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H ISTORIOGRAFIA 1

HISTORIOGRAFIA

Historiografia SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Presidente ♦ Gervásio Meneses
Historiografia SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Presidente ♦ Gervásio Meneses

Historiografia

SOMESB

Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda.

Presidente

Gervásio Meneses de Oliveira

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SumárioSumárioSumárioSumárioSumário P OSITIVISMO , M ARXISMO E A R EVOLUÇÃO D OS A NNALES

SumárioSumárioSumárioSumárioSumário

POSITIVISMO , M ARXISMO E A R EVOLUÇÃO D OS A NNALES OSITIVISMO, MARXISMO E A REVOLUÇÃO DOS ANNALES

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POSITIVISMO E M ARXISMO E S EUS D ESDOBRAMENTOS N A E SCRITA D A OSITIVISMO E MARXISMO E SEUS DESDOBRAMENTOS NA ESCRITA DA HISTÓRIA

A Historiografia no Século XIX

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O Historiador e a Chamada Objetividade: Uma História sem paixões

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Positivismo: um Modelo filosófico e suas Influências na Escrita da História e na Educação

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Considerações Acerca do Marxismo na Historiografia

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A REVOLUÇÃO P ROPOSTA P ELOS A NNALES EVOLUÇÃO PROPOSTA PELOS ANNALES

A Historiografia no Século XX: a Revolução dos Annales

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Novos Pressupostos para a Escrita da História

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A Influência dos Annales para o Historiador Atual

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A NOVA H ISTÓRIA C ULTURAL E A H ISTORIOGRAFIA B RASILEIRA OVA HISTÓRIA CULTURAL E A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

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HISTÓRIA N OVA E H ISTÓRIA C ULTURAL ISTÓRIA NOVA E HISTÓRIA CULTURAL

Abertura de Novas Possibilidades de Fontes, Novos Objetos, Novos Problemas, Novas Abordagens

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O Caráter Interdisciplinar da História: a “Descrição Densa” da

Antropologia: por uma Interpretação da Cultura

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Nova Historia Cultural e a Narrativa Histórica

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Historiografia Os Modos de Escrever História: alguns Debates Existentes ao Redor da História e Narrativa

Historiografia

Os Modos de Escrever História: alguns Debates Existentes aoHistoriografia Redor da História e Narrativa e as Principais Tendências ○ ○ 46 O S P

Redor da História e Narrativa e as Principais Tendências

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OS P RINCIPAIS M ARCOS E A TUALIDADE D A H ISTORIOGRAFIA B RASILEIRA S PRINCIPAIS MARCOS E ATUALIDADE DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

A Historiografia Brasileira no Século XIX

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A Geração de 30 e a Reinterpretação do Brasil

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Historiadores Brasileiros da Nova História Cultural

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Historiografia e Livro Didático: Principais Tendências e Críticas

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Atividade Orientada

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Glossário ○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○○

Referências Bibliográficas

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Apresentação da Disciplina Amigo (a) aluno (a), É com prazer que iniciamos nossos trabalhos na
Apresentação da Disciplina Amigo (a) aluno (a), É com prazer que iniciamos nossos trabalhos na
Apresentação da Disciplina
Amigo (a) aluno (a),
É com prazer que iniciamos nossos trabalhos na disciplina
Historiografia, cujo objetivo principal é expressar a inteligibilidade da história
em sua inserção nos contextos nacional e internacional. Consideramos a
questão da historiografia e a educação como eixo norteador da disciplina.
É notória a ampliação da área de estudos e de trabalho do professor/
historiador no mundo contemporâneo, a partir de elementos como novas
fontes de pesquisa (eletrônicos e digitais, iconográficos), novos objetos de
estudo (cotidiano, cultura, comportamento), novos campos de atuação
(inserção em projetos culturais e de preservação do patrimônio artístico).
Para tanto, faz-se necessário formar um docente capaz de levar para a sala
de aula tanto as discussões sobre esses novos aspectos que estão sendo
estudados pelo historiador atual, como questões ligadas à cidadania e ética.
Diante dos fatos expostos, faz-se mister a reconstrução do estímulo
à
interdisciplinaridade dos conteúdos, à integração e interação com outras
disciplinas, incentivando, sobretudo, o diálogo construtivo com as demais
ciências, como os historiadores do Annales realizaram.
Deste período, trabalharemos com os modelos de escrita da história
a
partir história tradicional, passando pelo movimento dos Annales durante
as décadas de 30 a 60, até a transição para a Nova História nos anos 70 e
seus desdobramentos na Nova História Cultural – tendência atual.
Tomando como ponto de partida o impacto da “virada lingüística”
sobre a historiografia e as discussões acerca do “retorno da narrativa”, esta
disciplina propõe, a partir dos textos que se seguem, introduzir os debates
em torno das relações entre História e narrativa.
Esperamos que o estudo desta disciplina resulte numa renovação
do conceito de pesquisa em história, considerando-a como uma atitude
investigativa a ser formada e na perspectiva de um ensino articulado à
pesquisa, possibilitando novas formas aos elementos curriculares, como a
não memorização dos conteúdos, e sim a apreensão compreensiva,
permitindo ao aluno uma caminhada como sujeito de sua própria história.
Sucesso nessa nova caminhada!
Profª. Sandra Regina Barbosa da Silva
Historiografia 6

Historiografia

P OSITIVISMO , M ARXISMO E A R EVOLUÇÃO D OS A NNALES P OSITIVISMO
P OSITIVISMO , M ARXISMO E A R EVOLUÇÃO D OS A NNALES P OSITIVISMO
P OSITIVISMO , M ARXISMO E A R EVOLUÇÃO D OS A NNALES P OSITIVISMO

POSITIVISMO, MARXISMO E A REVOLUÇÃO DOS ANNALES

POSITIVISMO E MARXISMO E SEUS DESDOBRAMENTOS NA ESCRITA DA HISTÓRIA

O que é a historiografia? Podemos defini-la rapidamente como “a história da história”, como a história vem sendo escrita ao longo dos séculos. Ou seja, nada mais que a história do discurso – um discurso escrito e que se afirma como verdadeiro. O discurso historiográfico diz respeito às opções tradições interpretativas, opções de correntes teóricas, opções de recortes, ângulos, escalas de observação por parte do historiador. Na segunda metade do século V a.C. na Grécia Antiga o historiador Heródoto (aproximadamente 485-425 a.C.), também conhecido como o “pai da História” fez relatos de uma História parecida com o conceito atual. Heródoto fez longas explanações e descreveu rios, povos exóticos e costumes estranhos. Foi expulso, por motivos políticos, de Halicarnasso e viveu por um tempo no Egito e na Mesopotâmia. Dizia que a “opes” (observação) e o “aço” (o ouvir dizer) são as fontes essenciais, mas não únicas das inquirições historiográficas. Na Grécia Antiga, os poetas e escultores humanizaram os deuses e levaram para a mitologia um repensar de histórias. Formou-se uma fronteira entre a lenda e o real, o religioso e o profano e, nesse cenário, observam-se as histórias convertendo-se em História. A Grécia foi dominada pelos romanos e é com Políbio (208 a.C.?-122 a.C.?) que se estuda a expansão romana de 221 a 146 a.C. num quadro alargado às dimensões mundiais da conquista. A sua história é a última obra da historiografia grega e a primeira da historiografia romana que se compraz em narrar tanto as conquistas como as virtudes. As invasões germânicas e a cristianização conjugaram os seus efeitos para encerrar o capítulo romano da historiografia. O homem medieval, a partir do século XII, mostra as características de uma historiografia ocidental. É aos monges de Saint Dinis que os reis da França confiam o encargo de escrever histórias, como as Cruzadas. Durante as Cruzadas, (momento militar), nasce à crônica, e nasce da guerra santa. A Igreja confia aos novos clérigos, à historiografia do medievo.

militar), nasce à crônica, e nasce da guerra santa. A Igreja confia aos novos clérigos, à
militar), nasce à crônica, e nasce da guerra santa. A Igreja confia aos novos clérigos, à
Historiografia Em pleno século XV nasce uma nova historiografia. Os homens da Renascença , os
Historiografia Em pleno século XV nasce uma nova historiografia. Os homens da Renascença , os

Historiografia

Em pleno século XV nasce uma nova historiografia. Os homens da Renascença, os humanistas, lançam

olhares sobre os historiadores gregos e romanos. A consciência histórica se afirma. Os filósofos iluministas lançaram as bases da historiografia e

o momento da filosofia sobre a História. Nesse

momento há uma reflexão sobre o objeto da historiografia. A ela cabe descrever de maneira global

percurso da natureza e das sociedades humanas. Podemos analisar o pensamento de David Hume (1711-1776), filósofo e historiador escocês, responsável pelo fenomenismo, o qual afirma:

o

“História é o lugar onde a imutável natureza dos homens se cruza com a poeira dos acontecimentos”. Vemos aí a historiografia das luzes abrindo atalhos para o século XIX.

historiografia das luzes abrindo atalhos para o século XIX. A HISTORIOGRAFIA NO SÉCULO XIX O pensamento

A HISTORIOGRAFIA NO SÉCULO XIX

O pensamento do século XIX não foi apenas influenciado por mudanças econômicas

e sociais, também deve ser compreendido de acordo com o momento em que se

encontravam a filosofia e a ciência. No século XVIII, Kant havia desenvolvido importantes

reflexões sobre as possibilidades e limites da razão. Neste mesmo século, diferentes linhas filosóficas interpretaram o pensamento kantiano, entre elas encontra-se o Positivismo. No século XIX, Comte formaliza as idéias positivistas. Quando Comte falou da importância do conhecimento científico não estava apenas defendendo uma orientação epistemológica, estava apresentando uma maneira de pensar e de realizar as transformações sociais. “O pensamento positivista poderia garantir a organização racional da sociedade”, dizia ele. O pensamento de Comte apresenta as seguintes preocupações fundamentais: uma filosofia da história na qual encontram-se as bases de sua filosofia positivista e as três fases da evolução do pensamento humano: o teológico, o metafísico e

o positivo. Após passar pelos três estágios históricos, no estágio científico abandona-se a referência às causas últimas, ou seja, às não-observáveis.

O século XIX foi influenciado pela Revolução Francesa, pelo triunfo da burguesia,

pela consolidação dos Estados Nacionais e pela Revolução Industrial. O liberalismo e a ideologia liberal tentaram justificar a revolução antimonárquica e pró-burguesia. Como historiadores desta corrente, temos François Guizot (1787-1874) e Augusto Thierry (1795-1856), que explicaram os fatos históricos em função da visão burguesa. Eram formadores de ideais historiográficos liberais. O filósofo e matemático francês, Auguste Comte, (1798-1857) criador do Positivismo, vê na historiografia a necessidade de dotar a História de método científico, técnico e objetivo. Sabemos que a História se faz a partir de documentos, e o historiador não deve somente interpretá-los, mas analisá-los, colocá-los em ordem para melhor compreensão, já que a História, em sentido geral, pode ser considerada “Ciência em Construção”, uma vez que a conquista de seu método científico ainda não é completa. Na concepção positivista, a história é submetida à metodologia das ciências exatas

e biológicas. Das atitudes intelectuais derivadas ou próximas do ideal positivista das ciências sociais, nascem as teorias científicas do racismo e do preconceito social, como as que conseguem encontrar relações entre a medida do crânio e a delinqüência de negros e mulatos, ou mesmo de algumas etnias caucasianas. É também o caso do darwinismo social.

Ou então a obra de Alfredo Ellis Jr., em que a superioridade racial do paulista

Ou então a obra de Alfredo Ellis Jr., em que a superioridade racial do paulista é dada pela ausência do elemento negro nos séculos iniciais e a influência das variações climáticas do planalto sobre a “Raça de Gigantes”. Ou ainda, como já foi colocado acima, os determinismos geográficos que explicam formações econômicas e sociais inteiras e, principalmente, o “caráter nacional” – pelas determinações do clima e/ ou do relevo.

– pelas determinações do clima e/ ou do relevo. O historiador alemão Leopold Van Ranke (1795-1886)

O historiador alemão Leopold Van Ranke (1795-1886) é considerado o fundador da historiografia contemporânea e do moderno método historiográfico crítico de pesquisa em História. A concepção positivista da história se assenta em uma teoria que concebe o conhecimento histórico como o reflexo da objetividade dos fatos históricos. Segundo Adam Schaff, 1987 cabe a Leopold Von Ranke

– e não a Auguste Comte – o lugar de figura mais expressiva do

Positivismo. Como se sabe, Ranke dizia caber ao historiador não a apreciação do passado, ou a instrução de seus contemporâneos, mas apenas, e tão somente, dar contas do que realmente se passou (Wie es eigentlich gewesen). A função do historiador

seria a de recuperar os eventos e suas interconexões através da documentação e fazer- lhes a narrativa. A história se limitaria a documentos escritos e oficias de eventos políticos.

O historiador, para eles, narra fatos realmente acontecidos, tal como eles se passaram.

E quais eram estes fatos “narráveis”? a) os eventos políticos; b) administrativos; c) diplomáticos; d)
E quais eram estes fatos “narráveis”?
a) os eventos políticos;
b) administrativos;
c) diplomáticos;
d) religiosos;

Estes eventos, considerados o centro do processo histórico, dos quais todas as outras atividades eram derivadas, em seu caráter factual. O modelo dominante da disciplina história no século XIX, construído pelo historiador alemão Leopold Von Ranke (1795-1886), privilegiava essencialmente a política relacionada ao Estado, enfatizando uma história narrativa com ênfase nos acontecimentos. Von Ranke baseava-se, principalmente, nos documentos diplomáticos para fazer a história do Estado e de suas relações exteriores. Esta história científica alemã, ou seja, o método histórico “positivista” contava com dois principais seguidores e formuladores-divulgadores, na França: Charles Langlois e Charles Seignobos, com seu manual de metodologia da história, Introduction aux études historiques, (Introdução aos Estudos Históricos) datado de 1898. (REIS, 2004). Podemos qualificar como principais traços do positivismo nesse manual: o apego ao documento, o esforço obsessivo em separar o falso do verdadeiro; o medo de se enganar sobre as fontes; o culto do fato histórico (que é dado nos documentos) e a falta de interpretação dos fatos históricos. O método de investigação e análise de fontes, dos historiadores da escola rankeana, (referente a Leopoldo Von Ranke) limitava-se apenas a considerar os documentos como expressão irrefutável do “fato”, da realidade. Eles diziam “os documentos falam por si mesmos”. Os fatos falam por si e o que pensa o historiador a seu respeito é irrelevante. Resumidamente, podemos afirmar que o trabalho do historiador seria reconstruir o passado descritivamente, através dos documentos, “Tal como se passou”, o fato passado,

que uma vez reconstituído, “fala por si”, a não se que aparecessem novos documentos que alterassem a sua descrição. A esse historiador não competiria

o trabalho de problematizar, de construir hipóteses, de reler os fatos, ou seja,

a interpretação.

O materialismo histórico é outra corrente da historiografia que surge com o socialismo e se desenvolve com a filosofia de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). No século XIX, o proletariado toma consciência como classe social e os historiadores a interpretaram, colocando-a no centro de seu modelo. A História econômica nasce com a economia política burguesa, junto ao capitalismo e à Revolução Industrial. Para Karl Marx, a finalidade da História não é apenas interpretar os fatos, mas transformar a sociedade, já que para ele a História é a transformação da natureza humana. É na sociedade que se faz a história, com a finalidade de dar respostas a problemas concretos. A História deve centrar-se nas análises dos modos de produção existentes em cada etapa do desenvolvimento. Marx introduz conceitos básicos, entre eles, o conflito humano ou lutas de classes, que é resultante das desigualdades econômicas. O ponto chave das desigualdades é a sociedade industrial moderna, juntamente com o modo, a forma ideológica de manipular as idéias para que o povo não perceba o vínculo entre poder econômico e poder político e sua influência na qualidade de vida de todos (alienação política e cultural). Não há dúvida que a ideologia marxista influenciou sobremaneira a historiografia. (REIS, 2004). Sobre o marxismo falaremos mais adiante.

Historiografia

Sobre o marxismo falaremos mais adiante. Historiografia O HISTORIADOR E A CHAMADA OBJETIVIDADE: UMA HISTÓRIA SEM
Sobre o marxismo falaremos mais adiante. Historiografia O HISTORIADOR E A CHAMADA OBJETIVIDADE: UMA HISTÓRIA SEM
Sobre o marxismo falaremos mais adiante. Historiografia O HISTORIADOR E A CHAMADA OBJETIVIDADE: UMA HISTÓRIA SEM

O HISTORIADOR E A CHAMADA OBJETIVIDADE: UMA

HISTÓRIA SEM PAIXÕES

Abordando o tema da objetividade, parcialidade ou não do historiador, ao longo do texto faremos alguns contrapontos com o marxismo. O papel daquele que produz o conhecimento histórico, ou seja, o lugar ocupado pelo historiador na sociedade, torna-se fundamental no momento de sua produção historiográfica. Com isso, podemos aceitar que o conhecimento histórico apresenta-se de acordo com a perspectiva do historiador, que também é “homem de seu tempo”. Recapitulando, os principais traços do Positivismo são:

a) apego ao documento b) esforço obsessivo em separar o falso do verdadeiro c) medo
a) apego ao documento
b) esforço obsessivo em separar o falso do
verdadeiro
c) medo de se enganar sobre as fontes
d) a falta de interpretação
e) o culto do fato histórico que é dado “bruto” nos
documentos

Segundo Schaff, o pensamento historiográfico de Leopold Von Ranke é mais apropriado para se pensar o Positivismo no âmbito específico da História. Como sabemos, os fatos eram apresentados por esse historiador tradicional, “como eles realmente aconteceram”, já que este entendia que a História é objetiva. Os fatos existem objetivamente,

em si, brutos, e não poderiam ser recortados e construídos, mas, sim, apanhados em sua

em si, brutos, e não poderiam ser recortados e construídos, mas, sim, apanhados em sua integridade, para se atingir a sua verdade objetiva, ou seja, eles deverão aparecer “tais como são”. Significa dizer que o historiador deve manter-se isento, imparcial, emocionalmente frio e não se deixar condicionar pelo seu ambiente sócio-político-cultural (contexto). Já adiantando o próximo assunto (marxismo), na historiografia marxista, a produção do conhecimento é fruto de um contexto social do qual carrega seus pressupostos. Dessa forma, para o materialismo histórico-dialético (marxismo) não existe verdade única em História, porque a mesma é resultante da postura do sujeito. O historiador deveria refletir/interpretar sobre e os fatos, tomando, assim, uma posição, e produzindo um conhecimento, embora parcial. Essa postura do historiador, para alguns, teria criado problemas ao caráter “científico” da história marxista. No Positivismo, portanto, o conhecimento é visto como reflexo do objeto. Aquele que conhece – o sujeito – se apresenta imune a paixões ou outro qualquer sentimento e convive com uma separação em relação àquele que é conhecido – o objeto. Nesta concepção a história, enquanto objeto de estudo, é considerada como uma estrutura já dada, de fatores cujo conhecimento dependa apenas de descobrir e colecionar um grande número de acontecimentos com base em documentos confiáveis. Nesse modelo, baseado no Positivismo, o sujeito (historiador) reduz-se a captar o que ele, passiva, objetiva e acriticamente observa, sem emoção, sem interferência, e, conforme dito, sem paixão. Dessa forma, uma história científica, produzida por um sujeito que se neutraliza enquanto sujeito para fazer aparecer o seu objeto. Os historiadores seguidores da filosofia Positivista acreditavam que, se adotassem uma atitude de distanciamento de seu objeto, sem manter relações de interdependência, obteriam um

conhecimento histórico objetivo, um reflexo fiel dos fatos do passado, puro de toda distorção

e subjetividade. Dito de outra maneira, o sujeito, no processo de conhecimento, na perspectiva positivista, busca uma postura de neutralidade e os documentos históricos são julgados

como objetos neutros pelo pesquisador. Imagina-se que o sujeito/historiador não interfere com sua postura teórica na pesquisa por ele desenvolvida. Considera-se, assim que os resultados obtidos com ela sejam neutros e imparciais.

O resultado disso é que a sociedade, ao ser analisada do ponto de vista positivista,

é perfeitamente enquadrada num princípio lógico de identidade que busca a ordem, o

consenso, a estabilidade e a funcionalidade social: a proclamada “Ordem e Progresso”. Na concepção positivista, os historiadores e pesquisadores produzem a História como conhecimento, e o professor a repassa para o aluno. O sujeito da História é sempre o ‘herói”,

o governante, aquele que se destaca na sociedade de classes. O homem comum não

participa da construção do processo histórico, apenas os grandes heróis produziram os grandes feitos. (REIS, 2004).

O positivismo busca justificar e consolidar a ordem social liberal-burguesa, uma ordem

fortemente marcada pela luta de classes e pelas contradições sociais criadas pelo capitalismo. É principalmente nos setores econômico, político ou nos científicos, que a concepção positivista sustenta essa idéia de ordem e progresso. Nesse modelo de história, o historiador quer ver os “fatos” e não a sua própria idéia deles; melhor dizendo, somente escreve e pensa segundo os documentos, negando assim

a especulação e a interpretação. O conhecimento “verdadeiro”, o da objetividade “absoluta”,

conquistada pela imparcialidade, pela ausência de paixões ou de quaisquer a priori e pela extração do fato “em si”, contido nos documentos conceitue os principais elementos da historiografia positivista. O historiador reconstituiria o fato descritivamente, “tal como se passou”, e não caberia ao historiador, a problematização, a construção de hipóteses, a releitura dos fatos.

Para Thompson, um dos mais significativos representantes de um marxismo não-ortodoxo – e que nisso expressa também o pensamento de outras linhas não comprometidas com o positivismo ou com o tradicionalismo – as evidências só podem informar (e significar) a partir de nossas perguntas,

apesar de terem o poder de limitar todas as teorias, anulando a validade das que forem de encontro às mencionadas evidências. Os significados não são revelados pela evidência, portanto, mas pela interrogação de mentes atentas e desconfiadas, treinadas na articulação da “lógica histórica”, ou seja, no manejo adequado das evidências e as teorias na composição de um discurso explicativo coerente em que não haja predominância de nenhuma das duas.

