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SOARES, Doris de Almeida. O perfil on-line como gênero em um curso a distância. XV Congresso da ASSEL-Rio (UFRJ), p.1-16. 2009.

ISBN 9788587043863 Publicação em CD-ROM. O PERFIL ON-LINE COMO GÊNERO EM UM CURSO A DISTÂNCIA SOARES, DORIS DE A. (PUC-Rio) INTRODUÇÃO Nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs), é comum a existência de mecanismos para que os participantes possam se conhecer a distância, visando ações de comprometimento entre o grupo. No ambiente Teleduc, por exemplo, essa ferramenta é chamada de perfil e permite que cada participante escreva um texto sobre si mesmo, acompanhado de uma foto digital, modelo 3x4. Este texto fica disponível para todos os membros daquele curso, bastando clicar no nome do participante escolhido, em qualquer área do ambiente para acessá-lo. Como se apresentar por escrito de maneira informal em um AVA é uma prática social recente, nossa proposta é investigar esse tipo de produção discursiva como um gênero emergente. Embasamos essa proposta em Marcuschi (2005, p.14), que aponta três aspectos que tornam a análise de gêneros emergentes relevantes. Primeiro, esses estão em franco desenvolvimento e seu uso é cada vez mais generalizado. Segundo, eles possuem peculiaridades formais, embora possam ter contraparte em gêneros já estabelecidos. Por últimos, eles oferecem a possibilidades de se rever e repensar a nossa relação com a oralidade e a escrita. Portanto, buscando definir parâmetros para a caracterização do perfil como um gênero discursivo emergente, realizamos uma análise macro textual dos movimentos realizados em dezoito perfis produzidos em curso de curta duração oferecido totalmente on-line e de modo assíncrono. A noção de gênero com a qual trabalhamos e os resultados de nossa pesquisa são o foco deste artigo.

c) fixos e imutáveis. Deste modo. propósito comunicativo. verificamos que. p. todos nós costumamos tirar as palavras de outros enunciados (BAKHTIN. entre outros (JOHNS. Os gêneros são fundamentais para a comunicação humana. Nesta nova conceituação de gênero. abrem espaço para abarcar as noções de contexto. p. não só em reconhecemos similaridades entre situações e padrões organizacionais recorrentes. 2002. p. papéis dos leitores/falantes e escritores/ouvintes. discursivos. Contudo. 693). sendo que estas podem ser orais ou escritas. as características (a-d). estudos composicionais. ou seja. e d) classificáveis de forma organizada em categorias e subcategorias mutuamente exclusivas (JOHNS. GÊNEROS DO DISCURSO: DEFINIÇÃO Por mais de um século. 2002. tidas como tradicionais. p. conteúdo. 1979/2003. valores da comunidade. escrita em contexto profissional. recorremos a experiências sócio-retóricas anteriores nas quais a linguagem verbal foi necessária para realizar algo. segundo Freedman e Medway (1994. Assim. o termo passou a ser utilizado para designar uma área de estudo cujo interesse é analisar a forma e a função do discurso nãoliterário. 1996. 300) e. e inglês para fins específicos (HYON. b) inteiramente definidos por regularidades textuais na forma e conteúdo. a noção de gênero esteve fortemente associada aos estudos de textos escritos que são a) primariamente literários. lingüística. Se pensarmos essas respostas a partir do conceito Bakhtiniano de que todo dizer é uma réplica e não se constitui fora daquilo que chamamos hoje de memória discursiva. o que podemos chamar de gêneros .2.1).3). pois nos ajudam a realizar o que queremos dizer/escrever em dada situação. nesse processo. a partir das décadas de 70-80. gênero passa a ser um termo que se refere às respostas complexas dadas pelos falantes às demandas do contexto social. para produzi-las. Conseqüentemente. p. bem como servir de ferramenta para desenvolver práticas educacionais nos campos da retórica. a partir de um entendimento social e cultural da linguagem em uso. 3). o termo gênero também está relacionado ao reconhecimento das regularidades nos discursos.

