Você está na página 1de 15
Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

UMA QUARTA FASE DA LINGUÍSTICA TEXTUAL?

Lícia Maria Bahia Heine (UFBA)

A Linguística Textual (LT), uma das vertentes da ciência da linguagem, mais especificamente do paradigma funcional da linguagem, surgiu, na Alemanha, nos anos sessenta do século xx, momento em que o paradigma formal da linguagem, vigente naquela época, deixava de responder adequadamente a vários problemas que se foram instaurando na linguística por uma plêiade de pesquisadores de diferentes linhas de pesquisa. Dentre esses, destacam-se os questionamentos dos neófitos da LT que discutiam o pendor da linguística formal ao ater-se, dentre outras, ao estudo de morfemas {menin - o}, {am – a – va - mos}, fonemas [m, e, n, i, n, a] e frases (centradas no contexto linguístico stricto sensu), arguindo que a linguística devia voltar- se para o estudo do texto. Uma outra discussão veio da Pragmática e Análise do Discurso, que questionavam, sobretudo, por que Saussure se debruçou às estruturas lingüísticas, excluindo, destarte, o indivíduo dos estudos linguísticos. E a essas questões, a linguística formal não podia responder, na medida em que o seu foco de análise se atém ao sistema linguístico, ou seja, à forma, no sentido de “a pesquisa estar associada a uma análise exclusivamente interna ao sistema lingüístico” (OLIVEIRA, 2004, p. 249). A LT, diante desse contexto, começou a desenvolver-se com o objetivo de transcender “às limitações teórico-metodológicas da lingüística formal e procura penetrar no mecanismo de produção, construção, funcionamento e recepção de textos orais ou escritos” (MARCUSCHI, 1983, p. 12). Na tradição, a LT passou por três fases:

a análise transfrástica, a construção de gramáticas de textos e a construção das teorias textuais. Contudo, as pesquisas do final do séc. XX e princípios do séc. XXI vêm apontando um quarto momento, como se verá mais adiante. No primeiro momento, a análise transfrástica, “a preocupação inicial da LT era apenas de descrever os fenômenos sintático-semânticos que ocorriam entre os

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

enunciados ou seqüências de enunciados” (KOCH, 2003, p. 3). O excerto textual a seguir explica algumas motivações iniciais que determinaram a sua instauração:

Toda a motivação inicial da LT foi a certeza de que as teorias lingüísticas tradicionais não davam conta de alguns fenômenos lingüísticos que apareciam no texto. E estes fenômenos eram resumidos numa expressão quase mágica: relações interfrásticas. Constatava-se que certas propriedades lingüísticas de uma frase só eram explicáveis na sua relação com uma outra frase, o que exigia uma teoria que fosse além da lingüística de frase. Só assim se explicaria a anáfora, as propriedades textuais dos artigos e também o problema das elipses e as repetições, entre outros. (MARCUSCHI, 2003, p. 07)

Assim pautada, a LT concebia o texto, o seu objeto de estudo, como “uma seqüência coerente de enunciados” (ISENBERG, 1971 apud KOCH, 2004), com foco nas relações interfrásticas, estabelecidas por diferentes elos coesivos textuais: anáforas, elipses, repetições, processados por tessituras correferenciais 1 , isto é, efetivadas na imanência do sistema linguístico. Essa fase dos estudos lingüísticos textuais pode também ser explicitada através da seguinte asserção:

o modelo aqui designado transfrástico não tem um patrono e sim uma convicção básica: a análise da língua não pára na frase. Admite o texto como unidade básica e faz dele seu objeto. Tem do texto uma visão bastante estruturalista, embora dentro de uma variada gama de perspectivas teóricas. (MARCUSCHI, 2003, p. 3)

A partir desse primado ainda estruturalista, a concepção de língua é vista como um código, ou seja, “um conjunto de signos que se combinam segundo regras e que é capaz de transmitir uma mensagem, informações de um emissor a um receptor” (TRAVAGLIA, 2001, p. 21-23). Daí se subordina o seu conceito de texto — entidade cristalizada, interfrástica cotextual, realizada na superfície da materialidade linguística.