Historiografia

não haja predominância de nenhuma das duas. Historiografia POSITIVISMO: UM MODELO FILOSÓFICO E SUAS INFLUÊNCIAS NA
não haja predominância de nenhuma das duas. Historiografia POSITIVISMO: UM MODELO FILOSÓFICO E SUAS INFLUÊNCIAS NA

POSITIVISMO: UM MODELO FILOSÓFICO E SUAS INFLUÊNCIAS

NA ESCRITA DA HISTÓRIA E NA EDUCAÇÃO

Um dos principais referenciais teóricos do professor de história, especialmente no âmbito do ensino público, é o Positivismo, como foi dito, corrente de pensamento que se originou na França, no século passado, a partir das reflexões teóricas de Auguste Comte (1798-1857), pensador cujas idéias influenciaram fortemente a inúmeros cientistas na grande área das ciências humanas e sociais aplicadas. Segundo Comte, a sociedade possui um ritmo evolutivo incompatível com a revolução violenta. Deste modo, ele concebe a sociedade sempre em termos harmônicos. Para este filósofo, a sociedade reflete os diversos estados da vida de um homem; dessa forma, uma vez que os organismos não podem mudar bruscamente, senão através de uma evolução paulatina. Como já foi afirmado aqui, tradicional é a característica de uma história de classe dominante (ou que em algum momento esteve no poder do Estado). No caso específico do Brasil do final do século XIX, o positivismo também é uma filosofia de elite política e social em ascensão na virada do século, daí o seu parentesco em termos de compromisso político muito próximo com os compromissos políticos da história factual, daí também decorrendo uma das raízes da confusão má interpretação da diferença entre história positivista e a história tradicional nas análises historiográficas e sobre o ensino da disciplina. Onde estão presentes as influências do Positivismo? Tanto na sua versão autoritária (Comte) quanto na versão liberal (Spencer), o positivismo está a serviço do conservadorismo e da reação. As apropriações da teoria para fins políticos, via de regra, conduzem a atitudes excludentes e concentradoras de poder, renda e saber. O positivismo terá seu período áureo na proclamação da República brasileira, inspirando o seu elitismo e autoritarismo, marcando a bandeira do país até os dias de hoje nos dizeres comtianos “Ordem e Progresso”. Comte defendia a idéia de ordem industrial e o progresso nela embutido. Seu lema

é “a ordem por base, o amor por princípio, o progresso por fim. O positivismo tende poderosamente, por sua natureza, a consolidar a ordem pública, através do desenvolvimento de uma sábia resignação”. (MORAIS, 1983, p.31). Os ideais de ordem e progresso na

educação aparecem sob forma de disciplina e educação, respectivamente, como processo evolutivo. Por progresso, entende-se que o aluno, como membro da sociedade, deve passar por fases evolutivas: o pensamento teológico, o metafísico e, por fim, o positivo. A superação da metafísica levaria o homem a fugir de especulações. A presença de planejamento visando ao alcance de objetivos também ilustra os ideais de ordem e progresso. O eurocentrismo é um dos pontos de contanto mais importantes desse parentesco.

A história tradicional, bélica, aristocrática e eminentemente política é uma história em que

os europeus falam de si mesmos ou dos outros povos sob o seu ponto de vista, que os olha

de cima, ou é a história de seus descendentes nos países conquistados. É uma história

de cima, ou é a história de seus descendentes nos países conquistados. É uma história de conquistadores, para os quais a própria ciência da história é uma arma de dominação. Romântica, a história tradicional procura a sua lógica na ação dos indivíduos: os grandes homens são, a exemplo de Jesus Cristo (o grande divisor de águas da história), redentores de seus grupos. Não é tão diferente na doutrina positivista (excetuando-se a sua reserva quanto à importância dos grandes homens), para a qual a transformação da sociedade, da desordem para a ordem, parte da conversão pessoal e do convencimento cognitivo de cada um, desprezando-se as diferenciações de classe.

Positivismo e educação

O Positivismo influenciou de maneira considerável a sociedade nos séculos XIX e

XX. Tendo em vista que a Educação é uma atividade social, também foi marcada por esta influência. Nas escolas, a influencia do positivismo se fez sentir com força devido à influência

da Psicologia e da Sociologia, ciências auxiliares da Educação. A classificação das ciências proposta por Comte tem reflexos na educação em função da fragmentação do conhecimento e da especialização. O conhecimento fragmentado levou

à elaboração de currículos multidisciplinares, restringindo qualquer tipo de relação entre

diferentes disciplinas. Por meio da fundamentação e classificação das Ciências (Matemática,

Astronomia, Física, Fisiologia e Sociologia), Comte acabou por exaltar e defender a

superioridade das Ciências Exatas sobre as Ciências Humanas. De acordo com BOTTOMORE, 1988, “uma vez submetido o domínio das ciências humanas às disciplinas da ciência empírica, cessará a anarquia intelectual e uma nova ordem institucional adquirirá estabilidade graças ao consenso” (1988, p.291). Mesmo a Sociologia desenvolvida por Comte recebeu dele um caráter científico para o estudo dos fatos sociais.

O positivismo admite apenas o que é real, verdadeiro, inquestionável, aquilo que se

fundamenta na experiência. Deste modo, a escola deve privilegiar a busca do que é prático, útil, objetivo, direto e claro. Os positivistas se empenharam em combater a escola humanista,

religiosa, para favorecer a ascensão das ciências exatas. As idéias positivistas influenciaram

a prática pedagógica na área das ciências exatas, influenciaram a prática pedagógica na

área de ensino de ciências sustentadas pela aplicação do método científico: seleção, hierarquização, observação, controle, eficácia e previsão. De forma marcante, o positivismo esteve presente no ideário das escolas e na luta a favor do ensino leigo das ciências e contra a escola tradicional humanista religiosa. O currículo multidisciplinar – fragmentado – é fruto da influência positivista.

Positivismo na educação brasileira

No Brasil esta influência aparece no início da República e na década de 70, com a escola tecnicista. Foi muito divulgado por intermédio do Apostolado Positivista que se incorporou ao movimento pela proclamação da república e da elaboração da constituição

de 1891. O movimento republicano apoiou-se em idéias positivistas para formular sua ideologia da ordem e do progresso, graças particularmente à atuação de Benjamim Constant

(1836-1891).

O positivismo de Comte chegou ao Brasil em meados do século XIX. As idéias

positivistas encontraram boa receptividade entre muitos oficiais do exército. Com um currículo

voltado para as ciências exatas e para a engenha-ria, a educação se distancia da tradição humanista e acadêmica, havendo uma certa aceitação das formas de disciplina típicas do positivismo. As palavras “ordem e progresso” que fazem parte da bandeira brasileira indicam clara-mente a influência positivista. Na década de 70 deste mesmo século, a escola tecnicista

teve uma presença marcante. A valorização da ciência como forma de conhecimento objetivo, passível de verificação rigorosa por meio da observação e da experimentação, foi importante para a fundamentação da escola tecnicista no Brasil. Para esta escola o elemento primordial é a tecnologia. Na escola tecnicista, professores e alunos ocupam papel secundário dando lugar à organização racional dos meios. Professores e alunos relegados à condição de executores de um processo cuja concepção, planejamento,

coordenação e controle, ficam a cargo de especialistas supostamente habilitados, neutros, objetivos, imparciais (SAVIANI, 1993, p.24). Portanto, pode-se perceber pelas palavras de Saviani que neutralidade e objetividade são típicas do positivismo.

O Positivismo como doutrina sobre a sociedade e sobre as normas necessárias

para reformar a sociedade foi um movimento que dominou uma parte significativa da cultura européia tanto no âmbito filosófico, historiográfico como político e pedagógico. A

necessidade expressa por Comte de se estabelecer uma relação fundamental entre a ciência

e a técnica concretizou-se de maneira significativa por gerações. Na educação houve contribuições significativas no campo do planejamento escolar,

uso da tecnologia, ensino profissionalizante e aplicação do conhecimento científico. Por outro lado, uma concepção puramente profissionalizante pode afetar o talento intelectual do aluno. Segundo PAVIANNI, 1991, “a concepção profissionalista dos cursos universitários é

o principal entrave à existência de uma verdadeira formação universitária que tem a função de desenvolver a versatilidade intelectual da pessoa, de criar homens de mentalidade e sensíveis às necessidades dos outros homens de seu tempo” (PAVIANNI, 1991, p.53).

A educação, influenciada pelos ideais positivistas, carece de incentivo ao

desenvolvimento do pensamento crítico. A educação tecnicista apoiada nos ideais positivistas não deve reduzir-se apenas ao ensino técnico, mas deve preocupar-se também em buscar

a razão do próprio procedimento técnico. Aceitar a ciência como o único conhecimento,

como queria o positivismo, é algo reducionista que perde uma considerável parcela de

conhecimento que não estão no dado; fica prejudicada tanto a criação como a dedução. A história positivista, influenciada por Ranke, tende a projetar no Ensino de História o papel de formador de um cidadão cívico, enquanto os segmentos afinados com a idéia de conflito social, desigualdade social, etc., presentes em um amplo espectro marxista, desde Althusser até Thompson, vêem no ensino de história uma possibilidade de gestação de um senso crítico, isto é, de um cidadão revolucionário. Na educação cívica, os fatos históricos e os grandes homens são cuidadosamente reconstituídos para a instrução da juventude. Faz-se uma “história comemorativa”, que legitima os rituais cívicos, realizados nas datas (dia e mês) que coincidem com as do evento passado, quando os grandes heróis produziram os seus grandes feitos. (REIS, 2004)

O positivismo, ao buscar as regularidades da vida social, encarando-as como se

fossem naturais, universais e, portanto, não históricas (a-históricas), sob a ótica da neutralidade, supõe uma ciência, uma concepção e um conhecimento descomprometidos.

A abordagem positivista implica uma metodologia fundamentada na aula expositiva onde

os alunos são ouvintes passivos e contemplativos. O sujeito da aprendizagem é um receptáculo que deve registrar os conteúdos transmitidos pelo professor e reproduzi-los posteriormente de modo o mais fiel possível. Os conteúdos são apresentados como fatos prontos e acabados não passíveis de uma reflexão e interpretação por parte dos alunos. O conteúdo escolhido se refere à história factual e seqüencial. Subjacente a essa escolha seqüencial está o pressuposto de que só se entende o presente a partir dos fatos passados. Os trabalhados escolares na perspectiva positivista se referem, principalmente, a temas de conciliação, integração, consenso,

Historiografia

na perspectiva positivista se referem, principalmente, a temas de conciliação, integração, consenso, Historiografia 14
cordialidade e não violência, ou seja, os temas relacionam-se com a “Ordem”, pregada pelo Positivismo.

cordialidade e não violência, ou seja, os temas relacionam-se com a “Ordem”, pregada pelo Positivismo. Os temas que deixam aflorar a contradição, o conflito, as tensões e violências tendem a ser minimizados ou eliminados dos conteúdos apresentados em classe. Várias análises dos livros didáticos atestam que o conteúdo se refere a uma história abstrata, alienante e ideológica que expressa o interesse de classe dos grupos dominantes.

Nossas últimas considerações

Assim, os alunos e o professor, ideologicamente colocados como homens comuns, não se sentem sujeitos do processo histórico. Tampouco percebem que podem interferir na sociedade, no processo educacional e provocar mudanças que sejam frutos da vontade coletiva da sociedade da qual fazem parte. Os reflexos desta concepção de história nas escolas, como foi dito, são aulas expositivas nas quais a participação dos alunos se limita à contemplação passiva. Eles recebem, registram e reproduzem fielmente o conteúdo recebido, pois de outro modo terão seu desempenho escolar julgado insuficiente. Não interrogam, não dialogam, não interpretam. A compreensão do presente só é possível com o olhar voltado para o passado, e, além disso, este conhecimento só é possível a partir das vozes oficiais, isto é, dos documentos que emanem principalmente do poder público. Não é por outro motivo que a História do Brasil, por exemplo, é pensada sempre em termos de uma personificação que destaca heróis, como D. Pedro I, Tiradentes, Marechais, como Deodoro, etc. É como se o povo tivesse que assistir á história como a uma partida de futebol: torcendo mas sem poder interferir, uma vez que a história seria privativa de heróis, marechais, príncipes, etc. Dessa forma, essa história tradicional, influenciada pelo Positivismo, proporcionava apenas uma visão de cima, ou seja, concentrava sua atenção nos feitos dos grandes homens, estadistas, generais e também em personalidades eclesiásticas. Opondo-se ao modelo de história positivista, e questionando o paradigma tradicional dominante, e aproximando-se das ciências sociais, os historiadores da Escola dos Annales apresentaram um novo segmento para o conhecimento histórico. Os Annales, derrubando a arcaica tendência positivista do séc. XIX, fortemente ligada ao movimento das elites, substituída pela observação detalhada e metódica do cotidiano de uma época, de uma localidade, do sistema de valores, crença, atividades humanas. A riqueza do novo enfoque está cada vez mais presente no fazer histórico atual. É o que veremos no próximo Tema 2.

fazer histórico atual. É o que veremos no próximo Tema 2. CONSIDERAÇÕES HISTORIOGRAFIA ACERCA DO MARXISMO

CONSIDERAÇÕES

HISTORIOGRAFIA

ACERCA

DO

MARXISMO

NA

Sabemos que, também no século XIX, a humanidade, na sua constante busca de elaboração e reelaboração do conhecimento histórico, para além do Positivismo, viu surgir uma nova concepção de história – o Materialismo Dialético. O impulso original marxista será a busca do fio condutor que explique a dinâmica das sociedades modernas, entendidas como sociedades industriais. Sob a liderança intelectual dos alemães Karl Marx e Friedrich Engels, na segunda metade do século XIX assistiu à emergência de uma nova compreensão do homem, da história e dos procedimentos metodológicos para a apreensão do conhecimento histórico. Os homens interagem nas condições exteriores a que estão submetidos, lutam pela transformação dessas condições que são construídas pelos sujeitos da História. Os homens fazem a História e determinam seu rumo. A nova receita, dada pelos fundadores do Materialismo Dialético, é a seguinte:

Historiografia a) as classes sociais, cuja luta constitui a própria trama da história, não se

Historiografia

a) as classes sociais, cuja luta constitui a própria trama da história, não se define
a) as classes sociais, cuja luta constitui a própria trama da história, não se
define pela capacidade de consumo e pela renda e sim pela sua situação no
processo produtivo (uma concepção de história que tem como base o
desenvolvimento do processo real da produção, concretamente a produção
da vida material imediata);
b) a correspondência entre forças produtivas e relações de produção,
constituindo o principal objeto da história-ciência, ligada ao conceito de “modo
de produção” e “formação social” (concebe a forma das relações humanas
ligadas a este modo de produção e por ele engendrada, isto é, a sociedade civil
nos seus diferentes estágios, como sendo o fundamento de toda sua história);
c) a produtividade é a condição necessária da transformação histórica (se as
forças produtivas não se modificam, a capacidade de criação da vida humana
se imobiliza, e se elas se modificam tudo se move); (REIS, 2004)

Para Marx e Engels, portanto, as relações sociais são essencialmente moldadas pelas condições materiais da existência humana. Uma história que trata da luta de classes no quadro do desenvolvimento das forças produtivas, portanto, a realidade histórica é estruturada em grupos de homens que ocupam lugares contraditórios no processo produtivo. Na literatura marxista é a chamada luta de classes. No caso do positivismo vocês viram

anteriormente que o sujeito da História é sempre o “herói”, o governante, ou seja, o sujeito que destaca na sociedade de classes. Diferente do marxismo, o homem comum não participa da construção da história. Para a concepção marxista, os homens “fazem a história”, intervindo, condicionando na estrutura e pela estrutura econômico-social, melhor dizendo os homens transformam o mundo e a si próprios. A questão econômica tem grande importância, é a base da estrutura e a dinâmica da sociedade, e a chamada luta de classes é o “motor da História” na expressão de Marx, que pode ser vista no Manifesto Comunista. Como contraponto a isso, lembremos que o positivismo afirmava que numa sociedade dividida em classes, os indivíduos “superiores” formariam a classe dominante e as desigualdades sociais ganhavam, assim, justificativas em sintonia com o os interesses do capitalismo e da burguesia liberal do século XIX. Lembrem-se também que o pensamento positivista tinha como pressupostos básicos os conceitos de ordem propriedade, moral, família, religião, progresso, pátria e trabalho. Esses conceitos buscavam justificar a sociedade capitalista dividida em classes, a propriedade privada dos bens de produção, a hierarquia social, o individualismo e outros princípios que lhes são característicos. Em razão disso, é conveniente dar voz ao próprio Marx, a fim de que ele exponha as linhas gerais de seu pensamento. Em “Uma Contribuição Crítica da Economia Política” – Marx diz: “O modo de produção material da vida material condiciona o processo em geral de vida social, política e espiritual. Não é a consciência do homem que determina o seu ser,

mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. (

transformação da base econômica, toda a superestrutura se transforma, com maior ou menor rigidez” (MARX, 1978, p. 30). Entretanto, embora colocasse as condições materiais – a infraestrutura – como pressuposto quase absoluto para as condições jurídico-políticas – a superestrutura –, Marx não se furtou de relativizar esta regra. Em Miséria da Filosofia, Marx tratou esta questão nos seguintes termos:

).

Com a

“O modo de produção, as relações nas quais as forças produtivas são desenvolvidas, não são de modo algum leis eternas, mas (antes) ( ) correspondem a um desenvolvimento determinado dos homens e de suas

uma mudança nas forças produtivas dos homens

forças produtivas e (

necessariamente enseja uma mudança em suas relações de produção”. (MARX, 2001)

)

O marxismo, enquanto concepção de história esteve, especialmente a partir da hegemonização política da União

O marxismo, enquanto concepção de história esteve, especialmente a partir da hegemonização política da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas no Leste Europeu, submetido a uma leitura reducionista que impunha, à referida concepção, a responsabilidade pela versão dos debatidos “estágios do desenvolvimento histórico”. No Manifesto Comunista pode ser visto uma concepção evolutiva e continuísta da história, na qual o modo de produção capitalista é o resultado da sucessão dos modos de produção anteriores, por exemplo, o escravista. O próximo modo de produção, para Marx, traria a superação, exclusão da luta entre os homens, ou seja, não teria como motor a luta de classes: seria o modo de produção socialista e este evoluiria para o comunismo, o qual na visão marxista seria o modelo de sociedade justa, livre e comunitária. Segundo esta versão o pensamento marxista se assentaria exclusivamente no conceito de “Modo de Produção”. Um dos responsáveis por esta versão seria o ditador Stálin, que com a publicação, em 1938, do texto Sobre o Materialismo Histórico e o Materialismo Dialético, teria aberto caminho para uma versão sobre a concepção marxista da história que transformou-se – pelo emprego do esquema unilinear das cinco etapas – em uma vulgar filosofia da história, uma entidade metafísica que determinava, do exterior , o curso do devir histórico, não restando outro remédio aos dados concretos, salvo entrarem, bem ou mal, no dito esquema. A pesquisa histórica passava a ser ‘ilustração’ das ‘verdades’ consagradas. (CARDOSO, 1979, p.71). No sentido de contribuir para esta discussão epistemológica cuja importância acadêmica é indiscutível, é conveniente, mais uma vez, dar voz a Marx, a fim de que ele, pessoalmente, defina “modo de produção”:

“( ) em todas as formas de sociedade, é um modo de produção determinado e
“(
)
em todas as formas de sociedade, é um modo de produção
determinado e as relações por ele engendradas que determinam todos os outros
modos de produção e as relações engendradas por estes últimos, como também
seu nível e sua importância. É como uma luz geral onde estão mergulhadas
todas as cores e que lhes modifica as tonalidades particulares. É como um éter
particular que determina o peso específico de todas as formas de existência que
dali emergem”. (MARX, 1991, p.11)

Com o início das críticas ao Stalinismo, a partir dos anos 50, conceitos como o de Modo de Produção, começaram a ser rediscutidos. Houve também, a partir daí, uma significativa troca de influências do marxismo com historiadores ocidentais em congressos internacionais de história. Destacaram-se, nesta fase, nomes como os de Witold Kula, na Polônia; Pierre Vilar, Charles Parain, J. Bouvier e Albert Soboul, na França; Eric Hobsbawm, Maurice Dobb, Cristopher Hill e R. Hilton, na Inglaterra; E.Sereni, na Itália, K. Takahashi, no Japão, etc. Do mesmo modo, nomes como os de Louis Althusser, Antonio Gramsci, George Lukács, Walter Benjamim, Agnes Heller, dentre outros, representaram etapas importantes da trajetória do pensamento marxista. Louis Althusser, de acordo com Flamarion, concretamente não contribuiu para a História, enquanto ciência, pois desconhecia a natureza do trabalho do historiador. Apesar disto tem seu mérito no fato de concentrar-se em temas fundamentais na epistemologia marxista, antes postos de lado. (CARDOSO, 1979, p.80) O conjunto das obras de Antonio Gramsci, por sua vez, representam um momento de revisão e questionamentos em relação ao marxismo. Gramsci reestuda e introduz conceitos como os de Estado, hegemonia, teoria política nas sociedades industrializadas do ocidente moderno, cultura, acumulação política em processos de longo curso, todos fundamentais para uma teoria de história, do ponto de vista marxista. O objetivo de Gramsci apontava

para uma crítica ao economicismo, reduzindo o papel não apenas da ‘consciência de classe’, como da própria luta de classes. A concepção materialista da história, portanto, pressupõe em primeiro lugar que a experiência é o eixo central da história, enquanto, ao mesmo tempo,

concebe uma identidade fechada e coletiva: os humanos experimentariam o mundo através da classe social a que pertencem. Enquanto “ciência” da história o marxismo, dá ênfase nas “contradições” e prioriza o estudo dos “conflitos sociais”. De acordo com Hobsbawm, 1982, esta seria a contribuição mais original de Marx para a historiografia, uma vez que as teorias anteriores (principalmente o positivismo) davam prioridade a harmonia, unidade, entre as diversas esferas sociais, ou melhor, entre as classes sociais.

Historiografia

sociais, ou melhor, entre as classes sociais. Historiografia O marxismo no ensino da História Resumidamente, do

O marxismo no ensino da História

Resumidamente, do ponto de vista do ensino de história referido a concepção marxista, pode-se dizer que os professores marxistas tendem a projetar no ensino de história um instrumento revolucionário capaz, justamente, de “arrancar a tradição ao conformismo”. Itacy Salgado Basso, sintetiza, no trecho seguinte, a metodologia didática articulada à concepção materialista da história:

“A metodologia de ensino e a seleção de conteúdos mediadas e articuladas à concepção materialista
“A metodologia de ensino e a seleção de conteúdos mediadas e
articuladas à concepção materialista da história proporcionam ao aluno
possibilidade de entender a sociedade em que vive e de ter consciência da
sua posição nestasociedade, isto é, possibilidade de recuperar a sua
memóriahistórica. Para que o aluno examine criticamente o papel da
sociedade na sua própria formação, é preciso que se inicie esse aluno nos
procedimentos da produção do conhecimento histórico (
).
Partindo da
análise da situação presente, professores e alunos procuram entender o
passado
sob a luz da crítica da nossa sociedade. Só quando entendemos
criticamente a sociedade burguesa, isto é, quando a entendemos como
histórica, é que podemos compreender as sociedadesanteriores, o passado”.
(BASSO, 1989, p.7)
[[[[[
]]]]]
Agora é hora de
TRABALHAR
QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 11111

Existiria a possibilidade de se conhecer o passado, tal como ele se apresentava? Ou o passado seria uma invenção, repleto de discursos e práticas? Para o historiador Durval Muniz Albuquerque o passado adquire sentido quando se relaciona com o presente. E para você, caro aluno?

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 22222

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 2 2 2 2 2 Após a leitura do trecho abaixo de Durval Muniz Albuquerque

Após a leitura do trecho abaixo de Durval Muniz Albuquerque acerca da “imaginação histórica”, redija algumas considerações sobre a problemática apresentada.

O conhecimento histórico torna-se, assim, a invenção de uma cultura particular, num determinado momento, que, embora se mantenha colado aos monumentos deixados pelo passado, á sua textualidade e á sua visibilidade, tem que lançar mão da imaginação para imprimir um novo significado a estes fragmentos. A interpretação em história é a imaginação de uma intriga, de um enredo para os fragmentos de passado que se tem na mão. Esta intriga para ser narrada requer o uso de recursos literários como as metáforas, as alegorias, os diálogos, etc. Embora a narrativa histórica não possa ter jamais a liberdade de criação de uma narrativa ficcional, ela nunca poderá se distanciar do fato de que é narrativa e, portanto, guarda uma relação de proximidade com o fazer histórico, quando recorta seus objetos e constrói, em torno deles, uma intriga. (ALBUQUERQUE, 1995, p. 11).

