébio e em Só-
crates: "Sois uns grandes tolos em discutir sobre coisas
que não podeis entender."
Se as duas partes tivessem sido bastante sensatas para
admitir que o imperador tinha razão, o mundo cristão não
teria se ensangüentado durante trezentos anos.
Com efeito, que pode haver de mais tolo e mais ter-
rível do que dizer aos homens: "Meus amigos, não basta
sermos súditos fiéis, filhos submissos, pais amorosos, vi-
zinhos equitativos, praticar todas as virtudes, cultivar a
amizade, evitar a ingratidão, adorar Jesus Cristo em paz.
Cumpre ainda saber como fomos engendrados por toda
a eternidade e, se não souberdes distinguir o omousion
na hipóstase, afirmamos que havereis de arder no fogo
eterno; e, enquanto não chega esse momento, começa-
remos por vos degolar?"
Se tivessem uma tal resolução a um Ar-
quimedes, a um Posidônio, a um Varrão, a um Catão, a um
Cícero, o que eles teriam respondido?
Constantino não perseverou em sua resolução de im-
por silêncio aos dois antagonistas. Podia ter chamado es-
ses campeões do ergotismo a seu palácio; podia ter-lhes
perguntado com que autoridade perturbavam o mundo:
"Acaso possuís os títulos da família divina? Que vos im-
porta se o Lagos é produzido ou engendrado, contanto
que lhe sejamos fiéis, contanto que preguemos uma boa
moral e a pratiquemos dentro do possível? Cometi mui-
tas faltas em minha vida, e vós também; sois ambiciosos,
e eu também; o império custou-me patifarias e cruelda-
des; assassinei quase todos os meus próximos; arrepen-
do-me disso: quero expiar meus crimes tornando o im-
pério romano tranqüilo. Não me impeçais de fazer o úni-
118
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
co bem capaz de apagar minhas antigas barbáries; aju-
dai-me a acabar meus dias em paz." Talvez não obtives-
se nada dos contendores; talvez fosse convidado a presi-
dir um concílio com a longa túnica vermelha, com a ca-
beça coberta de pedrarias.
Eis, no entanto, o que abriu a porta a todos os flage-
los que vieram da Ásia inundar o Ocidente. De cada ver-
sículo contestado brotou uma fúria armada de um sofis-
ma e de um punhal, que tornou os homens insensatos e
cruéis. Os hunos, os hérulos, os godos e os vândalps,
que surgiram depois, fizeram infinitamente menos mal, e
o maior que fizeram foi finalmente prestarem-se eles
também a essas disputas fatais.
119
CAPÍTULO XXII
Acerca da tolerância universal
Não é preciso uma grande arte, uma eloqüência mui-
to rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-
se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso
considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê!
O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim,
certamente; porventura não somos todos filhos do mes-
mo Pai e criaturas do mesmo Deus?
Mas esses povos nos desprezam; mas eles nos tra-
tam de idólatras! Pois bem, eu lhes direi que estão erra-
dos! Penso que poderia ao menos surpreender a orgu-
lhosa obstinação de um imã ou de um monge budista, se
lhes falasse mais ou menos assim:
"Este pequeno globo, que não é mais do que um
ponto, gira no espaço como tantos outros globos; esta-
mos perdidos nessa imensidão. O homem, com cerca de
um metro e sessenta de altura, é seguramente algo pe-
queno na criação. Um desses seres imperceptíveis diz a
alguns de seus vizinhos, na Arábia ou na Cafraria: Es-
cutem-me, pois o Deus de todos esses mundos me falou:
há novecentos milhões de pequenas formigas como nós
sobre a terra, mas apenas o meu formigueiro é bem-visto
por Deus; todos os outros lhe causam horror desde toda
121
. ________ Voltaire __________ _
a eternidade; meu formigueiro será o único afortunado,
e todos os outros serão desafortunados."
Eles me agarrariam então e me perguntariam quem
foi o louco que disse essa besteira. Eu seria obrigado a
responder-lhes: "Foram vocês mesmos." Procuraria em
seguida acalmá-los, mas seria bem difícil.
Depois falaria aos cristãos e ousaria dizer, por exem-
plo, a um dominicano inquisidor em nome da fé: "Meu
irmão, sabeis que cada província da Itália tem seu lin-
guajar e que não se fala em Veneza e em Bérgamo como
em Florença. A Academia da Crusca fixou a língua; seu
dicionário é uma norma que deve ser respeitada, e a Gra-
mática de Buonmattei um guia infalível a ser seguido;
mas julgais que o cônsul da Academia e, na sua ausên-
cia, Buonmattei, poderiam em sã consciência mandar cor-
tar a língua de todos os venezianos e bergamascos que
persistissem no seu patoá?"
O inquisidor me responde: "Há uma grande diferen-
ça. Trata-se aqui da salvação de vossa alma; é para o vos-
so bem que o diretório da Inquisição ordena que vos
prendam por denúncia de uma única pessoa, ainda que
ela seja infame e já condenada pela Justiça; que não te-
nhais advogado para vos defender; que o nome de vosso
acusador nem sequer vos seja conhecido; que o inquisi-
dor vos prometa perdão e, em seguida, vos condene;
que ele vos submeta a cinco torturas diferentes e que,
depois, sejais chicoteado, ou mandado às galés, ou quei-
mado em cerimônia
154
. O padre Ivonet, o doutor Cucha-
lon, Zanchinus, Campegius, Roias, Felynus, Gomarus, Dia-
barus e Gemelinus
155
são claros nesse ponto e essa pie-
dosa prática não pode sofrer contradição."
Eu tomaria a liberdade de responder-lhe: "Meu ir-
mão, talvez tenhais razão; estou convencido do bem que
122
________ Tratado sobre a tolerância _______ _
quereis me fazer; mas eu não poderia ser salvo sem tudo
isso?"
É verdade que esses horrores absurdos não man-
cham todos os dias a face da terra; mas foram freqüen-
tes, e com eles facilmente se faria um volume bem mais
grosso do que os evangelhos que os reprovam. Não só é
cruel perseguir nesta curta vida os que não pensam
como nós, como também suponho ser ousado demais
pronunciar sua condenação eterna. Parece-me que não
compete a átomos de um momento, tais como somos,
antecipar as decisões do Criador. Estou longe de comba-
ter esta sentença: "Fora da Igreja não há salvação." Res-
peito-a, assim como tudo o que ela ensina, mas, em ver-
dade, conhecemos todos os caminhos de Deus e a ex-
tensão de sua misericórdia? Não é lícito confiar nele
tanto quanto temê-lo? Não nos basta ser fiéis à Igreja? Se-
rá preciso que cada indivíduo usurpe os direitos da Di-
vindade e decida por sua conta a sorte eterna de todos
os homens?
Quando vestimos luto por um rei da Suécia, da Di-
namarca, da Inglaterra ou da Prússia, dizemos que vesti-
mos luto por um réprobo que arde eternamente no infer-
no? Há na Europa quarenta milhões de habitantes que
não pertencem à Igreja de Roma; diremos a cada um de-
les: "Senhor, como estais infalivelmente condenado, não
quero comer, nem negociar, nem conversar convosco?"
Qual o embaixador da França que, estando presente
à audiência do Grande Senhor, dir-se-á no fundo de seu
coração: Sua Alteza arderá infalivelmente no inferno por
toda a eternidade, por ter-se submetido à circuncisão? Se
acreditasse realmente que o Grande Senhor é inimigo
mortal de Deus e objeto de sua vingança, acaso poderia
123
___________ Voltaire __________ _
falar-lhe? Deveria ser enviado até ele? Com que homem
poderíamos negociar, que dever da vida civil podería-
mos jamais cumprir, se de fato estivéssemos convencidos
da idéia de que conversamos com um réprobo?
Ó partidários de um Deus clemente! Se tivésseis um
coração cruel; se, adorando aquele cuja única lei consis-
tia nestas palavras: "Amai a Deus e a vosso próximo" 156,
tivésseis sobrecarregado essa lei pura e santa de sofismas
e disputas incompreensíveis; se tivésseis semeado a dis-
córdia, ora por causa de uma palavra, ora por causa de
uma simples letra do alfabeto; se considerásseis merece-
dora de castigos eternos a omissão de algumas palavras,
de algumas cerimônias que tantos outros povos não
podiam conhecer, eu vos diria, derramando lágrimas so-
bre o gênero humano: "Transportai-vos comigo ao dia
em que todos os homens serão julgados e em que Deus
dará a cada um conforme suas obras."
"Vejo todos os mortos dos séculos passados e do nos-
so comparecerem à sua presença. Acreditais realmente
que nosso Criador e nosso Pai dirá ao sábio e virtuoso
Confúcio, ao legislador Sólon, a Pitágoras, a Zaleuco, a
Sócrates, a Platão, aos divinos Antonino, ao bom Traja-
no, a às maravilhas do gênero humano, a Epicteto
e a tantos outros, modelos dos homens: Ide, monstros,
sofrer castigos infinitos em intensidade e duração; que
vosso suplício seja eterno como eu! E vós, meus bem-
amados Jean Châtel, Ravaillac, Damiens, Cartouche, etc.,
que morrestes com as fórmulas prescritas, partilhai para
sempre à minha direita meu império e minha felicidade?"
Recuais de horror a essas palavras e, depois que elas
me escaparam, nada mais tenho a vos dizer.
124
CAPÍTULO XXIII
Oração a Deus
Não é mais aos homens que me dirijo, é a ti, Deus
de todos os seres, de todos os mundos e de todos os
tempos. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na
imensidão e imperceptíveis ao resto do universo, ousar
te pedir alguma coisa, a ti que tudo criaste, a ti cujos de-
cretos são imutáveis e eternos, digna-te olhar com pieda-
de os erros decorrentes de nossa natureza. Que esses er-
ros não venham a ser nossas calamidades. Não nos deste
um coração para nos odiarmos e mãos parà nos matar-
mos. Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar
o fardo de uma vida difícil e que as peque-
nas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos
diminutos, entre nossas linguagens insuficientes, entre
nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas,
entre nossas opiniões insensatas, entre nossas condições
tão desproporcionadas a nossos olhos e tão iguais dian-
te de ti; que todas essas pequenas nuances que distin-
guem os átomos chamados homens não sejam sinais de
ódio e perseguição; que os que acendem velas em pleno
meio-dia para te celebrar suportem os que se contentam
com a luz de teu sol; que os que cobrem suas vestes com
linho branco para dizer que devemos te amar não detes-
125
___________ Voltaire __________ _
tem os que dizem a mesma coisa sob um manto de lã ne-
gra; que seja igual te adorar num jargão formado de uma
antiga língua, ou num jargão mais novo; que aqueles
cuja roupa é tingida de vermelho ou de violeta, que do-
minam sobre uma pequena porção de um montículo da
lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos ar-
redondados de certo metal usufruam sem orgulho o que
chamam de grandeza e riqueza, e que os outros não os
invejem, pois sabes que não há nessas vaidades nem o
que invejar, nem do que se orgulhar.
Possam todos os homens lembrar-se de que são ir-
mãos! Que abominem a tirania exercida sobre as almas,
assim como execram o banditismo que toma pela força
o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos
da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos di-
laceremos uns aos outros em tempos de paz e empre-
guemos o instante de nossa existência para abençoar
igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia,
tua bondade que nos deu esse instante.
126
CAPÍTULO XXIV
Pós-escrito
Enquanto trabalhávamos nesta obra, com o único
propósito de tornar os homens mais compassivos e mais
doces, um outro homem escrevia com um propósito in-
teiramente contrário, pois cada um tem sua opinião. Es-
se homem imprimia um pequeno código de persegui-
ção, intitulado A concordância da religião e da huma-
nidade157 Cé uma falha do impressor: leia-se da desumani-
dade).
O autor desse santo libelo apóia-se em Santo Agos-
tinho, o qual, após ter pregado a doçura, acabou pregan-
do a perseguição, visto que era então o mais forte e que
mudava freqüentemente de opinião. Cita também o bis-
po de Meaux, Bossuet, que perseguiu o célebre Fénelon,
arcebispo de Cambrai, culpado de ter escrito que Deus
merece ser amado por si mesmo.
Bossuet era eloqüente, admito; o bispo de Hipona,
às vezes inconseqüente, era mais diserto que os outros
africanos, admito-o também; mas tomarei a liberdade de
dizer ao autor desse santo libelo, com Armando, em Les
femmes savantes*:
• As sabicbonas, Moliere.
127
___________ Voltaire __________ _
Quand sur une personne on prétend se régler,
C'est par les beaux côtés qu 'illui faut ressembler.
Quando por alguém nos queremos pautar,
É o seu lado bom que convém imitar.
(Ato I, cena 1.)
Direi ao bispo de Hipona: Eminência, mudastes de
idéia, concedei-me o direito de ater-me à vossa primeira
opinião; em verdade, considero-a melhor.
Direi ao bispo de Meaux: Eminência, sois um grande
homem; julgo-vos tão sábio, pelo menos, quanto Santo
Agostinho, e muito mais eloqüente; mas por que ator-
mentar tanto vosso confrade, que era tão eloqüente quan-
to vós num outro gênero e era mais amável?
O autor do santo libelo sobre a desumanidade não é
nem um Bossuet, nem um Agostinho. Parece-me o tipo
capaz de ser um excelente inquisidor; gostaria que esti-
vesse em Goa encabeçando esse belo tribunal. Além dis-
so, é homem de Estado e demonstra grandes princípios
de política. "Se houver entre vós, diz ele, muitos hetero-
doxos, tratai-os com deferência, persuadi-os; se não fo-
rem mais que um pequeno número, empregai a forca e
as galés, e estareis agindo bem"; é o que ele aconselha
nas páginas 89 e 90.
Graças a Deus sou bom católico, não preciso temer
o que os huguenotes chamam de martírio; mas se esse
homem algum dia for primeiro-ministro, como parece pre-
tender em seu libelo, aviso que parto para a Inglaterra
no dia em que tiver suas cartas patentes.
Enquanto isso, posso apenas agradecer à Providên-
cia por permitir que gente de sua espécie seja sempre
128
_ ______ ~ Tratado sobre a tolerância - - - - - - - ~
má argumentadora. Ele chega a citar Bayle entre os par-
tidários da intolerância. Isso é razoável e correto; e do
fato de Bayle admitir que os revoltosos e os larápios de-
vam ser punidos, nosso homem conclui que devemos
perseguir a ferro e fogo gente pacífica e de boa-fé.
Quase todo o seu livro é uma imitação da Apologia
da Noite de São Bartolomeu
158
• É o mesmo apologista ou
seu eco. Num ou noutro caso, cumpre esperar que nem
o mestre, nem o discípulo venham a governar o Estado.
Mas, se isso acontecer, apresento-lhes desde já este
arrazoado, a propósito de duas linhas da página 93 do
santo libelo:
"Caberá sacrificar à felicidade da vigésima parte da
nação a felicidade da nação inteira?"
Supondo-se, com efeito, que haja vinte católicos ro-
manos na França contra um huguenote, não pretendo
que o huguenote coma os vinte católicos; mas por que
esses vinte católicos haveriam de comer o huguenote e
por que impedir esse huguenote de casar? Não há bis-
pos, abades, monges que têm terras no Dauphiné, no
Gévaudan, nos arredores de Agde, de Carcassone? Esses
bispos, abades e monges não possuem colonos que têm
a infelicidade de não crer na transubstanciação? Não é
do interesse dos bispos, dos abades, dos monges e do
público que esses colonos tenham famílias numerosas?
Somente àqueles que comungarem de uma única forma
será permitido ter filhos? Em verdade isso não é justo
nem conveniente.
"A revogação do edito de Nantes não produziu tan-
tos inconvenientes quanto lhe atribuem", diz o autor.
Se de fato lhe atribuem mais do que produziu, exa-
geram, e o erro de quase todos os historiadores é exage-
129
________
rar; mas é também o erro de todos os controversistas re-
duzir a nada o mal que lhes censuram. Não creiamos nem
nos doutores de Paris, nem nos pregadores de Amsterdam.
Tomemos por juiz o conde d'Avaux, embaixador na
Holanda de 1685 a 1688. Ele diz, na página 181, tomo
V
1
S9, que um único homem propusera descobrir mais de
vinte milhões que os perseguidos faziam sair da França.
Luís XIV responde ao conde d'Avaux: "As notícias que
recebo diariamente de um número infinito de conver-
sões não me deixam mais duvidar de que os mais obsti-
nados seguirão o exemplo dos outros."
Vê-se, por essa carta de Luís XIV, que ele era muito
crédulo sobre a extensão de seu poder. Diziam-lhe todas
as manhãs: Majestade, sois o maior rei do universo; todo
o universo se vangloriará de pensar como vós assim que
tiverdes falado. Pelisson, que enriquecera no cargo de
primeiro funcionário das finanças; Pelisson, que passara
três anos na Bastilha como cúmplice de Fouquet; Pelis-
son, que de calvinista tornara-se diácono e beneficiado,
que mandava imprimir orações para a missa e versos ga-
lantes para damas, que obtivera o cargo de ecônomo e de
convertedor; Pelisson, dizia eu, trazia a cada três meses
uma grande lista de abjurações a sete ou oito escudos
cada, e fazia seu rei acreditar que, na hora que quisesse,
converteria todç>s os turcos ao mesmo preço. Revezavam-
se para enganá-lo. Podia Luís XIV resistir à sedução?
No entanto, o mesmo conde d'Avaux notifica ao rei
que certo Vincent emprega mais de quinhentos operá-
rios perto de Angoulême e que sua saída causará prejuí-
zos (tomo V, página 194).
O mesmo d'Avaux fala de dois regimentos que o prín-
cipe de Orange já mandou os oficiais franceses refugia-
130
_______ Tratado sobre a tolerância
dos recrutarem, fala de marujos que desertaram de três
navios para servirem nos do príncipe de Orange. Além
desses dois regimentos, o príncipe de Orange forma ain-
da uma companhia de cadetes refugiados, comandados
por dois capitães (página 240). O embaixador escreve
ainda, em 9 de maio de 1686, ao sr. de Seignelai, "que não
pode lhe dissimular o dó de ver as manufaturas da Fran-
ça estabelecerem-se na Holanda, de onde não sairão
jamais".
Juntai a esses testemunhos os de todos os intenden-
tes do reino em 1699 e considerai se a revogação do
edito de Nantes não produziu mais mal do que bem,
apesar da opinião do respeitável autor de A concordân-
cia da religião e da desumanidade.
Um marechal da França conhecido por seu espírito
superior dizia há alguns anos: "Não sei se a dragonada
foi necessária; mas é necessário que não se repita."
Confesso que julguei ir um pouco longe demais, ao
tornar pública a carta do correspondente do padre Le
Tellier, na qual o membro da congregação propõe uma
operação com barris de pólvora
l6o
. Dizia-me a mim mes-
mo: Não me acreditarão, julgarão esta carta uma peça
forjada. Meus escrúpulos felizmente dissiparam-se quan-
do li em A concordância da religião e da desumanida-
de, página 149, estas doces palavras:
"A extinção total dos protestantes não debilitaria mais
a França do que uma sangria o faria com um doente bem
constituído. "
Esse cristão compassivo, que disse há pouco que os
protestantes compõem a vigésima parte da nação, quer,
portanto, espalhar o sangue dessa vigésima e con-
sidera essa operação apenas como uma sangna na omo-
plata! Deus nos preserve com ele dos três vigésimos!
131
Voltaire __________ _
Pois, se esse homem honrado propõe matar a vigé-
sima parte da nação, por que o amigo do padre Le Tellier
não teria proposto explodir, enforcar e envenenar a terça
parte? Portanto, é bem provável que a carta ao padre Le
Tellier tenha sido realmente escrita.
O santo autor irá finalmente concluir que a intole-
rância é algo excelente, "porque não foi, diz ele, expres-
samente condenada por Jesus Cristo". Mas Jesus Cristo
tampouco condenou os que ateariam fogo nos quatro
cantos de Paris; é uma razão para canonizar os incendiá-
rios? Assim, pois, quando a natureza faz ouvir de um lado
sua voz doce e benfazeja, o fanatismo, esse inimigo da
natureza, solta uivos; e quando a paz apresenta-se aos
homens, a intolerância forja suas armas. Ó vós, árbitro
das nações, que destes a paz à Europa, decidi entre o
espírito pacífico e o espírito assassino!
132'
CAPÍTULO xxv
Continuação e conclusão
Tomamos conhecimento de que, em 7 de março de
1763, perante o conselho de Estado reunido em Versa-
lhes, na presença dos ministros e sob a presidência do
chanceler, o sr. de Crosne, promotor de justiça, reapre-
sentou o caso dos Calas com a imparcialidade de um
juiz, a exatidão de um homem perfeitamente instruído, a
eloqüência simples e verdadeira de um orador do Esta-
do, a única que convém numa tal assembléia. Uma quan-
tidade enorme de pessoas de todas as classes aguardava
na galeria do castelo a decisão do conselho. Logo anun-
ciaram ao rei que todas as vozes, sem exceção, haviam
ordenado que o parlamento de Toulouse enviasse ao
conselho todas as peças do processo e os motivos de sua
sentença que fizera Jean Calas morrer no suplício da
roda. Sua Majestade aprovou a decisão do conselho.
Portanto, há humanidade e justiça entre os homens
e, principalmente, no conselho de um rei amado e digno
de sê-lo. O caso de uma infortunada família de obscuros
cidadãos ocupou Sua Majestade, seus ministros, o chan-
celer e todo o conselho, e foi discutido com a mesma
atenção dedicada às maiores questões da guerra e da paz.
O amor pela eqüidade, o interesse pelo gênero humano
___________ Voltaire __________ _
conduziram todos os juízes. Graças sejam dadas ao Deus
da clemência, o único a inspirar a eqüidade e todas as
virtudes!
Atestamos que jamais conhecemos esse infortunado
Calas que oito juízes de Toulouse fizeram perecer com
base nos mais frágeis indícios, contra as ordens de nos-
sos reis e contra as leis de todas as nações; nem seu filho
Marc-Antoine, cuja estranha morte lançou esses oito juí-
zes no erro; nem a mãe, tão respeitável quanto infeliz;
nem suas inocentes filhas, que percorreram com ela du-
zentas léguas para deporem aos pés do trono seu infor-
túnio e sua virtude.
Deus sabe que fomos movidos apenas por um espí-
rito de justiça, de verdade e de paz, quando escrevemos
o que pensamos da tolerância, a propósito de Jean Calas,
que o espírito de intolerância fez morrer.
Não julgamos ofender os oito juízes de Toulouse ao
dizer que eles se enganaram, assim como todo o conse-
lho presumiu; ao contrário, abrimos-lhes um caminho
para se justificarem perante a Europa inteira. Esse cami-
nho é reconhecer que indícios equívocos e os gritos de
uma multidão insensata os desviaram da justiça, pedir
perdão à viúva e reparar, tanto quanto possível, a ruína
inteira de uma família inocente, juntando-se àqueles que
a amparam na sua aflição. Esses juízes fizeram o pai mor-
rer injustamente; cabe a eles substituir o pai junto aos
filhos, supondo-se que os órfãos queiram aceitar uma pe-
quena prova de"um justo arrependimento. Cabe aos juí-
zes oferecê-la, e à família aceitar ou não.
Compete sobretudo ao senhor David, magistrado de
Toulouse, se foi o primeiro perseguidor da inocência, dar
o exemplo do arrependimento. Ele insultou um pai de
134
-----___ Tratado sobre a tolerância _______ _
família agonizante no cadafalso. Essa crueldade é bas-
tante inédita; mas já que Deus perdoa, os homens devem
também perdoar quem repara suas injustiças.
Escreveram-me do Languedoc esta carta de 20 de
fevereiro de 1763.
"(. . .) Vossa obra sobre a tolerância me parece reple-
ta de humanidade e de verdade; mas receio que faça mais
mal do que bem à família Calas. Poderá magoar os oito
juízes que opinaram pelo suplício; eles pedirão ao parla-
mento que vosso livro seja queimado, e os fanáticos
(pois sempre os há) responderão com gritos de furor à
voz da razão, etc."
Eis minha resposta:
"Os oito juízes de Toulouse podem mandar queimar
meu livro, se ele é bom; não há nada mais fácil; também
queimaram as Cartas provinciais, que certamente valiam
bem mais; cada um pode queimar em sua casa os livros
e papéis que desejar.
Minha obra não pode fazer nem bem nem mal aos
Calas, que não conheço. O conselho do rei, imparcial e
firme, julga segundo as leis, segundo a eqüidade, com
base em peças e processos judiciais, e não num texto
que não é jurídico e cujo fundo é absolutamente alheio
ao caso em questão.
Por mais que se imprimam in-fólios a favor ou con-
tra os oito juízes de Toulouse e a favor ou contra a tole-
rância, nem o conselho, nem um tribunal qualquer con-
siderará esses livros como peças do processo.
Esse texto sobre a tolerância é uma petição que a
humanidade apresenta muito humildemente ao poder e
à prudência. Semeio um grão que algum dia poderá pro-
135
___________ Voltaire __________ _
duzir uma grande colheita. Esperemos tudo do tempo,
da bondade do rei, da sabedoria de seus ministros e do
espírito de razão que começa a espalhar por toda parte
sua luz.
A natureza diz a todos os homens: Fiz todos vós nas-
cerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minu-
tos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que
sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí-
vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opi-
nião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só
houvesse um único homem com opinião contrária, de-
veríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como
ele pensa. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um
pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos
corações um germe de compaixão para que uns ajudem
os outros a suportar a vida. Não sufoqueis esse germe,
não o corrompais, compreende i que ele é divino e não
troqueis a voz da natureza pelos miseráveis furores da
escola.
Sou eu apenas que vos une, sem que o saibais, por
vossas necessidades mútuas, mesmo em meio a vossas
guerras cruéis tão levianamente empreendidas, palco eter-
no das faltas, dos riscos e das infelicidades. Sou eu ape-
nas que, numa nação, detém as conseqüências funestas
da divisão interminável entre a nobreza e a magistratura,
entre esses dois corpos e o do clero, e também entre o
burguês e o agricultor. Todos ignoram os limites de seus
direitos; mas contra sua vontade acabam por escutar,
com o te)l1po, minha voz que fala a seu coração. Apenas
eu conservo a eqüidade nos tribunais, onde, sem mim,
tudo seria entregue à indecisão e aos caprichos, em meio
a um amontoado confuso de leis feitas geralmente ao
136
--------Tratado sobre a tolerância _______ _
acaso e por uma necessidade passageira, diferentes de
província a província, de cidade a cidade e quase sem-
pre contraditórias entre si numa mesma localidade. Só eu
posso inspirar a justiça, quando as leis inspiram apenas
a chicana. Aquele que me escuta julga sempre bem; e
aquele que busca somente conciliar opiniões que se
contradizem acaba por se perder.
Com minhas mãos plantei os alicerces de um pré-
dio imenso; ele era sólido e simples, todos os homens
nele podiam entrar com segurança; quiseram acrescentar
os ornamentos mais bizarros, mais grosseiros e mais inú-
teis; e o prédio começa a desmoronar por todos os la-
dos; os homens pegam as pedras e as atiram uns contra
os outros; grito-lhes: Parai, afastai esses escombros fu-
nestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no
prédio inabalável que é o meu
161
."
137
Artigo posteriormente acrescentado,
no qual se fala da última
sentença pronunciada em favor
da famüia Calas
De 7 de março de 1763 até o julgamento definitivo,
passaram-se mais dois anos: tanto é fácil ao fanatismo
arrancar a vida à inocência, como é difícil à razão resti-
tuir-lhe a justiça. Foi preciso suportar demoras inevitáveis,
necessariamente ligadas às formalidades. Quanto menos
essas formalidades foram observadas na condenação de
Calas, tanto mais deviam sê-lo rigorosamente pelo con-
selho de Estado. Um ano inteiro não é suficiente para
forçar o parlamento de Toulouse a fazer chegar ao con-
selho toda a documentação, para examiná-la, para rela-
tar o processo. O sr. de Crosne foi mais uma vez encar-
regado desse trabalho penoso. Uma assembléia de cerca
de oitenta juízes anulou a sentença de Toulouse e orde-
nou a revisão completa do processo.
Outras questões importantes ocupavam, então, qua-
se todos os tribunais do reino. Expulsavam-se os jesuítas;
aboliam sua sociedade na França: eles haviam sido into-
lerantes e perseguidores, foram perseguidos por sua vez.
A extravagância dos bilhetes de confissão, dos quais
supunha-se serem os autores secretos e dos quais eram
publicamente partidários, já havia despertado o ódio da
nação contra eles. Uma bancarrota imensa de um de seus
139
___________ Voltaire __________ _
missionários1
62
, bancarrota tida em parte como fraudu-
lenta, acabou por arruiná-los. As simples palavras missio-
nários e bancarroteiros, pouco adequadas para estarem
juntas, incitaram em todos os espíritos a decisão de sua
condenação. Enfim, as ruínas de Port-Royal e as ossadas
de tantos homens célebres insultados por eles em suas
sepulturas e exumados no começo do século por ordens
que apenas os jesuítas haviam ditado levantaram-se to-
das contra sua autoridade finda. Pode-se ver a história de
sua proscrição no excelente livro intitulado Sur la des-
truction des jésuites en France
163
, obra imparcial, porque
de um filósofo, escrita com a fineza e a eloqüência de
um Pascal e, sobretudo, com uma superioridade de luzes
que não é ofuscada, como em Pascal, por preconceitos
que às vezes seduziram grandes homens.
Essa grande questão, na qual alguns partidários dos
jesuítas diziam que a religião era ultrajada e em que o
maior número a considerava vingada, fez com que, du-
rante vários meses, o público perdesse de vista o proces-
so Calas; mas, tendo o rei atribuído ao tribunal chamado
das questões do palácio o julgamento definitivo, o mes-
mo público, que adora passar de uma cena a outra, es-
queceu os jesuítas, e os Calas prenderam toda a sua
atenção.
A câmara das questões do palácio é uma corte sobe-
rana composta de promotores de justiça, para julgar os
processos entre os funcionários da corte e as causas que
o rei lhes envia. Não se podia ter escolhido um tribunal
mais instruído sobre o assunto: eram precisamente os
mesmos magistrados que haviam julgado duas vezes as
preliminares da revisão e que estavam perfeitamente in-
formados quanto ao fundo e à forma. A viúva de Jean
140
_ _______ Tratado sobre a tolerância--------
Calas, seu filho e o jovem Lavaisse voltaram à prisão. Fi-
zeram vir do interior do Languedoc aquela velha empre-
gada católica que em instante algum abandonara seus
patrões e sua patroa, num momento em que se supu-
nha, contra toda a verossimilhança, que haviam estran-
gulado o jovem Marc-Antoine. Deliberou-se enfim com
base nas mesmas peças que haviam servido para conde-
nar Jean Calas ao suplício da roda e seu filho Pierre ao
banimento.
Foi então que surgiu uma nova memória do elo-
qüente sr. de Beaumont
l64
, e outra do jovem Lavaisse, tão
injustamente implicado nesse processo criminal pelos
juízes de Toulouse, que, por cúmulo de contradição, não
o haviam declarado absolvido. Esse jovem fez pessoal-
mente uma exposição que todos consideraram tão boa
quanto a do sr. de Beaumont. Tinha a dupla vantagem
de falar a seu favor e a favor de uma família com quem
partilhara os grilhões. Dependera apenas dele destruir
seus amigos e sair da prisão de Toulouse: bastaria ter
dito que se afastara dos Calas por um momento, aquele
em que se supunha que o pai e a mãe haviam assassina-
do seu filho. Ameaçaram-no com o suplício; a tortura e
a morte haviam se apresentado a seus olhos; uma pala-
vra poderia devolver-lhe a liberdade, mas ele preferiu ex-
por-se ao suplício do que pronunciar essa palavra, que
teria sido uma mentira. Narrou esses detalhes em sua ex-
posição, com uma candura tão nobre, tão simples, tão
distante de qualquer ostentação, que sensibilizou aque-
les que desejava apenas convencer e fez-se admirar sem
pretender a reputação.
Seu pai, famoso advogado, não teve participação ne-
nhuma nessa apresentação; viu-se, de repente, igualado
pelo filho, que jamais cursara a advocacia.
141
___________ Voltaire __________ _
Enquanto isso, pessoas da maior consideração vi-
nham em grande número à prisão onde a senhora Calas
e suas filhas estavam encerradas. Comoviam-se com elas
até ãs lágrimas. A humanidade, a generosidade, prodiga-
lizavam-lhes amparos. O que chamam de caridade não
lhes dava nenhum. A caridade, aliás geralmente tão mes-
quinha e insultante, é o quinhão dos devotos, e os devo-
tos ainda se opunham aos Calas.
Chegou o dia (9 de março de 1765) em que a ino-
cência triunfou plenamente. Tendo o sr. Baquencourt
apresentado todo o processo, inclusive em suas menores
circunstâncias, os juízes por unanimidade declararam a
família inocente, julgada de forma iníqua e abusiva pelo
parlamento de Toulouse. Reabilitaram a memória do pai.
Autorizaram a família a recorrer a quem de direito para
responsabilizar seus juízes e para reparar as despesas,
perdas e danos que os magistrados tolosanos deveriam
suprir por conta própria.
Foi uma grande festa em Paris; as pessoas reuniam-
se nas praças públicas, nos passeios; todos queriam ver
essa família tão infortunada e tão bem justificada; os juí-
zes eram aplaudidos, cumulados de sentimentos de gra-
tidão. O que torna esse espetáculo ainda mais comoven-
te é que aquele dia, 9 de março, era o mesmo em que
Calas perecera pelo mais cruel suplício (três anos antes).
Os senhores promotores de justiça haviam prestado
à família Calas uma justiça completa, e nisto não fizeram
mais do que seu dever. Há um outro dever, o da benefi-
cência, mais raramente cumprido pelos tribunais, que
parecem julgar-se destinados a serem apenas eqüitativos.
Os promotores de justiça decidiram que escreveriam em
conjunto à Sua Majestade para rogar-lhe reparar por suas
142
_ _______ Tratado sobre a tolerância _______ _
dádivas a ruína da família. A carta foi escrita. O rei res-
pondeu mandando entregar trinta e seis mil libras à mãe
e aos filhos; e, dessas trinta e seis mil libras, três mil para
a virtuosa empregada que defendera constantemente a
verdade ao defender seus patrões.
O rei, por essa bondade, mereceu, como por tantos
outros atos, o cognome que o amor da nação lhe outor-
gou 165. Possa esse exemplo servir para inspirar aos ho-
mens a tolerância, sem a qual o fanatismo devastaria a
terra, ou pelo menos a afligiria sempre! Sabemos que se
trata, aqui, de apenas uma única família e que o furor
das seitas fez perecer milhares; mas, hoje que uma som-
bra de paz deixa repousar todas as sociedades cristãs,
após séculos de carnificina, é nesse tempo de tranqüili-
dade que o infortúnio dos Calas deve causar maior im-
pressão, algo como o trovão irrompendo na serenidade
de um belo dia. Esses casos são raros mas acontecem e , ,
são o efeito dessa triste superstição que leva as almas fra-
cas a imputarem crimes a todo aquele que não pensa
como elas.
143
Notas
1. 12 de outubro de 1761. (Nota de Voltaire.)
2. Não lhe encontraram, após o transporte do cadáver ã câmara
municipal, senão um pequeno arranhão na ponta do nariz, e uma
pequena mancha no peito, causada por algum descuido no transpor-
te do corpo. (Nota de Voltaire.)
3. Em realidade, essa procissão ocorria não em 10 de março
como supunha Voltaire, mas em 17 de maio, em memória à vitória
obtida pelos católicos sobre os protestantes em maio de 1562. (M.) -
Designamos por (B.) uma nota de Beuchot, Oeuvres de Voltaire, 1829-
1834, e por (M.) uma nota de Moland, Oeuvres completes de Voltaire,
1877-1885.
4. O pároco de Saint-Étienne não protestou de modo algum e
disputou inclusive o direito de inumação com o pároco de Taur, na
circunscrição do qual encontrava-se a câmara municipal. (M.)
5. Veja-se a nota 3. (M.)
6. Lasalle. (M.)
7. Laborde. (M.)
8. Conheço apenas dois exemplos, na história, de pais acusados
de terem assassinado seus filhos por causa da religião.
O primeiro é o do pai de Santa Bárbara. Ele mandara construir
duas janelas em sua sala de banhos; Bárbara, em sua ausência, cons-
truiu uma terceira em honra da Santíssima Trindade; com a ponta do
dedo, ela fez o sinal da cruz sobre colunas de mármore e esse sinal
gravou-se profundamente nas colunas. Seu pai, furioso, investiu con-
tra ela de espada na mão; mas Bárbara fugiu através de uma monta-
nha que se abriu para si. O pai deu a volta à montanha e alcançou a
145
_____________ Voltaire ____________ _
filha; ela foi chicoteada completamente nua, mas Deus cobriu-a com
uma nuvem branca; seu pai, enfim, cortou-lhe a cabeça. Eis o que re-
lata a Flor dos santos.
O segundo exemplo é o do príncipe Hermenegildo. Revoltou-se
contra o rei, seu pai, enfrentou-o numa batalha em 584, foi vencido
e morto por um oficial: fizeram dele um mártir, porque seu pai era
ariano. (Nota de Voltaire.)
9. Um dominicano veio até meu cárcere e me ameaçou com o
mesmo tipo de morte se eu não abjurasse. É o que atesto perante
Deus. 23 de julho de 1762. PIERRE CALAS. (Nota de Voltaire.)
10. Ela foi acolhida em casa dos senhores Dufour e Mallet, ban-
queiros, e depois por d'Argental e Damilaville. (M.)
11. Mémoire à consulter, et Consultation pour la da me Anne-
Rose Cabibel, veuve Calas, et pour ses enfants, 23 aout 1 762. (M.)
12. Mémoire pour Donat, Pierre et Louis Calas. (M.)
13. Mémoire paur dame Anne-Rose Cabibel, veuve du sieur Jean
Calas, L. et L.-D. Calas, leurs fils, et Anne-Rose et Anne Calas, leurs fil-
Ies, demandeurs en cassation d'un arrêt du parlament de Toulouse,
du 9 mars 1762. (M.)
14. Eles foram imitados em várias cidades e a senhora Calas per-
deu a vantagem dessa generosidade. (Nota de Voltaire.)
15. Choiseul ocupava-se, então, em fazer a paz com a Ingla-
terra. (M.)
16. Devoto vem da palavra latina devotus. Os devoti da antiga
Roma eram os que se dedicavam à salvação da república: eram os
Curtius, os Decius. (Nota de Voltaire.)
17. Alusão à obra apologética do abade Houtteville, La religion
chrétienne prouvée par les faits, Paris, 1722.
18. Ou seja, conselheiros do parlamento. (M.)
19. As anatas eram a taxa que pagavam ã Santa Sé os detentores
de um benefício eclesiástico. Foram abolidas pela Assembléia Cons-
tituinte em 1789.
20. Eles reiteravam a opinião de Bérenger sobre a Eucaristia;
negavam que um corpo pudesse estar em cem mil lugares diferentes,
mesmo com a onipotência divina; negavam que os atributos pudes-
sem subsistir sem sujeito; acreditavam que era absolutamente impos-
sível que -;;-que é pão e vinho para os olhos, o paladar e o estômago,
desaparecesse de uma hora para outra; sustentavam todos esses erros,
146
_ _________ Tratado sobre a tolerância ----------
condenados outrora em Bérenger. Baseavam-se em várias passagens
dos primeiros padres da Igreja, sobretudo de São Justino, que diz
expressamente em seu diálogo contra Trífon: "A oblação da farinha
pura ... é a figura da eucaristia que Jesus Cristo nos ordena fazer em
memória de sua Paixão." (Página 119, Edit. Londinensis, 1719, in-8º.)
Lembravam tudo o que se dissera nos primeiros séculos contra
o culto das relíquias; citavam estas palavras de Vigilantius: "É neces-
sário que respeiteis ou mesmo adoreis uma vil poeira? As almas dos
mártires animam ainda suas cinzas? Os costumes dos idólatras intro-
duziram-se na Igreja; começam a acender tochas em pleno meio-dia.
Durante nossa vida podemos rezar uns pelos outros, mas, após. a
morte, de que servem essas preces?"
Mas não diziam o quanto São Jerônimo se insurgira contra essas
palavras de Vigilantius. Enfim, queriam fazer tudo voltar aos tempos
apostólicos, sem admitir que, tendo a Igreja se ampliado e fortaleci-
do, fora também necessário ampliar e fortalecer sua disciplina: con-
denavam as riquezas, que pareciam não obstante necessárias para
sustentar a majestade do culto. (Nota de Voltaire.)
21. O verídico e respeitável magistrado De Thou fala assim des-
ses homens tão inocentes e tão infortunados: "Homines esse qui tre-
centis circiter abhinc annis asperum et incultum solum vectigale a
dominis acceperint, quod improbo labore et assiduo cultu frugum
ferax et aptum pecori reddiderint; patientissimos eos laboris et ine-
diae, a litibus abhorrentes, erga egenos munificos, tributa principi et
sua jura dominis sedulo et summa fide pendere; Dei cultum assiduis
precibus et morum innocentia prae se ferre, caeterum raro divorum
templa adire, nisi si quando ad vicina suis finibus oppida mercandi
aut negotiorum causa divertant; quo si quandoque pedem inferant,
non Dei divorumque statuis advolvi, nec cereos eis aut donoria ulla
ponere; non sacerdotes ab eis rogari ut pro se aut propinquorum
manibus rem divinam faciant: non cruce frontem insignire uti aliorum
moris est; cum coelum intonat, non se lustralit aqua aspergere, sed
sublatis in coelum oculis Dei opem implorare; non religionis ergo
peregre proficisci, non per vias ante cruciam caput
sacra alio rito et populare lingua celebrare; non demque pontlflcl aut
episcopis honorem deferre, sed quosdam e suo delectos p.ro
antistitibus et doctoribus habere. Haec uti FranClscum relata VI Id.
feb., anni, etc." (THUANI, Hist., liv. VI.)
147
_____________ Voltaire ____________ _
Madame de Cental, a quem pertencia uma parte das terras de-
vastadas e sobre as quais só se viam os cadáveres de seus habitantes,
pediu justiça ao rei Henrique II, que a enviou ao parlamento de Paris.
O procurador-geral da Provença, chamado Guérin, principal autor
dos massacres, foi o único condenado à morte. De Thou diz que
arcou sozinho com a pena dos outros culpados, quod aulicorum la-
vore destitueretur, porque não tinha amigos na corte. (Nota de Vol-
taire.)
22. Ravaillac não havia sido frade bernardo. (M.)
23. François Gomar era um teólogo protestante; sustentou, con-
tra Arminius, seu colega, que Deus destinara desde toda a eternidade
a maior parte dos homens ao fogo eterno. Esse dogma infernal foi
apoiado, como era de esperar, pela perseguição. O grande pensio-
nista Barneveldt, que era do partido contrário a Gomar, teve a cabe-
ça cortada aos 72 anos, no dia 13 de maio de 1619, "por haver con-
tristado ao máximo possível a Igreja de Deus". (Nota de Voltaire.)
24. Um pregador, na apologia da revogação do edito de Nantes,
diz, ao falar da Inglaterra: "Uma falsa religião devia produzir necessa-
riamente semelhantes frutos; restava um por amadurecer e esses insu-
lares o recolhem: é o desprezo das nações. " Cumpre reconhecer que
o autor escolhe bem mal a ocasião de dizer que os ingleses são des-
prezíveis e desprezados pela terra inteira. Quando uma nação de-
monstra sua bravura e sua generosidade, quando é vitoriosa nos qua-
tro cantos do mundo, parece-me não ser lícito afirmar que ela é des-
prezível e desprezada. É num capítulo sobre a intolerância que se
encontra essa singular passagem; os que pregam a intolerância mere-
cem escrever assim. Esse abominável livro, que parece feito pelo
louco de Verberie, é de um homem sem vocação; pois, que religioso
escreveria deste modo? O furor é levado até a justificar a Noite de São
Bartolomeu. Chegamos a pensar que semelhante obra, repleta de tão
terríveis paradoxos, deveria ser lida por todo o mundo, ao menos por
sua singularidade; no entanto ela é pouco conhecida. (Nota de Vol-
taire.) - O pregador objeto dessa nota é o abade de Caveyrac, que,
na--página 362 de sua Apologia de Luís XIV quanto à revogaçào do
edito de Nantes, com uma dissertação sobre a jornada de São Bar-
tolomeu, 1758, escreveu de fato a frase citada por Voltaire. Os france-
ses, na Guerra dos Sete Anos, sofreram derrotas nos quatro cantos do
mundo. (M.) - Segundo Voltaire, o "louco de Verberie" era um pobre
148
_________ Tratado sobre a tolerância ________ _
coitado, de espírito perturbado, "que durante uma refeição num mos-
teiro proferiu palavras insensatas e foi enforcado, em vez de ser exor-
cizado e purificado". (Dictionnaire philosophique, "Suplícios".)
25. A província da Alsácia foi anexada ao reino da França após
a promulgação do edito de Nantes. O edito não era ali aplicado e,
portanto, jamais foi "revogado". Além disso, o rei tinha a preocupa-
ção de não perder para a Alemanha vizinha seus aliados protestantes.
Assim, a perseguição poupou os luteranos da Alsácia.
26. Veja-se Rycaut. (Nota de Voltaire.) - Rycaut é o autor de uma
História da situação atual da Igreja grega, 1696.
27. Os descendentes de Noé, ou noáchidas, eram tidos como
praticantes de uma religião natural primitiva, anterior a toda Revela-
ção, que teria se conservado na China.
28. O budismo, sendo Fô o nome chinês de Buda.
29. As Cartas edificantes e curiosas, periódico dos jesuítas, pu-
blicavam (após censura) as cartas dos missionários da sociedade. Elas
são, na Europa do século XVIII, a principal fonte de informação
sobre a China.
30. Voltaire relata no capítulo 179 do Essai sur les moeurs [Ensaio
sobre os costumes] a conspiração dos barris de pólvora contra o rei
da Inglaterra (1605). Católicos fanáticos, descontentes com Jaime I,
decidiram matar, num único atentado, o rei, a família real e todos os
pares do reino. Trinta e seis toneladas de pólvora foram dispostas sob
a sala do parlamento onde Jaime I devia fazer uso da palavra. Mas a
máquina infernal foi descoberta a tempo.
31. Vejam-se Kempfer e todos os relatos do Japão. (Nota de
Voltaire.)
32. As duas palavras gregas que deram origem a esse nome sig-
nificam amigo e irmão. (M.)
33. Alusão ao julgamento de Salomão. (M.)
34. O sr. de La Bourdonnaie, intendente de Rouen, diz que a
manufatura de chapéus caiu em Caudebec e em Neuchâtel por causa
da evasão dos refugiados. O sr. Foucaut, intendente de Caen, diz que
o comércio em geral diminuiu pela metade. O sr. de Maupeou, inten-
dente de Poitiers, diz que a manufatura de droguete acabou. O sr. de
Bezons, intendente de Bordéus, queixa-se de que o comércio de
Clérac e de Nérac praticamente não existe mais. O sr. de Miroménil,
intendente de Touraine, diz que o comércio de Tours foi reduzido em
149
_____________ Voltaire ____________ _
dez milhões por ano; e tudo isto por causa da perseguição. (Vejam-
se os relatórios dos intendentes, em 1698.) Leve-se em conta sobretu-
do o número de oficiais de terra e mar, e marinheiros, que foram obri-
gados a ir servir contra a França, geralmente com uma funesta vanta-
gem, e vejam se a intolerância não causou mal nenhum ao Estado.
Não se tem aqui a temeridade de propor idéias a ministros cujo
gênio e opiniões abalizadas são bem conhecidos e cujo coração é tão
nobre quanto seu nascimento. Eles perceberão muito bem que o res-
tabelecimento da marinha demanda alguma indulgência para com os
habitantes das nossas costas. (Nota de Voltaire.) - Os dois ministros
elogiados por Voltaire são o duque de Choiseul-Stainville e seu pri-
mo, o duque de Praslin. (M.)
35. Voltaire não menciona os judeus de Avignon e do condado
Venaissin. Esses territórios, pertencentes ao papa, não faziam parte
do reino da França antes da Revolução.
36. Por volta de 1730, em Paris, no cemitério Saint-Médard, o
túmulo do diácono Pâris, muito popular no pequeno grupo jansenis-
ta, era palco de manifestações histéricas: as "convulsões". Os "profe-
tas calvinistas": os da revolta dos protestantes.
37. Voltaire supõe que a Apologia de Sócrates, de Platão, consti-
tua o discurso realmente pronunciado diante dos juízes.
38. Este homem é o abade de Malvaux, que publicou, em 1762,
L'accord de la religion et de l'humanité sur l'intolérance, obra que é
comentada no pós-escrito (cap. XXIV do Tratado sobre a tolerância),
e que fez repercutir sobre o autor uma parte da justa indignação que
seu predecessor, o abade de Caveyrac, havia despertado, ao fazer-se
apologista da Noite de São Bartolomeu. É a este último que alguns
atribuem a autoria de L'accord, etc. Segui a opinião de Hébrail. (B.)
39. Eis o texto de Cícero: "Quaeve anus tam excors inveniri po-
test, quae illa, quae quondam credebantur, apud inferos portenta
extimescat". (De natura deornm, liv. 11, capo ii.) (M.)
40. Capítulos XXI e XXIV. (Nota de Voltaire.)
41. Atos, capítulo XXV, V. 16. (Nota de Voltaire.)
42. Atos, capítulo XXVI, V. 24 (Nota de Voltaire.)
43. Embora os judeus não tivessem o direito de fazer justiça des-
de que Arquelau fora relegado entre os alóbrogos e a Judéia era go-
vernada como província do império, os romanos freqüentemente fe-
chavam os olhos quando os judeus exerciam o julgamento do zelo,
150
----------Tratado sobre a tolerância _________ _
ou seja, quando, numa sublevação repentina, lapidavam por zelo
aqueles que julgavam ter blasfemado. (Nota de Voltaire.)
44. Atos, capo VII, V. 57. (M.)
45. Ulpianus, Digest., liv. I, tit. ii. "Eis qui judaicam superstitio-
nem sequuntur honores adipisci permiserunt, etc." (Nota de Voltaire.)
46. Tácito diz (Annales, XV, 44): "Quos per flagitia invisos vul-
gus christianos appellabat."
Era pouco provável que o nome "cristão" fosse já conhecido em
Roma. Tácito escrevia sob Vespasiano e sob Domiciano; falava dos
cristãos como falavam a respeito deles em sua época. Eu ousaria di-
zer que as palavras adio humani generis convicti poderiam perfeita-
mente significar, no estilo de Tácito, acusados de serem odiados pelo
gênero humano, tanto quanto acusados de odiar o gênero humano.
Com efeito, o que faziam em Roma esses primeiros missionários?
Procuravam ganhar algumas almas, ensinavam-lhes a moral mais pura;
não se insurgiam contra nenhum poder; a humildade de seu coração
era tão extrema como a de suas posses e de sua situação; mal eram
conhecidos; mal haviam se separado dos outros judeus. De que manei-
ra o gênero humano, que os ignorava, podia odiá-los? E de que ma-
neira podiam ser acusados de detestar o gênero humano?
Quando Londres foi incendiada, acusaram os católicos; mas isso
foi depois das guerras de religião, foi depois da conspiração dos bar-
ris de pólvora, na qual vários católicos, indignos de sê-lo, haviam se
envolvido.
Os primeiros cristãos do tempo de Nero seguramente não se
encontravam na mesma situação. É muito difícil penetrar nas trevas
da história. Tácito não dá nenhuma razão da suspeita levantada de
que o próprio Nero quis reduzir Roma a cinzas. Teríamos bem mais
razões para suspeitar de Carlos 11 de ter incendiado Londres: o san-
gue do rei, seu pai, executado num cadafalso aos olhos do povo que
pedia sua morte, podia ao menos servir de escusa a Carlos 11. Mas
Nero não tinha escusa, nem pretexto, nem interesse. Esses rumores
insensatos podem ser, em qualquer lugar, o quinhão do povo: sabe-
mos de alguns, tão dementes e injustos, espalhados nos dias de hoje.
Tácito, que conhece tão bem o caráter dos governantes, devia
conhecer o do povo, sempre vão, sempre exagerado em suas opi-
niões violentas e passageiras, incapaz de perceber alguma coisa e
capaz de tudo afirmar, de tudo crer e de tudo esquecer.
151
------------_Voltaire ____________ _
Fílon (De Virtutibus, et Legatione ad Caium) diz que "Sejano os
perseguiu sob Tibério, mas que, após a morte de Sejano, o impera-
dor os restabeleceu em todos os seus direitos." Tinham o direito à ci-
dadania romana, embora desprezados pelos cidadãos romanos, par-
ticipavam das distribuições de trigo; e, mesmo quando a distribuição
era feita num dia de sabá, adiavam a deles para um outro dia, prova-
velmente em consideração às quantias em dinheiro que haviam dado
ao Estado, pois em todo lugar eles compraram a tolerância e em
pouco tempo foram ressarcidos do que ela havia custado.
Essa passagem de Fílon explica perfeitamente a de Tácito, que
diz que quatro mil judeus ou egípcios foram enviados à Sardenha e
que, se a intempérie do clima os fizesse perecer, seria uma perda
leve, vile damnum (Annales, II, 85).
Acrescentarei a essa nota que Fílon vê Tibério como um gover-
nante sábio e justo. Presumo que só era justo na medida em que essa
justiça correspondia a seus interesses; mas o bem que Fílon diz dele
me faz duvidar um pouco dos horrores que Tácito e Suetônio lhe atri-
buem. Não me parece verossímil que um velho doente, de 70 anos,
tenha se retirado à ilha de Capri para ali entregar-se a orgias requin-
tadas, que mal são naturais e que eram inclusive desconhecidas da
juventude mais desenfreada de Roma; nem Tácito nem Suetônio
conheceram esse imperador; eles recolhiam com prazer os boatos
populares. Otávio, Tibério e seus sucessores foram odiados, porque
reinavam sobre um povo que devia ser livre. Os historiadores com-
praziam-se em difamá-los, e acreditava-se na palavra desses historia-
dores porque, então, não havia anais, jornais da época, documentos;
assim, os historiadores não citam ninguém; era impossível contradi-
zê-los; difamavam quem queriam e decidiam a seu bel-prazer o jul-
gamento da posteridade. Cabe ao leitor sensato perceber até que
ponto deve-se desconfiar da veracidade desses historiadores, qual o
crédito que merecem fatos públicos atestados por autores sérios, nas-
cidos numa nação esclarecida, e quais os limites que devemos impor
à credulidade em anedotas que esses mesmos autores relatam sem a
menor prova. (Nota de Voltaire.)
47. Evidentemente, respeitamos tudo o que a Igreja torna respei-
tável; invocamos os santos mártires, mas, mesmo reverenciando São
Lourenço, podemos duvidar que São Sisto lhe tenha dito: Você me
seguirá dentro de três dias; que nesse curto intervalo de tempo o pre-
/
152
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
feito de Roma lhe tenha exigido o dinheiro dos cristãos; que o diáco-
no Lourenço tenha tido tempo de reunir todos os pobres da cidade;
que tenha ido até o prefeito para levá-lo ao lugar onde estavam esses
pobres; que lhe tenham aberto um processo e feito um interrogató-
rio; que o prefeito tenha encomendado a um ferreiro uma grelha bas-
tante grande para assar um homem; que o primeiro magistrado de
Roma tenha assistido pessoalmente a esse estranho suplício; que São
Lourenço, nessa grelha, lhe tenha dito: "Estou bastante assado de um
lado, podes me virar do outro se queres me comer." Essa grelha não
faz muito o gênero dos romanos. E como se explica que nenhum au-
tor pagão tenha falado dessas aventuras? (Nota de Voltaire.)
48. Basta abrir Virgílio para ver que os romanos reconheciam
um deus supremo, soberano de todos os seres celestes.
... O! qui res hominunque deumque
Aeternis regis imperiis, et fulmine terres.
(Eneida, I, 233-34.)
O pater, o hominum divumque aeterna potestas, etc.
(Eneida, X, 18.)
Horácio exprime-se bem mais enfaticamente:
Unde nil majus generatur ipso,
Nec viget quidquam simile, aut secundum.
(Lib. I, od. xii, 17-18.)
Não se cantava outra coisa, senão a unidade de Deus nos misté-
rios em que quase todos os romanos eram iniciados. Veja-se o belo
hino de Orfeu; leia-se a carta de Máximo de Madaurus a Santo Agos-
tinho, na qual diz que "somente imbecis poderiam não reconhecer
um Deus soberano". Mesmo sendo pagão, Longino escreve ao mes-
mo Agostinho que Deus "é único, incompreensível, inefável"; o pró-
prio Lactâncio, que não pode ser acusado de demasiado indulgente,
admite em seu livro V (Divin. Institut., c. I1I), que "os romanos sub-
metem' todos os deuses ao Deus supremo; illos subjicit et mancipat
Deo". Mesmo Tertuliano, em sua Apologética (c. XXIV), afirma que todo
o Império reconhecia um deus senhor do mundo, cuja potência e
153
_____________ Voltaire-------_____ _
majestade são infinitas, principem mundi, perfectae potentiae et
majestatis. Sobretudo em Platão, o mestre de Cícero na filosofia, lê-
se que "há um só Deus; cumpre adorá-lo, amá-lo e procurar asseme-
lhar-se a ele pela santidade e pela justiça". Epicteto na prisão, Marco
Antônio no trono, dizem a mesma coisa em várias passagens. (Nota
de Voltaire.)
49. Capítulo XXXIX. (Nota de Voltaire.)
50. Capítulo XXXV. (Nota de Voltaire.)
51. Capítulo III. (Nota de Voltaire.)
52. Essa asserção deve ser provada. É preciso convir que, desde
que a história sucedeu ã fábula, os egípcios são vistos apenas como
um povo covarde e supersticioso. Cambises apodera-se do Egito me-
diante uma única batalha; Alexandre lhe dita leis sem experimentar
um só combate, não encontrando uma cidade que ouse resistir a um
assédio; os Ptolomeus o subjugam sem resistência; César e Augusto o
fazem também facilmente; Ornar ocupa todo o Egito numa única cam-
panha; os mamelucos, povo da Cólquida e dos arredores do monte
Cáucaso, são seus senhores após Ornar; são eles, e não os egípcios,
que derrotam o exército de São Luís e fazem esse rei prisioneiro. En-
fim, tendo os mamelucos se tornado egípcios, ou seja, indolentes, co-
vardes, relapsos e volúveis, como os habitantes naturais desse clima,
em pouco tempo caem sob o jugo de Selim I, que manda enforcar
seu sultão e anexa essa província ao império dos turcos, até que ou-
tros bárbaros apoderem-se dela um dia.
Heródoto relata que, nos tempos fabulosos, um rei egípcio cha-
mado Sesóstris saiu de seu país com o propósito fonual de conquistar
o universo. Percebe-se que tal propósito só é digno de um Picrochole
[personagem do Gargântua de Rabelaisl ou de dom Quixote, sem con-
tar que o nome Sesóstris não é egípcio, pode-se colocar esse aconteci-
mento, bem como todos os fatos anteriores, na conta das Mil e uma
noites. Nada é mais comum entre os povos conquistados do que reci-
tar fábulas sobre sua antiga grandeza, do mesmo modo que, em certas
regiões, certas famílias miseráveis se fazem descender de antigos sobe-
ranos. Os sacerdotes do Egito contaram a Heródoto que esse rei cha-
mado Sesóstris fora subjugar a Cólquida: é como se disséssemos que
um rei da França partiu de Touraine para subjugar a Noruega.
Por mais que repitam todas essas histórias em milhares e milha-
res de volumes, elas não se tornam mais verossímeis. É bem mais
/ -
154
----______ Tratado sobre a tolerância _________ _
