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O PROFESSOR E A INDISCIPLINA DO ALUNO EM SALA DE AULA:

ATITUDES QUE PODEM EVIDENCIAR O “TDAH”

DE LUCA, Marcelo Alexandre Siqueira – ESIC masl@onda.com.br

CIULIK, Fabiane – OPET fabianeciulik@hotmail.com

Eixo Temático: Psicopedagogia Agência Financiadora: Não contou com financiamento

Resumo

A educação é um dos direitos fundamentais das crianças, e envolve a família, o Estado e a sociedade. A escola e os professores tem presença marcante na educação/ensino das crianças em idade escolar, mas enfrentam a indisciplina do aluno como um complicador. O tema indisciplina é polêmico e discutido na literatura, sendo, porém precária a abordagem da relação “professor” x “aluno com TDAH”. Percebe-se que os professores deveriam saber identificar evidências de TDAH em seus alunos, mas isso também é precário. Assim, para suprir essa precariedade este artigo busca “identificar que atitudes dos alunos do Ensino Fundamental em sala de aula (alunos entre 7 e 12 anos incompletos) podem evidenciar a presença de TDAH”. É desenvolvido como uma pesquisa bibliográfica e qualitativa, que através da coleta documental em fontes secundárias possibilita, pelo método dedutivo e em caráter básico, os argumentos que levam às conclusões. Feita a pesquisa, e relevando a importância de Garcia (1999, 2008), Freller (2001), Estrela (1992), Vasconcellos (1994), Benczik e Rohde (1999), Topczewski (1999) e Diniz Neto e Sena (2007), dentre outros, chega-se as atitudes procuradas. Sem esgotar o assunto, mas respondendo a problemática de pesquisa: “Que atitudes dos alunos do Ensino Fundamental em sala de aula (entre 7 e 12 anos incompletos) podem evidenciar o TDAH?”, tem-se que às principais atitudes encontradas foram: (a) agitação anormal das mãos e pés ou ficar se remexendo em cadeiras, (b) “desligar- se” quando lhe dirigem a palavra, (c) falar em excesso, (d) responder as perguntas antes de elas terem sido terminadas, (e) esquecer datas, compromissos e tarefas, (f) não conseguir organizar tarefas com objetivos determinados, (g) não conseguir ficar sentado ou quieto, e (h) ficar correndo na sala e subindo nos móveis de maneira descontrolada.

Palavras-chave: Educação, Indisciplina, TDAH, Aprendizagem, Atitudes em sala de aula.

Introdução

A Educação é um dos direitos fundamentais da criança, o que nota-se através do Art.

227 da CF/88 - “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao

adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao

lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência

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do Art. 53 do Estatuto da Criança e Adolescente - “a criança e o

adolescente tem direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”- e do Art. 2 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de

liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento

do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”.

Envolve sinergicamente a família, a sociedade e o Estado em torno de um objetivo comum

(educação), ressaltando-se, entretanto a importância do professor e da escola neste contexto.

