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Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Por Acaso

Meus Contos Em Um Canto

(e coisas Inúteis a mais)

Um Livro de Lander Paz

Avisos

Um Livro de Lander Paz

Esse livro é uma publicação independente. É permitida a reprodução de qualquer texto (seja por completo ou transcrição de uma parte) desde que seja feita dando-se os créditos ao au- tor e ao livro.

Tudo que aqui está escrito é ficção. Semelhanças com a realidade só significam que existem seres tão sem nexo quanto os da imaginação do autor.

As opiniões emitidas servem apenas de plano para com- plementar a história. Nada do que aqui é escrito em meio aos textos tem caráter de opinão definitiva.

P.S: Não há trilha sonora pois o baixo orçamento não permitiu pagar o Ecad.

Grato,

Lander Paz

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Dedicatória

Dedico esse livro as meus pais, por serem minha base, minha segurança. Dedico as minhas irmãs, por acompanharem de perto esse trabalho. Aos parentes, por não serem normais. Aos amigos, por se fazerem presentes em minha vida. Aos leitores de meu blog, pois, vocês me motivaram a enfrentar essa empreitada. Aos meus mestres, meus professores, por fazerem parte de minha formação. A minha namorada, Ana Paula Zarantonelli, por alegrar meus dias.

Por Reginaldo Rizzo *

Prefácio

Um Livro de Lander Paz

O convite para que eu escrevesse esse prefácio surgiu em uma noite de sábado. Jogan-

do conversa fora, relembrando as épocas de universidade, discutindo jornalismo e literatura. Como sempre há de ser, em uma mesa de bar.

Talvez pelo o estado etílico, que já pelas três horas da manhã era considerável, resolvi assumir um compromisso que talvez não pudesse cumprir. Em meio à correria diária, vendo a responsabilidade e a honra de prefaciar esse livro de um grande amigo, consegui alguns minu- tos para falar dessa obra e do autor.

Desde a universidade, quando cursávamos jornalismo, que o autor Lander Paz inovava em tudo que fizera na área de comunicação. Por isso, nesse prefácio tento sair um pouco dos padrões convencionais para trazer você (leitor) para mais próximo do livro e da realidade do au- tor.

Tive o prazer de estudar e trabalhar com esse profissional. Durante o ofício, passamos por poucas e boas. Contestamos, inovamos e também corremos alguns apuros ao tentar pro- duzir materiais de cunho social. Como todo calouro, achávamos que com a força das palavras e da escrita poderíamos mudar o mundo.

Durante alguns anos convivi com essa figura de perto e posso dizer que é uma pessoa irreverente e com visão. Prova disso é a obra “Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto”, produ- zida para ser publicada na rede global e sem fins lucrativos.

Pesquisas revelam que mais de 90% da população tem acesso a internet. Que estão

) são 73% . Os

sites de jornalismos têm tomado espaço dos impressos, e agora, o autor apresenta essa novi- dade, ao disponibilizar e lançar o livro pela internet.

conectados a alguma mídia social (Orkut, Facebook, Twitter, Youtube, blogs

O meio também se torna propício, por ser uma leitura dinâmica e agradável. Seus con-

tos são engraçados, inteligentes, irônicos e as vezes românticos. História que mostram acontec- imentos estranhos na rotina das pessoas. Pode até ser ficção, mas aposto que quem ler a obra, em algum momento vai se identificar com o personagem e vai rir.

Boa leitura!

* Reginaldo Rizzo é jornalista. É mineiro, torce para o Botafogo e reside em Campo Grande -MS. Amigo de longa data, tem um texto de fácil leitura e acima do comum.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Introdução

O livro Por Acaso – Meus Contos em um Canto (e coisas Inúteis a mais) é uma reunião

de textos. Alguns já publicados na internet, outros inéditos feitos especialmente para esse livro. Nele há a visão perturbada do autor sobre o mundo e sua imaginação pinceladas em palavras. É o mosaico de uma mente.

Animais que analisam o homem, personagens sem nome, finais confusos, desenrolar de fatos como funciona a cabeça do autor. Há o que se ler por aqui.

A internet é o alvo dessa publicação. Esse livro é voltado para circular pela rede. Feito

sem custos e também sem pretensão de lucro. É o formato escolhido para a divulgação de um trabalho, de um nome. É uma experiência, uma tentativa.

Agradecimentos ao Reginaldo Rizzo pelo prefácio desse livro, valeu por acreditar.

Lander Paz por Lander Paz

desse livro, valeu por acreditar. Lander Paz por Lander Paz Vamos lá. O Lander é formado

Vamos lá. O Lander é formado em Comunicação Social -Habili- tação em Jornalismo pela Uniderp. Campo-grandense, foi criado tempos na capital de Mato Grosso do Sul, tempos em alguma cidadezinha do interior. Aos 23 anos mudou-se para o interior do Paraná para tentar a vida.

Baixinho, magrelo e criativo em algumas horas. No ensino médio escreveu seu primeiro texto. Era época do apagão brasileiro, ele então escreveu um poema sobre um narrador que questionava o porquê de se apagar uma lâmpada que silenciosamente ilumina a vida de muitos. Afinal, o objeto é o que realmente está fazendo seu trabalho. Mais velho, na faculdade, resolve criar um blog para trabalhar sua escrita. É a partir desse blog que nasce esse livro. Dizem que um homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro (acrescento a isso ter um fusca, um violão e conhecer bem onde vive). Levando isso em conta, estou ainda no meio dessa jornada que é a vida.

Nesse livro, eu realizo um sonho. Espero que ele atenda a expectativa dos leitores.

Esse livro é o final de uma jornada, mas espera-se que seja o começo de outra. Boa Lei-

tura.

Um Livro de Lander Paz

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Considerações

Há algum tempo que não escrevo. Não sei, se sei tento ignorar, por qual lógica resolvi vir aqui e escrever isso. Foi num momento enfadonho noturno, sem sono, sem pressa, sem vontade alguma, apenas esperando que dormisse logo para espantar o tédio, que a cabeça fer- veu e a vontade veio súbita, de pronto. Corri atrás de papel, caneta, pena, computador, terra, algo para que extravasasse. Escrevi então palavras no ar, pinceladas com o indicador direito. Engodo para esperar amanhecer e ir atrás do material necessário.

Mais novo, pós-infante, juvenil, imaginava-me no futuro apenas uma figura presente em contos, livros, textos que alguém um dia leria. Seria aquele ao contar sobre minha vida, meus amigos, meus feitos, minhas manias.

Queria, na verdade, ser visto como aqueles os quais leio e admiro o trabalho. Queria ser o jovem de risada marota, olhando para o horizonte enquanto entardece o dia em qualquer botequim. Ser o apaixonado, que juvenil, morre de amores por uma amada idealizada e in- tocável. Ser o compositor dos protestos em vários tons. Ser o supimpa e urubusservador. Ser o senhor das palavras de um livro velho, amarelado, roído, cheirando a intenção de ser lido, a tesão de ser folheado.

É enquanto isso, balanço em uma cadeira fixa. Divago. Senhor do tempo e de tempo

algum. Vou escrevendo com nexo, sem nexo, com compromisso e a esmo. Fotografo minha imaginação em palavras.

Um Livro de Lander Paz

O Garoto que gostava do Dicionário

O clima estava tenso. A ansiedade subia pelo seu corpo. Aquela pergunta não era uma a

qual ele queria responder. Mas mesmo assim, a professora insistia:

- Vamos, o que você mais gosta de ler?

Enquanto fitava a todos os colegas na sala, sentia seu coração acelerar. Sua cabeça viajava em alternativas para essa resposta.

Na verdade, ele tinha certo pudor de assumir o que mais gostava de ler. Achava muito estranho alguém com tal mania: ler dicionário.

Tinha por hábito chegar em casa, deitar-se e abrir o dicionário em uma página a esmo. Era como se estudasse uma língua diferente. Uma língua em desuso, morta. Como se estudas- se os costumes dos antepassados e decifrasse algo dos primórdios da linguagem falada.

Assim, poderia sair falando palavras estranhas aos coleguinhas e curtir a sensação de sabedoria, de poder. Afinal, eles não sabiam o que ele estava falando e se isso era bom ou ruim. Gostava de deixar seu público estupefato. Esse público de comportamento execrável. O apogeu era ver a cara de interrogação de alguma pessoa.

Sentia-se um capitão abalroando o inimigo. E essa era uma sabedoria módica, adquiri- da em qualquer biblioteca.

E como se entregar agora aos convivas? Como delatar a si mesmo respondendo a per-

gunta inocente da professora? Olhou pela janela e viu a chuva a precipitar pelo gramado. Quase se esvaiu em suor.

Resolveu então deixar de ficar apenas estagnado. Engoliu seco. Respirou o mais fundo que pode e disse:

- Gibi. O que mais gosto de ler é gibi, professora.

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O Sorriso

Corre em doces mãos este corpo que agoniza. Sente os sedosos cabelos, e molhados de lágrima, sobre sua face. Aceita, pois não há mais nada a se fazer, que é a sua hora.

Foram bons anos vividos juntos a ela, a garota de olhos negros. Ela, que era sua dona, dona de seu mundo, a razão de sua vida, e que, agora chora enquanto o abraça. Não há mais nada o que se possa fazer, essas são as palavras de quem se diz autoridade.

Desde que se dá por criatura, lembra da companhia da garota de olhos negros. Ela, sempre cuidadosa, de bons tratos. Sempre com uma palavra de carinho nos momentos ternos

e com as repreensões mais doces quando ele fazia besteira. Ele, sempre sonhou em poder falar

com ela. Sim, conversar. O trocar de palavras era seu maior desejo. Mas a natureza não permite que as palavras se formem em sua boca. Sentia às vezes inveja das amigas da garota que fica- vam horas e horas conversando sobre as mais variadas besteiras com ela.

Mas ele é arteiro, cheio de artimanhas no olhar, no tom, nos gestos. Ganhava-a com pouco, às vezes, apenas sua presença, sem palavras. Por mais que sonhasse em um dia poder dizer que ama a garota dos olhos negros, fingia aceitar que isso não era possível. Longe dos olhos de qualquer um, fazia suas orações para as entidades que acreditava. Ouviu falar de uma Mãe Natureza e parecia a ela se agarrar nos últimos dias, já sentindo que o fim chegava sem perdão.

