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LINHAS PRIORITÁRIAS DE PESQUISA EM BOTÂNICA: FITOSSOCIOLOGIA E DINÂMICA DE POPULAÇÕES DE PLANTAS

Waldir Mantovani 1

A fitossociologia no Brasil teve seus primeiros trabalhos efetuados na década de 40, mas

somente na década de 80 se firmou como uma área de pesquisa das mais relevantes em ecologia, com massa crítica de trabalhos que permitiram bons diagnósticos de parte da estrutura de diversos biomas brasileiros, principalmente o cerrado e as florestas ciliar, estacional semidecidual e pluvial tropical. Em relação às publicações internacionais, a fitossociologia teve seu auge na década de 60, sendo desenvolvida aqui, portanto, com 20 anos de atraso. Estes trabalhos desenvolvidos no Brasil, como muitos outros que vêm sendo feitos até os dias de hoje, procuraram analisar parte da estrutura da vegetação, principalmente o seu componente dominante, notadamente com base na amostra de árvores, a partir de critérios de inclusão que foram muito variados, mesmo considerando-se o mesmo bioma. No caso do cerrado, houve uma

padronização maior, ao passo que nos levantamentos de florestas, a variação foi excepcionalmente grande, adotando-se quase sempre critérios pouco abrangentes, tamanhos e formas de parcelas variados ou algum método de distância, principalmente o de quadrantes, o que dificulta sobremaneira as análises comparativas.

A partir de meados da década de 80, claramente desde a constituição de um programa de

pós-graduação formando pesquisadores na Unicamp, alguns grupos de estudo começam a

interpretar os seus resultados com base em características fisiológicas ou de dispersão das espécies, classificando-as quanto à exigência de luz ou à síndrome de dispersão. Dada a massa crítica de trabalhos que é produzida, são comuns a partir deste período as comparações entre as floras obtidas, como se fossem representativas dos biomas sob estudo, e como se os esforços amostrais, os critérios de inclusão, a heterogeneidade interna entre áreas ou os estádios de sucessão dos trechos analisados, entre muitos outros fatores, não fossem relevantes, tentando estabelecer relações fitogeográficas entre biomas ou comunidades de um mesmo bioma.

A inserção de instrumentos numéricos às análises fitossociológicas é fortalecida neste

mesmo período, buscando-se, principalmente, significância entre as diferenças nos valores obtidos para algum parâmetro, relações e correlações entre a estrutura observada e algum parâmetro ambiental, principalmente do clima e do solo. É desta mesma época a aparecimento da preocupação quanto a representatividade do trecho sob análise, inserindo-se nas análises instrumentos de sensoriamento remoto - fotos aéreas e imagens de satélite -, que permitiram extrapolações, além de estimular-se o resgate histórico de ocupação da área, já que isto pode alterar de forma radical a estrutura original da vegetação, raramente encontrada nos dias de hoje. São dos principais limites às interpretações feitas com base nestes levantamentos: - a falta de conhecimento fundamental acerca da fisiologia das espécies, em suas várias etapas do ciclo de vida, o que tem levado a interpretações que variam muito entre os pesquisadores, acarretando em incorreções na classificação do estádio sucessional da vegetação nos trechos analisados; - o uso de dados climáticos e do solo que nem sempre são representativos do local, ressaltando-se no caso do solo o papel que a própria vegetação tem na sua estrutura e fertilidade; - a identificação das espécies com base em material vegetativo, levando em conta que muitos herbários regionais não têm material botânico bem identificado; - o conhecimento muito parcial dos biomas, já que critérios restritivos de amostragem não permitem conhecer-se adequadamente a estrutura interna dos biomas (componente herbáceo, arbustivo, arbóreo de sub-mata, epífitas e lianas); - o desperdício de uma grande quantidade de informações contidas nas tabelas fitossociológicas, interpretadas em sua maioria como se fosse um concurso das 10 mais em VI; e - algo que é essencial a qualquer área de ciência, que é o desenvolvimento da pesquisa a partir de perguntas bem elaboradas e de objetivos

1. Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências - Universidade de São Paulo wmantova@ib.usp.br

que não sejam os de: contribuir ao conhecimento de algum trecho de vegetação, o que tem acarretado, entre as conclusões, a de que: são necessários novos estudos. Por outro lado, não fosse a fitossociologia, até muito recentemente pouco se saberia acerca da flora da maioria dos biomas do território brasileiro, já que são poucos os trabalhos de levantamentos florísticos amplos. São limites atuais importantes à fitossociologia avanços no conhecimento da fisiologia das espécies, o pequeno número de especialistas nos diversos grupos vegetais, principalmente às plantas dependentes do componente dominante dos biomas, de instrumentos numéricos à interpretação, principalmente de análises multivariadas, essenciais à discrimição dos fatores determinantes da estrutura, e de padronizações, que não significam o uso do mesmo método ou critérios de inclusão, mas de procedimentos que permitam comparações dos resultados que vêm sendo obtidos, sob o risco de continuarmos a fazer estudos de caso, tão importantes no passado recente da fitossociologia. A dinâmica de populações de plantas teve sua síntese efetuada em 1977, a partir do trabalho de John L. Harper: Population biology of plants, no qual se estabelece esta área de pesquisa como ciência consolidada. No Brasil, a partir da década de 80 é que se iniciam os trabalhos que se relacionam com grupos de pesquisa consolidados, isto é, que formam recursos humanos em dinâmica de populações de plantas, salientando os trabalhos pioneiros na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na década de 70. Dentre as abordagens possíveis em dinâmica de populações de plantas, não há grupos que trabalhem com a ênfase energética, apenas um grupo trabalha com a ênfase genética e os demais trabalham com a ênfase demográfica, analisando as mudanças nos números de organismos e os fatores relacionados. Alguns aspectos da dinâmica de populações de plantas vêm sendo estudados, sendo poucos os trabalhos que analisam a população como um todo, o que consiste um limite importante aos avanços nesta área de pesquisa. Salientam-se os estudos de sistemas reprodutivos e de polinizadores e, mais recentemente, de fenologia e de dispersão de sementes. Dado o desenvolvimento recente desta linha de pesquisa em todo o mundo, os trabalhos desenvolvidos no Brasil têm acompanhado o nível dos trabalhos estrangeiros, exceto nas análises matemáticas, que apresentam avanço muito grande fora de nosso país. Os limites mais importantes nesta linha de pesquisa referem-se: - à falta de base de dados já firmada, o que não permite, em muitos casos, sequer a percepção de padrões, ao contrário do que ocorre na fitossociologia; - aos poucos trabalhos feitos nas relações entre populações, seja de herbivoria, patogenia, competição, simbioses, entre outros; aos poucos trabalhos acerca das mudanças genéticas nas populações; - à falta de análise integrada de diversos aspectos responsáveis por mudanças demográficas; - à ausência de integração entre estudiosos da dinâmica de populações, fisiologistas que estudem as plantas em suas diversas fases de desenvolvimento; - à falta de trabalhos conjuntos com estatísticos e matemáticos, já que em populações as análises numéricas são essenciais, entre outros. Da mesma maneira que ocorre com os trabalhos com fitossociologia, há necessidade de estabelecimento de alguns procedimentos gerais em comum e discussões que permitam estabelecer quais são os limites em cada uma dessas áreas de pesquisa, para que ocorram saltos qualitativos na ciência feita nestas áreas, já que muitos trabalhos vêm repetindo, principalmente na fitossociologia, fórmulas que estão ultrapassadas.