é possível imaginar que. p. na medida em que novas práticas sociais surgem. 2006. 2006. Neste aspecto. pois participamos nos gêneros com outros interlocutores. em qual contexto (o campo). exemplares de um gênero exibem vários padrões de similaridade em termos de estrutura. Estes propósitos são reconhecidos pelos membros experientes da comunidade e são a razão do gênero. mediadas pela linguagem” (MOTTA ROTH.32). e por qual meio (o modo). a natureza de um texto sempre dependerá do contexto de situação e das diferentes escolhas lingüísticas que os falantes exercem levando em conta com quem se fala (a relação). Se as expectativas probabilísticas se realizam em uma alta proporção. 181).). antes da invenção da escrita. Baseando-nos no senso comum. vale ressaltar que. Swales (1990. Além disso. b) orientados para um objetivo. parece haver um ponto de contato entre esta visão de gênero e aquela apresentada por Martin e White (2005. ao contexto e ao propósito da comunicação (MOTTA ROTH. Para estes autores. Esta razão modela as estruturas esquemáticas do discurso e influencia e restringe as escolhas com relação ao estilo e conteúdo (. p. o exemplar será visto como prototípico do gênero pela comunidade discursiva. Por conseguinte. levando em conta a adequação do discurso ao interlocutor. saídos da esfera oral para a esfera escrita e. p. pois. mas. para o meio digital. as pessoas já falavam sobre si.58) define gênero como uma classe de eventos comunicativos cujos exemplares partilham os mesmos propósitos comunicativos. acima de tudo. conteúdo e público-alvo. . p.. por serem “atividades culturalmente pertinentes. e c) realizados em estágios. alguns gêneros primários saem de sua esfera de origem para outras. Pode-se então concluir que as apresentações pessoais por escrito seriam gêneros secundários. mais recentemente. pois os usamos para fazer coisas.180). materializando-se na escrita.termos de conteúdo léxico-gramatical. pois é necessário seguirmos alguns passos para alcançarmos nosso objetivo comunicativo. Contudo. estilo. gêneros são a) processos sociais. os gêneros estão sujeitos a sofrer um processo que Bakhtin (1979/2003) chama de transmutação. Nesta linha de pensamento.

Apesar de esta apresentar determinadas marcas tais como cabeçalho/data. p. Este gênero está em circulação desde os primórdios das civilizações e. e expressões para a saudação. o seu corpo permite uma diversidade de tipos textuais. 121) como “uma unidade comunicativa” onde há a “concretização das estruturas de informação sob uma organização típica. em sua maioria. 121). para uso em contextos específicos”. a carta é uma unidade funcional utilizada em contextos onde haja a ausência de contato imediato entre emissor e destinatário. tanto na oralidade quanto na escrita. têm similares em outros ambientes.) parece ser um meio flexível no qual muitas das funções.. cito a idéia de Marcuschi (2005. Deste modo. para Bazerman (2006.Para corroborar esta visão.. Portanto é interessante tentar traçar um paralelo entre o discurso apresentado em forma de perfil. conteúdos e propósitos comunicativos (PAREDES SILVA. e outros gêneros bem estabelecidos. fechamento e despedida. p. candidato a gênero emergente. Em linhas gerais.83). ASPECTOS EM COMUM ENTRE O PERFIL E A CARTA O (supra)gênero carta é definido por Paredes Silva (1997. . 3. Contudo. como a carta. dependo dos propósitos comunicativos e intenção do emissário. enquanto permite que a forma de comunicação caminhe em novas direções. (. o que pode torná-la peculiar. Há também a possibilidade de uma mesma carta abrigar mais de uma tipologia. assinatura. as características específicas do meio e o propósito da comunicação trazem novas possibilidades e restrições para a organização dessa produção.tornado novos usos socialmente inteligíveis.. podemos ter uma tipologia descritiva em uma carta promocional que anuncia um novo produto. 1997.) com sua comunicação direta entre dois indivíduos dentro de uma relação específica em circunstâncias específicas (. ou uma tipologia narrativa em uma carta pessoal. p. p.. relações e práticas institucionais podem se desenvolver .13) de que os gêneros produzidos no contexto digital. ou gêneros emergentes.

