UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL MUSEU NACIONAL

CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

Rio de Janeiro Julho de 2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto
Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social.

Aprovada por: ____________________ Presidente: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho ____________________ Prof. Dr. Moacir Gracindo Soares Palmeira (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Prof. Dr. Antônio Carlos de Souza Lima (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Profa. Dra. Karina Kuschnir (PUC – RJ) ____________________ Profa. Dra. Alzira Alves de Abreu (CPDOC – UFRJ)

Rio de Janeiro Julho de 2006

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Barreto, Alessandra Siqueira. Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense/ Alessandra Siqueira Barreto – Rio de Janeiro: UFRJ/ MN, 2006. xi, 392f.: il; 31 cm. Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho Tese (doutorado) – UFRJ/ Programa de Pós-Graduação/ Museu Nacional, 2006. Referências Bibliográficas: f. 352-374. 1. Baixada Fluminense. 2. Política. 3. Trajetórias 4. Eleição 5. Processos de identificação. 6. Projeto. I. Velho, Gilberto Cardoso Alves. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. III. Título.

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SUMÁRIO Resumo............................................................................................................................6 Abstract............................................................................................................................7 Agradecimentos................................................................................................................8 Introdução........................................................................................................................11 Capítulo I. Versões e Proposições...................................................................................25 Capítulo II. Jorge Gama: o articulador (ou visionário?) de uma Baixada......................64 Capítulo III. Zito: da Baixada para o mundo................................................................127 Capítulo IV. Lindberg: do mundo para a Baixada........................................................200 Capítulo V. Sobre o tempo da política na Baixada: entre festas e guerras...................267 Considerações finais: Construindo (e des/ re-contruindo) reis, ídolos e bacharéis......320 Bibliografia Geral..........................................................................................................352 Bibliografia sobre Baixada Fluminense........................................................................370 Anexos...........................................................................................................................375

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RESUMO Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense Alessandra Siqueira Barreto Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Esta tese visa, a partir da apresentação de três trajetórias de políticos que atuam na Baixada Fluminense, apreender os sentidos e as imagens acionadas sobre este “lugar” e em que medida se relacionam com os projetos políticos em questão. Ao apresentar as possibilidades de se construir a categoria Baixada, as práticas, os discursos e os projetos políticos são pensados como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas (assim como as espaciais), enfocando o estatuto adquirido pela política no que tange à enunciação desta multiplicidade. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – o Zito e Lindberg Farias são apresentados como algumas das faces da política local. Através de suas trajetórias, buscamos compreender os processos de interação e de trânsito dos atores políticos entre os diversos repertórios e universos socioculturais, dando destaque aos conflitos e alianças que tornam possíveis seus projetos, acionando diferentes imagens sobre Baixada em negociações cotidianas entre atores e agências. Os atores políticos são pensados então como enunciadores-políticos que, ao lhe conferirem sentido, reinventam-na.

Palavras-chave: Baixada Fluminense, Política, Trajetórias, eleição, Processos de identificação, Projetos políticos.

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ABSTRACT Political Cartography: the faces and phases of Baixada Fluminense’s politcs Alessandra Siqueira Barreto Adviser : Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

This PhD Dissertation inquires into the political career of three politicians from the Baixada Fluminense so as to understand the extent to which their political projects relate to the meanings and images commonly associated to this “place”. While presenting the possibilities of constructing the category Baixada, the practices, discourses and political projects are conceived as operating the movements of expansion and contraction of the symbolic (as well as of spatial) borders, with a specific focus on the status held by politics in regard to the enunciation of this multiplicity. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – Zito and Lindberg Farias are pointed out as some of the local politics’ faces. Through their trajectory, we seek to understand the processes of interaction and the passage of political actors through the various repertoires and socio-cultural universes, while outlining the conflicts and alliances that make their political projects possible as they trigger different images of the Baixada in their daily negotiations. The political actors are here thought as political enunciators that reinvent the Baixada while signifying it.

Key-words: Baixada Fluminense, Politcs, Social Trajectory, Election, Political Projects.

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À minha família devo a sensibilidade. jamais precisarei caminhar sozinha. finalmente chega ao fim. seja por seu bom humor. Particularmente à minha mãe. 8 . E como na dádiva maussiana. a mim mesma e aos outros. ele se fez presente com conselhos e atitudes amigas. de quem herdei o “gosto pelo mundo”. que eu me veria diante da missão de escrever outras tantas páginas. pois mais do que alguém que simplesmente ensina. seja por seu rigor. utilizar-me-ei de generalizações e sentimentos. Todos – meu orientador. A escrita prazerosa. meu orientador. receber e retribuir não se encerra nessas linhas. como no ato imediato de um ponto final. que doa. que sentimos uma mescla de dever cumprido e de certa sensação de vazio. devaneios) entre a (sua) matemática e a (minha) antropologia um caminho para estar sempre próximo. Por isso. bons e ruins. funcionários. que por mais que tenha sido eu à frente de uma tela em branco a escrever as páginas que aqui estão. Estar agora agradecendo a quem compartilhou comigo todos esses momentos. que também incluo aqui como “da família”. Ao menos desta etapa.AGRADECIMENTOS É neste momento ritual. a obrigação de dar. e a meu pai por buscar na construção de diálogos (por vezes. mas por vezes irritante e angustiante. pois foram tantos que me apoiaram. autores — foram co-partícipes nessa empreitada. o afeto e a confiança. que é alguém com quem poderei contar sempre e que mesmo finda esta etapa. entrevistados. aqui é a hora e o lugar para dizer: obrigada. Afinal de contas. cada qual a seu modo é claro. Ter compartilhado com ele esses quase oito anos me fez perceber. Nomear parece injusto. Agradeço a Gilberto Velho. elas foram produzidas em conjunto. professores. amigos. é ter a oportunidade de lembrar. família.

A Zito e Andréia Zito por terem dispensado algumas horas de seus dias em entrevistas. Fernanda Piccolo. sempre bem humorado e disposto a ajudar. Sandra Costa. principalmente. Vicka. Lygia Sigaud. PTB e PMDB que se dispuseram a conversar comigo. Bugre. Patrícia Delgado. com quem compartilhei ótimos momentos. Luis Cláudio e Marcelo (Secretaria). Roberto e Miguel (Cantina) por se colocarem sempre como amigos. pela água gelada compartilhada em dias de caminhadas políticas. Afonso (Contabilidade). aqui representados por Fernando. A Roberta Ceva que compartilhou comigo alguns momentos de tensão durante esta tese e. José Sérgio Leite Lopes. agradeço carinhosamente e também àqueles com os quais convivi durante meus dias de Quinta: Adriana Facina. Álvaro e Marcelo (Informática). À Gisele e Thamara que me auxiliaram durante um período da tese. Sua dedicação e amizade foram mais que “assistência de pesquisa”. pelos papos bem humorados e pela recepção sempre cordial. 9 . por ter me recebido por vezes seguidas. Assim como a Antônio Carlos de Souza Lima e Karina Kuschnir que acompanharam o processo de “fabricação” desta tese. A Isabel. Pedro Alvim e Marcelo.Aos amigos de toda uma vida. Aos moradores anônimos da Baixada pelas conversas de portão. dispostos a tornar mais simples meus problemas cotidianos. Giralda Seiferth. Cristina Patriota. Andréa Moraes. fazendo entrevistas com moradores. Certamente você foi responsável por tornar a leitura dessas páginas bem mais agradável. Carla e Cristina (da Biblioteca). A todos do PT. Rogéria. os quais não nomearei por excesso de cuidado. Aos professores que jamais esquecerei: Moacir Palmeira. Jackiele. Renata e Michele. por seu apoio indispensável na edição deste trabalho. Agradeço igualmente a Jorge Gama. acompanhando-me em caminhadas e eventos políticos. coletando dados. Federico Neiburg.

Aos já bons amigos que fiz em meus dias nas Gerais. 10 . Deise. Christy e Karen. especialmente. um agradecimento especial. Simplesmente por me fazer desejar ser sempre melhor. Você é indispensável na minha vida e os dias em que posso estar contigo são sempre ensolarados. À Vitória que traz em seu nome a marca de quão querida e desejada é. pela compreensão em meus dias de fúria. agradeço ao CNPq que me concedeu bolsa durante os dois primeiros anos de minha tese neste Programa. por me amar sem limites. pela infinita paciência diante de minhas réplicas e tréplicas. Sérgio. A Juarez Humberto. Aos seus breves sorrisos entre choros e sonecas. Por fim.Aos colegas da UFU. Obrigada pelas leituras durante as madrugadas. Lilia.

o que pretendo elaborar aqui pode ser. Não havia. transferido o meu título de eleitor até a eleição de 2004. ainda. muito mais como moradora e observadora da Baixada Fluminense e somente mais tarde como questão sociológica propriamente dita. intermináveis. Os trilhos que levavam à Central do Brasil. às vezes incluído como o último município da Baixada. de forma mais ampla. Era uma forma de participar da vida da cidade de uma maneira ou de outra. de certa forma. deuse não apenas porque meus pais. As idas e vindas pareciam-me. O destino: o Rio de Janeiro. um outro. em um primeiro momento. sem que se notasse precisamente seus limites. É difícil precisar quando exatamente comecei esta etnografia. mas também porque sempre mantive algum vínculo de identificação com a localidade. pensado como uma cartografia (ainda que breve) da política na Baixada Fluminense. de alguma maneira. A política sempre permeou meus interesses. Apenas reconheço que fiz uma opção consciente 11 . que autorize o meu discurso ou. A manutenção de meus laços com Paracambi e com a Baixada. Afinal. Não que isto me torne uma “nativa” (se é que posso classificar-me desta forma). que me coloque em posição privilegiada. às vezes. O movimento era uma prática constante e uma exigência iminente.INTRODUÇÃO Começo com um mapa da viagem. Acho importante refletir. A Rodovia Presidente Dutra era um de meus caminhos habituais. sobre o fato de que nasci e morei até os 15 anos de idade em Paracambi. por exemplo. município localizado a 80 km do Rio de Janeiro. outros parentes e alguns amigos ainda moram por lá. marcou os meus dias durante muito tempo. A visão cotidiana e repetitiva das cidades que se sucediam.

em pequenos diálogos. As inúmeras viagens operavam. cidade onde nasci e fui criada. em algumas situações. descortinavam-se diante de mim outras tantas Baixadas que eu não conhecia e. transformei-me numa pesquisadora em trânsito. parecia que todas se faziam uma só: “Aqui na Baixada é assim mesmo!” “Você não tem cara de Baixada!” “Se você é de 12 . cada paisagem. A partir da pesquisa de campo. Tudo me parecia fora do lugar. conhecidos e estranhos viravam interlocutores. o Rio de Janeiro. morei por dois anos e trabalhei por quatro e Paracambi. festas e chuvas. Nova Iguaçu. Não se trata. de repente.de transformar em objeto algo que fazia parte do meu cotidiano. Novos lugares e novos sentidos. amigos dos amigos. assessores e eleitores. O “movimento” foi parte constitutiva do meu cotidiano antes e durante todo o processo do doutorado e as pessoas que conhecia foram peças-chave para que esta pesquisa se desenvolvesse. múltiplo. “marketeiros”. nativos e mediadores. Eu mesma estava fora do lugar. foram mesmo contraditórios. Os tropeços foram intercalados por conversas com motoristas de vans e moradores em filas de ônibus. políticos em campanha e outros que delas já desistiram. de uma etnografia multi-situada (Marcus. De repente. Outro aspecto de meu “trabalho de campo” foi o trânsito entre “meus diferentes mundos”. heterogêneo e perpassado por outras formas de pertencimento e processos de identificação que. agora. cidade na qual estudei quando adolescente. Cada dia era novo e cada fala. um desejo de conhecer e desvendar a “casa”. Os amigos. tendo antes a pensá-la como multi-referenciada. 1995). caminhadas e a procura por elas. mais especificamente e geograficamente. portanto. onde residi de 1994 até 2004 (com alguns intervalos). cada cidade me exigia mais e mais. A própria alteração em meu status me fez redirecionar o olhar.

O “trabalho de campo” tornou-se a partir de então referência e marco para a antropologia. a partir de projetos diversos e. mas também ao fato de que este “lugar” estaria em processo constante de construção. fundado por Malinowski a partir de sua pesquisa na Melanésia. informando um novo fazer etnográfico. Minha opção pelo recorte socioespacial da Baixada Fluminense não se deve apenas à sua classificação como área periférica. Não retomarei aqui a discussão sobre uma suposta imparcialidade — já exaustivamente abordada pelas ciências sociais — tampouco aquela relativa à possível interferência da proximidade (espacial e/ ou sociocultural) do pesquisador que opta pelo estudo no mesmo universo de que faz parte — questão explorada e problematizada por Velho (1980 e 1981) e Velho e Kuschnir (2003). no entanto. sabe do que estou falando”. Estas foram apenas algumas das falas “roubadas” de seus contextos e registradas aqui no intuito de expressar distanciamentos e acolhimentos que fizeram parte de minha vivência. conflitivos (dentre os quais os projetos políticos analisados nesta tese).Paracambi. muitas vezes. deu-se a partir do trabalho realizado para a conclusão do curso de mestrado. algumas trajetórias de políticos da Baixada Fluminense (assim como a de situá-los nas redes de que fazem parte). mais especificamente. mais especificamente nas Ilhas Trobriand (1922). Eu não segui o modelo tradicionalmente instituído pela antropologia clássica. Esta dissertação tratou da articulação — entendida em termos amplos e não restrita à articulação partidária — de uma associação de moradores em um bairro carioca. o 13 . algumas observações sobre as condições de realização de minha pesquisa. Farei. marginal e estigmatizada ou ao lugar secundário que ocupa na historiografia da política regional. A decisão de estudar a política e. tendo na figura de seu presidente.

mas as relações sociais dentro do próprio bairro) (Barreto. entre eles de pastores protestantes como Albion Small.mediador e porta-voz autorizado para lidar com o problema da eminente construção de um túnel urbano (que reconfiguraria não apenas o espaço físico. a partir desta dupla inserção dos atores escolhidos. continuaram a exercer influência entre diversos pesquisadores preocupados com as cidades e com sua própria sociedade. A origem do que se convencionou chamar Escola de Chicago foi o Departamento de Sociologia e Antropologia que funcionou entre 1892 e 1929. 1967 [1921]). o desvio. 1918-1920). Voltei-me então para a idéia mais geral motivadora de minha entrada no doutorado: a Baixada Fluminense. Wirth (1967 [1938]). Hughes (1971a e 1971b). nos estudos da Escola de Chicago1 1 A Universidade de Chicago foi criada em 1892. Ao ingressar no doutorado. Os trabalhos produzidos pelos pesquisadores da Escola de Chicago. Becker (1967 e 1973). A passagem para uma antropologia das e nas cidades fomentou debates e buscou novas opções para lidar com os objetos produzidos a partir desse “encontro” do pesquisador com sua própria sociedade e da exigência de se constituir uma outra alteridade. 14 . o mundo empresarial da região. procurei unir dois interesses primordiais: a política e a Baixada. Este estudo insere-se na área que se convencionou chamar Antropologia Urbana. apesar das variadas experiências que originaram. tentando pensar as relações entre a política e o mundo empresarial. Wirth (1928). Meu projeto inicial consistia em analisar as trajetórias de dois políticos locais. a segregação socioespacial (Park (1967 [1916]). referindo-se antes a estudos marcados por influências diversas. no entanto. mais ainda. 1967 [1902]) e. logo se mostrou um tanto complicada devido à dificuldade — quase impossibilidade — de acessá-los e. no entanto. com o apoio obtido da Fundação Rockfeller e a partir da atuação de diversos intelectuais. Seja nos trabalhos que enfocavam a cidade como objeto (Weber. Burgess (1928). pela interdisciplinaridade e que. o estilo de vida urbano. Tal empreitada. 2001). Em 1929 o Departamento foi desmembrado e os pesquisadores se dividiram entre as duas áreas. A Escola de Chicago não configura propriamente uma “escola” em termos de uma referência teórica específica. as carreiras. Becker (1977 e 1982). também empresários. tiveram em comum a cidade e os grupos urbanos como objetos de estudo. passando por aqueles que procuravam dar conta das especificidades estabelecidas pelo novo ritmo das metrópoles (Simmel. finalmente. Entre seus principais temas e autores encontramos: a integração e imigração (Thomas e Znanieki.

com marcada influência dos trabalhos supracitados. por quê? A política surgiu. O trabalho de Foote Whyte (2005 [1943]) é exemplar para pensarmos a constituição da pesquisa com grupos urbanos. o estigma e as performances (Goffman (1975 [1959]. Becker (1990). A partir desta afirmação. Sobre a Escola de Chicago. como Donald Pierson em São Paulo. ainda que de forma incipiente. A amplitude de meu recorte e minha proximidade com o universo pesquisado foram os primeiros obstáculos enfrentados para a realização desta pesquisa. fundamentalmente pelo intercâmbio entre pesquisadores de Chicago. 1974 [1961]. a metodologia de trabalho empregada. com a possibilidade de me fazer presente o maior tempo possível. afinal de contas.me sobre meu recorte.que consagraram as pesquisas em meio urbano. p. Sobre as experiências e diálogos de pesquisadores brasileiros e franceses com os pesquisadores de Chicago. minhas escolhas e meus dados. como uma tentativa de tornar possível tal empreitada bem como de estabelecer algum tipo de estranhamento. como seria possível contemplar o objetivo inicial de entender a multiplicidade de imagens e interpretações sobre este “lugar”? Provavelmente. 284). então. Como enfrentar a Baixada Fluminense? E. pelos trabalhos desenvolvidos por Gilberto Velho e seus orientandos. Esses autores tiveram papel de destaque na produção antropológica brasileira. as reuniões. Mas se a escolha recaísse sobre a análise da trajetória de um único político. além do próprio lugar ocupado pelo pesquisador. influenciando toda uma geração de cientistas sociais e. em parte. seria um trabalho mais minucioso que me permitiria acompanhar pari paso o dia a dia do político. consultar Bulmer (1986). “As idéias crescem. no Rio de Janeiro. 1969). Impacto de uma tradição no Brasil e na França. gostaria de debruçar. 1975 [1963]. organizado por Valladares (2005). consultar o livro A Escola de Chicago. 15 . como resultado de nossa imersão nos dados e do processo total de viver” (idem. a heterogeneidade e a complexidade dos grupos sociais e das interações foram se impondo frente às transformações por que passavam as cidades em todo o mundo. as alianças.

2 Retomarei tal questão no capítulo 3 desta tese. descreveriam não apenas as práticas políticas locais como trariam à tona tal multiplicidade de formas de identificação e de constituição das diferentes Baixadas. Acabei optando. Ao tentar definir o lugar dessas práticas e discursos. em seguida. após recorrentes tentativas. privilegiando as narrativas construídas por políticos que.O segundo problema surgia justamente daí. então. O critério adotado para a definição dos nomes a serem abordados nesta tese passou a ser a possibilidade de acionarem imagens diversificadas sobre a Baixada — e sobre o fazer político local — e não somente aquelas remetidas às idéias de violência. quais trajetórias deveriam ser selecionadas? E por quê? Desde o início. no entanto. por intermédio de seus projetos individuais e na medida em que possibilitariam ou não a constituição de projetos coletivos. a aproximação com tal político mostrou-se dificílima2. por recomeçar de outra forma. Tentei. Se uma única trajetória não era suficiente para pensar na multiplicidade da Baixada a partir das práticas políticas locais. a meu ver. criminalidade e assistencialismo. Logo em seguida. montar um pequeno quadro de referência sobre repertórios e imagens mobilizados. enfoquei o estatuto da política no que tange à enunciação da(s) Baixada(s). 16 . eu estava decidida a abordar o caso de Zito. visto que se encaixava exemplarmente no perfil do político-empresário e tinha sua imagem pública constantemente associada a uma representação da Baixada condizente com os noticiários jornalísticos dominantes na década de 1980. procurando abordar os projetos políticos como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas e espaciais do que se convencionou chamar Baixada Fluminense.

O prefeito chegou às 9horas. busquei imediatamente um possível mediador. Cheguei antes das 8 horas e fiquei aguardando na sala de espera onde também estavam mais quatro pessoas que desejavam uma audiência com o prefeito (uma enfermeira. não invadir o mundo da política. Minha condição de ex-moradora e os laços desse tipo de pertencimento foram. Nesta primeira entrevista. André Ceciliano. Este acesso foi facilitado porque já nos conhecíamos de Paracambi e. após as inúmeras negativas que recebi da equipe de Zito.Achei adequado. uma mulher de aproximadamente 45 anos que era representante de uma associação de moradores e dois moradores de bairros da periferia). Logo em seguida. mas tentar entrar como convidada. Na reformulação do projeto inicial. Conversamos por mais de duas horas e. A entrevista foi marcada para o dia 15 de setembro de 2003. aproximadamente. naquele momento. Sendo assim. para meu ingresso nesse universo. em seguida. quando por fim me decidi a estudar as relações políticas locais. decisivos. conversamos sobre sua trajetória política. em seu gabinete na Prefeitura. Meu primeiro contato foi com o então prefeito de Paracambi (pelo PT). resolvi recomeçar a pesquisa entrevistando outros prefeitos da Baixada. todo mundo se conhece”. André tornou-se um interlocutor e mediador fundamental. Levou apenas dez ou quinze minutos neste “atendimento” e logo me mandou entrar. que a agendou para a semana seguinte. solicitou à secretária que me pedisse para aguardar um pouco pois atenderia a enfermeira para. portanto. responsável por um projeto junto à Secretaria de Saúde. falar comigo. 17 . às 8h30min. seus projetos – entre os quais a reeleição – e também sobre a Baixada – sobre imagens veiculadas pela mídia. segundo um ditado comum nas cidades pequenas. em 2003. Meu primeiro passo foi telefonar para a prefeitura de Paracambi e marcar uma entrevista com a secretária de André Ceciliano. “em cidade pequena. a partir daquele momento.

“de olho”. o grande nome do partido para as eleições de 2004 seria o de Lindberg Farias e que ele. E foi neste mesmo dia que. certamente. Mesquita. Japeri e Paracambi. ficou evidenciada a ligação de André com Lindberg Farias. pesquisando a maioria dos municípios da Baixada Fluminense — ou seu núcleo mais conhecido. apesar do alvoroço em torno de Narriman.” Contou-me sobre sua relação com Lindberg e alertou-me que ficasse “ligada”. Belford Roxo. problemas estruturais. constituído por Duque de Caxias. já estava acompanhando a articulação da campanha para a reeleição de Mário Marques — eleito vice-prefeito de Nova Iguaçu em 2000. Resolvi partir dos executivos municipais em seu cotidiano. André me garantiu que. Nova Iguaçu. principais agências etc. ainda não havia decidido por que políticos “recortar” a Baixada. Queimados. com potencial e não entra pra perder. Realizei diversas entrevistas com prefeitos. Ele é um cara com carisma.violência. mas percebi que seria inviável trabalhar com todo o material coletado de forma adequada. resolvi definir as trajetórias políticas a serem abordadas. tendo assumido o cargo quando Nelson Bornier elegeu-se deputado federal nas eleições de 2002 — junto a quem permaneci pesquisando até o final da eleição de 2004. “Você pode anotar isso: o Lindberg vai ganhar essa eleição em Nova Iguaçu. fato este que provocara grande repercussão no partido e também na imprensa. Ao mesmo tempo. Após algumas conversas e ponderações de meu orientador. escolhendo entre nomes diretamente envolvidos com os novos 18 . Naquele momento. personalidades políticas e empresários. Nilópolis. Na ocasião. já que seu marido era ninguém menos que o polêmico Zito). pois ele iria “dar o que falar”. a partir de uma pergunta sobre os novos nomes do PT para a Baixada (referindo-me mais explicitamente a Narriman Felicidade que há pouco havia ingressado no PT. São João de Meriti. venceria a eleição.

no entanto. Concentrei meus esforços em três personalidades políticas. Até então. os outros dois foram Jorge Gama e Lindberg Farias. pela especificidade da vida pública e pelas imagens e projetos de Baixada suscitados por esses atores — como procurarei demonstrar ao longo desta tese. mesmo sem conseguir dele me aproximar. Lindberg Farias. e por sua “sobrevivência política”. cit. cada qual mantendo uma relação bastante singular com a região. Entretanto. mas contei com a colaboração de diversos (e valiosos) informantes ativos (em contraposição à sua idéia de “informante passivo”). Dentre eles. fui engolida pelos acontecimentos políticos que tiveram início no fim de 2003. como se a tese ganhasse vida própria. guardavam alguma similaridade: seus projetos políticos tinham a Baixada Fluminense como locus privilegiado. A opção por Lindberg deveu-se ao fato de. Zito foi um dos escolhidos. Durante a pesquisa não tive a sorte de deparar-me com um Doc como Foote Whyte (op.rumos que a política na Baixada poderia tomar. Os três perfis aqui analisados são bastante contrastantes. André Ceciliano foi o primeiro. intensificando-se nos primeiros meses de 2004: a entrada em cena de um político outsider. 19 . pela importância política. mas posteriormente estabeleci uma relação similar com Pedro Cezar (o PC. a eleição não seria objeto de análise deste trabalho e as movimentações e a organização do dia a dia das campanhas políticas não constava de meus planos de investigação. permitiram-me contrapor os estilos e as atuações desses atores sociais que. em um determinado momento da pesquisa. A escolha de Jorge Gama explica-se em grande medida por seu papel central na política da Baixada.). O pertencimento a distintos partidos políticos e as carreiras de rumos diversificados. Tal escolha justifica-se. de forma geral. desde os anos 1970. termos sido confrontados a uma situação inusitada. mesmo estando há muitos anos sem mandato legislativo.

A peculiaridade do objeto e do tempo que cada político dispunha para estar comigo obrigavam-me a criar alternativas ao “contato o mais íntimo possível” — bem como o fato de estar morando em outro estado. desde agosto de 2004. Desde 2003. O “estilo” de pesquisa adotado me possibilitou trabalhar com abordagens e técnicas diversas. televisionados e on line) foram fontes 20 . Eles não se contentavam em informar-me. as entrevistas e conversas com políticos.. consistia no fato de que. Em face da opção por conduzir o estudo a partir de três trajetórias específicas. ao mesmo tempo em que a minha presença poderia ser problemática e desconfortável (as conversas deveriam ser “controladas”.. op.). exigiam que eu me posicionasse. não trabalhei com histórias de vida ou estudos de caso. a escolha das palavras mais cuidadosa. suas opiniões sobre “a política” e sobre “a Baixada”. Assim como Foote Whyte. a publicação de um artigo. cit. 305). Na maioria das vezes. os jornais (impressos. p. particularmente sobre a política na Baixada.). Além da pesquisa bibliográfica sobre a Baixada Fluminense. de um livro etc. a todo momento. os nomes muitas vezes omitidos. pessoas a eles ligadas e moradores foram realizadas como forma de penetrar aos poucos no “mundo” da política local. com Jorge Gama e com Kayo (assessor de comunicação de Lindberg Farias). eu procurava esquivar-me de temas delicados e de “questões melindrosas”.. emitindo. Foote Whyte. também significava que a trajetória pública destes homens despertava interesse — e quem sabe minha aceitação poderia ser capitalizada (como o foi e tratarei disso mais adiante) em alguma visibilidade (nota em jornal.assessor de comunicação de Mário Marques). no entanto. mas a “conversa” era o instrumento por intermédio do qual se dava a aceitação e a justificativa para a minha interferência inoportuna (cf. O reverso da moeda.

inicialmente. como fonte de informações que traduz interesses próprios. Extra. Além dos jornais mencionados. Jornal do Comércio. dos jornais cariocas O Globo e Jornal do Brasil. 21 . juntamente com os moradores dos municípios da Baixada e com pessoas diretamente ligadas aos políticos. motoristas. assim como sítios eletrônicos de partidos políticos e páginas pessoais de alguns políticos na Internet.privilegiadas de análise. mesmo porque a imprensa (em suas diversas modalidades) foi trabalhada como um “informante” identificado. Já que não haveria como mapear as relações de cada ator analisado e entrevistar/ conversar com pessoas que acompanharam tais trajetórias. Lindberg Farias e Zito até o momento imediatamente posterior à eleição de 2004. Revista Veja. Estado de Minas. O Dia. em seguida. ou seja. majoritariamente. Entre o staff de cada um. Também foram consultadas atas de sessões da Assembléia Legislativa que diziam respeito a algum acontecimento marcante para os políticos escolhidos. englobando o início da década de 1980 até o final de novembro de 2004. Jornal de Hoje. utilizei os meios de comunicação — mais do que como fontes — como informantes mesmo. Revista Isto É. também realizei pesquisas on line — cujas buscas foram realizadas pelos nomes dos políticos e/ ou da Baixada Fluminense em periódicos e semanários diversos até o fechamento desta tese: Folha de São Paulo. Também foram entrevistados secretários de governo. por assunto. os assessores de comunicação foram privilegiados. Não houve nesta abordagem qualquer intenção de mensuração quantitativa. Nesses dois recolhi todas as matérias publicadas sobre Jorge Gama. com eles sendo realizadas entrevistas formais. pelo político mencionado e. As matérias coletadas provêm. Gazeta Mercantil. As matérias foram classificadas. ou por vínculo profissional ou por familiar e de amizade.

restaurantes. casas. candidatos às Câmaras Municipais. corredores. só puderam ser construídos a partir da aproximação com meus interlocutores. aos poucos. com o mundo da política na Baixada tornou-se instigante e prazeroso. Elas aconteceram em locais diversos: gabinetes. comprar algo) como parte de uma “vivência de campo”. qualquer hora era hora. ainda que. ora como moradora-pesquisadora. ou ainda só como pesquisadora ou só como (ex-)moradora. A suposição (ou presunção) de um domínio sobre as distâncias processadas caiu por terra. o que implicava em transformar minhas “idas e vindas” à Baixada (para encontrar amigos. Alguns deles solicitaram que eu desligasse o gravador em alguns momentos da entrevista.fotógrafos de campanha. encontrando o meu lugar — não definido apenas por mim e pela idéia inicial de que eu poderia “controlar tudo”. bares. alguns políticos próximos a Jorge. assim preservava-se o “clima de conversa” — nenhum dos meus interlocutores tendo demonstrado qualquer constrangimento diante de meu pedido para realizar a gravação. coloquei-me como etnógrafa em tempo integral. ir a um restaurante. mais ou menos duradouro. Nesses movimentos de “abertura” e “fechamento” fui. carros etc. para que a informação pudesse ser dada “em off”. Apesar de não residir em um dos municípios da Baixada durante o período da pesquisa. mas também pelas pessoas com quem fui me relacionando e que me classificavam ora como pesquisadora-moradora. eu me cobrasse um certo distanciamento e alteridade que. e. curiosamente. Como eu estava sempre “armada” com meu gravador. festas. e o convívio. Além das entrevistas. diversas outras situações e conversas informais colaboraram para minha “imersão nos dados”. 22 . às vezes. Minha familiaridade com lugares e pessoas não se revelou um empecilho à pesquisa. quando possível. Optei por entrevistas abertas e gravadas. Lindberg e Zito.

Destaco apenas que nenhuma delas fez qualquer objeção ou restrição ao uso de seu nome. 23 . à primeira vista. Tal fato deve-se à tentativa de — juntamente com apontamentos sobre as práticas políticas e as imagens acionadas sobre a Baixada — seguir os acontecimentos no tempo. apresentam-se como antagônicas. à primeira vista. foram alterados visto que em função quer das informações. em grande medida. procurando apreender as formas como a política é por eles entendida e vivenciada. além dos projetos políticos de cada um. por vínculos profissionais e/ ou pessoais. inicio a tese com uma síntese (no primeiro capítulo) de algumas considerações a respeito de como a categoria Baixada Fluminense vai sendo formada e transformada ao longo do tempo. Adianto que não foi este o objetivo. Nos três capítulos subseqüentes. abordo os trabalhos mais recentes que lidam com a Baixada e com a multiplicidade de suas construções: de historiadores. deputados e moradores de um município recém-emancipado. que minha escolha por três políticos (as faces) que ainda atuam na vida pública justifica-se. Já os nomes dos moradores e de pessoas ligadas aos políticos. pode parecer marcada pelo recorte cronológico. no entanto. A partir dessas classificações. A construção da tese implicou em uma ordenação dos capítulos que. Zito e Lindberg Farias. por acreditar que as fases da política na Baixada podem coexistir em situações que. a partir dos discursos dos diferentes atores e agências sociais em jogo. músicos. quer de suas opiniões. na medida em que traduzem repertórios culturais diversificados e distintas possibilidades para se pensar o “lugar” em diferentes contextos. Enfatizo. decidi-me por mantê-los em função do caráter público das trajetórias abordadas.A respeito dos nomes. respectivamente. Sendo assim. vereadores. exponho as trajetórias de Jorge Gama. enfatizando as imagens e discursos acionados sobre a Baixada. estariam expostas a constrangimentos e algum tipo de retaliação.

O quinto e último capítulo focaliza o tempo da política na Baixada — tomando como base as eleições de 2004 — sintetizado nas idéias da festa e da guerra. Por fim. mencionamos algumas considerações sobre a construção dos sistemas de visibilidade e do papel dos meios de comunicação para se falar de política e de cidadania nas sociedades contemporâneas. privilegiamos de um lado.Pensando essas trajetórias como interligadas a redes políticas mais amplas. a dimensão conflituosa das contendas eleitorais e das disputas entre projetos políticos diferenciados. uma estrutura específica de visibilidade e da relação políticoeleitor propiciada pelos showmícios e. Desse modo. buscamos compreender os sentidos atribuídos à política e a suas práticas e a relação entre os projetos individuais e coletivos. 24 . de outro.

juntamente com as cidades do Rio de Janeiro. Com uma população de mais de 3 milhões de habitantes4.370. Magé e Guapimirim (desmembrados em 1990) possuem características que os singularizam frente aos demais municípios.290.890 eleitores. Niterói e São Gonçalo. matizar tal abordagem a fim de pensar o “lugar” de cada um na Baixada. Por este motivo. de acordo com o Quantitativo de Eleitores de março de 2005. De acordo com dados do Censo 2000 do IBGE. Japeri e Mesquita)5. como construção simbólica. a configuração mais ampla da região (da qual me utilizo)3 abrange 13 municípios — Itaguaí. a Baixada tem como núcleo os municípios de Duque de Caxias. Belford Roxo. 1990. São João de Meriti e Nilópolis). Queimados. Os municípios de Itaguaí. divulgado pelo TSE. Nilópolis e Nova Iguaçu —este último tendo sido historicamente desmembrado em quase todos os demais que hoje compõem a região. 25 .508 habitantes e. Não há consenso quando o assunto é Baixada Fluminense. 1947 (de Duque de Caxias). Belford Roxo. Mesmo não sendo o objeto da maioria destes estudos. São João do Meriti. 1950:166). no entanto. Duque de Caxias. Nilópolis. a temática em questão figura. sua delimitação ainda permanece algo polêmica. Hoje. a Baixada Fluminense — com a configuração acima exposta — teria 3. Procurarei. Apesar de hoje já contarmos com um número mais expressivo de trabalhos sobre a região. Seropédica (desmembrados em 1997). 1990. formam a Região Metropolitana do Rio de Janeiro ou o Grande Rio. cabem aqui algumas considerações iniciais. por meio das emancipações que tiveram início na década de 1940 (Duque de Caxias. Magé e Guapimirim — que. Seropédica. Japeri. as últimas tendo ocorrido na década de 1990 (Belford Roxo. São João de Meriti. entre as 3 4 As razões desta escolha serão explicitadas ao longo deste capítulo. 2. Paracambi. Queimados. Nova Iguaçu. de uma forma ou de outra. 5 As datas das emancipações são respectivamente: 1943. 1991 e 1999. 1947 (de Nova Iguaçu).CAPÍTULO 1: VERSÕES E PROPOSIÇÕES “Há tantas maneiras de representar o espaço quantos são os grupos” (Halbwachs. Mesquita. Paracambi.

como apontado pela maioria dos trabalhos aqui analisados. o reconhecimento desses trabalhos e de seus objetos. Pedro II. Sendo assim. Souza (1997). exceção feita ao trabalho de Israel Beloch (1986) sobre a trajetória de Tenório Cavalcanti. Enne (2002). 2001) e três teses de doutorado (Alves. Keller (1997). Apesar de uma ocupação lenta verificar-se já a partir do século XVI e da região ter sido fornecedora e distribuidora de matérias-primas diversas (cana-de-açúcar. 26 . em alguma medida. Por questões relacionadas ao escopo desta tese. na segunda. quem inclua ainda nesta composição. Alves (1991. 1999 e 2003). 7 Para citar apenas alguns trabalhos: Beloch (1986). Na primeira delimitação exclui-se Itaguaí e Seropédica e. no entanto. 2002 e Freire. mais Paracambi. 1999 e Monteiro. podemos agrupá-los a partir de alguns dos assuntos por eles abordados: identidade social. Torres (1998). Barreto (2004). Mangaratiba — somada aos 13 municípios já mencionados acima. um dos processos mais significativos de ocupação da localidade teve início com a construção da estrada de ferro D. Ferreira (1994). No “recorte” que fiz. preocupados em definir a(s) Baixada(s) e/ ou a política local e suas práticas. que serão utilizados ao longo desta tese. entre outros.preocupações de seus autores6. grosso modo. entre outros. privilegiei autores que estivessem. em qualquer restrição aos demais trabalhos produzidos até então sobre Baixada. Há. café. Enne. 2005). Peres (1993). numa extensão de aproximadamente 80 km a partir da cidade do Rio de Janeiro7. estarei utilizando aqueles mais recentes ou que tenham ligação direta com a questão das práticas políticas locais. os mesmos. partindo do principal porto da Vila. Andrade (1993). violência. selecionei — dentre as pesquisas acadêmicas mais recentes na área de ciências sociais — seis trabalhos com os quais pretendo dialogar mais sistematicamente neste capítulo: duas dissertações de mestrado (Oliveira. Silveira (1998).) à capital (Rio de Janeiro)8. carne etc. práticas políticas e organizações coletivas/ arenas públicas. 2003 [1998]. a uma mudança de status nos meios de comunicação. no entanto. no século XIX9. ressalto que esta produção — novamente exceção sendo feita ao trabalho de Beloch — data da segunda metade da década de 1990 em diante. Provavelmente. 9 Abreu (1988). Fernandes (1992). Magé e Guapimirim. Ainda nessa mesma direção. Outro fato que acabou definindo esta escolha foi o uso recíproco entre os próprios autores e. Oliveira (2004). 8 Peixoto (1968). Costa (1999). Peres (2004). a idéia da construção de uma estrada de ferro que. Percebemos a confluência em torno de alguns temas. dada a singularidade de seu objeto e de sua importância para esta tese. acompanhando a ascensão da categoria Baixada a uma outra ordem de visibilidade. portanto. Tal opção não implicou. identifica a Baixada como uma área de planícies baixas constantemente alagadas entre o litoral e a Serra do Mar. “Desde 1840. distribuídos quase eqüitativamente por todos os trabalhos. fosse 6 Diversos são os trabalhos produzidos sobre a Baixada Fluminense — ou a ela relacionados — durante as últimas décadas. Pereira (1970 e 1977). A maioria considera a Baixada como sendo composta por 11 municípios — quando não apenas por 8. Souza (2000). Diante disso. Prado (2000). a definição preliminar mais utilizada nos trabalhos acadêmicos seja a de Geiger e Santos (1956) que. atualmente estendendo-se pelos municípios situados ao longo da Rodovia Presidente Dutra. Costa (2006). O grande esforço dos pesquisadores atualmente envolvidos com a análise de grupos sociais na região é o de refletir sobre a multiplicidade de suas práticas.

Nova Iguaçu era uma das maiores exportadoras de laranja do país (Pereira. 1992). 1977. tendo se deslocado para as margens da linha do trem. era um sonho alimentado pelos fazendeiros e financistas da região. a partir de 1916. autorizadas pela Fazenda Real. já na década de 193012. promoveu a atração e fixação da população que. Souza. cit. 11 Este fato provocou mudanças consideráveis na região da vila de Iguassu (mais tarde Iguaçu e. 10 27 .terminar à foz do rio Sarapuí. estabeleceu um padrão de ocupação ainda hoje marcante na quase totalidade das cidades que compõem a região10. Um segundo momento crucial da história local foi marcado. devido às péssimas condições de trabalho e de salubridade na região.). 13 Na década de 1930. 12 É importante salientar que um primeiro movimento para sanear e drenar as terras da Baixada ocorreu entre 1844 e 1900. 2004:24). tal migração acentuou-se devido fundamentalmente à citricultura e às mudanças na configuração do espaço na região. A ampliação da estrada de ferro até Queimados. op. de Japeri cuja história é marcada pela morte de centenas de homens que trabalhavam na construção da ferrovia — acometidos de malária ou mortos em acidentes. pela criação da Comissão de Saneamento da Baixada e do Departamento Nacional de Obras de Saneamento que ocasionaram inúmeras mudanças na região. obtiveram lucros ainda maiores (Pereira. Prejudicados com o atraso em despachar e receber suas mercadorias. temos o caso. no dia 9 de maio daquele mesmo ano. repercutindo em uma nova leva populacional. Até o início da Segunda Guerra Mundial. por exemplo. por exemplo) que acabaram assoreados. a partir da década seguinte13. abriram-se subscrição de ações através da Lei Providencial para tal empreendimento” (Peres. fizeram com que esse desejo fosse levado à sede do Império e. e mesmo assim com a ajuda de escravos que impulsionavam as canoas por meio de varas escoradas no fundo da lama. Nova Iguaçu) até então tendo uma economia voltada para os portos (como os de Iguaçu e Estrela. com a drenagem e canalização dos rios. em um porto chamado da Armação. em 1858. A chegada de migrantes de várias regiões do país e do estado — mas sobretudo nordestinos — em busca do sonho de um pedaço de terra e/ ou da possibilidade de morar mais próximo ao local de trabalho (o município do Rio Sobre a extensão da linha férrea. Tal processo implicou no abandono das vias fluviais — até então fundamentais para a economia local — que acabaram por tornar-se obsoletas11. tendo como maiores beneficiários os proprietários de terra locais — que já haviam lucrado com a valorização advinda da construção da estrada de ferro e que. que dependia da maré enchente.

né? Meus pais são analfabetos. 15 Fonte: IBGE. só na década de 1950)15. 1996. 14 28 . As narrativas de moradores locais confirmam os dados e retomam a saga — desde a cidade de origem. né? Mas as condições […] como é normal no Rio de Janeiro. Alguns poucos já chegavam empregados — via de regra. Contar com o auxílio.de Janeiro14) —resultou no período de maior crescimento populacional da região (décadas de 1950 e 1960). bastante superior às taxas observadas para o restante do estado (crescimentos de mais de 100%. mencionado em muitos dos relatos que escutei. minha irmã também trabalhamos em feira. sozinhos ou com toda a família. ocorria. uma das favelas cariocas ou alguma cidade da Baixada Fluminense. da Rodovia Presidente Dutra (inaugurada em 1951). em 1946. “Minha família. assim como os investimentos gerados graças aos loteamentos que surgiram a partir daí. de um irmão. a construção da Avenida Brasil. consultar Barreto (2004). cunhado. 16 A este respeito. vieram do Nordeste [Pernambuco] tentar a vida no Rio de Janeiro e sempre trabalhando pra que pudesse[m] nos sustentar e dar estudo para a gente. O desembarque. em barraca. acho que no país todo […] Édifícil para as pessoas que não têm condições e a vida muito sacrificada. prima ou amigo era essencial para quem não tinha casa. meu irmão. por intermédio desses parentes/ amigos — mas nem todos tinham a mesma sorte. no Campo de São Cristóvão — local onde os homens eram avaliados para possível trabalho na construção civil — e o destino final era. o sol e a chuva enfrentados pelo caminho e. passando pela viagem de muitas horas em ônibus precários ou em paus-de-arara. como por exemplo. As redes familiares e de amizade apresentavam-se como fatores decisivos no momento da escolha do local de moradia. por exemplo. é […] ajudante de caminhão. é uma família humilde. dinheiro ou mesmo uma ocupação. ainda que temporário. eu. geralmente. enfim nós trabalhamos muito pra chegar onde nós Algumas obras também contribuíram para tal processo. É pai trabalhando em feira. por fim. a chegada ao Rio de Janeiro16.

fora da Baixada. Eles organizavam um curso de capacitação de liderança da Baixada. o hospital etc. cit. Duas principais a atravessam diametralmente: a Estrada de Ferro D. do IPPUR. a desvendá-la (Barreto. casada. 03/02/2004). 09/06/2004). SUPERVIA) e a Rodovia Presidente Dutra (BR 116). 2004).. tal como dos moradores da Baixada Fluminense que trabalham no Rio de Janeiro e andam de ônibus ou de carro (Freire. mas já fui lá pro Norte. ao mesmo tempo. “Minha família veio pra Nova Iguaçu sem nada. Em primeiro lugar. 29-30). essencialmente no Rio de Janeiro) e. pelo movimento pendular diário entre a casa e o trabalho (na maior parte das vezes. em seguida. em Belford Roxo. minha atenção passou a se voltar para os cenários cinzentos oferecidos pela Avenida Brasil e pela Rodovia Presidente Dutra. No trajeto. né? Eu nasci aqui. de carros. op.. iam passar fome. de imagens aponta. para uma estética homogeneizante e para a multiplicidade de significados em jogo. As estradas que atravessam e cortam a Baixada demonstram o seu fluxo permanente. o olhar seqüencial e indistinto de quem simplesmente passa por ali e a percepção matizada de quem se atreve a parar.. Os seus moradores poderiam ser caracterizados como errantes.chegamos” (Waldir Zito. Duas vias que farão parte da minha experiência quotidiana de deslocamento. a circulação se faz 29 . Além disso. pela própria condição de migrante cuja saída da cidade natal constitui o primeiro ato de deslocamento. [. não” (M. sou daqui da Baixada mesmo. A primeira vez que fui à Baixada Fluminense estava na companhia do professor Luís César de Queiroz Ribeiro. ex-prefeito de Belford Roxo. professora primária. mas eu não troco isso aqui por lá. pelo deslocamento necessário até a escola. 36 anos.] Porque senão. lá pra casa dos meus parentes [Sergipe]. pp. só com a coragem mesmo. A circulação incessante de gente.. e de dois educadores da FASE. Pedro II (atualmente. por fim. Haveria. assim.

o que a obriga a recuperar a bibliografia sobre região.presente de forma tão arraigada que constitui também os momentos de lazer: “viaja-se” para ir à praia. p. espaço. Gomes (1995). Belford Roxo. e no sentido contrário. Para além dos espaços geográficos. a um show ou para encontrar amigos do trabalho. Briggs (1985). Japeri. de coexistência. A múltipla apropriação de que nos fala Enne demonstra a inadequação de uma abordagem em termos de unidade espacial. denotativos e conotativos da categoria Baixada Fluminense (p. Queimados. Paracambi. Tal unidade é desmentida e recusada pela autora. (1983). Ricq. entre pessoas desta região e do Rio de Janeiro. tais como Roncayolo (1986). é a melhor demonstração da intensidade das situações de copresença. Cerca de 250 mil a 300 mil pessoas que residem nos municípios de Magé. 77). influenciada pelos trabalhos de Bakhtin. não podemos perder de vista que os atores e agências que constituíram os interlocutores em sua pesquisa têm interesses bem delineados sobre a história e a memória Alguns moradores da Baixada costumam referir-se às idas ao município do Rio de Janeiro como “viagens”. O processo polifônico em questão refere-se ao que a autora. 18 Ana Enne faz uma apresentação minuciosa desta problemática. privilegiando trabalhos de autores de diversas áreas . Weber (1999). A tese de doutoramento de Enne (2002) é exemplar ao apontar para a pluralidade de significados construída pelos diversos agentes e agências locais. A delimitação do que se poderia denominar Baixada Fluminense é alvo das preocupações de diversos autores que atualmente trabalham na ou a Baixada. chamou de produção múltipla de sentidos. de 16h00 às 20h00. entre outros. Mesquita. Foucault (1986). Heredia (2001).31). Nova Iguaçu. Pellegrino (1983). 17 30 . de vagões de metrô e de ônibus no sentido “Baixada Fluminense” / Rio de Janeiro. estaríamos lidando com construções sociais que extrapolam tal lógica. de 6h00 às 9h00. de “rush”. mas também simbólica que o Rio representa para uma parcela considerável da população da região. A superlotação de trem. Ainda assim. Nilópolis. o que nos permite pensar que tal uso remeteria a um duplo sentido: o da distância física. território e lugar18.17. Duque de Caxias e São João de Meriti. do estudo etc. nos horários de trabalho. vão trabalhar diariamente na cidade do Rio de Janeiro (idem.

Thompson (1995). conflitos. a polifonia de que nos fala Enne é. Em um primeiro momento. Benjamin (1990). com relação à imprensa escrita. Rocha (1995). por seus moradores19. Sendo assim. do que uma “idéia-sensação” experimentada. falar em Baixadas. as representações negativas remetiam às imagens da violência e da criminalidade (em seu sentido mais amplo). entre outros. ao mesmo tempo. consensos e ambigüidades por trás da pretensa uniformidade que o uso da categoria no singular —forjada ou não a ferro e fogo pelo discurso político — nos sugere. seu enorme potencial de comunicação e de influência na conformação das identidades locais. do Estado etc.cit. por exemplo. no plural. 21 Sobre o fenômeno da indústria cultural e da cultura de massa. como tratada por Weber (1999: 155-186) em “As comunidades políticas”. 22 Refiro-me. ver. aqui. constituiria muito mais o resultado do esforço — e do rigor — do pesquisador em demonstrar as interações.). da televisão. ao longo das últimas cinco décadas (de 1950 ao ano 2000). a mídia foi analisada como importante produtora de imagens e identidades e pensada como um lugar de memória20. 19 31 . o segundo capítulo de sua tese destina-se à discussão bibliográfica sobre o tema em questão e às construções discursivas de três grandes jornais do estado do Refiro-me. permitiram à autora vislumbrar. Seria importante salientar também a relação entre as noções de poder. território e política.locais. 20 Nora (1984). ao sentido atribuído. pela administração pública que opera divisões e delimitações espaciais. Adorno e Horkheimer (1990). da mídia impressa. a contextualização das transformações ocorridas nas imagens divulgadas sobre a Baixada. produto das construções discursivas (desses atores e agências. aqui. com os moradores da cidade do Rio de Janeiro. A meu ver. à construção de uma marca física e moral estruturante de algumas relações dos moradores da Baixada — fundamentalmente. de fato. Eco (1993).) e dos projetos coletivos e/ ou individuais em disputa na região. desqualificando os moradores da Baixada sob uma designação estigmatizante e generalizada22. Seguindo esta trilha. No trabalho de Enne (op. Grosso modo. Este potencial — vinculado à produção de uma cultura de massa — é percebido em relação aos diferentes discursos (“de fora” e “de dentro”) postos em cena21.

Em Capa preta e lurdinha. desenvolvido e consagrado por Victor Nunes Leal (1975). foi filmado Carnaval em Caxias. Tal transposição seria facilitada pela próprio processo de transição sofrido pelo município: inicialmente de distrito à município. Enquanto o JB — como é mais conhecido o Jornal do Brasil — goza de reputação nacional e um público considerado mais “elitizado”. constituindo um movimento de transição entre as duas formas. posteriormente sua urbanização incipiente que o transformava num misto de cidade pequena/ de interior e periferia do Rio de Janeiro. apesar de não ter sido um partido homogêneo. incompatível com seu estilo político24. 23 32 . Por intermédio da rede de relações familiares. Durante esse período. cit. Sobre este tema. os jornais A Última Hora e O Dia são tidos como “sensacionalistas”. O Dia e A Última Hora. Refiro-me a Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque.Rio de Janeiro: o Jornal do Brasil. retirando-o de seu universo original (o meio rural. ainda jovem. essa noção seria “um amálgama de elementos de populismo e de coronelismo. Beloch (1986) analisa a singularidade da trajetória de Tenório Cavalcanti para pensar as práticas políticas e a participação das camadas populares no interior do sistema que convencionou chamar de coronelismo urbano26. Benevides (1981). no qual José Lewgoy interpretava Honório Boamorte. possuía uma imagem de “partido de elite”. Tenório Cavalcanti mudou-se para o Rio de Janeiro em 1926. imortalizado como O Homem da Capa Preta25. 25 Título de um filme produzido em 1986. como o próprio autor nos chama a atenção. após a morte do pai.” (p. criada em 1945 aglutinando nomes contrários a Getúlio Vargas e ao Estado Novo. 26 Beloch (op. por exemplo. em 1954. no qual os diferentes mundos se encontrariam sob o impacto da industrialização da cidade do Rio de Janeiro. ver. 24 A UDN (União Democrática Nacional). a Baixada ainda não tinha muita visibilidade regional ou nacional — esta adquirida a partir da década seguinte e consolidada ao longo das duas posteriores (1970 e 1980) como sinônimo de criminalidade e violência. No entanto. bem como da metodologia de trabalho com esta fonte. no qual o coronel – o proprietário de terras – é também o chefe político) e operacionalizando-o em um contexto urbano. Nos anos 1950. um personagem local ganhou notoriedade diante de sua apresentação pouco comum e de sua vinculação partidária. com um eleitorado preponderantemente de classe média. tendo José Wilker no papel de Tenório Cavalcanti. a princípio. através da percepção do político como um mediador que privatiza a obtenção dos bens públicos.) toma emprestado o conceito de coronelismo. Trinta anos antes. personagem inspirado em Tenório Cavalcanti.106). apesar deste último ter passado por significativas mudanças ao longo dos últimos quinze anos23. por Sérgio Resende. Alagoano. foi auxiliado num primeiro momento por A autora faz uma exposição detalhada dos critérios utilizados para esta escolha.

São Paulo.800 votos (cf.Hildebrando Góis — que lhe arranjou um emprego na construção da estrada Rio . como ressaltou Beloch (p. Com o advento do Estado Novo.). Otávio Mangabeira). 33 . elegendo-se em seu primeiro mandato político como vereador em Nova Iguaçu (1936). então interventor. com o qual protagonizou inúmeras cenas de violência. Começaram nessa época as desavenças com Amaral Peixoto27. Nesse sentido. Com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. Tinha início. encerrava um paradoxo ético. e com o Secretário de Segurança por este nomeado. assim. Tenório foi nomeado fiscal em Duque de Caxias. 27 Sobre a trajetória política de Amaral Peixoto. envolveu-se em diversos conflitos armados pela posse de terras na região e acabou deixando a fazenda. por intermédio de Getúlio de Moura (eminente político iguaçuano). Agenor Barcelos Feio. o homem de “corpo fechado”. op. foi convidado a administrar a fazenda de Edgar de Pinho (cunhado do então ministro das Relações Exteriores [no governo de Washington Luís]. em Duque de Caxias. consultar DHBB (2001). ingressou na União Progressista Fluminense (UPF). em 1927. o “corajoso” que tinha a gratidão “do povo” de Caxias.cit. Tornou-se um próspero proprietário de terras e. Beloch. sigla pela qual se elegeu deputado estadual. Tenório filiou-se à UDN (União Democrática Nacional). Logo em seguida. A trajetória de Tenório e a construção de sua persona pública nos permite pensar na possibilidade de utilização da violência e da coerção como expedientes políticos legítimos. a polêmica trajetória que inauguraria a vinculação entre Baixada e violência no imaginário político carioca. Nessa época.76-77): era aquele que “mata mas faz”. e graças às boas relações mantidas com Ricardo Xavier da Silveira. pelo que recebeu “uma gorda indenização”. em 1946. ou ainda “faz porque mata (os maus)”. com 2.

O jornal foi fundamental para a consolidação de sua imagem de “benfeitor”. 70). mas contra toda a coletividade’” (idem. Tenório elegeu-se deputado federal com uma votação bastante superior à anterior – 9 mil votos. consultar DHBB (2001). Durante o período É importante destacar que. As punições que prescreve têm inclusive finalidade de defesa moral e dos bons costumes. sublinha: ‘Eu então dou um tiro na perna do marginal. sua situação dentro da UDN tornou-se insustentável. Em 1960. no qual escrevia regularmente ora em coluna assinada. sua concepção sobre a aplicação da justiça pelas próprias mãos coincide com a noção dominante em parcelas da população trabalhadora. irmão do exgovernador fluminense. Em 1962. ora valendo-se de pseudônimos. que se traduz nos linchamentos amiúde repetidos. com 46 mil votos)28. Aludindo a ‘um marginal que urina perante moças’. p. ficando em terceiro lugar. 29 Sobre este pleito e o papel da candidatura de Tenório Cavalcanti para a vitória de Carlos Lacerda. disputou o governo do estado da Guanabara. mas foi derrotado pelo petebista Bagder Silveira. 30 Sobre Roberto Silveira. Tem que matar o agressor injusto. com 23% dos votos válidos29. com 42 mil votos — posteriormente repetindo a façanha (em 1958. é porque ele tá maconhado e é uma cobra venenosa que eu não posso deixar solta na rua […] Os covardes é que se omitem e deixam o cachorro louco e a cobra venenosa agredir(em) o indefeso. a partir de 1954.1). logo em seguida. No pleito seguinte foi reeleito como o mais votado de sua legenda. motivo pelo qual deixou o partido. Eu. que é injusto não só contra você. candidatou-se ao governo do estado do Rio de Janeiro já pelo PST (Partido Social Trabalhista). quando dou um tiro na barriga da perna de alguém. assim como a de homem justo e valente. Dois anos mais tarde. 28 34 . preocupado com as classes populares. Roberto Silveira30. ver Beloch (1986).“Aliás. seu perfil polêmico e sua vida pública pouco ortodoxa foram motivos suficientes para que tivesse os direitos políticos cassados pelo AI-1 (Ato Institucional no. em 1950. Quatro anos mais tarde. morto em um acidente. Após este episódio. pra ver se ele reage. para depois atirar no peito. herói destemido. capítulo 4: “A ovelha negra”. Tenório Cavalcanti tinha uma poderosa máquina a seu favor: o jornal A Luta Democrática.

“Nessa definição. São João de Meriti. mas foi derrotado. outras lideranças já haviam surgido na Baixada. nesse meio tempo. ele foi retomado como foco principal da tese de Alves (idem). seu genro31. partindo das definições formuladas por geógrafos e recorrendo aos órgãos públicos de administração e pesquisa (FUNDREM. destacam-se os trabalhos de Geiger e Santos (1956).). Bursztyn (1976). Queimados e Japeri (Mesquita ainda não havia sido emancipado de Nova Iguaçu no período em que o trabalho em questão foi redigido [1998]). IBGE. Em 1982. Seu nome já não contava com o mesmo prestígio de antes e. cit.16-17). assim como da dissertação de Souza (1997).da ditadura militar. anteriormente mencionados. mas continuou atuando em seus bastidores — sobretudo por intermédio de Hydekel de Freitas. Nova Iguaçu. temos as contribuições de Silva (1975). no qual analisarei a trajetória de Zito. o tema foi amplamente debatido. recorte que coincide com os dados coletados e as imagens divulgadas sobre a violência local. COPPE/UFRJ)32. matéria-prima a partir da qual se produziu a vinculação da região com a violência. Já em relação à COPPE/UFRJ. Nilópolis. Aos loteamentos. Tenório novamente candidatou-se a um cargo eletivo (de deputado federal) pelo PDS. Penteado Filho (1978) e Bronstein (1979). também problematizou a categoria Baixada até chegar ao contorno aproximado das UUIO (Unidades Urbanas Integradas de Oeste). Se nos trabalhos de Enne (op. Freire (2005) e Monteiro (2001. passados dezoito anos. Alves (2003[1998]) privilegiando o recorte a partir do tema da violência. Belford Roxo.). 32 31 35 . Entre os geógrafos. Tenório manteve-se afastado da cena política caxiense. por exemplo. Soares (1955). que determinaram um tipo de ocupação marcado pela presença majoritária das camadas populares (ou como preferem alguns A vida política de Hydekel de Freitas será abordada no capítulo 3. entram os elevados índices de homicídio. Esta definição restringiria as fronteiras da Baixada aos municípios de Duque de Caxias. sobretudo através dos meios de comunicação” (pp.

autores, classes operárias33) em áreas que não apresentavam as mínimas condições de infraestrutura34, somaram-se as disputas pela terra, desencadeando um violento processo que teve à sua frente jagunços e capatazes dos grandes proprietários da região que, na grande maioria dos casos, jamais residiram nessas localidades35. Alves (op.cit.) traçou os rumos da violência na região, desde os primórdios do processo de ocupação da Baixada até a constituição de seu caráter político — tema que nos interessa particularmente, visto a imbricada relação entre a estrutura de execuções sumárias e a dominação política, trazida à tona por este trabalho 36. Como nos mostra o autor, a marca distintiva da ocupação na Baixada passava a ser, por um lado, a violência privada dos empregados a mando dos grandes proprietários e, por outro, o abandono do poder público, permitindo que tais loteamentos — em muitos casos ilegais — fossem levados adiante. “Para abrigar a vaga populacional através de loteamentos, as prefeituras locais realizarão seu papel de favorecer ao máximo o estabelecimento das pessoas em seus territórios. Taxas mínimas eram cobradas para serem aprovadas as plantas das obras, que eram impressas e fornecidas pela municipalidade[…] Na sede de Nova Iguaçu, até 1944, o número anual de autorizações de construções não chegava a 100. No ano seguinte, chegaram a 251 e em 1950, somaram 897. Sete anos mais tarde, esse número seria duplicado[…] Na Baixada Fluminense, até 1929, tinham sido aprovados 21 loteamentos com 20.524 lotes. Entre 1930 e 1939, há um aumento pequeno de loteamentos, 22; porém uma redução do número de lotes, 15.419. De 1940 a 1949, sente-se o primeiro grande impacto da vaga loteadora.
Ver, a este respeito, Monteiro (2001). As primeiras áreas loteadas localizavam-se nos distritos, hoje municípios, de Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis devido à sua proximidade com a cidade do Rio de Janeiro. 35 Beloch (op.cit.), Grynszpan (1990a e 1990b), Monteiro (op..cit.), Alves (2003). 36 Enquanto Alves (op. cit.) trata das execuções sumárias e da relação entre violência e política em diferentes municípios da Baixada — a ela referindo-se como “um lugar”, ou seja, aludindo a uma possível unidade — Souza (op.cit.) aponta para as especificidades de Duque de Caxias.
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São aprovados 447 loteamentos com 373.025 lotes. De 1950 a 1959 os números praticamente triplicaram, 1.168 e 273.208, respectivamente. Já de 1960 a 1969, inicia-se a tendência à redução, com 615 loteamentos e 120.158 lotes. De 1970 a 1976, os números são praticamente reduzidos à metade dos da década anterior. Nessa trajetória dos índices apresentados, está presente também um outro fator. A tendência à redução da área média dos lotes” (Alves, op.cit., pp.64-65)37. Muitas famílias perderam suas economias na compra de terrenos que não conseguiram regularizar e outras tantas tiveram que esperar muitos anos para ter acesso aos equipamentos urbanos básicos como luz, água e esgoto — além do calçamento das ruas e da coleta de lixo que ainda constituem graves problemas na região. “Isso aqui sempre foi uma lama só. Chove e a gente tem que andar com os pé(s) coberto(s) com saco plástico pra não ficar de lama até o joelho. É uma vergonha. Nós tá(sic) aqui abandonado. Ninguém olha por nós” (I., 65 anos, moradora da Estrada de Madureira, em Nova Iguaçu, 10/08/2003). “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente que é muito pobre. Pensa bem chegar... chegar aqui no Rio, vindo de onde eu vim e ter que encarar ao mesmo tempo uma sacaria ganhando pouco[…] — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — […] e, ao mesmo tempo, morar de aluguel e ter de sustentar mulher, mãe e filharada. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o barracão” (Clenio de Lima Santos, entrevista concedida em 01/11/1995 apud Monteiro, 2001:20). O modelo de habitação então adotado por este segmento foi o da autoconstrução, que tinha na dupla jornada de trabalho e nas relações de parentesco e vizinhança sua forma por excelência38. A participação dos filhos — independentemente da idade — e às vezes de vizinhos e/ ou amigos na construção da casa própria acabava por fundar ou fortalecer os
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Até 1949, o tamanho dos lotes ficava em torno de 1.083m2 e, nas décadas seguintes, diminuiu para cerca de 492m2. 38 Tal questão será tratada no capítulo que aborda a trajetória de Zito e de sua família.

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laços de solidariedade e de vizinhança entre os moradores da localidade. Outro aspecto que apontaria para a consolidação de tais laços é aquele apresentado por Monteiro (idem) em sua dissertação de mestrado — e corroborado pelos discursos nativos e matérias de jornais — a rede de resolução de problemas práticos39. Tal rede teria origem na necessidade de se criar alternativas à escassez de aparatos coletivos disponibilizados para esta população — desde aspectos básicos como coleta de lixo, água encanada, calçamento de ruas até a questão propriamente da segurança. “E você acha que a gente é porco pra deixar a rua virar um chiqueiro? O jeito foi ir cavando vala, tirando o matagal da rua, fazendo cobertura para os pontos de ônibus e mais um bocado de coisa que não era pra gente fazer” (Antônio de Souza Leite, entrevista concedida em 21/08/1995 apud Monteiro, op. cit, p.22). Em pesquisa, realizada em maio de 1990, portanto anterior a de Monteiro e às demais até o momento apresentadas, Angélica Drska e Rosana Heringer apresentam dados e representações sobre a violência em Nova Iguaçu e Nilópolis a partir da análise qualitativa dos depoimentos de moradores dividos em seis grupos de faixas etárias distintas (metade composto por mulheres e a outra, por homens)40. Segundo as pesquisadoras responsáveis, em 1987, 77% dos moradores da Baixada eram empregados, mas 33% sem carteira assinada e 35% dos trabalhadores não contribuíam para a Previdência. 1,7 milhões dos habitantes da Baixada residiam em Nova Iguaçu e Nilópolis e 80% desses moradores empregados recebiam até três salários mínimos. Ainda de acordo com os dados da

Mais adiante me deterei especificamente nesta questão, a fim de elucidar alguns aspectos relativos às práticas políticas na Baixada Fluminense. Por hora, limito-me a mencioná-la en passant. 40 A pesquisa “A gente enterra o morto, silencia e se conforma. A violência em Nova Iguaçu e Nilópolis na visão dos seus moradores” foi realizada pelo IBASE a partir da iniciativa da Comissão Justiça e Paz da Caritas Diocesana de Nova Iguaçu e Nilópolis e contou também com a colaboração da Retrato Consulturia e Marketing. Esta pesquisa foi publicada no Cadernos IBASE 8 (1990).

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pesquisa, no ano de 1989 ocorreram 1906 mortes violentas na região noticiadas por diversos jornais. A partir deste panorama, as diferentes formas de entender e classificar a violência foram trazidas à tona pelos discursos de moradores, demonstrando a ambigüidade do tema. Se a violência estava presente nesse cotidiano, ela foi mencionada por eles de formas distintas, dependendo dos contextos. “...não é de ninguém da área [o corpo], são apenas desovados...Então não há violência, há morte que vem de fora...Porque se todo dia aparece quatro, seis, oito, dez conforme se vê na ladeira da rua, não existia mais nenhum morador. Então esses crimes são praticados fora e jogados lá.” (idem, p. 13) Os sentimentos de medo e insegurança são tratados no trabalho, principalmente ilustrados nas falas que enfatizam a preocupação com a noite. Mas se a rua é lugar de medo, a casa também pode sê-lo. Esses sentimentos são agravados pela relação com a polícia, percebida como “verdadeiros ladrões” ou a estes associados (grupos de extermínio e roubos de carga, por exemplo), em contraposição aos “bandidos da área” que, de alguma forma, “prestam serviços”, suprindo a ausência do Estado e/ ou sua ineficiência41. Assim, os policiais seriam equiparados aos “bandidos de fora”, àqueles que não convivem com a “comunidade” e que não coloboram com ela. “Uma dona uma vez em Nova Iguaçu saiu chorando porque ela foi assaltada, levaram carteira, levaram tudo dela, ela chegou lá na delegacia e teve que pagar uma taxa de 150 cruzeiros. Ela veio desesperada, gritando no meio de todo munod: ‘Esses são os verdareiros ladrões!’” “Eles [os bandidos da área] não assaltam, eles não fazem sujeira ali na área...É todo mundo unido, é tudo crescido ali. Cresceu e cada um tem seu jeito, cada um faz aquilo
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Consultar Lengruber (1985), Pinheiro (1983), entre outros.

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que tem vontade...Então eles não fazem ali. Por isso que ali no meu lugar eu me sinto segura. Eles dão proteção a todo mundo.” (idibem, p. 14) "Lá não tem liberdade, à noite não há liberdade, ninguém é de ninguém. Muitos são os mortos por policiais à paisana, disfarçados. Se te olharem e não forem com tua cara, te botam no camburão, e aí, tudo é possível...” (idem, p. 15) “É polícia mineira...tem uma caixinha que corre entre eles. É proteção da área. Aquilo ali é o serviço da madrugada. Se tiver alguma coisa errada, é só ir lá, reunir a turma, na madrugada aquele camarada desaparece.” (p. 17) A insegurança e o medo são seguidos de relatos de moradores sobre a sensação de impotência frente à ação de policiais, seus atos violentos e às “queimas de arquivos”. O silêncio torna-se a estratégia mais comum nesse universo. “Tem só um jeito: enterrar o que morreu e silenciar. É a lei do morro, da favela e da Baixada” (p. 15). Assim, a Baixada se aproxima da favela como lugar de medo e de morte, conferindo sentido ao desabafo do morador citado anteriormente. Mas não podemos esquecer que, por outro lado, é recorrente nas falas de moradores a tentativa de se diferenciar dos “favelados” (Cardoso, 1978; Silva e Leite, s/d). A Baixada aparece como a opção frente a morar na favela. Ao recusar a comparação com o “morro”, rejeita-se também a sua associação direta à violência explorada reiteradamente pelos meios de comunicação. Sandra Regina S. da Costa (2006), em sua tese de doutoramento, nos traz um exemplo oriundo de sua própria vivência — enquanto pesquisadora e ex-moradora da Baixada — da articulação de parcelas da população para a resolução dos problemas locais, bem como da concepção de justiça e de legitimidade implicadas nessa relação: “Recorro a minha própria memória para explicar este ponto. Lembro que na minha infância, a ocupação do meu 40

bairro [no município de São João de Meriti] não tinha se dado por completo. Não tínhamos favelas próximas, como as que existem agora, e havia muitos terrenos ainda não ocupados, cobertos de mato. Lembro que uma fonte de medo constante era os boatos acerca dos ‘tarados’. [...] Em algumas vezes, e eu me recordo de pelo menos uma meia dúzia delas, os moradores localizavam o suposto ‘tarado’, que era linchado e tinha as partes do seu corpo expostas em vários postes da localidade. A idéia de ‘justiça feita com as próprias mãos’, sem a intervenção do Estado, que se figuraria na Polícia (Civil ou Militar, nesse caso tanto faz) era a tônica desses momentos de extrema dramaticidade” (Costa, 2006:49). Se o caso de Tenório é emblemático da visibilidade do fazer político na Baixada Fluminense durante as décadas de 1950 e 1960, nas décadas seguintes outros personagens não deixaram de fazer jus ao legado do “homem da capa preta”. A partir de 1964, a região passaria por um processo de intervenção política e de supressão de qualquer forma de oposição ao regime militar instalado. Os últimos anos desta década e toda a seguinte seriam marcados por cassações de políticos e pela imposição de interventores, contribuindo, assim, para o surgimento de uma nova elite no poder42. A década de 1980 significou o ápice da vinculação entre Baixada e violência — apontada na amostra dos jornais selecionados por Enne (op. cit.), principalmente a partir de notícias que abordavam a questão da violência política também ligada aos interesses de comerciantes locais. Se, conforme destacou Alves (op. cit.), a atuação dos grupos de extermínio na região teria se iniciado essencialmente a partir da década de 1960 — como forma de “garantir a ordem” frente aos saques e à ausência de segurança local diante da omissão do poder público — a partir de 1970, esta situação intensifica-se, estimulada por autoridades (policiais e militares) locais e por políticos. A “polícia mineira” (Souza, op. cit.), como ainda é conhecida, estampava os jornais e imprimia o medo.
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Tal fato será analisado no próximo capítulo.

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Para a Baixada (em termos de sua visibilidade externa), os primeiros anos de 1980 configuraram a “fase dos justiceiros e matadores43”. Mão Branca foi o mais famoso dentre eles, povoando os jornais cariocas do período (cf. Enne, op. cit.). Além daqueles que se enquadravam melhor na categoria “matadores profissionais”, proliferavam também os assassinatos e a coerção física com fins políticos. Apesar disto, a década de 1980 marcaria ainda o período de emergência dos movimentos sociais na Baixada, fundamentalmente ligados à questão da casa própria44. Além da violência e do surgimento dos movimentos sociais, um outro fator apontava, naquela década, para uma alteração nas relações de poder na região: a eleição de Brizola, em 1982, que teve forte impacto sobre a escolha dos prefeitos locais. O voto brizolista ou “fenômeno Brizola” refletiu o caráter oposicionista daquelas eleições assim como a ênfase no discurso voltado para as classes populares. Enquanto a tese de Enne (op.cit.) nos trouxe uma discussão refinada sobre a configuração da Baixada, colocando-nos frente a frente a discursos (e projetos) os mais diversos, ressaltando esse “movimento” e a fluidez dessas fronteiras; a dissertação de Oliveira (1999) concentra-se na política e pouco problematiza a categoria Baixada, focalizando seu estudo no caso de Nova Iguaçu, local onde realizou seu trabalho de campo. Tal dissertação (idem), defendida no Instituto de Ciência Política da UFF, teve por objetivo analisar a dinâmica legislativa da Câmara Municipal de Nova Iguaçu, no período compreendido entre 1997 a 2000, apoiando-se igualmente em dados sobre a legislatura anterior (1993-1996), sobre a produção legislativa e as práticas dos vereadores daquela
Dentre eles: Mão Branca, Carlinhos Blá-blá-blá, Paulo Cigano, Jorginho da Farmácia, Beto da Feira, De Souza, Careca, Paulo Hulk, alguns sendo policiais militares. Para uma análise mais detalhada sobre a atuação dos grupos de extermínio na Baixada Fluminense, ver no trabalho de Alves (op.cit.) o capítulo intitulado “Da ditadura militar ao neoliberalismo: o poder e a violência recente na história da Baixada”, pp. 101-172. 44 Ver Lesbaupin (1982), Bernardes (1983), Simões (1993), Tavares (1993), Freire (2005), entre outros.
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adquiriram força no quadro políticoinstitucional vigente e significado como órgão legislativo e co-partícipe do governo local. considerandose as iniciativas exclusivas dos vereadores. essa maioria acredita que assim cumpre bem o papel político para o qual é eleita e. a CM não precisa de mudanças institucionais para melhor desenvolver suas atribuições legais no atual contexto de democratização” (ibidem. pp. 2) a relação Executivo-Legislativo em nível municipal é diferente da estabelecida em nível federal. 43 . devido ao fato de o poder institucional do Prefeito ser menor do que os poderes garantidos ao Presidente da República. partindo do pressuposto de que o papel político dos vereadores não tem sido cumprido. portanto. o autor retomou algumas discussões existentes na produção sociológica acerca das relações entre executivo e legislativo (Leal. 2001) com a intenção de apreender os limites que tais “cultura” e prática políticas acabam impondo à vida democrática. a produção legal da Câmara. pratica atividades de assistência social e acredita que o seu papel na política municipal é de intermediar serviços públicos junto à população. tem um caráter essencialmente assistencialista e não produz mudanças substantivas na vida dos cidadãos. Lopez. 1975. O autor preocupou-se em analisar a “cultura política”45 de Nova Iguaçu. entre outros. 4) entretanto. principalmente por meio de reeleição. sob o ponto de vista constitucional. Bezerra. o artigo de Carneiro e Kuschnir (1999). diferente do seu similar em nível federal. Para isso. força essa jamais vista no cenário político municipal brasileiro. a de fiscalização é a mais prejudicada.Casa.22-23). 6) a maioria dos vereadores de Nova Iguaçu pretende seguir carreira política. Apesar da preocupação em não construir 45 Sobre a noção de “cultura política” ver. 1998. Para embasar sua premissa foram testadas algumas hipóteses: “1) as Câmaras Municipais. 7) por isso. o Poder Legislativo municipal possui maior liberdade e amplitude para desenvolver seus próprios trabalhos. 3) com isso. Concluindo com o destaque à fraca institucionalização e à subordinação da Câmara Municipal de Nova Iguaçu ao prefeito. 5) dentre as principais funções do Poder Legislativo.

se a Câmara e seus membros buscarem o aprimoramento e o aperfeiçoamento da instituição legislativa local em direção ao exercício das suas atribuições constitucionais. na violência e nas práticas políticas “típicas” das periferias e zonas desfavorecidas do país. na pobreza. remete exclusivamente à tentativa de se criar um nós. Para ilustrar a minha afirmação. no caso do autor. Queimados e Japeri seriam os municípios que integrariam a Baixada. de problemas sociais crônicos e de conflitos políticos. Tal recorte justifica-se a partir de um “quadro de contrastes sócio-econômicos. tais como a de “conservador-clientelista” ou a de “populistaclientelista”. o autor se utiliza de uma classificação mais tradicional para delimitar a região. Nova Iguaçu (antes da emancipação de Mesquita). Nilópolis. Belford Roxo. em detrimento das distintas formas de se entender a Baixada Fluminense. a democracia é tomada como um valor durante todo o trabalho. Sendo assim. cuja origem remonta à época colonial” (p. pp. atribuindo menos ênfase às falas (e a seus significados) — que. uma identidade coletiva.uma visão normativa ou em sugerir “soluções” para tal impasse. quando ocorre. o autor privilegiou a reconstituição de uma parte da história do município. por intermédio da ênfase na escassez. São João de Meriti. as práticas políticas sendo assim analisadas como estando em consonância ou não com ela. Em consonância com o anteriormente exposto. segundo a qual Duque de Caxias. 46 44 . reproduziu o entendimento do contexto político a partir do que ele idealmente deveria ser. A própria opção por operacionalizar o debate em termos de classificações. 92-93). 87). A alusão a esta última categoria. Oliveira resume em mais ou menos três parágrafos as contradições decorrentes dos processos de urbanização pelos quais a Baixada passou. foram “recolhidas” — do que ao implacável olhar jurídico-legal (formal)46. reproduzo as próprias palavras do autor: “[…] diante dessa conjuntura sócio-urbana e desse cenário político. significará um grande avanço para a democratização e melhoria da qualidade de vida na cidade de Nova Iguaçu” (ibidem. mencionado sua condição de subalternidade em relação à cidade do Rio de Janeiro.

entre outros. por exemplo. Oliveira nos apresenta percentuais que não se restringem à Baixada. o setor de comércio e serviços e o funcionalismo público representam a quase totalidade das possibilidades de absorção de mão-de-obra nos municípios da Baixada. Numa tentativa de negar uma pretensa singularidade à Baixada. Após efetuar esse breve apanhado. o fechamento de algumas indústrias (principalmente as têxteis) importantes em municípios como Paracambi. referindo-se ao clientelismo. de propriedade do deputado federal Itamar Serpa – PSDB/RJ ou a Compactor do Brasil). 49 O autor refere-se ainda a dados relativos à educação e à saúde. Weffort (1980). de certa forma. alterou-se em parte a configuração do mercado interno desses municípios. assim como o setor terciário e as diversas indústrias de Nova Iguaçu (a Embeleze. 47 45 . obrigou seus moradores a novamente buscar emprego fora dos limites de sua cidade. 1995)49. no fim da década de 1980. já que era empregada pejorativamente. a realidade da população e da economia locais até pelo menos meados da década de 1980. a “cultura política tipicamente brasileira”. Nesse sentido. tal imagem sintetizou. Nova Iguaçu ganha mais visibilidade em sua análise: “até bem pouco tempo era considerada a segunda maior cidade do Estado [do Rio de Janeiro] e a quinta do país. Sua menção à Baixada Fluminense praticamente pára por aí. a outros “bolsões de miséria”. Por outro lado.e finalizando com a alusão à caracterização das cidades-dormitórios47. referindo-se novamente à Baixada apenas na conclusão. remetendo à idéia de um “lugar” de escassez. ao populismo e ao assistencialismo (p. o dado relativo aos 3. com reflexo nas áreas adjacentes. 48 Sobre populismo. remetenos à categoria cidades-dormitório. Como veremos mais à frente. que tendem a privilegiar a dimensão representativa de nossos objetos e não a simbólica.2 milhões de pessoas em situação de pobreza e miséria na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ. consultar. na qual afirmou que esta estaria inserida numa “cultura” mais ampla. 119)48. bastante propagada nas décadas de 1960 a 1990. Ianni (1975 e 1991). o autor enfatiza seu caráter de “periferia” comum a outras áreas carentes do país ou. de falta. como chama. Rodrigues (1996). tal classificação acabou tornando-se um estigma. Munido de estatísticas. a refinaria e o jornal Extra de Duque de Caxias. o autor concentrou-se nos dados referentes à Nova Iguaçu. por exemplo. como por exemplo. Quando as indústrias e o setor de serviços tiveram um significativo incremento. próprios da estrutura social e urbana brasileira. No entanto. Uma das imagens mais comuns sobre a Baixada. nesta parte do trabalho. Diretamente vinculada ao processo de ocupação da região. o parque industrial de Queimados e a central termoquímica de Japeri são alguns exemplos da mudança no cenário do mercado de trabalho nos municípios da Baixada. Debert (1979). No caso da Baixada.

grifos meus)50. em tamanho populacional […] Em termos eleitorais.) nos apresenta este panorama: Após a primeira metade dos anos 90. conforme inúmeras denúncias. o problema da violência é mencionado — essencialmente ligado às características dos processos de urbanização locais — mas não chega a ocupar um lugar de destaque em sua análise. formam uma das maiores regiões eleitorais do país” (idem. segundo Enne (op. A partir das notícias de jornais. que somados aos seus municípios vizinhos.ultrapassando a marca de 1 milhão de habitantes. Associando nomes novos a lideranças já consolidadas. Enne demonstra como tais discursos vão construindo representações sobre a Baixada Fluminense. ora aproximando-se às do senso comum. ora vinculadas a projetos diversos.). embora muito 50 O autor se utiliza de dados referentes à contagem populacional de 1996 do IBGE. como os políticos. Na dissertação de Oliveira. Hoje possui cerca de 826. conviviam na Baixada diferentes projetos políticos que se aproximavam.188 habitantes. as redes assim constituídas delineavam os contornos que a vida política tomaria dali por diante. combinando favor e medo. numa reedição moderna e situacionista do “homem da capa preta”. distribuindo vagas em escolas e creches.cit.79). a década de 1990 trouxe novidades para a Baixada. Zito e Joca.721 eleitores. e oferecendo consultas e operações médicas gratuitas. com a eficiente fusão da contravenção com o carnaval e com o clientelismo político. 46 . O brizolismo sobrevivia. Em termos políticos. Nova Iguaçu ocupa o segundo lugar no Estado e o décimo quinto no país. 89-90. ocupando a terceira posição em nível estadual e a décima sétima no país. tanto pelo clientelismo como pelas formas ilegais de ação: os Abraão David. o grupo comandado por Raunheitti. ou da notícia como discurso (p. pp. cit. Alves (op. tudo financiado pelas irregulares subvenções sociais do Congresso. A década de 1990. marcaria a construção de um novo olhar — agora positivado — que passava a ser dirigido à localidade. essa posição ainda é mais significativa. pois com 526.

116)51.19 Assim.] Para Hélio. A grande fragilidade ficava por conta do Partido dos Trabalhadores. a redução dos homicídios estava diretamente associada à sua capacidade de interferir na nomeação de delegados. destituindo aqueles vinculados ao esquema de execuções. por Nova Iguaçu. A atuação de Tânia Maria Salles Moreira como promotora pública na comarca de Duque de Caxias desconstruiu a rede que a partir do próprio Fórum de Justiça da Cidadecoordenava as execuções. um dos mais famosos matadores da época agia com arma e carteira fornecidas pelo juiz..eleito no final dos anos 80 suplente de vereador. alegando ausência de tempo paraoperacionalizálos. após ter sido apreendida em um outro crime (MOREIRA. era assíduo freqüentador do Fórum e possuía uma carteira de oficial de justiça Ad Hoc dada pelo então juiz. 51 47 . concomitantemente ao início da publicação do “Caderno Baixada” (um dos suplementos Os projetos políticos serão retomados na análise das trajetórias de Jorge Gama. 1996: 102-103 e 111-114). Desnecessário dizer que Pedro Capeta foi absolvido no processo por falta de testemunhas. ainda com seu único vereador na Baixada. Zito e Lindberg Farias. Preso numa tentativa de assassinato. em Nilópolis. pelo PTB. que por sua vez agiam associados ao poder político local. revelou-se exemplar. p. movimentos sociais e CEB’s. O que explicaria o fato de que em anos de eleições municipais a permanência de Hélio Luz à frente do cargo que ocupava tornava-se insustentável. responsável pela indicação das suas nomeações e sustentação no cargo. 2005:25) A escassez e a violência que marcaram os discursos sobre a Baixada construídos pela mídia durante as décadas de 1960. (Alves. que represava processos de homicídios por anos em suas gavetas para arquivá-los em seguida. assim como o lugar dos partidos na conjuntura política da Baixada. o Neca. [.mais como estratégia eleitoral e política de um prefeito. O caso de Pedro Capeta. A arma com ele encontrada tinha lhe sido entregue pelo próprio juiz. do que como força política de resistência.. sem os dois deputados estaduais que não se reelegeram e sem a mesma força mobilizadora dos anos 80 (idem. 1970 e 1980 foram atenuadas a partir da década de 1990.

) ilustra este “outro lado” da Baixada. cit. 52 48 . 54 A condição de “dupla estrangeiridade” é explicada pelo fato de a autora ser francesa. a autora nos permite acompanhar o processo de reformulação de suas identidades locais. já que tido como compulsório. As antigas imagens — bem como os antigos problemas — evidentemente não desapareceram de todo.. posteriormente estendido para outras regiões do estado) do jornal O Globo. durante a última década do século XX as matérias sobre a “efervescência cultural e social” já apontavam para uma alteração das representações sobre a região52. o sentido oposto (Baixada – Rio) acaba sendo desconsiderado nas análises sobre o tema. Os mecanismos de aproximação (materiais e simbólicos) entre moradores da Baixada Fluminense e de cidades próximas — mas principalmente do Rio de Janeiro — expostos acima criaram novas alternativas. possibilitando que o fluxo de pessoas pudesse se dar em outras direções que não apenas o sentido unilateral tradicionalmente estabelecido — da capital como único pólo de atração53. A leitura da tese de Freire e sua auto-avaliação como pesquisadora duplamente estrangeira54 fornecem elementos decisivos para pensarmos esses “novos” A tese de Costa (op. tendo mudado para o Rio de Janeiro — mais especificamente para Niterói — há alguns anos e.90-91) estão a percepção de que o fenômeno da violência era agora generalizado. pp. Entre as hipóteses levantadas por Enne para dar conta de tal fato (op. cit. durante a pesquisa.sobre bairros já publicados no município do Rio de Janeiro. Por meio do estudo das carreiras de alguns músicos da região. Ainda segundo a autora. além da diminuição das distâncias físicas e simbólicas entre a Baixada e a cidade do Rio de Janeiro — possibilitada pelo incremento do fluxo de pessoas com as construções das Linhas Vermelha e Amarela — além da visibilidade alcançada por movimentos sociais locais e da percepção da região como um novo mercado consumidor em potencial. residiu cerca de dois anos em Nova Iguaçu. Foi somente a partir de 2000 que as notícias sobre assassinatos e pobreza divulgadas na imprensa foram reduzidas de maneira mais significativa. 53 E neste caso.