Historiografia A R EVOLUÇÃO P ROPOSTA P ELOS A NNALES Para entendermos o momento atual

Historiografia

Historiografia A R EVOLUÇÃO P ROPOSTA P ELOS A NNALES Para entendermos o momento atual da

A REVOLUÇÃO PROPOSTA PELOS ANNALES

Historiografia A R EVOLUÇÃO P ROPOSTA P ELOS A NNALES Para entendermos o momento atual da

Para entendermos o momento atual da escrita da história precisamos acompanhar a história da história. As mudanças que ocorreram na escrita da história iniciaram-se com o aparecimento da expressão francesa “La nouvelle histoire” (a nova história), na passagem dos séculos XIX e XX. Essa Nouvelle histoire, praticada pela Escola dos Annales, a partir de Febvre, Bloch e Braudel, rompeu com a influência filosófica, amparando-se nas teorias das novas Ciências Sociais (Sociologia, Economia, Psicologia, etc). Em 1929, Marc Bloch e Lucien Febvre fundam a revista dos Annales e inauguram uma fase nova e decisiva no campo da história e historiografia. História escrita como reação ao modelo tradicional ou “história rankeana”, alusão ao historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886). Essa revista seria o porta-voz dos apelos dos editores em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar da história. (BURKE, 1997).

Qual foi o seu principal alvo de combate?

A história política que se fazia na época, de influência positivista, caráter “diplomático”, narrativo e factual.

O rigor da narrativa rankeana não considerava a imaginação do historiador, presente

em todos os atos de estruturação da narrativa histórica. Consideramos que a narrativa histórica tem início e fim determinados pelo historiador, imprimindo sentido ao tempo e possibilitando uma unidade através da narrativa. Os Annales questionavam entre a virada do século XIX para o século XX a forma como se fazia a história que era até então historizante, a qual preocupava-se tão somente com os fatos singulares, sobretudo fatos políticos, militares e diplomáticos. Uma história que tomava como um dos critérios, a análise de documentos verdadeiros, e assim poder- se-ia chegar a cientificidade e a verdade dos fatos. Opunham-se ferrenhamente a uma história contaminada de empirismo. Este novo paradigma de escrita da história foi proposto

pela chamada Escola dos Annales, tornando-se talvez o principal modelo para o fazer da história. Burke, 1997 acredita que seja preferível falar num movimento do Annales, não numa “escola”.

O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel,

Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. E próximos a eles estão Ernest Labrousse, Pierre Vilar, Maurice Agulhon e Michel Vovelle. Para acompanhar o desenrolar do movimento dos Annales, observe um breve histórico que se segue.

A HISTORIOGRAFIA NO SÉCULO XX: A REVOLUÇÃO DOS ANNALES Nas primeiras décadas do século XX

A HISTORIOGRAFIA NO SÉCULO XX: A REVOLUÇÃO DOS ANNALES

A HISTORIOGRAFIA NO SÉCULO XX: A REVOLUÇÃO DOS ANNALES Nas primeiras décadas do século XX surgiu

Nas primeiras décadas do século XX surgiu na França um novo paradigma no campo

do conhecimento histórico, o qual apontava para novos direcionamentos para a comunidade dos historiadores no que diz respeito à produção historiográfica.

A escola dos “Annales”: cujos membros deram um giro coperniano (refere-se a

Copérnico) na historiografia, atacaram o positivismo. Seus defensores são Marc Bloch (1886-

1944) e Lucién Febvre (1878-1956).

A partir de Bloch e Febvre começam a serem utilizados os métodos estatísticos,

econômicos e de qualquer outra ciência que servisse de subsídio. A economia e a sociedade

passaram a ser objetos de estudo da História, porém, mais importante que o Estado, as instituições e as guerras, é o ser humano, o ser que vive em sociedade.

A nova história social é marxista, ainda que tenha passado por grandes

transformações, dependendo da experiência do socialismo real e da evolução ideológica, derivada do contato com a realidade social. Se vocês recordarem do texto anterior, para Marx, o materialismo dialético encara o ser humano como um ser histórico, isto é, diretamente influenciado por sua época (contexto), pelo seu meio geográfico e social, mas um ser igualmente capaz de reagir, pelo trabalho consciente, ao mundo em que vive. Essa realização se dá através da práxis. Sem dúvida, interessa ao historiador a História em sua totalidade com super estrutura

e

infra-estrutura e, ao que parece, a única maneira de compreender o passado para analisar

o

presente é entender as estruturas sociais, políticas e econômicas.

Novos Objetos

Como foi dito anteriormente, os Annales recusaram os objetos da história tradicional. Estes objetos são: a política, as relações exteriores dos Estados nacionais. As guerras e a biografia de seus grandes líderes e criaram outros. Os Annales recusaram fundamentalmente, sobretudo a história política por considerarem, que esta era a história a serviço dos estados nacionais, com seus heróis, batalhas e pretensões imperialistas. Em outras palavras, a história política era vista pelos historiadores dos Annales como elitista, biográfica, qualitativa, visando ao particular, individual; também era narrativa, ideológica, partidária. Os seja, a história das “ações conscientes” dos “grandes indivíduos” que realizavam “grandes feitos”. Os principais objetos que aparecem na primeira fase da revista dos Annales relacionam-se com: economia, sociologia, geografia e demografia. (REIS, 2004).

Bloch e Febvre: historiadores revolucionários

· compreensão, pela história –problema; · historia global; · renovação de fontes e técnicas.
·
compreensão, pela história –problema;
·
historia global;
·
renovação de fontes e técnicas.
Historiografia Os fundadores criadores da chamada Escola dos Annales , Lucien Febvre e Marc Bloch,

Historiografia

Os fundadores criadores da chamada Escola dos Annales, Lucien Febvre e Marc Bloch, lideraram, na França, o movimento da La nouvelle histoire ou “Nova História”, possuíam uma nova visão da disciplina história, os

quais consideravam que a “história-ciência” ainda em construção tinha como características:

E mais, a narrativa foi minimizada em função do rigor científico. Uma característica marcante do estudo de Lucien Febvre era a introdução geográfica, um perfil da região estudada. Posteriormente, Braudel retomará a ênfase no geográfico no seu famoso livro sobre o Mediterrâneo.

O importante papel do problema

Essa abertura e ampliação do campo dos objetos, das fontes e técnicas históricas, estão associadas à inovadora proposta teórica da história-problema. Se para Langlois e Seignobos “sem documentos não há história”, para os Annales, “sem problema não há história”. Dito de outra maneira é o problema e não a documentação que está na origem da pesquisa, isto é, sem um sujeito que pesquisa, sem o historiador que procura respostas para questões bem formuladas, não há documentação e não há história. É o problema posto que dará a direção para o acesso e construção do corpus

necessário à verificação das hispóteses que ele terá suscitado. Melhor dizendo, a história- problema devolve ao historiador a liberdade na exploração do material empírico. O fato histórico não está presente “bruto” na documentação. O historiador não é um colecionador

e empilhador de fatos. Ele é um construtor, recortador, leitor e intérprete de processos

históricos Portanto, a grande renovação teórica propiciada pela reconstrução do tempo histórico pelos Annales foi a história-problema. Ela veio se opor ao caráter narrativo da história tradicional. Veio reconhecer a impossibilidade de se “narrar os fatos tal como se passaram”. Que não há história sem teoria. A pesquisa histórica é a verificação de respostas- hipóteses possíveis a problemas postos no início.

Na perspectiva dos Annales, ao historiador cabe:

· escolher seus objetos no passado e os interrogar a partir do presente.

· explicitar a sua elaboração conceitual, pois não pretende

se apagar na pesquisa, em nome da objetividade. Ao contrário, para

ser mais objetivo, o historiador “aparece e confessa” seus pressupostos

e conceitos, seus problemas e hipóteses, seus documentos e suas

técnicas e os modos como as utilizou e, sobretudo, a partir de que

lugar social e institucional ele fala.

· escolher, selecionar, interrogar, conceituar, analisar,sintetizar

e concluir.

A partir da posição do problema, o historiador distribui suas fontes, atribui-lhes sentido

e organiza as séries de dados que ele terá construído. O texto histórico é o resultado de uma narração objetivista de um processo exterior organizado em si pelo final.

A pesquisa é feita pelo problema que a suscitou, o problema vai guiar na seleção

dos:

1. documentos

2. construção das séries de eventos relevantes para a construção das hipóteses

Rompendo com a narração, a história tornou-se uma empresa teórica, seguindo o caminho de toda

Rompendo com a narração, a história tornou-se uma empresa teórica, seguindo o caminho de toda a ciência põe problemas e levanta hipóteses e demonstra-as com uma documentação bem criticada e com uma argumentação conceitual rigorosa.

Essa nova história reabre o passado, em vez de reconstituí-lo definitivamente. Ela retoma-o, remaneja-o, rediscute-o, estimulada pelas experiências do presente, que é sempre novo e exige a reabertura constante do passado.

A história conduzida por problemas e hipóteses fez o historiador mudar de posição e

de disposição: se antes ele era proibido, em tese, de aparecer na pesquisa, o que é

impossível de ser cumprido, agora, ele é obrigado a “aparecer” e a explicitar a sua estrutura teórica, documental e técnica e o seu lugar social e institucional. Atingindo algum grau de “intersubjetividade”.

A comunidade de historiadores é capaz de acompanhar e controlar as pesquisas

históricas, pois foi posta a par dos pressupostos, dos documentos e seus meios de processamento, sabe o que o pesquisador quis demonstrar e onde ele pode chegar.

A possibilidade da história-problema liga-se estreitamente à reconstrução do tempo histórico produzida pelos Annales.

Essa inovação teórica depende de uma anterior reconstrução da representação do tempo histórico. A representação teleológica do tempo histórico é compatível coma história- narrativa e incompatível com a história-problema.

narrativa e incompatível com a história-problema. 1. Não sendo mais movida pelo fim, mas articulação de

1. Não sendo mais movida pelo fim, mas articulação de permanências e mudança, a história é

mais representada como um progresso. A pesquisa histórica conduzida por problemas

é uma “reconstrução temporal”, que polemiza com o passado-presente, mas não chega a

“reconstruí-los”, tal como se passaram. O conhecimento histórico constrói e tematiza o seu

objeto, formula problemas e hipóteses, sob a influência do presente, se referir a valores teleológicos.

2. Há uma outra periodização – ela é agora temática e definida pelo problema a ser tratado.

As periodizações demográfica, econômica, social, lingüística e antropológica não são grandes cortes na história da humanidade, mas uma flutuação cíclica no interior de uma estrutura.

3. Há uma outra relação passado-presente – são diferentes que dialogam reciprocamente.

O presente não continua e nem é superior ao passado, é “outro”. O método retrospectivo não

leva o historiador à busca das “origens”. Este vai do presente ao passado e retorna do

passado ao presente.

do presente ao passado e retorna do passado ao presente. Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! O
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! O historiador não pode ignorar o presente ao qual pertence – deve
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
O historiador não pode ignorar o presente
ao qual pertence – deve ter a sensibilidade histórica
do seu presente e interrogar o passado a partir
dele. Ou seja, faz o caminho do presente para o
passado.

Esse método regressivo sustenta a história-problema: temática, essa história elege, a partir das tensões vividas no presente, os temas que interessam a esse presente, problematizando-os e tratando-os no passado, trazendo informações para o presente, que o esclareçam sobre a sua

experiência vivida (BLOCH, 1997). O título do ensaio do historiador Peter Burke, 1997, A Revolução da Historiografia: a Escola dos Annales (1929-1989) evidencia que este autor apresenta o movimento com a criação da revista Annales como um verdadeiro movimento revolucionário, configurando-se em um novo paradigma (modelo) historiográfico, ou seja, uma revolução ocorrida na forma de produzir o conhecimento histórico. Segundo Burke, 1992, “é a História

] que

será conveniente descrever como ‘História rankeana’ [ Fazendo aqui uma breve recapitulação, a historiografia tradicional ou positivista refere-se essencialmente à política, adota a narrativa como forma

de transmissão de conhecimento, e interessa-se principalmente pelos feitos dos “grandes homens”, utiliza como fontes os documentos emanados do governo e preservados em arquivos, condicionando as explicações a uma relação mecânica de causa e efeito, conforme Ranke, “como eles realmente aconteceram”. Em oposição, a Nova História interessa-se praticamente por toda atividade humana, preocupando-se com as pessoas comuns e com as mentalidades coletivas,

substituindo ou complementando a narrativa com a análise das estruturas. Sobre as fontes,

Nova História, considera todo tipo de vestígio deixado pelo homem, além de criticar as fontes oficiais, as quais expressam o ponto de vista oficial.

a

Historiografia

escrita como uma reação deliberada contra o ‘paradigma’ tradicional, [

reação deliberada contra o ‘paradigma’ tradicional, [ As três fases dos Annales Comumente a chamada escola
reação deliberada contra o ‘paradigma’ tradicional, [ As três fases dos Annales Comumente a chamada escola

As três fases dos Annales

Comumente a chamada escola dos Annales é dividida em três gerações, a primeira representada por Lucien Febvre e Marc Bloch – seus fundadores – , a segunda notadamente representada pela liderança de Fernand Braudel e por fim a terceira, integrada entre outros, por Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.

1. A geração dos fundadores, entre 1929 e 1946, com L. Febvre

e M. Bloch caracterizou-se pelo espirito de síntese, por uma história

problematizada, é a geração da história total, a qual veio a se constituir um dos principais traços do movimento. A heterogeneidade, mobilidade

e a abertura aos temas e metodologias também marcaram essa primeira fase.

Reis (2004) apresenta uma relação de temas de artigos dessa fase,

entre eles podemos citar: a atividade industrial na Alemanha; o problema da população na URSS; as finanças da guerra de Alexandre Magno, o Grande; os bancos da época moderna; as fortunas da Roma Republicana;

o comércio do século XVI; os operários na índia; as artes e as ciências;

a exploração das florestas e os conflitos sociais; o ouro na Idade Média;

crise bancária nos EUA; história social romana; o calvinismo e o capitalismo em Genebra,

as cidades francesas, o trabalho servil no Brasil, etc. Notamos que são temas variados e com perspectivas, as mais diversas.

são temas variados e com perspectivas, as mais diversas. 2. A segunda geração , entre 1946

2. A segunda geração, entre 1946 e 1968, conhecida como era de Braudel, o principal expoente do paradigma dos Annales, autor de várias obras que se tornaram clássicos como “O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II”. Note-se que é nesta monumental obra o autor situa a história em três tempos: nos acontecimentos, que se inscreve no tempo curto; nas conjunturas, que segue um ritmo mais lento; em profundidade, uma história estrutural, de longa duração, “que põe em causa séculos”. Esta segunda geração foi marcada por regularidades, quantificação, séries, técnicas, numa abordagem estrutural, e com penetração do marxismo. Com isso, temos nesta fase a produção de grandes obras de história total, histórias

sintéticas, com grande ênfase nos aspectos sócio-econômico, relacionadas ao meio geográfico. Nessa fase também

sintéticas, com grande ênfase nos aspectos sócio-econômico, relacionadas ao meio geográfico. Nessa fase também abre um campo de objetos, fortemente ligados a demografias e “civilizações”, porém com a permanência dos temas econômicos-socais. Temos como exemplo o livro de Braudel, Gramática das Civilizações. Ainda Reis, 2004, nos apresenta alguns temas desta fase: as moedas e a civilização;

a miséria e o banditismo; as reflexões sobre o equilíbrio demográfico; a educação nazista;

as migrações; a Idade Média e a história estatística; a França rural; os movimentos de preços e salários; os milagres no Brasil (notem que este tema muito vinculado à terceira geração); o Islã e a África do Norte; a América pré-colombiana, etc.

3. A terceira geração, a partir de 1969, teve preocupações

A terceira geração , a partir de 1969, teve preocupações transferidas “do porão ao sótão”, ou

transferidas “do porão ao sótão”, ou seja, mudança de bases sociais

e econômicas para as mentalidades e a vida cotidiana, na vida

privada, a “superestrutura cultural”. É a fase do abandono da história global e a incorporação da fragmentação. Nessa fase encontram-se André Burguiére e Jacques Revel, na administração da revista Annales e Jacques Le Goff, ocupando a presidência da École des Hautes Études en Sciences Sociales. É nessa geração que as mulheres são incluídas, tais como: Mona Azouf, autora de estudos sobre os festivais durante a Revolução Francesa; e Michele Perrot, que escreveu sobre a história do trabalho e a história da mulher. Os temas/objetos relacionados a economia, sociologia, demografia, continuam presentes, contudo, vemos uma história marcadamente inter-relacionada com a antropologia, ampliando muito mais os objetos históricos. Torna-se, assim, mais difícil de traçar o perfil dessa terceira geração, como foi possível das duas anteriores dominadas por Febvre e Braudel. François Dosse, do qual falaremos mais adiante chega a falar em fragmentação da história nessa fase. Temos como exemplo estes estudos: história da alimentação; história do meio ambiente; história do clima; história da arquitetura; espaço feminino e espaço masculino; linguagem popular; mitos arianos; história psicanalítica; revoltas populares; discurso

iluminista; pensamento selvagem a aculturação; feiticeiros, usos sociais do corpo; literatura popular; modas e costumes; história das idéias; vida e morte através da arte; abandono de crianças; vida sexual e casamento tardio; imagens e sons; linguagem e representação, carnaval, catolicismo e engajamento social, opinião pública, dentre outros (REIS, 2004).

O que percebe com estes exemplos de objetos pesquisados nas três fases é: a) a
O
que percebe com estes exemplos de objetos pesquisados nas três fases é:
a)
a interdisciplinaridade, melhor dizendo, as diversas junções
que a história fez com as ciências sociais;
b)
a ampliação dos objetos, do campo de pesquisa dos
historiadores;
c)
a nova forma do tempo, ou seja, o presente tematizando o
passado (não se estuda apenas o passado);
d)
o “desengajamento político-partidário”, a recusa da
dimensão política; (REIS, 2004, p. 90).
O
tema político voltou, devido ao seu crescimento e papel nas sociedades modernas;

porém, modificado em “política econômica”, “política demográfica”, ou “política cultural”. Esta

história política, não está ligada aos grandes indivíduos e ao Estado, agora, representada em setores da sociedade, sindicatos, são as “micropolíticas”. Temos como exemplo os estudos de Michel Foucault sobre os “micro-poderes”, o poder da história política não se

encontra em único espaço: o Estado. E sim distribuído em uma rede de micro- poderes, ou seja, a luta pelo poder no interior da família, da escola, das fábricas. Juntamente com Georgs Duby, Le Goff foi um dos mais destacados historiadores das mentalidades. Sua contribuição veio com a história do

“imaginário medieval” com a obra La naissance du Purgatoire (O nascimento do Purgatório), refere-se às mudanças das representações da vida depois da morte. Em relação a Duby, renomado historiador social e econômico da França Medieval, era inspirado na teoria social neomarxista, ligou-se a história das ideologias, da representação cultural e também do imaginário social. Seu importante livro foi Les trois ordres (As três ordens), no qual investigou “as relações entre o mental e o material no decorrer da mudança social”, Duby abordou a sociedade medieval dividida em três grupos: padres, cavaleiros e camponeses, ou seja, os que rezam os que guerreiam e os que trabalham. Também vinculado a esta terceira geração, Michel Vovelle, um historiador estudioso do século XVIII, especificamente da Revolução Francesa, como fez Duby, buscou fundir a história das mentalidades coletivas com ideologia do tipo marxista. Vovelle teve interesse pela “descristianização”, as atitudes diante da morte e do além, que estavam reveladas nos testamentos. Por exemplo, em sua tese sobre a Provença, pesquisou cerca de 30.000 testamentos a procura de evidências sobre a proteção dos padroeiros, número de missas encomendadas para salvação da alma, arranjos para os funerais, assim como o peso das velas acendidas durante o funeral. (BURKE, 1997).

Historiografia

acendidas durante o funeral. (BURKE, 1997). Historiografia VEJAM ESTE QUADRO: I FASE - História Total, Estruturas
VEJAM ESTE QUADRO: I FASE - História Total, Estruturas Em Longa Duração II FASE -
VEJAM ESTE QUADRO:
I FASE - História Total, Estruturas Em Longa Duração
II
FASE
-
Quantificação,
Demografia,
Geografia
III
FASE
-
Antropologia,
Mentalidades,
Cultura

Os três tempos de Braudel

Fernand Braudel foi um nome extremamente importante neste

Fernand Braudel foi um nome extremamente importante neste processo de renovação historiográfica e que exerceu forte

processo de renovação historiográfica e que exerceu forte influência durante muito tempo nos ciclos de historiadores. Entre os conceitos introduzidos por Braudel, encontram-se o de longa e o de curta duração,

o

rapidamente, enquanto outros levam milênios para sofrerem alterações, por exemplo, as mentalidades. São exatamente estes os fenômenos da vida cotidiana, das mentalidades. Estes fenômenos são mais fossilizados, e mesmo as revoluções muitas vezes não os modificam. Em seu estudo sobre o Mediterrâneo Braudel considerava importante a história “do homem em relação ao seu meio”, ou seja, uma geografia histórica, ou “geo-

história”. O principal objeto da primeira parte do livro sobre o Mediterrâneo e a geo-história, no qual descreve montanhas e planícies, litorais e ilhas, climas, rotas terretres e marítimas. Por fim, Braudel também demonstra que todas as características geográficas têm a sua história, por exemplo, no capítulo sobre as montanhas, ele discute, dentre outras questões,

a cultura e a sociedade das regiões montanhosas, o conservadorismo dos montanheses, e

que significa dizer que na história há fenômenos que se transformam

as barreiras socioculturais que separavam os homens da montanha dos da planície. (BURKE, 1997). O

as barreiras socioculturais que separavam os homens da montanha dos da planície. (BURKE,

1997).

O historiador francês Fernand Braudel dividiu em três momentos diversos o tempo

histórico:

1 - O tempo da “geo-história” ou da história estrutural: relação seres

humanos e meio ambiente, uma história de passagem imperceptível e repetições e ciclos recorrentes. O maior exemplo está em sua obra “O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II”, na qual Braudel reitera que “a conhecida e sempre condenada lentidão de Felipe II em reagir aos eventos não deve ser explicada apenas em termos de seu temperamento, mas deve ser associada à exaustão financeira da Espanha e aos problemas de comunicação em um império tão vasto”. (BURKE, 1997, p.47)

2 - O tempo dos “sistemas econômicos, Estados, sociedades e

civilizações” de ritmos lentos, porém perceptíveis é a chamada história conjuntural.

3 - O tempo acelerado de eventos e indivíduos, o sujeito da narrativa

tradicional, centrada nos fatos, nos eventos, considerada por Braudel superficial.

nos fatos, nos eventos, considerada por Braudel superficial. Para Braudel, todas as “estruturas” estão sujeitas a
nos fatos, nos eventos, considerada por Braudel superficial. Para Braudel, todas as “estruturas” estão sujeitas a

Para Braudel, todas as “estruturas” estão sujeitas a mudanças, mesmo que lentas.

Seus temas ultrapassam a história tradicional econômica (agricultura, comércio, indústria)

e enfatiza “a vida diária”, o povo a as “coisas que a humanidade produz ou consome”,

alimentos, vestuários, habitação, ferramentas, moedas. Assim, aparecem os conceitos de “vida diária” e “civilização material”, este último conceito ligado ao seu outro livro Civilização material e capitalismo. A partir destes pressupostos, do novo olhar, do desprezo nos fatos e ênfase nos problemas, houve a possibilidade da ampliação da noção de fonte, trazendo informações acerca do cotidiano, da civilização material, das crenças, de tudo aquilo que compõe a cultura, a política, a economia, de uma determinada sociedade num dado tempo.

E as produções historiográficas de Braudel?

