UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL MUSEU NACIONAL

CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

Rio de Janeiro Julho de 2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto
Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social.

Aprovada por: ____________________ Presidente: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho ____________________ Prof. Dr. Moacir Gracindo Soares Palmeira (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Prof. Dr. Antônio Carlos de Souza Lima (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Profa. Dra. Karina Kuschnir (PUC – RJ) ____________________ Profa. Dra. Alzira Alves de Abreu (CPDOC – UFRJ)

Rio de Janeiro Julho de 2006

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Barreto, Alessandra Siqueira. Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense/ Alessandra Siqueira Barreto – Rio de Janeiro: UFRJ/ MN, 2006. xi, 392f.: il; 31 cm. Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho Tese (doutorado) – UFRJ/ Programa de Pós-Graduação/ Museu Nacional, 2006. Referências Bibliográficas: f. 352-374. 1. Baixada Fluminense. 2. Política. 3. Trajetórias 4. Eleição 5. Processos de identificação. 6. Projeto. I. Velho, Gilberto Cardoso Alves. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. III. Título.

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SUMÁRIO Resumo............................................................................................................................6 Abstract............................................................................................................................7 Agradecimentos................................................................................................................8 Introdução........................................................................................................................11 Capítulo I. Versões e Proposições...................................................................................25 Capítulo II. Jorge Gama: o articulador (ou visionário?) de uma Baixada......................64 Capítulo III. Zito: da Baixada para o mundo................................................................127 Capítulo IV. Lindberg: do mundo para a Baixada........................................................200 Capítulo V. Sobre o tempo da política na Baixada: entre festas e guerras...................267 Considerações finais: Construindo (e des/ re-contruindo) reis, ídolos e bacharéis......320 Bibliografia Geral..........................................................................................................352 Bibliografia sobre Baixada Fluminense........................................................................370 Anexos...........................................................................................................................375

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RESUMO Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense Alessandra Siqueira Barreto Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Esta tese visa, a partir da apresentação de três trajetórias de políticos que atuam na Baixada Fluminense, apreender os sentidos e as imagens acionadas sobre este “lugar” e em que medida se relacionam com os projetos políticos em questão. Ao apresentar as possibilidades de se construir a categoria Baixada, as práticas, os discursos e os projetos políticos são pensados como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas (assim como as espaciais), enfocando o estatuto adquirido pela política no que tange à enunciação desta multiplicidade. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – o Zito e Lindberg Farias são apresentados como algumas das faces da política local. Através de suas trajetórias, buscamos compreender os processos de interação e de trânsito dos atores políticos entre os diversos repertórios e universos socioculturais, dando destaque aos conflitos e alianças que tornam possíveis seus projetos, acionando diferentes imagens sobre Baixada em negociações cotidianas entre atores e agências. Os atores políticos são pensados então como enunciadores-políticos que, ao lhe conferirem sentido, reinventam-na.

Palavras-chave: Baixada Fluminense, Política, Trajetórias, eleição, Processos de identificação, Projetos políticos.

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ABSTRACT Political Cartography: the faces and phases of Baixada Fluminense’s politcs Alessandra Siqueira Barreto Adviser : Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

This PhD Dissertation inquires into the political career of three politicians from the Baixada Fluminense so as to understand the extent to which their political projects relate to the meanings and images commonly associated to this “place”. While presenting the possibilities of constructing the category Baixada, the practices, discourses and political projects are conceived as operating the movements of expansion and contraction of the symbolic (as well as of spatial) borders, with a specific focus on the status held by politics in regard to the enunciation of this multiplicity. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – Zito and Lindberg Farias are pointed out as some of the local politics’ faces. Through their trajectory, we seek to understand the processes of interaction and the passage of political actors through the various repertoires and socio-cultural universes, while outlining the conflicts and alliances that make their political projects possible as they trigger different images of the Baixada in their daily negotiations. The political actors are here thought as political enunciators that reinvent the Baixada while signifying it.

Key-words: Baixada Fluminense, Politcs, Social Trajectory, Election, Political Projects.

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seja por seu bom humor. o afeto e a confiança. que doa. Por isso. pois mais do que alguém que simplesmente ensina. À minha família devo a sensibilidade. Estar agora agradecendo a quem compartilhou comigo todos esses momentos. e a meu pai por buscar na construção de diálogos (por vezes. a obrigação de dar. funcionários. a mim mesma e aos outros. entrevistados. mas por vezes irritante e angustiante. Nomear parece injusto. como no ato imediato de um ponto final. receber e retribuir não se encerra nessas linhas. é ter a oportunidade de lembrar. jamais precisarei caminhar sozinha. devaneios) entre a (sua) matemática e a (minha) antropologia um caminho para estar sempre próximo. Todos – meu orientador. que por mais que tenha sido eu à frente de uma tela em branco a escrever as páginas que aqui estão. E como na dádiva maussiana. Ao menos desta etapa. família. que é alguém com quem poderei contar sempre e que mesmo finda esta etapa. amigos. professores. que eu me veria diante da missão de escrever outras tantas páginas. A escrita prazerosa. que também incluo aqui como “da família”. Ter compartilhado com ele esses quase oito anos me fez perceber. pois foram tantos que me apoiaram. Agradeço a Gilberto Velho. de quem herdei o “gosto pelo mundo”. cada qual a seu modo é claro. finalmente chega ao fim.AGRADECIMENTOS É neste momento ritual. Afinal de contas. 8 . autores — foram co-partícipes nessa empreitada. ele se fez presente com conselhos e atitudes amigas. Particularmente à minha mãe. seja por seu rigor. elas foram produzidas em conjunto. bons e ruins. aqui é a hora e o lugar para dizer: obrigada. utilizar-me-ei de generalizações e sentimentos. que sentimos uma mescla de dever cumprido e de certa sensação de vazio. meu orientador.

Aos amigos de toda uma vida. Patrícia Delgado. pela água gelada compartilhada em dias de caminhadas políticas. Luis Cláudio e Marcelo (Secretaria). Rogéria. por ter me recebido por vezes seguidas. José Sérgio Leite Lopes. A Isabel. fazendo entrevistas com moradores. A Roberta Ceva que compartilhou comigo alguns momentos de tensão durante esta tese e. Pedro Alvim e Marcelo. Álvaro e Marcelo (Informática). Lygia Sigaud. por seu apoio indispensável na edição deste trabalho. acompanhando-me em caminhadas e eventos políticos. Aos professores que jamais esquecerei: Moacir Palmeira. Fernanda Piccolo. coletando dados. sempre bem humorado e disposto a ajudar. PTB e PMDB que se dispuseram a conversar comigo. Assim como a Antônio Carlos de Souza Lima e Karina Kuschnir que acompanharam o processo de “fabricação” desta tese. Aos moradores anônimos da Baixada pelas conversas de portão. A Zito e Andréia Zito por terem dispensado algumas horas de seus dias em entrevistas. os quais não nomearei por excesso de cuidado. agradeço carinhosamente e também àqueles com os quais convivi durante meus dias de Quinta: Adriana Facina. Renata e Michele. A todos do PT. Afonso (Contabilidade). À Gisele e Thamara que me auxiliaram durante um período da tese. Andréa Moraes. dispostos a tornar mais simples meus problemas cotidianos. Agradeço igualmente a Jorge Gama. Federico Neiburg. Jackiele. aqui representados por Fernando. pelos papos bem humorados e pela recepção sempre cordial. 9 . Certamente você foi responsável por tornar a leitura dessas páginas bem mais agradável. Roberto e Miguel (Cantina) por se colocarem sempre como amigos. Sandra Costa. com quem compartilhei ótimos momentos. Bugre. Giralda Seiferth. Cristina Patriota. Carla e Cristina (da Biblioteca). Vicka. principalmente. Sua dedicação e amizade foram mais que “assistência de pesquisa”.

À Vitória que traz em seu nome a marca de quão querida e desejada é. Lilia. Simplesmente por me fazer desejar ser sempre melhor. 10 . pela infinita paciência diante de minhas réplicas e tréplicas. Deise. um agradecimento especial. Sérgio. Você é indispensável na minha vida e os dias em que posso estar contigo são sempre ensolarados. agradeço ao CNPq que me concedeu bolsa durante os dois primeiros anos de minha tese neste Programa. A Juarez Humberto. Christy e Karen. pela compreensão em meus dias de fúria. especialmente. Aos seus breves sorrisos entre choros e sonecas. por me amar sem limites. Por fim.Aos colegas da UFU. Obrigada pelas leituras durante as madrugadas. Aos já bons amigos que fiz em meus dias nas Gerais.

muito mais como moradora e observadora da Baixada Fluminense e somente mais tarde como questão sociológica propriamente dita. Acho importante refletir. A manutenção de meus laços com Paracambi e com a Baixada. por exemplo. sobre o fato de que nasci e morei até os 15 anos de idade em Paracambi. Não havia. As idas e vindas pareciam-me. Era uma forma de participar da vida da cidade de uma maneira ou de outra. às vezes. sem que se notasse precisamente seus limites. mas também porque sempre mantive algum vínculo de identificação com a localidade. que me coloque em posição privilegiada. ainda. deuse não apenas porque meus pais. o que pretendo elaborar aqui pode ser. às vezes incluído como o último município da Baixada. A política sempre permeou meus interesses. outros parentes e alguns amigos ainda moram por lá. marcou os meus dias durante muito tempo. Não que isto me torne uma “nativa” (se é que posso classificar-me desta forma). É difícil precisar quando exatamente comecei esta etnografia. um outro. de certa forma. de alguma maneira. município localizado a 80 km do Rio de Janeiro. O destino: o Rio de Janeiro. que autorize o meu discurso ou. intermináveis.INTRODUÇÃO Começo com um mapa da viagem. Apenas reconheço que fiz uma opção consciente 11 . Afinal. A visão cotidiana e repetitiva das cidades que se sucediam. de forma mais ampla. pensado como uma cartografia (ainda que breve) da política na Baixada Fluminense. A Rodovia Presidente Dutra era um de meus caminhos habituais. transferido o meu título de eleitor até a eleição de 2004. em um primeiro momento. O movimento era uma prática constante e uma exigência iminente. Os trilhos que levavam à Central do Brasil.

heterogêneo e perpassado por outras formas de pertencimento e processos de identificação que. De repente. de uma etnografia multi-situada (Marcus. Os amigos. Outro aspecto de meu “trabalho de campo” foi o trânsito entre “meus diferentes mundos”. múltiplo. cada cidade me exigia mais e mais. assessores e eleitores. cidade na qual estudei quando adolescente. tendo antes a pensá-la como multi-referenciada. amigos dos amigos. um desejo de conhecer e desvendar a “casa”. morei por dois anos e trabalhei por quatro e Paracambi.de transformar em objeto algo que fazia parte do meu cotidiano. festas e chuvas. Novos lugares e novos sentidos. foram mesmo contraditórios. cidade onde nasci e fui criada. Tudo me parecia fora do lugar. portanto. caminhadas e a procura por elas. “marketeiros”. em algumas situações. de repente. Cada dia era novo e cada fala. políticos em campanha e outros que delas já desistiram. Nova Iguaçu. onde residi de 1994 até 2004 (com alguns intervalos). cada paisagem. em pequenos diálogos. Eu mesma estava fora do lugar. conhecidos e estranhos viravam interlocutores. Os tropeços foram intercalados por conversas com motoristas de vans e moradores em filas de ônibus. 1995). descortinavam-se diante de mim outras tantas Baixadas que eu não conhecia e. A própria alteração em meu status me fez redirecionar o olhar. transformei-me numa pesquisadora em trânsito. agora. O “movimento” foi parte constitutiva do meu cotidiano antes e durante todo o processo do doutorado e as pessoas que conhecia foram peças-chave para que esta pesquisa se desenvolvesse. As inúmeras viagens operavam. A partir da pesquisa de campo. parecia que todas se faziam uma só: “Aqui na Baixada é assim mesmo!” “Você não tem cara de Baixada!” “Se você é de 12 . mais especificamente e geograficamente. Não se trata. nativos e mediadores. o Rio de Janeiro.

O “trabalho de campo” tornou-se a partir de então referência e marco para a antropologia. tendo na figura de seu presidente. marginal e estigmatizada ou ao lugar secundário que ocupa na historiografia da política regional. fundado por Malinowski a partir de sua pesquisa na Melanésia. conflitivos (dentre os quais os projetos políticos analisados nesta tese). Esta dissertação tratou da articulação — entendida em termos amplos e não restrita à articulação partidária — de uma associação de moradores em um bairro carioca. no entanto. mas também ao fato de que este “lugar” estaria em processo constante de construção. o 13 . informando um novo fazer etnográfico. muitas vezes. algumas observações sobre as condições de realização de minha pesquisa. deu-se a partir do trabalho realizado para a conclusão do curso de mestrado. sabe do que estou falando”. Farei. A decisão de estudar a política e. Eu não segui o modelo tradicionalmente instituído pela antropologia clássica. Não retomarei aqui a discussão sobre uma suposta imparcialidade — já exaustivamente abordada pelas ciências sociais — tampouco aquela relativa à possível interferência da proximidade (espacial e/ ou sociocultural) do pesquisador que opta pelo estudo no mesmo universo de que faz parte — questão explorada e problematizada por Velho (1980 e 1981) e Velho e Kuschnir (2003). Estas foram apenas algumas das falas “roubadas” de seus contextos e registradas aqui no intuito de expressar distanciamentos e acolhimentos que fizeram parte de minha vivência. mais especificamente nas Ilhas Trobriand (1922). a partir de projetos diversos e. Minha opção pelo recorte socioespacial da Baixada Fluminense não se deve apenas à sua classificação como área periférica.Paracambi. algumas trajetórias de políticos da Baixada Fluminense (assim como a de situá-los nas redes de que fazem parte). mais especificamente.

também empresários. mas as relações sociais dentro do próprio bairro) (Barreto. o desvio. finalmente. A passagem para uma antropologia das e nas cidades fomentou debates e buscou novas opções para lidar com os objetos produzidos a partir desse “encontro” do pesquisador com sua própria sociedade e da exigência de se constituir uma outra alteridade. Entre seus principais temas e autores encontramos: a integração e imigração (Thomas e Znanieki. o estilo de vida urbano. a partir desta dupla inserção dos atores escolhidos. A Escola de Chicago não configura propriamente uma “escola” em termos de uma referência teórica específica. pela interdisciplinaridade e que. A origem do que se convencionou chamar Escola de Chicago foi o Departamento de Sociologia e Antropologia que funcionou entre 1892 e 1929. 1967 [1902]) e. Ao ingressar no doutorado. referindo-se antes a estudos marcados por influências diversas. apesar das variadas experiências que originaram. a segregação socioespacial (Park (1967 [1916]). 2001). no entanto. nos estudos da Escola de Chicago1 1 A Universidade de Chicago foi criada em 1892. 14 . no entanto. Becker (1967 e 1973). as carreiras. entre eles de pastores protestantes como Albion Small. Becker (1977 e 1982). Wirth (1967 [1938]). Burgess (1928). tentando pensar as relações entre a política e o mundo empresarial.mediador e porta-voz autorizado para lidar com o problema da eminente construção de um túnel urbano (que reconfiguraria não apenas o espaço físico. Meu projeto inicial consistia em analisar as trajetórias de dois políticos locais. Os trabalhos produzidos pelos pesquisadores da Escola de Chicago. tiveram em comum a cidade e os grupos urbanos como objetos de estudo. 1967 [1921]). procurei unir dois interesses primordiais: a política e a Baixada. mais ainda. Hughes (1971a e 1971b). 1918-1920). Este estudo insere-se na área que se convencionou chamar Antropologia Urbana. o mundo empresarial da região. Em 1929 o Departamento foi desmembrado e os pesquisadores se dividiram entre as duas áreas. Tal empreitada. Wirth (1928). passando por aqueles que procuravam dar conta das especificidades estabelecidas pelo novo ritmo das metrópoles (Simmel. Seja nos trabalhos que enfocavam a cidade como objeto (Weber. Voltei-me então para a idéia mais geral motivadora de minha entrada no doutorado: a Baixada Fluminense. com o apoio obtido da Fundação Rockfeller e a partir da atuação de diversos intelectuais. logo se mostrou um tanto complicada devido à dificuldade — quase impossibilidade — de acessá-los e. continuaram a exercer influência entre diversos pesquisadores preocupados com as cidades e com sua própria sociedade.

em parte. seria um trabalho mais minucioso que me permitiria acompanhar pari paso o dia a dia do político. como Donald Pierson em São Paulo. com a possibilidade de me fazer presente o maior tempo possível. organizado por Valladares (2005). a metodologia de trabalho empregada. Esses autores tiveram papel de destaque na produção antropológica brasileira. como seria possível contemplar o objetivo inicial de entender a multiplicidade de imagens e interpretações sobre este “lugar”? Provavelmente. além do próprio lugar ocupado pelo pesquisador. 1969). Sobre a Escola de Chicago. Becker (1990). o estigma e as performances (Goffman (1975 [1959]. fundamentalmente pelo intercâmbio entre pesquisadores de Chicago. como resultado de nossa imersão nos dados e do processo total de viver” (idem. consultar Bulmer (1986).que consagraram as pesquisas em meio urbano. ainda que de forma incipiente. as reuniões. minhas escolhas e meus dados. “As idéias crescem. afinal de contas. Impacto de uma tradição no Brasil e na França. Sobre as experiências e diálogos de pesquisadores brasileiros e franceses com os pesquisadores de Chicago. as alianças. Mas se a escolha recaísse sobre a análise da trajetória de um único político. 15 . O trabalho de Foote Whyte (2005 [1943]) é exemplar para pensarmos a constituição da pesquisa com grupos urbanos. 1974 [1961]. 284). pelos trabalhos desenvolvidos por Gilberto Velho e seus orientandos. a heterogeneidade e a complexidade dos grupos sociais e das interações foram se impondo frente às transformações por que passavam as cidades em todo o mundo. como uma tentativa de tornar possível tal empreitada bem como de estabelecer algum tipo de estranhamento.me sobre meu recorte. A partir desta afirmação. influenciando toda uma geração de cientistas sociais e. 1975 [1963]. consultar o livro A Escola de Chicago. A amplitude de meu recorte e minha proximidade com o universo pesquisado foram os primeiros obstáculos enfrentados para a realização desta pesquisa. Como enfrentar a Baixada Fluminense? E. com marcada influência dos trabalhos supracitados. por quê? A política surgiu. gostaria de debruçar. então. no Rio de Janeiro. p.

Se uma única trajetória não era suficiente para pensar na multiplicidade da Baixada a partir das práticas políticas locais. montar um pequeno quadro de referência sobre repertórios e imagens mobilizados. privilegiando as narrativas construídas por políticos que. por recomeçar de outra forma. O critério adotado para a definição dos nomes a serem abordados nesta tese passou a ser a possibilidade de acionarem imagens diversificadas sobre a Baixada — e sobre o fazer político local — e não somente aquelas remetidas às idéias de violência.O segundo problema surgia justamente daí. então. 16 . criminalidade e assistencialismo. no entanto. 2 Retomarei tal questão no capítulo 3 desta tese. Acabei optando. a aproximação com tal político mostrou-se dificílima2. eu estava decidida a abordar o caso de Zito. Logo em seguida. em seguida. quais trajetórias deveriam ser selecionadas? E por quê? Desde o início. descreveriam não apenas as práticas políticas locais como trariam à tona tal multiplicidade de formas de identificação e de constituição das diferentes Baixadas. Ao tentar definir o lugar dessas práticas e discursos. Tentei. por intermédio de seus projetos individuais e na medida em que possibilitariam ou não a constituição de projetos coletivos. enfoquei o estatuto da política no que tange à enunciação da(s) Baixada(s). após recorrentes tentativas. procurando abordar os projetos políticos como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas e espaciais do que se convencionou chamar Baixada Fluminense. a meu ver. visto que se encaixava exemplarmente no perfil do político-empresário e tinha sua imagem pública constantemente associada a uma representação da Baixada condizente com os noticiários jornalísticos dominantes na década de 1980.

André Ceciliano. Na reformulação do projeto inicial. busquei imediatamente um possível mediador. em 2003. Meu primeiro passo foi telefonar para a prefeitura de Paracambi e marcar uma entrevista com a secretária de André Ceciliano. naquele momento. conversamos sobre sua trajetória política. quando por fim me decidi a estudar as relações políticas locais. Conversamos por mais de duas horas e.Achei adequado. Cheguei antes das 8 horas e fiquei aguardando na sala de espera onde também estavam mais quatro pessoas que desejavam uma audiência com o prefeito (uma enfermeira. responsável por um projeto junto à Secretaria de Saúde. em seu gabinete na Prefeitura. não invadir o mundo da política. às 8h30min. Meu primeiro contato foi com o então prefeito de Paracambi (pelo PT). Minha condição de ex-moradora e os laços desse tipo de pertencimento foram. que a agendou para a semana seguinte. André tornou-se um interlocutor e mediador fundamental. em seguida. segundo um ditado comum nas cidades pequenas. resolvi recomeçar a pesquisa entrevistando outros prefeitos da Baixada. falar comigo. após as inúmeras negativas que recebi da equipe de Zito. Logo em seguida. Nesta primeira entrevista. solicitou à secretária que me pedisse para aguardar um pouco pois atenderia a enfermeira para. aproximadamente. A entrevista foi marcada para o dia 15 de setembro de 2003. decisivos. todo mundo se conhece”. 17 . Este acesso foi facilitado porque já nos conhecíamos de Paracambi e. a partir daquele momento. O prefeito chegou às 9horas. mas tentar entrar como convidada. para meu ingresso nesse universo. seus projetos – entre os quais a reeleição – e também sobre a Baixada – sobre imagens veiculadas pela mídia. Sendo assim. “em cidade pequena. portanto. uma mulher de aproximadamente 45 anos que era representante de uma associação de moradores e dois moradores de bairros da periferia). Levou apenas dez ou quinze minutos neste “atendimento” e logo me mandou entrar.

com potencial e não entra pra perder. Ele é um cara com carisma. tendo assumido o cargo quando Nelson Bornier elegeu-se deputado federal nas eleições de 2002 — junto a quem permaneci pesquisando até o final da eleição de 2004. o grande nome do partido para as eleições de 2004 seria o de Lindberg Farias e que ele. Queimados. Na ocasião. problemas estruturais. Naquele momento. resolvi definir as trajetórias políticas a serem abordadas. escolhendo entre nomes diretamente envolvidos com os novos 18 . E foi neste mesmo dia que. principais agências etc. Resolvi partir dos executivos municipais em seu cotidiano. ficou evidenciada a ligação de André com Lindberg Farias. “de olho”. constituído por Duque de Caxias. ainda não havia decidido por que políticos “recortar” a Baixada. a partir de uma pergunta sobre os novos nomes do PT para a Baixada (referindo-me mais explicitamente a Narriman Felicidade que há pouco havia ingressado no PT. Realizei diversas entrevistas com prefeitos. Nova Iguaçu. já que seu marido era ninguém menos que o polêmico Zito). Nilópolis.” Contou-me sobre sua relação com Lindberg e alertou-me que ficasse “ligada”. São João de Meriti. “Você pode anotar isso: o Lindberg vai ganhar essa eleição em Nova Iguaçu. já estava acompanhando a articulação da campanha para a reeleição de Mário Marques — eleito vice-prefeito de Nova Iguaçu em 2000.violência. apesar do alvoroço em torno de Narriman. mas percebi que seria inviável trabalhar com todo o material coletado de forma adequada. Japeri e Paracambi. certamente. pois ele iria “dar o que falar”. André me garantiu que. Mesquita. pesquisando a maioria dos municípios da Baixada Fluminense — ou seu núcleo mais conhecido. venceria a eleição. Após algumas conversas e ponderações de meu orientador. Ao mesmo tempo. personalidades políticas e empresários. fato este que provocara grande repercussão no partido e também na imprensa. Belford Roxo.

Durante a pesquisa não tive a sorte de deparar-me com um Doc como Foote Whyte (op.rumos que a política na Baixada poderia tomar. Concentrei meus esforços em três personalidades políticas. mesmo estando há muitos anos sem mandato legislativo. A opção por Lindberg deveu-se ao fato de. Dentre eles. pela especificidade da vida pública e pelas imagens e projetos de Baixada suscitados por esses atores — como procurarei demonstrar ao longo desta tese. cada qual mantendo uma relação bastante singular com a região. 19 . de forma geral. pela importância política. Entretanto. a eleição não seria objeto de análise deste trabalho e as movimentações e a organização do dia a dia das campanhas políticas não constava de meus planos de investigação. em um determinado momento da pesquisa. permitiram-me contrapor os estilos e as atuações desses atores sociais que. Até então. O pertencimento a distintos partidos políticos e as carreiras de rumos diversificados. Os três perfis aqui analisados são bastante contrastantes. no entanto. os outros dois foram Jorge Gama e Lindberg Farias. mesmo sem conseguir dele me aproximar. desde os anos 1970. A escolha de Jorge Gama explica-se em grande medida por seu papel central na política da Baixada.). como se a tese ganhasse vida própria. Zito foi um dos escolhidos. fui engolida pelos acontecimentos políticos que tiveram início no fim de 2003. e por sua “sobrevivência política”. mas contei com a colaboração de diversos (e valiosos) informantes ativos (em contraposição à sua idéia de “informante passivo”). termos sido confrontados a uma situação inusitada. Lindberg Farias. Tal escolha justifica-se. cit. guardavam alguma similaridade: seus projetos políticos tinham a Baixada Fluminense como locus privilegiado. André Ceciliano foi o primeiro. intensificando-se nos primeiros meses de 2004: a entrada em cena de um político outsider. mas posteriormente estabeleci uma relação similar com Pedro Cezar (o PC.

os jornais (impressos. ao mesmo tempo em que a minha presença poderia ser problemática e desconfortável (as conversas deveriam ser “controladas”. a todo momento. televisionados e on line) foram fontes 20 . Em face da opção por conduzir o estudo a partir de três trajetórias específicas. Eles não se contentavam em informar-me. no entanto. emitindo. exigiam que eu me posicionasse. eu procurava esquivar-me de temas delicados e de “questões melindrosas”. não trabalhei com histórias de vida ou estudos de caso. a publicação de um artigo. de um livro etc. a escolha das palavras mais cuidadosa.). as entrevistas e conversas com políticos. op. também significava que a trajetória pública destes homens despertava interesse — e quem sabe minha aceitação poderia ser capitalizada (como o foi e tratarei disso mais adiante) em alguma visibilidade (nota em jornal.). O reverso da moeda. os nomes muitas vezes omitidos.. O “estilo” de pesquisa adotado me possibilitou trabalhar com abordagens e técnicas diversas. p. suas opiniões sobre “a política” e sobre “a Baixada”.assessor de comunicação de Mário Marques). Assim como Foote Whyte. A peculiaridade do objeto e do tempo que cada político dispunha para estar comigo obrigavam-me a criar alternativas ao “contato o mais íntimo possível” — bem como o fato de estar morando em outro estado. 305). desde agosto de 2004. consistia no fato de que.. cit. Foote Whyte. Desde 2003.. particularmente sobre a política na Baixada. Na maioria das vezes. Além da pesquisa bibliográfica sobre a Baixada Fluminense. mas a “conversa” era o instrumento por intermédio do qual se dava a aceitação e a justificativa para a minha interferência inoportuna (cf. pessoas a eles ligadas e moradores foram realizadas como forma de penetrar aos poucos no “mundo” da política local. com Jorge Gama e com Kayo (assessor de comunicação de Lindberg Farias).

privilegiadas de análise. Entre o staff de cada um. Jornal do Comércio. Jornal de Hoje. majoritariamente. inicialmente. com eles sendo realizadas entrevistas formais. assim como sítios eletrônicos de partidos políticos e páginas pessoais de alguns políticos na Internet. Também foram consultadas atas de sessões da Assembléia Legislativa que diziam respeito a algum acontecimento marcante para os políticos escolhidos. mesmo porque a imprensa (em suas diversas modalidades) foi trabalhada como um “informante” identificado. também realizei pesquisas on line — cujas buscas foram realizadas pelos nomes dos políticos e/ ou da Baixada Fluminense em periódicos e semanários diversos até o fechamento desta tese: Folha de São Paulo. juntamente com os moradores dos municípios da Baixada e com pessoas diretamente ligadas aos políticos. Gazeta Mercantil. Também foram entrevistados secretários de governo. pelo político mencionado e. ou por vínculo profissional ou por familiar e de amizade. Além dos jornais mencionados. Extra. Não houve nesta abordagem qualquer intenção de mensuração quantitativa. Lindberg Farias e Zito até o momento imediatamente posterior à eleição de 2004. englobando o início da década de 1980 até o final de novembro de 2004. os assessores de comunicação foram privilegiados. As matérias foram classificadas. por assunto. como fonte de informações que traduz interesses próprios. Estado de Minas. dos jornais cariocas O Globo e Jornal do Brasil. Revista Isto É. Nesses dois recolhi todas as matérias publicadas sobre Jorge Gama. O Dia. As matérias coletadas provêm. utilizei os meios de comunicação — mais do que como fontes — como informantes mesmo. motoristas. 21 . Já que não haveria como mapear as relações de cada ator analisado e entrevistar/ conversar com pessoas que acompanharam tais trajetórias. ou seja. em seguida. Revista Veja.

Como eu estava sempre “armada” com meu gravador. qualquer hora era hora. A suposição (ou presunção) de um domínio sobre as distâncias processadas caiu por terra. e. mas também pelas pessoas com quem fui me relacionando e que me classificavam ora como pesquisadora-moradora. 22 . ainda que. curiosamente. aos poucos. ir a um restaurante. casas. Apesar de não residir em um dos municípios da Baixada durante o período da pesquisa. corredores. Além das entrevistas. assim preservava-se o “clima de conversa” — nenhum dos meus interlocutores tendo demonstrado qualquer constrangimento diante de meu pedido para realizar a gravação.fotógrafos de campanha. ora como moradora-pesquisadora. com o mundo da política na Baixada tornou-se instigante e prazeroso. Optei por entrevistas abertas e gravadas. festas. Nesses movimentos de “abertura” e “fechamento” fui. mais ou menos duradouro. o que implicava em transformar minhas “idas e vindas” à Baixada (para encontrar amigos. às vezes. candidatos às Câmaras Municipais. só puderam ser construídos a partir da aproximação com meus interlocutores. Alguns deles solicitaram que eu desligasse o gravador em alguns momentos da entrevista. para que a informação pudesse ser dada “em off”. bares. encontrando o meu lugar — não definido apenas por mim e pela idéia inicial de que eu poderia “controlar tudo”. comprar algo) como parte de uma “vivência de campo”. Minha familiaridade com lugares e pessoas não se revelou um empecilho à pesquisa. restaurantes. e o convívio. alguns políticos próximos a Jorge. ou ainda só como pesquisadora ou só como (ex-)moradora. Lindberg e Zito. carros etc. Elas aconteceram em locais diversos: gabinetes. diversas outras situações e conversas informais colaboraram para minha “imersão nos dados”. coloquei-me como etnógrafa em tempo integral. eu me cobrasse um certo distanciamento e alteridade que. quando possível.

músicos. estariam expostas a constrangimentos e algum tipo de retaliação. abordo os trabalhos mais recentes que lidam com a Baixada e com a multiplicidade de suas construções: de historiadores. que minha escolha por três políticos (as faces) que ainda atuam na vida pública justifica-se. Destaco apenas que nenhuma delas fez qualquer objeção ou restrição ao uso de seu nome. à primeira vista. vereadores. foram alterados visto que em função quer das informações. quer de suas opiniões. à primeira vista. exponho as trajetórias de Jorge Gama. na medida em que traduzem repertórios culturais diversificados e distintas possibilidades para se pensar o “lugar” em diferentes contextos. A partir dessas classificações. a partir dos discursos dos diferentes atores e agências sociais em jogo. no entanto. procurando apreender as formas como a política é por eles entendida e vivenciada. decidi-me por mantê-los em função do caráter público das trajetórias abordadas. além dos projetos políticos de cada um. enfatizando as imagens e discursos acionados sobre a Baixada.A respeito dos nomes. Tal fato deve-se à tentativa de — juntamente com apontamentos sobre as práticas políticas e as imagens acionadas sobre a Baixada — seguir os acontecimentos no tempo. por acreditar que as fases da política na Baixada podem coexistir em situações que. 23 . Nos três capítulos subseqüentes. respectivamente. Zito e Lindberg Farias. pode parecer marcada pelo recorte cronológico. Adianto que não foi este o objetivo. A construção da tese implicou em uma ordenação dos capítulos que. inicio a tese com uma síntese (no primeiro capítulo) de algumas considerações a respeito de como a categoria Baixada Fluminense vai sendo formada e transformada ao longo do tempo. Já os nomes dos moradores e de pessoas ligadas aos políticos. deputados e moradores de um município recém-emancipado. apresentam-se como antagônicas. em grande medida. por vínculos profissionais e/ ou pessoais. Sendo assim. Enfatizo.

de outro.Pensando essas trajetórias como interligadas a redes políticas mais amplas. buscamos compreender os sentidos atribuídos à política e a suas práticas e a relação entre os projetos individuais e coletivos. a dimensão conflituosa das contendas eleitorais e das disputas entre projetos políticos diferenciados. Desse modo. privilegiamos de um lado. 24 . Por fim. O quinto e último capítulo focaliza o tempo da política na Baixada — tomando como base as eleições de 2004 — sintetizado nas idéias da festa e da guerra. uma estrutura específica de visibilidade e da relação políticoeleitor propiciada pelos showmícios e. mencionamos algumas considerações sobre a construção dos sistemas de visibilidade e do papel dos meios de comunicação para se falar de política e de cidadania nas sociedades contemporâneas.

1947 (de Duque de Caxias).370. Queimados. 1990. Com uma população de mais de 3 milhões de habitantes4. São João do Meriti. Mesquita. a Baixada tem como núcleo os municípios de Duque de Caxias. Belford Roxo. sua delimitação ainda permanece algo polêmica. juntamente com as cidades do Rio de Janeiro. entre as 3 4 As razões desta escolha serão explicitadas ao longo deste capítulo. de acordo com o Quantitativo de Eleitores de março de 2005. São João de Meriti e Nilópolis).890 eleitores. Seropédica (desmembrados em 1997). a configuração mais ampla da região (da qual me utilizo)3 abrange 13 municípios — Itaguaí.290. Procurarei. Magé e Guapimirim — que. no entanto. 1950:166). Nilópolis. Queimados. Apesar de hoje já contarmos com um número mais expressivo de trabalhos sobre a região. formam a Região Metropolitana do Rio de Janeiro ou o Grande Rio. Nilópolis e Nova Iguaçu —este último tendo sido historicamente desmembrado em quase todos os demais que hoje compõem a região. Niterói e São Gonçalo. 5 As datas das emancipações são respectivamente: 1943. De acordo com dados do Censo 2000 do IBGE. cabem aqui algumas considerações iniciais. 1991 e 1999. 2. São João de Meriti. Paracambi. Por este motivo. 25 . Seropédica. Paracambi. Mesmo não sendo o objeto da maioria destes estudos. Magé e Guapimirim (desmembrados em 1990) possuem características que os singularizam frente aos demais municípios. Duque de Caxias. por meio das emancipações que tiveram início na década de 1940 (Duque de Caxias.508 habitantes e. Belford Roxo.CAPÍTULO 1: VERSÕES E PROPOSIÇÕES “Há tantas maneiras de representar o espaço quantos são os grupos” (Halbwachs. a temática em questão figura. Nova Iguaçu. como construção simbólica. a Baixada Fluminense — com a configuração acima exposta — teria 3. Japeri. Japeri e Mesquita)5. matizar tal abordagem a fim de pensar o “lugar” de cada um na Baixada. 1990. Hoje. Não há consenso quando o assunto é Baixada Fluminense. de uma forma ou de outra. as últimas tendo ocorrido na década de 1990 (Belford Roxo. Os municípios de Itaguaí. 1947 (de Nova Iguaçu). divulgado pelo TSE.

mais Paracambi. em qualquer restrição aos demais trabalhos produzidos até então sobre Baixada. Oliveira (2004). numa extensão de aproximadamente 80 km a partir da cidade do Rio de Janeiro7. ressalto que esta produção — novamente exceção sendo feita ao trabalho de Beloch — data da segunda metade da década de 1990 em diante. no entanto. Provavelmente. Diante disso. Enne. acompanhando a ascensão da categoria Baixada a uma outra ordem de visibilidade. preocupados em definir a(s) Baixada(s) e/ ou a política local e suas práticas. café. Costa (2006). Outro fato que acabou definindo esta escolha foi o uso recíproco entre os próprios autores e. O grande esforço dos pesquisadores atualmente envolvidos com a análise de grupos sociais na região é o de refletir sobre a multiplicidade de suas práticas. 2005). quem inclua ainda nesta composição. carne etc. Ainda nessa mesma direção. Souza (2000). estarei utilizando aqueles mais recentes ou que tenham ligação direta com a questão das práticas políticas locais. Apesar de uma ocupação lenta verificar-se já a partir do século XVI e da região ter sido fornecedora e distribuidora de matérias-primas diversas (cana-de-açúcar. o reconhecimento desses trabalhos e de seus objetos. portanto. “Desde 1840. 26 . Keller (1997). Por questões relacionadas ao escopo desta tese. na segunda.preocupações de seus autores6. um dos processos mais significativos de ocupação da localidade teve início com a construção da estrada de ferro D. no entanto. Na primeira delimitação exclui-se Itaguaí e Seropédica e. atualmente estendendo-se pelos municípios situados ao longo da Rodovia Presidente Dutra. 7 Para citar apenas alguns trabalhos: Beloch (1986). grosso modo. Enne (2002). Costa (1999). Pereira (1970 e 1977). 8 Peixoto (1968). Tal opção não implicou. 9 Abreu (1988). a uma mudança de status nos meios de comunicação. Fernandes (1992). dada a singularidade de seu objeto e de sua importância para esta tese. Silveira (1998). Percebemos a confluência em torno de alguns temas. práticas políticas e organizações coletivas/ arenas públicas. os mesmos. Barreto (2004). Magé e Guapimirim. privilegiei autores que estivessem. fosse 6 Diversos são os trabalhos produzidos sobre a Baixada Fluminense — ou a ela relacionados — durante as últimas décadas. Alves (1991. Peres (1993). Peres (2004). entre outros. 1999 e Monteiro. partindo do principal porto da Vila. selecionei — dentre as pesquisas acadêmicas mais recentes na área de ciências sociais — seis trabalhos com os quais pretendo dialogar mais sistematicamente neste capítulo: duas dissertações de mestrado (Oliveira. exceção feita ao trabalho de Israel Beloch (1986) sobre a trajetória de Tenório Cavalcanti. violência. entre outros. 2003 [1998]. Andrade (1993). 1999 e 2003). Souza (1997). como apontado pela maioria dos trabalhos aqui analisados. Mangaratiba — somada aos 13 municípios já mencionados acima. 2001) e três teses de doutorado (Alves. a definição preliminar mais utilizada nos trabalhos acadêmicos seja a de Geiger e Santos (1956) que. podemos agrupá-los a partir de alguns dos assuntos por eles abordados: identidade social.) à capital (Rio de Janeiro)8. Prado (2000). em alguma medida. que serão utilizados ao longo desta tese. Pedro II. identifica a Baixada como uma área de planícies baixas constantemente alagadas entre o litoral e a Serra do Mar. Há. Ferreira (1994). a idéia da construção de uma estrada de ferro que. distribuídos quase eqüitativamente por todos os trabalhos. Sendo assim. A maioria considera a Baixada como sendo composta por 11 municípios — quando não apenas por 8. no século XIX9. Torres (1998). 2002 e Freire. No “recorte” que fiz.

era um sonho alimentado pelos fazendeiros e financistas da região. Prejudicados com o atraso em despachar e receber suas mercadorias. 1977. cit. autorizadas pela Fazenda Real. em um porto chamado da Armação. Souza. em 1858. promoveu a atração e fixação da população que. abriram-se subscrição de ações através da Lei Providencial para tal empreendimento” (Peres. fizeram com que esse desejo fosse levado à sede do Império e. 1992). no dia 9 de maio daquele mesmo ano. já na década de 193012. tendo como maiores beneficiários os proprietários de terra locais — que já haviam lucrado com a valorização advinda da construção da estrada de ferro e que. obtiveram lucros ainda maiores (Pereira. 11 Este fato provocou mudanças consideráveis na região da vila de Iguassu (mais tarde Iguaçu e. a partir da década seguinte13. estabeleceu um padrão de ocupação ainda hoje marcante na quase totalidade das cidades que compõem a região10. de Japeri cuja história é marcada pela morte de centenas de homens que trabalhavam na construção da ferrovia — acometidos de malária ou mortos em acidentes. tendo se deslocado para as margens da linha do trem. Nova Iguaçu) até então tendo uma economia voltada para os portos (como os de Iguaçu e Estrela. Tal processo implicou no abandono das vias fluviais — até então fundamentais para a economia local — que acabaram por tornar-se obsoletas11. A chegada de migrantes de várias regiões do país e do estado — mas sobretudo nordestinos — em busca do sonho de um pedaço de terra e/ ou da possibilidade de morar mais próximo ao local de trabalho (o município do Rio Sobre a extensão da linha férrea. 2004:24). a partir de 1916. devido às péssimas condições de trabalho e de salubridade na região. Até o início da Segunda Guerra Mundial. 12 É importante salientar que um primeiro movimento para sanear e drenar as terras da Baixada ocorreu entre 1844 e 1900.). repercutindo em uma nova leva populacional. op. 13 Na década de 1930. Um segundo momento crucial da história local foi marcado. por exemplo) que acabaram assoreados. por exemplo. com a drenagem e canalização dos rios. tal migração acentuou-se devido fundamentalmente à citricultura e às mudanças na configuração do espaço na região. e mesmo assim com a ajuda de escravos que impulsionavam as canoas por meio de varas escoradas no fundo da lama. A ampliação da estrada de ferro até Queimados. que dependia da maré enchente. Nova Iguaçu era uma das maiores exportadoras de laranja do país (Pereira. temos o caso. pela criação da Comissão de Saneamento da Baixada e do Departamento Nacional de Obras de Saneamento que ocasionaram inúmeras mudanças na região. 10 27 .terminar à foz do rio Sarapuí.

meu irmão. O desembarque. geralmente. eu. né? Meus pais são analfabetos. por fim. 16 A este respeito. a construção da Avenida Brasil.de Janeiro14) —resultou no período de maior crescimento populacional da região (décadas de 1950 e 1960). prima ou amigo era essencial para quem não tinha casa. consultar Barreto (2004). cunhado. vieram do Nordeste [Pernambuco] tentar a vida no Rio de Janeiro e sempre trabalhando pra que pudesse[m] nos sustentar e dar estudo para a gente. Alguns poucos já chegavam empregados — via de regra. mencionado em muitos dos relatos que escutei. no Campo de São Cristóvão — local onde os homens eram avaliados para possível trabalho na construção civil — e o destino final era. assim como os investimentos gerados graças aos loteamentos que surgiram a partir daí. né? Mas as condições […] como é normal no Rio de Janeiro. da Rodovia Presidente Dutra (inaugurada em 1951). dinheiro ou mesmo uma ocupação. acho que no país todo […] Édifícil para as pessoas que não têm condições e a vida muito sacrificada. por exemplo. por intermédio desses parentes/ amigos — mas nem todos tinham a mesma sorte. 1996. enfim nós trabalhamos muito pra chegar onde nós Algumas obras também contribuíram para tal processo. 15 Fonte: IBGE. ainda que temporário. como por exemplo. de um irmão. é uma família humilde. uma das favelas cariocas ou alguma cidade da Baixada Fluminense. ocorria. “Minha família. em 1946. passando pela viagem de muitas horas em ônibus precários ou em paus-de-arara. 14 28 . As narrativas de moradores locais confirmam os dados e retomam a saga — desde a cidade de origem. só na década de 1950)15. Contar com o auxílio. bastante superior às taxas observadas para o restante do estado (crescimentos de mais de 100%. o sol e a chuva enfrentados pelo caminho e. minha irmã também trabalhamos em feira. É pai trabalhando em feira. sozinhos ou com toda a família. As redes familiares e de amizade apresentavam-se como fatores decisivos no momento da escolha do local de moradia. em barraca. é […] ajudante de caminhão. a chegada ao Rio de Janeiro16.

ex-prefeito de Belford Roxo. sou daqui da Baixada mesmo. fora da Baixada. de carros. No trajeto. mas já fui lá pro Norte. assim.] Porque senão. em Belford Roxo.chegamos” (Waldir Zito.. por fim. iam passar fome. professora primária. 29-30). para uma estética homogeneizante e para a multiplicidade de significados em jogo. cit. tal como dos moradores da Baixada Fluminense que trabalham no Rio de Janeiro e andam de ônibus ou de carro (Freire. Além disso. a desvendá-la (Barreto. As estradas que atravessam e cortam a Baixada demonstram o seu fluxo permanente. A primeira vez que fui à Baixada Fluminense estava na companhia do professor Luís César de Queiroz Ribeiro. a circulação se faz 29 . Duas principais a atravessam diametralmente: a Estrada de Ferro D. minha atenção passou a se voltar para os cenários cinzentos oferecidos pela Avenida Brasil e pela Rodovia Presidente Dutra. 36 anos. A circulação incessante de gente. de imagens aponta. e de dois educadores da FASE. op. pelo movimento pendular diário entre a casa e o trabalho (na maior parte das vezes. Os seus moradores poderiam ser caracterizados como errantes. SUPERVIA) e a Rodovia Presidente Dutra (BR 116). lá pra casa dos meus parentes [Sergipe].. o hospital etc. casada. só com a coragem mesmo.. Eles organizavam um curso de capacitação de liderança da Baixada. não” (M. [. mas eu não troco isso aqui por lá. pelo deslocamento necessário até a escola. 09/06/2004). Duas vias que farão parte da minha experiência quotidiana de deslocamento. pela própria condição de migrante cuja saída da cidade natal constitui o primeiro ato de deslocamento. 03/02/2004). 2004). o olhar seqüencial e indistinto de quem simplesmente passa por ali e a percepção matizada de quem se atreve a parar. né? Eu nasci aqui.. Em primeiro lugar. “Minha família veio pra Nova Iguaçu sem nada. pp. ao mesmo tempo. em seguida. Haveria. Pedro II (atualmente. do IPPUR. essencialmente no Rio de Janeiro) e.

o que nos permite pensar que tal uso remeteria a um duplo sentido: o da distância física. o que a obriga a recuperar a bibliografia sobre região. Heredia (2001). Queimados. 17 30 . Nilópolis. Ainda assim. vão trabalhar diariamente na cidade do Rio de Janeiro (idem. Cerca de 250 mil a 300 mil pessoas que residem nos municípios de Magé. A superlotação de trem. (1983). Tal unidade é desmentida e recusada pela autora. e no sentido contrário. privilegiando trabalhos de autores de diversas áreas . Nova Iguaçu. 77). Para além dos espaços geográficos.presente de forma tão arraigada que constitui também os momentos de lazer: “viaja-se” para ir à praia. Foucault (1986). Gomes (1995). Duque de Caxias e São João de Meriti. de “rush”. Weber (1999). tais como Roncayolo (1986). A múltipla apropriação de que nos fala Enne demonstra a inadequação de uma abordagem em termos de unidade espacial. Briggs (1985). mas também simbólica que o Rio representa para uma parcela considerável da população da região. Belford Roxo. estaríamos lidando com construções sociais que extrapolam tal lógica. chamou de produção múltipla de sentidos. p.31). nos horários de trabalho. Japeri. espaço. A delimitação do que se poderia denominar Baixada Fluminense é alvo das preocupações de diversos autores que atualmente trabalham na ou a Baixada. Paracambi. Ricq. território e lugar18. entre outros. a um show ou para encontrar amigos do trabalho. influenciada pelos trabalhos de Bakhtin. do estudo etc. de 16h00 às 20h00. 18 Ana Enne faz uma apresentação minuciosa desta problemática. entre pessoas desta região e do Rio de Janeiro. de coexistência. Pellegrino (1983). denotativos e conotativos da categoria Baixada Fluminense (p. é a melhor demonstração da intensidade das situações de copresença. Mesquita. não podemos perder de vista que os atores e agências que constituíram os interlocutores em sua pesquisa têm interesses bem delineados sobre a história e a memória Alguns moradores da Baixada costumam referir-se às idas ao município do Rio de Janeiro como “viagens”. de vagões de metrô e de ônibus no sentido “Baixada Fluminense” / Rio de Janeiro. de 6h00 às 9h00.17. A tese de doutoramento de Enne (2002) é exemplar ao apontar para a pluralidade de significados construída pelos diversos agentes e agências locais. O processo polifônico em questão refere-se ao que a autora.

19 31 . aqui. Rocha (1995). aqui. de fato.cit. território e política. como tratada por Weber (1999: 155-186) em “As comunidades políticas”. por seus moradores19. pela administração pública que opera divisões e delimitações espaciais. consensos e ambigüidades por trás da pretensa uniformidade que o uso da categoria no singular —forjada ou não a ferro e fogo pelo discurso político — nos sugere. por exemplo. ver. à construção de uma marca física e moral estruturante de algumas relações dos moradores da Baixada — fundamentalmente.) e dos projetos coletivos e/ ou individuais em disputa na região. 22 Refiro-me. Grosso modo. Thompson (1995). falar em Baixadas. entre outros. Em um primeiro momento. ao sentido atribuído.). ao longo das últimas cinco décadas (de 1950 ao ano 2000). 21 Sobre o fenômeno da indústria cultural e da cultura de massa. seu enorme potencial de comunicação e de influência na conformação das identidades locais. do que uma “idéia-sensação” experimentada. no plural. desqualificando os moradores da Baixada sob uma designação estigmatizante e generalizada22. Seria importante salientar também a relação entre as noções de poder. constituiria muito mais o resultado do esforço — e do rigor — do pesquisador em demonstrar as interações.locais. do Estado etc. ao mesmo tempo. a polifonia de que nos fala Enne é. Adorno e Horkheimer (1990). conflitos. Este potencial — vinculado à produção de uma cultura de massa — é percebido em relação aos diferentes discursos (“de fora” e “de dentro”) postos em cena21. produto das construções discursivas (desses atores e agências. da mídia impressa. da televisão. Sendo assim. as representações negativas remetiam às imagens da violência e da criminalidade (em seu sentido mais amplo). Benjamin (1990). permitiram à autora vislumbrar. o segundo capítulo de sua tese destina-se à discussão bibliográfica sobre o tema em questão e às construções discursivas de três grandes jornais do estado do Refiro-me. a contextualização das transformações ocorridas nas imagens divulgadas sobre a Baixada. A meu ver. Seguindo esta trilha. 20 Nora (1984). a mídia foi analisada como importante produtora de imagens e identidades e pensada como um lugar de memória20. com relação à imprensa escrita. No trabalho de Enne (op. com os moradores da cidade do Rio de Janeiro. Eco (1993).

posteriormente sua urbanização incipiente que o transformava num misto de cidade pequena/ de interior e periferia do Rio de Janeiro. ainda jovem. imortalizado como O Homem da Capa Preta25. um personagem local ganhou notoriedade diante de sua apresentação pouco comum e de sua vinculação partidária. por Sérgio Resende. como o próprio autor nos chama a atenção. os jornais A Última Hora e O Dia são tidos como “sensacionalistas”. a princípio. 23 32 . Nos anos 1950. retirando-o de seu universo original (o meio rural. com um eleitorado preponderantemente de classe média. Refiro-me a Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque. no qual José Lewgoy interpretava Honório Boamorte. Em Capa preta e lurdinha. tendo José Wilker no papel de Tenório Cavalcanti. apesar deste último ter passado por significativas mudanças ao longo dos últimos quinze anos23. O Dia e A Última Hora. desenvolvido e consagrado por Victor Nunes Leal (1975). após a morte do pai. criada em 1945 aglutinando nomes contrários a Getúlio Vargas e ao Estado Novo. Benevides (1981). Tenório Cavalcanti mudou-se para o Rio de Janeiro em 1926. 24 A UDN (União Democrática Nacional). essa noção seria “um amálgama de elementos de populismo e de coronelismo. possuía uma imagem de “partido de elite”. incompatível com seu estilo político24.Rio de Janeiro: o Jornal do Brasil. apesar de não ter sido um partido homogêneo. através da percepção do político como um mediador que privatiza a obtenção dos bens públicos. cit. no qual o coronel – o proprietário de terras – é também o chefe político) e operacionalizando-o em um contexto urbano. por exemplo. bem como da metodologia de trabalho com esta fonte. Por intermédio da rede de relações familiares. No entanto. foi filmado Carnaval em Caxias.” (p. 25 Título de um filme produzido em 1986.) toma emprestado o conceito de coronelismo. a Baixada ainda não tinha muita visibilidade regional ou nacional — esta adquirida a partir da década seguinte e consolidada ao longo das duas posteriores (1970 e 1980) como sinônimo de criminalidade e violência. Beloch (1986) analisa a singularidade da trajetória de Tenório Cavalcanti para pensar as práticas políticas e a participação das camadas populares no interior do sistema que convencionou chamar de coronelismo urbano26. personagem inspirado em Tenório Cavalcanti. Sobre este tema. foi auxiliado num primeiro momento por A autora faz uma exposição detalhada dos critérios utilizados para esta escolha. 26 Beloch (op. ver. Trinta anos antes. Durante esse período.106). em 1954. Tal transposição seria facilitada pela próprio processo de transição sofrido pelo município: inicialmente de distrito à município. constituindo um movimento de transição entre as duas formas. Enquanto o JB — como é mais conhecido o Jornal do Brasil — goza de reputação nacional e um público considerado mais “elitizado”. no qual os diferentes mundos se encontrariam sob o impacto da industrialização da cidade do Rio de Janeiro. Alagoano.

encerrava um paradoxo ético. com 2. Nessa época.800 votos (cf. com o qual protagonizou inúmeras cenas de violência. pelo que recebeu “uma gorda indenização”.Hildebrando Góis — que lhe arranjou um emprego na construção da estrada Rio . o homem de “corpo fechado”.cit. Tinha início. 33 . Logo em seguida. elegendo-se em seu primeiro mandato político como vereador em Nova Iguaçu (1936). Agenor Barcelos Feio. Otávio Mangabeira). o “corajoso” que tinha a gratidão “do povo” de Caxias. a polêmica trajetória que inauguraria a vinculação entre Baixada e violência no imaginário político carioca. A trajetória de Tenório e a construção de sua persona pública nos permite pensar na possibilidade de utilização da violência e da coerção como expedientes políticos legítimos. Começaram nessa época as desavenças com Amaral Peixoto27.76-77): era aquele que “mata mas faz”. Com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. Beloch. em Duque de Caxias. sigla pela qual se elegeu deputado estadual. foi convidado a administrar a fazenda de Edgar de Pinho (cunhado do então ministro das Relações Exteriores [no governo de Washington Luís]. como ressaltou Beloch (p. assim. Nesse sentido. envolveu-se em diversos conflitos armados pela posse de terras na região e acabou deixando a fazenda. e graças às boas relações mantidas com Ricardo Xavier da Silveira. op. Tenório foi nomeado fiscal em Duque de Caxias. ingressou na União Progressista Fluminense (UPF). Tornou-se um próspero proprietário de terras e. ou ainda “faz porque mata (os maus)”. Com o advento do Estado Novo. por intermédio de Getúlio de Moura (eminente político iguaçuano). e com o Secretário de Segurança por este nomeado. consultar DHBB (2001). em 1927. 27 Sobre a trajetória política de Amaral Peixoto.). Tenório filiou-se à UDN (União Democrática Nacional). então interventor. em 1946.São Paulo.

No pleito seguinte foi reeleito como o mais votado de sua legenda. que se traduz nos linchamentos amiúde repetidos. quando dou um tiro na barriga da perna de alguém. em 1950. Em 1960. sua concepção sobre a aplicação da justiça pelas próprias mãos coincide com a noção dominante em parcelas da população trabalhadora. irmão do exgovernador fluminense. O jornal foi fundamental para a consolidação de sua imagem de “benfeitor”. preocupado com as classes populares. herói destemido. ver Beloch (1986). logo em seguida. seu perfil polêmico e sua vida pública pouco ortodoxa foram motivos suficientes para que tivesse os direitos políticos cassados pelo AI-1 (Ato Institucional no. é porque ele tá maconhado e é uma cobra venenosa que eu não posso deixar solta na rua […] Os covardes é que se omitem e deixam o cachorro louco e a cobra venenosa agredir(em) o indefeso. Tem que matar o agressor injusto. com 23% dos votos válidos29. Dois anos mais tarde. Tenório Cavalcanti tinha uma poderosa máquina a seu favor: o jornal A Luta Democrática. Tenório elegeu-se deputado federal com uma votação bastante superior à anterior – 9 mil votos. mas foi derrotado pelo petebista Bagder Silveira. 70). sua situação dentro da UDN tornou-se insustentável. sublinha: ‘Eu então dou um tiro na perna do marginal. com 46 mil votos)28. assim como a de homem justo e valente. ora valendo-se de pseudônimos. ficando em terceiro lugar. pra ver se ele reage. motivo pelo qual deixou o partido. Aludindo a ‘um marginal que urina perante moças’. 28 34 . candidatou-se ao governo do estado do Rio de Janeiro já pelo PST (Partido Social Trabalhista). p. Quatro anos mais tarde. a partir de 1954. mas contra toda a coletividade’” (idem. que é injusto não só contra você. com 42 mil votos — posteriormente repetindo a façanha (em 1958. As punições que prescreve têm inclusive finalidade de defesa moral e dos bons costumes. Roberto Silveira30. consultar DHBB (2001). Após este episódio. 29 Sobre este pleito e o papel da candidatura de Tenório Cavalcanti para a vitória de Carlos Lacerda.1). para depois atirar no peito. Em 1962. disputou o governo do estado da Guanabara. capítulo 4: “A ovelha negra”. 30 Sobre Roberto Silveira.“Aliás. Eu. no qual escrevia regularmente ora em coluna assinada. morto em um acidente. Durante o período É importante destacar que.

que determinaram um tipo de ocupação marcado pela presença majoritária das camadas populares (ou como preferem alguns A vida política de Hydekel de Freitas será abordada no capítulo 3. Tenório manteve-se afastado da cena política caxiense. partindo das definições formuladas por geógrafos e recorrendo aos órgãos públicos de administração e pesquisa (FUNDREM. ele foi retomado como foco principal da tese de Alves (idem). no qual analisarei a trajetória de Zito. Freire (2005) e Monteiro (2001. Queimados e Japeri (Mesquita ainda não havia sido emancipado de Nova Iguaçu no período em que o trabalho em questão foi redigido [1998]).). Em 1982. seu genro31. assim como da dissertação de Souza (1997). anteriormente mencionados. Se nos trabalhos de Enne (op. Esta definição restringiria as fronteiras da Baixada aos municípios de Duque de Caxias. entram os elevados índices de homicídio. nesse meio tempo. matéria-prima a partir da qual se produziu a vinculação da região com a violência. destacam-se os trabalhos de Geiger e Santos (1956). sobretudo através dos meios de comunicação” (pp. recorte que coincide com os dados coletados e as imagens divulgadas sobre a violência local. Já em relação à COPPE/UFRJ. Penteado Filho (1978) e Bronstein (1979). passados dezoito anos. o tema foi amplamente debatido. 32 31 35 . São João de Meriti.16-17). Seu nome já não contava com o mesmo prestígio de antes e. por exemplo.). outras lideranças já haviam surgido na Baixada. mas continuou atuando em seus bastidores — sobretudo por intermédio de Hydekel de Freitas. Tenório novamente candidatou-se a um cargo eletivo (de deputado federal) pelo PDS. Belford Roxo. IBGE. Nova Iguaçu. Aos loteamentos.da ditadura militar. Alves (2003[1998]) privilegiando o recorte a partir do tema da violência. Soares (1955). cit. Bursztyn (1976). Entre os geógrafos. “Nessa definição. Nilópolis. temos as contribuições de Silva (1975). mas foi derrotado. também problematizou a categoria Baixada até chegar ao contorno aproximado das UUIO (Unidades Urbanas Integradas de Oeste). COPPE/UFRJ)32.

autores, classes operárias33) em áreas que não apresentavam as mínimas condições de infraestrutura34, somaram-se as disputas pela terra, desencadeando um violento processo que teve à sua frente jagunços e capatazes dos grandes proprietários da região que, na grande maioria dos casos, jamais residiram nessas localidades35. Alves (op.cit.) traçou os rumos da violência na região, desde os primórdios do processo de ocupação da Baixada até a constituição de seu caráter político — tema que nos interessa particularmente, visto a imbricada relação entre a estrutura de execuções sumárias e a dominação política, trazida à tona por este trabalho 36. Como nos mostra o autor, a marca distintiva da ocupação na Baixada passava a ser, por um lado, a violência privada dos empregados a mando dos grandes proprietários e, por outro, o abandono do poder público, permitindo que tais loteamentos — em muitos casos ilegais — fossem levados adiante. “Para abrigar a vaga populacional através de loteamentos, as prefeituras locais realizarão seu papel de favorecer ao máximo o estabelecimento das pessoas em seus territórios. Taxas mínimas eram cobradas para serem aprovadas as plantas das obras, que eram impressas e fornecidas pela municipalidade[…] Na sede de Nova Iguaçu, até 1944, o número anual de autorizações de construções não chegava a 100. No ano seguinte, chegaram a 251 e em 1950, somaram 897. Sete anos mais tarde, esse número seria duplicado[…] Na Baixada Fluminense, até 1929, tinham sido aprovados 21 loteamentos com 20.524 lotes. Entre 1930 e 1939, há um aumento pequeno de loteamentos, 22; porém uma redução do número de lotes, 15.419. De 1940 a 1949, sente-se o primeiro grande impacto da vaga loteadora.
Ver, a este respeito, Monteiro (2001). As primeiras áreas loteadas localizavam-se nos distritos, hoje municípios, de Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis devido à sua proximidade com a cidade do Rio de Janeiro. 35 Beloch (op.cit.), Grynszpan (1990a e 1990b), Monteiro (op..cit.), Alves (2003). 36 Enquanto Alves (op. cit.) trata das execuções sumárias e da relação entre violência e política em diferentes municípios da Baixada — a ela referindo-se como “um lugar”, ou seja, aludindo a uma possível unidade — Souza (op.cit.) aponta para as especificidades de Duque de Caxias.
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São aprovados 447 loteamentos com 373.025 lotes. De 1950 a 1959 os números praticamente triplicaram, 1.168 e 273.208, respectivamente. Já de 1960 a 1969, inicia-se a tendência à redução, com 615 loteamentos e 120.158 lotes. De 1970 a 1976, os números são praticamente reduzidos à metade dos da década anterior. Nessa trajetória dos índices apresentados, está presente também um outro fator. A tendência à redução da área média dos lotes” (Alves, op.cit., pp.64-65)37. Muitas famílias perderam suas economias na compra de terrenos que não conseguiram regularizar e outras tantas tiveram que esperar muitos anos para ter acesso aos equipamentos urbanos básicos como luz, água e esgoto — além do calçamento das ruas e da coleta de lixo que ainda constituem graves problemas na região. “Isso aqui sempre foi uma lama só. Chove e a gente tem que andar com os pé(s) coberto(s) com saco plástico pra não ficar de lama até o joelho. É uma vergonha. Nós tá(sic) aqui abandonado. Ninguém olha por nós” (I., 65 anos, moradora da Estrada de Madureira, em Nova Iguaçu, 10/08/2003). “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente que é muito pobre. Pensa bem chegar... chegar aqui no Rio, vindo de onde eu vim e ter que encarar ao mesmo tempo uma sacaria ganhando pouco[…] — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — […] e, ao mesmo tempo, morar de aluguel e ter de sustentar mulher, mãe e filharada. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o barracão” (Clenio de Lima Santos, entrevista concedida em 01/11/1995 apud Monteiro, 2001:20). O modelo de habitação então adotado por este segmento foi o da autoconstrução, que tinha na dupla jornada de trabalho e nas relações de parentesco e vizinhança sua forma por excelência38. A participação dos filhos — independentemente da idade — e às vezes de vizinhos e/ ou amigos na construção da casa própria acabava por fundar ou fortalecer os
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Até 1949, o tamanho dos lotes ficava em torno de 1.083m2 e, nas décadas seguintes, diminuiu para cerca de 492m2. 38 Tal questão será tratada no capítulo que aborda a trajetória de Zito e de sua família.

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laços de solidariedade e de vizinhança entre os moradores da localidade. Outro aspecto que apontaria para a consolidação de tais laços é aquele apresentado por Monteiro (idem) em sua dissertação de mestrado — e corroborado pelos discursos nativos e matérias de jornais — a rede de resolução de problemas práticos39. Tal rede teria origem na necessidade de se criar alternativas à escassez de aparatos coletivos disponibilizados para esta população — desde aspectos básicos como coleta de lixo, água encanada, calçamento de ruas até a questão propriamente da segurança. “E você acha que a gente é porco pra deixar a rua virar um chiqueiro? O jeito foi ir cavando vala, tirando o matagal da rua, fazendo cobertura para os pontos de ônibus e mais um bocado de coisa que não era pra gente fazer” (Antônio de Souza Leite, entrevista concedida em 21/08/1995 apud Monteiro, op. cit, p.22). Em pesquisa, realizada em maio de 1990, portanto anterior a de Monteiro e às demais até o momento apresentadas, Angélica Drska e Rosana Heringer apresentam dados e representações sobre a violência em Nova Iguaçu e Nilópolis a partir da análise qualitativa dos depoimentos de moradores dividos em seis grupos de faixas etárias distintas (metade composto por mulheres e a outra, por homens)40. Segundo as pesquisadoras responsáveis, em 1987, 77% dos moradores da Baixada eram empregados, mas 33% sem carteira assinada e 35% dos trabalhadores não contribuíam para a Previdência. 1,7 milhões dos habitantes da Baixada residiam em Nova Iguaçu e Nilópolis e 80% desses moradores empregados recebiam até três salários mínimos. Ainda de acordo com os dados da

Mais adiante me deterei especificamente nesta questão, a fim de elucidar alguns aspectos relativos às práticas políticas na Baixada Fluminense. Por hora, limito-me a mencioná-la en passant. 40 A pesquisa “A gente enterra o morto, silencia e se conforma. A violência em Nova Iguaçu e Nilópolis na visão dos seus moradores” foi realizada pelo IBASE a partir da iniciativa da Comissão Justiça e Paz da Caritas Diocesana de Nova Iguaçu e Nilópolis e contou também com a colaboração da Retrato Consulturia e Marketing. Esta pesquisa foi publicada no Cadernos IBASE 8 (1990).

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pesquisa, no ano de 1989 ocorreram 1906 mortes violentas na região noticiadas por diversos jornais. A partir deste panorama, as diferentes formas de entender e classificar a violência foram trazidas à tona pelos discursos de moradores, demonstrando a ambigüidade do tema. Se a violência estava presente nesse cotidiano, ela foi mencionada por eles de formas distintas, dependendo dos contextos. “...não é de ninguém da área [o corpo], são apenas desovados...Então não há violência, há morte que vem de fora...Porque se todo dia aparece quatro, seis, oito, dez conforme se vê na ladeira da rua, não existia mais nenhum morador. Então esses crimes são praticados fora e jogados lá.” (idem, p. 13) Os sentimentos de medo e insegurança são tratados no trabalho, principalmente ilustrados nas falas que enfatizam a preocupação com a noite. Mas se a rua é lugar de medo, a casa também pode sê-lo. Esses sentimentos são agravados pela relação com a polícia, percebida como “verdadeiros ladrões” ou a estes associados (grupos de extermínio e roubos de carga, por exemplo), em contraposição aos “bandidos da área” que, de alguma forma, “prestam serviços”, suprindo a ausência do Estado e/ ou sua ineficiência41. Assim, os policiais seriam equiparados aos “bandidos de fora”, àqueles que não convivem com a “comunidade” e que não coloboram com ela. “Uma dona uma vez em Nova Iguaçu saiu chorando porque ela foi assaltada, levaram carteira, levaram tudo dela, ela chegou lá na delegacia e teve que pagar uma taxa de 150 cruzeiros. Ela veio desesperada, gritando no meio de todo munod: ‘Esses são os verdareiros ladrões!’” “Eles [os bandidos da área] não assaltam, eles não fazem sujeira ali na área...É todo mundo unido, é tudo crescido ali. Cresceu e cada um tem seu jeito, cada um faz aquilo
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Consultar Lengruber (1985), Pinheiro (1983), entre outros.

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que tem vontade...Então eles não fazem ali. Por isso que ali no meu lugar eu me sinto segura. Eles dão proteção a todo mundo.” (idibem, p. 14) "Lá não tem liberdade, à noite não há liberdade, ninguém é de ninguém. Muitos são os mortos por policiais à paisana, disfarçados. Se te olharem e não forem com tua cara, te botam no camburão, e aí, tudo é possível...” (idem, p. 15) “É polícia mineira...tem uma caixinha que corre entre eles. É proteção da área. Aquilo ali é o serviço da madrugada. Se tiver alguma coisa errada, é só ir lá, reunir a turma, na madrugada aquele camarada desaparece.” (p. 17) A insegurança e o medo são seguidos de relatos de moradores sobre a sensação de impotência frente à ação de policiais, seus atos violentos e às “queimas de arquivos”. O silêncio torna-se a estratégia mais comum nesse universo. “Tem só um jeito: enterrar o que morreu e silenciar. É a lei do morro, da favela e da Baixada” (p. 15). Assim, a Baixada se aproxima da favela como lugar de medo e de morte, conferindo sentido ao desabafo do morador citado anteriormente. Mas não podemos esquecer que, por outro lado, é recorrente nas falas de moradores a tentativa de se diferenciar dos “favelados” (Cardoso, 1978; Silva e Leite, s/d). A Baixada aparece como a opção frente a morar na favela. Ao recusar a comparação com o “morro”, rejeita-se também a sua associação direta à violência explorada reiteradamente pelos meios de comunicação. Sandra Regina S. da Costa (2006), em sua tese de doutoramento, nos traz um exemplo oriundo de sua própria vivência — enquanto pesquisadora e ex-moradora da Baixada — da articulação de parcelas da população para a resolução dos problemas locais, bem como da concepção de justiça e de legitimidade implicadas nessa relação: “Recorro a minha própria memória para explicar este ponto. Lembro que na minha infância, a ocupação do meu 40

bairro [no município de São João de Meriti] não tinha se dado por completo. Não tínhamos favelas próximas, como as que existem agora, e havia muitos terrenos ainda não ocupados, cobertos de mato. Lembro que uma fonte de medo constante era os boatos acerca dos ‘tarados’. [...] Em algumas vezes, e eu me recordo de pelo menos uma meia dúzia delas, os moradores localizavam o suposto ‘tarado’, que era linchado e tinha as partes do seu corpo expostas em vários postes da localidade. A idéia de ‘justiça feita com as próprias mãos’, sem a intervenção do Estado, que se figuraria na Polícia (Civil ou Militar, nesse caso tanto faz) era a tônica desses momentos de extrema dramaticidade” (Costa, 2006:49). Se o caso de Tenório é emblemático da visibilidade do fazer político na Baixada Fluminense durante as décadas de 1950 e 1960, nas décadas seguintes outros personagens não deixaram de fazer jus ao legado do “homem da capa preta”. A partir de 1964, a região passaria por um processo de intervenção política e de supressão de qualquer forma de oposição ao regime militar instalado. Os últimos anos desta década e toda a seguinte seriam marcados por cassações de políticos e pela imposição de interventores, contribuindo, assim, para o surgimento de uma nova elite no poder42. A década de 1980 significou o ápice da vinculação entre Baixada e violência — apontada na amostra dos jornais selecionados por Enne (op. cit.), principalmente a partir de notícias que abordavam a questão da violência política também ligada aos interesses de comerciantes locais. Se, conforme destacou Alves (op. cit.), a atuação dos grupos de extermínio na região teria se iniciado essencialmente a partir da década de 1960 — como forma de “garantir a ordem” frente aos saques e à ausência de segurança local diante da omissão do poder público — a partir de 1970, esta situação intensifica-se, estimulada por autoridades (policiais e militares) locais e por políticos. A “polícia mineira” (Souza, op. cit.), como ainda é conhecida, estampava os jornais e imprimia o medo.
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Tal fato será analisado no próximo capítulo.

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Para a Baixada (em termos de sua visibilidade externa), os primeiros anos de 1980 configuraram a “fase dos justiceiros e matadores43”. Mão Branca foi o mais famoso dentre eles, povoando os jornais cariocas do período (cf. Enne, op. cit.). Além daqueles que se enquadravam melhor na categoria “matadores profissionais”, proliferavam também os assassinatos e a coerção física com fins políticos. Apesar disto, a década de 1980 marcaria ainda o período de emergência dos movimentos sociais na Baixada, fundamentalmente ligados à questão da casa própria44. Além da violência e do surgimento dos movimentos sociais, um outro fator apontava, naquela década, para uma alteração nas relações de poder na região: a eleição de Brizola, em 1982, que teve forte impacto sobre a escolha dos prefeitos locais. O voto brizolista ou “fenômeno Brizola” refletiu o caráter oposicionista daquelas eleições assim como a ênfase no discurso voltado para as classes populares. Enquanto a tese de Enne (op.cit.) nos trouxe uma discussão refinada sobre a configuração da Baixada, colocando-nos frente a frente a discursos (e projetos) os mais diversos, ressaltando esse “movimento” e a fluidez dessas fronteiras; a dissertação de Oliveira (1999) concentra-se na política e pouco problematiza a categoria Baixada, focalizando seu estudo no caso de Nova Iguaçu, local onde realizou seu trabalho de campo. Tal dissertação (idem), defendida no Instituto de Ciência Política da UFF, teve por objetivo analisar a dinâmica legislativa da Câmara Municipal de Nova Iguaçu, no período compreendido entre 1997 a 2000, apoiando-se igualmente em dados sobre a legislatura anterior (1993-1996), sobre a produção legislativa e as práticas dos vereadores daquela
Dentre eles: Mão Branca, Carlinhos Blá-blá-blá, Paulo Cigano, Jorginho da Farmácia, Beto da Feira, De Souza, Careca, Paulo Hulk, alguns sendo policiais militares. Para uma análise mais detalhada sobre a atuação dos grupos de extermínio na Baixada Fluminense, ver no trabalho de Alves (op.cit.) o capítulo intitulado “Da ditadura militar ao neoliberalismo: o poder e a violência recente na história da Baixada”, pp. 101-172. 44 Ver Lesbaupin (1982), Bernardes (1983), Simões (1993), Tavares (1993), Freire (2005), entre outros.
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a produção legal da Câmara. 1998. portanto. 2001) com a intenção de apreender os limites que tais “cultura” e prática políticas acabam impondo à vida democrática. o artigo de Carneiro e Kuschnir (1999). Para isso. a CM não precisa de mudanças institucionais para melhor desenvolver suas atribuições legais no atual contexto de democratização” (ibidem. o Poder Legislativo municipal possui maior liberdade e amplitude para desenvolver seus próprios trabalhos.22-23). pp. entre outros. Lopez. 7) por isso. Bezerra. principalmente por meio de reeleição. sob o ponto de vista constitucional. 2) a relação Executivo-Legislativo em nível municipal é diferente da estabelecida em nível federal. adquiriram força no quadro políticoinstitucional vigente e significado como órgão legislativo e co-partícipe do governo local. devido ao fato de o poder institucional do Prefeito ser menor do que os poderes garantidos ao Presidente da República. considerandose as iniciativas exclusivas dos vereadores. partindo do pressuposto de que o papel político dos vereadores não tem sido cumprido. 1975. diferente do seu similar em nível federal. 5) dentre as principais funções do Poder Legislativo. 3) com isso. 6) a maioria dos vereadores de Nova Iguaçu pretende seguir carreira política. pratica atividades de assistência social e acredita que o seu papel na política municipal é de intermediar serviços públicos junto à população. Apesar da preocupação em não construir 45 Sobre a noção de “cultura política” ver. a de fiscalização é a mais prejudicada. Para embasar sua premissa foram testadas algumas hipóteses: “1) as Câmaras Municipais.Casa. 4) entretanto. O autor preocupou-se em analisar a “cultura política”45 de Nova Iguaçu. essa maioria acredita que assim cumpre bem o papel político para o qual é eleita e. força essa jamais vista no cenário político municipal brasileiro. Concluindo com o destaque à fraca institucionalização e à subordinação da Câmara Municipal de Nova Iguaçu ao prefeito. 43 . o autor retomou algumas discussões existentes na produção sociológica acerca das relações entre executivo e legislativo (Leal. tem um caráter essencialmente assistencialista e não produz mudanças substantivas na vida dos cidadãos.

na pobreza. São João de Meriti. cuja origem remonta à época colonial” (p. atribuindo menos ênfase às falas (e a seus significados) — que. significará um grande avanço para a democratização e melhoria da qualidade de vida na cidade de Nova Iguaçu” (ibidem. o autor se utiliza de uma classificação mais tradicional para delimitar a região. 46 44 . por intermédio da ênfase na escassez. quando ocorre. de problemas sociais crônicos e de conflitos políticos. em detrimento das distintas formas de se entender a Baixada Fluminense. reproduziu o entendimento do contexto político a partir do que ele idealmente deveria ser. uma identidade coletiva. Oliveira resume em mais ou menos três parágrafos as contradições decorrentes dos processos de urbanização pelos quais a Baixada passou. A alusão a esta última categoria. foram “recolhidas” — do que ao implacável olhar jurídico-legal (formal)46. pp. reproduzo as próprias palavras do autor: “[…] diante dessa conjuntura sócio-urbana e desse cenário político. tais como a de “conservador-clientelista” ou a de “populistaclientelista”. o autor privilegiou a reconstituição de uma parte da história do município. Tal recorte justifica-se a partir de um “quadro de contrastes sócio-econômicos. Sendo assim. 92-93). Nova Iguaçu (antes da emancipação de Mesquita). Para ilustrar a minha afirmação. 87). Belford Roxo. segundo a qual Duque de Caxias. as práticas políticas sendo assim analisadas como estando em consonância ou não com ela. mencionado sua condição de subalternidade em relação à cidade do Rio de Janeiro. Nilópolis. se a Câmara e seus membros buscarem o aprimoramento e o aperfeiçoamento da instituição legislativa local em direção ao exercício das suas atribuições constitucionais. A própria opção por operacionalizar o debate em termos de classificações.uma visão normativa ou em sugerir “soluções” para tal impasse. Queimados e Japeri seriam os municípios que integrariam a Baixada. Em consonância com o anteriormente exposto. a democracia é tomada como um valor durante todo o trabalho. na violência e nas práticas políticas “típicas” das periferias e zonas desfavorecidas do país. remete exclusivamente à tentativa de se criar um nós. no caso do autor.

1995)49. consultar. 47 45 . Nova Iguaçu ganha mais visibilidade em sua análise: “até bem pouco tempo era considerada a segunda maior cidade do Estado [do Rio de Janeiro] e a quinta do país. alterou-se em parte a configuração do mercado interno desses municípios. No caso da Baixada. de certa forma. de falta. por exemplo. obrigou seus moradores a novamente buscar emprego fora dos limites de sua cidade. referindo-se novamente à Baixada apenas na conclusão. 48 Sobre populismo.e finalizando com a alusão à caracterização das cidades-dormitórios47. Munido de estatísticas. o dado relativo aos 3. Ianni (1975 e 1991). próprios da estrutura social e urbana brasileira. Numa tentativa de negar uma pretensa singularidade à Baixada. Oliveira nos apresenta percentuais que não se restringem à Baixada. tal imagem sintetizou. o setor de comércio e serviços e o funcionalismo público representam a quase totalidade das possibilidades de absorção de mão-de-obra nos municípios da Baixada. Diretamente vinculada ao processo de ocupação da região. já que era empregada pejorativamente. assim como o setor terciário e as diversas indústrias de Nova Iguaçu (a Embeleze. a outros “bolsões de miséria”. Weffort (1980). com reflexo nas áreas adjacentes. Uma das imagens mais comuns sobre a Baixada. bastante propagada nas décadas de 1960 a 1990. Quando as indústrias e o setor de serviços tiveram um significativo incremento. ao populismo e ao assistencialismo (p. o autor concentrou-se nos dados referentes à Nova Iguaçu. referindo-se ao clientelismo. Como veremos mais à frente. Por outro lado. como por exemplo. Debert (1979). nesta parte do trabalho. a realidade da população e da economia locais até pelo menos meados da década de 1980. No entanto. 49 O autor refere-se ainda a dados relativos à educação e à saúde. Nesse sentido. a refinaria e o jornal Extra de Duque de Caxias. remetenos à categoria cidades-dormitório. como chama. por exemplo. Rodrigues (1996). remetendo à idéia de um “lugar” de escassez. a “cultura política tipicamente brasileira”. o autor enfatiza seu caráter de “periferia” comum a outras áreas carentes do país ou. tal classificação acabou tornando-se um estigma. entre outros. o fechamento de algumas indústrias (principalmente as têxteis) importantes em municípios como Paracambi. Após efetuar esse breve apanhado. de propriedade do deputado federal Itamar Serpa – PSDB/RJ ou a Compactor do Brasil). 119)48. na qual afirmou que esta estaria inserida numa “cultura” mais ampla. Sua menção à Baixada Fluminense praticamente pára por aí. no fim da década de 1980.2 milhões de pessoas em situação de pobreza e miséria na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ. o parque industrial de Queimados e a central termoquímica de Japeri são alguns exemplos da mudança no cenário do mercado de trabalho nos municípios da Baixada. que tendem a privilegiar a dimensão representativa de nossos objetos e não a simbólica.

distribuindo vagas em escolas e creches. que somados aos seus municípios vizinhos. com a eficiente fusão da contravenção com o carnaval e com o clientelismo político. conforme inúmeras denúncias. Associando nomes novos a lideranças já consolidadas.ultrapassando a marca de 1 milhão de habitantes. Na dissertação de Oliveira. embora muito 50 O autor se utiliza de dados referentes à contagem populacional de 1996 do IBGE. conviviam na Baixada diferentes projetos políticos que se aproximavam.cit.721 eleitores. ora vinculadas a projetos diversos. 89-90. A partir das notícias de jornais. o grupo comandado por Raunheitti. ocupando a terceira posição em nível estadual e a décima sétima no país. numa reedição moderna e situacionista do “homem da capa preta”. a década de 1990 trouxe novidades para a Baixada. grifos meus)50. tanto pelo clientelismo como pelas formas ilegais de ação: os Abraão David.). o problema da violência é mencionado — essencialmente ligado às características dos processos de urbanização locais — mas não chega a ocupar um lugar de destaque em sua análise. A década de 1990.188 habitantes. essa posição ainda é mais significativa. marcaria a construção de um novo olhar — agora positivado — que passava a ser dirigido à localidade. ou da notícia como discurso (p. O brizolismo sobrevivia. ora aproximando-se às do senso comum. formam uma das maiores regiões eleitorais do país” (idem.79). 46 . tudo financiado pelas irregulares subvenções sociais do Congresso. as redes assim constituídas delineavam os contornos que a vida política tomaria dali por diante. segundo Enne (op. Enne demonstra como tais discursos vão construindo representações sobre a Baixada Fluminense. Em termos políticos. Zito e Joca. pois com 526. cit. pp. em tamanho populacional […] Em termos eleitorais. combinando favor e medo. e oferecendo consultas e operações médicas gratuitas. como os políticos. Hoje possui cerca de 826.) nos apresenta este panorama: Após a primeira metade dos anos 90. Nova Iguaçu ocupa o segundo lugar no Estado e o décimo quinto no país. Alves (op.

um dos mais famosos matadores da época agia com arma e carteira fornecidas pelo juiz. movimentos sociais e CEB’s. Preso numa tentativa de assassinato. o Neca. 1996: 102-103 e 111-114).19 Assim. sem os dois deputados estaduais que não se reelegeram e sem a mesma força mobilizadora dos anos 80 (idem.. 51 47 . p.mais como estratégia eleitoral e política de um prefeito. responsável pela indicação das suas nomeações e sustentação no cargo. O caso de Pedro Capeta. alegando ausência de tempo paraoperacionalizálos. em Nilópolis. Zito e Lindberg Farias. destituindo aqueles vinculados ao esquema de execuções. que por sua vez agiam associados ao poder político local. A atuação de Tânia Maria Salles Moreira como promotora pública na comarca de Duque de Caxias desconstruiu a rede que a partir do próprio Fórum de Justiça da Cidadecoordenava as execuções. concomitantemente ao início da publicação do “Caderno Baixada” (um dos suplementos Os projetos políticos serão retomados na análise das trajetórias de Jorge Gama. [. pelo PTB. que represava processos de homicídios por anos em suas gavetas para arquivá-los em seguida. A arma com ele encontrada tinha lhe sido entregue pelo próprio juiz. 2005:25) A escassez e a violência que marcaram os discursos sobre a Baixada construídos pela mídia durante as décadas de 1960. revelou-se exemplar. assim como o lugar dos partidos na conjuntura política da Baixada. O que explicaria o fato de que em anos de eleições municipais a permanência de Hélio Luz à frente do cargo que ocupava tornava-se insustentável. era assíduo freqüentador do Fórum e possuía uma carteira de oficial de justiça Ad Hoc dada pelo então juiz.] Para Hélio.116)51.. A grande fragilidade ficava por conta do Partido dos Trabalhadores. ainda com seu único vereador na Baixada. (Alves.eleito no final dos anos 80 suplente de vereador. Desnecessário dizer que Pedro Capeta foi absolvido no processo por falta de testemunhas. a redução dos homicídios estava diretamente associada à sua capacidade de interferir na nomeação de delegados. após ter sido apreendida em um outro crime (MOREIRA. por Nova Iguaçu. do que como força política de resistência. 1970 e 1980 foram atenuadas a partir da década de 1990.

