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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA FLORESTAL

Hassan Camil David Murilo Bortoline Wanderley Ronie Silva Juvanhol

ESPÉCIES LATICÍFERAS

JERÔNIMO MONTEIRO

2010

Hassan Camil David

Murilo Bortoline Wanderley Ronie Silva Juvanhol

ESPÉCIES LATICÍFERAS

JERÔNIMO MONTEIRO

2010

Trabalho apresentado à disciplina de Tecnologia de Produtos Florestais, da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito para avaliação. Profª. Dr. Marina Arantes.

1. INTRODUÇÃO

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO SUMÁRIO 4 2. DESENVOLVIMENTO 5 2.1 O látex 5 2.1.1 Propriedades físicas e químicas

4

2. DESENVOLVIMENTO 5

2.1 O látex

5

2.1.1 Propriedades físicas e químicas

5

2.1.2 Extração

6

2.1.3 Utilidades e usos

7

2.1.4 Propriedades do látex comercial

9

2.2 Borracha

9

2.2.1

Borracha industrial

10

2.3 Estudo de caso

12

2.3.1 Uma estranha na paisagem

12

2.3.2 Mil e uma utilidades

13

2.3.3 Interação inseto-planta

13

3. CONCLUSÃO

14

4. REFERÊNCIAS

15

1. INTRODUÇÃO

O látex está presente em essências florestais, envolvendo mais de 40

famílias, cerca de 900 gêneros e mais de 12.000 espécies, sendo que destas, aproximadamente 1.000 contêm borracha. A seringueira (Hevea brasiliensis), nativa da Amazônia e também principal espécie produtora de borracha, é cultivada, hoje em dia, majoritariamente nas regiões tropicais da Ásia, onde totaliza 90% da produção mundial (ADIWILAGA et al., 1996).

A função do látex ainda não está totalmente esclarecida, mas tem-se

sugerido que o mesmo tenha as funções de excreção e secreção enquanto fornece à planta meios para defesa contra herbívoros, provocada principalmente pela presença de compostos repelentes no látex (ESAÚ, 1976; FAHN, 1979), fato que levou às plantas laticíferas um maior sucesso em relação às não laticíferas nos diversos ambientes existentes (FAHN 1979, 1990, FARRELL et al. 1991).

As espécies laticíferas ou produtoras de látex são largamente utilizadas no mundo para diversas finalidades. Elas têm suma importância para vários setores de produção, pois seu mercado consumidor varia desde a produção industrial, como a borracha até a produção de produtos alimentícios, como azeites. Portanto, é evidente que o cultivo de árvores produtoras de látex é interessante, uma vez que a demanda dessa matéria-prima é alta em todo mundo, em especial nos países Malásia, Indonésia, Tailândia e Sri Lanka, que têm grandes produções de borracha, material exigente em concentração de látex.

O cenário brasileiro, em relação à produção de látex, não é satisfatório,

quando se trata do consumo interno do país. Apesar de o Brasil ser o berço do gênero Hevea, o país importa bastante a borracha natural, oriunda principalmente da seringueira. O cultivo desta espécie no Brasil ainda é pouco

realizado, o que implica consequentemente à importação de seu produto, que tem um alto valor agregado e participa consideravelmente na economia do país.

O látex é extraído através da injúria dos troncos das árvores, assim, feito

isso, ocorrerá a exsudação e escorrimento do material. No ato de se causar a

injúria no tronco, o operador deve estar atento as certas técnicas, para a otimização da produção.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 O látex

O látex é um líquido viscoso, de cor amarelo-esbranquiçada, produzido

pela natureza, em estruturas especiais, denominadas de vasos laticíferos, de árvores catalogadas em famílias classificadas como euforbiáceas, moráceas, apocináceas, sapotáceas, entre outras. Quando seccionados, os laticíferos deixam fluir o látex, que coagula e veda o ferimento feito na planta. A coagulação resulta da ação de sistemas enzimáticos (SAMONEK, F. 2006).