há realmente um propósito comunicativo em comum em ambos os gêneros. aceitarem as suas futuras contribuições no curso como válidas e pertinentes. dois contextos com propósitos comunicativos um pouco diferentes emergem: a carta de apresentação formal que acompanha o Currículo Vitae e a carta de apresentação informal trocada entre estudantes de idiomas em países diferentes. o caráter informativo do perfil se aproxima do das cartas de apresentação informal entre penfriends. ou qualquer coisa que evoque um interesse partilhado com seu novo amigo. o autor da carta. Da mesma forma.ehow. Neste aspecto. o propósito comunicativo. animais de estimação. p. ou pelo menos. Por conseguinte. Contudo. de modo positivo. é recomendado que o escritor a) seja amistoso e educado. neste caso uma convite para uma entrevista de emprego” (BHATIA. o propósito do perfil é fornecer uma auto-descrição de modo a persuadir os outros membros do grupo a interagirem mais diretamente com o autor. 2004) afirma que estas pertencem a esfera do discurso promocional e são persuasivas por natureza. Visto por este ângulo. educação e carreira. ou penfriend.com/how_13423_write-first-letter. Com relação às cartas de apresentação formal que acompanha um currículo.No caso do perfil. incluindo informações sobre idade. e) evite tópicos controversos. c) diga quem é e o que faz. pois “almejam obter do leitor uma dada resposta. Segundo o site http://www. através de programas do tipo penpal. f) faça perguntas que os outros . Desta forma. Bhatia (1993. a informalidade e a nãocompetitividade do contexto de produção do perfil faz com que o discurso não precise ser necessariamente pontuado por um alto grau de adjetivação positiva para que os sujeitos sejam apreciados. que oferece esse serviço.html. b) partilhe informações sobre si mesmo que ele ache interessantes para os outros.145). f) não sobrecarregue o leitor com muita informação. 1993. o autor negocia o seu acesso à comunidade discursiva na qual ele pretende ser aceito. ao buscarmos em que situações se faz necessária uma apresentação em primeira pessoa do singular por meio de uma descrição. as escolhas léxico-gramaticais e os movimentos realizados têm por objetivo descrever e avaliar. d) mencione seus hobbies favoritos. revelando-se aos pouco.

ou seja. p. muitas vezes não é o seu. apropriado realizar neste contexto de situação (bg). 317). são todos brasileiros. assim como na carta de apresentação. 4. . Segundo Upton e Connor (2001. é mencionada qual deve ser a escolha do tom do texto (a) e o que é. o contexto de produção da carta ao penfriend não é exatamente o mesmo do perfil que iremos analisar neste estudo. e com um propósito de propiciar uma prática lingüística. é responder a seguinte questão: Em que medida o discurso produzido em forma de perfil tem características que tornam possível descrevê-lo como um gênero emergente derivado do (supra) gênero carta? Para buscar responder a esta indagação. os gêneros devem ser estudados nos seus contextos sociais de uso real. que sugere que a análise deve definir categorias (movimentos) que reflitam os propósitos comunicativos no texto. envolvidos com diversas áreas da educação. ou seja. a proposta deste trabalho. ou não. 2). e g) deixe sua personalidade mostrar-se pela escolha das palavras e das descrições que usar. no segundo encontramos sujeitos que partilham o mesmo contexto cultural.possam responder. mantendo a correspondência. iniciamos o estudo pelo arcabouço apresentado por Swales (1990). estabelecer laços amistosos com o destinatário e persuadi-lo a levar a interação à diante. p. que se encontra na sua fase inicial. e que desejam construir conhecimentos novos a partir das interações no AVA. Assim. É interessante notar que este guia oferece pistas ao autor sobre com atingir seu propósito comunicativo. Não obstante. Portanto. as formas prototípicas dos gêneros podem ser geradas e estudadas a partir da análise dos movimentos. cabendo ao analista prestar atenção às formas pelas quais os usuários manipulam os gêneros para propósitos retóricos particulares. QUESTÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS Segundo recomendação de Berkenkotter e Huckin (1995. pois enquanto o primeiro envolve membros de culturas diferentes interagindo em um idioma que.