O professor tem uma postura ativa de facilitador na relação ensino-aprendizagem

(VASCONCELLOS, 1994), tendo, porém a indisciplina como um problema e “uma fonte de estresse nas relações interpessoais” (GARCIA, 1999, p. 101). “Os comportamentos indisciplinados são essencialmente negativos, atrapalham a aprendizagem escolar, revelam falta de educação, ataque ou patologia e devem ser enfrentados por medidas moralizadoras, punitivas, ou médico-psicológicas” (FRELLER, 2001, p. 17). Os atos de indisciplina na escola estão relacionados às atitudes dos alunos (OLIVEIRA, 1996); e o controle da indisciplina está diretamente relacionado ao melhor ou pior preparo dos professores para tal (OLIVEIRA, 2002; CORSI, 2005). Assim, considerando que a indisciplina do aluno pode se manifestar através de atitudes como: “falar ao mesmo tempo em que o professor, atrapalhando as aulas, responder com grosserias, brigar com os outros alunos ou mesmo entre professor e aluno, bagunçar, ser desobediente e não fazer as tarefas escolares” (OLIVEIRA, 1996). Que os professores tem dificuldades para estabelecer regras a seus alunos, apresentar conteúdos condizentes e controlar a indisciplina em sala de aula (BOHN; ROEHRING; PRESSLEY, 2004). Que a indisciplina pode ter dentre as suas causas o TDAH, “transtorno que afeta precocemente o portador em diversos aspectos de sua vida, inclusive no das relações sociais” (DINIZ NETO; SENA, 2007, p. 38). Que “conhecer os sintomas e aprender a lidar com esse problema é uma obrigação de qualquer professor que não queira causar danos a seus alunos” (FERREIRA; LEITE, 2004, p. 1). E que os professores tem dificuldades para identificar indícios de TDAH face a alunos que “são apenas inquietos, indisciplinados, ou até mesmo podem estar com alguma dificuldade nos relacionamentos fora ou dentro da escola” (DALLANORA et al., 2007, p. 31) justifica-se o trato do tema e delineia-se a presente pesquisa.

familiar e comunitária, (

)”-

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Seu objetivo geral é “identificar que atitudes dos alunos do Ensino Fundamental em sala de aula podem evidenciar a presença de TDAH”. E seus objetivos específicos são:

“identificar o que é indisciplina do aluno em sala de aula”, “identificar o que é o TDAH (por seus sintomas, causas, particularidades)”, “reconhecer quais as manifestações do TDAH no aluno especificamente em sala de aula”. Metodologicamente a pesquisa tem objetivo explicativo / analítico, e é desenvolvida através de procedimentos bibliográficos. Os dados são obtidos através da coleta documental em fontes secundárias, o tratamento dos mesmos é crítico-dissertativo, e a análise é qualitativa. O método que inspira a pesquisa é dedutivo, e todas as suas argumentações vão a favor de responder a sua problemática: “Que atitudes dos alunos do Ensino Fundamental em sala de aula (entre 7 e 12 anos incompletos) podem evidenciar o TDAH?” Assim, limitando-se a identificação de indícios de TDAH somente a crianças de 7 a 12 anos em sala de aula e por parte do professor. E ainda partindo-se das premissas de que: (a) a criança tem comportamento normal se estiver dentro do esperado para a turma; (b) só é possível falar de indisciplina em sala de aula se existirem regras e preceitos lançados pelo professor que possam ser descumpridos; (c) as atitudes de “indisciplina” do aluno em sala só assim poderão ser consideradas se não forem motivadas pelo professor; (d) os comportamentos esperados no estágio cognitivo das operações concretas não devem ser vistos como indícios de TDAH; (e) o comportamento coletivo em sala de aula pode influenciar no comportamento da criança e não pode interferir em um julgamento precipitado de TDAH; (f) para ser chamada de criança a pessoa não deve ter ainda doze anos de idade completos, conforme Art. 2º da Lei 8069/90 – “considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”, desenvolve-se o trabalho. Estruturalmente ele é dividido em três seções (exceto a introdução e as conclusões), cada qual com seus objetivos próprios. A primeira seção tem o objetivo de identificar o que é a indisciplina em sala de aula, assim como também identificar as suas causas e como se manifesta. A segunda busca verificar o que é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH, abrangendo principalmente os seus sintomas. E a terceira busca argumentar e discutir a identificação dos indícios do TDAH por parte do professor em seus alunos na sala de aula (crianças de 7 a 12 anos); fazendo correlações com o estágio cognitivo das operações concretas.