Despedi-me às pressas e acelerei o passo para chegar até o ponto. Penso: “é agora que vou me perder”. Estranho andar no escuro no meio de um lugar que desconheço. Nos minutos que se seguiram. Entrevia. em frente ao seu portão. Os acontecimentos ditam sua temporalidade. Apenas alguns fios de luz vindos das janelas das casas não confirmavam uma escuridão total. a gente tá acostumada. um pouco para a esquerda. Isso é o que tem de menos. ouço. jogando os passageiros no meio da via que se A extensão das citações faz-se necessária. ela desabou sobre a cabeça dos transeuntes. Precipitadamente. O sol se esconde e tira aos poucos a luz que permitia ver com nitidez as ruas de terra batida e as casas de tijolos do bairro. Naquele dia de março de 2004. Os ônibus paravam rapidamente no ou fora do ponto. comento minha surpresa com a situação e outra pessoa que caminhava junto. Momentos cotidianos na vida comum dos moradores locais ganham cores novas para a pesquisadora. 55 49 . Tropeço nos buracos. A presidente da Associação olhou para seu relógio e me aconselhou que pegasse meu ônibus. já conhecemos perfeitamente o mínimo buraco. Às vezes. Sem saber se ainda estou no caminho certo. um pouco para a direita. um céu cinza anunciava desde cedo uma chuva prestes a cair. No meio do caminho. a escuridão de repente tomou conta de tudo e substituiu as tonalidades alaranjadas do pôr-do-sol. num fim de tarde de um mês de março. para evitar outro. diz: “Sabe. de repente. que se vê subitamente confrontada ao “lugar”55. sentado numa cadeira. Ela indicava detalhadamente como me deslocar. Uma mulher me respondeu: “Estamos indo pro ponto também. Pedi alguma ajuda.olhares sobre a região. vozes e risos vindo de um grupo de pessoas um pouco atrás de mim. no horário de rush. você pode ter maus encontros e ninguém vê (p. Fascinante é a forma como constrói a passagem do tempo em seu relato. Dezenove horas. Centro de Nova Iguaçu. Pegue meu braço!”. a sombra de um morador. interpelei o grupo. De repente. o clima estava quente e abafado. por vezes. diante do objetivo proposto de entender a condição de dupla “estrangeiridade” da autora e sua mudança de “olhar” com relação à Baixada. na Via Light. para evitar um buraco. Dia de temporal.09). neste momento. A Baixada é o seu acontecimento. numa das ruas que conduz à estrada onde passa o ônibus.

ela procura definir seus “usos”. surpreendeu os passageiros[…] Ao chegar à Avenida Brasil. torcendo para que. no “tempo de margem” em caso de imprevistos. corpo e mãos encharcados. […] Na entrada do túnel. Alguns transeuntes estavam nos pontos mais elevados das calçadas esperando que as águas baixassem. menos observador. Resultado: o tempo da viagem foi de duas horas e meia.9-10). quando a demora normal é de cerca de 1h30. o Hospital da Posse. nossa presunção acabou quando o ônibus chegou na Via Presidente Dutra. eu morava em frente à Prefeitura[…] Na rua que faz esquina com a Prefeitura havia um ponto de ônibus direto para o Rio. permitisse chegar na hora para dar minha aula. foram 3h30 para chegar ao centro da cidade do Rio de Janeiro (pp. as águas da Via Light escorrem pelas ruas perpendiculares à avenida.alagava cada vez mais[…] Quando chove. De fato. o Juizado Especial de Pequenas Causas. o Dia Internacional da Mulher. novos congestionamentos em vários eixos da via. Preocupada em entender a pluralidade de sensos de justo em Nova Iguaçu. […] Viagem chuvosa para o Rio de Janeiro Realizava um estágio de docência no IFCS. Saía num horário que. alagando boa parte daquelas próximas à Prefeitura. Um engarrafamento de cerca de uma hora e meia. tivesse torcido o pé num buraco coberto de água no meio da via (pp.. Sem trânsito poderia até durar uma hora. apenas na Dutra. É seguido por vários outros. Uns 45 minutos se passaram[…] Se eu e aquela moça pensávamos estar salvas e que apenas chegaríamos com alguns minutos de atraso no Rio de Janeiro. um “parador”[…] Esperava o ônibus. como muitos moradores de subúrbio. Acrescentado o tempo de espera. pela minha programação mental. se não um pouco adiantada. partindo da problematização de situações específicas vividas pelos 50 . Nesta época. Pensava. embora um dos seguidores. pés. 11-12). às vezes 1h45.. um homem com mais reflexo já fez sua escolha para atravessar a rua Bernardino de Mello e chegar até o ponto. a reunião do MAB. se passasse. o caminho escolhido garantiu pés menos molhados. A autora prossegue descrevendo outros acontecimentos: os dias de verão de 45 graus. o motorista sentisse piedade de meu rosto.

a mudança de status do grupo a partir da visibilidade alcançada56.69). passeatas. ou seja.cit.moradores da cidade e integrantes do MAB (assim como dos múltiplos pertencimentos de seus principais interlocutores). as mobilizações e debates públicos são analisados a partir de uma gramática política (dispositivos e repertórios) orientada para a dramatização (Turner. a autora desvenda as “competências” dos atores ao definirem as situações problemáticas e mobilizarem-se coletivamente. 1984). 1975b).) vai abordar esta questão a partir do que chamou de dispositivos de publicidade: jornais. mas como espaço de problematização. A autora coloca-se a seguinte questão: “que lugar a ‘Baixada Fluminense’. Baseando-se na noção de identidade social tal como formulada por Goffman (1975a. enquanto recorte cognitivo. atos públicos. a autora tenta reconstruir — a partir da noção de arena pública — a definição de espaço público para esses atores. As percepções dos “problemas sociais” dignos de publicização e da revolta frente a eles são contextualizadas no repertório de reivindicações locais e de construções coletivas. ocupa no espaço público (entendido não só do ponto de vista comunicativo. Com este intuito. de circulação. buscando apreender os mecanismos de constituição de novos públicos. bem como do sentido de pertencimento a ela atrelado — igualmente fundamentados nas percepções dos sensos de justo. de reservas e acessibilidades)?” (p. 51 . 56 Freire (op. Freire apresenta uma pluralidade de visões acerca “da Baixada” (em geral). A autora busca enfatizar a passagem do problema a um nível de generalidade a partir do uso de recursos políticos e dos dispositivos acima enumerados. Desmascarando as alegações de ilusão ou alienação. Nesse sentido.

as manifestações de emoções por ambos os “lados” sendo percebida durante todo o tempo da pesquisa. nos quais as arenas públicas constituíam “os bastidores do espaço público” (Freire. Esta impossibilidade de desvinculação na fala dos “de fora” — dos fotógrafos estrangeiros — evidencia-se. assumido pelos interlocutores da pesquisa. No referido programa foi mostrada uma exposição fotográfica realizada com apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e da Prefeitura de Nova Iguaçu. Boltanski e Thévenot (1991) e Gusfield (1981). enfatiza a dimensão profissional como responsável por parte significativa das relações entre os moradores da Baixada e aqueles residentes no Rio de Janeiro. A Baixada é outro mundo!.” (p. mesmo quando constituída a partir de um projeto político de reinvenção do “lugar”. 58 Freire utiliza-se da personagem da empregada doméstica (como um tipo ideal) para pensar no contato e nas possíveis trocas entre os distintos “mundos sociais”. portanto. Os “da Baixada”. Tais imagens manifestam-se em relações jocosas. Freire procurou compreender os “olhares” sobre a Baixada a partir dos contatos mistos (entre “normais”/ “estigmatizados”)57. 57 52 . quase privado. durante o Fórum Mundial de Educação.45). da TV a cabo Globo News. Os “da Zona Sul” (uma referência generalizada na construção do outro .cit. enfatizam a “frescura”. Dando destaque aos momentos de prova e à idéia da ordem pública59 como “ordem negociada” (Strauss. 1992). e um certo desconforto que se faz notar pelo tom de confidência.Novamente dialogando com Goffman (idem). 73). op. “cafonas” ou advertem a autora sobre os perigos do “lugar”: “Você é louca!. Ali é lugar de desova! Eu realmente nunca moraria lá. utilizando-se de adjetivos como “babaca”. Nesse sentido. de Habermas (1992). A autora pôde observar que os sentimentos acionados para operacionalizar os distanciamentos e aproximações giravam em torno de um repertório de acusações mútuas. por sua vez. exibiu em 17 de abril de 2006 um programa intitulado Baixada bonita. 59 A autora desenvolve um debate entre noções de espaços públicos e processos de publicidade a partir. A partir da A revista eletrônica Almanaque. a arrogância e a “metidez” dos “da Zona Sul”.para os nativos) acusam os “da Baixada” de “bregas”. Pudemos perceber que ao se tentar mostrar “o que a Baixada tem de bonito”. além de os acusarem de “viver em outro mundo”58. p. “otário” para caracterizá-los..o morador do Rio de Janeiro . Freire demonstra como os processos de definição implicavam compromissos e acordos assim como conflitos e tensões. estava implícita a todo momento a referência à pobreza e à violência da região. fundamentalmente. demonstrando ao mesmo tempo a existência de pré-noções e preconceitos.

1999 apud Freire. Enquanto a primeira preocupou-se em compreender os processos de constituição dos sensos de justo a partir das arenas públicas e. embates. A denúncia pública traduziria a passagem de um problema de ordem particular (e portanto de menor grandeza) a um problema generalizado.cit) aproxima-se igualmente deste tipo de abordagem. Interessado em desvendar os processos de construção das identidades locais em relação às 53 . coletivo (de maior grandeza). O que Freire (p.).)..cit. portanto.cit. visibilidade e encenação nelas encerrados. a partir da definição de uma situação problemática num contexto coletivo bastante específico. A dissertação de Monteiro (op. os processos de dramatização. a autora enumera suas características: dramaturgia. 46-47). op.cit. p. estaria bem próximo da dinâmica da rede de resolução de problemas práticos (Monteiro. 140). cit. o segundo conferiu destaque à explicação nativa das práticas de resolução de problemas cotidianos englobada por uma concepção particular de cidadania. a complementaridade entre ambos os estudos será aqui evidenciada.62) denominou “repertório do próximo” e que serviu de base para o entendimento da construção do bem comum. O evento referencial seria fundamental para a constituição do “problema” em si que. Apesar de Freire não mencionar a dissertação ou qualquer outro trabalho de Monteiro (op. tornaria possível sua publicização. bem como uma “criatividade no agir” (Joas. regras de publicidade coercitivas e dispersão (cf.diferenciação entre espaço público e arena pública. negociações. Tal elaboração supõe formas de classificação e utilização de recursos do mundo da política: a publicidade gera o “caso” — recurso operador e amplificador de grandeza. atrelada a operações cognitivas e morais. pluralidade. ambos trazendo à tona uma reflexividade prática (Boltanski e Thévenot. pp. op.) em nenhum momento. op. idem.

Examinando as colunas destinadas a reclamações do Jornal de Hoje. definindo “situações problemáticas” e administrando seus sensos de justo. Monteiro deparou-se com uma população que.. intitulada Seu Bairro60. pp. O levantamento desses dados ocorreu entre os anos de 1982 — escolhido pela significativa queda na taxa de migração observada — e 1997.práticas políticas (e ao poder público) e às percepções de cidadania em jogo.0% 9. A tabela que se segue traz a tipologia dos problemas e sua hierarquização.32-33). PROBLEMAS Hospitais Lixos e pragas Segurança pública Saneamento básico Transporte deficiente Telefones públicos Creche. 54 . ano em que foi extinta a coluna de reclamações Boca no Trombone.0% 20.cit. o autor procurou estabelecer uma tipificação e hierarquização das reclamações a fim de perceber a classificação “problema” ou “situação problemática” para os moradores da Baixada.0% 12.5% 100% 60 apud Monteiro (op.0% 0. Não me alongarei na análise desses dados. abandonada pelo poder público e não o tendo como legítima instância a se recorrer.0% 1. mas é a partir deste levantamento que o autor estabelecerá uma série de implicações com as práticas políticas locais e com a trajetória política que utilizará para ilustrar tal vinculação. agindo coletivamente. criava suas próprias alternativas.0% 9. O segundo equívoco revelado sobre a ação proletária na Baixada Fluminense relaciona-se com o entendimento de A própria alteração do nome da coluna é significativa de um processo de transformação nas imagens produzidas sobre a Baixada Fluminense. o autor analisou o “caso Belford Roxo”.0% 6.0% 17. Sua hipótese inicial era a de que os principais problemas diriam respeito a situações de difícil resolução informal. substituída por outra. escolas Iluminação pública Lotes abandonados Opções de lazer TOTAL NÚMEROS TOTAIS 500 400 340 240 180 180 120 20 10 10 2000 PORCENTAGEM 25.5% 0. Por intermédio da análise do processo de emancipação do ex-distrito iguaçuano.

Ammann (1991).que existe passividade popular no desconhecimento de deveres e direitos e na negação das reivindicações como algo efetivamente solucionador de problemas políticos inerentes à ação de governos. é criticado involuntariamente por esse morador que se orgulha do fato de não depender do governo para manter sua rua transitável e seu bairro parcialmente organizado (idem. Jacobi (1987). Cessado o conflito. Doimo (1995). A rede de resolução de problemas práticos não configura. 61 55 . a situação merecedora de cobertura da imprensa — a criação do movimento “roça limpa” — não se desarticulou. entre outros. Monteiro inicia seu relato sobre a rede de resolução de problemas práticos a partir de uma disputa política — e por visibilidade — entre um vereador local e um líder comunitário. A população local continuou revezando-se para a coleta do lixo. aspecto do paternalismo extremamente aprofundado em nossas instituições políticas. como um todo. um movimento social. suas características. Sader (1987 e 1988). Alguns conflitos públicos foram desencadeados até que os dois finalmente entraram em acordo. permanente e não-reivindicativo (no sentido de não privilegiar as manifestações públicas)61. É neste aspecto que a abordagem de Monteiro diferencia-se daquela elaborada por Freire — que Sobre movimentos sociais. D’Incao e Botelho (1987). consultar. improvisando latas para seu acondicionamento e utilizando-se de um caminhão particular (de propriedade de um morador da região) para seu transporte até o “lixão”. Distingue-se deste último por seu caráter espontâneo (não-formal). sobre “serviços” prestados à comunidade e sobre a “cobrança por proteção (o líder comunitário pertenceria a um grupo de extermínio). Aquele tradicional entendimento de que cabe ao governo a responsabilidade por resolver todos os problemas. 44). no entanto. entre outros. p. sua forma de organização. Tal prática é mais comum do que se imagina na Baixada. Oliveira (1987). Cardoso (1983). Boschi (1983 e 1987).

despidas de um caráter de “serviço” (como empregado por políticos e alguns líderes comunitários) e a busca por visibilidade vão novamente na direção oposta daquela abordada por Freire. Mas qual seria a singularidade de uma organização popular não-reivindicativa como esta? A resposta popular à sua invisibilidade pelo poder público se dá justamente a partir de uma concepção particular de política. ao tratar das organizações coletivas (op.). seriam compulsoriamente envolvidos na “ação coletiva”. tal rede seria mais ampla do que as organizações populares formais: os moradores da Baixada. mas percebida como um fato. os juristas etc. nobreza da corte. letrados. o patriciado. por conviverem com uma realidade extremamente dura. A despeito da generalização desta afirmação. Para Monteiro (op. Em consonância com tal abordagem. Seria justamente essa invisibilidade (não necessariamente desejada. Interessa-nos 62 56 . o MAB. Analisando momentos históricos distintos. os proprietários dos meios materiais de gestão). à auto-resolução dos problemas e à concepção de cidadania por parcela de moradores da Baixada nos dá indicativos da concepção de política local — e de sua experiência efetiva.).). o autor chama a atenção para o surgimento de diversas categorias privadas dos meios de gestão públicos (clérigos. por intermédio de práticas solidárias cotidianas. O agir no mundo (em seu mundo).cit. a análise relativa à constituição das redes. cujo surgimento remete à relação de oposição entre o príncipe e “as ordens” (ou seja.cit. diariamente constatada na relação morador-poder público) e sua percepção como “forma de convivência” por excelência a pautar esta relação que permitiriam a atuação efetiva da rede de resolução de problemas práticos e sua manutenção mesmo após a “resolução” de um problema específico. esses moradores não percebem a cidadania em associação à reivindicação de direitos. Utilizo a definição weberiana de político profissional. o autor assim analisa o surgimento do líder marginal — em oposição ao político profissional62. Grosso modo.volta seu olhar para um movimento social constituído.

p. no entanto. cuja figura política central seria o boss (EUA). completo o perfil do líder marginal se não entendermos que grande parte desses líderes lentamente. agindo como um elemento facilitador na medida em que organiza os trabalhos realizados dentro da rede. tomaram assento primeiramente nos legislativos municipais e depois nas prefeituras dos distritos iguaçuanos emancipados” (ibidem. pois. Não deixa. o líder marginal e o político profissional. Para ilustrar a imbricada relação entre estes dois tipos ideais. Ao insistir na nítida diferenciação entre tal líder e o político profissional. o líder marginal poderia surgir unicamente como mais um dos “políticos” que pululam na região ignorando o trabalho mudo da rede de resolução de problemas práticos. portanto. Desvinculado da rede. ou — mais comumente — se aproveitando da boa vontade de alguns inocentes para conseguir votos através da realização de “obras de maquiagem” que. “Não seria. tendo na vocação sua marca distintiva (Weber. conforme vimos. é ele parte integrante dessa informalidade. o autor acaba por reforçar a caracterização do sujeito que vive “para a política”. 96).O perfil do líder marginal da região da Baixada Fluminense traçado até aqui permite-nos chegar às seguintes conclusões: é esse elemento alguém necessariamente integrado à comunidade em que vive. porém de forma decisiva. apareceria de maneira exemplar na trajetória de Joca: particularmente a noção de “funcionário” e a relação entre a empresa política e a empresa de interesses.1971). 97). o autor relata como os primeiros acabam tornando-se vereadores. ele não existiria sem a informalidade de resolução de problemas práticos. 57 . “acabam com a primeira chuva” (idem. p. de destacar a necessária transição de um pólo ao outro. Essa “invasão”. segundo o senhor Antônio. conforme chama. prefeitos ou deputados estaduais num movimento mais voltado à mobilização popular — com fim às emancipações distritais — do que a profissionalização em si.

a população belforroxense aposta que se Joca comportar-se à frente da prefeitura como comportou-se como um líder marginal de seu bairro e como vereador iguaçuano. carroceiro. Joca lançou seu nome para possível 58 . em 1988. Sua vida pública começou. algumas lideranças de Nova Iguaçu começaram a vislumbrar possíveis alianças.O primeiro prefeito de Belford Roxo surgiu-nos como um exemplo lapidar da liderança marginal baixadense na medida em que experimentou uma rápida ascensão política completamente ancorada na sua eficiente ação social substituidora do poder público e no seu forte carisma pessoal. pedreiro. Em lugar da negação da reivindicação política como algo eficiente na resolução dos problemas. do PDT que. Jorge Julio da Costa. o prefeito do município era Aluísio Gama. Com prestígio em alta junto ao eleitorado de Belford Roxo. nunca mais será a mesma” (idem. na época já “um bem sucedido empresário do setor de transportes e construção” (p. filiado ao PL e convencido de que poderia alçar vôos mais altos.98. no entanto. Joca mantinha ambulâncias (vans adaptadas) para atender a população de Belford Roxo (ainda distrito de Nova Iguaçu) mesmo antes de candidatar-se a um cargo público. tinha como diferencial sua relação com o “povo”. Em 1991. No período em questão. Com uma trajetória política marcada por um estilo próprio e pelas trocas constantes de partido. “Belford Roxo. Sua liderança na região passa a ser reconhecida já a partir do final da década de 1980. p. em 1992. já próximo a Bornier. 117). como vereador em Nova Iguaçu pelo PMDB. Grifos do autor). o Joca — ex-baleiro. manifestando-se a favor da emancipação do distrito. Acompanhar tal ascensão permite-nos compreender ao mesmo tempo as razões que orientam o desenvolvimento da liderança marginal e a mutação que tal estilo de lidar com o poder público imprime no próprio poder público: a chegada de Joca à prefeitura de Belford Roxo determinou a inauguração de um estilo diverso de governo. “matador” e/ ou “justiceiro” — foi eleito com mais de 80% dos votos válidos como o primeiro prefeito de Belford Roxo (após a emancipação). conseguiu atrair Joca para seu partido.

21-22). 2000). Jornal do Brasil e. mais regionalmente. poder local e esferas de poder “supra locais” (idem): o rápido crescimento urbano ocorrido na região a Mais detalhes sobre sua trajetória e sobre os desdobramentos políticos de sua morte serão abordados no capítulo 3 desta tese. nos eximindo de pensar tal violência como um aspecto da própria relação com o Estado. urbanização desordenada. Nesse sentido.). 2003. um conjunto de fatores explicaria a permeabilidade da máquina estatal e a consolidação de grupos políticos graças às relações entre violência. viabilizará uma instrumentalização da violência política. “A instrumentalidade política da violência relaciona-se com a subjetividade de uma determinada população. As redes políticas a que atores como Joca estão vinculados trazem à tona o movimento e a circulação de imagens e indivíduos. abandono. Ricardo Gaspar. Contudo. ano em que foi assassinado após reagir a um suposto assalto na saída do túnel Santa Bárbara. Zaluar (1996). 64 Ver. O Dia) vão colocar-nos diante de um processo que. a violência e a fala do crime (Caldeira. 63 59 . Alves nos chama a atenção para o fato de que as imagens da violência veiculadas pela mídia e cristalizadas pelo senso comum generalizam a violência/ criminalidade — naturalizando-a — assim como transmitem a sensação de estarmos todos inseridos em um “estado de barbárie”. construindo formas de perpetuação de poderes e lógicas sociais de justificação do recurso à violência: a sua relação com o poder e com o estado” (Alves. globalização do crime64 etc. para o autor. a este respeito.candidatura em Belford Roxo — tendo como vice um político ligado às elites tradicionais. ocupação rápida. no Rio de Janeiro63. associado às questões anteriormente elencadas (pobreza. Foi eleito e governou Belford Toxo até 1995. pp. ainda que minimizadas pela grande imprensa (jornais como O Globo.

em Belford Roxo e Zito. 1993). 65 Nome pela qual era conhecida sua inseparável metralhadora.31). o incremento populacional. As trajetórias políticas de figuras como o Barão-fazendeiro (ibidem. o emblemático Tenório Cavalcanti e sua “Lurdinha”65.partir de 1930 e os conseqüentes loteamentos de terrenos. permitem-nos mergulhar na multiplicidade desses sentidos e em sua polifonia. fazendo despontar novos nomes. A associação entre a política local. O contraste entre a antiga oligarquia rural e o selfmade man inaugurou um novo cenário para as relações políticas na região. Se os discursos dos moradores. a dimensão política nos apresentará algumas formas de instrumentalizá-los. a família Raunheitti (em Nova Iguaçu) e até os populares “justiceiros/ matadores” — Joca. tomados anteriormente. o jogo do bicho e as escolas de samba também constituíram outra faceta deste quadro (Cavalcanti. Tal composição está presente. a presença de matadores operando numa linha bastante tênue entre público e privado — além de sua ligação com setores do capital privado (empresariado local e regional) e as relações dos atores envolvidos nesses esquemas de dominação política local com as esferas do Executivo. Legislativo e Judiciário. em Caxias — sem dúvida lançam luz sobre os processos e relações sociais igualmente constitutivos do “lugar” Baixada Fluminense. 60 . os projetos — de atores políticos coletivos e individuais — vão também delineando novas fronteiras para a Baixada. o eloqüente orador Getúlio de Moura. o período de ditadura militar e a “atomização das relações sociais”. As elites políticas da Baixada não estiveram isoladas como se poderia supor dadas as precárias condições infra-estruturais e o abandono de seus moradores. A composição da Baixada em treze municípios — tal como mencionada no primeiro parágrafo deste capítulo — corrobora alguns desses projetos. tendo no município de Nilópolis e na família Abraão David seus exemplos paradigmáticos. Nesse sentido. p.

porque essas chacinas estão próximas da barbárie e eles não querem mais estar associados a isso” (Maria dos Carmo Gregório apud Enne. cit. no Relatório Impunidade na Baixada Fluminense. pelo ‘grande avanço’ de infraestrutura. via Secretaria de Governo da Baixada.. Mas talvez porque esses políticos que tinham uma representação mais a nível regional começaram a ganhar espaço nacional […] não querem ser associados à barbárie. já em 2005. assim como por Alves e outros pesquisadores. referindo-se a uma configuração que incluiria ainda Paracambi ou Itaguaí. op. Deste A importância da configuração adotada pelo Estado. nos discursos de agentes ligados à Secretaria de Estado de Desenvolvimento da Baixada e município adjacentes (conhecida apenas como Secretaria da Baixada)66. Alguns discursos políticos mencionam a necessidade de se “pensar a Baixada como um todo”. op.cit. à Associação de prefeitos da Baixada Fluminense. 110-111). em projetos sociais ligados à música (Costa. Outros exemplos serão aqui apresentados a partir de imagens divulgadas pelas campanhas políticas durante o período eleitoral de 2004 em Nova Iguaçu e em Duque de Caxias. abordado no próximo capítulo. 66 61 . quer construir uma outra imagem pra região.cit. é também abordada por Freire (op. Eu não digo nem pelo avanço cultural. ou na disputa por acessos privilegiados (Kuschnir. visando a ampliação de poder e prestígio.cit. op. que a gente não vê.) ou da constituição de identidades (Freire.cit. Monteiro.). 2000) ou ainda em torno “da memória” (Enne. entre outros que procuram redimensionar o “lugar”. que a Baixada ganhou [espaço na mídia]. Freire. porque não foi tanto assim. pp. você tem grupos políticos ligados a grupos de extermínio que não querem mais ser associados a isso. op. por exemplo — como no caso de um de meus interlocutores. E eu acho que têm meios de comunicação que estão aliados a esses grupos políticos.).. cit). “Até mesmo o poder público. o poder político. querem buscar estar agora próximos à modernidade. quer seja na tentativa de obtenção de verbas públicas. E por outro lado. op.por exemplo. 2006). às mobilizações coletivas pela Universidade Pública da Baixada (cf.

A noção anteriormente mencionada de rede de resolução de problemas práticos nos dá algumas pistas dos caminhos a seguir. Todo mundo que fica rico. moradora da Posse – Nova Iguaçu). nos referimos ao “lugar” como a “territorialização” operada pelos múltiplos sentidos possíveis (através de atores.modo. fundamentalmente. tem apartamento e sexta-feira pega o carro e só volta na segunda” (I. quer com a Zona Sul e. a Baixada permite que pensemos esta coleção de lugares a partir do aspecto não exclusivamente racional do espaço. agências etc. Caracterizada pela circulação de informações e imagens. 62 .. “A Barra [da Tijuca] é o paraíso dos ricos da Baixada. mas pelo fluxo e pela interação de elementos diversos. Se não muda. com a Barra da Tijuca. quer pela associação com bairros da Zona Oeste (Campo Grande) e subúrbios da Avenida Brasil (Irajá e Pavuna). por exemplo). comerciária e estudante de administração. palavras e pessoas. Se no início deste capítulo. 26 anos. sem dúvida. A política na Baixada é. a busca por uma “outra imagem” para a Baixada — por intermédio de projetos políticos traduzidos em ações com repercussão coletiva — acaba por exacerbar a fluidez desse “lugar” e a ampliação da interpenetração com outros “lugares” (como a cidade do Rio de Janeiro.). A conjunção do espaço e do território aos usos e significados a que estão submetidos redimensionam a qualidade banal de “meio” e operam uma religação. 1992). “coisa pessoal”. muda pra lá. e às vezes ambíguos. daqui por diante estaremos remetendo a um tipo específico de “territorialização”: a efetuada pelo discurso político e por suas práticas (Deleuze. conformados em modos de ser e experiências sensíveis.

O conjunto desses discursos. 2005) para que a Baixada faça sentido na própria enunciação67. Sargentini (2003). através das narrativas. à linguagem (o político é o homem que fala) —e caracterizado pela contradição que encerra entre a distribuição das desigualdades e a afirmação de pertencimento ( cf. Castilho (2000). como os diversos sentidos atribuídos ao “lugar” serão cruciais no repertório acionado pelos atores políticos no momento de sua apresentação. demonstraremos. 68 Balandier (1982). portanto. voltam a nossa atenção às experiências cotidianas e vivências. técnicas e interlocutores68. os lugares de dizer (Guimarães. E. A política. políticas) buscando apresentá-las como razoáveis e coerentes. Sarmento (1999). Piovezzani Filho (2003). Ou seja. p. Carvalho (1995). aparecem como justificativa para a ação. como uma espécie de “razão prática”. entendida também como espetáculo trará novos personagens.17). Para Guimarães. Ela tornará possível a existência de outras Baixadas e será por essa multiplicidade atravessada. e aos discursos e projetos políticos. Puls (2000). 67 63 . Courtine (2003). também a rede de resolução de problemas práticos ou mesmo a construção das arenas públicas a partir da problematização de situações específicas. assim como os lugares-eventos (Borges. ao longo desta tese. Desse modo. 2003) enfatizam as “palavras” e os “feitos” nativos. as pessoas envolvidas interpretam o mundo e expressam alternativas (no caso. Chaia (1996). É a partir desta visão que a articulação entre imagens da Baixada (e as possibilidades para sua expansão) e projetos políticos individuais e coletivos serão apresentados como forma de apreender os sentidos da espetacularização do mundo político.As trajetórias políticas selecionadas nesta tese serão os enunciadores-políticos. o político é pensado como fundamento das relações sociais —importância fundamental sendo conferida.

A prática política na Baixada não pode. ora valendo-se de partidos. Pretendo. desde sempre. de modo algum. foi 64 . ainda apenas por telefone. de documentos históricos sobre a trajetória de Jorge Gama. operada a partir de indivíduos-chave e da busca por seus interesses particulares. ao começar o trabalho de campo em Nova Iguaçu. pretendo apresentar algumas observações sobre as relações políticas na Baixada Fluminense – fundamentalmente a partir de 1964 – utilizando-me.CAPÍTULO 2: JORGE GAMA: O ARTICULADOR (OU VISIONÁRIO?) DE UMA BAIXADA Neste capítulo. além de entrevistas e conversas informais que realizei com ele. Minha escolha por iniciar por sua trajetória não foi arbitrária. enfim. densidade e esvaziamento. para tanto. delas se apropriando e tornando-as visíveis a outros universos sociais. ser entendida através de duas ou três redes compostas por partidos políticos determinados a priori. 2003). espero ilustrar o papel de alguns de seus atores sociais na construção de projetos políticos que trouxeram à tona imagens da região. aglutinação e reformulação. Alves. Grynspan. Com isso. 1986. a multiplicidade da conceituação referente à Baixada a partir dos discursos políticos aqui apresentados. Para compreendermos este quadro. meu primeiro contato. assim. a política local e seu modus operandi. uma das dinâmicas constitutivas das redes políticas da região. Destaco que. Ferreira. 1990b. Pensar. A “personalização” é. transformar Jorge Gama no primeiro narrador de uma das versões sobre a Baixada. 1994. ora de redes mais amplas para atingir seus objetivos (Beloch. devemos excluir o ponto de vista estático para pensá-lo em processos constantes de abertura e fechamento.

obteve 2.761 votos. obtendo 1. em 1986. Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. no qual permaneceu até 1990. ainda pelo PDS.com o assessor de imprensa do então prefeito Mário Marques69. Elegeu-se vereador em seu primeiro mandato pela ARENA. em 1996. da identificação da rede política em que Jorge Gama se insere. prosseguindo com suas atividades de assessoria com a transferência do mandato ao vice-prefeito Mário Marques. que na época era do PP.772 votos e foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. Tanto as entrevistas quanto as “conversas” foram feitas em seu gabinete. tendo assumido o cargo em 2002. em 1988 com 1. foi novamente candidato à Prefeitura de Nova Iguaçu pela coligação Crescer sempre com Deus e com o Povo. e para a Câmara dos Deputados. em 1988 e em 1990. um político tradicional do PMDB do estado. principalmente ao secretário de governo. em duas legislaturas (1970/ 1972 e em 1976). já pelo PPB.025 votos. localizada no km 15 da Rodovia Presidente Dutra72. após as entrevistas. com 2. para esta tese. 72 Geralmente. PC. o ex-deputado federal Jorge Gama que se tornou um importante interlocutor desta pesquisa. como relator. almoçávamos juntamente com outras pessoas (outro secretário. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. pela legenda do PTR. Aos 63 anos. em 2000. Pedro Cezar e algum outro assessor). foi juiz de paz da Comarca de mesmo nome. Em 2004. Candidatou-se à Câmara dos Deputados. quando julgar que tal empreendimento se justifique. pelo mesmo partido. de 1999 a 2000. Foi reeleito vereador.882 votos – ficando na 5ª suplência. mas já está na política há quase vinte anos.397 votos. realizada na Secretaria de Governo da Baixada. 23 de setembro de 2004 e 15 de outubro de 2005) – dada a importância. em 1981. trabalhou nos jornais O Globo e O Dia. Foi por seu intermédio que tive acesso aos secretários. Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) pelo mesmo partido e participou da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. tais eventos também são considerados fontes importantes para a pesquisa. quando atuou como Relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu. foi o 3º mais votado do município. em alguma medida. após 30 anos de mandatos legislativos. Repetirei este artifício com outros atores.024 votos.615 votos. Na mesma ocasião. Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS). tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. Reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. também nacional71. como é conhecido. Minha presença exigia uma redefinição da “situação” pelos 69 65 . em 1970. com exceção da última delas. Iniciou-se nesta atividade como assessor de Moreira Franco e Francisco Amaral. Lindberg Farias. sendo reeleito em 1972. em 2002). Foi reeleito vereador pela terceira vez em 1976 (ARENA) com 3. Reeleito pela quarta vez em 1982. e secretário de administração da prefeitura de 1967 a 1968. Apesar de não registrados sistematicamente. obtendo 4. Pedro Cezar.180 votos. 71 Esclareço o uso extenso das transcrições das entrevistas – realizadas em três ocasiões (10 de agosto de 2004. 70 Jornalista de formação. na Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu. sendo o 1º da coligação PTR/ PST. entre 1967 e 1970. com 3. com 4. em 1990. por intermédio de sua narrativa de si. O prédio da Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. em julho de 200370. Advogado. perdendo para o candidato do PT. além de ser um personagem com destaque na história política regional – e. trabalhando também com Nelson Bornier em suas duas últimas campanhas (para o executivo municipal de Nova Iguaçu. elegeu-se também 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu.

andar). do outro lado da rua. certamente. quando desejavam falar algo que não deveria ser divulgado. uma vez que vários dos encontros marcados já haviam sido cancelados. Ofereceu-me água e café. no qual há uma ante-sala com ar-condicionado. ligado. não conversavam sobre qualquer assunto e. Pedro Cezar saiu e pediu-me que. Após alguns telefonemas. dizendo que determinado assunto deveria ficar em “off”. o procurasse na secretaria de comunicação (que ficava no prédio anexo. uma sala de reuniões e salas de alguns secretários) para acertarmos a data da entrevista com o prefeito. resolvi dirigir-me diretamente à Prefeitura para tentar estabelecer contanto com alguém próximo ao prefeito Mário Marques. Este último foi muito receptivo. A primeira entrevista não foi previamente agendada. Nesse dia. fazendo trabalho sobre política na Baixada”. O gabinete do secretário de governo está localizado no andar superior. apresentou-me a Jorge Gama como “pesquisadora. assim. alertavam-me. com aproximadamente dez cadeiras. para uso de seu assessor pessoal – e uma grande mesa oval. Após aproximadamente uma hora de conversa. porque teria que dar alguns telefonemas antes de falar comigo. algumas poltronas e a mesa de sua secretária. no bairro central. camisa bege e gravata. O dia estava muito quente e o ar-condicionado. Levou-me ao gabinete.Prefeitura situa-se na Rua Ataíde Pimenta de Moraes. entrando sem ser anunciado. O gabinete é amplo: tem duas escrivaninhas – uma para uso próprio e a outra. próximo ao maior shopping center da cidade. ao terminar. 528. 10 de agosto de 2003. conheci Pedro Cezar pessoalmente. além do piso subterrâneo onde costumavam ficar as assessorias de comunicação e outras afins. juntamente com o gabinete do prefeito. 66 . Jorge Gama estava de terno escuro. pedindo à secretária que providenciasse presentes já que. convidando-me a sentar. prometeu agendar uma entrevista com o prefeito e resolveu apresentar-me a seu secretário de governo para que. no. Tem dois pavimentos (térreo e 1º. o Top Shopping. “a viagem não fosse perdida”. Lá.

era o de entender como se fazia política na Baixada Fluminense. juntamente com o pai. estudando à noite no Colégio Monteiro Lobato (uma tradicional escola da rede pública). era dona de casa. estava com meu gravador. Só mais tarde. a princípio. Jorge Gama nasceu em 19 de setembro de 1942. dono de uma carvoaria em Nova Iguaçu e de um botequim.os mesmos. citando sua leitura de Darcy Ribeiro. uma das melhores e mais tradicionais instituições educacionais privadas da cidade e referência local. Sua mãe. Deixei que falasse sem interrompê-lo. Noêmia de Oliveira Gama de Barros. a mãe e os três irmãos. centrada em seu nascimento e nas histórias sobre seus familiares. foi nomeado 67 . Continuou trabalhando no cartório e. certamente teria direcionado seus estudos para alguma carreira na área das ciências sociais. sobre sua trajetória. Afirmou que. Como de praxe. Jorge Gama mencionou o fato de gostar de antropologia. A primeira entrevista teve início formalmente e pedi que ele me falasse um pouco sobre si. intervim. ainda hoje. era imigrante português nascido durante o regime salazarista. Carioca “do Rocha” (subúrbio do Rio de Janeiro). Seu assessor retirou-se. Perguntei se poderia gravar a entrevista. Seu pai. só retornando quando estávamos terminando a entrevista. Sua narrativa recomeçou. se não tivesse feito Direito. Aos 12 anos. então. perguntando se ele havia nascido em Nova Iguaçu. ao que respondeu-me imediatamente. narrando sua entrada no MDB. quase duas horas depois. foi trabalhar no Fórum. Manuel de Barros. Expliquei que se tratava de minha tese de doutoramento pelo Museu Nacional da UFRJ e que meu interesse. localizado onde hoje situa-se o município de Mesquita. aos 18 anos. Jorge fez o primário (hoje chamado de ensino fundamental) no Colégio Iguaçuano – na época. Era comerciante. mudou-se para Nova Iguaçu com seis anos de idade. ao que ele não fez nenhuma objeção.

a estratégia de manter dois partidos políticos visava evitar a desconfiança e o descrédito gerados por um sistema autoritário strito sensu (Avritzer. negociando cargos e privilégios com os antigos – e tradicionais – donos do poder (Ferreira. logo em seguida. Leal. ainda que parcial. o MDB fluminense caracterizava-se (no período de 1965-1979) por um alto grau de heterogeneidade. cit. O problema dessa estratégia foi que ela criou um processo político que não levava à legitimidade. 73 68 . em 24 de março de 1966. oficialmente (registrado na Justiça Eleitoral. mas não porque seus programas políticos fossem ao encontro do desejo da maioria do eleitorado. Sua fase adulta transcorreu durante os anos de ditadura no Brasil. 2001). congregando diferentes facções que disputariam a hegemonia interna pelo poder no partido. Oscar Passos. 74 Segundo Avritzer (2000). “o regime autoritário permitiu o funcionamento parcial da sociedade política. Quando concluiu o curso de direito pela Universidade Federal Fluminense. 1975) já que necessitava angariar apoio. (DHBB. cit. A autora faz uma análise da máquina chaguista – desde sua estruturação e ascensão.. da sociedade política e garantindo sua legitimidade com base na percepção de que tal situação seria transitória73. apesar de existir desde finais de 1965). Assim. Nessa O MDB surgia. e sim porque isso lhe possibilitaria manipular o processo eleitoral de modo a assegurar o controle a longo prazo do aparelho estatal..). em 1969. o bipartidarismo (ARENA e MDB). 170-171). Segundo Diniz (1982). permitindo o funcionamento. 2000)74. O regime militar e o momento posterior da “abertura” são significativos para o entendimento da política na Baixada Fluminense. a ARENA. a princípio. Nascido sob o signo da oposição ao regime – e “batizado” por Tancredo Neves (Ulysses Guimarães preferia a palavra ação a movimento) – o partido foi inicialmente presidido por um general. pouco defrontava o partido do governo. No entanto. optou por não fazer concurso e permanecer no cartório onde “ganhava bem”. Alves. além de constituírem o contexto de surgimento de algumas trajetórias políticas expressivas em termos mais gerais.. op. o regime autoritário cassou mandatos parlamentares e instituiu o AI-2 (que implicou a extinção dos partidos políticos) e. 1975.) O regime autoritário entendia que a vitória nas urnas dar-lhes-ia legitimidade. Em um primeiro momento. até a articulação de suas bases de apoio – demonstrando a construção de um aparato ligado essencialmente ao clientelismo. e sim ao autoritarismo” (pp. op. o processo político implementado pelo novo regime não conseguiu diferir das antigas relações patrimonialistas e clientelistas (Faoro. contanto que esta se sujeitasse aos objetivos primordiais do regime (. Senador pelo Acre e. suas implicações dentro da estrutura urbana e sua relação com as massas.escrevente.

pela UDN (União Democrática Nacional. Apesar de qualquer menção ou análise da situação de Nova Iguaçu estar ausente da narrativa de Jorge Gama durante a primeira entrevista que me concedeu. em 1963 e Antônio Joaquim Machado. entre outros. mais tarde. 76 Fonte: TRE-RJ e Arquivo da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. dois presidentes da Câmara Municipal (José Lima. em 1968). com cassações de prefeitos e vereadores da oposição e a imposição de interventores na região. nesse período. Enne (op. Sarmento (1999).cit. tal situação explicitava-se pelo grau de intervenção nos municípios75. Darcílio iniciou sua vida pública ocupando a quinta suplência na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Amado (2003). entraram em cena novos atores que. fato que. em 1966. diante da situação política conturbada que se estabeleceu após a instauração do regime militar. em 1963 e Ari Schiavo do MDB. em 1967) e dois vice-prefeitos (João Luiz do Nascimento. culminou na interferência direta sobre o poder local. surgiria como uma das principais lideranças dentro da Baixada77. Entre 1963 e 1969. mesmo após 20 anos de democracia. irmão mais velho e “padrinho político” de Fábio Raunheitti que. 77 Do outro lado do campo político.época.). a região passou por significativas mudanças políticas. em 1969). na Baixada Fluminense como um todo. dois prefeitos eleitos (Aluísio Pinto de Barros. em 1966. e Rui Queirós. Sobre os processos de construção da memória. A cidade teve como chefes do executivo. Em Nova Iguaçu. e Nagi Amalwi. consultar Pollak (1989 e 1992). assim como sua reelaboração sob diversas perspectivas. dois interventores (Joaquim de Freitas. em 1962). vinculados ou não aos militares. em 196776) e viu despontar nomes como o de Darcílio Aires Raunheitti. da ARENA. Santos (2003). Fábio 75 69 . mais especificamente. perpetuaram-se na vida política local e ainda demonstram sua influência e prestígio. tais mudanças resultaram na nomeação de/ ou na eleição de oito prefeitos diferentes.

casado com Lígia Gonçalves Raunheitti. filiou-se ao PDS. por sua vez. transferindo sua base eleitoral ao irmão. envolvendo-se em acusações de corrupção e mau uso do dinheiro público mas. apesar disso. era (e ainda é) a faculdade de medicina (posteriormente. As relações políticas que têm o município como locus serão objeto do próximo capítulo que analisará a trajetória de Zito. A entrada de Fábio na vida pública deu-se como Secretário de Educação e Cultura entre 1968 e 1970. informação que veio à tona no escândalo em que ganhou a alcunha de “anão do Orçamento”. Duque de Caxias. Em 1979. formado pela UFF. já filiado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional) – partido que dava sustentação política ao governo militar instaurado em 1964 – iniciou uma relação de apoio incondicional ao regime. após a lei 5. perdeu Raunheitti. não escapou da cassação e João Batista Lubanco – ligado aos Raunheitti (Darcílio e Fábio) – foi nomeado interventor. tendo como primeiro interventor Carlos de Medeiros78. que há pouco se havia filiado à ARENA. representada pela emenda Dante de Oliveira. Nilópolis também substituiria seu prefeito. Em 1969. ano em que finalmente elege seu primeiro prefeito desde a instauração da ditadura militar. João Cardoso. por fim – fato decisivo para a trajetória política de Fábio Raunheitti: uso de dinheiro público em sua instituição privada e nos hospitais da Posse e São José. por exemplo. João Batista Barreto Lubanco. de gabaritos de provas. Em São João de Meriti. a ela somando-se a de odontologia). juntamente com o exinterventor. de 4 de junho de 1968. elegeu-se vice-prefeito de Nova Iguaçu. Joaquim de Freitas. seu prestígio e liderança foram transferidos para Fábio. Darcílio. adquiriu não somente knowhow. no qual a população não se pronunciou. Presidiu a Fundação Educacional de Nova Iguaçu de 1975 a 1976 e. a Companhia Municipal de Desenvolvimento até 1982. 79 Em 1965. 78 Duque de Caxias será administrada por interventores até 1985. Faleceu em 1986. a situação de ingerência era a mesma.449. não sofreram qualquer sanção (sobre corrupção ver. em seguida.Nos municípios adjacentes.Após a morte do irmão. assumiu a prefeitura após a renúncia do prefeito de Nova Iguaçu. nessa ocasião prefeito também pela ARENA. dirigiu a Sociedade de Ensino Superior de Nova Iguaçu (SESNI) que atendia à demanda de toda a região. no entanto. op. Defensor do regime militar. que conseguiu projeção regional ao eleger-se deputado federal. Fábio Raunheitti. do MDB. ocorrida em 1986.). cit. Advogado. Também fez oposição à volta das eleições diretas para presidente da República. que esteve rodeada de denúncias de compra de vagas. nesse mesmo ano. visto que as instituições de ensino superior na Baixada eram escassas nesse período. O carro-chefe da antiga SESNI – transformada em universidade em 1992 – agora Universidade Iguaçu (UNIG). Tornou-se uma das principais lideranças políticas locais a partir da década de 1960. candidatar-se. em 197079. de venda de diplomas e. contando apenas com faculdades de pedagogia. reelegendo-se em 1982. impôs resistência às eleições para governadores. pois teria que “fazer frente” a seu irmão. também. Em 1974. por intermédio da empresa responsável pela limpeza urbana na cidade – CONDENI. Os dois estiveram vinculados à prefeitura de Nova Iguaçu durante a gestão de Rui Queirós. Inicialmente. 70 . ciências contábeis e direito. tornou-se área de segurança nacional devido à presença de uma refinaria de petróleo e de uma rodovia interestadual (a Rodovia Washington Luís). em 1972. ampliando assim a oferta de cursos e seu orçamento particular. No mesmo ano. nasceu em Nova Iguaçu em 1928. Com isso. no entanto. mantendo a pretensa aparência de “ordem” (Alves. articulando alianças e financiando as campanhas de seu irmão e de outros políticos locais sem. José Amorim. senadores e deputados e colocou-se a favor da transferência do pleito de 1982 para 1986. Bezerra 1994 e 1998). elegendo-se deputado estadual em 1970 e deputado federal em 1974 e 1978. integrante do mesmo partido de Darcílio e ligado aos irmãos Raunheitti. mas praticamente o monopólio de tal atividade na região. pelo PTB. Fábio fundou e. iniciou sua vida profissional como tabelião substituto em sua cidade natal. apresentada na Câmara em 25 de abril de 1984. por sua vez. foi conquistando cada vez mais alunos (majoritariamente trabalhadores de segmentos populares e de camadas médias assalariadas que precisavam e/ ou desejavam aperfeiçoamento). em um processo aparentemente sem conflitos.

em 1962. Mudou-se para a Baixada quando criança e sua aproximação com a política deu-se ainda quando estudante. Aos 19 anos. em Nova Iguaçu. Foi sob esse clima político que teve início a vida pública de Jorge Gama. a política lhe interessava. parentes do sucessor de Cardoso. reelegendo-se deputado federal em 1982. tendo ocupado o cargo de secretário de Educação de Nova Iguaçu. Simão Sessim filiou-se ao PDS. demonstrando. deixou a prefeitura para ocupar o cargo de assessor da presidência da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Fundren). cujos antecedentes remetem ao apoio financeiro da família Razuk. Em 1972. ficando com o segundo lugar. assim. Lançava-se um candidato. Iniciava-se. De acordo com Alves (op. foi diretor do Instituto de Educação Rangel Pestana. Filiado ao MDB desde 1967. Sessim não conseguiu eleger-se prefeito pelo PSDB. deputado estadual. atrás do candidato do PDT.o mandato como resultado de um processo judicial movido contra ele – e cujas testemunhas foram Miguel Abraão e Aniz Abraão David. candidatou-se outra vez e foi eleito. novamente. ambos do PTB. a união entre política e contravenção que marcaria a imagem de Nilópolis. em 8 de dezembro de 1935. em 1986 e. No ano seguinte. Vamos votar no cara. dessa forma. a Roberto e Bagder da Silveira. Denoziro Afonso elegeu-se o único prefeito de oposição (MDB) nas eleições de 1972. em Nova Iguaçu. irmão de Jorge David e primo de Aniz Abraão David. Em 1994. 2003)80. Simão Sessim filiou-se ao PFL – partido formado pela dissidência do PDS – no qual se reelegeu pela terceira vez. legenda pela qual se reelegeu no pleito de 1998 e também no de 2002. nós apoiávamos. Em 1985. saiu do PSDB e filiou-se ao PPB. Era uma coisa muito despolitizada. foi nomeado presidente da Câmara. Nas eleições municipais de 1996. da nossa turma e aí. assim. na qual Nelson Abraão não se elegeu. em alguns casos. Nós fizemos isso 80 As famílias David e Abraão David ingressaram na política durante o período da ditadura. 71 . Jorge David (Alves. em 1990. tornou-se chefe de gabinete na mesma cidade sendo. enquanto seu primo. Miguel Abraão David. esteve ausente da sessão em que foi votada a emenda Dante de Oliveira. Já em São João de Meriti. uma espécie de liderança na turma e botava ele na Câmara. pela quinta vez. inicialmente ocupando cargos nas prefeituras da Baixada com o apoio do aparato do governo federal e. tinha um fato interessante. momento em que se filiou à UDN. logo em seguida. Pegava um nome. nas eleições para a Câmara dos Deputados e Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. sua posição quanto ao assunto em questão. nasceu no Rio de Janeiro. da nossa patota. a família Abraão David sairia derrotada nas eleições municipais de Nilópolis. iniciou-se. elegeu-se prefeito de Nilópolis pela ARENA. a vinculação das relações políticas com o jogo do bicho no município. ano em que ingressou na ARENA. neste momento. vamos botar ele na Câmara. No entanto. Em 1977. Era um modismo. mas ainda com certa distância e muito ligada às suas relações pessoais e a um “estilo contestador”. mesmo tendo Nilópolis como uma de suas principais bases eleitorais (além de Itaguaí e Magé). nesse período já emancipada de Nova Iguaçu. cit. José Carlos Cunha (TRE/RJ). elegeram Simão Sessim deputado federal (pela primeira vez) e Jorge David. No ano de 1976. No ano seguinte. durante a década de 1950. Formou-se em Direito pela Gama Filho. em 1969. Simão Sessim. muito eleitoral. “Aqui.). (1971) nomeado procurador-geral em Nilópolis. de São João de Meriti. Em 1979. Em 1984. mantendo relações com interventores federais.

Tarso de Castro.) Naquele ano [1970] o Pasquim representou. Paulo Faria. um pouco influenciado pelo grupo do Pasquim81. o Eliasar Diniz.. num bar que tinha na esquina.23). Eu usava pseudônimos: ‘o Transeunte’ e ‘Maria Auxiliadora da Paz’. ninguém tinha um projeto eleitoral. um jornal de protesto e de oposição. Todo mundo ia pra lá de noite tomar cerveja. 81 72 . o Sérgio Fonseca. sua periodicidade é semanal. Atualmente. A relação e as implicações entre as diversas mídias e a política perpassam a análise da trajetória de Jorge Gama e conferem tons distintos aos O Pasquim – assim como Opinião. no Correio da Lavoura.82 eu. compositor e pintor).” Os personagens criados trazem à tona o papel dos jornais como um dos poucos espaços possíveis para a crítica ao regime. era o bar do Zuza.. Bom. Carlos Propseri. o Pasquim teve várias edições apreendidas. Hugo Freitas (artista). conversar e trocar idéia. 82 O jornal Correio da Lavoura. Editado no Rio de Janeiro. Aos domingos. O jornal era semanal e todo mundo comprava pra ver as piadas e as críticas. (. o Roque Bone (Roque da Paraíba.... de certa forma. Era quase semelhante àquele grupo do Pasquim. mais ou menos. o “Pasquim misturava política.” (p. com prisão de seus editores e processo judicial (.. depois com a ditadura começou a ter um grupo que pensava. foi lançado em 1969. em frente à estação [ferroviária]. Coojornal e Versus – era um jornal alternativo. Paulo Amaral. Reproduzia a linguagem coloquial e incorporava o palavrão – muitas vezes utilizando um asterisco como substituto do termo. que trocava idéias. Em Tempo. Depois criei um outro personagem. E aí se criou. um símbolo da luta de resistência ao regime militar. Movimento. Enfim. Aquilo ali era um cenário. o jornal publicava o que saía dali. E esse grupo se reunia.) Atingido pela censura prévia. Os últimos números do jornal saíram no final dessa década. de contestação ao prefeito. De acordo com Maria Paula N. Fazia uns artigos uma vez ou outra. de circulação local. que esculhambava todo mundo. e foi um sucesso muito grande. Era um cenário meio boêmio e meio contestador.. Jaguar. uma coluna chamada ‘O Negócio é o seguinte’. o ‘Geraldinho boca de trombone’. Claudius Ceccon etc. à política da ditadura. tornando-se um dos principais jornais do gênero. em formato de tablóide e com circulação irregular. boêmio. Era o Robson.. Era uma coluna livre e cada um fazia uma frase. informalmente. perto do Fórum.. que é dono do Correio da Lavoura.) Durante os anos 1980 sua tiragem foi se tornando extremamente rarefeita. amigo. comportamento e crítica social. Demos uma força e o elegemos. Aquilo era um centro de debate. que conversava. Araújo (2000). Chegou a ter uma tiragem de 200 mil exemplares (. Teve em seu quadro de redatores nomes como os de Sérgio Cabral.com o Mauro Miguel. foi criado em 22 de março de 1917.

de alguma forma. com a incapacidade de agir. sem paradeiro fixo. Manifesta-se. Jorge Gama era um advogado recém-formado que. da crítica e do engajamento. traduziu 73 . principalmente o PCB. aos “momentos históricos” por ele vivenciados. sem limites. O período da ditadura apresenta-se como basilar para a constituição de sua identidade política a partir do viés da expressão artística. O marginal (e marginalizado) por excelência. mulher. divulgar uma ideologia e atuar politicamente” (p. o escracho: “Geraldinho boca de trombone”. ainda não propriamente vinculado a uma adesão ideológica. limitadas pelas exigências do regime e do mercado. por fim. o agitador. “a escolha do jornalismo como profissão era uma forma de exercer o engajamento político. portanto pertencente a uma minoria. que fala sem que o detenham. com o medo. pela coragem e pela imprudência. Assim. “Maria Auxiliadora da Paz”. simplesmente. Estes novos veículos trazem para o cenário local (Nova Iguaçu) uma forma de mobilização e de provocação (aos políticos locais) marcada pela criatividade.21). E.marcos temporais. Primeiramente o “Transeunte” e “Maria Auxiliadora da Paz”. indignado com o cerceamento. o escritor livre. que carrega no próprio nome um apelo. em suma. conforme ressaltou Abreu (2003). Na época de sua atuação como colunista no Correio da Lavoura. A conjuntura política do país transformou o papel das mídias – principalmente do jornal e dos jornalistas – gerando. o homem comum que fala. sem destino. aquele que se move. do humor (sarcasmo). uma valorização simbólica da ligação entre jovens quadros a partidos. Os codinomes utilizados são emblemáticos: “Transeunte”. depois “Geraldinho boca de trombone” vão compondo e divulgando discussões políticas e informações proibidas e censuradas como alternativa às notícias dos jornais tradicionais.

por ele considerados “mais de esquerda”: Paulo Faria (um político do interior do estado) e Paulo Amaral (advogado da Comissão de Justiça e Paz. além de 74 . que fez um mandato “combativo” sem. Jorge coordenou a campanha vitoriosa de Betinho (como Humberto era conhecido). De seu escritório. manter uma relação de proximidade com o partido. gerenciava uma prestadora de serviços de assistência jurídica e administrativa juntamente com dois outros políticos. O primeiro turning point de Jorge Gama deu-se. que ficava próximo ao fórum. Este “movimento” (como Jorge o denomina) teve início na década de 1970. Um candidato “mistura de boêmio e contestador. no entanto. Em 1972 (ano em que se casou e residiu no bairro carioca da Ilha do Governador).PCBR e ex-preso político). deu prosseguimento à sua atuação como articulador e coordenador de campanhas.esse espírito de seu tempo como porta-voz local da insatisfação. considerada “mais conseqüente. Sua firma foi a responsável pela articulação da campanha de Francisco Amaral –apoiada pela esquerda (segundo Jorge. ex-prefeito de uma cidade do interior do estado pelo MDB. alegando que o nome de Francisco Amaral (Chico Amaral) seria o mais adequado. exmembro do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário . “uma esquerda independente. influenciando em sua entrada na vida político-eleitoral local com a candidatura pelo MDB do advogado Humberto dos Santos. mas Jorge não aceitou. contudo. uma parte do “Partidão”. Alguns membros do partido queriam que ele se candidatasse a deputado estadual. envolvendose na candidatura de João Luis Nascimento. mais de esquerda”. naquele momento. da contestação e do anseio pela mudança. apenas dois anos depois. mas inorgânico”.

da Lei Complementar n. sem dúvida. Da mesma forma ocorreu a eleição para Presidente da República. De um lado.º 2. no máximo. conhecimentos e práticas remetidos fundamentalmente à postura de crítica ao regime militar. a eleição para governador deu-se por meio de eleição indireta. “ser de esquerda” aludia a um rol de atributos.º 15. como o espaço no qual se deu sua formação ideológica. havia a preocupação em não ser vinculado a uma postura radical (“esquerdista”). em sua narrativa. (Tribunal Superior Eleitoral) 83 75 . na forma do artigo único. realizada pelo Colégio Eleitoral (composto de membros do Congresso Nacional e de delegados das Assembléias Legislativas dos Estados). a mudança de seu estatuto político foi conferida por intermédio da relação com nomes “mais da esquerda” e se apresenta como fundadora de um novo ciclo: sua entrada como ator político na arena local. É a partir da criação desta prestadora de serviço. Havia. anterior à sua vinculação com eleições. caput e § 1º da Emenda Constitucional n. Uma formação mais social”. realizada pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral nas Assembléias Legislativas. ao mesmo tempo em que era desconfortável (para alguns atores sociais) ser rotulado de conservador. Grosso modo. A atuação no cartório (“desde criança”) e sua profissão foram decisivas para o estabelecimento de contatos com diferentes segmentos Nesse ano.setores da Igreja”) – que foi eleito e tornou-se um dos principais nomes da “esquerda local”83. na forma dos arts. O escritório de Jorge figura. um significativo peso simbólico em classificar-se (e/ ou ser classificado) como “de esquerda”. Se a “origem” dessa ligação localiza-se nas “conversas políticas” com os amigos boêmios e contestadores. de 13-081973. A relação com Francisco Amaral. Depois eu adquiri uma formação ideológica. do contato com os dois advogados que trabalhavam no escritório e com Francisco Amaral que Jorge marca sua passagem para a “política de verdade”. de 9 de Maio de 1972. “Eu tinha uma formação crítica. 1º e 2º. estreitou-se a partir de sua entrada no cenário eleitoral de Nova Iguaçu e das possibilidades abertas por um contato direto com a Assembléia Legislativa.

Na ocasião.º 10. (Tribunal Superior Eleitoral) 85 Jorge Gama foi intimado – “convidado para ter uma conversa” – com o major Carneiro. “Nessa época. sendo perseguido.” Jorge Gama disputou. assim como a vida boêmia e o estilo contestador. mas essencialmente por sua ligação com o jornal O Pontual. ao mesmo tempo em que o associavam a um tipo de sociabilidade e de trânsito entre a classe média (na qual se incluía na época da entrevista) e setores populares. embora o partido pretendesse lançá-lo como candidato à prefeitura84. em 1976.sociais. foram reguladas na forma da Resolução n. pelos “personagens” que criou e por seus escritos nos jornais locais. Preferiu. novamente apoiar Francisco Amaral que. segundo este último. Consoante disposto no art.º 10. Não era esquerdista. de 10-12-1976. do Tribunal Superior Eleitoral. nos municípios em que não foram realizadas em 15-11-1976.041. de 16-06-1976. As eleições para prefeito. Ali. no Regimento Sampaio. na verdade. fora “aproveitado” por seu grupo (dada a coragem e ousadia de seu proprietário) para fazer ataques políticos. Juntos. Forjavam-se. estava surgindo uma classe média em Nova Iguaçu. sua primeira eleição para a Câmara Municipal de Nova Iguaçu. do Tribunal Superior Eleitoral. não somente por estar à frente da campanha de Francisco Amaral. que conversava com todo mundo. não conseguiu se eleger. estes atributos compunham a imagem de um profissional responsável. vice-prefeito e vereadores deram-se em 20 de dezembro. no entanto. de âmbito nacional. Eu também estava buscando uma identidade. que tinha as idéias. Já não era mais aquela aristocracia rural. 1º da Resolução n. eu apareço em [19]76 como um personagem que transitava entre todo mundo. por sua vez. mas não era conservador. que pertencia ao empresário Manuel Góes Teles e que. tendo sua candidatura ameaçada de impugnação e seus colaboradores coagidos85. contudo. Estavam em jogo os processos de identificação que resultariam na constituição de sua persona pública. Jorge. em algum nível mediado pelos locais por ele freqüentados. Jorge foi inquirido a respeito do jornal e de sua ligação com Manuel Góes Teles e depois liberado. algumas das características que o distinguiriam e o tornariam um candidato vitorioso naquele momento. assim. 84 76 . foi eleito vereador pela legenda do MDB (Movimento As eleições de 15 de novembro.242.

ex-interventor agora eleito. à política dos vereadores (Lopez. ao voto expressivo dos “servidores da Justiça”. as relações de Jorge com algumas pessoas em Nova Iguaçu foram fundamentais para sua decisão de ingressar no cenário político-eleitoral. Jorge Gama não tinha como reduto eleitoral um bairro ou área da cidade específicos. 86 O mais votado foi Ricardo Gaspar. interessando-me refletir sobre a forma como as relações diádicas são travadas e operacionalizadas para a prática da política local (Mitchell. Desde o período de sua “formação política”. Nesse primeiro momento. segundo o próprio. Bott. tão cara à política em geral – como. diferentes áreas da cidade. 1969.Democrático Brasileiro) como o segundo mais votado do partido – com 3. A noção de rede é aqui retomada privilegiando-se seu aspecto mais centrado no ego. Mayer. A representação espacial. de Belford Roxo. perpassava. A dinâmica das relações pessoais é outro fator que merece atenção. ainda não havia delineada uma geografia eleitoral de contornos nítidos. apesar de representar interesses específicos. Nesse mandato. filho do então deputado estadual Antônio Gaspar. 77 . o ator político. e sim uma determinada camada social e um grupo profissional mais facilmente identificável. 2001) – não era predominante e tornava possível ao candidato (Jorge Gama) ampliar suas possibilidades eleitorais por intermédio de uma “bandeira” que.847 votos86 – graças à sua inserção junto às camadas médias de Nova Iguaçu e. 1969. durante o governo do prefeito da ARENA. Rui Queirós presidiu a Comissão de Justiça e a de Redação da Câmara Municipal e foi um opositor incessante do governo municipal e das políticas administrativas que o executivo implementava. em uma alusão direta a seu vínculo profissional. no caso de Nova Iguaçu. 1971. por exemplo.

tendo sido um dos mais votados da região (TRE/RJ). sejam exclusivamente referidas aos contatos concretos – levando em consideração. apenas em Nova Iguaçu (no total de 38 mil votos). 87 78 . com associações. em 1978 – com 25 mil votos. exemplifica o papel da Igreja e de personagens como Dom Adriano: “Na verdade. fator de derrubada da ditadura”. mas não com uma instituição duplamente milenar. portanto. de sementeira de movimentos sociais que renasceram nos anos 70/80 e. mas qualificaram sua inserção local a partir da rede a que resolveu aderir. Eles podiam fazer isso com universidades. de Dom Paulo Evaristo Arns. por exemplo. Com a vantagem de que era a única instância. Foi Bispo de Nova Iguaçu e atuou junto aos movimentos sociais. como a Igreja Católica. tanto mais a Igreja se unia e se afastava do apoio ao golpe. Acontece que. Dom Adriano Hipólito e de tantos outros bispos. por fim. op. Isso fez dela um grande espaço da conquista. 88 Dom Adriano Hipólito foi um personagem marcante na Baixada entre 1966 e 1981. auxiliando a formação das Comunidades Eclesiais de Base na região. Trabalho com um conjunto limitado de contatos diretos. Essa ligação – e o reconhecimento de seu lugar legítimo como político na cidade – favoreceu sua eleição para deputado federal. pelo MDB. também se lançara candidato. as relações travadas a partir de um ego sem que. a única instituição do país para a qual os militares não teriam como nomear um general da reserva para comandá-la. para quem a rede seria um “conjunto de relações interpessoais concretas que vinculam indivíduos a outros indivíduos” (p. Alves (1991). da Agência Brasil.167). com sindicatos. mas os indiretos (denominados de segunda ordem por Barnes. posterior à primeira eleição e deu-se por meio de sua relação com membros da Igreja Católica da Diocese de Nova Iguaçu – fundamentalmente por intermédio de Francisco Amaral que o apresentou a Dom Adriano Hipólito88. O depoimento de Frei Beto à jornalista Deigma Turazi. o apoio Sem desconsiderar as observações desenvolvidas por Barnes (1969). Paulo Faria. O suporte (político e financeiro) do partido não foi imediato e irrestrito já que seu antigo colega de escritório. Foi seqüestrado em 1976 e torturado. no entanto. dividindo.Bezerra. tornando-se um símbolo pela luta contra a repressão e a ditadura. Tais relações não foram constitutivas apenas dos processos de identificação política de Jorge Gama. de defesa dos direitos humanos. 1994)87. havia setores da Igreja que apoiavam o golpe e outros que fizeram resistência ao regime. cit) também mostraram-se relevantes para o entendimento do conjunto das ações. Dom Hélder Câmara. no entanto. quanto mais a repressão policial-militar fazia cair a sua pesada mão sobre a Igreja. 89 Sobre a relação entre política e Igreja Católica na Baixada. tornando-se uma instância crítica e uma caixa da ressonância da insatisfação com o Regime. os contatos a partir de terceiros. da democracia. o que permitiu sua inserção no universo dos movimentos populares89. consultar. Sua aproximação definitiva com as camadas populares foi. desenvolvo minha análise levando em consideração os nódulos da rede. Dom Adriano morreu em 1996. portanto. como foi o meu caso e o de um grupo de dominicanos de São Paulo. Dom Mauro Morelli.

Mesquita. Mas. esse crescimento. Japeri […] era bem maior. Em Nova Iguaçu. Jorge Gama enfatizou sua independência com relação aos nomes mais importantes do partido na cidade – como o de Francisco Amaral – assumindo a responsabilidade pelas despesas da campanha com a ajuda de alguns parentes.” A partir de sua relação com as associações.”) e. “A minha eleição.dentro do MDB. a “casa própria” não representava somente um sonho de consumo.. em todo o município de Nova Iguaçu. E depois teve uma luta específica que também fortaleceu muito o movimento popular90. nesse período. [fui] o segundo mais votado. 2003). Em seu relato. Francisco Amaral foi advogado da Diocese de Nova Iguaçu. só mais tarde. 79 . e aí o Francisco Amaral. Os despejos em massa consistiram acontecimentos decisivos para 90 É importante destacar que. peguei o meu mandato e coloquei o meu mandato à disposição do movimento popular. mas a própria incorporação social. muito ligado à Diocese de Nova Iguaçu – a Dom Adriano. repito. principalmente política. foi pela classe média. de sua legenda. tornando possível aos indivíduos perceberem-se como cidadãos ao expressarem relações de significação entre espaço e política e sua dimensão na configuração de modos de vida. Eu me engajei totalmente no movimento popular. Assim como o lote (Borges. a bandeira política de Jorge Gama passou a ser a da “casa própria”. tal problemática mobilizou discursos políticos e organizações civis. Então. que antigamente era Queimados. Nós dávamos uma assessoria [sobre] como fazer e tal . possibilitando a Jorge a operacionalização de um fazer político informado por seu fazer profissional: o Direito. o movimento popular estava começando a ter um crescimento aqui. na sua organização do ponto de vista legal. Nós tínhamos reuniões intermináveis aí. política. que nós já tínhamos feito a eleição dele em (19)74. de conhecidos (“um ou outro me dava alguma coisa. na formação das associações de moradores. e na Baixada de modo geral.. já estava na política antes de mim. logo depois de eleito.

na região central da cidade. estes conjuntos habitacionais acabaram […] gerando um adensamento populacional grande.” Para Jorge. uma centena de conjuntos habitacionais. A centralidade da “casa própria” para os envolvidos nos movimentos sociais da cidade refletia-se na dinâmica local. A “casa própria” aparece então como palavrade-ordem para criar e organizar a ação. e aí. Aí as financeiras. Para ele. ingressaram aqui com uma série de despejos e houve um pânico generalizado. nos símbolos adotados e no discurso tornado público pelos atores legitimamente constituídos (investidos) durante o processo. mas a organização financeira não foi a melhor e gerou uma enorme inadimplência. fomentava-se o debate. construía-se a mobilização. nos domingos à noite.solidificar essa aproximação e reformular as imagens que compunham sua identidade política. Nós fundamos mais ou menos umas 23 associações de conjuntos habitacionais. já também engajando no movimento popular das associações de moradores tradicionais. ainda que se partisse de uma questão pessoal – como a casa da família A ou B – o mecanismo de articulação desenvolvido junto às associações conseguia originar debates de natureza política. Através dela (e por ela). esta última se realizava. foi realmente importante essa luta porque nós conseguimos – aí eu já era deputado – modificar toda a legislação para atender aos conjuntos habitacionais de baixa renda. aquele era o momento oportuno para “plantar a crítica e a conscientização” e mobilizar as pessoas para a ação política. De acordo com Pedro Cezar – que estava presente durante uma das entrevistas – “aquilo ali era um aparelho. “O BNH produziu. Estava 80 . na época. O referido escritório situava-se na rua Moacir Marques Morado – atualmente rua Paulo Machado – em frente ao Fórum. Nós pegamos aquele movimento e demos uma organizada. Reuniões eram articuladas no escritório de Jorge. aqui na Baixada.

Era freqüentado também por sambistas. um bairro popular de Nova Iguaçu. Esse mimeógrafo produziu os primeiros panfletos. em contrapartida à satisfação de necessidades e interesses individuais. o Paulo Amaral. tal troca não consistiria uma dimensão política. uma calça Lee. o lugar era. um ponto de sociabilidade. conversando. e sempre levava um whisky pra gente abrir. por parte do eleitor. Durante o mandato de deputado federal. ao mesmo tempo em que funcionava para o atendimento ao eleitor (Kuschnir. feitos pelo Laerte Barros sem a minha autorização. uma coisa horrorosa […] Tinha até um mimeógrafo a álcool. uma coisinha […]”. o Hugo Freitas. aposentado do Ministério da Saúde. uma fumaceira. o Chico Amaral […] Às sextas-feiras. Assim. “de crítica”. o Robson. Neste contexto. visando apenas a maximização de votos por parte do político. de troca. ou seja. Além de receber eleitores. Para Jorge. seu irmão ou algum assessor conduzia as reuniões e os atendimentos até a chegada do deputado. a capacidade do político de obter o bem desejado 81 . artistas e boêmios. organizando as prioridades. sobre lotes de graça no Nova Aurora” (atualmente. que vendia um whisky. o “eleitor tradicional” é concebido como aquele que corrobora a “política dos vereadores”. “Ia todo mundo. aparecia um amigo meu. “A gente também convivia no escritório com o cara que ia pedir uma ajuda. Na sua ausência. 2000). por excelência. A gente tomava na tampinha. ocupado pelo movimento social local). o Roque Bone. o atendimento como uma atividade eleitoral. tinha sempre alguém que precisava usar o telefone e ia lá”. conversar com as lideranças das associações de moradores.sempre cheio. o escritório era pequeno. O escritório funcionava como ponto de encontro para falar de política. o Paulo Faria. Jorge Gama costumava voltar às quintas-feiras à Nova Iguaçu para atender os eleitores e reunir-se com as lideranças locais em seu escritório.

. a carência de aparatos e serviços públicos somada à pobreza em que vivem muitos dos moradores da região promovem a utilização desse tipo de recurso político. op. de outro.cit. evitada e. nunca exclui completamente a consciência lógica da troca” (Bourdieu. sua ambigüidade: de um lado. da atividade política. Lopez. prefeitos. 2003. eleitores (“eleitores tradicionais”) enfim. No entanto. como exaltação da generosidade. É 82 . Tradição mantida por vereadores. Segundo Jorge. que estaria ligado a interesses individuais. Borges. possibilitando sua reprodução. retribuição em termos de voto e apoio (Bezerra. Jorge Gama atribuiu um juízo de valor negativo à “política de resultados”. da “bandeira”) é pensada então em relação diametralmente oposta à troca (reificada em termos do caráter imediato do bem). Tal explicitação é. 2001 e 2004). justificando-o pelo argumento da “tradição”.1996: 7). Kuschnir. no entanto. o foco recai sobre algo já observado por Bordieu: “[…] o caráter primordial da experiência do dom é. por todos os atores sociais envolvidos no processo político. do dom gratuito e sem retribuição. deputados. 1999. reconhece sua necessidade. essa experiência é (ou pretende ser) vivida como uma rejeição do interesse. conferindo à sua identidade política a marca da opção ideológica e da ‘função de fiscal’ do Executivo – mais presente em seu mandato como vereador. Jorge Gama – ao falar de si e de sua prática política –afirma não priorizar o atendimento. o bem da coletividade. ao se pensar a relação de “generosidade” e de “benfeitoria” do político com seu(s) eleitor(es).pelo eleitor lhe garantiria. Diferentemente do exposto por Kuschnir (2000) sobre a concepção de política dos Silveira (seus interlocutores: Fernando e Marta). sem dúvida. do cálculo egoísta. Em todas as entrevistas que me concedeu. em algum nível. em detrimento do que considera o real fazer político: a doação desinteressada. mesmo atribuindo um caráter negativo a tal sistema. A doação (do tempo do político.

em algum nível. 1993. a participação de Jorge Gama. Sua atuação nestes episódios proporcionou sua aparição na É interessante notar como Jorge Gama diferencia a “casa” ou o “lote” de um bem em termos mais gerais. Nesse sentido. é preciso entrar para a política” (Kuschnir. Colocar-se como doador significaria. Para se obter acesso. Em seu primeiro mandato como deputado federal. Viegas. configurava um aspecto distintivo. “ter acesso é o que diferencia os políticos e. lotes ou gasolina). socialmente investido para atender às demandas da população por meio dos canais gerados pelo próprio status do político e por acessos angariados no exercício dessa função. 92 Ver. uma vez que remetia à negociação entre parcelas da população e esferas do poder público. que remetia à formação profissional de Jorge. Lopez. então. render homenagens públicas a “cidadãos ilustres” etc. portanto. quanto técnico. quanto intermediar concessões políticas a empresários. apresentar-se como ator legítimo. os parlamentares.interessante notar que o político benfeitor e/ ou doador nos termos de Chaves (1996) pode tanto atender aos pedidos de pessoas de camadas populares (por remédio. Político. em especial. O acesso é um bem escasso e que não pode ser comprado. 2001). 1996. Tal diferenciação passa pela construção de um discurso coletivo sobre o bem em questão – que envolve a constituição de um “movimento” – autorizando-o. das demais pessoas. Consideradas “um problema da coletividade”91. 1998: 237). as invasões de terra ocuparam boa parte das preocupações e ações de Jorge Gama. A relação entre “movimento” e interesse é fundamental para entendermos as formas de classificação operacionalizadas por Jorge Gama com relação ao seu fazer político. mesmo por quem tem muito dinheiro. Já o saber técnico. o auxílio prestado aos grupos nelas envolvidos era tanto político. 91 83 . (Kuschnir. singularizando-o frente a outros atores políticos locais92. Coradini (2001). Nova Aurora e Monte Líbano são algumas das áreas invadidas – hoje bairros majoritariamente ocupados por conjuntos habitacionais – cujos processos de ocupação tiveram. a tomá-lo como demanda coletiva.

adjetivando-a? O que. afinal de contas. defendo que o político profissional não é um mediador apenas ou mais facilmente em períodos de transição e de mudança – apesar de tais momentos potencializarem sua visibilidade e seus atos. Ela não é o extraordinário. A vontade de atuar como mediador e 84 . É a execução constante do projeto pessoal e não uma qualidade “natural” de certos indivíduos. cit.mídia e a conexão de seu nome ao de outras personalidades de grande carisma. No entanto. singulariza determinados indivíduos. a mediação será pensada como uma atividade quando – conforme ressaltou Castro (2001) – relacionada a um “projeto pessoal de se tornar mediador”(p. mas o cotidiano.). diferentemente da análise elaborada por este autor. Kuschnir (2000) já nos advertiu que nem todo político é necessariamente um mediador. Para os políticos profissionais. Este gostar é definido por sensações tanto quanto pela crença no sucesso ou na possibilidade de conquistá-lo. tais movimentos sociais configuram loci de atuação privilegiados. moradores da periferia. Os atores políticos engajados nesses movimentos originavam-se de diversos segmentos sociais: políticos profissionais. distinguiria o mediador? Neste trabalho. como pensar a mediação quando nos referimos a atores políticos? Falamos de mediação em geral ou seria necessário qualificá-la. como enfatiza Castro (op.210). permitindo que algumas pessoas se coloquem em evidência devido à singularidade de seu potencial de trânsito por distintos segmentos. mas realça a dimensão “voluntarista” assim como a condição necessária para essa atuação: gostar de desempenhar tal papel. Portanto. a mediação política é tratada aqui como uma atividade. como Dom Adriano Hipólito. propiciando um espaço de visibilidade e de exaltação da mediação como ferramenta necessária. Esta especialização na articulação e/ ou negociação. membros da Igreja Católica etc. lideranças de bairros. Por esta razão.

Mário Andreazza. No entanto. Não é garantia. precisa constituir seu espaço legítimo de atuação e conformar seu discurso a um público específico –seu eleitorado. O processo de investidura requer dos atores políticos a demonstração de seu capital simbólico. característicos dos anos de regime militar. necessariamente. símbolos e interesses envolvidos – neste caso. mas um complexo de significados. ações e motivações intersubjetivas. para a reprodução incessante dessa atividade apenas o desejo do ator ou algum atributo inato. juntamente com Francisco Amaral. O episódio em que agendou uma audiência para Dom Adriano com o então Ministro do Interior. “Quem marcou a primeira audiência de Dom Adriano com um membro da ditadura fui eu”. No caso específico de Jorge Gama. interessando-nos mais especificamente o between. há uma grande ênfase em tal atuação.a aptidão em desenvolver tal atividade são proporcionais à capacidade de lidar com a diversidade de códigos. Atuando como mediador em um determinado segmento da população. podemos dizer que seria mais apropriado pensar no mediador como uma situação (estar mediador) e não. do que a suposta origem ou finalidade da mediação. O político. consagrou-se como uma demonstração de sua capacidade de articulação e mediação. conseguindo expor suas reivindicações – mesmo em um espaço cerceado pela insegurança e pelo medo da exposição. como uma qualidade ou propriedade (ser mediador). para que tratassem de um novo modelo de financiamento habitacional que melhor atendesse às necessidades e restrições econômicas da população de baixa renda de Nova Iguaçu. Jorge presenciou tal reunião em Brasília. Jorge demonstrou possuir algum trânsito entre as diferentes esferas e atores públicos. portanto. de seu 85 . no processo político. assim como qualquer outra liderança. Paulo Amaral e Ubaldo Rodrigues.

as delimitações sócio-históricas implicam uma estrutura mais ou menos rígida que. os movimentos sociais urbanos (chamados pelo autor de “organizações dos pobres das áreas urbanas”. 1994) dos atores em questão para a concretização de seus projetos (individuais ou coletivos).178]) e as associações de classe média. sociais e civis restringidos. dentre as quais destaca o papel das Comunidade Eclesiais de Base . da cidadania. tal demonstração passava. o campo de possibilidades de indivíduos-chave é sempre colocado em evidência por meio de suas ações e projetos. Esse “atuar” ou “agir no mundo” leva em consideração o potencial de metamorfose (Velho. Apesar dos limites. dentre os quais o da redemocratização brasileira que conseguiu aglutinar. Em um universo político no qual a mobilização era vigiada e os direitos políticos.CEB’s [p.). outros menos) no mundo social. um grande número de atores individuais e entidades civis. Foi justamente a partir deste momento que o 93 Bourdieu (1974 e 1989). pode ser flexibilizada a partir da atuação dos sujeitos (alguns mais. em torno de um objetivo comum. cit. De acordo com a análise de Avritzer (op. os movimentos sociais começaram a imprimir sua marca por meio da articulação de alguns grupos civis pela busca do exercício de seus direitos. conformando projetos coletivos em alguns momentos e circunstâncias específicos. no entanto. os projetos políticos individuais aqui analisados demandavam conciliação. pelo trânsito entre os militares (nas instituições de direito). 86 . necessariamente. Ou seja. a partir da década de 1970. Assim sendo. tanto quanto entre as associações civis e a Igreja Católica – que passou a ter uma postura de contestação e crítica aos militares com o recrudescimento do regime. três deles traziam suas próprias propostas de modernização e de reação ao regime autoritário: o novo sindicalismo. A partir do final de década de 1970.poder e prestígio93.

apoiando suas críticas quanto à queda no desempenho da economia nacional devido à crise do petróleo e quanto ao fim do “milagre econômico brasileiro”94. o “coronel”. Ele resolveu ir até o fim. O episódio da anti-candidatura. Os movimentos sociais e o MDB seguiram caminhos diferentes entre o final da década de 1970 e o começo da de 80. o que mais irrita os militares. Ganha espaço na mídia interna e alcança grande repercussão no exterior. o MDB apresentava todas as condições para a incorporação dos movimentos surgidos ao longo do período ditatorial. Como o adversário era um militar. […] Incorporar o discurso de mudança na atuação política equivaleria a afastar o eleitorado patrimonialista. Alencar Furtado. No grupo. Chico Pinto. A semente estava lançada. “O Grupo Autêntico do MDB. também não ajudava no relacionamento desses movimentos com o partido de oposição. 94 87 . sendo. narrado a seguir. apesar de sua reação positiva inicial aos movimentos sociais. consultado em 12/03/2004). A reivindicação de autonomia para os trabalhadores nunca fez parte do programa do MDB.que obrigou Ulysses a enfrentar literalmente os cachorros da polícia baiana do governador Roberto Santos em visita a Salvador .MDB tornou-se mais combativo. o “marechal”. lembra Chico Pinto” (site do Diretório Regional do PMDB. abrindo espaço para a incorporação das lideranças populares. enfraquecendo o MDB nos estados onde o patrimonialismo predominava. o “almirante”. Nem todos gostavam dessa brincadeira. resolveram montar também a sua hierarquia de caserna. no final da década de 1970.os autênticos tinham lá o seu humor. Em companhia de Barbosa Lima Sobrinho. Apesar do clima de chumbo da época . A ligação de políticos do MDB com o passado populista. incapaz de fazê-lo. A idéia era que renunciasse no dia da eleição. “O papel de oposição institucional desempenhado pelo MDB não incluía o desafio radical às políticas do regime autoritário do governo no âmbito do eleitorado operário. Ulysses percorre as capitais do País com a pregação das idéias oposicionistas. Por outro lado. o vice. um passado rejeitado pelos movimentos sociais. o MDB. resolveu lançar Ulysses como anticandidato na passagem do governo Garrastazu Médici para Ernesto Geisel. é bastante ilustrativo desta situação . que já vinha amadurecendo a idéia no início de 70. Alceu Collares. criando uma dissociação entre a lógica dos atores sociais criados pela modernização e a política Ulysses Guimarães teve um papel crucial nesse processo. o que deu legitimidade ao Colégio Eleitoral e à eleição do general Ernesto Geisel. cada um tinha uma patente: Fernando Lyra era o “cabo Lyra”. o “sargento”. mas era o ‘nosso exército’. mas Ulysses foi além do combinado com os autênticos. Marcos Freire. no entanto. (ou os militares). Ainda de acordo com este autor (idem). não levava a sério a sua reivindicação de uma nova forma de atuação política.

182-183). narrado com desconfiança e descrédito por Jorge Gama – e coincidindo com seu afastamento do “movimento”. eleitoraliza. ou melhor. Eles não têm uma visão democrática da sociedade. pior que isso. e no Rio de Janeiro.de oposição ao autoritarismo no nível institucional” (pp. eu parti pra dentro do partido político. o PDT. a autenticidade do movimento popular se dilui na medida em que você partidariza e depois. depois de ter tido um auge na década de 1970. larguei isso aí pra lá. Jorge Gama filiou-se ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). a FAMERJ acabou. tem uma visão corporativa. eu me excluí do movimento popular. aí. tendo as siglas 88 . logo em seguida. A aproximação de partidos de esquerda e das CEB’s com as associações de moradores é o mote desse conflito. as associações estão em declínio. A contenda em torno de quem seria o porta-voz autorizado desses movimentos aumentava as rivalidades ideológicas. infelizmente.” A legitimidade na condução dos movimentos sociais em Nova Iguaçu aparece como um dos nichos de maior disputa pelo poder político no momento em que a sociedade civil começa a se organizar e a se manifestar. é uma tragédia total. Hoje. não. infelizmente. “[…] daí a Igreja se identificava com o PT e aí ruiu tudo. até mesmo do processo político. sucessor direto do MDB. em decadência. eu fui excluído pelo sectarismo deles. 1980. quando vi isso aí. Eu. […] A originalidade. O PT. A partir de 1979. com o fim do bipartidarismo e o início do processo de organização e criação dos partidos políticos. o inimigo: em um primeiro momento. em 1982. porque no caso de Nova Iguaçu. Foi justamente a partir deste panorama que surgiu o “outro político”. o PT. por exemplo. em particular.

) e Diniz (1980 e 1982). a forma como se deu a criação do PP –congregando nomes como Tancredo Neves97 e Chagas Freitas98 – do PDT de Brizola. elegeu-se governador do mesmo estado. como Ulysses Guimarães96.” (1999: 27/28). em “A queda de Collor: uma perspectiva histórica”: “a legislação eleitoral altamente permissiva. do PTB. após a fusão. Segundo Skidmore. Foi deputado federal por oito mandatos. do estado do Rio de Janeiro (ambos por via indireta). 97 Tancredo Neves nasceu em São João del Rei (MG). no dia 4 de março de 1910. Em 1989. disputando cada qual o seu quinhão. Em 1985. Iniciou sua vida pública como vereador em sua cidade natal. Em 1966. ficando em sétimo lugar. Foi governador do estado da Guanabara. Elegeu-se deputado estadual pelo PP em 1947. foi um dos articuladores da organização do MDB. cit. Foi deputado federal pelo PSP em 1954. levara à rápida criação de 40 partidos políticos. dos quais 17 tinham representação no Congresso. Foi primeiroministro em 1961. O multipartidarismo provocou uma fissura interna na frente de oposição ao regime militar e sua pulverização em uma gama de partidos que agora disputavam a arena política95. Em 1982. seu vice-presidente. redigida no final dos anos 1970 e início dos 1980. Tal foi. Morreu em um acidente de helicóptero no litoral de Angra dos Reis em 12 de outubro de 1992. do PCdoB etc. Em 1962. Essa tolerância exagerada com a proliferação partidária podia ser em parte explicada como uma reação retardada à manipulação anterior da legislação eleitoral pelo regime militar.). tornandose vice-presidente do partido. Em 1978. então Distrito Federal. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (2001). 95 89 . em 1970 e. 96 Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Rio Claro (SP) em dia 6 de outubro de 1916 e morreu em um acidente de helicóptero no litoral fluminense em 1992.partidárias – agora passíveis de expressão e visibilidade – entrado em cena. em 1935. em 1962 (pelo PSD) e em 1966 (pelo MDB). elegeu-se deputado federal pelo PSD. foi derrotado na primeira eleição direta para a Presidência da República. foi eleito Presidente da República. em 1991. 98 Antônio de Pádua Chagas Freitas nasceu no Rio de Janeiro. pelo PMDB. sofreu um grande impacto eleitoral com tal dissenso. visando a garantir a vitória do partido governamental. 1970 e 1974. vindo a falecer no dia 21 de abril do mesmo ano. em 1978. O MDB. reeleito em 1958. Apesar de ter mantido nomes importantes em seus quadros. em 1914. Faleceu no Rio de Janeiro. por exemplo. a impossibilidade de entendimento entre alguns deles possibilitou a criação de outros partidos – dada a incapacidade de atrair para si políticos que se apresentavam como adversários. Elegeu-se pela primeira vez como deputado para a Constituinte de São Paulo em 1947. reelegendo-se em 1966. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. Foi Ministro da Indústria e Comércio no governo de João Goulart. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. foi eleito senador por Minas Gerais. que congregou em sua sigla frentes ideológicas diversas desde a exigência do bipartidarismo. cit.

acabou gerando um outro impasse. Com a divulgação de uma nota do jornalista Pedro Cezar. A aproximação com o PC do B e com o “novo sindicalismo” (representado por Lula) também resultou infrutífera e a criação do novo partido significaria colocar Brizola como o seu núcleo – diferentemente do que aconteceria com a conquista da sigla do PTB que. Depois de uma batalha judicial. não deixando a Brizola outra alternativa senão a da criação de um novo partido. precisando de espaço e convencido de seu poder e prestígio políticos. A criação do PDT foi. entrou na disputa com Ivete Vargas pelo capital simbólico representado pela sigla do PTB. reaparece a figura de Leonel Brizola que. Ivete Vargas – da “ala” de São Paulo e ligada a Golbery do Couto e Silva (Ministro-chefe do Gabinete Civil do presidente Ernesto Geisel) – saiu vitoriosa. no entanto. Jorge Gama foi escolhido para concorrer como vice-governador do Rio de Janeiro ao lado de Miro Teixeira. já que a região representava o segundo maior colégio eleitoral do estado. com a missão de desempenhar o papel de “governador da Baixada”. tudo começou com um amigo seu. O que. o presidente do PMDB – na época. como o político gaúcho.Dentro desse panorama. Sento-Sé (1999) 90 . assim. marcada por negociações e pelo fortalecimento da figura política já emblemática de Brizola99. que achava que o vice-governador deveria ser alguém da Baixada. Segundo Jorge. Em 1982. já possuía sua própria história e legado. Essa “escolha”. anunciando que o vice de Miro Teixeira poderia vir da Baixada. no entanto. não se deu sem esforços. publicada no jornal O Globo. Restaria ao partido escolher entre os nomes de Jorge ou Francisco Amaral. Luis Carlos Medeiros. o senador Mário Martins – teve que lidar com os diversos nomes que pleiteavam o cargo: Rafael de Almeida 99 Ver. já findado seu primeiro mandato de deputado federal.

Esses dois. mais tarde. Valter Silva também desistiu. Valter Silva. escolheriam entre si sem a interferência da esfera partidária. Percebendo que a disputa seria difícil. na reunião do partido. O presidente do partido protestou contra a decisão do grupo. que mandou um representante. Jorge propôs que a reunião fosse realizada no sítio de Noel de Carvalho (em Três Pinheiros. Em seguida. Arthur da Távola. Sobravam apenas Jorge Gama e Paulo Rattes. já que todos tinham suas pretensões. segundo ele) se retirasse da disputa sem o ônus e o desgaste de um embate. na conferência do partido que ocorreu no escritório de Jorge Leite. Em uma reunião do partido. Paulo solicitou quinze minutos para conversar com Jorge em particular. indicassem Arthur da Távola como o segundo nome do partido para concorrer ao Senado – conseguindo. Mário sugeriu que os interessados conversassem e tentassem resolver a questão sem a necessidade de uma disputa mais acirrada e pública. foi anunciada a decisão do “encontro dos vices”. pois a candidatura de Arthur – que concorreria com o próprio Mário Martins – já estava lançada. Optaram então por impedir que Miro Teixeira decidisse 91 .Magalhães. depois de algumas negociações. Diante desta situação. que fora indicado por Mário Martins (“por ser um político de pouco expressão e. mas foi voto vencido. com exceção de Valter Silva. Noel de Carvalho desistiu e lançou o nome de Rafael de Almeida Magalhães que. tinham um acordo prévio – e mesmo anterior ao “encontro dos vices” – de que não se enfrentariam e caso a disputa ficasse entre eles. Noel de Carvalho. assim. Jorge sugeriu que. Sendo assim. concorreu também para o Senado – no lugar de Flávio Castreoto. mas rejeitado por Miro Teixeira que encarregou Jorge Gama de negociar com ele sua desistência. próximo a São Lourenço – MG). O encontro foi marcado para um fim de semana e todos os pleiteantes compareceram. por não ter possibilidade de fazer frente a ele nas eleições”). em conjunto. agora. os outros pleiteantes. Restavam. no entanto. que um dos pleiteantes (o mais forte. Paulo Rattes e Jorge Gama.