natural que os habitantes robustos e ferozes do Cáucaso, os cólqui-
das e os citas, que vieram tantas vezes devastar a Ásia, tenham pene-
trado no Egito; e se os sacerdotes de Colcos adotaram a moda da cir-
cuncisão, isso não é uma prova de que tenham sido subjugados pelos
egípcios. Diodoro de Sicília conta que todos os reis vencidos por
Sesóstris vinham anualmente de seus reinos distantes pagar-lhe os tri-
butos e que Sesóstris servia-se deles como de cavalos atrelados ã sua
carruagem para levá-lo ao templo. Essas histórias de Gargântua são
todos os dias fielmente copiadas. Obviamente, os reis eram muito
bondosos para virem de tão longe servir de cavalos.
Quanto às pirâmides e outras antiguidades, não provam outra
coisa senão o orgulho e o mau gosto dos príncipes do Egito, bem
como a escravidão de um povo imbecil, empregando seus braços, que
eram seu único bem, para satisfazer a grosseira ostentação de seus
senhores. O governo desse povo, mesmo nos períodos mais enalteci-
dos, parece absurdo e tirânico; dizem que todas as terras pertenciam
aos monarcas. E competia a tais escravos conquistar o mundo!
A profunda ciência dos sacerdotes egípcios é também uma das
coisas mais ridículas da história antiga, isto é, da fábula. Gente que
afirmava que, num período de onze mil anos, o sol havia surgido
duas vezes no poente e se posto duas vezes no nascente, recomeçan-
do seu curso, estava certamente muito abaixo do autor do Almana-
que de Liege. A religião desses sacerdotes, que governavam o Estado,
não se comparava sequer à dos povos selvagens da América. Sabe-se
que adoravam crocodilos, macacos, gatos, cebolas; talvez, hoje, em
toda a terra, só o culto do grande lama seja tão absurdo.
Suas artes não valem muito mais que sua religião: não há uma
única estátua egípcia que seja suportável, e tudo o que tiveram de
bom foi feito em Alexandria, sob os Ptolomeus e os Césares, por ar-
tistas da Grécia. Precisaram de um grego para aprender geometria.
O ilustre Bossuet extasia-se com o mérito egípcio, em seu Dis-
cours sur I'Histoire universelle dirigido ao filho de Luís XlV. O discur-
so é capaz de deslumbrar um jovem príncipe; mas satisfaz muito pou-
co os estudiosos: trata-se de uma declamação eloqüente, mas um his-
toriador deve ser mais filósofo do que orador. De resto, essa reflexão
sobre os egípcios é dada apenas como uma conjetura. Que outro no-
me pode dar-se a tudo o que se diz da Antiguidade? (Nota de Vol-
taire.)
155
_____________ Voltaire ____________ _
53. Não se contesta a morte de Santo Inácio. Mas ao ler o relato
de seu martírio, um homem de bom senso não sentirá algumas dúvi-
das surgirem em seu espírito? O autor desconhecido desse relato diz
que "Trajano julgou que faltaria algo à sua glória se não submetesse
a seu império o deus dos cristàos". Que idéia! Acaso Trajano era um
homem que quisesse triunfar dos deuses? Quando Inácio apareceu
diante do imperador, este lhe disse: "Quem és tu, espírito impuro?" É
pouco provável que um imperador falasse a um prisioneiro e que ele
próprio o condenasse; não é assim que os soberanos costumam agir.
Se Trajano mandou vir Inácio à sua presença, não podia ter-lhe per-
guntado: Quem és tu? Ele o sabia perfeitamente. E a expressào espí-
rito impuro poderia ter sido pronunciada por um homem como Tra-
jano? Nào se percebe que é uma expressão de exorcista, que um cris-
tão põe na boca de um imperador? Será este, santa ingenuidade, o
estilo de Trajano?
Pode-se conceber que Inácio lhe tenha respondido chamar-se
Teóforo, porque trazia Jesus em seu coraçào, e que Trajano tivesse
dissertado com ele acerca de Jesus Cristo? Fazem Trajano dizer, ao
final da conversaçào: "Ordenamos que Inácio, que se glorifica de tra-
zer em si o crucificado, seja acorrentado, etc." Um sofista inimigo dos
cristãos podia chamar Jesus Cristo de crucificado; mas é pouco prová-
vel que, ao declarar a sentença, empregasse esse termo. O suplício da
cruz era tão comum entre os romanos que era impossível, no estilo
das leis, designar por crucificado o objeto do culto dos cristãos; e não
é assim que as leis e os imperadores pronunciam seus julgamentos.
A seguir fazem Santo Inácio escrever uma longa carta aos cris-
tãos de Roma: "Eu vos escrevo - diz ele - completamente acorrenta-
do." Por certo, se lhe foi permitido escrever aos cristãos de Roma,
estes não eram procurados; Trajano, portanto, não tinha o propósito
de submeter o Deus deles a seu império; caso contrário, se esses cris-
tãos estivessem sob o flagelo da perseguição, Inácio cometia uma
grande imprudência ao escrever-lhes: significava expor-lhes, entre-
gar-lhes, significava tornar-se seu delator.
Penso que os que redigiram esses atos deviam dar mais atenção
às verossimilhanças e às conveniências. O martírio de São Policarpo
faz surgir mais dúvidas. É dito que uma voz gritou do alto do céu:
Coragem, Polica/pol, que os cristãos a ouviram, mas os outros não. É
dito que, quando amarraram Policarpo no poste e a fogueira ardeu
156
-------___ Tratado sobre a tolerância _________ _
em chamas, essas chamas afastaram-se dele e formaram um arco-íris
acima de sua cabeça; que uma pomba surgiu desse arco-íris; que o
santo, respeitado pelo fogo, exalou uma fragrância aromática que
perfumou todo o ambiente; mas aquele de quem o fogo não ousava
aproximar-se não pôde resistir ao golpe da espada. É preciso reco-
nhecer que devemos perdoar os que vêem nessas histórias mais pie-
dade do que verdade. (Nota de Voltaire.)
54. Histoire ecclésiastique, liv. VIII. (Nota de Voltaire.)
55. Daniel, capítulo m. (M.)
56. Veja-se nota 3, retro.
57. A Guerra dos Sete Anos, terminada pelo tratado de 10 de
fevereiro de 1763. (M.)
58. A grande lei da atração. (M.)
59. O parlamento de Paris havia, em 8 de junho de 1763, apro-
vado um decreto contra a inoculação. (M.)
60. Veja-se a excelente carta de Locke sobre a tolerância. (Nota
de Voltaire.)
61. O jesuíta Busembaum, comentado pelo jesuíta Lacroix, diz
que "é permitido matar um príncipe excomungado pelo papa, em
qualquer país onde se encontre esse príncipe, porque o universo per-
tence ao papa, e aquele que aceita essa incumbência faz uma obra
caridosa". Foi essa proposição, inventada nos manicômios do infer-
no, que mais mobilizou a França contra os jesuítas. Mais do que nun-
ca, reprovaram-lhes então esse dogma, por eles ensinado tantas ve-
zes e tantas vezes negado. Acreditaram justificar-se mostrando apro-
ximadamente as mesmas decisões em Santo Tomás e em vários domi-
nicanos (leiam, se puderem, a Carta de um homem do mundo a um
teólogo, sobre Santo Tomás; é uma brochura de jesuíta, de 1762). Com
efeito, Santo Tomás de Aquino, doutor angélico, intérprete da vontade
divina (são seus títulos), afirma que um príncipe apóstata perde seu
direito à coroa e que não se deve mais obedecer-lhe; que a Igreja
pode puni-lo com a morte (livro lI, parto 2, quest. 12); que o impera-
dor Juliano foi tolerado apenas porque era o mais forte (livro lI, parto
2, quest. 12); que é legítimo matar todo herético (livro II, parto 2,
quest. 11 e 12); que os que libertam o povo de um príncipe que go-
verna tiranicamente são muito louváveis, etc., etc. Respeita-se muito
o anjo da escola; mas se, na época de Jacques Clément, seu confra-
de e do bernardo Ravaillac ele viesse sustentar na França tais propo-
siçÕes, de que maneira t e r i ~ m tratado o anjo da escola?
157
_____________ Voltaire ____________ _
Cumpre reconhecer que Jean Gerson, chanceler da Universida-
de, foi ainda mais longe que Santo Tomás, e o franciscano Jean Petit,
infinitamente mais longe ainda. Vários franciscanos sustentaram as
horríveis teses de Jean Petit. É preciso dizer que essa doutrina diabó-
lica do regicídio advém unicamente da idéia maluca partilhada há
muito tempo por quase todos os monges, segundo a qual o papa é
um Deus na terra, podendo dispor à vontade do trono e da vida dos
reis. Nesse ponto estamos muito abaixo dos tártaros que crêem no
grande lama imortal; este entrega-lhes sua cadeira de retrete; eles fa-
zem secar essas relíquias, guardam-nas em relicário e as beijam devo-
tamente. De minha parte, confesso que preferiria, para o bem da paz,
levar no pescoço tais relíquias do que acreditar que o papa tenha o
menor direito sobre o temporal dos reis, ou mesmo sobre o meu, em
que circunstância for. (Nota de Voltaire.)
62. Joào, XIV, 28. (M,)
63. lI, 14. (M.)
64. I, 17. (M.)
65. III, 23-31. (M,)
66. Católicos e protestantes. (M.)
67. Êxodo, XII, 8. (M.)
68. Ibid., lI. (M.)
69. Pascha, a Páscoa, festa anual dos judeus, em memória de
sua saída do Egito. (M,)
70. Levítico, XIII, 23. (M.)
71. Ibid., XVI, 22. (M.)
72. Deuteronômio, capo XIV. (Nota de Voltaire.)
73. Dentro de nossa idéia de fazer sobre esta obra algumas notas
úteis, assinalaremos aqui que é dito ter feito Deus uma aliança com
Noé e com todos os animais. No entanto, ele permite a Noé comer de
tudo o que tenha vida e movimento; excetua apenas o sangue, do
qual não permite que se alimentem. Deus acrescenta (Gênesis, IX, 5)
"que se vingará de todos os animais que derramaram o sangue do
homem".
Pode-se inferir dessas passagens e de várias outras o que toda a
Antiguidade sempre pensou até os nossos dias e o que todos os
homens sensatos pensam: que os animais têm algum conhecimento.
Deus não faz um pacto com as árvores nem com as pedras, que não
têm sentimento; mas faz com os animais, que ele houve por bem
158
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
dotar de um sentimento não raro mais delicado que o nosso e de
algumas idéias necessariamente associadas a esse sentimento. Por
isso ele não quer a barbárie de nos alimentarmos do sangue desses
animais, porque o sangue é a fonte da vida e, conseqüentemente, do
sentimento. Prive-se um animal de seu sangue e todos os seus órgãos
ficam sem ação. É, pois, com muita razão que a Escritura diz em vá-
rias passagens que a alma, isto é, o que era chamado de alma sensi-
tiva, está no sangue; e essa idéia tào natural foi a de todos os povos.
É sobre essa idéia que se fundou a comiseração que devemos
ter para com os animais. Dos sete preceitos dos noáchidas, adotados
pelos judeus, há um que proíbe comer o membro de um animal em
vida. Esse preceito prova que os homens tiveram a crueldade de mu-
tilar os animais para comer seus membros e que os deixavam viver
para se alimentar sucessivamente das partes de seu corpo. Esse cos-
tume subsistiu, com efeito, entre alguns povos bárbaros, como vemos
pelos sacrifícios da ilha de Quios, a Baco Omadios, o comedor de
carne crua. Deus, ao permitir que os animais nos sirvam de comida,
recomenda portanto humanidade para com eles. É preciso convir que
há barbárie em fazê-los sofrer; certamente só o costume é capaz de
diminuir em nós o horror natural de degolar um animal que nutrimos
com as nossas màos. Sempre houve povos que tiveram um grande
escrúpulo disso. Esse escrúpulo subsiste ainda em quase toda a Índia;
toda a seita de Pitágoras, na Itália e na Grécia, sempre se absteve de
comer carne. Porfírio, em seu livro da Abstinência, censura um discí-
pulo por ter abandonado sua seita apenas para entregar-se a seu ape-
tite bárbaro.
É preciso, penso eu, ter renunciado à luz natural, para ousar
afirmar que os animais são somente máquinas. Há uma contradição
manifesta em admitir que Deus deu aos animais todos os órgàos do
sentimento e em sustentar que não lhes deu sentimento.
Parece-me também que é preciso não ter jamais observado os
animais para não distinguir neles as diferentes vozes da necessidade,
da alegria, do temor, do amor, da cólera e de todos os seus afetos; se-
ria muito estranho que exprimissem tão bem o que não sentem.
Essa nota pode fornecer muitas reflexões aos espíritos sabedo-
res do poder e da bondade do Criador, que se digna conceder a vida,
o sentimento, as idéias, a memória, aos seres que ele próprio organi-
zou com sua mào onipotente. Não sabemos nem como esses órgãos
159
_____________ Voltaire ____________ _
se formaram, nem como se desenvolveram, nem como se recebe a
vida, nem por que leis os sentimentos, as idéias, a memória, a vonta-
de ligam-se a essa vida; e nessa profunda e eterna ignorância, ineren-
te ã nossa natureza, não cessamos de discutir, perseguimo-nos uns
aos outros, como os touros que se batem com seus chifres sem saber
por que e como têm chifres. (Nota de Voltaire.)
74. Amós, V, 26. (Nota de Voltaire.)
75. jeremias, VII, 22. (Nota de Voltaire.)
76. Atos, VII, 42-43. (Nota de Voltaire.)
77. Deuteronômio, XII, 8. (Nota de Voltaire.)
78. Vários escritores concluíram temerariamente dessa passagem
que o capítulo concernente ao bezerro de ouro (que não é senão o
deus Ápis) foi acrescentado aos livros de Moisés, bem como vários
outros capítulos.
Aben-Hezra foi o primeiro que julgou demonstrar que o Penta-
teuco fora redigido no tempo dos reis. Wollaston, Collins, Tindal,
Shaftesbury, Bolingbroke e muitos outros alegaram que a arte de gra-
var os pensamentos na pedra polida, na argila, no chumbo ou na ma-
deira era, então, a única maneira de escrever; dizem que, no tempo
de Moisés, os caldeus e os egípcios não escreviam de outro modo;
que, portanto, só podiam gravar de forma muito abreviada, e em hie-
róglifos, a substância das coisas que queriam transmitir ã posteridade,
e não histórias detalhadas; que não era possível gravar livros volumo-
sos num deserto onde se mudava freqüentemente de lugar, onde não
havia ninguém que pudesse produzir roupas, nem cortá-las, nem
sequer consertar as sandálias, e onde Deus foi obrigado a fazer um
milagre de quarenta anos (Deuteronômio, VIII, 5) para conservar as
roupas e os calçados de seu povo. Dizem que não é verossímil que
houvesse tantos gravadores de caracteres, quando faltavam os ofícios
mais necessários e nem mesmo se podia fazer pão; e, se lhes dizem
que as colunas do tabernáculo eram de bronze e os capitéis de prata
maciça, respondem que a ordem pode ter sido dada no deserto, mas
que só foi executada em épocas mais favoráveis.
Não conseguem conceber que esse povo pobre tenha exigido
um bezerro de ouro maciço (Êxodo, XXXII, 1) para adorá-lo ao pé da
mesma montanha em que Deus falava a Moisés, em meio a raios e
relâmpagos que o povo avistava (Êxodo, XIX, 18-19) e ao som da
trombeta celeste que ouvia. Espantam-se de que exatamente na véspe-
160
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
ra do dia em que Moisés desceu da montanha, todo esse povo tenha
se dirigido ao irmão de Moisés para obter o bezerro de ouro maciço.
Como pôde Aarão fundi-lo num só dia (Êxodo, XXXII, 4)? E como
Moisés o reduziu a pó em seguida (Êxodo, XXXII, 20)? Dizem ser
impossível a qualquer artista fazer em menos de três meses uma está-
tua de ouro, e que, para reduzi-la a pó, a arte da química mais erudi-
ta não é suficiente. Assim, tanto a prevaricação de Aarão como a ope-
ração de Moisés teriam sido milagres.
A humanidade, a bondade de coração, que os enganam, os im-
pedem de acreditar que Moisés tenha mandado matar vinte e três mil
pessoas (Êxodo, XXXII, 28) para expiar esse pecado; não concebem
que vinte e três mil homens tenham se deixado deste modo m a s ~ a ­
crar por levitas, a menos que se trate de um terceiro milagre. Enfim,
acham estranho que Aarão, de todos o mais culpado, tenha sido re-
compensado do crime que causou tão terrível punição aos demais
(Êxodo, XXXIII, 19; e Levítico, VIII, 2), tornando-se grande sacerdote,
enquanto os cadáveres ensangüentados de vinte e três mil de seus
irmãos eram empilhados ao pé do altar onde foi oferecer sacrifícios.
Levantam os mesmos problemas em relação aos vinte e quatro
mil israelitas massacrados por ordem de Moisés (Números, XXV, 9),
para expiar a falta de um só que fora surpreendido com uma jovem
madianita. Vêem-se tantos reis judeus, sobretudo Salomão, esposar
impunemente estrangeiras, que esses críticos não conseguem admitir
que a união com uma madianita fosse tão grande crime: Rute era moa-
bita, embora sua família fosse originária de Belém; a Sagrada Escritura
designa sempre Rute, a moabita; no entanto, ela foi ter ao leito de
Boaz a conselho de sua mãe; dele recebeu seis alqueires de cevada, o
desposou em seguida e foi a avó de Davi. Raabe era não apenas es-
trangeira, mas uma mulher pública; a Vulgata não lhe dá outro título
senão o de meretrix (Josué, VI, 17); ela esposou Salmom, príncipe de
Judá; e é ainda desse Salmom que Davi descende. Consideram inclu-
sive Raabe como a figura da Igreja cristã: é a opinião de vários padres,
e sobretudo de Orígenes em sua sétima homilia sobre Josué.
Betsabé, mulher de Urias, da qual Davi teve Salomão, era etéia.
Se remontarmos mais acima, o patriarca Judá esposou uma mulher
cananéia; seus filhos tiveram por mulher Tamar, da raça de Aram.
Essa mulher, com quem Judá cometeu, sem saber, um incesto, não
era da raça de Israel.
161
_____________ Voltaire ____________ _
Assim, nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se encarnar entre os
judeus uma família com cinco estrangeiras em sua árvore genealógi-
ca, para fazer ver que as nações estrangeiras teriam parte na sua
herança.
O rabino Aben-Hezra foi, como disse, o primeiro a ousar afirmar
que o Pentateuco fora redigido muito tempo depois de Moisés. Ele
baseia-se em várias passagens. "O cananeu (Gênesis, IX, 6) estava
então nesse país. A montanha de Moriá (lI Paralip., I1I, 1), chamada
a montanha de Deus. O leito de Og, rei de Bazan, se vê ainda em
Rabat, e ele denominou toda essa região de Bazan aldeias de Jair, até
hoje. Jamais se viu, em Israel, profeta como Moisés. São estes os reis
que reinaram em Edom (Gênesis, XXXVI, 31) antes que algum reinas-
se sobre Israel." Aben-Hezra afirma que essas passagens, em que se
fala de coisas acontecidas depois de Moisés, não podem ser de Moi-
sés. Objetam-lhe que tais passagens são notas acrescentadas muito
tempo depois pelos copistas.
Newton, cujo nome aliás só merece ser pronunciado com res-
peito, mas que pode ter-se enganado por ser homem, atribui, na
introdução a seus comentários sobre Daniel e São João, os livros de
Moisés, Josué e dos Juízes a autores sagrados muito posteriores: ba-
seia-se no capítulo XXXVI do Gênesis, em quatro capítulos dos Juízes,
XVII, XVIII, XIX, XXI; em Samuel, capo VIII; nas Crônicas, capo 11; no
livro de Rute, capo IV. Com efeito, se no capo XXXVI do Gênesis se
fala dos reis, se eles são mencionados no livro dos Juízes, se no livro
de Rute há referência a Davi, tudo leva a crer que esses livros foram
escritos no tempo dos reis. É também a opinião de alguns teólogos,
a começar pelo famoso Leclerc. Mas essa opinião tem apenas um
pequeno número de adeptos cuja curiosidade sonda tais abismos.
Essa curiosidade, por certo, não faz parte dos deveres do homem.
Quando os sábios e os ignorantes, os príncipes e os pastores apresen-
tarem-se após esta curta vida perante o senhor da eternidade, todos
desejarão ser justos, humanos, compassivos, generosos; ninguém se
vangloriará de ter sabido precisamente em que ano o Pentateuco foi
escrito e de ter decifrado o texto de notas que os escribas costuma-
vam tomar. Deus não nos perguntará se fomos a favor dos massore-
tes contra o Talmude, se alguma vez tomamos um caph por um beth,
um yod por um vaü, um daleth por um res; com toda a certeza, ele
nos julgará por nossas ações, e não pela compreensão da língua
162
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
hebraica. Atemo-nos firmemente à decisào da Igreja, conforme o de-
ver razoável de um fiel.
Encerramos esta nota com uma passagem importante do Levíti-
co, livro composto após a adoração do bezerro de ouro. Ele ordena os
judeus a não mais adorar os lanosos, "os bodes, com os quais inclusi-
ve praticaram abominações infames". Não se sabe se esse estranho
culto vinha do Egito, pátria da superstição e do sortilégio; mas acredi-
ta-se que o costume de nossos supostos feiticeiros de adorar um bode
no sabá e de com ele entregar-se a infâmias inconcebíveis, cuja idéia
causa horror, proveio dos antigos judeus. Com efeito, foram eles que
ensinaram, numa parte da Europa, a feitiçaria. Que povo! Tão estranha
infâmia parecia merecer um castigo comparável ao ocasionado pelo
bezerro de ouro; no entanto, o legislador contenta-se em fazer-lhe
uma simples defesa. Relatamos aqui esse fato apenas para fazer
conhecer a nação judaica: nela, a bestialidade devia ser comum, por
ser a única nação conhecida na qual as leis foram forçadas a proibir
um crime jamais suspeitado alhures por algum legislador.
É de supor que nas fadigas e na penúria que os judeus expe-
rimentaram nos desertos de Farã, Oreb e Cades-Barné, a espécie fe-
minina, mais frágil que a outra, tenha sucumbido. É provável, de fato,
que os judeus carecessem de mulheres, já que sempre lhes foi orde-
nado, quando se apoderavam de uma cidade ou aldeia, seja à esquer-
da, seja à direita do lago Asfaltite, matar todos, exceto as jovens
núbeis.
Os árabes que habitam ainda uma parte desses desertos estipu-
lam sempre, nos tratados que fazem com as caravanas, que lhes
darão jovens núbeis. É possível que os rapazes, nessa região terrível,
levassem a depravação da natureza até acasalarem-se com cabras,
como é dito de alguns pastores da Calábria.
Resta saber se esses acasalamentos produziram monstros e se há
algum fundamento nos antigos contos de sátiros, faunos, centauros e
minotauros; a história o afirma, mas a física não nos esclareceu ainda
sobre esse assunto monstruoso. (Nota de Voltaire.)
79. Josué, capo XXIV, V. 15 sS. (Nota de Voltaire.)
80. Números, capo XXI, V. 9. (Nota de Voltaire.)
81. lI. paralip., capo IV. (M.)
82. lI. Reis, XII, 28. (M.) [Corresponde a I Reis.)
83. Ibid., 31. eM.)
163
_____________ Voltaire ____________ _
84. Reis, liv. m, capo XV, V. 14 [corresponde a I Reis); ibid., capo
XXII, v. 44. (Nota de Voltaire.)
85. Reis, liv. IV, capo XVI. (Id.) [II Reis)
86. Ibid., liv. m [I Reis], capo XVIII, V. 38 e 40; ibid., liv. IV, capo
II, V. 24. (Id.)
87. Iv. Reis [II Reis], II, 24. (M.)
88. Números, capo XXXI. (Nota de Voltaire.)
89. Mádian não fazia parte da terra prometida. Era um pequeno
cantão da Iduméia, na Arábia Pétrea; começa ao norte no curso do rio
Arnon e vai até o Zared, em meio aos rochedos e na margem orien-
tal do lago Asfaltite. Essa região é hoje habitada por uma pequena
horda de árabes; deve ter cerca de oito léguas de comprimento e um
pouco menos de largura. (Id.)
90. Números, XXXI, 32 sS. (M.)
91. Números, XXXI, 40. (M.)
92. É certo pelo texto (juízes, XI, 39) que Jefté imolou sua filha.
"Deus não aprova esses sacrifícios, diz dom Calmet em sua Disserta-
ção sobre o juramento de jefté; mas quando foram oferecidos, ele quer
que os executem, ainda que para punir aqueles que os faziam, ou
para reprimir a leviandade com que seriam feitos se não temessem a
execução." Santo Agostinho e quase todos os padres condenam a
ação de Jefté. É verdade que a Escritura (juízes, XI, 29) diz que ele foi
tomado pelo espírito de Deus, e São Paulo, em sua Epístola aos hebreus,
capo XI, V. 32, faz o elogio de Jefté; equipara-o a Samuel e Davi.
São Jerônimo, em sua epístola a Juliano, diz: "Jefté imolou sua
filha ao Senhor, e é por isso que o apóstolo o inclui entre os santos."
Eis aí, de um lado e de outro, julgamentos sobre os quais não nos é
permitido acrescentar o nosso; deve-se temer inclusive ter uma opi-
nião. (Nota de Voltaire.)
93. Pode-se considerar a morte do rei Agag como um verdadei-
ro sacrifício. Saul havia feito esse rei dos amalecitas prisioneiro de
guerra e aceitara negociar com ele; mas o sacerdote Samuel ordenou-
lhe nada poupar; disse-lhe com estas palavras (J. Samuel, XV, 3):
"Nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crian-
ças de peito."
"E Samuel despedaçou a Agague perante o Senhor em Gilgal."
"O zelo que animava o profeta", diz dom Calmet, "pôs-lhe a espa-
da na mão nessa ocasião para vingar a glória do Senhor e para humi-
lhar Saul."
164
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
Vemos, nessa fatal aventura, uma devoção, um sacerdote, uma
vítima: tratava-se, pois, de um sacrifício.
Todos os povos cuja história conhecemos sacrificaram homens
à Divindade, exceto os chineses. Plutarco (Quest. rom. LXXXII) conta
que os próprios romanos fizeram imolações na época da república.
Nos Comentários de César(De bello gall., I, xxiv), lemos que os
germanos imolaram os reféns que ele lhes devolvera após sua vitória.
Observei alhures que essa violação do direito das pessoas para
com os reféns de César, e essas vítimas humanas imoladas, para cúmu-
lo do horror, pela mào de mulheres, desmente um pouco o panegíri-
co que Tácito faz dos germanos, em seu tratado De moribus germa-
norum. Parece que, nesse tratado, Tácito preocupa-se mais em fazer
a sátira dos romanos do que o elogio dos germanos, que ele não co-
nhecia.
Diga-se de passagem que Tácito gostava mais da sátira do que
da verdade. Ele quer tornar tudo odioso, inclusive as ações indiferen-
tes, e sua malignidade nos agrada quase tanto quanto seu estilo por-
que gostamos da maledicência e do engenho.
Voltemos às vítimas humanas. Nossos antepassados as imolavam
da mesma forma que os germanos: é o último grau da estupidez de
nossa natureza abandonada a si mesma e é um dos frutos da fragili-
dade de nosso julgamento. Dizemos: Cumpre oferecer a Deus o que
temos de mais precioso e de mais belo; o que temos de mais precio-
so são nossos filhos; logo, cumpre escolher os mais belos e os mais
jovens para sacrificá-los à Divindade.
Fílon diz que, na terra de Canaà, imolavam-se às vezes crianças,
antes que Deus ordenasse a Abraão sacrificar-lhe seu filho único,
Isaque, para provar sua fé.
Sanchoniathon, citado por Eusébio, conta que os fenícios sacri-
ficavam, nas situações de maior perigo, o mais querido de todos os
seus filhos, e que Ilus imolou seu filho Jehud mais ou menos na
época em que Deus pôs à prova a fé de Abraào. É difícil penetrar nas
trevas dessa antiguidade; mas nào resta dúvida de que esses horríveis
sacrifícios eram praticados quase por toda parte; os povos só os
abandonaram à medida que se civilizaram: a civilidade traz a huma-
nidade. (Nota de Voltaire.)
94. XXXIX, 20, 18. (M.)
95. juízes, capo XI, V. 24. (Nota de Voltaire.)
165
----------___ Voltaire ____________ _
96. juízes, capo XVII, último versículo. (Nota de Voltaire.)
97. Reis, liv. IV [lI. Reis], capo V, v. 18 e 19. (Nota de Voltaire.)
98. Os que estão pouco a par dos costumes da Antiguidade e
que só julgam segundo o que vêem a seu redor podem ficar espan-
tados com essas singularidades; mas é preciso pensar que, então, no
Egito e numa grande parte da Ásia, a maior parte das coisas exprimia-
se por figuras, hieróglifos, sinais, modelos.
Os profetas, que eram chamados videntes entre os egípcios e os
judeus, não apenas se exprimiam em alegorias, como também repre-
sentavam por sinais os acontecimentos que anunciavam. Assim, Isaías,
o primeiro dos quatro grandes profetas judeus, pega um rolo (cap.
VIII) e escreve: "Shas bas, toma depressa os despojos"; depois apro-
xima-se da profetisa. Ela dá à luz um menino que ele chama de
Maher-chalal-shas-bas: é uma figura dos males que os povos do Egito
e da Assíria farão aos judeus.
Esse profeta diz (VII, 15, 16, 18, 20} "Ele comerá manteiga e mel
quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes
que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desam-
parada a terra, ante cujos dois reis tu tremes de medo ... Porque há de
acontecer que naquele dia assobiará o Senhor às moscas que há no
extremo dos rios do Egito, e às abelhas que andam na terra da Assíria ...
Naquele dia rapar-te-á o Senhor com uma navalha alugada doutro
lado do rio, a saber, por meio da Assíria, a cabeça e os cabelos das ver-
gonhas, e tirará também a barba."
Essa profecia das abelhas, da barba e dos cabelos das vergonhas
raspados, só pode ser entendida por aqueles que sabem que era cos-
tume chamar os enxames com o som da flauta ou de algum outro ins-
trumento campestre; que a maior afronta que se podia fazer a um
homem era cortar-lhe a barba; que se chamava de cabelos das vergo-
nhas o pêlo do púbis; que esse pêlo só era raspado nas doenças
imundas, como a lepra. Todas essas figuras estranhas ao nosso estilo
não significam senão que o Senhor, dentro de alguns anos, libertará
seu povo da opressão.
O mesmo Isaías (cap. XX) marcha completamente nu, para assi-
nalar que o rei da Assíria levará uma multidão de cativos do Egito e
da Etiópia, que não terão com que cobrir sua nudez.
Ezequiel (cap. IVe seguinte) come o volume de pergaminho que
lhe é apresentado; em seguida cobre seu pão de excrementos e per-
166
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
manece deitado sobre seu lado esquerdo trezentos e noventa dias, e
sobre seu lado direito quarenta dias, para dar a entender que os
judeus não terão pão e para indicar quantos anos haveria de durar o
cativeiro. Prende-se com correntes, que representam as do povo;
corta seus cabelos e sua barba e os divide em três partes: o primeiro
terço designa os que devem perecer na Cidade; o segundo, os que
serão mortos fora das muralhas; o terceiro, os que serão levados à
Babilônia.
O profeta Oséias (cap. 111) une-se a uma mulher adúltera, que ele
adquire por quinze peças de prata e um saco e meio de cevada: "Tu
esperarás por mim muitos dias, diz-lhe Oséias; não te prostituirás,
nem serás de outro homem; assim também esperarei por ti. Porque
os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem
sacrifício, sem coluna, sem estola sacerdotal ou ídolos do lar." Em
uma palavra, os na bis, os profetas, os videntes, quase nunca predi-
zem sem representar por um sinal a coisa predita.
Jeremias, portanto, não faz senão seguir o costume ao amarrar-
se com cordas e colocar cabrestos e jugos nas costas, para significar
a escravidão daqueles aos quais envia esses modelos. Se prestarmos
bem atenção, esses tempos são como os de um mundo antigo, que
em tudo difere do novo: a vida civil, as leis, a maneira de fazer a
guerra, as cerimônias da religião, tudo é absolutamente diferente.
Basta abrir Homero e o primeiro livro de Heródoto para nos conven-
cermos de que não temos nenhuma semelhança com os povos da alta
Antiguidade e de que devemos desconfiar de nosso julgamento quan-
do buscamos comparar seus costumes com os nossos.
A própria natureza não era o que é hoje. Os magos tinham sobre
ela um poder que não têm mais: encantavam serpentes, evocavam os
mortos, etc. Deus enviava sonhos, e homens os explicavam. O dom
da profecia era comum. Viam-se metamorfoses como as de Nabuco-
donosor transformado em boi, da mulher de Ló em estátua de sal, de
cinco cidades num lago betuminoso.
Havia espécies de homens que não mais existem. A raça dos gi-
gantes Refaím, Enim, Nefilim, Enacim, desapareceu. Santo Agostinho,
no livro V da Cidade de Deus, diz ter visto o dente de um antigo
gigante cem vezes maior que os nossos molares. Ezequiel (XXVII, 11)
fala dos pigmeus gamaditas, da altura de um côvado, que combatiam
no cerco de Tiro. E em quase tudo isto os autores sagrados estão de
167
_____________ Voltaire ____________ _
acordo com os profanos. As doenças e os remédios não eram os mes-
mos de nossos dias: os possessos eram curados com a raiz barad en-
gastada num anel que lhes punham sob o nariz. '
todo esse mundo antigo era tão diferente do nosso, que
nao se pode tirar nenhuma regra de conduta; e se, nessa Anti-
gUidade recuada, os homens se perseguiram e oprimiram sucessiva-
mente a propósito de seu culto, não deveríamos imitar essa cruelda-
de sob a lei da misericórdia. (Nota de Volta ire.)
99. jeremias, capo XXVII, V. 6. (Nota de Voltaire.)
100. jeremias, capo XXVIII, V. 17. (Nota de Voltaire.)
101. Isaías, capo XLIV e XLV. (Nota de Voltaire.)
102. I, V. 11. (M.)
103. Êxodo, capo XX, V. 5. (Nota de Voltaire.)
104. Deuteronômio, V, V. 16. (M.)
105. Deuteronômio, XXVIII. (Nota de Voltaire.)
. 106. uma única passagem nas leis de Moisés da qual se pode-
na conclUir ele conhecia a opinião reinante entre os egípcios, de
que a alma nao morre com o corpo; essa passagem é muito impor-
tante, e se encontra no capítulo XVIII do Deuteronômio: "Não se
achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha
nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro:
nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem
os mortos."
Essa passagem parece indicar que, se evocavam as almas dos
mortos, tal sortilégio supunha a permanência das almas. Pode ser
que os magos de que fala Moisés, sendo apenas trapaceiros
nao tivessem uma idéia clara do sortilégio que julgavam operar.
faZiam crer que os mortos a falar, que os repunham, por sua
magia, na sltuaçao em que esses corpos tinham estado em vida sem
ao menos se era possível inferir ou não de suas
,o dogma da imortalidade da alma. Os feiticeiros jamais
foram filosofos, sempre foram charlatães que representavam diante
de imbecis.
Pode-se observar ainda que é bastante estranho a palavra Píton
encontrar-se no Deuteronômio, muito tempo antes que essa palavra
grega pudesse ser conhecida pelos hebreus: assim, Píton não tem
nenhuma tradução exata na língua hebraica.
Essa língua tem dificuldades insuperáveis: é uma mistura de fe-
nício, egípcio, sírio e árabe; e essa mistura encontra-se hoje muito al-
168
_ _________ Tratado sobre a tolerância ----------
terada. O hebraico sempre teve apenas dois modos para os verbos, o
presente e o futuro: é preciso adivinhar os outros modos pelo senti-
do. Vogais diferentes eram com freqüência expressas pelos mesmos
caracteres; ou, então, não se expressavam as vogais, e os inventores
dos pontos só fizeram aumentar a dificuldade. Cada advérbio tem
vinte significados diferentes. A mesma palavra é tomada em sentidos
contrários.
Acrescente-se a isso a secura e a pobreza da linguagem: os ju-
deus, privados das artes, não podiam exprimir o que ignoravam. Em
uma palavra, o hebraico está para o grego assim como a linguagem
de um camponês para a de um acadêmico. (Nota de Voltaire.) Vol-
taire tem em vista o livro do teólogo inglês W. Warburton, The divine
legation of Moses demonstrated.
107. Ezequiel, capo XVIII, V. 20. (Nota de Voltaire.)
108. Ibid., capo XX, V. 25. (Nota de Voltaire.)
109. A opinião de Ezequiel prevaleceu enfim na sinagoga; mas
houve judeus que, acreditando nos castigos eternos, acreditavam
também que Deus perseguia nos filhos as iniqüidades dos pais; hoje
eles são punidos para além da qüinquagésima geração e têm ainda a
temer os castigos eternos. Pergunta-se de que maneira os descenden-
tes dos judeus, que não eram cúmplices da morte de Jesus Cristo, os
que, estando em Jerusalém, não participaram dela e os que se espa-
lharam pelo resto da terra podem ser temporalmente punidos em
seus filhos, tão inocentes quanto seus pais. Essa punição temporal,
ou, antes, essa maneira de existir diferente de outros povos e de pra-
ticar o comércio sem ter pátria, pode não ser vista como um castigo
em comparação com as penas eternas que eles atraem sobre si por
sua incredulidade e que são capazes de evitar através de uma conver-
são sincera. (Nota de Voltaire.)
110. Os que quiseram encontrar no Pentateuco a doutrina do
inferno e do paraíso, tais como os concebemos, equivocaram-se es-
tranhamente. Seu erro baseou-se apenas numa vã disputa de pala-
vras; tendo a Vulgata traduzido o termo hebraicO sheol, fossa, pelo la-
tino infernum, inferno, serviram-se desse equívoco para fazer crer que
os antigos hebreus tinham a noção de Hades e de Tártaro dos gre-
gos, que outras nações conheceram antes sob nomes diferentes.
É dito no capítulo XVI dos Números (31-33) que a terra abriu
sua boca sob as tendas de Coré, Datã e Abirã, que os devorou com
169
----------___ Voltaire ____________ _
suas tendas e seus bens, e que eles foram precipitados vivos na mo-
rada dos mortos. Certamente esse lugar não se refere ãs almas des-
ses três hebreus, nem aos tormentos do inferno, nem a uma punição
eterna.
É estranho que, no Dictionnaire encyclopédique, no termo IN-
FERNO, seja dito que os antigos hebreus reconheceram sua realida-
de. Se fosse assim, haveria uma contradição insustentável no Penta-
teuco. Como se explicaria que Moisés tivesse falado numa passagem
isolada e única dos castigos após a morte e que deles não tivesse fala-
do em suas leis? Cita-se o trigésimo segundo capítulo do Deutero-
nômio (versículos 21-24), mas de maneira truncada; ei-lo aqui na ín-
tegra: "Provocaram-me com aquilo que não era Deus, e irritaram-me
com sua vaidade; também eu os provocarei naquilo que não é um
povo, e os irritarei com uma nação insensata. Porque se acendeu o
fogo de minha cólera, e ele arderá até ao fundo da terra; devorará a
terra com seus produtos e abrasará os fundamentos das montanhas'
e acumularei sobre eles os males, e empregarei contra eles m i n h a ~
flechas; serão consumidos pela fome, as aves os atacarão com bica-
das dolorosas; mandarei sobre eles os dentes das feras e das serpen-
tes que se arrastam com furor sobre a terra.'"
Acaso existe alguma relação entre essas expressões e a idéia das
punições infernais tais como as concebemos? Parece antes que essas
palavras só tenham sido mencionadas para tornar evidente que nosso
inferno era ignorado pelos antigos judeus.
O autor desse artigo no Dictionnaire encyclopédique cita ainda
a passagem de Jó, no capítulo XXIV (15-19). "Aguardam o crepúscu-
lo os olhos do adúltero; este diz consigo: Ninguém me reconhecerá;
e cobre o rosto. Nas trevas minam as casas, de dia se conservam en-
cerrados, nada querem com a luz. Pois a manhã para todos eles é
como sombra de morte; mas os terrores da noite lhes são familiares.
Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das
águas; maldita é a porção dos tais na terra; já não andam pelo cami-
nho das vinhas. A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim
faz a sepultura dos que pecaram." Ou então: "O túmulo dissipou os
• Esta citação é traduzida de Voltaire. A tradução de João Ferreira de Al-
meida, aqui empregada, apresenta diferenças. Notadamente, diz "ao mais pro-
fundo do inferno", onde está "ao fundo da terra". (N. do T.)
170
_ _________ Tratado sobre a tolerância _________ _
que pecam"; ou ainda, segundo a versão dos Setenta, "Seu pecado foi
trazido ã memória".
Cito as passagens inteiras, e literalmente, sem o quê é sempre
impossível formar-se a respeito delas uma idéia verdadeira.
Existe aí, eu vos pergunto, a menor palavra a partir da qual se
possa concluir que Moisés ensinou aos judeus a doutrina clara e sim-
ples dos castigos e recompensas após a morte?
O livro de Jó não tem relação com as leis de Moisés. Ademais, é
muito provável que JÓ não fosse judeu: é a opinião de São Jerônimo
em suas questões hebraicas sobre o Gênesis. A palavra Satanás, que
está em JÓ O, 1, 6, 12), não era conhecida dos judeus, e jamais apa-
rece no Pentateuco. Os judeus só ficaram sabendo desse nome 'na
Caldéia, assim como os nomes Gabriel e Rafael, desconhecidos antes
de sua escravidão na Babilônia. Portanto Jó é muito mal citado a esse
respeito.
Cita-se ainda o último capítulo de Isaías (23, 24): "E de uma lua
nova ã outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar
perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos ho-
mens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca mor-
rerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a
carne."
Certamente, se são expostos ã visão dos passantes e comidos
pelos vermes, isso não quer dizer que Moisés ensinou aos judeus o
dogma da imortalidade da alma; e as palavras O fogo não se apagará
não significam que cadáveres expostos ã visão do povo sofram as
penas eternas do inferno.
Como se pode citar uma passagem de Isaías para provar que os
judeus do tempo de Moisés receberam o dogma da imortalidade da
alma? Isaías profetizava, segundo o cálculo hebraico, no ano 3380 do
mundo. Moisés viveu por volta do ano 2500; transcorreram oito sécu-
los entre um e outro. É um insulto ao senso comum, ou uma simples
brincadeira, abusar assim da permissão de citar e pretender provar
que um autor sustentou tal opinião através de uma passagem de um
autor vindo oitocentos anos depois e não falou dessa opinião. É indu-
bitável que a imortalidade da alma, os castigos e as recompensas
após a morte são anunciados, reconhecidos, constatados no Novo
Testamento, e é indubitável que não se encontram em nenhum lugar
do Pentateuco; e isto é o que o grande Arnauld diz claramente e com
vigor em sua apologia de Port-Royal.
171
_____________ Voltaire ____________ _
Os judeus, acreditando depois na imortalidade da alma, não
foram esclarecidos sobre sua espiritualidade; pensaram, como quase
todas as outras nações, que a alma é algo de solto, aéreo, uma subs-
tância leve, que conservava alguma semelhança com o corpo que ha-
via animado; é o que chamam de sombras, os manes dos co1pos. Essa
opinião foi a de vários padres da Igreja. Tertuliano, em seu capítulo
XXII de Acerca da alma, exprime-se assim: "Definimus animam Dei
flatu natam, immortalem, corporal em, effigiatam, substantia simpli-
cem. - Definimos a alma nascida do sopro de Deus, imortal, corpo-
ral, figurada, simples em sua substância."
Santo Irineu diz, em seu livro II, capo XXXIV: "Incorporales sunt
animae quantum ad comparationem mortalium corporum. - As almas
são incorpóreas em comparação com os corpos mortais." Ele acres-
centa que "Jesus Cristo ensinou que as almas conservam as imagens do
corpo - caracterem corporum in quo adoptantur, etc." Ao que se saiba,
Jesus Cristo jamais ensinou essa doutrina, e é difícil adivinhar o sentido
de Santo Irineu.
Santo Hilário é mais formal e mais positivo em seu comentário sobre
Santo Mateus. Atribui claramente uma substância corporal à alma: "Corpo-
ream naturae suae substantiam sortiuntur."
Santo Ambrósio, acerca de Abraão, livro II, capo VIII, afirma que não
há nada de separado da matéria, a não ser a substância da Santíssima
Trindade.
Poder-se-ia censurar esses homens respeitáveis de fazerem má filo-
sofia; mas é de supor que, no fundo, sua teologia fosse bastante correta,
uma vez que, não conhecendo a natureza incompreensível da alma, asse-
guravam-na imortal e a queriam cristã.
Sabemos que a alma é espiritual, mas não sabemos em absoluto o
que vem a ser o espírito. Conhecemos muito imperfeitamente a matéria,
e nos é impossível ter uma idéia clara do que não é matéria. Muito pouco
informados sobre o que afeta nossos sentidos, nada podemos conhecer
por nós mesmos acerca do que está além dos sentidos. Transpor-
tamos algumas palavras de nossa linguagem comum aos abismos da
metafísica e da teologia, para termos uma vaga idéia das coisas que
não podemos conceber nem exprimir; procuramos nos apoiar nessas
palavras, para sustentar, se possível, nosso frágil entendimento nes-
sas regiões ignoradas.
Assim, utilizamo-nos da palavra espírito, que corresponde a so-
pro e vento, para exprimir algo que não é matéria; e dessas palavras
172
__________ Tratado sobre a tolerância _________ _
sopro, vento, espírito, remetendo-nos involuntariamente à idéia de
uma substância solta e leve, nós ainda tiramos o que podemos, para
chegar a conceber a espiritualidade pura. Mas não chegamos jamais
a uma noção distinta; não sabemos sequer o que dizemos ao pronun-
ciarmos a palavra substância; significa, literalmente, o que está abai-
xo e, por isso mesmo, nos adverte que é incompreensível: pois o que
vem a ser, de fato, o que está abaixo? O conhecimento dos segredos
de Deus não está destinado a esta vida. Mergulhados em trevas pro-
fundas, batem-nos uns contra os outros e atingimo-nos ao acaso em
meio a essa noite, sem saber precisamente por que combatemos.
Se quisermos refletir atentamente sobre tudo isso, não haverá
homem razoável que não conclua que devemos ter indulgência para
com as opiniões dos outros, e reconhecer seu direito.
Todas essas observações não são alheias ao fundo da questão,
que consiste em saber se os homens devem se tolerar; pois, se elas
provam o quanto houve de enganos de parte a parte em todos os
tempos, provam também que os homens precisaram, em todos os tem-
pos, tratar-se com indulgência. (Nota de Volta ire.)
111. O dogma da fatalidade é antigo e universal; encontra-se a
todo momento em Homero. Júpiter queria salvar a vida de seu filho
Sarpédon; mas o destino o condenou à morte e Júpiter teve de obe-
decer. Entre os filósofos, o destino era, ou o encadeamento necessá-
rio das causas e dos efeitos necessariamente produzidos pela nature-
za, ou esse mesmo encadeamento ordenado pela Providência, o que
é bem mais razoável. Todo o sistema da fatalidade está contido nesta
frase de Sêneca (epístola CV1I): Ducunt volentem fata, nolentem tra-
hunt [Os fatos guiam a quem se deixa levar, arrastam a quem resiste].
Sempre se esteve de acordo com que Deus governava o univer-
so por leis eternas, universais, imutáveis. Essa verdade foi a origem
de todas as disputas ininteligíveis sobre a liberdade, porque jamais se
definiu a liberdade, até surgir o sábio Locke. Este demonstrou que a
liberdade é o poder de agir. Deus concede esse poder; e o homem,
agindo livremente segundo as ordens eternas de Deus, é uma das
rodas da grande máquina do mundo. Toda a Antiguidade discutiu so-
bre a liberdade; mas até os nossos dias ninguém foi perseguido por
isso. Que horror absurdo terem aprisionado, exilado, por causa dessa
disputa, um Arnauld, um Sacy, um Nicole e tantos outros que foram
a luz da França! (Nota de Voltaire.)
173
_____________ Voltaire ____________ _
112. O romance teológico da metempsicose vem da Índia, da
qual recebemos muitas outras fábulas sem que geralmente o saiba-
mos. Esse dogma é explicado no admirável décimo quinto livro das
Metamorfoses de Ovídio. Foi aceito em quase toda a terra e sempre
foi combatido; mas não sabemos de nenhum sacerdote da Antigui-
dade que alguma vez tenha dado uma ordem de prisão a um discípu-
lo de Pitágoras. (Nota de Voltaire.)
113. Nem os antigos judeus, nem os egípcios, nem seus contem-
porâneos gregos acreditavam que a alma do homem fosse para o céu
após a morte. Os judeus pensavam que a Lua e o Sol estavam a algu-
mas léguas acima de nós, no mesmo círculo, e que o firmamento era
uma abóbada espessa e sólida que sustentava o peso das águas, que
escapavam por algumas aberturas. O palácio dos deuses, entre os
antigos gregos, encontrava-se no monte Olimpo. A morada dos heróis
após a morte situava-se, no tempo de Homero, numa ilha além do
oceano, e era esta a opinião dos essênios.
Desde Homero, atribuíram-se planetas aos deuses, mas para os
homens não havia mais razão de colocar um deus na Lua do que para
os habitantes da Lua de colocar um deus no planeta Terra. Juno e Íris
não tiveram outros palácios, a não ser as nuvens; lá não havia onde
repousar o pé. Entre os sabeus, cada deus tinha sua estrela; mas sen-
do uma estrela um sol, não há como habitá-la, a menos que se tenha
a natureza do fogo. Portanto é uma questão bastante inútil perguntar
o que os antigos pensavam do céu. A melhor resposta é que não pen-
savam. (Nota de Voltaire.)
114. São Mateus, capo XXII, V. 4. (Nota de Voltaire.)
115. São Lucas, capo XIV. (Nota de VoltaireJ
116. Versículo 23. eM.)
117. Lucas, XIV, 12. (M.)
118. São Lucas, capo XIV, V. 26 e ss. (Nota de Voltaire.)
119. São Mateus, capo XVIII, V. 17. (Nota de Voltaire.)
120. Mateus, XI, 19. (M.)
121. Marcos, XI, 13. (M.)
122. Lucas, XV. (M.)
123. Mateus, XX. (M.)
124. Lucas, X. (M.)
125. Mateus, IX, 15. (M.)
126. Lucas, VII, 48. eM.)
174
_________ Tratado sobre a tolerância ---------
127. João, VIII, 11. (M.)
128. João, lI, 9. (M.)
129. Mateus, XXVI, 52; João, XVIII, 11. (M.)
130. Lucas, IX, 55. (M.)
131. Lucas, XXIII, 34. (M.)
132. Lucas, XXII, 44. (M.)
133. São Mateus, capo XXIII. (Nota de Voltaire.)
134. Ibid., capo XXVI, V. 59. (Nota de Voltaire.)
135. Mateus, capo XXVI, V. 61. (Nota de Voltaire.)
136. Mateus, capo XXVI, V. 63. (M.)
137. Era de fato muito difícil aos judeus, para não dizer impos-
sível, compreender, sem uma revelação particular, esse mistério i n t ~ ­
fável da encarnação do Filho de Deus, do próprio Deus. O Gênesis
(cap. VI) chama filhos de Deus os filhos dos homens poderosos; do
mesmo modo, os grandes cedros, nos salmos (LXXIX, 11), são cha-
mados cedros de Deus. Samuel (J. Reis, XVI, 15) diz que um terror de
Deus tomou conta do povo, ou seja, um grande terror; um grande
vento, um vento de Deus; a doença de Saul, melancolia de Deus. No
entanto, parece que os judeus entenderam literalmente que Jesus se
disse filho de Deus no sentido próprio; mas, se consideraram essas
palavras uma blasfêmia, talvez seja uma prova a mais de sua ignorân-
cia a respeito do mistério da encarnação e de Deus, filho de Deus,
enviado ã terra para a salvação dos homens. (Nota de Voltaire.)
138. Mateus, XXVI, 64. (M.)
139. Acta apost., XXV, 16. (M.)
140. Capítulo 13, "Admoestação mui respeitosa aos Inquisidores
da Espanha e Portugal".
141. Em 1653, o papa havia condenado no Augustinus de Jan-
senius cinco proposições. Os jansenistas opuseram uma longa resis-
tência, baseando-se no fato de que elas não aparecem literalmente no
Augustinus.
142. João, XIV, 28. (M.)
143. La Rochefoucauld, máxima 223.
144. Quando escrevíamos assim, em 1762, a ordem dos jesuítas
não havia sido abolida na França. Se eles tivessem sido injustiçados,
o autor certamente os teria respeitado. Mas que se saiba para sempre
que foram perseguidos apenas porque haviam sido perseguidores; e
175
_____________ Voltaire ____________ _
que seu exemplo faça tremer aqueles que, sendo mais intolerantes
que os jesuítas, gostariam de oprimir um dia os concidadãos que não
abraçassem suas opiniões duras e absurdas. (Nota de Voltaire.) Essa
nota foi acrescentada em 1771. (M.)
145. O padre Le Tellier foi o confessor de Luís XIV ao final de sua
vida. Acusavam-no de haver inspirado a política intolerante do rei.
146. A pólvora de canhão. (M.)
147. Em 1714, ano em que Voltaire supõe ter sido escrita a carta
que forma esse capítulo, só existiam na França doze parlamentos. (M.)
148. Essa inicial é a do nome de Ravaillac; é o próprio Voltaire
que o informa em seu Avis au public sur les parricides imputés aux
Calas e aux Sirven [Esclarecimento ao público sobre os parricídios
imputados aos Calas e aos Sirvenl. (M.)
149. Act., v. 29. (M.)
150. Voltaire fala também dessa seita, sem dar seu nome, num
adendo ao artigo "Batismo" do Dictionnaire philosophique (1767) e
no capítulo 42 de Dieu et les hommes (1769).
151. Voltaire refere-se a oito crianças ressuscitadas, em seu ver-
bete sobre São Francisco Xavier do Dictionnaíre philosophique. (M.)
152. O arrabalde Saint-Marceau, no bairro que conserva ainda
hoje esse nome, um dos bairros mais miseráveis de Paris no século
XVIII, onde se encontravam o cemitério de Saint-Médard e o túmulo
do diácono Pâris, local de reunião dos "convulsionários" jansenistas.
Uma pediculose é uma doença "na qual se forma um grande núme-
ro de piolhos" (Littré).
153. I. Cor., XV, 36. (M.)
154. Veja-se o excelente livro intitulado Le manuel de I1nquísi-
tion. (Nota de Voltaire.) - O livro que Voltaire recomenda aqui, com
razão, é Le manuel des inquísiteurs à l'usage des Inquisitions d'Es-
pagne et de Portugal, ou Abrégé de l'ouvrage intitulé Directorium
inquisitorum, composé, vers 1358, par Nicolas Eymerie, etc., 1762, in-
12; o autor do Manual é o abade Morellet. (B.)
155. É de acordo com a obra do abade Morellet, citada na nota
precedente, que redijo os nomes Cuchalon, Roias e Felynus (em vez
de Chucalon, Royas e Telinus que se lêem em outras edições). Os
nomes Gomarus, Diabarus e Gemelinus me parecem também altera-
dos; procurei-os em vào, não somente na obra de Morellet, mas ainda
em vários bibliógrafos nacionais e profissionais; em vez de Gomarus,
176
_ ________ Tratado sobre a tolerância ________ _
Gemelinus, talvez devêssemos ler Gomez e Geminianus, mas não
posso explicar Diabarus. (B.)
156. Lucas, X, 27. (M.)
157. O abade Malvaux. Veja-se a nota 38. (M.)
158. Do abade de Caveyrac.
159. Négociations en Hollande, 6 vol., 1752-53. (M.)
160. Veja-se acima, capítulo XVII. (M.)
161. Aqui termina o Traité de la tolérance na edição de 1763; o
artigo que segue foi acrescentado, em 1765, na impressão que faz
parte do segundo tomo de Nouveaux mélanges. (M.)
162. O arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, imitado por
alguns bispos de província, decidiu recusar os últimos sacramentos
aos agonizantes que não apresentassem um bilhete de confissão assi-
nado por um padre não jansenista; a conseqüência era que o defun-
to não obtinha a sepultura cristã. Disso resultou uma forte agitação
popular, apoiada pelo parlamento de Paris. Luís XV só conseguirá pôr
fim a ela, mediante um compromisso, em 1757. - O padre La Valette,
missionário jesuíta nas Antilhas, havia se lançado, sem o conhecimen-
to dos superiores, em vastas operações comerciais. Foi à bancarrota,
arrastando em sua ruína banqueiros de Marselha. A Companhia recu-
sou-se a reembolsar os credores do padre La Valette e preferiu levar
o caso ao parlamento de Paris, muito hostil aos jesuítas. As medidas
tomadas pelo parlamento culminaram na supressão da Companhia
de Jesus na França (1764) e em seu banimento (1767).
163. Por d'Alembert, 1765, in-12; 1767, in-12; e nas Obras deste
autor. (M.)
164. Mémoire à consulter et Consultation pour les enfants du
défuntj. Calas, marchand à Toulouse. Deliberado em Paris, em 22 de
janeiro de 1765. Assinado: Lambon, Mallard, d'Outremont, Mariette,
Gerbier, Legouvé, Loyseau de Mauléon, Élie de Beaumont. (M.)
165. Em 1744, os exércitos ingleses e austríacos invadiam a
Lorena e a Alsácia. Luís XV assumiu pessoalmente o comando do
exército. Chegando a Metz, cai gravemente enfermo. Teme-se por sua
vida. Esse acontecimento suscitou em todo o reino uma emoção in-
tensa. O povo afluía às igrejas para pedir a Deus a cura do rei. Foi
então que Luís XV recebeu o cognome de Bem-Amado.
177
Bibliografia
1. Outros textos de Voltaire sobre a tolerância:
La Henriade (1728), em Oeuvres completes, The Volta ire Foundation,
Oxford, 1970, t. II, em particular cantos II (a Noite de São Bar-
tolomeu) e V (assassinato de Henrique IIO.
Zafre, tragédia (1732), em Oeuvres completes, The Voltaire Foun-
dation, Oxford, 1988, t. VIII.
Lettres pbilosopbiques(1734), ed. Lanson, nova tiragem, Paris, Didier,
1964,2 vol.
Mabomet, tragédia (1741), em 1béâtre do XVII!' siecle, t. I, p. p. J.
Truchet, Bibliotheque de la Pléaide, 1972.
La loi naturelle (1752), em Oeuvres completes, ed. L. Moland, Paris,
Garnier, 1877, t. IX.
Textos de Voltaire em favor dos Calas (1762) em Oeuvres completes,
ed. L. Moland, 1879, t. XXIV, pp. 365-411.
Dictionnaire pbilosopbique (1764-1765), art. "Tolérance", Paris, GF,
1964.
Relation de la mort du cbevalier de La Barre (1766), em Oeuvres com-
pletes, ed. L. Moland, 1879, t. xxv, pp. 503-16.
Avis au public sur /es parricides imputés aux Calas et aux Sirven (1766),
em Oeuvres completes, ed. L. Moland, 1879, t. XXV, pp. 517-37.
Questions sur l'Encyclopédie, art. "Tolérance" (1772), em Oeuvres
completes, ed. L. Moland, 1879, t. XX.
Le cri du sang innocent (1775), a Luís XVI, por uma revisão do pro-
cesso La Barre, em Oeuvres completes, ed. L. Moland, 1879, t. XXIX,
pp.375-89.
179
____________ Voltaire ___________ _
Voltaire, L 'aifaire Calas, prefácio de ). Van den Henvel, Paris, Folio,
1975 (textos de Voltaire sobre os casos Calas, Sirven, Lally, La Barre).
2. Sobre o caso Calas:
BIEN (David D.), 1be Calas Affair, Princeton, 1960.
CHOSSAIGNE (Marc), L'aifaire Calas, Paris, Perrin, 1929.
ORSONI Qean), L'aifaire Calas avant Voltaire, tese de Terceiro Ciclo,
Université de Paris-Sorbonne, 3 vol., exemplares datilografados,
1981.
POMEAU (René), "Nouveau regard sur le dossier Calas", Europe,
junho de 1962.
POMEAU (René), "Volta ire et Rousseau devant l'affaire Calas", em Vol-
taire, Rousseau et la toleránce, Amsterdam, Maison Descartes, 1980.
3. Sobre a questão da tolerância:
BAYLE (Pierre), Oeuvres diverses, p. p. Alain Niderst, Paris, "Les clas-
siques du peuple", 1971.
BAYLE (Pierre), Ce que c'est que la France toute catholique, Paris,
Vrin, 1973, ed. por E. Labrousse com a colaboração de H. Himel-
farb e R. Zuber.
LOCKE (John), Lettre sur la tolérance, texto latino e tradução france-
sa, introdução e tradução de R. polin, Paris, P.u.F., 1965.
Número especial da Revue de la Société d'histoire du protestantisme
jrançais: atas do colóquio sobre o segundo centenário do Edito
de Tolerância de 1787, Paris, 9-11 de outubro de 1987.
La tolérance, ré publique de l'esprit, atas do colóquio "Liberté des
consciences, conscience des libertés", Toulouse, 26-28 de novem-
bro de 1987, Paris, "Les Bergers et les Mages", 1988.
POMEAU (René), La religion de Voltaire, Paris, Nizet, 1969.
POMEAU (René), "Une idée neuve au XVIII< siêcle, la tolérance", na
Revue de la Societé d'histoire du protestantisme jrançais, acima.
POMEAU (René), "Voltaire et la tolérance", em La tolérance, réPubli-
que de l'esprit, acima.
180