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Indisciplina dos alunos em sala de aula

A indisciplina pode ser pensada em um primeiro momento como: “desordem proveniente da quebra das regras estabelecidas pelo grupo” (ESTRELA, 1992, p. 17); “procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência; desordem; rebelião” (FERREIRA, 1986, p. 595); virtude se vista como “desafiar os padrões vigentes, se opor à tirania muitas vezes presente no cotidiano escolar” (REGO, 1996, p. 85); ou ainda como “comportamentos regidos por um conjunto de normas, a indisciplina poderá se traduzir de duas formas: 1) a revolta contra estas normas; 2) o desconhecimento delas” (LA TAILLE, 1996, p. 10). No âmbito escolar a indisciplina pode ser vista através de três eixos: “contexto da conduta dos alunos nas diversas atividades pedagógicas”, “dimensão dos processos de socialização e relacionamentos que os alunos exercem na escola, na relação com os seus

pares, e com os profissionais da educação”; e “desenvolvimento cognitivo dos estudantes”.

Pode ainda ser resumida como: “a incongruência entre os critérios e expectativas

em termos de comportamentos, atitudes, socialização,

relacionamentos, desenvolvimento cognitivo e aquilo que demonstram os estudantes” (GARCIA, 1999, p. 102). Sendo um consenso entre os professores que os alunos são na escola o que trazem de casa (PAPPA, 2004). Já no contexto da sala de aula, a indisciplina é caracterizada por atos considerados inadequados pelos professores (FRELLER, 2001) e anômalos a aprendizagem (OLIVEIRA; 2002). Tais atos podem ser: falar junto com o professor, brigar em sala de aula, fazer bagunça e não realizar as tarefas escolares (OLIVEIRA, 1996); “movimentar-se, gritar, falar alto ( ), imitar animais, responder ao adulto” (FRELLER, 2001, p. 60); ou ainda gritar, bagunçar, agredir física e verbalmente os colegas e professores, empurrar e ficar xingando os mesmos (OLIVEIRA, 2002, PAPPA, 2004; LOBATO, 2006). As atitudes de indisciplina em sala de aula podem ser imotivadas pelo professor, conforme se exemplifica pelo depoimento de uma aluna da quinta série do Ensino Fundamental de uma escola estadual de São Paulo: “Tem uns folgados que não quer saber de estuda e zoa até na aula de professor legal. Esses tinham que para de estuda e vê se cuidava da vida e não atrapalha aqui na escola” (FRELLER, 2001, p. 61). Ou ainda motivadas por ele (VASCONCELLOS, 1994; GARCIA, 2008).

assumidos pela escola (

) (

)

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Nota-se a indisciplina motivada pelo professor através do depoimento de uma aluna da mesma escola estadual de São Paulo (6ª série):

Outro dia a classe toda começou a imitar tudo que é animal, o professor de matemática saiu batendo a porta e a diretoria deu suspensão para toda a classe, mas ele não contou que tinha dado prova surpresa e zero para a classe toda, sem ter explicado a matéria, só porque ficou com raiva e veio descontar na gente. (FRELLER, 2001, p. 61-62)

E também no depoimento de duas alunas da terceira série ainda da mesma escola que, escrevendo mais de cem vezes a frase “nunca mais vou fazer bagunça nem desrespeitar a professora”, juntamente com a turma toda, assim afirmaram:

Eu escrevi as cem vezes, mas não pensa ela que vai conseguir que eu pare de

Ela não pode fazer isso com a gente, nós temos o direito de conversar

baixinho se acabamos a lição e não temos nada o que fazer. Ela não vai conseguir

que a gente fique quieta, nem que a gente tem que escrever mil vezes. (FRELLER, 2001, p. 62)

conversar (

)