Foi somente a partir de 2000 que as notícias sobre assassinatos e pobreza divulgadas na imprensa foram reduzidas de maneira mais significativa. pp. Os mecanismos de aproximação (materiais e simbólicos) entre moradores da Baixada Fluminense e de cidades próximas — mas principalmente do Rio de Janeiro — expostos acima criaram novas alternativas. possibilitando que o fluxo de pessoas pudesse se dar em outras direções que não apenas o sentido unilateral tradicionalmente estabelecido — da capital como único pólo de atração53. tendo mudado para o Rio de Janeiro — mais especificamente para Niterói — há alguns anos e. Ainda segundo a autora. a autora nos permite acompanhar o processo de reformulação de suas identidades locais.) ilustra este “outro lado” da Baixada. A leitura da tese de Freire e sua auto-avaliação como pesquisadora duplamente estrangeira54 fornecem elementos decisivos para pensarmos esses “novos” A tese de Costa (op. o sentido oposto (Baixada – Rio) acaba sendo desconsiderado nas análises sobre o tema. posteriormente estendido para outras regiões do estado) do jornal O Globo. além da diminuição das distâncias físicas e simbólicas entre a Baixada e a cidade do Rio de Janeiro — possibilitada pelo incremento do fluxo de pessoas com as construções das Linhas Vermelha e Amarela — além da visibilidade alcançada por movimentos sociais locais e da percepção da região como um novo mercado consumidor em potencial. 53 E neste caso. Por meio do estudo das carreiras de alguns músicos da região. 52 48 . Entre as hipóteses levantadas por Enne para dar conta de tal fato (op. cit. As antigas imagens — bem como os antigos problemas — evidentemente não desapareceram de todo.sobre bairros já publicados no município do Rio de Janeiro. residiu cerca de dois anos em Nova Iguaçu.90-91) estão a percepção de que o fenômeno da violência era agora generalizado. já que tido como compulsório. cit. 54 A condição de “dupla estrangeiridade” é explicada pelo fato de a autora ser francesa. durante a última década do século XX as matérias sobre a “efervescência cultural e social” já apontavam para uma alteração das representações sobre a região52. durante a pesquisa..

sentado numa cadeira. por vezes. Naquele dia de março de 2004. Dia de temporal. a gente tá acostumada. numa das ruas que conduz à estrada onde passa o ônibus. Nos minutos que se seguiram. Entrevia. o clima estava quente e abafado. Centro de Nova Iguaçu. de repente. em frente ao seu portão. neste momento. A presidente da Associação olhou para seu relógio e me aconselhou que pegasse meu ônibus. De repente. a escuridão de repente tomou conta de tudo e substituiu as tonalidades alaranjadas do pôr-do-sol. Apenas alguns fios de luz vindos das janelas das casas não confirmavam uma escuridão total. 55 49 . O sol se esconde e tira aos poucos a luz que permitia ver com nitidez as ruas de terra batida e as casas de tijolos do bairro. você pode ter maus encontros e ninguém vê (p. a sombra de um morador. Momentos cotidianos na vida comum dos moradores locais ganham cores novas para a pesquisadora. A Baixada é o seu acontecimento.olhares sobre a região.09). Estranho andar no escuro no meio de um lugar que desconheço. na Via Light. Penso: “é agora que vou me perder”. comento minha surpresa com a situação e outra pessoa que caminhava junto. Isso é o que tem de menos. Uma mulher me respondeu: “Estamos indo pro ponto também. Despedi-me às pressas e acelerei o passo para chegar até o ponto. para evitar um buraco. No meio do caminho. diz: “Sabe. um pouco para a direita. num fim de tarde de um mês de março. Sem saber se ainda estou no caminho certo. já conhecemos perfeitamente o mínimo buraco. vozes e risos vindo de um grupo de pessoas um pouco atrás de mim. ouço. Fascinante é a forma como constrói a passagem do tempo em seu relato. um céu cinza anunciava desde cedo uma chuva prestes a cair. Pedi alguma ajuda. Tropeço nos buracos. um pouco para a esquerda. Ela indicava detalhadamente como me deslocar. que se vê subitamente confrontada ao “lugar”55. diante do objetivo proposto de entender a condição de dupla “estrangeiridade” da autora e sua mudança de “olhar” com relação à Baixada. interpelei o grupo. jogando os passageiros no meio da via que se A extensão das citações faz-se necessária. Os acontecimentos ditam sua temporalidade. Pegue meu braço!”. Os ônibus paravam rapidamente no ou fora do ponto. para evitar outro. Precipitadamente. ela desabou sobre a cabeça dos transeuntes. Dezenove horas. Às vezes. no horário de rush.

a reunião do MAB. permitisse chegar na hora para dar minha aula. como muitos moradores de subúrbio. no “tempo de margem” em caso de imprevistos. se não um pouco adiantada. o Hospital da Posse. Nesta época. o Juizado Especial de Pequenas Causas. Resultado: o tempo da viagem foi de duas horas e meia. Pensava. pés. foram 3h30 para chegar ao centro da cidade do Rio de Janeiro (pp. eu morava em frente à Prefeitura[…] Na rua que faz esquina com a Prefeitura havia um ponto de ônibus direto para o Rio. Uns 45 minutos se passaram[…] Se eu e aquela moça pensávamos estar salvas e que apenas chegaríamos com alguns minutos de atraso no Rio de Janeiro. um “parador”[…] Esperava o ônibus. embora um dos seguidores. corpo e mãos encharcados. menos observador. um homem com mais reflexo já fez sua escolha para atravessar a rua Bernardino de Mello e chegar até o ponto. o Dia Internacional da Mulher. nossa presunção acabou quando o ônibus chegou na Via Presidente Dutra. […] Viagem chuvosa para o Rio de Janeiro Realizava um estágio de docência no IFCS. Alguns transeuntes estavam nos pontos mais elevados das calçadas esperando que as águas baixassem. Acrescentado o tempo de espera. o caminho escolhido garantiu pés menos molhados. tivesse torcido o pé num buraco coberto de água no meio da via (pp. Sem trânsito poderia até durar uma hora. o motorista sentisse piedade de meu rosto. torcendo para que. […] Na entrada do túnel. A autora prossegue descrevendo outros acontecimentos: os dias de verão de 45 graus. Saía num horário que.. novos congestionamentos em vários eixos da via. as águas da Via Light escorrem pelas ruas perpendiculares à avenida. surpreendeu os passageiros[…] Ao chegar à Avenida Brasil. apenas na Dutra. às vezes 1h45. Um engarrafamento de cerca de uma hora e meia. Preocupada em entender a pluralidade de sensos de justo em Nova Iguaçu. De fato. alagando boa parte daquelas próximas à Prefeitura. quando a demora normal é de cerca de 1h30. partindo da problematização de situações específicas vividas pelos 50 . pela minha programação mental.. 11-12).alagava cada vez mais[…] Quando chove. se passasse. É seguido por vários outros.9-10). ela procura definir seus “usos”.

a autora desvenda as “competências” dos atores ao definirem as situações problemáticas e mobilizarem-se coletivamente. Baseando-se na noção de identidade social tal como formulada por Goffman (1975a.69). mas como espaço de problematização. 1984). a mudança de status do grupo a partir da visibilidade alcançada56. de circulação.cit. 51 . buscando apreender os mecanismos de constituição de novos públicos. bem como do sentido de pertencimento a ela atrelado — igualmente fundamentados nas percepções dos sensos de justo. ou seja. passeatas.) vai abordar esta questão a partir do que chamou de dispositivos de publicidade: jornais. as mobilizações e debates públicos são analisados a partir de uma gramática política (dispositivos e repertórios) orientada para a dramatização (Turner. Desmascarando as alegações de ilusão ou alienação. atos públicos. Nesse sentido. de reservas e acessibilidades)?” (p. A autora busca enfatizar a passagem do problema a um nível de generalidade a partir do uso de recursos políticos e dos dispositivos acima enumerados. As percepções dos “problemas sociais” dignos de publicização e da revolta frente a eles são contextualizadas no repertório de reivindicações locais e de construções coletivas. 1975b). Freire apresenta uma pluralidade de visões acerca “da Baixada” (em geral). ocupa no espaço público (entendido não só do ponto de vista comunicativo. enquanto recorte cognitivo. 56 Freire (op. Com este intuito. a autora tenta reconstruir — a partir da noção de arena pública — a definição de espaço público para esses atores. A autora coloca-se a seguinte questão: “que lugar a ‘Baixada Fluminense’.moradores da cidade e integrantes do MAB (assim como dos múltiplos pertencimentos de seus principais interlocutores).

p. Ali é lugar de desova! Eu realmente nunca moraria lá. Os “da Baixada”.o morador do Rio de Janeiro . Boltanski e Thévenot (1991) e Gusfield (1981). Pudemos perceber que ao se tentar mostrar “o que a Baixada tem de bonito”. Dando destaque aos momentos de prova e à idéia da ordem pública59 como “ordem negociada” (Strauss. No referido programa foi mostrada uma exposição fotográfica realizada com apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e da Prefeitura de Nova Iguaçu. enfatiza a dimensão profissional como responsável por parte significativa das relações entre os moradores da Baixada e aqueles residentes no Rio de Janeiro. 57 52 . “otário” para caracterizá-los. 59 A autora desenvolve um debate entre noções de espaços públicos e processos de publicidade a partir. da TV a cabo Globo News.45). A autora pôde observar que os sentimentos acionados para operacionalizar os distanciamentos e aproximações giravam em torno de um repertório de acusações mútuas. além de os acusarem de “viver em outro mundo”58. quase privado. Tais imagens manifestam-se em relações jocosas. 1992).Novamente dialogando com Goffman (idem). “cafonas” ou advertem a autora sobre os perigos do “lugar”: “Você é louca!. 58 Freire utiliza-se da personagem da empregada doméstica (como um tipo ideal) para pensar no contato e nas possíveis trocas entre os distintos “mundos sociais”. por sua vez.. Nesse sentido. demonstrando ao mesmo tempo a existência de pré-noções e preconceitos. op. durante o Fórum Mundial de Educação. Os “da Zona Sul” (uma referência generalizada na construção do outro . Esta impossibilidade de desvinculação na fala dos “de fora” — dos fotógrafos estrangeiros — evidencia-se. Freire demonstra como os processos de definição implicavam compromissos e acordos assim como conflitos e tensões.” (p. de Habermas (1992). nos quais as arenas públicas constituíam “os bastidores do espaço público” (Freire. 73). assumido pelos interlocutores da pesquisa. exibiu em 17 de abril de 2006 um programa intitulado Baixada bonita. a arrogância e a “metidez” dos “da Zona Sul”. A Baixada é outro mundo!. as manifestações de emoções por ambos os “lados” sendo percebida durante todo o tempo da pesquisa.para os nativos) acusam os “da Baixada” de “bregas”. A partir da A revista eletrônica Almanaque.cit. mesmo quando constituída a partir de um projeto político de reinvenção do “lugar”. enfatizam a “frescura”. estava implícita a todo momento a referência à pobreza e à violência da região. fundamentalmente. portanto. e um certo desconforto que se faz notar pelo tom de confidência. utilizando-se de adjetivos como “babaca”. Freire procurou compreender os “olhares” sobre a Baixada a partir dos contatos mistos (entre “normais”/ “estigmatizados”)57.

estaria bem próximo da dinâmica da rede de resolução de problemas práticos (Monteiro.cit..62) denominou “repertório do próximo” e que serviu de base para o entendimento da construção do bem comum. a partir da definição de uma situação problemática num contexto coletivo bastante específico. pluralidade. visibilidade e encenação nelas encerrados. tornaria possível sua publicização. p. ambos trazendo à tona uma reflexividade prática (Boltanski e Thévenot. a autora enumera suas características: dramaturgia. o segundo conferiu destaque à explicação nativa das práticas de resolução de problemas cotidianos englobada por uma concepção particular de cidadania. 1999 apud Freire.). bem como uma “criatividade no agir” (Joas.cit.cit) aproxima-se igualmente deste tipo de abordagem. A dissertação de Monteiro (op. a complementaridade entre ambos os estudos será aqui evidenciada. op. portanto. embates. op.). idem. Apesar de Freire não mencionar a dissertação ou qualquer outro trabalho de Monteiro (op. Interessado em desvendar os processos de construção das identidades locais em relação às 53 . 46-47). Tal elaboração supõe formas de classificação e utilização de recursos do mundo da política: a publicidade gera o “caso” — recurso operador e amplificador de grandeza. A denúncia pública traduziria a passagem de um problema de ordem particular (e portanto de menor grandeza) a um problema generalizado. Enquanto a primeira preocupou-se em compreender os processos de constituição dos sensos de justo a partir das arenas públicas e. 140). op. cit.) em nenhum momento.cit. O que Freire (p. pp. regras de publicidade coercitivas e dispersão (cf. os processos de dramatização. coletivo (de maior grandeza). negociações. atrelada a operações cognitivas e morais. O evento referencial seria fundamental para a constituição do “problema” em si que.diferenciação entre espaço público e arena pública.

abandonada pelo poder público e não o tendo como legítima instância a se recorrer. o autor procurou estabelecer uma tipificação e hierarquização das reclamações a fim de perceber a classificação “problema” ou “situação problemática” para os moradores da Baixada. mas é a partir deste levantamento que o autor estabelecerá uma série de implicações com as práticas políticas locais e com a trajetória política que utilizará para ilustrar tal vinculação. Não me alongarei na análise desses dados. ano em que foi extinta a coluna de reclamações Boca no Trombone.. criava suas próprias alternativas. agindo coletivamente.0% 9.0% 0. O segundo equívoco revelado sobre a ação proletária na Baixada Fluminense relaciona-se com o entendimento de A própria alteração do nome da coluna é significativa de um processo de transformação nas imagens produzidas sobre a Baixada Fluminense.0% 9.0% 6. intitulada Seu Bairro60.0% 20. o autor analisou o “caso Belford Roxo”.práticas políticas (e ao poder público) e às percepções de cidadania em jogo. Por intermédio da análise do processo de emancipação do ex-distrito iguaçuano.0% 17.32-33). O levantamento desses dados ocorreu entre os anos de 1982 — escolhido pela significativa queda na taxa de migração observada — e 1997. pp.5% 0.0% 1. A tabela que se segue traz a tipologia dos problemas e sua hierarquização.cit. 54 . escolas Iluminação pública Lotes abandonados Opções de lazer TOTAL NÚMEROS TOTAIS 500 400 340 240 180 180 120 20 10 10 2000 PORCENTAGEM 25. Sua hipótese inicial era a de que os principais problemas diriam respeito a situações de difícil resolução informal. Examinando as colunas destinadas a reclamações do Jornal de Hoje. substituída por outra. Monteiro deparou-se com uma população que.5% 100% 60 apud Monteiro (op.0% 12. PROBLEMAS Hospitais Lixos e pragas Segurança pública Saneamento básico Transporte deficiente Telefones públicos Creche. definindo “situações problemáticas” e administrando seus sensos de justo.

A população local continuou revezando-se para a coleta do lixo. Cardoso (1983). é criticado involuntariamente por esse morador que se orgulha do fato de não depender do governo para manter sua rua transitável e seu bairro parcialmente organizado (idem. p. Monteiro inicia seu relato sobre a rede de resolução de problemas práticos a partir de uma disputa política — e por visibilidade — entre um vereador local e um líder comunitário. como um todo. Ammann (1991). permanente e não-reivindicativo (no sentido de não privilegiar as manifestações públicas)61. Sader (1987 e 1988). É neste aspecto que a abordagem de Monteiro diferencia-se daquela elaborada por Freire — que Sobre movimentos sociais. consultar. um movimento social. Cessado o conflito. aspecto do paternalismo extremamente aprofundado em nossas instituições políticas. 44). improvisando latas para seu acondicionamento e utilizando-se de um caminhão particular (de propriedade de um morador da região) para seu transporte até o “lixão”. a situação merecedora de cobertura da imprensa — a criação do movimento “roça limpa” — não se desarticulou. entre outros. entre outros. sua forma de organização. sobre “serviços” prestados à comunidade e sobre a “cobrança por proteção (o líder comunitário pertenceria a um grupo de extermínio). Oliveira (1987). Aquele tradicional entendimento de que cabe ao governo a responsabilidade por resolver todos os problemas. A rede de resolução de problemas práticos não configura. 61 55 . D’Incao e Botelho (1987). Jacobi (1987). Boschi (1983 e 1987). Tal prática é mais comum do que se imagina na Baixada.que existe passividade popular no desconhecimento de deveres e direitos e na negação das reivindicações como algo efetivamente solucionador de problemas políticos inerentes à ação de governos. Doimo (1995). no entanto. Distingue-se deste último por seu caráter espontâneo (não-formal). suas características. Alguns conflitos públicos foram desencadeados até que os dois finalmente entraram em acordo.

Analisando momentos históricos distintos. o patriciado. Interessa-nos 62 56 . à auto-resolução dos problemas e à concepção de cidadania por parcela de moradores da Baixada nos dá indicativos da concepção de política local — e de sua experiência efetiva. mas percebida como um fato. seriam compulsoriamente envolvidos na “ação coletiva”. os proprietários dos meios materiais de gestão).). Utilizo a definição weberiana de político profissional. a análise relativa à constituição das redes. esses moradores não percebem a cidadania em associação à reivindicação de direitos.volta seu olhar para um movimento social constituído.).).cit. os juristas etc. cujo surgimento remete à relação de oposição entre o príncipe e “as ordens” (ou seja. Mas qual seria a singularidade de uma organização popular não-reivindicativa como esta? A resposta popular à sua invisibilidade pelo poder público se dá justamente a partir de uma concepção particular de política. letrados. Grosso modo. A despeito da generalização desta afirmação. por intermédio de práticas solidárias cotidianas. Em consonância com tal abordagem. o autor assim analisa o surgimento do líder marginal — em oposição ao político profissional62. diariamente constatada na relação morador-poder público) e sua percepção como “forma de convivência” por excelência a pautar esta relação que permitiriam a atuação efetiva da rede de resolução de problemas práticos e sua manutenção mesmo após a “resolução” de um problema específico. despidas de um caráter de “serviço” (como empregado por políticos e alguns líderes comunitários) e a busca por visibilidade vão novamente na direção oposta daquela abordada por Freire.cit. O agir no mundo (em seu mundo). tal rede seria mais ampla do que as organizações populares formais: os moradores da Baixada. ao tratar das organizações coletivas (op. nobreza da corte. o MAB. por conviverem com uma realidade extremamente dura. Para Monteiro (op. o autor chama a atenção para o surgimento de diversas categorias privadas dos meios de gestão públicos (clérigos. Seria justamente essa invisibilidade (não necessariamente desejada.

tendo na vocação sua marca distintiva (Weber. agindo como um elemento facilitador na medida em que organiza os trabalhos realizados dentro da rede. tomaram assento primeiramente nos legislativos municipais e depois nas prefeituras dos distritos iguaçuanos emancipados” (ibidem. 97). Essa “invasão”. “Não seria. Desvinculado da rede. o autor relata como os primeiros acabam tornando-se vereadores. “acabam com a primeira chuva” (idem. é ele parte integrante dessa informalidade. apareceria de maneira exemplar na trajetória de Joca: particularmente a noção de “funcionário” e a relação entre a empresa política e a empresa de interesses. p. o líder marginal poderia surgir unicamente como mais um dos “políticos” que pululam na região ignorando o trabalho mudo da rede de resolução de problemas práticos. segundo o senhor Antônio. o líder marginal e o político profissional. 57 . p. Para ilustrar a imbricada relação entre estes dois tipos ideais. Não deixa. o autor acaba por reforçar a caracterização do sujeito que vive “para a política”. conforme chama. de destacar a necessária transição de um pólo ao outro. 96).O perfil do líder marginal da região da Baixada Fluminense traçado até aqui permite-nos chegar às seguintes conclusões: é esse elemento alguém necessariamente integrado à comunidade em que vive. pois. ele não existiria sem a informalidade de resolução de problemas práticos. porém de forma decisiva. no entanto.1971). completo o perfil do líder marginal se não entendermos que grande parte desses líderes lentamente. cuja figura política central seria o boss (EUA). ou — mais comumente — se aproveitando da boa vontade de alguns inocentes para conseguir votos através da realização de “obras de maquiagem” que. Ao insistir na nítida diferenciação entre tal líder e o político profissional. conforme vimos. prefeitos ou deputados estaduais num movimento mais voltado à mobilização popular — com fim às emancipações distritais — do que a profissionalização em si. portanto.

Acompanhar tal ascensão permite-nos compreender ao mesmo tempo as razões que orientam o desenvolvimento da liderança marginal e a mutação que tal estilo de lidar com o poder público imprime no próprio poder público: a chegada de Joca à prefeitura de Belford Roxo determinou a inauguração de um estilo diverso de governo. Grifos do autor). em 1992. Joca lançou seu nome para possível 58 . “Belford Roxo. algumas lideranças de Nova Iguaçu começaram a vislumbrar possíveis alianças. já próximo a Bornier. “matador” e/ ou “justiceiro” — foi eleito com mais de 80% dos votos válidos como o primeiro prefeito de Belford Roxo (após a emancipação). carroceiro. como vereador em Nova Iguaçu pelo PMDB. Em 1991. o Joca — ex-baleiro. tinha como diferencial sua relação com o “povo”. Com uma trajetória política marcada por um estilo próprio e pelas trocas constantes de partido. 117). filiado ao PL e convencido de que poderia alçar vôos mais altos. Com prestígio em alta junto ao eleitorado de Belford Roxo. Em lugar da negação da reivindicação política como algo eficiente na resolução dos problemas. nunca mais será a mesma” (idem. no entanto. Joca mantinha ambulâncias (vans adaptadas) para atender a população de Belford Roxo (ainda distrito de Nova Iguaçu) mesmo antes de candidatar-se a um cargo público. pedreiro. o prefeito do município era Aluísio Gama.O primeiro prefeito de Belford Roxo surgiu-nos como um exemplo lapidar da liderança marginal baixadense na medida em que experimentou uma rápida ascensão política completamente ancorada na sua eficiente ação social substituidora do poder público e no seu forte carisma pessoal. Sua vida pública começou. p. do PDT que. Jorge Julio da Costa.98. a população belforroxense aposta que se Joca comportar-se à frente da prefeitura como comportou-se como um líder marginal de seu bairro e como vereador iguaçuano. em 1988. conseguiu atrair Joca para seu partido. No período em questão. na época já “um bem sucedido empresário do setor de transportes e construção” (p. Sua liderança na região passa a ser reconhecida já a partir do final da década de 1980. manifestando-se a favor da emancipação do distrito.

globalização do crime64 etc. mais regionalmente. 21-22). ainda que minimizadas pela grande imprensa (jornais como O Globo. Alves nos chama a atenção para o fato de que as imagens da violência veiculadas pela mídia e cristalizadas pelo senso comum generalizam a violência/ criminalidade — naturalizando-a — assim como transmitem a sensação de estarmos todos inseridos em um “estado de barbárie”.). Contudo. As redes políticas a que atores como Joca estão vinculados trazem à tona o movimento e a circulação de imagens e indivíduos. a este respeito. viabilizará uma instrumentalização da violência política. pp.candidatura em Belford Roxo — tendo como vice um político ligado às elites tradicionais. associado às questões anteriormente elencadas (pobreza. Foi eleito e governou Belford Toxo até 1995. 2003. “A instrumentalidade política da violência relaciona-se com a subjetividade de uma determinada população. ano em que foi assassinado após reagir a um suposto assalto na saída do túnel Santa Bárbara. poder local e esferas de poder “supra locais” (idem): o rápido crescimento urbano ocorrido na região a Mais detalhes sobre sua trajetória e sobre os desdobramentos políticos de sua morte serão abordados no capítulo 3 desta tese. Nesse sentido. para o autor. 64 Ver. O Dia) vão colocar-nos diante de um processo que. construindo formas de perpetuação de poderes e lógicas sociais de justificação do recurso à violência: a sua relação com o poder e com o estado” (Alves. no Rio de Janeiro63. 2000). ocupação rápida. Ricardo Gaspar. urbanização desordenada. a violência e a fala do crime (Caldeira. 63 59 . um conjunto de fatores explicaria a permeabilidade da máquina estatal e a consolidação de grupos políticos graças às relações entre violência. Jornal do Brasil e. Zaluar (1996). abandono. nos eximindo de pensar tal violência como um aspecto da própria relação com o Estado.

a família Raunheitti (em Nova Iguaçu) e até os populares “justiceiros/ matadores” — Joca. As elites políticas da Baixada não estiveram isoladas como se poderia supor dadas as precárias condições infra-estruturais e o abandono de seus moradores. Nesse sentido. a dimensão política nos apresentará algumas formas de instrumentalizá-los. 60 . O contraste entre a antiga oligarquia rural e o selfmade man inaugurou um novo cenário para as relações políticas na região. tomados anteriormente. As trajetórias políticas de figuras como o Barão-fazendeiro (ibidem. o período de ditadura militar e a “atomização das relações sociais”. 1993). a presença de matadores operando numa linha bastante tênue entre público e privado — além de sua ligação com setores do capital privado (empresariado local e regional) e as relações dos atores envolvidos nesses esquemas de dominação política local com as esferas do Executivo. 65 Nome pela qual era conhecida sua inseparável metralhadora. A associação entre a política local. o eloqüente orador Getúlio de Moura. A composição da Baixada em treze municípios — tal como mencionada no primeiro parágrafo deste capítulo — corrobora alguns desses projetos.31). em Caxias — sem dúvida lançam luz sobre os processos e relações sociais igualmente constitutivos do “lugar” Baixada Fluminense. em Belford Roxo e Zito. permitem-nos mergulhar na multiplicidade desses sentidos e em sua polifonia. tendo no município de Nilópolis e na família Abraão David seus exemplos paradigmáticos. o emblemático Tenório Cavalcanti e sua “Lurdinha”65.partir de 1930 e os conseqüentes loteamentos de terrenos. fazendo despontar novos nomes. os projetos — de atores políticos coletivos e individuais — vão também delineando novas fronteiras para a Baixada. o incremento populacional. Se os discursos dos moradores. o jogo do bicho e as escolas de samba também constituíram outra faceta deste quadro (Cavalcanti. Legislativo e Judiciário. Tal composição está presente. p.

cit. op.). porque essas chacinas estão próximas da barbárie e eles não querem mais estar associados a isso” (Maria dos Carmo Gregório apud Enne. quer construir uma outra imagem pra região. você tem grupos políticos ligados a grupos de extermínio que não querem mais ser associados a isso. pp.por exemplo. que a Baixada ganhou [espaço na mídia]. pelo ‘grande avanço’ de infraestrutura. por exemplo — como no caso de um de meus interlocutores. Deste A importância da configuração adotada pelo Estado. ou na disputa por acessos privilegiados (Kuschnir. 66 61 . visando a ampliação de poder e prestígio. nos discursos de agentes ligados à Secretaria de Estado de Desenvolvimento da Baixada e município adjacentes (conhecida apenas como Secretaria da Baixada)66. Mas talvez porque esses políticos que tinham uma representação mais a nível regional começaram a ganhar espaço nacional […] não querem ser associados à barbárie.cit.cit. via Secretaria de Governo da Baixada.).) ou da constituição de identidades (Freire.. o poder político.cit. “Até mesmo o poder público. 2006). op. abordado no próximo capítulo.. op. E eu acho que têm meios de comunicação que estão aliados a esses grupos políticos. quer seja na tentativa de obtenção de verbas públicas. Freire. op. op. entre outros que procuram redimensionar o “lugar”. cit. referindo-se a uma configuração que incluiria ainda Paracambi ou Itaguaí. 110-111). cit). em projetos sociais ligados à música (Costa. à Associação de prefeitos da Baixada Fluminense. Monteiro. 2000) ou ainda em torno “da memória” (Enne. já em 2005. que a gente não vê. às mobilizações coletivas pela Universidade Pública da Baixada (cf. no Relatório Impunidade na Baixada Fluminense. querem buscar estar agora próximos à modernidade. assim como por Alves e outros pesquisadores. E por outro lado. Eu não digo nem pelo avanço cultural. é também abordada por Freire (op. Outros exemplos serão aqui apresentados a partir de imagens divulgadas pelas campanhas políticas durante o período eleitoral de 2004 em Nova Iguaçu e em Duque de Caxias. porque não foi tanto assim. Alguns discursos políticos mencionam a necessidade de se “pensar a Baixada como um todo”.

.).modo. comerciária e estudante de administração. a busca por uma “outra imagem” para a Baixada — por intermédio de projetos políticos traduzidos em ações com repercussão coletiva — acaba por exacerbar a fluidez desse “lugar” e a ampliação da interpenetração com outros “lugares” (como a cidade do Rio de Janeiro. muda pra lá. daqui por diante estaremos remetendo a um tipo específico de “territorialização”: a efetuada pelo discurso político e por suas práticas (Deleuze. fundamentalmente. e às vezes ambíguos. moradora da Posse – Nova Iguaçu). A noção anteriormente mencionada de rede de resolução de problemas práticos nos dá algumas pistas dos caminhos a seguir. agências etc. por exemplo). Caracterizada pela circulação de informações e imagens. com a Barra da Tijuca. nos referimos ao “lugar” como a “territorialização” operada pelos múltiplos sentidos possíveis (através de atores. conformados em modos de ser e experiências sensíveis. Todo mundo que fica rico. sem dúvida. 1992). quer pela associação com bairros da Zona Oeste (Campo Grande) e subúrbios da Avenida Brasil (Irajá e Pavuna). A política na Baixada é. 26 anos. A conjunção do espaço e do território aos usos e significados a que estão submetidos redimensionam a qualidade banal de “meio” e operam uma religação. a Baixada permite que pensemos esta coleção de lugares a partir do aspecto não exclusivamente racional do espaço. 62 . palavras e pessoas. Se não muda. mas pelo fluxo e pela interação de elementos diversos. tem apartamento e sexta-feira pega o carro e só volta na segunda” (I. “A Barra [da Tijuca] é o paraíso dos ricos da Baixada. Se no início deste capítulo. “coisa pessoal”. quer com a Zona Sul e.

O conjunto desses discursos. através das narrativas. como os diversos sentidos atribuídos ao “lugar” serão cruciais no repertório acionado pelos atores políticos no momento de sua apresentação. Piovezzani Filho (2003). como uma espécie de “razão prática”.17). portanto. voltam a nossa atenção às experiências cotidianas e vivências. à linguagem (o político é o homem que fala) —e caracterizado pela contradição que encerra entre a distribuição das desigualdades e a afirmação de pertencimento ( cf. Sargentini (2003). 2005) para que a Baixada faça sentido na própria enunciação67. p.As trajetórias políticas selecionadas nesta tese serão os enunciadores-políticos. 68 Balandier (1982). os lugares de dizer (Guimarães. Ou seja. Chaia (1996). políticas) buscando apresentá-las como razoáveis e coerentes. também a rede de resolução de problemas práticos ou mesmo a construção das arenas públicas a partir da problematização de situações específicas. Sarmento (1999). ao longo desta tese. entendida também como espetáculo trará novos personagens. e aos discursos e projetos políticos. A política. Courtine (2003). assim como os lugares-eventos (Borges. É a partir desta visão que a articulação entre imagens da Baixada (e as possibilidades para sua expansão) e projetos políticos individuais e coletivos serão apresentados como forma de apreender os sentidos da espetacularização do mundo político. 2003) enfatizam as “palavras” e os “feitos” nativos. Ela tornará possível a existência de outras Baixadas e será por essa multiplicidade atravessada. Desse modo. Castilho (2000). o político é pensado como fundamento das relações sociais —importância fundamental sendo conferida. Puls (2000). E. demonstraremos. aparecem como justificativa para a ação. Para Guimarães. Carvalho (1995). 67 63 . técnicas e interlocutores68. as pessoas envolvidas interpretam o mundo e expressam alternativas (no caso.

delas se apropriando e tornando-as visíveis a outros universos sociais. meu primeiro contato. 1994. ora de redes mais amplas para atingir seus objetivos (Beloch. para tanto.CAPÍTULO 2: JORGE GAMA: O ARTICULADOR (OU VISIONÁRIO?) DE UMA BAIXADA Neste capítulo. aglutinação e reformulação. A prática política na Baixada não pode. 2003). a multiplicidade da conceituação referente à Baixada a partir dos discursos políticos aqui apresentados. ser entendida através de duas ou três redes compostas por partidos políticos determinados a priori. ora valendo-se de partidos. A “personalização” é. Com isso. ao começar o trabalho de campo em Nova Iguaçu. Grynspan. 1990b. Pretendo. transformar Jorge Gama no primeiro narrador de uma das versões sobre a Baixada. Minha escolha por iniciar por sua trajetória não foi arbitrária. foi 64 . Pensar. Para compreendermos este quadro. Destaco que. ainda apenas por telefone. 1986. a política local e seu modus operandi. densidade e esvaziamento. de documentos históricos sobre a trajetória de Jorge Gama. além de entrevistas e conversas informais que realizei com ele. enfim. operada a partir de indivíduos-chave e da busca por seus interesses particulares. desde sempre. espero ilustrar o papel de alguns de seus atores sociais na construção de projetos políticos que trouxeram à tona imagens da região. Alves. pretendo apresentar algumas observações sobre as relações políticas na Baixada Fluminense – fundamentalmente a partir de 1964 – utilizando-me. assim. de modo algum. Ferreira. devemos excluir o ponto de vista estático para pensá-lo em processos constantes de abertura e fechamento. uma das dinâmicas constitutivas das redes políticas da região.

em julho de 200370. foi o 3º mais votado do município. Em 2004. foi novamente candidato à Prefeitura de Nova Iguaçu pela coligação Crescer sempre com Deus e com o Povo. entre 1967 e 1970. Apesar de não registrados sistematicamente. 71 Esclareço o uso extenso das transcrições das entrevistas – realizadas em três ocasiões (10 de agosto de 2004. tendo assumido o cargo em 2002.180 votos. com exceção da última delas. Repetirei este artifício com outros atores. Reeleito pela quarta vez em 1982. Foi reeleito vereador. mas já está na política há quase vinte anos. em 1990.025 votos. obtendo 4. Tanto as entrevistas quanto as “conversas” foram feitas em seu gabinete. da identificação da rede política em que Jorge Gama se insere.882 votos – ficando na 5ª suplência. tais eventos também são considerados fontes importantes para a pesquisa. Reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. um político tradicional do PMDB do estado. para esta tese. Lindberg Farias. em 1988 e em 1990. e para a Câmara dos Deputados. na Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu. pela legenda do PTR. elegeu-se também 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. e secretário de administração da prefeitura de 1967 a 1968. Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) pelo mesmo partido e participou da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. Advogado. quando atuou como Relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu. Pedro Cezar.772 votos e foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu.024 votos. por intermédio de sua narrativa de si. que na época era do PP. Iniciou-se nesta atividade como assessor de Moreira Franco e Francisco Amaral. O prédio da Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. principalmente ao secretário de governo. após 30 anos de mandatos legislativos. tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. como relator. trabalhou nos jornais O Globo e O Dia. trabalhando também com Nelson Bornier em suas duas últimas campanhas (para o executivo municipal de Nova Iguaçu. com 3. ainda pelo PDS. PC. Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. também nacional71. de 1999 a 2000. Foi reeleito vereador pela terceira vez em 1976 (ARENA) com 3. obteve 2. Aos 63 anos. sendo reeleito em 1972.com o assessor de imprensa do então prefeito Mário Marques69. localizada no km 15 da Rodovia Presidente Dutra72. Na mesma ocasião. quando julgar que tal empreendimento se justifique. em 2002). obtendo 1. em 1996.615 votos. em 1981.397 votos. em 1986.761 votos. Pedro Cezar e algum outro assessor). Foi por seu intermédio que tive acesso aos secretários. com 4. Minha presença exigia uma redefinição da “situação” pelos 69 65 . em 1988 com 1. no qual permaneceu até 1990. em 1970. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. almoçávamos juntamente com outras pessoas (outro secretário. já pelo PPB. sendo o 1º da coligação PTR/ PST. realizada na Secretaria de Governo da Baixada. 72 Geralmente. Elegeu-se vereador em seu primeiro mandato pela ARENA. em alguma medida. 23 de setembro de 2004 e 15 de outubro de 2005) – dada a importância. Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS). 70 Jornalista de formação. com 2. em 2000. Candidatou-se à Câmara dos Deputados. o ex-deputado federal Jorge Gama que se tornou um importante interlocutor desta pesquisa. após as entrevistas. como é conhecido. além de ser um personagem com destaque na história política regional – e. foi juiz de paz da Comarca de mesmo nome. perdendo para o candidato do PT. prosseguindo com suas atividades de assessoria com a transferência do mandato ao vice-prefeito Mário Marques. em duas legislaturas (1970/ 1972 e em 1976). pelo mesmo partido.

uma vez que vários dos encontros marcados já haviam sido cancelados. com aproximadamente dez cadeiras. quando desejavam falar algo que não deveria ser divulgado. camisa bege e gravata. uma sala de reuniões e salas de alguns secretários) para acertarmos a data da entrevista com o prefeito. Tem dois pavimentos (térreo e 1º. certamente. no. assim. além do piso subterrâneo onde costumavam ficar as assessorias de comunicação e outras afins. convidando-me a sentar. pedindo à secretária que providenciasse presentes já que. juntamente com o gabinete do prefeito. entrando sem ser anunciado. A primeira entrevista não foi previamente agendada. o procurasse na secretaria de comunicação (que ficava no prédio anexo. 528. do outro lado da rua. O dia estava muito quente e o ar-condicionado. ligado. ao terminar. O gabinete do secretário de governo está localizado no andar superior. algumas poltronas e a mesa de sua secretária. “a viagem não fosse perdida”. no qual há uma ante-sala com ar-condicionado. Após aproximadamente uma hora de conversa. O gabinete é amplo: tem duas escrivaninhas – uma para uso próprio e a outra. Levou-me ao gabinete. Lá. conheci Pedro Cezar pessoalmente. 10 de agosto de 2003. próximo ao maior shopping center da cidade. prometeu agendar uma entrevista com o prefeito e resolveu apresentar-me a seu secretário de governo para que.Prefeitura situa-se na Rua Ataíde Pimenta de Moraes. andar). apresentou-me a Jorge Gama como “pesquisadora. dizendo que determinado assunto deveria ficar em “off”. para uso de seu assessor pessoal – e uma grande mesa oval. porque teria que dar alguns telefonemas antes de falar comigo. alertavam-me. Este último foi muito receptivo. o Top Shopping. fazendo trabalho sobre política na Baixada”. Nesse dia. no bairro central. Jorge Gama estava de terno escuro. resolvi dirigir-me diretamente à Prefeitura para tentar estabelecer contanto com alguém próximo ao prefeito Mário Marques. Pedro Cezar saiu e pediu-me que. não conversavam sobre qualquer assunto e. Ofereceu-me água e café. 66 . Após alguns telefonemas.

só retornando quando estávamos terminando a entrevista. ao que ele não fez nenhuma objeção. sobre sua trajetória. A primeira entrevista teve início formalmente e pedi que ele me falasse um pouco sobre si. Só mais tarde. Jorge fez o primário (hoje chamado de ensino fundamental) no Colégio Iguaçuano – na época. Manuel de Barros. era imigrante português nascido durante o regime salazarista. Continuou trabalhando no cartório e. então. Seu pai. a mãe e os três irmãos. localizado onde hoje situa-se o município de Mesquita. aos 18 anos. mudou-se para Nova Iguaçu com seis anos de idade. foi nomeado 67 . Afirmou que. quase duas horas depois. estudando à noite no Colégio Monteiro Lobato (uma tradicional escola da rede pública). foi trabalhar no Fórum. Como de praxe. Seu assessor retirou-se. Era comerciante. intervim. ainda hoje. Jorge Gama mencionou o fato de gostar de antropologia. a princípio. era o de entender como se fazia política na Baixada Fluminense. Expliquei que se tratava de minha tese de doutoramento pelo Museu Nacional da UFRJ e que meu interesse. Sua mãe. Carioca “do Rocha” (subúrbio do Rio de Janeiro). Jorge Gama nasceu em 19 de setembro de 1942. era dona de casa. uma das melhores e mais tradicionais instituições educacionais privadas da cidade e referência local. certamente teria direcionado seus estudos para alguma carreira na área das ciências sociais. ao que respondeu-me imediatamente. Perguntei se poderia gravar a entrevista. narrando sua entrada no MDB. Aos 12 anos. juntamente com o pai.os mesmos. dono de uma carvoaria em Nova Iguaçu e de um botequim. centrada em seu nascimento e nas histórias sobre seus familiares. Noêmia de Oliveira Gama de Barros. Deixei que falasse sem interrompê-lo. estava com meu gravador. se não tivesse feito Direito. citando sua leitura de Darcy Ribeiro. Sua narrativa recomeçou. perguntando se ele havia nascido em Nova Iguaçu.

Segundo Diniz (1982). até a articulação de suas bases de apoio – demonstrando a construção de um aparato ligado essencialmente ao clientelismo. contanto que esta se sujeitasse aos objetivos primordiais do regime (. apesar de existir desde finais de 1965). Nessa O MDB surgia. cit. em 24 de março de 1966. 1975) já que necessitava angariar apoio.) O regime autoritário entendia que a vitória nas urnas dar-lhes-ia legitimidade. logo em seguida. da sociedade política e garantindo sua legitimidade com base na percepção de que tal situação seria transitória73. negociando cargos e privilégios com os antigos – e tradicionais – donos do poder (Ferreira. a estratégia de manter dois partidos políticos visava evitar a desconfiança e o descrédito gerados por um sistema autoritário strito sensu (Avritzer. 2001). 170-171). o bipartidarismo (ARENA e MDB). 2000)74. op. mas não porque seus programas políticos fossem ao encontro do desejo da maioria do eleitorado.). ainda que parcial. permitindo o funcionamento. 74 Segundo Avritzer (2000). Senador pelo Acre e. (DHBB. 73 68 . o MDB fluminense caracterizava-se (no período de 1965-1979) por um alto grau de heterogeneidade. e sim ao autoritarismo” (pp. Quando concluiu o curso de direito pela Universidade Federal Fluminense.. optou por não fazer concurso e permanecer no cartório onde “ganhava bem”.. em 1969. No entanto. Assim. a ARENA. Sua fase adulta transcorreu durante os anos de ditadura no Brasil. suas implicações dentro da estrutura urbana e sua relação com as massas. cit. o regime autoritário cassou mandatos parlamentares e instituiu o AI-2 (que implicou a extinção dos partidos políticos) e. Oscar Passos. congregando diferentes facções que disputariam a hegemonia interna pelo poder no partido. Alves. “o regime autoritário permitiu o funcionamento parcial da sociedade política. oficialmente (registrado na Justiça Eleitoral. Leal.. 1975. Em um primeiro momento. o processo político implementado pelo novo regime não conseguiu diferir das antigas relações patrimonialistas e clientelistas (Faoro. além de constituírem o contexto de surgimento de algumas trajetórias políticas expressivas em termos mais gerais. Nascido sob o signo da oposição ao regime – e “batizado” por Tancredo Neves (Ulysses Guimarães preferia a palavra ação a movimento) – o partido foi inicialmente presidido por um general. O regime militar e o momento posterior da “abertura” são significativos para o entendimento da política na Baixada Fluminense.escrevente. pouco defrontava o partido do governo. O problema dessa estratégia foi que ela criou um processo político que não levava à legitimidade. op. e sim porque isso lhe possibilitaria manipular o processo eleitoral de modo a assegurar o controle a longo prazo do aparelho estatal. a princípio. A autora faz uma análise da máquina chaguista – desde sua estruturação e ascensão.

na Baixada Fluminense como um todo. Sarmento (1999). dois prefeitos eleitos (Aluísio Pinto de Barros. consultar Pollak (1989 e 1992). da ARENA. fato que. perpetuaram-se na vida política local e ainda demonstram sua influência e prestígio. dois presidentes da Câmara Municipal (José Lima. nesse período. vinculados ou não aos militares. mais tarde. e Rui Queirós. Santos (2003). mais especificamente. 77 Do outro lado do campo político.cit. em 1967) e dois vice-prefeitos (João Luiz do Nascimento. Darcílio iniciou sua vida pública ocupando a quinta suplência na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. dois interventores (Joaquim de Freitas. em 1962). Entre 1963 e 1969. em 1968). pela UDN (União Democrática Nacional. a região passou por significativas mudanças políticas. com cassações de prefeitos e vereadores da oposição e a imposição de interventores na região. em 1969).). Em Nova Iguaçu. A cidade teve como chefes do executivo. Enne (op. surgiria como uma das principais lideranças dentro da Baixada77. entre outros. Amado (2003). diante da situação política conturbada que se estabeleceu após a instauração do regime militar. assim como sua reelaboração sob diversas perspectivas. 76 Fonte: TRE-RJ e Arquivo da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. em 1966. mesmo após 20 anos de democracia. em 1963 e Antônio Joaquim Machado. Fábio 75 69 . irmão mais velho e “padrinho político” de Fábio Raunheitti que. entraram em cena novos atores que.época. em 196776) e viu despontar nomes como o de Darcílio Aires Raunheitti. tais mudanças resultaram na nomeação de/ ou na eleição de oito prefeitos diferentes. em 1966. tal situação explicitava-se pelo grau de intervenção nos municípios75. e Nagi Amalwi. Apesar de qualquer menção ou análise da situação de Nova Iguaçu estar ausente da narrativa de Jorge Gama durante a primeira entrevista que me concedeu. culminou na interferência direta sobre o poder local. em 1963 e Ari Schiavo do MDB. Sobre os processos de construção da memória.

78 Duque de Caxias será administrada por interventores até 1985. ano em que finalmente elege seu primeiro prefeito desde a instauração da ditadura militar. já filiado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional) – partido que dava sustentação política ao governo militar instaurado em 1964 – iniciou uma relação de apoio incondicional ao regime. que esteve rodeada de denúncias de compra de vagas. Defensor do regime militar. ciências contábeis e direito. pelo PTB. em 197079. representada pela emenda Dante de Oliveira. Os dois estiveram vinculados à prefeitura de Nova Iguaçu durante a gestão de Rui Queirós. A entrada de Fábio na vida pública deu-se como Secretário de Educação e Cultura entre 1968 e 1970. Fábio Raunheitti. Joaquim de Freitas. reelegendo-se em 1982. transferindo sua base eleitoral ao irmão. Presidiu a Fundação Educacional de Nova Iguaçu de 1975 a 1976 e. casado com Lígia Gonçalves Raunheitti. formado pela UFF. de 4 de junho de 1968. nessa ocasião prefeito também pela ARENA.Nos municípios adjacentes. mas praticamente o monopólio de tal atividade na região. por fim – fato decisivo para a trajetória política de Fábio Raunheitti: uso de dinheiro público em sua instituição privada e nos hospitais da Posse e São José. por exemplo. filiou-se ao PDS. Em 1969. apesar disso. Nilópolis também substituiria seu prefeito. Em 1979. As relações políticas que têm o município como locus serão objeto do próximo capítulo que analisará a trajetória de Zito. apresentada na Câmara em 25 de abril de 1984. por sua vez.449. Duque de Caxias. iniciou sua vida profissional como tabelião substituto em sua cidade natal. Bezerra 1994 e 1998). João Cardoso. informação que veio à tona no escândalo em que ganhou a alcunha de “anão do Orçamento”. dirigiu a Sociedade de Ensino Superior de Nova Iguaçu (SESNI) que atendia à demanda de toda a região. pois teria que “fazer frente” a seu irmão. Também fez oposição à volta das eleições diretas para presidente da República. João Batista Barreto Lubanco.Após a morte do irmão. Inicialmente. mantendo a pretensa aparência de “ordem” (Alves. elegeu-se vice-prefeito de Nova Iguaçu. a situação de ingerência era a mesma. nesse mesmo ano. adquiriu não somente knowhow. também. José Amorim. por sua vez. em seguida. ocorrida em 1986. candidatar-se. de venda de diplomas e. juntamente com o exinterventor. elegendo-se deputado estadual em 1970 e deputado federal em 1974 e 1978. envolvendo-se em acusações de corrupção e mau uso do dinheiro público mas.). tornou-se área de segurança nacional devido à presença de uma refinaria de petróleo e de uma rodovia interestadual (a Rodovia Washington Luís). seu prestígio e liderança foram transferidos para Fábio. 79 Em 1965. após a lei 5. era (e ainda é) a faculdade de medicina (posteriormente. integrante do mesmo partido de Darcílio e ligado aos irmãos Raunheitti. ampliando assim a oferta de cursos e seu orçamento particular. nasceu em Nova Iguaçu em 1928. articulando alianças e financiando as campanhas de seu irmão e de outros políticos locais sem. a Companhia Municipal de Desenvolvimento até 1982. de gabaritos de provas. do MDB. cit. Com isso. op. O carro-chefe da antiga SESNI – transformada em universidade em 1992 – agora Universidade Iguaçu (UNIG). No mesmo ano. senadores e deputados e colocou-se a favor da transferência do pleito de 1982 para 1986. no entanto. Em São João de Meriti. no qual a população não se pronunciou. visto que as instituições de ensino superior na Baixada eram escassas nesse período. contando apenas com faculdades de pedagogia. tendo como primeiro interventor Carlos de Medeiros78. Darcílio. Faleceu em 1986. em um processo aparentemente sem conflitos. no entanto. foi conquistando cada vez mais alunos (majoritariamente trabalhadores de segmentos populares e de camadas médias assalariadas que precisavam e/ ou desejavam aperfeiçoamento). em 1972. não sofreram qualquer sanção (sobre corrupção ver. que conseguiu projeção regional ao eleger-se deputado federal. Em 1974. a ela somando-se a de odontologia). impôs resistência às eleições para governadores. perdeu Raunheitti. 70 . que há pouco se havia filiado à ARENA. não escapou da cassação e João Batista Lubanco – ligado aos Raunheitti (Darcílio e Fábio) – foi nomeado interventor. Tornou-se uma das principais lideranças políticas locais a partir da década de 1960. Fábio fundou e. por intermédio da empresa responsável pela limpeza urbana na cidade – CONDENI. assumiu a prefeitura após a renúncia do prefeito de Nova Iguaçu. Advogado.

Já em São João de Meriti. Nas eleições municipais de 1996. Simão Sessim filiou-se ao PDS. Miguel Abraão David. nesse período já emancipada de Nova Iguaçu. na qual Nelson Abraão não se elegeu. “Aqui. mantendo relações com interventores federais. iniciou-se. em Nova Iguaçu. inicialmente ocupando cargos nas prefeituras da Baixada com o apoio do aparato do governo federal e. Iniciava-se. tendo ocupado o cargo de secretário de Educação de Nova Iguaçu. atrás do candidato do PDT. vamos botar ele na Câmara. mesmo tendo Nilópolis como uma de suas principais bases eleitorais (além de Itaguaí e Magé). No entanto. Filiado ao MDB desde 1967. cujos antecedentes remetem ao apoio financeiro da família Razuk. assim. nasceu no Rio de Janeiro.o mandato como resultado de um processo judicial movido contra ele – e cujas testemunhas foram Miguel Abraão e Aniz Abraão David. tornou-se chefe de gabinete na mesma cidade sendo. logo em seguida. em 1990. Em 1984. ficando com o segundo lugar. Denoziro Afonso elegeu-se o único prefeito de oposição (MDB) nas eleições de 1972. Foi sob esse clima político que teve início a vida pública de Jorge Gama. Era um modismo. da nossa turma e aí. Aos 19 anos. Em 1972. No ano de 1976. Pegava um nome. 71 . em 1962. novamente. sua posição quanto ao assunto em questão. deputado estadual.). (1971) nomeado procurador-geral em Nilópolis. muito eleitoral. ano em que ingressou na ARENA. foi nomeado presidente da Câmara. esteve ausente da sessão em que foi votada a emenda Dante de Oliveira. enquanto seu primo. Em 1979. Em 1985. pela quinta vez. elegeu-se prefeito de Nilópolis pela ARENA. Simão Sessim. em Nova Iguaçu. 2003)80. Lançava-se um candidato. da nossa patota. Mudou-se para a Baixada quando criança e sua aproximação com a política deu-se ainda quando estudante. nas eleições para a Câmara dos Deputados e Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. uma espécie de liderança na turma e botava ele na Câmara. a família Abraão David sairia derrotada nas eleições municipais de Nilópolis. De acordo com Alves (op. a Roberto e Bagder da Silveira. dessa forma. de São João de Meriti. cit. Nós fizemos isso 80 As famílias David e Abraão David ingressaram na política durante o período da ditadura. Em 1977. em alguns casos. deixou a prefeitura para ocupar o cargo de assessor da presidência da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Fundren). em 8 de dezembro de 1935. No ano seguinte. neste momento. Sessim não conseguiu eleger-se prefeito pelo PSDB. a união entre política e contravenção que marcaria a imagem de Nilópolis. a política lhe interessava. Vamos votar no cara. assim. Jorge David (Alves. mas ainda com certa distância e muito ligada às suas relações pessoais e a um “estilo contestador”. tinha um fato interessante. parentes do sucessor de Cardoso. reelegendo-se deputado federal em 1982. em 1986 e. candidatou-se outra vez e foi eleito. irmão de Jorge David e primo de Aniz Abraão David. Em 1994. durante a década de 1950. elegeram Simão Sessim deputado federal (pela primeira vez) e Jorge David. Simão Sessim filiou-se ao PFL – partido formado pela dissidência do PDS – no qual se reelegeu pela terceira vez. a vinculação das relações políticas com o jogo do bicho no município. em 1969. demonstrando. No ano seguinte. Formou-se em Direito pela Gama Filho. foi diretor do Instituto de Educação Rangel Pestana. José Carlos Cunha (TRE/RJ). legenda pela qual se reelegeu no pleito de 1998 e também no de 2002. ambos do PTB. saiu do PSDB e filiou-se ao PPB. nós apoiávamos. momento em que se filiou à UDN. Era uma coisa muito despolitizada.

e foi um sucesso muito grande. (.. amigo. o Roque Bone (Roque da Paraíba. Movimento. Claudius Ceccon etc. Era quase semelhante àquele grupo do Pasquim. o Pasquim teve várias edições apreendidas. que conversava. Paulo Amaral. Reproduzia a linguagem coloquial e incorporava o palavrão – muitas vezes utilizando um asterisco como substituto do termo. Paulo Faria. foi lançado em 1969. Tarso de Castro. Eu usava pseudônimos: ‘o Transeunte’ e ‘Maria Auxiliadora da Paz’.) Atingido pela censura prévia. à política da ditadura. comportamento e crítica social. tornando-se um dos principais jornais do gênero.82 eu. boêmio. com prisão de seus editores e processo judicial (. que trocava idéias. Araújo (2000). Editado no Rio de Janeiro. que esculhambava todo mundo. compositor e pintor). foi criado em 22 de março de 1917. Atualmente. sua periodicidade é semanal. Enfim. O jornal era semanal e todo mundo comprava pra ver as piadas e as críticas. perto do Fórum. Aquilo ali era um cenário. Bom. E aí se criou. depois com a ditadura começou a ter um grupo que pensava. o Sérgio Fonseca. Aos domingos. 82 O jornal Correio da Lavoura. que é dono do Correio da Lavoura. informalmente. mais ou menos. Era o Robson. no Correio da Lavoura. ninguém tinha um projeto eleitoral. E esse grupo se reunia.” (p. Aquilo era um centro de debate. conversar e trocar idéia. Era uma coluna livre e cada um fazia uma frase. Hugo Freitas (artista). era o bar do Zuza. um pouco influenciado pelo grupo do Pasquim81. num bar que tinha na esquina. 81 72 . Chegou a ter uma tiragem de 200 mil exemplares (. em frente à estação [ferroviária]. Teve em seu quadro de redatores nomes como os de Sérgio Cabral. De acordo com Maria Paula N. Demos uma força e o elegemos. de contestação ao prefeito.” Os personagens criados trazem à tona o papel dos jornais como um dos poucos espaços possíveis para a crítica ao regime. Os últimos números do jornal saíram no final dessa década. Jaguar... Todo mundo ia pra lá de noite tomar cerveja. de circulação local. em formato de tablóide e com circulação irregular. uma coluna chamada ‘O Negócio é o seguinte’.) Naquele ano [1970] o Pasquim representou. Carlos Propseri. Depois criei um outro personagem.. o “Pasquim misturava política. um jornal de protesto e de oposição.. Fazia uns artigos uma vez ou outra. Em Tempo. A relação e as implicações entre as diversas mídias e a política perpassam a análise da trajetória de Jorge Gama e conferem tons distintos aos O Pasquim – assim como Opinião. o jornal publicava o que saía dali.... o ‘Geraldinho boca de trombone’.23). Era um cenário meio boêmio e meio contestador.) Durante os anos 1980 sua tiragem foi se tornando extremamente rarefeita..com o Mauro Miguel. de certa forma. o Eliasar Diniz. Coojornal e Versus – era um jornal alternativo. um símbolo da luta de resistência ao regime militar.

o homem comum que fala. simplesmente. uma valorização simbólica da ligação entre jovens quadros a partidos. Assim. E. traduziu 73 . limitadas pelas exigências do regime e do mercado. com o medo. Os codinomes utilizados são emblemáticos: “Transeunte”. conforme ressaltou Abreu (2003). O marginal (e marginalizado) por excelência. de alguma forma. da crítica e do engajamento. mulher. sem limites.marcos temporais. o agitador. em suma. indignado com o cerceamento. “Maria Auxiliadora da Paz”. A conjuntura política do país transformou o papel das mídias – principalmente do jornal e dos jornalistas – gerando. sem paradeiro fixo. Jorge Gama era um advogado recém-formado que. Estes novos veículos trazem para o cenário local (Nova Iguaçu) uma forma de mobilização e de provocação (aos políticos locais) marcada pela criatividade. divulgar uma ideologia e atuar politicamente” (p. aos “momentos históricos” por ele vivenciados. com a incapacidade de agir. ainda não propriamente vinculado a uma adesão ideológica. “a escolha do jornalismo como profissão era uma forma de exercer o engajamento político. depois “Geraldinho boca de trombone” vão compondo e divulgando discussões políticas e informações proibidas e censuradas como alternativa às notícias dos jornais tradicionais. Na época de sua atuação como colunista no Correio da Lavoura. o escracho: “Geraldinho boca de trombone”. o escritor livre. do humor (sarcasmo).21). pela coragem e pela imprudência. O período da ditadura apresenta-se como basilar para a constituição de sua identidade política a partir do viés da expressão artística. que fala sem que o detenham. aquele que se move. Manifesta-se. portanto pertencente a uma minoria. que carrega no próprio nome um apelo. Primeiramente o “Transeunte” e “Maria Auxiliadora da Paz”. por fim. sem destino. principalmente o PCB.

no entanto. mas Jorge não aceitou. Este “movimento” (como Jorge o denomina) teve início na década de 1970. manter uma relação de proximidade com o partido.PCBR e ex-preso político). apenas dois anos depois. “uma esquerda independente. que ficava próximo ao fórum. mas inorgânico”. da contestação e do anseio pela mudança. envolvendose na candidatura de João Luis Nascimento. mais de esquerda”. Em 1972 (ano em que se casou e residiu no bairro carioca da Ilha do Governador). Alguns membros do partido queriam que ele se candidatasse a deputado estadual. De seu escritório. gerenciava uma prestadora de serviços de assistência jurídica e administrativa juntamente com dois outros políticos. naquele momento. uma parte do “Partidão”. deu prosseguimento à sua atuação como articulador e coordenador de campanhas. exmembro do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário . O primeiro turning point de Jorge Gama deu-se. considerada “mais conseqüente. alegando que o nome de Francisco Amaral (Chico Amaral) seria o mais adequado. influenciando em sua entrada na vida político-eleitoral local com a candidatura pelo MDB do advogado Humberto dos Santos. Um candidato “mistura de boêmio e contestador. que fez um mandato “combativo” sem. Sua firma foi a responsável pela articulação da campanha de Francisco Amaral –apoiada pela esquerda (segundo Jorge. além de 74 . contudo. Jorge coordenou a campanha vitoriosa de Betinho (como Humberto era conhecido). por ele considerados “mais de esquerda”: Paulo Faria (um político do interior do estado) e Paulo Amaral (advogado da Comissão de Justiça e Paz. ex-prefeito de uma cidade do interior do estado pelo MDB.esse espírito de seu tempo como porta-voz local da insatisfação.

sem dúvida. (Tribunal Superior Eleitoral) 83 75 . A relação com Francisco Amaral. a mudança de seu estatuto político foi conferida por intermédio da relação com nomes “mais da esquerda” e se apresenta como fundadora de um novo ciclo: sua entrada como ator político na arena local. “ser de esquerda” aludia a um rol de atributos. Se a “origem” dessa ligação localiza-se nas “conversas políticas” com os amigos boêmios e contestadores. Da mesma forma ocorreu a eleição para Presidente da República.setores da Igreja”) – que foi eleito e tornou-se um dos principais nomes da “esquerda local”83.º 15. havia a preocupação em não ser vinculado a uma postura radical (“esquerdista”). na forma dos arts. anterior à sua vinculação com eleições. de 9 de Maio de 1972. Havia. Grosso modo. de 13-081973. como o espaço no qual se deu sua formação ideológica. da Lei Complementar n. caput e § 1º da Emenda Constitucional n. É a partir da criação desta prestadora de serviço. do contato com os dois advogados que trabalhavam no escritório e com Francisco Amaral que Jorge marca sua passagem para a “política de verdade”. Depois eu adquiri uma formação ideológica. “Eu tinha uma formação crítica. 1º e 2º. no máximo. estreitou-se a partir de sua entrada no cenário eleitoral de Nova Iguaçu e das possibilidades abertas por um contato direto com a Assembléia Legislativa. ao mesmo tempo em que era desconfortável (para alguns atores sociais) ser rotulado de conservador.º 2. um significativo peso simbólico em classificar-se (e/ ou ser classificado) como “de esquerda”. realizada pelo Colégio Eleitoral (composto de membros do Congresso Nacional e de delegados das Assembléias Legislativas dos Estados). conhecimentos e práticas remetidos fundamentalmente à postura de crítica ao regime militar. A atuação no cartório (“desde criança”) e sua profissão foram decisivas para o estabelecimento de contatos com diferentes segmentos Nesse ano. De um lado. a eleição para governador deu-se por meio de eleição indireta. Uma formação mais social”. na forma do artigo único. realizada pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral nas Assembléias Legislativas. em sua narrativa. O escritório de Jorge figura.

As eleições para prefeito. mas não era conservador. Jorge. fora “aproveitado” por seu grupo (dada a coragem e ousadia de seu proprietário) para fazer ataques políticos. do Tribunal Superior Eleitoral. Ali. foram reguladas na forma da Resolução n.242. no Regimento Sampaio. que conversava com todo mundo. 84 76 . Na ocasião. em 1976. não somente por estar à frente da campanha de Francisco Amaral. nos municípios em que não foram realizadas em 15-11-1976. de 10-12-1976. no entanto. novamente apoiar Francisco Amaral que. 1º da Resolução n.sociais. assim. sendo perseguido. vice-prefeito e vereadores deram-se em 20 de dezembro. que tinha as idéias. algumas das características que o distinguiriam e o tornariam um candidato vitorioso naquele momento. eu apareço em [19]76 como um personagem que transitava entre todo mundo. (Tribunal Superior Eleitoral) 85 Jorge Gama foi intimado – “convidado para ter uma conversa” – com o major Carneiro. contudo. estava surgindo uma classe média em Nova Iguaçu. de âmbito nacional. segundo este último. na verdade. “Nessa época. Não era esquerdista. Preferiu. Eu também estava buscando uma identidade. Já não era mais aquela aristocracia rural. não conseguiu se eleger. Consoante disposto no art. Forjavam-se. em algum nível mediado pelos locais por ele freqüentados. embora o partido pretendesse lançá-lo como candidato à prefeitura84. sua primeira eleição para a Câmara Municipal de Nova Iguaçu.º 10. estes atributos compunham a imagem de um profissional responsável. pelos “personagens” que criou e por seus escritos nos jornais locais. Estavam em jogo os processos de identificação que resultariam na constituição de sua persona pública. Jorge foi inquirido a respeito do jornal e de sua ligação com Manuel Góes Teles e depois liberado. do Tribunal Superior Eleitoral.” Jorge Gama disputou. ao mesmo tempo em que o associavam a um tipo de sociabilidade e de trânsito entre a classe média (na qual se incluía na época da entrevista) e setores populares.041. de 16-06-1976. assim como a vida boêmia e o estilo contestador.º 10. por sua vez. tendo sua candidatura ameaçada de impugnação e seus colaboradores coagidos85. que pertencia ao empresário Manuel Góes Teles e que. Juntos. mas essencialmente por sua ligação com o jornal O Pontual. foi eleito vereador pela legenda do MDB (Movimento As eleições de 15 de novembro.

perpassava. durante o governo do prefeito da ARENA. no caso de Nova Iguaçu. filho do então deputado estadual Antônio Gaspar. ex-interventor agora eleito. Bott. Rui Queirós presidiu a Comissão de Justiça e a de Redação da Câmara Municipal e foi um opositor incessante do governo municipal e das políticas administrativas que o executivo implementava. 77 . Mayer. interessando-me refletir sobre a forma como as relações diádicas são travadas e operacionalizadas para a prática da política local (Mitchell. apesar de representar interesses específicos. 2001) – não era predominante e tornava possível ao candidato (Jorge Gama) ampliar suas possibilidades eleitorais por intermédio de uma “bandeira” que. à política dos vereadores (Lopez. diferentes áreas da cidade. e sim uma determinada camada social e um grupo profissional mais facilmente identificável. 86 O mais votado foi Ricardo Gaspar. o ator político. Desde o período de sua “formação política”. A noção de rede é aqui retomada privilegiando-se seu aspecto mais centrado no ego. as relações de Jorge com algumas pessoas em Nova Iguaçu foram fundamentais para sua decisão de ingressar no cenário político-eleitoral. 1969. A representação espacial.847 votos86 – graças à sua inserção junto às camadas médias de Nova Iguaçu e. A dinâmica das relações pessoais é outro fator que merece atenção. em uma alusão direta a seu vínculo profissional. segundo o próprio.Democrático Brasileiro) como o segundo mais votado do partido – com 3. ainda não havia delineada uma geografia eleitoral de contornos nítidos. Nesse mandato. 1969. por exemplo. Jorge Gama não tinha como reduto eleitoral um bairro ou área da cidade específicos. ao voto expressivo dos “servidores da Justiça”. de Belford Roxo. Nesse primeiro momento. 1971. tão cara à política em geral – como.

apenas em Nova Iguaçu (no total de 38 mil votos). Dom Mauro Morelli. cit) também mostraram-se relevantes para o entendimento do conjunto das ações. consultar. no entanto. 89 Sobre a relação entre política e Igreja Católica na Baixada. Eles podiam fazer isso com universidades. em 1978 – com 25 mil votos. tornando-se um símbolo pela luta contra a repressão e a ditadura. com associações. havia setores da Igreja que apoiavam o golpe e outros que fizeram resistência ao regime. como a Igreja Católica. Alves (1991). Dom Adriano Hipólito e de tantos outros bispos. portanto. da democracia. Acontece que. fator de derrubada da ditadura”. posterior à primeira eleição e deu-se por meio de sua relação com membros da Igreja Católica da Diocese de Nova Iguaçu – fundamentalmente por intermédio de Francisco Amaral que o apresentou a Dom Adriano Hipólito88. tornando-se uma instância crítica e uma caixa da ressonância da insatisfação com o Regime. Isso fez dela um grande espaço da conquista. tanto mais a Igreja se unia e se afastava do apoio ao golpe. no entanto. 88 Dom Adriano Hipólito foi um personagem marcante na Baixada entre 1966 e 1981. com sindicatos. as relações travadas a partir de um ego sem que. Trabalho com um conjunto limitado de contatos diretos. de defesa dos direitos humanos. o que permitiu sua inserção no universo dos movimentos populares89. os contatos a partir de terceiros. Foi Bispo de Nova Iguaçu e atuou junto aos movimentos sociais. O depoimento de Frei Beto à jornalista Deigma Turazi. o apoio Sem desconsiderar as observações desenvolvidas por Barnes (1969). op. pelo MDB. sejam exclusivamente referidas aos contatos concretos – levando em consideração. Sua aproximação definitiva com as camadas populares foi. de Dom Paulo Evaristo Arns. portanto. dividindo. da Agência Brasil. de sementeira de movimentos sociais que renasceram nos anos 70/80 e. quanto mais a repressão policial-militar fazia cair a sua pesada mão sobre a Igreja. auxiliando a formação das Comunidades Eclesiais de Base na região. Com a vantagem de que era a única instância. para quem a rede seria um “conjunto de relações interpessoais concretas que vinculam indivíduos a outros indivíduos” (p. mas os indiretos (denominados de segunda ordem por Barnes. tendo sido um dos mais votados da região (TRE/RJ). mas não com uma instituição duplamente milenar. também se lançara candidato. Tais relações não foram constitutivas apenas dos processos de identificação política de Jorge Gama. desenvolvo minha análise levando em consideração os nódulos da rede.167). Paulo Faria. mas qualificaram sua inserção local a partir da rede a que resolveu aderir. Dom Hélder Câmara. como foi o meu caso e o de um grupo de dominicanos de São Paulo. Foi seqüestrado em 1976 e torturado. O suporte (político e financeiro) do partido não foi imediato e irrestrito já que seu antigo colega de escritório. 1994)87. exemplifica o papel da Igreja e de personagens como Dom Adriano: “Na verdade. Essa ligação – e o reconhecimento de seu lugar legítimo como político na cidade – favoreceu sua eleição para deputado federal. por fim. Dom Adriano morreu em 1996. por exemplo.Bezerra. a única instituição do país para a qual os militares não teriam como nomear um general da reserva para comandá-la. 87 78 .

na formação das associações de moradores. de conhecidos (“um ou outro me dava alguma coisa. na sua organização do ponto de vista legal. política. 2003). o movimento popular estava começando a ter um crescimento aqui.dentro do MDB. 79 . Mesquita. Em seu relato.. Eu me engajei totalmente no movimento popular. de sua legenda. Nós dávamos uma assessoria [sobre] como fazer e tal . que antigamente era Queimados.”) e. principalmente política. e na Baixada de modo geral. muito ligado à Diocese de Nova Iguaçu – a Dom Adriano. Mas.. “A minha eleição. tornando possível aos indivíduos perceberem-se como cidadãos ao expressarem relações de significação entre espaço e política e sua dimensão na configuração de modos de vida.” A partir de sua relação com as associações. Os despejos em massa consistiram acontecimentos decisivos para 90 É importante destacar que. Então. a bandeira política de Jorge Gama passou a ser a da “casa própria”. peguei o meu mandato e coloquei o meu mandato à disposição do movimento popular. a “casa própria” não representava somente um sonho de consumo. Francisco Amaral foi advogado da Diocese de Nova Iguaçu. Nós tínhamos reuniões intermináveis aí. e aí o Francisco Amaral. esse crescimento. já estava na política antes de mim. repito. foi pela classe média. em todo o município de Nova Iguaçu. tal problemática mobilizou discursos políticos e organizações civis. mas a própria incorporação social. que nós já tínhamos feito a eleição dele em (19)74. [fui] o segundo mais votado. Assim como o lote (Borges. nesse período. logo depois de eleito. possibilitando a Jorge a operacionalização de um fazer político informado por seu fazer profissional: o Direito. só mais tarde. Em Nova Iguaçu. Japeri […] era bem maior. E depois teve uma luta específica que também fortaleceu muito o movimento popular90. Jorge Gama enfatizou sua independência com relação aos nomes mais importantes do partido na cidade – como o de Francisco Amaral – assumindo a responsabilidade pelas despesas da campanha com a ajuda de alguns parentes.

nos domingos à noite. estes conjuntos habitacionais acabaram […] gerando um adensamento populacional grande. Para ele. fomentava-se o debate. nos símbolos adotados e no discurso tornado público pelos atores legitimamente constituídos (investidos) durante o processo. Nós pegamos aquele movimento e demos uma organizada. Aí as financeiras.solidificar essa aproximação e reformular as imagens que compunham sua identidade política. Através dela (e por ela). A “casa própria” aparece então como palavrade-ordem para criar e organizar a ação. Nós fundamos mais ou menos umas 23 associações de conjuntos habitacionais. ingressaram aqui com uma série de despejos e houve um pânico generalizado. A centralidade da “casa própria” para os envolvidos nos movimentos sociais da cidade refletia-se na dinâmica local. O referido escritório situava-se na rua Moacir Marques Morado – atualmente rua Paulo Machado – em frente ao Fórum. esta última se realizava.” Para Jorge. De acordo com Pedro Cezar – que estava presente durante uma das entrevistas – “aquilo ali era um aparelho. ainda que se partisse de uma questão pessoal – como a casa da família A ou B – o mecanismo de articulação desenvolvido junto às associações conseguia originar debates de natureza política. aqui na Baixada. Estava 80 . foi realmente importante essa luta porque nós conseguimos – aí eu já era deputado – modificar toda a legislação para atender aos conjuntos habitacionais de baixa renda. e aí. uma centena de conjuntos habitacionais. na época. Reuniões eram articuladas no escritório de Jorge. “O BNH produziu. construía-se a mobilização. aquele era o momento oportuno para “plantar a crítica e a conscientização” e mobilizar as pessoas para a ação política. na região central da cidade. mas a organização financeira não foi a melhor e gerou uma enorme inadimplência. já também engajando no movimento popular das associações de moradores tradicionais.

Era freqüentado também por sambistas. visando apenas a maximização de votos por parte do político. “Ia todo mundo. o Paulo Amaral. “A gente também convivia no escritório com o cara que ia pedir uma ajuda. o escritório era pequeno. aparecia um amigo meu. ocupado pelo movimento social local). um ponto de sociabilidade. conversando. uma coisa horrorosa […] Tinha até um mimeógrafo a álcool. em contrapartida à satisfação de necessidades e interesses individuais. sobre lotes de graça no Nova Aurora” (atualmente. de troca. conversar com as lideranças das associações de moradores. Durante o mandato de deputado federal. Neste contexto. que vendia um whisky. Assim. ao mesmo tempo em que funcionava para o atendimento ao eleitor (Kuschnir. “de crítica”.sempre cheio. Na sua ausência. o “eleitor tradicional” é concebido como aquele que corrobora a “política dos vereadores”. Esse mimeógrafo produziu os primeiros panfletos. o Hugo Freitas. o Paulo Faria. o Roque Bone. O escritório funcionava como ponto de encontro para falar de política. seu irmão ou algum assessor conduzia as reuniões e os atendimentos até a chegada do deputado. por excelência. aposentado do Ministério da Saúde. uma fumaceira. feitos pelo Laerte Barros sem a minha autorização. organizando as prioridades. ou seja. o Robson. Jorge Gama costumava voltar às quintas-feiras à Nova Iguaçu para atender os eleitores e reunir-se com as lideranças locais em seu escritório. o Chico Amaral […] Às sextas-feiras. 2000). e sempre levava um whisky pra gente abrir. o lugar era. a capacidade do político de obter o bem desejado 81 . o atendimento como uma atividade eleitoral. um bairro popular de Nova Iguaçu. artistas e boêmios. uma coisinha […]”. Além de receber eleitores. A gente tomava na tampinha. por parte do eleitor. tal troca não consistiria uma dimensão política. Para Jorge. tinha sempre alguém que precisava usar o telefone e ia lá”. uma calça Lee.

sua ambigüidade: de um lado. de outro. possibilitando sua reprodução. A doação (do tempo do político. conferindo à sua identidade política a marca da opção ideológica e da ‘função de fiscal’ do Executivo – mais presente em seu mandato como vereador. ao se pensar a relação de “generosidade” e de “benfeitoria” do político com seu(s) eleitor(es). Tal explicitação é. Kuschnir. eleitores (“eleitores tradicionais”) enfim. Tradição mantida por vereadores. no entanto. como exaltação da generosidade. justificando-o pelo argumento da “tradição”. o bem da coletividade. essa experiência é (ou pretende ser) vivida como uma rejeição do interesse. Diferentemente do exposto por Kuschnir (2000) sobre a concepção de política dos Silveira (seus interlocutores: Fernando e Marta). do cálculo egoísta. op.pelo eleitor lhe garantiria. 2001 e 2004). da atividade política.. Borges. 2003. que estaria ligado a interesses individuais. Jorge Gama atribuiu um juízo de valor negativo à “política de resultados”. prefeitos. É 82 . Lopez. o foco recai sobre algo já observado por Bordieu: “[…] o caráter primordial da experiência do dom é. da “bandeira”) é pensada então em relação diametralmente oposta à troca (reificada em termos do caráter imediato do bem).1996: 7). por todos os atores sociais envolvidos no processo político. No entanto. sem dúvida. deputados. 1999. nunca exclui completamente a consciência lógica da troca” (Bourdieu. em algum nível. em detrimento do que considera o real fazer político: a doação desinteressada. Em todas as entrevistas que me concedeu. evitada e. Jorge Gama – ao falar de si e de sua prática política –afirma não priorizar o atendimento. retribuição em termos de voto e apoio (Bezerra. reconhece sua necessidade. a carência de aparatos e serviços públicos somada à pobreza em que vivem muitos dos moradores da região promovem a utilização desse tipo de recurso político. mesmo atribuindo um caráter negativo a tal sistema. do dom gratuito e sem retribuição. Segundo Jorge.cit.

Lopez. 1998: 237). configurava um aspecto distintivo. socialmente investido para atender às demandas da população por meio dos canais gerados pelo próprio status do político e por acessos angariados no exercício dessa função. apresentar-se como ator legítimo. Em seu primeiro mandato como deputado federal. mesmo por quem tem muito dinheiro. as invasões de terra ocuparam boa parte das preocupações e ações de Jorge Gama. é preciso entrar para a política” (Kuschnir. lotes ou gasolina). 91 83 . em especial. 92 Ver. das demais pessoas. Consideradas “um problema da coletividade”91. 1993. 1996. render homenagens públicas a “cidadãos ilustres” etc.interessante notar que o político benfeitor e/ ou doador nos termos de Chaves (1996) pode tanto atender aos pedidos de pessoas de camadas populares (por remédio. a participação de Jorge Gama. “ter acesso é o que diferencia os políticos e. Político. quanto técnico. Tal diferenciação passa pela construção de um discurso coletivo sobre o bem em questão – que envolve a constituição de um “movimento” – autorizando-o. que remetia à formação profissional de Jorge. os parlamentares. Colocar-se como doador significaria. Já o saber técnico. o auxílio prestado aos grupos nelas envolvidos era tanto político. 2001). portanto. singularizando-o frente a outros atores políticos locais92. então. O acesso é um bem escasso e que não pode ser comprado. Sua atuação nestes episódios proporcionou sua aparição na É interessante notar como Jorge Gama diferencia a “casa” ou o “lote” de um bem em termos mais gerais. Coradini (2001). Nova Aurora e Monte Líbano são algumas das áreas invadidas – hoje bairros majoritariamente ocupados por conjuntos habitacionais – cujos processos de ocupação tiveram. (Kuschnir. em algum nível. uma vez que remetia à negociação entre parcelas da população e esferas do poder público. A relação entre “movimento” e interesse é fundamental para entendermos as formas de classificação operacionalizadas por Jorge Gama com relação ao seu fazer político. quanto intermediar concessões políticas a empresários. Viegas. Para se obter acesso. Nesse sentido. a tomá-lo como demanda coletiva.

distinguiria o mediador? Neste trabalho. tais movimentos sociais configuram loci de atuação privilegiados. Ela não é o extraordinário. A vontade de atuar como mediador e 84 . Este gostar é definido por sensações tanto quanto pela crença no sucesso ou na possibilidade de conquistá-lo. lideranças de bairros. membros da Igreja Católica etc. propiciando um espaço de visibilidade e de exaltação da mediação como ferramenta necessária. Para os políticos profissionais. defendo que o político profissional não é um mediador apenas ou mais facilmente em períodos de transição e de mudança – apesar de tais momentos potencializarem sua visibilidade e seus atos. Os atores políticos engajados nesses movimentos originavam-se de diversos segmentos sociais: políticos profissionais. Esta especialização na articulação e/ ou negociação. a mediação política é tratada aqui como uma atividade. permitindo que algumas pessoas se coloquem em evidência devido à singularidade de seu potencial de trânsito por distintos segmentos. a mediação será pensada como uma atividade quando – conforme ressaltou Castro (2001) – relacionada a um “projeto pessoal de se tornar mediador”(p.210). diferentemente da análise elaborada por este autor. mas realça a dimensão “voluntarista” assim como a condição necessária para essa atuação: gostar de desempenhar tal papel.mídia e a conexão de seu nome ao de outras personalidades de grande carisma. cit. mas o cotidiano. Kuschnir (2000) já nos advertiu que nem todo político é necessariamente um mediador. como Dom Adriano Hipólito. como pensar a mediação quando nos referimos a atores políticos? Falamos de mediação em geral ou seria necessário qualificá-la. como enfatiza Castro (op.). Portanto. No entanto. adjetivando-a? O que. moradores da periferia. É a execução constante do projeto pessoal e não uma qualidade “natural” de certos indivíduos. Por esta razão. afinal de contas. singulariza determinados indivíduos.

para que tratassem de um novo modelo de financiamento habitacional que melhor atendesse às necessidades e restrições econômicas da população de baixa renda de Nova Iguaçu. no processo político. necessariamente. como uma qualidade ou propriedade (ser mediador). mas um complexo de significados. “Quem marcou a primeira audiência de Dom Adriano com um membro da ditadura fui eu”. símbolos e interesses envolvidos – neste caso. interessando-nos mais especificamente o between. para a reprodução incessante dessa atividade apenas o desejo do ator ou algum atributo inato. portanto. juntamente com Francisco Amaral. podemos dizer que seria mais apropriado pensar no mediador como uma situação (estar mediador) e não. Não é garantia. O político. No entanto. O episódio em que agendou uma audiência para Dom Adriano com o então Ministro do Interior. O processo de investidura requer dos atores políticos a demonstração de seu capital simbólico. No caso específico de Jorge Gama. ações e motivações intersubjetivas. assim como qualquer outra liderança. de seu 85 . há uma grande ênfase em tal atuação. característicos dos anos de regime militar.a aptidão em desenvolver tal atividade são proporcionais à capacidade de lidar com a diversidade de códigos. consagrou-se como uma demonstração de sua capacidade de articulação e mediação. Jorge demonstrou possuir algum trânsito entre as diferentes esferas e atores públicos. Mário Andreazza. precisa constituir seu espaço legítimo de atuação e conformar seu discurso a um público específico –seu eleitorado. conseguindo expor suas reivindicações – mesmo em um espaço cerceado pela insegurança e pelo medo da exposição. Atuando como mediador em um determinado segmento da população. Paulo Amaral e Ubaldo Rodrigues. do que a suposta origem ou finalidade da mediação. Jorge presenciou tal reunião em Brasília.

1994) dos atores em questão para a concretização de seus projetos (individuais ou coletivos). conformando projetos coletivos em alguns momentos e circunstâncias específicos.poder e prestígio93. no entanto. De acordo com a análise de Avritzer (op. necessariamente. da cidadania. a partir da década de 1970. Apesar dos limites. cit. os movimentos sociais começaram a imprimir sua marca por meio da articulação de alguns grupos civis pela busca do exercício de seus direitos. tal demonstração passava. pode ser flexibilizada a partir da atuação dos sujeitos (alguns mais. os projetos políticos individuais aqui analisados demandavam conciliação. sociais e civis restringidos. três deles traziam suas próprias propostas de modernização e de reação ao regime autoritário: o novo sindicalismo. um grande número de atores individuais e entidades civis. dentre as quais destaca o papel das Comunidade Eclesiais de Base . Em um universo político no qual a mobilização era vigiada e os direitos políticos. pelo trânsito entre os militares (nas instituições de direito). 86 .178]) e as associações de classe média. outros menos) no mundo social. Esse “atuar” ou “agir no mundo” leva em consideração o potencial de metamorfose (Velho.CEB’s [p. os movimentos sociais urbanos (chamados pelo autor de “organizações dos pobres das áreas urbanas”. tanto quanto entre as associações civis e a Igreja Católica – que passou a ter uma postura de contestação e crítica aos militares com o recrudescimento do regime. Assim sendo. dentre os quais o da redemocratização brasileira que conseguiu aglutinar. o campo de possibilidades de indivíduos-chave é sempre colocado em evidência por meio de suas ações e projetos. Foi justamente a partir deste momento que o 93 Bourdieu (1974 e 1989). A partir do final de década de 1970. em torno de um objetivo comum. as delimitações sócio-históricas implicam uma estrutura mais ou menos rígida que.). Ou seja.

o vice. o “sargento”.os autênticos tinham lá o seu humor. apoiando suas críticas quanto à queda no desempenho da economia nacional devido à crise do petróleo e quanto ao fim do “milagre econômico brasileiro”94. que já vinha amadurecendo a idéia no início de 70. mas era o ‘nosso exército’. resolveram montar também a sua hierarquia de caserna. o MDB. A reivindicação de autonomia para os trabalhadores nunca fez parte do programa do MDB. incapaz de fazê-lo. consultado em 12/03/2004). um passado rejeitado pelos movimentos sociais. não levava a sério a sua reivindicação de uma nova forma de atuação política. o MDB apresentava todas as condições para a incorporação dos movimentos surgidos ao longo do período ditatorial. o “almirante”. Ulysses percorre as capitais do País com a pregação das idéias oposicionistas. criando uma dissociação entre a lógica dos atores sociais criados pela modernização e a política Ulysses Guimarães teve um papel crucial nesse processo. o “marechal”. o que mais irrita os militares. é bastante ilustrativo desta situação . resolveu lançar Ulysses como anticandidato na passagem do governo Garrastazu Médici para Ernesto Geisel. o “coronel”. Em companhia de Barbosa Lima Sobrinho. no final da década de 1970. enfraquecendo o MDB nos estados onde o patrimonialismo predominava. Os movimentos sociais e o MDB seguiram caminhos diferentes entre o final da década de 1970 e o começo da de 80.que obrigou Ulysses a enfrentar literalmente os cachorros da polícia baiana do governador Roberto Santos em visita a Salvador . Ainda de acordo com este autor (idem). no entanto. Nem todos gostavam dessa brincadeira. Marcos Freire. A semente estava lançada. também não ajudava no relacionamento desses movimentos com o partido de oposição. mas Ulysses foi além do combinado com os autênticos. Alencar Furtado. (ou os militares). Alceu Collares.MDB tornou-se mais combativo. Ele resolveu ir até o fim. sendo. A ligação de políticos do MDB com o passado populista. Ganha espaço na mídia interna e alcança grande repercussão no exterior. O episódio da anti-candidatura. “O Grupo Autêntico do MDB. Chico Pinto. “O papel de oposição institucional desempenhado pelo MDB não incluía o desafio radical às políticas do regime autoritário do governo no âmbito do eleitorado operário. No grupo. 94 87 . Como o adversário era um militar. A idéia era que renunciasse no dia da eleição. […] Incorporar o discurso de mudança na atuação política equivaleria a afastar o eleitorado patrimonialista. o que deu legitimidade ao Colégio Eleitoral e à eleição do general Ernesto Geisel. Apesar do clima de chumbo da época . cada um tinha uma patente: Fernando Lyra era o “cabo Lyra”. lembra Chico Pinto” (site do Diretório Regional do PMDB. abrindo espaço para a incorporação das lideranças populares. apesar de sua reação positiva inicial aos movimentos sociais. narrado a seguir. Por outro lado.

” A legitimidade na condução dos movimentos sociais em Nova Iguaçu aparece como um dos nichos de maior disputa pelo poder político no momento em que a sociedade civil começa a se organizar e a se manifestar. o PDT. eleitoraliza. as associações estão em declínio. larguei isso aí pra lá. O PT. por exemplo. o PT. é uma tragédia total. eu parti pra dentro do partido político. pior que isso. infelizmente. Jorge Gama filiou-se ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). quando vi isso aí. Hoje. em 1982. logo em seguida. porque no caso de Nova Iguaçu. tendo as siglas 88 . A partir de 1979. “[…] daí a Igreja se identificava com o PT e aí ruiu tudo. A contenda em torno de quem seria o porta-voz autorizado desses movimentos aumentava as rivalidades ideológicas. em decadência. eu me excluí do movimento popular.182-183). ou melhor. Eu. com o fim do bipartidarismo e o início do processo de organização e criação dos partidos políticos. infelizmente. até mesmo do processo político. a FAMERJ acabou. a autenticidade do movimento popular se dilui na medida em que você partidariza e depois. sucessor direto do MDB. em particular. narrado com desconfiança e descrédito por Jorge Gama – e coincidindo com seu afastamento do “movimento”. Foi justamente a partir deste panorama que surgiu o “outro político”. tem uma visão corporativa. e no Rio de Janeiro. aí. eu fui excluído pelo sectarismo deles. […] A originalidade. A aproximação de partidos de esquerda e das CEB’s com as associações de moradores é o mote desse conflito. o inimigo: em um primeiro momento. depois de ter tido um auge na década de 1970. Eles não têm uma visão democrática da sociedade. 1980. não.de oposição ao autoritarismo no nível institucional” (pp.

elegeu-se deputado federal pelo PSD. cit. 97 Tancredo Neves nasceu em São João del Rei (MG). em 1962 (pelo PSD) e em 1966 (pelo MDB). disputando cada qual o seu quinhão.” (1999: 27/28). levara à rápida criação de 40 partidos políticos. reelegendo-se em 1966. dos quais 17 tinham representação no Congresso. no dia 4 de março de 1910. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. foi eleito senador por Minas Gerais. ficando em sétimo lugar. Em 1978. foi derrotado na primeira eleição direta para a Presidência da República. Foi deputado federal pelo PSP em 1954. visando a garantir a vitória do partido governamental. Essa tolerância exagerada com a proliferação partidária podia ser em parte explicada como uma reação retardada à manipulação anterior da legislação eleitoral pelo regime militar.partidárias – agora passíveis de expressão e visibilidade – entrado em cena. foi eleito Presidente da República. cit. do PCdoB etc. 1970 e 1974. Faleceu no Rio de Janeiro. a impossibilidade de entendimento entre alguns deles possibilitou a criação de outros partidos – dada a incapacidade de atrair para si políticos que se apresentavam como adversários. do estado do Rio de Janeiro (ambos por via indireta). após a fusão.) e Diniz (1980 e 1982). como Ulysses Guimarães96. Em 1985. Em 1962. em “A queda de Collor: uma perspectiva histórica”: “a legislação eleitoral altamente permissiva. Iniciou sua vida pública como vereador em sua cidade natal. em 1914. 96 Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Rio Claro (SP) em dia 6 de outubro de 1916 e morreu em um acidente de helicóptero no litoral fluminense em 1992. elegeu-se governador do mesmo estado. Elegeu-se pela primeira vez como deputado para a Constituinte de São Paulo em 1947. Segundo Skidmore. Foi governador do estado da Guanabara. Foi primeiroministro em 1961. tornandose vice-presidente do partido.). pelo PMDB. Morreu em um acidente de helicóptero no litoral de Angra dos Reis em 12 de outubro de 1992. que congregou em sua sigla frentes ideológicas diversas desde a exigência do bipartidarismo. vindo a falecer no dia 21 de abril do mesmo ano. a forma como se deu a criação do PP –congregando nomes como Tancredo Neves97 e Chagas Freitas98 – do PDT de Brizola. em 1991. reeleito em 1958. Em 1989. Em 1966. 98 Antônio de Pádua Chagas Freitas nasceu no Rio de Janeiro. Foi deputado federal por oito mandatos. Tal foi. seu vice-presidente. em 1970 e. Foi Ministro da Indústria e Comércio no governo de João Goulart. em 1978. Apesar de ter mantido nomes importantes em seus quadros. 95 89 . do PTB. em 1935. O MDB. O multipartidarismo provocou uma fissura interna na frente de oposição ao regime militar e sua pulverização em uma gama de partidos que agora disputavam a arena política95. Elegeu-se deputado estadual pelo PP em 1947. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (2001). foi um dos articuladores da organização do MDB. Em 1982. por exemplo. então Distrito Federal. redigida no final dos anos 1970 e início dos 1980. sofreu um grande impacto eleitoral com tal dissenso.