o r".,. SJny" Toler4ncill, de Voltaire,
fui .....ipIo em 1762 e teve como origem o fàllMMO cuo Jean Calas. Neste episódio
~ eDCOIltrou

uma vez mais a opor-

cuaicI8de pua encetar um novo combate pela liberdade. Esta lição de uruversali. . , que continua válida ainda em nos101 cliu, ~ um magnífico testemunho .... o auminiamo. No mundo em que fttClDOlt doia sku.los depois de Voltaite, • uniyenalidade faz da tolerincia um

TRATADO SOBRE A TOLERÂNCIA

cIewr.

TRATADO SOBRE A TOLERÂNCIA
A propósito da morte de Jean Calas

Volta ire

Introdução, notas e bibliografia
RENÉ POMEAU

Tradução
PAULO NEVES

Martins Fontes
São Paulo 2000

........... Rua Conselheiro Ramalho..... lI!.'IMÉRANCE. X..... São Paulo. ........ e em que povos ela é permitida ....... introdução. V. lI...on....... 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil Tel............ Se a tolerância é perigosa..São PauJo : Martins Fontes.. Acerca do perigo das falsas lendas e acerca da perseguição . História resumida da morte de Jean Calas................I lhhiBDlIRlhUi.. Extrema tolerância dos judeus ... 2000.... Filosofia francesa 2....... IX...... ij(jh123Kj-... VI........ Se a intolerância foi conhecida pelos gregos ...com 55 63 69 79 .... VIII.......... 00-1860 Indices para catálogo sistemático: CDD-I94 21 29 33 35 39 45 1.............. Série. .................. VII....... tradução Paulo Neves..... 3 15 17 Tratado sobre a tolerância: a propósito da morte de Jean Calas I Voltaire .............. Acerca dos mártires ..2...... ............ ... . 1694-1778..................... (Clássicos) Título original: Traité sur la tolérance....... XXXIII I.. XI...... para' o aparelho crítico. Como a tolerância pode ser admitida ..................martinsfontes. .................... Se a intolerância foi de direito divino no judaísmo e se foi sempre posta em prática XIII. ......... Índice I' edição setembro de /993 2' edição junho de 2000 Tradução PAULO NEVES Tradução do prefácio Maria Ermantina Galvão Revisão da tradução Eduardo Brandão Revisão gráfica Andréa Stahel M................... Í989. Conseqüências do suplício de Jean Calas .. Literatura francesa I. Bibliografia. Paris.......... Se os romanos foram tolerantes . Idéia da Reforma do século XVI .... (11) 239-3677 Fox (11) 3105-6867 e-mail: info@martinsfontes......................... ...................... Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda.. VII Cronologia ...... XII.... Copyright © Flamar...... SP.... ... notas e bibliografia René Pomeau ......... Filosofia francesa 2.. ........ ..com http://wWw..... Título. para a presente edição....... IV...... ....... . França: Filosofia 194 194 Todos os direitos para a língua portuguesa reservados à Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1993.. ~..... Se a intolerância é de direito natural e de direito humano . Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro... 11..... da Silva Ivete Batista dos Santos Produção gráfica Geraldo Alves PaginaçãolFotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial 16957-7653) Introdução ................ ed.. Brasil) VOltair...... ISBN 85-336-1258-3 1. Abuso da intolerância .....

..... Um VII .... Oração a Deus ...... Na capital............ Como sói acontecer... Diálogo entre um moribundo e um homem saudável ............ pessoas muito honestas........ a bula Unigenitus........ O século inteiro será preenchido pelos esforços do poder para sufocar ou adormecer um partido religioso....... povoado de pobres-diabos... vira de perto essa última tentativa de reduzir os partidários de Jansênio......... Artigo posteriormente acrescentado................. em 1º de setembro de 1715.. Luís XIV obtivera da corte de Roma... poderoso..... abrem-se as prisões.......... XVI.............. ··················· XXV... Bibliografia .... Infelizmente....... ··············· XVII...... de indigentes........ Acerca da tolerância universal ...... ·················· XIX.......... ······························ . por um beneficiado.. .... Continuação e conclusão ............. reticente.. XXIII........ de Quesnel.................. Depois... XV........... ...... Arouet.......... o longo reinado de Luís XIV.... A questão já agitava o meio em que foi criado: é notório o clima de discussões religiosas e de perseguições em que terminou.. XVIII..... ··························· 83 91 95 99 105 Introdução " 109 113 117 121 125 127 133 139 Notas .. Se é útil manter o povo na superstição .... . XXII. o conflito religioso permite que tensões de outra ordem se manifestem.... O Tratado sobre a tolerância evoca as fases de crise desse enfrentamento prolongado.. o bairro jansenista por excelência vem a ser o mais miserável: o de SaintMédard.. Quando da morte do rei..... em 6 de maio de 1714 .......... XX.XIV. mas não desaparece...... Únicos casos em que a intolerância é de direito humano . vítimas de sua fidelidade à teologia da "graça eficaz"...... Pós-escrito ........ Relato de uma disputa de controvérsia na China ........ ....... de Arnauld........ as prisões estavam cheias de jansenistas... 145 179 Voltaire não esperou o processo Calas para se preocupar com a tolerância............... durante a juventude de Arouet.. Carta escrita ao jesuíta Le Tellier.. ....... no qual se fala da última sentença pronunciada em favor da família Calas ..................... . ···················· . XXIV........... Se a intolerância foi ensinada por Jesus Cristo ..... XXI................................. ..... a pressão atenua-se....... com o advento do Regente. Testemunhos contra a intolerância ............. .. É preferível a virtude à ciência .. ... por sua família e círculo de amigos....... ··················· .. ........ inerradicável............

cujas práticas eram todavia conhecidas: pilhagens. não conseguiram emigrar.. asceta que literalmente se matou de tantas privações. Os últimos sacramentos só deviam ser administrados aos agonizantes que pudessem apresentar um atestado de confissão de um padre que acatasse a bula Unigenitus.. exila os parlamentares. não tendo sido lavados de seus pecados pelo supremo sacramento. A amplitude do êxodo protestante surpreendeu as autoridades. a religião corrompida dos bairros ricos e da corte. São Pâris realiza milagres: as "convulsões" que agitam seus fiéis passam por curá-los de suas doenças. Luís XV intervém. Alguns anos mais tarde. tivera uma idéia que se revelou das mais desastradas. brutalidades de toda espécie . O arcebispo de Paris. quer compradas pela Comissão de Pellisson (às vezes após escandalosas barganhas). o jansenismo continua bem vivo.. sacudidas de crises histéricas. as "convulsões" continuam a portas fechadas. chamado Pâris. Ao assinar o edito de Fontainebleau. onde o poder se arrogava mui normalmente o direito de atormentar homens por suas crenças.. quer extorquidas pelos dragões. os mais dignos de pena eram seguramente os protestantes. para sua Henríade épica. porém. Repercussão amplificada ainda pela atualidade da perseguição antijansenista. Ele não se interrogava sobre a solidez de conversões. por volta de 1720. bem como pelo que sobreviera aos protestantes. o caso dos atestados de confissão faz recrudescer a perseguição. Resulta daí ser-lhes recusada a sepultura cristã. no século XVIII. nos sótãos. Ao seu túmulo afluem multidões. estupros. é proibido a Deus/Fazer milagre neste local"). com seu exemplo. por tabelião. Fazia meses que só se falava ao rei de calvinistas que aderiam aos magotes à verdadeira religião. que condenava. é reconhecido por essa gente pobre como seu semelhante e herói. o tribunal de justiça processa os párocos culpados de terem obedecido ao seu arcebispo. ainda recentíssimo no momento da publicação da obra._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . roubos. esperando acabar com o jansenismo. no capítulo dezesseis.. Voltaire não se enganava ao escolher. correm o risco da danação eterna... à véspera de 1789. Depois disso. Num regime autoritário. É "canonizado" pelo povo. A emoção em Paris se transforma em rebelião. VIII Quando lemos o Tratado de Voltaire. Tirará sua desforra ao inspirar largamente a Constituição civil do clero. de 1790. Conseqüência mais grave: esses cristãos. numerosos fiéis falecem sem poder cumprir o requisito.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ diácono da paróquia. a recusa do sacramento. O Parlamento apodera-se do caso. devemos rememorar o ambiente da antiga França. patentíssimo. os relatórios que chegam ao príncipe infelizmente dizem não o que é. Agonizantes fazem lavrar. refere-se a esse episódio. Tendo a polícia fechado o cemitério ("Em nome do rei. O fracasso da Revogação do edito de Nantes ficou. em 15 de outubro de 1685. um herói e um tema que continuavam a repercutir na opinião contemporânea. Luís XIV pensava que venceria a resistência dos últimos recalcitrantes. depois os chama de volta. Subsistiram massas IX . até que "93" viesse apagar antigos horrores por outros mais recentes. Ora. Ainda. O Tratado sobre a tolerância. mas o que este deseja' ouvir.. *** A consciência francesa ficou marcada pela lembrança das guerras religiosas do século XVI. Dentre as vítimas. Muitos.

não em Toulouse. quanto aos protestantes presos em flagrante delito de praticar o culto. em especial nas Cevenas. Enviavam-se os camponeses languedocianos presos pelos guardas nas assembléias do "Deserto" para remar em Marselha e Toulon: duzentos apenas nos anos 1745 e 1746. com dificuldade. x XI . manifestada. eram excluídos de grande número de profissões. intactas. em 1758. Jean Calas batizara católicos seus seis filhos. Seus filhos eram considerados bastardos.. O duque de Bourbon. um difícil problema: recrutar remadores para as galeras do rei. oito pastores foram enforcados por decisão da justiça. já não existe no reino da França nenhum protestante: somente "católicos novos". ("religião pretensamente reformada").. eram sujeitos a medidas discriminatórias muito penosas. segundo Antoine Court. Por isso. Jean Calas. com todas as conseqüências daí decorrentes. onde o cura da paróquia não levantara a menor dificuldade para administrar o sacramento. eram realmente fiéis da R. em 1744. calcula que. Oficialmente. As antigas leis voltam a viger: pena capital contra os pastores surpreendidos no exercício de seu ministério. recomeçara certa vida religiosa na comunidade reformada. foi também obrigado a guerrear os camisards. o elogio da Revogação do edito de Nantes. Seus nascimentos. no momento em que devia fazer frente nas fronteiras.. Ora. Renasce. primeiro-ministro. mas numa aldeia da Ile-de-France.P. Não tinham estado civil. faz o jovem Luís XV declarar que o desígnio do rei da França continuava a ser o de extirpar a heresia (1724). Depois da morte do rei. graças a apóstolos como Antoine Court. de se confessar. Ainda que provações tão rudes atingissem apenas pequeno número de protestantes. depois da Revogação. Houve empenho na aplicação de um código tão cruelmente repressivo. por exemplo. seus súditos protestantes revoltosos.. Mas todos sabiam que esses supostos "católicos novos" que se abstinham de assistir à missa. por sua vez... Luís XIV.. o Tratado de Voltaire se referirá a essa escandalosa obra. com exceção de um. no local. Resolvia-se assim.- _ . em compensação. por uma carta pública. teria sido sensato aprender a lição com o fracasso. para tornar possível a vida cotidiana. vedadas aos protestantes. Seus quatro filhos homens realizaram seus estudos no colégio dos jesuítas da cidade.. a maior parte dos protestantes se resignava a atos puramente formais de catolicidade. uma tensão entre católicos e protestantes. galés perpétuas para os homens. De modo que. Na verdade.R. no calvinismo. as autoridades prestavam-se a acordos. em torno de 1760. por vários processos quase simultâneos. publicara uma Apologia da Revogação e do massacre de São Bartolomeu. foi a decisão contrária que se adotou. Mas esse despertar inquietava. Voltaire. Em particular. Mais tarde. denunciando paradoxalmente. prisão perpétua para as mulheres.. que permite a licenciosidade". casara-se regularmente na igreja. O bispo de Agen fizera.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ compactas. no coração do reino. em 1751. Eram tratados como tais. é verdade. seus casamentos fora da Igreja não eram legalmente reconhecidos. à Europa coligada. fora batizado pelo pároco católico de seu local de nascimento. Um abade de Caveyrac._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _V o l t a i r e . de comungar. entre 1745 e 1762.... Um sínodo nacional pudera até efetuar-se na clandestinidade. Nem por isso deixaram de ser huguenotes. todos. "uma religião que consagra os vícios.. ao longo dos anos. notadamente no que tange à transmissão das heranças..

. Gaubert Lavaisse se despede. Ele declara sua identidade: é o pastor Rochette. o filho mais velho. chega o chefe da polícia. começara em Mazamet o processo Sirven: a filha de um geômetra-agrimensor. os vizinhos saem à rua. São· presos e chamados a juízo com ele diante do parlamento de Toulouse. Um vagabundo? Não. Ao pé do cadafalso. o magistrado municipal David de Beaudrigue. Tendo chegado ao corredor do térreo. então fazendo es! tágio com um armador de Bordeaux. O irmão caçula. avistam na loja o corpo de Marc-Antoine. "Ministro da R. Essa cena atroz (conhecida por uma carta de RibotteCharron a Rousseau) se passava em 19 de fevereiro de 1762. em seu modesto apartamento no primeiro andar.. a velha criada católica. matara-se atirando-se num poço. Ribotte-Charron. vai. louca. dia de feira em Caussade. Os quatro huguenotes são condenados à morte. uma patrulha de guardas prende perto de Caussade. . O pastor. pensam. o protestante Jean Calas será tor• Voltaire esperará o desfecho do processo Calas para encarregar-se da causa de Sirven e de sua família. turadO na roda na mesma praça Saint-Georges de Toulouse onde haviam sido executados Rochette e os três irmãos. solicita a Voltaire que intervenha. XIII XII .R. . um rapaz de uns vinte anos. é conduzido ao suplício com seus companheiros pelas ruas de Toulouse. Por volta das 9h30min da noite. morto por estrangulamento: o pescoço tem as marcas de uma corda. Pois. Os três irmãos abraçam-se antes de colocar suas cabeças sobre o cepo. Cerca de meia-noite. de tê-la assassinado para impedir sua conversão·. Alguns dias mais tarde. vinha dizer adeus aos seus antes de partir para São Domingos. com toda evidência. Sabe que sua franqueza vai fazê-lo incorrer na pena de morte. Marc-Antoine Calas. ajudados por Gaubert Lavaisse. Sobe ao patíbulo cantando salmos. jantara com a família. agente de um complô calvinista. dar uma volta pela cidade. de uma família protestante de Toulouse. tentam libertar Rochette. ao norte de Montauban. como está habituado. : . encarcera na prisão do Capitole todas as pessoas da casa: Jean Calas e sua mulher. Recebiam o jovem Gaubert Lavaisse. os camponeses huguenotes afluem à cidadezinha. Ante os gritos da família.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Em 14 de setembro de 1761. À sobremesa. A versão da rua parece-lhe convincente. Três irmãos. No dia seguinte. Exorta seus companheiros. pés descalços. o assassinaram.. O grande homem o faz. Alguns dias antes. Para impedi-lo. Um protestante de Montauban. como fizera alguns anos antes seu irmão mais novo. Pierre Calas. sendo fidalgos. acompanha-o na escada. de camisa. Pouco depois. infelizmente. têm a honra de ser decapitados... As pessoas do bairro se ajuntam. Gaubert Lavaisse e. trazendo no pescoço um cartaz. comerciante de tecidos na Rue des Filatiers. Rebentam tumultos. Jean Calas. fidalgos fabricantes de vidro.P. um protestante. levanta-se e desce.". Um boato espalha-se na mesma hora: Marc-Antoine ia converter-se. os Calas. em cima da loja. Jeanne Viguiere. Rochette reza longamente. também.. de vela na mão. sem resultado. mas sem muito ardor (tendo ele próprio rixas com os pastores de Genebra) e. Louis. Acusam o pai.. seu filho Pierre. ••• Na noite de 13 de outubro de 1761._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _~---- _ . apupados pela multidão.

. o tribunal criminal de Toulouse condena à morte Jean Calas.Tratado sobre a tolerâncía _ _ _ _ _ _ __ Entrou em ação uma máquina infernal que nada deterá mais._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . os inquiridor~s ti~eram de registrar o testemunho categórico de Jeanne ~l~lere: ela "jamais soube que ele tivesse alguma disposlçao para se converter" ••.. como exigia a lei. sob a influência de Jeanne Viguiere e do abade Durand. . ausentes em 13 de outubro: como todos os anos. considerada parte da família. No dia seguinte. Jean Calas exercia havia uns quarenta anos seu modesto comércio. em aderir ao catolicismo? Tudo prova que se recusou a isso... para afastar o obstáculo. o rapaz levava uma vida preguiçosa. convertera-se cinco anos antes ao catolicismo. Em 9 de março. sente o peso da idade. Louis. substituindo-o com freqüência.. Em sua casa exígua. o estudo fundamental é o de Jean Orsoni.. obrigara o pai. L'a. perante uma multidão reunida.. Mas esbarra na legislação antiprotestante: é uma profissão vedada aos "pretensamente reformados". pois Jean Calas. trabalho infelizmente não publicado. três volumes datilografados de 605 páginas ao todo. a quitar as dívidas de Louis e a pagar-lhe uma pensão. Drama da intolerância. Sorbonne.ffaire Calas avant Voltaire. 4. Depois da morte de Marc-Antoine. Os defensores do crime calvinista pretenderam que os pais as afastaram a fim de executar à vontade o assassínio de Marc-Antoine. amante da literatura eVoltaire o qualifica d~ "homem de letras"·). seguidos de duas filhas·. Culto. Marc-Antoine assumirá logo a direção do negócio... Aos seus mostrou-se assim. A família Calas sofrera as coerções da legislação antiprotestante. Era apreciador da bela música. durante a refeição de 13 de outubro à noite. habitualmente taciturno e melancólico. Não podia satisfazer seu gosto senão nas cerimônias abertas a todos nas igrejas da cidade. subsistindo apenas da mesada paterna. Donat. Era. segundo a sentença. L'a. p. Um homem de condição tão humilde não tinha acesso aos concertos da boa sociedade. tese de doutorado do terceiro ciclo. Ou tal. por certo... Rompera então com sua família. • Tratado sobre a tolerância. Auxilia conscienciosamente o pai na loja. a seu serviço por um quarto de século. Foi esta que criou as condições do drama.. 88. e Nanette. p. Em compensação. Seu testemunho é decisivo para inocentar os Calas.. foram ao campo para as vindimas. Voltaire tinha toda razão em escolhê-lo como ponto de partida de sua campanha contra a perseguição religiosa. O bispo. Com eles morava a velha Jeanne Viguiere.. estuda direito. executado pelo suplício da roda. ensimesmado. Universidade de Paris. após a abjuração. dezenove anos. de 63 anos... Mas não adiantou procurarem o padre a quem ele se teria aberto sobre suas intenções de abjurar: ~ão o encontraram.. com vinte e cinco anos em 1761.ffaire Calas avant Voltaire. também está ausente: está como aprendiz em N1mes. O inquérito sem dúvida estabeleceu que ele costumava freqüentar os ofícios solenes da Igreja. •• Citado por Jean Orsoni.. católica e muito devota. Desde então. incapaz de ocupar um empre• Rosine. XIV xv . criara seis filhos: quatro filhos.Sobre a família Calas e a documentação judiciária do drama da Rue des Filatiers. o condenado é. O terceiro filho. Mas sonhara algo diferente dessa vida tacanha de comerciante. Gostaria de entrar na advocacia. vinte anos. O mais jovem dos filhos. Marc-Antoine ia completar vinte e nove anos. e que esta era a causa do assassínio. portanto. diziam que também o filho primogênito ia converter-se. Terá ele pensado. go fixo. Marc-Antoine vivia..

MarcAntoine havia trocado à tarde. menos ainda um Sherlock Holmes. Mas indícios não bastavam. Hesitaram. Na noite do dia 13. sob pena de excomunhão. teriam levado à verdade. prata em luíses de ouro. Por isso. apoiado pelo pai. Em boa lógica. Como se a conversão de Marc-Antoine fosse um fato estabelecido. MarcAntoine os teria perdido. Suicídio acrobático. uma viva hostilidade por essa gente de uma minoria reprovada. espreitando-o para roubá-lo.. os ouvintes eram intimados. O inquiridor. por certo verídica. para a mãe a morte XVII .assassínio por estrangulamento. Na hipótese do crime calvinista. ele se suicidou na loja por enforcamento? A resposta dependia da posição do corpo quando o descobriram. mas combinava melhor com um . sobre o assassínio deste pelos seus por motivo de religião. mas existem alguns assim. não era um Maigret.. A mudança de opinião de um juiz no último momento permitiu obtê-los. durante as semanas da instrução. Nem todos os parlamentares do tribunal criminal estavam. os Calas. Pois o inquérito orientou-se para uma única direção. a dizer tudo quanto sabiam sobre a conversão de Marc-Antoine. a sentença de morte ainda trai as incertezas do tribunal. na atitude embaraçada do velho comerciante. notadamente dada a exigüidade da moradia dos Calas.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ vez não tenham prestado atenção nele._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _~_ _ . a confraria de cogula dos penitentes brancos apodera-se de seu cadáver. talvez. o que explicaria o suicídio? Estaria um assassino amoitado no quintal da casa. BeauXVI drigue sente pelos protestantes uma invencível aversão. Ao seu redor. estando o referido rolo equilibrado nas duas folhas entreabertas da porta que fazia a comunicação entre a loja e o depósito. já no dia seguinte. Negligenciou seguir pistas que. David de Beaudrigue. o que agravou a presunção da sua culpabilidade. nem um pouco preparado para enfrentar tamanha provação ao termo de uma vida pacata. Lançam uma escandalosa "monitória": uma advertência aos fiéis lida em todas as igrejas. Faltavam dois votos de maioria para uma sentença capital. Teriam encontrado Marc-Antoine pendurado numa corda fixada num rolo de madeira (destinado a enrolar os tecidos). Entretanto. O texto apresentava como incontestável o crime calvinista... cegados pelo fanatismo. afirmou que o corpo estava estendido no chão: primeira versão. Tal posição não excluía a tese do suicídio por enforcamento. quando desceu ao térreo. Os sentimentos de intolerância foram aqui determinantes. Será que. no jogo ou de outro modo. ou por outra razão (o inquérito não se interessou pelas amizades femininas desse moço de vinte e oito anos)? Nunca o saberemos. que se revelou um impasse: o crime calvinista. faz em sua honra uma procissão em que ele é representado por um esqueleto articulado empoleirado num catafa1co. Tinham contra os Calas presunções fundamentadas nas contradições destes quanto à posição do cadáver. Pierre. Nesse ponto capital os Calas divergiram. por ordem do pai... mudaram seu depoimento. Recolheram assim apenas mexericos. por certo. cumpria que toda a família fosse coletivamente culpada. enterra-o na igreja de Saint-Étienne. Que fim levaram eles? Beaudrigue não formulou a questão. ocupados que estavam com a conversa de Gaubert Lavaisse. A pressão da opinião pública supriu a falta de provas. Não encontraram esses luíses. o promotor requereu para o pai e o filho Pierre a morte pelo suplício da roda. a cidade manifesta.

"Esta última pena". acabará obtendo. quando o Conselho do rei autorizou a apelação do julgamento do parlamento de Toulouse. noutras palavras. situa-se num momento crucial dessa longa campanha. 3 de abril de 1763). ansioso. no momento de comparecer perante Deus. submetido à questão "ordinária" (seus membros são esticados por talhas). Mas Jean Calas não pára de protestar sua inocência. Mas a maior verossimilhança é a favor da inocência de Jean Calas e dos seus. Envia exemplares a Madame de Pompadour. com braços e pernas quebrados a golpes de barra de ferro.. pronunciam contra Pierre uma sentença de banimento e põem os outros réus para "fora do tribunal". Os juízes não tiveram o que esperavam. Jean Calas faria afinal a confissão de seu crime. Condena em 9 de março de 1762 apenas Jean Calas a ser "quebrado vivo". ou seja. Ribotte-Charron. repete que morre inocente. em 7 de março de 1763. alertam Voltaire. o negociante marselhês Dominique Audibert. Quando tudo terminou. que confesse por fim. Depois é estrangulado. previamente à execução. Fizeram um cálculo: durante a execução. não "confessou". tendo ao seu lado o padre Bourges. agonizando durante duas horas. absolvem-nos. fica perto dele. estamos até hoje reduzidos à "verossimilhança". a reabilitação de Jean Calas. as intervenções em Versalhes. Jean Calas foi condenado a uma morte atroz com base numa mera "verossimilhança". Donat. Os juízes ficam desconcertados. Era reconhecer implicitamente o erro judiciário.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ por enforcamento. para dispersar-lhe a família e para reduzi-la à mendicância" (a Audibert. Suplica-lhe. impresso em Genebra pelos Cramer. A comunidade protestante ficara abalada por tão horrível desfecho. com o rosto voltado para o céu. Já não ousam condenar os outros acusados. o condenado foi. "é uma reparação à religião cuja feliz escolha feita pelo filho foi verossimilmente a causa de sua morte" (grifo nosso). a príncipes da Alemanha (carta a Moultou.. para abreviar o tormento. ao rei da Prússia. Voltaire difunde no início de abril o Tratado. em 9 de março de 1765. o promotor correu ao confessor: "Nosso homem confessou?" Não. É XVIII XIX . depois de interrogar longamente o mais jovem dos Calas. e seu corpo queimado. formou uma "convicção íntima": "o furor da facção e a singularidade do destino concorreram para assassinar juridicamente na roda o mais inocente e mais infeliz dos homens. mal conduzida. que matou MarcAntoine. como logicamente deveriam fazer. vindo a Ferney. depois à "extraordinária" (fazem-no ingerir dez moringas de água). A sorte de Gaubert Lavaisse e de Jeanne Viguiere seria decidida posteriormente. 9 de julho de 1762). Deitado na roda.. a verdade. que justificaria o suplício. O grande homem. depois de um exame que teria durado três meses. Multiplicando as diligências. por isso. seus amigos de Genebra. sempre ausente. Em 10 de março. aos ministros de Estado. Não podemos ter dúvida disso hoje. Conduzido ao cadafalso. conforme a lei. especifica a sentença.___________Voltaire----------- _ _. Por culpa de uma instrução dominada pela prevenção e. Mas o tribunal não ousou ir tão longe. O padre Bourges testemunha lealmente a firmeza de alma de Jean Calas. Beaudrigue. Desde então encarrega-se do caso. O Tratado sobre a tolerância.. Em 18 de março. As minorias perseguidas sabem organizar-se. Assim.. Uma vantagem decisiva foi obtida. O suplício ia trazer a prova. começado em outubro de 1762. depois estrangulado e "atirado numa fogueira ardente". fica lá.

Que concedam aos protestantes apenas uma situação análoga à dos católicos no Reino Unido (dos quais as Cartasfilosóficasnão haviam. Voltaire não pede. decerto ..'. ao lado dessa Igreja oficial. ser a qualquer momento reativada. ao afirmar que "a XXI xx . O Edito vai ser rapidamente suDerado. Durante seu exílio na Inglaterra. ficara impressionadíssimo com o pluralismo religioso instituído nessa "ilha da razão. consciente das poderosas oposições que encontrará. Voltaire propõe modificá-la. portanto. em contraste com a situação francesa. uma conseqüência nos fatos. ainda era pedir demais. Mas não se modificou em nada a lei. Mas o artigo seguinte. socinianos. com a prisão em massa de huguenotes "no Deserto" para abastecer as galés. O processo Calas teve. deputado na Assembléia Nacional. e tornado a nomear em 1788. inclusive religiosas. uma liberdade comparável para os calvinistas do reino da França. Vinte e quatro anos depois do Tratado de Voltaire.. a legislação antiprotestante. ~ Declaração de 1789 não afirma explicitamente a liberlade do culto público. Existe. porém.] sem outras distinções além daqueas de suas virtudes e de seus talentos".ão dos estados-gerais. "franquia" das pessoas. a Declaração dos direitos do homem de L789 institui que "todos os cidadãos [. pois que.. portanto. De fato. ~ecker._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . Sem "templos públicos". Foi somente em 1787 que Luís XVI decidiu-se a promulgar um edito de tolerância.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ perante a Europa das luzes que ele advoga a causa dos Calas. manifestamente. exclusão de há muito inadnissíveI. a Igreja anglicana. presbiterianos. deixam viver em paz os dissidentes: quakers. e vai ganhá-la. Assim termina a ~xclusão dos protestantes. Tolerância. 31. sem acesso "aos cargos municipais. Estamos.. Um de seus princípios é que "é preciso sempre partir do ponto em que se está e daquele a que chegaram as nações"·. dito uma só palavra).] são igualmente ldmissíveis a todas as funções graduadas. como pedira o pastor Rabaut :aint-Étienne. Podia. Acabou-se com as execuções de pastores.. um protestante convicto e até mesmo militante.. uma Igreja de Estado: na Inglaterra. escrevia maldosamente (quinta Carta filosófica). ••• Partindo do "caso". . O drama tinha.. direito de herança. como primeira origem. Mas que lhes restituam o estado civil de que a Revogação de 1685 lhes despojou: validade dos casamentos. o Tratado amplia as perspectivas. Restituía aos protestantes o estado civil. colocações e ~mpregos públicos [. contanto que Ua manifestação não perturbe a ordem pública estabe~cida pela lei". Luís XVI havia nomeado :omo principal ministro. em favor de seus súditos que não pertenciam à religião católica (o texto não especificava se a medida era aplicável também aos judeus). O artiiO X estipula somente que "ninguém deve ser importulado por suas opiniões. p. . o rei adotava-lhe as recomendações. Mas. às funções graduadas". legitimidade dos filhos. décadas do Antigo Regime. em 1777. aliás. tanto além-Mancha como aquém. Mas procede aqui com extrema prudência. Em 1763.. a monarquia francesa parece atingida por uma impotência para realizar até mesmo as reformas mais necessárias. Nas últimas • Tratado sobre a tolerância. "aquela em que se faz fortuna". e tlada mais. no Tratado. a alguns meses da convoca.

. O Tratado de 1763 deveria. ao contrário. em latim. Tem como objetivo a situação inglesa sob o reinado do derradeiro dos Stuart.concede que. Uma nota do capítulo onze remete à "excelente Carta de Locke sobre a tolerância". Mas Voltaire . PUF. Com toda evidência. Advoga. Locke desenvolve XXII como idéia principal "a distinção entre a comunidade política e a sociedade religiosa. O Tratado de 1763 visa.. náiades. Portanto.. Voltaire citou Locke como penhor de uma idéia que ele extrai de fora do contexto da Epístola: é permitido "a cada cidadão acreditar apenas em sua razão e pensar o que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar". podem ser justificadas.. XXIII . redundar em mais do que mera "tolerância". esse texto compacto. etc. XLVIII. "O homem sempre necessitou de um freio. "em todos os lugares onde há uma sociedade estabelecida. pois. por uma evolução normal. ao grande público. uma religião é necessária". "bem mais razoável e útil adorar aquelas imagens fantásticas da divindade [faunos. Daí a divisão em capítulos curtos.quiçá para espanto de muitos . silvanos. que expulsará do trono de um país protestante o católico intolerante Jaime 11.. Epístola de tolerantia.. uma subordinação da Igreja ao Estado: vê nisso um meio de garantir a tolerância. a distinção e a separação radical entre as funções da Igreja e as do Estado"·.. ••• Abordando a questão da tolerância. na verdade.. Desse argumento. que será traduzido em seguida para o inglês e do inglês para o francês. • Raymond Polin. a Epístola se dirige a um público de doutos. Formulação que está muito mais próxima de Bayle do que . numa perspectiva nova.. com relação a eles. O Tratado sobre a tolerância revelava a substância de um "Tratado sobre a liberdade de pensar".___________ Voltaire'----------- _ _. 1965.] do que entregar-se ao ateísmo" (capítulo XX). exilado na Holanda.. Voltaire alia-se a textos clássicos: Locke.. "desde que não sejam destruidoras". Locke redigiu. outrora." Por isso era.. Bayle. A separação entre a Igreja e o Estado na França nunca foi um de seus objetivos. as superstições. John Locke. O apelo ao Conselho do rei no processo Calas prende-se a essa política. Locke escreve por volta de 1685-1686. p.. ao contrário. A argumentação desenvolvida por Voltaire acarretava conseqüências que iam muito além dos tímidos pedidos de seu capítulo cinco. Lettre sur la tolérance. pouco antes da Revolução de 1688. É desejável que seja uma "religião pura e santa". implicava uma liberdade de culto que era. mas se estabelece. Obra de forma bem diferente do Tratado. O Estado não pode desinteressar-se da religião.. Voltaire quase que só retém a recusa galicana ao poder dos papas de distribuir as coroas e de coletar as anatas (capítulo I1I).Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem". introdução... numa população grosseiramente primitiva.. no final. daí em diante praticada sem entraves. para a emoção. Faz parte de uma estratégia voltairiana que se esforça por mobilizar a opinião pública.. isenta de superstição e de fanatismo: "não se deve procurar alimentar de frutos silvestres aqueles que Deus se digna alimentar de pão". Retoma-lhes as idéias. entremeados de ditos espirituosos e que apelam.

os coptas. nessa matéria. se forem trocados os recém-nascidos entre as famílias das duas religiões. Logo. "seria o auge da loucura pretender levar todos os homens a pensarem de uma maneira uniforme sobre a metafísica" (capítulo XXI). necessariamente pluriconfessionais. Uma vista-d'olhos mundialista faz a humanidade aparecer como um imenso mosaico de religiões. por sua vez.. é muçulmana. metade muçulmana. amplia o campo de visão. etc. A China confuciana tolera o budismo ("as superstições de Fô"). os vastos impérios._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . basta que tenhamos o sentimento interior de seguir a verdade. "a educação faz tudo".. ou a do Logos. os dogmas absconsos foram algum dia algo mais que um pretexto? Voltaire não insiste. no Tratado de 1763. pois. não é muito inclinado ao exame interior ou ao ensimesmamento. Filioque?). ou ainda a questão de saber se Jesus. Contra essa fé. Recorre a critérios mais exteriores. a autoridade não tem direito algum de empreender o que quer que seja. ele foi feito ou gerado? Com toda a certeza.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ de Locke. Se o imperador. como Bayle. criada desde o berço no serralho de Orosmane. Voltaire levara ao palco uma situação análoga. foi porque tais jesuítas eram intolerantes. "O interesse das nações" exige a tolerância. Mas.. os guebros.. e o processo Calas acaba de fornecer a sangrenta ilustração desse fato. desde Pedro. os judeus. O império otomano tolera os cristãos gregos e latinos. muçulmana neste lugar. tinha só uma ou duas vontades (capítulo XI). mas a fé de que procede. Sua Za'ire. O valor supremo para ele é "o bem físico e moral da sociedade" (capítulo IV). nos direitos da "consciência errante". o que produz o valor de um credo não é seu conteúdo. homem e Deus. ultrapassa o alcance do espírito humano.. Que nem a prédica nem a força conseguem eliminar uma religião em proveito da outra. em matéria metafísica. nascida de pais cristãos. Bayle já propusera esse apólogo: suponhamos uma cidade metade cristã. Assim também a Índia e a Pérsia. e ainda os mais fúteis: os de uma obscura teologia. praticam todos a tolerância. A Roma imperial acolhia liberalmente os cultos orientais. Ela mesma fazia sobre seu caso pessoal uma declaração de relativismo religioso: Teria eu sido perto do Ganges escrava dos falsos deuses. Da mesma forma o império russo. Expõe que o conhecimento absoluto da verdade. os banianos. Voltaire. nas guerras de religião que "ensangüentaram" a terra. Em outras palavras. que Voltaire escreve Yung-Ching. o Espírito Santo procede apenas do Pai ou do Pai e do Filho. e o inverso. Sabe-se como em seu Commentaire pbilosopbique sur ces paroles de jésus-Cbrist "Contrains-les d'entrer" (1686). bem diferente do crente segundo Bayle. é isso que ele desenvolve através de um amplo panorama histórico. o Grande. "Saiamos de nossa pequena esfera e examinemos o resto de nosso globo" (capítulo N). Desse modo. Bayle fundamenta a tolerância numa teologia da consciência. O pluralismo religioso da humanidade deve-se ao fato de que.. ficou suficientemente demonstrado pelo fracasso da política antijansenista e antiprotestante de Luís XIV. Voltaire. pelo XXIV menos quase tudo. Voltaire os examina. expulsou os jesuítas. Cita a procissão do Espírito Santo (na Trindade. Cristã em Paris. Vê-se no Tratado e em outras obras que ele tem tendência a reduzir a fé a seus elementos intelectuais. xxv . é evidente que o bebê nascido cristão será muçulmano.

. E talvez esses mártires cristãos não tenham sido tão numerosos como pretende a tradição. obtende".-les d'entrer). "sede mártires e não carrascos" (capítulo XIV) . reconhecia paralelamente a autêntica qualidade divina dos deuses venerados por Estados. E conhecida a parábola de Lucas. Voltaire. que recusavam celebrar o culto de Roma e do Império·. Os juízes no deserto. XIV. suplicai.. essênios. precisamente. ele manda buscar cegos e mancos. tribos. Durante a primeira perseguição. 1989. Os judeus contemporâneos de Jesus se dividem entre várias seitas: fariseus. Como sobram ainda lugares vazios. notou os vestígios desse estado primitivo das coisas nos textos. sob Nero. inimigos. "Qual a relação. Quanto ao judaísmo na época das origens cristãs. assinala." Deve-se compreender que o empregado brutalizou os novos convidados e que. que leu muito o Antigo Testamento. a paciência. dessa súplica e dessa ceia com a perseguição?" Jesus pregou "a doçura. em desacordo sobre dogmas essenciais e mais diferentes entre si do que são os protestantes dos católicos. conclui Voltaire. Para substituí-los. mas como facciosos.. da ordem estabelecida._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . invocado para justlficar a perseguição. O próprio Moisés teria sido "obrigado a fechar os olhos à paixão do povo pelos deuses estrangeiros" (capítulo XII): tolerância ... a indulgência". a seu exemplo. saduceus. Assim. do que em XXVII XXVI . uma espécie de argumento ad hominem: os próprios judeus antigos eram tolerantes. Jesus Cristo teria vindo pôr fim a essa paz religiosa? Voltaire. os dragões de Luís XIV apenas aplicaram um preceito evangélico? Voltaire observa que um só criado não podia obrigar pela força tanta gente. Les erreurs de la liberté. Les belles lettres. por fim. "os cristãos eram tidos L. As infidelidades ao ciumento Deus de Israel nem sempre eram reprimidas. mas nenhum dos convidados compareceu.. envia um empregado: "Sai pelos caminhos e atalhos e obriga todos a entrar.. l como um grupo de facciosos. Ele mesmo foi vítima da intolerância do sinédrio. homogêneo. Voltaire salienta que está muito longe de ser um bloco • o que também admitem historiadores modernos: ver Pierre Grimal. profetizando a derrocada de Roma". Um pai de família preparou uma grande ceia. Contudo. Voltaire se diz espantado de encontrar entre os judeus "a maior tolerância em meio aos horrores mais bárbaros" (capítulo XIII).. Voltaire esforça-se por responder à objeção: os cristãos eram combatidos não como cristãos. "Obriga-os a ~ntrar" só pode evidentemente significar "rogai. adoraram não só o bezerro de ouro (que ele identifica com o deus egípcio Ápis) mas também Moloch. é levado a examinar o "Obrigaos a entrar" (Contrain. Mas perseguiu os cristãos. O povo de Javé chegava a invocar essas divindades rivais. Kium. Sabe-se hoje que o judaísmo arcaico era antes monolátrico do que monoteísta.. Embora a comunidade judaica se consagrasse apenas ao culto de Javé. Paris. ••• o fato de a filosofia da história de Voltaire abrir-se para uma visão religiosa fica mais evidente.. Voltaire acrescenta. conseguem coabitar.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ mesmo os mais estranhos ao espírito romano. depois de Bayle. mstai. Renfa. vos pergunto. de poderio reconhecido como incontestável. povos vizinhos e inimigos. "Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo".

Voltaire preza a idéia de que o teísmo foi a primeira religião dos homens e se conservou na China de Confúcio (capítulo IV). Na "prece a Deus" final se revela a evidência da qual procede o alegado de Voltaire em defesa da tolerância. jargão antigo ou novo. dirigida ao "Ser supremo". A religião pura degenerou noutros lugares em superstição e em fanatismo.. mais rebaixa-lhes as crenças irracionais. Com o "Deus de todos os seres.. o turco? meu irmão. ou seja. dizer consigo. Os romanos. nas últimas páginas do Tratado sobre a tolerância. ao mesmo tempo que suas "linguagens insuficientes". cada uma de seu lado. o chinês? o judeu? o siamês? .Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ qualquer outra parte.. de todos os mundos e de todos os tempos. É a isso que tende o esforço de tolerância. da humanidade primitiva. Esses insetos produziram. para levar em consideração o estado presente da polêmica e os progressos do processo Calas. seus "costumes ridículos". "o meu formigueiro é o único que é caro a Deus. Voltaire prega: "Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos.] reconheciam todos um Deus supremo". Pode-se lamentar que tenha achado bom acrescentar após o vigésimo terceiro capítulo mais três capítulos de "post-scriptum". deploravelmente.. suas "leis imperfeitas". ó Deus que tudo anuncia . o Tratado culmina e conclui com a impressionante "Prece a Deus": "Já não é aos homens que me dirijo. Por exemplo. às quais correspondem temas abundantemente desenvolvidos por Voltaire no resto de sua obra.Sim. sem dúvida. é a Ti.. que produziram a intolerância. Mas um pouco em toda parte encontram-se vestígios das origens: "os antigos povos civilizados [. Na realidade. batinas de pano branco ou mantos de lã negra. suas "opiniões insensatas". Um de seus primeiros textos.. esse "culto dos descendentes de Noé" . a Epítre à Uranie (Epístola a Urânia) (ou Le pour et le contre). que tende a reduzir ao nível de práticas derrisórias: "círios em pleno meiodia". mormente. ainda que. as religiões em cujo nome se dilaceXXVIII ramo Quanto mais Voltaire exalta o Ser dos seres. é também uma "prece a Deus". Bem como os versos que concluem a profissão de fé em quatro partes de La [oi naturelle: Ó Deus que não reconhecemos. todos os outros lhe são odiosos por toda a eternidade". foram colocadas indicações nos capítulos anteriores. perdidas na imensidão cósmica. . não somos todos ftlhos do XXIX . hábitos tingidos de vermelho ou de roxo. Seria loucura para os homens degolarem-se por tais misérias.. Voltaire acalenta a esperança de que a humanidade voltará à religião natural de seus primórdios. de todos os mundos e de todos os tempos" são confrontadas "fracas criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do universo": os "átomos chamados homens". a alusão à "adoração simples de um único Deus". não é única na obra de Voltaire." Tal "prece". Com vistas a esse final. Essas eloqüentes declarações são provavelmente uma das raras expressões assumidas. associassem-lhe "uma quantidade prodigiosa de divindades inferiores" (capítulo IV). Qualquer um que as aceita sem prevenção não pode deixar de ficar comovido com seu tom. em Voltaire. Como! meu irmão. Não vão as formigas.. por certo sentimento religioso. reconheciam esse Deus supremo (capítulo IX).._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . Deus de todos os seres. É impossível não lhes reconhecer a sinceridade.