2.1.1 Propriedades químicas e físicas.

Estruturalmente, o látex é uma suspensão que contém partículas de hidrocarbonetos do grupo dos terpenos numa matriz aquosa. Trata-se de um colóide, isto é, uma fase sólida (soluto) dispersa em uma fase líquida (solvente). A fase sólida (de 30 a 50%) é o hidrocarboneto borracha (C5H8), chamado isopreno. A fase líquida (de 50 a 70%) é o soro, constituído em sua maior parte por água, ácidos orgânicos e enzimas. O látex tem outras substâncias, como açúcares, alcalóides, protídeos, ceras, amido, cristais, taninos e resinas (SAMONEK, F. 2006).

As principais propriedades físicas do látex de campo são: baixa densidade, 0,98g/cm3; viscosidade (medida da fluidez), em função do teor de hidrocarboneto borracha (concentração); pH (medida de alcalinidade ou acidez), normalmente por volta de 10 a 11, na hora da coleta, podendo cair após breve período, devido à ação de microrganismos e enzimas, provocando a sua biodeterioração e alterando as propriedades físicas, químicas e mecânicas. O látex é um dos produtos altamente suscetíveis ao ataque

microbiano, provocando mudanças de aspecto (cor, viscosidade), coagulação espontânea e cheiro acentuado (SAMONEK, F. 2006).

2.1.2 Extração

Segundo Emperaire e Almeida (2002), o látex é coletado através de várias incisões na árvore, colocando junto ao corte tigelas de lata ou plástico para armazená-lo. Esta etapa, nos seringais nativos, é realizada em três fases:

(a) Corte: O seringueiro sai de sua casa, ainda de madrugada, e, da esquerda

para a direita, com uma inclinação de 20º a 30º e na altura de 1.20m a 1.50m., em dias sem chuvas, corta de 80 a 120 árvores/dia e embute a tigela na parte

inferior do corte.

(b) Sangria: Durante três a quatro horas, após o corte, no ferimento feito na

casca, o látex fica saindo lentamente e se acumula nas tigelas.

(c) Coleta: Concluído o corte, na primeira metade da manhã, ele inicia a coleta.

Com um balde de zinco com capacidade para dois litros, ele recolhe o látex das tigelas e o armazena em uma bolsa emborrachada, o saco defumado. Uma

colheita diária oscila entre 10 e 20 litros diários.

Ao concluir a coleta, o seringueiro precisa imediatamente dar uma destinação ao látex colhido de acordo com o tipo de borracha que quer produzir, pois este é muito susceptível ao ataque de microrganismos.

colhido de acordo com o tipo de borracha que quer produzir, pois este é muito susceptível

2.1.3 Utilidades e usos

O látex é matéria-prima para produção de variados produtos. Este é usado na fabricação de luvas, bonés de nadar, preservativos, cateteres e balões. São usados também em revestimentos (por exemplo, a pintura de látex) e colas, porque solidificar por coalescência das partículas de polímero como a água, evapora, e, portanto, podem formar filmes sem liberar solventes orgânicos potencialmente tóxicos no ambiente. Os fabricantes de produtos de polímero de látex devem manter no topo de contaminação microbiológica em matérias-primas, produtos intermediários e produtos finais. Outros usos incluem os aditivos de cimento.

Cada família de árvores laticíferas tem seu valor útil em especial. A família Sapotaceae, por exemplo, produz látex de qualidade voltada à produção de balata, goma de mascar e gutta-percha.

1) Balata

- Parte utilizada: Sem citação.

- Espécies: Manilkara spp., em especial M. bidentata (A. DC.) A. Chev.; Mimusops balata (Aubl.) C.F. Gaertn.

- Usos: artesanato por comunidades das Guianas, bolas de golfe.

- Região de produção: América Tropical.

2) Goma de mascar/Chiclete

Foi utilizada para a criação do primeiro chiclete e ainda hoje é usado em países como o México para a indústria alimentícia, apesar de ter sido substituído por matérias-primas sintéticas.

- Parte utilizada: tronco.

- Espécies: Manilkara spp. (=Achras), em especial Manilkara zapota (L.) P.

Royen.

- Usos: chiclete, goma de mascar.

- Região de produção: América do Sul.