Jorge Gama foi escolhido para concorrer como vice-governador do Rio de Janeiro ao lado de Miro Teixeira. Essa “escolha”.Dentro desse panorama. já findado seu primeiro mandato de deputado federal. entrou na disputa com Ivete Vargas pelo capital simbólico representado pela sigla do PTB. não deixando a Brizola outra alternativa senão a da criação de um novo partido. Com a divulgação de uma nota do jornalista Pedro Cezar. Restaria ao partido escolher entre os nomes de Jorge ou Francisco Amaral. precisando de espaço e convencido de seu poder e prestígio políticos. no entanto. Em 1982. marcada por negociações e pelo fortalecimento da figura política já emblemática de Brizola99. como o político gaúcho. anunciando que o vice de Miro Teixeira poderia vir da Baixada. acabou gerando um outro impasse. Segundo Jorge. já possuía sua própria história e legado. já que a região representava o segundo maior colégio eleitoral do estado. publicada no jornal O Globo. assim. Luis Carlos Medeiros. não se deu sem esforços. Sento-Sé (1999) 90 . o presidente do PMDB – na época. que achava que o vice-governador deveria ser alguém da Baixada. A criação do PDT foi. com a missão de desempenhar o papel de “governador da Baixada”. tudo começou com um amigo seu. reaparece a figura de Leonel Brizola que. Ivete Vargas – da “ala” de São Paulo e ligada a Golbery do Couto e Silva (Ministro-chefe do Gabinete Civil do presidente Ernesto Geisel) – saiu vitoriosa. no entanto. A aproximação com o PC do B e com o “novo sindicalismo” (representado por Lula) também resultou infrutífera e a criação do novo partido significaria colocar Brizola como o seu núcleo – diferentemente do que aconteceria com a conquista da sigla do PTB que. O que. o senador Mário Martins – teve que lidar com os diversos nomes que pleiteavam o cargo: Rafael de Almeida 99 Ver. Depois de uma batalha judicial.

foi anunciada a decisão do “encontro dos vices”. Sendo assim. com exceção de Valter Silva. os outros pleiteantes. mas foi voto vencido. indicassem Arthur da Távola como o segundo nome do partido para concorrer ao Senado – conseguindo. Optaram então por impedir que Miro Teixeira decidisse 91 . por não ter possibilidade de fazer frente a ele nas eleições”). Mário sugeriu que os interessados conversassem e tentassem resolver a questão sem a necessidade de uma disputa mais acirrada e pública. na reunião do partido. O presidente do partido protestou contra a decisão do grupo. Diante desta situação. depois de algumas negociações. na conferência do partido que ocorreu no escritório de Jorge Leite. Em uma reunião do partido. mais tarde. segundo ele) se retirasse da disputa sem o ônus e o desgaste de um embate.Magalhães. Sobravam apenas Jorge Gama e Paulo Rattes. assim. Valter Silva também desistiu. já que todos tinham suas pretensões. no entanto. agora. O encontro foi marcado para um fim de semana e todos os pleiteantes compareceram. mas rejeitado por Miro Teixeira que encarregou Jorge Gama de negociar com ele sua desistência. que mandou um representante. em conjunto. que fora indicado por Mário Martins (“por ser um político de pouco expressão e. Noel de Carvalho desistiu e lançou o nome de Rafael de Almeida Magalhães que. Paulo Rattes e Jorge Gama. Jorge propôs que a reunião fosse realizada no sítio de Noel de Carvalho (em Três Pinheiros. Em seguida. Jorge sugeriu que. tinham um acordo prévio – e mesmo anterior ao “encontro dos vices” – de que não se enfrentariam e caso a disputa ficasse entre eles. Paulo solicitou quinze minutos para conversar com Jorge em particular. Restavam. concorreu também para o Senado – no lugar de Flávio Castreoto. Noel de Carvalho. pois a candidatura de Arthur – que concorreria com o próprio Mário Martins – já estava lançada. Valter Silva. próximo a São Lourenço – MG). Arthur da Távola. que um dos pleiteantes (o mais forte. Percebendo que a disputa seria difícil. escolheriam entre si sem a interferência da esfera partidária. Esses dois.

o PDT elegeu o advogado trabalhista Paulo Leone e.. Miro Teixeira (PMDB). do Tribunal Superior Eleitoral. Para a política desenvolvida pelo PMDB na localidade. em 5º. com 34. analisado por Sento-Sé (1999). deve ser concebido como processo de construção de uma imagem pública – da persona Brizola – e dos elementos 100 – passaria a configurar o novo “inimigo” por Essa eleição foi regulada na forma da Resolução n.60%. abalando a estrutura do poder vigente até então na Baixada. no entanto.19% dos votos. em 2º. a capacidade de articulação de Jorge Gama e o reconhecimento desta habilidade por seus pares políticos – além de ressaltar os laços pessoais de amizade entre ele e Paulo Rattes e alguns interesses comuns..45%. Em Nova Iguaçu.. Lugar. Manoel Valêncio Opasso. quem se elegeu governador. quase absoluto. tal “arranjo” foi um dos principais obstáculos à consolidação de sua imagem e a seus avanços como “partido de oposição”.05% (Tribunal Superior Eleitoral).455. pois isso enfraqueceria a candidatura do escolhido e colocaria o outro em uma posição politicamente desconfortável. em São João de Meriti. nos municípios da Baixada Fluminense e no qual o partido de Brizola – juntamente com seu líder excelência. o voto vinculado gerou a obrigatoriedade de se votar na mesma legenda partidária para todos os cargos. 92 . com 21. com 10. a chapa composta por Miro Teixeira e Jorge Gama tendo ficado em terceiro lugar 100.71% e Lysâneas Maciel (PT). Foi Leonel Brizola. O fenômeno do brizolismo.o destino dos pleiteantes.º 11. o que acabou desencadeando o chamado “fenômeno Brizola”. Este episódio demonstra. devido ao número de cadeiras obtido pela oposição nas Câmaras Municipais da região. em 3º. uma vez mais. Sandra Cavalcante (PTB). com 3. com 30. em 4º.. Moreira Franco (PDS). um período em que o brizolismo reinaria. Nessas eleições. de 16-09-1982 e teve o seguinte resultado: Brizola (PDT) em 1º. optando por candidatar-se à prefeitura de Petrópolis (cuja eleição venceu). assim. Inaugurava-se. Paulo pediu a palavra e desistiu em favor de Jorge Gama.

assim.). em 1979.62). enfrentando adversários ocultos. 1994) ressaltando as formas de identificação com a figura de Brizola desde seu retorno do exílio. em certas ocasiões. 93 . sua verborragia consagraram-no como a grande liderança popular. cujo emblema seria a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. Sendo assim. a formação das redes que configurariam o campo político (Bourdieu. Sento-Sé demonstra a construção da persona Brizola como um “todo coerente” – desde sua infância “de luta”.conformadores de seu discurso. filiando-se ao PTB. seu “nacionalismo moreno” e. Tendo como mito fundador o trabalhismo (e o legado varguista). 1974 e 1989) na Baixada Fluminense. segundo Sento-Sé (idem). Nesse sentido. no entanto. apesar da militância junto aos movimentos sociais. preocupado com a (re)definição dos processos eleitorais como dramas (Turner. elegendo Miguel Abraão pelo PDS – por meio de uma associação entre a política e a contravenção.cit. Particularmente no tocante à Baixada. este autor reflete sobre os contextos de sua produção e atualização. só conseguiu eleger um vereador em Nova Iguaçu101. até o seu ingresso na vida pública. O brizolismo. seu discurso dirigido aos excluídos. A influência do “brizolismo” na região fazer-se-ia 101 Alves (op. Delineava-se. a família Abraão David ainda assegurava seu poder em Nilópolis. sem. não conseguiu penetrar em áreas já cooptadas por um tipo muito específico de política. A austeridade de seus atos políticos e sua disposição para a “briga” compuseram sua imagem. no entanto. incorporar o tom mais radical do PT que.” (p. ajudando a defini-lo como “um guerreiro disposto à auto-imolação. pela pobreza e pelo alto índice de criminalidade. em uma região marcada pela escassez. semi-ocultos em outras.

portanto. Em seu relato. 94 . se assim o contexto exigir. do poder em si. Jorge fez. seu projeto político naquele momento. Ao mesmo tempo em que diz ter tomado as rédeas da situação. Esta aparente ambigüidade entre fazer a escolha (um projeto) e ser escolhido (investido) deve ser compreendida. “Comecei a trabalhar esta possibilidade”. que marca a construção de uma memória e de uma identidade política ancoradas na idéia de vocação (Weber. fazendo da presidência do partido. Carlos Alberto Direito. As reuniões tiveram início na casa do professor de ciência política. Após a derrota nas urnas. durante as entrevistas que me concedeu. p.sentir até a década seguinte. afirma que sua candidatura foi cogitada por seus pares. das quais também participavam Gilberto Rodrigues. valor ético (de convicção) e valor de eficiência (de sucesso). a opção pela máquina partidária e começou as articulações para concorrer à presidência regional do PMDB. Hércules Correia e Paulo Rattes. no entanto. em contraponto com a lógica da política do poder (idem. 1971). Tal idéia estabeleceria uma relação entre sujeito político. apesar de progressivamente ir perdendo força para partidos como PSDB. Com esta “intuição”. então. PTB e PFL. em 1983. 108). Jorge Gama oscila entre duas alternativas. o político responsável. Aquele político capaz de sacrificar algumas de suas convicções. diz. Começaram a discutir a reformulação do partido no estado. uma resposta negativa. Carlos Alberto Muniz. Obteve. Miro argumentou que precisava pensar em outros projetos. “O verdadeiro político de vocação seria. tendo em vista uma apresentação de si a posteriori. procurou Miro Teixeira para que este concorresse à presidência do PMDB. Eurico Lima Figueiredo. “tendo surgido” nas reuniões e começado a ganhar força a partir daí. Jorge Gama afirma ter percebido ser aquela “a hora do partido político”.

na ação política não estão em jogo apenas o poder ou a paz e a satisfação individuais — embora estes existam — mas. pois “trocou” secretarias por apoio além de ter conseguido aliar-se a alguns deputados estaduais “brizolistas” (ainda segundo meu entrevistado. pois ao governador não interessava um “PMDB hostil”. apesar de transcendente ao indivíduo. o partido simbolizava justamente essa adesão. enfatiza tal colocação. Para Jorge Gama. 95 . nomes por ele mencionados: Átila Nunes. sim. detenho-me aqui" (Weber 1998: 122). A chapa concorrente era composta por Miro Teixeira e majoritariamente pelos chamados “euros”. nos termos de Jorge. Naquele momento. A disputa pela presidência do PMDB possibilitou. Cláudio Moacir. Assim sendo. Na verdade. a política é por excelência o mundo das realizações comprometidas em contexto” (Grifos meus) (Teixeira. pode vir a dizer: "Não posso fazer de outro modo. conseqüentemente. A política não é em si o reino das intenções e da força. Brizola tornara-se um empecilho na conquista da presidência do partido. o chefe do executivo estadual promoveu um governo de coalizão ou. a evidenciação das nuances e matizes internas ao partido. os “intelectuais de 102 Sento-Sé (1999). requer convicções pessoais. A justaposição da figura de Brizola à do partido é de tal ordem que a sigla pouco é mencionada nas entrevistas realizadas com Jorge Gama102.mas que em determinado momento. eleitoralmente dentro do panorama estadual. Jorge Roberto da Silveira). em sua análise sobre o brizolismo. “de cooptação”. 1999: 5). demonstrando como o conceito de carisma é fundamental para a compreensão da construção da persona Brizola. bem como a cristalização do novo inimigo político pós-eleições de 1982: Brizola. Aluisio Gama. É sempre o nome de seu líder que aparece e se apresenta como grande opositor do PMDB no estado do Rio de Janeiro. Simbolizava a crença na possibilidade de construção de uma unidade ideológica que o fortificaria politicamente e. no limite de seus princípios. esforços responsáveis por uma causa que. no entanto.

intelectuais – Maria da Conceição Tavares. João Roberto. A vitória (por 66%). Logo depois da eleição. depois de ter sido candidato a vice-governador. Analisei. meu querido amigo e saudoso Joca Serran. E aí achei. tinha os independentes — eu era um dos independentes — tinha o MR-8. tive uma longa conversa com Miro Teixeira pra que nós não deixássemos o PMDB do Rio de Janeiro se esvaziar e tal. e aí. eu já tinha conhecimento suficiente. Tinha o chaguismo tradicional. Milton Temer. uma parte. marcou mais um episódio em que ficou evidenciada também a capacidade de trânsito e articulação de Jorge Gama por intermédio das alianças por ele costuradas.. Joca Serran. percebi que a minha campanha de vice-governador.. eu me dediquei à campanha da presidência do PMDB e acabei eleito em 20 de outubro de [19]83. era o deputado federal Jorge Leite — personagem 96 . presidente do PMDB do estado do Rio de Janeiro.. Então. Então tinham vários PMDBs. por exemplo. já era conhecido suficiente pra pleitear a presidência do partido. aconselhei o Miro a ser candidato à Presidência do PMDB do Rio de Janeiro. pra quem tava de fora era difícil de entender. vou pensar. eu disse não […] Eu vou […] O meu espaço tava muito reduzido e eu. ‘Não. várias correntes. Ele disse que não.. Monteiro de Barros. E ainda tinha um poder paralelo na Assembléia Legislativa. “Bom. Era preciso fazer aquela leitura e a leitura daquilo era.. os euros. ao longo de todo estado […] Numa campanha ampla. mas não quero’.. que figura sempre como aliado político e amigo de confiança . que eram os brizolistas do PMDB […]”.Ipanema”.. Como aliados. pensei. com os “chaguistas”. o estado [do Rio de Janeiro] negativo pra nós. que eram mais localizados na Zona Sul. não.. No ano de [19]83. verifiquei. Seu vice. O PMDB totalmente dividido: várias tendências. Jorge Gama contava com membros do “Partidão”.. com os prefeitos e com setores de uma esquerda dividida — liderados por Paulo Rattes.. Carlos Lessa. o PCdoB todo. todo ano de [19]83. um setor do “Partidão”.

A convenção do PMDB-RJ transcorreu em clima de muita disputa e a tônica foi a troca de provocações e de ameaças de agressão entre militantes das duas chapas. com uma procuração pra eu assinar. Os problemas. em 20 de outubro de 1983. 103 Diniz (1982). [. chegou o advogado do Jorge Leite. Olha que coisa! Ele diz: ‘O Jorge Leite mandou isso daqui.] Devido à impugnação na justiça eleitoral de alguns Diretórios zonais e ao impedimento do voto plural. principalmente. se eu assinar perco a minha independência. Se eu não assinar. na convenção do PMDR-RJ. que nós vamos expulsar o Jorge Felipe porque ele traiu a gente lá em Bangu. na Zona Oeste. chamado Francisco Romão de Lima […]. e meia hora depois. na Almirante Barroso no. 97 . não haviam cessado com a conquista da presidência do partido.político conhecido por sua forte vinculação ao “chaguismo”. um advogado experimentado. que era um advogado da Assembléia. a chapa de Arthur da Távola também perdeu na composição da no va Comissão Executiva. para expulsar o vereador Jorge Felipe que tinha traído o Jorge Leite na eleição. com o estilo político de seu vice transformou o mandato de Jorge em uma constante mediação e negociação de conflitos — além da fragilidade de sua condição de político sem mandato.. . eu sou um escravo do Jorge Leite. que mantinha uma máquina política eficiente em todo o estado103. ele é meu maior inimigo. entre outros. a chapa de Arthur da Távala. derrotando. Isso é uma questão política. 21/11/1983) “Naquele dia — eu não vou esquecer — eu cheguei no partido. Se eu assinar isso daí. Paulo Rattes. analisei. no entanto. (O Globo. de Marcelo Cerqueira e Cláudio Moacyr. De qualquer maneira. Olha Romão. Lidar com a diversidade das frentes de apoio que tornaram possível tal empreendimento e. se não assinar vou pro enfrentamento.’ […] Eu pensei. 82. com 66 por cento dos votos para o diretório. Disse: ‘Não assino’.. você avisa ao Jorge que eu vou evitar levar o partido para o Judiciário.líderes da chapa “Unidade” – confirmaram ontem seu favoritismo. do jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros. que tem agora como Presidente o ex-Deputado Jorge Gama. O Deputado federal Jorge Leite e o Prefeito de Petrópolis.

De um lado. com os “intelectuais”. morador de Nova Iguaçu.eleitoral e vamos resolver isso aqui. Depois. “Fizeram uma reunião pra me dizer que eu não podia ser o presidente do partido. Jorge vinha da Baixada. fazendo alusão a “algo de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava”. com Jorge Leite e. seu pertencimento determinante dava-se pela associação a uma imagem que denunciava. aqui. “da Baixada” e “sem muita expressão política” constituíam a tônica dos discursos oposicionistas por parte dos “intelectuais”. Os confrontos foram. os gregos foram os criadores do termo estigma. fui embora pensando que não ia ficar mais dez dias”. criminalidade e pobreza. como uma das principais formas de vinculação a uma identidade de “originário da Baixada”. De acordo com Goffman (1975b: 16). no entanto. mas não vai acontecer aqui levar o partido pra Justiça. pouca atenção sendo dada às notícias políticas que não estivessem a tais temas relacionadas. naquele momento em particular. Independentemente de outras possíveis pertenças sociais. mais ainda. sou eu mesmo. não é nada contra o Jorge. quem vai representar o partido na Justiça. o maior problema não era. sobretudo por causa de acerto eleitoral […] Foi um sinal de guerra. de outro. A acusação aparece. Estes “sinais” marcavam socialmente a pessoa como uma metáfora da poluição que esta representava. incriminava e segregava. corroborada pela mídia 104. E as matérias de jornais que traziam o nome de Jorge Gama geralmente enfatizavam sua origem: filho de carvoeiro. de fato. uma região vinculada a símbolos de violência e pobreza. O partido só irá pra Justiça em último caso. peça a ele desculpas. Segundo Jorge. E. 98 . Baixada Fluminense. Já entrei na presidência do partido estigmatizado”. constantes. Não vou assinar. o discurso acusatório —aquela facção não dispunha de poder e influência dentro do partido e acabou se ausentando das reuniões e eventos — e sim o 104 É importante relembrar que nesse período — e até a década de 1990 — as imagens veiculadas pelas mídias televisiva e impressa sobre a Baixada Fluminense faziam referência constante a questões sobre violência. as acusações de suburbano. Para ele.

em 1983. um acontecimento marcou a história política nacional e definiu um lugar para Jorge Gama dentro do partido. que tentou. porém.“chaguismo”. “Por ironia típica das artes da política. também. por força do bipartidarismo e da insatisfação popular – mediada agora pela TV se transformou em autêntico plebiscito de aprovação. Como já mencionado. o Movimento Democrático Brasileiro. intensificando-se na presidência do general Ernesto Geisel (1974-1979). quando a institucionalização da propaganda eleitoral gratuita na televisão acabou favorecendo a campanha do partido de oposição. o feitiço voltara-se contra o feiticeiro já nas eleições de 1974. Todavia. O peso da propaganda política eleitoral – mesmo com as limitações impostas pela Lei Falcão – foi demonstrado nas urnas. ou não. O MDB obteve considerável vitória eleitoral (basicamente nas eleições majoritárias para o Senado) em pleito que. a ampliação de sua “bandeira de luta” e de sua mobilidade política (ascensão e declínio). a movimentação de grupos da sociedade civil teve início na década de 1970. representado principalmente por Jorge Leite. inclusive. É a partir desta vinculação que se dá. Jorge atribui um peso decisivo à sua atuação junto ao movimento popular local como conformadora de um modus operandi que o singulariza frente aos políticos atuais — aos por ele chamados de “políticos de realização”. No relato sobre a constituição de seu papel como ator social e político legítimo (e legitimado). 2003: 140). do governo” (LattmanWeltman. 2001). que prometia uma abertura “lenta. gradual e segura” (Soares. 99 . promover a destituição da executiva.

danou a vir aquela expressão de que o PMDB não abria – entre a bíblia e o capital. em 18 de março. no entanto. o brizolismo contra mim... e no editorial do 100 . Então foi uma dificuldade grande pra mim juntar aquilo tudo e coisa e tal.Com o fim do bipartidarismo e. a criação de partidos políticos (além da organização das siglas que já possuíam uma história anterior ao golpe de 1964).. A articulação pelas “Diretas Já” teve seu pontapé inicial. teve pouca repercussão em um primeiro momento. foi somente durante o governo Figueiredo (1979-1985) que se assistiu a uma intensa mobilização de distintos setores da sociedade. o partido rachou no meio. começou a acontecer a campanha das Diretas Já”. Tal iniciativa. Eu fiquei totalmente ilhado no PMDB.o partido fracionado e tal […] Mas aí aconteceu. entendeu? Ficava. logo. um zumbi pensando: ‘Meu Deus. Entretanto. né?’ Daí. que eram os governistas que fizeram um acordo. “O PMDB que eu estava descrevendo. com o Brizola. (risos) Mas já tava começando esse negócio. aqui. eu era uma rainha da Inglaterra. ainda em março de 1983. conseqüentemente. exigindo o retorno ao regime democrático por intermédio do voto direto para presidente da República (idem). ele fica com o diário oficial – já não havia isso.. por intermédio da apresentação de uma emenda constitucional para o restabelecimento das eleições diretas. ali. então eu diria que. tinha um nicho na Assembléia. as vitórias angariadas pela oposição (MDB) — ainda em 1974 e também em 1976 — anunciavam que o regime ditatorial chegara ao fim. Dante de Oliveira (emenda esta que ficaria conhecida pelo nome de seu autor). o que é que eu vou fazer aqui? Ganhei uma eleição duríssima. feita pelo deputado federal do PMDB/MT. sendo noticiada apenas pelo jornal Folha de São Paulo — em um artigo assinado por Tristão de Athayde.

A movimentação de setores políticos. percorrendo o país em diversos comícios e shows em prol da campanha. Nesse sentido. no qual o jornal colocava-se a favor do retorno do pleito direto em todos os níveis. O ano de 1984 começa com intensa mobilização. com o pronunciamento de lideranças diversas. a partir de outubro a movimentação dos atores políticos em diversos estados cresceu consideravelmente. Tancredo Neves. negociando alianças e dando maior visibilidade à campanha pelas Diretas Já. os jornais — principalmente a Folha de São Paulo — passaram a noticiar as ações e articulações que pretendiam restaurar a democracia representativa em sua íntegra. segundo o qual seu potencial de observador atento aos fatos e hábil articulador lhe garante o privilégio de estar um passo à frente dos demais atores políticos — dentro e fora de seu próprio partido — o que lhe assegura um lugar na história (como denota a narrativa na primeira pessoa do singular) . entidades de representação profissional. entre outros. o processo dava indícios de sua intensidade. Ulysses Guimarães. na época presidente regional do PMDB/RJ. tornaram-se figuras-chave nesse movimento. 101 . Se desde abril. intensificou-se a partir de abril daquele ano.dia 27 de março daquele ano. religiosos. Em novembro. e com a aproximação do PT ao PMDB. relata sua inserção e seu papel neste processo como uma espécie de “revelação”. além de Lula. que buscava se articular aos demais partidos sob a bandeira do retorno à democracia. Miguel Arraes (do PMDB). Jorge Gama. como Dom Evaristo Arns e Dom Ivo Lorscheiter. que contou ainda com a participação de vários intelectuais e artistas. entre outros. Os principais nomes do PMDB circulavam entre os diversos estados. volta-se para a construção de um discurso visionário.

“Quando eu percebi a campanha das Diretas Já, eu me conectei imediatamente com Brasília, com Dr. Ulysses. Quando nós fomos fazer a campanha com a sociedade civil, a campanha já estava dando mídia, que a mídia da época ali não foi […] A mídia ali foi conquistada, os movimentos foram crescendo e a mídia não pôde ignorar mais. A TV Globo demorou... ignorou até quando pôde... depois não... e aí, o partido começou a receber não só a sociedade civil — que o partido curiosamente também tinha uma sociedade civil que era PMDBista, MDBista e tal; ela não era militante permanente, mas quando o movimento cresceu, eles se aproximaram do PMDB e eu consegui (como eu estava ali convivendo, conhecia o partido, eu conheço o conveniado do PMDB ) ... Eu consegui interpretar o que cada movimento pensava das Diretas Já: todos eram a favor das Diretas Já. Eu digo: ‘bom isso já nos une’[…]”

Diante da heterogeneidade do partido — que se colocava como um dos grandes obstáculos a um projeto coletivo de unidade política — e da necessidade de lidar com frentes de matizes ideológicas distintas, Jorge Gama torna-se um dos principais articuladores e mediadores do movimento pelas Diretas Já no Rio de Janeiro. Fundamentalmente por estar à frente do partido — mas também por apresentar um projeto político unificador — seu discurso dá o tom da fragilidade da experiência de presidir o partido, ao mesmo tempo em que marca sua importância para o processo de consolidação política do PMDB na região e em todo o país. A capacidade de negociar com as variadas frentes internas e de “aproveitar o momento” para colocá-las sob o imperativo do devir histórico deve ser entendida de acordo com a complexidade simbólica com que é narrada. Corroborando a narrativa acima, as mídias viram-se obrigadas a posicionar-se. Conforme ressaltou Lattman-Weltman (op. cit.),

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“[…] a campanha das Diretas Já marcou a necessidade de uma nova relação entre a cobertura midiática da política e seu público mais amplo. O movimento ofereceu a alguns veículos a oportunidade de afirmar uma nova identidade editorial, mais conforme com os novos tempos – caso da Folha de São Paulo— assim como obrigou outros a uma inflexão de enfoque. Foi o caso da Rede Globo, que tentou ignorar o movimentos pelas diretas em seus primeiros passos, mas acabou se rendendo, diante do crescimento da participação popular e da cobertura a ela conferida pelos concorrentes” (p.143). A partir do ato público realizado em São Paulo com a presença do governador Franco Montoro (PMDB) e de lideranças políticas de diversos partidos — no qual Jorge Gama esteve presente — as primeiras movimentações no Rio de Janeiro começaram a ser organizadas. Em torno à reivindicação do retorno às eleições diretas, o PMDB conseguiu mobilizar suas diferentes facções internas, possibilitando a reaproximação dos “intelectuais” com o partido presidido por Jorge. O passo seguinte consistiu em uma reunião entre as entidades civis e profissionais, juntamente com o PMDB, com as comissões do PTB, do PC do B, do PT e com o governador do estado, Leonel Brizola, para planejar a manifestação pública. A partir daí, o PDT — e principalmente Brizola — é alçado ao patamar de inimigo número um do PMDB, o que se prolonga por toda a década de 1980. As relações tensas e os conflitos deram o tom das interações entre, por exemplo, Jorge Gama e Brizola, remetendo-nos ao quadro mais amplo das relações partidárias e político-eleitorais no estado e, fundamentalmente, na Baixada. “O PMDB naquela época elegeu nove governadores e, no Rio de Janeiro, elegeu o Brizola, que não queria as Diretas Já. O Brizola queria uma Constituinte com o Figueiredo, mais dois anos de mandato com o Figueiredo. Então até nós alavancarmos a campanha das Diretas Já e organizarmos a campanha no Rio de

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Janeiro, nós tivemos muitos embates com o Brizola no Palácio (da Guanabara). O primeiro embate foi quando eu cheguei com umas 12 associações, 12 entidades, OAB, ABI ... Várias outras entidades: CUT, PT, comissões provisórias de partido etc. O Brizola disse: ‘Não […] nós só vamos fazer campanha com os partidos legalizados’, o que era uma bobagem do ponto de vista político na época e, outra coisa, era uma coisa autoritária, prepotente, excludente, da cabeça dele, caudilho como sempre – e não tira uma palavra disso que eu digo, digo e repito. Aí eu digo: bom, eu me lembro que saiu de dentro do gabinete — nós estávamos na ante-sala — o falecido deputado Brandão Monteiro, aos berros, dizendo: ‘Não... só com os partidos legalizados!’.. e eu: ‘Que isso companheiro? A sociedade civil está participando disso, o partido está em vias de organização. Isso é uma bobagem!’ Aí vira ele pro Hélio Sabóia — que era presidente da OAB — e pro Augusto Villas Boas — que era representante da ABI — e também estavam o Drº Barbosa Lima Sobrinho não ia e o Augusto que disse que queria ouvir, mas peraí...o Dr Barbosa Lima sobrinho disse vamos nos retirar daqui; aí entrou o Talarico, José Gomes Talarico, que disse: ‘Calma, Brandão!’ Brandão vociferava pra poder […]aquela subserviência ao Brizola, uma coisa horrorosa […] ‘Não é bem assim, isso aqui não é assim... você está falando com o presidente do partido!’. Aí a coisa evoluiu, nós ameaçamos nos retirar. Ia ficar mal, o Brizola ia ficar isolado ali; ele, aí, instaurou o plenário permanente das Diretas Já; chegamos a ter 19 entidades, ele era minoria, o governo era minoria mas, de qualquer maneira, pagava a conta... Tinha que ser... Então a luta pra colocar a campanha das Diretas Já, no Rio de Janeiro, foi uma luta dura, tivemos que enfrentar o Brizola, principalmente o Brizola, que queria uma Constituinte com o Figueiredo, outro fato curioso neste particular. Quando nós fizemos a caminhada no centro da cidade, que o Lula veio depois pra Niterói, nós colocamos 300 mil pessoas. Nossa caminhada foi em substituição ao comício que o Brizola resolveu adiar, nós fizemos uma caminhada; depois nós viemos a descobri que o Brizola só permitiu que se fizesse o comício na Cinelândia [o que agregou 1 milhão de pessoas], ele marcou aquela data porque sabia que o Figueiredo ia pra Espanha e não queria fazer nada que 104

desagradasse o Figueiredo. Era o Aureliano Chaves que estava na Presidência, e aí o Brizola apareceu com uma data estranha, mas vamos fazer, não interessa. Depois, nós descobrimos que o Figueiredo deu uma entrevista à Veja, dizendo o seguinte: “se eu tivesse no Rio de Janeiro, seria um milhão e um” mas, na verdade, o Brizola procurou saber quando o Figueiredo ia viajar pra fazer na ausência dele, pra passar por ‘bonzinho’ pra ditadura. Esse que era o papel do Brizola, mas aí, com o sucesso, não teve jeito. Esse foi outro episódio que eu vivi com muita profundidade e que precisa ser contado”.

A emenda Dante Oliveira foi, então, votada pelo Congresso, recebendo 298 votos a favor, faltando 22 para a maioria exigida de 2/3105. Duas expressivas lideranças políticas da Baixada não integraram esse movimento: Darcílio Aires, que votou contra e Simão Sessim, que se absteve. Restava, então, à oposição articular-se para a disputa do Colégio Eleitoral. A partir daí teve início uma acirrada negociação política em torno dos nomes que disputariam a eleição. “A costura deste apoio, conhecido como o ‘acordo de Minas’, foi iniciada ainda na noite da renúncia106 de Sarney, quando este recebeu a visita do deputado Ulysses Guimarães e do senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso e, confessando-se traído pelo presidente, deu o sinal de que ele e seu grupo se dispunham a apoiar um candidato da oposição […] Com o intuito de deter o retrocesso da redemocratização, os governadores do PMDB, sob a presidência do deputado Ulysses Guimarães, reuniram-se em Brasília no dia 29 de junho e decidiram lançar o nome de Tancredo Neves à disputa no Colégio Eleitoral. Quatro dias depois a Frente Liberal do PDS rompeu definitivamente com o governo federal, passando a atuar no Congresso e nas assembléias legislativas estaduais como bloco parlamentar independente
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É interessante notar que a oposição detinha apenas 244 cadeiras, o que significa dizer que membros do partido do governo votaram a favor da emenda, em uma demonstração de que o regime militar chegava, de fato, ao fim. 106 Tal renúncia refere-se à intenção de concorrer à Presidência da República pelo PDS.

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e dando início às negociações com a oposição em torno do lançamento da candidatura do governador de Minas à presidência. A formação da Frente Liberal implicou, automaticamente, as desistências de Aureliano Chaves e Marco Maciel da disputa pela indicação do PDS na convenção partidária, ficando esta restrita aos candidatos Andreazza e Maluf. No dia 14 de julho, no palácio Jaburu, sede da vicepresidência da República, foi firmado o pacto da Aliança Democrática para enfrentar a caminhada de Paulo Maluf, o mais cotado dos pré-candidatos pedessitas, rumo ao palácio do Planalto[…] O pacto foi consolidado em encontro realizado em Brasília no dia 7 de agosto, quando foram abordados os itens essenciais do programa do candidato aliancista: constituinte, problemas sociais, eleições diretas, dívida externa, casa própria, pleno emprego, previdência social, liberdade sindical e estado de direito. Na ocasião, ficou decidido que a Frente Liberal faria a indicação do candidato à vice-presidência da República, recaindo a escolha no senador José Sarney. A coordenação da campanha ficou a cargo de Ulysses Guimarães” (DHBB, 2001).

Os episódios das Diretas Já e a movimentação política em torno do nome de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República pela Aliança Democrática demonstram também a proximidade e fidelidade de Jorge Gama a Ulysses Guimarães, há todo instante evidenciada107. Tais acontecimentos descortinam os processos de disputa pelo poder no interior do partido, entre Ulysses e Tancredo Neves. Diante deste quadro, Jorge Gama mais uma vez enfatiza uma percepção de si como articulador político —sem, no entanto,
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O primeiro contato com Ulysses Guimarães deu-se durante o mandato de deputado federal, em 1978. Jorge Gama nunca havia ido à Brasília. Com pouca experiência, não conseguia estabelecer uma relação de proximidade com o então líder do partido, o deputado Freitas Nobre. Começou a freqüentar os gabinetes de Ulysses e de Amaral Peixoto e, com isso, foi construindo uma aproximação. Com a escolha de seu nome para disputar as eleições de 1982 como vice-governador, passou a chamar mais atenção mas foi a eleição para a presidência do partido que, de fato, estreitou a relação — porque, segundo o próprio Jorge Gama, “Dr. Ulysses era muito institucional. Ele não vinha ao Rio sem falar comigo”. As viagens de Ulysses ao Rio de Janeiro eram sempre comunicadas ao presidente do partido e encontros agendados. Assim, a relação entre os dois foi ficando cada fez mais próxima, a “fidelidade” de Jorge Gama sendo colocada à prova com o movimento em torno da escolha do nome peemedebista para a disputa do colégio eleitoral de 1984.

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romper com os laços que inicialmente o prenderam ao partido e à “ala” que escolheu/ aderiu. Colocando-se no “olho do furacão”, seu relato traz à tona os melindres e agruras de liderar um partido heterogêneo, em momentos de definição de poder. A visibilidade angariada pelo PMDB como partido-aglutinador da oposição produzia um duplo (e crucial) desafio para Jorge: posicionar-se a favor do movimento que ajudara a articular e organizálo, anunciando o nome de Tancredo, ou manter-se fiel à sua facção? Diante de tal encruzilhada, sua opção recaiu, segundo ele próprio, “sobre a coerência”. “Partimos pra campanha do ‘Tancredo Já’. É, eu era presidente do PMDB e tal, mas eu era ‘ulyssista’, não era ‘tancredista’ e surgiu um manifesto dos artistas, dos intelectuais, de todo mundo assinando, aqui, para ser publicado no Jornal do Brasil. Quem tinha que encabeçar o manifesto era eu, e eu disse: ‘Eu não assino’. Eu não assinei porque – vim a assinar mais tarde – porque não havia uma definição de quem seria o candidato, se seria Ulysses ou Tancredo e no PMDB havia uma luta interna e tal, que a imprensa já (es)tava anunciando (não era bem interna, já era pública); e eu era ‘ulyssista’, não vou assinar um manifesto ‘Tancredo Já’ e aí fiquei esperando a solução, porque o Dr. Ulysses, sabiamente, se lançou candidato à Presidência da República numa viagem que ele fez a Nova York. Quer dizer, está logo ali, mas vai interpretar esses sinais... É uma dificuldade! Se ele se lançou lá fora foi pra poder retirar, isso é um código interessante, mas quem não interpretava esse candidato, Ulysses é candidato só em Nova York […] Bom, quando o Dr. Ulysses esteve na famosa visita que ele fez ao Palácio da Liberdade, ao Tancredo e ali resolveu, aí eu assinei o manifesto. Mas aí já estava na mão, desesperado... ‘Assina’; ‘Não vou assinar, não adianta’; ‘Mas por quê’? ‘Não vou assinar […] eu sou presidente do partido, sou de uma corrente, não vou assinar […]’. Eu diria pra você que historicamente era até um fascínio assinar aquilo, era uma sedução você assinar ao lado de Chico Buarque […]. Nada disso, o político não pode entrar nessa, tem que ter pensamento estratégico, senão ele cai numa sedução 107

momentânea e se perde e não é por aí […] Eu disse: ‘Não!’ Uma pressão violenta dos intelectuais [que diziam]: ‘você está atrapalhando’. ‘Eu não estou atrapalhando nada […], cada coisa no seu tempo […]’ Aí, logo em seguida, eu assumi a campanha do Tancredo no Rio”.

Se a assinatura ao lado de intelectuais de renome poderia significar atrair – ainda que apenas momentaneamente — os holofotes para si, os frutos políticos a serem colhidos posteriormente poderiam ser desastrosos. Jorge já enfrentava muita oposição dentro do partido para colocar-se contra seus próprios aliados; isso poderia significar um suicídio político. O movimento pelas Diretas Já também delimitou sobremaneira os campos para a atuação política. Os aliados — bem como os adversários — são explicitados e suas posições marcadas nas disputas pelo poder. O caráter acusatório e o tom denunciativo da narrativa do ex-presidente do PMDB são exemplares para se pensar a constituição da identidade política de Jorge Gama em oposição a outros homens públicos como Brizola, Jorge Leite, entre outros — além de evidenciar a importância de sua relação com Ulysses Guimarães para a constituição de tal identidade. O período à frente da presidência estadual do partido (1983/1986) foi marcado também por festividades. Uma delas, em particular, evidenciou novamente sua performance de hábil articulador, garantindo visibilidade à sua filiação institucional. Foi uma homenagem e uma demonstração pública de apoio político a Ulysses, realizada logo após a escolha do nome

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Não havia. Ulysses era.de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República108. no entanto. na forma do art. Diante disso. Assim. O almoço havia saído por Cr$25 mil. 1º. mas eu coloquei logo por R$50. Encerrada a reunião. cotado para tornar-se o novo presidente da Câmara e membros do PMDB pensavam em uma forma de colocá-lo na mídia e reafirmar o seu prestígio. A realização de uma festa foi cogitada como meio de se conseguir tal resultado. sugerindo que a festa fosse realizada no Copacabana Palace. restabelecendo assim os “tempos de glamour do partido”. O orçamento da festa ficou muito alto e o partido não dispunha daquele dinheiro. a idéia foi aprovada. a gente podia dar alguns pra quem não podia comprar e pra algumas personalidades” (Jorge Gama). 108 A eleição de Tancredo Neves foi indireta. em 15 de janeiro de 1985. de 22-10-1984 (Tribunal Superior Eleitoral). durante um almoço. Nessa reunião. ligou para Pedro Cezar — na época jornalista de O Globo. A partir daí “o telefone não parou de tocar. que era amigo de José Eduardo Guinle. 109 . Rodrigo Faria Lima. Após conversar com Paulo Rattes — que sugeriu fazer a festa no hotel Quitandinha. de Albino Pinheiro. entrar em contato com a bancada federal para tentar algum tipo de ajuda financeira. então. então. Debaixo de muitos aplausos. Era gente querendo dez convites. em Petrópolis.º 47. o que acabou não se concretizando. Jorge Gama resolveu. pediu a ele que “soltasse uma nota” dizendo que Tancredo viria à festa e que os convites já estavam esgotados. querendo cinqüenta. trabalhando junto à colunista Teresa Cruvinel — e. surgiu uma nova proposta. Pedro Cezar acatou o pedido. evitando com isso custos com aluguel do local — Jorge convocou uma reunião para comunicar sua decisão aos membros do PMDB/RJ. dispôs-se a levar Jorge Gama ao hotel para que tratassem dos detalhes.00. dinheiro em caixa para organizá-la. realizada pelo Colégio Eleitoral no Congresso Nacional. da Lei Complementar n. Era assim.

presidir o partido significava não somente 109 110 Ambas as matérias de 06/12/1984. O trabalho de Palmeira e Heredia (idem) é pioneiro e acabou influenciando diversos pesquisadores que lidam com o tema das eleições e da política em geral. como assinalam diversos autores que se debruçam sobre este tema (Palmeira e Heredia. Prefeitos e Vereadores de todos os partidos. Os candidatos da aliança Democrática à Presidência e VicePresidência da República. 110 . Kuschnir. 1996. a festa acabará se transformando num grande fato político nacional. 1996 etc110). estabelecendo contatos. além de conseguir. Os convites. Nabor Júnior. projetar-se na mídia nacional. Jorge Gama viajou por todo o estado do Rio de Janeiro. oito Governadores – Leonel Brizola. Deputado Ulysses Guimarães.200 pessoas vão homenageá-lo numa festa organizada pelo partido no Rio com a finalidade de lançá-lo publicamente à Presidência da Câmara [dos Deputados]. de empresários e dos eleitores) e conseguir acessos. Franco Montoro. A dinâmica temporal de quem “vive da política” é reinventada pela necessidade de angariar apoios (de outros políticos. ainda. firmando ou consolidando alianças. Jorge Gama. Viegas. a Cr$25 mil. receberá hoje o troféu de “Campeão da Democracia” durante o jantar no Copacabana Palace em que mais de 1. uma vez mais. Jorge conseguira atingir seu objetivo: demonstrou a Ulysses sua fidelidade e aptidão frente à presidência do partido. o tempo da política não se restringe ao período eleitoral. O Presidente nacional do PMDB. (O Globo) À frente da presidência regional do partido. Estava “em campanha” pela busca de uma possível (e desejada) unidade para o partido. Para o político profissional. Borges. 1995. 2003. Jader Barbalho. Tancredo Neves e José Sarney.A festa foi um sucesso. 2000. Para o Presidente do PMDB do Rio. estão esgotados há uma semana. Nesse sentido. Hélio Garcia e José Richa – e centenas de Senadores e Deputados. Chaves. como também “preparando o terreno” para as eleições futuras. Wilson Martins. Gilberto Mestrinho. já confirmaram sua presença na festa de que participarão. sendo noticiada em jornais como O Globo e Jornal do Brasil109.

mas nunca como um projeto político próprio. 111 . No mesmo ano. disputou uma vaga na Câmara dos Deputados. corroborando a identidade de articulador e mediador político – e sendo recompensado pelo trabalho durante a campanha do governador eleito (Moreira Franco) com um cargo que viabilizava contatos e acessos111. Representava também a possibilidade de se fazer notar pelas lideranças mais importantes do partido em nível nacional e. e as inúmeras atividades que lhe ocupavam no partido (em 1986 passou o cargo de Presidente para o Senador Nelson Carneiro. assumiu a Secretaria de Trabalho. depois da extinção da pasta. 111 Segundo matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 28/05/1987. Seu projeto político havia suplantado sua expectativa eleitoral. afiançar apoio para uma possível candidatura. Jorge Gama alega ter sido convidado e cogitado algumas vezes para disputar a prefeitura da cidade. foi nomeado Sub-secretário de Governo em maio de 1987 e. desse modo. dado seu envolvimento na coordenação da campanha de Moreira. Em conseqüência dos argumentos anteriores. ficando com a primeira suplência. Tal resultado foi atribuído à falta de (ou pouca) dedicação à sua própria campanha. ficando com o cargo de secretário geral do partido no estado). mas também dispor de recursos (humanos e financeiros) – além de alguma visibilidade. Ainda assim. No entanto. De acordo com o exposto neste capítulo. A posse de Jorge Gama como novo Secretário de governo de Moreira Franco foi também noticiada pelo jornal O Globo de 22/05/1987. Jorge Gama teria planos de disputar a prefeitura de Nova Iguaçu na próxima eleição municipal. o afastamento de suas bases (a Baixada) acabou revelando-se muito longo para quem tinha pretensões eleitorais. isto jamais foi mencionado em qualquer das entrevistas que me concedeu durante todo o tempo da pesquisa. Em 1986 (sem mandato eletivo desde 1982). Jorge Gama foi escolhido como o articulador da campanha de Moreira Franco para o governo do estado do Rio de Janeiro.manter seu status.

eu atendia o cara do interior – o cara demorava 5 horas pra chegar no Rio de Janeiro. Eu tinha como finalidade. ninguém ia mais lá. 112 . nada de atender o político … ele não gosta de ser atendido com pressa. já teria um considerável poder de influência: ao contrário dos demais secretários. marcava uma audiência pra ele ir na mesma hora. administrativa. não dá. eram 11 horas da noite – o secretário do Moreira me contou depois – ele abriu a cortina e falou: ‘Mas ainda tem gente aí’? Tinha muita gente. já pelo PMDB. 23/08/1987) “Um belo dia. Foi Secretário de Governo de Moreira Franco durante o primeiro semestre de 1987. que despacham com Moreira só de quinze em quinze dias. ligava pra um secretário. os que vêm em forma de emprego. em suma. elegendo-se prefeito em 1972. ficou uma coisa fria. Chegar: ‘Ó. Em 1978. Em 1982. como exercício da minha atividade. – o que eu podia resolver. É ele. porque eu atendia com calma. É um político de centro esquerda. foi eleito deputado federal.. Jorge Gama amortece os conflitos que surgem entre as centenas de políticos da Aliança Popular Democrática. transformá-la em gabinete civil – cometeu um erro – despolitizou o Palácio. me designou para ir para a secretaria do trabalho […] Fiz alguns acordos internacionais: fiz acordo com a Organização Internacional do Trabalho. reafirmando todos os 112 Paulo Rattes foi vice-prefeito de Petrópolis em 1966. depois que saiu o Paulo Rattes [que] voltou pra Petrópolis112. Então. aí a coisa caminha bem. fizemos a carta de São Paulo.. De relevância. tem que ter calma. conversar com os partidos porque nós fizemos uma coligação imensa com todo mundo […] Então eu diria o seguinte botaram aquele abacaxi na minha mão: atender deputado eleito. é um afago. Eu me lembro uma vez. que administra a distribuição dos melhores chuveirinhos de Moreira. (Jornal do Brasil.“Eu fui nomeado sub-secretário. ainda.. prefeito e tal. é atendido em 2 minutos.. eu resolvia. com o curso de instrutores sindicais. um agrado que se dá a todos os tipos de insatisfeitos. chamálo pelo nome pra facilitar. o Moreira resolveu acabar com a secretaria de governo. companheiro […] Outra coisa: de preferência. Chuveirinho. tornou-se novamente prefeito de Petrópolis. e me pediu. sempre pelo MDB. no universo vocabular do governador.” (Jorge Gama) Jorge Gama: Só por ser o ocupante da Secretaria de Governo. despacha todo dia.

“da Baixada”. Nesse sentido.poderes da Constituinte. de sua apresentação de si (Goffman. depois. bem como a consciência na aplicação de determinados meios 113 . nota-se como seu discurso foi re-semantizado. fui eleito secretário geral do Fórum Nacional dos Secretários de Trabalho. Eu conduzi. ao longo da narrativa. queria era reformular o governo”. A habilidade com as palavras e a postura de “distinção” foram atributos selecionados em momentos cruciais e diferentemente utilizados segundo os contextos em questão. nós tínhamos um compromisso. “do Rocha”. A construção de sua persona pública não é remetida ao carisma individual ou a algo que o designe um líder nato. A composição de sua fachada. Em sua atuação junto aos movimentos sociais. 1975a) e sua aptidão como mediador transformaram-no em político singular na Baixada. apesar das derrotas nas urnas. suas “bandeiras” reconstruídas e – ao mesmo tempo em que se manteve fiel a uma determinada facção – suas alianças internas e externas edificadas em etapas capitais para o partido a que pertencia. (Jorge Gama) A mediação aparece. ora à profissão de advogado. às características anteriormente aludidas somava-se a prudência na escolha do repertório de símbolos – dada sua origem social e profissional – ora referindo-se à origem “popular”. 1970) na trajetória de Jorge Gama. Evidenciados. há alguns turning points (Becker e Strauss. ligando-se preferencialmente ao desempenho de um papel político específico – crucial para a consolidação de projetos e de sua própria existência política – e possibilitado por seu enorme potencial de metamorfose e mediação. Os múltiplos processos de identificação acionados em contextos sociais específicos demonstram o grau de percepção de Jorge Gama acerca de sua própria capacidade de atuação no mundo político. e aí. como um conceito-chave para a compreensão da trajetória de Jorge Gama. novamente.

manchando uma longa carreira política. José Távora (PFL). eu assumi o meu segundo mandato de deputado federal. concorreu às eleições. Ernani Boldrim (PMDB). o nome de Jorge Gama aparecia entre os citados pelo relatório final do TRE/RJ113. beneficiou-se com 100 votos em fraude comprovada. Nessa eleição. com 418 votos. Gama. dada as características particulares de sua atuação. um filho de carvoeiro que se formou advogado trabalhista a duras penas. depois da Constituição. em outubro deste mesmo ano. Na noite da última quinta-feira. de 13 de novembro de 1990. no entanto. que teria sido beneficiado com 381 votos. a impossibilidade de um ressurgimento. se reeleger. a platéia presente ao plenário ficou surpresa com a inclusão de um novo nome entre os acusados – o do deputado Jorge Gama. Jorge voltou a substituir Aluísio Teixeira na Câmara dos Deputados (primeira substituição tendo ocorrido em 1989) e. já em (19)89. novamente a ligação entre política e corrupção foi trazida à tona. Estar apartado deste meio e de suas relações implicaria sua morte política e. Militante da resistência ao regime militar. 114 . com 248 votos. (grifos meus) 113 Entre os demais nomes de políticos de Nova Iguaçu citados estavam o de Nelson Bornier (PL). Segundo o Jornal do Brasil.para atingir os objetivos desejados. Em 1990. talvez. Eu infelizmente não participei da Constituinte”. “[…] Então. Sua sobrevivência enquanto figura pública deve-se fundamentalmente à sua “função” (de articulador/ mediador) e à sua manutenção dentro da arena política por intermédio do exercício de cargos públicos (administrativos ou de assessoria). quando o TRE divulgou o relatório final sobre fraude nas eleições de 3 de outubro. não conseguindo.

Alves. eu fiquei sem espaço porque todos os três são poderosos do ponto de vista econômico.Tal derrota foi.. 1982. essa coisa toda. pertencente à outra rede política local. no entanto. Eu preparei um projeto de lei ‘autorizativo’ no meu mandato de (19)90 ainda Eu fiquei preocupado: ‘Que é que eu vou fazer? Que bandeira que eu vou levantar?’ Eu não tinha. aqui em Nova Iguaçu. ou o candidato dispunha de uma “bandeira forte” ou precisaria de muito dinheiro para custear as despesas de campanha –– além do assistencialismo e clientelismo recorrentemente praticados (Diniz... fiquei ‘batendo uma lata’ com o meu projeto. O Itamar é um empresário de sucesso. 115 . um abaixo-assinado imenso para que nós tivéssemos uma universidade pública. Mas aconteceu uma coisa curiosa que. 2000). irmão e sucessor de Darcílio Raunheitti. Com os novos padrões de propaganda e marketing políticos (Scotto. e aí. 2003). encaminhei ao ministro – na época era o Carlos Chiarelli. 2004. o Fábio tinha uma universidade atrás dele. E aí eu bolei e fiz um projeto de implantação de uma universidade pública no município. foi importante. […] estruturados. 1998. atribuída por Jorge à falta de recursos financeiros. Bezerra. “Nesse período. eu comecei o projeto de implantação da universidade pública. e aí. eu tinha que ter criatividade. Jorge tentou criar a sua “bandeira” através de um projeto de implantação de uma universidade pública na Baixada. 114 Carlos Chiarelli foi Ministro da Educação no governo do presidente Fernando Collor de Mello. o que a partir de então seria condição necessária para o sucesso nas urnas. Eu fiz toda a minha campanha recolhendo assinaturas. Tal projeto desagradou (e acirrou a briga com) outro nome importante da política local: Fábio Raunheitti. dono da UNIG (Universidade Iguaçu). mas não teve êxito. Como eu não tinha dinheiro. Então. Estava olhando o panorama econômico: candidatos com mais potencial. só me restou isso. Castilho. Surgiu o Fábio Raunheitti. Eu ainda era deputado.. ministro do Collor114 – solicitando. 1999a e 1999b. 1994. surgiu Itamar Serpa e o Bornier. de alguma maneira. Então. surgiram forças políticas insuperáveis.

é evidente. “Bom. eu fiz esse movimento. um movimento eleitoral. e falei: ‘Ó. não foi possível. Esse campus contava com três cursos: direito. Aí que é que eu faço: ‘peraí. veja bem. Fui lá: ‘Ó. no entanto. Aí eu fui procurar o diretor da faculdade de Direito de Niterói. Tal empreendimento (que funcionou por apenas cinco anos) demonstra novamente seu trânsito por diversas esferas e sua habilidade em conceber arranjos suprapartidários. Parece que foi arquivado.. Baseado nisso – tendo em vista que eu perdi o meu projeto – na época havia uma comissão e ela considerou um projeto eleitoreiro – então nem dei bola pra eles.Terminou. eu tenho um projeto para a sociedade iguaçuana na qual houve uma mobilização. [19]92. Jorge articulou as negociações e depois presidiu a comissão que instaurou uma unidade da UFF (Universidade Federal Fluminense) em Nova Iguaçu. criando uma universidade pública pra Baixada Fluminense. não pude acompanhar e depois perdi a eleição. nas capitais de um modo geral. A Constituição percebeu isso. Roberto. Eu me lembro que eu encontrei o Roberto Freire. há uma memória disso’. eu estou com um projeto de lei ‘autorizativo’. durante o mandato do prefeito de Nova Iguaçu Aluísio Gama (PDT). terminado isso […] Aí nós já estamos falando em [19]91 mais ou menos. é verdade. obrigou em 10 anos que as universidades fizessem uma política de interiorização. mas 116 . Se ele for distribuído pra você como relator. você me dá um parecer favorável’? Ele disse: ‘É evidente’ (Foi interessante) ‘Você acha que eu comunista. profº Manoel Martins. ciências contábeis e administração. você é da comissão. Manoel. A Constituição consagrou em um dos seus artigos a obrigatoriedade de expansão das universidades pro interior. Que é que eu fiz? A Constituição Federal obriga a interiorização das universidades quando existem aquelas só na capital. não vou dar um parecer favorável? Claro que vou! Mas eu nem sei pra que foi distribuído porque eu já vim pra campanha e nunca mais tomei conhecimento do projeto.” Em 1992..

conversei com o Romeu. uma projeção da UFF. Aí ele perguntou: ‘O prefeito de lá topa’? Aí. Aluízio. que eu vou indicar a maioria da comissão […] pra eu ficar à vontade. Então. O projeto tem que ser detalhado. Depois outros governos não puderam prosseguir. Administração.. Vamos evoluir. eu liguei pro Aluísio Gama. Em 120 dias nós fechamos o projeto e. E ele respondeu: ‘Prepara que eu assino’. e digo: ‘Olha. Você é do PDT e me nomear […]então.. Ele até estranhou porque falou: ‘Mas Nova Iguaçu é do PDT.aí tem a Constituição. não iria andar’. cobrindo tudo.. 4 mil e tantos inscritos. Falei: ‘vai dar problema. as faculdades’. janeiro de 92. Aluísio. vim pelo município. eu gostaria de discutir isso. que eu presidi.. a interiorização da UFF.. O Reitor disse: ‘[…] não vamos fazer um convênio guarda-chuva inicialmente.. Eu digo: ‘Sim. 117 . Tem gente formada aqui em Direito.. Ele falou: -‘Vou te levar na Reitoria’ – foi uma audiência com o José Raimundo Martins Romeu. vinculado ao seu gabinete e com classe específica. levei o Aluísio lá.. Aí eu fiz a portaria. lançamos o edital do 1º vestibular com 3 cadeiras: Direito. E ele falou: ‘Nós temos interesse. o convênio foi extinto. Há um espaço pra gente negociar uma interiorização da UFF’? Ele falou: ‘Há. qualquer partido serve’. as cadeiras. ‘Então. nós tivemos uma universidade pública aqui. Aí eu fui. Aí marquei uma audiência... é claro’. o curso todo feito aqui no Monteiro Lobato. claro que é!’ ‘Eu já estive na universidade e ele quer nos receber lá’. mas com sede em Nova Iguaçu’. mas eu não vim reivindicar uma universidade para o PMDB. que era o reitor. na época. é. Fizemos o vestibular com 150 vagas – se eu me lembro – pra cada cadeira. eu vou fazer o seguinte. Se eu fosse ficar lá com o secretário. ele assinou. do Aluísio Gama’. Está aqui o meu projeto. a grade curricular. Ciências Contábeis.. está nos planos fazer uma parceria com a UFF pra botar uma universidade em Nova Iguaçu? É possível?’ ‘É possível. funcionando muito bem” (grifos meus). Qual o município’? Eu digo: ‘A região da Baixada Fluminense. está aqui o abaixo assinado’. em 92. não me lembro bem aí o número […] E funcionaram as 3 universidades [faculdades] aqui. Criamos uma comissão. eu vou te pedir algumas considerações: não remunerado. Administração e Ciências Contábeis sem nunca ter ido à Niterói.. seja PDT.

passivo é conjunto de dívidas e obrigações de uma pessoa ou empresa.No início de 1993. depois de anulado o primeiro pleito. o conjunto de contas que registra a origem dos recursos da empresa: capital próprio. Um novo escândalo vinculou-o à contravenção do jogo do bicho. desligando-se do partido e filiando-se ao PP. influenciando também sua decisão de não concorrer novamente. Partido Progressista Reformador. Nenhum processo foi instaurado contra ele e Jorge afirma que sua ligação com Castor de Andrade era distante – visto que conhecia apenas Anísio. Em solidariedade ao Senador.Nas entrevistas que me concedeu. admitiu o peso político dessa denúncia – e da subseqüente cobertura da imprensa – em sua derrota. e perdeu. que foi apoiado por Moreira Franco. Aniz Abraão David. 118 . Jorge Gama pouco falou a respeito da denúncia. ressaltando apenas que nada havia sido provado contra ele. Nesse mesmo ano. apreendida pelo Ministério Público. outro acontecimento marcaria a sua carreira. mas Jorge Gama não voltou a concorrer. já filiado ao PPR. No entanto. Em outras conversas e entrevistas. Nelson Carneiro disputou. irmão de Simão Sessim (deputado federal) e de Farid (atual prefeito de Nilópolis) e chefe do jogo do bicho 115 Segundo verbete do Dicionário Aurélio. financiamentos etc. onde permaneceu por menos de um ano –vinculados ao bicheiro Castor de Andrade. Em uma lista. justificou tal decisão alegando que estava com um enorme déficit – um passivo acumulado desde 1990115 – e que sua família também o pressionava para “deixar a política”. Jorge também saiu do partir e disputou as eleições de 1994 já pelo PP. a presidência regional do partido para Renato Archer (presidente da Embratel). Na primeira entrevista. entretanto. nomes de vários políticos apareceram como receptadores de doações – dentre eles também o de Simão Sessim. as eleições no estado do Rio de Janeiro foram anuladas devido a suspeitas de fraude e remarcadas para dezembro.

esta eleição foi anulada. de Fábio Raunheitti – e. Tal episódio não significou. elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu (com 184. dada a decisão do TSE quanto à anulação do pleito de outubro de 1994. Neste mesmo ano. de Desenvolvimento Urbano e Interior e de Defesa Nacional. formou-se em direito por uma faculdade particular de Valença. além da política. Mesmo minimizando os efeitos políticos da associação com o jogo do bicho em termos gerais (a partir de uma percepção nãonegativa sobre o seu papel na região). 2001). em 1977. Em 1994.640 votos contra 66. estreitou-se em 1998. quando este o convidou para a sub- 116 Nelson Bornier configura uma peça-chave para se pensar a política na Baixada a partir da década de 1990. tais como: obras na Linha Vermelha. que as portas do mundo da política fecharam-se para Jorge. a essa altura. integrou diversas comissões e defendeu projetos de interesse para a região. Como já mencionado anteriormente. Nelson reativou o hospital da Posse – ligado à UNIG.240 de Cornélio Ribeiro do PDT e 56. filiou-se ao PL (Partido Liberal) e presidiu o diretório do partido até 1989. dedicando-se. a projeção política de Jorge não se restringia aos limites territoriais da Baixada. que desconhecia a origem das camisas recebidas para a campanha. Em 1986. com votos provenientes fundamentalmente da Baixada. por intermédio de um conhecido– vindas de Nilópolis [de Anísio]. ele decidiu dedicar-se ao escritório de advocacia. Durante seu mandato. reassumiu o seu mandato. por exemplo. em 1950. situado no Centro do Rio de Janeiro. durante a gestão de Marcelo Alencar. em fevereiro de 1995. filiou-se ao PSDB (em dezembro de 1994). Diz ainda. elegeu-se deputado federal. Após o ocorrido. motivo pelo qual tal ligação repercutiu negativamente em esferas mais amplas. Em 1990. no entanto. Em 1996. de Viação e Transportes. onde 119 . A ligação com Nelson Bornier (que. Nascido no Rio de Janeiro. tomando posse na Secretaria Especial da Baixada no princípio do ano seguinte. desligando-se imediatamente depois para retomar as atividades à frente da Secretaria da Baixada. reelegeu-se pela sigla do PL com 105 mil votos (TSE). sendo uma outra realizada em novembro do mesmo ano – na qual confirmou a vitória de 3 de outubro. já era um dos nomes mais influentes da política local )116. à atividade de contador e empresário em Nova Iguaçu. mantendo assim seus vínculos com políticos profissionais e retornando ao partido de origem.563 de Arthur Messias do PT). Fez parte também da CPI que investigou irregularidades na Previdência Social e na privatização da VASP. comissões de Finanças. instalação do pólo petroquímico de Itaguaí. quando se tornou vice-presidente regional (cargo no qual permaneceu até 1993) (DHBB. A distância relativa da imagem de Jorge Gama dos estereótipos acionados para falar de política na Baixada dessa vez não se concretizou.na mesma localidade. onde prestava consultorias diversas a deputados e vereadores.

Ele é muito grato ao Nelson por seu apoio. À frente da nova secretaria. principalmente devido a problemas com a transferência de dinheiro público para o hospital vinculado à instituição de ensino deste último. Sem mandato. mas saiu derrotado. sendo eleito deputado federal com 140 mil votos . tornou-se secretário de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes em 1998. Os indícios de que os conflitos existiriam apareceram logo no reorganizou a administração e retomou o pagamento do funcionalismo público municipal.520 de Adeilson Teles do PT) (TRE/RJ). Em 2002. Em 1986. de fevereiro de 1995 ao início de 1997. Este cargo significava a possibilidade de novamente dispor dos acessos. até então.716 votos. em 27/10/2002 (p. Jorge acreditava que Mário Marques deveria ser mais independente em relação a seu antecessor. 119 Um fato ilustrativo dessa preocupação de Jorge com relação a Mário Marques foi explicitado por Pedro Cezar. filiou-se ao MDB em 1977 e foi um dos fundadores do diretório de Nova Iguaçu.” 120 . Jorge e Bornier discordavam com relação a algumas “políticas” do governo de Mário. A situação complicou-se ainda mais a partir da campanha de 2004. reelegeu-se com maioria absoluta sobre o segundo colocado (204. fundamentalmente porque o primeiro via como ingerência a atuação do ex-prefeito na administração municipal.9). Ex-deputado federal pelo PMDB. em 1989. “um misto de gratidão e admiração”119. filiou-se ao PP (Partido Popular). contra 83. Chagas Freitas. tentou a reeleição. liderado pelo então governador do Rio de Janeiro. com atrasos superiores a três meses. Esporte e Lazer no governo de Moreira Franco – e de Gustavo de Farias – que renunciou. tendo o sobrinho de Raunheitti. 118 Jorge Gama foi convidado primeiramente para assumir a Secretaria de Saúde no lugar de Gilberto Badaró em outubro de 2002. com apoio popular e político. diretamente vinculado à família Garotinho. ficando com a suplência. A notícia foi veiculada pelo Jornal O Globo. Mas com isso. a relação de Jorge com Bornier ficou abalada. mas acabou permanecendo apenas na Secretaria de governo. mas sentia-se isolado. teve a oportunidade de exercitar seu poder de mediação junto às lideranças locais. Jorge permaneceu neste cargo até receber o convite de Mário Marques para assumir a secretaria de governo de Nova Iguaçu. elegeu-se deputado estadual pelo PPB. mas sua postura era de certa submissão. que as desavenças entre Bornier e Fábio tiveram início. Em 1982. como vice-prefeito. Você chega numa secretaria e vê a foto do Nelson. ninguém sabe que ele é que é o prefeito agora. 117 O secretário da Baixada era. Ernani foi também deputado estadual. Em 1979. A partir daí. candidatou-se a uma vaga na Câmara dos Deputados. Segundo ele: “o Mário nem tirou a foto do Nelson da parede das repartições públicas. ainda no governo de Marcelo Alencar (1995-1998). No mesmo ano.645 de Sheila Gama do PDT e 28.secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes117. sua influência política no governo do sucessor devido à permanência de parte de seu secretariado na administração seguinte. Em 2000. e entre 1990-1991 – em ambos os casos porque era suplente – ocupou respectivamente a vaga dos deputados Flávio Palmier da Veiga – que se tornou Secretário de Turismo. Foi em seu mandato executivo. no Caderno Baixada. e não a dele. o PP foi incorporado ao PMDB. já pelo PMDB. em 2002118. afastou-se da prefeitura de Nova Iguaçu. no entanto. Em 2002. ameaçado de cassação. Fernando Gonçalves. em uma das entrevistas que me concedeu. Ernani Boldrim. Manteve. Advogado. que promoveu obras como o Baixada Viva e o projeto de construção da Via Light.

as discordâncias entre Mário e Bornier e. A partir daí. Não era um porta-voz autorizado. PMN. PDT. limitando-se a preparar algum material escrito – fundamentalmente o programa de governo e algumas críticas ao adversário do PT. quando Bornier deixou Jorge Gama totalmente à margem das principais decisões. PRTB. – quem. a Serla (Superintendência de rios e lagos). Com a derrota de Mário para a prefeitura de Nova Iguaçu. além de diversos projetos sociais como o pólo de distribuição de leite em pó. o afastamento deste último do dia-a-dia da campanha possibilitaram a reaproximação de Jorge com a equipe de Mário. coordenou de perto e que sempre 121 . PFL. Jorge foi ocupar novamente o cargo que já ocupara anteriormente na Secretaria de Desenvolvimento da Baixada – cujo secretário era seu “afilhado” político. PPS. PRONA e PT do B) e ‘Hora da Mudança’ (PT. A condução de todo o processo foi gerenciada pelo primeiro. PV. o ex-prefeito de Paracambi por dois mandatos e deputado estadual por três. ele esteve presente nas carreatas. PSDC. PSB e PC do B). PSDB. PHS. a Secretaria de Administração. Ia aos comícios. Jorge permaneceu à distância. nas caminhadas no centro comercial da cidade – o calçadão – inclusive na que acabou em um confronto físico direto entre os cabos eleitorais das coligações ‘Crescer sempre com Deus e o Povo’ (PP. o projeto de inclusão digital. Délio César Leal (PMDB). A Secretaria em questão configura uma importante máquina política visto que abriga a Fundação Leão XIII. de fato. PSL. PL. a Secretaria de Trabalho. Mais tarde. PSC.início da campanha. mas sem fazer uso da palavra. tendo como braço-direito Pedro Cezar manteve boa relação com Jorge. conseqüentemente. além do Detran e da Escola de Serviço Público. PTN. Durante o período da campanha. PRP. PMDB.

mas colocados no plano do narrador. “trabalhar pela região metropolitana e pela Baixada fica muito extenso e pouco produtivo. De tal perspectiva. as práticas necessárias para perpetuar-se no mundo político da Baixada remetem ao assistencialismo/ Assim que cheguei ao Rio. Jorge Gama é um dos defensores da centralização das atividades da Secretaria da Baixada exclusivamente nos municípios da região e não o formato que vem sendo adotado. Agradeci e disse que pensaria a respeito. Fui presenteada com uma camisa comemorativa da Baixada e também fui convidada a participar de alguns eventos desta comemoração. ligado ao jogo do bicho etc. além das atividades culturais para a comemoração do Dia da Baixada (30 de abril). telefonando-me em seguida para me comunicar seu novo posto120. com a necessidade de desincompatibilização de Délio Leal para disputar ou uma vaga na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro ou a de vice-governador nas eleições deste ano. 120 122 . onde também estava presente um professor do campus da UERJ na Baixada. os discursos acusatórios (corrupto. a criação de uma universidade à distância. Encontra-se atualmente envolvido com novos projetos como a criação e implantação do curso de formação política para mulheres. após ter sido avisada dos telefonemas de Jorge Gama. inclusive cogitando a possibilidade de se lançar uma revista com alguns artigos sobre a Baixada e seus “tipos”. 19/04/2006).No fim de março de 2006. Persiste a seguinte pergunta: por que Jorge Gama não tentou disputar novas eleições? Por que ainda atua como mediador se não possui mandato eletivo há mais de 15 anos? Minha opção recaiu em pensar as possíveis respostas a tais perguntas a partir de sua própria narrativa. Sendo assim. Falamos sobre a “situação política” para as eleições de 2006 e sobre as comemorações pelo dia da Baixada (30 de abril). Niterói. Devemos atuar somente nos treze municípios da região” (Jornal de Hoje. Assim que cheguei fui muito bem recebida e fiquei aproximadamente uma hora conversando com ele em sua sala. numa quarta-feira 19/04/2006. englobando também a região Metropolitana – agregando assim os municípios de Itaboraí. dirigi-me à Secretaria da Baixada para falar-lhe. Para ele. São Gonçalo e Tanguá. Jorge Gama foi indicado para assumir a Secretaria da Baixada. Antes de sair. Jorge Gama perguntou sobre a defesa de minha tese e sobre o “lançamento do livro” e disse que gostaria que eu o fizesse na Secretaria da Baixada e que a secretaria estava à minha disposição para a organização de um seminário ou qualquer evento que dissesse respeito à Baixada Fluminense.) não foram rechaçados.

Em ambos os casos. Seu projeto político foi então analisado tendo-se em vista a vocação de mediador tanto quanto a dedicação à atividade. “Eu acho – do ponto de vista dos políticos da Baixada – eles talvez ainda não tenham percebido a importância da Baixada como um todo. ainda não têm uma atuação 123 . Claro que isso daí é até a questão da sobrevivência. sua gente. eles defendem a Baixada ainda de forma isolada e cada um fazendo o seu pedacinho. por falta de recursos.clientelismo de um lado e/ou ao marketing político. No primeiro caso. Nas entrevistas. ele acredita em um possível alinhamento de forças no intuito da região conseguir unidade política para pleitear mudanças relativas ao tratamento que recebe dos governos estadual e federal. eu compreendo – concorrência eleitoral. A mediação tornou-se. essas coisas todas. Fazer da Baixada sua “terra” e a de seu “povo”. no segundo. sobretudo os parlamentares. e em outras conversas. Jorge Gama coloca-se à parte. circulando entre diferentes atores políticos. já estão entendendo mais. Desde o início de sua apresentação. Criando espaços de visibilidade. o único modo de efetivar sua permanência na política. mas eles não entenderam a necessidade de se ter uma atuação mais conjunta. foi determinante para a concepção de seu devir político. Jorge Gama sempre manifestou uma grande preocupação com a posição política da região em relação ao estado do Rio de Janeiro. mas os deputados estaduais e federais ainda não interpretaram a Baixada. política. de outro. a Baixada aparece como uma escolha. Enfatizando iniciativas como a da Associação de Prefeitos da Baixada e do consórcio de municípios na área da saúde e meio ambiente. tendo trânsito livre em diferentes esferas do poder (Executivo e Legislativo) — desde presidentes nacionais de partidos a vereadores de cidades do interior do estado etc – em uma palavra. conseguindo manter os acessos. por opção e. portanto. os prefeitos não.

na medida em que o político com maior capital simbólico for capaz de viabilizar alianças para este fim. Tal configuração. Vai lá. A Baixada aqui apresentada é multifacetada e englobada por redes políticas que se intercomunicam. mas que não liga coisa nenhuma. tomados individualmente. os projetos (Velho. via de regra. faz[em] leis. Sempre esteve muito ligado ao intrincado processo de constituição de seu partido e das mudanças pelas quais ele passou – desde o vínculo com os independentes. a aproximação com Moreira Franco e a devoção a Ulysses Guimarães. não é nada estruturante. não é nada disso”. em um trânsito constante de atores políticos que. o caráter segmentado acaba sendo enfatizado diante das realidades diversas dos distintos municípios. até a configuração mais recente. Apesar de estar mais próximo da classificação de ideológico do que de assistencialista. não me parece que essa dicotomia dê conta satisfatoriamente da trajetória de Jorge Gama. ora agrupando-se em facções rivais. e muito menos como a outra. A preocupação com a criação de um projeto coletivo é por ele manifestada frente aos conflitos e ao caráter “pouco orgânico” das lideranças da região. mas a capitação de recursos (simbólicos e econômicos) em benefício próprio. ao se moverem. com a entrada de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus.parlamentar satisfatória em direção à Baixada como região. e a associação a outros projetos não visa uma “construção coletiva”. 1994) dos atores políticos são. não é capaz de engendrar objetivos comuns que pensem a Baixada como um todo – mas ao contrário. sempre defendem a Baixada isoladamente. faz um estudo. redimensionam as forças presentes no campo político. Neste universo. ora configurando novas “alas” e dissidências. no entanto. A adesão a uma determinada facção não o impediu de galgar posições e constituir alianças diversas dentro do partido 124 . Ele próprio não se define nem como uma coisa.

1996: 183).como forma de manter as condições para sua sobrevivência política. empreguismo e clientelismo nos mais diversos contextos (fundamentalmente eleitorais) foram ilustrativas dessa atuação. A tentativa de apreender as relações políticas travadas na Baixada por intermédio da narrativa de alguns de seus atores merece algumas considerações. lidar com trajetórias implica. em termos de visibilidade nacional e regional. Mesmo não utilizando a expressão “história de vida”. através da apreensão de práticas próprias e de formas de experiência significativas. Suas ligações com chaguistas como Jorge Leite. por exemplo. e portanto dinâmica. mas o espaço e os possíveis interlocutores configuram distintos planos para a construção narrativa. Entretanto. Assim. numa fluidez relacional na qual não só o tempo. remetida a “um deslocamento linear. satisfação e críticas. unidirecional” (Bourdieu. esteve vinculada a notícias de uso político. é a partir da construção narrativa sobre eventos de uma memória da política nacional – e de suas implicações locais – que se encontram os elementos que possibilitam recompor um quadro de forças no qual os atores em questão disputam espaço. operar com a idéia de sucessão temporal dos acontecimentos pertinente a um (ou mais) ator (es). poder e cargos/ mandatos. as formulações de uma história ou de suas versões (como prefiro) são determinadas pelos discursos e transformadas pela possibilidade de recontar e reinventar. o depoimento de Jorge Gama ilumina a posteriori aspectos da trajetória de nomes importantes da política na Baixada. num mover-se constante entre diversos campos. em alguma medida. neste caso em particular. e com a própria Fundação Leão XIII. Entremeado de emoção. o universo político é conformado. decerto. 125 . Dentro dessa composição relacional. que desde o governo de Chagas Freitas.

afirmar o caráter de artefato da narrativa e. Nesse sentido. mas antes. 1989). marcando passagens. revelando assim a preocupação em apresentá-lo como um continuum coerente e conciso. A Baixada como palavra de ordem é possível a partir do entendimento sobre sua aparição centrada na análise dos processos que desencadearam sua expansão em meio ao campo político. pensados aqui como sujeitos fracionados. contribui para o condicionamento da produção desta “fala”: tanto a relacionada a uma acusação de feitiçaria quanto àquela ligada à narrativa de acontecimentos nacionais como as Diretas Já. O antropólogo. Apresentar as intrincadas relações políticas na Baixada a partir da versão de Jorge Gama não significa retirá-las de seu campo e das relações de poder aí existentes. o discurso sobre si funde-se com a história da nação. mas interligados no interior do campo social. atribuindo constância e conseqüência aos momentos selecionados. ao mesmo tempo. como o inquisidor (Ginzburg. ou seja. da Baixada. há uma lógica retrospectiva e prospectiva no relato do entrevistado que é organizada a partir de fatos significativos para si e para quem o “interroga”.Reestruturado. da cidade. surgindo como vocação. a partir da perspectiva de Jorge Gama. a percepção de que o mundo social é marcado por acontecimentos cuja sucessão no tempo não é unilinear evidencia a multiplicidade e a profusão das relações que perpassam os indivíduos. encarála como potencialmente produtora de realidade(s): da Baixada como palavra de ordem121. No entanto. O sujeito da narrativa constrói seu próprio romance. 121 126 . a justificativa de sua transformação/ conversão em ator político aparecendo como uma seqüência de proposições verdadeiras e significativas para além do âmbito de uma escolha individual e/ ou egoísta. omitindo outras.

Em uma última tentativa. além de matérias de jornais. no dia 17 de abril de 2006. profissionais e/ou de amizade). Durante mais de dois anos. a construção do capítulo baseou-se principalmente na biografia de Zito (Gramado. bem como entrevistas com pessoas próximas a ele (com vínculos de parentesco. telefonei para o gabinete da deputada estadual Andréia Zito (o que já havia feito antes sem sucesso). Zito. não foi possível entrevistar Zito. a política local e seus atores. foram também utilizadas fontes oficiais. mas não consegui encontrá-la. Também foram analisados trabalhos acadêmicos sobre a cidade. assim como documentos dos arquivos das Câmaras Municipais de Duque de Caxias. Sendo assim. Após diversas tentativas sempre frustradas. Sua redação se deu sem que eu tivesse acesso ao personagem principal. depoimentos de moradores de Duque de Caxias sobre sua administração.CAPÍTULO 3: ZITO: DA BAIXADA PARA O MUNDO Entrevistando Zito Optei por iniciar este capítulo de maneira um pouco diferente dos demais. pediu-me que ligasse mais tarde para falar com a chefe de gabinete. Liguei na hora recomendada. Pedi então a Aurélio o telefone celular de Marcela Dutra (a chefe de gabinete) para que eu pudesse contactá-la o mais 127 . Belford Roxo e Guapimirim. apesar de muita insistência. A dificuldade em conseguir contactá-lo acarretou a diversificação de possíveis entradas e a captação de dados das mais diversas fontes. e fui atendida por Aurélio que. decidi tomar sua biografia (autorizada ou encomendada?) como fonte primeira de dados a respeito de sua trajetória pessoal. Com relação à sua vida política. muito solícito. 1999) e em entrevistas realizadas com alguns de seus secretários (em seu segundo mandato como prefeito de Duque de Caxias) e com membros da família Camilo dos Santos.

Respondi prontamente que. carreatas. Aurélio. em seu gabinete. Durante esses mais de três anos. explicando que se tratava de uma pesquisa em fase de redação final. Marcela Dutra perguntou se a entrevista seria por telefone e se eu desejava falar apenas com Andréia ou se também gostaria de falar com Zito. dos mais variados tipos. eu lhe telefonasse para confirmar o encontro. no entanto. Uma vez obtido o número de telefone. então. meus telefones para. explicando no que consistia a pesquisa. explicando que já havia tentado entrevistá-los sem sucesso. que agendou o dia e o horário para as duas entrevistas. às 10 horas. então. às 16 horas. eu falava de meu telefone residencial. reuniões. na ocasião. agendar e confirmar a data e o local das entrevistas. conversas informais. Forneci. Como combinado. carreatas. constituíam momentos particularmente interessantes. Como. liguei para o telefone do gabinete. No dia seguinte. queria falar com os dois. enfatizando a minha área de atuação e minhas filiações institucionais (Antropologia. liguei imediatamente. Museu Nacional/ UFRJ e UFU). se possível. no prédio anexo à ALERJ. entrevistas. marcando a entrevista para quinta-feira. A princípio. As entrevistas. Marcela telefonou-me. caminhadas. Fernando. mencionei tratar-se de minha tese de doutoramento e da redação de um livro sobre a política na Baixada. com Andréia.rápido possível. a 128 . Ora como anônima – como mais uma – ora como pesquisadora. O dia 26 de abril de 2006 certamente foi o mais tenso (talvez porque o mais esperado) de toda a minha pesquisa de campo. Todos eles eram repletos de rituais. almoços. mas não consegui encontrá-la. acompanhando políticos ou entrevistando/ conversando com moradores/ eleitores. em Duque de Caxias. O encontro com Zito seria em seu escritório. uma vez no Rio. posteriormente. forneceu-me outro número no qual finalmente conseguiria encontrar Marcela. em Uberlândia. Esta passou-me diretamente para o secretário pessoal de Zito. showmícios e reuniões. participei de diversos eventos: jantares. 20 de abril e solicitando que. Durante as caminhadas.

minha presença (apesar de nunca deixar de contar como um dos elementos em jogo) podia ser diluída ou atenuada e não se colocar como peça-chave nessas situações. Nas entrevistas, por sua vez, o pesquisador é parte fundamental do ritual, tendo um papel ativo e explícito no processo de construção da própria interação. Trata-se de um diálogo, no qual as intervenções marcam lugares específicos para cada ator envolvido. Apesar de todas elas terem marcado momentos singulares e excepcionais para a elaboração desta pesquisa, a entrevista com Zito me fez confrontar todas as imagens e pré-noções que eu mesma já havia construído acerca de sua persona pública. Cheguei no escritório, na rua Prefeito Carlos Lacerda, em Duque de Caxias, às nove e meia da manhã. O prédio onde ele está situado é estritamente comercial e localiza-se ao lado da Câmara Municipal da cidade, próximo à praça central. Dirigi-me à sala que fica no sétimo andar. Para entrar ali, há um interfone por meio do qual a secretária, Simone, monitora a entrada e a saída de pessoas. Na recepção, há também algumas poltronas que comportam cerca de oito pessoas. Quando cheguei, dois homens já aguardavam para falar com Zito. Após minha identificação, Simone (a secretária) avisou a Lucas (um assessor) que eu havia chegado. Ele imediatamente veio falar-me, pedindo que eu esperasse alguns minutos. Em seguida, entraram os dois homens que haviam chegado antes de mim. Esperei por cerca de trinta minutos. Enquanto aguardava, as pessoas não paravam de chegar ao escritório e eu aproveitava para prestar atenção nas conversas que elas mantinham sobre política e a atual administração municipal122.

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Dentre os relatos que ouvi, o que narro a seguir chamou particularmente minha atenção. Uma mulher negra, apelidada pela secretária de “Luana Piovani”, reclamava sobre a forma como vinha sendo tratada pela equipe do atual prefeito. Tentando entender do que se tratava, puxei conversa. Ela explicou-me, então, que a atual administração estaria promovendo uma “caça às bruxas” e que todas as pessoas ligadas ao antigo prefeito estariam “com um X nas costas”. Tal moça cursa faculdade de serviço social e trabalha como “parceira” em um projeto social, não sendo funcionária da prefeitura. Alegando que vinha sendo discriminada

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Fui recebida, finalmente. Na sala, que deve ter aproximadamente 12 metros quadrados, estavam Zito e Dr. Moretti, ex-secretário de governo de Waldir Zito na prefeitura de Belford Roxo. Ao que tudo indica, aquela era a sala de Moretti, pois este estava sentado atrás de uma escrivaninha, de costas para uma grande janela — de onde se via o viaduto e a linha férrea — enquanto Zito encontrava-se em uma das cadeiras à sua frente, onde também me sentei. As imagens do homem arrogante, quase rude, de voz imponente e estatura marcante propagadas por fontes variadas – moradores, políticos, jornalistas etc. – foram reavaliadas no mesmo instante em que pisei naquela sala. Ao entrar, fiquei frente a frente com um homem modestamente vestido (tênis, calça jeans e camisa de malha verde) que não ocupava a cadeira principal e colocava-se como um “convidado”. Este homem levantou-se e cumprimentou-me respeitosamente, pedindo que eu me sentasse a seu lado. Sua voz imponente, entretanto, contrastava com a postura curvada e com o olhar que me fitava por não mais que alguns poucos segundos, sempre dirigido ao chão, como se estivesse fechado em si mesmo. Após as apresentações (Zito apresentou-me a Dr Moretti, que permaneceu conosco durante toda a entrevista) e alguns minutos de conversa sobre o meu trabalho, perguntei se poderia gravar a entrevista.A autorização foi imediata. Iniciei com uma pergunta geral: “Como foi sua entrada na vida política” ? A resposta foi sintética. Um breve resumo de cerca de 15 minutos, sem mencionar partidos ou nomes de aliados e adversários, centrando-se em sua origem familiar “humilde” — filho de “pais analfabetos” que chegou a ser vereador, deputado e prefeito.
e boicotada, afirmava sua vinculação a Zito dizendo não ter um X nas costas como os outros, e sim um Z, de Zito.

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Fiz então uma nova intervenção: “O senhor começou sua vida pública no PTR, um partido pequeno, e depois integrou vários outros. Poderia falar um pouco mais sobre estas ‘passagens’” ? Obtive a seguinte resposta: “Você está sabendo bem da minha vida, né?!” (risos). Em seguida, Zito reiniciou seu relato contando em detalhes os diversos momentos de sua trajetória que serão agora explorados ao longo deste capítulo, revisitado após as entrevistas123.

Os Caminhos Que Levam À Baixada José Camilo dos Santos Filho – Zito – nascido em 15 de outubro de 1952, é o segundo dos três filhos de José Camilo (conhecido como Seu Zé) e de Dona Luzia. Pernambucanos, Seu Zé e Dona Luzia deixaram sua cidade natal e foram para Paulista, cidade da zona da Mata, em busca de um emprego na indústria têxtil Companhia Paulista de Tecidos que sustentasse a família inteira124. Após anos e anos de trabalho, Seu Zé foi demitido por testemunhar a favor de um ex-funcionário da empresa, um conhecido seu que moveu um processo trabalhista contra a companhia. A partir daí, a família precisaria prover seu sustento da
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A entrevista com a deputada Andréia foi marcada em seu gabinete, no prédio anexo à ALERJ, na sala 407. Cheguei às 15hs50 e fui recebida por Aurélio, com quem já havia falado algumas vezes por telefone e que me forneceu o telefone de Marize. Logo na entrada do gabinete, há uma pequena ante-sala com duas cadeiras, separada da parte interior na qual se encontram as mesas de trabalho do staff da deputada, além de sua sala e a de sua chefe de gabinete. Há também uma pequena copa com bebedouro, máquina de café, geladeira e pia. O espaço não é grande, mas bem organizado por divisórias. Após esperar por alguns minutos, fui atendida por Marize que me levou à sua sala onde aguardei um pouco mais conversando com ela. A deputada me recebeu por volta das 16hs30. Conversamos sobre a minha pesquisa e Marize fez algumas perguntas sobre o trabalho: como havia começado, quais os meus interesses etc. A entrevista teve aproximadamente quarenta minutos de duração. Após a conclusão, ainda conversamos por cerca de vinte minutos sobre Zito e as “imagens” divulgadas a seu respeito. Marize indagou-me novamente, agora sobre minha impressão sobre a deputada e seu pai. Discorremos sobre sua visão enquanto não-moradora da Baixada e sobre o tratamento da imprensa aos políticos da região. Ao final, Marize perguntou à deputada se poderia me fazer um convite e ela concordou. Propuseram que em caso de publicação da tese, fizéssemos o lançamento na ALERJ, na tentativa de aproximar “a casa ao meio acadêmico”. 124 Consultar, por exemplo, os trabalhos de José Sérgio Leite Lopes (1979 e 1988) e Maria Rosilene Alvim (1979).

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forma que lhe fosse possível. Teve início, assim, a ciranda de empregos e ocupações pelas quais Seu Zé passaria. Tentou de tudo um pouco. A princípio, montou uma “venda” no quintal de casa, na qual comercializava desde bebidas até frutas e mantimentos. Depois de algum tempo, no entanto, a empreitada não deu certo devido à dificuldade em receber pelas mercadorias compradas “fiado” — na maior parte dos casos por amigos ou pessoas próximas, em situação semelhante ou pior do que a da família Camilo dos Santos. O esgotamento de todas as alternativas da família fez Seu Zé decidir “tentar a vida” em outro lugar. Saíram de Paulista em fevereiro de 1954, tendo como destino o Rio de Janeiro e a busca do “sonho da cidade grande”. Na ocasião, a filha Maria José tinha 4 anos e Zito, pouco mais de um ano de idade. O mito fundador da trajetória de Zito é reforçado tanto na narrativa de seu irmão Waldir, quanto em sua biografia (Gramado, 1999). Essa construção o transforma em um personagem com um passado em comum, um passado partilhado com muitos moradores da Baixada: o de migrante nordestino. A viagem para o Rio de Janeiro corrobora a saga nordestina: o pau-de-arara, a fome, a sede, o medo e, às vezes, até mesmo a morte. Há uma espécie de ilíada conferindo um desencadear espetacular aos acontecimentos (no sentido mais amplo, de não-ordinário), envoltos em dramas pessoais que, no entanto, marcam ligações com um todo maior — no caso, o percurso transcorrido por muitos migrantes de diversas localidades das regiões Norte e Nordeste do país. Esses nordestinos, saídos de suas cidades-natais, deixam para trás familiares, amigos, enfim, tudo o que possuem, em troca do sonho de uma “outra vida”. No caminho, a poeira, o sol, a chuva e a sensação ambígua da esperança e do medo do porvir. A designação comum a tantos que narram suas histórias a partir desses fatos, ricos em incidentes e acontecimentos, é apenas um dos aspectos que

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unem pessoas diferentes e lugares distantes. Mas se a viagem, por mais penosa que possa ser, é carregada de desejo e confiança, a chegada pode trazer à tona uma realidade nem sempre parecida com as imagens idealizadas. O acordar pode ser abrupto, um despertar quase cruel. O relato do caminhão chegando ao Rio de Janeiro, desembarcando todas aquelas pessoas — algumas com rumos já traçados, outras ainda não – marca a expatriação, mas também formas de integração. Alguns lugares constituíam destinos certos. É o caso da Baixada Fluminense que aparece, novamente, como um destino partilhado. Sendo assim, a chegada ao recém emancipado município de Duque de Caxias reintegrou a família de Zito, a partir dos laços de parentesco originais. Os Camilo dos Santos foram acolhidos na casa de um parente de Seu Zé que tinha lhe arrumado um emprego em uma empresa de ônibus. Pouco tempo depois, no entanto, a convivência na pequena casa da rua Itatiaia, em Duque de Caxias, tornava-se complicada devido ao grande número de pessoas dividindo um espaço exíguo. A mudança para um lugar exclusivo da família deu-se ainda naquele mesmo ano, quando Seu Zé optou pela permanência no município, alugando um cômodo na rua Itacolomi. Diante das possibilidades de tal segmento social, a Baixada Fluminense aparece como o espaço privilegiado para moradia. As razões são variadas. Desde a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro e, portanto, com o local de trabalho, até a possibilidade de se conseguir ocupar ou adquirir um terreno/ lote ou casa125. O problema da habitação é então recolocado, agora sob a ótica do morador e não a do político como anteriormente abordado (capítulo 2). Da perspectiva dos indivíduos que buscavam a “casa própria”, a Baixada foi

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Soares (1962), Abreu (1988), Souza (1992), Costa (1999).

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ao mesmo tempo eldorado e lugar de expiação. Representava a possibilidade da crença em um futuro melhor, com terrenos baratos e adequados aos restritos orçamentos dos membros das camadas populares. Mas também encerrava inúmeras outras relações: de abandono, de dominação e de submissão. Se por um lado tornava possível o surgimento do selfmade man, por outro mantinha os moradores sob o jugo de práticas políticas coronelistas e clientelistas, quase invariavelmente associadas à violência (Ferreira, op. cit.; Leal, op. cit., Alves, 1991, 1999 e 2003). Em nosso país, a estrutura latifundiária favoreceu a transfiguração do poder público por meio dos usos (e abusos) do poder privado, ancorada no poder político que tinha como contexto a profunda desigualdade da distribuição de renda e de terra, criando vínculos de obrigação e de compromisso entre o “coronel” e a população a ele submetida. O coronelismo funcionou então como “uma forma específica do poder político brasileiro que floresceu durante a Primeira República, e cujas raízes remontavam ao Império; já então os municípios eram feudos políticos que se transmitiam por herança não configurada legalmente, mas que existia de maneira informal” (Queirós, 1976:165). Grosso modo, o mandonismo local operaria uma diferenciação de poder ao colocar em cena a figura do chefe político, impondo a premência do estabelecimento de uma relação com o “coronel” para o funcionamento e a manutenção do referido sistema
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. Este último oferecia o

eleitorado, enquanto o chefe político, os serviços públicos e o fortalecimento de seu poder privado. Tal estrutura, entretanto, vai se enfraquecendo com o crescimento urbano e a industrialização, responsáveis pela reconfiguração das relações de poder tradicionais. Essa alteração no panorama político refletiu nos primeiros anos da família Camilo dos Santos em
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Ver, também, a este respeito, o artigo de Castro Faria (1999) sobre poder local e municipalismo, no qual enfatiza a centralidade do trabalho de Oliveira Vianna (1920), Populações Meridionais do Brasil: História, organização, psicologia, para se pensar em tais questões.

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Duque de Caxias, correspondendo a um período de agitação e conflitos (Grynszpan, 1987). Mesmo ausentes da biografia de Zito e dos relatos de Waldir, os saques e as revoltas camponesas representaram um levante popular inédito na região e marcaram a história local (idem)127. Desde seu início, a trajetória de Zito evidencia a diversidade de códigos culturais e campos de possibilidades em jogo. A chegada ao Rio de Janeiro ainda bebê, com pouco mais de um ano de idade, tendo viajado por quase oito dias em um caminhão com mais de 40 pessoas foi o começo de tudo. A infância foi marcada pela dificuldade financeira, a questão da moradia constituindo sempre um grande problema — a família passou por seis endereços diferentes, desde o cômodo da rua Itacolomi, até conseguir adquirir o terreno onde finalmente construiu a casa própria. Tal terreno foi comprado na rua Ipanema, no bairro de Copacabana, em Duque de Caxias, em 1957, antes do nascimento de Waldir, o caçula e o único filho a nascer no Rio de Janeiro. O lote – como os demais oriundos do retalhamento das grandes áreas destinadas às culturas agrícolas como, por exemplo, a citricultura – ficava em uma rua sem calçamento, sem rede de esgoto e sem luz, como a maioria das ruas do município nessa ocasião. A especulação imobiliária somada ao descaso com que o poder público lidava com a problemática da moradia na Baixada Fluminense definiam o panorama encontrado pelas famílias de migrantes que ali tentaram fixar-se, fugidos da miséria da cidade-natal, da falta de oportunidades de trabalho ou das favelas cariocas. Desde a falta de infra-estrutura básica até loteamentos irregulares, as questões relativas à terra e à casa própria foram tomando vulto e, dessa forma, capitalizando os discursos políticos que visavam arregimentar os
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Consultar também Torres e Menezes (1987).