As lembranças já estão embaçadas, como o seu olhar. Ele sente as lágrimas correrem pelo seu rosto, mas já não sabe se são as deles o se vêm do choro da garota de olhos negros.

Como queria poder estender um pouco mais a sua vida, mas isso é impossível. O vere- dicto já está dado: chegou a sua hora. Resta então aproveitar o último passear das mãos doces em seu corpo. Sentir o carinho final.

Fita então os olhos da garota como que querendo falar algo, mas a natureza não o permite a isso. Quer falar o quanto a ama, falar de uma forma que todos entendam, que seja audível, mas não é capaz. Reza a mãe natureza para que ela lhe de este dom, este restinho de força, e que de sua boca saiam mais do que ganidos.

Ensaia então um sorriso e espera que ela possa o entender. Escuta sair da própria boca

a palavra obrigado, mas percebe que isso é apenas delírio. Sorri. Esse é seu último gesto. Seu corpo agora está encharcado das lágrimas da garota, mas isso ele já não sente mais. Foram 14 anos de amizade fiel, como o cachorro e sua dona. 14 anos que findam, mas entram para a memória, tornam-se lembranças.

O Cachorro não pôde dizer o quanto a amava, o quanto era grato pela existência da ga- rota. Mas ela sabia disso. E era recíproco.

Um Livro de Lander Paz

Nossas Cores

Se a cidade é cinza ou verde, tanto faz. As cores já não tinham sentido para quem sem- pre conviveu com elas. Ainda mais as cores em certas horas do dia. Horas nas quais conviviam com essas cores como o programado pela rotina, pela necessidade de sobreviver.

Saia de casa cedo, antes do raiar do sol. Pegava algumas conduções para chegar ao ser- viço. Descia, andava mais algumas quadras e pronto. Horas a fio em um escritório. No horário de almoço, sempre o mesmo restaurante e o mesmo parque para matar o tempo. Chegava já de noite em casa. Assim também era a vida da outra, só que a centenas de quilômetros de distân- cia.

Mas um dia, um dia alguém tira férias. Resolvem trocar de cidade. Uma sem saber da existência da outra, e talvez nunca soubessem.

A primeira, que não fez questão de lembrar do tom de cor de onde morava, logo repa- rou no verde. Na verdade, ficou encantada com a beleza e com as árvores nas calçadas. Pode sentir o cheiro da terra, ouvir o cantar dos pássaros em meio ao caos humano. As cores tinham algum sentido agora, já que ela não fazia parte dessa rotina e podia aproveitar. A segunda, que também não estava presa ao mundo que visitava, ficou espantada com o cinza, com o ritmo acelerado, com as opções de afazeres, com a vida do local. Descobriu, também, ilhas de verde por lá.

Mas logo, elas voltariam para casa. E o verde e o cinza não fariam sentindo nenhum. Não tão cedo.

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Era pra ser o FIM

E todos viveram felizes para sempre

Isso só em história mesmo. Veja bem se eu, um

pernilongo vivido, conhecedor de muitas histórias infantis, acredito nessa. Pobre homem que põe suas vagas lutas em um pedaço de papel.

Eu conheço um príncipe, daqueles que tem um corcel branco, que está vivendo uma séria crise em seu casamento. A donzela, que hoje já não é mais tão donzela, implica por causa de sua sogra (a rainha), para ela, a sogra está fazendo intrigas sobre os dois. Outro príncipe, amigo meu esse, pegou sua mulher de afagos com um cavaleiro em seu próprio quarto. Uns vizinhos meus acabaram de se separar porque ninguém se entendia sobre quem iria dormir no canto da parede. Toda noite era aquela discussão.

Mas existem seres que se deram bem. Um dragão fez sociedade com um lenhador gigan- te, e hoje, eles têm a maior rede de pizzarias forno à lenha deste meu mundo. Baratas planejam dominar o mundo humano, já que acreditam, que em caso de guerra nuclear, elas seriam as únicas sobreviventes.

É como podem dizer que todos viveram felizes para sempre? Ah

este termo sempre.

O homem prima tanto pela eternidade que, ao menos, as criações de sua imaginação, devem ser eternas. Algumas até se prolongam com o tempo. Pessoas contam para pessoas ou es- crevem em livros, outras, morrem ao começo de sua existência.

Ó, bicho homem. Além de tentar enfrentar o tempo, põe em suas personagens a carga da luta que ele trava há muito tempo: ser feliz. E, se não bastasse ser feliz, esta felicidade tem que ser eterna, “para sempre”.

Como ser feliz para sempre se a história só é contada até uma parte? Ninguém nunca soube como se continua um conto. Talvez o autor tenha imaginado a vida de suas criaturas:

elas crianças, aprontando na adolescência, ficando adultas, tendo uma crise existencial, pas- sando pela meia idade, ficando velhas, ninando seus netos e depois morrendo. Mas a morte é algo triste, até em mera ilusão. O personagem já virou um ente querido. Também tem o autor que acabando seu livro, e já escrita a já dita frase, esquecem-se, de vez, de suas crias. É o que provavelmente vai acontecer com este pernilongo que vos fala. Serei esquecido, apagado da memória, e não falta muito tempo, já estou na crise da meia idade.

Um Livro de Lander Paz

Às vezes nascem as palavras

Em algum lugar, alguém querendo escrever:

É dificil sentar-se a mesa e esperar que de súbito venha a inspiração. Esperar que as

palavras se formem sozinhas em minha frente. É complicado que aconteça isso e por essas palavras a palavra gênio seja proferida aos ventos.

Mas eu não quero ser chamado de gênio, não por agora, porém seria muito estimulante ao meu ego. O que eu quero é escrever, dar continuidade as palavras e que elas façam sentido. Quero preencher o vazio do papel.

Mas a inspiração não vem de súbito. As palavras não passeiam pelo ar esperando serem pegas com uma rede, jogadas no papel e se organizarem de forma aleatória para que algo faça sentido.

Desisto. Quanto tiver algo a escrever voltarei e recomeçarei com grande prazer.

Na Casa de um escritor qualquer, mas já com certa fama:

Posto o papel sobre a mesa, as borboletas voavam ao redor de sua cabeça. Borboletas de todas as cores, formas, tamanhos e classes. Ele capturava uma a uma e as jogava no papel para que sua coleção pudesse ser mostrada ao mundo.

E lá se iam acumulando borboletas substantivos, borboletas verbos, borboletas ad-

jetivos (essas aos montes). Logo, findaria seu trabalho de caça e arte para que pudesse ser aclamado pelo mundo. Gênio!

Na casa de outro escritor mais famoso por outros talentos, mas mesmo assim um ótimo escritor:

Com a mão sobre a cabeça hoje é dia de escrever um romance policial. A editora já está me apertando. Eu digo a eles que as palavras não vêm do nada, que preciso de tempo e de alguém que me idéia sobre o que escrever. Mas esses pobres de fé me pressionam com suas datas limites.

Sem problemas, hoje vai tudo bem. Já tenho a história e o autor certo.

Na minha casa escrevendo algo:

Lista de compras: Sabão-em-pó, sabonete, creme dental, macarrão instantâneo, sardinha em lata etc

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Independente do Tempo

Essa história se passa independente do tempo verbal. Dedez é um homem que se con- sidera incompreendido pelo mundo. Nunca teve fama, dinheiro, mulheres. Mas era um gênio, capaz de deixar a humanidade embasbacada se ele não fosse o Dedez.

Mas, agora seu futuro e passado seriam diferentes. Essa era sua aposta.

Dedez estava em seu laboratório radiante. Faltava apenas o teste final para saber se havia conseguido êxito. Olhava para o relógio na parede ansioso, como se quisesse controlar o tempo e avançá-lo. Fitava um ponto fixo no chão. Estava apaixonado pelo vazio.

Não demorou muito e um objeto metálico, uns vinte centímetros maior que ele apareceu na sua frente. Sucesso: conseguiu fazer a máquina viajar cinco minutos para o futuro. Após provar que era possível definir um rumo para aquela coisa, ele agora era passageiro.

Poderia mudar o futuro da humanidade, mas primeiro resolveu mudar seu passado. Foi aconselhar ele mesmo na época da escola. Enumerou as oportunidades perdidas, seus erros. Seu primeiro passo era transformar-se em um adulto confiante e respeitado. Depois, iria para o futuro para estudar algumas coisas e voltar com esse conhecimento a fim de simplesmente ganhar dinheiro e poder.

Logo, as lembranças começaram a surgir. Perdeu a virgindade dez anos antes. Teve inúmeras namoradas. Foi o melhor aluno do colégio. Presidente de classe. Começou a se emo- cionar quando suas lembranças da universidade começaram a aparecer. Nesse momento, De- dez começou a desaparecer. Afinal, como mudou o passado, ficou tão importante que não teve tempo de construir uma máquina do tempo.

Dedez, homem rico e famoso não construiu a máquina do tempo, logo não voltou ao passado e perdeu todas as oportunidades. Fez se o caos na sua vida.

E lá está Dedez em seu laboratório radiante. Faltava apenas o teste final para saber se havia conseguido êxito. Olhava para o relógio na parede ansioso, como se quisesse controlar o tempo e avançá-lo. Fitava um ponto fixo no chão. Estava apaixonado pelo vazio.

Um Livro de Lander Paz

A brincadeira de Marina

Caminham. Voltas e voltas pelo estádio. Carros e árvores se misturam como cenário. Caminham essas pessoas. Muitas, que de vez em quando, resolvem levar uma vida um pouco menos sedentária.

Meninas desfilando a sexualidade que fingem ter. Mulheres em briga com a balança. Homens acima dos 30 que decidiram parar de cultivar uma barriguinha, esse bando de fres- cos. E é claro, o gênio que montou um bar nas imediações. Esse deve ser ídolo de uma multi- dão.

A famosa academia dos velhos, com equipamentos que se propõem a mover as articu- lações sem tanto impacto, fica cercada por inúmeros jovens a inventar novas utilidades para esses brinquedos.

Será que o amor pode acontecer em uma ambiente assim? Será que a poesia pode nascer de algo assim? Torcicolos certamente são previsíveis pelo tamanho do trabalho que o pescoço dessas pessoas tem durante o exercício físico.