despedida. e c) as instruções para que o autor fale um pouco sobre o seu trabalho. Porém. sua família. p. em que esses gêneros se situam. e o que gosta de fazer. Assim. seus amigos. mas sim como “resultados analíticos valiosos a longo prazo” (SWALES. 73). Estas alterações poderiam ser utilizadas como recursos expressivos multimodais pelo autor para . lugares interessantes. tamanho e tipo de fonte). de marcas típicas do gênero carta pessoal de apresentação (cabeçalho. pois esse é um hyperlink para a tela onde aparecem a) uma caixa de texto na qual o perfil será digitado. cores.26) recomenda que devemos observar os ambientes. estilo. p. p. 317). No caso do perfil.definidos como unidades semântico-funcionais de textos que podem ser identificáveis a partir de seus propósitos comunicativos e de suas fronteiras lingüísticas. Marcuschi (2005. ou aquilo que tradicionalmente assumimos que estejam fazendo” (SWALES. itálico. 72). 2001. pois “muitos textos ou transcrições podem não estar fazendo aquilo que parecem. ou entornos virtuais. fecho. Vale ressaltar que este espaço disponibiliza um editor de texto muito rudimentar. Porém. concentraremos nossa análise na identificação da existência. por ora. 2004. p. ou não. disponibilizado em uma lista no AVA. pois não permite alteração tipológica de nenhuma espécie (negrito. sublinhado. daí a necessidade de revisitar o termo “propósito comunicativo” para abarcar não somente a análise textual (estrutura. b) o espaço para uma foto 3 x 4. “estes movimentos descrevem as funções (ou intenções comunicativas) que porções particulares do texto realizam em relação à tarefa como um todo” (UPTON E CONNOR. Levando em conta a complexidade da análise sugerida por Swales (2004) e a pequena extensão deste artigo. vale lembrar que os propósitos comunicativos não devem ser tomados como “um método imediato ou rápido para separar discursos em categorias genéricas”. conteúdo e propósito). saudação. mas o contexto de produção e quem o produz. antes de iniciarmos uma análise propriamente dita dos gêneros virtuais. esclarecemos que a sua criação é feita clicando-se no nome do aluno. 2004. assinatura).

revelado no corpo do texto. despedida. e a sua presença nos perfis aqui estudados. recurso nem sempre usado pelo autor. ou não. (Maria) como saudações informais. sendo quatorze escritos por mulheres (77.1 A Carta de apresentação pessoal e o perfil: elementos em comum Iniciamos esta subseção com uma descrição dos elementos textuais típicos do (supra)gênero carta pessoal. apesar de este ser um dado pedido nas instruções para o preenchimento do perfil. Geralmente. ou prezada sra. A data aparece assim que o perfil é preenchido e o local de onde se escreve será. fica a cargo do autor seguir a sugestão ou não. pois ao mesmo tempo em que define quem é o destinatário. 5. pois a abordagem é centrada no aluno.2%) . fecho. A foto. matriculados em um curso a distância online de 60 horas de duração.personalizar o seu texto. estas informações se fazem conhecidas por outros meios. No caso do perfil. analisamos dezoito perfis. Sabemos que a função do cabeçalho é estabelecer a data e a cidade onde o autor se encontra no momento da escrita. meu (amor. serve de cumprimento àquele que lê. pois. ANÁLISE DOS DADOS Para este artigo. acima do corpo do texto.8%) e quatro por homens (22. O uso da saudação nas cartas é elemento obrigatório e é feito em linha destacada. olá. como saudações mais formais e querido (filho. especialmente na hora de estabelecer as interações dentro do curso. Os participantes têm entre 21 a 62 anos. Pedro). 5. é um suporte visual que ajuda os participantes a terem uma imagem mais concreta do interlocutor. sendo que a maioria está na faixa entre 30-40 anos e é composta de pós-graduados. netinho). iniciando assim um turno que se encerra ao fim da carta. Sua função retórica é iniciar um diálogo com o leitor. assinatura. encontramos termos como caro sr.2%). No corpus aqui estudado onze (61. saudação (vocativo). a saber: cabeçalho/data.