Ambos os historiadores tornaram-se especialistas em história medieval, publicando obras de renome como Les Rois Thamaturges (Os Reis Taumaturgos) e La societé féodale (A Sociedade Feudal), a primeira um estudo sobre o caráter sobrenatural atribuído aos reis da França e Inglaterra e a segunda uma síntese dos conhecimentos do momento sobre a organização social da Idade Média, ambos lançados entre 1923 e 1936. Segundo Burke, 1997, Os Reis Taumaturgos de Bloch merece ser considerada umas

das grandes obras históricas do nosso século, culo tema é a crença, difundida na Inglaterra

e na França da Idade Média até o século XVIII, de que os reis tinham o poder de curar os

doentes de escrófula, uma doença de pele conhecida como “mal dos reis” transmitida através do toque real e acompanhado de um ritual. Esse livro foi pioneiro para o que atualmente é entendido por história “das mentalidades”. É também descrito como um estudo de sociologia histórica, ou antropologia histórica, por focalizar as crenças. Mas, é a partir do livro A Sociedade Feudal, que Bloch é mais conhecido. Esse estudo abrange quatro séculos de história européia, do ano 900 a 1300, uma variedade de temas como: servidão e liberdade, monarquia sagrada e a importância do dinheiro. É considerado um livro muito influenciado pelo sociólogo Durkheim, onde é utilizada a linguagem da consciência coletiva, da memória, das representações coletivas. (BURKE, 1997). Para Lucien Febvre a História era a “ciência dos homens, a ciência da mudança perpétua das sociedades humanas”, já Marc Bloch a definia como “a ciência dos homens no tempo”.

Historiografia Para refletir · O que vocês acham dessas definições da história? · Vocês definem

Historiografia

Historiografia Para refletir · O que vocês acham dessas definições da história? · Vocês definem história

Para refletir

· O que vocês acham dessas definições da história? · Vocês definem história para seus alunos? Como? · Em busca de uma interdisciplinaridade para a história.

Qual seria a característica principal das três gerações?

A

I-N-T-E-R-D-I-S-C-I-P-L-I-N-A-R-I-D-A-D-E

Os fundadores do movimento, Bloch e Febre, questionavam o porquê da história fechar-se em si mesmo, abdicando de um diálogo com as ciências vizinhas. No programa proposto por eles preponderava fundamentalmente: a interdisciplinaridade (história com Antropologia, Psicologia, Geografia, Economia, Sociologia, entre outras), a mudança dos objetos da pesquisa (estruturas econômico-social-mental), mudança na explicação/ compreensão em história, no conceito de fonte histórica e, sobretudo a mudança do conceito de tempo histórico. (REIS, 2004). Enquanto Febvre proclamava “historiadores, sejam geógrafos. Sejam juristas, também, e sociólogos, e psicólogos” (BURKE, 1997, p. 12), Bloch, na mesma linha, era um medievalista que pensava sob a perspectiva da história problema. Segundo Burke : O

compromisso de Bloch com a geografia era menor do que o de Febvre, embora seu compromisso com a sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar. Bloch, por exemplo, insistia na necessidade de o historiador regional combinar as habilidades de um arqueólogo, de um paleógrafo, de um historiador das leis, e assim por diante. Esses dois homens tinham necessariamente de encontrar-se. Bloch e Febvre passam a reclamar uma história problema, oposta à narrativa de fatos e de feitos heróicos. A história agora passava a ser total provida de emoções, medos, taxas demográficas, relações familiares, etc. Ao invés do grande nome, do imperador, do general, do rei, do papa, agora contava o homem comum, o ser construtor da nova história.

É dessa forma que vai-se abrindo caminho para o cotidiano e as mentalidades,

considerados então, objetos dignos de interesse pelo historiador. Como foi dito anteriormente, Bloch estudou a crença milenar que franceses e ingleses tiveram no poder curativo de seus reis e sobre doença escrófula em “Les Rois Thaumaturges”, (Os reis Taumaturgos) enquanto Febvre discutiu a possibilidade de haver ou não descrença, ou seja, irreligiosidade, na França no século XVI, em “O problema da descrença - a religião de Rebelais”. A pergunta desse livro era: Era ou não Rabelais um ateu? Mas o que significa “teoricamente” a interdisciplinaridade na História, proposta pelo Annales?

Segundo o filósofo francês Michel Foucault, em sua obra, As palavras e as coisas, significa adotar o ponto de vista das ciências sociais, emprestar-lhes objetos, instrumentos, métodos e a dimensão do tempo. Para Bloch e Febvre a interdisciplinaridade poderia se dar pelo “objeto comum” à história e às ciências sociais: o homem social. (REIS, 2004).

E o resultado para a história, desta interdisciplinaridade?

a) multiplicação de pesquisa particulares e localizadas b) a história fragmentou-se em infinitas histórias, bem

a) multiplicação de pesquisa particulares e

localizadas

b) a história fragmentou-se em infinitas

histórias, bem distante da tão anunciada pelo Annales, visão global do homem social.

Sobre esta excessiva fragmentação da história, é interessante ler o livro de François Dosse, A História em Migalhas. Atualmente, a interdisciplinaridade, tornou-se uma ameaça para história, para sua identidade enquanto história.

para história, para sua identidade enquanto história. NOVOS PRESSUPOSTOS PARA A ESCRITA DA HISTÓRIA Do que
para história, para sua identidade enquanto história. NOVOS PRESSUPOSTOS PARA A ESCRITA DA HISTÓRIA Do que

NOVOS PRESSUPOSTOS PARA A ESCRITA DA HISTÓRIA

Do que foi exposto até aqui, vocês poderão se questionar, qual era o modelo proposto por esses historiadores “revolucionários”? Vamos em frente

Atentem para os novos princípios da escrita dessa história:

para os novos princípios da escrita dessa história: 1 - história global ou total numa tentativa

1 - história global ou total numa tentativa de apreender a totalidade e a coesão de qualquer período histórico ou sociedade; 2 - uma convicção de que a história é determinadas por forças externas ao homem mas não são inteiramente neutras; 3 - a determinação, sem prescindir da totalidade da ação humana, na análise estatística rigorosa.

da ação humana, na análise estatística rigorosa. Questões como interdisciplinaridade , novos objetos, tudo

Questões como interdisciplinaridade, novos objetos, tudo passaria a ser objeto de pesquisa histórica, as estruturas, econômico-social-mental, assim como a explicação e a evolução no conceito de fontes históricas e sobretudo a modificação no conceito de tempo histórico foram o marco das produções historiográficas influenciadas pelo movimento dos Annales.

Historiografia Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Não deixem de ler o texto “A trajetória da Escola

Historiografia

Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Não deixem de ler o texto “A trajetória da Escola dos Annales”
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
Não deixem de ler o texto “A trajetória da
Escola dos Annales” no link www.2.uol.com.br/
cultvox/novos/novos_artigos/
trajetória_annales.pdf

Os Annales e as fontes históricas

A documentação será agora relativa ao campo econômico-social-mental: é massiva, serial revelando a longa duração. Os documentos referem-se à vida cotidiana das massas anônimas, á sua vida produtiva, às suas crenças coletivas. Os documentos não são mais ofícios, cartas, editais, textos explícitos sobre a intenção do sujeito, mas listas de preços, de salários, séries de certidões de batismo, óbito, casamento, nascimento, fontes notariais, contratos, testamentos, inventários. Ou seja, a documentação massiva e involuntária é prioritária e em relação aos documentos voluntários e oficiais. Todos os meios são tentados para se vencer as lacunas e silêncios das fontes.

Os Annles foram engenhosos para inventar, reinventar ou reciclar fontes históricas. Eles usavam escritos:

1.

3.

psicológicos 2. orais estatísticos

4. musicais

5. literários

6. poéticos

7. religiosos

Utilizaram de maneira ousada e inovadora a documentação e as técnicas das diversas ciências sociais:

· Da economia = arquivos bancários, empresas, balanços comerciais, documentos portuários,

documentos fiscais e alfandegários.

· Da demografia = registros paróquias, civis, recenseamentos.

· Da antropologia = os cultos, os monumentos, narrativas orais, hábitos de linguagem, livros

sagrados, iconografia, lugares sagrados, relíquias, gestos, medicina popular, processos da inquisição, testamentos, vocabulários, folclores, rituais.

· Do direito = arquivos judiciários, processos criminais, arquivos eleitorais, correspondências oficiais, a legislação.

· Da arquelogia = cerâmicas, tumbas, fósseis, paisagens, conjuntos arquiteturais, inscrições,

moedas.

Sobre as técnicas para o tratamento dessas fontes: teorias econômico-sociais, a informática, reconstituição de famílias, análise estatística, modelos, inventários, lexicografia, fotografia aérea, fenologia, dendrocronologia, carbono 14, genealogia, microfilme, gravador, filmagem, etc. (DOSSE, A história em migalhas, 1887; BURKE, A Escola dos Annales, 1990).

Os historiadores e a utilização das fontes

Como se deve manusear adequadamente as fontes históricas? Vejam alguns exemplos de fontes: a) documentais

Como se deve manusear adequadamente as fontes históricas? Vejam alguns exemplos de fontes:

a) documentais de arquivos (cartoriais, eclesiásticos, judiciários, etc);

b) impressas (jornais, revistas);

c) orais (entrevistas);

d) audiovisuais e musicais (rádio, cinema, televisão).

Para se utilizar da melhor forma possível os documentos de arquivos, recomenda-se o seguinte:

a) conhecer a origem dos documentos (estudar o funcionamento da máquina administrativa

para entender o contexto de produção dos documentos);

b) preparar-se para enfrentar as condições de trabalho do arquivo escolhido (alguns

encontram-se em difíceis condições de trabalho);

c) usar luvas, máscaras e avental e lupas de aumento no contato direto com os documentos;

d) manusear os papeis com cuidado, respeitando seus limites;

e) buscar familiarizar-se da caligrafia, se for possível aprender paleografia;

f) Cruzar fontes, cotejar informações, justapor documentos, relacionar texto e contexto;

g) Observar as regras existentes de transcrição e edição, anotar a refrencia do documento

indicar todos os dados que permitam identifica-lo.

Para os impressos, orientamos assim:

a) constituir uma longa e representativa série de jornais ou revistas

b) atentar para periodicidade, uso ou ausência de iconografia e de publicidade

c)caracterizar o grupo responsável pela publicação

d) identificar os colaboradores

e) informar a que público se destinava

Sobre as fontes orais, recomendamos:

a) familiarizar-se com as discussões acadêmicas sobre o tema e da metodologia de História

oral, levando em consideração as reflexões dos estudiosos a respeito de: polarização simplificada entre “memória oficial” e “memória dominada”; considerar as condições de produção da fonte oral (aliás o que deve se fazer com qualquer fonte);

b) definir que tipo de pessoa será entrevistada, quantos e qual o tipo de entrevista será

realizada;

c) elaborar uma listagem extensa e flexível das pessoas que serão entrevistadas (é bom

que as pessoas sejam de diferentes origens, classes sociais);

d) Reservar um tempo relativamente longo para a realização das entrevistas, assim como a

elaboração de roteiros com perguntas também flexíveis, abertas, diretas;

e) Não esquecer o documento de cessão de direitos (autorização do entrevistado para

publicar as informações contidas na entrevista);

f) Duplicar a gravação e transcrever a fita e editar o texto se for para publicação;

A respeito das fontes audiovisuais e musicais deve-se:

a) compreender a linguagem técnico-estética dessas fontes e as representações da realidade

histórica ou social nela contidas;

b) organizar a ficha técnica e explorar gênero, suporte, origem, data, autoria, conteúdo,

acervo;

c) analisar letra, estrutura musical, sonoridade vocais e instrumentais, visuais. (PINSKY,

2005).

Historiografia Principais contribuições dos annales Para Burke, 1997, a principal proposta dos Annales foi a

Historiografia

Historiografia Principais contribuições dos annales Para Burke, 1997, a principal proposta dos Annales foi a

Principais contribuições dos annales

Para Burke, 1997, a principal proposta dos Annales foi a interdisciplinaridade e as suas três gerações – apesar das divergências e descontinuidades – fizeram uma história sob a influência das ciências sociais. Vejam com suas próprias palavras:

“Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales, incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas. O grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à descoberta de novas fontes e ao desenvolvimento de novos métodos para explorá- las. Estão também associadas à colaboração com outras ciências, ligadas ao estudo da humanidade, da geografia à lingüística, da economia à psicologia. Essa colaboração interdisciplinar manteve- se por mais de sessenta anos, um fenômeno sem precedentes na história das ciências sociais.” (BURKE, 1997, p.126).

história das ciências sociais.” (BURKE, 1997, p.126). Burke ainda acrescenta que depois do movimento dos Annales,

Burke ainda acrescenta que depois do movimento dos Annales, a historiografia nunca mais foi a mesma. Entretanto, Reis (2000) considera que a grande mudança produzida pelos Annales foi a nova representação do tempo, exigida pela prática da interdisciplinaridade. (Braudel, Escritos sobre a História, 1978). As ciências sociais opõem-se à visão da história como a construção linear e acelerada do futuro. Contra a abordagem teleológica, as ciências sociais preferirão uma “abordagem estrutural” do tempo histórico.

Relação entre tempo histórico e conhecimento histórico

1. A percepção das experiências humanas cria a representação do tempo histórico.

2. A representação do tempo histórico é condição subjetiva do historiador e da sua sociedade,

2. A representação do tempo histórico é condição subjetiva do historiador e da sua sociedade,

sobre a qual todas as experiências se tornam inteligíveis.

3. O tempo histórico enquanto tal é uma abstração. Ele só existe em relação a uma época

histórica determinada e a uma construção simbólica determinada.

4. Não se tem o “tempo histórico enquanto tal”, mas um “tempo histórico do qual se fala”.

5. O tempo histórico se dá a uma representação histórica.

Donde se conclui que:

Toda renovação em história, toda “escola histórica” realiza uma mudança profunda na representação do tempo
Toda renovação em história, toda “escola histórica”
realiza uma mudança profunda na representação do tempo
histórico, apoiadas em mudanças ocorridas na história efetiva. É
esta reconstrução que permite a renovação teórico-
metodológica da história, pois é a partir dela que se
distinguem novos objetos, que se formulam novos problemas e
reformulam-se os antigos, que se constroem novas abordagens.
Enfim a hipótese, em sua terceira formulação: relação
tempo histórico e conhecimento histórico.

O conhecimento histórico só se renova, uma “nova história” só aparece quando se

realiza uma mudança significativa na representação do tempo histórico.

O tempo histórico, portanto, parece-nos o centro e a base de toda reflexão sobre a

pesquisa histórica. Muda-se a perspectiva sobre esse centro e base, uma outra história emerge, com novos historiadores, novos objetos, novas fontes, novas técnicas e uma nova utopia.

Quando aos annales, em decorrência dessa hipótese geral, eles só representaram uma renovação teórico-metodológica e “utópica” em relação à história tradicional porque teriam produzido, sob a influência das ciências sociais, uma nova representação do tempo histórico. (Reis, 1994, Tempo, História e Evasão).

tempo histórico. (Reis, 1994, Tempo, História e Evasão). A INFLUÊNCIA DOS ANNALES PARA O HISTORIADOR ATUAL

A INFLUÊNCIA DOS ANNALES PARA O HISTORIADOR ATUAL

· história total e a ampliação e diversificação do

conceito de fontes;

· abertura de fronteiras temáticas;

· construção da “história problema”;

· interpretação, a busca dos “porquês” , indo além

do “o quê” e do “como” da história tradicional do século

XIX.

Recapitulando, foi Em 1929, que a revista Anais da História Econômica e Social, dirigidas por Marc Bloch e Lucien Febvre, provocou um turbilhão no domínio da historiografia, transformando-se no principal acontecimento do século nesse âmbito.

O “movimento dos Annales”, surgido como desdobramento da revista fundada ao

final dos anos vinte por Bloch e Febvre, só passou a ser reconhecido como um movimento a partir da “segunda geração” e como desdobramento da liderança acadêmica de Fernand Braudel. Peter Burke, 1997, autor de várias obras sobre o que chama de “revolução francesa da historiografia”, descreve as linhas diretrizes do movimento nos seguintes termos:

“Em primeiro lugar, a substituição da tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo lugar, a história de todas as atividades humanas e não apenas

história política. Em terceiro lugar, visando completar os dois primeiros objetivos, a colaboração com outras

história política. Em terceiro lugar, visando completar os dois primeiros objetivos, a colaboração com outras disciplinas, tais como a Geografia, a sociologia, a psicologia, a economia, a linguística, a antropologia social, e tantas outras.”. (BURKE, 1997.

p.11-12)

Historiografia

Vimos que sob a proclamação de que “a história é filha de seu tempo” e defendendoa necessidade de “uma história mais abrangente e totalizante”, os franceses Marc Bloch e Lucien Febvre lideraram a fundação da revista Annales, a qual terminou por promover uma verdadeira revolução no fazer historiográfico, resultando no aparecimento de uma outra concepção de história: a História Nova. É certo que o termo História Nova é problemático, na medida em que ignora as contribuições dos antecessores de Bloch e Febvre e, principalmente, porque propõe uma unidade que não existe. Como já foi apontado, sob o guarda-chuva da Nova História são

enquadradas e igualadas propostas historiográficas não apenas diferentes como conflitantes, do que são exemplos os postulados de Le Goff e Vovelle sobre mentalidades ou, mesmo, os modelos de História Cultural de Thompson e Foucault. Os conflitos e as desavenças entre historiadores da escola marxista ortodoxa e os herdeiros da Escola dos Annales – ainda que entre estes estejam marxistas da estirpe de Michel Vovelle – têm obscurecido e prejudicado o debate historiográfico.

É comum associar-se a herança historiográfica de Bloch e Febvre à História das

Mentalidades e/ou à História do Cotidiano, entretanto é mais correto considerar que é bastante vasto o campo abarcado hoje pela renovação historiográfica que se iniciou nos anos trinta. Normalmente estas novas correntes são, todas, enquadradas no grande ícone “História Cultural” ou, quando muito, “História Sócio-Cultural”. Observamos anteriormente que a terceira geração dos Annales – década de 60 a 80

– se consentram os estudos nos hábitos, costumes, crenças, rituais, bem como do amor, do

sexo, do casamento, da magia, da religião, da morte. Esse é um momento de preocupação com a história que mudava lentamente, e é a essa geração que ficou denominado Nouvelle

Histoire, (Nova História) apesar de a idéia de uma história renovada já estar presente nos textos-manifestos dos primeiros momentos da revista, ainda no tempo de Bloch e Febvre. Franceses como Jacques Le Goff, George Duby, Jean-Louis Fladrim, Philippe Ariés traduzem nas suas obras a preocupação latente com uma historiografia do cotidiano, com uma história das mentalidades. Esse quadro de renovação não se limita à França. Na Inglaterra outros autores como E. P. Thompson, Christopher Hill, Eric Hobsbawm procuraram pontos de ligação entre a antropologia e categorias marxistas, assim como na tradição socialista de uma história dos movimentos sociais. (SOUZA, 1986).

É dessa forma que o estudo do cotidiano e das mentalidades vai ganhando o estatuto

da análise das ações humanas enquanto repetição, manutenção e entraves, muitas vezes de transformações mais radicais das sociedades, o cidadão comum, independentemente de raça, credo ou condição econômica, passa a ser visto como um agente histórico. Contemporaneamente o ensino da História, articulado a estas inovações teóricas,

convive com a possibilidade de trazer para o ambiente da sala de aula novas temáticas, como a história da infância, a família, as “minorias”, a festa, a moda, a culinária, o cotidiano

e as “mentalidades coletivas”. O mercado editorial, também acompanhando estas mudanças,

tem oferecido livros didáticos que já contemplam estas novas temáticas. Para esta pesquisa,

o desafio de articular práticas pedagógicas a estas novas referências esteve vinculado ao papel que as referências pós-estruturalistas reservam para o ensino de história:

Estes assuntos poderão ser estudados de maneira mais aprofundada, no Tema 4. Resumidamente, Marc Bloch clamava por uma história-problema, profunda e total. Esta história seria alcançada pela formulação de perguntas pertinentes por parte do

pesquisador, a partir das quais ele questionaria o passado, através da aliança com as ciências

pesquisador, a partir das quais ele questionaria o passado, através da aliança com as ciências sociais. Considere-se que a intenção de abordar aspectos relativos à vida dos homens em

sociedade, que transcendem a esfera política e exige métodos e técnicas de investigação

e análise dos quais a história absolutamente não dispunha, tornando portanto fundamental

essa “aliança a serviço da história”, com o intuito de incorporar metodologias compatíveis para investigar novos temas e objetos. Lembramos que uma das principais contribuições dos Annales assim como da Nova História foi a INTERDISCIPLINARIDADE

A primeira fase dos Annales que se inicia em 1929 mostrou um certo domínio de

diálogo com a Sociologia. No segundo momento, período Braudel, a aproximação maior foi com a Economia. E no terceiro momento os diálogos foram com a Antropologia.

A Antropologia e a Histórica, uma das principais junções interdisciplinares da nova

escrita da história.

É a antropologia histórica, pois os historiadores aprenderam muito com os antropólogos

Por exemplo, Cliford Geertz com a sua “descrição densa” no livro “A Interpretação das Culturas”. Analisa-se um microfenômeno, um ritual, uma obra, um evento buscando características que definem a sociedade da qual estão inseridos via mediação dos significados da cultura. Um método parecido com o da etnografia.

Um exemplo deste tipo de estudo, ainda que pese a dimensão mais ampla e menos
Um exemplo deste tipo de estudo,
ainda que pese a dimensão mais ampla e
menos antropológica, é livro de Georges
Duby sobre a batalha de Bouvines em 1214
“O Domingo de Bouvines”.

Esta história está inserida na “Nova História Cultural”, sucesso nos EUA e destaque para os historiadores Natalie Zenon Davies e Robert Darnton. Metodologicamente estes historiadores fazem uma aproximação entre a história e a antropologia, mas também refletem uma reação contra a velha histórica política que não dava espaço ao povo, assim como a história de alguns historiadores dos Annales que privilegiava as dimensões econômicas, demográficas e sociais em detrimento da cultura. Altera-se também a noção de temporalidade, com ênfase na longa duração, ou no tempo longo, na sucessão sem mudança. José Carlos Reis, 2000, considera que Bloch foi o primeiro dos “novos historiadores”

a ter inserido a dimensão da permanência na história e a romper com a noção de tempo histórico tradicional, na qual o fato, o acontecimento imediato ocupa lugar central.

Novos objetos, fontes e problemas.

Fernand Braudel da chamada segunda geração dos Annales, ocupou a direção da

Revista dos Annales dos anos 50 e 60. Este é o período de apogeu dos estruturalismos, de viés Antropológico (Lévi Straus) ou Marxista.

O método quantitativo é a tônica, para análise de fontes históricas. A informática é

grande colaborador dessa história.

Historiografia O tempo “quase imóvel” das estruturas, que ocupa posição de destaque em suas obras.

Historiografia

O tempo “quase imóvel” das estruturas, que ocupa posição de destaque

em suas obras. Ainda que não exclua o evento situando-o em um nível de menor importância.

A década de 1960 foi marcada por vários conflitos sociais, e segmentos

como

mulheres, homossexuais, indígenas e os jovens,

Ou seja, a diversidade comportamental combinava com modelos preestabelecidos. Essa nova realidade social não passaria em branco pelos intelectuais da época e no final dessa década e com as transformações futuras a história com ênfase na estrutura de longa duração, assim como a história com tendência marxista. Nesse momento surgem teóricos como Foucault que defende o relativismo na histórica, questionando a eficácia dos métodos

quantitativos para a análise de fontes históricas. Tal metodologia que permite o estudo dos homens comuns, também, encobrem as particularidades individuais, ou seja, o viés cultural.

