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fundação José Saramago

O outro lado da lua


(Sobre a identidade ibero-americana)
Comunicação apresentada por José Saramago ao I Encontro Internacional
Becas Líder, em Cartagena das Índias (Colômbia), 2007

O que é a identidade ibero-americana? Não sei. Pior ainda, creio que ninguém
sabe. E é por não saber, nem sequer sei muito bem o que é a identidade de
um povo, que me permitirei estas reflexões em voz alta, sem papéis diante,
para ver se entre todos somos capazes de chegar a alguma definição mais ou
menos aceitável. Dizem os dicionários que identidade tem que ver com o que
é idêntico, com o que é igual, de modo que, na suposição de que realmente
exista uma identidade ibero-americana, teríamos de concluir pela existência de
uma igualdade, ou identidade, entre o que hoje e desde 1492 se passa neste
continente, por exemplo, com o que se passou e está passando na Península
Ibérica, porque, de contrário, o termo «ibero-americano» não teria sentido e
haveria que admitir, e reconhecer, que, no fundo, não sabemos como chamar
com precisão a esta parte do mundo. Digo América Latina, digo América do
Sul, digo por vezes Ibero-América, mas sei que sempre está faltando algo.
Seria bom termos aqui um atlas, sobretudo um daqueles feitos nos Estados
Unidos ou em Inglaterra, que têm sobre estes assuntos ideias muito próprias,
ainda que não originais, para vermos como resolvem eles a questão. Seria
interessante.
Os portugueses que aqui estão não têm dúvida alguma, ainda que as
pudessem ter, sobre o conceito de identidade do povo que são, porque crêem
poder identificar, sem problemas de maior, os traços constantes de uma
identidade portuguesa. Como nação, existimos desde o século XII. Se em cada
época de um país ou de um povo, vivida por esse país ou por esse povo, é
possível reconhecer características comuns que com relativa facilidade o
identificam, esse parece ser o caso português. Assim, poderemos concluir que,
ademais da continuidade biológica, suporte natural de todas as
transformações, certas constantes nos terão identificado como colectivo desde
o século XII ao século XXI. Nós, que aqui nos reunimos, somos a última maré
do infinito mar do tempo que nos trouxe a este lugar, onde como portugueses
nos afirmamos, como se não pudéssemos ser outra coisa. Não creio, no
entanto, que essa definição seja reconhecível como identidade comum
durante todo o tempo transcorrido entre o século XII e o século XXI. Temos
sido muitas coisas, e algumas vezes opostas, algumas vezes em contradição e
em conflito com aquilo que antes tínhamos sido. Isso sugere-me que, em vez
de gastarmos o tempo a discorrer sobre a identidade de um povo, ou
simplesmente sobre a identidade de uma pessoa, porque, ao fim e ao cabo,
somos, em simultâneo, o mesmo e o diferente, deveríamos sim fomentar uma
consciência que nos permitisse dizer quem somos neste momento, ou como
nos devemos chamar, ou como nos vemos a nós próprios no nosso quotidiano,
tendo em conta, obviamente, e com todo o rigor ao nosso alcance, o maior
número possível de elementos sobreviventes do passado.
Se aplicarmos estes critérios à região a que chamamos Ibero-América,
entramos em confusão total. Imaginemos que andamos por aí a perguntar a
cada cidadão colombiano que encontrarmos na rua, ou no interior, ou no
litoral, se ele se sente ibero-americano: até aqueles que crêem ter ideias sobre
o assunto irão ter dificuldades para dizerem em que consiste ser-se ibero-
americano. Um camponês colombiano permaneceria talvez em silêncio,
observando com assombro o seu interlocutor, porque simplesmente não faria
ideia do que lhe estavam falando.
Claro que para um conjunto de pessoas cultas, como é o caso deste
fórum, o conceito de identidade ibero-americana apresenta-se como um dado
familiar em que não há lugar a dúvidas. Mas se nos detivermos por um minuto
a pensar naquilo que estamos a dizer, creio que a questão não poderá ser vista
com toda essa clareza, talvez chegue à conclusão de que, até agora, tinha
estado a viver simplesmente num paradigma. O facto de afirmar que todos sois
ibero-americanos e assim pretender resolver a questão, nada resolve, aflora a
superfície, não vai ao fundo dela.
Haverá quem diga que é correcto usar o termo América Latina porque
se falam aqui umas línguas, o castelhano e o português, que provêm do latim.