" Ressaltaremos o epíteto. conforme o voto de Voltaire? A disparidade das culturas subsiste e estas. quanto progrediu desde então a internacionalização dos intercâmbios! A rapidez. nas Cartas filosóficas. . Impõe-se.. mais do que à reconciliação.. se combatem.. liberta dos fantasmas do irracional e dos furores do fanatismo. condenam-se a si mesmos. Não se pode ler sem um aperto no coração a página em que ele anuncia que a "Irlanda povoada e enriquecida não verá mais" católicos e protestantes matarem-se uns aos outros (capítulo IV). no seio de uma elite européia. Nossa antropologia já não é a de Voltaire. Aqueles que ainda pretendem encerrar-se em seu campo fechado. justapostas e pouco assimiláveis entre si. Nã~ é de espantar que Voltaire. L 'empire immobile ou Fayard..... 1989. na terra inteira. por esse fato. constatava ele. certamente.. RENÉ POMEAU . a facilidade das comunicações de um extremo a outro do p~aneta.. Quem se atreveria a afirmar que os pequenos grupos originais de Romo erectus ou de Romo habílis adoravam o Ser supremo sem a sombra de uma idéia supersticiosa? Quem pode esperar que a humanidade do futuro. No mundo em que vivemos dois séculos depois de Voltaire. uma ética que presc:eve aceitar.... "Os costumes se abrandaram". a interdependência entre todas as partes deste nao cessa de acentuar a mundialização de nossa civiliza?ão.nduzem.. instaladas em número de quatro ou cinco num mesmo território. por um efeito quase mecânico? Não vemos ainda algumas que.. xxx XXXI . mas bastante estrita: muitos acontecimentos posteriores mostrarão que o movimento era menos extenso e menos profundo do que se julgava. ao "choque dos mundos". a universalidade faz da ~olerância um dever.. macerando em seu próprio fanatismo. com um ardor que sua pluralidade não diminui? O otimismo do Iluminismo se estribava numa filosofia da história que já não parece aceitável. o estrangeiro em sua altendade._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ .T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?" O que termina na invocação da "Prece a Deus": Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! *** Que pensar hoje dessa filosofia da tolerância? Dirão que Voltaire dava provas de demasiado otimismo. de armas à mão. O movimento ascendente do Tratado chega a enfatizar uma fórmula. Será mesmo indubitável que a multiplicidade das seitas as enfraquece... eriçados contra os outros. te choc des mondes Paris ' . • Alain Peyrefine. deslgne como um dos lugares privilegiados da tolerância a Bolsa de Londres (Carta VI). Ora. para repetir a expressão com que Alain Peyrefitte define o início do contato da Europa com a China no século XVIII*? Contudo. delineia-se uma evolução em sentido inverso. não c. tampouco a de Rousseau.. inscrita no título do vigésimo segundo capítulo: "Acerca da tolerância universal. nestes cinqüenta anos. comungará no culto puro do Ser dos seres. tanto no universo atual como no Século das Luzes.. Abrandaram-se.

1694. 1702. encorajado por sua mãe Catarina de Médicis. 24 de agosto: Noite de São Bartolomeu. reduto do XXXIII . camponeses protestantes das Cevenas.Cronologia 1572. 13 de abril: Henrique N põe fIm às guerras de religião pelo edito de Nantes. nasce em Paris. 18 de outubro: revogação do edito de Nantes por Luís XIV. Derrota dos exércitos franceses em Hochstedt. de nome François-Marie Arouet. 1685. 1706. 1702-1710. Por ordem do rei Carlos IX. Voltaire inicia estudos no colégio dos jesuítas Louisle-Grand. Voltaire. 1710-1712. Guerra de Sucessão da Espanha. Revolta dos camisards. massacre dos protestantes em Paris e nas províncias. O convento dos religiosos cistercienses de Port Royal des Champs (vale de Chevreuse). A liberdade de culto é garantida aos protestantes sob certas condições. A religião reformada é proibida no reino da França. 1598. O príncipe Eugênio e Marlborough apoderam-se de Lille. Os protestantes convertidos à força são tidos como "novos católicos". 1704.

Novembro: retoma à França. Voltaire faz uma viagem à Holanda: admira a tolerância e a prosperidade comercial desse país. Agosto: sucesso triunfal de Zai're. 1736. 1717.. 1733. XXXIV Dezembro: publica dois opúsculos em inglês: Essay on Civil Wa~. 5 de maio: embarque para Londres. Tendo o clero recusado a sepultura. 1719. 15 de março: morte da grande atriz Adrienne Lecouvreur. 4 de fevereiro: é espancado por ordem do cavaleiro de Rohan.. Voltaire indigna-se contra isso no poema La mort de Mademoiselle Lecouvreur. Ele alcança seu primeiro grande sucesso com Oedipe. Publica La Ligue.. O abade Prévost converte-se ao protestantismo e refugia-se em Londres. 1726. 1734. 1732. 1730._ _ _ _ _ _ _ _ _ _V o l t a i r e . 1729. na Champanha. As Cartas filosóficas são divulgadas em Paris. Em Londres. regente. ocupará o cargo até 1742.. 1722. Le mondain [O mundano]: Voltaire refugia-se durante algumas semanas na Holanda. 1721. Janeiro: Voltaire publica Le tempie du gout [O templo do gosto]. Agitação jansenista: convulsões sobre o túmulo do diácono Pâris. Essay on Epic Poetry. Junho: ligação com Madame du Châtelet. Robert Walpole torna-se primeiro-ministro. Julho: acrescenta às Lettres philosophiques [Cartas filosóficas] o texto Remarques sur Pascal [Notas sobre Pascal]. iniciada em Londres. o duque de Orléans. 1735.. perto de Orléans.- ~_----- Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ __ jansenismo. xxxv . Voltaire visita lorde Bolingbroke. Montesquieu na Inglaterra.. primeira versão de La Hentiade. poema épico sobre as guerras de religião e Henrique IV. La Henriade.. 1713. dedicada à rainha da Inglaterra. Montesquieu: Considérations sur les Romains. 8 de setembro: Luís XIV obtém do papa Clemente XI a bula ou constituição Unigenitus que condena o jansenismo. assume o poder. 1715. 1723. no castelo de la Source.. tragédia de Voltaire dedicada ao mercador inglês Falkener. conservará o poder até sua morte (1743). 1728. 1727. Publica em Londres. Cenas escandalosas. 1720. Estada de voltaire em Haia como secretário do embaixador da França. Os soldados devastam o cemitério. Voltaire publica L'histoire de Charles XII. 17 de abril: preso na Bastilha. Morte de Luís XIV. é destruído por ordem de Luís XIV. 1731. Voltaire é encerrado durante onze meses na Bastilha. Paz de Utrecht. Janeiro: Voltaire é apresentado ao rei da Inglaterra. no castelo de Madame du Châtelet. 1718. Inflação: o "sistema" de Law. O cardeal Fleury governa a França. Voltaire refugia-se em Cirey. Voltaire obtém a permissão de voltar a Paris. tragédia. Jorge I. o' corpo é lançado à lixeira. por subscrição.

1740. 1747. 1749. Realiza uma missão secreta em Berlim. 1745. Mabomet. 1750. 13 de outubro: Marc-Antoine Calas. Morte de Fleury. . Voltaire é informado por Dominique Audibert. 9 de junho: após a publicação do Contrat social e do Émile. XXXVI Luís XV proíbe-lhe aproximar-se de Paris. Por volta de 20 de março. Montesquieu: L'esprit des lois. 1746. 9 de março: o parlamento de Toulouse condena à morte Jean Calas. 1748. freqüenta a corte de Stanislas. Lunéville. 1756. Voltaire faz representar Mérope. em Toulouse. é proibida em Paris. 1757._ _ _ _ _ _ _ _ _ _Voltaire---------- _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ __ 1737. O parlamento de Paris inicia o processo que culminará com a supressão dos jesuítas . Voltaire parte para Berlim. Temporada em Cirey. Subida ao trono de Frederico 11. 1761. pela primeira vez. que invade a Silésia. na fronteira com a Suíça. 1758. Rousseau é condenado pelo parlamento de Paris por ter escrito a Profession de foi du vicaire Savoyard. Ele é executado no dia seguinte. 1755. 1743. Em Nancy. é encontrado morto na loja de tecidos da Rue des Filatiers. Voltaire publica Le siecle de Louis XIV. em Cleves. após um jantar em família. 1753. XXXVII . Subida ao trono de Maria Teresa da Áustria. Instala-se em Délices. em Ferney. Paz de Aix-Ia-Chapelle. 1752. rei da Prússia. Perseguições contra os mósofos: a publicação da Encyclopédie é interrompida. Desastre do exército francês em Rossbach. Voltaire publica Essai sur les moeurs et l'esprit des nations [Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações]. Mas Genebra e Berna condenam igualmente a Profession de foi. nos arredores de Genebra. Contra o cinismo filosófico de La Mettrie (e de Frederico 11) Voltaire compõe La loi naturelle. Rousseau: Discours sur l'origine de l'inegalité. poema inicialmente intitulado La religion naturelle. Morte de Madame du Châtelet. Nomeado secretário particular de Frederico lI. Luís XV alcança a vitória de Fontenoy e toma Madame de Pompadour como favorita. Rousseau: Discours sur les sciences et les arts. Voltaire adquire o castelo de Ferney. Zadig. 1742. tragédia. 1762. 1741. Commercy. Voltaire encontra Frederico 11. Encontra dificuldades na corte. Voltaire é nomeado historiógrafo do rei. O duque de Choiseul é nomeado para o ministério. Voltaire publica Candide. em território francês. Publica os Éléments de la pbilosopbie de Newton. Entrada dos irmãos d'Angerson no ministério. 1738. passa uma temporada na Alsácia. Morte de Montesquieu. Início da Guerra dos Sete Anos. 19 de fevereiro: execução em Toulouse do pastor Rochette e três nobres protestantes. Publicação do tomo I da Encyclopédie. sogro de Luís XV. 1751. é obrigado a fugir para a Suíça. Rompe com Frederico 11. tragédia de Voltaire. Ameaçado de prisão. Guerra de Sucessão da Áustria. É eleito para a Academia Francesa. Rousseau: La Nouvelle Héloi'se. 1759.

1763. XXXVIII 1767. 1789. XXXIX . Fevereiro: intervenções de Voltaire em favor dos galerianos huguenotes. 1764. condenado por sacrilégio. Queda de Choiseul. Junho: primeira edição do Dictionnaire philosophique portatif. 1Q de julho: o cavaleiro de La Barre. 9 de março: reabilitação de Jean Calas. pelo advogado Mariette. 1787. onde é proibido.. O novo parlamento de Toulouse ("Parlamento Maupeou") pronuncia a absolvição definitiva de Sirven. Agosto: a Assembléia Nacional vota a DeclaraçãO'.. Voltaire refugia-se por algum tempo na Suíça e publica La relatíon de la mort du chevalíer de La Barre. assinado por Donat Calas. mas redigido por Voltaire. 1948. Agosto: Voltaire publica Histoire d'Elisabeth Canning et de Jean Calas. Mémoire à consulter. de consciência e de religião". Pierre et Louis Calas. Mémoire pour Anne-Rose Cabibel (a viúva de Jean Calas).T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ __ 7 de julho: A Monseigneur le chancelier. Janeiro: Réflexions pour dame Anne-Rose Cabibel. primeiro cônsul. 1766. por Loyseau de Mauléon. dos direitos do homem e do cidadão. 11 de julho: transferência das cinzas de Voltaire para o Panthéon. 7 de março: o Conselho do rei autoriza o recurso contra o julgamento de Toulouse. 12 de julho: a Assembléia Nacional adota a Constituição civil do clero. 1771. Mémoire pour Donat. 10 de fevereiro: o tratado de Paris põe fim à Guerra dos Sete Anos.. 10 de dezembro: a Assembléia da ONU em Paris adota a Declaração internacional dos direitos do homem. por Élie de Beaumont. 5 de maio: o parlamento de Toulouse condena a família Sirven. Voltaire publica L'ingénu [O ingênuo]. Retorno de Voltaire a Paris: apoteose e morte. Luís XV recusara seu indulto. Ministério de Turgot._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . 9 de dezembro: lei de separação da Igreja e do Estado. conclui com o papa Pio VII a Concordata que restabelece na França a paz religiosa. de 19 anos de idade. Subida ao trono de Luís XVI. Abril: a impressão do Traíté sur la tolérance pelos Cramer é concluída. 1778. 19 de novembro: Luís XVI assina o edito de Tolerância que restitui aos protestantes seus direitos civis. enfrenta dificuldades. 15 de julho: Bonaparte. cujo artigo XVIII declara que "qualquer pessoa tem direito à liberdade de pensamento. O Dictíonnaire philosophique é queimado sobre seu corpo. 1790.. 1801. 1905. A difusão do livro na França. 1770. por Mariette. 1791. é decapitado. 1765. 1774.

TRATADO SOBRE A TOLERÂNCIA A PROPÓSITO DA MORTE DE JEAN CALAS .

então o clamor público se levanta. de religião. percebe-se que ninguém está seguro de sua vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida dos Cidadãos. Se um irmão havia estrangulado seu irmão. mas porque os que morrem pela sorte das armas podiam também dar a morte a seus inimigos. se um amigo 3 . ou do fanatismo. Tratava-se. Esquece-se facilmente a quantidade de mortos em batalhas sem conta. da paixão. ao decapitarem-no.CAPÍTULO I História resumida da morte de Jean Calas o assassínio de Calas. e não morreram sem se defender. cometido em Toulouse com o gládio da justiça. e a própria piedade diminui. de suicídio. se um pai de família inocente é entregue às mãos do erro. de parricídio. se o acusado só tem como defesa sua virtude. se podem matar impunemente através de uma sentença. o espanto cessa. é um dos mais singulares acontecimentos que merecem a atenção de nossa época e da posteridade. não somente por tratar-se da fatalidade da guerra. a 9 de março de 1762. se os árbitros de sua vida. apenas correm o risco de se enganar. e todas as vozes se juntam para pedir vingança. Lá onde o perigo e a vantagem são iguais. cada um teme por si próprio. nesse estranho caso. tratava-se de saber se um pai e uma mãe haviam estrangulado seu filho para agradar a Deus. mas.

. exercia a profissão de negociante em Toulouse há mais de quarenta anos e era reconhecido por todos que com ele viveram como um bom pai. com esse nome. jantaram juntos. conhecido pela candura e delicadeza de seus hábitos. Um dos filhos de Jean. sombrio e violento.. Lavaisse e Pierre Calas. enquanto o pai e a mãe estavam aos soluços e em lágrimas. ao qual não se ajustava.. Era protestante. enforcado numa porta. há trinta anos. decidiu naquele mesmo dia executar seu propósito. Marc-Antoine. Trata-se aqui. por meio de uma procissão e fogos de festa. Em vão seis decisões do conselho proibiram essa odiosa festa. Após o jantar retiraram-se para uma pequena sala. a mãe. nenhum machucad0 2• Damos aqui todos os detalhes apresentados pelos advogados. com exceção de um. do E. ou por haverem poupado uma mãe. de um equívoco de Voltaire. Foi em Toulouse que agradeceram solenemente a Deus pela morte de Henrique III e que juraram decapitar o primeiro que falasse em reconhecer o grande. enfim. firmou-se em sua resolução através da leitura de tudo o que até então se escrevera sobre o suicídio. um amigo culpados.. Enquanto cumpriam esse dever. que havia abjurado a heresia e a quem o pai concedia uma pequena pensão. vê como monstros seus irmãos que não são da mesma religião que ele.. quando o jovem Lavaisse quis partir. não descreveremos a dor e o desespero do pai e da mãe. e sua roupa dobrada sobre o balcão. o povo de Toulouse junta-se em torno da casa. Esse povo é supersticioso e violento. o filho mais velho. havia chegado de Bordéus na véspera!. assim como sua mulher e todos os seus filhos. um irmão. os tolosanos sempre a celebraram como o faziam com os jogos florais*. Esse jovem.. casualmente jantou • Jean Calas nasceu em 1698 e morreu em 1762._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . o dia em que massacrou quatro mil cidadãos heréticos. portanto aos 64 anos.. de 68 anos de idade*. junto à loja. porque exigiam certificados de catolicidade que ele não pôde obter. Marc-Antoine desapareceu. seus gritos foram ouvidos pelos vizinhos. o bom Henrique IV. nem ser aceito como advogado. que aprovou a conversão de seu filho Louis e mantinha em sua casa.) na casa dos Calas. Jean Calas. Um amigo seu e da família. Pierre Calas e ele. correram a procurar cirurgiões e a Justiça. inicialmente com o intuito de manter as tradições do sul da França. (N. chamado Lavaisse. do T.. dois séculos atrás. encontraram no térreo.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ havia estrangulado seu amigo. enfim.) 4 5 . .. e se os juízes deviam ser censurados por terem feito morrer no suplício da roda um pai inocente.. (N. não havia no corpo nenhum ferimento. Marc-Antoine de camisolão. Jean Calas parecia tão afastado desse absurdo fanatismo que rompe todos os vínculos da sociedade.... chamado Marc-Antoine. Certa vez. Esta cidade soleniza ainda todos os anos 3.. era um homem de letras: diziam-no um espírito inquieto. decidiu acabar com sua vida e fez pressentir esse propósito a um de seus amigos. existente em Toulo use desde 1323. os cabelos continuavam bem penteados. fora de si.. O pai. • Referência a um concurso poético anual. tendo perdido seu dinheiro no jogo. uma dedicada empregada católica que ajudara a criar todos os seus filhos. jovem de 19 anos... seu camisolão estava em perfeito estado. sem dúvida. não conseguindo nem entrar no comércio.. tendo descido a escada. o segundo. filho de um advogado célebre de Toulouse.. e Pierre.

os espíritos não mais se detêm. tendo numa das mãos uma palma e na outra a pena com que devia assinar a ' abjuração da heresia. Jamais uma Igreja celebrou a festa de um mártir verdadeiro com maior pompa. Seus membros vestem um longo capuz. no Languedoc. a empregada católica e Lavaisse foram postos na prisão. que haviam escolhido. que esse jovem. a estrangularem um amigo. O que preparou seu suplício foi. Prepararam-se relatórios sobre esses prodígios. a proximidade dessa festa singular que os tolosanos celebram todos os anos em memória de um massacre de quatro mil huguenotes. O senhor David. devia ser arrastado na lama. que protestou contra essa profanaçã04 • Há. excitado por esses rumores e querendo valorizar-se por uma ação imediata. a branca.. Elevaram acima de um magnífico catafalco um esqueleto que faziam mover e que representava Marc-Antoine Calas.. A família Calas. quatro confrarias de penitentes. fez um processo contrário às normas. outros acrescentaram que o morto pretendia fazer abjuração no dia seguinte. recebera a notícia de sua eleição e chegara de BOrdéus para ajudar Jean Calas. em deliberação conjunta. em vinte e quatro horas. apesar do pároco. 1762 era o ano do bicentenári05 • Prepa7 . Uma devota. Publicou-se uma citação eclesiástica não menos viciosa que o processo. um carrasco da seita._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . só faltava mesmo a canonização. que sua família e o jovem Lavaisse o haviam estrangulado por ódio contra a religião católica. sua mulher e seu filho Pierre. tentaram fazer com que o senhor duque de Fitz-James. outros relatavam os que havia feito. Os confrades brancos prestaram a Marc-Antoine Calas um serviço solene. A partir desse momento a morte de Jean Calas pareceu irreversível.. Imaginou-se que os protestantes do Languedoc haviam se reunido na véspera. com uma máscara de pano provida de 6 dois buracos para deixar a visão livre. Uma vez excitados. Um monge arrancou-lhe alguns dentes para ter relíquias duráveis. alguns o invocavam. e que escrevia. outros iam rezar junto ao seu túmulo. sobretudo. e este recusou. a azul.T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Algum fanático da populaça gritou que Jean Calas havia enforcado seu próprio filho Marc-Antoine. um irmão. disse que escutara o som dos sinos. toda a cidade foi persuadida de que é um imperativo religioso entre os protestantes que um pai e uma mãe devem assassinar seu filho tão logo ele queira converter-se. Um padre apoplético foi curado após ter tomado o vomitório. na verdade. Alguns magistrados eram da confraria dos penitentes brancos. Todo o mundo o via como um santo. um filho. ninguém duvidava mais. logo tornou-se unânime. Foram mais longe: Marc-Antoine Calas morrera calvinista e. se atentara contra a própria vida. comandante da província. como a um mártir. repetido.. O autor do presente relato possui um testemunho de que um jovem de Toulouse ficou louco por ter rezado várias noites junto ao túmulo do novo santo e não ter podido obter um milagre que implorava. a cinza e a negra. inumaram-no com a maior pompa na igreja Saint-Étienne. outros pediam-lhe milagres. Ao infeliz que atentara contra si. que a escolha recaíra sobre o jovem Lavaisse. mas essa pompa foi terrível. entrasse na corporação. Esse grito. a sentença de morte de seu pai. magistrado de Toulouse.. Um momento depois. um pouco surda.

queriam ao menos que se averiguasse. a grita foi tão grande que ambos foram obrigados a julgar-se incompetentes. falou vivamente a favor deles. era absolutamente necessário que tivesse sido auxiliado nessa execução por sua mulher. o juiz favorável aos Calas teve a delicadeza de persistir em seu afastamento. a 9 . Um outro juiz. convencido da inocência dos acusados e da impossibilidade do crime. em Atenas. quando se trata de um parricídio e de lançar um pai de família ao suplício mais terrível. seu filho e Lavaisse ao suplício da roda. Enfim. opôs o zelo da humanidade ao zelo da severidade. Eles não haviam se separado um só momento na noite dessa fatal aventura. Seis juízes persistiram por muito tempo em condenar Jean Calas.. o que atiçava ainda mais a imaginação exaltada do povo. Os debates foram reiterados e longos. conhecido por sua violência7. 8 enquanto o outro voltou para dar seu voto contra aqueles que não devia julgar: esse voto é que determinou a condenação ao suplício da roda. Mas tal suposição era tão absurda quanto a outra: pois como é que uma dedicada empregada católica teria podido suportar que huguenotes assassinassem um jovem criado por ela. tivesse estrangulado sozinho e enforcado um filho de 28 anos. indignado com os recentes êxitos da razão. passado para o partido mais severo. tendo há muito tempo as pernas inchadas e fracas. Não tinham. por seu filho Pierre Calas. o julgamento deveria ser unânime. pois foram apenas oito votos contra cinco. por Lavaisse e pela empregada._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . debate-se com maior furor a seus pés. porque as provas de um crime tão inusitadd deveriam ser de uma evidência sen-' sível a todo o mundo: a menor dúvida em semelhante caso deve ser suficiente para fazer tremer um juiz prestes a assinar uma sentença de morte. mas a religião enganada fazia as vezes de prova. Sete outros. que tinha uma força acima do comum. e a mulher de Jean Calas à fogueira. Treze juízes reuniram-se diariamente para concluir o processo.. havendo um dos seis juízes contrários. Mas. retirando-se do caso. isto é.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ rava-se na cidade o aparato dessa solenidade. tornou-se o defensor público dos Calas em todas as casas de Toulouse. dizia-se publicamente que o cadafalso sobre o qual seriam supliciados os Calas seria o maior ornamento da festa.. Que resulta disso? O que sabemos muito inutilmente. e outros mais violentos ainda. Um dos juízes6 . não podiam ter nenhuma prova contra a família. que os gregos eram mais sábios e mais humanos do que nós. falava na cidade com tanta exaltação contra os Calas quanto o primeiro se empenhava em defendê-los... Creio que. mas em que ocasião percebe-se melhor sua miséria do que quando a preponderância de uma única voz condena ao suplício um cidadão? Eram necessárias. diziase que a própria Providência trazia essas vítimas para serem sacrificadas à nossa santa religião. mais moderados.. onde os clamores contínuos da religião equivocada exigiam o sangue desses infortunados. A fraqueza de nossa razão e a insuficiência de nossas leis se fazem sentir diariamente. E isso em nossos dias! E isso num tempo em que a filosofia fez tantos progressos! E isso quando cem academias escrevem para inspirar a suavidade dos costumes! Parece que o fanatismo. Parecia impossível que Jean Calas. após muitas contestações. cinqüenta vozes além da metade para ousarse pronunciar uma sentença de morte. ao final. Vinte pessoas ouviram tais discursos. por estranha infelicidade. velho de 68 anos.

tendo amparado nos braços seu filho primogênito morto. Estes foram obrigados a pronunciar uma segunda sentença. Ficaram perplexos. sob os golpes do carrasco. Os juízes favoráveis ao suplício de Jean Calas persuadiram os outros de que esse velho fraco não poderia resistir aos tormentos e de que confessaria. se o parricídio pudesse ter sido cometido. se não abjurasse sua religião. tendo examinado com ponderação todas as circunstâncias dessa horrível aventura.. depois daquela que haviam tido a infelicidade de cometer._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . privada de suas filhas. vendo o outro banido. não era uma grande injustiça. sem esperança e sucumbindo ao peso de sua infelicidade. era evidente que o pai não podia ser o único culpado. era evidente que não se haviam separado. tão absurdo quanto o resto. não tinha cabimento bani-lo. sem golpes reiterados. Mas. retirada na solidão. Essa mulher. de quem ignorava a suposta conversão? Como é que uma mãe afetuosa teria atacado seu filho? Como é que todos juntos teriam podido estrangular um jovem tão robusto quanto eles todos. do jovem Lavaisse e da empregada. no cárcere. devia ser submetido ao suplício como seu pai. que acreditaram vingar. É o que este jovem9 atesta por juramento. não tendo conseqüências. de que teria a mesma sorte de seu pai. não obstante a sentença condenou apenas esse pai a expirar no suplício da roda. despojada de todos os bens. Começaram ameaçando Pierre Calas. a ordem de soltura dos sobreviventes provava cabalmente a 10 inocência do pai de família executado.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ fim de puni-lo por amar a religião dessa mesma empregada? Como é que Lavaisse teria vindo expressamente de Bordéus para estrangular seu amigo. como os acusados sempre estiveram juntos no momento do suposto parricídio. se fosse culpado. sem ferimentos. Esse banimento parecia tão inconseqüente. e acreditaram ' que o banimento desse jovem pobre e sem apoio. ordenando a soltura da mãe. por não se haverem separado em nenhum momento. sem roupas rasgadas? Era evidente que. seu filho. encontrou um abade convertedor que o fez voltar a Toulouse. como se perdoar não fosse uma nova prevaricação. ficaram tão chocadas que instaram a senhora Calas. sem gritos terríveis que teriam alertado a vizinhança. sem pão. se fosse inocente. ao sair da cidade. Pierre Calas. assustados com o suplício do pai e a comovedora piedade com que morrera. era o preço do sangue de seu pai. a ousar pedir justiça ao pé do 11 . pois Pierre Calas era ou culpado ou inocente do parricídio. imaginaram salvar sua honra dando a entender que perdoavam o filho.. quase regada com o sangue de seu marido.. Algumas pessoas. todos os acusados eram igualmente culpados. sem um combate longo e violento. ao morrer na roda. O motivo da sentença era tão inconcebível quanto o resto. clamou a Deus em testemunho de sua inocência e conjurou-o a perdoar seus juízes. encerraram-no num convento de dominicanos e lá foi constrangido a cumprir todas as funções da catolicidade.. que elas se condenavam mutuamente e que.. e a religião. Era em parte o que queriam. parecia satisfeita. contraditória com a primeira. de seu filho Pierre. seu crime e o de seus cúmplices. decidiram então banir Pierre Calas. estava só no mundo. As filhas foram retiradas da mãe e encerradas também num convento. quando Q velho. tendo um dos conselheiros notado que essa sentença desmentia a outra. Mas os juízes.

ou esse pai de família e sua mulher estrangularam seu filho primogênito. Num caso ou no outro. o que é antinaturaI. Serviram-se inclusive desta expressão: "Há mais magistrados do que Calas". Ou os juízes de Toulouse. o simples nome da cidade de Paris a assustava. sobre a indulgência. 12 No entanto essa família teve ainda alguns inimigos. que geralmente exclui a piedade. 13 . o fanatismo quase sempre prevalece sobre a razão.. célebre advogado do parlamento de Paris. disseram abertamente que era preferível deixar supliciar um velho calvinista inocente do que expor oito conselheiros do Languedoc a admitirem que haviam se enganado. Esses três generosos defensores das leis e da inocência destinaram à viúva o lucro das edições de seus arrazoados!4. Mariette. além disso.. Loiseau. arrastados pelo fanatismo da populaça. Paris e a Europa inteira encheram-se de piedade e exigiram justiça com essa mulher infortunada. do interesse do gênero humano examinar se a religião deve ser caridosa ou bárbara. em reparar suas. como a dos outros homens. sustentar-se. Várias pessoas.. crer que oito juízes de Toulouse não o são. amparos e lágrimas 10. pois se tratava de religião. o que é inédito. seja infalível: poder-se-ia. extinguia-se. o propósito de apresentar ao público algumas reflexões sobre a tolerância. A sentença foi pronunciada pelo público bem antes que pudesse ser assinada pelo conselho. não menos eloqüente. assistido por seus cardeais.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ trono. cobertas de luto e banhadas de lágrimas.. que o abade Houteville chama de dogma monstrnos(P. compôs um memoriap2 em favor da família. elaborou um requerimento jurídico 13 que levava a convicção a todos os espíritos. na província. por maior que este seja. Ela chegou a Paris quase morta. e que a razão chama de apanágio da natureza. e apesar do hábito de ver infelizes. Supunha que a capital do reino devia ser ainda mais bárbara que a do Languedoc. quando ela fez surgir em pessoas imparciais. O sr. Devolveram-se as filhas à mãe. Não se imaginava que a honra dos juízes consiste. que na França são chamadas devotas 16 . Ela não podia. tendo nascido inglesa. Na França não se acredita que o papa. As três foram vistas. Em Paris a razão prevalece sobre o fanatismo. suscitando lágrimas também em seus juízes. assumiu inicialmente sua defesa e redigiu um parecer que foi assinado por quinze advogados ll . que pode endurecer ainda mais o coração. e dela inferiam que a família Calas devia ser imolada em honra à magistratura. de Beaumont. As pessoas sensatas e desinteressadas diziam que a sentença de Toulouse seria anulada em toda a Europa. advogado no conselho. transplantada a uma província da França desde a juventude. do mesmo modo. em seu discurso empolado e errôneo sobre fatos. Ficou espantada de ali encontrar acolhida.. mas sensíveis. apesar do contínuo caudal de questões 15 . O sr. O sr. o abuso da religião mais sagrada produziu um grande crime. ao passo que. Mas o dever de vingar a memória de seu marido acabou prevalecendo sobre sua fraqueza. A piedade penetrou até no ministério. portanto. então. faltas. É. sobre a comiseração._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . ajudados nesse parricídio por um outro filho e um amigo. Tal era o estado dessa espantosa aventura. ainda que considerações particulares impedissem que fosse anulada no conselho. fizeram supliciar um pai de família inocente.

se tais confrarias fossem governadas por fanáticos. eles e os juízes devem chorar. levou ao suplício um pai de família virtuoso. Todavia. pois temos religião de sobra para odiar e perseguir. por maior que seja o bem que possam fazer ao Estado. E o que seria. Dir-se-ia que fizeram voto de odiar seus irmãos. e pouca para amar e socorrer. igualar-se-á esse bem ao terrível mal que causaram? Elas parecem instituídas pelo zelo que. como o foram outrora algumas congregações de artesãos e de senhores 18. da ruína total de uma família. mas não com uma longa túnica branca e uma máscara que ocultaria suas lágrimas. anima os católicos contra aqueles a que chamamos huguenotes. mas que está associado ao suplício. de sua dispersão e do opróbrio que só deveria associar-se à injustiça. Todas as confrarias merecem respeito: elas são edificantes. se a precipitação dos penitentes brancos em celebrar como um santo aquele que. deveria ter sido arrastado na lama. segundo nossos costumes bárbaros. essa infelicidade deve certamente tornálos penitentes de fato para o resto de suas vidas.CAPÍTULO 11 Conseqüências do suplício de Jean Calas Se os penitentes brancos foram a causa do suplício de um inocente. no Languedoc. nas quais convertia-se em arte e sistema o 15 .

como diz um de nossos mais sábios e eloqüentes magistrados? O que seria. sabe-se bem. A Liga começou por tais associações. ele próprio vestindo capacete e couraça. para pagar seus prazeres. é capaz de excitar uma espécie de guerra civil nos espíritos e resultaria talvez em funestos excessos. em mancomunação com o papa. no renascimento das letras. os espíritos começaram a iluminar-se. os Gravina._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ hábito de ter visões. cruzes e punhais. do século IV aos nossos dias. com dois pequenos orifícios redondos diante dos olhos! Pensam de boa-fé que Deus prefere essa vestimenta ridícula a um gibão? Tem mais: essa vestimenta é um uniforme de controversistas. chamadas câmaras de meditação. fez perecer. nem vendido dispensas para este mundo e indulgências para o outro. animado pelo mesmo espírito. os Oliveretto e cem outros senhores. causaram problemas. deu seu reino ao primeiro ocupante e. Limitemo-nos aqui às guerras e aos horrores que as querelas da Reforma suscitaram e vejamos qual foi sua origem na França. O papa Alexandre VI havia comprado publicamente a tiara. Júlio 11. Diziam que. os Vitelli. se nas confrarias se estabelecessem essas câmaras escuras. houve queixa geral contra os abusos. os Urbino. se o rei e seus ministros não fossem tão prudentes quanto os fanáticos são insensatos. os flagelantes. o cardeal duque de Borgia. pelo menos. seu pai. pôs a ferro e fogo uma parte da Itália. Sabe-se bem quanto isso custou desde que os cristãos disputam sobre o dogma: o sangue correu. seja nos cadafalsos. Leão X. onde eram pintados diabos armados de chifres e garras. em que as confrarias foram perigosas. podiam eximir-se de pagar a um príncipe estrangeiro o preço de todas essas 17 16 . seja nas batalhas. que adverte os adversários a se porem de guarda. e seus cinco bastardos compartilhavam as vantagens. excomungou Luís XII. Os fraticelli. para arrebatar seus domínios. Queriam que todos os cristãos entrassem na confraria? Seria um belo espetáculo a Europa de capuz e máscara. CAPÍTULO III Idéia da Reforma do século XW Quando. Por que distinguirem-se assim dos outros cidadãos? Acreditavamse mais perfeitos? Isso já é um insulto ao resto da nação. Talvez um quadro resumido e fiel de tantas calamidades abra os olhos de algumas pessoas pouco instruídas e sensibilize os corações bem-feitos. Vejamos se o cometiam contra nós na política. abismos de chamas. Os que se insurgiram contra tantos atos de banditismo não cometiam. nenhum erro na moral. não tendo Jesus Cristo jamais exigido anatas 19 nem reservas. traficou com indulgências como se fossem gêneros alimentícios num mercado público. Seu filho. com o santo nome de Jesus acima do quadro? Que espetáculo para olhos já fascinados e para imaginações tão inflamadas quanto submissas a seus diretores! Houve épocas. todo o mundo reconhece que essa queixa era legítima.

o massacre de Vassy. até expirarem através do mais longo e terrível suplício que a barbárie jamais inventou. é claro que já pagamos desde Francisco I. considerando os diferentes preços do marco de prata. e. sobretudo o do conselheiro do parlamento Dubourg. seis mil acabaram sendo mortas. não faziam com isso um grande mal ao reino. certamente. assim experimentavam aos poucos os tormentos da morte. ignoravam os processos e a guerra. devemos-lhes o desenvolvimento do espírito humano. por muito tempo enterrado na mais espessa barbárie.. eram culpados. a velhice ou a infância. sem blasfêmia. convir. e. ao proporem a abolição desses impostos singulares que haverão de espantar a posteridade. Eles imitaram as crueldades de seus inimigos: nove guerras civis encheram a França de mortandade. enfim. mas que proporcionavam benefícios ainda maiores. Acrescentemos que eles eram os únicos que sabiam a língua grega e conheciam a Antiguidade. sobre a qual o poste era abaixado e erguido alternadamente.. Não dissimulemos que.. animados por eclesiásticos contra os habitantes de Mérindol e Cabrieres. que os heréticos. após a qual foram executados vários desses infelizes. em duzentos e cinqüenta anos. Sua vida pastoril e tranqüila relembrava a inocência atribuída às primeiras idades do mundo. alguns membros do parlamento da Provença. o suplício de mil heréticos. cento e vinte e cinco milhões. armaram os perseguidos.. por eles condenadas. muito beneficiava os monges. como atacavam dogmas muito respeitados 20 .. O rei. até então desconhecidos. sem perdoar o sexo. Pode-se. uma paz mais funesta do que a guerra produziu a Noite de São Bartolomeu. Eles não se defenderam: foram chacinados como animais fugitivos mortos num cercad0 21 • Após a morte de Francisco I. As cidades vizinhas só eram conhecidas deles pelo tráfico dos frutos que iam vender. como negavam o purgatório. sendo antes bons calculadores do que maus súditos. como não reverenciavam relíquias que devem ser reverenciadas. Esses povos. acendia-se uma grande fogueira. finalmente. E eis qual foi essa execução: eram suspensos na ponta de um comprido poste que oscilava sobre uma árvore. marchou em Paris à frente de uma procissão. os processos no tribunal de Roma e as dispensas que subsistem ainda hoje nos custassem apenas quinhentos mil francos por ano. solicitaram ao rei tropas para apoiar a execução de dezenove pessoas da região. cuja seita havia se multiplicado ao clarão das fogueiras e sob o ferro dos carrascos. príncipe não obstante mais conhecido por suas galanterias e seus infortúnios do que por suas crueldades. da qual não havia nenhum exemplo nos anais do crime. trinta burgos foram reduzidos a cinzas. Haviam-se estabelecido há tre>' zentos anos em desertos e montanhas que tornaram férteis por um trabalho inacreditável. atualmente. a primeira resposta que lhes deram foi jogá-los na fogueira._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . apesar de seus erros.. A Liga assassinou Henrique III e Henrique IV. de terem nascido valdenses. do qual não se deve duvidar e que. aliás. portanto. essa soma representa cerca de duzentos e cinqüenta milhões. Ainda que as anatas.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ coisas. 18 Pouco tempo antes da morte de Francisco I. que os protegia e financiava na Alemanha. Entretanto. pelas mãos de um frade dominicano e de um monstro que ha19 . A raiva sucedeu à paciência. era sua única iniqüidade.

se o que aconteceu em certas circunstâncias deve acontecer em outras. e em que povos ela é permitida Alguns disseram que. estaríamos pondo-lhes armas nas mãos. de Coutras. certamente. portanto se insurgirão quando lhes fizer o bem. se os tempos. deixaram-se tomar pelo fanatismo e manchar de sangue como nós." Eu ousaria tomar a liberdade de convidar os que estão à testa do governo e os destinados aos grandes postos a examinarem com ponderação se devemos de fato temer que a doçura produza as mesmas revoltas que a crueldade faz nascer._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ via sido frade bernard022 • Há pessoas que pretendem que a humanidade. em boa-fé. etc. a indulgência e a liberdade de consciência são coisas horríveis. Ignoro isso. mas parece-me que não é raciocinar conseqüentemente afirmar: "Esses homens insurgiram-se quando lhes fiz o mal. os bons livros. a opinião. a razão que faz tantos progressos. Os huguenotes. porque não sou profeta. teriam elas produzido calamidades comparáveis? CAPÍTULO IV Se a tolerância é perigosa. de Dreux. mas a geração presente é tão bárbara quanto seus pais? O tempo. os costumes são sempre os mesmos. que veríamos novas batalhas de ]arnac. se usássemos de uma indulgência paternal para com nossos irmãos errantes que rezam a Deus em mau francês. de Moncontour. a mansuetude da sociedade não penetraram nos que conduzem o espírito desses povos? E não percebemos que 20 21 . de Saint-Denis. mas.

a mera filosofia.. assim. proscrito. do T. produziu desastres tanto na Alemanha. tornarem-nos mutuamente parricidas e condenarem-nos à danação ao mesmo passo em que os exterminavam todos. de suas mães. A universidade da Alsácia está em mãos dos luteranos. é o que relatam todos os anais. o policiamento geral. a diferença das religiões não causa nenhum problema nesses Estados._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . não permite temer o retorno daqueles tempos anárquicos em que camponeses calvinistas combatiam camponeses católicos arregimentados às pressas entre o plantio e as colheitas.. A filosofia.) 23 . eles ocupam uma parte dos cargos municipais. não mais se teme que as disputas de um Gomar23 sobre a predestinação façam rolar a cabeça do grande pensionista*. outros cuidados. que cometeram os mesmos excessos naqueles tempos de frenesi: isso seria não apenas injusto. ao despertar de sua embriaguez. em Londres.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ quase toda a Europa mudou de face de uns cinqüenta anos para cá? Por toda a parte o governo se fortaleceu. É o que relata Rapin-Thoiras. essa irmã da religião. Nós mesmos. sustentado por exércitos numerosos sempre existentes.. imaginando. por não ter reconhecido a Henrique III o direito de reinar. colocarem um punhal na mão dos prisioneiros garroteados e conduzirem seus braços ao ventre de suas mulheres. o anabatista. que as querelas dos presbiterianos e dos episcopais. o menonita. quase contemporâneo. porque Sisto V. temos uma província opulenta em que o luteranismo prevalece sobre o catolicismo. 22 Na Holanda. (N. Certamente não se irá investigar outras corporações do reino. Acaso iremos saquear Roma. enquanto os costumes abrandaram. em 1585. prendendo as filhas ao pescoço delas e verem'nas expirar juntas. no entanto. o morávio e tantos outros vivem como irmãos nesses países e contribuem igualmente para o bem da sociedade. e o espírito humano. retirarem os fetos e darem-nos de comer aos porcos e aos cães. Outros tempos. na Inglaterra e mesmo na Holanda. concedeu nove anos de indulgência a todos os franceses que pegassem em armas contra seu soberano? Não é suficiente impedir Roma de entregar-se a excessos semelhantes? O furor que inspiram o espírito dogmático e o abuso da religião cristã mal compreendida derramou sangue. o luterano. Aliás. desarmou mãos que a superstição por muito tempo havia ensangüentado. o grego. de suas filhas. o grande Henrique IV. espantouse com os excessos a que o fanatismo o havia levado. Seria absurdo dizimar hoje a Sorbonne por ter requerido outrora que a Donzela de Orléans fosse queimada. espalhem o sangue de um rei sobre um cadafals024 • A Irlanda povoada e enriquecida não verá mais seus cidadãos católicos sacrificarem a Deus durante dois meses os cidadãos protestantes.. por ter excomungado. o sociniano. como fizeram as tropas de Carlos v. abrirem o ventre das mulheres grávidas. suspenderem as mães em forcas. como na França. Não se teme mais. mas tão insensato como purgar todos os habitantes de Marselha porque tiveram a peste em 1720. de seus pais. todas as histórias da Inglaterra e o que por certo jamais será imitado. o católico. o calvinista. jamais a • Nome dado ao representante da assembléia e do conselho de Estado da Holanda com funções comparáveis às de primeiro-ministro. envolvendo uma liturgia e uma sobrepeliz. enterrarem-nos vivos. o judeu. na França... Hoje. oficial na Irlanda.

os católicos. tolera-se aí um patriarca latino. O sultão nomeia bispos latinos para algumas ilhas da Grécia 26 . Pedro. O corpo dos bispos. mas não porque fosse intolerante. a adoração simples de um único Deus. seria esse o maior obstáculo à tolerância. no entanto. nos países estrangeiros._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . segundo seu antigo costume e suas vãs cerimônias. não podem aspirar aos cargos. porque só batizava seus filhos aos quinze anos. são caridosos e generosos. vistos como adeptos do partido do pretendente. e sim porque os jesuítas. se a sabedoria dos tribunais não os houvesse sempre contido. Devem pensar que seus diocesanos fugitivos não se converterão. favoreceu todos os cultos em seu vasto império. o Grande. Propuseram-lhe expulsar e perseguir um. desde mais de quatro mil anos que é conhecido. é uma justiça que devemos fazerlhes. e que. expulsou os jesuítas. Eles mesmos relatam. talvez o mais sábio e magnânimo que houve na China. à Pérsia. afora isso. o próprio mufti [intérprete da lei muçulmana] nomeia e apresenta ao imperador o patriarca grego. duzentos mil gregos vivem com segurança em Constantinopla.T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ menor querela religiosa perturbou o repouso dessa província desde que ela pertence a nossos reis. Suspeitaram-se alguns bispos franceses de pensar não ser de sua honra nem de seu interesse ter calvinistas em sua diocese." Esse impérió está repleto de jacobitas. eram-lhe muito necessários. 24 Saiamos de nossa pequena esfera e examinemos o resto de nosso globo. na França. Ide à Índia. O Grande Senhor governa em paz vinte povos de diferentes religiões. à Tartária. quanto maior o número de cidadãos. é composto de pessoas de qualidade que pensam e agem com uma nobreza digna de seu nascimento. gozam de todos os direitos dos cidadãos. nestorianos. servindo-se da seguinte fórmula: "Ordenolhe que vá residir como bispo na ilha de Quios. É verdade que o grande imperador Yung-Ching. vós 25 . tinha um anabatista como feitor e um sociniano como coletor de impostos. pagam inclusive imposto dobrado. e o outro. cristãos de São João. Um bispo de Varmie. judeus. porque não acreditava na consubstancialidade. ao contrário.. poderiam ser esclarecidos por suas instruções e tocados por seus exemplos. guebros.. O governo da China jamais adotou. o eram. Não posso acreditar. Não digo que todos os que não são da religião do príncipe devam ter acesso aos postos e às honras dos que são da religião dominante. senão o culto dos noáchidas27 . o temporal não sairia perdendo e. e o corpo político nunca foi prejudicado. na Polônia. tolera as superstições de Fô 28 e uma quantidade de bonzos que seria perigosa. há coptas. haveria honra em convertê-los. em suas Cartas cu riosas 29 .. banianos. o comércio e a agricultura ganharam com isso. as palavras que lhes disse esse bom príncipe: "Sei que vossa religião é intolerante. mas. neste. Por quê? É que lá não se perseguiu ninguém2s • Buscai não perturbar os corações. e vereis a mesma tolerância e a mesma tranqüilidade.. voltando para junto de seus pastores. Na Inglaterra. tanto mais as terras dos prelados renderiam.. monotelistas. Os anais turcos não fazem menção de nenhuma revolta provocada por alguma dessas religiões. e todos os corações estarão a vosso dispor. mas que. sei o que fizestes nas Manilas e no Japão. o bispo respondeu que eles seriam eternamente condenados no outro mundo.

eles são em número de cem mil. foram tão virtuosos e ensinaram inutilmente a paz ao resto dos homens? Na Pensilvânia.. Os japoneses31 eram os mais tolerantes de todos os homens. Em vão o ministro Colbert. portanto. essa liberdade não fez nascer nenhuma desordem. era suficiente estar informado das querelas indecentes dos jesuítas. a pretexto de mostrar termômetros e eolipilas à corte. tentou estabelecer um comércio com seu império: eles mostraram-se inflexíveis.. a discórdia. se conhecesse nossos tempos da Liga e da conspiração dos barris de pólvora30? Para ele. capuchinhos. Leitores atentos. 26 Assim. Enfim.. que se comunicam com seus pensamentos. a teologia. vede a Carolina. então. Voltai os olhos para o outro hemisfério. essa tolerância jamais suscitou guerra civil. afogada em ondas de sangue. enquanto a intolerância cobriu a terra de chacinas. dos primitivos.. entre a mãe que quer que matem seu filho e a mãe que o cede para que ele viva33! Não falo aqui senão do interesse das nações. Doze religiões pacíficas haviam se estabelecido em seu império. mas. dominicanos. Deus nos livre de citar esse exemplo para instar a França a imitá-lo! Só o relatamos para mostrar que o maior excesso até onde pode chegar a tolerância não foi seguido da mais leve dissensão.. Podia ele. padres seculares. portanto. os jesuítas vieram completar a décima terceira._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ ." Lede todo o discurso que ele houve por bem fazer-lhes e encontrareis o mais sábio e o mais clemente dos homens. semelhantes àqueles que os ingleses expurgaram de sua ilha. já haviam incitado à revolta um príncipe real? E que teria dito esse imperador se houvesse lido nossas histórias. sentindo a necessidade que tínhamos dos japoneses. Mas com que bondade os mandou de volta! Que cuidados paternos dispensou-lhes para a viagem e para impedir que os insultassem no caminho! O próprio banimento deles foi um exemplo de tolerância e de humanidade. enviados da outra ponta do mundo a seus Estados: vinham pregar a verdade e anatematizavam-se uns aos outros. entre essas duas rivais. a lembrar-lhes a todo instante que os homens são irmãos.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ enganastes meu pai. Imploro todo leitor imparcial a pesar essas verdades. Mas o que é muito útil e muito bom numa colônia nascente não é conveniente num antigo reino. como devo. retificá-las e desenvolvê-las. considero neste artigo apenas o bem físico e moral da sociedade. chamados quakers por derrisão e que. não fez mais do que mandar de volta perturbadores estrangeiros. não querendo tolerar as outras. com efeito. A religião cristã foi. Que se julgue. pois. e respeitando. com costumes talvez ridículos. não espereis enganar-me também. logo. os quais não têm necessidade nenhuma de nós. Que diremos. acolher físicos da Europa que. a controvérsia são ignoradas na pátria feliz que construíram para si e o simples nome de sua cidade de Filadélfia 32 . assolou o país.. da qual o sábio Locke foi o legislador: bastam sete pais de família para estabelecer um culto público aprovado por lei. sabemos o que resultou: uma guerra civil. O imperador. não menos terrível que a da Liga. vão sempre mais longe que o autor34 • 27 . é o exemplo e a vergonha dos povos que ainda não conhecem a tolerância. enfim. os japoneses fecharam seu império ao resto do mundo e passaram a nos ver como animais ferozes. nosso continente inteiro prova-nos que não se deve anunciar nem exercer a intolerância.

jansenistas . reformados. em Metz. se a paz de Vestefália não tivesse proporcionado enfim a liberdade de consciência.não podemos tolerar e admitir calvinistas mais ou menos nas mesmas condições que os católicos são tolerados em Londres? Quanto mais seitas houver. e sua glória na felicidade deles. 29 . anabatistas mortos uns pelos outros. todas são reprimidas por justas leis que proíbem as assembléias tumultuosas. os tributos aumentados. as sedições e que estão sempre em vigor pela força coativa. um prelado humano e sensato. temos luteranos.CAPÍTULO V Como a tolerância pode ser admitida Ouso supor que um ministro esclarecido e magnânimo. tanto menos perigosa cada uma será. um príncipe que sabe que seu interesse consiste no maior número de súditos. molinistas. ele diz a si mesmo: que risco correria eu em ver a terra cultivada e melhorada por mais mãos laboriosas. na Alsácia35 . Temos judeus em Bordéus. a multiplicidade as enfraquece. as injúrias. dignar-se-á lançar os olhos sobre este escrito informe e defeituoso: suprem-no suas próprias luzes. evangélicos. o Estado florescendo mais? A Alemanha seria um deserto coberto pelas ossadas de católicos.