A abordagem cultural é a marca da terceira geração dos Annales ou Nouvelle

Nouvelle Histoire ou Nova História. Durante a década de 70 e 80 a Revista dos Annale vai receber a contribuição dos historiadores, Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Robert Mandrou, Jacques Revel dentre outros. Nesta fase a produção histórica foi avaliada e reelaborada teórico e metodologicamente.

O conhecimento histórico produzido nesse período enfatiza a interdisciplinariedade, porém não propicia uma
O conhecimento histórico
produzido nesse período enfatiza a
interdisciplinariedade, porém não propicia
uma história total e globalizante,
defendida pelas gerações anteriores, e
sim uma história fragmentada, cuja crítica
está no livro de François Dosse “História
em Migalhas”.

Peter Burke (1997) e em artigo intitulado “Gilberto Freyre a Nova História” afirma que Freyre antecipa a “Nova História”, ao passo que já nos anos 30 ele “trabalha com tópicos

como a família, sexualidade, infância e cultura material (alimentação, vestimenta e habitação)”. (Revista Tempo Social, 1997). Esta antropologia histórica de Gilberto Freyre e seu interesse pelas mentalidades foram reconhecidas por Braudel quando descobriram a obra e Freyre “Casa Grande e Senzala”, no fim dos anos 30.

O interesse por acontecimentos imediatos, assim como por personagens individuais,

reaparece, além da preocupação com o aspecto literário da escrita da história. Dessa forma questões como totalidade social, globalidade, recorte territorial, longa duração, ênfase na

perspectiva social, são progressivamente abandonadas dando espaço para novas concepções.

É o retorno da narrativa história

para novas concepções. É o retorno da narrativa história Sites Vejam o artigo sobre interdisciplinaridade nos

Sites

Vejam o artigo sobre interdisciplinaridade nos links:

www.netflash.com.br/pessoais/cleal/complexidade.html.

www.crmariocovas.sp.gov.br/itd_l.php?t+001

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 11111

[[[[[

]]]]]

Agora é hora de

TRABALHAR

1 1 1 1 1 [[[[[ ]]]]] Agora é hora de TRABALHAR O que você acha

O que você acha da questão interdisciplinar? Reflita sobre a interdisciplinaridade na

história e a importância desta no mundo atual.

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 22222

A busca do historiador em atravessar as fronteiras das Ciências Sociais, porém

correndo o risco de se perder enquanto disciplina específica. Reflita.

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 33333

Caro aluno, com base nos textos mencionados acima, responda com base nas suas práticas atuais na disciplina de história. Veja se você está enquadrado no perfil TRADICIONAL ou da NOVA HISTÓRIA?

Historiografia A N OVA H ISTÓRIA C ULTURAL E A H ISTORIOGRAFIA B RASILEIRA H

Historiografia

Historiografia A N OVA H ISTÓRIA C ULTURAL E A H ISTORIOGRAFIA B RASILEIRA H ISTÓRIA

A NOVA HISTÓRIA CULTURAL E A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

OVA H ISTÓRIA C ULTURAL E A H ISTORIOGRAFIA B RASILEIRA H ISTÓRIA N OVA E

HISTÓRIA NOVA E HISTÓRIA CULTURAL

Uma breve recapitulação acerca das mudanças empreendidas no paradigma da produção historiográfica no século XX

Neste tema, partiremos dos desdobramentos da História Nova como a interdisciplinaridade e a aproximação da História com a antropologia. Por fim discutiremos

o despertar, os problemas e os desafios da narrativa histórica na produção historiográfica contemporânea. Vimos que em 1929, a revista Anais da História Econômica e Social, dirigidas por Marc Bloch e Lucien Febvre, provocou um turbilhão no domínio da historiografia, transformando-se no principal acontecimento do século nesse âmbito.

Lembram dos Annales?

A Escola dos Annales quebrou de uma vez por todas a visão tradicional ao chamar para si outros eixos históricos: dados econômicos, estatísticas, modelos sociológicos, como nunca havia sido feito anteriormente. Na verdade, os Annales se reivindicaram e se posicionaram como a verdadeira Ciência Humana, na medida em que congregaram métodos

e experiências de todas as disciplinas da área:

Sociologia,

Psicologia,

Antropologia,

as

Geografia,

Artes.

A influência dos geógrafos é notória, por exemplo, no trabalho de Fernand Braudel, sobre o Mediterrâneo. Pensemos na importância da cartografia para a História Nova, grande produtora de mapas de pesquisa e de explicação em detrimento dos antigos mapas ilustrativos e de orientação. Tudo é válido para se entender o universo humano em sua plenitude e

complexidade!!!!!!!

Vale ressaltar, que mesmo sendo conhecida como uma Escola, os Annales nunca se constituíram como um corpo fechado de doutrinas restritas. Cada membro, cada ensaísta da revista, possuía suas próprias opiniões, fazia suas próprias pesquisas, abria seus próprios caminhos.

Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Para Peter Burke, é possível que fosse mais correto falar de
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
Para Peter Burke, é possível que fosse mais
correto falar de “movimento” dos Annales em vez
de “escola”.

38

ABERTURA DE NOVAS POSSIBILIDADES DE FONTES, NOVOS OBJETOS, NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS Veremos a seguir
ABERTURA DE NOVAS POSSIBILIDADES DE FONTES, NOVOS OBJETOS, NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS Veremos a seguir

ABERTURA DE NOVAS POSSIBILIDADES DE FONTES, NOVOS OBJETOS, NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS

Veremos a seguir com a História Nova a utilização, por parte dos historiadores, além dos documentos escritos fartamente utilizados, o uso de produtos de escavações arqueológicas, documentos orais (depoimentos).

“Uma estatística, uma curva de preços, uma fotografia, um filme, ou um pólen fóssil” (para um passado mais distante). Le Goff

pólen fóssil” (para um passado mais distante). Le Goff Vocês estudaram também que Braudel, a frente

Vocês estudaram também que Braudel, a frente da “segunda geração dos Annales”, rejeitou e desprezou o conceito de uma história regionalista e minúscula. Amplia essa visão ao considerar a História como o conhecimento dos grandes movimentos humanos ao longo de enormes períodos de tempo e, dessa forma, fazendo com que as mudanças abruptas e repentinas, as revoluções que constantemente criariam novos mundos, praticamente desapareçam. Um movimento, lento, largo, abrangente. É a História de Longa Duração. Entendendo assim, tudo é possível nessa História, com:

a) todos os dados disponíveis (FONTES/EVIDÊNCIAS).

b) todas as ciências conhecidas (INTERDISPLINARIDADE).

c) todos os países do mundo. (HISTÓRIA TOTAL)

Os tempos mudam; os desafios teóricos, metodológicos, sociais e humanos também. As necessidades enfrentadas pela Nova História não são as mesmas de um Bloch, um Fèbvre, um Braudel. Estamos em um mundo que vive a queda de antigos paradigmas, um pessimismo generalizado, um subjetivismo e um RELATIVISMO absoluto.

generalizado, um subjetivismo e um RELATIVISMO absoluto. A História Nova “A nova história dos homens e

A História Nova

“A nova história dos homens e das mentalidades, idéias e eventos pode ser vista mais como complementar que como substituta da análise das estruturas e tendências socioeconômicas”. (Eric Hobsbawm)

e tendências socioeconômicas”. (Eric Hobsbawm) Não há espaço para teorizações totalizantes e

Não há espaço para teorizações totalizantes e abrangentes. A História Nova diferencia- se da tradicional em seis pontos:

I. o paradigma tradicional diz respeito somente à história política, a

História Nova, preocupa-se com uma história total, onde tudo é histórico;

II. a história tradicional pensa na história como narração dos grandes

fatos, a nova preocupa-se em analisar as estruturas; a tradicional olha de cima, a nova, de cima, de baixo e de outros ângulos possíveis; III. documentos oficiais são os que interessam ao paradigma

tradicional, o paradigma da História Nova aceita qualquer espécie de documento;

IV. o historiador tradicional explica por meio da vontade do indivíduo histórico, História Nova preocupa-se com os movimentos sociais;

V. finalmente, o paradigma tradicional considera a História uma ciência

objetiva, com três pressupostos básicos: conhecimento histórico é verdadeiro; passado é fixo o qual é adquirido através de um método. O paradigma novo não crê na possibilidade de uma objetividade total.

Historiografia Alguns problemas da História Nova A Nova História apresenta problemas relativos à definição. Porquê

Historiografia

Alguns problemas da História Nova

A Nova História apresenta problemas relativos à definição. Porquê

isto?

Posto que os historiadores estão avançando em um território não familiar, estão pouquíssimo habituados a relacionar acontecimentos e estruturas, quotidiano e mudança, visão de cima e visão de baixo. Problemas relativos ao uso fontes também são apontados, essas novas fontes precisariam de uma nova crítica, de um novo método de trabalho.

Percebemos também problemas de explicação e de síntese, donde a explicação estrutural, apesar de aumentar a interdisciplinaridade, muitas vezes não toma conta do fluxo do tempo, o qual é uma das preocupações do historiador, além disso, está cada vez mais difícil conseguir uma síntese, em decorrência da profusão de diferentes objetos.

A História fragmenta-se, despedaça-se, esmigalha-se, move-se por temas.

Separada, destruída, desumanizada, feita em pedaços: História em Migalhas, portanto, é a

história do Medo, Jovens, Poder, Sexualidade, Religiosidade, Estruturas, Mulheres, Alimentação, Livro, Mito, entre outras. É a vez da “Micro-História” tão desprezada por Braudel.

O que se convencionou chamar “História Nova” teve um atrativo a mais, além da

inteligente e aguçada aproximação com outras ciências humanas, com a antropologia, a sociologia, a geografia e a economia, para não alongarmos, a História Nova adotou a narrativa como forma de expressão e, com isso, aproximou-se de um grande público. Como resultado dessa “nova forma de fazer história” conquistou-se mais e mais leitores, para temas históricos. Destaque para os festejados livros organizados por Jacques Le Goff e Pierre Nora: “História: novos problemas”, “História: novos objetos” e “História: novas abordagens”, todos de meados dos anos 70 1 . Entretanto foi em 1978 sob a coordenação de Jacques Le Goff, 2001 que apareceu “A História Nova” fascinante coletânea com nomes como: Michel Vovelle, explicando o que é a longa duração, os tempos da história e sua dialética; Philippe Arriès e a história das mentalidades; André Burguière, trabalhando sobre as relações de história e antropologia; Evelyne Patlagean e as entradas pelo campo pantanoso do imaginário; Guy Bois e as relações entre o marxismo e a nova história. Segue ainda com as abordagens de Jean Claude Schmitt, falando sobre a necessidade premente de estudar os chamados “marginalizados” na história, entre outros.

A influência da Nova História

Os livros influenciados pela Nova História são saborosos e interessantes de ler, o que justifica o sucesso alcançado, sobretudo através de duas linhas de pesquisa:

1. as obras que recuperam a narrativa (abandonada pelas pretensões supracientíficas daqueles que tratavam desta
1. as obras que recuperam a narrativa (abandonada pelas
pretensões supracientíficas daqueles que tratavam desta disciplina
que possui um objeto tão complexo, o homem).
2. por tratar-se de obras que se debruçam por temas,
relativamente, estudados (o campo das mentalidades), outros
diriam das culturas.

40

(o campo das mentalidades), outros diriam das culturas. 40 1 Para ler mais a esse respeito,

1

Para ler mais a esse respeito, ver o livro

de Peter Burke,

A Escola dos Annales: a revolução

francesa da historiografia.

E as críticas?

E as críticas? É inútil tentar transmitir, a importância desse livro, faz- se obrigatório a sua
É inútil tentar transmitir, a importância desse livro, faz- se obrigatório a sua leitura e
É inútil tentar transmitir, a importância desse livro, faz-
se obrigatório a sua leitura e crítica, e conseqüentemente o
descobrimento das suas lacunas. François Dosse, um dos mais
ferrenhos críticos da Nova História, a qual denominou de “história
da perfumaria” e “história em migalhas”.
François Dosse bateu de frente e com muita força na Nova
História, a corrente historiográfica francesa conhecida como a
Terceira Geração da Escola dos Annales. Como vocês puderam
acompanhar no tema anterior.
Na “A História em Migalhas”, título do seu livro, Dosse,
protestou, apaixonado e veemente, contra o que ele considerou
uma deturpação e destruição dos avanços e princípios teóricos
realizados pela geração anterior dos Annales.
O livro, no entanto, como qualquer clássico literário não
pode ser mexido e tornou-se um patrimônio da historiografia.
De “História em Migalhas” para hoje (2006) muita água
já rolou, muita coisa mudou, foi revista e passado a limpo.

E a nossa dívida para com a Nova História?

Pensemos nas barreiras rompidas permitindo que nos impregnássemos com a antropologia, linguística, psicologia, sociologia, demografia, geografia e ecologia. Essa interdisciplinaridade que se traduziu no surgimento de ciências compostas, por exemplo: História Sociológica, Demografia Histórica, Antropologia Histórica, e ainda psicolinguística, etno-história, entre outras.

O CARÁTER INTERDISCIPLINAR DA HISTÓRIA: A “DESCRIÇÃO DENSA” DA ANTROPOLOGIA: POR UMA INTERPRETAÇÃO DA CULTURA

DENSA” DA ANTROPOLOGIA: POR UMA INTERPRETAÇÃO DA CULTURA O caráter interdisciplinar imprimido na escrita da

O caráter interdisciplinar imprimido na escrita da história desde o “movimento dos annales”, sem dúvida qualificou grandemente a produção historiográfica contemporânea. A grande virada antropológica da historiografia ainda vista nos dias atuais dá-se a partir da terceira geração dos Annales. A “antropologia histórica” de Andrè Burguière representa esse novo campo. Surgida em fins da década de 70 como uma reação à história quantitativa, caminhou para a Antropologia cultural ou ‘simbólica’. Antropólogos como Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Erving Goffman, Glifford Geertz vão influenciar os trabalhos dos historiadores contemporâneos. Uma parceria, uma troca interdisciplinar que só aumentou a qualidade das pesquisas historiográficas. Temas como o medo, o corpo, a morte, a loucura, o clima, a feminilidade etc., objetos de estudo desse novo historiador, o que na perspectiva da história tradicional era algo praticamente impensável. Todos estes aspectos da vida humana dentro da perspectiva cultural. Nesse sentido, assinala Burke (1997, p.11):

Historiografia O que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma ‘construção cultural’,

Historiografia

O que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma ‘construção cultural’, sujeita a
O que era previamente considerado imutável é agora
encarado como uma ‘construção cultural’, sujeita a
variações, tanto no tempo como no espaço [
].
A base
filosófica da nova história é a idéia de que a realidade é
social ou culturalmente constituída.

Um outro ponto que os novos historiadores e antropólogos culturais parecem convergir é com relação à questão do simbólico. Historiadores como Carlo Ginzburg e Robert Darnton em seus trabalhos, buscam

uma aproximação vantajosa com a Antropologia, sobretudo com uma “antropologia estrutural simbólica”. Só para citar alguns: História Noturna: decifrando o sabá, de Ginzburg. O grande massacre dos gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa, de Darnton.

É importante ressaltar que esse diálogo com a Antropologia não quer dizer que o

historiador perca sua identidade, mas tão-somente utilize a disciplina vizinha para resolver questões que os métodos da História não possuem, como, por exemplo, valorizar o que os antropólogos chamam de “a visão do nativo”, para a partir daí entender os significados implícitos na sua visão de mundo, assim como, a busca por formas simbólicas análogas em sociedades diferente no tempo e no espaço etc. Portanto, ao historiador cabe agir de forma interdisciplinar, sem, contudo, perder de vista sua perspectiva histórica, processual e resolver os problemas historicamente.

A aproximação da história com a antropologia foi sem dúvida de extremo valor, na

medida em que alertou os historiadores para a importância em registrar cuidadosamente os acontecimentos. O antropólogo Clifford Geertz cunhou a expressão “descrição densa” para uma técnica de descrever concreta e precisamente práticas ou acontecimentos particulares. No seu caso a descrição das brigas de galo em Bali. Geertz se debruçou em seu livro “A interpretação da Cultura” argumentando acerca da dificuldade em se conceituar cultura. Tratando-se de um conceito ambíguo, conflituoso e polêmico como é o caso dos conceitos de democracia, religião, entre outros. O autor, em estudos anteriores em Harvard, encontra 171 definições de cultura, classificáveis em 13 categorias. Dessa forma, Geertz vai defender um conceito de cultura essencialmente interpretativa, a procura de significados. Na antropologia questionada por Geertz, executa-se um trabalho etnográfico de “estabelecer relações, selecionar informações, transcrever textos, mapear campos, levantar genealogias, manter diário, e assim por diante”. O esforço intelectual dele consiste na elaboração de uma “descrição densa”. (GEERTZ, 1978, p.10). Os textos antropológicos que acompanham a lógica de Geertz são interpretações de segunda e terceira mão. Dito de outra maneira, os textos apresentam-se como construções, e na análise cultura, a linha entre a representação e o conteúdo palpável é extremamente tênue. Chega-se a partir de uma densidade textual a partir da anotação do discurso social, que consiste em observar, registrar e analisar. Para o historiador, o interessante seria a realização de uma narrativa bastante densa, na qual abarcaria para além da seqüência dos acontecimentos e das ações dos atores (nesses acontecimentos) também as estruturas – instituições, modos de pensar, etc. – e qual a relação entre ambas (acontecimentos e estruturas). Os romances

– instituições, modos de pensar, etc. – e qual a relação entre ambas (acontecimentos e estruturas).
históricos ilustram muito essa questão. Pensem em: “Guerra e Paz” de Tolstoi. 2 Cabe alguns

históricos ilustram muito essa questão. Pensem em: “Guerra e Paz” de Tolstoi. 2

Cabe alguns lembretes rápidos:

As chamadas “micro-narrativa” ou “micro-história” que são narrações de uma história sobre as pessoas comuns no local em que estão instaladas são métodos comumente explorados pelos romancistas históricos. Os historiadores não são livres para inventar seus personagens, ou mesmo as palavras e os pensamentos de seus personagens como freqüentemente os romancistas o fizeram. Diferente do antropólogo, o historiador tem a experiência na crítica dos documentos e na percepção do tempo e da mudança. A História das Mentalidades tem sua trajetória marcada por três momentos, faremos a seguir um breve resumo:

1) o primeiro abarca os anos trinta e quarenta, estando ligada ao seu surgimento e afirmação enquanto disciplina voltada para o estudo da “psicologia histórica”. Neste momento a disciplina

vincula-se aos nomes de Bloch e Febvre, responsáveis pela aproximação da história com a antropologia de Levy-Brhul, a qual dotará a história do conceito de “outilage mental” ou “mentalidade

pré-lógica”;

2) a segunda, abarcou as décadas de cinqüenta e sessenta, refere-se ao declínio do prestígio da

disciplina. Naquele momento dois fatos explicam o tal declínio: a ascensão acadêmica de Fernand Braudel, momento em que os Annales serão mais acentuadamente invadidos pela influência marxista,

e a própria necessidade que os adeptos da história das mentalidades sentem de refugiar-se das

críticas, que então se acentuam. Essa tendência marxista, cujo principal representante é Michel Vovelle, propõe a substituição do conceito de “inconsciente coletivo” trabalhado por Le Roy Ladurie pelo de “imaginário coletivo”;

3) finalmente, num momento que se inicia nos anos setenta e que ainda não se concluiu, a História das Mentalidades se transmuta em “História Cultural”, quando então vai conhecer três tendências:

a micro-história de Ginzburg, a história cultural de Chartier e a nova história do trabalho de Thompson.

de Chartier e a nova história do trabalho de Thompson. Enquanto disciplina que relacionada ao método
de Chartier e a nova história do trabalho de Thompson. Enquanto disciplina que relacionada ao método

Enquanto disciplina que relacionada ao método historiográfico, a História das mentalidades apresenta os seguintes pressupostos teóricos:

a) vocação à interdisciplinaridade, aproximando-se

principalmente da psicologia, da Lingüística, da demografia e da estatística;

b) ampliação do campo documental, que se alarga a

ponto de enquadrar, como objeto da História, até mesmo o subconsciente; c) quantitativismo, baseado em fontes singulares (como o Rabelais, em Febvre) e em série.

São creditados a Le Goff os conceitos subjacentes à História das Mentalidades:

I) a mentalidade é igual em todos, não se diferenciando em razão da posição social;
I) a mentalidade é igual em todos, não se
diferenciando em razão da posição social;
II) o objeto das mentalidades é o inconsciente
coletivo;
III) o método das mentalidades é a pesquisa
arqueopsicológica;
IV) o tempo das mentalidades é a longa duração.

2

Não deixem de ler o artigo “História e romance histórico: fronteiras” www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/hemeroteca/

nor/nor0236/nor0236_07.pdf

43

Historiografia Os dilemas com os quais a História das Mentalidades vai conviver, as principais críticas

Historiografia

Os dilemas com os quais a História das Mentalidades vai conviver, as principais críticas que as farão perder prestígio são as seguintes:

a) Como articular longa duração e mudança?

b) Como articular o individual com o coletivo?

Estes questões serão respondidas, por Ginzburg e Thompson.

A

História Cultural, atualmente trabalhada pelos historiadores tem como pressupostos

teóricos:

(1) a rejeição ao conceito de mentalidades sem abrir mão do mental como objeto de estudo; (2) a preocupação teórica com o popular e com a informaidade, assim como com o resgate das classes sociais.

As tendências atuais da História cultural estão representadas nos trabalhos de Ginzburg (micro história), Thompson (nova história social inglesa) e Chartier (história das representações).

social inglesa) e Chartier (história das representações). NOVA HISTORIA CULTURAL E A NARRATIVA HISTÓRICA Na História

NOVA HISTORIA CULTURAL E A NARRATIVA HISTÓRICA

Na História Nova, métodos como o do emprego de fontes orais sem dúvida ampliaram o nosso escopo documental e conseqüentemente a expansão de novas temáticas. Abre-se dessa forma um campo novo.

E vocês podem me questionar. Essa perspectiva cultural é realmente tão nova assim? Será que essa abordagem é conseqüência do movimento dos Annales? Peço-lhes que retornem aos historiadores dos séculos XVIII e XIX, por exemplo:

Legrand d’Aussy e Jules Michelet Ambos, já desprezavam a história factual, dos acontecimentos, e se preocupam em estudar uma história social dos costumes dos franceses, das mentalidades; uma história com uma abordagem cultural, mais estrutural que factual. A busca pela precisão factual com embasamento em sólido aparato documental não excluía o estilo, a narrativa, criando assim a ilusão de uma reatualização do passado e dando a idéia dos “fatos falarem por si mesmos”. Em 1782, Legrand d’Aussy, por exemplo, já demonstra a sua insatisfação com o tipo de história que se vinha fazendo até então, essencialmente política, voltada para os grandes acontecimentos, para os feitos dos reis e generais. Observem este trecho de Legrand d’Aussy em sua História da vida privada dos franceses (3 vol.):

em sua História da vida privada dos franceses (3 vol.): “Obrigado, pelos grandes acontecimentos que deve

“Obrigado, pelos grandes acontecimentos que deve contar, a estudar o que não se oferece a ele com certa importância, ele só admite na cena os reis, os ministros, os generais de exército e toda aquela classe de homens famosos cujos talentos ou erros, esforços ou intrigas produziram a infelicidade ou a prosperidade do Estado. No entanto, o burguês em sua cidade, o camponês em sua choupana, o gentil-homem em seu castelo, o francês, enfim, no meio de seus trabalhos, de seus prazeres, no seio de sua família e de seus filhos, eis o que não nos pode representar.”

Vemos nesse trecho a preocupação do autor em inserir nos estudos os chamados grupos subalternos.