Acontece que Marina, menina bonita, de caderno na mão, vai lá para se inspirar. Es- creve por cerca de uma hora por dia. Sentada em uma cadeira, que faz parte do seu equipa- mento de final de tarde. Lá, ela dissimula analisar e descrever personagens da vida real.

Marina, menina bonita, magra e gostosa por natureza. Ela não deve ir lá para escrever um livro. Pois calada, analisando, não chega a conhecer a fundo as pessoas. Marina deve ir lá apenas para torturar as pessoas. Apenas para mostrar que não precisa de tantos sacrifícios para ter um belo corpo.

Seria mais engraçado se ela fosse escrever seus textos em uma academia, mas lá não seria agradável e fresco como ao ar livre. Marina, menina bonita e serelepe.

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Porque a pressa?

Posto a mesa, tenta acompanhar o movimento alucinante no qual as pessoas vivem ao seu redor. Está de frente para a rua. Segura um copo de cerveja que deixou esquentar. Lê o jornal de ontem. Usa um chapéu fora de moda há alguns instantes. Ele tenta pensar sobre a vida, mas seus pensamentos sempre o levam a loucura, a um desentendimento geral. Suspira, admite não fazer parte desse mundo já que o mundo não tem sentido nenhum para ele.

Pensa mais um pouco, seus pensamentos agora o levam ao passado. Quando criança, na escola, tinha o apelido de Preguiça. Começou com Bicho-Preguiça, mas este era muito com- prido e a criançada resolveu economizar tempo poupando-se do bicho. Preguiça tinha logica-

mente esse apelido por ser considerado o mais lento. Sempre chegava atrasado. Preferia andar

a correr. Gostava de músicas de outras décadas. Era devagar em relacionamentos. Exemplo é o que não falta para citar como era ele, mas não há tempo para isso.

Preguiça não fez curso superior, sempre perdeu os vestibulares. Aos tantos anos, re- solveu sair de casa, mas demorou em arrumar o primeiro emprego. O jeito era tentar concurso público. Não se sabe o porquê, mas tinha afinidade com a burocracia.

De volta ao presente, resolve levantar, pedir a conta e sair do bar. Vinte minutos depois, ainda ensaia o primeiro passo na calçada para seguir essa multidão. Multidão apressada, sem tempo para nada, nem para textos longos, uma partida bem jogada de tênis ou apelidos comple- tos. Apressada como sua ex-mulher, não melhor conhecida como Coelha. Seu nome é Andréia Nunes Coelho, é a única mulher em meio a cinco irmãos Nunes Coelho. No Colégio, logo foi chamada de Andréia Coelha. Mas vocês sabem, o tempo é primordial.

Coelha trocou Preguiça há uns três meses por um rapaz mais novo, mais agitado. Agora, quer tirar até a casa na qual ele mora, casa que se tornou o ninho dos animais. Único bem ad- quirido por Preguiça até hoje.

Caminha por meia quadra, entra em uma loja. É notável a fúria e a inquietação em seu

olhar.

- Moça, estou com um problemas de pragas em casa. Há como vender um veneno para

isso?

- Quais pragas seriam, senhor?

- Pragas. De todo o tipo. Gostei desse vidro exposto aqui, se o que o anúncio diz for real,

é o que preciso. - Conclui, apontando para um cartaz com os as palavras: Esse mata de ver- dade.

- Mas senhor, não quer pensar bem?

- Não, estou decidido. Eu quero comprar esse e você vai me vender esse. Não que eu

tenha pressa, mas é que agora que me decidi, não quero perder seu tempo escolhendo outro.

- Tudo bem. Pague no caixa.

Ao virar as costas, Preguiça escuta a vendedora murmurar:

- Mas esse daí é muito lento, demora para matar.

Um Livro de Lander Paz

Ação na praça

A princípio, era uma manhã normal de quarta-feira em Campo Grande. Todos levavam

suas vidas comumente. Acreditava que apenas eu estava aflito, ansioso. Queria atender meus desejos, satisfazer-me. Valia-me de informações para saber que aquele era o ponto ideal.

Sentei em um dos bancos, tentando disfarçar minha ansiedade. Fitava a todos, procu- rando quem seria a pessoa certa. Qual seria aquele que propositadamente faria eu me revirar em alegria, sentir meu estômago balançar de euforia.

Encarava rapidamente as pessoas. Não queria ser percebido. Não poderia os deixarem notar que já sabia de tudo. Que já estava ciente de seus planos, horários, ponto de encontro e estratégias.

O tempo passava e nada acontecia. Todos ao meu redor pareciam suspeitos. Já tomava

conta de meu peito uma certa raiva. Olhava o relógio a cada cinco minutos. A impaciência se

fez de minha companheira.

Certo momento, deparei-me com uma mulher que trazia consigo uma mochila. Mulher linda, de belas curvas e, se fosse meu alvo, culta. Fiquei apreensivo. Ela sentou-se no lado oposto ao meu, analisou bem o lugar. Ficou uns 15 minutos e foi-se, depositando o que havia de deixar sobre o banco. Eu, insanamente comecei a correr. Logo, deparei com a minha lou- cura. Se percebessem que eu sabia, os outros que por ali haviam de passar poderiam mudar de planos.

Tentei o mais discretamente possível se aproximar do banco. Sorte! Ninguém notou que havia algo sobre o banco. Sento próximo a ele e como se fosse o dono, pego.

Droga! Um livro de auto-ajuda. Ela não era tão interessante assim. Então, esperei que outra pessoa deixasse um livro em outra parte da praça. E que dessa vez seja um que valesse a pena. Bom, é um risco que corro. Nessas campanhas de incentivo a leitura nas quais pessoas deixam livros “perdidos” de propósito, sempre corremos o risco de que alguém tenha boa von- tade, mas não um bom hábito de leitura. Minha torcida era por um livro de Saramago, nunca havia lido nada dele. Se achasse, seria uma bela economia.

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Um e outro

Mais sisudo do que de costume. Olhar triste, perdido. Distraído, demorava a atender quando alguém chamava. Sentia-se, então, perdido naquele mundo. Não era mais o mesmo.

Antônio já notava esse comportamento há alguns meses em Agenor. Seu colega de repar- tição deixou de ser um homem alegre, simpático, sempre interagindo com todos para se fechar em um mundo próprio, no qual ninguém mais poderia fazer parte. Parecia outra pessoa.

Antônio era o que convivia mais de perto com Agenor, há muito não conversava com o colega. Resolveu perguntar o que acontecia. Ao se aproximar, notou pela primeira vez uma cica- triz próxima a têmpora direita. Percebeu também uma melhora no porte físico. Todo esforço de aproximação foi sem sucesso. O trabalho e o prazo curto sempre eram a desculpa.

O que ninguém sabia é que Agenor depois do trabalho descia pela Calógeras, seguia seu

rumo até ao cemitério. Ele ia visitar o túmulo de seu irmão. Ninguém na repartição sabia do passado dele. Era simpático e comunicativo, mas essas eram suas armas para não precisar fa- lar muito sobre si. Era o divertido da turma e pronto. Seu irmão, Firmino era mais introvertido, buscava sempre não ser notado, também não gostava de abrir sua vida. Esse talvez era o único ponto em comum dos gêmeos.

Firmino foi presidiário. Condenado por assassinato. Agenor, funcionário público federal. Firmino não tinha posses, pois o tempo de cadeia não deixou. Agenor era estabilizado e tinha alguns bens. A pena de um dos irmãos acabou há menos de um ano. Morreu de problemas do coração, culpa de maus hábitos.

O que se soube no leito de morte de um dos dois foi que Firmino matou aquele homem

para proteger a vida do irmão. O rapaz foi atrás de um dos gêmeos para vingar sua honra. Descobriu o caso de Agenor com sua mulher. Estava em busca de sangue. Agenor nunca soube disso, pois, acreditava que sua namoradinha fosse solteira. Ela sempre estava disponível.

Foi a vagabunda que contou que seu irmão estava jurado de morte. Soube dos detalhes da emboscada. Sem pensar muito, pegou a arma do pai e foi ao local.

Caminhou até o ponto da emboscada. Todos na cidade natal dos gêmeos diferenciavam um pela cicatriz que o outro não tinha. Logo o traído reconheceu Firmino como o irmão do alvo. Decidiu então ficar parado, a espera, apenas observando.

Dois tiros, um corpo no chão e muitos anos de cadeia. Em seu julgamento, afirmou fazer isso por um acerto de contas. Provaram que a mulher tinha inúmeros amantes, um deles pare- cido com o réu, alguns mortos, outros desaparecidos e muitos agradecidos a Firmino.

Ao saber disso, desejou que Firmino tivesse a chance de ter uma vida igual a dele. Agenor decidiu que iria retribuir de alguma forma ao irmão, nem que esse fosse seu último ato na terra. Pensou na vida perdida de um deles e no sucesso de outro.

Mas o destino resolveu retirar um deles de cena. Antes da morte, o irmão moribundo disse que tinha tomado sua decisão, cabia ao outro apenas aceitar. Ficou desse fato o agradeci- mento e um sentimento de dívida não paga. Mas a vida é assim: um dia uma acaba e outras, de qualquer maneira, prosseguem.

Um Livro de Lander Paz

Uma história de Carambola

O aluno a superar o mestre. Esse era o meu desejo naquela noite, mas não deu. Admito

que tenha meus limites.

Eu, que hora ou outra recebo a alcunha de Carambola, sem nenhum motivo aparente, sempre fui um guri introvertido. Sempre senti minhas mãos tremerem, coração acelerar, sentia aqueles trecos de gente tímida ao ter que conversar com alguém a qual julgava ser superior. Eu sempre julguei quase todos superiores a mim.

O professor, o diretor, o funcionário, as garotas bonitas, todos esses eram superiores a

mim.

Sentia certa admiração por um rapaz do colégio. Ele comia todas. Era impressionante como alguém da nossa idade, sem carro, sem muito dinheiro, pudesse superar os limites de nossa adolescência como transar com uma garota mais velha sem pagar, tipo uma universitária ou uma irmã e até mãe de algum colega de colégio. Esse era Arthur.