3) Gutta-Percha

A guta-percha é uma substância de coloração cinzenta semelhante à borracha, mas que não apresenta a propriedade elástica desta. É obtida a partir do látex do Palaquium --- genêro de árvores tropicais (Sapotaceae) relacionadas ao sapotizeiro --, de cuja seiva se extrai a resina da goma de mascar (chicle). A guta-percha foi largamente empregada na obturação e moldagem dentária, em isolamentos de condutores de eletricidade e, principalmente, na confecção de bolas de golfe. Seu emprego industrial declinou com o desenvolvimento dos plásticos e resinas sintéticas

- Partes utilizadas: folhas e tronco.

- Espécies: Palaquium spp., em especial P. gutta Burk.

- Usos: revestimento de cabos telegráficos, produtos odontológicos.

- Região de produção: Malásia.

Já na família Moraceae, existe a espécie figueira, do sub-gênero Pharmacosycea, que produz látex largamente utilizado na medicina popular para o combate de verminose. O látex do Ficus gomelleira, segundo Peckolt, tem propriedades anti-helmínticas.

Na família Euphorbiaceae, mais especificamente no gênero Hevea, há a espécie Hevea brasiliensis, que tem um potencial enorme de produção de látex, que por sua vez é a principal fonte de matéria-prima para produção de borracha no mundo. Outro representante desta família é a espécie Synadenium umbellatum, conhecida popularmente como "cola-nota", "avelós", "milagrosa", "cancerola", sendo o látex empiricamente recomendado para o tratamento do câncer. Finalmente, na família Apocinaceae, a matéria-prima látex é utilizada para produção de borracha e goma de mascar, além do uso medicinal, já que em algumas espécies ocorre a presença de metabólitos secundários no látex. Alguns exemplos de espécies laticíferas desta família podem ser citados, como: Aspidosperma australe Müll. Arg e Blepharodon bicuspidatum Fourn.

2.1.4 Propriedades do látex comercial

A estabilidade coloidal do látex é determinada pelo balanço que existe

entre forças atrativas e repulsivas entre dois glóbulos de borracha, isto é, é determinada pela tendência à coacervação. As forças atrativas são forças de Van der Waals do tipo London. As forças de London são forças fracas que se originam da diferença de densidade eletrônica entre duas partículas. As forças repulsivas que conferem estabilidade coloidal ao látex podem ser de quatro tipos: eletrostática, estérica, solvatação e estabilização por exclusão. Na estabilização eletrostática, cargas elétricas de mesmo sinal presentes na superfície dos glóbulos de borracha, e cargas elétricas opostas no meio de dispersão são responsáveis pela estabilidade do látex. Na estabilização estérica a presença de substâncias macromoleculares adsorvidas ou combinadas na superfície dos glóbulos evitam a coacervação. Na estabilização por solvatação, moléculas de água ligadas á superfície dos glóbulos de borracha criam uma barreira mecânica impedindo o contato entre os glóbulos de borracha. Na estabilização por exclusão a barreira mecânica entre os glóbulos de borracha é criada pela presença de substâncias macromoleculares no meio de dispersão. Nem sempre é possível determinar qual dessas forças é predominante, embora haja uma tendência para que a estabilidade eletrostática seja a mais atuante.

A manutenção da estabilidade coloidal é muito importante para a indústria

de látex. A redução da estabilidade coloidal diminui a estabilidade mecânica do látex (estabilidade a agitação), aumenta a viscosidade e provoca a coacervação do látex. A estabilidade coloidal também é afetada por outros agentes físicos como, por exemplo, a temperatura. Os ácidos modificam as

cargas da camada superficial dos glóbulos provocando a coacervação.

2.2 Borracha

O látex é uma matéria-prima utilizada para fim de inúmeros produtos. Entretanto, a borracha, entre todos os produtos, é aquele que mais consome látex. Isto acontece porque o consumo da borracha é alto, devido a ampla

gama de aplicações industriais, tais como pneumáticos, que consomem quase 75% da produção mundial (LOYEN, 1998), materiais cirúrgicos, adesivos e calçados.