Ousaram proscrever esta proposição. era dizer aos homens: 31 . mas. De tempos em tempos surgem outros. Temos na Europa mais de cem volumes de jurisprudência sobre a feitiçaria e sobre a maneira de distinguir os falsos feiticeiros dos verdadeiros. ou monotelista. A escória dos insensatos de Saint-Médard contou muito pouco na nação. Se alguém ousasse hoje ser carpocratiano. a certidão reconhecida de seus filhos. ou eutiquesiano. Acreditaram estar ainda naqueles tempos de ignorância em que os povos adotavam sem exame as asserções mais absurdas. A nação começava a entreabrir os olhos quando os jesuítas Le Tellier e Doucin fabricaram a bula Unigenitus. monofisista. Não se trata mais de dar privilégios imensos. desaparecem. que é de uma verdade universal em todos os casos e em todos os tempos: "O temor de uma excomunhão injusta não deve impedir de cumprir seu dever. e o fundamento da moral. Há fanáticos ainda na populaça calvinista. Aristóteles. é submeter essa doença do espírito ao regime da razão. A moda passou. torna agradável a obediência às leis. inspira a indulgência. apoiada pela força. não pedem senão a proteção da lei natural. as liberdades da Igreja galicana. os homens. como de um homem vestido à antiga. quase nada 36 • O grande meio de diminuir o número de maníacos. ao horror do vazio. É preciso sempre partir do ponto em que se está e daquele a que chegaram as nações.. mas é certo que os há em maior número na populaça convulsionária. abafa a discórdia. Os tempos passados são como se jamais tivessem existido. basta implorá-lo em favor dos infortunados. o que aconteceria? Ririam dele. encontrará com facilidade esses meios. a dos profetas calvinistas. nada de direito aos cargos municipais._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Sabemos que vários chefes de família. que esclarece lenta. que enviaram a Roma. quando fizeram seu efeito. são inumeráveis." Era proscrever a razão. Houve um tempo em que se julgou necessário emitir decretos contra os que ensinavam uma doutrina contrária às categorias de Aristóteles. Não cabe a nós indicar ao ministério o que ele pode fazer. que tantas outras nações empregam de maneira exitosa. outrora tão importantes. humana. a validade de seus casamentos. de abrandar editos talvez necessários outrora. nada de templos públicos. os feiticeiros e os gafanhotos foram deixados em paz. mas de deixar viver um povo pacífico. se restarem. A excomunhão dos gafanhotos e dos insetos nocivos às colheitas esteve muito em moda e ainda subsiste em vários rituais. áreas de segurança a uma facção. às dignidades . com um colarinho de pregas e um gibão. E não se há de levar em conta o ridículo hoje associado ao entusiasmo pelas pessoas de bem? Esse ridículo é uma poderosa barreira contra as extrava30 gâncias de todos os sectários. estão dispostos a retornar à sua pátria. fortalece a virtude. que fizeram grandes fortunas em países estrangeiros. o direito de herdar dos pais. Os exemplos dessas graves demências. etc. Quantos meios de torná-los úteis e de impedir que jamais sejam perigosos! A prudência do ministério e do conselho. quando se está farto deles. Essa razão é suave. a franquia de suas pessoas. mas que já não o são. mas infalivelmente.os católicos não os têm em Londres nem em vários outros países. mais ainda do que a força é capaz. nestoriano. às qüididades e ao universal por parte da coisa. maniqueu.

foi assinada. Sabemos os desdobramentos. que podemos perceber como uma época e uma garantia da tranqüilidade pública. que cairiam sobre os habitantes do Indo. reconhecimento como a seu benfeitor. ou melhor. É. este perseguiria os gancares. a razão o aconselha e a política não se pode assustar com isso. Em todos os casos. o mongol arrancaria o 33 32 . o direito humano só pode se fundar nesse direito de natureza. Os consultores de Roma não prestaram atenção nisso. da qual nos curamos. de saciedade. certamente. As querelas foram acirradas. se os tivessem previsto. de razão. Atualmente limitamse a dizer. contanto que temais a injustiça. portanto. a prudência e a bondade do rei finalmente as apaziguaram. em alguns países: "Crê. selada e enviada. não requer mais do que um regime suave. o princípio universal de ambos. ou morrerás." Ora. CAPÍTULO VI Se a intolerância é de direito natural e de direito humano O direito natural é aquele que a natureza indica a todos os homens. na Espanha. Tendes direito aos frutos da terra que cultivastes com vossas mãos. Educastes vosso filho. e essa peste. mas sobre os quais o furor da disputa arrefeceu de tal maneira que os próprios protestantes não pregam hoje a controvérsia em nenhuma de suas igrejas. Persuadiu-se o tribunal de Roma que essa bula era necessária e que a nação a desejava." É o que dizem em Portugal. caberia então que o japonês detestasse o chinês. e o grande princípio. ele vos deve respeito como a seu pai. ou te abomino. Enfim. ela deve ser cumprida. o interesse do Estado é que filhos expatriados retornem com modéstia à casa de seu pai: a humanidade o exige. Jamais o senso comum foi ferido tão acintosamente. o qual execraria o siamês. não tens minha religião. tua província. ou te farei todo o mal que puder. Fizestes e recebestes uma promessa. tua cidade." Se fosse de direito humano conduzir-se dessa forma. O mesmo ocorre numa grande parte dos pontos que dividem os protestantes e nós: há alguns que não têm a menor conseqüência. não se percebe como. em Goa. em toda a terra: "Não faças o que não gostarias que te fizessem. A controvérsia é uma doença epidêmica a ponto de extinguir-se. é._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ Deus vos ordena jamais cumprir vosso dever. crê. há outros mais graves. teriam mitigado a bula. um homem poderia dizer a outro: "Acredita no que acredito e no que não podes acreditar. de acordo com esse princípio. monstro. esse tempo de fastio. logo não tens religião alguma: cumpre que sejas odiado por teus vizinhos.

Um estrangeiro. ao qual os gregos deram o nome de Zeus. mas creio que procediam com os homens da mesma forma que com os deuses: reconheciam todos um Deus supremo. Posso estar enganado. mas asso34 35 . embora ambos tivessem seus próprios júpitere Zeus. a religião reunia os homens e abrandava. pois. pois os tigres só atacam para comer. Havia uma espécie de direito de hospitalidade entre os deuses como entre os homens.e todos juntos se lançariam sobre os cristãos. começava por adorar os deuses locais. Quando uma cidade era cercada. Não se deixava de venerar nem mesmo os deuses do inimigo. e bem mais horrível. ainda que eventualmente lhes inspirasse ações desumanas e horríveis.. seus furores. é o direito dos tigres. nenhum impediu a liberdade de pensar. e os latinos de Júpiter. enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos. fazia-se um sacrifício aos deuses da cidade para torná-los favoráveis. Assim.-_ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ coração do primeiro malabar que encontrasse. o malabar poderia degolar o persa. CAPÍTULO VII Se a intolerância foi conhecida pelos gregos Todos os povos de cuja história temos algum conhecimento consideraram suas diferentes religiões como pontos de união entre eles: tratava-se de uma associação do gênero humano. que poderia massacrar o turco . Alexandre foi consultar nos desertos da Líbia o deus Amon. absurdo e bárbaro. que por muito tempo devoraram-se uns aos outros. às vezes. mas parece-me que. O direito da intolerância é. Todos tinham uma religião. de todos os antigos povos civilizados. chegando a uma cidade. Os troianos dirigiam preces aos deuses que combatiam pelos gregos. no meio da guerra.

tinham apenas um culto. Os gregos. Não falo das outras seitas. que feriam as idéias saudáveis que se deve ter do Ser criador e que eram todas toleradas. por mais religiosos que fossem. por argumentos de teologia: tratava-se de saber a quem pertenceria um território. como se essa guerra tivesse sido provocada pelo culto. não cabem honras à intolerância. no fundo. vejo apenas algo vago em sua Apologia. mas também de respeito por seus cultos? Um homem fino. Lançaram-se contra ele um sacerdote e um conselheiro dos Quinhentos. pelo dogma. caindo em si. enfim. que ia de casa em casa provar a esses preceptores que não passavam de ignorantes. por exemplo. a causa de sua condenação. decidiu pela cicuta. confesso que não sei precisamente de quê. enquanto honravam-se os que davam da Divindade as noções mais indignas. oradores. em seu discurso relatado por Platã037 . poetas. sofreu punição por isso. abominaram os acusadores e os juízes. nem da pátria. Fizera-se inimigo irreconciliável dos sofistas. em minha opinião. Aliás. Jamais a filosofia foi tão bem vingada nem tão honrada. nem da probidade. que não é inimigo da razão. O tribunal dos Quinhentos possuía portanto duzentos e vinte filósofos. Ele próprio confessa. foi condenado à morte por essa injustiça. Os inimigos da tolerância não devem. nem da literatura. Se esta foi. prevalecer-se do exemplo odioso dos juízes de Sócrates. que Melito. de fato. cita a guerra dos fócios. de maneira geral. o que pretende esse homem modesto e suave? Quer que façamos uma guerra sagrada38? 37 . Há uma prova mais forte não apenas de indulgência para com todas as nações. duvido que fossem encontrados alhures.. e mesmo de todos os preceptores encarregados dos filhos da elite. jamais uma cidade grega combateu por opiniões. E assim que procedem diariamente os caluniadores no mun36 do. e morreu mártir da Divindade. A maioria. Sócrates. que o acusaram._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . a acusação de inspi: rar aos jovens máximas contra a religião e o governo. pontos de acusação precisos e circunstanciados: é o que o processo de Sócrates não nos fornece. atribui-se-Ihe. mas consideremos que os atenienses. achavam bom que os epicuristas negassem a Providência e a existência da alma. O exemplo de Sócrates é. mas permitiam grande quantidade de sistemas particulares. sabemos apenas que ele chegou a ter duzentos e vinte votos a seu favor.. Feixes de trigo não são um símbolo de crença. aliás. já que se puniu apenas o único a glorificar Deus. mas um tribunal requer fatos comprovados. dizem. É evidente. que ensinavam nas escolas. Os atenienses tinham um altar dedicado aos deuses estrangeiros. É muito. o principal autor da sentença.. que mais se aproximou do conhecimento do Criador. justificando recentemente a Noite de São Bartolomeu. aos deuses que não podiam conhecer. que Sócrates foi vítima de um partido furioso animado contra ele. que os outros foram banidos e que se ergueu um templo a Sócrates. Tal conduta não era digna daquele que um oráculo havia declarado o mais sábio dos homens. é a questão de todas as guerras.-_ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ ciavam-Ihe uma quantidade prodigiosa de divindades inferiores. o mais terrível argumento que se possa citar contra a intolerância. chamada guerra sagrada. foi o único que os gregos fizeram morrer por suas opiniões.

não encontreis um único homem perseguido por suas opiniões. a própria morte é nada. são ímpias. Mas concluamos que os romanos eram muito tolerantes." Cantava-se no teatro de Roma: Post mortem nibil est. não há sequer velho imbecil que acredite neles 39 . quando muito. Cícero diz. A licença foi inclusive tão longe que Plínio. 39 . Lucrécio negou tudo. perdoemos um povo que os evangelhos não iluminam. Elas são falsas.) Não há nada após a morte. (Sêneca. coro ao final do segundo ato." Diz Juvenal: "Nec pueri credunt (sátira II. ipsaque mors nibil. As Troianas. ao falar dos infernos: "Non est anus tam excors quae credat. verso 152). nem as crianças acreditam. Cícero duvidou de tudo. o Naturalista. e não lhes fizeram a menor censura. desde Rômulo até os tempos em que os cristãos disputaram com os sacerdotes do Império.CAPÍTULO VIII Se os romanos foram tolerantes Entre os antigos romanos. começou seu livro negando a Deus e dizendo que há só um: o sol. já que elas não provocaram jamais o menor murmúrio. Abominemos essas máximas e.

foram perseguidos por esses mesmos romanos que não perseguiam ninguém. não era contemporâneo. Há exemplo 40 maior de que a tolerância era vista pelos romanos como a lei mais sagrada do direito dos povos? Dizem-nos que. vendo que havia entrado no templo. Paulo foi preso. numa época tão esclarecida como a de Tibério." Tais palavras são ainda mais notáveis nesse magistrado romano. É pouco provável que.." Esse povorei não sonhava senão em conquistar. o certo é que a superstição egípcia havia erguido um templo em Roma com o consentimento público.. mas os sete dias não haviam ainda transcorrido quando judeus da Ásia o reconheceram e. nem simulacros. embora sendo o grande pontífice de uma nação nossa soberana. não apenas com judeus. andas também. em seguida._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . Festo respondeuIhes 41 : "Não é costume dos romanos condenar quem quer que seja. que nos deu grilhões. 41 . fizeram-no deitar no templo. Deos peregrinos ne colunto. Festo só escutou a eqüidade da lei romana ao dar sua proteção a um desconhecido que não podia estimar. tu mesmo. Ísis teve um templo em Roma. limitou-se a só conceder o culto público às divindades superiores aprovadas pelo senado. era crédulo e costumava exagerar.. mas permitiram todos. até que Tibério o demoliu. tomou-o por louco. São Tiago propôs a São Paulo que raspasse a cabeça e fosse purificar-se no templo com quatro judeus. assim como na Roma moderna. acusaram-no de profanação. verdadeira ou falsa essa anedota. e que. pois ele aparentemente não teve nenhuma consideração por São Paulo. assim como nossos vencedores. passaram a ter sinagogas a partir de Augusto e as conservaram quase sempre. corrompidos pelo dinheiro de Mundus.. foi portanto cumprir todas as cerimônias judaicas durante sete dias. quando os sacerdotes desse templo. tendo São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a lei mosaica em nome de Jesus Cristo.. Parece-me evidente que esse fato é completamente falso. sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação. Portanto. tão logo os cristãos apareceram.T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ o grande princípio do senado e do povo romano era: "Deorum offensae diis curae. diz ao próprio São Paulo que era insan0 42 : Multae te litterae ad insaniam convertunt. Os judeus comerciavam nessa cidade desde o tempo da guerra púnica. uma dama da primeira classe tivesse sido tão imbecil para acreditar nos favores do deus Anúbis. em seguida ergueram-nos aos deuses majorum gentium.. Mas. Foram nossos legisladores. É verdade que Josefo é o único a relatar essa história. enganado pelas falsas luzes de sua razão. Os judeus em coro exigiram sua morte. guardando a lei". Os romanos não professavam todos os cultos. "e saberão todos que não é verdade o que se diz a teu respeito. Não tiveram nenhum objeto material de culto sob Numa. mas com gentios. compete apenas aos deuses cuidar das ofensas feitas aos deuses. tomo por prova o próprio São Paulo. A lei das doze tábuas. sob o nome do deus Anúbis. e jamais César. pelo contrário. quis forçar-nos a abandonar nossos druidas por ele. cristão. Paulo. levado ante o governador Félix e. Os Atos dos Apóstolos nos mostram que 40 . que os gregos lhes fizeram conhecer. não davam a todos a sanção pública. governar e civilizar o universo. nem estátuas. enviado ao tribunal de Festo. sentiu por ele apenas desprezo. com uma mulher chamada Paulina. leis e jogos.

Não foram os romanos que se insurgiram contra São Paulo. apesar das leis que delas os excluíam._ _ _ _ _ _ _ _ _ _~Vo/taire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . reprimiam então os judeus que os perseguiam. e não de um romano. os imperadores tivessem prodigalizado dignidades aos judeus e perseguido. Provavelmente houve tumulto nas sinagogas de Roma. Ele se enganava. é impossível atribuir à intolerância o desastre acontecido sob Nero a alguns infortunados semijudeus e semicristãos46 . tinham como inimigos apenas os judeus. Os primeiros cristãos por certo não tinham questões com os romanos. impulsore Christo assidue tumultantes. os perseguiu. nos arredores de Batávia. Roma expulit. Foram somente judeus que apedrejaram Santo Estêvã0 43 . Suetônio escrevia sob Adriano. no segundo século. dizem.T r a t a d o sobre a to/erância _ _ _ _ _ _ __ Eis O próprio Espírito Santo a declarar que os romanos não eram perseguidores e que eram justos. Tácito nos conta que foram acusados do incêndio de Roma e que os entregaram ao furor do povo. ao dizer que fora por instigação de Cristo: não podia estar a par dos detalhes de um povo tão desprezado em Roma como era o povo judeu. na Vida de Cláudio (cap. entregue aos carrascos e às feras. há alguns anos. foram os judeus. mas não se enganava sobre a ocasião dessas querelas. cristãos que eram vistos como uma seita dos judeus? 42 Nero. certamente não agia como cidadão romano. e os judeus expulsos voltaram logo em seguida. da crença dos cristãos? Certamente que não. foram imolados à religião? Por mais que queiramos nos enganar.. dos quais começavam a separar-se. Suetônio diz. irmão de Jesus. Sabemos o ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que abandonam sua seita. e.. 43 . longe de oprimir os primeiros cristãos.. após a destruição de Jerusalém.. São Tiago. os cristãos ainda não se distinguiam dos judeus aos olhos dos romanos. Diremos que os chineses mortos pelos holandeses. Queriam que a sinagoga de Roma tivesse para com seus irmãos separados a mesma indulgência que o senado tinha para com ela. em tal acusação. É o que nos dizem Díon Cássio e Ulpian045 • Será possível que. quando São Paulo vestia a capa dos executores 44 .. foi apedrejado por ordem de um judeu saduceu. A passagem de Suetônio faz ver que os romanos. obtiveram até honrarias. XXV): judaeos. Tratava-se.

os Trajano. Todas eram toleradas.CAPÍTULO IX Acerca dos mártires Posteriormente houve mártires cristãos. que tinham um culto particular. eram permitidos sem contradição? Cumpre que a perseguição tenha tido outras causas e que os ódios particulares. o dinheiro dos cristãos que tinha em sua guarda. todos estranhos ao culto romano. É bem difícil saber com precisão por que razões esses mártires foram condenados. sustentados pela razão de Estado. num tempo em que todos os outros eram permitidos? Os Tito. quando São Lourenço recusa ao prefeito de Roma. eles não sabiam que São Lourenço havia distribuído esse dinheiro aos pobres e 45 . tenham derramado o sangue dos cristãos. da deusa da Síria. os Décio não eram bárbaros: como imaginar que teriam privado somente os cristãos de uma liberdade que a terra inteira usufruía? Teriam ousado acusar apenas os cristãos de ter mistérios secretos. Cornelius Secularis. enquanto os mistérios de Ísis. mas ouso pensar que. como poderiam visar e perseguir homens obscuros. Por exemplo. Mitra. nenhum o foi simplesmente por sua religião. os Antonino. é natural que o prefeito e o governador ficassem irritados. sob os primeiros Césares.

fez em Arles a mesma coisa que São Polieuto havia feito na Armênia. após a procissão. Era muito ajuizado e muito piedoso não crer nesses deuses. teria merecido uma forte reprimenda. o que é atestado pela fórmula Deus optímus maximus. julgaram-no um rebelde. predecessor de João Calvino. nem egípcios. que não recebeu. onde rendem-se aos deuses ações de graças pela vitória do imperador Décio. entregue às feras. e teriam perseguido os que adoravam um Deus único? Não é verossímil que alguma vez tenha havido uma inquisição contra os cristãos sob os imperadores. o eremita. Tertuliano. A primeira severidade jurídica exercida contra os cristãos foi a de Domiciano. nem que este tivesse conversado com centauros e sátiros. A acusação era injusta. V).. em procissão. ali insulta os sacrificadores. Os mártires. admite 49 que os cristãos eram vistos como rebeldes. Lac47 . mas provava que não era apenas a religião dos cristãos que excitava o zelo dos magistrados. mas se. Certamente não comparo os primeiros sacramentários aos primeiros cristãos: não coloco o erro ao lado da verdade. à noite. porque perturbava a ordem. derruba e quebra os altares e as estátuas: em que país do mundo perdoariam semelhante atentado? O cristão que rasgou publicamente o edito do imperador Diocleciano e que atraiu sobre seus irmãos a grande perseguição nos dois últimos anos do reinado desse soberano não tinha um zelo conforme a sabedoria e sentiu-se muito infeliz por ser a causa do desastre de seu partido._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . nem druidas.. portanto. Te-Io-ão condenado apenas por sua religião? Ele vai ao templo. Farel lança-se com alguns dos seus sobre os monges que levavam Santo Antônio. nem filósofos foram jamais perturbados. Se tivesse se contentado em gritar a esses monges que não acreditava que um corvo tivesse trazido a metade de um pão a Santo Antônio eremita. houvesse examinado pacificamente a história do corvo. que irrompeu com freqüência e foi inclusive condenado por vários padres da Igreja.. que tenham vindo interrogá-los sobre suas crenças. provavelmente constituiu a origem de todas as perseguições. um Deus soberano. nem sírios. restitutis etiam quos relegaverat". e o fizeram perecer17 • Consideremos o martírio de São Polieuto. Sobre essa questão. foram os que se rebelaram contra os falsos deuses. todos aqueles que eram acusados apenas de adorar pacificamente um justo? O quê! teriam reconhecido um Deus suprem048 . porque teve tempo de fugir. 46 O quê! os romanos teriam suportado que o infame Antínoo fosse colocado entre os deuses secundários e teriam trucidado... diz Tertuliano (cap. Diz Tertulian050 que os cristãos recusavam-se a ornar suas portas com ramos de louro nos festejos públicos pelas vitórias dos imperadores: podia-se facilmente tomar essa atitude condenável por um crime de lesa-majestade. nada teriam a lhe censurar. mas se. senhor de todos os deuses secundários. somos forçados a reconhecer que eles próprios eram intolerantes. em sua Apologética. isto e. dispersa-os e atira a estátua de Santo Antônio no rio. por mais absurdo que pudesse ser. manifestaram-se violentamente contra o culto estabelecido.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ que fizera uma obra caritativa e santa. Levavam pelas ruas a estátua de Santo Antônio. agride-os. Ele merecia a morte. mas limitou-se a um exílio que não durou um ano: "Facile coeptum repressit. Mas FareI. Esse zelo irrefletido. dos centauros e dos sátiros. nem judeus. nem bardos. não contentes de adorar um Deus em espírito e em verdade.

mas se tivessem sido tão violentas como dizem. Não queremos discutir aqui a opinião do erudito Dodwell sobre o pequeno número de mártires. devia atrair muito ódio ao autor.. Houve perseguições. No entanto. capo IV). de Domiciano a Décio.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ tâncio. Chamou49 . as aldeias". que escreveu com tanta força contra o culto estabelecido. se tivessem exposto jovens nuas às feras no circo. diz ele. No entanto. É certo que essas missões contínuas podiam ser facilmente acusadas de sedição pelos sacerdotes inimigos.. declara expressamente. qui vexaret Ecclesiam" CApol. É verdade que. não teria morrido em seu leito. cujo estilo é tão arrebatado. Esse mesmo Orígenes. percorrem as cidades. diz ele. escrito na África. que um texto obscuro. sempre turbulento. não obstante o que digam dele os admiradores das pirâmides52 • Quem haveria de incitar mais contra si os sacerdotes e o governo do que São Gregório Taumaturgo. anunciando Jesus a uns. mas se os romanos tivessem perseguido tanto a religião cristã. os povoados. o sacrificador do templo espantou-se de que os demônios. a Igreja foi tranqüila e florescente 5'._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . mas devia ser conhecido por pessoas próximas ao procônsul da África... Zeferino governou o rebanho de Roma durante dezoito anos e morreu pacificamente no ano 219. ali fez vários sinais da cruz. Sabe-se bem que os imperadores não leram sua Apologética. que lhe respondiam antes. povo que havia linchado um romano por ter matado um gato. acompanhado de uma mulher resplandescente de luz: essa mulher era a Virgem Santa. admite que. apesar do povo egípcio. colocam-se quase todos os primeiros papas. No dia seguinte. São João ditou-lhe uma mensagem que São Gregório foi pregar. São João Evangelista. e não suplício. Indo à Neocesaréia. não mais quisessem transmitir oráculos. em seu terceiro livro contra Celso. que falava com tanta liberdade aos pagãos e aos cristãos. não sofreu o martírio. se tivessem mergulhado cristãos no óleo fervente. Tertuliano. como teriam deixado em paz todos os primeiros bispos de Roma? Santo Irineu conta como mártir entre esses bispos apenas Telésforo. negando um Deus em três pessoas aos outros. foi interrompida quando esse execrável animal Décio oprimiu a Igreja: "Exstitit enim post annos plurimos exsecrabile animal Decius. "que houve muito poucos mártires. elas são toleradas. sedicioso e covarde.. porém. e o velho. Essa longa paz.. certamente Tertuliano. discípulo de Orígenes? Gregório vira durante a noite um velho enviado por Deus.. não chega até os encarregados do governo do 48 mundo. passou por um templo onde faziam oráculos e onde a chuva o obrigou a passar a noite. e só de tempos em tempos. povo desprezível em qualquer circunstância. os cristãos nadà negligenciam para que sua religião seja abraçada por todo o mundo. e não há nenhuma prova de que esse Telésforo tenha sido condenado à morte. É difícil combinar esse furor de perseguição com a liberdade que tiveram os cristãos de realizar cinqüenta e seis concílios que os escritores eclesiásticos contam nos três primeiros séculos. Orígenes ensinou publicamente em Alexandria e não foi condenado à morte. se o senado tivesse feito morrer tantos inocentes por suplícios inusitados. no ano 139 da era vulgar. nos antigos martirológios. mas a palavra martírio era tomada então apenas em sua verdadeira significação: martírio queria dizer testemunho.

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os. Os diabos vieram dizer-lhe que não viriam mais; comunicaram-lhe que não podiam mais habitar o templo, porque Gregório nele havia passado a noite e fizera sinais da cruz. O sacrificador mandou prender Gregório, que lhe respondeu: "Posso expulsar os demônios de onde quiser e fazê-los entrar onde me agradar. - Então faça-os voltar ao meu templo", diz o sacrificador. Gregório rasgou um pedaço de um papiro que tinha na mão e nele traçou estas palavras: "Gregório a Satã: Eu te ordeno que voltes a este templo." Puseram esse bilhete no altar. Os demônios obedeceram e, naquele dia, transmitiram seus oráculos como de costume; após o quê, cessaram, conforme nos é dito. É São Gregório de Nissa que relata esses fatos da vida de São Gregório Taumaturgo. Os sacerdotes dos ídolos certamente deviam odiar Gregório e, na sua cegueira, denunciá-lo ao magistrado; contudo, seu maior inimigo não esboçou nenhuma perseguição. Conta-se na história de São Cipriano que ele foi o primeiro bispo de Cartago condenado à morte. O martírio de São Cipriano é do ano 258 de nossa era; portanto, durante um longo tempo nenhum bispo de Cartago foi imolado por causa de sua religião. A história não nos diz que calúnias foram lançadas contra São Cipriano, que inimigos tinha, por que o procônsul da África irritou-se contra ele. São Cipriano escreve a Comélio, bispo de Roma: "Uma comoção popular irrompeu há pouco em Cartago e por duas vezes gritaram que eu devia ser jogado aos leões." É bem provável que os arrebatamentos do povo feroz de Cartago tenham sido a causa da morte de Cipria50

no; e é óbvio que não foi o imperador Galo que o condenou de tão longe por sua religião, uma vez que deixava em paz Comélio, que vivia sob seus olhos. Tantas causas secretas se misturam com freqüência à causa aparente, tantos motivos desconhecidos servem para perseguir um homem, que é impossível identificar nos séculos posteriores a origem oculta dos infortúnios dos homens mais importantes e, com mais forte razão, a do suplício de um indivíduo que só podia ser conhecido por aqueles de seu partido. ' Observe-se que São Gregório Taumaturgo e São Dionísio, bispo de Alexandria, que não foram supliciados, viviam na mesma época de São Cipriano. Por que, sendo tão conhecidos ao menos quanto o bispo de Cartago, foram deixados em paz? E por que São Cipriano foi entregue ao suplício? Isso acaso não parece indicar que um sucumbiu a inimigos pessoais e poderosos, à calúnia, ao pretexto da razão de Estado, que amiúde junta-se à religião, enquanto os outros tiveram a felicidade de escapar à maldade dos homens? É pouco provável que a simples acusação de cristianismo tenha feito perecer Santo Inácio na época do clemente e justo Trajano, já que permitiram aos cristãos acompanhá-lo e consolá-lo quando o conduziram a Roma 53 • Houve freqüentes sedições em Antioquia, cidade sempre turbulenta, onde Inácio era bispo secreto dos cristãos. Talvez essas sedições, malignamente imputadas aos cristãos inocentes, tenham chamado a atenção do governo, que se enganou, como aconteceu muitas vezes. São Simeão, por exemplo, foi acusado perante Sapor de ser espião dos romanos. A história de seu martírio conta que o rei Sapor propôs-lhe adorar o Sol; mas sabe51

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se que os persas não prestavam culto ao Sol: consideravam-no um emblema do bom princípio, de Oromase, ou Orosmade, do Deus criador que reconheciam. Por mais tolerante que se possa ser, é impossível deixar de sentir alguma indignação contra esses declamadores que acusam Diocleciano de haver perseguido os cristãos assim que subiu ao trono. Confiemos em Eusébio de Cesaréia: seu testemunho não pode ser recusado; o favorito, o panegirista de Constantino, o inimigo violento dos imperadores precedentes, deve ser acreditado quando os justifica. Eis suas palavras54 : "Os imperadores deram por muito tempo aos cristãos grandes sinais de benevolência; confiaram-lhes províncias; vários cristãos moraram no palácio; inclusive cristãs foram desposadas. Diocleciano tomou por esposa Prisca, cuja filha foi mulher de Maximiano Galera, etc." Que esse testemunho decisivo nos ensine, pois, a não mais caluniar. Convém considerar se a perseguição provocada por Galera, após dezenove anos de um reinado de clemência e de benefícios, não deve sua origem a alguma intriga que desconhecemos. Que se perceba o quanto a fábula da legião tebana ou tebéia, massacrada, ao que se diz, apenas por motivos de religião, é uma fábula absurda. É ridículo que tivessem feito vir essa legião da Ásia por causa do grande São Bernardo; é impossível que a tivessem chamado para apaziguar uma sedição na Gália, um ano depois que essa sedição fora reprimida; não é menos impossível que tenham massacrado seis mil homens da infantaria e setecentos cavaleiros numa passagem em que duzentos homens poderiam deter um exército inteiro. O relato dessa suposta carnificina começa por uma impostura eviden52

te: "Enquanto a terra gemia sob a tirania de Diocleciano, o céu se povoava de mártires." Ora, essa aventura, como foi dito, teria acontecido em 286, quando Diocleciano mais favorecia os cristãos e quando o Império Romano foi o mais ditoso. Enfim, o que deveria poupar toda essa discussão é que nunca houve legião tebana: os romanos eram demasiado orgulhosos e sensatos para formar uma legião de egípcios que só serviam em Roma como escravos, Verna CanoPi; é como se tivessem tido uma legião judaica. Temos os nomes das trinta e duas legiões que, compunham as principais forças do Império Romano; o da legião tebana seguramente não consta. Classifiquemos, pois, essa fábula juntamente com os versos acrósticos das sibilas que prediziam os milagres de Jesus Cristo e com tantas outras suposições que um falso zelo difundiu para abusar da credulidade.

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CAPÍTULO X

Acerca do perigo das falsas lendas e acerca da perseguição

A mentira por muito tempo iludiu os homens; está na hora de conhecer o pouco de verdade que se pode identificar nessas nuvens de fábulas que cobrem a história romana desde Tácito e Suetônio, e que quase sempre envolveram os anais das outras nações antigas. Como se pode acreditar, por exemplo, que os romanos, esse povo grave e severo de quem conservamos as leis, tenham condenado virgens cristãs, moças de caráter, à prostituição? É conhecer muito mal a austera dignidade de nossos legisladores, que puniam tão severamente as fraquezas das vestais. Os Atos Sinceros de Ruinart relatam essas torpezas. Mas deve-se crer nos Atos de Ruinart como nos Atos dos Apóstolos? Esses Atos Sinceros dizem, segundo Bollandus, que havia na cidade de Ancira sete virgens cristãs, de cerca de 70 anos cada uma, que o governador Teodecto condenou a passar pelas mãos dos jovens da cidade; mas tendo essas virgens sido poupadas, como é de se supor, ele as obrigou a servirem completamente nuas aos mistérios de Diana, aos quais porém jamais se assistiu a não ser com um véu. São Teodato, que na verdade era taberneiro, sem por isso ser menos fervoroso, pediu ardentemente a Deus para que fizesse

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_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . quando chegaram no lugar onde estavam os guardas. Em verdade. mas que é difícil acreditar nessa história de Bollandus e de Ruinart. É assim que começa o relato: "Santa Felicidade era romana. segundo se diz. pelo sábio e piedoso Antonino. Será preciso contar aqui a história do jovem São Romano? Lançaram-no na fogueira. e judeus que estavam presentes insultaram Jesus Cristo que deixava queimar seus confessores. diz Eusébio. ordenou que cortassem a língua de São Romano e. que se supõe ter sido arrastado por cavalos. pegou um transeunte e cortou-lhe o mesmo tanto de língua que havia cortado de São Romano. armado dos pés à cabeça. O imperador ordenou que o perdoassem e disse ao juiz que não queria complicações com Deus. é-nos apresentado sem se indicar o autor do relato. O jovem Romano. É bem provável que algum autor mais zeloso que verdadeiro tenha querido imitar a história dos Macabeus. e o cavaleiro celeste não impediu que lhe cortassem a cabeça. apesar da indulgência do imperador.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ morrer essas santas filhas. para mostrar que a operação fora feita segundo as 56 normas. eis que São Romano sai triunfante da fogueira. que confiabilidade pode ter sua His- tória? O martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos. 57 .. condenados à morte. Não cessamos de repetir que veneramos os verdadeiros mártires. mandou que a operação fosse feita por um médico. como Hipólito. Há também um Santo Hipólito. um cavaleiro celeste.. e a mera semelhança do nome levou a inventar-se essa lenda." Tais palavras deixam claro que o autor não era contemporâneo de Santa Felicidade.. filho de Teseu. Logo elas apareceram a Teodato e rogaram-lhe não deixar que seus corpos fossem comidos pelos peixes. a anatomia nos ensina que um homem sem língua não poderia viver. que. o imperador confiou a diferentes juízes a tarefa de fazer executar a sentença. se não foram acrescentadas a seus escritos. São Teodato retirou do lago os corpos das virgens. pois. acrescenta sabiamente o autor. Foi levado perante o governador. corridas e jogos militares. vivia sob o reinado de Antonino. estas foram suas próprias palavras. o que fez o transeunte morrer na hora. embora tivesse carrascos. É dito ainda que. após ter servido para os comícios. servia então para desfiles de soldados. após o julgamento. e não no campo de Marte. temendo que sucumbissem à tentação. mas o prefeito de Roma tinha seu tribunal no Capitólio. perseguiu esses guardas com a lança na mão. Deus lhe atendeu: o governador mandou que fossem atiradas num lago com uma pedra no pescoço. Diz que o pretor a julgou em seu tribunal no campo de Marte. quando Deus havia tirado Sidrach. O médico foi repreendido e. uma tocha celeste marchou sempre à frente deles e. O santo taberneiro e seus amigos foram durante a noite à beira do lago vigiado por soldados. nascido gago.. o que é inteiramente contrário a todas as formalidades daqueles e de todos os tempos. Somente isso já denota a falsificação. Esse suplício jamais foi conhecido dos antigos romanos.. Estranhas palavras para Diocleciano! O juiz. Misach e Abdênago da fornalha ardente 55 • Mal os judeus acabaram de falar. falou com loquacidade assim que teve a língua cortada.. se Eusébio escreveu semelhantes asneiras.

Se tivessem perseguido apenas a religião. há duzentos anos 56 . nos relatos dos martírios. os albigenses. nos relatos comprovados das perseguições antigas. festa que deveria ser abolida para sempre. as diferentes seitas dos protestantes? Nós os degolamos. Há mais de cem padres católicos na Inglaterra e na Irlanda. festa cruel.. deixaram-nos viver tranqüilos na última guerra 57 • Seremos sempre os últimos a abraçar as opiniões sensatas das outras nações? Elas se corrigiram. Gostaríamos de cometer a mesma injustiça? E quando os censuramos por ter perseguido.. acompanhá-lo ao suplício. e nós. Em nenhum país protestante os padres católicos são tratados desse modo. Acaso existe. mas com verdade: nós. quando nos corrigiremos? Foram precisos sessenta anos para que adotássemos o que Newton havia demonstrad0 5B . de Valence. Enforcamos. Se o rei tivesse conhecimento deles. onde o prazer é a única coisa importante. os queimamos em massa. são conhecidos. não teriam imolado esses cristãos declarados que assistiam a seus irmãos condenados e que eram acusados de fazer encantamentos com os restos dos corpos martirizados? Não os teriam tratado como tratamos os valdenses. quando começaremos a praticar os verdadeiros princípios da humanidade? E com que cara podemos censurar os pagãos por terem feito mártires. quando temos sido culpados da mesma crueldade nas mesmas circunstâncias? Admitamos que os romanos tenham feito morrer uma multidão de cristãos apenas por causa de sua religião: nesse caso.. Nós é que destruímos cidades. perdoaria. sem distinção de idade nem de sexo. enterrar seu corpo. Nada se sabe disso em Paris. mais depressa do que um desertor é julgado. assassinos! E de quem? De nossos irmãos. do Vivarais. é que fomos perseguidores. onde se ignora tudo o que se passa na província e no estrangeiro. um único traço que se aproxime da Noite de São Bartolomeu e dos massacres da Irlanda? Há um único só que se assemelhe à festa anual ainda celebrada em Toulouse. não mais subsistem hoje. Ainda enviamos. Tais processos fazem-se em uma hora. mal começamos a ousar salvar a vida de nossos filhos pela inoculaçã0 59 • Faz muito pouco tempo que praticamos os verdadeiros princípios da agricultura. vemos sempre uma multidão de cristãos vir livremente à prisão do condenado._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . recolher seu sangue. graças a Deus.. oito dos chamados predicantes 58 ou ministros do Evangelho. de Montauban.. para perguntar-me aqui: Por que 59 . gostaríamos de ser perseguidores? Se aparecesse alguém bastante desprovido de boafé. compostos unicamente pelos próprios cristãos. ou bastante fanático. furores que. com o crucifixo ou a Bíblia na mão. ao patíbulo pobres coitados do Poitou. os romanos foram muito condenáveis. os hussitas.T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Observe-se ainda que. por vezes. cristãos. desde os tempos de Constantino até os furores dos canibais que habitavam as Cevenas. cujo único crime foi ter orado a Deus pelo rei em patoá e ter dado uma gota de vinho e um pedaço de pão levedado a alguns camponeses imbecis. na qual um povo inteiro agradece a Deus em procissão e felicita-se por ter massacrado. e não cessamos de derramar sangue e de acender fogueiras. quatro mil de seus concidadãos? Digo-o com horror. fazer milagres com as relíquias.. carrascos. desde 1745.

os católicos liquidaram um certo número de huguenotes. Eis aí certamente as conseqüências de todas as fraudes piedosas e de todas as superstições._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . dignar-se-á a consolar-nos de tão horríveis infortúnios: pois. quase todas funestas.. existe um Deus que. as imposturas. e os huguenotes. os homens há muito têm tido o seu inferno nesta vida. assassinaram um certo número de católicos. portanto não há religião. os ódios irreconciliáveis acesos pelas diferentes opiniões. o autor da Lenda dourada. considerando todos os males que o falso zelo produziu. Eu concluiria afirmando o contrário: logo.. muitas pessoas que querem instruir-se.. mais vale lançar-me nos braços da natureza do que nos do erro. tornam-se depravados porque outros foram velhacos e cruéis. considerando as guerras de religião. por sua vez. na qual o desconhecemos tanto. Outros têm a infelicidade de ir ainda mais longe: vêem que a impostura lhes pôs um freio. logo.. eis o que eu lhe responderia: Todos esses falsos milagres com os quais abalais a fé que devemos aos verdadeiros. quase todos sangrentos. prefiro depender da lei natural do que das invenções dos homens. Os homens em geral só raciocinam pela metade. é um péssimo argumento afirmar: Voragine. e de todos os sacramentos. logo. inclinam-se para o ateísmo. após esta vida passageira. Não arranqueis do corpo uma úlcera arraigada que arrastaria consigo a destruição do corpo.. 61 .Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ vindes denunciar nossos erros e nossas faltas? Por que destruir nossos falsos milagres e nossas falsas lendas? Elas são o alimento da piedade de várias pessoas. dizem: Os mestres de minha religião me enganaram. compilador da Flor dos santos. e que não têm tempo de fazê-lo suficientemente. não existe Deus. e 60 cometemos tantos crimes em seu nome. logo. só disseram tolices. Há erros necessários. da comunhão. não existe Deus. não existe Deus. e não querem sequer o freio da verdade. todas essas lendas absurdas que acrescentais às verdades do Evangelho extinguem a religião nos corações. e o jesuíta Ribadaneira. serviram-se da confissão. para cometer os crimes mais horríveis. os quarenta cismas dos papas.

gostaríeis que fosse mantida por carrascos a religião de um Deus que carrascos fizeram perecer e que pregou tão-só a doçura e a paciência? 63 . Sabeis que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes. as torturas. E se dissésseis que é um crime não crer na religião dominante. pois nào depende do homem acreditar ou não acreditar. contanto que ele não perturbe a ordem. deverá nossa religião. pelos furores. que todas as religiões são obras dos homens e que apenas a Igreja católica. Respondeis que a diferença é grande. em boafé. por ser divina. Deus irá sustentá-la sem vós. se Deus a fez. os crimes. Que péssima alternativa! Enfim. Mas. vós mesmos acusaríeis os primeiros cristãos vossos pais e justificaríeis aqueles que acusais de os ter entregue aos suplícios. e pelas ações de graças prestadas a Deus por esses crimes? Quanto mais divina a religião cristã. as prisões. tanto menos compete ao homem comandá-la. apostólica e romana é obra de Deus. mas depende dele respeitar os costumes de sua pátria. pelo exílio. reinar pelo ódio.CAPÍTULO XI Abuso da intolerância Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua razão e pensar o que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar? Exatamente60 . pelo açambarcamento de bens.

ainda não secara quando o parlamento de Paris aprovou um decreto que estabelecia a independência da coroa como uma lei fundamental. que exceção eximiria os mandatários do Estado das mesmas penas? A religião une igualmente o monarca e os mendigos. no tempo de Honório I. nos estados-gerais de 1614.. um cidadão que se apegasse ao símbolo da véspera teria sido digno de morte. Havia motivos para provocar um cisma violento entre São Paulo e São Pedro. que devia a púrpura a Henrique. é certamente com os apóstolos e os evangelistas. aliás. não professasse a religião estabelecida. Seja. por acreditar que Jesus não tinha duas vontades? Não faz muito tempo que a imaculada conceição foi estabelecida. impressionado. tendo lido a história dos concílios e dos padres da Igreja. com todos os cidadãos. pelo mesmo direito. e mandou suprimi-lo. Se fosse permitido despojar de seus bens. Aqui não é o lugar de aprofundar essas quimeras revoltantes. 65 . O cardeal Duperron. Limitar-me-ei a dizer. e se ousásseis erguer-vos contra ele. não me julgaria menos compelido pelo juramento que lhe fiz. e eu a abrevio. pelas palavras Meu pai é maior do que eu 62 . e eu fosse um de vossos juízes. mais de cinqüenta doutores ou monges afirmaram este horror monstruoso: que era permitido depor e matar os soberanos que não pensassem como a Igreja dominante. Sabe-se que nem todos os nossos dogmas foram claramente explicados e universalmente aceitos em nossa Igreja. A crueldade. vos declararia criminoso de lesa-majestade. o Grande. com a grega.. em certo grau de latitude." Seguramente não. a Igreja latina por muito tempo acreditou. e de Bérenger contra Duns Escoto. 64 Duperron levou mais longe a disputa. bens de seu pai.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Rogo-vos que vejais as conseqüências terríveis do direito da intolerância. os dominicanos ainda não crêem nela. senhor cardeal. Queremos precisamente adotar vossa suposição quimérica de que um de nossos reis. Não havendo Jesus Cristo nos dito como procedia o Espírito Santo. matar um cidadão que. lançar no cárcere. insurgiu-se. seríamos obrigados a depô-lo. após essa decisão. o Grande. Todos os jornais da época relatam os termos que Duperron utilizou em seu discurso: "Se um príncipe se fizesse ariano. Assim. tomando-as ao pé da letra e oscilando entre o concílio de Nicéia e o de Constantinopla. que procedia apenas do Pai: por fim acrescentou que procedia também do Filho. pois._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . que a merecia por sua coragem e por sua bondade. que não é porque Henrique IV fora sagrado em Chartres que lhe devíamos obediência. a injustiça seriam menores em punir hoje aquele que pensasse como se pensava outrora? Era-se culpado.. e que não se pense que ele mereça ser privado disso e arrastado à forca. se declarasse a favor de Eusébio de Nicomédia: mesmo assim eu obedeceria a meu rei. por ser da opinião de Ratram contra Paschase Ratbert. mas porque o direito incontestável de nascimento dava a coroa a esse príncipe. E os parlamentos do reino não cessaram de proscrever essas abomináveis decisões de abomináveis teólogos61 • O sangue de Henrique. permitido afirmar que todo cidadão deve herdar. Em que momento os dominicanos começarão a merecer castigos neste mundo e no outro? Se devemos aprender com alguém como nos conduzir em nossas disputas intermináveis. Pergunto se.. contra o decreto do parlamento.

que observavam o sabá e abstinham-se das carnes proibidas. teriam um campo bem vasto para combater uns aos outros. que teria massacrado centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui a prova. Tratava-se de saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. ao contrário. O sucessor de São Pedro e seu consistório não podem errar. nessa época. disse a Cefas [Pedro] na presença de todos: Se. não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem as obras. muito bem conciliadas por vários padres da Igreja.. Contudo.. São Mateus64 conta vinte e oito gerações de Davi a Jesus. mas o que não dividiu os apóstolos. consagraram a ação da Noite de São Bartolomeu.T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Paulo diz expressamente em sua Epístola aos Gálatas 63 que resistiu a Pedro porque este era repreensível. No entanto.. em sua Epístola a alguns judeus de Roma convertidos ao cristianismo. vives como gentio. por que obrigas os gentios a viverem como judeus?" Esse era um tema de querela violenta. Pela mesma razão. A caridade não foi ferida. 67 . nem entre os primeiros cristãos._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . porém. e separaramse dos gentios com receio de ofender os circuncisos. São Tiago. eles aprovaram. sendo tu judeu. esta ação era muito santa.. foi oferecer sacrifícios no templo de Jerusalém. mais zeloso. capítulo 11. religiosos e mulheres católicas que tivessem liquidado. a paz foi conservada. vi que não procediam corretamente segundo a verdade do Evangelho. porque usava de dissimulação assim como Barnabé. Um bispo espanhol ou português que se fizesse circuncidar e que observasse o sabá. a paz não foi perturbada. perto de outro. nem entre os apóstolos. Se os evangelistas se assemelhassem aos escritores modernos. O próprio São Paulo. dedica todo o final do terceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras não justificam ninguém. esses. e essas gerações são absolutamente diferentes. Aí está o que separou duas grandes comunhões entre nós 66 . os fanáticos das Ceve nas deviam pensar que seriam glorificados na proporção do número de padres.. Estranhos títulos. logo. logo. por causa dessa questão fundamental. em sua Epístola às doze tribos dispersas por toda a terra. Acrescenta Paulo: "Quando. e não como judeu.. São Lucas65 conta quarenta e uma. para a glória eterna. seria queimado num autode-fé. porque ambos comiam com os gentios antes da chegada de Tiago e em seguida retiraram-se secretamente. Sabe-se que os quinze primeiros bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos. cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso. de dois assassinos iguais em piedade. celebraram. o que tivesse estripado vinte e quatro mulheres huguenotes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação ao que só tivesse estripado doze. Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa. não se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos sobre essas contradições aparentes. Que figura faria um homem que tivesse se contentado em despojar seus irmãos e em jogá-los no cárcere. Que lição maior para tolerar-nos em nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não entendemos! 66 São Paulo.

creio eu. que pareciam arbitrárias às outras nações e submetidas ao direito positivo. Não nos preocupemos aqui em saber por que Deus impôs uma lei nova em substituição à que havia dado a Moisés e por que havia ordenado a Moisés mais coisas 69 . um direito divino para os judeus. filho de Maria. corujas. em sua mão direita e em seu pé direito.CAPÍTULO XII Se a intolerância foi de direito divino no judaísmo e se foi sempre posta em prática Chamam direito divino. Instituiu as festas. nos ordenou é de direito divino para nós. Todas essas coisas. ouriços. lebres. as cerimônias. com um bastão na mão68 . etc. mas não para a Antiguidade. em comemoração do Phasé69 . ao serem ordenadas pelo próprio Deus. assim como tudo o que Jesus Cristo. Ele quis que os judeus comessem um cordeiro cozido com alfaces 67 e que os comensais o fizessem de pé. ordenou que a consagração do sumo sacerdote se fizesse pondo sangue7° em sua orelha direita. os preceitos que foram dados pelo próprio Deus. porcos. tornavam-se. ao costume. gaviões. costumes extraordinários para nós. quis que sacrificassem o bode Hazazel pelas iniqüidades do pov07\ proibiu que se alimentassemn de peixes sem escamas. filho de Deus.

Atenhamo-nos aos limites de nosso tema. É possível até que o massacre de vinte e três mil homens provocado por Moisés por causa do bezerro erigido por seu irmão. porventura me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto pelo espaço de quarenta anos. estar provado pela Sagrada Escritura que._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . eles não seriam menos inspirados e menos divinos. o tenha feito compreender que nada se ganhava com o rigor. É inútil refutar aqui os críticos para os quais o Pentateuco não foi escrito por Moisés. e com o célebre discurso de Santo Estêvão. agora. Santo Estêvão.. sempre adoraram Moloque. os judeus conservaram por muito tempo uma completa liberdade. cada qual o que bem parece aos seus 0Ihos.. nenhuma men70 ção à festa dos tabernáculos.. antes serviremos ao Senhor.. Proibiu todo simulacro.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ do que ao patriarca Abraão. A mesma exceção à lei verificase depois no templo de Salomão: esse príncipe manda esculpir 81 doze bois que sustentam a grande nave do 71 .. ou aos deuses dos amorreus." O povo responde: "Não. no deserto. Ó casa de Israel. nos Números. nenhuma oração pública estabelecida. Esse conquistador diz aos judeus79 : "Escolhei hoje a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais.. e mais a Abraão do que a Noé7 3 • Parece que ele tem por bem adaptar-se às épocas e à população do gênero humano: é uma gradação paterna. fora os deuses estranhos que há no meio de vós~" Portanto eles tinham incontestavelmente outros deuses além de Adonai no tempo de Moisés. Mas tais abismos são demasiado profundos para nossa débil compreensão. pois. que estavam dalém do Eufrates. apesar da extraordinária punição que atraíram devido ao culto de Ápis. em cuja terra habitais. Renfã e Quium. não foi praticada. O próprio Moisés80 parece em seguida transgredir a lei que ditou. Vários comentadores têm dificuldade de conciliar as palavras de Moisés com as passagens de Jeremias e Amós. ainda que uma pequena parte dos livros de Moisés tivesse sido escrita no tempo dos juízes ou dos pontífices. não obstante erigiu uma serpente de bronze. Também citam a seu favor a história de Josué. e castigos mais severos ainda. Jeremias diz expressamente7 s que Deus não pediu nenhum sacrifício a seus pais quando saíram do Egito. no Levítico. Amós diz74 que os judeus. exprime-se assim: "Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da milícia celestiaF6 . parece-me. no Deuteronômio. relatado nos Atos dos Apóstolos. Basta." Josué replicou: "Deitai. há leis muito severas sobre o culto."78 Apóiam sua opinião no fato de não ser mencionado nenhum ato religioso do povo no deserto: nenhuma celebração da Páscoa. figuras que fizestes para as adorar?" Do culto de tantos deuses estrangeiros. vejamos em primeiro lugar o que era a intolerância entre os judeus. enfim. em seu discurso aos judeus. nem de Pentecostes. Tudo já foi dito há tempos sobre essa questão e. sinal da aliança de Deus com Abraão. no Êxodo. É verdade que. outros críticos inferem que esses deuses foram tolerados por Moisés e citam como prova as seguintes palavras do Deuteronômio 77 : "Não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui. obrigando-o a fechar os olhos sobre a paixão do povo pelos deuses estrangeiros.. a circuncisão. e acaso não levantastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do deus Renfã.

. nenhuma coerção sobre a religião. e foi aparentemente essa cabeça de bezerro mal-feita. e os demais aos animais carnívoros. ao menos. o que é o verdadeiro sentido das palavras hebraicas otho thirasch. Os vencedores encontraram no camp090 675 mil ovelhas. fizeram a partilha e mataram o resto. 61 mil burros e 32 mil meninas. É verdade que. Moisés ordenou que fossem mortas todas as crianças do sexo masculino e todas as mães. esposa muito rica de Efraim. havia perdido mil e cem peças de prata. nenhum traço de generosidade. que comerão carne humana: "Vós vos fartareis de cavalos e de cavaleiros. seu filho lhas devolveu. têm uma cabeça de águia e outra de bezerro. que fez pensar por muito tempo que os judeus adoravam um asno. na guerra contra os madianitas89 . reunindo em sua pessoa as dignidades de monarca e pontífice. tibi jure debentur". Testemunham-no os sacrifícios de Jefté92 e do rei Agag93 . Não se encontra." Vários comentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos próprios judeus. Vários comentadores afirmam inclusive que trinta 72 e duas meninas foram imoladas ao Senhor: Cesserunt in partem Domini triginta duae animae. os judeus imolavam homens à divindade._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . na nuvem dessa barbárie tão longa e tão terrível. ainda. e que lhe imolou sua filha. Mas diz. entre os profetas86 . 72 mil bois. manda erigir dois bezerros de ouro e reina por vinte e dois anos. em uma palavra. um altar do rei da Síria8s • Não se vê. cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel. 91 Na verdade. diz aos amonitas 9s : "Não é certo que aquilo que Camos. em lugar do altar dos holocaustos. houve aqueles que invocaram o céu em sua vingança: Elias fez descer o fogo celeste para consumir os sacerdotes de Baal." Essa declaração é precisa: pode levar muito longe. A história de Mica e do levita. Mas são milagres raros. A mãe de Mica. ela consagrou essa prata ao 73 . O próprio Ezequiel promete-Ihes94 . Em vão o culto dos deuses estrangeiros foi proibido. Jefté. altares e estátuas a deuses estrangeiros. sob Roboã0 83 . mas. bebereis o sangue dos príncipes. É dito 88 que. te dá. de magnanimidade. encontrada no templo por soldados romanos. O pequeno reino de Judá ergue. assassinaram-se uns aos outros. consideras como tua possessão? Assim possuiremos nós o território de todos quantos o Senhor nosso Deus expulsou de diante de nós.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ templo. Eliseu mandou vir ursas87 para devorarem quarenta e duas crianças que o haviam chamado de careca.. a quem Deus concedeu dez partes do rein0 82 . e não de suas crenças. teu deus. em toda a história desse povo. raios de uma tolerância universal. positivamente: "Tendes direito. mas sempre escapam. Pois a Sagrada Escritura não diz: julgais ter direito sobre as terras que dizeis vos terem sido dadas pelo deus Camos. Jeroboão. é também uma prova incontestável da tolerância e da maior liberdade admitida então entre os judeus.. para encorajá-los. querubins são colocados na arca. relatada nos capítulos XVII e XVIII do livro dos Juízes. mas isso foi sempre por causa de seus interesses. Sei que a maior parte dos reis judeus exterminaram-se.. e que os despojos fossem partilhados. inspirado por Deus. de beneficência. que o povo judeu foi muito ignorante e muito bárbaro. Objetam-nos. e fatos que seria um pouco duro querer imitar. é uma prova evidente de que Deus tolerava Camos. O santo rei Asa não destrói os altos 84 • O grande sacerdote Urias erige no templo. Salomão é pacificamente idólatra.