Nessas eleições. em 3º. Este episódio demonstra. assim. devido ao número de cadeiras obtido pela oposição nas Câmaras Municipais da região.19% dos votos. em 2º.o destino dos pleiteantes.60%. um período em que o brizolismo reinaria. nos municípios da Baixada Fluminense e no qual o partido de Brizola – juntamente com seu líder excelência.. quase absoluto.45%. o PDT elegeu o advogado trabalhista Paulo Leone e... deve ser concebido como processo de construção de uma imagem pública – da persona Brizola – e dos elementos 100 – passaria a configurar o novo “inimigo” por Essa eleição foi regulada na forma da Resolução n. Moreira Franco (PDS). tal “arranjo” foi um dos principais obstáculos à consolidação de sua imagem e a seus avanços como “partido de oposição”. com 34. quem se elegeu governador. no entanto. Em Nova Iguaçu. uma vez mais. Sandra Cavalcante (PTB).71% e Lysâneas Maciel (PT).05% (Tribunal Superior Eleitoral). abalando a estrutura do poder vigente até então na Baixada. a capacidade de articulação de Jorge Gama e o reconhecimento desta habilidade por seus pares políticos – além de ressaltar os laços pessoais de amizade entre ele e Paulo Rattes e alguns interesses comuns. Inaugurava-se. Miro Teixeira (PMDB). optando por candidatar-se à prefeitura de Petrópolis (cuja eleição venceu). com 21. Para a política desenvolvida pelo PMDB na localidade. Lugar. Paulo pediu a palavra e desistiu em favor de Jorge Gama. o que acabou desencadeando o chamado “fenômeno Brizola”. 92 .. de 16-09-1982 e teve o seguinte resultado: Brizola (PDT) em 1º.º 11. com 30.455. Manoel Valêncio Opasso. em 4º. do Tribunal Superior Eleitoral. em São João de Meriti. Foi Leonel Brizola. a chapa composta por Miro Teixeira e Jorge Gama tendo ficado em terceiro lugar 100. O fenômeno do brizolismo. com 10. o voto vinculado gerou a obrigatoriedade de se votar na mesma legenda partidária para todos os cargos. em 5º. pois isso enfraqueceria a candidatura do escolhido e colocaria o outro em uma posição politicamente desconfortável. analisado por Sento-Sé (1999). com 3.

sem. não conseguiu penetrar em áreas já cooptadas por um tipo muito específico de política. em 1979. até o seu ingresso na vida pública. apesar da militância junto aos movimentos sociais. 1974 e 1989) na Baixada Fluminense. semi-ocultos em outras. cujo emblema seria a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. pela pobreza e pelo alto índice de criminalidade.62). Delineava-se. preocupado com a (re)definição dos processos eleitorais como dramas (Turner. O brizolismo. enfrentando adversários ocultos. seu discurso dirigido aos excluídos. ajudando a defini-lo como “um guerreiro disposto à auto-imolação. este autor reflete sobre os contextos de sua produção e atualização. 93 . só conseguiu eleger um vereador em Nova Iguaçu101. Sento-Sé demonstra a construção da persona Brizola como um “todo coerente” – desde sua infância “de luta”. seu “nacionalismo moreno” e. A austeridade de seus atos políticos e sua disposição para a “briga” compuseram sua imagem.cit. no entanto. Particularmente no tocante à Baixada. no entanto. a família Abraão David ainda assegurava seu poder em Nilópolis. incorporar o tom mais radical do PT que. Sendo assim. A influência do “brizolismo” na região fazer-se-ia 101 Alves (op. filiando-se ao PTB. a formação das redes que configurariam o campo político (Bourdieu. segundo Sento-Sé (idem). assim.” (p.).conformadores de seu discurso. em uma região marcada pela escassez. Tendo como mito fundador o trabalhismo (e o legado varguista). elegendo Miguel Abraão pelo PDS – por meio de uma associação entre a política e a contravenção. sua verborragia consagraram-no como a grande liderança popular. Nesse sentido. em certas ocasiões. 1994) ressaltando as formas de identificação com a figura de Brizola desde seu retorno do exílio.

apesar de progressivamente ir perdendo força para partidos como PSDB. fazendo da presidência do partido. valor ético (de convicção) e valor de eficiência (de sucesso). As reuniões tiveram início na casa do professor de ciência política. durante as entrevistas que me concedeu. Carlos Alberto Muniz. a opção pela máquina partidária e começou as articulações para concorrer à presidência regional do PMDB. Tal idéia estabeleceria uma relação entre sujeito político. tendo em vista uma apresentação de si a posteriori. Jorge Gama oscila entre duas alternativas. Esta aparente ambigüidade entre fazer a escolha (um projeto) e ser escolhido (investido) deve ser compreendida. se assim o contexto exigir. p. diz. Em seu relato. então. portanto. procurou Miro Teixeira para que este concorresse à presidência do PMDB. no entanto. uma resposta negativa. Obteve. em contraponto com a lógica da política do poder (idem. o político responsável. Começaram a discutir a reformulação do partido no estado. em 1983. 1971). afirma que sua candidatura foi cogitada por seus pares. 108). 94 . “tendo surgido” nas reuniões e começado a ganhar força a partir daí. Ao mesmo tempo em que diz ter tomado as rédeas da situação. PTB e PFL. Jorge fez. que marca a construção de uma memória e de uma identidade política ancoradas na idéia de vocação (Weber. Miro argumentou que precisava pensar em outros projetos. Eurico Lima Figueiredo. “Comecei a trabalhar esta possibilidade”. Aquele político capaz de sacrificar algumas de suas convicções. do poder em si. “O verdadeiro político de vocação seria.sentir até a década seguinte. Jorge Gama afirma ter percebido ser aquela “a hora do partido político”. Carlos Alberto Direito. seu projeto político naquele momento. das quais também participavam Gilberto Rodrigues. Após a derrota nas urnas. Hércules Correia e Paulo Rattes. Com esta “intuição”.

no entanto. Assim sendo. a evidenciação das nuances e matizes internas ao partido. demonstrando como o conceito de carisma é fundamental para a compreensão da construção da persona Brizola. Para Jorge Gama. A chapa concorrente era composta por Miro Teixeira e majoritariamente pelos chamados “euros”. os “intelectuais de 102 Sento-Sé (1999). detenho-me aqui" (Weber 1998: 122). nos termos de Jorge. enfatiza tal colocação. Simbolizava a crença na possibilidade de construção de uma unidade ideológica que o fortificaria politicamente e. requer convicções pessoais. em sua análise sobre o brizolismo. bem como a cristalização do novo inimigo político pós-eleições de 1982: Brizola. nomes por ele mencionados: Átila Nunes. É sempre o nome de seu líder que aparece e se apresenta como grande opositor do PMDB no estado do Rio de Janeiro. Na verdade. a política é por excelência o mundo das realizações comprometidas em contexto” (Grifos meus) (Teixeira. A justaposição da figura de Brizola à do partido é de tal ordem que a sigla pouco é mencionada nas entrevistas realizadas com Jorge Gama102. Aluisio Gama. apesar de transcendente ao indivíduo. esforços responsáveis por uma causa que. o partido simbolizava justamente essa adesão. Naquele momento. o chefe do executivo estadual promoveu um governo de coalizão ou. na ação política não estão em jogo apenas o poder ou a paz e a satisfação individuais — embora estes existam — mas. “de cooptação”. Cláudio Moacir. conseqüentemente. sim. pois “trocou” secretarias por apoio além de ter conseguido aliar-se a alguns deputados estaduais “brizolistas” (ainda segundo meu entrevistado. 95 . pois ao governador não interessava um “PMDB hostil”. no limite de seus princípios. eleitoralmente dentro do panorama estadual. 1999: 5). A disputa pela presidência do PMDB possibilitou. pode vir a dizer: "Não posso fazer de outro modo. Jorge Roberto da Silveira). A política não é em si o reino das intenções e da força. Brizola tornara-se um empecilho na conquista da presidência do partido.mas que em determinado momento.

Logo depois da eleição. mas não quero’. E aí achei. Como aliados. ‘Não. já era conhecido suficiente pra pleitear a presidência do partido. pensei. tinha os independentes — eu era um dos independentes — tinha o MR-8. Analisei. meu querido amigo e saudoso Joca Serran. aconselhei o Miro a ser candidato à Presidência do PMDB do Rio de Janeiro.. Seu vice. eu já tinha conhecimento suficiente. por exemplo. No ano de [19]83. que eram mais localizados na Zona Sul. com os “chaguistas”. tive uma longa conversa com Miro Teixeira pra que nós não deixássemos o PMDB do Rio de Janeiro se esvaziar e tal. Então. Tinha o chaguismo tradicional. não. O PMDB totalmente dividido: várias tendências. todo ano de [19]83. o estado [do Rio de Janeiro] negativo pra nós. ao longo de todo estado […] Numa campanha ampla. o PCdoB todo. depois de ter sido candidato a vice-governador.Ipanema”.. uma parte.. era o deputado federal Jorge Leite — personagem 96 . A vitória (por 66%).. que figura sempre como aliado político e amigo de confiança . verifiquei. eu disse não […] Eu vou […] O meu espaço tava muito reduzido e eu. várias correntes... Ele disse que não. Era preciso fazer aquela leitura e a leitura daquilo era. Milton Temer. E ainda tinha um poder paralelo na Assembléia Legislativa. um setor do “Partidão”. os euros. marcou mais um episódio em que ficou evidenciada também a capacidade de trânsito e articulação de Jorge Gama por intermédio das alianças por ele costuradas. pra quem tava de fora era difícil de entender.. Monteiro de Barros. com os prefeitos e com setores de uma esquerda dividida — liderados por Paulo Rattes. “Bom. percebi que a minha campanha de vice-governador.. e aí. Carlos Lessa. eu me dediquei à campanha da presidência do PMDB e acabei eleito em 20 de outubro de [19]83. intelectuais – Maria da Conceição Tavares. Então tinham vários PMDBs. presidente do PMDB do estado do Rio de Janeiro. João Roberto.. vou pensar. que eram os brizolistas do PMDB […]”.. Jorge Gama contava com membros do “Partidão”. Joca Serran.

você avisa ao Jorge que eu vou evitar levar o partido para o Judiciário. 82. na Almirante Barroso no. na convenção do PMDR-RJ. 103 Diniz (1982). Se eu assinar isso daí. não haviam cessado com a conquista da presidência do partido. A convenção do PMDB-RJ transcorreu em clima de muita disputa e a tônica foi a troca de provocações e de ameaças de agressão entre militantes das duas chapas.] Devido à impugnação na justiça eleitoral de alguns Diretórios zonais e ao impedimento do voto plural. Se eu não assinar. um advogado experimentado.. O Deputado federal Jorge Leite e o Prefeito de Petrópolis. Isso é uma questão política. de Marcelo Cerqueira e Cláudio Moacyr. que era um advogado da Assembléia. entre outros. eu sou um escravo do Jorge Leite. derrotando. que mantinha uma máquina política eficiente em todo o estado103. Paulo Rattes. que tem agora como Presidente o ex-Deputado Jorge Gama. Olha Romão.líderes da chapa “Unidade” – confirmaram ontem seu favoritismo. se não assinar vou pro enfrentamento. na Zona Oeste. para expulsar o vereador Jorge Felipe que tinha traído o Jorge Leite na eleição. chamado Francisco Romão de Lima […]. com 66 por cento dos votos para o diretório. Lidar com a diversidade das frentes de apoio que tornaram possível tal empreendimento e. 97 . e meia hora depois. 21/11/1983) “Naquele dia — eu não vou esquecer — eu cheguei no partido. [. se eu assinar perco a minha independência. no entanto. a chapa de Arthur da Távala. (O Globo. analisei. Os problemas. chegou o advogado do Jorge Leite. que nós vamos expulsar o Jorge Felipe porque ele traiu a gente lá em Bangu. com uma procuração pra eu assinar. do jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros. .político conhecido por sua forte vinculação ao “chaguismo”. ele é meu maior inimigo. De qualquer maneira. a chapa de Arthur da Távola também perdeu na composição da no va Comissão Executiva. em 20 de outubro de 1983. com o estilo político de seu vice transformou o mandato de Jorge em uma constante mediação e negociação de conflitos — além da fragilidade de sua condição de político sem mandato.’ […] Eu pensei. principalmente. Olha que coisa! Ele diz: ‘O Jorge Leite mandou isso daqui. Disse: ‘Não assino’..

O partido só irá pra Justiça em último caso. o discurso acusatório —aquela facção não dispunha de poder e influência dentro do partido e acabou se ausentando das reuniões e eventos — e sim o 104 É importante relembrar que nesse período — e até a década de 1990 — as imagens veiculadas pelas mídias televisiva e impressa sobre a Baixada Fluminense faziam referência constante a questões sobre violência. sou eu mesmo. E. morador de Nova Iguaçu. no entanto. mas não vai acontecer aqui levar o partido pra Justiça. A acusação aparece. “Fizeram uma reunião pra me dizer que eu não podia ser o presidente do partido. “da Baixada” e “sem muita expressão política” constituíam a tônica dos discursos oposicionistas por parte dos “intelectuais”. Depois. sobretudo por causa de acerto eleitoral […] Foi um sinal de guerra.eleitoral e vamos resolver isso aqui. seu pertencimento determinante dava-se pela associação a uma imagem que denunciava. incriminava e segregava. De acordo com Goffman (1975b: 16). o maior problema não era. peça a ele desculpas. de outro. quem vai representar o partido na Justiça. Para ele. não é nada contra o Jorge. como uma das principais formas de vinculação a uma identidade de “originário da Baixada”. de fato. Os confrontos foram. corroborada pela mídia 104. as acusações de suburbano. Estes “sinais” marcavam socialmente a pessoa como uma metáfora da poluição que esta representava. uma região vinculada a símbolos de violência e pobreza. constantes. os gregos foram os criadores do termo estigma. Já entrei na presidência do partido estigmatizado”. criminalidade e pobreza. Não vou assinar. com Jorge Leite e. Jorge vinha da Baixada. aqui. Segundo Jorge. Independentemente de outras possíveis pertenças sociais. fazendo alusão a “algo de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava”. fui embora pensando que não ia ficar mais dez dias”. naquele momento em particular. De um lado. pouca atenção sendo dada às notícias políticas que não estivessem a tais temas relacionadas. Baixada Fluminense. E as matérias de jornais que traziam o nome de Jorge Gama geralmente enfatizavam sua origem: filho de carvoeiro. com os “intelectuais”. mais ainda. 98 .

o feitiço voltara-se contra o feiticeiro já nas eleições de 1974. Jorge atribui um peso decisivo à sua atuação junto ao movimento popular local como conformadora de um modus operandi que o singulariza frente aos políticos atuais — aos por ele chamados de “políticos de realização”. que tentou. por força do bipartidarismo e da insatisfação popular – mediada agora pela TV se transformou em autêntico plebiscito de aprovação. No relato sobre a constituição de seu papel como ator social e político legítimo (e legitimado). inclusive. a ampliação de sua “bandeira de luta” e de sua mobilidade política (ascensão e declínio). ou não. Todavia. um acontecimento marcou a história política nacional e definiu um lugar para Jorge Gama dentro do partido. O MDB obteve considerável vitória eleitoral (basicamente nas eleições majoritárias para o Senado) em pleito que. representado principalmente por Jorge Leite. 2001). também. que prometia uma abertura “lenta. o Movimento Democrático Brasileiro. intensificando-se na presidência do general Ernesto Geisel (1974-1979). Como já mencionado. É a partir desta vinculação que se dá. 2003: 140). 99 . “Por ironia típica das artes da política. porém. promover a destituição da executiva. do governo” (LattmanWeltman.“chaguismo”. a movimentação de grupos da sociedade civil teve início na década de 1970. O peso da propaganda política eleitoral – mesmo com as limitações impostas pela Lei Falcão – foi demonstrado nas urnas. quando a institucionalização da propaganda eleitoral gratuita na televisão acabou favorecendo a campanha do partido de oposição. em 1983. gradual e segura” (Soares.

tinha um nicho na Assembléia. A articulação pelas “Diretas Já” teve seu pontapé inicial. sendo noticiada apenas pelo jornal Folha de São Paulo — em um artigo assinado por Tristão de Athayde. em 18 de março. o partido rachou no meio. no entanto. (risos) Mas já tava começando esse negócio. ainda em março de 1983. ali. Eu fiquei totalmente ilhado no PMDB.. “O PMDB que eu estava descrevendo. entendeu? Ficava. que eram os governistas que fizeram um acordo. foi somente durante o governo Figueiredo (1979-1985) que se assistiu a uma intensa mobilização de distintos setores da sociedade. feita pelo deputado federal do PMDB/MT. Dante de Oliveira (emenda esta que ficaria conhecida pelo nome de seu autor).. aqui. logo. teve pouca repercussão em um primeiro momento. conseqüentemente. o que é que eu vou fazer aqui? Ganhei uma eleição duríssima. eu era uma rainha da Inglaterra. por intermédio da apresentação de uma emenda constitucional para o restabelecimento das eleições diretas. Entretanto. exigindo o retorno ao regime democrático por intermédio do voto direto para presidente da República (idem).o partido fracionado e tal […] Mas aí aconteceu. com o Brizola. o brizolismo contra mim. danou a vir aquela expressão de que o PMDB não abria – entre a bíblia e o capital. a criação de partidos políticos (além da organização das siglas que já possuíam uma história anterior ao golpe de 1964). ele fica com o diário oficial – já não havia isso.. e no editorial do 100 . Então foi uma dificuldade grande pra mim juntar aquilo tudo e coisa e tal.Com o fim do bipartidarismo e. começou a acontecer a campanha das Diretas Já”.. então eu diria que. Tal iniciativa. um zumbi pensando: ‘Meu Deus. as vitórias angariadas pela oposição (MDB) — ainda em 1974 e também em 1976 — anunciavam que o regime ditatorial chegara ao fim. né?’ Daí.

entre outros. e com a aproximação do PT ao PMDB. segundo o qual seu potencial de observador atento aos fatos e hábil articulador lhe garante o privilégio de estar um passo à frente dos demais atores políticos — dentro e fora de seu próprio partido — o que lhe assegura um lugar na história (como denota a narrativa na primeira pessoa do singular) . A movimentação de setores políticos. entre outros. Miguel Arraes (do PMDB). Os principais nomes do PMDB circulavam entre os diversos estados. religiosos. o processo dava indícios de sua intensidade. Em novembro. Ulysses Guimarães. no qual o jornal colocava-se a favor do retorno do pleito direto em todos os níveis. Tancredo Neves. os jornais — principalmente a Folha de São Paulo — passaram a noticiar as ações e articulações que pretendiam restaurar a democracia representativa em sua íntegra. entidades de representação profissional. negociando alianças e dando maior visibilidade à campanha pelas Diretas Já. Nesse sentido. além de Lula. com o pronunciamento de lideranças diversas. percorrendo o país em diversos comícios e shows em prol da campanha. como Dom Evaristo Arns e Dom Ivo Lorscheiter. a partir de outubro a movimentação dos atores políticos em diversos estados cresceu consideravelmente. volta-se para a construção de um discurso visionário. que buscava se articular aos demais partidos sob a bandeira do retorno à democracia. Jorge Gama.dia 27 de março daquele ano. que contou ainda com a participação de vários intelectuais e artistas. 101 . Se desde abril. O ano de 1984 começa com intensa mobilização. relata sua inserção e seu papel neste processo como uma espécie de “revelação”. intensificou-se a partir de abril daquele ano. tornaram-se figuras-chave nesse movimento. na época presidente regional do PMDB/RJ.

“Quando eu percebi a campanha das Diretas Já, eu me conectei imediatamente com Brasília, com Dr. Ulysses. Quando nós fomos fazer a campanha com a sociedade civil, a campanha já estava dando mídia, que a mídia da época ali não foi […] A mídia ali foi conquistada, os movimentos foram crescendo e a mídia não pôde ignorar mais. A TV Globo demorou... ignorou até quando pôde... depois não... e aí, o partido começou a receber não só a sociedade civil — que o partido curiosamente também tinha uma sociedade civil que era PMDBista, MDBista e tal; ela não era militante permanente, mas quando o movimento cresceu, eles se aproximaram do PMDB e eu consegui (como eu estava ali convivendo, conhecia o partido, eu conheço o conveniado do PMDB ) ... Eu consegui interpretar o que cada movimento pensava das Diretas Já: todos eram a favor das Diretas Já. Eu digo: ‘bom isso já nos une’[…]”

Diante da heterogeneidade do partido — que se colocava como um dos grandes obstáculos a um projeto coletivo de unidade política — e da necessidade de lidar com frentes de matizes ideológicas distintas, Jorge Gama torna-se um dos principais articuladores e mediadores do movimento pelas Diretas Já no Rio de Janeiro. Fundamentalmente por estar à frente do partido — mas também por apresentar um projeto político unificador — seu discurso dá o tom da fragilidade da experiência de presidir o partido, ao mesmo tempo em que marca sua importância para o processo de consolidação política do PMDB na região e em todo o país. A capacidade de negociar com as variadas frentes internas e de “aproveitar o momento” para colocá-las sob o imperativo do devir histórico deve ser entendida de acordo com a complexidade simbólica com que é narrada. Corroborando a narrativa acima, as mídias viram-se obrigadas a posicionar-se. Conforme ressaltou Lattman-Weltman (op. cit.),

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“[…] a campanha das Diretas Já marcou a necessidade de uma nova relação entre a cobertura midiática da política e seu público mais amplo. O movimento ofereceu a alguns veículos a oportunidade de afirmar uma nova identidade editorial, mais conforme com os novos tempos – caso da Folha de São Paulo— assim como obrigou outros a uma inflexão de enfoque. Foi o caso da Rede Globo, que tentou ignorar o movimentos pelas diretas em seus primeiros passos, mas acabou se rendendo, diante do crescimento da participação popular e da cobertura a ela conferida pelos concorrentes” (p.143). A partir do ato público realizado em São Paulo com a presença do governador Franco Montoro (PMDB) e de lideranças políticas de diversos partidos — no qual Jorge Gama esteve presente — as primeiras movimentações no Rio de Janeiro começaram a ser organizadas. Em torno à reivindicação do retorno às eleições diretas, o PMDB conseguiu mobilizar suas diferentes facções internas, possibilitando a reaproximação dos “intelectuais” com o partido presidido por Jorge. O passo seguinte consistiu em uma reunião entre as entidades civis e profissionais, juntamente com o PMDB, com as comissões do PTB, do PC do B, do PT e com o governador do estado, Leonel Brizola, para planejar a manifestação pública. A partir daí, o PDT — e principalmente Brizola — é alçado ao patamar de inimigo número um do PMDB, o que se prolonga por toda a década de 1980. As relações tensas e os conflitos deram o tom das interações entre, por exemplo, Jorge Gama e Brizola, remetendo-nos ao quadro mais amplo das relações partidárias e político-eleitorais no estado e, fundamentalmente, na Baixada. “O PMDB naquela época elegeu nove governadores e, no Rio de Janeiro, elegeu o Brizola, que não queria as Diretas Já. O Brizola queria uma Constituinte com o Figueiredo, mais dois anos de mandato com o Figueiredo. Então até nós alavancarmos a campanha das Diretas Já e organizarmos a campanha no Rio de

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Janeiro, nós tivemos muitos embates com o Brizola no Palácio (da Guanabara). O primeiro embate foi quando eu cheguei com umas 12 associações, 12 entidades, OAB, ABI ... Várias outras entidades: CUT, PT, comissões provisórias de partido etc. O Brizola disse: ‘Não […] nós só vamos fazer campanha com os partidos legalizados’, o que era uma bobagem do ponto de vista político na época e, outra coisa, era uma coisa autoritária, prepotente, excludente, da cabeça dele, caudilho como sempre – e não tira uma palavra disso que eu digo, digo e repito. Aí eu digo: bom, eu me lembro que saiu de dentro do gabinete — nós estávamos na ante-sala — o falecido deputado Brandão Monteiro, aos berros, dizendo: ‘Não... só com os partidos legalizados!’.. e eu: ‘Que isso companheiro? A sociedade civil está participando disso, o partido está em vias de organização. Isso é uma bobagem!’ Aí vira ele pro Hélio Sabóia — que era presidente da OAB — e pro Augusto Villas Boas — que era representante da ABI — e também estavam o Drº Barbosa Lima Sobrinho não ia e o Augusto que disse que queria ouvir, mas peraí...o Dr Barbosa Lima sobrinho disse vamos nos retirar daqui; aí entrou o Talarico, José Gomes Talarico, que disse: ‘Calma, Brandão!’ Brandão vociferava pra poder […]aquela subserviência ao Brizola, uma coisa horrorosa […] ‘Não é bem assim, isso aqui não é assim... você está falando com o presidente do partido!’. Aí a coisa evoluiu, nós ameaçamos nos retirar. Ia ficar mal, o Brizola ia ficar isolado ali; ele, aí, instaurou o plenário permanente das Diretas Já; chegamos a ter 19 entidades, ele era minoria, o governo era minoria mas, de qualquer maneira, pagava a conta... Tinha que ser... Então a luta pra colocar a campanha das Diretas Já, no Rio de Janeiro, foi uma luta dura, tivemos que enfrentar o Brizola, principalmente o Brizola, que queria uma Constituinte com o Figueiredo, outro fato curioso neste particular. Quando nós fizemos a caminhada no centro da cidade, que o Lula veio depois pra Niterói, nós colocamos 300 mil pessoas. Nossa caminhada foi em substituição ao comício que o Brizola resolveu adiar, nós fizemos uma caminhada; depois nós viemos a descobri que o Brizola só permitiu que se fizesse o comício na Cinelândia [o que agregou 1 milhão de pessoas], ele marcou aquela data porque sabia que o Figueiredo ia pra Espanha e não queria fazer nada que 104

desagradasse o Figueiredo. Era o Aureliano Chaves que estava na Presidência, e aí o Brizola apareceu com uma data estranha, mas vamos fazer, não interessa. Depois, nós descobrimos que o Figueiredo deu uma entrevista à Veja, dizendo o seguinte: “se eu tivesse no Rio de Janeiro, seria um milhão e um” mas, na verdade, o Brizola procurou saber quando o Figueiredo ia viajar pra fazer na ausência dele, pra passar por ‘bonzinho’ pra ditadura. Esse que era o papel do Brizola, mas aí, com o sucesso, não teve jeito. Esse foi outro episódio que eu vivi com muita profundidade e que precisa ser contado”.

A emenda Dante Oliveira foi, então, votada pelo Congresso, recebendo 298 votos a favor, faltando 22 para a maioria exigida de 2/3105. Duas expressivas lideranças políticas da Baixada não integraram esse movimento: Darcílio Aires, que votou contra e Simão Sessim, que se absteve. Restava, então, à oposição articular-se para a disputa do Colégio Eleitoral. A partir daí teve início uma acirrada negociação política em torno dos nomes que disputariam a eleição. “A costura deste apoio, conhecido como o ‘acordo de Minas’, foi iniciada ainda na noite da renúncia106 de Sarney, quando este recebeu a visita do deputado Ulysses Guimarães e do senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso e, confessando-se traído pelo presidente, deu o sinal de que ele e seu grupo se dispunham a apoiar um candidato da oposição […] Com o intuito de deter o retrocesso da redemocratização, os governadores do PMDB, sob a presidência do deputado Ulysses Guimarães, reuniram-se em Brasília no dia 29 de junho e decidiram lançar o nome de Tancredo Neves à disputa no Colégio Eleitoral. Quatro dias depois a Frente Liberal do PDS rompeu definitivamente com o governo federal, passando a atuar no Congresso e nas assembléias legislativas estaduais como bloco parlamentar independente
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É interessante notar que a oposição detinha apenas 244 cadeiras, o que significa dizer que membros do partido do governo votaram a favor da emenda, em uma demonstração de que o regime militar chegava, de fato, ao fim. 106 Tal renúncia refere-se à intenção de concorrer à Presidência da República pelo PDS.

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e dando início às negociações com a oposição em torno do lançamento da candidatura do governador de Minas à presidência. A formação da Frente Liberal implicou, automaticamente, as desistências de Aureliano Chaves e Marco Maciel da disputa pela indicação do PDS na convenção partidária, ficando esta restrita aos candidatos Andreazza e Maluf. No dia 14 de julho, no palácio Jaburu, sede da vicepresidência da República, foi firmado o pacto da Aliança Democrática para enfrentar a caminhada de Paulo Maluf, o mais cotado dos pré-candidatos pedessitas, rumo ao palácio do Planalto[…] O pacto foi consolidado em encontro realizado em Brasília no dia 7 de agosto, quando foram abordados os itens essenciais do programa do candidato aliancista: constituinte, problemas sociais, eleições diretas, dívida externa, casa própria, pleno emprego, previdência social, liberdade sindical e estado de direito. Na ocasião, ficou decidido que a Frente Liberal faria a indicação do candidato à vice-presidência da República, recaindo a escolha no senador José Sarney. A coordenação da campanha ficou a cargo de Ulysses Guimarães” (DHBB, 2001).

Os episódios das Diretas Já e a movimentação política em torno do nome de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República pela Aliança Democrática demonstram também a proximidade e fidelidade de Jorge Gama a Ulysses Guimarães, há todo instante evidenciada107. Tais acontecimentos descortinam os processos de disputa pelo poder no interior do partido, entre Ulysses e Tancredo Neves. Diante deste quadro, Jorge Gama mais uma vez enfatiza uma percepção de si como articulador político —sem, no entanto,
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O primeiro contato com Ulysses Guimarães deu-se durante o mandato de deputado federal, em 1978. Jorge Gama nunca havia ido à Brasília. Com pouca experiência, não conseguia estabelecer uma relação de proximidade com o então líder do partido, o deputado Freitas Nobre. Começou a freqüentar os gabinetes de Ulysses e de Amaral Peixoto e, com isso, foi construindo uma aproximação. Com a escolha de seu nome para disputar as eleições de 1982 como vice-governador, passou a chamar mais atenção mas foi a eleição para a presidência do partido que, de fato, estreitou a relação — porque, segundo o próprio Jorge Gama, “Dr. Ulysses era muito institucional. Ele não vinha ao Rio sem falar comigo”. As viagens de Ulysses ao Rio de Janeiro eram sempre comunicadas ao presidente do partido e encontros agendados. Assim, a relação entre os dois foi ficando cada fez mais próxima, a “fidelidade” de Jorge Gama sendo colocada à prova com o movimento em torno da escolha do nome peemedebista para a disputa do colégio eleitoral de 1984.

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romper com os laços que inicialmente o prenderam ao partido e à “ala” que escolheu/ aderiu. Colocando-se no “olho do furacão”, seu relato traz à tona os melindres e agruras de liderar um partido heterogêneo, em momentos de definição de poder. A visibilidade angariada pelo PMDB como partido-aglutinador da oposição produzia um duplo (e crucial) desafio para Jorge: posicionar-se a favor do movimento que ajudara a articular e organizálo, anunciando o nome de Tancredo, ou manter-se fiel à sua facção? Diante de tal encruzilhada, sua opção recaiu, segundo ele próprio, “sobre a coerência”. “Partimos pra campanha do ‘Tancredo Já’. É, eu era presidente do PMDB e tal, mas eu era ‘ulyssista’, não era ‘tancredista’ e surgiu um manifesto dos artistas, dos intelectuais, de todo mundo assinando, aqui, para ser publicado no Jornal do Brasil. Quem tinha que encabeçar o manifesto era eu, e eu disse: ‘Eu não assino’. Eu não assinei porque – vim a assinar mais tarde – porque não havia uma definição de quem seria o candidato, se seria Ulysses ou Tancredo e no PMDB havia uma luta interna e tal, que a imprensa já (es)tava anunciando (não era bem interna, já era pública); e eu era ‘ulyssista’, não vou assinar um manifesto ‘Tancredo Já’ e aí fiquei esperando a solução, porque o Dr. Ulysses, sabiamente, se lançou candidato à Presidência da República numa viagem que ele fez a Nova York. Quer dizer, está logo ali, mas vai interpretar esses sinais... É uma dificuldade! Se ele se lançou lá fora foi pra poder retirar, isso é um código interessante, mas quem não interpretava esse candidato, Ulysses é candidato só em Nova York […] Bom, quando o Dr. Ulysses esteve na famosa visita que ele fez ao Palácio da Liberdade, ao Tancredo e ali resolveu, aí eu assinei o manifesto. Mas aí já estava na mão, desesperado... ‘Assina’; ‘Não vou assinar, não adianta’; ‘Mas por quê’? ‘Não vou assinar […] eu sou presidente do partido, sou de uma corrente, não vou assinar […]’. Eu diria pra você que historicamente era até um fascínio assinar aquilo, era uma sedução você assinar ao lado de Chico Buarque […]. Nada disso, o político não pode entrar nessa, tem que ter pensamento estratégico, senão ele cai numa sedução 107

momentânea e se perde e não é por aí […] Eu disse: ‘Não!’ Uma pressão violenta dos intelectuais [que diziam]: ‘você está atrapalhando’. ‘Eu não estou atrapalhando nada […], cada coisa no seu tempo […]’ Aí, logo em seguida, eu assumi a campanha do Tancredo no Rio”.

Se a assinatura ao lado de intelectuais de renome poderia significar atrair – ainda que apenas momentaneamente — os holofotes para si, os frutos políticos a serem colhidos posteriormente poderiam ser desastrosos. Jorge já enfrentava muita oposição dentro do partido para colocar-se contra seus próprios aliados; isso poderia significar um suicídio político. O movimento pelas Diretas Já também delimitou sobremaneira os campos para a atuação política. Os aliados — bem como os adversários — são explicitados e suas posições marcadas nas disputas pelo poder. O caráter acusatório e o tom denunciativo da narrativa do ex-presidente do PMDB são exemplares para se pensar a constituição da identidade política de Jorge Gama em oposição a outros homens públicos como Brizola, Jorge Leite, entre outros — além de evidenciar a importância de sua relação com Ulysses Guimarães para a constituição de tal identidade. O período à frente da presidência estadual do partido (1983/1986) foi marcado também por festividades. Uma delas, em particular, evidenciou novamente sua performance de hábil articulador, garantindo visibilidade à sua filiação institucional. Foi uma homenagem e uma demonstração pública de apoio político a Ulysses, realizada logo após a escolha do nome

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a gente podia dar alguns pra quem não podia comprar e pra algumas personalidades” (Jorge Gama). evitando com isso custos com aluguel do local — Jorge convocou uma reunião para comunicar sua decisão aos membros do PMDB/RJ.00. dispôs-se a levar Jorge Gama ao hotel para que tratassem dos detalhes. Debaixo de muitos aplausos. então. A partir daí “o telefone não parou de tocar. na forma do art. Rodrigo Faria Lima. que era amigo de José Eduardo Guinle. Não havia. Nessa reunião. de 22-10-1984 (Tribunal Superior Eleitoral). mas eu coloquei logo por R$50. O almoço havia saído por Cr$25 mil. 108 A eleição de Tancredo Neves foi indireta. sugerindo que a festa fosse realizada no Copacabana Palace. pediu a ele que “soltasse uma nota” dizendo que Tancredo viria à festa e que os convites já estavam esgotados. Jorge Gama resolveu. a idéia foi aprovada. querendo cinqüenta. cotado para tornar-se o novo presidente da Câmara e membros do PMDB pensavam em uma forma de colocá-lo na mídia e reafirmar o seu prestígio. dinheiro em caixa para organizá-la. Encerrada a reunião. de Albino Pinheiro. da Lei Complementar n. Após conversar com Paulo Rattes — que sugeriu fazer a festa no hotel Quitandinha. em Petrópolis. em 15 de janeiro de 1985.º 47. Era gente querendo dez convites. O orçamento da festa ficou muito alto e o partido não dispunha daquele dinheiro. realizada pelo Colégio Eleitoral no Congresso Nacional. surgiu uma nova proposta. Pedro Cezar acatou o pedido. A realização de uma festa foi cogitada como meio de se conseguir tal resultado. Ulysses era. o que acabou não se concretizando. entrar em contato com a bancada federal para tentar algum tipo de ajuda financeira. então. 109 . Era assim. Diante disso. trabalhando junto à colunista Teresa Cruvinel — e. Assim. 1º. restabelecendo assim os “tempos de glamour do partido”.de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República108. ligou para Pedro Cezar — na época jornalista de O Globo. durante um almoço. no entanto.

2000. Os candidatos da aliança Democrática à Presidência e VicePresidência da República. receberá hoje o troféu de “Campeão da Democracia” durante o jantar no Copacabana Palace em que mais de 1. uma vez mais.A festa foi um sucesso. 1996 etc110).200 pessoas vão homenageá-lo numa festa organizada pelo partido no Rio com a finalidade de lançá-lo publicamente à Presidência da Câmara [dos Deputados]. Jader Barbalho. (O Globo) À frente da presidência regional do partido. Para o Presidente do PMDB do Rio. Kuschnir. Gilberto Mestrinho. A dinâmica temporal de quem “vive da política” é reinventada pela necessidade de angariar apoios (de outros políticos. Para o político profissional. firmando ou consolidando alianças. Deputado Ulysses Guimarães. O trabalho de Palmeira e Heredia (idem) é pioneiro e acabou influenciando diversos pesquisadores que lidam com o tema das eleições e da política em geral. O Presidente nacional do PMDB. a Cr$25 mil. Estava “em campanha” pela busca de uma possível (e desejada) unidade para o partido. Nabor Júnior. o tempo da política não se restringe ao período eleitoral. Prefeitos e Vereadores de todos os partidos. presidir o partido significava não somente 109 110 Ambas as matérias de 06/12/1984. Chaves. 1995. Wilson Martins. 1996. de empresários e dos eleitores) e conseguir acessos. Jorge conseguira atingir seu objetivo: demonstrou a Ulysses sua fidelidade e aptidão frente à presidência do partido. como também “preparando o terreno” para as eleições futuras. Franco Montoro. Borges. 110 . 2003. além de conseguir. Hélio Garcia e José Richa – e centenas de Senadores e Deputados. oito Governadores – Leonel Brizola. estabelecendo contatos. já confirmaram sua presença na festa de que participarão. Jorge Gama. Viegas. Os convites. como assinalam diversos autores que se debruçam sobre este tema (Palmeira e Heredia. sendo noticiada em jornais como O Globo e Jornal do Brasil109. Jorge Gama viajou por todo o estado do Rio de Janeiro. projetar-se na mídia nacional. Nesse sentido. ainda. Tancredo Neves e José Sarney. a festa acabará se transformando num grande fato político nacional. estão esgotados há uma semana.

A posse de Jorge Gama como novo Secretário de governo de Moreira Franco foi também noticiada pelo jornal O Globo de 22/05/1987. mas também dispor de recursos (humanos e financeiros) – além de alguma visibilidade. afiançar apoio para uma possível candidatura. Em 1986 (sem mandato eletivo desde 1982). isto jamais foi mencionado em qualquer das entrevistas que me concedeu durante todo o tempo da pesquisa. Representava também a possibilidade de se fazer notar pelas lideranças mais importantes do partido em nível nacional e. De acordo com o exposto neste capítulo. Em conseqüência dos argumentos anteriores. Jorge Gama alega ter sido convidado e cogitado algumas vezes para disputar a prefeitura da cidade. 111 Segundo matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 28/05/1987. Jorge Gama foi escolhido como o articulador da campanha de Moreira Franco para o governo do estado do Rio de Janeiro. ficando com a primeira suplência. e as inúmeras atividades que lhe ocupavam no partido (em 1986 passou o cargo de Presidente para o Senador Nelson Carneiro. No mesmo ano. Jorge Gama teria planos de disputar a prefeitura de Nova Iguaçu na próxima eleição municipal. desse modo. No entanto. 111 . dado seu envolvimento na coordenação da campanha de Moreira. Tal resultado foi atribuído à falta de (ou pouca) dedicação à sua própria campanha. Seu projeto político havia suplantado sua expectativa eleitoral. depois da extinção da pasta. foi nomeado Sub-secretário de Governo em maio de 1987 e. ficando com o cargo de secretário geral do partido no estado). corroborando a identidade de articulador e mediador político – e sendo recompensado pelo trabalho durante a campanha do governador eleito (Moreira Franco) com um cargo que viabilizava contatos e acessos111. assumiu a Secretaria de Trabalho. disputou uma vaga na Câmara dos Deputados. o afastamento de suas bases (a Baixada) acabou revelando-se muito longo para quem tinha pretensões eleitorais.manter seu status. mas nunca como um projeto político próprio. Ainda assim.

já teria um considerável poder de influência: ao contrário dos demais secretários. Eu me lembro uma vez. sempre pelo MDB. os que vêm em forma de emprego. reafirmando todos os 112 Paulo Rattes foi vice-prefeito de Petrópolis em 1966. fizemos a carta de São Paulo. no universo vocabular do governador. porque eu atendia com calma. tem que ter calma. Jorge Gama amortece os conflitos que surgem entre as centenas de políticos da Aliança Popular Democrática. é um afago. Em 1978. eram 11 horas da noite – o secretário do Moreira me contou depois – ele abriu a cortina e falou: ‘Mas ainda tem gente aí’? Tinha muita gente. É um político de centro esquerda.. um agrado que se dá a todos os tipos de insatisfeitos. 112 . Chegar: ‘Ó. nada de atender o político … ele não gosta de ser atendido com pressa. eu atendia o cara do interior – o cara demorava 5 horas pra chegar no Rio de Janeiro. Eu tinha como finalidade. como exercício da minha atividade. e me pediu. já pelo PMDB.. transformá-la em gabinete civil – cometeu um erro – despolitizou o Palácio. me designou para ir para a secretaria do trabalho […] Fiz alguns acordos internacionais: fiz acordo com a Organização Internacional do Trabalho. aí a coisa caminha bem. 23/08/1987) “Um belo dia. Então. que despacham com Moreira só de quinze em quinze dias. companheiro […] Outra coisa: de preferência. tornou-se novamente prefeito de Petrópolis. é atendido em 2 minutos. depois que saiu o Paulo Rattes [que] voltou pra Petrópolis112. elegendo-se prefeito em 1972.“Eu fui nomeado sub-secretário. foi eleito deputado federal. Em 1982. De relevância. chamálo pelo nome pra facilitar. despacha todo dia. em suma. que administra a distribuição dos melhores chuveirinhos de Moreira. conversar com os partidos porque nós fizemos uma coligação imensa com todo mundo […] Então eu diria o seguinte botaram aquele abacaxi na minha mão: atender deputado eleito. ficou uma coisa fria. prefeito e tal. não dá. É ele.” (Jorge Gama) Jorge Gama: Só por ser o ocupante da Secretaria de Governo. administrativa. com o curso de instrutores sindicais. o Moreira resolveu acabar com a secretaria de governo. Chuveirinho.. ligava pra um secretário. ninguém ia mais lá. ainda. marcava uma audiência pra ele ir na mesma hora.. Foi Secretário de Governo de Moreira Franco durante o primeiro semestre de 1987. (Jornal do Brasil. eu resolvia. – o que eu podia resolver.

Nesse sentido. Eu conduzi. nota-se como seu discurso foi re-semantizado. fui eleito secretário geral do Fórum Nacional dos Secretários de Trabalho. A habilidade com as palavras e a postura de “distinção” foram atributos selecionados em momentos cruciais e diferentemente utilizados segundo os contextos em questão. novamente. depois. e aí. Os múltiplos processos de identificação acionados em contextos sociais específicos demonstram o grau de percepção de Jorge Gama acerca de sua própria capacidade de atuação no mundo político. ora à profissão de advogado. bem como a consciência na aplicação de determinados meios 113 . Evidenciados. 1975a) e sua aptidão como mediador transformaram-no em político singular na Baixada. suas “bandeiras” reconstruídas e – ao mesmo tempo em que se manteve fiel a uma determinada facção – suas alianças internas e externas edificadas em etapas capitais para o partido a que pertencia.poderes da Constituinte. há alguns turning points (Becker e Strauss. A composição de sua fachada. ligando-se preferencialmente ao desempenho de um papel político específico – crucial para a consolidação de projetos e de sua própria existência política – e possibilitado por seu enorme potencial de metamorfose e mediação. de sua apresentação de si (Goffman. “da Baixada”. A construção de sua persona pública não é remetida ao carisma individual ou a algo que o designe um líder nato. “do Rocha”. apesar das derrotas nas urnas. Em sua atuação junto aos movimentos sociais. nós tínhamos um compromisso. 1970) na trajetória de Jorge Gama. queria era reformular o governo”. (Jorge Gama) A mediação aparece. como um conceito-chave para a compreensão da trajetória de Jorge Gama. ao longo da narrativa. às características anteriormente aludidas somava-se a prudência na escolha do repertório de símbolos – dada sua origem social e profissional – ora referindo-se à origem “popular”.

quando o TRE divulgou o relatório final sobre fraude nas eleições de 3 de outubro. Militante da resistência ao regime militar. não conseguindo. depois da Constituição. já em (19)89. José Távora (PFL). que teria sido beneficiado com 381 votos.para atingir os objetivos desejados. Eu infelizmente não participei da Constituinte”. com 418 votos. “[…] Então. se reeleger. 114 . no entanto. talvez. dada as características particulares de sua atuação. a impossibilidade de um ressurgimento. a platéia presente ao plenário ficou surpresa com a inclusão de um novo nome entre os acusados – o do deputado Jorge Gama. Estar apartado deste meio e de suas relações implicaria sua morte política e. eu assumi o meu segundo mandato de deputado federal. em outubro deste mesmo ano. de 13 de novembro de 1990. beneficiou-se com 100 votos em fraude comprovada. Sua sobrevivência enquanto figura pública deve-se fundamentalmente à sua “função” (de articulador/ mediador) e à sua manutenção dentro da arena política por intermédio do exercício de cargos públicos (administrativos ou de assessoria). (grifos meus) 113 Entre os demais nomes de políticos de Nova Iguaçu citados estavam o de Nelson Bornier (PL). o nome de Jorge Gama aparecia entre os citados pelo relatório final do TRE/RJ113. Em 1990. Ernani Boldrim (PMDB). novamente a ligação entre política e corrupção foi trazida à tona. com 248 votos. concorreu às eleições. Jorge voltou a substituir Aluísio Teixeira na Câmara dos Deputados (primeira substituição tendo ocorrido em 1989) e. Na noite da última quinta-feira. Gama. um filho de carvoeiro que se formou advogado trabalhista a duras penas. Segundo o Jornal do Brasil. manchando uma longa carreira política. Nessa eleição.

E aí eu bolei e fiz um projeto de implantação de uma universidade pública no município. Castilho. 2000). Então. […] estruturados. Eu preparei um projeto de lei ‘autorizativo’ no meu mandato de (19)90 ainda Eu fiquei preocupado: ‘Que é que eu vou fazer? Que bandeira que eu vou levantar?’ Eu não tinha. surgiram forças políticas insuperáveis. pertencente à outra rede política local. o Fábio tinha uma universidade atrás dele. “Nesse período. 1982. de alguma maneira... e aí. Mas aconteceu uma coisa curiosa que. e aí.. 1998. Alves. Eu ainda era deputado. surgiu Itamar Serpa e o Bornier. mas não teve êxito. atribuída por Jorge à falta de recursos financeiros. 1999a e 1999b.. Jorge tentou criar a sua “bandeira” através de um projeto de implantação de uma universidade pública na Baixada. o que a partir de então seria condição necessária para o sucesso nas urnas. essa coisa toda. 1994. fiquei ‘batendo uma lata’ com o meu projeto. 2003). eu fiquei sem espaço porque todos os três são poderosos do ponto de vista econômico. Bezerra. encaminhei ao ministro – na época era o Carlos Chiarelli. eu tinha que ter criatividade. 115 . Tal projeto desagradou (e acirrou a briga com) outro nome importante da política local: Fábio Raunheitti. Estava olhando o panorama econômico: candidatos com mais potencial. eu comecei o projeto de implantação da universidade pública. Como eu não tinha dinheiro.Tal derrota foi. 114 Carlos Chiarelli foi Ministro da Educação no governo do presidente Fernando Collor de Mello. um abaixo-assinado imenso para que nós tivéssemos uma universidade pública. Então. no entanto. Eu fiz toda a minha campanha recolhendo assinaturas. ministro do Collor114 – solicitando. dono da UNIG (Universidade Iguaçu). Surgiu o Fábio Raunheitti. aqui em Nova Iguaçu. O Itamar é um empresário de sucesso. Com os novos padrões de propaganda e marketing políticos (Scotto. irmão e sucessor de Darcílio Raunheitti. ou o candidato dispunha de uma “bandeira forte” ou precisaria de muito dinheiro para custear as despesas de campanha –– além do assistencialismo e clientelismo recorrentemente praticados (Diniz. foi importante. só me restou isso. 2004.

no entanto.Terminou. profº Manoel Martins. “Bom. Aí eu fui procurar o diretor da faculdade de Direito de Niterói. Jorge articulou as negociações e depois presidiu a comissão que instaurou uma unidade da UFF (Universidade Federal Fluminense) em Nova Iguaçu. não pude acompanhar e depois perdi a eleição. Que é que eu fiz? A Constituição Federal obriga a interiorização das universidades quando existem aquelas só na capital. [19]92. nas capitais de um modo geral.. não vou dar um parecer favorável? Claro que vou! Mas eu nem sei pra que foi distribuído porque eu já vim pra campanha e nunca mais tomei conhecimento do projeto. Parece que foi arquivado. Se ele for distribuído pra você como relator. ciências contábeis e administração. A Constituição percebeu isso.. é evidente. eu estou com um projeto de lei ‘autorizativo’. obrigou em 10 anos que as universidades fizessem uma política de interiorização. Manoel. Esse campus contava com três cursos: direito. eu tenho um projeto para a sociedade iguaçuana na qual houve uma mobilização. e falei: ‘Ó. veja bem.” Em 1992. Aí que é que eu faço: ‘peraí. um movimento eleitoral. você é da comissão. mas 116 . Roberto. é verdade. eu fiz esse movimento. Tal empreendimento (que funcionou por apenas cinco anos) demonstra novamente seu trânsito por diversas esferas e sua habilidade em conceber arranjos suprapartidários. A Constituição consagrou em um dos seus artigos a obrigatoriedade de expansão das universidades pro interior. não foi possível. Baseado nisso – tendo em vista que eu perdi o meu projeto – na época havia uma comissão e ela considerou um projeto eleitoreiro – então nem dei bola pra eles. criando uma universidade pública pra Baixada Fluminense. terminado isso […] Aí nós já estamos falando em [19]91 mais ou menos. durante o mandato do prefeito de Nova Iguaçu Aluísio Gama (PDT). Fui lá: ‘Ó. Eu me lembro que eu encontrei o Roberto Freire. você me dá um parecer favorável’? Ele disse: ‘É evidente’ (Foi interessante) ‘Você acha que eu comunista. há uma memória disso’.

Fizemos o vestibular com 150 vagas – se eu me lembro – pra cada cadeira.. a grade curricular. que eu presidi. Tem gente formada aqui em Direito. mas com sede em Nova Iguaçu’... conversei com o Romeu. na época. o curso todo feito aqui no Monteiro Lobato. Aluísio... uma projeção da UFF. não iria andar’. Aí ele perguntou: ‘O prefeito de lá topa’? Aí. Aí marquei uma audiência. em 92. que eu vou indicar a maioria da comissão […] pra eu ficar à vontade. Se eu fosse ficar lá com o secretário. E ele respondeu: ‘Prepara que eu assino’. lançamos o edital do 1º vestibular com 3 cadeiras: Direito. vinculado ao seu gabinete e com classe específica.aí tem a Constituição. as faculdades’. e digo: ‘Olha. O projeto tem que ser detalhado... Vamos evoluir.. está nos planos fazer uma parceria com a UFF pra botar uma universidade em Nova Iguaçu? É possível?’ ‘É possível. a interiorização da UFF.. seja PDT. Qual o município’? Eu digo: ‘A região da Baixada Fluminense. Administração. vim pelo município. E ele falou: ‘Nós temos interesse. Eu digo: ‘Sim. 117 . cobrindo tudo. Em 120 dias nós fechamos o projeto e. 4 mil e tantos inscritos. é claro’. que era o reitor. Aí eu fui. está aqui o abaixo assinado’. Ele falou: -‘Vou te levar na Reitoria’ – foi uma audiência com o José Raimundo Martins Romeu. eu vou te pedir algumas considerações: não remunerado. funcionando muito bem” (grifos meus). não me lembro bem aí o número […] E funcionaram as 3 universidades [faculdades] aqui. eu vou fazer o seguinte. Então. é. eu gostaria de discutir isso. claro que é!’ ‘Eu já estive na universidade e ele quer nos receber lá’. as cadeiras. O Reitor disse: ‘[…] não vamos fazer um convênio guarda-chuva inicialmente. Ele até estranhou porque falou: ‘Mas Nova Iguaçu é do PDT. Falei: ‘vai dar problema. nós tivemos uma universidade pública aqui.. Criamos uma comissão... eu liguei pro Aluísio Gama. levei o Aluísio lá. Você é do PDT e me nomear […]então. mas eu não vim reivindicar uma universidade para o PMDB. Depois outros governos não puderam prosseguir. Aluízio. Há um espaço pra gente negociar uma interiorização da UFF’? Ele falou: ‘Há. Administração e Ciências Contábeis sem nunca ter ido à Niterói. Ciências Contábeis. janeiro de 92. qualquer partido serve’. ele assinou. Aí eu fiz a portaria. ‘Então. Está aqui o meu projeto. do Aluísio Gama’. o convênio foi extinto.

a presidência regional do partido para Renato Archer (presidente da Embratel). Em outras conversas e entrevistas.Nas entrevistas que me concedeu. já filiado ao PPR. desligando-se do partido e filiando-se ao PP. Aniz Abraão David. passivo é conjunto de dívidas e obrigações de uma pessoa ou empresa. No entanto. financiamentos etc. Em uma lista. entretanto. Nenhum processo foi instaurado contra ele e Jorge afirma que sua ligação com Castor de Andrade era distante – visto que conhecia apenas Anísio. o conjunto de contas que registra a origem dos recursos da empresa: capital próprio. Em solidariedade ao Senador. Jorge também saiu do partir e disputou as eleições de 1994 já pelo PP. admitiu o peso político dessa denúncia – e da subseqüente cobertura da imprensa – em sua derrota. 118 . justificou tal decisão alegando que estava com um enorme déficit – um passivo acumulado desde 1990115 – e que sua família também o pressionava para “deixar a política”. nomes de vários políticos apareceram como receptadores de doações – dentre eles também o de Simão Sessim. Jorge Gama pouco falou a respeito da denúncia. Nelson Carneiro disputou. depois de anulado o primeiro pleito.No início de 1993. que foi apoiado por Moreira Franco. irmão de Simão Sessim (deputado federal) e de Farid (atual prefeito de Nilópolis) e chefe do jogo do bicho 115 Segundo verbete do Dicionário Aurélio. Nesse mesmo ano. outro acontecimento marcaria a sua carreira. ressaltando apenas que nada havia sido provado contra ele. Na primeira entrevista. mas Jorge Gama não voltou a concorrer. e perdeu. onde permaneceu por menos de um ano –vinculados ao bicheiro Castor de Andrade. influenciando também sua decisão de não concorrer novamente. apreendida pelo Ministério Público. Partido Progressista Reformador. as eleições no estado do Rio de Janeiro foram anuladas devido a suspeitas de fraude e remarcadas para dezembro. Um novo escândalo vinculou-o à contravenção do jogo do bicho.

Em 1986. quando este o convidou para a sub- 116 Nelson Bornier configura uma peça-chave para se pensar a política na Baixada a partir da década de 1990. Em 1990. em 1950. Nelson reativou o hospital da Posse – ligado à UNIG. filiou-se ao PL (Partido Liberal) e presidiu o diretório do partido até 1989. situado no Centro do Rio de Janeiro. de Fábio Raunheitti – e. sendo uma outra realizada em novembro do mesmo ano – na qual confirmou a vitória de 3 de outubro. 2001). Em 1996. de Desenvolvimento Urbano e Interior e de Defesa Nacional. Tal episódio não significou. de Viação e Transportes. elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu (com 184. elegeu-se deputado federal. que as portas do mundo da política fecharam-se para Jorge. Como já mencionado anteriormente. A ligação com Nelson Bornier (que. já era um dos nomes mais influentes da política local )116. formou-se em direito por uma faculdade particular de Valença. tomando posse na Secretaria Especial da Baixada no princípio do ano seguinte. Após o ocorrido. durante a gestão de Marcelo Alencar. a essa altura. Durante seu mandato. Em 1994. além da política. em 1977. onde prestava consultorias diversas a deputados e vereadores.563 de Arthur Messias do PT). tais como: obras na Linha Vermelha.na mesma localidade. A distância relativa da imagem de Jorge Gama dos estereótipos acionados para falar de política na Baixada dessa vez não se concretizou. Neste mesmo ano. onde 119 . a projeção política de Jorge não se restringia aos limites territoriais da Baixada.240 de Cornélio Ribeiro do PDT e 56. dedicando-se.640 votos contra 66. estreitou-se em 1998. reassumiu o seu mandato. motivo pelo qual tal ligação repercutiu negativamente em esferas mais amplas. que desconhecia a origem das camisas recebidas para a campanha. com votos provenientes fundamentalmente da Baixada. mantendo assim seus vínculos com políticos profissionais e retornando ao partido de origem. filiou-se ao PSDB (em dezembro de 1994). por intermédio de um conhecido– vindas de Nilópolis [de Anísio]. esta eleição foi anulada. Fez parte também da CPI que investigou irregularidades na Previdência Social e na privatização da VASP. em fevereiro de 1995. à atividade de contador e empresário em Nova Iguaçu. reelegeu-se pela sigla do PL com 105 mil votos (TSE). dada a decisão do TSE quanto à anulação do pleito de outubro de 1994. no entanto. desligando-se imediatamente depois para retomar as atividades à frente da Secretaria da Baixada. Nascido no Rio de Janeiro. ele decidiu dedicar-se ao escritório de advocacia. instalação do pólo petroquímico de Itaguaí. por exemplo. quando se tornou vice-presidente regional (cargo no qual permaneceu até 1993) (DHBB. Mesmo minimizando os efeitos políticos da associação com o jogo do bicho em termos gerais (a partir de uma percepção nãonegativa sobre o seu papel na região). comissões de Finanças. Diz ainda. integrou diversas comissões e defendeu projetos de interesse para a região.

119 Um fato ilustrativo dessa preocupação de Jorge com relação a Mário Marques foi explicitado por Pedro Cezar. fundamentalmente porque o primeiro via como ingerência a atuação do ex-prefeito na administração municipal.716 votos. Ex-deputado federal pelo PMDB. mas sentia-se isolado. Em 2002. em uma das entrevistas que me concedeu. Jorge e Bornier discordavam com relação a algumas “políticas” do governo de Mário. A partir daí. filiou-se ao MDB em 1977 e foi um dos fundadores do diretório de Nova Iguaçu. sendo eleito deputado federal com 140 mil votos . Os indícios de que os conflitos existiriam apareceram logo no reorganizou a administração e retomou o pagamento do funcionalismo público municipal. mas acabou permanecendo apenas na Secretaria de governo. tendo o sobrinho de Raunheitti. em 1989. mas saiu derrotado. e não a dele. Em 2002. sua influência política no governo do sucessor devido à permanência de parte de seu secretariado na administração seguinte. no entanto. com apoio popular e político. Segundo ele: “o Mário nem tirou a foto do Nelson da parede das repartições públicas. diretamente vinculado à família Garotinho.520 de Adeilson Teles do PT) (TRE/RJ). Ernani Boldrim. reelegeu-se com maioria absoluta sobre o segundo colocado (204. com atrasos superiores a três meses. Você chega numa secretaria e vê a foto do Nelson. Foi em seu mandato executivo. já pelo PMDB. contra 83. que as desavenças entre Bornier e Fábio tiveram início. Advogado. Este cargo significava a possibilidade de novamente dispor dos acessos. Fernando Gonçalves. ameaçado de cassação. Mas com isso. Ele é muito grato ao Nelson por seu apoio. até então.9). o PP foi incorporado ao PMDB. “um misto de gratidão e admiração”119. A situação complicou-se ainda mais a partir da campanha de 2004. ficando com a suplência.” 120 . Esporte e Lazer no governo de Moreira Franco – e de Gustavo de Farias – que renunciou. teve a oportunidade de exercitar seu poder de mediação junto às lideranças locais.secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes117. Jorge acreditava que Mário Marques deveria ser mais independente em relação a seu antecessor. principalmente devido a problemas com a transferência de dinheiro público para o hospital vinculado à instituição de ensino deste último. afastou-se da prefeitura de Nova Iguaçu. que promoveu obras como o Baixada Viva e o projeto de construção da Via Light. a relação de Jorge com Bornier ficou abalada. mas sua postura era de certa submissão. no Caderno Baixada. ninguém sabe que ele é que é o prefeito agora. Chagas Freitas. ainda no governo de Marcelo Alencar (1995-1998). No mesmo ano.645 de Sheila Gama do PDT e 28. e entre 1990-1991 – em ambos os casos porque era suplente – ocupou respectivamente a vaga dos deputados Flávio Palmier da Veiga – que se tornou Secretário de Turismo. de fevereiro de 1995 ao início de 1997. elegeu-se deputado estadual pelo PPB. À frente da nova secretaria. Ernani foi também deputado estadual. Em 1982. filiou-se ao PP (Partido Popular). tentou a reeleição. Jorge permaneceu neste cargo até receber o convite de Mário Marques para assumir a secretaria de governo de Nova Iguaçu. Manteve. A notícia foi veiculada pelo Jornal O Globo. Em 2000. em 27/10/2002 (p. liderado pelo então governador do Rio de Janeiro. Sem mandato. como vice-prefeito. 118 Jorge Gama foi convidado primeiramente para assumir a Secretaria de Saúde no lugar de Gilberto Badaró em outubro de 2002. candidatou-se a uma vaga na Câmara dos Deputados. em 2002118. Em 1986. 117 O secretário da Baixada era. tornou-se secretário de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes em 1998. Em 1979.

a Secretaria de Trabalho. Durante o período da campanha. PMN. PRP. Délio César Leal (PMDB). de fato. PFL. A Secretaria em questão configura uma importante máquina política visto que abriga a Fundação Leão XIII. Jorge permaneceu à distância. o ex-prefeito de Paracambi por dois mandatos e deputado estadual por três. a Secretaria de Administração. PHS. PSDB. Não era um porta-voz autorizado. PRONA e PT do B) e ‘Hora da Mudança’ (PT.início da campanha. PL. quando Bornier deixou Jorge Gama totalmente à margem das principais decisões. PV. a Serla (Superintendência de rios e lagos). mas sem fazer uso da palavra. PPS. A condução de todo o processo foi gerenciada pelo primeiro. PSB e PC do B). Com a derrota de Mário para a prefeitura de Nova Iguaçu. nas caminhadas no centro comercial da cidade – o calçadão – inclusive na que acabou em um confronto físico direto entre os cabos eleitorais das coligações ‘Crescer sempre com Deus e o Povo’ (PP. PSC. Mais tarde. as discordâncias entre Mário e Bornier e. conseqüentemente. o projeto de inclusão digital. além de diversos projetos sociais como o pólo de distribuição de leite em pó. – quem. PRTB. o afastamento deste último do dia-a-dia da campanha possibilitaram a reaproximação de Jorge com a equipe de Mário. ele esteve presente nas carreatas. A partir daí. além do Detran e da Escola de Serviço Público. Ia aos comícios. PSDC. tendo como braço-direito Pedro Cezar manteve boa relação com Jorge. PMDB. PSL. PDT. limitando-se a preparar algum material escrito – fundamentalmente o programa de governo e algumas críticas ao adversário do PT. coordenou de perto e que sempre 121 . Jorge foi ocupar novamente o cargo que já ocupara anteriormente na Secretaria de Desenvolvimento da Baixada – cujo secretário era seu “afilhado” político. PTN.

Devemos atuar somente nos treze municípios da região” (Jornal de Hoje. além das atividades culturais para a comemoração do Dia da Baixada (30 de abril).) não foram rechaçados. Jorge Gama perguntou sobre a defesa de minha tese e sobre o “lançamento do livro” e disse que gostaria que eu o fizesse na Secretaria da Baixada e que a secretaria estava à minha disposição para a organização de um seminário ou qualquer evento que dissesse respeito à Baixada Fluminense. Sendo assim. os discursos acusatórios (corrupto. 19/04/2006). as práticas necessárias para perpetuar-se no mundo político da Baixada remetem ao assistencialismo/ Assim que cheguei ao Rio. Antes de sair. Para ele. Niterói. Fui presenteada com uma camisa comemorativa da Baixada e também fui convidada a participar de alguns eventos desta comemoração. Falamos sobre a “situação política” para as eleições de 2006 e sobre as comemorações pelo dia da Baixada (30 de abril). “trabalhar pela região metropolitana e pela Baixada fica muito extenso e pouco produtivo. a criação de uma universidade à distância. telefonando-me em seguida para me comunicar seu novo posto120. inclusive cogitando a possibilidade de se lançar uma revista com alguns artigos sobre a Baixada e seus “tipos”. Jorge Gama é um dos defensores da centralização das atividades da Secretaria da Baixada exclusivamente nos municípios da região e não o formato que vem sendo adotado. com a necessidade de desincompatibilização de Délio Leal para disputar ou uma vaga na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro ou a de vice-governador nas eleições deste ano. dirigi-me à Secretaria da Baixada para falar-lhe. englobando também a região Metropolitana – agregando assim os municípios de Itaboraí. ligado ao jogo do bicho etc. Persiste a seguinte pergunta: por que Jorge Gama não tentou disputar novas eleições? Por que ainda atua como mediador se não possui mandato eletivo há mais de 15 anos? Minha opção recaiu em pensar as possíveis respostas a tais perguntas a partir de sua própria narrativa. onde também estava presente um professor do campus da UERJ na Baixada. mas colocados no plano do narrador. De tal perspectiva. Encontra-se atualmente envolvido com novos projetos como a criação e implantação do curso de formação política para mulheres.No fim de março de 2006. Assim que cheguei fui muito bem recebida e fiquei aproximadamente uma hora conversando com ele em sua sala. após ter sido avisada dos telefonemas de Jorge Gama. Agradeci e disse que pensaria a respeito. Jorge Gama foi indicado para assumir a Secretaria da Baixada. numa quarta-feira 19/04/2006. São Gonçalo e Tanguá. 120 122 .

ainda não têm uma atuação 123 . por opção e. eles defendem a Baixada ainda de forma isolada e cada um fazendo o seu pedacinho. No primeiro caso. Jorge Gama sempre manifestou uma grande preocupação com a posição política da região em relação ao estado do Rio de Janeiro. tendo trânsito livre em diferentes esferas do poder (Executivo e Legislativo) — desde presidentes nacionais de partidos a vereadores de cidades do interior do estado etc – em uma palavra. Desde o início de sua apresentação. eu compreendo – concorrência eleitoral. Fazer da Baixada sua “terra” e a de seu “povo”. sobretudo os parlamentares. de outro. portanto. circulando entre diferentes atores políticos. Jorge Gama coloca-se à parte. mas os deputados estaduais e federais ainda não interpretaram a Baixada. sua gente. política. mas eles não entenderam a necessidade de se ter uma atuação mais conjunta. foi determinante para a concepção de seu devir político. Claro que isso daí é até a questão da sobrevivência. Em ambos os casos. os prefeitos não. a Baixada aparece como uma escolha. conseguindo manter os acessos. já estão entendendo mais. por falta de recursos. “Eu acho – do ponto de vista dos políticos da Baixada – eles talvez ainda não tenham percebido a importância da Baixada como um todo. e em outras conversas. ele acredita em um possível alinhamento de forças no intuito da região conseguir unidade política para pleitear mudanças relativas ao tratamento que recebe dos governos estadual e federal. A mediação tornou-se. o único modo de efetivar sua permanência na política. Nas entrevistas. Seu projeto político foi então analisado tendo-se em vista a vocação de mediador tanto quanto a dedicação à atividade. Enfatizando iniciativas como a da Associação de Prefeitos da Baixada e do consórcio de municípios na área da saúde e meio ambiente. essas coisas todas.clientelismo de um lado e/ou ao marketing político. Criando espaços de visibilidade. no segundo.

Neste universo. em um trânsito constante de atores políticos que. os projetos (Velho. e muito menos como a outra. com a entrada de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus. A adesão a uma determinada facção não o impediu de galgar posições e constituir alianças diversas dentro do partido 124 . 1994) dos atores políticos são. mas a capitação de recursos (simbólicos e econômicos) em benefício próprio. sempre defendem a Baixada isoladamente. mas que não liga coisa nenhuma. o caráter segmentado acaba sendo enfatizado diante das realidades diversas dos distintos municípios. não me parece que essa dicotomia dê conta satisfatoriamente da trajetória de Jorge Gama. tomados individualmente. faz um estudo. Sempre esteve muito ligado ao intrincado processo de constituição de seu partido e das mudanças pelas quais ele passou – desde o vínculo com os independentes. Apesar de estar mais próximo da classificação de ideológico do que de assistencialista. no entanto. redimensionam as forças presentes no campo político.parlamentar satisfatória em direção à Baixada como região. ora agrupando-se em facções rivais. na medida em que o político com maior capital simbólico for capaz de viabilizar alianças para este fim. não é nada disso”. e a associação a outros projetos não visa uma “construção coletiva”. Tal configuração. ao se moverem. Vai lá. A Baixada aqui apresentada é multifacetada e englobada por redes políticas que se intercomunicam. A preocupação com a criação de um projeto coletivo é por ele manifestada frente aos conflitos e ao caráter “pouco orgânico” das lideranças da região. faz[em] leis. Ele próprio não se define nem como uma coisa. ora configurando novas “alas” e dissidências. não é capaz de engendrar objetivos comuns que pensem a Baixada como um todo – mas ao contrário. a aproximação com Moreira Franco e a devoção a Ulysses Guimarães. via de regra. não é nada estruturante. até a configuração mais recente.

neste caso em particular. numa fluidez relacional na qual não só o tempo. Assim. remetida a “um deslocamento linear. em alguma medida. em termos de visibilidade nacional e regional.como forma de manter as condições para sua sobrevivência política. empreguismo e clientelismo nos mais diversos contextos (fundamentalmente eleitorais) foram ilustrativas dessa atuação. decerto. por exemplo. esteve vinculada a notícias de uso político. unidirecional” (Bourdieu. e com a própria Fundação Leão XIII. e portanto dinâmica. através da apreensão de práticas próprias e de formas de experiência significativas. 1996: 183). Mesmo não utilizando a expressão “história de vida”. é a partir da construção narrativa sobre eventos de uma memória da política nacional – e de suas implicações locais – que se encontram os elementos que possibilitam recompor um quadro de forças no qual os atores em questão disputam espaço. Suas ligações com chaguistas como Jorge Leite. poder e cargos/ mandatos. o universo político é conformado. A tentativa de apreender as relações políticas travadas na Baixada por intermédio da narrativa de alguns de seus atores merece algumas considerações. que desde o governo de Chagas Freitas. Entremeado de emoção. o depoimento de Jorge Gama ilumina a posteriori aspectos da trajetória de nomes importantes da política na Baixada. as formulações de uma história ou de suas versões (como prefiro) são determinadas pelos discursos e transformadas pela possibilidade de recontar e reinventar. 125 . num mover-se constante entre diversos campos. satisfação e críticas. operar com a idéia de sucessão temporal dos acontecimentos pertinente a um (ou mais) ator (es). Entretanto. mas o espaço e os possíveis interlocutores configuram distintos planos para a construção narrativa. Dentro dessa composição relacional. lidar com trajetórias implica.

há uma lógica retrospectiva e prospectiva no relato do entrevistado que é organizada a partir de fatos significativos para si e para quem o “interroga”. afirmar o caráter de artefato da narrativa e. atribuindo constância e conseqüência aos momentos selecionados. a percepção de que o mundo social é marcado por acontecimentos cuja sucessão no tempo não é unilinear evidencia a multiplicidade e a profusão das relações que perpassam os indivíduos. O sujeito da narrativa constrói seu próprio romance. A Baixada como palavra de ordem é possível a partir do entendimento sobre sua aparição centrada na análise dos processos que desencadearam sua expansão em meio ao campo político. mas interligados no interior do campo social. a justificativa de sua transformação/ conversão em ator político aparecendo como uma seqüência de proposições verdadeiras e significativas para além do âmbito de uma escolha individual e/ ou egoísta. como o inquisidor (Ginzburg. 121 126 . surgindo como vocação. pensados aqui como sujeitos fracionados. ou seja. ao mesmo tempo. da cidade. o discurso sobre si funde-se com a história da nação.Reestruturado. encarála como potencialmente produtora de realidade(s): da Baixada como palavra de ordem121. Apresentar as intrincadas relações políticas na Baixada a partir da versão de Jorge Gama não significa retirá-las de seu campo e das relações de poder aí existentes. 1989). da Baixada. revelando assim a preocupação em apresentá-lo como um continuum coerente e conciso. O antropólogo. contribui para o condicionamento da produção desta “fala”: tanto a relacionada a uma acusação de feitiçaria quanto àquela ligada à narrativa de acontecimentos nacionais como as Diretas Já. No entanto. a partir da perspectiva de Jorge Gama. marcando passagens. Nesse sentido. omitindo outras. mas antes.

muito solícito. além de matérias de jornais. apesar de muita insistência. Liguei na hora recomendada. Sua redação se deu sem que eu tivesse acesso ao personagem principal. Belford Roxo e Guapimirim. Sendo assim. bem como entrevistas com pessoas próximas a ele (com vínculos de parentesco. Zito. no dia 17 de abril de 2006. 1999) e em entrevistas realizadas com alguns de seus secretários (em seu segundo mandato como prefeito de Duque de Caxias) e com membros da família Camilo dos Santos. Durante mais de dois anos. profissionais e/ou de amizade). Após diversas tentativas sempre frustradas. e fui atendida por Aurélio que. a política local e seus atores. decidi tomar sua biografia (autorizada ou encomendada?) como fonte primeira de dados a respeito de sua trajetória pessoal. telefonei para o gabinete da deputada estadual Andréia Zito (o que já havia feito antes sem sucesso). Com relação à sua vida política. Também foram analisados trabalhos acadêmicos sobre a cidade. pediu-me que ligasse mais tarde para falar com a chefe de gabinete. Pedi então a Aurélio o telefone celular de Marcela Dutra (a chefe de gabinete) para que eu pudesse contactá-la o mais 127 . depoimentos de moradores de Duque de Caxias sobre sua administração. Em uma última tentativa. assim como documentos dos arquivos das Câmaras Municipais de Duque de Caxias. foram também utilizadas fontes oficiais.CAPÍTULO 3: ZITO: DA BAIXADA PARA O MUNDO Entrevistando Zito Optei por iniciar este capítulo de maneira um pouco diferente dos demais. A dificuldade em conseguir contactá-lo acarretou a diversificação de possíveis entradas e a captação de dados das mais diversas fontes. não foi possível entrevistar Zito. a construção do capítulo baseou-se principalmente na biografia de Zito (Gramado. mas não consegui encontrá-la.

acompanhando políticos ou entrevistando/ conversando com moradores/ eleitores. O dia 26 de abril de 2006 certamente foi o mais tenso (talvez porque o mais esperado) de toda a minha pesquisa de campo. carreatas. Ora como anônima – como mais uma – ora como pesquisadora. Como combinado. em Uberlândia. com Andréia. Durante esses mais de três anos. reuniões. constituíam momentos particularmente interessantes. dos mais variados tipos. explicando que se tratava de uma pesquisa em fase de redação final. conversas informais. showmícios e reuniões. na ocasião. almoços. Esta passou-me diretamente para o secretário pessoal de Zito. Uma vez obtido o número de telefone. então. Todos eles eram repletos de rituais. entrevistas. enfatizando a minha área de atuação e minhas filiações institucionais (Antropologia. Como. Durante as caminhadas. A princípio. explicando que já havia tentado entrevistá-los sem sucesso. em seu gabinete. mas não consegui encontrá-la. a 128 . mencionei tratar-se de minha tese de doutoramento e da redação de um livro sobre a política na Baixada. no entanto. Museu Nacional/ UFRJ e UFU). agendar e confirmar a data e o local das entrevistas. eu falava de meu telefone residencial. eu lhe telefonasse para confirmar o encontro. Respondi prontamente que. participei de diversos eventos: jantares. Fernando. meus telefones para. queria falar com os dois. Marcela telefonou-me. No dia seguinte. O encontro com Zito seria em seu escritório. 20 de abril e solicitando que. no prédio anexo à ALERJ. marcando a entrevista para quinta-feira. se possível. liguei para o telefone do gabinete. caminhadas. carreatas. às 10 horas. Forneci. uma vez no Rio. liguei imediatamente.rápido possível. forneceu-me outro número no qual finalmente conseguiria encontrar Marcela. posteriormente. às 16 horas. explicando no que consistia a pesquisa. que agendou o dia e o horário para as duas entrevistas. em Duque de Caxias. Marcela Dutra perguntou se a entrevista seria por telefone e se eu desejava falar apenas com Andréia ou se também gostaria de falar com Zito. As entrevistas. Aurélio. então.

minha presença (apesar de nunca deixar de contar como um dos elementos em jogo) podia ser diluída ou atenuada e não se colocar como peça-chave nessas situações. Nas entrevistas, por sua vez, o pesquisador é parte fundamental do ritual, tendo um papel ativo e explícito no processo de construção da própria interação. Trata-se de um diálogo, no qual as intervenções marcam lugares específicos para cada ator envolvido. Apesar de todas elas terem marcado momentos singulares e excepcionais para a elaboração desta pesquisa, a entrevista com Zito me fez confrontar todas as imagens e pré-noções que eu mesma já havia construído acerca de sua persona pública. Cheguei no escritório, na rua Prefeito Carlos Lacerda, em Duque de Caxias, às nove e meia da manhã. O prédio onde ele está situado é estritamente comercial e localiza-se ao lado da Câmara Municipal da cidade, próximo à praça central. Dirigi-me à sala que fica no sétimo andar. Para entrar ali, há um interfone por meio do qual a secretária, Simone, monitora a entrada e a saída de pessoas. Na recepção, há também algumas poltronas que comportam cerca de oito pessoas. Quando cheguei, dois homens já aguardavam para falar com Zito. Após minha identificação, Simone (a secretária) avisou a Lucas (um assessor) que eu havia chegado. Ele imediatamente veio falar-me, pedindo que eu esperasse alguns minutos. Em seguida, entraram os dois homens que haviam chegado antes de mim. Esperei por cerca de trinta minutos. Enquanto aguardava, as pessoas não paravam de chegar ao escritório e eu aproveitava para prestar atenção nas conversas que elas mantinham sobre política e a atual administração municipal122.

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Dentre os relatos que ouvi, o que narro a seguir chamou particularmente minha atenção. Uma mulher negra, apelidada pela secretária de “Luana Piovani”, reclamava sobre a forma como vinha sendo tratada pela equipe do atual prefeito. Tentando entender do que se tratava, puxei conversa. Ela explicou-me, então, que a atual administração estaria promovendo uma “caça às bruxas” e que todas as pessoas ligadas ao antigo prefeito estariam “com um X nas costas”. Tal moça cursa faculdade de serviço social e trabalha como “parceira” em um projeto social, não sendo funcionária da prefeitura. Alegando que vinha sendo discriminada

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Fui recebida, finalmente. Na sala, que deve ter aproximadamente 12 metros quadrados, estavam Zito e Dr. Moretti, ex-secretário de governo de Waldir Zito na prefeitura de Belford Roxo. Ao que tudo indica, aquela era a sala de Moretti, pois este estava sentado atrás de uma escrivaninha, de costas para uma grande janela — de onde se via o viaduto e a linha férrea — enquanto Zito encontrava-se em uma das cadeiras à sua frente, onde também me sentei. As imagens do homem arrogante, quase rude, de voz imponente e estatura marcante propagadas por fontes variadas – moradores, políticos, jornalistas etc. – foram reavaliadas no mesmo instante em que pisei naquela sala. Ao entrar, fiquei frente a frente com um homem modestamente vestido (tênis, calça jeans e camisa de malha verde) que não ocupava a cadeira principal e colocava-se como um “convidado”. Este homem levantou-se e cumprimentou-me respeitosamente, pedindo que eu me sentasse a seu lado. Sua voz imponente, entretanto, contrastava com a postura curvada e com o olhar que me fitava por não mais que alguns poucos segundos, sempre dirigido ao chão, como se estivesse fechado em si mesmo. Após as apresentações (Zito apresentou-me a Dr Moretti, que permaneceu conosco durante toda a entrevista) e alguns minutos de conversa sobre o meu trabalho, perguntei se poderia gravar a entrevista.A autorização foi imediata. Iniciei com uma pergunta geral: “Como foi sua entrada na vida política” ? A resposta foi sintética. Um breve resumo de cerca de 15 minutos, sem mencionar partidos ou nomes de aliados e adversários, centrando-se em sua origem familiar “humilde” — filho de “pais analfabetos” que chegou a ser vereador, deputado e prefeito.
e boicotada, afirmava sua vinculação a Zito dizendo não ter um X nas costas como os outros, e sim um Z, de Zito.

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Fiz então uma nova intervenção: “O senhor começou sua vida pública no PTR, um partido pequeno, e depois integrou vários outros. Poderia falar um pouco mais sobre estas ‘passagens’” ? Obtive a seguinte resposta: “Você está sabendo bem da minha vida, né?!” (risos). Em seguida, Zito reiniciou seu relato contando em detalhes os diversos momentos de sua trajetória que serão agora explorados ao longo deste capítulo, revisitado após as entrevistas123.

Os Caminhos Que Levam À Baixada José Camilo dos Santos Filho – Zito – nascido em 15 de outubro de 1952, é o segundo dos três filhos de José Camilo (conhecido como Seu Zé) e de Dona Luzia. Pernambucanos, Seu Zé e Dona Luzia deixaram sua cidade natal e foram para Paulista, cidade da zona da Mata, em busca de um emprego na indústria têxtil Companhia Paulista de Tecidos que sustentasse a família inteira124. Após anos e anos de trabalho, Seu Zé foi demitido por testemunhar a favor de um ex-funcionário da empresa, um conhecido seu que moveu um processo trabalhista contra a companhia. A partir daí, a família precisaria prover seu sustento da
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A entrevista com a deputada Andréia foi marcada em seu gabinete, no prédio anexo à ALERJ, na sala 407. Cheguei às 15hs50 e fui recebida por Aurélio, com quem já havia falado algumas vezes por telefone e que me forneceu o telefone de Marize. Logo na entrada do gabinete, há uma pequena ante-sala com duas cadeiras, separada da parte interior na qual se encontram as mesas de trabalho do staff da deputada, além de sua sala e a de sua chefe de gabinete. Há também uma pequena copa com bebedouro, máquina de café, geladeira e pia. O espaço não é grande, mas bem organizado por divisórias. Após esperar por alguns minutos, fui atendida por Marize que me levou à sua sala onde aguardei um pouco mais conversando com ela. A deputada me recebeu por volta das 16hs30. Conversamos sobre a minha pesquisa e Marize fez algumas perguntas sobre o trabalho: como havia começado, quais os meus interesses etc. A entrevista teve aproximadamente quarenta minutos de duração. Após a conclusão, ainda conversamos por cerca de vinte minutos sobre Zito e as “imagens” divulgadas a seu respeito. Marize indagou-me novamente, agora sobre minha impressão sobre a deputada e seu pai. Discorremos sobre sua visão enquanto não-moradora da Baixada e sobre o tratamento da imprensa aos políticos da região. Ao final, Marize perguntou à deputada se poderia me fazer um convite e ela concordou. Propuseram que em caso de publicação da tese, fizéssemos o lançamento na ALERJ, na tentativa de aproximar “a casa ao meio acadêmico”. 124 Consultar, por exemplo, os trabalhos de José Sérgio Leite Lopes (1979 e 1988) e Maria Rosilene Alvim (1979).

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forma que lhe fosse possível. Teve início, assim, a ciranda de empregos e ocupações pelas quais Seu Zé passaria. Tentou de tudo um pouco. A princípio, montou uma “venda” no quintal de casa, na qual comercializava desde bebidas até frutas e mantimentos. Depois de algum tempo, no entanto, a empreitada não deu certo devido à dificuldade em receber pelas mercadorias compradas “fiado” — na maior parte dos casos por amigos ou pessoas próximas, em situação semelhante ou pior do que a da família Camilo dos Santos. O esgotamento de todas as alternativas da família fez Seu Zé decidir “tentar a vida” em outro lugar. Saíram de Paulista em fevereiro de 1954, tendo como destino o Rio de Janeiro e a busca do “sonho da cidade grande”. Na ocasião, a filha Maria José tinha 4 anos e Zito, pouco mais de um ano de idade. O mito fundador da trajetória de Zito é reforçado tanto na narrativa de seu irmão Waldir, quanto em sua biografia (Gramado, 1999). Essa construção o transforma em um personagem com um passado em comum, um passado partilhado com muitos moradores da Baixada: o de migrante nordestino. A viagem para o Rio de Janeiro corrobora a saga nordestina: o pau-de-arara, a fome, a sede, o medo e, às vezes, até mesmo a morte. Há uma espécie de ilíada conferindo um desencadear espetacular aos acontecimentos (no sentido mais amplo, de não-ordinário), envoltos em dramas pessoais que, no entanto, marcam ligações com um todo maior — no caso, o percurso transcorrido por muitos migrantes de diversas localidades das regiões Norte e Nordeste do país. Esses nordestinos, saídos de suas cidades-natais, deixam para trás familiares, amigos, enfim, tudo o que possuem, em troca do sonho de uma “outra vida”. No caminho, a poeira, o sol, a chuva e a sensação ambígua da esperança e do medo do porvir. A designação comum a tantos que narram suas histórias a partir desses fatos, ricos em incidentes e acontecimentos, é apenas um dos aspectos que

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unem pessoas diferentes e lugares distantes. Mas se a viagem, por mais penosa que possa ser, é carregada de desejo e confiança, a chegada pode trazer à tona uma realidade nem sempre parecida com as imagens idealizadas. O acordar pode ser abrupto, um despertar quase cruel. O relato do caminhão chegando ao Rio de Janeiro, desembarcando todas aquelas pessoas — algumas com rumos já traçados, outras ainda não – marca a expatriação, mas também formas de integração. Alguns lugares constituíam destinos certos. É o caso da Baixada Fluminense que aparece, novamente, como um destino partilhado. Sendo assim, a chegada ao recém emancipado município de Duque de Caxias reintegrou a família de Zito, a partir dos laços de parentesco originais. Os Camilo dos Santos foram acolhidos na casa de um parente de Seu Zé que tinha lhe arrumado um emprego em uma empresa de ônibus. Pouco tempo depois, no entanto, a convivência na pequena casa da rua Itatiaia, em Duque de Caxias, tornava-se complicada devido ao grande número de pessoas dividindo um espaço exíguo. A mudança para um lugar exclusivo da família deu-se ainda naquele mesmo ano, quando Seu Zé optou pela permanência no município, alugando um cômodo na rua Itacolomi. Diante das possibilidades de tal segmento social, a Baixada Fluminense aparece como o espaço privilegiado para moradia. As razões são variadas. Desde a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro e, portanto, com o local de trabalho, até a possibilidade de se conseguir ocupar ou adquirir um terreno/ lote ou casa125. O problema da habitação é então recolocado, agora sob a ótica do morador e não a do político como anteriormente abordado (capítulo 2). Da perspectiva dos indivíduos que buscavam a “casa própria”, a Baixada foi

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Soares (1962), Abreu (1988), Souza (1992), Costa (1999).

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ao mesmo tempo eldorado e lugar de expiação. Representava a possibilidade da crença em um futuro melhor, com terrenos baratos e adequados aos restritos orçamentos dos membros das camadas populares. Mas também encerrava inúmeras outras relações: de abandono, de dominação e de submissão. Se por um lado tornava possível o surgimento do selfmade man, por outro mantinha os moradores sob o jugo de práticas políticas coronelistas e clientelistas, quase invariavelmente associadas à violência (Ferreira, op. cit.; Leal, op. cit., Alves, 1991, 1999 e 2003). Em nosso país, a estrutura latifundiária favoreceu a transfiguração do poder público por meio dos usos (e abusos) do poder privado, ancorada no poder político que tinha como contexto a profunda desigualdade da distribuição de renda e de terra, criando vínculos de obrigação e de compromisso entre o “coronel” e a população a ele submetida. O coronelismo funcionou então como “uma forma específica do poder político brasileiro que floresceu durante a Primeira República, e cujas raízes remontavam ao Império; já então os municípios eram feudos políticos que se transmitiam por herança não configurada legalmente, mas que existia de maneira informal” (Queirós, 1976:165). Grosso modo, o mandonismo local operaria uma diferenciação de poder ao colocar em cena a figura do chefe político, impondo a premência do estabelecimento de uma relação com o “coronel” para o funcionamento e a manutenção do referido sistema
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. Este último oferecia o

eleitorado, enquanto o chefe político, os serviços públicos e o fortalecimento de seu poder privado. Tal estrutura, entretanto, vai se enfraquecendo com o crescimento urbano e a industrialização, responsáveis pela reconfiguração das relações de poder tradicionais. Essa alteração no panorama político refletiu nos primeiros anos da família Camilo dos Santos em
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Ver, também, a este respeito, o artigo de Castro Faria (1999) sobre poder local e municipalismo, no qual enfatiza a centralidade do trabalho de Oliveira Vianna (1920), Populações Meridionais do Brasil: História, organização, psicologia, para se pensar em tais questões.

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Duque de Caxias, correspondendo a um período de agitação e conflitos (Grynszpan, 1987). Mesmo ausentes da biografia de Zito e dos relatos de Waldir, os saques e as revoltas camponesas representaram um levante popular inédito na região e marcaram a história local (idem)127. Desde seu início, a trajetória de Zito evidencia a diversidade de códigos culturais e campos de possibilidades em jogo. A chegada ao Rio de Janeiro ainda bebê, com pouco mais de um ano de idade, tendo viajado por quase oito dias em um caminhão com mais de 40 pessoas foi o começo de tudo. A infância foi marcada pela dificuldade financeira, a questão da moradia constituindo sempre um grande problema — a família passou por seis endereços diferentes, desde o cômodo da rua Itacolomi, até conseguir adquirir o terreno onde finalmente construiu a casa própria. Tal terreno foi comprado na rua Ipanema, no bairro de Copacabana, em Duque de Caxias, em 1957, antes do nascimento de Waldir, o caçula e o único filho a nascer no Rio de Janeiro. O lote – como os demais oriundos do retalhamento das grandes áreas destinadas às culturas agrícolas como, por exemplo, a citricultura – ficava em uma rua sem calçamento, sem rede de esgoto e sem luz, como a maioria das ruas do município nessa ocasião. A especulação imobiliária somada ao descaso com que o poder público lidava com a problemática da moradia na Baixada Fluminense definiam o panorama encontrado pelas famílias de migrantes que ali tentaram fixar-se, fugidos da miséria da cidade-natal, da falta de oportunidades de trabalho ou das favelas cariocas. Desde a falta de infra-estrutura básica até loteamentos irregulares, as questões relativas à terra e à casa própria foram tomando vulto e, dessa forma, capitalizando os discursos políticos que visavam arregimentar os
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Consultar também Torres e Menezes (1987).