1 A correferência é um tipo de coesão textual que se caracteriza por relacionar duas expressões que possuem exatamente o mesmo referente. O seu processamento pode envolver um sintagma nominal pleno e um SN pronominalizado. Tendo como característica a reativação do referente idêntico ao do seu sintagma nominal antecedente, acredita-se ser possível que esta operação também ocorra entre sintagmas nominais, desde que o seu princípio de funcionamento seja respeitado, isto é, desde que a expressão recupere o mesmo referente do seu antecedente.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

O mesmo ocorre com as questões nucleares de coesão e coerência, que também são

explicadas no âmbito desse escopo teórico. Trata-se de um enfoque lingüístico com

nuances formais acentuadas, excluindo, consequentemente, a consideração de sujeito. Nas palavras de Koch (2003), tem-se aí um sujeito assujeitado pelo sistema. Mas o que

se quer dizer com a expressão assujeitado pelo sistema? Pode-se explicar a expressão

sujeito assujeitado pelo sistema, informando inicialmente que se trata de um sujeito submisso ao sistema lingüístico, isto é, à estrutura linguística. Por outras palavras, o foco de análise recai exclusivamente no texto enquanto código, apenas, excluindo, destarte, o indivíduo e todo conhecimento a ele inerente. No caso de uma interpretação textual, por exemplo, o sentido é visto como algo que provém da estrutura, estabelecido sobremodo pelas relações interfrásticas cotextuais. No segundo momento, a construção de gramáticas de texto, os textualistas tinham como objetivo precípuo elaborar regras gramaticais que dessem conta de todo e qualquer texto. Na verdade, os seus pesquisadores procuraram construir gramáticas textuais através de categorias, centradas em regras de combinação voltadas à construção da entidade texto. Assemelham-se, dessa forma, “aos gerativistas que propuseram a elaboração de frases a partir das chamadas “regras de reescrita que permitem gerar as bases do texto” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 259-260). Esse pendor formal pode também ser visto no seguinte texto:

a gramática de texto foi um projeto para a reconstrução do “texto” como “um sistema uniforme, estável e abstrato” ao estender os sistemas já construídos pela “lingüística predominante”. Como acontecia na tendência comprometida com a sentença, o texto seria tratado não só como um padrão formal – diga-se, como uma unidade teórica chamada de “textema” em analogia com as outras unidades em – “em” – e como um campo organizacional auto-suficiente para usos específicos. (BEAUGRANDE, 1997, p. 75)

Como se vê, Beaugrande (1997) deixa evidente a interface entre as gramáticas de texto e o formalismo linguístico, depreendida a partir da sua própria concepção de projeto de texto, caracterizada por ter um sistema uniforme, estável e abstrato, dados

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

nucleares do formalismo lingüístico, mas ausentes no funcionalismo que, diferentemente daquele, defende a tese de que o sistema é maleável, não uniforme, tendo um grau de iconicidade 2 , que conduz a considerar a língua como um fenômeno heterogêneo, indeterminado e variável (MARCUSCHI, 1994); ou, nas palavras de Votre (1996, p. 52), um objeto maleável, probabilístico e não-determinístico, “uma vez que uma forma lingüística materializa de fato o seu significado na instância do discurso”. Dentre os seus principais pesquisadores 3 , mencionam-se: Van Dijk (1972), Dressler. (1973.), Weinrich (1989), Isenberg (1970), Harweg (1968). Esses linguistas transitaram nos dois primeiros momentos da Linguística Textual, contudo, Van Dijk apresenta um liame acentuado com a fase em análise. O referido invólucro formal fez com que os conceitos nucleares da LT, à semelhança da fase análise transfrástica, continuassem limitados ao texto enquanto produto lingüístico, que, de acordo com Fávero e Koch (2008, p. 14) deriva da competência textual, entendida como:

Todo falante de uma língua tem a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado incoerente de enunciados, e esta competência é, também, especificamente linguística — em sentido amplo. Qualquer falante é capaz de parafrasear um texto, de resumi- lo, de perceber se está completo ou incompleto, de atribuir-lhe um título ou ainda, de produzir um texto a partir de um título dado.