Foram. diz o judicioso dom Calmet. Um levita encarregou-se do serviço da capela." Nesse ínterim. que havia feito as crianças serem devoradas pelas ursas. como era seu costume. que buscavam apoderar-se de alguma aldeia da região e nela estabelecer-se. os costumes dessa época. Após a morte de Gedeão. colocaram o ídolo de Mica num altar. porquanto tenho um levita por sacerdote. mas uma profanação do seu. reconheço-o. uma desobediência. também. E Mica disse consigo mesmo96 . mas fez perecer cinqüenta mil e setenta homens de seu povo. uma túnica. esse mesmo Eliseu. os caminhos inescrutáveis de Deus encontram-se acima dos nossos.. assim. Enfim. apesar dos protestos desse sacerdote e apesar dos gritos de Mica e sua mãe. seus ídolos e seu levita.. as leis. Assim. tendo permitido que sua arca fosse tomada pelos filisteus num combate. que não deviam olhar. com segurança atacar a aldeia chamada Laís e ali espalharam fogo e sangue por tudo. os hebreus adoraram BaalBerite durante cerca de vinte anos e renunciaram ao culto de Adonai. Se o Senhor tivesse querido punir a idolatria. quando os filisteus. mas não tendo sacerdote levita consigo e necessitando de um para que Deus favorecesse sua empresa. devolveram a arca puxada por duas vacas que nutriam seus bezerros e ofereceram a Deus cinco ratos de ouro e cinco asnos de ouro. seiscentos homens da tribo de Dã. o idólatra. derrubando a estátua de Dagon e enviando grande quanti74 dade de ratos a seus campos. uma curiosidade indiscreta. Deram o nome de Dã a Laís. Percebe-se bem que tais castigos só competem a Deus na teocracia judaica. pergunta a Eliseu se teria permissão de seguir seu rei 97 no templo de Rimon e ali adorar com ele. sem que nenhum chefe. em memória de sua vitória. talvez até um espírito de revolta. nem sobre uma idolatria. mas se mesmo essa idolatria foi tolerada. Respondemos que o castigo do Senhor não incide sobre uma crença. Deus não pune um culto estrangeiro. não lhe responde: Vai em paz? 75 . a economia judaica diferem de tudo o que conhecemos. um manto por ano e sua alimentação. "Sei agora que o Senhor me fará bem. onde era adorado o Deus de Israel e o ídolo de Mica. então. nos séculos posteriores. nenhum sacerdote clamasse por vingança. unicamente porque haviam olhado a arca. construiu uma pequena capela. neto de Moisés. "O rigor exercido contra esse grande número de homens. foi o grande sacerdote desse templo.. quando.. o Senhor fez morrer setenta anciãos de Israel e cinqüenta mil homens do povo por terem olhado a arca. o que mais chama a atenção. só parecerá excessivo aos que não compreenderam até que ponto Deus queria ser temido e respeitado entre seu povo e que julgam os propósitos e os desígnios de Deus apenas segundo as fracas luzes de sua razão. teria feito perecer todos os filisteus que ousaram tomar sua arca e que adoravam Dagon. ]ônatas. como devem tê-lo sido as diferenças no verdadeiro culto! Alguns dão como prova de intolerância que o próprio Senhor. sobre uma diferença no culto. puniu estes últimos apenas com uma doença secreta parecida com hemorróidas. para abrandar sua cólera. mas. foram à casa de Mica e tomaram seu éfode..._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . Naamã." Portanto. Nunca é demais repetir que esses tempos e costumes não têm nenhuma relação com os nossos. E.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Senhor e mandou fazer ídolos com ela. mediante dez peças de prata. Seu crime era grande. nenhum juiz.

Tiro e Sidom. um milhão e dezessete mil talentos de prata e dez mil dracmas de ouro. idólatra.. e os enviasse aos reizinhos. mas reduzi a soma pela metade. entrega-lhe o Tabernáculo e o resto do templo. e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras". 76 Deus!O! não favorece menos Kir. toma enfim o partido de um rei idólatra.. ou Kosroes. segundo a significação comum dessa palavra. cuja construção havia custado cento e oito mil talentos de ouro. Sei que essa conta é exagerada. ele os ameaça. os tesouros não são nada aos olhos de Deus. aconselha-o. enfim. e os perdoa. Deus preocupa-se tanto com os ninivitas idólatras como com os judeus. O mesmo Jeremias. era profeta. E nós ousamos ser intolerantes! 77 . cuja mera visão havia custado a vida de cinqüenta mil e setenta judeus. deixados por Davi e seus ministros para a construção da casa do Senhor.. Edom. cabrestos 98 e cangas. a entregar-se ao rei da Babilônia!oo: "Se te renderes voluntariamente aos príncipes do rei de Babilônia. embora ele não fosse ungido. portanto. que o melk ou régulo judeu Sedecias havia mandado encarcerar.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Há mais ainda: o Senhor ordenou a Jeremias que pusesse cordas no pescoço. Melquisedeque. que não era judeu. chama-o seu pastor. então viverá tua alma. dado a Nabucodonosor. portanto. como tinha por eles um cuidado paterno. sem contar os denários empregados por Salomão. Lemos em Malaquias lO2 que "desde o nascente do sol até ao poente é grande entre as nações o meu nome [de Deus). é o verdadeiro tesouro inestimável. Koresch. Amom . Balaão. um sinal maior de predileção. e Jeremias transmitiu-lhes estas palavras do Senhor: "Agora eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor. Não há. o que. e seguisse a religião de Zoroastro. à oitava inclusive. que houve provavelmente erro de copista.." Deus."99 Eis aí um rei idólatra declarado servidor de Deus e seu favorito. foi sacrificante de Deus. seu ungido. Idolatria nenhuma foi melhor recompensada. da parte de Deus. chama-o seu cristo. que Deus não somente tolerava todos os outros povos. de Moabe . ela ainda vos espantará. meu serVO. entrega-lhe a arca. rei de Babilônia. em toda a Sagrada Escritura. tendo obtido deste o perdão. A Escritura nos ensina. Não menos surpreendentes são as riquezas que Heródoto diz ter visto no templo de Éfeso.Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ .. embora fosse usurpador aos olhos dos homens. e o nome de seu servidor. eleva a quantia a aproximadamente dezenove bilhões e sessenta e dois milhões nos valores da época.. que nós chamamos Ciro. Mas. à quarta parte. ou melchim.

se queres ir ao céu". a sarna purulenta... úlceras malignas nos joelhos e na barriga da perna. sob Moisés. que conduzia pessoalmente seu povo. Essas verdades não lhe foram anunciadas nem no Decálogo. dos gregos. Eram os dogmas dos persas. nem em alguma lei do Levítico e do Deuteronômio. punia-o e 79 . mas: "Honra a teu pai e a tua mãe . Moisés não diz: "Honra teu pai e tua mãe. com morrerem de fome e serem obrigados a comer seus filhos. essa ameaça era necessária a um povo a quem Deus não havia revelado a imortalidade da alma. tomarem empréstimo a juros dos estrangeiros e não poderem emprestar a juros.CAPÍTULO XIII Extrema tolerância dos judeus Portanto. com a sarna seca."I04 Ele só os ameaça com males corporais lOS. mas não constituíam de modo algum a religião dos judeus. ou gozarão da felicidade. dos cretenses. Há muitos outros103: Moisés diz várias vezes que "Deus pune os pais nos filhos até a quarta geração". vemos sempre exemplos de tolerância. mas em lugar nenhum lhes diz que suas almas imortais sofrerão tormentos após a morte. para que se prolonguem os teus dias. sob os juízes. com serem expostos às infidelidades de suas mulheres. nem os castigos e recompensas numa outra vida. Deus. sob os reis. dos babilônios.

porque._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ recompensava-o imediatamente após suas boas ou más ações. é verdade. seu livro foi sempre aceito. como nos informa São Jerônimo. É uma contradição. Divergiam muito mais dos outros judeus do que os protestantes divergem dos católicos. apesar do enunciado preciso dessa lei. Enfimllo. por ignorância. para uma espécie de Tártaro. a seita dos saduceus continuou acreditando que não havia castigos nem recompensas após a morte e que a faculdade de sentir e de pensar 80 perecia conosco. Os essênios pensavam que as almas dos justos iam para as ilhas afortunadas ll3 e as dos maus. É verdade que a sinagoga não permitia sua leitura antes da idade de trinta anos. Os fariseus acreditavam na fatalidade 1l1 e na metempsicose ll2 . chega até a fazer Deus dizer que lhes havia dado 108 "estatutos que não eram bons"I09. Mesmo assim. apesar da contradição formal com Moisés. fazendo justiça imediatamente após a transgressão ou a obediência. ficaremos espantados de encontrar a maior tolerância em meio aos horrores mais bárbaros. a capacidade de andar e de digerir. não havia necessidade de lhes revelar uma doutrina que reservava para o momento em que não governasse mais seu povo. Não faziam sacrifícios. mas quase todos os povos foram governados por contradições. e esta é uma verdade que Warburton usa indevidamente para provar que a lei dos judeus era divina 106 . apesar da declaração expressa de Deus de que puniria até a quarta geração. pretendem que Moisés ensinava a imortalidade da alma. quando a imortalidade da alma foi um dogma aceito. Em uma palavra. como a força ativa. que se encontram nos capítulos XVI e XXIII. reuniam-se entre si numa sinagoga particular. Está escrito que a lei de Moisés anunciava apenas castigos corporais até a quarta geração. Eles negavam a existência dos anjos. retiram do Novo Testamento uma de suas maiores vantagens sobre o Antigo. permaneceram na comunidade de seus irmãos. não obstante. sendo o próprio Deus seu rei. Houve inclusive sumos sacerdotes de sua seita. o livro de Ezequiel foi incluído no dnone dos autores inspirados por Deus. Feliz aquela que produz costumes suaves quando se tem leis de sangue! 81 . Ezequiel anuncia exatamente o contrário aos judeus e lhes diz 107 que o filho não carregará a iniqüidade de seu pai. o que provavelmente começara já no tempo do cativeiro da Babilônia. mas era por receio de que a juventude abusasse das descrições muito ingênuas da libertinagem das duas irmãs Oolá e Oolibá. se quisermos examinar mais de perto o judaísmo. Tudo era temporal. No entanto. Em uma palavra. Os que.

Um desses. Uma é a parábola em que o reino dos céus é comparado a um rei que chama os convidados às bodas de seu filho. e os matam. outros para seus negócios. sem se importarem com o convite. e tudo está pronto. se instituiu os carrascos dos autos-de-fé. se mandou construir os cárceres da Inquisição. são legítimas. Como essa alegoria refere-se apenas ao reino dos céus. O rei envia seus exércitos contra esses assassinos e destrói sua cidade." Uns. ordena que seus servidores saiam pelas estradas a convidar ao banquete todos os que encontrarem. se ordenou a intolerância. é evidente que não autoriza a nenhum homem o direito de manietar e jogar no cárcere o vizinho que teria 83 . saem para suas casas de campo.CAPÍTULO XIV Se a intolerância foi ensinada porJesus Cristo Vejamos agora se Jesus Cristo estabeleceu leis sanguinárias. alguns ultrajam os servidores do rei. vinde para as bodas. se não me engano. é manietado e lançado nas trevas exteriores. Há. poucas passagens nos Evangelhos a partir das quais o espírito perseguidor pudesse inferir que a intolerância. estando à mesa sem a veste nupcial. a coerção. manda-lhes dizer através de seus servidores 114 : "Os meus bois e cevados já foram abatidos.

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ .. e mulher.. e irmãs e ainda sua própria vida.. para estar no seio da Igreja? Jesus diz na mesma parábola 1l7 : "Não convides os teus amigos. nem teus parentes. Portanto. nem vizinhos ricos. não pode ser meu discípulo ." É verdade que não é dito expressamente que esta parábola seja um símbolo do reino dos . Longe de retirar desses coletores de impostos qualquer prerrogativa de cidadão.. pretendendo construir uma torre. e mãe.. senão: roga. pois não era 85 . mas não entregues ao braço secular. convivas assim forçados não tornariam a ceia muito agradável. e não conheço na história príncipe nenhum que tenha mandado enforcar um cortesão por tal motivo. quando o imperador.céus.. diz a seu criado 1l6: "Sai pelos caminhos e atalhos.. por que não teríamos por nossos irmãos errantes uma indulgência equivalente à consideração prodigalizada a nossos irmãos coletores de impostos? Uma outra passagem de que se abusou grosseiramente é a de São Mateus 120 e de São Marcos l2l . e. Um desculpa-se dizendo que comprou uma terra e que precisa vê-la: essa desculpa não parece justificada.. é verdade. e filhos. manda seu servo chamá-los. A outra 115 parábola é a de um homem que convida seus amigos para uma grande ceia e. vendo que ainda sobram lugares. Qual a relação. ademais. suplica. onde é dito que Jesus. após a parábola do banquete. dessa súplica e dessa ceia com a perseguição? 84 Tomando as coisas ao pé da letra. envia seus pajens aos príncipes do império convidando-os a cear. é a única profissão condenada na Escritura. após matar seus cevados. irado. Tampouco há que temer. outro diz que comprou cinco juntas de bois e que deve experimentá-las. esforça-te ao máximo." E por acaso alguma vez se inferiu daí que não se devesse de fato jantar com seus parentes e amigos tão logo tenham um pouco de fortuna? Jesus Cristo. um terceiro responde que acaba de se casar e seguramente sua desculpa é admissível. e obriga todos a entrar.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ vindo comer em sua casa sem a veste nupcial adequada. O pai de família. diz 1l8 : "Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai. Mas é evidente que um só criado não pode obrigar à força quem ele encontra para vir cear na casa de seu senhor. aleijado e conduzido à força. e a mais favorecida pelos governos. vos pergunto. aproximou-se de uma figueira na qual encontrou apenas folhas. insiste. O convite ao banquete significa a pregação da salvação. o assassinato dos enviados do rei simboliza a perseguição contra os que pregam a sabedoria e a virtude. que esses príncipes matem os pajens. pois não é à noite que se vai inspecionar sua terra. e . foram-lhes dados os maiores privilégios. e irmãos. Abusaram demais destas palavras: obriga-os a entrar. seria preciso ser cego. Obriga-os a entrar não quer dizer outra coisa. Qual de vós. estando tudo preparado. tendo fome de manhã. não se assenta primeiro para calcular a despesa?" Há alguém no mundo tão desnaturado para concluir que se deve odiar seu pai e sua mãe? E não é fácil compreender que tais palavras significam: Não oscilai entre mim e tuas afeições mais caras? Citam a passagem de São Mateus 1l9 : "E se recusar também ouvir a Igreja. nem teus irmãos. considera-o como gentio e publicano. manda vir a seu banquete os cegos e os aleijados." Isso não diz absolutamente que se deva perseguir os pagãos e os coletores de impostos do rei: eles são amaldiçoados. segundo os comentadores mais autorizados.

dos sacerdotes e dos mandatários do povo: o legislador dos cristãos sucumbe sob o ódio dos escribas. humanamente falando. Sócrates podia evitar a morte. e um Deus com um homem. o que é o sintoma mais violento e mais raro. É o pai de família que acolhe o filho pródigo 122 . ordena a Pedro jamais servir-se da espada 129 . pedem ainda mais: consente em fazer um milagre em favor deles. a verda87 . contenta-se em recomendar fidelidade à mulher adúltera 127. embora oculto sob a figura humana. a paciência. já que por toda parte busca os menores pretextos. São dadas várias explicações diferentes desse milagre. Mas quem não vê que esses dois exemplos são apenas uma justiça feita pelo próprio Deus a uma contravenção da lei? Era uma falta de respeito à casa do Senhor transformar seu adro numa loja de mercadores. O espírito de intolerância deve estar apoiado em razões muito más. perdoa a pecadora 126 . se estes fossem um dia suficientemente felizes para merecer seu ódio como ele. foi porque dignou-se aceitar toda a fraqueza do corpo humano. sua morte. Em vão o sinédrio e os sacerdotes permitiam esse comércio para a comodidade dos sacrifícios: o Deus a quem sacrificavam podia certamente. o legislador dos cristãos. mas não abusemos disso para sermos duros e implacáveis. a exemplo de Elias. que havia assumido. 86 é o samaritano caridoso 12\ o próprio Jesus justifica seus discípulos por não jejuarem125 . Praticamente o restante das palavras e ações de Jesus Cristo prega a doçura. dos fariseus e dos sacerdotes. O filósofo grego não apenas perdoou seus caluniadores e seus juízes iníquos. Seu corpo tremia e sua alma era inabalável. que seca em seguida. Jesus Cristo ofereceu-se voluntariamente. Enfim. Se ousarmos comparar o sagrado com o profano. que abusa de tudo. ele nos ensinava que a verdadeira força. como pediu-lhes que tratassem seus filhos da mesma forma. pediu a seu pai que perdoasse seus inimigos l3l • Se Jesus Cristo pareceu temer a morte. morre vítima da inveja. podia do mesmo modo punir aqueles que introduziam no país rebanhos inteiros proibidos por uma lei que ele próprio havia estabelecido. que deve traílo. a indulgência. Tais exemplos nada têm a ver com perseguições relativas ao dogma. Não se enfurece sequer contra Judas. é o operário que vem na última hora 123 e que é pago como os demais. transformando água em vinho. mas há uma só que possa autorizar a perseguição? Uma figueira não pôde dar figos no começo de março e foi tornada seca: será uma razão para fazer secar nossos irmãos de dor em todas as épocas do ano? Respeitemos na Escritura tudo o que pode fazer surgir dificuldades em nossos espíritos curiosos e vãos. se a angústia que sentiu foi tão extrema que chegou a suar sangue 132 . destruir essa profanação. busca ainda sua justificativa na expulsão dos mercadores do templo e na legião de demônios enviada do corpo de um possuído ao corpo de dois mil animais imundos. O filósofo grego perece pelo ódio dos sofistas. e não o quis. condescende inclusive à inocente alegria dos convivas das bodas de Caná 12B que. estando já afogueados de vinho. O espírito perseguidor. queriam fazer descer o fogo do céu sobre uma cidade que não quisera acolhê-lo. infinitamente superior. repreende 130 os filhos de Zebedeu que. tem muita semelhança com a de Sócrates._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ época dos figos: ele amaldiçoa a figueira.

Herodes julgou impossível que Jesus pudesse aspirar a ser chefe de partido e pretender a realeza.. ele próprio Deus. Os judeus grosseiros não tinham a menor idéia do mistério sagrado de um filho de Deus. Circuncidaram-no no oitavo dia . Pila89 . Algumas vezes essa expressão era utilizada para designar um justo137 . que teve a indigna fraqueza de condená-lo para apaziguar o tumulto excitado contra si próprio. viveu constantemente como israelita. foi batizado no Jordão... De fato.Tratado sobre a tolerância . usando de seus direitos divinos. Jesus submeteu-se à lei de Moisés desde sua infância até sua morte. eu vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-Poderoso. cegos. depois. Jesus. descendo à terra.- deira grandeza consistem em suportar males sob os quais nossa natureza sucumbe. e vindo sobre as nuvens do céu." Não nos informam o que o sumo sacerdote entendia por filho de Deus. maldosos. tratava-se de uma cerimônia consagrada entre os judeus.. absteve-se das carnes proibidas. como entre todos os povos do Oriente. chamou os escribas 133 e os fariseus de hipócritas. entretanto. primeiro o enviou a Herodes. Como este não tinha o direito de justiçar. Era assim a consagração dos sacerdotes: mergulhavam-nos na água na festa de expiação solene. Jesus responde-lhe 138 : "Tu o disseste. Sócrates não foi acusado de querer fundar uma nova seita. o Filho de Deus. sabendo que ele era galileu.. Jesus observou todos os pontos da lei: festejou todos os dias de sabá.. batizavam-se os prosélitos. portanto. É da maior evidência. se dizia rei dos judeus.. O governador Pilatos." Essa resposta foi considerada uma blasfêmia pelo sinédrio irritado. logo não o censuravam de haver pregado publicamente contra a lei. Há uma extrema coragem em dirigir-se à morte temendo-a. serpentes.. antes de sua morte. se buscavam um falso testemunho. Duas testemunhas que se apresentaram o acusaram de haver dito 135 que poderia "destruir o santuário de Deus 88 e reedificá-Io em três dias". Se. pelo que nos conta Josefo.. havia celebrado a Páscoa. Nascido israelita. Jesus foi levado ao governador romano da província e acusado caluniosamente de ser um perturbador da ordem pública. Ora. nem de haver observado algum rito estranho._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ . mas não era uma acusação de querer fundar uma nova seita. tanto mais que já havia enfrentado uma revolta dos judeus. Tal discurso era incompreensível para os judeus materialistas. como todas as outras crianças. assim como empregavam-se as palavras filho de Belial para significar um homem mau. inclusive. também não acusaram Jesus Cristo de ter querido introduzir uma 134. além do mais. que dizia não ser preciso pagar o tributo a César e que. Sócrates havia chamado os sofistas de ignorantes e acusara-os de que tinham má-fé. tetrarca da Galiléia. não o acusaram de nenhuma opinião nova. celebrou todas as festas e. Todas as máculas legais limpavam-se pelo batismo. O sumo sacerdote o interrogou e disse-Ihe 136 : "Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos diga se és o Cristo. É dito que os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho buscavam um falso testemunho contra Jesus para fazê-lo perecer. tratou-o com desprezo e mandou-o de volta a Pilatos.. insensatos. raça de víboras. que foi acusado de um crime de Estado.

(Carta de São Bernardo. e não forçai. I. impedir que escolham uma divindade: nenhum homem. CAPÍTULO xv Testemunhos contra a intolerância É um sacrilégio tirar. liv. (Tertuliano. A religião não se impõe. (Santo Hilário.) Se usassem de violência para a defesa da fé.) 90 91 . agora. e não coagir. Que nenhuma violência seja praticada contra os judeus. os bispos se oporiam a ela. 111.) Nada é mais contrário à religião do que a coerção. se é a tolerância ou a intolerância que é de direito divino? Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo. é preciso persuadir. (São Justino. a liberdade aos homens. qüinquagésimo-sexto cânone. nenhum deus gostaria de um serviço forçado.) A religião forçada não é mais religião. V) Haveremos de perseguir aqueles que Deus tolera?. Apologética. indaga Santo Agostinho. (Santo Atanásio. capo XXIV. I. (Lactâncio._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ tos não teve a mesma generosidade manifestada depois pelo governador Festo 139.) Aconselhai. (Discurso do clero da França a Luís XIII. sede mártires e não carrascos. liv. (Quarto concílio de Toledo. Pergunto. liv. liv. à base de pancadas e encarceramento. os que não puderam ser convencidos pela razão.) Não pretendemos destruir os erros pela violência. antes que sua querela com os donatistas o tornasse demasiado severo. em matéria de religião.) É uma execrável heresia querer atrair pela força. mártir.

bispo de Ní'mes. (Tillemont. a propósito das Cartas do cardeal d'Ossat. (Oe Thou. por qual inconseqüência desmentiríamos na pfática uma teoria que anunciamos todos os dias? Quando nossos atos desmentem nossa moral. numa Instrução pastoral. (Amelot de la Houssaie.) Não devemos sequer empregar termos insultantes. É a esses que se destina o capítulo seguinte.) Com a religião ocorre o mesmo que com o amor: a imposição nada consegue. (Advertência do parlamento de Paris a Henrique lI. mas certamente não há vantagem alguma em perseguir os que não são de nossa opinião e em fazernos odiar por isso. (Boulainvilliers. nossas publicações de moral. 11 de agosto de 1560. absurdo na intolerância. Epístola dedicatória a Henrique IV) A fé não se incute a golpes de espada. respiram todos. nossos discursos. (Cerisiers. nossos sermões. mas cabe aos fllhos que têm a herança do pai odiar os que não a tiveram? (Montesquieu. liv. Sobre os reinados de Henrique IVe Luís XIIL) É um zelo bárbaro pretender plantar a religião nos corações.) Lembrai-vos que as doenças da alma não se curam pela coerção e pela violência. O espírito das leis. (Bispo Ou Bellai. Por qual fatalidade. (Fléchier. os que têm interesse em atormentar as consciências não são absurdos. ensinam todos atualmente esse dever sagrado de indulgência.) 92 Se o céu vos amou o bastante para vos fazer ver a verdade. Há. (Assembléia do clero. História eclesiástica. doutor da Sorbonne. composto apenas de semelhantes passagens. XX\fl40. (Oirois. a coerção muito menos.) A violência é capaz de gerar hipócritas. etc. 93 . mais uma vez. não se persuade quando por toda parte se fazem ressoar ameaças. é que acreditamos haver alguma vantagem em fazer o contrário do que ensinamos. como se a persuasão pudesse ser o efeito da coerção.) Sabemos que a fé se persuade e não se impõe.) A experiência nos ensina que a violência é mais capaz de irritar do que de curar um mal que tem sua raiz no espírito. ele vos proporcionou uma grande graça. Nossas histórias.) Pareceu-nos conforme à eqüidade e à correta razão seguir o exemplo da antiga Igreja.) A cobrança forçada de uma religião é uma prova evidente de que o espírito que a conduz é um espírito inimigo da verdade.) Poderíamos fazer um livro enorme. Instrução pastoral de 1688. portanto. dirão._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Sempre desaprovamos as vias de rigor. liv. nossos catecismos. Estado da França. tomo VI. (Cardeal Le Camus. carta 19. não há nada mais independente do que amar e crer. VI. Mas. que jamais usou de violência para estabelecer e expandir a religião. capo iv.

CAPÍTULO XVI Diálogo entre um moribundo e um homem saudável Um cidadão estava agonizando numa cidade da província. confessa que cinco proposições encontram-se num livro que nem tu nem eu jamais lemosl41 . adota o segundo concílio de Nicéia contra o concílio de Frankfurt. Pelo amor de Deus. as ameaças que me fazes chegam confusamente aos meus ouvidos." Omorlbundo Mal escuto o que me dizes. de Santo Tomás contra São Boaventura. explica-me agora mesmo de que maneira estas palavras: "Meu pai é maior do que eu"142 significam expressamente: "Sou tão grande quanto ele. 9S . tornam minha morte medonha. admite já a opinião de Lanfranc contra Bérenger. dizendo-lhe: O bárbaro Miserável! pensa como eu imediatamente: assina este papel. perturbam minha alma. tem piedade de mim. um homem em bom estado de saúde veio insultá-lo em seus últimos momentos.

Um pouco de hipocrisia. e tua mulher. Ai! desprezas a Deus ou não o reconheces. teus filhos. a hipocrisia é algo bom: é. O bárbaro Omorlbundo Ai! percebe que nestes últimos momentos todos os meus sentidos estão abalados. como dizem. meu amigo. todas as portas do meu entendimento fechadas. Morre como hipócrita. ela me valerá um bom canonicato. que pune o perjúrio. terão do que viver. Estou te mandando! o moribundo E que interesse tens em me atormentar tanto? O bárbaro Não importa. minhas idéias fogem. o que te disse._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ O bárbaro O moribundo Piedade! não posso tê-la se não fores da minha opinião em tudo. já que me pedes uma mentira na hora da morte. meu irmão. receio que não o conheças. tu que em breve serás julgado por ele e responderás por essa mentira. o que isso custa? Como! que interesse? Se tiver tua assinatura. diz que crês. e isso me basta. insolente! Que não reconheço Deus? O moribundo Pois bem. Ornaribundo Como posso perjurar para te agradar? Em breve estarei diante de Deus. Aquele que eu adoro reanima neste momento minhas forças para dizer-te com uma voz moribunda que. 96 97 . Ele me deu minha mulher e meus filhos. O bárbaro Faz . sem discutir. não faças com que morram de miséria. Mas crê em Deus. uma homenagem que o vício presta à virtude 143 . Tenho condições de discutir? O bárbaro o que dizes. meu pensamento extingue-se. se não podes crer o que quero. deves ter caridade para comigo. eu te suplico. terás o prazer de ser enterrado num cemitério. Quanto ao meu corpo. se acreditas em Deus. faz dele o que quiseres: entrego-o a ti. O bárbaro Perdão.

. vários inclusive poderiam escapar. eu faria todas as jovens serem desposadas por bons católicos. Obdrbaro CAPÍTULO XVII Carta escrita ao jesuíta Le TeUier. eis meu último momento. como tantos grandes teólogos o provam. mas pela beleza do espetáculo. ao morrer. que não assinou! Vou assinar por ele e falsificar sua letra l44 • A carta a seguir é uma confirmação da mesma moral. se devemos matar um herege. 2º Eu mandaria assassinar em seus leitos todos os pais e mães. 1º É fácil pegar num só dia todos os pastores protestantes e enforcá-los juntos numa mesma praça. visto que não convém 98 99 . que submeto humildemente à vossa.. Obedeço às ordens que recebi de Vossa Reverência para apresentar-lhe os meios mais convenientes de livrar Jesus e sua Companhia de seus inimigos. como é meu dever. pois. porque se os matássemos nas ruas isso poderia causar algum tumulto. não somente para a edificação pública.-_ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ Ornarlbunda Ah! meu irmão.. em 6 de maio de 1714 145 o diabo carregue o impertinente. Essa execução é um corolário necessário de nossos princípios..... Mas. eis aqui minha opinião. seja qual for o número. é evidente que devemos matar todos. 3º Após a execução. outros um milhão e quinhentos mil. Creio que não restam mais de quinhentos mil huguenotes no reino. por um bene. o que deve ser evitado acima de tudo. que ele te toque e te converta.ficiado. peço a Deus. Meu reverendo padre. alguns dizem um milhão.

A conspiração dos barris de pólvora. aceleramos sua 101 . Não é menos claro que o paraíso pertence de direito aos molinistas. multiplicando doze parlamentos 147 por trinta e seis barris. eis o que sugiro ao bom arbítrio de Vossa Reverência. 7º Como dizem que os jansenistas comungam pelo menos na Páscoa. chamada pulvis pyrius l46 • Calculo que serão precisos. a cem escudos a peça. Calculo que são uns seis milhões pelo menos. 4º Penso._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ despovoar demasiadamente o Estado depois da última guerra. Quanto aos garotos menores. isso perfaz apenas quatrocentos e trinta e dois barris. não há sistema que não cause danos sob algum aspecto. 6º Será fácil envenenar o cardeal de Noailles. que o mesmo deve ser feito a todos os luteranos da Alsácia. 5º A questão dos jansenistas parecerá talvez um pouco mais embaraçosa. assim. mediante uma carta do papa. um acionando o outro. Cabe à Vossa Reverência examinar. não teve o sucesso desejado. os meios de submeter esses espíritos indesejáveis. visto que. aliás. Um crítico me dirá talvez que se correria o risco. todos os bispos do partido da boa causa e todos os párocos habilmente escolhidos pelos bispos. não seria difícil salpicar as hóstias com a droga utilizada para fazer justiça ao imperador Henrique VII. porque um dos conjurados teve a indiscrição de querer salvar a vida de um amigo. mas. que não podemos vangloriar-nos de destruir. com vossa costumeira prudência. Incluo entre os jansenistas todos os parlamentos. mas um espírito como o vosso não se deve assustar com isso. a menos que esteja enganado. notei duas velhas daquela região que riam no dia da batalha de Hochstedt. no ano de 1704. E. mas não há projeto que não tenha inconvenientes. seus bispados passarão para as mãos dos jesuítas. que é um homem simples e não desconfia de nada. que estão perfeitamente a par das leis do reino. logo. trinta e seis barris de pólvora para cada parlamento. que tão indignamente apóiam as liberdades da Igreja galicana. a fim de que essa corja não mais se reproduza. estão prometidos ao inferno. como não tendes amigo. Vossa Reverência empregará os mesmos meios de conversão junto a alguns bispos renitentes. Se nos detivéssemos diante dessas pequenas dificuldades. mas em relação aos rapazes de 14 e 15 anos. logo. dareis seus cargos aos membros de vossa congregação. que. A objeção é forte. 100 Uma vez destruídos os parlamentos. nessa operação. jamais conseguiríamos nada. Sendo. não há que temer tal inconveniente: vos será muito fácil fazer explodir todos os parlamentos do reino com a invenção do monge Schwartz. já imbuídos de maus princípios. que não merecem consideração alguma. minha opinião é que todos devem ser castrados. então. não convém escandalizar-se se esse grande bem arrasta consigo algumas más conseqüências. não fazemos mais que apressar o momento em que devem tomar posse. todos os jansenistas. na Inglaterra. serão educados em vossos colégios e açoitados até que saibam de cor as obras de Sanchez e de Molina. de envenenar também os molinistas. fazendo-os perecer inadvertidamente e sem nenhuma má intenção. Está demonstrado que todos os pretensos reformados. compõem a soma de cento e vinte e nove mil e seiscentas libras: é uma bagatela para o reverendo padre geral. como se trata de buscar o maior bem possível. Nada temos a nos censurar.

em cerca de catorze séculos. pois. em verdade.. se se quisesse responder a todas as críticas. pois não percebem. se em catorze séculos só pereceram cinqüenta milhões de homens por distinções. desde os dias florescentes da Igreja até 1707. e não proponho enforcar. 103 . mas convém examinar em que ocasiões deve-se aplicar o suplício da roda ou da forca. Poderão ainda contrapor. Quanto àqueles que poderiam ficar um pouco assombrados com o número. Mas. ou condenar às galés pessoas que não são da nossa opinião. isso representa apenas trinta e cinco mil e setecentas e catorze pessoas por ano. que minha conta não é justa e que violo a regra de três. Vossa Paternidade poderá explicar-lhes que. isto é. Parece que seria difícil executar o projeto em todos os pontos. devoto e benigno R. degolar.. 148 (natural de Angoulême. quatrocentas e sessenta e quatro mil e duzentas e oitenta pessoas a mais na fração correspondente ao presente ano. dirão. Esse é o objeto do próximo artigo. prefeito da Congregação) Esse projeto não pôde ser executado porque o padre Le Tellier viu nele algumas dificuldades e porque Sua Paternidade foi exilada no ano seguinte. somos ministros da Providência. talvez. vejamos em que casos se poderia legitimamente seguir em parte as idéias 102 do correspondente do padre Le Tellier. Em ambos os casos. pode-se mesmo dizer que é ímpia. Mas. eu mato seis milhões. Sou. com um profundo respeito a Vossa Paternidade._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ alegria. por meu procedimento. a teologia provocou o massacre de mais de cinqüenta milhões de homens. dilemas e antilemas teológicos. logo. que salvo a vida de todos os católicos até o fim do mundo? Jamais se faria nada. seu mui humilde. ou envenenar senão uns seis milhões e quinhentos mil. essa contenda é bastante pueril. como é preciso examinar os prós e os contras.

Cumpre. por que os jesuítas fazem tamanha gritaria quando os reformamos para obter a paz? 105 . os jansenistas são reprovados. era jansenista. eles só são crimes quando perturbam a sociedade. é um mal imaginário e um bem real para eles. perturbam a sociedade a partir do momento em que inspiram o fanatismo. se eles divulgaram máximas censuráveis. o que. teólogo dessa congregação. se sua instituição é contrária às leis do reino. regimentos inteiros são reformados sem queixas. no fundo. é claro que será necessário punir esses jesuítas. Se alguns jovens jesuítas. Pois onde está o mal de vestir um hábito curto em vez de uma batina. sabendo que a Igreja os reprovou com horror. que os jansenistas são condenados por uma bula e que. que os homens comecem por não ser fanáticos para merecer a tolerância.CAPÍTULO XVIII Únicos casos em que a intolerância é de direito humano Para que um governo não tenha o direito de punir os erros dos homens. Do mesmo modo. portanto. pois. e de ser livre ao invés de ser escravo? Nos períodos de paz. é necessário que esses erros não sejam crimes. não há como não dissolver sua companhia e abolir os jesuítas para fazer deles cidadãos. decidem queimar uma casa dos padres do Oratório porque Quesnel.

O mesmo diremos dos luteranos e dos calvinistas. cujo princípio era o melhor do mundo 150 • Esses crentes queriam obter a salvação eterna de seus irmãos. jerseneus. suas terras. de fato. araceus. que a maior parte dos pais e mães são suficientemente materialistas para preferirem ter junto deles seus filhos e filhas do que vêlos estrangulados para ir ao paraíso. mas as conseqüências desse princípio eram singulares. das misérias desta vida e do inferno. eles nos consideram idólatras e. se dominassem. pois. há também alguns casos e algumas leis de rigor. foram dadas aos judeus por vários pactos consecutivos. poderiam. Certamente. forem demolir a Igreja dos dominicanos. Se os judeus pensassem deste modo hoje. era fazer-lhes o maior bem possível: a uma só vez eram preservados do pecado. e não poupar senão as jovens núbeis. em uma palavra. amorreus. e todos esses povos foram votados ao anátema. Saíam. Pbis os turcos possuem o país dos eteus. seremos obrigados a tratar os franciscanos mais ou menos como os jesuítas. Um dos mais espantosos exemplos de fanatismo foi uma pequena seita na Dinamarca. e que. cineus. somos o verdadeiro rebanho. 107 . a estrangular os meninos e meninas recém-batizados que encontrassem. Eles sabiam que todos os recém-nascidos que morrem sem batismo são condenados e que os que têm a felicidade de morrer imediatamente após receberem o batismo gozam da glória eterna. Nesse caso. tomados de um santo zelo pela Virgem Maria. ainda que feito com boa intenção. Não importa que digam: Seguimos os movimentos de nossa consciência. e enviados infalivelmente ao céu. hamateus. Deus ordenou-lhes às vezes matar os idólatras. embora hoje os toleremos. o magistrado deve punir o homicídio. que não tinham nenhum direito sobre a vida dessas criancinhas. samaritanos. 106 Os judeus aparentemente teriam mais do que ninguém o direito de nos roubar e nos matar. é evidente que são eles próprios os lobos. não resta a menor dúvida. Teriam sobretudo a obrigação indispensável de assassinar todos os turcos. estes devem retomar o que é seu e que foi usurpado pelos turcos maometanos há mais de mil anos. jebuseus. heveus. embora haja centenas de exemplos de tolerância no Antigo Testamento. que pensam que Maria nasceu no pecado original. pois. é preferível obedecer a Deus do que aos homens 149 . Estes são praticamente os únicos casos em que a intolerância parece razoável. é claro que não haveria outra resposta a dar-lhes senão mandálos às galés. devemos exterminar os lobos. deixar no mundo apenas nossas filhas. Mas essas pessoas caridosas não consideravam que não é permitido fazer um pequeno mal tendo em vista um grande bem. que tinham mais de vinte e cinco léguas de comprimento._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Se os franciscanos.

ter de lidar com gente que sempre estava errada. O jesuíta respondeu-lhe que era muito doloroso para ele.CAPÍTULO XIX Relato de uma disputa de controvérsia na China Nos primeiros anos do reinado do grande imperador Kang-hi. . estes dois senhores recusam-se a submeterse às decisões do concílio de Trento. que sempre tinha razão. e perguntou-lhes qual o motivo da discussão. o quanto a polidez é necessária na disputa. disseram-lhe que era o capelão da companhia dinamarquesa.Isso me espanta . mas que no final perdera a paciência. disselhes que na China jamais se irritavam e perguntou-lhes do que se tratava. O mandarim fez-lhes ver. um mandarim da cidade de Cantão ouviu de sua casa uma grande gritaria vinda da casa vizinha. mandou servir-lhes chá e doces. um capelão da Batávia e um jesuíta que discutiam. Respondeu-lhe o jesuíta: "Excelência. o mandarim chamou os três à sua presença. Mandou averiguar se matavam alguém. E voltando-se para os dois refratários: "Parece-me que deveríeis respei109 .fez o mandarim. faço-vos juiz da questão. que a princípio havia argumentado com a maior calma. com toda a discrição possível.

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ tar as opiniões de uma grande assembléia. portanto.Não vos entendo . respondeu o mandarim. o mandarim não compreendeu nada. Não sei o que vem a ser o concílio de Trento. . que procura aqui ser gentil convosco. assim. 110 O jesuíta fez então um longo discurso. Sois. Respeitamos as grandes assembléias como é nosso dever. da mesma opinião. . fez o ministro. é evidente que ambos estão errados. O dominicano respondeu: "Se eu estivesse lá." Ao sair da audiência. . peço-vos perdão. e ambos disputam contra mim. . É assim que ensina nosso grande Confúcio. Ninguém deve acreditar que sabe mais do que os outros e que a razão só habita em sua cabeça." A querela esquentou.Oh! se é assim . replicou o mandarim. O honesto mandarim com muita dificuldade conseguiu apaziguá-los e disse-lhes: "Se quereis que tolerem aqui vossa doutrina. Não há como concordar com eles. .Até que estejam de acordo. o dominicano e o jesuíta agarraram-se pelos cabelos." 111 .asseverou o mandarim.Eles jamais se perdoarão. disseram-se grosseiras injúrias.Pois então. mandou os dois para a prisão. informado do escândalo. .disse o mandarim.Pois bem. até que finjam perdoar-se. O holandês teve a mesma sorte. eu vos teria persuadido de mentira e idolatria. O mandarim.respondeu o holandês. Enfim falaram os três juntos. Um de seus ministros perguntou-lhe: "Quanto tempo Vossa Excelência quer que eles fiquem detidos? . começai por não serem intolerantes nem intoleráveis. e que a razão está apenas do meu lado. vós e vosso colega holandês. .falou o jesuíta.tornou o mandarim -." . E se acreditais em mim. disse o outro. seus adversários olharam-no com piedade.Ah!.Em absoluto . eu os conheço. . o jesuíta encontrou um missionário dominicano. contra esse pobre jesuíta? . até que se perdoem. fareis muito bem em confiar na autoridade do concílio de Trento. e o mandarim continuou sem compreender. então ficarão na prisão pelo resto da vida. . durante o qual o dinamarquês e o holandês davam de ombros. estamos inteiramente de acordo com várias assembléias realizadas antes da de Trento. mas várias pessoas são sempre mais instruídas do que uma só. eu teria curiosidade de vos ouvir um após o outro. Foi a vez de o dinamarquês falar. Poderia perfeitamente ocorrer que estivésseis todos os três errados. assegurando que a verdade triunfava sempre. disse-lhe que havia ganho sua causa. não a teríeis ganho.Este homem tem opiniões quase tão extravagantes quanto as desse jesuíta.Isso não é tão evidente .Esses dois aí são inimigos mortais. Excelência .Vede. concluiu o mandarim.Não sois todos os três cristãos? Não viestes todos os três ensinar o cristianismo em nosso império? E não deveis por conseguinte ter os mesmos dogmas? . poderíeis ter razão." O dinamarquês tomou então a palavra e disse: "Vossa Excelência fala com a maior sabedoria.

assim como nos tempos difíceis trafica-se com moeda ruim. do que viver sem religião. a superstição torna-se não apenas inútil como 113 . quando os homens abraçam uma religião pura e santa. o mala bar teme ser punido por seu pagode. certamente é preferível ser subjugado por todas as superstições possíveis. as idéias falsas as substituem.CAPÍTULO XX Se é útil manter o povo na superstição Tal é a fraqueza do gênero humano e tal sua perversidade. uma religião é necessária: as leis protegem contra os crimes conhecidos. e a religião. Um ateu argumentador. que. O homem sempre teve necessidade de um freio e. às náiades. ainda que fosse ridículo fazer sacrifícios aos faunos. violento e poderoso seria um flagelo tão funesto quanto um supersticioso sanguinário. contanto que não sejam mortíferas. O pagão deixava de cometer um crime. Mas. quando não se tem a boa. aos silvanos. para ele. era bem mais útil e razoável adorar essas imagens fantásticas da divindade do que entregar-se ao ateísmo. Quando os homens não têm noções corretas da divindade. Onde quer que haja uma sociedade estabelecida. com medo de ser punido pelos falsos deuses. contra os crimes secretos.

mesmo depois de a religião ter sido finalmente depurada. e os adultos. os Nicole. Essas duas filhas subjugaram por muito tempo a terra inteira. os Descartes. os Arnauld. a filha muito insensata de uma mãe muito sensata. mas ele teve coragem e devoção. a esses senhores feudais. Não se pode governar a França. quando o rei Roberto foi excomungado pelo papa Gregório V. 114 Enfim a burguesia começou a suspeitar que não era Santa Genoveva quem trazia ou parava a chuva. Quando.. depois de ela ter sido esclarecida pelos Pascal. Se persistem alguns convulsionários em alguma esquina de arrabalde 152. por ter desposado sua comadre. tendo seu crucifixo caído no mar. em punição desse casamento incestuoso.. Cumpre. Os monges ficaram espantados de que seus santos não fizessem mais milagres. A superstição é. no cordão de São Francisco. alimentavam-nos com histórias de feiticeiros e possuídos. toda a cidade de Châlons moveu-lhe um processo. O número de relíquias e{a incontável. em relação à religião. o que a astrologia é em relação à astronomia... Deixou-se de acreditar que bastava recitar a oração dos trinta dias à Virgem Maria para obter tudo o que se queria e para pecar impunemente. tanto mais por ser impossível impedi-los de nascer. como a governavam no tempo dos Garasse e dos Menot. Não se deve querer alimentar com bolotas aqueles que Deus digna-se alimentar com pão. não ousariam escrever que este santo ressuscitou nove mortos 151 . mas que o próprio Deus dispunha dos elementos.- muito perigosa. podia ser perdoável apresentar fábulas ao vulgo.. os Bossuet. A cada dia a razão penetra na França. e que. em nossos séculos de barbárie. cultivar os frutos dessa razão. Nossos historiadores nos dizem que. os Fontenelle. os Gassendi._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância . eles imaginavam facilmente que São Genou curava a gota e que Santa Clara curava os olhos enfermos. faziam-nos acreditar que São Cristóvão havia levado o Menino Jesus de uma margem do rio à outra. seus vassalos. tanto nas lojas dos comerciantes como nas mansões dos senhores. A ferrugem de tantas superstições subsistiu ainda algum tempo entre os povos. O mesmo aconteceu com as excomunhões. que foi visto ao mesmo tempo no mar e em terra. isto é. refiro-me aos grandes. e. pois. Os chamados jansenistas contribuíram bastante para desenraizar insensivelmente no espírito da nação a maior parte das falsas idéias que desonravam a religião cristã. se os escritores da Vida de São Francisco Xavier voltassem ao mundo. Se os mestres de erros. Sabe-se que. seus criados lançavam pelas janelas as carnes que haviam servido ao rei e que a rainha Berta deu à luz um ganso. os Bayle. etc. quando o bispo Noailles mandou retirar e lançar no fogo a suposta relíquia do umbigo santo de Jesus Cristo. havia apenas dois senhores feudais que tinham em sua casa um Novo Testamento. um caranguejo o veio trazer-lhe de volta. por tanto tempo pagos e honrados para embrutecer a espé- 115 . trata-se de uma pediculose que só afeta a mais vil populaça. a princesa Berta. As crianças acreditavam no lobisomem.. sem ter seu umbigo numa igreja.. É improvável hoje que os mordomos de um rei da França excomungado lançassem seu jantar pela janela e que a rainha trouxesse ao mundo um gansinho em semelhante caso. e acabou convencendo os habitantes da região de que era possível adorar Jesus Cristo em espírito e em verdade. a suas mulheres imbecis e aos brutos.

que ela não gira ao redor do Sol.. . estes fazem apenas o bem. Para ser feliz nesta. . enquanto as superstições monacais ul~montanas causam muito mal. etc. o santo prepúcio. do que detestar e perseguir seu irmão? CAPÍTULO XXI É preferível a virtude à ciência Quanto menos dogmas. Se isso não for verdade. Por quê? Porque não há uma só que não seja um corolário :vident: deste pequeno axioma: dois e dois são quatro. o leite e o manto da Virgem Maria. menos disputas. Quando o bispo Alexandre e o padre Anos. ordenassem hoje que o grão deve apodrecer para germinarl53 . como seriam vistos por todos os homens instruídos? O termo animais seria demasiado forte? E se esses sábios mestres empregassem a força e a perseguição para fazer reinar sua ignorância insolente. que o arcoíris não é formado pela refração e a reflexão dos raios luminosos. Euclides conseguiu sem dificuldade persuadir todos os homens sobre as verdades da geometria. Mas. a mais perigosa não é a de odiar o próximo por suas opiniões? E não é evidente que seria ainda mais sensato adorar o santo umbigo. que as marés não são um efeito natural da gravitação. que a terra está imóvel sobre seus fundamentos._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ cie humana. e quanto menos disputas. ~~o se da exatamente a mesma coisa na mistura da metaflslca com a teologia. o que é preciso? Ser indulgente. A religião é instituída para nos tornar felizes nesta e na outra vida. estou errado. o termo animais ferozes seria descabido? Quanto mais as superstições dos monges forem desprezadas. O que é preciso para ser feliz na vida futura? Ser justo. começaram a discutir sobre a maneira como o. tanto mais os bispos serão respeitados e os padres considerados. Seria o cúmulo da loucura pretender fazer todos os homens pensarem de uma maneira uniforme sobre a metafísica. menos infelicidades. o imperador Constantmo escre117 116 . Logos era uma emanação do Pai. ou Anus. dentro do que permite a miséria de nossa natureza. de todas as superstições. e se se baseassem em passagens mal compreendidas da Sagrada Escritura para fundamentar suas ordens. Seria bem mais fácil subjugar o universo inteiro pelas armas do que subjugar todos os espíritos de uma única cidade.

e. que tornou os homens insensatos e cruéis. Cumpre ainda saber como fomos engendrados por toda a eternidade e. a um Varrão. a um Cícero. os hérulos. enquanto não chega esse momento. não basta sermos súditos fiéis. contanto que lhe sejamos fiéis. que pode haver de mais tolo e mais terrível do que dizer aos homens: "Meus amigos. Podia ter chamado esses campeões do ergotismo a seu palácio. que surgiram depois. os godos e os vândalps. no entanto._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ veu-Ihes estas palavras inspiradas em Eusébio e em Sócrates: "Sois uns grandes tolos em discutir sobre coisas que não podeis entender. De cada versículo contestado brotou uma fúria armada de um sofisma e de um punhal." Talvez não obtivesse nada dos contendores. contanto que preguemos uma boa moral e a pratiquemos dentro do possível? Cometi muitas faltas em minha vida. com a cabeça coberta de pedrarias. 119 . começaremos por vos degolar?" Se tivessem aprese~ado uma tal resolução a um Arquimedes. afirmamos que havereis de arder no fogo eterno. adorar Jesus Cristo em paz. filhos submissos. o império custou-me patifarias e crueldades. e vós também. se não souberdes distinguir o omousion na hipóstase. Com efeito. pais amorosos. e o maior que fizeram foi finalmente prestarem-se eles também a essas disputas fatais. o que abriu a porta a todos os flagelos que vieram da Ásia inundar o Ocidente. podia ter-lhes perguntado com que autoridade perturbavam o mundo: "Acaso possuís os títulos da família divina? Que vos importa se o Lagos é produzido ou engendrado. Eis." Se as duas partes tivessem sido bastante sensatas para admitir que o imperador tinha razão. assassinei quase todos os meus próximos. cultivar a amizade. talvez fosse convidado a presidir um concílio com a longa túnica vermelha. arrependo-me disso: quero expiar meus crimes tornando o império romano tranqüilo. Não me impeçais de fazer o úni118 co bem capaz de apagar minhas antigas barbáries. fizeram infinitamente menos mal. a um Catão. o que eles teriam respondido? Constantino não perseverou em sua resolução de impor silêncio aos dois antagonistas. evitar a ingratidão. o mundo cristão não teria se ensangüentado durante trezentos anos. sois ambiciosos. praticar todas as virtudes. ajudai-me a acabar meus dias em paz. a um Posidônio. e eu também. vizinhos equitativos. Os hunos.

com cerca de um metro e sessenta de altura.CAPÍTULO XXII Acerca da tolerância universal Não é preciso uma grande arte. que não é mais do que um ponto. gira no espaço como tantos outros globos. mas eles nos tratam de idólatras! Pois bem. porventura não somos todos filhos do mesmo Pai e criaturas do mesmo Deus? Mas esses povos nos desprezam. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. todos os outros lhe causam horror desde toda 121 . certamente. Um desses seres imperceptíveis diz a alguns de seus vizinhos. é seguramente algo pequeno na criação. para provar que os cristãos devem tolerarse uns aos outros. pois o Deus de todos esses mundos me falou: há novecentos milhões de pequenas formigas como nós sobre a terra. mas apenas o meu formigueiro é bem-visto por Deus. O quê! O turco. se lhes falasse mais ou menos assim: "Este pequeno globo. na Arábia ou na Cafraria: Escutem-me. uma eloqüência muito rebuscada. eu lhes direi que estão errados! Penso que poderia ao menos surpreender a orgulhosa obstinação de um imã ou de um monge budista. O homem. estamos perdidos nessa imensidão. meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim.