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Era em suas mãos que Seu Zé entregava o pagamento e era sua a responsabilidade de zelar pelas economias da família.. A figura materna (e o papel da mulher numa “cultura nordestina”130) é ressaltada como personagem-chave para a concretização do sonho da casa própria. que era muito pobre. “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente. . inúmeros problemas para a sua legalização. 129 Sobre o processo de ocupação e desenvolvimento da Baixada Fluminense. Maria do Carmo. Pensa bem: chegar. Apesar das dificuldades. uma sacaria ganhando pouco — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — e. conseguiu um terreno barato — tendo. os artigos organizados por Valladares (1980) e o trabalho de Borges (2003). 55 anos. 130 A novela “Senhora do Destino”. I. ver capítulo 1. consultar. ao mesmo tempo. Até hoje. como tantos outros. por exemplo. a compra e/ ou ocupação dos lotes deu início ao processo de expansão da cidade (e da região) com a ampliação da construção de imóveis residenciais129. chegar aqui no Rio. vindo de onde eu vim e ter que encarar.votos daquela (grande) parcela da população128. neste caso. né”? (D.. mas pelo menos não pagamo(s) aluguel pra ninguém. né? Isso ninguém pode tirar da gente. “A gente tinha uma coisa na mente: a casa própria. ao mesmo tempo. por fim. a gente não conseguiu acaba(r) ela. É dinheiro jogado fora. entre outros. A casa própria surge como valor e fonte de segurança frente às incertezas do “lugar desconhecido” e das parcas possibilidades financeiras familiares. da Rede Globo de televisão. 136 . moradora de Duque de Caxias). constituiu um exemplo do uso dos estereótipos relativos a alguns tipos sociais para falar da região da Baixada: o bicheiro. representada pela atriz Suzana Vieira. ainda. morar de aluguel e ter de sustentar mulher. mãe e filharada. Foi Dona Luzia quem teria “corrido atrás” do terreno e mobilizado a família para tal empreendimento. o baixadense (como sinônimo de nordestino pobre) e a mulher nordestina. O terreno foi comprado graças aos esforços da mãe que procurou em diversas imobiliárias e. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o 128 Entre os trabalhos recentes sobre o tema.

principalmente. a autora analisa as motivações para escolha da casa própria além das alternativas adotadas para prover os recursos necessários à construção. contava com uma rede de solidariedade fundada nos laços de parentesco. mas deixa entrever esta questão. nos feriados e fins de semana”. tendo também um potencial mercantil (podendo ser vendida ou alugada) – além da tendência observada neste segmento populacional de se construir no mesmo local de residência. op. cit. para a qual contava com a ajuda dos filhos e de Dona Luzia. então. principalmente os do chefe da família. a este respeito. 131 Ver. 2001). “O morador entrará em cena como construtor e mantenedor precário dos equipamentos urbanos necessários às mínimas condições de salubridade e conforto” (Monteiro. os moradores da Baixada têm que enfrentar inúmeros outros problemas. p. ao afirmar que nenhum dos entrevistados pretendia. A rua — lugar de todos. vender ou alugar a casa. A autoconstrução foi o modelo (possível) adotado pela família que. no momento da pesquisa. uma “venda” ou uma mercearia. A maneira pela qual eles conseguem lidar com adversidades e privações do cotidiano consiste em estender tal padrão de resolução privada para fora de suas casas. Maricato (1976) e Lima (1980). No artigo em questão. 137 . assim como grande parte dos moradores da região. O trabalho na Garagem Bom Retiro durante o dia era seguido pela construção da casa. em nota de rodapé. mas responsabilidade do poder público — é. portanto. A dupla jornada marcava os dias dos Camilo dos Santos. natural de Pernambuco e morador do Morro da Cocada. mas também nos novos laços adquiridos: os de vizinhança131. em Belford Roxo apud Monteiro. como uma loja. Outro questão por ela destacada refere-se ao fato de que a casa própria não teria apenas um valor de uso. A autora não discute o valor afetivo e simbólico da casa própria. Além da empreitada privada da construção da casa própria. Lima (1980). para as vias públicas. reapropriada pelos moradores que elaboram um modo de atuação para tentar converter o abandono e o descaso — com a falta de aparatos coletivos e de infra-estrutura — em soluções imediatas.barracão” (entrevista com Clenio de Lima Santos. sendo esta apenas uma possibilidade em caso de real necessidade.23). um lugar para o trabalho. explica a categoria autoconstrução como “o processo através do qual o proprietário constrói sua casa sozinho ou auxiliado por amigos e familiares […] nos seus horários de folga do trabalho remunerado.

exprimindo suas idéias sobre o mundo e sobre o lugar nele ocupado. natural do interior do Rio de Janeiro.26-27. na verdade. A fala dos entrevistados ilustra exemplarmente esta questão: “Não foi somente na época que eu vim pra cá que a prefeitura não se interessa(va) por isso aqui. Fundamentalmente preocupado em repudiar as alegações de alienados dirigidas aos moradores da Baixada frente à não sistematização da reivindicação como ação fundadora de sua cidadania (a reivindicação seria uma “besteira”).. a “não-possibilidade de atrair a atenção do poder público para si” para pensar a constituição de ideologias e de uma cultura política própria (“cultura política baixadense”). 138 . a construção das identidades na região respeita a “situação desvantajosa”. A prefeitura daqui só faz obra no centro ou no bairro onde mora(m) os parentes do prefeito. 1989). Até hoje. o autor adota o conceito para pensar as construções ideológicas das camadas subalternas — para além da imposição das classes superiores — sobre a própria prática cotidiana da política. a gente nem existe pra eles: isto aqui era um loteamento ilegal e ninguém paga imposto nenhum. 132 133 Idem Ibidem. adquirindo uma gramática pautada na ação como meio e fim. aposentado do setor químico.. Acho também que a gente não pode reclamar muito. Monteiro aponta a criação das redes de resolução de problemas práticos como mais do que uma resposta ao poder público: como um sistema que dá sentido à vivência desses moradores. eles só aparece(m) […] fazer obra aqui. pp. Conforme sugere Monteiro133. morador do bairro Prata em Belford Roxo apud Monteiro. porque.24-25). Apoiando-se no entendimento da ideologia como sistema cultural (Geertz. não.A partir da categoria rede de resolução de problemas práticos132 — que nos possibilita apreender a realidade do morador da Baixada assim como sua relação com a política e os políticos locais — as noções de escassez e precariedade são re-significadas. Até hoje. pp. só quando tem política. não se paga nada pra eles” (Guilherme Antônio Novaes.

jogado” [sobre os problemas do bairro. político.29) “Todo mundo trabalha um pouco. natural de Duque de Caxias. idem.. Adianta reclamar? (Fernando Matos. A característica primeira de uma ocupação a partir do crescimento e urbanização da região. p. morador da Posse. "Água é a mesma coisa. 67 anos."[…] você deve ter visto que não temos luz nessa rua. Todo mundo aqui tem porque pagou para uns cara(s) furar(em) o cano da adutora que passa na rua de trás. Nunca pedi nada pra ninguém. Um ethos do trabalho é aqui acionado. “O destino do pobre é o trabalho. sem que isso signifique uma característica exclusiva dos membros de camadas populares.. bairro de Nova Iguaçu). tem que faze(r). Até hoje. mas também como valor social e elemento constitutivo dos processos de identificação locais. já no século XX.. os vizinhos. Uma leitura da composição de processos de identificação pela oposição 139 . p. comerciário. morador do Lote XV em Belford Roxo. Senão. durante o período eleitoral. cabeleireira. vizinho.. da cidade e a ação dos políticos] (entrevista realizada em 2003 com A. 33 anos. eu faço” (entrevista realizada em 2004. O trabalho aparece como solução para os problemas. é só dá (sic) uma chuva que inunda tudo. Eu me orgulho disso. Nada. moradora da Palhada.. morador do bairro Barro Vermelho em Belford Roxo. apesar da gente pagar todo mês iluminação pública na conta de luz. aposentado. Não dá pra ninguém ficar parado. nadinha. Foi besteira reclamar e a gente comprou os bocais e foi roubando luz da Light e colocando luz em cada poste" (Fabiano Queiroz. não. ibidem. fica aí. com W. foi a presença maciça de trabalhadores de camadas populares. bairro de Nova Iguaçu). mesmo. Os filhos ajuda(m). Se a gente não faz.. A CEDAE nunca veio aqui legalizar e a gente vai gastando sem pagar.29). Não tem moleza aqui.

poderíamos utilizar a conjunção aditiva e acumular papéis — como no caso do justiceiro Miranda. introjetado como desviante” (Barreira. sendo recodificado (na categoria trabalho social) e transformado por Zito. por exemplo. O estabelecimento funcionou por mais de vinte anos. no qual o trabalho é fortemente enfatizado em sua narrativa e opera como um “elemento legalizador e. Todos os membros desta família aprenderam desde muito cedo a importância do trabalho. 134 Sobre a relação entre os tipos “trabalhador” e “bandido” para a construção de identidades entre membros de camadas populares ver. O lugar tornou-se ponto de referência. transformando-se em alguns momentos na principal fonte de renda da família. Nos discursos da família Camilo dos Santos. A ajuda deles era fundamental também para complementar o orçamento familiar.trabalhador versus bandido seria por demais simplificadora da realidade social que encontramos na Baixada134. durante os finais de semana. Zaluar (1985). Vendia-se de tudo. mantinha os meninos ocupados e “longe dos problemas”. tendo Dona Luzia principalmente — mas também as crianças — à frente do negócio (“birosca”) durante o dia. com a obra ainda em andamento. Se em alguns contextos. 140 . zona Norte do Rio de Janeiro). 1998:105). ao mesmo tempo. Seu Zé sempre levava os filhos para a barraca que montava na feira. o trabalho tem um lugar de destaque. A “tendinha” — modelo de pequeno comércio realizado no próprio terreno da casa e já adotado pela família em Paulista — começou a funcionar em 1958. Além da real necessidade de mão de obra. Seu Zé logo percebeu a escassez desse tipo de comércio na nova localidade e a demanda da população do bairro por algo que suprisse suas necessidades mais imediatas. enquanto Seu Zé trabalhava no laboratório Monteiro Lázaro (em Vila Isabel. normalizador do comportamento. em outros. a diferenciação pode ser definida pela confrontação desses “tipos ideais”. Com a experiência acumulada desde os tempos de Pernambuco.

Foi a partir da venda das pipas que os irmãos deram início à uma relação de extrema cumplicidade que se estenderia também à vida política. devido à diminuição do número de freqüentadores do parque. diferenciando-se dos pais que tinham a educação como única via de mobilidade possível para os filhos. Inicialmente sozinho e depois com a ajuda de amigos e do irmão. um ethos do trabalho vai constituir uma marca identitária forte. pela partilha e pela amizade. 141 . a única maneira de “crescer”. Ele entrou e saiu de alguns colégios (todos públicos). “Era uma verdadeira aventura […] Saíamos de casa de manhã bem cedo e só voltávamos à noite. Começou a trabalhar como faztudo: carregando areia. “preguiçoso”. Zito via no esforço individual. ao longo de toda sua biografia. “fofoqueiro” (p. Se até este episódio. permeando todo o discurso sobre si construído na biografia e a composição de sua persona política. Zito conseguiu juntar algum dinheiro — até a chegada do inverno que representava uma queda no movimento. cit. para fazer “uns bicos”.:108). Seu primeiro empreendimento autônomo consistiu na confecção e venda de pipas na feira livre do Aterro do Flamengo. fazendo pequenos serviços.A educação dos filhos era prioridade do casal que não queria que os meninos fossem “analfabetos como eles”. Zito nos é apresentado como alguém que não valorizava o estudo como forma de ascensão social. No entanto. principalmente. op. de “mudar de vida”.48) e a relação entre os dois ainda não era marcada pela proximidade. mas sempre encontrava tempo para jogar futebol e. Ganhava um bom dinheiro” (Zito apud Gramado. o trabalho em parceria é tido como o veículo desta união. Estudavam em escola pública e auxiliavam no trabalho preferencialmente nos finais de semana. Waldir era apresentado na biografia de Zito como o irmão caçula. Nesse sentido. inaugurada durante o governo de Carlos Lacerda. no “ganhar dinheiro”.

O dinheiro de suas economias e da rescisão trabalhista foi investido na abertura e legalização da firma que. decidiu deixar o emprego que o pai lhe havia arrumado — ainda na juventude. Ainda assim. À frente da “tendinha” foi responsável por sua reorganização e transformação em loja. Aos 25 anos. e Andréia nasceu no ano seguinte. então. No ano 135 Na biografia de Zito. 142 . abriu um laboratório na mesma rua em que morava. é marcante a referência constante aos bens materiais adquiridos ao longo de sua trajetória. reestruturando o lugar e fazendo obras de expansão. a moto. Zito estava sempre envolvido em atividades que lhe rendessem algum lucro. A falta de recursos do bairro era por ele convertida em oportunidades e a “independência” (leia-se: saída da casa e da jurisdição paterna) chegou cedo. Sua casa foi construída nos fundos do terreno de seus pais. quando se casou. indo trabalhar com o pai na “tendinha” da família. por exemplo) ou transportando água para os moradores de seu bairro e de bairros vizinhos em sua carroça. uma “meiaágua”. fosse por meio da confecção de pipas que ele próprio vendia nas feiras livres no Rio de Janeiro (no Aterro do Flamengo. a geladeira. A partir destes episódios são elaboradas as características que o transformariam no selfmade man. Zito acabou. o carro etc. A carroça. aos 17 anos. — aspecto central de sua persona pública. não foi pra frente. Associado a um amigo formado em química. sendo enfatizados como fatores de distinção com relação aos “colegas de bairro” e ao próprio irmão. não havendo qualquer menção à prestação de assistência à população do bairro. na Monteiro Lázaro — e tornar-se seu próprio patrão. Nessa época. sempre conseguia um jeito de arrumar “um dinheiro extra”.Com 15 anos. O espírito empreendedor configuraria a primeira delas. Zito foi empregado em uma estamparia. Tais bens parecem simbolizar as conquistas e a própria ascensão social de Zito. outra moto. a televisão. no entanto. Interessava-lhe apenas “ganhar dinheiro”135. seus “serviços” eram empreendimentos exclusivamente particulares.

sua postura de enfrentamento lhe rendeu. mas se preciso fosse. que via nele uma pessoa que não admitia injustiças. Nesta narrativa são claramente ressaltadas sua coragem e disposição para o embate (físico. gravemente ferido pelos bandidos locais. agora. ficou responsável pela loja da rua Ipanema. chegando inclusive a ir “tomar satisfações”. A fama de “valente” — que teria começado ainda na juventude com as brigas de rua.:116/117). op. Por outro lado. inclusive) enquanto “homem de bem”. Enfrentou os bandidos. Zito não pestanejava em utilizar os punhos para se impor” (Gramado. Mais pela imposição da própria vizinhança. inaugurou uma outra no bairro Jaqueira e Seu Zé. alguns prejuízos e a agressão a um de seus funcionários. “[Zito] Não deixava de resolver seus problemas com qualquer um e começou a ser respeitado no bairro. um episódio ali relatado vai de 143 narradas como revanches da época de criança — . obrigatória. cit. alcançaria. entretanto. à essa altura já aposentado. os comerciantes tinham que pagar uma taxa. O pagamento por “proteção” era uma prática comum na região e. Indícios Da Violência Como Marca Os problemas com a criminalidade local começaram a aparecer e a postura de Zito foi distinta da dos demais comerciantes. Em um dos episódios narrados em sua biografia. A primeira providência para resolver os impasses era sempre uma boa conversa. em larga medida. dando os primeiros contornos no homem que se tornaria um líder comunitário. Zito rebelou-se e não aceitou fazer parte desse sistema local. O “pedágio” era uma das formas de extorsão habitualmente realizadas: para carregar ou descarregar a mercadoria ou para entregá-la em outros bairros. um novo patamar.seguinte.

Entre fracassos e novos negócios. portanto. era outro. A essa altura. o Bar e Mercearia Compre Bem. primordialmente agrário (mas não exclusivamente). tal episódio foi mencionado. indo. p. então. O primeiro deles. o pistoleiro é um “tipo lendário da sociedade brasileira. Waldir. contando com shows de música ao vivo e serviço de bar. O tom. Tal personagem povoa o imaginário social.10). Em algumas das entrevistas que realizei com moradores. A esta altura. na história oral e em relatos jornalísticos. no entanto. Pouco depois. no entanto — a morte de duas meninas próximo ao bar — levou os irmãos a mudarem de ponto. Laureano. Zito já havia conseguido ampliar seu patrimônio e começava a explorar um outro tipo de estabelecimento: os bares/ botequins. Conforme Barreira (op. Mas foi somente a partir de sua entrada para a política que à sua fama de “valente” somou-se a de “justiceiro” ou “matador”. É a partir de tal atributo em particular e 144 . compraram um galpão na rua Copacabana onde abriram o Zitu’s Bar. tornando-se proprietário de alguns estabelecimentos comerciais — desde mercearias e lanchonetes até bares e boites — mas a sociedade com o irmão foi rompida depois da falência de um deles — e retomada algum tempo depois. especificamente da nordestina”. Segundo Gramado (p. ele teria conseguido adquirir alguns pontos comerciais de pessoas que preferiram fugir da insegurança a enfrentar a criminalidade. Algumas versões apresentavam Zito como “mancomunado” com os bandidos e. nos romances. na Guarda Municipal de Duque de Caxias. Zito já conquistara relativa ascensão. Um trágico incidente. sendo estampado nos cancioneiros. foi em sociedade com o irmão. cit. ele ingressou.encontro a relatos de moradores sobre a relação de Zito com a violência e o banditismo locais. para a Praça Dr.122). em 1985. usurpando os comerciantes. obrigando-os a venderem seus pontos e saírem da região.

a honra e a lealdade. dos posseiros faz parte da história local desde o século XIX137. Alves. Souza. Beloch (1986). A violência do cangaço. entretanto. pelo menos. políticos e fazendeiros e. 145 . 1997). nos dá toda a dimensão da tragédia das milhares de pessoas cuja única referência de segurança pública foi dada pela atuação dos esquadrões da morte. dos jagunços. em mais de 90% dos casos de homicídios não consegue identificar a autoria dos crimes nem constituir processo (Soares. a referência à “cultura nordestina” (p. políticos. assim como os de Marques (1999) e Villela (1999). É no campo político. assim como Herzfeld (1988) sobre honra mediterrânea. consultar Barreira (op. eleitos a partir da notoriedade adquirida enquanto matadores. por exemplo.cit. Peristiany e Pitt-Rivers (1992). cit.) e Freitas (2003). a região foi palco de diversos episódios de violência e esteve à mercê de sua própria sorte. O descaso do poder público implicou na centralização do poder e da força nas mãos dos poderosos locais — nesse caso. que se estabelecem as maiores ambigüidades desta realidade na qual se insere a Baixada. 1996). 1990b. Grynszpan. Se os problemas estruturais e o retorno à democracia são levantados como questões-chave para se pensar a violência e o aumento da criminalidade no Brasil (Peralva. dos coronéis. A trajetória política de vários membros de grupos de extermínio. 1983. Conforme tratado no primeiro capítulo.da composição desse personagem que serão feitas algumas considerações relativas às “falas” sobre Zito e sobre a violência política. mais tarde. 136 Sobre a relação entre uma “cultura nordestina” e práticas violentas. 2000). 137 Tais discursos remetem à dimensão dos valores sociais. Pitt-Rivers (1977).. Já nos trabalhos relacionados à Baixada ver. pelo controle exercido recentemente por traficantes e pela atuação comprometida do aparelho judiciário que. dos grileiros. op. também abordados nos trabalhos de Peristiany (1971).12) é também acionada — tanto nos discursos nativos quanto em trabalhos acadêmicos — quando se trata da violência na Baixada136. empresários e policiais (Benevides. tais como a masculinidade.

e a terceira. promovida pelo governo local. como no caso estudado. op. 138 O autor analisa mais especificamente três situações: a primeira referente à campanha para acabar com a pistolagem no estado do Ceará.646 pessoas assassinadas no campo. cit. os capacetes passam a fazer parte dos crimes de aluguel. trata das eleições municipais de 1996 em Maracanaú. não mais restrito ao universo rural. deixando de ser um fenômeno apenas rural. marcado pelos aspectos urbanos. inclusive – bem como o papel e o lugar dos mandantes. instaurada em 1992. sendo vários os casos de homicídios que sequer deram origem a inquéritos policiais (Relatório final da CPI. A cidade de São Paulo tem uma média de 20 assassinatos por dia. cometidos em movimentadas vias públicas (Barreira. enfatizando os pistoleiros — alguns deles tendo sido entrevistados. p.O trabalho de Barreira (op. O autor preocupou-se em entender a articulação dos valores culturais por intermédio das narrativas sobre o cotidiano do pistoleiro e das falas sobre a violência (legítima ou não. mas presente também nas cidades. através de sua Secretaria de Segurança Pública. entre o fim de 1987 e o começo de 1988. O fenômeno da pistolagem é. no Congresso Nacional. apenas 22 casos foram a julgamento. As motos. 1998:54). 146 . Ao desenvolver sua pesquisa. A segunda. ao campo. a partir da iniciativa do deputado Edmundo Galdino (PSDB/TO). onde a atuação de pistoleiros e os “crimes por encomenda” adquiriram formas mais complexas e. Existem localidades onde nenhum crime foi apurado.. diretamente relacionada a crimes políticos.54). refere-se à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Pistolagem. atualmente. dos intermediários e dos discursos sobre as vítimas. sendo mais de 50% através de “pistolagem”. legal ou ilegal). A impunidade é uma regra: das 1. 1994: 63 apud Barreira. Barreira deparou-se com a notoriedade desse fenômeno. passaram a ser encarados como “questão de segurança pelo Estado”138.) consiste no estudo da pistolagem enquanto sistema. município do estado do Ceará. apresentando um cenário preocupante. O relatório da CPI corroborou as conclusões de Barreira. cit.

147 . o estado do Rio de Janeiro aparece em terceiro lugar em número de homicídios no Brasil. SOS QUEIMADOS e VIVA RIO. Laboratório de Análise da Violência / UERJ. em 2002. Não obstante essa indiscernibilidade. particularmente. no entanto. A ambigüidade da conceituação revela-se no processo contínuo que engendra sua constituição por atores diversos. em 1998. Ainda de acordo com as conclusões dos pesquisadores. O Laboratório de Análise da Violência da UERJ fez um levantamento dos índices de violência letal a partir de dados fornecidos pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e pelo DATASUS (certidões de óbitos). não há como distinguir os homicídios ligados a grupos de extermínios. 139 As instituições responsáveis pela elaboração de tal relatório foram: CESEC. Os episódios violentos e crimes que permaneceram impunes e estamparam os jornais cariocas e fluminenses — desde os mais populares aos de circulação mais ampla — refletem esse cotidiano no qual proliferaram a utilização da coerção física por particulares ou mesmo os crimes de vingança. A Baixada. à violência policial ou a crimes políticos. a região apresenta índices alarmantes de criminalidade139. Não há unanimidade quanto ao tema da violência e do uso privado/ particular da força/ coerção física. na Baixada Fluminense não é diferente do quadro delineado acima. os crimes na Baixada estão presentes nas diversas narrativas sobre o modus operandi da política local.A situação no estado do Rio de Janeiro e. FASE. Acontecimentos como a chacina de 31 de março de 2005 refletem a dura realidade dos moradores da região. desenvolvido em 2005 por diversas entidades e pesquisadores. JUSTIÇA GLOBAL. e em quinto. a despeito dos índices. Segundo o relatório Impunidade na Baixada Fluminense. apresenta uma taxa de homicídios 21% superior a do município do Rio de Janeiro e a do estado como um todo. Nessa análise.

os crimes podem conferir fama e prestígio em um universo social marcado pela falta de segurança pública e pela privatização da coerção (física e moral). são descartadas pela deputada Andréia Zito e pelo próprio Zito. a identidade nordestina. realizando agora obras públicas de impacto coletivo. alegando que tais acusações foram forjadas por “inimigos políticos”. ao tratar da relação entre pistolagem e eleições — apontaria os policiais como uma das categorias menos confiáveis no universo estudado pelo autor. No entanto. 2005: 27). 140 Tais conexões. ser considerado um “vingador” por certos grupos) pode transformarse em um predicado pouco interessante em outros (conseguir votos para além do seu universo eleitoral de origem. executando não só os possíveis ladrões e bandidos como qualquer um que o contestasse. ao mesmo tempo em que tais associações relacionam-se a um certo imaginário do medo. Uma espécie de “cultura do medo” — como assinalou Barreira (p. por exemplo). tais atores também estão sujeitos à mesma classificação negativa. na Baixada. De forma análoga. garantia imunidade também para crimes comuns. de “homem valente” — constantemente acionada — e provavelmente seu histórico de inserção no “mundo policial” — por ter integrado a Guarda Municipal — podem ter fornecido elementos para algumas dessas construções narrativas140.No caso de Zito. Dessa forma. na tentativa de deter seu êxito eleitoral. elegeu-se deputado estadual. em particular. no entanto. neste absurdo da legislação brasileira que. a notoriedade desejada e necessária em determinados contextos (ser escolhido para um “serviço” específico. (Alves. ganhando imunidade parlamentar por quatro anos.63). Arrolado como réu em um processo de homicídio doloso e após ter sido preso duas vezes pelo Ministério Público. naquela época. assumiu a presidência da Câmara Municipal. em troca do apoio e sustentação dados ao prefeito. Tendo acesso às máquinas da prefeitura. 148 . Eleito vereador com base na limpeza que realizou no bairro onde morava. ampliou sua já notória rede de clientelismo.

Freitas (2003: p.“A bandidagem daqui se encolhe com ele […] Mas é assim mesmo: se fez. baleado na garagem da prefeitura. por vezes. O assassinato do subsecretário municipal de Serviços Públicos. em 14 de agosto de 1993. 150). ambíguos. “E teve gente que achou bom [referindo-se à fama de ‘matador/justiceiro’]. taxista. Que achava que seria bom pro lugar. principalmente quando associada às práticas políticas. legítima ou ilegítima. tem que paga(r)” (47 anos.. implicando em um sistema classificatório com remissão direta a valores e à sua hierarquização. apesar de dispostos em uma estrutura socialmente reconhecida. prossegue o autor. Se ambos são criminosos sob o olhar jurídico-legal. 149 . no plano da análise narrativa (em seu caso. referente ao universo do trabalhador do mundo da cana). morador de Duque de Caxias). “De repente. pra defender as pessoas” (Andréia Zito.89) já nos chamava a atenção para o fato de que. 26/04/2006). os fatos/casos e agentes. normativamente ou não. acontece um crime de grande repercussão na cidade. Ary Vieira Martins. Entretanto. p. Era a cartada que o grupo que tentava se perpetuar no comando da cidade precisava para prejudicar o fenômeno de votos da Baixada [referindo-se a Zito]” (Gramado. 1989). O agente de determinada ação ilegal pode ser considerado “pistoleiro” ou “vingador”. não o são necessariamente a partir das perspectivas dos diferentes grupos atingidos por sua ação. A ambigüidade e a ambivalência são constitutivas das narrativas sobre a violência. A internalização de valores sobre a violência por determinados estratos sociais implicará na maneira como esta é percebida e engendrada como aceitável ou não. seriam representados de modos variados e. à vida como valor universal (Arendt. a violência seria sempre tomada como referência de negatividade por aludir. cit. a princípio. op.

um homicídio de um rival político). Contudo. Peralva (2000). Soares (1996). assim como Duque de Caxias. 141 Ver. ainda assim. mas de todo modo tornando-as palpáveis. seja para afirmá-las ou negá-las. Quaisquer que sejam os argumentos e valores acionados a favor de determinada ação (por exemplo. não somente legitimando a ação. 150 . o recurso bastante comum à diabolização do outro — no caso. como também sobre ela elaborando algum consenso e justificação moral. quando se trata de “lavar a honra” ou de “pagar com a mesma moeda”. da cidade. Velho (1987). mas também do poder público – via abandono e/ou atuação dos policiais). Zaluar (1985. Sendo assim. quanto resultar em atribuições de “crueldade” ou “ambição” quando envolvendo a dimensão do dinheiro e sua subordinação. ao crime profissional. Reais mesmo para quem não as vivenciou diretamente e que.Os crimes por vingança. os crimes políticos oscilariam entre a legitimidade ou não da ação. 1997) pode produzir a imagem desejada e ser acolhido por determinados grupos ou segmentos. do seu bairro a partir das narrativas (endógenas e exógenas) sobre a violência 141. O rol de valores associados a um tipo ou outro reporta-nos a visões mais ou menos sedimentadas socialmente que tanto podem implicar em manifestações de apoio. indistintamente enquadrada como ilegal pelas esferas oficiais. a vítima – (Wieviorka. Os processos de identificação geralmente remetem a tais experiências. A Baixada Fluminense. são desqualificados pelo Estado que se outorga o monopólio da força física e da aplicação dos valores sociais vigentes por meio do Direito e da legislação. Silva (1999). passionais ou ligados à honra são diferentemente percebidos e avaliados em relação aos crimes encomendados. Campos (1987). 1994). acaba construindo um mapa da região. sempre esteve envolta em histórias de crimes e de violência (dos criminosos.

a violência deu o tom dos mais diversos discursos sobre a Baixada e sua população. A re-siginificação do mundo a partir dos acontecimentos violentos é.). muitos votos. nas suas formas mais diversas.A fala do crime (ou da violência). Nesse sentido. proliferasse. pelo abandono. no caso de Zito. ou melhor. apropriada e transformada. Tampouco explica por que alguns policiais ligados a grupos de extermínio conseguem eleger-se e outros não. por intermédio das narrativas. op. de aparatos coletivos e de segurança criariam as condições para que a violência.cit. mas reconfigura e re-semantiza o universo social mais amplo. Responsabiliza-se o poder público pela condição marginal da região. Mais marcante (ou será presente?) em alguns momentos do que em outros. criada. com a mudança brusca na percepção da cidade e das relações sociais nela engendradas. como ressalta Caldeira (2000). não marcaria apenas o cotidiano das grandes cidades. assim como de entendê-lo a partir da ruptura gerada pela experiência violenta. a violência é difundida. os políticos conseguiram transformar tais carências em capital político que lhes rendeu votos. enquanto outros preferem expor outros temas. ou por que alguns deles utilizam de maneira mais recorrente a temática da violência/justiça. Somente o recurso ao uso da violência não seria capaz de dar conta do sucesso de alguns atores políticos e o fracasso de outros. ainda hoje gozando da infame reputação de “faroeste fluminense”. ou por falta de provas materiais — sua apresentação de si foi igualmente deslocando o foco na violência e evidenciando seus 151 . as acusações não foram levadas adiante — ou pelo silêncio como “tática de preservação da vida” (Freitas. levantar outras bandeiras. A falta de infra-estrutura. Se. Mas a política. Falar do crime é uma maneira de se (re)colocar no mundo. para quem os sofre — mas também para os demais — uma maneira de lidar com o corte.

como alguém integrado à sua comunidade e cuja existência só é possível frente à informalidade da resolução dos problemas locais. op. tal líder se destacaria em sua comunidade por privilegiar a atuação em termos da resolução dos “problemas práticos”. Zito construiu o discurso sobre sua vocação política e sobre o imperativo do exercício desse papel. Zito guardaria algumas semelhanças com o que Monteiro (p. Jornal do Brasil.. com mais de 80% dos votos. Um dos primeiros contatos foi com o então vereador Dr Heleno. Por fim. o Joca — um dos principais nomes da política baixadense com quem Zito é. Como anteriormente abordado (capítulo 1). ainda não havia sido emancipado. em 1982. Joca foi vereador por Nova Iguaçu durante três mandatos consecutivos — sempre por partidos diferentes (PMDB. p. A ascensão política de Joca foi bastante rápida. Sua heroicização teve como desfecho seu assassinato. como vereador em Nova Iguaçu. pelo PL. Alves. na medida em que é ele próprio quem organiza e operacionaliza tal rede (idem. 142 152 . um “trabalhador como outro qualquer”. 1997.95). PL) — e mantinha uma máquina assistencialista que distribuía desde brinquedos a comida. A praça central de Belford Roxo foi tomada de gente e seu enterro acompanhado por uma multidão de moradores. elegeu-se o primeiro prefeito de Belford Roxo.predicados como “um igual”. por vezes. em Belford Roxo (Monteiro. transformando-se numa espécie de herói local142. 13/10/1992) ficou menos de três anos à frente da prefeitura. A partir das relações que estabeleceu por meio das reivindicações de melhorias para o bairro. Em um primeiro momento destaca-se como líder comunitário e só mais tarde torna-se um legítimo mediador político. PDT. Teve expressiva votação no distrito de Belford Roxo que. em 20 de junho de 1995. Houve grande comoção e manifestações de tristeza e indignação por sua morte. assim como seu fim. Corroborando a informalidade da resolução de problemas como regra geral.92) denominou líder marginal. comparado — ingressou na vida pública. A princípio. O Globo. As carências e a falta de infra-estrutura do bairro Dr.) como um líder marginal. É apresentado por Monteiro (op. 8/7/1992. ou seja. 2001) — atualizará a relação entre tais ações e as práticas políticas142.cit. Zito — assim como anteriormente Joca. diferenciando-se do Jorge Júlio Costa dos Santos. é um agente dessa informalidade. Laureano permitiram que Zito começasse a travar contatos com políticos e funcionários da prefeitura e se constituísse como porta-voz e mediador das reivindicações de sua vizinhança. cit. Ligado a acusações de uso da violência e participação em grupos de extermínio (Sousa. mas também um facilitador. Exatos treze anos de vida pública. A estruturação de tal narrativa conferiu inteligibilidade às ações de mediação com o poder público e seus agentes. ao mesmo tempo em que o autorizou a “falar por seu bairro”. em 1992. Nesse sentido. na época.

Groups often […] consist of persons whose common attitude stems from the fact that they have some similar 'background' characteristic such as sex. Contudo. não haveria relações de vizinhança nem tampouco uma rede de resolução de problemas práticos permanentemente implementada. me parece complicado estabelecer uma separação estanque entre tais classificações. 1977:76). depois como vereadores e finalmente como 143 Nesse sentido. um cotidiano. para Monteiro (op. age. 1977: 75)143. no entanto. a idéia de um destino compartilhado. Não haveria. Seriam “geralmente profissionais liberais ou comerciantes que disponibilizam parte de seu tempo. como demarcar a intencionalidade de suas ações? Como determinar a priori se ele tem ou não interesses político-eleitorais? Grosso modo. cit. compartilhar seus problemas. Novamente. and thus to gain similar individuals rewards. possibilitando-nos pensar tais atores enquanto “[…] individuals act in politics largely as members of groups” (Landé. O caso de Zito guarda algumas semelhanças com o de Joca: ambos são oriundos de camadas populares. adoto o conceito de grupo enquanto “a set of individuals who share an attitude. o agente assistencialista — ou “benfeitor” — parece ser aquele que “presta” um determinado serviço à população sem. religion.líder assistencialista “que se aproximaria de uma determinada comunidade com a única e exclusiva intenção de através da prestação de determinado serviço auferir benefícios eleitorais”. tendo ingressado no mundo da política inicialmente com ações comunitárias.). 153 . capital ou propriedades para ‘servir’ à comunidade em épocas de campanha eleitoral” (idem). occupation or social class” (Landé. Não obstante a percepção da experiência cotidiana do líder marginal. They act together because they perceive that by doing so they are most likely to attain objectives consistent with the attitude which they share. de uma experiência comum é acionada. empreendedores — selfmade men — envolvidos em acusações de pertencimento (ou contato com) grupos de extermínio. portanto.

1 A municipalização de distritos baixadenses.prefeitos144. sublinhado por Monteiro (op. nos quais se destaca o papel dos líderes comunitários e das expectativas das populações locais quanto à continuidade do “trabalho” por estes desempenhados como líderes marginais — agora. nas adjacências. Qualquer que seja a justificativa adotada. nesse caso. 2001).Baixada Fluminense” (UFRJ). com carências de todos os tipos.cit. 154 . Deste modo. ver a dissertação de mestrado de Josinaldo Aleixo de Souza (1997). estando estas comprometidas ou não com atores políticos145. Este último governou um município recém-emancipado. em alguma medida. fossem finalmente disponibilizados para a população local (Monteiro. obtida por intermédio dos contatos com o poder público e seus agentes. ligado às relações de vizinhança e à rede de resolução dos problemas práticos)146. só pode ser mensurado após a sua explicitação e. como agentes políticos. sua percepção a partir de discursos diversos: o do interesse pessoal e. O fim exclusivamente eleitoral. a relação entre a vivência de problemas. portanto. suas soluções e a intencionalidade da ação nos possibilitará refletir sobre a atuação política desses atores (líderes marginais ou não) em relação a um espaço físico específico (ao menos em um primeiro momento. 146 Apesar das semelhanças anteriormente apontadas. O fato de ser um comerciante/empresário local não desvinculou Zito de uma experiência comum e tampouco de sua vizinhança. a velha conhecida alegação de “chamado do povo” ou “a pedido dos amigos” e assim por diante. creio que o conceito em questão vincula-se à especificidade dos municípios recémemancipados. Suas ações implicavam a resolução dos problemas práticos em seu bairro e. Surge o Político Zito Meu sonho era chegar a ser prefeito em minha cidade 144 Sobre grupos de extermínio. Sobre essa questão. por exemplo. ainda. o que implicou uma condução ainda mais personalista da administração e a resolução dos problemas nos moldes adotados em sua época de vereador. o uso deliberado da condição de “líder local” ou. item 1. A cooptação de vereadores —convertidos em clientes — e de empresas locais operacionalizaram o exercício de seu mandato através de uma espécie de repartição/ divisão das áreas da cidade entre estas duas categorias. a atuação a partir da rede de resolução de problemas práticos não pode ser pensada apartada das demais relações sociais. intitulada “Os grupos de extermínio em Duque de Caxias . há também diferenças significativas entre Zito e Joca. ver capítulo 2. possibilitando assim que serviços básicos como a coleta de lixo.). 145 Por outro lado.

a obtenção do reconhecimento de sua capacidade em “resolver problemas” e de lidar com políticos foi o ponto de partida para sua transformação de liderança comunitária a candidato “ideal”. eleitoral. Aqui. “Eu. o “cálculo egoísta” é minimizado (Bourdieu. Em 1988.). Ver. Começava assim a vida política de Zito. os trabalhos de na coletânea organizada por Palmeira e Goldman (1996). Borges (2003). em 26/04/2006 Quando analisamos o surgimento de Zito como ator político147. Sua campanha direcionou-se ao bairro de sua residência e áreas adjacentes. e sua escalada rumo ao poder regional. cit. que não era filiado a nenhum partido. A construção de um lugar para si dentro do bairro e. op.Zito. Chaves (1996). Kuschnir (1993 e 2000). A trajetória de Zito corrobora este modelo não apenas no que tange seu aparecimento como personagem político mas. […] Eu entrei para a vida pública em 1988 — candidato a vereador — na vontade de fazer alguma coisa pras comunidades nos bairros onde eu tinha uma certa credibilidade política. novamente. me filiei e me candidatei a vereador. contando com o apoio de familiares e vizinhos. 147 É importante destacar que muitos trabalhos sobre trajetórias políticas e eleições de modo geral marcam a pertinência do conceito de geografia eleitoral para a compreensão da atuação de políticos e cabos eleitorais. dada pela vocação (Kuschnir. como demonstraremos aqui. Messias Soares. a convite do então deputado federal e candidato à prefeitura de Duque de Caxias . com isso. A própria noção de “ideal” já nos remeteria à percepção da entrada na arena eleitoral como involuntária. cit. uma geografia política evidencia-se imediatamente. Lopez (2001). no próprio desenrolar de sua carreira. entre outros.770 votos. sendo eleito com 1. Zito candidatou-se a vereador pelo PTR (Partido Trabalhista Republicano). op. a este respeito.). que não gostava de política. E tive uma sorte imensa de ser eleito […]”. 155 . exaltando-se o engajamento como comprometimento desinteressado.

“como um qualquer”. a apresentação de si demarca de maneira mais imediatamente visível fronteiras simbólicas — no caso. 156 . de homem público. expressar a hierarquia como valor social. A afirmação recorrente de alguns moradores referindo-se a políticos/ candidatos: “ele é como a gente” ou. A importância da apresentação de si e da performance dos atores sociais (Goffman. em determinadas circunstâncias e lugares. de vereador. relações sociais e autoconstrução de imagens. cit. porque configurava uma ameaça no momento de disputar os votos. tanto quanto seu “estilo”. Primeiro. colocavam-no à margem. A suposta igualdade anteriormente mencionada refere-se muito mais ao reconhecimento de possíveis laços identitários e/ ou de relações específicas do que à persona política em si. Zito não tinha qualquer intimidade com a rotina da Câmara e desconhecia o habitus político. porque aquela forma de apresentar-se “simplesmente vestido”. “desarrumado” diluía a fronteira entre o mundo ao qual ele pertencia anteriormente — como um “morador comum” da cidade — e seu novo status. Segundo. “ele é um de nós” não contradiz a percepção do político como alguém especial.) — por “estar sempre sujo de lama”. 1975) nos remete à relação entre identidade. ainda. em eleições futuras. Seus pares não o receberam de braços abertos.A entrada na arena política municipal não foi fácil. É interessante perceber que distinguir-se do eleitor-morador é também condição para o reconhecimento do político enquanto tal. entre o morador pobre e o político profissional — forjando distinções. Nesse sentido. da mesma forma em que pode. Sua proximidade com o eleitor pobre incomodava duplamente. Era chamado de “peão” — segundo ele mesmo contou a Gramado (op. distanciado dos demais parlamentares. Sua apresentação.

ela moradora do Rio (ainda que do subúrbio carioca) e ele. a Baixada Fluminense aparece como um lugar violento. Sobre as imagens do subúrbio carioca e as identidades a elas relacionadas. para quem se fala e o que se pretende demarcar com tal “fala”. como potência virtual. colocada em termos da diferença social entre os dois – ela. Sua família residia em Bangu. sua formação. na época. A diferença social entre as famílias expressa-se na narrativa de Gramado quando o autor menciona a surpresa (“susto”) de Narriman ao conhecer o lugar onde os Camilo dos Santos residiam. “com pós-graduação” — que coincide com a ascensão política de Zito. por exemplo. houve a princípio alguma resistência ao relacionamento. 157 . Narriman voltaria atrás em sua posição e a ênfase do relato biográfico recai sobre o engajamento/ identidade de Zito com o lugar de moradia e sua população. Neste caso. então. bairro da Zona Oeste carioca. com 33 anos. Assim. Achou o bairro uma tragédia. principalmente quando a comparação se dá com favelas ou bairros do subúrbio carioca. “ela ficou horrorizada quando foi à minha casa. “que mal havia estudado”. Por outro lado. A partir desta conversa. por intermédio de um amigo casado com a irmã dela.143). tudo feio. para o morador da Baixada. sujo. é atribuído um lugar de destaque na biografia — exaltando-se sua escolaridade. ver. em seu primeiro mandato como vereador. Disse que ali não moraria de jeito nenhum. a contextualização de tais classificações permite evidenciar o lugar de onde se fala. De acordo com a biografia de Zito. da Baixada148. À companheira. que mais tarde será bem mais do que uma aliada política. porque dali não sairia”. Esta é aqui pensada como uma ordem instauradora do real. com ruas de barro e barracos amontoados. para o morador da cidade do Rio de Janeiro. Segundo o depoimento de Zito ao jornalista (p. era formada em engenharia e cursava pós-graduação na Fundação Osvaldo Cruz. distante. Heilborn (1984) e Kuschnir (2000[1998]). Narriman. conheceu Narriman Felicidade em uma festa. Eu falei que era melhor só ficarmos namorando.As mudanças na vida de Zito não foram ocasionadas somente por seu ingresso na vida pública. perigoso. pós-graduanda e ele. 148 A alusão à resistência da família de Narriman ao namoro reflete a hierarquia de cidades e bairros existente no mapa social e a própria flexibilidade da atribuição valorativa a lugares. suas cidades são melhores do que alguns bairros cariocas. No ano de 1988.

cit. ou não) e costurado algumas alianças locais. 149 Sobre o PTB. Zito decidiu apoiar Moacyr do Carmo. [citando Zito]: ‘Por quê? Porque queria trabalhar.100 votos — e Moacyr do Carmo (PFL) voltava novamente ao executivo de Duque de Caxias. que seria um nome deles mesmo. Na ocasião. à “limpeza do bairro”. Zito havia conquistado seu eleitorado valendo-se da imagem de “homem de ação” (relacionada à violência. Se a tivesse nas mãos naquela época. não conseguiu ser eleito. Na eleição municipal de 1992. Arranhou o prestígio negociando apoio sem ouvir os líderes do partido. já pelo PSB. Um dos que estavam observando-o era o Alexandre Cardoso. foi o vereador mais votado da Baixada Fluminense. com 7. acompanhada por Lacerda. Mas o restante dos cargos seriam [sic] meus. já casado com Narriman. Na disputa por uma vaga na ALERJ.300 votos (TRE/RJ). “[…] Zito resolveu correr por conta própria. Independente desse controle. Numa reunião entre os dois. com o ingresso no PTB e a candidatura para a ALERJ. A inexperiência em lidar com seus pares e as desavenças com o deputado caxiense Alexandre Cardoso. op. Se a votação demonstrava o prestígio de Zito (relacionado ou não à questão da violência). Fiquei sem nada’” (Gramado. ver Ângela de Castro Gomes (1988). O que acabou não acontecendo. já que tive que sair do PSB porque o Alexandre Cardoso não aceitou o que eu fiz. 158 . já teria promovido uma verdadeira modificação no município. p. ficou determinado que ficaria com a Secretaria de Obras. Nem exigi que me dessem o secretário. ele não era suficiente para garantir-lhe a condição de mediador político. ficando com a primeira suplência149. mesmo tendo obtido 11.Seu projeto político delineia-se mais claramente a partir de 1990.148). um dos nomes em evidência no cenário estadual — e o responsável pelo convite para que Zito ingressasse no partido — o levou a deixá-lo .

teria se convertido ao protestantismo. os desafetos teriam se aproveitado de um assassinato — mesmo o mandante e o assassino sendo réus confessos — para imputar a Zito a responsabilidade pelo ocorrido e “sujar” o seu nome. já que teriam sido eles os responsáveis por levar membros da Assembléia de Deus à casa da família. com um acontecimento dramático. por continuar seu mandato e posteriormente conquistar a presidência da Câmara Municipal. os carros dos parlamentares. assim como de importantes jornais da época: “[…] A maquiavélica engrenagem foi colocada em movimento e o passo seguinte foi mais covarde […] A prisão foi decretada.Ainda em 1992. nessa mesma noite. alguns o incriminando. De acordo com Gramado (op. sua esposa. A sua própria versão é reproduzida abaixo. Zito teve a oportunidade de assumir a vaga na ALERJ e ficou seduzido pela idéia. p. Narriman Felicidade. vincular-se a nenhuma uma religião em especial. Assim. Diferentes discursos e versões foram construídos a respeito do episódio. no entanto. Zito foi acusado pela morte de Ary Vieira Martins. fiquei alucinado vendo o palco de importantes decisões de todo um estado. Na ocasião. cit. O contato com o mundo evangélico seria anterior. ele chegou a ser acusado e teve até mesmo a prisão preventiva decretada150.). enfurecidos com seu sucesso eleitoral e com a promessa política que representava. Mas não deixei o poder me subir à cabeça” (idem.149). em 25 de agosto de 1993. Marca-se assim. enquanto era Presidente da Câmara Municipal de Duque de Caxias. “Aquilo era um verdadeiro mundo para mim. Optou. No biênio 1992-1993. Zito. 159 . Afirma que sua esposa e filha são evangélicas — Andréia pertencendo à Igreja Maranata. na noite da prisão de Zito. a acusação não passava de uma armação de inimigos políticos. outros. Segundo depoimentos divulgados por jornais. o defendendo. por sua vez. Dr. no entanto. a fim de buscar “equilíbrio” — na época em que seu marido já estava no segundo mandato como vereador. as desavenças entre ele e o subsecretário de Serviços Públicos da Prefeitura de Caxias em torno de obras. a conversão de Narriman. materiais e equipamentos teriam motivado o crime. se auto-classifica como cristão sem. com base 150 Grande destaque é atribuído ao fato de que. Heleno e sua família são mencionados em tal passagem.

pp. com medo. Quer dizer. […] Ao chegar à Câmara. Caio Ítalo. após perguntar a Anilton se ele era o advogado de Zito. Quatro deles cercavam Zito no interior do gabinete. com prazo de cinco dias. Andréia Zito afirmou em entrevista que. O Presidente da Câmara de Vereadores de Duque de Caxias. (Jornal do Brasil. por Sadarx [filho da vítima]. entre outros. DP [. 26/11/1993) O juiz da 4ª. DP (Caxias). “a viúva mesmo declarou que meu pai era inocente e que ela sabia quem era o mandante.numa suposta ameaça de morte sofrida. dados referentes ao tombamento dos autos. se renova ou não a prisão temporária do presidente da Câmara de Vereadores do município. Zito conseguiu habeas-corpus e foi solto no dia seguinte. lembra Anilton”(ibidem.. José Camilo Zito dos Santos Filho.. O filho e a própria viúva tinham certeza que não era meu pai” (26/04/2006). Anilton [advogado de Zito] notou a presença de vários policiais em torno do prédio. 27/11/1993) Apresentando o “caso” como uma “armação” dos adversários políticos. A prisão temporária de Zito. segunda-feira. preso desde quita-feira na 59ª. Ari criou o projeto Mãos Limpas do município e afastou 20 pessoas acusadas de desviar combustíveis e peças de carros de garagem. o Zito (PSDB). é claro.] Para o delegado. Um dos policiais. tinha alguma coisa diferente por ali’. (Jornal O Globo. ‘Logo verifiquei que não constava[m] números de processo ou de inquérito. José Camilo dos Santos. 160 . onde está numa cela comum. Vara Criminal de Duque de Caxias. De modo distinto ao que é relatado na biografia de seu pai. Começava ali a polêmica com a promotora Tânia 151 Tal episódio é extremamente marcante (e controverso) na trajetória de Zito. Ele foi levado para a 59ª. foi pedida pela promotora Tânia Moreira Salles. foi preso no início da noite de ontem sob a acusação de estar ameaçando de morte a principal testemunha de um homicídio encomendado por ele. 151-152)151. porém individual. o principal motivo do assassinato do subsecretário – que consta do inquérito – foi a política de moralização adotada por ele na administração da garagem municipal. decidirá. colocou sobre a mesa o mandado de prisão temporária. na época. indiretamente. Só que não podia falar nada porque estava ameaçada de morte.

do Tribunal do Júri de Duque de Caxias. agora pelo juiz Cairo França Davi. ficando entre os dez mais votados para a ALERJ153. 14/09/1993 também deu destaque à prisão e à concessão do habeas corpus pelo desembargador Mário Magalhães que. ver Soares (1996) e seus desdobramentos para a Baixada Fluminense em Benevides (1983) e Souza (1999 e 2000). — e ainda sob a acusação de homicídio — foi eleito deputado estadual. voltou atrás em sua decisão e juntamente com outros desembargadores cassou a liminar. como presidente da Câmara dos Vereadores. Em 1993. no entanto. Em 7 de dezembro de 1994 conseguiu novo habeas corpus concedido pelo desembargador Décio Góes e em 15 de dezembro foi diplomado deputado estadual154. No entanto. Em 1995. agora candidato a deputado estadual. Os jornais cariocas apresentavam as acusações e a 152 Jornal do Brasil. com ênfase na acusação de homicídio. enquanto aguardava a chegada do candidato de seu partido à Presidência da República. conheceu Marcello Alencar. Alexandre Cardoso. no Aeroporto Internacional. com 34. 161 .” (Zito. 154 A diplomação. eu fui para o PSDB junto com o Marcello. “Achei ele um político diferente de todos que eu já tinha conhecido. aí. no entanto. Zito estava à frente da Comissão de Orçamento da ALERJ e era novamente denunciado. Getúlio Gonçalves. foi noticiada pelos jornais O Globo e Jornal do Brasil de 16/12/1994. um encontro marcante resultaria em uma nova troca de partido e em uma aliança que se mostraria decisiva ao longo de toda a trajetória de Zito. O vereador e. agora através do procurador-geral Hamilton Carvalhinho. não ficou preso. Em 1994. Messias Soares e. 153 Sobre a relação entre política e violência. O jornal O Globo. Zito.484 somente em Duque de Caxias). noticiada nas páginas dos jornais e abordada na tese de doutoramento de Alves (op.). Fernando Henrique Cardoso e levado ao Ponto Zero em Benfica152. Hydekel. A seguir. já pelo PSDB. Lacerda.373 votos (sendo 30.Maria. 13/09/1994. foi detido no dia 9 de setembro. teve novamente a prisão decretada.cit. 26/04/2006).

Acusado de ligações com “bandidos” e de fazer ameaças de morte a seus adversários.097. Japeri e Mesquita descortinaram novos arranjos políticos. já fazia articulações para o pleito municipal mesmo antes de 1996157. e a pretensão de ser prefeito. Dessa vez. conseguiu 90. 20/09/1995. por 22.383 votos contra 31.920 do segundo colocado. mas foi derrotado pelo pastor Bruno (PSDB). Nomes como os de Joca — que. Desse modo. 162 . até mesmo. A intenção de disputar o cargo de prefeito não se concretizaria sem alianças importantes. que declarou que Zito também era o mandante do assassinato de um jovem de 14 anos e de um feirante de 35 anos em 1988 e 1989. de agressões físicas. tentou a reeleição (PSC). Em outra matéria. Zito. em 2000. guarda-municipal e principal testemunha de acusação no inquérito sobre a morte de Ary Vieira. respectivamente. José Renato de Jesus — mesmo amparado em um sistema de distribuição de sacolões e perpetuando no poder a rede política ligada a Bornier156. as emancipações de Belford Roxo. com o mesmo conteúdo. E eu disse a ele que se 155 156 Jornal do Brasil 08 e 12/09/1995. pelo PDT. O Dia. chamando atenção ao fato que talvez o sonho do deputado de concorrer à prefeitura de Caxias estivesse arruinado155.824 votos contra 21. Eleito prefeito de Japeri. o capital simbólico acumulado por Joca — já falecido — ainda garantiu a eleição de sua viúva que. apesar de curta vida pública é lembrado como um dos principais políticos da Baixada — ou da família Paixão conquistaram significativo espaço na vida política local. Na década de 1990. o deputado estadual pelo PSDB.reabertura do processo contra Zito que poderia ser cassado. com o slogam “Maria Lúcia é Joca”. o jornal em 17 de janeiro de 1996 dava voz a Sidney Tavares. Outro nome que remete à vinculação entre violência e política é o do advogado criminalista Carlos Moraes. por sua vez. Washington Reis (na época filiado ao PSC e deputado estadual como Zito) foi consultado sobre uma possível coligação e sobre a viabilidade de lançar seu nome como vice na chapa encabeçada pelo PSDB. na eleição de 1996. outra denúncia rondava Zito. de envolvimento em mais três assassinatos publicada pelo jornal O Dia de 03 de outubro de 1995. esteve envolvido em diversos episódios de conflito e. “Ele também tinha as pretensões políticas dele. sob novas denúncias que ligavam seu nome a mais três assassinatos. 157 Em outubro de 1995.

viéssemos nós dois candidatos. ele — no PSDB — conseguiu eleger-se para o primeiro mandato em um cargo executivo. Atribuindo esta vitória à “credibilidade que o povo deu a um homem que veio das bases. Na política. dos doutores. os dois ganharam – e perderam. tornando-se prefeito de Duque de Caxias em um pleito disputadíssimo com o ex-prefeito e ex-senador. E que nós fizéssemos uma dupla que seria quase imbatível porque o que faltava pra eu ganhar as eleições era o apoio dele […] Ele aceitou ser o meu vice.778 votos. Até então era vista como a cidade do bangue-bangue. com a intenção enorme e a vontade de fazer da minha cidade uma cidade diferenciada. 26/04/2006). ibidem). que obteve 114. tinha a chance de mostrar o outro lado de uma política mais direcionada ao trabalhador” (Zito.866 votos.309 do adversário. Em Duque de Caxias. Ainda nessas eleições. nós perderíamos a eleição e novamente o Hydekel venceria.. contra 142. estava tecnicamente empatado com Zito.. que também ficou 163 . O tucano virou o jogo no segundo turno e derrotou io exprefeito Hydekel de Freitas (PPB) [. eu que vim das bases humildes.302 votos. até porque ele era muito jovem e o desejo dele era ser o prefeito de Caxias. a cidade da sujeira.] César Maia saiu vitorioso em São João de Meriti. venci as eleições e comecei um trabalho muito sério. No primeiro turno. No último round da briga entre o governador Marcello Alencar e o prefeito César Maia na Baixada Fluminense. dos coronéis. Hydekel de Freitas. venceu o deputado estadual José Camilo Zito dos Santos. Hydekel (PPB). E ele foi o meu vice e ganhamos as eleições”(Zito. com 114. eu me candidatei para prefeito. As alianças no segundo turno possibilitaram uma reviravolta e a eleição deste último com 195. “Em 1996. dos políticos sem credibilidade. de origem humilde e ao cansaço e à perda de esperança nos políticos que por Duque de Caxias passaram” (idem). a cidade do mal. onde o deputado estadual Antônio de Carvalho (PFL). Zito entrava para a história política de Caxias. Foi a partir deste momento que Zito ganhou visibilidade na grande mídia. ele ganharia.

O atendimento era uma obrigação. era justamente dessa forma que a vereadora de Roseiral concebia sua atuação política. No caso por ela estudado. Como ressalta este autor. colocando-se. o vereador é percebido como alguém que tem como obrigação servir à população e. 158 De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Comunicação e Promoção de Duque de Caxias. nesse sentido. Tais iniciativas possibilitaram a arregimentação de um séquito de vereadores. 159 Idem. praças etc. por exemplo — fazia com que sua gente o visse como um benfeitor (Chaves. postos de saúde. venceu o deputado federal Candinho Mattos. Assim. a categoria trabalho passa a ser evocada como sinônimo de serviço de assistência.69. da drenagem de rios. incluindo projetos diversificados — como o para a terceira idade. Tais afirmações nos levam de encontro à própria lógica em jogo. um dever que. (Jornal do Brasil.em segundo lugar no primeiro turno. 16/11/1996) Durante o primeiro mandato. do passe livre para estudantes da rede pública e do aumento do salário do professor em início de carreira para R$1. da instalação de nova iluminação (a vapor de sódio). como provedor ou doador desinteressado159. sua administração caracterizando-se pelo clientelismo interno à Câmara Municipal — de maneira similar ao analisado por Lopez (2001) em seu trabalho sobre Araruama. Kuschnir (2000) já nos havia alertado para tal percepção acerca do papel do vereador.. além da extensão do serviço de coleta de lixo. Zito promoveu uma administração de muitas obras. nesta administração teriam sido pavimentadas três mil ruas na localidade. construindo e reformando escolas.135. assim. Calçando ruas. se por um lado implicava em “amarrar” o eleitor e garantir ao vereador seu lugar no mundo da política.000. do PSDB. É comum escutarmos frases como “Fulano sempre trabalhou pra comunidade” ou ainda “Ele faz um trabalho muito bom aqui no bairro”. como trabalho assistencial. 1996) que legitimava o atendimento sob a rubrica de “ação pública”. ele se fez notar158. A construção de um aparato assistencial municipal para a população caxiense. por outro também remetia à própria construção de identidade no interior deste universo. 164 . p.

na realidade. “não era uma função política. Andréia trabalhava diretamente com o pai na Secretaria de Governo e. cit.cit. Narriman. Nesse meio tempo. continuam a disputar acessos fundamentais para manterem-se na arena política160. sua nomeação tinha dupla justificativa. a chapa como vice-governadora ao lado de Luiz Paulo Corrêa da Rocha pelo PSDB — obtendo o terceiro lugar em votos (110 mil só em Duque de Caxias). como ela própria ressalta. era mais administrativa.) ou.).).a lógica da dádiva (idem) pode ser estendida para outros cenários pesquisados como Buritis (Chaves. segundo a lógica em questão: ela era a esposa do prefeito — portanto. No caso de Narriman. segundo a qual trata-se de um dever para com a família e a forma mais eficaz de impedir que tais cargos sejam ocupados por outros grupos políticos formados no momento da eleição — mas que. Era dessa forma que Zito costumava justificar sua escolha para quem o acusasse de nepotismo. A visibilidade na Secretaria de Meio Ambiente rendeu a Narriman o capital político necessário para que pudesse compor. 1976). por outro lado.cit. op. a este respeito. Recanto das Emas (Borges. op. possuía habilitação técnica. para além de explicitar o nepotismo. 160 Ver. alguém de extrema confiança — e. Kuschnir (op. Zito colocou sua esposa. ao mesmo tempo em que garantia uma importante secretaria a um aliado. cit. traz à tona a dimensão da obrigação social (Queiroz. Araruama (Lopez. cit. À frente da Secretaria de Meio Ambiente. A alocação de parentes em cargos “de confiança” é uma prática antiga e recorrente em nosso país que. interna”. em 1998. Bezerra (1995). a Baixada Fluminense. 165 . no caso desta tese. op.) e Lopez (op. que ganhou visibilidade por intermédio das polêmicas em torno do aterro sanitário de Gramacho. sendo pós-graduada pela Fundação Osvaldo Cruz.).

a gente pode falar que tinha Caxias antes e depois do Zito. O prefeito caxiense aproveitou a oportunidade para demonstrar seu peso político e atrair a imprensa. (Revista Isto É. Zito gosta de lembrar que se elegeu prefeito contra "a oligarquia que mandava em Caxias há 30 anos e que tinha o apoio de Cesar Maia.“Aqui. César Maia (PFL) e Garotinho disputavam o apoio do prefeito de Caxias que já gozava de prestígio — tendo conseguido eleger a filha.. falecido em dezembro de 2005. Como me disse em entrevista. Ninguém ousou discordar. 2004: 54-55). Andréia Zito. Zito é o Rei da Baixada. Ele se dá ao luxo de realizar sonhos acalentados na infância de menino pobre. justifica. Eu transfiro votos por isso querem meu apoio”. [Zito] está fazendo uma boa administração. Afinal. 161 Ressalto que as classificações operadas para (e pelos) os atores políticos são bastante dinâmicas. 64 anos. "Não conhecem o mar". mas o poder não me subiu à cabeça’. “César Maia e Garotinho estão me procurando por causa de minha performance nestas eleições. com quase 60 mil votos. Fábio Raunheitti. a gente não tem amigos nem inimigos. por exemplo. O Luiz Paulo (Corrêa da Rocha) teve em Caxias uma de suas melhores votações. Zito faria um de seus maiores inimigos políticos. o ex-deputado federal cassado. “na política. três ônibus com ar-condicionado e videocassete para levar os alunos da rede pública a pontos turísticos como o Pão de Açúcar e o Corcovado no Rio. 14/10/1998). se fazem e desfazem com relativa rapidez. morador de Duque de Caxias apud Barreto. Isso não dá pra negar” (Entrevista com Sr. jura. Durante a campanha para o segundo turno. Ele mudou a cara da cidade. Segundo todas as evidências. 166 . C. Anthony Garotinho (PDT)161. no entanto. ‘O povo diz que sou um mito. Nesse sentido. As vagas nas escolas públicas subiram 35% e os professores ganham R$ 700 mensais. Comprou. tem interesses”. Sinalizo aqui a constituição de grupos e de redes políticas que. Especial Eleição 98. Garotinho ser aqui tomado como inimigo não impede que em outros contextos as alianças possam vir a constituir-se. o então candidato ao governo do estado. Ainda naquelas eleições. de 24 anos (pelo PSDB). Garotinho e até do Paulo Maluf".

07/10/1998) Em uma situação. e sim “mais ampla. Há portanto em sua fala uma diferenciação marcante entre o fazer político do vereador (local e de assistência) e. Andréia. Zito afirma não mais possuir qualquer centro de assistência e que o QG que mantinha. Ainda segundo ele. 167 . pra população como um todo”. Zito costumava oferecer atendimento à população. “Movimento Popular da Zitolândia”. Laureano. geral. o do deputado e o do prefeito (mais geral). (Jornal do Brasil. no mínimo. prefeito — não havia mais sentido em sua manutenção pois. em todo o território nacional e não apenas na Baixada — e apesar de ter direcionado. desativado assim que Zito ganhou o primeiro mandato executivo. há muito havia sido desativado. Zito decidiu-se então pelo apoio a César Maia que acabou perdendo a eleição — e. a relação com Garotinho é extremamente complicada. Entre promessas de ajuda política e juras de fidelidade a Zito. os candidatos passaram por uma espécie de sabatina pelos presentes no auditório. inusitada. reocupando o QG do bairro Dr. Apesar de seu discurso durante nossa entrevista ter sido pautado na crítica ao assistencialismo difundido. Em seu primeiro mandato como deputada. Perfil. Laureano. o QG de trabalho é um “ponto de referência”. em seu caso. colocou os dois candidatos frente a frente. a política a ser desenvolvida não seria estritamente “local”. em um debate promovido em Duque de Caxias para uma platéia por ele escolhida — e denominada. de sua base eleitoral — que.diz. concentrava-se no bairro Dr. ou seja. a representação máxima da territorialidade do voto. em vários momentos. Andréia retomou a atividade desenvolvida pelo pai durante a atuação como vereador. o prefeito [Zito]. desde então. a partir daí. O QG de trabalho162 — como preferem chamar — teria sido uma exigência da população. suas críticas ao ex-governador do Rio. Anthony Garotinho — quando perguntado a respeito de sua própria utilização desta prática política. a resposta que deu contradiz o depoimento dado por sua filha. depois de ser eleito deputado — e. de outro lado. de modo geral. Em um espaço no terreno da própria casa. pela Revista Isto É (14/10/1998). mais tarde. por sua vez. 162 Para Zito. sem modéstia.

. Funcionava com o trabalho de médicos do município. Essa coisa de assistencialismo. a gente não tem atividades culturais. “Eu não acho certo isso. Eu era vereador. quer assistencialismo de qualquer jeito […] O cara fala: ‘Mas você. mas que é muito melhor ele estudar. Eu não tinha como negar. Não pode incentivar a ele que aquilo ali é bom. a gente não tem opção. Talvez pra eles seja muito mais fácil não lutar pela escola pública de qualidade. Zito. ali. pelo ensino profissionalizante. [ênfase dada pelo entrevistado]. você sabe. 26/04/2006). Depois que eu fui eleita. acolá.00’. da Dr. aí não tem porquê mais” (Zito. Tem gente que nunca foi ao cinema na vida” (idem). talvez seja mais fácil concentrar força no dinheiro — não sei se legal ou ilegal. pela universidade pública [. mas tem que fazer com que ele cresça. Então nós voltamos a atender a população. Nós não temos centros assistenciais porque não acreditamos nesse tipo de política” (Andréia Zito. esses são vítimas dos políticos profissionais. Eu não sou contra. “Eu tive um QG de trabalho.] pra ele. é contra o restaurante popular a R$1.menciona ter sido procurada pela população do município. essa política vergonhosa. prefeito. os trabalhadores. mas depois parou. porque o pobre quer comida. “Agora.. Você precisa ver a felicidade deles. o necessitado. Aquilo é um sustento naquele momento. Laureano. Tem que ajudar o pobre. a gente tem lá um cinema comunitário. as pessoas vieram me procurar e solicitaram que eu reabrisse. trabalhar […] Eu sou contra essa coisa de assistencialismo. Esses políticos não trabalham. ali. “Os pobres. não posso aqui avaliar — e fazer centros sociais pra atender a uma população aqui. 26/04/2006). barata […] Grande parte dos políticos não quer acabar com a pobreza. Então essa é uma opção pra eles. Aqueles olhinhos brilhando de frente pra tela. solicitando a reabertura de tal centro. Na Baixada. eu cedia. depois deputado. Trabalhava como ponto de referência enquanto eu era político-vereador. Mas é só esse. Meu pai tinha o QG quando era vereador. porque senão acaba com os currais eleitorais que eles têm 168 .

No ano seguinte. Após terem sido apuradas as denúncias do advogado Edson Lourival dos Santos contra Zito (de que fazia parte de um grupo de extermínio na Baixada Fluminense e de que teria recebido ajuda do narcotraficante Niltinho do Dendê). Ascensão e Declínio Do Mito Eu peço desculpas. político. à população desses dois municípios[Belford Roxo e Magé]. 164 Em abril desse ano. Agora pelo procuradorgeral Muinos Pinheiro Filho (Jornal do Brasil. novamente o caso do assassinato de Ary Vieira é retomado. 21/04/1999). 26/04/2006. Paulo Baltazar e Wanderley Martins — deram por concluído o inquérito164. em novembro de 1999.como o senhor daquele campo eleitoral que ele domina”163 (Zito. Zito. o nome de Zito foi novamente associado à violência. Isso vai gerar o que? Vai gerar violência”. chegou-se à conclusão de que não havia provas materiais contra o prefeito de Caxias. “O que mais você percebe nessa classe é a jovem grávida. 26/04/2006). Zito corrobora algumas imagens sobre a pobreza e as camadas populares. mas sim que eles fossem úteis às cidades em que governavam. Naquele ano. em fazer os dois prefeitos. Mas não foi possível. 169 . perdão. foi instaurada na ALERJ. por fim. ou ainda a associação entre pobreza e violência. foram realizadas algumas diligências em lugares apontados pelas denúncias entre novembro de 1999 e junho de 2000 quando. pobreza e prostituição etc. mais uma vez eu quero deixar bem claro que foi um erro meu. 163 Na tentativa de desvincular-se do discurso acusatório do assistencialismo. a mãe de família sem o pai. mas infelizmente não foi de vontade minha fazer tão somente com que eles tivessem o poder. que tinha como finalidade apurar algumas denúncias sobre a rede de narcotráfico que atuaria no Rio de Janeiro e a relação de seus membros com alguns agentes políticos. o trabalhador é um acomodado por natureza”. os sub-relatores — deputados Laura Carneiro. o crescimento desordenado da família. pondo em dúvida “a verdadeira intenção das denúncias que [o advogado] encaminhou a esta CPI”. segundo as quais “o pobre. uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Sendo assim.

Bastante assediado pela imprensa. em quinto lugar. Washington “faz de tudo para alcançar os seus objetivos. sede pelo poder”.495 votos contra 73. Hydekel de Freitas. alinhavada para o primeiro pleito executivo. Geraldo Moreira (do PDT) — sendo apresentado pela imprensa como um “fenômeno eleitoral” (TRE/RJ) e deixando o genro de Tenório Cavalcante. Maria Lúcia. talvez.06% de aprovação e a expressiva votação de 315. Zito também teve papel fundamental nas eleições de sua esposa e de seu irmão para prefeituras-chave da Baixada. não tinha como ele vencer. ele seria candidato contra mim. derrotando a ex-prefeita. é muito mais político. deram o voto a mim e me fizeram prefeito. E ele é esperto.Mesmo em meio a denúncias. 2000 revelou-se irrefutavelmente o ano de Zito. mas cansados e sem esperança. Para Zito. foi por uma falta de opção e uma vontade de mudança. Ele não foi candidato a prefeito em 2000 porque sabia que não tinha condições de me vencer. uma boa convivência. pela coligação PPS/ PTB / PRN / PMN / PST. Senão. Eu sei também que ele só foi meu vice porque não tinha jeito.950 votos do segundo colocado. Waldir foi eleito em Belford Roxo.679 contra 27.640. reassumindo o mandato de deputado na Assembléia. nessa visão de negociação e de interesse pelo poder. Mas nós tivemos sempre um bom diálogo.” A aliança com Washington Reis. Na primeira. Este último deixou o cargo de vice em 1998. não duraria muito. Ou a gente se unia pra vencer ou o Hydekel ganharia. por 89. do que eu. Eles viram [a população/ os eleitores] em mim uma chance muito remota. “Minha segunda eleição foi por mérito. colocou à mostra todo o seu poder e influência políticos e não apenas por meio de sua reeleição — com 81. 170 .

dois caciques locais — com 35. “Presidente do diretório local do seu partido. como salientou Monteiro (op. garantiram a vitória contra uma adversária de prestígio local.Em Magé. Anthony Garotinho (na época.). Laureano e adjacências — foi eleito deputado federal (pelo PSDB) pela primeira vez em 1998. deputada estadual no terceiro mandato e do deputado federal Dr. Em Belford Roxo.589 e 27. é advogado e contador e foi um dos responsáveis pela entrada de Zito na vida política. 1984). Heleno. conjuntamente.802. tendo sido um dos nomes-fortes do ex-prefeito de Caxias e um de seus mais importantes articuladores. Heleno. ambos do PSDB. 32. Somados os votos dessa família. Joca166. conseguiu emplacar dois parentes seus como prefeitos em outras duas cidades da Baixada e um outro familiar ocupando a Assembléia Legislativa do Estado. op.cit. juntamente com Antônio de Carvalho (prefeito de São João de Meriti). Correspondeu a uma tomada de posição frente à rede política do exprefeito de Nova Iguaçu e deputado federal Nelson Bornier na região. Heleno Augusto de Lima. elegeu-se prefeito e se reelegeu.27). Bornier apoiou Maria Lúcia. por exemplo. Nesta reeleição [2000]. Pollak (1989). Andréa Zito. A transferência do capital político de Zito ao irmão foi possibilitada por diversos fatores que. ver. 171 . do PDT) e. Tendo como base eleitoral Duque de Caxias — mais especificamente o bairro Dr. Nesse caso.. 166 Sobre os processos de conservação e reelaboração da memória. aproximamo-nos do meio milhão de votos” (Soares. cit. conhecido como Dr. mas excessivamente ancorado na figura de seu marido. Azair Ramos (prefeito de Queimados) e o governador do Rio de Janeiro. p. Narriman derrotou Nelson do Posto (PDT) e Núbia Cozzolino (PTB).453 votos respectivamente165. a memória de Joca estava diretamente relacionada às suas ações anteriores e não a objetos ou lugares de memória (Nora. o que poderia explicar o “esquecimento” representado pela 165 Zito contou também com o apoio de sua filha. A derrota de Maria Lúcia significou mais do que a inclusão de um novo município no rol de influência de Zito. não foi possível deter a popularidade de Zito — cuja estratégia de construir a campanha de Waldir como um elo de ligação e de continuidade com a sua foi extremamente eficaz. Hoje está em seu segundo mandato. apesar de sua força conjunta.

a busca por outro salvador. Não era possível.109-110) afirma que a “mitificação política de Joca é fluida porque na realidade todo o seu carisma embasava-se muito menos nos seus atos espetaculares e muito mais na percepção popular de que Joca era parte do povo belforroxense e de que suas soluções somente diferiam em grandeza das soluções tradicionalmente encontradas pela população baixadense. Núbia pode comemorar também a vitória do sobrinho Renato Cozzolino (PSC). no caso. se reelegeu. 168 “Outra família tradicional da política fluminense a manter seu espaço parlamentar é a Cozzolino. novamente pelo convite do Marcello. por intermédio de seu irmão.inexistência de um culto ao político após a sua morte e. Waldir Zito. 29/10/2000). Waldir167. cit. Zito deixou pela primeira vez o PSDB. Em 2001. cuja mulher. é mais uma a ser controlada pelo clã Zito. reeleito para a ALERJ” (Agência Carta Maior. ficando com a última vaga de seu partido. A prefeitura de Belford Roxo. quase entrei no PMDB. liderado pelo prefeito de Duque de Caxias. 172 . um livro de memórias. 26/04/2006). alegando insatisfação com a forma como o partido vinha tratando Marcello Alencar. Ele me deu muita credibilidade política. que o processo de mitificação política de Joca se restringisse a objetos concretos como um túmulo. portanto. na Baixada Fluminense. que responde a processo por supostamente ter encomendado o assassinato de um jornalista no ano passado. Narriman Felicidade. 167 Na tentativa de explicar tal esquecimento. fui pro PDT e agora retornei ao PSDB. é o irmão caçula de Zito. José Camilo Zito. uma estátua ou uma rua. que foi eleito hoje. “Num momento da minha vida enquanto prefeito. vencer Núbia Cozzolino significou romper com um reinado de mais de uma década na região de Magé e Guapimirim168. Zito. Eu tenho ele como um pai. numa vontade enorme de retornar a ser prefeito em 2008” (Zito. Muito mais próximo que todos os objetos que possam lembrar Joca está a convivência diária com problemas para os quais Joca significava em primeiro lugar uma solução. ele me deu uma chance de mostrar quem eu era e hoje eu me encontro no PSDB e sou candidato a deputado estadual. pp. foi eleita prefeita de Magé (Folha de São Paulo. um clã muito forte na região de Guapimirim e Teresópolis. após a sua doença. reeleito para o segundo mandato consecutivo. O candidato do PPS. Solução que mesmo parcialmente já era proporcionada pela rede de resolução de problemas práticos. A deputada federal Núbia Cozzolino (PPB). por outro lado. teve o problema da doença do Marcello e houve assim uma falta de respeito para com ele que eu não gostei e saí do partido. Monteiro (op. Da mesma forma. 11/10/2002).

não podia abrir mão dos cerca de 500 mil votos representados por sua rede política na região. Sr. quero falar sobre o regozijo que todos nós temos com a entrada do Zito no PMDB. 05/06/2001). S. Houve manifestações contra e a favor e. sempre defendeu o Brizola.O “flerte” entre Zito e o PMDB não passou incólume. Também gostaria de dizer ao nobre Deputado que me antecedeu que. Presidente. esse negócio de pedir ficha criminal. nas eleições de 2002. alegando que “no meu Partido. para sabermos quem. se o Zito fosse à margem da Lei. tenha experiência de abandono. Obrigado. teria que haver uma ficha criminal limpa. de fato. Respeito o Deputado que me antecedeu pela sua história e pela sua trajetória. porque. o deputado Geraldo Moreira fez críticas à filiação de Zito. na cidade do Prefeito. Na ocasião. (Deputado Paulo Melo. Não reconhecer que. não teria sido reeleito Prefeito de Caxias. se for pedida a de muita gente. que saíram em defesa de Zito e do partido que o acolhia. Agora. tem que pedir a de muitos companheiros. temos história. [eles] nem nesta Casa estariam. As acusações que pesavam sobre ele eram 173 . Como Deputado. Já lhe ouvi dizer que Brizola era o grande líder: perdeu o poder. cenas de confronto entre deputados na ALERJ dias antes de sua filiação. talvez. a população que o elegeu deu para o Zito o maior atestado que um político pode ter — 80% dos votos — é desconhecer a própria realidade. deflagradas a partir do discurso do deputado André Luiz. Exa. Tal declaração foi imediatamente respondida pelos deputados André Luiz e Paulo Melo. afinal de contas. 05/06/2001). garanto. Zito significava capital político para qualquer partido e. é a pessoa”. mesmo tendo força na Baixada. perdeu o companheiro. como diz o Governador Garotinho. inclusive. o PMDB. Em primeiro lugar. (Deputado André Luiz. mas a leviandade nas declarações tem que ser medida e comedida.

do PTB). um dos alvos preferenciais do jornalista assassinado — que freqüentemente publicava matérias contrárias a ela e a sua família no jornal — também foi acusada neste inquérito. os confrontos foram se tornando cada vez mais acirrados. A Polícia do Rio está investigando se o assassinato de Marílton dos Santos. Ainda nesse ano. foi assassinado com cinco tiros. chegando até mesmo a responder a processo como mandante do assassinato. por volta das 18 horas do dia 16 de agosto de 2001. Foi apontado como possível mandante do assassinato do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. Conforme ilustra a matéria reproduzida abaixo.minimizadas em prol das possibilidades eleitorais advindas da ligação com o “rei da Baixada”. do jornal A Verdade. prefeita de Magé e mulher do prefeito de Duque de Caxias. 174 . como era conhecido. ocorrida no último 169 Houve grande repercussão no assassinato do jornalista. de Magé. insinuando que Narriman Zito. Trazendo novamente à tona a questão da violência política na Baixada. a matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 19/09/2001. o episódio marcou a disputa entre duas famílias pelo poder político em Magé: a de Zito e a de Núbia Cozzolino. quando chegava em casa. Mariozinho. diretor administrativo do jornal "A Verdade". assessor da deputada estadual Núbia Cozzolino (PTB). por exemplo. com destaque até mesmo em jornais de âmbito nacional como. 49. tendo como principal estratégia de ataque as denúncias feitas por intermédio da imprensa escrita. estaria tendo um caso com um segurança169. Núbia. As denúncias contra Zito foram motivadas devido à ação que movia contra o jornalista — por ter usado o espaço em seu jornal para reproduzir uma declaração da deputada estadual Núbia Cozzolino (na época. 42. tem alguma ligação com a morte do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. ele novamente teve seu nome vinculado a acusações de violência.

em uma entrevista para os jornais do Rio de Janeiro. Santos foi encontrado morto com um tiro na barriga. na presença de um advogado. Segundo o delegado Hallak. Mas ainda falta confrontar o preso com outras testemunhas. 175 . 23/08/2001). por suspeita de assassinato no caso do jornalista Mário Coelho Filho. Manoel Daniel de Abreu Filho. José Camilo Zito dos Santos (sem partido). mulher do prefeito de Duque de Caxias. foram encontradas duas armas. na madrugada de ontem. prefeito de Belford Roxo e irmão de José Camilo Zito dos Santos. A relação de trabalho do suspeito foi confirmada pelo próprio prefeito Zito dos Santos que. O juiz de Magé decretou a prisão preventiva do sargento a pedido do delegado Hallak. O delegado pretende pedir a quebra de sigilo telefônico do suspeito e sua ficha de antecedentes criminais para verificar se teve participação no crime e o motivo. até que seja feito o exame de balística para comparar se os tiros que atingiram o jornalista saíram de sua pistola. A deputada insinuou no jornal "A Verdade" que a prefeita de Magé. trabalha como guarda-costas de Maristela Corrêa Nazario. esposa de Waldir Zito. 55 anos. mantinha um romance com um ajudante-de-ordens. a família de Santos afirmou não acreditar que o crime tenha ligação política (Folha de São Paulo.dia 16. Em seu apartamento. a deputada estadual Andreia Zito. mas que deixou de trabalhar com Andreia "para ficar mais perto de casa". em Belford Roxo. duas testemunhas que ajudaram a fazer o retrato-falado e que haviam reconhecido Manoel Daniel de Abreu Filho por foto não sustentaram o reconhecimento pessoalmente. reconheceu que Manoel foi guarda-costas de sua filha. Narriman Zito (PMDB). às perguntas sobre seu trabalho com a família do prefeito de Duque de Caxias. depois que uma denúncia anônima em 13 de setembro levou-o até Abreu Filho. Em depoimento ao 66ª DP (Piabetá). uma delas uma pistola 380 — mesmo calibre da arma utilizada para matar Mário Coelho Filho. que disse à polícia que não vai a Magé há 10 anos. O sargento reformado da Polícia Militar. A família Zito nega qualquer relação com os crimes. distrito de Magé (a 60 km do Rio). Manoel Daniel de Abreu Filho. no município de Mesquita. foi preso no dia 14 de setembro de 2001. em Piabetá. Abreu ficará preso no 20º Batalhão de Polícia Militar. Negou-se a dar declarações sobre esse assunto e afirmou que só vai responder em juízo. parte da Baixada Fluminense.

foi solicitado o adiamento da votação e a não inclusão de deputados com qualquer suspeita de vinculação com o caso na comissão que acompanharia o assassinato do jornalista — além de terem sido feitas severas críticas ao “comportamento” da deputada e à sua tentativa de “fazer politicagem” a partir do episódio da morte do jornalista170. Lídia Menezes (PSDB). Anthony Garotinho (Jornal Impunidade. o prefeito disse ao jornal O Dia que pretende processar o delegado Ricardo Hallak e o Estado por perdas e danos e calúnia por vincular seu nome ao crime. com acusações recíprocas. uma pessoa do povo. fazia o trabalho técnico e o planejamento da cidade. na estrada MagéManilha. foi encontrada carbonizada dentro de seu automóvel. Eu. 170 A transcrição integral da sessão ordinária de 03 de outubro de 2001 pode ser consultada no Anexo. 176 . a ALERJ tornou-se igualmente cenário de confrontos entre Andréia Zito e Núbia. uma boa mulher que me representava publicamente” (Folha de São Paulo.Depois de saber que duas testemunhas não reconheceram o suspeito. Em 2002. "não era muito esclarecida. há cerca de 20km da cidade. inclusive. Mas fui eu quem a coloquei ali. Sivuca. Segundo Narriman. Desta vez. a vice-prefeita de Narriman. setembro de 2001). 02/06/2002). Afirmou que é vítima de perseguição política por ser candidato à sucessão do governador do Rio de Janeiro. Washington Reis. Se a imprensa era o palco mais visível das disputas entre as famílias Zito e Cozzolino. Com o apoio dos deputados José Távora. a deputada do PPS criou uma comissão para acompanhar o assassinato do jornalista de A Verdade. Através do requerimento 490/2001. mais um caso de assassinato. matéria de Clarinha Glock. transformando a sessão de 3 de outubro daquele ano em um palanque no qual aliados e adversários pronunciavam-se com veemência. declarando apoio a um lado ou a outro. por ser uma negra. André Luiz e. engenheira. Lídia não tinha experiência política.

Segundo Jorge Cosan. “Qual o objetivo de matar a vice-prefeita? Será que querem tirar a prefeita do cargo? Será que alguém está interessado em ocupar o Executivo com a ocorrência destes crimes? Estas mortes são por motivação política e nunca são investigadas a contento” (idem). mas quando eu percebi que a minha ausência [es]tava fazendo falta. Deixei o time trabalhando na cidade. motivo pelo qual a cidade transformara-se em um imenso barril de pólvora. Alertando que mais pessoas poderiam morrer. segundo ele próprio. naquela época. Também no ano de 2002. aparecia a vice-governadora. assim como as declarações da prefeita e de membros de seu secretariado. com 30%. as expressivas vitórias nas urnas em 2000 e em 2002. Benedita da Silva. o PSDB cogitava o nome de Zito para uma possível candidatura própria ao governo do estado. Viajando pelo estado. em todas elas desviando o foco das atenções para Narriman. os crimes políticos não eram apurados. já de volta ao PSDB e seduzido pela possibilidade de disputar as eleições para o governo do Rio de Janeiro171. Sérgio Cabral (PMDB) e Zito (PSDB) apareciam tecnicamente empatados — com respectivamente 18% e 17% — em hipótese que excluía a candidatura de Garotinho (PSB). os adversários da prefeita eram automaticamente colocados sob suspeita e a morte capitalizada em revolta e solidariedade.As versões sobre o crime giraram em torno de questões políticas. Com o lema “vamos serrar”. De acordo com a pesquisa de intenções de voto do Datafolha. na tentativa de formar alianças e de fortalecer-se politicamente. eu retornei”. Zito foi escolhido coordenador da campanha presidencial de José Serra no estado (e anunciado como tal em abril daquele ano). Jorge levantou algumas hipóteses sobre o ocorrido. Apesar das acusações e conflitos. presidente do PSDB de Magé. lhe causou algum ônus. 177 . realizada em fevereiro daquele ano. era ser candidato a governador e eu confesso que deixei um pouco a cidade meio que de lado. Em primeiro lugar. “A minha intenção. acabou se ausentando bastante da cidade o que. possibilitaram a Zito começar a trabalhar no projeto político de tornar-se governador do Rio de Janeiro. Dessa forma. acompanhou as caminhadas e comícios do presidenciável em Duque 171 No início do ano.

na sucessão a governador. seu desafeto — além da perda de prestígio do partido após as sucessivas derrotas de seu fundador.6). ver. exprefeito de Niterói. O apoio subseqüente aos candidatos Jorge Roberto Silveira (PDT) ao governo do estado do Rio de Janeiro e Ciro Gomes. Viegas (1997) e Heredia (1999). Por contar com forte influência na região de Duque de Caxias. Insatisfeito com a falta de apoio da Executiva Nacional do PSDB. por exemplo) foram. Ele deixa o partido para anunciar o apoio a Jorge Roberto Silveira (PDT). com quem almoçou. ele se reuniu com a governadora. Pela manhã. Benedita173 da Silva (PT). tendo em vista seu esvaziamento após a saída de Anthony Garotinho. que ainda não se pronunciou. José Camilo Zito dos Santos. acaba de deixar a seção do Rio de Janeiro do partido. conforme já vinha sinalizando desde a semana passada.de Caxias. Tal filiação o colocaria como um dos principais nomes do partido no estado. Leonel Brizola. mas não contou com o apoio da direção do PSDB. alegando que Benedita o traíra ao receber dois de seus desafetos políticos: César Maia e Zito (p. O prefeito encaminhou o pedido de desfiliação para a Executiva Estadual. foi o primeiro passo na direção da futura migração ao PDT (concretizada apenas em 2003). sendo assim. Em notícia divulgada pelo Jornal do Brasil de 12/11/2000. Zito é disputado pelos atuais candidatos. mas deve 172 Sobre as disputas no interior de uma mesma facção e de como a política é percebida pelos próprios políticos. 173 A aproximação com Benedita havia ocorrido desde o início do mandato de vice-governadora. a executiva nacional resolveu não lançar candidato próprio ao governo do estado do Rio de Janeiro172. O prefeito ainda não anunciou quem irá apoiar para presidente. Zito queria ser candidato ao governo estadual. fracassadas. o prefeito de Duque de Caxias. à Presidência da República. no entanto. O apoio do partido à candidatura de Solange Amaral (PFL) para o governo do estado do Rio de Janeiro frustrou o projeto político de Zito de ascensão ao Palácio Guanabara — deixando-o extremamente contrariado. As tentativas de alianças (com o PDT. 178 . por intermédio dos projetos sociais vinculados à Baixada Fluminense. que fechou coligação em torno da deputada estadual Solange Amaral (PFL). da Frente Trabalhista. o governador Anthony Garotinho teria se desentendido com ela.

O prefeito. um dos municípios mais pobres do Rio. por considerar que o candidato teve atuação tímida em favor de sua candidatura ao governo (Folha de São Paulo. 179 . com recursos de R$ 1. visto que Zito somente conseguiu levar consigo quatro vereadores de Duque de Caxias (dentre eles. 15/07/2002). atrelando-se diretamente à construção de sua persona pública — e a constante troca de partido só reforçava esta situação. E essa imposição fez com que eu me afastasse do partido e do grupo político que lá estava. durante a campanha presidencial. A saída do PSDB não implicou a perda de prestígio de Zito. sua trajetória política esteve desvinculada de uma ideologia partidária. Os agrados em retribuição vieram primeiro para o irmão Waldir Zito.3 milhão (Agência Carta Maior. Belford Roxo.descartar um apoio a José Serra (PSDB). “Pelo Marcello [Alencar]. que começara 2002 como coordenador da campanha de José Serra (PSDB). Tal mudança de sigla também não significou demonstração de força ou adesão a seu nome. 16/09/2003). que tem 450 mil habitantes e deu a Lula mais de 90% dos votos no segundo turno das eleições. No segundo turno. Sua filha e esposa optaram por não mudar de partido. que é minha amiga. Laury Villar). acabou se desentendendo com os tucanos e aderindo a Ciro Gomes (PPS) ainda no primeiro turno. 26/04/2006). nós teríamos candidatura própria e quando o Marcello adoentou-se. Resolvi abandonar a campanha do Serra e não aceitar a candidatura da Solange” (Zito. eles aproveitaram e fizeram a imposição de uma candidatura apoiando a Solange Amaral. Desde o início. foi deputada comigo. A direção nacional do PT começou a se aproximar de Zito no fim do ano passado. por intermédio da então governadora Benedita da Silva. foi incluído no programa de erradicação dos lixões do programa Fome Zero. apoiou Lula.