Vemos nesse trecho a preocupação do autor em inserir nos estudos os chamados grupos subalternos. Para o historiador cultural contemporâneo dos séculos XX e XXI, parece algo muito pertinente e até certo ponto natural. Dessa forma, de acordo com André Burguière (LE GOFF, 2001) essa citação acima até poderia ser a expressão de Lucien Febvre ou até mesmo de Jacques Le Goff ou ainda de um George Duby. Entretanto, vemos que se trata de um olhar etnológico no séc. XVIII, que torna Legrand um historiador além do seu tempo. Um outro precursor do que hoje conhecemos como nova história cultural é Michelet. No séc. XIX, em meio a uma história positivista norteada por uma metodologia inspirada nos moldes das ciências experimentais, onde o elemento básico era o fato histórico, ou seja, o acontecimento; Michelet surge como um historiador que busca outros modelos de explicação da sociedade, uma história da moda alimentar, da sensibilidade, do comportamento das elites francesas no século XVIII, das mentalidades, enfim, uma história etnológica, sem prescindir de estudar as camadas populares. Michelet defendia uma “história da perspectiva das classes subalternas”, uma “história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos”. (BURKE,

2004, p. 19). O Povo, A Feiticeira, são títulos de dois importantes livros de sua vasta obra. Representação como objeto histórico tornou-se uma das pedras angulares do discurso histórico contemporâneo. Na noção de representação trabalhada por Chartier ele lança mão para designar o modo pelo qual em “diferentes lugares e momentos uma determinada realidade é construída, pensada, dada a ler” por diferentes grupos sociais (CHARTIER, 1990, p.16). A construção das identidades sociais seria o resultado de uma

relação de força entre as representações impostas por aqueles que têm poder de

classificar e de nomear e a definição, submetida ou resistente, que cada comunidade produz de si mesma”. (CHARTIER, 2002, p. 73). Chartier (1990), em sua noção de representação, problematizada em suas diferentes acepções atribui grande importância ao conceito durkheimiano-maussiano de representações coletivas e à ênfase dada por Bourdieu às lutas por formas de classificações sociais. Além das representações coletivas, Chartier destaca também a acepção de representação política. Outras noções importantes são a de apropriação, em particular cultural, no sentido antropológico. Esse autor está atento às mediações que diferenciam os grupos sociais através da produção, da apropriação, dos usos e das práticas culturais. Ele salienta como as estruturas objetivas são culturalmente constituídas ou construídas, a sociedade sendo ela própria uma representação coletiva. Essas reflexões consolidaram um campo de possibilidades que podemos chamar de “História Cultural” e que colocam um problema importante: o modo como as representações sobre o social são operadas de forma ativa na construção do mundo objetivo. Assim sendo, as representações do social - profundamente históricas e políticas – variam conforme o contexto em que são produzidas e os interesses partilhados pelo grupo que as forjou. As percepções do social, segundo Chartier (1990), não seriam discursos neutros, elas produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tenderiam a construir uma autoridade à custa de outros, legitimando um projeto reformador ou justificando, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas.

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Historiografia OS MODOS DE ESCREVER HISTÓRIA: ALGUNS DEBATES EXISTENTES AO REDOR DA HISTÓRIA E NARRATIVA

Historiografia

Historiografia OS MODOS DE ESCREVER HISTÓRIA: ALGUNS DEBATES EXISTENTES AO REDOR DA HISTÓRIA E NARRATIVA E

OS MODOS DE ESCREVER HISTÓRIA: ALGUNS DEBATES

EXISTENTES AO REDOR DA HISTÓRIA E NARRATIVA E AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS

REDOR DA HISTÓRIA E NARRATIVA E AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS “Uma das marcas do bom historiador profissional

“Uma das marcas do bom historiador profissional é a firmeza com que ele lembra a seus leitores a natureza puramente provisória das suas caracterizações dos acontecimentos, dos agentes e das atividades encontrados no registro histórico sempre incompleto.” (Hayden White)

A NARRATIVA HISTÓRICA - O retorno de formas de explicação histórica proposta pelo paradigma da Nova História

Faz-se necessário uma leitura apurada dos textos que seguem, contextualizando-o dentro do tema proposto, para auxiliá-lo nesta compreensão.

Qual seria a definição de narrativa histórica?

A narração clássica, tradicional apresentava os trabalhos historiográficos centralmente como uma sucessão temporal de

A narração clássica, tradicional apresentava os trabalhos historiográficos

centralmente como uma sucessão temporal de acontecimentos descritíveis. Era uma narrativa de cronistas de viajantes de coisas passadas. A Narrativa histórica trata-se da junção de uma narrativa em que se privilegia a seleção, descrição e explicação de objetos e causas históricas, com um trabalho teórico mais complexo de utilização de conceitos e generalizações histórico-causais. A narrativa história, então, é o resultado do trabalho historiográfico. Então, de acordo com a definição de narrativa histórica, podemos perceber que todo trabalho historiográfico pode ser definido como uma narrativa. Portando, todo historiador realiza uma narrativa, e o comprometimento desta com o conjunto do seu trabalho poderá ser essencial ou secundário em relação aos seus objetivos teóricos. Os precursores dos Annales, (Febvre e Bloch) rejeitavam a “história narrativa”. Na visão de Febvre o fato histórico identificado como acontecimento encontrado na fonte levaria o historiador a conceber a realidade histórica como narrativa de ficção, na medida em que as fontes seriam tomadas acriticamente. Para Bloch a “história narrativa” ou narrativa histórica seria apenas os fatos fornecidos pelos documentos expressando assim o ponto de vista dos próprios atores do acontecimento narrado. Isso significa que a história narrativa opta por uma crítica a uma ciência histórica excessivamente concentrada em estruturas e processos, com forte embasamento teórico e com procedimentos analíticos. Ou seja, uma estrutura temporal de textos e argumentações históricas. Dessa forma, narrar pode ser entendido como uma forma de exposição, na qual a sucessão temporal de acontecimentos descritíveis e de ações compreensíveis ocupem um lugar central, e não a análise de estrutura e processos, mesmo que se possa tentar lançar luz sobre estas estruturas e processos através da narração e acontecimentos e ações.

Apresentamos, também, outros sentidos do conceito de “narração”:

Como se distingue a história narrativa da estrutural?

1. maior disposição descritiva do que analítica.

2. enfoque central no homem e não em circunstâncias.

3. preferência pelo tratamento do particular e específico

em detrimento do total, coletivo e estatístico.

Da Nova História para o retorno da modalidade narrativa

O historiador inglês Lawrence Stone, com o seu artigo intitulado “O Ressurgimento

da narrativa, reflexões sobre uma nova velha história”, 1979, em muito têm contribuído para

transformar a narrativa histórica em um tema de debate. O autor apresentou as afinidades entre o discurso histórico a o discurso ficcional. O século XX, aquele da exaltação à verdade científica nas ciências humanas colocou em descrédito a narrativa. Mas as crises existenciais dos historiadores saturados de hierarquias, estruturas, modos-de-produção, etc, suscitaram a volta da narrativa.

Um retorno à narração?

O filósofo francês Paul Ricoeur, certamente, têm razão quando declara que toda a

história escrita, incluindo a chamada história “estrutural” associada a Braudel, necessariamente possui algum tipo de forma narrativa.

Historiografia Já nos anos 70 volta uma tendência à história narrativa, porém com nova roupagem,

Historiografia

Já nos anos 70 volta uma tendência à história narrativa, porém com nova roupagem, com um viés antropológico, da qual mencionamos em textos anteriores. Um dos melhores exemplos desta nova forma de escrita da história – a narrativa - concentra-se no livro do historiador medievalista francês, Georges Duby, “Guilherme Marechal, ou o Melhor cavaleiro do Mundo”, já editado no Brasil.

De que trata este livro? É a vida de um cavaleiro de pequena nobreza, ambientado
De que trata este livro?
É a vida de um cavaleiro de pequena nobreza,
ambientado no século XIII. O texto de forte oralidade deixa
o leitor ansioso pelo desenrolar da trama. Duby, nesse
livro, majestosamente, utiliza-se a arte de narrar e o rigor
historiográfico, vinculando a história das mentalidades à
antropologia.
vinculando a história das mentalidades à antropologia. Quais as razões principais do retorno da narrativa? 1.

Quais as razões principais do retorno da narrativa?

1. Acessibilidade ao público não especialista (sem preparo

para tabelas não digeríveis e argumentos analíticos áridos).

2. Um público culto, porém não especializado, já que entre

os próprios historiadores não se chegaria a um mercado significativo, não estouraria o mercado editorial como algumas obras fizeram. Um público leigo na história e profissional em outra área, causando uma interação com as demais ciências humanas.

Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo:

Constata-se atualmente uma impressionante reativação do interesse pela história narrativa por parte de um público mais amplo e ao qual a história profissional, altamente especializada e com tendência para a história estrutural, analítica, não responderia. Um outro ponto importante apontado pelos que exigem mais narração, refere-se às deficiências nas obras historiográficas mais analítica dos últimos anos, a qual sua ênfase na orientação teórica, pareciam áridas e desinteressantes para o público não- profissional. Estas produções são comumente chamadas de “obras de divulgação”. Recentemente no Brasil, os livros de Eduardo Bueno A Viagem do Descobrimento: A Verdadeira História da Expedição de Cabral” e “Náufragos, Traficantes e Degredados - As Primeiras Expedições ao Brasil”.

VEJAMOS, DE MANEIRA BREVE, DO QUE ESSES LIVROS TRATAM: A primeira narrativa, A Viagem do
VEJAMOS, DE MANEIRA BREVE, DO QUE ESSES LIVROS TRATAM: A primeira narrativa, A Viagem do
VEJAMOS, DE MANEIRA BREVE, DO QUE
ESSES
LIVROS
TRATAM:
A primeira narrativa, A Viagem do
Descobrimento - A Verdadeira História da
Expedição de Cabral, trata em forma de aventura, da
busca de um novo mundo pelos portugueses. Nesse
livro pode se vislumbrar detalhes sobre a viagem; o
cotidiano dos homens que chegaram no Brasil com
Cabral (tais como aventureiros, soldados, sacerdotes
e degredados). Aparecem também curiosidades sobre quanto recebiam,
como se alimentavam e os propósitos que os moviam, assim como
os dos homens que, longe de estarem sofrendo as vicissitudes da
viagem eram os responsáveis pelos planos que acarretaram na
expansão marítima portuguesa.
A segunda, Náufragos, Traficantes e Degredados – As
Primeiras Expedições ao Brasil, aborda detalhadamente o período de
nossa história compreendido entre 1500 e 1531. Um período escasso de
registros e estudos, no qual é retratada a saga vivida pelos primeiros
europeus que aqui chegaram; de que maneira eles terminaram por
constituir-se nos primeiros brasileiros, já que segundo Eduardo Bueno,
sua atuação direta nos acontecimentos, como por exemplo, no comércio
indiscriminado de pau-brasil ou na exploração do Prata (dentre tantos
outros) vai contribuiu para definir os caminhos do iminente país.

No que se depara o leitor nessas obras?

1. Uma narrativa povoada dos mais variados detalhes acerca de nossa

história colonial.

2. Linguagem utilizada suscita imagens e o leitor consegue assim,

sentir e vivenciar os acontecimentos narrados.

3. Linguagem atrativa, bem-humorada, detalhada, prendendo o leitor

e o instigando a conhecer e entender o contexto que movia os homens da época, seus desejos, suas relações, as forças políticas e econômicas que atuaram na expansão marítima e conseqüentemente em nossa história.

É importante ressaltar que Eduardo Bueno aparece assumindo o papel de contador

de histórias, afasta-se do tom costumeiro utilizado nos livros didáticos destinados aos estudantes de ensino fundamental e médio e do tom acadêmico.

O escritor é um jornalista sem preocupações maiores, além de informar, de maneira

interessante, as curiosidades e peculiaridades de nossa história.

Destaque para algumas estratégias observadas:

· a de popularização da história, por ter imprimido à narrativa o tom libertário e
· a de popularização da história, por ter imprimido à narrativa o
tom libertário e criativo a que me referi, libertando a história dos bancos
de escola, como ele mesmo diz.
· através dessa estratégia e mais dos recursos lingüísticos,
estilísticos e narrativos Bueno, constitui-se numa forma prazerosa de
mergulhar no passado do país e atinge um público amplo.
Historiografia Ressalte-se também que esses livros alcançaram a marca de 300 000 exemplares vendidos. )

Historiografia

Ressalte-se também que esses livros alcançaram a marca de 300 000 exemplares vendidos. ) (
Ressalte-se também que esses livros alcançaram a marca de 300 000
exemplares vendidos.
) (
a linguagem, a costura, é o delineamento dessa história
e o jeito como ela foi apresentada. Eu libertei a história colonial do
banco de escola
para que ela retornasse para lá mais livre e com
mais frescor, fragrância e dinamismo.
Eduardo Bueno

Lembramos ainda que acompanhando a volta da narrativa histórica são os periódicos históricos populares (vendidos em qualquer banca de Revista). No Brasil recentemente (novembro de 2003) inicio-se a publicação mensal, editada pela Biblioteca Nacional de uma revista intitulada “Nossa História”, cujos artigos fazem uma revisão necessária de imagens que se cristalizaram em nossa memória.

de imagens que se cristalizaram em nossa memória. Sites Consultem o site: www.nossahistoria.net Apresentamos

Sites

Consultem o site:

www.nossahistoria.net

memória. Sites Consultem o site: www.nossahistoria.net Apresentamos também alguns problemas que remontam o

Apresentamos também alguns problemas que remontam o “retorno da narrativa”:

· A baixa qualidade de trabalhos, devido ao anseio de se

escrever textos que causem impacto.

· A limitação por temas curiosos, diferentes, sem a busca de uma análise criteriosa.

Em relação à narrativa histórica, Hayden White, um dos defensores da imaginação na história, em seu livro “Meta-História: imaginação histórica do século XIX” defende a elaboração de um enredo com definição de personagens, implicando na construção de um argumento, não esquecendo das implicações políticas, além dos pressupostos filosóficos. Hayden White sugeriu uma divisão para as narrativas históricas em quatro planos básicos: Comédia, Tragédia, Sátira, Romance.

Características da narrativa histórica 1 - Forma fundamental e necessária de explicação da realidade, que
Características da narrativa histórica
1 - Forma fundamental e necessária de explicação da
realidade, que tem raízes nas condições básicas da existência humana;
2
- Uma realização cultural imprescindível e um exercício
lingüístico elementar e geral, através do qual as experiências
temporais são interpretadas;
3 - Organização de materiais numa seqüência cronológica e a
concentração do conteúdo numa única história coerente embora
possuindo sub-tramas.
E as características da forma narrativa de escrever história? Vejam as principais: 1. relato de

E as características da forma narrativa de escrever história?

Vejam as principais:

1. relato de um acontecimento de forma simples possibilitando a

um público mais amplo o acesso a alguns aspectos da história estrutural.

2. interesse pela história do cotidiano, sobretudo pelas

experiências cotidianas, pelo comportamento e pelo modo de vida do

dia-a-dia, pela cultura das pessoas simples, estudando o homem dentro de suas circunstâncias.

3. concentra-se na reconstrução de pequenos mundos em

transformação, em biografias, na história de uma família ou de uma greve.

4. orientada em problemas típicos da antropologia cultural.

5. argumentação discursiva com reduzida tensão entre teoria e

narração, entre ciência histórica analítica e narrativa, configurando-se num princípio constitutivo da própria ciência histórica, sem conotação antiteórica, antiestrutural.

Se vocês estiverem atentos ao que foi apresentado até aqui, poderão me questionar. O que se entende por história analítica?

Então, vejamos:

- Seria uma história altamente técnica no seu conteúdo e apresentada através de expressões quantitativas e matemáticas.

- Ênfase nas estruturas e nos processos mais gerais como industrialização, formação de Estados e revoluções.

Devemos considerar que uma forma adequada à ciência histórica com orientação teórica não seria nem tabela nem narração, mas a argumentação histórica.

Que significa isto?

A narrativa com argumentos históricos, evidencia-se pela leveza de uma bela narração alicerçada num criterioso trabalho com fontes, com documentos históricos.

Aliado a quê?

Uma freqüente reflexão sobre as condições e conseqüências da abordagem teórico- metodológica escolhida, a qual pode ser questionada em relação à sua validade e limites, à luz de outras abordagens não alternativas não escolhidas.

Diga uma outra característica

Deve-se à clarividência da sua definição conceitual e às interrupções na narrativa para abordagem e considerações teórico-conceituais favorecendo uma exposição mais reflexiva do texto. Entretanto, também a história com ênfase nas estruturas, as ações e as experiências, os acontecimentos e os indivíduos foram contemplados na historiografia mais recente.

Historiografia CONCLUSÃO: Os novos caminhos da história e da produção histórica O saber histórico na

Historiografia

CONCLUSÃO: Os novos caminhos da história e da produção histórica O saber histórico na pós-modernidade
CONCLUSÃO:
Os novos caminhos da história e da
produção
histórica
O saber histórico na pós-modernidade

A pós-modernidade abriu uma nova condição histórica, na qual o conhecimento apresenta-se relativo ao contexto histórico. Este conhecimento não segue antigos paradigmas, teorias e metodologias. Na sociedade pós-moderna inexiste a realidade objetiva e o historiador Durval Muniz de Albuquerque argumentou em 1995 em artigo “História: a arte de inventar o passado”, que na pós-modernidade qualquer acontecimento histórico tem um caráter relacional, contextual e plural, e dessa forma possibilitando a “relatividade da realidade”. White, 1994, em Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura, afirma que todas as descrições humanas do mundo são passíveis de contestação. Admite-se, dessa forma que as descrições são parciais e que fatalmente excluem outros tipos de informações. Ele também questionou os tabus da imaginação histórica e dando um novo fôlego à disciplina histórica cujos pressupostos teóricos permaneciam centrados em:

1. Verdade 2. Objetividade 3. Cientificidade Sites Acessar o site:
1.
Verdade
2.
Objetividade
3.
Cientificidade
Sites
Acessar o site:

www.cetico.hpgvip.ig.com.br/ciencia.html

Hayden White também, critica as restrições da historiografia profissional à imaginação. Tabus que impedem o uso de imaginação artístico-literário, forçando os historiadores a darem ênfase á distinção entre fato e ficção. As novas tendências discutidas por especialistas, trazem uma teoria da apresentação do trabalho histórico, uma teoria que não exclui as teorias de longo alcance, mas que pensa a História de modo literário, sem esquecer das estruturas.

a História de modo literário, sem esquecer das estruturas. Sites Leia o artigo de Hayden White

Sites

Leia o artigo de Hayden White “Teoria literária e escrita da história” no link

www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/132.pdf

As variadas representações e concepções não excluem a exigência do trabalho a partir da evidência histórica. White, no entanto, não escapa à crítica dos historiadores profissionais que o acusam de enfatizar o relativismo histórico. A história, certamente demarca a ficção, pois os historiadores trabalham fatos acontecidos no passado. Entretanto, segundo White a representação contemporânea desse passado pode e deve transpor as limitações metodológicas dos legados dos positivistas.

Sites Para aprofundar os conhecimentos sobre a relação Ciência e História, acesse o texto “Ciência
Sites Para aprofundar os conhecimentos sobre a relação Ciência e História, acesse o texto “Ciência

Sites

Para aprofundar os conhecimentos sobre a relação Ciência e História, acesse o texto “Ciência em uma encruzilhada histórica” no link, www.cb.ufrn.br/

~araujo/Cronica1.html

O fazer histórico está também relacionado à criação, à imaginação. O historiador

narra, a partir dos dados, dos documentos referentes aos seus objetos de estudo. Pesquisa em arquivos uma série de informações, de fatos deixados por gerações passadas. Ele recorta, revê e problematiza a partir do olhar do presente, ou seja, recria os dados apresentados nos documentos, à luz de suas próprias questões e pressupostos teórico- metodológicos. Isso ode ser considerado uma criação, ainda que munido de fontes, evidências, do rigor metodológico, o historiador não se exime da sua criação, ou da sua imaginação histórica.

[

]

não há nada que se possa considerar como uma única concepção correta de qualquer objeto de

estudo, [

]

mas, muitas concepções corretas, cada uma das quais exigindo seu próprio estilo de representação

[

]

(WHITE, 1994)

Cientificismo e narração representam dois extremos de um amplo espectro de maneiras de exposição histórica. A propósito poder-se-ia buscar uma mescla entre a exposição das estruturas e dos processos através dos acontecimentos e das pessoas narrando-os.

Para isso, o historiador precisa

· utilizar os acontecimentos e analisa-los da posição de um observador posterior munido de fontes documentais.

É o historiador na busca pela interpretação dos fatos de maneira criativa com base

em evidências.

Na historiografia existem alguns exemplos magníficos de como fazer esta junção:

ANÁLISE ESTRUTURAL COM NARRATIVA Na história operária de E. P. Thompson – “A Formação da classe operária inglesahistória da luta na Inglaterra no começo do século XVIII entre caçadores clandestinos e autoridades na floresta de Windsor, argumentando sobre o conflito entre plebeus e nobres naquela época.

sobre o conflito entre plebeus e nobres naquela época. VAMOS CONHECER UM POUCO DESSA DELICIOSA E
VAMOS CONHECER UM POUCO DESSA DELICIOSA E ATRAENTE BIBLIOGRAFIA?
VAMOS CONHECER UM POUCO
DESSA
DELICIOSA
E
ATRAENTE
BIBLIOGRAFIA?
Historiografia Ou a agradável narrativa de Carlo Ginzburg em “O queijo e os vermes ”,

Historiografia

Historiografia Ou a agradável narrativa de Carlo Ginzburg em “O queijo e os vermes ”, criticada

Ou a agradável narrativa de Carlo Ginzburg em “O queijo e os vermes”, criticada por aqueles que não compreendem o alcance da sua micro-história. Este livro relata minuciosamente a cosmologia de um humilde moleiro do norte da Itália do início do século XVI, através do qual procurou mostrar a perturbação intelectual e psicológica a nível popular. Ótimo exemplo também são as pesquisas de Jean Delumeau – “História do Medo no Ocidente”. Eric Hobsbawm – “Rebeldes e Primitivos” – descrição da vida curta, desagradável e brutal dos rebeldes e bandidos pelo mundo.

Caros alunos querem outros exemplos de análise e narrativa?

Caros alunos querem outros exemplos de análise e narrativa? Norbert Elias – “O Processo Civilizador” –

Norbert Elias – “O Processo Civilizador” – livro sobre a sociedade de corte e surgimento da etiqueta na Europa moderna. Examina os significados e entendimentos atribuídos aos conceitos de “civilização” e “cultura” na Alemanha, França e Inglaterra. Melhor dizendo, a maneira como ao longo da história os alemães interpretam o comportamento de ingleses e franceses. Um dos exemplos citados no livro é a língua e escrita alemã que eram desvalorizadas e tidas como “semi-bárbara”, “rústica” e “plebéia” em comparação com o latim e o francês, sinônimo de refinamento e cultura.

Georges Duby – “O Domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214” – Escrito num estilo fluente e acessível, trata-se de uma narração de um único acontecimento, ou relato de uma única batalha Bouvines e por meio desta esclareceu as principais características da sociedade feudal francesa na primeira metade do século XIII. Este livro é uma análise minuciosa de um único dia na história da França. Ou melhor, de um período de cerca de cinco horas, o tempo que teria durado a batalha de Bouvines. Duby esboça uma etnografia da prática militar no começo do século XIII, as concepções de guerra e de paz que lhes serviram de fundo em mais a forma como um acontecimento é transmitido e deformado por pontos de vista conflitantes. O autor observa como um acontecimento se faz e se desfaz, já que ele só existe pelo que dele se diz. Para isto se serve de diversos relatos da batalha que são reproduzidos, montando com isso a “história da lembrança de Bouvines, de sua deformação progressiva pelo jogo, raramente inocente, da memória e do esquecimento”.

jogo, raramente inocente, da memória e do esquecimento”. Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Você
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Você saberá muito mais acerca deste livro de Duby na disciplina
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
Você saberá muito mais acerca deste livro de
Duby na disciplina História Medieval.