. mas seria bem difícil." Eu tomaria a liberdade de responder-lhe: "Meu irmão." Procuraria em seguida acalmá-los. vos condene. diremos a cada um deles: "Senhor. e com eles facilmente se faria um volume bem mais grosso do que os evangelhos que os reprovam. mas julgais que o cônsul da Academia e. O padre Ivonet. Não só é cruel perseguir nesta curta vida os que não pensam como nós." Eles me agarrariam então e me perguntariam quem foi o louco que disse essa besteira. não quero comer. tais como somos. mas eu não poderia ser salvo sem tudo isso?" É verdade que esses horrores absurdos não mancham todos os dias a face da terra. ou mandado às galés. Buonmattei. A Academia da Crusca fixou a língua. como também suponho ser ousado demais pronunciar sua condenação eterna. que o inquisidor vos prometa perdão e. nem conversar convosco?" Qual o embaixador da França que. o doutor Cuchalon. talvez tenhais razão. Parece-me que não compete a átomos de um momento. dizemos que vestimos luto por um réprobo que arde eternamente no inferno? Há na Europa quarenta milhões de habitantes que não pertencem à Igreja de Roma. da Inglaterra ou da Prússia. nem negociar. Depois falaria aos cristãos e ousaria dizer. Zanchinus. é para o vosso bem que o diretório da Inquisição ordena que vos prendam por denúncia de uma única pessoa. Eu seria obrigado a responder-lhes: "Foram vocês mesmos. na sua ausência. em seguida. da Dinamarca. Trata-se aqui da salvação de vossa alma. mas. e a Gramática de Buonmattei um guia infalível a ser seguido." Respeito-a. ou queimado em cerimônia 154 . poderiam em sã consciência mandar cortar a língua de todos os venezianos e bergamascos que persistissem no seu patoá?" O inquisidor me responde: "Há uma grande diferença. mas foram freqüentes. Gomarus. antecipar as decisões do Criador. estou convencido do bem que 122 quereis me fazer. que não tenhais advogado para vos defender. e todos os outros serão desafortunados. em verdade. sejais chicoteado. Roias. como estais infalivelmente condenado. acaso poderia 123 ._ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ a eternidade. sabeis que cada província da Itália tem seu linguajar e que não se fala em Veneza e em Bérgamo como em Florença. seu dicionário é uma norma que deve ser respeitada. Campegius. Diabarus e Gemelinus 155 são claros nesse ponto e essa piedosa prática não pode sofrer contradição. ainda que ela seja infame e já condenada pela Justiça. Felynus. estando presente à audiência do Grande Senhor. que ele vos submeta a cinco torturas diferentes e que. meu formigueiro será o único afortunado. por ter-se submetido à circuncisão? Se acreditasse realmente que o Grande Senhor é inimigo mortal de Deus e objeto de sua vingança. assim como tudo o que ela ensina. depois. que o nome de vosso acusador nem sequer vos seja conhecido. conhecemos todos os caminhos de Deus e a extensão de sua misericórdia? Não é lícito confiar nele tanto quanto temê-lo? Não nos basta ser fiéis à Igreja? Será preciso que cada indivíduo usurpe os direitos da Divindade e decida por sua conta a sorte eterna de todos os homens? Quando vestimos luto por um rei da Suécia. dir-se-á no fundo de seu coração: Sua Alteza arderá infalivelmente no inferno por toda a eternidade. Estou longe de combater esta sentença: "Fora da Igreja não há salvação. a um dominicano inquisidor em nome da fé: "Meu irmão. por exemplo.

se de fato estivéssemos convencidos da idéia de que conversamos com um réprobo? Ó partidários de um Deus clemente! Se tivésseis um coração cruel. a ti cujos decretos são imutáveis e eternos. Deus de todos os seres. que os que acendem velas em pleno meio-dia para te celebrar suportem os que se contentam com a luz de teu sol. ora por causa de uma palavra. nada mais tenho a vos dizer. monstros. a Ti~. se tivésseis semeado a discórdia. de todos os mundos e de todos os tempos. a Sócrates. tivésseis sobrecarregado essa lei pura e santa de sofismas e disputas incompreensíveis._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ falar-lhe? Deveria ser enviado até ele? Com que homem poderíamos negociar. é a ti. entre nossas leis imperfeitas. a ti que tudo criaste. de algumas cerimônias que tantos outros povos não podiam conhecer. Ravaillac. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do universo.. às maravilhas do gênero humano. eu vos diria. digna-te olhar com piedade os erros decorrentes de nossa natureza. que morrestes com as fórmulas prescritas. derramando lágrimas sobre o gênero humano: "Transportai-vos comigo ao dia em que todos os homens serão julgados e em que Deus dará a cada um conforme suas obras. Não nos deste um coração para nos odiarmos e mãos parà nos matarmos. que os que cobrem suas vestes com linho branco para dizer que devemos te amar não detes125 124 . a Epicteto e a tantos outros. depois que elas me escaparam. ao legislador Sólon. ousar te pedir alguma coisa. a Platão. ora por causa de uma simples letra do alfabeto. a Pitágoras. meus bemamados Jean Châtel. modelos dos homens: Ide. Acreditais realmente que nosso Criador e nosso Pai dirá ao sábio e virtuoso Confúcio. adorando aquele cuja única lei consistia nestas palavras: "Amai a Deus e a vosso próximo" 156. entre nossas opiniões insensatas. Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida difícil e passag~ira. Que esses erros não venham a ser nossas calamidades. aos divinos Antonino. Cartouche. se considerásseis merecedora de castigos eternos a omissão de algumas palavras. sofrer castigos infinitos em intensidade e duração. Damiens. partilhai para sempre à minha direita meu império e minha felicidade?" Recuais de horror a essas palavras e. entre nossas condições tão desproporcionadas a nossos olhos e tão iguais diante de ti. CAPÍTULO XXIII Oração a Deus Não é mais aos homens que me dirijo. etc. que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos diminutos. entre nossos costumes ridículos. ao bom Trajano. a Zaleuco. que dever da vida civil poderíamos jamais cumprir." "Vejo todos os mortos dos séculos passados e do nosso comparecerem à sua presença. que vosso suplício seja eterno como eu! E vós. se. entre nossas linguagens insuficientes. que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados homens não sejam sinais de ódio e perseguição.

não nos odiemos. após ter pregado a doçura. o bispo de Hipona. do Sião à Califórnia. culpado de ter escrito que Deus merece ser amado por si mesmo. Bossuet. Esse homem imprimia um pequeno código de perseguição. pois sabes que não há nessas vaidades nem o que invejar. com o único propósito de tornar os homens mais compassivos e mais doces. que perseguiu o célebre Fénelon. que dominam sobre uma pequena porção de um montículo da lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos arredondados de certo metal usufruam sem orgulho o que chamam de grandeza e riqueza. Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! Que abominem a tirania exercida sobre as almas. arcebispo de Cambrai. e que os outros não os invejem. admito-o também. nem do que se orgulhar. CAPÍTULO XXIV Pós-escrito Enquanto trabalhávamos nesta obra. um outro homem escrevia com um propósito inteiramente contrário. que aqueles cuja roupa é tingida de vermelho ou de violeta. não nos dilaceremos uns aos outros em tempos de paz e empreguemos o instante de nossa existência para abençoar igualmente em mil línguas diversas. com Armando. mas tomarei a liberdade de dizer ao autor desse santo libelo. 126 127 . Moliere. Bossuet era eloqüente. Cita também o bispo de Meaux._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ tem os que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra. ou num jargão mais novo. intitulado A concordância da religião e da humanidade 157 Cé uma falha do impressor: leia-se da desumanidade). tua bondade que nos deu esse instante. admito. o qual. que seja igual te adorar num jargão formado de uma antiga língua. acabou pregando a perseguição. era mais diserto que os outros africanos. em Les femmes savantes*: • As sabicbonas. pois cada um tem sua opinião. visto que era então o mais forte e que mudava freqüentemente de opinião. às vezes inconseqüente. assim como execram o banditismo que toma pela força o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos da guerra são inevitáveis. O autor desse santo libelo apóia-se em Santo Agostinho.

mudastes de idéia. É o seu lado bom que convém imitar. Ele chega a citar Bayle entre os partidários da intolerância. nem um Agostinho. Se de fato lhe atribuem mais do que produziu. diz o autor. Além disso. Parece-me o tipo capaz de ser um excelente inquisidor. Isso é razoável e correto. concedei-me o direito de ater-me à vossa primeira opinião. cena 1. quanto Santo Agostinho. gostaria que estivesse em Goa encabeçando esse belo tribunal.) Direi ao bispo de Hipona: Eminência. C'est par les beaux côtés qu 'illui faut ressembler. persuadi-os. abades. e muito mais eloqüente. nosso homem conclui que devemos perseguir a ferro e fogo gente pacífica e de boa-fé. a propósito de duas linhas da página 93 do santo libelo: "Caberá sacrificar à felicidade da vigésima parte da nação a felicidade da nação inteira?" Supondo-se. se isso acontecer. não pretendo que o huguenote coma os vinte católicos. Mas. é o que ele aconselha nas páginas e 90. e o erro de quase todos os historiadores é exage129 128 . apresento-lhes desde já este arrazoado. julgo-vos tão sábio. Quase todo o seu livro é uma imitação da Apologia da Noite de São Bartolomeu158 • É o mesmo apologista ou seu eco. não preciso temer o que os huguenotes chamam de martírio. nem o discípulo venham a governar o Estado. que haja vinte católicos romanos na França contra um huguenote. diz ele. monges que têm terras no Dauphiné. posso apenas agradecer à Providência por permitir que gente de sua espécie seja sempre 89 má argumentadora. e do fato de Bayle admitir que os revoltosos e os larápios devam ser punidos. dos abades. cumpre esperar que nem o mestre. Direi ao bispo de Meaux: Eminência._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _~ Tratado sobre a tolerância -------~ Quand sur une personne on prétend se régler. sois um grande homem. muitos heterodoxos. "A revogação do edito de Nantes não produziu tantos inconvenientes quanto lhe atribuem". aviso que parto para a Inglaterra no dia em que tiver suas cartas patentes. mas se esse homem algum dia for primeiro-ministro. Enquanto isso. dos monges e do público que esses colonos tenham famílias numerosas? Somente àqueles que comungarem de uma única forma será permitido ter filhos? Em verdade isso não é justo nem conveniente. Quando por alguém nos queremos pautar. abades e monges não possuem colonos que têm a infelicidade de não crer na transubstanciação? Não é do interesse dos bispos. (Ato I. Graças a Deus sou bom católico. se não forem mais que um pequeno número. Num ou noutro caso. no Gévaudan. com efeito. de Carcassone? Esses bispos. considero-a melhor. exageram. "Se houver entre vós. nos arredores de Agde. como parece pretender em seu libelo. que era tão eloqüente quanto vós num outro gênero e era mais amável? O autor do santo libelo sobre a desumanidade não é nem um Bossuet. e estareis agindo bem". mas por que esses vinte católicos haveriam de comer o huguenote e por que impedir esse huguenote de casar? Não há bispos. pelo menos. é homem de Estado e demonstra grandes princípios de política. tratai-os com deferência. mas por que atormentar tanto vosso confrade. empregai a forca e as galés. em verdade.

Dizia-me a mim mesmo: Não me acreditarão. dizia eu. mas é necessário que não se repita. O embaixador escreve ainda. de Seignelai. comandados por dois capitães (página 240). Pelisson. que obtivera o cargo de ecônomo e de convertedor. fala de marujos que desertaram de três navios para servirem nos do príncipe de Orange. o príncipe de Orange forma ainda uma companhia de cadetes refugiados. Não creiamos nem nos doutores de Paris. em 9 de maio de 1686. mas é também o erro de todos os controversistas reduzir a nada o mal que lhes censuram. Além desses dois regimentos. Luís XIV responde ao conde d'Avaux: "As notícias que recebo diariamente de um número infinito de conversões não me deixam mais duvidar de que os mais obstinados seguirão o exemplo dos outros. ao sr. apesar da opinião do respeitável autor de A concordância da religião e da desumanidade. Pelisson. Diziam-lhe todas as manhãs: Majestade." Confesso que julguei ir um pouco longe demais. que passara três anos na Bastilha como cúmplice de Fouquet. julgarão esta carta uma peça forjada. quer. sois o maior rei do universo. portanto. Tomemos por juiz o conde d'Avaux. que ele era muito crédulo sobre a extensão de seu poder. de onde não sairão jamais". O mesmo d'Avaux fala de dois regimentos que o príncipe de Orange já mandou os oficiais franceses refugia130 dos recrutarem. nem nos pregadores de Amsterdam. todo o universo se vangloriará de pensar como vós assim que tiverdes falado. na página 181. que um único homem propusera descobrir mais de vinte milhões que os perseguidos faziam sair da França. Meus escrúpulos felizmente dissiparam-se quando li em A concordância da religião e da desumanidade. Revezavamse para enganá-lo. estas doces palavras: "A extinção total dos protestantes não debilitaria mais a França do que uma sangria o faria com um doente bem constituído. na qual o membro da congregação propõe uma operação com barris de pólvora l6o . ao tornar pública a carta do correspondente do padre Le Tellier. Um marechal da França conhecido por seu espírito superior dizia há alguns anos: "Não sei se a dragonada foi necessária. Juntai a esses testemunhos os de todos os intendentes do reino em 1699 e considerai se a revogação do edito de Nantes não produziu mais mal do que bem. "que não pode lhe dissimular o dó de ver as manufaturas da França estabelecerem-se na Holanda. que mandava imprimir orações para a missa e versos galantes para damas. embaixador na Holanda de 1685 a 1688. " Esse cristão compassivo. tomo V1S9. converteria todç>s os turcos ao mesmo preço. Podia Luís XIV resistir à sedução? No entanto. e fazia seu rei acreditar que. Ele diz. Pelisson. página 194). na hora que quisesse.~~~ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire_~~~~~~~~~_ ~_ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância ~------- rar. que de calvinista tornara-se diácono e beneficiado. que disse há pouco que os protestantes compõem a vigésima parte da nação. trazia a cada três meses uma grande lista de abjurações a sete ou oito escudos cada. página 149." Vê-se. que enriquecera no cargo de primeiro funcionário das finanças. por essa carta de Luís XIV. espalhar o sangue dessa vigésima p~rte e considera essa operação apenas como uma sangna na omoplata! Deus nos preserve com ele dos três vigésimos! 131 . o mesmo conde d'Avaux notifica ao rei que certo Vincent emprega mais de quinhentos operários perto de Angoulême e que sua saída causará prejuízos (tomo V. Pelisson.

Uma quantidade enorme de pessoas de todas as classes aguardava na galeria do castelo a decisão do conselho. O caso de uma infortunada família de obscuros cidadãos ocupou Sua Majestade. o interesse pelo gênero humano 132' . se esse homem honrado propõe matar a vigésima parte da nação. árbitro das nações. Logo anunciaram ao rei que todas as vozes. a intolerância forja suas armas. há humanidade e justiça entre os homens e. perante o conselho de Estado reunido em Versalhes. quando a natureza faz ouvir de um lado sua voz doce e benfazeja. é bem provável que a carta ao padre Le Tellier tenha sido realmente escrita. O amor pela eqüidade. solta uivos. a única que convém numa tal assembléia. o sr. no conselho de um rei amado e digno de sê-lo. Ó vós. o chanceler e todo o conselho. Portanto. de Crosne. seus ministros. promotor de justiça. Mas Jesus Cristo tampouco condenou os que ateariam fogo nos quatro cantos de Paris. a exatidão de um homem perfeitamente instruído. haviam ordenado que o parlamento de Toulouse enviasse ao conselho todas as peças do processo e os motivos de sua sentença que fizera Jean Calas morrer no suplício da roda. "porque não foi. O santo autor irá finalmente concluir que a intolerância é algo excelente. na presença dos ministros e sob a presidência do chanceler. diz ele. Sua Majestade aprovou a decisão do conselho. em 7 de março de 1763. é uma razão para canonizar os incendiários? Assim. esse inimigo da natureza. decidi entre o espírito pacífico e o espírito assassino! CAPÍTULO xxv Continuação e conclusão Tomamos conhecimento de que. e quando a paz apresenta-se aos homens.Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ Pois. o fanatismo. por que o amigo do padre Le Tellier não teria proposto explodir. e foi discutido com a mesma atenção dedicada às maiores questões da guerra e da paz. expressamente condenada por Jesus Cristo". reapresentou o caso dos Calas com a imparcialidade de um juiz. pois. sem exceção. principalmente. que destes a paz à Europa. a eloqüência simples e verdadeira de um orador do Estado. enforcar e envenenar a terça parte? Portanto.

Não julgamos ofender os oito juízes de Toulouse ao dizer que eles se enganaram._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ . dar o exemplo do arrependimento. que percorreram com ela duzentas léguas para deporem aos pés do trono seu infortúnio e sua virtude. imparcial e firme. magistrado de Toulouse. a propósito de Jean Calas. eles pedirão ao parlamento que vosso livro seja queimado.. e os fanáticos (pois sempre os há) responderão com gritos de furor à voz da razão. cada um pode queimar em sua casa os livros e papéis que desejar. e não num texto que não é jurídico e cujo fundo é absolutamente alheio ao caso em questão. Esses juízes fizeram o pai morrer injustamente. mas receio que faça mais mal do que bem à família Calas. Esse caminho é reconhecer que indícios equívocos e os gritos de uma multidão insensata os desviaram da justiça. Essa crueldade é bastante inédita. cuja estranha morte lançou esses oito juízes no erro. abrimos-lhes um caminho para se justificarem perante a Europa inteira. etc. se ele é bom. juntando-se àqueles que a amparam na sua aflição. Poderá magoar os oito juízes que opinaram pelo suplício.. de verdade e de paz. supondo-se que os órfãos queiram aceitar uma pequena prova de"um justo arrependimento. cabe a eles substituir o pai junto aos filhos. Ele insultou um pai de 134 família agonizante no cadafalso. tão respeitável quanto infeliz.. com base em peças e processos judiciais. que não conheço. "(. nem a mãe. pedir perdão à viúva e reparar. julga segundo as leis. nem um tribunal qualquer considerará esses livros como peças do processo. que o espírito de intolerância fez morrer. Cabe aos juízes oferecê-la. nem o conselho. e à família aceitar ou não. tanto quanto possível. os homens devem também perdoar quem repara suas injustiças. segundo a eqüidade. Escreveram-me do Languedoc esta carta de 20 de fevereiro de 1763." Eis minha resposta: "Os oito juízes de Toulouse podem mandar queimar meu livro. Deus sabe que fomos movidos apenas por um espírito de justiça. Compete sobretudo ao senhor David.) Vossa obra sobre a tolerância me parece repleta de humanidade e de verdade. mas já que Deus perdoa. contra as ordens de nossos reis e contra as leis de todas as nações. assim como todo o conselho presumiu.-_ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ conduziram todos os juízes. Minha obra não pode fazer nem bem nem mal aos Calas. não há nada mais fácil. . também queimaram as Cartas provinciais. a ruína inteira de uma família inocente. que certamente valiam bem mais. Esse texto sobre a tolerância é uma petição que a humanidade apresenta muito humildemente ao poder e à prudência. ao contrário. se foi o primeiro perseguidor da inocência.. quando escrevemos o que pensamos da tolerância. O conselho do rei. Por mais que se imprimam in-fólios a favor ou contra os oito juízes de Toulouse e a favor ou contra a tolerância. nem suas inocentes filhas. Graças sejam dadas ao Deus da clemência. Semeio um grão que algum dia poderá pro135 . nem seu filho Marc-Antoine. o único a inspirar a eqüidade e todas as virtudes! Atestamos que jamais conhecemos esse infortunado Calas que oito juízes de Toulouse fizeram perecer com base nos mais frágeis indícios.

. sem que o saibais. da bondade do rei. e aquele que busca somente conciliar opiniões que se contradizem acaba por se perder. mais grosseiros e mais inúteis.. já que sois ignorantes." 137 . Ainda que fôsseis todos da mesma opinião. tudo seria entregue à indecisão e aos caprichos. o que certamente jamais acontecerá. e também entre o burguês e o agricultor. Todos ignoram os limites de seus direitos. Aquele que me escuta julga sempre bem.. palco eterno das faltas. compreende i que ele é divino e não troqueis a voz da natureza pelos miseráveis furores da escola.. de cidade a cidade e quase sempre contraditórias entre si numa mesma localidade. Esperemos tudo do tempo. não o corrompais. Sou eu apenas que vos une. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um pequeno lume de razão para vos guiar.. sem mim. afastai esses escombros funestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no prédio inabalável que é o meu 161 . Não sufoqueis esse germe. quando as leis inspiram apenas a chicana. todos os homens nele podiam entrar com segurança.. instruívos e tolerai-vos. por vossas necessidades mútuas. ainda que só houvesse um único homem com opinião contrária. Já que sois fracos. da sabedoria de seus ministros e do espírito de razão que começa a espalhar por toda parte sua luz. auxiliai-vos. Com minhas mãos plantei os alicerces de um prédio imenso. Só eu posso inspirar a justiça. com o te)l1po. em meio a um amontoado confuso de leis feitas geralmente ao 136 acaso e por uma necessidade passageira. Apenas eu conservo a eqüidade nos tribunais. Sou eu apenas que. deveríeis perdoá-lo. dos riscos e das infelicidades. minha voz que fala a seu coração. entre esses dois corpos e o do clero. pus em vossos corações um germe de compaixão para que uns ajudem os outros a suportar a vida. grito-lhes: Parai.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ duzir uma grande colheita. numa nação. A natureza diz a todos os homens: Fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes. diferentes de província a província._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ . onde. para vegetarem alguns minutos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. mas contra sua vontade acabam por escutar. e o prédio começa a desmoronar por todos os lados. detém as conseqüências funestas da divisão interminável entre a nobreza e a magistratura. pois sou eu que o faço pensar como ele pensa. os homens pegam as pedras e as atiram uns contra os outros. quiseram acrescentar os ornamentos mais bizarros. ele era sólido e simples. mesmo em meio a vossas guerras cruéis tão levianamente empreendidas..

Uma assembléia de cerca de oitenta juízes anulou a sentença de Toulouse e ordenou a revisão completa do processo. Foi preciso suportar demoras inevitáveis. Quanto menos essas formalidades foram observadas na condenação de Calas. quase todos os tribunais do reino. A extravagância dos bilhetes de confissão. Um ano inteiro não é suficiente para forçar o parlamento de Toulouse a fazer chegar ao conselho toda a documentação. O sr. para examiná-la. dos quais supunha-se serem os autores secretos e dos quais eram publicamente partidários. Uma bancarrota imensa de um de seus 139 . no qual se fala da última sentença pronunciada em favor da famüia Calas De 7 de março de 1763 até o julgamento definitivo. tanto mais deviam sê-lo rigorosamente pelo conselho de Estado. necessariamente ligadas às formalidades. já havia despertado o ódio da nação contra eles. de Crosne foi mais uma vez encarregado desse trabalho penoso. foram perseguidos por sua vez. Expulsavam-se os jesuítas. aboliam sua sociedade na França: eles haviam sido intolerantes e perseguidores. Outras questões importantes ocupavam. passaram-se mais dois anos: tanto é fácil ao fanatismo arrancar a vida à inocência. como é difícil à razão restituir-lhe a justiça. para relatar o processo. então.Artigo posteriormente acrescentado.

tão injustamente implicado nesse processo criminal pelos juízes de Toulouse. e outra do jovem Lavaisse. que adora passar de uma cena a outra. Dependera apenas dele destruir seus amigos e sair da prisão de Toulouse: bastaria ter dito que se afastara dos Calas por um momento. Deliberou-se enfim com base nas mesmas peças que haviam servido para condenar Jean Calas ao suplício da roda e seu filho Pierre ao banimento. porque de um filósofo. por preconceitos que às vezes seduziram grandes homens. sobretudo. Esse jovem fez pessoalmente uma exposição que todos consideraram tão boa quanto a do sr. o mesmo público. esqueceu os jesuítas. mas ele preferiu expor-se ao suplício do que pronunciar essa palavra. igualado pelo filho. que. A viúva de Jean 140 Calas._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância-------- missionários1 62 . de Beaumont l64 . fez com que. Essa grande questão. As simples palavras missionários e bancarroteiros. durante vários meses. num momento em que se supunha. pouco adequadas para estarem juntas. 141 . não teve participação nenhuma nessa apresentação. mas. contra toda a verossimilhança. uma palavra poderia devolver-lhe a liberdade. que sensibilizou aqueles que desejava apenas convencer e fez-se admirar sem pretender a reputação. aquele em que se supunha que o pai e a mãe haviam assassinado seu filho. que jamais cursara a advocacia. seu filho e o jovem Lavaisse voltaram à prisão. Narrou esses detalhes em sua exposição. Ameaçaram-no com o suplício. as ruínas de Port-Royal e as ossadas de tantos homens célebres insultados por eles em suas sepulturas e exumados no começo do século por ordens que apenas os jesuítas haviam ditado levantaram-se todas contra sua autoridade finda. de repente. Pode-se ver a história de sua proscrição no excelente livro intitulado Sur la destruction des jésuites en France 163 . escrita com a fineza e a eloqüência de um Pascal e. obra imparcial. tão distante de qualquer ostentação. Não se podia ter escolhido um tribunal mais instruído sobre o assunto: eram precisamente os mesmos magistrados que haviam julgado duas vezes as preliminares da revisão e que estavam perfeitamente informados quanto ao fundo e à forma. e os Calas prenderam toda a sua atenção. o público perdesse de vista o processo Calas. acabou por arruiná-los. famoso advogado. viu-se. que haviam estrangulado o jovem Marc-Antoine. com uma candura tão nobre. tendo o rei atribuído ao tribunal chamado das questões do palácio o julgamento definitivo. bancarrota tida em parte como fraudulenta. a tortura e a morte haviam se apresentado a seus olhos. incitaram em todos os espíritos a decisão de sua condenação. Seu pai. Foi então que surgiu uma nova memória do eloqüente sr. Tinha a dupla vantagem de falar a seu favor e a favor de uma família com quem partilhara os grilhões. A câmara das questões do palácio é uma corte soberana composta de promotores de justiça. tão simples. por cúmulo de contradição. não o haviam declarado absolvido. que teria sido uma mentira. para julgar os processos entre os funcionários da corte e as causas que o rei lhes envia. na qual alguns partidários dos jesuítas diziam que a religião era ultrajada e em que o maior número a considerava vingada. como em Pascal. com uma superioridade de luzes que não é ofuscada. Enfim. de Beaumont. Fizeram vir do interior do Languedoc aquela velha empregada católica que em instante algum abandonara seus patrões e sua patroa.

Os promotores de justiça decidiram que escreveriam em conjunto à Sua Majestade para rogar-lhe reparar por suas 142 dádivas a ruína da família. Tendo o sr. mais raramente cumprido pelos tribunais. ou pelo menos a afligiria sempre! Sabemos que se trata. os juízes por unanimidade declararam a família inocente. O que torna esse espetáculo ainda mais comovente é que aquele dia. A humanidade. julgada de forma iníqua e abusiva pelo parlamento de Toulouse. aliás geralmente tão mesquinha e insultante. por essa bondade. o da beneficência. 143 . 9 de março. e nisto não fizeram mais do que seu dever. que parecem julgar-se destinados a serem apenas eqüitativos. é nesse tempo de tranqüilidade que o infortúnio dos Calas deve causar maior impressão. as pessoas reuniamse nas praças públicas. Autorizaram a família a recorrer a quem de direito para responsabilizar seus juízes e para reparar as despesas. cumulados de sentimentos de gratidão. como por tantos outros atos. Chegou o dia (9 de março de 1765) em que a inocência triunfou plenamente. O rei. todos queriam ver essa família tão infortunada e tão bem justificada. O rei respondeu mandando entregar trinta e seis mil libras à mãe e aos filhos. Foi uma grande festa em Paris. A carta foi escrita. inclusive em suas menores circunstâncias. mas. Possa esse exemplo servir para inspirar aos homens a tolerância. e. mas acontecem . Há um outro dever. algo como o trovão irrompendo na serenidade de um belo dia. após séculos de carnificina. A caridade. Os senhores promotores de justiça haviam prestado à família Calas uma justiça completa. a generosidade. Baquencourt apresentado todo o processo. é o quinhão dos devotos._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __ Enquanto isso. era o mesmo em que Calas perecera pelo mais cruel suplício (três anos antes). Reabilitaram a memória do pai. os juízes eram aplaudidos. sem a qual o fanatismo devastaria a terra. de apenas uma única família e que o furor das seitas fez perecer milhares. nos passeios. Comoviam-se com elas até ãs lágrimas. o cognome que o amor da nação lhe outorgou 165. perdas e danos que os magistrados tolosanos deveriam suprir por conta própria. aqui. e são o efeito dessa triste superstição que leva as almas fracas a imputarem crimes a todo aquele que não pensa como elas. O que chamam de caridade não lhes dava nenhum. mereceu. três mil para a virtuosa empregada que defendera constantemente a verdade ao defender seus patrões. prodigalizavam-lhes amparos. dessas trinta e seis mil libras. hoje que uma sombra de paz deixa repousar todas as sociedades cristãs. e os devotos ainda se opunham aos Calas. pessoas da maior consideração vinham em grande número à prisão onde a senhora Calas e suas filhas estavam encerradas. Esses casos são raros .

Laborde. O pároco de Saint-Étienne não protestou de modo algum e disputou inclusive o direito de inumação com o pároco de Taur. (Nota de Voltaire. em memória à vitória obtida pelos católicos sobre os protestantes em maio de 1562. na circunscrição do qual encontrava-se a câmara municipal. e por (M. investiu contra ela de espada na mão.) 8. com a ponta do dedo.) uma nota de Beuchot. (M. mas Bárbara fugiu através de uma montanha que se abriu para si. O primeiro é o do pai de Santa Bárbara.) uma nota de Moland.) 5. (Nota de Voltaire. Veja-se a nota 3. (M.Notas 1. essa procissão ocorria não em 10 de março como supunha Voltaire.) 7. Não lhe encontraram. mas em 17 de maio. ela fez o sinal da cruz sobre colunas de mármore e esse sinal gravou-se profundamente nas colunas. de pais acusados de terem assassinado seus filhos por causa da religião. e uma pequena mancha no peito. senão um pequeno arranhão na ponta do nariz. Conheço apenas dois exemplos. O pai deu a volta à montanha e alcançou a 145 . Oeuvres completes de Voltaire. em sua ausência. construiu uma terceira em honra da Santíssima Trindade. Seu pai. 18291834. Ele mandara construir duas janelas em sua sala de banhos. (M. na história. 12 de outubro de 1761.) Designamos por (B. Oeuvres de Voltaire. Lasalle. após o transporte do cadáver ã câmara municipal. (M. causada por algum descuido no transporte do corpo. 1877-1885.) 3. 4.) 6. Bárbara. Em realidade. furioso. (M.) 2.

non Dei divorumque statuis advolvi.-D. O segundo exemplo é o do príncipe Hermenegildo. caeterum raro divorum templa adire. em fazer a paz com a Inglaterra.. Baseavam-se em várias passagens dos primeiros padres da Igreja. Um dominicano veio até meu cárcere e me ameaçou com o mesmo tipo de morte se eu não abjurasse. non se lustralit aqua aspergere. negavam que os atributos pudessem subsistir sem sujeito.. condenados outrora em Bérenger.) 17. Eles foram imitados em várias cidades e a senhora Calas perdeu a vantagem dessa generosidade. que pareciam não obstante necessárias para sustentar a majestade do culto. ela foi chicoteada completamente nua. sed quosdam e suo n~mero delectos p. queriam fazer tudo voltar aos tempos apostólicos. non demque pontlflcl aut episcopis honorem deferre..) 16. Devoto vem da palavra latina devotus.) 9. et Anne-Rose et Anne Calas. porque seu pai era ariano. 20. Ou seja. Dei cultum assiduis precibus et morum innocentia prae se ferre.. enfrentou-o numa batalha em 584. 23 de julho de 1762.-que é pão e vinho para os olhos. 18. PIERRE CALAS. Eles reiteravam a opinião de Bérenger sobre a Eucaristia. começam a acender tochas em pleno meio-dia. (Nota de Voltaire. quo si quandoque pedem inferant. seu pai. enfim. feb. (Nota de Voltaire. nec cereos eis aut donoria ulla ponere. veuve Calas. e depois por d'Argental e Damilaville. mas Deus cobriu-a com uma nuvem branca. non religionis ergo peregre proficisci._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _________ Tratado sobre a tolerância . liv.) 14. Londinensis.) 13. banqueiros. (M. Durante nossa vida podemos rezar uns pelos outros. VI. de que servem essas preces?" Mas não diziam o quanto São Jerônimo se insurgira contra essas palavras de Vigilantius.ro antistitibus et doctoribus habere. (Nota de Voltaire. non per vias ante cruciam sjmula~ra caput ~r:e. etc. non sacerdotes ab eis rogari ut pro se aut propinquorum manibus rem divinam faciant: non cruce frontem insignire uti aliorum moris est. desaparecesse de uma hora para outra. nisi si quando ad vicina suis finibus oppida mercandi aut negotiorum causa divertant.. Os devoti da antiga Roma eram os que se dedicavam à salvação da república: eram os Curtius. demandeurs en cassation d'un arrêt du parlament de Toulouse.) 11.) 19..) Lembravam tudo o que se dissera nos primeiros séculos contra o culto das relíquias. os Decius. leurs filIes. conselheiros do parlamento. cum coelum intonat. cortou-lhe a cabeça. Alusão à obra apologética do abade Houtteville.) 146 147 . É o que atesto perante Deus. a litibus abhorrentes. fora também necessário ampliar e fortalecer sua disciplina: condenavam as riquezas. quod improbo labore et assiduo cultu frugum ferax et aptum pecori reddiderint.. tributa principi et sua jura dominis sedulo et summa fide pendere. in-8º.) 10. (Nota de Voltaire.. foi vencido e morto por um oficial: fizeram dele um mártir. a morte. Ela foi acolhida em casa dos senhores Dufour e Mallet. após. sobretudo de São Justino. sed sublatis in coelum oculis Dei opem implorare." (Página 119. (M. erga egenos munificos. et L. Revoltou-se contra o rei. (Nota de Voltaire. Edit. é a figura da eucaristia que Jesus Cristo nos ordena fazer em memória de sua Paixão.. La religion chrétienne prouvée par les faits.rire. 1722. patientissimos eos laboris et inediae. Pierre et Louis Calas. então. mas.) 21. sacra alio rito et populare lingua celebrare. citavam estas palavras de Vigilantius: "É necessário que respeiteis ou mesmo adoreis uma vil poeira? As almas dos mártires animam ainda suas cinzas? Os costumes dos idólatras introduziram-se na Igreja. As anatas eram a taxa que pagavam ã Santa Sé os detentores de um benefício eclesiástico. (M. et Consultation pour la da me AnneRose Cabibel. Choiseul ocupava-se.) 12. mesmo com a onipotência divina. Enfim. L. seu pai. tendo a Igreja se ampliado e fortalecido. sem admitir que.. Eis o que relata a Flor dos santos. Hist. Calas.. negavam que um corpo pudesse estar em cem mil lugares diferentes. (M. Foram abolidas pela Assembléia Constituinte em 1789. Mémoire paur dame Anne-Rose Cabibel. Haec uti FranClscum relata VI Id.- filha. anni. et pour ses enfants.. 23 aout 1 762. 1719. que diz expressamente em seu diálogo contra Trífon: "A oblação da farinha pura . (M. leurs fils." (THUANI. Mémoire à consulter. sustentavam todos esses erros. o paladar e o estômago. veuve du sieurJean Calas.) 15. Paris.. (M. Mémoire pour Donat. du 9 mars 1762. O verídico e respeitável magistrado De Thou fala assim desses homens tão inocentes e tão infortunados: "Homines esse qui trecentis circiter abhinc annis asperum et incultum solum vectigale a dominis acceperint. acreditavam que era absolutamente impossível que -.

"que durante uma refeição num mosteiro proferiu palavras insensatas e foi enforcado. Foucaut. num único atentado.) 23. O sr. o rei. Os franceses. na apologia da revogação do edito de Nantes. Esse abominável livro. repleta de tão terríveis paradoxos. ao menos por sua singularidade. foi o único condenado à morte.) 25. 1696.) 24. que Deus destinara desde toda a eternidade a maior parte dos homens ao fogo eterno. As duas palavras gregas que deram origem a esse nome significam amigo e irmão. Trinta e seis toneladas de pólvora foram dispostas sob a sala do parlamento onde Jaime I devia fazer uso da palavra. que parece feito pelo louco de Verberie. intendente de Touraine. (M. teve a cabeça cortada aos 72 anos. Assim. no dia 13 de maio de 1619. seu colega. a principal fonte de informação sobre a China. 1758. (Nota de Voltaire. no entanto ela é pouco conhecida. As Cartas edificantes e curiosas. Veja-se Rycaut. De Thou diz que arcou sozinho com a pena dos outros culpados. o "louco de Verberie" era um pobre coitado. é de um homem sem vocação. O procurador-geral da Provença. O sr. o rei tinha a preocupação de não perder para a Alemanha vizinha seus aliados protestantes. diz que a manufatura de chapéus caiu em Caudebec e em Neuchâtel por causa da evasão dos refugiados. (Nota de Voltaire. Ravaillac não havia sido frade bernardo. O budismo. periódico dos jesuítas. eram tidos como praticantes de uma religião natural primitiva.) 33. queixa-se de que o comércio de Clérac e de Nérac praticamente não existe mais. de La Bourdonnaie. Católicos fanáticos. contra Arminius. pela perseguição. Esse dogma infernal foi apoiado. porque não tinha amigos na corte. a família real e todos os pares do reino. O grande pensionista Barneveldt._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ __ Madame de Cental. de Maupeou. François Gomar era um teólogo protestante. os que pregam a intolerância merecem escrever assim. anterior a toda Revelação. intendente de Bordéus. sustentou.) 32. restava um por amadurecer e esses insulares o recolhem: é o desprezo das nações. pediu justiça ao rei Henrique II. O sr.Segundo Voltaire. chamado Guérin. 27. diz que o comércio de Tours foi reduzido em 148 149 . parece-me não ser lícito afirmar que ela é desprezível e desprezada. na--página 362 de sua Apologia de Luís XIV quanto à revogaçào do edito de Nantes. pois. 30. Os descendentes de Noé. (Nota de Voltaire. que teria se conservado na China. 26. (Dictionnaire philosophique. (Nota de Voltaire. na Europa do século XVIII. Alusão ao julgamento de Salomão. intendente de Poitiers. a perseguição poupou os luteranos da Alsácia. que. a quem pertencia uma parte das terras devastadas e sobre as quais só se viam os cadáveres de seus habitantes. O sr. 28. que era do partido contrário a Gomar. "por haver contristado ao máximo possível a Igreja de Deus". Voltaire relata no capítulo 179 do Essai sur les moeurs [Ensaio sobre os costumes] a conspiração dos barris de pólvora contra o rei da Inglaterra (1605).O pregador objeto dessa nota é o abade de Caveyrac. com uma dissertação sobre a jornada de São Bartolomeu. sendo Fô o nome chinês de Buda. 31. Mas a máquina infernal foi descoberta a tempo. intendente de Caen. O sr. (Nota de Voltaire.) . (M. principal autor dos massacres. (M. " Cumpre reconhecer que o autor escolhe bem mal a ocasião de dizer que os ingleses são desprezíveis e desprezados pela terra inteira. publicavam (após censura) as cartas dos missionários da sociedade. Vejam-se Kempfer e todos os relatos do Japão. intendente de Rouen. ao falar da Inglaterra: "Uma falsa religião devia produzir necessariamente semelhantes frutos. diz que o comércio em geral diminuiu pela metade. Chegamos a pensar que semelhante obra. diz que a manufatura de droguete acabou. É num capítulo sobre a intolerância que se encontra essa singular passagem. de Miroménil. de Bezons. quod aulicorum lavore destitueretur. Quando uma nação demonstra sua bravura e sua generosidade. como era de esperar. Além disso. que a enviou ao parlamento de Paris. "Suplícios".Rycaut é o autor de uma História da situação atual da Igreja grega.) 22. escreveu de fato a frase citada por Voltaire. sofreram derrotas nos quatro cantos do mundo. jamais foi "revogado". Elas são. 29. diz. que religioso escreveria deste modo? O furor é levado até a justificar a Noite de São Bartolomeu.) 34. em vez de ser exorcizado e purificado". ou noáchidas. na Guerra dos Sete Anos. quando é vitoriosa nos quatro cantos do mundo. O edito não era ali aplicado e. decidiram matar. de espírito perturbado. A província da Alsácia foi anexada ao reino da França após a promulgação do edito de Nantes.) . portanto. deveria ser lida por todo o mundo.) . Um pregador. descontentes com Jaime I. (M.

Esses territórios. devia conhecer o do povo.. liv.) (M.. e vejam se a intolerância não causou mal nenhum ao Estado. etc.. Tácito diz (Annales. incapaz de perceber alguma coisa e capaz de tudo afirmar. 38. o quinhão do povo: sabemos de alguns. V. de tudo crer e de tudo esquecer. havia despertado. sempre exagerado em suas opiniões violentas e passageiras. o duque de Praslin.. (De natura deornm.) Leve-se em conta sobretudo o número de oficiais de terra e mar. Ulpianus.. (Vejamse os relatórios dos intendentes.) 44. o túmulo do diácono Pâris. 11. tit. 150 151 . I. Tácito escrevia sob Vespasiano e sob Domiciano. Por volta de 1730. quae illa. haviam se envolvido. L'accord de la religion et de l'humanité sur l'intolérance. tanto quanto acusados de odiar o gênero humano. De que maneira o gênero humano. pertencentes ao papa. É muito difícil penetrar nas trevas da história." (Nota de Voltaire.) 42.) 45. 24 (Nota de Voltaire. (B. podia odiá-los? E de que maneira podiam ser acusados de detestar o gênero humano? Quando Londres foi incendiada. Embora os judeus não tivessem o direito de fazer justiça desd e que Arquelau fora relegado entre os alóbrogos e a Judéia era governada como província do império. mal eram conhecidos. (M. na qual vários católicos. nem pretexto. seu pai. ensinavam-lhes a moral mais pura. Atos. em qualquer lugar. ao fazer-se apologista da Noite de São Bartolomeu. V. (Nota de Voltaire._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ .) 39. o abade de Caveyrac. capítulo XXV. Esses rumores insensatos podem ser. Tácito não dá nenhuma razão da suspeita levantada de que o próprio Nero quis reduzir Roma a cinzas. (M. capo ii.) 46. 36. falava dos cristãos como falavam a respeito deles em sua época. (Nota de Voltaire. de Platão. (Nota de Voltaire. acusados de serem odiados pelo gênero humano. capo VII. Tácito. (Nota de Voltaire. XV. Teríamos bem mais razões para suspeitar de Carlos 11 de ter incendiado Londres: o sangue do rei. indignos de sê-lo.. Mas Nero não tinha escusa. tão dementes e injustos. no estilo de Tácito. e que fez repercutir sobre o autor uma parte da justa indignação que seu predecessor. quando. XXIV do Tratado sobre a tolerância). 44): "Quos per flagitia invisos vulgus christianos appellabat. Este homem é o abade de Malvaux.Os dois ministros elogiados por Voltaire são o duque de Choiseul-Stainville e seu primo. Voltaire não menciona os judeus de Avignon e do condado Venaissin. Atos. podia ao menos servir de escusa a Carlos 11. obra que é comentada no pós-escrito (cap. 37. executado num cadafalso aos olhos do povo que pedia sua morte. mas isso foi depois das guerras de religião. Voltaire supõe que a Apologia de Sócrates. ii. lapidavam por zelo aqueles que julgavam ter blasfemado. Eles perceberão muito bem que o restabelecimento da marinha demanda alguma indulgência para com os habitantes das nossas costas. capítulo XXVI. Eis o texto de Cícero: "Quaeve anus tam excors inveniri potest.) 41. no cemitério Saint-Médard." Era pouco provável que o nome "cristão" fosse já conhecido em Roma. o que faziam em Roma esses primeiros missionários? Procuravam ganhar algumas almas. e tudo isto por causa da perseguição. foi depois da conspiração dos barris de pólvora. Com efeito. quae quondam credebantur. mal haviam se separado dos outros judeus. muito popular no pequeno grupo jansenista. Os primeiros cristãos do tempo de Nero seguramente não se encontravam na mesma situação.. Eu ousaria dizer que as palavras adio humani generis convicti poderiam perfeitamente significar. acusaram os católicos. em 1762. apud inferos portenta extimescat". 57. liv. Digest. que publicou. 16.. não se insurgiam contra nenhum poder. que os ignorava. que foram obrigados a ir servir contra a França.Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ dez milhões por ano.) 35. geralmente com uma funesta vantagem. etc. V. não faziam parte do reino da França antes da Revolução.. "Eis qui judaicam superstitionem sequuntur honores adipisci permiserunt. constitua o discurso realmente pronunciado diante dos juízes. em Paris.) 40. Segui a opinião de Hébrail. que conhece tão bem o caráter dos governantes. numa sublevação repentina. e marinheiros. sempre vão. Capítulos XXI e XXIV.. É a este último que alguns atribuem a autoria de L'accord.) 43. ou seja. espalhados nos dias de hoje. em 1698. a humildade de seu coração era tão extrema como a de suas posses e de sua situação. Atos. nem interesse. Não se tem aqui a temeridade de propor idéias a ministros cujo gênio e opiniões abalizadas são bem conhecidos e cujo coração é tão nobre quanto seu nascimento.) . Os "profetas calvinistas": os da revolta dos protestantes. era palco de manifestações histéricas: as "convulsões". os romanos freqüentemente fechavam os olhos quando os judeus exerciam o julgamento do zelo.

Veja-se o belo hino de Orfeu. se a intempérie do clima os fizesse perecer. assim.. e acreditava-se na palavra desses historiadores porque. que o prefeito tenha encomendado a um ferreiro uma grelha bastante grande para assar um homem.. que não pode ser acusado de demasiado indulgente. que o primeiro magistrado de Roma tenha assistido pessoalmente a esse estranho suplício. eles recolhiam com prazer os boatos populares.. od. illos subjicit et mancipat Deo". Os historiadores compraziam-se em difamá-los. X. mas que. que lhe tenham aberto um processo e feito um interrogatório.. Cabe ao leitor sensato perceber até que ponto deve-se desconfiar da veracidade desses historiadores. lhe tenha dito: "Estou bastante assado de um lado.) Não se cantava outra coisa. soberano de todos os seres celestes. 233-34. podes me virar do outro se queres me comer. Longino escreve ao mesmo Agostinho que Deus "é único. o hominum divumque aeterna potestas. 85)..) 47.) Horácio exprime-se bem mais enfaticamente: Unde nil majus generatur ipso.. etc. tenha se retirado à ilha de Capri para ali entregar-se a orgias requintadas. nessa grelha. I. respeitamos tudo o que a Igreja torna respeitável. que nesse curto intervalo de tempo o pre- feito de Roma lhe tenha exigido o dinheiro dos cristãos. (Nota de Voltaire... seria uma perda leve. et fulmine terres. (Lib. que mal são naturais e que eram inclusive desconhecidas da juventude mais desenfreada de Roma. jornais da época. XXIV). que tenha ido até o prefeito para levá-lo ao lugar onde estavam esses pobres. vile damnum (Annales.. admite em seu livro V (Divin. que "os romanos submetem' todos os deuses ao Deus supremo. o próprio Lactâncio. Presumo que só era justo na medida em que essa justiça correspondia a seus interesses. o imperador os restabeleceu em todos os seus direitos. Tibério e seus sucessores foram odiados. Basta abrir Virgílio para ver que os romanos reconheciam um deus supremo. xii. e quais os limites que devemos impor à credulidade em anedotas que esses mesmos autores relatam sem a menor prova. após a morte de Sejano. Mesmo sendo pagão. difamavam quem queriam e decidiam a seu bel-prazer o julgamento da posteridade. qual o crédito que merecem fatos públicos atestados por autores sérios. que diz que quatro mil judeus ou egípcios foram enviados à Sardenha e que.. senão a unidade de Deus nos mistérios em que quase todos os romanos eram iniciados. 18.. Essa passagem de Fílon explica perfeitamente a de Tácito. invocamos os santos mártires. O! qui res hominunque deumque Aeternis regis imperiis. porque reinavam sobre um povo que devia ser livre.. em sua Apologética (c. pois em todo lugar eles compraram a tolerância e em pouco tempo foram ressarcidos do que ela havia custado. c. . os historiadores não citam ninguém. que o diácono Lourenço tenha tido tempo de reunir todos os pobres da cidade.) 48. então. afirma que todo o Império reconhecia um deus senhor do mundo. adiavam a deles para um outro dia. Não me parece verossímil que um velho doente. mas o bem que Fílon diz dele me faz duvidar um pouco dos horrores que Tácito e Suetônio lhe atribuem. podemos duvidar que São Sisto lhe tenha dito: Você me seguirá dentro de três dias. mas. incompreensível. aut secundum. provavelmente em consideração às quantias em dinheiro que haviam dado ao Estado. documentos.. et Legatione ad Caium) diz que "Sejano os perseguiu sob Tibério. (Eneida. Evidentemente. não havia anais. Nec viget quidquam simile.. Acrescentarei a essa nota que Fílon vê Tibério como um governante sábio e justo. nascidos numa nação esclarecida._ V o l t a i r e _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ Fílon (De Virtutibus." Tinham o direito à cidadania romana. nem Tácito nem Suetônio conheceram esse imperador. cuja potência e / 152 153 .. era impossível contradizê-los. embora desprezados pelos cidadãos romanos. na qual diz que "somente imbecis poderiam não reconhecer um Deus soberano". mesmo reverenciando São Lourenço. (Eneida.) O pater. inefável". de 70 anos. leia-se a carta de Máximo de Madaurus a Santo Agostinho. e. que São Lourenço." Essa grelha não faz muito o gênero dos romanos. I. E como se explica que nenhum autor pagão tenha falado dessas aventuras? (Nota de Voltaire. mesmo quando a distribuição era feita num dia de sabá. participavam das distribuições de trigo. Otávio. II. I1I). Institut. 17-18. Mesmo Tertuliano.

estava certamente muito abaixo do autor do Almanaque de Liege. pode-se colocar esse acontecimento. (Nota de Voltaire. desde que a história sucedeu ã fábula. macacos._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire-------_ _ _ _ __ . covardes. Heródoto relata que. bem como a escravidão de um povo imbecil. em certas regiões. Sobretudo em Platão. bem como todos os fatos anteriores. Essa asserção deve ser provada. Gente que afirmava que. essa reflexão sobre os egípcios é dada apenas como uma conjetura. os cólquidas e os citas. hoje. o mestre de Cícero na filosofia. os egípcios são vistos apenas como um povo covarde e supersticioso. são eles. Suas artes não valem muito mais que sua religião: não há uma única estátua egípcia que seja suportável. não provam outra coisa senão o orgulho e o mau gosto dos príncipes do Egito. O discurso é capaz de deslumbrar um jovem príncipe. Obviamente. dizem que todas as terras pertenciam aos monarcas. recomeçando seu curso. Alexandre lhe dita leis sem experimentar um só combate. isto é. que eram seu único bem. para satisfazer a grosseira ostentação de seus senhores. Percebe-se que tal propósito só é digno de um Picrochole [personagem do Gargântua de Rabelaisl ou de dom Quixote. Sabe-se que adoravam crocodilos. Capítulo XXXIX. gatos. que vieram tantas vezes devastar a Ásia. dizem a mesma coisa em várias passagens.) 51. isso não é uma prova de que tenham sido subjugados pelos egípcios. e se os sacerdotes de Colcos adotaram a moda da circuncisão. principem mundi. sob os Ptolomeus e os Césares. Capítulo III. Precisaram de um grego para aprender geometria. um rei egípcio chamado Sesóstris saiu de seu país com o propósito fonual de conquistar o universo. num período de onze mil anos. indolentes. A religião desses sacerdotes. só o culto do grande lama seja tão absurdo. os Ptolomeus o subjugam sem resistência. Os sacerdotes do Egito contaram a Heródoto que esse rei chamado Sesóstris fora subjugar a Cólquida: é como se disséssemos que um rei da França partiu de Touraine para subjugar a Noruega.) 49. Quanto às pirâmides e outras antiguidades. Capítulo XXXV. perfectae potentiae et majestatis. É preciso convir que. cebolas. (Nota de Voltaire.. E competia a tais escravos conquistar o mundo! A profunda ciência dos sacerdotes egípcios é também uma das coisas mais ridículas da história antiga. mesmo nos períodos mais enaltecidos.) / 154 155 . que governavam o Estado. talvez. Que outro nome pode dar-se a tudo o que se diz da Antiguidade? (Nota de Voltaire. lêse que "há um só Deus. ou seja. Nada é mais comum entre os povos conquistados do que recitar fábulas sobre sua antiga grandeza. por artistas da Grécia. até que outros bárbaros apoderem-se dela um dia. cumpre adorá-lo. que manda enforcar seu sultão e anexa essa província ao império dos turcos.. como os habitantes naturais desse clima. Marco Antônio no trono. Ornar ocupa todo o Egito numa única campanha. tendo os mamelucos se tornado egípcios. do mesmo modo que. o sol havia surgido duas vezes no poente e se posto duas vezes no nascente. não se comparava sequer à dos povos selvagens da América. em toda a terra. em pouco tempo caem sob o jugo de Selim I. mas satisfaz muito pouco os estudiosos: trata-se de uma declamação eloqüente. Diodoro de Sicília conta que todos os reis vencidos por Sesóstris vinham anualmente de seus reinos distantes pagar-lhe os tributos e que Sesóstris servia-se deles como de cavalos atrelados ã sua carruagem para levá-lo ao templo. povo da Cólquida e dos arredores do monte Cáucaso.) 50. De resto. sem contar que o nome Sesóstris não é egípcio. não encontrando uma cidade que ouse resistir a um assédio. (Nota de Voltaire. e tudo o que tiveram de bom foi feito em Alexandria. tenham penetrado no Egito. amá-lo e procurar assemelhar-se a ele pela santidade e pela justiça". relapsos e volúveis. e não os egípcios. na conta das Mil e uma noites. elas não se tornam mais verossímeis. mas um historiador deve ser mais filósofo do que orador. Cambises apodera-se do Egito mediante uma única batalha. parece absurdo e tirânico. são seus senhores após Ornar. em seu Discours sur I'Histoire universelle dirigido ao filho de Luís XlV. César e Augusto o fazem também facilmente.) 52. os mamelucos. da fábula. nos tempos fabulosos. Enfim.-______ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ majestade são infinitas. Epicteto na prisão. os reis eram muito bondosos para virem de tão longe servir de cavalos. É bem mais natural que os habitantes robustos e ferozes do Cáucaso. Essas histórias de Gargântua são todos os dias fielmente copiadas. O governo desse povo. Por mais que repitam todas essas histórias em milhares e milhares de volumes. que derrotam o exército de São Luís e fazem esse rei prisioneiro. (Nota de Voltaire. certas famílias miseráveis se fazem descender de antigos soberanos. empregando seus braços. O ilustre Bossuet extasia-se com o mérito egípcio.