Que eu ia continuar porque pra mim era melhor. Para Andréia. é que criticaram. inclusive — Andréia esperava uma 180 . a saída do pai do PSDB não repercutiu negativamente em sua votação em 2002. Zito conseguiu. e eu fui conversar com el. a gente conversa muito. E eu. deputada estadual com 56 mil votos. pois seu prestígio “não havia sido abalado”. a saída do partido marcava a posição de Zito na queda-de-braço interna ao PSDB. José Camilo Zito (PSDB). escuto ele. ele me ouve muito. mas relacionava-se mais imediatamente à busca pela operacionalização de seu projeto político. Falei que não achava uma boa idéia a saída dele do partido. Andréia. A gente conversa muito. E o fez. Os outros. até então barrado pelo partido. Ele entendeu a minha posição e não me criticou. Nós temos um projeto sim. a deputada Andréia afirma que ele não manifestou qualquer contrariedade com relação à sua decisão. sim. Com um mandato já cumprido e alguma experiência acumulada — de lidar com o eleitor. respectivamente. eu falo com ele. mas ele me escuta. que eu gostava do partido — me identifico com suas ideologias — e que eu preferia continuar. Decerto. 11/10/2002).Apesar de muito criticada por não ter acompanhado o pai. sou quem resolvo as minhas coisas. Como seu trânsito entre alguns partidos e pessoas importantes ainda estava garantido e sabendo que seu peso político certamente não seria descartado. meu pai não é um ditador. Zito pôde arriscar-se. não entenderam. seu poderio se alastra ainda mais (Agência Carta Maior. bancar as eleições do irmão Waldir e da mulher Narriman para as prefeituras de Belford Roxo e Magé. “Ao contrário do que todo mundo fala. Andréia Zito. além de se reeleger prefeito de Duque de Caxias. Agora. Há dois anos. mas eu resolvi que era melhor ficar” (26/04/2006). Mas a minha vida política é uma coisa e a do meu pai é outra. O rei da Baixada Fluminense. não teve dificuldades para eleger a filha.

. os problemas com Narriman começavam a aparecer e a imprensa não deixou passar em branco. depois. outdoors juntos. Apesar de sua avaliação pouco otimista. em 2002 (junho). teriam que votar nele e preferiram abrir mão de votar em mim”. conseguindo reeleger-se. apoiando Lula apenas no segundo turno.votação mais expressiva. Benedita da Silva (PT). Na eleição estadual. a confirmação de problemas em outro setor da vida marcou Zito. Ela afastou as pessoas próximas a Zito da prefeitura de Magé. mas a ligação de meu nome ao de um candidato a [deputado] federal me prejudicou um pouco [referindo-se ao candidato a deputado federal de seu partido. e da prefeita de Magé. alegando precisar ficar “independente na política”. Eu fui aos showmícios. ele apoiou Jorge Roberto Silveria (PDT) e ela. Dr. percorri as ruas.. Heleno]. Muitas pessoas não queriam votar nele e acharam que como fizemos campanha juntos. O jornal O Dia. Apesar da vitória com sua absolvição do assassinato de Ary Vieira em março daquele ano. Se desde o final de 2001 os boatos envolvendo o casal já apareciam. “Eu fiquei muito chateada. “A notícias da separação do prefeito de Caxias. explorou bastante a crise conjugal e sua repercussão em termos políticos para ambos os lados.] quem não gostou nada das insinuações dos políticos da região de que o coração de Zito já teria dono foi a Secretaria de Comunicação [Duque de Caxias]. Já sua esposa manifestou seu apoio ao PT de Lula desde o início da campanha presidencial. em São João mesmo. ela foi bem votada. que se votassem em mim. [. Nessa eleição. para Ciro Gomes.” 181 . Assim como na eleição para a Presidência da República: o apoio de Zito foi para Serra (PSDB) em um primeiro momento da campanha e. por exemplo. José Camilo Zito dos Santos. Narriman Felicidade. Cláudia Cataldi. foi o principal motivo de comentários ontem nas duas cidades e no meio político. eu fiz mais campanha. um momento difícil.

Para o líder do PT na ALERJ. Exprocurador de Justiça do Estado do Rio. O problema é que pesa sobre esse grupo político uma vinculação com o bicho”. “O patrimônio ético do PT não pode ser atingido por filiações como esta. em outro episódio polêmico. A ofensiva petista nos municípios fluminenses. entre outros. o PT cogita a filiação desse tipo de pessoa”. o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a filiação de Narriman. José Genoino. disse Biscaia. criticou Biscaia. além do capital político advindo de uma vinculação ao nome de Lula174. 182 . Chico disse que ficou surpreso com a participação de Narriman no programa do PT na televisão. dividiu o PT. enfatizando a necessidade de “união da família”. No Câmara dos Deputados também houve protestos. foi a vez de Narriman trocar o PSDB pelo PT. O programa era discutido. Leal (1975). havia critérios rigorosos para participar desses veículos de massificação do ideário 174 Sobre a relação entre captação de recursos e redes políticas ver. A bancada do PT na Assembléia Legislativa decidiu ontem. defendida pelo presidente nacional do PT. Só Palmares foi a favor. “No momento em que parlamentares éticos são punidos pelo partido. que já criticara a punição do deputado Chico Alencar por ter se abstido na reforma da Previdência. parte da estratégia de tornar o partido uma das duas maiores forças políticas no Estado do Rio em 2004. as atividades da família Abrahão David são incompatíveis com o ideário petista.Naquele mesmo ano. por seis votos a um. No ano seguinte. Bezerra (1999a e 1999b). “Estou namorando meu ex-marido”. ser contra a participação na prefeitura de Nilópolis. prefeito de Caxias) utilizam-se de práticas políticas condenáveis e são suspeitos de outras atividades ilícitas”. disse Narriman ao jornal O Dia de 22/12/2002. anteontem: “Sou do tempo em que quem era recém-admitido no partido era soldado raso e não general cinco estrelas. Carlos Minc. os dois se reconciliaram. A prefeita e seu marido (José Camilo Zito dos Santos. “Essa não é uma questão partidária. que tampouco trouxe as vantagens esperadas (e desejadas) — a possibilidade de angariar recursos financeiros junto ao governo federal. Parte do PT fluminense reage à estratégia. disse Minc.

Conduzir reuniões. o Anísio. A filiação de Narriman Zito ao PT. irmão do banqueiro de bicho Aniz Abrão David. ao clientelismo e ao uso da máquina política com fins eleitorais. O ex-deputado Milton Temer preferiu ironizar: “Ou não era o programa do PT ou não era a Narriman”. Antonio Carlos Biscaia (PT). A ingerência de Zito na administração dos municípios chefiados por seus parentes era alardeada pelos jornais. Ambas ações haviam sido aprovadas pela direção fluminense. dos discursos que o ligavam à violência. Narriman piorou as coisas ao anunciar que pretende processar o deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça do Rio. Narriman causou desconforto. Mas a participação no governo do PP de Nilópolis foi agora derrubada por meio de pressões da Executiva Nacional (Folha de São Paulo. demitir funcionários. no entanto. acusado de envolvimento com grupos de extermínio que atuariam na Baixada Fluminense. que viu sua intenção de levar o partido a participar do governo de Farid Abraão David (PP) em Nilópolis ser rejeitada pelos outros seis deputados da bancada petista na Assembléia do Rio. Narriman Zito. portanto. Sobretudo ao presidente regional do PT. deputado estadual Gilberto Palmares. A Executiva Nacional do PT aprovou a filiação ao partido da prefeita de Magé (RJ). José Camilo Zito dos Santos (PDT). enviar sua 183 . (O Globo. Houve contestação do diretório regional tanto da filiação de Narriman quanto da aliança com Abrão David. A imagem política de Narriman não podia ser desconectada da de Zito e. acabou se revelando mais problemática que qualquer ajuda financeira do governo federal. 10/09/2003). 16/09/2003). As duas decisões dividiam os petistas do Rio de Janeiro. A Executiva pressionou e obteve do Diretório Municipal de Nilópolis (RJ) a rejeição à participação de petistas na gestão do prefeito Farid Abrão David (PP). que criticou sua filiação (Agência Carta Maior.petista”. eleita pelo PSDB e mulher do prefeito de Duque de Caxias. 14/10/2003). inconformados com a nova postura adesista. Elevada à condição de estrela do programa de TV do partido sem consulta prévia às lideranças regionais petistas e apenas dois dias após ter sido filiada.

mas do outro lado foi bom porque. eu sempre deixava à disposição. A objeção de membros do diretório estadual à sua filiação ligava-se. Eu confesso que eu até deveria ter sido mais duro. O município governado por Narriman não contava com uma arrecadação tão expressiva quanto a de Caxias. e eleitos foram. Sua administração à frente da prefeitura de Magé tampouco trouxe os resultados esperados pela população. seu nome e suas relações políticas poderiam gerar uma alteração na configuração das forças internas ao partido no estado.. Narriman era uma peça importante no tabuleiro político da Baixada que. hoje.. Se eles assim pretendessem. um bom trabalho. Tanto que ninguém nunca me viu lá mandando em nada. quando eu percebia que alguma pessoa ligada a mim pudesse ajudá-los. Além disso. Além disso. mas evidentemente não podemos menosprezar as questões eleitorais implicadas em sua adesão ao novo partido. Zito referiu-se a este assunto da seguinte forma: “Não é verdade. Os conflitos acompanharam todo o mandato de Narriman — por meio de denúncias em jornais (como as acima apresentadas) ou dos atendimentos realizados pela deputada Núbia e sua equipe. ao mudar de posição. Eu sou um homem que respeito muito a condição de qualquer um e o exercício da eleição — que por ela passaram os dois. de ser um mero fantoche do marido175. sem dúvida. 175 Na entrevista que me concedeu.mas nunca desrespeitando a democracia e a posição que eles ocupavam enquanto prefeitos. que eles levassem pra que eles pudessem atuar lá como eles atuaram aqui. funcionário nunca me viu nem sequer sentado na cadeira deles. o que gerava inquietações. que eu tinha por eles um respeito enorme. alterou as demais relações. assim.equipe para “dar suporte técnico” foram algumas de suas ações. Claro que. a aspectos ideológicos. mais impulsivo na demonstração de que eles não [es]tavam agindo corretamente como deveriam. E eles governaram a cidade deles sem nenhuma intervenção minha. desejosa de uma atuação semelhante à de seu marido em Duque de Caxias. noticiadas pela imprensa como comprovação da existência da “Zitolândia”. Narriman era acusada. 184 . produzindo efeitos sobre outros atores e outras possibilidades de alianças eleitoralmente relevantes para alguns projetos políticos de membros do PT. eles não podem dizer que se não fizeram um bom governo. os Cozzolino não tinham desistido de Magé. marca registrada do governo Zito. foi por intervenção minha ou coisa parecida”. inviabilizando uma administração voltada exclusivamente para a realização de obras.

no governo dela. a cidade sofreu com paralisações de servidores municipais. 26/04/2006). Para o primeiro. ela não era reconhecida pelos demais membros do partido como “um deles”: “[Era] um peixe fora d’água no PT. Está bem claro atualmente que o PT não sabe governar. também não fui mais lá” (Zito. Só dão a César o que é de César. em Belford Roxo. estreitou relações com José Genoíno e Gilberto Palmares na tentativa de uma coligação PDT-PT contra a força de Garotinho no estado. Começavam aí os desentendimentos que resultariam na ausência de Zito durante toda a campanha para a reeleição de Narriman176. A cidade continuava com os mesmos problemas de antes e as promessas de que “Waldir é Zito” não se concretizaram. Foi usada sem que lhe dessem retorno político e governamental. Waldir tinha um grande índice de rejeição: em sua gestão. No entanto. Zito já havia desistido da reeleição de seu irmão. Desde o ano anterior. 185 . Freqüentou reuniões em Magé juntamente com sua esposa. Eles usam você” (idem). A eleição municipal de 2004 traria novas surpresas. 176 Em 2003. greves de motoristas de vans e todo tipo de denúncia sobre uso ilícito de dinheiro público. teria levado até Magé muitos recursos através de deputados federais. […] Eles [o PT] têm as cartas marcadas. a filiação de Narriman ao PT foi um equívoco. Isso não foi feito. Pelo contrário. E não souberam ajudá-la para que ela fosse uma prefeita melhor do que foi”.Na avaliação de Zito. Ela já se achava pronta para caminhar sozinha politicamente e eu. não hove conciliação nas negociações em torno do nome para disputar a eleição em Duque de Caxias e Zito acabou escolhendo um nome do próprio partido. “Eu não estive nenhuma vez lá [na reeleição da Narriman] porque nós tivemos alguma divergência política. tanto quanto na de Andréia. de governo. estaduais e feito com que o trabalho dela e de tantos outros prefeitos que eles governam pudesse aparecer. Zito parecia inclinado à adesão ao PT. deixaram ela à deriva. “Se o PT quisesse. já me afastei e na reeleição. então.

no entanto. Que nome seria capaz de substituir Zito? Seu carisma seria transferido ao sucessor? Quem seguiria o seu estilo político? Devido à legislação eleitoral. por conseguinte. fazendo a opção por um candidato que não era o preferido.Em Duque de Caxias. a minha competência na forma de administrar essa cidade” (entrevista com Laury Villar. Laury não era o nome mais indicado para concorrer ao pleito. a sucessão tornou-se uma questão complicada. Diante da impossibilidade da transferência de seu capital político a um dos membros da família. Não que ele não seja 186 . “Eu cheguei ao término [do mandato]. por sua vez. e eu tenho certeza que com o apoio dele. com projeto político próprio. Eu acho que hoje o governo que o Zito fez na nossa cidade resgatando a auto-estima e a cidadania do povo de Duque de Caxias tem sido uma marca muito grande. a bandeira da continuidade desse projeto político e o apoio do Zito. tentava a reeleição e Waldir não havia demonstrado habilidade no exercício do mandato executivo — estando. hoje. e sim o de toda uma cidade e o apoio dele é fundamental. acabou apoiando tal candidatura. em agosto de 2004). Narriman. eu represento o ‘Projeto Zito’. “Eu tenho consciência de que. eu vou poder mostrar a minha capacidade. o projeto que não é mais uma pessoa. e isso. não tenha dúvida. eu tenho certeza que o Laury será prefeito muito mais pelo apoio de tudo aquilo que o Zito fez na nossa cidade. é fundamental. mas diante da hesitação partidária frente às demais opções. Laury Villar — que ingressou no PDT juntamente com Zito — foi o escolhido pelo partido para concorrer à prefeitura de Duque de Caxias. com certeza. Na avaliação de Zito. a alternativa foi escolher entre um dos aliados “de fora”. é a minha bandeira. descartada a possibilidade de manter-se como um dos peões no jogo político de Zito. Sob o lema da continuidade política. aí sim. Andréia não podia disputar a prefeitura como “sucessora natural” de seu pai.

pelo conhecimento político dele. Nesta função. Mudaram-se para Duque de Caxias em 1945. a caneta seria dele então […] não era o nome que eu escolheria. o escolhido foi o Laury já que eu sempre tive por ele uma grande admiração. conseguiu que seu filho fosse nomeado Secretário de Esporte do município. Laury é casado e disputou a primeira eleição em 187 . pela vivência que nós tínhamos. sob o comando de Pelé). Formado em Administração de Empresas e em Direito. né? Sondei um grande amigo meu que foi presidente da Câmara na minha época. que foi vereador comigo. de Madureira (subúrbio carioca). Eu acho que era um grande nome pra cidade. deixaria a vida pública em 1988. eu acho que ele ainda está jovem pra isso”. Depois eu achei que a Secretária de Educação [Roberta Siqueira] seria um grande nome pra ser a minha sucessora. Mas você sabe que o poder é o poder. não é isso. Após cinco mandatos consecutivos. A trajetória de Laury Villar está intimamente relacionada com a de seu pai. no governo do então prefeito José Carlos. Volto a frisar que não seria o meu candidato enquanto prefeito porque ele era vereador — foi meu Presidente da Câmara — mas eu não via ainda uma experiência avantajada para que ele viesse a ser prefeito. e sua mãe. O ingresso de Laury (pai) na vida política daria-se apenas em 1966 (como vereador). não é isso.uma pessoa que não tenha qualidades para exercer o poder e não que eu não tenha confiança e não que eu não gostasse. cujo nome herdou. Muito ligado ao meio esportivo e com um bom trânsito político. na época. Este último era natural de Campos. Mas eu tinha outras idéias. mas não o titular. Então. mas ele resolveu não ser candidato. se tivesse na minha vontade. no noroeste fluminense. pessoal. mesmo que eu tivesse por trás. mas aí teve um problema na vida dela familiar. em 1989. Não que eu perdi a empolgação com ele. né? Eu acho que ele pode até ser um bom vice. Não porque eu vim a perder as eleições com ele. de casamento e tal e isso traria um desgaste enorme na campanha. Laury permaneceu por onze anos — atravessando distintas administrações — sendo responsável pela implantação de projetos de vulto como a Vila Olímpica de Duque de Caxias (através de verba do Ministério do Esporte.

Apoiado pelo prefeito. Apesar de localmente percebido como “homem de bem”. Sua atuação sempre foi mais técnica. Fui eleito por unanimidade” (entrevista com Laury Villar. como mencionado por um de meus entrevistados (Sr. Fui candidato a presidente da Câmara para o biênio 2003 e 2004. 05/04/2004). A associação com a “gente de dinheiro”. Representando o que ele próprio chamou de “projeto Zito”. segundo ele próprio — ao cargo de vereador pelo PSDB. no entanto. concorrendo — a pedido de Zito. ficou entre os dez mais votados no município. “pessoa direita” e de pautar a construção de sua fala e de sua apresentação de si na ética e na responsabilidade — que também parecem ter marcado a vida pública de seu pai — ele não era conhecido por parte significativa da população do município. Grosso modo. diferenciando-se do prefeito de Caxias. e a secretaria que comandava. o discurso de Laury centra-se no tema da continuidade.2000. não podemos dizer que Laury seja um político carismático ou de grande expressão eleitoral.594 votos. 58 anos. eu fiquei 2 anos como líder de governo. Não reunia características que possibilitassem sua associação a Zito ou mesmo a seu discurso. Laury não exercia a mesma “mágica” de Zito. não impedia que Laury fosse também classificado como “gente de bem”. “Estudado” e sempre “bem vestido”. M. A transferência do carisma de Zito. de segundo escalão. lança mão de características como a discrição e o equilíbrio em contraposição à impulsividade de Zito. não seria fácil já que o candidato por ele apoiado era oriundo das camadas médias caxienses. para o qual foi eleito com 4. Sua 188 . “Assumi meu mandato e o prefeito já me deu uma incumbência muito grande que foi ser o líder do Governo na Câmara. sempre enérgico e veemente. bastante vinculado à imagem de “homem do povo”. com seu linguajar simples e trajes “de gente do povo”. evangélico. Na definição que elabora a respeito de si mesmo. morador da Vila Operária).

op. Zito. Washington iniciou sua vida política aos 24 anos. a eles destinando o período da manhã — momento em que deixava a cargo da filha.. Em 1994. A participação de Zito na campanha de Laury à prefeitura foi intensamente criticada. de dedicação. em Duque de Caxias. já pelo PMDB — seu atual partido — foi reeleito com 64. Andréia. a rotina de campanha. op. opostas): maximização do tempo e /ou estratégia de campanha ou. O principal adversário de Laury Villar na eleição de Caxias foi o deputado estadual Washington Reis (PMDB). Durante o período eleitoral. descrédito ou mesmo demonstração de descontentamento pela escolha de Laury. empresário e membro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. cit. ligados a vereadores e membros de suas famílias. sendo eleito o deputado mais jovem da casa. Queiroz. falta de cuidado. com 2. O prefeito em exercício costumava privilegiar o horário noturno para a promoção de seu sucessor e eventos de maior repercussão. op. ligando-se também a projetos esportivos e culturais. Zito não compareceu a alguns dos eventos dos quais participei em 189 . Na eleição municipal seguinte (1996). afastava-se da lógica da política dos vereadores (Leal. Soares.atuação como vereador pautava-se na “fiscalização e execução do orçamento municipal”. sob a alegação de que a ela não estaria dedicando-se a contento. cit.. compôs a chapa como vice-prefeito de Zito. Casado. aos 28 anos de idade. em 1992. foi reeleito deputado estadual após desentender-se com o prefeito e deixar o cargo de vice. elegendo-se vereador por Duque de Caxias (PSC). até mesmo. idem) — exemplificada na Baixada pela atuação de centros assistenciais dos mais diferentes tipos. concorreu à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. não se afastou dos trabalhos da prefeitura. cit. Lopez. por outro lado. cit.) e da constituição da prática política a partir do trabalho social (Lopez. de fato. Em 1998.788 votos. Nesse sentido.194 votos. fato ao qual caberiam interpretações distintas (ou. Em 2002. “em fazer as leis”. op.

em setembro. entre o eleitorado evangélico (que somou 32. A princípio. Washington liderava com 47. no dia 21 de setembro. tornava-se cada vez mais acirrada e a entrada em cena da propaganda televisionada significou um capítulo à parte na corrida eleitoral. foram fundamentais para a reviravolta nas intenções de voto. Segundo a mesma pesquisa. com 42% das intenções de voto e Laury Villar. p. 190 . 5% para Dica (PFL) e 3.1% para Washington Reis (PMDB). sem dúvida. 178 Ver. contra 33. manifestando publicamente seu apoio a Washington Reis. Transmitido pela emissora de TV CNT. No final do mesmo mês. além do uso da máquina do governo do estado.11 da mesma seção em matéria na qual Washington Reis (PMDB) aparecia com 47% e Laury Villar (PDT) com 39% das intenções de voto. e de 03/10/2006. o HGPE dos candidatos ao pleito municipal de Duque de Caxias redimensionou o cenário político local. A vinculação ao nome de Zito 177 Pesquisa realizada pelo GPP com 600 pessoas. O Globo de 29/09/2004. A participação de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus. por exemplo. com 35% (PDT)178. No primeiro momento da campanha.4%. no entanto. A pesquisa foi registrada no TRE de Duque de Caxias sob o nº 086/04. apesar de sua presença amplamente propagandeada.5 da seção “O País”. Zito parecia acreditar que seu nome por si só já seria suficiente para promover a candidatura do sucessor. A disputa.8% para Alexandre Cardoso (PSB)177. p. os índices favoreciam o candidato do PDT — com 41. Tais anúncios. faziam parte de uma estratégia de marketing para cooptar o maior número de pessoas para tais atividades — sua ausência sendo lida como descaso e abandono e deslegitimando o apoio alardeado em panfletos e propagandas políticas.1% da amostra).6% de Laury Vilar. a disputa seguia acirrada e os jornais anunciavam empate técnico entre os dois primeiros colocados: Washington Reis (PMDB).7% das intenções de voto contra 37.Caxias.

191 . Este tema voltará a ser abordado mais detidamente no capítulo 5. O primeiro turno acabou com vantagem de Washington Reis.não conseguiu fazer frente à distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII e pelos centros assistenciais do candidato do PMDB em Caxias. sem dúvida. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. O PDT não favoreceu a ampliação de capital político de Laury e o apoio da executiva nacional do partido ao PMDB. que.2% dos votos válidos contra 41.6% de Laury Villar (TRE/RJ). deixou seu candidato em situação complicada. inconcebível seu apoio ao candidato de Zito. sendo. portanto. as matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo. A aliança de maior peso foi. Apesar do apoio de César Maia (PFL) ao candidato do PDT. No fim de setembro. As negociações para as alianças no segundo turno começaram antes mesmo do resultado de 3 de outubro. no dia 8 de outubro. adversário de Garotinho. o candidato pefelista. a costurada com César Maia. Dica. no segundo turno das eleições. A mesma tática utilizada na campanha em Nova Iguaçu era implementada nos demais municípios da Baixada e em outros do estado do Rio de Janeiro: entremear o discurso religioso com as ameaças de corte de verbas estaduais aos municípios que elegessem os adversários da rede política de Garotinho179. alegando ser um adversário de longa data do prefeito caxiense. O prefeito reeleito do Rio visitou Duque de Caxias diversas vezes nas últimas semanas antes da eleição — o PT demonstrando seu apoio por intermédio das visitas da ex-governadora Benedita da Silva e de gravações para a propaganda televisiva das quais participaram seus principais líderes 179 Ver. todo o arsenal do PMDB voltou-se contra o candidato do PDT. totalizando 45. por exemplo. também aliou-se a Washington Reis (PMDB). recebeu Laury e Sandro Matos (candidato do PTB à prefeitura de São João de Meriti) no Palácio da Cidade para formalizar seu apoio e marcar as gravações dos programas eleitorais.

comentou Laury.O povo de Caxias abraçou nossa campanha. conseguiu com Duque de Caxias uma das vitórias político-eleitorais mais importantes do estado. Na queda de braço com Garotinho.nacionais. que tem o apoio do atual prefeito. que representa o grupo político do exgovernador Anthony Garotinho. no segundo turno das eleições) participou de algumas caminhadas com Zito e o candidato Laury. José Camilo Zito. ambos interessados em derrotar o grupo político de Garotinho com vistas às eleições de 2006. Outra importante aliança foi com o pastor da Assembléia. havia outdoors e bandeiras dos dois candidatos — Washington Reis (PMDB) e Laury Villar (PDT). 192 . Em matéria intitulada “Caxias tem guerra de caciques”. dentre as muitas derrotas sofridas nas eleições municipais de 2004. Por toda a cidade. como os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Humberto Costa (Saúde). os dois candidatos optaram por seguir em carreatas e demonstraram confiança. Washington Reis. Washington Reis aparecia na pesquisa Ibope com 46% das intenções de voto. Tenho certeza de que o eleitor vai saber reconhecer quem é o melhor . Ontem. venceu este último que. . após rompimento com o grupo político do ex-governador Garotinho (e apoiando também o candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT. Duque de Caxias era o retrato da eleição não decidida. isso vai se refletir nas urnas. o Jornal do Brasil de 31 de outubro dava o tom da disputa no segundo turno daquela cidade: Na véspera do 2º turno. ressaltou a importância da aliança com o governo estadual. Manoel Ferreira (PP) que. Laury Villar — este com o apoio do PT e do PFL de César Maia. Lindberg Farias.O povo deixou bem claro que quer mudanças. Os últimos dias da campanha já apontavam uma certa vantagem do candidato do PMDB. . apesar da situação ser apontada como empate técnico. contra 43% do adversário.

nós entregamos com 68 milhões de reais/ mês. Porque eu via sempre nele uma sede enorme de poder. na vida pessoal e isso faz com que os políticos não cresça[m]. Uma cidade que hoje eu vejo falar em empréstimo no BNDES. né? Uma cidade que eu deixei sem débito nenhum — quando eu peguei o município. né? Não a riqueza política. cada vez mais convicto que acertei em não fazê-lo o meu sucessor ou o meu candidato a meu sucessor. Uma situação de uma série de problemas que estão aparecendo e que vão aparecer e que eu prefiro não ser aqui o denunciante porque a imprensa e os órgãos responsáveis certamente irão trazê-los no momento certo. com o professor mais bem remunerado de todo o estado do Rio de Janeiro — ganhava cinco salários mínimos. eu não via nele um grande sucessor pra vir a me suceder e ser um grande prefeito. não serei eu […] o autor disso aí. Uma cidade que eu vejo muita bravata. Zito. não venham a evoluir […] isso eu sentia no meu coração. será que não houve falha da tua parte? Porque o Washington poderia estar com você até hoje. Então. que não seria o nome que eu poderia trazer e dar a responsabilidade da minha sucessão.“Muitos me perguntam assim: ‘Mas. Com as derrotas amargadas pela rede política de Zito. e ele acabou com isso. Então. mas a riqueza na vida particular. uma cidade que eu vejo falar com tanta parceria com o estado. tentando viabilizar uma eleição do candidato do partido dele [Anthony Garotinho]. ser o seu candidato. seu sucessor haja visto que ele foi o vitorioso nas eleições e tal’. ele nunca seria um nome escolhido por mim.397 de Narriman) e Maria Lúcia voltava à 193 . foi com 12 milhões de reais. Não porque eu quisesse continuar comandando o município. Uma cidade que entregamos com 100 mil alunos e que pegamos com 30 mil alunos. com certa experiência no campo legislativo. muitas promessas que foram trazidas na época de eleição e que não […] que eu tinha certeza que não teria condição de fazer. Uma cidade que entregamos nas mãos dele. até porque não me sinto feliz com isso. Já que eu percebia a vontade de riqueza. mas não como executivo. Mas isso vem a fortalecer a minha visão da época em que eu achava que ele não deveria ser o meu sucessor”. mas sim imaginando que a cidade não teria essa continuação desse desenvolvimento e ele tá mostrando aí. Núbia Cozzolino conseguiu ser eleita em Magé (com 46. a renda mensal. no piso inicial.699 votos contra apenas 31. por isso. inteligente. Sempre vi nele um político trabalhador. Eu confesso que estou consciente. não evolua[m].

Como eu fui. Se perguntar se eu faria isso de novo eu vou dizer que não faria.tinham uma vontade. Falta de experiência e visão. a sua eficácia. como eu acho que todo mundo deve fazer. É o ABC da política […] Tem que começar pelo primeiro degrau. eu jamais faria isso” (Grifos meus). cada um tem seu lado forte. Hoje.. como outras na Baixada.hoje eu vejo. uma vontade minha fazê-los políticos.. pela vontade própria e por interesses de amigos que moram em Belford Roxo que tinham assim. concretizada com o convite e a criação de uma secretaria para Zito. mas tá cada vez mais comprovado que cada pessoa é uma pessoa. 06/11/2004. Mas não é a mesma coisa. não sendo considerada “estratégica”. 180 194 . as matérias publicadas nos seguintes jornais: Jornal do Brasil. o seu conhecimento. Não foi uma criação minha. interesse pessoal na ida dele pra lá e a Narriman. a não ser que tenha uma passagem pelo legislativo... Zito estava Ver. Nós não somos iguais. Narriman não apenas não havia conseguido se reeleger. Ele — acho eu — dificilmente retornará à vida pública em qualquer cargo eletivo. os jornais anunciaram amplamente que Zito havia perdido o posto de “rei da Baixada”180. em Magé. 04/11/2004. então. de forma alguma desistira de seu projeto político. À frente da Secretaria de Relações Institucionais. eles começaram pelo terceiro degrau. Começar como vereador. como ficara com o segundo lugar com uma diferença considerável de votos. Ele. por exemplo. E as pessoas ficaram frustradas em não ter tido a sorte de que eles pudessem fazer com que o sonho deles virasse uma realidade. 06/11/2004 e O Globo. O Waldir. E não farei isso mais porque as pessoas que votaram no Waldir e na Narriman votaram pelo Zito e achavam que eles pudessem fazer o mesmo que eu fiz em Duque de Caxias. O Dia. no entanto. “Foi um grande erro político meu. do mesmo jeito.prefeitura de Belford Roxo. Tanto que eu pedi ao Waldir que não se candidatasse e ele foi […] ele respeitosamente aceitou o meu pedido e não se candidatou. né? […] Confesso a você que não foi de minha vontade e isso mostrou a minha força política — que eu elegi os dois — mas também serviu de desgaste político enorme pra mim e de problemas com vários políticos. Na ocasião. Sua campanha não contou com o apoio esperado do partido. A aproximação com César Maia foi.

incumbido de conseguir apoio onde o prefeito carioca não gozava de grande prestígio: na Baixada. Andréia configurou uma peça-chave para a retomada de Zito à vida pública. a deputada estadual Andréia Zito. destaca-se na operação de retomada de sua trajetória política. Foi preciso muita conversa. Em seguida. O Marcello diz que foi por minha causa que meu pai voltou. depois da derrota em Caxias e dos desgastes com o PSDB. e depois com o próprio PDT. o retorno ao PSDB marca a retomada do projeto inicial de Zito. Mas foi mais como filha. A gente conversa muito. uma vez que se cogitava seu possível ingresso no PFL de César Maia. nesse momento. acabou provocando um certo mal-estar. Se este último desejava continuar no cenário político. Heleno. por sua vez. O lugar dele é no PSDB” (Andréia Zito. foi mais com o coração que eu falei com ele do que como deputada. 195 . Sendo assim. E eu falei pra ele que achei um erro ele ter saído do partido. mantendo seus acessos e reconhecimento como mediador legítimo. O seu retorno ao partido. Washington Reis — sua filha. poderia significar votos em uma região tradicionalmente resistente a seu discurso. Nesse momento — não mais contando com a aliança com o antigo aliado político. O projeto político de César Maia era coincidente. Dr. somado ao de Lindberg Farias na prefeitura de Nova Iguaçu. no início deste ano. 26/04/2006). ao de Zito. agora no PP e aliado do atual prefeito de Caxias. Mais do que apoio para a volta ao PSDB. Eu o convenci a retornar ao PSDB. em setembro de 2005. não podia dispensar seu capital político que. Zito teria inclusive desistido de cargos políticos no ano de 2005. Segundo Andréia. Zito deixou o cargo que ocupava na Prefeitura do Rio de Janeiro a convite do prefeito para dedicar-se à campanha de 2006. César. “Meu pai havia desistido.

porque é muito importante pra mim. com pequenos grupos para conseguir apoio e mostrar o que pretendemos. As articulações nesse momento giram em torno dessas duas candidaturas que. eu quero voltar a ser deputado estadual por dois anos. me deixou. para que fosse vice. fazendo o fechamento do PSDB com outros partidos. Enfim. podem significar maior proximidade do objetivo final de Zito: o governo do estado em 2010. Mas eu quis e quero reiniciar minha vida pública no cargo de deputado estadual. Heleno — que sempre foi o meu federal — acompanhou também o Washington. nós batemos na trave. se concretizadas. Fazemos reuniões em casa de família. na sua reeleição e com algumas outras lideranças que por ventura venham a surgir. Heleno. em 2008. Zito optou por candidatar-se a deputado estadual nas próximas eleições e tentar fazer de sua filha uma aliada na Câmara dos Deputados — posição até então ocupada por Dr. Nós trabalhamos assim” (Andréia. as verbas federais. Por que? Porque eu vou ficar mais próximo às bases no meu estado. porque eu quero voltar a ser prefeito e fazer um grande trabalho. Então. eu pedi que a Andréia fosse candidata a federal e eu a estadual para que eu venha a recomeçar o meu trabalho não só aqui em Duque de Caxias. A campanha de rua é o nosso forte. Os convites aconteceram para que eu fosse candidato a governador do meu partido. E pretendo fazer a Andréia nossa deputada federal. eu quero fazer um trabalho enquanto deputado estadual que venha a abranger todo o estado do Rio de Janeiro. nós estamos indo de casa em casa. “Nas eleições em Caxias. pra que os projetos federais. Eu quero poder ajudar os prefeitos em outras cidades. porque o Dr. as emendas venham e pra que eu possa ajudá-la e que ela me tenha como guia para que esses recursos possam chegar nas 196 .Para viabilizar seu retorno e seu projeto político de retomar a administração de Duque de Caxias. 26/04/2006). “Agora. em 2010 me credenciar de novo a ser candidato a governador. Esse é o meu caminho. para que fosse senador. Mas minha credibilidade política cresceu. A minha filha que tem dois mandatos de deputada estadual […] houve uma lacuna nessa nossa caminhada. a minha pretensão política e eu vou trabalhar para que eu tenha uma votação expressiva em todo o estado do Rio de Janeiro e não só em Duque de Caxias. Por isso.

cidades onde nós certamente iremos trabalhar” (Zito. a ex-prefeita teria sido convidada a disputar as próximas eleições como candidata do partido à Assembléia Legislativa. contrariando os interesses políticos do marido que afirmar que ele deveria sair da política181. Apesar do discurso de que “há um exército [de aliados] atrás de mim”. O retorno ao PSDB. 197 . entre outros — são nomes de ocasião. implicou no afastamento de César Maia — a relação de proximidade com Lindberg e o PT sendo imprevisível. mas durante a entrevista Zito não usava aliança. Os jornais parecem concluir que a união do casal não durará muito. indo para o lado adversário. o abandonou. As diversas falas aqui apresentadas permitem-nos apreender a multiplicidade de interesses em jogo e as formas pelas quais as práticas políticas são operacionalizadas. Heleno. ou seja. 181 O Dia. por exemplo. Laury Villar. segundo ele ainda estariam juntos. já que. Não foi objetivo desta tese classificar ou mesmo rotular este ou aquele político de assistencialista. mencionou apenas dois: sua filha Andréia e o candidato derrotado nas eleições municipais de Duque de Caxias. Dr. 26/11/2004. Em relação a Narriman. Quando perguntado sobre seus aliados políticos no momento. Seu mais antigo aliado político. 26/04/2006). Os demais políticos com quem mais recentemente manteve estreitas ligações — César Maia. Todo o desgaste oriundo da insistência em levar a cabo o projeto de candidatar-se a governador acabou lhe rendendo um grande ônus político. acertos políticos momentâneos e instáveis. Lindberg Farias. apesar de seu prestígio pessoal em Caxias estar aparentemente intacto. Zito parece relativamente isolado. ainda filiada ao PT.

Weffort (1980). sobre os partidos políticos no Brasil. Nesse sentido. obter êxito. cit). Grosso modo. Por outro lado. cit. a preocupação em tampouco diluir ou mesmo suprimir a pecha de populista ou assistencialista remete à percepção de que as relações em questão estão sempre envoltas em tipologias e classificações (nativas ou não) associadas a julgamentos de valor. são novamente acionados quando nos depararmos com o insucesso de Zito na efetivação de 182 183 Leal (op. 198 . podemos relacionar os projetos em jogo. op. nem mesmo de benfeitor. Assim. foi demonstrada através da tentativa mal-sucedida de imposição de sua vontade e projeto a outras lideranças. herói. assim. os campos de possibilidades dos atores e sua capacidade de mediação (Velho. Nunes (1997).. as disputas internas ao próprio partido – a luta entre “os mais iguais entre os iguais” (Heredia. cit. no período pós-1985. messias ou salvador183. independentemente de seu carisma pessoal. o papel e a influência dos partidos — apesar do “sentimento de inferioridade” com relação a estes últimos184 — mesmo que minimizados em trajetórias como a aqui abordada.cit. Harris (1978) e Girardet (1987). Velho e Kuschnir. particularmente. 184 A expressão entre aspas é de Jairo Nicolau (1996) quefaz uma análise sobre o sistema político e.) – ou mesmo o desgaste nas relações familiares (com Narriman e Waldir) puderam ser entendidos em relação às estratégias individuais e às mudanças por que passaram os projetos políticos dos atores em questão. op.). Ao traçar as possíveis relações entre os discursos sobre ou para uma determinada pessoa e ressaltar a polifonia existente na constituição dos processos de identificação sociais vinculados às práticas políticas e eleitorais.populista ou clientelista182. a análise da trajetória de Zito permitiu-nos expor com minúcia as estratégias e os obstáculos enfrentados para a concretização de seu projeto pessoal — e em que medida tal projeto podia associar-se a outros e. A incapacidade de manter-se como mediador político (mesmo que temporariamente). op.

não foi capaz de garantir a concretização de suas intenções. Testando o seu carisma pessoal e sua capacidade de mediação política. por si só. seu carisma. Novamente. tampouco de lhe assegurar a prefeitura de Duque de Caxias como base para projetos futuros. sua vitória ou derrota para a ALERJ — e a de sua filha para a Câmara de Deputados — definirá os destinos políticos de sua família.seu projeto de candidatar-se ao governo do estado. 199 . Zito enfrentará sua prova de fogo nas eleições de 2006. Aparentemente isolado politicamente.

documentos de partidos políticos e material obtido por meio de pesquisa em sítios eletrônicos diversos. de entrevistas com alguns assessores e pessoas ligadas à sua campanha. Esta apresentação visa refletir a respeito da multiplicidade em termos representativos e expressivos.. afirmou Lindberg Farias (Jornal do Brasil. trabalhei com fontes documentais sobre sua vida política — fundamentalmente com o Dicionário Histórico e Biográfico Brasileiro (Abreu et al.CAPÍTULO 4: LINDBERG: DO MUNDO PARA A BAIXADA O Brasil está olhando para esta eleição em Nova Iguaçu. Fiz observação participante. acionados durante a campanha eleitoral para o pleito municipal de Nova Iguaçu. Sendo assim. devido à inexistência de uma biografia até o momento — além de matérias de jornais de âmbito nacional e regional. como ponto de partida. Neste capítulo abordarei a trajetória de Lindberg Farias. Utilizei-me. 2001). seus atores e processos de identificação nelas envolvidos. 04/10/2004). em 2004. acompanhando o cotidiano de sua campanha pelo maior tempo 200 . a última selecionada para pensarmos a Baixada como o resultado da multiplicidade de práticas políticas locais. novos) discursos (e projetos – individuais e coletivos) sobre a região e o próprio fazer político. não realizei uma entrevista formal. Embora tenha conversado com Lindberg. expondo os diferentes (e em alguns casos. Conforme demonstrarei no decorrer do capítulo. meu acesso ao candidato petista não foi imediato. ainda. tampouco sem esforços.

na reconfiguração das relações de poder locais.679 hab. Miguel Couto (50. Cabuçu (76. Nova Iguaçu transformou-se no cenário 185 Os candidatos à prefeitura de Nova Iguaçu.). Durante o trabalho de campo. Nova Iguaçu sempre teve um papel crucial na Baixada Fluminense — até a década de 1980. 750. Nova Iguaçu pertence à Região Metropolitana do Rio de Janeiro e constitui um dos núcleos do lugar Baixada Fluminense. De acordo com o IBGE. A trajetória de Zito.487 habitantes. Austin (96.).614 hab. Nesse sentido. Nova Iguaçu contava com a terceira maior população do Estado do Rio de Janeiro (817. 186 Ver capítulo sobre a(s) Baixada(s) e seus municípios. constituía uma das cidades mais importantes política e economicamente dentro da região.328 hab. com 830. 201 .035 hab. em 2004.). Fernando Gonçalves (PTB). a cidade possuía. caminhadas. trazendo à tona a complexidade do fazer político numa arena ampliada para além das fronteiras fluminenses e de seus “caciques”.). conversei também com moradores dos mais diversos bairros da cidade em circunstâncias variadas e participei de eventos — showmícios. disputando a hegemonia política regional somente com Duque de Caxias.). ao lado de Duque de Caxias (a segunda no ranking. em 2004. abordada no capítulo anterior. Comendador Soares (108.). foram: Lindberg Farias (PT). ilustra exemplarmente o processo que culminará. carreatas e encontros — dos três principais candidatos à Prefeitura de Nova Iguaçu185.).). Segundo as estimativas deste mesmo órgão.350 hab. distribuídos por nove unidades regionais (URGs): Centro (175. Posse (117.) e Tinguá (13.562 hab.872 hab. Carlão (PSTU) e Zé Renato (PCB).199 hab.possível.834 hab. em 2004.). Vila de Cava (63. Km 32 (57. Mário Marques (PMDB). cada vez mais dinâmicas e fluidas. em 2002.117 habitantes) e. Conforme tratado em capítulo anterior186.467 hab. bem como a dos demais atores políticos aqui apresentados.

em seguida tornou-se Secretário de Segurança do estado. devido à verticalização.423 votos. tendo como vice. secretário de governo de sua esposa. Até o momento da revisão final desta tese. Apesar de ter sido o candidato mais votado da cidade.30% do total dos votos válidos. Em 1998. as redes políticas que atuam na Baixada polarizaram o campo político (pensado em termos de lutas entre concorrentes pelo poder político na cidade e na região como um todo188). Gazeta Mercantil. em segundo turno. Em 1988. em 2002. entre 1993 e 1994. mas não teve sucesso. Em 1986. de “tirá-lo do campo” maculando sua imagem de homem público. Rosinha Matheus e seu marido. fundamentalmente. contra os 1. ambos do PMDB) e o governo federal (o presidente Lula e o PT). Garotinho foi eleito para a prefeitura de Campos. Foi Secretário de Agricultura do estado do Rio de Janeiro. obteve 4. para a Câmara dos Vereadores. totalizando 24. Bourdieu.101. As disputas internas ao partido e interesses em possíveis coligações impediram que o projeto de Garotinho se concretizasse. No pleito em questão. em seu primeiro mandato eletivo. candidatou-se à prefeitura de Campos. elegeu-se para a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Estado de São Paulo. 1989: 163-164. 188 Ver. assim. do PT. 2004:60). Elegeuse. Marcello Alencar. A cobertura da imprensa nacionalizou as campanhas locais e transformou a cidade no palco da guerra política entre o casal Garotinho (a governadora do Rio de Janeiro. em segundo turno. o exgovernador e ex-secretário de segurança do estado. tendo sido derrotado. Rosinha Matheus. Folha de São Paulo. quanto por alguns jornais de caráter mais abrangente (O Globo. Estado de Minas. entre outros). ainda pelo PDT. pelo candidato do PSDB. com 58% dos votos válidos para o mandato de 1999 a 2003.de uma das eleições mais noticiadas daquele ano — tanto pela imprensa escrita carioca. os holofotes para a Baixada Fluminense187. pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). 187 202 . fazendo greve de fome como protesto ao que chamou de tentativa de “derrubá-lo”. Em 1996.954. Ele foi alvo de diversas denúncias de mal uso do dinheiro público feitas pelo jornal O Globo. representando 51. do Partido dos Trabalhadores (PT). redirecionando. as coligações para o cargo de Presidente implica no respeito a tais coligações também nas esferas estaduais para a eleição de Governadores. onde disputou sua primeira eleição (em 1982. em torno de dois candidatos principais: Mário Anthony Garotinho nasceu em Campos.45% do total da votação (Dados do TSE). Benedita da Silva. na gestão do então governador Leonel Brizola. o PMDB ainda não havia tomado qualquer decisão sobre possíveis coligações e. O casal é evangélico. Foi. membro da Igreja Assembléia de Deus (Barreto. Tais eleições acarretaram uma visibilidade política inédita para a região. Já Rosinha Matheus é Governadora do Rio de Janeiro. não conseguiu eleger-se porque seu partido não atingiu o coeficiente eleitoral mínimo. deixou o cargo para lançar-se novamente candidato do PDT ao governo do estado do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano foi candidato ao governo do estado pelo PDT. Anthony Garotinho. No ano de 2006 tentou lançar-se pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB. a este respeito.379 votos de Benedita da Silva. pelo PT).

no entanto. Faz-se necessário. Foi reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. foi Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. PFL. PSDB. participando. foi o 3º mais votado do município. tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. como relator. obtendo a 5ª suplência. PHS. De 1999 a 2000.772 votos. Em 1970. Reeleito pela quarta vez em 1982. já pelo PPB. conforme retratado por Silvia Ramos e Anabela 189 203 . com 3. PSB e PC do B). com implicações para as eleições futuras (de 2006). por constituir o primeiro passo em direção a um projeto político coletivo do PT para o Rio de Janeiro. 190 Tais “imagens” não desapareceram por completo. em 1996. entre 1967 e 1970. sobretudo. de 1967 a 1968.024 votos. Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS) em 1981. com 2. PSC. PRP.615 votos — sendo o 1º da coligação PTR/ PST. candidatou-se à Câmara dos Deputados pela legenda do PTR. Em 1976. reelegeu-se vereador pela terceira vez (ARENA). com um total de 4. reelegeu-se vereador. em muitos anos. Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. mas também do país de forma mais ampla — mas. não abordarei a campanha de Mário Marques. escolhido para disputar a eleição na cidade pela coligação “Hora da Mudança” (PT. foram minimizadas em relação às demais regiões do estado e. Nova Iguaçu e a Baixada. PSL. PMN. PRONA e PT do B) — e. PTN. da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. com 3. PSDC. ao município do Rio de Janeiro. momento em que atuou também como relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu (em 1988 e 1990).761 votos.397 votos e reeleito. composta por 16 partidos (PP. após 30 anos de mandatos legislativos. PRTB. PPS. eram alçadas a manchetes nacionais sem remissão direta (ou exclusiva) à violência. Em 1988. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. Em 1990. Advogado. do outro lado. Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. pelo mesmo partido. Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) ainda pelo mesmo partido. e Secretário de Administração da Prefeitura. no qual permaneceu até 1990. criminalidade ou pobreza da região190. Neste trabalho. Pela primeira vez. obtendo 1. A opção pela análise da trajetória de Lindberg deveu-se não somente à novidade representada por sua candidatura — em termos do lugar que a Baixada (via Nova Iguaçu) passaria a ocupar na política do estado. principalmente. em duas legislaturas (1970/ 1972/ 1976). posteriormente eleito 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. PL.180 votos.025 votos. com 4.882 votos. PDT. Aos 63 anos. um breve resumo de sua biografia. foi eleito vereador em seu primeiro mandato (pela ARENA). PV. o paraibano Lindberg Farias. em 1972. foi Juiz de Paz da Comarca de mesmo nome. PMDB. de forma mais ampla. com 1. tendo assumido o cargo em 2002. do PMDB — através da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. ainda pelo PDS.Marques189. obtendo 2.

assim como no relatório Impunidade na Baixada Fluminense. à influência paterna —seu pai tendo sido ex-militante da Ação Popular (AP) e vice-presidente da UNE. a prefeita de São Paulo. O “encontro” com a política também deveu-se. Filho da professora Ana Maria Nóbrega Farias e do médico Luís Lindbergh Farias. Luiza Erundina. começou a vida adulta trilhando o caminho do pai — ao optar pelo curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. No ano seguinte. o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba. em cerimônia na USP na qual estiveram presentes o então presidente do PT.” Lindberg Farias. no palanque. levá-lo em outra direção. João Amazonas191. o presidente da CUT. realizado pelo CESeC. como secretário-geral.Destinos e Projetos “Eu vim pra cá pra mudar Nova Iguaçu. em 1961. 191 Jornal do Brasil de 16/07/1992. tornou-se secretário-geral da UNE (União Nacional dos Estudantes) e. Luís Lindbergh Farias Filho nasceu em João Pessoa (PB). em 8 de dezembro de 1969. Enio Candotti. foi eleito presidente. durante a sua campanha em 2004. Paiva no relatório completo. organizados em conjunto por diversas entidades e centros de pesquisa (2005). Lindbergh filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). entretanto. Jair Meneguelli. integrou. Sua inserção na vida política universitária iria. 204 . Luiz Inácio Lula da Silva. no qual permaneceu por dois anos. e o presidente do PC do B. o presidente da SBPC. Em 1991. de certa forma. Em 1988. em maio de 1992. Porque Nova Iguaçu é só o começo.

publica uma entrevista feita com ele sobre as manifestações estudantis. a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Mas não queremos apenas os jovens. temos um objetivo muito claro: unir toda a juventude que está indignada com os rumos que o país está tomando. Se os simpatizantes do PFL que defendem o impeachment quiserem participar. 205 .Meses depois. a década de 1960 e a luta armada. referindo-se a Lindberg como “o novo herói”. juntamente com outras entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). também chamado Luís. o jornal Folha de São Paulo.. 20/08/1992). ótimo. de modo em geral). exigindo o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (PRN) 193. a UNE. 193 Nesse mesmo ano. Maria Antônia e Lindberg se separaram e permaneceram assim até meses antes da eleição de 2004. os que são contra a corrupção. partindo da Candelária. A partir de agosto daquele ano. Cuba. quando reataram o casamento. 2001)192. Serão muito bem recebidos” (O Globo. sua companheira e mãe de seu filho. “Na passeata de sexta-feira às 10h30m. A resposta negativa enfatizava os planos de “acabar os estudos”.] Vamos unir todos que são contra a impunidade. Lindberg conheceu Maria Antônia Goulart durante uma das passeatas. Lindbergh se transformaria em um dos principais líderes do movimento dos “cara-pintadas” (DHBB. que naturalmente estão participando [. No dia 31 daquele mesmo mês. Não interessa por que partido têm simpatia. a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). terminando com a seguinte pergunta: “Você pretende seguir carreira política?”. organizou diversas manifestações públicas estudantis (e de cidadãos. os que defendem o impeachment do presidente Collor.. 192 É importante destacar que a própria grafia de seu nome foi alterada. suprimindo o H ao final e tornando-se conhecido apenas como Lindberg Farias. formar-se em Direito e trabalhar pela causa “dos trabalhadores e camponeses”.

5 milhão de estudantes universitários. que hoje comanda a maioria das entidades estudantis do país. Lindberg tornou-se um interlocutor privilegiado com o governo federal — na ocasião. [. No ano seguinte (1993). o partido responde pelo nome de Viração. agita a moçada. fazer política” (Jornal do Brasil. sem dúvida. op.. Foi eleito por mais da metade dos votos dos representantes dos 1. O mais famoso dos “cara-pintadas” tornara-se importante e disputado politicamente. a revista Veja ressaltava alguns dos atributos de Lindberg. liderando os estudantes a favor do impeachment. “De fala arrastada e jeito sedutor. Lindo. cit.Apesar de não assumir qualquer intenção de ingressar na vida pública. desde o impeachment de Collor. provoca paixões e distribui autógrafos. Em matéria publicada em 5 de maio de 1993. mudar-se para o Rio de Janeiro e “com certeza. outro jornal — o Jornal do Brasil — afirmava que o sonho de Lindberg era diplomar-se.] No movimento estudantil. A conquista de um cargo eletivo. O ano de 1993 foi de muitas conversas e de articulação política. ele esteve à frente das manifestações estudantis contra o aumento das mensalidades e participou ativamente do Movimento pela Ética na Política (DHBB. Através da visibilidade nacional alcançada com o “Movimento pela Ética”. a ele referindo-se como o “astro do impeachment”. que tem sete deputados e nenhum senador no congresso”.). 13/09/1992). suas palavras finais acabaram sendo um presságio: “Eu sempre vou querer estar no olho do furacão”194. É também a esperança do PC do B. Lindberg é a estrela da chapa. já figurava entre seus interesses. constituindo um projeto pessoal.. o bonitão modelo anos 60 que se tornou o muso dos cara-pintadas. 194 Poucos dias após essa entrevista à Folha de São Paulo. 206 . já sob o comando de Itamar Franco (PSDB/MG) — a despeito das críticas de seu partido a esta administração.

muito ligada à educação. assim.) de Lindberg foi vitorioso: ele conseguiu eleger-se o deputado federal mais votado de seu partido (PC do B). 1997. 195 O tema em questão é abordado por inúmeros pesquisadores — historiadores (Beloch. Em setembro de 1997. harmoniosamente com o tipo de Estado constituído na América Latina e. influência de Mauss na re-significação operada por Kuschnir. com 57.cit.544 votos — pela Frente Brasil Popular (PC do B. É interessante perceber como a lógica dos partidos é correlata à lógica da dádiva. 2000. sendo a primeira possível graças a um sistema multipartidário que qualifica como atendimento. o projeto individual (Velho. mas com o objetivo comum de tentar entender o sentido e as formas de operação da política e da democracia no Brasil. que pretendia fazer uma análise da saída de Lindberg do PC do B. Viegas. a prática da “ciranda das siglas” adotada por muitos políticos convive. Soares. veiculada pelo jornal da Liga Bolchevique Internacionalista. op. No processo da dinâmica eleitoral. para pensar a operacionalização de um sistema partidário fragmentado — como no caso brasileiro — e a dinâmica dos números196. A lógica dos partidos pode ser acionada de diversas maneiras195: do ponto de vista do político que participa de uma “ciranda de siglas” com o objetivo de eleger-se. filiando-se ao PSTU. no contexto da disputa eleitoral — como no caso da matéria. são tratados sob o prisma da quantificação. 1982). particularmente. 1999. 1996. antropólogos (Palmeira e Goldman (orgs. deixando de lado o caráter expressivo — de seu sentido e de sua dimensão de valor. Sento-Sé. Mainwaring. como crítica à perda do caráter ideológico dos partidos ou. a mediação operada pelo ator político. Kuschnir. a posição sustentada pela UNE — e à abolição do monopólio estatal das telecomunicações e do petróleo. Lindberg desligou-se do PC do B. 196 O que denomino dinâmica dos números refere-se essencialmente à expressão numérica e percentual da representação política. 1986.). os votos. Em 1994. 207 . o Jornal do Brasil anunciava uma possível aproximação com Brizola que. na maioria dos casos. Santos. PSB. de fato. 2001). cientistas políticos (Schmitt e Araújo.Em 15 de agosto de 1993. Sarmento. no entanto. Dessa forma. 2001. 1999. sociólogos (Diniz. PV e PSTU) — com um discurso voltado para a área da educação. Bezerra. 2001). para o movimento estudantil e contra a corrupção. não se concretizou. Borges. no Brasil. pensados como números. como denúncia. Sua atuação durante este primeiro mandato eletivo esteve. 1999. 1997. ainda. 2003) — com ênfases diversificadas. com uma postura crítica ao “provão” — apoiando. PT.

ou “O desbunde do carapintada: o deputado Lindberg Farias troca a cartilha do PC do B pelo trotskismo do PSTU e é vítima de insinuações no Congresso” (Revista Isto é. Jandira Fegalhi. no momento em que estes se filiam ao partido. uma figura de ponta do PC do B em seus acordos com a burguesia. afirmou o deputado Inácio Arruda (PC do B .. algumas situações de conflito vindo à tona nesta reportagem da Isto é (idem). 28/09/1997). eleito em 1994 em função das mobilizações do Fora Collor. Em resumo.CE) [. A saída é a luta 208 . Os jornais também conferiram destaque à mudança de sigla. a forma como Lindberg ingressava no PSTU acabava por tornar esse partido uma espécie de legenda de aluguel da esquerda[…] O ex-presidente da UNE e garotopropaganda do impeachment. Em uma conduta eleitoral típica dos mais marginais políticos burgueses. porém. larga o PC do B e adere ao PSTU” (06/08/2001).“[…] a saída de Lindberg do PC do B e seu ingresso no PSTU seguia unicamente suas conveniências eleitorais. 08/10/1997). Com manchetes como “Lindberg troca o PC do B pelo PSTU: militante no partido desde 87. em um processo de re-acomodação partidária no mesmo marco da frente popular. porque o PC do B do Rio de Janeiro decidira priorizar a reeleição da também deputada federal. procurando apagar as traições de seus antigos adversários.. sem qualquer reserva ou exigência de autocrítica profunda. parecia estar mais próximo de pessoas como Leonel Brizola e Miguel Arraes do que dos trotskistas’. deputado federal pelo Rio recebe críticas de colegas” (Folha de São Paulo. às vésperas do encerramento do prazo para mudanças de partidos. “‘Não entendi nada. Vários políticos também comentaram a troca de partido. que mais grave que a conduta de Lindberg era a orientação levada a cabo pela direção do PSTU ao acolher. Lindberg Farias. Alertávamos. Pelas posições que defendia [Lindberg]. via ameaçada suas pretensões de reeleição em 1998.] ‘Acho que o PC do B é burocrata e tem ilusão de que é possível mudar o país aos pouquinhos.

Ele acha que no PSTU só vai ser menos importante que o Trotski’. Enquanto para alguns atores (fundamentalmente de “alas”. refletia um recrudescimento de suas posições políticas. ‘Ele apostou no PSTU porque acha que vai haver uma aliança com o PT e assim fica mais fácil para se reeleger’. ‘Chamei o Lindberg porque no PV ele poderia desbundar à vontade’..] As críticas [de Lindberg a Miguel Arraes] tiveram resposta imediata. Ameaçou renunciar ao mandato na hipótese de condenação do líder dos sem-terra.. líder do PSB de Arraes. a troca de partido efetivada por Lindberg significava uma simples manobra eleitoral. [.] ‘O que ele fez foi uma mistura de oportunismo eleitoral com vontade de brilhar sozinho num partido pequeno. Lindberg vinha emitindo sinais a seus colegas de que estava perdendo o eixo... a mudança de sigla não reverteu necessariamente em sua reeleição e Lindberg não conseguiu ser reeleito. para outros (para uma parte da imprensa. defende um aguerrido Lindberg [. José Rainha Júnior [. No entanto.popular’.. como acima exposto). alfineta Ricardo Capelli.PR). avalia o deputado Ricardo Gomide (PC do B .. 209 . apesar da expressiva votação obtida (74 mil votos) naquele ano (1998). Gosta de baixar o nível’. fez um discurso malicioso insinuando que Lindberg estaria envolvido com cocaína [. único representante do Partido Verde na Câmara.] Antes de radicalizar de vez.] ‘O Alexandre Cardoso é o tradicional político da Baixada Fluminense.32). mas também de redes políticas diferentes.. Nos últimos quatro meses. contraataca Lindberg” (Grifos meus. foi convidado a ingressar em partidos menos ortodoxos. valendo-lhe a designação de “radical”. p. O deputado federal Alexandre Cardoso. brinca Fernando Gabeira. por exemplo). atual presidente da UNE e militante do PC do B..

Tais mudanças visavam o ano eleitoral de 2000. Gadotti (1989). Em 2001. a correr). Keck (1991). Pereira (2004). sendo consciente. em 1997. grifo do autor).. projetos. não do tipo homo economicus. filiando-se ao PT — o que gerou novas críticas e acusações de ex-colegas do PSTU198. mas sobre sua criação. Lindberg Farias pode até continuar o mesmo radical de sempre – tanto que permanece filiado ao ultraxiita PSTU. após estes episódios. entretanto. 198 O Partido dos Trabalhadores não é objeto desta tese. no intuito de transformar também sua imagem pública. Florestan Fernandes (1991). “Hoje. Soares (2004). neste mesmo ano e. aos 29 anos. Silva (2000). mas alguma noção culturalmente situada. de riscos e perdas quer em termos estritamente individuais.À fama de “radical”. por achar os comunistas do PCdoB ‘muito conservadores’. começou a praticar esportes. mudou um bocado. envolvendo-se numa briga em uma lanchonete. Lindberg efetuou uma nova troca de partido.503 votos. partido no qual ingressou em 1997. 25/06/2000. em 1999. “o projeto. saindo vitorioso com 83.] São 88 quilos sarados em 1. Nas eleições de 2002. trocando cotoveladas com seguranças da Câmara dos Deputados. por fim. considerado um coeficiente alto para um partido do porte do PSTU197.468 votos e sendo o terceiro 197 Chamo a atenção para a noção de risco intrínseca à própria concepção de projeto. em 1998. Conforme assinalou Velho (1999:29). seja ele individual e/ou coletivo.. [. Lindberg. arremessando pedras em policiais militares durante leilão de privatização da Telebrás. disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados. Meneguello (1989). envolve algum tipo de cálculo e planejamento.86m de altura” (O Dia. quer em termos grupais”. decidiu mudar seu visual (emagreceu. Nobre (2004). Lindberg protagonizou confusões dos mais variados tipos: com policiais. “badboy”. trajetórias ver. durante leilão da Vale do Rio Doce. somava-se também a de “bêbado”. mas que não o tomam necessariamente como objeto. são: Gaglietti. mas novamente não conseguindo eleger-se — sendo necessário um mínimo de 85 mil votos. “encrenqueiro”. por exemplo. disputou uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Dacanal (2002). Ainda pelo PSTU. O visual. 210 . Outros trabalhos recentes que se referem ao PT. (1999). obtendo 40.

mais votado do partido no estado do Rio de Janeiro. o então ministro da Casa Civil teria dito que “gostaria de ver fora do PT as senadoras Heloísa Helena e Ana Júlia e os deputados federais Lindberg Farias. disse Dirceu a um grupo de deputados no último final de semana” (idem). 21/05/2003. entre outros. Convidado a participar de reuniões. ele parecia estar assumindo uma posição de conciliação. afastando-se dos “radicais” que acabaram expulsos do partido 199 É importante destacar que a vitória de Lula no segundo turno contra José Serra (PSDB). segundo Luiz Antonio Magalhães. Em alguns momentos. A trajetória no PT seguiu caminhos. do Observatório da Imprensa. agora pela primeira vez no governo. Luciana Genro e o Deputado Babá”.131 votos) e Jorge Bittar (com 140. polêmicos. a cúpula do partido estaria insatisfeita com as declarações e tomadas de posição de alguns de seus correligionários. Dirceu tem dito que o grupo de deputados mais sectários deve sair do PT. atrás apenas de Chico Alencar (com 169. Essa não foi a única manifestação dos conflitos internos ao partido. o jornalista Kennedy Alencar. na mesma matéria: “nas conversas reservadas. 200 Folha de São Paulo. Babá. o que implicou em embates e até em ameaças de expulsão do partido. 06/09/2003. 211 . Seguese. Ainda segundo seu autor. que contaram com a presença do Presidente Lula. sendo alçado ao patamar de “questão de Estado”. entre outros. De acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo de 04/02/2003. Revista Época. Em seguida. marcaria uma nova fase para o Partido dos Trabalhadores.848 votos) (TSE)199. Lindberg foi procurado por nomes importantes do PT. O episódio em questão recebeu abundante atenção da imprensa. por vezes. ficando cada vez mais tensa a relação entre os “radicais” e os “governistas”. integrando a “ala radical” juntamente com Heloísa Helena (a quem fez juras de amizade e fidelidade200). ‘O PSTU e o PCO receberiam esse pessoal de bom grado’. Lindberg colocou-se contrário a decisões da “ala governista”. Luciana Genro.

A saída do partido dos que têm posição mais à esquerda favorece a consolidação das forças mais conservadoras no governo e fora dele. ficando explícita na coluna por ele escrita. em 09/05/2004. disse o deputado. Lindberg foi ameaçado de afastamento da vice-liderança da bancada do partido na Câmara dos Deputados. a partir dos episódios em questão. é um grave erro político. acompanhando os parlamentares que votaram contra o governo e que provavelmente serão expulsos do partido. Esse. para que os radicais possam marcar sua posição. Como retaliação e prenúncio do que estaria por vir. que demonstrou disposição no diálogo e capacidade de trânsito de todas as correntes. a respeito da votação da reforma da Previdência — e publicada pela Folha de São Paulo.”. no início de maio. Na ocasião. De acordo com matéria do Jornal do Brasil. em plenário. Essa declaração envolverá parlamentares de outros partidos da base. Sua aproximação definitiva de membros governistas do PT (e de seus projetos) deu-se a partir de então e foi sendo aos poucos estruturada. a meu ver. os jornais elencaram os motivos e as alianças que começavam a descortinar-se. Alguns. Querem ser expulsos do PT. Crêem que chegou a hora 212 . em especial sindicalistas do funcionalismo público. “A proposta de reforma da Previdência merece apoio dos deputados do PT? – Sim. Quero alertar aos mais desavisados que a opção que alguns fizeram pelo tensionamento às últimas conseqüências faz parte de uma estratégia política. A votação da reforma da Previdência esquentou o debate sobre o governo Lula entre velhos militantes da esquerda. ‘A reunião de hoje foi uma dupla vitória. já falam em sair do PT. que consegui garantir um debate amplo sobre a autonomia do BC e o Pl9’. “O deputado Lindberg Farias (PT-RJ) confirmou que está costurando uma declaração de voto. Do presidente do PT. de 02 de abril de 2003. E de nosso grupo.— e que vieram a fundar o PSOL.

naquele momento específico. Não é hora. No fundo. Temos de apostar em uma aliança ampla de forças que juntem do mesmo lado os trabalhadores e os setores produtivos do empresariado contra essa hegemonia asfixiante do sistema financeiro. por outro lado. o governo entrar em uma outra fase que privilegie o crescimento econômico e a geração de empregos. de 1917. este verdadeiramente revolucionário. voltam os tucanos e o PFL. Ao contrário. que. teremos uma vitória. está esquentando. 33. "Acho que a bancada pode ainda mudar muito a 213 . Não creio na possibilidade de uma ultrapassagem pela esquerda a Lula e ao PT. Se. estão presos a um velho esquema: o da Revolução Russa. 09/05/2004). O fato é que o jogo não acabou. afirmou que não recuou em suas críticas ao governo e que não decidiu ainda qual será a sua posição na votação dos pontos polêmicos das reformas. A falta de uma avaliação equilibrada dessa correlação de forças pode levar uns a pensarem que agem como os portadores da coerência. os setores da esquerda do PT e dos movimentos sociais com a parte do governo que começa a entender que essa é a hora de iniciar o descarte desse entulho monetarista. Lindberg Farias (RJ). quando na verdade estão sendo usados como inocentes nas mãos da direita. mas de fortalecer uma ala à esquerda no governo e no PT que pressione e exija mudanças de rumos. É nessa batalha que o futuro do governo Lula será decidido. apesar de parcial. não vem o PSTU. Ou melhor.da construção de um novo partido. Se o governo for derrotado. de criar um movimento de oposição pela esquerda. ora pedindo calma aos “companheiros” — revelavam a ambigüidade de suas posições ao mesmo tempo em que testavam suas possibilidades no interior do partido. será importantíssima. a uma leitura equivocada e esquemática de seus feitos. Folha de São Paulo. Se persistir a política atual. Volta a direita. portanto. perde o Lula e toda a esquerda. Os pronunciamentos de Lindberg — ora criticando duramente o governo. Ela nos dará um tempo maior na espera de uma alteração na correlação de forças em nível internacional que poderá abrir possibilidades para saltos maiores” (Tendências e Debates.

O sr. na época.O sr. Mas quero ganhar a bancada (Folha de São Paulo.opinião". que entendo ser errada. pelo então Ministro da Fazenda/ Economia. por uma importante parcela do PT nacional.Eu não recuei um milímetro.Não vou dizer de antemão qual será o meu voto. vai votar contra a proposta de reforma previdenciária do governo? Farias . 13/05/2003).Acho que eles quiseram dar um exemplo agora. José Dirceu). Os contatos iniciados desde o fim de 2002. disse o deputado federal. Folha . Acho que a bancada pode ainda mudar muito a opinião em relação à proposta. entre outros.Mas o sr. 214 . mas consolidados somente após o rompimento com os “radicais” — e a tomada de posição a favor de projetos de interesse dos governistas — lhe renderam. A impossibilidade de manter-se unido aos “radicais” e de dar continuidade aos seus projetos políticos fez com que Lindberg buscasse o alinhamento com o chamado Campo Majoritário (composto. de alguma forma. Continuo articulando contra a cobrança dos aposentados. Vou trabalhar para isso. Folha . Antônio Palocci e pelo então Ministro da Casa Civil. Eu não antecipei o voto. Folha .Fui contra. já vinha se delineando anteriormente. Folha . pelo presidente do PT. concordou com a proposta do Campo Majoritário de o debate ser interno e o voto em conjunto? Farias .Por que o caso do sr. recuou da decisão de ir contra a proposta do governo? Lindbergdigitação Farias . José Genoíno. mais especificamente em meados de 2003. pelo Presidente Lula. Mas eu continuo contra determinados pontos da reforma. não irá para a comissão deéticaFarias . o apoio a seu nome como pré-candidato à eleição majoritária em Nova Iguaçu. alinhamento este que.

evitando o que ocorreu em 2000. Na entrevista em questão. em 16 de setembro de 2003 — podemos perceber como as lideranças do partido ponderaram suas resoluções e preocuparam-se em construir um projeto coletivo (para o PT). Tal esquema. 215 . Ela refere-se a um suposto esquema de pagamento mensal a parlamentares da base governista. Também queremos prefeituras de pequenas e médias cidades e pelo menos um vereador em todos os municípios”. A expressão “mensalão” foi cunhada pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e imediatamente adotada pela mídia. mas também para fazer nome. José Genoíno — em entrevista concedida aos jornalistas Marcel Gomes.201 201 De um ponto de vista retrospectivo. divulgado a partir das investigações sobre corrupção dos Correios. lançamos candidatos para ganhar. Em 2000. com a reeleição na maioria delas. a primeira prioridade é disputar essas eleições para ganhar. “Como o PT é governo. nas capitais de estados importantes e nas cidades com mais de 200 mil habitantes. mantendo as prefeituras que o PT já governa. Em 2004. Em algumas das eleições anteriores. Ottoni Fernandes Jr. de declarações sobre as estratégias para as disputas eleitorais de 2004. para afirmar nomes. do ex-Ministro Chefe da Casa Civil . no entanto. Primeiro. e sim uma das jogadas no tabuleiro político regional com implicações para um projeto político nacional: as eleições de 2006. um ato isolado do PT. Além de garantir a reeleição dos nossos prefeitos. em matéria do dia 6 de junho de 2005. Genoíno traçou um panorama das disputas anteriores e da posição que o partido deveria tomar a partir de 2003. e Verena Glass. Através. em troca de apoio nas votações do plenário. A primeira ocorrência da expressão em um veículo de comunicação de grande reputação nacional foi no jornal Folha de S. da Agência Carta Maior. Eu estou insistindo muito nesta tese. por exemplo.Paulo. não podemos deixar de mencionar o episódio conhecido como “mensalão”. quando nos reelegemos em apenas 30% dos municípios que governávamos.José Dirceu. de olho na eleição presidencial. temos que entrar para ganhar. e do deputado Pedro Corrêa (PP/PE). feitas pelo então presidente do PT.A pré-candidatura de Lindberg não foi. temos que vencer nas cidades pólos. disputamos para acumular forças. deu origem a uma Comissão Parlamentar de Inquérito que colheu depoimentos de diversos nomes envolvidos no escândalo e culminou na cassação do mandato do deputado Roberto Jefferson.

alegando que o pré-candidato desconheceria a realidade da Baixada e que sua participação iria “contra todos os princípios defendidos pelo PT. o PTB tende a fazer aliança com o César Maia. então. PP e PMDB). Fazendo coro às declarações da vice-governadora — e sendo o mais interessado no desfecho negativo para Lindberg — Adeilson Telles. como Benedita da Silva. por exemplo. exsecretário estadual de Trabalho durante o governo de Benedita. E faremos aliança no segundo turno. por outro. PSB. enfrentava as críticas de outros nomes de peso dentro do PT. Com relação à autonomia dos diretórios municipais na constituição dessas alianças. Se por um lado. no entanto. Genoíno afirmava.Enfatizando sempre a constituição das alianças a partir dos partidos que já integravam a base governista (PC do B. também condenou tal candidatura. poderemos fazer aliança com o PTB. em algumas cidades do Rio de Janeiro. PPS. ocorrendo apenas localmente. mas que não se processariam em nível nacional. que se colocava contrária a candidaturas “estrangeiras” à Baixada. que as articulações para acordos com os demais partidos — mesmo o PFL e o PSDB — não estariam descartadas. Não foi o que ocorreu em Nova Iguaçu. O critério ético terá que ser respeitado na escolha dos candidatos e não vamos apoiar um prefeito de partido coligado ao Lula se existir um dossiê ou denúncia contra ele” (Grifos meus). que é oposição ao governo e ao PT. PL. Lindberg contava com as manifestações de apoio de Bittar. PTB. apoiando quem for enfrentar o César Maia. o presidente do PT afirmou que a eles caberia: “[…] com recurso ao diretório estadual e no limite ao nacional. Já com [relação a]o PMDB: nós vamos lançar candidato próprio no Rio. Mas na capital. e o PMDB também. Já tivemos exemplos de prefeitos de Nova Iguaçu que moravam na Barra da Tijuca e sempre nos colocamos contra 216 . Por exemplo.

houve um “racha” no diretório municipal e nomes locais pronunciaram-se contrários à candidatura “estrangeira” e às alianças que se delineavam. Tal matéria também menciona o fato de Lindberg ter sido vaiado durante a inauguração do CEFET no bairro Santa Rita. de um morador. O mais cotado era o do deputado José Távora que também disputava a candidatura. e o deputado federal Nelson Bornier (PMDB). como Jerry Simões. 1991) enfrentada pelos pré-candidatos concerne justamente à uma reunião do partido cuja pauta era a escolha do nome que disputaria a eleição de 2004205. o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original. uma alusão médica a essa alusão religiosa. p. ou seja. candidato a prefeito na eleição de 2000 e ex-secretário estadual de Trabalho — e contrários à candidatura de Lindberg Farias. por exemplo. 204 Utilizo a noção de estigma tal como a define Goffman (1975:11). a situação de prova (Boltanski e Thévenot. O mal-estar ocorrido no diretório local do PT deveu-se ao fato de a pré-candidatura de Lindberg trazer à tona as fissuras internas e a briga de facções no interior do próprio partido. na Era Cristã. eram partidários de uma candidatura “nativa” — como a de Adeilson Telles. Já o presidente do diretório. Atualmente. na qual também estavam presentes o Ministro da Educação. ela remete aos “sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava[…] Mais tarde. Nomes como os dos deputados estaduais Cornélio Ribeiro e Walney Rocha também foram “testados”. 21. Cristóvam Buarque (PT). como Adeilson — ainda que vinculado à ala mais “à direita” do PT (a Articulação) — parecia a escolha mais acertada. o segundo. A apresentação dos repertórios de ambos os A fala de Adeilson é novamente citada pelo jornal em matéria de 23/08/2003. um dos fundadores do PT em Nova Iguaçu. De origem grega. o prefeito em exercício. dois níveis de metáfora foram acrescidos ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais de graça divina que tomavam a forma de flores em erupção sobre a pele. O nome de um “nativo”. ex-vereador. apesar de desautorizar o anúncio da coligação com o PSDB. manifestava seu apoio à Lindberg. uma vez que encarnaria a “identidade da Baixada”. fundamentar o discurso e o projeto políticos (de tornar-se candidato do partido) na gramática da identidade social. 203 Alguns membros locais. No caso estudado por Freire. 205 A escolha do candidato que concorreria à Prefeitura de Nova Iguaçu pelo PMDB também não foi consensual.isso” (O Dia. 23/09/2003). porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal”. O descontentamento de 202 217 . p. 23/07/2003. Sendo assim — e conforme abordado por Freire (2003) — lançar mão desse status significava operar sob a lógica do estigma. “a cara do iguaçuano” 203. Percival Tavares. investindo na condição estigmatizante vivenciada pelo “povo da Baixada”204. Em seguida. Mas a escolha acabou recaindo sobre o “candidato natural”. referia-se a sinais corporais de distúrbio físico.19202). desde setembro de 2003 (Hora H. Mário Marques.

207 A homologação da candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu foi realizada pelo PT na Câmara Municipal da cidade. Os projetos políticos de Lindberg e do PT. Reelegeu-se em 1992. tendo recorrido ao Tribunal Superior Eleitoral. De volta à política depois de alguns anos afastado. que. Em 1998. ocupação. família. Neste mesmo ano. Itamar Serpa206 — e com o PFL207. grupo étnico. assim que soube da decisão. em 1969. Mudou-se para Nova Iguaçu na década de 1950. mais tarde. no qual permaneceu até sua diplomação. Reassumiu novamente como deputado . foi eleito vereador já pela sigla do PSB. Ele será o capitão da minha equipe” (O Dia. Nas eleições seguintes. todos esses foram fatores elencados no momento da disputa. teve seu mandato cassado pelo TRE. assim manifestou-se publicamente: “A camisa 10 da minha campanha está guardada no meu armário à espera dele. vizinhança. filiou-se ao PSDB. acusado de abuso de poder econômico e corrupção eleitoral. Foi eleito deputado federal em 1994. ficou novamente com a suplência. trabalhando em serviços diversos até ingressar na faculdade de Engenharia Química da Universidade do Brasil.lados — cada qual tentando adequar-se à situação dada pela “ala” oponente. sintetize interesses comuns de “[…] classe social. na chapa de Pedro Ivo.” (p. Na eleição seguinte. transferindo-se para o PDT antes mesmo de sua posse. a alusão a projetos específicos. 218 . originário do PC do B. ao menos. Ficava explícita a fragmentação dos interesses na luta interna ao partido e na diversidade dos repertórios arrolados. 206 Itamar Serpa nasceu em Vitória. sendo efetivado em 21 de novembro de 2000. entrecruzaram-se na medida em que a viabilidade política do primeiro também estaria implicada (mas não exclusivamente) em estratégias eficazes para o projeto coletivo do segundo que. a candidatura de Lindberg firmasse uma coligação com o PSDB — por intermédio do vice. filiou-se ao PMDB em 1980. A dificuldade de aceitação — pela “ala mais à esquerda” do PT local — de determinadas alianças não impediu. partido político etc. no dia 24 de junho de 2004. foi absolvido. elegendo-se vice-prefeito no pleito de 1982. no entanto. A formação de um projeto supra-individual. 09/06/2004) — preocupou peemedebistas. Em 1995. Participou do movimento estudantil e filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B) em 1965. a ênfase nas trajetórias. Exerceu o mandato de Deputado Federal de 30 de junho de 2000 a 25 de outubro de 2000. de forma mais ampla. não se elegeu. ao incluí- Távora ficou patente e seu possível apoio (ainda que velado) ao candidato petista — que. vindo a exercer o mandato na legislatura 2003-2007 — de 19 de fevereiro a 5 de agosto de 2003 — reassumindo o mandato em 15 de agosto de 2003 (Câmara dos Deputados).33). Espírito Santo. não prescinde ou desconsidera tal pluralidade. mas procura tratá-la a partir de algo que a englobe ou que. grupo de status. nos termos de Velho (idem). ficando com a primeira suplência. religião.

com a intensificação da campanha de rua (com destaque para os showmícios) e com o apelo a um projeto novo de cidade e de Baixada. de 23/08/2003. de 24/01/2004. em matéria do jornal O Dia. procurou estabelecer contatos não apenas com os moradores da região. tanto de políticos de partidos adversários quanto de militantes do próprio PT de Nova Iguaçu. Esta situação não impediu. Morando em um apartamento alugado no centro da cidade desde agosto de 2003 — pelo qual pagaria mil e duzentos reais de aluguel. no entanto. Em Busca Da Vizinhança “Se deixá-lo [Lindberg] sozinho em Santa Rita [ bairro de Nova Iguaçu]. entre dezembro de 2003 e agosto de 2004).lo como ator privilegiado. A primeira delas seria traduzida no desconhecimento da população iguaçuana sobre a candidatura petista e seu candidato — período compreendido entre sua (alegada) mudança para a cidade em 2003 e agosto de 2004. como aglutinava discursos potencialmente envolventes para os mais variados perfis. A campanha caracterizou-se por duas fases. gerava não somente um repertório de interesses comuns. Não sabe chegar à casa dele” (Nelson Bornier. que no início da corrida eleitoral. ele não sabe chegar ao Centro. 219 . 208 Os valores foram divulgados pelo jornal O Dia. p. Lindberg fosse acusado de “pára-quedas” e “forasteiro” e que sua candidatura sofresse fortes resistências. Neste período. tornando-se conhecido e buscando criar laços de pertencimento à cidade (mais especificamente. mas também com alguns políticos locais. A segunda teve início com o horário gratuito de propaganda eleitoral. mais quatrocentos reais de condomínio — Lindberg tentava desde o mês seguinte a transferência de domicílio eleitoral208. 21).

ser um “nome conhecido”. Diferenças à parte. o anúncio do nome de Lindberg como pré-candidato do PT à prefeitura da segunda cidade em população e importância econômica da Baixada Fluminense gravitou. na hierarquia de status. esperam que eles se submetam a suas formas de controle social e demonstrem. a confirmação e. 220 . constitui-se na dicotomia entre antigos residentes e recém-chegados. em seu trabalho sobre Winston Parva (2000). O fato de “vir de fora” tornava esse início mais complexo em termos de conjunção de forças e composições partidárias. O rol de acusações que cercaram os indícios. 209 Como nos mostra Elias. como pessoas que precisavam de ajuda. O autor chama a atenção para o fato de que não se trata de uma diferenciação de status “pura e simples” (p. a busca pelos nomes certos significava o passaporte de entrada no campo político de Nova Iguaçu. pelo menos durante um período de experiência pelas comunidades já estabelecidas. assim como o ônus das escolhas e alianças compostas a partir daí. a posição inferior que costuma ser destinada aos recém-chegados. de modo geral.63). como também de segregação. em torno de sua identidade outsider209. Destarte. Em regra.Foi o momento de consolidação das alianças. mas de uma diferença relacional de posição social relativa. havia a necessidade de entrar no jogo político local e de dialogar com seus “caciques”. mais estreitamente unidas e conscientes de sua posição. assim como os antigos moradores de Winston Parva esperavam a “adequação” dos novos moradores às suas regras. a primeira forma de classificação social. portanto. a disposição de ‘se enquadrar’” (Elias. nesse caso. finalmente. e implicaria arcar com o benefício. em um primeiro momento. tais comunidades esperam que os novatos se adaptem a suas normas e crenças. se estes se submetessem a sua proteção e se contentassem em assumir. os atores políticos “nativos” também tentaram impor as suas ao candidato recém-chegado. aos três bairros que compõem a localidade. 2000: 64-65). “Os antigos residentes poderiam ter aceitado os recémchegados. Não bastava.

Eram inaceitáveis o nome de Itamar Serpa como candidato a vice-prefeito bem como a ligação de Lindberg com Rogério Lisboa. talvez fosse ainda mais difícil levar adiante a campanha e obter sua aceitação. pobre X rico) graças. uma caminhonete) com Rogério Lisboa. Lindberg conseguiu contabilizar alguns importantes aliados locais. um de seus fundadores e partidário de uma candidatura “nativa” — geravam desconforto a escolha de alguém “de fora” e as alianças que o partido havia feito. Sem o apoio de uma rede política forte na cidade. cit. por um lado. Lindberg não quis arriscar. A frase dita naquele contexto ilustra exemplarmente o quão problemática era a relação entre os diversos atores da coligação firmada para a disputa eleitoral em Nova Iguaçu. além de lideranças do Movimento Amigos do Bairro de Nova Iguaçu (o MAB). mostrou-se bastante desconfortável ao perceber que este havia chegado junto (no mesmo carro. não se desgrudam”. 221 .A escolha do nome do vice era fundamental para o ingresso na vida política local. Para uma parte dos petistas do diretório local — como Jerry Simões. Apesar de todas essas dificuldades. No contexto do diretório local. conversando comigo sobre a campanha enquanto aguardávamos a chegada de Lindberg. um membro do PT local. Ainda nessa linha. A aliança era mantida por uma linha tênue. outsider X established. o discurso de um projeto “para os pequenos. vereador. à sua trajetória que o colocava (na ótica de alguns) mais à 210 Em uma das caminhadas das quais participei. fazendo o seguinte comentário: “Esses dois estão igual irmãos siameses.4) conseguiu reverter os argumentos utilizados em defesa de uma candidatura nativa e operar a (re)definição da situação. O PT local discordou. para o movimento popular iguaçuano” (Freire. Tinha ao seu lado membros da “ala” mais à esquerda (o Refazendo). op. a todo momento ameaçada de ruptura.. membros da Diocese local e de alguns movimentos sociais. p. candidato à reeleição pelo PFL e inimigo declarado de alguns membros do partido em Nova Iguaçu210. o nome de Lindberg foi capaz de fazer convergir repertórios a princípio inconciliáveis (identidade local X identidade mais ampla.

bastante complicada. Clara Maria Jaguaribe213 — bem como seu recurso — no dia 21 de janeiro de 2004. não havendo documentação em seu nome que fornecesse tal evidência. de “grandes nomes” (lideranças políticas nacionais do PT)211. pelo juiz Joel Teixeira de Araújo — permanecendo em uma situação indefinida até 16 de junho de 2004. como já mencionado anteriormente.esquerda do partido e. em Nova Iguaçu. Mesmo alegando residir na cidade desde abril de 2003 (na casa de uma amiga) 212. Mas isso não era suficiente para que a população o conhecesse. não foi bem recebida pelas redes políticas adversárias. 212 O verbo alegar é utilizado neste parágrafo. a seu acesso a uma constelação política. conseguiu uma liminar do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) garantindo não apenas a transferência almejada mas a possibilidade de disputar a eleição. desde o início. Lindberg ainda era um estranho. Serpa lançou-se imediatamente como pré-candidato em seu partido. ou seja. Quando a transferência de domicílio foi negada a Lindberg. 222 . de fato. A articulação política em busca de alianças locais significava um fôlego extra para a campanha. um morador (e candidato) de Nova Iguaçu. o Ministro da Cultura. A agitação em torno de seu nome não parou e os conflitos exacerbaram-se a partir de dezembro de 2003. de indivíduos capazes de conferir legitimidade/ poder/ acessos por intermédio da apropriação/ utilização de suas imagens/ falas por outrem. 213 A aliança com Itamar Serpa foi. No dia 15. o que provocou grande mal-estar e constrangimento. Lindberg teve negados o pedido de transferência — em setembro de 2003. As pessoas ainda não o reconheciam nas ruas. Gilberto Gil. por fim. ou seja. alegando que a conjuntura política havia mudado e que pretendia buscar alianças com outros partidos para viabilizar uma candidatura própria. foi à cidade participar do encerramento do seminário Cultura para 211 Utilizo a idéia de constelação política no sentido de uma configuração de notáveis. além de dinheiro e de colaboradores. o que somente ocorreu após a locação de um apartamento no bairro central da cidade. por outro. mais especificamente. A notícia de sua “entrada” na Baixada e. na medida em que o candidato não comprovou residência fixa. A transferência do domicílio eleitoral configurava o primeiro passo para tornar-se. quando. pela ex-juíza da 27ª Zona Eleitoral de Nova Iguaçu.