Arthur sempre foi sociável com todos, eu precisava de alguns conselhos. Conselhos

esses vergonhosos a se pedir para um pai e muito mais para uma mãe. Imagina a situação:

“Mãe, eu quero comer a garota mais gostosa do colégio e não sei como apaixonado por ela, é só sexo”.

Em uma festa da escola, todos os alunos de minha turma estavam presentes. Arthur estava lá, esperando o momento do bote, como um gato a espreita dos pardais. Sentindo que esse era o momento de me aproveitar da experiência dele, enchi minha cara de coragem numa graduação alcoólica de aproximadamente 40%.

Sentindo-me pronto, fui ter uma conversa homem para homem com Arthur. Eu não iria chegar choramingando e sim me fazendo de igual, estudando, imitando, aprendendo com ele. Fiz os comprimentos. Conversamos sobre muitas coisas de homem como futebol e vídeo-game. Logo, veio a palavra de quem entendia do assunto, algo que passava despercebido por mim.

não mãe, eu não estou

- A Irmã do Lucio quer você. – Disse Arthur.

- O que?

- A Irmã do Lúcio quer ficar com você.

A Irmã do Lúcio era a guria mais linda, encorpada e experiente da festa. Eu mal enten-

dia como ela estava lá. Afinal, já cursava o terceiro ano de direito e andava só com homens bem dotados. Mas bem dotados financeiramente, digo.

Sentindo que estava sem saída, falei que iria conversar com ela no momento adequado. Arthur mal concordou com a cabeça e já partiu para o ataque na amiga da irmã de Lúcio. Ouvi um pouco da conversa, estudando como poderia fazer para me aproximar da garota.

Bom, o importante é que obtive sucesso. Não quero desvendar minhas artimanhas para conseguir levar a garota para o quarto dela e transar de forma animalesca. Bom, pelo menos para mim. Meu ego desinflou ao ouvir uma avaliação sobre meu desempenho. Sim, ela foi cruel a esse ponto.

- Realmente perdi meu tempo. Você tem muito que aprender, Carambola. Eu achei que

seria uma experiência legal, que a sua geração estava bem ensinada. Eu devia ter ficado no meu quarto ou saído para transar com outra pessoa. Desculpe-me, mas foi uma noite perdida para mim. Não fique chateado, mas isso vai lhe servir de incentivo para melhorar. E faça isso, por favor, para não desapontar outra garota. – Disse ela educadamente.

- Mas então, por que você me deu?

- Eu caí na conversa da minha amiga, aquela que estava com o Arthur. Ela me disse que

por mais bestas que meninos da sua idade aparentam ser, alguns sabem o que fazer melhor do que outros da nossa. Mas esse não é o seu caso. Conversando com você lhe achei tão idiota quanto o Arthur e pensei que você fosse capaz de ter um desempenho razoável. Estou é achan- do que a minha amiga sai demais com pessoas mais jovens e isso está afetando a capacidade de julgamento dela.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Depois dessa instrutiva conversa, resolvi sair do quarto. Ela foi para outra festa, talvez a procura de salvar a noite.

E eu não superei meu mestre naquele momento. Mesmo sem Arthur saber, ser idiota como ele me fez ir para o quarto com uma das duas garotas mais desejadas da festa. A outra, foi com ele. Mas, pelo que percebi com o passar dos tempos, ele ainda tinha contato e prestígio com ela. Arthur conseguiu repetir o feito mais vezes, ao contrário de minha pessoa.

Essa experiência me deu motivos para ser o que sou hoje. Não quero ouvir nenhuma reclamação de qualquer mulher, por isso me garanto. Hoje, sei que sou capaz de pagar as mais lindas de onde estou. E essa foi minha fama no colégio, eu fui o cara que conseguiu comer a irmã do Lúcio. O único. Tomara que nunca saibam que ela não repetiu a experiência por causa de meu fraco desempenho.

Um Livro de Lander Paz

Osvaldo

O sol pintava o fim de tarde no horizonte. Numa cidade sem tantos prédios, isso às vezes é possível de se notar. A sexta-feira em Campo Grande corria comumente. Mais comum ainda era a mulher de Osvaldo ligando para ele a cada minuto, como que se tentasse o rastrear passo por passo.

Osvaldo era o símbolo de fidelidade da turma. Oportunidades de desfrutar novas carnes o acaso até lhe dava, mas ele recusava cortesmente. Por ser assim, às vezes, era alvo de piadas, mas tudo isso era brincadeira da turma. Mesmo assim, a mulher dele seguia ligando insistente- mente.

Aos amigos isso era comum. A quase todos amigos isso era comum. Alcir era novo no grupo e para ele essa situação causava estranheza.

Happy-hour. Todos tomando cerveja e falando asneiras. A gostosa do escritório ao lado era a pauta do momento. Ligação para Osvaldo.

Estou com a turma do escritório tomando algumas cervejas em

um bar perto do serviço

não vou transar com nenhuma delas

Alcir vendo a cena e tamanha sinceridade de Osvaldo fica inquieto. Resolve, então, per- guntar ao novo amigo:

- Osvaldo, por que você contou onde estávamos? Pelo jeito ela brigou, como a minha bri-

garia se soubesse que estou aqui. Por isso, disse para minha mulher que estava fazendo hora- extra.

- Oi amor. Tudo bem?

Não, eu não vejo nada de mais nisso

Sim, há mulheres aqui, mas

Amor, você ainda está aí? Acho que desligou.

-Alcir, e quando essa hora-extra não aparecer no final do mês?

- Digo que estavam errados. Erro de digitação no holerite. Compro um presente para ela para provar que ganhei a mais.

- E ela vai acreditar?

- Acredito que sim. Presentes tranquilam mulheres.

- No meu caso é diferente. Se eu fizesse isso minha mulher com certeza descobriria que

eu não fiz hora-extra nenhuma e ficaria especulando em qual puteiro eu estaria zoneando com os amigos, esses vagabundos do escritório. Não minto para ela para não ter isso. Cansei de situações assim. Sempre inventando uma mentirinha para evitar briga e ela sempre caçando confusão comigo. Vou te contar uma conversa. Não me recordo com a exatidão o diálogo que vou contar, mas foi quase isso:

“Um belo dia ela me liga e pergunta onde eu estava. Ela não curte que eu tome cerveja sem a presença dela, pois assim, ela não pode me controlar. Então, disse que estava no mer- cado comprando umas coisinhas. Ela quis saber o que, mas eu não disse e desliguei. Antes que ela ligasse de novo, corri para o mercado comprar algo para janta. Cheguei em casa. Ela logo sentiu o odor de cerveja. Já veio me xingando. Natural isso. Resolvi então mudar o rumo do jogo:

-Sim, eu estava tomando uma cerveja com o Ricardo. Ele estava precisando conversar, então fomos para um bar, jogar uma sinuca e falar da vida.

- Viu? Sabia que você estava em algum bar, enchendo a cara com algum vagabundo do escritório.

- Por isso eu não te contei. É sempre assim. Já disse que o rapaz precisava ouvir alguns conselhos. Você sempre vê maldade no que eu faço.

- Nada disso. O que me deixa magoada é que você mente para mim. Como confiar em

você se em coisas simples como conversar com o amigo você não me conta? Prefere inventar uma mentira. É isso nosso relacionamento? Mentiras. E quando for algo grave, qual vai ser sua desculpa?

- Eu conto essas mentirinhas para você não ficar estressada comigo. Afinal, eu não vejo

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

maldade nenhuma no que faço. Eu não quero mentir para você, mas você acha que eu sempre apronto.

- Certo. Você é um santo! Nunca faz nada de errado e pelo bom coração que tem mente

para mim. Tudo em você é bondade e eu sou uma bruxa. As mentiras salvam nosso casamento, afinal, ele é baseado nelas, elas são necessárias.

(Respiro fundo)

- A partir de hoje eu digo tudo o que eu faço. Não escondo nada de você.

- Estou perplexa. Você, tomando uma atitude madura. (aplausos)

- Já que haverá briga de qualquer forma. Vamos discutir pela verdade e por nossos pon-

tos de vista. De qualquer maneira você ficará brabinha comigo. Então, vai ser assim. Eu digo a verdade e você terá dois trabalhos: A de ficar nervosa e a de se acalmar. Simples.

- Mas você é um

Nesse momento eu a beijei e tentei finalizar a discussão indo tomar banho. E depois desse dia só digo a verdade. Afinal, vamos brigar de qualquer jeito e de qualquer jeito faremos as pazes”.

- Mas por que você não larga dela? Viver brigando é muito ruim.

- Porque ela é minha vida. Ela sabe disso. O que não posso fazer é deixar ela viver a

minha vida por mim. Mas, eu a respiro e sei que sou eu o que corre nas veias e artérias dela.

Nesse momento, Ricardo entra na conversa.

- Por isso que eu prefiro minha namorada, Osvaldo. Ela não me liga. Se eu falo que to

no bar está tudo bem. Se eu quero sexo é só ligar. A gente sempre está bem e não brigamos por besteira.

Osvaldo interpela:

-Ricardo, sua namorada não te incomoda por um simples motivo: ela tem outro para incomodar.

Osvaldo levanta e vai ao banheiro, assim, ele encerra essa discussão.

Sete Horas

Um Livro de Lander Paz

Faz exatamente sete horas que ela se foi, que resolveu conhecer a vida. A saudade

marcava o semblante de quem a amava. Mas teriam decidido que aquilo era melhor. Ela deve-

ria ganhar o mundo, voar com suas próprias asas. É

madura. Seus pais sabiam que isso era a vida e que a maturidade incorre em algumas dores e alguns prazeres (prazer por muitas vezes inconscientemente imaturo).

Novidades eram aguardadas com ansiedade. Queriam notícias de seu rebento mais novo. Mas, nada durante um bom tempo. A angústia apertava o peito da mãe. Há muito ela já havia saído de casa prometendo dar informações do que havia feito.

Em pouco tempo estava ficando adulta,

O tempo corre diferente para uns, isso já é quase lugar comum. Mas o tempo é mais

lento ainda no coração angustiado de uma mãe. Para essa mãe, os segundos se espaçavam de eternidades. Aquela alegria de ver a filha feliz confundia-se com seus pensamentos de mãe preocupada.