Está certo, diz-se, porque houve um encontro (outros disseram, com muito
mais razão, um encontrão) entre duas civilizações, entre duas culturas, as de lá
e as de aqui, e assim se justificaria essa espécie de corrente sanguínea que
chegou e se implantou, trazida pelo soldado, pelo missionário, pelo colono, e
que aqui veio fecundar: trouxeram o germe da Europa, implantaram-no e hoje
dizemos culturas ibero-americanas com a convicção de que não há mais que
dizer.
É cómodo, mas como acontece com tantas outras coisas cómodas na
vida, oculta, mascara, disfarça uma realidade que se contradiz
demasiadamente, quando não choca frontalmente com essa espécie de sinal
mágico que nos convertiria a todos em ibero-americanos, sem que
verdadeiramente se saiba o que isso significa.
Claro que se eu fizesse, por exemplo, uma antologia de poetas da
Península Ibérica e destas partes do mundo, poderia, sem qualquer problema,
intitulá-la Antologia da Poesia Ibero-Americana. É um rótulo que não ofende e
tornaria cómoda a compreensão da proposta contida na dita antologia. Mas
esta simplificação não pode ser usada com ligeireza, não se pode dizer
identidade ibero-americana e seguir em frente como se tudo tivesse ficado
claro, porque assim não é.
Solucionar o problema seria pôr-nos de acordo acerca do nome que
deveríeis ter. Excluo os bolseiros de Portugal e de Espanha que aqui se
encontram, porque, ainda que aqui estejam, não são daqui. Se isto é Ibero-
América, desde o Rio Grande até à Patagónia, dá vontade de dizer que valeram
a pena estes quinhentos anos de presença, com as mudanças que a cada
momento essa presença foi determinando, desde o domínio absoluto e total
sobre as terras e as gentes que aqui viviam antes de 1492 até aos dias de hoje.
E digo, ironicamente, claro, que parece que valeu a pena porque haveis
conseguido, de alguma forma, ser universais pelo menos numa parte
importante do planeta, considerando haver-se mantido, não quero dizer
direitos, mas uma presença tão poderosa que hoje, sem qualquer embaraço da
nossa parte, impomos a quem nasceu nesta terra, não sei se sub-
repticiamente, se suspendendo um martelo sobre as suas cabeças, o nome por
que hão-de ser conhecidos, ou seja, ibero-americanos...
Ainda que eu duvide muito, como já disse, de que alguém aqui possa
sentir-se verdadeiramente ibero-americano no rigoroso sentido do termo.
«Sentir-se» assim implicaria a existência de um equilíbrio mais ou menos
perfeito entre os dois conceitos, ibero e americano. Que ao dizer «sou ibero-
americano» esse alguém experimentaria um movimento interior de
apaziguamento, uma sensação igualitária, seria reconhecer que sim senhor,
sou de facto cinquenta por cento de uma coisa e cinquenta por cento de outra,
então tudo estaria em ordem pela ideia de idêntico que está contida no
conceito de identidade uma vez que se seria cinquenta por cento ibero e
cinquenta por cento americano. Claro que haveria que perguntar: americano
de onde? americano do México? da Guatemala? da Venezuela? do Peru? da
Bolívia, do Uruguai, do Brasil?... E se eu fosse argentino ou hondurenho, isso
faria de mim um ibero-americano? Não, não acredito.
Se bem observarmos, sente-se ainda nessa expressão «ibero-americano»
uma incómoda ressonância colonialista. Quando estes países conquistaram a
independência, tiveram de resignar-se a que os designassem, como uma
espécie de apodo, pelo nome da potência colonizadora. Seria obviamente uma
tolice não reconhecer que a componente europeia é importante aqui, que é
absolutamente legítimo reclamar como vossa essa outra identidade cultural,
acrisolada durante séculos. Mas creio que viveríeis mais conformes, ou pelo
menos com outro tipo de conformidade, se abandonásseis, de uma vez para
sempre, esse outro o nome que vos nomeia, ou seja, se deixassem de pensar-se
como ibero-americanos. E, se fosse possível, que se apagasse da mente esse
conceito porque não ajuda em nada a que nos entendamos como aquilo que
realmente somos, uns iberos, outros americanos. Porque é assim que vos vejo,
simples e claramente, americanos.
Segunda questão: que americanos? Porque, ao que parece, a palavra foi
registada como pertencendo aos lá de cima, e segundo conseguiram impor.