214 223 . de Marcello Alencar. 19/01/2004. ao lado do Sesc de Nova Iguaçu. segundo os jornais. Tal visita provocou muito alvoroço e troca de acusações. a ex-governadora e ex-ministra da O evento foi anunciado. representando a mulher. membro do PT local. acompanhado e noticiado por diversos jornais. 16/01/04 e 19/01/2004. de Gilberto Palmares. Em janeiro. 19/01/2004 e Estado de Minas. Nelson Freitas. deputado federal e presidente regional do PSB. em uma manifestação escrita e assinada pela Comissão Organizadora da Associação de Secretários da Cultura da Baixada. o secretário municipal de Cultura. de Bittar. Folha de São Paulo. Realizado no Centro de Formação de Líderes. Estavam presentes importantes personalidades políticas além de um público estimado. de Adeilson Telles. mais precisamente no domingo dia 18. Na ocasião. entre 500 a 1000 pessoas (Jornal do Brasil: “mais de 500 pessoas”. além de Antônio Pitanga. 16/01/2004 e 19/01/2004.Todos realizado no Sesc. Estado de São Paulo. 14/01/2004 e 19/01/2004. 19/01/2004. presidente regional do PSDB. deputado estadual pelo PSDB. protagonizou cenas de confronto público com o pré-candidato Lindberg Farias. declarando repúdio à sua candidatura. apesar de toda a querela judicial por conta do domicílio eleitoral. O Dia. o ato contou com a presença de José Genoíno. dentre eles: O Globo. que defendeu as alianças feitas pelo PT em Nova Iguaçu e em nível nacional. de Luiz Paulo Corrêa da Rocha. ex-vereador carioca. Este fato foi agravado — segundo nota oficial da Prefeitura de Nova Iguaçu — pois nenhum representante do município foi convidado a participar do evento. pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. ex-governador do estado. a equipe de Lindberg e o PT organizaram o primeiro ato político na cidade para o lançamento do programa de governo participativo214. sendo a principal em torno do uso da máquina política federal para fazer propaganda com fins eleitorais no município. Estado de São Paulo: “reuniu mais de mil militantes”). Jornal do Brasil. de Alexandre Cardoso. importante nome da política regional e liderança estratégica na Baixada. deputado estadual e presidente regional do PT.

o PFL de César Maia e um grupo do PSDB ligado a Marcello Alencar). de onde orquestrava as saudações e manifestações de maior entusiasmo juntamente com a platéia logo à frente. ganhou o primeiro. em fevereiro de 2004. Genoíno e Marcello Alencar permaneceram todo o tempo lado a lado. como forma de apaziguar as diferenças e os problemas iniciais. Benedita da Silva. cercados por uma pequena multidão que vestia camisas com o nome do pré-candidato —concentrada atrás da mesa principal.Assistência Social. juntamente com outros políticos. o deputadocandidato conseguiu — por intermédio de emendas individuais — que fosse destinado à cidade o maior montante do Orçamento Federal para um município do estado do Rio de 224 . mencionando a possibilidade de mais verbas para a Baixada e a importância das alianças ou criticando partidos por “racionalizar(em) demais”. No mês seguinte. Tratou-se de um evento eminentemente voltado para correligionários. visando a cobertura da imprensa e. Na queda de braço entre Lindberg e o PT de Nova Iguaçu. Usando bonés de campanha. com isso. a promoção do nome de Lindberg e de suas propostas. mas a insistência na obtenção de apoio local acabou resultando na escolha de Adeilson Telles para a coordenação da campanha. A importância do evento deveu-se não apenas ao lançamento do nome de Lindberg. Lindberg. configurando também uma demonstração de força do PT nacional frente às hostilidades de um grupo pertencente ao diretório local do partido. A presença de personalidades importantes da política nacional e regional evidenciou qual era o lugar desta candidatura para o partido e para os interesses mais amplos de alguns partidos (uma parcela da executiva nacional do PT.

onde o jornal Estado de Minas de 11/04/2004 dava o tom do debate. destinou R$ 1.Janeiro naquele ano.5 milhões215. 225 . O suplente de deputado Fernando Gonçalves (PTB-RJ). o PSB. dos quais Lindberg foi responsável isoladamente por quase 2. André Luiz (PMDB). que sempre apontaram as emendas individuais como fator de clientelismo e de cooptação de parlamentares pelo governo.15 milhões dirigidos à Associação de Caridade Hospital Nova Iguaçu […]”. outro candidato em Nova Iguaçu. Consórcio de Universidade Públicas. mas deixou três emendas para o município. foram os que mais utilizaram este instrumento. além de projetos ligados à área da saúde. R$ 740 mil para revitalização de áreas centrais. do Ministério da Educação. Leonardo Picciani (PMDB). aparece outro partido governista. A questão foi amplamente noticiada. cedeu a vaga na Câmara para o titular Miro Teixeira. Eduardo Cunha (PMDB). Em segundo lugar. Nelson Bornier (PMDB). aprovou três emendas para o seu município. Os 22 petistas que disputam a eleição apresentaram um total de R$ 19 milhões em emendas para os seus municípios – média de R$ 860 mil. Fernando Gonçalves (PTB). São R$ 2. Serão R$ 750 mil para unidades especializadas em saúde. R$ 950 mil para a ampliação de oferta de cursos de graduação e R$ 800 mil para a instalação de um espaço cultural. Foram mais de 9 milhões de reais. Na matéria intitulada Orçamento vira arma eleitoral. pré-candidato a prefeito de Nova Iguaçu. 215 O dinheiro seria destinado a projetos como: Base de Apoio à Cultura. Eles destinaram R$ 63 milhões em emendas individuais aos municípios onde concorrerão à prefeitura[…] Os congressistas do PT. com um total de R $6 milhões e média de R$ 680 mil[…] Os campeões do clientelismo são do Rio de Janeiro[…] O petista Lindberg Farias. R$ 300 mil para a unidade de saúde do bairro Venda Velha. do Ministério da Cultura. candidato em São João de Meriti.46 milhão ao Hospital de Caridade da cidade. Laura Carneiro (PFL) e Jandira Fegalhi (PC do B). Sandro Matos (PTB). Os demais deputados fluminenses com emendas individuais ao Orçamento da União foram: Itamar Serpa (PSDB). “Um grupo de 110 deputados e senadores parte para a disputa das eleições com uma arma a mais em relação aos seus adversários: as verbas do Orçamento da União.

artigo de Lindberg Farias). diversos jornais publicaram matérias a respeito da demarcação das terras e do relatório da comissão. Jornal do Brasil. Lindberg já estava de volta à cidade. Em 19/04. além da matéria supracitada. Agravando ainda mais os conflitos. O Globo (Caderno O País. O caso da reserva indígena Raposa Serra do Sol foi exemplar nesse sentido.de Berenice Seara). página A3). Dia Internacional da Mulher. para jogar mais fogo[…] Não se pode. Em 22/04: O Globo (Opinião. reportagem de Evandro Éboli). Em 27/04: Agência Câmara (reportagem de Tatiana Azevedo e Natália Doederlein).As “atuações” de Lindberg em projetos importantes do governo federal o inseriram no circuito das dádivas da máquina governamental. se ausentou de Nova Iguaçu devido à viagem a Roraima. O Globo (reportagem de Ilimar Franco). reportagem de Luiz Queiroz). que deveria agir como um bombeiro. Indicado como Relator da Comissão Externa da Câmara para avaliar a polêmica demarcação de terras indígenas. em 8 de março. indo — 216 Durante todo o mês de abril. Em 29/04: O Dia (coluna de Cláudio Humberto). outras figuraram nos seguintes jornais: Jornal do Brasil (coluna do Boechat). Em 20/04: Jornal Extra (Coluna Extra Extra. Jornal do Brasil (O País. Em meio a críticas da Funai e de setores diversos da sociedade civil. 226 . Em 21/04: O Estado de São Paulo (Editorial. apagando o incêndio deste conflito. Em suas palavras: “ele. sugerindo que ele renunciasse ao cargo. em hipótese nenhuma. desde fevereiro de 2004. Ainda em fevereiro. A10). Ainda envolto em problemas relacionados à comissão da reserva Raposa Serra do Sol. o deputado federal e relator Lindberg Farias acusou o presidente da Funai de incentivar a violência. devido às suas atividades na Câmara dos Deputados. Folha de São Paulo (Brasil. em matéria publicada no Jornal do Brasil de 19/04/2004. a controvertida proposta/ avaliação do deputado-relator foi manchete dos principais jornais. sendo associada algumas vezes a “outros interesses”. partiu como se tivesse um balde de querosene. Em 28/04: O Globo. Lindberg apresentaria dois meses depois uma proposta que implicava na redução de até 45% do território da reserva Raposa Serra do Sol. tentar justificar o que foi uma verdadeira chacina” (referindo-se à morte de 29 garimpeiros na referida reserva)216.

o de maior repercussão foi o da Universidade Pública da Baixada Fluminense220. a publicidade angariada com os projetos governamentais e com a vinculação de seu nome ao da cidade de Nova Iguaçu possibilitava a criação de laços. foi o grande destaque do Dia Internacional da Mulher naquela cidade. como é popularmente conhecido. As ações de Lindberg como deputado federal visavam um único propósito: a eleição. mas também como séquito e comitiva. dirigir galanteios. Começava a partir daí um cortejo219 que acabaria caracterizando a segunda fase de sua campanha: a habilidade — e o enorme sucesso — em lidar com o eleitorado feminino. corresponde à área comercial no centro da cidade. constituindo sua bandeira de campanha.. 227 . gato e pré-candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT. Sendo assim. Tal evento revelou um tom apaziguador no discurso do deputado e de seu novo alinhamento no interior do PT. distribuir flores para as homenageadas do dia218. na qual a maior parte das ruas é interditada ao tráfego de veículos. 220 Note-se que um projeto semelhante já havia sido proposto por Jorge Gama. mas não deve repetir. Resultado: filas.” 219 Utilizo o substantivo no duplo sentido: denotando o ato de cortejar. tampouco reeleger-se. Jorge. Até porque ele não quer ser só um rostinho bonito na política fluminense” (Jornal O Dia. convertidos em capital simbólico. corre-corre. líder dos cara-pintadas e hoje deputado federal Lindberg Farias (PT). não conseguiu aprová-lo. do jornal O Dia. e beijos-ventosa ‘partout’. não reconheceria o radical de anteontem. em 1992. Conforme nota de Arnaldo César. O que a entrada no governo não faz com o cidadão. no Centro. Segunda-feira. 10/03/2004). Dentre os projetos por ele apresentados. “Lindberg Farias.juntamente com alguns assessores e candidatos à Câmara Municipal — para o “calçadão”217. Ainda em março de 2004. de 17/03/2004: “Quem ouviu o discurso do ex-presidente da UNE. o galã e ex-rebelde cara-pintada resolveu fazer um agrado e saiu pelo calçadão distribuindo flores às necessitadas. gritinhos. Lindberg gostou da experiência. no debate sobre o oleoduto Rio-São Paulo. Lindberg participou de debate realizado em Brasília sobre a questão do oleoduto. ontem. sol a pino. no entanto. criando um grande shopping a céu aberto. Ele disse que é contra extremismos e a favor de conversar sempre para atingir um ponto em comum. foram liberados R$ 950 mil para a abertura das primeiras turmas e anunciada a liberação de mais R$ 30 217 O “calçadão”. em Brasília. 218 Ainda naquele mesmo mês. Coluna Lu Lacerda..

numa cidade do porte de Nova Iguaçu. transformando-se em dos “lugares” do cortejo. por sua vez. Lindberg procurou costurar as alianças político-partidárias (internas e externas) que possibilitariam uma candidatura com chances reais de vitória. como foi batizado. os restaurantes e bares locais. O Pólo Universitário de Nova Iguaçu. Se durante o ano de 2003 e os primeiros meses de 2004.milhões até 2006221. botequins e restaurantes. das “peladas” (jogos de futebol222). 15/03/2004 e 18/03/2004. Guebel (1996). costumam “bater ponto” nos bares Raízes. 228 . Não é comum encontrarmos. A partir de então. ao longo da campanha. Os locais são ponto de encontro nos fins de tarde e cenários das negociações e embates políticos em qualquer época do ano. Lindberg começou a participar mais ativamente da vida da cidade. tornar-se-ia uma das principais bandeiras da campanha de Lindberg e um dos elos fundamentais com seu eleitorado preferencial: a juventude iguaçuana. mas fundamentalmente para verem Lindberg era marcante e noticiada pelos jornais. Os membros de partidos considerados “de esquerda” (PT. Bar do Daniel e Bar das Meninas — todos próximos à prefeitura e às sedes desses partidos. localizado próximo ao Corpo de Bombeiros. A presença cada vez maior de mulheres para assistirem aos jogos. A sociabilidade política na Baixada passa necessariamente pelos bares. freqüentando as escolas de samba. as diferentes redes políticas locais freqüentando os mesmos bares e restaurantes223. 223 Silva (1980). PC do B). é bastante procurado pelos partidários de Bornier. como também alguns integrantes de movimentos sociais. das festas. no momento seguinte precisava confirmar sua inserção como morador de Nova Iguaçu. Os jogos de futebol. por membros do PMDB e seus aliados —as reuniões e almoços do staff da prefeitura que pude 221 222 O Dia. não apenas um esporte mas também uma forma de sociabilidade tradicionalmente masculina foi. Um quadro espacial é montado no tempo da política. definindo os lugares específicos de cada rede e/ou facção política. O Siri do Galeão.

ou seja. A acusação de “forasteiro”. “paraíba”. a atribuição dos adjetivos variará de acordo com outros elementos em contextos específicos — como poderemos ver mais adiante ao abordarmos os ataques dirigidos a Lindberg por seus adversários na eleição municipal Lindberg. de 30/05/2004. mais especificamente a imprensa escrita. a política em Nova Iguaçu relaciona-se intimamente à boemia. no extremo oposto. 226 Ver Anexo.acompanhar durante as últimas duas administrações ocorriam costumeiramente nesse espaço. Não me refiro apenas à dimensão da comensalidade. ressurgiu a discussão em torno de sua condição outsider. A ênfase em tal pertença social acabou redimensionando as posições no interior da arena política local227. Esta polarização é. É comum encontrar ali alguém ligado à família (por parentesco ou afinidade) jantando semanalmente. por sua vez. De um lado. Do mesmo modo. A distribuição de panfletos apócrifos por toda a cidade. 227 A mídia. 224 229 . político-irresponsável. possibilitando à equipe de Lindberg um contra-ataque baseado na menção a (e reinvenção de) uma identidade maior. “fundadora”: a identidade nordestina. mas à tênue fronteira entre a política e a alegria/ vadiagem/ vida desregrada representadas pelo consumo algo excessivo de bebida alcoólica pelos políticos e seus afins. com dizeres como “Trate bem o turista. teve um papel primordial nesta ênfase. Paralelamente às iniciativas visando o reconhecimento e a aceitação de Lindberg. a oposição (os candidatos Fernando Gonçalves e Mário Marques) o acusava de forasteiro. no entanto. circunstancial. Tal consumo é por vezes acionado como categoria acusatória. que será tratada mais adiante. ou simplesmente tomando um chope224. de Conforme mencionei no capítulo 2 desta tese. Há uma lógica operando a classificação dos agentes políticos em político-boêmio-alegre e. agora redefinida sob a égide da identidade nordestina. Lindberg também se encaixou no circuito da boêmia política iguaçuana225. mas não vote nele” marcou o início da ofensiva226. 225 Os “encontros” políticos em bares/ botequins/ restaurantes foram matérias de jornais como: O Dia. O Pizza e Pasta é um dos restaurantes prediletos da rede política dos Raunheitti. desconsiderava a composição da Baixada em termos de origens sociais e regionais. Testando a capacidade de mobilização desse discurso — inicialmente surgido como acusação — Lindberg procurou utilizá-lo como mote para o estabelecimento de um vínculo com os moradores da região.

Que identidade marcaria. 2000. Monteiro. apresentando dados significativos sobre a composição desta parcela da população na região (Gomes. reiterado em discursos diversos: desde a fala oficial de representantes políticos. de fato e de direito. Gramado. 1999. mas seus autores têm se esforçado para reverter esse quadro. Levanta-se então a seguinte interrogação: quem é o nativo. o resgate da presença negra na Baixada é operado apenas pelos movimentos sociais ou. entre os não acadêmicos. Tal questão é abordada em apenas alguns poucos trabalhos que pesquisam a história local. revelando possibilidades para sua utilização pelos atores sociais aqui analisados. da imprensa. No campo político. o morador da Baixada a ponto de fazê-lo sentir-se mais ligado a um candidato que a outro? Ser iguaçuano ou nordestino? Em que espaços e momentos 230 . de fato.outro. a identidade nordestina da Baixada é um lugar-comum. no caso da eleição em questão. por exemplo). no caso em questão? Ou. único candidato negro à prefeitura de Nova Iguaçu. composta por um número significativo de migrantes nordestinos — sendo que em Nova Iguaçu este percentual sobe para 40% do total da população — é importante mencionar o fato de que há também uma forte presença negra na região. Lindberg — e sua equipe de assessoria —defendia-se. aos trabalhos acadêmicos (Souza. quem é “mais nativo”? A questão da identidade social e da busca por uma origem que se apresenta como o cerne da problemática da representação é aqui recolocada. 1992 e Viana. Carlão. 1992. Mais que um argumento. pelo candidato do PSTU. 1998). com muito orgulho!”. criando estratégias como a da alegação de uma origem social comum entre ele e a maioria da população da Baixada Fluminense e de Nova Iguaçu — ele era “um nordestino. 2001 e. Apesar de a Baixada ser. Prado.

aciona-se uma ou outra identidade? Para a política local. e o da Coordenação Política. o que parecia a melhor estratégia para desacreditar e deslegitimar o candidato “forasteiro”. Aldo Rebelo. que contou com a presença do Ministro da Educação. As reuniões com 231 . a identidade local (de morador) ou a regional (de migrante)? Não há uma resposta única para todas essas questões. Pela própria fluidez de tais classificações e pela incerteza a respeito da identidade que cada candidato deveria assumir — além do ônus da contra-partida do adversário — a adoção do discurso identitário como bandeira de campanha seria excessivamente arriscada e imprevisível. a convenção do partido. não se confirmou. Tarso Genro. o que fazia ali. como já se esperava. Assim. de fragmentação dos símbolos e discursos empregados na constituição dos personagens políticos. No dia a dia da campanha. oficializou a candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu. como alguns chegaram a prever. apesar do apelo à identidade. a preocupação central era com a conquista do eleitorado iguaçuano. o campo político tendo uma incrível capacidade de mover-se e transformar-se. ao mesmo tempo. o cotidiano da campanha seguiu em outras direções. o que se mostraria. revelam o poder de aglutinação e. Em junho. mais eficaz. de modo geral. O início da campanha de rua foi marcado pela sensação de total desconhecimento da população com relação a quem ele era. qual a sua ligação com a cidade e com os grupos que detinham (e ainda detêm) o poder. de fato. A satisfação de condições gerais não é dada a priori. Tal discurso se demonstrou inócuo. A dinâmica do processo eleitoral e dos processos de identificação. Sua resposta foi pontual e sua campanha acabou não se apoiando (mais do que para responder às acusações) na identidade nordestina. incapaz de qualificar um dos candidatos de maneira a singularizá-lo frente aos demais e.

Responderam-me que isso vinha acontecendo com freqüência e. momento em que indaguei alguns funcionários dos guichês da rodoviária sobre a periodicidade dessa ação. Lindberg costumava ser visto acompanhado apenas por alguns poucos candidatos à Câmara Municipal e por seu staff. o discurso “para os pequenos” ganhava contorno e sua candidatura. Uma frase bastante ilustrativa de tal inadequação inicial foi retirada de uma entrevista feita com um assessor de imprensa que acompanhou 228 Aqui novamente percebemos a eficácia da estratégia de marketing da equipe de Lindberg. no Terminal Rodoviário da cidade onde procurava aproximar-se das pessoas comuns. Assim. Apesar de contar com o apoio de Marcello Alencar — que enfrentava seu ex-pupilo Bornier. A rotina de Lindberg — quando teve início o período eleitoral oficial (6 de julho de 2004) — começava bem cedo. portanto. já era possível encontrá-lo distribuindo material de campanha. o candidato tentava diferenciar-se da “politicagem local”. “o menino (referindo-se a Lindberg) bate ponto aqui”. 232 . agora ligado a Garotinho — desde o início da campanha. a atitude foi pensada para gerar publicidade e render-lhe algumas notas e matérias na imprensa. “sólido e bem construído” a partir da “realidade da cidade”. o que revelou-se diferente na periferia. recorrendo inclusive ao expediente de registrá-lo em cartório228.associações de moradores e lideranças dos bairros foram as primeiras atividades desenvolvidas em busca de possíveis interlocutores e da conquista de contatos e alianças. com elas conversar e tornar-se conhecido. segundo um deles. legitimidade. Suas caminhadas pelos bairros centrais praticamente não tinham repercussão. A partir da apresentação de um programa de governo anunciado como tendo sido concebido “em conjunto com os moradores” e. Testemunhei tal fato num dia em que esperava o ônibus para voltar ao Rio. Segundo um de seus assessores. Às 6 horas da manhã.

Lindberg chegava. era praticamente necessário “arrastar” as pessoas para que o candidato pudesse conversar com elas. que anunciava a chegada de Lindberg e reproduzia o jingle da campanha. segundo este mesmo assessor. do PT. a falta de recursos era evidente e. 233 . De início. a campanha também não dispunha de material físico e humano adequado. partido do presidente Lula. Adeilson Telles. as críticas dos candidatos petistas à executiva nacional eram constantes. de líderes de bairro e. mesmo. invariavelmente a pequena banda — que se assemelha àquelas que 229 Tais críticas também vinham dos candidatos às prefeituras do Rio (Bittar) e de Niterói (Godofredo Pinto).Lindberg desde o início da campanha: “Era preciso que a gente falasse assim: Esse aqui é o deputado federal Lindberg Farias. havia também a presença de lideranças de movimentos sociais locais como o MAB (Movimentos Amigos do Bairro de nova Iguaçu). Somente após uma ou duas horas do horário marcado para a concentração. que vai ser nosso prefeito aqui em Nova Iguaçu”. quase invariavelmente acompanhado do candidato Rogério Lisboa (PFL). Ainda assim. o candidato à Câmara de Vereadores local reunia um grupo de pessoas (o tamanho dependia do prestígio de cada candidato e dos recursos disponibilizados) que ia de casa em casa chamando os moradores com um carro de som (uma kombi). Além do desconhecimento do candidato. acompanhei algumas das caminhadas na periferia e na região central do município. declarada pelo então coordenador de campanha. exigindo o apoio do PT para que houvesse chances reais de disputa contra a máquina do governo do estado229. distribuir seus “santinhos” etc. Na ocasião. Ainda nesse primeiro momento da campanha. Dependendo do bairro que se visitava. contando apenas com algumas kombis — com a logomarca da candidatura — e com uma banda composta por músicos locais. Nestas eleições.

234 . Essas 230 Denomino imantação política. então. Sendo assim. Lindberg parava nas portas das casas. caminhando por quase toda a extensão da rua principal. o primeiro detendo forte poder de atração. o evento por excelência do contato entre corpos que produz efeitos como se aí operasse uma espécie de imantação230. onde a corporalidade. cumprimentava funcionários. sempre acompanhado pela bandinha de música. abraçar ou. “A rua é a casa do candidato”. conversava com as pessoas. em parte. de autoria de um dos músicos. às vezes. É importante para o eleitor tocar. pelo menos. a hora e o local de concentração do evento eram anunciados com antecedência. não necessariamente. No bairro central. Lindberg costumava chegar no mesmo momento que os candidatos do PT — e de partidos aliados — à Câmara Municipal. o contato físico se faz mais evidente. conta com várias ruas de circulação exclusiva para pedestres. Região de localização do centro comercial da cidade. em algumas até mesmo entrava. ao menos. sedução. o responsável pelo grupo. apertar a mão do candidato. cumprimentava. portanto. cujo grau de proximidade/ contato não é avaliado a priori pelo sujeito político e os demais atores sociais. encantamento sobre os demais. As eleições municipais propiciam. O predomínio das relações face a face garante que a política (distante. pelo olhar dentro dos olhos. até mesmo exigido. a organização dos encontros adquiria outros contornos. vazia e impura) seja. a interação intensa. ressignificada pela virtualidade da aproximação dos corpos. Ela constitui o local privilegiado da interação. por onde circulam milhares de pessoas todos os dias. Entrava nas lojas.tocam em coretos de praça ou em festas de igreja de cidade pequena — cujo repertório era. É a expressão de uma proximidade não existente nas eleições estaduais e federais ou. A imantação distinguiria-se do carisma na medida em que seu tempo-espaço específico seria o tempo da política. pela troca de palavras e gestos. necessário e. disse um dos assessores políticos de Lindberg.

assunto que será abordado mais adiante. prioritariamente) e duravam. Meu primeiro contanto pessoal com o candidato do PT foi travado em um jantar com um empresário — e potencial financiador de campanhas na Baixada — em junho de 2004. Nessas caminhadas. Palhada. Havia também as carreatas pelas ruas da cidade e por bairros mais afastados. Nas demais localidades visitadas. os moradores. a bandinha de música enfrentou problemas técnicos e. Assim. a presença de Benedita da Silva já demonstrava o papel da relação entre política e religião em Nova Iguaçu e na Baixada de modo geral. dissimuladas em tom de brincadeira e de deboche. tentando conhecê-lo. Em uma das visitas de Benedita. Miguel Couto. em caminhadas por bairros da cidade. de modo geral. ficava difícil aproximar-me do candidato. as tensões ficavam à margem e as críticas. em média. candidatos à Câmara Municipal e eleitores. a população ainda estava “estudando” o candidato. ainda não tinham aderido à campanha. em horários de pico (perto do horário do almoço. a maior parte dos carros que acompanhava a comitiva pertencia a candidatos e pessoas a eles ligadas. segundo militantes e um dos assessores de Lindberg. Na primeira fase da campanha. Em algumas localidades havia uma melhor aceitação —no centro comercial e em bairros da periferia. Geralmente. como Posse. ou depois das 14 horas. 235 . 232 A escassez de recursos durante o que convencionei chamar “primeira fase da campanha” era expressa na forma de uma joke relationship. Esta situação manteve-se inalterada até meados de agosto de 2004 e mesmo a presença de Benedita da Silva. A essa altura. assessores.caminhadas pelo calçadão davam-se. a convidada reclamou em tom de brincadeira. ainda na parte da manhã. entre outros. geralmente. No 231 Apesar de não atingir o objetivo almejado. Vila de Cava. Percebi tal situação em diversas conversas com membros do diretório local do PT. assim como em campanhas dos demais candidatos. eu conversava com pessoas próximas. não foi capaz de mobilizar o número esperado de moradores nesse início de campanha231. Tinguá. Tal episódio foi motivo de piada tanto entre eles como entre os adversários232. cerca de três a quatro horas.

Os dois têm “origem modesta”. situação que denominei de “dia do prefeito”. nessa fase da pesquisa eu entrevistei alguns prefeitos da Baixada e. a princípio. o vestuário e as jóias era visível no estilo de vida da mulher. Em seguida. quando possível. residiam na Barra da Tijuca já há algum tempo. A conversa levou cerca de uma hora. ao lado da Assembléia. Fomos os 233 Conforme apresentado na parte introdutória desta tese. Ela. André Ceciliano (PT). tinham um filho de pouco mais de um ano de idade e estavam de mudança para outro apartamento — no mesmo bairro. mencionando o novo apartamento apenas quando indagado por um dos convidados a respeito da mudança. pois precisaria tratar de assuntos confidenciais. havia o compromisso de comparecer a um jantar que. as conversas com candidatos à Câmara Municipal e algumas negociações sobre o nome que comporia a chapa como vice. mas que contaria com a presença de “pessoas envolvidas com a política”. porém maior (um duplex). nos dirigimos à Barra da Tijuca. pois uma de suas atividades consistia em entregar relatórios no Tribunal de Contas — no referido município — cujo prazo já se havia esgotado. Na ocasião. nos dirigimos ao Café do Paço. não falava sobre seus bens. pediu um café e. preferiu fazer a entrega pessoalmente. A preocupação com a decoração. Eram mais ou menos 21 horas quando chegamos à Avenida Lúcio Costa. Como ele dispunha de acessos em tal órgão público. seguimos para o Rio de Janeiro. fomos à ALERJ para que o prefeito se encontrasse com assessores de políticos aliados. Ele pediu que eu ficasse em uma mesa separada. Ele é antigo morador de São João de Meriti — cujos familiares ainda residem no município — divorciado e pai de um adolescente. Além disso. eu estava acompanhando o “dia do prefeito” 233 e candidato à reeleição em Paracambi. onde o prefeito conversou com dois assessores de deputados. ao contrário da esposa. acompanhei suas atividades durante um dia inteiro de trabalho. não seria “político”. veio até a mesa em que eu estava (a uma distância de mais ou menos dois metros). Saímos de Paracambi por volta das 16 horas e fomos direto para o centro da cidade (Rio de Janeiro). O marido. em seguida. 234 O casal pode ser classificado como novo rico ou emergente. oriunda da Zona Oeste do Rio de Janeiro e dona de um salão de beleza em seu atual bairro. Após alguns telefonemas. Depois de sermos brevemente recebidos pela pessoa responsável no Tribunal de Contas. na cobertura do empresário/ anfitrião234. Depois de passar toda a manhã observando os despachos em seu gabinete. segundo a esposa. e atenuado no do marido — que 236 .dia 30 de junho.

No jantar em questão. Nas campanhas de rua. uma vez que presenciei — ou mesmo participei de — conversas que giravam em torno das ações de políticos locais tradicionais. Sempre usava calça jeans escura e blusa de mangas compridas. Francisco Sousa (o Chico). uísque e água mineral francesa. Chico. 237 Abordarei tal especificidade em um segundo momento. 237 . sendo o anfitrião. Os convidados ficaram a trajava uma camisa pólo (Ralph Loren). versando sobre uma possível “ajuda” para a campanha em Nova Iguaçu. acompanhado por um assessor. Seu tesoureiro.primeiros a chegar e logo fui apresentada aos donos da casa como “pesquisadora da Baixada”. apresentado como seu coordenador de campanha e pelo candidato a vereador. sem decotes e de cores discretas. Lindberg Farias. por Rui Aguiar. optei por criar um padrão. o responsável pela bebida. da questão da violência política em Nova Iguaçu e de seus “possíveis” mandantes ou ainda de aspectos relacionados aos financiamentos das campanhas236. Todos os convidados falavam abertamente sobre qualquer assunto apesar de minha presença. pelo PFL. o prefeito de Paracambi estava com um terno escuro e discreto. só chegou por volta das 23 horas. eu trajava. 235 A roupa adequada para enfrentar situações diversas — e. Mesmo tendo sido apresentada como “uma pesquisadora que estava escrevendo uma tese sobre a política na Baixada”. bermuda. mas que era provavelmente de ouro. que poderia ser de algodão ou linha. não pareciam preocupados com o conteúdo de suas falas. como também com seu “coordenador de campanha”. Serviram prosseco. O candidato à prefeitura de Nova Iguaçu. sandálias e usava um relógio discreto. 236 As conversas eram travadas entre um empresário do setor farmacêutico e o prefeito de Paracambi e entre este mesmo empresário e Lindberg — neste caso. Eu vestia uma blusa de linha preta com uma gola branca que caía sobre os ombros e calça jeans. às vezes. e Rogério Lisboa corroboravam seu estilo. Havia apenas uma empregada que se ocupava da comida. era sempre longa. Tive então a oportunidade de conversar não apenas com Lindberg. Somente seu conselheiro-coordenador de campanha trajava um terno de cor clara (bege). Outra questão que me chamou a atenção foi o fato de que eu era a única mulher presente nesse jantar. Sendo assim. Quando vestia saia. Lindberg Farias estava de calça jeans e uma camisa de mangas longas. camisa de mangas curtas pois o calor era extremo e as caminhadas com os candidatos e/ou suas equipes poderiam prolongar-se por horas a fio. às vezes numa mesma jornada — constituía uma de minhas preocupações freqüentes. ainda neste capítulo. Rogério Lisboa235. com exceção da dona da casa237.

agora sob o prisma da percepção deste grupo a respeito da política e de como esta manifestava-se. tamanho “entra e sai”. Lindberg afirmou que de nada adiantariam as ameaças e que sabia exatamente de onde procediam — porque desde a época em que atuava na Câmara era um único deputado que costumava chamá-lo de “aquele paraíba”. Até o jantar ser servido na parte interna do apartamento. O bairro carioca representa para esse grupo (emergentes/ novos ricos) o que. 239 A violência da campanha de Lindberg será abordada no próximo capítulo. As conversas versaram ainda sobre a “correria” da campanha. Os anfitriões optaram por um cardápio japonês. A tese de doutoramento de Diana Lima (2005) também aborda a temática dos emergentes/ novos ricos a partir da análise do padrão de consumo e de sua relação na constituição dos sujeitos. Refiro-me especificamente à dimensão da relação entre ascensão social e mobilidade espacial e a seus desdobramentos para pensarmos estilos de vida e visões de mundo. 1977) — a problemática da visão de mundo e do estilo de vida é retomada. em algum nível. quem lhe havia “recomendado” etc238. Depois do jantar. Guilhon de Albuquerque. “Não tinha medo”. citando o nome de um tradicional político de Nova Iguaçu e a ele atribuindo sua autoria 239. o cansaço —às vezes não dando tempo sequer de tomar um banho. próxima a algumas plantas). tendo sempre uma camisa reserva no carro — e sobre a 238 Faz-se necessário ressaltar que a Barra da Tijuca é o destino da maioria dos políticos e empresários da Baixada Fluminense após sua ascensão social. fato este que mereceu grande destaque por parte da dona da casa que chegou inclusive a comentar com Lindberg onde os havia comprado. Os talheres japoneses eram de prata. os convidados sentaram-se no living e os homens fumaram charutos. organizado por J. todos conversavam e bebiam despreocupadamente. em todos os aspectos da vida das pessoas entrevistadas. de certa forma. Copacabana representava para os grupos white collar pesquisados por Gilberto Velho em sua dissertação de mestrado. em uma ampla sala de jantar. mas sabia que a política na Baixada “não é mole” e que a violência é um dos recursos utilizados pelos “locais”. Esclareço apenas que este episódio refere-se à abordagem ameaçadora sofrida por um de seus coordenadores políticos em Nova Iguaçu. publicada no livro A Utopia Urbana (1973). Em outro trabalho do autor — dando continuidade à pesquisa em questão. Ficaram conversando sobre a condução mais adequada para a campanha de Lindberg e sobre as ameaças por ele sofridas — abordando também suas desconfianças com relação aos supostos mandantes do “atentado”.maior parte do tempo na espaçosa varanda (que contava com uma banheira de hidromassagem em seu canto esquerdo. 238 . Cotidiano e Política num prédio de conjugados (1981) (publicado anteriormente em Classes médias e política no Brasil. A.

ocorrido por conta de um telefonema recebido por André Ceciliano. Em seguida. uma vez que minha inserção no campo havia se dado por intermédio das entrevistas realizadas com 239 . resolveu dar alguns telefonemas e. Nossa conversa foi interrompida por um momento de grande tensão. No jantar acima relatado. Todos tentavam demovê-lo da idéia. dizendo que precisava controlar-se para reverter a situação e que não podia. Pouco depois do episódio. Perguntei sobre a cidade (Nova Iguaçu). disse que estava desistindo da candidatura caso o nome que havia sugerido não fosse o escolhido.sensação de que sairiam vitoriosos. o que ele estava achando de fazer política ali e Lindberg me respondeu que “se sentia em casa”. “não é o lugar que a gente vê nos jornais”. por fim. a convenção foi encerrada sem decisão alguma sobre o vice. A mediação do primeiro foi fundamental para meu contato e posterior inserção na campanha do PT — até então não conseguida por meios próprios240. A relação entre André Ceciliano e Lindberg Farias era de proximidade e de apoio mútuo. que foi aconselhado a negociar com os “interessados”. no qual lhe contavam o que estava se passando na convenção do PT de Paracambi para a escolha do candidato a vice em sua chapa. Uma outra seria convocada para que a escolha fosse feita. Esta notícia acalmou André. Continuou dizendo que iria “mudar aquilo lá”. Falou sobre o enorme acolhimento das pessoas de lá e de como a cidade era diferente do que a mídia apresentava. Lindberg tentou acalmá-lo. todos decidiram ir embora ao mesmo tempo. O nome por ele sugerido provavelmente não seria escolhido. de forma alguma. mas André parecia irredutível. André dizia-se traído por seu secretário de governo — e presidente local do partido — que desejava que seu próprio nome fosse indicado. 240 A pesquisa em Nova Iguaçu teve início com o acompanhamento da campanha de Mário Marques para a reeleição. Muito nervoso. reconhecendo a existência de muita pobreza na região. praticamente descontrolado e aos gritos. desistir da reeleição —o que seria péssimo para o partido.

visto de fora. por exemplo. como a publicada na coluna Extra Extra. no jornal Extra de 06/08/2004. provocou uma espécie de mácula em minha identificação local. 241 Utilizo o termo conselheiro-coordenador porque Rui Aguiar não era o coordenador “de direito” da campanha e não tinha ligações formais com o PT. em relação ao primeiro colocado. Lindberg prefeitos da Baixada. ou de sugestões como. a experiência de André — fundamentalmente. principalmente porque foi utilizado pela equipe de marketing do referido candidato através da divulgação de notas em jornais. Os números indicavam que a disputa giraria em torno de Fernando Gonçalves (28%) e de Mário Marques (26%). Os contatos e acessos de André. parecem ter sido bem aproveitados pelo candidato recémchegado. cuja atuação corresponderia muito mais ao imperativo da conciliação política local do que à coordenação da campanha. Para André. pedindo conselhos e o colocando a par de questões da campanha. no entanto. caso deste jantar. Tal contato. por sua vez. no entanto. a do nome de Rui para “conselheiro-coordenador” da campanha241.Lindberg conversava com o prefeito de Paracambi como se fora seu pupilo (mas sem a reverência típica desse tipo de relação). a movimentação da campanha de Lindberg não havia impressionado a população local nem tampouco a imprensa. o sucesso de Lindberg significaria apoio político na região — assim como de nomes do PT com ampla visibilidade nacional — e dividendos visto que. ele seria seu “garoto-propaganda” na região e no estado. de forma geral. 240 . A coordenação “de fato” ficava a cargo. No jogo político local. de fato. que crescia nas pesquisas de intenção de votos. Até meados de agosto de 2004. à frente da Associação de prefeitos da Baixada — lhe rendia um knowhow e um trânsito que Lindberg não possuía. integrante do partido do candidato. de acordo com o projeto coletivo do partido. tendia para o último. A experiência de André à frente da prefeitura era um capital que o candidato do PT não possuía — não tendo qualquer experiência no executivo — mas que podia lhe ser transmitido por meio de contatos. de Berenice Seara. Tal relação me chamou a atenção porque existia um diferencial de poder entre André e Lindberg que. nesse primeiro momento. Havia um coordenador oficial. de Rui Aguiar. propriamente dita.

aparecia em terceiro lugar (com aproximadamente 12%) e sua campanha de rua ainda não havia alcançado o ritmo desejado pelos organizadores. em discursos televisionados e nos palanques. no material de campanha e nos discursos do candidato — sob a alegação de que Lindberg seria “nordestino como a grande maioria dos moradores da Baixada”242. cit. Sendo assim. geradora de uma série de ataques e contra-ataques. a partir das performances não apenas dos candidatos. além do financiamento de campanhas Há uma espécie de fórmula seqüencial. até então. o que passava inevitavelmente pelas articulações com políticos e empresários locais. lhe haviam sido desfavoráveis. possibilitou tão somente um contra-ataque sem maiores desdobramentos — veiculado pela imprensa. dependente igualmente de uma decisão (positiva) da Justiça Eleitoral — cujos pareceres. O apelo à identidade nordestina – inicialmente usado como acusação pelos adversários. Além da vinculação ao eleitorado. a cadeia que se forma a partir da primeira acusação. laços e interações sociais com os grupos locais. Lindberg tentava constituir uma vizinhança. Este campo. 2000) e que fracassou – tampouco conseguiu cristalizar um vínculo de pertencimento de Lindberg com a cidade e seus moradores. é particularmente marcado pelo número de empresários diretamente envolvidos em cargos comissionados ou com mandatos eletivos na vida política. réplicas e tréplicas que podem ser apresentadas publicamente. ao mesmo tempo em que buscava inserções no campo político. 242 241 . ficando explícitas as diversas formas de ataque utilizadas pelas facções políticas envolvidas no imbroglio. A busca pela vizinhança (Park. A construção de um elo local na condição de morador poderia significar maior “gás” em sua campanha. mas é no comício / showmício que tal prática ganha corpo. a socialização no mundo da política requer do principiante a obtenção de contatos e acessos que possibilitem a aquisição de capital político. aludindo a uma identidade outsider (Elias. op. ou seja. direcionadas individualmente ou disseminadas sob formulações genéricas. mas de todos os que formam o palanque (Palmeira e Heredia.). As propagandas eleitorais gratuitas são exemplares nesse sentido. na Baixada. viabilizando o trânsito nessa arena. 1912) definia sua condição.

Neste pleito. André Ceciliano foi. Volto a frisar: não me refiro apenas ao expressivo número de políticos-empresários da região. mas ao potencial de influência desses indivíduos na vida pública. sendo o candidato mais votado em Paracambi (obteve 58% dos votos válidos). André estudou na cidade e trabalhou na loja que pertencia a seu pai. na corrida de Lindberg à prefeitura de Nova Iguaçu. mesmo partido do ex-prefeito da cidade e. possibilitando. Sua relação com a cidade mantinha-se por intermédio das visitas aos familiares e amigos e do empreendimento que lá realizou. Segundo ele conta. sempre acompanhando de perto as campanhas e seus candidatos — pois “tinha alguma militância no partido” — mas sendo empresário do mercado financeiro. garantindo a posse de André Ceciliano como prefeito. levando boa parte da equipe que com ele trabalhava em Paracambi — e que. Adeilson Telles eram constantes. Seu afastamento. a reabertura da única sala de cinema da cidade. ao setor imobiliário ou à educação privada. Fabinho (como é conhecido). filho de um empresário local do ramo da construção civil e membro do PMDB. Em 1996. foi inevitável. Délio César Leal. resolvendo dedicar-se apenas ao trabalho. em 1996. Somente no segundo semestre de 2005. 244 André Ceciliano nasceu em Nilópolis e mudou-se. Iniciou o curso de Direito algumas vezes. Em 2000. “a personalidade de Lindberg é um problema”. Este último teria exigido a não 243 Para ilustrar tal colocação. montando uma factoring na qual empregou vários moradores e amigos de Paracambi. um importante mediador entre Lindberg e o mundo político da Baixada Fluminense244. houve uma grande disputa jurídica a partir da denúncia de compra de votos por parte do candidato do PL. comerciante de origem italiana e ela. entre outros. novamente. de salões de beleza ou industriais ligados às áreas farmacêutica e de beleza. donos de padarias. Itamar Serpa. No período em que esteve afastado da prefeitura. cuja vitória foi garantida por uma pequena margem (300 votos) de seu adversário. Tuninho da Padaria. em Nova Iguaçu. de botequins. na década de 1960 (com dois anos de idade) para Paracambi onde seus pais — ele. para lá retornou quase integralmente. Nesse sentido. André iniciou sua vida pública em 1995 ao filiar-se ao PT. depois de sua vitória jurídica. 242 . oriunda de uma família de portugueses e índios — foram buscar trabalho na empresa Nicola Salzano. atores políticos por excelência 243. na região. São pequenos comerciantes. Ainda no mês de agosto. André foi secretário de governo de Lindberg. na época. Nelson Bornier. mas não o concluiu. elegeu-se deputado estadual pelo PT. eles configuram. fechada por mais de 10 anos. foi eleito prefeito e em 2004. As desavenças entre ele e o coordenador da campanha. Dr. cito apenas alguns nomes de empresários (de pequeno e médio porte) de Nova Iguaçu que têm ou tiveram mandato eletivo nos últimos anos: Fábio Raunheitti e seu filho. Dois anos depois. Xandrinho.e demais “auxílios” em termos de prestígio e acessos. sendo derrotado por Rogério Ferreira — médico cardiologista. antigos problemas voltaram à cena. deputado estadual . candidatou-se à prefeitura de Paracambi. acreditava “não ter o perfil do PT”. ainda que temporário. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Segundo Adeilson. já tinha contatos com integrantes do partido. disputou a reeleição. saiu a decisão final do Supremo Tribunal. Flávio (PL).

fazer triunfar sua visão de mundo e impô-la como visão correta ou verdadeira ao maior número possível daqueles que são. conforme enfatizado nos trabalhos de Bourdieu ( 1976. permanecendo afastado das decisões e atuando muito mais como um “conselheiro”. apesar das alianças internas ao partido visando um reajuste de forças e a indicação de seu nome para a coordenação da campanha. antes de tudo. a veiculação dessas pesquisas produziria um efeito de “construção de opinião”. desde o início da corrida eleitoral. econômica e. em uma posição extremamente delicada. no pólo oposto ao de Lindberg. à debilidade da posição de Adeilson naquele contexto. Para além do fato de que os índices levantados poderiam causar um impacto interno no campo dos próprios aliados e da “justificativa ética” dada por Adeilson. num primeiro momento. o que o colocou. “homem dos bastidores” da política local. 243 . culturalmente. idem. Em seguida. vinculado a políticos de Mesquita (à família Paixão. o articulador por detrás do coordenador. desde o início. o que agravara ainda mais as discordâncias entre os dois. p. 1977 e 1980 [1973]) e de Champagne (1996 [1990]). “[…] a política é. portanto. Adeilson já estava.24).divulgação de uma pesquisa de sondagem com indicadores negativos sobre sua popularidade. Primeiro porque seria o candidato natural do PT para as eleições. sobretudo. desfavorecidos” (Champagne. pelo menos. por exemplo) foi. Somou-se. Rui Aguiar. esta não era de fato levada a cabo por ele — que acabava tratando de assuntos mais pontuais. o episódio da sondagem não divulgada por determinação do candidato. uma luta simbólica na qual cada ator político procura monopolizar a palavra pública ou. Uma nova crise era deflagrada.

de um lado. A segunda fase da corrida eleitoral teve início justamente a partir deste episódio. e não apenas no estado do Rio de Janeiro. essencialmente devido à “guerra” travada entre o governo federal e o então Secretário de Segurança e ex-governador do estado do Rio de Janeiro. aplicação e divulgação das sondagens pode refletir-se na constituição da “opinião pública”. A partir deste momento. primeiro em favor de Mário Marques e. Nova Iguaçu tornara-se um dos principais cenários das eleições municipais de 2004. mais tarde. e estadual. os índices de intenção de votos começaram a mudar. mas hiper-dimensionou a publicidade local. marcada pela entrada em cena de outros personagens — para a coordenação e realização da campanha — e pela veiculação do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) e realização dos showmícios. resultou não apenas na atenção da mídia.Desse modo. de Lindberg. como o candidato Lindberg Farias — e. O preço a pagar poderia ser alto e inviabilizar a estratégia pensada para reorganizar o campo de forças na arena política iguaçuana — via publicização de sua persona política e de seus programas eleitorais televisionados245. também o candidato Mário Marques. no pólo oposto. o jogo de poder imbricado na construção. 244 . entrava em cena em sua campanha a empresa de publicidade Super Nova que 245 Trabalho com a idéia de Champagne (1996). Somente em meados de agosto de 2004. bem como a de algumas de suas personalidades. Sendo assim. para Lindberg. disponibilizar os dados em questão. significaria explicitar a debilidade da campanha posta em prática até então. que transformaram o candidato petista em um “fenômeno de popularidade”. de outro. Anthony Garotinho. mal podendo sair às ruas e caminhar sozinho. da opinião pública como artefato. Um grande investimento (político e econômico) dos governos federal.

percebi o destaque conferido por ela e por sua equipe à conexão olimpíadas-audiência para o reconhecimento do candidato do PT pela população local. A Bandeirantes transmitiu com exclusividade tais jogos. sócios da agência de publicidade Super Nova. no discurso do candidato petista. limitando-me a apresentar o real crescimento das intenções de voto e a chegada do candidato do PT ao primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto divulgadas ainda em setembro. o que favoreceu a veiculação dos programas políticos dos candidatos do município. entre outros. foi comprovado por meio de pesquisas e de enquetes. bem como aquele exercido por Pedro Cezar (responsável pela campanha de Mário Marques). um outro olhar sobre Nova Iguaçu e a Baixada Fluminense. que o candidato do PT 246 Em entrevista realizada com Débora Souto (uma das sócias da empresa de marketing e consultoria política Monte Castelo. segundo Daniela. A emissora Rede Bandeirantes foi o canal sorteado para a propaganda eleitoral gratuita dos candidatos ao pleito de Nova Iguaçu e um imponderável acabou auxiliando os coordenadores da campanha do PT nesse período: as olimpíadas. à problemática do marketing e do peso de seus agentes (os assessores políticos) na arena eleitoral e seus desdobramentos para a democracia — tratados em trabalhos como os de Scotto (2004) e Castilho (2002). o TRE inovou ao distribuir a transmissão das propagandas eleitorais entre as principais cidades e canais de televisão.atuaria na fase decisiva da preparação da propaganda eleitoral para as mídias eletrônicas. potencializando o poder de alcance e de influência de seu marketing político246. Refere-se. Instaurava-se assim. Foi a partir de setembro daquele ano. atingindo uma audiência muito superior a que tem habitualmente. responsável pela campanha de Lindberg Farias). ainda será abordado neste tese. o que. Não tratarei aqui da viabilidade (ou não) da mensuração das conseqüências deste acaso. Miranda e Cacá (os dois últimos. de forma mais ampla. 245 . O papel desempenhado por Débora Souto. tornando possível a reestruturação da propaganda televisiva e o melhor aproveitamento das inserções diárias. Vozes e Cenários No ano de 2004. no entanto. com a propaganda eleitoral gratuita veiculada pelo rádio e pela televisão e com os inúmeros showmícios realizados. assessora de imprensa de Lindberg durante a campanha e a ele ligada profissionalmente ainda hoje ). O fato é que as transmissões em questão possibilitaram que um maior número de moradores conhecesse Lindberg.

posteriormente suprimido pela censura — especialmente entre 1970 e 1974. O Código eleitoral será o responsável por restringir este uso. Cecília Meireles. A propaganda eleitoral gratuita passaria. Os partidos políticos só vieram a ter direito à propaganda eleitoral gratuita em 22 de agosto de 1962. Barreira. durante o governo do general Médici. no entanto. foi aprovada em 25 de julho de 1976. com o intuito de conter os avanços da oposição (MDB) que aumentava o número de cadeiras na Câmara e nas Assembléias desde as eleições de 1974.115. subordinado à presidência da República e relacionado a nomes da intelectualidade brasileira e do movimento da semana de 22 (Cassiano Ricardo. 2004). Concorrendo para a constituição de identidades. jornais e canais de televisão. (Scotto. criou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Soares. a exibir apenas a foto e o currículo do candidato. passou a atuar na área de “educação nacional” já sob a rubrica de Departamento Nacional de Propaganda (DNP).601. mas a cada eleição a regulamentação se dá por intermédio de leis específicas a cada pleito. Neste ano. Manuel Bandeira. A partir de 1964. suprindo um espaço de informação e comunicação com a população. Caixa Econômica etc. 1996. a modalidade gratuita foi extinta pela lei 9. pode ser encontrado. no governo do general Ernesto Geisel. 4. Este modelo da “comunicação governamental” caracteriza-se inicialmente pelo elevado número de anunciantes com ligações com o aparato do Estado: Banespa. O tema em questão. grande ênfase é dada durante o regime militar à atividade governamental de relações públicas. em diversos trabalhos sobre trajetórias políticas e sobre eleições. fundamentalmente. constituindo igualmente o elemento central dos discursos dos candidatos (Palmeira. Sua propaganda política centrava-se na idéia de mudança. Foi somente a partir da Constituição de 1988 que os todos os partidos políticos tiveram garantido o acesso ao tempo de propaganda eleitoral gratuita sem que. “É hora de mudar. 246 .passou a ter um crescimento extraordinário nas pesquisas de opinião247. Até 1968. norteador da propaganda eleitoral de Lindberg. O Código eleitoral foi criado na década de 1950. programa transmitido diariamente pelas estações de rádio. Em 1939. 1998). A lei 6. Lemenhe. as forças de oposição ainda têm algum espaço na mídia. E em 1937. em 1931. Foi durante o seu governo. 1995 e 1998. a partir da década de 1980 — a política passa a ser representada como um mercado no qual os candidatos podem ter suas “imagens vendidas”. idem). com a criação do Conselho Nacional de Propaganda (CNP). a 247 Getúlio Vargas deu início à organização da propaganda política no Brasil. pra ser feliz” foi o slogam da campanha e mudança foi a palavra-chave empregada para sensibilizar o público iguaçuano. com a instauração dos atos institucionais — fundamentalmente o AI5 (1968) — que caracterizou um período de controle e “fechamento” dos meios de comunicação de massa. Desde a década de 1970 — mas. conhecida como lei Falcão. que a propaganda — até então vinculada a produtos e marcas e dirigida ao mercado consumidor — centrou-se nas questões políticas. que relata os acontecimentos nacionais. normatizando e fiscalizando os processos eleitorais. então. além de anunciar horários de comícios (ver Castilho. até 1974 coexistindo com a propaganda paga . Carlos Drummond de Andrade. pretendendo-se um veículo fidedigno de informação aos eleitores (ver Scotto. em graus variados.339. 1994. 2000). Em 1934. revistas. A criação. responsável pela criação de “A Hora do Brasil”. conhecida como Etelvino Lins. do Departamento Oficial de Publicidade (DOP) representou a primeira vinculação entre propaganda e Estado. progressivamente restringido devido ao endurecimento do regime. com a lei no. fossem proibidas as propagandas pagas em rádios. entre outros). o DOP transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC) também ligado ao Ministério da Justiça. principalmente.

1987) que viria resgatar Nova Iguaçu — e a Baixada. por outro. Lindberg assumia.] Tasso é. portanto. imprimindo ao anti-coronelismo o tom de exortação moral [.. o coronelismo afeta não apenas o corpo desnutrido. pretendia-se. por um lado.. muito mais que um candidato ao governo de um 248 Segall (1979). instaurando um novo tempo para a política. o discurso político de Tasso Jereissati opera igualmente com a “dimensão simbólica” do coronelismo no imaginário coletivo nordestino248. o discurso do herói/ salvador (Girardet. de classe social (movimentos sociais). Atacando o coronelismo. Apesar das alianças com o PSDB e com o PFL. em sentido mais amplo — da condição estigmatizante a que há anos se via relegada e reverter sua alcunha de “curral eleitoral”. A propaganda de Lindberg referia-se especificamente a esta última. A mudança pode ter uma conotação de gênero (candidatas mulheres em oposição a candidatos homens). o candidato do PT colocar-se-ia contra o complô permanente a que seus moradores estiveram submetidos. 247 . De modo semelhante a Lindberg. “Insidioso mal. o clientelismo e o assistencialismo como práticas políticas “típicas” da elite local.mudança aparece como categoria relacional na medida em que se constrói no discurso de diferenciação do Outro — neste caso. mas a própria alma do povo. de perfil ocupacional (empresários) ou relacionada a uma estrutura de dominação política (remanejamento de poder com discurso de contestação/ crítica de elites locais). como nos mostra Carvalho (1995). alcançar a parcela da população insatisfeita com o governo de Mário Marques e. portanto. o(s) adversário(s) político(s) — e vai se adequando aos contextos aos quais é inserida. dar um basta à alternância das elites locais — representadas mais recentemente por Bornier e pela família Raunheitti — no poder.

no entanto.. Tais ataques. eu vou pôr ordem (. 01 Ele foi cara pintada 248 . anúncio de um novo tempo na política” (pp.) eu tô (estou) mandando um recado para aquela turma que tá (está) ali (.) eu vou entrar ali... O projeto de uma nova Baixada. O discurso do partido apresentava. o mesmo não se dava nos palanques. na hora da eleição. A trajetória do candidato fundia-se então a um conjunto ampliado de imagens e projetos relativos à própria cidade. A fala de Lindberg — durante debate realizado no SESC de Nova Iguaçu pelos movimentos sociais locais. apresentavam-se sob forma “genérica” e não individualizada (omitindo nomes). O jingle de Lindberg é exemplar para pensarmos a construção do discurso que moldou toda a sua campanha e que procurou forjar sua identidade política. se nas propagandas gravadas. a partir de uma nova Iguaçu.. em 16 de setembro de 2004 — evidencia a ênfase em um discurso de diferenciação em relação aos demais candidatos e de transformação: “(. Devo ressaltar que. na figura de um jovem e promissor político..estado do Nordeste. de compra de medicamentos. Vamos entrar rasgando aquela máfia lá.) não tô (estou) de brincadeira. prática esta que os demais candidatos entrevistados assumiram como rotineira durante o período de eleições: “é assim mesmo.. vale tudo!” (candidato à Câmara Municipal pelo PDT).132-133). a possibilidade de experimentação de uma nova etapa na vida da cidade. a Diocese de Nova Iguaçu e a Escola de Governo da Baixada. ele é a materialização da imagem mítica da ruptura com os grilhões do passado. o candidato não costumava utilizar-se do expediente de atacar os adversários. fundamentalmente o MAB. de tudo” (palavras de Lindberg Farias). era então veiculado nas propagandas televisionadas do candidato petista.

(grifos meus) O velho e o novo.. no outro. nova direção 10 Um novo caminho 11 Uma nova visão 12 Lindberg é o futuro 13 Com coragem e pé no chão 14 Pra cuidar de todo mundo 15 Coração e peito aberto 16 Pra mudar o que tá ruim 17 E pra fazer do jeito certo. Estes pares de opostos 249 . em um dos pólos. 22 Lindberg prefeito. é hora de mudar. e de Marques/ Gonçalves.02 Líder de uma geração 03 E manteve o passo certo 04 Cresceu junto com a Nação 05 Hoje é homem de idéias 06 Que traz a solução 07 Sempre com a verdade 08 Sempre com a sinceridade 09 Nova Iguaçu. 18 É hora de mudar 19 Pra ser feliz 20 Lindberg prefeito 21 É assim que se diz. o tradicional e o moderno confrontavam-se por detrás dos nomes de Lindberg..

Se até o mês anterior. resultando em um amálgama que permitia a Lindberg utilizar-se do discurso da mudança. 15 e 19). as pesquisas de opinião já se haviam alterado. Acenava-se. como também às trajetórias e faixas etárias dos candidatos. sendo a trajetória como deputado (por dois mandatos) enfatizada como o traço que o distinguiria do “estudante”. A identificação da população jovem do município com o candidato do PT e sua atuação no movimento estudantil e no impeachment de Collor mostrou-se um dos pilares de sustentação da campanha (linhas 1 e 2 do jingle). com 30% das intenções de voto. A nova conjunção de forças em Nova Iguaçu. ao mesmo tempo em que costurava arranjos com políticos tradicionais sem que tivesse afetados seu foco ou prestígio. Não se operava mais uma disputa entre duas elites locais. Sendo assim. a composição de forças era diferenciada.aplicavam-se não somente aos programas políticos e slogans. ou entre uma elite local e um forasteiro (como tentaram qualificá-lo com a utilização da categoria “nordestino”. o “poder de fogo” voltou-se inteiramente para o primeiro colocado. no entanto. A temática da mudança sempre esteve relacionada à sua figura política e remetida à construção de uma trajetória ligada aos sentimentos e às emoções (linhas 14. seguido de Mário Marques (27%) e Fernando Gonçalves (16%). Lindberg deixara para trás os 12% que registrava em 10 de agosto e já estava em primeiro lugar. o grande rival de Mário Marques era Fernando Gonçalves e a disputa girava em torno das elites iguaçuanas — que tentaram atingir Lindberg por intermédio de um discurso apoiado na identidade local — os 250 . A esta altura da campanha (3 de setembro de 2004). o candidato do PT. a partir deste momento. redefiniu a luta política em termos de facções. no período pré-candidatura). ao mesmo tempo em que o transformara. A partir de agora. de fato. em “homem”(linhas 4 e 5). para uma nova polarização. portanto.

“Você tem que saber uma coisa. idem) remete. Outdoors colocados em pontos estratégicos. somando-se a falta de apoio e de dinheiro. A exibição de fotos de Lindberg bebendo uísque. os resultados foram outros. os sentimentos e os “atributos psicológicos” voltaram à tona nos ataques ao candidato do PT e na resposta de sua equipe. as regras do jogo devendo ser necessariamente reformuladas. Grosso modo. agora. violento. outdoors denunciando seu voto a favor do salário mínimo de R$ 260. neste caso. na Baixada. Aqui. arruaceiro.jogadores. as informações mais ou menos depreciativas sobre terceiros.00. para o “bem do povo”. em geral. A expressão acusatória dos sentimentos (Barreira. a gente faz política com fofoca” (palavras de um assessor político de um dos candidatos à Prefeitura). A equipe de Marques iniciou um feroz ataque ao deputado federal do PTB que. foram expedientes utilizados pelos adversários para desconstruir a imagem de “homem de bem” e deslegitimar o discurso da mudança através da retórica do medo e da divulgação de antigas imagens a ele associadas: a de bêbado. Cartazes apócrifos foram espalhados pela cidade. drogado. foi aos poucos sucumbindo ao poder da máquina representada por Mário e pelo PMDB. admitindo-se assim um caráter de artificialidade e de construção de características apresentadas como verdadeiras por determinado candidato. haviam mudado de posição. transmitidas por duas ou mais 251 . mas. Todos com o mesmo conteúdo: acusações dirigidas ao candidato da coligação Hora da Mudança. novamente. e levando em conta que “o uso comum nos inclina a tomar por fofocas. As mesmas iniciativas foram tomadas em relação a Lindberg. Aqui. e que seriam desmentidas pelo adversário para o conhecimento da população. em especial. cartazes revelando sua suposta concordância com a liberalização da maconha. a fatos contados como revelações.

no qual os personagens surgiam e desapareciam conforme os “gostos” dos eleitores. “Isso aqui é uma vergonha. op. provocar sua rejeição por parte da população local — fato muito bem explorado pela equipe de marketing do PT e capitalizado em termos de solidariedade e demonstrações de apoio ao candidato. a arena política num folhetim. preferindo explorar sua atuação administrativa à frente da prefeitura por quase dois anos e os graves problemas de infra-estrutura que a cidade ainda enfrentava. cit. Eu nasci na lama. mas não exclusivamente — transformou.pessoas umas às outras” (Elias. o discurso do candidato do PT voltou-se para a revitalização dos bairros — percebidos como o locus da sociabilidade nativa por excelência —as peças publicitárias passando a enfatizar um conhecimento sobre a cidade e seus problemas. verificamos que a fofoca — preferencialmente a blame gossip. os aliados. Sua resposta às acusações também foi equivalente àquela adotada em 2002: no estilo “lulinha paz e amor”. A equipe de marketing responsável pela campanha do PT em Nova Iguaçu não atacou o candidato à reeleição em termos pessoais. 252 .121). Lindberg incitava a população a optar por uma nova fase em suas vidas: “é hora de mudar pra ser feliz” (linhas 18 e 19 do jingle)249. os eleitores). Se os ataques a Lindberg apresentavam-se de forma violenta e incessante. Os temas das maledicências eram “testados” a partir dos sentimentos e reações manifestados pelos demais atores em jogo (os adversários. não conseguiram. naquelas eleições em particular. no entanto. prometendo “cuidar de todo mundo” (linha 14). tô criando meus filhos na lama. Por intermédio do depoimento de uma (suposta) moradora da periferia da cidade exibido em um dos programas eleitorais de televisão. p. mostrando o 249 A menção ao “estilo lulinha paz e amor” foi recorrentemente utilizada por assessores e demais pessoas próximas a Lindberg Farias. vou criar meus netos na lama”.

inexploradas pelos antecessores políticos. a “terra” e as “belezas iguaçuanas”. alçar o iguaçuano à condição de legítimo representante da região. mas um projeto novo.candidato nas ruas com “sua gente”. a equipe de Lindberg e o candidato optaram por redefinir a Baixada a partir da condição iguaçuana. A potencialidade do crescimento e da grandeza era agora enfatizada a partir da natureza e da cultura próprias à localidade. mas também como vocação da cidade. a campanha do PT propunha uma retomada do antigo prestígio e poder da cidade. A valorização da cultura local. de o “lugar” da Baixada. ou seja. o apelo “ao que Nova Iguaçu tem de bom” ditou o ritmo das propagandas e das falas políticas. As tomadas externas da campanha publicitária priorizaram a “gente de Nova Iguaçu”. então. Evocando. do “tempo dos laranjais” (Souza. Conferindo o título de “capital da Baixada” à Nova Iguaçu. a par das dificuldades cotidianas do morador iguaçuano. 1992). operava-se com a idéia de que já haveria capacidades inerentes à cidade e a seus moradores. para um projeto de reconstrução da cidade. da ecologia e do trabalho foram os pilares de sustentação de seu programa de governo. uma nova Iguaçu. Além da temática da mudança e de suas implicações. Nova Iguaçu deveria ser restituída a seu posto. a “comunidade da Baixada” ao invés de referir-se exclusivamente à Nova Iguaçu. 253 . quando ainda não havia sido desmembrada com as emancipações que se seguiram. Neste sentido. O direcionamento de sua propaganda voltou-se. de uma nova cidade. Sendo assim. bem como das propagandas televisionadas. em muitas situações. não apenas um projeto urbanístico como o das administrações anteriores de Bornier. Essa nova Iguaçu aparecia como projeto político.

a fama — por vezes tomada como sinônimo de carisma — diferentemente da honra estaria ligada ao advento da comunicação de massa e à particularização do indivíduo que. o que pode manifestar-se na idealização de uma relação amorosa com o indivíduo singularizado por seu carisma (que no caso desta tese foi ressaltado na relação de eleitoras com Lindberg) ou ainda. Lindberg já gozava da fama de “bonitão”. O Dia. a condição de ídolo do candidato do PT e seu pólo oposto e complementar. mas à fama alcançada pelo candidato do PT. combinada com a impossibilidade de identificação plena. pela conquista do eleitorado feminino. a fama pode ser pensada em termos de uma relação assimétrica entre ídolo-fã — neste caso.O Cortejo e a Vitória “Não sou só um rostinho bonito” (Lindberg Farias. na transformação do candidato em “produto massificado”. sendo da natureza mesma dessa relação a impossibilidade de o indivíduo famoso corresponder às expectativas que tantos alimentam a seu respeito” (p. entretanto. Segundo a autora. A apatia dos primeiros dias de campanha havia ficado para trás e Lindberg passava a ser festejado por segmentos diversos nas ruas e aclamado pelas mulheres. de “lindo”. operou sua transformação de “muso” em ídolo. A segunda fase da campanha foi marcada. Aqui. Desde os “tempos” da UNE. entre outras coisas. “pop star”. 24/10/2004). A eleição iguaçuana de 2004. fã-eleitor). Assim como exposto no trabalho de Coelho (1999). Não refiro-me apenas a seu prestígio político. especificamente.135). o fã (neste caso. que o apelidaram de Lindoberg ou Lindinho. a partir de uma concepção específica de modernidade 254 . “o modelo da relação é basicamente centrípeto: um indivíduo centraliza as atenções de muitos. seu “efeito” sobre as mulheres sendo sempre ressaltado em matérias jornalísticas.

1967). op. “Vejo todos os programas”. cai no choro depois de beijar o ídolo. Algumas mais assanhadas.) conduzida pelos showmícios. Esta definição expõe o caráter dinâmico do conceito. chamando o candidato de gostoso (O Dia. as eleitoras mais jovens usavam adereços como bandanas. Explorando a imagem de ex-líder estudantil para assegurar sua proximidade dos jovens de Nova Iguaçu. remeteria à exaltação da singularidade do ídolo por oposição ao anonimato (ainda que relativo) do eleitor. A política da festa (Chaves. de 40 anos. adolescentes e mulheres de Nova Iguaçu. de 19 de setembro de 2004. Lindberg obteve uma combinação de fatores que lhe rendeu amplo acesso ao eleitorado feminino (de diversas idades). Claudete Santos Lima. bem como o carisma pessoal e a beleza. Com manchetes como a publicada no Jornal do Brasil. Além de camisas com o nome do candidato. respectivamente): “O ídolo pop da Baixada: candidato petista à prefeitura de Nova Iguaçu. 1.(Simmel. faixas de cabelo e pinturas feitas nos rostos — geralmente a estrela do PT. Moreno. os programas eleitorais televisionados e a ênfase no corpo a corpo auxiliaram na transformação do candidato em ídolo. A doméstica desempregada.85m e 86 quilos. e passa à frente nas pesquisas para prefeito” ou as que figuraram no jornal O Dia (de 4 e 29 de outubro do mesmo ano. visto que é construído na relação entre os discursos sobre si e sobre o outro em um jogo que nos permite perceber a fabricação de personagens públicos visando reconhecimento. 04/10/2004).cit. antes de romper a barreira de 255 . Lindberg Farias sofreu com o assédio feminino” e “Petista joga para torcida: mulheres lotam campo para assistir à pelada do prefeitável de Nova Iguaçu com astros do futebol” percebemos a dimensão de sua aceitação por uma parcela específica do eleitorado iguaçuano. “A Baixada se rende ao forasteiro: deputado do PT vira ídolo de crianças. renome. não se continham. dizia ela. o paraibano arrancou suspiros das mulheres – muitas delas o tratavam como “Lindinho”.

Mandei vários e-mails para as responsáveis pelo fã-clube. fiz algumas pesquisas sobre os fã-clubes do candidato petista. Na Internet encontrei um site. “Aaaaiiii! Lá vem ele!”. disseram que não importavam a mínima para a partida. 29/10/2004).] Antes da chegada do candidato. Tatiana de Souza. cita outra. Num certo dia. conversando com uma pessoa que trabalhava na campanha. dizia Tatiane250 (O Dia. mal consegue andar pelo calçadão comercial do centro [de nova Iguaçu] [. Ele está com esse bermudão. 24/10/2004). 250 256 . mas sem competência não dá”. o que quer que seja. Não posso confirmar ou negar tal fato.. no qual havia depoimentos de algumas mulheres — todas jovens entre 15 e 24 anos — além de uma pequena biografia de Lindberg. comemora eufórica: “Ele bebeu água mineral da minha garrafa!” Ele quem? Reinaldo Giannechini? Não. lembra uma. de 34 anos. “Ele luta pela universidade pública”. Vanessa Peixoto. para “criar notícia”. e apesar das inúmeras manifestações que pude presenciar durante a campanha — e mesmo depois dela — não consegui confirmar a existência de um único fã-clube do candidato. “Ele até pode ser lindinho. afirmou não ter qualquer contato com elas. camisa branca e gravatinha azul do curso normal superior do Instituto de Educação Rangel Pestana. 18. 17 anos. avisa a terceira. Leide Melo. 18 anos e Tatiane Alves. não conseguindo falar com nenhuma das jovens cujos emails constavam do site. 16. “Prometeu dar um jeito na saúde”. Telefonei para ele perguntando como poderia entrar em contato com as duas meninas do fã-clube. Ressalto. Representantes de fã-clube e moradores disputaram o alambrado em volta do campo. “Vim aqui pra ver o Lindberg de terno. Lindberg Farias. Diante disso. As estudantes Samantha Navarro.. ela deixou “escapar” que o fã-clube teria sido uma invenção de marketing. gritam elas ao avistar o candidato. vestidas com saia de pregas. de short. Ele me respondeu que teria sido contratado por uma pessoa da assessoria de comunicação de Lindberg e que não teria tido contato algum com nenhuma das fãs-eleitoras. Quando indagado sobre como localizar uma das fãs. São cinco e meia da tarde de terça-feira e Lindberg. e Talita Carriello. Conversei com um dos principais assessores de Lindberg que confirmou a existência do fãclube. Durante o mês de setembro de 2004. paraibano que ficou famoso ao liderar o movimento dos estudantes cara-pintadas pelo impeachment de Collor em 1992. no entanto que. E lá se vai a consciência política (idem). espero que ele bote um shortinho mais curto”.seguranças. procurei o responsável pela página (o webdesigner). 20. 20 anos. deputado federal e candidato à prefeitura de Nova Iguaçu (Extra. estudante de enfermagem. mas nunca obtive resposta. davam explicações políticas para a preferência pelo petista.

Daniella Sholl. e dela tirando o máximo proveito possível252. 257 . em entrevista realizada em julho de 2005. porque é uma loucura. tenso. Alguns confrontos entre adversários acabaram em ataques físicos. Você viu. de 24/10/2004. A gente nem podia sair na rua com ele. eles estariam encarregados de manter sob controle as fãs-eleitoras. “Era uma loucura. Diante disso.. tal jornalista resolveu ir à Nova Iguaçu. assalto ou atentado político). afirmando ter “mais votos entre os homens”251. confirmando o assédio ao candidato e corroborando o apelido “Lindoberg”. um ou dois bastavam para protegê-lo de qualquer eventualidade (leia-se. Amanheceu um dia chuvoso. A gente ficava perdido.. sem saber o que fazer. a partir do final de agosto. É verdade. pô. O dia 3 de outubro de 2004 parecia anunciar a vitória. A fiscalização estava atuante: materiais considerados ilegais foram apreendidos e acabaram presos cabos eleitorais que estavam além dos limites previstos por 251 252 Fala extraída do Jornal do Brasil. gente te puxando de todos os lados. surpreendidos durante o processo eleitoral. a cidade estava tomada por grande agitação. abraçar e beijar que só ele pra ter tanta paciência mesmo. O quê que eu podia fazer? Não dá pra empurrar. Urnas eletrônicas tiveram que ser substituídas. em uma conversa com uma amiga — jornalistade O Globo — comentou sobre a popularidade de Lindberg junto ao eleitorado feminino da cidade e que as mulheres gritavam seu nome quando ele passava ou chamavam-no de lindinho. Ele ficava esgotado no final. Segunda ela. não viu? A mulherada gritava mais pra ele do que pro Zezé di Carmago. Lindberg tentou desvincular-se de uma associação direta com o “voto feminino”. Se anteriormente. pro KLB. contou-me que a idéia do apelido “Lindoberg” foi sua. é mole? [risos] Era um tal de pegar. Mas ele tem um pique! Parece que nem dorme. troca de socos entre cabos eleitorais. até. 28/11/2004). Eu nunca vi coisa igual” (um assessor de Lindberg durante a campanha eleitoral. às vezes.A fama mudou o dia a dia do político. A proporção tomada por sua transformação em ídolo não era esperada nem mesmo por membros de sua equipe. Não era mais possível sair às ruas sem seguranças. são eleitoras né?! Tem que deixar. ainda segunda Daniella. Cabos eleitorais por todos os lados tentavam buscar nos indecisos a chance da virada.

no entanto. com 947. Lindberg Farias.800. teve um encontro hoje com o presidente Luiz 253 Lindberg Farias pediu às autoridades competentes o envio da policia federal para Nova Iguaçu no dia da eleição. tirou o máximo proveito de ter o Presidente da República como aliado declarado.137. mas contra o boato de que não sou mais candidato. transformando-o em “garoto-propaganda” de sua candidatura no segundo turno. Lindberg e sua esposa votaram pela manhã. votou no Instituto de Educação Rangel Pestana.185 votos (48. o pedido foi recusado por ter sido considerado desnecessário pelo presidente do TRE-RJ juiz Marcus Faver. com 44.lei para a “boca de urna”. quando as pessoas descobriram que era uma armação. Cheguei a ficar apavorado. 04/10/2004). Estou lutando. para quem pelo menos não houve manipulação das urnas (Jornal do Brasil. O Mário Marques teve 15 dias de campanha suja. O candidato do PT à Prefeitura de Nova Iguaçu. A solicitação para que a polícia federal garantisse a idoneidade das eleições não foi atendida e mais choques e ameaças davam demonstrações do que ocorreria até o fim do dia253. com 2. mas acho que. seguido de Mário Marques. se voltaram contra o meu adversário. não contra o meu oponente.19% dos votos válidos). Lindberg não deixou escapar a oportunidade e. – Faltou ética para meus adversários. Logo em seguida ao resultado da apuração.353 e Zé Renato. o segundo colocado deu início a novas articulações para tentar angariar o apoio dos candidatos vencidos. com 181. Carlão. na Igreja de São Jorge. Espero que isso não influencie o resultado da eleição – afirmou o exdeputado. enquanto Mário Marques. com 147. 258 . O primeiro turno terminou com Lindberg em primeiro lugar. também acompanhado pela esposa. conforme anunciado na reportagem da Folha de São Paulo de 06/10/2004. Fernando Gonçalves.

Lindberg participou de um café da manhã com José Dirceu (Casa Civil) e Lula. A conversa com o Presidente será usada na campanha para o segundo turno. Fernando Gonçalves já era sondado por ambos os lados. E eu quero ver como esse menino vai ficar agora. Já gastei muito com eleição. no entanto. o presidente afirmou em sua última visita ao Rio que o governo federal ajudaria as prefeituras que sofressem discriminação dos governos estaduais. Agora a máscara caiu. desde o início. apoiando-se sobre o “episódio do mensalão”. em particular na área de saneamento. Após ser informado que o ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) havia feito ameaças de corte nos convênios entre o Estado do Rio e Nova Iguaçu caso Lindberg vencesse. Sendo assim. Segundo ele próprio me informou — em entrevista realizada em agosto de 2005. senão. Nessa mesma entrevista. Mas o PT nunca me enganou. Mesmo antes do resultado final de 3 de outubro. O patriarca da família Raunheitti também foi procurado. Antes do encontro em separado com o presidente. das chances remotas de seu sobrinho. O tema da conversa foi a possível criação de parcerias entre a prefeitura de Nova Iguaçu com o governo federal e organizações internacionais como o Banco Mundial. Segundo Lindberg. preferindo ficar “de fora dessa disputa”. Eu não ia desembolsar nada. poucos meses antes de seu falecimento — estava ciente. eu deixei a política pra lá. Se algum filho meu quiser se candidatar. boa pinta e deixou o Mário no chinelo. A prefeitura está parada. Eu sempre soube que era o mais sujo de todos. Fiquei desgostoso depois do que aconteceu comigo [referindo-se ao caso dos Anões do Orçamento]. tudo bem. O Fernando fez o que 259 .Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. deixou claras suas críticas a Lindberg e ao PT. não apoiou lado algum. Lula prometeu dar “um banho de saneamento e asfalto” no município e disse também que espera que “a administração em Nova Iguaçu seja um cartão postal do PT na Baixada Fluminense”. “Esse rapaz veio pra cá com uma carinha bonita. A administração dele não anda.

Jornal do Brasil. afirmava ter conhecido o candidato em 1996 e que ele seria o pai biológico de sua filha de 7 anos254. 21/10/2004. Durante a campanha para o segundo turno das eleições. O Dia. Fernando Gonçalves acabou apoiando Lindberg. Ele não tinha pique pra agüentar o ritmo daquele menino. por “ficar fazendo papel de bom moço” — comentário de Mário Marques a um jornalista do Jornal do Brasil (idem). O Bornier não ia soltar mais dinheiro. por ele. 21/10/2004. 21/10/2004. o Mário nem seria o escolhido. alegando que as eleitoras estariam cometendo um erro por votarem nele devido somente à sua beleza. a ligação com Fernando Gonçalves implicava também a aproximação de uma importante parcela do eleitorado: a evangélica — religião do candidato do PTB derrotado nas urnas no primeiro turno. É muita diferença. sendo alvo de ataques do candidato adversário. a garçonete Márcia Cristina Lima. em mais um surto de agressões e acusações mútuas. Mas já que a juventude e a beleza pareciam contar a favor de Lindberg. Lindberg negou a afirmação. O Globo. Segundo os jornais. Outdoors do primeiro turno estampados com sua foto foram pichados com a palavra traidor. os ataques não foram diferentes. Para Lindberg. de 35 anos. espalharam a notícia de que o candidato do PT teria uma “filha bastarda”. 254 260 . O Mário já não tinha mais chance. Se juntou ao mais forte. seus adversários resolveram mudar de estratégia.tinha que fazer. 14/08/2005). Campanha é uma dureza. Eu já estou velho e doente pra essas coisas” (Fábio Raunheitti. além do apoio de um “nativo” com significativa expressão política (e eleitoral). o boato em questão foi noticiado em diversos jornais: Estado de São Paulo. Aproveitando-se da antiga fama de “mulherengo”. partindo agora para um ataques morais. e eu acho que. A relação de “fã” foi alvejada pelo adversário. 22/10/ 2004. declarando não conhecer a garçonete e contestando Na ocasião.

que até então residia com a avó materna. Entretanto. na minha vida”. Em encontro fechado com os candidatos do PT às Prefeituras de Nova Iguaçu (Lindberg Farias) e de Niterói (Godofredo Pinto). vestido com uma camisa de cor laranja. “Não se preocupe porque esse tipo de coisa só tira voto do adversário”. o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a acusação de que Lindberg Farias poderia ser pai de uma garota de sete anos. manifestando repúdio às acusações. data marcada para o segundo turno das eleições. Ainda segundo esta mesma pessoa. O candidato do PT em Nova Iguaçu creditou o pedido de paternidade da garçonete Márcia Cristina Leonardo Lima a uma estratégia do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) para prejudicá-lo. de sua esposa. mostrando-o em família (com a esposa e o filho. o impacto teria sido mais pessoal e menos político. Imagens feitas em seu apartamento. principalmente. Nesse mesmo período. o IBOPE apontava para um empate técnico entre os dois candidatos ao segundo turno.informações por ela fornecidas aos jornalistas: “com todo respeito a Coelho da Rocha. nunca estive lá. o corpo a corpo e os showmícios continuaram ditando o ritmo da campanha. uma vez que sua equipe de comunicação revertera imediatamente a situação. apesar do desgaste da acusação de ser pai de uma filha bastarda. 22/10/2004). No dia 31 de outubro. divulgando declarações do candidato e. Quanto mais próximo do dia da votação. mais tenso ficava o clima político na cidade. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros colegas do PT vieram em seu auxílio. A suposta paternidade foi um duro golpe. Lindberg. a movimentação não foi diferente. em Belo Horizonte) foram divulgadas pela mídia. Lula afirmou que a acusação não deverá prejudicar o candidato. votou às 10 horas da 261 . segundo me informou uma pessoa próxima a Lindberg. disse (Folha de São Paulo. Segundo a assessoria de Lindberg.

O adversário. e passou por seguranças e cabos eleitorais do adversário. diziam (O Dia. a votação durante o segundo turno transcorreu sem maiores problemas. é ele”. Mário Marques. Tanto Lindberg quanto Mário optaram por acompanhar de perto as eleições. por duas vezes” por promover uma pequena carreata (idem) e o segundo. “Olha lá. advertido pela juíza da 158ª. após a apuração do resultado de algumas sessões eleitorais. visitando bairros. em companhia da família. A comemoração da vitória começou já no início da noite. A campanha ainda não havia terminado e. Nas ruas cheias. 01/11/2004). praticamente tomadas — em sua maioria por jovens com rostos pintados com a estrela vermelha. O primeiro teria sido “quase detido. justificando a cor da camisa que marcou os últimos dias de sua campanha. “É a cor dos laranjais de Nova Iguaçu”. durante todo o dia. Lindberg Farias (PT) resolveu madrugar ontem. fazendo referência ao símbolo do Partido dos Trabalhadores — carros de som tocavam funk. falando com militantes e ambos foram repreendidos pelas autoridades. acompanhado de Benedita da Silva e de Rodrigo Maia (PFL). Lindberg foi carregado nos ombros por militantes e ovacionado pela 262 . disse. votou como no primeiro turno. o candidato já estava dentro do seu jipe para buscar os votos dos indecisos. os candidatos percorreram as ruas atrás dos indecisos. gritando o seu nome (idibem). Ele saiu do prédio onde mora. Zona Eleitoral devido aos militantes que o acompanhavam. A despeito dos boatos de que a candidatura do petista havia sido impugnada. Às 6h30. além do jingle da campanha. na rua Humberto Gentil Barone. que ficaram surpresos com a disposição de Lindberg. Mário Marques. principalmente.manhã.

beneficiado o PT com seis minutos diários no horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). Só tinha refrigerante. Vendido a R$ 2. o deputado federal Itamar Serpa. contou. O vice também reclamou da “importação” de pessoal do PT de São Paulo — como secretários e assessores — ameaçando não tomar posse. a vez das negociações. Os conflitos não cessaram com a vitória. Nomes importantes do PT que participaram da campanha não estiveram presentes na cerimônia de posse. o prefeito empolgou o público ao lembrar Che Guevara e prometeu governar para o povo” (O Dia. 51 anos. caprichou.população. fotos com o prefeito e a primeira-dama. As comemorações invadiram a noite e. os iguaçuanos fizeram um carnaval fora de época. localizada na Rodovia Presidente Dutra. na casa de shows Rio-Sampa. 263 . 02/01/2005). foi desencadeada a partir da escolha dos nomes que comporiam o governo. “Emocionado. A reclamação foi a falta de bufê. 02/01/2005). alegando ter aberto mão de uma candidatura própria e. apesar da dúvida ter persistido até o último momento. Lindberg foi empossado assim como seu vice. choros e vaias a Fábio Raunheitti foram alguns dos ingredientes da festa. Gritos. com exceção de Marcelo Sereno (Secretário Nacional de Comunicação do PT) e Vicente Trevas (Subchefe da Casa Civil para Assuntos Federativos). As queixas não paravam por aí. Depois das comemorações. Para ninguém repetir cor”. A tietagem persistiu até mesmo durante a cerimônia de posse. A dona de casa Marise Gamelheira de Souza. A expectativa dos iguaçuanos era tão grande que meninas preferiram usar a roupa de réveillon na tarde de ontem. No dia 1o de janeiro de 2006. Itamar acusou Lindberg de querê-lo somente como “figura decorativa”. Uma crise com o vice-prefeito. (O Dia. com seu apoio. como verdadeiros foliões. brilhando em strass. “Fui comprar roupa com as mulheres da família juntas.

Sobre o futuro. Maria Antônia — à prefeitura. assim. de um lado e. Essa fase de lua-de-mel passa daqui a pouco. Tentava. eu fizer uma boa administração. posso virar uma referência no estado do Rio. agora. foi escolhido presidente da Associação de Prefeitos da Baixada e já articulava reuniões e encontros dos políticos locais com o Presidente Lula e sua equipe. Nem o “apagão” ocorrido aquela noite foi capaz de desanimar os presentes. Vicente Guedes (PSC). demonstrar a seus pares dispor de acessos privilegiados. para 2010. Se eu arrebentar 264 . Se alguém fizer bandalha. Sei que meu futuro vai depender muito dessa prefeitura. Se. Outra festa começou. Com relação ao futuro político. não quero me envolver com corrupção. boto a polícia em cima. Na ocasião. Lindberg afirmou não estar entre seus projetos. não foram. uma opção possível. no entanto. presidida pelo prefeito de Rio das Flores. A Secretaria de Imprensa do Palácio garantiu. Constituía-se. entretanto. como um porta-voz legítimo de sua região.Depois da cerimônia Lindberg dirigiu-se — juntamente com a esposa. o prefeito de Nova Iguaçu também teve que lidar com a disputa de poder entre a Associação por ele presidida. Lindberg costuma dar respostas vagas. o governo do estado do Rio de Janeiro. Juro que não penso em ser Presidente da República. Tenho um filho de nove anos. tenho que apresentar resultados. em 2006. a Associação de Prefeitos do estado do Rio de Janeiro (Apremerj). onde havia um grande número de pessoas o aguardando para que Mário Marques lhe passasse o cargo. aliado de Garotinho e do PMDB. Ainda em dezembro de 2005. a médio prazo. assim. de outro. “Não existe uma meta. que Lula receberia os prefeitos eleitos da Baixada. pela bateria da Escola de Samba Leões de Nova Iguaçu. Suas primeiras tentativas entanto. animada. no bem sucedidas — devido “à falta de espaço na agenda” do Presidente.

Sua capacidade de atuar nos mais variados contextos e falar a “língua” de seus interlocutores — fossem eles jovens estudantes. A multiplicidade acionada por sua persona tornava possível a associação entre elementos por vezes contraditórios. costurar alianças políticas decisivas para a conquista do executivo municipal iguaçuano. membros de camadas médias ou classes populares — lhe garantiu um lugar privilegiado na dinâmica política local.no meu governo. Nas 62 cidades maiores. mulheres. 1993 e 2000) implica pensarmos a sua vitória como um acontecimento ainda mais improvável no contexto da política praticada localmente. libertando Nova Iguaçu e a Baixada por intermédio do discurso do ator político sobre a cidade e a região. particularmente. o slogam da mudança apresentaram-se como uma exortação. segundo David Fleischer “Em 2000. Os atributos acionados durante toda a campanha e. transformando-se no que Friedrich (1968) denominou political middleman. o PT elegeu 187 prefeitos.). como se Lindberg fosse “o herói do progresso marchando contra a força do atraso” (Carvalho. op. o PT 265 . posso um dia ser governador” (14/11/2004). A eficácia de uma construção simbólica apoiada na veiculação de uma identidade política ideológica em oposição a uma postura assistencialista (Kuschnir. Em nível nacional. ao mesmo tempo.9 milhões de eleitores (38% do eleitorado nestas cidades). A atuação de Lindberg durante a eleição de Nova Iguaçu demonstrou seu sucesso em traduzir códigos culturais e. Pela primeira vez na história política de Nova Iguaçu era eleito um candidato do PT. Na eleição de 2000. ora investido. cit. mas no ‘Brasil urbano’ (100 cidades maiores) elegeu 27 prefeitos em cidades que somaram 12. homens. André Ceciliano havia sido eleito o único prefeito do partido em toda a Baixada Fluminense e um dos dois eleitos no estado do Rio de Janeiro.

Anthony Garotinho — especialmente a conquista da prefeitura de Nova Iguaçu.2%. IBAM. aquém da média nacional de 37. 51 (27. www.9 milhões de votos em 1996 e 11. As prefeituras conseguidas pelo PT foram: na Baixada . Niterói (Godofredo Pinto). no restante do estado. foram 412 prefeituras conquistadas pelo PT em todo o território nacional. Em 2000. Ver tabela 5 do anexo. O PT disputou 16 destas eleições (mais da metade) e elegeu 13 prefeitos” (publicado no portal Universia Brasil. Em nível nacional. bem acima do crescimento do eleitorado nacional (14. O PT elegeu 350 vereadoras entre 2.387 vereadores eleitos em 2000.br/html/materia/materia_edfi.universia. Série Estudos Especiais no. Dos 60.9 milhões em 2000 — um aumento de 51. janeiro de 2005. Cantagalo (Guga de Paula).Nova Iguaçu e Mesquita (Arthur Messias).elegeu 17 prefeitos. 85. Franqueava-se ali uma das principais portas de entrada para o partido e para seus projetos políticos relativos a 2006. apesar de numericamente pouco expressivas (8.485 (14.000 (11.7% dos prefeitos eleitos no estado255).html consultado em 16/07/2004). a maior porcentagem de todos os partidos. Em 2000. Já em 2004. dos 187 prefeitos eleitos pelo PT. No estado do Rio de Janeiro.3%) foram reeleitos. 31 cidades realizaram eleições em segundo turno.3%. as vitórias angariadas pelo partido tiveram um sabor especial frente à disputa de poder com a rede política do adversário. um aumento de cerca de 120% em relação à ultima eleição. Itaboraí (Cosme Salles). o PT obteve 7. 255 266 .6%) eram mulheres. Iguaba Grande (Hugo Canellas) e Quatis (Aldredo) (TRE).com. por Lindberg Farias.2%). Bom Jesus de Itabapoana (Carlos Garcia). 7.1%).

compondo uma espécie de aura — juntamente com os artistas e convidados ilustres — para a atuação e apresentação do candidato (Goffman. 1975a). outro momento de destaque na segunda fase das campanhas na Baixada. é o lugar por excelência deste “teste” e o comício. (1996). todas as campanhas utilizaram-se dos comícios como estratégia de marketing. especialmente aquela do PT em Nova Iguaçu. Constituem espetáculos à parte. Scotto. o evento ideal para sua verificação. os motores e os relógios (marcadores de tempo) desse tempo da política” (Palmeira e Heredia. 256 Consultar. 1996). A de Lindberg Farias. evidenciou algo mais: o direcionamento do conjunto de suas ações para a festa política (Barreto. Os comícios são objeto de diversos trabalhos acadêmicos. 267 . de formas de sociabilidade política. revelando-se eventos capitais não somente para a apreensão da relação político/ eleitor. Naquele pleito de 2004. por sua vez. Nesse sentido. Kuschnir (2000). as campanhas contaram com inúmeras outras situações nas quais a relação entre candidato e eleitor foi testada. ao privilegiar a realização de showmícios. entre outros. em suas múltiplas possibilidades. A rua.CAPÍTULO 5: SOBRE O TEMPO DA POLÍTICA NA BAIXADA: ENTRE FESTAS E GUERRAS A Festa Além das propagandas e peças publicitárias. Borges (2003) e Chaves (1996). 1992 e Chaves. diz respeito à relação eleitorpolítico a partir dos eventos centralizados nos palanques. 1995)256. os trabalhos de Palmeira (1996). mas também por configurarem “ao mesmo tempo.