Rodeando a mãe, o pai sempre tentava consola-la. Isso era a vida, argumentava. Em- bora não soubesse qual realmente era seu argumento. As palavras saiam de sua boca apenas para consolar a mãe. Não eram bem pensadas, medidas. Suas opiniões nasciam naquele mo- mento, não era algo pré-concebido por algum tempo pensando. O pai simplesmente falava.

A sala logo silenciou. Entre tic-tac e tic-tac, não só os segundos envelheciam a mãe,

também a preocupação que agora aflige o peito. Preocupação inútil, sabia ela. Pois, agora nada poderia fazer a não ser rezar, se apegar a fé que nunca tivera. Então, todo o clima foi quebrado, a filha adentrara a sala radiante.

Toda alegre a caçula da família de moscas contara o que a vida havia lhe ensinado. Todos riram. Estavam felizes. Aproveitavam agora cada segundo da presença do outro. Afinal para quem não vive muito, o tempo deve ser valioso.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

MEU TEMPO

O sol anunciava com toda sua intensidade o meio-dia. Enquanto as pessoas suavam a

resolver problemas, eu estava sentado na varanda de casa. Histórias iam e vinham em minha frente, estas passavam despercebidas. Eu não estava a fim de saber o que ocorrera com cada um, por mais rico que cada livro de vida seja.

Vi Ari dobrar a esquina. Vinha carregando sua pasta de problemas. Seu olhar distante

denunciava que mergulhava sua vida em procurar soluções. Ele me viu lá, como se largado ao

tempo, e estranhou eu não estar trabalhando. Abaixou seu óculos como em referência a mim e me cumprimentou. -Como vai? -Bem - respondi sem tirar a visão do jornal que já até havia decorado linha por linha.

- Que o amigo faz hoje que não está no trabalho?

- Folga por conta, hoje estou nostálgico demais para tarefas - tirei os olhos do papel e percebi que Ari achava graça em minha afirmação.

- Por que essa nostalgia? - não sei se era perseguição minha, mas achei que seu tom era

jocoso.

- A vida

Não descobri ao certo. Estou a véspera de inteirar anos, pode ser isso. Afinal,

essa nostalgia talvez seja porque estou a refletir sobre minha vida, minhas ações.

- Você pensa demais amigo.

- É

E você, está trabalhando? - Esperava que ele entendesse que falei isso para ele

lembrar que tinha algo a fazer e deixasse me apaixonar cada vez mais por essa nostalgia.

- Estou, mas só tenho compromisso agora as 15h, posso esperar com você?

- Sim, sente-se. - é

Puxou a cadeira e pegou o tereré que havia deixado de lado há algum tempo. Tomou

Ele não entendeu.

uma cuiada e retomou o assunto. Uma pena.

- Conheço você, amanhã já estará feliz. Você e suas fases introspectivas.

- Então, não se preocupe.

- Não me preocupo, mas posso saber no que está a pensar?

- Claro. Em meus devaneios pensava nos segundos que perdemos. Como espero por um

determinado momento e, às vezes, ao chegar esse momento, ele dura pouco, pode ser bom, mas se vai. Eu tinha um objetivo, aproveitei esse objetivo, mas não o que precedeu a ele. O futuro, que foi presente, agora é passado, como os segundos que perdi apenas esperando.

- Você é louco. O que um aniversário não faz a um homem?

Fitei Ari e percebi que se deliciava de minhas loucuras, entendendo ou não, aprovando

ou não, parecia gostar de saber que existem loucos que passam tempo a pensar em um mundo aonde o pensamento não vale o tempo. Retomei, animado pela presteza de meu ouvinte.

- Perceba, notamos o tempo que passou depois que um ciclo se fechou. Não tomamos

cuidado com, por exemplo, as duas últimas horas que se passaram. Eu aproveitei pensando, deliciei-me com elas como se fosse um prato nobre. Algo, porém, que sempre estará lá e que não terei tempo de aproveitar. Às vezes, perdemos esses segundos porque não damos atenção a eles. Eu sempre me intrigo, não sei se é bem essa a palavra, com o final do ano. Ás vésperas da

virada, fazemos o balanço de como este foi. Como se algo, alguma coisa se fechasse pelo fato do último digito do calendário não ser mais o mesmo.

- Amigo, você é quase um filósofo. - Brincou Ari, rindo do comentário que acabava de

fazer. Com um gesto, fez perceber apenas que não poderia deixar de passar uma fala imperti- nente e que estava atento ao que eu dizia.

- Que nada Ari, não sou filósofo. Não conheço nada de Platão, Aristóteles, Kant, Sartre ou Camus. Chame a mim apenas de louco. Rimos. A cidade retomava o seu ar de rotina. A hora do almoço estava acabando. As

pessoas nas ruas corriam atrás de seus planos sem saber que isso faziam. As pessoas na rua sobreviviam, mas não se davam por isso. Ari pediu que falasse mais sobre esse meu interesse repentino pelo tempo. Apenas Acrescentei:

- A cada segundo que passa estou mais velho, mas só percebo isso quando acordo no dia do meu aniversário.

Um Livro de Lander Paz

Havia resumido toda a prosa nessa afirmação. Ari bastou-se do assunto e retomou seu trabalho, mesmo antes da hora, devia haver algo a se fazer. Ele foi e eu fiquei ali, sentado na varanda, olhando vidas e refletindo sobre a minha.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Conhecia a estrada

Já conhecia a estrada muito bem. Estava ìntima de curvas e árvores. Dado a esse conheci- mento, sabia que estava longe de chegar. A viagem seguia entre bocejos e tédio. Para se distrair, resolveu olhar para dentro do ônibus, foi atrás do desconhecido.

No começo não gostou do barulho, um som insuportável feito pelo ar condicionado velho, as crianças correndo no corredor e alguns adultos conversando. Procurava entediar-se novamente, porém, logo desistiu. Esse grotesco chamara a sua atenção. Essa realidade era algo que só lem-

brava que existia quando ia visitar seus pais. Cidade, amigos pseudo-intelectuais, boas bebidas

e outras coisas que não combinavam com o ambiente, essa era sua vida, seu mundinho. Ao perceber esse choque ela soriu.

A maioria daquela gente seria deixada na estrada, os convivas dela naquele ônibus eram, em

sua maioria, empregados de algumas fazendas da região. Durante o resto da viagem, foi notan- do cada personagem a sua vista. Uma mulher com seus cinco filhos se esgoelando para manter

a ordem familiar. O homem em pé com camiseta aberta até a altura do umbigo, fivela grande,

calça apertada e botina. Um esboço dos agroboys com qual ela convivia, afinal, eram divididos praticamente em castas. O casal de namorados, esses da cidade, logo a desinteressou.

Ao desembarcar, despediu-se do ônibus. Essa ambiente só na viagem de volta daqui a um mês, mas quem garante que ela notaria.

Um Livro de Lander Paz

Domingo no Interior

Domingo. Dia de jogo do meu time, dia de churrasco com os amigos. Dia também de aguentar muita coisa. Mesmo sendo o dia do descanso, tenho que acordar cedo, já que a bagunça está marcada para minha casa. Na pauta: limpar a área, arrumar a churrasqueira, pegar o dinheiro da vaquinha e comprar a carne e o gelo, preparar a caixa térmica, temperar a carne, receber os amigos, ficar bêbado e se der, comer. A cerveja, ainda bem, comprei ontem no mercado.

É incomum eu ver a cidade logo pela manhã em um domingo. O movimento menor do

que já é o quase inexistente durante a semana. A cidade tem uma rua principal e nada mais. O resto, são quadras para se chegar até ela. Igrejas, farmácias, praça, igrejas, prefeitura, farmá- cias, rodoviária, padaria, igrejas, mercados, botecos, farmácias e igrejas.

Depois de comprada a carne, uma passada na conveniência para abastecer ainda mais o churrasco de cerveja. Agora, mesmo estando em casa, vou ter que aguentar algum amigo che- gando com o som de seu carro em elevados decibéis ouvindo algum sertanejo qualquer que eu não gosto. Afinal, aqui é o interior do Mato Grosso do Sul. Logo, ele encosta o carro de ré, desce com uma latinha na mão, com a camiseta no ombro e trazendo mais cerveja. O ouvido dói um pouco, mas logo o som da bagunça será maior e mais prazeroso.

Todos estão reunidos. As mulheres, algumas bebendo, outras olhando feio para o mari- do, como se o olhar fosse capaz de destruir parte do cérebro que nos faz amar a cerveja, outras, na cozinha preparando algo mais saudável.

Os homens estão falando sobre o que acham que entendem. Donos de suas opiniões e da razão. Esses, apenas bebem cerveja e quando sobra tempo, beliscam a carne.

É uma cena pitoresca, na qual eu sei me encaixar bem. Sinto as vezes como um pecador

quando acho algo de errado nesses acontecimentos. Afinal, faço parte dessa realidade.

Mas, hoje é domingo. É dia de eu me embriagar e curtir. É dia de saudar os amigos.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

A Campiá

Tô futucando memória a fim de lhe contar algo. Tô organizando pensamento pra não falar besteira. Tô até revendo a minha vidinha pra sair da paradeira. Tô pedindo conselho, tô procurando emprego.

Tô no meio do nada, tô com nada no peito.

Nos pulmão a velha catarrera me incomoda. Debaixo das unha, terra do meu cantinho de nada.

Tô limpando a varanda pra tira poeira. Tô esperando as conta pra chorar mais uma vez.

Tô procurando emprego, tô no meio do nada, tô com nada no coração.

Tô poraque, sem muito que dizê. Sabe amigo, às vezes, sinto saudades. Mas ainda levo fé na minha vida, tô procurando felicidade.

Tô procurando lugar, uma terra, um estado, uma cidade.

Que em estado de doidera, tô quase.

Tô rezando aos céus pra ver se me salvo das cagadas que aprontei.

Tô curando uma tosse véia lascada com chá de casca de laranja.

Tô curando gripe com pinga com limão, mas ja me disseram que melhor era conhaque.

Tô campaindo algo novo pra num ficar parado, pra num ficar sem campiá.

Tô poraque, sem muito que dize. Sabe amigo, as vezes sinto saudades. Tô campiando lugar, uma terra, um estado, uma cidade.

Mas ainda levo fé na minha vida, tô procurando felicidade.