(FÁVERO; KOCH, 2008, p. 14)

2 A expressão iconicidade linguística vem do conceito de signo icônico (do semioticista Peirce), expressão proveniente do termo ícone, do grego (éikon = imagem); signos icônicos são, pois, imagísticos, caracterizados por estabelecerem comunicação através da semelhança que mantêm com o seu referente, ou seja, signos cujas propriedades se assemelham ao objeto a que se referem. Por exemplo, uma fotografia é um signo icônico porque há nela traços que se assemelham ao seu referente, isto é, apresenta características homólogas às do seu referente. A linguística funcional considera a iconicidade linguística um dos seus princípios, tendo diversas possibilidades de aplicação. Neste trabalho, a iconicidade refere-se ao fato de a estrutura do enunciado depender, em sua grande maioria, dos propósitos comunicativos do seu interlocutor, gerados na instância discursiva, o que configura uma semelhança entre a estrutura do enunciado propriamente dita e a interação comunicativa efetiva. Logo, não endossa a tese da linguística formal, que considera o referido sistema como uniforme, estável e abstrato, na medida em que resulta sobremaneira do uso lingüístico, visto como heterogêneo, indeterminado e maleável. 3 Autores extraídos de Koch e Fávero (2008). Van Dijk, hodiernamente, realiza pesquisas na linha da Análise Crítica do Discurso.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Para essas lingüistas, o processamento textual e a sua compreensão derivam da competência textual (CT), ressaltando que ela se distingue da competência lingüística (CL) — conhecimento que o falante-ouvinte 4 possui de sua língua” (CHOMSKY, 1965, p. 84), haja vista encaixar-se num aporte teórico funcional, diferentemente do presente no gerativismo, alicerçado em bases inatistas. Contudo, é comum asseverar que ambas as competências - a textual e a lingüística, possuem aspectos a elas comuns, pelo fato de postularem a tese de que o falante deva ter habilidades que lhe permitam reconhecer,

respectivamente, a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado incoerente

que o falante tem de, a partir de um número finito de

regras, produzir um número infinito de frases. É preciso frisar que, embora a noção CT represente um avanço nos estudos da Linguística Textual, o texto continuou a ser entendido como um produto, tal como se verifica no texto a seguir:

de enunciados e a

Podemos afirmar que, em uma primeira fase dos estudos sobre textos, fase esta que engloba os trabalhos dos períodos da “análise transfrástica” e da “elaboração de gramáticas textuais”, acreditava-se que as propriedades definidoras de um texto estariam expressas principalmente na forma de organização do material lingüístico. (BENTES, 2001, p. 252-253)

É comum a informação de que as fases da Linguística Textual não são cronológicas, ou seja, pressupõe-se que elas ocorreram de forma simultânea ao longo do tempo. Entretanto, essa assertiva merece reflexão porque se observa uma cronologia sobretudo entre as suas primeiras fases e as duas últimas (já se considerando a 4ª fase). A ausência de cronologia talvez seja pertinente entre os dois primeiros momentos, considerando que há lingüistas que, quando vão focalizar os primeiros passos da LT, o fazem apenas a partir da fase gramáticas de texto, não reconhecendo o momento transfrástico. Sobre isso, ilustra-se o texto em que Beaugrande faz uma reflexão sobre o campo de estudos da Linguística Textual:

4 É necessário frisar que Chomsky delimitou como objeto de estudo a competência lingüística de um falante-ouvinte ideal, membro de uma comunidade lingüística completamente homogênea e possuidor de um conhecimento excelente de língua (MONTEIRO, 2000, p. 14-15).

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Quando este campo de estudos emergiu sob esta denominação, o primeiro estágio caracterizou-se como uma gramática de texto, estendendo-se dos meados dos anos 60 até os meados da década de 70. Seguindo a corrente dominante no continente europeu, esta noção de “gramática” era grandemente formalista e intimamente ligada à sintaxe: tanto era um “repertório de distribuições de morfemas e estruturas de frases numa abordagem descritiva”, como era um “sistema de regras para propiciar ‘descrições estruturais’ aos textos, numa abordagem gerativista”. Contava-se com a lingüística textual para justificar-se a si própria através da descoberta das restrições formais, p. ex., as conjunções e os pronomes que se aplicam ‘além das fronteiras da sentença’, em formas diferentes do que o usado dentro da sentença isolada. (BEAUGRANDE, 1997, p. 75)