Isto leva a crer que o professor deve manter os alunos entretidos, interessados e participativos em sala de aula para reduzir esse tipo de indisciplina (GEIGER, 2000); e não ficar simplesmente sobrepondo a importância de sua imagem junto ao colégio a sua responsabilidade de ensinar (VASCONCELLOS, 1994). Assim, notando-se a indisciplina como algo complexo e não simplesmente como a falta de seguimento a regras e preceitos, surge a questão da sua identificação e julgamento. Não basta simplesmente considerar todo ato incomum à sala de aula como indisciplina, sem antes se considerar as condições que envolvem a criança, pois “a criança indisciplinada está tentando dizer alguma coisa para a professora. É preciso saber ouvir e compreender a mensagem que se esconde por trás do comportamento manifesto indisciplina” (ROSENBERG apud VASCONCELLOS, 1994, p. 50). É necessário encarar o julgamento da indisciplina de um aluno como algo sistêmico e complexo, onde a distinção entre a indisciplina e seu comportamento normal além de envolver as condições ambientais, familiares, pessoais e cognitivas que lhe cercam; envolvem também o ponto de vista, a formação e o conhecimento que o professor que vai lhe julgar tem sobre indisciplina.

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Por todo o exposto, e visto que a indisciplina em sala de aula se manifesta através da quebra de regras e preceitos, dedutivamente conclui-se que o estágio cognitivo do aluno não deve motivar a indisciplina em sala de aula. Ainda que a indisciplina dos alunos motivada pelo professor não deve ser encarada como indisciplina por ele.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade - TDAH

O transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é um “problema de saúde mental” (BENCZIK; ROHDE, 1999, p. 37), “que afeta em torno de 3 a 6% da população de crianças de 7 a 14 anos” (BENCZIK; ROHDE, 1999, p. 45). “Na maior parte das vezes se manifesta muito cedo na vida do portador, mas apenas mais tarde, com o início da vida escolar, é que os sintomas revelam-se de forma mais perceptível” (DINIZ NETO; SENA, 2007, p. 20). Pode ser visto como uma das causas da indisciplina, e suas manifestações podem ser confundidas com esta. Suas causas estão relacionadas a disfunções em transmissores neurais, onde uma substância que transmite as informações entre as células nervosas é a dopamina. Nos hiperativos existe uma disfunção na dopamina, a qual afeta especificamente uma parte anterior do lobo frontal do cérebro. Conforme Teixeira (2008, p. 22) esta parte do cérebro é:

Responsável pelo comportamento e pelo controle de certos comportamentos tais como: atenção, capacidade de controlar impulsos, capacidade de “filtrar” as coisas que não interessam para aquilo que se está fazendo no momento, sejam elas externas (distratores do ambiente) ou internas (pensamentos), capacidade de controlar o grau de movimentação corporal, capacidade de se estimular sozinho para fazer as coisas, capacidade de controlar as emoções e não permitir que elas interfiram muito no que está fazendo entre outra.

o que acaba então acarretando em problemas de controle da atenção, da atividade, da

impulsividade, da obediência às regras e do rendimento escolar (

é genética, onde aproximadamente 35% dos pais e 17% das mães dos hiperativos são também hiperativos (TEIXEIRA, 2008). Geralmente o TDAH está relacionado a sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade (BENCZIK; ROHDE, 1999; BARKLEY, 2002), sendo estes, conforme Benczik e Rohde (1999), Diniz Neto e Sena (2007), Topczewski (1999), Campos (2003), Ribeiro (2006), Ferreira e Leite (2004), manifestados nas crianças como segue: (a) falta de

A transmissão do TDAH

)