Showmício. Com esta expressão. os trabalhos de Castilho (1994) e Scotto (1996). parece ser um 257 Sobre formas de apresentação das candidaturas. a que bairros dirigir-se. a região central de Nova Iguaçu era geralmente escolhida por disponibilizar todos esses recursos — além de simbolizar a própria “vida da cidade” — sendo. em um primeiro momento. 268 . por exemplo. de fato. refiro-me às ações e meios disponíveis para “recortar” as cidades a partir dos pontos/ lugares considerados ideais para a festa política. propagado por intermédio do horário eleitoral. com que freqüência. portanto. seria até mesmo inadequado utilizarmos a expressão comícios para definir os eventos realizados. A confecção de um mapa das cidades258 — orientando. mas também a sua centralidade e poder de atração. Assim sendo. o artigo de Graça Índias Cordeiro e António Firmino da Costa (1999). o alvo principal das disputas e canalizando também os conflitos e as trocas de acusações durante o tempo das festas. 258 Para uma problematização das definições geográficas oficiais como uma dimensão estática e delimitadora dos espaços — como os bairros — ver. após a introdução do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). No contexto específico dessas eleições municipais. com transporte acessível para se chegar e sair do local. além de infra-estrutura para a montagem de palcos. a possibilidade de concentrar com maior facilidade os eleitores. além do mapeamento da cidade visando definir em que lugares seria mais importante atuar e de que forma257. Na segunda fase. de que forma e com quem — foi alterada.Na primeira fase da corrida eleitoral. agora sob o ângulo da “preparação da festa”. por exemplo. as atenções dirigiram-se para o conhecimento das demandas locais e a construção do discurso midiático. camarins e para as filmagens de cenas que pudessem ser utilizadas nos programas televisionados. foi alterada a dinâmica interna de cada campanha e redefinido o campo político a partir da interferência da mídia eletrônica. Não somente a extensão da área estava em questão. construção de campanhas televisionadas e de rua ver. ou seja.

privilegiavamse localidades com potencial de desenvolvimento e campanhas em fase de consolidação.termo mais adequado. já há uma 269 .. O showmício tornou-se um lugarcomum no vocabulário político. sendo disputados pelos candidatos e partidos e reinventando a lógica da organização das festas políticas. No universo estudado. a campanha de Lindberg contou com um verdadeiro arsenal de shows.) desde o momento em que definimos para onde determinado showmício vai. Na Baixada. os políticos e eleitores praticamente já não usam o termo comício. financiado pelo PT nacional e compartilhado pelos demais candidatos do partido às principais prefeituras de todo o país. Geralmente. fundamentalmente no tempo da política. os evangélicos. no momento atual os grandes shows tornaram-se critério de distinção e prestígio. esta é reservada ao momento posterior ao discurso dos candidatos (a prefeito e a vereador) e das personalidades políticas convidadas. as grandes produções destinavam-se quase que exclusivamente às eleições majoritárias estaduais e nacionais. mas não a banda ou grupo considerado “atração principal”. garantindo assim que o público permaneça no local até o final da festa. Sua organização poderia ser descrita como a de uma festa política. os de pagode. o showmício tem início com uma atração musical. anteriormente. ou seja. os sertanejos e os que congregam tipos variados de música. Se. preparada em cada mínimo detalhe: desde a seleção dos cantores até as exigências do tipo de público. Dessa forma.. Sua divulgação é feita com muitos dias de antecedência e costumam contar com a presença de “estrelas” do mundo da política. A escolha das cidades a serem beneficiadas com essas mega-produções era feita a partir do estabelecimento de prioridades. os católicos. Há os de tipo gospel. A classificação nativa já opera com esta nova referência. o grupo de trabalho eleitoral (GTE) “se articula com os dirigentes nos Estados e (.

Idem.decisão política” (Francisco Campos. na página oficial do Partido dos Trabalhadores. No caso específico do PT. Leonardo. KLB além de bandas de forró e cantores evangélicos estiveram (alguns. pela primeira vez) se apresentando a céu aberto. na cidade de Nova Iguaçu. Os 80 showmícios que foram realizados desde o dia 22 de agosto trouxeram o elemento político em combinação com o cultural […] O objetivo {…] é alcançar os eleitores no sentido de massificar as campanhas petistas e dos aliados. 259 260 Depoimento colhido em 10/09/2004. artistas como de Zezé di Camargo e Luciano (que chegaram a cobrar até 100 mil reais por show). Temos de levar a proposta do partido para as grandes massas. Portanto. O povo precisa participar das campanhas e não é atraído somente pelo conteúdo ideológico. nas campanhas. temos de ser criativos. não podemos reduzir o comício apenas às propostas petistas. 15/09/2004 270 . www. secretário de mobilização nacional do Partido dos Trabalhadores)259. De acordo com Francisco Campos.org.br . para um público que chegou a mais de 100 mil espectadores. Rio Negro e Solimões.pt. A idéia central é fazer com que esses shows mobilizem camadas do eleitorado que nós não conseguimos mobilizar apenas com o comício político: as camadas populares que têm uma identificação com o PT[…] Um ato do PT que consegue mobilizar 70 mil pessoas numa cidade deixa os adversários sem dormir”260. Não basta o PT fazer uma campanha só ideológica. em sua análise sobre o “fazer política” e sua relação com a condução das campanhas: “Hoje.

271 . como os principais showmícios das campanhas devido a suas amplas proporções.Ainda segundo este mesmo secretário. “Não há um cálculo preciso. além de outros bairros do subúrbio carioca. mas também com a Zona Norte e o Centro do Rio de Janeiro. A Via Light é uma via expressa — construída durante o governo do então prefeito Nelson Borneir (na época. por situar-se na área central. Em Nova Iguaçu. candidato petista a prefeito da cidade) subiu nas pesquisas. também. o Lindberg (Farias. Esta via foi motivo de conflitos entre os candidatos do PT e do PMDB. desejava-se arregimentar um número cada vez maior de pessoas para estes eventos com o intuito de que. pertencimentos e/ ou formas de aproximação com a população (heterogênea) presente. Carros de som anunciando 261 262 Ibidem. de maior visibilidade e melhor acesso — além de facilitar a realização das produções maiores. assim como o fundo negro do cenário conformaram o ambiente do grande espetáculo que seria realizado àquela noite. O show foi com a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. podemos afirmar que têm ajudado muito o partido a levantar as campanhas do PT em locais em que estávamos fragilizados. a consolidar uma liderança em Araçatuba (cuja candidatura petista é de Edna Flor)”261. com o apoio do governador Marcello Alencar — que faz a ligação entre a cidade e outras áreas da Baixada Fluminense. Depois da passagem de Zezé di Camargo e Luciano em Nova Iguaçu (RJ). descaracterizados de seu aspecto e discurso ideológicos o candidato e sua equipe pudessem criar outras vinculações. a festa política teve início com a montagem de um enorme palco com estrutura de ferro no final do canteiro central da Via Light262. PSDB). no ambiente “familiar” da festa. Esse showmício já deu o tom de como seria a participação do eleitorado da faixa mais popular nesses grandes eventos[…] Esses eventos. holofotes e caixas de som. O conjunto e a disposição das luzes. o showmício ajudou. […] mas um número aproximado aponta que o partido conseguiu mobilizar aproximadamente 1. sem medo de errar. A primeira apresentação ocorreu em Maceió para a coligação do PT com o PSB.8 milhão de pessoas em todo o país desde o início dos eventos.

camisas e faixas. por conceber o espetáculo “como fator de mobilização das campanhas”. o estilo da apresentação seguia uma lógica mais “tradicional” da política e dos comícios. por meio 272 . uma vez que uma cobertura favorável poderia garantir ao candidato a visibilidade (mais do que) necessária em época de campanha política. nenhum deles tinha a magnitude deste último. muitas vezes. feita pelos cabos eleitorais. incluindo atrações locais ou bandas de menor sucesso como. Esses eventos eram geralmente gravados para serem posteriormente utilizados como material para a propaganda televisionada. antecedendo a sua mobilização pública. Tal afirmação presente no discurso oficial do partido (disponível e tornada pública em seu sítio eletrônico) reflete a percepção de que a festa viria a reboque da política — e que estaria demonstrada. atos políticos animados por shows. Apesar da realização de outros shows em bairros mais afastados do centro. no dia da festa. É a cultura junto com a política para ajudar a mobilizar as campanhas petistas”. com o envolvimento dos comitês e da militância.o showmício percorreram a cidade. “diferente em relação a partidos tradicionais”. alguns conjuntos de pagode já relativamente no ostracismo. o PT demonstrou uma preocupação especial com os showmícios. Ainda segundo Francisco Campos. Os grandes shows eram antecedidos por um trabalho exaustivo de organização nos comitês. divulgando o evento com bastante antecedência e. responsáveis também pela coordenação da distribuição de bandeiras. “São. portanto. por exemplo. não apenas shows que figuram num ato político. A presença da imprensa era outro fator que gerava grande expectativa. coordenados e definidos em conjunto pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE). não paravam de circular. Na periferia. Nesse sentido. o secretário enfatizou a laboriosa preparação dos eventos. em certa medida.

o que não pressupõe necessariamente a hierarquização entre as esferas (no caso política e artística. por lei. Nesse sentido. que é o nosso projeto nacional. Para a realização de um evento desta magnitude. Pretendo mostrar adiante que o showmício irá reinventar a apresentação política no ritual da festa e na transfiguração do político em “estrela”. Os artistas têm elogiado o governo Lula e pedem voto para o candidato da cidade. mas a observação deu-se fundamentalmente à distância. é um show politizado”.do próprio engajamento dos atores/ cantores nos eventos263. op. O showmício que irei descrever – com a presença da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano – ocorreu numa segunda-feira. estamos retomando uma cultura que a esquerda tem no Brasil e que o PT já tinha antes: combinar a cultura em diálogo com a política para mobilizar corações e mentes com os candidatos de esquerda e centro-esquerda. os eventos realizados pelos demais candidatos serão mencionados apenas en passant. Com os showmícios. estar fechadas a partir das 17 horas. Sendo assim. dali por diante. por intermédio dos meios de comunicação. maior ênfase será dada à campanha em Nova Iguaçu. sendo considerado uma das pedras de toque na transformação da campanha de Lindberg e do novo rumo que ela tomaria. não operando a transformação obtida pelo primeiro. optei por fazer uma pequena etnografia de um showmício em particular: aquele considerado fundamental para a reviravolta do candidato petista nas pesquisas de intenção de voto. mas uma relação de composição e simbiose. Em Duque de Caxias. cit. Da mesma forma. 30 de agosto. já que seguem o padrão mais tradicional da política (Palmeira e Heredia. Magé e outras cidades da Baixada.). principal via de circulação da cidade. Portanto. 273 . O local escolhido pela equipe do candidato foi a Via Light. participei de alguns eventos. onde pude acompanhar mais de perto o desenrolar da movimentação eleitoral. política e emotiva). O que se 263 A declaração de Francisco Campos no site oficial do partido ilustra exemplarmente esta questão: “o artista também participa politicamente. as principais ruas em torno da pista central deveriam.

Em torno dos vendedores formavam-se verdadeiros nichos de interação. de forma geral. mas também aquelas que acabavam de se conhecer. Havia. foi a permanência da circulação de veículos até muito depois desta hora. congregando pessoas que já relacionavam-se anteriormente ao evento. pipoca etc). optei pela estratégia adotada também pela maioria dos ali presentes: resolvi locomover-me de ônibus ou de van. Com a reorganização do tráfego.. As pessoas não paravam de chegar. ocorrida somente após as 20 horas – e fundamentalmente porque as pessoas já haviam tomado as ruas – já era possível vislumbrar a dimensão que aquele evento assumiria. tanto crianças. imaginando que seria inviável tentar estacionar – além do risco de sofrer um assalto. Alguns candidatos à Câmara Municipal chegaram a providenciar transporte gratuito para moradores de suas “áreas de influência”. presente mais explicitamente na comensalidade. se fazia notar na relação necessária com a comida. portando fitas de cabelo com o nome de Lindberg etc. de suas bases eleitorais – essencialmente para os residentes em bairros mais periféricos. tornando o trânsito na região extremamente complicado – situação agravada pelo fato desta via expressa dividir a cidade ao meio. quanto homens e senhoras eram vistos por todos os lados. Os ambulantes estavam por todas as partes. gêneros e classes sociais diversificados. Para chegar até lá. A dimensão da sociabilidade. É importante destacar que o “público” ali presente era composto por faixas etárias. Apesar de perceber uma maior presença feminina na região mais próxima ao palanque. com a bebida e com as conversas que antecediam o show.verificou. sendo necessário atravessá-la para se chegar aos bairros localizados do outro lado da linha férrea. cachorro-quente. mas as munidas de faixas e bandeiras pareciam-me 274 . vendendo bebidas e comidas diversas (churrasquinho. muitas pessoas vestidas com camisas da campanha. no entanto.

denotando uma combinação previamente estabelecida. Aqui. a dimensão hierárquica – dissimulada nas outras formas de interação características das campanhas (caminhadas. O palanque é o local por excelência deste “englobamento” candidato / eleitor. seus convidados e os artistas que se apresentam do público. com o formato de uma abóboda. passeatas e carreatas) – é muito bem marcada e reflete-se em um mapa social que engloba o palco e a área destinada ao público/ eleitor. não somente devido à grande altura dos “palcos”. mas um conjunto de referenciais simbólicos que designava os “pontos”. não mais aquele palco cuja estrutura quadrangular remete ao velho estilo dos comícios locais: ele havia sido montado como o dos grandes shows em capitais e metrópoles. formada por seguranças) a demarcar fronteiras no interior dos showmícios. remetendo-nos ao desenho mais livre e ao mesmo tempo envolvente da concha acústica. ou seja. o palanque demarca as possibilidades para a condução da interação com o público-eleitor. Planejado especificamente para atender às demandas do candidato. Nesta situação em particular. o lugar ocupado por cada grupo – quando assim constituído – no interior de um sistema de 275 . Ao espaço destinado ao público (eleitores) não correspondia uma marcação física fortuita. a hierarquia pode ser percebida pela distância (real e simbólica) que separa o candidato. mas também porque há freqüentemente uma barreira física (e humana.militantes e/ ou cabo eleitorais – sobretudo por situarem-se bem próximas ao palanque – constituído por um grande palco no qual as “personalidades” da noite podiam ser vistas mesmo à longa distância – chamando as outras para ali juntarem-se. Nesta situação. delimitando o lugar de cada um.

Quem se colocava bem ao fundo. o público presente a estes eventos deve ser enquadrado no processo mais amplo da campanha – e concebido como tão “formado” quanto o das carreatas e passeatas empreendidas (cf.). feitas por cada tipo de “público”. mas com variados graus de envolvimento. a partir de então. ou cantando o jingle da 276 . ou ainda para passar informações à facção oposta. o público presente de forma alguma limitava-se a observar os fatos. cit. alcançaria a meta de mobilizar o maior número possível de pessoas que constituiriam. participando ativamente do evento por meio de gritos. teria sua proximidade traduzida em termos de adesão – no caso. op. Palmeira e Heredia. A composição dos showmícios remete-nos a um conjunto heterogêneo de pessoas mobilizadas à participação. percebidos não do ponto de vista das motivações individuais – o que seria inviável dado o número expressivo de pessoas presentes nos eventos. De onde estava.posições relacionais. sendo positivo. um tabuleiro no qual quem estivesse mais próximo ao palanque. eleitores em potencial. para “conferir” o seu sucesso ou fracasso. indo “apenas pra ver o show”. Todo o trabalho dos cabos eleitorais e militantes durante a campanha somava esforços em direção ao clímax representado pelo comício/ showmício que. poderia estar assinalando sua separação ou desvinculação política do candidato em questão. por exemplo. por sua vez. a uma facção específica. Sendo assim. como os realizados em Nova Iguaçu – mas a partir da possibilidade de remeter-lhes às escolhas por shows específicos. aplausos.

tocando. na campanha.. O acontecimento partilhado refere-se ao tempo estritamente vivenciado. 265 Durante o showmício em questão. tocando o coração. imediatamente vivido e compartilhado265. cit. Em cima do palanque. experimentado e efêmero. ganharam uma nova preocupação nesse fim de semana: o ombro direito do candidato. Eles têm orientação do próprio Lindberg para proteger o seu ombro do assédio entusiasmado dos eleitores. Havia um grande número de pessoas no palco: o candidato à prefeitura e seu vice Itamar Serpa (PSDB). mais especificamente. mas também acenando e fazendo sinais de carinho (mão no peito. candidatos a vereador e demais políticos que compunham a aliança representada pela coligação Hora da Mudança (PT. do êxtase/ arrebatamento/ encanto. op. O showmício pode ser pensado como uma das circunstâncias de maior visibilidade da relação entre político/ eleitor. além de nomes da política local integrantes de partidos aliados. implicando uma experiência de aproximação e/ ou contato e — diferentemente da apresentação de si nos programas gravados para a televisão ou mesmo nas caminhadas (nos quais a relação mantém algum distanciamento devido à própria organização desses eventos) — remetendo a um tempo sincrônico. PFL. assim como na expressão de emoções. que não está presente em todo o processo eleitoral e pode ser caracterizado pela efervescência (como na experiência Em matéria veiculada no Primeiro Caderno de O Globo. músicos.). dando a mão a várias pessoas. percebia-se a contínua concentração e dispersão dos mais diversos grupos ou “alas” de políticos. PSB e PC do B). Nos últimos dias.. O evento narrado acima possibilitou-me a observação de um marco temporal diferenciado – um momento – dentro do horizonte mais amplo do tempo da política (Palmeira e Heredia. É o tempo da emoção. foi ressaltada a dimensão que a campanha tomara e o assédio das eleitoras / fãs a Lindberg: “Os seguranças que acompanham o candidato do PT a prefeito em Nova Iguaçu.campanha – além das corriqueiras declarações apaixonadas das eleitoras-fãs de Lindberg264. 264 277 . depois beijando a mão e fazendo um movimento como se lançasse algo de si ao público) denotando uma partilha de si. técnicos.)”. assessores. ali se instalou um abscesso (. Lindberg Farias. beijando. de 25/10/2004 . PSDB. e da festa propriamente dita. Lindberg Farias desceu do palanque para cumprimentar o(s) público /eleitor(es). atualizada em gestos.

Nem todo showmício marca um acontecimento partilhado. Refiro-me. Tais experiências transformam a cena política em um episódio mais do que teatral. as passeatas pela Diretas Já. a movimentação popular pelo impeachment do Presidente Fernando Collor. devendo-se. no artigo em questão. o carisma pessoal de Lindberg Farias). 2001 [1921]. à influência exercida pela campanha presidencial de Lula266. durante o processo eleitoral de 2002. antes. às condições ali reunidas que. em 1992 ou. em si. revogando do eleitor / ouvinte sua condição de mero espectador e transformando-o em parte constitutiva (e ativa) da performance ali executada. expõe como as reações “emocionais” acabaram por integrar-se à retórica das campanhas a partir de tal pleito. é o trabalho de Marcel Mauss. tornam possível a exacerbação da emoção. É o momento quase mágico (o partilhado) em que o candidato transfigura-se em ídolo. ao aplauso etc.religiosa. Parece-me que esse estado algo alterado que se observa em alguns showmícios guarda semelhanças com outros episódios da política nacional. somadas a outras concernentes aos próprios indivíduos (nesse caso. ansiedade e euforia que chamou minha atenção. levando-me a considerar cuidadosamente tal nível de interação. propriedades específicas geradoras dessa aura mágica. em 1984. a emoção desencadeada pela eleição de Lula. Não digo com isso que o showmício tenha. sobretudo. mais recentemente. em artigo em que analisa a expressão de sentimentos na esfera política associada à imagem de candidatos à Presidência da República em 2002. Foi justamente esse estado de inquietação. 278 . Barreira (2004). como as manifestações de comoção pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954. em Durkheim) que realça a realidade por meio das sensações experimentadas via a associação dos discursos à música. 266 A referência principal da autora. “A expressão obrigatória dos sentimentos”.

68). integrando-se à própria composição do personagem político. A festa política. atentando para os seus significados e formas de expressão. Este último. da estratégia e da objetividade. 279 .Se a política é normalmente tomada como o lugar da racionalidade. uma referência ao entendimento da política como ação simbólica e à importância da teatralização para a compreensão da instituição estudada por Geertz (1991): o Negara. Se. também remete a um intrincado de formas simbólicas que praticamente impossibilita a distinção entre os planos simbólico e real.. que na eleição municipal aqui analisada. constitui o tempo da dramatização das relações sociais por meio da exploração das imagens e valores pertinentes a uma determinada concepção de mundo e de política — sendo. porquanto este último acaba por subverter a ordem de precedências. assim como o objeto desta tese. aqui. o comício sobre o qual nos falam Palmeira e Heredia (1995) não seria idêntico ao ritual que ora denominamos showmício. 1997) ganhou a cena. cit. Observa-se. o showmício. 1996) poderia. para os autores em questão. Sendo assim. esperada. sem dúvida. em um primeiro momento. o modelo das “alusões emotivas” e da apresentação biográfica (Bourdieu. construídos e /ou incorporados à disputa eleitoral” (Barreira. op. p. no entanto. a “percepção das emoções e sentimentos como parte das regras sociais e jogos políticos evita pensá-los como matérias substantivas da natureza humana. estender-se para além de seu contexto etnográfico de origem — Buritis (MG) — e ser utilizada para compreendermos as configurações que a política assume sob o clima de campanha (Barreira. A expressão “política se faz com festa” (Chaves. comparada e até mesmo cobrada por significativa parcela da população local267. algo fora de ordem. Nessa perspectiva. no caso específico de Nova Iguaçu. a festa é pensada como 267 Cabe. a incorporação da expressão das emoções e de sentimentos parece. neste caso. idem).

malandros e heróis (1979). o comício. só fala quem está no palanque. No comício. em Nova Iguaçu. As tentativas de tornar o comício dialogado. Não há lugar para consulta. sua capacidade para realizar uma administração futura.77) —.)” (p. Entretanto. da festa que existe dentro de todo comício (. “O comício não se confunde com um ajuntamento qualquer de pessoas em torno de um candidato.” (idem). naturalmente. a não ser em circunstâncias muito especiais ou no caso de candidatos com muito carisma. a população distingue cuidadosamente o comício da reunião. Os de fora do palanque devem limitar-se a ouvir. ibidem: p.. a forma típica de organização desses eventos que. Destaco ainda que a estrutura geral do evento também é preservada. A reunião é dialogada. quanto no Rio Grande do Sul. Tomando os showmícios como um novo modelo de ritual político e de comunicação.36). são complicadas e podem comprometer o próprio comício. de forma mais ampla. não.. demonstrarem. “propiciam a oportunidade de. principalmente no tocante à relação palanque/ candidato/ público e ao lugar por este ocupado nas campanhas eleitorais. no caso por mim analisado esta relação parece inverter-se268. em grande parte. o que designei por showmício. ressaltando o seu caráter extraordinário e extracotidiano. responde. durante as eleições de 2004. 280 . ainda segundo os mesmos autores. não descarto que alguns possam conservar o seu caráter faccional e.parte constitutiva do comício — é o que denota a frase: o “lado festivo do comício. É o candidato quem ouve e. utiliza-se preponderantemente de um dos 268 Corroborando a análise de Palmeira e Heredia (idem). a expectativa é inversa. Tanto em Pernambuco. nos moldes presenciados nos palanques do PT. por antecipação. ou para sermos mais precisos. fazendo a festa mais bonita e mais bem organizada. O caráter solene do comício é essencial” (Palmeira e Heredia. Na reunião. adoto o conceito de ritual tal como proposto por Roberto DaMatta em Carnavais.

surge com Lindberg uma nova figura política. A combinação de juventude. o candidato do PT à prefeitura de Nova Iguaçu.modelos abordados por Palmeira e Heredia (idem): o que “prioriza o início do comício” (p. setembro de 2004). inteiramente dedicado ao fenômeno (1993). os autores chamam a atenção para o fato de que se podem tratar de “variações de um mesmo modelo”. apesar de haver uma alternância entre os modelos que privilegiam o início ou o fim dos comícios como momentos clímax. nunca se sentiu tão em alta — e não apenas nas pesquisas de opinião. quem agora dá autógrafos é ele. “Lindberg Farias. Atualizando a ação política pautada. além de sua associação com o novo270. que não decolava. expressando sua singularidade ou mesmo o caráter “divino” do líder — que 269 Ainda sobre a organização das “apresentações”. pela secularização. conferir o trabalho sobre tipos de dominação — especificamente a carismática — em Weber (1984). além da seleção de textos editados por Eisenstadt (1968) e do livro de Lindholm. fez de Lindberg a maior estrela (em dupla acepção: símbolo do partido e ídolo) do PT na Baixada.57). colocando o candidato como a “estrela entre as estrelas”. 281 . durante o evento mencionado anteriormente)269. Ele vive dias de celebridade no maior município da Baixada Fluminense. “a maior estrela” (frases proferidas por Zezé di Carmargo. cantor sertanejo. a do candidato-ídolo. em regra. Lindberg demonstrava capacidade de atração (garantindo sua visibilidade) e de condução das massas (no sentido abordado por Weber). Nos shows de duplas sertanejas por conta da campanha. Coisas de Nizan Guanaes” (grifos meus) (Revista Época. nos dias de hoje271. assim. Como podemos exemplificar a partir da nota da colunista Joyce Pascowitch. 271 Com relação ao carisma. enfatizando seu carisma pessoal e sua capacidade de interação com o público. beleza e carisma do candidato. 270 O novo aqui está remetido a um projeto político e a uma outra imagem de Baixada e de Nova Iguaçu. diferenciando-se do todo (e.

de certa forma. Diferentemente dos universos estudados por autores como Palmeira e Heredia (1995) ou Chaves (1996). projetos e valores compartilhados272. Sendo assim. cit. não é possível conhecer todo 272 Ver o artigo de Velho (1994) sobre a vitória de Collor. em 1989. ao mesmo tempo que indica a possibilidade efetiva de continuar exercendo essa generosidade numa escala ampliada. no qual aborda algumas das questões implicadas na vitória desse candidato à Presidência da República. 282 . Corroborando tal construção simbólica. digamos assim. que poderia traduzir-se sob a ótica da doação. os artistas conferem especial conotação à festa política porque além de configurarem seus personagens mais legítimos. operam uma demonstração de força e prestígio do candidato — como já abordado anteriormente. apesar da cidade poder ser caracterizada pelos próprios moradores como “pequena” ou “de interior”. e o conjunto de valores e atitudes a ela associados. o que é indicativo de seu desinteresse – mostra-se portador da generosidade necessária ao exercício do poder. a estrutura dessa nova modalidade de comício — o showmício — é inteiramente distinta daquela pensada para uma localidade com primazia de relações face a face (contextos de cidades pequenas e /ou de interior).remeteria ao tipo ideal originado da autoridade religiosa) e ligando-se ao eleitorado por intermédio de imagens. Isto é. uma vez no governo” (Palmeira e Heredia . 78). mas na qual. ainda é possível preservar relativo o anonimato.: p. op. mas não apenas a eles. Nova Iguaçu é uma cidade de quase um milhão de habitantes. por exemplo. Esta obrigatoriedade de colocar-se à disposição “do povo” através da doação constitui um tipo específico de troca — já que não previamente acordado e não exigindo retribuição — trazendo à tona que: “está em jogo uma concepção de poder onde aquele que gasta mais dando aos outros – aos eleitores.

de relações pessoais. ainda assim. apesar das diferenças de escala. O cantor Daniel (sertanejo). de forma mais evidente. Do lado adversário. A campanha do PMDB em Nova Iguaçu pautou-se. do novo e do desconhecido. Estaria em jogo. neste contexto. o candidato petista costumava percorrer as ruas em caminhadas ou carreatas. De setembro em diante. Já durante o dia. O nome de Nelson Bornier constituía o cartão de visita de Mario Marques 283 . pelo menos um deles.mundo. No entanto. principalmente o grupo Celebrai. Lindberg enfrentou uma verdadeira maratona. Anthony Garotinho — que. ao mesmo tempo em que promove a convivência e o encontro do diferente. mas também de conflitos em potencial. um mapa de relações mais circunscritas aos grupos específicos. o showmício também configura um lugar de encontro. destinado ao público evangélico. a grande “estrela” de tais eventos não era o candidato peemedebista à prefeitura. geralmente marcados todos para às 20 horas — e sendo. A partir de outubro. de forma alguma tornou-se um ídolo. além de inúmeros cantores evangélicos. É um evento de congraçamento. onde aí sim prevalecem as interações típicas de pequenos aglomerados humanos. a banda LS Jack (pop rock). alguns grupos de pagode e bandas de forró. na temática da continuidade. os showmícios também tiveram relativa importância. O showmício de 30 de agosto foi apenas o primeiro de muitos que se seguiram. foram alguns dos que passaram pelos palanques de Mário Marques. e sim o então Secretário de Segurança do estado. chamar todos pelos nomes. em um único dia era capaz de comparecer a quatro showmícios. ou mesmo “concorreu” com os artistas. em busca do voto dos indecisos ou da “conversão” dos eleitores de Mario Marques. De modo distinto ao que ocorria na campanha do PT.

Presença constante nos discursos dos moradores quando se referiam ao prefeito — o adjetivo abandonados sendo inúmeras vezes utilizado — a sensação de abandono seria marca da conexão necessária entre política e promessa. a acusações de abandono. durante os primeiros meses de campanha. só lembram da gente na eleição” e assim por diante. ou ainda. o que demonstrava a necessidade de vinculá-lo a personalidades políticas de maior influência e prestígio local. a essa altura. paralelamente. Seu prestígio limitava-se às camadas médias de Nova Iguaçu e. Mario detinha o poder da máquina governamental em suas mãos já que não se desvinculou do cargo de prefeito para disputar as eleições. Mario ainda tinha de enfrentar o relativo desconhecimento de seu nome e de sua trajetória pública por parte da população. Havia um número reduzido de propaganda na qual constasse apenas sua foto ou nome. essencialmente. ainda não conseguira forjar uma identidade política própria mesmo após tantos anos de vida pública local. 284 . principalmente. à elite a qual pertencia. não dispondo. A estratégia de sua equipe de marketing centrava-se em progressivamente diminuir o destaque conferido ao deputado e.que. a de que: “os bairros pobres são sempre esquecidos pelos políticos. no entanto. Em conversas com moradores de bairros periféricos pude perceber um grande índice de rejeição ao candidato ligando-se. Sendo assim. Um número considerável de outdoors apresentava Mario Marques acompanhado de Bornier e do casal Anthony Garotinho e Rosinha. de prestígio e carisma políticos. “a população da periferia é abandonada” são algumas das afirmações que ouvi. enaltecer os feitos do prefeito/ candidato. o nome de Bornier chegava até mesmo a figurar antes do dele nas propagandas políticas. Para além dessas críticas. “Os políticos abandonam a população”.

Empenhava-se ali em “vestir a camisa”. O carro de som principal seguia na frente do cortejo e. Havia outros carros de som distribuídos 273 Pude perceber que muitos dos funcionários da Prefeitura também trabalhavam na campanha durante o expediente e que carros oficiais eram invariavelmente estacionados no pátio interno do prédio onde funcionava o comitê. expor-se e automaticamente escolher um dos lados — o que para quem trabalha no serviço público municipal sem ser concursado. O uso da máquina e dos recursos da administração municipal era flagrante e. os fogos de artifício espocavam no ar como uma forma de marcar o início da festa política. ou seja. os assessores reuniam-se no comitê para instruírem os cabos eleitorais – muitos eram funcionários da prefeitura273 — responsáveis por aglutinar as pessoas nos bairros e despertar sua atenção. pegar e distribuir material etc. muitos outdoors espalhados pela cidade. vinha o candidato. de acordo com os depoimentos coletados. 285 .As festas organizadas pelo PMDB contaram. enquanto um “puxador” (como os de escolas de samba) convidava a população a acompanhar o candidato. chamando-as de porta em porta. carros da Prefeitura para ir a comícios e caminhadas do candidato da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. A situação dessas pessoas é frágil e seu engajamento nas campanhas é quase compulsório. no início. Uma das caminhadas de que participei no bairro da Posse. em agosto de 2004. em algumas ocasiões. aguardando a ordens para levar ou buscar alguém. um grande número de pessoas trabalhando na distribuição de material impresso. significa permanecer no “serviço” ou ser mandado embora. com mais recursos materiais e humanos. dependendo da vitória ou fracasso do candidato apoiado. A “troca”. Eu mesma utilizei. Havia vários carros de som à disposição da campanha. sem muita preocupação com os usos políticos que seus adversários poderiam fazer de tal fato. portanto. Assim que Mario chegava. A “ajuda” de funcionários durante a campanha não era por eles encarada (ao menos com os que tive a oportunidade de conversar) como “troca de turno”. aparentemente. não se dava exclusivamente entre eleitores distantes (refiro-me àquele indivíduo que não mantinha qualquer relação com o candidato até o momento da eleição). logo atrás. a troca do horário de expediente na Prefeitura pelo trabalho de divulgação da campanha. O carro de som — daqueles que têm um pequeno palco em cima — tocava o jingle da campanha. Em um primeiro momento. demonstrou o tipo de organização do evento político utilizado pelo grupo em questão. O candidato costumava visitar vários bairros por dia. em uma rotina extenuante. acompanhado por seus colaboradores — que arregimentavam os moradores e os colocavam em posição para dialogar com o candidato — enquanto o operador de câmera filmava toda a movimentação.

mas a posição da moradora permanecia inalterada. distribuído material de campanha e falado sobre os “feitos” da administração vigente. O argumento do prefeito girava em torno do conhecimento sobre a cidade e seus problemas. o que revertia a favor de Mario. pois além dos jingles de campanha. Era uma maneira de “preparar o terreno” (nos termos de Pedro César e de outros assessores) para que Mario não fosse exposto a situações desagradáveis. em um lugar central e 286 . uma vez que todos colocavam junto a seus nomes. a sua frente. O carro de som de maior porte percorria a rua principal do bairro. O evento culminava na reunião dos candidatos e dos moradores que tinham acompanhado a caminhada em uma praça ou. pedindo a ela que retirasse a placa de Lindberg de sua casa. alguém ali já havia estado. A moradora foi incisiva ao declarar que não mudaria seu voto mesmo tendo o candidato ali. A competição entre esses últimos era bastante acirrada. sem que necessariamente houvesse prévia permissão do(a) morador(a). várias placas como àquela (de outros candidatos) que estavam nos muros. um grande número de santinhos distribuídos. disse que esperava que ela mudasse de idéia até a data da eleição. com um sorriso nos lábios. se no bairro não dispusesse de praças. o do prefeito — o que significava. desistir e. quando o prefeito chegava em determinado ponto do trajeto.pelo percurso do evento. Mario resolveu. tentando demovê-la da resolução. Era uma enorme confusão de sons. Apesar desta preocupação. Durante o trajeto da caminhada. Sendo assim. postes e até em alguns quintais foram arrancadas e trocadas pelas de Mario Marques. enquanto os outros faziam o percurso pelas ruas perpendiculares. por exemplo. principalmente de candidatos a vereador. pude presenciar uma cena na qual o candidato em questão pedia voto a uma moradora que vestia a camisa do PT. eram reproduzidas também as músicas dos candidatos à Câmara Municipal. então.

de maior visibilidade. a partir de setembro. O jingle de Lindberg teve. ao jingle de campanha de Mario Marques. De forma geral. 287 . maior o número de showmícios realizados e 274 Como abordado anteriormente no capítulo 2. mesmo o jingle principal sendo um samba. uma versão gospel. mas percebi a preponderância deste ritmo musical não apenas nos municípios da Baixada. No entanto. havia ainda outras músicas criadas para públicos específicos. por exemplo. O imperativo de remeter à felicidade e à alegria reflete-se na escolha do samba como portavoz da emoção que se pretende passar ao eleitor. festa/ samba. o formato dos comícios era menor. Uma característica nada irrelevante diz respeito à música escolhida. Em um segundo momento. Jorge Gama teve um papel limitado na campanha de Mário Marques. Nos dois meses iniciais. as candidaturas parecem dar preferência ao uso de sambas em seus jingles. 275 Consultar o capítulo 4 desta tese. As produções maiores aconteceram a partir do fim de agosto e. a falta de recursos impedia o uso de “atrações” nos eventos do PT275. no entanto. avisando quando estaria de volta e o local escolhido para a próxima caminhada ou comício /showmício 274. maior destaque sendo conferido ao candidato à prefeitura e a políticos com bases eleitorais em bairros ou áreas específicas da cidade. Se na primeira fase da campanha. É interessante perceber que mesmo naquelas em que há algum apelo às religiões protestantes. Não cataloguei os jingles de todas as campanhas. o PMDB não sofria do mesmo mal. essencialmente. no qual Mario fazia seu discurso e despedia-se. como no caso desta coligação. durante a “guerra política” deflagrada. como também em outras regiões do estado. a escolha do estilo musical acaba corroborando um ideário mais geral sobre identidade/ brasilidade. teve atuação destacada. Quanto mais próximo do dia 3 de outubro.

o candidato foi alvo de inúmeras piadas. o Fernando é quem vai cantar. que se manteve oficialmente afastada da candidatura — e. . Os showmícios evangélicos se multiplicaram. banda Tempo. as músicas religiosas e a presença de pastores assinalavam uma diferença em relação às demais campanhas. que produziam comícios específicos para cada “público”. Seus eventos não tinham “atrações”. Melissa. O acirramento da disputa no segundo turno das eleições fez com que a governadora Rosinha Matheus e Anthony Garotinho se fizessem mais presentes — fundamentalmente a primeira. Mesmo assim. Em Magé. dedicando-se às campanhas na Baixada enquanto seu marido concentrou seu apoio aos candidatos de Campos. tampouco obteve o suporte de seu partido. 288 . Francisco Bezerra e Ozil 276 Na corrida para a prefeitura de Nova Iguaçu em 2004. Fernando Gonçalves.mais “atrações” oferecidas276. os recursos disponibilizados para as atividades eleitorais também foram escassos. o sobrinho de Fábio Raunheitti não teve o apoio da família. Por conta disto. a mulher dele. no máximo. No caso do candidato do PTB. os recursos financeiros tampouco chegaram à cidade. Além de não contar com o apoio de Zito. grupo Ella. Em sua campanha não foram realizados comícios. Fernando dispunha de carros de som precários e palanques pequenos. Bandas de pagode (grupo Ki-Prazer). Claudino Maciel. Os showmícios não foram realizados em Magé. recorrendo fundamentalmente ao corpo a corpo. 277 Ver capítulo 3 desta tese. Jossana Glessa. como exposto nas críticas de Zito. mas podem montar uma banda (risos)”. cantores como Waguinho (cantor de pagode) ou a Banda Mel (axé music) — que não estão “na crista da onda” já há algum tempo — além de vários artistas gospel: Marquinhos Menezes. ao que parece. além de não ter contado com a participação de nomes conhecidos em seus comícios — preferencialmente voltados para a comunidade evangélica.Nos bastidores das campanhas de seus adversários. conseguiu manter-se na liderança por quase dois meses após o início oficial da corrida eleitoral. sendo o tom do discurso da governadora essencialmente religioso — além das ameaças dirigidas aos adversários desde o início do período eleitoral. A campanha foi levada a cabo com pouco dinheiro e apoio político. também financeiramente. Narriman não teve acesso à organização e à estrutura dos megashows. as principais lideranças nacionais do partido lá não estiveram e. que se manteve afastado de sua campanha277. nesse período. Nestes eventos. a campanha da mais nova (e polêmica) petista não seguiu o mesmo caminho trilhado por Lindberg. por diversas ocasiões escutei comentários do tipo: “Hoje. Eles vão perder a eleição. Narriman contou apenas com shows de menor porte realizados com assiduidade a partir de setembro (dos dias 16 a 30) daquele ano.

momento nos quais o antigo prefeito demonstrava sua habilidade em lidar com “seu povo”.Silva e ainda a comunidade evangélica de Nilópolis e a da Igreja Batista Nova Jerusalém foram alguns dos grupos que se apresentaram nos eventos da candidata do PT. questões de segurança e urbanização. Isabel acabou participando da campanha de 1996. Reuniões com grupos de moradores — nas quais eram apresentadas propostas e se ouviam as queixas da população — eram organizadas por lideranças comunitárias e vereadores que tentavam a reeleição. justificando a ausência do prefeito com o argumento de que este teria outros 278 Isabel Costa foi apresentada a Zito por Roberta Siqueira que já trabalhara em sua equipe e que. Alguns secretários de governo de Zito também tomaram parte na organização de alguns desses eventos. As caminhadas tiveram lugar de destaque. Narriman. organizado pela sub-secretária de educação do município 278. quadras de esportes etc. centros comunitários. Laury Villar. ajudando na elaboração do plano de governo — fundamentalmente na área da educação. associada a de Nelson do Posto. no entanto. Zito não apareceu e Isabel foi incumbida de avisar aos presentes. Com a vitória de Zito. realizados desde o momento da escolha do candidato do PDT à sucessão de Zito. mais tarde. ou por aqueles que concorriam pela primeira vez à Câmara Municipal. os moradores de um condomínio de classe média da cidade foram apresentados ao candidato e com ele conversaram sobre o bairro.em escolas. Nesta reunião. ditou um outro ritmo à campanha. A primeira fase da campanha parece ter se apoiado essencialmente no carisma de Zito e na possibilidade de associar suas características às do candidato por ele apoiado. Em Duque de Caxias. a situação não foi muito diferente. não resistiu à estrutura da família Cozzolino que. foi trabalhar na Prefeitura juntamente com Roberta. se tornaria sua secretária de educação. Grosso modo. 289 . Tive a oportunidade de participar de deles. foram privilegiados os pequenos eventos nos bairros e nas “comunidades”. onde atuou como coordenadora e posteriormente como subsecretária de educação — por dois anos.

nos eventos realizados por Washington Reis. contando com alguns grandes shows. Isabel completou a justificativa ressaltando que Zito estava muito assoberbado com o trabalho de administrar o município de Caxias. 290 . embora não costumasse faltar às reuniões organizadas pelos principais candidatos à Câmara Municipal. mas direcionando o foco sobre as “estrelas” políticas. Neste caso em particular. no entanto. mas nem sempre a sua presença. em alguns casos mais do que em outros. Sua produção. Anthony Garotinho era sempre a grande atração. afirmando que este havia sido “abandonado por Rosinha”. Em Duque de Caxias. Ainda que permanecesse por apenas alguns minutos. juntamente com a governadora Rosinha — o repertório de shows tendo seguido o padrão adotado pelo candidato peemedebista de Nova Iguaçu. As críticas ao adversário Washington Reis eram mais contidas do que aquelas dirigidas ao exgovernador e à governadora do Rio. sobre os próprios candidatos.compromissos na Prefeitura e que. portanto. ele dizia algumas palavras sobre os candidatos a vereador e prefeito. a ênfase recaia sobre os políticos mais importantes que apoiavam os candidatos e. as campanhas utilizaram-se da estrutura já conhecida dos comícios. A festa ainda era o recurso catalisador da multidão. ressaltando sempre que a eleição deste último significaria a continuidade de seu trabalho e dos projetos até então implementados na cidade. seguia um padrão mais convencional. capaz de aproximar o candidato dos eleitores. Desse modo. Queixava-se sobretudo da falta de parceria e da dificuldade de repasse de verbas do estado ao município. Esse foi o modus operandi da campanha do PDT em um primeiro momento: supervalorização da imagem de Zito. ficara muito tarde para que pudesse ali chegar.

). Não se viu em Duque de Caxias ou em Magé a exaltação e as demonstrações de carinho/ afeto/ deslumbramento que pude perceber em Nova Iguaçu. ou seja. referindo-se ao político como ator social legítimo e a práticas coletivas ligadas a tal mundo. alternando-se entre ora privilegiar os “convidados”.) é freqüentemente tomado pelos moradores como canal legítimo de mediação. operador de uma transformação dos espaços — transformação simbólica e efêmera relativa a modalidades de interação entre os atores sociais e áreas da cidade criadas especificamente para fins eleitorais ou reconfiguradas pela própria disputa. também com o de César Maia e do PT — ainda que não tão ostensivo quanto se esperava. O espaço simbolizado pelo palanque só é possível circunscrito a um tempo da política. do “fazer político” (Kuschnir. ora o candidato. Os comícios são marcadores deste tempo singular. secretários de governo etc.Laury Villar. como por exemplo. em relação a Lindberg Farias. as já mencionadas redes de resolução de problemas práticos (Linderval. seu staff (assessores. A política – entendida aqui como categoria nativa. a relações não-exclusivas às campanhas e momentos de eleição. assim como alguns ministros petistas que gravaram participações para exibição durante o horário de propaganda eleitoral gratuito (HGPE). op. 1993 e 2000). tal como relatado por Palmeira e Heredia (idem). Frente à sazonalidade da presença do político. durante o segundo turno. da mesma 291 . bem como na gravação de programas eleitorais. que é aquele das campanhas. na Baixada. ora os músicos. Tal apoio foi expresso nas visitas que César empreendeu a Duque de Caxias. por sua vez. Benedita da Silva (PT) também esteve na cidade. a percepção dos moradores daquela região sobre o que seria o fazer político – também remeteria. A lógica do palanque e da disposição do público-eleitor seguiu a supracitada. cit. contava com o forte apoio de Zito e.

A problemática dos sentimentos relacionada ao estudo da política e das eleições configura. 280 Sobre populismo ver. sem desconsiderar o carisma pessoal de Lindberg Farias. apesar da classificação nativa na Baixada parecer não se restringir às eleições ou a seus personagens oficiais. cit. 68) no qual o que importaria destacar seria a dimensão reveladora das emoções como formas de entendimento do real. mas a manifestação coletiva dos sentimentos em um espaço “da política” tradicionalmente pensado como apartado das interações “emocionais” ou. Obras. ao papel dos movimentos sociais como atores políticos legítimos na história política da região. No interior deste tempo da política e a partir da lente do palanque. A comoção não era a expressão individualizada. em toda sua amplitude. o caso de Lindberg foi exemplar. as articulações em momento de campanha – que para os políticos profissionais não corresponde somente ao período eleitoral – transformam as relações cotidianas e podem unir sujeitos sociais (individuais ou coletivos) antes tidos como integrantes de campos opostos ou mesmo apolíticos (Igreja e Estado. Wefford (1968). por exemplo.. p. quando muito. Lazer etc. a meu ver. Evidentemente. um “percurso sinuoso” (op. 279 Já nos referimos. Assim. no capítulo sobre a(s) Baixada(s).)279. um dos sinais distintivos entre comício e showmício: a operação de uma mudança de status do político. qualificado por rótulos populistas280. das emoções suscitadas pelo candidato num misto de espetáculo e regozijo. Este seria. Associações de moradores e Prefeitura. não podemos relegar a um plano secundário a construção de um aparato específico que garantiu a exploração. no sentido de ter evidenciado as etapas de sua transformação de candidato em candidato-ídolo. como ressaltou Barreira. 292 .forma como acaba ocorrendo com relação às entidades civis (majoritariamente associações de moradores/ escolas/ grupos culturais e ONG’s). morador e Secretaria — de Saúde. Educação. que vira um astro.

muito pelo contrário. A idéia da universalidade da guerra figura entre nossas mais antigas teses sobre a natureza humana como. de produção técnica e bibliográfica e do engajamento dos atores sociais em questão (Castilho. pelos motivos acima expostos. A “fórmula mágica” dos marqueteiros não constitui um dado anterior. Não se trata de desconsiderar seu apelo e suas força e eficácia simbólicas. por exemplo.das relações humanas. engendrando outras maneiras de olhar nossos objetos para além da mecânica da “produção marqueteira” e do discurso do político-produto alimentado pela comunicação de massa. ela também abarca uma dimensão de conflito — nesse caso. pela análise abordada quanto à construção do marketing como um campo profissional em busca de legitimidade. revelaria uma dimensão mais harmoniosa ou alegre das campanhas eleitorais. mas de compreender o que traz consigo. de “intelectuais próprios”. Sendo assim. O universo político 281 Apesar de o autor utilizar a analogia entre marketing e magia em sua tese de doutoramento. Ameaças e Orações Se a festa. só se sabe do sucesso após a sua proclamação. a fórmula de modo algum é mágica. a princípio. Notícias De Uma Guerra: Estratégias. entre os grupos adversários pela promoção da melhor festa. que qualifica o estado de natureza em Hobbes. 2000)281. na guerra de todos contra todos. não está apartada do mundo da política. É só nesse momento que o discurso sobre si passa a incorporar novos tons. Tal percepção relativa às estratégias de marketing é fruto de um longo trabalho de criação de um campo. sendo antes uma construção a partir do termo final. nos termos daquela estudada por Mauss (1974). ou seja. fantásticos. extraordinários. pré-configurado. 293 . prefiro optar. A concepção da guerra e de uma gramática e estética próprias a ela. cuja crença em sua eficácia é sempre dada a priori. de profissionais específicos.

Conforme noticiado pelo jornal O Globo de 01/11/2004: “O acirramento da campanha no segundo turno em Nova Iguaçu se refletiu ontem nas ruas. em alguns momentos. a “morte” política. a ela soma-se o gesto. mas também como espetáculos. sem a garantia dos acessos que ele possibilita (Kuschnir. cit. transformaram-se em uma das principais arenas (senão a principal) nas quais Consultar. conforme relatado pela Folha de São Paulo de 12/09/2004: “O primeiro alerta de que a campanha poderia ser perigosa veio no início da disputa. Em período de campanha. Acreditei. os candidatos estão na base do “matar ou morrer”. Foram roubados documentos e computadores. ‘Mandaram um recado para o Lindberg. Outro fato que mereceu destaque na imprensa foi a intimidação sofrida pelo coordenador político da campanha. perto das vias de fato. O bruxo. Estar apartado desse mundo. a quem se referiram como ‘o paraíba’ [o deputado é paraibano]. torná-lo real283. por exemplo. Favret-Saada (1998). sobretudo. cit. Deixaram claro que ele corria riscos caso insistisse na candidatura. A publicidade (aqui entendida como englobando o marketing político) torna-se assim o instrumento por excelência desta guerra.. op. Mas não somente a palavra. O escritório em Nova Iguaçu já foi invadido duas vezes. pode ser o prenúncio do fim e. mais especificamente. a imagem. na guerra da política a palavra é sua ferramenta por excelência. Se na bruxaria “l’acte. de fato. reações e relações. A palavra engendra uma rede de ações. Militantes dos candidatos a prefeito da segunda maior cidade da Baixada Fluminense — Lindberg Farias (PT) e Mario Marques (PMDB) — só não trocaram socos e pontapés ontem porque foram impedidos por fiscais do TRE e policiais militares”. c’est lê verbe” (Favret-Saada. foi cercado ao descer do ônibus que o trouxe do Rio. Antônio Neiva. Falaram que eu estava sendo seguido havia 36 horas. nos remetem diretamente à esta questão. 1998). Em junho. As eleições. Desse modo. foram pichados os 70 outdoors de Lindberg na cidade. o rosto dele”. As pichações visaram. já que perder uma eleição pode significar.institucionalizado por partidos e homens públicos demonstra as formas variadas em que esse “estado” ali se instaura legitimamente. Evans-Pritchard (2005 [1976]). Neiva contou que dois homens saltaram de um carro e o imprensaram contra um muro. Bezerra. pensadas como arenas. 283 282 294 . com sua força simbólica. O “clima de guerra” que reinou durante o período eleitoral em Nova Iguaçu chegou. pois disseram coisas que fiz no período’.). Antônio Neiva. Assim. Na semana passada. na política não seria diferente. o coordenador político da candidatura. o mágico e o político têm em comum a palavra como força-motriz de uma ação à distância282. op. Mauss (2003 [1904]). as eleições no estado do Rio de Janeiro e. disse Neiva. na Baixada Fluminense.

295 . o PT nacional e o governo federal — através do presidente Lula e de seu staff —e. Os comícios e showmícios marcaram o ritmo das campanhas a partir do fim de agosto e os embates entre os principais candidatos foram tornando-se cada vez mais acirrados. o governo estadual — por intermédio do casal Garotinho (Anthony e Rosinha Matheus) — encetaram conflitos que se tornariam os objetos preferenciais das mídias escrita e televisionada.tais confrontos se desenrolaram. mas não vote nele”. De um lado. outdoors e adesivos com mensagens como “Trate bem o turista. A partir deste momento. Havia também o projeto político de Garotinho e de sua rede política para o Rio de Janeiro e para uma possível candidatura à Presidência da República. em alguma medida. de outro. O arsenal deste último grupo já estava preparado: além de acusações do uso da máquina administrativa com fins eleitorais que pairavam sobre a candidatura petista de Lindberg Farias — mesmo antes da eleição — outros ataques vieram também na forma de cartazes distribuídos pela cidade. não se tratava apenas do projeto coletivo do PT que abarcou projetos individuais como o de Lindberg ou mesmo o de Zito.

que dela se utilizou em diversas ocasiões. Foram objeto da campanha difamatória adotada contra Lindberg. em alguma medida.Jorge Gama. segundo uma pessoa próxima — ligada ao comitê eleitoral de Marques — um dos principais articuladores destas investidas. e de ter se mantido afastado do dia a dia da campanha. por exemplo. 296 . o tom debochado e desafiador do Geraldinho Boca de Trombone. até a posição por ele tomada na votação do salário mínimo (entre outras). mas de fato o tom crítico e o humor ácido dos panfletos lembram. sua criatividade teria sido colocada à disposição do candidato peemedebista. seria. aparentemente apartado da campanha. desde suas trocas de partido. Não há como confirmar ou negar tal afirmação. Apesar de seus desentendimentos com Bornier. quanto sua atuação como relator no caso da demarcação de terras da reserva indígena Raposa Serra do Sol.

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ficou logo evidente e a resposta foi imediata284. logo ganhou o espaço dos programas televisionados. respectivamente. as ameaças da governadora do estado. “Tem um candidato que sobe nos palanques para nos ofender. Alguns ministros foram convocados a entrar na briga e a imprensa tornou-se o palco de embates veementes e indignados entre os dois pólos285. Como é que nós vamos fazer isso caso esse candidato que nos ofende seja prefeito da cidade? A escolha é sua” (discurso de Garotinho. inclusive. Aldo Rebelo (da Coordenação Política). eram preocupantes. transmitido durante horário de propaganda eleitoral gratuita da coligação Crescer sempre com Deus e o povo). Os interesses de reprodução/ ampliação das redes políticas e de influência na região. visitando essa cidade. o casal Garotinho entrou com toda a força na campanha do PMDB. A atuação (mais ou menos) discreta durante o primeiro momento da campanha não impediu que o prefeito do Rio de Janeiro declarasse seu apoio a Lindberg e que participasse ativamente do segundo turno — subindo nos palanques. Rosinha Matheus. em Duque de Caxias. delineando um poderoso triângulo entre PT. ainda. nos xingar e isso não é bom porque nós queremos continuar amando Nova Iguaçu. O que de início começou com ofensivas nos palanques. 285 Em menos de um ano. Àquela altura — meados de setembro — o empate técnico entre Lindberg e Mário Marques em Nova Iguaçu. PT e PMDB). Humberto Costa (da Saúde). A pluralidade de partidos 284 É importante destacar que um terceiro termo esteve implicado na equação política em Nova Iguaçu e na Baixada Fluminense como um todo: César Maia e o PFL. e com o vereador Rogério Lisboa. diversos Ministros de Estado estiveram em Nova Iguaçu: Gilberto Gil (da Cultura). por ambos os lados (no caso de Nova Iguaçu. Diante disso. PMDB e PFL. A aproximação entre César Maia e Lindberg não era tão impensável quanto poderia parecer à primeira vista. e de seu marido aos eleitores que votassem em candidatos adversários. Rodrigo Maia. assim como os índices de Laury Villar. direcionando todas as armas disponíveis contra os candidatos petista e pedetista. a rede encabeçada por César Maia significava uma rearranjo das forças locais e regionais. diante de seu contato bastante próximo com o filho do prefeito e deputado federal. Para o mapa político da Baixada.A tais ataques somaram-se. José Dirceu (da Casa Civil) e Tarso 300 .

Anthony Garotinho. presidente regional do PMDB. deu a seguinte declaração à imprensa (escrita286 e televisionada): “O Presidente da República me autorizou a dizer que nós vamos não só estabelecer uma relação de qualificação e de igualdades com os prefeitos. Batizado de “Movimento por eleições limpas e éticas na política do Rio”. p. tais como: Marcelo Allencar. Rogério Lisboa. 301 . de 04/10/2004 e em O Globo. além de João Paulo Cunha (líder do governo na Câmara). Luis Paulo Corrêa da Rocha. Tal fato mereceu destaque no Jornal do Brasil. contando com a presença de diversos políticos e parlamentares de partidos aliados — naquele momento — a Lindberg. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. Chico Alencar. simbolizados pela oposição entre as personas: Lula/ Lindberg X Garotinho/ Marques. nas escadarias da ALERJ.na disputa foi canalizada em dois discursos ao mesmo tempo inclusivos e excludentes. disse que a governadora Rosinha Matheus não repassaria recursos estaduais para a prefeitura se o petista fosse eleito”. Rodrigo Maia. Segundo o jornal O Globo (13/09/2004. o então Ministro da Educação. além de membros do PT de Nova Iguaçu e do seu diretório estadual. Tarso Genro.11) “em reação ao crescimento de Lindberg. no dia 27 de setembro. Tal iniciativa Genro (da Educação). o evento clamava por eleições transparentes. sem boicotes. César Maia. Na ocasião. 25/09/2004). de 15 e 16/10/2004. Representantes do governo federal responderam às ameaças de cortes em projetos sociais de Nova Iguaçu com a promessa de cobrir qualquer ônus eventual aos moradores (e eleitores) da cidade. 286 Folha de São Paulo. Andréia Zito. A declaração de Garotinho desencadeou ainda uma manifestação pública de repúdio. Carlos Minc. como também o governo federal vai cobrir qualquer ausência de convênio que eventuais governos de estado se neguem a fazer por discriminação política” (Jornal Nacional.

ordenada pela Justiça Eleitoral de Nova Iguaçu. Sempre fui contra essa política do Garotinho para o estado do Rio de Janeiro. fora desta vez assinado pela coligação Crescer sempre com Deus e o povo. teria partido dela) constituiu o acontecimento propício para angariar mais visibilidade à candidatura petista e buscar maior apoio popular. de um “bode expiatório”. dizendo que aquele não era seu “estilo”: “Eu sempre fui contrário a tudo isso aí. O Secretário de Segurança é um elemento desestabilizador na eleição. marcou presença fazendo coro com o grupo liderado por Marcello Alencar. em matéria intitulada Panfletos acusam Lindberg de impedir distribuição de cesta básica. era preciso culpabilizar os agentes do mal. — nesse caso. Zito não participou do ato público e justificou-se. O que se tenta fazer é espalhar a política do medo. relata a responsabilidade atribuída a Lindberg Farias pela suspensão da distribuição das cestas básicas. Vários candidatos têm sofrido também com a distribuição de panfletos anônimos. É a ante-sala do terrorismo. no caso da distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII. a organização da mobilização anteriormente mencionada — que tinha como bandeira eleições limpas e A Folha de São Paulo do dia 29/10/2004. em Caxias. Débora Souto. por intermédio de diversos panfletos distribuídos pela cidade. 287 302 . O panfleto que reproduzo abaixo. os “corruptos”. No jogo das visibilidades. né?” Sua filha.(que segundo a coordenadora da assessoria de comunicação política de Lindberg. Mas nunca fui um político de ir pra rua e mostrar uma indignação exagerada. Em seguida. na entrevista que me concedeu. 28/09/2004). a denúncia de Lindberg quanto ao assistencialismo do governo estadual em troca de votos. acabou ocasionando sua suspensão e a revolta da população local287. Precisava-se. Nesse sentido. Esta política é hitlerista – afirmou Lindberg (O Globo. Eu sofri com isso aqui. exacerbada. no entanto. a deputada estadual Andréia Zito. os “assistencialistas”. portanto.

. Nesse contexto. no dia 26 de outubro.éticas — colocava o adversário no pólo oposto. mediante a apresentação pelos beneficiados da carteira de identidade e do título de eleitor. prometendo aos eleitores de Nova Iguaçu que vai ampliar na cidade o Programa Bolsa Família. a menção à assistência não foi de todo descartada no discurso político de Lindberg. iniciasse em Nova Iguaçu a distribuição de cestas básicas para moradores dos bairros Aymoré e Campo Belo. a distribuição das cestas era feita. sobre o caso da distribuição de cestas básicas: “A governadora Rosinha Matheus determinou. até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou mensagens para a propaganda eleitoral na televisão dizendo para o povo “votar em Lindberg sem medo” porque “vai compensar Nova Iguaçu de outras formas” se a cidade for abandonada pelo governo estadual” (grifos meus). É interessante perceber que. de tíquetes que podem ser trocados por latas de leite em pó. O candidato do PT reagiu à distribuição de alimentos pelo governo estadual. . do governo federal. Para as ameaças da governadora. segundo apurado por fiscais da Justiça Eleitoral. do mal. de 31/10/2004. que afirma que “será obrigada a abandonar Nova Iguaçu se Lindberg for eleito”. mas apenas atenuada . Os fiscais presenciaram a entrega de 780 cestas e. 303 . Rosinha acatou a decisão da Justiça. ligada ao governo estadual. mas no mesmo dia ordenou o início da distribuição entre os iguaçuenses. duas das áreas mais carentes da cidade. que a Fundação Leão XIII. apesar de tudo isto. o petista ressalta a todo momento sua ligação com o governo federal. conforme percebemos em reportagem da Agência Carta Maior. Anunciada com antecedência pelo prefeito. o juiz José Lessa Giordani determinou a suspensão da distribuição. em 19 de outubro.

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Isto significa um crescimento percentual de quase 100%.3 milhões entre 1999 e 2000 para 26. até então. Dentre eles. as ruas de Caxias estão forradas de cartazes de propaganda do estado. vinculando a opção religiosa (e sua prática) ao voto em um candidato em particular.1 milhões. o campo religioso local sendo polarizado por pastores de distintas vertentes. em um primeiro momento. senador pelo PL e segundo lugar no pleito carioca. cada candidato procurou costurar suas alianças com nomes importantes no meio evangélico da Baixada e do estado. Sandro Mattos reclamou que em Meriti os políticos ligados ao governo estadual fazem circular boatos de que. o casal não poupava ninguém. Marcelo Crivella. muito superior a qualquer outra denominação religiosa. visitas às igrejas. de forma mais ampla289. Naquele momento. em Caxias] também reclamaram do uso da máquina do governo estadual na eleição. Manoel Ferreira. Presença constante nos palanques do município. como mais um segmento eleitoral. A temática religiosa que. conversas com pastores e fiéis etc. Garotinho e a governadora Rosinha utilizavam-se de estratégia semelhante. Diante deste cenário. se eleito. 09/10/2004). não se havia apelado ao discurso religioso como arma políticoeleitoral. em São João de Meriti. a briga pelo “voto evangélico” atingindo seu ápice durante o segundo turno das eleições288. o bispo da Universal. 289 De acordo com os dados do Censo do IGBE. 306 . as religiões protestantes foram tratadas. Os candidatos [Sandro Matos (PTB).Em Caxias. e Laury Villar (PDT). em 2002. com promessas de realizações e obras. principal líder da Assembléia de Deus. Segundo Zito. manifestou seu apoio a Lindberg — graças à adesão de Fernando Gonçalves à campanha petista — acompanhando-o em caminhadas e também nos palanques. não havia tido grande destaque. no entanto. a população evangélica brasileira passou de 13. contando com shows específicos. 288 Conforme anteriormente mencionado. tomou vulto. As visitas às igrejas repetiam-se com freqüência. proferindo ameaças e acusações aos adversários locais durante os comícios realizados na localidade. Já do outro lado. ele acabaria com o cheque-cidadão (Jornal do Brasil.

Oro. No segundo turno. em 2002. 2002. ao que parece. O primeiro foi o terceiro colocado para a vaga do Senado Federal. a Assembléia de Deus. apesar dos conflitos entre o pastor Manoel Ferreira e seu “padrinho”. A estratégia visa a ‘arrebanhar’ parte dos fiéis que estão hoje sob a influência do exgovernador Anthony Garotinho (PMDB). Tenho certeza de que foi a vontade de Deus. colocandose. 307 . 11/10/2004). tive 290 Destaco que o pastor Manoel Ferreira e Garotinho pertencem à mesma denominação religiosa. 2003). Em Duque de Caxias.deu seu apoio a Mário Marques. 09/10/2004). Lindberg Farias prometeu reunir pelo menos 300 pastores evangélicos na igreja da Assembléia de Deus. o vínculo evangélico. Garotinho declarou seu apoio a Lula e teria atuado como mediador junto a outras igrejas para conseguir congregá-las ao candidato petista. A entrada dos evangélicos na campanha de Lindberg foi acertada.. na época filiado ao PSB. da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil e também da Igreja Quadrangular (Machado. na cidade. no município do Rio de Janeiro. segundo o candidato. O peemedebista apóia a campanha do prefeito Mario Marques (PDT). Garotinho. nas eleições municipais de 2004. . já tinha costurado anteriormente uma aliança com a IURD — em 2002. saí com espírito renovado. em arenas políticas opostas. Após conversar com o pastor.Não cheguei até aqui por acaso. e do primeiro ter manifesto publicamente sua adesão à campanha de Laury. adversário de Lula. que foi candidato a vice na chapa de Luiz Paulo Conde e. privilegiando seus interesses particulares e o vínculo partidário em detrimento do pertencimento religioso. o candidato do PMDB contou com o apoio de alguns pastores de sua denominação religiosa. “Zito ajudou na minha candidatura ao Senado. conclamando os pastores da IURD. no entanto. com o pastor Manoel Ferreira (PL). Com a aliança com o PTB em Nova Iguaçu. era aliado de Garotinho” (Jornal do Brasil. Garotinho (). como também seus fiéis a votarem nele290. “Candidato pelo PT à prefeitura de Nova Iguaçu. amanhã. por sua vez. até então. Vale a pena lembrar que José Serra (PSDB). pôde apoiar publicamente o candidato do PT. nessa eleição. Apesar do PL ter tido um senador na chapa de Lula naquelas eleições para a Presidência da República. tendo sido também candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Paulo Conde. pronto para a maratona do segundo turno — afirmou (Jornal do Brasil. . Graças a ele. recebeu o apoio da Convenção Nacional das Assembléias de Deus. predominou. que busca a reeleição.

singularizada na utilização de seu nome próprio. destaca-se uma tática bastante “tradicional” na política: a distribuição de cartas. “Política Ambígua” (Palmeira) e “O mal à brasileira: Um pósfacio. É assim que o deputado federal Nelson Bornier (PMDB) define a colaboração da empreiteira Delta Construções S. interessaram-me particularmente os artigos: “Males e malefícios no discurso pentecostal” (Birman). Entre as armas utilizadas pela rede de Garotinho em Nova Iguaçu. Regina Novaes e Samira Crespo (1997). O mal. candidato à reeleição em Nova Iguaçu. a um adensamento dos estigmas sobre os moradores das favelas. na disputa com Lindberg Farias. à campanha do prefeito peemedebista Mario Marques. A temática do mal. em entrevista ao Jornal do Brasil de 18 de outubro de 2004. principalmente no que tange à relação entre tal estigma e a conotação que o vínculo religioso adquire nestes segmentos. vinculada acima à anti-ética. 293 Para a problemática da constituição do mal na cultura brasileira. “As metamorfoses da Besta Fera: o mal. o candidato fala “para todos”. a de Daniela Name. ver a coletânea de artigos organizada por Patrícia Birman. a personalização do contato. é retomada com toda força. Estou firme nesta campanha para ajudar a eleger Laury — explicou o pastor evangélico”. só que desta feita. Nas cartas e telefonemas. Nas duas estratégias. 29/10/2004). na última década.A. 292 Entre as estratégias políticas de vinculação de um determinado candidato a um nome político considerado “forte”. grava uma mensagem telefônica — mencionando o nome do proprietário da linha e do morador — pedindo voto para o “seu candidato”. Algumas matérias de jornais expuseram tal questão. segundo o qual algumas aproximações podem ser traçadas entre a condição estigmatizante dos moradores da Baixada e aquela dos moradores das favelas cariocas. Criminalizados por ali residirem. Dentre elas. É o que se evidencia também no trabalho de Leite. de cunho religioso — postadas pela Delta Construções291 (empresa ligada a Nelson Bornier). a ética. Para este trabalho.mais de 15 mil votos. de O Globo de 23/10/2004. ele fala com a pessoa. destaca-se a distribuição de cartas cujo teor pode variar de um simples pedido de voto a acusações explícitas ao adversário. e que apóia a candidatura em questão. a religião e a política entre trabalhadores rurais” (Novaes). pode ser pensada como uma forma de criar laços e promover uma “sensação de proximidade” no eleitor. nas quais Garotinho pedia votos para o candidato do PMDB292. Eis algumas de suas conclusões (2002:71): “[…] o acirramento da violência na cidade [do Rio de Janeiro] correspondeu. por meio do emprego do nome próprio do eleitor. de prestígio. a política e o Brasil” (Sanchis). nos quais o político mais conhecido. Há também telefonemas. 308 . com viés religioso293. agora. No HPEG. são 291 "Uma coisa de amizade" (O Globo.

aproximados de bandidos e marginais em uma lógica que considera a convivência forçada um sintoma de conivência. pelo efeito social positivo de discriminação dos adeptos das religiões evangélicas da marginalidade e do crime” (grifos meus). tanto pela crença no efeito transformador da palavra religiosa. o ex-governador alegou que o petista ‘ofendia a fé cristã da cidade’. “Para se defender. Fernando Gonçalves. A eleição deste moço é muito ruim para Nova Iguaçu’. 309 . Como justificativa. abaixo) mesmo antes da declaração de apoio de Fernando Gonçalves a Lindberg — e deste último ter adquirido o status de “convidadobem-vindo” no campo evangélico iguaçuano. O candidato do partido. Falem isso na igreja. As investidas de Garotinho e de seus aliados já associavam a candidatura petista à encarnação do mal (primeira citação. Garotinho juntou no palco cantores conhecidos de música gospel e pediu que todos orassem ‘para pedir a Deus que impeça a eleição de Lindberg’. capaz de converter o mais renitente dos pecadores que assim iniciaria uma nova vida distante dos “erros do passado”. disse” (Agência Carta Maior. No segundo turno. uma nova interpretação para a guerra política sendo então apresentada. aproximados do campo do “Mal” – associado à violência e ao terror das quadrilhas de narcotraficantes. abaixo). o PT buscou apoio no PTB. cresce a importância da adesão religiosa como meio de afastar-se do campo conflagrado da violência social. Neste contexto. contem para papai e mamãe. no Rio de Janeiro. que chegou em terceiro lugar com 12% dos votos. “Diante de milhares de pessoas. e isso não é coisa que um verdadeiro cristão apóie. quanto. ao assumir determinadas posições políticas: ‘Este rapaz defende a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo. a maioria composta por jovens evangélicos reunidos para o show Celebrai. e em decorrência. As favelas e seus moradores são. entrou em cena a poderosa “máquina” das igrejas envolvidas nas campanhas (segunda citação. 27/09/2004). no entanto.

desvinculando a opção religiosa da prática e escolha políticas. 13/10/2004) (grifos meus). eu vejo que a predominância de algumas entidades — ou mesmo religião — é um 310 . tirando da campanha petista o estigma de ´ser de fora de Nova Iguaçu’. reportagem de Maurício Thuswohl. contra nós. o padre pode ser alguém que o induziu [o eleitor] ao erro. Com relação a Duque de Caxias. 29% dos habitantes da cidade são evangélicos. O candidato petista – que já leu as cartilhas de Stalin no PC do B e depois as do seu inimigo. militantes de outras seitas distribuíam o jornal Folha Cristã. nós estamos usando uma arma. enquanto a Igreja Universal é seguida por 3. Essa guerra santa se explica pelo incrível contingente de eleitores evangélicos de Nova Iguaçu: segundo um levantamento feito pela PUC-RJ. Assim. A política que quer ser levada a sério […] porque. Mesmo tendo esposa e filha evangélicas. presente a um templo da Assembléia de Deus lotado. senão. no PSTU. o que ajudou muito Lindberg a jogar para o alto a pecha de ‘filho do demo’ que quer lhe colar Garotinho[…] No dia 10 de outubro. Iguaçuano e deputado federal mais votado na cidade. o pastor. Trotsky. apontado para nós mesmos.5% dos iguaçuanos. explorado pelos adversários.5% da população” (Agência Carta Maior.declarou apoio a Lindberg. Gonçalves ainda por cima também é evangélico. ele não declara pertencimento a qualquer denominação religiosa. A Assembléia de Deus é a maior seita. com 11. que é o nosso voto. Do lado de fora do templo. Lindberg foi alvo das benções e orações de lideranças políticas e/ou religiosas como o próprio Ferreira e a ex-governadora Benedita da Silva. mas não esconde mais sua simpatia pelos evangélicos pentecostais. com acusações a Lindberg e uma matéria dizendo que a prefeitura petista de Belo Horizonte mandou construir ‘um templo para Satanás’. o discurso de Zito tentou passar ao largo da questão. que já foi radical e agora é moderado do PT – é católico. e costuma enfatizar a necessidade de autonomia dos fiéis no momento da eleição: “O líder comunitário.

o que sua coligação fazia era esclarecer o eleitor a respeito de “quem era esse candidato”. até mesmo a religião”. Durante o primeiro turno. O PT nacional também marcou posição. divulgou nesta sexta-feira nota oficial reclamando de ataques sofridos pelos candidatos petistas no segundo turno das eleições. a divulgação de sua autoria marcava uma inflexão na estratégia. 26/04/2006). Por exemplo: O Globo. mas também às ameaças de corte de verbas e projetos sociais do governo do Estado. 295 Tal acusação foi notícia em jornais como O Globo e a Folha de São Paulo.momento. enviando nota aos jornais em repúdio aos ataques efetuados a seu candidato no segundo turno296. no segundo turno. configura um dos exemplos: “O presidente nacional do PT. Tal boato teria sido espalhado (e fabricado) pela rede política de Mário Marques e Lindberg acabou acusando o ex-governador de ser o responsável pelo fato295. Segundo o candidato do PMDB. Teresa Cruvinel remetia ao “tom religioso”. a onda de boatos tampouco. 296 A matéria divulgada na Folha de São Paulo. Arthur Dapieve ressaltou os “argumentos pretensamente religiosos” do casal Garotinho e. referindo-se às diversas acusações ao candidato petista. Ao conclamar seus correligionários a ‘não caírem em provocação’. A notícia de que teria uma filha — até então ignorada — com uma garçonete agitou o clima político local e provocou uma avalanche de matérias na imprensa294. de 22/10/2004. Genoino afirma esperar que os ‘nossos adversários não se utilizem desse clima de sectarismo e violência. de 23. “esse tal de Lindberg”. E eu espero que cada cidadão saiba separar uma coisa da outra e comece a entender da sua responsabilidade com o seu voto” (Zito. Segundo a nota. As acusações não pararam por aí. o PT é vítima de ‘armações e violências’ por parte de seus adversários. diversos panfletos apócrifos já haviam sido espalhados pela cidade com acusações de diversos tipos. 29 e 30/10/2004. Como mencionado no capítulo anterior. 24 e 31/10/2004. 294 311 . e O Globo. de 21/10/2004. isso é passageiro. Merval Pereira referiu-se aos ataques como “os mais baixos recursos. de 21/10/2004. feitas porGarotinho. algumas matérias deram destaque aos boatos que o candidato do PT enfrentou durante toda a campanha. que não condiz com um país democrático e civilizado’. inclusive a de paternidade. Ao blame gossip juntaram-se as acusações de cunho religioso e a novidade dos panfletos assinados. José Genoino. Em uma delas. por último. Lindberg foi novamente atacado. Outras matérias foram veiculadas pelo jornal O Globo dos dias 26.

possibilitando um crescimento considerável do número de parlamentares de esquerda. A IURD talvez figure como a principal iniciativa dos evangélicos no campo político. eleitas para mandato parlamentar no Rio de Janeiro. bispo Caetano. foi eleito para o Senado com 3. 1998: dezessete deputados federais e vinte e seis estaduais. Eduardo Cunha. bispo João de Jesus. pastor Ely Patrício. sua atuação neste universo teve início nas eleições de 1986 para a Assembléia Nacional Constituinte. em 6 de outubro de 2002. 312 . No Rio de Janeiro. com 1.53). um dos líderes da Igreja Universal. apesar de recente. Manoel Ferreira (PTB). assim como a ampliação das vagas ocupadas por políticos evangélicos na ALERJ297. Bispo Rodrigues. elegendo um deputado federal (p. Benedita da Silva (PT). 1994: seis deputados federais e oito estaduais. bispo Léo Vivas. sua inserção foi aumentando significativamente ao longo do tempo (1990: três deputados federais e seis estaduais. A partir daí.7 milhão. principalmente do 297 Nas eleições de 2002. foi o 3º colocado. entre outros. 2002. desde a eleição de Anthony Garotinho (PDT) para o governo do estado — tendo como vice. De acordo com Oro (2003). bispo Jodenir. também evangélica — em 1998. pastor Almir. pastora Edna. a Secretaria do Trabalho e Ação Social e 500 mil votos para o seu candidato ao Senado. são alguns nomes de lideranças evangélicas locais.2 milhões de votos. o bispo Marcelo Crivella (PL). pastor Divino. dezesseis deputados federais e dezenove estaduais [idem]). Arolde de Oliveira. bispo Vieira Reis. da Assembléia de Deus. Apesar da “onda Lula” — que repercutiu em todo o Brasil nas eleições proporcionais. a participação dos evangélicos e a associação entre o campo religioso e o capital político dessa coligação possibilitaram a supremacia política do casal Garotinho na eleição seguinte.A relação entre os campos político e religioso no Brasil não constitui propriamente uma novidade.

1989. também fez críticas ao “estilo Garotinho” e à própria mudança que uma figura política como a dele implicaria ao PMDB. encontramos. De acordo com Novaes (2002). a Assembléia de Deus teve 24 candidatos concorrendo para a ALERJ (tendo eleito 5 deputados). esteve envolvida em projetos como o do cheque-cidadão. pensado como “corporativismo de viés religioso”. 2000. Coradini.30%)298. Garotinho recebeu 15. por exemplo. apesar de tentar atenuar algumas posições do ex-governador. enquanto sua esposa.). Tal iniciativa. op. Machado.87%) na disputa para a Presidência da República. Jorge Gama. Conrado.175. O projeto político do casal Garotinho foi inteiramente embasado na linguagem religiosa que conferiu intensidade dramática à operacionalização efetuada entre liderança espiritual e assistencialismo social. Diversos autores ressaltam o papel da assistência e do trabalho social nas experiências de aproximação entre política e religião implementadas em diversos estados brasileiros (Peirucci. Líderes de expressão nacional do PMDB colocaram-se contrários à ofensiva e ao uso do discurso religioso. implementado no governo de Garotinho no Rio de Janeiro (Machado. a rede assistencialista vinculada à Fundação Leão XIII e seu uso com fins eleitorais. Mais recentemente. a Igreja Universal teria inaugurado o estilo. no entanto. 2001. 313 . Nessa eleição. Rosinha Matheus foi eleita governadora do estado do Rio de Janeiro. ainda no primeiro turno. como já mencionado. seguidos de 18 da Igreja Batista e 17 da IURD. 298 Segundo Machado (2002). até funkeiros e esportistas) tentaram garantir seus espaços nas urnas.423 votos (51.PT — as comunidades evangélicas e outros grupos sociais tradicionalmente representados (desde militares e policiais. Oro. com 4. nem sempre obtendo o resultado esperado. 2001. cit.729 votos (17. A Assembléia de Deus. em todo o estado. logo foi seguida por inúmeras outras. 2001). O tom das disputas e a condução da guerra política (apelidada por alguns de “guerra santa”) no estado do Rio de Janeiro foram criticados por membros do próprio partido de Garotinho.101.

impôs sua vitória na quase totalidade das 314 . Nessa guerra particular. cit. mais particularmente.Pautar a política na assistência e prestação de favores — podendo implicar em laços de gratidão e dívida moral — não é exclusividade das lideranças religiosas e evangélicas. ela considera a existência de “[…] um círculo vicioso em que o ator religioso utiliza o engajamento em atividades sociais da Igreja como atributo político para conseguir votos e mais uma vez eleito privilegia as questões religiosas e assistenciais”. em seu trabalho sobre políticos evangélicos na Câmara Municipal e na ALERJ — a filantropia e o engajamento em ações sociais não se restringiria à ética religiosa.291). 1975. Entretanto.). Aglutinando e combinando pertencimentos e interesses os mais diversos. remetendo igualmente às ocupações profissionais e à tentativa de angariar mais poder no espaço público. Na política brasileira encontram-se vários exemplos desta prática (Leal. cit. para outros — como demonstrou Machado (2002). o campo religioso na Baixada e. a partir de um depoimento que lhe foi dado (p. op. Venceu Lindberg e o projeto coletivo do PT (ao menos o do Campo Majoritário). mas também o poder sobre a fé. Kuschnir. fragmentou-se diante dos diversos interesses em jogo — os atores sociais evidenciados nesse processo disputando não somente prestígio político. Assim. Lanna. em Nova Iguaçu.) — as preocupações dos políticos evangélicos estariam preferencialmente a “serviço da religião” e menos voltadas para politizar as questões religiosas e/ou mundanas. 1995. Se para alguns autores — como nos aponta Coradini (op. a mediação política apresentou-se sob novos aspectos e o clientelismo — tradicionalmente utilizado para pensar as relações políticas e as instituições no Brasil — não pôde ser acionado como critério explicativo exclusivo.

nos últimos dez anos. Outros discursos religiosos também estão em cena. 300 De acordo com Leite (2002:69-70).zonas eleitorais de Nova Iguaçu — imprimindo efeitos também sobre outros municípios da Baixada através de sua atuação como “porta-voz do PT” na região299. ampliou a possibilidade da participação das associações de moradores. A única localidade na qual Lindberg não atingiu mais do que 50% dos votos foi Austin. enquanto os católicos tiveram um decréscimo de 67.16%. A Teologia da Libertação e as CEB’s reduziram sua intervenção no cenário político nacional. mas a necessidade de adequação a um discurso e a uma prática não mais exclusiva ou predominante do campo político. na Baixada Fluminense — e. de 12. Vila de Cava e Centro. diante do processo histórico de democratização brasileira que. nos dias de hoje — o voto evangélico pode ser decisivo. têm se feito presentes. Os católicos. mas a entrada em cena de novos partidos e novos discursos acabou implicando numa ruptura com esta forma mais tradicional do fazer político. Sua atuação junto aos movimentos sociais que lutavam pela casa própria em Nova Iguaçu foi decisiva para a constituição de sua persona pública. alterando sua configuração e a própria extensão de sua autoridade. ficando com 48. o número de evangélicos no estado do Rio de Janeiro passou.13%. A trajetória de Jorge Gama é ilustrativa desta situação.65% para 57. Cabuçu. respectivamente. redefiniram as práticas e valores internos a essa instituição. sindicatos e partidos políticos.62% (13. Levando-se em conta que. a partir de meados da década de 1980. Outro elemento a se considerar é o surgimento do que Leite (idem) denominou 299 As zonas eleitorais em que obteve maior votação foram. quantificada. com atuações variadas300. no Brasil como um todo. com pesos distintos. A própria crise do paradigma marxista como elemento estruturante e a nova postura da Igreja Católica — sob o comando de João Paulo II e seu conservadorismo — além da expansão do movimento dos carismáticos. 315 .86% para 21. focalizamos não apenas a sua dimensão representativa e. Para os detalhes sobre os números em cada zona eleitoral. portanto. ver Anexo. apesar da redução no número de fiéis.831 votos) do total da votação. talvez.

em situações mais revolucionárias. Leite refere-se à atuação do projeto Viva Rio frente à problemática da violência e sua relação com uma concepção de “religião civil”. Geertz (1997:214) nos chama a atenção para o que isto significaria: “um mundo totalmente desmistificado é um mundo totalmente despolitizado”. São esses símbolos – coroas e coroações. 2002)301. Nesse sentido. sua posição fora da ordem social. cerimônias. elas justificam a sua existência e administram as suas ações em termos de um conjunto de estórias. Geertz (idem. 316 . com os destinos das instituições políticas” (Soares et al. por conseqüência. 1996:51-52 apud Leite. segundo a qual “não se constrói um Estado democrático sem uma religião civil capaz de valorizar as virtudes cívicas ou o comprometimento do cidadão com a coisa pública. baseada na relação entre compromisso e cidadania. limusines e conferências – que dão ao centro a marca de centro e ao que nele 301 Em nota de rodapé. operaria uma alteração nas fronteiras entre religião e política (Leite. Se nos trabalhos de Weber (1999 e 2004) encontramos a preocupação central com o processo de racionalização e de desencantamento do mundo. delineando uma espécie de “religião civil” que.219) ressalta que “o que faz um líder político espiritual não é. as figuras dominantes e o carisma — e não exclusivamente sob formas “extravagantes” ou efêmeras — o autor ressalta um conjunto de formas simbólicas expressas pelo poder e por suas dimensões ao mesmo tempo morais e estéticas: “[…] Não importa o grau de democracia com que essas elites foram escolhidas (normalmente não muito alto) nem a extensão do conflito que existe entre seus membros (normalmente bem mais profundo do que imaginam aqueles que não são parte da elite). p. fundadas na ação cívica e no sentimento religioso. em algum transe de auto-admiração. insígnias. ou. refletindo sobre o conteúdo sagrado do poder302. formalidades e pertences que herdam. Desse modo. sobre seus centros. emerge o que a autora — citando Bellah — chamou de “dimensão religiosa pública”. inventam.. com o espaço comum e.“redes de solidariedade e filantropia”. que seja defensivo ou destrutivo – com as ficções mais importantes que tornam possível a sobrevivência desta ordem”. 2002:67) 302 A este respeito. afinal. e sim um envolvimento íntimo e profundo – que confirme ou deteste. de certa forma.

podem ser pensados na cultura (e por que não. o do capital etc. de fato. O autor utiliza-se do “número três” (p. As múltiplas possibilidades em jogo foram evidenciadas. pensar a política na Baixada como ação simbólica (Geertz. 303 Pierre Sanchis (1997) pensa a ambigüidade e ambivalência. de alguma estranha maneira. – e a teia de significados da qual faz parte como produto e produtora. o do espetáculo. ele estivesse relacionado com a própria forma em que o mundo foi construído” (idem. como as aqui apresentadas. Sendo assim. re-significando discursos e originando uma nova gramaticalidade na qual o bem e o mal. da própria representação partidária e de uma linguagem que privilegia uma religiosidade difusa. 1991[1980]) significa apreender os diversos discursos em ação – o do marketing. os projetos políticos aqui analisados revelaram os valores e símbolos implicados numa determinada maneira de conceber o mundo e a política. o da religião. ora revelando-se na potencialidade aglutinadora do carisma de algumas personas políticas. fazendo uma análise da cultura brasileira a partir da polaridade entre a cordialidade e o conflito. mas evidencia — a partir de um olhar atento e minucioso — a inserção de novos atores (oriundos do campo religioso). o da política. ora por meio dos arranjos representativos. para além de uma dicotomia restritiva. o que vem alterando a própria dinâmica do mundo da política. suprimir a dimensão dos interesses pessoais e dos grupos.219). algo assim como se. A eficácia de elementos simbólicos do campo religioso repercute cada vez mais no fazer político por meio de alianças. na política) brasileira303. Não que isto possa ou vá. mas.225). especificamente.acontece uma aura não só de importância. o da festa. p. Desse modo. das variáveis numéricas. referindo-se à ambigüidade brasileira: “uma ambigüidade que não deixa o mundo ser de modo maniqueísta dividido em 317 .

O mal foi aqui trazido enquanto experiência cotidiana e não exclusivamente pensado dentro do mundo religioso. e que também significa ambivalência dos seres. a violência. virtualmente ambivalente[…] É então que esta junção (mistura) ambivalente produz. 304 Por exemplo. a novidade. ‘bons’ e ‘maus’. Ambigüidade potencial e funcional que responde à sua ambigüidade estrutural”. os meus “nativos” referem-se à Baixada sempre no singular. sim. afinidades pessoais. dos comportamentos. tentei demonstrar também como esta interpenetração pode ser “provocada”. sentimentos. entre o mal e o bem. a partir das trajetórias dos três políticos. Ao mesmo tempo em que transita entre os pólos do bom e mau (e em muitos casos. dos valores[…] Mas a mistura entre homem e natureza. Aproximam-se. as mudanças dos discursos. a mudança pode nos indicar por que caminhos seguir.A triangulação Jorge Gama – Zito – Lindberg seria então uma forma de entender a ambigüidade constitutiva da política local. paixões. O político benfeitor-violento é um outro exemplo. incorpora-os304. da apresentação de si e dos projetos. 318 . mas pode igualmente demarcar uma relação de dádiva com o morador-eleitor. Outros artigos que trabalham essa ambigüidade em diferentes contextos podem são encontrados no mesmo livro. levando consigo a sua vida privada. Assinalei que a construção acerca do que seria o fazer político desses atores era dinâmica. Pode ser usada num contexto acusatório. Pois a própria ambigüidade é ambígua. ao mesmo tempo. perigo e fascínio. os estigmas e. A oscilação entre o sofrimento. A própria assistência (o trabalho social) é ambígua. na outra face (pois constitutiva do mesmo!) a pertença. do bem e do mal). pode ter também o seu sentido negativo.”. concepções sobre o Bem e o Mal. crenças religiosas. Assim como para Novaes (1997:102) “as pessoas não se aproximam do cenário político abstratamente ou operando apenas com a razão e com a idéia do ‘público’. Expus nos capítulos anteriores. das bandeiras políticas. A remissão ao conjunto de símbolos que suscita ultrapassa delimitações de campos específicos a partir das experiências e dos processos de resignificação do mundo social. como já abordado no capítulo 1.

a explicação não é tão simples. os pertencimentos e filiações estão sempre em movimentos. como a política traz consigo a ambigüidade e a incerteza. no jogo político. No entanto. nos capítulos anteriores. Em Duque de Caxias venceu o discurso que conciliou religião. Resta-nos agora tecer algumas considerações a respeito da construção. des-construção e re-construção desses projetos assim como das próprias imagens (e configurações) de Baixada. a partir da própria avaliação acerca dos projetos políticos bem-sucedidos e fracassados dos atores em questão. a “guerra santa” empreendida na Baixada e no estado do Rio de Janeiro durante as eleições de 2004 explicitaram os usos dessas concepções (Bem e Mal). em Nova Iguaçu. política e trabalho social. o mesmo discurso perdeu.Desse modo. mas também evidenciaram que. desmanchando-se e recompondo-se. 319 . Vimos.