Das gramáticas de texto, segue-se à fase Construção das teorias textuais, o seu terceiro momento, em que o contexto pragmático ganha relevância para a compreensão do texto. Quando se fala em pragmática, faz-se mister informar, ainda que de forma lacônica, que ela surge a partir de inquirições filosóficas, instauradas na transição entre os séculos XIX e XX, momento em que diferentes ramos da filosofia e correntes do pensamento debruçaram-se a questões da linguagem, estabelecendo, pois, investigações filosóficas que se distanciavam da ortodoxa filosofia clássica, voltada para reflexões abstratas, como a explicação da essência do mundo, da realidade, do ser, do conhecimento, dentre outros (MARCONDES, 2004). Esse movimento é comumente denominado de filosofia Analítica que, no século XX, floresceu por meio de duas vertentes, dentre as quais a Escola de Oxford, que se instaurou com a tese de que era necessário examinar a linguagem a partir do uso, ou seja, estudar a linguagem ordinária, a linguagem comum do dia-a-dia, a linguagem em seu processo de comunicação. Caracteriza-se sobremodo por contemplar a seguinte tese:

o significado de uma expressão (palavra, frase) é o seu uso ou aplicação na linguagem. “As palavras”, escreveu Wittgenstein, “só adquirem significado no fluxo da vida; o signo, considerado separadamente de suas aplicações, parece morto, sendo no uso que ele ganha seu sopro vital”. As nossas expressões adquirem diferentes funções, de acordo com o contexto no qual elas são empregadas, modificando-se, assim, o que se quer dizer com elas. (WITTGENSTEIN apud COSTA, 2007, p. 38)

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Fica claro, a partir do texto ilustrado, que a pragmática “é a ciência do uso da linguagem” (FIORIN, 2001, p. 166), que tem como foco, não mais o sentido

proveniente do código linguístico, apenas, mas, o sentido gerado discursivamente, no seio do uso linguístico. Ela é, pois é fruto dessas inquirições filosóficas 5 , tendo os filósofos Sanders Peirce (1839-1914), Ludwig J. Wittgenstein (1889-1951), John L.Austin (1911-1969), Paul Grice (1913-1988), como os seus principais mentores. A pragmática foi incorporada aos estudos da Linguística Textual, no seu terceiro momento, trazendo em seu bojo “a concepção de que a linguagem, enquanto uso e ação,

é uma atividade construída pelos interlocutores. A linguagem não é assim descrição do mundo, mas uma ação. – todo dizer é um fazer” (AUSTIN, 1990 apud PINTO, 2006, p.

26), determinando de forma incisiva uma guinada de 180 graus nos estudos nucleares da LT.

De acordo com essa perspectiva, o texto “passa a ser estudado dentro do seu contexto de produção e a ser compreendido não mais como um produto acabado, mas como um processo, resultado de operações comunicativas e processos lingüísticos em situações sociocomunicativas” (BENTES, 2001, p. 247). Ele é opaco e não transparente semanticamente, ou seja, o sentido não está nele, visto que “a interpretação de um enunciado não pode levar em consideração apenas a informação lingüística” (MAINGUENEAU; CHAREAUDEAU, 2005, p. 394). Registra-se que, enquanto entidade processual, a concepção de texto diz respeito, tanto à língua falada como à língua escrita. As noções de coesão e coerência seguem, consequentemente, esses princípios teóricos, adquirindo novas colorações teóricas etc. A coesão ocorre quando a interpretação de algum elemento no discurso é dependente da de outro. Um pressupõe

o outro, no sentido de que não pode ser efetivamente decodificado a não ser por recurso

ao outro (HALLIDAY; HASAN, 1976, p. 04). Além disso, ampliam-se novos aportes teóricos, a exemplo da presença do sujeito, da competência comunicativa, da referência, da textuatualidade e também da oralidade.

5 É óbvio que as inquirições filosóficas se iniciaram na Antiguidade Clássica, contudo, foram reflexões assistemáticas.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Quanto ao sujeito, trata-se do sujeito pragmático, que se apóia, evidentemente, nas concepções de linguagem inerentes à própria pragmática, na qual a linguagem é vista como “uma prática social concreta e também complexa, pois, enquanto tal, envolve elementos do contexto de uso, convenções de uso e de intenções do falante” (AUSTIN, 1962). Esse falante — o sujeito pragmático, marcado pela intencionalidade, emerge das suas manobras, estratégias discursivas que ele mobiliza para conseguir seus intentos comunicativos (BRANDÃO, 2001, p. 60). Por outras palavras, emerge da enunciação, consoante Benveniste (1989, p. 82), entendida como o “colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”. É, pois, um sujeito individual, de vontade própria, que visa, de algum modo, agir conscientemente sobre o seu interlocutor na instância discursiva. No que tange à competência comunicativa, tem-se aí um elemento que, por um lado, se afasta do conceito de competência textual, bem como do clássico conceito de competência linguística, mas, por outro, se volta para a língua em uso. A expressão competência comunicativa foi introduzida na década de 60 pelo antropólogo D. Hymes (1964), sendo comumente interpretada como:

a capacidade de usar a língua adequadamente em situações sociais. Trask ressalta que para falar uma língua com sucesso, é necessária uma competência lingüística nessa língua: domínio da pronúncia, da gramática e do vocabulário. Mas é preciso mais do que isso: é necessária também uma competência sociolingüística — o conhecimento de coisas tais como o modo de começar e terminar conversações, como e quando ser educado e como dirigir-se às pessoas. Além disso, é necessária também uma competência estratégica, o conhecimento de como organizar um trecho de fala de maneira eficaz, e como perceber e contornar incompreensões e outras dificuldades. (TRASK, 2004, p. 58)

A competência comunicativa traz em si uma dimensão social, deixando evidente que a competência gramatical não é suficiente para o falante sair-se bem no seu processo comunicativo; para tanto, ele deve articular a sua competência gramatical a outras competências que, a partir de Canale (1995. p. 63-81), mencionam-se: a competência sociolingüística (domínio de regras que comandam as significações sociais que as

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

sentenças podem assumir, a competência discursiva (capacidade de organizar textos com coesão e coerência), a competência estratégica (domínio de estratégias para compensar situações difíceis como os colapsos na conversação, dentre outros). O foco da pesquisa nesse momento também se debruça para os princípios de textualidade, estabelecidos por Beaugrande e Dressler (1981), que apontam a coesão, a

coerência, a informatividade, a situacionalidade, a intertextualidade, intencionalidade e a aceitabilidade. Consoante esses pesquisadores, os dois primeiros princípios estariam centrados no texto e os demais, no usuário da língua. Por fim, observa-se ainda que nessa fase a noção de referência se atém à de Halliday

e Hasan (1976), constituída por mecanismos endofóricos e exofóricos textuais, respectivamente, quando a informação remete a uma parte fora do discurso, ou seja, refere-se a elementos extra-textuais, a alguém ou algo que não está presente no texto; quando o referente está expresso no próprio texto.

A transição entre os séculos XX e XXI aponta avanços na Linguística Textual que

dão sinais de se tratar de um novo momento, configurando a possibilidade do

surgimento do seu quarto momento, já reconhecido, inclusive, por Koch (2004), apesar

de ela não tecer considerações pontuais sobre o surgimento dessa nova etapa da LT. As

pegadas que sustentam a caminhada da LT rumo a um novo momento ligam-se, em

especial, às seguintes reflexões: o conceito do sujeito social, a noção de referenciação (MONDADA, 1995), a consideração de aspectos da obra do filósofo Bakhtin, a exemplo do dialogismo, dos gêneros do discurso etc.

A noção de sujeito pragmático é substituída por uma outra concepção – a de sujeito

social, que se apresenta constituído de duas faces: uma face social e uma individual. Para reflexão inicial, considere-se o seguinte excerto textual, extraído de Bakhtin (2003, p. 261):

Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso sejam tão multiformes quanto os campos da atividade humana, o que, é claro, não contradiz a unidade nacional de uma língua. O emprego da língua efetiva-se em forma de enunciados (orais e escritos).

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Bakhtin (2003) deixa claro o liame entre o uso da linguagem e os diversos campos da atividade humana, que gera conseqüentemente as heteróclitas formas lingüísticas, visto que elas emergem do indivíduo inserido nos campos da atividade humana. E esse uso realiza-se através de enunciados que, nas palavras do referido filósofo, são efetivamente os gêneros do discurso. Bakhtin (2003, p. 262) os caracteriza, asseverando que: “Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de

utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados”. Portanto, possui uma face individual 6 e uma face social, esta por constituir-se uma entidade estável de cada campo da atividade humana, o que já registra a sua posição sócio- histórica inerente a todo e qualquer enunciado; aquela por tratar-se de um enunciado particular, proferido por um único ser, expressando o estilo de quem o produz, depreendido sobretudo através de escolhas léxico-gramaticais 7 . Assim, pode-se dizer que há liames acentuados entre os enunciados proferidos por determinados falantes e os campos da atividade humana. Por outras palavras, os gêneros do discurso vão necessariamente refletir uma posição de um grupo social do qual o falante faz parte, bem como traços inerentes ao seu estilo individual. Quanto à primeira reflexão, aquela que ressalta a face particular do sujeito social, proferido por um único ser, expressando o estilo de quem o produz, a mesma refere-se, de certo modo, à intencionalidade do sujeito, depreendida sobretudo através de escolhas

léxico-gramaticais

No que tange à segunda reflexão, aquela que se refere à face social, tem-se aí o posicionamento do referido filósofo de que qualquer enunciado é ideológico,

8

.