Um Livro de Lander Paz

Em meio ao nada no Cerrado

Um casebre rodeado por grama. A frente, questão de alguns metros, um poço. O balde está na beirada. A noite estava sem lua. A escuridão na terra dá a alguns espectadores nesse local ermo o privilégio de um céu coberto de estrelas. A única luz na terra, por centenas de metros quadrados, é a do casebre. Uma luz amarelada, fraca, que vaza por baixo da porta.

O silêncio é quebrado pela serenata sem nenhuma coordenação feita por grilos. De vez em quando, algum sapo tentava marcar compasso. Um mugido, vindo bem de longe, procura mudar o tom desse show.

Se alguém sair pela porta da frente, será capaz de ver ao longe vários outros casebres tentando inutilmente iluminar a noite por portas e janelas. Ali é um assentamento rural que existe há poucos anos. De luxo, esses glebeiros só têm a energia elétrica. O assentamento aconteceu após a desapropriação de uma fazenda com mais de mil hectares. Cada família de assentado recebeu em média 20 hectares, um pouco de dinheiro para alguma estrutura e uma “boa sorte”. A sede da fazenda se tornou posto de saúde, escola, centro de um mini-comércio, um ponto de encontro. Aqui os homens dessa comunidade se reúnem para beber uma cerveja vagabunda, jogar sinuca em uma mesa desnivelada, judiada pelo tempo e com tacos totalmente tortos. Tudo isso localizado a 50 quilômetros de lugar algum e a 80 de um fim de mundo. A oito quilômetros da sede, o casebre continua iluminado.

Um senhor, dono da casa, foi dormir, pois as quatro da matina já estará no eito. E a senhora, dona desse senhor, reza o final de um terço ajoelhada a frente de um altar impro- visado na sala. Altar tosco feito de santos de gesso colocados em cima de uma escrivaninha já ruída pelos cupins e coberta por um lençol branco.

É a fé

é ela que move o coração das pessoas desse lugar com nome de algum pás-

saro típico da Amazônia. É isso que esse povo traz por, se não como um conhecimento abso- luto, como um conhecimento final. E é no auto de suas crenças que eles dissertam a respeito de qualquer assunto.

Nesse lugar, as mães até sonham com seus filhos sendo chamados de doutores, como

aqueles que chegam em um carro de luxo, uma fivela, muito dinheiro. Mas esses filhos crescem

e com o passar do tempo emprenham uma menina qualquer, amasiam-se, e vão ser peões em

algum latifúndio que é propriedade de algum “doutor”. Alguns não conheçem o amor, aquele vendido em folhetins, esse sentimento puro que deve ser recíproco, isso eles não conheceram, porém o desejem. Mas o prazer, nesse aos 16 já estão bem entendidos. A juventude sempre dá algum jeito, pois os pais das mulheres (ainda crianças) não levantam a hipótese de suas filhas terem sua pureza molestada. Admitem matar qualquer um que desonre suas pequeninas e não casem. Mas essa desonra, geralmente, só é descoberta depois que uma menina aparece cho- rando, avisando a mãe que está embuchada.

No casebre, não há mais luz acesa, a noite já entrou. No breu do quintal o vento acari-

cia o pé de capitão que reina imponente sobre as outras árvores, árvores que formam o pomar.

A rede está enrolada e pendurada em um pé de manga. No dia seguinte, ela será armada entre

ele e o limoeiro que está a frente. Armada a rede, o senhor irá sestear após o almoço, que será precedido de algumas cuiadas de tereré. Bebida sorvida com gosto devido à exaustão causada pelo trabalho e pelo forte calor. O dia, geralmente, amanhece fresco e as brisas matutinas acompanham o quebra-torto servido após a ordenha e outros pequenos trabalhos. Mas depois, ao meio-dia, mais ou menos, o calor fica intenso, clima ao qual os moradores dessa região de cerrado já se acostumaram.

Mas isso amanhã. Agora, ele dorme. Eu, aqui na capital, termino de arrumar minha mala. Hoje, vou sair com meus amigos. Ir a algum boteco beber, ouvir música e flertar. Aman- hã, ainda com sono, ou quem sabe sem dormir, viajo para sítio de meus parentes. Chego à gleba depois do almoço.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Pra que?

Depois da discussão acalorada sobre política, um gole de cerveja. Os amigos estavam reunidos em um dos bares mais conceituados da pequena cidade. Conversavam e mostravam- se sabedores de muitos assuntos. Mesmo falando asneiras, tinham alguma autoridade que ninguém por hora quis desrespeitar. Eram funcionários do primeiro escalão da prefeitura, ocu- pantes de cargos de confiança, todos da mesma trupe e laia.

Mas por que ninguém rebatia? Estavam todos reféns. Havia sempre um parente pendu- rado em algum lugar. A cidade pequena com saída para lugar nenhum tem apenas como opção de emprego ser funcionário público. A prefeitura é o cabideiro do povo. Poucos concursados e muitos arranjados lá. Votos e votos defendidos. E não havia protesto se a estrutura continuasse na mesma, afinal, o povo está certo em defender seu pão.

Qual escolha é a certa: a rua asfaltada ou a comida no prato? Uma crechê ou aquela bolsa de grife para a amante?

Em um estado tão ébrio quanto os poderosos, um jovem, ainda idealista até aquele mo- mento, resolve rebater um argumento mal dado por um deles. Começaria o debate se um cala- boca não fosse a resposta mais fácil a ser dada para esse jovem. Não havia um motivo para se prolongar, afinal, são eles quem mandam e vai ser assim por muito tempo.

Os poderosos sentem-se vitoriosos de um jogo que não havia oponente. O jovem, em- pregado pequeno, apenas afirma ter vergonha da situação.

No dia seguinte, ainda de ressaca esse jovem descobre que perdeu o emprego. Foi a coisa mais certa a se fazer. O que alguém que quer pensar um pouco estaria fazendo nesse lugar? Tinham que acabar com esse mal.

Essa é a vida que ensina a não peitar os grandes e desistir de seus ideais.

Consolar

Um Livro de Lander Paz

A noite está fresca e o cheiro do sereno passeia pela a madrugada ao nosso lado. Fala-

mos de muitas coisas como a beleza da lua, o preço dos ingressos, a baixa qualidade das músi- cas, algumas faltas de esperança. A noite está fresca e após falarmos sobre nossas infâncias

o silêncio passa a nos acompanhar também. Estamos a algumas quadras da casa dela, temo

que esse silêncio não nos abandone até lá, o cheiro do sereno é que é agradável. Nessa cidade pequena, com esse clima fresco, com a beleza da noite, o silêncio me incomoda.

Começo a divagar sobre coisas ínfimas. Ela, compenetrada em algum pensamento o qual não consigo adivinhar. A nossa, outrora conversa, virou um monólogo. Pergunto o que aconteceu, porém ela não me conta. Após alguns instantes de interrogatório ela se entrega. Está aflita com sua falta de esperança. Acredito que o clima de abandono que essa cidade pos- sui influiu muito nesse seu estado.

Agora estou sem-graça com a situação. Eu nunca fui bom em consolar ninguém e garanto que se ela quiser, eu ensino alguma oração. Esse ato de egoísmo partido da minha pes- soa me incomoda. Afinal, somos namorados.

Parados a frente de sua casa, sentamos no meio-fio para que a conversa se alongue.

Ela realmente precisa conversar. Eu presto atenção no que diz, mas sempre me pego prestando mais atenção na boca. Quero um beijo, quero ouvir que seus pais já foram dormir e que temos

a casa e o tempo a nosso favor, mas eu resolvi ser solidário, companheiro, vou escutar o que ela tem a dizer.

A conversar foi por caminhos tortuosos. Não seguimos algo linear, pois sentia que,

quando ela ficava incomodada, dava voltas no assunto. Nesses momentos, lembro-me de algo para que possamos, por um instante, anestesiar-nos do que ainda virá. A vontade de beijá-la, possuí-la, é intensa. Quero um beijo, quero ouvir que seus pais já foram dormir e que temos a casa e o tempo a nosso favor. Mas sempre fazemos questão de retornar ao assunto para que ele finde com nosso passeio.

Um sentimento de tristeza me consome: como ela, tão jovem, já tão desenganada da vida? Eu não sou um otimista nato e muito menos acredito no ser humano, porém, é de minha boca que ela espera que saia alguma palavra de consolo. Dessa minha boca que só quer dizer coisas obscenas. Mas, hoje resolvi ser companheiro. Arrisco em minha mente um “Eu te amo”, mas ao hesitar tanto e com tanto treino para dizer acredito que soará muito falso.

Abraçados, calamos-nos. A serenata que a noite naquela pequena cidade nos oferece é a sinfonia do total silêncio, um ótimo pedido para esse momento. Ótimo clima para postarmos o corpo de um sob o de outro totalmente excitados, e clima ótimo para essa tristeza que nós ali- mentamos. Por esse meio tempo, já soltei um “estarei sempre aqui, pode confiar”. Já me sinto arrependido disso.

Minha mente já hesita em tantas frases, creio que estou pensando demais e agindo de menos com a guria que decidi namorar.

- Eu te amo - pronto, saiu!

- Nossa, como isso soou falso!

Ah, pronto! Sempre acreditei que era melhor tê-la só beijado desde o começo!

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Parado

Há algumas horas chove. O jornal previu que nada mudará nesse final de semana. Es- tou flertando com o tédio. As sombras que os móveis criam na parede viram por algum momen- to diversão. Não quero dormir para desperdiçar alguma parte do meu tempo, mas desejo não ver esse tempo andando moroso, chato.

Nada me distrai. O som do relógio na parede é o único que as vezes tem a audácia de enfrentar o som da chuva. Meus braços estão pesados, parados, com nenhuma vontade de se movimentar. Minha mente vagarosa, parece tentar chegar ao nada, ao vazio do meu ser. Tento gastar o mínimo de energia, não quero que o tédio tenha muito de mim.

Na cozinha, a geladeira de repente desperta. A peça solta ao seu pé começa a fazer um barulho irritante. Mas decido não me irritar.

Meu cérebro me trai, começa a pensar em sugestões de livros, filmes, músicas. Quer que meu corpo faça algo. Que saia dançando como se esse fosse o mais perfeito dos dias. Elenca motivos para isso. É uma briga silenciosa, porém, devastadora.