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constituiu um exemplo do uso dos estereótipos relativos a alguns tipos sociais para falar da região da Baixada: o bicheiro. mãe e filharada. “A gente tinha uma coisa na mente: a casa própria. ainda. uma sacaria ganhando pouco — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — e.. né”? (D. . representada pela atriz Suzana Vieira. a compra e/ ou ocupação dos lotes deu início ao processo de expansão da cidade (e da região) com a ampliação da construção de imóveis residenciais129. conseguiu um terreno barato — tendo. o baixadense (como sinônimo de nordestino pobre) e a mulher nordestina. por exemplo. mas pelo menos não pagamo(s) aluguel pra ninguém. os artigos organizados por Valladares (1980) e o trabalho de Borges (2003). 136 . ao mesmo tempo. A figura materna (e o papel da mulher numa “cultura nordestina”130) é ressaltada como personagem-chave para a concretização do sonho da casa própria. 55 anos. inúmeros problemas para a sua legalização. morar de aluguel e ter de sustentar mulher. como tantos outros.votos daquela (grande) parcela da população128. a gente não conseguiu acaba(r) ela. neste caso. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o 128 Entre os trabalhos recentes sobre o tema. né? Isso ninguém pode tirar da gente. Maria do Carmo. 129 Sobre o processo de ocupação e desenvolvimento da Baixada Fluminense. Foi Dona Luzia quem teria “corrido atrás” do terreno e mobilizado a família para tal empreendimento. por fim. A casa própria surge como valor e fonte de segurança frente às incertezas do “lugar desconhecido” e das parcas possibilidades financeiras familiares. vindo de onde eu vim e ter que encarar. Até hoje. I. É dinheiro jogado fora. “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente. Era em suas mãos que Seu Zé entregava o pagamento e era sua a responsabilidade de zelar pelas economias da família. chegar aqui no Rio. que era muito pobre. da Rede Globo de televisão. entre outros. Apesar das dificuldades. ao mesmo tempo. consultar. 130 A novela “Senhora do Destino”. ver capítulo 1.. O terreno foi comprado graças aos esforços da mãe que procurou em diversas imobiliárias e. moradora de Duque de Caxias). Pensa bem: chegar.

nos feriados e fins de semana”. tendo também um potencial mercantil (podendo ser vendida ou alugada) – além da tendência observada neste segmento populacional de se construir no mesmo local de residência. em nota de rodapé. contava com uma rede de solidariedade fundada nos laços de parentesco.23). explica a categoria autoconstrução como “o processo através do qual o proprietário constrói sua casa sozinho ou auxiliado por amigos e familiares […] nos seus horários de folga do trabalho remunerado. uma “venda” ou uma mercearia. op. 2001). Além da empreitada privada da construção da casa própria. O trabalho na Garagem Bom Retiro durante o dia era seguido pela construção da casa. principalmente os do chefe da família. A dupla jornada marcava os dias dos Camilo dos Santos. natural de Pernambuco e morador do Morro da Cocada. ao afirmar que nenhum dos entrevistados pretendia. reapropriada pelos moradores que elaboram um modo de atuação para tentar converter o abandono e o descaso — com a falta de aparatos coletivos e de infra-estrutura — em soluções imediatas. mas também nos novos laços adquiridos: os de vizinhança131. assim como grande parte dos moradores da região. 137 . para as vias públicas. cit. A autora não discute o valor afetivo e simbólico da casa própria. então. mas responsabilidade do poder público — é. No artigo em questão. Maricato (1976) e Lima (1980). a autora analisa as motivações para escolha da casa própria além das alternativas adotadas para prover os recursos necessários à construção. para a qual contava com a ajuda dos filhos e de Dona Luzia. A rua — lugar de todos. 131 Ver. vender ou alugar a casa. p. um lugar para o trabalho. sendo esta apenas uma possibilidade em caso de real necessidade. mas deixa entrever esta questão. no momento da pesquisa. a este respeito. os moradores da Baixada têm que enfrentar inúmeros outros problemas. A autoconstrução foi o modelo (possível) adotado pela família que. principalmente. Outro questão por ela destacada refere-se ao fato de que a casa própria não teria apenas um valor de uso. como uma loja. “O morador entrará em cena como construtor e mantenedor precário dos equipamentos urbanos necessários às mínimas condições de salubridade e conforto” (Monteiro. A maneira pela qual eles conseguem lidar com adversidades e privações do cotidiano consiste em estender tal padrão de resolução privada para fora de suas casas. Lima (1980). em Belford Roxo apud Monteiro.barracão” (entrevista com Clenio de Lima Santos. portanto.

adquirindo uma gramática pautada na ação como meio e fim. natural do interior do Rio de Janeiro. só quando tem política. Monteiro aponta a criação das redes de resolução de problemas práticos como mais do que uma resposta ao poder público: como um sistema que dá sentido à vivência desses moradores. Fundamentalmente preocupado em repudiar as alegações de alienados dirigidas aos moradores da Baixada frente à não sistematização da reivindicação como ação fundadora de sua cidadania (a reivindicação seria uma “besteira”). porque. A prefeitura daqui só faz obra no centro ou no bairro onde mora(m) os parentes do prefeito.A partir da categoria rede de resolução de problemas práticos132 — que nos possibilita apreender a realidade do morador da Baixada assim como sua relação com a política e os políticos locais — as noções de escassez e precariedade são re-significadas. Acho também que a gente não pode reclamar muito. morador do bairro Prata em Belford Roxo apud Monteiro. a construção das identidades na região respeita a “situação desvantajosa”.24-25). na verdade. 138 .26-27. exprimindo suas idéias sobre o mundo e sobre o lugar nele ocupado. Apoiando-se no entendimento da ideologia como sistema cultural (Geertz.. 1989). eles só aparece(m) […] fazer obra aqui. pp. Até hoje. a gente nem existe pra eles: isto aqui era um loteamento ilegal e ninguém paga imposto nenhum. A fala dos entrevistados ilustra exemplarmente esta questão: “Não foi somente na época que eu vim pra cá que a prefeitura não se interessa(va) por isso aqui. pp. o autor adota o conceito para pensar as construções ideológicas das camadas subalternas — para além da imposição das classes superiores — sobre a própria prática cotidiana da política. Até hoje. não se paga nada pra eles” (Guilherme Antônio Novaes. a “não-possibilidade de atrair a atenção do poder público para si” para pensar a constituição de ideologias e de uma cultura política própria (“cultura política baixadense”). aposentado do setor químico. não. 132 133 Idem Ibidem. Conforme sugere Monteiro133..

Se a gente não faz. fica aí. os vizinhos. Eu me orgulho disso. não. aposentado. comerciário. morador da Posse. Os filhos ajuda(m). Foi besteira reclamar e a gente comprou os bocais e foi roubando luz da Light e colocando luz em cada poste" (Fabiano Queiroz. nadinha. moradora da Palhada. já no século XX. A característica primeira de uma ocupação a partir do crescimento e urbanização da região. mas também como valor social e elemento constitutivo dos processos de identificação locais. cabeleireira.. 33 anos. Até hoje. é só dá (sic) uma chuva que inunda tudo. Senão. jogado” [sobre os problemas do bairro. eu faço” (entrevista realizada em 2004. Um ethos do trabalho é aqui acionado. “O destino do pobre é o trabalho.29) “Todo mundo trabalha um pouco."[…] você deve ter visto que não temos luz nessa rua.. Adianta reclamar? (Fernando Matos. morador do Lote XV em Belford Roxo. morador do bairro Barro Vermelho em Belford Roxo. ibidem.. "Água é a mesma coisa.. A CEDAE nunca veio aqui legalizar e a gente vai gastando sem pagar. natural de Duque de Caxias. bairro de Nova Iguaçu). p. p. durante o período eleitoral. Não tem moleza aqui. político. mesmo. vizinho. Uma leitura da composição de processos de identificação pela oposição 139 .. apesar da gente pagar todo mês iluminação pública na conta de luz. 67 anos. O trabalho aparece como solução para os problemas. bairro de Nova Iguaçu). Todo mundo aqui tem porque pagou para uns cara(s) furar(em) o cano da adutora que passa na rua de trás. Nunca pedi nada pra ninguém. tem que faze(r). Não dá pra ninguém ficar parado. Nada. com W.29). da cidade e a ação dos políticos] (entrevista realizada em 2003 com A. sem que isso signifique uma característica exclusiva dos membros de camadas populares.. idem. foi a presença maciça de trabalhadores de camadas populares.

Além da real necessidade de mão de obra. transformando-se em alguns momentos na principal fonte de renda da família. a diferenciação pode ser definida pela confrontação desses “tipos ideais”. introjetado como desviante” (Barreira. em outros. Vendia-se de tudo. enquanto Seu Zé trabalhava no laboratório Monteiro Lázaro (em Vila Isabel. 134 Sobre a relação entre os tipos “trabalhador” e “bandido” para a construção de identidades entre membros de camadas populares ver. mantinha os meninos ocupados e “longe dos problemas”. o trabalho tem um lugar de destaque. Nos discursos da família Camilo dos Santos. por exemplo. O estabelecimento funcionou por mais de vinte anos. normalizador do comportamento. durante os finais de semana. ao mesmo tempo. Zaluar (1985). A ajuda deles era fundamental também para complementar o orçamento familiar. no qual o trabalho é fortemente enfatizado em sua narrativa e opera como um “elemento legalizador e. Com a experiência acumulada desde os tempos de Pernambuco.trabalhador versus bandido seria por demais simplificadora da realidade social que encontramos na Baixada134. 1998:105). com a obra ainda em andamento. O lugar tornou-se ponto de referência. poderíamos utilizar a conjunção aditiva e acumular papéis — como no caso do justiceiro Miranda. sendo recodificado (na categoria trabalho social) e transformado por Zito. 140 . Todos os membros desta família aprenderam desde muito cedo a importância do trabalho. Se em alguns contextos. tendo Dona Luzia principalmente — mas também as crianças — à frente do negócio (“birosca”) durante o dia. A “tendinha” — modelo de pequeno comércio realizado no próprio terreno da casa e já adotado pela família em Paulista — começou a funcionar em 1958. Seu Zé logo percebeu a escassez desse tipo de comércio na nova localidade e a demanda da população do bairro por algo que suprisse suas necessidades mais imediatas. Seu Zé sempre levava os filhos para a barraca que montava na feira. zona Norte do Rio de Janeiro).

Foi a partir da venda das pipas que os irmãos deram início à uma relação de extrema cumplicidade que se estenderia também à vida política. Zito nos é apresentado como alguém que não valorizava o estudo como forma de ascensão social. Waldir era apresentado na biografia de Zito como o irmão caçula. cit. Estudavam em escola pública e auxiliavam no trabalho preferencialmente nos finais de semana. Zito conseguiu juntar algum dinheiro — até a chegada do inverno que representava uma queda no movimento. ao longo de toda sua biografia. fazendo pequenos serviços. principalmente. Inicialmente sozinho e depois com a ajuda de amigos e do irmão. op. mas sempre encontrava tempo para jogar futebol e.:108). no “ganhar dinheiro”.A educação dos filhos era prioridade do casal que não queria que os meninos fossem “analfabetos como eles”. de “mudar de vida”. a única maneira de “crescer”. inaugurada durante o governo de Carlos Lacerda. “fofoqueiro” (p. Ganhava um bom dinheiro” (Zito apud Gramado. “preguiçoso”. pela partilha e pela amizade. diferenciando-se dos pais que tinham a educação como única via de mobilidade possível para os filhos. um ethos do trabalho vai constituir uma marca identitária forte. Começou a trabalhar como faztudo: carregando areia. Nesse sentido. No entanto. Se até este episódio. 141 . devido à diminuição do número de freqüentadores do parque. Zito via no esforço individual.48) e a relação entre os dois ainda não era marcada pela proximidade. “Era uma verdadeira aventura […] Saíamos de casa de manhã bem cedo e só voltávamos à noite. o trabalho em parceria é tido como o veículo desta união. para fazer “uns bicos”. Seu primeiro empreendimento autônomo consistiu na confecção e venda de pipas na feira livre do Aterro do Flamengo. Ele entrou e saiu de alguns colégios (todos públicos). permeando todo o discurso sobre si construído na biografia e a composição de sua persona política.

À frente da “tendinha” foi responsável por sua reorganização e transformação em loja. sempre conseguia um jeito de arrumar “um dinheiro extra”. no entanto. é marcante a referência constante aos bens materiais adquiridos ao longo de sua trajetória. reestruturando o lugar e fazendo obras de expansão. decidiu deixar o emprego que o pai lhe havia arrumado — ainda na juventude. não havendo qualquer menção à prestação de assistência à população do bairro. por exemplo) ou transportando água para os moradores de seu bairro e de bairros vizinhos em sua carroça. Aos 25 anos. a moto. Nessa época. A carroça. a televisão. uma “meiaágua”. Zito estava sempre envolvido em atividades que lhe rendessem algum lucro. 142 . então. o carro etc. — aspecto central de sua persona pública. Zito acabou. A falta de recursos do bairro era por ele convertida em oportunidades e a “independência” (leia-se: saída da casa e da jurisdição paterna) chegou cedo. O dinheiro de suas economias e da rescisão trabalhista foi investido na abertura e legalização da firma que. não foi pra frente. fosse por meio da confecção de pipas que ele próprio vendia nas feiras livres no Rio de Janeiro (no Aterro do Flamengo. O espírito empreendedor configuraria a primeira delas. Associado a um amigo formado em química. outra moto. aos 17 anos. na Monteiro Lázaro — e tornar-se seu próprio patrão. Sua casa foi construída nos fundos do terreno de seus pais. Interessava-lhe apenas “ganhar dinheiro”135. No ano 135 Na biografia de Zito. seus “serviços” eram empreendimentos exclusivamente particulares. abriu um laboratório na mesma rua em que morava. A partir destes episódios são elaboradas as características que o transformariam no selfmade man. a geladeira.Com 15 anos. sendo enfatizados como fatores de distinção com relação aos “colegas de bairro” e ao próprio irmão. Zito foi empregado em uma estamparia. Ainda assim. quando se casou. Tais bens parecem simbolizar as conquistas e a própria ascensão social de Zito. indo trabalhar com o pai na “tendinha” da família. e Andréia nasceu no ano seguinte.

cit. os comerciantes tinham que pagar uma taxa. obrigatória. alcançaria. agora. Por outro lado. dando os primeiros contornos no homem que se tornaria um líder comunitário. inclusive) enquanto “homem de bem”. Enfrentou os bandidos. op. um episódio ali relatado vai de 143 narradas como revanches da época de criança — . um novo patamar. Em um dos episódios narrados em sua biografia. O “pedágio” era uma das formas de extorsão habitualmente realizadas: para carregar ou descarregar a mercadoria ou para entregá-la em outros bairros. que via nele uma pessoa que não admitia injustiças. Zito rebelou-se e não aceitou fazer parte desse sistema local. à essa altura já aposentado. entretanto. A fama de “valente” — que teria começado ainda na juventude com as brigas de rua. em larga medida. A primeira providência para resolver os impasses era sempre uma boa conversa. O pagamento por “proteção” era uma prática comum na região e. inaugurou uma outra no bairro Jaqueira e Seu Zé. gravemente ferido pelos bandidos locais. mas se preciso fosse. “[Zito] Não deixava de resolver seus problemas com qualquer um e começou a ser respeitado no bairro.seguinte. Mais pela imposição da própria vizinhança. sua postura de enfrentamento lhe rendeu. chegando inclusive a ir “tomar satisfações”. Indícios Da Violência Como Marca Os problemas com a criminalidade local começaram a aparecer e a postura de Zito foi distinta da dos demais comerciantes. ficou responsável pela loja da rua Ipanema. alguns prejuízos e a agressão a um de seus funcionários.:116/117). Zito não pestanejava em utilizar os punhos para se impor” (Gramado. Nesta narrativa são claramente ressaltadas sua coragem e disposição para o embate (físico.

primordialmente agrário (mas não exclusivamente). em 1985. indo.encontro a relatos de moradores sobre a relação de Zito com a violência e o banditismo locais. na Guarda Municipal de Duque de Caxias.122). Laureano. Zito já conquistara relativa ascensão. Segundo Gramado (p. É a partir de tal atributo em particular e 144 . O primeiro deles. então. no entanto — a morte de duas meninas próximo ao bar — levou os irmãos a mudarem de ponto. O tom. Waldir. Algumas versões apresentavam Zito como “mancomunado” com os bandidos e. A esta altura. Pouco depois. p. especificamente da nordestina”. o pistoleiro é um “tipo lendário da sociedade brasileira. ele teria conseguido adquirir alguns pontos comerciais de pessoas que preferiram fugir da insegurança a enfrentar a criminalidade. Entre fracassos e novos negócios. o Bar e Mercearia Compre Bem. obrigando-os a venderem seus pontos e saírem da região.10). no entanto. portanto. tornando-se proprietário de alguns estabelecimentos comerciais — desde mercearias e lanchonetes até bares e boites — mas a sociedade com o irmão foi rompida depois da falência de um deles — e retomada algum tempo depois. para a Praça Dr. ele ingressou. foi em sociedade com o irmão. cit. Mas foi somente a partir de sua entrada para a política que à sua fama de “valente” somou-se a de “justiceiro” ou “matador”. compraram um galpão na rua Copacabana onde abriram o Zitu’s Bar. A essa altura. era outro. usurpando os comerciantes. Zito já havia conseguido ampliar seu patrimônio e começava a explorar um outro tipo de estabelecimento: os bares/ botequins. contando com shows de música ao vivo e serviço de bar. Um trágico incidente. sendo estampado nos cancioneiros. na história oral e em relatos jornalísticos. nos romances. Em algumas das entrevistas que realizei com moradores. Tal personagem povoa o imaginário social. tal episódio foi mencionado. Conforme Barreira (op.

mais tarde. pelo controle exercido recentemente por traficantes e pela atuação comprometida do aparelho judiciário que. consultar Barreira (op. cit. também abordados nos trabalhos de Peristiany (1971). nos dá toda a dimensão da tragédia das milhares de pessoas cuja única referência de segurança pública foi dada pela atuação dos esquadrões da morte. a referência à “cultura nordestina” (p. dos jagunços. pelo menos. Souza. que se estabelecem as maiores ambigüidades desta realidade na qual se insere a Baixada. Alves. op. eleitos a partir da notoriedade adquirida enquanto matadores. 2000). 1996).) e Freitas (2003). empresários e policiais (Benevides. em mais de 90% dos casos de homicídios não consegue identificar a autoria dos crimes nem constituir processo (Soares. por exemplo.da composição desse personagem que serão feitas algumas considerações relativas às “falas” sobre Zito e sobre a violência política. Se os problemas estruturais e o retorno à democracia são levantados como questões-chave para se pensar a violência e o aumento da criminalidade no Brasil (Peralva. dos coronéis. Conforme tratado no primeiro capítulo. 136 Sobre a relação entre uma “cultura nordestina” e práticas violentas. A violência do cangaço. 137 Tais discursos remetem à dimensão dos valores sociais. políticos e fazendeiros e.12) é também acionada — tanto nos discursos nativos quanto em trabalhos acadêmicos — quando se trata da violência na Baixada136. 1997). a região foi palco de diversos episódios de violência e esteve à mercê de sua própria sorte. assim como os de Marques (1999) e Villela (1999). Já nos trabalhos relacionados à Baixada ver. a honra e a lealdade. Grynszpan. dos grileiros. 1990b. dos posseiros faz parte da história local desde o século XIX137.. Pitt-Rivers (1977). Beloch (1986). assim como Herzfeld (1988) sobre honra mediterrânea. entretanto. O descaso do poder público implicou na centralização do poder e da força nas mãos dos poderosos locais — nesse caso.cit. 145 . políticos. A trajetória política de vários membros de grupos de extermínio. É no campo político. 1983. Peristiany e Pitt-Rivers (1992). tais como a masculinidade.

enfatizando os pistoleiros — alguns deles tendo sido entrevistados.. sendo vários os casos de homicídios que sequer deram origem a inquéritos policiais (Relatório final da CPI. cometidos em movimentadas vias públicas (Barreira. diretamente relacionada a crimes políticos. onde a atuação de pistoleiros e os “crimes por encomenda” adquiriram formas mais complexas e. 1998:54). entre o fim de 1987 e o começo de 1988. apresentando um cenário preocupante. A segunda. refere-se à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Pistolagem. a partir da iniciativa do deputado Edmundo Galdino (PSDB/TO). 138 O autor analisa mais especificamente três situações: a primeira referente à campanha para acabar com a pistolagem no estado do Ceará. instaurada em 1992. cit. O relatório da CPI corroborou as conclusões de Barreira. não mais restrito ao universo rural. dos intermediários e dos discursos sobre as vítimas. 146 . sendo mais de 50% através de “pistolagem”. e a terceira. Ao desenvolver sua pesquisa.) consiste no estudo da pistolagem enquanto sistema. inclusive – bem como o papel e o lugar dos mandantes. passaram a ser encarados como “questão de segurança pelo Estado”138. município do estado do Ceará. Barreira deparou-se com a notoriedade desse fenômeno. p. trata das eleições municipais de 1996 em Maracanaú. marcado pelos aspectos urbanos. legal ou ilegal). os capacetes passam a fazer parte dos crimes de aluguel. cit. através de sua Secretaria de Segurança Pública. A impunidade é uma regra: das 1. 1994: 63 apud Barreira. apenas 22 casos foram a julgamento. mas presente também nas cidades. atualmente. A cidade de São Paulo tem uma média de 20 assassinatos por dia. As motos. O fenômeno da pistolagem é.646 pessoas assassinadas no campo. op. deixando de ser um fenômeno apenas rural. como no caso estudado.O trabalho de Barreira (op. O autor preocupou-se em entender a articulação dos valores culturais por intermédio das narrativas sobre o cotidiano do pistoleiro e das falas sobre a violência (legítima ou não. ao campo. no Congresso Nacional.54). Existem localidades onde nenhum crime foi apurado. promovida pelo governo local.

A situação no estado do Rio de Janeiro e. Não obstante essa indiscernibilidade. o estado do Rio de Janeiro aparece em terceiro lugar em número de homicídios no Brasil. Laboratório de Análise da Violência / UERJ. apresenta uma taxa de homicídios 21% superior a do município do Rio de Janeiro e a do estado como um todo. Os episódios violentos e crimes que permaneceram impunes e estamparam os jornais cariocas e fluminenses — desde os mais populares aos de circulação mais ampla — refletem esse cotidiano no qual proliferaram a utilização da coerção física por particulares ou mesmo os crimes de vingança. FASE. Acontecimentos como a chacina de 31 de março de 2005 refletem a dura realidade dos moradores da região. Ainda de acordo com as conclusões dos pesquisadores. SOS QUEIMADOS e VIVA RIO. Nessa análise. Não há unanimidade quanto ao tema da violência e do uso privado/ particular da força/ coerção física. e em quinto. à violência policial ou a crimes políticos. particularmente. Segundo o relatório Impunidade na Baixada Fluminense. não há como distinguir os homicídios ligados a grupos de extermínios. no entanto. O Laboratório de Análise da Violência da UERJ fez um levantamento dos índices de violência letal a partir de dados fornecidos pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e pelo DATASUS (certidões de óbitos). a região apresenta índices alarmantes de criminalidade139. JUSTIÇA GLOBAL. desenvolvido em 2005 por diversas entidades e pesquisadores. na Baixada Fluminense não é diferente do quadro delineado acima. 139 As instituições responsáveis pela elaboração de tal relatório foram: CESEC. 147 . os crimes na Baixada estão presentes nas diversas narrativas sobre o modus operandi da política local. A Baixada. a despeito dos índices. em 1998. em 2002. A ambigüidade da conceituação revela-se no processo contínuo que engendra sua constituição por atores diversos.

tais atores também estão sujeitos à mesma classificação negativa. os crimes podem conferir fama e prestígio em um universo social marcado pela falta de segurança pública e pela privatização da coerção (física e moral). neste absurdo da legislação brasileira que. ampliou sua já notória rede de clientelismo. a notoriedade desejada e necessária em determinados contextos (ser escolhido para um “serviço” específico. no entanto. por exemplo). na Baixada. 148 . Tendo acesso às máquinas da prefeitura. elegeu-se deputado estadual. realizando agora obras públicas de impacto coletivo. Dessa forma. Uma espécie de “cultura do medo” — como assinalou Barreira (p. alegando que tais acusações foram forjadas por “inimigos políticos”. De forma análoga. ganhando imunidade parlamentar por quatro anos. No entanto. a identidade nordestina. são descartadas pela deputada Andréia Zito e pelo próprio Zito. 140 Tais conexões. na tentativa de deter seu êxito eleitoral. naquela época. 2005: 27). (Alves. assumiu a presidência da Câmara Municipal.No caso de Zito. ao tratar da relação entre pistolagem e eleições — apontaria os policiais como uma das categorias menos confiáveis no universo estudado pelo autor. em troca do apoio e sustentação dados ao prefeito. executando não só os possíveis ladrões e bandidos como qualquer um que o contestasse. garantia imunidade também para crimes comuns. de “homem valente” — constantemente acionada — e provavelmente seu histórico de inserção no “mundo policial” — por ter integrado a Guarda Municipal — podem ter fornecido elementos para algumas dessas construções narrativas140.63). ser considerado um “vingador” por certos grupos) pode transformarse em um predicado pouco interessante em outros (conseguir votos para além do seu universo eleitoral de origem. em particular. Eleito vereador com base na limpeza que realizou no bairro onde morava. ao mesmo tempo em que tais associações relacionam-se a um certo imaginário do medo. Arrolado como réu em um processo de homicídio doloso e após ter sido preso duas vezes pelo Ministério Público.

“A bandidagem daqui se encolhe com ele […] Mas é assim mesmo: se fez. por vezes. cit. à vida como valor universal (Arendt. Freitas (2003: p. 1989). apesar de dispostos em uma estrutura socialmente reconhecida. Ary Vieira Martins. O assassinato do subsecretário municipal de Serviços Públicos. baleado na garagem da prefeitura. op.. principalmente quando associada às práticas políticas. seriam representados de modos variados e.89) já nos chamava a atenção para o fato de que. legítima ou ilegítima. p. normativamente ou não. tem que paga(r)” (47 anos. Se ambos são criminosos sob o olhar jurídico-legal. referente ao universo do trabalhador do mundo da cana). os fatos/casos e agentes. a princípio. 149 . A internalização de valores sobre a violência por determinados estratos sociais implicará na maneira como esta é percebida e engendrada como aceitável ou não. 150). O agente de determinada ação ilegal pode ser considerado “pistoleiro” ou “vingador”. Entretanto. Era a cartada que o grupo que tentava se perpetuar no comando da cidade precisava para prejudicar o fenômeno de votos da Baixada [referindo-se a Zito]” (Gramado. “De repente. morador de Duque de Caxias). 26/04/2006). taxista. implicando em um sistema classificatório com remissão direta a valores e à sua hierarquização. a violência seria sempre tomada como referência de negatividade por aludir. no plano da análise narrativa (em seu caso. acontece um crime de grande repercussão na cidade. Que achava que seria bom pro lugar. A ambigüidade e a ambivalência são constitutivas das narrativas sobre a violência. prossegue o autor. pra defender as pessoas” (Andréia Zito. em 14 de agosto de 1993. “E teve gente que achou bom [referindo-se à fama de ‘matador/justiceiro’]. não o são necessariamente a partir das perspectivas dos diferentes grupos atingidos por sua ação. ambíguos.

Peralva (2000). ainda assim. 1994). Os processos de identificação geralmente remetem a tais experiências. Campos (1987). passionais ou ligados à honra são diferentemente percebidos e avaliados em relação aos crimes encomendados. O rol de valores associados a um tipo ou outro reporta-nos a visões mais ou menos sedimentadas socialmente que tanto podem implicar em manifestações de apoio. acaba construindo um mapa da região. do seu bairro a partir das narrativas (endógenas e exógenas) sobre a violência 141. Contudo. o recurso bastante comum à diabolização do outro — no caso. são desqualificados pelo Estado que se outorga o monopólio da força física e da aplicação dos valores sociais vigentes por meio do Direito e da legislação. a vítima – (Wieviorka. quanto resultar em atribuições de “crueldade” ou “ambição” quando envolvendo a dimensão do dinheiro e sua subordinação. Velho (1987). como também sobre ela elaborando algum consenso e justificação moral. 1997) pode produzir a imagem desejada e ser acolhido por determinados grupos ou segmentos. Sendo assim. A Baixada Fluminense.Os crimes por vingança. os crimes políticos oscilariam entre a legitimidade ou não da ação. ao crime profissional. indistintamente enquadrada como ilegal pelas esferas oficiais. mas de todo modo tornando-as palpáveis. Silva (1999). Reais mesmo para quem não as vivenciou diretamente e que. mas também do poder público – via abandono e/ou atuação dos policiais). 150 . quando se trata de “lavar a honra” ou de “pagar com a mesma moeda”. sempre esteve envolta em histórias de crimes e de violência (dos criminosos. Zaluar (1985. Soares (1996). da cidade. seja para afirmá-las ou negá-las. Quaisquer que sejam os argumentos e valores acionados a favor de determinada ação (por exemplo. um homicídio de um rival político). assim como Duque de Caxias. 141 Ver. não somente legitimando a ação.

com a mudança brusca na percepção da cidade e das relações sociais nela engendradas. op. apropriada e transformada. por intermédio das narrativas. Nesse sentido. proliferasse. não marcaria apenas o cotidiano das grandes cidades. enquanto outros preferem expor outros temas. as acusações não foram levadas adiante — ou pelo silêncio como “tática de preservação da vida” (Freitas. Falar do crime é uma maneira de se (re)colocar no mundo. os políticos conseguiram transformar tais carências em capital político que lhes rendeu votos. Mas a política. Tampouco explica por que alguns policiais ligados a grupos de extermínio conseguem eleger-se e outros não. criada. A re-siginificação do mundo a partir dos acontecimentos violentos é. a violência deu o tom dos mais diversos discursos sobre a Baixada e sua população.A fala do crime (ou da violência). levantar outras bandeiras. no caso de Zito. Somente o recurso ao uso da violência não seria capaz de dar conta do sucesso de alguns atores políticos e o fracasso de outros. ainda hoje gozando da infame reputação de “faroeste fluminense”. Responsabiliza-se o poder público pela condição marginal da região. Se. pelo abandono. nas suas formas mais diversas. mas reconfigura e re-semantiza o universo social mais amplo. assim como de entendê-lo a partir da ruptura gerada pela experiência violenta. de aparatos coletivos e de segurança criariam as condições para que a violência.). como ressalta Caldeira (2000). ou por que alguns deles utilizam de maneira mais recorrente a temática da violência/justiça. muitos votos. ou por falta de provas materiais — sua apresentação de si foi igualmente deslocando o foco na violência e evidenciando seus 151 . Mais marcante (ou será presente?) em alguns momentos do que em outros. ou melhor. para quem os sofre — mas também para os demais — uma maneira de lidar com o corte. a violência é difundida.cit. A falta de infra-estrutura.

transformando-se numa espécie de herói local142. um “trabalhador como outro qualquer”. A partir das relações que estabeleceu por meio das reivindicações de melhorias para o bairro. Teve expressiva votação no distrito de Belford Roxo que. Por fim. Um dos primeiros contatos foi com o então vereador Dr Heleno. 13/10/1992) ficou menos de três anos à frente da prefeitura.95). pelo PL.) como um líder marginal. Zito construiu o discurso sobre sua vocação política e sobre o imperativo do exercício desse papel. Joca foi vereador por Nova Iguaçu durante três mandatos consecutivos — sempre por partidos diferentes (PMDB. Ligado a acusações de uso da violência e participação em grupos de extermínio (Sousa. como alguém integrado à sua comunidade e cuja existência só é possível frente à informalidade da resolução dos problemas locais. As carências e a falta de infra-estrutura do bairro Dr.predicados como “um igual”. Sua heroicização teve como desfecho seu assassinato. como vereador em Nova Iguaçu. A princípio. 2001) — atualizará a relação entre tais ações e as práticas políticas142. 142 152 . comparado — ingressou na vida pública. A estruturação de tal narrativa conferiu inteligibilidade às ações de mediação com o poder público e seus agentes. elegeu-se o primeiro prefeito de Belford Roxo. ainda não havia sido emancipado. op. na época. Jornal do Brasil. O Globo. Exatos treze anos de vida pública. Laureano permitiram que Zito começasse a travar contatos com políticos e funcionários da prefeitura e se constituísse como porta-voz e mediador das reivindicações de sua vizinhança. na medida em que é ele próprio quem organiza e operacionaliza tal rede (idem. mas também um facilitador. por vezes. Em um primeiro momento destaca-se como líder comunitário e só mais tarde torna-se um legítimo mediador político. 1997. em Belford Roxo (Monteiro. diferenciando-se do Jorge Júlio Costa dos Santos. Corroborando a informalidade da resolução de problemas como regra geral. tal líder se destacaria em sua comunidade por privilegiar a atuação em termos da resolução dos “problemas práticos”. em 1992. É apresentado por Monteiro (op.92) denominou líder marginal. Zito — assim como anteriormente Joca. Nesse sentido. Houve grande comoção e manifestações de tristeza e indignação por sua morte. A ascensão política de Joca foi bastante rápida. o Joca — um dos principais nomes da política baixadense com quem Zito é. Alves. PDT. assim como seu fim. ao mesmo tempo em que o autorizou a “falar por seu bairro”. A praça central de Belford Roxo foi tomada de gente e seu enterro acompanhado por uma multidão de moradores. 8/7/1992.cit. ou seja. Como anteriormente abordado (capítulo 1).. é um agente dessa informalidade. Zito guardaria algumas semelhanças com o que Monteiro (p. em 1982. com mais de 80% dos votos. p. cit. em 20 de junho de 1995. PL) — e mantinha uma máquina assistencialista que distribuía desde brinquedos a comida.

um cotidiano. age. occupation or social class” (Landé. 153 . portanto.líder assistencialista “que se aproximaria de uma determinada comunidade com a única e exclusiva intenção de através da prestação de determinado serviço auferir benefícios eleitorais”. empreendedores — selfmade men — envolvidos em acusações de pertencimento (ou contato com) grupos de extermínio. tendo ingressado no mundo da política inicialmente com ações comunitárias. Seriam “geralmente profissionais liberais ou comerciantes que disponibilizam parte de seu tempo. cit. They act together because they perceive that by doing so they are most likely to attain objectives consistent with the attitude which they share. religion. para Monteiro (op. Novamente. Groups often […] consist of persons whose common attitude stems from the fact that they have some similar 'background' characteristic such as sex. and thus to gain similar individuals rewards.). não haveria relações de vizinhança nem tampouco uma rede de resolução de problemas práticos permanentemente implementada. como demarcar a intencionalidade de suas ações? Como determinar a priori se ele tem ou não interesses político-eleitorais? Grosso modo. Não haveria. Não obstante a percepção da experiência cotidiana do líder marginal. possibilitando-nos pensar tais atores enquanto “[…] individuals act in politics largely as members of groups” (Landé. 1977: 75)143. capital ou propriedades para ‘servir’ à comunidade em épocas de campanha eleitoral” (idem). O caso de Zito guarda algumas semelhanças com o de Joca: ambos são oriundos de camadas populares. Contudo. depois como vereadores e finalmente como 143 Nesse sentido. no entanto. o agente assistencialista — ou “benfeitor” — parece ser aquele que “presta” um determinado serviço à população sem. de uma experiência comum é acionada. me parece complicado estabelecer uma separação estanque entre tais classificações. compartilhar seus problemas. adoto o conceito de grupo enquanto “a set of individuals who share an attitude. 1977:76). a idéia de um destino compartilhado.

possibilitando assim que serviços básicos como a coleta de lixo. nas adjacências. sua percepção a partir de discursos diversos: o do interesse pessoal e. 2001). suas soluções e a intencionalidade da ação nos possibilitará refletir sobre a atuação política desses atores (líderes marginais ou não) em relação a um espaço físico específico (ao menos em um primeiro momento. com carências de todos os tipos. 146 Apesar das semelhanças anteriormente apontadas.Baixada Fluminense” (UFRJ).). 145 Por outro lado. Surge o Político Zito Meu sonho era chegar a ser prefeito em minha cidade 144 Sobre grupos de extermínio. só pode ser mensurado após a sua explicitação e. Este último governou um município recém-emancipado. Sobre essa questão. Qualquer que seja a justificativa adotada.cit. creio que o conceito em questão vincula-se à especificidade dos municípios recémemancipados. ver capítulo 2. em alguma medida. obtida por intermédio dos contatos com o poder público e seus agentes.prefeitos144. por exemplo. como agentes políticos. estando estas comprometidas ou não com atores políticos145. portanto. o uso deliberado da condição de “líder local” ou. O fato de ser um comerciante/empresário local não desvinculou Zito de uma experiência comum e tampouco de sua vizinhança. ainda. sublinhado por Monteiro (op. Suas ações implicavam a resolução dos problemas práticos em seu bairro e. 154 . o que implicou uma condução ainda mais personalista da administração e a resolução dos problemas nos moldes adotados em sua época de vereador. ver a dissertação de mestrado de Josinaldo Aleixo de Souza (1997). a relação entre a vivência de problemas. nesse caso. a atuação a partir da rede de resolução de problemas práticos não pode ser pensada apartada das demais relações sociais. item 1. intitulada “Os grupos de extermínio em Duque de Caxias . ligado às relações de vizinhança e à rede de resolução dos problemas práticos)146. Deste modo. a velha conhecida alegação de “chamado do povo” ou “a pedido dos amigos” e assim por diante. A cooptação de vereadores —convertidos em clientes — e de empresas locais operacionalizaram o exercício de seu mandato através de uma espécie de repartição/ divisão das áreas da cidade entre estas duas categorias. fossem finalmente disponibilizados para a população local (Monteiro.1 A municipalização de distritos baixadenses. nos quais se destaca o papel dos líderes comunitários e das expectativas das populações locais quanto à continuidade do “trabalho” por estes desempenhados como líderes marginais — agora. O fim exclusivamente eleitoral. há também diferenças significativas entre Zito e Joca.

com isso. que não gostava de política. o “cálculo egoísta” é minimizado (Bourdieu. a este respeito. a convite do então deputado federal e candidato à prefeitura de Duque de Caxias .770 votos. Chaves (1996). os trabalhos de na coletânea organizada por Palmeira e Goldman (1996). Zito candidatou-se a vereador pelo PTR (Partido Trabalhista Republicano). dada pela vocação (Kuschnir. contando com o apoio de familiares e vizinhos. Borges (2003). Lopez (2001). A trajetória de Zito corrobora este modelo não apenas no que tange seu aparecimento como personagem político mas. eleitoral. me filiei e me candidatei a vereador. Ver. que não era filiado a nenhum partido. A própria noção de “ideal” já nos remeteria à percepção da entrada na arena eleitoral como involuntária. Kuschnir (1993 e 2000). uma geografia política evidencia-se imediatamente. Aqui. cit. Em 1988. a obtenção do reconhecimento de sua capacidade em “resolver problemas” e de lidar com políticos foi o ponto de partida para sua transformação de liderança comunitária a candidato “ideal”. E tive uma sorte imensa de ser eleito […]”. op. Messias Soares. como demonstraremos aqui. A construção de um lugar para si dentro do bairro e. Começava assim a vida política de Zito. exaltando-se o engajamento como comprometimento desinteressado. e sua escalada rumo ao poder regional. em 26/04/2006 Quando analisamos o surgimento de Zito como ator político147. novamente. op.). no próprio desenrolar de sua carreira.Zito. “Eu. 155 . entre outros. sendo eleito com 1. cit. 147 É importante destacar que muitos trabalhos sobre trajetórias políticas e eleições de modo geral marcam a pertinência do conceito de geografia eleitoral para a compreensão da atuação de políticos e cabos eleitorais.). […] Eu entrei para a vida pública em 1988 — candidato a vereador — na vontade de fazer alguma coisa pras comunidades nos bairros onde eu tinha uma certa credibilidade política. Sua campanha direcionou-se ao bairro de sua residência e áreas adjacentes.

de vereador. Zito não tinha qualquer intimidade com a rotina da Câmara e desconhecia o habitus político.) — por “estar sempre sujo de lama”. Era chamado de “peão” — segundo ele mesmo contou a Gramado (op. colocavam-no à margem. entre o morador pobre e o político profissional — forjando distinções. Sua apresentação. cit. Primeiro. Segundo. Sua proximidade com o eleitor pobre incomodava duplamente. a apresentação de si demarca de maneira mais imediatamente visível fronteiras simbólicas — no caso. A afirmação recorrente de alguns moradores referindo-se a políticos/ candidatos: “ele é como a gente” ou. tanto quanto seu “estilo”. relações sociais e autoconstrução de imagens. Seus pares não o receberam de braços abertos. ainda. Nesse sentido. da mesma forma em que pode. 1975) nos remete à relação entre identidade. É interessante perceber que distinguir-se do eleitor-morador é também condição para o reconhecimento do político enquanto tal. porque configurava uma ameaça no momento de disputar os votos. de homem público. “como um qualquer”. porque aquela forma de apresentar-se “simplesmente vestido”. expressar a hierarquia como valor social. “ele é um de nós” não contradiz a percepção do político como alguém especial. A importância da apresentação de si e da performance dos atores sociais (Goffman. 156 .A entrada na arena política municipal não foi fácil. em determinadas circunstâncias e lugares. distanciado dos demais parlamentares. “desarrumado” diluía a fronteira entre o mundo ao qual ele pertencia anteriormente — como um “morador comum” da cidade — e seu novo status. A suposta igualdade anteriormente mencionada refere-se muito mais ao reconhecimento de possíveis laços identitários e/ ou de relações específicas do que à persona política em si. em eleições futuras.

A partir desta conversa. tudo feio.As mudanças na vida de Zito não foram ocasionadas somente por seu ingresso na vida pública. houve a princípio alguma resistência ao relacionamento. Por outro lado. Heilborn (1984) e Kuschnir (2000[1998]). na época. “que mal havia estudado”. sua formação. Sua família residia em Bangu. bairro da Zona Oeste carioca.143). “ela ficou horrorizada quando foi à minha casa. Narriman. Neste caso. da Baixada148. para o morador da cidade do Rio de Janeiro. No ano de 1988. porque dali não sairia”. perigoso. então. que mais tarde será bem mais do que uma aliada política. sujo. Disse que ali não moraria de jeito nenhum. para o morador da Baixada. Achou o bairro uma tragédia. Sobre as imagens do subúrbio carioca e as identidades a elas relacionadas. 148 A alusão à resistência da família de Narriman ao namoro reflete a hierarquia de cidades e bairros existente no mapa social e a própria flexibilidade da atribuição valorativa a lugares. 157 . com ruas de barro e barracos amontoados. era formada em engenharia e cursava pós-graduação na Fundação Osvaldo Cruz. Eu falei que era melhor só ficarmos namorando. ela moradora do Rio (ainda que do subúrbio carioca) e ele. em seu primeiro mandato como vereador. suas cidades são melhores do que alguns bairros cariocas. A diferença social entre as famílias expressa-se na narrativa de Gramado quando o autor menciona a surpresa (“susto”) de Narriman ao conhecer o lugar onde os Camilo dos Santos residiam. como potência virtual. conheceu Narriman Felicidade em uma festa. pós-graduanda e ele. por intermédio de um amigo casado com a irmã dela. distante. “com pós-graduação” — que coincide com a ascensão política de Zito. Segundo o depoimento de Zito ao jornalista (p. a contextualização de tais classificações permite evidenciar o lugar de onde se fala. é atribuído um lugar de destaque na biografia — exaltando-se sua escolaridade. principalmente quando a comparação se dá com favelas ou bairros do subúrbio carioca. colocada em termos da diferença social entre os dois – ela. Esta é aqui pensada como uma ordem instauradora do real. a Baixada Fluminense aparece como um lugar violento. para quem se fala e o que se pretende demarcar com tal “fala”. por exemplo. Assim. ver. De acordo com a biografia de Zito. com 33 anos. Narriman voltaria atrás em sua posição e a ênfase do relato biográfico recai sobre o engajamento/ identidade de Zito com o lugar de moradia e sua população. À companheira.

“[…] Zito resolveu correr por conta própria. Fiquei sem nada’” (Gramado. 149 Sobre o PTB. O que acabou não acontecendo. Se a tivesse nas mãos naquela época. foi o vereador mais votado da Baixada Fluminense. Na eleição municipal de 1992. Zito decidiu apoiar Moacyr do Carmo. acompanhada por Lacerda. Independente desse controle. ele não era suficiente para garantir-lhe a condição de mediador político. mesmo tendo obtido 11. Zito havia conquistado seu eleitorado valendo-se da imagem de “homem de ação” (relacionada à violência. ficou determinado que ficaria com a Secretaria de Obras. com o ingresso no PTB e a candidatura para a ALERJ.100 votos — e Moacyr do Carmo (PFL) voltava novamente ao executivo de Duque de Caxias.Seu projeto político delineia-se mais claramente a partir de 1990. ver Ângela de Castro Gomes (1988).300 votos (TRE/RJ). já pelo PSB. Numa reunião entre os dois. p. Arranhou o prestígio negociando apoio sem ouvir os líderes do partido. ficando com a primeira suplência149. à “limpeza do bairro”. Mas o restante dos cargos seriam [sic] meus. que seria um nome deles mesmo. não conseguiu ser eleito. op.148). já que tive que sair do PSB porque o Alexandre Cardoso não aceitou o que eu fiz. 158 . cit. Na ocasião. Na disputa por uma vaga na ALERJ. um dos nomes em evidência no cenário estadual — e o responsável pelo convite para que Zito ingressasse no partido — o levou a deixá-lo . ou não) e costurado algumas alianças locais. [citando Zito]: ‘Por quê? Porque queria trabalhar. Se a votação demonstrava o prestígio de Zito (relacionado ou não à questão da violência). Um dos que estavam observando-o era o Alexandre Cardoso. Nem exigi que me dessem o secretário. A inexperiência em lidar com seus pares e as desavenças com o deputado caxiense Alexandre Cardoso. já casado com Narriman. já teria promovido uma verdadeira modificação no município. com 7.

a fim de buscar “equilíbrio” — na época em que seu marido já estava no segundo mandato como vereador. p. alguns o incriminando. a conversão de Narriman.149). o defendendo. Zito foi acusado pela morte de Ary Vieira Martins. já que teriam sido eles os responsáveis por levar membros da Assembléia de Deus à casa da família. Dr. Mas não deixei o poder me subir à cabeça” (idem. De acordo com Gramado (op. os desafetos teriam se aproveitado de um assassinato — mesmo o mandante e o assassino sendo réus confessos — para imputar a Zito a responsabilidade pelo ocorrido e “sujar” o seu nome. com um acontecimento dramático. vincular-se a nenhuma uma religião em especial. Marca-se assim. se auto-classifica como cristão sem. materiais e equipamentos teriam motivado o crime. no entanto. Diferentes discursos e versões foram construídos a respeito do episódio. Afirma que sua esposa e filha são evangélicas — Andréia pertencendo à Igreja Maranata. na noite da prisão de Zito. “Aquilo era um verdadeiro mundo para mim. as desavenças entre ele e o subsecretário de Serviços Públicos da Prefeitura de Caxias em torno de obras. Zito. em 25 de agosto de 1993. Segundo depoimentos divulgados por jornais. Assim. no entanto. No biênio 1992-1993. enquanto era Presidente da Câmara Municipal de Duque de Caxias. 159 . por continuar seu mandato e posteriormente conquistar a presidência da Câmara Municipal. Na ocasião. Narriman Felicidade. com base 150 Grande destaque é atribuído ao fato de que. A sua própria versão é reproduzida abaixo. a acusação não passava de uma armação de inimigos políticos. teria se convertido ao protestantismo. fiquei alucinado vendo o palco de importantes decisões de todo um estado. os carros dos parlamentares. Zito teve a oportunidade de assumir a vaga na ALERJ e ficou seduzido pela idéia. Optou. enfurecidos com seu sucesso eleitoral e com a promessa política que representava.). outros. Heleno e sua família são mencionados em tal passagem. O contato com o mundo evangélico seria anterior. sua esposa. cit.Ainda em 1992. nessa mesma noite. assim como de importantes jornais da época: “[…] A maquiavélica engrenagem foi colocada em movimento e o passo seguinte foi mais covarde […] A prisão foi decretada. ele chegou a ser acusado e teve até mesmo a prisão preventiva decretada150. por sua vez.

DP (Caxias). 151-152)151. onde está numa cela comum. 160 . 26/11/1993) O juiz da 4ª. entre outros. (Jornal O Globo. “a viúva mesmo declarou que meu pai era inocente e que ela sabia quem era o mandante. indiretamente. 27/11/1993) Apresentando o “caso” como uma “armação” dos adversários políticos. porém individual. Quer dizer. o Zito (PSDB). se renova ou não a prisão temporária do presidente da Câmara de Vereadores do município. com prazo de cinco dias. preso desde quita-feira na 59ª. Começava ali a polêmica com a promotora Tânia 151 Tal episódio é extremamente marcante (e controverso) na trajetória de Zito. Um dos policiais. tinha alguma coisa diferente por ali’. José Camilo Zito dos Santos Filho. por Sadarx [filho da vítima].. ‘Logo verifiquei que não constava[m] números de processo ou de inquérito. O filho e a própria viúva tinham certeza que não era meu pai” (26/04/2006). Andréia Zito afirmou em entrevista que. foi pedida pela promotora Tânia Moreira Salles. após perguntar a Anilton se ele era o advogado de Zito. A prisão temporária de Zito. o principal motivo do assassinato do subsecretário – que consta do inquérito – foi a política de moralização adotada por ele na administração da garagem municipal. decidirá.. com medo. segunda-feira. Quatro deles cercavam Zito no interior do gabinete. O Presidente da Câmara de Vereadores de Duque de Caxias. lembra Anilton”(ibidem. (Jornal do Brasil. Zito conseguiu habeas-corpus e foi solto no dia seguinte. José Camilo dos Santos. é claro. […] Ao chegar à Câmara. colocou sobre a mesa o mandado de prisão temporária.numa suposta ameaça de morte sofrida.] Para o delegado. pp. Caio Ítalo. DP [. Ele foi levado para a 59ª. dados referentes ao tombamento dos autos. na época. Ari criou o projeto Mãos Limpas do município e afastou 20 pessoas acusadas de desviar combustíveis e peças de carros de garagem. Vara Criminal de Duque de Caxias. Anilton [advogado de Zito] notou a presença de vários policiais em torno do prédio. foi preso no início da noite de ontem sob a acusação de estar ameaçando de morte a principal testemunha de um homicídio encomendado por ele. De modo distinto ao que é relatado na biografia de seu pai. Só que não podia falar nada porque estava ameaçada de morte.

161 . 14/09/1993 também deu destaque à prisão e à concessão do habeas corpus pelo desembargador Mário Magalhães que. conheceu Marcello Alencar. agora candidato a deputado estadual. do Tribunal do Júri de Duque de Caxias. ficando entre os dez mais votados para a ALERJ153. Lacerda. 154 A diplomação. agora através do procurador-geral Hamilton Carvalhinho. no Aeroporto Internacional. foi noticiada pelos jornais O Globo e Jornal do Brasil de 16/12/1994. agora pelo juiz Cairo França Davi. voltou atrás em sua decisão e juntamente com outros desembargadores cassou a liminar. A seguir.” (Zito. enquanto aguardava a chegada do candidato de seu partido à Presidência da República. já pelo PSDB. Zito. aí. no entanto. Zito estava à frente da Comissão de Orçamento da ALERJ e era novamente denunciado. Getúlio Gonçalves. foi detido no dia 9 de setembro. 153 Sobre a relação entre política e violência. noticiada nas páginas dos jornais e abordada na tese de doutoramento de Alves (op. Fernando Henrique Cardoso e levado ao Ponto Zero em Benfica152. Alexandre Cardoso. um encontro marcante resultaria em uma nova troca de partido e em uma aliança que se mostraria decisiva ao longo de toda a trajetória de Zito. Em 1993. O vereador e.Maria. ver Soares (1996) e seus desdobramentos para a Baixada Fluminense em Benevides (1983) e Souza (1999 e 2000).). Em 7 de dezembro de 1994 conseguiu novo habeas corpus concedido pelo desembargador Décio Góes e em 15 de dezembro foi diplomado deputado estadual154. Messias Soares e. “Achei ele um político diferente de todos que eu já tinha conhecido. Em 1994. 13/09/1994. no entanto. Em 1995. Hydekel. O jornal O Globo. Os jornais cariocas apresentavam as acusações e a 152 Jornal do Brasil. — e ainda sob a acusação de homicídio — foi eleito deputado estadual.373 votos (sendo 30. como presidente da Câmara dos Vereadores. não ficou preso. com ênfase na acusação de homicídio. eu fui para o PSDB junto com o Marcello.484 somente em Duque de Caxias). 26/04/2006).cit. com 34. No entanto. teve novamente a prisão decretada.

pelo PDT.097. outra denúncia rondava Zito. o jornal em 17 de janeiro de 1996 dava voz a Sidney Tavares. Outro nome que remete à vinculação entre violência e política é o do advogado criminalista Carlos Moraes. em 2000. Japeri e Mesquita descortinaram novos arranjos políticos. o deputado estadual pelo PSDB. Nomes como os de Joca — que. tentou a reeleição (PSC). que declarou que Zito também era o mandante do assassinato de um jovem de 14 anos e de um feirante de 35 anos em 1988 e 1989. Washington Reis (na época filiado ao PSC e deputado estadual como Zito) foi consultado sobre uma possível coligação e sobre a viabilidade de lançar seu nome como vice na chapa encabeçada pelo PSDB. Na década de 1990. na eleição de 1996.reabertura do processo contra Zito que poderia ser cassado. O Dia. guarda-municipal e principal testemunha de acusação no inquérito sobre a morte de Ary Vieira.824 votos contra 21. E eu disse a ele que se 155 156 Jornal do Brasil 08 e 12/09/1995. chamando atenção ao fato que talvez o sonho do deputado de concorrer à prefeitura de Caxias estivesse arruinado155. José Renato de Jesus — mesmo amparado em um sistema de distribuição de sacolões e perpetuando no poder a rede política ligada a Bornier156. já fazia articulações para o pleito municipal mesmo antes de 1996157. Zito. apesar de curta vida pública é lembrado como um dos principais políticos da Baixada — ou da família Paixão conquistaram significativo espaço na vida política local. Eleito prefeito de Japeri. esteve envolvido em diversos episódios de conflito e. 157 Em outubro de 1995. de envolvimento em mais três assassinatos publicada pelo jornal O Dia de 03 de outubro de 1995. e a pretensão de ser prefeito.383 votos contra 31. A intenção de disputar o cargo de prefeito não se concretizaria sem alianças importantes. sob novas denúncias que ligavam seu nome a mais três assassinatos. 20/09/1995. Em outra matéria. mas foi derrotado pelo pastor Bruno (PSDB). até mesmo. o capital simbólico acumulado por Joca — já falecido — ainda garantiu a eleição de sua viúva que. conseguiu 90. 162 . “Ele também tinha as pretensões políticas dele. respectivamente. as emancipações de Belford Roxo. por sua vez. por 22. Acusado de ligações com “bandidos” e de fazer ameaças de morte a seus adversários. Dessa vez. Desse modo.920 do segundo colocado. com o slogam “Maria Lúcia é Joca”. com o mesmo conteúdo. de agressões físicas.

As alianças no segundo turno possibilitaram uma reviravolta e a eleição deste último com 195.309 do adversário.778 votos. E que nós fizéssemos uma dupla que seria quase imbatível porque o que faltava pra eu ganhar as eleições era o apoio dele […] Ele aceitou ser o meu vice. que obteve 114. venceu o deputado estadual José Camilo Zito dos Santos.866 votos. com 114.302 votos..] César Maia saiu vitorioso em São João de Meriti. eu que vim das bases humildes. até porque ele era muito jovem e o desejo dele era ser o prefeito de Caxias. a cidade da sujeira. Zito entrava para a história política de Caxias. No último round da briga entre o governador Marcello Alencar e o prefeito César Maia na Baixada Fluminense. venci as eleições e comecei um trabalho muito sério. Em Duque de Caxias. 26/04/2006). O tucano virou o jogo no segundo turno e derrotou io exprefeito Hydekel de Freitas (PPB) [. os dois ganharam – e perderam. dos coronéis. No primeiro turno. Até então era vista como a cidade do bangue-bangue. tornando-se prefeito de Duque de Caxias em um pleito disputadíssimo com o ex-prefeito e ex-senador. E ele foi o meu vice e ganhamos as eleições”(Zito. dos políticos sem credibilidade. Hydekel de Freitas.viéssemos nós dois candidatos.. Na política. Hydekel (PPB). estava tecnicamente empatado com Zito. eu me candidatei para prefeito. ele ganharia. com a intenção enorme e a vontade de fazer da minha cidade uma cidade diferenciada. onde o deputado estadual Antônio de Carvalho (PFL). a cidade do mal. contra 142. Foi a partir deste momento que Zito ganhou visibilidade na grande mídia. Atribuindo esta vitória à “credibilidade que o povo deu a um homem que veio das bases. nós perderíamos a eleição e novamente o Hydekel venceria. de origem humilde e ao cansaço e à perda de esperança nos políticos que por Duque de Caxias passaram” (idem). ele — no PSDB — conseguiu eleger-se para o primeiro mandato em um cargo executivo. tinha a chance de mostrar o outro lado de uma política mais direcionada ao trabalhador” (Zito. que também ficou 163 . ibidem). “Em 1996. dos doutores. Ainda nessas eleições.

16/11/1996) Durante o primeiro mandato. da drenagem de rios. incluindo projetos diversificados — como o para a terceira idade.. como provedor ou doador desinteressado159. Como ressalta este autor. Zito promoveu uma administração de muitas obras. construindo e reformando escolas. 159 Idem. praças etc. No caso por ela estudado. a categoria trabalho passa a ser evocada como sinônimo de serviço de assistência.135. (Jornal do Brasil. p. por exemplo — fazia com que sua gente o visse como um benfeitor (Chaves. O atendimento era uma obrigação. venceu o deputado federal Candinho Mattos. se por um lado implicava em “amarrar” o eleitor e garantir ao vereador seu lugar no mundo da política. assim. Kuschnir (2000) já nos havia alertado para tal percepção acerca do papel do vereador. nesta administração teriam sido pavimentadas três mil ruas na localidade. era justamente dessa forma que a vereadora de Roseiral concebia sua atuação política. Tais afirmações nos levam de encontro à própria lógica em jogo. o vereador é percebido como alguém que tem como obrigação servir à população e. colocando-se.000. sua administração caracterizando-se pelo clientelismo interno à Câmara Municipal — de maneira similar ao analisado por Lopez (2001) em seu trabalho sobre Araruama. Assim. além da extensão do serviço de coleta de lixo. A construção de um aparato assistencial municipal para a população caxiense. da instalação de nova iluminação (a vapor de sódio). 164 . 158 De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Comunicação e Promoção de Duque de Caxias. Calçando ruas. Tais iniciativas possibilitaram a arregimentação de um séquito de vereadores. ele se fez notar158.69. um dever que. 1996) que legitimava o atendimento sob a rubrica de “ação pública”. É comum escutarmos frases como “Fulano sempre trabalhou pra comunidade” ou ainda “Ele faz um trabalho muito bom aqui no bairro”. do passe livre para estudantes da rede pública e do aumento do salário do professor em início de carreira para R$1.em segundo lugar no primeiro turno. por outro também remetia à própria construção de identidade no interior deste universo. do PSDB. postos de saúde. como trabalho assistencial. nesse sentido.

na realidade. Nesse meio tempo. cit. Zito colocou sua esposa.). que ganhou visibilidade por intermédio das polêmicas em torno do aterro sanitário de Gramacho. possuía habilitação técnica. para além de explicitar o nepotismo. sendo pós-graduada pela Fundação Osvaldo Cruz. Kuschnir (op. cit.cit. por outro lado. segundo a qual trata-se de um dever para com a família e a forma mais eficaz de impedir que tais cargos sejam ocupados por outros grupos políticos formados no momento da eleição — mas que. op. 165 . ao mesmo tempo em que garantia uma importante secretaria a um aliado. Narriman. A alocação de parentes em cargos “de confiança” é uma prática antiga e recorrente em nosso país que.a lógica da dádiva (idem) pode ser estendida para outros cenários pesquisados como Buritis (Chaves. segundo a lógica em questão: ela era a esposa do prefeito — portanto. op. em 1998. como ela própria ressalta.cit. continuam a disputar acessos fundamentais para manterem-se na arena política160. Araruama (Lopez. a este respeito. era mais administrativa. interna”. No caso de Narriman. a chapa como vice-governadora ao lado de Luiz Paulo Corrêa da Rocha pelo PSDB — obtendo o terceiro lugar em votos (110 mil só em Duque de Caxias). cit.).) e Lopez (op. 160 Ver. “não era uma função política. Era dessa forma que Zito costumava justificar sua escolha para quem o acusasse de nepotismo. À frente da Secretaria de Meio Ambiente. traz à tona a dimensão da obrigação social (Queiroz. no caso desta tese. alguém de extrema confiança — e. sua nomeação tinha dupla justificativa. A visibilidade na Secretaria de Meio Ambiente rendeu a Narriman o capital político necessário para que pudesse compor. Recanto das Emas (Borges. op. Bezerra (1995). a Baixada Fluminense. 1976). Andréia trabalhava diretamente com o pai na Secretaria de Governo e.).) ou.

O prefeito caxiense aproveitou a oportunidade para demonstrar seu peso político e atrair a imprensa. Sinalizo aqui a constituição de grupos e de redes políticas que. mas o poder não me subiu à cabeça’. se fazem e desfazem com relativa rapidez. Andréia Zito. Zito faria um de seus maiores inimigos políticos.. com quase 60 mil votos. ‘O povo diz que sou um mito. justifica. Fábio Raunheitti. Ninguém ousou discordar. Zito é o Rei da Baixada. a gente pode falar que tinha Caxias antes e depois do Zito. César Maia (PFL) e Garotinho disputavam o apoio do prefeito de Caxias que já gozava de prestígio — tendo conseguido eleger a filha. 161 Ressalto que as classificações operadas para (e pelos) os atores políticos são bastante dinâmicas. O Luiz Paulo (Corrêa da Rocha) teve em Caxias uma de suas melhores votações. 2004: 54-55). Isso não dá pra negar” (Entrevista com Sr. Segundo todas as evidências. Garotinho e até do Paulo Maluf". Eu transfiro votos por isso querem meu apoio”. Especial Eleição 98. “na política. Ainda naquelas eleições. Zito gosta de lembrar que se elegeu prefeito contra "a oligarquia que mandava em Caxias há 30 anos e que tinha o apoio de Cesar Maia. o ex-deputado federal cassado. Comprou. falecido em dezembro de 2005. As vagas nas escolas públicas subiram 35% e os professores ganham R$ 700 mensais. de 24 anos (pelo PSDB). Nesse sentido. três ônibus com ar-condicionado e videocassete para levar os alunos da rede pública a pontos turísticos como o Pão de Açúcar e o Corcovado no Rio. (Revista Isto É. Durante a campanha para o segundo turno. 64 anos. [Zito] está fazendo uma boa administração. "Não conhecem o mar". jura. Afinal. Garotinho ser aqui tomado como inimigo não impede que em outros contextos as alianças possam vir a constituir-se. por exemplo. Como me disse em entrevista. a gente não tem amigos nem inimigos. C. no entanto. Ele se dá ao luxo de realizar sonhos acalentados na infância de menino pobre. o então candidato ao governo do estado. 14/10/1998). morador de Duque de Caxias apud Barreto. “César Maia e Garotinho estão me procurando por causa de minha performance nestas eleições.“Aqui. 166 . Ele mudou a cara da cidade. Anthony Garotinho (PDT)161. tem interesses”.

de modo geral. prefeito — não havia mais sentido em sua manutenção pois. os candidatos passaram por uma espécie de sabatina pelos presentes no auditório. Andréia. reocupando o QG do bairro Dr. Entre promessas de ajuda política e juras de fidelidade a Zito. mais tarde. o do deputado e o do prefeito (mais geral). a partir daí. desativado assim que Zito ganhou o primeiro mandato executivo. Andréia retomou a atividade desenvolvida pelo pai durante a atuação como vereador. geral. ou seja. e sim “mais ampla. Ainda segundo ele. Zito decidiu-se então pelo apoio a César Maia que acabou perdendo a eleição — e. Em seu primeiro mandato como deputada. 162 Para Zito. a política a ser desenvolvida não seria estritamente “local”. suas críticas ao ex-governador do Rio. a representação máxima da territorialidade do voto. O QG de trabalho162 — como preferem chamar — teria sido uma exigência da população. de sua base eleitoral — que. concentrava-se no bairro Dr. Laureano. há muito havia sido desativado. Há portanto em sua fala uma diferenciação marcante entre o fazer político do vereador (local e de assistência) e. em vários momentos. (Jornal do Brasil. Laureano. sem modéstia. em seu caso. desde então. 07/10/1998) Em uma situação. pela Revista Isto É (14/10/1998). a relação com Garotinho é extremamente complicada. no mínimo. de outro lado. “Movimento Popular da Zitolândia”. o QG de trabalho é um “ponto de referência”. Perfil.diz. o prefeito [Zito]. Zito afirma não mais possuir qualquer centro de assistência e que o QG que mantinha. 167 . inusitada. em um debate promovido em Duque de Caxias para uma platéia por ele escolhida — e denominada. Apesar de seu discurso durante nossa entrevista ter sido pautado na crítica ao assistencialismo difundido. pra população como um todo”. em todo o território nacional e não apenas na Baixada — e apesar de ter direcionado. a resposta que deu contradiz o depoimento dado por sua filha. Anthony Garotinho — quando perguntado a respeito de sua própria utilização desta prática política. Zito costumava oferecer atendimento à população. por sua vez. colocou os dois candidatos frente a frente. depois de ser eleito deputado — e. Em um espaço no terreno da própria casa.

00’. não posso aqui avaliar — e fazer centros sociais pra atender a uma população aqui. trabalhar […] Eu sou contra essa coisa de assistencialismo. Essa coisa de assistencialismo. eu cedia. [ênfase dada pelo entrevistado]. mas tem que fazer com que ele cresça. Não pode incentivar a ele que aquilo ali é bom. pelo ensino profissionalizante. você sabe. depois deputado. a gente não tem opção. acolá. Aquilo é um sustento naquele momento. ali. Nós não temos centros assistenciais porque não acreditamos nesse tipo de política” (Andréia Zito. 26/04/2006).. essa política vergonhosa. Tem gente que nunca foi ao cinema na vida” (idem). Zito. talvez seja mais fácil concentrar força no dinheiro — não sei se legal ou ilegal.. Você precisa ver a felicidade deles. o necessitado. “Eu tive um QG de trabalho.] pra ele.menciona ter sido procurada pela população do município. da Dr. Então essa é uma opção pra eles. é contra o restaurante popular a R$1. Então nós voltamos a atender a população. Meu pai tinha o QG quando era vereador. mas depois parou. aí não tem porquê mais” (Zito. solicitando a reabertura de tal centro. Tem que ajudar o pobre. pela universidade pública [. prefeito. Esses políticos não trabalham. mas que é muito melhor ele estudar. Mas é só esse. a gente tem lá um cinema comunitário. ali. as pessoas vieram me procurar e solicitaram que eu reabrisse. Eu não sou contra. Talvez pra eles seja muito mais fácil não lutar pela escola pública de qualidade. os trabalhadores. barata […] Grande parte dos políticos não quer acabar com a pobreza. Laureano. Eu não tinha como negar. Trabalhava como ponto de referência enquanto eu era político-vereador. Depois que eu fui eleita. “Eu não acho certo isso. porque o pobre quer comida. “Agora. a gente não tem atividades culturais. Eu era vereador. Aqueles olhinhos brilhando de frente pra tela. Na Baixada. porque senão acaba com os currais eleitorais que eles têm 168 . esses são vítimas dos políticos profissionais. Funcionava com o trabalho de médicos do município. “Os pobres. 26/04/2006). quer assistencialismo de qualquer jeito […] O cara fala: ‘Mas você.

164 Em abril desse ano. em fazer os dois prefeitos. mas infelizmente não foi de vontade minha fazer tão somente com que eles tivessem o poder. que tinha como finalidade apurar algumas denúncias sobre a rede de narcotráfico que atuaria no Rio de Janeiro e a relação de seus membros com alguns agentes políticos. novamente o caso do assassinato de Ary Vieira é retomado. mais uma vez eu quero deixar bem claro que foi um erro meu. No ano seguinte. à população desses dois municípios[Belford Roxo e Magé]. 26/04/2006). por fim. Isso vai gerar o que? Vai gerar violência”. 26/04/2006. os sub-relatores — deputados Laura Carneiro. Naquele ano. chegou-se à conclusão de que não havia provas materiais contra o prefeito de Caxias. Paulo Baltazar e Wanderley Martins — deram por concluído o inquérito164. perdão.como o senhor daquele campo eleitoral que ele domina”163 (Zito. o trabalhador é um acomodado por natureza”. segundo as quais “o pobre. Após terem sido apuradas as denúncias do advogado Edson Lourival dos Santos contra Zito (de que fazia parte de um grupo de extermínio na Baixada Fluminense e de que teria recebido ajuda do narcotraficante Niltinho do Dendê). Zito. pondo em dúvida “a verdadeira intenção das denúncias que [o advogado] encaminhou a esta CPI”. em novembro de 1999. uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). pobreza e prostituição etc. o nome de Zito foi novamente associado à violência. Zito corrobora algumas imagens sobre a pobreza e as camadas populares. 21/04/1999). Mas não foi possível. 169 . Ascensão e Declínio Do Mito Eu peço desculpas. político. ou ainda a associação entre pobreza e violência. o crescimento desordenado da família. “O que mais você percebe nessa classe é a jovem grávida. foi instaurada na ALERJ. 163 Na tentativa de desvincular-se do discurso acusatório do assistencialismo. Sendo assim. mas sim que eles fossem úteis às cidades em que governavam. Agora pelo procuradorgeral Muinos Pinheiro Filho (Jornal do Brasil. a mãe de família sem o pai. foram realizadas algumas diligências em lugares apontados pelas denúncias entre novembro de 1999 e junho de 2000 quando.

06% de aprovação e a expressiva votação de 315. em quinto lugar. sede pelo poder”. “Minha segunda eleição foi por mérito. Na primeira. não tinha como ele vencer. mas cansados e sem esperança. Eles viram [a população/ os eleitores] em mim uma chance muito remota. Ele não foi candidato a prefeito em 2000 porque sabia que não tinha condições de me vencer. Waldir foi eleito em Belford Roxo.679 contra 27. Para Zito. Washington “faz de tudo para alcançar os seus objetivos. uma boa convivência. 2000 revelou-se irrefutavelmente o ano de Zito. Mas nós tivemos sempre um bom diálogo. Este último deixou o cargo de vice em 1998. 170 . alinhavada para o primeiro pleito executivo.950 votos do segundo colocado. do que eu. E ele é esperto. Hydekel de Freitas. pela coligação PPS/ PTB / PRN / PMN / PST. deram o voto a mim e me fizeram prefeito. ele seria candidato contra mim.Mesmo em meio a denúncias. talvez. colocou à mostra todo o seu poder e influência políticos e não apenas por meio de sua reeleição — com 81. Maria Lúcia. reassumindo o mandato de deputado na Assembléia. Zito também teve papel fundamental nas eleições de sua esposa e de seu irmão para prefeituras-chave da Baixada.640.495 votos contra 73. é muito mais político. Ou a gente se unia pra vencer ou o Hydekel ganharia. Eu sei também que ele só foi meu vice porque não tinha jeito. foi por uma falta de opção e uma vontade de mudança. derrotando a ex-prefeita. não duraria muito. Senão. nessa visão de negociação e de interesse pelo poder. Bastante assediado pela imprensa.” A aliança com Washington Reis. por 89. Geraldo Moreira (do PDT) — sendo apresentado pela imprensa como um “fenômeno eleitoral” (TRE/RJ) e deixando o genro de Tenório Cavalcante.

Heleno.27). 171 . elegeu-se prefeito e se reelegeu. 166 Sobre os processos de conservação e reelaboração da memória. a memória de Joca estava diretamente relacionada às suas ações anteriores e não a objetos ou lugares de memória (Nora. Em Belford Roxo. juntamente com Antônio de Carvalho (prefeito de São João de Meriti).802. Pollak (1989).). conseguiu emplacar dois parentes seus como prefeitos em outras duas cidades da Baixada e um outro familiar ocupando a Assembléia Legislativa do Estado. A transferência do capital político de Zito ao irmão foi possibilitada por diversos fatores que. p. A derrota de Maria Lúcia significou mais do que a inclusão de um novo município no rol de influência de Zito. Nesse caso. 1984).589 e 27. ambos do PSDB. Hoje está em seu segundo mandato.cit. Tendo como base eleitoral Duque de Caxias — mais especificamente o bairro Dr. tendo sido um dos nomes-fortes do ex-prefeito de Caxias e um de seus mais importantes articuladores. conjuntamente. aproximamo-nos do meio milhão de votos” (Soares. dois caciques locais — com 35. Heleno. Heleno Augusto de Lima.453 votos respectivamente165. o que poderia explicar o “esquecimento” representado pela 165 Zito contou também com o apoio de sua filha. por exemplo.. Bornier apoiou Maria Lúcia. Somados os votos dessa família. não foi possível deter a popularidade de Zito — cuja estratégia de construir a campanha de Waldir como um elo de ligação e de continuidade com a sua foi extremamente eficaz. Nesta reeleição [2000]. conhecido como Dr. Anthony Garotinho (na época. Joca166. é advogado e contador e foi um dos responsáveis pela entrada de Zito na vida política. mas excessivamente ancorado na figura de seu marido. Andréa Zito. ver. apesar de sua força conjunta. deputada estadual no terceiro mandato e do deputado federal Dr.Em Magé. Correspondeu a uma tomada de posição frente à rede política do exprefeito de Nova Iguaçu e deputado federal Nelson Bornier na região. cit. Laureano e adjacências — foi eleito deputado federal (pelo PSDB) pela primeira vez em 1998. op. garantiram a vitória contra uma adversária de prestígio local. 32. Narriman derrotou Nelson do Posto (PDT) e Núbia Cozzolino (PTB). do PDT) e. “Presidente do diretório local do seu partido. como salientou Monteiro (op. Azair Ramos (prefeito de Queimados) e o governador do Rio de Janeiro.

reeleito para o segundo mandato consecutivo. Ele me deu muita credibilidade política. Da mesma forma. uma estátua ou uma rua. O candidato do PPS. Não era possível. alegando insatisfação com a forma como o partido vinha tratando Marcello Alencar. é mais uma a ser controlada pelo clã Zito. um clã muito forte na região de Guapimirim e Teresópolis. portanto. cit. Eu tenho ele como um pai. que foi eleito hoje.inexistência de um culto ao político após a sua morte e. Zito. A prefeitura de Belford Roxo. José Camilo Zito. que responde a processo por supostamente ter encomendado o assassinato de um jornalista no ano passado. 172 .109-110) afirma que a “mitificação política de Joca é fluida porque na realidade todo o seu carisma embasava-se muito menos nos seus atos espetaculares e muito mais na percepção popular de que Joca era parte do povo belforroxense e de que suas soluções somente diferiam em grandeza das soluções tradicionalmente encontradas pela população baixadense. numa vontade enorme de retornar a ser prefeito em 2008” (Zito. Núbia pode comemorar também a vitória do sobrinho Renato Cozzolino (PSC). 29/10/2000). reeleito para a ALERJ” (Agência Carta Maior. Muito mais próximo que todos os objetos que possam lembrar Joca está a convivência diária com problemas para os quais Joca significava em primeiro lugar uma solução. Em 2001. fui pro PDT e agora retornei ao PSDB. que o processo de mitificação política de Joca se restringisse a objetos concretos como um túmulo. a busca por outro salvador. Zito deixou pela primeira vez o PSDB. por intermédio de seu irmão. quase entrei no PMDB. Monteiro (op. Narriman Felicidade. 26/04/2006). A deputada federal Núbia Cozzolino (PPB). cuja mulher. na Baixada Fluminense. 168 “Outra família tradicional da política fluminense a manter seu espaço parlamentar é a Cozzolino. se reelegeu. ele me deu uma chance de mostrar quem eu era e hoje eu me encontro no PSDB e sou candidato a deputado estadual. pp. Solução que mesmo parcialmente já era proporcionada pela rede de resolução de problemas práticos. novamente pelo convite do Marcello. 11/10/2002). é o irmão caçula de Zito. 167 Na tentativa de explicar tal esquecimento. “Num momento da minha vida enquanto prefeito. ficando com a última vaga de seu partido. após a sua doença. Waldir Zito. Waldir167. foi eleita prefeita de Magé (Folha de São Paulo. vencer Núbia Cozzolino significou romper com um reinado de mais de uma década na região de Magé e Guapimirim168. liderado pelo prefeito de Duque de Caxias. no caso. teve o problema da doença do Marcello e houve assim uma falta de respeito para com ele que eu não gostei e saí do partido. um livro de memórias. por outro lado.

afinal de contas. teria que haver uma ficha criminal limpa. alegando que “no meu Partido. Zito significava capital político para qualquer partido e.O “flerte” entre Zito e o PMDB não passou incólume. o deputado Geraldo Moreira fez críticas à filiação de Zito. não teria sido reeleito Prefeito de Caxias. a população que o elegeu deu para o Zito o maior atestado que um político pode ter — 80% dos votos — é desconhecer a própria realidade. Como Deputado. Exa. mas a leviandade nas declarações tem que ser medida e comedida. Não reconhecer que. temos história. As acusações que pesavam sobre ele eram 173 . cenas de confronto entre deputados na ALERJ dias antes de sua filiação. para sabermos quem. Em primeiro lugar. não podia abrir mão dos cerca de 500 mil votos representados por sua rede política na região. é a pessoa”. que saíram em defesa de Zito e do partido que o acolhia. garanto. o PMDB. Tal declaração foi imediatamente respondida pelos deputados André Luiz e Paulo Melo. sempre defendeu o Brizola. 05/06/2001). inclusive. se o Zito fosse à margem da Lei. Houve manifestações contra e a favor e. deflagradas a partir do discurso do deputado André Luiz. mesmo tendo força na Baixada. perdeu o companheiro. (Deputado André Luiz. Já lhe ouvi dizer que Brizola era o grande líder: perdeu o poder. talvez. Na ocasião. Respeito o Deputado que me antecedeu pela sua história e pela sua trajetória. tem que pedir a de muitos companheiros. (Deputado Paulo Melo. Obrigado. Presidente. S. quero falar sobre o regozijo que todos nós temos com a entrada do Zito no PMDB. esse negócio de pedir ficha criminal. na cidade do Prefeito. Também gostaria de dizer ao nobre Deputado que me antecedeu que. 05/06/2001). de fato. tenha experiência de abandono. se for pedida a de muita gente. nas eleições de 2002. [eles] nem nesta Casa estariam. como diz o Governador Garotinho. Sr. Agora. porque.

Trazendo novamente à tona a questão da violência política na Baixada. insinuando que Narriman Zito. como era conhecido. 174 . os confrontos foram se tornando cada vez mais acirrados. quando chegava em casa. diretor administrativo do jornal "A Verdade". Núbia. o episódio marcou a disputa entre duas famílias pelo poder político em Magé: a de Zito e a de Núbia Cozzolino. 49. tem alguma ligação com a morte do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. tendo como principal estratégia de ataque as denúncias feitas por intermédio da imprensa escrita. ele novamente teve seu nome vinculado a acusações de violência. por volta das 18 horas do dia 16 de agosto de 2001. estaria tendo um caso com um segurança169. Ainda nesse ano. por exemplo. assessor da deputada estadual Núbia Cozzolino (PTB). As denúncias contra Zito foram motivadas devido à ação que movia contra o jornalista — por ter usado o espaço em seu jornal para reproduzir uma declaração da deputada estadual Núbia Cozzolino (na época. a matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 19/09/2001. Foi apontado como possível mandante do assassinato do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. chegando até mesmo a responder a processo como mandante do assassinato. Conforme ilustra a matéria reproduzida abaixo. do PTB). um dos alvos preferenciais do jornalista assassinado — que freqüentemente publicava matérias contrárias a ela e a sua família no jornal — também foi acusada neste inquérito. com destaque até mesmo em jornais de âmbito nacional como. foi assassinado com cinco tiros. do jornal A Verdade. 42. de Magé. prefeita de Magé e mulher do prefeito de Duque de Caxias. Mariozinho. ocorrida no último 169 Houve grande repercussão no assassinato do jornalista. A Polícia do Rio está investigando se o assassinato de Marílton dos Santos.minimizadas em prol das possibilidades eleitorais advindas da ligação com o “rei da Baixada”.

Abreu ficará preso no 20º Batalhão de Polícia Militar. prefeito de Belford Roxo e irmão de José Camilo Zito dos Santos. Segundo o delegado Hallak. A relação de trabalho do suspeito foi confirmada pelo próprio prefeito Zito dos Santos que. Manoel Daniel de Abreu Filho. O delegado pretende pedir a quebra de sigilo telefônico do suspeito e sua ficha de antecedentes criminais para verificar se teve participação no crime e o motivo. esposa de Waldir Zito. na madrugada de ontem. em Belford Roxo. que disse à polícia que não vai a Magé há 10 anos. no município de Mesquita. Mas ainda falta confrontar o preso com outras testemunhas. Manoel Daniel de Abreu Filho. distrito de Magé (a 60 km do Rio). uma delas uma pistola 380 — mesmo calibre da arma utilizada para matar Mário Coelho Filho. O juiz de Magé decretou a prisão preventiva do sargento a pedido do delegado Hallak. reconheceu que Manoel foi guarda-costas de sua filha. Em seu apartamento. A deputada insinuou no jornal "A Verdade" que a prefeita de Magé. foram encontradas duas armas. mas que deixou de trabalhar com Andreia "para ficar mais perto de casa". na presença de um advogado. 55 anos. 23/08/2001). Negou-se a dar declarações sobre esse assunto e afirmou que só vai responder em juízo. Em depoimento ao 66ª DP (Piabetá). depois que uma denúncia anônima em 13 de setembro levou-o até Abreu Filho. mantinha um romance com um ajudante-de-ordens. parte da Baixada Fluminense. trabalha como guarda-costas de Maristela Corrêa Nazario. mulher do prefeito de Duque de Caxias. por suspeita de assassinato no caso do jornalista Mário Coelho Filho. às perguntas sobre seu trabalho com a família do prefeito de Duque de Caxias. A família Zito nega qualquer relação com os crimes. em uma entrevista para os jornais do Rio de Janeiro. a família de Santos afirmou não acreditar que o crime tenha ligação política (Folha de São Paulo. O sargento reformado da Polícia Militar. até que seja feito o exame de balística para comparar se os tiros que atingiram o jornalista saíram de sua pistola. duas testemunhas que ajudaram a fazer o retrato-falado e que haviam reconhecido Manoel Daniel de Abreu Filho por foto não sustentaram o reconhecimento pessoalmente. 175 . Narriman Zito (PMDB). Santos foi encontrado morto com um tiro na barriga. a deputada estadual Andreia Zito. em Piabetá. José Camilo Zito dos Santos (sem partido). foi preso no dia 14 de setembro de 2001.dia 16.

Mas fui eu quem a coloquei ali. Com o apoio dos deputados José Távora. Eu. com acusações recíprocas. mais um caso de assassinato. a vice-prefeita de Narriman. fazia o trabalho técnico e o planejamento da cidade. André Luiz e. o prefeito disse ao jornal O Dia que pretende processar o delegado Ricardo Hallak e o Estado por perdas e danos e calúnia por vincular seu nome ao crime. Desta vez. engenheira. Washington Reis. a deputada do PPS criou uma comissão para acompanhar o assassinato do jornalista de A Verdade. setembro de 2001). 176 . "não era muito esclarecida. 170 A transcrição integral da sessão ordinária de 03 de outubro de 2001 pode ser consultada no Anexo. há cerca de 20km da cidade. Se a imprensa era o palco mais visível das disputas entre as famílias Zito e Cozzolino. 02/06/2002). Anthony Garotinho (Jornal Impunidade. Lídia Menezes (PSDB). transformando a sessão de 3 de outubro daquele ano em um palanque no qual aliados e adversários pronunciavam-se com veemência. uma boa mulher que me representava publicamente” (Folha de São Paulo. foi encontrada carbonizada dentro de seu automóvel. uma pessoa do povo. inclusive. foi solicitado o adiamento da votação e a não inclusão de deputados com qualquer suspeita de vinculação com o caso na comissão que acompanharia o assassinato do jornalista — além de terem sido feitas severas críticas ao “comportamento” da deputada e à sua tentativa de “fazer politicagem” a partir do episódio da morte do jornalista170. Através do requerimento 490/2001. Segundo Narriman. Lídia não tinha experiência política. na estrada MagéManilha. Sivuca. por ser uma negra. a ALERJ tornou-se igualmente cenário de confrontos entre Andréia Zito e Núbia. declarando apoio a um lado ou a outro. Afirmou que é vítima de perseguição política por ser candidato à sucessão do governador do Rio de Janeiro.Depois de saber que duas testemunhas não reconheceram o suspeito. matéria de Clarinha Glock. Em 2002.

177 . eu retornei”. lhe causou algum ônus. Segundo Jorge Cosan. acabou se ausentando bastante da cidade o que. acompanhou as caminhadas e comícios do presidenciável em Duque 171 No início do ano. “A minha intenção. realizada em fevereiro daquele ano. De acordo com a pesquisa de intenções de voto do Datafolha. Deixei o time trabalhando na cidade. Benedita da Silva. segundo ele próprio. Alertando que mais pessoas poderiam morrer. “Qual o objetivo de matar a vice-prefeita? Será que querem tirar a prefeita do cargo? Será que alguém está interessado em ocupar o Executivo com a ocorrência destes crimes? Estas mortes são por motivação política e nunca são investigadas a contento” (idem). Zito foi escolhido coordenador da campanha presidencial de José Serra no estado (e anunciado como tal em abril daquele ano). na tentativa de formar alianças e de fortalecer-se politicamente. com 30%. assim como as declarações da prefeita e de membros de seu secretariado. motivo pelo qual a cidade transformara-se em um imenso barril de pólvora. Com o lema “vamos serrar”. já de volta ao PSDB e seduzido pela possibilidade de disputar as eleições para o governo do Rio de Janeiro171.As versões sobre o crime giraram em torno de questões políticas. o PSDB cogitava o nome de Zito para uma possível candidatura própria ao governo do estado. em todas elas desviando o foco das atenções para Narriman. Sérgio Cabral (PMDB) e Zito (PSDB) apareciam tecnicamente empatados — com respectivamente 18% e 17% — em hipótese que excluía a candidatura de Garotinho (PSB). os adversários da prefeita eram automaticamente colocados sob suspeita e a morte capitalizada em revolta e solidariedade. Jorge levantou algumas hipóteses sobre o ocorrido. era ser candidato a governador e eu confesso que deixei um pouco a cidade meio que de lado. Também no ano de 2002. presidente do PSDB de Magé. mas quando eu percebi que a minha ausência [es]tava fazendo falta. naquela época. possibilitaram a Zito começar a trabalhar no projeto político de tornar-se governador do Rio de Janeiro. Viajando pelo estado. Dessa forma. Apesar das acusações e conflitos. os crimes políticos não eram apurados. as expressivas vitórias nas urnas em 2000 e em 2002. aparecia a vice-governadora. Em primeiro lugar.

Tal filiação o colocaria como um dos principais nomes do partido no estado. no entanto. exprefeito de Niterói. à Presidência da República. 178 . Viegas (1997) e Heredia (1999). a executiva nacional resolveu não lançar candidato próprio ao governo do estado do Rio de Janeiro172. alegando que Benedita o traíra ao receber dois de seus desafetos políticos: César Maia e Zito (p. Zito é disputado pelos atuais candidatos. o prefeito de Duque de Caxias. da Frente Trabalhista. O prefeito ainda não anunciou quem irá apoiar para presidente. que ainda não se pronunciou. que fechou coligação em torno da deputada estadual Solange Amaral (PFL). mas deve 172 Sobre as disputas no interior de uma mesma facção e de como a política é percebida pelos próprios políticos.de Caxias. ele se reuniu com a governadora. sendo assim. com quem almoçou. conforme já vinha sinalizando desde a semana passada. o governador Anthony Garotinho teria se desentendido com ela. na sucessão a governador. Zito queria ser candidato ao governo estadual. Em notícia divulgada pelo Jornal do Brasil de 12/11/2000. O apoio do partido à candidatura de Solange Amaral (PFL) para o governo do estado do Rio de Janeiro frustrou o projeto político de Zito de ascensão ao Palácio Guanabara — deixando-o extremamente contrariado. ver. Insatisfeito com a falta de apoio da Executiva Nacional do PSDB. As tentativas de alianças (com o PDT. O prefeito encaminhou o pedido de desfiliação para a Executiva Estadual. seu desafeto — além da perda de prestígio do partido após as sucessivas derrotas de seu fundador. Leonel Brizola. fracassadas.6). Ele deixa o partido para anunciar o apoio a Jorge Roberto Silveira (PDT). por intermédio dos projetos sociais vinculados à Baixada Fluminense. mas não contou com o apoio da direção do PSDB. Por contar com forte influência na região de Duque de Caxias. O apoio subseqüente aos candidatos Jorge Roberto Silveira (PDT) ao governo do estado do Rio de Janeiro e Ciro Gomes. foi o primeiro passo na direção da futura migração ao PDT (concretizada apenas em 2003). Pela manhã. 173 A aproximação com Benedita havia ocorrido desde o início do mandato de vice-governadora. tendo em vista seu esvaziamento após a saída de Anthony Garotinho. acaba de deixar a seção do Rio de Janeiro do partido. Benedita173 da Silva (PT). José Camilo Zito dos Santos. por exemplo) foram.

acabou se desentendendo com os tucanos e aderindo a Ciro Gomes (PPS) ainda no primeiro turno. que começara 2002 como coordenador da campanha de José Serra (PSDB).3 milhão (Agência Carta Maior. Desde o início. nós teríamos candidatura própria e quando o Marcello adoentou-se. um dos municípios mais pobres do Rio. Os agrados em retribuição vieram primeiro para o irmão Waldir Zito. Sua filha e esposa optaram por não mudar de partido. foi incluído no programa de erradicação dos lixões do programa Fome Zero. por considerar que o candidato teve atuação tímida em favor de sua candidatura ao governo (Folha de São Paulo. No segundo turno. 15/07/2002). Resolvi abandonar a campanha do Serra e não aceitar a candidatura da Solange” (Zito. atrelando-se diretamente à construção de sua persona pública — e a constante troca de partido só reforçava esta situação. 16/09/2003). foi deputada comigo. O prefeito. 179 . com recursos de R$ 1. A direção nacional do PT começou a se aproximar de Zito no fim do ano passado. por intermédio da então governadora Benedita da Silva. que tem 450 mil habitantes e deu a Lula mais de 90% dos votos no segundo turno das eleições. apoiou Lula. que é minha amiga. visto que Zito somente conseguiu levar consigo quatro vereadores de Duque de Caxias (dentre eles. E essa imposição fez com que eu me afastasse do partido e do grupo político que lá estava. Belford Roxo. “Pelo Marcello [Alencar]. durante a campanha presidencial. eles aproveitaram e fizeram a imposição de uma candidatura apoiando a Solange Amaral. A saída do PSDB não implicou a perda de prestígio de Zito. 26/04/2006). Laury Villar). sua trajetória política esteve desvinculada de uma ideologia partidária. Tal mudança de sigla também não significou demonstração de força ou adesão a seu nome.descartar um apoio a José Serra (PSDB).

inclusive — Andréia esperava uma 180 .Apesar de muito criticada por não ter acompanhado o pai. não entenderam. Zito conseguiu. e eu fui conversar com el. Zito pôde arriscar-se. O rei da Baixada Fluminense. Falei que não achava uma boa idéia a saída dele do partido. mas relacionava-se mais imediatamente à busca pela operacionalização de seu projeto político. respectivamente. escuto ele. a saída do partido marcava a posição de Zito na queda-de-braço interna ao PSDB. seu poderio se alastra ainda mais (Agência Carta Maior. E o fez. eu falo com ele. a deputada Andréia afirma que ele não manifestou qualquer contrariedade com relação à sua decisão. é que criticaram. Andréia. Ele entendeu a minha posição e não me criticou. Com um mandato já cumprido e alguma experiência acumulada — de lidar com o eleitor. 11/10/2002). pois seu prestígio “não havia sido abalado”. Nós temos um projeto sim. A gente conversa muito. E eu. a saída do pai do PSDB não repercutiu negativamente em sua votação em 2002. deputada estadual com 56 mil votos. além de se reeleger prefeito de Duque de Caxias. que eu gostava do partido — me identifico com suas ideologias — e que eu preferia continuar. ele me ouve muito. mas eu resolvi que era melhor ficar” (26/04/2006). mas ele me escuta. meu pai não é um ditador. bancar as eleições do irmão Waldir e da mulher Narriman para as prefeituras de Belford Roxo e Magé. até então barrado pelo partido. Para Andréia. Há dois anos. não teve dificuldades para eleger a filha. sim. a gente conversa muito. Os outros. Como seu trânsito entre alguns partidos e pessoas importantes ainda estava garantido e sabendo que seu peso político certamente não seria descartado. Que eu ia continuar porque pra mim era melhor. Andréia Zito. Agora. sou quem resolvo as minhas coisas. Mas a minha vida política é uma coisa e a do meu pai é outra. José Camilo Zito (PSDB). “Ao contrário do que todo mundo fala. Decerto.

