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Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s)

Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es).

GINÁSTICA DANÇANTE COM IDOSOS: CONVIVÊNCIA, EDUCAÇÃO E EXERCÍCIO DA CIDADANIA Nadia Dumara Ruiz Silveira Vanessa Idargo Mutchnik

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Brasil

RESUMO

O grupo de ginástica dançante do Parque da Aclimação reune todos os dias,

aproximadamente de 20 a 30 pessoas de 15 a 84 anos que, sob a liderança de uma professora e duas assistentes voluntárias, participam de atividades de dança. A atividade é gratuita, sem qualquer vínculo institucional e envolve jovens, adultos e idosos, num espaço público, onde vivenciam relações intergeracionais. As coreografias são propostas e praticadas com espontaneidade pelos integrantes,

respeitando-se as diferenças quanto às formas de expressão corporal na relação com o ritmo musical. O estudo realizado teve como objetivos conhecer a origem desta prática e caracterizá-la quanto a sua proposição, formas de desenvolvimento e resultados obtidos, tendo em vista as concepções sobre educação e cidadania de pessoas idosas. Como se trata de uma vivência informal, adotamos uma abordagem

qualitativa. A coleta de dados foi realizada por meio da técnica de observação direta

de uma das pesquisadoras participante do grupo e entrevista com a professora

responsável pela atividade, tendo como roteiro algumas questões relativas aos

objetivos propostos. Os resultados obtidos revelam que o grupo se reuniu, de início com pretensões limitadas quanto às suas propostas e composição. Visava preservar práticas da cultura chinesa com um número restrito de participantes, mas acabou por ampliar suas pretensões num processo de abertura cultural e de criatividade, atendendo, também, as exigências formais colocadas pelas autoridades responsáveis pelo espaço. Num processo de aprendizagens contínuas o grupo foi se reorganizando pela participação ativa dos seus integrantes, dentre eles os idosos; todos procurando garantir seus direitos, cumprindo os deveres correspondentes, motivados pela prática

de uma atividade prazerosa.

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Palavras Chave: Velhice, Relações Intergeracionais, Cidadania.

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No início de 2007 ao finalizar minha atividade física matinal na pista de corrida do parque da Aclimação por volta das 07h30min da manhã, escutei uma deliciosa música, animada, convidativa, tocando próxima ao portão do parque. Para mim aquilo era novidade, pois geralmente eu corria mais cedo, porém com meu atraso tive uma agradável surpresa. Conforme fui me aproximando do local de onde vinha a música que ecoava por todo o parque vi um grande grupo de pessoas, cerca de 30, perfiladas, dançando de forma divertida e organizada sob a orientação de uma “Professora de dança”. Fiquei observando por algum tempo e me aproximei das pessoas que dançavam sendo a maioria mulheres aparentando ter idade entre 50 e 70 anos com roupas confortáveis demonstrando muita disposição e bom humor. Perguntei como poderia aderir ao grupo e alguns disseram: “é só começar a dançar, olhe para as professoras. Depois informaram que existem duas voluntárias para auxiliarem o grupo quando são feitas coreografias em que a professora principal fica fora da linha de visão, servindo de espelho para os participantes. Indicaram-me apontando para elas que se colocavam em cada lado do grupo cujos integrantes formavam fileiras, configurando um retângulo. Timidamente me coloquei em uma das fileiras e comecei a imitar os passos feitos pelos participantes e pelas professoras. Dancei durante uma hora e me diverti muito, as pessoas me apoiavam para que superasse as dificuldades que foram muitas e me incentivavam a continuar. Ao final, me informei quanto à dinâmica do grupo e confirmei que era uma atividade gratuita sem vínculo institucional que realmente dependia apenas da participação da professora e das assistentes (todas voluntárias) e de quem quisesse parar e dançar. Desde então me tornei freqüentadora assídua do grupo e pude observar que a dinâmica utilizada na prática da ginástica dançante revelava características marcantes em relação à longevidade devido à variada faixa etária dos integrantes do grupo. A metodologia utilizada pela professora é acessível a todos e a atividade possibilita um exercício de cidadania por ser realizada de forma organizada num espaço público e com participação de voluntários.