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persistência nas atividades cognitivas, (b) falta de atenção, (c) falta de concentração, (d) estar no mundo da lua, (e) tendência de ficar mudando de atividades sem acabá-las, (f) agitação excessiva, (g) desorganização, (h) dispersão, (i) imprudência, (j) ficar remexendo as mãos e pés quando sentado, (k) não parar quieto, (l) responder perguntas antes de terem sido finalizadas, (m) intromissão descabida, (n) perda de coisas com facilidade, (n) agressividade. As manifestações do TDAH na maioria das vezes geram problemas aos seus portadores na sala de aula, sendo frequentes as notas baixas, reprovações, suspensões e até mesmo expulsões (BARKLEY, 2002). Em média, e ainda conforme este autor, 15 a 25% acabam reprovando ou sendo expulsas da escola, e 35% delas (aproximadamente) não completam o Ensino Médio. Com relação ao diagnóstico do TDAH, Diniz Neto e Sena (2007, p. 21-22), com base no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), dizem que se forem verificados simultaneamente na criança os cinco aspectos: (a) seis ou mais dos sintomas relacionados à desatenção, hiperatividade ou impulsividade se manifestarem de forma mal-adaptativa ou inconsciente em uma criança por mais de seis meses (b) a criança já tiver tido alguns dos sintomas do TDAH antes dos sete anos de idade, (c) os sintomas do TDAH forem verificados em dois ambientes diferentes (exemplo – casa e escola), (d) os sintomas do transtorno perturbem de fato o portador, (e) os sintomas devem ser constantes e não concomitantes com outros problemas de origem psiquiátrica ou orgânica; a criança deve ser encaminhada a um neurologista para melhor acompanhamento e possível tratamento. Ressalta-se como importante a verificação da frequência dos sintomas para possível enquadramento da criança como portadora de TDAH, conforme expõe Teixeira (2008, p. 20-

21):

Verificar a duração dos sintomas de desatenção e/ou hiperatividade / impulsividade quando é iniciado o processo de diagnóstico de um quadro de TDAH. Esses sintomas devem ocorrer em vários ambientes da vida da criança (escola, casa) e manterem-se ao longo do período avaliado. O clínico que irá iniciar esse diagnóstico inicial deve ser alertado se os sintomas ocorrem em casa ou somente na escola para a possibilidade de ser devido a desestruturação da família ou de um sistema de ensino inadequado. Flutuações de características não podem ser consideradas como portador de TDAH.

Antes de se começar qualquer tratamento específico deve-se proceder um exame físico na criança, a fim de eliminar possíveis diagnósticos equivocados de TDAH por infecção

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crônica do ouvido médio, sinusite, problemas de vista e de ouvido e problemas neurológicos (ABRICHAIM, 2001). “Não existe um exame específico que identifique o TDAH, nem outros distúrbios como o Autismo e a Esquizofrenia. Ainda a melhor ferramenta para colher dados é uma boa anamnese que é uma conversa detalhada com os pais ou os cuidadores”. (TEIXEIRA, 2008, p. 21). Desde que firmado o diagnóstico de TDAH, por um médico especialista, existem duas formas básicas de tratamento. Uma é pela psicofarmacoterapia através do Metilfenidato (ritalina), Dexedrina (dextroanfetamina) e Cylert (pemolina) (DINIZ NETO; SENA, 2007; TEIXEIRA, 2008), a qual fragiliza a criança em troca da minimização da angústia dos pais (JANIN, 2004). E outra é através do tratamento multidisciplinar que envolve a psicoterapia, a fonoaudiologia, a família e a escola; que é considerada a melhor opção na atualidade (ROHDE; HALPERN, 2004). Deve-se usar de critério para a escolha da forma de tratamento, visto que o tratamento errado pode ser causador de danos a vida pessoal, familiar e social do portador (físicos, psíquicos, sociais e morais) (LEIBSON et al., 2001). Por todo o apresentado, e notando a importância da identificação preliminar, do diagnóstico e do encaminhamento de uma criança com TDAH para o tratamento (com a maior brevidade possível a fim de evitar danos maiores a ela), tem-se a responsabilidade do professor, da família e do médico envolvidas no caso. O trato de uma criança com TDAH exige uma ação integrada entre esses três pilares, onde as percepções e o encarar responsável do comportamento de uma criança com TDAH pode possibilitar tomadas de decisão a fim de lhe garantir um futuro melhor.