Mas essa dificuldade é mais aparente do que real. A Europa, que é muito mais
pequena que a América, esteve dividida em zonas, e com toda a naturalidade
falávamos da Europa Ocidental, da Europa de Leste, da Europa do Norte, com
os seus rios, as suas civilizações e culturas, e da Europa do Sul, que era o
outro lado, com Portugal, Espanha, Itália, Sicília, Córsega... mundos
diferentes. Chamávamos-lhe Europa do Sul e assim nos orientavámos. Em
tempos, os países de Leste constituíram uma ameaça, mas enfim, o que nos
importa aqui é a geografia, esse perigo hoje em dia não nos tira o sono, outros
há, e não melhores...
Mas o que aqui se pretendeu construir foi uma aparência de unidade
cultural, de unificação que, em meu entender, não são razoáveis, não são reais,
são simplesmente conceptuais. Dizer ibero-americano é o mesmo que
formular um voto que temos a certeza não se irá realizar. Dizer ibero-
americano seria, por exemplo, ter uma chave que entrasse em todas as
fechaduras mas que não abrisse nenhuma porta, que é o pior destino que
pode ter uma chave. Dizer ibero-americano é encher a boca de ar e não matar
a fome.
Então, como deveria, e peço que me perdoem este verbo, não sendo eu
mais que um escritor, por estar a falar de temas que não são minha
especialidade, como deveria chamar-se esta terra onde estamos? José Martí,
esse grande vulto cubano, chamava-lhe Nossa América. À América de todos
vós chamava-lhe Nossa América, mas certamente não imaginaria que nas
cartas, nos mapas, viesse a aparecer um dia esse belo nome, Nossa América. O
mundo diria que vocês deviam estar loucos, perguntaria como é que isso se
diz, como é que se pronuncia, o que significa isso, Nossa América... Como, e
porquê, e até onde? José Martí era um poeta. Em minha opinião, mais terra-a-
terra e já com a experiência de Martí, entre outros, esta região, desde o Rio
Grande até à Patagónia, deveria chamar-se simplesmente América do Sul. E
antes de responder às objecções que vão levantar, permitam-me um pequeno
aparte: os norte-americanos não tiveram qualquer dificuldade em resolver o
seu problema. Aceitaram que o seu país era, sem dúvida, o Norte, como
também o Canadá é Norte e é América, ainda que o Canadá tivesse a discrição
de escolher um nome para a sua parte em vez de se apropriar do todo... Enfim,
os norte-americanos designaram-se a si próprios Estados Unidos da América e
assim se chamam e assim lhes chamamos, sem qualquer complexo de culpa.
Mas continuo com o aparte: Se pensarmos que os primeiros a colonizar o que
é hoje os Estados Unidos foram os ingleses, que levaram consigo costumes,
usos e língua, se tivermos em conta, por outro lado, as excelentes relações que
existiram e existem entre a Inglaterra e os Estados Unidos, parece que, em boa
lógica, ou pelo menos seguindo o exemplo que nesta parte da América se
pretendeu impor, os norte-americanos deviam chamar-se anglo-americanos.
Assim ficava clara a sua relação histórica com a Inglaterra, do mesmo modo
que se pretende deixar claro, nesse conceito de ibero-americano, que vocês o
devem a alguém, que vocês próprios, sem o apoio do outro conceito, o ibero,
são muito pouco ou não estão completos. Definitivamente, e retomando a
questão no ponto em que a deixei para falar da América do Norte: se não
existe maior relutância no mundo por designar a parte pelo nome do todo, por
que teria ela de existir por chamar-se América do Sul à terra que fica a sul do
Rio Grande? Já sei que é preciso forçar conceitos geográficos, mas o que
proponho é uma opção política: Sul como conceito distinto de Norte, Sul sem
exclusão de culturas, sem ecos coloniais, Sul como proposta própria e
hegemónica. Um Sul que englobaria também aquilo a que hoje chamamos
América Central e que, quem sabe, talvez com outra vinculação aos que lhe
são afins, estaria mais livre das turbulências a que tem vindo a ser submetida.
Nem sequer é necessário recordar a história e os acontecimentos: estão
demasiado presentes, conhecemos a consideração que como países
independentes têm merecido por parte de certos governos do Norte. Sim, um
desses países servia de pátio traseiro, e não era o pior de todos. Enfim, a
história da infâmia escreve-se todos os dias, desgraçadamente.