Veja-se a excelente carta de Locke sobre a tolerância. estes não eram procurados. O suplício da cruz era tão comum entre os romanos que era impossível. VIII. de que maneira teri~m tratado o anjo da escola? 156 157 . o estilo de Trajano? Pode-se conceber que Inácio lhe tenha respondido chamar-se Teóforo. Trajano." Por certo. Veja-se nota 3. que se glorifica de trazer em si o crucificado. designar por crucificado o objeto do culto dos cristãos. não é assim que os soberanos costumam agir._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ . Não se contesta a morte de Santo Inácio. essas chamas afastaram-se dele e formaram um arco-íris acima de sua cabeça.-___ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ 53. afirma que um príncipe apóstata perde seu direito à coroa e que não se deve mais obedecer-lhe. sobre Santo Tomás. Polica/pol.. O jesuíta Busembaum. intérprete da vontade divina (são seus títulos).) 61. A Guerra dos Sete Anos. e que Trajano tivesse dissertado com ele acerca de Jesus Cristo? Fazem Trajano dizer. Santo Tomás de Aquino. É dito que uma voz gritou do alto do céu: Coragem. parto 2. liv. aprovado um decreto contra a inoculação.. que o imperador Juliano foi tolerado apenas porque era o mais forte (livro lI. Daniel. na época de Jacques Clément.) 56. Histoire ecclésiastique. se esses cristãos estivessem sob o flagelo da perseguição. A grande lei da atração. que os cristãos a ouviram. (Nota de Voltaire. que uma pomba surgiu desse arco-íris. Se Trajano mandou vir Inácio à sua presença. espírito impuro?" É pouco provável que um imperador falasse a um prisioneiro e que ele próprio o condenasse.) 54. mas se. terminada pelo tratado de 10 de fevereiro de 1763. O parlamento de Paris havia. (Nota de Voltaire. portanto. 57. mas é pouco provável que. mas os outros não.. doutor angélico. (M. quest. Com efeito. a Carta de um homem do mundo a um teólogo. e aquele que aceita essa incumbência faz uma obra caridosa". Foi essa proposição. mas aquele de quem o fogo não ousava aproximar-se não pôde resistir ao golpe da espada. empregasse esse termo.) 55. retro. respeitado pelo fogo. em qualquer país onde se encontre esse príncipe. ao final da conversaçào: "Ordenamos que Inácio. O martírio de São Policarpo faz surgir mais dúvidas. reprovaram-lhes então esse dogma. se puderem.diz ele . etc. e não é assim que as leis e os imperadores pronunciam seus julgamentos. entregar-lhes. um homem de bom senso não sentirá algumas dúvidas surgirem em seu espírito? O autor desconhecido desse relato diz que "Trajano julgou que faltaria algo à sua glória se não submetesse a seu império o deus dos cristàos". etc. seu confrade e do bernardo Ravaillac ele viesse sustentar na França tais proposiçÕes. é uma brochura de jesuíta. A seguir fazem Santo Inácio escrever uma longa carta aos cristãos de Roma: "Eu vos escrevo . no estilo das leis. que o santo. 12). em 8 de junho de 1763. santa ingenuidade. seja acorrentado. este lhe disse: "Quem és tu. Respeita-se muito o anjo da escola. caso contrário. que é legítimo matar todo herético (livro II. (Nota de Voltaire. Acreditaram justificar-se mostrando aproximadamente as mesmas decisões em Santo Tomás e em vários dominicanos (leiam. etc. É dito que. de 1762).. (M. exalou uma fragrância aromática que perfumou todo o ambiente. por eles ensinado tantas vezes e tantas vezes negado. Que idéia! Acaso Trajano era um homem que quisesse triunfar dos deuses? Quando Inácio apareceu diante do imperador. que a Igreja pode puni-lo com a morte (livro lI. quest. porque o universo pertence ao papa. não tinha o propósito de submeter o Deus deles a seu império.. que um cristão põe na boca de um imperador? Será este. Inácio cometia uma grande imprudência ao escrever-lhes: significava expor-lhes.) 58. que os que libertam o povo de um príncipe que governa tiranicamente são muito louváveis." Um sofista inimigo dos cristãos podia chamar Jesus Cristo de crucificado. 12). quest. E a expressào espírito impuro poderia ter sido pronunciada por um homem como Trajano? Nào se percebe que é uma expressão de exorcista. Mas ao ler o relato de seu martírio. se lhe foi permitido escrever aos cristãos de Roma. ao declarar a sentença. Mais do que nunca. É preciso reconhecer que devemos perdoar os que vêem nessas histórias mais piedade do que verdade. não podia ter-lhe perguntado: Quem és tu? Ele o sabia perfeitamente. parto 2. porque trazia Jesus em seu coraçào.) 59. Penso que os que redigiram esses atos deviam dar mais atenção às verossimilhanças e às conveniências. (M. 11 e 12). capítulo m. parto 2. comentado pelo jesuíta Lacroix. significava tornar-se seu delator. que mais mobilizou a França contra os jesuítas. (M.completamente acorrentado. diz que "é permitido matar um príncipe excomungado pelo papa. inventada nos manicômios do inferno.) 60.. quando amarraram Policarpo no poste e a fogueira ardeu em chamas.

Ibid. ou mesmo sobre o meu. festa anual dos judeus.) 67. 14. em que circunstância for. I. a Baco Omadios. Deus. (M. Porfírio. (Nota de Voltaire. recomenda portanto humanidade para com eles. Católicos e protestantes. 5) "que se vingará de todos os animais que derramaram o sangue do homem". 23-31. Deuteronômio. seria muito estranho que exprimissem tão bem o que não sentem. aos seres que ele próprio organizou com sua mào onipotente. XVI. do sentimento. que se digna conceder a vida. que não têm sentimento. (M. a memória. Pode-se inferir dessas passagens e de várias outras o que toda a Antiguidade sempre pensou até os nossos dias e o que todos os homens sensatos pensam: que os animais têm algum conhecimento. Dos sete preceitos dos noáchidas.) 72. com efeito. excetua apenas o sangue. Sempre houve povos que tiveram um grande escrúpulo disso. da alegria. (M. (M. Esse escrúpulo subsiste ainda em quase toda a Índia. para o bem da paz. censura um discípulo por ter abandonado sua seita apenas para entregar-se a seu apetite bárbaro. para ousar afirmar que os animais são somente máquinas. o sentimento. o comedor de carne crua. ele permite a Noé comer de tudo o que tenha vida e movimento. Prive-se um animal de seu sangue e todos os seus órgãos ficam sem ação. Por isso ele não quer a barbárie de nos alimentarmos do sangue desses animais. as idéias.) 64. porque o sangue é a fonte da vida e. Deus acrescenta (Gênesis. há um que proíbe comer o membro de um animal em vida. É sobre essa idéia que se fundou a comiseração que devemos ter para com os animais. da cólera e de todos os seus afetos. mas faz com os animais. Dentro de nossa idéia de fazer sobre esta obra algumas notas úteis. levar no pescoço tais relíquias do que acreditar que o papa tenha o menor direito sobre o temporal dos reis. De minha parte.. a Páscoa.) 66. (M. na Itália e na Grécia. Parece-me também que é preciso não ter jamais observado os animais para não distinguir neles as diferentes vozes da necessidade. penso eu.) 71. confesso que preferiria. do temor. 22. em memória de sua saída do Egito. e o franciscano Jean Petit. (M. eles fazem secar essas relíquias. e essa idéia tào natural foi a de todos os povos. Deus não faz um pacto com as árvores nem com as pedras. Joào. chanceler da Universidade. É preciso. III. infinitamente mais longe ainda. (M.) 73. assinalaremos aqui que é dito ter feito Deus uma aliança com Noé e com todos os animais. com muita razão que a Escritura diz em várias passagens que a alma. está no sangue. como vemos pelos sacrifícios da ilha de Quios.) 63. É. No entanto. entre alguns povos bárbaros. ter renunciado à luz natural. que ele houve por bem dotar de um sentimento não raro mais delicado que o nosso e de algumas idéias necessariamente associadas a esse sentimento. o que era chamado de alma sensitiva. Não sabemos nem como esses órgãos 158 159 . 8. toda a seita de Pitágoras. Essa nota pode fornecer muitas reflexões aos espíritos sabedores do poder e da bondade do Criador. Vários franciscanos sustentaram as horríveis teses de Jean Petit.) 69. adotados pelos judeus. É preciso dizer que essa doutrina diabólica do regicídio advém unicamente da idéia maluca partilhada há muito tempo por quase todos os monges.) 62. isto é. Esse costume subsistiu. Pascha. lI. ao permitir que os animais nos sirvam de comida.) 65. Êxodo. (M. XIII.. capo XIV. Esse preceito prova que os homens tiveram a crueldade de mutilar os animais para comer seus membros e que os deixavam viver para se alimentar sucessivamente das partes de seu corpo. É preciso convir que há barbárie em fazê-los sofrer.) 70. 17. XIV._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ Cumpre reconhecer que Jean Gerson. foi ainda mais longe que Santo Tomás. este entrega-lhes sua cadeira de retrete. (Nota de Voltaire. Nesse ponto estamos muito abaixo dos tártaros que crêem no grande lama imortal. do qual não permite que se alimentem. segundo a qual o papa é um Deus na terra. 28. em seu livro da Abstinência. conseqüentemente. XII. Levítico. pois. 23. (M.) 68. guardam-nas em relicário e as beijam devotamente. certamente só o costume é capaz de diminuir em nós o horror natural de degolar um animal que nutrimos com as nossas màos. IX. sempre se absteve de comer carne. do amor. lI. podendo dispor à vontade do trono e da vida dos reis. (M. Há uma contradição manifesta em admitir que Deus deu aos animais todos os órgàos do sentimento e em sustentar que não lhes deu sentimento. Ibid.

Deuteronômio.) 77. Tindal. nem como se recebe a vida. (Nota de Voltaire. 2). que os enganam. 18-19) e ao som da trombeta celeste que ouvia. mulher de Urias. a única maneira de escrever. a Sagrada Escritura designa sempre Rute. que não era possível gravar livros volumosos num deserto onde se mudava freqüentemente de lugar. tornando-se grande sacerdote. para expiar a falta de um só que fora surpreendido com uma jovem madianita. VIII. Bolingbroke e muitos outros alegaram que a arte de gravar os pensamentos na pedra polida. 20)? Dizem ser impossível a qualquer artista fazer em menos de três meses uma estátua de ouro. 19. 28) para expiar esse pecado. não cessamos de discutir._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ se formaram. 42-43. V. nem como se desenvolveram. no entanto. os caldeus e os egípcios não escreviam de outro modo. VI. com quem Judá cometeu. da qual Davi teve Salomão. bem como vários outros capítulos. nem cortá-las. onde não havia ninguém que pudesse produzir roupas. Enfim. as idéias. XXXIII. portanto. a Vulgata não lhe dá outro título senão o de meretrix (Josué. e em hieróglifos. para reduzi-la a pó. VII. XXXII. 26. 17). da raça de Aram. Aben-Hezra foi o primeiro que julgou demonstrar que o Pentateuco fora redigido no tempo dos reis. a moabita. XIX. 4)? E como Moisés o reduziu a pó em seguida (Êxodo. e que. era etéia. esposar impunemente estrangeiras. o desposou em seguida e foi a avó de Davi. Amós. tanto a prevaricação de Aarão como a operação de Moisés teriam sido milagres. a arte da química mais erudita não é suficiente. respondem que a ordem pode ter sido dada no deserto. a memória. e Levítico. Não conseguem conceber que esse povo pobre tenha exigido um bezerro de ouro maciço (Êxodo. a menos que se trate de um terceiro milagre. perseguimo-nos uns aos outros. não concebem que vinte e três mil homens tenham se deixado deste modo mas~a­ crar por levitas. VIII. XXXII. enquanto os cadáveres ensangüentados de vinte e três mil de seus irmãos eram empilhados ao pé do altar onde foi oferecer sacrifícios. Consideram inclusive Raabe como a figura da Igreja cristã: é a opinião de vários padres. de todos o mais culpado. 1) para adorá-lo ao pé da mesma montanha em que Deus falava a Moisés. 5) para conservar as roupas e os calçados de seu povo. e. e nessa profunda e eterna ignorância. a vontade ligam-se a essa vida. dizem que. Como pôde Aarão fundi-lo num só dia (Êxodo. e não histórias detalhadas. (Nota de Voltaire. ela esposou Salmom. Levantam os mesmos problemas em relação aos vinte e quatro mil israelitas massacrados por ordem de Moisés (Números. Essa mulher. Betsabé. Assim. no tempo de Moisés. XXXII. o patriarca Judá esposou uma mulher cananéia. (Nota de Voltaire. XXV. Se remontarmos mais acima. como os touros que se batem com seus chifres sem saber por que e como têm chifres. e sobretudo de Orígenes em sua sétima homilia sobre Josué. tenha sido recompensado do crime que causou tão terrível punição aos demais (Êxodo. e é ainda desse Salmom que Davi descende. XII. só podiam gravar de forma muito abreviada. Raabe era não apenas estrangeira. um incesto. na argila. e onde Deus foi obrigado a fazer um milagre de quarenta anos (Deuteronômio. XXXII. Vêem-se tantos reis judeus. embora sua família fosse originária de Belém. jeremias. no chumbo ou na madeira era. nem por que leis os sentimentos. acham estranho que Aarão. (Nota de Voltaire. em meio a raios e relâmpagos que o povo avistava (Êxodo. quando faltavam os ofícios mais necessários e nem mesmo se podia fazer pão. que. que esses críticos não conseguem admitir que a união com uma madianita fosse tão grande crime: Rute era moabita. Dizem que não é verossímil que houvesse tantos gravadores de caracteres.) 78. Wollaston. 8. nem sequer consertar as sandálias. dele recebeu seis alqueires de cevada. Atos. VII. então. seus filhos tiveram por mulher Tamar. 160 161 . a bondade de coração. sem saber. 9).) 74. 22. sobretudo Salomão.) 75. todo esse povo tenha se dirigido ao irmão de Moisés para obter o bezerro de ouro maciço. os impedem de acreditar que Moisés tenha mandado matar vinte e três mil pessoas (Êxodo. Vários escritores concluíram temerariamente dessa passagem que o capítulo concernente ao bezerro de ouro (que não é senão o deus Ápis) foi acrescentado aos livros de Moisés. Espantam-se de que exatamente na véspe- ra do dia em que Moisés desceu da montanha. (Nota de Voltaire. mas que só foi executada em épocas mais favoráveis.) 76. A humanidade. inerente ã nossa natureza. não era da raça de Israel. se lhes dizem que as colunas do tabernáculo eram de bronze e os capitéis de prata maciça. príncipe de Judá. Shaftesbury. a substância das coisas que queriam transmitir ã posteridade. Collins. mas uma mulher pública. ela foi ter ao leito de Boaz a conselho de sua mãe.

e não pela compreensão da língua hebraica. matar todos. foram eles que ensinaram. nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se encarnar entre os judeus uma família com cinco estrangeiras em sua árvore genealógica.) 83.) 80. Resta saber se esses acasalamentos produziram monstros e se há algum fundamento nos antigos contos de sátiros. XII." Aben-Hezra afirma que essas passagens. XIX. por ser a única nação conhecida na qual as leis foram forçadas a proibir um crime jamais suspeitado alhures por algum legislador. e ele denominou toda essa região de Bazan aldeias de Jair. capo IV. na introdução a seus comentários sobre Daniel e São João. não podem ser de Moisés. não faz parte dos deveres do homem. mas que pode ter-se enganado por ser homem. capo VIII. em que se fala de coisas acontecidas depois de Moisés. ele nos julgará por nossas ações. ninguém se vangloriará de ter sabido precisamente em que ano o Pentateuco foi escrito e de ter decifrado o texto de notas que os escribas costumavam tomar. Com efeito. nessa região terrível. XXXVI. 31. a começar pelo famoso Leclerc. É de supor que nas fadigas e na penúria que os judeus experimentaram nos desertos de Farã. capo XXI.) [Corresponde a I Reis. XVIII. Deus não nos perguntará se fomos a favor dos massoretes contra o Talmude. Com efeito. cujo nome aliás só merece ser pronunciado com respeito. mas acredita-se que o costume de nossos supostos feiticeiros de adorar um bode no sabá e de com ele entregar-se a infâmias inconcebíveis.) 79. cuja idéia causa horror. Oreb e Cades-Barné.) 81. capo XXIV. se alguma vez tomamos um caph por um beth. o primeiro a ousar afirmar que o Pentateuco fora redigido muito tempo depois de Moisés. Objetam-lhe que tais passagens são notas acrescentadas muito tempo depois pelos copistas. pátria da superstição e do sortilégio. com toda a certeza. Jamais se viu. seja à direita do lago Asfaltite. 28. O rabino Aben-Hezra foi. V. como disse. V. um yod por um vaü. humanos. Encerramos esta nota com uma passagem importante do Levítico. Essa curiosidade.. para fazer ver que as nações estrangeiras teriam parte na sua herança. 31) antes que algum reinasse sobre Israel. Atemo-nos firmemente à decisào da Igreja. em Israel. 9. 15 sS. A montanha de Moriá (lI Paralip. (Nota de Voltaire. "os bodes. numa parte da Europa. lI. (Nota de Voltaire. São estes os reis que reinaram em Edom (Gênesis. centauros e minotauros. se eles são mencionados no livro dos Juízes. (M. Reis. o legislador contenta-se em fazer-lhe uma simples defesa. livro composto após a adoração do bezerro de ouro. É possível que os rapazes. proveio dos antigos judeus. que os judeus carecessem de mulheres. levassem a depravação da natureza até acasalarem-se com cabras. IX. mas a física não nos esclareceu ainda sobre esse assunto monstruoso. Mas essa opinião tem apenas um pequeno número de adeptos cuja curiosidade sonda tais abismos. Os árabes que habitam ainda uma parte desses desertos estipulam sempre. exceto as jovens núbeis. tudo leva a crer que esses livros foram escritos no tempo dos reis. no entanto. a espécie feminina. faunos. se no capo XXXVI do Gênesis se fala dos reis. Que povo! Tão estranha infâmia parecia merecer um castigo comparável ao ocasionado pelo bezerro de ouro. capo 11.) 82. 6) estava então nesse país. tenha sucumbido. Quando os sábios e os ignorantes. chamada a montanha de Deus. a bestialidade devia ser comum. a feitiçaria. eM. em quatro capítulos dos Juízes. "O cananeu (Gênesis. com os quais inclusive praticaram abominações infames". se no livro de Rute há referência a Davi. os príncipes e os pastores apresentarem-se após esta curta vida perante o senhor da eternidade. até hoje. todos desejarão ser justos. como é dito de alguns pastores da Calábria. XVII. rei de Bazan. por certo. Ele baseia-se em várias passagens. (M. um daleth por um res. XXI. Josué e dos Juízes a autores sagrados muito posteriores: baseia-se no capítulo XXXVI do Gênesis. Números. Relatamos aqui esse fato apenas para fazer conhecer a nação judaica: nela. Ele ordena os judeus a não mais adorar os lanosos. a história o afirma. É provável. em Samuel. paralip. nos tratados que fazem com as caravanas. no livro de Rute. 1). de fato. profeta como Moisés. seja à esquerda. atribui. Newton. (Nota de Voltaire. se vê ainda em Rabat. O leito de Og. que lhes darão jovens núbeis.) 162 163 . generosos. Josué.. capo IV. mais frágil que a outra. Ibid. já que sempre lhes foi ordenado. I1I. nas Crônicas. os livros de Moisés. lI. É também a opinião de alguns teólogos. quando se apoderavam de uma cidade ou aldeia.. compassivos. Não se sabe se esse estranho culto vinha do Egito. conforme o dever razoável de um fiel._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ Assim.

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84. Reis, liv. m, capo XV,
XXII, v. 44. (Nota de Voltaire.)

V.

14 [corresponde a I Reis); ibid., capo

85. Reis, liv. IV, capo XVI. (Id.) [II Reis) 86. Ibid., liv. m [I Reis], capo XVIII, V. 38 e 40; ibid., liv. IV, capo II, V. 24. (Id.) 87. Iv. Reis [II Reis], II, 24. (M.) 88. Números, capo XXXI. (Nota de Voltaire.) 89. Mádian não fazia parte da terra prometida. Era um pequeno cantão da Iduméia, na Arábia Pétrea; começa ao norte no curso do rio Arnon e vai até o Zared, em meio aos rochedos e na margem oriental do lago Asfaltite. Essa região é hoje habitada por uma pequena horda de árabes; deve ter cerca de oito léguas de comprimento e um pouco menos de largura. (Id.) 90. Números, XXXI, 32 sS. (M.) 91. Números, XXXI, 40. (M.) 92. É certo pelo texto (juízes, XI, 39) que Jefté imolou sua filha. "Deus não aprova esses sacrifícios, diz dom Calmet em sua Dissertação sobre o juramento de jefté; mas quando foram oferecidos, ele quer que os executem, ainda que para punir aqueles que os faziam, ou para reprimir a leviandade com que seriam feitos se não temessem a execução." Santo Agostinho e quase todos os padres condenam a ação de Jefté. É verdade que a Escritura (juízes, XI, 29) diz que ele foi tomado pelo espírito de Deus, e São Paulo, em sua Epístola aos hebreus, capo XI, V. 32, faz o elogio de Jefté; equipara-o a Samuel e Davi. São Jerônimo, em sua epístola a Juliano, diz: "Jefté imolou sua filha ao Senhor, e é por isso que o apóstolo o inclui entre os santos." Eis aí, de um lado e de outro, julgamentos sobre os quais não nos é permitido acrescentar o nosso; deve-se temer inclusive ter uma opinião. (Nota de Voltaire.) 93. Pode-se considerar a morte do rei Agag como um verdadeiro sacrifício. Saul havia feito esse rei dos amalecitas prisioneiro de guerra e aceitara negociar com ele; mas o sacerdote Samuel ordenoulhe nada poupar; disse-lhe com estas palavras (J. Samuel, XV, 3): "Nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito." "E Samuel despedaçou a Agague perante o Senhor em Gilgal." "O zelo que animava o profeta", diz dom Calmet, "pôs-lhe a espada na mão nessa ocasião para vingar a glória do Senhor e para humilhar Saul."

Vemos, nessa fatal aventura, uma devoção, um sacerdote, uma vítima: tratava-se, pois, de um sacrifício. Todos os povos cuja história conhecemos sacrificaram homens à Divindade, exceto os chineses. Plutarco (Quest. rom. LXXXII) conta que os próprios romanos fizeram imolações na época da república. Nos Comentários de César(De bello gall., I, xxiv), lemos que os germanos imolaram os reféns que ele lhes devolvera após sua vitória. Observei alhures que essa violação do direito das pessoas para com os reféns de César, e essas vítimas humanas imoladas, para cúmulo do horror, pela mào de mulheres, desmente um pouco o panegírico que Tácito faz dos germanos, em seu tratado De moribus germanorum. Parece que, nesse tratado, Tácito preocupa-se mais em fazer a sátira dos romanos do que o elogio dos germanos, que ele não conhecia. Diga-se de passagem que Tácito gostava mais da sátira do que da verdade. Ele quer tornar tudo odioso, inclusive as ações indiferentes, e sua malignidade nos agrada quase tanto quanto seu estilo porque gostamos da maledicência e do engenho. Voltemos às vítimas humanas. Nossos antepassados as imolavam da mesma forma que os germanos: é o último grau da estupidez de nossa natureza abandonada a si mesma e é um dos frutos da fragilidade de nosso julgamento. Dizemos: Cumpre oferecer a Deus o que temos de mais precioso e de mais belo; o que temos de mais precioso são nossos filhos; logo, cumpre escolher os mais belos e os mais jovens para sacrificá-los à Divindade. Fílon diz que, na terra de Canaà, imolavam-se às vezes crianças, antes que Deus ordenasse a Abraão sacrificar-lhe seu filho único, Isaque, para provar sua fé. Sanchoniathon, citado por Eusébio, conta que os fenícios sacrificavam, nas situações de maior perigo, o mais querido de todos os seus filhos, e que Ilus imolou seu filho Jehud mais ou menos na época em que Deus pôs à prova a fé de Abraào. É difícil penetrar nas trevas dessa antiguidade; mas nào resta dúvida de que esses horríveis sacrifícios eram praticados quase por toda parte; os povos só os abandonaram à medida que se civilizaram: a civilidade traz a humanidade. (Nota de Voltaire.) 94. XXXIX, 20, 18. (M.) 95. juízes, capo XI, V. 24. (Nota de Voltaire.)

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96. juízes, capo XVII, último versículo. (Nota de Voltaire.) 97. Reis, liv. IV [lI. Reis], capo V, v. 18 e 19. (Nota de Voltaire.) 98. Os que estão pouco a par dos costumes da Antiguidade e que só julgam segundo o que vêem a seu redor podem ficar espantados com essas singularidades; mas é preciso pensar que, então, no Egito e numa grande parte da Ásia, a maior parte das coisas exprimiase por figuras, hieróglifos, sinais, modelos. Os profetas, que eram chamados videntes entre os egípcios e os judeus, não apenas se exprimiam em alegorias, como também representavam por sinais os acontecimentos que anunciavam. Assim, Isaías, o primeiro dos quatro grandes profetas judeus, pega um rolo (cap. VIII) e escreve: "Shas bas, toma depressa os despojos"; depois aproxima-se da profetisa. Ela dá à luz um menino que ele chama de Maher-chalal-shas-bas: é uma figura dos males que os povos do Egito e da Assíria farão aos judeus. Esse profeta diz (VII, 15, 16, 18, 20} "Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra, ante cujos dois reis tu tremes de medo ... Porque há de acontecer que naquele dia assobiará o Senhor às moscas que há no extremo dos rios do Egito, e às abelhas que andam na terra da Assíria ... Naquele dia rapar-te-á o Senhor com uma navalha alugada doutro lado do rio, a saber, por meio da Assíria, a cabeça e os cabelos das vergonhas, e tirará também a barba." Essa profecia das abelhas, da barba e dos cabelos das vergonhas raspados, só pode ser entendida por aqueles que sabem que era costume chamar os enxames com o som da flauta ou de algum outro instrumento campestre; que a maior afronta que se podia fazer a um homem era cortar-lhe a barba; que se chamava de cabelos das vergonhas o pêlo do púbis; que esse pêlo só era raspado nas doenças imundas, como a lepra. Todas essas figuras estranhas ao nosso estilo não significam senão que o Senhor, dentro de alguns anos, libertará seu povo da opressão. O mesmo Isaías (cap. XX) marcha completamente nu, para assinalar que o rei da Assíria levará uma multidão de cativos do Egito e da Etiópia, que não terão com que cobrir sua nudez. Ezequiel (cap. IVe seguinte) come o volume de pergaminho que lhe é apresentado; em seguida cobre seu pão de excrementos e per-

manece deitado sobre seu lado esquerdo trezentos e noventa dias, e sobre seu lado direito quarenta dias, para dar a entender que os judeus não terão pão e para indicar quantos anos haveria de durar o cativeiro. Prende-se com correntes, que representam as do povo; corta seus cabelos e sua barba e os divide em três partes: o primeiro terço designa os que devem perecer na Cidade; o segundo, os que serão mortos fora das muralhas; o terceiro, os que serão levados à Babilônia. O profeta Oséias (cap. 111) une-se a uma mulher adúltera, que ele adquire por quinze peças de prata e um saco e meio de cevada: "Tu esperarás por mim muitos dias, diz-lhe Oséias; não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim também esperarei por ti. Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem coluna, sem estola sacerdotal ou ídolos do lar." Em uma palavra, os na bis, os profetas, os videntes, quase nunca predizem sem representar por um sinal a coisa predita. Jeremias, portanto, não faz senão seguir o costume ao amarrarse com cordas e colocar cabrestos e jugos nas costas, para significar a escravidão daqueles aos quais envia esses modelos. Se prestarmos bem atenção, esses tempos são como os de um mundo antigo, que em tudo difere do novo: a vida civil, as leis, a maneira de fazer a guerra, as cerimônias da religião, tudo é absolutamente diferente. Basta abrir Homero e o primeiro livro de Heródoto para nos convencermos de que não temos nenhuma semelhança com os povos da alta Antiguidade e de que devemos desconfiar de nosso julgamento quando buscamos comparar seus costumes com os nossos. A própria natureza não era o que é hoje. Os magos tinham sobre ela um poder que não têm mais: encantavam serpentes, evocavam os mortos, etc. Deus enviava sonhos, e homens os explicavam. O dom da profecia era comum. Viam-se metamorfoses como as de Nabucodonosor transformado em boi, da mulher de Ló em estátua de sal, de cinco cidades num lago betuminoso. Havia espécies de homens que não mais existem. A raça dos gigantes Refaím, Enim, Nefilim, Enacim, desapareceu. Santo Agostinho, no livro V da Cidade de Deus, diz ter visto o dente de um antigo gigante cem vezes maior que os nossos molares. Ezequiel (XXVII, 11) fala dos pigmeus gamaditas, da altura de um côvado, que combatiam no cerco de Tiro. E em quase tudo isto os autores sagrados estão de

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acordo com os profanos. As doenças e os remédios não eram os mesmos de nossos dias: os possessos eram curados com a raiz barad engastada num anel que lhes punham sob o nariz. ' E~fim, todo esse mundo antigo era tão diferente do nosso, que de~e nao se pode tirar nenhuma regra de conduta; e se, nessa AntigUidade recuada, os homens se perseguiram e oprimiram sucessivamente a propósito de seu culto, não deveríamos imitar essa crueldade sob a lei da misericórdia. (Nota de Volta ire.) 99. jeremias, capo XXVII, V. 6. (Nota de Voltaire.) 100. jeremias, capo XXVIII, V. 17. (Nota de Voltaire.) 101. Isaías, capo XLIV e XLV. (Nota de Voltaire.) 102. I, V. 11. (M.) 103. Êxodo, capo XX, V. 5. (Nota de Voltaire.) 104. Deuteronômio, V, V. 16. (M.) 105. Deuteronômio, XXVIII. (Nota de Voltaire.) . 106. ~á uma única passagem nas leis de Moisés da qual se podena conclUir q~e ele conhecia a opinião reinante entre os egípcios, de que a alma nao morre com o corpo; essa passagem é muito importante, e se encontra no capítulo XVIII do Deuteronômio: "Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro: nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consult~ os mortos." Essa passagem parece indicar que, se evocavam as almas dos mortos, tal sortilégio supunha a permanência das almas. Pode ser ta_mb~m que os magos de que fala Moisés, sendo apenas trapaceiros nao tivessem uma idéia clara do sortilégio que julgavam operar. Ele~ faZiam crer que ~orçavam os mortos a falar, que os repunham, por sua magia, na sltuaçao em que esses corpos tinham estado em vida sem ~x:minar ao menos se era possível inferir ou não de suas oper~ções ndlcula~ ,o dogma da imortalidade da alma. Os feiticeiros jamais foram filosofos, sempre foram charlatães que representavam diante de imbecis. Pode-se observar ainda que é bastante estranho a palavra Píton encontrar-se no Deuteronômio, muito tempo antes que essa palavra grega pudesse ser conhecida pelos hebreus: assim, Píton não tem nenhuma tradução exata na língua hebraica. Essa língua tem dificuldades insuperáveis: é uma mistura de fenício, egípcio, sírio e árabe; e essa mistura encontra-se hoje muito al-

terada. O hebraico sempre teve apenas dois modos para os verbos, o presente e o futuro: é preciso adivinhar os outros modos pelo sentido. Vogais diferentes eram com freqüência expressas pelos mesmos caracteres; ou, então, não se expressavam as vogais, e os inventores dos pontos só fizeram aumentar a dificuldade. Cada advérbio tem vinte significados diferentes. A mesma palavra é tomada em sentidos contrários. Acrescente-se a isso a secura e a pobreza da linguagem: os judeus, privados das artes, não podiam exprimir o que ignoravam. Em uma palavra, o hebraico está para o grego assim como a linguagem de um camponês para a de um acadêmico. (Nota de Voltaire.) Voltaire tem em vista o livro do teólogo inglês W. Warburton, The divine legation of Moses demonstrated. 107. Ezequiel, capo XVIII, V. 20. (Nota de Voltaire.) 108. Ibid., capo XX, V. 25. (Nota de Voltaire.) 109. A opinião de Ezequiel prevaleceu enfim na sinagoga; mas houve judeus que, acreditando nos castigos eternos, acreditavam também que Deus perseguia nos filhos as iniqüidades dos pais; hoje eles são punidos para além da qüinquagésima geração e têm ainda a temer os castigos eternos. Pergunta-se de que maneira os descendentes dos judeus, que não eram cúmplices da morte de Jesus Cristo, os que, estando em Jerusalém, não participaram dela e os que se espalharam pelo resto da terra podem ser temporalmente punidos em seus filhos, tão inocentes quanto seus pais. Essa punição temporal, ou, antes, essa maneira de existir diferente de outros povos e de praticar o comércio sem ter pátria, pode não ser vista como um castigo em comparação com as penas eternas que eles atraem sobre si por sua incredulidade e que são capazes de evitar através de uma conversão sincera. (Nota de Voltaire.) 110. Os que quiseram encontrar no Pentateuco a doutrina do inferno e do paraíso, tais como os concebemos, equivocaram-se estranhamente. Seu erro baseou-se apenas numa vã disputa de palavras; tendo a Vulgata traduzido o termo hebraicO sheol, fossa, pelo latino infernum, inferno, serviram-se desse equívoco para fazer crer que os antigos hebreus tinham a noção de Hades e de Tártaro dos gregos, que outras nações conheceram antes sob nomes diferentes. É dito no capítulo XVI dos Números (31-33) que a terra abriu sua boca sob as tendas de Coré, Datã e Abirã, que os devorou com

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no capítulo XXIV (15-19). 24): "E de uma lua nova ã outra.. eu vos pergunto. Cito as passagens inteiras.. do T. segundo o cálculo hebraico. constatados no Novo Testamento. onde está "ao fundo da terra".. Porque se acendeu o fogo de minha cólera. Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das águas. desconhecidos antes de sua escravidão na Babilônia. devorará a terra com seus produtos e abrasará os fundamentos das montanhas' e acumularei sobre eles os males. diz "ao mais profundo do inferno". de dia se conservam encerrados. A palavra Satanás. Notadamente. Moisés viveu por volta do ano 2500. se são expostos ã visão dos passantes e comidos pelos vermes. que está em JÓ O. maldita é a porção dos tais na terra.-_ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ suas tendas e seus bens. no ano 3380 do mundo. assim como os nomes Gabriel e Rafael. (N. O autor desse artigo no Dictionnaire encyclopédique cita ainda a passagem de Jó. aqui empregada. e irritaram-me com sua vaidade. no Dictionnaire encyclopédique. e os irritarei com uma nação insensata. e isto é o que o grande Arnauld diz claramente e com vigor em sua apologia de Port-Royal. já não andam pelo caminho das vinhas. e ele arderá até ao fundo da terra. Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte. e literalmente. é muito provável que JÓ não fosse judeu: é a opinião de São Jerônimo em suas questões hebraicas sobre o Gênesis. Cita-se ainda o último capítulo de Isaías (23. e as palavras O fogo não se apagará não significam que cadáveres expostos ã visão do povo sofram as penas eternas do inferno. 12). e empregarei contra eles minha~ flechas. 6. assim faz a sepultura dos que pecaram.. e eles serão um horror para toda a carne. transcorreram oito séculos entre um e outro." Ou então: "O túmulo dissipou os • Esta citação é traduzida de Voltaire. não era conhecida dos judeus. e jamais aparece no Pentateuco. haveria uma contradição insustentável no Pentateuco. "Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero. É um insulto ao senso comum. Ademais.. segundo a versão dos Setenta. Eles sairão. diz o Senhor.. a menor palavra a partir da qual se possa concluir que Moisés ensinou aos judeus a doutrina clara e simples dos castigos e recompensas após a morte? O livro de Jó não tem relação com as leis de Moisés. 170 171 . também eu os provocarei naquilo que não é um povo. Nas trevas minam as casas. as aves os atacarão com bicadas dolorosas. Como se explicaria que Moisés tivesse falado numa passagem isolada e única dos castigos após a morte e que deles não tivesse falado em suas leis? Cita-se o trigésimo segundo capítulo do Deuteronômio (versículos 21-24). os castigos e as recompensas após a morte são anunciados. este diz consigo: Ninguém me reconhecerá. Como se pode citar uma passagem de Isaías para provar que os judeus do tempo de Moisés receberam o dogma da imortalidade da alma? Isaías profetizava. apresenta diferenças. ou uma simples brincadeira. reconhecidos. e que eles foram precipitados vivos na morada dos mortos. Se fosse assim. ei-lo aqui na íntegra: "Provocaram-me com aquilo que não era Deus. serão consumidos pela fome. ou ainda. nem aos tormentos do inferno. e cobre o rosto. mandarei sobre eles os dentes das feras e das serpentes que se arrastam com furor sobre a terra.. A tradução de João Ferreira de Almeida. Os judeus só ficaram sabendo desse nome 'na Caldéia. e de um sábado a outro. seja dito que os antigos hebreus reconheceram sua realidade. Certamente esse lugar não se refere ãs almas desses três hebreus. A secura e o calor desfazem as águas da neve. Existe aí.) que pecam".. isso não quer dizer que Moisés ensinou aos judeus o dogma da imortalidade da alma. sem o quê é sempre impossível formar-se a respeito delas uma idéia verdadeira..'" Acaso existe alguma relação entre essas expressões e a idéia das punições infernais tais como as concebemos? Parece antes que essas palavras só tenham sido mencionadas para tornar evidente que nosso inferno era ignorado pelos antigos judeus. É indubitável que a imortalidade da alma. porque o seu verme nunca morrerá. abusar assim da permissão de citar e pretender provar que um autor sustentou tal opinião através de uma passagem de um autor vindo oitocentos anos depois e não falou dessa opinião. "Seu pecado foi trazido ã memória". e é indubitável que não se encontram em nenhum lugar do Pentateuco. mas de maneira truncada. nem a uma punição eterna. É estranho que. nada querem com a luz. mas os terrores da noite lhes são familiares. virá toda a carne a adorar perante mim. 1. e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim. nem o seu fogo se apagará. Portanto Jó é muito mal citado a esse respeito." Certamente. no termo INFERNO.

os manes dos co1pos. aéreo._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __ Os judeus. sua teologia fosse bastante correta." Santo Ambrósio. Toda a Antiguidade discutiu sobre a liberdade. Mergulhados em trevas profundas." Santo Irineu diz. mas é de supor que. utilizamo-nos da palavra espírito. e é difícil adivinhar o sentido de Santo Irineu. para chegar a conceber a espiritualidade pura. universais. pois. não foram esclarecidos sobre sua espiritualidade. como quase todas as outras nações. Todo o sistema da fatalidade está contido nesta frase de Sêneca (epístola CV1I): Ducunt volentem fata. o destino era. Júpiter queria salvar a vida de seu filho Sarpédon. em seu capítulo XXII de Acerca da alma.) 172 173 . nós ainda tiramos o que podemos. tratar-se com indulgência. . acreditando depois na imortalidade da alma. para sustentar. Sempre se esteve de acordo com que Deus governava o universo por leis eternas." Ele acrescenta que "Jesus Cristo ensinou que as almas conservam as imagens do corpo . imortal. nada podemos conhecer por nós mesmos acerca do que está além dos sentidos. Essa opinião foi a de vários padres da Igreja. e nos é impossível ter uma idéia clara do que não é matéria. Jesus Cristo jamais ensinou essa doutrina. literalmente. se elas provam o quanto houve de enganos de parte a parte em todos os tempos. o que está abaixo e. remetendo-nos involuntariamente à idéia de uma substância solta e leve. Se quisermos refletir atentamente sobre tudo isso. acerca de Abraão. (Nota de Volta ire. Essa verdade foi a origem de todas as disputas ininteligíveis sobre a liberdade. arrastam a quem resiste]. nos adverte que é incompreensível: pois o que vem a ser. um Nicole e tantos outros que foram a luz da França! (Nota de Voltaire. Transportamos algumas palavras de nossa linguagem comum aos abismos da metafísica e da teologia.) 111. e dessas palavras sopro. Santo Hilário é mais formal e mais positivo em seu comentário sobre Santo Mateus. por isso mesmo. porque jamais se definiu a liberdade. ou o encadeamento necessário das causas e dos efeitos necessariamente produzidos pela natureza. mas o destino o condenou à morte e Júpiter teve de obedecer. vento. Atribui claramente uma substância corporal à alma: "Corpoream naturae suae substantiam sortiuntur. immortalem. encontra-se a todo momento em Homero. afirma que não há nada de separado da matéria.caracterem corporum in quo adoptantur." Ao que se saiba. Mas não chegamos jamais a uma noção distinta. figurada. um Sacy. uma substância leve. Entre os filósofos. de fato.As almas são incorpóreas em comparação com os corpos mortais. substantia simplicem. que conservava alguma semelhança com o corpo que havia animado. imutáveis. nolentem trahunt [Os fatos guiam a quem se deixa levar. Todas essas observações não são alheias ao fundo da questão. Sabemos que a alma é espiritual. o que está abaixo? O conhecimento dos segredos de Deus não está destinado a esta vida. Conhecemos muito imperfeitamente a matéria. Este demonstrou que a liberdade é o poder de agir. espírito. uma vez que. não conhecendo a natureza incompreensível da alma. mas até os nossos dias ninguém foi perseguido por isso. que consiste em saber se os homens devem se tolerar. exilado. no fundo. até surgir o sábio Locke. etc. não sabemos sequer o que dizemos ao pronunciarmos a palavra substância. Que horror absurdo terem aprisionado. o que é bem mais razoável.Definimos a alma nascida do sopro de Deus. batem-nos uns contra os outros e atingimo-nos ao acaso em meio a essa noite. um Arnauld. a não ser a substância da Santíssima Trindade. livro II. O dogma da fatalidade é antigo e universal. . e o homem. simples em sua substância. por causa dessa disputa. para exprimir algo que não é matéria. provam também que os homens precisaram. não haverá homem razoável que não conclua que devemos ter indulgência para com as opiniões dos outros. para termos uma vaga idéia das coisas que não podemos conceber nem exprimir. capo XXXIV: "Incorporales sunt animae quantum ad comparationem mortalium corporum. é uma das rodas da grande máquina do mundo. capo VIII. se possível. significa. pensaram. Poder-se-ia censurar esses homens respeitáveis de fazerem má filosofia. agindo livremente segundo as ordens eternas de Deus. que corresponde a sopro e vento. e reconhecer seu direito. corporal em. em seu livro II. que a alma é algo de solto. sem saber precisamente por que combatemos. Tertuliano. em todos os tempos. Assim. Deus concede esse poder. corporal. mas não sabemos em absoluto o que vem a ser o espírito. Muito pouco informados sobre o que afeta nossos sentidos. é o que chamam de sombras. effigiatam. asseguravam-na imortal e a queriam cristã. nosso frágil entendimento nessas regiões ignoradas. exprime-se assim: "Definimus animam Dei flatu natam. procuramos nos apoiar nessas palavras. ou esse mesmo encadeamento ordenado pela Providência.

No entanto. 142. (M. Samuel (J. capo XXVI. capo XXII. 28. numa ilha além do oceano. 55. Lucas. Desde Homero. São Mateus. o papa havia condenado no Augustinus de Jansenius cinco proposições. Ibid.. Mateus. (M. (M. baseando-se no fato de que elas não aparecem literalmente no Augustinus. São Mateus. não há como habitá-la.. 34.) 130. Entre os sabeus.) 138. IX. sem uma revelação particular.. melancolia de Deus. 16. Mateus. capo XIV. 15. (Nota de Voltaire. (Nota de Voltaire. mas. em 1762. XXV. eM. Reis. XI. capo XVIII. do próprio Deus.) 129. Portanto é uma questão bastante inútil perguntar o que os antigos pensavam do céu. (M. 52. parece que os judeus entenderam literalmente que Jesus se disse filho de Deus no sentido próprio. VI) chama filhos de Deus os filhos dos homens poderosos. XV.) 115. eM. e era esta a opinião dos essênios. a doença de Saul. encontrava-se no monte Olimpo.) 134. (Nota de VoltaireJ 116.) 118. VIII. (M. 26 e ss. ou seja. 61. O palácio dos deuses.) 120. um vento de Deus. Versículo 23. IX. e 174 175 . (M.) 131. São Lucas. 141.) 132. se consideraram essas palavras uma blasfêmia. Os jansenistas opuseram uma longa resistência. 11. nem seus contemporâneos gregos acreditavam que a alma do homem fosse para o céu após a morte. Lucas.) 139. XXII. XXVI. 17. Capítulo 13. no mesmo círculo.) 114. (M. João. Lucas. Era de fato muito difícil aos judeus.) 119. Em 1653. os grandes cedros. capo XXVI. 63. (Nota de Voltaire. Mas que se saiba para sempre que foram perseguidos apenas porque haviam sido perseguidores. (M. no tempo de Homero. 9. V. que escapavam por algumas aberturas. V..) 121.. enviado ã terra para a salvação dos homens. Juno e Íris não tiveram outros palácios. nos salmos (LXXIX. Marcos.) 123. O romance teológico da metempsicose vem da Índia. Esse dogma é explicado no admirável décimo quinto livro das Metamorfoses de Ovídio. 11). X.) 117. capo XIV. "Admoestação mui respeitosa aos Inquisidores da Espanha e Portugal". filho de Deus. talvez seja uma prova a mais de sua ignorância a respeito do mistério da encarnação e de Deus. (M.. (M. o autor certamente os teria respeitado. cada deus tinha sua estrela. Os judeus pensavam que a Lua e o Sol estavam a algumas léguas acima de nós. XX. Mateus. 13. e que o firmamento era uma abóbada espessa e sólida que sustentava o peso das águas. Quando escrevíamos assim.) 128. 59. La Rochefoucauld. XVIII. (Nota de Voltaire.) 133. São Mateus. (M. Mateus.) 137.. da qual recebemos muitas outras fábulas sem que geralmente o saibamos. Lucas.. Foi aceito em quase toda a terra e sempre foi combatido. são chamados cedros de Deus. (M. V. (Nota de Voltaire.) 113. mas não sabemos de nenhum sacerdote da Antiguidade que alguma vez tenha dado uma ordem de prisão a um discípulo de Pitágoras. A melhor resposta é que não pensavam. atribuíram-se planetas aos deuses. (M. (Nota de Voltaire. 48. 44. esse mistério int~­ fável da encarnação do Filho de Deus. do mesmo modo. a ordem dos jesuítas não havia sido abolida na França. (Nota de Voltaire. 12. Lucas.) 127. Mateus.) 143. (Nota de Voltaire.) 136.) 135. máxima 223. entre os antigos gregos. Mateus. (M. XXVI. Mateus.) 124. V. Lucas. um grande vento. 64. lI. mas para os homens não havia mais razão de colocar um deus na Lua do que para os habitantes da Lua de colocar um deus no planeta Terra. (M._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância . XI. a menos que se tenha a natureza do fogo. compreender.. (M. 4. 19. Se eles tivessem sido injustiçados. (M. Acta apost.) 122. V. V. XXIII. Nem os antigos judeus. VII. XVI. nem os egípcios. 11. capo XXIII. João. A morada dos heróis após a morte situava-se. a não ser as nuvens. O Gênesis (cap. XIV. capo XXVI. XIV. para não dizer impossível. mas sendo uma estrela um sol.) 126. 144.) 140. lá não havia onde repousar o pé.) 125. São Lucas.- 112. 15) diz que um terror de Deus tomou conta do povo. João. Lucas. um grande terror. (Nota de Voltaire. João.

composé. Christophe de Beaumont. (M.) 145. O padre Le Tellier foi o confessor de Luís XIV ao final de sua vida. Calas.) .. Em 1744. (M. (M.) 154. etc. Assinado: Lambon. Veja-se a nota 38. Uma pediculose é uma doença "na qual se forma um grande número de piolhos" (Littré).) 164. Legouvé.. 159. só existiam na França doze parlamentos. (B. As medidas tomadas pelo parlamento culminaram na supressão da Companhia de Jesus na França (1764) e em seu banimento (1767).) 165.) 147. (M.) 156. 1767. Royas e Telinus que se lêem em outras edições).) 149. Luís XV assumiu pessoalmente o comando do exército. havia se lançado. Mariette. os exércitos ingleses e austríacos invadiam a Lorena e a Alsácia.) 162. vers 1358. (M. cai gravemente enfermo. Chegando a Metz. Luís XV só conseguirá pôr fim a ela. (B. Diabarus e Gemelinus me parecem também alterados. XV. Loyseau de Mauléon.. Aqui termina o Traité de la tolérance na edição de 1763. Acusavam-no de haver inspirado a política intolerante do rei. 146. O arcebispo de Paris. O povo afluía às igrejas para pedir a Deus a cura do rei. 1752-53. no bairro que conserva ainda hoje esse nome. onde se encontravam o cemitério de Saint-Médard e o túmulo do diácono Pâris. in12. procurei-os em vào. citada na nota precedente.O padre La Valette. (M. num adendo ao artigo "Batismo" do Dictionnaire philosophique (1767) e no capítulo 42 de Dieu et les hommes (1769).) 158. em 1765. muito hostil aos jesuítas. (Nota de Voltaire. Voltaire fala também dessa seita. missionário jesuíta nas Antilhas. O arrabalde Saint-Marceau. capítulo XVII. Em 1714. 36. com razão. 27. ano em que Voltaire supõe ter sido escrita a carta que forma esse capítulo. na impressão que faz parte do segundo tomo de Nouveaux mélanges. Veja-se acima.) Essa nota foi acrescentada em 1771. (M.) 150. apoiada pelo parlamento de Paris. v. (M. em 22 de janeiro de 1765. em vastas operações comerciais. é o próprio Voltaire que o informa em seu Avis au public sur les parricides imputés aux Calas e aux Sirven [Esclarecimento ao público sobre os parricídios imputados aos Calas e aos Sirvenl.) 148. É de acordo com a obra do abade Morellet. em vez de Gomarus. Voltaire refere-se a oito crianças ressuscitadas. gostariam de oprimir um dia os concidadãos que não abraçassem suas opiniões duras e absurdas. 6 vol. Élie de Beaumont. sem dar seu nome. O abade Malvaux. Esse acontecimento suscitou em todo o reino uma emoção intensa.O livro que Voltaire recomenda aqui.) 160.) 157. . (M. Veja-se o excelente livro intitulado Le manuel de I1nquísition. mediante um compromisso. (M.) 155. Roias e Felynus (em vez de Chucalon. decidiu recusar os últimos sacramentos aos agonizantes que não apresentassem um bilhete de confissão assinado por um padre não jansenista. A Companhia recusou-se a reembolsar os credores do padre La Valette e preferiu levar o caso ao parlamento de Paris. A pólvora de canhão. imitado por alguns bispos de província. local de reunião dos "convulsionários" jansenistas. 151. 176 177 . Négociations en Hollande. Gemelinus. Lucas. Por d'Alembert. 1762. in-12. Foi à bancarrota. arrastando em sua ruína banqueiros de Marselha. (M. Os nomes Gomarus.. Essa inicial é a do nome de Ravaillac. Teme-se por sua vida. e nas Obras deste autor. Deliberado em Paris. Mémoire à consulter et Consultation pour les enfants du défuntj. d'Outremont. um dos bairros mais miseráveis de Paris no século XVIII. mas ainda em vários bibliógrafos nacionais e profissionais. ou Abrégé de l'ouvrage intitulé Directorium inquisitorum. em seu verbete sobre São Francisco Xavier do Dictionnaíre philosophique._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ __ que seu exemplo faça tremer aqueles que. Do abade de Caveyrac. (Nota de Voltaire. 163. a conseqüência era que o defunto não obtinha a sepultura cristã. talvez devêssemos ler Gomez e Geminianus. Foi então que Luís XV recebeu o cognome de Bem-Amado. sendo mais intolerantes que os jesuítas. sem o conhecimento dos superiores. 29. X. 1765. (M. é Le manuel des inquísiteurs à l'usage des Inquisitions d'Espagne et de Portugal. Disso resultou uma forte agitação popular. Cor. Gerbier. Act. não somente na obra de Morellet. o autor do Manual é o abade Morellet. em 1757. (M. Mallard. par Nicolas Eymerie. o artigo que segue foi acrescentado. in-12.) 161. I. 153. (M.) 152. marchand à Toulouse. mas não posso explicar Diabarus. que redijo os nomes Cuchalon.

XXIX. pp. Mabomet. La loi naturelle (1752). t. Moland. II. xxv. Oxford. 517-37. VIII. Didier. Paris. ed. Dictionnaire pbilosopbique (1764-1765). Le cri du sang innocent (1775). L.2 vol. L. The Voltaire Foundation. t. t. Moland. Questions sur l'Encyclopédie. 1879. Zafre. Avis au public sur /es parricides imputés aux Calas et aux Sirven (1766). The Volta ire Foundation. L. Outros textos de Voltaire sobre a tolerância: La Henriade (1728). Moland. 1972. 503-16. Oxford. pp. t. "Tolérance". XX. Moland. nova tiragem. 179 . Moland. t. tragédia (1732). t. L. 365-411. Moland. em Oeuvres completes. em particular cantos II (a Noite de São Bartolomeu) e V (assassinato de Henrique IIO. em Oeuvres completes. "Tolérance" (1772). 1970. p. 1879. 1964. ed. 1879. pp. ed. p. Garnier. Bibliotheque de la Pléaide. a Luís XVI. Lettres pbilosopbiques(1734). XXIV. em Oeuvres completes. pp. em 1béâtre do XVII!' siecle. L. I. t. t. em Oeuvres completes. t. tragédia (1741). Textos de Voltaire em favor dos Calas (1762) em Oeuvres completes. em Oeuvres completes. Relation de la mort du cbevalier de La Barre (1766). GF. Truchet. 1964. L. Lanson. 1879. XXV. ed. 1988. Paris. em Oeuvres completes. ed. art. 1879. em Oeuvres completes. J.375-89. Paris.Bibliografia 1. ed. ed. por uma revisão do processo La Barre. IX. 1877. art.

Oeuvres diverses. L'aifaire Calas. 1980. 9-11 de outubro de 1987. prefácio de ). 3 vol.F. ORSONI Qean). Paris. na Revue de la Societé d'histoire du protestantisme jrançais. Amsterdam. Ce que c'est que la France toute catholique. "Voltaire et la tolérance". Paris. Paris. em La tolérance. acima. 1965. em Voltaire. Van den Henvel. 2. Labrousse com a colaboração de H.. 1971. exemplares datilografados. ed. 1981. Sobre o caso Calas: BIEN (David D. texto latino e tradução francesa.. Sobre a questão da tolerância: BAYLE (Pierre). por E. Maison Descartes. réPublique de l'esprit. p. 1973. Paris. "Les Bergers et les Mages". introdução e tradução de R. Himelfarb e R. Nizet. polin. tese de Terceiro Ciclo. 1be Calas Affair. Sirven. Paris. 1988. conscience des libertés". "Nouveau regard sur le dossier Calas". atas do colóquio "Liberté des consciences. Vrin. Lettre sur la tolérance. POMEAU (René). BAYLE (Pierre). Folio. Princeton._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ Voltaire. CHOSSAIGNE (Marc). Rousseau et la toleránce. La tolérance. 1960. p. Europe. Université de Paris-Sorbonne. LOCKE (John). acima. L'aifaire Calas.). POMEAU (René). Perrin. 3. Paris. La Barre). 1929. Lally. junho de 1962. "Les classiques du peuple". L'aifaire Calas avant Voltaire. 26-28 de novembro de 1987. La religion de Voltaire. P. la tolérance". POMEAU (René). "Volta ire et Rousseau devant l'affaire Calas". Zuber. Alain Niderst.u. 180 . POMEAU (René). 1969. Paris. Toulouse. "Une idée neuve au XVIII< siêcle. 1975 (textos de Voltaire sobre os casos Calas. POMEAU (René). Número especial da Revue de la Société d'histoire du protestantisme jrançais: atas do colóquio sobre o segundo centenário do Edito de Tolerância de 1787. république de l'esprit. Paris.

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