Já sua esposa manifestou seu apoio ao PT de Lula desde o início da campanha presidencial. outdoors juntos.] quem não gostou nada das insinuações dos políticos da região de que o coração de Zito já teria dono foi a Secretaria de Comunicação [Duque de Caxias]. conseguindo reeleger-se. eu fiz mais campanha. por exemplo. Ela afastou as pessoas próximas a Zito da prefeitura de Magé. Assim como na eleição para a Presidência da República: o apoio de Zito foi para Serra (PSDB) em um primeiro momento da campanha e. Muitas pessoas não queriam votar nele e acharam que como fizemos campanha juntos. apoiando Lula apenas no segundo turno. Dr.. os problemas com Narriman começavam a aparecer e a imprensa não deixou passar em branco. “Eu fiquei muito chateada. e da prefeita de Magé. um momento difícil. “A notícias da separação do prefeito de Caxias. Nessa eleição.” 181 . [. Narriman Felicidade. Se desde o final de 2001 os boatos envolvendo o casal já apareciam.votação mais expressiva. foi o principal motivo de comentários ontem nas duas cidades e no meio político. Apesar de sua avaliação pouco otimista. Cláudia Cataldi. Na eleição estadual. Apesar da vitória com sua absolvição do assassinato de Ary Vieira em março daquele ano. depois.. mas a ligação de meu nome ao de um candidato a [deputado] federal me prejudicou um pouco [referindo-se ao candidato a deputado federal de seu partido. José Camilo Zito dos Santos. para Ciro Gomes. teriam que votar nele e preferiram abrir mão de votar em mim”. alegando precisar ficar “independente na política”. Eu fui aos showmícios. O jornal O Dia. Heleno]. a confirmação de problemas em outro setor da vida marcou Zito. ele apoiou Jorge Roberto Silveria (PDT) e ela. percorri as ruas. em 2002 (junho). explorou bastante a crise conjugal e sua repercussão em termos políticos para ambos os lados. que se votassem em mim. ela foi bem votada. em São João mesmo. Benedita da Silva (PT).

disse Minc. o PT cogita a filiação desse tipo de pessoa”. Carlos Minc. os dois se reconciliaram. A prefeita e seu marido (José Camilo Zito dos Santos. 182 . Bezerra (1999a e 1999b). “No momento em que parlamentares éticos são punidos pelo partido. disse Biscaia. No Câmara dos Deputados também houve protestos. parte da estratégia de tornar o partido uma das duas maiores forças políticas no Estado do Rio em 2004. disse Narriman ao jornal O Dia de 22/12/2002. Exprocurador de Justiça do Estado do Rio. as atividades da família Abrahão David são incompatíveis com o ideário petista. José Genoino. A bancada do PT na Assembléia Legislativa decidiu ontem. que já criticara a punição do deputado Chico Alencar por ter se abstido na reforma da Previdência. que tampouco trouxe as vantagens esperadas (e desejadas) — a possibilidade de angariar recursos financeiros junto ao governo federal. o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a filiação de Narriman. “O patrimônio ético do PT não pode ser atingido por filiações como esta. A ofensiva petista nos municípios fluminenses.Naquele mesmo ano. Só Palmares foi a favor. “Estou namorando meu ex-marido”. por seis votos a um. Para o líder do PT na ALERJ. dividiu o PT. criticou Biscaia. Parte do PT fluminense reage à estratégia. ser contra a participação na prefeitura de Nilópolis. entre outros. No ano seguinte. prefeito de Caxias) utilizam-se de práticas políticas condenáveis e são suspeitos de outras atividades ilícitas”. havia critérios rigorosos para participar desses veículos de massificação do ideário 174 Sobre a relação entre captação de recursos e redes políticas ver. Chico disse que ficou surpreso com a participação de Narriman no programa do PT na televisão. Leal (1975). além do capital político advindo de uma vinculação ao nome de Lula174. “Essa não é uma questão partidária. enfatizando a necessidade de “união da família”. O problema é que pesa sobre esse grupo político uma vinculação com o bicho”. em outro episódio polêmico. foi a vez de Narriman trocar o PSDB pelo PT. defendida pelo presidente nacional do PT. anteontem: “Sou do tempo em que quem era recém-admitido no partido era soldado raso e não general cinco estrelas. O programa era discutido.

dos discursos que o ligavam à violência. demitir funcionários. acabou se revelando mais problemática que qualquer ajuda financeira do governo federal. Sobretudo ao presidente regional do PT. Ambas ações haviam sido aprovadas pela direção fluminense. A Executiva Nacional do PT aprovou a filiação ao partido da prefeita de Magé (RJ). acusado de envolvimento com grupos de extermínio que atuariam na Baixada Fluminense. As duas decisões dividiam os petistas do Rio de Janeiro. Narriman piorou as coisas ao anunciar que pretende processar o deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça do Rio. o Anísio. inconformados com a nova postura adesista. Houve contestação do diretório regional tanto da filiação de Narriman quanto da aliança com Abrão David. 14/10/2003). Conduzir reuniões. (O Globo. que viu sua intenção de levar o partido a participar do governo de Farid Abraão David (PP) em Nilópolis ser rejeitada pelos outros seis deputados da bancada petista na Assembléia do Rio. A imagem política de Narriman não podia ser desconectada da de Zito e. 10/09/2003). Narriman causou desconforto. portanto. irmão do banqueiro de bicho Aniz Abrão David. deputado estadual Gilberto Palmares. A ingerência de Zito na administração dos municípios chefiados por seus parentes era alardeada pelos jornais. Narriman Zito. ao clientelismo e ao uso da máquina política com fins eleitorais.petista”. Elevada à condição de estrela do programa de TV do partido sem consulta prévia às lideranças regionais petistas e apenas dois dias após ter sido filiada. A Executiva pressionou e obteve do Diretório Municipal de Nilópolis (RJ) a rejeição à participação de petistas na gestão do prefeito Farid Abrão David (PP). no entanto. José Camilo Zito dos Santos (PDT). que criticou sua filiação (Agência Carta Maior. O ex-deputado Milton Temer preferiu ironizar: “Ou não era o programa do PT ou não era a Narriman”. Antonio Carlos Biscaia (PT). enviar sua 183 . eleita pelo PSDB e mulher do prefeito de Duque de Caxias. 16/09/2003). A filiação de Narriman Zito ao PT. Mas a participação no governo do PP de Nilópolis foi agora derrubada por meio de pressões da Executiva Nacional (Folha de São Paulo.

e eleitos foram. os Cozzolino não tinham desistido de Magé. o que gerava inquietações. eu sempre deixava à disposição. funcionário nunca me viu nem sequer sentado na cadeira deles. Os conflitos acompanharam todo o mandato de Narriman — por meio de denúncias em jornais (como as acima apresentadas) ou dos atendimentos realizados pela deputada Núbia e sua equipe. Eu sou um homem que respeito muito a condição de qualquer um e o exercício da eleição — que por ela passaram os dois. A objeção de membros do diretório estadual à sua filiação ligava-se. a aspectos ideológicos. noticiadas pela imprensa como comprovação da existência da “Zitolândia”. Claro que. Narriman era uma peça importante no tabuleiro político da Baixada que. Se eles assim pretendessem. mais impulsivo na demonstração de que eles não [es]tavam agindo corretamente como deveriam.equipe para “dar suporte técnico” foram algumas de suas ações. produzindo efeitos sobre outros atores e outras possibilidades de alianças eleitoralmente relevantes para alguns projetos políticos de membros do PT. marca registrada do governo Zito. 184 .. Além disso. Zito referiu-se a este assunto da seguinte forma: “Não é verdade. Eu confesso que eu até deveria ter sido mais duro. que eu tinha por eles um respeito enorme. mas do outro lado foi bom porque. foi por intervenção minha ou coisa parecida”. eles não podem dizer que se não fizeram um bom governo. mas evidentemente não podemos menosprezar as questões eleitorais implicadas em sua adesão ao novo partido. assim. Sua administração à frente da prefeitura de Magé tampouco trouxe os resultados esperados pela população. Tanto que ninguém nunca me viu lá mandando em nada. seu nome e suas relações políticas poderiam gerar uma alteração na configuração das forças internas ao partido no estado. inviabilizando uma administração voltada exclusivamente para a realização de obras. sem dúvida. um bom trabalho. de ser um mero fantoche do marido175. ao mudar de posição. 175 Na entrevista que me concedeu.mas nunca desrespeitando a democracia e a posição que eles ocupavam enquanto prefeitos.. quando eu percebia que alguma pessoa ligada a mim pudesse ajudá-los. E eles governaram a cidade deles sem nenhuma intervenção minha. que eles levassem pra que eles pudessem atuar lá como eles atuaram aqui. Narriman era acusada. alterou as demais relações. Além disso. hoje. desejosa de uma atuação semelhante à de seu marido em Duque de Caxias. O município governado por Narriman não contava com uma arrecadação tão expressiva quanto a de Caxias.

Desde o ano anterior. no governo dela. 185 . “Eu não estive nenhuma vez lá [na reeleição da Narriman] porque nós tivemos alguma divergência política. greves de motoristas de vans e todo tipo de denúncia sobre uso ilícito de dinheiro público. E não souberam ajudá-la para que ela fosse uma prefeita melhor do que foi”. Para o primeiro. Está bem claro atualmente que o PT não sabe governar. Só dão a César o que é de César. A eleição municipal de 2004 traria novas surpresas. Foi usada sem que lhe dessem retorno político e governamental. a cidade sofreu com paralisações de servidores municipais. […] Eles [o PT] têm as cartas marcadas. de governo. em Belford Roxo. também não fui mais lá” (Zito. 176 Em 2003. deixaram ela à deriva. estaduais e feito com que o trabalho dela e de tantos outros prefeitos que eles governam pudesse aparecer. já me afastei e na reeleição. Freqüentou reuniões em Magé juntamente com sua esposa. Começavam aí os desentendimentos que resultariam na ausência de Zito durante toda a campanha para a reeleição de Narriman176. estreitou relações com José Genoíno e Gilberto Palmares na tentativa de uma coligação PDT-PT contra a força de Garotinho no estado. A cidade continuava com os mesmos problemas de antes e as promessas de que “Waldir é Zito” não se concretizaram.Na avaliação de Zito. “Se o PT quisesse. Zito já havia desistido da reeleição de seu irmão. Waldir tinha um grande índice de rejeição: em sua gestão. Ela já se achava pronta para caminhar sozinha politicamente e eu. não hove conciliação nas negociações em torno do nome para disputar a eleição em Duque de Caxias e Zito acabou escolhendo um nome do próprio partido. teria levado até Magé muitos recursos através de deputados federais. então. Isso não foi feito. a filiação de Narriman ao PT foi um equívoco. ela não era reconhecida pelos demais membros do partido como “um deles”: “[Era] um peixe fora d’água no PT. No entanto. Eles usam você” (idem). Zito parecia inclinado à adesão ao PT. Pelo contrário. tanto quanto na de Andréia. 26/04/2006).

e sim o de toda uma cidade e o apoio dele é fundamental. Não que ele não seja 186 . eu represento o ‘Projeto Zito’. com certeza. o projeto que não é mais uma pessoa. mas diante da hesitação partidária frente às demais opções. Andréia não podia disputar a prefeitura como “sucessora natural” de seu pai. “Eu tenho consciência de que. e isso. Na avaliação de Zito. hoje. a sucessão tornou-se uma questão complicada. Laury não era o nome mais indicado para concorrer ao pleito. a alternativa foi escolher entre um dos aliados “de fora”. a minha competência na forma de administrar essa cidade” (entrevista com Laury Villar. eu vou poder mostrar a minha capacidade. descartada a possibilidade de manter-se como um dos peões no jogo político de Zito. tentava a reeleição e Waldir não havia demonstrado habilidade no exercício do mandato executivo — estando. eu tenho certeza que o Laury será prefeito muito mais pelo apoio de tudo aquilo que o Zito fez na nossa cidade. por conseguinte. no entanto. aí sim. em agosto de 2004). é a minha bandeira. Diante da impossibilidade da transferência de seu capital político a um dos membros da família. com projeto político próprio. Eu acho que hoje o governo que o Zito fez na nossa cidade resgatando a auto-estima e a cidadania do povo de Duque de Caxias tem sido uma marca muito grande. a bandeira da continuidade desse projeto político e o apoio do Zito. Narriman.Em Duque de Caxias. Que nome seria capaz de substituir Zito? Seu carisma seria transferido ao sucessor? Quem seguiria o seu estilo político? Devido à legislação eleitoral. é fundamental. acabou apoiando tal candidatura. “Eu cheguei ao término [do mandato]. Sob o lema da continuidade política. não tenha dúvida. e eu tenho certeza que com o apoio dele. fazendo a opção por um candidato que não era o preferido. por sua vez. Laury Villar — que ingressou no PDT juntamente com Zito — foi o escolhido pelo partido para concorrer à prefeitura de Duque de Caxias.

a caneta seria dele então […] não era o nome que eu escolheria. Nesta função. o escolhido foi o Laury já que eu sempre tive por ele uma grande admiração. mesmo que eu tivesse por trás. que foi vereador comigo. sob o comando de Pelé). mas aí teve um problema na vida dela familiar. Laury permaneceu por onze anos — atravessando distintas administrações — sendo responsável pela implantação de projetos de vulto como a Vila Olímpica de Duque de Caxias (através de verba do Ministério do Esporte. Formado em Administração de Empresas e em Direito. Mudaram-se para Duque de Caxias em 1945. de Madureira (subúrbio carioca). não é isso. Mas você sabe que o poder é o poder. não é isso. Depois eu achei que a Secretária de Educação [Roberta Siqueira] seria um grande nome pra ser a minha sucessora. O ingresso de Laury (pai) na vida política daria-se apenas em 1966 (como vereador). no governo do então prefeito José Carlos. mas não o titular. Mas eu tinha outras idéias. mas ele resolveu não ser candidato. pessoal. e sua mãe. Eu acho que era um grande nome pra cidade. Volto a frisar que não seria o meu candidato enquanto prefeito porque ele era vereador — foi meu Presidente da Câmara — mas eu não via ainda uma experiência avantajada para que ele viesse a ser prefeito. Laury é casado e disputou a primeira eleição em 187 . né? Sondei um grande amigo meu que foi presidente da Câmara na minha época. na época. Não que eu perdi a empolgação com ele. Muito ligado ao meio esportivo e com um bom trânsito político. Este último era natural de Campos. deixaria a vida pública em 1988. conseguiu que seu filho fosse nomeado Secretário de Esporte do município. de casamento e tal e isso traria um desgaste enorme na campanha. se tivesse na minha vontade. pela vivência que nós tínhamos. né? Eu acho que ele pode até ser um bom vice. em 1989. pelo conhecimento político dele. cujo nome herdou. A trajetória de Laury Villar está intimamente relacionada com a de seu pai. eu acho que ele ainda está jovem pra isso”. Então. Não porque eu vim a perder as eleições com ele. Após cinco mandatos consecutivos.uma pessoa que não tenha qualidades para exercer o poder e não que eu não tenha confiança e não que eu não gostasse. no noroeste fluminense.

M. diferenciando-se do prefeito de Caxias. eu fiquei 2 anos como líder de governo. ficou entre os dez mais votados no município. Representando o que ele próprio chamou de “projeto Zito”. Apoiado pelo prefeito. lança mão de características como a discrição e o equilíbrio em contraposição à impulsividade de Zito. Sua 188 . o discurso de Laury centra-se no tema da continuidade. de segundo escalão. como mencionado por um de meus entrevistados (Sr. evangélico. Na definição que elabora a respeito de si mesmo. não seria fácil já que o candidato por ele apoiado era oriundo das camadas médias caxienses. 58 anos. “Estudado” e sempre “bem vestido”. para o qual foi eleito com 4. no entanto. com seu linguajar simples e trajes “de gente do povo”. não impedia que Laury fosse também classificado como “gente de bem”. morador da Vila Operária). Sua atuação sempre foi mais técnica. 05/04/2004). “Assumi meu mandato e o prefeito já me deu uma incumbência muito grande que foi ser o líder do Governo na Câmara. Grosso modo. A associação com a “gente de dinheiro”. Fui eleito por unanimidade” (entrevista com Laury Villar. A transferência do carisma de Zito. segundo ele próprio — ao cargo de vereador pelo PSDB. Apesar de localmente percebido como “homem de bem”. e a secretaria que comandava. bastante vinculado à imagem de “homem do povo”. Laury não exercia a mesma “mágica” de Zito.594 votos. “pessoa direita” e de pautar a construção de sua fala e de sua apresentação de si na ética e na responsabilidade — que também parecem ter marcado a vida pública de seu pai — ele não era conhecido por parte significativa da população do município. Não reunia características que possibilitassem sua associação a Zito ou mesmo a seu discurso. Fui candidato a presidente da Câmara para o biênio 2003 e 2004. sempre enérgico e veemente. não podemos dizer que Laury seja um político carismático ou de grande expressão eleitoral.2000. concorrendo — a pedido de Zito.

idem) — exemplificada na Baixada pela atuação de centros assistenciais dos mais diferentes tipos. já pelo PMDB — seu atual partido — foi reeleito com 64. concorreu à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. fato ao qual caberiam interpretações distintas (ou. opostas): maximização do tempo e /ou estratégia de campanha ou. op. cit. ligados a vereadores e membros de suas famílias. até mesmo. de dedicação. aos 28 anos de idade.. Soares. “em fazer as leis”. Queiroz. op. Zito não compareceu a alguns dos eventos dos quais participei em 189 . compôs a chapa como vice-prefeito de Zito. em Duque de Caxias. Andréia. Zito. não se afastou dos trabalhos da prefeitura.atuação como vereador pautava-se na “fiscalização e execução do orçamento municipal”. sendo eleito o deputado mais jovem da casa.. Em 2002. O prefeito em exercício costumava privilegiar o horário noturno para a promoção de seu sucessor e eventos de maior repercussão. com 2. Nesse sentido. sob a alegação de que a ela não estaria dedicando-se a contento. de fato. cit. elegendo-se vereador por Duque de Caxias (PSC). Casado. a rotina de campanha. O principal adversário de Laury Villar na eleição de Caxias foi o deputado estadual Washington Reis (PMDB). cit. por outro lado. ligando-se também a projetos esportivos e culturais.788 votos. Em 1994. afastava-se da lógica da política dos vereadores (Leal. a eles destinando o período da manhã — momento em que deixava a cargo da filha. Na eleição municipal seguinte (1996). empresário e membro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. em 1992. Em 1998. op. cit.) e da constituição da prática política a partir do trabalho social (Lopez. Washington iniciou sua vida política aos 24 anos. falta de cuidado. A participação de Zito na campanha de Laury à prefeitura foi intensamente criticada. Lopez.194 votos. descrédito ou mesmo demonstração de descontentamento pela escolha de Laury. foi reeleito deputado estadual após desentender-se com o prefeito e deixar o cargo de vice. op. Durante o período eleitoral.

178 Ver. Transmitido pela emissora de TV CNT. A disputa. tornava-se cada vez mais acirrada e a entrada em cena da propaganda televisionada significou um capítulo à parte na corrida eleitoral. apesar de sua presença amplamente propagandeada.6% de Laury Vilar. No primeiro momento da campanha. faziam parte de uma estratégia de marketing para cooptar o maior número de pessoas para tais atividades — sua ausência sendo lida como descaso e abandono e deslegitimando o apoio alardeado em panfletos e propagandas políticas. p. O Globo de 29/09/2004.1% da amostra).5 da seção “O País”. Segundo a mesma pesquisa.Caxias. manifestando publicamente seu apoio a Washington Reis. 5% para Dica (PFL) e 3. por exemplo. No final do mesmo mês. Washington liderava com 47. os índices favoreciam o candidato do PDT — com 41. p. no entanto. o HGPE dos candidatos ao pleito municipal de Duque de Caxias redimensionou o cenário político local. com 35% (PDT)178. com 42% das intenções de voto e Laury Villar. Tais anúncios. 190 .11 da mesma seção em matéria na qual Washington Reis (PMDB) aparecia com 47% e Laury Villar (PDT) com 39% das intenções de voto.1% para Washington Reis (PMDB). no dia 21 de setembro.4%.8% para Alexandre Cardoso (PSB)177. a disputa seguia acirrada e os jornais anunciavam empate técnico entre os dois primeiros colocados: Washington Reis (PMDB). contra 33. além do uso da máquina do governo do estado. em setembro. A participação de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus. Zito parecia acreditar que seu nome por si só já seria suficiente para promover a candidatura do sucessor. A pesquisa foi registrada no TRE de Duque de Caxias sob o nº 086/04.7% das intenções de voto contra 37. e de 03/10/2006. foram fundamentais para a reviravolta nas intenções de voto. A vinculação ao nome de Zito 177 Pesquisa realizada pelo GPP com 600 pessoas. entre o eleitorado evangélico (que somou 32. sem dúvida. A princípio.

Dica.6% de Laury Villar (TRE/RJ). adversário de Garotinho. portanto. sem dúvida. As negociações para as alianças no segundo turno começaram antes mesmo do resultado de 3 de outubro. O PDT não favoreceu a ampliação de capital político de Laury e o apoio da executiva nacional do partido ao PMDB. Apesar do apoio de César Maia (PFL) ao candidato do PDT. o candidato pefelista. recebeu Laury e Sandro Matos (candidato do PTB à prefeitura de São João de Meriti) no Palácio da Cidade para formalizar seu apoio e marcar as gravações dos programas eleitorais. totalizando 45. sendo. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. no segundo turno das eleições. No fim de setembro. alegando ser um adversário de longa data do prefeito caxiense. a costurada com César Maia. as matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo. deixou seu candidato em situação complicada.2% dos votos válidos contra 41.não conseguiu fazer frente à distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII e pelos centros assistenciais do candidato do PMDB em Caxias. O primeiro turno acabou com vantagem de Washington Reis. no dia 8 de outubro. A mesma tática utilizada na campanha em Nova Iguaçu era implementada nos demais municípios da Baixada e em outros do estado do Rio de Janeiro: entremear o discurso religioso com as ameaças de corte de verbas estaduais aos municípios que elegessem os adversários da rede política de Garotinho179. A aliança de maior peso foi. 191 . todo o arsenal do PMDB voltou-se contra o candidato do PDT. que. por exemplo. também aliou-se a Washington Reis (PMDB). Este tema voltará a ser abordado mais detidamente no capítulo 5. O prefeito reeleito do Rio visitou Duque de Caxias diversas vezes nas últimas semanas antes da eleição — o PT demonstrando seu apoio por intermédio das visitas da ex-governadora Benedita da Silva e de gravações para a propaganda televisiva das quais participaram seus principais líderes 179 Ver. inconcebível seu apoio ao candidato de Zito.

após rompimento com o grupo político do ex-governador Garotinho (e apoiando também o candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT. Lindberg Farias. Por toda a cidade. que representa o grupo político do exgovernador Anthony Garotinho. ambos interessados em derrotar o grupo político de Garotinho com vistas às eleições de 2006. o Jornal do Brasil de 31 de outubro dava o tom da disputa no segundo turno daquela cidade: Na véspera do 2º turno. contra 43% do adversário.O povo deixou bem claro que quer mudanças. havia outdoors e bandeiras dos dois candidatos — Washington Reis (PMDB) e Laury Villar (PDT). Em matéria intitulada “Caxias tem guerra de caciques”. Laury Villar — este com o apoio do PT e do PFL de César Maia. Washington Reis. José Camilo Zito. ressaltou a importância da aliança com o governo estadual. 192 . Duque de Caxias era o retrato da eleição não decidida. conseguiu com Duque de Caxias uma das vitórias político-eleitorais mais importantes do estado. que tem o apoio do atual prefeito. como os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Humberto Costa (Saúde).comentou Laury. Tenho certeza de que o eleitor vai saber reconhecer quem é o melhor . . venceu este último que.nacionais. Washington Reis aparecia na pesquisa Ibope com 46% das intenções de voto. Ontem. . Na queda de braço com Garotinho. no segundo turno das eleições) participou de algumas caminhadas com Zito e o candidato Laury.O povo de Caxias abraçou nossa campanha. dentre as muitas derrotas sofridas nas eleições municipais de 2004. os dois candidatos optaram por seguir em carreatas e demonstraram confiança. Os últimos dias da campanha já apontavam uma certa vantagem do candidato do PMDB. apesar da situação ser apontada como empate técnico. Manoel Ferreira (PP) que. isso vai se refletir nas urnas. Outra importante aliança foi com o pastor da Assembléia.

Sempre vi nele um político trabalhador. Eu confesso que estou consciente. não evolua[m]. uma cidade que eu vejo falar com tanta parceria com o estado. muitas promessas que foram trazidas na época de eleição e que não […] que eu tinha certeza que não teria condição de fazer. será que não houve falha da tua parte? Porque o Washington poderia estar com você até hoje.397 de Narriman) e Maria Lúcia voltava à 193 . não serei eu […] o autor disso aí. com certa experiência no campo legislativo. inteligente. Zito. até porque não me sinto feliz com isso. Uma situação de uma série de problemas que estão aparecendo e que vão aparecer e que eu prefiro não ser aqui o denunciante porque a imprensa e os órgãos responsáveis certamente irão trazê-los no momento certo. tentando viabilizar uma eleição do candidato do partido dele [Anthony Garotinho]. eu não via nele um grande sucessor pra vir a me suceder e ser um grande prefeito. mas sim imaginando que a cidade não teria essa continuação desse desenvolvimento e ele tá mostrando aí. Uma cidade que entregamos com 100 mil alunos e que pegamos com 30 mil alunos. nós entregamos com 68 milhões de reais/ mês. Núbia Cozzolino conseguiu ser eleita em Magé (com 46. mas não como executivo. mas a riqueza na vida particular. não venham a evoluir […] isso eu sentia no meu coração. né? Uma cidade que eu deixei sem débito nenhum — quando eu peguei o município. Uma cidade que entregamos nas mãos dele. Porque eu via sempre nele uma sede enorme de poder. a renda mensal. e ele acabou com isso. Já que eu percebia a vontade de riqueza. Uma cidade que eu vejo muita bravata. Não porque eu quisesse continuar comandando o município. Uma cidade que hoje eu vejo falar em empréstimo no BNDES. no piso inicial. Com as derrotas amargadas pela rede política de Zito. seu sucessor haja visto que ele foi o vitorioso nas eleições e tal’. na vida pessoal e isso faz com que os políticos não cresça[m].699 votos contra apenas 31. cada vez mais convicto que acertei em não fazê-lo o meu sucessor ou o meu candidato a meu sucessor. ser o seu candidato. Mas isso vem a fortalecer a minha visão da época em que eu achava que ele não deveria ser o meu sucessor”. ele nunca seria um nome escolhido por mim.“Muitos me perguntam assim: ‘Mas. que não seria o nome que eu poderia trazer e dar a responsabilidade da minha sucessão. por isso. foi com 12 milhões de reais. Então. Então. né? Não a riqueza política. com o professor mais bem remunerado de todo o estado do Rio de Janeiro — ganhava cinco salários mínimos.

cada um tem seu lado forte. 06/11/2004. a sua eficácia. a não ser que tenha uma passagem pelo legislativo. Sua campanha não contou com o apoio esperado do partido. como eu acho que todo mundo deve fazer. pela vontade própria e por interesses de amigos que moram em Belford Roxo que tinham assim. eles começaram pelo terceiro degrau.. O Waldir.. Tanto que eu pedi ao Waldir que não se candidatasse e ele foi […] ele respeitosamente aceitou o meu pedido e não se candidatou. eu jamais faria isso” (Grifos meus). Se perguntar se eu faria isso de novo eu vou dizer que não faria. como ficara com o segundo lugar com uma diferença considerável de votos. 06/11/2004 e O Globo.. em Magé. Mas não é a mesma coisa. de forma alguma desistira de seu projeto político. Não foi uma criação minha.. Ele — acho eu — dificilmente retornará à vida pública em qualquer cargo eletivo. no entanto. mas tá cada vez mais comprovado que cada pessoa é uma pessoa. por exemplo. Ele. À frente da Secretaria de Relações Institucionais. do mesmo jeito. os jornais anunciaram amplamente que Zito havia perdido o posto de “rei da Baixada”180. Como eu fui.hoje eu vejo. A aproximação com César Maia foi. É o ABC da política […] Tem que começar pelo primeiro degrau. concretizada com o convite e a criação de uma secretaria para Zito. o seu conhecimento. 180 194 . uma vontade minha fazê-los políticos. como outras na Baixada. não sendo considerada “estratégica”.prefeitura de Belford Roxo. O Dia. as matérias publicadas nos seguintes jornais: Jornal do Brasil. 04/11/2004. Hoje.tinham uma vontade. E as pessoas ficaram frustradas em não ter tido a sorte de que eles pudessem fazer com que o sonho deles virasse uma realidade. Zito estava Ver. Falta de experiência e visão. “Foi um grande erro político meu. Nós não somos iguais. né? […] Confesso a você que não foi de minha vontade e isso mostrou a minha força política — que eu elegi os dois — mas também serviu de desgaste político enorme pra mim e de problemas com vários políticos. Começar como vereador. E não farei isso mais porque as pessoas que votaram no Waldir e na Narriman votaram pelo Zito e achavam que eles pudessem fazer o mesmo que eu fiz em Duque de Caxias. então. Narriman não apenas não havia conseguido se reeleger. interesse pessoal na ida dele pra lá e a Narriman. Na ocasião.

26/04/2006). O Marcello diz que foi por minha causa que meu pai voltou. uma vez que se cogitava seu possível ingresso no PFL de César Maia. em setembro de 2005. Foi preciso muita conversa. César. Mas foi mais como filha. Mais do que apoio para a volta ao PSDB. por sua vez. nesse momento. agora no PP e aliado do atual prefeito de Caxias. não podia dispensar seu capital político que. Nesse momento — não mais contando com a aliança com o antigo aliado político. Washington Reis — sua filha. Zito teria inclusive desistido de cargos políticos no ano de 2005. Heleno. ao de Zito. Em seguida. Se este último desejava continuar no cenário político. acabou provocando um certo mal-estar. O projeto político de César Maia era coincidente. 195 . Zito deixou o cargo que ocupava na Prefeitura do Rio de Janeiro a convite do prefeito para dedicar-se à campanha de 2006. no início deste ano. Eu o convenci a retornar ao PSDB. E eu falei pra ele que achei um erro ele ter saído do partido. A gente conversa muito. Andréia configurou uma peça-chave para a retomada de Zito à vida pública. Segundo Andréia. somado ao de Lindberg Farias na prefeitura de Nova Iguaçu. foi mais com o coração que eu falei com ele do que como deputada. depois da derrota em Caxias e dos desgastes com o PSDB. “Meu pai havia desistido. O lugar dele é no PSDB” (Andréia Zito. e depois com o próprio PDT. a deputada estadual Andréia Zito. mantendo seus acessos e reconhecimento como mediador legítimo. o retorno ao PSDB marca a retomada do projeto inicial de Zito. O seu retorno ao partido. destaca-se na operação de retomada de sua trajetória política. Dr.incumbido de conseguir apoio onde o prefeito carioca não gozava de grande prestígio: na Baixada. poderia significar votos em uma região tradicionalmente resistente a seu discurso. Sendo assim.

“Nas eleições em Caxias. Esse é o meu caminho. E pretendo fazer a Andréia nossa deputada federal. para que fosse senador. eu quero voltar a ser deputado estadual por dois anos. se concretizadas. me deixou. com pequenos grupos para conseguir apoio e mostrar o que pretendemos. Por que? Porque eu vou ficar mais próximo às bases no meu estado. Mas eu quis e quero reiniciar minha vida pública no cargo de deputado estadual. em 2010 me credenciar de novo a ser candidato a governador. A minha filha que tem dois mandatos de deputada estadual […] houve uma lacuna nessa nossa caminhada. 26/04/2006). eu quero fazer um trabalho enquanto deputado estadual que venha a abranger todo o estado do Rio de Janeiro. A campanha de rua é o nosso forte. porque eu quero voltar a ser prefeito e fazer um grande trabalho. Então. porque é muito importante pra mim. Fazemos reuniões em casa de família. As articulações nesse momento giram em torno dessas duas candidaturas que. eu pedi que a Andréia fosse candidata a federal e eu a estadual para que eu venha a recomeçar o meu trabalho não só aqui em Duque de Caxias.Para viabilizar seu retorno e seu projeto político de retomar a administração de Duque de Caxias. Heleno — que sempre foi o meu federal — acompanhou também o Washington. a minha pretensão política e eu vou trabalhar para que eu tenha uma votação expressiva em todo o estado do Rio de Janeiro e não só em Duque de Caxias. Eu quero poder ajudar os prefeitos em outras cidades. Zito optou por candidatar-se a deputado estadual nas próximas eleições e tentar fazer de sua filha uma aliada na Câmara dos Deputados — posição até então ocupada por Dr. “Agora. em 2008. fazendo o fechamento do PSDB com outros partidos. Nós trabalhamos assim” (Andréia. Por isso. as emendas venham e pra que eu possa ajudá-la e que ela me tenha como guia para que esses recursos possam chegar nas 196 . para que fosse vice. porque o Dr. pra que os projetos federais. Heleno. Enfim. na sua reeleição e com algumas outras lideranças que por ventura venham a surgir. Mas minha credibilidade política cresceu. nós estamos indo de casa em casa. Os convites aconteceram para que eu fosse candidato a governador do meu partido. podem significar maior proximidade do objetivo final de Zito: o governo do estado em 2010. nós batemos na trave. as verbas federais.

segundo ele ainda estariam juntos. Quando perguntado sobre seus aliados políticos no momento. 26/11/2004. Não foi objetivo desta tese classificar ou mesmo rotular este ou aquele político de assistencialista. Todo o desgaste oriundo da insistência em levar a cabo o projeto de candidatar-se a governador acabou lhe rendendo um grande ônus político. apesar de seu prestígio pessoal em Caxias estar aparentemente intacto. mas durante a entrevista Zito não usava aliança. Os jornais parecem concluir que a união do casal não durará muito. Dr. acertos políticos momentâneos e instáveis. já que. Lindberg Farias. ainda filiada ao PT. indo para o lado adversário. Zito parece relativamente isolado. 26/04/2006). implicou no afastamento de César Maia — a relação de proximidade com Lindberg e o PT sendo imprevisível. Os demais políticos com quem mais recentemente manteve estreitas ligações — César Maia. entre outros — são nomes de ocasião. 197 . Laury Villar. Apesar do discurso de que “há um exército [de aliados] atrás de mim”. 181 O Dia. Em relação a Narriman. Heleno.cidades onde nós certamente iremos trabalhar” (Zito. Seu mais antigo aliado político. mencionou apenas dois: sua filha Andréia e o candidato derrotado nas eleições municipais de Duque de Caxias. ou seja. contrariando os interesses políticos do marido que afirmar que ele deveria sair da política181. a ex-prefeita teria sido convidada a disputar as próximas eleições como candidata do partido à Assembléia Legislativa. o abandonou. por exemplo. As diversas falas aqui apresentadas permitem-nos apreender a multiplicidade de interesses em jogo e as formas pelas quais as práticas políticas são operacionalizadas. O retorno ao PSDB.

Assim. 198 . Nunes (1997).) – ou mesmo o desgaste nas relações familiares (com Narriman e Waldir) puderam ser entendidos em relação às estratégias individuais e às mudanças por que passaram os projetos políticos dos atores em questão. a preocupação em tampouco diluir ou mesmo suprimir a pecha de populista ou assistencialista remete à percepção de que as relações em questão estão sempre envoltas em tipologias e classificações (nativas ou não) associadas a julgamentos de valor. obter êxito. cit. 184 A expressão entre aspas é de Jairo Nicolau (1996) quefaz uma análise sobre o sistema político e. op.. independentemente de seu carisma pessoal. podemos relacionar os projetos em jogo. sobre os partidos políticos no Brasil. nem mesmo de benfeitor. op. Harris (1978) e Girardet (1987). particularmente. A incapacidade de manter-se como mediador político (mesmo que temporariamente).). Nesse sentido. os campos de possibilidades dos atores e sua capacidade de mediação (Velho. no período pós-1985. foi demonstrada através da tentativa mal-sucedida de imposição de sua vontade e projeto a outras lideranças. Velho e Kuschnir. op. messias ou salvador183. são novamente acionados quando nos depararmos com o insucesso de Zito na efetivação de 182 183 Leal (op. a análise da trajetória de Zito permitiu-nos expor com minúcia as estratégias e os obstáculos enfrentados para a concretização de seu projeto pessoal — e em que medida tal projeto podia associar-se a outros e. Ao traçar as possíveis relações entre os discursos sobre ou para uma determinada pessoa e ressaltar a polifonia existente na constituição dos processos de identificação sociais vinculados às práticas políticas e eleitorais. Grosso modo.cit.populista ou clientelista182. cit). cit. o papel e a influência dos partidos — apesar do “sentimento de inferioridade” com relação a estes últimos184 — mesmo que minimizados em trajetórias como a aqui abordada. as disputas internas ao próprio partido – a luta entre “os mais iguais entre os iguais” (Heredia. assim. herói. Weffort (1980). Por outro lado.

199 . Aparentemente isolado politicamente. Novamente. tampouco de lhe assegurar a prefeitura de Duque de Caxias como base para projetos futuros.seu projeto de candidatar-se ao governo do estado. seu carisma. por si só. não foi capaz de garantir a concretização de suas intenções. Zito enfrentará sua prova de fogo nas eleições de 2006. Testando o seu carisma pessoal e sua capacidade de mediação política. sua vitória ou derrota para a ALERJ — e a de sua filha para a Câmara de Deputados — definirá os destinos políticos de sua família.

. a última selecionada para pensarmos a Baixada como o resultado da multiplicidade de práticas políticas locais. Neste capítulo abordarei a trajetória de Lindberg Farias. Sendo assim.CAPÍTULO 4: LINDBERG: DO MUNDO PARA A BAIXADA O Brasil está olhando para esta eleição em Nova Iguaçu. meu acesso ao candidato petista não foi imediato. não realizei uma entrevista formal. tampouco sem esforços. como ponto de partida. 04/10/2004). trabalhei com fontes documentais sobre sua vida política — fundamentalmente com o Dicionário Histórico e Biográfico Brasileiro (Abreu et al. novos) discursos (e projetos – individuais e coletivos) sobre a região e o próprio fazer político. ainda. devido à inexistência de uma biografia até o momento — além de matérias de jornais de âmbito nacional e regional. de entrevistas com alguns assessores e pessoas ligadas à sua campanha. expondo os diferentes (e em alguns casos. Embora tenha conversado com Lindberg. 2001). em 2004. Utilizei-me. Fiz observação participante. seus atores e processos de identificação nelas envolvidos. documentos de partidos políticos e material obtido por meio de pesquisa em sítios eletrônicos diversos. acompanhando o cotidiano de sua campanha pelo maior tempo 200 . afirmou Lindberg Farias (Jornal do Brasil. Conforme demonstrarei no decorrer do capítulo. acionados durante a campanha eleitoral para o pleito municipal de Nova Iguaçu. Esta apresentação visa refletir a respeito da multiplicidade em termos representativos e expressivos.

bem como a dos demais atores políticos aqui apresentados. Km 32 (57. Carlão (PSTU) e Zé Renato (PCB).467 hab. Segundo as estimativas deste mesmo órgão. Vila de Cava (63.). Fernando Gonçalves (PTB). 186 Ver capítulo sobre a(s) Baixada(s) e seus municípios.).). 201 . 750. carreatas e encontros — dos três principais candidatos à Prefeitura de Nova Iguaçu185.).350 hab.035 hab. conversei também com moradores dos mais diversos bairros da cidade em circunstâncias variadas e participei de eventos — showmícios. disputando a hegemonia política regional somente com Duque de Caxias.) e Tinguá (13.). ao lado de Duque de Caxias (a segunda no ranking. Nova Iguaçu pertence à Região Metropolitana do Rio de Janeiro e constitui um dos núcleos do lugar Baixada Fluminense.). Conforme tratado em capítulo anterior186.possível. Comendador Soares (108.834 hab. Nova Iguaçu sempre teve um papel crucial na Baixada Fluminense — até a década de 1980. Cabuçu (76.).614 hab. em 2002. Austin (96. Mário Marques (PMDB). em 2004. constituía uma das cidades mais importantes política e economicamente dentro da região. Nova Iguaçu transformou-se no cenário 185 Os candidatos à prefeitura de Nova Iguaçu.487 habitantes.328 hab.562 hab. cada vez mais dinâmicas e fluidas. caminhadas. Nesse sentido. Posse (117.).679 hab. foram: Lindberg Farias (PT).117 habitantes) e. distribuídos por nove unidades regionais (URGs): Centro (175. em 2004. a cidade possuía. com 830. A trajetória de Zito. Miguel Couto (50. trazendo à tona a complexidade do fazer político numa arena ampliada para além das fronteiras fluminenses e de seus “caciques”. em 2004.). De acordo com o IBGE.872 hab. Durante o trabalho de campo. abordada no capítulo anterior.199 hab. Nova Iguaçu contava com a terceira maior população do Estado do Rio de Janeiro (817. ilustra exemplarmente o processo que culminará. na reconfiguração das relações de poder locais.

do Partido dos Trabalhadores (PT). Elegeuse. Gazeta Mercantil. fundamentalmente. obteve 4. As disputas internas ao partido e interesses em possíveis coligações impediram que o projeto de Garotinho se concretizasse. onde disputou sua primeira eleição (em 1982. fazendo greve de fome como protesto ao que chamou de tentativa de “derrubá-lo”.45% do total da votação (Dados do TSE). não conseguiu eleger-se porque seu partido não atingiu o coeficiente eleitoral mínimo. Marcello Alencar. ambos do PMDB) e o governo federal (o presidente Lula e o PT). Foi Secretário de Agricultura do estado do Rio de Janeiro. Em 1998. os holofotes para a Baixada Fluminense187. 1989: 163-164. em 2002. elegeu-se para a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. em segundo turno. Em 1996. para a Câmara dos Vereadores. com 58% dos votos válidos para o mandato de 1999 a 2003. tendo como vice. assim.de uma das eleições mais noticiadas daquele ano — tanto pela imprensa escrita carioca. secretário de governo de sua esposa. Garotinho foi eleito para a prefeitura de Campos. pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). entre outros). No ano de 2006 tentou lançar-se pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB.423 votos. O casal é evangélico. Ele foi alvo de diversas denúncias de mal uso do dinheiro público feitas pelo jornal O Globo. 2004:60). representando 51. Até o momento da revisão final desta tese. o exgovernador e ex-secretário de segurança do estado. entre 1993 e 1994. o PMDB ainda não havia tomado qualquer decisão sobre possíveis coligações e. mas não teve sucesso. em segundo turno. candidatou-se à prefeitura de Campos. Estado de Minas.379 votos de Benedita da Silva. em seguida tornou-se Secretário de Segurança do estado. tendo sido derrotado. na gestão do então governador Leonel Brizola. 187 202 . a este respeito. Em 1986. Anthony Garotinho. Rosinha Matheus. em seu primeiro mandato eletivo.30% do total dos votos válidos. deixou o cargo para lançar-se novamente candidato do PDT ao governo do estado do Rio de Janeiro.954. ainda pelo PDT. redirecionando. quanto por alguns jornais de caráter mais abrangente (O Globo. 188 Ver. pelo PT). Rosinha Matheus e seu marido. Tais eleições acarretaram uma visibilidade política inédita para a região. as coligações para o cargo de Presidente implica no respeito a tais coligações também nas esferas estaduais para a eleição de Governadores. de “tirá-lo do campo” maculando sua imagem de homem público. as redes políticas que atuam na Baixada polarizaram o campo político (pensado em termos de lutas entre concorrentes pelo poder político na cidade e na região como um todo188). membro da Igreja Assembléia de Deus (Barreto. Bourdieu. Neste mesmo ano foi candidato ao governo do estado pelo PDT. do PT. Em 1988. Já Rosinha Matheus é Governadora do Rio de Janeiro. Estado de São Paulo. Folha de São Paulo. Apesar de ter sido o candidato mais votado da cidade. totalizando 24. pelo candidato do PSDB. No pleito em questão. Benedita da Silva. Foi.101. em torno de dois candidatos principais: Mário Anthony Garotinho nasceu em Campos. devido à verticalização. A cobertura da imprensa nacionalizou as campanhas locais e transformou a cidade no palco da guerra política entre o casal Garotinho (a governadora do Rio de Janeiro. contra os 1.

Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS) em 1981. no qual permaneceu até 1990. por constituir o primeiro passo em direção a um projeto político coletivo do PT para o Rio de Janeiro. PSDC. principalmente. Pela primeira vez. PL. 190 Tais “imagens” não desapareceram por completo. em 1996. Reeleito pela quarta vez em 1982. reelegeu-se vereador pela terceira vez (ARENA). Em 1970. PSB e PC do B). Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. Neste trabalho.882 votos. PHS. com 3. reelegeu-se vereador. em duas legislaturas (1970/ 1972/ 1976). PSC. do PMDB — através da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. e Secretário de Administração da Prefeitura. da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. participando. PSDB. do outro lado. em muitos anos. com 4. de forma mais ampla. PRTB.180 votos. momento em que atuou também como relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu (em 1988 e 1990). obtendo a 5ª suplência. PFL. escolhido para disputar a eleição na cidade pela coligação “Hora da Mudança” (PT.Marques189. após 30 anos de mandatos legislativos. um breve resumo de sua biografia. Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. obtendo 1. PRONA e PT do B) — e. como relator. foi eleito vereador em seu primeiro mandato (pela ARENA).025 votos.024 votos. sobretudo. com um total de 4. no entanto. foi Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. PMDB. Nova Iguaçu e a Baixada. Advogado. o paraibano Lindberg Farias. PPS. de 1967 a 1968. candidatou-se à Câmara dos Deputados pela legenda do PTR. foi o 3º mais votado do município. PRP. composta por 16 partidos (PP. De 1999 a 2000. conforme retratado por Silvia Ramos e Anabela 189 203 . PSL. tendo assumido o cargo em 2002. Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) ainda pelo mesmo partido.772 votos. foi Juiz de Paz da Comarca de mesmo nome. mas também do país de forma mais ampla — mas.397 votos e reeleito. Faz-se necessário. criminalidade ou pobreza da região190. Em 1988. pelo mesmo partido. foram minimizadas em relação às demais regiões do estado e. A opção pela análise da trajetória de Lindberg deveu-se não somente à novidade representada por sua candidatura — em termos do lugar que a Baixada (via Nova Iguaçu) passaria a ocupar na política do estado. PTN. Em 1990. PV. tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. com 1. ainda pelo PDS. com 2. entre 1967 e 1970. obtendo 2. já pelo PPB. Aos 63 anos. Em 1976.615 votos — sendo o 1º da coligação PTR/ PST. Foi reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. com implicações para as eleições futuras (de 2006). ao município do Rio de Janeiro. com 3. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. posteriormente eleito 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. PDT. eram alçadas a manchetes nacionais sem remissão direta (ou exclusiva) à violência. PMN. não abordarei a campanha de Mário Marques. em 1972.761 votos.

Enio Candotti. como secretário-geral. O “encontro” com a política também deveu-se. o presidente da CUT. Sua inserção na vida política universitária iria. o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba. 191 Jornal do Brasil de 16/07/1992. Luiza Erundina. Lindbergh filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). começou a vida adulta trilhando o caminho do pai — ao optar pelo curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. Paiva no relatório completo. em 1961. de certa forma. Porque Nova Iguaçu é só o começo. no palanque. Luís Lindbergh Farias Filho nasceu em João Pessoa (PB). durante a sua campanha em 2004. Jair Meneguelli. Em 1988. realizado pelo CESeC. foi eleito presidente. em 8 de dezembro de 1969. Em 1991. assim como no relatório Impunidade na Baixada Fluminense. em maio de 1992. no qual permaneceu por dois anos. em cerimônia na USP na qual estiveram presentes o então presidente do PT. à influência paterna —seu pai tendo sido ex-militante da Ação Popular (AP) e vice-presidente da UNE. integrou.Destinos e Projetos “Eu vim pra cá pra mudar Nova Iguaçu. João Amazonas191. organizados em conjunto por diversas entidades e centros de pesquisa (2005). entretanto.” Lindberg Farias. e o presidente do PC do B. tornou-se secretário-geral da UNE (União Nacional dos Estudantes) e. Filho da professora Ana Maria Nóbrega Farias e do médico Luís Lindbergh Farias. Luiz Inácio Lula da Silva. a prefeita de São Paulo. No ano seguinte. 204 . levá-lo em outra direção. o presidente da SBPC.

sua companheira e mãe de seu filho. temos um objetivo muito claro: unir toda a juventude que está indignada com os rumos que o país está tomando.Meses depois. No dia 31 daquele mesmo mês. terminando com a seguinte pergunta: “Você pretende seguir carreira política?”. “Na passeata de sexta-feira às 10h30m. Lindberg conheceu Maria Antônia Goulart durante uma das passeatas. suprimindo o H ao final e tornando-se conhecido apenas como Lindberg Farias. a UNE. Não interessa por que partido têm simpatia. referindo-se a Lindberg como “o novo herói”. 20/08/1992). quando reataram o casamento. juntamente com outras entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). exigindo o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (PRN) 193. Serão muito bem recebidos” (O Globo. também chamado Luís. partindo da Candelária. Cuba. 2001)192. A resposta negativa enfatizava os planos de “acabar os estudos”. publica uma entrevista feita com ele sobre as manifestações estudantis.. 192 É importante destacar que a própria grafia de seu nome foi alterada. organizou diversas manifestações públicas estudantis (e de cidadãos. os que defendem o impeachment do presidente Collor. a década de 1960 e a luta armada. de modo em geral).] Vamos unir todos que são contra a impunidade. Se os simpatizantes do PFL que defendem o impeachment quiserem participar. Maria Antônia e Lindberg se separaram e permaneceram assim até meses antes da eleição de 2004. a Central Única dos Trabalhadores (CUT). 205 . formar-se em Direito e trabalhar pela causa “dos trabalhadores e camponeses”. A partir de agosto daquele ano. o jornal Folha de São Paulo. os que são contra a corrupção. ótimo. que naturalmente estão participando [. 193 Nesse mesmo ano. Mas não queremos apenas os jovens.. a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Lindbergh se transformaria em um dos principais líderes do movimento dos “cara-pintadas” (DHBB.

liderando os estudantes a favor do impeachment. a ele referindo-se como o “astro do impeachment”. Lindberg é a estrela da chapa. 206 . O mais famoso dos “cara-pintadas” tornara-se importante e disputado politicamente. provoca paixões e distribui autógrafos. 194 Poucos dias após essa entrevista à Folha de São Paulo. suas palavras finais acabaram sendo um presságio: “Eu sempre vou querer estar no olho do furacão”194.5 milhão de estudantes universitários.Apesar de não assumir qualquer intenção de ingressar na vida pública. outro jornal — o Jornal do Brasil — afirmava que o sonho de Lindberg era diplomar-se. ele esteve à frente das manifestações estudantis contra o aumento das mensalidades e participou ativamente do Movimento pela Ética na Política (DHBB. Lindo. [. já figurava entre seus interesses. agita a moçada. op. Em matéria publicada em 5 de maio de 1993. que tem sete deputados e nenhum senador no congresso”.] No movimento estudantil. A conquista de um cargo eletivo. 13/09/1992). No ano seguinte (1993). a revista Veja ressaltava alguns dos atributos de Lindberg. Lindberg tornou-se um interlocutor privilegiado com o governo federal — na ocasião. desde o impeachment de Collor. É também a esperança do PC do B. já sob o comando de Itamar Franco (PSDB/MG) — a despeito das críticas de seu partido a esta administração. sem dúvida. O ano de 1993 foi de muitas conversas e de articulação política. “De fala arrastada e jeito sedutor... o partido responde pelo nome de Viração. mudar-se para o Rio de Janeiro e “com certeza. que hoje comanda a maioria das entidades estudantis do país.). constituindo um projeto pessoal. Através da visibilidade nacional alcançada com o “Movimento pela Ética”. o bonitão modelo anos 60 que se tornou o muso dos cara-pintadas. cit. Foi eleito por mais da metade dos votos dos representantes dos 1. fazer política” (Jornal do Brasil.

particularmente. PSB. filiando-se ao PSTU.Em 15 de agosto de 1993.cit. com 57. Mainwaring. a prática da “ciranda das siglas” adotada por muitos políticos convive.). 2001). Borges. como denúncia. Kuschnir. op. Sua atuação durante este primeiro mandato eletivo esteve. Sento-Sé. sociólogos (Diniz. os votos. na maioria dos casos. Sarmento. para pensar a operacionalização de um sistema partidário fragmentado — como no caso brasileiro — e a dinâmica dos números196. PT. 1997. 2000. 2003) — com ênfases diversificadas. muito ligada à educação.) de Lindberg foi vitorioso: ele conseguiu eleger-se o deputado federal mais votado de seu partido (PC do B). harmoniosamente com o tipo de Estado constituído na América Latina e. 196 O que denomino dinâmica dos números refere-se essencialmente à expressão numérica e percentual da representação política. 2001). 195 O tema em questão é abordado por inúmeros pesquisadores — historiadores (Beloch. sendo a primeira possível graças a um sistema multipartidário que qualifica como atendimento. Em setembro de 1997. 1999. a posição sustentada pela UNE — e à abolição do monopólio estatal das telecomunicações e do petróleo. como crítica à perda do caráter ideológico dos partidos ou. 1999. PV e PSTU) — com um discurso voltado para a área da educação. veiculada pelo jornal da Liga Bolchevique Internacionalista. Soares. que pretendia fazer uma análise da saída de Lindberg do PC do B. Dessa forma. no Brasil. de fato. não se concretizou. deixando de lado o caráter expressivo — de seu sentido e de sua dimensão de valor. no contexto da disputa eleitoral — como no caso da matéria. Em 1994. pensados como números. Lindberg desligou-se do PC do B. É interessante perceber como a lógica dos partidos é correlata à lógica da dádiva. o Jornal do Brasil anunciava uma possível aproximação com Brizola que. para o movimento estudantil e contra a corrupção. 2001. a mediação operada pelo ator político.544 votos — pela Frente Brasil Popular (PC do B. Viegas. com uma postura crítica ao “provão” — apoiando. influência de Mauss na re-significação operada por Kuschnir. assim. o projeto individual (Velho. cientistas políticos (Schmitt e Araújo. Santos. 1982). A lógica dos partidos pode ser acionada de diversas maneiras195: do ponto de vista do político que participa de uma “ciranda de siglas” com o objetivo de eleger-se. No processo da dinâmica eleitoral. 1999. mas com o objetivo comum de tentar entender o sentido e as formas de operação da política e da democracia no Brasil. ainda. 1986. 1997. 207 . no entanto. são tratados sob o prisma da quantificação. Bezerra. 1996. antropólogos (Palmeira e Goldman (orgs.

às vésperas do encerramento do prazo para mudanças de partidos. Jandira Fegalhi. porém. deputado federal pelo Rio recebe críticas de colegas” (Folha de São Paulo. 28/09/1997). uma figura de ponta do PC do B em seus acordos com a burguesia. 08/10/1997). Em uma conduta eleitoral típica dos mais marginais políticos burgueses. via ameaçada suas pretensões de reeleição em 1998. Com manchetes como “Lindberg troca o PC do B pelo PSTU: militante no partido desde 87. parecia estar mais próximo de pessoas como Leonel Brizola e Miguel Arraes do que dos trotskistas’. a forma como Lindberg ingressava no PSTU acabava por tornar esse partido uma espécie de legenda de aluguel da esquerda[…] O ex-presidente da UNE e garotopropaganda do impeachment. afirmou o deputado Inácio Arruda (PC do B . sem qualquer reserva ou exigência de autocrítica profunda. procurando apagar as traições de seus antigos adversários. que mais grave que a conduta de Lindberg era a orientação levada a cabo pela direção do PSTU ao acolher. ou “O desbunde do carapintada: o deputado Lindberg Farias troca a cartilha do PC do B pelo trotskismo do PSTU e é vítima de insinuações no Congresso” (Revista Isto é. “‘Não entendi nada. Pelas posições que defendia [Lindberg]. larga o PC do B e adere ao PSTU” (06/08/2001). algumas situações de conflito vindo à tona nesta reportagem da Isto é (idem). A saída é a luta 208 . Vários políticos também comentaram a troca de partido. Os jornais também conferiram destaque à mudança de sigla. porque o PC do B do Rio de Janeiro decidira priorizar a reeleição da também deputada federal. Lindberg Farias.“[…] a saída de Lindberg do PC do B e seu ingresso no PSTU seguia unicamente suas conveniências eleitorais.. Em resumo. em um processo de re-acomodação partidária no mesmo marco da frente popular. eleito em 1994 em função das mobilizações do Fora Collor.CE) [..] ‘Acho que o PC do B é burocrata e tem ilusão de que é possível mudar o país aos pouquinhos. no momento em que estes se filiam ao partido. Alertávamos.

] Antes de radicalizar de vez. líder do PSB de Arraes. Enquanto para alguns atores (fundamentalmente de “alas”. por exemplo). Gosta de baixar o nível’. contraataca Lindberg” (Grifos meus. Ele acha que no PSTU só vai ser menos importante que o Trotski’.. José Rainha Júnior [. alfineta Ricardo Capelli.PR). Lindberg vinha emitindo sinais a seus colegas de que estava perdendo o eixo. p.. brinca Fernando Gabeira. O deputado federal Alexandre Cardoso. foi convidado a ingressar em partidos menos ortodoxos. atual presidente da UNE e militante do PC do B. para outros (para uma parte da imprensa. 209 . valendo-lhe a designação de “radical”. refletia um recrudescimento de suas posições políticas. apesar da expressiva votação obtida (74 mil votos) naquele ano (1998).popular’.. a troca de partido efetivada por Lindberg significava uma simples manobra eleitoral. defende um aguerrido Lindberg [.] ‘O Alexandre Cardoso é o tradicional político da Baixada Fluminense. mas também de redes políticas diferentes. a mudança de sigla não reverteu necessariamente em sua reeleição e Lindberg não conseguiu ser reeleito.] As críticas [de Lindberg a Miguel Arraes] tiveram resposta imediata. Nos últimos quatro meses. ‘Chamei o Lindberg porque no PV ele poderia desbundar à vontade’. único representante do Partido Verde na Câmara. No entanto.32)... como acima exposto). Ameaçou renunciar ao mandato na hipótese de condenação do líder dos sem-terra.. ‘Ele apostou no PSTU porque acha que vai haver uma aliança com o PT e assim fica mais fácil para se reeleger’. [.. fez um discurso malicioso insinuando que Lindberg estaria envolvido com cocaína [.] ‘O que ele fez foi uma mistura de oportunismo eleitoral com vontade de brilhar sozinho num partido pequeno. avalia o deputado Ricardo Gomide (PC do B ..

por achar os comunistas do PCdoB ‘muito conservadores’. 198 O Partido dos Trabalhadores não é objeto desta tese. em 1998.. disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados.] São 88 quilos sarados em 1. começou a praticar esportes. saindo vitorioso com 83. “encrenqueiro”. Em 2001. Gadotti (1989). entretanto. mudou um bocado. Dacanal (2002). considerado um coeficiente alto para um partido do porte do PSTU197. Pereira (2004). em 1999. obtendo 40. O visual. são: Gaglietti.. 210 . quer em termos grupais”. durante leilão da Vale do Rio Doce. projetos.À fama de “radical”. partido no qual ingressou em 1997. Lindberg Farias pode até continuar o mesmo radical de sempre – tanto que permanece filiado ao ultraxiita PSTU. arremessando pedras em policiais militares durante leilão de privatização da Telebrás. neste mesmo ano e. não do tipo homo economicus. Lindberg protagonizou confusões dos mais variados tipos: com policiais. mas alguma noção culturalmente situada. “badboy”. Outros trabalhos recentes que se referem ao PT. somava-se também a de “bêbado”. filiando-se ao PT — o que gerou novas críticas e acusações de ex-colegas do PSTU198. mas novamente não conseguindo eleger-se — sendo necessário um mínimo de 85 mil votos. Nobre (2004). Nas eleições de 2002. decidiu mudar seu visual (emagreceu. mas sobre sua criação. de riscos e perdas quer em termos estritamente individuais. no intuito de transformar também sua imagem pública.468 votos e sendo o terceiro 197 Chamo a atenção para a noção de risco intrínseca à própria concepção de projeto. em 1997. grifo do autor). “o projeto. por fim. Silva (2000). 25/06/2000. seja ele individual e/ou coletivo. trocando cotoveladas com seguranças da Câmara dos Deputados. Keck (1991). após estes episódios. Conforme assinalou Velho (1999:29). a correr). Tais mudanças visavam o ano eleitoral de 2000. [. “Hoje. Lindberg.86m de altura” (O Dia. Soares (2004). (1999). Ainda pelo PSTU. aos 29 anos. envolvendo-se numa briga em uma lanchonete. mas que não o tomam necessariamente como objeto. disputou uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.503 votos. Lindberg efetuou uma nova troca de partido. sendo consciente. Meneguello (1989). envolve algum tipo de cálculo e planejamento. trajetórias ver. Florestan Fernandes (1991). por exemplo.

Dirceu tem dito que o grupo de deputados mais sectários deve sair do PT. Essa não foi a única manifestação dos conflitos internos ao partido. segundo Luiz Antonio Magalhães. Revista Época. afastando-se dos “radicais” que acabaram expulsos do partido 199 É importante destacar que a vitória de Lula no segundo turno contra José Serra (PSDB). Luciana Genro e o Deputado Babá”. do Observatório da Imprensa. A trajetória no PT seguiu caminhos. que contaram com a presença do Presidente Lula. 06/09/2003.848 votos) (TSE)199. Seguese. entre outros. sendo alçado ao patamar de “questão de Estado”.131 votos) e Jorge Bittar (com 140. 200 Folha de São Paulo. De acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo de 04/02/2003. polêmicos. a cúpula do partido estaria insatisfeita com as declarações e tomadas de posição de alguns de seus correligionários. Em seguida. agora pela primeira vez no governo. entre outros. por vezes. ficando cada vez mais tensa a relação entre os “radicais” e os “governistas”. Lindberg colocou-se contrário a decisões da “ala governista”. ele parecia estar assumindo uma posição de conciliação. ‘O PSTU e o PCO receberiam esse pessoal de bom grado’. integrando a “ala radical” juntamente com Heloísa Helena (a quem fez juras de amizade e fidelidade200). disse Dirceu a um grupo de deputados no último final de semana” (idem). o que implicou em embates e até em ameaças de expulsão do partido.mais votado do partido no estado do Rio de Janeiro. 21/05/2003. Babá. o então ministro da Casa Civil teria dito que “gostaria de ver fora do PT as senadoras Heloísa Helena e Ana Júlia e os deputados federais Lindberg Farias. Lindberg foi procurado por nomes importantes do PT. Luciana Genro. atrás apenas de Chico Alencar (com 169. o jornalista Kennedy Alencar. Convidado a participar de reuniões. Em alguns momentos. Ainda segundo seu autor. O episódio em questão recebeu abundante atenção da imprensa. marcaria uma nova fase para o Partido dos Trabalhadores. na mesma matéria: “nas conversas reservadas. 211 .

Lindberg foi ameaçado de afastamento da vice-liderança da bancada do partido na Câmara dos Deputados. em especial sindicalistas do funcionalismo público. a respeito da votação da reforma da Previdência — e publicada pela Folha de São Paulo. em plenário. E de nosso grupo. Como retaliação e prenúncio do que estaria por vir. Querem ser expulsos do PT. Sua aproximação definitiva de membros governistas do PT (e de seus projetos) deu-se a partir de então e foi sendo aos poucos estruturada. ‘A reunião de hoje foi uma dupla vitória. Crêem que chegou a hora 212 . A saída do partido dos que têm posição mais à esquerda favorece a consolidação das forças mais conservadoras no governo e fora dele. Essa declaração envolverá parlamentares de outros partidos da base. a partir dos episódios em questão. que demonstrou disposição no diálogo e capacidade de trânsito de todas as correntes. para que os radicais possam marcar sua posição. os jornais elencaram os motivos e as alianças que começavam a descortinar-se. a meu ver. acompanhando os parlamentares que votaram contra o governo e que provavelmente serão expulsos do partido. é um grave erro político. Quero alertar aos mais desavisados que a opção que alguns fizeram pelo tensionamento às últimas conseqüências faz parte de uma estratégia política. Do presidente do PT. “O deputado Lindberg Farias (PT-RJ) confirmou que está costurando uma declaração de voto. de 02 de abril de 2003.— e que vieram a fundar o PSOL. A votação da reforma da Previdência esquentou o debate sobre o governo Lula entre velhos militantes da esquerda.”. ficando explícita na coluna por ele escrita. Na ocasião. em 09/05/2004. “A proposta de reforma da Previdência merece apoio dos deputados do PT? – Sim. disse o deputado. que consegui garantir um debate amplo sobre a autonomia do BC e o Pl9’. já falam em sair do PT. no início de maio. Esse. De acordo com matéria do Jornal do Brasil. Alguns.

Não é hora. A falta de uma avaliação equilibrada dessa correlação de forças pode levar uns a pensarem que agem como os portadores da coerência. Os pronunciamentos de Lindberg — ora criticando duramente o governo. Ao contrário. O fato é que o jogo não acabou. a uma leitura equivocada e esquemática de seus feitos. este verdadeiramente revolucionário. 33. apesar de parcial. É nessa batalha que o futuro do governo Lula será decidido. quando na verdade estão sendo usados como inocentes nas mãos da direita. os setores da esquerda do PT e dos movimentos sociais com a parte do governo que começa a entender que essa é a hora de iniciar o descarte desse entulho monetarista. de 1917. naquele momento específico. "Acho que a bancada pode ainda mudar muito a 213 . Se. que. não vem o PSTU. Se o governo for derrotado. Lindberg Farias (RJ). portanto. está esquentando. voltam os tucanos e o PFL. mas de fortalecer uma ala à esquerda no governo e no PT que pressione e exija mudanças de rumos. teremos uma vitória. No fundo. o governo entrar em uma outra fase que privilegie o crescimento econômico e a geração de empregos. por outro lado. Volta a direita. ora pedindo calma aos “companheiros” — revelavam a ambigüidade de suas posições ao mesmo tempo em que testavam suas possibilidades no interior do partido. Ela nos dará um tempo maior na espera de uma alteração na correlação de forças em nível internacional que poderá abrir possibilidades para saltos maiores” (Tendências e Debates. de criar um movimento de oposição pela esquerda. Ou melhor. afirmou que não recuou em suas críticas ao governo e que não decidiu ainda qual será a sua posição na votação dos pontos polêmicos das reformas. será importantíssima. Temos de apostar em uma aliança ampla de forças que juntem do mesmo lado os trabalhadores e os setores produtivos do empresariado contra essa hegemonia asfixiante do sistema financeiro.da construção de um novo partido. Se persistir a política atual. Não creio na possibilidade de uma ultrapassagem pela esquerda a Lula e ao PT. estão presos a um velho esquema: o da Revolução Russa. Folha de São Paulo. 09/05/2004). perde o Lula e toda a esquerda.

Mas quero ganhar a bancada (Folha de São Paulo.O sr.Por que o caso do sr. já vinha se delineando anteriormente. mais especificamente em meados de 2003. Folha . na época. o apoio a seu nome como pré-candidato à eleição majoritária em Nova Iguaçu. A impossibilidade de manter-se unido aos “radicais” e de dar continuidade aos seus projetos políticos fez com que Lindberg buscasse o alinhamento com o chamado Campo Majoritário (composto. não irá para a comissão deéticaFarias . pelo Presidente Lula.Mas o sr. Eu não antecipei o voto. 13/05/2003). disse o deputado federal. pelo presidente do PT. Mas eu continuo contra determinados pontos da reforma. Os contatos iniciados desde o fim de 2002.Eu não recuei um milímetro. Acho que a bancada pode ainda mudar muito a opinião em relação à proposta. alinhamento este que.Fui contra. Folha .opinião". recuou da decisão de ir contra a proposta do governo? Lindbergdigitação Farias . José Genoíno. que entendo ser errada. de alguma forma. Folha . Folha . por uma importante parcela do PT nacional. Vou trabalhar para isso. entre outros. José Dirceu).O sr. Antônio Palocci e pelo então Ministro da Casa Civil. vai votar contra a proposta de reforma previdenciária do governo? Farias . mas consolidados somente após o rompimento com os “radicais” — e a tomada de posição a favor de projetos de interesse dos governistas — lhe renderam. 214 . pelo então Ministro da Fazenda/ Economia.Não vou dizer de antemão qual será o meu voto.Acho que eles quiseram dar um exemplo agora. concordou com a proposta do Campo Majoritário de o debate ser interno e o voto em conjunto? Farias . Continuo articulando contra a cobrança dos aposentados.

Além de garantir a reeleição dos nossos prefeitos. com a reeleição na maioria delas. do ex-Ministro Chefe da Casa Civil . e Verena Glass. mas também para fazer nome. da Agência Carta Maior. Também queremos prefeituras de pequenas e médias cidades e pelo menos um vereador em todos os municípios”.A pré-candidatura de Lindberg não foi. Genoíno traçou um panorama das disputas anteriores e da posição que o partido deveria tomar a partir de 2003. Primeiro. disputamos para acumular forças. em 16 de setembro de 2003 — podemos perceber como as lideranças do partido ponderaram suas resoluções e preocuparam-se em construir um projeto coletivo (para o PT). evitando o que ocorreu em 2000. quando nos reelegemos em apenas 30% dos municípios que governávamos.201 201 De um ponto de vista retrospectivo. lançamos candidatos para ganhar. no entanto. não podemos deixar de mencionar o episódio conhecido como “mensalão”. em matéria do dia 6 de junho de 2005. Em 2004. Eu estou insistindo muito nesta tese. e sim uma das jogadas no tabuleiro político regional com implicações para um projeto político nacional: as eleições de 2006. José Genoíno — em entrevista concedida aos jornalistas Marcel Gomes. em troca de apoio nas votações do plenário.Paulo. Em algumas das eleições anteriores. para afirmar nomes. temos que entrar para ganhar. temos que vencer nas cidades pólos. Na entrevista em questão. mantendo as prefeituras que o PT já governa. deu origem a uma Comissão Parlamentar de Inquérito que colheu depoimentos de diversos nomes envolvidos no escândalo e culminou na cassação do mandato do deputado Roberto Jefferson. de declarações sobre as estratégias para as disputas eleitorais de 2004. A primeira ocorrência da expressão em um veículo de comunicação de grande reputação nacional foi no jornal Folha de S. Em 2000. feitas pelo então presidente do PT. “Como o PT é governo. a primeira prioridade é disputar essas eleições para ganhar.José Dirceu. um ato isolado do PT. divulgado a partir das investigações sobre corrupção dos Correios. de olho na eleição presidencial. Ela refere-se a um suposto esquema de pagamento mensal a parlamentares da base governista. Através. e do deputado Pedro Corrêa (PP/PE). por exemplo. Tal esquema. 215 . nas capitais de estados importantes e nas cidades com mais de 200 mil habitantes. Ottoni Fernandes Jr. A expressão “mensalão” foi cunhada pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e imediatamente adotada pela mídia.

Fazendo coro às declarações da vice-governadora — e sendo o mais interessado no desfecho negativo para Lindberg — Adeilson Telles. exsecretário estadual de Trabalho durante o governo de Benedita. Genoíno afirmava. Já tivemos exemplos de prefeitos de Nova Iguaçu que moravam na Barra da Tijuca e sempre nos colocamos contra 216 . Lindberg contava com as manifestações de apoio de Bittar. Com relação à autonomia dos diretórios municipais na constituição dessas alianças. por outro. Mas na capital. que se colocava contrária a candidaturas “estrangeiras” à Baixada. E faremos aliança no segundo turno. então. Se por um lado. PPS. alegando que o pré-candidato desconheceria a realidade da Baixada e que sua participação iria “contra todos os princípios defendidos pelo PT. também condenou tal candidatura. Por exemplo. mas que não se processariam em nível nacional. poderemos fazer aliança com o PTB. no entanto. O critério ético terá que ser respeitado na escolha dos candidatos e não vamos apoiar um prefeito de partido coligado ao Lula se existir um dossiê ou denúncia contra ele” (Grifos meus). PTB. em algumas cidades do Rio de Janeiro. Já com [relação a]o PMDB: nós vamos lançar candidato próprio no Rio. PSB. PL. enfrentava as críticas de outros nomes de peso dentro do PT. e o PMDB também. como Benedita da Silva. o presidente do PT afirmou que a eles caberia: “[…] com recurso ao diretório estadual e no limite ao nacional. o PTB tende a fazer aliança com o César Maia. que é oposição ao governo e ao PT. por exemplo. que as articulações para acordos com os demais partidos — mesmo o PFL e o PSDB — não estariam descartadas. apoiando quem for enfrentar o César Maia. Não foi o que ocorreu em Nova Iguaçu.Enfatizando sempre a constituição das alianças a partir dos partidos que já integravam a base governista (PC do B. ocorrendo apenas localmente. PP e PMDB).

e o deputado federal Nelson Bornier (PMDB). p. 1991) enfrentada pelos pré-candidatos concerne justamente à uma reunião do partido cuja pauta era a escolha do nome que disputaria a eleição de 2004205. dois níveis de metáfora foram acrescidos ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais de graça divina que tomavam a forma de flores em erupção sobre a pele. uma alusão médica a essa alusão religiosa. De origem grega. o segundo. na qual também estavam presentes o Ministro da Educação. ela remete aos “sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava[…] Mais tarde. manifestava seu apoio à Lindberg. “a cara do iguaçuano” 203. 21. porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal”. fundamentar o discurso e o projeto políticos (de tornar-se candidato do partido) na gramática da identidade social. desde setembro de 2003 (Hora H. a situação de prova (Boltanski e Thévenot. p. Atualmente. um dos fundadores do PT em Nova Iguaçu. na Era Cristã. O mais cotado era o do deputado José Távora que também disputava a candidatura. de um morador. Cristóvam Buarque (PT). Tal matéria também menciona o fato de Lindberg ter sido vaiado durante a inauguração do CEFET no bairro Santa Rita. investindo na condição estigmatizante vivenciada pelo “povo da Baixada”204. O descontentamento de 202 217 . candidato a prefeito na eleição de 2000 e ex-secretário estadual de Trabalho — e contrários à candidatura de Lindberg Farias. uma vez que encarnaria a “identidade da Baixada”. ex-vereador. como Jerry Simões. Já o presidente do diretório. No caso estudado por Freire. Nomes como os dos deputados estaduais Cornélio Ribeiro e Walney Rocha também foram “testados”. Percival Tavares. por exemplo. referia-se a sinais corporais de distúrbio físico.isso” (O Dia. 205 A escolha do candidato que concorreria à Prefeitura de Nova Iguaçu pelo PMDB também não foi consensual. 23/07/2003. houve um “racha” no diretório municipal e nomes locais pronunciaram-se contrários à candidatura “estrangeira” e às alianças que se delineavam. O nome de um “nativo”. O mal-estar ocorrido no diretório local do PT deveu-se ao fato de a pré-candidatura de Lindberg trazer à tona as fissuras internas e a briga de facções no interior do próprio partido. Em seguida. eram partidários de uma candidatura “nativa” — como a de Adeilson Telles.19202). A apresentação dos repertórios de ambos os A fala de Adeilson é novamente citada pelo jornal em matéria de 23/08/2003. Sendo assim — e conforme abordado por Freire (2003) — lançar mão desse status significava operar sob a lógica do estigma. 204 Utilizo a noção de estigma tal como a define Goffman (1975:11). Mário Marques. Mas a escolha acabou recaindo sobre o “candidato natural”. 23/09/2003). apesar de desautorizar o anúncio da coligação com o PSDB. como Adeilson — ainda que vinculado à ala mais “à direita” do PT (a Articulação) — parecia a escolha mais acertada. o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original. o prefeito em exercício. 203 Alguns membros locais. ou seja.

Ficava explícita a fragmentação dos interesses na luta interna ao partido e na diversidade dos repertórios arrolados. ficou novamente com a suplência. partido político etc. a ênfase nas trajetórias. família.33). na chapa de Pedro Ivo. Participou do movimento estudantil e filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B) em 1965. 218 . ao menos. nos termos de Velho (idem). vindo a exercer o mandato na legislatura 2003-2007 — de 19 de fevereiro a 5 de agosto de 2003 — reassumindo o mandato em 15 de agosto de 2003 (Câmara dos Deputados). entrecruzaram-se na medida em que a viabilidade política do primeiro também estaria implicada (mas não exclusivamente) em estratégias eficazes para o projeto coletivo do segundo que. Itamar Serpa206 — e com o PFL207. Exerceu o mandato de Deputado Federal de 30 de junho de 2000 a 25 de outubro de 2000. assim que soube da decisão. filiou-se ao PSDB. elegendo-se vice-prefeito no pleito de 1982. no dia 24 de junho de 2004. que. no entanto. Em 1995.lados — cada qual tentando adequar-se à situação dada pela “ala” oponente. não se elegeu. transferindo-se para o PDT antes mesmo de sua posse. originário do PC do B. 207 A homologação da candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu foi realizada pelo PT na Câmara Municipal da cidade. vizinhança. mas procura tratá-la a partir de algo que a englobe ou que. mais tarde. Na eleição seguinte. foi eleito vereador já pela sigla do PSB. sintetize interesses comuns de “[…] classe social. Mudou-se para Nova Iguaçu na década de 1950. grupo de status. Reelegeu-se em 1992.” (p. 206 Itamar Serpa nasceu em Vitória. a alusão a projetos específicos. em 1969. Neste mesmo ano. sendo efetivado em 21 de novembro de 2000. ao incluí- Távora ficou patente e seu possível apoio (ainda que velado) ao candidato petista — que. A formação de um projeto supra-individual. não prescinde ou desconsidera tal pluralidade. Nas eleições seguintes. Ele será o capitão da minha equipe” (O Dia. assim manifestou-se publicamente: “A camisa 10 da minha campanha está guardada no meu armário à espera dele. teve seu mandato cassado pelo TRE. Em 1998. religião. filiou-se ao PMDB em 1980. a candidatura de Lindberg firmasse uma coligação com o PSDB — por intermédio do vice. ocupação. no qual permaneceu até sua diplomação. Os projetos políticos de Lindberg e do PT. Espírito Santo. tendo recorrido ao Tribunal Superior Eleitoral. ficando com a primeira suplência. foi absolvido. trabalhando em serviços diversos até ingressar na faculdade de Engenharia Química da Universidade do Brasil. de forma mais ampla. Reassumiu novamente como deputado . A dificuldade de aceitação — pela “ala mais à esquerda” do PT local — de determinadas alianças não impediu. 09/06/2004) — preocupou peemedebistas. Foi eleito deputado federal em 1994. grupo étnico. todos esses foram fatores elencados no momento da disputa. De volta à política depois de alguns anos afastado. acusado de abuso de poder econômico e corrupção eleitoral.

entre dezembro de 2003 e agosto de 2004). p. mas também com alguns políticos locais. procurou estabelecer contatos não apenas com os moradores da região. ele não sabe chegar ao Centro. A segunda teve início com o horário gratuito de propaganda eleitoral. no entanto. A campanha caracterizou-se por duas fases. 208 Os valores foram divulgados pelo jornal O Dia. que no início da corrida eleitoral. Não sabe chegar à casa dele” (Nelson Bornier. Morando em um apartamento alugado no centro da cidade desde agosto de 2003 — pelo qual pagaria mil e duzentos reais de aluguel. mais quatrocentos reais de condomínio — Lindberg tentava desde o mês seguinte a transferência de domicílio eleitoral208. Lindberg fosse acusado de “pára-quedas” e “forasteiro” e que sua candidatura sofresse fortes resistências. de 24/01/2004. 219 . A primeira delas seria traduzida no desconhecimento da população iguaçuana sobre a candidatura petista e seu candidato — período compreendido entre sua (alegada) mudança para a cidade em 2003 e agosto de 2004. 21). tanto de políticos de partidos adversários quanto de militantes do próprio PT de Nova Iguaçu. de 23/08/2003. com a intensificação da campanha de rua (com destaque para os showmícios) e com o apelo a um projeto novo de cidade e de Baixada. como aglutinava discursos potencialmente envolventes para os mais variados perfis.lo como ator privilegiado. Em Busca Da Vizinhança “Se deixá-lo [Lindberg] sozinho em Santa Rita [ bairro de Nova Iguaçu]. Esta situação não impediu. tornando-se conhecido e buscando criar laços de pertencimento à cidade (mais especificamente. Neste período. em matéria do jornal O Dia. gerava não somente um repertório de interesses comuns.

63). ser um “nome conhecido”. a busca pelos nomes certos significava o passaporte de entrada no campo político de Nova Iguaçu. 220 . portanto. nesse caso. se estes se submetessem a sua proteção e se contentassem em assumir. na hierarquia de status. como também de segregação. a confirmação e. mas de uma diferença relacional de posição social relativa.Foi o momento de consolidação das alianças. como pessoas que precisavam de ajuda. O fato de “vir de fora” tornava esse início mais complexo em termos de conjunção de forças e composições partidárias. O rol de acusações que cercaram os indícios. de modo geral. tais comunidades esperam que os novatos se adaptem a suas normas e crenças. assim como os antigos moradores de Winston Parva esperavam a “adequação” dos novos moradores às suas regras. havia a necessidade de entrar no jogo político local e de dialogar com seus “caciques”. finalmente. assim como o ônus das escolhas e alianças compostas a partir daí. 2000: 64-65). a posição inferior que costuma ser destinada aos recém-chegados. mais estreitamente unidas e conscientes de sua posição. em torno de sua identidade outsider209. em seu trabalho sobre Winston Parva (2000). Em regra. Diferenças à parte. 209 Como nos mostra Elias. Destarte. a disposição de ‘se enquadrar’” (Elias. esperam que eles se submetam a suas formas de controle social e demonstrem. em um primeiro momento. O autor chama a atenção para o fato de que não se trata de uma diferenciação de status “pura e simples” (p. pelo menos durante um período de experiência pelas comunidades já estabelecidas. “Os antigos residentes poderiam ter aceitado os recémchegados. aos três bairros que compõem a localidade. Não bastava. e implicaria arcar com o benefício. os atores políticos “nativos” também tentaram impor as suas ao candidato recém-chegado. a primeira forma de classificação social. o anúncio do nome de Lindberg como pré-candidato do PT à prefeitura da segunda cidade em população e importância econômica da Baixada Fluminense gravitou. constitui-se na dicotomia entre antigos residentes e recém-chegados.

o nome de Lindberg foi capaz de fazer convergir repertórios a princípio inconciliáveis (identidade local X identidade mais ampla. Ainda nessa linha. Lindberg não quis arriscar. p. vereador. por um lado. o discurso de um projeto “para os pequenos. op. Tinha ao seu lado membros da “ala” mais à esquerda (o Refazendo). Apesar de todas essas dificuldades. Sem o apoio de uma rede política forte na cidade. Lindberg conseguiu contabilizar alguns importantes aliados locais. não se desgrudam”. à sua trajetória que o colocava (na ótica de alguns) mais à 210 Em uma das caminhadas das quais participei. fazendo o seguinte comentário: “Esses dois estão igual irmãos siameses. No contexto do diretório local. Para uma parte dos petistas do diretório local — como Jerry Simões. A aliança era mantida por uma linha tênue. mostrou-se bastante desconfortável ao perceber que este havia chegado junto (no mesmo carro.4) conseguiu reverter os argumentos utilizados em defesa de uma candidatura nativa e operar a (re)definição da situação. um de seus fundadores e partidário de uma candidatura “nativa” — geravam desconforto a escolha de alguém “de fora” e as alianças que o partido havia feito. outsider X established. cit. pobre X rico) graças. para o movimento popular iguaçuano” (Freire. Eram inaceitáveis o nome de Itamar Serpa como candidato a vice-prefeito bem como a ligação de Lindberg com Rogério Lisboa. além de lideranças do Movimento Amigos do Bairro de Nova Iguaçu (o MAB). a todo momento ameaçada de ruptura. O PT local discordou. 221 . membros da Diocese local e de alguns movimentos sociais. candidato à reeleição pelo PFL e inimigo declarado de alguns membros do partido em Nova Iguaçu210. uma caminhonete) com Rogério Lisboa. talvez fosse ainda mais difícil levar adiante a campanha e obter sua aceitação. conversando comigo sobre a campanha enquanto aguardávamos a chegada de Lindberg. A frase dita naquele contexto ilustra exemplarmente o quão problemática era a relação entre os diversos atores da coligação firmada para a disputa eleitoral em Nova Iguaçu..A escolha do nome do vice era fundamental para o ingresso na vida política local. um membro do PT local.

Lindberg teve negados o pedido de transferência — em setembro de 2003. em Nova Iguaçu. como já mencionado anteriormente. Lindberg ainda era um estranho. Serpa lançou-se imediatamente como pré-candidato em seu partido. 212 O verbo alegar é utilizado neste parágrafo. ou seja. A articulação política em busca de alianças locais significava um fôlego extra para a campanha. o que provocou grande mal-estar e constrangimento. quando. Clara Maria Jaguaribe213 — bem como seu recurso — no dia 21 de janeiro de 2004. As pessoas ainda não o reconheciam nas ruas. não foi bem recebida pelas redes políticas adversárias. o que somente ocorreu após a locação de um apartamento no bairro central da cidade. alegando que a conjuntura política havia mudado e que pretendia buscar alianças com outros partidos para viabilizar uma candidatura própria. No dia 15. Quando a transferência de domicílio foi negada a Lindberg. pelo juiz Joel Teixeira de Araújo — permanecendo em uma situação indefinida até 16 de junho de 2004. por fim. foi à cidade participar do encerramento do seminário Cultura para 211 Utilizo a idéia de constelação política no sentido de uma configuração de notáveis. ou seja. A notícia de sua “entrada” na Baixada e. de “grandes nomes” (lideranças políticas nacionais do PT)211. além de dinheiro e de colaboradores. não havendo documentação em seu nome que fornecesse tal evidência. conseguiu uma liminar do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) garantindo não apenas a transferência almejada mas a possibilidade de disputar a eleição. A transferência do domicílio eleitoral configurava o primeiro passo para tornar-se. A agitação em torno de seu nome não parou e os conflitos exacerbaram-se a partir de dezembro de 2003. pela ex-juíza da 27ª Zona Eleitoral de Nova Iguaçu. por outro. Mesmo alegando residir na cidade desde abril de 2003 (na casa de uma amiga) 212. de indivíduos capazes de conferir legitimidade/ poder/ acessos por intermédio da apropriação/ utilização de suas imagens/ falas por outrem. mais especificamente. bastante complicada. 222 . Mas isso não era suficiente para que a população o conhecesse. 213 A aliança com Itamar Serpa foi. a seu acesso a uma constelação política.esquerda do partido e. o Ministro da Cultura. desde o início. Gilberto Gil. um morador (e candidato) de Nova Iguaçu. na medida em que o candidato não comprovou residência fixa. de fato.

ex-governador do estado. deputado estadual pelo PSDB. Estado de São Paulo: “reuniu mais de mil militantes”). mais precisamente no domingo dia 18. 14/01/2004 e 19/01/2004. membro do PT local. Realizado no Centro de Formação de Líderes. deputado federal e presidente regional do PSB. de Adeilson Telles. a equipe de Lindberg e o PT organizaram o primeiro ato político na cidade para o lançamento do programa de governo participativo214. de Marcello Alencar. segundo os jornais. Estavam presentes importantes personalidades políticas além de um público estimado. importante nome da política regional e liderança estratégica na Baixada. 19/01/2004. 16/01/2004 e 19/01/2004. o ato contou com a presença de José Genoíno. além de Antônio Pitanga. 19/01/2004 e Estado de Minas.Todos realizado no Sesc. Em janeiro. de Bittar. ao lado do Sesc de Nova Iguaçu. 16/01/04 e 19/01/2004. entre 500 a 1000 pessoas (Jornal do Brasil: “mais de 500 pessoas”. Estado de São Paulo. O Dia. presidente regional do PSDB. dentre eles: O Globo. Este fato foi agravado — segundo nota oficial da Prefeitura de Nova Iguaçu — pois nenhum representante do município foi convidado a participar do evento. ex-vereador carioca. Nelson Freitas. apesar de toda a querela judicial por conta do domicílio eleitoral. deputado estadual e presidente regional do PT. de Gilberto Palmares. representando a mulher. Jornal do Brasil. a ex-governadora e ex-ministra da O evento foi anunciado. 214 223 . pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. sendo a principal em torno do uso da máquina política federal para fazer propaganda com fins eleitorais no município. acompanhado e noticiado por diversos jornais. 19/01/2004. que defendeu as alianças feitas pelo PT em Nova Iguaçu e em nível nacional. declarando repúdio à sua candidatura. de Alexandre Cardoso. em uma manifestação escrita e assinada pela Comissão Organizadora da Associação de Secretários da Cultura da Baixada. de Luiz Paulo Corrêa da Rocha. Tal visita provocou muito alvoroço e troca de acusações. Na ocasião. o secretário municipal de Cultura. Folha de São Paulo. protagonizou cenas de confronto público com o pré-candidato Lindberg Farias.

ganhou o primeiro. com isso. configurando também uma demonstração de força do PT nacional frente às hostilidades de um grupo pertencente ao diretório local do partido.Assistência Social. Benedita da Silva. A presença de personalidades importantes da política nacional e regional evidenciou qual era o lugar desta candidatura para o partido e para os interesses mais amplos de alguns partidos (uma parcela da executiva nacional do PT. mencionando a possibilidade de mais verbas para a Baixada e a importância das alianças ou criticando partidos por “racionalizar(em) demais”. A importância do evento deveu-se não apenas ao lançamento do nome de Lindberg. como forma de apaziguar as diferenças e os problemas iniciais. Tratou-se de um evento eminentemente voltado para correligionários. No mês seguinte. Lindberg. cercados por uma pequena multidão que vestia camisas com o nome do pré-candidato —concentrada atrás da mesa principal. visando a cobertura da imprensa e. Na queda de braço entre Lindberg e o PT de Nova Iguaçu. o PFL de César Maia e um grupo do PSDB ligado a Marcello Alencar). Genoíno e Marcello Alencar permaneceram todo o tempo lado a lado. juntamente com outros políticos. mas a insistência na obtenção de apoio local acabou resultando na escolha de Adeilson Telles para a coordenação da campanha. o deputadocandidato conseguiu — por intermédio de emendas individuais — que fosse destinado à cidade o maior montante do Orçamento Federal para um município do estado do Rio de 224 . Usando bonés de campanha. em fevereiro de 2004. a promoção do nome de Lindberg e de suas propostas. de onde orquestrava as saudações e manifestações de maior entusiasmo juntamente com a platéia logo à frente.

aprovou três emendas para o seu município. Em segundo lugar. Na matéria intitulada Orçamento vira arma eleitoral. André Luiz (PMDB). aparece outro partido governista. pré-candidato a prefeito de Nova Iguaçu. Laura Carneiro (PFL) e Jandira Fegalhi (PC do B). o PSB. Nelson Bornier (PMDB). R$ 740 mil para revitalização de áreas centrais. outro candidato em Nova Iguaçu. Sandro Matos (PTB). que sempre apontaram as emendas individuais como fator de clientelismo e de cooptação de parlamentares pelo governo. “Um grupo de 110 deputados e senadores parte para a disputa das eleições com uma arma a mais em relação aos seus adversários: as verbas do Orçamento da União.5 milhões215. São R$ 2. 225 . Fernando Gonçalves (PTB).46 milhão ao Hospital de Caridade da cidade. Foram mais de 9 milhões de reais. com um total de R $6 milhões e média de R$ 680 mil[…] Os campeões do clientelismo são do Rio de Janeiro[…] O petista Lindberg Farias. 215 O dinheiro seria destinado a projetos como: Base de Apoio à Cultura. dos quais Lindberg foi responsável isoladamente por quase 2. O suplente de deputado Fernando Gonçalves (PTB-RJ). R$ 300 mil para a unidade de saúde do bairro Venda Velha. do Ministério da Educação. Os 22 petistas que disputam a eleição apresentaram um total de R$ 19 milhões em emendas para os seus municípios – média de R$ 860 mil. Eles destinaram R$ 63 milhões em emendas individuais aos municípios onde concorrerão à prefeitura[…] Os congressistas do PT. cedeu a vaga na Câmara para o titular Miro Teixeira. Consórcio de Universidade Públicas. destinou R$ 1.15 milhões dirigidos à Associação de Caridade Hospital Nova Iguaçu […]”. mas deixou três emendas para o município. Leonardo Picciani (PMDB).Janeiro naquele ano. Os demais deputados fluminenses com emendas individuais ao Orçamento da União foram: Itamar Serpa (PSDB). além de projetos ligados à área da saúde. foram os que mais utilizaram este instrumento. Serão R$ 750 mil para unidades especializadas em saúde. Eduardo Cunha (PMDB). onde o jornal Estado de Minas de 11/04/2004 dava o tom do debate. R$ 950 mil para a ampliação de oferta de cursos de graduação e R$ 800 mil para a instalação de um espaço cultural. do Ministério da Cultura. candidato em São João de Meriti. A questão foi amplamente noticiada.