As principais características que fazem da borracha uma matéria-prima indispensável à fabricação dos diversos itens atualmente conhecidos, são a sua elasticidade, resistência à abrasão, flexibilidade, impermeabilidade, resistência à corrosão provocada pela grande maioria dos produtos químicos e facilidade de adesão a tecidos e ao aço. Essas propriedades possibilitam a sua rápida recuperação quando submetida a grandes deformações. A borracha pode ser reforçada com outros materiais, como, rayon, nailon, poliéster, resultando em materiais de ótima resistência e flexibilidade. Ao ser combinada com metais, gera produtos que aliam a resistência e elasticidade da borracha à rigidez dos metais.

As plantações de seringueiras apresentam uma densidade de aproximadamente 450 árvores por hectare e começam a produzir látex após 7 a 8 anos do plantio. O volume de látex recolhido vária de uma região para outra, em função do tipo de solo, que é normalmente argiloso, naturalmente drenado, e convenientemente adubado, da qualidade da semente usada (em plantações), da técnica de replantação das mudas e da população por área superficial. O conjunto de plantas resultantes da propagação vegetativa de uma árvore constitui um clone. Um clone de bom rendimento produz em média cerca de 4 Kg de borracha seca/árvore/ano, ou seja, em média 1800 Kg de borracha seca/Ha ano (Ministério da Indústria e do Comércio). 2.2.1 Borracha industrial

Após o látex ser extraído da árvore são adicionadas substâncias preservantes. Posteriormente o látex é concentrado ou coagulado dependendo da utilização industrial, que pode ser na forma de látex ou na forma de borracha sólida.

Quando o látex de borracha natural escorre pelos sulcos feitos no córtex da árvore, sofre à ação de bactérias, que encontram, no soro, elementos propícios ao seu desenvolvimento como proteínas, açúcares, sais etc. Essas

bactérias provocam a coacervação do látex. Na ausência de preservantes ocorre o processo de putrefação do látex, liberando um mal cheiro. Para prevenir a coagulação e a putrefação indesejáveis são adicionados ao látex os seguintes tipos de agentes preservantes: Álcalis (amônia, soda, potassa) e bactericida (pentaclorofenato de sódio). A amônia é o melhor preservante conhecido para o látex de borracha natural devido a dois fatores: 1) quase sem exceção os látices de aplicação industrial são aniônicos, e portanto necessitam de um meio alcalino para manter a densidade de cargas negativas sobre a superfície dos glóbulos de borracha, que confere estabilidade mecânica ao látex; 2) quando a quantidade de amônia excede 0,35% em peso no látex, torna-se um bactericida eficiente. 0,2% em peso de amônia é suficiente para preservar o látex por alguns dias, e aproximadamente 0,7% em peso de amônia é necessário quando o tempo de preservação é da ordem de meses. Entretanto, é usual se preservar o látex com teores de amônia superiores a 1,6 % em peso, sendo denominado látex com alto teor de amônia (HA), e quando o teor de amônia é inferior a 0,8% em peso, é denominado de látex com baixo teor de amônia (LA).

Para aplicações industriais, bem como por razões econômicas de transporte, é necessário concentrar o látex natural, originalmente com teor de borracha sólida da ordem de 33%, para valores acima de 60%. Embora a concentração possa ser realizada pelos processos de centrifugação, evaporação e cremagem, o primeiro método é o mais utilizado.

A centrifugação é o mais importante dos métodos disponíveis para a concentração do látex de borracha natural, abrangendo praticamente 88% da produção mundial. A centrifugação pode ser considerada como um processo acelerado de cremagem, com a utilização de um campo centrífugo, ao invés do campo gravitacional, obtido através de uma centrífuga de alta rotação. Entre as centrífugas disponíveis a centrífuga laval é o tipo mais comumente usado.

A evaporação consiste da adição de sabões e álcalis ao látex para evitar

a

aglomeração dos glóbulos de borracha, aquecendo em seguida o látex a 90º

C

para evaporar substancialmente a fase aquosa.