O professor e a identificação de evidências de TDAH em sala de aula

Partindo-se da premissa de que “o conhecimento por parte dos professores em relação à hiperatividade, as condutas típicas e as melhores abordagens são essenciais se a escola pretende desenvolver um trabalho pedagógico adequado”. (GASPARETTO; INUMARU; SALGUEIRO, 2007, p. 1), conclui-se que “é preciso conscientizar o profissional da educação no que diz respeito ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade TDAH” (DINIZ; GEROLIN, 2000, p. 3). Especificamente sobre a manifestação do TDAH em sala de aula, parte-se do raciocínio de que não são todos os sintomas deste distúrbio que se manifestam em sala de aula. Não se pode confundir os comportamentos normais das crianças, com suas atitudes de indisciplina e com seus indícios do TDAH, a fim de se evitar problemas por “falsos

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diagnósticos”. Os sintomas mais comuns deste transtorno relacionam-se a desatenção, impulsividade e hiperatividade, e devem ser observados dentro do contexto da sala de aula.

Indícios de TDAH por desatenção em sala de aula

Dentre os sintomas mais apontados com relação à desatenção, tem-se que os mais comuns são:

Ter dificuldades nas tarefas lúdicas e não ter atenção no que faz; deixar de prestar atenção em detalhes ou ter erros por descuidos; distrair-se e não escutar quando lhe dirigem palavra, ter dificuldades em seguir instruções e concluir deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais, ter dificuldades para organizar tarefas e atividades, evitar tarefas que exijam esforço mental constante ou antipatizar com elas, como tarefas escolares, deveres de estudo ou do trabalho. (DINIZ NETO; SENA, 2007)

Note-se que a atenção em grupo pode ser dispersada facilmente em atividades lúdicas que envolvam o coletivo, de tal forma que as brincadeiras, piadinhas e afins (que são normais entre alunos de 7 a 12 anos em sala se aula) não podem ser responsáveis por um enquadramento das crianças no TDAH por desatenção. Afinal, tais atividades podem fazer com que as crianças deixem de prestar atenção em detalhes e cometam erros por descuidos. Com relação às dificuldades em seguir instruções e concluir deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais, ter dificuldades para organizar tarefas e atividades; deduz-se que podem ser dificuldades cognitivas. Alguns alunos aprendem coisas com mais facilidades que os outros, o que não garante que os que tem mais dificuldades tem indícios de TDAH. Ressalta-se, entretanto que fazer as coisas por fazer (sem saber onde quer chegar) pode ser indício do transtorno. Por fim, e sobre evitar tarefas que exijam esforço mental constante (tarefas escolares, deveres de estudo ou do trabalho), não se pode dizer que sejam indícios de TDAH em sala de aula. Parte-se da premissa que as crianças são seres humanos com aptidões, gostos, vontades e desejos diferentes, logo reagem de formas diferentes a estímulos diferentes. As preferências dos alunos devem ser respeitadas, a favor do ensino-aprendizado, de tal forma que não é porque uma criança tem aversão e busca evitar tarefas escolares (principalmente em certas áreas) é que ela tem indícios de TDAH.

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Assim, pelo exposto e segundo Diniz Neto e Sena (2007), tem-se que os indícios de TDAH mais observáveis nas crianças em sala de aula, devido a desatenção, são: (a) parecer “desligada” (b) não conseguir organizar tarefas com objetivo específico, (c) esquecer de datas, compromissos e tarefas triviais.

Indícios de TDAH por hiperatividade/impulsividade em sala de aula

É um consenso entre Topczewski (1999), Benczik e Rohde (1999) e Campos (2003), (com pequenas variações) que os sintomas de TDAH motivados pela hiperatividade / impulsividade são:

Agitar mãos e pés ou remexer-se na cadeira constantemente sem razão aparente; abandonar sua cadeira diversas vezes em situações nas quais espera que permaneça sentado, como na sala de aula, na igreja, no momento das refeições ou em outra atividade; agitar-se, correndo ou escalando de forma inapropriada para a situação; demonstrar dificuldade para brincar ou envolver-se silenciosamente em atividades de lazer; estar sempre agitado, “a mil por hora”, ou às vezes agir como se estivesse “a todo o vapor”; falar demais, além do adequado; dar respostas precipitadas, antes mesmo das perguntas terem sido completadas; ter dificuldade para aguardar sua vez; interromper conversas ou brincadeiras de outros ou intrometer-se nelas sem ser convidado (DINIZ NETO; SENA, 2007, p. 21-22).