Ainda em fevereiro. em hipótese nenhuma. O Globo (reportagem de Ilimar Franco). Em suas palavras: “ele. Em 19/04. que deveria agir como um bombeiro. Em meio a críticas da Funai e de setores diversos da sociedade civil. Lindberg já estava de volta à cidade. Jornal do Brasil. artigo de Lindberg Farias). em matéria publicada no Jornal do Brasil de 19/04/2004. Indicado como Relator da Comissão Externa da Câmara para avaliar a polêmica demarcação de terras indígenas. Lindberg apresentaria dois meses depois uma proposta que implicava na redução de até 45% do território da reserva Raposa Serra do Sol. O caso da reserva indígena Raposa Serra do Sol foi exemplar nesse sentido. Jornal do Brasil (O País. O Globo (Caderno O País. tentar justificar o que foi uma verdadeira chacina” (referindo-se à morte de 29 garimpeiros na referida reserva)216. Ainda envolto em problemas relacionados à comissão da reserva Raposa Serra do Sol. 226 . outras figuraram nos seguintes jornais: Jornal do Brasil (coluna do Boechat). A10). Em 28/04: O Globo. desde fevereiro de 2004. a controvertida proposta/ avaliação do deputado-relator foi manchete dos principais jornais. Em 29/04: O Dia (coluna de Cláudio Humberto). diversos jornais publicaram matérias a respeito da demarcação das terras e do relatório da comissão. Em 20/04: Jornal Extra (Coluna Extra Extra.de Berenice Seara). indo — 216 Durante todo o mês de abril. Agravando ainda mais os conflitos. sendo associada algumas vezes a “outros interesses”. sugerindo que ele renunciasse ao cargo. Em 22/04: O Globo (Opinião. reportagem de Evandro Éboli). apagando o incêndio deste conflito. além da matéria supracitada. reportagem de Luiz Queiroz). o deputado federal e relator Lindberg Farias acusou o presidente da Funai de incentivar a violência. em 8 de março. Folha de São Paulo (Brasil. partiu como se tivesse um balde de querosene. Dia Internacional da Mulher.As “atuações” de Lindberg em projetos importantes do governo federal o inseriram no circuito das dádivas da máquina governamental. página A3). devido às suas atividades na Câmara dos Deputados. Em 21/04: O Estado de São Paulo (Editorial. se ausentou de Nova Iguaçu devido à viagem a Roraima. Em 27/04: Agência Câmara (reportagem de Tatiana Azevedo e Natália Doederlein). para jogar mais fogo[…] Não se pode.

. na qual a maior parte das ruas é interditada ao tráfego de veículos. mas não deve repetir. criando um grande shopping a céu aberto. Lindberg participou de debate realizado em Brasília sobre a questão do oleoduto. 220 Note-se que um projeto semelhante já havia sido proposto por Jorge Gama. no debate sobre o oleoduto Rio-São Paulo. convertidos em capital simbólico. 218 Ainda naquele mesmo mês. Ele disse que é contra extremismos e a favor de conversar sempre para atingir um ponto em comum. o galã e ex-rebelde cara-pintada resolveu fazer um agrado e saiu pelo calçadão distribuindo flores às necessitadas. foi o grande destaque do Dia Internacional da Mulher naquela cidade. o de maior repercussão foi o da Universidade Pública da Baixada Fluminense220. “Lindberg Farias. 10/03/2004). Coluna Lu Lacerda. Jorge. Começava a partir daí um cortejo219 que acabaria caracterizando a segunda fase de sua campanha: a habilidade — e o enorme sucesso — em lidar com o eleitorado feminino.. a publicidade angariada com os projetos governamentais e com a vinculação de seu nome ao da cidade de Nova Iguaçu possibilitava a criação de laços. Sendo assim. líder dos cara-pintadas e hoje deputado federal Lindberg Farias (PT). Tal evento revelou um tom apaziguador no discurso do deputado e de seu novo alinhamento no interior do PT. mas também como séquito e comitiva. Ainda em março de 2004. As ações de Lindberg como deputado federal visavam um único propósito: a eleição.juntamente com alguns assessores e candidatos à Câmara Municipal — para o “calçadão”217. do jornal O Dia.” 219 Utilizo o substantivo no duplo sentido: denotando o ato de cortejar. no entanto. distribuir flores para as homenageadas do dia218. Conforme nota de Arnaldo César. O que a entrada no governo não faz com o cidadão. Resultado: filas. como é popularmente conhecido. sol a pino. Até porque ele não quer ser só um rostinho bonito na política fluminense” (Jornal O Dia. corre-corre. tampouco reeleger-se. constituindo sua bandeira de campanha. 227 . gato e pré-candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT. dirigir galanteios. corresponde à área comercial no centro da cidade. gritinhos. não reconheceria o radical de anteontem. em Brasília. não conseguiu aprová-lo. de 17/03/2004: “Quem ouviu o discurso do ex-presidente da UNE. Lindberg gostou da experiência. Segunda-feira. e beijos-ventosa ‘partout’. foram liberados R$ 950 mil para a abertura das primeiras turmas e anunciada a liberação de mais R$ 30 217 O “calçadão”. Dentre os projetos por ele apresentados. em 1992. ontem. no Centro.

Bar do Daniel e Bar das Meninas — todos próximos à prefeitura e às sedes desses partidos. O Pólo Universitário de Nova Iguaçu. Guebel (1996). Um quadro espacial é montado no tempo da política. no momento seguinte precisava confirmar sua inserção como morador de Nova Iguaçu. costumam “bater ponto” nos bares Raízes. A presença cada vez maior de mulheres para assistirem aos jogos. A partir de então. as diferentes redes políticas locais freqüentando os mesmos bares e restaurantes223. numa cidade do porte de Nova Iguaçu. Não é comum encontrarmos. tornar-se-ia uma das principais bandeiras da campanha de Lindberg e um dos elos fundamentais com seu eleitorado preferencial: a juventude iguaçuana. A sociabilidade política na Baixada passa necessariamente pelos bares. por membros do PMDB e seus aliados —as reuniões e almoços do staff da prefeitura que pude 221 222 O Dia. Os locais são ponto de encontro nos fins de tarde e cenários das negociações e embates políticos em qualquer época do ano. transformando-se em dos “lugares” do cortejo. localizado próximo ao Corpo de Bombeiros. 223 Silva (1980). definindo os lugares específicos de cada rede e/ou facção política. 15/03/2004 e 18/03/2004. é bastante procurado pelos partidários de Bornier. por sua vez. botequins e restaurantes. Lindberg procurou costurar as alianças político-partidárias (internas e externas) que possibilitariam uma candidatura com chances reais de vitória. das festas. como foi batizado. Os jogos de futebol. ao longo da campanha. não apenas um esporte mas também uma forma de sociabilidade tradicionalmente masculina foi.milhões até 2006221. Lindberg começou a participar mais ativamente da vida da cidade. Se durante o ano de 2003 e os primeiros meses de 2004. freqüentando as escolas de samba. das “peladas” (jogos de futebol222). 228 . PC do B). Os membros de partidos considerados “de esquerda” (PT. O Siri do Galeão. como também alguns integrantes de movimentos sociais. os restaurantes e bares locais. mas fundamentalmente para verem Lindberg era marcante e noticiada pelos jornais.

Tal consumo é por vezes acionado como categoria acusatória. mas não vote nele” marcou o início da ofensiva226. 226 Ver Anexo. a atribuição dos adjetivos variará de acordo com outros elementos em contextos específicos — como poderemos ver mais adiante ao abordarmos os ataques dirigidos a Lindberg por seus adversários na eleição municipal Lindberg. 225 Os “encontros” políticos em bares/ botequins/ restaurantes foram matérias de jornais como: O Dia. a oposição (os candidatos Fernando Gonçalves e Mário Marques) o acusava de forasteiro. no entanto. de 30/05/2004. De um lado. O Pizza e Pasta é um dos restaurantes prediletos da rede política dos Raunheitti.acompanhar durante as últimas duas administrações ocorriam costumeiramente nesse espaço. Paralelamente às iniciativas visando o reconhecimento e a aceitação de Lindberg. a política em Nova Iguaçu relaciona-se intimamente à boemia. Testando a capacidade de mobilização desse discurso — inicialmente surgido como acusação — Lindberg procurou utilizá-lo como mote para o estabelecimento de um vínculo com os moradores da região. Do mesmo modo. no extremo oposto. ou seja. político-irresponsável. Há uma lógica operando a classificação dos agentes políticos em político-boêmio-alegre e. “paraíba”. que será tratada mais adiante. com dizeres como “Trate bem o turista. mas à tênue fronteira entre a política e a alegria/ vadiagem/ vida desregrada representadas pelo consumo algo excessivo de bebida alcoólica pelos políticos e seus afins. Esta polarização é. 224 229 . 227 A mídia. Lindberg também se encaixou no circuito da boêmia política iguaçuana225. ou simplesmente tomando um chope224. ressurgiu a discussão em torno de sua condição outsider. “fundadora”: a identidade nordestina. teve um papel primordial nesta ênfase. mais especificamente a imprensa escrita. de Conforme mencionei no capítulo 2 desta tese. É comum encontrar ali alguém ligado à família (por parentesco ou afinidade) jantando semanalmente. A distribuição de panfletos apócrifos por toda a cidade. por sua vez. possibilitando à equipe de Lindberg um contra-ataque baseado na menção a (e reinvenção de) uma identidade maior. agora redefinida sob a égide da identidade nordestina. A acusação de “forasteiro”. Não me refiro apenas à dimensão da comensalidade. desconsiderava a composição da Baixada em termos de origens sociais e regionais. circunstancial. A ênfase em tal pertença social acabou redimensionando as posições no interior da arena política local227.

aos trabalhos acadêmicos (Souza. o morador da Baixada a ponto de fazê-lo sentir-se mais ligado a um candidato que a outro? Ser iguaçuano ou nordestino? Em que espaços e momentos 230 . o resgate da presença negra na Baixada é operado apenas pelos movimentos sociais ou. Monteiro. com muito orgulho!”. apresentando dados significativos sobre a composição desta parcela da população na região (Gomes. 1998). composta por um número significativo de migrantes nordestinos — sendo que em Nova Iguaçu este percentual sobe para 40% do total da população — é importante mencionar o fato de que há também uma forte presença negra na região. Prado. no caso da eleição em questão. Levanta-se então a seguinte interrogação: quem é o nativo. 2001 e. Gramado. Mais que um argumento. de fato e de direito. a identidade nordestina da Baixada é um lugar-comum. Lindberg — e sua equipe de assessoria —defendia-se. criando estratégias como a da alegação de uma origem social comum entre ele e a maioria da população da Baixada Fluminense e de Nova Iguaçu — ele era “um nordestino. No campo político. 1999. 1992 e Viana. 2000. no caso em questão? Ou. reiterado em discursos diversos: desde a fala oficial de representantes políticos. 1992. mas seus autores têm se esforçado para reverter esse quadro. Carlão. quem é “mais nativo”? A questão da identidade social e da busca por uma origem que se apresenta como o cerne da problemática da representação é aqui recolocada. Que identidade marcaria. Tal questão é abordada em apenas alguns poucos trabalhos que pesquisam a história local.outro. Apesar de a Baixada ser. revelando possibilidades para sua utilização pelos atores sociais aqui analisados. por exemplo). entre os não acadêmicos. da imprensa. de fato. pelo candidato do PSTU. único candidato negro à prefeitura de Nova Iguaçu.

Aldo Rebelo. e o da Coordenação Política. As reuniões com 231 . ao mesmo tempo. Assim. não se confirmou. o que se mostraria. como alguns chegaram a prever. a identidade local (de morador) ou a regional (de migrante)? Não há uma resposta única para todas essas questões. mais eficaz.aciona-se uma ou outra identidade? Para a política local. No dia a dia da campanha. o cotidiano da campanha seguiu em outras direções. Tarso Genro. qual a sua ligação com a cidade e com os grupos que detinham (e ainda detêm) o poder. o campo político tendo uma incrível capacidade de mover-se e transformar-se. revelam o poder de aglutinação e. Em junho. de fato. Pela própria fluidez de tais classificações e pela incerteza a respeito da identidade que cada candidato deveria assumir — além do ônus da contra-partida do adversário — a adoção do discurso identitário como bandeira de campanha seria excessivamente arriscada e imprevisível. A dinâmica do processo eleitoral e dos processos de identificação. incapaz de qualificar um dos candidatos de maneira a singularizá-lo frente aos demais e. Sua resposta foi pontual e sua campanha acabou não se apoiando (mais do que para responder às acusações) na identidade nordestina. de fragmentação dos símbolos e discursos empregados na constituição dos personagens políticos. O início da campanha de rua foi marcado pela sensação de total desconhecimento da população com relação a quem ele era. que contou com a presença do Ministro da Educação. o que fazia ali. Tal discurso se demonstrou inócuo. de modo geral. a preocupação central era com a conquista do eleitorado iguaçuano. A satisfação de condições gerais não é dada a priori. o que parecia a melhor estratégia para desacreditar e deslegitimar o candidato “forasteiro”. a convenção do partido. como já se esperava. apesar do apelo à identidade. oficializou a candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu.

Suas caminhadas pelos bairros centrais praticamente não tinham repercussão. segundo um deles. com elas conversar e tornar-se conhecido. agora ligado a Garotinho — desde o início da campanha. “sólido e bem construído” a partir da “realidade da cidade”. a atitude foi pensada para gerar publicidade e render-lhe algumas notas e matérias na imprensa. Uma frase bastante ilustrativa de tal inadequação inicial foi retirada de uma entrevista feita com um assessor de imprensa que acompanhou 228 Aqui novamente percebemos a eficácia da estratégia de marketing da equipe de Lindberg. recorrendo inclusive ao expediente de registrá-lo em cartório228. o discurso “para os pequenos” ganhava contorno e sua candidatura. Assim. o que revelou-se diferente na periferia. 232 . no Terminal Rodoviário da cidade onde procurava aproximar-se das pessoas comuns. “o menino (referindo-se a Lindberg) bate ponto aqui”. Apesar de contar com o apoio de Marcello Alencar — que enfrentava seu ex-pupilo Bornier. Segundo um de seus assessores. Lindberg costumava ser visto acompanhado apenas por alguns poucos candidatos à Câmara Municipal e por seu staff. Testemunhei tal fato num dia em que esperava o ônibus para voltar ao Rio. Às 6 horas da manhã. momento em que indaguei alguns funcionários dos guichês da rodoviária sobre a periodicidade dessa ação. portanto. A rotina de Lindberg — quando teve início o período eleitoral oficial (6 de julho de 2004) — começava bem cedo. A partir da apresentação de um programa de governo anunciado como tendo sido concebido “em conjunto com os moradores” e. já era possível encontrá-lo distribuindo material de campanha. Responderam-me que isso vinha acontecendo com freqüência e. o candidato tentava diferenciar-se da “politicagem local”.associações de moradores e lideranças dos bairros foram as primeiras atividades desenvolvidas em busca de possíveis interlocutores e da conquista de contatos e alianças. legitimidade.

segundo este mesmo assessor. era praticamente necessário “arrastar” as pessoas para que o candidato pudesse conversar com elas. o candidato à Câmara de Vereadores local reunia um grupo de pessoas (o tamanho dependia do prestígio de cada candidato e dos recursos disponibilizados) que ia de casa em casa chamando os moradores com um carro de som (uma kombi). quase invariavelmente acompanhado do candidato Rogério Lisboa (PFL). que vai ser nosso prefeito aqui em Nova Iguaçu”. Ainda nesse primeiro momento da campanha. Nestas eleições. a campanha também não dispunha de material físico e humano adequado. De início. que anunciava a chegada de Lindberg e reproduzia o jingle da campanha. Lindberg chegava. acompanhei algumas das caminhadas na periferia e na região central do município. do PT. mesmo. Ainda assim. partido do presidente Lula. Além do desconhecimento do candidato. contando apenas com algumas kombis — com a logomarca da candidatura — e com uma banda composta por músicos locais. Somente após uma ou duas horas do horário marcado para a concentração. a falta de recursos era evidente e. 233 . exigindo o apoio do PT para que houvesse chances reais de disputa contra a máquina do governo do estado229. Dependendo do bairro que se visitava. de líderes de bairro e. distribuir seus “santinhos” etc. havia também a presença de lideranças de movimentos sociais locais como o MAB (Movimentos Amigos do Bairro de nova Iguaçu). Adeilson Telles. invariavelmente a pequena banda — que se assemelha àquelas que 229 Tais críticas também vinham dos candidatos às prefeituras do Rio (Bittar) e de Niterói (Godofredo Pinto).Lindberg desde o início da campanha: “Era preciso que a gente falasse assim: Esse aqui é o deputado federal Lindberg Farias. as críticas dos candidatos petistas à executiva nacional eram constantes. Na ocasião. declarada pelo então coordenador de campanha.

apertar a mão do candidato.tocam em coretos de praça ou em festas de igreja de cidade pequena — cujo repertório era. onde a corporalidade. Lindberg parava nas portas das casas. O predomínio das relações face a face garante que a política (distante. Entrava nas lojas. de autoria de um dos músicos. cumprimentava. em algumas até mesmo entrava. portanto. As eleições municipais propiciam. pela troca de palavras e gestos. É importante para o eleitor tocar. cumprimentava funcionários. necessário e. a organização dos encontros adquiria outros contornos. o primeiro detendo forte poder de atração. “A rua é a casa do candidato”. o responsável pelo grupo. abraçar ou. até mesmo exigido. a interação intensa. disse um dos assessores políticos de Lindberg. cujo grau de proximidade/ contato não é avaliado a priori pelo sujeito político e os demais atores sociais. sedução. o evento por excelência do contato entre corpos que produz efeitos como se aí operasse uma espécie de imantação230. pelo menos. 234 . o contato físico se faz mais evidente. ressignificada pela virtualidade da aproximação dos corpos. No bairro central. vazia e impura) seja. por onde circulam milhares de pessoas todos os dias. É a expressão de uma proximidade não existente nas eleições estaduais e federais ou. então. conta com várias ruas de circulação exclusiva para pedestres. Sendo assim. Essas 230 Denomino imantação política. Lindberg costumava chegar no mesmo momento que os candidatos do PT — e de partidos aliados — à Câmara Municipal. não necessariamente. A imantação distinguiria-se do carisma na medida em que seu tempo-espaço específico seria o tempo da política. Região de localização do centro comercial da cidade. ao menos. em parte. sempre acompanhado pela bandinha de música. às vezes. caminhando por quase toda a extensão da rua principal. a hora e o local de concentração do evento eram anunciados com antecedência. Ela constitui o local privilegiado da interação. encantamento sobre os demais. pelo olhar dentro dos olhos. conversava com as pessoas.

não foi capaz de mobilizar o número esperado de moradores nesse início de campanha231. Tal episódio foi motivo de piada tanto entre eles como entre os adversários232. tentando conhecê-lo. ficava difícil aproximar-me do candidato. de modo geral. assunto que será abordado mais adiante. Vila de Cava. Palhada. Na primeira fase da campanha. em caminhadas por bairros da cidade. prioritariamente) e duravam. a bandinha de música enfrentou problemas técnicos e. Assim. Geralmente. 232 A escassez de recursos durante o que convencionei chamar “primeira fase da campanha” era expressa na forma de uma joke relationship. Meu primeiro contanto pessoal com o candidato do PT foi travado em um jantar com um empresário — e potencial financiador de campanhas na Baixada — em junho de 2004. a presença de Benedita da Silva já demonstrava o papel da relação entre política e religião em Nova Iguaçu e na Baixada de modo geral. Miguel Couto. dissimuladas em tom de brincadeira e de deboche. Tinguá. A essa altura. em média.caminhadas pelo calçadão davam-se. eu conversava com pessoas próximas. entre outros. ou depois das 14 horas. a população ainda estava “estudando” o candidato. Percebi tal situação em diversas conversas com membros do diretório local do PT. Em uma das visitas de Benedita. Esta situação manteve-se inalterada até meados de agosto de 2004 e mesmo a presença de Benedita da Silva. 235 . Havia também as carreatas pelas ruas da cidade e por bairros mais afastados. ainda na parte da manhã. segundo militantes e um dos assessores de Lindberg. candidatos à Câmara Municipal e eleitores. em horários de pico (perto do horário do almoço. os moradores. a maior parte dos carros que acompanhava a comitiva pertencia a candidatos e pessoas a eles ligadas. No 231 Apesar de não atingir o objetivo almejado. as tensões ficavam à margem e as críticas. assessores. geralmente. Em algumas localidades havia uma melhor aceitação —no centro comercial e em bairros da periferia. cerca de três a quatro horas. Nessas caminhadas. como Posse. a convidada reclamou em tom de brincadeira. assim como em campanhas dos demais candidatos. Nas demais localidades visitadas. ainda não tinham aderido à campanha.

Como ele dispunha de acessos em tal órgão público. na cobertura do empresário/ anfitrião234. eu estava acompanhando o “dia do prefeito” 233 e candidato à reeleição em Paracambi. Em seguida. situação que denominei de “dia do prefeito”. a princípio. A preocupação com a decoração. residiam na Barra da Tijuca já há algum tempo. nos dirigimos ao Café do Paço. André Ceciliano (PT). Fomos os 233 Conforme apresentado na parte introdutória desta tese. ao contrário da esposa. não falava sobre seus bens. veio até a mesa em que eu estava (a uma distância de mais ou menos dois metros).dia 30 de junho. quando possível. pediu um café e. A conversa levou cerca de uma hora. o vestuário e as jóias era visível no estilo de vida da mulher. acompanhei suas atividades durante um dia inteiro de trabalho. ao lado da Assembléia. pois uma de suas atividades consistia em entregar relatórios no Tribunal de Contas — no referido município — cujo prazo já se havia esgotado. em seguida. Ele pediu que eu ficasse em uma mesa separada. tinham um filho de pouco mais de um ano de idade e estavam de mudança para outro apartamento — no mesmo bairro. Depois de passar toda a manhã observando os despachos em seu gabinete. Na ocasião. mas que contaria com a presença de “pessoas envolvidas com a política”. não seria “político”. Depois de sermos brevemente recebidos pela pessoa responsável no Tribunal de Contas. mencionando o novo apartamento apenas quando indagado por um dos convidados a respeito da mudança. O marido. preferiu fazer a entrega pessoalmente. fomos à ALERJ para que o prefeito se encontrasse com assessores de políticos aliados. onde o prefeito conversou com dois assessores de deputados. Eram mais ou menos 21 horas quando chegamos à Avenida Lúcio Costa. 234 O casal pode ser classificado como novo rico ou emergente. porém maior (um duplex). pois precisaria tratar de assuntos confidenciais. Ele é antigo morador de São João de Meriti — cujos familiares ainda residem no município — divorciado e pai de um adolescente. Ela. seguimos para o Rio de Janeiro. Após alguns telefonemas. e atenuado no do marido — que 236 . Saímos de Paracambi por volta das 16 horas e fomos direto para o centro da cidade (Rio de Janeiro). Além disso. oriunda da Zona Oeste do Rio de Janeiro e dona de um salão de beleza em seu atual bairro. nos dirigimos à Barra da Tijuca. nessa fase da pesquisa eu entrevistei alguns prefeitos da Baixada e. segundo a esposa. havia o compromisso de comparecer a um jantar que. Os dois têm “origem modesta”. as conversas com candidatos à Câmara Municipal e algumas negociações sobre o nome que comporia a chapa como vice.

Seu tesoureiro. Eu vestia uma blusa de linha preta com uma gola branca que caía sobre os ombros e calça jeans. Francisco Sousa (o Chico). às vezes. acompanhado por um assessor. com exceção da dona da casa237. bermuda. sendo o anfitrião. que poderia ser de algodão ou linha.primeiros a chegar e logo fui apresentada aos donos da casa como “pesquisadora da Baixada”. No jantar em questão. eu trajava. Sempre usava calça jeans escura e blusa de mangas compridas. 235 A roupa adequada para enfrentar situações diversas — e. Outra questão que me chamou a atenção foi o fato de que eu era a única mulher presente nesse jantar. Rogério Lisboa235. às vezes numa mesma jornada — constituía uma de minhas preocupações freqüentes. optei por criar um padrão. versando sobre uma possível “ajuda” para a campanha em Nova Iguaçu. Nas campanhas de rua. sem decotes e de cores discretas. como também com seu “coordenador de campanha”. Serviram prosseco. sandálias e usava um relógio discreto. Havia apenas uma empregada que se ocupava da comida. da questão da violência política em Nova Iguaçu e de seus “possíveis” mandantes ou ainda de aspectos relacionados aos financiamentos das campanhas236. o responsável pela bebida. não pareciam preocupados com o conteúdo de suas falas. Todos os convidados falavam abertamente sobre qualquer assunto apesar de minha presença. Mesmo tendo sido apresentada como “uma pesquisadora que estava escrevendo uma tese sobre a política na Baixada”. 236 As conversas eram travadas entre um empresário do setor farmacêutico e o prefeito de Paracambi e entre este mesmo empresário e Lindberg — neste caso. camisa de mangas curtas pois o calor era extremo e as caminhadas com os candidatos e/ou suas equipes poderiam prolongar-se por horas a fio. Os convidados ficaram a trajava uma camisa pólo (Ralph Loren). mas que era provavelmente de ouro. Quando vestia saia. Somente seu conselheiro-coordenador de campanha trajava um terno de cor clara (bege). 237 Abordarei tal especificidade em um segundo momento. só chegou por volta das 23 horas. era sempre longa. pelo PFL. ainda neste capítulo. e Rogério Lisboa corroboravam seu estilo. 237 . uma vez que presenciei — ou mesmo participei de — conversas que giravam em torno das ações de políticos locais tradicionais. O candidato à prefeitura de Nova Iguaçu. apresentado como seu coordenador de campanha e pelo candidato a vereador. Lindberg Farias. por Rui Aguiar. Sendo assim. Tive então a oportunidade de conversar não apenas com Lindberg. uísque e água mineral francesa. o prefeito de Paracambi estava com um terno escuro e discreto. Lindberg Farias estava de calça jeans e uma camisa de mangas longas. Chico.

citando o nome de um tradicional político de Nova Iguaçu e a ele atribuindo sua autoria 239. publicada no livro A Utopia Urbana (1973). tendo sempre uma camisa reserva no carro — e sobre a 238 Faz-se necessário ressaltar que a Barra da Tijuca é o destino da maioria dos políticos e empresários da Baixada Fluminense após sua ascensão social. Ficaram conversando sobre a condução mais adequada para a campanha de Lindberg e sobre as ameaças por ele sofridas — abordando também suas desconfianças com relação aos supostos mandantes do “atentado”. todos conversavam e bebiam despreocupadamente. os convidados sentaram-se no living e os homens fumaram charutos.maior parte do tempo na espaçosa varanda (que contava com uma banheira de hidromassagem em seu canto esquerdo. agora sob o prisma da percepção deste grupo a respeito da política e de como esta manifestava-se. em todos os aspectos da vida das pessoas entrevistadas. 239 A violência da campanha de Lindberg será abordada no próximo capítulo. Até o jantar ser servido na parte interna do apartamento. 238 . Copacabana representava para os grupos white collar pesquisados por Gilberto Velho em sua dissertação de mestrado. em uma ampla sala de jantar. Os talheres japoneses eram de prata. Lindberg afirmou que de nada adiantariam as ameaças e que sabia exatamente de onde procediam — porque desde a época em que atuava na Câmara era um único deputado que costumava chamá-lo de “aquele paraíba”. “Não tinha medo”. A tese de doutoramento de Diana Lima (2005) também aborda a temática dos emergentes/ novos ricos a partir da análise do padrão de consumo e de sua relação na constituição dos sujeitos. de certa forma. As conversas versaram ainda sobre a “correria” da campanha. Cotidiano e Política num prédio de conjugados (1981) (publicado anteriormente em Classes médias e política no Brasil. Depois do jantar. em algum nível. mas sabia que a política na Baixada “não é mole” e que a violência é um dos recursos utilizados pelos “locais”. próxima a algumas plantas). A. Os anfitriões optaram por um cardápio japonês. tamanho “entra e sai”. Em outro trabalho do autor — dando continuidade à pesquisa em questão. organizado por J. quem lhe havia “recomendado” etc238. o cansaço —às vezes não dando tempo sequer de tomar um banho. 1977) — a problemática da visão de mundo e do estilo de vida é retomada. Guilhon de Albuquerque. Refiro-me especificamente à dimensão da relação entre ascensão social e mobilidade espacial e a seus desdobramentos para pensarmos estilos de vida e visões de mundo. fato este que mereceu grande destaque por parte da dona da casa que chegou inclusive a comentar com Lindberg onde os havia comprado. O bairro carioca representa para esse grupo (emergentes/ novos ricos) o que. Esclareço apenas que este episódio refere-se à abordagem ameaçadora sofrida por um de seus coordenadores políticos em Nova Iguaçu.

sensação de que sairiam vitoriosos. desistir da reeleição —o que seria péssimo para o partido. 240 A pesquisa em Nova Iguaçu teve início com o acompanhamento da campanha de Mário Marques para a reeleição. O nome por ele sugerido provavelmente não seria escolhido. o que ele estava achando de fazer política ali e Lindberg me respondeu que “se sentia em casa”. praticamente descontrolado e aos gritos. Continuou dizendo que iria “mudar aquilo lá”. André dizia-se traído por seu secretário de governo — e presidente local do partido — que desejava que seu próprio nome fosse indicado. todos decidiram ir embora ao mesmo tempo. de forma alguma. A mediação do primeiro foi fundamental para meu contato e posterior inserção na campanha do PT — até então não conseguida por meios próprios240. Lindberg tentou acalmá-lo. dizendo que precisava controlar-se para reverter a situação e que não podia. Esta notícia acalmou André. Muito nervoso. no qual lhe contavam o que estava se passando na convenção do PT de Paracambi para a escolha do candidato a vice em sua chapa. “não é o lugar que a gente vê nos jornais”. ocorrido por conta de um telefonema recebido por André Ceciliano. a convenção foi encerrada sem decisão alguma sobre o vice. Em seguida. uma vez que minha inserção no campo havia se dado por intermédio das entrevistas realizadas com 239 . Falou sobre o enorme acolhimento das pessoas de lá e de como a cidade era diferente do que a mídia apresentava. reconhecendo a existência de muita pobreza na região. disse que estava desistindo da candidatura caso o nome que havia sugerido não fosse o escolhido. Perguntei sobre a cidade (Nova Iguaçu). que foi aconselhado a negociar com os “interessados”. resolveu dar alguns telefonemas e. No jantar acima relatado. A relação entre André Ceciliano e Lindberg Farias era de proximidade e de apoio mútuo. por fim. Pouco depois do episódio. Todos tentavam demovê-lo da idéia. Nossa conversa foi interrompida por um momento de grande tensão. Uma outra seria convocada para que a escolha fosse feita. mas André parecia irredutível.

por sua vez. provocou uma espécie de mácula em minha identificação local. em relação ao primeiro colocado. no jornal Extra de 06/08/2004. tendia para o último. a movimentação da campanha de Lindberg não havia impressionado a população local nem tampouco a imprensa. o sucesso de Lindberg significaria apoio político na região — assim como de nomes do PT com ampla visibilidade nacional — e dividendos visto que. no entanto. de Rui Aguiar. 240 . nesse primeiro momento. A coordenação “de fato” ficava a cargo. à frente da Associação de prefeitos da Baixada — lhe rendia um knowhow e um trânsito que Lindberg não possuía. 241 Utilizo o termo conselheiro-coordenador porque Rui Aguiar não era o coordenador “de direito” da campanha e não tinha ligações formais com o PT. Havia um coordenador oficial. de fato. Os contatos e acessos de André. principalmente porque foi utilizado pela equipe de marketing do referido candidato através da divulgação de notas em jornais.Lindberg conversava com o prefeito de Paracambi como se fora seu pupilo (mas sem a reverência típica desse tipo de relação). no entanto. Para André. No jogo político local. que crescia nas pesquisas de intenção de votos. propriamente dita. ele seria seu “garoto-propaganda” na região e no estado. ou de sugestões como. por exemplo. integrante do partido do candidato. Tal relação me chamou a atenção porque existia um diferencial de poder entre André e Lindberg que. parecem ter sido bem aproveitados pelo candidato recémchegado. A experiência de André à frente da prefeitura era um capital que o candidato do PT não possuía — não tendo qualquer experiência no executivo — mas que podia lhe ser transmitido por meio de contatos. cuja atuação corresponderia muito mais ao imperativo da conciliação política local do que à coordenação da campanha. de forma geral. caso deste jantar. Tal contato. Lindberg prefeitos da Baixada. Até meados de agosto de 2004. a do nome de Rui para “conselheiro-coordenador” da campanha241. como a publicada na coluna Extra Extra. pedindo conselhos e o colocando a par de questões da campanha. de Berenice Seara. visto de fora. de acordo com o projeto coletivo do partido. Os números indicavam que a disputa giraria em torno de Fernando Gonçalves (28%) e de Mário Marques (26%). a experiência de André — fundamentalmente.

geradora de uma série de ataques e contra-ataques. possibilitou tão somente um contra-ataque sem maiores desdobramentos — veiculado pela imprensa. cit. viabilizando o trânsito nessa arena. lhe haviam sido desfavoráveis. A construção de um elo local na condição de morador poderia significar maior “gás” em sua campanha. é particularmente marcado pelo número de empresários diretamente envolvidos em cargos comissionados ou com mandatos eletivos na vida política. 2000) e que fracassou – tampouco conseguiu cristalizar um vínculo de pertencimento de Lindberg com a cidade e seus moradores. A busca pela vizinhança (Park.aparecia em terceiro lugar (com aproximadamente 12%) e sua campanha de rua ainda não havia alcançado o ritmo desejado pelos organizadores. 1912) definia sua condição. a cadeia que se forma a partir da primeira acusação. Este campo. o que passava inevitavelmente pelas articulações com políticos e empresários locais. em discursos televisionados e nos palanques. direcionadas individualmente ou disseminadas sob formulações genéricas. Sendo assim. a partir das performances não apenas dos candidatos. na Baixada. no material de campanha e nos discursos do candidato — sob a alegação de que Lindberg seria “nordestino como a grande maioria dos moradores da Baixada”242. ou seja. As propagandas eleitorais gratuitas são exemplares nesse sentido. aludindo a uma identidade outsider (Elias. 242 241 . laços e interações sociais com os grupos locais. réplicas e tréplicas que podem ser apresentadas publicamente. op. Lindberg tentava constituir uma vizinhança. mas é no comício / showmício que tal prática ganha corpo. ficando explícitas as diversas formas de ataque utilizadas pelas facções políticas envolvidas no imbroglio. ao mesmo tempo em que buscava inserções no campo político. O apelo à identidade nordestina – inicialmente usado como acusação pelos adversários. Além da vinculação ao eleitorado. a socialização no mundo da política requer do principiante a obtenção de contatos e acessos que possibilitem a aquisição de capital político. dependente igualmente de uma decisão (positiva) da Justiça Eleitoral — cujos pareceres. mas de todos os que formam o palanque (Palmeira e Heredia.). até então. além do financiamento de campanhas Há uma espécie de fórmula seqüencial.

As desavenças entre ele e o coordenador da campanha. resolvendo dedicar-se apenas ao trabalho. a reabertura da única sala de cinema da cidade. atores políticos por excelência 243. Délio César Leal. Xandrinho. Seu afastamento.e demais “auxílios” em termos de prestígio e acessos. mas ao potencial de influência desses indivíduos na vida pública. antigos problemas voltaram à cena. depois de sua vitória jurídica. sempre acompanhando de perto as campanhas e seus candidatos — pois “tinha alguma militância no partido” — mas sendo empresário do mercado financeiro. Mudou-se para o Rio de Janeiro. sendo derrotado por Rogério Ferreira — médico cardiologista. cuja vitória foi garantida por uma pequena margem (300 votos) de seu adversário. Flávio (PL). Itamar Serpa. disputou a reeleição. sendo o candidato mais votado em Paracambi (obteve 58% dos votos válidos). em 1996. Nesse sentido. Tuninho da Padaria. na época. Adeilson Telles eram constantes. na corrida de Lindberg à prefeitura de Nova Iguaçu. em Nova Iguaçu. possibilitando. novamente. Dr. oriunda de uma família de portugueses e índios — foram buscar trabalho na empresa Nicola Salzano. 244 André Ceciliano nasceu em Nilópolis e mudou-se. para lá retornou quase integralmente. mesmo partido do ex-prefeito da cidade e. saiu a decisão final do Supremo Tribunal. André foi secretário de governo de Lindberg. ao setor imobiliário ou à educação privada. foi eleito prefeito e em 2004. donos de padarias. montando uma factoring na qual empregou vários moradores e amigos de Paracambi. comerciante de origem italiana e ela. deputado estadual . Neste pleito. Segundo Adeilson. 242 . já tinha contatos com integrantes do partido. mas não o concluiu. acreditava “não ter o perfil do PT”. André estudou na cidade e trabalhou na loja que pertencia a seu pai. Segundo ele conta. Volto a frisar: não me refiro apenas ao expressivo número de políticos-empresários da região. Ainda no mês de agosto. André iniciou sua vida pública em 1995 ao filiar-se ao PT. Nelson Bornier. Iniciou o curso de Direito algumas vezes. houve uma grande disputa jurídica a partir da denúncia de compra de votos por parte do candidato do PL. No período em que esteve afastado da prefeitura. André Ceciliano foi. na região. de botequins. Somente no segundo semestre de 2005. São pequenos comerciantes. Dois anos depois. filho de um empresário local do ramo da construção civil e membro do PMDB. elegeu-se deputado estadual pelo PT. Em 1996. candidatou-se à prefeitura de Paracambi. Este último teria exigido a não 243 Para ilustrar tal colocação. eles configuram. “a personalidade de Lindberg é um problema”. entre outros. levando boa parte da equipe que com ele trabalhava em Paracambi — e que. fechada por mais de 10 anos. foi inevitável. cito apenas alguns nomes de empresários (de pequeno e médio porte) de Nova Iguaçu que têm ou tiveram mandato eletivo nos últimos anos: Fábio Raunheitti e seu filho. Em 2000. Sua relação com a cidade mantinha-se por intermédio das visitas aos familiares e amigos e do empreendimento que lá realizou. garantindo a posse de André Ceciliano como prefeito. na década de 1960 (com dois anos de idade) para Paracambi onde seus pais — ele. de salões de beleza ou industriais ligados às áreas farmacêutica e de beleza. um importante mediador entre Lindberg e o mundo político da Baixada Fluminense244. ainda que temporário. Fabinho (como é conhecido).

antes de tudo. Para além do fato de que os índices levantados poderiam causar um impacto interno no campo dos próprios aliados e da “justificativa ética” dada por Adeilson. desfavorecidos” (Champagne. o articulador por detrás do coordenador. a veiculação dessas pesquisas produziria um efeito de “construção de opinião”. conforme enfatizado nos trabalhos de Bourdieu ( 1976. Uma nova crise era deflagrada. o episódio da sondagem não divulgada por determinação do candidato. o que agravara ainda mais as discordâncias entre os dois.divulgação de uma pesquisa de sondagem com indicadores negativos sobre sua popularidade. culturalmente. Primeiro porque seria o candidato natural do PT para as eleições. 1977 e 1980 [1973]) e de Champagne (1996 [1990]). num primeiro momento. sobretudo. p. apesar das alianças internas ao partido visando um reajuste de forças e a indicação de seu nome para a coordenação da campanha. fazer triunfar sua visão de mundo e impô-la como visão correta ou verdadeira ao maior número possível daqueles que são. à debilidade da posição de Adeilson naquele contexto. idem. portanto. por exemplo) foi. Adeilson já estava. o que o colocou. Somou-se. “[…] a política é. Em seguida. vinculado a políticos de Mesquita (à família Paixão. permanecendo afastado das decisões e atuando muito mais como um “conselheiro”. “homem dos bastidores” da política local. no pólo oposto ao de Lindberg. em uma posição extremamente delicada. econômica e. 243 . Rui Aguiar. desde o início da corrida eleitoral. pelo menos. esta não era de fato levada a cabo por ele — que acabava tratando de assuntos mais pontuais. uma luta simbólica na qual cada ator político procura monopolizar a palavra pública ou. desde o início.24).

resultou não apenas na atenção da mídia. 244 . Somente em meados de agosto de 2004. mas hiper-dimensionou a publicidade local. o jogo de poder imbricado na construção. mal podendo sair às ruas e caminhar sozinho. da opinião pública como artefato. significaria explicitar a debilidade da campanha posta em prática até então. Anthony Garotinho. de um lado. disponibilizar os dados em questão. bem como a de algumas de suas personalidades. que transformaram o candidato petista em um “fenômeno de popularidade”. Um grande investimento (político e econômico) dos governos federal. Nova Iguaçu tornara-se um dos principais cenários das eleições municipais de 2004. entrava em cena em sua campanha a empresa de publicidade Super Nova que 245 Trabalho com a idéia de Champagne (1996). essencialmente devido à “guerra” travada entre o governo federal e o então Secretário de Segurança e ex-governador do estado do Rio de Janeiro. e não apenas no estado do Rio de Janeiro. marcada pela entrada em cena de outros personagens — para a coordenação e realização da campanha — e pela veiculação do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) e realização dos showmícios. mais tarde.Desse modo. O preço a pagar poderia ser alto e inviabilizar a estratégia pensada para reorganizar o campo de forças na arena política iguaçuana — via publicização de sua persona política e de seus programas eleitorais televisionados245. de Lindberg. para Lindberg. no pólo oposto. e estadual. aplicação e divulgação das sondagens pode refletir-se na constituição da “opinião pública”. Sendo assim. primeiro em favor de Mário Marques e. A segunda fase da corrida eleitoral teve início justamente a partir deste episódio. A partir deste momento. também o candidato Mário Marques. de outro. como o candidato Lindberg Farias — e. os índices de intenção de votos começaram a mudar.

Não tratarei aqui da viabilidade (ou não) da mensuração das conseqüências deste acaso. potencializando o poder de alcance e de influência de seu marketing político246. Vozes e Cenários No ano de 2004. assessora de imprensa de Lindberg durante a campanha e a ele ligada profissionalmente ainda hoje ). sócios da agência de publicidade Super Nova. o que. ainda será abordado neste tese. à problemática do marketing e do peso de seus agentes (os assessores políticos) na arena eleitoral e seus desdobramentos para a democracia — tratados em trabalhos como os de Scotto (2004) e Castilho (2002). percebi o destaque conferido por ela e por sua equipe à conexão olimpíadas-audiência para o reconhecimento do candidato do PT pela população local. de forma mais ampla. atingindo uma audiência muito superior a que tem habitualmente. bem como aquele exercido por Pedro Cezar (responsável pela campanha de Mário Marques).atuaria na fase decisiva da preparação da propaganda eleitoral para as mídias eletrônicas. responsável pela campanha de Lindberg Farias). O fato é que as transmissões em questão possibilitaram que um maior número de moradores conhecesse Lindberg. foi comprovado por meio de pesquisas e de enquetes. Foi a partir de setembro daquele ano. um outro olhar sobre Nova Iguaçu e a Baixada Fluminense. Instaurava-se assim. no discurso do candidato petista. A Bandeirantes transmitiu com exclusividade tais jogos. o que favoreceu a veiculação dos programas políticos dos candidatos do município. Refere-se. A emissora Rede Bandeirantes foi o canal sorteado para a propaganda eleitoral gratuita dos candidatos ao pleito de Nova Iguaçu e um imponderável acabou auxiliando os coordenadores da campanha do PT nesse período: as olimpíadas. com a propaganda eleitoral gratuita veiculada pelo rádio e pela televisão e com os inúmeros showmícios realizados. que o candidato do PT 246 Em entrevista realizada com Débora Souto (uma das sócias da empresa de marketing e consultoria política Monte Castelo. 245 . segundo Daniela. O papel desempenhado por Débora Souto. entre outros. limitando-me a apresentar o real crescimento das intenções de voto e a chegada do candidato do PT ao primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto divulgadas ainda em setembro. tornando possível a reestruturação da propaganda televisiva e o melhor aproveitamento das inserções diárias. o TRE inovou ao distribuir a transmissão das propagandas eleitorais entre as principais cidades e canais de televisão. Miranda e Cacá (os dois últimos. no entanto.

em graus variados. Neste ano. pode ser encontrado. Em 1934. 1996. no entanto. então. até 1974 coexistindo com a propaganda paga .339. 1994. constituindo igualmente o elemento central dos discursos dos candidatos (Palmeira. posteriormente suprimido pela censura — especialmente entre 1970 e 1974. (Scotto. foi aprovada em 25 de julho de 1976. norteador da propaganda eleitoral de Lindberg. conhecida como lei Falcão. durante o governo do general Médici. pretendendo-se um veículo fidedigno de informação aos eleitores (ver Scotto. 1998). a partir da década de 1980 — a política passa a ser representada como um mercado no qual os candidatos podem ter suas “imagens vendidas”. revistas. fundamentalmente. a exibir apenas a foto e o currículo do candidato.115. Até 1968. 1995 e 1998. A partir de 1964. as forças de oposição ainda têm algum espaço na mídia. Carlos Drummond de Andrade. fossem proibidas as propagandas pagas em rádios. Foi durante o seu governo. a modalidade gratuita foi extinta pela lei 9. 246 . Em 1939. no governo do general Ernesto Geisel. com o intuito de conter os avanços da oposição (MDB) que aumentava o número de cadeiras na Câmara e nas Assembléias desde as eleições de 1974. Foi somente a partir da Constituição de 1988 que os todos os partidos políticos tiveram garantido o acesso ao tempo de propaganda eleitoral gratuita sem que. principalmente. O Código eleitoral será o responsável por restringir este uso. passou a atuar na área de “educação nacional” já sob a rubrica de Departamento Nacional de Propaganda (DNP). Cecília Meireles. criou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). que a propaganda — até então vinculada a produtos e marcas e dirigida ao mercado consumidor — centrou-se nas questões políticas. Sua propaganda política centrava-se na idéia de mudança. com a lei no. Desde a década de 1970 — mas. com a criação do Conselho Nacional de Propaganda (CNP). E em 1937. em 1931. 2000). pra ser feliz” foi o slogam da campanha e mudança foi a palavra-chave empregada para sensibilizar o público iguaçuano. subordinado à presidência da República e relacionado a nomes da intelectualidade brasileira e do movimento da semana de 22 (Cassiano Ricardo. Caixa Econômica etc. entre outros). a 247 Getúlio Vargas deu início à organização da propaganda política no Brasil. Os partidos políticos só vieram a ter direito à propaganda eleitoral gratuita em 22 de agosto de 1962. grande ênfase é dada durante o regime militar à atividade governamental de relações públicas. com a instauração dos atos institucionais — fundamentalmente o AI5 (1968) — que caracterizou um período de controle e “fechamento” dos meios de comunicação de massa. A criação. “É hora de mudar.601. A propaganda eleitoral gratuita passaria. conhecida como Etelvino Lins. programa transmitido diariamente pelas estações de rádio. Barreira. jornais e canais de televisão. idem). Este modelo da “comunicação governamental” caracteriza-se inicialmente pelo elevado número de anunciantes com ligações com o aparato do Estado: Banespa. Concorrendo para a constituição de identidades. que relata os acontecimentos nacionais. do Departamento Oficial de Publicidade (DOP) representou a primeira vinculação entre propaganda e Estado. Soares. mas a cada eleição a regulamentação se dá por intermédio de leis específicas a cada pleito. O tema em questão. Lemenhe. O Código eleitoral foi criado na década de 1950. A lei 6. progressivamente restringido devido ao endurecimento do regime. Manuel Bandeira. 2004). em diversos trabalhos sobre trajetórias políticas e sobre eleições. o DOP transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC) também ligado ao Ministério da Justiça. normatizando e fiscalizando os processos eleitorais.passou a ter um crescimento extraordinário nas pesquisas de opinião247. responsável pela criação de “A Hora do Brasil”. 4. suprindo um espaço de informação e comunicação com a população. além de anunciar horários de comícios (ver Castilho.

o clientelismo e o assistencialismo como práticas políticas “típicas” da elite local.. o discurso político de Tasso Jereissati opera igualmente com a “dimensão simbólica” do coronelismo no imaginário coletivo nordestino248. o coronelismo afeta não apenas o corpo desnutrido. imprimindo ao anti-coronelismo o tom de exortação moral [. dar um basta à alternância das elites locais — representadas mais recentemente por Bornier e pela família Raunheitti — no poder. portanto. como nos mostra Carvalho (1995). alcançar a parcela da população insatisfeita com o governo de Mário Marques e. Apesar das alianças com o PSDB e com o PFL. Atacando o coronelismo. por um lado.mudança aparece como categoria relacional na medida em que se constrói no discurso de diferenciação do Outro — neste caso. Lindberg assumia. de perfil ocupacional (empresários) ou relacionada a uma estrutura de dominação política (remanejamento de poder com discurso de contestação/ crítica de elites locais). em sentido mais amplo — da condição estigmatizante a que há anos se via relegada e reverter sua alcunha de “curral eleitoral”. o discurso do herói/ salvador (Girardet.] Tasso é. A mudança pode ter uma conotação de gênero (candidatas mulheres em oposição a candidatos homens). 1987) que viria resgatar Nova Iguaçu — e a Baixada. instaurando um novo tempo para a política. pretendia-se. por outro. De modo semelhante a Lindberg. mas a própria alma do povo. muito mais que um candidato ao governo de um 248 Segall (1979). 247 . o candidato do PT colocar-se-ia contra o complô permanente a que seus moradores estiveram submetidos. de classe social (movimentos sociais). A propaganda de Lindberg referia-se especificamente a esta última. “Insidioso mal. portanto. o(s) adversário(s) político(s) — e vai se adequando aos contextos aos quais é inserida..

em 16 de setembro de 2004 — evidencia a ênfase em um discurso de diferenciação em relação aos demais candidatos e de transformação: “(. prática esta que os demais candidatos entrevistados assumiram como rotineira durante o período de eleições: “é assim mesmo. na figura de um jovem e promissor político. 01 Ele foi cara pintada 248 . Vamos entrar rasgando aquela máfia lá. A fala de Lindberg — durante debate realizado no SESC de Nova Iguaçu pelos movimentos sociais locais.) eu tô (estou) mandando um recado para aquela turma que tá (está) ali (. A trajetória do candidato fundia-se então a um conjunto ampliado de imagens e projetos relativos à própria cidade... apresentavam-se sob forma “genérica” e não individualizada (omitindo nomes).132-133).. Devo ressaltar que.) não tô (estou) de brincadeira. ele é a materialização da imagem mítica da ruptura com os grilhões do passado.estado do Nordeste. Tais ataques. anúncio de um novo tempo na política” (pp. o mesmo não se dava nos palanques. o candidato não costumava utilizar-se do expediente de atacar os adversários. a partir de uma nova Iguaçu.) eu vou entrar ali. a possibilidade de experimentação de uma nova etapa na vida da cidade. na hora da eleição. O discurso do partido apresentava. vale tudo!” (candidato à Câmara Municipal pelo PDT). de compra de medicamentos. O projeto de uma nova Baixada.. no entanto. a Diocese de Nova Iguaçu e a Escola de Governo da Baixada. se nas propagandas gravadas.. era então veiculado nas propagandas televisionadas do candidato petista. O jingle de Lindberg é exemplar para pensarmos a construção do discurso que moldou toda a sua campanha e que procurou forjar sua identidade política. eu vou pôr ordem (.. fundamentalmente o MAB. de tudo” (palavras de Lindberg Farias).

em um dos pólos. é hora de mudar. e de Marques/ Gonçalves. nova direção 10 Um novo caminho 11 Uma nova visão 12 Lindberg é o futuro 13 Com coragem e pé no chão 14 Pra cuidar de todo mundo 15 Coração e peito aberto 16 Pra mudar o que tá ruim 17 E pra fazer do jeito certo. (grifos meus) O velho e o novo. 18 É hora de mudar 19 Pra ser feliz 20 Lindberg prefeito 21 É assim que se diz. no outro. 22 Lindberg prefeito... o tradicional e o moderno confrontavam-se por detrás dos nomes de Lindberg. Estes pares de opostos 249 .02 Líder de uma geração 03 E manteve o passo certo 04 Cresceu junto com a Nação 05 Hoje é homem de idéias 06 Que traz a solução 07 Sempre com a verdade 08 Sempre com a sinceridade 09 Nova Iguaçu.

ao mesmo tempo em que costurava arranjos com políticos tradicionais sem que tivesse afetados seu foco ou prestígio. no entanto. o candidato do PT. ou entre uma elite local e um forasteiro (como tentaram qualificá-lo com a utilização da categoria “nordestino”. resultando em um amálgama que permitia a Lindberg utilizar-se do discurso da mudança. a composição de forças era diferenciada. o grande rival de Mário Marques era Fernando Gonçalves e a disputa girava em torno das elites iguaçuanas — que tentaram atingir Lindberg por intermédio de um discurso apoiado na identidade local — os 250 . A temática da mudança sempre esteve relacionada à sua figura política e remetida à construção de uma trajetória ligada aos sentimentos e às emoções (linhas 14. A partir de agora. no período pré-candidatura). A esta altura da campanha (3 de setembro de 2004). para uma nova polarização. Não se operava mais uma disputa entre duas elites locais. o “poder de fogo” voltou-se inteiramente para o primeiro colocado. sendo a trajetória como deputado (por dois mandatos) enfatizada como o traço que o distinguiria do “estudante”. Sendo assim. Acenava-se. 15 e 19). de fato. portanto. ao mesmo tempo em que o transformara.aplicavam-se não somente aos programas políticos e slogans. redefiniu a luta política em termos de facções. como também às trajetórias e faixas etárias dos candidatos. a partir deste momento. Lindberg deixara para trás os 12% que registrava em 10 de agosto e já estava em primeiro lugar. com 30% das intenções de voto. em “homem”(linhas 4 e 5). as pesquisas de opinião já se haviam alterado. seguido de Mário Marques (27%) e Fernando Gonçalves (16%). A identificação da população jovem do município com o candidato do PT e sua atuação no movimento estudantil e no impeachment de Collor mostrou-se um dos pilares de sustentação da campanha (linhas 1 e 2 do jingle). Se até o mês anterior. A nova conjunção de forças em Nova Iguaçu.

“Você tem que saber uma coisa. foram expedientes utilizados pelos adversários para desconstruir a imagem de “homem de bem” e deslegitimar o discurso da mudança através da retórica do medo e da divulgação de antigas imagens a ele associadas: a de bêbado. os resultados foram outros. transmitidas por duas ou mais 251 . as regras do jogo devendo ser necessariamente reformuladas. As mesmas iniciativas foram tomadas em relação a Lindberg. e levando em conta que “o uso comum nos inclina a tomar por fofocas. as informações mais ou menos depreciativas sobre terceiros. foi aos poucos sucumbindo ao poder da máquina representada por Mário e pelo PMDB. em geral. em especial. outdoors denunciando seu voto a favor do salário mínimo de R$ 260. Aqui. agora. arruaceiro. a fatos contados como revelações. Aqui. A expressão acusatória dos sentimentos (Barreira. a gente faz política com fofoca” (palavras de um assessor político de um dos candidatos à Prefeitura). e que seriam desmentidas pelo adversário para o conhecimento da população. Cartazes apócrifos foram espalhados pela cidade. novamente. somando-se a falta de apoio e de dinheiro. cartazes revelando sua suposta concordância com a liberalização da maconha. admitindo-se assim um caráter de artificialidade e de construção de características apresentadas como verdadeiras por determinado candidato. neste caso. Grosso modo. Todos com o mesmo conteúdo: acusações dirigidas ao candidato da coligação Hora da Mudança. haviam mudado de posição. violento. Outdoors colocados em pontos estratégicos. A equipe de Marques iniciou um feroz ataque ao deputado federal do PTB que. drogado.jogadores. idem) remete. A exibição de fotos de Lindberg bebendo uísque. mas.00. para o “bem do povo”. os sentimentos e os “atributos psicológicos” voltaram à tona nos ataques ao candidato do PT e na resposta de sua equipe. na Baixada.

o discurso do candidato do PT voltou-se para a revitalização dos bairros — percebidos como o locus da sociabilidade nativa por excelência —as peças publicitárias passando a enfatizar um conhecimento sobre a cidade e seus problemas. mas não exclusivamente — transformou.121). 252 . cit. tô criando meus filhos na lama. “Isso aqui é uma vergonha.pessoas umas às outras” (Elias. os eleitores). Se os ataques a Lindberg apresentavam-se de forma violenta e incessante. Sua resposta às acusações também foi equivalente àquela adotada em 2002: no estilo “lulinha paz e amor”. no entanto. naquelas eleições em particular. Por intermédio do depoimento de uma (suposta) moradora da periferia da cidade exibido em um dos programas eleitorais de televisão. Eu nasci na lama. Lindberg incitava a população a optar por uma nova fase em suas vidas: “é hora de mudar pra ser feliz” (linhas 18 e 19 do jingle)249. vou criar meus netos na lama”. preferindo explorar sua atuação administrativa à frente da prefeitura por quase dois anos e os graves problemas de infra-estrutura que a cidade ainda enfrentava. no qual os personagens surgiam e desapareciam conforme os “gostos” dos eleitores. os aliados. mostrando o 249 A menção ao “estilo lulinha paz e amor” foi recorrentemente utilizada por assessores e demais pessoas próximas a Lindberg Farias. a arena política num folhetim. provocar sua rejeição por parte da população local — fato muito bem explorado pela equipe de marketing do PT e capitalizado em termos de solidariedade e demonstrações de apoio ao candidato. não conseguiram. A equipe de marketing responsável pela campanha do PT em Nova Iguaçu não atacou o candidato à reeleição em termos pessoais. verificamos que a fofoca — preferencialmente a blame gossip. op. p. Os temas das maledicências eram “testados” a partir dos sentimentos e reações manifestados pelos demais atores em jogo (os adversários. prometendo “cuidar de todo mundo” (linha 14).

então. uma nova Iguaçu. Essa nova Iguaçu aparecia como projeto político. para um projeto de reconstrução da cidade. não apenas um projeto urbanístico como o das administrações anteriores de Bornier. ou seja. da ecologia e do trabalho foram os pilares de sustentação de seu programa de governo. de o “lugar” da Baixada. de uma nova cidade. Neste sentido. 253 . a campanha do PT propunha uma retomada do antigo prestígio e poder da cidade. do “tempo dos laranjais” (Souza. a par das dificuldades cotidianas do morador iguaçuano. bem como das propagandas televisionadas. mas também como vocação da cidade. a “terra” e as “belezas iguaçuanas”. inexploradas pelos antecessores políticos. a “comunidade da Baixada” ao invés de referir-se exclusivamente à Nova Iguaçu.candidato nas ruas com “sua gente”. As tomadas externas da campanha publicitária priorizaram a “gente de Nova Iguaçu”. Além da temática da mudança e de suas implicações. Sendo assim. quando ainda não havia sido desmembrada com as emancipações que se seguiram. o apelo “ao que Nova Iguaçu tem de bom” ditou o ritmo das propagandas e das falas políticas. alçar o iguaçuano à condição de legítimo representante da região. A valorização da cultura local. Nova Iguaçu deveria ser restituída a seu posto. Conferindo o título de “capital da Baixada” à Nova Iguaçu. operava-se com a idéia de que já haveria capacidades inerentes à cidade e a seus moradores. a equipe de Lindberg e o candidato optaram por redefinir a Baixada a partir da condição iguaçuana. Evocando. 1992). em muitas situações. A potencialidade do crescimento e da grandeza era agora enfatizada a partir da natureza e da cultura próprias à localidade. O direcionamento de sua propaganda voltou-se. mas um projeto novo.

135). operou sua transformação de “muso” em ídolo. a fama — por vezes tomada como sinônimo de carisma — diferentemente da honra estaria ligada ao advento da comunicação de massa e à particularização do indivíduo que. na transformação do candidato em “produto massificado”. a condição de ídolo do candidato do PT e seu pólo oposto e complementar. A eleição iguaçuana de 2004. O Dia. “o modelo da relação é basicamente centrípeto: um indivíduo centraliza as atenções de muitos. entretanto.O Cortejo e a Vitória “Não sou só um rostinho bonito” (Lindberg Farias. A apatia dos primeiros dias de campanha havia ficado para trás e Lindberg passava a ser festejado por segmentos diversos nas ruas e aclamado pelas mulheres. que o apelidaram de Lindoberg ou Lindinho. combinada com a impossibilidade de identificação plena. mas à fama alcançada pelo candidato do PT. especificamente. A segunda fase da campanha foi marcada. 24/10/2004). o fã (neste caso. Assim como exposto no trabalho de Coelho (1999). Não refiro-me apenas a seu prestígio político. sendo da natureza mesma dessa relação a impossibilidade de o indivíduo famoso corresponder às expectativas que tantos alimentam a seu respeito” (p. a partir de uma concepção específica de modernidade 254 . Lindberg já gozava da fama de “bonitão”. “pop star”. a fama pode ser pensada em termos de uma relação assimétrica entre ídolo-fã — neste caso. Segundo a autora. seu “efeito” sobre as mulheres sendo sempre ressaltado em matérias jornalísticas. entre outras coisas. Aqui. pela conquista do eleitorado feminino. o que pode manifestar-se na idealização de uma relação amorosa com o indivíduo singularizado por seu carisma (que no caso desta tese foi ressaltado na relação de eleitoras com Lindberg) ou ainda. fã-eleitor). Desde os “tempos” da UNE. de “lindo”.

Esta definição expõe o caráter dinâmico do conceito. Algumas mais assanhadas. dizia ela. respectivamente): “O ídolo pop da Baixada: candidato petista à prefeitura de Nova Iguaçu. Com manchetes como a publicada no Jornal do Brasil. os programas eleitorais televisionados e a ênfase no corpo a corpo auxiliaram na transformação do candidato em ídolo. não se continham. Lindberg Farias sofreu com o assédio feminino” e “Petista joga para torcida: mulheres lotam campo para assistir à pelada do prefeitável de Nova Iguaçu com astros do futebol” percebemos a dimensão de sua aceitação por uma parcela específica do eleitorado iguaçuano.85m e 86 quilos. 04/10/2004). visto que é construído na relação entre os discursos sobre si e sobre o outro em um jogo que nos permite perceber a fabricação de personagens públicos visando reconhecimento. as eleitoras mais jovens usavam adereços como bandanas. A doméstica desempregada. cai no choro depois de beijar o ídolo. remeteria à exaltação da singularidade do ídolo por oposição ao anonimato (ainda que relativo) do eleitor. adolescentes e mulheres de Nova Iguaçu. 1. 1967). chamando o candidato de gostoso (O Dia. e passa à frente nas pesquisas para prefeito” ou as que figuraram no jornal O Dia (de 4 e 29 de outubro do mesmo ano. Claudete Santos Lima. antes de romper a barreira de 255 . de 19 de setembro de 2004.(Simmel.cit. Explorando a imagem de ex-líder estudantil para assegurar sua proximidade dos jovens de Nova Iguaçu. Moreno. op. renome. o paraibano arrancou suspiros das mulheres – muitas delas o tratavam como “Lindinho”. A política da festa (Chaves. bem como o carisma pessoal e a beleza. de 40 anos.) conduzida pelos showmícios. Lindberg obteve uma combinação de fatores que lhe rendeu amplo acesso ao eleitorado feminino (de diversas idades). “A Baixada se rende ao forasteiro: deputado do PT vira ídolo de crianças. Além de camisas com o nome do candidato. faixas de cabelo e pinturas feitas nos rostos — geralmente a estrela do PT. “Vejo todos os programas”.

Na Internet encontrei um site. dizia Tatiane250 (O Dia. 29/10/2004). de 34 anos. Diante disso.seguranças.. E lá se vai a consciência política (idem). mas sem competência não dá”. cita outra. Tatiana de Souza. mas nunca obtive resposta. “Aaaaiiii! Lá vem ele!”. disseram que não importavam a mínima para a partida. “Prometeu dar um jeito na saúde”. camisa branca e gravatinha azul do curso normal superior do Instituto de Educação Rangel Pestana. 250 256 . gritam elas ao avistar o candidato. procurei o responsável pela página (o webdesigner). 20. Leide Melo. mal consegue andar pelo calçadão comercial do centro [de nova Iguaçu] [. e Talita Carriello. ela deixou “escapar” que o fã-clube teria sido uma invenção de marketing. Não posso confirmar ou negar tal fato. Quando indagado sobre como localizar uma das fãs.] Antes da chegada do candidato. e apesar das inúmeras manifestações que pude presenciar durante a campanha — e mesmo depois dela — não consegui confirmar a existência de um único fã-clube do candidato. Conversei com um dos principais assessores de Lindberg que confirmou a existência do fãclube. Vanessa Peixoto. comemora eufórica: “Ele bebeu água mineral da minha garrafa!” Ele quem? Reinaldo Giannechini? Não. 18 anos e Tatiane Alves. As estudantes Samantha Navarro. espero que ele bote um shortinho mais curto”. de short. não conseguindo falar com nenhuma das jovens cujos emails constavam do site. vestidas com saia de pregas. Ressalto. Representantes de fã-clube e moradores disputaram o alambrado em volta do campo. 16. São cinco e meia da tarde de terça-feira e Lindberg. “Vim aqui pra ver o Lindberg de terno. 20 anos. lembra uma. “Ele luta pela universidade pública”. 18. o que quer que seja. estudante de enfermagem. Mandei vários e-mails para as responsáveis pelo fã-clube. Lindberg Farias. para “criar notícia”. “Ele até pode ser lindinho. 24/10/2004). no qual havia depoimentos de algumas mulheres — todas jovens entre 15 e 24 anos — além de uma pequena biografia de Lindberg. no entanto que. conversando com uma pessoa que trabalhava na campanha. paraibano que ficou famoso ao liderar o movimento dos estudantes cara-pintadas pelo impeachment de Collor em 1992.. deputado federal e candidato à prefeitura de Nova Iguaçu (Extra. Ele me respondeu que teria sido contratado por uma pessoa da assessoria de comunicação de Lindberg e que não teria tido contato algum com nenhuma das fãs-eleitoras. davam explicações políticas para a preferência pelo petista. 17 anos. Num certo dia. Telefonei para ele perguntando como poderia entrar em contato com as duas meninas do fã-clube. fiz algumas pesquisas sobre os fã-clubes do candidato petista. afirmou não ter qualquer contato com elas. Durante o mês de setembro de 2004. Ele está com esse bermudão. avisa a terceira.

gente te puxando de todos os lados. Não era mais possível sair às ruas sem seguranças. até. pô. A fiscalização estava atuante: materiais considerados ilegais foram apreendidos e acabaram presos cabos eleitorais que estavam além dos limites previstos por 251 252 Fala extraída do Jornal do Brasil. A gente nem podia sair na rua com ele. Daniella Sholl. eles estariam encarregados de manter sob controle as fãs-eleitoras.A fama mudou o dia a dia do político. Segunda ela. em uma conversa com uma amiga — jornalistade O Globo — comentou sobre a popularidade de Lindberg junto ao eleitorado feminino da cidade e que as mulheres gritavam seu nome quando ele passava ou chamavam-no de lindinho. ainda segunda Daniella. A proporção tomada por sua transformação em ídolo não era esperada nem mesmo por membros de sua equipe. de 24/10/2004. É verdade. a partir do final de agosto. troca de socos entre cabos eleitorais. sem saber o que fazer. é mole? [risos] Era um tal de pegar. assalto ou atentado político). Amanheceu um dia chuvoso. não viu? A mulherada gritava mais pra ele do que pro Zezé di Carmago. confirmando o assédio ao candidato e corroborando o apelido “Lindoberg”. O dia 3 de outubro de 2004 parecia anunciar a vitória. 28/11/2004). Ele ficava esgotado no final. 257 . A gente ficava perdido. surpreendidos durante o processo eleitoral. Alguns confrontos entre adversários acabaram em ataques físicos. Se anteriormente. pro KLB. Eu nunca vi coisa igual” (um assessor de Lindberg durante a campanha eleitoral. Diante disso. a cidade estava tomada por grande agitação. Cabos eleitorais por todos os lados tentavam buscar nos indecisos a chance da virada. afirmando ter “mais votos entre os homens”251. Lindberg tentou desvincular-se de uma associação direta com o “voto feminino”. abraçar e beijar que só ele pra ter tanta paciência mesmo. Urnas eletrônicas tiveram que ser substituídas. porque é uma loucura. às vezes. Mas ele tem um pique! Parece que nem dorme. são eleitoras né?! Tem que deixar. contou-me que a idéia do apelido “Lindoberg” foi sua. O quê que eu podia fazer? Não dá pra empurrar. em entrevista realizada em julho de 2005. tenso. um ou dois bastavam para protegê-lo de qualquer eventualidade (leia-se... Você viu. tal jornalista resolveu ir à Nova Iguaçu. e dela tirando o máximo proveito possível252. “Era uma loucura.

tirou o máximo proveito de ter o Presidente da República como aliado declarado. com 181. mas contra o boato de que não sou mais candidato. na Igreja de São Jorge. Cheguei a ficar apavorado. no entanto. teve um encontro hoje com o presidente Luiz 253 Lindberg Farias pediu às autoridades competentes o envio da policia federal para Nova Iguaçu no dia da eleição.137. o pedido foi recusado por ter sido considerado desnecessário pelo presidente do TRE-RJ juiz Marcus Faver. não contra o meu oponente. Lindberg Farias.185 votos (48. também acompanhado pela esposa. A solicitação para que a polícia federal garantisse a idoneidade das eleições não foi atendida e mais choques e ameaças davam demonstrações do que ocorreria até o fim do dia253. com 147. votou no Instituto de Educação Rangel Pestana. O candidato do PT à Prefeitura de Nova Iguaçu. seguido de Mário Marques. com 44. Carlão. – Faltou ética para meus adversários. O Mário Marques teve 15 dias de campanha suja.lei para a “boca de urna”.19% dos votos válidos). se voltaram contra o meu adversário. o segundo colocado deu início a novas articulações para tentar angariar o apoio dos candidatos vencidos. enquanto Mário Marques. Espero que isso não influencie o resultado da eleição – afirmou o exdeputado. 258 . Logo em seguida ao resultado da apuração.353 e Zé Renato. Estou lutando. transformando-o em “garoto-propaganda” de sua candidatura no segundo turno. quando as pessoas descobriram que era uma armação. O primeiro turno terminou com Lindberg em primeiro lugar. com 2.800. com 947. Lindberg não deixou escapar a oportunidade e. conforme anunciado na reportagem da Folha de São Paulo de 06/10/2004. Fernando Gonçalves. mas acho que. Lindberg e sua esposa votaram pela manhã. para quem pelo menos não houve manipulação das urnas (Jornal do Brasil. 04/10/2004).

apoiando-se sobre o “episódio do mensalão”.Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. boa pinta e deixou o Mário no chinelo. O patriarca da família Raunheitti também foi procurado. Nessa mesma entrevista. O tema da conversa foi a possível criação de parcerias entre a prefeitura de Nova Iguaçu com o governo federal e organizações internacionais como o Banco Mundial. Sendo assim. Lindberg participou de um café da manhã com José Dirceu (Casa Civil) e Lula. poucos meses antes de seu falecimento — estava ciente. A conversa com o Presidente será usada na campanha para o segundo turno. Lula prometeu dar “um banho de saneamento e asfalto” no município e disse também que espera que “a administração em Nova Iguaçu seja um cartão postal do PT na Baixada Fluminense”. Fiquei desgostoso depois do que aconteceu comigo [referindo-se ao caso dos Anões do Orçamento]. Segundo Lindberg. tudo bem. em particular na área de saneamento. O Fernando fez o que 259 . Mas o PT nunca me enganou. Segundo ele próprio me informou — em entrevista realizada em agosto de 2005. Se algum filho meu quiser se candidatar. Já gastei muito com eleição. Eu sempre soube que era o mais sujo de todos. Agora a máscara caiu. deixou claras suas críticas a Lindberg e ao PT. o presidente afirmou em sua última visita ao Rio que o governo federal ajudaria as prefeituras que sofressem discriminação dos governos estaduais. das chances remotas de seu sobrinho. não apoiou lado algum. Antes do encontro em separado com o presidente. senão. “Esse rapaz veio pra cá com uma carinha bonita. preferindo ficar “de fora dessa disputa”. no entanto. E eu quero ver como esse menino vai ficar agora. desde o início. A prefeitura está parada. Fernando Gonçalves já era sondado por ambos os lados. Após ser informado que o ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) havia feito ameaças de corte nos convênios entre o Estado do Rio e Nova Iguaçu caso Lindberg vencesse. Eu não ia desembolsar nada. eu deixei a política pra lá. Mesmo antes do resultado final de 3 de outubro. A administração dele não anda.

Lindberg negou a afirmação. o Mário nem seria o escolhido.tinha que fazer. espalharam a notícia de que o candidato do PT teria uma “filha bastarda”. Eu já estou velho e doente pra essas coisas” (Fábio Raunheitti. partindo agora para um ataques morais. além do apoio de um “nativo” com significativa expressão política (e eleitoral). O Globo. Ele não tinha pique pra agüentar o ritmo daquele menino. Se juntou ao mais forte. Campanha é uma dureza. 21/10/2004. 21/10/2004. 254 260 . 22/10/ 2004. Durante a campanha para o segundo turno das eleições. O Bornier não ia soltar mais dinheiro. 14/08/2005). Jornal do Brasil. a ligação com Fernando Gonçalves implicava também a aproximação de uma importante parcela do eleitorado: a evangélica — religião do candidato do PTB derrotado nas urnas no primeiro turno. por ele. declarando não conhecer a garçonete e contestando Na ocasião. em mais um surto de agressões e acusações mútuas. os ataques não foram diferentes. O Mário já não tinha mais chance. Outdoors do primeiro turno estampados com sua foto foram pichados com a palavra traidor. a garçonete Márcia Cristina Lima. A relação de “fã” foi alvejada pelo adversário. Mas já que a juventude e a beleza pareciam contar a favor de Lindberg. seus adversários resolveram mudar de estratégia. Segundo os jornais. 21/10/2004. afirmava ter conhecido o candidato em 1996 e que ele seria o pai biológico de sua filha de 7 anos254. Aproveitando-se da antiga fama de “mulherengo”. por “ficar fazendo papel de bom moço” — comentário de Mário Marques a um jornalista do Jornal do Brasil (idem). o boato em questão foi noticiado em diversos jornais: Estado de São Paulo. sendo alvo de ataques do candidato adversário. de 35 anos. e eu acho que. É muita diferença. O Dia. Fernando Gonçalves acabou apoiando Lindberg. Para Lindberg. alegando que as eleitoras estariam cometendo um erro por votarem nele devido somente à sua beleza.

Em encontro fechado com os candidatos do PT às Prefeituras de Nova Iguaçu (Lindberg Farias) e de Niterói (Godofredo Pinto). No dia 31 de outubro. nunca estive lá. votou às 10 horas da 261 . o IBOPE apontava para um empate técnico entre os dois candidatos ao segundo turno. mostrando-o em família (com a esposa e o filho. na minha vida”. a movimentação não foi diferente. A suposta paternidade foi um duro golpe. principalmente. Quanto mais próximo do dia da votação. o corpo a corpo e os showmícios continuaram ditando o ritmo da campanha. disse (Folha de São Paulo. em Belo Horizonte) foram divulgadas pela mídia. Imagens feitas em seu apartamento. manifestando repúdio às acusações. mais tenso ficava o clima político na cidade. que até então residia com a avó materna. de sua esposa. divulgando declarações do candidato e. o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a acusação de que Lindberg Farias poderia ser pai de uma garota de sete anos. O candidato do PT em Nova Iguaçu creditou o pedido de paternidade da garçonete Márcia Cristina Leonardo Lima a uma estratégia do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) para prejudicá-lo. segundo me informou uma pessoa próxima a Lindberg. “Não se preocupe porque esse tipo de coisa só tira voto do adversário”. Ainda segundo esta mesma pessoa. apesar do desgaste da acusação de ser pai de uma filha bastarda. uma vez que sua equipe de comunicação revertera imediatamente a situação. data marcada para o segundo turno das eleições.informações por ela fornecidas aos jornalistas: “com todo respeito a Coelho da Rocha. Entretanto. Lula afirmou que a acusação não deverá prejudicar o candidato. o impacto teria sido mais pessoal e menos político. Lindberg. 22/10/2004). O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros colegas do PT vieram em seu auxílio. Segundo a assessoria de Lindberg. vestido com uma camisa de cor laranja. Nesse mesmo período.

Nas ruas cheias. Tanto Lindberg quanto Mário optaram por acompanhar de perto as eleições. fazendo referência ao símbolo do Partido dos Trabalhadores — carros de som tocavam funk. Ele saiu do prédio onde mora. O adversário. “Olha lá. justificando a cor da camisa que marcou os últimos dias de sua campanha. durante todo o dia. que ficaram surpresos com a disposição de Lindberg. Mário Marques. praticamente tomadas — em sua maioria por jovens com rostos pintados com a estrela vermelha. é ele”. após a apuração do resultado de algumas sessões eleitorais. em companhia da família. acompanhado de Benedita da Silva e de Rodrigo Maia (PFL). diziam (O Dia. disse. advertido pela juíza da 158ª. Zona Eleitoral devido aos militantes que o acompanhavam. O primeiro teria sido “quase detido. Lindberg foi carregado nos ombros por militantes e ovacionado pela 262 . “É a cor dos laranjais de Nova Iguaçu”. Às 6h30. A comemoração da vitória começou já no início da noite. Lindberg Farias (PT) resolveu madrugar ontem. o candidato já estava dentro do seu jipe para buscar os votos dos indecisos. e passou por seguranças e cabos eleitorais do adversário. votou como no primeiro turno. por duas vezes” por promover uma pequena carreata (idem) e o segundo. visitando bairros. principalmente. Mário Marques. a votação durante o segundo turno transcorreu sem maiores problemas. A despeito dos boatos de que a candidatura do petista havia sido impugnada. 01/11/2004). na rua Humberto Gentil Barone. A campanha ainda não havia terminado e. falando com militantes e ambos foram repreendidos pelas autoridades. gritando o seu nome (idibem). além do jingle da campanha.manhã. os candidatos percorreram as ruas atrás dos indecisos.

Lindberg foi empossado assim como seu vice. com exceção de Marcelo Sereno (Secretário Nacional de Comunicação do PT) e Vicente Trevas (Subchefe da Casa Civil para Assuntos Federativos). 263 . Para ninguém repetir cor”. 02/01/2005). foi desencadeada a partir da escolha dos nomes que comporiam o governo. beneficiado o PT com seis minutos diários no horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). No dia 1o de janeiro de 2006. os iguaçuanos fizeram um carnaval fora de época. Vendido a R$ 2. O vice também reclamou da “importação” de pessoal do PT de São Paulo — como secretários e assessores — ameaçando não tomar posse. fotos com o prefeito e a primeira-dama. apesar da dúvida ter persistido até o último momento. a vez das negociações. Itamar acusou Lindberg de querê-lo somente como “figura decorativa”. alegando ter aberto mão de uma candidatura própria e. Uma crise com o vice-prefeito. como verdadeiros foliões. contou. o prefeito empolgou o público ao lembrar Che Guevara e prometeu governar para o povo” (O Dia. “Emocionado. A dona de casa Marise Gamelheira de Souza. Os conflitos não cessaram com a vitória. “Fui comprar roupa com as mulheres da família juntas. Só tinha refrigerante. As queixas não paravam por aí. (O Dia. caprichou. A reclamação foi a falta de bufê. As comemorações invadiram a noite e. brilhando em strass. Nomes importantes do PT que participaram da campanha não estiveram presentes na cerimônia de posse. o deputado federal Itamar Serpa. na casa de shows Rio-Sampa. localizada na Rodovia Presidente Dutra. Depois das comemorações. com seu apoio. A tietagem persistiu até mesmo durante a cerimônia de posse. 51 anos. Gritos. A expectativa dos iguaçuanos era tão grande que meninas preferiram usar a roupa de réveillon na tarde de ontem. 02/01/2005).população. choros e vaias a Fábio Raunheitti foram alguns dos ingredientes da festa.

Suas primeiras tentativas entanto. Tentava. no entanto. Se eu arrebentar 264 . o prefeito de Nova Iguaçu também teve que lidar com a disputa de poder entre a Associação por ele presidida. eu fizer uma boa administração. animada. Constituía-se. uma opção possível. pela bateria da Escola de Samba Leões de Nova Iguaçu. onde havia um grande número de pessoas o aguardando para que Mário Marques lhe passasse o cargo. Vicente Guedes (PSC). que Lula receberia os prefeitos eleitos da Baixada. Na ocasião. assim. Ainda em dezembro de 2005. Essa fase de lua-de-mel passa daqui a pouco. Maria Antônia — à prefeitura. presidida pelo prefeito de Rio das Flores. o governo do estado do Rio de Janeiro. Com relação ao futuro político. demonstrar a seus pares dispor de acessos privilegiados. boto a polícia em cima. como um porta-voz legítimo de sua região. no bem sucedidas — devido “à falta de espaço na agenda” do Presidente. Tenho um filho de nove anos. agora. Sei que meu futuro vai depender muito dessa prefeitura. aliado de Garotinho e do PMDB. em 2006. Juro que não penso em ser Presidente da República. de um lado e. não foram. Lindberg costuma dar respostas vagas. A Secretaria de Imprensa do Palácio garantiu. Nem o “apagão” ocorrido aquela noite foi capaz de desanimar os presentes.Depois da cerimônia Lindberg dirigiu-se — juntamente com a esposa. “Não existe uma meta. Outra festa começou. Sobre o futuro. entretanto. não quero me envolver com corrupção. foi escolhido presidente da Associação de Prefeitos da Baixada e já articulava reuniões e encontros dos políticos locais com o Presidente Lula e sua equipe. tenho que apresentar resultados. Se alguém fizer bandalha. a médio prazo. posso virar uma referência no estado do Rio. para 2010. de outro. a Associação de Prefeitos do estado do Rio de Janeiro (Apremerj). Lindberg afirmou não estar entre seus projetos. Se. assim.

mas no ‘Brasil urbano’ (100 cidades maiores) elegeu 27 prefeitos em cidades que somaram 12. 1993 e 2000) implica pensarmos a sua vitória como um acontecimento ainda mais improvável no contexto da política praticada localmente. o slogam da mudança apresentaram-se como uma exortação. particularmente. posso um dia ser governador” (14/11/2004).9 milhões de eleitores (38% do eleitorado nestas cidades). A eficácia de uma construção simbólica apoiada na veiculação de uma identidade política ideológica em oposição a uma postura assistencialista (Kuschnir. como se Lindberg fosse “o herói do progresso marchando contra a força do atraso” (Carvalho. A atuação de Lindberg durante a eleição de Nova Iguaçu demonstrou seu sucesso em traduzir códigos culturais e. ao mesmo tempo. costurar alianças políticas decisivas para a conquista do executivo municipal iguaçuano. o PT 265 .). ora investido. cit.no meu governo. membros de camadas médias ou classes populares — lhe garantiu um lugar privilegiado na dinâmica política local. homens. Os atributos acionados durante toda a campanha e. Em nível nacional. segundo David Fleischer “Em 2000. transformando-se no que Friedrich (1968) denominou political middleman. libertando Nova Iguaçu e a Baixada por intermédio do discurso do ator político sobre a cidade e a região. mulheres. A multiplicidade acionada por sua persona tornava possível a associação entre elementos por vezes contraditórios. o PT elegeu 187 prefeitos. Nas 62 cidades maiores. André Ceciliano havia sido eleito o único prefeito do partido em toda a Baixada Fluminense e um dos dois eleitos no estado do Rio de Janeiro. op. Pela primeira vez na história política de Nova Iguaçu era eleito um candidato do PT. Sua capacidade de atuar nos mais variados contextos e falar a “língua” de seus interlocutores — fossem eles jovens estudantes. Na eleição de 2000.