6 Bakhtin (2003) reconhece o traço individual presente em um enunciado; contudo, ressalta que há gêneros propícios e não propícios a esse traço. De qualquer forma, ele reconhece sim a presença da individualidade nos gêneros do discurso.

7 Nesse sentido, trata-se do estilo individual; entretanto, Bakhtin (2003) põe em foco a possibilidade de se considerar também o estilo na esfera do social, como um traço correlato a um determinado gênero do discurso.

8 Nesse sentido, trata-se do estilo individual; entretanto, Bakhtin (2003) põe em foco a possibilidade de se considerar também o estilo na esfera do social, como um traço correlato a um determinado gênero do discurso.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

entendendo a ideologia, não como um mascaramento do real, mas como “as crenças de um grupo e seus membros” (VAN DIJK 2008, p. 14-15). Portanto, o sujeito social, enquanto entidade ideológica não é autônomo porque é eminentemente social, não sendo pois livre, visto que “usar a linguagem é sempre

Essas ações não são simples realizações autônomas de

sujeitos livres e iguais” (KOCH, 2004, p. 25). Mas isso não significa que ele passe a ser um sujeito inconsciente, a ponto de negar-se a si próprio. Um outro aspecto singular dessas inquirições, que consubstancia a possibilidade de um quarto momento da Lingüística textual, refere-se à noção de referenciação, caracterizada por processar tessituras textuais, que refutam a clássica noção de referência, que diz respeito “à função pela qual um signo lingüístico se refere a um objeto do mundo extralingüístico, real ou imaginário “(DUBOIS et al., 1973, p. 511); acepção esta que tem sido objeto de discussão entre os filósofos, lógicos e lingüistas, pois defende a tese de que existe uma relação direta, biunívoca entre as palavras e a realidade, concebendo, destarte, a linguagem como um sistema de etiquetas, no sentido de designação extensional de referentes de mundo extra-mental. É preciso registrar que a referenciação refuta também o conceito de referência “como um processo segundo o qual se estabelece uma relação semântica entre dois elementos textuais ou ainda entre um elemento textual e outro extralingüístico” (VIEIRA, 1988, p. 165), noção esta presente em Halliday e Hasan (1976), paradigma teórico nas pesquisas brasileiras até os primeiros anos da década de 90 do século XX. A concepção de referenciação, consoante Mondada e Dubois (1995, p. 273-27), endossada por Koch e Marcuschi (1998, p. 5-6), opõe-se a qualquer acepção de referência que defenda uma semântica a priori, em prol de uma noção de referenciação, construída e processada a partir do processo discursivo, em que se valorizam os aspectos cognitivos, bem como os sócio-culturais. Nesse enfoque, os referentes deixam de existir como algo a priori do discurso, pois são construídos no discurso e pelo discurso; por isso é que são denominados de objetos-de-discurso, entidade eminentemente discursiva, dependente das operações cognitivas, das atividades verbais ou não, das negociações de interação (MONDADA; DUBOIS 1995, p. 273-303). Dessa

engajar-se em alguma ação [

].

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

forma, a relação entre o dizer e as coisas nunca será direta, pois o discurso emerge e

significa no interior de relações sociais.

] [

com a realidade. Todas as nossas relações com nossas condições de

existência — com nosso ambiente natural e contextos sociais — só ocorrem semioticamente mediadas. Vivemos de fato num mundo de

linguagens, signos e significações. Em outros termos, o real nunca nos

Nós, nos relacionamos com

um real informado em matéria significante, isto é, o mundo só adquire

sentido para nós, seres humanos, quando semioticizado. E mais como

a significação dos signos envolve sempre uma dimensão axiológica, nossa relação com o mundo é sempre atravessada por valores. (FARACO, 2009, p. 49)

é dado de forma direta, crua, em si [

nós, os seres humanos, não temos relações diretas, não mediadas

]

Para finalizar, ressalta-se que o cadinho que vem impulsionado essas inquirições

que evidenciam um avanço singular da Linguística Textual em direção a um quarto

momento, foi a presença do filósofo Bakhtin, através de suas pesquisas voltadas

sobremaneira para a realidade discursiva dos seres humanos, tendo como alicerce

teórico as reflexões sócio-históricas que, por sua vez, poderão vir a nortear uma

ampliação significativa na compreensão da coerência textual, haja vista a necessidade

de considerar, como um dos fatores essenciais à interpretação de um texto, a ideologia

— “as crenças de um grupo e seus membros” (VAN DIJK 2008, p. 14-15).