Voltemos à América, à Nossa América, deixando de lado essa outra que
certos poderes querem que continue a ser líder mundial: tenho de confessar-
vos que não me agrada nada que vos tratem, e a este fórum, como «líderes»: já
imaginaram bem o que é caminhar pela vida carregando nos ombros o fardo
de ser líder? Suponho que será terrível. Há ideias melhores para se sonhar
com elas do que esta da liderança que, tal como o carisma, é algo que se
prepara usando as técnicas adequadas. No fundo, quanta alquimia é necessária
para se chegar a líder. Pergunto: pode nascer-se sendo já um líder? Bush
nasceu sendo líder mundial ou foram outros e as circunstâncias que lhe
entregaram a liderança?
Creio que vocês, universitários de um e de outro lado do oceano, devem
fazer simplesmente o trabalho para o qual estão preparados. Se algo se pode
salientar, pela vossa parte, entre vocês todos, e pela nossa, àqueles que
organizaram o curso, é que foram bons alunos. Apenas isso. Mas isso não
chega para se ser líder, chega para se ser proveitoso à sociedade em que a
maturidade do estudante se irá desenvolver.
Invejo-vos: tive uma educação em todos os sentidos precária, trabalhei
como serralheiro mecânico, sou Prémio Nobel de Literatura. A minha vida
não foi fácil em nenhum aspecto. Nascido numa aldeia pobre, como
certamente alguns dos que aqui estão, de países como Equador, Peru ou
Honduras, por exemplo, nas mesmas circunstâncias, à base de esforço, sem
traçar metas que não dependiam de mim, sem vontade de liderança, que
nunca a tive. Asseguro-vos, nunca em nenhuma idade, nem sequer agora, me
senti líder, mas tive a consciência muito nítida do valor do trabalho, e assim
cheguei a este fórum para vos dirigir a palavra. Evidentemente que não me
estou a dar como exemplo, mas o que eu gostaria é que não levassem
demasiado a sério o rótulo de líder com que que vos etiquetaram, e lamento,
Rosa, porque parece que estou a criticar a organização, porém, é mais
profundo do que isso e tenho a certeza de que me compreendes. Suponho
que nenhum dos presentes se enfrentará à sociedade dizendo «Eu sou líder,
sou um bolseiro líder». Não. Um sentimento de pudor impedir-vos-á
seguramente de, pelo menos em voz alta, pronunciar uma tal tolice.
Ibero-América: Não sei se os governos estariam na disposição de alterar
o mapa, mas creio que isso seria um debate importante porque nos libertaria,
ou libertá-los-ia a eles, dessa espécie de tutela, que não é mal-intencionada,
que não foi certamente uma qualquer estratégia de um grupo de pressão, mas
que existe. E ninguém que seja maior de idade gosta de ser tutelado. Ser
americano é demasiado importante para que tenha de se lhe juntar o
complemento «ibero». Não é necessário. E ainda é pior dizer latino-americano,
porque então entramos num labirinto de definições e de conceitos que nunca
mais acaba, e vamos encontrar nele até a igreja católica, que é o único latim,
não nos queiramos enganar, que chegou a este continente, e como chegou...
Claro que o português e o francês, e o castelhano, e tantas outras línguas,
derivam do latim, mas esse antecedente é demasiado remoto, ou talvez
demasiado óbvio, para definir o que quer que seja, tanto país como pessoa.
«Latino» ou «ibero», em minha opinião, são conceitos que se impõem e
que se apresentam como uma tutela, invisível, se quiserem, inconsciente por
ambas as partes, que não terá sido intencional, convenhamos, mas que se
depreende, e reparem que se depreende com muita intensidade.
A minha proposta não é bem uma proposta, é somente a conclusão
necessária de tudo o que tenho vindo a dizer desde que me sentei perante vós:
esta terra devia chamar-se América do Sul, ponto final. Todos saberiam que
falávamos de uma parte fundamental de um continente que tem outra parte ao
Norte, ainda que aí, sim, haja problemas, porque o Canadá teria de resolver de
que forma se apresenta ao mundo, uma vez que não é Sul, uma vez que o
Norte dele se apropriou abusivamente, como potência que é. Tomássemos a
América do Norte como conceito, como continente, e todos saberíamos do
que estamos a falar. Evidentemente que de imediato surgiria o que é, acima de
tudo, importante: é-se colombiano, é-se mexicano, é-se guatemalteco, cada
povo com a sua identidade própria, identidade que, agora sim, deve estar
sujeita, como comecei por dizer, a todas as análises, identidade que implica
igualdade, que implica permanência, que reclama o que a identifica e que faz
dela uma identidade reconhecível em todo o mundo. Os países, tal como as
pessoas, têm bilhete de identidade, o facto de se ter nascido em Espanha, ou
em Portugal, ou no Uruguai, é um documento que nos comprova, mas que
também nos permite dizer, com apoio documental, que somos simplesmente
espanhóis, ou portugueses, ou uruguaios, sem necessidade de recorrer a
referências à Europa ou à América.