10. pode usar expressões como um abraço. “Olá.escritores optaram por abrir o perfil com um cumprimento ao leitor.” (perfis 4. 14).” (perfis 2. ou beijos. 8. percebe-se a saudação “olá” como menos intimista do que “oi”. aquelas mais comuns no contexto oral. o enunciador pode expressar que não há nada mais a ser dito por ele em várias expressões tais como “bem. que é mais distante. na verdade. sendo que a metade foi realizada por homens. “Olá pessoal. “Oi.11). por exemplo. Outros dois elementos ajudam a criar este vínculo. colegas!”1 (perfil 13) e maior proximidade como em “Olá meninos e meninas” (perfil 1). 9) ou data de nascimento (perfil 5). que é mais próximo. Nenhum homem fez uso de saudação alguma. o uso destas saudações não está de acordo com as regras formais de uma carta. “Oi!” (perfil 17). . O fecho tem como função retórica sinalizar para o leitor que o enunciado está chegando ao fim e a despedida sinaliza a partida do enunciador. mantivemos o uso de maiúsculas e pontuação conforme aparecem nos exemplares em análise. como em “olá. seguidos por ponto de exclamação. “Oi. pessoal!” (perfil 12) e “Olá!” (perfil 7) se encontram na primeira linha do corpo do texto e que o primeiro exemplar tem uso de maiúscula em “pessoal”. “Olá!” (perfis 7. 18). iniciando seu texto diretamente pelo nome (perfis 3. Desta forma. Estas formas ajudam a estabelecer o tom informal do texto. Como nenhuma escolha lingüística é gratuita. Contudo. oscilando entre um maior distanciamento entre interlocutores. Para se despedir. esse estabelecimento de um vínculo com o leitor-alvo parece não ser tão explícito. Outro ponto é a escolha entre “oi” ou “olá”. nas cartas informais. além de expressar seu desejo de ter uma resposta em breve usando “escreva logo. No caso dos perfis. é isso”. “ Oi Gente!” (perfil 6). No fecho. ou “já escrevi de mais”. esta se torna mais enfática e alegre ao ser seguida por um ponto de exclamação. Vale à pena notar que “Olá Pessoal. sendo que esta ocorrência só foi observada nos perfis escritos por mulheres. São eles o fecho e a despedida. tá” ou “mande notícias”. o fecho foi realizado em apenas seis (33. Quando não há a saudação. Considerando que na amostra 1 Nas transcrições apresentadas.4 %) deles. As fórmulas usadas são.” (perfil 18). pessoal!” (perfil 12). nos remetendo a uma situação de interação oral.