Em 2000. Em nível nacional.3%) foram reeleitos.2%. Iguaba Grande (Hugo Canellas) e Quatis (Aldredo) (TRE).485 (14. Niterói (Godofredo Pinto). Dos 60. Cantagalo (Guga de Paula).html consultado em 16/07/2004). Anthony Garotinho — especialmente a conquista da prefeitura de Nova Iguaçu. O PT elegeu 350 vereadoras entre 2.387 vereadores eleitos em 2000.9 milhões de votos em 1996 e 11.com. Em 2000. no restante do estado. IBAM. um aumento de cerca de 120% em relação à ultima eleição. www.br/html/materia/materia_edfi.elegeu 17 prefeitos. dos 187 prefeitos eleitos pelo PT. aquém da média nacional de 37.9 milhões em 2000 — um aumento de 51.6%) eram mulheres.000 (11. O PT disputou 16 destas eleições (mais da metade) e elegeu 13 prefeitos” (publicado no portal Universia Brasil. Já em 2004. bem acima do crescimento do eleitorado nacional (14.3%. por Lindberg Farias. apesar de numericamente pouco expressivas (8. foram 412 prefeituras conquistadas pelo PT em todo o território nacional. Ver tabela 5 do anexo. janeiro de 2005. Franqueava-se ali uma das principais portas de entrada para o partido e para seus projetos políticos relativos a 2006. a maior porcentagem de todos os partidos. 31 cidades realizaram eleições em segundo turno. 7. Série Estudos Especiais no. Bom Jesus de Itabapoana (Carlos Garcia). as vitórias angariadas pelo partido tiveram um sabor especial frente à disputa de poder com a rede política do adversário.7% dos prefeitos eleitos no estado255).Nova Iguaçu e Mesquita (Arthur Messias).universia. 51 (27. 255 266 . Itaboraí (Cosme Salles). As prefeituras conseguidas pelo PT foram: na Baixada . o PT obteve 7. 85.2%). No estado do Rio de Janeiro.1%).

mas também por configurarem “ao mesmo tempo. Borges (2003) e Chaves (1996). Scotto. o evento ideal para sua verificação. Constituem espetáculos à parte. Kuschnir (2000). é o lugar por excelência deste “teste” e o comício. ao privilegiar a realização de showmícios. (1996). Naquele pleito de 2004. de formas de sociabilidade política. as campanhas contaram com inúmeras outras situações nas quais a relação entre candidato e eleitor foi testada. 256 Consultar. 1996). em suas múltiplas possibilidades. outro momento de destaque na segunda fase das campanhas na Baixada. os trabalhos de Palmeira (1996). entre outros. diz respeito à relação eleitorpolítico a partir dos eventos centralizados nos palanques. revelando-se eventos capitais não somente para a apreensão da relação político/ eleitor. Nesse sentido. Os comícios são objeto de diversos trabalhos acadêmicos. 267 . A rua. todas as campanhas utilizaram-se dos comícios como estratégia de marketing. 1992 e Chaves.CAPÍTULO 5: SOBRE O TEMPO DA POLÍTICA NA BAIXADA: ENTRE FESTAS E GUERRAS A Festa Além das propagandas e peças publicitárias. compondo uma espécie de aura — juntamente com os artistas e convidados ilustres — para a atuação e apresentação do candidato (Goffman. A de Lindberg Farias. os motores e os relógios (marcadores de tempo) desse tempo da política” (Palmeira e Heredia. especialmente aquela do PT em Nova Iguaçu. 1975a). por sua vez. 1995)256. evidenciou algo mais: o direcionamento do conjunto de suas ações para a festa política (Barreto.

agora sob o ângulo da “preparação da festa”. ou seja. com transporte acessível para se chegar e sair do local.Na primeira fase da corrida eleitoral. além do mapeamento da cidade visando definir em que lugares seria mais importante atuar e de que forma257. o alvo principal das disputas e canalizando também os conflitos e as trocas de acusações durante o tempo das festas. No contexto específico dessas eleições municipais. Na segunda fase. Showmício. as atenções dirigiram-se para o conhecimento das demandas locais e a construção do discurso midiático. o artigo de Graça Índias Cordeiro e António Firmino da Costa (1999). a que bairros dirigir-se. camarins e para as filmagens de cenas que pudessem ser utilizadas nos programas televisionados. Com esta expressão. 258 Para uma problematização das definições geográficas oficiais como uma dimensão estática e delimitadora dos espaços — como os bairros — ver. em um primeiro momento. foi alterada a dinâmica interna de cada campanha e redefinido o campo político a partir da interferência da mídia eletrônica. por exemplo. a região central de Nova Iguaçu era geralmente escolhida por disponibilizar todos esses recursos — além de simbolizar a própria “vida da cidade” — sendo. além de infra-estrutura para a montagem de palcos. A confecção de um mapa das cidades258 — orientando. parece ser um 257 Sobre formas de apresentação das candidaturas. propagado por intermédio do horário eleitoral. portanto. construção de campanhas televisionadas e de rua ver. Não somente a extensão da área estava em questão. após a introdução do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). de fato. mas também a sua centralidade e poder de atração. 268 . Assim sendo. com que freqüência. de que forma e com quem — foi alterada. seria até mesmo inadequado utilizarmos a expressão comícios para definir os eventos realizados. por exemplo. refiro-me às ações e meios disponíveis para “recortar” as cidades a partir dos pontos/ lugares considerados ideais para a festa política. os trabalhos de Castilho (1994) e Scotto (1996). a possibilidade de concentrar com maior facilidade os eleitores.

garantindo assim que o público permaneça no local até o final da festa.) desde o momento em que definimos para onde determinado showmício vai. os católicos. anteriormente. Na Baixada. ou seja..termo mais adequado. o showmício tem início com uma atração musical. Sua organização poderia ser descrita como a de uma festa política.. mas não a banda ou grupo considerado “atração principal”. já há uma 269 . O showmício tornou-se um lugarcomum no vocabulário político. No universo estudado. as grandes produções destinavam-se quase que exclusivamente às eleições majoritárias estaduais e nacionais. sendo disputados pelos candidatos e partidos e reinventando a lógica da organização das festas políticas. no momento atual os grandes shows tornaram-se critério de distinção e prestígio. o grupo de trabalho eleitoral (GTE) “se articula com os dirigentes nos Estados e (. fundamentalmente no tempo da política. Há os de tipo gospel. os sertanejos e os que congregam tipos variados de música. preparada em cada mínimo detalhe: desde a seleção dos cantores até as exigências do tipo de público. a campanha de Lindberg contou com um verdadeiro arsenal de shows. A classificação nativa já opera com esta nova referência. privilegiavamse localidades com potencial de desenvolvimento e campanhas em fase de consolidação. A escolha das cidades a serem beneficiadas com essas mega-produções era feita a partir do estabelecimento de prioridades. Geralmente. financiado pelo PT nacional e compartilhado pelos demais candidatos do partido às principais prefeituras de todo o país. Sua divulgação é feita com muitos dias de antecedência e costumam contar com a presença de “estrelas” do mundo da política. os políticos e eleitores praticamente já não usam o termo comício. os evangélicos. esta é reservada ao momento posterior ao discurso dos candidatos (a prefeito e a vereador) e das personalidades políticas convidadas. Se. os de pagode. Dessa forma.

Os 80 showmícios que foram realizados desde o dia 22 de agosto trouxeram o elemento político em combinação com o cultural […] O objetivo {…] é alcançar os eleitores no sentido de massificar as campanhas petistas e dos aliados. Rio Negro e Solimões. De acordo com Francisco Campos. O povo precisa participar das campanhas e não é atraído somente pelo conteúdo ideológico. para um público que chegou a mais de 100 mil espectadores. Leonardo. secretário de mobilização nacional do Partido dos Trabalhadores)259. 259 260 Depoimento colhido em 10/09/2004. No caso específico do PT. não podemos reduzir o comício apenas às propostas petistas. Temos de levar a proposta do partido para as grandes massas.decisão política” (Francisco Campos. na página oficial do Partido dos Trabalhadores. pela primeira vez) se apresentando a céu aberto. em sua análise sobre o “fazer política” e sua relação com a condução das campanhas: “Hoje. Idem. nas campanhas. Não basta o PT fazer uma campanha só ideológica. Portanto.org. na cidade de Nova Iguaçu. temos de ser criativos. A idéia central é fazer com que esses shows mobilizem camadas do eleitorado que nós não conseguimos mobilizar apenas com o comício político: as camadas populares que têm uma identificação com o PT[…] Um ato do PT que consegue mobilizar 70 mil pessoas numa cidade deixa os adversários sem dormir”260.pt. artistas como de Zezé di Camargo e Luciano (que chegaram a cobrar até 100 mil reais por show).br . 15/09/2004 270 . KLB além de bandas de forró e cantores evangélicos estiveram (alguns. www.

Em Nova Iguaçu. 271 . desejava-se arregimentar um número cada vez maior de pessoas para estes eventos com o intuito de que. “Não há um cálculo preciso. A primeira apresentação ocorreu em Maceió para a coligação do PT com o PSB. com o apoio do governador Marcello Alencar — que faz a ligação entre a cidade e outras áreas da Baixada Fluminense. Esse showmício já deu o tom de como seria a participação do eleitorado da faixa mais popular nesses grandes eventos[…] Esses eventos. como os principais showmícios das campanhas devido a suas amplas proporções. Depois da passagem de Zezé di Camargo e Luciano em Nova Iguaçu (RJ). holofotes e caixas de som. O conjunto e a disposição das luzes. a consolidar uma liderança em Araçatuba (cuja candidatura petista é de Edna Flor)”261. por situar-se na área central. mas também com a Zona Norte e o Centro do Rio de Janeiro. além de outros bairros do subúrbio carioca. de maior visibilidade e melhor acesso — além de facilitar a realização das produções maiores. […] mas um número aproximado aponta que o partido conseguiu mobilizar aproximadamente 1. podemos afirmar que têm ajudado muito o partido a levantar as campanhas do PT em locais em que estávamos fragilizados. PSDB). Esta via foi motivo de conflitos entre os candidatos do PT e do PMDB.Ainda segundo este mesmo secretário. o showmício ajudou. também. candidato petista a prefeito da cidade) subiu nas pesquisas. pertencimentos e/ ou formas de aproximação com a população (heterogênea) presente. o Lindberg (Farias. a festa política teve início com a montagem de um enorme palco com estrutura de ferro no final do canteiro central da Via Light262. A Via Light é uma via expressa — construída durante o governo do então prefeito Nelson Borneir (na época. assim como o fundo negro do cenário conformaram o ambiente do grande espetáculo que seria realizado àquela noite. descaracterizados de seu aspecto e discurso ideológicos o candidato e sua equipe pudessem criar outras vinculações. no ambiente “familiar” da festa. Carros de som anunciando 261 262 Ibidem. sem medo de errar. O show foi com a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano.8 milhão de pessoas em todo o país desde o início dos eventos.

com o envolvimento dos comitês e da militância. por meio 272 . por conceber o espetáculo “como fator de mobilização das campanhas”. Apesar da realização de outros shows em bairros mais afastados do centro. responsáveis também pela coordenação da distribuição de bandeiras. “São. divulgando o evento com bastante antecedência e. É a cultura junto com a política para ajudar a mobilizar as campanhas petistas”. Esses eventos eram geralmente gravados para serem posteriormente utilizados como material para a propaganda televisionada. Ainda segundo Francisco Campos. não paravam de circular. o estilo da apresentação seguia uma lógica mais “tradicional” da política e dos comícios. feita pelos cabos eleitorais. A presença da imprensa era outro fator que gerava grande expectativa. não apenas shows que figuram num ato político. o secretário enfatizou a laboriosa preparação dos eventos. em certa medida. Nesse sentido. muitas vezes. nenhum deles tinha a magnitude deste último.o showmício percorreram a cidade. “diferente em relação a partidos tradicionais”. uma vez que uma cobertura favorável poderia garantir ao candidato a visibilidade (mais do que) necessária em época de campanha política. alguns conjuntos de pagode já relativamente no ostracismo. por exemplo. coordenados e definidos em conjunto pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE). Os grandes shows eram antecedidos por um trabalho exaustivo de organização nos comitês. no dia da festa. portanto. antecedendo a sua mobilização pública. camisas e faixas. o PT demonstrou uma preocupação especial com os showmícios. atos políticos animados por shows. incluindo atrações locais ou bandas de menor sucesso como. Tal afirmação presente no discurso oficial do partido (disponível e tornada pública em seu sítio eletrônico) reflete a percepção de que a festa viria a reboque da política — e que estaria demonstrada. Na periferia.

Nesse sentido. participei de alguns eventos. Os artistas têm elogiado o governo Lula e pedem voto para o candidato da cidade. política e emotiva). Em Duque de Caxias.). Portanto. estamos retomando uma cultura que a esquerda tem no Brasil e que o PT já tinha antes: combinar a cultura em diálogo com a política para mobilizar corações e mentes com os candidatos de esquerda e centro-esquerda. 30 de agosto. Pretendo mostrar adiante que o showmício irá reinventar a apresentação política no ritual da festa e na transfiguração do político em “estrela”. mas uma relação de composição e simbiose. é um show politizado”. onde pude acompanhar mais de perto o desenrolar da movimentação eleitoral. já que seguem o padrão mais tradicional da política (Palmeira e Heredia. mas a observação deu-se fundamentalmente à distância. op. Sendo assim. que é o nosso projeto nacional. O showmício que irei descrever – com a presença da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano – ocorreu numa segunda-feira. O local escolhido pela equipe do candidato foi a Via Light. Magé e outras cidades da Baixada. as principais ruas em torno da pista central deveriam. cit. Com os showmícios. sendo considerado uma das pedras de toque na transformação da campanha de Lindberg e do novo rumo que ela tomaria. maior ênfase será dada à campanha em Nova Iguaçu. não operando a transformação obtida pelo primeiro. principal via de circulação da cidade. 273 . Para a realização de um evento desta magnitude. por lei. os eventos realizados pelos demais candidatos serão mencionados apenas en passant. O que se 263 A declaração de Francisco Campos no site oficial do partido ilustra exemplarmente esta questão: “o artista também participa politicamente. o que não pressupõe necessariamente a hierarquização entre as esferas (no caso política e artística. estar fechadas a partir das 17 horas. dali por diante. optei por fazer uma pequena etnografia de um showmício em particular: aquele considerado fundamental para a reviravolta do candidato petista nas pesquisas de intenção de voto.do próprio engajamento dos atores/ cantores nos eventos263. Da mesma forma. por intermédio dos meios de comunicação.

Em torno dos vendedores formavam-se verdadeiros nichos de interação. no entanto. de suas bases eleitorais – essencialmente para os residentes em bairros mais periféricos. foi a permanência da circulação de veículos até muito depois desta hora. de forma geral. congregando pessoas que já relacionavam-se anteriormente ao evento. As pessoas não paravam de chegar. Havia. Apesar de perceber uma maior presença feminina na região mais próxima ao palanque. mas também aquelas que acabavam de se conhecer. mas as munidas de faixas e bandeiras pareciam-me 274 . vendendo bebidas e comidas diversas (churrasquinho. A dimensão da sociabilidade. sendo necessário atravessá-la para se chegar aos bairros localizados do outro lado da linha férrea.verificou. portando fitas de cabelo com o nome de Lindberg etc. Para chegar até lá. tornando o trânsito na região extremamente complicado – situação agravada pelo fato desta via expressa dividir a cidade ao meio.. se fazia notar na relação necessária com a comida. Com a reorganização do tráfego. gêneros e classes sociais diversificados. pipoca etc). presente mais explicitamente na comensalidade. Alguns candidatos à Câmara Municipal chegaram a providenciar transporte gratuito para moradores de suas “áreas de influência”. com a bebida e com as conversas que antecediam o show. Os ambulantes estavam por todas as partes. ocorrida somente após as 20 horas – e fundamentalmente porque as pessoas já haviam tomado as ruas – já era possível vislumbrar a dimensão que aquele evento assumiria. tanto crianças. imaginando que seria inviável tentar estacionar – além do risco de sofrer um assalto. optei pela estratégia adotada também pela maioria dos ali presentes: resolvi locomover-me de ônibus ou de van. cachorro-quente. muitas pessoas vestidas com camisas da campanha. quanto homens e senhoras eram vistos por todos os lados. É importante destacar que o “público” ali presente era composto por faixas etárias.

mas um conjunto de referenciais simbólicos que designava os “pontos”. ou seja. a hierarquia pode ser percebida pela distância (real e simbólica) que separa o candidato. O palanque é o local por excelência deste “englobamento” candidato / eleitor. Planejado especificamente para atender às demandas do candidato. seus convidados e os artistas que se apresentam do público. com o formato de uma abóboda. não somente devido à grande altura dos “palcos”. o lugar ocupado por cada grupo – quando assim constituído – no interior de um sistema de 275 . o palanque demarca as possibilidades para a condução da interação com o público-eleitor. Nesta situação. a dimensão hierárquica – dissimulada nas outras formas de interação características das campanhas (caminhadas. passeatas e carreatas) – é muito bem marcada e reflete-se em um mapa social que engloba o palco e a área destinada ao público/ eleitor. Nesta situação em particular. denotando uma combinação previamente estabelecida. delimitando o lugar de cada um. formada por seguranças) a demarcar fronteiras no interior dos showmícios. mas também porque há freqüentemente uma barreira física (e humana. remetendo-nos ao desenho mais livre e ao mesmo tempo envolvente da concha acústica.militantes e/ ou cabo eleitorais – sobretudo por situarem-se bem próximas ao palanque – constituído por um grande palco no qual as “personalidades” da noite podiam ser vistas mesmo à longa distância – chamando as outras para ali juntarem-se. Ao espaço destinado ao público (eleitores) não correspondia uma marcação física fortuita. não mais aquele palco cuja estrutura quadrangular remete ao velho estilo dos comícios locais: ele havia sido montado como o dos grandes shows em capitais e metrópoles. Aqui.

por sua vez. percebidos não do ponto de vista das motivações individuais – o que seria inviável dado o número expressivo de pessoas presentes nos eventos. ou ainda para passar informações à facção oposta. Sendo assim. A composição dos showmícios remete-nos a um conjunto heterogêneo de pessoas mobilizadas à participação. teria sua proximidade traduzida em termos de adesão – no caso. mas com variados graus de envolvimento. Palmeira e Heredia. aplausos. Quem se colocava bem ao fundo. poderia estar assinalando sua separação ou desvinculação política do candidato em questão. participando ativamente do evento por meio de gritos. eleitores em potencial.). a partir de então. De onde estava. cit. para “conferir” o seu sucesso ou fracasso. indo “apenas pra ver o show”. como os realizados em Nova Iguaçu – mas a partir da possibilidade de remeter-lhes às escolhas por shows específicos. Todo o trabalho dos cabos eleitorais e militantes durante a campanha somava esforços em direção ao clímax representado pelo comício/ showmício que. sendo positivo. ou cantando o jingle da 276 . alcançaria a meta de mobilizar o maior número possível de pessoas que constituiriam. o público presente a estes eventos deve ser enquadrado no processo mais amplo da campanha – e concebido como tão “formado” quanto o das carreatas e passeatas empreendidas (cf. op. o público presente de forma alguma limitava-se a observar os fatos.posições relacionais. a uma facção específica. um tabuleiro no qual quem estivesse mais próximo ao palanque. por exemplo. feitas por cada tipo de “público”.

depois beijando a mão e fazendo um movimento como se lançasse algo de si ao público) denotando uma partilha de si. 264 277 . foi ressaltada a dimensão que a campanha tomara e o assédio das eleitoras / fãs a Lindberg: “Os seguranças que acompanham o candidato do PT a prefeito em Nova Iguaçu. ali se instalou um abscesso (. O showmício pode ser pensado como uma das circunstâncias de maior visibilidade da relação entre político/ eleitor. beijando. 265 Durante o showmício em questão. mas também acenando e fazendo sinais de carinho (mão no peito. op. PSB e PC do B). imediatamente vivido e compartilhado265.campanha – além das corriqueiras declarações apaixonadas das eleitoras-fãs de Lindberg264. O acontecimento partilhado refere-se ao tempo estritamente vivenciado. ganharam uma nova preocupação nesse fim de semana: o ombro direito do candidato. de 25/10/2004 . Em cima do palanque. percebia-se a contínua concentração e dispersão dos mais diversos grupos ou “alas” de políticos. tocando o coração. que não está presente em todo o processo eleitoral e pode ser caracterizado pela efervescência (como na experiência Em matéria veiculada no Primeiro Caderno de O Globo. cit. assessores. assim como na expressão de emoções. dando a mão a várias pessoas.).. Lindberg Farias. PSDB. atualizada em gestos. experimentado e efêmero. tocando. na campanha. além de nomes da política local integrantes de partidos aliados. Nos últimos dias. implicando uma experiência de aproximação e/ ou contato e — diferentemente da apresentação de si nos programas gravados para a televisão ou mesmo nas caminhadas (nos quais a relação mantém algum distanciamento devido à própria organização desses eventos) — remetendo a um tempo sincrônico. músicos. técnicos. O evento narrado acima possibilitou-me a observação de um marco temporal diferenciado – um momento – dentro do horizonte mais amplo do tempo da política (Palmeira e Heredia. Lindberg Farias desceu do palanque para cumprimentar o(s) público /eleitor(es). Havia um grande número de pessoas no palco: o candidato à prefeitura e seu vice Itamar Serpa (PSDB). do êxtase/ arrebatamento/ encanto.)”. Eles têm orientação do próprio Lindberg para proteger o seu ombro do assédio entusiasmado dos eleitores. e da festa propriamente dita. PFL. candidatos a vereador e demais políticos que compunham a aliança representada pela coligação Hora da Mudança (PT.. mais especificamente. É o tempo da emoção.

a emoção desencadeada pela eleição de Lula. o carisma pessoal de Lindberg Farias). ansiedade e euforia que chamou minha atenção. Nem todo showmício marca um acontecimento partilhado. em 1992 ou. antes. 278 . ao aplauso etc. em 1984. como as manifestações de comoção pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954. em artigo em que analisa a expressão de sentimentos na esfera política associada à imagem de candidatos à Presidência da República em 2002.religiosa. 2001 [1921]. “A expressão obrigatória dos sentimentos”. é o trabalho de Marcel Mauss. em Durkheim) que realça a realidade por meio das sensações experimentadas via a associação dos discursos à música. 266 A referência principal da autora. as passeatas pela Diretas Já. Refiro-me. Barreira (2004). Tais experiências transformam a cena política em um episódio mais do que teatral. tornam possível a exacerbação da emoção. durante o processo eleitoral de 2002. às condições ali reunidas que. à influência exercida pela campanha presidencial de Lula266. Não digo com isso que o showmício tenha. mais recentemente. no artigo em questão. Parece-me que esse estado algo alterado que se observa em alguns showmícios guarda semelhanças com outros episódios da política nacional. levando-me a considerar cuidadosamente tal nível de interação. somadas a outras concernentes aos próprios indivíduos (nesse caso. sobretudo. propriedades específicas geradoras dessa aura mágica. em si. revogando do eleitor / ouvinte sua condição de mero espectador e transformando-o em parte constitutiva (e ativa) da performance ali executada. a movimentação popular pelo impeachment do Presidente Fernando Collor. Foi justamente esse estado de inquietação. devendo-se. É o momento quase mágico (o partilhado) em que o candidato transfigura-se em ídolo. expõe como as reações “emocionais” acabaram por integrar-se à retórica das campanhas a partir de tal pleito.

também remete a um intrincado de formas simbólicas que praticamente impossibilita a distinção entre os planos simbólico e real. algo fora de ordem.Se a política é normalmente tomada como o lugar da racionalidade. aqui. o comício sobre o qual nos falam Palmeira e Heredia (1995) não seria idêntico ao ritual que ora denominamos showmício. construídos e /ou incorporados à disputa eleitoral” (Barreira. a “percepção das emoções e sentimentos como parte das regras sociais e jogos políticos evita pensá-los como matérias substantivas da natureza humana. idem). 1996) poderia. Nessa perspectiva. para os autores em questão. a festa é pensada como 267 Cabe. porquanto este último acaba por subverter a ordem de precedências.. esperada. que na eleição municipal aqui analisada. assim como o objeto desta tese. o showmício. sem dúvida. a incorporação da expressão das emoções e de sentimentos parece. em um primeiro momento. integrando-se à própria composição do personagem político. A expressão “política se faz com festa” (Chaves. no caso específico de Nova Iguaçu. constitui o tempo da dramatização das relações sociais por meio da exploração das imagens e valores pertinentes a uma determinada concepção de mundo e de política — sendo. uma referência ao entendimento da política como ação simbólica e à importância da teatralização para a compreensão da instituição estudada por Geertz (1991): o Negara. no entanto. 68). neste caso. comparada e até mesmo cobrada por significativa parcela da população local267. o modelo das “alusões emotivas” e da apresentação biográfica (Bourdieu. Observa-se. Este último. Sendo assim. p. A festa política. da estratégia e da objetividade. 279 . cit. op. Se. 1997) ganhou a cena. estender-se para além de seu contexto etnográfico de origem — Buritis (MG) — e ser utilizada para compreendermos as configurações que a política assume sob o clima de campanha (Barreira. atentando para os seus significados e formas de expressão.

Entretanto. responde. de forma mais ampla.36). ou para sermos mais precisos. “propiciam a oportunidade de.” (idem). a população distingue cuidadosamente o comício da reunião. a não ser em circunstâncias muito especiais ou no caso de candidatos com muito carisma. Destaco ainda que a estrutura geral do evento também é preservada. A reunião é dialogada. As tentativas de tornar o comício dialogado. fazendo a festa mais bonita e mais bem organizada. Não há lugar para consulta. no caso por mim analisado esta relação parece inverter-se268. É o candidato quem ouve e. em Nova Iguaçu. naturalmente. Tomando os showmícios como um novo modelo de ritual político e de comunicação. nos moldes presenciados nos palanques do PT. adoto o conceito de ritual tal como proposto por Roberto DaMatta em Carnavais.77) —. ressaltando o seu caráter extraordinário e extracotidiano.)” (p. malandros e heróis (1979).parte constitutiva do comício — é o que denota a frase: o “lado festivo do comício. Tanto em Pernambuco. 280 .. por antecipação. ibidem: p. O caráter solene do comício é essencial” (Palmeira e Heredia. utiliza-se preponderantemente de um dos 268 Corroborando a análise de Palmeira e Heredia (idem). durante as eleições de 2004. da festa que existe dentro de todo comício (. o comício. só fala quem está no palanque. quanto no Rio Grande do Sul. são complicadas e podem comprometer o próprio comício. sua capacidade para realizar uma administração futura. demonstrarem. principalmente no tocante à relação palanque/ candidato/ público e ao lugar por este ocupado nas campanhas eleitorais. não.. No comício. Na reunião. a expectativa é inversa. não descarto que alguns possam conservar o seu caráter faccional e. o que designei por showmício. a forma típica de organização desses eventos que. Os de fora do palanque devem limitar-se a ouvir. “O comício não se confunde com um ajuntamento qualquer de pessoas em torno de um candidato. ainda segundo os mesmos autores. em grande parte.

281 . apesar de haver uma alternância entre os modelos que privilegiam o início ou o fim dos comícios como momentos clímax. “Lindberg Farias. além de sua associação com o novo270. durante o evento mencionado anteriormente)269. Nos shows de duplas sertanejas por conta da campanha. enfatizando seu carisma pessoal e sua capacidade de interação com o público. Lindberg demonstrava capacidade de atração (garantindo sua visibilidade) e de condução das massas (no sentido abordado por Weber). diferenciando-se do todo (e.57). Como podemos exemplificar a partir da nota da colunista Joyce Pascowitch. A combinação de juventude. o candidato do PT à prefeitura de Nova Iguaçu. 270 O novo aqui está remetido a um projeto político e a uma outra imagem de Baixada e de Nova Iguaçu. em regra. assim. que não decolava. surge com Lindberg uma nova figura política. “a maior estrela” (frases proferidas por Zezé di Carmargo. quem agora dá autógrafos é ele. fez de Lindberg a maior estrela (em dupla acepção: símbolo do partido e ídolo) do PT na Baixada. além da seleção de textos editados por Eisenstadt (1968) e do livro de Lindholm. Ele vive dias de celebridade no maior município da Baixada Fluminense. Coisas de Nizan Guanaes” (grifos meus) (Revista Época. beleza e carisma do candidato. pela secularização.modelos abordados por Palmeira e Heredia (idem): o que “prioriza o início do comício” (p. nunca se sentiu tão em alta — e não apenas nas pesquisas de opinião. nos dias de hoje271. a do candidato-ídolo. Atualizando a ação política pautada. cantor sertanejo. colocando o candidato como a “estrela entre as estrelas”. setembro de 2004). inteiramente dedicado ao fenômeno (1993). 271 Com relação ao carisma. expressando sua singularidade ou mesmo o caráter “divino” do líder — que 269 Ainda sobre a organização das “apresentações”. os autores chamam a atenção para o fato de que se podem tratar de “variações de um mesmo modelo”. conferir o trabalho sobre tipos de dominação — especificamente a carismática — em Weber (1984).

digamos assim. de certa forma. projetos e valores compartilhados272. 78). ao mesmo tempo que indica a possibilidade efetiva de continuar exercendo essa generosidade numa escala ampliada. mas não apenas a eles. Esta obrigatoriedade de colocar-se à disposição “do povo” através da doação constitui um tipo específico de troca — já que não previamente acordado e não exigindo retribuição — trazendo à tona que: “está em jogo uma concepção de poder onde aquele que gasta mais dando aos outros – aos eleitores. uma vez no governo” (Palmeira e Heredia . 282 . operam uma demonstração de força e prestígio do candidato — como já abordado anteriormente. cit. Nova Iguaçu é uma cidade de quase um milhão de habitantes. os artistas conferem especial conotação à festa política porque além de configurarem seus personagens mais legítimos. Diferentemente dos universos estudados por autores como Palmeira e Heredia (1995) ou Chaves (1996). e o conjunto de valores e atitudes a ela associados. ainda é possível preservar relativo o anonimato. mas na qual. apesar da cidade poder ser caracterizada pelos próprios moradores como “pequena” ou “de interior”. a estrutura dessa nova modalidade de comício — o showmício — é inteiramente distinta daquela pensada para uma localidade com primazia de relações face a face (contextos de cidades pequenas e /ou de interior).remeteria ao tipo ideal originado da autoridade religiosa) e ligando-se ao eleitorado por intermédio de imagens. Corroborando tal construção simbólica. o que é indicativo de seu desinteresse – mostra-se portador da generosidade necessária ao exercício do poder. Isto é. por exemplo. no qual aborda algumas das questões implicadas na vitória desse candidato à Presidência da República. op. Sendo assim. não é possível conhecer todo 272 Ver o artigo de Velho (1994) sobre a vitória de Collor. que poderia traduzir-se sob a ótica da doação.: p. em 1989.

onde aí sim prevalecem as interações típicas de pequenos aglomerados humanos. em busca do voto dos indecisos ou da “conversão” dos eleitores de Mario Marques. O showmício de 30 de agosto foi apenas o primeiro de muitos que se seguiram. do novo e do desconhecido. O nome de Nelson Bornier constituía o cartão de visita de Mario Marques 283 . de forma alguma tornou-se um ídolo. os showmícios também tiveram relativa importância. de relações pessoais. A partir de outubro. a banda LS Jack (pop rock). chamar todos pelos nomes. Lindberg enfrentou uma verdadeira maratona. principalmente o grupo Celebrai. apesar das diferenças de escala. pelo menos um deles. um mapa de relações mais circunscritas aos grupos específicos. Do lado adversário. ao mesmo tempo em que promove a convivência e o encontro do diferente. É um evento de congraçamento. O cantor Daniel (sertanejo). em um único dia era capaz de comparecer a quatro showmícios. No entanto. mas também de conflitos em potencial. A campanha do PMDB em Nova Iguaçu pautou-se. De setembro em diante. Estaria em jogo. alguns grupos de pagode e bandas de forró. além de inúmeros cantores evangélicos. o showmício também configura um lugar de encontro. geralmente marcados todos para às 20 horas — e sendo. Anthony Garotinho — que. a grande “estrela” de tais eventos não era o candidato peemedebista à prefeitura. destinado ao público evangélico. ainda assim. Já durante o dia. ou mesmo “concorreu” com os artistas. foram alguns dos que passaram pelos palanques de Mário Marques. o candidato petista costumava percorrer as ruas em caminhadas ou carreatas. de forma mais evidente. e sim o então Secretário de Segurança do estado.mundo. neste contexto. na temática da continuidade. De modo distinto ao que ocorria na campanha do PT.

que. paralelamente. Seu prestígio limitava-se às camadas médias de Nova Iguaçu e. 284 . de prestígio e carisma políticos. essencialmente. Um número considerável de outdoors apresentava Mario Marques acompanhado de Bornier e do casal Anthony Garotinho e Rosinha. “a população da periferia é abandonada” são algumas das afirmações que ouvi. no entanto. só lembram da gente na eleição” e assim por diante. durante os primeiros meses de campanha. a de que: “os bairros pobres são sempre esquecidos pelos políticos. Presença constante nos discursos dos moradores quando se referiam ao prefeito — o adjetivo abandonados sendo inúmeras vezes utilizado — a sensação de abandono seria marca da conexão necessária entre política e promessa. a acusações de abandono. o que demonstrava a necessidade de vinculá-lo a personalidades políticas de maior influência e prestígio local. Mario detinha o poder da máquina governamental em suas mãos já que não se desvinculou do cargo de prefeito para disputar as eleições. o nome de Bornier chegava até mesmo a figurar antes do dele nas propagandas políticas. não dispondo. Mario ainda tinha de enfrentar o relativo desconhecimento de seu nome e de sua trajetória pública por parte da população. Sendo assim. a essa altura. à elite a qual pertencia. Para além dessas críticas. Em conversas com moradores de bairros periféricos pude perceber um grande índice de rejeição ao candidato ligando-se. enaltecer os feitos do prefeito/ candidato. Havia um número reduzido de propaganda na qual constasse apenas sua foto ou nome. principalmente. ou ainda. ainda não conseguira forjar uma identidade política própria mesmo após tantos anos de vida pública local. “Os políticos abandonam a população”. A estratégia de sua equipe de marketing centrava-se em progressivamente diminuir o destaque conferido ao deputado e.

não se dava exclusivamente entre eleitores distantes (refiro-me àquele indivíduo que não mantinha qualquer relação com o candidato até o momento da eleição). vinha o candidato. muitos outdoors espalhados pela cidade. acompanhado por seus colaboradores — que arregimentavam os moradores e os colocavam em posição para dialogar com o candidato — enquanto o operador de câmera filmava toda a movimentação. no início. dependendo da vitória ou fracasso do candidato apoiado. ou seja.As festas organizadas pelo PMDB contaram. A “troca”. 285 . a troca do horário de expediente na Prefeitura pelo trabalho de divulgação da campanha. em uma rotina extenuante. pegar e distribuir material etc. os assessores reuniam-se no comitê para instruírem os cabos eleitorais – muitos eram funcionários da prefeitura273 — responsáveis por aglutinar as pessoas nos bairros e despertar sua atenção. de acordo com os depoimentos coletados. logo atrás. em agosto de 2004. A situação dessas pessoas é frágil e seu engajamento nas campanhas é quase compulsório. Eu mesma utilizei. carros da Prefeitura para ir a comícios e caminhadas do candidato da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. enquanto um “puxador” (como os de escolas de samba) convidava a população a acompanhar o candidato. aguardando a ordens para levar ou buscar alguém. expor-se e automaticamente escolher um dos lados — o que para quem trabalha no serviço público municipal sem ser concursado. aparentemente. Havia vários carros de som à disposição da campanha. Assim que Mario chegava. Em um primeiro momento. Uma das caminhadas de que participei no bairro da Posse. significa permanecer no “serviço” ou ser mandado embora. Empenhava-se ali em “vestir a camisa”. O carro de som principal seguia na frente do cortejo e. chamando-as de porta em porta. um grande número de pessoas trabalhando na distribuição de material impresso. A “ajuda” de funcionários durante a campanha não era por eles encarada (ao menos com os que tive a oportunidade de conversar) como “troca de turno”. com mais recursos materiais e humanos. os fogos de artifício espocavam no ar como uma forma de marcar o início da festa política. O carro de som — daqueles que têm um pequeno palco em cima — tocava o jingle da campanha. Havia outros carros de som distribuídos 273 Pude perceber que muitos dos funcionários da Prefeitura também trabalhavam na campanha durante o expediente e que carros oficiais eram invariavelmente estacionados no pátio interno do prédio onde funcionava o comitê. demonstrou o tipo de organização do evento político utilizado pelo grupo em questão. em algumas ocasiões. O uso da máquina e dos recursos da administração municipal era flagrante e. portanto. sem muita preocupação com os usos políticos que seus adversários poderiam fazer de tal fato. O candidato costumava visitar vários bairros por dia.

mas a posição da moradora permanecia inalterada. alguém ali já havia estado. O carro de som de maior porte percorria a rua principal do bairro. sem que necessariamente houvesse prévia permissão do(a) morador(a). A moradora foi incisiva ao declarar que não mudaria seu voto mesmo tendo o candidato ali. então. enquanto os outros faziam o percurso pelas ruas perpendiculares. se no bairro não dispusesse de praças. O argumento do prefeito girava em torno do conhecimento sobre a cidade e seus problemas. Sendo assim. disse que esperava que ela mudasse de idéia até a data da eleição. desistir e. distribuído material de campanha e falado sobre os “feitos” da administração vigente. várias placas como àquela (de outros candidatos) que estavam nos muros. O evento culminava na reunião dos candidatos e dos moradores que tinham acompanhado a caminhada em uma praça ou. principalmente de candidatos a vereador. com um sorriso nos lábios. uma vez que todos colocavam junto a seus nomes. pois além dos jingles de campanha. Era uma maneira de “preparar o terreno” (nos termos de Pedro César e de outros assessores) para que Mario não fosse exposto a situações desagradáveis. pedindo a ela que retirasse a placa de Lindberg de sua casa. Mario resolveu. por exemplo. Apesar desta preocupação. postes e até em alguns quintais foram arrancadas e trocadas pelas de Mario Marques. tentando demovê-la da resolução.pelo percurso do evento. Era uma enorme confusão de sons. quando o prefeito chegava em determinado ponto do trajeto. pude presenciar uma cena na qual o candidato em questão pedia voto a uma moradora que vestia a camisa do PT. o que revertia a favor de Mario. um grande número de santinhos distribuídos. Durante o trajeto da caminhada. a sua frente. o do prefeito — o que significava. A competição entre esses últimos era bastante acirrada. eram reproduzidas também as músicas dos candidatos à Câmara Municipal. em um lugar central e 286 .

teve atuação destacada. as candidaturas parecem dar preferência ao uso de sambas em seus jingles. Jorge Gama teve um papel limitado na campanha de Mário Marques. ao jingle de campanha de Mario Marques. durante a “guerra política” deflagrada. Se na primeira fase da campanha. De forma geral. por exemplo. a escolha do estilo musical acaba corroborando um ideário mais geral sobre identidade/ brasilidade. O jingle de Lindberg teve. maior o número de showmícios realizados e 274 Como abordado anteriormente no capítulo 2. As produções maiores aconteceram a partir do fim de agosto e. como também em outras regiões do estado. uma versão gospel. a partir de setembro. No entanto. o PMDB não sofria do mesmo mal. avisando quando estaria de volta e o local escolhido para a próxima caminhada ou comício /showmício 274. Não cataloguei os jingles de todas as campanhas. essencialmente. É interessante perceber que mesmo naquelas em que há algum apelo às religiões protestantes. no entanto. maior destaque sendo conferido ao candidato à prefeitura e a políticos com bases eleitorais em bairros ou áreas específicas da cidade. a falta de recursos impedia o uso de “atrações” nos eventos do PT275. o formato dos comícios era menor. Nos dois meses iniciais. mesmo o jingle principal sendo um samba. como no caso desta coligação. festa/ samba. O imperativo de remeter à felicidade e à alegria reflete-se na escolha do samba como portavoz da emoção que se pretende passar ao eleitor. Uma característica nada irrelevante diz respeito à música escolhida. mas percebi a preponderância deste ritmo musical não apenas nos municípios da Baixada. Quanto mais próximo do dia 3 de outubro.de maior visibilidade. no qual Mario fazia seu discurso e despedia-se. 287 . 275 Consultar o capítulo 4 desta tese. havia ainda outras músicas criadas para públicos específicos. Em um segundo momento.

as principais lideranças nacionais do partido lá não estiveram e. o sobrinho de Fábio Raunheitti não teve o apoio da família. . cantores como Waguinho (cantor de pagode) ou a Banda Mel (axé music) — que não estão “na crista da onda” já há algum tempo — além de vários artistas gospel: Marquinhos Menezes. que se manteve afastado de sua campanha277. como exposto nas críticas de Zito. nesse período. as músicas religiosas e a presença de pastores assinalavam uma diferença em relação às demais campanhas. banda Tempo. tampouco obteve o suporte de seu partido. mas podem montar uma banda (risos)”. Jossana Glessa. Em Magé. Nestes eventos. Eles vão perder a eleição. Narriman não teve acesso à organização e à estrutura dos megashows. 277 Ver capítulo 3 desta tese. que se manteve oficialmente afastada da candidatura — e. os recursos financeiros tampouco chegaram à cidade. além de não ter contado com a participação de nomes conhecidos em seus comícios — preferencialmente voltados para a comunidade evangélica. Bandas de pagode (grupo Ki-Prazer). Fernando dispunha de carros de som precários e palanques pequenos. conseguiu manter-se na liderança por quase dois meses após o início oficial da corrida eleitoral. grupo Ella.mais “atrações” oferecidas276. Mesmo assim. A campanha foi levada a cabo com pouco dinheiro e apoio político.Nos bastidores das campanhas de seus adversários. recorrendo fundamentalmente ao corpo a corpo. O acirramento da disputa no segundo turno das eleições fez com que a governadora Rosinha Matheus e Anthony Garotinho se fizessem mais presentes — fundamentalmente a primeira. No caso do candidato do PTB. o candidato foi alvo de inúmeras piadas. Fernando Gonçalves. a campanha da mais nova (e polêmica) petista não seguiu o mesmo caminho trilhado por Lindberg. os recursos disponibilizados para as atividades eleitorais também foram escassos. a mulher dele. que produziam comícios específicos para cada “público”. Claudino Maciel. Francisco Bezerra e Ozil 276 Na corrida para a prefeitura de Nova Iguaçu em 2004. Melissa. Em sua campanha não foram realizados comícios. no máximo. dedicando-se às campanhas na Baixada enquanto seu marido concentrou seu apoio aos candidatos de Campos. também financeiramente. o Fernando é quem vai cantar. Por conta disto. Seus eventos não tinham “atrações”. Os showmícios não foram realizados em Magé. por diversas ocasiões escutei comentários do tipo: “Hoje. 288 . ao que parece. Narriman contou apenas com shows de menor porte realizados com assiduidade a partir de setembro (dos dias 16 a 30) daquele ano. Os showmícios evangélicos se multiplicaram. Além de não contar com o apoio de Zito. sendo o tom do discurso da governadora essencialmente religioso — além das ameaças dirigidas aos adversários desde o início do período eleitoral.

no entanto. Com a vitória de Zito. As caminhadas tiveram lugar de destaque. ditou um outro ritmo à campanha. questões de segurança e urbanização. Laury Villar. ou por aqueles que concorriam pela primeira vez à Câmara Municipal.em escolas. não resistiu à estrutura da família Cozzolino que. centros comunitários. se tornaria sua secretária de educação. foram privilegiados os pequenos eventos nos bairros e nas “comunidades”. foi trabalhar na Prefeitura juntamente com Roberta. Reuniões com grupos de moradores — nas quais eram apresentadas propostas e se ouviam as queixas da população — eram organizadas por lideranças comunitárias e vereadores que tentavam a reeleição. Em Duque de Caxias. momento nos quais o antigo prefeito demonstrava sua habilidade em lidar com “seu povo”. realizados desde o momento da escolha do candidato do PDT à sucessão de Zito. os moradores de um condomínio de classe média da cidade foram apresentados ao candidato e com ele conversaram sobre o bairro. justificando a ausência do prefeito com o argumento de que este teria outros 278 Isabel Costa foi apresentada a Zito por Roberta Siqueira que já trabalhara em sua equipe e que. Alguns secretários de governo de Zito também tomaram parte na organização de alguns desses eventos. ajudando na elaboração do plano de governo — fundamentalmente na área da educação. associada a de Nelson do Posto. quadras de esportes etc. mais tarde. A primeira fase da campanha parece ter se apoiado essencialmente no carisma de Zito e na possibilidade de associar suas características às do candidato por ele apoiado. Isabel acabou participando da campanha de 1996. Nesta reunião. Grosso modo.Silva e ainda a comunidade evangélica de Nilópolis e a da Igreja Batista Nova Jerusalém foram alguns dos grupos que se apresentaram nos eventos da candidata do PT. a situação não foi muito diferente. onde atuou como coordenadora e posteriormente como subsecretária de educação — por dois anos. Tive a oportunidade de participar de deles. Narriman. 289 . Zito não apareceu e Isabel foi incumbida de avisar aos presentes. organizado pela sub-secretária de educação do município 278.

Esse foi o modus operandi da campanha do PDT em um primeiro momento: supervalorização da imagem de Zito. afirmando que este havia sido “abandonado por Rosinha”. nos eventos realizados por Washington Reis. juntamente com a governadora Rosinha — o repertório de shows tendo seguido o padrão adotado pelo candidato peemedebista de Nova Iguaçu. 290 . seguia um padrão mais convencional. mas direcionando o foco sobre as “estrelas” políticas. Em Duque de Caxias. a ênfase recaia sobre os políticos mais importantes que apoiavam os candidatos e. no entanto. as campanhas utilizaram-se da estrutura já conhecida dos comícios. A festa ainda era o recurso catalisador da multidão. As críticas ao adversário Washington Reis eram mais contidas do que aquelas dirigidas ao exgovernador e à governadora do Rio. ele dizia algumas palavras sobre os candidatos a vereador e prefeito. Queixava-se sobretudo da falta de parceria e da dificuldade de repasse de verbas do estado ao município. Anthony Garotinho era sempre a grande atração. Sua produção. portanto. Isabel completou a justificativa ressaltando que Zito estava muito assoberbado com o trabalho de administrar o município de Caxias. ressaltando sempre que a eleição deste último significaria a continuidade de seu trabalho e dos projetos até então implementados na cidade. Ainda que permanecesse por apenas alguns minutos. contando com alguns grandes shows. sobre os próprios candidatos.compromissos na Prefeitura e que. Neste caso em particular. ficara muito tarde para que pudesse ali chegar. embora não costumasse faltar às reuniões organizadas pelos principais candidatos à Câmara Municipal. mas nem sempre a sua presença. em alguns casos mais do que em outros. Desse modo. capaz de aproximar o candidato dos eleitores.

Frente à sazonalidade da presença do político. bem como na gravação de programas eleitorais. cit. ou seja. Os comícios são marcadores deste tempo singular. alternando-se entre ora privilegiar os “convidados”. Tal apoio foi expresso nas visitas que César empreendeu a Duque de Caxias. ora os músicos. seu staff (assessores. da mesma 291 . secretários de governo etc.) é freqüentemente tomado pelos moradores como canal legítimo de mediação. 1993 e 2000). op. a percepção dos moradores daquela região sobre o que seria o fazer político – também remeteria. A lógica do palanque e da disposição do público-eleitor seguiu a supracitada. também com o de César Maia e do PT — ainda que não tão ostensivo quanto se esperava. durante o segundo turno.). Não se viu em Duque de Caxias ou em Magé a exaltação e as demonstrações de carinho/ afeto/ deslumbramento que pude perceber em Nova Iguaçu. por sua vez. na Baixada. operador de uma transformação dos espaços — transformação simbólica e efêmera relativa a modalidades de interação entre os atores sociais e áreas da cidade criadas especificamente para fins eleitorais ou reconfiguradas pela própria disputa. as já mencionadas redes de resolução de problemas práticos (Linderval. como por exemplo. do “fazer político” (Kuschnir. em relação a Lindberg Farias. O espaço simbolizado pelo palanque só é possível circunscrito a um tempo da política. assim como alguns ministros petistas que gravaram participações para exibição durante o horário de propaganda eleitoral gratuito (HGPE). A política – entendida aqui como categoria nativa. referindo-se ao político como ator social legítimo e a práticas coletivas ligadas a tal mundo. que é aquele das campanhas.Laury Villar. Benedita da Silva (PT) também esteve na cidade. ora o candidato. tal como relatado por Palmeira e Heredia (idem). a relações não-exclusivas às campanhas e momentos de eleição. contava com o forte apoio de Zito e.

Este seria. em toda sua amplitude. Wefford (1968). um dos sinais distintivos entre comício e showmício: a operação de uma mudança de status do político. qualificado por rótulos populistas280. Obras. no sentido de ter evidenciado as etapas de sua transformação de candidato em candidato-ídolo. A problemática dos sentimentos relacionada ao estudo da política e das eleições configura. que vira um astro.. morador e Secretaria — de Saúde. um “percurso sinuoso” (op. não podemos relegar a um plano secundário a construção de um aparato específico que garantiu a exploração. 279 Já nos referimos. No interior deste tempo da política e a partir da lente do palanque. apesar da classificação nativa na Baixada parecer não se restringir às eleições ou a seus personagens oficiais. quando muito. Educação. como ressaltou Barreira.)279. o caso de Lindberg foi exemplar. no capítulo sobre a(s) Baixada(s). Lazer etc. cit. das emoções suscitadas pelo candidato num misto de espetáculo e regozijo. Evidentemente.forma como acaba ocorrendo com relação às entidades civis (majoritariamente associações de moradores/ escolas/ grupos culturais e ONG’s). Associações de moradores e Prefeitura. ao papel dos movimentos sociais como atores políticos legítimos na história política da região. as articulações em momento de campanha – que para os políticos profissionais não corresponde somente ao período eleitoral – transformam as relações cotidianas e podem unir sujeitos sociais (individuais ou coletivos) antes tidos como integrantes de campos opostos ou mesmo apolíticos (Igreja e Estado. A comoção não era a expressão individualizada. Assim. sem desconsiderar o carisma pessoal de Lindberg Farias. mas a manifestação coletiva dos sentimentos em um espaço “da política” tradicionalmente pensado como apartado das interações “emocionais” ou. por exemplo. p. 280 Sobre populismo ver. a meu ver. 68) no qual o que importaria destacar seria a dimensão reveladora das emoções como formas de entendimento do real. 292 .

prefiro optar. de profissionais específicos. Notícias De Uma Guerra: Estratégias. Sendo assim. por exemplo. ou seja. na guerra de todos contra todos. Ameaças e Orações Se a festa. entre os grupos adversários pela promoção da melhor festa. pela análise abordada quanto à construção do marketing como um campo profissional em busca de legitimidade. extraordinários. muito pelo contrário. mas de compreender o que traz consigo. de “intelectuais próprios”. engendrando outras maneiras de olhar nossos objetos para além da mecânica da “produção marqueteira” e do discurso do político-produto alimentado pela comunicação de massa. revelaria uma dimensão mais harmoniosa ou alegre das campanhas eleitorais. A concepção da guerra e de uma gramática e estética próprias a ela. ela também abarca uma dimensão de conflito — nesse caso. só se sabe do sucesso após a sua proclamação. a fórmula de modo algum é mágica. nos termos daquela estudada por Mauss (1974). Não se trata de desconsiderar seu apelo e suas força e eficácia simbólicas. O universo político 281 Apesar de o autor utilizar a analogia entre marketing e magia em sua tese de doutoramento. a princípio. A idéia da universalidade da guerra figura entre nossas mais antigas teses sobre a natureza humana como. É só nesse momento que o discurso sobre si passa a incorporar novos tons. Tal percepção relativa às estratégias de marketing é fruto de um longo trabalho de criação de um campo. sendo antes uma construção a partir do termo final. 293 . pré-configurado. fantásticos. que qualifica o estado de natureza em Hobbes. cuja crença em sua eficácia é sempre dada a priori. 2000)281. pelos motivos acima expostos.das relações humanas. de produção técnica e bibliográfica e do engajamento dos atores sociais em questão (Castilho. A “fórmula mágica” dos marqueteiros não constitui um dado anterior. não está apartada do mundo da política.

mas também como espetáculos. Antônio Neiva. as eleições no estado do Rio de Janeiro e. de fato. 283 282 294 . Favret-Saada (1998). ‘Mandaram um recado para o Lindberg. pensadas como arenas.). foi cercado ao descer do ônibus que o trouxe do Rio. torná-lo real283.institucionalizado por partidos e homens públicos demonstra as formas variadas em que esse “estado” ali se instaura legitimamente. os candidatos estão na base do “matar ou morrer”. 1998). Conforme noticiado pelo jornal O Globo de 01/11/2004: “O acirramento da campanha no segundo turno em Nova Iguaçu se refletiu ontem nas ruas. mais especificamente. As eleições. Militantes dos candidatos a prefeito da segunda maior cidade da Baixada Fluminense — Lindberg Farias (PT) e Mario Marques (PMDB) — só não trocaram socos e pontapés ontem porque foram impedidos por fiscais do TRE e policiais militares”. perto das vias de fato. o rosto dele”. a “morte” política. c’est lê verbe” (Favret-Saada. As pichações visaram. cit. sobretudo. O “clima de guerra” que reinou durante o período eleitoral em Nova Iguaçu chegou. O bruxo. Evans-Pritchard (2005 [1976]). Mauss (2003 [1904]).. A palavra engendra uma rede de ações. em alguns momentos. com sua força simbólica. Foram roubados documentos e computadores. op. na guerra da política a palavra é sua ferramenta por excelência. op. disse Neiva. transformaram-se em uma das principais arenas (senão a principal) nas quais Consultar. por exemplo. Estar apartado desse mundo. já que perder uma eleição pode significar. a quem se referiram como ‘o paraíba’ [o deputado é paraibano]. a ela soma-se o gesto. conforme relatado pela Folha de São Paulo de 12/09/2004: “O primeiro alerta de que a campanha poderia ser perigosa veio no início da disputa. Bezerra. Em período de campanha. Mas não somente a palavra. Outro fato que mereceu destaque na imprensa foi a intimidação sofrida pelo coordenador político da campanha. Falaram que eu estava sendo seguido havia 36 horas. Desse modo. Em junho. O escritório em Nova Iguaçu já foi invadido duas vezes. A publicidade (aqui entendida como englobando o marketing político) torna-se assim o instrumento por excelência desta guerra. sem a garantia dos acessos que ele possibilita (Kuschnir. cit. Assim. pode ser o prenúncio do fim e. o coordenador político da candidatura. Antônio Neiva. Se na bruxaria “l’acte. o mágico e o político têm em comum a palavra como força-motriz de uma ação à distância282. Neiva contou que dois homens saltaram de um carro e o imprensaram contra um muro. foram pichados os 70 outdoors de Lindberg na cidade. Deixaram claro que ele corria riscos caso insistisse na candidatura. na Baixada Fluminense. a imagem. pois disseram coisas que fiz no período’. Na semana passada. reações e relações. na política não seria diferente. nos remetem diretamente à esta questão. Acreditei.

mas não vote nele”. Os comícios e showmícios marcaram o ritmo das campanhas a partir do fim de agosto e os embates entre os principais candidatos foram tornando-se cada vez mais acirrados. A partir deste momento. não se tratava apenas do projeto coletivo do PT que abarcou projetos individuais como o de Lindberg ou mesmo o de Zito. o PT nacional e o governo federal — através do presidente Lula e de seu staff —e. 295 . de outro. O arsenal deste último grupo já estava preparado: além de acusações do uso da máquina administrativa com fins eleitorais que pairavam sobre a candidatura petista de Lindberg Farias — mesmo antes da eleição — outros ataques vieram também na forma de cartazes distribuídos pela cidade. Havia também o projeto político de Garotinho e de sua rede política para o Rio de Janeiro e para uma possível candidatura à Presidência da República.tais confrontos se desenrolaram. De um lado. o governo estadual — por intermédio do casal Garotinho (Anthony e Rosinha Matheus) — encetaram conflitos que se tornariam os objetos preferenciais das mídias escrita e televisionada. outdoors e adesivos com mensagens como “Trate bem o turista. em alguma medida.

quanto sua atuação como relator no caso da demarcação de terras da reserva indígena Raposa Serra do Sol. mas de fato o tom crítico e o humor ácido dos panfletos lembram. até a posição por ele tomada na votação do salário mínimo (entre outras). aparentemente apartado da campanha. em alguma medida. Não há como confirmar ou negar tal afirmação. 296 . seria. segundo uma pessoa próxima — ligada ao comitê eleitoral de Marques — um dos principais articuladores destas investidas. o tom debochado e desafiador do Geraldinho Boca de Trombone. sua criatividade teria sido colocada à disposição do candidato peemedebista. Foram objeto da campanha difamatória adotada contra Lindberg. e de ter se mantido afastado do dia a dia da campanha. por exemplo.Jorge Gama. desde suas trocas de partido. que dela se utilizou em diversas ocasiões. Apesar de seus desentendimentos com Bornier.

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Os interesses de reprodução/ ampliação das redes políticas e de influência na região. diversos Ministros de Estado estiveram em Nova Iguaçu: Gilberto Gil (da Cultura). por ambos os lados (no caso de Nova Iguaçu. A pluralidade de partidos 284 É importante destacar que um terceiro termo esteve implicado na equação política em Nova Iguaçu e na Baixada Fluminense como um todo: César Maia e o PFL. Àquela altura — meados de setembro — o empate técnico entre Lindberg e Mário Marques em Nova Iguaçu. Humberto Costa (da Saúde). Para o mapa político da Baixada. assim como os índices de Laury Villar. Como é que nós vamos fazer isso caso esse candidato que nos ofende seja prefeito da cidade? A escolha é sua” (discurso de Garotinho. 285 Em menos de um ano. eram preocupantes. visitando essa cidade. Rosinha Matheus. nos xingar e isso não é bom porque nós queremos continuar amando Nova Iguaçu. “Tem um candidato que sobe nos palanques para nos ofender. José Dirceu (da Casa Civil) e Tarso 300 . Aldo Rebelo (da Coordenação Política). as ameaças da governadora do estado. PT e PMDB). e de seu marido aos eleitores que votassem em candidatos adversários. A atuação (mais ou menos) discreta durante o primeiro momento da campanha não impediu que o prefeito do Rio de Janeiro declarasse seu apoio a Lindberg e que participasse ativamente do segundo turno — subindo nos palanques. PMDB e PFL. Rodrigo Maia. direcionando todas as armas disponíveis contra os candidatos petista e pedetista. a rede encabeçada por César Maia significava uma rearranjo das forças locais e regionais. diante de seu contato bastante próximo com o filho do prefeito e deputado federal. o casal Garotinho entrou com toda a força na campanha do PMDB. respectivamente. delineando um poderoso triângulo entre PT. em Duque de Caxias. O que de início começou com ofensivas nos palanques. Alguns ministros foram convocados a entrar na briga e a imprensa tornou-se o palco de embates veementes e indignados entre os dois pólos285. logo ganhou o espaço dos programas televisionados. A aproximação entre César Maia e Lindberg não era tão impensável quanto poderia parecer à primeira vista. transmitido durante horário de propaganda eleitoral gratuita da coligação Crescer sempre com Deus e o povo).A tais ataques somaram-se. ainda. ficou logo evidente e a resposta foi imediata284. Diante disso. e com o vereador Rogério Lisboa. inclusive.

Chico Alencar. Na ocasião. Segundo o jornal O Globo (13/09/2004. como também o governo federal vai cobrir qualquer ausência de convênio que eventuais governos de estado se neguem a fazer por discriminação política” (Jornal Nacional. simbolizados pela oposição entre as personas: Lula/ Lindberg X Garotinho/ Marques. contando com a presença de diversos políticos e parlamentares de partidos aliados — naquele momento — a Lindberg. 25/09/2004). Batizado de “Movimento por eleições limpas e éticas na política do Rio”. disse que a governadora Rosinha Matheus não repassaria recursos estaduais para a prefeitura se o petista fosse eleito”. 301 . o então Ministro da Educação. Tarso Genro. Rodrigo Maia. Tal iniciativa Genro (da Educação). Andréia Zito. Representantes do governo federal responderam às ameaças de cortes em projetos sociais de Nova Iguaçu com a promessa de cobrir qualquer ônus eventual aos moradores (e eleitores) da cidade. Rogério Lisboa. 286 Folha de São Paulo. Carlos Minc. além de membros do PT de Nova Iguaçu e do seu diretório estadual. de 04/10/2004 e em O Globo. Anthony Garotinho. o evento clamava por eleições transparentes. tais como: Marcelo Allencar. além de João Paulo Cunha (líder do governo na Câmara).11) “em reação ao crescimento de Lindberg. Luis Paulo Corrêa da Rocha. A declaração de Garotinho desencadeou ainda uma manifestação pública de repúdio. deu a seguinte declaração à imprensa (escrita286 e televisionada): “O Presidente da República me autorizou a dizer que nós vamos não só estabelecer uma relação de qualificação e de igualdades com os prefeitos. de 15 e 16/10/2004. presidente regional do PMDB. sem boicotes.na disputa foi canalizada em dois discursos ao mesmo tempo inclusivos e excludentes. nas escadarias da ALERJ. César Maia. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. Tal fato mereceu destaque no Jornal do Brasil. no dia 27 de setembro. p.

(que segundo a coordenadora da assessoria de comunicação política de Lindberg. Mas nunca fui um político de ir pra rua e mostrar uma indignação exagerada. relata a responsabilidade atribuída a Lindberg Farias pela suspensão da distribuição das cestas básicas. de um “bode expiatório”. Sempre fui contra essa política do Garotinho para o estado do Rio de Janeiro. O que se tenta fazer é espalhar a política do medo. os “corruptos”. Em seguida. em Caxias. dizendo que aquele não era seu “estilo”: “Eu sempre fui contrário a tudo isso aí. né?” Sua filha. O panfleto que reproduzo abaixo. — nesse caso. a deputada estadual Andréia Zito. a organização da mobilização anteriormente mencionada — que tinha como bandeira eleições limpas e A Folha de São Paulo do dia 29/10/2004. exacerbada. ordenada pela Justiça Eleitoral de Nova Iguaçu. os “assistencialistas”. 287 302 . era preciso culpabilizar os agentes do mal. Esta política é hitlerista – afirmou Lindberg (O Globo. em matéria intitulada Panfletos acusam Lindberg de impedir distribuição de cesta básica. O Secretário de Segurança é um elemento desestabilizador na eleição. Débora Souto. teria partido dela) constituiu o acontecimento propício para angariar mais visibilidade à candidatura petista e buscar maior apoio popular. por intermédio de diversos panfletos distribuídos pela cidade. Eu sofri com isso aqui. fora desta vez assinado pela coligação Crescer sempre com Deus e o povo. Zito não participou do ato público e justificou-se. no entanto. Nesse sentido. 28/09/2004). acabou ocasionando sua suspensão e a revolta da população local287. na entrevista que me concedeu. marcou presença fazendo coro com o grupo liderado por Marcello Alencar. portanto. Vários candidatos têm sofrido também com a distribuição de panfletos anônimos. Precisava-se. No jogo das visibilidades. É a ante-sala do terrorismo. a denúncia de Lindberg quanto ao assistencialismo do governo estadual em troca de votos. no caso da distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII.

mas apenas atenuada . ligada ao governo estadual. iniciasse em Nova Iguaçu a distribuição de cestas básicas para moradores dos bairros Aymoré e Campo Belo. Para as ameaças da governadora. . prometendo aos eleitores de Nova Iguaçu que vai ampliar na cidade o Programa Bolsa Família. 303 . que afirma que “será obrigada a abandonar Nova Iguaçu se Lindberg for eleito”. de 31/10/2004.éticas — colocava o adversário no pólo oposto. a distribuição das cestas era feita. mas no mesmo dia ordenou o início da distribuição entre os iguaçuenses. o petista ressalta a todo momento sua ligação com o governo federal. até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou mensagens para a propaganda eleitoral na televisão dizendo para o povo “votar em Lindberg sem medo” porque “vai compensar Nova Iguaçu de outras formas” se a cidade for abandonada pelo governo estadual” (grifos meus). duas das áreas mais carentes da cidade. do governo federal.. Anunciada com antecedência pelo prefeito. a menção à assistência não foi de todo descartada no discurso político de Lindberg. segundo apurado por fiscais da Justiça Eleitoral. O candidato do PT reagiu à distribuição de alimentos pelo governo estadual. que a Fundação Leão XIII. É interessante perceber que. no dia 26 de outubro. de tíquetes que podem ser trocados por latas de leite em pó. em 19 de outubro. o juiz José Lessa Giordani determinou a suspensão da distribuição. conforme percebemos em reportagem da Agência Carta Maior. Rosinha acatou a decisão da Justiça. Os fiscais presenciaram a entrega de 780 cestas e. do mal. apesar de tudo isto. sobre o caso da distribuição de cestas básicas: “A governadora Rosinha Matheus determinou. mediante a apresentação pelos beneficiados da carteira de identidade e do título de eleitor. Nesse contexto.

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de forma mais ampla289. 289 De acordo com os dados do Censo do IGBE. 09/10/2004). senador pelo PL e segundo lugar no pleito carioca. em Caxias] também reclamaram do uso da máquina do governo estadual na eleição. ele acabaria com o cheque-cidadão (Jornal do Brasil. Marcelo Crivella. principal líder da Assembléia de Deus. 288 Conforme anteriormente mencionado. Presença constante nos palanques do município.Em Caxias. manifestou seu apoio a Lindberg — graças à adesão de Fernando Gonçalves à campanha petista — acompanhando-o em caminhadas e também nos palanques. não havia tido grande destaque. tomou vulto. conversas com pastores e fiéis etc. Diante deste cenário. até então. a população evangélica brasileira passou de 13. Garotinho e a governadora Rosinha utilizavam-se de estratégia semelhante. cada candidato procurou costurar suas alianças com nomes importantes no meio evangélico da Baixada e do estado. visitas às igrejas. se eleito. não se havia apelado ao discurso religioso como arma políticoeleitoral. em 2002. e Laury Villar (PDT). Dentre eles. contando com shows específicos. vinculando a opção religiosa (e sua prática) ao voto em um candidato em particular. a briga pelo “voto evangélico” atingindo seu ápice durante o segundo turno das eleições288.1 milhões. As visitas às igrejas repetiam-se com freqüência. em um primeiro momento. Naquele momento. Os candidatos [Sandro Matos (PTB).3 milhões entre 1999 e 2000 para 26. as religiões protestantes foram tratadas. 306 . o campo religioso local sendo polarizado por pastores de distintas vertentes. como mais um segmento eleitoral. Já do outro lado. Isto significa um crescimento percentual de quase 100%. com promessas de realizações e obras. proferindo ameaças e acusações aos adversários locais durante os comícios realizados na localidade. muito superior a qualquer outra denominação religiosa. no entanto. as ruas de Caxias estão forradas de cartazes de propaganda do estado. em São João de Meriti. o bispo da Universal. Segundo Zito. o casal não poupava ninguém. Manoel Ferreira. Sandro Mattos reclamou que em Meriti os políticos ligados ao governo estadual fazem circular boatos de que. A temática religiosa que.

Com a aliança com o PTB em Nova Iguaçu. na época filiado ao PSB. . 11/10/2004). apesar dos conflitos entre o pastor Manoel Ferreira e seu “padrinho”. amanhã. a Assembléia de Deus. nessa eleição. Lindberg Farias prometeu reunir pelo menos 300 pastores evangélicos na igreja da Assembléia de Deus. saí com espírito renovado. Após conversar com o pastor. por sua vez. O peemedebista apóia a campanha do prefeito Mario Marques (PDT). que foi candidato a vice na chapa de Luiz Paulo Conde e. Oro. em 2002. o vínculo evangélico. Tenho certeza de que foi a vontade de Deus. Vale a pena lembrar que José Serra (PSDB). pronto para a maratona do segundo turno — afirmou (Jornal do Brasil. pôde apoiar publicamente o candidato do PT. Garotinho (). Garotinho. “Candidato pelo PT à prefeitura de Nova Iguaçu.. era aliado de Garotinho” (Jornal do Brasil.deu seu apoio a Mário Marques. nas eleições municipais de 2004. 2003). que busca a reeleição. adversário de Lula. na cidade. até então. no município do Rio de Janeiro. tendo sido também candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Paulo Conde. conclamando os pastores da IURD. Garotinho declarou seu apoio a Lula e teria atuado como mediador junto a outras igrejas para conseguir congregá-las ao candidato petista. da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil e também da Igreja Quadrangular (Machado. Graças a ele. segundo o candidato. no entanto.Não cheguei até aqui por acaso. já tinha costurado anteriormente uma aliança com a IURD — em 2002. “Zito ajudou na minha candidatura ao Senado. o candidato do PMDB contou com o apoio de alguns pastores de sua denominação religiosa. Em Duque de Caxias. 2002. recebeu o apoio da Convenção Nacional das Assembléias de Deus. tive 290 Destaco que o pastor Manoel Ferreira e Garotinho pertencem à mesma denominação religiosa. com o pastor Manoel Ferreira (PL). predominou. Apesar do PL ter tido um senador na chapa de Lula naquelas eleições para a Presidência da República. No segundo turno. . em arenas políticas opostas. como também seus fiéis a votarem nele290. O primeiro foi o terceiro colocado para a vaga do Senado Federal. e do primeiro ter manifesto publicamente sua adesão à campanha de Laury. A estratégia visa a ‘arrebanhar’ parte dos fiéis que estão hoje sob a influência do exgovernador Anthony Garotinho (PMDB). 09/10/2004). privilegiando seus interesses particulares e o vínculo partidário em detrimento do pertencimento religioso. A entrada dos evangélicos na campanha de Lindberg foi acertada. ao que parece. 307 . colocandose.

a de Daniela Name.mais de 15 mil votos. na disputa com Lindberg Farias. Há também telefonemas. “As metamorfoses da Besta Fera: o mal. “Política Ambígua” (Palmeira) e “O mal à brasileira: Um pósfacio. a um adensamento dos estigmas sobre os moradores das favelas. O mal. a política e o Brasil” (Sanchis). grava uma mensagem telefônica — mencionando o nome do proprietário da linha e do morador — pedindo voto para o “seu candidato”. Criminalizados por ali residirem. Para este trabalho. No HPEG. agora. interessaram-me particularmente os artigos: “Males e malefícios no discurso pentecostal” (Birman). a religião e a política entre trabalhadores rurais” (Novaes). É assim que o deputado federal Nelson Bornier (PMDB) define a colaboração da empreiteira Delta Construções S. são 291 "Uma coisa de amizade" (O Globo. ver a coletânea de artigos organizada por Patrícia Birman. e que apóia a candidatura em questão. a personalização do contato. segundo o qual algumas aproximações podem ser traçadas entre a condição estigmatizante dos moradores da Baixada e aquela dos moradores das favelas cariocas. só que desta feita. candidato à reeleição em Nova Iguaçu. destaca-se a distribuição de cartas cujo teor pode variar de um simples pedido de voto a acusações explícitas ao adversário. Eis algumas de suas conclusões (2002:71): “[…] o acirramento da violência na cidade [do Rio de Janeiro] correspondeu. singularizada na utilização de seu nome próprio. Dentre elas. Algumas matérias de jornais expuseram tal questão. 29/10/2004). a ética. 308 . vinculada acima à anti-ética. 292 Entre as estratégias políticas de vinculação de um determinado candidato a um nome político considerado “forte”. ele fala com a pessoa. principalmente no que tange à relação entre tal estigma e a conotação que o vínculo religioso adquire nestes segmentos. à campanha do prefeito peemedebista Mario Marques. Nas cartas e telefonemas. Estou firme nesta campanha para ajudar a eleger Laury — explicou o pastor evangélico”. em entrevista ao Jornal do Brasil de 18 de outubro de 2004. A temática do mal. nos quais o político mais conhecido. nas quais Garotinho pedia votos para o candidato do PMDB292. destaca-se uma tática bastante “tradicional” na política: a distribuição de cartas. Regina Novaes e Samira Crespo (1997). Nas duas estratégias. de O Globo de 23/10/2004. de prestígio. por meio do emprego do nome próprio do eleitor. com viés religioso293. Entre as armas utilizadas pela rede de Garotinho em Nova Iguaçu. de cunho religioso — postadas pela Delta Construções291 (empresa ligada a Nelson Bornier). É o que se evidencia também no trabalho de Leite. 293 Para a problemática da constituição do mal na cultura brasileira. pode ser pensada como uma forma de criar laços e promover uma “sensação de proximidade” no eleitor. é retomada com toda força.A. na última década. o candidato fala “para todos”.

no entanto. Como justificativa. O candidato do partido. o PT buscou apoio no PTB. tanto pela crença no efeito transformador da palavra religiosa. abaixo) mesmo antes da declaração de apoio de Fernando Gonçalves a Lindberg — e deste último ter adquirido o status de “convidadobem-vindo” no campo evangélico iguaçuano. cresce a importância da adesão religiosa como meio de afastar-se do campo conflagrado da violência social. a maioria composta por jovens evangélicos reunidos para o show Celebrai. e isso não é coisa que um verdadeiro cristão apóie. abaixo). quanto. contem para papai e mamãe.aproximados de bandidos e marginais em uma lógica que considera a convivência forçada um sintoma de conivência. aproximados do campo do “Mal” – associado à violência e ao terror das quadrilhas de narcotraficantes. Fernando Gonçalves. A eleição deste moço é muito ruim para Nova Iguaçu’. capaz de converter o mais renitente dos pecadores que assim iniciaria uma nova vida distante dos “erros do passado”. o ex-governador alegou que o petista ‘ofendia a fé cristã da cidade’. Neste contexto. 27/09/2004). ao assumir determinadas posições políticas: ‘Este rapaz defende a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo. que chegou em terceiro lugar com 12% dos votos. As favelas e seus moradores são. no Rio de Janeiro. As investidas de Garotinho e de seus aliados já associavam a candidatura petista à encarnação do mal (primeira citação. “Diante de milhares de pessoas. uma nova interpretação para a guerra política sendo então apresentada. disse” (Agência Carta Maior. No segundo turno. Falem isso na igreja. e em decorrência. Garotinho juntou no palco cantores conhecidos de música gospel e pediu que todos orassem ‘para pedir a Deus que impeça a eleição de Lindberg’. “Para se defender. pelo efeito social positivo de discriminação dos adeptos das religiões evangélicas da marginalidade e do crime” (grifos meus). entrou em cena a poderosa “máquina” das igrejas envolvidas nas campanhas (segunda citação. 309 .

no PSTU. que já foi radical e agora é moderado do PT – é católico. explorado pelos adversários. eu vejo que a predominância de algumas entidades — ou mesmo religião — é um 310 . desvinculando a opção religiosa da prática e escolha políticas. com acusações a Lindberg e uma matéria dizendo que a prefeitura petista de Belo Horizonte mandou construir ‘um templo para Satanás’. Mesmo tendo esposa e filha evangélicas. Essa guerra santa se explica pelo incrível contingente de eleitores evangélicos de Nova Iguaçu: segundo um levantamento feito pela PUC-RJ. o que ajudou muito Lindberg a jogar para o alto a pecha de ‘filho do demo’ que quer lhe colar Garotinho[…] No dia 10 de outubro. Lindberg foi alvo das benções e orações de lideranças políticas e/ou religiosas como o próprio Ferreira e a ex-governadora Benedita da Silva. apontado para nós mesmos. presente a um templo da Assembléia de Deus lotado. Com relação a Duque de Caxias. nós estamos usando uma arma. 13/10/2004) (grifos meus). tirando da campanha petista o estigma de ´ser de fora de Nova Iguaçu’. enquanto a Igreja Universal é seguida por 3. reportagem de Maurício Thuswohl. 29% dos habitantes da cidade são evangélicos.5% dos iguaçuanos. militantes de outras seitas distribuíam o jornal Folha Cristã. A Assembléia de Deus é a maior seita. mas não esconde mais sua simpatia pelos evangélicos pentecostais. ele não declara pertencimento a qualquer denominação religiosa. Do lado de fora do templo.declarou apoio a Lindberg. o padre pode ser alguém que o induziu [o eleitor] ao erro. com 11. e costuma enfatizar a necessidade de autonomia dos fiéis no momento da eleição: “O líder comunitário. que é o nosso voto. O candidato petista – que já leu as cartilhas de Stalin no PC do B e depois as do seu inimigo. o discurso de Zito tentou passar ao largo da questão. Trotsky. Assim. senão. A política que quer ser levada a sério […] porque. Iguaçuano e deputado federal mais votado na cidade.5% da população” (Agência Carta Maior. o pastor. contra nós. Gonçalves ainda por cima também é evangélico.

de 21/10/2004. A notícia de que teria uma filha — até então ignorada — com uma garçonete agitou o clima político local e provocou uma avalanche de matérias na imprensa294. a divulgação de sua autoria marcava uma inflexão na estratégia. Por exemplo: O Globo. Tal boato teria sido espalhado (e fabricado) pela rede política de Mário Marques e Lindberg acabou acusando o ex-governador de ser o responsável pelo fato295. O PT nacional também marcou posição. inclusive a de paternidade. configura um dos exemplos: “O presidente nacional do PT. Genoino afirma esperar que os ‘nossos adversários não se utilizem desse clima de sectarismo e violência. até mesmo a religião”. 26/04/2006). Outras matérias foram veiculadas pelo jornal O Globo dos dias 26. divulgou nesta sexta-feira nota oficial reclamando de ataques sofridos pelos candidatos petistas no segundo turno das eleições. Segundo a nota. As acusações não pararam por aí. que não condiz com um país democrático e civilizado’. Durante o primeiro turno. de 21/10/2004. E eu espero que cada cidadão saiba separar uma coisa da outra e comece a entender da sua responsabilidade com o seu voto” (Zito. Como mencionado no capítulo anterior. o PT é vítima de ‘armações e violências’ por parte de seus adversários. Ao blame gossip juntaram-se as acusações de cunho religioso e a novidade dos panfletos assinados. Em uma delas. Lindberg foi novamente atacado. 296 A matéria divulgada na Folha de São Paulo. de 22/10/2004. “esse tal de Lindberg”. por último. a onda de boatos tampouco. feitas porGarotinho. enviando nota aos jornais em repúdio aos ataques efetuados a seu candidato no segundo turno296. José Genoino. Merval Pereira referiu-se aos ataques como “os mais baixos recursos. Arthur Dapieve ressaltou os “argumentos pretensamente religiosos” do casal Garotinho e. 295 Tal acusação foi notícia em jornais como O Globo e a Folha de São Paulo.momento. diversos panfletos apócrifos já haviam sido espalhados pela cidade com acusações de diversos tipos. algumas matérias deram destaque aos boatos que o candidato do PT enfrentou durante toda a campanha. isso é passageiro. 24 e 31/10/2004. referindo-se às diversas acusações ao candidato petista. de 23. 29 e 30/10/2004. Segundo o candidato do PMDB. Ao conclamar seus correligionários a ‘não caírem em provocação’. o que sua coligação fazia era esclarecer o eleitor a respeito de “quem era esse candidato”. 294 311 . mas também às ameaças de corte de verbas e projetos sociais do governo do Estado. e O Globo. Teresa Cruvinel remetia ao “tom religioso”. no segundo turno.

A relação entre os campos político e religioso no Brasil não constitui propriamente uma novidade. Arolde de Oliveira. foi o 3º colocado. são alguns nomes de lideranças evangélicas locais. pastor Almir. entre outros.7 milhão. o bispo Marcelo Crivella (PL). bispo Caetano. possibilitando um crescimento considerável do número de parlamentares de esquerda. da Assembléia de Deus. Benedita da Silva (PT). Eduardo Cunha. sua atuação neste universo teve início nas eleições de 1986 para a Assembléia Nacional Constituinte.53). 312 . 1998: dezessete deputados federais e vinte e seis estaduais. pastor Ely Patrício. sua inserção foi aumentando significativamente ao longo do tempo (1990: três deputados federais e seis estaduais. bispo Jodenir. bispo João de Jesus. pastor Divino. 1994: seis deputados federais e oito estaduais. em 6 de outubro de 2002. Manoel Ferreira (PTB). dezesseis deputados federais e dezenove estaduais [idem]).2 milhões de votos. bispo Léo Vivas. a Secretaria do Trabalho e Ação Social e 500 mil votos para o seu candidato ao Senado. foi eleito para o Senado com 3. 2002. também evangélica — em 1998. eleitas para mandato parlamentar no Rio de Janeiro. bispo Vieira Reis. Bispo Rodrigues. um dos líderes da Igreja Universal. assim como a ampliação das vagas ocupadas por políticos evangélicos na ALERJ297. Apesar da “onda Lula” — que repercutiu em todo o Brasil nas eleições proporcionais. No Rio de Janeiro. desde a eleição de Anthony Garotinho (PDT) para o governo do estado — tendo como vice. De acordo com Oro (2003). A IURD talvez figure como a principal iniciativa dos evangélicos no campo político. A partir daí. com 1. principalmente do 297 Nas eleições de 2002. apesar de recente. a participação dos evangélicos e a associação entre o campo religioso e o capital político dessa coligação possibilitaram a supremacia política do casal Garotinho na eleição seguinte. pastora Edna. elegendo um deputado federal (p.

2000. Oro. 2001.729 votos (17.423 votos (51. enquanto sua esposa. ainda no primeiro turno.175. Nessa eleição. também fez críticas ao “estilo Garotinho” e à própria mudança que uma figura política como a dele implicaria ao PMDB. Machado. Mais recentemente. pensado como “corporativismo de viés religioso”. 1989. por exemplo.PT — as comunidades evangélicas e outros grupos sociais tradicionalmente representados (desde militares e policiais.). esteve envolvida em projetos como o do cheque-cidadão. com 4. 313 . como já mencionado. De acordo com Novaes (2002). 298 Segundo Machado (2002). a Igreja Universal teria inaugurado o estilo. até funkeiros e esportistas) tentaram garantir seus espaços nas urnas. a rede assistencialista vinculada à Fundação Leão XIII e seu uso com fins eleitorais.30%)298. Garotinho recebeu 15.101. Coradini. no entanto. implementado no governo de Garotinho no Rio de Janeiro (Machado. Líderes de expressão nacional do PMDB colocaram-se contrários à ofensiva e ao uso do discurso religioso. Jorge Gama. Tal iniciativa. apesar de tentar atenuar algumas posições do ex-governador. encontramos. op. a Assembléia de Deus teve 24 candidatos concorrendo para a ALERJ (tendo eleito 5 deputados). cit. Conrado. O tom das disputas e a condução da guerra política (apelidada por alguns de “guerra santa”) no estado do Rio de Janeiro foram criticados por membros do próprio partido de Garotinho.87%) na disputa para a Presidência da República. A Assembléia de Deus. em todo o estado. nem sempre obtendo o resultado esperado. 2001. 2001). logo foi seguida por inúmeras outras. Rosinha Matheus foi eleita governadora do estado do Rio de Janeiro. seguidos de 18 da Igreja Batista e 17 da IURD. O projeto político do casal Garotinho foi inteiramente embasado na linguagem religiosa que conferiu intensidade dramática à operacionalização efetuada entre liderança espiritual e assistencialismo social. Diversos autores ressaltam o papel da assistência e do trabalho social nas experiências de aproximação entre política e religião implementadas em diversos estados brasileiros (Peirucci.

cit. remetendo igualmente às ocupações profissionais e à tentativa de angariar mais poder no espaço público.) — as preocupações dos políticos evangélicos estariam preferencialmente a “serviço da religião” e menos voltadas para politizar as questões religiosas e/ou mundanas. Entretanto. a mediação política apresentou-se sob novos aspectos e o clientelismo — tradicionalmente utilizado para pensar as relações políticas e as instituições no Brasil — não pôde ser acionado como critério explicativo exclusivo. Venceu Lindberg e o projeto coletivo do PT (ao menos o do Campo Majoritário). mas também o poder sobre a fé. para outros — como demonstrou Machado (2002). em seu trabalho sobre políticos evangélicos na Câmara Municipal e na ALERJ — a filantropia e o engajamento em ações sociais não se restringiria à ética religiosa. Aglutinando e combinando pertencimentos e interesses os mais diversos.). mais particularmente. o campo religioso na Baixada e. Nessa guerra particular. Kuschnir. impôs sua vitória na quase totalidade das 314 . Lanna. Assim.Pautar a política na assistência e prestação de favores — podendo implicar em laços de gratidão e dívida moral — não é exclusividade das lideranças religiosas e evangélicas. em Nova Iguaçu. cit. 1975. Na política brasileira encontram-se vários exemplos desta prática (Leal. op. 1995. ela considera a existência de “[…] um círculo vicioso em que o ator religioso utiliza o engajamento em atividades sociais da Igreja como atributo político para conseguir votos e mais uma vez eleito privilegia as questões religiosas e assistenciais”. Se para alguns autores — como nos aponta Coradini (op. a partir de um depoimento que lhe foi dado (p.291). fragmentou-se diante dos diversos interesses em jogo — os atores sociais evidenciados nesse processo disputando não somente prestígio político.

apesar da redução no número de fiéis. A Teologia da Libertação e as CEB’s reduziram sua intervenção no cenário político nacional. ver Anexo. ficando com 48.831 votos) do total da votação. respectivamente.13%.zonas eleitorais de Nova Iguaçu — imprimindo efeitos também sobre outros municípios da Baixada através de sua atuação como “porta-voz do PT” na região299. sindicatos e partidos políticos. nos últimos dez anos. Vila de Cava e Centro.65% para 57.16%. Para os detalhes sobre os números em cada zona eleitoral. a partir de meados da década de 1980. de 12. mas a necessidade de adequação a um discurso e a uma prática não mais exclusiva ou predominante do campo político. redefiniram as práticas e valores internos a essa instituição. A única localidade na qual Lindberg não atingiu mais do que 50% dos votos foi Austin. o número de evangélicos no estado do Rio de Janeiro passou. Sua atuação junto aos movimentos sociais que lutavam pela casa própria em Nova Iguaçu foi decisiva para a constituição de sua persona pública. A própria crise do paradigma marxista como elemento estruturante e a nova postura da Igreja Católica — sob o comando de João Paulo II e seu conservadorismo — além da expansão do movimento dos carismáticos. com pesos distintos. Outro elemento a se considerar é o surgimento do que Leite (idem) denominou 299 As zonas eleitorais em que obteve maior votação foram. portanto. talvez. têm se feito presentes. na Baixada Fluminense — e. alterando sua configuração e a própria extensão de sua autoridade.86% para 21. 300 De acordo com Leite (2002:69-70). nos dias de hoje — o voto evangélico pode ser decisivo. A trajetória de Jorge Gama é ilustrativa desta situação.62% (13. Os católicos. mas a entrada em cena de novos partidos e novos discursos acabou implicando numa ruptura com esta forma mais tradicional do fazer político. no Brasil como um todo. quantificada. Outros discursos religiosos também estão em cena. diante do processo histórico de democratização brasileira que. 315 . ampliou a possibilidade da participação das associações de moradores. Cabuçu. focalizamos não apenas a sua dimensão representativa e. enquanto os católicos tiveram um decréscimo de 67. Levando-se em conta que. com atuações variadas300.

afinal. por conseqüência. limusines e conferências – que dão ao centro a marca de centro e ao que nele 301 Em nota de rodapé. 1996:51-52 apud Leite. 316 . elas justificam a sua existência e administram as suas ações em termos de um conjunto de estórias. 2002)301. Nesse sentido. ou. em algum transe de auto-admiração. de certa forma.. cerimônias. Desse modo. as figuras dominantes e o carisma — e não exclusivamente sob formas “extravagantes” ou efêmeras — o autor ressalta um conjunto de formas simbólicas expressas pelo poder e por suas dimensões ao mesmo tempo morais e estéticas: “[…] Não importa o grau de democracia com que essas elites foram escolhidas (normalmente não muito alto) nem a extensão do conflito que existe entre seus membros (normalmente bem mais profundo do que imaginam aqueles que não são parte da elite). sobre seus centros. sua posição fora da ordem social. Leite refere-se à atuação do projeto Viva Rio frente à problemática da violência e sua relação com uma concepção de “religião civil”. operaria uma alteração nas fronteiras entre religião e política (Leite. baseada na relação entre compromisso e cidadania. insígnias. inventam. fundadas na ação cívica e no sentimento religioso.219) ressalta que “o que faz um líder político espiritual não é. refletindo sobre o conteúdo sagrado do poder302. com os destinos das instituições políticas” (Soares et al. segundo a qual “não se constrói um Estado democrático sem uma religião civil capaz de valorizar as virtudes cívicas ou o comprometimento do cidadão com a coisa pública. com o espaço comum e. delineando uma espécie de “religião civil” que. Se nos trabalhos de Weber (1999 e 2004) encontramos a preocupação central com o processo de racionalização e de desencantamento do mundo. Geertz (1997:214) nos chama a atenção para o que isto significaria: “um mundo totalmente desmistificado é um mundo totalmente despolitizado”. Geertz (idem. emerge o que a autora — citando Bellah — chamou de “dimensão religiosa pública”. e sim um envolvimento íntimo e profundo – que confirme ou deteste.“redes de solidariedade e filantropia”. que seja defensivo ou destrutivo – com as ficções mais importantes que tornam possível a sobrevivência desta ordem”. formalidades e pertences que herdam. em situações mais revolucionárias. São esses símbolos – coroas e coroações. p. 2002:67) 302 A este respeito.

o do espetáculo. As múltiplas possibilidades em jogo foram evidenciadas. o da religião. o que vem alterando a própria dinâmica do mundo da política. algo assim como se. Não que isto possa ou vá. ora revelando-se na potencialidade aglutinadora do carisma de algumas personas políticas. mas evidencia — a partir de um olhar atento e minucioso — a inserção de novos atores (oriundos do campo religioso). p. de alguma estranha maneira. da própria representação partidária e de uma linguagem que privilegia uma religiosidade difusa. O autor utiliza-se do “número três” (p. ele estivesse relacionado com a própria forma em que o mundo foi construído” (idem. os projetos políticos aqui analisados revelaram os valores e símbolos implicados numa determinada maneira de conceber o mundo e a política.225). o do capital etc. suprimir a dimensão dos interesses pessoais e dos grupos. o da política. Desse modo. como as aqui apresentadas. de fato. 303 Pierre Sanchis (1997) pensa a ambigüidade e ambivalência. o da festa. re-significando discursos e originando uma nova gramaticalidade na qual o bem e o mal. para além de uma dicotomia restritiva. ora por meio dos arranjos representativos. podem ser pensados na cultura (e por que não.219). – e a teia de significados da qual faz parte como produto e produtora. fazendo uma análise da cultura brasileira a partir da polaridade entre a cordialidade e o conflito. especificamente. 1991[1980]) significa apreender os diversos discursos em ação – o do marketing. pensar a política na Baixada como ação simbólica (Geertz. das variáveis numéricas. Sendo assim. A eficácia de elementos simbólicos do campo religioso repercute cada vez mais no fazer político por meio de alianças. na política) brasileira303.acontece uma aura não só de importância. referindo-se à ambigüidade brasileira: “uma ambigüidade que não deixa o mundo ser de modo maniqueísta dividido em 317 . mas.

a novidade. crenças religiosas.A triangulação Jorge Gama – Zito – Lindberg seria então uma forma de entender a ambigüidade constitutiva da política local. O político benfeitor-violento é um outro exemplo. os estigmas e. 304 Por exemplo. Pode ser usada num contexto acusatório. na outra face (pois constitutiva do mesmo!) a pertença. dos comportamentos. A oscilação entre o sofrimento. Ambigüidade potencial e funcional que responde à sua ambigüidade estrutural”. mas pode igualmente demarcar uma relação de dádiva com o morador-eleitor. O mal foi aqui trazido enquanto experiência cotidiana e não exclusivamente pensado dentro do mundo religioso. do bem e do mal). Ao mesmo tempo em que transita entre os pólos do bom e mau (e em muitos casos. Assinalei que a construção acerca do que seria o fazer político desses atores era dinâmica. Expus nos capítulos anteriores. A remissão ao conjunto de símbolos que suscita ultrapassa delimitações de campos específicos a partir das experiências e dos processos de resignificação do mundo social. entre o mal e o bem. das bandeiras políticas. afinidades pessoais. os meus “nativos” referem-se à Baixada sempre no singular. ‘bons’ e ‘maus’. sim.”. da apresentação de si e dos projetos. e que também significa ambivalência dos seres. paixões. a violência. Assim como para Novaes (1997:102) “as pessoas não se aproximam do cenário político abstratamente ou operando apenas com a razão e com a idéia do ‘público’. pode ter também o seu sentido negativo. tentei demonstrar também como esta interpenetração pode ser “provocada”. a mudança pode nos indicar por que caminhos seguir. a partir das trajetórias dos três políticos. Outros artigos que trabalham essa ambigüidade em diferentes contextos podem são encontrados no mesmo livro. dos valores[…] Mas a mistura entre homem e natureza. concepções sobre o Bem e o Mal. Aproximam-se. levando consigo a sua vida privada. ao mesmo tempo. as mudanças dos discursos. A própria assistência (o trabalho social) é ambígua. incorpora-os304. Pois a própria ambigüidade é ambígua. sentimentos. como já abordado no capítulo 1. virtualmente ambivalente[…] É então que esta junção (mistura) ambivalente produz. 318 . perigo e fascínio.