Acho que deviam mudar o nome. Que façam como os chineses, não os
de agora, que a história é outra. No passado, dava-se aos chineses um nome
quando nasciam, mas quando eles atingiam uma determinada idade, e se
assim o quisessem, podiam mudá-lo e, se o faziam, era porque não se sentiam
identificados com o primeiro nome, aquele nome inicial que se lhes tinha
imposto. É um exemplo bonito, este, quase apetece dizer que esta tradição
chinesa é justiça poética. Apoiada, suponho, pela lei... Penso que se deve
aprender a lição com os chineses, pois parece-me, sinto-o ao olhar este
continente, que chegou a hora de mudarem vós próprios o vosso nome.
O outro lado da lua é o título destas minhas reflexões em voz alta. Vimos
um lado, a parte sempre visível, o continente rico e contraditório em que
estamos e, em meu entender, esse continente precisa de um nome diferente
daquele que lhe foi dado. Porquê? Porque existe a parte oculta, a parte que
não aparece por não ser nomeada: essa é a importância capital de um nome,
que tanto pode tornar visível como ocultar. Dizer Ibero-América é continuar a
ignorar a existência da face oculta deste continente. Esta questão perturba-me
muito, nem sabem quanto...
Onde estão os índios? Os povos indígenas também são ibero-
americanos? O guatemalteco que provém e se reivindica de uma etnia anterior
à chegada dos povos ibéricos também é ibero-americano? E por que razão,
num encontro em que, entre outras coisas, se fala da identidade ibero-
americana, não se fala igualmente das outras identidades que dão forma a este
continente? Não têm o mesmo nível cultural? Ou será que não têm o mesmo
nível económico? Não sei se estão aqui índios, indígenas com a consciência
clara de o serem. Não falo de mestiçagem, outro conceito que deveria ser
revisto, não me refiro a índios aculturados, eventualmente com uma situação
económica razoável. Não falo deles, falo de milhões de homens e de mulheres
que têm sido e continuam a ser sistematicamente ignorados. Não consigo
entender que não se tenha falado, neste encontro, dos povos indígenas, que
nem a palavra índio tenha sido pronunciada até ao momento, estando nós
onde estamos, que não estamos em Bruxelas.
Quantos milhões de índios restam? Às vezes digo, não com autoritas mas
imbuído de um certo espírito romântico, ou melhor, com o espírito
característico do romantismo, o que não é incompatível com a verdade
histórica, que os índios eram os donos da terra. Quando Colombo aqui
chegou e quando Pedro Álvares Cabral chegou ao que depois se chamou
Brasil, encontraram pessoas e culturas, algumas delas muito avançadas. Havia
idiomas, havia literatura, embora em alguns casos apenas de expressão oral,
mas a narração, ainda que não escrita, é já uma manifestação literária.
Que temos feito? Que fazemos? Ou antes, que podem vocês fazer?
Como vêem, eu nada mais posso que perguntar. Surpreendido, assombrado,
perplexo. Por que razão se esquecem, se ignoram, os índios, os índios da
Colômbia que estão aqui, ao lado desta sala, à porta? Os índios da Guatemala,
que são cinquenta por cento da população. Os do México, que são milhões...
Que farão com eles, com toda essa gente? Continuarão a habitar a face oculta
da lua?