pois neste o uso de tu e vós é mais comum do que no português brasileiro. Com relação a estes seis perfis. encontramos a despedida “um forte abraço a todos” que reitera a observação de que há leitores múltiplos (todos).2% das mulheres usaram o fecho nos seus perfis. assim. Além disso. não tão íntimos. estou a vossa disposição e meu MSN é xxxxx”2. mostrando novamente que ele tem interlocutores múltiplos em mente. podemos inferir que talvez se trate de um falante de português europeu. usando o pronomes “nós” (possessivo de 1ª pessoal do plural) e “juntos’. Mesmo utilizando uma forma que não é comum no discurso informal. demonstrando. Na verdade. .” (perfil 1). sendo este realizado por uma mulher. se no próprio texto o enunciador não dissesse que mora no Brasil há poucos anos. No caso de “Acredito que é isso pessoal. Observe: Acredito que é isso pessoal. é interessante notar que 75% utilizaram este recurso. estar consciente da sua inserção ativa em uma comunidade colaborativa de aprendizagem. 2 Endereço omitido propositadamente por nós para preservar a identidade do autor do perfil. o enunciador complementa o fechamento falando de suas expectativas com relação a interação no curso. Outro perfil onde este reconhecimento de leitores múltiplos ocorre é no perfil 8. endereçados pelo enunciador. pois é um pronome muito formal. Este fecho é seguido pela despedida “abraço a todos”. o movimento fecho + despedida foi encontrado na metade deles. enquanto que somente 14. O uso de vossa seria de causar estranheza. onde o fecho diz: “Bom. fica clara a sua intenção de se mostrar como alguém aberto a se corresponder com outros membros do grupo. O fechamento foi realizado de formas diversas. só o perfil 1 apresentou ambos saudação e fecho. Apesar de a sua nacionalidade não ser revelada por ele. espero que juntos possamos trocar e receber informações que servirão de alicerce para a construção e ampliação de nossos conhecimentos (perfil 1).temos quatro exemplares produzidos por membros do sexo masculino.

passa a impressão de que ele não tomou os colegas como leitores-alvo do seu texto e nem se inseriu no grupo. acredito que as informações acima ajudaram meus colegas a terem uma noção ainda que parca de mim”. ele também ocorre nos perfis 3 (“Um abraço e um bom curso a todos!”) e 14 (“Abraço a todos. que usa o fechamento como uma conclusão.. sendo esta a última linha do texto.O perfil 9 também segue o movimento fecho + despedida para leitores múltiplos. o uso de reticências sinaliza hesitação. onde não houve nem saudações nem fechos. sendo que a escolha léxicogramatical de todos foi muito similar: enviar abraços e votos de bom curso.. observamos que estes perfis foram preenchidos na seguinte ordem: . além dos três já destacados. “saudações” é um termo mais encontrado em contextos formais e pode funcionar tanto como vocativo quanto despedida e. Um bom curso para todos nós”). Com relação a esta percepção. A noção clara de interlocutor não aparece no perfil 5. O uso de “meus colegas” ao invés de “vocês”. Ele diz: “Bem. Com relação ao movimento despedida.”). Ele diz: “Bem. No cômputo geral. Isto talvez sinalize que os participantes tenham lido os perfis dos colegas antes de escreverem seus próprios. Em ambos os casos não há despedia. distancia o leitor do enunciador. criando um maior distanciamento. notamos que três despedidas foram realizadas por mulheres e duas por homens. e no perfil 16 (“E acho que é isso!”) a exclamação sinaliza que o enunciador é enfático quanto a sua colocação. No caso. buscando descobrir como os outros membros da comunidade estavam realizando essa tarefa comunicativa. basicamente é isso” e se despede com “Saudações a todos”. e no perfil 6 (“Um abraço e bom curso!”). portanto. por exemplo. No caso do perfil 18 (“Acho que é só. onde só houve a saudação. usando o fecho como arremate do enunciado.