Meus sentimentos resolvem se revoltar. Meu corpo e mente tornam-se campos de ba- talha e generais de suas opiniões. Parece que o intuito final é a minha autodestruição. É um furdunço.

O coração é o primeiro a perder a batalha e começa a trabalhar aceleradamente. Sinto

meu peito pular e me sufocar. Meu pulmão é o próximo a se entregar. Minha respiração fica ligeira, tensa. Parece que a batalha está quase perdida. Vem a vontade de ir ao banheiro. Mas, o corpo ainda resiste bravamente. Não demora muito, cada parte de mim começa a ser tomada.

Agora eu decido que quero resistir. Defino em qual lado vou jogar. Sou o mais fraco de opinião dessa guerra, mas ainda tenho minhas convicções. O Barulho da geladeira começa a me revoltar. O do relógio, some, abafado pelas gotas de chuva no telhado e pela geladeira capenga.

O golpe final é o soluço. Forte, avassalador. Não há mais como, tenho que me render.

Bandeira branca.

Levanto-me derrotado em direção a pia, depois vou ao banheiro. Mas não vai ficar assim, essa geladeira sacal é o que irá sofrer a força da minha vingança.

Um Livro de Lander Paz

Sobre o que disse

Subentende-se de tudo que eu já disse que, em parte, não tinha muito a dizer.

Acontece que uma inquietação sobrepõe-se às vezes ao tédio que sinto, mistura-se aos miolos já fervidos pelo sol do meu ovo de mundo e se transforma em coisas. Coisas sobre o papel, a tela, terra, areia, o ar, onde convier. Mas sei lá, já nem sei se era isso mesmo que eu queria dizer.

Vagam pensamentos úteis em palavras vagas.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

É folia

A primeira cerveja do dia. Aquela que desce mais saborosa. A cerveja que sentimos as

definições de sabor, que mata a sede e sacia o prazer. O primeiro passo para o carnaval.

A segunda cerveja do dia é apenas mais uma em meio de tantas. E, também, de ou-

tras coisas ingeridas, como as duas doses de uísque, o litro de vodca barata misturada com qualquer coisa que ele nem vai lembrar no dia seguinte.

Entre os goles, um cortejo aqui, um sucesso acolá, e se aguentasse, talvez um sexo mais

tarde.

Doses de tequila, pinga com limão, uma bebida desconhecida (mas para ele tanto faz, o importante é ter algum teor alcoólico), vinho, conhaque e muitas coisas mais.

Lá por tantas da noite, mal chegando na folia, ele já estava muito mal.

Nesse dia, ele não pulou carnaval, e sim, rastejou. Rastejou o quanto pode, o quanto aguentou beber. Sem problema, amanhã tem mais. É folia, minha gente!

Um Livro de Lander Paz

Alguém que disse

Pé sobre pé, uma linha reta e assim tento ir pra casa. Pé sobre pé, foda-se a linha reta e nem sei se chego em casa! Como esse caminho aumentou! Acho que dobrou. Zig-zag, Zig-zag, Zig-zag. Não bebo mais, prometo!

Nossa! O que é isso?! Acordar às 10 da manhã com o sol na cara e aquela puta dor-de- cabeça não é conveniente. Putz, olho para o teto e penso: por que existe a ressaca? Não bebo mais, juro! Promessa de dedinho mindinho. Nem mais um teco em qualquer boteco eu dou. O que era apenas farra, ontem, virou algazarra.

Beber para que, né? Que motivo tenho para beber demais? Afogar as mágoas? Por mu- lher? Mas ela merece eu ficar despeitado, encher a cara, e, além da raiva, ganhar uma ressaca? Não! Mesmo sendo a mais inconveniente, merece minha atenção, meu carinho, meu xaveco mais barato, sexo, mas não meu estado de embriaguez. Ser for pra ficar ébrio que seja da sua beleza!

Nossa! Raciocínio fica lento, língua mole, e mesmo assim as palavras não travam. De onde bêbado tira tanto assunto?! E amigos? O cara fica especialista em relações públicas com os outros ébrios do local. Bando de chatos!

Sem noção, acho que não desejo mais isso.

Ops, escuto vozes.

Um momento.

Ah, são meus amigos. Vai começar tudo de novo. Só não vou cumprir essa promessa por causa deles, culpa deles. Pelo menos é isso que as mulheres acham. É essa a razão de muita discórdia: a é culpa dos amigos.

A vocês, até mais, um brinde a qualquer coisa que lhe faça bem!

Fui!

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Por Acaso

O Acaso um dia me parou em uma rua próxima ao centro.

Lembrou-me que nada é por acaso. Ele se sente só. Há vidas abarrotadas de caminhos. Caminhos que se ligam como bem entendem, Caminhos que se ligam por acaso. Por acaso assim querer!

E o Acaso, que se fosse escritor

Pelas peças que a vida traz já faço ideia. Alguém mais criativo não teria Em seus poemas ou na minha vida a sua marca.

E por me tornar amigo do Acaso,

É que caminho nas ruas sem ter um destino.

Em suas mãos espero que um hesitar tome conta da mulher desejada, Então, por Acaso, nossos caminhos se encontrarão.

Um Livro de Lander Paz

Como o dia começa

Acordar cedo todo dia é um sacrifício. Sempre aquela briga, sempre a pedir quinze minutos a mais para o despertador. Acordar de bom humor então, raridade.

É muito bom olhar para seus olhos ainda fechados, sua face já emburrada pela manhã. Seguro seu rosto e beijo sua boca que está com aquele seu hálito matinal que ignoro, pois tam- bém ainda não escovei os dentes.

Você me abraça, como que a pedir agora os quinze minutos para mim. Eu, às vezes, confesso, cochilo nesse meio tempo, mas sempre acordo antes de você.

Depois de vencer os últimos vestígios de sono, acontece todo aquele ritual matinal. Na mesa do café da manhã, são proferidas poucas palavras. A alimentação é maquinal, por ob- rigação. Eu fico parado, olhando você ainda de pijama, linda a mastigar qualquer coisa. Não resisto, saio da minha cadeira e vou a sua direção.

Voltaremos para o quarto se der para chegar. E é só depois disso que nosso dia real- mente começa.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

O Convite O padrinho

 

-

E aí, vamos? Coloca o cinto. Esse churrasco promete. Um ano já que a gente não se

reunia.

 

[

]

-

Ansioso? Você está brincando com a minha cara, só pode. Claro que eu estou ansioso.

[

]

-

Falando nisso, preciso contar uma coisa. Antes de tudo agradecer você por estar junto

comigo também nesse momento da minha vida. Velho, lembro da gente na faculdade: você, o Arthur e eu. Sempre um trio. Um trio, mas uma entidade para os outros. Lembra de como es- tranhavam quando um de nós estava ausente?

Nossa, nós chegamos bêbados em muitas aulas. Lembra da tiazinha do boteco que era o ponto de encontro nosso? Muita loucura. E quantas vezes ajudamos a fechar o bar?

] [

- Claro que lembro. As reuniões na casa do Arthur quando os pais dele viajavam. Cara, o Arthur ainda anda se apaixonando pela primeira que sorri para ele?

] [

- Bem a cara dele mesmo. Foram inúmeras namoradas no tempo de faculdade e nos anos seguintes ao qual nos formamos. E nós dois sempre solteiros.

] [

- Para você ver. Sempre corri de casamento, sempre corri de namoro. Mas ela me pegou de jeito. Foi loucura demais, do nada, acredito que mudei a forma de ver o mundo.

] [

- Não diga que eu cresci, pois continuo a mesma criança de sempre com as mesmas

responsabilidades. Só que agora acredito estar preparado para dividí-las. Esse era meu medo. Nunca pensei em estabilizar para casar. Sempre quis ter minha vida planejada apenas por mim

e para mim. Nunca houve um nós em meus planos. E agora, pronto, há seis meses decidi me casar. E era sobre isso que queria falar com você.

] [

- Não desisti, fica tranquilo, agora vou atrapalhar o time dos casados. É que, você,

Arthur e eu sempre fomos como irmãos. Tudo que a gente fazia e faz, mesmo morando longe agora, é como uma família. Ainda passamos as festas de final de ano na casa de um dos três, como se os outros dois fizessem parte do mesmo clã. Por isso, foi difícil decidir isso.

] [

- Espero que você me entenda. Foi uma decisão minha, ela não tem nada com isso. Mas, eu quero que o Arthur seja o padrinho do meu casamento.

] [

- Eu sabia que você iria entender. E calma, não espero casar de novo para fazer rodízio

de amigos como padrinhos. É

irmãos. Quando precisei de apoio, conselho, bronca você estava presente. O Arthur é mais solto

na vida, mais despojado. Acho que ele como padrinho do casamento seria o ideal dos dois.

não foi uma boa piada. Sabe que sempre fomos ligados como

] [

- Que bom que você concorda. Então fico mais tranquilo para fazer um pedido. Sobre

o convite, não conta nada para ele, quero pessoalmente dar a notícia. Pronto, chegamos, mas calma, não desce ainda que não terminei.

- É rápido, espera.

Um Livro de Lander Paz

[

]

-

Deixa-me dar a notícia para o Arthur ainda hoje, no jantar.

[

]

-

Para finalizar: Eu quero é que você seja o padrinho do meu filho. Aceita?

[

]

-

É

Ela está grávida, descobrimos essa semana. E aí, aceita ser o padrinho?

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Porque é curioso

Um ramalhete de rosa, algum jogo com as palavras, linda canção, chocolate, jantar e dicas de dieta. Só do que preciso pra conquistar você.

É curiosa a certeza que tenho que as flores encantarão a guria que se intitula a român- tica de menos.

Mas, o que é curioso, é que mesmo tentando engabelar em qualquer frase bonita ou numa cantada barata de um verso que eu lhe escreva, meu dia perfeito com você começaria com uma partida de sinuca e algumas garrafas de cerveja.

Curioso sou eu a imaginar o momento em que canto aquela canção que lhe fiz achando que estou a fazer a coisa mais incrível do mundo. Você estará lá, com aquela cara de quem me aprova só para não me magoar. Depois, sutilmente, avisa-me para não levar a vida como músi- co.