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Este cenário é diferente das suas origens, quando há cerca de 15 anos atrás no início dos anos 90 a psicóloga Bihju Lin Ian juntamente com sua mãe e alguns amigos orientais que participavam do grupo Hakar iniciaram a ginástica dançante no Parque da Aclimação. O objetivo deste grupo era vivenciar e divulgar a cultura chinesa através da prática da atividade física, muito difundida na China, pois segundo a entrevistada, que é chinesa de Taiwan, naturalizada brasileira, em qualquer espaço público no país se vê pessoas praticando diversos tipos de atividades físicas que envolvem dança, meditação, entre outras. Este grupo inicial de aproximadamente seis pessoas praticava o que em mandarim se chama In Lee Tsao, denominado pela professora Bihju de Ginástica Dançante. A sabedoria do oriente em relação à filosofia, espiritualidade, natureza e outros aspectos da vida humana tem contribuído para se refletir sobre os valores da sociedade capitalista ocidental. Por outro lado, a civilização ocidental revolucionou as formas tradicionais de convivência ao instituir a prática da democracia e a defesa dos direitos individuais e sociais. As possibilidades de aproximação e interação entre as culturas ocidentais e orientais é tratada pelo filósofo francês Edgar Morin em suas obras ao destacar os benefícios que esta troca pode nos trazer quando pensamos na transformação da humanidade:

“As culturas devem aprender umas com as outras, e a orgulhosa

cultura ocidental, que se colocou como cultura-mestra, deve-se

tornar também uma cultura aprendiz. Compreender é também

A abertura da cultura

ocidental pode parecer para alguns ao mesmo tempo não

compreensiva e incompreensível. Mas a racionalidade aberta e

autocrítica decorrente da cultura européia permite a compreensão

e a integração do que as outras culturas desenvolveram e que ela

atrofiou. O Ocidente deve também incorporar as virtudes das

outras culturas, a fim de corrigir o ativismo, o pragmatismo, o

“quantitativismo”, o consumismo desenfreados, desencadeados

dentro e fora dele. Mas deve também salvaguardar, regenerar e

propagar o melhor de sua cultura, que produziu a democracia, os

aprender a reaprender incessantemente (

).

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direitos humanos, a proteção da esfera privada do cidadão.”(

MORIN, 2000, p.102 e104)

É curioso perceber que de um lado a liberdade sem criatividade cai no vazio do assistencialismo e uma sociedade que não é estimulada a desenvolver autonomia não sabe desfrutar de sua liberdade, por outro lado a criatividade e autonomia sem respeito à subjetividade humana, como acontece nos países que vivem em regimes ditatoriais, entre eles a China, também resultam em insucesso por desconsiderar a importância do sujeito enquanto cidadão. Considerando o contexto exposto que deu origem à ginástica dançante e tendo como objetivo caracterizar a proposta da atividade e seus resultados cabe situar que, inicialmente, o grupo era composto de pessoas com faixa etária acima de 60 anos e a professora era mais jovem, com perfil extrovertido e disposição para a atividade. O grupo passou a ocupar informalmente o espaço do parque, porém com o aumento do número de participantes foi necessário pedir autorização da administração responsável pelo local para realização das atividades. Até hoje, as licenças são renovadas anualmente junto à Secretaria do Meio Ambiente para que a professora Bihju possa realizar as aulas, utilizando um equipamento de som com bateria recarregável adquirido com recursos próprios das pessoas que formaram o 1º grupo. Tendo em vista o modo de ocupação do parque e a maneira como foi organizada a realização da atividade da ginástica dançante percebemos que, de modo geral, o espaço público é concebido como um local onde informalmente as pessoas passam o tempo ou realizam espontaneamente seu lazer. Não há consciência de que atitudes e iniciativas, como as que deram origem à atividade em pauta, implicam no exercício da cidadania e em lutas pela garantia de direitos que podem e devem se realizar em vários locais da cidade. A cidadania, é, pois, a participação ativa nos assuntos da Cidade” (CANIVÉS, 1991, p.30). No grupo de Ginástica Dançante do Parque da Aclimação a cidadania é exercida pois, além de desfrutar do espaço público, as pessoas participam da tomada de decisões do bairro envolvendo-se em abaixo assinados, pesquisas públicas, divulgação de serviços da região e troca de informações de utilidade pública.