Porém.DATA 04/04/2008 16:13:23 07/04/2008 07:11:47 08/04/2008 18:24:15 11/04/2008 13:02:18 04/05/2008 17:36:13 PERFIL perfil 8 perfil 3 perfil 14 perfil 6 perfil 1 DESPEDIDA Abraço para todos Um abraço e um bom curso a todos! Abraço a todos. Um abraço e bom curso! Um forte abraço a todos Tabela 1: despedidas Nota-se que o primeiro perfil só apresenta na despedida abraço. O terceiro segue a mesma tônica. No caso dos perfis. na maioria dos exemplares onde houve saudação. a assinatura não se faz presente. todos escritos por mulheres. encurtando a informação apresentada. escrito um mês após o início do curso. nota-se que em todos os casos. retoma a forma do primeiro perfil preenchido. O reforço dos votos é realizado nos perfis 3 e 6 por meio do ponto de exclamação. quem optou por assinar fez uso de uma saudação. sendo identificado em apenas quatro exemplares. Destaco ainda que os perfis 3 e 14 apresentam o pronome “todos”. indicando a consciência de leitores múltiplos. 5. O quarto e o quinto apresentam o movimento inverso.2 Considerações gerais sobre a análise Os exemplares analisados neste trabalho parecem indicar que não há um consenso por parte dos usuários sobre como o perfil deve ser apresentado . Um bom curso para todos nós. este foi o elemento menos utilizado. mas organiza a enunciação em dois períodos simples. O enunciador do perfil 14 vai além e se insere no grupo usando nós. já o segundo expande esta e deseja bom curso. A assinatura na carta formal é feita uma linha abaixo do fim do corpo do texto e serve para ratificar quem é o autor do texto. nas seguintes combinações: Perfil 1: saudação/ fecho/ despedida/assinatura Perfil 6: saudação/despedida/ assinatura Perfil 10: saudação/assinatura Perfil14: saudação/ despedida/assinatura Apesar de seu uso pouco expressivo. sendo que o perfil 6 ainda mantém os votos enquanto o último.

Também é interessante o fato de que. 16. 14 3. 10). talvez tenha algum tipo de relação com a natureza mais emocional da mulher. e que. Notamos em alguns exemplares a falta de ponto final nos enunciados aqui destacados (perfis1. como prática social. 5. ser uma forma discursiva recente onde as comunidades que fazem uso dele ainda estão buscando nos gêneros mais bem estabelecidos. possivelmente. 7. daí a presença das diferentes combinações dos movimentos obrigatórios no gênero carta. Número do PERFIL 1 6. no nosso entender. 4. Destacamos ainda o fato de todas as saudações observadas terem sido escritas por mulheres. 10 2. Estas evidências podem ser melhor analisadas se relacionadas . nas apresentações orais informais. apesar de os homens não fazerem uso das saudações. fechos e assinaturas nos perfis Também é observável nas amostras uma flexibilidade com relação à apresentação formal. Isto pode se dever ao fato de o perfil escrito em um AVA. despedidas. 13. conforme ilustra a tabela 2.no que concerne os elementos de abertura e fecho. o que é um dado interessante. 9. o uso de letra maiúscula de forma não usual (perfil 15) e a saudação junto ao corpo do texto (perfis 7. O resultado é um texto que pode conter estes em maior ou menor escala. 8. a maioria faz uso de fechamento. 8. especialmente no que concernem as regras de pontuação e paragrafação.12. uma forma de realizar os seus propósitos comunicativos. enquanto as mulheres não. como a carta de apresentação e. 15). 12. que foi o parâmetro para esta análise. 11. 18 Elementos do gênero carta Todos os 4 3 dos 4 2 dos 4 1 dos 4 Tabela 2: presença das aberturas. 17. o que pode indicar que neste gênero não há uma preocupação em demonstrar um domínio formal da língua materna para que o sujeito seja apreciado pela comunidade a qual deseja pertencer. 15.

que a próxima fase de análise já se encontra em andamento. e a representação do self. City Polytechnic of Hong Kong: Hong Kong. CONSIDERAÇÕES FINAIS E ENCAMINHAMENTOS FUTUROS A análise ora apresentada representa. devido ao escopo deste artigo.. 1995. segundo o modelo de Swales (1990). Suffer the little children: learning the curriculum genres of school and university. Destacamos que. Contudo.aos estudos do discurso ligados à questão da representação da voz masculina/feminina. In: Berkenkotter. and Tung.151-163. Hillsdale.. tendo por objetivo observar os movimentos retóricos em cada um dos exemplares bem como as ocorrências léxico-gramaticais recorrentes.T.: Lawrence Erlbaum. M. BHATIA.K. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN. C. 6. Hoffman. Description to explanation in English for professional communication-application of genre analysis. pois. P. p. p. identificar os propósitos comunicativos e os movimentos retóricos realizados não é o suficiente para a determinação de um gênero. T. BERKENKOTTER. as considerações acerca de os demais aspectos observados serão alvo de escritas futuras.) Perspectives on English for professional communication. V. São Paulo: Martins Fontes. .133-157.: Genre knowledge in disciplinary communication: cognition/culture/power. 2003. T. Há também de se cuidar das realizações léxico-gramaticais típicas destes movimentos. In: Boswood. 1993. a fase inicial da tentativa de caracteriza o perfil como gênero. do contexto de produção e dos seus propósitos comunicativos. apenas. C. (eds. R. Huckin. estas escolhas estão diretamente ligadas ao sucesso ou fracasso do exemplar em atender as expectativas da comunidade discursiva. Deixamos registrado. Estética da criação verbal. (1979). HUCKIN. N. dentro da visão de gênero aqui apresentada. porém. o que é inviável neste pequeno artigo.J.