Claro que a palavra mágica é integração. Mas integrar como? Porque a
palavra mágica não chega para fazer magia. E a integração, para ser autêntica,
tem de ser uma inter-integração. Eu integro-me em ti e tu em mim, mas não é
nisto que pensamos quando falamos de «integração». Sejamos sinceros: se
aplicarmos a palavra, e o conceito que a palavra encerra, aos índios da
América, desta América, gostaria de saber que integração estariam dispostas a
conceder-lhes as classes privilegiadas e dominantes, que parte dos indígenas
iriam reclamar como própria. Temo que nenhuma, porque integração significa
que «eles» devem incorporar-se aos valores dominantes. Ou seja, não haverá
integração, e vocês sabem-no, no sentido de interactuação, e aos índios não
lhes restarão senão duas alternativas: desaparecer e, por assim dizer, limpar o
terreno, que é, por exemplo, mais ou menos a ideia que Israel tem em relação
aos palestinos, esperando simplesmente que desapareçam, tudo fazendo para
que isso aconteça, ou que adoptem os modos e as maneiras hegemónicos. De
integração e de mestiçagem, nada, apenas imposição drástica, ainda que
operada com subtileza.
Por que se transformou o índio de dono da terra em servo da terra?
Como é que a terra passou de umas mãos para outras? Sabe-se que os norte-
americanos resolveram o problema encerrando em reservas os peles-
vermelhas que sobreviveram ao genocídio. Esta é uma outra forma de acabar
com o problema, que antes me escapou. Embora, de certo modo, as aldeias
onde vivem os índios daqui não deixem de ser reservas, reservas onde se
obtém mão-de-obra barata, reservas que são ignoradas. Contudo, para nós eles
vivem naquilo a que chamamos Idade Média, ainda que para eles a perspectiva
seja outra, porque a compreensão do tempo nas suas cabeças, na sua
inteligência e na sua sensibilidade é seguramente diferente da nossa. Do nosso
ponto de vista, é como se eles acreditassem que o tempo está imóvel,
suspenso. Talvez estejam contando as suas vítimas ou perguntando-se como
foi possível, que tsunami os despojou de tudo, tantas vezes e a tantos deles,
não só da sua identidade primeva, mas também da sua própria auto-estima.
A pergunta que vos dirijo, distintos estudiosos, é esta: quantos milhões
de índios existem desde o México até ao sul do Sul? Quantos mapuches, quer
sejam da Argentina ou do Chile... Aos do Chile, parece que lhes resta menos
de dez por cento do seu território histórico. O restante foi-lhes roubado por
grandes multinacionais. Tanto na Argentina como no Chile, a Benetton é
proprietária de territórios equivalentes a países. Os índios foram saqueados, e
agora, aos que protestam, aplica-se no Chile uma lei antiterrorista. Há pessoas
que não podem dizer «Isto é meu», enquanto existem empresas, terratenentes
que podem afirmar, com toda a impunidade, «Isto agora é meu». E se alguém
quer reaver a propriedade da terra, dizendo «Não, não era teu nem nunca
será», se alguém diz «Roubaste-mo, quero que mo devolvam», será acusado de
alteração da ordem e sobre ele recairá o peso da lei. Não sobre os que se
instalam em proveito próprio, com as leis que eles próprios declararam santas,
ou seja, as leis do Estado e do mercado.
Não proponho, obviamente, que as cidades e as regiões emblemáticas
para os mapuches sejam devolvidas aos seus descendentes, aos tataranetos dos
que nessa época ali viviam. Não é isso, não se trata disso, porque, sendo o
mundo o que é, isso não seria possível. O que se deveria fazer era procurar
fórmulas para que os mapuches não sejam ignorados e para não consentir que
se criem pretextos para as situações terríveis que suportam, carnificinas contra
os pobres, destruição de aldeias, sem que isso seja notícia. Porque o índio não
é notícia. Abre-se um qualquer jornal e esta vertente importante da
população, ainda que se trate de uma minoria, não faz parte da realidade que
os meios de comunicação retratam. Não deixa de ser curioso que, agora que
andamos preocupados com a protecção das minorias, inclusive das minorias
políticas, e que queremos que tenham representação parlamentar para que a
diversidade ideológica e política do país aí se encontre retratada, radiografada,
essa minoria maioritária que são os índios esteja tão ausente dos meios de
comunicação. Não se fala dos índios a não ser por coisas sem importância. E
se não são vocês a falar, se não começam a falar dos índios, estão a cometer
uma falta grave, porque isso é considerar que uma parte da população não
merece sequer o esforço para tirá-la da miséria, da humilhação para que foi
empurrada. Lembrem-se de que esses povos já levam cinco séculos de
humilhação. Roubaram-lhes os idiomas, roubaram-lhes as crenças, roubaram-
lhes as terras, roubaram-lhes os deuses. Roubaram-lhes tudo, tudo, tudo,
tudo. Não tenhamos ilusões: o que aconteceu foi extorsão, um roubo planeado
com eficácia e acompanhado da imposição de uma nova religião que, por mero
acaso, é também uma religião de humilhação, de negação do indivíduo. Há
algo de maquiavélico em todo este processo que existe, que se arrasta, há
quinhentos anos.