Explicações tradicionais do tipo “as ordens chegaram de Madri, porque Felipe II não conseguia decidir o que fazer”. Diferem daquelas utilizadas pelos historiadores estruturais como (citando o famoso exemplo de Braudel) “as ordens chegaram tarde de Madri porque os navios do século dezesseis demoravam várias semanas para cruzar o Mediterrâneo”. Diferentemente dos historiadores narrativos tradicionais, esses mencionados acima, dentre outros, estão interessados nas:

1. vidas, sentimentos e comportamentos dos pobres e obscuros em detrimento dos grandes e poderosos.

1. vidas, sentimentos e comportamentos dos pobres e

obscuros em detrimento dos grandes e poderosos.

2. a análise continua sendo a tônica em seus métodos

assim como a descrição.

3. eles abriram novas fontes (registros de tribunais

penais, visto que trazem transcrições por escrito de

depoimentos das testemunhas, interrogados e examinados).

4. contam suas histórias de maneira diferente, por

exemplo, de um Homero. Sofreram influências do romance

moderno e das idéias freudianas, exploraram com maestria o subconsciente ao invés de se apegarem aos fatos em si.

5. ao contar a história de uma pessoa, um julgamento

ou um episódio dramático para ampliar o funcionamento de uma cultura ou de uma sociedade do passado.

Quais são esses romancistas modernos, os quais utilizam a descontinuidade temporal como marca principal?

utilizam a descontinuidade temporal como marca principal? James Virgínia Franz Joyce, Woolf, Kafka Sites Leia mais

James

Virgínia

Franz

Joyce,

Woolf,

Kafka

marca principal? James Virgínia Franz Joyce, Woolf, Kafka Sites Leia mais sobre eles acessando:

Sites

Leia mais sobre eles acessando:

www.prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/

obras/artigos/imprensa/james_joyce.htm

www.suigeneris.pro.br/joyce.htm

Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! O final de uma narrativa ajuda a determinar a interpretação do
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
O final de uma narrativa ajuda a determinar a
interpretação do leitor. Dessa forma alguns romancistas
apresentam finais alternativos. Fechos alternativos
encorajam os leitores a chegarem às suas próprias
conclusões.

Para o historiador, o interessante seria a realização de uma narrativa bastante densa, na qual abarcaria para além da seqüência dos acontecimentos e das ações dos atores (nesses acontecimentos) também as estruturas – instituições, modos de pensar, etc. – e qual a relação entre ambas (acontecimentos e estruturas). Os romances históricos ilustram muito essa questão. Leiam: “Guerra e Paz” de Tolstoi. As chamadas “micro-narrativa” ou “micro-história” que são narrações de uma história sobre as pessoas comuns no local em que estão instaladas são métodos comumente explorados pelos romancistas históricos.

Historiografia Saiba mais Os historiadores não são livres para inventar seus personagens, ou mesmo as

Historiografia

Historiografia Saiba mais Os historiadores não são livres para inventar seus personagens, ou mesmo as palavras

Saiba mais

Os historiadores não são livres para inventar seus personagens, ou mesmo as palavras e os pensamentos de seus personagens como freqüentemente os romancistas o fizeram.

A integração entre a Narrativa Histórica e as estruturas

Não se pode dizer que se tenha efetivamente compreendido um fenômeno histórico optando de maneira independente por apenas uma das dimensões: estruturas/processos ou experiências/ações, na medida em que ambas estão intimamente relacionadas. Para além de um “retorno á narração” pura e simples será mais importante uma integração da história das estruturas e das ações com processo e experiências. Apresentamos quatro soluções encontradas nas obras de alguns historiadores contemporâneos que atendem às prerrogativas apresentadas para narrativa histórica.

1. a micro-narrativa;

2. narração da história de populares no tempo e no espaço,

observando a presença das estruturas;

3. utilizar várias vozes a fim de captar os conflitos e as permanências;

4.

5.

estrutura.

redigir de trás para frente, mostrando o peso do passado;

encontrar o relacionamento dialético entre acontecimento e

encontrar o relacionamento dialético entre acontecimento e VEJAM ESSES EXEMPLOS: Uma análise da relação entre
encontrar o relacionamento dialético entre acontecimento e VEJAM ESSES EXEMPLOS: Uma análise da relação entre

VEJAM ESSES EXEMPLOS:

Uma análise da relação entre estrutura e acontecimento pode ser encontrada na obra do antropólogo
Uma análise da relação entre estrutura e
acontecimento pode ser encontrada na obra do antropólogo
social norte-americano Marshall Sahlins, intitulado “Ilhas de
História”, o qual considera que os acontecimentos “portam
traços culturais distintos” que são “regulados pela cultura”.
Entretanto, Sahlins também declara que acontecimentos e
as estruturas estão dialeticamente relacionados.
Dito de outra maneira, a estrutura cultural dá
significado aos acontecimentos. Porém, os acontecimentos
também mudam a estrutura cultural.
os acontecimentos também mudam a estrutura cultural. A micro-narrativa também foi adotada por Natalie Davis –

A micro-narrativa também foi adotada por Natalie Davis – “O retorno de Martin Guerre”

O recurso à narrativa muitas vezes é essencial para a apreensão do fluir temporal Entretanto, a narrativa tem de ser outra, não a narrativa tradicional, mas sim uma forma de narrativa que consiga escapar

·

da

superficialidade

do

acontecimento

· da rigidez temporal de um

discurso

analítico.

Entendendo ser necessário densificar a narrativa. Peter Burke analisando a “rebelião” contra a narrativa tradicional

Entendendo ser necessário densificar a narrativa.

Peter Burke analisando a “rebelião” contra a narrativa tradicional acrescenta que as novas formas de narrativa histórica devem incluir:

1. a micronarrativa

2. a narrativa de frente para trás

3. e as histórias que se movimentam para frente e para

trás, entre os mundos público e privado

4. apresentar os mesmos acontecimentos a partir de

pontos de vista múltiplos

Delacroix em seu diário anotado no dia 5 de abril de 1850 afirmou:

“A tarefa do historiador parece-me a mais difícil; ele precisa de uma atenção constantemente voltada
“A tarefa do historiador parece-me a mais difícil; ele precisa de uma
atenção constantemente voltada para mil objetos ao mesmo tempo, devendo
através das citações, das enumerações precisas, dos fatos que ocupam uma
posição apenas relativa conservar este calor capaz de animar a narrativa.”

Duby também pensava como ele, os fatos são relativos e o essencial é a “animação”. Ele que buscava compreender o que era para os combatentes que delas participaram os significados de uma batalha, paz, guerra e honra e para isto apenas a exposição dos “fatos” não eram suficientes. Este historiador, esforçava-se por encarar os fatos com os olhos desses guerreiros, buscava se identificar com eles e nessa incorporação imaginativa Duby dava sua contribuição.

Acompanhe esta citação:

] [ o historiador é obrigado a usar sua própria liberdade, que isto não deixa
] [
o historiador é obrigado a usar sua própria liberdade, que isto não
deixa de implicar em riscos, mas que ele é forçado a tomar partido, e em
conseqüência seu discurso nunca passa de uma aproximação, na qual se exprime
a reação livre de uma pessoa diante dos vestígios esparsos do passado. (DUBY,
1993, p. 61)

Mais adiante, nessa mesma obra, Duby reitera que na fase de composição o que prevalece é a razão, os mecanismos da lógica, o senso de equilíbrio. Com essa atitude, na fase de redação não seria perigoso afastar-se da verdade, já que na escrita a sensibilidade se apresenta mais.

já que na escrita a sensibilidade se apresenta mais. Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo: Vamos

Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo:Resumindo:

Vamos então concluir este curso, de Historiografia compreendendo que

Visões retrospectivas, cortes e a alternância entre cena e história podem ajudar os historiadores em sua difícil tarefa de revelar o relacionamento entre os acontecimentos e as estruturas e apresentar pontos de vista múltiplos maneiras.

de revelar o relacionamento entre os acontecimentos e as estruturas e apresentar pontos de vista múltiplos
Historiografia Para refletir Caro aluno, você, que também é professor, faz suas reflexões sobre a

Historiografia

Historiografia Para refletir Caro aluno, você, que também é professor, faz suas reflexões sobre a História

Para refletir

Caro aluno, você, que também é professor, faz suas reflexões sobre a História baseadas em quê?

· Antigas retóricas?

· Na crítica dos textos?

· Nas técnicas de análise das estruturas sociais e econômicas?

· Ou na junção da análise com a arte de contar história?

Resumidamente, para concluir este terceiro tema podemos dizer que nos decênios de 1970/80 os historiadores entenderam que tudo era possível transformar-se em temas históricos. Entretanto, o horizonte continua sendo o da globalidade, mas não na síntese, e sim na busca pela diversidade de objetos, ou temas de investigação. As características da escrita da história e as novas alianças interdisciplinares foram fundamentais nesse período. Porém, ressaltamos que, o historiador deve demarcar fronteira na sua disciplina. A postura interdisciplinar não deve impedir a perda da identidade do historiado, dito de outra maneira, o historiador não deve se abster da “crítica” ou do seu “ponto de vista” em relação às demais disciplinas. Podemos pensar ser perigoso comungar com as correntes culturalistas e pós- modernas que apagam as fronteiras entre a ficção e a história. Como por exemplo, Hyden White, 1995 no seu livro “Meta-história” que afirma não haver diferença essencial entre o discurso literário e o discurso historiográfico.

Você concorda? Literatura e história se aproximariam não pela forma ou pela fantasia, mas pela natureza do próprio conhecimento que é carregado de imaginação?

Levantamos um questionamento no que se refere à validade de uso da escrita literária como fonte de pesquisas. Haverá idoneidade nas narrativas de estrutura literária para cumprirem uma função histórica? E os relatos históricos? Estes trazem em sua estrutura um viés literário? Na década de 1980, a narrativa, a biografia e o evento, que foram violentamente reprimidas ao longo de sessenta anos volta com mais força embora sob novas formas. Por exemplo, no caso da narrativa, o artigo de Lawrence Stone, 1991, o Retorno da Narrativa ou Reflexões sobre uma Nova Velha História é o ponto de partida para novos debates acerca do “ressurgimento” da história narrativa. E como fica essa nova forma de escrita da história com valorização da narrativa?

Ênfase na análise, problemas e argumentos, dando relevância ao aspecto formal, ou literário do texto histórico.

Peter Burke, em seu texto “A história dos acontecimentos e renascimento da narrativa” afirma que é preciso escapar do confronto entre narradores e analistas, procurando questionar o relacionamento entre estruturas e acontecimentos, e com isto estabelecer uma nova forma narrativa que considera olhares diversos. Ainda segundo Burke, cabe ao narrador moderno encontrar um modo de se tornar visível em sua narrativa, deixando claro ao leitor que a sua interpretação não é a única possível.

A História narrativa também vê de forma positiva a abordagem de temas que comportem “pessoas
A História narrativa também vê de forma positiva a abordagem de temas que comportem “pessoas

A História narrativa também vê de forma positiva a abordagem de temas que comportem “pessoas comuns”, ou os “marginalizados”. A biografia histórica também passa a ser um gênero valorizado, porém sem exagerar na figura dos feitos de grandes homens. Vemos aí um retorno de narrativas voltadas para o sujeito, o evento, a narração, das nações, da história política, da biografia. Atualmente a história, sobretudo, com a influência das demais Ciências Sociais especialmente a antropologia tem-se apresentado de forma leve, com um toque pessoal e estilístico de cada historiador, porém sem perder o rigor da pesquisa histórica. Ao historiador não é permitida a criação livre, abstendo-se da coerência, a este cabe a permanência da realização responsável entre a imaginação pessoal e as informações contidas nos vestígios do passado. Em suma, a escrita da história atualmente está empenhada na árdua tarefa de revelar o relacionamento entre acontecimentos e estruturas, mostrando variados pontos de vista. Neste intuito alguns historiadores incorporaram novas formas narrativas como a micronarrativa e a narrativa de frente para trás. Existe também aqueles que se utilizam técnicas de um romance.

também aqueles que se utilizam técnicas de um romance. Retorno ao exemplo do livro de Natalie

Retorno ao exemplo do livro de Natalie Davies “O retorno de Martin Guerre”, no qual ela realiza a difícil tarefa de narrar um evento singular e descrever toda uma época. Seu trabalho é um grande exemplo da atualidade histórica quando relaciona a micro-história e narrativa. Carlo Ginzburg também é um exemplo de autor que trabalha num nível micro, mas não nega a validade ou a importância das estruturas. Ou seja, não prescinde da idéia de que os seres humanos tenham também uma dimensão para além do individual, coletivista e comunitária. Diante de tudo que foi apresentado rapidamente até aqui, vamos concluir este módulo apresentando algumas questões mais globais em torno das diversas dimensões da História, decisivas para que a História narrativa tivesse esse “retorno”, ainda que com nova roupagem:

1 - Crise do conhecimento (queda das anteriores certezas científicas);

2 - Dúvida quanto às realidades concretas e as verdades do conhecimento científico.

concretas e as verdades do conhecimento científico. Para refletir O que você acha dessas questões? Comecem

Para refletir

O que você acha dessas questões?

Comecem pensando em relativismo e verdade. Na literatura podem coexistir vários mundos imaginários, mas há apenas um mundo histórico, onde o historiador retira suas conclusões com o auxílio das evidências oferecidas pelas fontes. O romancista vive o fato de modo intimista, tanto faz se ele parte de eventos concretos ou não, o que importa é a sua interpretação, a leitura que faz do mundo. Por outro lado o historiador não deve prescindir durante as suas interpretações, da narrativa dos

Historiografia acontecimentos pesquisados e analisados, do apoio de suas fontes, de seus documentos. Dessa maneira

Historiografia

acontecimentos pesquisados e analisados, do apoio de suas fontes, de seus documentos. Dessa maneira a função da narrativa, seja ela histórica ou literária está ligada ao narrador e ao método aplicado. A intenção do literato será, sempre, o de expor um universo de ficção, ao historiador ficará a tarefa de mostrar o como e o porquê dos acontecimentos.

Sitestarefa de mostrar o como e o porquê dos acontecimentos. Relatividade da realidade, acesse o texto

Relatividade da realidade, acesse o texto “Relativismo ou Objetivismo?” no link www.cfh.ufsc.br/~wfil/relativismo2.htm

Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção! Para enriquecer seus argumentos, não deixe de assistir ao filme:
Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!Atenção!
Para enriquecer seus argumentos, não deixe de
assistir ao filme: “Uma cidade sem passado”.
Sites
Para saber mais sobre EMPIRISMO vá ao link citado anteriormente e
também www.artnet.com.br/~pmotta/metod_rac_emp_compl.rtf

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 11111

[[[[[

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Agora é hora de

TRABALHAR

Diante de tudo que foi estudado, qual a postura que o historiador deve apresentar durante uma produção historiográfica, considerando a posição do mesmo na sociedade a qual ele pertence?

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 22222

A narrativa histórica seria uma ficção no mesmo sentido que a ficção literária?

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 33333

O que você acha? Na medida em que a história é uma ciência, que preza pelo argumento, pela interpretação pautada em documentos, ela dispensa o auxílio da arte, da beleza estilística, da narrativa de um texto?

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 44444

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 4 4 4 4 4 Considerando a flexibilidade dos critérios de cientificidade da

Considerando a flexibilidade dos critérios de cientificidade da produção do conhecimento da pós-modernidade, não necessariamente compostas por leis e certezas, o historiador do século XXI pode voltar a enfatizar a sua dimensão literária e artística com mais liberdade. Leia o trecho abaixo de Georges Duby escreva suas contribuições.

“Há algum tempo que emprego cada vez mais a palavra ‘eu’ em meus livros. É a maneira que tenho para advertir o leitor. Não tenho a pretensão de comunicar-lhe a verdade, mas de sugerir-lhe o provável, colocando-o diante da imagem que eu mesmo tenho, honestamente, do real. Dessa imagem participa em boa dose aquilo que eu imagino. Cuidei, entretanto, para que as elasticidades do imaginário permanecessem solidamente presas a esses ganchos que em caso algum, em nome de uma moral, a do cientista, ousei manipular ou negligenciar, e que testei em todos os casos minuciosamente, para confirmar- lhes a solidez. Estou falando dos documentos, minhas ‘provas’”. (DUBY, 1993, p.

62)

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 55555

Faça uma análise da seguinte passagem do historiador Robert Darnton em seu livro “O beijo de Lamouret”:

“Como historiador, estou com aqueles que vêem a história como uma construção imaginativa, acho que precisa ser retrabalhado interminavelmente. Mas não acho que ela possa ser convertida em qualquer coisa que impressione a fantasia. Não podemos ignorar os fatos nem nos poupar ao trabalho de desenterra-los, só porque ouvimos falar que tudo é discurso”.

Historiografia Uma Breve Contextualização O S P RINCIPAIS M ARCOS E A T U A

Historiografia

Historiografia Uma Breve Contextualização O S P RINCIPAIS M ARCOS E A T U A L

Uma Breve Contextualização

OS PRINCIPAIS MARCOS E ATUALIDADE DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

O desenvolvimento da historiografia brasileira está intimamente relacionado à

evolução das universidades do país, melhor dizendo, aos cursos de pós-graduação em História. A quase totalidade da produção historiográfica é o resultado da produção de teses de doutoramento e dissertações de mestrado. (POLITO, 1996). Certamente, não excluímos as importantes produções historiográficas de determinados núcleos não universitários de pesquisa. É o caso do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC).

A universidade brasileira surgiu somente em 1920, com a fundação da primeira

universidade oficial do Brasil – a Universidade do Rio de Janeiro. Os cursos privilegiados nesta instituição de ensino superior eram: medicina, farmácia, engenharia e direito. Os cursos de história, geralmente vinculadas às faculdades de filosofia apareceriam em 1934 na Universidade de São Paulo (USP). Segundo Polito, 1996, os primeiros cursos de pós-graduação em história no Brasil estavam fortemente influenciados pelos referenciais estrangeiros, notadamente da França. Contudo, necessário uma ressalva, havia um certo atraso em relação às tendências historiográficas francesas. Enquanto neste país nos anos 70 já havia um amadurecimento das concepções teórico-metodológicas do que seria a Nova História, no Brasil ainda estávamos sob a influência da primeira geração da “Escola” ou movimento dos Annales. Somente nos anos 80 é que surgiriam os primeiros estudos sob influência da chamada Nova História, mais especificamente trabalhos na linha de história das mentalidades. O marxismo, também foi uma forte corrente teórica que orientou inúmeros trabalhos historiográficos no anos 70, sobretudo porque o contexto era de confronto entre a esquerda marxista em oposição ao autoritarismo dos generais da ditadura militar, iniciada em 1964. Todavia a maioria das produções acadêmicas dos anos 70 eram marcadas pelas reflexões positivistas. (POLITO, 1997).

eram marcadas pelas reflexões positivistas. (POLITO, 1997). A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA NO SÉCULO XIX No dia dois

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA NO SÉCULO XIX

(POLITO, 1997). A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA NO SÉCULO XIX No dia dois de outubro de 1838 foi

No dia dois de outubro de 1838 foi criado, no Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Um período de extrema importância para a compreensão da formação do Império e do Brasil como Estado Nacional, fato que coadunava com os objetivos do IGHB, que apesar de carregada de idéias nativistas e ufanistas “os traços mais notáveis do órgão, no entanto, são o pragmatismo da história e o gosto pela pesquisa”, o que não desconsidera o estudo da história como ferramenta pedagógica “orientadora dos novos para o patriotismo, com base no modelo dos antepassados.” (IGLÉSIAS, 2000, p. 61).

O objetivo do modelo historiográfico do IGHB era: a) identificar as origens do Brasil b)

O objetivo do modelo historiográfico do IGHB era:

a) identificar as origens do Brasil

b) contribuir para delimitar uma identidade

nacional homogênea

c) inserir o Brasil numa tradição de progresso

Nessa época o IGHB lançou um concurso que contemplaria com 200 mil réis aquele que apresentasse “um plano para se escrever a história antiga e moderna do Brasil, organizado de tal modo que nele se compreendessem as partes política, civil, eclesiástica e literária” (RODRIGUES: 1957, 160). Apresentaram trabalhos apenas dois estudiosos - o

naturalista alemão Karl Friedrich Philipp von Martius e Júlio de Wallenstein. Já Von Martius apresentou seu “Como se deve escrever a História do Brasil”, escrito em 1843, e foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1845. Martius foi dado como vencedor em 20 de maio de 1847, com seu trabalho que se situa

entre a inovação e o característico de uma época, “Como se deve escrever

atenta observação do naturalista enquanto esteve expedicionando pelo interior do Brasil sob patrocínio do rei da Baviera.

O estudioso alemão apresentou um tratado contendo todos os pontos e problemas

que deveriam conter, segundo seu entendimento, para uma melhor compreensão geral e ampla do Brasil. Von Martius, nesse tratado, foi o primeiro a salientar a importância do índio e do negro, e consequentemente a necessidade de se conhecer mais profundamente os costumes, a língua e a mitologia indígena. O Legado de Martius foram às influências e a introdução de alguns debates a respeito da forma como se escrevia a história do Brasil até então.

O que vai caracterizar o Instituto e o tornará um divisor de águas na historiografia

brasileira é a pesquisa. O trabalho anteriormente realizado, desde o século XVII, tinha como

característica principal o autodidatismo e o individualismo, factual e descontínuo. Eram

estudos realizados em sua grande maioria por religiosos, militares, juristas e até médicos. O IHGB foi responsável por reunir os que pensavam a história e estavam interessados em discuti-la, mas não em formá-los, uma vez que esta entidade não possuía – e não possui até hoje – as características de uma universidade. Sua função primordial era direcionar as discussões por meio da sua Revista e publicar documentos pertinentes aos estudos históricos. João Capistrano de Abreu deve ser mencionado devido à sua importância no quadro mais geral da historiografia brasileira, da qual ele é um marco, definidor de mudanças que vão ocorrer no início do século XX em relação à historiografia ligada e identificada com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Capistrano de Abreu é considerado como o primeiro historiador a dar importância a elementos populares e a escrever uma história sócio-econômica do Brasil. Este historiador cearense em seu conhecido livro “Capítulos de História Colonial”, tratou de assuntos tais como o indígena, os franceses e ingleses no Brasil, a guerra flamenga, a expansão para o sertão e a formação dos limites territoriais, entre outros. No entanto, sua produção intelectual foi muito mais extensa, produziu incansavelmente de 1878 a 1927.