pdf e acessado em 20 de junho de 2009. I. FREEDMAN.J: Lawrence Erlbaum. Rio de Janeiro: Lucerna. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. HYON. 3-13. SANTORO. WHITE. MARCUSCHI. Britto. Márcio Venício Barbosa e Maria Emília Amarante Torres Lima. 2005. JONÁSSON. The Language of Evaluation: Appraisal in English. London: Palgrave. S.1997. (ed). MARTIN. p. SANTOS. 2ª ed. London: Taylor & Francis. SWALES. B. R. Research genres: exploration and applications. thesis. TESOL Quarterly. C. S. M. N. Natal: EDUFRN. Genre Analysis: English in Academic and Research Settings. K.M. V. SWALES. M. Variações tipológicas no gênero textual carta. A. R. Rio de Janeiro: DPeA Editora. In: JOHNS. P. (orgs.. D. N. London: CAMPOS. University of Strathclyde. P. A. Locating Genre Studies: Antecedents and Prospects. R. Mahawah. Continuum. MEADWAY. In: KOCH. K.118-124. Genre and the New Rhetoric. p. A. M. Phil. A.. . L. MOTTA-ROTH. In: Karwoski. V.. Gaydeczka. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2004. J. Genre in the classroom: Multiple Perspectives. P.. 2004.is/jonj/en/skrif/mphil/thesis. Cooperação e aprendizagem online. On-line distance education . MEADWAY. P. Cambridge: CUP. Dominique.K. p.BHATIA.179-202. L A. Questões metodológicas em análise de gêneros.115-133. p. p. 30: 4.. MAINGUENEAU. 2001. J.khi. S.. A. In: FREEDMAN. 2006. 693-722. A. 1996. Rio de Janeiro: Lucerna.V. Termos-chave da análise do discurso. de (orgs... F. M.S (orgs) Gêneros textuais:reflexões e ensino. C. R. 1990. BORGES. XAVIER.) Hipertexto e gêneros digitais. 2003. M. 2ª Ed. Disponível em http://starfsfolk. M. p. J.(eds). JOHNS. Cambridge: CUP. M. J. F. Introduction: Genre in the classroom. 2005. In: MARCUSCHI.1-22. Genre in three traditions: implications for ESL.) Tópicos em lingüística de texto e análise de conversação. L. 1998. BARROS. Trad. PAREDES SILVA.a feasible choice in teacher education in Iceland? M. 1994. 2002. Worlds of written discourse: a genre-based view.

. É também pesquisadora externa do Projeto LingNet. U. Com Mestrado em Interdisciplinar de Lingüística Aplicada (UFRJ). 2009). . T. 20:4. English for Specific Purposes. CONNOR. onde também atua no curso de inglês on-line oferecido por essa instituição. 2001. A. é autora do livro Produção e Revisão Textual: Um guia para professores de português e de língua estrangeira (Ed. 313-329.UPTON. Vozes. Using computerized corpus analysis to investigate the linguistic discourse moves of a genre. Sobre a autora Doris de Almeida Soares é Doutora em Estudos da Linguagem (PUC-Rio) e Professora Assistente de Língua Inglesa no Centro de Ciências Sociais da Escola Naval. p.