A cremagem consiste na separação gravitacional dos glóbulos de borracha, promovida por agentes de cremagem como o alginato de sódio e metil-celulose. O glóbulo de borracha suspenso no soro está sujeito a ação de duas forças verticais opostas, uma de empuxo e a outra representada pelo próprio peso do glóbulo. O agente de cremagem provoca um aumento efetivo do tamanho da partícula, favorecendo o seu empuxo. O processo de coagulação é utilizado para obtenção de placas de borracha, geralmente em regiões onde não existem usinas para beneficiamento do látex. Este processo consiste em coagular o látex contido em uma bandeja com ácido acético. Após

a coagulação, a placa é prensada e defumada. A defumação é efetuada para secar parcialmente as placas de borracha e ao mesmo tempo protegê-las contra fungos e intempéries.

2.3

Estudo de caso

2.3.1

Uma estranha na paisagem

Popularmente conhecida no Brasil como flor-de-seda, algodão-de-seda, leiteira ou mercúrio, a espécie Calotropis procera é muito apreciada como planta ornamental. Originária da África tropical, da Índia e do Oriente Médio, hoje se distribui amplamente pelos domínios do cerrado e da caatinga bra- sileira. No início do século 20, foi introduzida como planta ornamental em Recife, de onde se disseminou para o ambiente natural.

A flor-de-seda pertence à família das apocináceas, que inclui espécies produtoras de látex, em sua maioria tóxicas, entre elas a erva-de-rato (Ascle- pias curassavica), presente em várias regiões do Brasil. Tóxica para o gado e para o homem, C. procera invadiu grandes áreas baixas de pastagens. Esse arbusto de tronco rugoso e casca grossa tem em média de 2 m a 3 m de altura

e se assemelha às árvores típicas do cerrado e da caatinga.

2.3.2 Mil e uma utilidades

Estudos etnobotânicos mostram uma antiga relação entre Calotropis procera e culturas da África e Ásia. Na Etiópia, os Zay usam ramos da planta

como supositório para tratar hemorróidas; em Qassim, Arábia Saudita, curandeiros utilizam camadas de folhas para curar feridas de vacas e o látex para tratar camelos atacados por escorpiões ou cobras venenosas. O látex é usado também para coalhar leite na fabricação de queijo na Nigéria. No Paquistão, veterinários práticos produzem um vermífugo para ovelhas a partir de uma mistura de suas flores. Na medicina tradicional indiana, a planta é usada para combater doenças como úlcera e hanseníase.

Na Índia, estudo feito em 2000, com base no uso popular de C. procera para combater dores de cabeça, mostrou que princípios ativos da espécie podem ter eficácia equivalente à da aspirina. Graças à potente ação antioxidante e anti-inflamatória do látex, já se cogitou o seu uso no combate ao câncer. Esse potencial medicinal suscitou o interesse de diferentes pesquisadores sobre a espécie, propiciando descobertas que vão além da medicina, como o uso do látex em processos de purificação enzimática.

Mas o teor cáustico do látex pode desencadear processos inflamatórios em mucosas; em contato com os olhos, pode lesar a córnea. Em algumas regiões ao sul da Índia, o látex é usado também como abortivo. Seu emprego na medicina popular ou terapêutica é responsável pelo grande valor que diversos povos atribuem a C. procera. Porém, ao invadir certas áreas, muitas vezes a espécie se torna inoportuna.

2.3.3 Interação inseto-planta

Os vegetais possuem em seus órgãos aéreos, principalmente nas folhas, uma camada gordurosa conhecida como cera epicuticular, cuja principal função é reduzir a perda de água durante a transpiração. Por ser capaz de refletir a luz solar, essa substância tem importante papel nas interações inseto-planta, podendo seus constituintes químicos atrair insetos herbívoros para as espécies que os contêm.

Em todo o mundo, espécies de invertebrados se associam a plantas da família das apocináceas. A borboleta-monarca (Danaus plexippus), em especial, tem uma relação curiosa com C. procera. Presente em toda a

América, essa borboleta se alimenta de folhas da planta durante a fase larval. Na década de 1960, a equipe do zoólogo norte-americano Lincoln P. Brower investigou o contato entre pássaros, borboletas e plantas venenosas, abrindo caminho para estudos sobre a relação da borboleta-monarca com plantas produtoras de látex. Essa substância viscosa possui diversos componentes (água, açúcares, gomas, alcalóides, óleos essenciais etc.) e funciona geralmente como proteção física e química contra o ataque de insetos, fungos e microrganismos.