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A professora, de origem chinesa, naturalizada brasileira e residente no Brasil há 45 anos, demonstra seu sentido de pertencimento e instiga a participação de todos ao falar sobre a obrigação” dos cidadãos em preservar os locais públicos e o direito de utilizar um espaço que é mantido pela verba pública, ou seja, através da arrecadação de impostos. Tanto a professora, como suas auxiliares e os integrantes do grupo, moradores da região, acertam coletivamente os serviços de manutenção do equipamento de som, a compra de materiais e outros custos considerados necessários. Estas vivências que fortalecem o coletivo se refletem também na abertura do grupo para mudanças Uma destas mudanças ocorreu com a alteração da idéia original do grupo que era trabalhar com a população idosa e com músicas orientais, porém com a adesão de pessoas das mais variadas origens reforçado pelo perfil inovador da professora Bihju, como é conhecida no grupo, hoje, o repertório é composto de diferentes tipos de música como: mambo, forró, tango, rock, pop, funk e danças típicas orientais. O sentido de participação democrática se faz presente no espaço público do parque e na Ginástica Dançante que considerando o interesse e curiosidade dos seus frequentadores recebe participantes de idades variadas (15 a 84 anos) promovendo assim a verdadeira inclusão social. As atividades são comuns a todos, respeitando-se as possibilidades e habilidades de cada um. Muitos dos participantes ajudam a criar novas coreografias e passos para os ritmos musicais. O significado educacional da Ginástica Dançante se revela na concepção da professora de que, ser educador é ter sensibilidade, perceber as características individuais e a dinâmica do grupo e adequar a aula a partir desta realidade. É importante considerar a subjetividade dos participantes, seus desejos e motivações e seu potencial de aprendizagem. Este deve ser o olhar do verdadeiro educador aquele que, segundo FREIRE (2008), sabe que ensinar é uma especificidade humana e como tal exige respeito aos saberes dos educandos. Esta postura em relação ao idoso é fundamental para que a velhice possa ser vivida como uma fase onde a possibilidade da reinvenção, da criação do novo é real e pode acontecer nos espaços públicos, onde a cidadania também é exercida.

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Este grupo da Ginástica Dançante caracteriza a possibilidade de melhoria na condição de vida dos idosos que passam a se sentir incluídos numa rede dinâmica de interações favorecedoras de novos projetos e mudanças na sua comunidade que assumem um efeito multiplicador. Segundo SANTOS (2000, 169) a revalorização radical do indivíduo contribuirá para a renovação qualitativa da espécie humana, servindo de alicerce a uma nova civilização”. Esta transformação ética é o caminho para a humanidade continuar evoluindo e existindo em comunhão com o planeta e, para isso é necessário que as pessoas revejam seus valores e ações diante da vida. Estas mudanças têm um sentido ético e indicam o surgimento dos “novos velhosque, graças a projetos e iniciativas inovadoras como a Ginástica Dançante estão cada vez mais ativos e participantes dos processos de construção de condições de vida com qualidade, ocupando espaços sociais, formando opiniões e ganhando força individual e coletiva.

BIBLIOGRAFIA CANIVEZ, P. (1991) Educar o cidadão? Campinas, SP: Papirus. FREIRE, P.(2008) Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. MORIN, E. (2000) Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. São Paulo:

Cortez SANTOS, M. (2000) Por uma outra Globalização: do Pensamento Único à Consciência Universal. São Paulo: Record. SILVEIRA, N. D. R. (2003) Utopias Possíveis da Longevidade: Crônicas, Poesias e Contos. n 18. ComPUCtador. São Paulo: PUC-SP. VERAS, R. (1995) Terceira Idade: um envelhecimento digno para o cidadão do futuro. Rio de Janeiro: Relume Dumará

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NADIA DUMARA RUIZ SILVEIRA Dra.Ciências Sociais USP. Profª da Faculdade de Educação e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, PUC/SP. Diretora Adjunta da Faculdade de Educação PUC/SP E-mail:

VANESSA IDARGO MUTCHNIK. Terapeuta Ocupacional (Centro Universitário São Camilo); Especialista em Administração Hospitalar (Centro Universitário São Camilo); mestranda em Gerontologia (PUCSP). E-mail: vidamut@uol.com.br