Especificamente em sala de aula, faz-se uma redução dos sintomas buscando apenas os mais prevalentes. Observa-se que abandonar as cadeiras em sala de aula, mesmo em momento inesperado, ficar se agitando inapropriadamente, falar demais, fazer brincadeiras não próprias a ocasião, intrometer-se em conversa dos outros, e ter dificuldades de interagir com outras crianças em atividades lúdicas, não indicam necessariamente que a criança possa ter TDAH. Estes comportamentos podem resultar da sinergia coletiva da turma, fazendo com que a criança individualmente tenha comportamentos diferentes dos que lhe são próprios (inclusive comportamentos que poderiam indiciar TDAH); ou ainda de reflexos do estágio cognitivo em que se encontram. Conforme Piaget (1976), as crianças de 7 a 12 anos tem uma forma de ver, raciocinar e interpretar as coisas diferentes dos adultos, tendo por base as experiências passadas. Buscam identidade própria, agem e julgam segundo os seus valores e sob aquilo que acreditam, e tem comportamento imprevisível segundo a visão dos adultos. Como pode então um professor, que é um adulto, encarar qualquer ato de indisciplina como indício de TDAH? Se os

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pensamentos e os parâmetros entre adultos e crianças são diferentes, o professor não pode ser frágil ao julgar as brincadeiras, a dispersão momentânea, a agitação em atividades coletivas e afins, como indícios de distúrbios ou transtornos. Deve-se saber o que avaliar e o que julgar relevante na observação da criança. Brincadeiras e comportamentos relativos à idade não podem ser considerados sintomas de TDAH. Gesell (1998, p. 122-204) diz que as crianças entre 7 e 10 anos apresentam comportamento ativo, agressivo e violento em ambientes adversos ; espírito crítico e de competição; movimentos ágeis; concentração no que interessa; tendência de mexer em objetos de outras crianças; tendência de subir em móveis; sentimento de lealdade e defesa do grupo; espírito de liderança e solidariedade. E que as crianças de 10 a 12 anos tem comportamento mais receptivo, menos agitado e com aprendizado na base das comparações com o mundo real.

No mesmo sentido reforça Galvão (1995, p. 103):

No cotidiano escolar são comuns as situações de conflito envolvendo professor e alunos. Turbulência e agitação motora, dispersão, crises emocionais, desentendimentos entre alunos e destes com o professor são alguns exemplos de dinâmicas conflituais que, com frequência, deixara a todos desamparados e sem saber o que fazer. Irritação, raiva, desespero e medo são manifestações que costumam acompanhar as crises, funcionando como “termômetro” do conflito.

Por todo o discutido, tendo como base Diniz Neto e Sena (2007) e Piaget (1976), tem-se que os principais indícios de TDAH observáveis nas crianças em sala de aula, por inquietação e impulsividade são: agitar mãos e pés ou remexer-se na cadeira constantemente sem razão aparente; estar sempre agitado “a mil por hora”, dar respostas precipitadas antes mesmo das perguntas terem sido completadas.