Referências

Estética da criação textual. ed.

Tradução do russo BEZERRA, P. Tradução da edição francesa Tzetan Todorov. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In:

BENTES, A.C. Lingüística Textual. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A.C. (Orgs.).

Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. v.1. São Paulo: Cortez, 2001. p. 203-

232.

BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral II. Tradução Eduardo Guimarães et al.

Campinas, SP: Pontes, 1989.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

BRANDÃO, H.H.N. Da língua ao discurso, do homogêneo ao heterogêneo. In: BRAIT, B. (Org.). Estudos enunciativos no Brasil: histórias e perspectivas. São Paulo: Fapesp, 2001. p. 59-69.

CANALE, M. De la competencia comunicativa a la pedagogia comunicativa del lenguaje. In: COMPETENCIA Comunicativa: documentos básicos en la enseñanza de lenguas extranjeras. Madrid : EDESELSA, 1995. p. 63-81.

CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. Coordenação da tradução KOMESU, F. São Paulo: Contexto, 2004.

CHOMSKY, N.A. Aspectos da teoria da sintaxe. Tradução por MEIRELES, J.A.; RAPOSO, E.P. Coimbra: Armênio Amado - Editor, 1975.

COSTA, C. Filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2007.

FARACO, C.A. Criação ideológica e dialogismo. In:

idéias lingüísticas do Círculo de Bakhtin. 2. ed. Curitiba, Pr.: Criar Edições, 2006. p. 45-86.

Linguagem e diálogo: as

FÁVERO, L.L.; KOCH, I.G.V. Lingüística textual: uma introdução. São Paulo: Cortez,

1983.

FIORIN, J.L. Teoria dos signos. In: FIORIN, J.L. (Org.). Introdução à lingüística I:

objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2001.

Interdiscursividade e intertextualidade. In: BRAIT, B. (Org.). (2006). Bakhtin:

outros conceitos-chave. São Paulo, Contexto. p. 161-194.

HALLIDAY, M.A.K., HASAN, R. Cohesion in English. London: Longman, 1976.

KOCH,

Contexto, 1997.

I.G.V.;

FÁVERO,

L.L.

Linguística textual:

uma

introdução.

São

Paulo:

; MARCUSCHI, L.A. Processo de referenciação na produção discursiva. D.E.L.T.A, número especial, p.169-190, 1998.

Desvendando os segredos do texto. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2003.

Introdução à linguística textual. São Paulo: Contexto, 2004.

MARCONDES, D. Filosofia analítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2004.

MARCUSCHI, L.A. Lingüística de texto: o que é e como se faz. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Mestrado em Letras e Lingüística, 1983.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350

Relações entre texto falado e texto escrito: semelhanças e diferenças. Recife:

Universidade Federal de Pernambuco, 1994. mimeo.

MONDADA, L.; DUBOIS, D. Construction des objets de discous et categorisation. In:

BERRENDONNER, A., REICHLER-BÉGUELIN, M.J. (Org.). Du Syntagme nominal aux objets-de-descours: SN complexes, nominalisations, anaphores. Suisse: Institut de linguistique de I’Université de Neuchatel, 1995. p. 273-302.

OLIVEIRA, R.P. de. In: MUSSALIM, Fernanda. (Orgs.). Introdução à Lingüística:

domínios e fronteiras. v.2. São Paulo: Cortez, 2001. p. 219-250.

PINTO, J.P. Pragmática. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A.C. (Orgs.). Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001.

TRASK, Dicionário de linguagem e lingüística. Tradução ILARI, R. São Paulo:

Contexto, 2004.

TRAVAGLIA, L.C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de uma gramática no 1º e 2º graus. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

VAN DIJK, T. A. Ideologia y discurso: una introdución multidisciplinaria. Barceloma:

Editorial Ariel, S. A., 2008.

VIEIRA, M.A.R. O desenvolvimento de elipse em textos narrativos, descritivos e argumentativos. In: KATO, M. A. A concepção da escrita pela criança. Campinas:

Pontes. 1988. p. 165-192.

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010

Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350