O que torna Capistrano até hoje lido e citado? Não restam muitas dúvidas, Capistrano

insere novas problemáticas na História do Brasil e as responde, antecipando o que os historiadores brasileiros somente discutiriam em suas obras nos anos 30, iniciando-se com Gilberto Freyre: a diversidade cultural. Capistrano abordou em suas obras sobre o período colonial, vários Brasis, com suas diferenças muitas vezes inconciliáveis, onde havia pessoas

é fruto de

Historiografia e grupos vivendo de variadas formas. Ou seja, Capistrano enxergava o Brasil por uma

Historiografia

e grupos vivendo de variadas formas. Ou seja, Capistrano enxergava o Brasil por uma perspectiva que poderíamos atualmente de pluralista. João Capistrano de Abreu, além de ser o intermediário entre a historiografia tradicional nos moldes do IHGB e a chamada “geração de 1930”, inaugurou na historiografia brasileira um olhar problematizador baseado no reconhecimento das diferenças, como elemento formador da realidade social colonial.

como elemento formador da realidade social colonial. A GERAÇÃO DE 30 E A REINTERPRETAÇÃO DO BRASIL

A GERAÇÃO DE 30 E A REINTERPRETAÇÃO DO BRASIL

colonial. A GERAÇÃO DE 30 E A REINTERPRETAÇÃO DO BRASIL A década de 1930, no Brasil,

A década de 1930, no Brasil, foi um período fecundo de reinterpretação do processo histórico, uma fase que ficou marcada pela produção de correntes explicativas que buscavam compreender a sociedade brasileira à luz de certas teorias e métodos que eram vistos por seus defensores como instrumentos válidos para decifrar o enigma da constituição de sua nação. Os nomes de Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda sobressaem-se neste grupo de estudiosos da história brasileira, tanto pelos novos paradigmas de pesquisa que eles aplicaram, quanto pelo impacto que suas interpretações. Indiscutivelmente 1930 é o marco principal da virada do pensamento histórico brasileiro, Antônio Cândido, definiu Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. como os pensadores que constituíram a moderna interpretação do Brasil. Os três são considerados precursores da moderna ciência social brasileira. Estes trabalhos foram publicados num momento da historiografia brasileira em que se buscava o “caráter nacional brasileiro”. É desta forma que, nos anos 30, surgiram três trabalhos que buscavam explicar o significado de ser brasileiro. Foram eles: Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre; Evolução Política do Brasil (1933), de Caio Prado Júnior; e Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. A seguir falaremos um pouco de cada historiador separadamente.

Gilberto Freyre

um pouco de cada historiador separadamente. Gilberto Freyre Primeiramente, apresentaremos Gilberto Freyre, um dos

Primeiramente, apresentaremos Gilberto Freyre, um dos membros desta “tríade fundadora” da historiografia profissional brasileira moderna. Freyre era Antropólogo por formação, e desenvolveu seus estudos ainda na década de 1920, época em que o ambiente intelectual brasileiro estava sob o impacto do modernismo em prol de um nacionalismo. É neste ambiente que Gilberto Freyre está inserido, passando posteriormente a completar seus estudos nos Estados Unidos, onde teve contato com os estudos do professor Franz Boas, antropólogo que o influenciaria em seu grande e melhor trabalho sobre o período colonial brasileiro, Casa Grande e Senzala. (FREYRE, 1976). Neste trabalho, Freyre contribui e enriquece sobremaneira com a historiografia brasileira, na medida em que incorpora a matriz culturalista da Antropologia à abordagem

histórica, o que já foi dito anteriormente no texto sobre a Nova História. Para Freyre

histórica, o que já foi dito anteriormente no texto sobre a Nova História. Para Freyre as diferenças entre os grupos sociais eram principalmente de natureza cultural e destacava de maneira original as práticas, crenças e costumes cotidianos, resultados do entrecruzamento dos três grupos que constituíram o povo brasileiro: o indígena, os portugueses e os africanos. (SOUZA, IN: FREITAS, 1998).

Quais eram as fontes de Freyre?

Gilberto Freyre foi buscar nos diários dos senhores de engenho e na vida pessoal de
Gilberto Freyre foi buscar nos diários dos senhores de engenho e na vida
pessoal de seus próprios antepassados a história do homem brasileiro. As
plantações de cana em Pernambuco eram o cenário das relações íntimas e do
cruzamento das três raças: índios, africanos e portugueses. Anteriormente a toda
produção historiográfica da Nova História, Freyre já utilizava como fontes em
Casa Grande e Senzala, anúncios de jornais, diários e a correspndência familiar,
escritos de viajantes estrangeiros, livros de recitas, fotografias, cantigas de rodas
e toda a tradição oral.

No que concerne estritamente à historiografia, Casa Grande e Senzala tem grande relevância no que diz respeito à incorporação de alguns objetivos manifestados por Marc Bloch e Lucien Febvre pouco antes de sua publicação, como a interdisciplinaridade e a ampliação documental. Seu trabalho dá grande importância às relações estabelecidas entre senhores e escravos, assumindo pela primeira vez a importância do negro na formação do nosso “modo de ser”. Freyre explorou diversos tipos de relação: as sexuais, de produção, sob o viés da dominação senhorial, criando assim uma interpretação que foi acusada posteriormente de justificar e “amenizar” os horrores da escravidão. Peter Burke, 1997 pontuou a importância de Freyre e a sua similaridade com a chamada “nova história” pregada e praticada na França a partir da década de 60 e a história que Gilberto Freyre escreveu a partir da década de 30: “Os fundadores da escola dos Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre estavam interessados no que eles chamavam “psicologia histórica” e estudaram a psicologia de Henri Wallon, embora negligenciassem Freud. Freyre, por outro lado, referiu-se em Casa-Grande & Senzala e em outras obras não apenas a Freud (que o atraía porque “explica mistérios de minha meninice”), mas também a monografias sobre a psicologia da infância e da família de discípulos de Freud tais como Flügel, Moll e Pfister. As referências não são casuais, pois a idéia de uma relação sado- masoquista entre senhor e escravo tem um papel central no estudo de Freyre”. Freyre é apontado pelos críticos como um justificador do imperialismo português, devido a sua percepção da mestiçagem como um valor positivo o que o levaria a exaltação da superioridade dos portugueses como colonizadores mais flexíveis que os demais povos. Ele lançaria as bases de uma análise de mestiçagem vista numa perspectiva harmônica, sem antagonismos entre as culturas européia, indígena e africana. (SOUZA, IN: FREITAS,

1998).

Sérgio Buarque de Holanda

Dando continuidade à apresentação da “geração de 1930”, não podemos deixar de mencionar a importância
Dando continuidade à apresentação da “geração de 1930”, não
podemos deixar de mencionar a importância dos trabalhos de Sérgio
Buarque de Holanda para a interpretação da sociedade colonial
“brasileira”. Raízes do Brasil é publicado em 1936, é obra inaugural do
historiador sob influencia, pensamento europeu, para o acervo cultural
das ciências humanas (história, antropologia e sociologia). Sua maior
referência em Raízes do Brasil é Max Weber, quase inacessível ao
pensamento brasileiro naquela época.
Historiografia Em sua análise, Holanda transmite visões muito amplas como: a) História da Cultura; b)

Historiografia

Em sua análise, Holanda transmite visões muito amplas como:

a) História da Cultura;

b) Mentalidades;

c) Cotidiano;

d) Marginalidade.

b) Mentalidades; c) Cotidiano; d) Marginalidade. Com um estilo econômico, de leitura fácil e agradável,
b) Mentalidades; c) Cotidiano; d) Marginalidade. Com um estilo econômico, de leitura fácil e agradável,

Com um estilo econômico, de leitura fácil e agradável, este trabalho preocupa-se em verificar elementos psicológicos e sociológicos formação histórica do Brasil colonial, na qual Sérgio Buarque de Holanda encontra as raízes explicativas para o estágio de desenvolvimento brasileiro na década de 1930. Ele encontra as explicações na “irracionalidade” do “homem cordial, movido pela emoção e não pela razão de viés iluminista. Se observarmos os temas acima mencionados veremos que Holanda revelou, através das páginas de Raízes do Brasil, a metodologia francesa na historiografia da conhecida École des Annalles (Escola dos Annales), e posteriormente a Nouvelle Histoire (Nova História), o modernismo, entre outras. Em Raízes do Brasil combinam-se características da história social, da antropologia histórica, da sociologia, da etnologia e da psicologia, produzindo uma corrente analítica difícil de classificar, mas dotada de uma singular riqueza. Enquanto Caio Prado Jr. buscou delinear o caminho dos processos econômicos que formaram a estrutura da sociedade brasileira, Buarque de Holanda preocupou-se com os aspectos culturais desta mesma sociedade. É um trabalho que, de certa maneira, rompeu não só com visões teológicas da história, como também com racionalismos e determinismos científicos tão presentes na historiografia positivista daquele momento.

presentes na historiografia positivista daquele momento. Caio Prado Jr. Completando a tríade , consideremos agora

Caio Prado Jr.

Completando a tríade, consideremos agora Caio Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo, 1942 pode ser considerado a primeira grande síntese histórica de matriz marxista do “Brasil” colonial. É importante que se identifique, inicialmente, um princípio de natureza metodológica que permeou o trabalho de Caio Prado Júnior e que pode ser notado no início de sua elaboração acerca da sociedade colonial: a abordagem teleológica. Caio Prado enxerga uma rígida continuidade entre o passado colonial. Adotando o modelo teórico do materialismo histórico formulado no século XIX por Karl Marx e Friedrich Engels, Prado Jr. buscou delinear nesta obra o que ele denominou o “sentido da colonização do Brasil”. Para o autor, a circunstância constitutiva da realidade brasileira, presente mesmo no início do século XX, seria a construção, no período colonial, de uma sociedade e uma economia voltadas acima de tudo para a satisfação do mercado externo.

no período colonial, de uma sociedade e uma economia voltadas acima de tudo para a satisfação
As estruturas da história brasileira teriam sido erguidas sobre os alicerces da dependência em relação

As estruturas da história brasileira teriam sido erguidas sobre os alicerces da dependência em relação aos ditames da economia internacional, e não sobre as bases de um projeto para a formação de uma nação autônoma diante de seus colonizadores. Esta interpretação marxista da história, em Caio Prado provocou uma reconstrução das referências intelectuais ocorridas na universidade e fora dela. Formação do Brasil Contemporâneo criou uma tradição historiográfica no Brasil, identificada, sobretudo com o marxismo, buscando dar uma explicação estrutural e da sociedade colonial. Um dos trabalhos mais filiados à concepção de Caio Prado de “sentido da colonizaçãoé Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 – 1808), de Fernando Antônio Novais, publicado em 1979, texto que impressiona pelo volume de informações e pelo conceito de Antigo Sistema Colonial, com acumulação externa de capital. Este sistema este teria o seu fim, segundo a formulação de Novais, com a ascensão das nações industrializadas. Na década seguinte, os trabalhos acadêmicos baseados em pesquisa serial como Homens de Grossa Aventura: Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro de João Fragoso abalariam gravemente as teorias defendidas no trabalho de Novais, sobretudo aquela que defende a exclusividade da acumulação exógena. Portanto, a tradição historiográfica iniciada por Caio Prado Júnior só começaria a ser seriamente revista nos anos 80, na medida em que convergiram vários fatores para uma mudança no ambiente acadêmico brasileiro.

fatores para uma mudança no ambiente acadêmico brasileiro. HISTORIADORES BRASILEIROS DA NOVA HISTÓRIA CULTURAL A

HISTORIADORES BRASILEIROS DA NOVA HISTÓRIA CULTURAL

A partir dos anos 1980, acontece uma grande mudança na historiografia brasileira. Notamos neste período que há um grande impacto no ambiente historiográfico brasileiro daquilo que Roger Chartier, 1988 chamou de “A Nova História Cultural”, que retoma aspectos que estavam presentes nos trabalhos de Bloch e Febvre, como a preocupação com as mentalidades, tendo no Brasil correspondência nos trabalhos de Gilberto Freyre. Esta “nova” história cultural teria uma de suas primeiras representantes no Brasil em Laura de Mello e Souza, com seu livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, livro cuja marca principal é influência da microhistória de Carlo Ginzburg. A autora utiliza-se de fontes inquisitoriais, tratados teológicos, fontes literárias e muitas outras, analisando assim a demonização da América Portuguesa. Seguido a mesma tendência acima mencionada, Ronaldo Vainfas, insere a América portuguesa no mundo cristão ocidental moderno através da Companhia de Jesus e do Santo Ofício, com seu Tropico dos Pecados. Em busca do mesmo sucesso que teve a História da Vida Privada dirigida por Georges Duby e Philippe Áries, no interior da Nova História Cultural, surge em 1997 na historiografia brasileira a coleção dirigida por Fernando Novaes, 1997, História da Vida Privada no Brasil, cujo volume 1 aborda o cotidiano e vida privada na América portuguesa. Nesta coleção é forte a presença da relação do micro com o macro, os temas recortados são levados ao conjunto, e articulados numa análise mais fidedigna da História. Incitando, evidentemente, uma crítica a “generalização estrutural”, da historiografia brasileira. Seu objeto de estudo no volume citado, é como ele mesmo diz: “esse viver em colônias”. Novais vai tentar articular manifestações da intimidade cotidiana com as estruturas básicas da formação colonial. Utilizando-se de diversos elementos, como a miscigenação, acumulação primitiva de capital autônomo na colônia, diversidade entre colônia e metrópole, análise das peculiaridades coloniais com relação a esquemas do velho mundo, análise do privado ao invés do público.

HISTORIOGRAFIA TENDÊNCIAS E CRÍTICAS E LIVRO DIDÁTICO: PRINCIPAIS Dos marcos pertencentes ao campo da historiografia

HISTORIOGRAFIA

TENDÊNCIAS E CRÍTICAS

HISTORIOGRAFIA TENDÊNCIAS E CRÍTICAS E LIVRO DIDÁTICO: PRINCIPAIS Dos marcos pertencentes ao campo da historiografia e

E

LIVRO

DIDÁTICO:

PRINCIPAIS

Dos marcos pertencentes ao campo da historiografia e livros didáticos

destaca-se Eni Orlandi (1987) com formação em lingüística, substitui o exame do conteúdo pelo da forma, realiza uma análise do discurso dos livros didáticos de história. Orlandi, apesar de não ser historiadora, possui uma abordagem próxima da Nova História Cultura, por exemplo, de autores como Foucault. Orlandi apresenta as formas de exclusão, através da linguagem, das camadas menos favorecidas, nos livros didáticos. Nessa tendência de análise de conteúdo o foco é a crítica historiográfica e ideológica.

Historiografia

No caso da ideologia a crítica é referente à falsa consciência, difundida pelos livros didáticos de história. Esses trabalhos, em sua maioria assumem a perspectiva materialista-dialética,

e propõem apreender o livro como “elemento instituído, como produto, e, ao mesmo tempo,

como elemento que institui que cria a vida social” (GALZERANI, 2000, p. 106). Segundo Maria Carolina Galzerani (1988), esses trabalhos, (de tendência marxista/ materialista-dialética), entendidos por muitos críticos como maniqueístas, simplistas e até autoritários, negligenciam o contraditório da linguagem, impossibilitando, assim leituras distintas dos livros, assim como a capacidade analítica e crítica dos alunos. Uma capacidade

que se valorizada pelo professor com variadas formas de utilização do livro didático, levaria

a um questionamento dos conteúdos destes. Nas análises de conteúdos dos livros didáticos, diversos temas são abordados. A seguir alguns dos mais relevantes temas e autores que se destacam na abordagem de cada um deles:

a) Periodização e recorte espaço-temporal – Inspirados nos estudos de Marc Ferro (1983), criticam a
a) Periodização e recorte espaço-temporal – Inspirados nos estudos de Marc
Ferro (1983), criticam a periodização da história em Idades (Antiga, Medieval,
Moderna e Contemporânea) ou em Modos de Produção (Comunista Primitivo,
Escravista, Feudal e Capitalista.
Nas críticas destaca-se também a visão totalizante, a identidade
estabelecida nos livros entre “história do Brasil” e biografia da nação brasileira.
Uma outra crítica é o privilégio do continente europeu em detrimento dos
demais povos que somente passam a existir a partir do contato com o homem
europeu. (VESENTINI, 1984, p. 75-6).
A inclusão dos “três tempos de Braudel” nos livros didáticos de história
tem sido incoerente, misturam-se conceitos como “longa duração” com “curta
duração”.
São apresentados assuntos como:
“conjuntura econômica em determinados capítulos e prevalecendo em
outros, na mesma obra, o arcabouço da curta duração, onde predomina
exclusivamente o político. Esta situação pode ser exemplificada com o estudo do
Império brasileiro, geralmente dividido em Primeiro Reinado, Regência, Segundo
Império e Proclamação da República, mesmo para autores que se propõem a
trabalhar, por exemplo, com conjuntura econômica ou com modos de produção”.
(BITTENCOURT, 2000, p. 76).
b) Os conceitos empregados – Procura-se ver como alguns conceitos (trabalho, espaço, tempo e cotidiano)

b) Os conceitos empregados Procura-se ver como alguns conceitos (trabalho, espaço, tempo e cotidiano) são explicitados nos livros didáticos, chamando atenção para a inconsistência e o caráter ideológicos destes conceitos quando formulados nos livros.

A respeito do tempo, nesses livros didáticos, nota-se o privilégio do “tempo curto” do fato político juntamente com o “tempo longo”. Entretanto o processo histórico é constitui-se de maneira unilinear a um futuro pré-definido, ou seja, chegará ao progresso. Por isso, confere aos livros didáticos um caráter teleológico (tal qual abordado pelo marxismo). Na questão do espaço, estão presentes, o etnocentrismo, no caso do Brasil, presente na noção de “descoberta” (que indica a existência de um espaço vazio e sem dono) e a noção de “povoamento” (trata-se de terra sem habitantes e possível de apropriação). Com a noção de cotidiano na abordagem dos livros didáticos, os problemas são referentes a aspectos da vida cotidiano dos povos habitantes. Seguindo a história tradicional de tendência positivista, há aqueles livros didáticos que valorizam o cotidiano dos grandes personagens de acontecimentos marcantes e consagrados pela historiografia, inversamente desconsideram o cotidiano de homens comuns. E os livros cuja influência está na Nova História, conseguem ao mesmo abordar o cotidiano relacionando o sistema social, econômico e político (história macro) com a particularidade e experiências dos grupos em questão (objetos, brincadeiras, vestimentas, moradia, alimentação). (VILLALTA, 1996, 1997).

moradia, alimentação). (VILLALTA, 1996, 1997). c) Os sujeitos excluídos – a historiografia ressalta que

c) Os sujeitos excluídos – a historiografia ressalta que os europeus (portugueses, espanhóis, ingleses, franceses) são os principais sujeitos presentes nos livros didáticos. Muito pouco se diz sobre os indígenas e africanos. Geralmente os livros priorizam muito mais o conceito de nação em detrimento das camadas populares, conflitos de classes e resistências dos dominados (escravos). (VESENTINI, 1984 e DAVIES, 2000).

A história indígena antes do “descobrimento” do Brasil, não existe, na maioria dos livros didáticos. Os índios são representados de uma maneira folclórica. Segundo Davies, 2000, há uma tendência em crescimento na historiografia brasileira, em valorizar a participação das camadas populares na história, em se estudar as resistências, assim como suas condições de vida e trabalho. Por exemplo, os estudos sobre os quilombos, do historiador baiano João José Reis, 1996. Entretanto, esta tendência em nada mudou os conteúdos dos livros didáticos, onde predominam a história com ênfase nos “grandes homens” e “heróis”. Para Davies, “nas pouquíssimas páginas que os livros didáticos dedicam a esta questão na história [da participação das camadas subalternas], as camadas populares aparecem como passivas e obedientes ou então como supersticiosas, irracionais (A Revolta de canudos)” (DAVIES, 2000, p. 95). Pensando nos autores que poderiam influenciar a escrita dos livros didáticos, não podemos deixar de mencionar Caio Prado Jr., com seus clássicos Formação do Brasil Contemporâneo, História Econômica do Brasil e Evolução Política do Brasil. Fernando Novais também é um historiador muito citados nos livros didáticos.

Historiografia QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 1 1 1 1 1 [[[[[ ]]]]] Agora é hora de TRABALHAR Leia

Historiografia

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 11111

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Agora é hora de

TRABALHAR

Leia o trecho a seguir e analise fazendo uma relação com o livro didático que você trabalha ou conhece.

“A concepção de História e a seleção do que deve ser ensinado foi mantida nos livros didáticos, passando a idéia de que existe uma História ´correta´, que deve ser mantida na formação do estudante. Falta, então, a incorporação das idéias transmitidas pelas novas propostas historiográficas, vistas também não como verdades imutáveis, mas como afirmações possíveis de revisão na medida em que se repensa e se reescreve constantemente a História.” (ABUD, 1984, p.

87).

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 22222

De acordo com o texto do conteúdo 2 – A Geração de 30 e a reinterpretação do Brasil, apresente, mencione as principais características do pensamento e as obras dos três autores citados.

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 33333

QuestãoQuestãoQuestãoQuestãoQuestão 3 3 3 3 3 Você já leu Casa-Grande e Senzala ? Leia atentamente o

Você já leu Casa-Grande e Senzala? Leia atentamente o texto abaixo de Gilberto Freyre:

Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo 1 ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. [ ] Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo.” (Casa-Grande & Senzala, p. 283).

Pelo texto percebe-se um ambiente de propriedade rural. A partir do texto, responda:

a) O autor defende ou condena a mestiçagem? Justifique sua resposta. Em quais passagens do texto podem ser identificadas as fontes e/ou abordagens da Nova História Cultural?

as fontes e/ou abordagens da Nova História Cultural? 1 Jenipapo : mancha escura no dorso das

1

Jenipapo : mancha escura no dorso das crianças que é sinal de mestiçagem.

Historiografia AtividadeAtividadeAtividadeAtividadeAtividade OrientadaOrientadaOrientadaOrientadaOrientada A avaliação

Historiografia

Historiografia AtividadeAtividadeAtividadeAtividadeAtividade OrientadaOrientadaOrientadaOrientadaOrientada A avaliação

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A avaliação aqui não tem o cunho de exame. É, na verdade, um detector da
A avaliação aqui não tem o
cunho de exame. É, na verdade,
um detector da construção do
conhecimento
e
aprendizagem
do
aluno.
Bom
trabalho!

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Com base no que foi estudado nos temas 1 e 2 na disciplina Historiografia, responda a seguinte questão:

a) Pense em um tema/objeto de estudo que você gostaria de pesquisar;

b) Relacione, a partir deste tema/objeto escolhido, as seguintes categorias:

· Justificativa;

· Objetivo geral;

· Objetivos específicos;

· Fontes.

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Escreva um de, no mínimo, 10 linhas correlacionando o seu objeto/tema de pesquisa escolhido (Como você o desenvolveria? Quais fontes utilizaria, relacionando a sua pesquisa com o trabalho do historiador segundo as perspectivas: Positivista, Marxista, da Escola dos Annales e da Nova História Cultural. Sugerimos que o aluno leia atentamente o texto abaixo enquanto inspiração para a metodologia da sua pesquisa:

“Munido das armas e precauções dispostas anteriormente, de conhecimento prévio sobre o assunto (fruto de muita pesquisa bibliográfica a respeito do período estudado e do que concluíram historiadores que trabalharam antes dele), o pesquisador está pronto para prosseguir na análise e na interpretação de suas fontes. Já pode cotejar informações, justapor documentos, relacionar texto e contexto, estabelecer constantes, identificar mudanças e permanências e produzir um trabalho de História.” (PINSKY, 2005, p. 71)

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EtapaEtapaEtapaEtapaEtapa 3 3 3 3 3 Tendo como referencial o que foi estudado na disciplina Historiografia,

Tendo como referencial o que foi estudado na disciplina Historiografia, escolha três livros didáticos de história (do Ensino Fundamental II ou Ensino Médio) e comente criticamente (mínimo de 10 linhas) como são apresentadas as classes populares (servos, camponeses livres, degredados), relacionando-o com as correntes historiográficas estudadas neste módulo.

CARO ALUNO, MUITA ATENÇÃO PARA AS PERGUNTAS. REFLITA BASTANTE ANTES DE RESPONDÊ-LAS.
CARO
ALUNO,
MUITA
ATENÇÃO
PARA
AS
PERGUNTAS.
REFLITA
BASTANTE
ANTES
DE
RESPONDÊ-LAS.
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