Retomarei agora algumas questões tratadas ao longo desta tese. Em outra passagem do texto (p. op. Para a autora. um coletivo referenciado ao lugar.cit. Inseridos neste debate e com a preocupação de não forjar uma ordem (no sentido de ordenação criada pelo pesquisador) ao escolher um recorte frente à sua multiplicidade e não 305 Na página 96. Sendo assim. a autora insere a discussão sobre a problematização pública do que seria a Baixada. e que possibilita precisamente um movimento de um [eu] para um [nós]. de uma ascensão de problemas singulares para problemas gerais e públicos. ela é também um recorte mental. as pessoas/ moradores permanecem referindose à Baixada. em determinadas situações”. ressaltando a construção de um “nós”. dialogando com trabalhos mais recentes que enfocavam o “lugar” de maneira mais o menos sistemática para mapear algumas práticas e discursos sobre a política a partir da análise das trajetórias de três políticos profissionais. a primeira questão em que esta tese se debruçou foi como pensar a Baixada Fluminense frente às múltiplas possibilidades que comporta e aos distintos processos de identificação a ela vinculados. no singular? Por que ainda faz sentido enunciar sua suposta condição (ou possibilidade) de unidade? “A Baixada não existe..95). Freire declara não ter dúvidas quanto à existência da Baixada. a Baixada “é uma região.CONSIDERAÇÕES FINAIS: CONSTRUINDO (E DES/ RE-CONTRUINDO) REIS. então. É neste ponto que a definição da autora caminhará na direção que esta tese pretende seguir. Utilizar-se do plural — marcando sua heterogeneidade — seria a melhor solução? Mas por que.. um quadro cognitivo que se elabora através de um trabalho intenso de significação problemática. p. transcrição de palavras alheias. justificando o uso das aspas como remissão às falas nativas. É uma ilusão” (Freire. ÍDOLOS E BACHARÉIS Nos capítulos precedentes tentei apresentar algumas visões acerca da Baixada Fluminense.. 320 .106). A afirmação que foi feita pela bibliotecária da Fundação CIDE à Freire (idem)305 — motivada pela escassez de dados oficiais sobre a região — me fez pensar como algo poderia não ter “existência” e mesmo assim marcar tantas experiências.

Não me parece factível falarmos numa “identidade baixadense” stricto sensu. negando a fluência como constitutiva dos processos de identificação locais. apontamos para a ambivalência dos sentimentos de pertença e de imputação de um pertencimento (da identidade de “morador da Baixada” dita pelos “de fora”. Uma ordem simbólica que expressa. Grosso modo. a abertura e o fechamento.apenas ao que tem de comum. de forma mais ampla307. Esse aspecto duplo (e ambivalente) evidencia-se igualmente nas metáforas da ponte e da porta utilizadas por Simmel para falar da cidade e do urbano. o não-movimento. a ligação e a ruptura. o desdobramento dessas primeiras indagações fez-nos questionar sobre o que teria mais rendimento para o trabalho: a categoria que se relaciona com o estigma? As imagens positivas? Os discursos dos moradores? Os discursos sobre os moradores? A “fala” institucional (do estado. A “frouxidão” desses limites. e sim em processos de identificação que remeterão à criação — assim como à dissolução e recriação — de espaços de significação. que estabelece um delicado equilíbrio entre os fluxos: o movimento e a (des/ re)territorialização do (seu) mundo306. Simmel (1983). 321 . por exemplo) que simultaneamente funde e rejeita. do trânsito constante desses moradores 306 307 Deleuze (1992). retomando a própria dimensão de comunicação e de intersubjetividade do espaço. de formas variadas. Pensar apenas nos limites territoriais dos municípios ou na configuração das próprias fronteiras da Baixada significaria reificar algo estático. da prefeitura. das secretarias)? O que nos dizem os movimentos sociais? Nosso esforço deu-se no sentido de pensar a Baixada Fluminense a partir da “significação afetiva” presente nos discursos diversos de seus atores sociais sobre o “lugar” e seus moradores.

Given this approach. as Susanne Langer does in her Feeling and form.. pp. ‘ethnic domains made visible. corroborando por fim um ethos local. o que implica um sensível partilhado.. compartilhada assim como suas ambigüidades e ambivalências. Por outro lado. as ‘creative things’.” (idem. one London – t go back to the great quartet identified by Pritchett – each of these cities in itself has been a collection of distinct places. is nonetheless a self-contained place. as expressed in words and pictures encompasses feelings that particular places are nasty as well as beautiful. também é uma classificação externa a partir de referenciais outras que não exclusivamente as tomadas por quem é “de dentro”. desse modo. o crescimento e as imagens da região (para dentro e para fora). 308 “I regard places. 309 Utilizo ethos no sentido empregado por Geertz (1989). and a gipsy camp is far different from an Indian camp. [. constantly changing its locations. Reforçando tal vivência com imenso potencial transformador — e não restrito aos moradores da Baixada — enquanto uma experiência sobre o espaço e a partir deste. sensible’. 1985:90). Detendo-me mais especificamente na definição de Asa Briggs (1985) — e. o trânsito é apreendido como uma constante nas vidas dessas pessoas. cit.cit. 95). sometimes with its own sub-culture. although geographically it may be where Indian camp used to be. quais seriam suas características etc309. it is essential to reiterate that cities are collections of place as well as places in themselves. indeed. hateful as well as lovable.] The sense of place.) — a Baixada constituiria um lugar na medida em que permitiria uma vivência comum. While there has been only one Paris. a ship. one Rome. “Verbal as well as visual accounts are usually far more relevant than architect’s photographs or planners’ models. uma experiência comum que em maior ou menor escala marcou a ocupação. one New York.37). conforme nos sugeriu Enne (op.. wich not only leave out but often misrepresent. In this connection. corroborando grande parte das conclusões de Enne (op. p. a Baixada apresenta-se como coleção de lugares308. 322 . Sendo assim. tangible.” (Briggs. assim como marca relações e representações nos contatos mistos sobre quem são esses moradores. each with its own ecology and history.reinventa este “espaço”. se o “morador” é uma auto-denominação.

o prédio no qual funcionava a indústria têxtil Brasil Industrial — que. jovens ligados ao hip hop. historiadores locais.) e de Enne (op. traz à tona como essas relações se constituem e compõem as próprias representações sobre o “lugar” em um fluxo de imagens e discursos que tem como enunciadores os mais diferentes atores sociais: moradores da Baixada. políticos. no entanto. católicos. anos após seu fechamento. O caso de Paracambi seria paradigmático no que diz respeito à demarcação de suas (possíveis) fronteiras. estando. meios de comunicação. técnicos. foi transformado em universidade (durante o primeiro mandato do prefeito André Ceciliano . Essa lista poderia se alongar indefinidamente. 323 . projetos urbanísticos. ao colocá-los em cena. No entanto. umbandistas. Numa delimitação mais ampla da Baixada (essencialmente ligada a discursos e projetos políticos) a cidade é incluída. evangélicos.). 310 Um dos lugares de memória da cidade é. cit.PT). por exemplo — que as características de Paracambi (assim como Magé e Guapimirim) estariam mais próximas daquelas verificadas em cidades da zona rural ou do interior do estado do Rio de Janeiro. Costuma-se afirmar — como nos trabalhos de Monteiro (op. lideranças de movimentos sociais. cit. moradores do Rio de Janeiro. a despeito de peculiaridades no processo de ocupação local. de alguma maneira. contornos de uma cidade operária que ainda hoje guarda em sua memória marcas desse passado310. por exemplo. ausente de um número significativo de referências sobre a região.A idéia de trabalhar com as diversas imagens sobre Baixada não delimita uma dicotomina fixa entre os “de dentro” e os “de fora” mas. músicos. Sobre a história da indústria têxtil em Paracambi ver Keller (1997). o processo de urbanização da cidade esteve vinculado à atividade industrial — fundamentalmente de duas indústrias: uma têxtil e a outra siderúrgica — conformando.

112). Acho que isso inclusive é o que dificulta a percepção mais consciente da identidade da Baixada Fluminense. temos: UNIG (Nova Iguaçu e São João de Meriti). a partir de um certo momento. não tem violência. “Aqui é por excelência um local dormitório. a gente dorme de porta aberta”. “aqui. no tocante aos de processos de identificação. as falas nativas remetem. para alguns e o Fátima. anteriormente mencionada. já que na própria gramática política dos interlocutores da autora — e também dos meus — ele já estaria em desuso. senão a principal.131) monta sua própria tabela na qual também evidencia o intenso fluxo de pessoas. p.”. que a Posse. agora suavizado pelo incremento no funcionalismo público da região. ou ainda que os filhos das camadas médias locais estudam em Nova Iguaçu.. os trens que buscam meninos e meninas para levá-los aos bailes funk ou aos cinemas em outras cidades da Baixada ou no Rio de Janeiro. ainda. como a de paracambiense.” (idem. por exemplo. são os hospitais geralmente 311 Tal característica (ser um “lugar” formado por cidades-dormitórios) foi apontada por alguns dos interlocutores de Freire (2005) como uma das causas. UniAbeu (Belford Roxo). Apesar da pertinência de tais afirmações. “aqui. 312 Dentre as principais universidades presentes na Baixada Fluminense. No entanto. Sendo assim. O termo “cidadedormitório” passaria então a ser utilizado. os moradores de Paracambi preocupam-se. 324 . por exemplo. no mesmo trabalho. na tentativa (ainda que suavizada nos discursos atuais) de negar uma provável relação ou aproximação com a Baixada. diferente de. UniGranrio e FEUDUC (Duque de Caxias).. Estácio de Sá (Nova Iguaçu e Queimados). que os dados sobre as razões dos moradores da Baixada para seus deslocamentos não seriam precisos para tal análise visto que analisam a proporção de pessoas que estudam ou trabalham nos municípios em relação as que estudam ou trabalham no estado do Rio de Janeiro. em parte. para a falta de conscientização política (de atuação política e de projeto compartilhado) e da cautela em se falar numa “identidade de Baixada”. também é uma característica comum a outros municípios da região. por último. Diante desse fato. nas universidades particulares espalhadas pela região312 e. aos seguintes aspectos: “aqui. em geral. não podemos desprezar a presença de policiais-matadores na localidade. para outros. devido às emancipações levadas a cabo a partir da década de 1990. por intermédio de dados do Instituto Pereira Passos e do IBGE. estudar. implicada no trânsito constante de seus moradores para trabalhar. ou ainda divertir-se. todo mundo se conhece”. Freire (p. Mais à frente. ou na capital carioca ou. a autora retoma a questão e demonstra.A condição de cidade-dormitório311. em desvincular-se da pecha de “ser da Baixada” — identidade não substituída necessariamente por outra local. como categoria acusatória.

a tônica de alguns discursos.] Volto só mais de noitinha porque tenho que pegar o trem das seis [da noite]” (M. no segundo. “Eu saio pra trabalhar em paz porque eu deixo as crianças com minha [filha] mais velha [13 anos] e sei que Dona Minda [a vizinha] sempre dá uma olhada pra ver se tá tudo bem com os menino[s][. “Eu desço todo dia pra cidade. Notícias ou boatos sobre mortes violentas (assassinatos. na “vontade de sair”. do trabalhador que lamenta a rotina diária da “viagem” e do cansaço. a sensação de pertencimento ao lugar é parte constitutiva da auto-imagem desses moradores que. Recorrentes são também essas imagens de “cidade de interior” ou do “lado bom” dispersas por outras tantas falas de moradores de diferentes cidades da Baixada. Pego o Normandy [nome da empresa de ônibus que opera a linha Vassouras-Rio] às 6 horas e só chego aqui lá pelas 9. de um lado. consultar Velho (1994).. como ilustram alguns de meus interlocutores e demais moradores entrevistados : “‘Aqui. de “mudar”. por exemplo. as pessoas são mais próximas. moradora de Austin). cit. ao que se chama Paracambi (bairros centrais) e. estaríamos subestimando o sentido do trânsito na vida dessas pessoas. são frases que podem ser ouvidas com freqüência” (Costa. Mais carinhosas’. 315 Para pensar a importância do conceito de projeto. 10 da noite” (Relato de um morador da cidade que trabalha em um grande banco privado no Centro do Rio de Janeiro). de “descer”314)315. 313 É importante destacar que. 314 Os moradores de Paracambi costumam referir-se às idas ao Rio de Janeiro como “descer”. às vezes. apesar de não dispor aqui de dados sobre violência na cidade. estupros etc. Caso contrário. a Lajes). 39. op. E ele está presente em suas próprias narrativas — como lamúria e / ou como projeto (no primeiro caso. O que pretendo ressaltar é que mesmo sendo a negação.. nos últimos anos — talvez até mesmo por conta da mudança do estatuto do lugar nas mídias (impressa e televisiva) — vêm alterando e reinventando seus processos de identificação com relação à Baixada.46)..) e sobre tráfico de drogas têm preocupado os moradores e demarcado de forma mais explícita segregações socioespaciais antes mais ou menos matizadas nas falas locais (com relação aos bairros de Lajes e do Guarajuba. que durante as eleições de 2004 protagonizaram a exacerbação de antagonismos e preconceitos locais na polarização de candidatos ligados.freqüentados pelos paracambienses etc313. 325 .. empregada doméstica. de outro. a sensação de insegurança tem sido uma constante nos discursos dos moradores que costumam alegar que “a cidade mudou”. p.

Nessa época. a Baixada é um lugar melhor. por um lado. à violência. depois voltou. cit. teve um tempo. “aqui as pessoas são mais solidárias”. Aqui não tinha [cinema]. Ficou pior porque a gente tem que esperar o trem pra cá e demora. A oscilação 316 Um exemplo bastante ilustrativo dessa ambigüidade refere-se ao fato de que os moradores de Paracambi sentiram-se lesados quando a emissão do canal da Rede Globo de Televisão foi alterado. em Paracambi). Se você perde. por outro lado.. funcionário aposentado da Brasil Industrial). né? Mas a cidade tá falida desde que a fábrica fechou. Magé e Guapimirim316. Seropédica. Você não vê essa vergonha de férias coletivas e reduzir salário do pessoal da Maria Cândida [outra empresa local]” (J. Eu levava os filho[s] de trem pra Nova Iguaçu pra ir no cinema. As categorias contraditórias utilizadas nos processos de identificação na Baixada não são exclusividade dos municípios de Paracambi. alterando a programação de telejornais. tinha direto pro Rio. Itaguaí. as notícias não abordavam “a realidade da gente”. “celeiro cultural” (Costa. Aqui não tem a violência da Baixada. “Eu gosto muito daqui. né? Mas eu prefiro o trem. Niterói. à criminalidade. p. São Gonçalo e Baixada Fluminense. “Hoje em dia. tem ônibus da Normandy. O trem é bom. Paracambi. isso às vezes até irrita a gente. à pobreza. Antes. mas dá calma porque a gente sabe em quem pode confiar. professora primária aposentada. agora acabou de novo” (P. Aqui. Domingo era calmo. Mas também. as relcamações eram constantes e.. ou ainda. pois a recepção passou a ser realizada pela região Sul Fluminense. mas aqui é bem diferente. 326 . mas às vezes é ruim porque qualquer um pode parar aqui. Segundo laguns moradores. Agora tem que parar em Japeri.42). moradora do bairro Cascata). As imagens sobre o “lugar” nos remetem. é o fim da linha do trem. A gente sabe o que acontece com todo mundo. tem escola de música pros meninos. op. técnica em enfermagem. ninguém tem dinheiro. 34 anos. né? Sabe que [es]tá todo mundo de olho. durou só pra mostrar e ganhar votos [referindo-se ao deputado estadual Délio Leal] e depois parou. ao “todo mundo se conhece”.. alguns preferiram adquirir TVs por assinatura para assistirem a programação da Globo para o Rio de Janeiro. vai ter colégio técnico. agora tem faculdade. é fácil pra chegar. mesmo. mas foi coisa da política. faliu. fica um tempão esperando o outro. agora.“Paracambi [es]tá na Baixada. Essas coisas. separada. 61 anos. há cerca de quatro anos atrás. moradora do bairro Fábrica. ao abandono e. mesmo” (C.

a noção de dominação está implicada na definição de poder já que aquela é uma modalidade desta. da assunção deste vínculo é. Ou seja. 1994). a territorialização operada no momento da enunciação do vínculo de pertencimento. lhe conferimos um morar no sentido e explicitamos o repertório cultural e o campo de possibilidades de que dispõem os atores sociais para nomeá-la como melhor lhes aprouver (Velho. nesse sentido. mais ou menos fluida. individuais e coletivos. por exemplo — entre outros. a categoria Baixada Fluminense foi tomada para compreender em que medida os discursos e práticas que a informam e formam estão invariavelmente ligados à política. escorregadia. procurando apreender os sentidos das práticas políticas ao longo dos anos. recaímos na dimensão de poder imbricada nessas relações. a inserção no lugar é assumida. segundo Weber (1999:175).entre um pólo e outro expressa o lugar de onde se fala. [como] a probabilidade de uma pessoa ou várias impor. Desse modo. mas que podem coexistir) para essas práticas. Na tentativa de descrever as formas de dominação e do exercício do poder no lugar Baixada. a vontade própria. “genericamente.”. Nesta tese especificamente. A característica. O poder pode ser entendido. mesmo contra a oposição de outros participantes desta. 327 . nas falas de moradores de outras regiões — os cariocas. numa ação social. Enfatizando o aspecto profissional da política a partir de atores eleitos por sufrágio universal. marca do próprio trânsito dos indivíduos pelos diferentes grupos sociais e “mundos” aos quais pertencem. recorremos aos projetos. assim como as referências simbólicas das formas de agir. justificando em parte a escolha por trajetórias que demarcam “tempos” (que não são estanques. ou seja. Ao pensarmos a Baixada a partir da idéia do trânsito e da fluidez de classificações. ao mesmo tempo em que se procura desvincular de associações recorrentes na imprensa.

318 Relato de um morador de Nova Iguaçu. os mundos se encontram e. por exemplo). Tais acusações são corroboradas pelos adversários e por jornais que noticiam o fato de alguns candidatos terem casas /apartamentos fora da região. nas eleições municipais de 2004. em outros. o mundo da política que em muitos momentos é visto como parte constitutiva de “ser da Baixada” (novamente a rede de resolução de problemas práticos assim como as arenas públicas construídas pelos movimentos sociais) e. ao demandarem uma busca constante por aliados e eleitores — e apesar de tradicionalmente procurarem montar “bases eleitorais” com dimensões territoriais mais definidas — são imprescindíveis para compreendermos o fluxo contínuo a 317 Acusação corriqueira de alguns moradores da Baixada a políticos locais. um valor (“ele veio de fora. de conhecimento”318). acaba por configurar uma acusação (“ele nem mora aqui. também estão em trânsito. como os moradores da Baixada de forma geral. Lindberg Farias. As alternativas criadas por eles manifestaram uma leitura a partir da “política dos outros” (Caldeira. 1984) e a possibilidade de reconhecer-se enquanto ser político. 328 . enquanto um “lugar de política”. em outros. Mas na busca pela reinvenção de uma cidadania. se interpenetram. De um lado o mundo do morador da Baixada e. inevitavelmente. Os políticos. justificando seu apoio ao candidato do PT. na Baixada”317) e. experimentado. Talvez sua própria condição resulte numa maior visibilidade deste deslocamento que. em alguns casos. de outro. como a imposição de projetos de redes políticas que subordinam os interesses locais a interesses de grupos específicos ou mesmo individuais. mas sabe do que a gente precisa.Os projetos políticos apresentados demonstraram a tentativa de que a Baixada. É um rapaz viajado. Os projetos políticos individuais (que em alguns momentos aglutinam interesses e constituem projetos coletivos). também fosse ampliada para além das fronteiras da política institucional e compreendida na medida em que dá sentido à ação social dos moradores (via rede de resolução de problemas práticos.

Neste caso em particular. regiões mais amplas como Zona Sul. Foi este o caso de Tenório Cavalcanti. Interessa-nos agora voltar à constituição da “autoridade” desse atores. ao trânsito institucional. mais recentemente. entre interesses individuais e de grupos que culminam na formação de redes políticas. tendo 319 É interessante perceber que. a ausência reiterada do Estado e a transferência/ delegação de algumas de suas funções a indivíduos e grupos possibilitaram que a personalização fosse a tônica da política na Baixada. Desse modo. os três porta-vozes autorizados e investidos foram escolhidos para que pudéssemos refletir sobre as possibilidades da adesão (a) ou imposição de projetos específicos. à mediação política e cultural que alguns atores desempenham ao longo desse processo (Kuschnir. aos vínculos de reciprocidade. ultrapassando os limites locais. lidamos a todo tempo com as imagens. mais ou menos duradouras. voltando o olhar para a idéia da conversão (no sentido cristão). de Bornier — além de ser o projeto diversas vezes anunciado de Zito.que estão submetidos. apesar de Burke (1994. o mesmo pode ser dito com relação aos bens simbólicos. para compreender os usos e sentidos das imagens empregadas sobre e pelos políticos durante suas trajetórias enquanto parte constitutiva de si. p. Cada qual em um momento singular na sua carreira política. por exemplo). No entanto. através do momento da eleição de 2004. de Fábio Raunheitti e. seu olhar é diferente do dos autores que buscam explicar o marketing político essencialmente por essa possibilidade e pela manipulação. a propaganda política319 pôde ser abordada. não se pretendeu em momento algum fazer uma análise da propaganda stricto sensu. 1993 e 2000). Sendo assim. se tal fluxo remete a espaços (bairros. Tentamos minimizar a idéia da dominação pela persuasão e manipulação. Desse modo. 329 . Com este propósito. Nesta tese. a publicidade e a opinião pública acerca dos atores políticos tratados. para além dos partidos e siglas o que parece predominar no “fazer político” da região são as alianças.16) apreender a propaganda moderna também como produto das técnicas de persuasão que remontam ao século XVIII.

bife e salada321. A construção das personas de Jorge Gama. ao refletir sobre as imagens (individuais e públicas) desses atores podemos decifrar em que medida é possível “a fabricação de um grande homem” descobrindo o que as imagens dizem. 330 . Lindberg esteve próximo do mundo da política desde muito jovem. como o seu “modo de ser político”. ao cabo-eleitoral do PT na Baixada. A idéia da dramaticidade e teatralidade das relações sociais pode ser bastante útil para uma análise sobre o mundo das práticas políticas e. visaram os projetos para se tornarem “grandes homens”.em vista sua dimensão de “venda da imagem”. quer pela influência de seu pai. ou melhor. quer pela sua inserção no movimento estudantil. Portanto. em escala diferente. 320 321 Jornal do Brasil. 10/10/2004. 13/09/1992. mas também vinculada ao caráter de reinvenção constante do político. Do estudante cara-pintada que tinha a caldeirada de frutos do mar como o seu prato favorito e nenhuma intenção de entrar na política em 1992320. pai de família que agora prefere arroz. Burke. retomaremos alguns episódios e as idéias de cena e palco políticos. Quem é esse Lindberg que se apresentou como a nova opção. “homens excepcionais”. da construção de personas públicas. feijão. Seu carisma pessoal foi colocado à prova desde suas primeiras iniciativas políticas e demonstrado com distinção durante a eleição municipal em Nova Iguaçu. fundamentalmente. No processo de fabricação de suas imagens. por que meios e com que intenções (cf. como o herói que resgataria Nova Iguaçu das garras de uma elite política descompromissada com “o povo”? Como já foi demonstrado. 1994). O Dia. Um jovem. Zito e Lindberg Farias buscou torná-los. para quem. O político é um ser público por excelência.

mas nunca se desligou de uma postura “de esquerda” (por mais que em alguns momentos tal postura fosse questionada. Mas o maior problema em Nova Iguaçu é o saneamento. no entanto. PT). lhe é próprio ao mesmo tempo em que é atribuído e reconhecido) a explicitação de uma ideologia político-partidária que. como demonstrado no capítulo 4). 51% do município é um valão a céu aberto. à música. foi se alterando (PCdoB. Lindberg aproveitou todas as oportunidades e promoveu algumas. transformar a cidade. PSTU. mas que opera com a multiplicidade dos processos de identificação. com a fragmentação e complexidade de um mundo cujas fronteiras estão em expansão. Criando um sistema de visibilidade através de atos constantemente noticiados pela imprensa e de um investimento maciço em sua assessoria de comunicação. 15/05/2005. da qualidade de vida. saúde etc. assim como falava de uma “outra” Baixada. Seria aquele que transformaria a Baixada no cenário possível da saga de um herói que não precisa mais de uma identidade una. Lindberg era o outsider que traz um pouco do mundo e que ao mesmo tempo seria capaz de colocar a Baixada no mapa político nacional. Com afirmações como: “Temos um patrimônio histórico tremendo. já que reconhecia os “problemas reais” enfrentados pelos moradores da cidade.bonito e eloqüente que prometia trazer o novo. Criticou duramente a “oligarquia local” e a “política dos coronéis” procurando mesclar a associação de seu nome a projetos “novos” como o tema da ecologia. Explorou o apoio recebido da 322 Jornal do Brasil. ligada à cultura. Lindberg Farias garantia a legitimidade. Apoiado em um “discurso de esquerda” durante toda a sua trajetória. Não existe nenhuma estação de tratamento”322. 331 . agregou às suas características (já que o carisma é pessoal. aos problemas tocados comumente sobre educação. à história.

No caso de Lindberg. que nem Jaime Lerner fez em Curitiba! Vai ser o mais belo anfiteatro do mundo! Tem uma reverberação fantástica! (percebe seu excesso de elogios e pergunta) Você não quer me contratar como assessor de imprensa? (risos) É que eu me entusiasmos com essas coisas! Imagina se alguém me desse. aproveitou tal situação para estreitar laços. A cidade e Lindberg figuravam freqüentemente em matérias de jornais durante o primeiro mês de 2005. assim como os seus comentários. Extra e O Dia. tal período já havia passado. houve uma diminuição do número de Quando me refiro aos artistas. pp. 323 332 . Nesse período as notícias tratavam da transição política e dos problemas enfrentados pelos novos administradores dos municípios da Baixada. no entanto. Lindberg acompanhou o enterro em um bairro do subúrbio carioca e prometeu esclarecer o crime324. foi um dos “entrevistadores-comentadores” de uma entrevista do JB com Lindberg intitulada Levantando a auto-estima da Baixada. escritor e cartunista. a participação de Ziraldo. Passada essa etapa. já garantiam um estatuto diferenciado à Baixada e ao prefeito de Nova Iguaçu. As polêmicas foram outra fonte de visibilidade. no centro da cidade. ganhava força com o parque do Tinguá. Os enterros seriam assim momentos importantes de demonstração de generosidade durante o período eleitoral. A transição do governo Mario Marques para a administração petista deu o que falar. como os limites do tempo da política são difíceis de determinar. assim como criar novos que pudessem ser traduzidos em apoio e visibilidade políticos. após uma fala do prefeito petista sobre a pedreira. mas ao apoio em alguns casos mais em outros menos explícitos e declarados. Acusações recíprocas e sindicâncias. uma cidade pra eu governar? Eu ia enlouquecer!” (JB. E se multiplicaram durante todo o período eleitoral e mesmo no início de seu governo. com orquestra sinfônica tocando. pois não havia sido entrevistado ainda e solicitou a esta pessoa que tentasse “conseguir” uma matéria. Ziraldo. 15/05/2005. políticos de destaque e artistas323. Nessa entrevista (com tom de bate-papo). eu com 34 anos. A ecologia. Durante os primeiros meses de seu mandato o fechamento da pedreira em Nova Iguaçu foi acompanhado pela imprensa local e pelos jornais cariocas O Globo. B6) 324 Palmeira e Heredia (1997) já chamavam a atenção aos lugares públicos privados.executiva nacional do PT e as visitas de ministros. A “importação” de pessoal técnico da equipe da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy só fez aumentar as rivalidades. Em uma de suas intervenções. que já havia sido um dos motes da campanha. sendo um outsider. por exemplo. JB. Ziraldo diz: “Que vai virar agora um centro cultural. o prefeito petista. É interessante ressaltar que eu estava em Nova Iguaçu no dia desse enterro e conversava com uma pessoa próxima a Lindberg quando este telefonou indignado. não menciono apenas os cantores que estiveram nos showmícios. O assassinato de um ambientalista novamente colocava a cidade e o prefeito sob os holofotes. com ênfase para Nova Iguaçu e Duque de Caxias.

os grupos de extermínio parecem ter uma relação bastante estreita com o poder público. alardeando a situação de insegurança vivida pela população local e a indiferença às suas vítimas. O Globo e Jornal do Brasil. essas pessoas foram assassinadas em frente às suas casas. Ainda naquele primeiro semestre.6%) referem-se a Baixada. O Estado de Minas. seu diálogo com o Parentes das vítimas e organizações civis mobilizaram-se e fundaram um fórum de discussões. A temática dos extermínios voltava à cena.2% referem-se ao estado do Rio de Janeiro e apenas 66 (5. No início da noite daquela quinta-feira.) sobre o decréscimo no número de matérias sobre violência na Baixada em relação ao Rio de Janeiro. somada à atuação de policiais-matadores326. Quanto aos temas. das 2. O Dia é o que confere maior destaque à Baixada (60%). Os dados dessa pesquisa ilustram as afirmações de Enne (op. permeando também o aparelho judiciário. cit. foi ressignificada e a imagem do prefeito e de sua atuação nesse “caso” foram exaltadas. 326 De acordo com os dados da pesquisa coordenada por Silvia Ramos e Anabela Paiva pelo CESeC sobre violência e segurança pública constantes no relatório Impunidade na Baixada Fluminense (2005). 48. no período de maio a setembro de 2004. conforme pudemos notar com a tragédia dessa chacina assim como afirma Alves (2003 e 2005). que exigiu dos governos estadual e municipal providências sobre a chacina. refletindo por muitos anos na estrutura de poder dos municípios da Baixada Fluminense e não somente de Belford Roxo e Duque de Caxias como privilegiamos em capítulos anteriores.514 matérias analisadas nos jornais O Dia. Conforme já demonstrado. O Estado de São Paulo e Agora São Paulo. Folha de São Paulo. algumas em bares e outras voltando do trabalho. agora fora do ritmo cotidiano. Sua participação junto às organizações civis. em um intervalo de duas horas. onde 30.Diário da Tarde e Hoje em Dia. 65. fundamentalmente relacionando-se a atos violentos e a sua repercussão. Entre elas. chamam a atenção para o fato de que tais problemas apesar de terem saído da mídia não deixaram de fazer parte do cotidiano dos moradores da Baixada.2% das notícias. no entanto. as ações policiais representam. em 31 de março. seguido de O Globo (22. mas. outro episódio levaria Nova Iguaçu e a Baixada para a mídia nacional: a chacina de 29 pessoas em um só dia nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados.7%) e Jornal do Brasil (com duas matérias). enquanto o . Essa tragédia. o Reage Baixada. Apartada da imprensa como matéria principal desde fins dos anos de 1990. mas o prefeito petista jamais saiu de cena. 325 333 . segundo as autoras. Dos jornais pesquisados.matérias.5% referem-se a crimes cometidos pelos policiais. a associação entre Baixada e violência era então retomada a partir desse drama. também havia crianças325. por outro lado. a política local e os comerciantes.

Grosso modo. onde os profissionais em cargos mais altos na hierarquia de jornais apresentam uma formação comum e são eles que 334 .).” (p. Tentamos ponderar. B6). beleza.cujas críticas Abreu (2002) levantou justamente sobre o caráter de bem simbólico assim como econômico. ressaltando qualidades pessoais (disposição. percebeu-se a formação de uma “cultura jornalística compartilhada”. como Lindberg Farias era apresentado aos leitores desses jornais.cit. a despeito da pseudo imparcialidade da notícia . 327 Segundo a autora (idem). “uma opção”. determinação). fundamentalmente a partir da imprensa escrita e da on line. não nos preocupamos em definir de que lado a imprensa (se é que podemos tratá-la no singular!) se colocou. carisma. essencialmente relacionadas a fatos de repercussão nacional como a demarcação das terras indígenas. em matérias que o colocaram como “o novo”. variando de uma apresentação do forasteiro à saudação do novo e consagração do “ídolo”. Mas também recebeu algumas críticas.fórum Reage Baixada. a votação do salário mínimo ou a reforma da Previdência. A Baixada inteira gritou: ‘Nós estamos aqui presentes’. analisando as trajetórias de profissionais de imprensa. frente à competitividade entre jornalistas e os vários tipos de mídia – Lindberg conseguiu notável visibilidade durante 2004. Analisando as matérias utilizadas nesta tese. 36)327. os jornais diferiram pouco em relação ao posicionamento sobre a candidatura petista. A chacina em Nova Iguaçu vai resultar numa série de mudanças. corroborando a afirmação da autora de que “o resultado é que a informação quotidiana divulgada pelos diferentes órgãos de imprensa está se tornando cada vez mais igual. sua proximidade com o governo Lula e com o Ministro da Justiça Márcio Thomás Bastos garantiram a Lindberg operar uma conversão entre a “matança” e a “mudança”: “Há uma rejeição aos negócios de gangsterismo ligados à política e à polícia. É um momento de transição” (JB. a outra explicação baseia-se no fato de que. 15/05/2005. Ainda na mesma linha de Abreu (op.

Perdeu o projeto de políticos da Baixada assim como o dos políticos ligados a Garotinho que defendiam sua instalação em Campos. foi a escolhida. a cidade de Itaboraí. próxima à São Gonçalo. Há ainda a questão da concorrência e da influência do marketing na formação da opinião pública. a partir do discurso “de esquerda”. não há como apresentar conclusões acerca das possibilidades representadas pela escolha de seu nome nas urnas em 2004. e diante das críticas de alguns de seus pares. o que significaria maior crescimento para a região e mais empregos. matérias jornalísticas e um programa no Almanaque. Já em 2006. como já mencionado. 335 . aparentemente sempre aberto com o governo federal. Quanto à promessa de “mudança” que permeou toda a sua campanha. Niterói e à cidade do Rio de Janeiro. Lindberg promoveu também o Fórum Mundial de Educação em Nova Iguaçu. Após as duas tentativas frustradas. os prefeitos foram recebidos em Brasília e expuseram os problemas que enfrentavam à frente de seus executivos municipais.Entre as brigas internas. definem o que deve ou não ser noticiado. No entanto. Entre suas iniciativas. além de tornar-se o portavoz dos prefeitos devido ao canal. as denúncias de irregularidades deferidas ao antecessor. As alianças que construiu para a viabilidade de sua candidatura levantam dúvidas. é uma questão ainda sem resposta. tentou. Lindberg também teve papel de destaque como Presidente da Associação de Prefeitos da Baixada Fluminense. na rede Globo News. Logo após a sua eleição e a escolha de seu nome como Presidente da Associação. e que tem um prefeito do PT. marcar duas reuniões entre os prefeitos eleitos da Baixada e o Presidente Lula. Lindberg trabalhou pela instalação do pólo petroquímico em Itaguaí. garantindo novamente mais visibilidade nacional para si e para a Baixada e que lhe rendeu. sem sucesso. Até que ponto a sua eleição vai significar uma mudança na condução da política na região ou mesmo imprimir um novo estilo de fazer política.

mas desmentido por sua filha a deputada Andréia Zito). forte. político experiente e muito bem articulado. O tipo físico auxiliava na construção dessas imagens. talvez a sua “transformação” seja ainda mais surpreendente. aos acessos. Unindo o atendimento (exercido segundo Zito apenas durante o primeiro mandato como vereador. tirou o bigode e a barba estava sempre feita. intimidador. que não sabia se expressar adequadamente em público (avesso à oratória política). conseguiu aproximar-se de Marcello Alencar a partir do mandato de deputado estadual (apesar de ter sido apresentado a este quando ainda era vereador). No início da vida pública. já que em Duque de Caxias Zito gozava de grande prestígio e tinha um estilo que poderia lhe render frutos políticos. a calça jeans. Este. à intimidação (de fato 336 . a camisa de malha (que agora era “de marca”) e o tênis tornaram-se o uniforme do prefeito Zito. afinal de contas seu ingresso na política foi justamente sob a construção muito próxima do líder marginal. Considerado um “Zé ninguém” no início de sua carreira política. Para algumas pessoas. Os ternos e as camisas sociais substituíram as de malha. cortou o cabelo.Quanto a Zito. Entretanto. com os cabelos sem corte e bigode. casual. era um homem considerado rude. No dia a dia. A entrada no mundo da política e os “encontros” propiciados por sua inserção como vereador nesse mundo lhe renderam um controle (gradativamente conseguido) sobre sua apresentação e o cuidado com sua imagem. na fabricação de sua imagem a preocupação com a manutenção do vínculo de pertencimento com os moradores de Caxias ficava explicitada na opção por um estilo. senão mais simplório. Alto. viu em Zito um poderoso aliado na Baixada. um homem “que dava medo!”. Zito emagreceu. que até então não parecia figurar entre suas preocupações. O vestuário também se adequou.

A personalização da política. Zito conseguiu ampliar seu poder e prestígio políticos e ser intitulado o “rei da Baixada”. Tiro de verdade: de metralhadora. a estrutura de incentivos sob as quais os atores políticos competem por votos contribui.ou imputada. ou ainda. A volatilidade eleitoral no Brasil é elevada (Nicolau. Sua “fabricação” não se apoiou em qualquer filiação e seu discurso político não estava impregnado do discurso ideológico associado a partidos. diferentemente do que alguns autores chegaram a pensar. além do fato de o jogo partidário e a própria democracia serem instituições jovens. [. Só no século XX temos: Getúlio Vargas.. 337 . Washington Reis (PMDB) declarou ao jornal O Dia de 01/11/2004 que temia pela violência durante a campanha e também após: “Tomar muito tiro. Braga.] Graças a Deus não houve nenhuma vítima [durante a campanha]”. não foi suprimida ou relevada à segunda ordem em relação aos partidos políticos. Nunca na vida pensei que um dia fosse preciso dormir de olhos abertos. de alguma maneira. Carlos Lacerda. nove milímetros. O trabalho já citado nesta tese de Burke (op. Referimo-nos ao impacto da era televisiva sobre a campanha eleitoral. Kennedy. No caso brasileiro. De Gaulle. J. mas que figura entre as imagens difundidas sobre sua persona328) e a sua atuação como administrador. João Goulart.] Agora começa a pior missão: mexer na casa de marimbondos. tornando 328 Por exemplo. do lado de lá. Dalton. Segundo Kinzo (2005)..cit. 2003). o adversário é mal e joga muito sujo. 329 Os exemplos sobre a “personalização da política” são inúmeros tanto no caso brasileiro. A força da “personalização"329 na política pode ser analisada a partir desta trajetória e reflete. entre outros). sendo um indicativo do que alguns autores consideram como instabilidade de nosso sistema partidário. [. a nosso ver. O troca-troca de siglas partidárias realizado por Zito também foi sua marca. Luis XIV.. as quais ocorreram em todas as partes do mundo.. Não há dúvida de que uma das causas tem a ver com as transformações no ambiente eleitoral. Ameaça por total conhecimento que.) traz como exemplo máximo o Rei de França. o que resultou numa competição centrada muito mais em personalidades do que em partidos (Wattemberg. 1998. para dissipar as distinções entre os partidos. 1998 e 2000. 2000). seu adversário na eleição de 2004. a pertinência de se atentar para a problemática dos partidos políticos no Brasil. quanto em relação à política mundial.

a prática política só é um valor destituída (mesmo que relativamente e não de forma absoluta) de sua ideologia partidária. o que dificulta a criação de identidades e conexões com os eleitores. 1998 e 2002 –. como para os legislativos – não se centram nos partidos como atores distintos. quando se supõe que os partidos sejam referências importantes para o eleitor. a situação de trabalho e a própria complexidade de nosso sistema partidário que disponibiliza poucas informações (ou não prioriza sua circulação) sobre os partidos. Ou seja. as propagandas eleitorais são conduzidas na afirmação e reificação desse tipo de referência. as taxas de preferência decresceram ao invés de aumentar.difícil a lealdade partidária. Vale lembrar que nos anos em que ocorreram eleições nacionais – 1994. os eleitores estão expostos a uma disputa muito mais entre candidaturas individuais (quando não entre as alianças partidárias). Como os partidos têm menos visibilidade do que os candidatos. Se as escolhas dos eleitores são marcadas pela opção individualizante do candidato X ou Y e pouca referência se faz aos seus partidos. o que torna improvável o desenvolvimento de laços fortes entre partidos e eleitores. Isto é uma clara indicação de que as campanhas eleitorais – tanto para os cargos executivos. em alguns contextos. sob os sistemas majoritário e proporcional – criam uma situação que não apenas estimula a personalização da competição. Mais especificamente. Durante a campanha. essa prática é concebida como uma relação entre indivíduos ou grupos a 338 . não conseguem fixar suas imagens junto ao eleitorado. as estratégias utilizadas por candidatos e partidos para maximizar seus ganhos – em eleições para cargos executivos e legislativos. mas também torna nebulosa a disputa propriamente partidária. A despeito das valiosas observações de Kinzo sobre o sistema partidário brasileiro e da relação de identificação com o eleitorado. não podemos descartar que além de questões estruturais como o baixo nível educacional da sociedade brasileira.

partir de problemas-resoluções, não implicando necessariamente na constituição de um “pensar” democrático stricto sensu onde, nos termos da autora, “eleitores com um grau maior de comprometimento com valores democráticos são mais predispostos a ter um vínculo partidário”. Se na correlação traçada pela autora algumas hipóteses,

preferencialmente sobre o PT, são mais facilmente explicadas, não se tem a mesma situação em relação ao PMDB ou ao PSDB, por exemplo, principalmente no tocante à variável índice pró-democracia. Uma análise pautada exclusivamente sob a perspectiva partidária não poderia dar conta dos casos apresentados nesta tese. Em relação aos meios de comunicação, Zito passou de vereador com fama de matador e estilo “trator” a Rei da Baixada e foi, depois das derrotas em 2004, destronado. Sua imagem foi constantemente associada à violência, à corrupção e a desmandos políticos, exceção feita às matérias coletadas no período de 1999 e 2000 que enfatizavam sua administração à frente da prefeitura de Duque de Caxias e o prestígio e aprovação junto à população caxiense. Sua vida pessoal também foi levada à cena, mesmo porque Zito chefiava um dos principais clãs políticos da Baixada, colocando seus familiares em cargos importantes e conseguindo assim capital político para negociar em qualquer matéria política. Os conflitos familiares transformaram-se em desgaste político e o casal político mais famoso da Baixada enfrentou um período delicado em 2002. Apesar da reconciliação, Zito e Narriman não comungam mais dos mesmos ideais e cada um agora parece percorrer o seu próprio caminho, ao menos no mundo da política. Diferentemente, Andréia está com sua vida pública vinculada a de seu pai e passará nas eleições de 2006 pela prova de fogo assim como Zito. A desconstrução do Rei (da Baixada) abriu espaço para enfocar outras características de Zito. O seu “lado frágil”, do homem que, “igual a qualquer pessoa. Às vezes, [teve] tive 339

vontade de chorar e de ficar calado”, foi explorado por jornais como O Dia, por exemplo. A tentativa de apontar tais aspectos desembocaria na decretação do declínio político do ex-Rei e na situação de atual fragilidade política, apontada como conseqüência de um projeto político auto-centrado que preteriu alianças e acordos. O deputado Alexandre Cardoso, com uma relação antiga (de amor e ódio) com Zito, declarou ao jornal O Dia330 que “ele [Zito] mostrou fôlego ao dar 200 mil votos a seu candidato, mas tem pouca articulação política” e, complementando a reportagem, o deputado estadual Geraldo Moreira (PSB) afirmou que “não dá para sobreviver tentando ser hegemônico sem proposta ideológica”. Diante da derrota, aliados de Zito já anunciavam a possibilidade de debandar para o lado do prefeito eleito, já que para o funcionamento da política de vereadores as alianças com o executivo para a obtenção dos recursos e a manutenção dos cargos e acessos são decisivas. Com declarações como as que se seguem, vemos descortinar diante de nós a transitoriedade dos laços e acordos políticos. “Não tive a oportunidade de conversar com Zito. Mas votar pelos lindos olhos do prefeito eleito, não vou. Tenho interesses na minha região”, afirmou o pedetista, terceiro colocado em votos para a Câmara Municipal de Duque Caxias (com 7.511 votos), Chiquinho Grandão. Ou ainda Quinzé 100% Zito que, apesar da viculação explicitada no próprio nome, disse não esperar a derrota de Zito e estar “tonto ainda com a campanha, mas vou sentar com Zito para conversar”. Um dos aliados mais antigos também voltou-se para a rede do novo prefeito. Dr Heleno, assim como Zito (conforme demonstrado no capítulo 3), tenta suavizar a ruptura política com o ex-aliado e amigo dizendo que: “Moro em Caxias há 57 anos e estou em meu segundo mandato graças a Zito. Os anos de fidelidade foram
O Dia de 07/11/2004, matéria intitulada Rei em decadência. Eleição faz Zito perder domínio político da Baixada.
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maravilhosos e meu propósito era ajudá-lo a ser governador. Eu não queria ser candidato a prefeito na última eleição, mas muita gente me disse que, se eu tivesse na disputa, as coisas seriam mais difíceis para o Washington. Agora, seguindo um conselho do próprio Zito, resolvi andar com as minhas pernas.” (Jornal Extra, 27/01/2005) Zito, no entanto, demonstrou não estar morto politicamente. O convite de César Maia para integrar a sua equipe foi um indicativo de sua importância mesmo diante das derrotas sofridas. No entanto, a possibilidade de entrar no PFL foi desmentida com o retorno ao PSDB e ao ninho de seu principal aliado, Marcello Alencar. A mídia não o esqueceu e seu nome esteve estampado nos jornais mesmo após a sua saída da prefeitura de Caxias. As acusações de Washington Reis em relação a obras superfaturadas, aos acordos políticos ilegais ou à polêmica em torno do valor da aposentadoria de Zito garantiram espaço na imprensa. Como também o conseguiu em termos de exposição de seus novos projetos políticos. A afirmação, logo após a eleição de seu adversário, de que deixaria a política por algum tempo, não durou sequer um mês. 2005 foi o ano de re-construção e de busca por seu espaço. Na disputa, venceu o PSDB, partido onde protagonizou episódios de amor e ódio, ameaças de chantagens etc. O rei pode ter sido destronado, mas, ao que tudo indica, não foi morto. Jorge Gama aparece como contraponto. Advogado, preocupado com suas roupas, palavras e gestos, foi “treinado” por seu papel profissional ao condicionamento do corpo e a uma apresentação se não compatível ao menos socialmente esperada a quem pleiteia um cargo político. Segundo o próprio Weber (1971), discorrendo sobre as duas formas de exercer a política (viver “para a política” e “da política”), o advogado aparece como o “tipo” mais próximo do político, graças às suas “qualificações”, enquanto o capitalista seria o “mais

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disponível” e o homem de negócios assim como o médico e o operário estariam imersos em suas atividades. “Já motivados por pura técnica profissional, as dificuldades mostram-se menores no caso do advogado, o que explicita a circunstância de ele ter desempenhado, como homem político profissional, papel incomparavelmente maior e, freqüentemente, de realce.” (idem, p. 69, tradução livre) Jorge Gama teve desde o início de sua trajetória a marca do “bacharel”. Nos trabalhos de Gilberto Freire, principalmente sobre as transformações do patriarcado rural no Brasil do século XVIII até meados do século XIX, o papel dos bacharéis ganhou grande destaque. “A ascensão dos bacharéis brancos se fez rapidamente no meio político, em particular, como no social, em geral.” (Freire, [1936] 2002, p.602). Os bacharéis representavam ai a decadência do patriarcado rural e a ascensão de uma “aristocracia do sobrado”, do homem formado para a vida política. O prestígio do bacharel marcava então o triunfo de um outro tipo político: o homem da cidade331. Além do desencanto dos bacharéis formados em Europa de volta à casa também houve espaço para outros bacharéis, os mulatos e “morenos”. A despeito das idéias de “ajustamento social” de Freire (idem), a descrição do surgimento de um tipo político específico é interessante para pensarmos o papel e o prestígio dos “doutores” no imaginário social da política brasileira. Assim, a ascensão social de Jorge Gama e a constituição de sua persona se deu primeiramente pelo Direito, como “doutor” e, depois, pela política. Apesar de ter estudado em bons colégios (tanto públicos quanto particulares) e de seu pai ter sido um pequeno comerciante, Jorge nunca foi rico e durante as entrevistas só se auto-classificou em termos de classe social (“classe média”) após a concretização de seu vínculo profissional. Ser
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Para uma análise mais completa e detalhada sobre as questões acima levantadas, ver Parte 2, capítulo XI: Ascensão do Bacharel e do Mulato, do livro Sobrados e Mucambos.

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advogado marcou a sua vida e, talvez, tenha sido um dos fatores decisivos para a sua entrada no mundo da política. A construção de sua imagem pública sempre esteve permeada por esse vínculo. Desde sua atuação no início da carreira política junto aos movimentos sociais que lutavam pela moradia em Nova Iguaçu até os debates sobre o cerceamento de direitos durante a ditadura militar, não apenas era identificado como sua apresentação enfatizava tais características. Talvez por este motivo a mácula da acusação de “burlar a lei” através do envolvimento com compra de votos e da ligação com o jogo do bicho não pôde ser convertida. Se no concernente à imagem pública de Zito não havia uma incompatibilidade entre as acusações de ligações com o “mundo do crime” e a sua atuação como ator político legítimo, no caso de Jorge Gama, cuja imagem foi desde o início “fabricada” a partir da referência a outro repertório sociocultural, tal disjunção era necessária. Somado a tais fatores, Jorge Gama não dispõe hoje de um sistema de visibilidade apesar de escrever regularmente no Correio da Lavoura, que no entanto é um jornal de expressão apenas local. As novas configurações da política parecem apontar para a necessidade de um sistema de visibilidade mais amplo e mais flexível, que permita ao político acompanhar as nuances dos repertórios acionados por cada público, agora mais heterogêneo. Conforme gosta de se auto-denominar, a Jorge Gama sempre coube mais o papel de “articulador”. Como articulador entenda-se o “profissional”. Jorge não tentou qualquer mandato executivo, sua prerrogativa sempre foi o legislativo. Homem de partido, e de um só partido. Podemos dizer que, independentemente dos sucessos e fracassos eleitorais, manteve-se no mundo da política como ator legítimo durante todos esses anos. Em alguns momentos mais no ostracismo, e em outros impondo a sua presença. Porém, o mais importante, sua trajetória descreve a possibilidade de coexistência de um outro tipo de 343

político juntamente com o personalista, o político de bastidores, ou seja, aquele que inserido no campo político conhece suas regras e saberes específicos, domina uma certa linguagem, a sua burocracia, as “regras do jogo” (cf. Bourdieu, 1989). O período áureo de Jorge Gama foi da segunda metade da década de 1970 (primeiro mandato como deputado federal) até meados da de 1980 (à frente do PMDB durante o Movimento Diretas Já), no entanto, parece não ter sido possível a formação de um sistema de visibilidade próprio para um ator político da Baixada apartado das idéias dominantes que associavam a Baixada Fluminense à violência/ criminalidade. Se no caso de Tenório Cavalcanti, por exemplo, tal configuração foi possível, não se deve apenas ao fato de que possuía um jornal de grande circulação local (Luta Democrática) – sem tirar-lhe o crédito – ou às “benfeitorias”, mas também porque o repertório acionado por ele corroborava as imagens veiculadas sobre a Baixada e “seu povo”, exibindo para além das fronteiras locais um político exótico aos olhos da capital. Assim, a marginalidade da Baixada era reafirmada através da trajetória do Homem da Capa Preta, ao contrário da Baixada que Jorge Gama apresentava. Não desconsidero as ligações de Jorge Gama com políticos que se aproximam dessas práticas, mas ressalto que sua imagem estaria remetida a uma Baixada “classe média”, letrada, diferente da propagada pelos jornais através dos assassinatos, estupros e linchamentos. Jorge enunciava uma Baixada “fora de seu tempo”, só “descoberta” (pelos discursos autorizados) em meados da década de 1990. As três trajetórias escolhidas permitiram-me descrever acontecimentos políticos, o dia a dia de campanhas, e compartilhar os juízos de valor acionados sobre a política, a Baixada e seus atores. Também nos deparamos com as “fabricações” e “desconstruções” operadas pelos interlocutores desta pesquisa. Ponderamos sobre tais construções e percebemos que, mesmo durante jantares descontraídos e em conversas informais onde algo poderia ser 344

“revelado” a qualquer momento, ou nos momentos aparentemente mais espontâneos das entrevistas, a apresentação de si (do “eu” para Goffman) marcava uma “fachada”332. Não no sentido de uma “representação falsa”, mas como encenação legítima, mais ou menos planejada. Essa teatralidade é comum às interações sociais de outra ordem que não apenas a política. No entanto, o mundo da política traz a formulação da encenação enquanto técnica e seus atores são, em muitos casos, classificados de “falsos”. Em relação à composição das fachadas, a “falsidade” do político remete-nos à denúncia de sua “representação” enquanto enunciação de uma performance não autorizada. Assim, em Plenário, falar alto, gesticular; ou durante o tempo da política, responder vigorosamente a uma crítica ou “entrar numa briga” (a partir de um combate físico ou moral) são atuações possíveis nesses cenários. Os conflitos explícitos e que chegam as “vias de fato” fora do tempo da política, por exemplo, seriam impensáveis ou, quando acontecem, censurados e desautorizados (Palmeira e Heredia, 1997). Também encontramos alegações como “mentiroso”, que são comumente utilizadas frente à desconfiança que o mundo da política suscita. Refere-se, na maioria das vezes, à idéia difundida no senso comum, que constitui uma espécie de imaginário social sobre o político profissional, de que “promessa de político não vale nada”, ou de que “político é tudo interesseiro” etc. De acordo com Palmeira e Heredia (1997), a política opera uma linguagem de divisão, suspendendo o cotidiano e instaurado um outro tempo cujos limites são redefinidos e os conflitos colocados em cena.

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Goffman (1975) faz a distinção entre aparência e maneira para tratar da fachada pessoal. Aparência diria respeito “aqueles estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status social do ator” e a maneira os que “funcionam no momento para nos informar sobre o papel de interação que o ator espera desempenhar na situação que se aproxima” (p.31). Aqui, no entanto, trabalharemos com a idéia mais geral, enquanto um “equipamento expressivo”, congregando as duas formas.

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argumentação e defesa – seria mais um dos quadros de referência para que os atores sociais construam suas explicações sobre seu mundo334. A possibilidade de divisão. No cotidiano da política. segundo Aldé (op. potencializada. a compreensão do mundo é dada pelas interpretações que as pessoas fazem desse mundo. Nesse sentido.pensada. Figueiredo (2000). e aí os meios de comunicação têm papel de destaque.” (idem. concentrada num determinado período de tempo. assim como pelo senso comum) ora como parte de um repertório de acusações ao adversário político. 161) As “chaves de leitura” (Goffman.] Essa funcionalidade da política não elimina o seu lado ameaçador. é. consultar Aldé (op. 335 Sobre as especificidades de cada meio de comunicação e a relação com sua “credibilidade” e legitimidade.10) seriam “definições da situação construídas de acordo com princípios de organização que governam os eventos – ao menos os eventos sociais – e nosso envolvimento subjetivo com eles”. ora como fatores explicativos (no discurso acadêmico. onde opinião pública . Por outro lado.“O medo da política e a rejeição dos políticos por parte dos excluídos ou daqueles nela inseridos segundo eixos outros que não o das disputas programáticas é patente. cit.) e as explicações sobre a política e os políticos podem ser enquadradas a partir da construção de crenças. valores e explicações para o “mundo ser como é”335. 334 Sobre enquadramentos que predominam na grande imprensa. cit.. Se como categoria analítica seu uso foi aqui limitado frente à capacidade de aglutinar juízos de valor fora de 333 Para Goffman (op.. cit. A política ameaça.) e Lattman-Weltman (2003). op.). por assim dizer. como construída discursivamente na expressão. consultar. pelo fato mesmo de representar uma ruptura do cotidiano. mas não exclusivo. as mídias fornecem elementos para a “formar da opinião” (Champagne. o clientelismo e coronelismo foram diversas vezes utilizados. 346 . pp. em primeiro lugar.cit. [.. as idéias e julgamentos que formam. p. 1974) constituem a dimensão do enquadramento dos repertórios utilizados pelos atores sociais em sua leitura do mundo333.

Se a centralidade desse poder foi buscada historicamente pelo autor. pela proliferação de imagens que compunham uma narrativa. palavras.cit. O político moderno é um ator social televisivo. Na equação política contemporânea. Lindberg é o que mais próximo está desse novo tipo. enquanto classificação e vocábulo da gramática política local não pode ser preterido. apoiada na tecnologia e nas novas mídias. Os meios de comunicação não foram objeto desta tese. ações.). op.29) chamou de imagem viva. Piovezani Filho. A transformação que as mídias operam na política é marcada pela sua “espetacularização”. música. a mídia de massa ganha espaço central. adaptando sua 336 Assim como o que Burke (op. p. o todo formado a partir de imagens.. em parte. A sensação de intimidade. 2003. ou seja. música ou eventos multimídias. principalmente. 2003). cit. no entanto. Das três trajetórias analisadas. da política em geral etc. dos atores políticos. 347 . um comunicador. ou seja. à inovação trazida pelos direitos sociais implantados durante os períodos de ditaduras no país que acabou por gerar o que Carvalho (2001) chamou de “fascinação” pelo Executivo e que teria origens mais longínquas na tradição ibérica. em despertar a atenção do público em um desencadear de acontecimentos (Courtine. a partir do incremento técnico dos meios de comunicação de massa a favor das campanhas eleitorais. multimídia. de proximidade forjada por essa nova forma de retórica. A valorização do Executivo em detrimento do Legislativo no Brasil deve-se. instaurando-se um outro estilo de retórica336.seu contexto original. privilegia as conversas em detrimento do orador de tribuna (Abreu. tiveram grande espaço como uma fonte de informação assim como quadro de referência privilegiado e como um dos “fabricantes” das imagens aqui trabalhadas: da(s) Baixada(s). coreografias. podemos pensar em seus desdobramentos para a “personalização” da política. Os monólogos longos foram aos poucos substituídos pelas falas curtas.

dispensando a mediação de uma rede de relações partidárias” (Manin.) aos estudos que encaram os meios de comunicação de massa enquanto atores políticos (Bourdieu. Assim como Jorge Gama. no Rio de Janeiro. 26). 2001). de fato.imagem aos contextos e repertórios culturais. 348 . o autor lança um modelo (tipo ideal) interessante para pensarmos a prática política. “os candidatos se comunicam diretamente com seus eleitores através do rádio e da televisão.cit. 1995. 1997) até os que redimensionam a democracia a partir da comunicação de massa através do tipo ideal da democracia de público337 (Manin. deixando os demais como coadjuvantes. p. talvez. op. desde estudos de recepção e audiência (Eco. 337 Na democracia de público. que teve no jornal Correio da Lavoura um espaço privilegiado para lançar suas idéias e críticas como também se fazer presente. Lindberg foi quem protagonizou as principais cenas nos embates políticos durante 2004 na Baixada e. aproximando-se cada vez mais da figura do comunicador onde o político passa a ter uma relação diferente com o eleitor e seu voto já que a política passaria da esfera da verificação para a da credibilidade (Aldé. as reuniões nas “comunidades” além de pautar suas campanhas em sua atuação na administração municipal. Zito ainda utiliza bastante a “política de bairro”. 1995) cuja relação entre política e comunicação é re-considerada e o status do político vem se alterando. Diversos autores trabalham o papel dos meios de comunicação e suas conseqüências políticas nas ciências sociais em geral. mas utilizou a Revista Magazine como propagadora de seus projetos. Apesar de uma visão um tanto esquemática. Mesmo os outros dois não se apartaram de tais transformações. No entanto.

ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial. A despeito de visões como a da esterilização do debate político (Sennet. da irracionalidade do voto ou ainda da mídia como. 1988). 1989). opera na política uma virada na ordem dos problemas. Através da pressão do índice de audiência. o peso da economia se exerce sobre a televisão. de alguma forma. sobre os outros campos. cit. op... op. através do peso da televisão sobre o jornalismo. 349 . da esfera pública para o terreno do público-privado. Sargentini. Abreu. através do peso do conjunto do campo jornalístico. alianças. enquanto campo. E. mexericos e transformando-o em um entertainer. Entretanto. op. a televisão surge como um dos principais formadores da opinião pública e da homogeneização da informação (Bourdieu. visto que os arranjos. consultar Aldé (2000) e Godoi (2001). cit. enfatizando a vida pessoal do político. “O campo jornalístico age. 1995) ou de uma nova esfera de poder – a vídeo-política (Satori.. ele pesa sobre todos os campos da produção cultural. Em outras palavras.” (Bourdieu. ele se exerce sobre os outros jornais. reforço seu papel quanto à apresentação e não estritamente à prática política.cit. os meios de comunicação (incluindo também o marketing político) e seus atores não podem ser desconsiderados frente às novas modalidades da apresentação política. e sobre os jornalistas. coligações etc. impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos. mesmo sobre os mais ‘puros’. essencialmente a televisão. que pouco a pouco deixam que problemas de televisão se imponham a eles.. Aldé. e. p. levantam outras questões que serão 338 Sobre a relação entre política e televisão e sobre concessões a emissoras de rádio e TV depois de 1988. 81) O enfrentamento entre pessoas (idem) privilegiado pelos meios de comunicação. da mesma maneira.cit. op. um algoz do pensamento político (Novaro. 2003)338.Nesse contexto.

mas ela não se dá apenas na vídeo-política stricto sensu. assim como os gastos terão que ficar disponíveis na Internet. A pressuposição de que o controle sobre o aparato tecnológico voltado para as propagandas eleitorais e para os showmícios nos colocará no caminho reto da democracia pode nos conduzir a conclusões precipitadas assim como a idéia que a gerou. chaveiros assim como a realização de showmícios. com a proibição dos showmícios e limitações à gravação de programas eleitorais nos dão uma amostra do quão refém das mídias (da vídeo-política. 350 . a lógica do atendimento. O papel dos políticos e da mídia. A influência da mídia é inegável. Consultar Resolução 22. A transversalidade da Baixada nos colocou diante de três trajetórias que problematizam os questionamentos tradicionais sobre a política. As doações terão que ser efetuadas em cheque cruzado e nominal ou transfência eletrônica. a fabricação de imagens.. A tentativa de localizar seu poder tornalhe fugaz.tão ou mais decisivas para o mundo da política e para pensarmos as relações de poder dependendo de contextos específicos e configurações de força. como bonés. TSE. 339 A Mini-reforma Eleitoral com validade para 2006 proibiu a distribuição de brindes. E os debates sobre cidadania restringem-se então a procedimentos e dispositivos.158. por exemplo) uma parcela considerável acredita que estejamos339. a mudança da legislação eleitoral para 2006. ficando proibida doação em dinheiro. 107. instrução no. a formação da opinião pública. A possibilidade de manipulação das imagens e falas acabou reduzida a uma série de regras que supostamente acabariam com a corrupção. classe 12ª. com o caixa dois ou ainda com os benefícios aos partidos e atores políticos melhor capitalizados (quer com dinheiro próprio. As concepções que a definem como propriedade perdem-na como paisagem e processo. Assim. os projetos políticos individuais e coletivos foram alguns dos aspectos abordados nesta tese. os acessos. quer com dinheiro de aliados) e com mais acessos. A multiplicidade de focos e engrenagens leva-nos a pensar nas relações. camisetas.

os políticos aqui apresentados eram vizinhos. esta tese se encerra como mais um olhar para as relações políticas na Baixada Fluminense. As questões levantadas referiram-se aos universos estudados. Na tentativa de entender a dinâmicas das relações e práticas políticas locais. incitando novos olhares e perspectivas. mas acabamos por nos colocar frente a arranjos dinâmicos de forças e posições e. Não nos predispomos a fazer previsões. interesseiros. também nos deparamos com questões mais gerais como os sentidos da cidadania e da democracia. Colocar o ponto final parece então impossível. A apreensão dos repertórios acionados e a busca por dar conta da heterogeneidade e complexidade de mundos que se interpenetram não é exclusividade do mundo político da Baixada e esses atores também não estão circunscritos apenas a tal mundo. amigos. matadores. forasteiros. mas podem apontar algumas alternativas para comparação. bacharéis. O poder não tem essência.cotidianas e nas percepções e produções e não em uma (suposta) essência ou atributo. 351 . Assim. oportunistas. Assim. engajados. o que apontamos agora pode ser alterado no espaço efêmero do findar da frase. é operacionalizado na política (entre outros) e só nos afeta enquanto relação. ídolos. mas que diante de suas singularidades eram sempre pensados em relação. reis. Estudar as práticas e as trajetórias políticas coloca o pesquisador em uma delicada situação.

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ROSENDAHL. Percival. 1998. Rio de Janeiro. In: Pilares da História. 1998. Ano I.1. História/UFF (Dissertação de mestrado). SOUZA. In: Revista Brasileira de Geografia. in: Revista FEUDUC/CEPEA/PIBIC. Rogério e MENEZES. 1997. Revista Memória. Fundação Getulio Vargas. (1993). “Memória ferroviária de uma cidade”. abril-jun. 1994. saque. Marlúcia. Rogério. Niterói. Maria Therezinha. Sonali Maria de. Rio de Janeiro. no. 1998. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. O novo quadro da política fluminense: administração pública e representação política no Rio de Janeiro pós-fusão. Rio de Janeiro. Julio César da Silva. Jorge Luís. SOUZA. câmara Municipal de Duque de Caxias. Duque de Caxias. abril. SOUZA. 2000. no. Geografia/USP (Tese de doutoramento). “Baixada Fluminense”. TORRES. SARMENTO. Consórcio Administração de Edições. 1987. Zeni. SILVEIRA. Nova Iguaçu.ROCHA. Da laranja ao lote. S. Espaço sagrado da Baixada Fluminense. ano III. “Imagens da cidade de Duque de Caxias”. ano I. 24. 1992. Hidra de Iguassú. Carlos Eduardo. n. Sociologia/IFCS/UFRJ (Dissertação de mestrado). UFRJ. 2004. no. 4. Josinaldo Aleixo de. Os grupos de extermínio em duque de Caxias – Baixada Fluminense. 374 . Do terreiro ao samba: um estudo sobre memória e trajetória social na Baixada Fluminense. Origem e trajétoria do movimento amigos de bairro em Nova Iguaçu (MAB) – 1974. 1955. Duque de Caxias. “A construção do poder local em Duque de Caxias”. Sonegação. maio. Transformações na estrutura fundiária do município de Nova Iguaçu durante a crise do escravismo fluminense.1. 2. 2000. Porto de Caxias. no. 1999. VIANA. São Paulo. fome. Jorge Luiz Rocha da. Instituto histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto. CPDOC. absorção de uma célula urbana pelo Rio de Janeiro. SOARES. Rio de Janeiro. PPGAS/MN/UFRJ (Dissertação de mestrado). Marlúcia S. TORRES. Transformações sociais em Nova Iguaçu. TAVARES (da Silva). Rio de Janeiro. SOUZA. Newton.

ANEXOS 375 .

562 1.TABELA 1 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO SEXO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 86 6 - TOTAL 5. SEGUNDO O SEXO.577 FEMININO 418 90 SEM 1 1 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.668 MASCULINO 5. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM. PARA O BRASIL. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).143 1. 376 .

SEGUNDO A IDADE.040 260 De 40 a 49 anos 2. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.668 Até 29 anos 123 17 De 30 a 39 anos 1. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO IDADE BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 8 36 37 11 - TOTAL 5. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). 377 .TABELA 2 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.189 607 De 50 a 59 anos 1.562 1.549 536 60 anos ou mais 622 233 SEM 39 15 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. PARA O BRASIL.

562 1. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.687 446 30 FUNDAMENTAL 1. 378 . PARA O BRASIL.063 328 9 LÊ E ESCREVE 93 30 157 SEM 57 22 INFORMAÇÃO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO GRAU DE BRASIL REGIÃO ESTADO DO INSTRUÇÃO SUDESTE RIO DE JANEIRO TOTAL 5.662 842 52 MÉDIO 1.TABELA 3 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. SEGUNDO O GRAU DE INSTRUÇÃO.668 92 SUPERIOR 2.

02 69.TABELA 4 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.04 SENADOR/DEP/VEREADOR FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.47 MÉDICO 7.80 9.33 3. SEGUNDO AS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES.26 7. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.57 5.17 6. 379 .30 ENFGENHEIRO 3.82 GRAUS SERVIDOR PUB 3.17 2.26 2.46 PROFESSOR 1º.85 7.92 MUNICIPAL PECUARISTA 3.51 5. 3.61 3.43 15.52 TOTAL 68.96 8.17 2.12 AGROPECUÁRIO ADMINISTRADOR 2.96 2.39 3.70 ADVOGADO 4.27 11.61 3.94 4.84 SERVIDOR PUB 3.22 ESTADUAL PRODUTOR 2.72 3. PARA O BRASIL.70 7.09 APOSENTADO 2.32 COMERCIANTE 11. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).13 EMPRESÁRIO 6.15 2. E 2º. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO OCUPAÇÃO (%) BRASIL (%) REGIÃO SUDESTE (%) ESTADO DO RIO DE JANEIRO (%) 80.61 PREFEITO 5.69 AGRICULTOR 9.22 11.61 7.44 7.

35 8. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).06 17.17 2.92 95.TABELA 5 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.78 PTB 7.98 PDT 5.45 4.65 PMDB 19.35 PSB 3.39 9.14 4.66 21.62 9.82 3.59 7.73 4.15 2.29 12.35 FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO REGIÃO ESTADO DO SUDESTE RIO DE (%) JANEIRO (%) TOTAL 94. PARA O BRASIL.59 9.70 PL 6.27 45.61 PP 9.91 6.98 95.34 PSC 5. PARTIDO POLÍTICO BRASIL (%) 380 .43 PV 4.65 PSDB 15.35 PPS 5.50 4. SEGUNDO OS PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS.89 7. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.17 PT 7.26 PFL 14.

668 MESMO 4.531 ESTADO OUTRO 8874 125 11 ESTADO SEM 26 12 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.562 1. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO ESTADO DE NACIMENTO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 81 TOTAL 5.TABELA 6 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA O BRASIL.662 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). SEGUNDO O ESTADO DE NASCIMENTO. 381 . TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.

558 45.295 29.733 40.949 22.489 59.625 32.839 15.673 50.651 36.741 56.284 31.964 13.583 74.096 MÁRIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .860 43.Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 82 158 27 250 156 67 84 157 159 38.079 48.894 63.974 40.489 59.733 45.805 52.704 45.875 35.415 43.902 15.700 14.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: 2º turno (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 84 157 159 156 67 82 27 158 250 82.128 11.640 82.415 43.278 48.366 40.640 34.776 42.235 50.640 38.235 30.510 41.875 32.760 67.974 35.290 15.Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .Cargo (PREFEITO) .144 35. TURNO LINDBERG Votação por Zona Eleitoral .940 46.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .841 38.355 14.654 20.366 10.388 35.380 44.625 27.713 13.673 63.956 22.Cargo (PREFEITO) .894 30.Município (NOVA IGUACU) .388 27.006 33.Município (NOVA IGUACU) .651 40.704 36.006 33.760 67.1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .Última atualização em: 07/03/2006 .64 Situação: 2º turno 382 .Última atualização em: 07/03/2006 .554 42.583 74.034 42.940 20.201 14.903 49.919 52.881 38.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 1º.462 13.192 23.805 52.

651 50.2° turno UF (RIO DE JANEIRO) .583 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 28.037 62.760 82.673 43.954 18.982 32.Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB Zona Eleitorado 159 157 84 67 27 156 250 158 82 67.640 40.475 30.947 24.673 40.400 11.453 52.095 43.036 52.615 51.378 14.654 34.600 19.870 35.Município (NOVA IGUACU) .Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .583 43.746 41.008 40.655 51.587 14.897 Situação: Não eleito LINDBERG FARIAS Votação por Zona Eleitoral .641 64.Município (NOVA IGUACU) .475 30.617 37.446 32.581 27.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: Eleito Zona Eleitorado 250 67 158 82 27 156 159 157 84 36.036 28.Cargo (PREFEITO) .413 25.632 40.254 22.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 2º.419 14.982 34.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .633 59.046 15.415 36.327 48.537 56.640 45.704 38.981 37.733 45.287 47.760 82.Última atualização em: 07/03/2006 .055 62.641 64.Última atualização em: 07/03/2006 .264 64.053 35.134 33.056 55.235 74.622 17.134 13.654 25.235 74.103 19.446 33.704 38.740 59.Cargo (PREFEITO) .740 59.2° turno UF (RIO DE JANEIRO) . TURNO MARIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .632 40.340 383 .733 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 52.831 48.651 50.419 44.415 67.660 16.

FONTE Tribunal Superior Eleitoral 2004 Consultado no site: www.gov.br 384 .tse.

O SR. Pela lógica. Sr. ANDRÉIA ZITO (Pela ordem) – Sr. quero dizer que tenho um documento em mãos. A SRA. Não havendo quem queira discutir.Anuncia-se a discussão única do REQUERIMENTO 490/2001. 385 .Em discussão a matéria. mas acho que a Mesa deve avaliar essa questão. onde a pessoa assassinada havia feito uma queixa-crime com relação à Deputada Núbia Cozzolino. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem. nem o Deputado Júnior do Posto. acho que é uma questão razoável de averiguarmos.. porém. mas o Artigo 34 do Regimento Interno determina o seguinte: “Fica impedido da participação como membro da Comissão Parlamentar de Inquérito o deputado que tenha envolvimento com o fato determinado a ser apurado”. PRESIDENTE (José Cláudio) . sobrinho do ex-prefeito de Magé. O SR. Sei que a questão é a CPI. Neste caso. O SR. Sou totalmente favorável à CPI. PRESIDENTE (José Cláudio) . ou pelo menos na maioria das vezes. nem a Deputada Núbia Cozzolino fizéssemos parte dessa Comissão. de autoria da Deputada Núbia Cozzolino. PRESIDENTE (José Cláudio) .ORDEM DO DIA Requerimento 490/2001 Informações Básicas Sessão: Ordinária Autor do Documento: Maria Lameira/ALERJ Data da Criação: 03/10/2001 __________________________________________________________________ 11:27 Data da Sessão: 03/10/2001 Hora: __________________________________________________________________ Texto da Ordem do Dia O SR.Pela ordem. A SRA.. tem a palavra a Sra. da 65ª DP. por analogia. sou favorável à CPI. Presidente. Deputada Andréa Zito. Presidente. sempre voto favoravelmente às CPIs. Sr. ANDRÉIA ZITO – Peço a palavra pela ordem. que cria Comissão Especial para acompanhar as investigações sobre o assassinato do jornalista Mário de Almeida Coelho Filho. Deputada Andréia Zito. Gostaria de solicitar que nem eu. como todos os Deputados já devem ter observado. Presidente.

pela ordem. Deputado Sivuca. A SRA. Sr. Não podemos permitir que pessoas envolvidas num problema participem de determinada Comissão. NÚBIA COZZOLINO – Peço a palavra para discutir. que a matéria seja suspensa por duas Sessões. Presidente. NÚBIA COZZOLINO – Não tem eu cortar a palavra! Por que não vou falar?! O SR. Depois V.Exa.. em hipótese alguma. NÚBIA COZZOLINO – Fui acusada de que o jornalista fez uma denúncia de ameaça de morte! Todo mundo aqui ouviu! E ela está faltando com a verdade! Eu não tenho interesse no processo . V. está se excedendo. Exa. PRESIDENTE (José Cláudio) . A Presidência não vai dialogar com V. A SRA.Pela ordem.) Aprovado. SIVUCA (Pela ordem) – Sr. O SR. peço a V. A SRA. A SRA. solicito também o adiamento por duas Sessões para que possamos discutir com mais tranqüilidade. NÚBIA COZZOLINO – Sr. tem o dever legal de argüir a própria suspeição e não presidir. e a exemplo do pedido do Deputado José Távora.V. Os Senhores Deputados que aprovam a matéria permaneçam como estão. Foi colocado em votação. eu fui acusada aqui! O SR. não foi acusada. para futuros esclarecimentos. PRESIDENTE (José Cláudio) . a pedido. O SR. falará depois. observei a ponderação da Deputada Andréia Zito. terá o direito de falar pela ordem. nesses termos. PRESIDENTE (José Cláudio) . para discutir! Eu fui citada. Sendo assim.O SR.Exa.Exa. Por analogia. O SR.Exa.Vai cortar a palavra porque V. para que possamos esclarecer em tempo hábil essa situação.. A SRA. O argumento lançado pela Deputada Andréia Zito é válido. PRESIDENTE (José Cláudio) .Eu pediria que cortasse a palavra da Deputada Núbia Cozzolino. NÚBIA COZZOLINO – V.Exa. Presidente. PRESIDENTE (José Cláudio) . Deputada Núbia Cozzolino. quando um membro do Judiciário está envolvido em determinado problema.Já foi suspensa. NÚBIA COZZOLINO – Não senhor! Eu fui acusada e quero o direito de resposta! O SR. Exa. PRESIDENTE (José Cláudio) . Presidente. (Pausa.Em votação o pedido de suspensão por duas Sessões. tem a palavra o Sr. A SRA. Esse assunto já foi adiado por duas Sessões. e aprovado pelo Plenário. não me deixou falar! 386 .

ele estava lá com certeza. jornalista não foi assassinado. um outro segurança. nunca teve um inquérito de homicídio. NÚBIA COZZOLINO – Sr. a Deputada Cidinha Campos e outros Deputados que são isentos. os três minutos a que tenho direito. Presidente. Ozan. evidentemente. quem tem interesse é ela. O Deputado Sivuca tem interesse porque. A SRA. solicitei Comissão Especial. eu não tenho um inquérito e ele tem 28 e todos com relação a homicídio. Nunca fui acusada de nada. A Presidência concede a palavra.Está garantida. Isso é uma posição do Deputado Sivuca. Em segundo lugar.V. PRESIDENTE (José Cláudio) . Em momento algum fui acusada. dizer que eu tenho interesse! Sr. Eles faltam mais uma vez com a verdade. tudo bem. nunca foi condenada. O jornalista falou isso há dois anos mas não disse que eu tinha acusado. 387 . vereador não foi assassinado. em primeiro lugar quero dizer à Deputada Andréia Zito que não solicitei CPI. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Sr. PRESIDENTE (José Cláudio) . vi que são 28 processos e eu não tenho nenhum processo de homicídio. gostaria que V. lá tem um vereador que o aprova e ele tem interesse em entrar em Suruí. Quem tem interesse são eles. pela ordem. A SRA. que não tem nenhum interesse. quando esteve na Secretaria de Segurança. se não me engano. inclusive. dizer que um jornalista nunca me acusou de ameaça de morte. Em terceiro lugar: não sou a pessoa interessada porque o acusado foi o segurança dela. Eu respeito isso. e nunca foi acusada. aqui tem Deputados que são isentos como o Deputado Chico Alencar. eu tinha dito 23 mas. eu nunca fui acusada de homicídio. Todo mundo no Rio de Janeiro sabe que o Zito mata. não sou eu quem tem interesse. Isso por quê? Porque eu levava o funcionário todos os dias em casa.A Família Cozzolino governou Magé por vários anos. e a pessoa que está presa foi a mesma pessoa que foi na Casa do meu funcionário. Todo mundo sabe que ele está aliado com ele.O SR. quero lembrar ao Plenário desta Casa que o segurança do tio dela. Presidente.Exa. A SRA. Agora. Então.Exa. tem o direito de falar pela ordem . até porque a família Cozzolino nunca teve nenhum envolvimento em homicídio. quinta-feira passada. O SR. Todo mundo sabe que hoje ele está aliado com o Prefeito Zito. Agora. Enquanto a Família Cozzolino governou Magé. É mentira. se o problema para aprovar a Comissão é eu estar na frente. Citou meu nome porque tinha rivalidade política. e ela faltou com a verdade aqui quando disse que o jornalista disse que eu tinha ameaçado ele de morte. Todo mundo sabe que ele acompanhou o Prefeito Zito. portanto. Ela tem interesse. matou uma pessoa no Rei do Bacalhau. O SR. Sr. revendo. me esperou o dia inteiro e eu tenho testemunha que é o Sargento Gilmar esperando o dia inteiro. à Deputada Núbia Cozzolino. Agora. Presidente. O Zito tem uma condenação e 28 processos. JOSÉ TÁVORA – Peço a palavra pela ordem. tocaiando vendo a hora que eu chegava para fazer uma covardia comigo. garantisse a minha palavra. NÚBIA COZZOLINO . Presidente.

com o objetivo de por fim a essa discussão. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE). Ela não sabia disso. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem. Tânia acusa o Prefeito Zito. Prossiga. não apenas pela citação. O SR. tem a palavra o Sr. quem foge são as vítimas. Deputada Núbia Cozzolino. conclua. O SR. outro esquartejado. conclua. e isso quem fala é um Promotora Pública. procure o Departamento Médico. A SRA. Deputado Sivuca. A senhora está extrapolando. seu tempo está esgotado. Sr.O SR. como todos respeitaram V. em absoluto. Presidente. A razão que eu pedi o adiamento não foi com a finalidade de prejudica-la. Eu apenas entendo que a Sra. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Só para terminar. A SRA. Eu trouxe a essa Casa o depoimento da Dra. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Os bandidos do morro estão expostos à polícia. A senhora está exaltada. Presidente. Deputado Sivuca. Presidente. Eu estou indignada com o Ministério Público que depois daquele depoimento nada fez contra o Prefeito de Caxias que sempre sai imune e quem foge são as vítimas como fugiu a mulher do Carlão que veio a essa Casa. lembro que sou o Presidente da Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia. Deputada. que foi citado. Exa. são supérfluas. deu seu depoimento e depois teve que fugir do País e todo mundo sabe disso. um por cabeçada. no caso do Zito é diferente. Deputada Núbia Cozzolino. PRESIDENTE (José Távora) – Sra. O SR. porque já existem as Comissões Permanentes exatamente para tratar de matérias pertinentes. O SR. SIVUCA (Pela Ordem) – Sr. por estar envolvida com o problema. 388 . assim como está envolvida a Deputada Andréa Zito. mas para esclarecer a Sra. PRESIDENTE (José Cláudio) – Pela ordem. A verdade é a seguinte: essas Comissões Especiais e as Comissões Parlamentares de Inquérito. Quero tranqüiliza-la. que não leva a lugar algum. ele continua no mesmo lugar.Exa. e esta é uma delas. A SRA. PRESIDENTE ( José Cláudio) – A Presidência informa a V. O SR. que seu tempo está esgotado. Tânia e muito mais preocupada eu fiquei depois que li todos aqueles crimes dos quais a Dra. Deputada. Ela não sabe que a chefe do meu gabinete sofreu um atentado antes de ontem. em determinados casos. onde a Deputada Núbia Cozzolino poderia estar presente até para relatar o que vem ocorrendo. por favor. O SR. respeite o orador. Presidente. SIVUCA (Pela ordem) — Sr. Sr. PRESIDENTE (José Cláudio) — Deputada Núbia. Ela não alcançou o que eu pretendia dizer.

só não quero é ser mal interpretado. mas até por não ter equilíbrio. mas entendo que a Deputada Andréa Zito não pode participar dessa Comissão e vou além. adie.Não quis. Ela perdeu porque quis. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE) O SR. 389 . WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Ela é mal-educada. porque o que estamos ouvindo aqui são coisas seriíssimas. como membro da Comissão. O Deputado Sivuca colocou bem que a Deputada Núbia Cozzolino não tem condição de participar por vários aspectos que não-somente por estar envolvida. do palco das discussões — consideraria uma traição —. A Deputada tem tido um comportamento horroroso aqui. ficar aqui calado vendo a Deputada falar inúmeras mentiras. pois sou uma pessoa acessível. eu também abro mão — porque a minha chefe de gabinete foi vítima de uma atentado —. para que possamos. Conheço. O SR. que tem condição de fazer política com a força do trabalho e que é de uma família com tradição na política de Magé. Daqui a pouco ela vai falar que aquele avião que derrubou as torres gêmeas nos Estados Unidos foi enviado pelo Zito. Presidente. Sempre admirei o trabalho da Deputada na área social. Presidente. mas do povo. WASHINGTON REIS — Peço a palavra pela ordem. e porque não podemos deixar que a individualidade venha usar o plenário desta Casa para se autopromover. a Assembléia Legislativa está navegando e daqui a pouco irá desembocar num mar de lamas. fazendo escândalo. que eu quero dizer. tem a palavra o Sr. WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Sr. Ela precisa se comportar direito. Deputado Washington Reis. Presidente? Porque a Deputada está com ódio no seu coração por ter perdido a eleição em Magé. O SR. O SR. Por essa razão. Infelizmente. num clima mais calmo. Estamos tratando de um assunto que conheço — sou da Baixada Fluminense. Se não me quiserem aceitar. mesmo porque ela é do meu partido. infelizmente. porque esta Casa não é dela. já foi adiada. de Duque de Caxias. PRESIDENTE (José Cláudio) — A matéria é vencida. porque quer fazer política dessa forma. por duas sessões. Ela está colocando a culpa no Prefeito Zito por tudo o que está acontecendo. de forma alguma. alijar a Deputada Núbia Cozzolino. que ela sabe que o são. Sr. insisto. PRESIDENTE (José Cláudio) — Pela ordem. o Deputado Júnior não pode participar dessa discussão. Ela que é competente. Sr. O SR. Sr. e está falando de forma injusta. agora. está despreparada para exercer a função de Deputada. Está na hora da senhora manter o equilíbrio. trabalhadora. gritando. Presidente. Sabe por que isso. discutir este projeto. pelo que estou vendo. A SRA. o Prefeito Zito e a politicagem da Baixada Fluminense. também. a Deputada está usando isto para fazer politicagem. mas. não posso compartilhar. também entendo e cedo o espaço.

Deputada não tem sabe se comportar...O Deputado André Luiz e o Presidente foram muito felizes quando sugeriram que a senhora procurasse um médico. A SRA. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . no Plenário... O SR. NÚBIA COZZOLINO – Prova! Prova! O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . peço ao Sr. Eu mesmo. O SR. WASHINGTON REIS – Ela não tem credibilidade alguma.. a Sra. O SR. Ontem.evasões fiscais e saiu extorquindo empresários. Deputada. Deputado Washington Reis.para falar na tribuna.Sra.Sr. A Deputada tem um passado triste. Exa. falou 390 . porque vou pedir para ampliá-la e investigar o comportamento da Sra. A SRA. O SR.. Por que não usa esta Casa onde temos que trabalhar. Presidente.. O SR.. WASHINGTON REIS . NÚBIA COZZOLINO – Ele tem que defender mesmo! Por causa da nacional. Deputados. continuar com esse comportamento vou ter que pedir para que se retire do Plenário.. WASHINGTON REIS . O SR. Deputada. porque a senhora trabalha. Deputada Núbia Cozzolino respeite. Respeite o Deputado que está ao microfone.. aqui... É mal-educada. se Deus quiser. O SR.Sra. porque ela não está no terreiro da casa dela. que inclua o meu nome nessa Comissão.... Peço a V. rasguei muitas vezes.. em abrir CPI de. da mesma forma como V. essa Deputada terá que respeitar o Parlamento e os Deputados. enquanto eu estiver nesta Casa. foi aprovado na Mesa Diretora a nova Comissão de Ética. Exa conclua. O SR. O SR. está fazendo. por favor. Tem que procurar um neurologista.. Deputada não tem equilíbrio. A Presidência não vai aceitar mais o que a Sra. nesta Casa. para melhorar.. Por isso.Sra. Exa.. WASHINGTON REIS – A Sra. WASHINGTON REIS – Sr. Presidente.. peço que V. PRESIDENTE (José Cláudio) . se retirar.. para que. Deputada Núbia Cozzolino. A SRA. Fez uma CPI para apurar.. Exa.. PRESIDENTE (José Cláudio) – Só falta pedir para a Sra. PRESIDENTE (José Cláudio) . Sr. se V. um neurologista.respeite o orador Sra. Deputada nas CPI’s. PRESIDENTE (José Cláudio) ... que irá apurar a ética dos Srs. NÚBIA COZZOLINO – Nacional.

hoje. 391 . Exa. Deputada Alice Tamborindeguy. ALICE TAMBORINDEGUY (Pela ordem) – Sr. Porte-se como Deputada.A Presidência já deferiu o pedido de V. diante dos fatos expostos neste Plenário. peço que o publique no Diário Oficial. Porém. e gostaria que V. foi. A Presidência lhe concedeu três. Presidente. quase cinco minutos. A SRA. Deputada Núbia Cozzolino. A SRA. Deputado Sivuca. assim como a de qualquer pessoa que morre da mesma maneira. Deputada Núbia Cozzolino está se excedendo e se emociona profundamente quando fala no assunto. A SRA. concedido. O SR. Presidente. O SR. Exa.e foi respeitada. PRESIDENTE (José Cláudio) . Não vou aceitar mais isso. PRESIDENTE (José Cláudio) . Esse depoimento. realmente. Porém vejo que a Sra. ALICE TAMBORINDEGUY – Obrigada. ALICE TAMBORINDEGUY – Peço a palavra pela ordem. Exa. Sempre relacionei-me muito bem com a Sra. Então. Sempre procurei ter uma política de boa vizinhança com ela. Devemos apurar. quando propõe que as pessoas envolvidas no caso não sejam membros dessa Comissão Especial. mas também com todos os meus colegas desta Casa. estou percebendo que isso está virando uma guerra política. tem a palavra a Sra. Gostaria de ler aqui o depoimento que esse cidadão fez antes de morrer. Mas temos que fazer isso de uma forma isenta. Acho uma sugestão ponderada a do Sr. Deputada Núbia Cozzolino. Presidente. Sr. acho de bom tom nenhuma das pessoas envolvidas participarem da Comissão. Muito obrigada. ALICE TAMBORINDEGUY – Vou lê-lo nesse momento. A guerra política está tomando conta do cenário. rapidamente.Pela ordem. Isso não é bom para a Assembléia e nem para que se apure o caso. no Plenário desta Casa. Sra. A SRA.Está deferido o pedido de V. (A Deputada faz uma leitura) Está aqui. PRESIDENTE (José Cláudio) . Temos que apurar a morte desse cidadão. estou muito chateada e lamento profundamente o que está acontecendo. autorizasse a publicação. Sr. O SR.

Presidente.Sr. DOMINGOS BRAZÃO (Pela ordem) .O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . DOMINGOS BRAZÃO – Peço a palavra pela ordem. (Palmas nas galerias.Pela ordem. interessa aos estudantes que estão hoje ocupando a galeria desta Casa. Exa. Deputado Domingos Brazão. e vai prosseguir na pauta. Deputado. O SR. darei pela ordem a qualquer Sr. DOMINGOS BRAZÃO – A autoridade competente deve ter tranqüilidade para apurar os fatos com transparência. 392 .) O SR. Esse assunto já foi por várias vezes motivo de intervenção de pauta nesta Casa. gostaria de fazer um apelo à Presidência: que volte à pauta. O SR.A Presidência acata o pedido de V. Presidente. inclusive. Gostaria que a Presidência não mais permitisse que tal fato ocorresse e se ativesse à pauta. Sr. Temos ainda um Projeto na Ordem do Dia. mas sem pressão de nenhum dos lados. tem a palavra o Sr. Logo após. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . o qual.

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