Descobriu-se então que os cardenolídeos (produto extremamente tóxico para animais e seres humanos presente no látex de várias famílias de plantas) tornam a borboleta adulta venenosa e com sabor ruim, afugentando até os mais corajosos predadores. Como as borboletas adultas não se alimentam das folhas de C. procera, concluiu-se que as larvas eram capazes de absorver esses componentes tóxicos, que se incorporam aos tecidos dos adultos.

Mas essa relação não é perfeita, pois o látex é tóxico também para as larvas. A taxa de sobrevivência larval é tanto menor quanto maiores os níveis de cardenolídeos (apenas 10% chegam à fase adulta). Então, o custo da proteção contra predadores na fase adulta é o de uma elevada mortalidade larval. Para contornar o problema, as larvas desenvolveram o hábito de comer a folha em círculos, para fugir parcialmente do látex que flui das áreas mascadas.

3. CONCLUSÃO

As espécies laticíferas ou produtoras de látex são largamente utilizadas no mundo para diversas finalidades. Elas têm suma importância para vários setores de produção, pois seu mercado consumidor varia desde a produção industrial, como a borracha até a produção de produtos artesanais, como balata; e produtos alimentícios, como goma de mascar e azeite.

Entre as muitas famílias laticíferas, destacam-se como grandes produtoras de látex: Euphorbiaceae, Moraceae, Apocynaceae e Sapotaceae.

Algumas são importantes para a indústria farmacêutica, no tratamento de câncer como a espécie Synadenium umbellatum e, no entanto, algumas apresentam toxicidade ao homem e vegetais, como a flor-de-seda, havendo a necessidade de estudos para o conhecimento do comportamento na saúde humana.

4. REFERÊNCIAS

1. ADIWILAGA, K.; Kush, A. Cloning and characterization of cdna encoding farnesly diphosphate synthase from rubber tree Hevea brasiliensis. Plant. Mol. Biol., 30, 935

(1996).

2. BRASIL. Ministerio da indústria e do comercio. Superintendencia da borracha. Curso básico em tecnologia de elastômeros. s. 1., s.d. Vol. Vi, p. 9-24.

3. BRASIL. SEMAM. IBAMA. Diretoria de Recursos Naturais Renováveis. Placa Bruta Defumada de Borracha Natural. PBD Manual Prático, por Edberto dos Santos e outros. Brasília. 1991, 12 p.

4. BUSSCALL, R.; CORNER, T. fy. STAGEMAN, J. F. Polymer Coloids, Elsevier Applied Science Publishers LTD. 1985, p. 141 - 208.

5. CALVI, L. C. Associação Brasileira de Tecnologia da Borracha, (ABTB). Princípios básicos sobre a tecnologia. Boletim Técnico nº 45, 1990, p. 43.

6. EMPERAIRE, L; ALMEIDA M. B. Seringueiros e Seringas. In: CUNHA, C; ALMEIDA, M.B. (orgs.). Enciclopédia da Floresta. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

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8. FAHN, A. 1990. Plant anatomy. Pergamon Press, Oxford.

9. FARRELL, B.D., DUSSOURD, D.E. & MITTER, C. Escalation of plant defense: do latex/resin canals spur plant diversification? American Naturalist, 1991, 138:881-900.

10. LOYEN,

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Le

futur

du

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naturel

et

l’Inro.

Plantations,

Recherche,

Développement, Montpellier, v. 5, n. 4, p. 261-268, 1998.

11. PECKOLT, G. Revista da Flora Medicinal. 1992, 333-341 p.

12. SAMONEK, F. A borracha vegetal extrativa na amazônia: Um estudo de caso dos novos encauchados de vegetais no Estado do Acre. Dissertação de mestrado. Programa de pós-graduação em ecologia e manejo de recursos naturais, 2006, 56-57p.

13. ULHÔA, N.; FERNANDES, G.W.; ALEMIDA-CORTES, J. Ecologia Planta com múltiplas aplicações em sua área de origem é séria ameaça a regiões invadidas: Uma estranha na paisagem. Departamento de Biologia da UFMG e Departamento de Botânica da UFPE. 2007, v. 41, 241p.