Os momentos antes do primeiro beijo serão os mais ansiosos, depois disso, sem falsa modéstia, você será toda minha. Afinal, garanto-me. Olha, sei que alguns beijos já ajudam a queimar algumas calorias minha magrela com mania de gordinha. Não é curioso que eu queira levar-lhe para jantar?

Um Livro de Lander Paz

Provação da Escada

Estava parado em frente de uma escada. Fitava-a, estava sem saber o que fazer. A es- cada rolante subia até onde seus olhas não conseguiam mais ver. Estava maravilhado e con- fuso. Como que inconscientemente deu o primeiro passo. Subiu o degrau e continuou parado, atônito.

Ficou por horas assim. Ou seriam dias? Não tinha mais a dimensão do tempo. Só teve um pouco mais de consciência de si e das coisas ao seu redor quando resolveu mexer algum músculo. Pôs sua mão ao rosto. Sentiu que a barba havia crescido exageradamente, como se não há fizesse há meses. Respirou fundo e começou a buscar noção no que acontecia.

Queria saber como sua barba crescera. Pois, para ele, não havia passado mais que al- guns minutos. Não sentia fome, não sentia sede. Olhou para sua roupa, ela aparentava ter um pouco de sujeira e estar velha. Tentou lembrar como havia parado ali. Só conseguia chegar ao ponto no qual subiu na escada.

Decidiu olhar para cima. Não via nada, seus olhos não alcançavam o final da escada. Sentiu se desolado, começou a chorar. Não tinha lembrança de nada e nenhuma perspectiva de futuro, pois não sabia quando a escada chegaria ao seu destino. Desesperado, começou a correr contra o sentido dos degraus. Continuou por tempos. A aflição não o deixou ter a noção do quanto correu. Nem se cansou. Quando parou para analisar sua situação, percebeu que não sabia há quanto estava subindo, então não tinha a mínima noção de sua localização na tra- jetória dessa escada.

Ajoelhou derrotado. Chorou. Rezou, clamou aos céus que acabasse com seu sofrimento, pediu perdão por todos os erros cometidos, chorava mais e mais. Foi quando viu uma luz. A escada parecia de repente se encurtado. Havia um final nesse sacrifício. Sentiu-se calmo. Seu coração encheu de paz. Ouviu então chamarem seu nome.

- Pedro, meu filho. Já é a hora. É o seu tempo. Vamos, levante-se.

Pedro então ficou em pé. Admirou a luz e respondeu. Sentiu-se livre dos pecados. Mais uma vez a voz chamou.

- Vamos Pedro, não fique parado aí. Está na hora.

Ele caminhou então ao final da escada, ao sentido da luz. Caminhou para acelerar sua chegada. Sentiu em seu coração certa ansiedade. Estava na hora. Começou a correr em direção a luz. Há uns cinco degraus do destino começou tudo a tremer. A escada começou desmoronar. Pedro parou, pois achou que havia tomado a decisão errada em acelerar sua chegada, afinal, a escada poderia estar apenas testando sua paciência. O tremor parou. Tudo ficou calmo. A es- cada também parou. Estava em dúvida se terminaria andando ou esperava ela voltar a funcio- nar, pois esse, poderia ser mais um teste de sua paciência.

- Pedro, vamos. Anda logo.

Então caminhou. Subiu cada degrau com calma, sem afobação. Iria chegar a luz. A serenidade de espírito aumentava a cada passo dado. Era lindo o que se sentia. Ajoelhou no úl- timo degrau e sorriu. Finalmente, chegou ao final de sua jornada. Foi quando a voz foi ficando mais alta, mais alta e desesperada. A luz começou a ficar turva.

- Acorda, Pedro!!! Você já está atrasado para o serviço. Sua mãe tem mais o que fazer do que ficar acordando marmanjo. Na próxima, deixo você ser demitido, menino.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

Cena de Blues

Engoliu seco. Abriu a porta e entrou no bar. Sentou-se à mesa e, enquanto esperava o garçom, observava o ambiente. A pouca luz, os tijolos à vista e o som da guitarra que emanava um blues. Aquele clima se misturava a sua melancolia em doses perfeitas.

Seu pedido ao garçom foi o uísque mais barato. Resolveu preencher o vazio que sentia com álcool, só não sabia que o espaço era muito e seu fígado fraco. Tanto faz, queria voltar ras- tejando para casa, se é que voltaria.

A sensação de depressão mútua o acalmava. Estava em um local onde não era o único desgraçado. Via um senhor, que estava na mesa do lado encarar o copo com olhar de quem já abandonou a vida e que bebia seu drinque temperado com lágrimas.

Os minutos se seguiram, e para sua surpresa, naquelas ocasiões nas quais o impossível

é deixado de lado, a viu. Ela, a culpada de seu declínio. Estava acompanhada de um sujeito

bem apessoado. Seu vestido trazia um tom de sensualidade que destoava com a casa. Seu per- fume era sentido de longe. Na verdade não, ele é que lembrava daquele aroma, e, em seu estado ébrio, a imaginação misturava-se com realidade.

Não foi visto; havia resolvido, logo quando entrou, que ficaria em um canto, quase in- cógnito. De lá, observara a tudo, e essas visões traziam interrogações à alma. Aquele tipo de interrogações que vem com uma navalha bem afiada no lugar do ponto. Sua cabeça começava a doer, menos pela bebida vagabunda que pela enxurrada de inquietações.

Ela não gostava desse tipo de música, deveria ter vindo, então, para agradar seu amigo

– se é que eram apenas amigos. E esse vestido? Nunca havia usado algo que a insinuasse tanto.

Não parecia ser a pessoa que havia conhecido. O ar sensual aumentava o poder dela sobre ele.

Os modos, ah os modos! Estes quase o matavam. Enquanto bebia seu vinho, como se namo- rasse a taça, disparava olhares instigantes em direção ao companheiro. Alisava seu cabelo insinuando seus lisos fios em direção ao outro. O sorriso era de quem deixava transparecer paixão e o tronco inclinado à frente mostrava a sua intenção de pertencer ao seu novo amado.

Tomando mais um gole e fechando os olhos, na sua desgraça, se transportou para o

local de seu oponente. Tudo que ela fazia, neste instante, passava a ser para ele. Essa noite a teria mais uma vez. Sentia que os olhares, o jeito de tomar o vinho e sentar a mesa, seu sorriso

e seu vestido, tudo, era para si. Sentiu de novo a sensação de ser amado por ela. Descobriu,

então, que ela nunca o amou. Abriu os olhos e viu sua amada beijar, intensamente, seu novo eleito. Só restava agora uma opção:

- Garçom! Outra dose!

Um Livro de Lander Paz

Minha Paca querida

Eu não estava lá, nunca vivi isso, eu não gosto daquilo. Apenas fantasiei. Foi meu cérebro viajando, experimentando sensações nunca sentidas por mim na carne, apenas no in- consciente.

- E você espera que eu acredite?

Claro, afinal quem lhe escreveu foi eu. Em qual mundo estaria eu a discutir com uma paca falante, consciente de sua existência e tudo?

- Eu sei que existo, pois me confirmo em você.

Mas apenas eu sei que você, Paca, existe. E os outros?

- Esses, esses saberão pelo seu texto. E terão minha existência comprovada em você. Afinal, não negue, sou uma parte sua.

Só se for outra personalidade, Paca. O autor tem que ser livre para criar seus persona- gens, fazê-los de muitos estilos e personalidades diferentes, para que a história tenha algum sentido, seja crível, afinal, na vida real não somos a mesma pessoa, por que em um mundo a parte, tem todos que ser a mesma?

- Porque esse mundo a parte foi criado por você, oras. São todos algumas pinceladas do seu ser. Algo apenas aumentado.

Não diga isso, minha amiga. Se não, logo estudam esse autor pelos seus textos. E terão a ideia de que vivi muito do que eu escrevi. E não vivi. Apenas imaginei a cena, elaborei os acontecimentos e deixei-me levar pela palavra. Nem sempre imaginei em primeira pessoa, mas sim, como um observador onipresente de tudo que acontece, para, assim, contar aos leitores.

- É

eu lhe conhecendo por ser parte de você, admito que é irreal seu sucesso com

mulheres. Digo, esse sucesso instantâneo e intenso. Isso só você me imaginando.

Paca, se não fosse minha amiga, diria que está querendo acabar comigo.

- Que nada, sou só você querendo deixar o autor encabulado.

E opiniões, sabe que muito que um personagem defende não é o que eu, autor, acredito.

- Sim, mas nesses textos você expõe um ponto de vista a parte para que seus leitores

examinem e não que pensem que você é assim. Na verdade, você está expressando seu ponto de vista implicitamente, querendo que o leitor aceite o outro lado.

Então admite que não sou eu a personagem. Que não tem nada de mim?

- Não. A personagem é você com um caráter invertido. Você ao contrário. Um espelho.

Não pode ser. Admite as situações, como não admite os personagens???

- Por que sou teimosa, assim como você. As situações são apenas para encaixar você em suas opiniões.

Desisto, vamos nos embebedar. Está pronto o livro. Só não lhe mato no final porque peguei muita simpatia por você.

Por Acaso - Meus Contos Em Um Canto (e coisas Inúteis a mais)

MEU NADA

Às vezes penso, naqueles minutos vadios por onde a mente viaja, que so- mos nada. Trago isso pelas inquietações de saber que nunca saberei qual foi o começo. O começo mesmo. O antes de tudo, onde o nada era único.

Penso que somos apenas frutos do nosso pensamento, não existimos, nos imaginamos. A carne, o sangue, a dor, são meros devaneios da mente. Nossa loucura nos criou.

Penso logo existo, logo sou pensado.

Uns se parecem com os outros por pura falta de imaginação.

Meus pais me planejaram, minha mão me gerou, eu me pensei.

Obedecer a padrões é pensar igual. Ser louco é ser diferente. Ser eu mesmo

é inaceitável, pois assim, chego ao nada, o todo existencial, e fujo do todo, o nada existencial.

Às vezes penso que isso não é tanta loucura – só o que foi pensado existe, e

o que será, vai existir.

Por isso, creio que o nada ainda é tudo, nosso vazio não é solidão, é sub- stância.

Um Livro de Lander Paz