No entanto. Resta-nos agora tecer algumas considerações a respeito da construção.Desse modo. Vimos. no jogo político. mas também evidenciaram que. nos capítulos anteriores. Em Duque de Caxias venceu o discurso que conciliou religião. desmanchando-se e recompondo-se. a “guerra santa” empreendida na Baixada e no estado do Rio de Janeiro durante as eleições de 2004 explicitaram os usos dessas concepções (Bem e Mal). o mesmo discurso perdeu. política e trabalho social. os pertencimentos e filiações estão sempre em movimentos. como a política traz consigo a ambigüidade e a incerteza. em Nova Iguaçu. 319 . des-construção e re-construção desses projetos assim como das próprias imagens (e configurações) de Baixada. a explicação não é tão simples. a partir da própria avaliação acerca dos projetos políticos bem-sucedidos e fracassados dos atores em questão.

então. um quadro cognitivo que se elabora através de um trabalho intenso de significação problemática. A afirmação que foi feita pela bibliotecária da Fundação CIDE à Freire (idem)305 — motivada pela escassez de dados oficiais sobre a região — me fez pensar como algo poderia não ter “existência” e mesmo assim marcar tantas experiências.95). ressaltando a construção de um “nós”. É uma ilusão” (Freire.. É neste ponto que a definição da autora caminhará na direção que esta tese pretende seguir. em determinadas situações”. a autora insere a discussão sobre a problematização pública do que seria a Baixada. 320 . ÍDOLOS E BACHARÉIS Nos capítulos precedentes tentei apresentar algumas visões acerca da Baixada Fluminense. a Baixada “é uma região. de uma ascensão de problemas singulares para problemas gerais e públicos.CONSIDERAÇÕES FINAIS: CONSTRUINDO (E DES/ RE-CONTRUINDO) REIS. no singular? Por que ainda faz sentido enunciar sua suposta condição (ou possibilidade) de unidade? “A Baixada não existe. Inseridos neste debate e com a preocupação de não forjar uma ordem (no sentido de ordenação criada pelo pesquisador) ao escolher um recorte frente à sua multiplicidade e não 305 Na página 96. Freire declara não ter dúvidas quanto à existência da Baixada.. op. transcrição de palavras alheias. Em outra passagem do texto (p. p. as pessoas/ moradores permanecem referindose à Baixada. dialogando com trabalhos mais recentes que enfocavam o “lugar” de maneira mais o menos sistemática para mapear algumas práticas e discursos sobre a política a partir da análise das trajetórias de três políticos profissionais.106). justificando o uso das aspas como remissão às falas nativas.. Sendo assim. Para a autora. um coletivo referenciado ao lugar. e que possibilita precisamente um movimento de um [eu] para um [nós]. Utilizar-se do plural — marcando sua heterogeneidade — seria a melhor solução? Mas por que. ela é também um recorte mental. Retomarei agora algumas questões tratadas ao longo desta tese. a primeira questão em que esta tese se debruçou foi como pensar a Baixada Fluminense frente às múltiplas possibilidades que comporta e aos distintos processos de identificação a ela vinculados.cit.

negando a fluência como constitutiva dos processos de identificação locais. a abertura e o fechamento. de forma mais ampla307. a ligação e a ruptura. o não-movimento. Pensar apenas nos limites territoriais dos municípios ou na configuração das próprias fronteiras da Baixada significaria reificar algo estático. 321 . que estabelece um delicado equilíbrio entre os fluxos: o movimento e a (des/ re)territorialização do (seu) mundo306. Grosso modo. apontamos para a ambivalência dos sentimentos de pertença e de imputação de um pertencimento (da identidade de “morador da Baixada” dita pelos “de fora”. do trânsito constante desses moradores 306 307 Deleuze (1992). da prefeitura. Simmel (1983). o desdobramento dessas primeiras indagações fez-nos questionar sobre o que teria mais rendimento para o trabalho: a categoria que se relaciona com o estigma? As imagens positivas? Os discursos dos moradores? Os discursos sobre os moradores? A “fala” institucional (do estado. Não me parece factível falarmos numa “identidade baixadense” stricto sensu. das secretarias)? O que nos dizem os movimentos sociais? Nosso esforço deu-se no sentido de pensar a Baixada Fluminense a partir da “significação afetiva” presente nos discursos diversos de seus atores sociais sobre o “lugar” e seus moradores. por exemplo) que simultaneamente funde e rejeita. de formas variadas.apenas ao que tem de comum. Uma ordem simbólica que expressa. retomando a própria dimensão de comunicação e de intersubjetividade do espaço. A “frouxidão” desses limites. Esse aspecto duplo (e ambivalente) evidencia-se igualmente nas metáforas da ponte e da porta utilizadas por Simmel para falar da cidade e do urbano. e sim em processos de identificação que remeterão à criação — assim como à dissolução e recriação — de espaços de significação.

. o trânsito é apreendido como uma constante nas vidas dessas pessoas..reinventa este “espaço”. uma experiência comum que em maior ou menor escala marcou a ocupação. is nonetheless a self-contained place. sensible’.” (Briggs. se o “morador” é uma auto-denominação. one New York. 308 “I regard places.37). a ship. 95). Given this approach. cit. 322 . as Susanne Langer does in her Feeling and form. Sendo assim. one London – t go back to the great quartet identified by Pritchett – each of these cities in itself has been a collection of distinct places. o crescimento e as imagens da região (para dentro e para fora). although geographically it may be where Indian camp used to be. desse modo. “Verbal as well as visual accounts are usually far more relevant than architect’s photographs or planners’ models. tangible. também é uma classificação externa a partir de referenciais outras que não exclusivamente as tomadas por quem é “de dentro”. wich not only leave out but often misrepresent. as ‘creative things’. a Baixada apresenta-se como coleção de lugares308. as expressed in words and pictures encompasses feelings that particular places are nasty as well as beautiful. Por outro lado. Reforçando tal vivência com imenso potencial transformador — e não restrito aos moradores da Baixada — enquanto uma experiência sobre o espaço e a partir deste. indeed. pp. sometimes with its own sub-culture. conforme nos sugeriu Enne (op. and a gipsy camp is far different from an Indian camp. ‘ethnic domains made visible. p.” (idem. compartilhada assim como suas ambigüidades e ambivalências. While there has been only one Paris. o que implica um sensível partilhado. 1985:90). one Rome.] The sense of place. 309 Utilizo ethos no sentido empregado por Geertz (1989). hateful as well as lovable. In this connection. [. corroborando por fim um ethos local. each with its own ecology and history.. corroborando grande parte das conclusões de Enne (op.) — a Baixada constituiria um lugar na medida em que permitiria uma vivência comum. assim como marca relações e representações nos contatos mistos sobre quem são esses moradores. constantly changing its locations.cit. it is essential to reiterate that cities are collections of place as well as places in themselves. quais seriam suas características etc309. Detendo-me mais especificamente na definição de Asa Briggs (1985) — e.

) e de Enne (op. no entanto. meios de comunicação. políticos. umbandistas. lideranças de movimentos sociais. a despeito de peculiaridades no processo de ocupação local. No entanto. Numa delimitação mais ampla da Baixada (essencialmente ligada a discursos e projetos políticos) a cidade é incluída. católicos. projetos urbanísticos. o prédio no qual funcionava a indústria têxtil Brasil Industrial — que. músicos. 323 . por exemplo — que as características de Paracambi (assim como Magé e Guapimirim) estariam mais próximas daquelas verificadas em cidades da zona rural ou do interior do estado do Rio de Janeiro. anos após seu fechamento. ausente de um número significativo de referências sobre a região. historiadores locais. jovens ligados ao hip hop. técnicos. evangélicos. de alguma maneira. traz à tona como essas relações se constituem e compõem as próprias representações sobre o “lugar” em um fluxo de imagens e discursos que tem como enunciadores os mais diferentes atores sociais: moradores da Baixada. O caso de Paracambi seria paradigmático no que diz respeito à demarcação de suas (possíveis) fronteiras. contornos de uma cidade operária que ainda hoje guarda em sua memória marcas desse passado310.). moradores do Rio de Janeiro. foi transformado em universidade (durante o primeiro mandato do prefeito André Ceciliano . 310 Um dos lugares de memória da cidade é. estando. Essa lista poderia se alongar indefinidamente. ao colocá-los em cena.PT). cit. o processo de urbanização da cidade esteve vinculado à atividade industrial — fundamentalmente de duas indústrias: uma têxtil e a outra siderúrgica — conformando. Sobre a história da indústria têxtil em Paracambi ver Keller (1997).A idéia de trabalhar com as diversas imagens sobre Baixada não delimita uma dicotomina fixa entre os “de dentro” e os “de fora” mas. Costuma-se afirmar — como nos trabalhos de Monteiro (op. por exemplo. cit.

todo mundo se conhece”. os moradores de Paracambi preocupam-se. em geral. Acho que isso inclusive é o que dificulta a percepção mais consciente da identidade da Baixada Fluminense. não podemos desprezar a presença de policiais-matadores na localidade. estudar. 312 Dentre as principais universidades presentes na Baixada Fluminense.A condição de cidade-dormitório311. como categoria acusatória. em desvincular-se da pecha de “ser da Baixada” — identidade não substituída necessariamente por outra local. 112). as falas nativas remetem. implicada no trânsito constante de seus moradores para trabalhar. no tocante aos de processos de identificação. por exemplo. “aqui. Apesar da pertinência de tais afirmações. UniAbeu (Belford Roxo). agora suavizado pelo incremento no funcionalismo público da região. aos seguintes aspectos: “aqui. ou ainda que os filhos das camadas médias locais estudam em Nova Iguaçu. não tem violência. Diante desse fato. temos: UNIG (Nova Iguaçu e São João de Meriti).” (idem. 324 . Estácio de Sá (Nova Iguaçu e Queimados). no mesmo trabalho. os trens que buscam meninos e meninas para levá-los aos bailes funk ou aos cinemas em outras cidades da Baixada ou no Rio de Janeiro. ou na capital carioca ou. “aqui.131) monta sua própria tabela na qual também evidencia o intenso fluxo de pessoas. diferente de. Sendo assim.. em parte.”. p. também é uma característica comum a outros municípios da região. UniGranrio e FEUDUC (Duque de Caxias). No entanto. para outros. na tentativa (ainda que suavizada nos discursos atuais) de negar uma provável relação ou aproximação com a Baixada. senão a principal. a partir de um certo momento. por exemplo.. que os dados sobre as razões dos moradores da Baixada para seus deslocamentos não seriam precisos para tal análise visto que analisam a proporção de pessoas que estudam ou trabalham nos municípios em relação as que estudam ou trabalham no estado do Rio de Janeiro. por último. já que na própria gramática política dos interlocutores da autora — e também dos meus — ele já estaria em desuso. Freire (p. Mais à frente. para alguns e o Fátima. por intermédio de dados do Instituto Pereira Passos e do IBGE. devido às emancipações levadas a cabo a partir da década de 1990. anteriormente mencionada. para a falta de conscientização política (de atuação política e de projeto compartilhado) e da cautela em se falar numa “identidade de Baixada”. são os hospitais geralmente 311 Tal característica (ser um “lugar” formado por cidades-dormitórios) foi apontada por alguns dos interlocutores de Freire (2005) como uma das causas. como a de paracambiense. a gente dorme de porta aberta”. O termo “cidadedormitório” passaria então a ser utilizado. nas universidades particulares espalhadas pela região312 e. ainda. ou ainda divertir-se. a autora retoma a questão e demonstra. que a Posse. “Aqui é por excelência um local dormitório.

no segundo. ao que se chama Paracambi (bairros centrais) e. por exemplo. empregada doméstica. Notícias ou boatos sobre mortes violentas (assassinatos. as pessoas são mais próximas. O que pretendo ressaltar é que mesmo sendo a negação..] Volto só mais de noitinha porque tenho que pegar o trem das seis [da noite]” (M. a tônica de alguns discursos. 313 É importante destacar que. a Lajes). de outro. 314 Os moradores de Paracambi costumam referir-se às idas ao Rio de Janeiro como “descer”. estaríamos subestimando o sentido do trânsito na vida dessas pessoas. cit. são frases que podem ser ouvidas com freqüência” (Costa. apesar de não dispor aqui de dados sobre violência na cidade. de “descer”314)315. de “mudar”. do trabalhador que lamenta a rotina diária da “viagem” e do cansaço.. op.46).. 39. Recorrentes são também essas imagens de “cidade de interior” ou do “lado bom” dispersas por outras tantas falas de moradores de diferentes cidades da Baixada. “Eu desço todo dia pra cidade. como ilustram alguns de meus interlocutores e demais moradores entrevistados : “‘Aqui. “Eu saio pra trabalhar em paz porque eu deixo as crianças com minha [filha] mais velha [13 anos] e sei que Dona Minda [a vizinha] sempre dá uma olhada pra ver se tá tudo bem com os menino[s][. estupros etc. consultar Velho (1994). 315 Para pensar a importância do conceito de projeto. de um lado. na “vontade de sair”. às vezes. moradora de Austin). a sensação de insegurança tem sido uma constante nos discursos dos moradores que costumam alegar que “a cidade mudou”.freqüentados pelos paracambienses etc313. a sensação de pertencimento ao lugar é parte constitutiva da auto-imagem desses moradores que. nos últimos anos — talvez até mesmo por conta da mudança do estatuto do lugar nas mídias (impressa e televisiva) — vêm alterando e reinventando seus processos de identificação com relação à Baixada.) e sobre tráfico de drogas têm preocupado os moradores e demarcado de forma mais explícita segregações socioespaciais antes mais ou menos matizadas nas falas locais (com relação aos bairros de Lajes e do Guarajuba. p. 10 da noite” (Relato de um morador da cidade que trabalha em um grande banco privado no Centro do Rio de Janeiro). Caso contrário. que durante as eleições de 2004 protagonizaram a exacerbação de antagonismos e preconceitos locais na polarização de candidatos ligados. Pego o Normandy [nome da empresa de ônibus que opera a linha Vassouras-Rio] às 6 horas e só chego aqui lá pelas 9. 325 . E ele está presente em suas próprias narrativas — como lamúria e / ou como projeto (no primeiro caso. Mais carinhosas’..

professora primária aposentada. depois voltou. Ficou pior porque a gente tem que esperar o trem pra cá e demora. é fácil pra chegar. à pobreza. agora tem faculdade. separada. técnica em enfermagem. moradora do bairro Cascata). “Hoje em dia. mesmo. vai ter colégio técnico. A oscilação 316 Um exemplo bastante ilustrativo dessa ambigüidade refere-se ao fato de que os moradores de Paracambi sentiram-se lesados quando a emissão do canal da Rede Globo de Televisão foi alterado. Domingo era calmo. à violência. 326 . faliu. Aqui não tem a violência da Baixada. em Paracambi). né? Mas eu prefiro o trem.. Niterói. Antes. Magé e Guapimirim316. agora. Paracambi. as notícias não abordavam “a realidade da gente”.. A gente sabe o que acontece com todo mundo. agora acabou de novo” (P.42). cit. Aqui. tem escola de música pros meninos. As categorias contraditórias utilizadas nos processos de identificação na Baixada não são exclusividade dos municípios de Paracambi. é o fim da linha do trem. a Baixada é um lugar melhor. “aqui as pessoas são mais solidárias”. Se você perde. né? Sabe que [es]tá todo mundo de olho. 61 anos. isso às vezes até irrita a gente. mas foi coisa da política. mesmo” (C. “Eu gosto muito daqui. ninguém tem dinheiro. alguns preferiram adquirir TVs por assinatura para assistirem a programação da Globo para o Rio de Janeiro. ao “todo mundo se conhece”. Essas coisas. ou ainda. pois a recepção passou a ser realizada pela região Sul Fluminense. Eu levava os filho[s] de trem pra Nova Iguaçu pra ir no cinema. funcionário aposentado da Brasil Industrial). moradora do bairro Fábrica. fica um tempão esperando o outro. há cerca de quatro anos atrás. Agora tem que parar em Japeri. por outro lado. Seropédica. por um lado.“Paracambi [es]tá na Baixada. Itaguaí. tinha direto pro Rio. as relcamações eram constantes e. São Gonçalo e Baixada Fluminense. à criminalidade. tem ônibus da Normandy. durou só pra mostrar e ganhar votos [referindo-se ao deputado estadual Délio Leal] e depois parou. Mas também. mas aqui é bem diferente. ao abandono e. op. teve um tempo. As imagens sobre o “lugar” nos remetem. alterando a programação de telejornais. O trem é bom. Nessa época. “celeiro cultural” (Costa.. mas dá calma porque a gente sabe em quem pode confiar. Aqui não tinha [cinema]. 34 anos. p. Segundo laguns moradores. Você não vê essa vergonha de férias coletivas e reduzir salário do pessoal da Maria Cândida [outra empresa local]” (J. mas às vezes é ruim porque qualquer um pode parar aqui. né? Mas a cidade tá falida desde que a fábrica fechou.

Na tentativa de descrever as formas de dominação e do exercício do poder no lugar Baixada. a territorialização operada no momento da enunciação do vínculo de pertencimento. recorremos aos projetos. “genericamente. mais ou menos fluida. mesmo contra a oposição de outros participantes desta. ou seja. assim como as referências simbólicas das formas de agir. O poder pode ser entendido. marca do próprio trânsito dos indivíduos pelos diferentes grupos sociais e “mundos” aos quais pertencem. Nesta tese especificamente. procurando apreender os sentidos das práticas políticas ao longo dos anos.entre um pólo e outro expressa o lugar de onde se fala. Desse modo. Ao pensarmos a Baixada a partir da idéia do trânsito e da fluidez de classificações. a categoria Baixada Fluminense foi tomada para compreender em que medida os discursos e práticas que a informam e formam estão invariavelmente ligados à política. individuais e coletivos. segundo Weber (1999:175). Ou seja. a vontade própria. escorregadia. nesse sentido. A característica. da assunção deste vínculo é.”. lhe conferimos um morar no sentido e explicitamos o repertório cultural e o campo de possibilidades de que dispõem os atores sociais para nomeá-la como melhor lhes aprouver (Velho. a inserção no lugar é assumida. Enfatizando o aspecto profissional da política a partir de atores eleitos por sufrágio universal. a noção de dominação está implicada na definição de poder já que aquela é uma modalidade desta. nas falas de moradores de outras regiões — os cariocas. mas que podem coexistir) para essas práticas. por exemplo — entre outros. recaímos na dimensão de poder imbricada nessas relações. 327 . justificando em parte a escolha por trajetórias que demarcam “tempos” (que não são estanques. ao mesmo tempo em que se procura desvincular de associações recorrentes na imprensa. [como] a probabilidade de uma pessoa ou várias impor. numa ação social. 1994).

em alguns casos. por exemplo). em outros. acaba por configurar uma acusação (“ele nem mora aqui. mas sabe do que a gente precisa. enquanto um “lugar de política”. Mas na busca pela reinvenção de uma cidadania. inevitavelmente. ao demandarem uma busca constante por aliados e eleitores — e apesar de tradicionalmente procurarem montar “bases eleitorais” com dimensões territoriais mais definidas — são imprescindíveis para compreendermos o fluxo contínuo a 317 Acusação corriqueira de alguns moradores da Baixada a políticos locais. É um rapaz viajado. um valor (“ele veio de fora.Os projetos políticos apresentados demonstraram a tentativa de que a Baixada. Lindberg Farias. justificando seu apoio ao candidato do PT. o mundo da política que em muitos momentos é visto como parte constitutiva de “ser da Baixada” (novamente a rede de resolução de problemas práticos assim como as arenas públicas construídas pelos movimentos sociais) e. nas eleições municipais de 2004. também fosse ampliada para além das fronteiras da política institucional e compreendida na medida em que dá sentido à ação social dos moradores (via rede de resolução de problemas práticos. como os moradores da Baixada de forma geral. em outros. Talvez sua própria condição resulte numa maior visibilidade deste deslocamento que. experimentado. Os projetos políticos individuais (que em alguns momentos aglutinam interesses e constituem projetos coletivos). 328 . como a imposição de projetos de redes políticas que subordinam os interesses locais a interesses de grupos específicos ou mesmo individuais. As alternativas criadas por eles manifestaram uma leitura a partir da “política dos outros” (Caldeira. os mundos se encontram e. 318 Relato de um morador de Nova Iguaçu. Os políticos. na Baixada”317) e. de outro. de conhecimento”318). De um lado o mundo do morador da Baixada e. também estão em trânsito. 1984) e a possibilidade de reconhecer-se enquanto ser político. se interpenetram. Tais acusações são corroboradas pelos adversários e por jornais que noticiam o fato de alguns candidatos terem casas /apartamentos fora da região.

não se pretendeu em momento algum fazer uma análise da propaganda stricto sensu. a propaganda política319 pôde ser abordada. entre interesses individuais e de grupos que culminam na formação de redes políticas. regiões mais amplas como Zona Sul. Neste caso em particular. No entanto. de Fábio Raunheitti e. Tentamos minimizar a idéia da dominação pela persuasão e manipulação. de Bornier — além de ser o projeto diversas vezes anunciado de Zito. através do momento da eleição de 2004. Sendo assim. se tal fluxo remete a espaços (bairros. mais ou menos duradouras. Interessa-nos agora voltar à constituição da “autoridade” desse atores. lidamos a todo tempo com as imagens. seu olhar é diferente do dos autores que buscam explicar o marketing político essencialmente por essa possibilidade e pela manipulação. ultrapassando os limites locais. voltando o olhar para a idéia da conversão (no sentido cristão). 329 . mais recentemente. a publicidade e a opinião pública acerca dos atores políticos tratados. Foi este o caso de Tenório Cavalcanti. para além dos partidos e siglas o que parece predominar no “fazer político” da região são as alianças. os três porta-vozes autorizados e investidos foram escolhidos para que pudéssemos refletir sobre as possibilidades da adesão (a) ou imposição de projetos específicos. 1993 e 2000). o mesmo pode ser dito com relação aos bens simbólicos. Desse modo. ao trânsito institucional. a ausência reiterada do Estado e a transferência/ delegação de algumas de suas funções a indivíduos e grupos possibilitaram que a personalização fosse a tônica da política na Baixada. à mediação política e cultural que alguns atores desempenham ao longo desse processo (Kuschnir. Nesta tese. Cada qual em um momento singular na sua carreira política. apesar de Burke (1994. aos vínculos de reciprocidade. Desse modo.16) apreender a propaganda moderna também como produto das técnicas de persuasão que remontam ao século XVIII. para compreender os usos e sentidos das imagens empregadas sobre e pelos políticos durante suas trajetórias enquanto parte constitutiva de si. p.que estão submetidos. Com este propósito. por exemplo). tendo 319 É interessante perceber que.

em vista sua dimensão de “venda da imagem”. bife e salada321. por que meios e com que intenções (cf. ou melhor. 330 . mas também vinculada ao caráter de reinvenção constante do político. fundamentalmente. em escala diferente. quer pela influência de seu pai. “homens excepcionais”. A construção das personas de Jorge Gama. A idéia da dramaticidade e teatralidade das relações sociais pode ser bastante útil para uma análise sobre o mundo das práticas políticas e. O político é um ser público por excelência. Zito e Lindberg Farias buscou torná-los. 13/09/1992. Seu carisma pessoal foi colocado à prova desde suas primeiras iniciativas políticas e demonstrado com distinção durante a eleição municipal em Nova Iguaçu. visaram os projetos para se tornarem “grandes homens”. 320 321 Jornal do Brasil. da construção de personas públicas. O Dia. Um jovem. retomaremos alguns episódios e as idéias de cena e palco políticos. ao cabo-eleitoral do PT na Baixada. como o herói que resgataria Nova Iguaçu das garras de uma elite política descompromissada com “o povo”? Como já foi demonstrado. Burke. ao refletir sobre as imagens (individuais e públicas) desses atores podemos decifrar em que medida é possível “a fabricação de um grande homem” descobrindo o que as imagens dizem. Do estudante cara-pintada que tinha a caldeirada de frutos do mar como o seu prato favorito e nenhuma intenção de entrar na política em 1992320. como o seu “modo de ser político”. 10/10/2004. No processo de fabricação de suas imagens. pai de família que agora prefere arroz. quer pela sua inserção no movimento estudantil. Quem é esse Lindberg que se apresentou como a nova opção. feijão. Lindberg esteve próximo do mundo da política desde muito jovem. para quem. 1994). Portanto.

51% do município é um valão a céu aberto.bonito e eloqüente que prometia trazer o novo. lhe é próprio ao mesmo tempo em que é atribuído e reconhecido) a explicitação de uma ideologia político-partidária que. mas que opera com a multiplicidade dos processos de identificação. Apoiado em um “discurso de esquerda” durante toda a sua trajetória. à história. aos problemas tocados comumente sobre educação. Mas o maior problema em Nova Iguaçu é o saneamento. no entanto. mas nunca se desligou de uma postura “de esquerda” (por mais que em alguns momentos tal postura fosse questionada. à música. Com afirmações como: “Temos um patrimônio histórico tremendo. Seria aquele que transformaria a Baixada no cenário possível da saga de um herói que não precisa mais de uma identidade una. PT). ligada à cultura. como demonstrado no capítulo 4). agregou às suas características (já que o carisma é pessoal. 15/05/2005. transformar a cidade. Criando um sistema de visibilidade através de atos constantemente noticiados pela imprensa e de um investimento maciço em sua assessoria de comunicação. Lindberg Farias garantia a legitimidade. 331 . foi se alterando (PCdoB. Lindberg era o outsider que traz um pouco do mundo e que ao mesmo tempo seria capaz de colocar a Baixada no mapa político nacional. assim como falava de uma “outra” Baixada. PSTU. da qualidade de vida. com a fragmentação e complexidade de um mundo cujas fronteiras estão em expansão. Não existe nenhuma estação de tratamento”322. Lindberg aproveitou todas as oportunidades e promoveu algumas. já que reconhecia os “problemas reais” enfrentados pelos moradores da cidade. Explorou o apoio recebido da 322 Jornal do Brasil. Criticou duramente a “oligarquia local” e a “política dos coronéis” procurando mesclar a associação de seu nome a projetos “novos” como o tema da ecologia. saúde etc.

Os enterros seriam assim momentos importantes de demonstração de generosidade durante o período eleitoral. No caso de Lindberg. pois não havia sido entrevistado ainda e solicitou a esta pessoa que tentasse “conseguir” uma matéria. 15/05/2005. tal período já havia passado.executiva nacional do PT e as visitas de ministros. houve uma diminuição do número de Quando me refiro aos artistas. E se multiplicaram durante todo o período eleitoral e mesmo no início de seu governo. uma cidade pra eu governar? Eu ia enlouquecer!” (JB. o prefeito petista. A ecologia. já garantiam um estatuto diferenciado à Baixada e ao prefeito de Nova Iguaçu. no centro da cidade. que já havia sido um dos motes da campanha. foi um dos “entrevistadores-comentadores” de uma entrevista do JB com Lindberg intitulada Levantando a auto-estima da Baixada. escritor e cartunista. Ziraldo diz: “Que vai virar agora um centro cultural. Em uma de suas intervenções. mas ao apoio em alguns casos mais em outros menos explícitos e declarados. após uma fala do prefeito petista sobre a pedreira. A “importação” de pessoal técnico da equipe da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy só fez aumentar as rivalidades. B6) 324 Palmeira e Heredia (1997) já chamavam a atenção aos lugares públicos privados. É interessante ressaltar que eu estava em Nova Iguaçu no dia desse enterro e conversava com uma pessoa próxima a Lindberg quando este telefonou indignado. sendo um outsider. pp. Nessa entrevista (com tom de bate-papo). O assassinato de um ambientalista novamente colocava a cidade e o prefeito sob os holofotes. Nesse período as notícias tratavam da transição política e dos problemas enfrentados pelos novos administradores dos municípios da Baixada. Passada essa etapa. ganhava força com o parque do Tinguá. com orquestra sinfônica tocando. Lindberg acompanhou o enterro em um bairro do subúrbio carioca e prometeu esclarecer o crime324. Extra e O Dia. JB. Acusações recíprocas e sindicâncias. A cidade e Lindberg figuravam freqüentemente em matérias de jornais durante o primeiro mês de 2005. como os limites do tempo da política são difíceis de determinar. políticos de destaque e artistas323. eu com 34 anos. com ênfase para Nova Iguaçu e Duque de Caxias. assim como os seus comentários. 323 332 . que nem Jaime Lerner fez em Curitiba! Vai ser o mais belo anfiteatro do mundo! Tem uma reverberação fantástica! (percebe seu excesso de elogios e pergunta) Você não quer me contratar como assessor de imprensa? (risos) É que eu me entusiasmos com essas coisas! Imagina se alguém me desse. A transição do governo Mario Marques para a administração petista deu o que falar. assim como criar novos que pudessem ser traduzidos em apoio e visibilidade políticos. não menciono apenas os cantores que estiveram nos showmícios. por exemplo. Durante os primeiros meses de seu mandato o fechamento da pedreira em Nova Iguaçu foi acompanhado pela imprensa local e pelos jornais cariocas O Globo. a participação de Ziraldo. As polêmicas foram outra fonte de visibilidade. Ziraldo. no entanto. aproveitou tal situação para estreitar laços.

6%) referem-se a Baixada. enquanto o . Dos jornais pesquisados. a política local e os comerciantes. em um intervalo de duas horas. No início da noite daquela quinta-feira. O Estado de Minas. 325 333 . Apartada da imprensa como matéria principal desde fins dos anos de 1990. chamam a atenção para o fato de que tais problemas apesar de terem saído da mídia não deixaram de fazer parte do cotidiano dos moradores da Baixada. Os dados dessa pesquisa ilustram as afirmações de Enne (op. 48. foi ressignificada e a imagem do prefeito e de sua atuação nesse “caso” foram exaltadas. mas o prefeito petista jamais saiu de cena. outro episódio levaria Nova Iguaçu e a Baixada para a mídia nacional: a chacina de 29 pessoas em um só dia nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados. O Globo e Jornal do Brasil. seu diálogo com o Parentes das vítimas e organizações civis mobilizaram-se e fundaram um fórum de discussões. Essa tragédia. Quanto aos temas. O Estado de São Paulo e Agora São Paulo. das 2. somada à atuação de policiais-matadores326. A temática dos extermínios voltava à cena. conforme pudemos notar com a tragédia dessa chacina assim como afirma Alves (2003 e 2005).514 matérias analisadas nos jornais O Dia. algumas em bares e outras voltando do trabalho. cit. agora fora do ritmo cotidiano. onde 30. essas pessoas foram assassinadas em frente às suas casas. mas. que exigiu dos governos estadual e municipal providências sobre a chacina.) sobre o decréscimo no número de matérias sobre violência na Baixada em relação ao Rio de Janeiro. permeando também o aparelho judiciário. O Dia é o que confere maior destaque à Baixada (60%). em 31 de março. 65.5% referem-se a crimes cometidos pelos policiais. fundamentalmente relacionando-se a atos violentos e a sua repercussão. no entanto.7%) e Jornal do Brasil (com duas matérias).matérias. os grupos de extermínio parecem ter uma relação bastante estreita com o poder público.Diário da Tarde e Hoje em Dia. Entre elas. alardeando a situação de insegurança vivida pela população local e a indiferença às suas vítimas. por outro lado. no período de maio a setembro de 2004.2% das notícias. Conforme já demonstrado. refletindo por muitos anos na estrutura de poder dos municípios da Baixada Fluminense e não somente de Belford Roxo e Duque de Caxias como privilegiamos em capítulos anteriores. também havia crianças325. o Reage Baixada. Folha de São Paulo.2% referem-se ao estado do Rio de Janeiro e apenas 66 (5. segundo as autoras. Sua participação junto às organizações civis. as ações policiais representam. 326 De acordo com os dados da pesquisa coordenada por Silvia Ramos e Anabela Paiva pelo CESeC sobre violência e segurança pública constantes no relatório Impunidade na Baixada Fluminense (2005). seguido de O Globo (22. a associação entre Baixada e violência era então retomada a partir desse drama. Ainda naquele primeiro semestre.

em matérias que o colocaram como “o novo”. sua proximidade com o governo Lula e com o Ministro da Justiça Márcio Thomás Bastos garantiram a Lindberg operar uma conversão entre a “matança” e a “mudança”: “Há uma rejeição aos negócios de gangsterismo ligados à política e à polícia. fundamentalmente a partir da imprensa escrita e da on line. 36)327. determinação). Grosso modo.cit. Ainda na mesma linha de Abreu (op. a votação do salário mínimo ou a reforma da Previdência. Tentamos ponderar. B6). carisma. onde os profissionais em cargos mais altos na hierarquia de jornais apresentam uma formação comum e são eles que 334 . A chacina em Nova Iguaçu vai resultar numa série de mudanças. ressaltando qualidades pessoais (disposição. “uma opção”. percebeu-se a formação de uma “cultura jornalística compartilhada”. 15/05/2005. frente à competitividade entre jornalistas e os vários tipos de mídia – Lindberg conseguiu notável visibilidade durante 2004. essencialmente relacionadas a fatos de repercussão nacional como a demarcação das terras indígenas. variando de uma apresentação do forasteiro à saudação do novo e consagração do “ídolo”. A Baixada inteira gritou: ‘Nós estamos aqui presentes’. É um momento de transição” (JB.fórum Reage Baixada. Analisando as matérias utilizadas nesta tese. os jornais diferiram pouco em relação ao posicionamento sobre a candidatura petista.cujas críticas Abreu (2002) levantou justamente sobre o caráter de bem simbólico assim como econômico. 327 Segundo a autora (idem). não nos preocupamos em definir de que lado a imprensa (se é que podemos tratá-la no singular!) se colocou. Mas também recebeu algumas críticas. como Lindberg Farias era apresentado aos leitores desses jornais. analisando as trajetórias de profissionais de imprensa. a outra explicação baseia-se no fato de que. a despeito da pseudo imparcialidade da notícia .). corroborando a afirmação da autora de que “o resultado é que a informação quotidiana divulgada pelos diferentes órgãos de imprensa está se tornando cada vez mais igual. beleza.” (p.

sem sucesso. marcar duas reuniões entre os prefeitos eleitos da Baixada e o Presidente Lula. além de tornar-se o portavoz dos prefeitos devido ao canal. as denúncias de irregularidades deferidas ao antecessor. garantindo novamente mais visibilidade nacional para si e para a Baixada e que lhe rendeu. Lindberg também teve papel de destaque como Presidente da Associação de Prefeitos da Baixada Fluminense. e que tem um prefeito do PT. Lindberg trabalhou pela instalação do pólo petroquímico em Itaguaí. Até que ponto a sua eleição vai significar uma mudança na condução da política na região ou mesmo imprimir um novo estilo de fazer política. e diante das críticas de alguns de seus pares. os prefeitos foram recebidos em Brasília e expuseram os problemas que enfrentavam à frente de seus executivos municipais. Quanto à promessa de “mudança” que permeou toda a sua campanha. foi a escolhida. matérias jornalísticas e um programa no Almanaque. Niterói e à cidade do Rio de Janeiro. definem o que deve ou não ser noticiado. Logo após a sua eleição e a escolha de seu nome como Presidente da Associação. Há ainda a questão da concorrência e da influência do marketing na formação da opinião pública. No entanto. Entre suas iniciativas. próxima à São Gonçalo. 335 . Lindberg promoveu também o Fórum Mundial de Educação em Nova Iguaçu. Já em 2006. tentou. na rede Globo News. a cidade de Itaboraí. é uma questão ainda sem resposta. não há como apresentar conclusões acerca das possibilidades representadas pela escolha de seu nome nas urnas em 2004. aparentemente sempre aberto com o governo federal. como já mencionado.Entre as brigas internas. As alianças que construiu para a viabilidade de sua candidatura levantam dúvidas. a partir do discurso “de esquerda”. Após as duas tentativas frustradas. Perdeu o projeto de políticos da Baixada assim como o dos políticos ligados a Garotinho que defendiam sua instalação em Campos. o que significaria maior crescimento para a região e mais empregos.

viu em Zito um poderoso aliado na Baixada. A entrada no mundo da política e os “encontros” propiciados por sua inserção como vereador nesse mundo lhe renderam um controle (gradativamente conseguido) sobre sua apresentação e o cuidado com sua imagem. aos acessos. que até então não parecia figurar entre suas preocupações. Para algumas pessoas. político experiente e muito bem articulado. conseguiu aproximar-se de Marcello Alencar a partir do mandato de deputado estadual (apesar de ter sido apresentado a este quando ainda era vereador).Quanto a Zito. Este. Entretanto. Os ternos e as camisas sociais substituíram as de malha. Considerado um “Zé ninguém” no início de sua carreira política. à intimidação (de fato 336 . Zito emagreceu. mas desmentido por sua filha a deputada Andréia Zito). era um homem considerado rude. já que em Duque de Caxias Zito gozava de grande prestígio e tinha um estilo que poderia lhe render frutos políticos. No início da vida pública. O tipo físico auxiliava na construção dessas imagens. com os cabelos sem corte e bigode. O vestuário também se adequou. talvez a sua “transformação” seja ainda mais surpreendente. intimidador. casual. cortou o cabelo. Unindo o atendimento (exercido segundo Zito apenas durante o primeiro mandato como vereador. a camisa de malha (que agora era “de marca”) e o tênis tornaram-se o uniforme do prefeito Zito. a calça jeans. senão mais simplório. que não sabia se expressar adequadamente em público (avesso à oratória política). Alto. na fabricação de sua imagem a preocupação com a manutenção do vínculo de pertencimento com os moradores de Caxias ficava explicitada na opção por um estilo. No dia a dia. forte. tirou o bigode e a barba estava sempre feita. afinal de contas seu ingresso na política foi justamente sob a construção muito próxima do líder marginal. um homem “que dava medo!”.

entre outros).ou imputada. O trabalho já citado nesta tese de Burke (op. quanto em relação à política mundial. para dissipar as distinções entre os partidos. A volatilidade eleitoral no Brasil é elevada (Nicolau. Braga. Dalton. [. a pertinência de se atentar para a problemática dos partidos políticos no Brasil. Zito conseguiu ampliar seu poder e prestígio políticos e ser intitulado o “rei da Baixada”. Segundo Kinzo (2005).] Graças a Deus não houve nenhuma vítima [durante a campanha]”. Só no século XX temos: Getúlio Vargas. 2003). nove milímetros. Tiro de verdade: de metralhadora. Washington Reis (PMDB) declarou ao jornal O Dia de 01/11/2004 que temia pela violência durante a campanha e também após: “Tomar muito tiro. de alguma maneira. 337 . tornando 328 Por exemplo. Não há dúvida de que uma das causas tem a ver com as transformações no ambiente eleitoral.. Luis XIV. Carlos Lacerda.. Referimo-nos ao impacto da era televisiva sobre a campanha eleitoral. a nosso ver. do lado de lá. Ameaça por total conhecimento que. a estrutura de incentivos sob as quais os atores políticos competem por votos contribui. as quais ocorreram em todas as partes do mundo. não foi suprimida ou relevada à segunda ordem em relação aos partidos políticos. o que resultou numa competição centrada muito mais em personalidades do que em partidos (Wattemberg. J. o adversário é mal e joga muito sujo. Nunca na vida pensei que um dia fosse preciso dormir de olhos abertos. A personalização da política. No caso brasileiro. diferentemente do que alguns autores chegaram a pensar. 1998. 2000). além do fato de o jogo partidário e a própria democracia serem instituições jovens. João Goulart. Kennedy. [.. O troca-troca de siglas partidárias realizado por Zito também foi sua marca. A força da “personalização"329 na política pode ser analisada a partir desta trajetória e reflete. seu adversário na eleição de 2004.cit..) traz como exemplo máximo o Rei de França. 329 Os exemplos sobre a “personalização da política” são inúmeros tanto no caso brasileiro. mas que figura entre as imagens difundidas sobre sua persona328) e a sua atuação como administrador. 1998 e 2000. De Gaulle. sendo um indicativo do que alguns autores consideram como instabilidade de nosso sistema partidário. Sua “fabricação” não se apoiou em qualquer filiação e seu discurso político não estava impregnado do discurso ideológico associado a partidos. ou ainda.] Agora começa a pior missão: mexer na casa de marimbondos.

Durante a campanha. Vale lembrar que nos anos em que ocorreram eleições nacionais – 1994. as taxas de preferência decresceram ao invés de aumentar. as estratégias utilizadas por candidatos e partidos para maximizar seus ganhos – em eleições para cargos executivos e legislativos.difícil a lealdade partidária. mas também torna nebulosa a disputa propriamente partidária. essa prática é concebida como uma relação entre indivíduos ou grupos a 338 . as propagandas eleitorais são conduzidas na afirmação e reificação desse tipo de referência. a situação de trabalho e a própria complexidade de nosso sistema partidário que disponibiliza poucas informações (ou não prioriza sua circulação) sobre os partidos. não conseguem fixar suas imagens junto ao eleitorado. Ou seja. sob os sistemas majoritário e proporcional – criam uma situação que não apenas estimula a personalização da competição. Se as escolhas dos eleitores são marcadas pela opção individualizante do candidato X ou Y e pouca referência se faz aos seus partidos. em alguns contextos. A despeito das valiosas observações de Kinzo sobre o sistema partidário brasileiro e da relação de identificação com o eleitorado. 1998 e 2002 –. a prática política só é um valor destituída (mesmo que relativamente e não de forma absoluta) de sua ideologia partidária. os eleitores estão expostos a uma disputa muito mais entre candidaturas individuais (quando não entre as alianças partidárias). quando se supõe que os partidos sejam referências importantes para o eleitor. o que dificulta a criação de identidades e conexões com os eleitores. o que torna improvável o desenvolvimento de laços fortes entre partidos e eleitores. Isto é uma clara indicação de que as campanhas eleitorais – tanto para os cargos executivos. Mais especificamente. como para os legislativos – não se centram nos partidos como atores distintos. não podemos descartar que além de questões estruturais como o baixo nível educacional da sociedade brasileira. Como os partidos têm menos visibilidade do que os candidatos.

partir de problemas-resoluções, não implicando necessariamente na constituição de um “pensar” democrático stricto sensu onde, nos termos da autora, “eleitores com um grau maior de comprometimento com valores democráticos são mais predispostos a ter um vínculo partidário”. Se na correlação traçada pela autora algumas hipóteses,

preferencialmente sobre o PT, são mais facilmente explicadas, não se tem a mesma situação em relação ao PMDB ou ao PSDB, por exemplo, principalmente no tocante à variável índice pró-democracia. Uma análise pautada exclusivamente sob a perspectiva partidária não poderia dar conta dos casos apresentados nesta tese. Em relação aos meios de comunicação, Zito passou de vereador com fama de matador e estilo “trator” a Rei da Baixada e foi, depois das derrotas em 2004, destronado. Sua imagem foi constantemente associada à violência, à corrupção e a desmandos políticos, exceção feita às matérias coletadas no período de 1999 e 2000 que enfatizavam sua administração à frente da prefeitura de Duque de Caxias e o prestígio e aprovação junto à população caxiense. Sua vida pessoal também foi levada à cena, mesmo porque Zito chefiava um dos principais clãs políticos da Baixada, colocando seus familiares em cargos importantes e conseguindo assim capital político para negociar em qualquer matéria política. Os conflitos familiares transformaram-se em desgaste político e o casal político mais famoso da Baixada enfrentou um período delicado em 2002. Apesar da reconciliação, Zito e Narriman não comungam mais dos mesmos ideais e cada um agora parece percorrer o seu próprio caminho, ao menos no mundo da política. Diferentemente, Andréia está com sua vida pública vinculada a de seu pai e passará nas eleições de 2006 pela prova de fogo assim como Zito. A desconstrução do Rei (da Baixada) abriu espaço para enfocar outras características de Zito. O seu “lado frágil”, do homem que, “igual a qualquer pessoa. Às vezes, [teve] tive 339

vontade de chorar e de ficar calado”, foi explorado por jornais como O Dia, por exemplo. A tentativa de apontar tais aspectos desembocaria na decretação do declínio político do ex-Rei e na situação de atual fragilidade política, apontada como conseqüência de um projeto político auto-centrado que preteriu alianças e acordos. O deputado Alexandre Cardoso, com uma relação antiga (de amor e ódio) com Zito, declarou ao jornal O Dia330 que “ele [Zito] mostrou fôlego ao dar 200 mil votos a seu candidato, mas tem pouca articulação política” e, complementando a reportagem, o deputado estadual Geraldo Moreira (PSB) afirmou que “não dá para sobreviver tentando ser hegemônico sem proposta ideológica”. Diante da derrota, aliados de Zito já anunciavam a possibilidade de debandar para o lado do prefeito eleito, já que para o funcionamento da política de vereadores as alianças com o executivo para a obtenção dos recursos e a manutenção dos cargos e acessos são decisivas. Com declarações como as que se seguem, vemos descortinar diante de nós a transitoriedade dos laços e acordos políticos. “Não tive a oportunidade de conversar com Zito. Mas votar pelos lindos olhos do prefeito eleito, não vou. Tenho interesses na minha região”, afirmou o pedetista, terceiro colocado em votos para a Câmara Municipal de Duque Caxias (com 7.511 votos), Chiquinho Grandão. Ou ainda Quinzé 100% Zito que, apesar da viculação explicitada no próprio nome, disse não esperar a derrota de Zito e estar “tonto ainda com a campanha, mas vou sentar com Zito para conversar”. Um dos aliados mais antigos também voltou-se para a rede do novo prefeito. Dr Heleno, assim como Zito (conforme demonstrado no capítulo 3), tenta suavizar a ruptura política com o ex-aliado e amigo dizendo que: “Moro em Caxias há 57 anos e estou em meu segundo mandato graças a Zito. Os anos de fidelidade foram
O Dia de 07/11/2004, matéria intitulada Rei em decadência. Eleição faz Zito perder domínio político da Baixada.
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maravilhosos e meu propósito era ajudá-lo a ser governador. Eu não queria ser candidato a prefeito na última eleição, mas muita gente me disse que, se eu tivesse na disputa, as coisas seriam mais difíceis para o Washington. Agora, seguindo um conselho do próprio Zito, resolvi andar com as minhas pernas.” (Jornal Extra, 27/01/2005) Zito, no entanto, demonstrou não estar morto politicamente. O convite de César Maia para integrar a sua equipe foi um indicativo de sua importância mesmo diante das derrotas sofridas. No entanto, a possibilidade de entrar no PFL foi desmentida com o retorno ao PSDB e ao ninho de seu principal aliado, Marcello Alencar. A mídia não o esqueceu e seu nome esteve estampado nos jornais mesmo após a sua saída da prefeitura de Caxias. As acusações de Washington Reis em relação a obras superfaturadas, aos acordos políticos ilegais ou à polêmica em torno do valor da aposentadoria de Zito garantiram espaço na imprensa. Como também o conseguiu em termos de exposição de seus novos projetos políticos. A afirmação, logo após a eleição de seu adversário, de que deixaria a política por algum tempo, não durou sequer um mês. 2005 foi o ano de re-construção e de busca por seu espaço. Na disputa, venceu o PSDB, partido onde protagonizou episódios de amor e ódio, ameaças de chantagens etc. O rei pode ter sido destronado, mas, ao que tudo indica, não foi morto. Jorge Gama aparece como contraponto. Advogado, preocupado com suas roupas, palavras e gestos, foi “treinado” por seu papel profissional ao condicionamento do corpo e a uma apresentação se não compatível ao menos socialmente esperada a quem pleiteia um cargo político. Segundo o próprio Weber (1971), discorrendo sobre as duas formas de exercer a política (viver “para a política” e “da política”), o advogado aparece como o “tipo” mais próximo do político, graças às suas “qualificações”, enquanto o capitalista seria o “mais

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disponível” e o homem de negócios assim como o médico e o operário estariam imersos em suas atividades. “Já motivados por pura técnica profissional, as dificuldades mostram-se menores no caso do advogado, o que explicita a circunstância de ele ter desempenhado, como homem político profissional, papel incomparavelmente maior e, freqüentemente, de realce.” (idem, p. 69, tradução livre) Jorge Gama teve desde o início de sua trajetória a marca do “bacharel”. Nos trabalhos de Gilberto Freire, principalmente sobre as transformações do patriarcado rural no Brasil do século XVIII até meados do século XIX, o papel dos bacharéis ganhou grande destaque. “A ascensão dos bacharéis brancos se fez rapidamente no meio político, em particular, como no social, em geral.” (Freire, [1936] 2002, p.602). Os bacharéis representavam ai a decadência do patriarcado rural e a ascensão de uma “aristocracia do sobrado”, do homem formado para a vida política. O prestígio do bacharel marcava então o triunfo de um outro tipo político: o homem da cidade331. Além do desencanto dos bacharéis formados em Europa de volta à casa também houve espaço para outros bacharéis, os mulatos e “morenos”. A despeito das idéias de “ajustamento social” de Freire (idem), a descrição do surgimento de um tipo político específico é interessante para pensarmos o papel e o prestígio dos “doutores” no imaginário social da política brasileira. Assim, a ascensão social de Jorge Gama e a constituição de sua persona se deu primeiramente pelo Direito, como “doutor” e, depois, pela política. Apesar de ter estudado em bons colégios (tanto públicos quanto particulares) e de seu pai ter sido um pequeno comerciante, Jorge nunca foi rico e durante as entrevistas só se auto-classificou em termos de classe social (“classe média”) após a concretização de seu vínculo profissional. Ser
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Para uma análise mais completa e detalhada sobre as questões acima levantadas, ver Parte 2, capítulo XI: Ascensão do Bacharel e do Mulato, do livro Sobrados e Mucambos.

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advogado marcou a sua vida e, talvez, tenha sido um dos fatores decisivos para a sua entrada no mundo da política. A construção de sua imagem pública sempre esteve permeada por esse vínculo. Desde sua atuação no início da carreira política junto aos movimentos sociais que lutavam pela moradia em Nova Iguaçu até os debates sobre o cerceamento de direitos durante a ditadura militar, não apenas era identificado como sua apresentação enfatizava tais características. Talvez por este motivo a mácula da acusação de “burlar a lei” através do envolvimento com compra de votos e da ligação com o jogo do bicho não pôde ser convertida. Se no concernente à imagem pública de Zito não havia uma incompatibilidade entre as acusações de ligações com o “mundo do crime” e a sua atuação como ator político legítimo, no caso de Jorge Gama, cuja imagem foi desde o início “fabricada” a partir da referência a outro repertório sociocultural, tal disjunção era necessária. Somado a tais fatores, Jorge Gama não dispõe hoje de um sistema de visibilidade apesar de escrever regularmente no Correio da Lavoura, que no entanto é um jornal de expressão apenas local. As novas configurações da política parecem apontar para a necessidade de um sistema de visibilidade mais amplo e mais flexível, que permita ao político acompanhar as nuances dos repertórios acionados por cada público, agora mais heterogêneo. Conforme gosta de se auto-denominar, a Jorge Gama sempre coube mais o papel de “articulador”. Como articulador entenda-se o “profissional”. Jorge não tentou qualquer mandato executivo, sua prerrogativa sempre foi o legislativo. Homem de partido, e de um só partido. Podemos dizer que, independentemente dos sucessos e fracassos eleitorais, manteve-se no mundo da política como ator legítimo durante todos esses anos. Em alguns momentos mais no ostracismo, e em outros impondo a sua presença. Porém, o mais importante, sua trajetória descreve a possibilidade de coexistência de um outro tipo de 343

político juntamente com o personalista, o político de bastidores, ou seja, aquele que inserido no campo político conhece suas regras e saberes específicos, domina uma certa linguagem, a sua burocracia, as “regras do jogo” (cf. Bourdieu, 1989). O período áureo de Jorge Gama foi da segunda metade da década de 1970 (primeiro mandato como deputado federal) até meados da de 1980 (à frente do PMDB durante o Movimento Diretas Já), no entanto, parece não ter sido possível a formação de um sistema de visibilidade próprio para um ator político da Baixada apartado das idéias dominantes que associavam a Baixada Fluminense à violência/ criminalidade. Se no caso de Tenório Cavalcanti, por exemplo, tal configuração foi possível, não se deve apenas ao fato de que possuía um jornal de grande circulação local (Luta Democrática) – sem tirar-lhe o crédito – ou às “benfeitorias”, mas também porque o repertório acionado por ele corroborava as imagens veiculadas sobre a Baixada e “seu povo”, exibindo para além das fronteiras locais um político exótico aos olhos da capital. Assim, a marginalidade da Baixada era reafirmada através da trajetória do Homem da Capa Preta, ao contrário da Baixada que Jorge Gama apresentava. Não desconsidero as ligações de Jorge Gama com políticos que se aproximam dessas práticas, mas ressalto que sua imagem estaria remetida a uma Baixada “classe média”, letrada, diferente da propagada pelos jornais através dos assassinatos, estupros e linchamentos. Jorge enunciava uma Baixada “fora de seu tempo”, só “descoberta” (pelos discursos autorizados) em meados da década de 1990. As três trajetórias escolhidas permitiram-me descrever acontecimentos políticos, o dia a dia de campanhas, e compartilhar os juízos de valor acionados sobre a política, a Baixada e seus atores. Também nos deparamos com as “fabricações” e “desconstruções” operadas pelos interlocutores desta pesquisa. Ponderamos sobre tais construções e percebemos que, mesmo durante jantares descontraídos e em conversas informais onde algo poderia ser 344

“revelado” a qualquer momento, ou nos momentos aparentemente mais espontâneos das entrevistas, a apresentação de si (do “eu” para Goffman) marcava uma “fachada”332. Não no sentido de uma “representação falsa”, mas como encenação legítima, mais ou menos planejada. Essa teatralidade é comum às interações sociais de outra ordem que não apenas a política. No entanto, o mundo da política traz a formulação da encenação enquanto técnica e seus atores são, em muitos casos, classificados de “falsos”. Em relação à composição das fachadas, a “falsidade” do político remete-nos à denúncia de sua “representação” enquanto enunciação de uma performance não autorizada. Assim, em Plenário, falar alto, gesticular; ou durante o tempo da política, responder vigorosamente a uma crítica ou “entrar numa briga” (a partir de um combate físico ou moral) são atuações possíveis nesses cenários. Os conflitos explícitos e que chegam as “vias de fato” fora do tempo da política, por exemplo, seriam impensáveis ou, quando acontecem, censurados e desautorizados (Palmeira e Heredia, 1997). Também encontramos alegações como “mentiroso”, que são comumente utilizadas frente à desconfiança que o mundo da política suscita. Refere-se, na maioria das vezes, à idéia difundida no senso comum, que constitui uma espécie de imaginário social sobre o político profissional, de que “promessa de político não vale nada”, ou de que “político é tudo interesseiro” etc. De acordo com Palmeira e Heredia (1997), a política opera uma linguagem de divisão, suspendendo o cotidiano e instaurado um outro tempo cujos limites são redefinidos e os conflitos colocados em cena.

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Goffman (1975) faz a distinção entre aparência e maneira para tratar da fachada pessoal. Aparência diria respeito “aqueles estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status social do ator” e a maneira os que “funcionam no momento para nos informar sobre o papel de interação que o ator espera desempenhar na situação que se aproxima” (p.31). Aqui, no entanto, trabalharemos com a idéia mais geral, enquanto um “equipamento expressivo”, congregando as duas formas.

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as idéias e julgamentos que formam. o clientelismo e coronelismo foram diversas vezes utilizados. é. A possibilidade de divisão. Se como categoria analítica seu uso foi aqui limitado frente à capacidade de aglutinar juízos de valor fora de 333 Para Goffman (op. cit. 161) As “chaves de leitura” (Goffman. pelo fato mesmo de representar uma ruptura do cotidiano. e aí os meios de comunicação têm papel de destaque. No cotidiano da política. Por outro lado. valores e explicações para o “mundo ser como é”335.) e Lattman-Weltman (2003). Nesse sentido. Figueiredo (2000). cit.10) seriam “definições da situação construídas de acordo com princípios de organização que governam os eventos – ao menos os eventos sociais – e nosso envolvimento subjetivo com eles”. 335 Sobre as especificidades de cada meio de comunicação e a relação com sua “credibilidade” e legitimidade.cit.. como construída discursivamente na expressão.] Essa funcionalidade da política não elimina o seu lado ameaçador. potencializada.) e as explicações sobre a política e os políticos podem ser enquadradas a partir da construção de crenças.pensada. consultar. assim como pelo senso comum) ora como parte de um repertório de acusações ao adversário político.” (idem. mas não exclusivo. A política ameaça. segundo Aldé (op.. cit. onde opinião pública . argumentação e defesa – seria mais um dos quadros de referência para que os atores sociais construam suas explicações sobre seu mundo334..“O medo da política e a rejeição dos políticos por parte dos excluídos ou daqueles nela inseridos segundo eixos outros que não o das disputas programáticas é patente. ora como fatores explicativos (no discurso acadêmico. op. as mídias fornecem elementos para a “formar da opinião” (Champagne. 1974) constituem a dimensão do enquadramento dos repertórios utilizados pelos atores sociais em sua leitura do mundo333.). consultar Aldé (op. por assim dizer. 334 Sobre enquadramentos que predominam na grande imprensa. [. pp. p. em primeiro lugar. concentrada num determinado período de tempo. a compreensão do mundo é dada pelas interpretações que as pessoas fazem desse mundo. 346 .

da política em geral etc. adaptando sua 336 Assim como o que Burke (op. um comunicador. à inovação trazida pelos direitos sociais implantados durante os períodos de ditaduras no país que acabou por gerar o que Carvalho (2001) chamou de “fascinação” pelo Executivo e que teria origens mais longínquas na tradição ibérica. Na equação política contemporânea. privilegia as conversas em detrimento do orador de tribuna (Abreu. op. cit. multimídia. palavras. ou seja. música. p. A valorização do Executivo em detrimento do Legislativo no Brasil deve-se. coreografias. ou seja. Os meios de comunicação não foram objeto desta tese. ações. podemos pensar em seus desdobramentos para a “personalização” da política. 347 . Se a centralidade desse poder foi buscada historicamente pelo autor. tiveram grande espaço como uma fonte de informação assim como quadro de referência privilegiado e como um dos “fabricantes” das imagens aqui trabalhadas: da(s) Baixada(s). música ou eventos multimídias. A sensação de intimidade. Piovezani Filho. principalmente. enquanto classificação e vocábulo da gramática política local não pode ser preterido. em parte. 2003).29) chamou de imagem viva. 2003. A transformação que as mídias operam na política é marcada pela sua “espetacularização”. Os monólogos longos foram aos poucos substituídos pelas falas curtas. no entanto. instaurando-se um outro estilo de retórica336. apoiada na tecnologia e nas novas mídias. de proximidade forjada por essa nova forma de retórica. Lindberg é o que mais próximo está desse novo tipo. a partir do incremento técnico dos meios de comunicação de massa a favor das campanhas eleitorais. dos atores políticos.cit. O político moderno é um ator social televisivo. a mídia de massa ganha espaço central.. Das três trajetórias analisadas. em despertar a atenção do público em um desencadear de acontecimentos (Courtine.seu contexto original. o todo formado a partir de imagens.). pela proliferação de imagens que compunham uma narrativa.

as reuniões nas “comunidades” além de pautar suas campanhas em sua atuação na administração municipal. 337 Na democracia de público.) aos estudos que encaram os meios de comunicação de massa enquanto atores políticos (Bourdieu. aproximando-se cada vez mais da figura do comunicador onde o político passa a ter uma relação diferente com o eleitor e seu voto já que a política passaria da esfera da verificação para a da credibilidade (Aldé. 2001). que teve no jornal Correio da Lavoura um espaço privilegiado para lançar suas idéias e críticas como também se fazer presente. Zito ainda utiliza bastante a “política de bairro”. “os candidatos se comunicam diretamente com seus eleitores através do rádio e da televisão. Mesmo os outros dois não se apartaram de tais transformações. 1997) até os que redimensionam a democracia a partir da comunicação de massa através do tipo ideal da democracia de público337 (Manin.imagem aos contextos e repertórios culturais. 1995. dispensando a mediação de uma rede de relações partidárias” (Manin. mas utilizou a Revista Magazine como propagadora de seus projetos.cit. Apesar de uma visão um tanto esquemática. Diversos autores trabalham o papel dos meios de comunicação e suas conseqüências políticas nas ciências sociais em geral. op. no Rio de Janeiro. Assim como Jorge Gama. 348 . deixando os demais como coadjuvantes. No entanto. 26). talvez. desde estudos de recepção e audiência (Eco. de fato. o autor lança um modelo (tipo ideal) interessante para pensarmos a prática política. Lindberg foi quem protagonizou as principais cenas nos embates políticos durante 2004 na Baixada e. 1995) cuja relação entre política e comunicação é re-considerada e o status do político vem se alterando. p.

um algoz do pensamento político (Novaro. visto que os arranjos. reforço seu papel quanto à apresentação e não estritamente à prática política. ele pesa sobre todos os campos da produção cultural.. E. 1988). essencialmente a televisão. da irracionalidade do voto ou ainda da mídia como. a televisão surge como um dos principais formadores da opinião pública e da homogeneização da informação (Bourdieu.” (Bourdieu. opera na política uma virada na ordem dos problemas. consultar Aldé (2000) e Godoi (2001). Sargentini. enfatizando a vida pessoal do político.cit. levantam outras questões que serão 338 Sobre a relação entre política e televisão e sobre concessões a emissoras de rádio e TV depois de 1988. mexericos e transformando-o em um entertainer. Entretanto. op.. os meios de comunicação (incluindo também o marketing político) e seus atores não podem ser desconsiderados frente às novas modalidades da apresentação política. coligações etc. “O campo jornalístico age. 81) O enfrentamento entre pessoas (idem) privilegiado pelos meios de comunicação. Aldé. op. p. cit. ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial. op. 349 . A despeito de visões como a da esterilização do debate político (Sennet.Nesse contexto. através do peso da televisão sobre o jornalismo. da mesma maneira. da esfera pública para o terreno do público-privado. que pouco a pouco deixam que problemas de televisão se imponham a eles.. alianças.. através do peso do conjunto do campo jornalístico. Através da pressão do índice de audiência. impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos. enquanto campo. de alguma forma. 1995) ou de uma nova esfera de poder – a vídeo-política (Satori. ele se exerce sobre os outros jornais. o peso da economia se exerce sobre a televisão. op. cit. sobre os outros campos. 2003)338. e sobre os jornalistas. Abreu. mesmo sobre os mais ‘puros’. Em outras palavras. 1989). e.cit.

classe 12ª. 350 . com o caixa dois ou ainda com os benefícios aos partidos e atores políticos melhor capitalizados (quer com dinheiro próprio. quer com dinheiro de aliados) e com mais acessos. A influência da mídia é inegável. mas ela não se dá apenas na vídeo-política stricto sensu. Assim. O papel dos políticos e da mídia. como bonés. chaveiros assim como a realização de showmícios. 107.158. A transversalidade da Baixada nos colocou diante de três trajetórias que problematizam os questionamentos tradicionais sobre a política. a fabricação de imagens. a formação da opinião pública. assim como os gastos terão que ficar disponíveis na Internet. As concepções que a definem como propriedade perdem-na como paisagem e processo. E os debates sobre cidadania restringem-se então a procedimentos e dispositivos. As doações terão que ser efetuadas em cheque cruzado e nominal ou transfência eletrônica. TSE. instrução no. os projetos políticos individuais e coletivos foram alguns dos aspectos abordados nesta tese. 339 A Mini-reforma Eleitoral com validade para 2006 proibiu a distribuição de brindes.. A tentativa de localizar seu poder tornalhe fugaz. com a proibição dos showmícios e limitações à gravação de programas eleitorais nos dão uma amostra do quão refém das mídias (da vídeo-política. A pressuposição de que o controle sobre o aparato tecnológico voltado para as propagandas eleitorais e para os showmícios nos colocará no caminho reto da democracia pode nos conduzir a conclusões precipitadas assim como a idéia que a gerou. a lógica do atendimento. camisetas. Consultar Resolução 22. A possibilidade de manipulação das imagens e falas acabou reduzida a uma série de regras que supostamente acabariam com a corrupção. A multiplicidade de focos e engrenagens leva-nos a pensar nas relações. os acessos.tão ou mais decisivas para o mundo da política e para pensarmos as relações de poder dependendo de contextos específicos e configurações de força. a mudança da legislação eleitoral para 2006. por exemplo) uma parcela considerável acredita que estejamos339. ficando proibida doação em dinheiro.

cotidianas e nas percepções e produções e não em uma (suposta) essência ou atributo. também nos deparamos com questões mais gerais como os sentidos da cidadania e da democracia. os políticos aqui apresentados eram vizinhos. o que apontamos agora pode ser alterado no espaço efêmero do findar da frase. mas que diante de suas singularidades eram sempre pensados em relação. bacharéis. As questões levantadas referiram-se aos universos estudados. esta tese se encerra como mais um olhar para as relações políticas na Baixada Fluminense. ídolos. interesseiros. Assim. Na tentativa de entender a dinâmicas das relações e práticas políticas locais. incitando novos olhares e perspectivas. A apreensão dos repertórios acionados e a busca por dar conta da heterogeneidade e complexidade de mundos que se interpenetram não é exclusividade do mundo político da Baixada e esses atores também não estão circunscritos apenas a tal mundo. O poder não tem essência. reis. matadores. mas podem apontar algumas alternativas para comparação. Não nos predispomos a fazer previsões. Estudar as práticas e as trajetórias políticas coloca o pesquisador em uma delicada situação. amigos. 351 . forasteiros. oportunistas. Assim. é operacionalizado na política (entre outros) e só nos afeta enquanto relação. engajados. Colocar o ponto final parece então impossível. mas acabamos por nos colocar frente a arranjos dinâmicos de forças e posições e.

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“Baixada Fluminense”. S. Geografia/USP (Tese de doutoramento). Consórcio Administração de Edições.ROCHA. Maria Therezinha. Origem e trajétoria do movimento amigos de bairro em Nova Iguaçu (MAB) – 1974. TAVARES (da Silva). O novo quadro da política fluminense: administração pública e representação política no Rio de Janeiro pós-fusão. Duque de Caxias. SOUZA. Os grupos de extermínio em duque de Caxias – Baixada Fluminense. in: Revista FEUDUC/CEPEA/PIBIC. CPDOC. Marlúcia. “A construção do poder local em Duque de Caxias”. 2. ano I. SOUZA. Rogério e MENEZES. 1998. PPGAS/MN/UFRJ (Dissertação de mestrado). Duque de Caxias. Instituto histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto. n. Jorge Luiz Rocha da. In: Pilares da História. Josinaldo Aleixo de. abril-jun. Niterói.1. Do terreiro ao samba: um estudo sobre memória e trajetória social na Baixada Fluminense. Percival. Carlos Eduardo. SILVEIRA. 1994. SOUZA. Hidra de Iguassú. In: Revista Brasileira de Geografia. Marlúcia S. 2000. 24. no. maio. VIANA. “Imagens da cidade de Duque de Caxias”. Nova Iguaçu. Sonegação. 374 . SOUZA. ano III. no. Julio César da Silva. 1998. 1955. 4. câmara Municipal de Duque de Caxias. 1998. Ano I. Zeni. Sonali Maria de. 1997.1. 1999. Revista Memória. TORRES. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. absorção de uma célula urbana pelo Rio de Janeiro. no. História/UFF (Dissertação de mestrado). São Paulo. Porto de Caxias. Newton. UFRJ. SOARES. SARMENTO. ROSENDAHL. Espaço sagrado da Baixada Fluminense. Sociologia/IFCS/UFRJ (Dissertação de mestrado). TORRES. Fundação Getulio Vargas. Da laranja ao lote. Rio de Janeiro. abril. 2004. fome. “Memória ferroviária de uma cidade”. saque. Transformações na estrutura fundiária do município de Nova Iguaçu durante a crise do escravismo fluminense. Rio de Janeiro. no. (1993). 2000. 1992. Jorge Luís. Transformações sociais em Nova Iguaçu. Rogério. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 1987.

ANEXOS 375 .

TABELA 1 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM. SEGUNDO O SEXO. PARA O BRASIL.668 MASCULINO 5.562 1.143 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO SEXO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 86 6 - TOTAL 5.577 FEMININO 418 90 SEM 1 1 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. 376 .

549 536 60 anos ou mais 622 233 SEM 39 15 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO IDADE BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 8 36 37 11 - TOTAL 5. PARA O BRASIL.668 Até 29 anos 123 17 De 30 a 39 anos 1.040 260 De 40 a 49 anos 2.189 607 De 50 a 59 anos 1.562 1.TABELA 2 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM. SEGUNDO A IDADE. 377 . Banco de Dados Municipais (IBAMCO).

063 328 9 LÊ E ESCREVE 93 30 157 SEM 57 22 INFORMAÇÃO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. SEGUNDO O GRAU DE INSTRUÇÃO. PARA O BRASIL. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.668 92 SUPERIOR 2.562 1.687 446 30 FUNDAMENTAL 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).TABELA 3 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO GRAU DE BRASIL REGIÃO ESTADO DO INSTRUÇÃO SUDESTE RIO DE JANEIRO TOTAL 5.662 842 52 MÉDIO 1. 378 .

Banco de Dados Municipais (IBAMCO).57 5.43 15.27 11.69 AGRICULTOR 9.32 COMERCIANTE 11.17 2.96 2.70 7.26 7.70 ADVOGADO 4. 379 .30 ENFGENHEIRO 3.96 8. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO OCUPAÇÃO (%) BRASIL (%) REGIÃO SUDESTE (%) ESTADO DO RIO DE JANEIRO (%) 80.85 7.51 5.61 3.02 69.17 2.22 ESTADUAL PRODUTOR 2.61 3. 3.33 3.22 11.46 PROFESSOR 1º.47 MÉDICO 7.82 GRAUS SERVIDOR PUB 3.13 EMPRESÁRIO 6.TABELA 4 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA O BRASIL.04 SENADOR/DEP/VEREADOR FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.44 7.15 2.92 MUNICIPAL PECUARISTA 3.09 APOSENTADO 2. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.94 4.26 2.61 PREFEITO 5. SEGUNDO AS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES.72 3.39 3.80 9.61 7.12 AGROPECUÁRIO ADMINISTRADOR 2.52 TOTAL 68. E 2º.84 SERVIDOR PUB 3.17 6.

35 8.17 2.91 6.26 PFL 14.14 4.70 PL 6.62 9.17 PT 7.61 PP 9. PARA O BRASIL.27 45.89 7.35 PPS 5.35 FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.59 7.98 95.78 PTB 7.29 12. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).66 21.06 17.43 PV 4.45 4.82 3. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO REGIÃO ESTADO DO SUDESTE RIO DE (%) JANEIRO (%) TOTAL 94.73 4.35 PSB 3.50 4.34 PSC 5. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.39 9.65 PSDB 15.15 2.65 PMDB 19.59 9.98 PDT 5.TABELA 5 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARTIDO POLÍTICO BRASIL (%) 380 .92 95. SEGUNDO OS PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS.

TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.562 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).531 ESTADO OUTRO 8874 125 11 ESTADO SEM 26 12 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.TABELA 6 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. SEGUNDO O ESTADO DE NASCIMENTO. 381 .662 1.668 MESMO 4. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO ESTADO DE NACIMENTO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 81 TOTAL 5. PARA O BRASIL.

894 30.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .949 22.733 45. TURNO LINDBERG Votação por Zona Eleitoral .673 63.860 43.Município (NOVA IGUACU) .489 59.733 40.380 44.Última atualização em: 07/03/2006 .Cargo (PREFEITO) .558 45.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: 2º turno (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 84 157 159 156 67 82 27 158 250 82.554 42.1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .144 35.Município (NOVA IGUACU) .640 38.64 Situação: 2º turno 382 .940 46.654 20.741 56.651 40.875 32.919 52.278 48.881 38.704 36.805 52.583 74.Cargo (PREFEITO) .415 43.034 42.284 31.625 32.700 14.388 27.006 33.295 29.510 41.713 13.366 10.673 50.902 15.006 33.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 1º.974 40.583 74.235 50.875 35.Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 82 158 27 250 156 67 84 157 159 38.079 48.128 11.640 34.201 14.290 15.841 38.704 45.366 40.805 52.462 13.760 67.640 82.903 49.388 35.974 35.776 42.415 43.489 59.839 15.1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .956 22.235 30.096 MÁRIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .940 20.894 63.760 67.Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .355 14.Última atualização em: 07/03/2006 .651 36.192 23.625 27.964 13.

632 40.Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB Zona Eleitorado 159 157 84 67 27 156 250 158 82 67.008 40.475 30.831 48.615 51.673 40.095 43.264 64.641 64.036 52.453 52.287 47.651 50.982 32.340 383 .740 59.419 44.640 45.254 22.583 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 28.733 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 52.Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .446 32.Última atualização em: 07/03/2006 .2° turno UF (RIO DE JANEIRO) .760 82.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: Eleito Zona Eleitorado 250 67 158 82 27 156 159 157 84 36.632 40.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 2º.733 45.617 37.053 35.947 24.654 34.327 48.378 14.600 19.982 34.704 38.673 43.400 11.055 62.413 25.537 56.Cargo (PREFEITO) .037 62.046 15.134 13.415 67.622 17.660 16.641 64.419 14.651 50.Município (NOVA IGUACU) .640 40.981 37.587 14.954 18.Município (NOVA IGUACU) .446 33.134 33.Cargo (PREFEITO) .760 82.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .870 35.056 55.2° turno UF (RIO DE JANEIRO) .235 74.475 30.654 25.415 36.897 Situação: Não eleito LINDBERG FARIAS Votação por Zona Eleitoral .633 59.Última atualização em: 07/03/2006 .655 51.746 41.103 19.583 43.740 59.036 28.235 74. TURNO MARIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .581 27.704 38.

tse.FONTE Tribunal Superior Eleitoral 2004 Consultado no site: www.br 384 .gov.

Presidente. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem.Em discussão a matéria.ORDEM DO DIA Requerimento 490/2001 Informações Básicas Sessão: Ordinária Autor do Documento: Maria Lameira/ALERJ Data da Criação: 03/10/2001 __________________________________________________________________ 11:27 Data da Sessão: 03/10/2001 Hora: __________________________________________________________________ Texto da Ordem do Dia O SR. onde a pessoa assassinada havia feito uma queixa-crime com relação à Deputada Núbia Cozzolino. O SR. ANDRÉIA ZITO – Peço a palavra pela ordem. quero dizer que tenho um documento em mãos. PRESIDENTE (José Cláudio) . A SRA. de autoria da Deputada Núbia Cozzolino. Sr. Não havendo quem queira discutir.. Deputada Andréia Zito. ou pelo menos na maioria das vezes. mas acho que a Mesa deve avaliar essa questão. sempre voto favoravelmente às CPIs. como todos os Deputados já devem ter observado. nem o Deputado Júnior do Posto. sobrinho do ex-prefeito de Magé. Gostaria de solicitar que nem eu. 385 . A SRA. nem a Deputada Núbia Cozzolino fizéssemos parte dessa Comissão. que cria Comissão Especial para acompanhar as investigações sobre o assassinato do jornalista Mário de Almeida Coelho Filho. tem a palavra a Sra. Sou totalmente favorável à CPI. ANDRÉIA ZITO (Pela ordem) – Sr. Sei que a questão é a CPI.. O SR. sou favorável à CPI.Pela ordem. da 65ª DP. Pela lógica.Anuncia-se a discussão única do REQUERIMENTO 490/2001. Presidente. porém. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . por analogia. acho que é uma questão razoável de averiguarmos. Sr. Deputada Andréa Zito. Neste caso. mas o Artigo 34 do Regimento Interno determina o seguinte: “Fica impedido da participação como membro da Comissão Parlamentar de Inquérito o deputado que tenha envolvimento com o fato determinado a ser apurado”. Presidente. PRESIDENTE (José Cláudio) .

O SR. NÚBIA COZZOLINO – Não tem eu cortar a palavra! Por que não vou falar?! O SR. quando um membro do Judiciário está envolvido em determinado problema. A SRA. PRESIDENTE (José Cláudio) . NÚBIA COZZOLINO – V..O SR.Vai cortar a palavra porque V.Exa. pela ordem. Presidente. Sr. para que possamos esclarecer em tempo hábil essa situação. O SR. A SRA. falará depois. Deputado Sivuca. A SRA. NÚBIA COZZOLINO – Não senhor! Eu fui acusada e quero o direito de resposta! O SR.Exa. PRESIDENTE (José Cláudio) . Presidente. e aprovado pelo Plenário.Exa. nesses termos. terá o direito de falar pela ordem. Os Senhores Deputados que aprovam a matéria permaneçam como estão.Exa. solicito também o adiamento por duas Sessões para que possamos discutir com mais tranqüilidade. para discutir! Eu fui citada. (Pausa.. V. A SRA. Por analogia. Presidente.Em votação o pedido de suspensão por duas Sessões.Pela ordem. A SRA. está se excedendo. PRESIDENTE (José Cláudio) . tem o dever legal de argüir a própria suspeição e não presidir. e a exemplo do pedido do Deputado José Távora.Já foi suspensa. SIVUCA (Pela ordem) – Sr. O argumento lançado pela Deputada Andréia Zito é válido. tem a palavra o Sr. Esse assunto já foi adiado por duas Sessões. peço a V. eu fui acusada aqui! O SR. NÚBIA COZZOLINO – Peço a palavra para discutir. Exa. Deputada Núbia Cozzolino.Eu pediria que cortasse a palavra da Deputada Núbia Cozzolino. em hipótese alguma.Exa. A SRA. Depois V. Foi colocado em votação. A Presidência não vai dialogar com V.V. PRESIDENTE (José Cláudio) . O SR. não foi acusada. Não podemos permitir que pessoas envolvidas num problema participem de determinada Comissão. Sendo assim. observei a ponderação da Deputada Andréia Zito. PRESIDENTE (José Cláudio) . para futuros esclarecimentos. NÚBIA COZZOLINO – Fui acusada de que o jornalista fez uma denúncia de ameaça de morte! Todo mundo aqui ouviu! E ela está faltando com a verdade! Eu não tenho interesse no processo . Exa. não me deixou falar! 386 . NÚBIA COZZOLINO – Sr. que a matéria seja suspensa por duas Sessões.) Aprovado. PRESIDENTE (José Cláudio) . a pedido.

Ozan. a Deputada Cidinha Campos e outros Deputados que são isentos. Isso por quê? Porque eu levava o funcionário todos os dias em casa. portanto. O Zito tem uma condenação e 28 processos. os três minutos a que tenho direito. dizer que eu tenho interesse! Sr.Está garantida. eu não tenho um inquérito e ele tem 28 e todos com relação a homicídio. Eles faltam mais uma vez com a verdade. até porque a família Cozzolino nunca teve nenhum envolvimento em homicídio. nunca teve um inquérito de homicídio. 387 . em primeiro lugar quero dizer à Deputada Andréia Zito que não solicitei CPI.Exa. tudo bem. gostaria que V. não sou eu quem tem interesse. Agora. lá tem um vereador que o aprova e ele tem interesse em entrar em Suruí. Presidente. Agora. Em momento algum fui acusada. nunca foi condenada. Ela tem interesse. eu tinha dito 23 mas. inclusive. Em terceiro lugar: não sou a pessoa interessada porque o acusado foi o segurança dela. Em segundo lugar. O SR. e a pessoa que está presa foi a mesma pessoa que foi na Casa do meu funcionário. O Deputado Sivuca tem interesse porque. ele estava lá com certeza. Enquanto a Família Cozzolino governou Magé. quinta-feira passada. PRESIDENTE (José Cláudio) . quero lembrar ao Plenário desta Casa que o segurança do tio dela.Exa. e nunca foi acusada. Então. revendo.O SR. se o problema para aprovar a Comissão é eu estar na frente. matou uma pessoa no Rei do Bacalhau. O jornalista falou isso há dois anos mas não disse que eu tinha acusado. vereador não foi assassinado. tocaiando vendo a hora que eu chegava para fazer uma covardia comigo. um outro segurança. à Deputada Núbia Cozzolino. que não tem nenhum interesse. quem tem interesse é ela. A SRA. e ela faltou com a verdade aqui quando disse que o jornalista disse que eu tinha ameaçado ele de morte. dizer que um jornalista nunca me acusou de ameaça de morte. Presidente. Quem tem interesse são eles. pela ordem. Todo mundo sabe que ele está aliado com ele. solicitei Comissão Especial. me esperou o dia inteiro e eu tenho testemunha que é o Sargento Gilmar esperando o dia inteiro. eu nunca fui acusada de homicídio. aqui tem Deputados que são isentos como o Deputado Chico Alencar. Eu respeito isso. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Sr. Sr. É mentira. A SRA. PRESIDENTE (José Cláudio) . Nunca fui acusada de nada. vi que são 28 processos e eu não tenho nenhum processo de homicídio. Todo mundo no Rio de Janeiro sabe que o Zito mata. NÚBIA COZZOLINO . evidentemente. garantisse a minha palavra. Citou meu nome porque tinha rivalidade política. NÚBIA COZZOLINO – Sr. Todo mundo sabe que hoje ele está aliado com o Prefeito Zito. se não me engano. Agora. jornalista não foi assassinado. A SRA. O SR. Isso é uma posição do Deputado Sivuca. JOSÉ TÁVORA – Peço a palavra pela ordem. Presidente. tem o direito de falar pela ordem . quando esteve na Secretaria de Segurança. A Presidência concede a palavra. Todo mundo sabe que ele acompanhou o Prefeito Zito.V.A Família Cozzolino governou Magé por vários anos. Presidente.

O SR. Tânia acusa o Prefeito Zito. PRESIDENTE (José Cláudio) – Pela ordem. Deputado Sivuca. conclua. em absoluto. Quero tranqüiliza-la. SIVUCA (Pela ordem) — Sr. assim como está envolvida a Deputada Andréa Zito. onde a Deputada Núbia Cozzolino poderia estar presente até para relatar o que vem ocorrendo. Deputada. Eu estou indignada com o Ministério Público que depois daquele depoimento nada fez contra o Prefeito de Caxias que sempre sai imune e quem foge são as vítimas como fugiu a mulher do Carlão que veio a essa Casa. em determinados casos. A SRA. Tânia e muito mais preocupada eu fiquei depois que li todos aqueles crimes dos quais a Dra. Eu trouxe a essa Casa o depoimento da Dra. mas para esclarecer a Sra. Deputada. Presidente. por favor. porque já existem as Comissões Permanentes exatamente para tratar de matérias pertinentes. Presidente. um por cabeçada. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE). O SR. são supérfluas. e esta é uma delas. quem foge são as vítimas. A senhora está extrapolando. Sr. outro esquartejado. Ela não sabia disso. como todos respeitaram V. A SRA. Presidente. Presidente. A verdade é a seguinte: essas Comissões Especiais e as Comissões Parlamentares de Inquérito. tem a palavra o Sr. Deputada Núbia Cozzolino. deu seu depoimento e depois teve que fugir do País e todo mundo sabe disso. Eu apenas entendo que a Sra. O SR. conclua. com o objetivo de por fim a essa discussão. A senhora está exaltada. Deputado Sivuca. PRESIDENTE (José Távora) – Sra. Sr. que foi citado. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem. por estar envolvida com o problema. O SR. Prossiga. respeite o orador. procure o Departamento Médico. PRESIDENTE (José Cláudio) — Deputada Núbia. A razão que eu pedi o adiamento não foi com a finalidade de prejudica-la. O SR. Exa. A SRA. 388 . seu tempo está esgotado. que não leva a lugar algum. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Só para terminar. O SR. Ela não sabe que a chefe do meu gabinete sofreu um atentado antes de ontem. Deputada Núbia Cozzolino. SIVUCA (Pela Ordem) – Sr. e isso quem fala é um Promotora Pública. ele continua no mesmo lugar. lembro que sou o Presidente da Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia. PRESIDENTE ( José Cláudio) – A Presidência informa a V. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Os bandidos do morro estão expostos à polícia. não apenas pela citação. O SR. Ela não alcançou o que eu pretendia dizer. que seu tempo está esgotado.Exa. no caso do Zito é diferente.

que tem condição de fazer política com a força do trabalho e que é de uma família com tradição na política de Magé. mesmo porque ela é do meu partido. mas do povo. Sempre admirei o trabalho da Deputada na área social. Sr. WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Ela é mal-educada. Daqui a pouco ela vai falar que aquele avião que derrubou as torres gêmeas nos Estados Unidos foi enviado pelo Zito. O SR. o Prefeito Zito e a politicagem da Baixada Fluminense. Presidente. mas. Ela precisa se comportar direito. por duas sessões. Ela está colocando a culpa no Prefeito Zito por tudo o que está acontecendo. ficar aqui calado vendo a Deputada falar inúmeras mentiras. Estamos tratando de um assunto que conheço — sou da Baixada Fluminense. mas entendo que a Deputada Andréa Zito não pode participar dessa Comissão e vou além. e está falando de forma injusta. pelo que estou vendo. e porque não podemos deixar que a individualidade venha usar o plenário desta Casa para se autopromover. para que possamos. insisto. que eu quero dizer. Presidente. que ela sabe que o são. infelizmente. O Deputado Sivuca colocou bem que a Deputada Núbia Cozzolino não tem condição de participar por vários aspectos que não-somente por estar envolvida. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE) O SR. O SR. Por essa razão. porque o que estamos ouvindo aqui são coisas seriíssimas. do palco das discussões — consideraria uma traição —. a Deputada está usando isto para fazer politicagem. Sr. de forma alguma. mas até por não ter equilíbrio. está despreparada para exercer a função de Deputada. porque quer fazer política dessa forma. Deputado Washington Reis. trabalhadora. gritando. O SR.Não quis. não posso compartilhar. fazendo escândalo. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) — Pela ordem. o Deputado Júnior não pode participar dessa discussão. WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Sr. Sr. a Assembléia Legislativa está navegando e daqui a pouco irá desembocar num mar de lamas. Ela que é competente. Se não me quiserem aceitar. A Deputada tem tido um comportamento horroroso aqui. PRESIDENTE (José Cláudio) — A matéria é vencida. também. 389 . adie. pois sou uma pessoa acessível. Presidente. Ela perdeu porque quis. de Duque de Caxias. discutir este projeto. também entendo e cedo o espaço. Presidente? Porque a Deputada está com ódio no seu coração por ter perdido a eleição em Magé. Conheço. porque esta Casa não é dela. agora. A SRA. Sabe por que isso. já foi adiada. WASHINGTON REIS — Peço a palavra pela ordem. só não quero é ser mal interpretado. num clima mais calmo. tem a palavra o Sr. Está na hora da senhora manter o equilíbrio. eu também abro mão — porque a minha chefe de gabinete foi vítima de uma atentado —. alijar a Deputada Núbia Cozzolino. como membro da Comissão. Infelizmente.

porque vou pedir para ampliá-la e investigar o comportamento da Sra. Fez uma CPI para apurar. PRESIDENTE (José Cláudio) – Só falta pedir para a Sra.. NÚBIA COZZOLINO – Ele tem que defender mesmo! Por causa da nacional.. Deputado Washington Reis. NÚBIA COZZOLINO – Prova! Prova! O SR. que irá apurar a ética dos Srs. foi aprovado na Mesa Diretora a nova Comissão de Ética. um neurologista.... Deputada.. Exa.. Presidente. se Deus quiser. Peço a V. O SR. WASHINGTON REIS – A Sra.. O SR. em abrir CPI de. Deputada nas CPI’s.. O SR. nesta Casa. WASHINGTON REIS . O SR.. Deputada Núbia Cozzolino.. Tem que procurar um neurologista.evasões fiscais e saiu extorquindo empresários. O SR. porque ela não está no terreiro da casa dela. Deputada Núbia Cozzolino respeite. a Sra. falou 390 . PRESIDENTE (José Cláudio) .. Ontem. peço que V.Sra. Presidente. PRESIDENTE (José Cláudio) . NÚBIA COZZOLINO – Nacional. rasguei muitas vezes. O SR. por favor. Por que não usa esta Casa onde temos que trabalhar. Sr. Deputada.... Exa conclua. Respeite o Deputado que está ao microfone.Sr. Exa.Deputada não tem sabe se comportar. A SRA. WASHINGTON REIS – Sr.. está fazendo. para melhorar. A SRA.Sra.para falar na tribuna. A Deputada tem um passado triste. O SR. Eu mesmo. aqui. Deputados. Exa.. para que. PRESIDENTE (José Cláudio) . PRESIDENTE (José Cláudio) . O SR.....Sra. O SR. continuar com esse comportamento vou ter que pedir para que se retire do Plenário. no Plenário.respeite o orador Sra. É mal-educada. WASHINGTON REIS . Por isso. porque a senhora trabalha.. peço ao Sr..O Deputado André Luiz e o Presidente foram muito felizes quando sugeriram que a senhora procurasse um médico. enquanto eu estiver nesta Casa. PRESIDENTE (José Cláudio) . Deputada não tem equilíbrio. que inclua o meu nome nessa Comissão. se retirar. WASHINGTON REIS – Ela não tem credibilidade alguma. essa Deputada terá que respeitar o Parlamento e os Deputados. O SR. A Presidência não vai aceitar mais o que a Sra. da mesma forma como V.. A SRA.. se V.

tem a palavra a Sra. Muito obrigada. PRESIDENTE (José Cláudio) . Deputada Núbia Cozzolino. Mas temos que fazer isso de uma forma isenta. O SR. Exa. Deputado Sivuca. A SRA. foi. no Plenário desta Casa. peço que o publique no Diário Oficial. mas também com todos os meus colegas desta Casa. Sr.Pela ordem. Sempre procurei ter uma política de boa vizinhança com ela. A SRA. rapidamente. Sempre relacionei-me muito bem com a Sra. e gostaria que V. Isso não é bom para a Assembléia e nem para que se apure o caso. PRESIDENTE (José Cláudio) . estou muito chateada e lamento profundamente o que está acontecendo. A SRA. hoje. Porte-se como Deputada. Deputada Núbia Cozzolino. Exa. Deputada Alice Tamborindeguy. acho de bom tom nenhuma das pessoas envolvidas participarem da Comissão. quando propõe que as pessoas envolvidas no caso não sejam membros dessa Comissão Especial. Então. Deputada Núbia Cozzolino está se excedendo e se emociona profundamente quando fala no assunto. quase cinco minutos. A guerra política está tomando conta do cenário. A SRA. concedido. Não vou aceitar mais isso. ALICE TAMBORINDEGUY – Peço a palavra pela ordem.A Presidência já deferiu o pedido de V. Porém. O SR. (A Deputada faz uma leitura) Está aqui. estou percebendo que isso está virando uma guerra política.e foi respeitada. 391 . Sr. Exa. ALICE TAMBORINDEGUY – Vou lê-lo nesse momento. Esse depoimento. realmente. Devemos apurar. O SR. Gostaria de ler aqui o depoimento que esse cidadão fez antes de morrer. Presidente. Porém vejo que a Sra. Presidente. Temos que apurar a morte desse cidadão. A Presidência lhe concedeu três. Presidente. ALICE TAMBORINDEGUY – Obrigada. Acho uma sugestão ponderada a do Sr. Sra. PRESIDENTE (José Cláudio) . autorizasse a publicação. assim como a de qualquer pessoa que morre da mesma maneira.Está deferido o pedido de V. ALICE TAMBORINDEGUY (Pela ordem) – Sr. diante dos fatos expostos neste Plenário.

interessa aos estudantes que estão hoje ocupando a galeria desta Casa.) O SR. 392 . Sr. Logo após. Temos ainda um Projeto na Ordem do Dia. Deputado. DOMINGOS BRAZÃO – Peço a palavra pela ordem. inclusive.Pela ordem.A Presidência acata o pedido de V. O SR. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . O SR.O SR. mas sem pressão de nenhum dos lados. Exa. Presidente. e vai prosseguir na pauta. gostaria de fazer um apelo à Presidência: que volte à pauta. PRESIDENTE (José Cláudio) . Gostaria que a Presidência não mais permitisse que tal fato ocorresse e se ativesse à pauta. Deputado Domingos Brazão.Sr. tem a palavra o Sr. (Palmas nas galerias. o qual. darei pela ordem a qualquer Sr. DOMINGOS BRAZÃO – A autoridade competente deve ter tranqüilidade para apurar os fatos com transparência. Presidente. Esse assunto já foi por várias vezes motivo de intervenção de pauta nesta Casa. DOMINGOS BRAZÃO (Pela ordem) .

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