E, por favor, como somos adultos, não repitamos algo que sabemos
estar errado, não houve nenhum encontro de civilizações, em lugar nenhum
os índios se meteram nos seus barcos, nas suas canoas, para cruzar o Atlântico
e, por um acaso extraordinário, encontrar-se na sua rota com Colombo ou
Álvares Cabral. Aqui chegaram as naus ou as caravelas que traziam, entre
outros, dois personagens importantíssimos: o frade e o soldado. O frade
punha o pé em terra e dizia: «Os vossos deuses são falsos. Eu trago comigo o
verdadeiro Deus.» Esqueçam por um momento o imperdoável pecado do
orgulho, que é dizer: «Eu trago comigo o verdadeiro Deus», e que teve como
resultado uma aculturação violenta, em todos os aspectos, embora seja certo
que, pelo menos os guatemaltecos, vi isso numa viagem que fiz, dão às igrejas
uma utilização muito pouco canónica porque se sentam no chão, acendem
velas no chão, não dão importância nenhuma ao altar, ao que aí por cima se
passa, e é no chão que fazem os seus rezos. Não sei o que rezam. Tudo isto
deveria merecer um imenso respeito. Mas, dizia eu, chegaram o frade e o
soldado. E enquanto o frade dizia «trago comigo o verdadeiro Deus» já o
soldado preparava a arma e arvorava a bandeira da conquista. Atrás, com
menos aparato simbólico, vinham o cobrador de impostos e o mercador: não
se expunham, mas eram eles que contabilizavam os lucros. Onde está o
encontro?
Acontece que há descendentes daquelas antigas civilizações. E acontece
que esses homens e essas mulheres, ignorados pela comunicação social, mas
com línguas próprias, com costumes, com tradições, ignorando algumas coisas
e sendo sábios em outras, pobres, humilhados, muitas vezes vencidos, esses
homens e essas mulheres também são americanos. A história assim o quis,
mas são americanos invisíveis, ou pelo menos assim me parece, porque, para
começar, não apareceram neste encontro como se fossem sujeitos de nada,
nem do seu presente nem do seu destino. Eu acho que algo terá de ser feito,
que não podemos permitir-nos ser habitantes de uma espécie de segundo
país, como se bolseiros e convidados pertencêssemos a outra galáxia, como se
os que aqui estamos fôssemos universitários norte-americanos ou europeus,
ou de qualquer outra parte do mundo onde não existisse uma comunidade tão
importante como a dos índios americanos reduzida à condição de mera
anedota.
Esqueceram-se do índio. E isso é grave. É grave porque, se nos
esquecermos uma vez, ainda poderemos corrigir o esquecimento, mas se nos
esquecermos uma, duas, uma infinidade de vezes, já que os índios têm sido
esquecidos todos os dias desde 1500 até hoje, então a coisa vai mal, muito mal,
pois é como se não se tivesse avançado no direito internacional, como se não
se tivesse abolido a escravatura.
Há já tempo que venho dizendo que o futuro da América, desta Nossa
América, desta América do Sul, dependia em muito da emergência dos povos
indígenas. Da emergência desses povos, deixando a vasa do fundo e
aparecendo à luz do Sol. Porque uma América que recuperasse, na figura
desses índios, o que ainda sobrevive da sua identidade original, seria
seguramente diferente e melhor. Porque sucede, infelizmente, que
determinadas classes hegemónicas neste continente, determinados
comportamentos de certos autodenominados «líderes», não passam de cópias
de formatos europeus ou norte-americanos. E não há nada pior do que ser
cópia de alguma coisa...

Falta o índio. Não se assombrem com o que este senhor de respeitável


idade, europeu, diz do alto desta tribuna. Pois repito: falta o índio. E isto é
terrível, é como se uma classe social, uma classe social já integrada, uma parte
da classe média, por exemplo, fossem, por razões inexplicáveis, excluídas,
segregadas da comunidade nacional. Se tal acontecesse, de imediato se
manifestariam protestos e indignação: «Não pode ser», diriam. E com toda a
razão. Mas os índios há quinhentos anos que são excluídos e segregados.