Conclusão

Por todas as exposições e argumentações feitas, nota-se a importância do professor saber identificar possíveis indícios de TDAH em seus alunos. Ele precisa saber distinguir o que é um comportamento normal da criança em idade escolar, o que é indisciplina, o que é demonstração de insatisfação por parte da criança através da “indisciplina”, e o que são indícios de TDAH. Ele precisa estar preparado para trabalhar com crianças que possam ter

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esse transtorno, sendo para isso importante partir de uma relação de atitudes que possam ser possíveis indícios do mesmo. Assim, e a fim de identificar as atitudes dos alunos em sala de aula que podem ser indícios de TDAH, tem-se uma construção gradual de conhecimentos. Primeiramente, e partindo-se da premissa de que não é possível falar em indisciplina em sala de aula sem conhecê-la (por definições, manifestações, e causas), vai-se a sua identificação. Identificou-se que a indisciplina constitui-se em um termo complexo que, além de ser entendido como descumprimento de normas e preceitos, também pode ser vista como uma espécie de linguagem, comunicação e reivindicação por uma insatisfação (GARCIA, 1999). Se a quebra de regras e preceitos não for motivada pelo professor (o professor dá exemplos de bom comportamento, estabelece normas e preocupa-se efetiva e visivelmente com os alunos), pode-se dizer que os alunos apresentam comportamento indisciplinado. Caso contrário, se a quebra de regras for motivada pelo professor, as atitudes de “indisciplina” podem ser vistas como manifestação de insatisfação com o professor e, então, serem enquadradas como comportamentos normais. Na sequência, e acerca do TDAH, identificou-se que o mesmo é um transtorno mental que afeta de 3 a 6% das crianças de 7 a 14 anos. Possui aspectos clínicos que não vem à pauta, e causa consequências que estão divididas em três grupos: Desatenção, Hiperatividade e Impulsividade. Os tratamentos mais convencionais são através da psicofarmacoterapia (onde as drogas mais usadas são metilfenidato e antidepressivos noradrenérgicos) e da multidisciplinariedade (psicoterapia, fonoaudiologia, família e a escola). A desatenção gera problemas de retenção na memória e reluta a atividades de caráter cognitivo. A hiperatividade gera uma agitação excessiva e hábitos de descontrole comportamental. E a impulsividade relaciona-se a ansiedade e adiantamento de ações. Por fim, e a favor do objetivo geral, buscou-se verificar quais são os sintomas de TDAH mais facilmente observáveis em sala de aula, e que não podem ser caracterizados como comportamentos esperados no estágio cognitivo das operações concretas de Piaget (1976). Concluiu-se que as atitudes dos alunos que são mais adequadas a este contexto são:

(a) agitação anormal das mãos e pés ou ficar se remexendo em cadeiras, (b) desligar-se quando lhe dirigem a palavra, (c) falar em excesso, (d) responder as perguntas antes de elas terem sido terminadas, (e) esquecer datas, compromissos e tarefas, (f) não conseguir organizar

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tarefas com objetivos determinados, (g) não conseguir ficar sentado ou quieto, e (h) ficar

correndo na sala e subindo nos móveis de maneira descontrolada.

Lembra-se que as atitudes identificadas não devem ser as únicas, pois o objetivo da

pesquisa não foi esgotar o assunto. Devido a isso, e pelas dificuldades e falhas relativas ao

procedimento de pesquisa utilizado (bibliográfico), sugere-se que novas pesquisas sejam

desenvolvidas para comprovar ou refutar os resultados conseguidos. Uma opção seria a

realização de uma pesquisa de campo com procedimentos ex-post facto.

Referências

ABRICHAIM, C. Colaboradores da saúde mental. 2001. Disponível em:

<abcdcorposalutar.com.br.php?> Acesso em: 09 jun. 2009.

BARKLEY, R. A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH): guia completo e autorizado para os pais, professores e profissionais da saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.

BENCZIK, E. B. P.; RODHE, L. A. P. Transtorno de déficit de atenção hiperatividade: o que é? Como ajudar? Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

BOHN, C.; ROEHRING, A. D.; PRESSLEY, M. The first days of school in the classrooms of two more effective and four less effective primary-grades teachers. The Elementary School Journal, Chicago, v. 104, n. 4, p. 269, mar. 2004.

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