Vocês têm agora uma oportunidade, uma dupla oportunidade: ajudá-los a
salvarem-se do extermínio, ajudarem-se a vós mesmos a salvar a vossa própria
dignidade de cidadãos que não transigem com a barbárie herdada. Talvez a
contribuição dessa gente, com os seus valores próprios, possa realmente
ajudar a mudar a América.
Porque a América necessita ser a América, não olhar para o lado, para
os países da Europa ou para os Estados Unidos, porque, sendo América, tem
outra tradição e outros valores. Vós sois outros, sois diferentes; não queirais
ser iguais a ninguém. A identidade da América do Sul tem de passar pela
contribuição do outro, do índio. Nunca aqui foi dito que o melhor índio era o
índio morto, ainda que o tivessem matado. Não reivindicamos o outro por ser
uma moda literária, o que nos move não é qualquer tipo de indigenismo, nada
disso. É um simples e urgente sentido de justiça e, quem sabe, a necessidade,
que não sei se é compartilhada, de incorporar o outro nas nossas vidas.
Enquanto indivíduos, talvez esta necessidade não seja sensível, mas o
continente americano do sul necessita esse sangue, necessita essa cultura,
necessita essa gente para se completar. Não esqueçam. Porque esquecer uma
vez mais a face que a lua quis ocultar seria uma infâmia e já é tempo de acabar
com a infâmia de cinco séculos de extorsão e de humilhação.
Há uma escritora mexicana, Rosario Castellanos, que é imprescindível
ler. Nestes países da América do Sul não têm faltado escritores que
observaram o índio, o indígena, ainda que isso, no fundo, não mudasse nada
para melhor porque a sociedade encontra sempre antídotos para as pessoas,
neste caso intelectuais, que dizem coisas incómodas para a consciência de
cada país. Esta mulher, Rosario Castellanos, escreveu livros
interessantíssimos. Era de uma família abastada, uma das grandes fortunas de
Chiapas e de toda essa região oriental do México, mas ela, observadora,
escreveu um livro em que deixa claro que a humilhação a que o índio foi
submetido ao longo dos tempos foi uma vergonha. Falo, por exemplo, de
Ciudad real, um monumento literário e humanista, que recomendo que leiam.
O povo de San Cristóbal de las Casas, ou seja, Ciudad Real, vivia sem se dar
conta do que se estava a passar, acreditava que essa era a ordem natural das
coisas, a vontade do Deus de todos, mas, como sempre acontece, quando se é
Deus de todos, é-se mais Deus de uns que de outros. E, acima de tudo e como
sempre, era o Deus dos ricos.
Não quero complicar de mais a vida a ninguém, mas gostaria que esta
noite fosse para vocês uma noite de insónia. E gostaria ainda mais que sobre o
tema da questão do nome, seja ou não seja ibero-americano, no fundo isso não
tem muita importância, ainda que me pareça que deva merecer a atenção dos
que aqui vivem, gostaria, dizia eu, que se sentassem juntos portugueses,
espanhóis, hondurenhos ou aquilo que forem, de todos os países que aqui
estão representados, para responderem a esta pergunta: «O que é que nos
aconteceu para termos esquecido o índio?» E oxalá se tirem algumas
conclusões. E que esse debate se integre no quotidiano, esse debate ou essa
tomada de consciência, na acção futura.
Talvez que no futuro algum dos líderes que estão hoje nesta sala, ainda
que por agora bolseiros, quando for chegado o momento, se chegar, de serem
de facto líderes políticos ou empresários, pense nisto que no momento nos
preocupa, que a mim me preocupa.
Suponho que trabalham para serem dirigentes nos dois mundos do
poder, para se tornarem empresários ou políticos, que são as duas carreiras
em aberto. Aos empresários, talvez não lhes importe muito esta questão do
índio, eles têm outra escala de valores, mas se pensais em seguir a política, se
tiverdes assento nos parlamentos de cada país, façam-me o favor de corrigir
este desatino, esta injustiça. Que não é só uma injustiça histórica, é um crime
histórico. A história é sempre escrita pelos vencedores. Imaginem como seria
a história da América escrita pelos indígenas, pelos índios. Como seria? Cinco
séculos passados, talvez seja o momento de retomar o bom senso. Ou de o
impor, enfrentando interesses que não têm de ser árbitros de coisa alguma,
depois de terem sido parte abusiva de tudo.
É tempo de vermos a lua em todo o seu esplendor. Por favor, não a
escondam.